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CENTRO UNIVERSITÁRIO DA FUNDAÇÃO EDUCACIONAL GUAXUPÉ

VILMA FERREIRA VITOR

O DIREITO À SAÚDE ASSEGURADO AO IDOSO APÓS A


PROMULGAÇÃO DO ESTATUTO DO IDOSO

GUAXUPÉ
2017
VILMA FERREIRA VITOR

O DIREITO À SAÚDE ASSEGURADO AO IDOSO APÓS A


PROMULGAÇÃO DO ESTATUTO DO IDOSO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


ao Centro Universitário da Fundação
Educacional Guaxupé, como exigência parcial
para obtenção do Bacharelado em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Donizete Delorenzo
Ribeiro do Valle.

GUAXUPÉ
2017
ATA DE APROVAÇÃO
Dedico este trabalho a minha mãe, Sebastiana
Ferreira da Silva, que sempre foi muito amorosa,
dedicada, protetora e, que com sua experiência de
vida me ensinou sempre a ser uma pessoa cada vez
melhor.

À minha família que sempre me amou e apoiou em


minhas decisões.

Ao Denilson Júnior Fortunato, meu companheiro,


pelo carinho, dedicação, amor e paciência ao longo
desses cinco anos de faculdade.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus por estar sempre no comando da minha vida, me orientando e
protegendo sempre.

À minha mãe Sebastiana Ferreira da Silva, que com seus 86 anos de idade, soube transmitir a
mim seus conhecimentos com muita sabedoria.

À minha família pelo apoio, carinho e compreensão, em especial minha sobrinha Patrícia
Ferreira, por ser minha companheira de vida e luta, sempre me apoiando nas horas difíceis.

Aos colegas de sala, pela amizade, cumplicidade e apoio, durante todos esses anos, com certeza
ficarão para sempre em meu coração.

Ao orientador Donizete Delorenzo Ribeiro do Valle e aos demais professores, pelos


ensinamentos e dedicação, fazendo com que fosse possível a conclusão desse curso.

Agradeço a todos aqueles que sempre contribuíram direta ou indiretamente para que eu pudesse
estar aqui hoje, cumprindo mais uma etapa de minha vida, em especial a amiga Louize Margutti,
que me apoiou e, mesmo de longe está sempre de braços abertos oferecendo sua amizade.
Na velhice os passos são lentos, porque o velho
carrega uma criança, um jovem e um adulto na
própria história (DAVI ROBALHO).
RESUMO

VITOR, Vilma Ferreira. O direito à saúde assegurado ao idoso após a promulgação do Estatuto
do Idoso. 2017. 48f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Direito). Centro
Universitário da Fundação Educação Guaxupé – UNIFEG. Guaxupé, 2017.

As crianças, adolescentes e idosos são considerados um grupo vulnerável em nossa sociedade


pelas suas particularidades, não apenas de caráter etário, mas também devido ao estreito vínculo
e dependência em relação aos demais grupos. Tal dependência muitas vezes os faz fragilizados
e, requer atenção diferenciada por parte das políticas públicas, que por sua vez, não possuem o
preparo para lidar com tais situações. Preparo este, que não se restringe à formulação de leis,
mas na sua garantia efetiva de aplicabilidade e cumprimento por parte da população. O Brasil,
assim como outros países envelheceu, este processo não ocorreu repentinamente, está associado
à qualidade de vida, aumento das tecnologias na área de saúde, expectativa de vida elevada,
dentre outros avanços, que propiciaram o surgimento de uma população septuagenária e
octogenária. Compreender as necessidades, especificidades e expectativas deste grupo é
necessário para ofertar-lhes um envelhecimento saudável e, principalmente sua inserção e
manutenção na sociedade. Ainda mantém-se a equivocada opinião de que os idosos são
descartáveis por não serem mais ativos economicamente e terem limitações intrínsecas à idade,
todavia, esta realidade não é verdadeira. Cada idoso apresenta características únicas, que devem
ser respeitadas e, principalmente haja o cumprimento de seus direitos. O Estatuto do Idoso
promulgado em 2003 foi uma resposta legal aos problemas enfrentados por este grupo e não
resolvidos pela Política Nacional do Idoso, que apesar de ser positiva, não conseguiu ser
funcional sob o âmbito prático. O Estatuto, em face de sua complexidade ainda não é
efetivamente posto em prática e constatam-se inúmeras lacunas, seja pela deficiência do Estado
ou pela própria sociedade, que não o cumpre. Através deste estudo objetivou-se analisar o
capítulo referente à saúde contemplada pelo Estatuto do Idoso. Compreendeu-se mediante uma
extensa revisão de literatura e de leis correlatas, que o mesmo ainda está distante do ideal e de
sua proposta, outrossim é inegável a importância do referido documento, que apresentou
grandes avanços e, mesmo não sendo cumprido criteriosamente conseguiu modificar o
panorama da sociedade, que ainda está em transformação e se adaptando à realidade dos idosos
brasileiros.

Palavras-chave: Estatuto do Idoso, envelhecimento, legislação, saúde.


LISTA DE SIGLAS

AIH Autorização de Internação Hospitalar

ANS Agência Nacional de Saúde Suplementar

APS Atenção Primária à Saúde

BPC Benefício de Prestação Continuada

COBAP Confederação Brasileira das Federações de Aposentados e Pensionistas

ESF Estratégia de Saúde da Família

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

INPS Instituto Nacional da Previdência Social

INSS Instituto Nacional do Seguro Social

LOAS Lei Orgânica da Assistência Social

OMS Organização Mundial da Saúde

ONU Organização das Nações Unidades

QV Qualidade de Vida

PNI Política Nacional do Idoso

SUS Serviço Único de Saúde.


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 09

2 MARCOS LEGAIS PARA A GARANTIA DOS DIREITOS DO IDOSO ......................... 12


2.1 Declaração Universal dos Direitos Humanos ................................................................ 12
2.2 O direito do idoso nas constituições brasileiras ............................................................. 14
2.3 Política Nacional do Idoso (PIN) ................................................................................... 21

3 ESTATUTO DO IDOSO....................................................................................................... 24
3.1 O processo de envelhecimento da sociedade brasileira ................................................. 24
3.2 Importância do Estatuto do Idoso .................................................................................. 26
3.3 Estatuto do Idoso – análise ............................................................................................ 29
3.4 Polêmicas do Estatuto do Idoso ..................................................................................... 30

4 O DIREITO À SAÚDE NO ESTATUTO DO IDOSO ......................................................... 33


4.1 Qualidade de vida para o idoso ...................................................................................... 33
4.2 Saúde do idoso no Brasil ............................................................................................... 36
4.3 O direito à saúde no Estatuto do Idoso .......................................................................... 37

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 44

REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 46
9

1 INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas o Brasil passou por um processo de envelhecimento populacional.


A pirâmide etária que, antes era predominantemente jovem e/ou na faixa etária de 30 a 40 anos
se inverteu e, atualmente se constata que os jovens não são mais a maioria no país.

A evolução da composição populacional por grupos de idade aponta para a tendência


de envelhecimento demográfico, que corresponde ao aumento da participação
percentual dos idosos na população e a consequente diminuição dos demais grupos
etários. A queda da participação das pessoas de 0 a 14 anos de idade na população foi
mais expressiva, passando de 26,5%, em 2005, para 21,0% em 2015, bem como a
queda observada no grupo de 15 a 29 anos de idade, que foi de 27,4% para 23,6% no
mesmo período. Por outro lado, a proporção de adultos de 30 a 59 anos de idade teve
aumento no período, passando de 36,2% para 41,0%, assim como a participação dos
idosos de 60 anos ou mais de idade, de 9,8% para 14,3%1.

De acordo com a pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)


disposta no parágrafo anterior, o número de idosos entre 2005 a 2015 avançou de 9,8% para
14,3%, em contrapartida o número de jovens entre 0 a 14 anos reduziu de 26,5% para 21,0%
no mesmo período.

A questão do envelhecimento populacional no país não é apenas de ordem numérica,


ela demanda um entendimento sobre quais são as necessidades, expectativas e problemas que
envolvem um país que sempre foi majoritariamente jovem tornar-se idoso em um curto período
de tempo.

Por ser uma situação inevitável, a qual tende a se ampliar nos próximos anos, é condição
sine qua non que haja estudos específicos a respeito, em especial sob a ótica de políticas
públicas para o atendimento pleno a este grupo etário com necessidades peculiares.

As legislações acerca dos direitos dos idosos, bem como seu atendimento diferenciado
ampliaram-se nos últimos anos. No Brasil, a publicação do Estatuto do Idoso no âmbito legal
trouxe a garantir de direitos não mencionados e/ou discutidos anterior à sua publicação, além
disso, é possível atuar na esfera penal contra quem o descumpre.

Dessa realidade emerge a necessidade de programas alternativos que garantam maior


qualidade de vida para essa população. Não se trata apenas de uma preocupação da

1
BRASIL. Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira – 2016.
Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2016, p. 13.
10

sociedade política, mas também da sociedade civil que precisa se conscientizar do


envelhecimento da população brasileira2.

No entendimento de Rita de C. Oliveira é necessário que a sociedade civil se articule


em políticas que envolvam os idosos em sua plenitude e, principalmente façam cumprir os seus
direitos. Considera-se que muito já foi feito em termos legais para atender aos idosos e garantir
a prevalência de seus direitos, todavia, ainda está distante da realidade considerada justa e ideal.

A promulgação do Estatuto do Idoso em 2003, garante não apenas os direitos exclusivos


às pessoas idosas, mas também os crimes que se cometem contra ela ou a violação de seus
direitos, no que tange ao atendimento prioritário à saúde, cultura, lazer, alimentação, dignidade,
dentre outros. Sabe-se que em um país com dimensões continentais como o Brasil, o
cumprimento deste Estatuto deixa a desejar, assim como ocorre com outras legislações
específicas, todavia, a sua existência por si só é extremamente positiva e pode coibir o não
cumprimento dos direitos assegurados por lei a este grupo.

O Estatuto do Idoso, além de reforçar indicações legislativas já formatadas, vem


desdobrar os referidos direitos de forma ampliada, determinando ações e
procedimentos e criando abertura a um espaço questionável denominado por Teixeira
(2008, p. 298) de “mix público privado”, ou seja, as iniciativas da sociedade civil de
proteção ao idoso articulam-se com o Estado que regula, normatiza, e legaliza
diretrizes da política setorial, responsabilizando a sociedade civil sob a argumentação
da participação social. Pode-se salientar, contudo, que o Estatuto somente
transformará a realidade da população idosa se houver uma efetiva participação de
todos os segmentos da sociedade em suas instâncias de controle social e fiscalização3.

Elisângela Maria Pessôa ratifica o parágrafo anterior à citação no que se refere a


importância do Estatuto do Idoso para a garantia dos direitos assegurados aos idosos, bem como
a complexidade do mesmo ser cumprido, dadas as transformações inerentes à sociedade, seja
na esfera pública e/ou privada para atender a esta demanda crescente de grupo etário, até então
minoritário durante décadas em nossa sociedade.

