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AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL Nº 0601616-19.2018.6.11.0000

VOTO

O(A) JUIZ PEDRO SAKAMOTO (Relator):

V O T O (MÉRITO):

Conforme relatado, cuida-se de duas ações de investigação judicial eleitoral


ajuizadas contra Selma Rosane Santos Arruda, Gilberto Eglair Possamai e
Clerie Fabiana Mendes, nas quais se pleiteia a aplicação das sanções previstas no
artigo 22, inciso XIV, da Lei Complementar n.º 64/1990, em desfavor dos investigados.

A primeira ação eleitoral, AIJE n.º 0601616-19.2018.6.11.0000, foi proposta


por Sebastião Carlos Gomes de Carvalho, em razão da suposta prática de abuso de
poder econômico, pelo descumprimento das normas eleitorais relativas à realização de
gastos e arrecadação de recursos para a campanha eleitoral.

A segunda demanda, AIJE n.º 06017103-72.2018.6.11.0000, foi proposta


pelo Diretório Estadual do Partido Social Democrático – PSD/MT, Carlos
Henrique Baqueta Fávaro, Geraldo de Souza Macedo e José Esteves de
Lacerda Filho, imputando aos representados a suposta prática de abuso de poder
econômico, abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação social.

Cumpre-me destacar novamente que, com fulcro no art. 96-B, caput e § 2º,
da Lei das Eleições, determinei a reunião dos processos, pois, ainda que a segunda ação
proposta contenha outras duas causas de pedir, depreende-se que os demais ilícitos
narrados fazem parte de um só amplo contexto fático.

Ademais, ressalto que deferi o ingresso do Ministério Público Eleitoral


na AIJE n.º 0601616-19.2018.6.11.0000, na qualidade de litisconsorte ativo facultativo,
com respaldo no art. 96-B, §§ 1º e 2º, da Lei das Eleições, evitando-se o inócuo
ajuizamento de outra ação com semelhante objeto e pedidos.

Acerca do mérito, friso, por importante, que as ações propostas buscam


apurar a suposta prática de excessivos gastos de natureza eminentemente eleitoral no
período de “pré-campanha”, sem a imperiosa contabilização dessas despesas,
circunstância que teria gerado desequilíbrio na disputa eleitoral ao cargo de Senador da
República.

Consta, ainda, da segunda AIJE, que é possível qualificar as condutadas


praticadas pelos representados como hipótese de uso indevido dos meios de
comunicação, porquanto a representada Selma Rosane Santos Arruda valeu-se da
massificação de matérias em mídias sociais, bem ainda como abuso de poder político,
pelo fato de a agora Senadora ter sido supostamente beneficiada por decisão
monocrática do Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, proferida
ad referendum do Pleno, que concedeu sua aposentadoria da magistratura estadual.

Os processos vieram conclusos após percorrerem rigorosamente o


procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar n.º 64/1990.

Em regra, a legislação estabelece que a arrecadação de recursos para a


campanha eleitoral, de qualquer natureza, por candidatos e partidos políticos, somente
poderá se efetivar após a observância dos requisitos previstos no art. 3º da Resolução
TSE n.º 23.553/2017, in verbis:

“Art. 3º A arrecadação de recursos para campanha eleitoral de qualquer


natureza por partidos políticos e candidatos deverá observar os seguintes pré-
requisitos:

I – requerimento do registro de candidatura;

II – inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ);

III – abertura de conta bancária específica destinada a registrar a

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movimentação financeira de campanha; e

IV – emissão de recibos eleitorais na hipótese de:

a) doações estimáveis em dinheiro; e

b) doações pela internet (Lei nº 9.504/1997, art. 23, 4º, III, b).

Parágrafo único. Na hipótese de partido político, a conta bancária a que se


refere o inciso III é aquela prevista na resolução que trata das prestações de contas
anuais dos partidos políticos e que se destina à movimentação de recursos referentes
às ‘Doações para Campanha’.”

Já os gastos de campanha, de acordo com art. 38, da Resolução TSE n.º


23.553/2017, “somente poderão ser efetivados a partir da data da realização da
respectiva convenção partidária, observado o preenchimento dos pré-requisitos de que
tratam os incisos I, II e III” especificados no caput do art. 3º do mesmo diploma
normativo (requerimento de registro de candidatura, inscrição no CNPJ e abertura de
conta bancária especifica).

Por outro ângulo, ressalto que o legislador eleitoral permitiu a prática de


determinadas atividades, cuja realização não configura propaganda eleitoral antecipada.
Nesses termos, reza o art. 36-A da Lei das Eleições, introduzido pela Lei n.º
13.165/2015, que:

“Art. 36-A. Não configuram propaganda eleitoral antecipada, desde que


não envolvam pedido explícito de voto, a menção à pretensa candidatura, a exaltação
das qualidades pessoais dos pré-candidatos e os seguintes atos, que poderão ter
cobertura dos meios de comunicação social, inclusive via internet:

I - a participação de filiados a partidos políticos ou de pré-candidatos em


entrevistas, programas, encontros ou debates no rádio, na televisão e na internet,
inclusive com a exposição de plataformas e projetos políticos, observado pelas
emissoras de rádio e de televisão o dever de conferir tratamento isonômico;

II - a realização de encontros, seminários ou congressos, em ambiente


fechado e a expensas dos partidos políticos, para tratar da organização dos processos
eleitorais, discussão de políticas públicas, planos de governo ou alianças partidárias
visando às eleições, podendo tais atividades ser divulgadas pelos instrumentos de
comunicação intrapartidária;

III - a realização de prévias partidárias e a respectiva distribuição de


material informativo, a divulgação dos nomes dos filiados que participarão da disputa
e a realização de debates entre os pré-candidatos;

IV - a divulgação de atos de parlamentares e debates legislativos, desde


que não se faça pedido de votos;

V - a divulgação de posicionamento pessoal sobre questões políticas,


inclusive nas redes sociais;

VI - a realização, a expensas de partido político, de reuniões de iniciativa


da sociedade civil, de veículo ou meio de comunicação ou do próprio partido, em
qualquer localidade, para divulgar ideias, objetivos e propostas partidárias.

VII - campanha de arrecadação prévia de recursos na modalidade prevista


no inciso IV do § 4o do art. 23 desta Lei.

§ 1o É vedada a transmissão ao vivo por emissoras de rádio e de televisão


das prévias partidárias, sem prejuízo da cobertura dos meios de comunicação
social.

§ 2o Nas hipóteses dos incisos I a VI do caput, são permitidos o pedido de


apoio político e a divulgação da pré-candidatura, das ações políticas desenvolvidas e
das que se pretende desenvolver.

§ 3o O disposto no § 2o não se aplica aos profissionais de comunicação


social no exercício da profissão.”

No caso concreto, analisando detidamente o conjunto fático-probatório

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delineado no curso das ações, depreende-se, de forma incontroversa, que a representada


Selma Rosane Santos Arruda pactuou com a sociedade empresária Genius at Work
Produções Cinematográficas Ltda., a prestação de serviços publicitários voltados à
promoção de sua candidatura às eleições de 2018, a partir de 9 de abril de 2018.

Nesse cenário, aduzem os representantes que a contratação global foi


previamente ajustada em R$ 1.882.000,00 (um milhão, oitocentos e oitenta e dois mil
reais). Além disso, afirmam que, dessa quantia, apenas o montante de R$ 300.000,00
(trezentos mil reais) seria pago dentro do período eleitoral, o que corresponde a 15% do
valor combinado.

Os representantes afirmam que a representada Selma Rosane Santos


Arruda, com o auxílio do 1º suplente, Gilberto Eglair Possamai, teria pago à
aludida empresa de publicidade a quantia de R$ 1.030.000,00 (um milhão e trinta mil
reais), sendo que R$ 700.000,00 (setecentos mil reais), foram quitados à margem da
contabilidade oficial de campanha.

Os representantes enfatizam que outras despesas de campanha possam ter


sido contratadas irregularmente.

Com efeito, analisando detidamente o vasto conjunto probatório produzido,


constata-se que os investigados Selma Rosane Santos Arruda e Gilberto Eglair
Possamai pagaram à Genius at Work Produções Cinematográficas Ltda., fora do
período eleitoral, o montante de R$ 550.000,00 (quinhentos e cinquenta mil
reais), por meio de cheques nominais emitidos da seguinte forma:

Cheque n.º 900769, emitido em 11.4.2018, no valor de R$


150.000,00 (cento e cinquenta mil reais);

Cheque n.º 900779, emitido em 4.5.2018, no valor de R$


150.000,00 (cento e cinquenta mil reais);

Cheque n.º 900781, emitido em 22.5.2018, no valor de R$


150.000,00 (cento e cinquenta mil reais); e

Cheque n.º 900791, emitido em 16.7.2018, no valor de R$


100.000,00 (cem mil reais).

Destaca-se que os cheques foram emitidos da conta corrente n.º


01001935-7, agência n.º 1695, da Caixa Econômica Federal, de titularidade da
representada Selma Rosane Santos Arruda, e foram objeto de identificação pelo
Sistema de Investigação de Movimentações Bancárias – SIMBA, consoante relatório
inserido no Id. n.º 1055322 (caderno 3), confirmando as cópias dos cheques constantes
do Id. n.º 90902.

Outros pagamentos não contabilizados também foram efetuados em favor


da Genius at Work Produções Cinematográficas Ltda., estes, contudo, dentro do período
eleitoral.

