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A ECONOMIA POLÍTICA DA SOCIAL-DEMOCRACIA

ÇÕes sociais que, por essa razão, vê-se metamorfoseada em


esfera pública. A dialética do processo resulta em que ele é
urdido para assegurar os interesses privados, mas só o pode
fazer, somente se torna eficaz, se éles se transformam em in
teresses gerais, públicos. Não há, portanto, ao contrário do
que afirma a denúncia liberal e neoliberal, interesse do Estado
senão na medida em que este aparece como uma instância
necessária da publicização.
Por outro lado, a crítica de esquerda, particularmente a
crítica marxista ortodoxa, tampouco foi muito feliz ao inter
pretar a nova relação entre o Estado e a economia no capita
lismo contemporâneo, A esquerda não-marxista não logrou
sequer pensar a questão; sobretudo a sodal-democracia, na
verdade a grande parteira prática da nova relação, não a ela
borou teoricamente. Mais recentemente os trabalhos na linha
de
vezOffe, Przerworski,
Habermas, Wallerstein,
para citar GostaeEsping-Andersen,
um pequeno brilhante conjuntotal
de
tóricos que se têm debruçado sobre o State (apenas
Welfare
exemplares de uma vasta bibliografia, e discordantes entre si),
voltaram-se decididamente para preencher a lacuna que o va
zio social-democrata estava deixando quase irreparável. Mas
a maioria deles, como Offe e Habermas, talvez demasiada
mente tarde, assinala mais os limites do e anuncia uma
Welfare
sociabilidade não estruturada sobre o trabalho, a morte do
trabalho, do que teoriza, propriamente, sobre a social-demo-
cracia. Przerworski, Wallerstein e Esping-Andersen, por outro
lado, pertencem a outra linhagem. Dedícam-se a uma cuida
dosa análise doWelfare e da social-democracia, estabelecem
tipologias, vêem seus limites, mas não os teorizam como for
masdiferentes do capitalismo; é isto que diz até o título do
conhecido livro de Przerworski.
Voltando à crítica do marxismo ortodoxo, este cometeu
equívocos mais ou menos simétricos aos da crítica liberal à
nova relação entre o Estado e o capitalismo. A mais articulada
foi proposta na forma da teoria do capitalismo monopolista
de Estado, que é um desdobramento, uma atualização e um
avanço sobre a teoria do imperialismo de Lênin. Resumida-
S1
A ECONOMIA POLÍTICA DA SOCIAL-DEMOCRACIA

O conceito de fundo público tenta trabalhar essa nova


relação na sua contraditoriedade. Ele não é, portanto, a ex
pressão apenas de recursos estatais destinados a sustentar ou
financiar a acumulação de capital; ele é ummix que se forma
dialetícamente e representa na mesma unidade, contém na
mesma unidade, no mesmo movimento, a razão do Estado,
que é sociopolítica, ou pública, se quisermos, e a razão dos
capitais, que é privada. O fundo público, portanto, busca ex
plicar a constituição, a formação de uma nova sustentação da
produção e da reprodução do valor, introduzindo, mixando,
na mesma unidade, a forma valor e o antivalor, isto é, um valor
que busca a mais-valia e o lucro, e uma outra fração, que chamo
antivalor, que por não buscar valorizar-seper se, pois não é
capital, ao juntar-se ao capital, sustenta o processo de valori
zação do valor. Mas só pode fazer isso com a condição de que

ele mesmo não


terminações seja capital,
da forma para eescapar,
mercadoria por sua vez,
às insuficiências às de
do lucro
enquanto sustentação da reprodução ampliada. A metáfora
que usaria vem da física: o antivalor é uma partícula de carga
oposta que, no movimento de colisão com a outra partícula,
o valor, produz o átomo, isto é, o novo' excedente social.
O processo de produção desse movimento, que busco con
ceituar no fundo público, é o processo da luta de classes. Mas
é também o de seu deslocamento da esfera das relações priva
das para uma esfera pública ou, dizendo de outra forma, o da
transformação das classes sociais de privadas para classes so

ciais
dizer públicas.
que há um O deslocamento
que se quer dizer com
da luta deisso? Seria
classes da mais
esferafácil
da
produção, do chão da fábrica ou das oficinas ou ainda dos
escritórios, para o orçamento do Estado. Mas, não apenas de
fato, mas teoricamente, não é isso que se passa, pois tanto para
que exista o fundo público quanto para que o processo de
publicização das classes sociais se dê, é absolutamente neces
sário que também continue a luta de classe na esfera da pro
dução ou, se quisermos dizer, no confronto imediato e direto
entre empregado e patrão, O fundo público só existe e somente
se sustenta como conseqüência da publicização das classes so

53
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

ciais, do deslocamento da luta de classes da esfera das relações


privadas para a das relações públicas: ele é uma espécie de
suma de todas essas transformações, as quais têm que ser re
novadas quotidianamente, sob pena de ele perder sua eficácia.
Evidentemente, a publicização,
mento, não é aleatória, ou o eprocesso
conjuntural, construiudesse
suas desloca
institui
ções, as quais são, na maior parte dos casos, as instituições do
Estado de bem-estar.
Entretanto, as classes sociais, seus contornos, parecem de
saparecer. Offe, Habermas ou Giannotti (para citar os mais
rigorosos de uma vasta bibliografia, que incluiria também os
que deram “adeus”ao proletariado) anunciam o fim da socie
dade do trabalho, o que quer dizer o fim da sociedade de
classes. Ou, fukuianamente, embora os desagrade, o fim da

história, Minha
rodiando interpretação
Habermas, o máximoé que ocorre, de fato,
de publicização que, pa
possível pa
rece privatizar tudo. Mas esta é uma ilusão da aparência, posto
que as classes sociais saíram de seus invólucros anteriores, pri
vados, e não são percebidas como públicas. Mas, quanto mais
parecem desaparecer do campo da visibilidade do confronto
privado, tanto mais são requeridas como atores da regulação
publica. Isto não é um paradoxo, mas a contradição das classes
sociais hodiernas, que é, também, a mesma do fundo público.
As conseqüências ou, dizendo de outro modo, as transfor

mações na mesmo
e efeito do esfera pública e nosão
processo, Estado, ao mesmo
extremamente tempo causa
relevantes. A
esfera pública aqui não é mais uma esfera pública burguesa:
mas, da mesma forma como a entrada da classe trabalhadora
na disputa eleitoral redefiniu a democracia, com o que as an
tigas desconfianças marxistas em relação à democracia perde
ram todo o sentido, também uma esfera pública burguesa,
penetrada por um fundo público que é o espaço do desloca
mento das relações privadas, deixa de ser apenas uma esfera
pública burguesa. Assim, de novo parafraseando Habermas,

no máximo
mente, de intransparência
a esfera é possível
pública, redefinida distinguir,
dessa forma, nitidapri
da esfera
vada. E isso, por exemplo, que torna possível uma campanha

54
A ECON OM IA P OLÍTICA DA SOCLAL -DEMOCRACIA

pela ética na política, pela moralidade pública, que terminou


na aceitabilidade do impeachment do presidente, sem que se
corra o risco de cair no moralismo conservador. E da distinção
entre uma esfera pública não-burguesa e uma esfera privada
que nasce a possibilidade de uma nova política.
A grande transformação no Estado, que a revolução teórica
keynesiana formalizou, é, em primeiro lugar, a de sua autono-
mizaçao fiscal. Que significou o abandono da posição de su-
balternidade fiscal, situação real do Estado até os dias da
Grande Depressão, à qual correspondia a teoria fiscal do Es
tado, do gosto liberal, e de formulação neoclássica. O Estado
doméstico, dono-de-casa, que gastava apenas o que arrecadava
e tão-só depois de arrecadar. Um Estado sempre ex-post. A
revolução teórica keynesiana formaliza o que já era o movi
mento tateador, tattonnant> do Estado ex-ante. Um Estado
que antecipa o que gasta, que é mais do que arrecada; mais
que essa contabilidade, o que há, aí, é uma transformação
impressionante, no sentido já assinalado do deslocamento das
relações privadas para relações públicas. Na maioria das so
ciedades do capitalismo hoje avançado, e até porque o Estado
foi utilizado instrumentalmente, a forma desse deslocamento
ganhou, sobretudo, um rosto, uma forma estatal. Daí, que à
ampliação do espaço público correspondeu, na totalidade dos
casos, praticamente, uma ampliação do Estado, entendido nos
termos em que os liberais o entendem. E até nos termos postos
pela luta de classes: para publicizar, operar esse deslocamento,

a forma estatalE em
insubstituível. muitos
o caso casos
mesmo revelou-se
dos imprescindível
países periféricos como eo
Brasil.
Essa revolução no Estado tem enormes conseqüências.
Para citar uma teorização que depende inteiramente dela, aliás
reconhecida por Furtado e Prebisch - e este foi um dos pri
meiros keynesianos da América La tina-, relembremos a teoria
do subdesenvolvimento da CEPAL, a qual partia, precisamen
te, da possibilidade de uma demanda autônoma derivada das
funções do Estado. Ora, a rigor não se trata de “funções” do
Estado, mas de uma revolução posta nas formas do Estado por

ss
A ECONOMIA POLÍTICA DA SOCLAL-DEMOCRACIA

uma dificuldade da teorização empreendida sobre o fundo


público. O fundo público desmercantiliza parcíalmente a força
de trabalho, isto é, seu caráter de mercadoria. Ao fazê-lo, põe
a nu uma espécie de desnecessidade da exploração ou a vir-
tualidade dessa desnecessidade e, também, simultaneamente,
a finitude de uma das formas mercantis mais importantes; a
forma mercadoria mais importante do capitalismo, sua espe
cífica mercadoria, a única criada realmente pelo capitalismo.
Ao fazê-lo - uma operação que é de difícil descrição, pois a
rigor o fundo público consiste precisamente nessa operação
que substitui, teoricamente, a auto-regulação do valor - ele
desbloqueia as virtualidades do progresso técnico, pois a mer
cadoria força de trabalho não é maís um limite nem o suporte
da acumulação. Isto é, na formulação de Luiz Gonzaga Beluz-
zo, ele autonomiza o capital constante.
Reaparece, pois, o problema proposto pela literatura in
dicada sumariamente nos nomes de Offe, Habermas e Gian-
notti, no sentido de que a sociabilidade que tem no trabalho
seu núcleo estruturador estaria em veloz transformação para
desaparecer. E a sociedade de classes do capitalismo fatalmente
seria afetada. N ão há uma resposta fácil nem estruturada para
essas questões. Tal como Reginaldo Prandi notou, pode-se co
meçar a dizer num nível mais modesto que, tal como a própria
sociologia dos processos de trabalho vem insinuando, o esta
tuto sociológico do trabalho sem dúvida sairá fundamental
mente modificado, dando lugar, pelo menos, a nova concepção
de trabalhador. Mas uma resposta mais estruturada exigiría
muito mais do que simples repercussões no âmbito do traba
lhador e do estatuto sociológico do trabalho, por importante
que este seja. A menos que uma simples boa intenção seja
suficiente, e já não o é, não há o mínimo de experiência social
capaz de indicar ou sugerir linhas de força sobre o futuro lon
gínquo. Mesmo porque, convém relembrar, o esforço concei
tuai aqui desenvolvido não diz respeito à construção de uma
utopia, mas de um sistema que tem, pelo menos, setenta anos
c cuja capacidade não se esgotou.

57
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Mas a mesma operação expõe, também, os limites da for


ma mercadoria, no sentido de que o lucro passa a ser insufi
ciente como forma social, para financiar a continuidade do
processo de expansão do produto social. Esses limites apare

cem pela retração


cantilização da FT,dae base social de exploração,
pelo desbloqueio operado jáviareferido.
desmer-
Isto vai se expressar em formas aparentes: na concentração da
renda, no encarecimento do capital constante - em lugar de
seu barateamento constante - e numa volúpia de apropriação
de toda e qualquer forma de riqueza pública, que deve ser
posta a serviço da acumulação de capital, sem o que ela não
pode continuar, pois que a simples forma mercantil, via forma
lucro, é insuficiente. Apesar de que todas as aparências são
contrárias.
A pista de algumas outras transformações poderia ser se
guida no rastro desse paroxismo. Elas podem tomar a forma
da constituição dos grandes blocos, por exemplo. Que não
passa de uma forma de pôr, em escala supranacional, todas as
formas da riqueza pública a serviço do processo de acumula
ção, que aparece sob a forma da expansão e integração dos
mercados. Mas isso nos levaria muito longe e exigiría muito
tempo. Mas mesmo essa pista é da mesma natureza teórica da
que examinaremos mais profundamente. Isto é, paroxismos
dos limites leva ao que parece ser uma politização da economia,
uma economia administrada, preços políticos administrados,
enfim, toda uma corte de adjetivos para uma insuficiência teó
rica, que faz parte do repertório da direita e para a qual a
esquerda não logrou resposta. De fato, o que aconteceu, ou o
resultado maior de todo o processo, pode ser sintetizado, com
algum pedantismo no título, pelo nome de modo social-demo
crata de produção.
Um modo social-democrata teria sua srcem histórica, evi
dentemente, nos países com história social-democrata. Mas os
EUA não são social-democratastout court , o que desqualifi
caria pelo menos a denominação. Convém pensar, entretanto,
numa social-democracia fraca, isto é, sem partido social-de
mocrata; desde o New Deal, o processo de regulação que subs

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OS DIREITOS DO ANTIVALOR

que tentei ensaiar, é de que o socialismo coloca-se, uma vez


mais, na tradição clássica, como um desdobramento do pró
prio sistema capitalista. Há, neste sentido, uma certa dose de
necessidade. Mas não é uma necessidade histórica abstrata,

como se desde
é tampouco o os
fiminícios dos tempos
da história. ele estivesse
O socialismo inscrito.
aparece Nem
como
necessidade enquanto um sistema que possa resolver as con
tradições do que chamei o modo social-democrata de produ
ção. Nessa medida, ele não é independente da história dos
homens, pois como tratei de expor, a constituição desse modo
social-democrata de produção é, afirmativamente, um produ
to da história dos homens, da luta de classes, travada não ce
gamente, não enquanto as classes são uma espécie de
autômatos robitizados do capital, mas enquanto as classes são
personaede sua própria história. De fato, o modo social-de
mocrata de produção mostrou, pela primeira vez, a virtuali-
dade da desnecessidade da exploração, e isso ainda vai longe.
E está mostrando também que a contradição em que se cons
truiu a forma de superar um capitalismo não auto-regulado
desbloqueou as imensas potencialidades da produção, mas blo
queia as possibilidades da realização. Por isso, seu voraz apetite
por todas as formas de riqueza pública, entre as quais espaços
supra-nacionais aparecem como uma das mais notáveis; mas,
assim mesmo, bloqueado pela forma mercantil, ele concentra
renda, o que aparece como encaredmento do capital constante
- quando na verdade há um barateamento e condena vastas
parcelas da humanidade a serem apenas simulacros de consu
midores. O socialismo aparece nessa fronteira para, por sua
vez, desbloquear esse caminho.

BIBLIOGRAFIA SUMARIA INDICATIVA

AGLIETA, Michel. Régulation et crises auxÉtats Unis


.
ALTVATER, Elmar. “A Teoria do Capit alismo Monopolis ta de Estado ” .

In : História do Marxis mo.

60
A ECONOMIA POLÍTICA DA SOCIAL-DEMOCRACIA

B el uzzo , Luiz Gonzaga. “A transfiguração crítica” . In : Novos Estudos


Cebrap.
ESPING-ANDERSEN, G. “A s trê s econo mias p olí ticas do Welfare State
In: Lua Nova.

FlANNOTTl, Jo sé Arthur. ‘A sociabilidade travada” . In: Novos Estudos


Cebrap.
HABERMAS, Jürgen . “A nova intransparência” . In: Novos Estudos Ce
brap.
KEYNES, Jo hn Maynard. A Teoria Geral do Em prego, do J uro e da
Moeda.
LlPIETZ, Alain. Audácia.

Of f e , Claus. Capitalismo desorganizado.

Ol i vei r a , Francisco de. “ O surgiment o do antivalor ” ./« : Novos Est u

dos Cebrap.
PRZERWORSKI,Adam. Capitalismo e social-democracia.

61
I
àm
POLÍTICAS DO ANTIVALOR, E OUTRAS POLÍTICAS

quer dizer que o que Marx teoriza seja algo que se possa reduzir
à pura experiência empírica, senão não teria ganho o estatuto
e a força explicativa que ganhou a relação entre as classes
tinha muito a aparência de um conflito privado* A partir dos
anos 30, o conflito extrapola os marcos daquilo que se poderia

dizer que ficava restrito ao espaço da esfera burguesa, segundo


uma abordagem habermasiana ou mesmo weberiana. O pró
prio conflito interburguês assumiu proporções tais que acar
retaram o seu deslocamento do terreno do privado para o
público. Portanto, não é propriamente uma transformação das
classes, mas um fenômeno devido ao próprio conflito entre
elas. A crise de 30 foi a evidência mais eloqüente desse deslo
camento do terreno do privado para o público. Naquele mo
mento, a esfera do privado revelou-se insuficiente para de
alguma maneira processar o conflito na sociedade burguesa.
E por isso que, de certa forma, as ciasses aparecem como

se nãodetivessem
disse recortes,
forma fácil como
e banal - se- oooperariado
que a sociologia americana
americano fosse
classe média, medido pelos índices de consumo. Na verdade,
é possível continuar a pensar que o conceito de classe é válido,
à condição de fazer esse novo percurso que tentei fazer.
Com o a tecnolo gia entra nesse esquema ? A ciência como fator de
produç ão tem algum estatuto?

Tem um estatuto, mas não autônomo. Na verdade, bene


ficiei-me de uma reflexão do Luís Gonzaga Belluzo. Na sua
tese, ele fez uma reflexão sobre a autonomização do capital

constante. O queaquer
e forte em Marx, dizer isso?
burguesia, Segundo
tentando uma
superar posição antiga
continuamente
os limites da exploração da força de trabalho, usa a ciência e
tecnologia para baratear o custo da sua reprodução. Contudo,
a partir dos anos 30, tomando-se em conta os países líderes
do sistema, onde havia uma relativa homogeneização da pre
vidência social, de seguro social, de outros antivalores em ge
ral, o que se viu foi que esse processo, com o fundo público,
havia ganho outra forma, tinha passado a ser relativamente

65
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

indiferenciado no sentido de que não era mais o custo da força


de trabalho que provocava a reação dialética da ciência e tec
nologia a serviço do capital. Isso deu lugar àquilo que Belluzo
chama de autonomização do capital constante.

Se o motor do processo de inovação tecnológica não era o esforço


para baratear o custo da mercadoria força de trabalho, o que veio a
ser então?

A mola propulsora desse processo continua a ser uma busca


de valorização, o que de alguma maneira é sempre a mesma
coisa. Mas o processo de extração de mais-valia e a sua relação
com os impulsos para os saltos tecnológicos e para a aplicação
da ciência e tecnologia passaram a ser mediados pelo fundo
público. De alguma maneira, não havia mais uma relação di
reta. Essa mediação liberou cada capitalista em particular de
olhar a relação com o custo da sua mercadoria força de traba
lho e provocou a autonomização. Na verdade, uma pletora de
inovações que encontram seu limite outra vez na forma mer
cadoria. No fundo, o sistema volta a bater no mesmo proble
ma, mas de uma maneira em que a dialética entre o custo da
força de trabalho e o progresso tecnológico passou a ser me
diada pelo fundo público. Isso deslocou e, de alguma maneira,

liberou as formas técnicas do capital constante.


Essamediação seriam, por exemplo, os gastos militares com tecno-
logia, os gastos públicos com as universidades,em pesquisa edesen-
volvimento etc.? .

Exato. Se pesquisarmos, não encontraremos uma relação


direta disso com o custo da força de trabalho. Ela se perde,
mas não desaparece. O orçamento de uma grande universidade
não está ligado diretamente a salário nenhum. Provém do con
junto da sociedade, do imposto que cada um paga. Portanto,
a relação passa a ser mediada exatamente pelos fundos públi
cos, e isso é uma enorme apropriação. E nesse sentido que eu
falo de uma espécie de autonomização. Por exemplo, os Esta
dos Unidos jogam força em pesquisa bélica e isso tem impacto

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POLÍTICAS DO ANTIVALOR, E OUTRAS POLÍTICAS

na produção de bens de consumo, mas não pode ser ligado


diretamente ao custo de reprodução da força de trabalho dos
setores industriais. Sem essa mediação fica difícil entender.

Que papel você atribui à emergência do sistema soviético na confi


guração desse modo de produção soc ial-dem oata cr ?

Na própria sociai-democracia há uma enorme influência


soviética. Há todo um grupo de planejadores social-democra-
tas que tenta apreender dos soviéticos a possibilidade de fazer
a passagem para o socialismo através de uma desmercantiliza-
ção. E uma discussão bastante interessante. A sociai-democra
cia aprendeu muito com a experiência soviética.
Mas as instituições capitalistas se remodelaram mais em função de
constrangimentos internos ou devido à ameaça externa que repre
sentava a União Soviética?

em Fazendo um eu
proporções, balanço,
daria se
60%essas coisas
de peso àspudessem
condiçõesser medidas
internas
dos países que hoje chamamos de desenvolvidos. Acredito mui
to mais num tipo de interpretação marxista que concede muito
valor ao movimento das lutas de classes. Até porque sabemos
historicamente que antecipações desse processo existiram na
Alemanha e na Itália até como tentativa da burguesia de dis
putar a posse dos corações e das mentes da nova classe social.
Tratando dessa forma esquemática, os outros 40% são devidos
à revolução soviética, à medida que havia uma forte sedução
das massas trabalhadoras pela URSS. A Grande Depressão,
que desempregou 30% da força de trabalho, é outro fator que
mobilizava e atualizava a ameaça soviética no interior dos paí
ses ocidentais. Antes mesmo de Keynes tentar teorizar qual
quer coisa, a maioria dos países estava tateando e buscando
formas de sair do nó, por intermédio do que depois veio a ser
sistematizado como medidas de bem-estar social. Em alguns
casos, de forma já bastante sistemática - como foi a Suécia nos
anos 20 - e em outros já premidos pelas circunstâncias, como
foi o caso da França já na grande crise, correndo para descontar

67
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

o prejuízo. A Revoluç ão Russa estava presente por intermédio


das grandes massas desempregadas. Não acho, como muitas
interpretações, que foram apenas concessões das classes do
minantes. Estou mais numa linha de que o curso da luta de
classes já anunciava um desenvolvimento nesse sentido. E, so
bretudo, po rque - evidentemente sem nenhum eurocentrismo
- isso surgiu nas relações de luta de classes mais avançadas, e
não do tipo de luta de classes que se tratava em relações ainda
coloniais. Isto desagrada certos setores da esquerda que gos
tariam de pensar que toda revolução, toda transformação nos
países capitalistas centrais foram feitas a partir da periferia.
Em que medida a débâcle soviética torna inviável, do ponto de vista

político,
da a apresentação
sociedade f de propostas de transformação mais radical

Durante boa parte da minha juventude e mesmo na matu


ridade, eu vivi a experiê ncia so viética - como quase todo mun
do da esquerda como uma grande referência. Nunca fui
membro do Partido Comunista, sempre tive bastante reservas
a respeito da sua forma de militância, mas sempre os encarei
como companheiros de luta, principalmente na minha cidade,
Recife, onde o partido tinha notável presença nas classes po
pulares. Só vim a tomar conhecimento dos problemas mais
graves da experiência soviética a partir da invasão da Tchecos-
lováquia, em 68. Nem mesmo quando do aparecimento do
relatório Krutchev, ainda em 56, a URSS era posta em dúvida.
Ninguém sabia muito bem o que era aquilo e a economia so
viética parecia que ainda funcionava bem, ia ganhando a com
petição com os EUA e nós não sabíamos dos horrores dos
campos de concentração. A partir da invasão da Tchecoslová-
quia minhas reservas em relação à União Soviética aumenta

ram muito,Quanto
nalmente. a ponto de eu não mais
a experiências como apoiá-la incondicio
a de Cuba, por exem
plo, sempre fui francamente favorável, ainda que deteste a
forma ditatorial que lá se exerce. A débâcle soviética é um
golpe muito forte na moral socialista e é uma derrota de pro-

68
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

perar. Parte do seu ocaso é devido também a uma transforma


ção ocorrida nos sujeitos que o construíram. E muito evidente
que mudou a constituição das classes sociais. Se antes havíamos
assistido a um deslocamento das classes, eu diria de privadas

para classes
hoje estão sociais públicas,
ocorrendo no sentido da Por
fortes transformações. sua que
reprodução,
se sur
preender com o fato da taxa de sindicalização cair nos países
mais desenvolvidos? Exatamente porque o Estado do bem-es
tar universalizou-se, aquilo que dependia da sua filiação ao
sindicato, de um certo partido que chegava ao poder, não de
pende mais disso. Qual o incentivo para ser sindicalizado hoje?
Há uma erosão pela base naqueles sujeitos que construíram o
próprio Estado do bem-estar, e daí vem parte do seu ocaso.
Mas, em grandes linhas, eu diria que esse ocaso é mais apa

rência do que realidade.


