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Tempo de muito pasto e pouco rastro

Book · November 2018

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2 authors, including:

Alexandre Tomporoski
Universidade do Contestado
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ECOS DO CONTESTADO?: A ESTATIZAÇÃO DA LUMBER AND COLONIZATION COMPANY, O ADVENTO DO CAMPO DE INSTRUÇÃO MARECHAL HERMES E AS IMPLICAÇÕES
DESSES EVENTOS PARA O DESENVOLVIMENTO ? DESDE 1911 ATÉ OS DIAS ATUAIS ? DA REGIÃO DO PLANALTO NORTE DE SC. View project

Terra Contestada: as disputas fundiárias nos vales dos rios Negro e Iguaçu e sua influência sobre a deflagração do movimento sertanejo do Contestado, 1889-1912 View
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TEMPOS DE MUITO PASTO
E POUCO RASTRO
Comitê Científico

Ary Baddini Tavares


Andrés Falcone
Alessandro Octaviani
Daniel Arruda Nascimento
Eduardo Saad-Diniz
Isabel Lousada
Jorge Miranda de Almeida
Marcia Tiburi
Marcelo Martins Bueno
Miguel Polaino-Orts
Maurício Cardoso
Maria J. Binetti
Michelle Vasconcelos de Oliveira Nascimento
Paulo Roberto Monteiro Araújo
Patricio Sabadini
Rodrigo Santos de Oliveira
Sandra Caponi
Sandro Luiz Bazzanella
Tiago Almeida
Saly Wellausen
Alexandre Assis Tomporoski
Márcia Janete Espig
(organizadores)

TEMPOS DE MUITO PASTO


E POUCO RASTRO

1ª edição

LiberArs
São Paulo – 2018
Tempos de muito pasto e pouco rastro

© 2018, Editora LiberArs Ltda.

Direitos de edição reservados à


Editora LiberArs Ltda

ISBN 978-85-9459-071-8

Editores
Fransmar Costa Lima
Lauro Fabiano de Souza Carvalho

Revisão técnica
Cesar Lima
Gabriel Kunrath

Editoração e diagramação
Editora LiberArs
Nathalie Chiari
Bárbara Denise Xavier da Costa

Capa
Eloi Giovane Muchalovski

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

PROCESSO ISBN

Bibliotecária responsável: Neuza Marcelino da Silva – CRB 8/8722

Todos os direitos reservados. A reprodução, ainda que parcial, por qualquer meio,
das páginas que compõem este livro, para uso não individual, mesmo para fins didáticos,
sem autorização escrita do editor, é ilícita e constitui uma contrafação danosa à cultura.
Foi feito o depósito legal.

Editora LiberArs Ltda


www.liberars.com.br
contato@liberars.com.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
Escrevendo (e vivendo) a história
em tempos de muito pasto e pouco rastro .......................................... 7

O Contestado encenado por Hassis ou a arte de


antecipar o que a história não iluminou
Rogério Rosa Rodrigues .................................................................................... 17

O Contestado nos museus do Paraná e Santa Catarina:


um balanço de pesquisa
Luiz Carlos da Silva .............................................................................................. 31

A Fronteira Sul e os Índios do Planalto Meridional.


A Junta da Real Expedição de Conquista dos
Campos de Guarapuava (1810-1821)
Almir Antonio de Souza ..................................................................................... 42

Invisibilidades indígenas e o Contestado:


ilações exploratórias e preliminares orientadas
à estudos e pesquisas em Antropologia Histórica
Flavio Braune Wiik .............................................................................................. 61

Observações sobre as aproximações entre política


e latifúndio no Planalto
Janaina Neves Maciel .......................................................................................... 83

Aprendendo na nova terra:


imigrantes e nacionais no trabalho agrícola, séc. XIX
Paulo Pinheiro Machado ................................................................................... 95

Caboclos e imigrantes na “Guerra do Pinheirinho”:


reflexões sobre um conflito local
Alexandre Karsburg ............................................................................................ 105
São João Maria e a Santa Cruz do Faxinal
Braço Potinga (Rio Azul, PR)
Ancelmo Schörner
Ivan Gapinski ..........................................................................................................120

Os Mapas de Devoção a São João Maria: um estudo


sobre Lugares de Memória e fé popular
nos estados do Sul do Brasil
Márcia Janete Espig
Gabriel Kunrath .....................................................................................................135

Fronteira Santa Catarina/Paraná:


uma análise sobre a “Questão de Limites”, 1853 a 1889
Francimar Ilha da Silva Petroli........................................................................155

O Contestado do Contestado: os conflitos do


Timbó e Paciência na historiografia
Eloi Giovane Muchalovski .................................................................................179

A questão de limites entre o Paraná e Santa Catarina


e a imprensa humorística paranaense
Ana Crhistina Vanali ............................................................................................200

O Combate do Irani nas páginas dos jornais:


olhares da imprensa
Delmir José Valentini
Gerson Witte ...........................................................................................................235

Vaqueanos ou mercenários? Saques, espoliação


e morte de imigrantes no movimento social do Contestado
Viviani Poyer ...........................................................................................................247

Campus de Curitibanos da UFSC:


uma Universidade Federal no Contestado
Emanoela Carolina Vogel ...................................................................................272

A perspectiva didática do ensino de história: o Contestado


Everton Carlos Crema .........................................................................................289
APRESENTAÇÃO

ESCREVENDO (E VIVENDO)
A HISTÓRIA EM TEMPOS DE MUITO PASTO
E POUCO RASTRO

No ano de 2012, inúmeros eventos acadêmicos e atividades lembra-


ram o centenário do início do Movimento do Contestado (1912-1916). Promo-
vido pelo Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado (GIMC),
grupo de pesquisa certificado pelo CNPq e composto por pesquisadores per-
tencentes a inúmeras instituições, ocorreu o I Simpósio Nacional do Centenário
do Movimento do Contestado, evento que contou com três sessões, realizadas
em três Universidades, a saber, a Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), Florianópolis, entre 29 de maio e 1.º de junho de 2012; a Universidade
Federal de Pelotas (UFPel), em Pelotas, no RS, nos dias 29, 30 e 31 de agosto; e
a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), em Chapecó, SC, entre 18 e 22
de outubro daquele ano. Coroados de sucesso, esses encontros plantaram se-
mentes, ao difundir os conhecimentos acadêmicos de ponta entre a população,
realizando muitas reflexões de caráter social e estimulando significativamente
a produção de novos conhecimentos dentro da temática central e assuntos
correlatos. Cabe mencionar que essa ampliação dos debates ensejou ainda um
aumento da presença de pesquisadores de áreas de conhecimento afins, além
da história, tais como a antropologia, a sociologia e mesmo a geografia, que
passaram a dedicar olhares múltiplos e diferenciados ao tema.
Desde então, o interesse pela Guerra do Contestado levou a um singu-
lar aumento no número de pesquisas e pesquisadores envolvidos. Esse fato
ensejou a realização de outros eventos similares em anos posteriores, sempre
sob a chancela do GIMC, seus pesquisadores e respectivas instituições.
O II Simpósio Nacional sobre o movimento do Contestado: Fronteiras,
Colonização, Conflitos e Meio-Ambiente (1912-2014), foi realizado entre os dias
10 e 12 de abril de 2014, na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), nos
campi de Chapecó/SC e Erechim/RS, sob a coordenação geral do Professor

7
Delmir José Valentini. A segunda edição do evento reuniu grande número de
estudiosos dedicados ao Contestado e consolidou a ampliação do recorte cro-
nológico, a expansão do recorte espacial e a diversificação das áreas do conhe-
cimento interessadas na temática, elementos sintomáticos do processo de
nacionalização do tema. Os trabalhos apresentados incluíram reflexões sobre
questões fronteiriças e territoriais; ocupação, povoamento e colonização; o uso
de fontes para os estudos sobre o Contestado (a imprensa, o cinema e a litera-
tura) e os esforços da arqueologia na produção de conhecimento sobre o tema.
Importantes debates acerca do messianismo, da religiosidade e das populações
indígenas no Contestado também compuseram o conjunto de reflexões presen-
tes naquele evento. No dia 12 de abril, data do encerramento do simpósio, os
participantes deslocaram-se até Irani, SC, onde foi realizada visita ao local da
batalha do Irani e também acolhimento por parte de Vicente Telles. 1
A terceira edição do Simpósio Nacional do Centenário do Contestado
foi realizado na Universidade Estadual do Paraná (Fafi/UNESPAR), em União
da Vitória, entre os dias 04 e 06 de novembro de 2015, sob a coordenação geral
do Professor Everton Carlos Crema. O evento de União da Vitória incluiu em
sua programação trabalhos relacionados com questões centrais do movimento
e da região do Contestado, incluindo a religiosidade, os monges, disputas polí-
ticas e fronteiriças. Alguns trabalhos apresentaram novidades em relação ao
debate sobre o tema, principalmente a discussão sobre patrimônio cultural,
museologia e, também, sobre o ensino do Contestado. Este último tópico pas-
sou a compor e continua mobilizando os esforços dos pesquisadores, expres-
sando a preocupação do grupo com a inserção dessa temática no debate
escolar e da sociedade em geral. O evento também marcou o processo de inte-
riorização do Simpósio, que passou a ser realizado em cidades e instituições
geograficamente afastadas dos grandes centros e que foram cenários dos even-
tos ligados ao movimento do Contestado.
Essa tendência foi corroborada na edição de 2017, quando foi realiza-
do o IV Simpósio Nacional do Movimento do Contestado: Tempos de muito pasto
e pouco rastro, entre os dias 10 e 13 de maio no campus Canoinhas da Univer-
sidade do Contestado (UnC). Promovido pelo GIMC e pelo Programa de Pós-
Graduação em Desenvolvimento Regional daquela instituição, o encontro teve
o apoio da FAPESC - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Cata-

1
Vicente Telles faleceu em 28 de dezembro de 2017. Músico, pesquisador e folclorista, sua contribuição
para o estudo e a divulgação do Contestado, e para a formação de cidadãos conscientes das injustiças
praticadas contra o povo pobre da região, foi imensurável. Telles ensinou muito sobre o Contestado,
mas, também, sobre o Brasil, terra de desigualdades e injustiças, onde os ricos e poderosos reagem de
forma violenta a qualquer tentativa de libertação dos pobres de seus grilhões seculares. Em uma de suas
muitas frases impactantes, Vicente Telles expôs claramente a presença decisiva da luta de classe no
Contestado: “Rico quando reza é devoto, pobre quando reza é fanático”. Nosso amigo caboclo fará muita
falta. Grupo de Investigação sobre o Movimento do Contestado - CNPQ.

8
rina, e a coordenação geral do professor Alexandre Assis Tomporoski. A quarta
edição do Simpósio do Contestado representou um momento de superação do
período da efeméride do Contestado e a consolidação do evento para além do
centenário, mantendo-se como encontro regular, de âmbito nacional, daqueles
que mantém interesses de pesquisa sobre a temática. Estimulando a participa-
ção de pesquisadores, profissionais, professores e estudantes, de graduação e
pós-graduação, o evento convidava à apresentação de resultados de pesquisas
sobre o movimento do Contestado, bem como sobre o povoamento, a coloniza-
ção, a economia, a cultura e os conflitos antes e depois da guerra sertaneja.
Interessaram ainda trabalhos que abrangeram conflitos e impasses com o
cumprimento do Acordo de Limites, além de outras alterações políticas e soci-
ais do planalto e meio-oeste catarinenses e do planalto meridional como um
todo. Reflexões sobre ensino acerca desses temas também foram estimuladas,
tanto no formato de comunicações quanto nos debates promovidos.
Realizado com grande êxito, o evento contou com treze mesas redon-
das, quarenta e cinco apresentadores de trabalhos e um significativo público,
composto por estudantes, pesquisadores, professores e comunidade em geral,
reunindo aproximadamente quinhentas pessoas ao longo dos quatro dias do
Simpósio.
A presente publicação vem apresentar e difundir trabalhos de pesqui-
sa desenvolvidos por autores que participaram do IV Simpósio. Separado em
seções temáticas, os artigos contemplam uma ampla variedade de temas e
abordagens, tendo como fio condutor o estudo de temas ligados ao Movimento
do Contestado em uma perspectiva ampla, tal como destacado acima.
Uma das problemáticas sempre presentes em debates e discussões
acerca do Movimento do Contestado é sua contemporaneidade. Os especialis-
tas no tema consideram que muitas questões absolutamente atuais da socie-
dade brasileira guardam fortes relações de sentido com os acontecimentos de
então. Não apenas através das graves consequências econômicas, políticas e
sociais que advieram do conflito, mas também através de uma série de elemen-
tos culturais, tais como manifestações artísticas ou através da memória pre-
servada sobre o conflito. Ainda hoje, o Contestado vive. A primeira seção
temática de nossa obra, intitulada Olhares Contemporâneos sobre o Conflito do
Contestado, busca trazer a reflexão sobre tais aspectos, através dos trabalhos
de dois especialistas.
Em O Contestado encenado por Hassis ou a arte de antecipar o que a
história não iluminou, Rogério Rosa Rodrigues nos brinda com um delicado
olhar sobre a obra do artista plástico Hassis. Durante a década de 1980, Hassis
realizou uma série de desenhos sobre a Guerra do Contestado, trabalho esse
que envolveu pesquisa e reflexão sobre o conflito e sobre seus personagens.
Com sensibilidade, o autor de nosso artigo soube captar sutilezas da produção

9
do artista, sobretudo o destaque dado às crianças e sua representação através
dos desenhos.
O artigo de Luiz Carlos da Silva, intitulado O Contestado nos Museus do
Paraná e Santa Catarina: um balanço de pesquisa, traça um estudo que percor-
re as áreas da história, museologia e patrimônio cultural. Ao investigar onze
instituições museológicas dos estados do Paraná e Santa Catarina, o autor ana-
lisa as exposições de curta e longa duração que apresentam ao público uma
memória histórica sobre o Contestado. Privilegiando imagens e objetos que
destacam o front da Guerra, tais exposições, em sua larga maioria, deixam de
abordar as responsabilidades das lideranças políticas desses dois estados du-
rante o período da Guerra.
A seção nominada Caboclos, imigrantes e indígenas no território do
Contestado é aberta pelo texto de Almir Antonio de Souza, intitulado A Frontei-
ra Sul e os Índios do Planalto Meridional. A Junta da Real Expedição de Conquista
dos Campos de Guarapuava (1810-1821). O autor analisa a invasão das terras
do Planalto Meridional Brasileiro pelas tropas imperiais luso-brasileiras, com
foco no recorte 1820/1821. Por meio da análise de vasta e inédita documenta-
ção, Almir descortina o processo de invasão e ocupação dos Campos de Guara-
puava, seu impacto sobre a população Kaingang ali presente, até a instalação e
fundação do povoado que mais tarde se constituiria no município de Guarapu-
ava, PR, identificando esse processo como parte da expansão luso-brasileira no
Planalto Meridional e que se estenderia por todo o século XIX.
O segundo texto desta seção é de autoria de Flávio Braune Wiik e está
intitulado Invisibilidades indígenas e o Contestado: ilações exploratórias e preli-
minares orientadas à estudos e pesquisas em Antropologia Histórica. O Professor
Flávio, antropólogo que há anos tem se dedicado a estudar, entender e explicar
o Contestado, com destaque para a trajetória das populações indígenas daque-
le território e, em especial, naquele contexto, apresenta um ensaio que é parte
de um esforço maior de busca pela desconstrução da invisibilidade dos indíge-
nas do e no Contestado. Analisando o referido processo de invisibilização e
buscando a construção de uma articulação teórica-metodológica entre História
e Antropologia, propõe a criação de uma agenda sobre futuros estudos e pes-
quisas em Antropologia Histórica voltados à complexa relação existente entre
o Movimento do Contestado e os coletivos indígenas, seja ela referente ao pas-
sado ou ao presente.
O terceiro artigo desta seção, intitulado Observações sobre as aproxi-
mações entre política e latifúndio no Planalto, de autoria de Janaína Neves Ma-
ciel, promove uma reflexão acerca da relação entre os latifundiários do
planalto serrano catarinense e o cenário político da Primeira República em
Santa Catarina. A autora analisa a relação entre a possessão de terras como
elemento decisivo para a detenção do poder político naquele recorte, contribu-

10
indo para a compreensão do entendimento do cenário local e dos usos sociais e
políticos da terra.
Esta seção é finalizada pelo artigo do Professor Paulo Pinheiro Macha-
do, intitulado Aprendendo na nova terra: imigrantes e nacionais no trabalho
agrícola, séc. XIX. Paulo Pinheiro demonstra, a partir da análise de um texto do
engenheiro Louis Leonce Aubé, dirigido a colonos europeus, quais os conselhos
destinados aos colonos, orientando-os a como se instalar, arrotear, cultivar,
colher e beneficiar produtos agrícolas para a futura comercialização, sugerindo
a adoção de processos tradicionais praticados por indígenas e caboclos no
Brasil. O texto analisa as condições de sobrevivência dos europeus nas matas
tropicais do litoral brasileiro e apresenta um importante diagnóstico indireto
das dificuldades e da vida do campesinato europeu durante o século XIX.
A seção temática intitulada Aspectos da Tradição de São João Maria
evoca a tradição de estudos ligada ao Santo Monge e conectada à formação
cultural e histórica da macrorregião do Contestado. Por sua importância religi-
osa e cultural, João Maria, ou São João Maria, tornou-se legenda de grande sig-
nificância. Em nossa publicação, esse assunto é tratado através de três artigos
de diferentes especialistas.
No primeiro deles, intitulado Caboclos e imigrantes na “Guerra do Pi-
nheirinho”: reflexões sobre um conflito local, o autor Alexandre Karsburg analisa
um conflito pouco estudado pela historiografia e conhecido como Monges do
Pinheirinho, tendo como foco as difíceis relações estabelecidas entre esses
praticantes da religiosidade popular e os imigrantes italianos e alemães do
Vale do Taquari, no final do século XIX e início do XX. Como pano de fundo,
aborda a profunda diferença cultural entre os grupos e a disputa por terras na
região de Encantado e Guaporé (RS) em um episódio que se encerrou de forma
trágica após dois confrontos, ocorrendo a dispersão dos caboclos e a morte de
uma expressiva parcela de seu grupo.
A devoção atual ao Monge João Maria é objeto dos autores Ancelmo
Schörner e Ivan Gapinski, ao tratarem de São João Maria e a Santa Cruz do Fa-
xinal Braço Potinga (Rio Azul, PR). Estudando saberes religiosos dos moradores
dos faxinais paranaenses e recorrendo a inúmeras entrevistas, os autores de-
mostram não apenas a permanência de uma fé ancestral no Monge, quanto a
sua materialização em locais santos, sobretudo através da Santa Cruz de São
João Maria, objeto de valor simbólico inestimável para aquela comunidade.
Essa cruz possui a peculiaridade de ser guardada na capela local e envolta em
panos. Assim coberta e colocada em um espaço de pouco destaque, a Santa
Cruz não ofenderia aos representantes do catolicismo oficial e àqueles que não
acreditam no Santo Monge.
Aspectos da atualidade da religiosidade popular também são perse-
guidos através do texto Os Mapas de Devoção a São João Maria: um estudo sobre

11
Lugares de Memória e fé popular nos estados do Sul do Brasil. Resultado de um
projeto de pesquisa realizado na Universidade Federal de Pelotas, o trabalho
reúne os autores Gabriel Kunrath e Márcia Janete Espig no objetivo de constru-
ir Mapas de Devoção acerca da persistência da fé no Santo Monge nos três es-
tados do Sul do Brasil. Realizando incursões em materiais on line e
bibliografias, os autores ressaltam a existência de um sem número de lugares
de memória – tais como ermidas, olhos d’água, capelas, monumentos, grutas,
dentre muitos outros - nos quais as lembranças sobre o mítico João Maria mos-
tram-se de grande relevância para as comunidades locais, muitas vezes resul-
tando em espaços turísticos ou apropriados pelo poder público. Os Mapas de
Devoção produzidos pela pesquisa e aqui apresentados são inéditos, e preten-
dem contribuir para as pesquisas e reflexões acerca desse importante tema.
A questão de limites entre Paraná e Santa Catarina representou um
processo histórico complexo. Incialmente a disputa territorial deu-se entre
Argentina e Brasil, em torno de terras localizadas onde hoje temos o extremo
oeste catarinense. Tal contenda foi dirimida em 1896, com a mediação do pre-
sidente americano Grover Cleveland. Concomitantemente e agravando-se após
1853, com o desmembramento da província do Paraná da província de São
Paulo, a disputa entre Santa Catarina e Paraná possuiu contornos bastante
tensos, alcançando momentos acalorados e muito carregados politicamente.
Arrastando-se por décadas, visto que o Acordo de Limites foi assinado apenas
em 1916, essa questão foi identificada à época com a Guerra do Contestado,
com a qual supunha-se guardar relações de sentido. A quarta seção de nosso
livro tem por título Estudos sobre a Questão de Limites entre Paraná e Santa
Catarina e agrega trabalhos acerca dessa importante problemática.
O artigo de Francimar Ilha da Silva Petroli, intitulado Fronteira Santa
Catarina/Paraná: uma análise sobre a “Questão de Limites”, 1853 a 1889, realiza
uma pertinente investigação histórica, baseada em ampla documentação ofici-
al, sobre os primórdios da disputa entre Paraná e Santa Catarina. Com perti-
nência, o autor insere essa temática no contexto de estruturação
política/econômica provincial e de construção da unidade nacional no Brasil
oitocentista, verificando a relação entre o centro e as partes, ou seja, entre o
governo federal e as províncias do sul do Brasil.
Aproximando-se da temática através de um recorte diferenciado e de
um período histórico subsequente, Eloi Giovane Muchalovski nos apresenta,
em O Contestado do Contestado: os conflitos do Timbó e Paciência na historio-
grafia, uma competente discussão historiográfica acerca dos conflitos ocorri-
dos nos vales dos Rios Paciência e Timbó entre os anos de 1900 e 1908.
Demonstrando a insuficiência dos estudos prévios com relação a esse proble-
ma de pesquisa e localizando uma lacuna investigativa, o autor aponta para o