Diante da complexidade desta temática e sua abrangência considerou-se viável a análise


de questões referentes ao Estatuto do Idoso, em especial à seguridade de direitos no âmbito da
saúde. Constatou-se ao escolher este tema que, apesar da existência do Estatuto e de outros
documentos visando a garantia de direitos aos idosos estes são descumpridos e desrespeitados.
No âmbito da saúde pública o quadro é ainda mais complexo, considerando a demanda superior

2
OLIVEIRA, Rita de C. da Silva. O processo histórico do estatuto do idoso e a inserção pedagógica na
universidade aberta. Revista HISTEDBR on-line, Campinas, n.28, p.278 –286, dez. 2007, p. 281.
3
PESSÔA, Elisângela Maia. Assistência social ao idoso enquanto direito de proteção social em municípios do
Rio Grande do Sul. 2010. 243f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Serviço Social, Pontifícia Universidade
Católica, Rio Grande do Sul, 2010, p. 109.
11

à oferta, dificuldades para marcar consultas e exames, hospitais superlotados, médicos e


enfermeiros despreparados para o atendimento desta clientela, ausência de medicamentos,
sobretudo os indicados para doenças de alta complexidade. Em síntese, a legislação caminhou
em ritmo mais célere do que as mudanças necessárias para o atendimento deste grupo.

Através deste estudo objetiva-se analisar o atendimento prestado ao idoso no âmbito da


saúde pública após a promulgação do Estatuto do Idoso.

Almeja-se contribuir com o entendimento acerca da prestação de saúde pública ofertada


ao idoso no Brasil, elencando seus aspectos positivos e negativos após a promulgação do
Estatuto do Idoso, sob o âmbito de políticas públicas e do Direito.

A pesquisa foi organizada em três capítulos, cujas temáticas contemplam:

Primeiro capítulo – as leis antecedentes ao Estatuto do Idoso no Brasil, bem como a


Declaração Universal dos Direitos Humanos (legislação considerada referência para o
atendimento de diversos grupos considerados negligenciados).

Segundo capítulo – análise do Estatuto do Idoso no Brasil, histórico, garantias,


penalidades e as deficiências ainda existentes neste importante marco legal de seguridade social
a este grupo etário.

Terceiro capítulo – a problemática de assistência à saúde prestada ao idoso, bem como


suas lacunas e deficiências, mesmo com a publicação do Estatuto do Idoso, que garante
atendimento privilegiado e diferenciado a pessoas com mais de 60 anos e, após alterações
prioriza o grupo com mais de 80 anos.

O método adotado para a realização do estudo consiste na pesquisa bibliográfica


qualitativa, que visa analisar documentos, obras na área jurídica e legislações publicadas, com
a intenção de analisar o assunto exaustivamente a fim de que o objetivo elencado na pesquisa
possa ser alcançado.
12

2 MARCOS LEGAIS PARA A GARANTIA DO DIREITO DO IDOSO

Objetiva-se neste capítulo realizar uma breve análise sobre os marcos legais que
asseguram o cumprimento dos direitos aos idosos no Brasil. Considerando que a Declaração
Universal dos Direitos Humanos foi um dos primeiros documentos a garantir igualdade de
direitos a todos os indivíduos, respeitando as suas singularidades, se explanará brevemente
sobre a mesma.

Devido sua complexidade e importância o Estatuto do Idoso será discutido em um


capítulo específico. As leis aqui abordadas são as que o complementam (antes e depois de sua
promulgação em 2003).

2.1 Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948)

Após a ocorrência de duas guerras mundiais em um intervalo de tempo inferior a duas


décadas, a ocorrência do Holocausto, a explosão das bombas atômicas sobre as cidades
japonesas de Hiroshima e Nagasaki e, casos de violação dos direitos humanos em todo o mundo,
a Organização das Nações Unidas (ONU) criou um importante documento concernente aos
direitos das populações. A Declaração Universal dos Direitos Humanos referendada em 1948
trouxe importantes considerações sobre os direitos humanos, bem como as obrigações dos
governantes sobre os grupos minoritários e excluídos, visando sua inserção na sociedade, o fim
do preconceito e discriminação em suas mais diferentes vertentes.

Indubitavelmente, o documento não resolveu todos os problemas. Quase setenta anos


após sua publicação o mundo ainda passa por problemas bastante semelhantes àqueles
vivenciados quando o mesmo fora publicado, todavia, a sua criação serviu de base para os
países criarem novas publicações que defendessem os direitos das populações, sobretudo os
grupos minoritários, que sofrem preconceito de toda ordem e os excluídos, seja por questões de
ordem econômica ou social.

No curso de seu meio século de existência, a Declaração Universal dos Direitos


Humanos, proclamada pelas Nações Unidas em 1948, cumpriu um papel
extraordinário na história da humanidade. Codificou as esperanças de todos os
oprimidos, fornecendo linguagem autorizada à semântica de suas reivindicações.
13

Proporcionou base legislativa às lutas políticas pela liberdade e inspirou a maioria das
Constituições nacionais na positivação dos direitos da cidadania 4.

José Augusto L. Alves explica a importância deste documento, notadamente pelo


mesmo ter servido de base às Constituições que o sucederam, visando o cumprimento dos
direitos humanos, desde as esferas mais simples às mais complexas das dinâmicas sociais,
garantindo que o indivíduo conseguisse o exercício de seus direitos na esfera pública.

Norberto Bobbio explica a importância do documento, que transcendeu muitos de seus


objetivos, ou seja, garantiu às nações uma base legal para criação de novas leis que
fundamentassem os direitos humanos e visasse a redução das desigualdades sociais e outros
problemas relacionados:

A Declaração Universal dos Direitos do Homem pode ser acolhida como a maior
prova histórica até hoje dada do consensus omnium gentium sobre um determinado
sistema de valores [...].Mas agora esse documento existe: foi aprovado por 48 Estados,
em 10 de dezembro de 1948, na Assembléia Geral das Nações Unidas; e, a partir de
então, foi acolhido como inspiração e orientação no processo de crescimento de toda
a comunidade internacional no sentido de uma comunidade não só de Estados, mas de
indivíduos livres e iguais. Não sei se se tem consciência de até que ponto a Declaração
Universal representa um fato novo na história, na medida em que, pela primeira vez,
um sistema de princípios fundamentais da conduta humana foi livre e expressamente
aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na
Terra. Com essa declaração, um sistema de valores é — pela primeira vez na história
— universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua
validade e sua capacidade para reger os destinos da comunidade futura de todos os
homens foi explicitamente declarado5.

“Artigo I - Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São
dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de
fraternidade”6.

Segundo o artigo I a liberdade é inerente a todos os indivíduos, com seguridade de


dignidade e direitos. Considerando os antecedentes da Declaração frisou-se o “espírito da
fraternidade” visando assegurar a paz mundial.

Artigo II. 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades
estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor,

4
ALVES, José Augusto L. A declaração dos direitos humanos na pós-modernidade. 2005. Portal de e-governo,
inclusão digital, e sociedade do conhecimento. Disponível em:
<http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/25499-25501-1-PB.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.
5
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. 7. Reimpressão. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 118.
6
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948.
Disponível em: <http://www.onu.org.br/img/2014/09/DUDH.pdf>. Acesso em: 15 set. 2017, p. 04.
14

sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou


social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição 7.

Artigo XXV 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-
lhe, e a sua família, saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação,
cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso
de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios
de subsistência em circunstâncias fora de seu controle 7.

Apesar de o referido artigo afirmar que todo o ser humano tem direitos iguais,
independente de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política, dentre outros, constata-se
que as diferenças sociais, econômicas e culturais ainda existem. Mediante a complexidade e
universalidade desta Declaração há de se considerar as dificuldades da mesma ser cumprida em
sua integridade e os direitos e preceitos por ela apregoados serem seguidos pelos países que a
referendaram.

Mas, como ainda anota o referido autor, o grande problema é o da eficácia das normas
de Declaração de Direitos. O problema é ainda mais agudo em se tratando de uma
Declaração Universal, que não dispõe de um aparato próprio que a faça valer, tanto
que o desrespeito acintoso e cruel de suas normas, nesse mais de meio século de sua
existência, tem constituído uma regra trágica, especialmente no nosso continente e
também no nosso país. Não é, pois sem, razão que se afirma que o regime democrático
se caracteriza não pela inscrição dos direitos fundamentais, mas por sua efetividade,
por sua realização eficaz8.

No Brasil, os direitos assegurados aos grupos minoritários e socialmente excluídos,


apregoados no artigo XXV, infelizmente estão longe de ser cumpridos, primeiramente porque
a sociedade brasileira apesar de ter aparato legal para defendê-los, ainda não possui condições
no âmbito de políticas públicas e privadas para fazê-lo.

2.2 O direito do idoso nas constituições brasileiras

A Constituição de um país é considerada sua legislação máxima. É através dela que os


demais códigos e legislações são estruturados e rege-se a vida em sociedade, nas mais diferentes
esferas. Ao analisar o tratamento dispensado ao idoso nas constituições, torna-se possível fazer
uma revisão histórica e legal de como este grupo alcançou seus direitos no decorrer dos séculos
e, quais foram as falhas mais significativas, no que tange à seguridade de seus direitos.

7
Ibidem, p. 05.
8
SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25 ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2005,
p. 164-165.
15

Constituição de 1824

A Constituição de 1824 (Período Imperial) não aborda a temática dos idosos em nenhum
de seus artigos, bem como qualquer expressão que remeta a este grupo etário.

Constituição de 1891

Foi a primeira constituição brasileira do período republicano. Apesar da mudança (do


regime imperial para republicano) e outras marcos legais importantes, ainda assim os idosos
não foram contemplados com nenhum direito diferenciado, bem como garantias a este grupo,
que devido as especificidades da idade, condições de saúde, dentre outros deveriam receber.

Constituição de 1934

Foi a primeira constituição após o término da República Café com Leite, deu início a
Era Vargas, reconhecida pela “concessão de direitos aos trabalhadores”. A referida Carta
Magna não faz menção ao termo idoso, entretanto, remete à importância de direitos assegurados
na velhice.

Art. 121 - A lei promoverá o amparo da produção e estabelecerá as condições do


trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador
e os interesses econômicos do País.
h) assistência médica e sanitária ao trabalhador e à gestante, assegurando a esta
descanso antes e depois do parto, sem prejuízo do salário e do emprego, e
instituição de previdência, mediante contribuição igual da União, do empregador
e do empregado, a favor da velhice, da invalidez, da maternidade e nos casos de
acidentes de trabalho ou de morte9.

Há de se considerar que mesmo sendo um artigo isolado, em uma Constituição que


apresentou diversos artigos representando grupos minoritários, não significou mudanças
expressivas para este grupo, deixando a desejar em diversos aspectos, principalmente na
atenção prestada pelo Estado. Outrossim, naquela época (década de 1930) a pirâmide etária
brasileira era majoritariamente jovem, portanto a velhice e a seguridade dos direitos prestados
aos idosos ainda era pouco discutida.

9
BRASIL. Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil (de 16 de Julho de 1934). Casa Civil. 1934.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm>. Acesso em: 16 out.
2017.
16

Constituição de 1937

A Constituição de 1937 publicada durante o Estado Novo – regime ditatorial – instituído


pelo presidente Getúlio Vargas modificou diversos artigos da Constituição de 1934. Mais uma
vez inobserva-se qualquer artigo que remeta aos idosos seus direitos e garantias. O artigo 137,
em seu inciso “m” discorre sobre a prestação de um auxílio trabalhista na velhice:

“Art. 137 - A legislação do trabalho observará, além de outros, os seguintes preceitos: a


instituição de seguros de velhice, de invalidez, de vida e para os casos de acidentes do
trabalho”10.