N o que diz respeito à disputa pelos fundos públicos, a classe traba
lhadora está perdendo terreno em relação aos direitos que havia as
segurado antes?

Não. Essa derrota não é tão grande como a gente pensa.


Exatamente pelo fato de que essas coisas se universalizaram.
O que está havendo de fato - e daí a erosão das bases sociais
do Estado do bem-estar - é a desregulamentação do trabalho,
a destituição de direitos sociais e trabalhistas. Aí sim vai afetar
essas bases sociais.
O que voc ê está dizendo é que, do po nto de vista dos fund os públicos,
os direitos de saúde, educação etc . perm anecem , mas no pla no priva do
da prod uçã o a li sim est ão sendo destruídas as bases sociais do Esta do
de bem-estar?

Sim. Mas, evidentemente, essa destruição no plano das


relações privadas vai atingir o público...
Ainda não atingiu?

Ainda não. Os gastos sociais continuam até a crescer como


parte do PIB nos principais países desenvolvidos, e a direita e
o capital tentam dar solução a isto através do corte desses

70
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

meio caipira e mão-de-vaca, vai para casa. Se não, tem obri


gações sociais nas quais se encontra sempre com gente seme
lhante. Quando se trata de um tipo mais à última fase do Oíacyr
de Moraes, vai gastar o dinheiro nos grandes salões da alta
burguesia. De público e comum com o resto da sociedade, esse
cidadão não tem nenhuma experiência. Esse é o sentido radical
da privatização. Esta é a ameaça mais radical à esfera pública.
Daí entender, evidentemente discordando, essa fúria privati-
zante. Essa privatização não é só ideológica, é uma experiência
radical de vida. O fato de o transporte ser ruim em nada co
move um empresário desses. Antes, eles tinham que contrace
nar diariamente com experiências de subjetividade porque os
operários iam reivindicar diretamente. Hoje, ele vive num

mundo virtual, privado.


Do ponto de vista das relações internacionais, que tipo de transfor
mações você vê?

Do ponto de vista das relações intercapitalistas, não vejo


nada de bom. De tanto desrégulamentar, os países capitalistas
vão se enfrentar brevemente com uma competição mortal e
vão se preparar para isso. A China já acabou com a indústria
de brinquedos no mundo inteiro, está acabando com a têxtil
e acabará com a indústria eletrônica de pequenos aparelhos.
Quando somar-se a isso a Rússia - com mão-de-obra barata
que tem - e o Brasil e a índia se juntarem, chegará a hora da
barbárie no comércio internacional. Eles desregulamentaram
e osdesregulamentados vão cobrar a fatura!
Os países desenvolvidos estão tentando se cercar das maio
res garantias e constituir nas nações subdesenvolvidas - para
usar um termo forte - uma espécie de sátrapas que governem
em nome deles. Mas isso não vai resolver por muito tempo.

Dentro dessa lógica, não seria irracional por parte dos países
avançados estar praticando essa desregulamentação , uma vez
que eles próprios estariam promovendo algo que brevemente irá
preju dic á-lo s?

72
POLÍTICAS DO ANTÍVALOR, E OUTRAS POLÍTICAS

A tendência é de queda do salário real a p art ir de agora?

A tendência do salário real é de cair ou crescer numa taxa


muito pequena. Num país como este, com as enormes desi
gualdades, a taxa de crescimento que a Salomon Brothers -
que é uma corretora e um banco de investimentos que segue
de perto a economia brasileira porque tem altos interesses aqui
- está projetando é de 2,2% para o ano de 97. Nã o é nada
promissor. Um país como este tem de crescer, no mínimo, 5%
a 6% ao ano com melhor distribuição de renda.
O que seria uma política de integração que contemplasse as suas
preoc upações?

E difícil precisar, mas creio no entanto que vigorosas


políticas sociais ainda são a melhor forma de distribuição
de renda. Evidentemente, se combinadas com uma boa taxa
de crescimento econômico de 5% 6%aao ano. Nós sabemos

que
uma apolítica
melhorsocial
educação não édepende
vigorosa do mercado.
insubstituível Portanto,
como elemento
de distribuição de renda, mesmo quando o salário real está
crescendo. O mercado só realiza muito parcialmente a me
lhoria na distribuição de renda. Nos anos gloriosos mi-do
lagre, quando se pensava que só o crescimento do salário
real era suficiente para redistribuir renda, a classe média
abandonou o ensino público. Quando os salários da classe
média se deterioraram, ela quis voltar para a escola pública,
mas esta estava liquidada. Por isso, eu advogaria uma boa
taxa de crescimento e vigorosas políticas sociais porque é
por aí que passam educação, saúde, lazer e cultura de qua
lidade.
Falando nos seus próprios termos, o salário direto está mais sujeito
ao ciclo dos negócio s enquanto osalário indireto tem uma estabilidade
que se sustenta no tempo e que serve de garantia inclusive para a
cidadania?

Exatamente.

7S
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Qual o papel da esquerda hoje no Brasil e no mundo? Qual o papel


do intelectual, do militante, dentro desse cenário?

Eu sou um PT light. Acho que o PT não tem do que se


envergonhar nesse curto período de existência, em que con
tribuiu enormemente para a democratização da vida brasileira.
De imediato, a tarefa do PT é lutar bravamente para que a
hegemonia de FH C - que é virtual - não se consolide, isto é,
lutar para que este credo não se transforme em senso comum,
o que é o mais perigoso. Tentar construir uma alternativa sig
nifica combater em todas as frentes possíveis essa virtualidade
hegemônica muito forte que está se desenhando no Brasil.
Evidentemente, enfrentar o governo e todas as formações ad
versas em todas as frentes possíveis - prefeituras, eleições, sin
dicatos - é um trabalho que não é de curto prazo. O que o PT
não deve nunca tentar fazer é parecer bonzinho. Não no
sentido de uma velha discussão bizantina que houve no PT,
se nós vamos administrar o capitalismo ou não. Para mudar
o capitalismo é preciso primeiro saber administrá-lo. Não
é essa a questão. O PT não deve ser bonzinho no sentido de
tentar melhorar ess e progr ama aqui, aquele program a acolá.
Essa foi a tônica de certos discursos nas últimas eleições
municipais. O que está aí é muito forte e o PT se assustou.
Mas ele tem que continuar a dizer a esse país que ele precisa
de reformas vigorosas, profundas. Não como a vanguarda
iluminada que sabe mais do que o povo, mas como aquele
que é na essência diferente do senso comum. O partido deve
continuar essa batalha, a curto e médio prazos, para criar a
possibilidade de que a hegemonia virtual que se desenha não
se instaure. O projeto hegemônico que temos que combater
é talvez o mais consistente que os grupos, classes e blocos
dominantes no Brasil jamais tiveram. E esse é um desafio
que não pode ser subestimado.

76
i
PARTE II

A Q U A S E -H E G E M O N IA

Bases materiais e sociais da dominação burguesa no brasil


A Metamorfose da Arribaçã
Fundo público e regulação autoritária na
expansão econômica do Nordeste*

O processo de integração sob a “regulação autoritária


Desde a criação da Sudene, em 1959, e mais especifica


mente, desde a entrada em ação dos mecanismos de dedução
fiscal para investimentos no Nordeste, conhecidos anterior
mente como dispositivo 34/18 e hoje como Finor, a região
nordestina vem sofrendo importantíssimas transformações
econômicas e sociais. A inteligibilidade desses processos é aces
sível nos quadros de sua progressiva integração à dinâmica da
economia nacional, e por conseqüência, do processo de acu-

,l Publicado emN ovo s E studos, São Paulo, Cebrap, n. 27, julho de 1990, p. 67-91.
Este texto sintetiza oelatóri
r o da pesquisa Estrutura
“ dePoder no Nordeste Pós-Su-
dene”, encomendada pela diretoria de Programação Global-DPG, da Superintendên
cia do Desenvolvimento do Nordeste-Sudene, ao Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento - Cebrap.
nador), os seguintes Participaram
auxiliares da pe
squisa,
de pesquisa: além
Carlos do autor
Alberto doetexto
Beijo Silva,(coorde
Elson Luciano
Silva Pires, Hélio Francisco Corrêa Lino e Marcelo César Gouvêa. O principal objetivo
da pesquisa foi oferecer um quadro de referências atualizado para marcar as possibi
lidades e os limites do planejamento regional. Neste sentido, o estudo das estruturas
de poder engendradas e/ou reforçadas pelas transformações econômico-sociais em
curso desde a criação da Sudene passa a ser o ponto focal para avaliação daquelas
possibilidades. As fontesestatísticas ut
ilizadas na pesq
uisa foram publicações de órgãos
públicos (BNDES, FIBGE, Sudene etc.), de entidades sindicais de trabalhadores (DIEE-
SE) ou patronais (FIESl^ Febraban) e publicações econômicas especializadas
(Visão,
G uia Interinvest).

79
OS DIREITOS DO ANTÍVALOR

mulação de capitais, da ação do Estado, da internacionali-


zação produtiva e financeira, da anulação da presença polí-
tica de algumas classes e setores sociais, da repressão e
centralização políticas operadas pelo Esta do autoritário, en-
tre outros muitos fatores.
Um resultado talvez não esperado é, de certa forma, a
desregionalização da economia regional, que se coloca como
par num ambíguo processo que, do outro lado, reifica a região,.
já agora do ponto de vista da ação dos mecanismos financeiros
que o presidem.

Para verificar as transformações da base econômica nordestina, procedeu-se ao


levantamento das informações sobre o PIB regional, determinando sua magni
tude e composição e sua repercussão no emprego. O estudo do setor industrial
possibilitou a análise desagregada em nível de gêneros: é o único setor da eco
nomia para a qual se procedeu a uma análise a este nível. Os capitais envolvidos
nas modificações da base econômica do Nordeste foram determinados através
da identificação das 1.300 maiores empresas da região, segundo o faturamento
e o patrimônio. Em seguida, procurou-se determinar a articulação e o grau de
concentração destes capitais obtendo-se, desta forma, uma relação dos principais
grupos econômicos que atuam na região e o impacto provocado pela sua atuação
na economia regional. A determinação dos principais agentes financiadores da
acumulação fez-se através do estudo do setor financeiro, das instituições pú
blicas
de financiamento
Fundo e do principal
de Investimentos incentivo
do Nordeste fiscal aplicável à região, a saber, o
- Finor.
A força de trabalho e as associações de classe foram estudadas com a intenção
de perserutar sua influência na economia e nas relações sociais da região.
Desta forma, procurou-se determinar o grau de organização dos trabalha
dores e empresários, os níveis de rendimentos, a participação relativa dos
trabalhadores com e sem carteira assinada no mercado de trabalho etc.; os
resultados obtidos sobre a força de trabalho, salários, estrutura das ocupa
ções e relações de trabalho são limitados, dngindo-se a informações das
PNADS; quanto aos demais objetivos, a rigor são indicações para futuros
aprofundamentos. Na ótica de privilegiar a ação concreta dos sujeitos e
atores da transformação regional, procurou-se abrir uma via de investigação
sobre a formação
privadas. e circulação
O entrelaçamento das elites empresariais,
dos interesses, públicas,
sua representação estatais
política, o graue
de aderência entre esta e as novas estruturas de poder na região resultaram
apenas sugeridos, necessitando-se, pois, de desdobramentos futuros para
conhecerem-se, com maior veracidade, numa palavra, as relações entre eco
nomia e política na região.

HO
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

estatais é privada. No outro lado da suposta fronteira, no setor


privado, a propriedade é privada, mas a argamassa, os fundos
para capitalização, são estatais. Na definição de Rangeon, ha
vería uma privatização do público, mas não há uma publíci-
zação do privado1.
Essa ausência de uma esfera pública reproduz, no Nord es
te, o vasto processo posto em marcha no Brasil desde a segunda
metade dos anos 50 e levado às últimas conseqüências pelo
Estado autoritário. Os efeitos concentracionistas da expansão
econômica não são,prima fade, pura derivação do crescimen
to econômico; poderíam sê-lo no século XIX, mas não hoje.
A má distribuição de renda, a aberrante estrutura de salários -
ver-se-á como, no Nordeste, depois de trinta anos quase ininter

ruptosaté
biam de 1crescimento econômico,
2 - são 57%
salário mínimo* dos empregados
inequívocos resultadosrece
da
ausência de uma esfera pública, e exatamente ao contrário do
que apregoam os neoliberais, da ausência do poder regulador do
Estado sobre os mecanismos do mercado; ou, especificando me
lhor, o público se privatiza apenas numa direção, na direção da
substituição dos fundos da acumulação privada pelos estatais,
mas não há contrapartida no sentido de corrigir o mercado em
termos de salários, distribuição de renda etc.
Os mecanismos financeiros que presidem à expansão ca
pitalista no Nordeste configuram o novo papel dos fundos
públicos nos processos de constituição do capitalismo contem
porâneo. Poderíam ser listados como estando na vanguarda,
precoce, deum capita l financeiro em geral, que se arma a partir
dos fundos públicos, se concretiza e se torna capital privado
na órbita da produção, se traveja na mordernidade de uma
nova relação capital-trabalho, irriga o bem-estar na forma dos
gastos sociais públicos, escanteia o acaso e o aleatório dos
processos da reprodução econômica e social até o limite do
possível em contextos históricos determinados, e potência, de

Rangeon, F., Lidéologie de Vinterêt général.Paris, 1986.


2 Vide “Estruturas de poder no Nordeste pós-Sudene” , Tabela BII: le e ld.

82
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇÃ

forma inimaginável para o século XIX, a própria capacidade


de expansão e renovação do sistema.
Mas, no meio desse processo, algo ocorre: a contribuição
financeira do Finor (que é uma dedução do imposto de renda)
às empresas toma a forma de certificados de investimento de
propriedade dos investidores/dedutores (empresas e pessoas
físicas). Nos leilões do Finor, os certificados são transformados
em ações das empresas nas quais se fizeram aplicações. Essa
transformação, a rigor, interessa apenas às próprias empresas
que utilizaram o Finor, pois tais ações são inegociáveis durante
quatro anos. Além disso, compõem o capital de empresas de
pouca visibilidade à percepção dos investidores de Bolsas de
Valores. Nestas condições, as próprias empresas beneficiadas
pelo Finor recompram suas ações (derivadas dos certificados),
transformando o mercado acionário do Finor em um mercado
cativo, na verdade uma ficção de mercado de capitais. A prática
tem sido a de as empresas recomprarem suas próprias ações a
preços que sequer atingem 10% de seu valor real'1; percebe-se
a intransparência do sistema e a não-publicização do privado,
na medida em que o Finor pagou pelas ações um valor 10 vezes
maior do que o valor de venda. Neste percurso, perde-se in
teiramente o controle dos apartes públicos à formação de ca
pital das empresas; privatizam-se os fundos públicos e não se
publiciza o privado. Eis o Estado do mal-estar.
Os congressistas do Nordeste foram uma das bases mais
fortes de sustentação parlamentar do Estado autoritário. Não
foram os únicos, nem os principais. A ação do Estado po
dería parecer, à primeira vista, uma troca entre apoio polí

tico e investimentos
relação estatais. Mas, exatamente
fundos públicos/acumulaçao privada, onoCongresso
núcleo da
castrado do regime autoritário não atuava, impedido de le
gislar sobre orçamento e de interferir nas empresas estatais.

1Dc acordo com Tabela G.l, p. 141, do relatório “Avaliação dos Incentivos
Fiscais Regidos pelo Decreto-Lei 1376”, IPEA, 1986.

83
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

e) recursos na forma de participação acionária através do


Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES) e/ou do Banco do Nordeste do Brasil (BNB);
f) financiamentos do BNDES e do BNB, a taxas favorecidas;
g) financiamentos doBancoNadonal de Habitação (BNH)/Ban-
co Mundial, para infra-estrutura industrial e saneamento.
Essa nutrida lista é a mesma para o Brasil como um todo,
revelando, pois, que o padrão de fínanciamentoAitilização de
recursos públicos que preside à expansão da economia nor
destina é o mesmo que foi utilizado pelo Estado autoritário
para a economia nacional, levando à exaustão e aos impasses
atuais de déficit e dívidas públicas interna e externa, à erosão
da carga tributária bruta, à incapacidade de investimento do
Estado e à inflação.
Os incentivos fiscais do tipo dedução do imposto de renda
foram exclusividade do Nord este; logo após foram estendidos
à Amazônia, às atividades de turismo e reflorestamento, aos
investimentos na Embraer e, através de legislação especial, ao
Estado do Espírito Santo. O que explica a tendência histórica
de baixa dos recursos do Finor. Vale dizer ainda, de passagem,
que os empréstimos concedidos pelo BNB e pelo BNDES às
empresas que investem no Nordeste são considerados, para

efeitos de aferição
podem aspirar, comodorecursos
montante de recursos
próprios; desta “do Finor a ope
inocente” que
ração de ajuste e medição decorre a já mencionada desvalori
zação dos certificados de investimento do Finor, que dá lugar
ao “mercado de capitais cativo” dos investidores do Finor.
Em 1985, os recursos financeiros via Finor e BNDES re
presentaram 2 ,8 1% do PIB regional6, enquanto a formação
bruta de capital fixo (FBCF) total alcançou em 1983 (último
ano para o qual há dados disponíveis) 2 1,9 9 % 7 . A primeira

6Idem, p. 62.
7 VideProduto e formação bruta de capital - Nordeste do BrasiLRecife,
Sudene, 1987.

86
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇÀ

porcentagem pode parecer insignificante, mas deve-se relem


brar que na FBCF se incluemtodos os investimentos, mesmo
os não diretamente produtivos, do Estado (como estradas, es
colas, hospitais, portos etc.). Além disso, pelas vias do Finor
e do BNDES não correram fundamentalmente os investimen

tos
mentedasouestatais produtivas,
por empréstimos que se ou
externos, financiam
ainda viaou autonoma-
subscrições
acionarias do BNDES, que não se incluem nos empréstimos.
O Finor financiou apenas 1 0 % do capital total dos grupos
estatais que atuam no Nordeste.
A face mais impactante do Finor se revela pelo lado de sua
participação no capital total das 1.300 maiores empresas do
Nordeste, que alcançou em 1985 a porcentagem de 35% para
o setor industrial, e da ordem de 65% para o setor agropecuá
rio8. A distribuição setorial dos recursos do Finor confirma
sua importância como mecanismo financeiro da acumulação

de que
os capitais, pois sãoaos
absorveram seis parte
maior gêneros
dosindustriais mais dinâmicos
recursos daquele fundo
(excetuando-se as empresas estatais de serviços públicos, que
se financiam diretamente junto aos tesouros, federal e esta
duais, e em parte junto ao BNH).
O sistema Finor não funciona como instrumento financei
ro ao alcance de médios e pequenos capitais, senão de maneira
marginal. Ele se revela como financiador e potenciador de uma
acumulação concentrada, quase oligopolista, pois os cinqüenta
grupos econômicos mais importantes do Nordeste repre
sentam cerca da metade do capital total das 1.300 maiores

empresas
do e absorveram
Finor em também a metade
19859. Se desglosadas dos recursos
as empresas totais
e seus grupos
por srcem/propriedade dos capitais, a análise revela que os
grupos estatais absorveram recursos do Finor da ordem de
10% de seus patrimônios totais (uma vez mais, com exceção

KSobre os recursos do Finor, vide “Estruturas de op.cit.,


poder...”,
tabelas
AII: 3a e 3e.
ySobre as relações entre Finor e grupos econômicos,
idem, tabelas
vide Aíí:
3b e 3i.

87
A METAM ORFOSE DA ARRIBAÇA

I% do lucro das empresas atribuído aos trabalhadores e por


alíquotas da remuneração dos funcionários públicos federais,
enquanto o FGTS é calculado sobre a folha de salários e atri
buído a cada assalariado. Os fundos do Banco Central são de
natureza diversa, não se podendo identificar claramente suas

fontes,
os mas em de
empréstimos todoinstituições
caso dependentes do governo
internacionais federal. E
são avalizados
pelo governo federal, que, assim fazendo, assume o risco de
câmbio implícito na operação, quando de sua quitação.
Todas essas fontes têm em comum seu caráter altamente
subsidiado, e, nos casos especiais do PIS/Pasep e FGTS, cons
tituem uma verdadeira expropriação sobre seus proprietários
nominais, os assalariados em geral e os funcionários públicos.
O BNDES e o BNFI remuneravam esses fundos historicamente
a taxas de 3% ao ano, mais correção monetária. Ora, essas
taxas não alcançam sequer a remuneração das cadernetas de
poupança, que é de 6% ao ano mais correção monetária. O
BNDES empresta a taxas maiores, apropriando-se da diferen ça
entre o que paga e o que cobra, que reverte para seus próprios
fundos. Este é um dos aspectos da “regulação autoritária”. Os
proprietários desses fundos não têm qualquer ingerência nas
suas aplicações. Ademais, a ação do BNDES e dos bancos es
tatais de fomento, BN B e aqueles de propriedade dos governos
estaduais, nãoé especificamente nordestina. Tanto a forma das
aplicações quanto a natureza das fontes são fenômeno geral
na atuação do principal banco de investimento nacional em
todo o país; e os bancos estaduais de Estados fora da região
Nordeste também atuam da mesma maneira e socorrem-se das
mesmas fontes.
A soma de aplicações do Finor e do BNDES, que já se
indicou, alcançou quase 3% do PIB regional em 19 85 e trouxe
uma qualidade nova ao processo de expansão econômica nos
quadros da “ regulação autoritária” . Genericamente, eles são
parte da crescente interação entre Estado e economia, carac
terística do capitalismo contemporâneo, em que os fundos
públicos constituem um pressuposto de processo de acumula-

89
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

,çãoJ1 A função do fundo público nesse processo consiste, em


geral, em potenciar a acumulação para além dos limites im-
postos pela geração do lucro,utilizando uma riqueza pública
que não ê capital e que, portanto, na equação geral não é
remunerada. O fato de que os recursos do Finor são de custo
de oportunidade igual a zero, somado à alta taxa de subsídio
implícita nas aplicações dos bancos estatais, adapta-se a esse
paradigma.
Funcionando como um substituto do capital financeiro,
os fundos públicos concretizados no Finor e nos bancos estatais
cumprem vários requisitos. O primeiro deles é o de promover
uma centralização de capitais imediatamente desligados da
base produtiva, o que é clássico para o capital financeiro. De

fato, produtiva
base as deduçõesque fiscais
gerou odesligam-se momentaneamente
imposto de renda, da
para só se liga
rem outra vez à mesma no interior de cada capital em parti
cular. A essa função própria do capital financeiro junta-se outra
que é peculiar aos fundos públicos, e que somente eles podem
cumprir: não estão sujeitos aos movimentos da taxa de lucro
de qualquer setor em particular,amarração esta que ainda pre
side o capital financeiro stricto sensu. Esta última condição
revelou-se absolutamente necessária para romper a inércia da
economia regional anteriormente regulada pela sua própria

produção
não dependeude excedente: a taxa
de sua base de investimento
produtiva, do geração
isto é, da Nordestede
lucros interna, pois se verifica que o coeficiente de inversão
regional sobre o produto é bem superior ao da economia bra
sileira, tendo alcançado cerca de 22 % em 19 8132.1
A primeira razão é a já indicada: elevar o coeficiente de
inversões acima da capacidade gerada pela própria economia,
A segunda razão é romper com a inércia de capitais que se
movimentavam em torno das taxas de lucro existentes nos

11 Ver Francisco de Oiiveria. “ O surgimento do antivalor” N


, ovos Estudos.
Cebrap, n. 22, Sâo Paulo, out. 1988.
12 VideProduto e formação bruta de capital,.., op. cit.