12
uso de fontes periódicas como alternativa para a produção de conhecimento
sobre o assunto.
Já o texto de Ana Christina Vanali, A questão de limites entre o Paraná e
Santa Catarina e a imprensa humorística paranaense, nos apresenta a criação
humorística e política realizada em torno da Questão de Limites vista através
de charges publicadas em periódicos. Analisando sobretudo (mas não exclusi-
vamente) periódicos do estado do Paraná, a autora mapeia um clima de época
em que a disputa entre as elites paranaense e catarinense é o grande pano de
fundo. Ao tratar de maneira jocosa as decisões do Superior Tribunal Federal,
que arbitravam em favor dos interesses de Santa Catarina, os periódicos para-
naenses contribuíam para o acalourado debate que tomou conta da opinião
pública na época, aspecto que a autora aborda com leveza e elegância.
A Guerra do Contestado foi marcada por uma série de episódios bru-
tais e violentos, aspecto que recebe atenção de dois artigos na seção Ataques,
embates e conflitos no Contestado. Sendo impossível dar conta de todos os mo-
mentos marcados por conflitos, os autores vêm iluminar dois episódios especí-
ficos e extremamente relevantes.
O combate do Irani, narrado através de periódicos da época, nos é
apresentado através do texto O Combate do Irani nas páginas dos jornais: olha-
res da imprensa, dos pesquisadores Delmir José Valentini e Gerson Witte. Re-
correndo a amplo arsenal de periódicos de vários estados do país, os autores
descortinam alguns dos acontecimentos referentes a esse importantíssimo
episódio, que marcou o início da Guerra do Contestado, em 22 de outubro de
1912.
Já o artigo de Viviani Poyer, Vaqueanos ou mercenários? Saques, espoli-
ação e morte de imigrantes no movimento social do Contestado, baseado em
extensa documentação, discute a presença de vaqueanos mercenários durante
aquele conflito. Utilizados como material humano pelas forças militares, sua
atuação foi cercada de controvérsias, pois além de ligados aos coronéis da
região, sabidamente os grupos de vaqueanos imprimiam práticas como roubos,
saques e espoliações, dentre inúmeros outros atos de violência. A autora de-
monstra a participação do grupo de vaqueanos ligados ao Coronel Fabricio
Vieira, os fabricianos, que perpetraram o massacre do Iguaçu, episódio em que
ocorreu a chacina de 17 homens às margens do Rio Iguaçu e que até os dias
atuais permanece na memória local.
Na seção Ensino e educação no e do Contestado, o texto intitulado Cam-
pus de Curitibanos da UFSC: uma Universidade Federal no Contestado, da autora
Emanoela Vogel, apresenta uma importante análise do processo de instalação
do campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) no município de
Curitibanos, no planalto catarinense. A autora demonstra que a criação do
campus, no ano de 2009, apesar de consistir em uma importante contribuição

13
para o processo de inclusão da região do Contestado, foi alvo da influência de
interesses políticos e econômicos regionais, os quais perceberam a universida-
de como um instrumento para alavancar a suposta “vocação regional”, resul-
tando na instalação de cursos que atendem à demanda por qualificação para os
setores produtivos sob controle dos mesmos grupos há gerações, resultando
na continuidade e/ou ampliação de seu poder.
O outro texto da referida seção é de autoria do professor Everton Car-
los Crema e está intitulado A perspectiva didática do ensino de história: o Con-
testado. Crema, partindo de uma proposta teórica com origem nos escritos de
Jörn Rüsen, discute a relação entre a didática da história, a produção historio-
gráfica e o livro didático, tendo o Movimento do Contestado como objeto prin-
cipal. Consequentemente, o autor reflete uma perspectiva mais ampla,
complexa e eficaz sobre o ensino da história, sua significância e seu alcance,
tema candente quando se tem em conta o silenciamento (não apenas) institu-
cional imposto ao Contestado e que teve reflexos diretos no ensino escolar do
tema e, por consequência, na compreensão do movimento pela sociedade bra-
sileira.
Os dezesseis textos reunidos nesta obra resultam de grandes esforços
de pesquisa realizados ao longo dos últimos anos e representam a consolida-
ção do trabalho de um grupo de pesquisadores profundamente comprometido
com a produção do conhecimento e sua dimensão social. No entanto, os mo-
mentos vividos durante o IV Simpósio, em Canoinhas, não foram apenas de
regozijo com o sucesso do evento e pelo reencontro de colegas e amigos. Prati-
camente todos apresentavam certa angústia e, ao mesmo tempo, indignação
em seus olhares e em suas falas. Expressavam o espírito desses dias em que o
avanço do arbítrio e do obscurantismo é flagrante. A própria escolha do nome
do IV Simpósio e desta obra expressa a inconformidade com a precipitação dos
eventos que arrastaram a sociedade brasileira a uma ruptura institucional e,
por consequência, a uma crise sem precedentes, processo marcado pelo ataque
aos direitos dos setores mais fragilizados da sociedade e pela revivificação do
fascismo.
A frase Tempos de muito pasto e pouco rastro, que teria sido proferida
pelo Santo Monge quando passou por Canoinhas, profetizava a destruição da
vila, indicando que o mato cresceria sobre os locais por onde os moradores
daquela localidade transitavam. Sua escolha como nomenclatura do evento e
dessa obra indica a inconformidade e a preocupação com os retrocessos e com
as ameaças aos direitos e à democracia. Contudo, a esperança no restabeleci-
mento da normalidade democrática acalenta os corações, apesar de nossas
chagas permanecerem abertas, e ressignificamos a profecia: o mato não cresce
mais sobre a soberania popular e a esperança em uma sociedade justa e iguali-
tária. O mato - a infâmia - crescerá sobre os rastros e sobre os nomes daqueles

14
que compactuaram com o processo do qual temos sido alvo. A depender dos
historiadores, terão seus nomes recorrentemente lembrados, para que a infâ-
mia que cometeram não seja esquecida.
Convidamos o leitor a perscrutar os textos reunidos nesta obra, os
quais apresentam uma importante contribuição para a compreensão do pro-
cesso histórico que marcou profundamente a sociedade brasileira e cujas per-
manências podem ser cotidianamente reconhecidas, não apenas na região do
Contestado. Permaneçamos atentos, pois, como Benjamin nos alertou, nosso
inimigo, infelizmente, não cessa de vencer. O trabalho dos pesquisadores aqui
reunidos fomentará novas reflexões a partir de um olhar crítico, não somente
sobre o tempo do Contestado, mas, também, sobre nossa própria época e suas
particularidades. Desejamos que o leitor desfrute dessa prazerosa e enrique-
cedora experiência, que as caboclas e caboclos do Contestado iluminem a nossa
trajetória e que São João Maria nos abençoe.

Boa leitura!
Os organizadores

15
O CONTESTADO ENCENADO POR HASSIS OU A
ARTE DE ANTECIPAR O QUE A HISTÓRIA NÃO
ILUMINOU

ROGÉRIO ROSA RODRIGUES1

O elemento místico religioso elaborado pelos fiéis de São José e São


João Maria é um dos aspectos mais complexos do movimento. Trata-se de
ponto fundamental para a reunião de homens e mulheres de diversas gerações
e condições sociais no movimento rebelde que conhecemos como Contestado.
Esse elemento ficou cristalizado na cultura popular e foi recuperado, décadas
depois, pelo folclorista Euclides Felippe.

1-Tamo aqui no Quadro Santo 6- Alegria Virá na terra


Esperando Zé Maria Ao chega José Maria,
Nóis sabemo que ele disse Os arroio vira leite,
Que aqui ressurgiria. De cus-cuiz nossas coxíia.
2- Sempre foi muito querido 7- Ninguém mais fica doente
Nosso bão José Maria Ao vortá José Maria,
Com certeza há de vortá Casa e mesa a todo mundo
Lá por mais ou menos dia. Bóia quente e água fria.
3- De repente lá vêm eles 8- Não percisa mais dinheiro
Tao aí com João Maria Chega a fé em Zé Maria,
Trazê orde nesta terra Temo forga à vontade
Bem conforme prometia. Pra criá nossas família.
4- Arrumemo o Quadro Santo 9- Se alegremo minha gente

1
Doutor em História Social pela UFRJ. Pós-Doutor pela Universidade Livre de Berlin. Professor
Adjunto do Departamento de História da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) vinculado
ao Programa de Pós-Graduação em História e ao Mestrado Profissional de Ensino de História da mesma
Universidade. E-mail: rogerclio@gmail.com.

17
Pra esperá José Maria, Esperando Zé Maria
Há de vir sem mais demora, Viveremo em Paraíso
Isso é o que nois queria. Como nunca se vivia.
5- Meio mundo que tá aqui 10- Temo fé no santo monge
Já enxergô José Maria “[João Maria]”
À cavalo entre as nuve E também em Zé Maria,
Lá de riba ele sorria. Mais São Jorge e São Migué,
São Bastião que nóis confia.
FELIPPE, 1995, p. 128 (grifos meus).

A quadra recolhida da tradição popular por Euclides Felippe nos fala


sobre o poder da crença nos monges e santos. Ela está fundamentada na
esperança de que eles retornariam ao mundo vivenciado pelos caboclos,
restaurando a ordem, a bonança, a saúde e a harmonia.
A tradição de fé compartilhada por diversos grupos sociais impõe um
imenso desafio aos pesquisadores que trabalham com movimentos sociais de
tradição messiânica e milenarista, tal como o Contestado. Educados por uma
racionalidade que geralmente descarta a importância da religiosidade como
potencial político, e até revolucionário, alguns intelectuais vêem nessas
tradições um elemento exótico que pode ser contextualizado, mas raramente
servir de fermento ativo de luta. Outros a interpretam como fanatismo e
alienação.
Acredito que a arte tende a escapar dessas armadilhas. Isso se dá não
por um caráter de genialidade do artista, mas pelo exercício constante de
empatia com o objeto representado, assim como pela forma diferenciada em
que sua narrativa é construída. O relato do historiador exige enquadramento
espacial e cronológico, soma-se se isso a necessidade de fundamentar seu
trabalho em vestígios do passado, geralmente em documentos de arquivo.
O artista, por sua vez, não precisa seguir essas regras. Sua narrativa
pode saltar os tempos, romper barreiras espaciais, abusar do anacronismo. Sua
pesquisa documental não tem o caráter da prova geralmente reivindicada pelo
historiador. Ela é feita para conectar-se aos sujeitos e valores de determinado
tempo, para amadurecer suas ideias, para refinar sua intuição. Nem sempre o
artista consegue escapar dos preconceitos do seu tempo, mas o exercício
constante de aproximação com o objeto se diferencia da postura distante e,
supostamente imparcial, almejada por uma certa tradição de pesquisa
histórica, e isso também contribui para diferenciar o trabalho do artista
daquele desempenhado pelo historiador.
A capacidade de olhar pelas frestas, a ousadia de fazer desvios e
atentar para os detalhes pode, em alguns casos, fazer com que o artista que
trabalha com temas históricos antecipe alguns objetos pouco explorados pelo

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historiador. É nessa vertente que chamaria a atenção para a série de desenhos
sobre a Guerra do Contestado produzidos por Hassis em 1984.

Hiedy de Assis Correa, conhecido como Hassis, tem nome destacado na


construção da memória sobre o Contestado. O painel que construiu em 1985
figura como uma das imagens mais icônicas da representação artística sobre
esse conflito. Ele é um dos maiores monumentos, pelo tamanho e pela forma de
representação, já construídos sobre o movimento rebelde que assolou o
planalto catarinense entre 1912-1916.
Um ano antes da construção do painel Hassis havia composto uma
série de 78 desenhos com o mesmo tema. Conforme relatou o pesquisador
Fernando Boppré (2008), o projeto do artista era montar um livro didático.
Uma empreitada ousada, visto que se propunha a dar conta de todas as
questões que envolveram o Contestado resolvendo-as quase que
exclusivamente pelos traços do desenho: conflito de terras, messianismo,
coronelismo, exploração da madeira. Complexo também pela diversidade de
personagens envolvidos, em especial as lideranças infantis, a presença de
Maria Rosa, de Chiquinho Alonço e do último líder Rebelde, Adeodato Ramos
(MACHADO, 2004).
Além da complexidade desse acontecimento havia o desafio de montar
uma narrativa desprovida de textos longos e explicativos e que fugisse dos
discursos oficiais, em especial uma história centrada em grandes
personalidades políticas. Tudo, ou quase tudo, deveria ser dito pela imagem. A
legenda cumpriria apenas a tarefa de identificar alguns sujeitos, momentos
históricos e instituições. Embora os desenhos tenham seguido um roteiro
cronológico, há diversas lacunas na narrativa que muitas vezes é resolvida com
uma cena representando diversos episódios. É o que se observa, por exemplo,
na imagem que segue.

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Imagem 1. A Brasil Railway – Lumber. Hassis. Desenhos da Guerra do Contestado (1984). Nanquim
sobre Papel. Acervo Fundação Hassis.

Na representação que fez sobre posseiros abandonando a terra após a


chegada da estrada de ferro, Hassis colocou em primeiro plano uma família
cruzando os trilhos enquanto a presença monumental do trem avança sobre a
região. Em uma única imagem o artista reúne elementos extremamente
complexos de serem explicados em narrativa historiográfica: a empresa
responsável pela construção da estrada de ferro, Brazil Railway Company, a
contratação de jagunços para defender seus interesses, a madeireira
internacional Southern Lumber and Colonization Company, representada na
cena pelo lote de madeiras sendo transportado no trem e pelas árvores
cortadas que aparecem do lado direito.
A junção de interesses capitalistas, desejo de progresso, força bruta e
exploração da terra impõe a pobres famílias a obrigatoriedade de deixar suas
terras e partir em busca de melhores condições. A mulher com um bebê no
colo, aparentemente grávida, segue na frente ditando o caminho, enquanto o
homem portando uma enxada mantém-se no compasso de mãos dadas com a
filha. O destino dessa família possivelmente é o quadro santo. Local onde
encontrarão abrigo e força para lutar por um mundo novo.
Essa cena é ao mesmo tempo singular e universal. Em sua composição
ela remete a todas as famílias expulsas de suas terras pelo poderio político e

20
econômico, logo, universaliza essa experiência remetendo-a a todas as
migrações forçadas em nossa história. A proximidade dos traços do artista com
a de Cândido Portinari – o que se verifica nesta e em outras cenas da série
Contestado – também situa o acontecido em linhagem artística de denúncia
social. A breve legenda trata de circunscrever essa cena em um determinado
tempo e lugar. O nome da Brazil Railway e da Lumber confirmam tratar-se da
ação de empresas específicas e que impactaram profundamente na
organização política, econômica, social e ambiental do planalto catarinense. É
esse o caráter singular da cena.

Nos desenhos de Hassis predominam os monges, mulheres, crianças,


lideranças rebeldes, cenas de batalha, comunidades destruídas. O artista
mergulhou no mundo dos homens do Contestado, fixou sua atenção nos
personagens, nas ações guerreiras e religiosas, nas mazelas sociais e políticas a
eles impostos pelo poder vigente. Os desenhos seguem uma ordem cronológica
expondo ao expectador os principais acontecimentos e personagens desse
conflito.
Durante a década de 80 a proliferação de discursos oficiais sobre o Contestado
já estava cristalizada na memória histórica catarinense, pois além de inúmeras
publicações capitaneadas por pesquisadores da época, entre eles Paulo
Derengoski (2000), havia ainda a iniciativa oficial do então governador
catarinense, Espiridião Amin, em “resgatar” a cultura do homem do
Contestado. A possibilidade dos desenhos de Hassis resvalar nessa armadilha,
ora idealizando personagens, ora repetindo em seus traços velhos chavões
como bandidagem, vandalismo e fanatismo, era tentadora, pois fazia parte do
imaginário social de uma geração de políticos e pesquisadores sobre o
Contestado, em especial aqueles vinculados à tradição historiográfica do
Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. Mas Hassis segue caminho
distinto. Seus desenhos fazem parte de outra genealogia discursiva. Sua
perspectiva histórica sobre o Contestado está bem afinada com a obra de
Maurício Vinhas de Queiroz, Messianismo e Conflito Social, e da pesquisadora
Marli Auras, A organização da Irmandade Cabocla. Essas obras, inclusive,
constam na biblioteca do artista.
Outro ponto notável na série de desenhos é a ausência dos militares
como figura central no conflito. Isso porque havia uma rica produção
fotográfica sobre o assunto em que os militares aparecem em primeiro plano.
Essa produção poderia inspirar de forma doutrinária sua criação, tanto pela
ilusão de verdade da fotografia, como pela sua faceta documental. O artista

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inclui diversas cenas militares em seus desenhos, mas todas com objetivo de
denunciar a violência desigual aplicada pelas forças de repressão.

Imagem 2. Massacre De Taquaruçu – III – Bombardeio pelos canhões. Hassis. Desenhos da Guerra
do Contestado (1984). Nanquim sobre Papel. Acervo Fundação Hassis

A cena construída no desenho acima não deixa dúvida sobre o grau de


violência praticado. Um caboclo, de cabeça pelada, jaz na luta com os olhos
fixados no firmamento. Ao fundo, entre mortos e feridos, mulheres e crianças
fugindo dos destroços enquanto suas casas são incendiadas.
A legenda merece destaque. O artista não quis deixar uma
interpretação aberta sobre a representação desse episódio. Diante do papel
ocupado pela imprensa ao nomear ações promovidas pelo poder policial na
repressão aos movimentos sociais, havia o risco do leitor valer-se de
eufemismos para identificar aquilo que foi tornado visível na cena. Diante
desse perigo a legenda confirma o posicionamento do artista. Não se trata de
uma batalha, tampouco de um confronto com o exército, mas de um massacre.
Aqui vemos um uso pontual e político da legenda.

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Outro aspecto meritório dessa série diz respeito a memória sensível
que Hassis carregava sobre essa experiência. Seu avô atuou como militar
durante a repressão ao movimento rebelde e, possivelmente, foi dele que ouviu
os primeiros relatos sobre esse conflito. Tal fato não o impediu de representar
esse episódio como massacre, de não ser condescendente com sequer um dos
militares que atuaram no Contestado: general, tenente, soldado, nenhum é
heroicizado em seus desenhos. Somente os sertanejos são destacados, assim
como suas crenças, seus feitos, sua bravura.
Arrisco dizer que o diferencial na abordagem de Hassis está no
conhecimento que tinha do universo sertanejo do planalto catarinense.
Durante os anos 50 do século XX, ele trabalhou como motorista transportando
madeira da região para o litoral. Nesse período coletou muitas histórias de
sobreviventes do Contestado. Essa memória colhida na fonte foi fundamental
para a produção dos desenhos. São 78 desenhos de profunda pesquisa e
intimidade com o outro, nada ali resvala para a caracterização grosseira de
ignorantes ou mesmo de vitimização dos caboclos.
Caber destacar, no entanto, que entre esses desenhos, sete incluem o
termo fanático na legenda. No entanto, caberia observar que durante um bom
tempo os próprios remanescentes dos rebeldes do Contestado se identificavam
como fanáticos. A palavra era usada para falar da intensa fé nos monges e
santos por eles compartilhada. Hassis não conseguiu escapar totalmente sobre
os valores de sua época, recorrendo ao termo fanatismo na legenda, mas o
termo não foi usado como elemento desqualificador do movimento.

Multíplas são as possibilidades de abordagem dos desenhos que


Hassis fez sobre o Contestado. Os retirantes, de Portinari, renderia uma
comparação interessante, pois parece manifestar-se nas cenas de famílias
expulsas das terras pela ganância das multinacionais. Guernica, de Pablo
Picasso, é outra entrada sedutora, sendo seu painel – aquele pintado em 1985 –
apresentado no jargão popular de artistas e pesquisadores catarinenses como
uma espécie de “Guernica do Contestado”.
Caracterizar Maria Rosa de Joana D’Arc e os painéis de Hassis de
“Guernica do Contestado” produz uma invisibilidade para a personagem e para
o artista, pois dada a grandeza desses sujeitos na cultura histórica e artística
ocidental, a experiência do Contestado acaba entrando como uma sombra do já
existente.
Outro método possível, e sobre o qual nutro mais simpatia, é
mergulhar na trajetória e produção artística de Hassis e, a partir dela,
acompanhar alguns temas recorrentes em sua trajetória e de que forma tais
temas reaparecem nos desenhos sobre o Contestado.

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Em 1967 Hassis fez uma série de trabalhos intitulado Ontemanha. São
quinze telas que unem pintura e colagem. A guerra é o tema central dessa
série. A intervenção norte-americana no Vietnã estava em seu auge. A
preocupação com o futuro da humanidade, assolada pela ganância, pela luta
imperialista, pela guerra fria e pela bomba atômica povoava o ambiente social
e político da época.
O quadro que abre a série inclui, à esquerda, um pássaro sinistro com
uma flor na boca assombrando o amanhã.

Imagem 3. Hassis, Ontemanhã (1967). Pintura sobre papel de revistas. Acervo Fundação Hassis.

Uma família com ares desolados ocupa o lado direito da tela. A quem
se destina a flor no bico do abutre? A série é entrecortada com alguns poemas
com a caligrafia de Hassis.

Tremo/ trememos/ Bestas às soltas/ódio domina/ Ocupa/ constrói prisão/


campos de morte/choro/ choramos/ Filhos do nosso amor/ Para o ódio/
Para matar/ Para morrer/ Abutres agourentos,/Aguardam o banquete ma-
cabro/Medo/ 666 (HASSIS, Ontemanhã, 1967)

Passado, presente e futuro são evocados nessa obra. O olho do abutre


mira o tempo que transcende a tela. Seu alvo está no amanhã. A flor que orna o
bico do pássaro não é para a mãe, mas para aquele que estar por vir. Medo
deslocado para os filhos que vão nascer, mas também para as filhas ainda em
idade infantil.
Na cena seguinte aquele ventre do primeiro quadro parece ter parido
muitos filhos. Eles ocupam a maior parte da tela. Estão distribuídos em

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recortes colados em uma espécie de semi-círculo como se fosse o sinal da
besta.

Imagem 4. Hassis. Ontemanhã (1967). Pintura sobre papel de revistas. Acervo Fundação Hassis.

