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UFCD 3239 - Acompanhamento de crianças: desenvolvimento infantil 1

ACOMPANHAMENTO DE CRIANÇAS:
DESENVOLVIMENTO INFANTIL

UFCD 3239
ÍNDICE
Fall
08
2

1.Psicologia e conceito do desenvolvimento da criança - definição………...3

2.Psicologia e pedagogia …………………………………………………………....5

3.Desenvolvimento, crescimento e maturação da criança………….………... 6

4.Factores condicionantes do desenvolvimento infantil…………….…………8

5.Fases do desenvolvimento infantil……………………………………………...11

6.Desenvolvimento físico e psicomotor…………………………………….…….15

7.Desenvolvimento cognitivo - a teoria de Jean Piaget……………………….18

8.Desenvolvimento da linguagem…………………………………………………21

9.Desenvolvimento sócio-afectivo………………………………………….……..24

9.1.Interacção mãe/filho…………………….………………………………………24

9.2.Entrada no grupo………………………….…………………………….………25

9.3.Criança e o adulto………………………….…………………………………...27
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1.Psicologia e conceito do desenvolvimento da criança - definição

As definições de psicologia têm variado no tempo e de acordo com as


características de seus autores. Contudo hoje a Psicologia é, comummente, definida
como a ciência que estuda a mente e o comportamento humano, tentando através de
processos múltiplos compreender o modo como o ser humano se individualiza.

A Psicologia do desenvolvimento visa a descrição, explicação e otimização dos


processos de desenvolvimento ao longo de toda a vida, da conceção até à morte.

Compreender as mudanças contínuas do ser humano operadas ao longo da vida e


descobrir as razões dessas mudanças tem constituído um desafio para a Psicologia,
nomeadamente para os psicólogos do desenvolvimento. Por desenvolvimento entende-
se o conjunto de mudanças contínuas no ser humano ao longo da sua existência.

O desenvolvimento humano é um processo de crescimento e mudança a nível


físico, do comportamento, cognitivo e emocional ao longo da vida. Em cada fase surgem
características específicas.

O conceito de desenvolvimento pressupõe assim uma sequência de alterações


graduais que levam a uma maior complexidade no interior de um sistema ou
organismo. Na evolução por que passa cada indivíduo desenham-se estádios que
seguem uma ordem praticamente imutável, mas o tempo de permanência em cada um
deles varia conforme o indivíduo.

A psicologia do desenvolvimento é uma área especializada da Psicologia que só


amadureceu no século XIX. Até à contemporaneidade, era impossível o aparecimento
desta área de investigação, devido aos estereótipos que se mantinham acerca do
conceito de criança e da pouca importância que lhe era concedida.

O desenvolvimento na infância está relacionado com o desenvolvimento ao longo


do resto do ciclo de vida, o desenvolvimento não termina na adolescência. Atualmente, a
maior parte dos estudiosos da área concorda que o desenvolvimento decorre ao longo de
toda a vida do ser humano.

O desenvolvimento da criança diz respeito ao estudo científico dos modos


como as crianças mudam, assim como dos modos como permanecem na mesma,
desde a conceção até à adolescência.
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Existem dois tipos de mudanças desenvolvimentais: quantitativa e qualitativa
Mudança quantitativa é uma mudança no número ou quantidade, tal como na altura,
peso, vocabulário ou frequência de comunicação.
Mudança qualitativa é uma mudança no tipo, estrutura ou organização, tal como a
mudança que ocorre numa criança, de não-verbal para ser capaz de compreender
palavras e de comunicar verbalmente.

Apesar dos processos físicos e psicológicos do desenvolvimento serem os


mesmos para todas as crianças normais, o seu resultado é diferente – tal como os adultos
são diferentes entre si.

O conhecimento das diferentes etapas do desenvolvimento, a sua antecipação e


aconselhamento sobre as actividades que podem ajudar a promover a aquisição das
competências, podem evitar alguns dos problemas relacionados com factores ambientais
e erros ou lacunas na estimulação da criança. Assim, mais do que apenas detectar os
desvios patológicos da normalidade, é importante saber detectar também os desvios
fisiológicos e passíveis de correcção através de medidas simples. Pode fazer a diferença
incentivar os pais a brincar com o seu filho de uma forma mais dirigida, ensinando-os a
dirigir os seus estímulos e a saber que jogos usar.

Por outro lado, o reconhecimento dos desvios patológicos é também importante


para que as crianças sejam sinalizadas mais cedo. Uma avaliação do desenvolvimento
mais completa e especializada e iniciar intervenção o mais precocemente possível,
tentando aproveitar a plasticidade cerebral para recuperar algumas competências e para
evitar o acumular de dificuldades.

2.Psicologia e pedagogia
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Existem muitas dúvidas quanto à delimitação das áreas da pedagogia e da


psicologia. Questões como “o meu filho está com dificuldades na escola, preciso de um
psicólogo ou de um pedagogo?” ou “preciso que meu filho reforce alguns conteúdos com
a pedagoga, mas a escola pediu que fosse realizada uma avaliação psicopedagógica e eu
não entendo qual a diferença?” são muito comuns.

A Psicologia e a Pedagogia, apesar de ciências distintas, têm muitas


convergências sendo por isso fundamental compreender a especificidade de cada uma.

A Psicologia encontra-se focada no desenvolvimento humano, quer ao nível


do comportamento quer ao nível das emoções. Os Psicólogos podem especializar-se
em diferentes áreas como clínica, educacional ou organizacional. Caso o psicólogo esteja
a trabalhar com crianças deverá aprofundar o seu conhecimento nessa área de modo a
entender o funcionamento da criança e do seu processo de aprendizagem Neste âmbito,
poderá atuar nas escolas (auxiliar em projetos educativos da escola entre outras
atividades) ou então na clínica (avaliações psicológicas, palestras e intervenção, sendo
que seu foco de trabalho serão as questões emocionais, familiares, sociais e escolares da
criança, as quais podem ou não estar relacionadas ao processo de aprendizagem do
aluno.

A Pedagogia é uma ciência que começou a desenvolver-se no século XIX. A


pedagogia estuda diversos temas relacionados à educação, tanto no aspecto teórico
quanto no prático. A pedagogia tem como objetivo principal a melhoria no processo
de aprendizagem dos indivíduos, através da reflexão, sistematização e produção de
conhecimentos. Como ciência social, a pedagogia esta conectada com os aspectos da
sociedade e também com as normas educacionais do país.

Tal como foi referido existem muitas convergências entre a Psicologia e a


Pedagogia pelo que a parceria entre psicólogos e pedagogos é muito rica e eficaz, uma
vez que ambas as profissões têm como foco o bem estar dos indivíduos e seu
desenvolvimento. Estes profissionais contribuem com o seu trabalho para que a
aprendizagem, o comportamento, a identidade, a sociabilidade e outros elementos que
completam o ser humano ocorram da melhor forma possível.

