Rosa Lima 31 de Outubro de 2005

Modelos, teorias e tendências na abordagem do desenvolvimento fonológico: a importância da sílaba na avaliação
Resumo Traça-se aqui um panorama das conceptualizações teóricas relativas ao desenvolvimento fonológico. É feita uma leitura em função da afirmação crescente dos aspectos suprassegmentais, nomeadamente do papel da sílaba na aquisição. Finalmente, são apresentados registos de avaliação com base nos processos fonológicos e tendo em conta os formatos silábicos.

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O conhecimento sobre o desenvolvimento da fonologia tem sofrido várias metamorfoses conceptuais. De uma posição na qual se contemplava apenas a realização isolada do fonema, passou-se a outra, na qual existem distintos níveis de representação, inter-ligados por relações mútuas de dependência. Aqui, o papel da sílaba é preponderante, porquanto se constitui como posição intermédia entre o fonema e outros níveis de representação superiores, entre eles a palavra. A fonologia constitui o nível mais elementar de avaliação da estrutura formal da linguagem. Na verdade, quando a criança não consegue expressar-se de acordo com o modelo da sua língua, a primeira observação, por parte de qualquer ouvinte, é a de que “não sabe falar bem”. Esta apreciação pode referir-se a “ainda não consegue”, o que equivale a dizer que ainda não superou as dificuldades inerentes à sua idade cronológica. Por outro lado, outro colectivo de crianças pode apresentar atraso no desenvolvimento da linguagem em geral e da estrutura formal da mesma em particular. Em qualquer uma destas circunstâncias, “não saber falar bem” corresponde a não dominar os padrões fonológicos (materializadas na palavra), na base dos quais se encontram as estruturas neuro-perceptivas e fonoarticulatórias que permitem uma realização modelar da linguagem falada. A avaliação dos produtos linguísticos da criança permite-nos situá-la face ao eixo da normalidade vs. desvio/atraso. A avaliação dos processos e das dimensões da linguagem a partir do domínio mais elementar, que é a fonologia, é de grande importância.

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Este artigo propõe um modelo de avaliação da fonologia, consubstanciado na apresentação de dois casos clínicos. Ele consiste na aplicação dos princípios emergentes da avaliação centrada em processos de avaliação e aquela que resulta da valorização das unidades superiores ao fonema, isto é, concepção inerente à fonologia não linear. A fim de compreender as linhas teóricas que subjazem ao modelo proposto, sistematizam-se, numa visão cronológica, os momentos que explicitam as distintas teóricas do desenvolvimento fonológico, permitindo assim apreender o papel crescente das unidades superiores ao elemento “fonema”. A última parte deste trabalho centra-se na avaliação da fonologia a partir de duas perspectivas: uma que contempla os processos de compreensão e de expressão, bem como as dimensões fonológica, morfossintáctica, semântica e pragmática; a outra centra-se apenas na avaliação dos processos fonológicos encontrados num registo de linguagem obtido a partir de um instrumento de nomeação . 1. DESENVOLVIMENTO FONOLÓGICO: MODELOS, TEORIAS E TENDÊNCIAS Em publicação recente, Ingram (1999) afirma que "os factos desenvolvimentais acerca da aquisição da Fonologia foram razoavelmente avaliados e descritos em várias publicações" (p.73). Esta constatação coexiste, no entanto, com a de que " não foi ainda estabelecida (...) a forma de interpretar estes factos" (idem). A clareza dos factos é, por um lado, suficiente para a definição de grandes subperíodos /estadios de desenvolvimento da Fonologia. Mostra-se assim mais ou menos consensual a divisão entre um desenvolvimento precoce (até cerca dos 4 anos) e tardio (subsequente). Do ponto de vista estritamente motor, algumas investigações reforçam, inclusivamente, este marco, enfatizando uma tendência para a estabilização dos movimentos articulatórios por
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volta

dos

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anos

(Goffman

e

Smith,

1999).

Ingram

(1976)

considerava, depois de um "período da primeira palavra" (até 1,6 anos) um desenvolvimento correspondente à "Fonologia do Morfema Simples" (de 1, 6 até 4 anos), seguido de um período de completamento do inventário fonémico (até 7 anos). No âmbito desta periodização, Vihman (1996) reconhece, nos últimos anos, a concessão de um privilégio notório o desenvolvimento cumprido no 1º ano de vida (transição para a linguagem). A definição dos estadios em causa socorre-se, então, de factos do surto vocabular (18m), da elaboração progressiva de um sistema fonológico que atinge a inteligibilidade por volta dos 4 anos e que se refina aproximadamente até aos 7. Que dizer então acerca das formas de dar conta destes factos? Explicar a aquisição da Fonologia é uma tarefa que (a) vigora há várias décadas na comunidade científica, (b) está longe do consenso paradigmático e cuja característica eventualmente mais saliente passa pela (c) dependência relativamente a redes disciplinares de origem diversa nas quais a Linguística exerceu, desde o seu nascimento enquanto domínio científico, uma acção determinante. As linhas gerais de orientação histórica no estudo do de

desenvolvimento fonológico integram um

sentido crescente

transdisciplinaridade (Vihman, 1996). Este sentido começou por desenhar-se na relação entre a Linguística e a Psicologia, sendo, ainda hoje, evidentes as marcas da Teoria Linguística no quadro dos modelos explicativos do Desenvolvimento Fonológico . Esta transdisciplinaridade crescente desenvolve-se num quadro de proliferação de modelos explicativos que, na perspectiva de Serra et al (2000) revelam dificuldade no acordo quanto a questões basilares como as relativas à identidade das possíveis unidades de
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percepção e processamento ou do trabalho mental necessário para a ocorrência das transformações na criança. Os autores referem, neste contexto, a crucialidade de questões específicas como a das condições de aprendizagem que determinam e mudam as unidades de representação e a da natureza do processamento próprio da produção e compreensão da fonologia (nomeadamente o que a distingue da percepção acústica). Salientam ainda o facto de as crianças poderem utilizar diferentes estratégias de processamento para palavras novas e conhecidas como factor de complexificação deste domínio de estudo. No parecer dos autores, são exigências das teorias explicativas do desenvolvimento fonológico - e para além da necessidade de oferecer um modelo evolutivo geral - a resposta às questões levantadas pelas especificidades de cada língua (estruturais e frequências de uso) e pelas diferenças individuais. Neste contexto, a tendência a provar modelos "...mais que a formular uma teoria propriamente dita..." (idem, p.215) surge como força dominante. 1.1. Teorias do desenvolvimento fonológico: uma sinopse Dado o intuito de apreciação das tendências evolutivas neste domínio, adoptamos aqui um referencial aproximado de ordenação cronológica. 1.1.1. Comportamentalismo A aplicação da perspectiva comportamentalista ao desenvolvimento fonológico constituiu, em articulação com a linguística estruturalista, um dos momentos de partida da História deste domínio. Autores como Mowrer (1952) e Olmsted (1966) socorreram-se dos postulados de base da “Teoria da Aprendizagem” (imitação e reforço diferencial na discriminação das características próprias dos sons) para sublinhar a importância, no desenvolvimento fonológico, de
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factores como a percepção ou o papel da frequência de input. Serra et al (2000) especificam-nos como factores de facilidade perceptiva categorial e de frequência na língua, associando-os à proposta explicativa de que (1) os fonemas mais contrastantes são os primeiros a aparecer (facilidade perceptiva categorial) e (2) em segundo surgem os fonemas com mais frequência na língua. Nesta perspectiva, previa-se que a sonoridade e a nasalidade fossem de aprendizagem mais fácil que a fricação e o lugar de articulação, admitindo-se, por inerência, um grau correlativamente inverso de dificuldades produtivas (mais dificuldades no uso contrastivo do lugar de articulação). Segundo Serra et al (2000), o autor terá ele próprio reconhecido a falta de apoio empírico a estas previsões . Numa visão geral, são, em suma, os conceitos de aprendizagem, competências perceptivas e frequência de uso que dominam esta leitura do desenvolvimento na aquisição fonológico. faz, assim, O peso com de a factores noção contingenciais que

estruturalista de desenvolvimento universal (sobre a qual nos debruçamos em seguida) encontre aqui uma das mais violentas oposições. 1.1.2. Estruturalismo Baseado nos trabalhos da Escola linguística de Praga, Jakobson (1941/68) partiu do material descritivo então disponível nos relatos diarísticos para construir uma “análise estrutural1” do de desenvolvimento fonológico, bem como as “leis gerais mundo, quer a aquisição da Fonologia na criança. É, na sua obra, encontrado um paralelo entre o desenvolvimento fonológico na criança e a dissolução fonológica no adulto (afasia),
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solidariedade irreversível” que governam, quer as línguas do