90
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

Setorialmente, o predomínio dos capitais estatais se dá nos


dois maiores segmentos da economia do Nordeste - Química
e Serviços Públicos cujas empresas respondem por 46% do
patrimônio líquido total das 1.300 maiores empresas17.
A qualidade da função das estatais na expansão econômica

recente do
equação Nordeste
cujo primeiroétermo
insubstituível e forma
são os fundos o outro
públicos do par da
Finor
e do BNDES. Esta qualidade vai muito além de seu significado
quantitativo, cuja importância foi demonstrada nos parágrafos
anteriores, e pode-se dizer que, sem a somatória Finor/BNDES
mais estatais, não teria ocorrido a expansão recente, nem se
quer como mera decorrênciaespacial do forte crescimento
nacional desde o pós-guerra.
Em primeiro lugar, as empresas estatais no Nordeste de
sempenham o mesmo papel que tiveram na industrialização
nacional desde o segundo pós-guerra. Um papel paradigmático

de proto-indústria,
sentido não
de prévia e pio no :ésentido
ne ira de pré-indústria,
um desempenho afirmadomas no
quase
trinta anos depois da arrancada industrial t^ue se deu nos anos
50, com Siderúrgica Nacional, Petrobrás, Alcalis, Vale do Rio
Doce, em escala nacional.
As grandesholdings federais sãocapital financeiro po r ex -
celência, pois no seu interior elas fundem a função produtiva
c a função creditícia (quase bancária). Financiadas basicamente
por fundos públicos de extração fiscal, seus recursos desligam-
sc momentaneamente do movimento da taxa de lucro (ou de
juros), e, aplicados produtivamente, perfazem uma equação

inteiramente
nal. Quando inovadora
associadasem meio ao privados,
a capitais primitivo circuito regio ori
de qualquer
gem e natureza, exponenciam sua qualidade de capital
financeiro sui generis, pois os capitais que se lhes associam
passam, também, a gozar da prerrogativa de escapar às deter
minações da taxa de lucro, em que viviam circunscritos en
quanto permanecessem em suas formas srcinárias.1

1 Idem, tabela BI-2b

93
OS DIREITOS DO ANTÍVALOR

É por essa qualidade que estasholdings formam uma es


pécie deargamassa de todos os capitais,quando se associam.
Ancoradas nessa especificidade,
elas orientam o movimento
de capitais: seus investimentos são altos comparativamente aos
demais; são simultâneos,
complementaçao que, em oferecendo uma possibilidade
meio ao movimento de
errático dos
capitais privados, aparece imediatamente como a melhor das
associações; pela sua elevada composição orgânica, puxam
para cima, radicalmente, a produtividade dos setores que li
deram. Em síntese, na ausência de uma tendência à equalização
das taxas de lucro, que dirigíria o movimento dos capitais no
modelo srcinal de Marx, são os capitais estatais que realizam
uma função análoga de orientação da taxa de lucro e, por
conseqüência, da taxa de acumulação: não pela equalização,
mas
tada.pelo
Estaseu quase-contrário:
é sua a des-equalização
principal função teórica, tanto nocompartimen-
movimento
geral da industrialização brasileira, quanto no específico, re
cente, do Nordeste, recortado no interior do quadro brasileiro
pela presença de fundos públicos tais como o Finor, cujo custo
de oportunidade é zero.

A transformação das bases materiais da produção

A dinâmica
fundos públicoseconômica promovida
e fundos privados pela nova
inscreve armaçãodeci
o Nordeste, de
sivamente, no processo mais geral de acumulação de capital
no país. Disso dão testemunho as inusitadas taxas de cresci
mento do PIB regional entre 1970 e 198318. Neste sentido,
apesar da pequena descentralização regional do PIB (Nordeste
x Brasil)19, é inegável a ampla incorporação do Nordeste à
lógica dos processos econômicos de âmbito nacional. O em
prego nos setores da indústria e de serviços cresceu ao ponto

18 Idem, tabela AI: Id.


19 Idem, tabela AI: la.

94
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇÃ

de que a população ocupada de base urbana saltou de 37%


em 1970 para 53% da população ocupada total em 1985,
íiinda distante da média nacional (72% em 1985). Isto se deve,
sobretudo, ao “calcanhar de aquiles” nordestino: 46% da po
pulação ocupada total ainda estavam no campo em 1985, o
que representa o elemento de continuidade de relações arcai
cas de emprego, num conjunto em que os avanços são bem
notáveis, apesar de tudo20.
No período 1970-1983, a economia nordestina cresceu,
sistematicamente, acima da média nacional: 7,8% ao ano con
tra 6,7%, segundo os dados da FIBGE e do Grupo de Contas
Regionais da Sudene21. Mais ainda: esse crescimento se deve
às taxas da indústria e dos serviços, anotando-se apenas para
a agropecuária uma taxa inferior à nacional. Observados os
períodos curtos dentro do longo período de treze anos, o com
portamento é o mesmo, notando-se, marcadamente para o
subperíodo 80-83 (de crise e recessão), que a economia do
Nordeste mantém um comportamento positivo, enquanto a
média nacional acusou taxas negativas de crescimento indus
trial e total. A agropecuária, como “calcanhar de aquiles”,
cresce sempre abaixo da média nacional, e no período reces
sivo já sinalizado, que coincide com um pesado ciclo de secas
no Nordeste, a agropecuária regional mostrou taxas negativas
tlc -8,2 % ao ano. Para esse comportamento em geral superior
às médias nacionais contribui, sem dúvida, a forma de finan
ciamento público já analisada, o que reafirma o caráter excep
cional do financiamento público e das empresas estatais na
expansão econômica nordestina. Trata-se de um caráter anti-
cíclico swi generis.
Do ponto de vista da srcem setorial do Produto Interno
Bruto regional, há uma marcada diferença entre os anos ex
tremos do período, 1970 e 1983. A mais notável mudança se
dá no peso relativo da agropecuária que, de 22 %, em 1970,

’(1idem, tabela AI: lg.


'' idem, tabela AI: ld.

95
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

decresce para 1 3 ,1 % do PIB em 19 83. O comp ortamento da


série longa mostra que aqui se trata de uma tendência, e não
apenas de um dado conjuntural. De outro lado, os serviços,
que em 19 70 já compareciam com 5 1,5 % do PIB, chegam a
59,3% em 1983. O peso da indústria muda pouco se conside-
rado em si mesmo: 26,5% do PIB em 1970 para 27,6% em
198322.
Essas modificações parecem de pequena monta, a julgar
pelos pontos percentuais. Quando analisadas em malha fina,
elas revelam mais que à primeira vista. De fato, o aumento da
participação da indústria no PIB é atenuado pelo efeito des-
trutivo que a nova industrialização provoca23. O aumento da
produtividade do trabalho ditado pelos novos padrões de acu-
mulação reduziu a participação relativa da população ocupada
do Nordeste em relação ao Brasil em 5,5 pontos percentuais,
ao longo do período24.
Isto quer dizer que o aumento da produtividade se deu
paralelamente ou movido por um poderoso movimento de
concentração do capital, ao qual sucumbiram inúmeras indús-
trias regionais, nas quais a importância da força de trabalho
na geração do produto era bem maior. E na conta do produto
industrial o efeito líquido positivo teve que lutar contra o efeito
destrutivo; de modo que, tanto em nível do produto quanto

em nívelodo
ficação, emprego,
que a aparência
consta, aliás, é de quase
reiteradamente, dasnenhuma modi-
queixas regio-
nais sobre o recente desenvolvimento. Mas é na análise em
nível desglosado dos serviços que se observa, de forma pe-
remptória, o caráter capitalista das novas atividades e da nova
dinâmica econômica. De fato, a intermediação financeira,
componente dos serviços, passou de 5% do PIB em 1970 para

22 Idem,tabela AI-lc
23 Ver Francisco de Oliveira.
Elegia para uma re(li)gião.Rio de Janeiro, Paz
e Terra, 3.ed., 1981.
24 De 33,0% em 1950 para 27,5 % em 1985. Ver “Estruturas de poder. ....”,
op.cit., tabela AI:le.

96
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

õ,6% em 19 8 32\ Ora, intermediação financeira nas contas


nacionais é, sobretudo, uma medida do lucro das instituições
linanceiras. Ou seja, o caráter capitalista das novas atividades
tio Nordeste requer, como em qualquer economia, não apenas
uma monetização da atividade econômica, mas é ainda forte

mente exigente
rias, através do do pontobancário.
crédito de vista da circulação de mercado
Adicione-se a isso o crescimento das rendas e salários e
dos lucros industriais, e ter-se-á uma resposta parcial para um
incremento da intermediação financeira, a qual se relaciona
com o mercado de poupanças, um incipiente mercado de ca
pitais e mesmo com a circulação dos recursos públicos do Fi
no r, BNDES, Banco do Nordeste e estatais. É evidente também
que o subperíodo 1980-83 é aquele no qual as taxas de juros
começaram a crescer, sistematicamente, na economia brasilei
ra, coincidindo com a chamada “crise das dívidas externa e
interna” , ono
financeira que poderia
PIB contribuir
nordestino. para inflar
Entretanto, a intermediação
os estudos nacionais
a respeito anotaram que apenas em breves períodos conjun
turais a taxa de juros foi real e positiva, tendo sido, na maior
parte do longo período analisado, negativa. Essa anotação re
força a possibilidade de que o crescimento da intermediação
financeira no PIB nordestino reflita, de fato,
crescimento real,
devido às modificações da base produtiva e em geral ao caráter
nssumidamente capitalista da nova dinâmica regional.
O crescimento dos serviços poderia, de outro lado, ser
atribuído ao crescimento do chamado setor informal da eco

nomia.
cimentoIsto é, aliás, uma
do Nordeste, constante
mesmo nasaparelhadas
nas mais análises sobre o cres
conceituai
e estatisticamente. Impressionisticamente, a paisagem das
principais cidades do Nordeste reforça essa interpretação:
qualquer grande cidade do Nordeste parece-se, hoje, mais com
um mercado persa do que com uma cidade ocidental. As es
tatísticas daP NAD reforçam essa impressão: em 19 85, * do total

■’A Vide nota 7.

97
OS DIREITOS DO ANTFVALOR

de empregados, 60,1% eram trabalhadores sem carteira assi


nada - o que é a melhor aproximação estatística do trabalho
informal - e, destes, apenas 25% ganhavam acima de 1 salário
mínimo20. Embora a paisagem das cidades-bazares seja confir
mada do ponto de vista do emprego, pelas estatísticas da
PNAD, o mesmo não ocorre no quadro das contas nacionais.
Em outras palavras, o sistema de contas nacionais não mensura
o setor informal, quase por definição, pois suas atividades são
clandestinas, não do ponto de vista da visibilidade mas do
ponto de vista jurídico-fiscal e econômico. No máximo, as
estatísticas das contas nacionais conseguem registrar a produ
ção de bens industrializados comercializados pelo setor infor
mal, e assim mesmo de forma subestimada. Assim, pode-se
afirmar que o crescimento econômico dos serviços, tal como
aparece, captado e medido pelas contas nacionais, correspon
de à realidade.

As estruturas do poder econômico


na transformação da base material

A integração do Nordeste à dinâmica global da economia


brasileira produziu importantes deslocamentos na estrutura
da propriedade burguesa. Esses deslocamentos são verso e re

verso dos mecanismos


fundo público atuando comoda expansão
argamassaregional:
principalde
dosum lado, o
capitais;
de outro, uma mobilidade de capitais permitida apenas pela
alta concentração econômica em escala nacional, vale dizer,
pelo poder oligopólico dos principais grupos. O processo pode
ser sintetizado como o de uma des-regionalizaçao burguesa
que se completa ou se perfaz por uma perequação da própria
burguesia como classe social nacional, não apenas do ponto
de vista de uma hegemonia abstrata, mas concretamente, isto
é, seus capitais, seus interesses, seus investimentos, seus lucros
6
2

26 Vide “Estruturas de poder...”,op.cit., tabelas BII: lc e le.

98
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

estão fincados hoje na equação regional, também como formas


iliferenciadas de seu poder nacional.
O primeiro e notável deslocamento se dá do ponto de vista
da participação da agropecuária na formação do PIB regional.
A queda da presença das atividades rurais quer dizerperda de
poder econômico por parte dos grupos proprietários agrários;
a participação de 13 % no PIB regional dá uma dimensão dessa
perda27. Não se trata, no caso, de grupos burgueses, mas da
velha forma latifúndio-minifúndío, tão característica do Nor
deste, e sobretudo dos grandes proprietários rurais. Essa perda
não é, totalmente, transformação, metamorfose, no rumo do
empresariamento das atividades rurais. Ela é mais perda mes
mo, no sentido já indicado também na Elegia de que a inte
gração dos mercados nacionais iria solapar as velhas produções
e suas estruturas correspondentes. Daí que na amostra utiliza
da pelo estudo que fornece a base para este ensaio, apenas 175
empresas agropecuárias comparecem, respondendo por tão-
somente 0,8% do faturamento total das 1.300 maiores em
presas, em flagrante contradição com o peso da agropecuária
na formação do PIB regional28.
Eppur se muove. A soma dos saldos dos financiamentos
pelo Sistema Nacional de Crédito Rural para o Nordeste mais
as aplicações do Finor agropecuário já alcançava, em 1985,
52% do Produto Agropecuário regional, o que significa dizer
que a reprodução do capital já se dá, crescentemente, pela via
do capital-dinheiro, substituindo as formas clássicas da relação

latifúndio-minifúndio.
Entretanto, percebe-se o peso ainda grandemente deter
minante do setor agropecuário no Nordeste - se não do ponto
de vista da antiga expressão do latifúndio, do poder econômico
tio coronelato - mas de outro ângulo: na feitura do mercado
de força de trabalho, na estrutura da distribuição de renda e,
o que talvez seja ainda seu grande triunfo e ao mesmo tempo

' Idem, tabela AI: le.


"NSobre agropecuária, videidem, tabelas BI: 4a a 4d.

99
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

o handicap do Nordeste, na sociabilidade geral e nas estruturas


mais localizadas do poder. Embora produzam apenas 13 % do
PIB regional, as atividades agropecuárias ainda retêm 46% da
população ocupada total em 198529. Essa contradição entre
base material do poder econômico e controle de uma parcela
expressiva da população ocupada e de seus dependentes pro
duz, no Nordeste, alguns fenômenos que, à primeira vista,
parecem paradoxais. O primeiro deles é uma certa impercep-
tibilídade das mudanças, permanecendo os proprietários ru
rais, e sobretudo algumas de suas mais especiais categorias,
como referências sociais e políticas de primeiro plano, quando
economicamente já não o são. E o caso dos usineiros de Per
nambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas, por exem
plo. A última eleição para governador de Pernambuco - talvez
o Estado arquetípico desse conflito - opôs Miguel Arraes a
José Múcio, usineiro, filho de usineiros, neto de usineiros,
bisneto de senhor-de-engenho, tataraneto de senhor-de-enge-
nho, cujas raízes mergulham longe, no Pernambuco colonial
do século XVI.
De outro ângulo, a escassa renovação das bancadas de con
gressistas do Nordeste pode ser explicada em parte por essa
permanência deformada. Em eleições majoritárias, o velho
curral não funciona, mas em eleições proporcionais é fato que

as velhas
quais oligarquias
renovam-se continuam nos
longevamente produzindo deputados,
mandatos, os
quase à seme
lhança da açucarocracia pernambucana, de longe a mais lon-
geva classe dominante do Brasil, que sem dúvida pode disputar
esse duvidoso labéu em concurso mundial.
E no setor industrial que os deslocamentos e a metamor
fose se mostram mais importantes e decisivos. Como já foi
salientado, o pequeno aumento da participação da indústria
de transformação no PIB regional esconde, mais do que mos
tra, as mudanças que se quer assinalar. Sem nenhuma dúvida,
a indústria foi, na expansão recente do Nordeste, como de

2y Idem, tabela AI: Ig.

10 0
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇÃ

resto no Brasil, a chave e o motor das maiores mudanças. Em


primeiro lugar, deve-se anotar a mudança no peso dos gêneros
industriais mais importantes. O par clássico da indústria nor
destina, produtos alimentares mais indústria têxtil, foi substi
tuído pelo par indústria química/produtos alimentares (nessa
ordem
tudo de importância),
açúcar e o último
e.álcool30. Essa gênero
mudança querodizer
desloca eixo sobre
principal
da economia, da produção de mercadorias componentes do
custo imediato de reprodução da força de trabalho local para
a produção de insumos intermediários (meios de produção),
destinados ao mercado nacional e internacional.
Mesmo o álcool deve ser entendido como insumo na ca
deia puxada e comandada pela indústria automobilística. A
indústria sucro-alcooleira pôde reciclar sua produção, em
acentuada decadência nos anos 70, através do Programa Na
cional do Álcool - Proálcool, cujo manejo consistiu na fixação
de cotas regionalmente
produtividade. garantidas,
Essa reciclagem, independentemente
de um da
lado, criou um segmen
to de alta produtividade - as novas refinarias de álcool mas
de outro lado, pelo mecanismo da fixação de cotas regionais,
permitiu que o novo segmento continuasse amarrado ao velho
segmentoagrícola da produção da cana-de-açúcar, levando à
diminuição da produtividade do complexo agro-sucro-alcoo-
leiro, com a manutenção das velhas estruturas agrárias das
usinas. Isto se reflete, por sua vez, na manutenção de uma alta
porcentagem da população nas atividades agrícolas, baixa pro
dutividade e baixos salários.

A importância
dustrial da região édaainda
indústria
mais química para
acentuada seaconsiderarmos
dinâmica in os
gêneros que dela dependem diretamente - como matérias plás-
i icas, borracha, produtos farmacêuticos e veterinários -, que
apresentaram taxas de crescimento reais superiores à média
do Nordeste. Juntamente com o setor mineral, representam
47% do faturamento total da industria. De outro lado, os gê-

l(í Sobre composição industrial,idem


vide, tabelas Aí: 2a a 2t.

101
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

neros industriais mais ligados ao consumo (têxtil e vestuário,


alimentação, incluindo bebidas, e outros - madeira, móveis)
somam 37 % do total. Os outros 1 6% da indústria estão dis
tribuídos em gêneros de grande importância estratégica em
nível nacionát, como metalurgia e mecânica (juntos, iguais a
9% do total), e os segmentos mais modernos (material elétrico,
de transporte, papel e diversos), que fazem 7% do total.
O deslocamento do eixo da acumulação industrial revela,
visto de outro ângulo, a ruptura da inércia ou do círculo vicioso
da acumulação de capital nordestinaintramuros. De fato, ape
sar da grita regional de que a industrialização não se está fa
zendo para a produção de mercadorias de consumo popular,
o que teoricamente quer dizer mercadorias ligadas ao custo
imediato de reprodução da força de trabalho local, o grande
problema da anterior inércia residia precisamente nesse cir
cuito viciado e vícios. Pois sendo baixos os salários, a produção
de mercadorias componentes do custo de reprodução esbar
rava nestes, ou na falta de mercado ou de demanda dinâmica.
Por outro lado, a produção de mercadorias componentes do
custo direto e imediato da reprodução da força de trabalho
dificilmente induz a melhorias da produtividade do trabalho.
Do que, o deslocamento do eixo para a produção de insumos
intermediários é quase uma condição para romper-se a inércia
ou círculo vicioso da acumulação. De fato, é pelo aumento da
produtividade do trabalho na produção de bens intermediários
e de capital que, pela cadeia interindustrial, o aumento da
produtividade atinge a produção de mercadorias ligadas ao
custo direto e imediato da reprodução da força de trabalho.
Do ponto de vista da estrutura de poder intraburguesa na
região, esses deslocamentos constituem uma espécie de terre
moto, abalando velhos e indisputados domínios. E certo que
do par antigo produtos alimentares + têxtil, os produtos ali
mentares formam um novo par, agora com a química, em po
sição subordinada. Isto responde pelo fato de que grupos e
categorias sociais, como os usineiros (produtos alimentares —
açúcar e álcool) continuem, se não no primeiro degrau da
estrutura de poder intraburguesa, pelo menos no segundo.

10 2
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇÃ

Mas os grupos que assumem a química são uma inovação na


referida estrutura. De qualquer modo, feitas as contas da perda
tio poder econômico dos grupos agrários não-burgueses, do
avanço da indústria e da intermediação financeira na formação
tio PIB regional, a expansão econômica revela-se, nitidamente,
como um avanço do poder econômico burguês. Esta afirmação
deve ser atenuadacum grano salis, posto que são as empresas
estatais os novos e principais atores. Mas do ponto de vista
macroeconômico e macrossocial, a presença das estatais não
nega a expansão burguesa, senão que é sua condiçãosine qua
non. Trata-se de uma situação radicalmente distinta da dos
primeiros anos da década de 60, que precedem o golpe de
1964, quando o definhamento do poder dos proprietários ru
rais combinado com o definhamento da indústria regional pôs
cm xeque o poder burguês na região, do que se salvaram pela
adesão ao movimento militar na conjuntura. Vale a pena re
lembrar que o definhamento referido foi uma espécie de mo
vimento de pinças, que tinha uma ponta no solapamento
econômico do Nordeste produzido pelo avanço capitalista no
Sudeste e a outra nos fortes movimentos sociais e políticos
contestadores. Puro renascimento à maneira da fênix mitoló
gica ou o produto do novo amálgama em que os fundos pú
blicos e as empresas estatais são a argamassa insubstituível?
Para a mitologia burguesa, renascimento; o real, entretanto,
vai muito mais para a segunda hipótese.
No magma dos capitais, a estrutura da propriedade se di
versifica notavelmente, se reportada aos padrões antigos da
propriedade burguesa no Nordeste31. Já se salientou que a
parcela detida pelas empresas estatais é de 44% do patrimônio
total das 1.300 maiores empresas; a segunda grande parcela
cabe, talvez surpreendentemente, aos capitais de srcem estri
tamente regional: 40% do patrimônio líquido-total na indús
tria (no conjunto das 1.300 maiores empresas da amostra);

u Sobre a participação das diversas srcens de capital,


idem , vide
tabelas AI:
da c AII: 3b.

