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CAPITULO I EVOLUCAO DA ESTRUTURA DE CLASSES DO BRASIL: 1950 A 1976 INTRODUCAO: POR QUE AS CLASSES? Ja existe hoje uma boa quantidade de informagées sobre varias caracteristicas da populagao brasileira: demograficas, ocupacionais, nivel de renda, padrées de consumo etc.. Uma parte destes dados tem sido explorada para caracterizar por assim dizer “morfologicamente” a evolucdo da estrutura social brasileira. O que tentamos, neste capitu- lo, no entanto, é algo mais ambicioso: medir o tamanho das classes no Brasil e analisar a transformaco da estrutura de classes ao longo de um periodo de 16 anos (1960-1976). Determinar o tamanho das classes é mais do que cruzar certo nui- mero de varidveis para obter uma estratificagdo social. O pressuposto tedrico aqui é que as classes sao os verdadeiros atores do drama que se desenrola no cendrio histérico. Em outros termos, 0 que se encontra Por detras dos embates entre partidos e correntes de opiniao, dos con- flitos entre Orgdos de representacdo, do entrechocar de ideologias € a ©Posigéo entre diferentes classes, de cuja luta resultam as grandes _ Wansformagdes sociais e econdmicas, que constituem a propria histo- Ma do pais. ; oo E importante notar que, apesar de sua importancia, as awh ie ais aparecem como tais em cena. Cada classe compreende todo u ‘ 17 : : rime mediante numerosos “‘érgaos de resenga eejes empresariais, eee 7 is " ue da a certo numero destes ér- pete ane asc AAS de se referirem ao mesmo con- Bae ae laste propriamente dita - em termos da visio de mun- dun dos interesses que defendem. A classe, enquanto tal, pee ea sa extrutura sécio-econdmica, ou melhor, como par- is * : ai a nlacto economicamente ativa (PEA). Numa sociedade de isan como é do Brasil (e dos demais paises capitalistas), ree os que participam ativamente da vida econdémica pertencem a alguma en proposigdo define o proprio conceito de classe: esta é consti- tuida por todos aqueles que integram de modo idéntico a teia de rela- Ges sociais de produgao. Sendo a produgdo uma atividade eminente- mente social, todos que dela participam tém que se relacionar com os demais e portanto pertencem necessariamente a alguma classe. Assim, no modo de produgdo capitalista, os meios de produgdo sfo proprie- dade privada de uma minoria que, gragas a este privilégio, monopoli- za o mando da vida econémica e a apropriagdo do excedente de pro- dugdo. Os que dispdem da propriedade dos meios de produgao for- mam, portanto, uma classe: a burguesia. Os demais, que no partici- pam da propriedade dos meios de produgdo, séo obrigados, para sobreviver, a vender aos primeiros a unica propriedade de que dispdem: a sua capacidade (fisica ¢ psiquica) de produzir. Constituem, portanto, a outra classe: a dos trabalhadores assalariados ou proletariado. Estas seriam as duas tnicas classes existentes, se todos os meios de produgdo fossem propriedade de n4o-produtores, ou seja, de pessoas que, no processo produtivo, desempenham unicamente as funcées de adquirir capacidade de trabalho alheia e de comandar a sua utilizagdo produtiva. Mas este ndo é 0 caso, nem no Brasil, nem nos demais pai- ses capitalistas. Sempre existe, ao lado dos meios de produgao apro- priados por ndo-produtores e que constituem o capital, um certo volu- me de meios de producdo apropriados por Produtores diretos, que os utilizam isoladamente ou com o auxilio de membros nao-remunerados da familia (no fundo, co-proprietarios) ou até, eventualmente, de assa- lariados. Estes produtores diretos nao-assalariados, Pproprietarios dos seus panics de produgdo, constituem, juntamente com os parentes que com eles trabalham, uma outra classe social: a Pequena burguesia. setor social, cuja Pp classe”: sindicatos, ros tém em comum com a burguesia 0 fato de nao de- do mercado de trabalho, de ndo Precisarem que alguém lhes pene emprego para poderem sobreviver. O pequeno burgués é auté- dé um © dono do produto do seu trabalho, que vende, em concorrén- nomo, © vi eos pequenos (e, algumas vezes, grandes) produtores. Seu a seu malogro lhe aparece como resultado de sua prépria inicia- Lares ele tem em comum com o proletariado o fato de trabalhar, ve participar diretamente da produgado. Mesmo quando conta com au- Cae assalariados ou nao, © pequeno burgués nao so produz, mas realiza, muitas vezes, a principal parte da produgio. Sao exemplos ° camponés, ajudado pela mulher filhos €, por ocasido da colheita, por diaristas; 0 médico, assistido Por tecnicos, enfermeiras, atendentes; o artesio, auxiliado por aprendizes e assim por diante. Na verdade, a pequena burguesia ndo participa diretamente do modo de produgdo capitalista, embora se ache articulada a ele. Ela constitui um modo de produgao a parte: a produgdo simples de merca- dorias, também chamada pequena producio de mercadorias, por se realizar necessariamente em escala reduzida, em geral com métodos pré-industriais. A pequena burguesia, estando fora do modo capitalis- ta de produgdo, nao deixa de fazer parte da estrutura social capitalista, ou seja, da estrutura de classes de uma formagdo social dominada pelo capital. Isso nao é estranho se se considera que a formagao social é ge- ralmente constituida pela articulagéo de varios modos de producao, dos quais um é 0 dominante. No caso da formagao social brasileira, 0 modo de produgdo dominante ¢ 0 capitalista. £ o movimento do capi- tal - dado pela sua acumulacdo - que confere a formagao social como um todo a maior parte de sua dindmica. Como se vera adiante, uma grande parte dos que constituem a produgdo simples de mercadorias é formada por camponeses. Classi- camente, a sua contrapartida é uma outra classe, também “externa” 40 modo capitalista de produgdo: a classe dos proprietarios de terra. Esta classe monopoliza 0 acesso ao solo agriculturavel e, de modo ge- ral, ao espaco (inclusive urbano) € este monopdlio lhe permite partici- par do produto, ao usufruir a renda da terra. Historicamente, esta classe é uma reliquia de um modo de produgdo - a servidao = que o avango do capitalismo j4 eliminou, em grande medida, no Brasil. A Propriedade privada do solo tornou-se capitalista e os que dela parti Pam ndo constituem uma classe especifica, mas integram as outras classes, na medida em que fazem parte da PEA. Ha, naturalmente, a certo nimero de pessoas que vivem exclusivamente da renda da terra, seja agricola ou urbana. Estas pessoas podem ser classificadas, junta- 19