No domínio da Linguística consideram-se estruturalistas as descrições de uma língua assentes na ideia de um sistema de relações. Segundo Trask (1996), “virtualmente todas as abordagens do séc. XX são, neste sentido, estruturalistas na medida em que se opõem às anteriores abordagens atomísticas, por sua vez conceptualizadoras da fonologia de uma língua como colecção de elementos” (p.340). 6

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processo cujas implicações cabem numa perspectiva evolutiva relativa à formação das línguas (Blache, 1978). Na síntese de Blache (idem), o que é universal na Linguagem infantil e nas línguas do mundo é inerente apenas quando relações incompatíveis da mesma ordem leis. Jakobson enfatizou o carácter universal e inato na ordem de aquisição fonológica, concebendo um sistema que inclui a progressiva diferenciação de uma sequência de contrastes afectando classes de sons sucessivamente mais pequenas. Neste contexto, os contrastes são pré-requisitos uns dos outros, referindo Jakobson uma sequência de aquisição na qual uma distinção inicial de poucos traços distintivos progride a par com a capacidade de contrastação e correlativa ampliação do repertório (Bosch, 1984; Macken, 1995). A ordem será a seguinte: 1-nasalidade; 2-labialidade; 3-continuidade; 4lugar de articulação (anterior-posterior); 5-sibilância. Serra et al, (2000) enfatizam, na leitura da obra do autor, um sentido de afinamento da capacidade contrastiva (dos contrastes máximos aos mais débeis) passível de traduzir compromissos progressivos com a dificuldade articulatória da língua . Central no corpo explicativo de Jakobson foi ainda a cisão entre um período pré-linguístico (destituído de padrão ou estrutura) e um período línguístico (associado à universalidade das aquisições), estabelecendo o autor uma correspondência entre esta oposição e a dicotomia produção fonética (pré-linguística)/ fonológica (linguística). Esta descontinuidade estaria também associada à ocorrência de uma forma de reaprendizagem fonética em função da língua, coincidindo esta com a emergência do período linguístico (Serra et al, 2000). são demonstradas como existentes na afasia. O desenvolvimento e a dissolução são, enfim, regulados pelas mesmas

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Uma elaboração da proposta de Jakobson surge, nos anos 70, com Moskowitz (1970, 1971, 1973, in Bosch, 1984; Acosta, León e Ramos, 1998). De acordo com Bosch (1984), a abordagem de Moskowitz é ainda uma leitura estruturalista que substitui a perspectiva do contraste, considerando unidade mínima a sequência composta de som mais significado. Acosta et al (1998) consideram que "...ainda que os seus postulados continuem no fundo a ser estruturalistas" (p.42), Moskowitz introduz na sua teoria elementos da Fonologia generativa contemporânea. Estes passarão, segundo os autores, pela consideração do desenvolvimento fonológico não só como aquisição de unidades mas também de regras que as regem. Acrescentam ainda a importância da perspectiva de hierarquia de níveis linguísticos no percurso desenvolvimental, partindo a produção de unidades mais amplas (frase e entoação) para chegar a unidades menores (segmento). Ao longo deste percurso, a unidade silábica assume uma importância capital, na medida em que "...de forma notável lhe confere valor semântico." (idem). Serra et al (2000) apontam a tese da descontinuidade como um dos pontos do modelo mais susceptíveis à crítica. Acrescentam a esta forma de questionamento o facto de a leitura de Jakobson não permitir ter em conta os factos das diferenças individuais, da selecção de estratégias individuais e da sensibilidade às especificidades da língua tal como esta surge implicada nas frequências de uso de um dado fonema em diversas línguas. Para além disto, referem a possibilidade de confrontar a proposta do autor com os dados que apoiam a noção de uma unidade de processamento inicial não baseada em segmentos e traços, mas sim na palavra. 1.1.3. Modelos Generativos Linguísticos A fonologia generativa consiste, em sentido estrito, numa abordagem baseada na formulação de formas subjacentes que são
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convertidas pela aplicação de uma (possivelmente longa) sequência de regras fonológicas em formas fonéticas de superfície e que são elas próprias formuladas como sequências lineares de segmentos (Trask, 1996). As formas subjacentes, também designadas de representações subjacentes ou subjacencias, constituem uma representação fonológica mais ou menos abstracta de um segmento, um morfema, uma palavra ou uma frase que é suposta por um analista e a partir da qual são derivadas as respectivas formas de superfície que incluem as realizações de variantes. As formas subjacentes podem ser mais ou menos abstractas, dependendo isto das preferências teóricas do analista. O conceito e o termo foram introduzidos na linguística por Bloomfield (1933, in Trask, 1996), tendo os estruturalistas americanos rejeitado a ideia. As regras fonológicas são, num sentido amplo, qualquer regra que, numa análise, é assumida como envolvida na derivação de uma pronúncia a partir de uma representação fonológica subjacente. São incluídas aqui regras relativas à informação morfológica, lexical e regras puramente fonéticas. Conforme as perspectivas, surgem restrições à natureza das regras a considerar. A fonologia generativa foi inaugurada na obra de Chomsky, Halle e Lukoff (1959), e apresentada com algum detalhe na obra de Halle (1959). A versão elaborada, modificada e apresentada na publicação de Chomsky e Halle (1968) representou a forma canónica da fonologia generativa clássica. Em termos latos, a fonologia generativa representa um rótulo aplicado a toda a Fonologia nos anos 60, incluindo não apenas o trabalho atrás referido, mas também as várias aproximações (principalmente não lineares) desenvolvidas nos anos 80. As
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abordagens modernas diferem das anteriores, mas unem-se no reconhecimento de continuarem o programa de investigação desenvolvido por Chomsky e Halle na obra “The Sound Pattern Of English” (1968). A estas mais recentes abordagens nos referiremos adiante.

Fonologia Generativa de Chomsky Baseado na assunção de que a criança está inatamente dotada de um “conhecimento tácito” dos princípios universais da estrutura linguística, Chomsky criou um vínculo fundamental entre a aquisição da Linguagem e os objectivos da teoria linguística. As linhas gerais da sua teoria fonológica podem ser resumidas de acordo com os seguintes princípios (Vihman, 1996): (1)As descrições fonológicas podem ser formuladas em termos de afirmações e notações precisas e explícitas; (2)os segmentos são analisáveis como um complexo de traços; (3)Existem dois níveis de representação, correspondendo aos níveis subjacente (abstracto) e fonético (de superfície); (4)as regras fonológicas medeiam os dois níveis; (5) as regras fonológicas interagem (Dinnsen, 1984, in Vihman, 1996). Num enquadramento histórico relativo aos grandes paradigmas da Linguística, Trask (1996) atribui à Fonologia Generativa Clássica a responsabilidade pela inversão do primado da representação sobre a regra tal como este subsistira no Estruturalismo Americano. Com Chomsky e Halle, é, ao contrário, a regra que domina.

