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FATOR DE POTÊNCIA *

1.1 CONCEITO DE FATOR DE POTÊNCIA

O denominado “fator de potência” é um conceito-chave na interpretação do fluxo de cargas


no sistema elétrico, pois identifica a relação entre a potência ativa (kW) de um equipamento e a sua
potência aparente (kVA), total, efetivamente solicitada da rede elétrica.

Matematicamente o fator de potência pode ser definido como a relação entre a potência ativa
solicitada da rede e a potência aparente total:

P P
fp = = ativa
S P (1.1)
aparente

e levando em conta a forma senoidal associada a todas as grandezas elétricas envolvidas, obtém-se
o denominado triângulo de potências:

S
Q
V ef φ

Ie f φ P

P = V e f.Ie f. c o s φ
S = V e f.I e f
Q = V e f .Ie f. s e n φ

Fig. 1.1 Triângulo de potências.

onde: P = potência ativa (ou real); Q= potência reativa; S= potência aparente.

Este conceito de fator de potência e seu triângulo de potência aplicam-se, sem alterações,
somente às cargas ditas “lineares” (aquecedores, lâmpadas incandescentes, reatores, capacitores e
motores elétricos). Entretanto, a evolução da eletrônica de potência, nas últimas décadas, tem
permitido a fabricação e a crescente utilização de conversores estáticos a semicondutores de
potência nos sistemas de condicionamento de energia e em acionamentos de máquinas elétricas, em
CC e CA, dentre outras aplicações. Em conseqüência, tem-se hoje (1998), um elevado montante de
equipamentos desse tipo que se apresentam para a rede elétrica como cargas “não-lineares”,
opondo-se às convencionais cargas “lineares”, acima citadas.

Uma carga não-linear típica pode ser exemplificada como um simples retificador
monofásico a diodo, cuja corrente solicitada da rede ilustra bem esse comportamento dito não-

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linear, comum aos conversores estáticos de potência. A Fig. 1.2 apresenta a forma-de-onda típica da
corrente de linha, solicitada da rede, por tal retificador.

Considerando-se a tensão da rede como perfeitamente senoidal, e aplicando-se a


transformada de Fourier à corrente pulsada solicitada da rede, obtém-se a seguinte expressão:

I ef ( total ) = I o + I12ef + I 22ef +...+ I nef


2
(1.2)

ie v ca
ie
+

vca
∼ Co Ro
Vo vale
-

Fig. 1.2 Retificador monofásico e corrente de linha.

Onde I1ef é a componente fundamental eficaz da corrente de entrada (na freqüência da rede), Io é a
componente de corrente contínua, ou componente de seqüência zero (que é nula para uma corrente
alternada periódica, com simetria de meia onda), e I2ef ... Inef são os valores eficazes das
componentes harmônicas criadas pela distorção na corrente de linha.

O fator de potência pode, então, ser calculado como:

P I1ef ⋅ cos φ 1
fp = = (1.3)
S I ef ( total )

onde φ 1 é o ângulo de defasamento entre a tensão da rede e I1ef.

Fazendo-se, agora, uma associação entre Ief(total) e uma grandeza elétrica senoidal na
freqüência da rede, pode-se estabelecer uma relação angular (θ ) entre esta e a corrente eficaz
fundamental (I1ef). O cosseno deste ângulo resulta, portanto:

I 1ef
cosθ = (1.4)
I ef (total)

e θ estará ligado ao conteúdo harmônico da corrente de linha; à medida em que esse conteúdo
harmônico de Ief(total) se aproxima de zero, θ se aproxima de zero e o cos θ se aproxima de 1.

Levando-se em conta as duas últimas expressões, o fator de potência pode ser expresso
como:

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fp = cos θ ⋅ cos φ 1 (1.5)

e a representação do novo “triângulo de potências” fica como na Fig. 1.3.

Vef I1efP P P=Vef.I1ef.cos φ1


I1ef φ1 I1efQ Q=Vef.I1ef.sen φ1
θ S1
Q S1=Vef.I1ef
Ief(total) ∞

S D D = Vef ⋅ ∑I 2
nef
n =2

S=Vef.Ief(total)
Fig. 1.3 Triângulo de potências de cargas não-lineares.

Nesta figura, φ 1 é o ângulo de deslocamento entre a tensão e a componente fundamental da


corrente de linha, o que leva a denominar-se o cosφ 1 de “fator de deslocamento”. Já o ângulo θ é o
ângulo de distorção causado pelo conteúdo harmônico da corrente e o cosθ pode ser denominado
de “fator de distorção”. Aumentar o fator de potência significa reduzir tanto a potência reativa
(atraso ou avanço da corrente em relação à tensão de linha), pela redução do ângulo φ 1 , quanto a
potência de distorção (conteúdo harmônico), pela redução do ângulo θ.