No referido artigo, apesar de mencionar a questão da velhice, esta é analisada sob a


esfera trabalhista e, não na perspectiva de saúde pública, atendimento ao direito do idoso ou
outras esferas, que devesse contemplar.

Constituição de 1946

Esta Constituição foi promulgada após a saída de Getúlio Vargas do poder (Ditadura do
Estado Novo). O presidente Eurico Gaspar Dutra ao publicá-la o fez sob um viés democrático,
em um período de reconstrução mundial (término da Segunda Guerra Mundial). Apesar de
haver mudanças conceituais na sociedade, ainda assim, os direitos aos idosos não foram
atendidos.

Art 157 - A legislação do trabalho e a da previdência social obedecerão nos


seguintes preceitos, além de outros que visem a melhoria da condição dos
trabalhadores:
XVI - previdência, mediante contribuição da União, do empregador e do
empregado, em favor da maternidade e contra as conseqüências da doença, da
velhice, da invalidez e da morte11.

O artigo 157, inciso XVI remete a assistência, concedida através da Previdência Social,
englobando casos de velhice, mas não o faz em outras situações, relegando os idosos a um sub-
grupo em nossa sociedade.

10
BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil (de 10 de Novembro de 1937). Casa Civil. 1937.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao37.htm>. Acesso em: 17 out.
2017.
11BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil (de 18 de Setembro de 1946). Casa Civil. 1946. Disponível
em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao46.htm>. Acesso em: 17 out. 2017.
17

Constituição de 1967

Esta Constituição publicada durante o Regime Militar, período ditatorial que vigorou
entre 1964 a 1984, não alterou o artigo 157 da Constituição de 1946.

Art. 158 - A Constituição assegura aos trabalhadores os seguintes direitos, além


de outros que, nos termos da lei, visem à melhoria, de sua condição social:
XVI - previdência social, mediante contribuição da União, do empregador e do
empregado, para seguro-desemprego, proteção da maternidade e, nos casos de
doença, velhice, invalidez e morte12.

Decorridos 22 anos entre uma Constituição e outra não houve qualquer alteração,
concessão de benefícios, extensão de direitos aos idosos. Os mesmos continuaram sendo
apartados da sociedade, no que tange aos direitos diferenciados, que deveriam ser peculiares
devido as especificidades etárias que lhe são concernentes.

Constituição de 1988

A Constituição de 1988 surgiu após quase vinte anos de regime ditatorial, com
cerceamento dos direitos individuais, privação da liberdade de imprensa e repressão severa em
diversas instâncias. A promulgação do texto constitucional adveio após intensos debates e,
buscou atender grupos considerados minoritários e não contemplados em sua plenitude nas
constituições anteriores.

Os direitos fundamentais que, antes buscavam proteger reivindicações comuns a


todos os homens, passaram a, igualmente, proteger seres humanos que se
singularizam pela influência de certas situações específicas em que apanhados.
Alguns indivíduos, por conta de certas peculiaridades, tornam-se merecedores de
atenção especial, exigida pelo princípio do respeito à dignidade humana. Daí a
consagração de direitos especiais aos enfermos, aos deficientes, às crianças, aos
idosos... O homem não é mais visto em abstrato, mas na concretude das suas
diversas maneiras de ser e de estar na sociedade13.

Na perspectiva de Paulo G. G. Branco, a garantia dos direitos fundamentais previstos


na Constituição de 1988 possibilitou a criação de novas dimensões na esfera do direito
individual e coletivo, pois, segundo ele, grupos considerados “especiais” como deficientes,
enfermos, crianças, adolescentes e idosos foram atendidos e tiveram a seguridade de seus
direitos. Além disso, a Constituição de 1988 possibilitou que novas leis surgissem, como o

12
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1967. Casa Civil. 1967. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao67.htm>. Acesso em: 17 out. 2017.
13
BRANCO, Paulo G. G. Teoria geral dos direitos fundamentais. In: MENDES, Gilmar Ferreira, et al (org.).
Curso de direito constitucional. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 288.
18

Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), o Estatuto do Idoso (2003) e uma variedade de


leis consagradas aos deficientes.

A Constituição de 1988 em inúmeros artigos explana acerca da igualdade de direitos e


do valor à individualidade e dignidade humana, a saber:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos


Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático
de Direito e tem como fundamentos:
III - a dignidade da pessoa humana14.

É um princípio deveras importante, partindo do pressuposto de que a dignidade humana


permeia todo o trato com o indivíduo, garantindo-lhe que em todas as esferas legais, ele seja
respeitado e, possam ter tratamento igualitário.

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade, nos termos seguintes”
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição15.

No artigo 5º da Constituição, um dos mais completos e complexos no que tange à


seguridade de direitos, o seu texto inicial discorre sobre a igualdade de direitos para todos os
indivíduos, seja nascido no Brasil ou estrangeiro. Neste rol de direitos assegurados está previsto
a garantia à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade, que pormenorizados. Nos
incisos posteriores eles são pormenorizados, com o intuito de não ocorrer interpretações
equivocadas a respeito.

“Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a


moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição”16.
A seguridade dos direitos sociais na Constituição de 1988 é bastante ampla e, está
diretamente relacionada às políticas de bem-estar social instauradas em muitos países. Ao
assegurar à população – educação, saúde, trabalho, moradia, transporte e segurança, assegura-
lhe uma base para uma vida em sociedade com dignidade. Outros direitos como proteção à

14BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasil – Casa Civil. 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 12 set. 2017.
15 Ibidem.
16
Ibidem.
19

maternidade, lazer, previdência social, infância e assistência aos desamparados complementam


este rol.

Assim podemos dizer que os direitos sociais, como dimensão dos direitos
fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado
direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam
melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a
igualdade de situações sociais desiguais. São portanto, direitos que se ligam ao
direito de igualdade17.

O atendimento ao idoso, ainda que de maneira subjetiva está contemplado nos artigos
5º e 6º onde se discorrem que todos são iguais perante a lei e, não há nenhum critério de exclusão
na garantia da seguridade social em todas as suas esferas.

A Constituição de 1988, denominada “Constituição Cidadã” foi mais além e possibilitou


a concessão de direitos e garantias aos idosos não contempladas nas cartas anteriores, bem como
em outras legislações correlatas.

Outro diferencial da Constituição de 1988 em relação à seguridade social prestada ao


idoso está em seu artigo 203:

Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar,


independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos:
I - a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice
V - a garantia de um salário mínimo de benefício mensal à pessoa portadora de
deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria
manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei18.

Diferente de outras constituições, onde a garantia ao benefício na velhice estava


condicionada ao pagamento da previdência social, nesta, o mesmo é concedido a todos que dele
vierem necessitar em uma faixa etária específica. Objetiva-se com esta proposta erradicar a
pobreza, as condições de miséria na velhice, além de possibilitar ao idoso viver em patamar de
igualdade aos assalariados (todavia, no Brasil, o salário mínimo não possibilita que as
necessidades sejam supridas em sua totalidade).

A referida Carta Magna diferenciou-se de suas antecessoras ao publicar um capítulo


específico destinado à Família, Criança, Adolescente, Jovem e Idoso. O diferencial deste
capítulo não se encerra somente na sua inexistência nas constituições anteriores, mas
principalmente, porque através dele, novos marcos legais foram publicados, subsidiando a

17 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 25 ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2005,
p. 266.
18 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasil – Casa Civil. 1988.
20

assistência plena a estes grupos, garantindo-lhe direitos que os mesmos não tinham acesso
anteriormente.

Singularmente inovador, para não dizer revolucionário, é o capítulo da


constitucionalização da família, um terreno que no passado estava entregue, quase
por inteiro, à livre discrição dos seus integrantes, com destaque para a figura
paterna, na condição de chefe e condutor dos que giravam a seu redor [...]19.

Inocêncio M. Coelho discorre com pertinência acerca das inovações trazidas pela
Constituição referentes à família e todos os seus grupos. Nos artigos do Capítulo VII esses
grupos são analisados em suas particularidades e, os idosos, em específicos, são contemplados
nos artigos 229 e 230.

Art. 229. Os pais têm o dever de assistir, criar e educar os filhos menores, e os
filhos maiores têm o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou
enfermidade.
Art. 230. A família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas
idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e
bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.
§ 1º Os programas de amparo aos idosos serão executados preferencialmente em
seus lares.
§ 2º Aos maiores de sessenta e cinco anos é garantida a gratuidade dos transportes
coletivos urbanos20.

Ao estender os direitos aos idosos, sob a égide constitucional e, principalmente garantir


que a família tenha obrigações para com eles, o legislador elevou a Constituição brasileira ao
patamar de outras legislações internacionais, onde os direitos dos idosos são garantidos,
considerando-os um grupo diferenciado. O respeito às mudanças etárias na sociedade, o
processo de envelhecimento com qualidade dentre outros fatores, foram considerados
mecanismos fundamentais para a abrangência desta legislação.

Daí a necessidade de que as políticas públicas focadas nesse segmento social


procurem conciliar a assistência devida aos idosos – que há de ser efetiva para
atender às suas carências básicas – com os recursos disponíveis para o seu custeio,
uma preocupação de resto traduzida no recente Estatuto do Idoso – Lei n. 10.741,
de 1º - 10 – 2003 -, em cujo art. 117 se lê que o Poder Executivo encaminhará ao
Congresso Nacional projeto de lei revendo os critérios de concessão do Benefício
de Prestação Continuada previsto na Lei Orgânica da Assistência Social, de forma

19
COELHO, Inocêncio Mártires. Princípios da ordem social. In: In: MENDES, Gilmar Ferreira, et al (org.). Curso
de direito constitucional. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 1425.
20 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasil – Casa Civil. 1988.
21

a garantir que o acesso ao direito seja condizente com o estágio de


desenvolvimento socioeconômico alcançado pelo País21.

Os avanços conquistados com a Constituição de 1988 concernentes aos direitos dos


idosos são indiscutíveis, todavia, constata-se que o seu cumprimento efetivo ainda distancia-se
do ideal. A sociedade brasileira os descumpre frequentemente, deixando este grupo aquém das
garantias legais estabelecidas.

2.3 Política Nacional do Idoso (PNI)

O atendimento aos idosos e sua proteção legal não se iniciaram com a Política Nacional
do Idoso. Práticas e políticas isoladas foram importantes para garantir o atendimento a este
grupo, possibilitando que condições mínimas lhes fossem garantidas, em especial, através da
concessão da aposentadoria (entretanto, estaria vinculada ao pagamento da Previdência Social).

A primeira iniciativa do governo federal na prestação de assistência ao idoso


ocorreu em 1974 e consistiu em ações preventivas realizadas em centros sociais
do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e da sociedade civil, bem
como de internação custodial dos aposentados e pensionistas do INPS a partir de
60 anos (Portaria n. 82, de 4 de julho de 1974). Em 9 de novembro de 1979, esta
portaria foi revogada pela de no 25, quando, então, os idosos não previdenciários
passaram também a contar com a assistência social. A portaria visava propiciar a
integração social do idoso, “sobretudo no que se refere à melhoria das condições
de vida, ao fortalecimento dos laços familiares e à formação de uma atitude
positiva à velhice”22

Apesar de estas políticas serem importantes, elas se restringiram a transmissão de renda,


não contemplando a totalidade dos idosos. Outrossim, a concessão de direitos, o respeito à
dignidade humana, a inserção dos idosos na sociedade, prioridade no atendimento à saúde, além
de outros fatores considerados essenciais foram negligenciados.