Depois de Chomsky: Stampe, Smith e a Fonologia natural Formulada num território marcado por preocupações de natureza linguística, a concepção Chomskiana deixa em aberto questões relativas ao desenvolvimento. Dois referenciais vieram, segundo Vihman (1996), dar resposta a duas dessas questões: a aquisição das regras generativas e a natureza desse conhecimento inato.
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Esses referenciais foram o da Fonologia Natural de Stampe (1969; 1979) e o da Fonologia Generativa de Smith (1973). Stampe (1969; 1979) concebe um sistema inato de regras fonológicas automáticas - os processos de simplificação - aplicadas às representações fonéticas. São definidos como operações mentais "que vão convertendo uma oposição fonológica potencial no membro da oposição que menos ponha à prova as restrições da capacidade fonética humana" (Stampe, 1969, p.443). Tais processos não teriam de ser aprendidos, já que consistiriam em respostas naturais necessárias perante as limitações da percepção e produção humanas. Os processos seriam universais e disponíveis de modo inato, sendo a tarefa da criança a da redução progressiva da aplicação dos processos não ocorrentes na sua língua através da ordenação, limitação e supressão dos mesmos (aquisição da fonologia). Partindo de um estadio de recurso massivo aos processos fonológicos naturais, a criança rejeitá-los-ia progressivamente de forma a aceder às oposições fonológicas contidas na fala adulta (das quais esses processos não constam). Neste contexto, Stampe recusa a ideia de que a criança possui um “sistema próprio”, insistindo no facto de as suas representações das palavras serem próximas das formas de superfície da fala adulta (Vihman, 1996). Na formulação de Acosta et al (1998), as representações fonéticas das produções das crianças são o resultado da aplicação desse sistema inato a uma representação fonológica abstracta hipotetizada. A acção dos processos enquanto operações mentais faz, segundo Serra et al (2000), com que as crianças restrinjam as oposições da língua àquelas que existem no seu sistema natural das crianças, indose suprimindo as que não se encontram no sistema linguístico envolvente. Assim, existem oposições que são integradas se existem na língua e outras que não integradas se não existem.
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Este dado levanta uma das críticas possíveis ao modelo: perante a ideia de que as crianças possuem um sistema genérico com todos os contrastes de início, como é que este sistema - mais rico - se vai restringindo progressivamente? Nas palavras de Acosta et al (1998) "...preocupa a afirmação de Stampe de que a representação subjacente que a criança tem de uma palavra é igual à da forma adulta falada. Se assim fosse, o sistema perceptivo da criança teria que estar completamente desenvolvido no início da fala com significado." (p.44) Para além deste problema subsiste, segundo Serra et al (2000), a questão de os processos poderem ser lidos ou como simplificações ou - simplesmente - como limitações perceptivas. O valor do conceito de processo não deixa, no entanto, de prevalecer como instrumento explicativo de grande peso. Acosta et al (1998) acrescentam às críticas formuláveis as da (1) possibilidade de definição operacional dos processos enquanto "operações mentais", (2) a inexplicabilidade das variações individuais mediante a universalidade de ordenação de processos e (3) a ausência de explicação, no modelo, da forma segundo a qual a criança extrai e armazena uma representação fonológica. Uma diferença fundamental entre as concepções estruturalista de Jakobson e a Fonologia Natural reside na transição da noção de sistema de oposições (encerrado nas Leis implicacionais) para a de regra (processo). Actualiza-se aqui o espírito generativista e um novo paradigma ocupa o território do desenvolvimento linguístico . Stampe rejeitou a possibilidade de delimitar o âmbito dos processos possíveis. Caberia, posteriormente, a Ingram (1976, 1979), Schriberg e Kwiatkowski (1980) e Hodson (1980) a sua definição. Herdeiro, em parte das concepções de Stampe, Ingram, em particular, lançar-lhes-á um novo revestimento que passará pela contemplação da
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variabilidade produtiva nas crianças , incluindo um factor de “preferências individuais” (Bosch, 1984). O modelo inicial de Ingram (1976, 1979) enquadra-se num

desenvolvimento da fonologia natural de Stampe, segundo a qual a criança cumpre o seu percurso de desenvolvimento tardio (1,6 a 4 anos) pela perda progressiva dos processos fonológicos. Ingram (1976) descreve o desenvolvimento fonológico em paralelo com os estadios de desenvolvimento cognitivo de Piaget. Recorre às noções de assimilação e acomodação para descrever respectivamente os processos de sucessiva criação e modificação de estruturas ao longo do desenvolvimento. Dotada de um papel activo, a criança organiza-se no interior do seu sistema, contando com a colaboração não só desta dimensão (organização), como também da produção e percepção. Para além do sistema da criança, participam no percurso desenvolvimental os sistemas da palavra adulta e da palavra infantil (o grupo de sons que, em dado momento, a criança efectivamente produz). Neste contexto de estruturação progressiva e gradual do seu sistema fonológico, o conceito de preferências fonológicas vem marcar a oposição ao universalismo de Stampe. A variabilidade individual postulada é, no entanto, compatível com a formulação de uma tipologia de processos de simplificação passível de abarcar a caracterização da fala infantil. Elemento simultaneamente metodológico (método de análise de dados) e teórico-conceptual , esta noção entrelaça-se, nomeadamente, com o pressuposto da palavra enquanto unidade priviligiada na aquisição.

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Esta relação é visível na necessidade, enfatizada pelo próprio autor (Ingram, 1979), de complementarizar uma análise baseada em processos com uma consideração de aspectos de ordem dinâmica (variabilidade fonética e influência lexical), processos não isomórficos (ausência de correspondência um-a-um entre pronúncia infantil e adulta) e preferências individuais (por uma classe de sons ou estrutura silábica) Para além desta variabilidade individual, a variabilidade

translinguística encerrada na noção de carga funcional é um factor a ser contemplado, tornando-se fundamental atender à frequência dos diversos fonemas na língua em aprendizagem. A presença de regularidades quer nos erros (substituições de segmentos) da pronúncia na criança, quer na aproximação das suas produções às da forma adulta fundamentou a proposta teórica de Smith (1973). A autora concebeu uma série de regras de realização, formatando-as por recurso aos instrumentos da fonologia generativa. Para Smith, a Fonologia da criança consiste numa série de regras (processos) psicologicamente válidas que operam em representações lexicais subjacentes derivadas da forma de superfície do adulto. Estas são assumidas como sendo percebidas e armazenadas de forma correcta. É, assim, novamente rejeitada a ideia de um sistema específico à criança. As funções servidas pelas regras de realização exercem

constrangimentos de forma inata sobre o âmbito das soluções da criança para os problemas fonológicos postos pela língua ambiente. As regras de realização constituem filtros à competência da criança e deverão ser eliminados à medida que ela se aproxima da língua adulta. Entre as funções exercidas pelas regras estão a harmonia
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consonantal ou vocálica, a redução de grupos consonantais, a redução de contrastes e a simplificação gramatical. Em conjunto, o resultado destas funções define um formato universal “ ...do qual a criança terá de escapar para adquirir a sua língua-ambiente.” (Smith, 1973, p.206). 1.1.4. Fonologia prosódica A fonologia prosódica de Firth (1948), antecipadora dos modelos não lineares actuais, deslocou o ênfase nos aspectos paradigmáticos da Fonologia no sentido do domínio sintagmático. Os designados componentes fonémicos longos (traço fonético estendido por mais que um segmento dentro de uma unidade fonológica – forma mais evidente de prosódia), bem como outras características fonéticas e fonológicas) eram extraídos das representações e sobrepostos a um esqueleto de unidades de especificação mínima – as unidades fonemáticas. Resultaria desta abordagem a implementação do conceito de prosódia enquanto elemento fonológico cuja descrição só é possível por referência a um domínio de longitude maior que a de um simples segmento, incluindo-se aqui, entre outros, os aspectos suprassegmentais de acento e entoação (Trask, 1996). Antes de gerar muitas das recentes grelhas de leitura não lineares – nomeadamente a da Fonologia autossegmental - esta concepção foi, no território do desenvolvimento fonológico, aproveitada pelo modelo de Waterson (1971). Apostando num enfoque holístico (considerando como unidade a palavra como um todo e não o segmento), Waterson defende as ideias de uma especificidade inerente ao sistema da criança, bem como a de que a percepção da criança começa por ser esquemática e incompleta. A escolha de um padrão de pronúncia por parte da criança residiria na saliência perceptiva das emissões adultas.