Trata-se de pagamentos: no valor de R$ 150.000,00 (cento e


cinquenta mil reais), realizado através de cheque n.º 855020, da conta bancária n.º
109.294-4, agência n.º 1492, do Banco do Brasil, de titularidade do representado
Gilberto Eglair Possamai (Id. n.º 98572), cujo recebimento foi confirmado por Luiz
Gonzaga Rodrigues Júnior, também conhecido como “Júnior Brasa”, em depoimento
judicial; e no valor de R$ 29.987,36 (vinte e nove mil, novecentos e oitenta e
sete reais e trinta e seis centavos), efetuado através do cheque n.º 900795, da
conta bancária n.º 01001935-7, agência n.º 1695, da Caixa Econômica Federal, de
titularidade de Selma Rosane Santos Arruda (Id. n.º 90903).

Desse modo, é inegável a existência de pagamentos feitos à Genius at Work


Produções Cinematográficas Ltda., apartados da prestação de contas dos representados,
sendo que R$ 550.00,00 (quinhentos e cinquenta mil reais) foram saldados
em período não eleitoral, e R$ 179.987,36 (cento e setenta e nove mil,
novecentos e oitenta e sete reais e trinta e seis centavos) foram repassados
após o dia 5.8.2018, ou seja, após o início do período eleitoral, atingindo no total a
quantia de R$ 729.987,36 (setecentos e vinte nove mil, novecentos e oitenta e
sete reais e trinta e seis centavos).

In casu, faz-se necessário examinar quais foram os serviços prestados pela


aludida empresa de publicidade, para que se alcance a conclusão de que se referem, ou

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não, a gastos eleitorais, conforme previsão dos artigos 37 e 38, da Resolução TSE n.º
23.553/2017.

Saliento, por necessário, que não obstante os pagamentos realizados à


Genius at Work Produções Cinematográficas Ltda., as partes não celebraram
formalmente contrato sobre a prestação de serviços. Assim, a conclusão sobre a
natureza dos serviços prestados depende do exame das provas que foram produzidas
nas ações eleitorais.

Examinando os arquivos digitais disponibilizados pelo órgão ministerial


representante (Id. n.º 85825 da AIJE n.º 0601616-19.2018.6.11.0000), bem ainda o
dispositivo de armazenamento de dados (HD externo), depositado pelos autores da
segunda ação eleitoral (Id. n.º 145022 da AIJE n.º 06017103-72.2018.6.11.0000), é
possível constatar, sem maiores esforços, que parte considerável dos serviços foi
produzida em período pré-eleitoral.

A propósito, relaciono alguns arquivos que possuem como data de


criação período anterior a 5.8.2018, vejamos:

- Pasta: AUDIOS – SELMA / [23-05 SENADORA SELMA – VT 1 VOZ +


SD]: modificado em 23 de maio de 2018;

- Pasta: AUDIOS – SELMA / [28-06 SELMA VT (1)]: modificado em


28 de junho de 2018;

- Pasta: AUDIOS – SELMA – [Novo off Selma – 02]: modificado em


17 de maio de 2018;

-Pasta: AUDIOS –SELMA – [Offs Juíza Selma]: modificado em 08 de


maio de 2018;

-Pasta: ARTES FINALIZADAS / 06 JUNHO / FINAL – [adesivo 30cm x


10 cm – pre-campanha]: modificado em 15 de maio de 2018;

- Pasta: VÍDEOS / CARD WEB – [CARD – SELMA – BASE]:


modificado em 19 de junho de 2018;

- Pasta: VÍDEOS / COLIGAÇÃO PSDB – entenda nossa coligação -


[COLIGAÇÃO PSDB – entenda nossa coligação: modificado em 24 de julho
de 2018];

- Pasta: VÍDEOS / Vídeo Corrupção – Saúde / Whats – [Vídeo Corrupção


– Saúde]: modificado em 22 de maio de 2018;

- Pasta: VÍDEOS / WEB SERIE 4 episódios – [SELMA ARRUDA –


BIOGRAFIA ep 01]: modificado em 23 de maio de 2018.

Além disso, após proceder à análise desses arquivos digitais, pude constatar
que o material de marketing demonstra, seguramente, gastos típicos eleitorais, que
se sujeitam a registro na prestação de contas, e, a rigor, somente poderiam ser
efetivados a partir da data da realização da respectiva convenção partidária.

Com efeito, denota-se do material examinado que houve a produção de


materiais publicitários, em formatos de áudio e vídeo, elaborados e editados para serem
utilizados em programas de rádio e na televisão, a exemplo dos seguintes arquivos:
VÍDEOS / CARD WEB – [CARD – SELMA – BASE]; VÍDEOS / Vídeo Corrupção –
Saúde / Whats – [Vídeo Corrupção – Saúde]; AUDIOS – SELMA [Novo off
Selma – 02].

Verifica-se, ainda, a presença de vários jingles armazenados na pasta


“AUDIOS – SELMA / JINGLES / 01”, “salvos” em 5 de agosto de 2018, sugerindo
que foram contratados antes do início do período eleitoral.

Infere-se ainda, desses materiais produzidos, a constante utilização da


nomenclatura utilizada por Selma Rosane Santos Arruda na urna eletrônica, qual
seja, “Juíza Selma Arruda”, bem como de slogans como “coragem para lutar”,
evidenciando, assim, que todo o acervo publicitário tinha destinação certa: a campanha
eleitoral.

Cumpre-me ressaltar que a testemunha Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior, em

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depoimento prestado neste Tribunal, após ser questionado pelo representante do


parquet, confirmou que houve a produção de jingles durante o período de pré-
campanha.

Nestes termos, detalhou a referida testemunha em seu depoimento (mídia


audiovisual de fl. 150): (1:03’:00”)

- Procurador Regional Eleitoral (representante): “Quando o senhor


foi procurado, o senhor, por esses contatos iniciais, enfim, a medida que foi sendo
desenvolvida a proposta, o senhor já havia, isso já tinha se tornado claro desde o início
que haveria prestação de serviços voltados para a pré-campanha e para a campanha,
essas duas fases?”

- Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior (testemunha): “Sim, está no


contrato.”

- Procurador Regional Eleitoral (representante): “Qual que era a


distinção dos serviços entre a fase de pré-campanha e de campanha?”

- Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior (testemunha): “[...] também é feito


o briefing das pesquisas nesse período, é feito o desenvolvimento de logomarca, de
desenvolvimento de jingle, é uma série de trabalhos que é feito na pré-campanha [...].”

Em verdade, os próprios representados admitem a produção de slogan e


logomarca para campanha, consoante se infere da peça contestatória (Id. n.º 90898) da
ação n.º 0601616-19-2018.6.11.0000, onde mencionam que essas expressões
publicitárias constaram da pesquisa realizada pela a Empresa Vetor Assessoria de
Pesquisa, contratada em 13.4.2018 (Id. n.º 90901).

Nesse sentido, afirmaram os representados:

“[...] A logomarca sugerida pela pesquisa qualitativa para uma eventual


campanha não foi utilizada. O slogam sugerido não foi utilizado, e a identificação
não foi utilizada; seguem para exame de V. Ex.ª [...]”

Com efeito, a legislação eleitoral estabelece que esses gastos relacionados


possuem fins eleitorais, e como tais, devem ser pagos com recursos provenientes da
conta de campanha e devem ser registrados na prestação de contas no momento da sua
contratação.

É o que estabelece o art. 37, da Resolução TSE n.º 23.553/2017:

“Art. 37. São gastos eleitorais, sujeitos ao registro e aos limites fixados
nesta resolução:

[...]

X - produção de programas de rádio, televisão ou vídeo, inclusive os


destinados à propaganda gratuita;

XV - produção de jingles, vinhetas e slogans para propaganda eleitoral.”

Friso que os representados não impugnam os arquivos contidos nos


dispositivos de armazenamento de dados. Em verdade, os representados se limitam a
afirmar que os gastos foram realizados com fundamento no art. 36-A da Lei das
Eleições, e que os respectivos recursos não podiam transitar pela conta de campanha
simplesmente porque, naquele momento, ainda não havia candidatura.

Os representados suscitaram a realização de perícia nos “HDs Externos”


apresentados pelos representantes, a fim de verificar, sobretudo, se houve divulgação do
trabalho produzido e qual a sua repercussão, bem ainda verificar o preço cobrado pelas
mídias.

Ocorre que, nos termos dos incisos X e XV, do art. 37, da Resolução TSE n.º
23.553/2017, para configuração do gasto eleitoral não é necessário que tenha havido a
divulgação de programas de rádio, televisão ou vídeo, ou de jingles, vinhetas e slogans,
bastando apenas que tenha havido a sua produção.

De outra banda, convém enfatizar que esse material em referência não


guarda qualquer relação com as exceções do art. 36-A, da Lei das Eleições, como

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pretendem fazer crer os representados.

Sobre os serviços contratados pela representada Selma Arruda, a


testemunha Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior (proprietário da Empresa Genius)
esclareceu (mídia audiovisual de fl. 150): (15’:55”)

- Relator: “Que espécie de material publicitário foi feito para a candidata


Selma?”

- Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior (testemunha): “É um contrato bem


amplo, no caso de campanha majoritária, contempla todas as... no caso da campanha
majoritária senado ou governo, ela contempla todas as partes, porque a minha
empresa é uma empresa muito completa. Só pra ficar mais fácil o entendimento,
quando você contrata comunicação numa campanha, em geral você pode contratar
quatro serviços, que é o marketing [...] o outro serviço é a agência de propaganda que
cria todas as peças pra campanha, a outra parte é o trabalho digital que cuida de toda
parte de internet, redes sociais, site. E a outra é a produtora de filmes, no caso de uma
campanha que tem programa de televisão e hoje a própria internet também solicita,
existe, que a gente tenha muito conteúdo de vídeo para colocar nas redes sociais.
Então são esses quatro trabalhos. No meu caso eu entrego os quatro trabalhos. É
muito raro uma empresa que faz os quatro, geralmente você contrata duas, três
empresas para fazer uma campanha. No meu caso eu faço os quatro e foi fechado
esses quatro trabalhos comigo.”