O que se quer chamar atenção é para o fato de que, até então, as políticas do
governo federal para a população idosa brasileira consistiam no provimento de
renda e serviços médicos especializados, predominando a visão de
vulnerabilidade e dependência deste segmento da população. Quanto à questão do
cuidado com o idoso frágil, os esforços eram no sentido de que esse fosse cuidado

21COELHO, Inocêncio Mártires. Princípios da ordem social. In: In: MENDES, Gilmar Ferreira, et al (org.). Curso
de direito constitucional. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p. 1427.
22
CAMARANO, Ana Amélia. Introdução. In: ALCÂNTARA, Alexandre de Oliveira et al. Política nacional do
idoso: velhas e novas questões. Rio de Janeiro: IPEA, 2016, p. 20.
22

pela família. Mudanças paulatinas na visão do idoso como um indivíduo frágil


ocorreram ao longo dos anos 1980, por influência do debate internacional23.

A Política Nacional do Idoso (PNI) tem sua origem na 1ª Assembleia Mundial sobre o
Envelhecimento da Organização das Nações Unidas – ONU, realizada em Viena (Áustria) entre
26 de Julho a 06 de Agosto de 1982. Participaram 124 países, dentre eles, o Brasil. Elaborou-
se o Plano de Ação para o Envelhecimento, publicado seis meses depois em Nova Iorque.

O objetivo do fórum e do Plano de Ação foi sensibilizar os governantes e a sociedade


civil para o pleno atendimento às necessidades dos idosos e, preparar a sociedade para o seu
envelhecimento, possibilitando o cumprimento de garantias fundamentais à sua sobrevivência
com qualidade de vida.

A Política Nacional do Idoso (PNI) foi promulgada em 1994, tornando-se Decreto n.


1948, de 03 de Julho de 1996 e tem como objetivo atender ao idoso em sua gama de direitos,
assegurando o cumprimento da lei para um grupo com características diferenciadas, em
especial, devido sua faixa etária.

Art. 3° A política nacional do idoso reger-se-á pelos seguintes princípios:


I - a família, a sociedade e o estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos
da cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade,
bem-estar e o direito à vida;
II - o processo de envelhecimento diz respeito à sociedade em geral, devendo ser
objeto de conhecimento e informação para todos;
III - o idoso não deve sofrer discriminação de qualquer natureza;
IV - o idoso deve ser o principal agente e o destinatário das transformações a serem
efetivadas através desta política;
V - as diferenças econômicas, sociais, regionais e, particularmente, as contradições
entre o meio rural e o urbano do Brasil deverão ser observadas pelos poderes públicos
e pela sociedade em geral, na aplicação desta lei (BRASIL, 1994).

Apesar da Política Nacional do Idoso ser importante em nossa sociedade, ela não foi
considerada um marco no âmbito do direito do idoso, requerendo a publicação do Estatuto do
Idoso para que houvesse o cumprimento efetivo das práticas legais a este grupo.

A Lei é composta por seis capítulos e 22 artigos: capítulo I – Da Finalidade; capítulo II


– Dos Princípios e das Diretrizes; capítulo III – da Organização e Gestão; capítulo IV – das
Ações Governamentais – capítulo V – Do Conselho Nacional e capítulo VI – Das Disposições
Gerais.

23
CAMARANO, Ana Amélia. Introdução. In: ALCÂNTARA, Alexandre de Oliveira et al. Política nacional do
idoso: velhas e novas questões. Rio de Janeiro: IPEA, 2016, p. 21.
23

Na Legislação reafirma-se a importância dos cuidados prestados ao idoso formado pela


tríade – família sociedade e Estado (provedor), garantindo-lhe os direitos básicos, dignidade,
direito à vida e bem-estar, defesa e participação efetiva na comunidade.
24

3 ESTATUTO DO IDOSO

Objetiva-se neste capítulo discorrer sobre o processo de criação e promulgação do


Estatuto do Idoso e sua importância para este grupo etário na sociedade brasileira. Será
contemplado o processo de envelhecimento da população brasileira e qual foi o impacto
decorrente em diferentes setores da economia, saúde e cultura, considerando que a sociedade
brasileira ainda não se preparou para o envelhecimento da população.

3.1 O processo de envelhecimento da sociedade brasileira

“O envelhecimento é um fenômeno do processo da vida, assim como a infância, a


adolescência e a maturidade, e é marcado por mudanças biopsicossociais específicas,
associadas à passagem do tempo”24.

O processo de envelhecimento é peculiar a cada indivíduo, enquanto alguns idosos


conseguem maior autonomia, outros necessitam de maiores cuidados, tal especificidade se
aplica também a ocorrência de determinadas patologias, algumas características deste grupo.
Preparar as equipes de saúde para cuidados diferenciados é uma das tarefas mais árduas
relacionadas ao envelhecimento.

A sociedade brasileira nas últimas décadas apresentou uma mudança em seu perfil
demográfico. Se, antes as famílias eram numerosas e havia um alto índice de crianças em seu
núcleo, atualmente constata-se um processo inverso – diminuição no número de crianças e
aumento no número de idosos. As questões que levaram as famílias a diminuir o número de
filhos são diversas, todavia, a econômica e a melhoria na qualidade de vida são preponderantes.

A pirâmide etária deixa de ser predominantemente jovem para iniciar um processo


progressivo de envelhecimento. Isto ocorre fundamentalmente em decorrência do
processo de queda das taxas de fecundidade que reduz o percentual da parcela de
crianças e jovens da população25.

24FERREIRA, Olívia G.L. et al. Significados atribuídos ao envelhecimento: idoso, velho e idoso ativo. Psico-
USF. 2010, 15(3): 357-364, p. 359.
25ALVES, José E. Diniz. A transição demográfica e a janela de oportunidade. Instituto Fernand Braudel de
Economia Mundial. 2008. Disponível em:
http://www.braudel.org.br/pesquisas/pdf/transicao_demografica.pdf. Acesso em: 05 set. 2017. P. 05.
25

Berlindes A. Küchemman discorre acerca das mudanças etárias na pirâmide etária


brasileira, contemplando o entendimento de José E. D. Alves:

“Na década de 50, a taxa de crescimento da população idosa atingiu valores superiores
a 3% ao ano, chegando a 3,4% entre 1991 e 2000. Ao compararmos, num intervalo de 25 anos
(1980 a 2005) o crescimento da população idosa foi de 126,3%”26.

O perfil do idoso hoje no Brasil é preponderantemente feminino. De acordo com


Berlindes A. Küchemman as mulheres representam 55,5% da população idosa brasileira e 61%
do contingente de idosos acima de 80 anos. Uma das razões para esta diferença está na
expectativa de vida feminina, em média oito anos superior a masculina. Todavia, a causa de
morte masculina não está na idade senil, os índices de óbito masculino devem-se a causas
violentas e a buscarem menos os recursos de saúde, quando comparado às mulheres.

Considerando as dimensões continentais do país e a diversidade cultural inerente à


população, constata-se que não há um perfil específico de idoso. Encontram-se grupos
autônomos, saudáveis e ativos, que não se veem tolhidos pela idade, em contrapartida, há
grupos pobres, doentes solitários e assexuados, corroborando para a imagem do idoso renegado,
que aguarda o momento da morte, sem qualquer perspectiva.

Um dos maiores desafios encontrados atualmente no âmbito das políticas públicas e da


saúde é promover o envelhecimento com qualidade de vida, além de atender o idoso em sua
plenitude. Busca-se extinguir o paradigma do envelhecimento associado à doença. Há de se
considerar ainda, que muitas situações vivenciadas pelos idosos neste momento são inéditos,
requerendo o conhecimento e investimento em capacitação de profissionais, especialmente da
área da saúde.

Os cuidados dispensados aos idosos requer planejamento e políticas públicas adequadas


às suas necessidades e especificidades. O Brasil até o início do século XXI não possuía uma
legislação voltadas ao idoso e, que contemplasse seus direitos. A publicação do Estatuto do
Idoso em 2003 foi inovadora e colaborou para reforçar os direitos constitucionais (1988).

26 KÜCHEMANN, Berlindes A. Envelhecimento populacional, cuidado e cidadania: velhos dilemas e novos


desafios. Revista Sociedade e Estado. 2016; 27(1): 165-180, p. 166.
26

3.2 Importância do Estatuto do Idoso

O Estatuto do Idoso (2003) possui suas bases no Direito Constitucional e constitui-se


como um documento de referência para a sociedade atual em processo de envelhecimento.

O referido documento colabora para um entendimento e cumprimento do dever de


cuidar do idoso, seja por parte da família ou outros responsáveis, não o desamparando em
momento de necessidade; reforça ainda a prioridade no atendimento comparado a outros grupos
etários.

Apesar da importância da publicação do Estatuto do Idoso (BRASIL, 2003), todavia


ainda é claro a falta de preparo do Estado brasileiro em lidar com o envelhecimento da
população, talvez, por este tenha ocorrido de maneira mais acelerada comparada a outros países.
Em outros países, especialmente os europeus, o Estado está se preparando para atender aos
idosos de forma que sua cidadania seja preservada, bem como os seus direitos, visando um
atendimento amplo e de qualidade em todas as vertentes do envelhecimento.

Por isso os países têm buscado, cada vez mais, compreender o processo de
envelhecimento populacional, procurando alternativas para “manter seus cidadãos
idosos socialmente e economicamente integrados e dependentes”. Isso porque a
presença crescente de pessoas idosas na sociedade impõe o desafio de inserir o tema
do envelhecimento populacional na formulação das políticas públicas e de
implementar ações de prevenção e cuidado direcionados às suas necessidades,
subsidiando a organização de uma rede com capacidade para ofertar serviços e ações
no âmbito da proteção social27.

Complementa-se o exposto por Gabriela M. D. Miranda com a proposição de Berlindes


A. Küchemman:

Historicamente, em países que vivenciaram essa transição demográfica de forma mais


lenta, tais como França, Inglaterra e Alemanha, têm sido implementadas diversas formas de
apoio e de cuidados aos idosos e às idosas. Em graduações variadas, as responsabilidades são
divididas entre o setor público e o privado. Incluem políticas e serviços previdenciários,
benefícios de organizações sindicais, de agências e unidades sanitárias estatais, assim como de
organizações particulares de seguros-saúde28

Para Gabriela M. D. Miranda e Berlindes A. Küchemman os países, onde o processo de


envelhecimento ocorreu anteriormente ao Brasil, as principais mudanças centraram-se no

27 MIRANDA, Gabriella M. Duarte. O envelhecimento populacional brasileiro: desafios e consequências sociais


atuais e futuras. Rev. Bras. Geriatr. Gerontol., v. 07, n. 01, 2016, p. 507-519, p. 508.
28 KÜCHEMMAN, (2012, p. 167).
27

entendimento de quem são os idosos, suas necessidades diferenciadas e um atendimento voltado


a este perfil, contemplando-os em sua totalidade. Há de se considerar que, partindo dessas
premissas torna-se possível a adoção de políticas públicas específicas, pois é incomparável as
necessidades deste grupo a outros, com idade inferior a sessenta anos.

