INTEGRAÇÃO: EDUCAÇÃO, TECNOLOGIA E SOCIEDADE

José Heleno Ferreira
Mestre em Engenharia de Produção
Ênfase em Gestão da Informática na Educação- UFSC

RESUMO: O uso do computador no Ensino Fundamental vem sendo difundido em todo o país,
porém ainda não há consenso quanto à forma de utilizá-lo. Às vezes, utilizado como chamariz
mercadológico, outras como um equipamento para atividades extra-classe, raramente é utilizado
como ferramenta pedagógica. Embora, tenha se tornado lugar comum associá-lo ao progresso e à
modernidade, há vozes discordantes. Seja como for, o grande desafio diante da revolução
tecnológica que se faz cada vez mais presente na educação e no cotidiano da população de todo o
planeta é integrar tecnologia, ética e educação, buscando uma sociedade onde não haja a
dicotomia entre a cultura humanística e a cultura técnica.
PALAVRAS-CHAVE: tecnologia – educação – cultura humanística – cultura técnica

1. INTRODUÇÃO
A integração entre educação, tecnologia e sociedade é uma questão que se coloca a todos
aqueles que discutem a história da educação, a pedagogia e as relações sociais no mundo atual.
De um lado, não é possível escamotear a presença cada vez mais constante da tecnologia no dia-
a-dia dos cidadãos do mundo inteiro. Desde o saque bancário num caixa eletrônico, passando pelo
exercício do voto nos sufrágios que se fazem na maioria das vezes através de urnas eletrônicas,
até as complicadas operações envolvendo as grandes empresas, as bolsas de valores, enfim, a
onipresença da informática torna impossível desconsiderá-la ao pensar as relações humanas no
início do terceiro milênio.
Ao pensar a educação como espaço de sociabilização e a escola como um instrumento capaz de
colocar as classes populares em contato com o conhecimento sistematizado ao longo da história
da humanidade e em condições de enfrentar um mercado de trabalho cada vez mais competitivo,
faz-se necessário, também, discutir a presença ou a ausência, além das formas de utilização, da
tecnologia no mundo escolar.
Diz o senso comum que as escolas são instituições refratárias às inovações, que as mudanças
sociais e de comportamento são incorporadas pelas mesmas apenas depois de já incorporadas
pela sociedade. Dentro dessa visão, as escolas são, naturalmente, instituições em descompasso
com as mudanças que acontecem ao seu redor. Logicamente, essa assertiva do senso comum
precisaria ser melhor pesquisada, mas não é esse o objetivo deste trabalho.
O presente artigo apresenta alguns resultados de pesquisa acerca do uso da tecnologia em
escolas da região metropolitana de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e abre um espaço
para as vozes discordantes quanto à presença da informática na vida das crianças. Além disso,
discute a necessidade de integrar, no mundo acadêmico, as relações sociais entre tecnologia e a
sociedade.

2. A INFORMÁTICA E O ENSINO FUNDAMENTAL
Não obstante ser facilmente encontrado ainda hoje um grande número de escolas públicas sem
energia elétrica, outras funcionando em galpões e até mesmo debaixo de árvores, é cada vez
maior a demanda pela informatização nas escolas públicas e privadas do país. Essa discrepância
entre as escolas das regiões centrais e urbanizadas e as escolas rurais, periféricas e,
principalmente, das regiões Norte e Nordeste do país, reflete a desigualdade social e econômica
do país. Mesmo assim, é possível afirmar que a ausência dos computadores, quase sempre, é
entendida como atraso e acredita-se que um indivíduo sem conhecimentos básicos sobre
informática será marginalizado social e profissionalmente. Ao mesmo tempo, corre-se o risco de
discutir a informática educativa como panacéia capaz de resolver todos os problemas educacionais
e o computador ser apresentado como o elemento mais importante da relação pedagógica, ao
invés de mero auxiliar de ensino.