Logo, considerando que o acordo celebrado com a empresa Genius at Work


Produções Cinematográficas Ltda. abrangia todas as etapas de uma campanha eleitoral,
conforme enfatizado pela testemunha Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior, em seu
depoimento, e diante do fato de que quase 70% (setenta por cento) de todo o valor pago
à referida empresa não transitou pela conta de campanha, é imperioso dizer que os
pagamentos que se iniciaram em abril de 2018 certamente compreenderam a quitação
de despesas destinadas à campanha eleitoral dos representados, sobretudo porque os
pagamentos efetuados não faziam referência a qual serviço eles correspondiam.

Ademais, é relevante apontar que outros gastos próprios de campanha


eleitoral foram efetuados sem contabilização pelos representados, conforme se nota dos
relatórios extraídos do Sistema de Investigação de Movimentações Bancárias – SIMBA.

Com efeito, assinalo que foi detectado o pagamento da quantia de R$


140.000,00 (cento e quarenta mil reais) à empresa KGM Assessoria
Institucional.

Tais pagamentos foram realizados da seguinte forma: R$ 20.000,00


(vinte mil reais), via TED, na data de 1º.8.2018, oriundo da conta corrente n.º
19357, agência n.º 1695, da Caixa Econômica Federal, de titularidade da investigada
Selma Rosane Santos Arruda; e R$ 120.000,00 (cento e vinte mil reais),
através de cheque emitido em 31.8.2018, da conta corrente n.º 1092944, agência n.º
1492, do Banco do Brasil, de titularidade do representado Gilberto Eglair Possamai,
ou seja, em pleno período eleitoral, consoante se observa do relatório inserido no Id. n.º
1055322.

Impende-se anotar que a KGM Assessoria Institucional Ltda., CNPJ n.º


07.202.498.0001-14, pertence a Kleber Alves Lima, e tem como ramo de atividade a
realização de consultoria e coordenação de marketing eleitoral. Saliento que Kléber
Alves Lima também figura como beneficiário de valores repassados pela representada
Selma Rosane Santos Arruda, que, no entanto, não constaram dos registros
financeiros da campanha, como será mencionado na sequência deste voto.

Registro por necessário, que a referida empresa atuou, ainda, como


fornecedora da campanha dos representados, tendo recebido do CNPJ n.º
31.214.244/0001-09 (“Juíza Selma Arruda – Senador”), a quantia de R$ 460.000,00
(quatrocentos e sessenta mil reais) pelos serviços prestados, demonstrando, por isso,
que os valores pagos à empresa KGM sem o fluxo pela conta corrente de campanha,
tinham, de fato, finalidade eleitoral.

Ainda, nesse contexto, foram identificados pagamentos na ordem de R$


80.000,00 (oitenta mil reais) para Kléber Alves Lima. Os repasses ocorreram da
seguinte maneira: 3 (três) TEDs, no valor de R$ 20.000,00 (vinte mil reais), todos
realizados no dia 1º.8.2018, e mais um cheque de R$ 20.000,00 (vinte mil reais)
emitido pela investigada, cuja compensação ocorreu em 3.8.2018, consoante
detalhamento contido no Id. n.º 1055322.

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O recebimento desses valores foi confirmado pelo próprio prestador de


serviços, que, arrolado como testemunha, asseverou em juízo (mídia audiovisual de fl.
150): (16’:45”)

- Advogado (representantes): “Antes desse trabalho de coordenador de


marketing o senhor prestou à então candidata Selma ou a Selma Arruda pessoa física
algum outro trabalho?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Sim, senhor.”

- Advogado (representantes): “Qual foi?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “De pesquisa eleitoral e de parecer,


emissão de parecer de marketing político-eleitoral com base em pesquisa.”

- Advogado (representantes): “Consta da prestação de contas da


candidata já eleita Selma Arruda gastos da ordem de quatrocentos e sessenta mil reais
[R$ 460.000,00]. Nesses valores incluem essas despesas?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Não, senhor. Esse foi o contrato


de campanha eleitoral.”

- Advogado (representantes): “Qual foi o valor desse outro trabalho


prestado?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Não me recordo. Eu posso apurar


e informar o senhor. Esse é um trabalho prestado como pessoa física, trabalho de
consultor.”

- Advogado (representantes): “O senhor sabe me informar quando foi


prestado esse serviço?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Mês de... próximo já. As


convenções são em julho? Final de junho, começo de julho, por aí.”

- Advogado (representantes): “O senhor emitiu nota fiscal desse


serviço?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Não. Fiz trabalho de pessoa


física.”

- Advogado (representantes): “Como pessoa física o senhor não emite


nota fiscal?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Não. [Inaudível].”

- Advogado (representantes): “Qual o objeto da... o senhor tem uma


empresa, essa empresa KGM é do senhor?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Sim, senhor. Em sociedade.”

- Advogado (representantes): “Em sociedade?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Sim, senhor.”

[...]

- Advogado (representantes): “Nós temos aqui uma relação de


transferências bancárias realizadas da conta da pessoa física da Selma Arruda nas
datas de trinta e um do sete [31.7] e um do oito de dois mil e dezoito [1º.8.2018],
perfazendo um total de oitenta mil reais [R$ 80.000,00] para sua pessoa física e vinte
mil reais [R$ 20.000,00] para a pessoa jurídica KGM. O senhor se recorda desses
valores?”

- Kléber Alves Lima (testemunha): “Provavelmente são os valores aos


trabalhos que eu acabei de me referir.”

Vale assinalar, ainda, que examinado os extratos fornecidos pelo SIMBA,


foram constatados outros pagamentos (não contabilizados), a prestadores de serviços
(pessoas físicas) que constaram da prestação de contas dos representados.

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Ao meu ver, o fato desses prestadores de serviço figurarem na prestação de


contas dos representados demonstra, em verdade, que houve a continuidade dos
serviços ajustados anteriormente, corroborando, assim, a tese de que houve a
realização de gastos eleitorais antes do período permitido.

Foram identificados pagamentos realizados a Ismaela de Deus Souza


Teixeira da Silva, no valor de R$ 13.749,00 (treze mil, setecentos e quarenta e
nove reais) (relatório SIMBA Id. n.º 1055322). Esses repasses financeiros foram
realizados da seguinte forma: R$ 8.420,00 (oito mil, quatrocentos e vinte reais)
transferidos por meio de TED em 5.4.2018; R$ 4.350,00 (quatro mil, trezentos e
cinquenta reais), transferidos via TED em 30.5.2018; e R$ 979,00 (novecentos e
setenta e nove reais), por meio de transferência eletrônica de valores, em
13.6.2018; todos oriundos da conta corrente da representada Selma Rosane Santos
Arruda.

Salienta-se que Ismaela de Deus Souza Teixeira da Silva prestou


formalmente serviços à candidatura dos representados, os quais foram contabilizados
na prestação de contas.

Além disso, foram identificados pagamentos realizados a Guilherme


Leimann no valor de R$ 14.000,00 (quatorze mil reais), consoante relatório
SIMBA inserido no Id n.º 1055322. Os pagamentos foram executados da seguinte
forma: R$ 7.000,00 (sete mil reais) em 30.5.2018 e R$ 7.000,00 (sete mil
reais) em 4.6.2018.

Guilherme Leimann, igualmente, prestou serviços à candidatura dos


representados, cujo trabalho foi registrado na prestação de contas.

A quebra de sigilo bancário deferida nos autos também detectou repasse


financeiro a Helena Lopes da Silva Lima, no valor R$ 520,00 (quinhentos e vinte
reais), viabilizado por meio de transferência eletrônica realizada pela investigada
Selma Rosane Santos Arruda em 28.5.2018. Referida pessoa encontra-se registrada
na prestação de contas dos representados na qualidade de prestadora de serviço.

Na sequência, apurou-se que Hélia Maria Andrade Marinho recebeu, em


13.4.2018, a quantia no valor de R$ 24.000,00 (vinte e quatro mil reais), por
meio de TED proveniente da conta corrente da representada Selma Rosane Santos
Arruda. Posteriormente, a favorecida Hélia Maria Andrade Marinho figurou como
doadora da campanha dos representados, notabilizando vínculo com a primeira
investigada.

Vale dizer que esses repasses configuram gastos eleitorais, e por esse
motivo, não podem ser realizados sem o preenchimento dos requisitos necessários para
sua efetivação.

Nesses termos, rezam os artigos 37, inciso VII, e 38, da Resolução TSE n.º
23.553/2017:

“Art. 37. São gastos eleitorais, sujeitos ao registro e aos limites fixados
nesta resolução:

[...]

VII – remuneração ou gratificação de qualquer espécie paga a


quem preste serviço a candidatos e a partidos políticos; [...]”

“Art. 38. Os gastos de campanha por partido político ou candidato somente


poderão ser efetivados a partir da data da realização da respectiva convenção
partidária, observado o preenchimento dos pré-requisitos de que tratam os incisos I, II
e III do caput do art. 3º desta resolução.”

Verificou-se, ademais, via relatório SIMBA, o pagamento da quantia de R$


25.000,00 (vinte e cinco mil reais) ao advogado Diogo Egídio Sachs. Trata-se de
pagamento datado de 6.8.2018, através de TED, realizado pela representada Selma
Rosane Santos Arruda, por meio de sua conta corrente. Posteriormente, o referido
advogado prestou serviços em favor da campanha dos representados, cujos pagamentos
foram lançados na contabilidade de campanha.