3.Desenvolvimento, crescimento e maturação da criança


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A primeira infância parece ser o período mais rico do desenvolvimento, não


deixando, contudo de ser igualmente crítico. É, por isso, essencial compreender que a
maturação e o desenvolvimento da criança pressupõem um processo contínuo de
mudanças.

O desenvolvimento parece, assim, consistir num processo no qual a criança,


enquanto ser multidimensional (biológica, cognitiva, social e emocionalmente),
interage em ambientes variados, que incluem os pais (com as suas características
biológicas, cognitivas, sociais e emocionais) e outras figuras complementares de
ligação, bem como pares, escola, cultura, etc.

Parece que os efeitos a longo prazo das experiências da primeira infância são, em
certa medida, reversíveis. Contudo as bases estão lançadas e tendem a manter-se
razoavelmente estáveis. As privações sofridas neste período, sobretudo ao nível cognitivo,
não parecem ser facilmente compensadas em fases subsequentes, podendo mesmo ter
efeitos adversos no desenvolvimento futuro.

O desenvolvimento ao longo da infância é, sobretudo, marcado por um


progressivo desenvolvimento físico, gradual crescimento em termos de altura e
peso, especialmente nos três primeiros anos de vida. É ainda um período em que o
ser humano tem a oportunidade de se desenvolver psicologicamente, abrangendo
graduais mudanças de comportamento, construindo, desta forma, as bases da sua
personalidade

O desenvolvimento remete para a capacidade progressiva do ser humano em


realizar tarefas cada vez mais complexas = interação entre fatores biológicos, culturais e
sociais em que está inserido.

Durante a primeira infância as crianças saudáveis crescem e desenvolvem-se em


todas as áreas: física, mental e emocionalmente e apresentam-se como protagonistas de
um complexo processo de crescimento (aumento de peso e estatura) que acompanha o
desenvolvimento (amadurecimento das funções biológicas). Ganham controlo muscular,
equilíbrio e coordenação óculo-manual (aprendizagem que necessita de árdua
aprendizagem), os quais possibilitam a aquisição de habilidades motoras básicas, tais
como andar com maior equilíbrio, correr, “chutar” ou atirar uma bola.

Desenvolvem-se ao seu próprio ritmo, acompanhadas por um desenvolvimento


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gradual da visão e controlo do intestino e da bexiga (pelo menos durante o dia). Os
gestos, movimentos e posturas corporais são por isso portadoras, nos primeiros anos, de
grande significação para todos aqueles que interagem com a criança.

É sobre essas bases do desenvolvimento que se vai construir o ser humano que
se caracteriza pelo seu comportamento individual, inteligência, emotividade e capacidade
criativa.

Na verdade, o desenvolvimento não parece processar-se em áreas ou


sistemas independentes, mas de maneira global e interdependente. Fatores de
ordem social e cultural são determinantes, por exemplo, para o alcance de maturidade
emocional e intelectual.

As (inter) ações com pessoas ou objetos fortalecem e exercitam as sinapses


(conexões cerebrais) que serão utilizadas o resto da vida. Deste modo, as experiências,
positivas ou negativas, pelas quais as crianças passam influenciam o modo como o
cérebro se irá programar na idade adulta.

Independentemente de todas as crianças atravessarem este processo, o ritmo de


desenvolvimento varia. Apesar de progredirem, normalmente, através da mesma
sequência geral de desenvolvimento, há um leque muito alargado de diferenças
individuais normais.

Na verdade, cada criança, sendo uma criança como as outras crianças, não deixa,
por esse motivo, de ser única em muitos aspectos. As diferenças e mudanças reveladas
pelas crianças parecem estar associadas à maturação do corpo e do cérebro,
espelhando, assim, uma manifestação natural e geneticamente estabelecida de mutações
físicas e padrões de comportamento, incluindo a propensão para o alcance e domínio de
novas capacidades ou, por outro lado, para manifestar comportamentos-problema.

4.Factores condicionantes do desenvolvimento infantil


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O desenvolvimento da criança é afetado por um conjunto de fatores que podem


ser promotoras ou constituir risco para o desenvolvimento.

Factores Promotores do Desenvolvimento

Fatores de Risco para o Desenvolvimento


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Para que o desenvolvimento da criança percorra todas as áreas fundamentais, a
mulher (enquanto gestante) deve procurar proceder a uma série de
comportamentos fundamentais que permitam o bom desenvolvimento intrauterino.

Após o nascimento, a criança deve, ver as suas necessidades nutricionais e de


sono satisfeitas, sentir-se segura e amada dentro do núcleo familiar e dispor de
várias oportunidades de interação social em ambientes construtivos, estimulantes e
seguros.

O acompanhamento médico adequado e a prevenção de situações de doença


frequente (ou compreensão face a doenças crónicas, por exemplo) parecem contribuir,
conjuntamente com outras condições, para o bom desenvolvimento da criança, enquanto
estruturas positivas de apoio.

Efetivamente, o desenvolvimento da criança parece ocorrer através da satisfação


das necessidades básicas de saúde e higiene, do envolvimento afetivo, da
convivência intensa e da exposição contínua ao mundo do adulto. O envolvimento do
bebé em trocas internacionais significativas permite concretizar uma das necessidades
primárias da criança: o apego ou vinculação (o conceito de vinculação será explorado
adiante).

Uma vinculação segura depende de um grau ótimo de estimulação interativa, de


um parceiro previsível, comunicativo e que transmita segurança. Daí que se assuma que
a fala materna carinhosa, o contacto físico próximo, o colo e a amamentação natural, por
exemplo, produzem (muito provavelmente) efeitos surpreendentes no desenvolvimento.
Por outro lado, a baixa qualidade nas relações estabelecidas com os pais, caracterizadas
como comportamentos hostis, punitivos, autoritários, inconsistentes e a fraca afeição e
atenção parecem estar estreitamente associados ao aparecimento de problemas na
criança ao nível do desenvolvimento psicológico.

A mãe, em especial, sempre surgiu como figura central no mundo da criança.


Contudo, em poucas décadas, o pai começou também a marcar o seu lugar envolvendo-
se e participando ativamente na educação e cuidados prestados à criança. A presença da
figura paterna junto dos seus filhos enriquecem a autoimagem destes e contribuem para
um apoio familiar mais estável à criança. Desta forma, o envolvimento do pai traduz-se
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num fator positivo no desenvolvimento da criança.