Uma frase ocupa o centro da tela: “vejo minhas filhas/correm/


brincam/cantam/artes inocentes/fecho os olhos/minha infância” (HASSIS,
Ontemanhã, 1967). A infância do artista é contrastada com a das filhas, com a
diferença que a consciência do perigo que está por vir atormenta o pai. A
inocência é o elemento comum entre infâncias distantemente vividas. As
crianças, em imagens recortadas de revistas da época, aparecem sorrindo, sem
perceber a sombra bizarra que contorna o mundo-tela. Tudo começa e termina
com um olhar. O primeiro de uma criança, o último de um soldado. Os
primeiros olhares coloridos e infantis, cheios de expectativas; o segundo, em
preto e branco, desolado. Seria esse o destino dos homens e mulheres do
presente? Gerar filhos “para o ódio, para matar, para morrer”? Seria esse o
destino das crianças? Matar? Morrer diante da fome dos abutres agourentos?
Outro detalhe sobre a tela merece destaque: abaixo da palavra Artes
foi incluído um recorte com uma pintura. Trata-se do auto-retrato de Picasso. A
inserção da imagem do grande artista nessa tela destoa dos demais elementos
presentes. Trata-se de uma citação indireta da presença dos passados no
presente, ou seja, do papel que Picasso teve no passado em fixar a cena da
Guernica, em denunciar a brutalidade da guerra, de mostrar o poder
avassalador da obra de arte diante das barbáries.

25
Em Ontemanhã há uma denúncia das notícias estampadas nas páginas
das revistas que veiculam cenas de guerra e de crianças como se fossem coisas
naturais. Por meio da técnica de pintura com colagem, Hassis se recusa a
aceitar que essas histórias da guerra e da infância, do passado e do presente,
fossem apresentadas como páginas distintas. Ontemanhã junta os cacos de
todas as ruínas do passado e as acomoda aos pés do presente. Esse
procedimento também foi caro a Picasso. Os tons escolhidos para imortalizar o
massacre de Guernica, e especialmente o fundo atribuído ao cavalo, lembram
as páginas de jornais.
Outra tela emblemática de Ontemanhã inclui uma espécie de máscara
fantasmagórica abaixo de um grande crânio que abriga soldados em marcha. À
direita, o esqueleto de um dos soldados aparece desfilando com armas na mão,
enquanto deixa para trás as ruínas de uma região possivelmente destruída
pelos destroços de seus projéteis.

Imagem 5. Legenda: Ontemanhã (1967). Hassis.


Pintura sobre papel de revistas. Acervo Fundação Hassis.

O abutre reaparece gravado sobre uma máscara que lembra os


trabalhos de Picasso. Os grandes olhos miram o ventre da mãe com o bebê. O
que será da infância no futuro? Toda a série é marcada pela incerteza do
destino das crianças, pelo temor de que venham a ser instrumentos de guerra.
Mas será essa a mesma questão que moveu Hassis a incluir tantas crianças na
representação didática que fez sobre a Guerra do Contestado? Uma visita ao

26
futuro do passado do artista pode ser instrutiva para colocar em escala
temporal suas tensões e angústias sobre os des-rumos da história.

Em 1984 a guerra que assombrou o artista foi a do Contestado. Tal


como em Ontemanhã os tempos confluem para uma mesma temporalidade,
aquela do horror de uma guerra, ou de todas as guerras, mas com o diferencial
de que na guerra do Contestado o destaque foi dado para a luta, não para o
medo. Trata-se da repetição da barbárie, mas com a diferença dos sujeitos, dos
contextos e das motivações. Diferença também na perspectiva do artista.
As imagens, feitas quase 15 anos depois da série Ontemanhã, nos revelam a
infância em outra clave. Nas telas de 1967 elas aparecem impotentes diante do
futuro que as aguardam. Sorriem, brincam de bonecas, ocupam os bancos
escolares. A consciência do clima sombrio provinha do artista. Nos desenhos
de 1984 as crianças desempenham outras funções. Labutam no campo,
carregam as tralhas durante os deslocamentos dos pais, participam das
celebrações religiosas, fazem profecias, recebem instruções dos monges, mas
sobretudo, lutam ao lado dos familiares para construir o futuro que desejam.
Em desenhos do Contestado nenhuma imagem da ingenuidade infantil
presente na série Ontemanhã é encontrada. O artista não expressa temor
diante do futuro dessas crianças. Elas estão na luta, são agentes da história,
como os garotos, Manoel e Joaquim, que recebiam as instruções dos monges e
repassavam aos fiéis. Como Maria Rosa, menina/mulher de 15 anos de idade
que comandou as tropas em Caraguatá. Em 1967 havia o temor do destino dos
filhos, gerados para morrer, matar e odiar. No cenário do Contestado o ódio é
força renovada na crença em Zé e São João Maria. Matar é preciso. Lutar é não
se render, é defender-se do cerco imposto pelo exército a mando do governo
brasileiro em conluio com os coronéis locais.
Na série didática de Hassis imagens de denúncias da barbárie da
guerra não deixam de aparecer. Massacres de mulheres e crianças são
encenados, assim como a fome e a subnutrição causada pelo cerco militar, tal
como aparece na imagem abaixo.

27
Imagem 6. Adeodato - vagueando pelo mato – Homens, mulheres, crianças, em farrapos, fome e
morte. Hassis. Desenhos da Guerra do Contestado (1984). Nanquim sobre Papel. Acervo Fundação
Hassis.

Hassis recupera a tradição de valer-se da arte para denunciar os


horrores da guerra, reconhece e se insere em uma matriz que tem Picasso
como grande expoente, mas que também poderia ser Goya com a obra O
fuzilamento de 3 de maio, ou Portinari com as cenas de retirantes. Um recorte
para uma cena de A Guernica e para um dos desenhos sobre o Contestado,
permitirá desenvolver melhor meu argumento.

Na tela de Picasso sobre a Guernica, uma mãe desfigurada segura o


corpo do filho que escorrega por suas mãos, enquanto a morte assume o
controle da cena. A técnica do artista é magistral: expressa a dor da mãe e sua
impotência diante de um bombardeio aéreo que pegou a população de
surpresa. Ação covarde que sequer permitiu à vítima lançar seu último olhar
ao algoz. O artista parece querer registrar o instante, mas o faz no movimento
do corpo da criança que se esvai do colo da mãe.
Em Hassis, a cena é recriada. O motivo é o mesmo daquele
apresentado por Picasso: uma mãe com o filho nos braços no exato momento
de um bombardeio.

28
Imagem 7. Massacre de Taquarussu. Hassis.
Desenhos da Guerra do Contestado (1984). Nanquim sobre Papel. Acervo Fundação Hassis.

Cercada pelo inferno de fogo causado pelos destroços militares, a mãe


do Contestado segura firme o filho. Este, já convalescido, ao invés de escorregar
do colo da mãe, tomba com as mãos para o alto. O braço erguido e o olhar para
o céu é também o ultimo gesto da mãe moribunda. Na Guernica a desolação e o
desespero, no Contestado a mãe expressa coragem e fé. Na Guernica, o olhar da
mãe se dirige para o céu como em surpresa diante do bombardeio aéreo; no
Contestado, o olhar se dirige para o céu em sinal de conforto diante do amparo
dos monges e santos, a segurança de que a morte não é o fim, de que os mortos
passariam para a guarda celeste e retornariam para dar mais força à
irmandade cabocla.
Da boca da mãe do Contestado parece sair a frase derradeira: Viva a Zé
e São João Maria. Salve São Jorge, São Migué e São Bastião.

Referências bibliográficas

AURAS, Marli. Guerra do Contestado: a organização da irmandade cabocla. Florianópolis:


Editora da UFSC/Assembleia Legislativa, 1984.
BOPPRÉ, Fernando Hassis. Contestado. In: MACHADO, Paulo Pinheiro; ESPIG, Márcia
Janete (org.). A Guerra Santa revisitada: novos estudos sobre o movimento do
Contestado. Florianópolis: Editora da UFSC, 2008.
DERENGOSKI, Paulo. Guerra no Contestado. Florianópolis: Insular, 2000.
HASSIS. Ontemanhã. 1967. (Catálogo)
HASSIS. Desenhos da Guerra do Contestado. 1984. (Catálogo)

29
MACHADO, Paulo Pinheiro. Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das
chefias caboclas (1912-1916). Campinas: Editora da UNICAMP, 2004.
MONTEIRO, Duglas Teixeira. Os errantes do novo século. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
QUEIROZ, Maurício Vinhas de. Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do
Contestado: 1912-1916. 3. ed. São Paulo: Ática, 1981.
THOMÉ, Nilson. A aviação militar no Contestado: réquien para Kirk. Caçador, 1986.

30
O CONTESTADO NOS MUSEUS DO PARANÁ E
SANTA CATARINA: UM BALANÇO DE
PESQUISA

LUIZ CARLOS DA SILVA1

Introdução

A seletividade, esteja ela ancorada em circunstâncias muito específi-


cas, ou ainda, nos processos históricos mais ou menos longos, e por isso mes-
mo sujeita a transformações, e que nos serve para entender esta ou aquela
coleção, este ou aquele museu, é, ao fim e ao cabo, a lógica de toda e qualquer
coleção. Em outras palavras, sempre será seletiva e parcial, como afirmou José
Reginaldo Santos Gonçalves:

Afinal, uma coleção é sempre parcial, ela jamais atinge uma totalidade. Pela
sua natureza mesma, ela problematiza essa totalidade, já que uma coleção
jamais se fecha. Trata-se portanto de um conhecimento sempre situado,
produzido a partir de um sujeito situado numa posição relativa. Um sujeito
limitado a produzir, portanto, “verdades parciais”. [...]. A análise crítica da
ideologia da coleção mostra precisamente o esforço sempre irrealizado no
sentido de constituir essa totalidade, na medida mesmo em que exclui o que
seja considerado “inautêntico” (GONÇALVES, 2007, p. 49).

Sendo o objeto incorporado a uma coleção por algum motivo, em al-


guns casos há muitas décadas, pode permanecer hoje no museu por outro mo-
tivo. Ou seja, o próprio critério de seleção no passado pode ser, ele próprio,
argumento para a produção de conhecimento no museu da atualidade. Falando
a respeito do Museu Paulista (popularmente conhecido como Museu do Ipi-
ranga), e sobre a “alegoria” criada em torno da independência, “um gesto gera-
dor de nacionalidade”, Ulpiano Bezerra de Menezes afirmou que “Transformar
o Museu Paulista num verdadeiro museu histórico não é eliminar, como purga-

1
UFPR. Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História. Capes.
E-mail: carlos.luiz226@gmail.com.

31
ção das manipulações ideológicas, esta alegoria e sua prática, mas incorporá-
las a seu campo de documentação, e de trabalho reflexivo, crítico” (MENEZES,
1992, p. 29). Não significa relativizar, mas ver na parcialidade das coleções
uma característica a ser problematizada.
Com maior ou menor ênfase, cada museu que analisamos reproduziu
práticas rotineiras à grande maioria dos museus históricos brasileiros. Anali-
samos as práticas destas instituições, com ênfase obviamente nas coleções
sobre o Contestado, tendo como referências as terminologias usadas por al-
guns dos principais pesquisadores sobre museus e cultura material. Termos
como fetiche, metonímia, metáfora, objeto histórico, relíquia, aura, entre ou-
tros, aplicados às coleções em questão, nos ajudaram a entender melhor os
espaços expositivos das onze instituições que visitamos. Em meio a um campo
amplo como o da museologia, a escolha de alguns conceitos se fez necessária
para jogar luz em pontos específicos que julgamos importantes.
As instituições selecionadas para a pesquisa foram, em Santa Catarina:
Museu Histórico Thiago de Castro, de Lages (1960); Museu Histórico Antônio
Granemann de Souza (1973), de Curitibanos; Museu Histórico e Antropológico
da Região do Contestado, de Caçador (1974); Museu Histórico de Santa Catari-
na (1979), de Florianópolis; Museu do Patrimônio Histórico de Três Barras
(1980); Museu Monge José Maria (1999), de Irani; Museu do Jagunço (2003),
de Fraiburgo. No Paraná, Museu Paranaense (1876), Museu Cel. David Carneiro
(1928-1994), Museu Histórico da Polícia Militar do Paraná (1950), os três de
Curitiba; Museu Histórico José Alexandre Vieira (1979), de Palmas.

Uma breve análise das instituições

Entre os museus estaduais, o Museu Paranaense (1876) e o Museu


Histórico de Santa Catarina (1978), sempre detentores de um maior aporte
financeiro e técnico se comparados às instituições municipais e particulares, a
relação com o Contestado foi bastante diversa.
O Museu Paranaense, o mais antigo entre os dois, com o passar dos
anos inseriu-se na construção de uma memória a respeito da guerra. Por conta
das atividades de alguns de seus diretores, notadamente de Romário Martins,
adquiriu importante documentação escrita e material fotográfico. Em relação
aos objetos, uma grande contribuição se deu quando da aquisição, em 2004, do
acervo do extinto museu de David Carneiro. A documentação já existente, so-
mada ao acervo recebido, fez do Museu Paranaense o depositário do mais im-
portante acervo sobre a guerra no estado. As exposições de curta duração em
2006 e 2012 deram mostras aos visitantes do que a instituição dispunha. Na
última ficou bastante evidente a memória do Cel. João Gualberto, embora esse
personagem já não tenha no estado o mesmo apelo de antes. Neste sentido
João Maria sobrepujou o coronel.

32
Já o Museu Histórico de Santa Catarina não teve o mesmo empenho no
assunto. Fundado apenas em 1979 e com a determinação de enfatizar a memó-
ria política do estado, limitando assim seu acervo, abriu espaço ao Contestado
apenas em ocasiões específicas: as exposições de curta duração em 1986 e
2012. Sua marca principal continua sendo o prédio onde está instalado desde
1986, constituindo-se no principal objeto em exposição. Em 2012, na exposi-
ção do centenário da guerra, a exposição de alguns objetos que lembravam os
caboclos em suas atividades diárias e não apenas vinculando-os à guerra e às
atividades da Lumber e da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande (EFSPRG),
pode ser vista como um dos destaques.
Depois do Museu Paranaense, o mais antigo entre as instituições anali-
sadas era o museu particular Cel. David Carneiro (1928-1994), de propriedade
do historiador David Carneiro. O museu de “armas e heróis” como definiu um
jornalista, foi o guardião da maior e mais importante coleção sobre a Revolu-
ção Federalista, assunto sobre o qual Carneiro dedicou muito de sua vida de
pesquisador. Graças a ele essa revolução ganhou destaque na historiografia
paranaense. O Contestado apareceu na forma de artefatos dispersos, despojos
de guerra que a rigor não formaram uma coleção, com exceção dos objetos
referentes ao Cel. João Gualberto, que apresentaram alguma coesão, organiza-
dos de forma a edificar o “herói” que “deu a vida” pela “causa paranaense” na
Questão de Limites. Para além do universo dos objetos, David Carneiro conse-
guiu formar um importante acervo documental sobre a Guerra do Contestado
até sua morte em 1990. Sem seu idealizador e com problemas financeiros o
Museu fechou as portas em 1994.
O “herói” do Contestado foi também a memória construída em torno
de João Gualberto pelo Museu Histórico da Polícia Militar do Paraná, institui-
ção criada em 1949 e efetivamente instalada em 1950. Valendo-se de seu pró-
prio arsenal ou do acervo particular de alguns de seus integrantes o Museu,
como seria de esperar, dedicou-se à memória da corporação. Não manteve
regularmente suas portas abertas ao público nem ocupou espaço físico exclu-
sivo, estando sempre instalado em quartéis da corporação. Sua sala de armas é
um dos espaços mais populares e nela está a famosa metralhadora Maxim.
Apesar da fama advinda de sua inoperância durante o Combate do Irani em
1912, os responsáveis pelo Museu nunca deixaram de exibir a distinta arma.
Destacamos também nessa instituição a publicação do seu Boletim entre outu-
bro de 1986 e fevereiro de 1987. Em um de seus exemplares, aliás, a corpora-
ção fez duras críticas à atuação do Cel. João Gualberto, responsabilizando-o
pelo fracasso, algo raro de acontecer em instituições oficiais do estado. 2 Apesar
disso o mesmo não ocorreu em outras publicações da PMPR.

2
POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. Boletim Histórico da PMPR. Ano I, n. 5. Curitiba: Museu Históri-
co da PMPR, fevereiro, 1987, p. 17-18.

33
Lages, berço da família Ramos, oligarquia mais poderosa de Santa Ca-
tarina durante décadas, teve modesta participação na elaboração de uma me-
mória sobre a guerra. O Museu Histórico Thiago de Castro, de iniciativa
particular, passando a ser público apenas em 2012, teve, mesmo assim, algum
apoio de lideranças políticas com a doação de objetos e os trâmites que viabili-
zaram a sua sede definitiva a partir de 1997 no antigo Fórum da cidade. O Mu-
seu, que abriu modestamente em 1943 na residência de seu idealizador, Danilo
Thiago de Castro, abrigou a maior coleção particular de Santa Catarina. Foi
oficialmente inaugurado somente em 1960 de maneira temporária nas depen-
dências de um clube e só ganhou sua sede a partir de 1962, embora ainda não
ideal para fins museológicos. Apesar da força dos Ramos na cidade, isto não
ficou tão evidente na exposição. O Contestado marca presença ainda hoje com
lanças fabricadas para a defesa de Lages, um facão de pau doado pelo Museu de
Curitibanos e algumas fotografias. Entre as milhares de fotografias guardadas
no arquivo, destacam-se em relação ao tema as que registraram os grupos que
defenderam a cidade durante o cerco caboclo em 1914. A foto da exumação de
Castelhano é outra imagem que merece destaque na coleção. Somando-se as
imagens expostas e em arquivo com as lanças, nota-se que a coleção priorizou
a defesa de Lages ou pelo menos foi o que Danilo de Castro conseguiu trazer
para a sua instituição.
Em 1973 a cidade de Curitibanos ganhou o seu museu, batizado com o
nome de um ex-prefeito: Museu Histórico Antonio Granemann de Souza. Ape-
sar do apoio da prefeitura, nos parece correto afirmar que as pesquisas socio-
lógicas ocorridas na região, demonstrando um gradativo aumento de interesse
pelo assunto, serviram de motivação para se pensar a criação de uma unidade
museológica, além do interesse em se preservar a memória das antigas lide-
ranças da região. No entanto, a Guerra do Contestado, na maneira como apre-
sentada no Museu, não tornou evidente aos visitantes a intrínseca relação
entre alguns personagens, como o Cel. Albuquerque, superintendente de Curi-
tibanos, e a guerra. Ainda hoje mantem-se esta disposição expositiva. A guerra
era assunto incômodo para as fundadoras 3 do Museu, descendentes que eram
de famílias tradicionais da localidade. O tema da guerra ficou restrito apenas às
armas, sem suportes de informações que contribuíssem para uma melhor
compreensão do assunto. Resultados melhores o Museu apresentou em suas
exposições de curta duração.
Em 1974, como instituição particular, fundou-se em Caçador o Museu
Histórico e Antropológico da Região do Contestado. Sendo de início um museu
antropológico, sofreu a maior transformação entre as instituições municipais
analisadas, tornando-se o mais importante museu sobre o Contestado, com

3
Maria Batista Nercolini e Zélia de Andrade Lemos.

34
importantes coleções sobre a EFSPRG, a guerra, a Lumber, a campanha militar
e a colonização desenvolvida após a guerra, além de manter parte da coleção
antropológica inicial em exposição. Muito diferente de Curitibanos, suas cole-
ções não são estanques, sendo fácil fazer relações tendo a Guerra do Contesta-
do como assunto de interesse. Os suportes de informações ajudaram nesta
tarefa. Assim como nas outras instituições, havia ainda um descompasso em
relação às pesquisas recentes e algumas informações e imagens apresentadas,
caso dos monges, por exemplo. A incorporação ao acervo do mural de Hassis,
com uma narrativa própria da guerra, enriqueceu o olhar sobre o conflito,
sendo esta obra uma evidente crítica à forma violenta do processo de moder-
nização no Contestado e o desrespeito aos antigos moradores da região. Ape-
sar de ter o mais importante acervo, ainda assim, como nos demais, não
questionou a participação das lideranças políticas estaduais durante a guerra.
Com o tempo, as marcas do Contestado foram praticamente apagadas em Pal-
mas, sudoeste do Paraná. Com uma imensa faixa de terra que estava sob sua
jurisdição transferida para Santa Catarina a partir do Acordo de 1916, o assun-
to sumiu até mesmo de seu resumo histórico no site da prefeitura. No Museu
Histórico José Alexandre Vieira, fundado em 1979, a Questão de Limites e a
Guerra do Contestado são temas esquecidos. O Museu é o lugar de memória do
tropeirismo, das atividades nas fazendas, dos coronéis, dos grandes proprietá-
rios de terra e dos políticos. Uma reprodução do mapa de Romário Martins e
um anúncio de ervateira com a imagem comumente relacionada ao “segundo”
João Maria foram os únicos vestígios que pudemos encontrar a respeito do
Contestado, embora sem as devidas referências que alertem o público para
isso. Há a cuidadosa guarda da memória do ex-superintendente de Palmas, o
Cel. Domingos Soares, que teve importante participação nos dias que antecede-
ram o Combate do Irani. No entanto, o Museu não apresenta relação entre o
personagem e o Contestado.
O Museu do Patrimônio de Três Barras, apesar de pequeno, é um dos
mais interessantes sobre o tema. Fundado em 1980, tem sua história intrinsi-
camente ligada a holding Brazil Railway Company. Sua primeira sede ocupou o
antigo armazém da Lumber e, a partir de 1997, uma das estações ferroviárias
do ramal Porto União da Vitória/São Francisco do Sul, da EFSPRG, passou a
sediar o Museu. A família Pacheco dos Santos Lima, a madeireira Lumber e seu
diretor Bishop (além dos descendentes deste) e Percival Farquhar, persona-
gens que marcaram a região, são lembrados nesta instituição. A guerra está aí
representada principalmente por meio das fotografias de Claro Jansson e do
Exército, além de algumas armas colocadas ao lado de uma representação de
João Maria. Procurou-se dar ao visitante alguma ideia da guerra por meio de
um resumo histórico onde consta ainda hoje a afirmação de que o “poderoso
coronel” do Contestado foi a Lumber. A instituição usa a aversão criada em

35
torno do coronelismo para direcionar o olhar do visitante, criticando a madei-
reira pelas suas arbitrariedades. No resumo encontramos, dentre outros, o
nome de Affonso Camargo, mas não o de Vidal Ramos. Há a crítica ao desma-
tamento da região em uma cidade ainda dominada por uma madeireira multi-
nacional. Destaca-se, pois, por ser incisivo em alguns apontamentos.
O Irani, lugar para onde muitos se voltam quando o assunto é o Con-
testado, foi alvo de políticas públicas de memória e houve até a intenção de
tombar o sítio histórico. Lugar onde ainda hoje estão enterrados parte dos
mortos no Combate do Irani, tem sua vida cultural agitada pela visita de alunos
de escolas e universidades e esporádicas apresentações teatrais, organizadas
por Vicente Telles, músico, folclorista e poeta que conta muitas histórias sobre
o Contestado, recebendo os visitantes em um espaço cultural/memorial sobre
a guerra. Memorial não deixa de ser também o Museu Histórico João Maria,
fundado em 1999, resultado de um projeto que se arrasta desde a década de
1980 e que ainda está inacabado. Réplica de uma moradia cabocla, o Museu
expõe fotografias, banners e depoimentos de sobreviventes. Apesar de receber
o nome de uma liderança cabocla, não é assim divulgado; em sua entrada está
escrito apenas Museu Histórico do Contestado. Ao seu lado o cemitério guarda
os restos de um ou outro combatente. Os depoimentos são o que de mais im-
portante o Museu nos apresenta e ganha importância por estar em um sítio
histórico.
Diversos estudiosos enfatizaram que, nas décadas de 1960 e 1970, al-
guns sociólogos contribuíram decisivamente com as análises sobre o Contesta-
do. Com esta inflexão analítica a produção historiográfica foi enriquecida e
pôde trilhar outros caminhos para além das análises apresentadas por mem-
bros do Exército. No campo da museologia esta inflexão pode ser atribuída a
um modesto museu fundado oficialmente em 2003. O Museu do Jagunço, fruto
principalmente do trabalho de Pedro Felisbino, abriu as portas para a “voz de
caboclo”, expondo imagens e depoimentos de sobreviventes e descendentes da
Guerra Sertaneja do Contestado. Há as armas como em outros museus, mas
aqui o lastro é a memória daqueles que enfrentaram as forças oficiais. Em lugar
dos retratos de oficiais estão as fotos de simples moradores do Taquaruçu e
localidades próximas. Por estar em um local de combate, tanto as lembranças
quanto os objetos foram em sua maioria conseguidos na própria localidade. Se
em outras exposições encontramos objetos de João Gualberto, por exemplo,
aqui são apresentados utensílios manuseados por José Maria. Com este Museu
e as memórias anotadas por Pedro Felisbino, encontramos contrapontos inte-
ressantes (em que pese ainda não terem sido comprovados), mas que nos fa-
zem repensar, refletir sobre certas passagens da guerra. Acostumados que
estamos ao fato da inoperância da metralhadora Maxim, não se pode simples-
mente ignorar a versão contada por Tomaz Vidal Teixeira Palhano e Francisco

36
Gomes Damasceno de que “na verdade” ela não falhou, mas que os militares
não tiveram tempo de usá-la. Sendo verdade ou não, o que este olhar caboclo
nos obriga a fazer é colocar um novo ponto de interrogação, duvidar de nossas
próprias afirmações.