10 3
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

entre esses vinte gêneros estão três dos cinco maiores gêneros
industriais regionais - produtos alimentares, têxtil e metalur
gia. Eles, os capitais regionais, se associam pouco, repre

sentando apenas (outro


capital associado 1,6 % recorte
do patrimônio
feito no total dassrcinal,
estudo empresasdes de
tinado a verificar a formação de grupos econômicos e a asso
ciação de capitais).
Já os capitais privados de srcem nacional, do resto do
Brasil, representam 1 0 % do patrimônio líquido total das 1. 300
maiores empresas, uma importância menor do que parece pela
presença de grandes grupos privados nacionais no Nordeste.
Mas, por outro lado, associam-se muito mais do que os capitais
de srcem estritamente
presentes em empresasregional, pois 1associado.
de capital 1 3 dos nacionais estão
Revela-se, por
esse lado, que os capitais de srcem nacional estão mais aptos
a participações também financeiras, enquanto seus congêneres
regionais se caracterizam, sobretudo, pelo controle exclusivo
das empresas. Quando se analisa a presença dos capitais na
cionais em outros empreendimentos nos quais não são exclu
sivos, então a presença deles se eleva para 2 1% do patrimônio
total das 1.300 maiores empresas, pois estão, majoritária ou
minoritariamente,
das. em 57%
O porte financeiro, dos capitais
a posição de empresas
noranking associa
em seus setores,
a familiaridade com os processos de mercado financeiro e de
capitais, conferem-lhes maior viabilidade às estratégias, que,
como salientado, não se restringem à presença em empresas
sob seu absoluto controle. Aliás, retomando a questão das es
tatais, vê-se que o capital privado nacional coloca-se, quando
não em empresas de seu controle exclusivo, preferencialmente
sob o guarda-chuva protetor das estatais: as estatais possuem
80% do patrimônio
nacional total
é minoritário. das empresas
Resta onde
salientar que os ocapitais
capitalprivados
privado
nacionais predominam absolutamente na indústria mecânica
e na de produtos de matéria plástica, de importância mediana
na cadeia interindustrial da economia do Nordeste.
A participação das empresas de capital estrangeiro é, sob
os ângulos do patrimônio e do faturamento, mais do que mo-

104
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

desta na expansão econômica recente. Elas controlam, quando


exclusivas, 3,7% e, quando em associação, mais 2,3% do total
das 1.3 00 maiores empresas da amostra. Os gêneros industriais
que controlam são os de perfumaria e material elétrico, e nos
outros setores em que participam associadamente não alcan
çam nem 25% do patrimônio e do faturamento respectivos.
Mas é possível que essas participações estejam subestimadas,
embora não haja indícios de um grande desvio, e que uma via
privilegiada para o capital estrangeiro seja a conhecida cessão
de direitos, marcas e patentes. No trabalho que serve de base
para este artigo não foi possível passar do nível de suspeita,
uma vez que a própria indústria de capital nacional utiliza de
maneira intensa e abrangente esses tipos de relações técnico-
comerciais com empresas de capital estrangeiro, mas não há
nada que possa confirmar essa sugestão.
O que é novo na composição da estrutura de propriedade
das empresas, sobretudo industriais, é a quebra do “exclusivo

regional”,
deste, istoque
é, aera a marcapraticamente
presença da antiga industrialização do Nor
exclusiva de empresas
de capital estritamente regional. A esse respeito, não fazia parte
da história industrial regional a presença de empresas de ca
pitais do resto do Brasil na propriedade industrial, salvo um
ou outro caso muito raro. Quanto ao capital estrangeiro, este
participou da estrutura econômica do Nordeste ao modo e à
semelhança de sua participação na estrutura econômica nacio
nal antes da industrialização, isto é, com empresas e proprie
dades nos gêneros de energia elétrica, transportes urbanos
(bondes) e ferroviários, telefonia e gás (neste caso, Pernambuco
sendo o único, ao que consta); o setor bancário assinalou tam
bém, antes da II Guerra Mundial, a presença de clássicos ban
cos estrangeiros: ingleses, franco-italianos, holandeses,
portugueses e norte-americanos.
Depois da II Guerra, a intensa nacionalização dos bancos
comerciais privados (nada a ver com estatização) reduziu a
presença dos bancos estrangeiros no Nordeste, e mesmo os
bancos de países aliados na II Guerra Mundial reduziram sua
presença na região a quase nada. Somente agora, tal como
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

acontece no Brasil como um todo, os bancos estrangeiros vol


tam a crescer no Nordeste. Mesmo assim, em escala compa
rativa à sua presença pré-guerra, suas atividades são modestas
e a rigor são uma ex tensã o de suas atividades p rincipalm ente
no Sudeste industrializado. Isto é fácil de compreender
quando se tem em vista que os bancos estrangeiros opera
vam, sobretudo, nos negócios de exportação e importação,
numa época em que a contribuição do Nordeste às expor
tações brasileiras era da ordem de 30%. Com a queda do
índice de abertura da economia brasileira para o exterior, a
política industrial de substituição de importações e os con
troles cambiais, a área externa do Nordeste deixou de ser
interessante para os bancos estrangeiros.

umaAnovidade:
composição da estrutura
os capitais de capitais
nacionais estão mostra, portanto,
na atividade indus
trial, o mesmo acontecendo com os capitais estrangeiros, atra
vés de filiais ou de empresas novas que, às vezes, nada têm a
ver com os perfis das matrizes. Essa nova matriz é, em si mesma,
um resultado dos processos de integração, e demonstra, por
seu lado, uma descentralização que é simultaneamente nacio
nalização territorialmente concreta dos amplos interesses de
classe. A formação de empresas associadas oferece, por outro
lado, um novo ângulo para se pensar a gênese dos novos in
teresses burgueses: trata-se de interesses articulados, que, não
excluindo a competição, formam, entretanto, um novo e com
pacto bloco de interesses privados.

Velhas e novas classes

Do ponto de vista do domínio de classe, as velhas classes


burguesas nordestinas, revitalizadas ao ponto de deterem 40%
do patrimônio e faturamento das 1.300 maiores empresas, não
são maisexclusivas: o "ex clusiv o regional” foi rompido, e mes
mo aquela porcentagem não significa hegemonia, pois ela só
se perfaz mediante o impulso dinâmico que é dado pelo vínculo
com a economia nacional e, em casos mais concretos, pela

1 06
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

As fortes mudanças ocorridas na base material seguem,


ipsis litteris, as pautas do capitalismo contemporâneo, do pon
to de vista da concentração de capitais. O que, já de si, reforça

o poder deéclasse
centração daspelos
pautada novaspróprios
estruturas econômicas.
mecanismos Essa con
financeiros
que presidiram a acumulação: em primeiro lugar, as empresas
estatais são, em si mesmas, poderosas expressões da concen
tração de capitais. Em segundo lugar, o tipo de mecanismo
Finor, uma dedução do imposto de renda, desde que a opção
de investimento é das próprias empresas que praticam a de
dução, é concentracionista: deduz mais quem paga mais im
posto de renda. Em terceiro lugar, como os mecanismos têm

vigência
a expansãodevido à dinâmica
de empresas deeconômica das regiões
fora do Nordeste faz-se,mais ricas,
na região,
sob os mesmos moldes concentrados e organizacionais das re
giões líderes. Dessa forma, simultaneamente os maiores grupos
têm mais acesso aos recursos do Finor e os menores grupos
ou empresas desfrutam menos o benefício fiscal32. Não há per
versidadeout , maquiavélica, ou discriminaçãoadhoc (embora
a corrupção também funcione, não alterando, entretanto, sig
nificativamente, os dados da questão); a perversidade é m,

disso, os pequenos
necessária ao sistema
capitais
estruturante
têm uma dos
enorme
fundos
defasagem
públicos.técnica
Além
e financeira - referente à concentração e à centralização de
capitais - com respeito aos grandes capitais. Isto, em presença
de um sistema de custo de oportunidade igual a zero, leva
necessariamente à escolha de métodos capital-intensivos, des
locando ainda mais a capacidade de competição dos pequenos
e médios capitais. Mas o sistema não tende, nunca, para uma
concentração absoluta, uma espécie de tendência assintótica
inexorável. Como acontece, âdemais, em todo o sistema capi
talista, a própria concentração de capitais freqüentemente ba
rateia o capital constante, dando lugar a toda uma trama onde
têm lugar os pequenos e médios capitais.

32 Vide idem, tabelas AIÍ: 3h e 3í.

10 8
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

da força de trabalho ou mais diretamente os salários, cuja efi


cácia é quase nula. Estudos já realizados, entre os quais o de
Tania Bacelar3j, haviam posto em séria dúvida o papel dos
baixos salários como fator de atração. Na prática, as novas
atividades do ciclo da recente expansão pagam baixos salários,
o que só aumenta a lucratividade das empresas e deprime os
salários, piorando a distribuição da renda, sem que tenha efeito
na atração locacional. De fato, a variável sobredeterminante
é o custo de oportunidade zero dos incentivos fiscais. Dentro
desse marco, é a estratégia das empresas e dos grupos que
decide pela localização. O fator mão-de-obra não foi determi
nante mesmo em casos em que a existência de recursos naturais
jogou um forte papel na decisão de empresas estatais, tais como
o petróleo na Bahia, os depósitos de sal-gema em Alagoas e
recursos minerais em Sergipe e no Maranhão, os recursos fer-
ríferos de Carajás. A estratégia do nortbeastern tvay of life,
muito sol, praias, suco de caju e mão-de-obra barata, não é
nada sem a dedução fiscal e a ação das estatais. Mas constitui
um agradável incentivo e um refrescante paraíso fiscal...
Uma simulação realizada sobre a participação das dez
maiores empresas no ICM total de cada Estado fornece outra
indicação do grau de concentração e do poderio das novas
atividades geradas pela expansão recente. Tomando-se o ICM

realmente
sa pagaria arrecadado
(na base dee calculando-se
uma alíquota osobre
ICM que cada empre
o faturamento),
chega-se à conclusão de que as referidas dez maiores empresas
de cada Estadoseriam responsáveis por 40% da arrecadação
de ICM na Bahia, até o máximo de 86% no Piauí, sendo que,
na média regional, as dez maiores empresasseriam responsá-

3j Araújo, Tania Bacelar de.“Crescimento industrial no Nordeste: Para quem


e para quê” ,Revista Pernambucana de Desenvolvimento,Recife, 1981.Idem.
La division Interregionale du travail au Brésil et Vexemple du Nord-Est, Paris,

1979. (Thèse
nagement du pour le Doctorat
Territoire en Economie
- Université Publique,
de Paris). Planification et do
Idem. “Industrialização Ame-
Nordeste - Intenções e resultados”,m: Seminário Internacional sobre Dis
paridade Regional, Recife, 1981 - Anais, Recife, Fórum Nordeste/Sudeste,
1982, p. 292-301.

110
A MET AMOR FOSE DA ARRIBAÇA

veis por 46% do IC M regional36 . Trata-se de uma simulação,


em vista de que não se obtiveram os dados reais do pagamento
das empresas. Estes podem estar por cima (se a alíquota real
for mais alta) ou por baixo (se a alíquota real for mais baixa),
à parte os problemas de isenção e de evasão fiscal, também

desconhecidos pela pesquisa


modo, convém assinalar base deste
a extremada artigo. De
concentração qualquer
fiscal que,
se de um lado poderia facilitar a fiscalização por parte dos
Estados, de outro revela que, de fato, os mesmos Estados são
fortemente dependentes de um número muito pequeno de
fortíssimos contribuintes, o que, em suma, desmistifica o ca
ráter pretensamente “sufocante” do Estado sobre a iniciativa
privada: de fato trata-se de Estados (e de Estado) prisioneiros.

A questão regional hoje

A clássica “ questão nordestina” , que é nossa “ questão re


gional” por excelência, constituiu-se a partir da segunda me
tade do século XIX. E na confluência de processos que
definiram as questões do mercado de trabalho e do Estado
brasileiro, simultâneas e recíprocas - conforme as ricas indi
cações de Luiz Felipe de Alencastro em sua tese de doutorado
Le comm erce des vwa nts: Traité d ’esclave$ et “Pax Lusitan” a
dans TAtlantique Sud - XVle e XIXe siècles. Uníversité de Paris
X, Paris, 1986, 3 vols. -, que o Nordeste se constitui simulta
neamente como região e como região mais atrasada. Antes,
ajudadas pela moderna historiografia, em que ressalta Evaldo
Cabral de Mello em seu ONorte agrário e o império, as refe
rências “regionais” se davam em relação a um vasto Norte e
um vasto Sul, e as outras regiões (de hoje) simplesmente não
faziam sentido. Além disso, as posições eram invertidas em
relação ao sentido que têm hoje: era o vasto Norte (em que
contava principalmente o Nordeste de hoje) a região rica, en
quanto o vasto Sul era a região pobre.

(>Vide “Estruturas de poder...”, op.cit., tabela BI: e e f.


%

111
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Não interessa, aqui, reconstituir o largo processo em que


as regiões se cristalizaram no Brasil, mediante o aguçamento
das diferenças de níveis de desenvolvimento que, aliás, são os

próprios
criação dafatores determinantes
Sudene, da regionalização.
a regionalização do Nordeste éAnão
partir da
apenas
reconhecida, mas, sobretudo, tornada a substância de uma es
tratégia visando sua anulação. Não sem antes proceder-se, tal
vez, à última am pliação da região, fincada desta vez no
parâmetro do subdesenvolvimento em relação ao Sul/Sudeste:
incorporam-se o Maranhão e a Bahia e, para efeitos fiscais, o
Nordeste de Minas.
A partir da efetiva entrada em funcionamento dos me

canismos
plantação fiscais-financeiros
dos projetos das sob a égide
grandes da Sudene,
empresas e da im
estatais, no
período que vai de 1959 a 1985, e, para efeitos deste artigo,
de 1970 a 1985, os programas de desenvolvimento regional
baseados nos mecanismos e nos projetos já assinalados an
teriormente estão produzindo resultados que redefinem a
“questão nordestina” .
Em primeiro lugar, pela força dos processos analisados, e
sobretudo pela sua ligação aos processos de acumulação de

capital em do
à do resto escala nacional,
Brasil. o Nordeste
A tal ponto que, a integrou
rigor, nãosua
se economia
pode falar
em “economia do Nordeste”, mas numa divisão regional do
trabalho no Brasil com atividades regionalmente localizadas.
As taxas de desenvolvimento nordestino não dependem da
taxa de acumulação (ou de poupança e investimento) do Nor
deste; se assim fosse, o ritmo e os níveis da expansão econômica
alcançados teriam sido inviáveis. O rompimento da inércia e
do ensimesmamento regional já foram suficientemente descri

tos e analisados.
cipação de capitaisA de
constituição doso novos
fora da área, interesses,
deslocamento a parti
radical de
ancilares interesses fincados no complexo latifúndio-minifún-
dio, são parte e sujeitos desses processos.
Tudo isso se resume no resultado de que a política de de
senvolvimento regional levou à desregionalização da econo

11 2
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

e pelos estudos já realizados - seria um equívoco de fundas


conseqüências para as classes trabalhadoras regionais.
Esse efeito centrífugo manifesta-se, também, no nível da
homogeneidade regional, das semelhanças entre os Estados da
região. Tal homogeneidade sempre foi muito relativa, mas de
qualquer modo, a inércia e o “círculo vicioso e viciado” em
que se movia a economia regionalvis-à-vis outras regiões tor
nava os Estados mais semelhantes entre si. Os resultados da
expansão recente não foram capazes, ainda, de preencher as
sensíveis diferenças, do ponto de vista dos principais indica
dores econômicos, entre os Estados da região e os outros, mais
ricos. Entretanto, modificações de ritmo de desenvolvimento,
localizações estratégicas de empresas estatais, capacidade de

industriaisburguesias
algumas aliando-semetamorfosearem-se
a outros poderosos grupos
em empreendedores
estatais e bur
gueses extra-regionais, indicam um movimento centrífugo no
sentido de desfazer a relativa homogeneidade e a unanimidade
em que se reconheciam “ nordestinos” .
Tal é o caso mais flagrante da Bahia, onde antigos e pode
rosos grupos financeiros deram o passo no sentido de se trans
formarem em empresários, como o grupo do antigo Banco da
Bahia (os Mariani Bittencourt) e o grupo do Banco Econômico
(Calmon de Sá). Ao lado deles e capitaneada por eles, uma
nova safra de empresários, articulados basicamente no Pólo
Petroquímico de Camaçari, joga sua estratégia com o olho
voltado para a Petroquisa, enlaçando-se através da holding
Norquisa, por exemplo, com os mais variados capitais, inclu
sive estrangeiros, e projetando-se para além de seus ramos de
negócios tradicionais. Daí surgiram grupos co mo o Odebrecht
- hoje entre os maiores da construção civil pesada em termos
nacionais-, com estratégia de dominação para além da simples
extração do excedente: este grupo possui uma fundação, que
financia estudos, monografias sobre o próprio Nordeste, dis
tribui prêmios culturais, entra em relação com os grupos ne
gros; o grupo Paes Mendonça, nos supermercados, é também
um grupo baiano de projeção nacional. Em suma, estes grupos
destacam-se nitidamente do empresariado de outros Estados,

114
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

pelas suas articulações nacionais e concepções do papel de sua


classe social.
O Ceará também apresenta modificações que, paradoxal
mente no Estado talvez mais simbolicamente nordestino, afas-
ta-se, sob certos aspectos, do estigma; é certo que os
indicadores econômicos cearenses continuam entre os mais
baixos. Mas lideranças empresariais do tipo Jereissatti conse
guiram fazer a ponte com a política, derrotaram os velhos
“ coronéis” , estabeleceram relações com a Universidade - ra-
ríssimo comportamento entre empresários e políticos do Nor
deste - e, pelos empreendimentos que conduzem, colocam-se
em segmentos de atividades dinâmicas em escala nacional.
Os exemplos de grupos empresariais em vigorosa meta
morfose quase se esgotam nesses dois Estados. Decerto grupos
empresariais do Nordeste estão entre os maiores de seus seto
res, nacionalmente falando. Caso do grupo Pernambucanas,
do grupo Othon no ramo hoteleiro, do grupo João Santos no
cimento, para citar uns poucos mais. Entretanto, estes grupos
não se destacam armando articulações mais amplas no cenário
nacional. Aqueles capitais estritamente regionais que possuem
40% do patrimônio das maiores empresas do Nordeste in
cluem os grupos e exemplos já citados, e mais uma miríade de
outras empresas que não têm expressão nacional.
Em outros Estados, como Maranhão, Sergipe, Alagoas e
secundariamente Rio Grande do Norte, a presença de fortes
empreendimentos de empresas estatais responde pela nova di
nâmica econômica. O efeito centrífugo em oposição à homo

geneidade dos
gravitação regional manifesta-se
interesses aí das
em torno no sentido
estatais,da forte com
fazendo
que reivindicações “nordestinas” passem, no limite, a segundo
plano se colidirem com as articulações e demandas junto às
estatais. Mas também revelam a fraqueza desses Estados, cujas
burguesias não têm o porte sequer para aliarem-se com as
empresas estatais e seus sócios nacionais e estrangeiros.
Há um movimento em sentido contrário ao da desregio-
nalização da economia, um movimento centrípeto que é, dia-
leticamente, o fautor da desregionalização. Trata-se do “ capital

115
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

financeiro em geral”, nas formadas isenções fiscais, dos subsí


dios e do papel das estatais, que teoricamente exercem uma
função de antivalor para pôr em marcha o processo de valo
rização. Este movimento reifíca constantemente a hoje ficcio
nal “ economia do Nord este” ; é pela reificação das diferenças
de desenvolvimento, pelo conceito de região mais atrasada -
em que, subliminarmente às vezes e explicitamente na maior
parte dos casos, o Nordeste foi utilizado como ameaça de con
vulsão social e, no limite, de revolução camponesa operária
de sentido socialista de “ prioridade” nacional, que os me
canismos fiscais-financeiros foram erigidos, mantidos, refor
çados e ampliados. Esse movimento centrípeto reconstrói
recorrentemente a homogeneidade subdesenvolvida do Nor

deste, obscurece
expansão, as diferenças
as clivagens entre ose Estados,
de interesses os ritmos
de classes, de
buscando
manter os referidos mecanismos fiscais-financeiros. E certo
que os empreendimentos estatais escapam, pela fonte de seus
recursos e pela amplitude de suas articulações, a essas deter
minações, mas no interior das alianças ou do magma argamas-
sado pelos empreendimentos estatais, os mecanismos
fiscais-financeiros continuam a valer para os processos parti
culares de empresas e grupos. No interior e como resultado
desses processos, a “ questão nordestina” se recoloca e se refaz,
em primeiro lugar, do ponto de vista daquela reificação. E
especificamente, por algumas peculiaridades a mais. A primei
ra delas é que persiste, como marca registrada do Nordeste,
uma questão agrária irresoluta. Os dados já apresentados mos
tram uma acentuada perda de poder econômico dos grupos
latifundiários, na queda da participação das atividades agro
pecuárias na formação do produto regional. Mas uma grande
parcela da população e da força de trabalho continua amarrada
às atividades rurais, o que distingue o Nordeste, notavelmente,
de outras regiões brasileiras.
Em segundo lugar, o Nordeste se diferencia também sen
sivelmente das outras regiões pelas características de seu mer
cado de força de trabalho, composição da população ocupada,
níveis de renda e de salários, existência de um marcante exér

1 16
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

cito industrial de reserva ou setor informal. Os dados a esse


respeito são dramáticos, e não constituem herança do passado,
senão que são produto da dinâmica da expansão recente.
Como outro resultado, o Nordeste deve se caracterizar - em
bora os dados da pesquisa sejam insuficientes para isso - por

uma concentração
sileira, o que não édasurpreendente,
renda ainda mais
se sedesigual
levam do
os que a bra
dados em
consideração.
Do ponto de vista do mercado de trabalho, a expansão
recente também integrou o Nordeste ao padrão dominante no
Centro-Sul, pois os empregados já são (1985) mais de metade
da população ocupada, enquanto os trabalhadores por conta
própria perfazem apenas um terço, invertendo as proporções
prevalecentes no início dos anos 7 038*. Mas os empregados
urbanos saltaram apenas de 65% em 19 70 para 69% em 19853í>
(apesar de a população ocupada de base urbana como um todo

ter crescido
te, de relação
à elevada 37% para 53% do total), dos
capital-trabalho devido, provavelmen
capitais altamente
concentrados que passaram a operar na região, implicando
um pequeno aumento líquido do emprego; e, em segundo
lugar e principalmente, devido à escassa mudança nas formas
técnicas da produção no campo, apesar da expansão do assa-
lariamento na agricultura.
A estrutura de salários reflete esses processos: em 19 85,
85% da média dos empregados ganhavam menos do que
três salários mínimos e 52 %, até um salário mínimo. Parece
haver uma acentuada relação entre esses níveis salariais e a
formalização das relações de trabalho, pois os trabalhadores
sem carteira assinada representavam 60% do total de em
pregados em 1985, e nestes apenas 24% ganhavam acima
de um salário mínimo40.

,if Vide “Estruturas de poder...”, op.cit ., tabela BII: la.


Idem, tabela BII: lb.
Idem , tabelas VII: le e If.

117
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

O impacto das 1.300 maiores empresas sobre o mercado


de trabalho é desproporcional à sua importância na formação
do produto regional: elas eram responsáveis por 2 1% do PIB
regional em 1985, e empregavam apenas 7% da população
ocupada41.
Desde os anos 20 a migração do Nordeste para o Sudeste
foi, talvez, a marca principal da “questão nordestina”, ao lado
et pour cause da questão agrária regional. A participação do
Nordeste na divisão regional do trabalho no Brasil poderia ser
resumida em fornecimento de mão-de-obra e de algumas ma
térias-primas industriais importantes, tais como algodão e si
sal; além disso, a região produzia um excedente de divisas cujo
peso na balança comercial e no balanço de pagamentos brasi
leiro era importante, provavelmente 1/3 do total. Ao longo
dos processos descritos neste artigo, e até antes, como resul
tado da integração dos mercados nacionais - ainda não da
população nacional -, o papel de fornecedo ra de matérias-pri
mas industriais enfraqueceu-se sensivelmente; a forte expan
são das exportações brasileiras fora do Nordeste relegou a
exportação nordestina para quotas não muito relevantes (ape
nas cacau, conjunturalmente açúcar e melaço, e outros itens
de menor importância na pauta brasileira). Uma importante
redivisão regional de trabalho gestou-se no Brasil. De forma
que o Nordeste ampliou consideravelmente a pauta de suas
trocas comerciais com o resto do Brasil, e aparece hoje na
divisão regional do trabalho industrial como importante
produtor de insumos e bens inter mediários. Esta é sua marca
principal, hoje, do ponto de vista da produção. A antiga
autarquia regional de bens de consumo, sobretudo alimen
tares, foi rompida, quase em todos os itens; principalmente
no capítulo relativo a bens de consumo industrializados, sua
balança comercial é provavelmente deficitária (devido, en
tre outras coisas, ao melhoramento de rendas e salários das
classes médias).