O apoio social dado pelos avós contribui, igualmente, para um crescimento


saudável. Estas figuras dão um sentido de continuidade aos pais, um laço vital. Também
os irmãos e outros membros da família possibilitam a construção da estrutura
básica a partir da qual se desenvolve a personalidade da criança, favorecendo o bom
desenvolvimento da criança durante os primeiros anos de vida.

A partir da altura em que a criança ingressa num contexto de acolhimento (creche,


por exemplo), os educadores (e auxiliares ou amas) passam, igualmente, a ser
figuras de referência com grande responsabilidade aos níveis da educação e
prestação de cuidados de saúde, higiene e segurança. Estes adultos passam, assim, a
ser modelos a imitar e pessoas em quem se espera que a criança confie.

Em suma, tudo aquilo que é promovido visando o bem-estar da criança assume-se


como um fator favorável ao desenvolvimento. Sempre que surgirem obstáculos ou crises,
cabe aos adultos auxiliar a criança na descoberta das suas potencialidades e
competências, a fim de que se construam os alicerces pessoais de defesa, resiliência e
autonomia, fundamentais ao aparecimento da autoconfiança e da auto-motivação.
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5.Fases do desenvolvimento infantil

DOS 0 AOS 6 MESES

 A aprendizagem faz-se sobretudo através dos sentidos;


 Vocaliza espontaneamente, sobretudo quando está em relação:
 A partir dos 4 meses, começa a imitar alguns sons que ouve à sua volta;
 Por volta do 6º mês, compreende algumas palavras familiares (o nome dele,
"mamã", "papá"...), virando a cabeça quando o chamam.

DOS 06 AOS 12 MESES

 A aprendizagem faz-se sobretudo através dos sentidos, principalmente através da


boca;
 Desenvolvimento da noção de permanência do objeto, ou seja, a noção de que
uma coisa continua a existir mesmo que não a consiga ver;
 Vocalizações: Os gestos acompanham as suas primeiras "conversas", exprimindo
com o corpo aquilo que quer ou sente (por ex., abre e fecha as mãos quando quer
uma coisa); Alguns dos seus sons parecem-se progressivamente com palavras,
tais como "mamã" ou "papá" e ao longo dos próximos meses o bebé vai tentar
imitar os sons familiares, embora inicialmente sem significado;
 A partir dos 8 meses: desenvolvimento do palrar, acrescentando novos sons ao
seu vocabulário. Os sons das suas vocalizações começam a acompanhar as
modulações da conversa dos adultos - utiliza "mamã" e "papá" com significado;
 Nesta fase, o bebé gosta que os objetos sejam nomeados e começa a reconhecer
palavras familiares como "papa", "mamã", "adeus", sendo progressivamente capaz
de associar ações a determinadas palavras (por ex., "chau-chau" - acenar);
 A partir dos 10 meses, a noção de causa-efeito encontra-se já bem desenvolvida:
o bebé sabe exatamente o que vai acontecer quando bate num determinado
objeto (produz som) ou quando deixa cair um brinquedo (o pai ou a mãe apanha-
o). Começa também a relacionar os objetos com o seu fim (por ex., coloca o
telefone junto ao ouvido);
 Progressiva melhoria da capacidade de atenção e concentração: consegue
manter-se concentrado durante períodos de tempo cada vez mais longos;
 A primeira palavra poderá surgir por volta dos 10 meses;

DE 01 AOS 02 ANOS

 Maior desenvolvimento da memória, através da repetição das atividades - permite-


lhe antecipar os acontecimentos e retomar uma atividade momentaneamente
interrompida, à qual dedica um maior tempo de concentração.
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 Da mesma forma, através da sua rotina diária, o bebé desenvolve um
entendimento das sequências de acontecimentos que constituem os seus dias e
dos seus pais;
 Exibe maior curiosidade: gosta de explorar o que o rodeia;
 Compreende ordens simples, inicialmente acompanhadas de gestos e, a partir dos
15 meses, sem necessidade de recorrer aos gestos;
 Embora possa estar ainda limitada a uma palavra de cada vez, a linguagem do
bebé começa a adquirir tons de voz diferentes para transmitir significados
diferentes. Progressivamente, irá sendo capaz de combinar palavras soltas em
frases de 2 palavras;
 É capaz de acompanhar pedidos simples, como por ex. "dá-me a caneca";
 As experiências físicas que vai fazendo ajudam a desenvolver as capacidades
cognitivas. Por exemplo, por volta dos 20 meses sabe que um martelo de brincar
serve para bater e já o deve utilizer;
 Entre os 20 e os 24 meses é também capaz de brincar ao faz-de-conta (por ex.,
finge que deita chá de um bule para uma chávena, põe açúcar e bebe).

DOS 02 AOS 03 ANOS

 Fase de grande curiosidade, sendo muito frequente a pergunta "Porquê?";


 À medida que se desenvolvem as suas competências linguísticas, a criança
começa a exprimir-se de outras formas, que não apenas a exploração física -
trata-se de juntar as competências físicas e de linguagem (por ex., quando faço
isto, acontece aquilo), o que ajuda ao seu desenvolvimento cognitivo;
 Desenvolvimento da consciência de si: a criança pode referir-se a si própria como
"eu" e pode conseguir descrever-se por frases simples, como "tenho fome";
 A memória e a capacidade de concentração aumentaram (a criança é capaz de
voltar a uma atividade que tinha interrompido, mantendo-se concentrada nela por
períodos de tempo mais longos);
 A criança está a começar a formar imagens mentais das coisas, o que a leva à
compreensão dos conceitos - progressivamente, e com a ajuda dos pais, vai
sendo capaz de compreender conceitos como dentro e fora, cima e baixo;
 Por volta dos 32 meses, começa a apreender o conceito de sequências numéricas
simples e de diferentes categorias (por ex., é capaz de contar até 10 e de formar
grupos de objetos - 10 animais de plástico podem ser 2 vacas, 5 porcos e 3
cavalos);
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DOS 03 AOS 04 ANOS

 Compreende a maior parte do que ouve e o seu discurso é compreensível para os


adultos;
 Utiliza bastante a imaginação: início dos jogos de faz-de-conta e dos jogos de
papéis;
 Compreende o conceito de "dois";
 Sabe o nome, o sexo e a idade;
 Repete sequências de 3 algarismos;
 Começa a ter noção das relações de causa-e-efeito;
 É bastante curiosa e inquiridora;

DOS 04 AOS 05 ANOS

 Adquiriu já um vocabulário alargado, constituído por 1500 a 2000 palavras;


manifesta um grande interesse pela linguagem, falando incessantemente;
 Compreende ordens com frases na negativa;
 Articula bem consoantes e vogais e constrói frases bem estruturadas;
 Exibe uma curiosidade insaciável, fazendo inúmeras perguntas;
 Compreende as diferenças entre a fantasia e a realidade;
 Compreende conceitos de número e de espaço: "mais", "menos", "maior", "dentro",
"debaixo", "atrás";
 Começa a compreender que os desenhos e símbolos podem representar objetos
reais;
 Começa a reconhecer padrões entre os objetos: objetos redondos, objetos macios,
animais...

