CAPÍTULO VII METODOLOGIA "...

Mas há milhões desses seres que se disfarçam tão bem, que ninguém pergunta de onde é que essa gente vem..."
Chico Buarque de Holanda, Brejo da Cruz.

P

Objetivos

or se tratar de pesquisa exploratória no campo psicológico da Cirurgia Plástica, foram delineados os seguintes objetivos primários: 1- identificar e classificar os motivos ou razões apresentados verbalmente durante a entrevista semi-estruturada e 2- discriminar esses motivos em áreas e sub-áreas; mapeando-os de acordo com a teoria da Atribuição de Causalidade e articulando-os com algumas descobertas dos pesquisadores descritos no Capítulo IV.

Método
Partimos do uso da entrevista semi-estruturada, nos moldes propostos por Bléger (1980). As perguntas que constam do Anexo 1 foram estruturadas tendo como base referencial a Teoria da Atribuição de Causalidade. Para maior captação de pormenores, todas as entrevistas foram gravadas, com o uso do gravador autorizado pelos candidatos. A seguir essas entrevistas foram transcritas e analisadas de duas formas: verticalmente e horizontalmente. Por análise vertical entende-se utilizar a entrevista inteira e ver os aspectos da teoria que poderiam esclarecê-la; por análise horizontal toma-se como base a teoria heideriana e pesquisam-se em todas as entrevistas os trechos dos depoimentos que ilustrem a teoria. O primeiro momento refere-se à seleção de trechos tais como foram verbalizados pelos candidatos, excluindo-se os conteúdos que fugiram do tema da pesquisa. Foram escolhidas 06 entrevistas para apresentação vertical, no modo horizontal 26, e excluídas 06. O critério de

exclusão foi a pobreza de conteúdo. Em um momento posterior essas análises verticais e horizontais foram compiladas a fim de lançar novas hipóteses para a teoria e o campo da procura por beleza através da CP. Com base na análise das entrevistas foi elaborado um Roteiro de Análise (ver Anexo 2 e 3). A entrevista mais rica está transcrita na íntegra no anexo 4.

Sujeitos
Foram entrevistados individualmente 32 candidatos (81% do sexo feminino) à rinoplastia estética de um hospital-escola que realiza cirurgia plástica gratuita, através dos cirurgiões plásticos que estão fazendo residência ou pós-graduação nessa área. Critérios utilizados para aceitar o candidato à entrevista: 1) Estar na fila para passar em consulta inicial com o cirurgião plástico; 2) Indicação verbal ou gestual, por parte da auxiliar de enfermagem, de que o paciente quer rinoplastia estética (confirmação antes de aceitá-lo para a entrevista) 3) Não ter deformidades faciais ou nasais aparentes (cicatriz, malformação, mancha, etc foram elementos que funcionaram como de exclusão para a entrevista) A rinomegalia, o nariz com columela insuficiente e o látero-desvio eram aceitos e 4) Pedido verbal de rinoplastia (não reparadora) por parte do paciente. Dos 32 entrevistados, seis deixaram de compor a população analisada em razão do teor pouco desenvolvido de suas entrevistas. A caracterização dos candidatos pode ser vista na tabela n. 2.

Tabela 2 - Distribuição dos candidatos conforme o número da entrevista, sexo, idade, nível de escolaridade e estado civil (n. de filhos).
NR 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 SEXO M F F F F F F F F F F F F M F F F F F F F F F F F M F M F M F M IDADE 20 32 32 54 27 24 29 28 25 23 46 26 43 26 22 46 20 35 30 35 33 37 42 20 31 27 27 23 23 25 57 27 ESCOLARIDADE 1 G Inc 1 G Inc NS Inc - Letras 1 G Com NSC - Análise Sistemas 1 G Com 2 G Com 2 G Com NSC - Odontologia NSC - Odontologia NS Inc 2 G Com 1 G Inc 2 G Com 1 G Com NSC - Pedagogia/Geografia NS Inc - Letras 2 G Com 2 G Inc 1 G Inc 1 G Inc 1 G Com 2 G Com 2 G Inc NSC - Letras 2 G Com 1 G Inc 2 G Com NSC - Odontologia 2 G Com 1 G Inc NSC - Biologia ESTADO CIVIL Solteiro Solteira Solteira Casada - 3F Casada - 0F Casada - 2F Solteira Casada - 2F Solteira Solteira Separada - 4F Solteira Casada - 3F Solteiro Solteira Viúva - 2F Solteira Casada - 2F Casada - 6F Solteira Separada - 2F Casada - 2F Solteira Solteira Solteira Solteiro Solteira Solteiro Solteira Solteiro Casada - 3F Solteiro

Pelo gráfico 1, pode-se ver que a grande maioria dos sujeitos eram do sexo feminino. Gráfico 1 - Distribuição dos candidatos conforme o sexo.