Silêncio e construção do “culpado”

Excetuando-se o Museu do Jagunço, que teve como vetor a “voz do


caboclo”, os demais se propuseram a trazer, por mais limitado que fosse, várias
características do Contestado. Nesse sentido ficou evidente o silêncio em rela-
ção a determinados personagens e a tentativa de definição do principal “culpa-
do” pela revolta sertaneja.
Independentemente do tamanho dos acervos dedicados ao Contestado
em Santa Catarina e no Paraná, e que estão expostos nos museus analisados,
observá-los e analisá-los nos levou a perceber a ausência de alguns persona-
gens. Em que pesem os múltiplos fatores na formação dos acervos, mesmo
assim um simples suporte de informação e algumas fotografias já seriam sufi-
cientes para apresentar os personagens em questão. Estamos nos referindo
aos governadores/presidentes que atuaram durante a guerra. Em todas as
instituições pesquisadas estes são “ilustres” ausentes na relação com o Contes-
tado. São eles, no Paraná, Carlos Cavalcanti de Albuquerque4 e Affonso Alves de
Camargo5; em Santa Catarina, Vidal José de Oliveira Ramos 6 e Felipe Schmidt.7
É preciso trazer estes personagens para o centro das discussões sobre
o Contestado. Existem referências, e não sem motivos, ao Coronel Albuquer-
que, de Curitibanos, ao Coronel João Gualberto e o Regimento de Segurança do
Paraná, ao monge José Maria e à miríade de personagens caboclos que de fato
merecem especial atenção. Atenção que à época foi dada por meio das armas.
Uma recepção violenta aos caboclos pelos poderes constituídos que revela o
quanto a decisão dos mandatários citados se reveste de importância nos estu-
dos desta memória histórica.
Mas há uma exceção quando afirmamos não haver referência aos go-
vernadores nos museus, qual seja, a imagem da assinatura do Acordo de Limi-
tes com a presença de Felippe Schmidt, Affonso Camargo e o presidente

4
Carioca, nasceu em 22 de janeiro de 1864 e faleceu também no Rio em 23 de fevereiro de 1935. Foi
presidente do Paraná de 25 de fevereiro de 1912 a 25 de fevereiro de 1916.
5
Paranaense da cidade de Guarapuava, nasceu em 25 de Setembro de 1873. Faleceu em Curitiba em 17
de Abril de 1958. Presidente do Paraná de 25 de Fevereiro de 1916 a 25 de Fevereiro de 1920. Voltou ao
cargo em 1928 e foi deposto na Revolução de 1930.
6
Natural da cidade de Lages, nasceu em 24 de Outubro de 1866. Faleceu em 2 de Janeiro de 1954 no Rio
de Janeiro. Foi governador catarinense de 28 de Setembro de 1910 a 20 de Julho de 1914.
7
Assim como Carlos Cavalcanti, tinha formação militar. Nasceu em Lages em 4 de Maio de 1859 e
faleceu no Rio de Janeiro em 09 de Maio de 1930. Governou Santa Catarina de 28 de Outubro de 1914 a
28 de Outubro de 1918.

37
brasileiro, Wenceslau Braz. Há toda uma historiografia dita “tradicional” que
ainda hoje legitima esta imagem.

Figura 1 – Autor desconhecido. Assinatura do Acordo de Limites entre o Paraná e Santa Catarina
no Palácio do Catete. Rio de Janeiro, 20 de outubro de 1916.

Mesmo se partindo do princípio de que não foi simples arbitrariedade


(o que também conta, se for o caso), houve, nestes museus, uma prática de
preservação da memória do Contestado que recorreu aos mesmos persona-
gens no momento de apresentar imagens e nomes. Todos, aliás, de crucial im-
portância para o entendimento do violento período. Como citado no início
deste texto, a memória foi moldada privilegiando o “front”, dando ênfase às
lideranças caboclas e militares. Mas antes dos confrontos houve a autorização
oficial. Nos museus que apresentaram suportes de informações sobre a
EFSPRG e a Lumber, enfatizou-se as arbitrariedades da holding comandada por
Farquhar sem, contudo, deixar claro que a construção da estrada de ferro e a
implantação da madeireira não aconteceram sem prévio acordo, sem autoriza-
ção. Do governo federal aos governos estaduais houve conivência com tal situ-
ação.
Vidal Ramos, Felippe Schmidt, Affonso Camargo e Carlos Cavalcanti
não se diferenciaram da maioria das lideranças políticas da época ao lidarem
com revoltas populares. Belicosos, não trouxeram soluções que minimizassem
os problemas no campo, apesar de a possibilidade ter sido apontada por José
Niepce da Silva, Secretário de Terras no Paraná, por Matos Costa e mesmo pelo
General Setembrino de Carvalho, que chegou a prometer terras aos caboclos
como forma de rendição. O assunto foi discutido inclusive pelo mais governista

38
dos jornais paranaenses da época, o Diário da Tarde. Os governantes procura-
ram tornar ilegítimas as ações, críticas e pedidos dos caboclos. Para estes polí-
ticos os sertanejos não passavam de ignorantes, fanáticos, facínoras,
bandoleiros, criminosos, loucos etc.
Euclides J. Felippe escreveu certa vez que “Tanto governados quanto
governantes da época, encontravam-se literalmente despreparados para as-
sumir um papel esconjurador ou, no mínimo, moderador dos fatos” (FELIPPE,
1995, p. 9). Mais do que “despreparo” devemos falar em um habitus comum
principalmente às lideranças da política institucionalizada. Na tese que apre-
sentamos (SILVA, 2017) e da qual damos breve resumo aqui, fomos em deter-
minados momentos severamente críticos às arbitrariedades desses políticos,
podendo as vezes parecer anacrônico. A balizar esta severidade estão as “vozes
dissonantes” que apresentamos juntos aos discursos dos governadores do
período. Mas a chamada Primeira República foi pródiga na violência de estado
em várias partes do território nacional; o Contestado seria então apenas mais
uma demonstração da “violência costumeira” (nos termos de Duglas Monteiro)
praticada por vários líderes políticos. Em uma época assim a morte do capitão
Matos Costa soou mais trágica que o massacre de Taquaruçu.
Por este viés, como se pode perceber, o silêncio em relação a alguns
ajudou a moldar a memória do “culpado”: a Brazil Railway Company. 8 Suas
arbitrariedades foram apresentadas como se isso fosse possível de ser levado
adiante sem o aval das lideranças políticas. O mais emblemático neste caso
encontramos no Museu de Três Barras, onde a Lumber recebeu a definição de
“o poderoso ‘coronel’ do Contestado”, ou ainda, uma serra acompanhada da
afirmação “Este tipo de serra devastou as florestas de Três Barras”. Em Caça-
dor o painel de Hassis enfatizou a estrada de ferro como desencadeadora da
violência. Nas exposições de curta duração no Museu Paranaense e no Museu
Histórico de Santa Catarina, em 2012, um trecho do filme produzido pela Bote-
lho Filmes mostrava a devastação da floresta provocada pela derrubada e o
arrasto dos pinheiros, talando indiscriminadamente outras espécies vegetais.
As centenas de fotos que registraram a construção da estrada de ferro e as
atividades da Lumber, ajudaram a reforçar esta imagem de grande responsável
pelas expulsões e a consequente revolta cabocla, o que não está errado obvia-
mente. No entanto, faltou uma maior relação entre a companhia e os poderes
constituídos. Para um pesquisador as poucas evidências existentes nas exposi-
ções já seriam o suficiente para perceber esta relação, mas, para o visitante que
apressadamente visitou os museus, não era tão óbvio assim.

8
Ao afirmarmos “todos”, há que se excetuar o museu de Palmas, onde a Guerra do Contestado nem foi
abordada; o próprio evento histórico foi silenciado.

39
Considerações finais

Apesar de os museus não terem sido os principais divulgadores e nem


o local onde as pesquisas e análises mais se desenvolveram a respeito do Con-
testado (papéis que couberam às universidades), o contato direto dessas insti-
tuições junto a um público mais amplo (pelo menos em tese), independente da
faixa etária e condição econômica, ajudou a divulgar o tema a um diversificado
público. Em graus diversos como diversas foram também as motivações, mui-
tos dos responsáveis pela formação das coleções e fundação dos museus não se
viram totalmente à vontade ao lidar com o assunto, principalmente porque
geralmente os revoltosos do Contestado pegaram em armas para enfrentar as
famílias “tradicionais” e “pioneiras” destas regiões, quase sempre privilegiadas
na construção das memórias locais, o que tornou a correlação entre os vários
envolvidos menos evidente do que deveria nos espaços museológicos. Com a
ascensão meteórica da internet a partir de meados da década de 1990 no Bra-
sil, felizmente, estas correlações puderam ser mais facilmente estabelecidas
pelos visitantes ávidos por conhecimento que porventura se interessaram pelo
Contestado.
E se existiu um personagem respeitado e venerado pelos sertanejos
sobre o qual, neste um século, se construiu uma memória isenta de acusações
dentro e fora dos museus, este foi o Monge João Maria ou “São João Maria”. Não
se sabe exatamente quantos andarilhos percorreram o Contestado se valendo
do nome herdado de João Maria de Agostini (KARSBURG, 2014), o fato é que o
personagem surgido dos meandros da memória e relacionado a uma imagem
que se tornou icônica (SILVA, 2014), no que se refere às ações públicas, com a
autorização ou a participação das autoridades legais/oficiais, extrapolou as
paredes dos museus para ganhar monumentos em praças e parques, inclusive
ao lado de igrejas católicas, instituição arredia ao personagem em outros tem-
pos. O outrora “desequilibrado” e “fanático” João Maria atingiu uma respeitabi-
lidade inimaginável nas primeiras décadas do século XX.

Fontes utilizadas

POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ. Boletim Histórico da PMPR. Ano I, n. 5. Curitiba: Museu


Histórico da PMPR, fevereiro, 1987, p. 17-18.

Referências bibliográficas

FELIPPE, Euclides J. O último jagunço: folclore na história da Guerra do Contestado.


Curitibanos: Universidade do Contestado, 1995

40
GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Antropologia dos objetos: Coleções, museus e pa-
trimônios. 1ª ed. Rio de Janeiro: IPHAN, 2007.
KARSBURG, Alexandre. O eremita das Américas: a odisseia de um peregrino italiano no
século XIX. Santa Maria: Ed. da UFSM, 2014.
MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. O salão nobre o Museu Paulista e o teatro da história.
In: MENEZES, Ulpiano T. Bezerra de. et al. Como explorar um museu histórico. Anais do
Museu Paulista / USP. 1992.
MONTEIRO, Duglas Teixeira. Os errantes do novo século: um estudo sobre o surto mile-
narista do contestado. São Paulo: EDUSP, 2011.
SILVA, Luiz Carlos da. Museus do Paraná e Santa Catarina: formas de lembrar e esquecer
a Guerra Sertaneja do Contestado (1912-2012). Tese de Doutorado em História, Univer-
sidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.
SILVA, Luiz Carlos da. Do retrato ao signo: a imagem como parte constitutiva de uma
crença. Domínios da Imagem, Londrina, v. 8, n. 15, p. 69-97, jun./dez. 2014.

41
A FRONTEIRA SUL E OS ÍNDIOS DO PLANALTO
MERIDIONAL. A JUNTA DA REAL EXPEDIÇÃO
DE CONQUISTA DOS CAMPOS DE
GUARAPUAVA (1810-1821)

ALMIR ANTONIO DE SOUZA1

A Junta da Real Expedição e Conquista dos Campos de Guarapuava

A partir da chegada de Dom João VI ao Brasil em 1808, organiza-se na


Capitania de São Paulo, uma Junta formada pelo Capitão-General da Capitania,
mais quatro membros deputados para planejar e executar a conquista dos
campos de Guarapuava, entre eles o Deputado João Vicente da Fonseca, escri-
vão da mesma Junta, que passaria a se chamar a ‘Junta da Real Expedição e
Conquista dos Campos de Guarapuava’. João Vicente da Fonseca colocou em
livro todas as ordens da respectiva Junta. 2 O livro em questão está identificado
como Secretaria do Governo da Província de São Paulo no Fundo destinado as
Ordens Régias e Avisos Ministeriais relativos a Real Expedição e Conquista de
Guarapuava e encontra-se no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. 3

1
UNICENTRO, Pós-Doutor em História – CAPES. E-mail: almirppo@gmail.com.
2
Tal livro encontrado no Arquivo nacional, após a leitura paleográfica, no que foi possível, já que o
mesmo deve ter se molhado em algum momento de sua trajetória nos arquivos, e algumas páginas esta-
vam praticamente ilegíveis, demonstrou-se revelador de um período um pouco ausente de fontes dentro
da história do Brasil, o período em que se desenvolveu a Real Expedição de Conquista dos Campos de
Guarapuava.
3
João Vicente da Fonseca. Deputado escrivão da Junta. “Neste livro se achão rubricado por mim aos
deputados da Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava, com seus nomes servir para nelle se
registrar todos os oficcios e ordens da mesma dita junta dirigida ao tenente coronel comandante do
almoxarife, tesoureiro, intendentes e mais possíveis empregados na dita real expedição, outrossim neste
mesmo livro vão registrados os provimentos passados as pessoas empregadas na dita expedição, e con-
quista.” Secretaria do Governo da Província de São Paulo - Fundo Registro de Ordem Régias e Avisos
Ministeriais relativos à Real Expedição e Conquista de Guarapuava contra os Indios. – Codice 458- vol.
1 e vol. 2. 8E 02370. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro (AN). Vamos manter nas citações do estudo a
grafia original dos documentos.

42
As ordens da Junta foram direcionadas para várias pessoas, principal-
mente para o Tenente Coronel Comandante do Almoxarife, o Intendente e mais
possíveis empregados na Real Expedição, como seus comandantes e oficiais.
Entre os membros da junta estava o Presidente da mesma e Governador da
Capitania Antonio José de Franca e Horta, o Inspetor dos Corpos Milicianos da
Província, Tenente-General José de Arouche Toledo Rendon, o escrivão e Depu-
tado João Vicente da Fonseca e os Tenentes Coronéis e Deputados João da Cos-
ta Ferreira e José Vaz de Carvalho.
O conjunto estrutural para invadir e ocupar os campos de Guarapuava
requeria uma logística de razoáveis proporções, era preciso montar um Trem
Real de Guerra com cerca de trezentas pessoas, entre militares, povoadores e
empregados, e uma das primeiras providências é o armazenamento de grãos
que pudesse abastecer a expedição durante os primeiros meses permitindo,
passo a passo, ir ocupando e tomando conta dos campos tão desejados para a
criação de gado (ARQUIVO NACIONAL, 1809, p. 3).
O fato que se sucedeu à ordem real foi a reunião meses depois, em Cu-
ritiba, de tropas que foram deslocadas para a região dos campos de Guarapua-
va. O ano de 1809 foi o momento da chegada de uma enorme expedição com
mais de 300 pessoas entre soldados, suas famílias, alguns operários e escravos.
O objetivo da expedição era ocupar esses campos abrindo espaço para as fa-
zendas de criação (MOTA, 1994, p. 125). Porém, para que essas tropas pudes-
sem estar reunidas em Curitiba, era necessário providenciarem-se seus
salários, o que foi feito pela Junta em determinação ao Tenente Coronel Manoel
Gonçalves Guimarães:

[...] desde já agradecer-lhes refferido suprimento; igualmente lhe veja, que


sendo de á necessidade o pregar-se a tropa que vão em auxilio da expedição
o seo competente soldo, que para Ella entrar, se perciza pelo menos, que V.M
haja de remeter e mandar assistir em Curitiba com seis centos mil reis a cada
mês até dezembro do corrente anno, tempo em que não só setem calculado
certas despezas, que se deverão fazer endiario sustento dos empregados,
como tão bem se conheça do verdadeiro rendimento do tributo [...]Do seo
conhecido zello, prestimo, espera esta junta huma prompta resposta, relativa
ao segundo suprimento, para á vista della fazer partir á expedição, dár as ul-
timas ordens ao seo exppressivo commandante em chefe. São Paulo 12 de
Maio de 1809 (ARQUIVO NACIONAL, 1809, p. 3).

Seiscentos mil réis por mês até dezembro era o que o Tesoureiro e Al-
moxarife teria à disposição para pagar os soldos da tropa. O missionário e 1º
Capelão, que acompanhou a expedição, conforme o plano de Dom João, foi o
padre Francisco das Chagas Lima que, sobre a conquista de Guarapuava, afir-
mou: a expedição mandada no ano de 1809 para Guarapuava entrou nessa

43
conquista onerada com um trem de guerra assas exorbitante, e tropa de duzen-
tos soldados sem contar o estado maior.4
O Padre, Francisco das Chagas Lima era o Capelão militar, comum nes-
sas expedições que, como missionário, exercia suas funções na firme ideia de
catequizar os índios, trazê-los à civilização e, consequentemente, ao trabalho
na expedição e nas estâncias. Pela escolha da Junta, do Conde de Linhares e do
Príncipe Regente, o comando da Expedição recairia sobre a figura do Sargento
Mor que comandava o Regimento de Cavalaria miliciana de Curitiba - Diogo
Pinto de Azevedo Portugal - que recebe o título de Tenente Coronel.
No ano seguinte, em janeiro de 1810, as tropas mais avançadas che-
gam aos Campos de Guarapuava, os primeiros a entrar foram os da força regu-
lar, comandados por um Tenente das tropas de 1ª linha, como escreveu o
Conde de Linhares em correspondência ao Inspetor dos Corpos de Milícia da
Capitania de São Paulo, o Tenente-General José de Arouche Toledo Rendon:

Recebi o officio que V.M me dirigio em 5 do corrente, que não deixarei de le-
var a presença de S.A.R o príncipe Regente Nosso Senhor, e muito agradeço a
bella noticia que me da de principio da estrada de campos da Guarapuava, e
da belleza dos mesmos , o que espero justifique a grande Idea de S.A.R de re-
iniciar a tentativa principiada no reinado do seu grande avo e Senhor Rey D.
José o 1º de gloriosa memória.
Muito estimo a ação do tenente da legião, comandante da tropa de Linha, que
primeiro entrou no campo, o que só senti foi que o general o mandasse reti-
rar, pois S.A.R a manda novamente restituir ao mesmo serviço, onde pode
ser-lhe muito útil.
Igualmente desejarei que o seu governador o mande aos mesmos campos,
acompanhado de algum engenheiro, e do diretor de agricultura, que foi no-
meado para os campos afim que se reconheção os meios mais promptos , e
seguros de adiantar a civilisação dos Indios, de promover a povoação, de fa-
zer estabelecer fazendas de creação, de que resulte o conhecer-se logo a uti-
lidade, que se poderá tirar dos mesmos campos em breve tempo.
26 de Fevereiro de 1810 - Conde de Linhares. (ARQUIVO HISTORICO DO
EXERCITO, 1810, p. 130).

O Conde de Linhares felicita ao Inspetor dos Corpos de Milícia da Capi-


tania de São Paulo e Deputado membro da Junta da Expedição e Conquista dos
Campos de Guarapuava, José de Arouche Toledo Rendon, pelo início da abertu-
ra da estrada para os campos de Guarapuava e a chegada nestes do Tenente

4
Cf. Estado Actual da Conquista de Guarapuava no fim do anno de 1821. Escrito pelo padre Francisco
das Chagas Lima. In: (FRANCO, 1943, p. 259). O vigário Francisco das Chagas Lima, chegou a Guara-
puava, em 17 de junho de 1810, junto com a Real Expedição Colonizadora dos Campos de Guarapuava,
onde seria levantado o Fortim Atalaia, o que pode ser considerado o início da povoação portuguesa dos
Campos de Guarapuava. O religioso possuía, além das atribuições atinentes e próprias do ofício, a tarefa
de realizar o registro dos nascimentos, dos batismos, dos casamentos e dos óbitos ocorridos no novo
povoamento.