DOS 05 AOS 06 ANOS

 Fala fluentemente, utilizando corretamente o plural, os pronomes e os tempos


verbais;
 Segue instruções e aceita supervisão;
 Conhece as cores, os números, etc.; pode identificar e distinguir euros e cêntimos;
 Capacidade para memorizar histórias e repeti-las;
 É capaz de agrupar e ordenar objetos tendo em conta o tamanho (do mais
pequeno ao maior);
 Começa a entender os conceitos de "antes" e "depois", "em cima" e "em baixo",
etc., bem como conceitos de tempo: "ontem", "hoje", "amanhã";

DOS 06 AOS 07 ANOS


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 Tem uma noção mais clara das diferenças de sexo;
 Começa a ter memórias contínuas e mais organizadas;
 Desenvolvimento das capacidades de raciocínio;
 Passagem de uma aprendizagem através da observação e da experiência para
uma aprendizagem através da linguagem e da lógica;
 A maioria das crianças aprende a ler e a escrever nesta idade.

DOS 07 AOS 08 ANOS

 Está disponível para a aprendizagem. Utiliza um pensamento reflexivo; os


pensamentos podem basear-se na lógica; consegue resolver problemas de maior
complexidade; Boa capacidade de atenção e concentração;
 Gosta de colecionar objetos e fala acerca dos seus desejos e projetos, textos e
desenhos;
 Baseia-se mais na realidade.

DOS 08 AOS 09 ANOS

O seu pensamento está mais organizado e lógico;


Preocupa-se em perceber a razão das coisas que a rodeiam;
Sobrestima frequentemente as suas capacidades, com consequente frustração em caso
de insucesso;

DOS 09 AOS 10 ANOS

 Manifesta preferência por trabalhos e tarefas mais complexas;


 Tem interesses definidos e uma grande curiosidade; procura e memoriza factos;
emprega um raciocínio e pensamento abstratos;
 As diferenças individuais tornam-se mais marcadas;
 Gosta de ler, escrever e de utilizar livros e referências;

DOS 10 AOS 11 ANOS

 Está alerta e bastante segura de si;


 Tem muitos interesses de curta duração
 Desenvolvimento Social
 É bastante seletiva nas suas relações: pode ter um(a) melhor amigo(a).
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6.Desenvolvimento físico e psicomotor

O desenvolvimento psicomotor é um processo contínuo durante o qual se dá


a evolução da inteligência, da comunicação, da afectividade, da sociabilidade e da
aprendizagem de forma global e simultânea. Decorre por etapas e depende da
maturação do sistema nervoso central. Todas as crianças passam por todas as etapas,
embora o ritmo na aquisição possa variar de uma para a outra.

Quando a criança nasce, mostra aquilo que conhecemos como reflexos


primitivos, que, mais tarde, possibilitarão os movimentos voluntários. Estes reflexos,
inatos em todas as crianças, permitem ao bebé realizar as funções básicas de respirar,
comer ou virar a cabeça à procura do peito ou da tetina do biberão.

Durante os dois primeiros anos de vida, o desenvolvimento da motricidade e


do psiquismo confundem-se e sobrepõem-se através do desenvolvimento
sensorial, motor e cognitivo, que constituem o desenvolvimento psicomotor. Neste
desenvolvimento intervêm factores genéticos, factores do meio em que a criança vive e o
sexo do bebé. Os factores genéticos referem-se a tudo o que cada criança herda dos
pais. Por outro lado, em função do meio em que o bebé viva, aprenderá rapidamente o
que lhe ensinamos. Daí ser tão importante proporcionarmos à criança um ambiente
estimulante, a possibilidade de brincar e de explorar, porque assim oferecemos-lhe uma
oportunidade única de adquirir rapidamente conhecimentos. O sexo também tem
influência sobre o modo como um bebé se vai desenvolvendo. Por exemplo, as meninas
têm mais facilidade para aprender a linguagem, e os meninos, por outro lado, são
geneticamente mais hábeis no desenvolvimento da motricidade.

No início, a aprendizagem é muito global, isto é, o bebé aprende de forma


simultânea a deslocar-se, a prestar atenção ao que lhe dizem, a estabelecer um
vínculo com a figura de afeição, etc. À medida que o bebé vai crescendo, podemos
estimulá-lo de forma mais precisa. Podemos estimular apenas a sua motricidade, a
linguagem ou a percepção, e assim sucessivamente com todas as capacidades.

Neste contexto importa distinguir os conceitos de motricidade global e


motricidade fina. A motricidade global diz respeito a movimentos amplos dos membros enquanto a
motricidade fina relaciona-se com a coordenação óculo-manual).
UFCD 3239 - Acompanhamento de crianças: desenvolvimento infantil 16

Motricidade Global Motricidade fina/visão


- Em decúbito ventral, levanta a cabeça - As mãos ainda estão muito fechadas.
4-6 SEMANAS

de forma intermitente, no entanto se - A visão é imperfeita, vendo apenas contrastes


traccionado pelas mãos ainda não tem fortes e formas redondas.
controlo cefálico. - Pode apresentar estrabismo, porque o controlo
- Mantém reflexos primitivos (marcha dos músculos oculares é ainda pouco eficaz.
automática, preensão palmar, etc.).
- Sentado, mantém o dorso em arco.
- Em suspensão ventral mantém cabeça
erecta e membros semi-flectidos.
- Em decúbito ventral eleva a cabeça e o - Abre e fecha as mãos.
3 MESES

tronco, com apoio nos antebraços. - Brinca com elas e levando-as à linha média (à
- Em decúbito dorsal estica as pernas e boca).
dá pontapés de forma ritmada e - Tenta agitar objectos com a mão. Quando
simétrica. colocada na mão, segura a roca e leva-a para a
- Quando apoia os pés flecte as pernas face e agita-a.
não fazendo força para ficar de pé. - Olha com interesse para faces.
- Quando traccionado pelas mãos, - A visão continua imperfeita mas segue na
mantém a cabeça erecta e rectifica a horizontal e na vertical o movimento
metade superior do dorso. - Ainda pode ter estrabismo, sobretudo quando se
aproxima o objecto
- Em decúbito ventral, faz apoio nas - Faz preensão palmar, alcançando o objecto
6 MESES