HOMENS MULHERES

19%

81%

Pelo gráfico a seguir (n. 2 de colunas), pode-se perceber que existe concentração dos candidatos na faixa etária dos 20 a 30 anos. A média de idade é 32 anos e 2 meses e a moda é 27 anos. Gráfico 2 - Distribuição quantitativa dos candidatos por faixa de idade e por sexo.

7 6

Q T D D E C A N D .

5 4 3 2 1 0

20 a 25
26 a 30

31 a 35

36 a 40

Faixa de idade

41 a 50
51 a 55 56 a 60

Mulheres Homens

Pode-se perceber que todos os candidatos masculinos estão na faixa 20 a 30. Gráfico 3 - Distribuição percentual dos candidatos por estado civil.
SOLTEIROS CASADOS OUTROS 9%

28%

63%

Gráfico 4 - Distribuição quantitativa dos candidatos por estado civil e por sexo.

14 12 10 8 6 4 2 0 solteiros casadas outros

Homens Mulheres

Pelo gráfico 4, pode-se perceber que todos os candidatos masculinos são solteiros. Segundo a escala de VALLE, citada por PASTORE (1979), os sujeitos se distribuiram em três estratos, conforme o gráfico n. 5, e estão concentrados no nível médio. Gráfico 5 - Distribuição percentual dos candidatos por estratos.
9% 19%

Alto Médio Baixo

72%

Material
Todas as entrevistas gravadas foram transcritas o mais fielmente possível. Alguns trechos ficaram inaudíveis ou o candidato fez uma longa pausa. Esses trechos aparecerão com pontos de interrogação ou reticências, respectivamente .

Procedimentos
Os candidatos eram convidados, após indicação ou apresentação, a acompanhar o psicólogo até a sala de entrevista e lá era feito o rapport. Material de apoio: gravador e o roteiro de entrevista. O tempo médio reservado para cada entrevista foi por volta de 40 minutos. O psicólogo fazia anotações breves e resumidas paralelas à gravação, objetivando marcar o comportamento não-verbal e o clima da entrevista.

Constituição da população
Trinta e dois sujeitos de ambos os sexos passaram pela entrevista semi-estruturada. Todos os sujeitos foram voluntários que se apresentaram ao psicólogo, depois que a enfermeira convocava os que estavam aguardando a consulta para fazer cirurgia plástica no nariz. Todos eles autorizaram a gravação das entrevistas. No departamento de Cirurgia Plástica havia 3 auxiliares de enfermagem que usavam várias expressões de chamada dos candidatos após o meu consentimento: "Atenção! Há alguém que pretende mexer no nariz?" "Pessoal! Quero saber se alguém está aqui para fazer cirurgia no nariz". As pessoas que se apresentavam aos auxiliares, que se alternavam para fazer a chamada, eram-me apresentadas com a seguinte frase: "Agora vocês conversem com o psicólogo Wálter porque ele vai explicar o trabalho de pesquisa dele aqui no hospital". Explicava resumidamente meu papel de pesquisador na área de psicologia e usava o seguinte trecho decorado: "Sou psicólogo e estou fazendo uma pesquisa sobre cirurgia plástica no nariz, o(a) sr. (a) gostaria de passar em uma entrevista comigo nesse momento?". Se a pessoa concordava, eu fazia questão de deixar claro que não era cirurgião plástico (o uso do avental branco permitia a confusão) e que ser entrevistado por mim não era garantia nenhuma de que eles conseguiriam a rinoplastia. Acalmava uma possível ansiedade de perda na fila com o cirurgião, fazendo contato com as auxiliares de enfermagem (marcação da posição) e dizia: "O (a) sr.(a) pode ficar tranqüilo(a) porque o seu lugar está reservado na fila. Caso chegue a sua vez para a consulta com o plástico, a auxiliar vem avisar-nos." Após esse recrutamento, os sujeitos recebiam novas explicações sobre a pesquisa e davam o seu consentimento para a realização da entrevista, bem como para o uso do gravador. Estas entrevistas foram realizadas entre agosto e novembro de 1991.