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Teoria do conhecimento (Hessen, 1978)

O que é a filosofia?
De acordo com Platão e Aristóteles é a ciência pura e simples. Para os estoicos e
epicuristas a filosofia é uma aspiração a virtude ou a felicidade.
Cristian Wolf (1679 – 1754) defendia a filosofia como o conhecimento possível.
Friedrich Weber Weg (1826 – 1871) define a filosofia como a ciência dos princípios.
Dada a sua diversidade era preciso encontrar, segundo Hessen (1978), a essência
conceitual da filosofia no interior do seu conteúdo histórico.
Portanto, se fazia mister partir da representação geral que toda pessoa culta tem
da filosofia, ou parafraseando Wilhelm Dilthey (1833 – 1911), é necessário desvendar o
conteúdo comum nos diversos sistemas em que se constitui a representação geral da
filosofia, ou seja, em Platão e Aristóteles, em Descartes e Leibnitz , em Kant e Hegel, nos
quais encontramos uma tendência a universalidade, uma orientação para a totalidade dos
objetos, que se une à atitude intelectual do filósofo em busca do conhecimento que, por
seu tempo, caracteriza-se por sua essência cognoscente. Como pontos principais de toda
a filosofia temos: 1) a orientação para a totalidade dos objetos; 2) o caráter racional e
cognitivo desta orientação. Sócrates expressa a característica atitude teórica da
consciência grega. Seus pensamentos e aspirações destinam-se a construção da vida
humana sobre o conhecimento e a reflexão imbuídos de elevar a vida com todos os seus
conteúdos à consciência filosófica. A consciência filosófica em Platão estende-se ao
conteúdo total da consciência humana, não se restringe aos objetos práticos, aos valores
e as virtudes, mas alcançar o conhecimento cientifico.
A filosofia de Aristóteles, por sua vez, se encaminha para o conhecimento
cientifico e o seu objeto é o ser. Na base de sua filosofia encontra-se uma ciência universal
do ser, a filosofia primeira ou metafisica (ontologia, filosofia e teologia).
Esta ciência nos ensina sobre a essência das coisas, as conexões e o princípio
último da realidade. A filosofia socrático-platônica pode ser caracterizada como uma
concepção da consciência da razão humana e aristotélica como uma concepção do
universo. Os sistemas de René Descartes (1596 – 1650), Baruch Espinoza (1632 – 1677)
e Gottfried Wilheln Leibnitz (1646 – 1716) trilham os mesmos caminhos da concepção
aristotélica. Immanuel Kant (1724 – 1804) retorna ao modelo platônico de caráter
autorreflexivo da consciência. Se mostra primeiramente como teoria do conhecimento,
ou como fundamento crítico do conhecimento cientifico.
A filosofia com Kant se apresenta ainda, como uma reflexão universal da
consciência sobre si mesma, como uma reflexão do homem culto sobre a sua total conduta
de valores.
O modelo aristotélico é mais uma vez revivido com Friedrich Wilhelm Schelling
(1755 – 1854) e com George Wilhelm Hegel (1770 – 1831), no qual a forma exaltada e
exclusivista como se manifesta provoca um movimento contrário igualmente exclusivista,
levando a uma completa desvalorização da filosofia – como a que se revela no
materialismo e no positivismo – e a sua renovação do tipo kantiano, como a que teve
lugar com o neokantismo. O exclusivismo desta renovação constitui na eliminação de
todos os elementos materiais e objetivos – existentes de modo expresso em kant -,
adquirindo a filosofia um caráter meramente formal e metodológico.
Mais um movimento do pensamento filosófico emerge com base nos elementos
materiais e objetivos e contrário ao formalismo e metodismo neokantiano, uma
renovação, portanto, aristotélica, a saber: 1) metafisica indutiva em Eduardo de Hartmann
(1842 – 1906), Wilhelm Wundt (1832 – 1920) e Hans Driesch (1867 – 1941); 2) filosofia
indutiva em Henri Bergon (1859 – 1941); 3) moderna fenomenologia em Edmund
Hursserl (1859 – 1938) e em Max Scheler (1874 – 1928). No entendimento de Johannes
Hessen (1978), a evolução histórica do pensamento filosófico conduziu à determinação
de mais dois elementos na sua essência conceitual: a concepção do eu e a concepção do
universo, antagônicos, mas indissociáveis.
Portanto, a filosofia é simultaneamente as duas coisas: uma concepção do eu e
uma concepção do universo. Nesses termos, quando a filosofia apresenta uma concepção
do universo, a consciência filosófica esta incidindo sobre o macrocosmo, quando incide
sobre o microcosmo apresenta uma concepção do eu. O entendimento tnato do mudo
exterior (macrocosmo – universo) quanto do mundo interior (microcosmo – eu) constitui
a totalidade dos objetos.
A filosofia é uma autorreflexão da consciência sobre o seu comportamento de
valor teórico e prático e, ao mesmo tempo, uma aspiração ao conhecimento das últimas
conexões entre as coisas, e uma “concepção racional do universo”. Em outras palavras, a
filosofia é uma tentativa da consciência humana para chegar a uma concepção do universo
por meio da autorreflexão sobre as funções de valor teóricos e práticos.
Na apreensão de Johannes Hessen (1978) esta definição conceitual é
complementada pelo conjunto das funções superiores da consciência e da cultura –
ciência, arte, religião e moral. A moral se refere ao lado prático do ser humano, pois tem
por sujeito à vontade, já a filosofia pertence por completo ao lado teórico da consciência
humana. Condição que possibilita à filosofia adentrar na ciência e expressar a afinidade
entre ambas, visto que se assentam na mesma função da consciência humana, no
pensamento, porém distinguem-se por seu objeto – as ciências especiais concentram-se
em parcelas da realidade e a filosofia em seu conjunto.
A concepção filosófica do universo é resultado do conhecimento racional do ser
humano, a concepção religiosa, por sua vez, decorre exclusivamente da fé religiosa. O
princípio de que procede e define a sua essência é a vivencia dos valores religiosos, a
experiência de Deus. Portanto, enquanto a concepção filosófica do universo pretende ter
valor universal e ser suscetível de uma demonstração racional, a aceitação da concepção
religiosa do universo depende, de modo decisivo, de fatores efetivamente subjetivos.
A filosofia como concepção do universo se divide em metafisica e em teoria do
universo em sentido restrito, que investiga os problemas de Deus, a liberdade e a
imortalidade. A filosofia como teoria dos valores se divide em relação às diferentes
classes de valores, em teoria dos valores éticos, estéticos e religiosos. A filosofia como
teoria da ciência se divide em formal (lógica) e material (teoria do conhecimento).
A teoria do conhecimento é parte constituinte da teoria da ciência, ou melhor,
teoria material da ciência, ou ainda, teoria dos princípios materiais do conhecimento.
Enquanto a lógica se ocupa da investigação dos princípios formais do conhecimento, a
teoria do conhecimento concentra-se nos pressupostos materiais mais gerais do
conhecimento cientifico, dirige-se justamente para a significação objetiva do pensamento
verdadeiro (ciência filosófica fundamental), em oposição à lógica, teoria do pensamento
correto.