mãos. volunta- riamente, transfere de uma mão para a


- Em decúbito dorsal eleva a cabeça e outra e pode já segurar dois brinquedos.
os membros inferiores; descobre os - Leva objectos à boca como forma de exploração
pés podendo agarrá-los e levar à boca (oral).
já que nesta fase há uma hipotonia - Não tem noção de permanência do objecto pelo
transitória com grande flexibilidade de que esquece o que sai do seu campo visual, não
movimentos. procu- rando o brinquedo que cai.
- Rola e vira-se, pode já conseguir - A visão é agora nítida e a convergência melhor,
deslocar-se tipo ponteiros do relógio sen- do o estrabismo raro ou inconstante e
quando em decúbito ventral. apenas em situações extremas do olhar.
- Quando traccionado pelas mãos, faz - Completa o desenvolvimento da visão cromática.
força para sentar. Pode ficar sentado - Amadurece visão à distância e capacidade de
sem apoio, mas ainda não tem seguir objectos.
reacções de protecção lateral, pelo que
pode cair.
- De pé faz apoio.
- Passa de decúbito dorsal a sentado. - Explora os brinquedos de várias formas.
12 MESES

- Tem bom equilíbrio sentado. - Procura o objecto escondido (debaixo de um pano


- Gatinha ou desloca-se rastejando ou ou embrulhado) e abre a caixa à procura do
mudando de posição. conteúdo.
- Põe-se de pé e baixa-se com ajuda das - Tem interesse visual para perto e para longe (já
mãos, anda com apoio vê o avião ou o passarinho).
- Bate um cubo no outro em imitação. Usa objectos
de forma funcional (copo, telefone, escova cabelo,
etc.).

Desenvolvimento motor no primeiro ano de vida


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Desenvolvimento motor ao longo da infância


18
Motricidade Global Motricidade fina/visão
-

18 MESES
- Anda bem, recua, Tem a lateralidade mais definida, faz rabiscos no papel, empilha
baixa-se e apanha um três cubos.
brinquedo do chão e - Olha para o livro e volta páginas, com mais interes- se no conteúdo.
dá uma corrida - Faz puzzle de três peças com formas simples, com noção de forma
pequena. e cor.
- Sobe escadas com
apoio.
2 ANOS

- Corre bem, chuta a - Lateralidade mais definida, usa mais uma mão.
bola, salta a pés - Constrói torres de seis cubos.
juntos, sobe e desce - Imita rabisco circular.
degraus. - Coordena as duas mãos, deitando água de um para outro
recipiente.
- Vê o livro, passando página a página.
- Tem noção de cores e formas e sabe seleccionar por grupos
iguais.
- Desenrosca a tampa da garrafa.
4 ANOS

- Salta num pé, corre, - Faz construções e puzzles mais complexos (escada de seis cubos).
pedala e anda em - Copia a cruz e o quadrado.
cima de um muro, com - Desenha a figura humana (girino).
maior capacidade de - Faz dobragens em imitação, corta com tesoura.
equilíbrio. - Nomeia quatro a seis cores.
- Sobe e desce escadas
com alternância dos
pés.
6 ANOS

- Bate a bola e apanha, - Desenha a figura humana e a casa com pormenor, es- creve letras
atira ao ar e apanha. e alguns números, escreve o seu nome.
- Saltita e salta bem ao - No caso de ainda não ter lateralidade bem definida (pode só se
«pé coxinho». completar por volta dos sete anos) pode cometer erros
visuoespaciais e desenhar letras em espelho e ainda não ter a
noção das regras de escri- ta (sequência da esquerda para a
direita, que as le- tras devem ficar todas juntas e as palavras
separadas por espaços, etc.), o que deve ser corrigido e ensina- do
activamente. Não são indicadores de dislexia, nem de necessidade
de correcção visual.
- Faz encaixes complexos e construções criativas e replica formas
sem modelo

7.Desenvolvimento cognitivo - a teoria de Jean Piaget

O trabalho inicial de Jean Piaget com os primeiros testes de QI, convenceu-o de


que tais testes estandardizados (reduzidos a um só tipo) deixam escapar muito do que é
especial e importante acerca dos processos de pensamento da criança. Para analisar
estes processos, Piaget observou, desde a infância, os seus próprios filhos assim como
outras crianças. O pensamento da criança, conclui o autor, é qualitativamente diferente
(diferente na forma) do pensamento adulto.
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Enquanto alguns investigadores mediam diferenças individuais na quantidade de


inteligência que os adultos e as crianças têm, Piaget propôs sequências universais -
etapas de desenvolvimento cognitivo ao longo da infância e da adolescência.

Estádio sensório - motor - (0 - 2 anos)

 Inteligência prática, baseada nas sensações e nos movimentos (o mundo que


existe para o bebé é apenas aquele que ele vê, ouve ou sente e sobre o qual age);
 Antes dos 8 meses: é como se o mundo não fosse constituído por objetos, mas
sim por uma sucessão de imagens, sem ligação entre si, em que as coisas deixam
de existir quando deixam de ser percecionadas;
 A partir dos 8 meses: adquire a noção de permanência do objeto (existem objetos
independentemente de os estar a percecionar);
 Progressivamente, vai sendo capaz de agir intencionalmente, de modo cada vez
mais coordenado, para obter o fim pretendido (ex.: obter um objeto), utilizando,
para tal, não só a ação do próprio corpo, como fazia anteriormente, mas também
outros objetos;
 No final deste estádio: surge a capacidade de representação mental e de
simbolização (representação mentalmente não só a permanência do objeto, mas
também as relações que se estabelecem entre os objetos); a inteligência centrada
na ação dá lugar ao pensamento (representação mental) - o pensamento é ação
interiorizada.

Estádio pré-operatório - (2-7 anos)


 Função simbólica: capacidade de representação mental e simbolização;
 Egocentrismo intelectual: a criança acha que o mundo foi criado para si e não é
capaz de perceber o ponto de vista do outro (acha que os outros pensam e
sentem da mesma forma que ela);
 Animismo: o egocentrismo estende-se aos objetos e outros seres vivos, aos quais
a criança atribui intenções, pensamentos, emoções e comportamentos próprios do
ser humano;

 Pensamento mágico: a realidade é aquilo que a criança sonha e deseja, e dá


explicações com base na sua imaginação, sem ter em consideração questões de
lógica;
 Interessa-se essencialmente por resultados práticos;
 A sua perceção imediata é encarada como verdade absoluta, sem perceber que
podem existir outros pontos de vista: privilegia as suas perceçõessubjetivas,
desprezando as relações objetivas. Não percebe as diferenças entre as mudanças
entre as mudanças reais e aparentes e, portanto, responde com base na
aparência, acreditando que é o real. Ex.: são apresentados à criança dois corpos
iguais com a mesma quantidade de água. À sua frente, verte-se a água de um
20
copo deles para um copo, alto e fino. A criança afirma que agora este copo alto e
fino tem mais água do que o outro. Não compreende que a quantidade de água
permanece a mesma, independentemente do recipiente em que é colocada. Ou
seja, responde com base na aparência (como o segundo copo parece maior,
porque é mais alto, a criança pensa que tem mais água);
 O pensamento é pré-operatório - a criança não consegue efetuar operações
mentais. No exemplo acima, não percebeu que, durante a passagem da água do
primeiro copo de água para o segundo (alto e fino), houve algo que não mudou: a
quantidade de água permaneceu sempre a mesma. Também não tem consciência
de que as transformações na aparência da água (passagem de um copo baixo
para um copo alto) são reversíveis (pode logo a seguir deitar a água do copo alto e
fino para o copo mais baixo).