Averiguou-se, também, pagamentos ao advogado Lauro José da Mata, os


quais atingiram o montante de R$ 92.000,00 (noventa e dois mil reais). Os

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repasses financeiros aconteceram da seguinte forma: 3 (três) TEDs de R$


20.000,00 (vinte mil reais), realizados em 13.4.2018, 2.5.2018 e 7.6.2018; e 1
(um) TED de R$ 32.000,00 (trinta e dois mil reais), todos realizados a partir da
conta corrente da representada Selma Rosane Santos Arruda (6.8.2018).

Destaco, por oportuno, que o advogado Lauro José da Mata foi citado
diversas vezes pela testemunha Luiz Gonzaga Rodrigues Júnior, sendo relatado que ele
(Lauro José da Mata) acompanhou a representada Selma Rosane Santos Arruda
nas tratativas para celebração de contrato de assessoria de marketing junto à “Genius at
Work”.

Consta também do relatório SIMBA que a representada Selma Rosane


Santos Arruda transferiu ao contador Átila Pedroso de Jesus, a quantia de R$
20.000,00 (vinte mil reais), via TED. O referido profissional foi responsável pela
elaboração da prestação de contas dos representados, consoante se denota do extrato de
prestação de contas inserido no evento Id. n.º 71102, do processo n.º
0601112-13.2018.6.11.0000.

No entanto, cumpre-me destacar que, nos termos do § 2º do art. 37, da


Resolução TSE n.º 23.553/2017, “as contratações de serviços de consultoria jurídica e
de contabilidade prestados durante as campanhas eleitorais em favor destas deverão
ser pagas com recursos provenientes da conta de campanha e constituem gastos
eleitorais que devem ser declarados de acordo com os valores efetivamente pagos
(Resolução-TSE nº 23.470/2016)”.

Sendo assim, esses gastos com serviços de consultoria jurídica e


contabilidade deveriam ser realizados pela contabilidade de campanha. Contudo, não foi
o que aconteceu.

E as despesas à margem da contabilidade de campanha não param por aí.

A representada Selma Rosane Santos Arruda contratou a realização de


serviços de pesquisa eleitorais, cuja despesa é considerada eminentemente eleitoral,
devendo submeter-se, por isso, às regras de arrecadação e gastos de recursos, conforme
previsão do art. 37, inciso XI, da Resolução TSE n.º 23.553/2017.

Foi contratada a empresa Vetor Assessoria e Pesquisa de Mercado e Opinião


Pública Ltda., consoante se observa do contrato inserido no Id. n.º 90901. A referida
contratação também foi confirmada pelo diretor financeiro da empresa de pesquisa,
Eduardo Stumpp, por ocasião do depoimento que prestou neste Tribunal.

De fato, constata-se dos relatórios emitidos pelo SIMBA (Id. n.º 1055322)
que a representada pagou à referida empresa a quantia de R$ 60.000,00 (sessenta
mil reais), através de 2 (dois) TEDs enviados da sua conta bancária na Caixa
Econômica Federal, sendo o primeiro em 16.4.2018, no valor de R$ 36.000,00
(trinta e seis mil reais); e o segundo em 9.5.2018, no valor de R$ 24.000,00
(vinte e quatro mil reais).

Além dessa despesa com pesquisa, outras foram verificadas pelo exame das
provas produzidas. A representada emitiu o cheque n.º 900774, oriundo da sua conta
corrente (Id. n.º 90902), para pagamento de despesa junto à empresa Voice Pesquisas e
Comunicação Ltda., no valor de R$ 16.500,00 (dezesseis mil e quinhentos reais).
O referido título de crédito foi regulamente compensado em 27.4.2018, consoante se
infere do relatório emitido pelo SIMBA (Id. n.º 1055322).

A mesma quantia de R$ 16.500,00 (dezesseis mil e quinhentos


reais) foi paga a Judith Bernadeth Nunes Rosa, através do cheque n.º 900780, emitido
pela investigada Selma Rosane Santos Arruda (Id. n.º 90902). O mencionado
cheque foi compensado em 1805.2018. Vale mencionar que Judith Bernadeth Nunes
Rosa é proprietária da empresa Percent Pesquisa de Mercado e Opinião Ltda.

Como foi detalhado acima, a representada realizou enorme


quantidade de gastos tipicamente eleitorais no período de “pré-campanha”,
os quais, diga-se de passagem, somente poderiam ser realizados após o dia
5.8.2018, nos termos do art. 38, da Resolução TSE n.º 23.553/2017 c/c o art. 8º da Lei
n.º 9.504/1997.

Além disso, efetuou uma série de gastos eleitorais em período eleitoral, os


quais não transitaram em conta corrente da campanha.

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Em suma, a representada realizou gastos eleitorais, em período não


permitido pela legislação (5.4.2018 a 4.8.2018), que atingem o montante de R$
855.269,00 (oitocentos e cinquenta e cinco mil, duzentos e sessenta e nove
mil reais).

Já no período eleitoral, realizou gastos no montante de R$ 376.987,36


(trezentos e setenta e seis mil, novecentos e oitenta e sete reais e trinta e
seis centavos), sem registro contábil na prestação de contas de campanha.

Desse modo, é imperioso destacar que os representados realizaram gastos


eleitorais próprios de campanha eleitoral, que somados atingem o valor de R$
1.232.256,00 (um milhão, duzentos e trinta e dois mil, duzentos e cinquenta
e seis reais), sem que tenha havido qualquer registro na contabilidade oficial de
campanha.

Destarte, praticaram condutas que violam as regras que disciplinam a


arrecadação e gastos de recursos financeiros destinados à campanha eleitoral, a
configurar a ilegal prática do “caixa dois”.

Friso, por oportuno, que configura a captação ilícita de recursos, a


arrecadação financeira realizada antes do cumprimento dos requisitos exigidos pelo art.
3º, da Resolução TSE n.º 23.553/2018, in verbis:

“Art. 3º A arrecadação de recursos para campanha eleitoral de qualquer


natureza por partidos políticos e candidatos deverá observar os seguintes pré-
requisitos:

I - requerimento do registro de candidatura;

II - inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ);

III - abertura de conta bancária específica destinada a registrar a


movimentação financeira de campanha;”

No caso em exame, os representados asseveram que os recursos financeiros


utilizados pela ré Selma Rosane Santos Arruda são decorrentes de contrato de
mútuo celebrado entre ela e o primeiro suplente, Gilberto Eglair Possamai, e, por
esse fundamento, inexistiria a prática de ilícito eleitoral, haja vista não se tratar de
recursos de fonte vedada.

Saliento que a representada Selma Rosane Santos Arruda recebeu um


aporte financeiro no valor R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil
reais), proveniente de transferências bancárias realizadas pelo representado e 1º
Suplente da chapa senatorial, Gilberto Eglair Possamai, no valor R$
1.000.000,00 (um milhão de reais), em 5.4.2018, e R$ 500.000,00
(quinhentos mil reais), através de transferência promovida por Adriana Krasnievicz,
(esposa de Gilberto Eglair Possamai), em 13.7.2018, por meio da conta n.º
1092944, agência n.º 1492, do Banco do Brasil, da qual são co-titulares, conforme
relatório financeiro emitido pelo SIMBA e extratos colacionados ao feito.

Ocorre que a obtenção de recursos destinados a cobrir despesas eleitorais, e


que não tenham transitado pela conta corrente de campanha, consiste certamente em
uma forma de captação ilícita de recursos.

A propósito, é importante dizer que o ingresso desses recursos materiais na


conta pessoal da representada Selma Rosane Santos Arruda permitiu que ela
efetuasse os gastos eleitorais acima detalhados, uma vez que não possuía recursos
próprios para assumir as despesas acima especificadas.

Nesse sentido, os gastos efetuados pelos representados foram realizados


sem observância das normas previstas na legislação eleitoral regente, porquanto a
representada realizou gastos próprios de campanha muito antes da
abertura da conta bancária específica, que, in casu, ocorreu em 16.8.2018; a
exemplo dos pagamentos que foram feitos à empresa “Genius at Work” ainda no mês de
abril do ano eleitoral em questão, em flagrante descumprimento ao art. 22, da Lei n.º
9.504/1997, que contém a seguinte redação:

“Art. 22. É obrigatório para o partido e para os candidatos abrir conta


bancária específica para registrar todo o movimento financeiro da campanha.”

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Ressalto, além do mais, que a representada Selma Rosane Santos


Arruda descumpriu norma específica relativa à utilização de recursos obtidos mediante
empréstimo, ao se valer de receitas financeiras de seu suplente, haja vista que o art. 18
da Resolução TSE n.º 23.553/2017 estabelece que:

“Art. 18. A utilização de recursos próprios que tenham sido obtidos


mediante empréstimo somente é admitida quando a contratação ocorra em
instituições financeiras ou equiparadas autorizadas a funcionar pelo Banco Central do
Brasil, e, no caso de candidatos, quando cumpridos os seguintes requisitos
cumulativos:

I – estejam caucionados por bem integrante do seu patrimônio no


momento do registro de candidatura;

II – não ultrapassem a capacidade de pagamento decorrente dos


rendimentos de sua atividade econômica.”

É conveniente frisar, ainda, que a prestação de contas dos representados


relativa às eleições de 2018 foi desaprovada, por unanimidade, por este Tribunal
Eleitoral, sendo reconhecido, naquela ocasião, que os ilícitos eleitorais retratados nesta
representação eleitoral configuraram graves irregularidades.