Compreende-se que este documento tem um marco referencial no sentido de que ele
traz uma única lei de amparo e proteção ao idoso, impossibilitando, por conseguinte que
diferentes leis fossem criadas e colidissem umas com as outras, no que tange aos direitos desses
grupos. Ter uma lei específica que atende e protege o idoso é de fundamental importância e
impõe ao Estado e seus respectivos entes, bem como à sociedade civil que se organize e se
prepare para lhes atender.

Historicamente as discussões para se publicar uma lei que atendesse aos idosos em sua
plenitude remete à quase uma década antes da referida lei.

Assim, para enfrentar essas questões, surgiram dois Projetos de Lei de Estatuto do
Idoso no Congresso Nacional: o primeiro em 1997, de autoria do atual Senador Paulo
Paim (à época deputado federal pelo Rio Grande do Sul), uma proposta elaborada em
conjunto com representantes de entidades de aposentados, dentre elas a Federação de
Aposentados e Pensionistas do Rio Grande do Sul e a COBAP - Confederação
Brasileira das Federações de Aposentados e Pensionistas, e a outra proposta de
Estatuto foi apresentada em 1999 de autoria do então deputado federal, por Santa
Catarina, Fernando Coruja. Este último Projeto de Lei, segundo o próprio autor, foi
realizada por ele e seus assessores, adaptando-se o Estatuto da Criança e do
Adolescente ao Idoso29.

De acordo com os autores (2006) houve duas tentativas expressivas para a publicação
de uma legislação de amparo ao idoso – 1997 e 1999, ambas, todavia, não alcançaram o marco
legal para se tornar uma lei de referência ao idoso, assim com o Estatuto em 2003. Há de se
considerar sua importância, partindo do pressuposto de que se reconhece há tempos que a
sociedade brasileira está envelhecendo e necessita de assistência a este grupo de maneira
diferenciada.

Alguns projetos de lei, apesar de contraditórios, tentaram dar continuidade a formulação


específica de atendimento aos idosos, o que culminou em julho de 2001 na formação de uma
Comissão Especial para apreciar os projetos de lei.

29PAZ, Serafim F.; GOLDMAN, Sara N. O estatuto do idoso. Núcleo de Pesquisa e Extensão sobre Políticas
Públicas, Espaços Públicos e Serviço Social. 2006. Disponível em:
<http://www.nuppess.uff.br/antigo/images/stories/modelos/artigos_serafim/Artigo_sobre_o_Estatuto_do_Idoso_
PDF.pdf> p. 02.
28

A Comissão Especial convocou a representação do movimento social do Idoso,


mediante um Seminário, visando ampliar os trabalhos de discussão sobre as matérias que
subsidiavam as discussões para a formulação do Estatuto. Participaram os representantes de
cinco fóruns regionais – Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul, além de entidades
governamentais e não-governamentais (nacionais, estaduais e municipais). Objetivava-se a
priori criar um consenso no que se referia às pautas para a formulação da lei, que entraria em
vigor.

A proposta entregue em setembro de 2001, entrou imediatamente na pauta da Câmara,


porém no dia da votação foi retirada, exigindo que a proposta deveria passar pelas
Câmaras temáticas do Congresso. Esta atitude liderada pelo Governo tinha como
finalidade reverter alguns direitos que o Estatuto assegurava e que, certamente,
contrariava interesses daquele governo, tais como: o aumento das aposentadorias e
pensões seria igual ao reajuste do salário mínimo, assim como o período de aumento,
maio de cada ano, seria o período de aumento das aposentadorias e pensões, tais como:
o aumento das aposentadorias e pensões seria igual ao reajuste do salário mínimo,
assim como o período de aumento, maio de cada ano, seria o período de aumento das
aposentadorias e pensões. Outro ponto polêmico para o governo era a reivindicação
do movimento dos idosos de diminuir o limite do Benefício de Prestação Continuada
(BPC) de 67 anos para 60 anos sendo, ao final, definida a idade inicial em 65 anos30.

A publicação do Estatuto, entretanto, ocorreria apenas dois anos mais tarde, pois muitos
dos direitos tinham cunho político e econômico, como o aumento das aposentadorias e pensões,
contrariando o governo, que ao retardar o projeto conseguiu ganhar tempo para alterar alguns
de seus artigos.

Remete-se um ponto importante à publicação do Estatuto do Idoso no que tange ao


processo final de sua publicação – a pressão midiática – concomitantemente ao processo de
aprovação, a rede Globo estava apresentando a novela “Mulheres Apaixonadas”, nela um casal
de idosos, era maltrato pela neta. Ambos foram convidados para representar os idosos com
ampla cobertura da mídia, na cerimônia de aprovação do Estatuto do Idoso.

Compreende-se que apesar de ser um documento importante, ainda assim, não foi
considerado prioridade ao governo, que o postergou por aproximadamente dois anos, até que
houvesse a negociação de todos os pontos considerados polêmicos.

30 PAZ, Serafim F.; GOLDMAN, Sara N. O estatuto do idoso. p. 04.


29

3.3 Estatuto do Idoso – análise

O Estatuto do Idoso é um documento considerado referência, um marco para a defesa


dos idosos, no âmbito legal. Através dele visa-se suprir as desigualdades legais deste grupo
etário, bem como as possíveis negligências imputadas aos idosos no decorrer das últimas
décadas na legislação brasileira, mesmo com a Constituição de 1988. Os idosos considerados
um grupo vulnerável na sociedade brasileira, requer atendimento específico e diferenciado.

O Estatuto do Idoso (Lei 10.741 de 01 de outubro de 2003), uma legislação


contemporânea com o objetivo protetivo assistencial quanto às pessoas com idade
igual ou superior a 60 (sessenta) anos, assegurou-lhes, com tutela legal ou por
outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde
física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em
condições de liberdade e dignidade [...]31.

O estabelecimento de um critério etário no Estatuto do Idoso foi um dos pontos


referenciais do mesmo, ratificando o estabelecido pela ONU (Organização das Nações Unidas)
em 1982 (Assembleia Mundial sobre Envelhecimento – Viena). Considera-se como idoso a
pessoa com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.

Apesar de sua importância fundamental à sociedade brasileira, uma sociedade que


envelheceu significativamente nas últimas décadas, modificando o seu perfil etário, ainda
assim, constata-se que o Estatuto não é devidamente divulgado, especialmente aos grupos que
prestam atendimento aos idosos em diferentes âmbitos.

Um dos princípios norteadores do Estatuto do Idoso é a dignidade humana, também


preconizada na Constituição Federal de 1988:

[...] o postulado fundamental da ordem jurídica brasileira é a dignidade humana,


enfeixando todos os valores e direitos que podem ser reconhecidos à pessoa
humana, englobando a afirmação de sua integridade física, psíquica e intelectual,
além de garantir a sua autonomia e livre desenvolvimento da personalidade32.

Possibilitar o direito à dignidade humana é condição sine qua non à manutenção dos
direitos do idoso, é fundamentado neles que se consegue garantir a efetividade de todos os
demais direitos no Estatuto.

31 SOUSA, Ana Maria Viola. Tutela jurídica do idoso: a assistência e a convivência familiar. Campinas:
Alínea, 2004, P. 179.
32
FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito civil: teoria geral. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2010. p. 124.
30

O documento é organizado em sete partes, organizadas em capítulos (artigos e incisos):


disposições preliminares, direitos fundamentais, medidas de proteção, política de atendimento
ao idosos, acesso à justiça, crimes praticados contra o idoso, disposições finais e transitórias33.

No título I – Disposições Preliminares ou orientações gerais sobre valores humanos do


Estatuto do Idoso – propõe-se a seguridade dos direitos às pessoas com idade igual ou superior
a sessenta anos. Os artigos e respectivos incisos deste capítulo dispõem de inúmeras garantias
diferenciadas aos idosos, a saber:

I – atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e


privados prestadores de serviços à população;
II – preferência na formulação e na execução de políticas sociais públicas específicas;
III – destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a
proteção ao idoso;
IV – viabilização de formas alternativas de participação, ocupação e convívio do idoso
com as demais gerações;
V – priorização do atendimento do idoso por sua própria família, em detrimento do
atendimento asilar, exceto dos que não a possuam ou careçam de condições de
manutenção da própria sobrevivência;
VI – capacitação e reciclagem dos recursos humanos nas áreas de geriatria e
gerontologia e na prestação de serviços aos idosos34;
VII – estabelecimento de mecanismos que favoreçam a divulgação de informações de
caráter educativo sobre os aspectos biopsicossociais de envelhecimento;
VIII – garantia de acesso à rede de serviços de saúde e de assistência social locais.

De acordo com os incisos constata-se que há preferência no atendimento ao idoso em


diferentes segmentos da sociedade civil, bem como nas políticas públicas, tal como discorre o
inciso II, III e VIII.

3.4 Polêmicas do estatuto do idoso

A publicação de uma nova lei necessita contextualizar-se à sociedade na perspectiva


social, cultura, histórica e jurídica. Consigo ela traz muitas mudanças, as quais a sociedade nem
sempre está preparada para arcar. Assim como ocorreu com o Estatuto da Criança e do
Adolescente, o Estatuto do Idoso não fora diferente e, a sociedade brasileira apesar de saber da
existência da lei nem sempre a cumpre criteriosamente, deixando lacunas importantes a serem

33
BRASIL. Lei 10.741 de 1º de Outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Casa Civil. 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso em 01 Out. 2017.
34
Ibidem.
31

preenchidas. Além disso, legalmente pode existir conflitos com outras leis já existentes ou a
serem promulgadas.

O referido documento é de suma importância, conforme o imaginário social, para


legitimar os direitos de uma faixa etária que, na sociedade, vive, em geral, à mercê
da boa vontade daqueles aos quais estão sujeitos. Entretanto, a produção e a
relação da lei com seus produtores, promotores e usuários são uma construção da
linguagem, ou seja, uma produção e uma relação mediadas pelo simbólico, daí
constituir- se a lei (Estatuto) num discurso que, como tal, evoca e ao mesmo tempo
silencia outros discursos, não sendo sua existência a manifestação neutra de
valores sociais nem garantia de cumprimento automático, pois essa lei pressupõe
uma direção para essa justiça, mobilizando discursos de outros lugares para que
essa justiça se efetive. Indispensável é o esforço de toda a sociedade para que ela
seja incorporada em suas ações cotidianas, visto que a legitimação de qualquer lei
não é um mero corolário da obediência cega às suas prescrições, mas um processo
cultural, que se constrói através de ações práticas inseridas no jogo instaurado
entre o “discurso novo” (novos efeitos de sentido) e sua resistência35.

Conforme explanou Janete Silva dos Santos et al uma das maiores dificuldades da
referida lei é sua colocação em prática. A sociedade brasileira é excludente, seja na esfera social,
cultural e/ou econômica. Grupos minoritários e com pouca possibilidade de auto-defesa
encontram dificuldades para conseguirem se estabelecer e garantir a efetividade dos seus
direitos, ainda que estejam resguardados sob um estruturado arcabouço legal, nem sempre isso
lhes é suficiente. Ou seja, muito mais do que garantir que leis favoráveis a eles sejam
publicadas, é necessário sua efetivação no cotidiano, possibilitando a igualdade preconizada na
Constituição.