44
comandante de uma tropa de 1ª linha, o primeiro que entrou no campo. Dessa
forma como escreveu o Conde de Linhares e Ministro da Guerra ficava reinici-
ado por Dom João a tentativa principiada no reinado do seu “grande avô” Rei
Dom José o 1º de gloriosa memória, da conquista dos campos de Guarapuava.
Mas, dessa vez, não se tratava apenas de um contingente pequeno, tratava-se
do ‘Trem Real de Guerra’, e as estratégias eram diferenciadas, a partir de um
acampamento que ficava no pouso chamado São Felipe, lançou-se outro, onde
deveria estacionar o novo quartel, um lugar chamado ‘Campo do Capim’.
Os práticos (mateiros) já tinham dado a notícia de uma nova picada, ou
trilha de gentio, acharam um caminho mais transitável que tinha saída em um
lugar de bons pastos, chamado de Campo do Capim. Era necessário, de acordo
com a Junta, transferir o acampamento do trem real de guerra para esta nova
entrada aos campos de Guarapuava (ARQUIVO NACIONAL, 1810, p. 12).
Entre os meses de fevereiro até o início de julho, existiu um silêncio
nas comunicações sobre a expedição, do qual o Conde de Linhares solicitou
informações ao Governador de São Paulo, Antonio José da Franca e Horta:

Havendo já passado alguns mezes, sem que V.S de conta do estado em que se
acha a Expedição dos Campos de Guarapuava, que S.M.R o Principe Regente
N.S tanto tem mandar recomendar a V.S, e de que V.Sª deveria ter dado con-
ta ao menos todos os mezes; He S.A.R servido que V.Sª informe logo dos mo-
tivos deste silencio, e dê conta de tudo o que se tem obrado, e do estado em
que se acha a mesma Expedição, não só referindo o que setem avançado no
terreno que se vai explorando, mas fazendo conhecer as sementeiras e ros-
sas, que se tem preparado para o sustento dos Exploradores, o que tem ren-
dido os fundos destinados para Expedição, e se os mesmos são sufficientes; e
igualmente o que setem encontrado de Indios, e o que contar da sua índole, e
estado de Civilisação, espero que V.Sª senão descuide em cumprir esta reaes
ordens, que tenho a honra de lhe dirirgir.
Rio de Janeiro em 6 de Julho de 1810 (ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO,
1810, p. 144).

Este silêncio nas comunicações, provavelmente, estava vinculado à


mudança do acampamento, que a essa época se chamava abarracamento. No
mês de junho de 1810, o trem real de guerra já estava abarracado no campo do
Capim. Foi dado a este novo abarracamento o nome de Linhares, em homena-
gem ao Ministro da Guerra, Dom Rodrigo de Souza Coutinho, o Conde de Li-
nhares. No início de junho, Diogo Pinto de Azevedo Portugal mais uma
comitiva adentram os campos de Guarapuava, entre eles o missionário Fran-
cisco das Chagas Lima, que assim escreveu em suas memórias sobre este mo-
mento:

Reconhecido e aberto o caminho, marchou a Expedição a 10 de junho de


1810, e sem opposição do gentio chegou aos campos no dia 17 do dito mês,

45
ás 10 horas da manhã. Levou oito dias o reconhecimento, e se fez até a dis-
tância de 10 leguas, e não se tendo encontrado habitante, passou-se a fundar,
da parte d’alem do rio Coutinho, a povoação da Atalaia, nome que proveio de
se ter erigido a primeira obra desta qualidade, com a elevação de 40 palmos,
sobre quatro esteios, de onde a sentinella podia descobrir grande extensão
do campo (LIMA, 1842, p. 45).

A história tradicional e oficialista dos vencedores e suas façanhas he-


roicas procura mostrar o excerto acima como um momento mítico de origem
de Guarapuava, e Diogo Pinto de Azevedo Portugal como o principal protago-
nista e Francisco das Chagas Lima como primeiro coadjuvante, e assim se inici-
ava uma era. É evidente que para Francisco das Chagas Lima, em suas
memórias, este é o seu momento de descoberta dos campos, mas, essa entrada
nos campos era apenas mais uma de muitas que já tinham acontecido. Em rela-
ção à fundação do povoado em Atalaia, tal não vai acontecer de imediato, e
nem depois, já que Atalaia após 1820 com a ereção da freguesia de Guarapuava
a uma légua e meia, seria apenas fortim e aldeamento, e, tudo indica que antes
de 17 de junho de 1810, havia no local (dado a entrada das tropas de 1ª linha,
já em janeiro de 1810) algum tipo de abarracamento.
O Missionário Chagas também nos diz que passaram a denominar o
monte, onde se ergueria o fortim e o posto de sentinela, com a palavra ‘Atalaia’
que significa ponto elevado de onde se vigia. Ora, esta denominação vinha des-
de os tempos da expedição de Afonso Botelho, e Diogo Pinto de Azevedo Por-
tugal ali já tinha estado. E, em relação a esse, pode-se dizer que não tinha
exatamente boas lembranças do monte Atalaia, (teve que bater em retirada e,
com risco de perder a vida, em 1774) e durante os próximos anos, o velho co-
mandante vai realizar talvez sua maior guerra, a vontade de instalar a povoa-
ção em Linhares (um dos abarracamentos da expedição onde provavelmente
estavam as terras e a família de Diogo Pinto), vontade que só vai cessar em
1820, quando morre aos 70 anos de idade, ainda lutando para juntar gente e
montar o povoado de Linhares, enquanto que a freguesia de Nossa Senhora de
Belém nos Campos de Guarapuava havia sido fundada (não em prática de ins-
talação do povoado que só vai acontecer a partir de janeiro de 1820, mas na
lavratura de um termo escrito de fundação) em nove de dezembro de 1819
pelo Padre Francisco das Chagas Lima e o Tenente comandante de Atalaia An-
tonio da Rocha Loures. Uma determinada historiografia instituiu o mito funda-
dor de Guarapuava no dia dezessete de junho de 1810, e se erigiu em praça
pública uma estátua de Diogo Pinto de Azevedo Portugal montado sobre um
cavalo, como símbolo maior deste momento, e, mesmo que se leve em conside-
ração a importância do personagem Diogo Pinto e o significativo ato de entra-
da nos campos de Guarapuava, e de início do povoamento português nos
campos, porém, os alicerces da atual cidade de Guarapuava foram colocados

46
pela iniciativa do Padre Francisco das Chagas Lima e do então Tenente Antonio
da Rocha Loures e inclusive contrariando a vontade de Diogo Pinto de Azevedo
Portugal e seu desejo de instalar a povoação em outro lugar - Linhares.
Em junho de 1810, a primeira tropa de milicianos que vai abarracar no
lugar chamado Atalaia, será a tropa do Tenente Antonio da Rocha Loures. Ini-
ciam-se duas histórias, a da família Loures e a do fortim Atalaia, é nele também
que vai estar o primeiro aldeamento indígena dos campos de Guarapuava. As
terras deste aldeamento em 1818 seriam doadas como sesmaria para os indí-
genas por Dom João.5
No dia vinte e cinco de agosto de 1810, o fortim é visitado pelos indí-
genas, chegaram de forma amigável, permanecendo três dias junto ao desta-
camento comandado por Antonio da Rocha Loures. No dia vinte e nove de
agosto de 1810, os índios retornariam, mas dessa vez como inimigos atacando
o fortim, conforme declarou em parte a Junta da Expedição, o Tenente Loures:

[...] da parte de haver concluído o novo caminho e chegado aos campos de


Guarapuava, mostrando o mappa de diversas exploraçoes que se tenha feito
abarracando-se na paragem chamada Atalaya bem como da primeira amiga-
vel vizita que fizeram os Bugres ao Destacamento abarracado por espaço de
tres dias mostrando todas as demostraçoens de pas e amizade como os ca-
maradas aly destacados, e aonde tornaram em dia vinte e nove mas já como
inimigos atacando o mesmo destacamento, e lançando fogo dos Ranchos e
frechando dous homens, como se ve da parte que deu o tenente comman-
dante Antonio da Rocha Loures [...] exige outra povoaçao, para diante ha-
vendo fortificar-se de tal sorte que os bugres não possão chegar com a
facilidade com que deram o primeiro assalto, tendo prontas as pessas da ar-
tilharia em todos os estabelecimentos, e acçoens para o que conservará o
numero de duzentos soldados prontos, entre milicianos e pedrestes da or-
denança da villas de Curitiba, e as mais a quem nesta decazião se espedem as
competentes ordens (ARQUIVO NACIONAL, 1810, p. 25).

Como se vê no excerto, o ataque foi repelido pelas forças do destaca-


mento, resultando desse, apenas duas baixas, dois soldados feridos por flecha,
embora alguns barracões que serviam de alojamento e armazém fossem in-
cendiados. De acordo com a Junta, o êxito na defesa, só havia sido alcançado
pelas medidas de segurança que já havia tomado o Tenente Antonio da Rocha
Loures, como a construção de paliçadas e fossos (ARQUIVO NACIONAL, 1810,
p. 25). No mês de setembro, a Junta da Expedição, diante dos fatos, não hesita
em determinar ao comandante Diogo Pinto de Azevedo Portugal a imediata

5
D. Mateus de Abreu Pereira. Carta de Sesmaria pela qual V. Exa. S. A. R. Concede os Terrenos Com-
preendidos entre os Rios Coutinho e Lageado Grande nos Campos de Guarapuava. (cópia). Guarapuava:
ACMG, coleção SC, 1818. (LIMA, 1842, p. 49). Esta Carta de Sesmaria se encontra no Arquivo Muni-
cipal de Guarapuava-UNICENTRO-,no site <http://orbita.starmedia.com/marcos_ae/ guarapua-
va/documentos.html>.

47
mudança de todo o Trem Real com os 200 soldados e mais peças de artilharia
para o lugar chamado Atalaia, onde deveriam abarracar e levantar o povoado, e
caso os índios voltassem em paz bastaria “[...] agradalos debaixo de toda caute-
la, e vigilancia sendo a povoação estabelecida bem fortificada e arranjada se
não animarão a atacalla como fizerão ao pequeno abarracamento da Atalaya”
(ARQUIVO NACIONAL, 1810, p. 25). Neste momento se estabelecia uma grande
diferença em relação às expedições de Afonso Botelho, ao ataque indígena não
se enfraqueciam as forças, ainda existia todo um trem de guerra para ser des-
locado até o lugar chamado Atalaia, e onde deveria ser erigido o novo povoado.
Um dos fazendeiros mais ricos da região o Sargento Mor José Felix da Silva
dono da fazenda Fortaleza, contribui com trinta bestas, dez alqueires de feijão
e 100 bois, oferecidos para ajudar a conduzir o trem da Real Expedição ao
quartel de Guarapuava. Dom João determina ao Inspetor dos Corpos de Milícia
e Deputado da Junta, o Tenente General José de Arouche Toledo Rendon, que
vá ele mesmo até os campos de Guarapuava e tome providências para que se
adiante o povoado e a civilização dos indígenas (ARQUIVO NACIONAL, 1810, p.
25). Em novembro de 1810, Diogo Pinto de Azevedo Portugal e o trem de guer-
ra já estão instalados em Atalaia. Ficava configurada uma linha de destacamen-
tos que começava na Serra da Esperança, no antigo pouso de São Felipe, depois
em Linhares, e por final o fortim Atalaia, de tal modo que impossibilitava uma
maior resposta em termos de ataque por parte dos povos originários. O co-
mandante comunicava à Junta, da segurança em que se achavam os abarraca-
mentos de Guarapuava, Esperança e Linhares, destarte a morte de dois
soldados, entre eles o irmão do Tenente Antonio da Rocha Loures do fortim
Atalaia, o soldado José da Rocha Loures, morto pelos indígenas ao transportar
gado e mantimentos de Linhares para Atalaia, como se vê na comunicação da
junta com o comandante Diogo Pinto:

[...] 11,15, e 17 de Novembro do corrente anno, sobre o seu conteudo tem a


responder-lhe, que fica sertã da segurança em que se acha os abarracamen-
tos do campo de Guarapuava, da Esperança e Linhares, e da pronta resposta
que fica a dar aos officios ultimamente recebidos desta Junta do infelis acon-
tecimento da morte do cabo miliciano Justo de Souza Bueno julgando se sem
culpa alguma o soldado miliciano Daniel da Silva que concorreu para Ella,
primo, e intimo amigo do falecido pela escrupulosas indagaçoes a que pro-
cedendo mesmo tenente coronel commandante, e vos publica de tao invo-
luntario susseço da morte do soldado Jose da Rocha Loures que foi
assassinado por tres bugres, que em selada esperarão a condução do gado e
mantimentos que se levava para o abarracamento, avisto pela pouca cautela
do mesmo camarada, se adiantar dos mais expondo-se como de facto se ex-
pos a hum semelhante acontecimento. São Paulo 20 de dezembro 1810
(ARQUIVO NACIONAL, 1810, p. 33).

48
De acordo com a Junta, a morte de José da Rocha Loures foi causada
por sua imprudência ao afastar-se da comitiva e percorrer sozinho o caminho.
Isso indica, de fato, o risco de vida que se corria na expedição. Tal risco de vida
justificava um melhor salário, pelo menos assim devem ter pensado os dois
missionários da expedição, que passaram a requerer aumento de soldo, já que
o pratico Sebastião Cordeiro da Silva recebia mais do que eles. A Junta assim
respondeu ao pedido dos Capelães da Expedição:

Que atendo esta Junta a representação que lhe faz o padre Francisco das
Chagas Lima, vigario, e primeiro capellão da Real Expedição, e dos conheci-
dos bons serviços em que se tem empregado, no espaço de dezoito mezes,
com honorário de dez mil reis cada um que mal lhe tem chegado para a sua
decente subsistencia, se ordena ao commanadante em chefe lhe mande pa-
gar a congrua de duzentos mil reis por anno com o vencimento do 1 ºde Ja-
neiro desta em diante; e bem assim ao segundo capellao Antonio Texeira
Camelo, na conformiddae da provizao incluza enquanto esta junta não man-
dar o contrario. Da mesma forma sendo atendiveis os bons serviços, que tem
feito á Real Expedição o pratico Sebastião Cordeiro da Silva se lhe continue a
mesma gratificação de doze mil reis mençaes durante o tempo que o com-
mandante lhe mandar pagar (ARQUIVO NACIONAL, 1811, p. 38).

A Junta aceitou a representação dos missionários, até porque a experi-


ência já tinha demonstrado, conforme aconteceu com a expedição de Afonso
Botelho quando o padre abandonou a mesma, que tal fato poderia trazer gra-
ves consequências para o ânimo dos povoadores formados principalmente
pelos milicianos e suas famílias, como o Tenente Antonio da Rocha Loures, que
ali estava com mulher e muitos filhos. A Junta aceita pagar um soldo para os
Capelães, igual ao que recebia o comandante, ninguém menos que o Tenente
Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal. Este fato indicava que o Padre Fran-
cisco das Chagas Lima passava a exercer um poder importante na expedição.
Com relação ao vencimento do prático Sebastião Cordeiro da Silva, a ‘Junta’
determinou que se continuasse a pagar seus vencimentos pelo bom serviço
que tem prestado, enquanto o tempo que o comandante lhe quiser pagar. Se-
bastião Cordeiro da Silva era dos homens de maior confiança do Tenente Co-
ronel Diogo Pinto, ao que indicam as fontes. Neste sentido, o comandante ia
sentir um duro golpe quando a ‘Junta’ determinou a demissão de Sebastião
Cordeiro e sua substituição pelo Tenente Manoel Soares do Valle, como se pode
observar no documento que segue:

Sendo prezentes nesta Junta os officios, que ultimamente the remetteo o te-
nente coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal nas datas de 30 e hum de
Abril, e doze de Julho proximo passado [...], pela qual responda, isto que toda
a força da Real Expedição, deve assentar-se na projectada Povoação, para se
empregar nos detalhes do seo augmento.

49
Que como esta Junta esta sciente pelas diversas participações que tem de
que a nova Povoação apenas se acha riscada no lugar denominado Atalaya
com madeira cortado para os seos edeficios, e alguns monjollos, e roça de
mantimentos, e com muito pouco adiantamento ate o fim de Junho, como
participa o mesmo comandante na data de 12 de julho, tudo por causa dos
serviços das roças; ultima exploração que ocupou muita gente, e mesmo pelo
embaraço do invernozo tempo, que tem havido, Mande lembrar ao mesmo
commandante, que em consequencia[...] que sabendo esta junta da eficiencia
do pratico Sebastião Cordeiro, houve por bem nomear em seo lugar ao te-
nente Manoel Soares do Valle, a quem o mesmo commandante encarregará a
exploração dos campos, pela pratica, que tem deste exercicio, e tudo o mais
que o seo conhecimento permitir, para augmento da povoação, vem sendo
neste emprego o mesmo ordenado mensal de 12 mil reis, que vencia o dito
pratico Sebastião Cordeiro.
São Paulo 30 de Agosto 1811 (ARQUIVO NACIONAL, 1811, p. 41).

Em agosto de 1811, a povoação ainda estava apenas riscada no lugar


onde deveria ser implantada, como se vê na citação, com apenas a madeira
cortada para as edificações e alguns moedores de grãos e roça de mantimentos.
O comandante, além de substituir seu prático de confiança, deveria também
reunir todos os armazéns dos abarracamentos em um só, próximo ao destaca-
mento de Atalaia e o mais perto possível do novo povoado, e que todas as for-
ças deveriam estar concentradas neste lugar. Além disso, no mês seguinte, a 08
de outubro de 1811, a Junta daria uma reprimenda no comandante Diogo Pinto
pela forma violenta que, no mês de maio, teria tomado 60 bois da invernada de
Joaquim Barbosa Leite, ao qual foi mandado restituir a quantia respectiva ao
valor do prejuízo (ARQUIVO NACIONAL, 1811, p. 52). No mesmo mês de outu-
bro, o Cirurgião Mor dava parte à Junta das moléstias de Diogo Pinto. Para o
restabelecimento deste deveria estar em Linhares, onde poderia se prover
melhor de alimentos necessários para o tratamento que, por ora, ainda não
existiam em Atalaia, lugar onde deveria residir o comandante.

[...] a participação da cirurgiao mor da Real Expedição de Guarapuava das


molestias de que ultimamente foi acometido o tenente coronel commandan-
te da mesma Real expedição Diogo Pinto de Azevedo Portugal. E attendendo
por huma parte ou não haver ainda por óra na nova povoaçao de Atalaia a
onde actualmente he orbigado a rezider o dito commandante todos os socor-
ros necessarios de alimentos vegetais, e animais, que possa facilitar o seo
melhoramento como he em Linhares mais proximo do povoado, e por outra
o atrazo que pode haver na dita povoação com a sua falta, huma vês que se
lhe agrave a sua molestia.
Nesta mesma occaziao se ordena ao mencionado commandante, possa vir
residir no lugar de Linhares por tempo de tres a quarto mezes. (ARQUIVO
NACIONAL, 1811, p. 53)

Diogo Pinto de Azevedo Portugal durante um tempo de quatro meses


ficaria residindo em Linhares, onde estaria mais bem provido de alimentos

50
vegetais e animais, segundo o cirurgião. Pelo que se pode deduzir era em Li-
nhares que o comandante da expedição tinha suas roças e seus animais e em-
pregados, e muito provavelmente onde estava sua família.
No ano seguinte, já em março de 1812, nem o soldo de 200 mil réis por
ano animou o 2º Capelão Antonio Teixeira Camelo, que já tinha substituído ao
Frei beneditino Pedro Nolasco e, após ficar doente, em carta à Junta da Expedi-
ção suplica a sua demissão, que é aceita pela Junta determinando que outro
fosse nomeado em seu lugar. (ARQUIVO NACIONAL, 1812, p. 57). Mas os tra-
balhos de cooptação de indígenas continuavam, a ‘Real Expedição’ comprou
três índios para servirem de intérpretes ao preço de 12.800 réis cada um:

O Coronel Antonio Francisco de Aguiar Administrador e recebedor do tribu-


to emposto para as despezas da Real Expedição e Conquista de Guarapuava,
entregue do dinheiro do dito tributo a Florentino de Moraes Ribeiro a quan-
tia de trinta e oito mil e quatrocentos reis importancia de tres índios que o
mesmo vendeo para a Real Expedição. (ARQUIVO NACIONAL, 1812, p. 58).

A compra dos índios indicava um comércio que existia deste tipo de


mão de obra. A aquisição destes índios para servir como intérpretes vai tornar
desnecessária a presença na expedição dos chamados línguas, aqueles que
falavam alguns dialetos indígenas. O ano de 1812 foi caracterizado como de
intensificação da preocupação com a sobrevivência do núcleo de Guarapuava.
No ano de 1812 nos meses de junho e julho se apresentariam volunta-
riamente (em ato de rendição) no destacamento em Atalaia mais de 300 índios,
e tinha início o aldeamento e a história de Antonio José Pahi.