Há hoje diversos estudos que buscam redimensionar a prática educativa e valorizar a utilização da
informática como ferramenta pedagógica, que facilite aos estudantes o desenvolvimento das
habilidades cognitivas. Entre os princípios que norteiam esses estudos estão a importância de
reconhecer que professores e livros didáticos não possuem a verdade finalizada, que o
computador pode ser uma ferramenta de experimentação, um espaço onde o aluno possa procurar
e, aos poucos, dominar uma nova linguagem. Pressupõe-se também uma mudança nos papéis
tradicionalmente desempenhados por professores e alunos. Os primeiros deixariam de ser aqueles
que repassam informações, convertendo-se em coordenadores de um trabalho de pesquisa. Os
últimos deixariam de ser aqueles que recebem passivamente as informações, transformando-se
naqueles que buscam e analisam dados.
Logicamente, são muitos os problemas que surgem... Numa sociedade desigual como a brasileira,
são enormes os desafios colocados pela informatização do mundo do trabalho e da escola. Em
sua pesquisa acerca do computador como mediador dos processos pedagógicos, a educadora
mineira Sheila Alessandra Brasileiro afirma que
“Em Belo Horizonte, enquanto os filhos das camadas médias, estudam com informática, os filhos
das camadas baixas procuram estudar informática. Os primeiros vão à escola que tem
computador, os segundos vão à escola de computação, quando conseguem pagar, fazendo, às
vezes, o sacrifício de depositar todo o seu salário neste investimento.” (BRASILEIRO, 1996: 87)
É fundamental, pois, vencer esse primeiro desafio, qual seja: democratizar o acesso à informática.
Do contrário, aprofundar-se-á o fosso que atualmente separa as classes populares das classes
altas. Percebe-se claramente, como mostram Ferreti (1994), Gentili (1995) e outros, que
atualmente a relação entre informação e poder torna-se sempre mais complexa. E essa relação
tem nítidas implicações para a questão da organização do sistema de ensino.
A pesquisa de Brasileiro, publicada pela editora da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra
o óbvio: as escolas privadas têm sempre melhor infra-estrutura em termos de informática que as
públicas. Porém, seu trabalho procura também analisar se as escolas utilizam o computador e a
informática como ferramenta pedagógica, como atividades extra-classe ou apenas como chamariz
mercadológico. Nesse item, as conclusões são preocupantes... Em algumas escolas públicas
encontra-se a disposição dos educadores em utilizar os computadores como ferramentas
pedagógicas, elaborando projetos pedagógicos e buscando ministrar os conteúdos escolares
através da informática, levando os alunos a pesquisarem e a criarem a partir dos mesmos.
Esbarram, porém, quase sempre no pequeno número de computadores, nos altos preços dos
softwares, no despreparo dos profissionais... Noutras, também públicas, o computador é utilizado
para atividades extra-classe e são oferecidos cursos básicos de computação aos alunos e à
comunidade escolar. Sem desmerecer essa iniciativa que tem como pontos positivos o fato de
oferecer uma qualificação ainda que mínima aos alunos e, principalmente, de aproximar a
comunidade da escola, é preciso afirmar que essa prática está ainda muito distante das reais
possibilidades de um trabalho pedagógico com a informática. Na verdade, continuam sendo
reafirmadas as práticas pedagógicas tradicionais e a informática sendo utilizada como algo
estanque, completamente isolada do mundo pedagógico e da relação ensino-aprendiazagem.
Nas escolas privadas, com exceção daquelas que têm feito um maior investimento na elaboração
de projetos pedagógicos, o computador também é utilizado como atividade extra-classe... Há aqui
um diferencial quanto às escolas públicas: os cursos de computação que essas escolas oferecem
não são apenas básicos, tendo os alunos um acesso maior à utilização da informática. Porém, no
que diz respeito ao essencial – a utilização do computador como ferramenta pedagógica – a
situação continua a mesma. A maior barreira que essas escolas enfrentam para transformar essa
prática pedagógica está na formação dos profissionais da educação, na maioria das vezes, ainda
despreparados quanto à informática educativa, por mais que dominem a aplicativa.
Outra constatação revela a perversidade social e pedagógica da relação que se estabelece entre
informática e educação. Como as escolas privadas sobrevivem do dinheiro que seus alunos pagam
para freqüentá-la, muitas vezes o computador (os mais velozes, número de computador por aluno
etc) é utilizado por elas como chamariz mercadológico. O perverso dessa situação está
exatamente em que a questão pedagógica é relegada a segundo plano num ambiente em que
deveria ser a prioridade absoluta.