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Numa perspectiva descritiva relativamente ao decurso de desenvolvimento, surgem as ideias de que a criança começa por desenvolver a produção e a percepção com base na melodia. Neste momento, as unidades fonéticas são realizadas de forma não analisada. Progressivamente vão atendendo a unidades como acentuação, silabificação e, finalmente, a fonemas e traços. Segundo Bosch (1984), é ainda elementos estruturantes da

abordagem prosódica o vector de

rejeição da universalidade na

aquisição. Este passará, segundo Acosta et al (1998) pela admissão de que - dada uma percepção inicial de palavras em função de características gerais mais do que unidades fonemáticas - "...não resulta inesperado que um fonema seja tratado diferencialmente em distintas formas lexicais". (p. 47). O ênfase na oração ou palavra trouxe, na perspectiva de Serra et al, "...vantagens que a à Fonologia não linear posteriormente retomou" (p.216). O fonema deixa assim de ser a unidade básica, tornando-se "... contingente ao lugar que ocupa na palavra. A forma como é percebido organiza a sua representação e produção " (idem, p.217). Segundo os autores, estas premissas explicam a diversidade individual e a variação entre contextos lexicais no percurso de desenvolvimento, ao mesmo tempo que dão peso ao input e à percepção das crianças. Desprezam, todavia, o que há de observável como constante entre os sujeitos e necessariamente (resultante possivelmente de estruturas fonológicas exteriores), minimizando uma das dimensões fundamentais do desenvolvimento. Acosta et al (1998) acrescentam a estas limitações a circunscrição dos dados fundamentadores do modelo aos estadios iniciais de aquisição e a ausência de previsões relativas aos tipos de erro que poderão ocorrer no desenvolvimento.

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O ênfase em material linguístico específico, mais que na procura abstracta de universais, fez deste modelo um contribuinte significativo para alguns dos mais ecléticos modelos cognitivistas (Vihman, 1996). 1.1.5. Os Cognitivistas de Stanford Em ruptura com o trajecto disciplinar mantido até inícios da década de 70, os cognitivistas impuseram uma perspectiva ateórica e não dedutiva, rejeitando o empréstimo de uma base linguística para as suas formulações. O modelo foi elaborado durante 10 anos por um grupo de Investigadores da universidade de Stanford. Com o cognitivismo, a questão da ordem de aquisição foi apagada (de Olmsted, ao nível perceptivo, ou de Jakobson, ao nível da produção) por uma preocupação com as competências cognitivas inerentes à produção linguística da criança, agora evidentemente dotada de um papel activo. Nesta qualidade, as crianças formulam hipóteses, provam e corrigem sem que, obviamente, tenham disso consciência. Menn e Stoel-Gammon (1995) resumem a essência desta concepção à ideia de uma criança com meios limitados perante o sistemaalvo, usando a palavra como primeira unidade e recorrendo a estratégias de substituição, evitamento e exploração. A primeira tentativa de articulação desta posição surgiu de Ferguson e Farwell (1975), que partiram de um estudo longitudinal para constatar (a) um alto nível de variabilidade na produção das primeiras palavras, (b)uma “regressão” na pronúncia das primeiras palavras, inicialmente mais bem pronunciadas do que posteriormente, e (c) provas de uma selectividade das palavras produzidas com base nos seus sons constituintes. Ferguson e Farwell enfatizam as variações intra e interindividuais, tendo cada criança a sua estratégia resultante num léxico precoce idiossincrático.
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O desenvolvimento desta posição incluiu a constatação de que a criança, em todos os domínios linguísticos, cumpre uma marcha a partir de uma aprendizagem pré-sistemática e no sentido da descoberta e sobregeneralização de padrões (Vihman, 1996). Acosta et al (1998) descrevem este percurso: "À medida que o seu vocabulário receptivo e produtivo aumenta, (as crianças) começam a notar similitudes entre segmentos ou sequências de segmentos e formulam regras para relacionar palavras com formas similares e/ou formas silábicas."(p.48) Segundo os autores, estas regras não são apenas variáveis de criança para criança, como também são mutáveis. quer isto dizer que, no percurso de aproximação à fala adulta, elas podem modificar-se se existirem contradições internas. Segundo Ferguson e Farwell (1975), o desenvolvimento fonológico precoce é fortemente afectado pelas propriedades das palavras. Os primeiros contrastes acontecem em palavras individuais, não se generalizando muito cedo e permanecendo limitados a palavras específicas (contrastes lexicais). O parâmetro lexical opera quando um contraste se começa a generalizar, dispersando-se gradualmente pelas palavras em vez de acontecer de forma súbita em todas as palavras relevantes. Para os mesmos autores, as crianças têm pronúncias alternativas para tipos lexicais. Algumas palavras são mais variáveis que outras. As palavras com pronúncias mais estáveis chamam-se formas estáveis. (Ingram, 1992). No que diz respeito às formas progressivas, haverá, inicialmente, restrições impostas pelo facto de o sistema fonológico ser limitado. Uma das características que daqui resulta é o idioma fonológico primeiras pronúncias das crianças que são superiores a outras pronúncias posteriores. Tudo acontece como se as primeiras tentativas fossem reflexões directas das capacidades perceptivas e articulatórias das crianças, sem que houvesse interferência do
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sistema fonológico. Uma vez integradas no sistema, a sua pronúncia tornar-se-ia mais simples. A existência dos idiomas (fonológicos) progressivos sugere que as capacidades perceptivas e produtivas da criança são mais avançadas que o seu sistema fonológico. A selectividade fonológica da criança, consubstanciada no recurso a regras complexas não seria evidência de limitações articulatórias inatas, exercendo antes uma função de processamento dirigido à redução das formas a serem armazenadas e acedidas. De acordo com estratégias de selecção e evitamento, as crianças tendem a produzir palavras que contêm sons dentro do seu sistema, e a evitar as que não contêm esses sons. Neste processo existem, segundo Serra et al (2000), produções que não são fruto do sistema adulto nem são simplificações. Resulta assim deste conjunto de noções uma ideia global de variabilidade na sequência de aquisição. Fala se em estratégias individuais , preferências e léxico idiossincrático. Nas suas várias expressões, os modelos cognitivistas rejeitam o conhecimento inato das categorias linguísticas, apostando antes na existência de capacidades naturais para a percepção e produção. Neste sentido, a universalidade existente só se deve às bases auditivas e articulatórias de cada momento maturativo (Serra et al, 2000). Relativamente às unidades de aquisição, no início a unidade é a palavra e progressivamente os contrastes incorporam-se na representação. Referindo-se às críticas sobre este modelo incidentes, Serra et al (2000) apontam o facto de, na qualidade de construtivista, apostar na interacção sujeito/meio e não permitir, nesta medida, grandes predições nem refutações da teoria.