Um dos primeiros conflitos concernentes à lei é a defesa de um grupo específico em


nossa sociedade, pertinente somente às características etárias. Apesar de parecer óbvio que a
sociedade brasileira defenda aqueles que tenham menos condições de auto promover sua defesa,
ainda assim, em comparação a outros grupos tende-se a não elencar a igualdade constitucional
preconizada na Carta Magna.

As respostas para esta dúvida podem ser encontradas nas experiências históricas, bem
como nas próprias Constituições das democracias modernas. O desenvolvimento dos
sistemas jurídicos começou a perceber durante o século XX, que a igualdade frente à
lei não representava necessariamente maior justiça, tendo em vista que existem grupos
específicos em desvantagem comparados com outros grupos sociais. Este
reconhecimento levou, no final do século XX, ao surgimento de leis e estatutos, que
foram desenvolvidos exatamente para garantir o espaço e a igualdade material de
chances, frente a desvantagens existentes em relações legais, como, por exemplo, o
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.065/90), o Código da Defesa do
Consumidor (Lei 8.078/90) e, agora, o Estatuto do Idoso. Dessa forma, o tratamento

35SANTOS, Janete Silva dos et al. Atendimento preferencial no estatuto e na voz do idoso: uma análise discursiva.
Linguagem em (Dis)curso, v. 13, n. 02, 2013, p. 243-271, p. 244.
32

desigual dos desiguais possui exatamente o objetivo de levar a uma sociedade mais
justa36.

O entendimento de Serafim Paz e Sara Goldman compreende que a elaboração de um


estatuto desse porte implica em atender a grupos desfavorecidos naturalmente por uma
sociedade, que não consegue abarcar o direito de todos em regime de igualdade.

A categorização do idoso como qualquer indivíduo com idade igual ou superior a 60


(sessenta) anos também é controversa. Compreende-se que a faixa etária é fundamental para a
elaboração da legislação, entretanto, há particularidades entre os idosos, que devem ser
consideradas na formulação da legislação e, o Estatuto é um tanto quanto vago neste sentido. A
simples categorização dos idosos, independente do grau de senilidade, dependência física,
psíquica, dentre outros impede que haja tratamentos mais específicos a tais grupos.

O grande problema do critério cronológico é de não considerar as diferenças


pessoais e a larga faixa etária que se vê̂ abrangida pelo conceito, principalmente
se levarmos em conta que, atualmente, são cada vez mais numerosas as pessoas
centenárias. Pode haver enorme diferença no estado de saúde (física e mental)
entre duas pessoas sexagenárias, uma delas pode ser doente e debilitada, enquanto
a outra se encontra em pleno vigor, sendo perfeitamente lucida. Certamente há
enorme diferença entre um idoso (pelo critério da Lei 8.842/94) de 60 anos e um
outro de 100 anos de idade, por isso se torna difícil a aceitação de um mesmo
tratamento a ambos37.

Quatorze anos após a publicação do Estatuto houve uma alteração no mesmo, elencando
como prioritário o atendimento aos idosos com idade igual ou maior a oitenta anos, o que
evidencia as particularidades de determinados grupos, nesta “grande categoria denominada de
idoso” – Lei n. 13.466, de 12 de Julho de 2017, altera os arts. 3º, 15 e 71 do Estatuto do Idoso38.

36 PAZ, Serafim F.; GOLDMAN, Sara N. O estatuto do idoso. p. 12.


37 BRAGA, Pérola Melissa Vianna. Curso de direito do idoso. São Paulo: Atlas, 2011, p. 4.
38
BRASIL. Lei n. 13.466, e 12 de Julho de 2017, altera os arts. 3º, 15 e 71 da Lei n. 10.741, de 1º de outubro de
2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso e dá outras providências. Casa Civil. 2017. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13466.htm#art3>. Acesso em: 20 out. 2017.
33

4 O DIREITO À SAÚDE NO ESTATUTO DO IDOSO

O direito à dignidade humana está associado à preservação de garantias básicas, dentre


elas a saúde. Considerando as condições de muitos idosos atualmente requer-se um atendimento
prioritário, que por vezes não acontece, seja devido às precárias instituições públicas de saúde,
que não conseguem cumprir os preceitos assegurados na Constituição de 1988, bem como as
especificidades deste grupo, que requer um atendimento diferenciado e, com equipes de saúde
especializadas, capazes de compreender suas necessidades e complexidade.

4.1 Qualidade de vida para o idoso

Exprimir um conceito de qualidade de vida é uma tarefa complexa, pois o próprio


conceito de qualidade é subjetivo e varia de acordo com os valores de cada indivíduo.
Entendamos o conceito de qualidade em um primeiro momento:

Qualidade, deriva do latim qualitate. 1. Aquilo que torna uma pessoa ou coisa
diferente da outra; modo de ser, natureza. 2. Caráter, temperamento. 3. Dom,
virtude. 4. Condição social, civil e jurídica, etc. 5. Disposição intelectual ou moral
dos indivíduos. 6. Grau de perfeição, de precisão, de conformidade a um certo
padrão. 7. Categoria, espécie, tipo39.

Destas definições apresentadas pelo professor Pasquale Cipro Neto, interessa-nos em


especial esta: “grau de perfeição, de precisão, de conformidade a um certo padrão”. Ou seja,
para se medir o conceito de qualidade de vida tem-se um parâmetro do que efetivamente é bom
ou ruim e a partir daí mede-se o que pode ser melhorado ou o que efetivamente não alcançou
os padrões ideais.

A utilização do termo qualidade de vida remete ao ex-presidente dos Estados Unidos –


Lyndon Johnson – em 1964, naquela época já era considerada um fator subjetivo e hoje ainda
continua sendo.

O termo qualidade de vida como vem sendo aplicado na literatura médica não
parece ter um único significado (GILL e FEINSTEIN, 1994). "Condições de
saúde, funcionamento social" e "qualidade de vida" tem sidos usados como

39CIPRO NETO, Pasquale. Dicionário da Língua Portuguesa comentado pelo professor Pasquale. São Paulo:
Gold Editora, 2009, p. 481.
34

sinônimos (GUYATT e cols.) e a própria definição de qualidade de vida não


consta na maioria dos artigos que utilizam ou propõe instrumentos para sua
avaliação (GILL e FEINSTEIN, 1994). Qualidade de vida relacionada com a
saúde ("Health-related quality of life") e Estado subjetivo de saúde ("Subjective
health status") são conceitos afins centrados na avaliação subjetiva do paciente,
mas necessariamente ligados ao impacto do estado de saúde sobre a capacidade
do indivíduo viver plenamente. BULLINGER e cols. (1993) consideram que o
termo qualidade de vida é mais geral e inclui uma variedade potencial maior de
condições que podem afetar a percepção do indivíduo, seus sentimentos e
comportamentos relacionados com o seu funcionamento diário, incluindo, mas
não se limitando, à sua condição de saúde e às intervenções médicas40.

Nesta definição apresentada entende-se que a expressão “qualidade de vida” é bastante


abrangente, pois implica em diversos fatores que podem comprometer as condições de vida do
indivíduo.

Outro conceito atribuído à qualidade de vida pode ser:

Uma definição clássica, do tipo global, é datada de 1974: “qualidade de vida é a


extensão em que prazer e satisfação têm sido alcançados”. A noção de que QV
envolve diferentes dimensões configura-se a partir dos anos 80, acompanhada de
estudos empíricos para melhor compreensão do fenômeno. Uma análise da
literatura na última década evidencia a tendência de usar definições focalizadas e
combinadas, pois são estas que podem contribuir para o avanço do conceito em
bases científicas41.

Esta definição levantada por Seidl e Zannon é importante por trazer a dimensão do termo
qualidade de vida não apenas como um fator isolado, mas como a associação de todos os fatores
e em que medida estas verdadeiramente podem influenciar no dia-a-dia do indivíduo. Isto
significa que, se o trabalhador está com problemas em seu trabalho, possivelmente estes
influenciarão em seu dia-a-dia com sua família ou no relacionamento com seus amigos e vice-
versa.

O termo qualidade de vida pode ser apresentado sob duas perspectivas diferentes, a
primeira delas é mais genérica, ao passo que a segunda está relacionada às condições de saúde
(físicas e psíquicas) apresentadas pelo indivíduo. Neste último caso as pesquisas existentes são

40
FLECK, Marcelo Pio de Almeida. Versão em português dos instrumentos de avaliação de qualidade de vida
(WHOQOL). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1998. Disponível em:
<http://www.ufrgs.br/psiq/whoqol1.html#1>. Acesso em: 02 out. 2017.
41SEIDL, Eliane Maria Fleury; ZANNON, Célia Maria Lana da Costa. Qualidade de vida e saúde: aspectos
conceituais e metodológicos. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, vol. 20, n. 02, p. 580-588, mar-abr,
2004, p. 581.
35

variadas e múltiplas, ao passo que a análise da qualidade de vida sob o aspecto genérico é
relativamente recente, inclusive devido sua abrangência.

A respeito desta diferença de conceitos mais uma vez faremos uso dos conceitos
expostos por Eliane M. F. Seidl e Célia M. L. C. Zannon:

Duas tendências quanto à conceituação do termo na área de saúde são


identificadas: qualidade de vida como um conceito mais genérico e qualidade vida
relacionada à saúde. No primeiro caso, QV apresenta uma acepção mais ampla,
aparentemente influenciada por estudos sociológicos, sem fazer referência a
disfunções ou agravos.
[...].
O termo qualidade de vida relacionada à saúde é muito freqüente na literatura e
tem sido usado com objetivos semelhantes à conceituação mais geral. No entanto,
parece implicar os aspectos mais diretamente associados às enfermidades ou as
intervenções em saúde42.

Devido a esta abrangência foi elaborado pela Organização Mundial de Saúde (OMS)
dois tipos de questionários que visam medir a qualidade de vida dos indivíduos, um apresenta-
se de maneira mais simples, enquanto o outro é mais complexo e abrangente.

Em uma perspectiva contemporânea a qualidade de vida está relacionada a todas as


mudanças de ordem social, psicológica, econômica, política e pessoal, ou seja, o ser humano
passou a ser mais exigido e em contrapartida também exige. Deixou-se de pensar nas relações
de maneira superficial, independente do tipo de relação que exista. Neste sentido é importante
vislumbrar novas formas de contemplar o bem-estar das pessoas e as relações estabelecidas
com seus pares.

4.2 Saúde do idoso no Brasil

O conceito de saúde é bastante amplo e, está relacionado a diferentes variáveis.


Atualmente estar saudável vai além de não ter nenhuma patologia, implica em um bem-estar
físico, psíquico e social, considerando que, todos estes fatores intervêm positiva ou
negativamente nas condições de cada um.

42SEIDL, Eliane Maria Fleury; ZANNON, Célia Maria Lana da Costa. Qualidade de vida e saúde: aspectos
conceituais e metodológicos, p. 583.
36

A Constituição da Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um


estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de afecção ou
doença”43.

A abrangência proposta pela OMS para conceituar saúde é deveras importante e,


possibilitou aos legisladores ao garantir este direito não restringi-lo somente ao estar ou não
doente, ao contrário, o indivíduo saudável tem uma condição diferenciada a ser preservada e,
mediante a ascensão de Constituições democráticas e plenas em assistência, este direito torna-
se ainda mais importante.