Tanto o sistema elétrico de potência quanto os consumidores podem se beneficiar do


aumento do fator de potência. Supondo que sejam utilizados sistemas corretores de fator de
potência (CFP) nos conversores estáticos instalados, têm-se os seguintes benefícios [1]:

1. As tomadas comuns em residências e no comércio são projetadas para fornecerem 15A


de corrente eficaz nominal. Contudo, uma fonte de alimentação chaveada para
microcomputadores, por exemplo, sem um CFP apresentará um fator de potência em
torno de 0,6, reduzindo a corrente ativa disponível para 9A. Ilustrando, verifica-se que
uma dessas tomadas poderia suprir até quatro microcomputadores de 280W, equipados
com CFP, e apenas dois sem tal sistema de correção do fator de potência.

2. As companhias de eletricidade se beneficiam de um maior fator de potência, na medida


em que a menor corrente eficaz total drenada da rede significa aumento do rendimento do
sistema de transmissão/distribuição de energia elétrica. Os fios podem ter menor
diâmetro para situação de elevado fator de potência. As freqüências (harmônicas)
maiores que a freqüência nominal presentes na rede também causariam problemas
ligados a sistemas de detecção do cruzamento por zero da tensão. Além disso gerariam
sobrecorrentes no neutro e sobretensões ressonantes.

3. O uso específico de CFPs baseados em conversores pré-reguladores de fator de potência


ainda oferece a vantagem da redução dos custos de componentes nos conversores
alimentados a partir de tais CFPs. Para mesma potência de saída um conversor com CFP

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terá economia no dimensionamento de transistores, transformador de isolamento e no
capacitor de saída da fonte.

1.2 CONCEITO DE DISTORÇÃO HARMÔNICA

Para caracterizar o conteúdo harmônico de correntes de linha associadas a cargas não-


lineares, tem sido utilizado, nas pesquisas e na literatura técnica, o termo Total Harmonic
Distortion (THD), ou “taxa de distorção harmônica” (TDH), em português. Este fator aparece a
partir do desenvolvimento da expressão (1.3), resultando:

∑I
n =2
2
nef

TDH = (1.6)
I1ef

onde o numerador representa a corrente harmônica eficaz total, a menos da fundamental. Ou, dentro
da expressão geral para o fator de potência:

cosφ 1
fp = (1.7)
1 + TDH 2

O valor ideal da TDH tenderá a ser o mais próximo de zero possível. Quanto menor o seu
valor numérico menor o conteúdo harmônico da forma-de-onda considerada. Através desta TDH
pode-se, portanto, expressar numericamente o conteúdo harmônico de formas-de-onda com vistas a
normalização, quantificação e comparação. Quanto mais distante da forma-de-onda senoidal for a
forma-de-onda da corrente de linha, maior será o seu conteúdo harmônico, pior sua distorção
harmônica e, conseqüentemente, sua TDH.

As causas do aparecimento das harmônicas na corrente de linha drenada da rede elétrica


estão associadas à presença de cargas não-lineares, tais como:
• circuitos retificadores em: fontes de alimentação chaveadas, carregadores de bateria, reatores
eletrônicos de lâmpadas fluorescentes, conversores para acionamento de máquinas elétricas;
• controladores de potência por ângulo de fase;
• lâmpadas de descarga de gás.

Os efeitos da presença da distorção harmônica na corrente de linha solicitada da rede elétrica


podem ser citados como sendo:

• distorção da tensão de linha (geralmente achatada no seu valor de pico);


• redução do fator de potência (com conseqüente redução da potência disponível e crescentes
perdas na fiação);
• grande corrente de terceira harmônica circulando no fio neutro da instalação;
• ressonâncias LC acarretando sobrecorrentes e sobretensões.

As razões pelas quais as harmônicas devem ser reduzidas são as seguintes.

• Principais:

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♦ regulamentação imposta por instituições regulamentadoras (como, por exemplo: IEC,
IEEE, CENELEC, ANSI, dentre outras);
♦ especificações e expectativas do mercado.

• Secundárias:
♦ aumento do fator de potência, com conseqüente aumento da potência disponível;
♦ redução da corrente no neutro;
♦ redução da capacidade nominal necessária para sistemas ininterruptos de energia
(UPS/no breaks).

[1] Richard Redl. “Low-Cost Line-Harmonic Reduction“, Seminário 7 do APEC’95.

(* Extraído do Capítulo 2 da Tese de Doutorado do Prof. Wilson C. P. de Aragão Filho: “Fonte de


Alimentação Trifásica de Alto Fator de Potência e Estágio Único, Utilizando Transformador de
Interfase de Linha e Convesor CC-CC, Isolado e de Alta Freqüência” – UFSC, Florianópolis,
agosto de 1998.)

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