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1.1.6. Os modelos biológicos De elaboração recente, os modelos biológicos enfatizaram a ideia de origem da Fonologia no âmbito dos constrangimentos perceptivomotores, fazendo sugestões específicas acerca dos mecanismos que facilitam a transição do balbucio para a fala. São nomes proeminentes neste domínio os de Kent (1992), Locke (1986) e Locke e Pearson (1992). Locke (1983) formulou o designado modelo da continuidade, centrado na acção de componentes fisiológicos, perceptivos e cognitivos na transição do balbucio para a fala. Submeteu-o a elaborações posteriores (1993), ampliando-o ao nível da consideração explícita de aspectos sociobiológicos e neuronais. Complementar a esta abordagem, a noção de auto-organização (Kent, 1984) ou sistema auto-organizado (Edelman, 1987; Thelen, 1985), centralizou os precursores do controle motor na primeira infância. A ideia de categorias fonéticas universais enquanto factores genéticos (Jusczyck, 1992) foi aí também inserida. Lindblom capazes (1992) de foca, por as sua vez, os princípios linguísticos sistemas

estruturais bem como as considerações de percepção e produção explicar origens ontogenéticas dos fonológicos. 1.1.7. Alternativas formais: da regra à representação Entre as propostas mais recentes, alinham-se os modelos não lineares, derivados dos modelos generativos dos anos 60, e os modelos conexionistas, elaborados por psicólogos e cientistas não especificamente interessados no desenvolvimento fonológico. Um aspecto comum a ambos é o de terem permitido um deslocamento da regra (processo) para a representação.
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Fonologia Não Linear As aplicações do modelo generativo aos fenómenos prosódicos – entoação e acento – conduziu, no momento do declínio da Fonologia Generativa Clássica, a dois modelos que viriam a representar papel precursor na formação do conjunto vasto dos designados modelos não lineares: O modelo autossegmental de Goldsmith (1979) e o modelo métrico (Liberman e Prince, 1977) mostraram-se, então, capazes de “...exprimir mais directamente as bases fonéticas das regras de assimilação e de abranger efeitos fonológicos baseados na sílaba e na palavra, conseguindo ainda incorporar fenómenos até então extra-teóricos como a estrutura interna das sílabas" (Vihman, 1996, p.38). A Fonologia não linear (da qual a Fonologia autossegmental é uma representante eminente) tem-se vindo a impor essencialmente como formalismo descritivo de grande utilidade. As propriedades mais notórias desta formalização passam pela (a)especificação de domínios de aplicação para os traços fonéticos que vão para além do segmento (sílaba e palavra), bem como a (b)liberdade na ordenação sequencial dos traços que resulta da sua localização em níveis de organização diferentes (fiadas) (Menn, 1978, in Vihman, 1996). O recurso explicativo de base assenta, assim, num pressuposto de que existem níveis de representação, que estes correspondem às designadas fiadas e que, entre elas, existem ramificações que as relacionam. A fiada da palavra ramificar-se-ia nas dos pés, estes nas das sílabas, estas, nas dos seus constituintes, estes nas dos segmentos. Bernhardt e Stoel-Gammon (1994) salientam a diversidade que as grelhas não lineares exibem nas várias descrições de tipos e funções entre o segmento e a frase. Acrescem que, no entanto, elas são semelhantes na forma como assumem as unidades suprassegmentais enquanto parte da estrutura prosódica. testemunho desta
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variabilidade é a omissão ou introdução de fiadas nas diversas representações apontadas na literatura. Assim, para o exemplo da palavra porta - e mediante a adaptação do esquema de Vihman (1996), a representação não inclui a fiada do pé e será feita da forma sugerida na fig. 1. INSERIR FIG. 1 Segundo Menn e Stoel-Gammon (1995), a teoria autosegmental partilharia com a abordagem prosódica uma noção de “palavra horizontal” que pode ser contraposta ao conceito implícito na Fonologia segmental (generativa clássica) - o de palavra como conjunto de traços verticais. Para além de domínio formalizante e descritivo, a Fonologia não linear ramificou-se em subdomínios com potencial explicativo: A teoria modo autossegmental um de Goldsmith explicativo (1979), para o

desenvolvimento particular destes modelos não lineares, veio de algum fornecer revestimento desenvolvimento fonológico. Segundo o autor, a fonologia precoce envolveria representações autossegmentais de certos traços, i.e., a localização de um traço numa fiada separada (por exemplo, apenas para velares ou nasais). O curso posterior do desenvolvimento envolveria a “desautosegmentalização”, ou a incorporação desses traços (inicialmente representados a nível superior) no nível dos segmentos. Explicações mais recentes (Velleman, 1992 in Vihman, 1996) em estadios precoces ou até à falta de

apelam a hipóteses como a de inexistência de níveis de representação determinadas ramificações, as quais justificariam a emissão de palavras monossilábicas apenas (ramificação de palavra inexistente) ou omissão de determinados segmentos (ramificação de sílaba inexistente).
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Neste panorama, Bernhardt e Stoel-Gammon (1994) exploram os contributos explicativos dos corpos teóricos da Fonologia Métrica, Fonologia Lexical e da Teoria da Subespecificação para a conceptualização do desenvolvimento. Esta última constitui uma das vias explicativas na explicação da representação de traços durante o desenvolvimento, concorrendo com a Teoria da especificação contrastiva (Ingram, 1999). Modelo conexionista Em relação ao passado dos modelos de desenvolvimento fonológico, o modelo conexionista como a recuperou alguns do conceitos input e do a comportamentalismo, frequência

variabilidade do output, aspectos estes minimizados nos modelos estruturalistas e universalistas dominantes até inícios dos anos 70. Tendo como autores de referência McClelland e Rumelhart (1986, in Plunkett, 1998), esta corrente integrou o grupo de alternativas ao enfoque computacional no âmbito da Psicolinguística. A perspectiva conexionista partilha com a concepção cognitivista ou mentalista o respeito pela realidade das representações mentais. Contudo, uma oposição fundamental as divide. Segundo Plunkett (1998) "...é uma assunção fundamental dos modelos conexionistas de aprendizagem da linguagem a de que ela é baseada em processos associativos envolvendo conexões e pesos sinápticos modificáveis entre redes de unidades simples de computação" (p.98). A génese da oposição ao cognitivismo radicará, segundo o autor, no facto de esta última abordagem admitir a existência de sistemas simbólicos de natureza física nos quais as representações são manipuladas por um conjunto de regras explícitas. Para a explicação - pretendida funcional - da actividade cognitiva, recorre-se a princípios como os da activação (excitação-inibição). Ao pretender substituir-se a “metáfora do computador” pela “metáfora do cérebro”, deu-se particular enfoque à noção de armazenamento
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da informação em redes (não se supondo, assim, localizada na memória). Estas redes conteriam unidades subsimbólicas que interagiriam entre si, de acordo com a interacção estabelecida pelo organismo com o meio. Para além de acentuar esta dimensão empiricista na teorização da aprendizagem (apelo às determinações contingenciais do input), este enfoque viria a fazer apelo a perspectivas biológicas. Sternberger (1992) aponta como assunção central do conexionismo a de que todos os fenómenos da aquisição de competências fonológicas podem ser descritos como mudanças on-line, baseadas na forma adulta tal como a criança a percebe. O autor salienta também a existência de níveis de representação (pragmático, semântico, sintáctico, programação motora) ao nível dos quais decorre não apenas uma activação sequencial (de níveis superiores para inferiores), como também um processo de feedback (sentido inverso). Dentro deste marco, Storkel e Morissette (2002) exploram as interacções entre Fonologia e léxico.

2. A SÍLABA COMO PRIMEIRA UNIDADE: ENFOQUES PRODUTIVOS E PERCEPTIVOS Moskowitz (1973), um dos primeiros investigadores a preocupar-se com a dimensão da primeira unidade de produção, postulou a sílaba como primeira unidade fonológica universal. Ferguson e os seus colegas começaram por considerar existir, acima de tudo, uma variabilidade-algumas crianças começariam com a sílaba, e outras com a palavra como um todo. Desenvolvimentos posteriores vieram a privilegiar a palavra como unidade de contraste no sistema da criança.

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MacNeilage e Davis (1990) defenderam a ideia de que o formato silábico forneceria, no desenvolvimento precoce, o esquema motor para o preenchimento do conteúdo silábico e segmental específico. Com o regresso à representação, marcado pela Fonologia não linear, diversas unidades assumem destaque nos planos múltiplos de representação que são pressupostos. Entre estes, o domínio da sílaba ocupa o seu lugar de eminência.