Eis a ementa desse julgamento:

“ELEIÇÕES 2018. PRESTAÇÃO DE CONTAS. CARGO DE SENADORA DA


REPÚBLICA. 1. RECEBIMENTO DE DOAÇÃO EM DESCONFORMIDADE COM O
DISPOSTO NO ART. 22 DA RESOLUÇÃO TSE 23.553/2017. DOADOR
IDENTIFICADO. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS DE ORIGEM ILÍCITA DOS RECURSOS OU
INCAPACIDADE FINANCEIRA. SUPERAÇÃO. 2. RECEBIMENTO DE RECURSO
ESTIMÁVEL EM DINHEIRO NÃO PROVENIENTES DE PRODUTO OU SERVIÇO DO
DOADOR. DOAÇÃO DE AERONAVE COM PILOTO E COMBUSTÍVEL. SITUAÇÃO
PECULIAR QUANTO AO PILOTO. VALOR IRRISÓRIO QUANTO AO COMBUSTÍVEL.
MONTANTE ATRIBUÍDO À DOAÇÃO COMPATÍVEL. RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE. SUPERAÇÃO. 3. PAGAMENTO DE DESPESAS ANTES DO
PERÍODO ELEITORAL À PESSOA QUE TRABALHOU NA CAMPANHA. INDICATIVO
DE ANTECIPAÇÃO DE PAGAMENTOS. VALOR IRRISÓRIO. SUPERAÇÃO. 4. FALTA
DE APRESENTAÇÃO DE CONTRATOS CELEBRADOS COM FORNECEDORES.
IMPOSSIBILIDADE DE AFERIÇÃO DA REGULARIDADE DA CONTRATAÇÃO,
VALORES, OBJETO E PAGAMENTO. IRREGULARIDADE GRAVE. AUSÊNCIA DE
TRANSPARÊNCIA E CONFIABILIDADE. REPROVAÇÃO DAS CONTAS. 5. SERVIÇOS
DE MARKETING E PESQUISA ELEITORAL CONTRATADOS AINDA NO PERÍODO
DE PRÉ-CAMPANHA. GASTOS ELEITORAIS REALIZADOS ANTES DO TERMO
PERMITIDO. OMISSÃO DE DESPESAS. PAGAMENTO ATRAVÉS DE CONTA
PESSOAL DO PRÉ-CANDIDATO. IRREGULARIDADE GRAVE. REPROVAÇÃO DAS
CONTAS. 6. FORNECEDORES E PESSOAS QUE CONSTARAM DA PRESTAÇÃO DE
CONTAS. ALEGAÇÃO DE QUE PARTE DO PAGAMENTO REALIZADO SE DEU PELA
CONTA DE CAMPANHA E PARTE FORA DA CONTA DE CAMPANHA. INDÍCIOS DE
OCORRÊNCIA. QUESTÃO A SER APROFUNDADA EM AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO
JUDICIAL ELEITORAL EM TRÂMITE. 7. ARRECADAÇÃO DE VALORES E
QUITAÇÃO DE DÉBITOS MEDIANTE EMPRÉSTIMO PESSOAL JUNTO A PESSOA
FÍSICA. MÚTUO REALIZADO ENTRE CANDIDATA AO SENADO E SEU PRIMEIRO
SUPLENTE. INOBSERVÂNCIA À REGRA DO ART. 18 DA RESOLUÇÃO TSE N.
23.553/2017. ILEGALIDADE. REPROVAÇÃO DAS CONTAS.

1. A simples violação à forma como os valores ingressaram na conta de


quem recebeu a doação, quando identificado o doador, sem qualquer indício de
irregularidade ou ausência de capacidade financeira, não enseja reprovação da
contabilidade;

2. Na cessão de aeronave para a campanha, o ordinário é o piloto estar


inserido na doação, pois, como se sabe, não é qualquer pessoa que possui confiança do
proprietário para o encargo, inexistindo irregularidade no ponto. Precedente do
TRE/MT firmado na PC n.º 0601329-56.2018;

3. Na cessão de aeronave para a campanha, o combustível, caso não seja


proveniente do produto, serviço ou atividade econômica do doador, deve ser custeado
pelo candidato. Analisando o caso concreto, onde o valor do combustível utilizado se
mostra irrisório frente ao contexto da campanha, pode haver superação da
irregularidade, aplicando-se a razoabilidade e proporcionalidade;

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4. Apesar das provas dos autos indicarem que foi realizado gasto com ao
menos uma pessoa no período de pré-campanha, que veio a trabalhar na campanha, o
que poderia caracterizar antecipação de pagamento vedado, esta despesa, no contexto
da contabilidade, se mostrou de pequena monta, ou seja, representou 0,2% do total de
gastos declarados na campanha, autorizando a superação da irregularidade,
aplicando-se a razoabilidade e proporcionalidade;

5. A falta de apresentação do contrato atinente à empresa de marketing da


campanha impede a análise da área técnica, do Ministério Público e da Justiça
Eleitoral acerca da legalidade da contratação, compatibilidade do objeto, bem como a
regularidade dos valores pagos com àquilo que foi contratado, comprometendo a
confiabilidade necessária. A falta de assinatura do contrato por uma das partes não
exime a responsabilidade dos prestadores de contas, pois o serviço sequer poderia ter
se iniciado sem o preenchimento de tal formalidade, indispensável à lisura da
respectiva despesa. Precedentes;

6. A realização de gastos eleitorais em valor considerável [R$


927.816,36] com marketing [‘produção de vídeos, jingles e vinhetas;
criação de conceito e logomarca, bem como a finalização das artes para
adesivos, banners, faixa, bandeiras, fundo de palco, panfletos, santinhos,
santão e praguinhas’] e pesquisa eleitoral antes do período permitido
[pré-campanha], pagos diretamente através da conta pessoal da pré-
candidata e seu suplente, omitidos na prestação de contas, representam
irregularidade grave, apta à reprovação da contabilidade de campanha;

7. Mesmo havendo fortes indícios da ocorrência de pagamento de pessoal e


fornecedores à margem da contabilidade oficial da campanha, a análise da matéria
deve ocorrer no âmbito das ações de investigação judicial eleitoral já em andamento,
cujo procedimento, no tocante à produção de provas, contraditório e ampla defesa,
possui maior envergadura;

8. Tendo havido empréstimo pessoal em valor considerável [R$


1.500.000,00] para pagamento de despesas e gastos eleitorais, contraído
através de mútuo entre pré-candidata e pessoa que posteriormente passou
a figurar como seu primeiro suplente, conclusão inevitável é da origem
irregular dos valores, pois, conforme resolução de regência, tal operação
somente poderia ter ocorrido com instituição financeira ou equiparada
autorizada a funcionar pelo Banco Central. Irregularidade grave.
Precedentes;

9. Contas de campanha desaprovadas” (TRE-MT, Prestação de


Contas n.º 0601112-13.2018.6.11.0000, Rel. Dr. Ulisses Rabaneda dos Santos; data da
publicação: 30.1.2019).

Vale consignar que é plenamente possível que a prática do “caixa dois”


ocorra antes mesmo do período eleitoral, contrariando a tese ventilada pelos
representados, de que os recursos não transitaram em conta corrente porque esta ainda
não podia ser aberta.

Eis o entendimento sedimentado pelo Tribunal Superior Eleitoral:

“EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO


ORDINÁRIO. ELEIÇÕES 2014. SUPLENTE. DEPUTADO ESTADUAL. AÇÃO DE
INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL (AIJE). ABUSO DE PODER ECONÔMICO
(ART. 22 DA LC 64/90). ARRECADAÇÃO ILÍCITA DE RECURSOS DE CAMPANHA
(ART. 30-A DA LEI 9.504/97). PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA.
DESVIRTUAMENTO. USO PROMOCIONAL. OMISSÃO. CONTRADIÇÃO.
OBSCURIDADE. INEXISTÊNCIA. REJEIÇÃO.

1. Esta Corte, de modo unânime, manteve as sanções de perda de diploma e


de inelegibilidade impostas a Luziane Cravo Silva, suplente do cargo de deputado
estadual do Pará eleita em 2014, por abuso de poder econômico (art. 22 da LC 64/90)
e captação ilícita de recursos de campanha (art. 30-A da Lei 9.504/97), excluindo
apenas a multa fundada no art. 73, IV, e § 11, da Lei 9.504/97.

[...]

4. Os pontos foram expressamente enfrentados no aresto embargado, no


qual se consignou que: a) o abuso de poder não depende da circunstância de o
ilícito ter sido praticado dentro ou fora do período eleitoral; b) os

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depoimentos das testemunhas arroladas pela candidata foram apreciados, mas são
inaptos a alterar a conclusão desta Corte, haja vista o robusto acervo probatório que
demonstra uso indevido do programa Minha Casa Minha Vida para promover a
imagem de Luziane Cravo Silva com fins eleitoreiros.

[...]

7. Assentou-se, ainda, que a propaganda favorável à candidata deu-se não


apenas no evento promovido em 27/12/2013, conforme alega a embargante, mas
também na distribuição de informes publicitários e de documentos no decorrer do ano
do pleito em que se divulgava sua imagem, relacionando-a às benesses concedidas
pelo programa Minha Casa Minha Vida. Ressaltou-se, por fim, ser admissível o
reconhecimento do ilícito do art. 30-A da Lei 9.504/97 mesmo que os fatos sejam
anteriores ao pedido de registro de candidatura.

[...]

9. Embargos de declaração rejeitados” (TSE, Recurso Ordinário n.º


317.348/PA, Rel. Min. Jorge Mussi; data da publicação: 3.8.2018).