Uma última questão observada pela pesquisadora diz respeito às dificuldades com os softwares
educacionais. Segundo seus estudos, os poucos softwares nacionais não passam de uma
transposição das tradicionais cartilhas para o computador, não atendendo também às divergências
culturais e à heterogeneidade presente nas salas de aula. Como na maioria das vezes são feitos
por informatas que nada entendem de educação, são atrativos, mas não chegam a ser superiores,
em termos pedagógicos, à tradicional cartilha que afirma que “Ivo viu a uva”, ou seja: trabalha-se a
alfabetização ou outro conteúdo qualquer totalmente descontextualizado e desvinculado da
realidade do aluno, da realidade local e da realidade sócio-político-econômica nacional e mundial.
Finalizando, Brasileiro afirma:
“Constatamos que nas escolas investigadas existem duas formas de trabalhar com a informática
na educação: a primeira, desenvolvida para ampliar as possibilidades de se trabalhar os conteúdos
escolares, formando um indivíduo mais atuante na sociedade e a segunda desenvolvida para o
consumo de pais, onde se tem computadores de última geração em toda escola, com laboratórios
equipados e com aulas elaboradas por empresas de informática que pouco ou nada entendem de
educação, e mais, gera uma forte dependência de softwares e, consequentemente, dos objetivos
das aulas terceirizadas. O problema está que, ao invés do computador ajustar-se às necessidades
e visões do aluno, muito freqüentemente as necessidades destes são forçadas a ajustar-se à
própria tecnologia.” (BRASILEIRO, 1996:107)
Todas essas dificuldades, porém, não podem ser empecilhos para aqueles que percebem a
necessidade de trabalhar com seus alunos utilizando uma ferramenta indispensável para capacitá-
los quanto ao desenvolvimento do novo modelo de cognição da realidade do mundo
contemporâneo.

3. VOZES DISCORDANTES
O avanço tecnológico torna cada dia mais evidente a necessidade de crianças e jovens estarem
preparados para lidar com o tipo de informação presente na sociedade atual. Contudo, existem
vozes discordantes que vêem o uso da informática como algo negativo para crianças e
adolescentes. Um dos expoentes dessas vozes é Valdemar Setzer, engenheiro, professor titular de
Ciência da Computação no Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo,
consultor de informática da Promom e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo.
Autor de vários livros sobre o assunto, tem participado de programas de televisão ou proferido
palestras em que acusa o computador de atropelar a infância e o uso da informática na educação
como responsável pelo pensamento rígido, inevitavelmente associado à máquina. Segundo ele, é
preciso deixar que as crianças sejam infantis e costuma pedir: “Não lhes dêem acesso a TVs,
videogames e computadores” (SETZER, 1999: 4).
O autor vai mais longe, defendendo que os adolescentes devem ter acesso ao computador apenas
a partir dos 17 anos. Afirma que a utilização dos mesmos, no lar e principalmente no processo
educacional, é prejudicial porque força o pensamento lógico-simbólico e algorítimico. Mesmo
concordando ser esse um pensamento muito particular, que todos gostariam de ver desenvolvido
nas pessoas adultas, o estudioso afirma ser extremamente prejudicial o seu desenvolvimento para
as crianças e adolescentes até os 15, 16 anos.
Justificando sua defesa de que crianças e adolescentes não devem ter acesso à informática,
Setzer afirma ser necessário, nessa faixa etária, estar integrado com o ambiente e com a fantasia.
Assim, quando uma criança ouve uma história, ela cria imagens interiores a respeito daquilo que
está sendo contado. Se essa história lhe é mostrada na televisão, por exemplo, seu pensamento
torna-se menos criativo, não sendo necessário que as imagens sejam criadas pelo ouvinte. O autor
exemplifica suas afirmações comparando a utilização por uma criança, de uma boneca de pano,
que não tem bem definidos os traços e os membros, obrigando-a a imaginá-los e com uma boneca
de plástico, melhor elaborada e portanto menos exigente quanto à imaginação infantil. “Mais rígido
ainda é o funcionamento do computador” (SETZER, 1999: 4).