41 Idem, tabelas do Anexo 3 e BII: lg .

11 8
A METAMORFOSE DA ARRIBAÇA

No capítulo da migração e da força de trabalho, embora


continue a haver uma forte migração, esta, calculada em
relação à população residente, já não atinge mais as propor
ções de décadas como as de 50 e 60; isto é, o mais importante
mercado de força de trabalho para a população regional é,
dinamicamente, a própria região. A migração que continua
a haver provavelmente tem papel marginal na determinação
do nível de salários reais nas regiões, Estados e cidades onde
ela aporta. Estes níveis agora têm muito mais a ver com a
organização das classes trabalhadoras, de um lado, e, de
outro, com a própria produção de populações excedentes
nas regiões mais ricas. Basta ver que na última década cen-
sitária - entre 19 70 e 19B 0 - o Estado que mais perdeu
população absoluta e relativamente foi o Paraná, devido à
forte mudança técnica e nas relações de produção na rica
agricultura paranaense.
O que resta é uma mudança importante, do ponto de
vista da clássica caracterização da “ questão nordestina” : a
arr ibaç ã já não migra mais, e se continu a a fazê -lo - e
continua -, sua fecundidade nos lugares onde arriba é
decíinan te, em todos os termos. A moral é qu e a “ questão
nordestina” que resta, e ainda é grave, dramática e imen
sa, exatamente porque ela é dinâmica, deve ser resolvida
no próprio Nordeste. A antiga válvula de escape já não
funciona. O próprio movimento de tentativa de anulação
das disparidades regionais no Brasil, não com pleto, ainda

largamentee insuficiente,
ferências das velhas baralhou as cartas
estratégias. das velhas
Para todos re
os lados,
para todas as classes. A novidade agora é que a “questão
nordestina” é a de níveis de miséria produzidos pela pró
pria expansão econômica. Bela e feia novidade.
A rápida expansão econômica destruiu todos os mitos e
todas as saídas fáceis, muitas das quais repousaram, na maior
parte dos casos, sobre a própria tragédia dos que migravam,
ao custo de poderosos processos de desenraizamento, perdas
pessoais, angústia da grande cidade, discriminação antibaiana,
guetos nordestinos. Um rico processo social deu a volta por

119
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

cima, de tal modo que dos guetos nordestinos do ABC paulista


saiu o mais importante movimento sindical e político do Brasil
nos últimos quarenta anos. O réquiem da velha questão nor-

destina
forçar ostocou paraotodos,
termos, novo éexecutantes,
a “ questão maestro,
brasileira”ouvintes.
. Sem

120
Crise e concentração
Quem é quem na indústria paulista

Apresentação

Este artigo apresenta alguns dos principais resultados e


conclusões a que se chegou na linha de pesquisa sobre o poder
econômico que o Cebrap realiza desde 1987. Em particular,

este texto
bertas procura que
empíricas tornar públicas de
aparecem algumas
formadas idéias e em
minuciosa desco-
um
relatório de pesquisa elaborado pela equipe1. Além de bastante
sintético, o artigo tenta também aliviar o leitor, sempre que
possível, dos transtornos comuns à maioria dos relatórios, em
geral maçantes pelo jargão característico e pela profusão de
tabelas e dados. *1

* Publicado em co-autoria com Alexandre Comin, Flávio Mesquita Saraiva


e Hélio Francisco Corrêa Lino,Novos em Estudos Cebrap,n. 39, julho de
1994, p. 149-171.
1Cebrap. Estruturas de poder econômico na indústria de São Paido (Relatório
Final de Pesquisa).São Paulo, Cebrap, 1992. A equipe de pesquisa é coorde
nada por Francisco de Oliveira; os pesquisadores responsáveis pela organi
zação e análise dos dados, em diversos momentos do tempo, foram Alexandre
Comin, Flávio M. Saraiva, Hélio Francisco Corrêa Lino e Carlos Alberto
Bello e Silva; colaboraram decisivamente os estagiários Rogério C. de Souza,
José Celso Cardoso Jr., Osvaldo Godoi, Marcos Q. Barreto e Lilian M. Lam-
bert. Os autores agradecem também aos vários pesquisadores do Cebrap que
participaram das discussões deste texto: Adalberto M. Cardoso, Álvaro A.
Comin, Elson L. S. Pires e Eugênio Diniz. Como de praxe, os autores assumem
toda a responsabilidade pelo resultado final.

121
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

O curso presente dos estudos dessa equipe do Cebrap pode


ser resumido no esforço de fornecer à análise econômica um
conjunto de instrumentos teóricos e empíricos que, de um
modo geral, passam ao largo dos estudos que habitualmente
se fazem. E comum dividir-se a economia em dois âmbitos;
um agregado, que trata de fenômenos globais, tais como cres
cimento, inflação e desequilíbrios no balanço de pagamentos;
outro, microscópico, que enfoca os agentes individuais, famí
lias e empresas. A lacuna entre os dois níveis constitui aquilo
que poderiamos chamar de mesoeconomia: um espaço con
ceituai no qual os agentes econômicos - em particular as em
presas, públicas e privadas, bem como os grupos econômicos
que as controlam - aparecem propriamente como sujeitos do
processo econômico, posto que não estão nem subsumidos ao
movimento macro - mensurado sempre a partir de agregados
e médias globais - nem tampouco diluídos na abordagem in
dividualista, maximizadora, simplificadora, da análise micro-
econômica.
A tarefa posta aqui portanto é a de estabelecer uma topo
logia empresarial, mapear os altos e baixos de uma configura
ção complexa de entidades que comumente aparecem de modo
plano, isom órfico, sob a denominação de “ setor privad o” . Tra
ta-se de estabelecer clivagens, entre grandes e pequenos, na
cionais e estrangeiros, dinâmicos e tradicionais, entre outras.
Em alguma medida, uma parte da microeconomia, sob a
denominação de Organização Industrial (OI), e outras disci
plinas correlatas vêm há décadas buscando captar e explicar
estas distinções dentro do setor empresarial. Boa parte do tra
balho que aqui se vai expor tem aí suas srcens; em particular,
as análises de concentração setorial da produção não são mais
do que velhas análises baseadas em novas informações, abaixo
explicitadas. Mas a pretensão deste trabalho vai além: ao con
trário dos estudos convencionais de OI, não tomamos a em
presa como objeto de análise por excelência. Aqui, ela aparece
subordinada a condicionantes mais amplos: de um lado, as
clivagens acima referidas encaixam cada caso individual em
tipologias várias que - é a hipótese - ajudam a explicar o com

1 22
CRISE E CONCENTRAÇÃO

A concentração em processo

Uma primeira análise, agregada, da concentração do poder


econômico foi realizada estabelecendo-se uma divagem, pelo
critério de tamanho do patrimônio líquido, entre as 10, 100
e 500 maiores empresas da amostra, que, apenas para dar uma
noção de grandeza, tinham em média cerca de 17 mil, 6-7 mil
e mil empregados, respectivamente. As indicações, mostradas
nosgráficos 1 (10 maiores), 2 (100 maiores) 3e (500 maiores),
são de que existe uma elevada concentração econômica na
indústria paulista6. No tocante ao patrimônio líquido e ao
faturamento, a ampliação desta concentração não foi muito
expressiva, mantendo-se de forma estável a “correlação de
forças” entre os gigantes empresariais. No que diz respeito
ao lucro líquido, ao contrário, verificou-se uma substancial
concentração da apropriação do excedente, sobretudo no
estrato das 100 maiores empresas, que, partindo de um pa
tamar
chegam de em
pouco
1989mais
ao de 40% dovalor
fabuloso total de
da amostra
60% do em
total1980,
dos
lucros, muito acima de sua contribuição na produção, men
surada por sua participação no faturamento (em torno de
40%). Seguramente foi este estrato que conseguiu melhor
se “ajustar” às turbulentas oscilações da economia brasileira
do período . Para estas maiores empresas, a expressã o “ dé
cada perdida” deve soar estranha.

O que estes gráficos não mostram é a importância econômica desses sub


conjuntos da amostra. Apenas para se ter uma idéia da importância dessas
empresas no conjunto da economia paulista basta dizer que as 500 maiores
empresas, no ano de 19 85, detinham 73 ,5 7% do faturamento total da amos
tra {RFP 1 17 ) que, por sua vez, representava 47,6 % do VBP do Estad o (RFP
1 13 ) . Fazendo o cálculo, tem-s e que estas 50 0 empresas detinham pouco
mais de 35 % de todas as vendas da indústria de São Paulo. Dado que esta
cifra representava neste ano 43,92% do total da indústria brasileira, tem-se
que as 50 0 maiores foram responsáveis po r 15 ,4 % de toda a produção in
dustrial nacional, ou quase um sexto do total.

127
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Gráfico 1
Dez maiores empresas como proporção total da amostra (%)

Gráfico 2
Cem maiores empresas como proporção total da amostra (%)

128
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Ao examinar mais de perto o subconjunto das 100 grandes


empresas, podemos constatar que elas operam em alguns dos
setores mais oligopolizados da economia brasileira. Em pri
meiro lugar, vem o setor de química e petroquímica, com 15
empresas, em seguida papel e papelão, com 7, construção civil
(pesada), metalurgia dos não-ferrosos (alumínio, níquel etc.)
e produtos alimentares diversos com 5 empresas cada. Ade
mais, podemos encontrar nesta lista (RFP 114 ) as montadoras
de automóveis, cervejarias, pneumáticos e outros repre
sentantes da grande indústria brasileira em setores como ele
trodomésticos, bens de capital e bens intermediários para
construção civil e indústria.
Este quadro se completa com a presença de grandes estatais

nos serviços
básico industriais
e transportes. de telefonia,
Aparecem eletricidade,
também algumas saneamento
empresas es
tatais ligadas diretamente à indústria, como Ultrafértil, Ma-
fersa (privatizadas no governo Collor) e Embraer.
Esta seção das 100 maiores da pirâmide industrial revela
muito a respeito da hierarquia dos capitais na indústria brasi
leira. Nela encontramos 43 empresas nacionais privadas (33
de São Paulo e 10 de outros Estados da federação), 39 empresas
multinacionais e 15 empresas públicas* 7. Por fim, existem 4
empresas que designamos como sendo de controle comparti
lhado, isto é, cujo controle acionário é exercido por dois ou
mais sócios (sempre de elevada estatura econômica) de forma
conjunta. Estas empresas não são nem públicas nem privadas,
nacionais ou estrangeiras, mas resultam da confluência destas
forças naquilo que Peter Evans chamou de tríplice alianças.
Mais do que isto, é possível constatar uma certa divisão
de funções no interior da estrutura produtiva. As empresas
estatais certamente predominam nos setores de serviços pú

7 Sobre estas convém frisar que ocupam o topo da pirâmide: das 10 maiores,
7 são públicas, em geral ligadas aos serviços públicos,
K Evans, Peter.A tríplice aliança (As multinacionais, as estatais e o capital
nacional no desenvolvimento dependente brasileiro). 2a ed. Rio de Janeiro:
Zahar Editores, 1982.

13 0
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

mento da estrutura industrial mediante a formação de


alianças
nos setores de insumos intermediários através da associação
entre capitais nacionais, públicos e privados, e estrangeiros.

Esta topografia
econômico complexa,
concentrado que mapeia
juntamente com asa latitudes
altitude do
dapoder
estru
tura industrial, se completa com uma análise mais detida no
plano setorial. Para não sobrecarregar o leitor com cifras e
nomes, nos limitaremos a alguns setores-chave, sem reproduzir
a análise mais detalhada já realizada (RFP 72) para os 56 setores
da Quem é quem.
Seguindo a tradição dos estudos de OI, calculamos a evo
lução ao longo da década de 1980 da participação no total do

faturamento
tores. dos 4mostra
Este índice maiores integrantes
que não só a de cada um destes
concentração se
nos mer
cados é espantosamente alta, mas que ela cresce vertigino
samente ao longo do período.
Apenas para se ter uma idéia, em 19 80, 40 setores apre
sentavam mais de 50% de seu faturamento concentrado em
suas quatro maiores empresas (RFP 118 / 119 ). Esses dados tor
nam-se mais expressivos quando se verifica que, para esse mes
mo ano, em 19 setores as 4 maiores empresas abocanhavam
mais de 80% do faturamento e, em 15, mais de 90%! Em
1989, esses números aumentam sensivelmente em relação a
19 80, com 44 setores acima dos 50 % , 24 acima dos 80% e 18
acima dos 90%.
Nos estratos superiores do tecido industrial, isto é, nos
oligopólios concentrados de bens de consumo durável, bens
de capital e bens intermediários, a imagem de uma economia
de muito poucos concorrentes aparece nitidamente. Em certos
segmentos, a ampliação da concentração é insignificante, pos
to que o ponto de partida já estava, em 1980, colocado em
níveis extremamente elevados. Os melhores exemplos provêm
do segmento de material de transporte (veículos automotores,
construção naval, material ferroviário e aviões), ápice da evo
lução do complexo metalmecânico, todos oscilando entre 90%

13 2
CRISE E CONCENTRAÇÃO

e 100% de concentração nos 4 maiores produtores em cada


setor (quando não há menos de 4 participantes)9.
No segmento de bens intermediários, o quadro difere ape
nas em grau. Patamares superiores ou próximos a 70% de
concentração nos 4 maiores (borracha, cal e cimento, não-fer-

se
rosos),
mantém
ou mesmo
ou até sofre
80%, alguma
são comuns.
ampliação.
Nestes, ou bem o nível
A estes se poderiam agregar os “ monopólios institucio
nais” representados pelas empresas estatais em setores indus
triais básicos: siderurgia (concentração em torno de 65% , com
tendência de alta), refino de petróleo (80%, em alta) e gás
natural (cerca de 95%, estável). Juntamente com os “mono
pólios naturais”, nos serviços públicos, todos com concentra
ção próxima de 100%, compõem o segmento público do
grande capital oligopolizado da indústria brasileira.
Os dados destes setores refletem, para o conjunto, uma
relativa estabilidade da concentração. No entanto, outros oli
gopólios mostram que houve, setorialmente, uma ampliação
considerável do poder de poucas empresas sobre importantes
mercados. Talvez o exemplo mais impressionante seja do setor
de produtos farmacêuticos, medicinais e veterinários, onde em
1980 as 4 maiores empresas detiveram 32,36% do faturamen
to e, em 1989, aumentaram esta participação para 63,53%.
A especificidade brasileira, de um desenvolvimento fecha
do, dominado por um punhado de grandes conglomerados,
se evidencia também em outros setores, fora do circuito pri
vilegiado dos oligopólios diferenciados, voltados para o con
sumo durável, ou dos oligopólios homogêneos, de bens
intermediários, nos quais a concentração crescente é uma regra
geral. Mesmo em setores tradicionais, ligados à agricultura,
não necessariamente intensivos em tecnologia e/ou escala, a

9Dentro do segmento de material de transporte, somente no setor de tratores


e implementos agrícolas, mais diversificado e com maior número de parti
cipantes, é que o nível da concentração dos 4 maiores está abaixo dos 90%;
foi de 64% em 1980 c de79% em 1989.

133
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

elevada oligopolização aparece como um aspecto distintivo do


hipercentraíizado capitalismo brasileiro.
Grandes redes empresariais, sob o controle centralizado de gru
pos econômicos solidamente estruturados do ponto de vista finan
ceiro, fazem do agribusiness
brasileiro mais um espaço privilegiado,
concentrado, crescentemente excludente, big
dobusiness10.
Isto é particularmente evidente em ramos do complexo
agroindustríal que foram moldados pelas diversas políticas,
agrícolas e industriais, do regime ditatorial, como açúcar e
álcool (leia-se Proálcool) e óleos vegetais (leia-se soja), onde a
concentração dos 4 maiores, em termos médios, passa de um
patamar de 50% no início da década de 1980 para cerca de
70% no final. Em outros ramos, cuja base agrícola é bastante
antiga e não foi fortemente afetada pelas políticas governa
mentais dos anos 70 e 80, como café, moinhos e carnes frigo-
rificadas e industrializadas, as cifras não destoam do
movimento geral: elas apontam para um crescimento contínuo
(exceto moinhos após 1985) da concentração, que chega a
patamares próximos a 70% e 80%.
Devido a certas limitações intrínsecas do material empírico
utilizado até agora (basicamente a restrição em termos espaciais
e o elevado grau de agregação setorial), seria conveniente mostrar
algumas poucas informações adicionais com o intuito de dimen
sionar melhor o elevado grau de concentração da indústria bra
sileira. São informações que não fazem parte da pesquisa e serão
aqui rapidamente apresentadas apenas como um complemento,
sem a menor pretensão de estender o escopo srcinal do projeto.
Em primeiro lugar, procura-se comparar o grau de con
centração industrial do Brasil com o de outros países, em par
ticular, EUA, ex-Alemanha Ocidental e França. Para isto foi

10 A respeito do desenvolvimento rápido deste complexo agroindustríal sob


o comando financeiro do Estado brasileiro no tempo da ditadura militar,
ver Comin, Alexandre & Muíler, Geraldo.Crédito, modernização e atraso
(O crédito rural na modernização e no atraso da agricultura brasileira no
período 1965-84). Cadernos Cebrap, Nova Série. São Paulo: Cebrap, 1985.

134
CRISE E CONCENTRAÇÃO

montado o gráfico 4, com base nos dados de Holanda Filho11,


que mostra a concentração das 4 maioresempresas em diversos
gêneros industriais nestes 4 países.
A primeira constatação que salta aos olhos é a razoável
similaridade nos níveis de concentração, para os diversos paí
ses, em cada gênero. Isto sugere que cada um destes sofre
processos de concentração que são específicos às condições
tecnológicas e comerciais do setor. Deste modo, em pratica
mente todos os países, são os mesmos gêneros que aparecem
como os mais concentrados (material elétrico, material de
transporte, borracha e fumo) e menos oligopolizados (madeira
e mobiliário, seguidos de couros e peles, têxtil e vestuário).
A segunda evidência que se pode extrair deste gráfico,
malgrado suas deficiências12, é que, numa comparação com
países mais desenvolvidos, a indústria brasileira é significati
vamente mais concentrada. Apenas em um terço dos gêneros
(mecânica, mobiliário, couros e peles, têxtil e fumo) o Brasil
não figura como o mais concentrado; nestes 5 casos, é o se
gundo colocado. Em outros gêneros (borracha, alimentos, be
bidas e editorial e gráfica) apresenta níveis de concentração
bastante superiores aos dos demais países.
O segundo conjunto de informações, que também não pos
suem um caráter sistemático, apenas ilustrativo, diz respeito
à concentração de mercado em alguns produtos básicos de
consumo no Brasil. Apresentados na tabela 2, estes dados re
presentam o mais baixo grau possível de agregação e fornecem
uma pequena noção dos níveis extremos de oligopolização a
que chegou a economia brasileira.

Estrutura industrial no Brasil: concen-


11 Holanda Filho, Sérgio Buarque de.
tração e diversificação.
Rio de Janeiro, IPEA/INPES, 1983, p. 100.
12 Em termos de tempo; abrangência do tecido industrial; de diversidade do
grau de desenvolvimento econômico e de grau de abertura comercial dos
diversos países; nao-homogeneidade da variável utilizada para cada país.
Dados mais recentes para os EUA (não diretamente comparáveis aos do
gráfico 4) podem ser encontrados em Brozen, Yale.Concentration, mergers
and public policy. Nova Iorque: MacMiílan Publishing Inc., 1982.

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OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Tabela 1
Participação dos principais grupos na produção de bens de consu
mo selecionados, Brasil, 1993, (%)

produto n. de % de grupos (marcas/empresas)


grupos vendas
sabão empó 1 74 Gessy Lever
presunto 2 68 Sadia, Perdigão
salame 2 51 Nestlé, Itambé, Fleischman Royal
leite em pó 3 88 Cragnotti & Partners (Bombril e
detergentes 2 92 Orniex), Gessy Lever

caldo de 2 92 Nestlé (Maggi), Refinações de


galinha Milho Brasil (Knorr)
refrigerante 3 78 Brahma, Antárctica, Coca
cerveja 3
3 94
100 Brahma,
Anakol Antárctica,
(Kolynos) Coca (Kaiser)
Colgate-Palmolive,
creme dental
Gessy Lever (Signal e Aim)
margarina 4 80 Gessy Lever, Sanbra, Sadia, Cevai
sabonete 1 62 Gessy Lever
cigarros 2 98 Souza Cruz, Phillip Morris
leite (só grande 3 85 Parmalat, Mansur (Leco, Vigor,
S. Paulo) Flor da Nata), Paulista

óleo de soja 3 48 Cevai (Soya), Cargill (Liza), Sadia


sorvete 2 96 Phillip Morris (Kibon), Nestlé
(Gelato, Yopa)

FONTE:Folha de S. Paulo, 20.3.94, p. 1-8, Veja,


e 9.3.94, p. 30-7.

Tais recorrências de nomes, que poderiam se multiplicar


às dezenas num estudo mais abrangente da indústria brasileira,
apontam para a forma grupo como um fenômeno específico,
não redutível às dimensões convencionais da microeconomia,
tais como mercado, produto, firma. Somente sob este ângulo
novo é que a conformação do poder econômico pode ser cap
tada em toda sua extensão. Voltaremos a este ponto na seção

“ OsPor
50 ora,
maiores grupos econômicos”
gostaríamos .
apenas de frisar o seguinte: a intensa
concentração econômica verificada no âmbito das variáveis

138
CRISE E CONCENTRAÇÃO

resultado (patrimônio, lucros e faturamento) acima evidencia-


da, ainda que esteja condicionada por múltiplas determinações,
encontra na esfera da produção uma sólida base explicativa14.
Em outras palavras, o poder de mercado é a base sobre a qual
se ergue a estrutura do poder econômico.
Como conclusão geral do que foi examinado até agora
sobre a economia paulista, podemos afirmar que se trata de
uma estrutura altamente concentrada e em forte processo de
concentração, devido a uma crise que, de tão longa e poderosa,
deixou de ser conjuntural para ter efeitos estruturais de longo
prazo. Se de um lado a crise restringe o investimento produtivo
e engessa os grandes contornos da estrutura industrial, de ou-
tro lado ela também é responsável por um reforço do poder
econômico do grande capital, cujos detalhes ainda podemos
examinar sob outros ângulos.

As distintas reações à crise segundo a srcem de capital

Vejamos mais de perto quem são esses sócios bilionários


do poder. Se, de um lado, eles são solidários financeira e po-
liticamente no intento de preservar sua posição privilegiada
no organograma econômico da nação, de outro, estão dividi-
dos internamente, dada a heterogeneidade de sua composição
setorial, tecnológica e de srcem de capital. Em particular, os
dados da pesquisa permitem perceber uma importante diva-
gem: o comportamento e o desempenho dos grandes capitais
foi diverso entre empresas públicas e privadas, nacionais e
estrangeiras.
O primeiro destaque cabe aos donos da casa. Os indica-
dores financeiros analisados (RFP 125/127) mostram o amplo
domínio das empresas de srcem de capital paulista em todos
os indicadores para os três anos considerados. Em 1989 estas

14 Importante acrescentar que tabela


a 1, montada apenas com intuito ilus-
trativo, muito provavelmente expressa uma condição generalizada. Basta
dizer que apenas 200 fornecedores são responsáveis por mais de 70% de
tudo que é vendido em um grande supermercado(Veja, 9.3.94, p. 33).