Estádio das operações concretas (7-11/12 anos)

 Pensamento lógico: tem capacidades para realizar operações mentais, pois


compreende que existem ações reversíveis (percebe que é possível transformar o
estado de um objeto, sem que todo o objeto mude, e depois reverter esta
transformação, voltando ao estado inicial);
 Compreende a existência de conceitos - características que não variam em função
das mudanças dos objetos, mas que existem para além deles e podem ser
aplicados a muitas outras situações para além daquela associação que foi
primeiramente apresentada (contrariamente ao que sucedia no estádio anterior).
Se a situação referida no exemplo acima fosse apresentada a uma criança neste
estádio, ela já seria capaz de perceber que a quantidade de água é uma
característica que não varia conforme o copo em que é colocada;
 Já não se baseia na perceção imediata e começa a compreender a existência de
características que se conservam, independentemente da sua aparência: adquire
assim a noção de conservação da matéria sólida (ou substância), mais tarde da
líquida (exemplo acima referido da conservação da qualidade de água), depois do
peso e, por fim, do volume;
 A existência de conceitos vai permitindo compreender a relação parte-todo, fazer
classificações (agrupar objetos segundo determinada característica comum,
abstraindo-se das suas diferenças), seriações (ordenar objetos Segundo uma
característica que tem diferentes graus; abstrai-se dassemelhanças) e
perceber a conservação do número (implica coordenar a classificação e a
seriação).

Estádio das operações formais (12-16 anos)

 Consegue realizar não só operações concretas mas também operações formais.


Ex.: Problema. Três pessoas A, B e C estão sentadas num banco de jardim.
Quantas hipóteses existem relativamente à ordem em que estão sentadas? Neste
estádio, já é possível resolver este problema usando o pensamento abstrato
(operação formal): consegue-se colocar mentalmente todas as hipóteses. No
21
estádio operatório-concreto, a criança não conseguia abstrair: só seria capaz de
resolver este problema se tivesse três pessoas sentadas num banco e se pudesse
posicioná-las em todas as sequências possíveis. Resposta ao problema: seis
hipóteses - ABC, ACB, BAC, CAB e CBA;
 Pensamento abstrato: é capaz de se desprender do real e raciocinar sem se
apoiar em factos, ou seja, não precisa de operacionalizar e movimentar toda a
realidade para chegar a conclusões;
 Raciocínio hipotético-dedutivo: coloca hipóteses, formulando mentalmente todo o
conjunto de explicações possíveis;
 Percebe que existem múltiplas formas de perspetivar a realidade e que a sua
perceção é apenas uma dentro de um conjunto de possibilidades;
 É capaz de pensar sobre o próprio pensamento e sobre os pensamentos das
outras pessoas e, portanto, percebe que, face a uma mesma situação, diferentes
pessoas têm diferentes pontos de vista.

8.Desenvolvimento da linguagem

Os seres humanos não têm de falar para comunicar, mas não há dúvida de
que as palavras clarificam muito melhor a transmissão de informações e pensamentos.
Nos primeiros anos de vida, a linguagem corporal desempenha um papel importante.

Não é só o rosto que revela emoções, são também os gestos. Podemos abrir os
braços por nos sentirmos alegres ou tristes. Talvez nem sequer percebamos que lemos
muitos destes sinais. Mas toda a gente sabe ler os sinais mais elaborados, como as
expressões faciais.
22

As crianças começam a fazer estes sinais nas primeiras semanas de vida, embora
não se apercebam disso. Começam a usar sinais para comunicar intenções cerca dos 7
ou 8 meses.

A crescente capacidade da criança para utilizar a linguagem, um sistema de


comunicação baseado em palavras e gramática, é um elemento crucial no
desenvolvimento cognitivo. A partir do momento em que conhece as palavras, ela
pode utilizá-las para representar objetos e ações. Ela pode refletir acerca das
pessoas, locais e objetos; pode comunicar as suas necessidades, sentimentos e ideias
para exercer controlo sobre a sua própria vida.

O crescimento da linguagem ilustra a interação entre todos os aspectos do


desenvolvimento: físico, cognitivo, emocional e social. À medida que as estruturas
físicas, necessárias à produção de sons, sofrem maturação, e que as conexões
neuronais, necessárias à associação de sons e de significados se tornam ativadas,
a interação social com os adultos inicia os bebés na natureza comunicativa do
discurso.

Etapas na aquisição da linguagem


O choro, é a única forma de comunicação do recém-nascido. Para um
desconhecido todos os sons que o bebé produz parecem idênticos, mas os pais do bebé,
geralmente distinguem o choro de fome do choro de dor. Diferentes tonalidades, padrões
e intensidades sinalizam fome, sono ou raiva.

Entre as 6 semanas e os 3 meses de vida, os bebés começam a produzir sons


quando estão contentes. O arrulhar inclui a produção de guinchos, murmúrios e sons
vocálicos como “ahhh”. Entre os 3 e os 6 meses, os bebés começam a brincar com os
sons da fala, ajustando os sons que ouvem das pessoas à sua volta.

O tagarelar – repetindo sequências de consoante-vogal como “mama- mama”


– ocorre repentinamente entre os 6 e os 10 meses, e geralmente é confundido com a
primeira palavra do bebé. O tagarelar não é uma verdadeira linguagem, na medida em
que não comporta significado para o bebé, embora se torne mais parecida com as
palavras.

O desenvolvimento da linguagem prossegue com imitação acidental de sons da


linguagem que os bebés ouvem e depois reproduzem esses sons. Cerca dos 9 10
meses de vida, os bebés imitam deliberadamente sons sem os compreenderem. A partir
do momento em que possuem um repertório de sons, associam-nos em padrões que
soam como a linguagem, mas que parecem não ter qualquer significado.
23

Por volta dos 13 meses, as crianças usam gestos representacionais mais


elaborados; por exemplo, são capazes de levantar os braços para mostrar que quer ser
pegado ao colo. Gestos simbólicos, tais como soprar para significar “quente”,
geralmente emergem na mesma altura em que os bebés pronunciam as suas primeiras
palavras; estes gestos revelam que as crianças compreendem que os objetos e as ideias
têm nomes e que os símbolos podem referir-se a objetos, acontecimentos, desejos e
circunstâncias específicas do quotidiano.