Antonio José Pahi, um líder indígena

Pahi chegou ao forte Atalaia com 25 anos de idade (LIMA, 1842, p. 36),
acompanhado de mulher, dois filhos e dois sobrinhos. Alguns dias depois che-
gou o irmão de Pahi, o índio Gruton, com mais alguns índios (FRANCO, 1943, p.
218). No ano de 1812, conforme tabela do numero de Indios que se renderam a
expedição, seu progresso e alterações, confeccionada pelo missionário Chagas
em dezembro de 1827, dava conta que nesse ano renderam-se à expedição 326
índios (FRANCO, 1943, p. 62). Essas rendições em massa, chamadas de desci-
mentos no período colonial, estão inseridas dentro de um contexto dos usos e
costumes da terra, no caso, costumes estabelecidos na arte da guerra, mas par-
ticularmente na guerra mediada pelo militar ocidental com as populações indí-
genas (PERRONE-MOISÉS, 2006, p. 118).
Nestes casos, os líderes indígenas que convenciam os seus a viver no
aldeamento próximo às povoações eram nomeados pelo comandante da expe-
dição de ocupação com cargos militares, como os de Capitão, Tenente e Alferes

51
que, longe de serem fictícios, obedeciam a regras e, na maioria das vezes, rece-
biam fardamentos e salários, mesmo que, normalmente, os vencimentos dos
militares nos destacamentos, principalmente os de fronteira, fossem pagos
com meses de atraso, quando eram pagos. 6 Mas, em nosso caso, não era um
descimento, mas sim apresentação voluntária que parecia um ato de rendição.
O nome Pahi foi como a expedição entendeu o nome do líder indígena,
mas a verdade é que Pahi é a forma que os índios Kaingang chamavam qual-
quer liderança grupal, conforme já disseram e afirmaram vários antropólogos,
já nas expedições de Afonso Botelho aparece essa expressão no encontro com
os grupos indígenas e seu chefe, o Pahi, e quando, inclusive, chamam o próprio
Tenente Coronel Botelho de Pahi (SOUZA, 1956, p. 33). Mas, o fato é que havia
um grande número de índios em Atalaia, e a Junta da Expedição emitiu novas
ordens ao comandante Diogo Pinto de Azevedo Portugal:

Tendo prezentemente a Junta da Real Expedição de Guarapuava os diversos


officios que o tenente coronel commandante Diogo Pinto de Azevedo Portu-
gal lhe dirigio nas dattas de 2, 14, e 30 de Julho, 9 e 25 de Agosto proximo
passado em os quaes participa o estado em que se acha a mesma Real Expe-
dição, e pede algumas providencias para o seo prosseguimento principal-
mente sobre o destino e arranjo que deve aos 337 Bugres que pela sua
ultima participação ficarão alojados na povoação de Atalaia alem dos mais
que vierem vindo com os seos, ou demostraçoens de amizade, e cada ganha-
ra hu dos objectos desta Real Expedição [...]
A povoação sem que esta se arrisque com as forças dos seus empregados por
alguma inopinada traição, ou mal entendida amizade e todos os mais, que
igualmente por seo gosto quizerem sahir guiados por pessoas capazes, e
bem tratados em pequenos lotes, ou como melhor convier forão conduzidos
para os campos geraes de Curitiba para ali serem aldeados, e estabelecidos
de baixo da inspecção, e vistas do doutor Ouvidor daquella comarca João de
Medeiros Gomes [...]
O Comandante observara que o bom tratamento que deve dar a estes selva-
gens não deverá jamais embaraçar o desejo de alguns destas famílias que vo-
luntariamente queira tornar para as suas habitaçoens ainda mesmo depois
de vestidos, e de alguma forma familiarizados.
Assim como poderá conseder a algumas pessoas capazes aquelles índios que
quizerem de sua livre vontade acompanhalos para os vestir e sivilizar, e da
mesma forma tendo occazião oportuna fará conduzir para esta cidade ao ín-
dio Pahy e mais alguns de sua família se elle quizer para ser bem tratado, e
vestido athe regressar se assim o exigir (ARQUIVO NACIONAL, 1812, p. 61).

Este excerto é revelador, deixa claro, entre outras coisas, a distribuição


dos índios para famílias de Curitiba e Campos Gerais. Em relação ao número de

6
Na documentação que pesquisei os comandantes das povoações em muitas vezes queixavam-se a Junta
da Fazenda, pedindo recursos para o sustento da povoação e principalmente reclamando do atraso dos
salários que, às vezes, chegavam quase a dois anos, quando eram pagos.

52
índios apresentados, já há uma divergência no que se refere ao número que foi
relatado pelo padre Chagas, 326 para 337, mas o que importa é o destino des-
tes indígenas, as providências que vão ser tomadas no caminho da tal missão
de “catequese e civilização”. No caso acima, muitos serão entregues sob os
cuidados de João de Medeiros Gomes, Ouvidor da comarca de Curitiba, em
pequenos lotes para serem entregues para “pessoas capazes”. O Ouvidor da
comarca de Curitiba recebe determinação da Junta “[...] afim de arranjar aquel-
les bugres, que forem enviados pelo comandante da Expedição, e fazer a reme-
ça dos homens da ordenança que faltão para o estado completo da povoação de
Atalaia” (ARQUIVO NACIONAL, 1812, p. 63). Com relação ao índio Pahi, ele e
sua família vão ser conduzidos para a cidade de São Paulo, para ali serem ves-
tidos e educados para o mundo dito civilizado luso-brasileiro.

Tendo chegado a esta Cidade o dito Indio Pahy, e seos semelhantes conduzi-
dos pelo Tenente Coronel Manoel Antonio Rangel, e tenente Manoel Soares
do Valle, forao vistos por esta junta, e por ordem da mesma novamente ves-
tidos, brindados, e tratados com a melhor hospitalidade possível, para serem
outra vez reconduzidos a povoação de Atalaia onde fação ver aos mais, que
ali se acharem, e vierem vendo dos alojamentos o bom agazalho que tiverão,
e a certeza da nossa amizade; para o que fez esta Junta entregar ao tenente
Manoel Soares do Valle as ordens para este retorno [...] quizerem sahir para
fora com alguem que voluntariamente queira acompanhar alguma pessoa
capaz; hua vez persuadidos pelo Pahy, e os outros do bom agazalho, que lhe
demos, e do bem com que os tratamos, serão remettidos ao Doutor ouvidor
da Commarca de Curitiba para este os distribuir pelas cazas boas do Distric-
to daquella Villa, e da de Castro, afim de que por este modo mais facilmente
se acostumem aos nossos usos, e se sivilizem, sem despeza da real expedi-
ção, esperando-se, que estes não queirão voltar aos seos lares por Esso que
estão mais distantes; para o que o commandante em Chefe se entendera com
o referido Ministro, visto que nesta occazião reprezenta ser este hum meio
de se poderem aproveitar em attenção as pequenas forças da Povoação e seu
estado actual. Que não convem por ora, a projectada picada do novo cami-
nho para Missoens (ARQUIVO NACIONAL, 1813, p. 66).

O Tenente e prático da expedição Manoel Soares do Valle, juntamente


com o almoxarife, Tenente Coronel Manoel Antonio Rangel, é que conduziram
em uma comitiva Pahi e sua família até a cidade de São Paulo. O objetivo desta
missão era estratégico, mostrar ao líder dos índios de Guarapuava e seus fami-
liares o bom agasalho que tiveram e a amizade dos civilizados, assim todos
foram bem tratados. Ficaram tempo suficiente para aprender o português,
principalmente Pahi, pelo menos o necessário para servir de intérprete com
outros índios e, na tentativa de atrair outros grupos indígenas para renderem-
se e deixarem-se aldear (LIMA, 1842, p. 55). No retorno, o Tenente Manoel
Soares do Valle deveria levar as novas ordens ao comando da Expedição e ao
Ouvidor da comarca de Curitiba para que, através da intervenção de Pahi, os

53
índios fossem persuadidos a acompanhar alguma pessoa capaz e convencidos
de serem bem tratados, seriam remetidos à Curitiba para que fossem distribu-
ídos aos moradores de Castro e Campos Gerais. Deste modo, a dita catequese e
civilização dos índios aconteceria “sem despeza da real expedição”.
Estrategicamente, tratava-se de dividir o inimigo, mandando os índios
para longe de seus lares, inclusive pelas pequenas forças que ora se encontrava
na povoação de Atalaia e, como tal, deveria se evitar qualquer nova exploração,
inclusive a “projectada picada do novo caminho para Missoens”. Enquanto a
abertura de um novo caminho para Missoens não se inicia, a partir do aldea-
mento e distribuição do povo originário comandado por Pahi, já em 1813 o
‘Trem Real de Guerra’ passa a ser desmontado, ou pelo menos o número de
homens para a empreitada já pode ser diminuído, os índios já foram “educados
e catequizados”, e o butim já está sendo dividido, já podia comemorar o Prínci-
pe Regente e futuro El Rey, a conquista fora realizada (ARQUIVO NACIONAL,
1813, p. 66).
Nos anos entre 1812 e 1814, segundo o Padre Chagas, os principais
grupos que rondavam o povoado da Expedição no fortim Atalaia eram forma-
dos majoritariamente pelos grupos que ele denominou de Camés e Votorons.
Pahi era Camé, e principal líder e atuava como intérprete, já que aprendera o
português nos meses de convivência na capital em São Paulo. Do lado Votoron
existia a liderança de Hyppolito Condoi, homem já ancião, batizado a 13 de
agosto de 1812 após sobreviver a uma enfermidade e que, nos anos seguintes,
retirar-se-ia com todo o seu grupo para uma campina depois do rio Iguaçu, a
32 léguas do fortim Atalaia, agregando grupos vizinhos, formando um corpo de
200 pessoas (LIMA, 1842, p. 48). Hippolito Condoi, ao contrário de Pahi, não
colaborava com o missionário na composição de número maior de indígenas
ao processo de vivência na reclusão do aldeamento. Condoi mantinha certa
resistência à catequização e mudança de seu modo de vida, ao mesmo tempo
em que se deixava ficar.

A fundação de Guarapuava

Ao final do ano de 1819, a Junta da Real Expedição, muito provavel-


mente de acordo com as pretensões de Diogo Pinto de Azevedo Portugal, de-
termina o fim do comando interino exercido pelo Tenente Antonio da Rocha
Loures em Atalaia, e determina a remoção do trem real de guerra para Linha-
res, reintegrando de forma plena o comando ao Tenente Coronel Diogo, que
poderia continuar residindo em Linhares, primeiro ponto da real expedição,
mantendo os destacamentos de Atalaia e da Esperança e seus empregados e, o
mais importante, o Tenente Antonio da Rocha Loures passaria a ser o Almoxa-

54
rife e Tesoureiro da Expedição, um empregado direto sob as ordens de Diogo
Pinto:

Portaria nomeando ao Loures o almoxarife, e participação da Ordem ao Te-


nente Coronel Diogo Pinto Para encarregar-se no Comando em Chefe da ex-
pedição tomando Contas do Interino, e remetendo-as.
Havendo reintegrado pela minha Portaria de 21 de outubro ultimo ao Te-
nente Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal no Comando da Real Expedi-
ção e Conquista de Guarapuava em que sua Majestade o prover, para o
continuar na Povoação de Linhares primeiro ponto da Real Expedição, man-
tendo o Destacamento da Esperança, quando se instaurar, e o da posição da
Atalaia, e seus empregados que ora existem debaixo das Ordens de que vai
munido. Ordena ao Tenente Antonio da Rocha Loures, que se acha com o
Comando Interino na povoação de Atalaia, qui logo que receber esta passa
para Linhares a exercer o Emprego de Almoxarife Thesoureiro da Real Ex-
pedição enquanto se não mandar o contrário, vencendo o mesmo ordenado
de duzentos mil rs que tem recebido na qualidade de Comandante Interino.
São Paulo, 6 de dezembro de 1819. (ARQUIVO NACIONAL, 1819, p. 93).

O salário de Antonio da Rocha Loures continuaria o mesmo para as-


sumir as funções de Almoxarife na nova povoação em Linhares, 200 mil réis
por ano. O Capitão comandante do presídio e fortim sabia que desistir da po-
voação de Atalaia e assumir uma função de subalterno em um novo povoado
era um risco enorme de mais tarde ser demitido e todo um futuro estaria em
jogo, além do que sua mulher e sete filhos já moravam e tinham suas vidas em
Atalaia. Diante dessa situação, no mesmo mês de dezembro de 1819, no dia
nove, o Reverendo Francisco das Chagas Lima, e o Capitão Antonio da Rocha
Loures, decidem dar execução ao Decreto régio de 19 de agosto de 1818
(LIMA, 1842, p. 48),7 que autorizava a criação da Freguesia, para isso lavram
um termo: o Auto de Fundação da Freguesia Nossa Senhora de Belém de Guara-
puava (INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, 1819, p. 7). 8 Po-
rém, somente a partir de 1820 é que efetivamente vai ser realizada a
transferência do povoado (LIMA, 1842, p. 49), que vai se estabelecer distante
uma légua e meia do aldeamento, do lugar conhecido como Atalaia (FRANCO,
1943, p. 193).
A separação entre aldeamento e povoado foi acordada entre o coman-
dante militar e o chefe espiritual. O capelão da expedição foi o principal defen-
sor dessa transferência da freguesia para outro local longe do aldeamento,
segundo sua interpretação de que o contato entre soldados, povoadores e os

7
Talvez aqui nas memórias do padre exista uma confusão com datas, já que o decreto do Rei que permi-
tia a ereção da vila é de 19 de agosto de 1818 e nas memórias vai aparecer 2 de novembro de 1818. Ver
Decreto de 19 de agosto de 1818. Erige no logar de Atalaya de Guarapuava uma Igreja Parochial com a
invocação de Nossa senhora de Belém. Cartas de lei, alvarás, decretos e cartas régias de 1818. Coleção
das leis do império. Rio de janeiro: Imprensa Nacional, 1889, p. 80.
8
O auto de fundação encontra-se publicado em: (TAUNAY, 1888, p. 251).

55
indígenas contaminavam o processo de catequese e civilização dos mesmos
(LIMA, 1842, p. 57). Por outro lado, a decisão foi tomada também pelo coman-
dante da expedição Antonio da Rocha Loures e, é possível que este visse como
o aldeamento poderia ainda continuar como um fortim, ou pelo menos uma
ponta de segurança entre os ataques indígenas e a freguesia, pois é certo que
os degredados, segundo a Carta Régia, que deveriam ser mandados para os
campos de Guarapuava, acabavam cumprindo o degredo junto ao aldeamento
e, como recebiam armamento e munição (ARQUIVO PUBLICO DO ESTADO DE
SÃO PAULO, 1824, p. 1) juntamente com os guerreiros índios, poderiam supor-
tar a ofensiva de outros grupos indígenas (LEITE, 2006, p. 39).
Diogo Pinto de Azevedo Portugal continuava com as ordens que rece-
bera do governo da Província para instalar a expedição em Linhares e estabe-
lecer o povoado. Em seu retorno da cidade de São Paulo, com sua tropa, são
encontrados no verão de 1820, pelo naturalista Auguste de Saint-Hilaire que
estava viajando pelos Campos Gerais e nos deixou a seguinte anotação:

A recente passagem do Coronel Diogo pela região contribuiu para aumentar


o temor generalizado. Quando, em outros tempos, sob as ordens desse ofici-
al, haviam sido iniciadas as obras do caminho de Guarapuava, a que já me re-
feri em outro relato, os habitantes do lugar foram forçados a trabalhar nelas.
Eles não recebiam paga pelo seu trabalho e eram tratados com extrema se-
veridade. Mais de mil pessoas tinham então abandonado o distrito para se
refugiar na Província de São Pedro do Rio Grande, e a cidade de Castro, à
época de minha viagem, só apresentava casas abandonadas e em ruínas. O
Coronel Diogo Pinto que, como já foi dito, encontrei na fazenda Morangava,
tinha seguido o caminho direto e, enquanto eu dava uma longa volta, havia
chegado a Castro. Trazia ordens de São Paulo para prosseguir com a abertu-
ra da estrada e fundar uma nova Paróquia num lugar denominado Linhares,
onde já existiam, segundo se dizia, algumas casinhas. Quando se soube desta
notícia, a desolação se espalhou por todas as famílias, e a maioria dos habi-
tantes preferiu fugir a ter de se embrenhar novamente naqueles sertões in-
festados de selvagens e a ter de trabalhar praticamente sem nenhuma paga,
longe de suas mulheres e de seus filhos, submetidos a um regime extrema-
mente rigoroso sob a chefia de um homem habituado à dura disciplina mili-
tar (SAINT-HILAIRE, 1978, p. 50)

Quando Saint-Hilaire chega à vila de Castro, no verão de 1820, a en-


contra quase abandonada, em razão da fuga dos habitantes ao correr o boato
de que o Coronel Diogo Pinto estava realizando mais um recrutamento, dessa
vez para povoar Linhares, mas aos setenta anos, o velho militar não alcançaria
um novo inverno, viria a falecer em três de maio desse mesmo ano. A partir
desse ano de 1820 em diante, na freguesia de Nossa Senhora de Belém nos
Campos de Guarapuava, com o Tenente Antonio da Rocha Loures e o Padre
Francisco das Chagas Lima, assentados no lugar definitivo da futura cidade de
Guarapuava, ao sul de Atalaia, a distância de uma légua e meia, já acrescida de

56
muitos braços para o trabalho nos campos, nas matas e nas lavouras, com po-
bres recrutados, tropas de 1ª linha e ordenanças, jornaleiros, escravos, e mui-
tos índios aldeados, as estâncias estabelecidas, o povoado instalado; a
conquista dos campos de Guarapuava estava firme, e com plenas condições
para seguir seu curso.
Depois de 1820, a liderança dos aldeados era exercida por Luís Tigre
Gacom, o Padre nos dizia “[...] é verdade que os fazia trabalhar na lavoura; po-
rem ia capitanear na guerra com as hordas visinhas, o que tudo transtornava”
(SAINT-HILAIRE, 1978, p.57). Ainda diria o missionário sobre o novo ‘Capitão
dos Índios’:

Este índio chefe, com effeito era um tigre, sacrificando seus súbditos aos es-
tragos da guerra, fazendo-se cabeça, para continuação das hostilidades, que
os mesmos aldeados suscitam contra os Dorins. Elle, ocultando os seus in-
tentos, sahia freqüentes vezes com escoltas armadas e com pretexto de ca-
çada, e ia dar assaltos mortíferos aquelles que provocavam o ódio (SAINT-
HILAIRE, 1978, p. 50).

As guerras e caçadas entre grupos rivais eram uma constante entre as


populações indígenas. Os índios capturados na guerra eram - extraído daí o
contato com os povoadores - adicionados na vida do grupo vencedor como
cativos. A venda destes para os povoadores seja pelo pagamento em dinheiro
ou através de mantimentos como roupas e cobertores para o frio, comida, fer-
ramentas, e por vezes armas, fez parte da fronteirização destes lugares e são
próprios das atividades e relações sociais que se estabelecem nas fronteiras
(MAYO, 1999, p. 96).
No ano de 1821, no primeiro dia de setembro, em sessão do Conselho
Geral da Província determinou-se, “[...] novamente ao ouvidor de Itú, e o Com-
mandante de Guarapuava, que os Indios Caiapóz, e os Bugres, não apanhados
com as armas na mão em guerra contra nós não são escravos” (ARQUIVO
PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 1913, p. 46). Essa preocupação em evi-
tar os abusos do cativeiro indígena volta a fazer parte de nova reunião do Con-
selho Geral da Província, em novas ordens ao Comandante de Guarapuava:

Em ampliação, e explicação da Sessão antecedente se ordene ao Comman-


dante de Guarapuava não faça novas bandeiras para dentro do recinto de
sua jurisdicção, sem ordem expressa deste governo, limitando-se somente a
repelir a força com a força em Guerra Justa, e se lhe ordene muito, e muito,
que não se dem castigos de surras, e outros infamantes aos indios antes se-
jão tratados com toda a justiça, e caridade Cristam; não sendo considerados
os indios apanhados em guerra justa se não como prisioneiros de guerra, e
sómente obrigados por oito annos aos serviços da lavoura, e economia, como
se fossem agregados, ou alugados, sem comtudo se lhes pagar salários, e só-
mente comida, e vestuário, como hé de justiça. (ARQUIVO PÚBLICO DO
ESTADO DE SÃO PAULO, 1913, p. 49).

57
O governo de São Paulo cria novo direito estabelecendo o cativeiro li-
mitado dos índios por oito anos, contrariando as determinações da carta régia
de Dom João de 1º Abril de 1809, que dizia que os índios aprisionados em
guerra justa poderiam ser escravizados por 15 anos. Era uma tentativa de coi-
bir um comércio de cativos indígenas que tinha se instalado ao longo dos sécu-
los, enraizado em uma política de usos e costumes antigos, onde os luso-
brasileiros não entendiam outra situação para os indígenas que não fosse a
conversão pela sua utilização como mão de obra. O Conselho também alerta
para que se evitem as surras e castigos infames. Mas o que se escondia diante
dessa preocupação dos Conselheiros da Província de São Paulo? Abrigado por
uma guerra, dita justa pelo governo, estava o cativeiro dos índios em sua fron-
teira Sul, principalmente em torno dos caminhos para os campos de criação de
gado das Missões.
A Real Expedição de Conquista dos Campos de Guarapuava tinha al-
cançado seu objetivo. Os campos haviam sido conquistados e o butim de guer-
ra, composto pelo corpo dos conquistados e por suas terras, estava e seria
distribuído entre moradores das vilas e povoados, e principalmente por aque-
les que contribuíram com ajuda financeira, material ou mesmo com gente para
compor as tropas de ocupação. A partir da morte de Diogo Pinto de Azevedo
Portugal, o Trem Real de Guerra, que já havia sido desmontado bem antes,
deixa de existir totalmente, passando a ser uma lembrança e entrando para a
história da expansão luso-brasileira no planalto meridional, uma história que
dava seus primeiros passos e que ia perdurar durante todo o século XIX.

Fontes utilizadas

ARQUIVO MUNICIPAL DE GUARAPUAVA-UNICENTRO. D. Mateus de Abreu Pereira.


Carta de Sesmaria pela qual V. Exa. S. A. R. Concede os Terrenos Compreendidos entre
os Rios Coutinho e Lageado Grande nos Campos de Guarapuava. (cópia). Guarapuava:
AMG, coleção SC, 1818.
ARQUIVO NACIONAL (AN). Secretaria do Governo da Província de São Paulo - Fundo
Registro de Ordem Régias e Avisos Ministeriais relativos à Real Expedição e Conquista
de Guarapuava contra os Indios. – Codice 458- vol. 1 e vol. 2. 8E 02370 . São Paulo,
1809-19.
ARQUIVO HISTÓRICO DO EXÉRCITO. Livros da Secretaria do Estado com as ordens do
Conde de Linhares dos capitães generais e conselheiros das províncias do Brasil. Capi-
tania de São Paulo 1808 – 1813 – N. 1.
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, Ofício do Comandante de Guarapuava
Antonio da Rocha Loures ao Presidente da Província datado de 1824. Seção Manuscri-
tos. Ofícios Diversos de Guarapuava (1824-1853). Caixa 230. Pasta 1. Documento 1.
Ordem 1025. APESP
ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, DIHCSP. V. 1, 3ª edição, 23 de maio de
1822. São Paulo: Cardozo e filho, 1913, APESP.