13 9
CRISE E CONCENTRAÇÃO

o contrário, e é justamente isso que deve ser enfatizado. Seria


ocioso citar aqui depoimentos que comprovam a “choradeira”
generalizada das empresas multinacionais: a economia brasi
leira seria hostil ao capital estrangeiro, ele estaria indo embora
daqui, estaria perdendo dinheiro etc. Os dados da pesquisa
mostram que estas empresas avançaram na economia paulista,
apropriando-se de parcelas crescentes do excedente econômi
co. Seu mecanismo básico de ajuste é o mesmo - ganhar mais
sobre uma produção menor - porém seu poder de barganha
com as demais frações do capital, bem como com o Estado,
trabalhadores e consumidores, é seguramente maior.
Esta diferença entre empresas paulistas e estrangeiras é
fundamental e evidencia o fato de que, entre as primeiras,
estão incluídas empresas pertencentes a grandes grupos eco
nômicos e possuidoras de grande poder de mercado, e empre
sas de tamanho mais reduzido, que na maioria das vezes não
são pertencentes a grupos econômicos (doravante chamadas
de empresas individuais) e participam de mercados menos oli-
gopolizados. Esta diversidade explica em parte a perda de po
sição relativa das empresas paulistas, pois o comportamento
oligopólico das grandes acaba sendo diluído (em termos do
resultado agregado) pelo das empresas individuais.
Já no caso das firmas estrangeiras, estão incluídas empresas
que são em sua totalidade partes constitutivas de poderosos
grupos econômicos internacionais que normalmente se en
contram numa posição oligopólica e, portanto, num mo
mento de retração da economia conseguem manter ou
ampliar sua rentabilidade com maior facilidade, lançando
mão, em graus diversos, de várias práticas, a saber: corte de
empregos, manutenção de capacidade ociosa, remarcação
de preço s num ritmo superior ao da inflação Desta forma,
pode-se dizer que houve um deslocamento dos lucros líqui- 51

15 Some-se a isto uma política de incremento de lucros não-operacionais,


via desendividamento e aplicações no mercado financeiro (Almeida eNovais ,
op. cit.s p. 11).

14 1
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

dos da amostra, do capital de srcem paulista para o capital


de origem in ternacional.
Quanto a este, cabe ainda uma análise mais detida, cen
trada nos três principais blocos de capital: o norte-americano,
o alemão e o japonês. Essa escolha deve-se ao fato de que estes
três blocos de capital, somados, representaram mais da metade
do subgrupo de empresas estrangeiras em termos de todos os
indicadores analisados (RFP 128/131).
Em 1989, as empresas japonesas eram responsáveis por
2 4 ,1% do total de empregos oferecidos pelo capital interna
cional em contraposição a 4,8% em 1980. No que diz respeito
ao lucro liquido, o salto é mais espantoso, de 4,8% em 1980
para 35,5 % em 198 9. No caso das empresas cuja srcem de

capital é norte-americana,
patrimônio líquido ao longo denota-se o declínio
nove anos. de 45,4%
Em termos no
de par
ticipação percentual no total da amostra, nota-se também uma
diminuição em todos os indicadores. No caso das empresas
alemãs (na época, pertencentes à República Federal da Alema
nha), nota-se uma razoável estabilidade da participação em
todos os indicadores, em torno de 20% do total do capital
internacional, embora elas sejam apenas cerca de 15 % do nú
mero de empresas deste tipo.
Em resumo, pode-se afirmar que, durante a década de
1980, ocorreu na economia sediada em São Paulo uma ascen
são da participação do capital japonês e um declínio da parti
cipação do capital norte-americano, mantendo-se o capital
alemão num honroso segundo posto. Em outras palavras, a
economia paulista e, por extensão, a brasileira, dados seus
elevados níveis de integração produtiva com as principais po
tências capitalistas16, refletem, a seu modo, as mudanças na
correlação de forças que ocorrem no âmbito mundial.

16 Novamente a comparação internacional parece adequada. Num levanta


mento feito por Reinaldo G onçalves (“ Investimento externo direto e em
presas transnacionais no Brasil; uma vi são estratégica e pro spec tíva” .
Ciências Sociais Hoje, Anpocs/Vértíce, 1991, p. 235), o Brasil é um dos
países em desenvolvimento com ma ior penetração estrangeir a. M edido pela
participação de empresas multinacionais na produção no final dos anos 70,

14 2
CRISE E CONCENTRAÇÃO

Adicionalmente, um cruzamento das informações setoriais


(24 gêneros do IBGE) com as de srcem de capital permitiría
descrever padrões de especialização produtiva que podem ser
claramente visualizados para os diversos tipos de capital (RFP
132/13 7). A falta de espaço impede a reprodução integral desta

ricaEanálise.
possívelMencionaremos
perceber uma razoável
alguns traços
permanência
essenciais.
do padrão
de distribuição do capital segundo sua srcem entre os gêneros
industriais.
No caso das empresas estatais, como era de se esperar, sua
atuação se dá basicamente nos serviços públicos, onde seu pre-
domínio é quase absoluto17.
Para o capital estrangeiro, temos um padrão de especiali
zação bastante definido, como também seria de se esperar, e
que se mantém praticamente inalterado em todo o período.

o Brasil (32% ) só perde para a Venezuela (35 ,9% ) entre os 8 principais países
latino-americanos. Confrontado com outros 7 países em desenvolvimento
da Ásia, o Brasil só perde pa ra Cin gapura (6 2,9%) e Malás ia (44%). A Coréia,
tida e havida como modelo de desenvolvimento aberto, possuía apenas
19,3% de sua produção controlada por empresas estrangeiras.
17 Há que se observar, no entanto, que este padrão extremamente especia
lizado de atuação não existia em 1980. Ele foi sendo gestado ao longo da
década mediante a redução da participação propriamente industrial do setor
público. Em 1980, as estatais, refletindo a estratégia de desenvolvimento do
II Plano Nacional de Desenvolvimento, obtinham quase 40% de suas receitas
nos gêneros de química e metalúrgica, em proporções iguais entre os dois.
Em 1985, o patamar em cada um dos 2 ramos cai para menos de 15%, e
para menos de 10 % em 19 89 . Há que acrescentar que, a partir do governo
Collor (1990), este padrão de especialização se acentua, com a privatização
de segmentos quase inteiros do setor público, na siderurgia, petroquímica e
fertilizantes, entre outros. Dado que a pesquisa sc encerra em 1989, este
assunto está além dos limites deste trabalho. N o entanto, pode-se acrescentar,
de passagem, que o processo de privatização, do modo como está sendo
executado, está ensejando a formação de poderosos oligopólios privados nas
áreas críticas de insumos intermediários. Um estudo mais detalhado sobre
isto é necessário para que a sociedade brasileira possa, no mínimo, repensar
o modelo de desestatização, agora que ele ameaça avançar para segmentos
ainda mais sensíveis da economia, como telecomunicações e energia. Para
uma sinopse do Programa Nacio nal de Desestatização, ver IESP,
Indicadores
n. 26, março de 1994, p. 8-10.

14 3
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Nos três anos, as empresas estrangeiras de São Paulo concen


traram suas atividades, numa proporção que oscila entre 60%
e 70% de todo o faturamento, em 4 gêneros, a saber: produtos
alimentares, mecânica, química e material de transporte.
A ampla predominância do capital paulista na industria
do Estado é confirmada pelo fato de ele deter mais de 50%
do faturamento em 14 dos 24 gêneros analisados, voltados
basicamente para o consumo não-durável, característicos da
quilo que se costuma chamar de indústria leve.
Como contrapartida da poderosa ocupação de espaços dos
demais tipos de capital, pode-se observar a escassa penetração
do capital srcinário de outros Estados na indústria paulista:
ele não é predominante em nenhum dos 24 gêneros. Realizou

pequenas incursões
de construção civil), em
que,São
no Paulo (com
entanto, nãodestaque para o setor
alteram essencial
mente a fraca posição destes capitais no pólo mais dinâmico
da economia brasileira.
De forma bastante sintética, foi possível constatar na pes
quisa algumas mudanças nas relações de força e no padrão de
ocupação de espaços econômicos na economia sediada em São
Paulo. A predominância dos capitais locais se manteve, tendo
inclusive se ampliado em alguns setores antes dominados pelo
capital estrangeiro. Este, ainda que cedendo terreno em alguns
ramos, permanece soberano em vários dos principais mercados
oligopolizados da economia: a economia interna espelha um
padrão altamente concentrado de controle econômico que se
formou e se reproduz continuamente no âmbito do capitalismo
global. Espelha também as alterações entre capitalismos na
cionais que ocorrem neste âmbito, a saber, a ascensão do ca
pital japonês.

Os S0 maiores grupos econômicos

Até agora, o objeto de análise foram as empresas - unidades


jurídicas autônomas, publicamente reconhecidas enquanto tal.
Mas é preciso superar esta base teórica tradicional: há muito

144
CRISE E CONCENTRAÇÃO

nomiadominadanãoporgrandesempresas, mas por grandes


coalizões de firmas estruturadas como grupos.
Nosso objetivo primordial é localizar e dimensionar o po
der econômico justamente nolocus onde ele efetivamente se
materializa, os grupos, a entidade que reúne o patrimônio -

financeiro, disperso
malmente de penetração de mercado,
entre diversas tecnológico
empresas etc. - forin
juridicamente
dependentes.
No curso da pesquisa, procuramos agregar as empresas
da amostra nestas unidades mais amplas, procurando enxer
gar não mais o movimento das partes, mas sim do conjunto.
Numa tentativa prel iminar, criamos vários grupos p ela agre
gação simples de empresas a eles pertencentes (maioria do
controle acionário), isolamos os 50 maiores dentre eles e
comparamos suaperformance com o restante da amostra20.
Seguem-se algumas das principais conclusões daí derivadas,

tendo como
até aqui foco as variáveis
(patrimônio com as quaislucro
líquido, faturamento, vimos operando
líquido),
acrescidas do indicador número de empregados, para os 50
maiores grupos, discriminados tão-somente segundo sua
srcem de capital.
Um primeiro nível de análise, ainda sem individualizar os
grupos, diz respeito à relação entre os maiores grupos listados
e o conjunto da amostra. Ela nos dá uma outra radiografia do
grau de concentração da economia sediada em São Paulo.
Pode-se observar que o patrimônio líquido dos maiores grupos
como percentagem do total da amostra passa de 63,5% em

2(1 Algumas complicações metodológicas implicaram um quadro um pouco


mais complexo do que aquele aqui descrito. Dificuldades na apuração das
intricadas ligações de propriedade em algumas empresas descaracterizam
alguns agrupamentos econômicos enquanto tal. Felizmente são de menor
importância no conjunto da amostra, e aqui passaremos por cima destes
detalhes. O leitor mais interessado é remetido à discussão sobre estes pro
blemas, no RFIJ p. 94 e s.

247
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

1980 para 69% em 1989 (RFP 138/143). Para as demais va


riáveis os cálculos revelariam proporções um pouco menores,
mas ainda assim bastante elevadas21, evidenciando a existência
de uma distribuição bastante concentrada do poder econômico
na indústria de São Paulo.
Tomemos inicialmente, com o objetivo de estabelecer um
contraste, a empresa individual (isto é, a agregação de todas as
empresas que não pertencem a grupos) como foco de análise. E
possível perceber nitidamente um perfil econômico-financeiro
que caracteriza estas empresas de menor porte e que não estão
integradas ao circuito de acumulação dos grupos em termos de
propriedade do capital. Em 1980, as 1.126 empresas não per
tencentes a grupos detinham, como proporção dos 50 grupos,

pouco
mento mais de 130%
e quase 5% dodo emprego.
patrimônioEm
líquido,
1989,2 2
a ,1% do fatura se
desproporção
acentua figeiramente, com o patrimônio líquido subindo um pou
co e o percentual do emprego atingindo praticamente o patamar
de um terço22. Estas cifras, por oposição àquelas dos maiores
grupos, indicam claramente um padrão de organização da pro
dução intensivo em mão-de-obra e de baixa capitalização.
Outro aspecto importante quanto ao papel ocupado por
esta miríade de empresas de menor porte diz respeito à parcela
dos lucros por elas obtida em relação aos grupos. Calculando
a proporção dos lucros desta empresas no conjunto dos maio
res grupos, percebe-se que esta relação, que era de 25% em
1980, passa para cerca de 20% em 1989. Ou seja, um dos
efeitos da crise econômica foi o de deslocar parcelas expres

21 No caso do iucro líquido, o percentual passa de 49% para 65,7% ao longo


do período. Em suma, os grandes grupos detêm entre 60% e 70% do patri
mônio líquido e entre metade e dois terços dos lucros de toda a amostra.
22 Este aumento na proporção do emprego não foi obtido pela geração de
novos postos de trabalho, mas, ao contrário, por uma redução menor do
que o conjunto dos 50 grupos na oferta de empregos. A crise implicou tam
bém para estas empresas de menor tamanho um corte em pessoal, da ordem
de quase 20 mil pessoas, dado que o contingente de trabalhadores passa de
574 ,2 mil em 198 0 para 55 4, 4 mil em 19 89 . Para o conjunto dos 50, a perda
de empregos foi de 33,3 mil.

14 8
CRISE E CONCENTRAÇÃO

sivas do excedente global das empresas que não pertencem a


grupos para os grandes agrupamentos de empresas. Isto sugere
ao menos duas observações, ainda que não permita uma de
monstração cabal.
Primeiro, falando-se de grupos econômicos, a referência

não é a de
em novas uma simples
unidades. multiplicação
Os grupos da empresadeindividual
são a centralização entidades
já caracterizadas pelo grande porte, pela penetração em setores
mais oligopolizados e pelo poder financeiro; não são a soma
de quaisquer empresas. Neste sentido, o deslocamento de lu
cros das empresas individuais para os grupos é mais uma di
mensão da concentração de excedente nos estratos superiores
da hierarquia empresarial.
Segundo, os grupos econômicos representam mais do que
agregação de unidades entre si homogêneas. Ao combinar fra
ções diferentes do capital - comercial, produtivo e financeiro

-centrar
passam a se movimentar
recursos líquidos de por uma
várias lógica diferente.
unidades Aoem
diferentes, con
se
tores diversos, asholdings que controlam os grupos passam a
desempenhar funções financeiras que estão muito além das
possibilidades econômicas dos empreendimentos isolados; os
grupos podem assim se dirigir ao mercado financeiro de modo
privilegiado e compor uma equação capital produtivo/capital-
dinheiro muito mais eficaz. Dado o peso da acumulação fi
nanceira no conjunto da reprodução do capital que carac
terizou os anos 80, isto faz toda a diferença.
Ademais, os grupos econômicos, em muitos casos, são eles

próprios parte do àmercado


(freqüentemente financeiro,
frente de através
todo grupo), de seusebancos
corretoras outras
instituições financeiras; nestes casos, são os grupos uma en
grenagem central da ciranda financeira, alavancando fictícia
mente sua acumulação numa magnitude impensável para o
capital individual.
Partindo para uma análise individual dos grupos, o pri
meiro tipo de informação relevante é quanto à continuidade
de alguns grupos, ao longo de toda a década, rankingno dos
50 maiores. Ao todo, foram identificados 29 grupos que apa

149
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

recem nos três anos; eles formam o núcleo duro do poder


econômico na indústria de São Paulo. Ao contrário de outros
grupos, que saem do conjunto dos 50, ou nele entram em
algum momento do período 1980-89, estes 29, devido a sua
permanência, constituem um subconjunto à parte, o daqueles
blocos de capital que resistiram à crise e lograram manter-se
no topo do ranking. Não é possível oferecer uma explicação
única para esta distinção: haveria que examinar cada grupo
em particular para saber por que razão saíram, entraram ou
permaneceram nesta lista específica que é, desde logo, arbi
trária. Apenas com as informações de que dispomos, a perma
nência destes 29 grupos é, em si, uma distinção importante.
Os 29 grupos estão divididos, segundo a srcem do capital,

da seguinte
paulistas. Há forma: 2 são que
que ressaltar estatais, 10 são
os grupos estrangeiros
brasileiros e 15
não figu
ram neste rol seleto, o que sugere, por um novo ângulo, a
pequena integração dos grupos de outros Estados à economia
paulista23. Convém mencionar cada um destes grupos.
Comecemos pelos grupos não-privados. Sob o comando
do Executivo federal encontram-se 3 grandes estatais: Petro-
brás, Siderbrás e Telebrás, elas próprias 3 grandes holdings ,
que, neste sentido, poderiam, numa análise mais detida, ser
enfocadas como 3 grupos independentes, devido à relativa
autonomia operacional e financeira de que dispõem. A pre
sença destas empresas gigantes indica o peso do setor público
estatal nas atividades de apoio industrial (energia e telecomu
nicações) e na indústria de base (siderurgia) no Estado mais
industrializado do país.
O outro grupo do setor público é o Estado de São Paulo,
que aparece em todos os anos como o primeiro do ranking.
Sua participação no patrimônio líquido do conjunto dos 50
grupos não é nunca inferior a 20%. Isto significa, efetuando

os cálculos, que este grupo representa algo em torno de 15%


23 Na verdade, para os três anos de análise da década, aparecem 10 grupos
brasileiros, sendo que nenhum deles consegue se manter ao longo de todo
o período.

IS O
CRISE E CONCENTRAÇÃO

do total geral da amostra. Em outras palavras, entre os grandes


de São Paulo, figuram no topo as empresas do próprio governo
do Estado.
Entre as 13 empresas deste grupo (para o ano de 1989),
figuram algumas das principais concessionárias do sistema Ele-

trobrás
presas (CESI? CPFL e do
de transportes Eletropaulo),
país (Cia. algumas das maiores
do Metropolitano de em
São
Paulo e Fepasa) e outros serviços públicos (Sabesp e Comgás).
A composição setorial do grupo explica seu peso na economia
sediada em São Paulo: reproduz no plano estadual a comple
mentaridade entre indústria e serviços industriais; e as con
centrações regionais de ambos se condicionam mutuamente.
O peso das empresas do governo paulista no faturamento
e no número de empregados, por outro lado, não atinge nunca
o patamar de 7% do total dos 50 grupos em ambos os indica
dores. Para completar o quadro, resta dizer que o setor pro

dutivo
ilustrampaulista
o papelédeste
deficitário em todos
segmento os público
do setor anos. Estas
para acifras
acu
mulação industrial no Estado: alta intensidade de capital (tanto
em relação ao fator trabalho quanto ao produto) e rentabili
dade negativa. A primeira característica se explica pela con
centração em setores onde prevalecem grandes aportes de
capital e longos prazos de maturação do investimento. A pés
sima rentabilidade, para além das questões vinculadas à efi
ciência operacional, está fortemente associada às injunções da
política econômica e à eterna “vocação” do setor público de
subsidiar o setor privado, sobretudo pela contenção de pre-

ços/tarifas.
Em resumo, percebe-se uma peculiar inserção do capital
público na economia paulista. Em seu estrato superior, figura
uma holding pública que, em seu conjunto, transfere recursos
para o resto da economia; somada às três holdings federais
acima mencionadas (no conjunto lucrativas, mas numa pro
porção irrisória para seu patrimônio e faturamento) compõe
um quadro que diz muito a respeito da importância e da fun
cionalidade do capital público no capitalismo brasileiro. Quase
sempre impedidas de exercer seu poder oligopóhco (ou mo-

15 1
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

nopólico) na formação de seus preços, e impossibilitadas de


fazer o ajuste financeiro devido a uma dívida anterior - con
traída menos em função de suas próprias necessidades e muito
mais devido às estratégias de captação de crédito externo dos
últimos governos militares as empresas estatais são gigantes
acorrentados, divididos entre o objetivo de acumulação para
si e os desígnios das políticas macroeconômicas24.
Entre os 10 grupos estrangeiros, encontram-se nomes bem
conhecidos do público brasileiro, quase todos de países capita
listas avançados. Três destes são alemães2\ França, Itália, Suíça,
Canadá e Bélgica comparecem com um grupo cada26. Por último,
aparece um grupo de um país em desenvolvimento27.
Ao contrário do que se podería esperar, não figura nenhum

grupo americano
dado. Vale entre que
mencionar o subconjunto
em alguns de 29 figuram
anos grupos6 ora estu
grupos
dos EUA28. Ainda mais curiosa é a quase completa ausência de
grupos japoneses. O único a aparecer, e apenas em 1989, é o
Fuji Bank Ltd., braço brasileiro de um dos maiores conglome
rados japoneses.

24 A respeito
empresas das ver
estatais contradições queEmpresa
Dain, Sulamis. envolvem a acumulação
estatal de capital
e capitalismo contem-das
porâneo. Tese de doutoramento. Campinas, Unicamp, 1980. Sobre a vincu-
lação entre dívida externa e desajuste das empresas estatais, ver Cruz, Paulo
Davidoff. Dívida externa e política econômica (A experiência brasileira nos
anos setenta).São Paulo, Brasiliense, 1984, especialmente p. 173-4.
25 A saber, Daimler Benz, Hoechst c Siemens.
2(l Respectivamente, Saint Gobain, Pirelli, Nestlé, Alcan e Solvay. Aparece
também o grupo Uniiever, que resulta de uma associação entre o capital
inglês e o holandês.
17Trata-se do grupo Bunge y Born (mais conhecido pelo nome de Santista),
de nacionalidade argentina, há muito tempo instalado no Brasil e atuando
nos setores de alimentos e têxtil.
28A saber, D ow Química, C argill, Caterpillar, C hampio n Inth, Ford e General
Mo tors. Esta última, maior “ empresa” do mundo, saiu da amostra em 19 89 .
Motivo: deixou de ser uma empresa de capital aberto e parou de divulgar
seus dados contábeis.

15 2
CRISE E CONCENTRAÇÃO

Entre os 15 grupos nacionais privados, todos eles do Es


tado de São Paulo, figuram alguns dos maiores e mais conhe
cidos grupos privados do país, como Votorantim, Matarazzo,
Antárctica, Villares, Vidigal e Alpargatas. Outros, menos co
nhecidos, podem ser citados: Termomecânica, Suzano Feffer,

Severino
na Pereira (com
agroindústria da Silva. Há outrospara
diversificação comosforte participação
setores de bens
de capital conexos ou não), como Cutrale, Dedini, Biagi e
Ometto. Completam a lista uma grande construtora, a Camar
go Corrêa, e um grande conglomerado financeiro, o Grupo
Itaú.
Estes grupos, atuando nos mais diversos setores da econo
mia - com destaque para os conglomerados altamente diver
sificados: Votorantim, o maior grupo privado nacional, e
Matarazzo, que já ocupou este posto no passado29 repre
sentam metade do núcleo duro de grupos da economia paulista
e espelham a pujança do capital local, em contraste com a
parca penetração do capital de outros Estados, e mantendo
uma posição de liderança mesmo frente aos enormes grupos
estrangeiros citados que, em boa medida, permanecem encas
telados nos oligopólios que dominam no plano mundial.

Quem é quem na crise brasileira

A discussão que vimos fazendo procurou basicamente re


sumir os resultados empíricos que nossa equipe foi capaz de
sistematizar até agora. Nesta última seção, mais abaixo, fare
mos uma síntese final dos grandes movimentos da economia
paulista. Antes, porém, gostaríamos de alinhavar alguns co
mentários de natureza conceituai, sugeridos pela pesquisa.

2y O grupo Matarazzo é um caso à parte: a decadência (relativa) que já era


visível nos anos 80, converteu-se na década atual em um verdadeiro processo
de desestruturação industrial. Atualmente, as atividades industriais do grupo
se resumem basicamente à metalurgia (Ruiz, R. M., op. cit., p. 20).