2.1. Investigação no âmbito da percepção e valorização dos aspectos prosódicos A relevância da percepção para a aquisição é um dado inquestionável (Almeida e Chakmati, 1996). A atribuição explícita de peso às unidades suprassegmentais é, no entanto, uma tendência recente e que inclui no seu quadro geral uma tendência para a afirmação da unidade silábica no percurso desenvolvimental. Revemos em seguida alguns dados da investigação recente passíveis de elucidar sobre a afirmação crescente do papel da percepção de dimensões prosódicas com especial ênfase na sílaba. 2.1.1. Percepção de propriedade prosódicas Crianças bilingues de 4 meses distinguem línguas ritmicamente similares, segundo Bosch e Sebastian (2001). O dado robustece a hipótese de uma discriminação precoce de padrões prosódicos. Ramus, Nespor e Mehler (1999) apoiam uma noção de classe rítmica aplicada à caracterização das línguas, articulando-a com a afirmação da capacidade precoce (neonatos) para a percepção do ritmo. Na mesma linha, Nazzi, Bertoncini e Mehler (1998) sugerem que os neonatos utilizam informação rítmica para categorizar afirmações em
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classes largas de línguas (baseadas no acento vs baseadas na mora). Esta afirmação é ainda explorada em Mehler, Christophe e Ramus (2000). De acordo com os dados de Snow (1998), a dimensão da entoação parece ser de aquisição mais precoce que a da duração silábica. Confrontando o peso das pistas fonotácticas com as prosódicas na segmentação de palavras em crianças de 9 meses, Mattys, Jusczyk, Luce e Morgan (1999) concluem pela supremacia das últimas. Jusczyk, Goodman e Baumman (1999) encontram, em crianças de 9 meses, maior sensibilidade a constituintes intrassilábicos quando a sílaba em causa está em início de palavra. Desafiando a concepção de uma representação holística das palavras, Coady (2002) apoia a hipótese de uma sensibilidade segmental legível mediante a utilização de métodos de investigação adequados. Também especificando dimensões da unidade segmental, Yavas e Gogate (1999) apontam a propriedade perceptual da sonoridade como responsável pela consciência fonológica em tarefas de segmentação, sobrepondo-se este factor ao da posição. A dispersão dos dados da investigação por domínios perceptuais de amplitude diversa convive com uma clara afirmação do papel da sílaba no processamento da linguagem. 2.1.2. Especial relevância da sílaba Eimas (1999) reune, a partir de provas de categorização em crianças de 3-4 meses, dados tendentes a reforçar a hipótese de que as representações silábicas são inicialmente as mais robustas. Bertoncini (1998) sugere que as crianças mostram uma sensibilidade particular à composição silábica das afirmações e a padrões
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prosódicos associados. Esta sensibilidade permitir-lhes-á começar a processar a fala com base no suporte inicial das propriedades prosódicas associado aos constituintes pro-silábicos das afirmações. Dado de grande relevância para a valorização da unidade silábica é ainda o facto de apenas existir nas crianças uma capacidade de diferenciação do número de componentes (padrões acentuais ou contorno entoacional) quando estas propriedades são veiculadas pelas sílabas. Tabossi, Colina, Mazzetti e Zopello (2000) defendem a partir de dados obtidos com falantes do espanhol e do Italiano que a unidade sublexical usada por falantes de línguas românicas para a segmentação da fala e acesso ao léxico é a sílaba . A verificação do uso de propriedades estatísticas de sílabas para a detecção de palavras num continuum sonoro em crianças que aprendem a linguagem (Safran, Johnson, Richard e Newport, 1999) reflecte simultaneamente o peso das influências ambientais e da realidade da sílaba enquanto objecto perceptivo.

3. PROCESSOS DE SIMPLIFICAÇÃO FONOLÓGICA NA AVALIAÇÃO DA LINGUAGEM ORAL As linhas de trabalho atrás apresentadas revelam, em suma, que as unidades suprassegmentais – e, em especial, a sílaba – são unidades de processamento no percurso de aquisição. É necessário, portanto, assumir o papel da sílaba nos instrumentos de avaliação da fonologia. O recurso a uma avaliação que maximiza o papel da sílaba não invalida, porém, a utilização de grelhas de processos de simplificação, que permitem obter uma visão detalhada de todas as ocorrências na produção fonético-fonológica da criança.

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4. APRESENTAÇÃO DE CASOS CLÍNICOS Apresentamos dados de avaliação relativos a dois casos distintos. No primeiro, expõem-se dados relativos à caracterização da linguagem nas suas múltiplas dimensões. No segundo, considera-se apenas a dimensão fonético-fonológica, sendo esta alvo de maior aprofundamento. 4.1. Avaliação multidimensional: processos e dimensões da linguagem M., criança do sexo masculino, 5 anos e 7 meses de idade, apresenta um atraso na área da Linguagem – vertente compreensiva e expressiva. Integra-se numa família de nível sócio-económico médio e ocupa a segunda posição na fratria. Frequenta o Jardim-de-infância desde os três anos de idade. No que concerne aos antecedentes pré e peri- natais não revelam qualquer acontecimento digno de relevo. De salientar, todavia, a ocorrência frequente de episódios de otites médias até aos 3 anos de diade. Este factor é relevante, porquanto sabemos a sua interferência com a recepção da informação, podendo estar relacionado com as dificuldades reveladas no domínio da percepção auditiva, designadamente no relativo às competências discriminativas. Relativamente aos dados desenvolvimentais, tais como o controlo esfincteriano e o início da marcha, estes ocorreram de acordo com os parâmetros considerados normativos. No domínio da linguagem oral, é de sublinhar que a articulação da primeira palavra foi emitida por volta dos treze meses (do tipo CV CV), enquanto que a primeira frase, para a realidade dos pais, teria acontecido após os três anos de idade.

EXPLORAÇÃO

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MOTRICIDADE BUCOFONOARTICULATÓRIA
No âmbito da motricidade oral destacamos como aspectos importantes, relativos à criança em estudo, a ausência de reflexos orais e peri-orais, a presença de uma face simétrica, o controlo de saliva (em repouso e actividade), bem como a adequada mastigação e deglutição de líquidos e sólidos. Revela boa mobilidade voluntária dos lábios, bem assim como adequada implantação e oclusão dentárias. Utiliza uma respiração do tipo clavicular e manifesta sensibilidade facial e intra-oral normais. Evidencia uma língua de cor rosada, ausente de freio, micro ou macroglossia e de protusão, com boa mobilidade voluntária de lateralização, elevação e extensão. A estrutura palatal (palato duro e mole) não exibe qualquer tipo de anomalia quanto à coloração, simetria e mobilidade.

DIMENSÕES DA LINGUAGEM FONOLOGIA
Esta e dimensão, vinculada da à organização e sequenciação e dos

elementos sonoros da língua, envolve estruturas centrais de recepção processamento informação acústico-verbal requer competências cognitivas básicas. Encontra-se intimamente associada a processos de desenvolvimento global, iniciando-se como um sistema de simplificação da fala adulta em que se denotam défices de percepção do sistema de contrastes de sonoridade. Neste sentido, e reportando-nos a aspectos muito globais da fala da criança resultam em da causa, sua sublinhamos nem algumas sempre características: são a inteligibilidade do seu discurso é normal/baixa. Os dados que produção suficientemente perceptíveis, dada a evidência dos défices fonético-fonológicos,
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traduzidos em vários processos de simplificação. A administração e análise de um Protocolo Fonético (Lima, 2003) e o registo de Amostras de Fala Espontânea conduziram à detecção de défices articulatórios, particularmente na realização dos fonemas /k/, /g/, /Σ /, /z/, /{ /, / / e /r/ nos diferentes contextos fonológicos e diferentes agregados silábicos da língua, dando origem a uma vasta proliferação de processos fonológicos de simplificação de fala patentes no seu discurso. Entre eles destacam-se: omissão das oclusivas /k/ e /g/; omissão da líquida vibrante simples /r/ nos formatos silábicos CV (consoante/vogal), Vr (vogal/consoante), CVr consoante/vogal/consoante), CrV (consoante/consoante/vogal), CrVC (consoante/consoante/vogal/consoante) em posição inicial, intermédia e final da sílaba; omissão da líquida vibrante múltipla /{ /; omissão das fricativas /z/ e /Σ / e omissão da oclusiva nasal / /. Comete, igualmente, substituições múltiplas, entre as quais, substituições com oclusivização, com anteriorização, com desvozeamento, substituição de oclusiva nasal palatal // por oclusiva nasal alveolar /n/ e de líquida vibrante simples alveolar /r/ em CV por líquida lateral /l/. As suas produções linguísticas exibem, de igual modo, harmonias (alveolar regressiva contígua; alveolar progressiva contígua e labial regressiva contígua) e, ainda, semivocalização da líquida vibrante simples alveolar /r/.