Questionado acerca da possibilidade de se usar o computador de maneira lúdica, Setzer
argumenta que a utilização de qualquer software exige comandos técnicos que nada têm de
intuitivos. É preciso que a criança saiba que acionando o ícone x, terá resultado y. Esse seria um
pensamento extremamente quantitativo, que não abarca o “mais ou menos”, ou a intuição. O
contrário acontece quando a criança anda de bicicleta, por exemplo. Nessa atividade, ela não
pensa com quantos metros ou centímetros deve fazer a próxima curva... Ela sabe que cada curva
é diferente da anterior e da próxima. Tudo exige que se guie pela intuição.
Além de acusar o computador e a informática de embotar o pensamento intuitivo, o pesquisador é
taxativo quanto ao uso dos mesmos no ensino fundamental:
“O maior problema é forçar o pensamento lógico-simbólico antes da época. Porque, na minha
concepção de evolução do ser humano, de desenvolvimento pessoal, apenas depois da
puberdade, a partir dos 14, 15 anos, é que a gente deveria exigir da pessoa um pensamento
puramente abstrato. É o caso de uma demonstração de teoremas, por exemplo. É absurdo pedir
provas de teoremas de matemática durante o ensino fundamental. Porque, simplesmente, não
faz sentido para uma criança dessa idade ter que provar alguma coisa. Eu fui obrigado a provar
teoremas de geometria, sobre semelhanças de triângulos, quando cursei o que é hoje a quinta
série. Então, eu olhava para o livro, para dois triângulos semelhantes, com todos os ângulos iguais
e pensava: ‘Mas eu estou vendo que eles são semelhantes. Por que eu tenho que provar uma
coisa dessas?’ Para uma criança, não faz sentido provar um teorema, porque isso não faz parte da
vida imediata. Já o jovem tem que ter um afastamento muito grande do mundo para perceber que
demonstrar teoremas possui alguma importância. É uma importância puramente formal, não
prática. É claro que é preciso desenvolver esse tipo de raciocínio, mas não antes da hora. Não há
necessidade de acelerar a educação. Há tempo para tudo.” (SETZER, 1999: 6)
O autor critica ainda a concepção de que é preciso que as crianças e jovens lidem com
computadores para estarem preparados para o mercado de trabalho. Essa idéia é desconstruída
através da afirmativa de que hoje é cada vez mais fácil lidar com computadores e que o mercado é
incerto, não sendo possível prever as necessidades do mesmo daqui a cinco ou dez anos, quando
as atuais crianças e adolescentes estiverem na idade de procurar trabalho. E mais ainda: de
acordo com sua opinião, aqueles que passarem muitas horas diante da televisão, dos videogames
e dos computadores estarão menos aptos a concorrer no mercado de trabalho, porque serão
menos criativos, e a cobrança pela criatividade tende a crescer.
Questionado sobre resultados científicos que confirmem suas afirmações, Valdemar Setzer diz que
não tem pesquisas a respeito do uso precoce do computador, assim como não tinha pesquisas
acerca do prejuízo que o uso da televisão traria para as crianças quando começou a falar sobre o
assunto, em 1972:
“Eu parto de uma concepção do que é o ser humano, de como se dá o seu desenvolvimento, e
também do que é o aparelho, de que atitudes ele força ou induz nos usuários. Juntando tudo isso,
não é preciso nenhuma pesquisa. Da mesma forma que eu não preciso de uma pesquisa para
saber o que acontece se um trator passar em cima de uma plantação de morangos.” (SETZER,
1999: 8)
Apesar de todas os questionamentos colocados, não se pode negar a presença da informática na
sociedade atual, não sendo possível, portanto, ignorar essa realidade quando se quer pensar o
sistema educacional e as relações sociais que o mesmo engendra e pelas quais é engendrado.

4. INTEGRAÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E SOCIEDADE: O DESAFIO DA EDUCAÇÃO NO
SÉCULO XXI
Harold Benjamin, em seu livro “O currículo do tigre dos dentes de sabre” (apud Bustamante, 1997:
19), apresenta uma curiosa parábola acerca das discussões curriculares que acontecem nas
escolas. Segundo essa parábola, em uma determinada sociedade, o currículo escolar era
composto de três tarefas básicas: pegar peixes com as mãos livres, matar pôneis a porretadas e
afugentar com tochas os tigres de dentes de sabre.
Muitos anos depois de terem sido inventados diversos tipos de redes de pesca, depois de os
pôneis terem sido domesticados e os tigres de dentes de sabre estarem em extinção, essas três
“matérias” continuavam compondo os currículos escolares da sociedade em questão. Alguns
educadores liberais defendiam então a necessidade de uma mudança curricular, substituindo as
antigas disciplinas por outras mais adequadas às necessidades dos homens contemporâneos.
Outros esbravejavam que bastaria aos seres humanos desenvolver as habilidades técnicas e
racionais presentes nas disciplinas que ao longo do tempo vinham compondo os currículos, como
a habilidade para pegar peixes com mãos limpas, a força e cautela para matar pôneis a
porretadas, a coragem para afugentar tigres com tochas, para que estivessem aptos a desenvolver
quaisquer outras capacidades e habilidades exigidas pelo mundo moderno. Outros, ainda,
defendiam a permanência das antigas disciplinas no currículo por seus valores culturais.
A parábola mostra com clareza os dilemas que se colocam para educadores e estudantes
atualmente. O papel da ciência e da tecnologia nas sociedades atuais é tão profundo que se torna
difícil pensar um espaço, seja no trabalho, seja no lazer, em que não se façam presentes. As
informações chegam às pessoas e aos mais diversos lugares em tempo e quantidades recordes. O
futuro se vive antecipadamente – essa a impressão que se tem do mundo contemporâneo. E,
nesse mundo, não são mais cabíveis as barreiras disciplinares e a estrutura curricular que
moldaram e moldam ainda a maioria dos sistemas de ensino.
Há que se considerar, no entanto, que se vive um mundo dividido entre duas culturas: a cultura
humanística, quase sempre alijada da vida cotidiana, dos meios de comunicação, dos eventos de
massa e a cultura técnico-científica, que quase sempre é apresentada como algo que prescinde da
reflexão filosófica. Buscar o diálogo entre essas duas culturas talvez seja o grande desafio do
mundo atual. Integrar ciência e tecnologia, em harmonia com a cultura, estabelecer um vocabulário
comum que permita um acesso social a questões técnicas e a seu conteúdo, discutir as
conseqüências políticas e sociais da tecnologia nas vidas humanas é sem sombra de dúvida um
desafio que precisa ser enfrentado com urgência pelos educadores em geral.
Inicialmente, é preciso perceber que todas as atividades técnicas são essencialmente humanas,
pois que realizadas por homens e mulheres que imprimem, nas mesmas, os seus sentimentos, as
suas idéias, a visão e percepção de mundo que têm... Essas dimensões não-técnicas (a maneira
como se utiliza, como se concebe ou até mesmo como são rechaçados os produtos tecnológicos)
estão profundamente imbricadas nos produtos técnico-científicos.
Até algumas décadas atrás, a fé no progresso evitava qualquer tipo de crítica profunda a respeito
da ciência e/ou da tecnologia. Pensava-se que seus efeitos, quando perversos, eram
conseqüências de ações pontuais de indivíduos que atraiçoavam o ethos da ciência, que toda
tecnologia é neutra em si mesma e que somente seu uso poderia conter um caráter moral. Que a
tecnologia e a ciência estenderiam seus benefícios a todas as classes sociais e que o progresso
traria uma nova “Idade do Ouro” por meio do conhecimento científico.