153
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

A noção de um espaço teórico mesoeconômico, que bus


caria integrar análises já existentes num corpo conceituai úni
co, ao qual seriam acrescentadas dimensões novas, vive ainda
sua infância. Muita reflexão e trabalho empírico são ainda
necessários para que se prove sua necessidade e pertinácia ao
estudo das economias contemporâneas.
Desde já, no entanto, é possível delinear seus traços bási
cos, reconhecer seu objeto, sugerir algumas hipóteses prelimi
nares. Como ponto de partida, é possível afirmar que a
mesoeconomia deveria se ocupar de duas ordens de fenômenos
fortemente associados. De um lado, é preciso estudar as inter-
relações produtivas entre os setores econômicos que estão na
base do desenvolvimento econômico, particularmente na in
dústria e na confluência desta com a agricultura (agroindús
tria). O objeto aqui são a matriz de relações intersetoriais, as
sinergias comerciais e tecnológicas entre setores correlatos, as
condições enfim que nos permitiriam identificar clusters in
dustriais, isto é, construir as mediações necessárias entre os
mercados (nível micro) e a estrutura produtiva (nível macro).
De outro lado, a mesoeconomia precisa identificar os agen
tes econômicos que operam - isto é, que comandam - este
complexo mosaico que é a divisão do trabalho numa economia
que já atingiu um certo grau de desenvolvimento interno. O

objeto eaqui
ceira) são as relações
apropriação (privadadeoupropriedade (acionária
estatal, individual e finan
ou grupai)
que, variantes ao longo do tempo e variáveis segundo os di
versos contextos nacionais, regulam, constrangem, possibili
tam o desenvolvimento daquela divisão técnica do trabalho
acima referida. A montagem de ramos da produção (petróleo,
automóveis, petroquímica) é simultaneamente a construção
de agentes econômicos e sociais (grupo estatal, grupo multi
nacional), tripé que os tornam possíveis30.

30 A questão não c nova: ela aparece desde o princípio da industrialização


brasileira. Fernando H. Cardoso é explícito sobre este ponto, adicionando
as dimensões sociais e políticas de que não estamos tratando aqui: “ o desen
volvimento econômico do Brasil como processo político-econômico-social

1 54
CRISE E CONCENTRAÇÃO

Se a primeira dimensão da mesoeconomia se inscreve na


longa e viva tradição da Organização Industrial, a segunda
procura recuperar alguns aspectos da economia política que,
ao contrário, parecem perdidos no tempo: é bastante reduzida
a atenção que os processos de concentração e centralização
dos
nizadacapitais têm recebido
pelo paradigma de uma ciência
neocíássico. econômica
A concorrência hegemo-
intercapi-
talista, ao perpassar estas duas dimensões, é a chave para
entender as relações de causa e efeito que entre elas se estabe
lecem. Mas não é a concorrência isomorfa e reducionista da
microeconomia neoclássica: não isolamos os agentes em fir
mas e mercados abstratos. Ao contrário, os atores aqui se dis
tinguem pelo tamanho, pela srcem de capital, por suas
articulações internas e externas, pelo poder econômico e po
lítico de que dispõem; os mercados são determinados forte
mente pelo desenvolvimento de outros mercados, com os quais
mantêm relações, e se distinguem também pela dinâmica da
concorrência neles prevalecente (inclusive em termos da pre
dominância deste ou daquele tipo de capital, da presença de
grupos etc.).
Em resumo, a proposta de um espaço mesoeconômico,
mais do que uma ruptura com a teoria econômica, é uma ten
tativa de aglutinar dentro de um corpo teórico coerente um
conjunto de análises que, amiúde, aparecem dissociadas. Nossa
aposta é a de que, particularmente no caso do Brasil, o enfoque
mesoeconômico pode contribuir decisivamente para a com
preensão da presente crise de desenvolvimento.
A luz destas considerações, nos parece oportuno sintetizar
algumas das principais conclusões a que chegamos até o mo
mento. São elas a prova dos nove de um espaço conceituai
ainda em construção.

implica não apenas a formação de uma indústria de bens de capital e o


automatismo do crescimento econômico, como a formação e dinamização
de novas classes capazes de redefinir o equilíbrio tradicional de poder e de
romper a estagnação econômica” (Cardoso, Fernando Henrique. Empresário
industrial e desenvolvimento econômico no Brasil.
São Paulo, Difusão Euro
péia do Livro, 1972, p. 84).

155
A quase-hegemonia*

Por que a reeleição surge no atuaL quadro político ?

A reeleição é parte da estratégia política de um grupo que


tem pretensões hegemônicas. O projeto desse grupo, liderado
por FHC, é manter-se por muito tempo no poder, como deu
sinal, desajeitadamente, o ministro Sérgio Motta, que diz o
que o presidente não pode dizer ao falar de 20 anos no poder.
Que grupo é ess e?

Do ponto de vista político não é expressivo. O único real


mente expressivo é Fernando Henrique. Ele articulou os gru
pos políticos dominantes no Brasil que não se combinavam:
PFL, PMDB quase inteiro, PSDB, PPB, uma boa parcela do
PTB. Desde a Revolução de 30 não surgia um grupo hegemô
nico. Ao longo desses anos, extremamente violentos, os con
flitos significaram a impossibilidade de hegemonia de um
grupo que soldasse as diferenças sociais e as traduzisse politi
camente.
Fernando Collor já não foi um sinal de novos tempos?

Collor foi o primeiro sintoma de um novo momento, um


cheiro de possibilidade de hegemonia. Mas ele era muito mal

* Entrevista realizada por Ana Maria Mandim e publicada na Folha de 5.


Paulo, 10de fevereiro de 1998, p. 1-4.

1 59
A QUASE-HEGEMONIA

O grupo hegemônico representa algo novo?

Sim, o grupo de FHC soube capitalizar muito bem a bur-


guesia de São Paulo, que é de uma inépcia política extraordi-
nária. Eles se colocaram no lugar dela, realizaram o sonho do
PCB. A famosa vanguarda sobre a qual o PCB tanto teorizou

são eles.
O PF L impede FH C de real izar seu projeto?

De jeito nenhum. Antônio Carlos Magalhães é que é pri-


sioneiro do FHC. ACM sem Fernando Henrique não é nada,
sabe que jamais poderá aspirar a ser presidente. O que FHC
fez foi juntar São Paulo e as oligarquias.

Há possibilidades eleitorais para propostas alternativas?

No momento, muito remotas para um desafio global no


sentido de postular a Presidência. Não que não se deva tentar,

é tentando
nos preparaque se constrói,
surpresas todoseosa dias.
história
O é aberta,
projeto felizmente
hegemônico
pode ser desafiado em terrenos circunscritos, derrotado em
eleições para prefeituras e até Estados. O grupo que ganha
trata de destruir os recursos políticos do outro. E o que Fer-
nando Henrique está fazendo. Ele vai salgar a terra para que
nenhum grupo alternativo tenha chance tão cedo.
Como?

Por meio, das reformas constitucionais, da flexibilização


do contrato de trabalho, da desregulamentação, da mudança
na Previdência, tirando o chão social das entidades que um
dia desafiaram as elites. Nenhum grupo está aí para contemplar
o outro crescer. As forças alternativas têm de lutar em todos
os foros e tentar traduzir isso para o campo político. Como a
âncora da credibilidade do projeto hegemônico é a estabilidade
monetária, será muito difícil lutar contra ela por causa da dura
pedagogia da inflação: a subjetividade popular foi castigada
por 30 anos de inflação.

161
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

Existe alguém boje que expresse tão bem esse projeto hegemônico
quanto E H C f

No momento, não. Demora muito para uma classe ou

conjunto de classes
essencialmente pelas criar uma liderança
qualidades de FHC,desse porte. Não
mas porque um
longo processo foi forjado e FHC saltou à cabeça dele no
momento certo. Além disso, ele faz o trabalho cotidiano da
aranha, tecendo articulações e destruindo outras. Não é à
toa que a presidência do Senado é do PFL, e a da Câmara,
do PMDB. Isso ajuda porque demarca terrenos, corta am
bições, circunscreve capacidades. E um método político de
mestre.

Como o grupo de FH C assum iu a hegemoniaf


Existe dominação e hegemonia. Pode-se dominar poli
ticamente, economicamente, mas só há hegemonia quando
você faz o dominado pensar como você. Tivemos, no Brasil,
30 anos de transformação que significaram dominação, mas
não hegemonia, porque os grupos dominantes estavam di
vididos. FHC os juntou. Com a estabilização surge a possi
bilidade de hegemonia: o povão começa a pensar como o
mais rico. Isso ocorre raramente, e por isso a estabilidade é
ferozmente perseguida. O grupo hegemônico pagará qual
quer preço para mantê-la.
M alu f poderia ser o intérprete desse gru po f

Maluf ainda não tem a capacidade de articulação necessá


ria. Ele não é trouxa e já percebeu a força do grupo hegemô
nico. Pode escrever: ele não se candidatará à Presidência.
Receberá avisos para não se meter, não terá dinheiro para a
campanha. Os grupos mandantes esperaram desde Vargas pelo
surgimento de um condottière como Fernando Henrique. Var
gas não era amado pela burguesia, Fernando Henrique, é.

162
III PARTE

SUAVE É O TERROR

O Neoliberalismo Termidoriano no Brasil


Quem tem medo da governabilidade?*

Conservadorismo e mudança social

A eleição de Fernando Henrique Cardoso processou-se


numa equação contraditória entre urgências de mudança so

cial por
tes e ambiência social
si mesmas, conservadora.
para economizar As
umaprimeiras são evidenno
longa descrição:
campo social, a depredação do Estado, em conjunção com
uma crise que se arrasta, com oscilações, desde o começo dos
oitenta, produziu uma devastação nos principais serviços pú
blicos que se expressa nos indicadores sociais. O já precário
Estado do bem-estar nacional foi atingido em cheio: as refor
mas do “caçador de marajás” terminaram por dar-lhe o golpe
de misericórdia. A incapacidade do Estado de exercer o con
trole, ainda que mínimo, da situação social, se necessitasse de
maior explicitação, encontra, no recurso - uma “última ins

bate ao ànarcotráfico
tância” la Marx - da utilização
dos das Forças
morros cariocas, suaArmadas
definitivanoe com
cabal
demonstração.
Não é que, no percurso, vários recursos não fossem utili
zados e experimentados para melhorar a assistência social es
tatal. Reformas descentralizadoras, como a do Sistema
Unificado de Saúde, foram tentadas: de novo, em “última ins
tância” , a descentralização não funcionou porque a diíapida-

Pubiicado em Novos Estudos Cebrap


, n. 41, março 1995, p. 61-77.

165
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

ção do Estado - que é sempre confundida com desorganização


governamental - traduziu-se em sua incapacidade, nos níveis
estaduais e municipais, de articular e implementar qualquer
política. Essa incapacidade revela-se tanto em não poder ofe
recer salários razoáveis às categorias médica e paramédica -
resultado não inteiramente casual da crise financeira do Estado
quanto em não controlar o sistema privado de saúde, que é a
saúva que devasta a roça pública das políticas governamentais
para o setor. Essa dialética cruel de um lado sofistica desne
cessariamente a aplicação de uma simples aspirina e “aspira”
a montar hospitais de primeiro mundo. Produz-se, então, o
paradoxo, ou a dualidade: milhares de médicos rebaixados
a simples força de trabalho, aplicadores de aspirina que se

“viram”públicos
pitais em meia dúzia de empregos
depredados, cenas d epara sobreviver,
“ pátio hos ,
dos milagres”
onde são os parentes dos pacientes que literalmente tentam
ajudar a precária estrutura a funcionar, filas de doentes cujos
semblantes nada ficam a dever aos dos milhares que acorrem
aos milagres do Padre Cícero: mas eles não estão no Nor
deste, senão que nos corredores do Hospital de Clínicas da
USI? do Hospital Universitário da USP e do Hospital-Escola
da Paulista de Medicina, os de caráter público que, em São
Paulo, ainda resistem ao naufrágio geral; nos demais, não
faltam apenas médicos: o simples esparadrapo já é artigo de
boutique. Os hospitais privados são boutiques mesmo : ali a
sofisticação atinge as raias do impensável, para aplicar as
pirinas e “ asp ira r” os recursos es tatais,
Weberianamente, o Estado perdeu o monopólio exclusivo
da violência; marxisticamente, o Estado foi privatizado numa
escala impensável em qualquer país radicalmente liberal. Essa
tendência já vinha desde o autoritarismo, mas, perversamente,
o Estado democrático a agravou. Depois de Sarney, que pra

ticou o “é dando queCollor


desregulamentaçao, se recebe”
levou acomo uma modalidade
tendência de
ao paroxismo:
já que o Estado não funciona, o melhor é suprimi-lo. (Quase
escrevi “suprimamô-lo”, mas aí o fantasma de Jânio ectoplas-
mou-se, para salvar-me e aos leitores).

166
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

sua reforma destrambelhada, acabando por reduzir a capa


cidade operaciona l do Estado brasileiro a quase zero. Atacou
as centrais sindicais como fo nte de corpo rativis mo - o novo
termo panexplicativo de tudo que ocorre no Brasil, abusi
vamenteum
ticando utilizado porformidáveis
dos mais uma ciênciaarrochos
política impotente -, que
salariais de pra
se tem notícia: diz-se “um dos mais”, porque outros piores
ainda poderão acontecer. Centrais sindicais, sindicatos, mo
vimentos trabalhistas foram identificados como os inimigos
públicos por excelência, que conspiravam contra toda a na
ção e contra todo o povo, por se postarem contra o Plano
Collor. Criava -se, assim, um ambiente social antiprogressis-
ta, medroso, anti-reformista.
A estratégia dos grupos dominantes viu-se frustrada com
o impeachment de Collor de Mello. Mas ressurgiu por inteiro
com a eleição de Fernando Henrique Cardoso. Nesta, o pro
cesso foi outro, já antecipado neste ensaio: no lugar de um
messianismo salvacionista, fora do alcance de um político que
não se distingue por nenhum dote carismático (salvo entre
seus pares acadêmicos), a empreitada, coroada de sucesso ao
menos temporariamente, de lograr a estabilidade antes da elei
ção, que assim o catapultava nas preferências populares, sem
fazê-lo popular. É um ganho, dizem, a entrada do cálculo ra
cional no comportamento dos eleitores, e uma mudança nas
regras da política no Brasil. Há, aqui, indefectivelmente, um
elemento modernizador: apenas não se pode afirmar se esse
comportamento não passou de um momento conjuntural, ha
bilmente explorado pelo vencedor.
As burguesias se jogaram todas na candidatura Fernando
Henrique Cardoso. Tanto as contribuições de empresas, quan
to as milhares de declarações de empresários e o posiciona
mento do poderoso Roberto Marinho, da Globo, em favor do
candidato, dispensam maiores elaborações. Seu programa

transformou-se
sintomático: na bíblia
a bíblia, dos empresários,
composta ou o mais
que
é retirada
por privatização, do
Estado da economia, desregulamentação de alto a baixo, ata
que aos direitos sociais e humanos, desregulamentação do mer-
QUEM TEM MEDO DA GOVERNABILIDADE?

cado de força de trabalho, “desconstitucionalização” da


Const ituição -cidadã de Ulysses Guim arães, que criou a “ in-
governabilidade” (a esmagadora maioria dos tucanos, inclu
sive o presidente eleito, votou, na Constituinte, a favor do
que hoje apontam como elementos de “ ingo verna bilidade ” ),

passou ea do
guesia sercandidato.
o livro comum, transcendental, da grande bur
Tudo isto não se passa apenas num plano simbólico, de
discursos, planos e apoios ostensivos; ainda se fosse pouco, o
episódio num clube paulista em que empresários promoviam
um evento para “alavancar” a candidatura Fernando Henrique
Cardoso revelaria o processo por inteiro: ali distribuiu-se uma
“ficha de inscrição” no PT, quando Luiz Ignácio Lula da Silva
ainda pairava em altas estratosferas nas pesquisas, que resumia
todo o ódio de classe contra largas parcelas das classes domi
nadas que haviam criado um movimento político que há mais

de uma década
ticos-garrafa, queacuava a grande
se amoldam burguesia
a cada e os partidos
governante polí-
de plantão.
As condições para pedir inscrição no PT eram: ser nordestino,
analfabeto, preto, mulher, prostituta, homossexual, catador
de lixo etc. Isto é, os estigmas da própria discriminação de
classe, de cor, de etnia, de preferência sexual, que habitam o
inconsciente coletivo da sociedade, manejados pela própria
classe dominante! O partido do presidente apenas declarou
que não era responsável pela “ficha”, sem condená-la; tam
pouco se ouviu ou se leu nenhuma declaração da intelectuali
dade tucana, incluindo-se aí o próprio candidato, contra

semelhante
Os sinaisatentado à democracia.
da intolerância da grande burguesia contra or
ganizações sociais do assalariado, e mais especificamente de
certas categorias operárias, já não se dão a público travestidos
em apelos à cooperação; agora, eles ganharam em desinibição
e hostilidade agressiva. O presidente da GM, em entrevista
recente àFolha de S. Paulo , declarou em alto e bom som que
a empresa pensava em localizar a terceira fábrica fora do eixo
sob influência dos sindicatos, e em seguida ameaçou o governo
quando este baixou a alíquota de importação de automóveis,

1 75
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

declarando que a decisão sobre a famosa terceira fábrica havia


sido suspensa, entrando as localizações na Argentina, Uruguai
e Paraguai como concorrentes com o Brasil. O recado estava
claro: tanto o movimento sindical quanto a autonomia do go
verno em tomar decisões de política econômica não são bem
vistos no mundo globalizado pelas grandes corporações trans-
nacionais. A desinibiçao que se transforma em hostilidade ativa
contra movimentos sociais e organizações das classes domina
das é um dos primeiros resultados da legitimação que a aura
de intelectual de Fernando Henrique Cardoso conferiu às po
sições antiprogressistas, que pautaram o cenário e o movimen
to dos sujeitos e atores sócio-político-econômicos nos últimos
quinze anos. E a primeira tempestade que o semeador de ven

tos pode colher:


ditoriamente, a ameaça
de sua própriaàvitória.
governabilidade provém,pode
O futuro governo contra-
vir a ser o refém da implosao das tendências progressistas que
dominaram a cena brasileira, que ele mesmo comandou como
condição para sua eleição.
É claro que existem contradições entre o movimento que
Fernando Henrique Cardoso lidera e o grande empresariado.
O próprio Plano Real não foi aceito sem reservas nem resis
tências: a formidável aceleração dos preços na última rodada
da URV antes da entrada da nova moeda, em junho/julho de
94, mostraviram-se
tradições até que grandemente
ponto elas existem. Entretanto,
atenuadas porque,essas
maiscon
do
que Collor, Fernando Henrique Cardoso mostrou-se a melhor
alternativa contra Lula. Mas, há uma diferença essencial entre
Collor e Fernando Henrique Cardoso do ponto de vista do
apoio das classes dominantes (de outros pontos de vista, que
a imprensa não se cansa de ressaltar, as diferenças são enormes
e a favor de FHC: preparo intelectual, real cosmopolitismo
que lhe propicia uma visão do mundo menos simplista do que
a de Collor, carreira política impoluta, pertencimento real às
elites nacionais e internacionais): Fernando Henrique Cardoso
é um “intelectual orgânico” das reformas burguesas, enquanto
Collor era apenas um aventureiro.

176
QUEM TEM MEDO DA GOVERNABILIDADE?

Tanto a aura intelectual de Cardoso quanto sua própria


contribuição à formulação das “reformas” fazem-no o porta
dor da hegemonia burguesa contemporânea no Brasil. De ou
tro lado, seu partido, o PSDB, é um forte núcleoyuppie das
novas classes médias constituídas de um novo tipo social: os

intelectuais-empresários-altos executivos
emblema por excelência) produzidos (Bresser
pelas Pereira
grandes é seu
transfor
mações do regime autoritário. Em poucas palavras, embora
contradições existam, Fernando Henrique Cardoso e seu
PSDB não são “estranhos no ninho” das grandes corporações.
Mais rigorosamente , a tecnoburocracia qu e o próprio Bresser
Pereira teorizou no primeiro período de sua produção acadê
mica (nas pistas do John Kenneth Galbraith, de Onovo Estado
industrial ), essas novas classes médias são estruturais no capi
talismo contemporâneo, e por isso são herdeiras diretas das
transformações econômicas e na estrutura social promovidas
pelo autoritarismo8. Por essas razões, o projeto conduzido por
FHC é duradouro: não se está em presença de um estouro

KBeneficio~me do anúncio do ministério de FHC para essa tese: o próprio


Bresser Pereira, misto de intelectual (com mais de 20 livros publicados) e
empresário, tendo atuado por mais de 30 anos no Grupo Pão de Açúcar, um
dos maiores do ramo da alimentação no Brasil; Sérgio Motta, dono de uma
consultoria de engenharia, um tipo de empresa que foi “alavancada” pelo
autoritarismo como forma de destruir os quadros profissionais do serviço
público e que temavir tualid ade de transformar saber técnico em propried ade
do capital; Pedro Malan, notável economista dos anos setenta, que desde o
começo dos oitenta detém altos cargos no BID e no Banco Mundial; Pérsio
Arida, economista teórico da inflação inerciaí do grupo da PUC-Rio, ante

riormente
Vieira fogeligado
um pouco
ao grupo
ao figurino:
Unibancoeste
e hoje
é banqueiro
ele mesmo
mesmo,
banqueiro;
e ao que
Andrade
se saiba,
não perpetrou, até agora, nenhuma obra intelectual; Paulo Renato Souza
converteu-se de especialista em emprego a reitor da Unicamp, passando pelo
secretariado de Montoro até encaixar-se na gerência geral de operações do
BID, o segundo cargo mais importante na estrutura de decisões do Banco,
tradicionalmente ocupada por um brasileiro desde os tempos de Ewaldo
Correia Lima; Dorothéa Werneck, economista dos quadros do IPEA que,
depois de passagem pelo Ministério do Trabalho de Sarney e Secretaria de
Política Econômica de Collor (onde, aliás, teve profícua atuação), transitou
também pela iniciativa privada no ramo da consultoria; Clóvis Carvalho,
egresso do grupo Villares. Em oito sobre quinze ministros civis revelam-se

177

*
QUEM TEM MEDO DA GOVERNABILIDADE?

subaíternidade, pela via da moeda. Para resumir, a teoria da


inflação inercial substantivamente não difere em nada da teoria
monetária da moeda, e seus efeitos serão provavelmente os
mesmos, com a agravante da perda da autonomia monetária
no caso de um país dependente.

dos Frente,
capitaispois,
que aos processos de
a globalização concentração
expressa, e centralização
o Estado nacional no
Brasil e na América Latina em geral perdeu a capacidade de
arbitrar o conflito interburguês. O neoliberalismo aparece
pois, não como uma exigência frente ao intervencionismo
estatal, que não permite o funcionamento dos mercados: o
neoliberalismo é, antes, a confissão da impotência do Estado
burguês frente a esses processos. E a dolarização direta, via
conversibilidade, ou disfarçada, via âncora cambial, é sim
plesmente a confissão de que o Estado nacional da periferia
do capitalismo não tem mais a capacidade de possu ir moeda.
Nos termos de Aglietta e Orléans, que redefinem Weber, o
Estado nacional não tem mais o monopólio exclusivo da
violência, já que a moeda é o conversor público de todas
violências privadas18.
No caso brasileiro, onde um grande setor estatal produtivo
tomou a própria forma do Estado, substituiu o Estado ou re
presenta o Estado, com empresas do porte da Petrobrás ou da
Vale do Rio Doce, com a privatização que se processa, quem
representará o Estado ali, em Carajás, no complexo mineiro-
ferroviário-portuário entre Minas e Espírito Santo, no orde
namento do conflito entre indígenas e companhias de
mineração? A moeda brasileira, que deixará de existir? As so
ciedades que estão se entregando tão totalmente, tão estupi
damente e tão ilusoriamente a essa utopia perversa, já estão
pagando caro: transformaram-se em bazares persas comanda
dos por máfias como nem a Itália, seu berço, nem os EUA da
década de trinta, sua “modernizadora” , conheceram. Tal ilusãoIS

IS Ver Aglietta, M. e Orléans, A.La ulolence de la monnaie. Paris, PUF.