MORFOSSINTAXE
A presente dimensão incorpora a organização formal das palavras e os aspectos estruturais de dada língua. A organização estrutural da Linguagem inclui os conceitos de morfologia, respeitante ao estudo da estrutura interna das palavras e da forma como referida estrutura reflecte as relações entre si e de sintaxe, a qual se dedica ao estudo das propriedades das combinações de palavras e das condições acerca da correcta formação das mesmas.
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Procedendo à exploração destes aspectos no desempenho linguístico de M., frisamos os seguintes dados: uso de um léxico marcadamente reduzido e vinculado ao seu quotidiano; uso preponderante de palavras de conteúdo, sobretudo substantivos próprios e comuns com significação denotativa; menor frequência de uso de palavras de função – emprega alguns pronomes pessoais, relativos e demonstrativos; utiliza de modo deficitário determinantes artigos definidos e indefinidos e determinantes possessivos; usa advérbios de negação, de afirmação, de lugar, de quantidade e de modo; aplica parcos adjectivos (qualidade, posse e número); utiliza exclusivamente os verbos no tempo presente do modo indicativo e no pretérito perfeito; constrói frases com longitude média do enunciado de quatro/cinco elementos, respeitando a sequência S-V-CD-CI; faz uso de orações ligadas por coordenação, por vezes destituídas de conjunção – orações coordenadas assindéticas; as frases são sobretudo de tipo declarativo na forma afirmativa e negativa e a concordância em género e em número não está consolidada.

SEMÂNTICA
No que concerne a esta dimensão, relativa ao conteúdo da linguagem e ao estudo do significado e combinação entre palavras, poder-se-ão realçar aspectos globais, tais como défices nos domínios receptivo e expressivo da linguagem. Apresenta dificuldades na compreensão de pressupostos facilitadores da comunicação, tais como os indicadores com quem, porquê, para quê, para onde, quantos e quando. Executa/cumpre ordens ou instruções verbais simples, apesar de necessitar, em determinadas circunstâncias, de um reforço em termos de pistas verbais. As suas produções linguísticas denotam pobreza em diversidade, sendo circunscritas a um léxico concreto e limitadas a um conteúdo tendencialmente demarcado pelos temas do seu quotidiano. O discurso pauta-se por um estilo marcadamente referencial, na medida em que emprega maioritariamente palavras de
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conteúdo, denotando-se grandes limitações quanto ao emprego de palavras de função. A variedade das relações semânticas é reduzida; não se constata a ocorrência de infra ou sobreextensões, ecolálias, neologismos compreensão, cronológica. No âmbito do desenvolvimento cognitivo, não dispomos de dados e informações formais que nos permitam tecer considerações. Porém, em actividades de cariz não formal de conhecimentos gerais relacionados com as suas experiências, de conceitos quantitativos, de interpretação de situações sociais, associação de ideias/relações conceptuais e de competências perceptivo-motoras, as destrezas manifestadas colocam das em áreas evidência da a existência e da de um comprometimento linguagem cognição, ou circunlóquios, uma nem utilização inferior de à referentes sua idade incorrectos. A aplicação da prova de Reynell, na dimensão relativa à revelou pontuação

observando-se um nível de desempenho inferior ao esperado para a sua idade cronológica. Em forma de síntese, o desenvolvimento semântico desta criança apresenta um comprometimento significativo, pois tanto a vertente compreensiva como a vertente expressiva da linguagem se situam aquém do esperado para a sua idade cronológica.

PRAGMÁTICA
A actual dimensão perspectiva a linguagem no seu funcionamento em contextos sociais, situacionais e comunicacionais. O uso funcional/conversacional da linguagem subordina-se ao contexto em que esta ocorre, pelo que o perfil linguístico e as habilidades sociais se encontram estreitamente vinculados. Neste âmbito, sublinhamos as seguintes características da criança – alvo: demonstra habilidades para a expressão de conteúdos de modo apropriado ao contexto, não
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obstante o seu frágil domínio de explanação verbal. Relativamente à organização formal, segue os padrões de atenção conjunta, isto é, respeita os turnos de conversação; comete algumas inexactidões na manutenção do tópico, devido às suas dificuldades de compreensão; evidencia algumas competências deícticas de pessoa, lugar e tempo; sob o ponto de vista da interacção verbal, apresenta intencionalidade comunicativa, com fala relativamente fluida e facilidade na iniciativa para desencadear o diálogo com o interlocutor; demonstra algumas dificuldades na elaboração de perguntas, pedidos de acção, de atenção, de informação, de objecto e de confirmação; expressa respostas imediatas, demasiado latentes ou, em determinados momentos, ausentes; apresenta um discurso com coerência, reajuste e flexibilidade às mudanças na interacção; no que concerne ao jogo interactivo, procura envolver o interlocutor nas suas acções, não evitando contacto ocular e corporal; organiza o jogo em função do material e introduz a ficção (“faz de conta”) no seu desempenho expressivo; no domínio da comunicação não verbal, comunica por gestos, olhares e sorrisos, manifesta reacções afectivas (aborrecimento, riso...) e compreende a linguagem não verbal do interlocutor (gestos, olhares...); quanto às funções comunicativas, utiliza no seu discurso ao nível fundamentalmente interactiva, do discurso as de resposta, e instrumental, representativa; traços de reguladora, pessoal, narrativo, criativa

constatam-se de

limitações na sequência e coerência narrativas e no que respeita aos comportamento, apresenta dificuldades atenção/concentração em tarefas que compreendem maior índice de estruturação.

PROCESSOS: Compreensão vs. expressão
Em forma de resumo, parece não haver predominância de um dos processos relativamente ao outro. Assim, tanto a compreensão (cf. semântica) como a expressão desta criança se apresentam claramente deficitárias (cf. avaliação fonológica e sintáctica).
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4.2. Avaliação Fonológica Esta Prova de Avaliação Fonético/Fonológica foi aplicada a uma criança de 10 anos de idade, situando-se num nível académico académico correspondente ao 2º ano do 1º ciclo do ensino básico. Trata-se de uma criança de risco socio-educacional, retirada à família desde os 8 anos de idade pela Protecção de menores e entregue à guarda de uma Instituição. A primeira infância foi pautada pela privação de cuidados básicos de saúde, alimentação e higiene. De acordo com os dados da Instituição, esta criança foi vítima de maus tratos por parte dos irmãos e o seu processo de socialização foi efectuado, em larga escala, na rua. M. apresenta problemas de instabilidade emocional, dificuldades de atenção, de concentração e, por consequência, de aprendizagem. Na escola beneficia de apoio psicológico e de apoio individualizado às aprendizagens escolares. Dado o perfil desta criança, as sessões levadas a cabo com vista à avaliação, num total de três e com a duração de 30 minutos cada, foram realizadas em ambiente calmo e em local familiar à criança. Foi administrada uma prova de avaliação fonológica constituída por 62 itens, os quais referenciam todos os fonemas do Português Europeu (Lima, 2003), enquadrados nos formatos silábicos possíveis. Foram ainda nesta prova contempladas as distintas posições da sílaba na palavra (início, meio e final), bem assim como o número de sílabas (di-, tri- e polissílabo) e a frequência de uso dos estímulos apresentados. Os resultados obtidos são traduzidos na tabela seguinte.