Também, é a conclusão que se extrai dos ensinamentos de Rodrigo López


Zilio, que com muita razão leciona sobre essa temática:

“[...] O emprego da locução ‘para fins eleitorais’ indica que a proibição é


direcionada para toda e qualquer forma de arrecadação ou gasto ilícito de recursos
que tenha a finalidade de ser aplicado em determinada campanha eleitoral – ainda
que futura. [...] São previstas duas condutas materiais autônomas: arrecadação e
gastos ilícitos. Em quaisquer delas basta a prova de que a conduta ocorreu com
finalidade eleitoral (‘para fins eleitorais’), ainda que a ação de captar os
recursos eventualmente tenha ocorrido fora do período eleitoral. Do
exposto, a cominação de ilicitude ocorre em toda conduta de captação ou
aporte de recursos, ainda antes do início do período eleitoral, desde que
tais valores sejam direcionados para custeio de atos de campanha” (in
Direito Eleitoral, 6ª edição. Porto Alegre: Editora Verbo Jurídico, 2018, p. 755;
destaquei).

Destarte, outro caminho não há senão reconhecer que os atos praticados


pelos representados configuram inequívoca prática dos ilícitos previstos no
art. 30-A, da Lei n.º 9.504/1997, consistentes na prática de condutas que violam
diretamente as regras que disciplinam a arrecadação e gastos de recursos financeiros
destinados à campanha eleitoral, hábeis a configurar a danosa prática do “caixa dois”, e
que afetam a higidez da campanha e a igualdade na disputa.

De outra banda, as hipóteses materiais de configuração do art. 30-A, da Lei


das Eleições – arrecadação e gastos ilícitos de recursos – podem configurar a prática de
abuso de poder econômico. É o que diz o § 3º, do art. 22, da Lei n.º 9.504/1997, in
verbis:

“O uso de recursos financeiros para pagamentos de gastos eleitorais que


não provenham da conta específica de que trata o caput deste artigo implicará a
desaprovação da prestação de contas do partido ou candidato; comprovado abuso de
poder econômico, será cancelado o registro da candidatura ou cassado o diploma, se
já houver sido outorgado.”

No que diz respeito à definição do abuso de poder econômico, vejamos a


doutrina de José Jairo Gomes:

“O abuso de poder econômico tanto pode decorrer do emprego abusivo de


recursos patrimoniais como do mau uso de meios de comunicação social ou do
descumprimento das regras atinentes à arrecadação e ao uso de fundos de campanha
(LE, art. 18 e 30-A). [...] Também caracteriza abuso de poder econômico o emprego na
campanha, de recursos oriundos de ‘caixa dois’, ilicitamente arrecadados, não
declarados à Justiça Eleitoral” (in Direito Eleitoral, 14ª edição. São Paulo: Saraiva,
2018, pp. 367-368).

No que tange ao exame da prática dos ilícitos eleitorais previstos no art.


30-A da Lei das Eleições, sob a ótica do abuso de poder econômico, colaciono decisões
recentes do Tribunal Superior Eleitoral:

“AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. ELEIÇÕES 2012.

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VEREADOR. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL.


ARRECADAÇÃO E GASTOS ILÍCITOS DE RECURSOS DE CAMPANHA.
ABUSO DE PODER. ‘CAIXA DOIS’. CONFIGURAÇÃO. DESPROVIMENTO.

1. O agravante, Vereador de Araçatuba/SP eleito em 2012, teve seu


diploma cassado e foi considerado inelegível por arrecadação ilícita de recursos (art.
30-A da Lei 9.504/97) e abuso de poder econômico (art. 22 da LC 64/90) decorrente de
‘caixa dois’, porquanto não declarou a origem de valores que, ademais, não
transitaram pela conta de campanha, no importe de R$ 7.603,20, o que corresponde a
quase 12% de receitas (R$ 64.250,15).

2. No regimental, pugna-se pela aplicação dos princípios da razoabilidade


e da proporcionalidade e alega-se que a conduta não é grave o suficiente (art. 22, XVI,
da LC nº 64/90).

3. A prática de ‘caixa dois’ constitui motivo bastante para incidência das


sanções, eis que a fraude escritural de omissão de valores recebidos e de falta de
esclarecimento de sua origem inviabiliza o controle, por esta Justiça Especializada, de
aporte financeiro em favor de candidatos, partidos políticos e coligações. Precedentes,
em especial o AgR-REspe 235-54/RN, Rel. Min. Luiz Fux, DJe de 15.10.2015.

4. Não se cuida, na espécie, de simples falha de natureza estritamente


contábil, mas sim de uso de recursos financeiros não declarados, sem trânsito por
conta bancária específica e sem comprovação de sua origem, sendo inequívoco o ‘caixa
dois’.

5. Abuso de poder também reconhecido ante a proporção de recursos


ilícitos (11,83% de R$ 64.250,15) e, ainda, a vantagem de apenas 60 votos para o
primeiro suplente em colégio que conta com quase 140 mil eleitores.

6. Os julgados trazidos não possuem similitude fática com o caso: a) no


REspe 392-22/AM (Rel. Min. Dias Toffoli), inexistiu ‘caixa dois’; b) no REspe
1610-80/MS (Rel. Min. Laurita Vaz), a falha equivaleu a apenas 4% de receitas; c) no
REspe 863-48/MG (Rel. Min. Luiz Fux), cuida-se de processo de contas e a falha foi de
7% (R$ 5.053,60); d) no AgR-AI 540-39/RJ (Rel. Min. Luiz Fux), o vício nas contas
totalizou apenas R$ 300,00.

7. Agravo regimental desprovido” (TSE, Recurso Especial Eleitoral n.º


76064/SP, Rel. Min. Herman Benjamin; data da publicação: 29.9.2016).

“ELEIÇÕES 2012. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL


ELEITORAL. CAPTAÇÃO ILÍCITA DE RECURSOS FINANCEIROS DE
CAMPANHA ELEITORAL (LEI DAS ELEIÇÕES, ART. 30-A). ABUSO DO
PODER ECONÔMICO. PREFEITO E VICE-PREFEITO. AUSÊNCIA DE JULGAMENTO
EXTRAPETITA. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO-PROBATÓRIO DOS AUTOS.
SÚMULAS Nos 279/STF, 7/STJ E 24/TSE. PRESSUPOSTOS DE ADMISSIBILIDADE
NÃO PREENCHIDOS. NÃO INDICAÇÃO DO DISPOSITIVO LEGAL VIOLADO. NÃO
DEMONSTRAÇÃO DA DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. INCIDÊNCIA DAS
SÚMULAS Nºs 284/STF E 27/TSE. ILÍCITOS CONSIDERADOS GRAVES PELAS
INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. RELEVÂNCIA JURÍDICA DA CONDUTA IMPUTADA.
PROPORCIONALIDADE. CASSAÇÃO DO MANDATO. DECLARAÇÃO DE
INELEGIBILIDADE. NOVA INCURSÃO NO ARCABOUÇO FÁTICO-PROBATÓRIO
DOS AUTOS. INVIABILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO.

[...]

3. Relativamente à questão de fundo, as instâncias inferiores consideraram


que: a) os fatos imputados aos Recorrentes, os quais restaram demonstrados,
inclusive, por meio de laudo pericial contábil, no tocante às irregularidades e omissões
na prestação de contas do candidato, configuraram violação ao art. 30-A da Lei das
Eleições, porquanto foram dotados de gravidade suficiente para fins de caracterização
de abuso do poder econômico; b) todas as condutas ofenderam de forma grave e
ampla a lei e a isonomia de oportunidades entre os candidatos e a higidez da
campanha eleitoral; e c) a omissão de gastos no montante de R$ 139.451,71 (cento e
trinta e nove mil, quatrocentos e cinquenta e um reais e setenta e um centavos) teria
inviabilizado a aferição da real movimentação financeira ocorrida na campanha
eleitoral.

[...]

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5. A cassação, enquanto gravosa pena imposta ao agente infrator, é


medida que se impõe sempre que se verificar, in concreto, a gravidade e a relevância
jurídica do ilícito praticado.

6. In casu, relativamente à questão da proporcionalidade, ficou assentado


no decisum regional que (fls. 3.513-3.514): ‘Nesse panorama, consoante registrou o
Procurador Regional Eleitoral em seu parecer, ‘todas as irregularidades e omissões
não se apresentam irrelevantes quando analisadas conjuntamente, mas, sim,
harmônicas com um conjunto probatório que não deixa margem para qualquer
dúvida, restando evidente que todas essas condutas ofenderam de forma grave e
ampla a lei e a isonomia de oportunidades entre os candidatos e a higidez da
campanha eleitoral, frente a tudo que deflui dos autos’. Quanto ao argumento dos
investigados, ora recorrentes, de ser necessária a demonstração de potencialidade ou
má-fé do candidato para se configurar a violação ao art. 30-A da Lei nº 9.504/97, o
TSE já pacificou entendimento no sentido de ser necessária tão somente a
demonstração da proporcionalidade (relevância jurídica) da conduta frente ao
contexto da campanha eleitoral [...].’

7. Agravo regimental desprovido” (TSE, Recurso Especial Eleitoral n.º


42544/RN, Rel. Min. Luiz Fux; data da publicação: 19.12.2016).

Ainda nesse diapasão, destaco que a norma contida no inciso XVI, do art.
22, da Lei das Inelegibilidades estabeleceu que “para a configuração do ato
abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o
resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o
caracterizam”.

A propósito, o Tribunal Superior Eleitoral deixou assente que “abuso do


poder econômico caracteriza-se pela utilização desmedida de aporte patrimonial que,
por sua vultosidade, é capaz de viciar a vontade do eleitor, desequilibrando a lisura do
pleito e seu desfecho” (TSE, Recurso Especial Eleitoral n.º 624-54/SP, Rel. Min. Jorge
Mussi; data da publicação: 11.5.2018).

E ainda pontuou a Corte Superior Eleitoral que “configura abuso do poder


econômico a utilização de recursos patrimoniais em excesso, sejam eles públicos ou
privados, sob poder ou gestão do candidato, em seu benefício eleitoral” (TSE, Agravo
Regimental no Recurso Ordinário n.º 98090/SP, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho;
data da publicação: 1º.8.2017).