Os gestos surgem geralmente antes de a criança ter um vocabulário de 25


palavras e diminuem quando a criança aprende a palavra correspondente à ideia que está
a gesticular, podendo dizê-la, em vez de recorrer ao gesto.

Em geral, os bebés começam pelos nomes. Entre os mais vulgares contam-se


o nome que a criança dá à pessoa que cuida dela e a palavra que usa para se referir a
gatos, cães, chávena ou biberão e comida. Umas vezes, estas palavras aproximam-se
das verdadeiras; outras vezes, não conseguem distinguir-se.

Em média, o bebé pronuncia a primeira palavra algures entre os 10 e os 14


meses, iniciando o discurso linguístico – expressão verbal que transmite um
significado. De entre em pouco, o bebé irá usar muitas palavras e irá mostrar alguma
compreensão de gramática, de pronúncia, de entoação e de ritmo. Com 2 anos a criança
pronuncia mais de 200 palavras.

Quase todas as crianças percebem muitas mais palavras do que sabem dizer
e conseguem obedecer a instruções precisas, apesar de dizerem poucas palavras.
Outras dizem uma palavra quase ao mesmo tempo que sabem o que ela significa. A
variação na rapidez com que as crianças aprendem novas palavras e a nitidez da sua
primeira fala advém da sua capacidade de articular as palavras.

Com cerca de 13 meses, as crianças olham para os objetos a que os pais dão
nome. Por outro lado, os adultos tendem a olhar para aquilo de que estão a falar. Por isso,
é que as crianças começam a olhar para aquilo em que os adultos se concentram e
assumem que os sons que você faz se referem ao que elas vêem.

Tal como as primeiras “palavras” são de facto sinais, também as primeiras frases
são combinações de sinais e de palavras. Ao apontar para um cão, a criança diz “au-au”.
O que ela poderá querer dizer é: “Olhem, está ali um cão!” Se estender as mãos e disser
a palavra “bolacha”, isso significa “Dá-me uma bolacha”.

A maioria das crianças domina cerca de 200 palavras antes de começar a falar
por frases, o que acontece cerca dos 21 meses. É mais importante o número de
24
palavras do que a idade. Assim que o processo está em marcha, avança rapidamente.
Não é raro que uma criança use 100 novas frases de duas palavras num mês.

As combinações que ela faz exprimem posse (“casaco mamã”), ação (“carro vai”),
localização (“cadeira ali”), pedidos (“dar bolacha”), nome e ênfase (“aquela casa”) e fazem
perguntas (“o que é isto?”). a isto chama-se discurso telegráfico – forma primitiva de
frase que consiste apenas em algumas palavras essenciais, como a maioria dos
telegramas.

Entre os 20 e os 30 meses, as crianças adquirem os fundamentos da sintaxe


– as regras para juntar frases na sua língua. Começam por utilizar artigos (o/a, um/uma),
preposições (no/na, em), conjunções (e, mas), plurais, terminações de verbos, tempo
passado dos verbos e a forma do verbo se.

Por volta dos 3 anos, o discurso é fluente, mais extenso e complexo, apesar das
crianças muitas vezes omitirem partes do discurso, elas conseguem manter o seu
significado. Por volta dos 5 ou 6 anos, as crianças falam através de frases mais longas e
mais complicadas.

Aos 6 anos, a criança entende em média mais de 14000 palavras, tendo aprendido
em média 9 palavras novas por dia, desde o ano e meio de idade. Aparentemente as
crianças conseguem isto por mapeamento rápido, o que lhes permite absorver o
significado de uma nova palavra após a terem ouvido apenas uma ou duas vezes numa
conversa. Tendo como base o contexto, as crianças parecem elaborar uma hipótese
rápida acerca do significado da palavra e armazená-la na memória.

9.Desenvolvimento sócio-afectivo

9.1.Interacção mãe/filho

Importância da vinculação
A vinculação é uma ligação emocional recíproca e duradoura entre o bebé e
a figura parental, em que cada um contribui para a qualidade da relação. A
vinculação tem um valor adaptativo para o bebé, assegurando-lhe que as suas
necessidades psicossociais e físicas são satisfeitas.
25
Praticamente qualquer atividade levada a cabo pelo bebé, que provoque uma
resposta de um adulto poderá ser um comportamento de procura de vinculação: chupar,
chorar, sorrir, abraçar e olhar para a figura parental.

Logo na oitava semana de vida, os bebés dirigem alguns desses comportamentos


mais à mãe do que a outra pessoa. Estas aproximações são bem-sucedidas quando a
mãe responde calorosamente, expressa contentamento e oferece ao bebé contacto
físico frequente e liberdade para explorar.

Tanto as mães como os bebés contribuem para a segurança da vinculação através


da sua personalidade e comportamento, e através do modo como respondem um ao
outro. A segurança da vinculação desenvolve-se a partir da confiança; a
insegurança da vinculação reflete desconfiança. Os bebés com uma vinculação
segura aprenderam a confiar não apenas nas figuras parentais, mas também na sua
capacidade de obter aquilo que necessitam. Portanto, os bebés que rabujam e choram e
cujas mães respondem sossegando-os, tendem a ter uma vinculação segura.

Muitos estudos revelam que as mães de bebés com uma vinculação segura
tendem a ser sensíveis e responsivas. No entanto, a sensibilidade não é o único fator
importante. Igualmente importantes são os aspectos da atividade maternal como a
interação mútua, a estimulação, uma atitude positiva, calor humano e aceitação e apoio
emocional.

Quanto mais segura for a vinculação da criança ao adulto, mais fácil parece
ser para a criança se tornar independente desse adulto e desenvolver boas relações
com os outros. A relação entre a vinculação e as características observadas anos mais
tarde sublinha a continuidade do desenvolvimento e inter-relação entre o desenvolvimento
emocional, cognitivo e físico.

As crianças pequenas com uma vinculação segura são mais sociáveis com os
pares e com adultos não familiares do que as crianças inseguras. Têm interações mais
positivas com os pares e as suas abordagens amigáveis têm mais probabilidade de serem
aceites. Dos 3 aos 5 anos, as crianças seguras são mais curiosas e têm mais
tendência para formar relações de amizade próximas. Interagem mais positivamente
com os pais, com as educadoras no jardim-de-infância e com os pares e são capazes de
resolver conflitos. São também mais independentes, procurando a ajuda dos professores
apenas quando dela necessitam. No período pré-escolar atendem a ter uma nova
autoimagem mais positiva. Estas vantagens continuam no período escolar e na
adolescência.
26

Podemos assim afirmar que a qualidade da relação precoce mãe/bebé é


fundamental para o desenvolvimento da criança.