O direito à saúde relacionado aos idosos tem um significado diferenciado, partindo do


pressuposto de que as necessidades deste grupo etário são bastante específicas e, requer por
parte dos legisladores e políticos um atendimento diferenciado, onde se prime por ações
específicas.

O envelhecimento, enquanto processo natural de todo ser humano está atrelado a


condições próprias, diferenciadas de outros grupos etários, onde a atenção e o cuidado são
maiores. A utilização de medicamentos, instrumentos de saúde próprios, consultas frequentes,
realizações periódicas de exames, tratamentos direcionados, enfim, são processos que fazem
parte do envelhecimento e, demandam ações diferenciadas. Seja em um viés de prevenção,
tratamento ou recuperação a atenção destinada ao idoso é peculiar.

Na velhice, alterações anatômicas funcionais e doenças crônico-degenerativas


apresentam-se irreversíveis, embora possam ser controladas pela medicina
geriátrica. O grande problema enfrentado é o não controle dessas afecções, que
gera sintomas desagradáveis, sequelas e complicações. Estas serão responsáveis
por deterioração rápida da capacidade funcional, surgindo incapacidade,
dependência, perda de autonomia, necessidade de cuidados de longa duração e
institucionalização44.

É condição sine qua non ao processo de envelhecimento perder habilidades e agilidade,


além do raciocínio tornar-se mais lento, bem como os movimentos como um todo, o que implica
em um cuidado diferenciado, inclusive porque acidentes simples em outras faixas etárias podem
trazer grandes complicações nesta, bem como patologias que a priori não deveriam apresentar
qualquer perigo.

43
BARLETTA, Fabiana Rodrigues. A pessoa idosa e seu direito prioritário à saúde: apontamentos a partir do
princípio do melhor interesse do idoso. R. Dir. Sanit. v. 15, n. 1, mar./jun. 2014, p. 119-136. P. 122.
44
Ibidem, p. 123.
37

Mediante esta situação, a percepção de saúde elencada pela Organização Mundial de


Saúde, torna-se comprometida e, requer dos indivíduos cuidados específicos, os quais as
políticas públicas voltadas ao idoso necessitam estar preparadas.

O Sistema Único de Saúde apesar de não estar efetivamente preparado para lidar com a
demanda de idosos, suas necessidades, patologias específicas, têm buscado (ainda que no
âmbito teórico) lidar com as adversidades intrínsecas a um país que envelhece, mas que não
possui infra-estrutura para lidar com esse processo. Neste sentido, novas práticas são adotadas
na Atenção Primária à Saúde (APS), ou seja, o atendimento inicial prestado aos usuários de
saúde pública no SUS.

A fim de qualificar o cuidado, o SUS está orientado para a Atenção Primária à


Saúde (APS). O Pacto pela Vida e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa
(PNSPI), ambos de 2006, definiram que a atenção à saúde dessa população deve
ter como porta de entrada a APS/Saúde da Família (SF), tendo como referência a
rede de serviços especializada de média e alta complexidade. Além disso, a saúde
da população idosa também passou a ser uma prioridade no SUS e, por
conseguinte, da Estratégia de Saúde da Família (ESF), modelo fortemente
embasado nos atributos da APS e que busca a qualificação dessa atenção45.

Compreende-se que há uma diferença significativa entre o que se preconiza na esfera


legal e na esfera prática. O SUS apesar de possuir documentos legais, que orientam os seus
profissionais a prestar um atendimento diferenciado ao idoso, na prática as ações não condizem
com a realidade, inclusive, porque a própria situação da saúde pública no país como um todo é
precária e não corresponde às necessidades e expectativas da população.

4.3 O direito à saúde no Estatuto do Idoso

Apesar de possuir um capítulo específico no Estatuto do Idoso para discorrer sobre a


saúde, ainda assim, constata-se que em todo o diploma legal o mesmo é mencionado,
constatando sua evidente importância e, principalmente sua relação com os outros artigos do
documento.

O Estatuto do Idoso contempla o direito à saúde no capítulo IV – Direito à Saúde, nos


artigos 15 a 19 e seus respectivos incisos e parágrafos.

Art. 15. É assegurada a atenção integral à saúde do idoso, por intermédio do


Sistema Único de Saúde – SUS, garantindo-lhe o acesso universal e igualitário,

45
MARTINS, Aline B. et al. Atenção Primária a Saúde voltada as necessidades dos idosos: da teoria à prática.
Ciência & Saúde Coletiva, v. 19, n. 8, 2014, p.3403-3416. P. 3.404.
38

em conjunto articulado e contínuo das ações e serviços, para a prevenção,


promoção, proteção e recuperação da saúde, incluindo a atenção especial às
doenças que afetam preferencialmente os idosos.
§ 1o A prevenção e a manutenção da saúde do idoso serão efetivadas por meio de:
I – cadastramento da população idosa em base territorial;
II – atendimento geriátrico e gerontológico em ambulatórios;
III – unidades geriátricas de referência, com pessoal especializado nas áreas de
geriatria e gerontologia social;
IV – atendimento domiciliar, incluindo a internação, para a população que dele
necessitar e esteja impossibilitada de se locomover, inclusive para idosos
abrigados e acolhidos por instituições públicas, filantrópicas ou sem fins
lucrativos e eventualmente conveniadas com o Poder Público, nos meios urbano
e rural;
V – reabilitação orientada pela geriatria e gerontologia, para redução das seqüelas
decorrentes do agravo da saúde46.

Conforme explanado anteriormente o idoso apresenta características diferenciadas e


inerentes à sua faixa etária, destarte, é necessário que o seu atendimento também seja
diferenciado. De acordo com o artigo 15 do Estatuto do Idoso além do atendimento integral,
universal e igualitário, cabe ao SUS garantir a proteção e recuperação da saúde, em especial às
doenças peculiares à faixa etária do idoso.

§ 2o Incumbe ao Poder Público fornecer aos idosos, gratuitamente, medicamentos,


especialmente os de uso continuado, assim como próteses, órteses e outros
recursos relativos ao tratamento, habilitação ou reabilitação.

Este parágrafo delega ao Executivo o poder de executar tal ação, todavia, deve-se
considerar a dificuldade em fazê-lo, pois a questão transcende o Executivo e abrange
ministérios e secretarias na esfera Nacional, Estadual e Municipal, ou seja, cumprir e fiscalizar
essa norma é extremamente difícil e demanda uma estrutura de políticas públicas diferenciadas,
a qual nosso país ainda não possui.

“§ 3o É vedada a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de


valores diferenciados em razão da idade”47.
Os planos de saúde e os idosos durante anos travaram batalhas referentes aos reajustes
e a aceitação ou não deste grupo etário em novos planos. Uma das justificativas dos planos para
a elevação dos valores cobrados deve-se ao uso contínuo por parte dos usuários, além dos gastos
diversos com internações. Todavia, princípios constitucionais vetariam o aumento, partindo do
pressuposto de que todos são iguais perante a lei, portanto, não poderia haver discriminação ou
cobranças diferenciadas.

46 BRASIL. Lei 10.741 de 1º de Outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Casa Civil. 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso em 01 Out. 2017.
47
Ibidem.
39

O Estatuto do Idoso vem corroborar com essa teoria em seu §3º ao afirmar que os idosos
não podem ser discriminados no ingresso em novos planos de saúde, bem como terem aumentos
diferenciados devido a idade. Apesar de a lei ser favorável ao usuário, constata-se que a
interpretação da Agência Nacional de Saúde é distinta, ou seja, usuários ingressos antes de 2004
não são contemplados pela Lei, enquanto os usuários após este período são.

A interpretação da ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar, que regula o


setor de planos de saúde – para o artigo 15, § 3º do Estatuto do Idoso foi a de que
este se aplica apenas aos contratos firmados a partir de sua entrada em vigor, ou
seja, 1º de janeiro de 2004. Para os contratos firmados anteriormente ao Estatuto
permanecem as regras de reajuste válidas à época da contratação. Ficam, portanto,
vedados aumentos para pessoas de 60 (sessenta) anos ou mais que firmarem
contrato depois de 1º de janeiro de 2004, o mesmo não se aplicando para contratos
anteriores48.

Complementa-se o entendimento a respeito:

Para os contratos firmados a partir de 1º de janeiro de 2004 as regras estão


estabelecidas na Resolução Normativa 63/03 da ANS. Não pode haver aumento
por mudança de faixa etária para pessoas com 60 anos ou mais, em decorrência
da aplicação do que dispõe o artigo 15, parágrafo 3o , do Estatuto do Idoso.
Todavia, antes de atingir 60 anos o consumidor pode sofrer aumento por mudança
de faixa etária. Manteve-se a disposição que estabelece como de 500% o aumento
máximo entre a primeira e a última faixa etária, acrescentando-se que a variação
acumulada entre a sétima e a décima faixas não poderá ser superior à variação
entre a primeira e a sétima faixas49.

Os usuários de planos de saúde após 2004 não são totalmente beneficiados com a nova
lei, pois apesar de ser proibido o aumento após os 60 anos, antes os limites de aumento podem
ser excessivos, inviabilizando que o mesmo continue com o pagamento do plano. Um aumento
de até 500% ainda que seja em períodos diferentes oneraria a quem necessita pagar por um
plano de saúde privado.

§ 4o Os idosos portadores de deficiência ou com limitação incapacitante terão


atendimento especializado, nos termos da lei.
§ 5o É vedado exigir o comparecimento do idoso enfermo perante os órgãos
públicos, hipótese na qual será admitido o seguinte procedimento:
I - quando de interesse do poder público, o agente promoverá o contato necessário
com o idoso em sua residência; ou
II - quando de interesse do próprio idoso, este se fará representar por procurador
legalmente constituído.

48
IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Estudo sobre a aplicação do estatuto do idoso aos planos
de saúde – a questão dos reajustes por mudança de faixa etária. São Paulo: IDEC, 2008. Disponível em:
<http://www.idec.org.br/pdf/pesq-aplicacao-estatuto-idoso-planos-saude.pdf>. Acesso em: 20 out. 2017, p. 04.
49
Ibidem, p. 05.
40

§ 6o É assegurado ao idoso enfermo o atendimento domiciliar pela perícia médica


do Instituto Nacional do Seguro Social - INSS, pelo serviço público de saúde ou
pelo serviço privado de saúde, contratado ou conveniado, que integre o Sistema
Único de Saúde - SUS, para expedição do laudo de saúde necessário ao exercício
de seus direitos sociais e de isenção tributária.
§ 7º Em todo atendimento de saúde, os maiores de oitenta anos terão preferência
especial sobre os demais idosos, exceto em caso de emergência50.

No que se refere ao §7º o mesmo remete aos idosos com 80 anos ou mais. Ainda que
todos tenham o mesmo direito na esfera constitucional e no Estatuto do Idoso (seguindo o
princípio da igualdade) este grupo devido sua fragilidade inerente e condições de saúde
peculiares precisam que haja brevidade no atendimento a lhe ser prestado.

Art. 16. Ao idoso internado ou em observação é assegurado o direito a


acompanhante, devendo o órgão de saúde proporcionar as condições adequadas
para a sua permanência em tempo integral, segundo o critério médico.
Parágrafo único. Caberá ao profissional de saúde responsável pelo tratamento
conceder autorização para o acompanhamento do idoso ou, no caso de
impossibilidade, justificá-la por escrito51.