195
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

perversa leva à desintegração social que é quase sempre apenas


o prelúdio da desintegração nacional. As repúblicas da ex-
URSS, da ex-Iug osláv ia, e mesmo as consideradas exemplares,
como Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romê
nia e Bulgária, com gradações, estão aí como advertência. O
Brasil está fazendo um enorme esforço para juntar-se a elas.

196
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

sem liquidação das classes ou frações perdedoras... Seria uma


espécie de “eterno retorno” da própria Revolução de Trinta.
De fato, a dominação de classe expandiu-se notavelmente.
Observada pelo ângulo das contas nacionais, a dominação bur
guesa ampliou-se notavelmente: a ampliação do setor indus
trial no PIB, hoje por volt a dos 34 % , a própria industrialização
das atividades primárias (agricultura, pecuária, silvicultura
etc.) hoje fundamentalmente de reprodução ampliada, a igual
industrialização dos serviços, revela uma economia fundamen
talmente capitalista, cuja produção e reprodução é conduzida
pela burguesia como proprietária e cuja relação social básica
é o assalariamento. O fato de que conviva com a extensão do
assalariamento uma enorme parcela do que a literatura chama

“setor
o “setorinformal”,
informal”não nega
é uma o caráter
“forma” capitalista:
específica ao contrário,
das próprias con
tradições da acumulação de capital, particularmente da simul
tânea e contraditória concentração de renda e liquidação das
formas arcaicas de emprego, renda e acesso ao consumo de
mercadorias. E mais: o processo em curso da flexibilização das
relações de trabalho tende a reduzir o espaço e o tamanho das
relações formalizadas, inaugurando o que pode vir a ser a for
ma específica do “setor informal” no capitalismo global.
A ampliação da dominação de classe do ponto de vista da
acumulação de capital e da divisão social do trabalho implicou
na fundação de classes sociais nacionais. Isto é, do antigo ar
quipélago de dominações regionais, o processo da expansão
integrou as diversas regiões, não apenas a uma dinâmica de
conjunto, mas o que é mais importante, a propriedade do ca
pital concentrou-se sob o comando dos mesmos proprietários.
E a isto que corresponde a expansão das empresas nacionais
e internacionais desde o núcleo dinâmico do Sudeste, e parti
cularmente de São Paulo, para o Nordeste e o Norte, através
dos incentivos fiscais, para o Oeste, através de mecanismos
mistos de mercado e incentivos fiscais (implícitos na política
de juros para a agricultura e a pecuária), e mesmo para regiões
como o Sul, que se caracterizava pela existência de sólidas
empresas regionais. Em suma, há uma burguesia, hoje nacio

198
ALÉM DA HEGEMONIA, AQUÉM DA DEMOCRACIA

nal. O contrário também se produziu: as classes dominadas


são nacionais, pela mesma dinâmica: esta é a raiz estrutural
sobre a qual se levantou o moderno movimento de trabalha
dores no Brasil a partir de São Bernardo.
Esse vasto, amplo e profundo processo requereu, por duas
vezes no curso de sessenta anos, duas ditaduras cujos períodos
somam trinta e cinco anos. Fazendo-se uma simples operação
de proporção, significa que 60% do período em que se con
sumou a radical transformação da economia e da sociedade
ocorreram em regimes de exceção, claramente antidemocrá
ticos, em que um pesado ajuste de contas no interior do bloco
dominante requereu o braço armado não apenas para reprimir
a nova classe dominada, o operariado, mas para operar, pela
força, uma acumulação, uma integração, uma concentração
de capitais, com mudanças drásticas no controle de patrimô
nios crescentes. Exigiu, mesmo quando o regime de exceção
era claramente antíestatizante - o caso da ditadura militar de
64 a 84 - a utilização do aparato estatal, o simulacro da so-
cial-democratizaçao do capital, tanto na forma das empresas
estatais quanto na regulação do mercado de força de trabalho
para discriminar - não para arbitrar - em favor de uns grupos
contra outros. Dizer que as ditaduras não favoreceram o cres
cimento, como defenderam Cardoso e Serra na polêmica com
Ruy Mauro Marini sobre a existência ou não de um subimpe-
rialismo tendo o Brasil como eixo na expansão para a América
Latina, significou não terem apreendido as formas concretas
dessa relação, desclassificando a posição de Marini como se
este tivesse postulado uma “lei” a-histórica das relações entre
regimes de exceção e acumulação de capital.
Estaríamos em presença de um típico processo de “revo
lução pelo alto”, “passiva” nos termos gramscianos, “prussia
na” segundo uma outra tradição também marxista.
O deslocamento no interior do bloco dominante, o pesado
ajuste de contas, não teve nada de harmônico; talvez tenha se
passado sempre sob o signo da “cordialidade” tematizada por
Sérgio Buarque de Holanda. De fato, entre 30 e 84, anota-se
um golpe de Estado, ou tentativas de golpe, numa proporção

199
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

de 1 para 3, isto é, um golpe/tentativa a cada 3 anos.. Isto


refletia, de algum modo, a radicalidade da transformação e a
contradição entre as formas políticas em que ela se operava,
o clássico problema da relação entre economia e política. De
outro lado, a emergência e consolidação do movimento ope
rário, a emergência do campesinato como classe, magnificado
pelas Ligas Camponesas no período imediatamente anterior
ao Golpe de 64, implodia com as relações no interior do pró
prio bloco dominante, impedindo que a burguesia fizesse a
sociedade à sua “imagem e semelhança” . A poderosa reativa
ção do movimento operário e sindical desde os anos 70 exa
cerbou a crise no bloco dominante, levando à liquidação da
ditadura, pela sua incapacidade de continuar a reprimir os

trabalhadores, e por isso, “prever” os desdobramentos da re


produção ampliada.
Com a redemocratização formal em 84, as contradições
no interior do bloco dominante se aguçaram, já que a repressão
não mais funcionava, a iniciativa das classes dominadas - gre
ves, criação das centrais sindicais, movimentos sociais e da
cidadania - dificultava, enormemente, a resolução de certas
questões centrais para uma nova fase de expansão. A questão
do lugar do Estado era, talvez, a mais central deixada irreso-
luta, sobretudo numa quadra de globalização. Não resultava
funcional para a burguesia a apropriação do espaço democrá
tico. A formalização dessa “irresolução”, com o avanço dos
direitos da cidadania, em geral, na Constituição de 1988, dra
matizou o impasse. Desde antes, a contradição entre as formas
da política e as exigências da acumulação de capital havia ca
minhado no sentido da dilapidação financeira do Estado, com
o que a “previsão”, própria do Estado moderno, entrava em
colapso, e com ela, a própria ditadura.
Em 1989, todo o arcabouço da “revolução passiva” e das
contradições não resolvidas quase foi abaixo: um devastador
terremoto, quase 7 na escala Ríchter, que é de 8, aparecia na
expressão dos 45% de votos conquistados por Luís Ignácio
Lula da Silva na eleição de 89. Um susto quase fatal, quase
infarto, percorreu o bloco dominante de alto a baixo e operou

200
A VANGUARDA DO ATRASO E O ATRASO DA VANGUARDA

de que, assim, se deslegitima a democracia. A primeira tarefa in


telectual e prática do campo democrático é probíematizar o con
ceito e a prática dessa democracia “consensual e hegemônica”.
A característica central da contradição latino-americana,
explicitada e posta em marcha pelas políticas econômicas cha

madas neoliberais,
qualificada: pois oleit émotiv
a exclusão, Essa exclusão
dos argumentos tem éque
neoliberais que ser
as políticas dos simulacros de Welfare, entre nós, mais excluí
ram do que incluíram. Nisso, copiam os argumentos conser
vadores, desde Hayek e Friedman. A inflação, por exemplo,
resultado - na fórmula reducionista neoliberal - de expansão
dos gastos sociais sem receita que os avalizasse, exclui, pela
permanente corrosão dos salários, os grupos sociais pobres do
consumo moderno. Além disso, a inflação penaliza fortemente
os mais pobres pelo chamado “ imposto inflacionário” . Em
suma, o Welfare exclui exatamente pela prática de políticas

supostamente
pelos integradoras.
resultados A neoliberais,
das políticas evidência fornecida aténão
entretanto, agora
são
muito favoráveis aos seus argumentos: o México já é hoje um
caso clássico de rigidez excludente; ninguém seriamente apos
ta que qualquer revitalização da economia mexicana possa
repor a imensa massa de subempregados que em qualquer cal
çada mexicana estão vendendo - suprema ironia - garrafinhas
da água mineral de elite, a Perrier francesa. Na Argentina,
cinco anos de estrondoso sucesso do Cavallo que caiu do cavalo
(isto é, Menem) produziu uma massa de desemprego que teima
em permanecer em irredutíveis 1 7/18 % , fenômeno único na
história argentina, que sempre se caracterizou por pleno em
prego, desde os dias da grande entrada do país austral como
fornecedor de alimentos no mercado mundial. Em todos os
outros, o registro é do mesmo tipo. O Brasil apresenta a sau
dável taxa de desemprego de 6% da PEA, com um incremento
de 1,5 2% entre maio de 96 e maio de 97 (Carta IBGE, ano
III, n.37, ago/97), mas os resultados para sua capital econô
mica, toda a Grande São Paulo, medidos pelo convênio SEA-
DE/D IEESE elevam-se ao patamar de 15 ,7 % , em julho de 97

21 1
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

(Folha de S, Paulo,28/8/97) muito próximo do argentino. Es


timativas que levam em conta o desemprego disfarçado nos
milhares de pontos de venda do imenso bazar persa em que
se transformaram, praticamente, todas as grandes cidades da
América Latina, autorizam a supor que desemprego aberto
mais desemprego disfaçado alcançam níveis de 30 a 50% da
PEA, dependendo do país.
Depois dos primeiros resultados do Plano Real, de aboli
ção do “imposto inflacionário”, da seignorage,em linguagem
mais elegante, proclamou-se uma formidável redistribuição de
renda, responsável pelo exponenciaí crescimento do consumo
de... frangos. Para os brasileiros, não resisto à piada: foi a
forma de FHC ajudar Maluf... Fim do parêntese. Desde mea
dos de 96, entretanto, anota-se o fim dessa redistribuição de
renda e a estagnação do crescimento do salário médio real. A
mesma publicação do IBGE já anotava recuo de 0,20% do
salário real médio na indústria, de março para abril de 97,
enquanto no comércio varejista o recuo somava 0,59% entre
maio 96 e maio 97. A pesquisa SEADE/DIEESE, já referida,
acusava uma queda acumulada de 1 5,6 % dos rendimentos dos
10 % mais pobres da Grande São Paulo, entre janeiro/97 e
julho/97, justamente o estrato mais “beneficiado” pela redis
tribuição de renda promovida pelo Plano Real! Categorias in
teiras, como as do funcionalismo público, amargam uma
erosão salarial que já vai pela casa dos 64%, igual à inflação
desde a implantação do Real, período no qual não houve ne
nhum reajuste salarial, exceto para os militares... A sensação
de marasmo invade todos os setores.
Noutras palavras, a vanguarda do atraso aqui também co
pia o atraso da vanguarda. O sucesso da política antiinfíacio-
nária - paradoxal mente, diria Rangel - impede qualqu er

política social,
cialismo mesmo
do Estado aquelas que copiam
desenvolvimentista, o velho assisten-
a confracção latino-
americana do Estado do bem-estar. Precisamente porque a
política monetária, permanentemente amarrada - e ancorada -
no dólar, perdeu toda sua autonomia, que é o oposto do que
dizem tanto o governo quanto a mídia; a ancoragem exige que

212
OS DIREITOS DO ANT1VALOR

cas. O estigma do “ marajá” , que simbolizava a ira e o ressen


timento popular contra as longas filas do INSS, foi utilizado
então para esfarelar o pouco de políticas públicas que havia e
para atacar as organizações populares, sobretudo as organiza
ções sindicais que, sem louvações indevidas, estavam no núcleo
da construção de uma esfera pública não-burguesa no Brasil e
do rompimento da sociabilidade da “casa grande” e do “ho
mem cordial”. Collor era apenas o sintoma inicial, ainda bal-
buciante, mal articulado porque apenas saído do forno longo
de hesitações e violentas acomodações de lutas internas à bur
guesia, da mudança de paradigma do sentido mais geral da
sociabilidade, do Iluminismo para o Conservadorismo,
É com Fernando Henrique Cardoso, entretanto, que a in
versão se completa, se radicaliza, amadurece e ganha foros de
projeto de hegemonia. Amadurece porque ganha uma lideran
ça intelectual, cujo sentido não é apenas o da antiga condição
de seu titular, mas o de “organizador” das articulações; se
radicaliza porque ganha a adesão de um antigo adversário - o
próprio presidente - e com isso se desinibe, mostra suas
griffes,
luta num terreno em que praticamente somente seu adversário
nacional ainda tenta uma alternativa, enquanto no plano in
ternacional
perspectivasa anticapitalistas;
derrocada do “socialismo
ganha forosreal” desmoraliza
de projeto as
de hege
monia porque unifica praticamente todo o espectro político
que vai do centro à extrema direita, e no plano dos interesses
de classe burgueses unifica os que vão do campo à cidade,
passam pela nova complexidade dada por uma divisão social
do trabalho, em que a própria agricultura já é inteiramente
capitalista, a indústria é 34% do PIB nacional, os serviços já
são mais de 50% do PIB e não são mais serviços de garotos

lavando carros
finanças na rua, ealcançou
não-bancárias) a intermediação
a marca,financeira (bancos
recorde para o mune
do capitalista, de uns 13 % do PIB nacional; além disso, o que
não é desimportante, as antigas fraturas regionais, que no pas
sado deram lugar às revoltas e revoluções, a última das quais
foi a própria Revolução de 30, foram substituídas por uma
burguesia (com todos os seus ramos e frações) unificada na
226
DOMINANTES E DOMINADOS NA PERSPECTIVA DO MILÊNIO

cionalmente (que inclui, é claro, a burguesia internacional aqui


presente), que é a mesma da Amazônia ao Rio Grande do Sul,
passando pelo Nordeste, num movimento que teve nas em
presas estatais um dos epicentros de sua aglutinação regional
e nacional. Os-interesses dos dominantes tendem a transfor
mar-se em “senso comum”
foí, na interpretação para os
gramsciana, umdominados,
dos claros esintomas
este sempre
de
hegemonia, de produção de consenso que substitui a pura vio
lência como elemento da dominação de classes. É o que se
passa na mitificaçao da estabilidade monetária pós-Plano Real:
as classes populares, que só têm objetivamente a ganhar com
reformas profundas no Brasil, dadas as desigualdades, que são
crescentes, converteram-se nas maiores defensoras da estabi
lidade, isto é, da não-reforma, devido a uma dolorosa expe
riência subjetiva de convivência com a inflação.
Quais são os sentidos fortes político-sociológicos do Con
servadorismo e da Reação como orientadores gerais da socia
bilidade? Que significa
portanto caucionam dizer
todas que habitam
as políticas, no imaginário
não políticas e
e anti-po
líticas públicas que justamente poderiam tentar, no sentido do
Iluminismo, cumprir a velha promessa da igualdade?
O primeiro sentido é o da substituição do “princípio da
esperança” pelo “princípio da realidade”. No discurso políti
co, essa mudança é claríssima. O “princípio da esperança” não
era a transferência para o futuro das resoluções dos problemas;
ao contrário, o “ princípio da esperança” queria dizer qu e todos
os problemas eram históricos, podiam ser resolvidos, que eles
constituíam desafios, ao contrário de constrangimentos. O
“princípio da realidade”, ao contrário, diz que há limites,
como os 40
Henrique milhões
Cardo de brasileiros
so admitiu, que o presidente
em conferência Fernando
interna cional, es
tarem condenados a permanecer excluídos do novo Brasil
“globalizado”. O “princípio da realidade”, ao contrário do
realismo de que se autovangloria, é completamente anti-rea
lista: ele é imediatísta, congela o futuro e o antecipa numa
presentificaçao. Não há, portanto, mais futuro: há somente
um presente, que se não for aproveitado agora, perdeu-se. Do
227
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

ponto de vista sociológico, o “princípio da realidade” é con


servador, pois tende a produzir o medo às reformas e mudan
ças, embora o discurso de hoje no Brasil insista em dizer que
as “reformas constitucionais” estão se fazendo justamente para
propicia r mudanças.
A aceitação do status quo é uma conseqüência das mais
importantes do “princípio da realidade”. A intransponibilida-
de da situação social, da estrutura social de classes, aparece
então como mostra de realismo, quando ele é um perigoso
sintoma de conformismo. Numa sociedade como a brasileira,
que ainda não se “desencantou” inteiramente, no sentido we-
beriano, em que assistimos cotidianamente desde familiares
de vítimas de acidentes de avião até mães do Nordeste que já
perderam 1 4 dos 18 filhos que tiveram, aceitarem, novamente,
que se cumpriu a vontade de Deus, para além das crenças
religiosas, o que está em jogo é uma mudança importante no
sentido mais geral que presidia a sociedade. Até ontem, até
médicos, uma espécie de substitutos de Deus na terra, já co
meçavam a ser questionados por seus erros, perfeitamente hu
manos, aliás; empresas de aviação estavam sendo levadas aos
tribunais por se descuidarem da manutenção de aeronaves; e
justamente no mundo do trabalho, que foi por onde entrou a
cidadania brasileira, de há muito os acidentes de trabalho pas

saram de uma
sabilização do interpretação
capital e dos de falha humana
empresários pelopara a respon
recorde de
acidentes do qual o Brasil é detentor dessa iníqua taça desse
maligno campeonato mundial. Com o “ princípio da realidade ”
tudo isso tende a voltar a explicações ou transcendentais ou
àquelas que procuram contemporizar apelando para condições
especiais de competitividade da mão-de-obra. Tal como um
conhecido ex-ministro do Planejamento da ditadura militar
foi a Estocolmo, ainda no auge do “milagre brasileiro”, na
primeira grande reunião mundial sobre meio ambiente, dizer
que o Brasil recebería de braços abertos as indústrias poluido-
ras, pois o essencial era a geração de emprego e renda, e depois
se podería combater a poluição! A devastação da Amazônia e

22 8
DOMINANTES E DOMINADOS NA PERSPECTIVA DO MILÊNIO

o estado de calamidade das cidades brasileiras não são resul


tados ocasionais daquele “princípio de realidade” da ditadura.
Correlata à substituição do “princípio da esperança” pelo
“princípio da realidade” é a regressão de uma sociedade que,
do plano dos direitos desliza em direção ao contrato mercantil.

Este,
voluçãoqueFrancesa
está na base da racionalidade
- a edição do Código burguesa desdeé asua
de Napoleão Re
marca por excelência, ele mesmo uma espécie de regressão da
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão - foi gra
dativamente revelando-se insuficiente até a complexidade da
própria sociedade capitalista; sobretudo a “inventividade de
mocrática” (Castoriadis) deslocou o contrato mercantil e co
locou no seu lugar os direitos, civis, políticos, e por último os
chamados direitos sociais. Contemporaneamente, o avanço
dos direitos já está no plano dos chamados “direitos difusos”,
isto é, sem sujeitos, que não é a prova da “implosão do sujeito”
foucaultiana, mas contorna esse falso problema, situa-se para
além dessa discussão, é uma espécie de estatuto transcendental
do direito, que não precisa subjetivar-se. Isto é, não pode mais
ser negado: é uma afirmação, no nível mais alto, das conquistas
humanas, uma espécie de “cláusula pétrea” .
O Conservadorismo e a Reação como princípios legitima-
dores e estruturadores das novas relações sociais, da sociabi
lidade e do imaginário, na sociedade brasileira, regressam ao
contrato mercantil como princípio regulador. Destroem direi-
t tos, e não se detêm mesmo diante de uma interpretação tão
consagrada mundialmente como a dos direitos adquiridos. Ela
trabalha ao modo nazi-fascista e Stalinista de permanente pre-
sentificação do passado, isto é, o passado não existe, e portanto
não existe história propriamente. E isto o que significa os sta-
linistas eliminando Trotsky da história russa e já soviética; é
isto o que significava Hitler e Goebbels mandando queimar
livros que nunca deveríam ter sido escritos: mas o tinham sido!
E isto o que significam no Brasil as “reformas constitucionais”
do Presidente Cardoso e de sua maioria parlamentar, quando
desfazem os direitos de funcionários públicos, de trabalhado
res, de aposentados, quando reabrem as demarcações das re

229
OS DIREITOS DO ANTIVALOR

servas indígenas. Não há história, eles não viveram; o que


interessa é o presente, os interesses do presente, e para isso o
passado deve ser presentificado. Como a força dessa presen-

tificação é mercantil, o“flexíveis”,


cantil: trabalhadores que resta desregulamentados,
é um simples contrato mer
funcionários públicos à mercê dos poderosos de cada dia, um
aparelho de Estado que deve conformar-se à demanda e oferta,
como uma empresa, terras indígenas e cuja posse deve ser
aberta à contestação, para que se legitimem(P)
No limite, a regressão ao contrato mercantil tende, por
analogia, à mesma regressão do nazi-fascismo. Sendo impos
sível, dada a complexidade da sociedade, voltar-se ao contrato

mercantil,
são. Assiste-se,
a violência
então,
termina
à violência
por serexplícita
a parteira
como
dessa
moeda
regresde
troca nas relações sociais, até no cotidiano: a violência é o
novo código da sociabilidade. Não à toa, o Instituto de Pes
quisas Econômicas Aplicadas do Ministério do Planejamento
e Orçamento divulgou, na última reunião anual da Associação
Brasileira de Estudos Populacionais - ABEP - em outubro de
1996, em Caxambu, Minas Gerais, estudo que constatava a
elevação proporcional dos assassinatos, suicídios e acidentes
de trânsito, que hoje são 70% da mortalidade na faixa etária
da população masculina de 15 a 29 anos, detendo a queda
histórica da taxa naquela faixa. A violência “fria” e não explí
cita passa~se no mundo do trabalho: o desemprego aumenta,
apesar da descarada manipulação que o governo e o IBGE
fazem da matéria, os trabalhadores e principalmente as mu
lheres trabalhadoras “somem” das planilhas e das estatísticas
através da terceirização, da flexibilização, do trabalho em tem
po parcial e do trabalho a domicílio, agora também categori
zado como “flexível”.
Uma sociedade com tais desigualdades presidida por um
consenso conservador, tendo como norte a Reação, nada tem
de bom a esperar. O enigma imediato pode ser decifrado sem
dificuldades: o mais imediato, que é a perspectiva para o pró
ximo milênio, exige uma reflexão urgente, sobre o padrão
civilizador que conduzirá a sociedade pelo menos na próxima

230
' DOMINANTES E DOMINADOS NA PERSPECTIVA DO MILÊNIO

década. Uma ciência social responsável não se permite ilusões


cínicas a respeito da modernização em curso. Esta tem tudo
para fazer-nos entrar no século XXI sob o signo da desespe
rança, da violência e da barbárie. O papel da ciência social,
reconhecendo seus próprios limites num século que fetichiza
o poder da ciência, é o de insistir, contra todas as evidências
“ realistas” , sobre as conseqüêndas de mudanças tão drásticas,
sobretudo sobre a tragédia que constitui uma sociedade sem
esperança.

231
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