O momento em que as crianças vão para a Creche ou Jardim-de-infância é o


primeiro distanciamento ou separação da presença permanente da mãe. Trata-se de um
facto importante não só para a criança como para a mãe e as dificuldades que nestes
casos são apresentadas dependem, sobretudo, do clima que os pais tenham criado.

Quando a criança reage com ansiedade, agarra-se à sua mãe e chora no


momento em que tenta deixá-la, é preciso prepará-la adequadamente. No entanto, a
criança segura e confiante, que foi habituada a sair com os seus pais, não apresenta
nenhuma dificuldade e aceita como natural esta separação temporal.

Em muitas ocasiões, a grande maioria dos problemas que as crianças apresentam


são consequência de questões não resolvidas por parte dos pais. Assim, algumas mães
não têm consciência de que são elas que se agarram aos seus filhos, embora
aparentemente dêem impressão de que desejam levá-los para o jardim-de-infância. As
lágrimas e os gritos da criança surgem como resposta à ansiedade que percebe na sua
mãe.

9.2.Entrada no grupo

Ao longo das últimas três décadas, o estudo das interacções e relações que as
crianças e adolescentes estabelecem com os seus pares tem assumido um papel de
destaque nos domínios da psicologia clínica e da psicologia do desenvolvimento.

Este interesse baseia-se na constatação de que, desde muito precocemente, as


crianças passam períodos significativos do seu dia na companhia de outras crianças.
Durante o seu desenvolvimento — e, especialmente, na adolescência—, esses períodos
tornam-se cada vez mais longos e deixam de ser limitados a ambientes formais, como a
escola ou actividades extracurriculares monitorizadas por adultos. Desta forma, o seu
mundo social expande-se para além da família, passando a abarcar igualmente as
relações com os pares.

As experiências com os pares constituem um contexto de desenvolvimento


único e fundamental, no qual são adquiridos e estimulados diferentes
27
comportamentos, aptidões, atitudes e vivências que influenciam a adaptação ao
longo do desenvolvimento.

Deste modo, os pares contribuem de modo marcante para o funcionamento social,


emocional e cognitivo, exercendo os seus efeitos, por vezes de modo independente,
outras vezes de modo contrário, ou ainda de modo concordante com a família ou a
escola.

É através das interações que nos desenvolvemos enquanto humanos, e que


aprendemos a relacionarmo-nos com as outras pessoas com quem partilhamos o mesmo
espaço, para Vigostky é a interação do individuo com o meio a característica definidora da
constituição humana.

As capacidades de interação são aprendidas e reforçadas através de processos


interativos, através de “dar e receber” em contexto de brincadeira ou trabalho conjunto. As
crianças aprendem a ser e a estar, com a experiência dos outros, em contextos com
conteúdo, tendo um motivo para ser feito e aprendido, como por exemplo numa atividade
em grupo, onde as crianças se confrontam com outros pontos de vista.

A creche e o jardim-de-infância são locais onde se favorecem as interações


em grupo, através da brincadeira ou de trabalhos realizados no ambiente que estão
inseridas.

As interações entre as crianças surgem desde muito cedo, apenas com alguns
meses de idade já se conseguem fixar nos pares e, mesmo não verbalizando com eles,
essa interação é notada e importante. Ainda na creche as crianças já demonstram
preferências por determinados pares, procurando-os para as suas brincadeiras.

A escolha dos pares pelas crianças é seletiva, elas preferem quase sempre
crianças aproximadamente da mesma idade e do mesmo sexo. Esta escolha é
estruturada, as crianças escolhem aquelas que mais se aproximam a si enquanto pessoa,
pela forma de estar com os outros, e principalmente pelas preferências de brincadeiras.
No entanto, mesmo sentindo-se bem a brincar com outra criança, não significa que estas
se tornem amigas, mas sim, companheiras de brincadeira.

Vários são os fatores que podem influenciar a entrada da criança no grupo.


Por exemplo se a criança for tímida terá tendência a isolar-se muitas vezes do grupo,
não sendo convidada a participar nas atividades. Esta timidez pode tornar-se uma
preocupação, e o adulto poderá ser chamado para intervir, ajudando estas crianças a
interagirem umas com as outras, tentando perceber quais as capacidades que lhe faltam
28
para não ter essa confiança. Não há motivos para preocupações se a criança decidir
brincar sozinha, desde que, quando seja necessária uma interação, ela a realize de
uma forma eficaz e satisfatória.

9.3.Criança e o adulto
É de extrema importância que exista uma boa interação entre o adulto e a
criança, pois essa interação vai promover na criança a construção da sua
identidade.

Os adultos devem criar estratégias de interação positivas, criando relações com


elas, brincando, e ajudando no conflito social. Deste modo, as crianças começam a ter
liberdade e confiança para dialogar com o adulto. Esta interação entre adulto e criança
deve estar relacionada com a reciprocidade, ou seja, pela igualdade de direitos entre o
adulto e a criança, no que diz respeito também a atitudes autoritárias. Os adultos ao
partilharem o controlo e o poder com as crianças estão a criar uma atmosfera de
confiança e respeito mútuo.

O adulto pode, e deve, ajudar as crianças a realizar as atividades quotidianas


que lhes são devidas, trabalhando com elas. As crianças irão sentir uma maior
motivação ao realizar esse trabalho, irão enfrentar possíveis insucessos, mas sentem-se
confiantes pois têm o adulto do seu lado. Nesta partilha, ambos conquistam algo de útil
para o seu desenvolvimento, a criança aprende através da experiência, e o adulto
aprende também, acerca de cada criança, e como deve interagir com cada uma delas
para que as possa ajudar no seu desenvolvimento. É também importante dar às crianças
um reconhecimento positivo e específico, um feedback honesto a comportamentos
específicos ajuda as crianças a crescer e leva a mais mudanças do que um comentário
global do tipo ”bom trabalho”.

O adulto deve intervir nas actividades da criança, mas de uma forma cuidada
e controlada, não deve invadir o espaço da criança, e deve deixá-las resolver os
seus próprios problemas, no entanto, deverá estar atento aos ciclos negativos que se
podem vir a criar se não houver uma intervenção. O educador deve manter-se atento a
estas situações, e avaliar se a criança é ou não capaz de resolver os conflitos sem a
intervenção de um adulto.