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ESTÍMUL O

O

QUE CRIANÇA DIZ

A TIPIFICAÇÃO DO ERRO

SÍNTES E

Almofada

Transcri Escrita ção literal fonética Mufada [mufad ]

Omissão de sílaba inicial em polissílabo

Omi

si p o

Árvore

[ab ]

Abe

Omissão líquida /r/ em VC inicial Substituição de V/V meio. Omissão de líquida /r/ em CV final.

li Distorçã o

Banho Barba [bag Baga Omissão de líquida /r/ em CVC inicial. Omi Substituição intraoclusivas com anteriorização: /b/ por /g/ em CV final. /r/ C V C Sub b/g Omi /r/ C C V Botões Borboleta [ bubul et] Omissão de líquida vibrante /r/ em CVC Omi inicial. /r/ C V 8. Bicicleta [Σ t l εt ] C Omissão de sílaba inicial em poli. Distorçã Substituição Intrafricativa com troca de o lugar de articulação: /si/ por /Σ / Substituição Intraoclusiva /k/ por /t/. Epêntese Vogal neutra.

Brincos ]

[bĩķuΣ

bincos

Omissão de líquida /r/ em CCV inicial.

Casaco Iogurte [ gut ] Omissão de semivogal /j/ em ditongo Distorçã crescente. o Substituição de vogal / / por / / Omissão de líquida /r/ em CVC médio. Omissão de líquida vibrante /r/ em CCV Omi final. CCV /r/

Chapéu Cobra [k b ]

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(continuação)

ESTÍMULO

O QUE A CRIANÇA TIPIFICAÇÃO DO ERRO SÍNTESE DIZ Transcriç Escrita ão literal fonética

Coelho Caracol Crocodilo [kukulilu] cuculilu Omissão de líquida /r/ Omi /r/ CCV em CCV inicial. Harmonia Har ant sub d/l consonântica anterior. Omissão de líquida /r/ Omi /r/ VC em VC inicial. Semivocalização de Semiv l/w líquida /l/ por /u/ em CVC meio Omissão de líquida /r/ Omi /r/ CCV em CCV inicial.

Erva Descalçar. Dragão Escada Estrela Escrever Faca Fechada Floresta

[εv ] [d Σ ka ω sar] [dω w] gã

eva descauç ar dagão

[Σ tel

]

estela

Omissão de líquida /r/ Omi /r/ CCV em CCV meio.

[Σ k ver esquever Omissão de líquida /r/ Omi /r/ CCV em CCV meio. ]

[f lulεΣ t ]

felulesta

Flor

[f lor]

felor

Epêntese de vogal Ep vogal neutra neutra. Har post sub r/ l Harmoniaconsonântica posterior com substituição do /r/ por /l/. Epêntese de vogal Ep vogal neutra neutra.

(continuação)

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ESTÍMULO

O QUE A CRIANÇA TIPIFICAÇÃO DIZ ERRO Transcriç Escrita ão literal fonética tugafia [tug fi ]

DO Síntese

Fotografia

Fralda Frasco Fruta Garrafa Grande Gelado Livro

[fald ] [faΣ ku] [fut ]

falda fasco futa rarrafa ãnde

[R Raf ] [ ) d

[Ζ uladu] julado [libu] libo

Omissão de sílaba em polissílabo. Omissão de líquida /r/ em CCV meio Omissão de líquida /r/ em CCVC inicial. Omissão de líquida /r/ em CCVC inicial. Omissão de líquida /r/ em CCV inicial. Harmonia consonântica na 1ªsílaba Omissão do grupo consonântico inicial [gr] em CCV~ Substituição de V /V em CV inicial

Omi si poli Omi /r/ CCV

Omi /r/ CCVC Omi /r/ CCVC Omi /r/ CCV Har ant sub g/R Omi /gr/ Sub vogal neutra por /u/

Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV final. Variante dialectal Substituição intraclasse :/b/ por /v/ em CCV final

Maçã Mesa Mãos Magro [magu] mago Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV final.

(continuação)
Tipificação do Erro Estímulo O que a criança diz Transcriç Escrita ão literal fonética Nariz Síntese

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Panela Pistola [f Σ t l pestola ] Substituição extraoclusiva por /f/ em inicial. /p/ CVC Sub p/f Sub i por vogal neutra

Planta

[p l) ] [piΖ am  ] [patu]

t pelanta

Substituição de V/Vneutra em CVC inicial Epêntese de vogal Ep vogal neutra neutra.

Pijama Prato Peixe Quadro Quatro Quadrado Relógio Sapato Cigarro

pijame pato

Substituição vogal final.

de Sub

/

Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV inicial.

[kwadu] [kwatu] [kw u]

quado quato

dad quadado relójo

[R lΖ u]

Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV final. Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV final. Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em CCV meio. Omissão de Omi semiv /j/ semivogal em CV final

[siRaRu]

cirraro

Harmoniaconsonantal anteriorização

Har ant sub g/R por

Estímulo

O que a criança Tipificação diz Erro Transcriç Escrita ão literal fonética

do Síntese

Sopa Senhora Sol

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Telefone Telhado Tartaruga Três Triciclo

[t f n  ]

tefone

Omissão de sílaba Omi si poli em polissílabo.

[t t g ] [teΣ ]

ru

tataruga tês

Omissão de Omi /r/ CVC líquida /r/ em CVC inicial. Omissão de Omi /r/ CCVC líquida /r/ em CCVC Omissão de Distorção líquida /r/ em CCV inicial. Substituição de Vogal /Vogal neutra. Epêntese de sílaba (li) Substituição de Variante dialectal fricativa /v/ por oclusiva /b/ Omissão de Omi /r/ CCV líquida /r/ em C-CV final.

[t lisiklu telicico ]

Vela Zebra Dedo Queijo

[bєl

]

bela zeba

[zeb ]

Síntese A partir da tarefa de nomeação através de imagens de estímulo verificamos que, ao nível fonético/fonológico, M. apresenta uma fala nem sempre inteligível. Produz erros de predomínio fonético e fonológico observando-se com frequência os seguintes processos de simplificação: 1. Omissão da consoante líquida /r/ nos formatos: • • • CVr inicial, CrV inicial nos grupos consonânticos (Br/ Dr/ Gr/ Kr/ Tr/ Pr/ e Fr), CrV meio nos grupos ( Dr/ Gr/ Kr/ e Fr), CrV final nos grupos (Br/ Dr/ Gr/ Tr/ e Vr), CrV~ inicial, CrVl inicial e CrVs inicial e Vr inicial.
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À excepção do formato Vr inicial com uma percentagem de erro na ordem dos 50 %, podemos considerar que neste formato o /r/ é emergente, ou seja, em vias de estabilização; nos outros formatos a percentagem de erro é na ordem dos 100% pelo que o fonema /r/ não está adquirido. 2. Ocorrem ainda uma omissão do grupo consonântico Gr inicial [ãde], uma omissão de semivogal em CV final [rϖ l] ∞ u], duas omissões de sílaba inicial em polissílabo e uma de segunda sílaba em polissílabo. 3. Faz uma substituição intraoclusiva /b/ por /g/ por anteriorização no formato CV em sílaba final na ordem dos 100% de erro. Esta percentagem deve-se a ter-se verificado o erro em apenas uma palavra pelo que em termos de avaliação não nos permite, por enquanto, concluir se se trata de fonema não adquirido ou emergente. Substitui a consoante oclusiva /p/ pela fricativa /f/ no formato CVs em sílaba inicial na ordem dos 100% de erro e pelas razões apontadas anteriormente este valor não é conclusivo, pelo que necessita de confirmação de erro em outras palavras com o mesmo formato. Faz ainda uma substituição de vogal por vogal em CV inicial [Ζ uladu] e uma de vogal final [piΖ ame]. 4. Verificam-se ainda três harmonias consonantais por anteriorização, como por exemplo: [kukulilu] e uma exemplo: [f lulΕ Σ ta]; 5. Existem três epênteses de vogal neutra. 6. Observam-se duas distorções em trissílabos e polissílabos, respectivamente. Face ao exposto nesta dimensão e atendendo à idade está aquém do esperado para a sua idade cronológica.
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por posteriorização como por

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Fiada da palavra

Palavra (CVC.CV)
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Fiada da sílaba Fiada do Ataque-rima N Fiada esqueletal Fiada segmental A C

Forte R

Fraca A R

C

V p o

C r

C t

V a

Fig. 1. Níveis de representação na Fonologia Não Linear (adapt. Vihman, 1996)

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