58
COLEÇÃO DAS LEIS DO IMPÉRIO. Rio de janeiro: Imprensa Nacional, 1889.
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, Auto de Fundação da Freguesia
Nossa Senhora de Belém de Guarapuava (cópia). Rio de Janeiro: IHGB, lata 05, doc. 07.
Na Freguesia Nossa Senhora de Belém em 09 de dezembro de 1819.

Referências bibliográficas
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Paranaense, 1943.
LEITE, Rosângela Ferreira. Nos limites da colonização: ocupação territorial, organização
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em História Econômica. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
LIMA, Francisco das Chagas. Memória sobre o descobrimento e colônia de Guarapuava.
Jornal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo IV, nº13. Rio de Janeiro:
typografia de João Ignácio da Silva, 1842.
MAYO, Carlos. La frontera; Cotidianidad, vida privada y identidad. In: DEVOTO, Fernan-
do y MADERO, Marta (Orgs.). Historia de la vida privada en la argentina. País antiguo. De
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MOTA, Lúcio Tadeu. As Guerras dos índios Kaingang. A História épica dos índios Kain-
gang no Paraná (1769-1924). Maringá: Editora da Universidade Estadual de Maringá,
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PERRONE-MOISÉS, Beatriz. “Índios Livres e Índios Escravos. Os princípios da legislação
indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII)”. In: CUNHA, Manuela Carneiro Da.
(org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem a Curitiba e província de Santa Catarina. São Paulo:
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SOUZA, Afonso Botelho de S. Noticia da Conquista, e descobrimento dos sertões do
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Botelho Mourão, conforme as ordens de sua Majestade. Anais da Biblioteca Nacional, V.
76. Rio de Janeiro: Divisão de Publicações, 1956.
TAUNAY, Alfredo d’Escragnolle. “Os Índios Caingangs (Coroados de Guarapuava), mo-
nografia acompanhada de um vocabulário do Dialecto de que usam.” In: Revista do
IHGB. Suplemento ao Tomo LI da Revista Trimensal. Rio de Janeiro: Tipografia de Pi-
nheiro & Cia, 1888.

59
INVISIBILIDADES INDÍGENAS E O
CONTESTADO: ILAÇÕES EXPLORATÓRIAS E
PRELIMINARES ORIENTADAS À ESTUDOS E
PESQUISAS EM ANTROPOLOGIA HISTÓRICA

FLAVIO BRAUNE WIIK1

Prólogo

Em primeiro lugar, gostaria de salientar que o presente ensaio foi de-


liberadamente concebido para seguir um estilo e formato mais livres frente ao
que se confia a um artigo acadêmico. Trata-se, portanto, de um ensaio per se.
Tentei ser o mais descritivo possível, reduzindo o espaço dado às referências e
citações formais, priorizando chamar a atenção de alguns aspectos inerentes à
sua temática e objetivo e imaginando um leitor jovem e aspirante a investiga-
dor. Logo, centrei-me em levantar pontos que deveriam inferir sobre os por-
quês das invisibilidades indígenas vis-à-vis Movimento do Contestado.
Os pontos aqui trazidos, devem ser encarados como “fragmentos” que
incidem, por exemplo, sobre os vários tipos de fatores que contribuíram para
com as invisibilidades. Eles vão desde limitações e vieses encontrados no de-
senrolar das teorias e escolhas em Etnologia Indígena sobre “que tipo de índio”
se constitui/não se constitui como seu objeto, até a dificuldade em identificar-
mos nas fontes históricas (como nos jornais de circulação à época) se ao utili-
zarem as categorias “caboclo”, “sertanejo”, ou mesmo “trabalhadores
nacionais” estariam incluindo os “Índios”, como a compreendemos na atuali-
dade. Cabe ainda inferir se tal omissão, para além de usos pejorativos ao se
referirem aos Índios como “bugres”, “selvagens” e “selvícolas” era ou não in-
tencional, como será argumentado adiante. Ouso afirmar que estes pontos e
perguntas concernem aos campos de pesquisa e de conhecimento açambarca-

1
Ph.D. Professor Adjunto, Departamento e Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais, Universi-
dade Estadual de Londrina (UEL). E-mail: flaviowiik@gmail.com.

61
dos (mesmo que tangencialmente) pelas Etnologia Crítica e Antropologia His-
tórica.
Falo do lugar de um antropólogo e etnólogo estudioso dos povos de
língua jê meridionais (ou seja: Xokleng e Kaingang) e que vem acompanhando,
nos últimos anos, estudos e pesquisas sobre o Contestado a cargo de vários
historiadores em seus múltiplos olhares e respectivos graus de inserção no
espaço acadêmico. Em sua maioria, estão atrelados ou influenciados pela obra
e figura do Professor Paulo Pinheiro Machado. Portanto, e para tanto, a fala e a
escrita aqui presentes causarão estranhamento, não somente pelo viés das
minhas tomadas e considerações marcadamente antropológicas frente ao Mo-
vimento do Contestado, tanto quanto pelo formato adotado, assim como e des-
de já, diante de uma auto reconhecida superficialidade e puerilidade do
conteúdo partilhado. Sou um “curioso” do assunto, recém-ingressado neste
novo universo. Trilho, portanto, por searas facilmente reconhecíveis como
desprovidas ou fragilmente alicerçadas frente ao que se tem como consenso
entre historiadores como depositário de uma discussão e análise tidas como
adequadas em termos teóricos e metodológicos.
Falo e me jogo sobre um esboço. Esboço que resulta da aproximação
de um campo por mim pouco conhecido. Estou diante e impactado por uma
alteridade que me desapercebera até então, que são a pesquisa histórica, a
leitura da Historiografia sobre o Contestado e da própria relação que estou
criando: Índios e Contestado. Para lidar com esse excesso de alteridade, a mi-
nha resposta tem sido a de realizar um mergulho profundo no universo das
fontes escritas a partir das lentes do seu “estranhamento”. Tenho tentado me
“fazer antropólogo” mesmo longe dos meu marco identitário-profissional, ou
seja, o da realização da pesquisa de campo de cunho etnográfico que caminha
nas aldeias e ruas e constrói sua narrativa a partir das interações e falas cotidi-
anas dos-e-com seus interlocutores “de carne e osso” e “em ação”. Almejo po-
der fazer da minha relação com o documento algo parecido.
Trata-se de um esforço, de minha parte, de rascunhar o quiçá latente e
invisível aos nossos olhos segmentados pela tradição do “fazer ciência” na Mo-
dernidade – e que portanto causará, seguramente, estranhamento para além
da dimensão estética que trai e subtrai a robustez, riqueza e erudição como as
que usufruo ao ler as análises nas obras dos meus novos colegas historiadores
– debruçando-me sobre o espírito da inter-e-transdisciplinaridade emanados
pela natureza complexa inerente ao fenômeno do Contestado. Sendo assim, o
meu envolvimento com o Contestado parece refletir este olhar múltiplo que
tem caracterizado os novos estudos e pesquisas sobre o Movimento, o qual nos
impele a agregar olhares e perspectivas inusitadas, como as que eu tenho ten-
tado suscitar. Logo, convido-os a trilhar por caminhos e trajetórias singulares
como traçados pela Etnologia Indígena e Antropologia Histórica.

62
Das Invisibilidades: onde estão os Índios vis-à-vis Contestado?
Considerações Gerais e de Fundo

Passada mais de uma década desde que dera início às pesquisas etno-
gráficas entre os Índios jê no Sul do Brasil, tive contato com a obra de Paulo
Pinheiro Machado Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias
caboclas. 1912 - 1916. A partir deste episódio, sofri uma espécie de ab-reação,
como definido pela psicanálise, pois uma série de elementos esparsos e sem
muito sentido amalgamaram-se, ganharam significado no que tange as interfa-
ces entre o Movimento do Contestado e os coletivos indígenas que pesquisava,
até então, à luz de teorias antropológicas que me alijavam de estabelecer liga-
ções ou paralelos entre os dois. Estabeleceu-se, desde então, um marco, um
divisor de águas, através do qual comecei a pensar criticamente sobre os por-
quês das invisibilidades indígenas frente ao Movimento; fossem elas constata-
das através da quase total ausência de referências ou menções junto às fontes
de dados e documentos por mim pesquisados ao longo dos anos, ou devessem-
se – e mais chocante ainda – pelo seu ofuscamento por mim mesmo impetrado.
Ofuscamento esse, que não me permitiu perceber a importância desta relação.
Tudo isso se deu apesar do que já tivera lido e renunciado, assim como do que
vivera através das experiências etnográficas e não me dera conta. Comecemos
pela minha “própria cegueira” profissional, de uma pessoa treinada em Antro-
pologia e Etnologia Indígena para, em seguida, considerar as outras invisibili-
dades “pós-conscientização” da mesma.
Como já se faz notório, o epicentro do campo de conhecimento antro-
pológico, através do qual a jovem ciência projetou-se e legitimou-se teve ori-
gem no estudo do fenômeno cultural. Parte estruturante deste fenômeno é a
experiência universal da alteridade; partilhada, significada e simbolizada por
todos os sujeitos e grupos. A conceptualização e identificação tanto das univer-
salidades quanto das particularidades atreladas e inerentes à alteridade – e
por contraste, a do fenômeno da identidade – confundem-se e fundem-se com a
própria história da Antropologia Social e Cultural. Especificamente, a Etnologia
Indígena cunha-se como saber soberano sobre tal fenômeno. Argumenta-se
que se em um determinado nível da vida social, as diferenças e singularidades
culturais (das expressões da alteridade/identidade) devem ser vistas e prescri-
tas em/a si mesmas, em outro nível, estabelecidas por contrastes quando dian-
te da diferença tanto interna quanto externamente frente às determinadas
unidades socioculturais.
Tem-se como princípio, que as similaridades ou continuidades assim
como os contrastes estabelecidos pelas e dentro das unidades socioculturais
devem ser analisadas através da lente do relativismo cultural ou da relativiza-
ção e não pelas clássicas proposições hierarquizantes e enviesadas (como ob-

63
servada nas teorias da supremacia racial ou étnica, do evolucionismo social ou
cultural, dentre outros) que fizeram e ainda fazem parte dos regimes de alteri-
dade ocidentais – mesmo dentro do próprio campo do saber de base científica.
Entretanto, se por um lado o reconhecimento das particularidades culturais e
suas expressões a cargo da Antropologia Moderna representam um ganho
humanístico inquestionável, onde tem-se que todas as sociedades humanas
devem ser reconhecidas como semelhantes em seu nível estrutural (portado-
res de linguagem, criadores de decodificadores de símbolos e processos de
comunicação, parentesco e etc.) porém particulares, em seus diversos contex-
tos expressivos, essa mesma teoria cunhou em termos conceituais uma nova
noção de alteridade muitas vezes ideal ou idealizada. Este fato, que vai ao en-
contro de uma prerrogativa sociocultural que nasce de intelectuais e humanis-
tas no Ocidente, acabou por reforçar a busca de uma “alteridade radical” a
cargo da empreitada antropológica e etnográfica. Empreitada esta, a ser reali-
zada em sociedades distantes dos grandes centros ocidentais do Hemisfério
Norte preocupada, dentre outras coisas, como o avanço do ethos ocidental a
todos os cantões do mundo moderno pós-industrial.
Consequentemente, o próprio estudo e a história de contato dos povos
autóctones com a “civilização” moderna industrial de economia de mercado –
causadora e deflagradora de grandes rupturas e transformações junto os
mesmos – foram classificados como subsidiários, relegados a estudos denomi-
nados como parte de uma “Sociologia do Contato”. Com isto, um certo sincro-
nismo, o priorizar de outras temporalidades não históricas – de fato presentes
nas culturas indígenas – tais como o “tempo mítico”, a primazia dos estudos
das “sociedades frias”, voltadas para si mesmas, “centrípetas”, e a consequente
subestimação dos impactos da entrada dos coletivos indígenas no tempo histó-
rico, “na diacronia”, reunida ainda à circunscrição das pesquisas ao Presente
Etnográfico, plainou como um manto sagrado sobre os estudos etnográficos
dos povos autóctones. Todo esse processo e escolha refletem, ao final, um novo
tipo de alteridade que parte da Europa Romântica e que é chancelado pela
Antropologia Moderna.
Destarte, ideias herdadas do movimento Romântico, fez com que a An-
tropologia, em especial a Etnologia Indígena, primasse pelo desenvolvimento
de teorias e métodos de pesquisa focados nas sociedades cujo grau e tempo de
contato com o Ocidente (e seus regimes) fosse o menor possível. Apesar das
incontestáveis e profundas rupturas inerentes ao sistema econômico mercan-
til, e mais tarde capitalista, que desencadeou o extermínio de milhões de pes-
soas e milhares de sistemas culturais e sociedades minoritárias em todo o
mundo, representações acerca dos males trazidos pela “civilização ocidental”
somadas à representações baseadas em taxonomias de base estética acerca de
que matéria constitui ou não constitui “o exótico”, definidos pelos centros co-

64
loniais, gerou a busca por uma certa “pureza nativa”. Assim sendo, construiu-se
– e ainda se perpetua em algum grau na atualidade – dentro da Etnologia Indí-
gena uma certa hierarquia não somente sobre a priorização e maior valoriza-
ção dos estudos de sociedades com “menor grau de contato” com a Sociedade
Envolvente ou Nacional ou “menos aculturadas”, frente às demais tidas como
“com maior grau de contato”, “mais aculturadas” e etc.
Este tipo de alteridade capitaneado pela Antropologia Moderna con-
tribuiu, portanto, com uma forma de invisibilidade dos povos indígenas que
estavam (e estão) na história; no tempo histórico, ou entre o tempo mítico e
histórico, como é o caso dos Kaingang e Xokleng no Brasil Meridional. Tidos
como “aculturados”, “descaracterizados de sua cultura original”, “misturados”,
“acaboclados” em boa parte da metade do Século XX pela Etnologia hegemôni-
ca, estes coletivos indígenas e seus sujeitos foram praticamente alijados duran-
te a maior parte das décadas do Século XX dos estudos etnográficos profundos
de caráter Culturalista, Funcionalista ou Estruturalista em contrastes com cen-
tenas realizados em sociedades indígenas no Brasil Central e Amazônia no
mesmo período.
Mesmo olhando para as obras de etnólogos estudiosos dos Kaingang e
Xokleng nas últimas décadas do Século XX, embora não tenham deixado de
reconhecer e considerar em seus estudos os impactos do contato dos coletivos
indígenas com a sociedade envolvente, poucos deram destaque profundo ao
mesmo, ou atribuíram-nos o seu devido peso. Tem havido, por fim, um certo
acanhamento na produção acadêmica etnográfica centrada nos impactos do
contato histórico e temas correlatos tomados de maneira consistentes. Estes
têm sido balizados por princípios estéticos controlados e cerceados por um
empoderado núcleo duro da Etnologia brasileira que dita os cânones do que
julgam ser a Etnologie comme il fault de inspiração lévisstraussiana a qual,
certamente, é a que eles produzem e reproduzem, relegando as demais formas
de se construir Etnologia e Antropologia a subalternidade.
Mas, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, de igual maneira seria uma
naiveté teórica e uma não-fidedignidade etnográfica tratar as transformações
por que passam as sociedades indígenas em função dos acontecimentos histó-
ricos como lineares, positivas e totalizantes. Em outras palavras, crer que haja
uma passagem linear “do tempo mítico para o tempo histórico”, um estado,
transformado em outro. Tais processos são dialéticos e espiralados, onde sis-
temas de conhecimento estão em ação nas traduções cotidianas de atores con-
cretos em suas interações reais, mediando os processos de ressignificação do
mundo social, redesenhando o presente e a memória. O resultado destes pro-
cessos resultam em novas configurações onde encontram-se amalgamados
elementos sedimentados e a novidade, é-se múltiplo!

65
Por outro lado, há que se considerar que mesmo críticos da estaticida-
de das culturas, na literatura especializada, como é o caso das etnografias e seu
estilo narrativo que traduz práticas e representações dos sujeitos estudados,
busca-se, prioriza-se e centra-se a análise em aspectos socioculturais dos cole-
tivos indígenas tidos como “originais”, “tradicionais”, “genuínos”, “pré-
contato”; seja pelo seu valor intrínseco (aos próprios sujeitos indígenas, ao
valor histórico a eles dados pela Antropologia) ou com a finalidade de poder
comparar “o antes e o depois”. Do mesmo modo, ao se chegar a uma Terra
Indígena para realizar pesquisa etnográfica, busca-se pelo “Índio puro”, “por
aquele que não fala português”, pelo “xamã” ... De igual maneira, evita-se ou
desqualifica-se o “Índio acaboclado”, “o ocidentalizado”, o “Índio pastor evan-
gélico”. Não se trata aqui de “culpabilizar” nossa própria empreitada antropo-
lógica, mas sim de evidenciar como no campo, replicamos um certo tipo de
dados, informações e interlocutores que refletem, por sua vez, um certo tipo de
conhecimento legitimado e de maior valor segundo os cânones acadêmicos
definidos pelos centros e por atores poderosos que os (re)produzem e repli-
cam determinados conteúdos e representações de alteridade e exoticidade a
serem seguidas, mais uma vez: um fenômeno cultural, par exellance.
Caminhando para o final destas ponderações, não poderia deixar de
assinalar que, como todo discurso que ganha poder heurístico e legal frente até
mesmo aos Estados Nacionais e medeia noções jurídicas e legais acerca dos
direitos humanos em nível global incorporado até pelas Nações Unidas, tam-
bém circula dentro das Terras Indígenas. Lideranças indígenas fazem uso das
narrativas de conteúdo antropológico de forma objetificada, tanto por essas
encontrarem ressonância em seu ethos e visão de mundo, quanto pelo reco-
nhecimento pragmático de seu poder legal nas interações e luto por direitos
frente aos Estados Nacionais. Há que se pensar que se a Antropologia origina-
se no contexto colonizador, advindo ao longo da história do contato, o próprio
discurso antropológico pode ser, concomitante e paradoxalmente, “coloniza-
dor” e “libertador” na práxis social.

Tornando Visível

É a partir deste contexto de produção de conhecimento e deste lugar,


que eu me vi e rompi ao dar atenção aos aspectos e impactos advindos do con-
tato histórico dos Índios com seu entorno, tenha sido e sejam eles vividos e
impactantes em vários níveis, segundo várias ontologias e perspectivas dos
atores neles envolvidos. Seus resultados e respostas são pares, concomitante-
mente singulares e comuns; um verdadeiro bricoleur, onde a constituição e a
construção de si e das identidades é parte da experiência e da teorização a
cargo do fenômeno da alteridade, o qual é eminentemente contrastivo e relaci-

66
onal. É igualmente neste contexto, e a partir destas considerações teóricas que
comecei a vislumbrar as relações históricas e socioculturais que têm caracteri-
zado a vida destes Índios frente ao Movimento do Contestado e o tema da invi-
sibilidade trans-temporalmente.
Pelas várias Terras Indígenas Kaingang por onde trilhei, seja através
de incursões de campo, ou através de leituras de monografias etnográficas, e,
em especial, na Terra Indígena Xapecó, onde nos primeiros anos de 2000 con-
duzi pesquisa de campo de cunho etnográfico per se, observei a presença de
santuários dedicados a São João Maria, capelinhas erguidas “nas águas de São
João Maria”, “batismos nas Águas de São João Maria”, narrativas sobre visões
com São João Maria que se apresenta aos Índios na forma de animais. São João
Maria sentido e expresso na forma de espíritos-guia que se apresentam em
sonho aos kujä (xamãs) kaingang, indicando terapias e procedimentos de cura
e tratamento para enfermidades; João Maria que profetiza a chegada do agro-
negócio, o uso de veneno que leva à morte, à desunião e à novas formas de
violência e exploração de “Índios pelos Índios”, à destruição das matas, das
florestas virgens, o fim dos tempos. Também conheci um São João Maria que
indica aos Índios onde será a nova aldeia a ser conquistada na sua luta por
terras usurpadas pelos “brancos”. Ví Índios preservando matas e nascentes de
águas tidas como sagradas e consagradas por São João Maria como forma de
mantê-lo presente entre eles. Vimos kujäs kaingang “acaboclados” viajando
pelas cidades para performar curas entre os brancos das cidades, “brancos”
vindo às casas e capelas edificadas pelos Índios para participar de festas e ritu-
ais em homenagem a São Sebastião, onde aspectos da vida social e ritual pré-
contato se justapõem aos encontrados nas expressões do catolicismo popular
da região Contestada segundo a Historiografia assim como encontradas nos
tempos atuais. Festas nas aldeias onde santos Católicos como São Sebastião,
Nossa Senhora Aparecida e São João Maria são cortejados e coroados, onde
fincam-se cruzes de cedro e celebra-se um parentesco ritual entre os Índios e
os “caboclos” da região.
Apesar de todas essas evidências encontradas em campo sumariamen-
te expostas acima, as quais demostram proximidades e sobreposições históri-
cas ao nos debruçarmos sobre a dimensão religiosa inerente ao Movimento do
Contestado – mas cuja dimensão articula profundas implicações sociais, cultu-
rais, políticas e ambientais, dentre outros aspectos –, não identifiquei uma só
argumentação até os dias atuais e dentro do universo de leitura por mim co-
berto, qualquer obra que tenha se aventurado a responder ou questionado o
porquê da presença tão marcante de elementos comuns aos segmentos que
formam e lideram o Movimento estariam presentes entre os indígenas da regi-
ão; seja em termos (etno)históricos, etnológicos ou antropológicos. Em outras
palavras: como é, e porquê São João Maria foi parar ali na forma em que se

67
expressa na atualidade? Quem são estes “caboclos” fisicamente presentes nas
terras indígenas incorporados ao ethos indígena, estranhos (em alguns contex-
tos e particularidades) somente ao olhar “de fora” que não os enxerga como os
Kaingang, ou seja, como “Índios”? O que se pensa, como se explica, como se
lembra o Contestado (se é assim que os coletivos indígenas denominam e sig-
nificam o evento)? Sob qual crivo cultural e social o Conflito foi e é
(re)significado, sob quais temporalidades e espacialidades, sob qual ou quais
lógicas e ideologias políticas? Diante do fenômeno do xamanismo entre os
índios e sua dimensão, como pensar a extensão dos aspectos milenar e messiâ-
nico presentes no Movimento como articulador do possível envolvimento indí-
gena no Conflito e proposta de regime societário? E quanto aos aspectos
sociológicos e ambientais de ordem macroeconômicas observados no auge do
Conflito, como afetavam os Índios e sertanejos e caboclos de forma singular e
comum? Como se redefiniram as alianças estabelecidas entre contingentes
indígenas à época, ou mesmo antes com a chegada sistemática de “outros
brancos” colonizadores? Como pensar a questão de fronteiras frente a noções
de espacialidade diversa das impostas pela geografia política dos Estados-
Nação? Está-se diante de apenas algumas perguntas que continuam por ser
respondidas. Creio que as suas respostas contribuirão para reverter as invisibi-
lidades e ajudar a reescrever a história dos Índios no Contestado, ou melhor,
antropologicamente falando, do Contestado entre os Índios. Que página a mais
é e tornou-se o Movimento em sua perspectiva, de sua história de contato com
a sociedade envolvente?
Nas tratativas de arriscar-se a responde-las, tenho pensado em alguns
caminhos. Conforme mencionado anteriormente, estes caminhos perpassam e
dialogam com vários campos, ontologias e dimensões do saber comuns às Hu-
manidades. Tratarei de alguns deles a seguir. Sustento, de igual maneira, que
devem compor uma agenda para futuras pesquisas e estudos em Antropologia
Histórica, em especial, para a História Indígena.