O Estatuto do Idoso ao garantir o direito ao acompanhante referenda a Portaria n. 280, de


07 de Abril de 1990, que preconiza o direito ao acompanhante com os custeios da esfera estatal:

Art. 1º Tornar obrigatório nos hospitais públicos, contratados ou conveniados com


o Sistema Único de Saúde - SUS, a viabilização de meios que permitam a presença
do acompanhante de pacientes maiores de 60 (sessenta) anos de idade, quando
internados.
§ 1º Fica autorizada ao prestador de serviços a cobrança, de acordo com as tabelas
do SUS, das despesas previstas com acompanhante, cabendo ao gestor, a devida
formalização desta autorização de cobrança na Autorização de Internação
Hospitalar - AIH.
§ 2º No valor da diária de acompanhante estão incluídos a acomodação adequada
e o fornecimento das principais refeições52.

A referida portaria, bem como o Estatuto do Idoso excetuam a presença do


acompanhante, se for contra-indicado pelos médicos e profissionais de saúde competentes, não
cabendo o custeio e a obrigatoriedade de manutenção dos mesmos.

Art. 17. Ao idoso que esteja no domínio de suas faculdades mentais é assegurado
o direito de optar pelo tratamento de saúde que lhe for reputado mais favorável.
Parágrafo único. Não estando o idoso em condições de proceder à opção, esta será
feita:
I – pelo curador, quando o idoso for interditado;

50
BRASIL. Lei 10.741 de 1º de Outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Casa Civil. 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso em 01 Out. 2017.
51
Ibidem.
52
BRASIL. Portaria n. 280, de 07 de Abril de 1990. Biblioteca Virtual em Saúde. 1990. Disponível em:
<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/1999/prt0280_07_04_1999.html>. Acesso em 25 out. 2017.
41

II – pelos familiares, quando o idoso não tiver curador ou este não puder ser
contactado em tempo hábil;
III – pelo médico, quando ocorrer iminente risco de vida e não houver tempo hábil
para consulta a curador ou familiar;
IV – pelo próprio médico, quando não houver curador ou familiar conhecido, caso
em que deverá comunicar o fato ao Ministério Público53.

Segundo preconiza o artigo 17 os idosos tem direito a optar pelo seu tratamento de
saúde, podendo inclusive, recusar-se a fazê-lo, todavia, é condição sine qua non que esteja em
exercício de suas faculdades mentais. Caso não esteja, cabe curador (quando o idoso estiver
interditado) e aos seus familiares e, em última instância o próprio médico, se não houver alguém
responsável em fazê-lo. Nesta situação, em específico, ele deve recorrer ao Ministério Público.

Art. 18. As instituições de saúde devem atender aos critérios mínimos para o
atendimento às necessidades do idoso, promovendo o treinamento e a capacitação
dos profissionais, assim como orientação a cuidadores familiares e grupos de
auto-ajuda54.

Neste artigo evidencia-se a importância da capacitação dos profissionais de saúde para


o cuidado prestado ao idoso, seja no atendimento domiciliar ou institucional. A priorização da
humanização e atendimento diferenciado voltado às necessidades específicas deste grupo é uma
condição impositiva, a fim de que o processo de recuperação seja o mais breve e menos
doloroso. Todavia, para muitos idosos, situações limitantes estendem-se por toda a sua vida, o
que requer de seus familiares e cuidadores paciência, atenção, capacitação e outros predicativos
indispensáveis, não apenas à manutenção de sua saúde, mas também de sua dignidade.

Assim, sugere-se que, sob a influência do movimento de humanização, a


integralidade assistencial possa ser desenvolvida, não apenas como superação de
dicotomias técnicas entre preventivo e curativo, entre ações individuais e
coletivas, mas como valorização e priorização da responsabilidade pela pessoa,
do zelo e da dedicação profissional por alguém, como outra forma de superar os
lados dessas dicotomias. Isto é, a humanização induz a pensar que não é possível
equacionar a questão da integralidade sem valorizar um encontro muito além de
soluções com modelos técnicos de programação de "oferta organizada" de
serviços55.

Apesar de a legislação preconizar um atendimento diferenciado ao idoso, bem como


instruções prestadas aos seus familiares e cuidadores, no sentido de elucidar as melhores

53 BRASIL. Lei 10.741 de 1º de Outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Casa Civil. 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso em 01 Out. 2017.
54
Ibidem.
55
LIMA, Thaís J. V. et al. de Humanização na atenção à saúde do idoso. Saúde Soc. v. 19, n. 04, 2010, p. 866-
877, p. 868.
42

estratégias para o cuidado, a realidade é distinta, pois o Brasil ainda não está preparado para o
envelhecimento populacional e, nas diferentes esferas sociais, o atendimento prestado é aquém
das necessidades e, requer mudanças qualitativas e quantitativas.

Art. 19. Os casos de suspeita ou confirmação de violência praticada contra idosos


serão objeto de notificação compulsória pelos serviços de saúde públicos e
privados à autoridade sanitária, bem como serão obrigatoriamente comunicados
por eles a quaisquer dos seguintes órgãos:
I – autoridade policial;
II – Ministério Público;
III – Conselho Municipal do Idoso;
IV – Conselho Estadual do Idoso;
V – Conselho Nacional do Idoso.
§ 1o Para os efeitos desta Lei, considera-se violência contra o idoso qualquer ação
ou omissão praticada em local público ou privado que lhe cause morte, dano ou
sofrimento físico ou psicológico.
§ 2o Aplica-se, no que couber, à notificação compulsória prevista no caput deste
artigo, o disposto na Lei no 6.259, de 30 de outubro de 197556

A sociedade brasileira evoluiu no que tange a concessão de direitos e garantias a grupos


considerados vulneráveis – crianças, adolescentes e idosos, todavia, isso não os exime de serem
vítimas de discriminação e práticas violentas (psicológicas e físicas). Estes grupos apresentam
pouca ou nenhuma capacidade de auto defesa, além de serem dependentes de seus agressores
(física, econômica e socialmente), o que gera impunidade a quem os agride e a perpetuação de
tais ações, criando um ambiente de impunidade, violência e situações traumáticas a quem as
vivencia.

Além dos fenômenos inerentes ao processo de envelhecimento, como as


modificações fisiológicas e patologias consideradas típicas da terceira idade, a
pessoa idosa também está susceptível ao fenômeno da violência. Trata-se de um
problema com consequências devastadoras para os idosos, pois acarreta baixa
qualidade de vida, estresse psicológico, falta de segurança, lesões e traumas, bem
como o aumento da morbidade e mortalidade. A violência contra o idoso é um ato
(único ou repetido) ou omissão que lhe cause dano ou aflição e resulta, na maioria
das vezes, em sofrimento, lesão, dor, omissão ou perda dos direitos humanos e
redução da qualidade de vida do idoso57.

56 BRASIL. Lei 10.741 de 1º de Outubro de 2003. Estatuto do Idoso. Casa Civil. 2003. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm>. Acesso em 01 Out. 2017.
57
MASCARENHAS, Márcio D. M. et al. Violência contra a pessoa idosa: análise das notificações realizadas no
setor saúde – Brasil, 2010. Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 09, 2012, p. 2331-2341, P. 2332.
43

De acordo com Márcio D. M. Mascarenhas a violência contra o idoso se configura em


diferentes ocorrências e, todas causam traumas diversos, que impactam negativamente em sua
qualidade de vida e, levam a perda de sua saúde física e mental.

O capítulo IV referente ao Direito à Saúde é bastante amplo e busca atender o idoso em


sua plenitude, entretanto, constata-se que o mesmo é vago em diversos aspectos, pois apesar de
lhe garantir diretos, não apresenta os mecanismos necessários para que a lei seja fiscalizada e,
haja punições na ocorrência de seu descumprimento. Outra questão relevante é a dimensão
territorial do país, o que dificulta qualquer fiscalização mais efetiva e, o cumprimento rigoroso
das ações preconizadas nos artigos e seus respectivos incisos e parágrafos.
44

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O envelhecimento da sociedade brasileira tornou-se tema de vários estudos no meio


acadêmico, todavia o aparato legal que subsidia os direitos dos idosos ainda não é foco de
pesquisa. Este aparente desinteresse pode estar associado a várias causas, mas uma breve
análise permite constatar que, uma delas remete a dissociação entre presente e futuro. Ou seja,
os pesquisadores e doutrinadores não se preocupam porque é algo distante de sua realidade.
“Estar idoso” ainda é um privilégio não acessível a muitos, pois não está relacionado somente
a questão biológica, mas sim a uma série de fatores, que transcendem a própria vontade do
indivíduo.

Além disso, o envelhecimento com saúde e qualidade de vida é outra temática


importante, muitos idosos padecem de diferentes doenças, algumas crônicas e degenerativas e,
apesar de viverem até os setenta, oitenta e até noventa anos, o fazem sem qualidade ou
esperança.

As condições econômicas e degradantes as quais estes grupos são submetidos também


implicam em perda da qualidade de vida. A almejada aposentadoria idealizada por muitos, ao
chegar traz consigo uma série de problemas, dentre eles parcos recursos para pagar
medicamentos, plano de saúde, aluguel, alimentação e outros gastos inerentes ao
envelhecimento.

Diante de uma realidade tão adversa, o processo de envelhecimento, considerado uma


condição biológica, está dissociado de alegria, vitalidade, qualidade e esperança de dias
saudáveis e felizes.

Estar protegido por uma legislação funcional, que lhes garanta envelhecer sem
violência, com saúde, atendimento prioritário, condições mínimas de sobrevivência é o desejo
de muitos idosos. Em 2003 o Brasil publicou o Estatuto do Idoso, uma legislação complexa,
amparada em outras legislações internacionais, além da própria Constituição, denominada de
Constituição Cidadã.

O Estatuto apesar de complexo, com 118 artigos e capítulos específicos discorreu sobre
temáticas importantes aos idosos, deixando algumas lacunas e pontos polêmicos, conforme
evidenciou este estudo.

Sua complexidade, entretanto, esbarra nas dificuldades de aplicabilidade da lei. Esta


pesquisa constatou que ainda faltam estudos sobre o Estatuto, o cumprimento do mesmo, o fim
45

da violência contra os idosos, violência esta que não se restringe somente a física e psicológica,
mas outras formas, que também ferem os direitos e a dignidade dos idosos.

No que tange à saúde dos idosos, tema deste estudo, constatou-se que os mesmos ainda
são tratados com indiferença no âmbito da saúde pública, faltam-lhes medicamentos,
atendimento prioritário e de qualidade. A legislação apesar de complexa e completa, não é
cumprida e, delega-se ao poder público uma gama de obrigações, as quais ele não pode arcar,
considerando suas próprias limitações.

A realização deste estudo possibilitou-nos entender que falta entendimento sobre a lei e
seu cumprimento, seja por parte do Estado, como da sociedade civil. A incompreensão sobre
as particularidades que cercam os idosos são muitos e, demanda acima de tudo força de vontade
para que possamos nos colocar no lugar do outro, vislumbrar as dificuldades intrínsecas a esta
fase da vida e, apesar da legislação ser importante, se não houver empenho, ela isoladamente
não conseguirá sanar os problemas desta sociedade em transformação.
46

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