No caso sub judice, à luz dos ensinamentos doutrinários supramencionados,


bem ainda em sintonia com a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, é forçoso
dizer que restou configurado o abuso de poder econômico, em razão da utilização
excessiva, pelos representados, de aportes financeiros em desacordo com as normas
relativas à arrecadação e gastos de recursos, sendo que tal conduta veio beneficiar
diretamente a chapa por eles composta, prejudicando a igualdade de oportunidade entre
os candidatos, bem como comprometendo a normalidade das eleições.

Assinalo, mais uma vez, que os gastos próprios de campanha eleitoral


realizados pelos representados, sem escrituração contábil, atingiram o valor de R$
1.232.256,00 (um milhão, duzentos e trinta e dois mil, duzentos e cinquenta
e seis reais), valor este que se afigura significativo no contexto da campanha.

Com efeito, vale destacar que o total de gastos omitidos pelos


representados correspondem a 72,29% (setenta e dois vírgula vinte e nove por
cento) das despesas efetivamente declaradas pelos representados à Justiça Eleitoral.

A gravidade se revela ainda pelo fato de que o valor das despesas realizadas
pelos representados por ocasião da disputa a uma das vagas ao Senado Federal, no
patamar de R$ 2.936.672,93 (dois milhões, novecentos e trinta e seis mil, seiscentos e
setenta e dois reais e noventa e três centavos) – neste caso, considerados os valores
omitidos e os escriturados –, superam a movimentação financeira realizada pelo
candidato eleito ao cargo de Presidente da República, Jair Bolsonaro, contabilizada no
valor R$ 2.456.215,03 (dois milhões, quatrocentos e cinquenta e seis mil, duzentos e
quinze reais e três centavos).

Outrossim, mesmo que não se desconheça o alto custo das campanhas


eleitorais voltadas à disputa ao cargo de Senador da República – que têm um limite de
gastos estabelecido em R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais) para o Estado de Mato
Grosso (art. 5º, § 2º, II, da Resolução TSE n.º 23.553/2017) – o fato de a representada
Selma Rosane Santos Arruda ter contraído despesas eleitorais antecipadamente, e

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em excesso, permitiu aos representados saírem em larga vantagem em relação aos


demais concorrentes no pleito, importando em quebra no princípio da isonomia e
desequilíbrio entre os participantes do processo eleitoral. Ou seja, os representados
“queimaram a largada” na corrida a uma vaga no Senado da República.

Ademais, é importante salientar que a chapa majoritária encabeçada pela


representada Selma Rosane Santos Arruda foi a mais votada na disputa ao Senado
Federal, circunstância que, seguramente, atesta a aptidão dos atos praticados para ferir
o bem jurídico protegido pela legislação eleitoral, in casu, a legitimidade do voto.

Desse modo, não resta qualquer dúvida quanto à gravidade das condutas
praticadas pelos representados, os quais afetaram objetivamente a igualdade de
oportunidades entre os candidatos na disputa eleitoral e a normalidade das eleições ao
cargo de Senador da República, sendo o caso de procedência desse pedido contido na
presente AIJE, diante do reconhecimento da prática do abuso do poder econômico,
consubstanciada na realização de condutas que violam diretamente as regras que
disciplinam a arrecadação e gastos de recursos financeiros destinados à campanha
eleitoral (art. 30-A, da Lei n.º 9.504/1997).

Por outro viés, sustentam os representantes da segunda AIJE proposta (n.º


06017103-72.2018.6.11.0000) a ocorrência da prática de abuso de poder político, sob o
fundamento de que a representada Selma Rosane Santos Arruda teria sido
supostamente beneficiada por decisão monocrática do Presidente do Tribunal de Justiça
do Estado de Mato Grosso, que concedeu sua aposentadoria por meio de ato ad
referendum do Pleno, publicado no dia 2 de abril de 2018, conferindo, dessa maneira,
tempo hábil para a representada comprovar sua desincompatibilização e se filiar ao seu
partido político.

A tese formulada pelos representantes não tem qualquer consistência.

Analisando a documentação inserida neste feito através do Id. n.º 829322, é


possível constatar que é praxe do Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso a
concessão de aposentadoria dos seus magistrados por meio de decisão monocrática de
seu Presidente, a ser posteriormente referenda pelo Tribunal Pleno.

É importante salientar também que o ato de concessão de aposentadoria de


magistrados não está inserido no rol das decisões em que o Presidente deve se abster de
decidir ad referendum, no termos do Código de Organização e Divisão Judiciárias do
Estado de Mato Grosso – COJE.

Além disso, cumpre-me dizer que ação de investigação judicial eleitoral não
é meio hábil para se discutir questões relativas à filiação partidária e ao registro de
candidatura, as quais, evidentemente, dispõem de meios judiciais próprios de
impugnação.

Dessa forma, considerando que o conjunto fático probatório não sinalizou a


ocorrência de abuso de poder político, conforme deduzido pelos representantes na peça
inaugural da AIJE, reputo não configurado o ilícito eleitoral em questão.

Além disso, a segunda representação eleitoral foi ajuizada com fundamento


em mais uma causa de pedir.

In casu, alegam os representantes que também é possível qualificar as


condutadas praticadas pelos representados como uso indevido dos meios de
comunicação social, porquanto a requerida Selma Rosane Santos Arruda teria sido
supostamente beneficiada pela massificação de matérias nas mídias sociais,
encomendadas a profissionais de marketing para impulsionar sua popularidade e
atingir a imagem dos adversários.

Ocorre que é manifesto que o conjunto probatório produzido nesta demanda


não priorizou a comprovação da prática do abuso de poder sob a ótica do uso indevido
dos meios de comunicação social, de modo que não restou cabalmente comprovado que
um ou mais veículos de comunicação desrespeitaram a legislação eleitoral, a ponto de
repercutir benefício eleitoral em favor dos representados, causando, então, prejuízo à
normalidade e legitimidade das eleições.

É assente na jurisprudência do TSE que a configuração do abuso de poder


pelo uso indevido dos meios de comunicação requerer a presença de um conjunto
probatório concludente.

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Nesses termos, transcrevo aresto da Corte Superior Eleitoral:

“ELEIÇÕES 2016. AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO


DE INVESTIGAÇÃO JUDICIAL ELEITORAL. ABUSO. DESVIO. PODER ECONÔMICO.
USO INDEVIDO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. PROVA ROBUSTA.
INEXISTÊNCIA. DECISÃO DA CORTE DE ORIGEM EM SINTONIA COM A
JURISPRUDÊNCIA DO TSE. SÚMULA Nº 30/TSE. CONTEÚDO FÁTICO-
PROBATÓRIO. REEXAME. SÚMULA Nº 24/TSE. REITERAÇÃO DE TESES.
DESPROVIMENTO.

1. In casu, consoante se infere do acórdão hostilizado, o TRE/PE reformou


a sentença de piso para julgar improcedentes os pedidos contidos na AIJE nº
14-42.2016.6.17.0001, proposta, na origem, pelo Ministério Público Eleitoral, e na
AIJE nº 9-20.2016.6.17.0001 (conexa à primeira), ajuizada pelo PRTB e por José
Wilton de Brito Cavalcanti, por considerar comprovada apenas a veiculação de
propaganda irregular pelo recorrido mediante postagens patrocinadas na internet
(Facebook), ausentes provas do abuso do poder econômico e do uso indevido de meios
de comunicação social.

2. Conquanto tenha sido demonstrada a responsabilidade do então


candidato e de sua equipe pelas propagandas veiculadas na internet, em rede social
(Facebook), de forma irregular, tal conduta não configura uso indevido dos meios de
comunicação social, pois inexistem provas robustas nos autos quanto à ocorrência de
abuso - ou desvio - do poder econômico e do uso indevido dos veículos ou meios de
comunicação social em benefício de candidatos, a teor do disposto nos arts. 19 e 22 da
Lei Complementar nº 64/90.

3. Quanto à condenação em AIJE, com base no art. 22 da LC nº 64/90,


correto o entendimento da Corte de origem de que ‘não se pode cassar um mandato
com base em juízo de suposição’ (fl. 821). Aplicação da Súmula nº 30/TSE.

4. De mais a mais, o exame das razões do recurso especial - de que os atos


supostamente abusivos se revestem de gravidade tal a justificar a aplicação das
penalidades de cassação e/ou inelegibilidade - somente seria possível mediante nova
incursão no acervo fático-probatório. Aplicação da Súmula nº 24/TSE.

5. Agravo regimental desprovido” (TSE, Recurso Especial Eleitoral n.º


1442/PE, Rel. Min. Tarcisio Vieira de Carvalho Neto; data da publicação: 3.12.2018).

Por derradeiro, convém dizer que, apesar dos ilícitos eleitorais constatados
no curso deste processo eleitoral terem beneficiado a todos integrantes da chapa
demandada, não houve demonstração de que a investigada Clerie Fabiana Mendes
tenha participado direta ou indiretamente na prática dos atos abusivos, sendo imperioso
afastar-lhe de eventual declaração de inelegibilidade, haja vista o que estabelece o inciso
XV, do art. 22, da Lei das Inelegibilidades, que tem a seguinte redação:

“XIV – julgada procedente a representação, ainda que após a


proclamação dos eleitos, o Tribunal declarará a inelegibilidade do
representado e de quantos hajam contribuído para a prática do ato,
cominando-lhes sanção de inelegibilidade para as eleições a se realizarem
nos 8 (oito) anos subsequentes à eleição em que se verificou, além da
cassação do registro ou diploma do candidato diretamente beneficiado pela
interferência do poder econômico ou pelo desvio ou abuso do poder de autoridade ou
dos meios de comunicação, determinando a remessa dos autos ao Ministério Público
Eleitoral, para instauração de processo disciplinar, se for o caso, e de ação penal,
ordenando quaisquer outras providências que a espécie comportar;” (destaquei).