Historicamente, essa tem sido a visão predominante dos homens e mulheres diante do progresso
técnico-científico. Assim foi nos séculos XVIII e XIX, no Iluminismo, quando pensadores de
diversos países e correntes filosóficas afirmavam estarem os seres humanos diante de uma forma
de organizar o mundo, apregoando a capacidade de a ciência resolver todos os males até então
vividos pela humanidade: a fome, as doenças, a violência... Os protagonistas do “Século das
Luzes”, porém, não viveriam o bastante para presenciar os desastres ecológicos, as bombas
atômicas, as guerras e tantos outros “benefícios” trazidos pelo progresso científico. Não veriam ou
não teriam tempo suficiente para analisar as conseqüências do avanço industrial para os
trabalhadores. Não teriam condições de perceber o quanto a máquina, ao invés de liberar o ser
humano das tarefas pesadas e permitir-lhe tempo para o ócio, escravizou-o ainda mais e fez com
que homens e mulheres do século XX exercessem uma jornada de trabalho diária maior do que a
exercida pelos camponeses medievais... Não tiveram ainda o distanciamento necessário para
perceber que as inovações técnicas aumentaram as desigualdades sociais, aumentaram a fome e
a miséria e que, muito embora permitissem ao mundo contemporâneo produzir alimento além do
necessário para atender as necessidades básicas da população mundial, mais de um terço do
planeta vive em condições miseráveis, subalimentados e famintos...
A informática, no século XX, teve trajetória semelhante. Vista por muitos como neutra e capaz de
facilitar a vida de toda a humanidade, precisa ser hoje repensada exatamente para que esteja a
serviço da maioria da população. Por isso, em universidades norte-americanas, espanholas e
francesas vêm surgindo disciplinas como filosofia da tecnologia, sociologia da tecnologia e outras.
Essas disciplinas visam superar a dicotomia entre a cultura humanística e a cultura técnico-
científica, além de apresentar aos estudantes uma série de problemas que requerem um
tratamento pluridisciplinar. Através delas, estaria aberto o espaço para debates em torno da ciência
e do papel determinante da economia, da distribuição do poder, da religião e da cultura nas
sociedades atuais. A análise do contexto histórico teria como objetivo perceber a forma como a
tecnologia, aparentemente neutra, é utilizada a favor de um ou outro grupo social. E o viés
filosófico buscaria perceber como os seres humanos vêm mudando suas relações com o mundo
atual e, inclusive, como vem mudando o processo de cognição, mas, principalmente, seria um
espaço onde se fariam presentes os questionamentos éticos a respeito da utilização da tecnologia
nos mais variados espaços sociais.
Busca-se também diminuir o fosso existente entre uma parcela da população que domina os
conceitos científicos e uma grande maioria que passa ao largo de toda e qualquer discussão
científica, relegando esse debate aos especialistas... Por fim, tem-se como objetivo capacitar os
estudantes para a reflexão sobre as questões sociais geradas pela ciência e pela tecnologia,
levando-o a exigir exposições e explicações claras dos diversos atores que intervêm no debate
social sobre ciência e tecnologia, de maneira que a informação recebida se converta sempre em
critério para consolidar uma opinião bem fundada sobre assuntos que cada vez mais têm
relevância na vida social.

5. CONCLUSÃO
Espera-se que tudo isso possa ajudar a cultivar uma cultura sócio-técnica (social e técnica ao
mesmo tempo) nos jovens estudantes que vão desenhar, através de decisões técnicas e políticas,
o futuro desta sociedade. Numa sociedade que tem como meta aprofundar um conceito de
democracia que implique uma participação cada vez mais ampla de todos os cidadãos na tomada
de decisões que afetem suas vidas e seus interesses, uma cultura desse tipo se constituiria em
uma verdadeira infra-estrutura de participação. Há que se salientar também que criar uma maior
consciência da profundidade e alcance das relações entre a ciência, a tecnologia e a sociedade se
revela como uma das metas mais importantes que a educação deve perseguir se se quer construir
uma sociedade mais humana, justa e solidária, em que a ciência e a tecnologia sejam ferramentas
fundamentais da promoção de fins socialmente relevantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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GREENFIELD, Patricia Marks. O Desenvolvimento do Raciocínio na Era da Eletrônica: os efeitos
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PAPERT, Seymour. A Máquina das Crianças – Repensando a Escola na Era da Informática. 1 ed.
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SETZER, Valdemar. Pane no disco rígido. Educação. pp. 3-9, outubro de 1999.

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