Diante do exposto, com fundamento no art. 22, inciso XIV, da Lei


Complementar n.º 64/1990 c/c o art. 30-A, da Lei n.º 9.504/1997, julgo
parcialmente procedentes as presentes ações de investigação judicial eleitoral, e, ao
reconhecer a prática do abuso de poder econômico e da utilização ilícita de recursos
para fins eleitorais (“caixa dois”), determino:

1 – a cassação dos diplomas de Selma Rosane Santos Arruda


(Senadora da República), Gilberto Eglair Possamai (1º suplente) e Clerie Fabiana
Mendes (2º suplente), outorgados em razão do resultado das eleições gerais de 2018,
decretando-se, por consequência, a perda de seus mandatos eletivos, conforme art. 22,
inciso XIV, da Lei Complementar n.º 64/1990 c/c o art. 30-A, § 2º, da Lei n.º
9.504/1997; e

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2 – a decretação da inelegibilidade tão somente de Selma Rosane


Santos Arruda e de Gilberto Eglair Possamai, para as eleições a se realizarem nos
8 (oito) anos subsequentes ao pleito de 2018, consignando-se que, quanto à Clerie
Fabiana Mendes, também representada, não ficou comprovada a participação na
prática do ato abusivo, nos termos do art. 22, inciso XIV, da Lei Complementar n.º
64/1990.

Confirmada a cassação dos representados, após o julgamento de eventual


recurso ordinário pelo TSE (art. 257, § 2º, do Código Eleitoral), fica desde logo
convocada a realização de novas eleições para uma vaga ao cargo de Senador, nos
termos do artigo 224, §§ 3º e 4º, inciso II, do Código Eleitoral, independentemente
do trânsito em julgado desta decisão (conforme ADI 5.525/DF), cabendo a este
Tribunal, oportunamente, designar a data e adotar as demais providências
indispensáveis.

Esclareço, por pertinente, que tal medida (realização de novas eleições) se


faz necessária uma vez que a chapa formada pelos representados foi integralmente
maculada por razões eleitorais, anulando-se os votos por ela obtidos e declarando vago o
cargo de Senador em exame.

Além da regra acima mencionada disposta no Código Eleitoral, o texto


constitucional, ao tratar dos mandatos dos Senadores, estabelece no § 2º do art. 56 o
seguinte:

“Art. 56. [...]

§ 2º. Ocorrendo vaga e não havendo suplente, far-se-á eleição para


preenchê-la se faltarem mais de quinze meses para o término do mandato.”

Ademais, na assentada de julgamento da ADI 5.525/DF, o Supremo


Tribunal Federal apreciou a ADI 5.619/DF, deixando claro que, em casos como o
presente, a convocação de novo pleito é medida inafastável, conforme se extrai da
ementa abaixo:

“DIREITO CONSTITUCIONAL E ELEITORAL. AÇÃO DIRETA DE


INCONSTITUCIONALIDADE. PREVISÃO, POR LEI FEDERAL, DE
HIPÓTESES DE VACÂNCIA DE CARGOS MAJORITÁRIOS POR CAUSAS
ELEITORAIS, COM REALIZAÇÃO DE NOVAS ELEIÇÕES.
APLICABILIDADE DA NORMA ÀS ELEIÇÕES PARA PREFEITOS DE
MUNICÍPIOS COM MENOS DE DUZENTOS MIL ELEITORES E PARA O
CARGO DE SENADOR DA REPÚBLICA.

1. O legislador ordinário federal pode prever hipóteses de vacância de


cargos eletivos fora das situações expressamente contempladas na Constituição, com
vistas a assegurar a higidez do processo eleitoral e a preservar o princípio
majoritário.

2. Diferentemente do que ocorre com o Presidente e Senadores, a


Constituição não estabelece expressamente uma única solução para hipótese de dupla
vacância nos cargos de Governador e Prefeito. Assim, tratando-se de causas eleitorais
de extinção do mandato, a competência para legislar a respeito pertence à União, por
força do disposto no art. 22, I, da Constituição Federal, e não aos entes da Federação,
aos quais compete dispor sobre a solução de vacância por causas não eleitorais de
extinção de mandato.

3. Não ofende os princípios da soberania popular, da


proporcionalidade, da economicidade e a legitimidade e normalidade dos
pleitos eleitorais a aplicação de dispositivo que determina a realização de
novas eleições no caso de decisão da Justiça Eleitoral que importe o
indeferimento do registo, a cassação do diploma ou a perda do mandato
de candidatos eleitos, independentemente do número de votos anulados,
para cargos majoritários simples – Senador da República e Prefeito de
Municípios com menos de duzentos mil eleitores.

4. Ação direta de inconstitucionalidade cujo pedido se julga improcedente.


Fixação da seguinte tese: ‘É constitucional legislação federal que
estabeleça novas eleições para os cargos majoritários simples – isto é,
Prefeitos de Municípios com menos de duzentos mil eleitores e Senadores
da República – em casos de vacância por causas eleitorais’” (STF, Ação
Direta de Inconstitucionalidade n.º 5.619/DF, Rel. Min. Roberto Barroso; data do

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julgamento: 8.3.2018; data da publicação: 7.8.2018).

A propósito, em lição doutrinária antecedente ao julgamento da ADI n.º


5.525/DF, Marcilio Nunes Medeiros, em comentários ao conflito aparente de normas do
§ 3º do art. 224 com o § 2º do art. 257 do Código Eleitoral (conflito este superado
com o julgamento da mencionada ADI), já recomendava a adoção do seguinte
procedimento, em hipóteses como a dos autos:

“O § 2º do art. 257 do CE, incluído pela Lei nº 13.165/15, instituiu o efeito


suspensivo aos recursos ordinários interpostos contra decisões dos Juízes Eleitorais e
dos TREs nos processos que ensejam cassação de registro, afastamento do titular ou
perda de mandato eletivo, ao passo que este art. 224, § 3º, do CE, acrescentado pela
mesma Lei nº 13.165/15, exige o trânsito em julgado para a realização de novas
eleições nos casos de indeferimento do registro, cassação do diploma ou perda do
mandato de candidato eleito em pleito majoritário. Assim sendo, nos casos de
cassação de diploma ou de perda do mandato, garante-se efeito
suspensivo ao recurso ordinário e, julgado este, eventuais recursos não
terão esse efeito, afastando-se, desde então, o sujeito passivo da ação.
Como a realização das novas eleições exige o trânsito em julgado da decisão de
cassação do diploma ou de perda do mandato, deve assumir o cargo majoritário
aquele seguinte na linha sucessória, de acordo com o ato normativo que rege a
matéria” (in Legislação Eleitoral Comentada e Anotada. Salvador: Editora JusPodivm,
2017, p. 530).

Na espécie, considerando a cassação da chapa senatorial em sua


integralidade, não há falar em posse dos suplentes, fazendo-se necessária a convocação
de novo pleito a fim de suprir a vacância.

Todavia, a morosidade inerente a tal processo não pode permitir que o


Estado de Mato Grosso permaneça sub-representado perante as demais unidades da
federação no Senado da República, sob pena de infringência ao princípio da isonomia e
ao próprio princípio federativo, ambos consagrados em nível constitucional.

Destarte, esgotados os recursos dotados de efeito suspensivo,


porém independentemente do trânsito em julgado, determino que o desfalque
seja imediata e interinamente preenchido pelo 3º colocado na disputa eleitoral de 2018,
a saber, Carlos Henrique Baqueta Fávaro, que poderá permanecer no cargo tão
somente até a posse do candidato a ser chancelado pelas urnas, sem prejuízo de sua
participação, se assim desejar, nas eleições a serem convocadas.

Indefiro de plano o pedido de litigância de má-fé formulado pelos


representantes (petição de Id n.º 1319072), por considerar que o pedido da representada
Selma Rosane Santos Arruda em adiar o julgamento da ação eleitoral por duas sessões,
fundado na constituição de novos patrono, não ultrapassa os limites do direito de
petição (art. 5º, XXXIV, “a” da Constituição Federal), e, por conseguinte, não configura
hipótese de incidência da regra prevista no art. 80, IV, do Código de Processo Civil.

Por fim, determino a remessa de cópia dos autos ao Ministério Público


Eleitoral, para instauração de eventual investigação/persecução criminal, inclusive em
relação ao suposto contrato de mútuo celebrado entre os representados Selma Rosane
Santos Arruda e Gilberto Eglair Possamai, sem prejuízo de outras providências que a
espécie comportar (art. 22, parte final do inciso XIV, da Lei Complementar n.º
64/1990).

É como voto.

____________

Art. 224. [...]

§ 3o A decisão da Justiça Eleitoral que importe o indeferimento do registro,


a cassação do diploma ou a perda do mandato de candidato eleito em pleito majoritário
acarreta, após o trânsito em julgado, a realização de novas eleições, independentemente
do número de votos anulados. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015)

ADI 5.525/DF – STF – Decisão: O Tribunal, por maioria e nos termos do


voto do Relator, julgou parcialmente procedente a ação para declarar a
inconstitucionalidade da locução “após o trânsito em julgado”, prevista no § 3º do art.

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224 do Código Eleitoral, e para conferir interpretação conforme a Constituição ao § 4º


do mesmo artigo, de modo a afastar do seu âmbito de incidência as situações de
vacância nos cargos de Presidente e Vice-Presidente da República, bem como no de
Senador da República. Vencido, em parte, o Ministro Alexandre de Moraes, nos termos
de seu voto. Presidiu o julgamento a Ministra Cármen Lúcia. Plenário, 8.3.2018.

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