Das Questões e Possíveis Ilações à Guisa de (futuras) respostas

Ir ao encontro do objetivo proposto, a saber: o de acessar e tecer pos-


síveis elementos que deem conta da relação entre Índios e Contestado que
pairam sobre os campos da História e da Antropologia interpõem grande com-
plexidade teórica e metodológica, além, é presumido, de pesquisas em grande
monta. Tendo sido a invisibilidade superada, ao menos em termos teóricos
frente ao campo das “escolhas” e ofuscações à cargo de uma certa hegemônica
Etnologia Indígena, resta trazer à baila alguns elementos atrelados à esta rela-
ção identificados até o presente.

68
Há que se ter em mente que a região em que o Movimento do Contesto
se deu (inclusive considerando os Territórios Contestados desde os tempos
Coloniais na América do Sul) tem sido povoada por vários contingentes huma-
nos por longo tempo. Embora saiba-se ainda muito pouco a respeito, evidên-
cias arqueológicas apontam para ocupações de coletivos humanos que
remontam entre dois e cinco mil anos (MOTA, 2014). Etnólogos, através de
estudos etnográficos, com base na etnohistória, assim como através de estudos
sociolinguísticos, apontam para a presença dos Índios do tronco linguístico Jê
na região há pelo menos quatrocentos anos, os quais haviam migrado para o
sul provenientes do planalto central brasileiro (URBAN, 1978) Sabe-se pouco
sobre a presença de (tupi)guaranis na região, talvez pelo caráter temporário e
circular inerentes à sua dinâmica social e cosmologia que os mantiveram em
circulação perene, ou mesmo em função da característica seminômade. Quase
nada se sabe sobre os Índios Xetá no que tange a sua proto-história. Ademais,
os etnonômios indígenas podem ter caráter fluido e a sua nomenclatura variar
ao longo do tempo em função de guerras intertribais, diferentes nomenclaturas
das fratrias, sibs, subgrupos e clãs existentes em uma mesma unidade de orga-
nização social que por sua vez podem corresponder a unidades sociais e cultu-
rais em maior escala. Estes, dentre vários outros fatores são inerentes à
própria história das populações autóctones na região desconhecidas por nós.
Entre os Xokleng, por exemplo, há narrativas sobre a presença Xavante que
foram por eles incorporados após conflitos no passado, relatos de guerras e
conflitos com os Guaraní estão presentes na memória, assim como proximida-
des e coderivações entre os próprios Xokleng que estão no alto-vale do Itajaí
em Santa Catariana (e que hoje se autodenominam Laklanõ) e os Kaignang são
uma constante tanto em termos históricos como até os dias atuais, seja à cargo
de relatos etnológicos passados, seja nas percepções nativas contemporâneas.
A própria Etnologia apresenta definições de nomes dos grupamentos pouco
confiáveis, seja pelas dinâmicas e características expostas acima, ou pela falta
de sentido que a pergunta “quem é você (que nação) você pertence” indexa ao
pensamento e razão indígena, posto que são inspiradas em nossas próprias
noções de “Nação-Estado” e não em sua (etno)história social. Por fim, há que se
apontar para o fato de que o conhecimento acumulado do qual se dispõe sobre
os Índios no sul do Brasil nos últimos séculos se deram sob a condição de guer-
ra, massacres, invasões de territórios de circulação e ocupação tradicionais,
depopulação por epidemias, guerras intertribais provocadas pela presença
invasiva dos “brancos” e etc. Construímos fragmentos de história de um mundo
e através de interlocutores sobreviventes ao caos e à política de extermínio.
Em suma, o que me parece mais importante destacar é que havia ocu-
pação sedimentada e pluralidade étnica na região do Conflito bem antes da
chegada de contingentes não autóctones à mesma. Havia lavoura, fabricava-se

69
instrumentos, roupas, acessórios para caça, pesca e armazenamento de alimen-
tos. Fabricava-se cerâmica, construía-se aldeias, casas. Havia coletas, praticava-
se caça... Enfim, todas essas intervenções sobre e com o meio físico, eram me-
diadas por instituições (antropologicamente falando, tais como: parentesco,
conhecimentos de vários ordens, regras, etc.). Não se tratava de uma região
marcada por um “vazio demográfico” como capciosamente feito imaginar pelos
poderes instituídos. Se nos Séculos XVI e XVII observava-se ainda a presença
reduzida de não-indígenas na região, como missionários, viajantes, explorado-
res e observadores, a partir do Século XVIII, intensifica-se numericamente essa
presença assim como diversifica-se através das incursões de Bandeirantes,
comerciantes, tropeiros, novas levas de missionários, presença do poder go-
vernamental, ocupação das terras por fazendeiros, sitiantes, até chegarmos à
segunda metade do Século XVIII com a presença das colônias e vilas que surgi-
am junto aos caminhos dos tropeiros e no Século XIX com a presença de con-
tingentes frondosos de “caboclos” e “sertanejos” de várias procedências e por
razões múltiplas sabidas via Historiografia. A esses, soma-se a presença de
contingentes imigrantes europeus provindos de várias regiões, das companhi-
as de colonização e exploração dos recursos ambientais, da ferrovia. Com eles e
através deles, novos regimes de uso e propriedade de terras, fundiários, políti-
co-econômicos e ambientais, até culminarmos com a República como nova
forma de organização e presença do Estado, o qual se sobrepõe e não “elimina”,
em curto espaço de tempo, o Regime Imperial.
A partir de meados do Século XIX, desenha-se na região sul, em especi-
al na Contestada, complexidades inimagináveis, tanto em termos de diversida-
de étnica (etnia aqui pensada como expressão de presença de grupamentos
humanos e formações sociais de origens ontológicas diversas), em termos de
regimes societários, fundiários (como a Lei de Terras em 1850) e ambientais,
todos singulares e antagônicos entre si, regimes político-econômicos e ideolo-
gias de governo inusitadas, e com eles a formação de novas elites, leis, deslo-
camento de poderes e, por suposto, múltiplas expressões de resistências, todas
elas desaguando e atreladas ao debut do Regime Republicano. A revolta cam-
ponesa do Movimento do Contestado é parte deste contra-movimento de resis-
tência.
Enfim, este é o novo quadro/cenário que os coletivos indígenas, mile-
narmente presentes na região, tinham que lidar e responder. Novos tipos de
ameaças se multiplicaram, as terras ficaram escassas, as matas esvaíam-se e
com elas seu modus vivendi cada vez tornando-se mais ameaçado, e, afinal,
tinham que responder a uma nova onda de ações inusitadas de extermínio
contra eles. Novos inimigos, “novos brancos” surgiram neste cenário e contra
eles os jê meridionais travaram batalhas épicas. Resistiram e puseram em prá-
tica suas estratégias e conhecimento bélicos. A literatura etnológica sustenta

70
que esses Índios não ficaram passivamente assistindo a invasão de seu territó-
rio. Complementarmente, novas estratégias de relação e em resposta à alteri-
dade tiveram que ser traçadas e protagonizadas por lideranças indígenas (e
não-indígenas também) na região, vide trajetória e biografia do Cacique Kondá,
dentre outros líderes indígenas na região. Ademais, soma-se a essas, novas
estratégias políticas definidas pelo Governo Republicano frente à Questão Indí-
gena, que chocava-se com as então desenhadas e postas em prática pelo Go-
verno Imperial, as quais continuavam, no mínimo ambíguas, pois entre
“catequizar”, “civilizar”, “proteger” e “exterminar”, se excludentes e antagôni-
cos em termos de princípios políticos norteadores de um governo ou Estado,
na ponta, no campo, nas interações reais e cotidianas, elas se amalgamavam ou
eram pouco diferenciadas sob a bandeira da violência no campo (aliás, como
observa-se, tragicamente, até os dias atuais).
Novas configurações étnicas e interétnicas começam a ser experimen-
tadas neste novo momento histórico, dentre elas, as relações travadas entre
Índios e “caboclos” e “sertanejos” da região. Delas, nos ocuparemos a seguir.

Dos (Des)Encontros

Os Kaingang de hoje pensam a dimensão do tempo em duas categorias


temporais – concomitantemente míticas e históricas – que tem por objetivo
classificar as diferenças entre o “tempo dos antigos” e “os novos tempos”; na
língua kaingang, respectivamente, o vãsy (ou wãxí) e o uri (TOMMASINO,
1995).
Muito resumidamente, a categoria vãsy diz respeito a um tipo de “pas-
sado”, um tempo em que os “índios antigos” usufruíam de grande território
formado por campos, serras e florestas, onde a caça, a agricultura, a pesca
eram fartos. Afirmam ser este tempo, o tempo da “tradição”, do “sistema indí-
gena” em efeito, ou seja: quando seguia-se e vivia-se sob os princípios (ideais)
de organização social dual(lista), reciprocidades plenas mediadas pelo paren-
tesco e sistema ritual. Ademais, os ciclos da “natureza” e da vida social sobre-
punham-se inseparavelmente. Enfim, o vãsy era o tempo “antes dos brancos
[chegarem]”.
Já o uri refere-se ao “tempo atual”, da vida social, cultural e ambiental
kaingang entremeada com a dos “brancos” (fóg, em kaingang), com “o sistema
do branco”, como afirmam. Tempo, portanto, narrado como o da ruptura do
modo de vida tradicional kaingang, da destruição dos recursos naturais e da
pilhagem de seus territórios tradicionais. Tempo de luta com representantes e
instituições que permeiam a sua existência e que causa rupturas. Segundo
Tommasino (1995, p. 246), vãsy e uri representam, respectivamente, as con-
tradições entre um mundo “passado”, tido como “perfeito”, e o mundo “presen-

71
te”, imperfeito. Essas contradições são narradas no cotidiano, mediadas pela
memória coletiva. Elas replicam o pensamento dual kaingang, aqui reportado à
sua dimensão espaciotemporal, caracterizado por relações dialéticas, portanto,
descontínuas e complementares encarnadas nas percepções acerca das dife-
rentes gerações de Índios que viveram, dos que vivem (sob) esta mudança.
Parece haver uma perene tensão gerada pela busca e tentativa constantes de
restauração do “tempo perdido”, do vãsy no uri, sendo que primeiro opera
como balizador de um modelo ideal de pensamento e vida social.
Sendo assim, para os Kaingang (assim como de maneira muito similar,
para os Xokleng-Laklanõ que têm categorias de temporalidade similares), o
tempo uri compreendido como “depois da chegada do branco”, ou a partir do
“tempo em que saímos [pra fora do] do mato”, é caracterizado e significado
através de muitos episódios concretos advindos da sua história de contato,
presentes em sua memória e continuamente (re)transmitida e discutida no
cotidiano da vida e das interações sociais aldeãs. É parte central da constitui-
ção kaingang, sustentam auto-percepções atuais acerca do seu ethos, ambiente
físico, suas relações e contradições internas, assim como mantém a dinâmica
de seu regime de alteridade, de incorporação do outro para dentro de seu sis-
tema, ao mesmo tempo em que projetam os Kaingang para fora, para viver
novas relação interétnicas, panétnicas e identificar/caracterizar os “novos
brancos”, “novos inimigos”.
Sintetizando, o uri é tido como “novo tempo”, porém “novo” significa,
predominantemente, “diferente” e não “novo” como entendemos o tempo físi-
co, histórico, caracterizado pela sobreposição linear de eventos, positivo. Se-
gundo princípios filosóficos kaingang, o tempo é mais circular do que linear e o
vãzy se constitui por oposição ao uri, e vice-versa. De certa forma, uma dimen-
são contém e está contida na outra. Há uma continuidade, mesmo na ruptura,
não existindo uma passagem estanque ou hermética de uma temporalidade
para outra, mas sim certa latência do vãzy em relação a uri (mas isso não quer
dizer que os Kaingang não os diferenciem, muito pelo contrário). O uri é signi-
ficado como um longo “tempo presente” experimentado desde a presença dos
fóg entre eles. É deflagrador de grandes transformações em sua organização e
estrutura social pré-contato, dinâmica política, economia, cosmologia, enfim:
inaugura uma profunda transformação cultural a qual, dialeticamente, gera,
reforça representações e modelos sobre “o que é ser kaingang” por oposição e
contraste e articulados pela dimensão vãsy, referência estrutural e estruturan-
te dos regimes de alteridade kaingang.
É a partir do uso das categorias de temporalidade kaingang que ob-
tém-se as chaves para a compreensão das respostas, interações e transforma-
ções indígenas advindas de um novo “encontro”, de um novo episódio da
“História de Contato” destes Índios como representantes da Sociedade Nacio-

72
nal envolvente, e, especificamente no caso em que tratamos, frente às grandes
transformações sócio demográficas, fundiárias, culturais e político econômicas
observadas à época do Contestado (aqui, mais uma vez não me refiro a período
circunscrito aos quatro anos de batalhas bélicas, mas expandida a um período
de tempo maior, quiçá à ocupação por parte de não-indígenas na região do
planalto meridional).
Segundo o olhar kaingang, foi no começo do uri que encontraram os
primeiros fóg. Entretanto, no começo, esses fóg não eram “brancos”, mas sim,
em sua maioria, “caboclos” e “negros”. 2 De acordo com Senhor Jorge Garcia,
ancião intelectual e kujä (“xamã”, ou “curador”) kaingang da Terra Indígena
Nonoai, com quem convivi por alguns dias em 2015 em um encontro de lide-
ranças intelectuais das sociedades indígenas no Sul do Brasil,

[...] no começo [dos tempos uri] os Índio iam caminhando do Posto Nonoai
até [o Posto Indígena] Xapecózinho e só via caboclo, quase não tinha branco
[...] era posseiro, fazia sítio, era assim igual a (sic) sistema de Índio [no trato
da terra] [...] De primeiro tinha mais moreno que branco. Depois que chega-
ram os polaco [...] No começo, os caboclo e os Índio era diferente, não se da-
va, mas aos pouco foram se acostumando, foram se misturando. A (sic)
sistema dos caboclo de trabalha (sic) a terra era parelho com a [sistema] do
Índio. Com o tempo, os caboclo foram seguindo a (sic) sistema do Índio, se-
guindo a lei do Índio, foi se casando, aprendendo a (sic) idioma. Foi tudo vi-
rando Índio (Caderno de campo, conversa com Seu Jorge Garcia, 2015).

A fala do Seu Jorge Garcia nos remete a pontos muito importantes so-
bre a história de contato dos Kaingang com os não-indígenas “recém” contata-
dos por ele nos primórdios do uri. Sua narrativa, cujo pequeníssimo trecho
repliquei acima, remonta sobreposições históricas, historiográficas e antropo-
lógicas de muito valor acerca da ocupação não indígena na região do Contesta-
do de várias ordens e escopos, assim como as várias etapas e desdobramentos
desta relação ao longo do período do Conflito.
Ela indica que a presença “sertaneja”, “negra” e “cabocla” (doravante
referida somente por “cabocla”) precede a presença de demais segmentos e
contingentes populacionais fóg na região, como, por exemplo os colonos euro-
peus (dentre outros que os sucederam e concomitantemente ocuparam a regi-
ão). Apresenta os “caboclos” como sitiantes posseiros, que viviam da lavoura e
agricultura. Aponta para o fato dos “caboclos” fazerem usos agrários similares
aos praticados pelos Índios. Abaliza para o sabido período de conflitos trava-

2
Aqui há que se fazer um ressalva antes de continuarmos. O termo fóg na língua kaingang significa “não
indígena”, “pessoa não índia”, comumente utilizada para designar os “brancos”. Na língua xokleng,
muito próxima da kaingang, o termo zug designa além de “não indígena”, “inimigo” (não indígena).
Interessante que em xokleng, o temo zug tchä [cor preta] designa “inimigo negro” ou “não indígena da
cor negra ou parda”. Já escutei Kaingang referirem-se a “mestiços” através do termo fóg sà, sendo que sà
designa a cor preta no idioma.

73
dos entre os Índios e esses primeiros fóg sà conforme os documentos históri-
cos, relatos de viajantes e proto-etnográficos apontam. Leva-nos, de igual ma-
neira, a reconhecer processos através do quais, Índios e “caboclos” (ao menos
de certo contingente, segundo a perspectiva indígena) modificam o status de
sua relação, as quais deixam de ser belicosas para transformarem-se em rela-
ções marcadas pelas afinidades e alianças pelo casamento, pela incorporação
dos costumes dos Índios e sociologicamente falando, por identificarem “novos
brancos” como inimigos comuns.
Nesse sentido, Seu Jorge Garcia, ao indaga-lo sobre quem ele considera
“caboclo”, segue me esclarecendo que “[...] caboclo é aquele que não fala língua
do Índio [...] caboclo que fala a (sic) idioma, segue costume, lei [dos Índios] é
Índio igual”. Sua fala nos remete a pontos diacríticos das percepções nativas
acerca da construção da identidade, ou sendo mais preciso em termos teóricos,
sua fala nos indica a pragmática do regime de alteridade vivida pelos Kaingang
– consagrada pela Etnologia acerca dos Índios jê – onde o outro é parte consti-
tuinte do nós. O dualismo jê nos remete a identificar um sistema que necessita
da perene incorporação do outro que é cosubstancializado no porvir. Se no
tempo wãzy, esse processo se dava através da constante exogamia das metades
kamé e kairu através das regras do parentesco e da construção das alianças, no
tempo uri, essa “exogamia” passa também a ser ocupada por outros outros, ou
seja: pelos fóg sà. A indianização, e se me permitirem o neologismo, a kaigani-
zação do outro, do estrangeiro é marca sedimentada do ethos kaingang (e xo-
kleng). Trata-se, como afirmei, de sociedades “abertas” para o outro, não para
dissiparem-se diante do outro, mas antes, para se reafirmarem como sociedade
e cultura distinta que (simbolicamente, ao menos) desejam domesticar e neu-
tralizar a alteridade em determinado nível e frente outros regimes de alterida-
de como o dos “novos brancos” cuja resposta a ela era a promoção do
extermínio indígena.3 Tais procedimentos evidenciam traços e estratégias
inerentes à construção identitária do grupo, constituída por oposição a demais
sociedades e culturas indígenas (como frente aos Guarani, por exemplo) e não
indígenas (como na história de contato dos Xokleng com os colonos alemães),
cujas estratégias e respostas à alteridade são muito diversas. A que se salientar
que as dinâmicas inerentes às relações interétnicas, construções de interetni-
cidades e pan-etnicidades indígenas deveriam ser analisados à luz deste mo-
vimento e pragmática conforme discorridos acima.
Evidentemente, esses processos de incorporação do outro, são proces-
sos em si, dotados de temporalidades distintas, como já apontaram os Histori-

3
Entre os Xokleng e Kaingang, além de em vários outras culturas indígenas narrativas sobre a “pacifica-
ção dos brancos”. Os Xokleng, sempre que os tenho acompanhado em eventos nas cidades, nas escolas e
universidades têm sido categóricos ao afirmarem: “[...] os brancos estão aqui [no nosso território] por
que nós deixamos eles entrar” (ALBERT e RAMOS, 2000).

74
adores da Escola dos Annales. A chegada dos outros fóg, como os colonos eu-
ropeus, e demais contingentes e atores no período do Contestado, gerou outros
tipos de respostas indígenas, inclusive, sustento, alianças bélicas dos Kaingang
com demais “caboclos” (mesmo os não “indianizados”) contra os novos invaso-
res e saqueadores de seus modos vivendi, de suas terras e territórios, de indí-
genas e caboclos, e que a partir deste período, passam a ter um inimigo
comum, os que lutam pelo seu fim e extermínio.
Por fim, como na fala de Seu Jorge Garcia, “[...] no começo, os Índios e
os caboclos se estranhavam, depois foram se acostumando...”, há que se deixar
claro que, historicamente, os primeiros contatos dos Kaingang com os não-
indígenas, os chamados “nacionais”, tenham sido eles brasileiros de diversas
regiões rurais do país, “sertanejos”, “negros” (inclusive com a documentada
presença de Quilombos na região), “caboclos”, “mestiços” ou “brancos”, não se
deram ao acaso e não tiveram, obrigatoriamente, seu debut na região e tempo
do Contestado. Mesmo que houvesse presença não-indígena de outros contin-
gentes populacionais na região antes da chegada dos colonos europeus, espa-
lhados pelos sertões, campos e antigos faxinais levados por êxodos, questões
fundiárias, migrações internas provocadas por diversos fatores (já apontados
pela Historiografia) e esta região fosse de ocupação tradicional indígena, desde
os tempos Imperiais, o governo tinha como estratégia política para a “solução”
da Questão Indígena, o envio sistemático de nacionais para os Postos e Aldea-
mentos indígenas. O objetivo declarado dessa política era o de “ensinar” aos
Índios técnicas agrícolas, introduzir a monocultura (inclusive com a instalação
de plantações de cana-de-açúcar e alambiques nos aldeamentos) e trazê-los,
gradativamente, à civilização.4
Na realidade, intentava-se através do incentivo de casamentos entre
Índios e os nacionais quebrar o poder da identidade étnica e da etnicidade que
respondiam pelo estabelecimento de fortes vínculos dos indígenas ao seu terri-
tório. Território esse, cobiçado cada vez mais pela abertura de novas fronteiras
de ocupação e expansão nacional no sul do Brasil. A exemplo, a Lei de Terras
de 1850 abocanhou grandes áreas de terra destinadas aos indígenas pelo go-
verno imperial e demais poderosos atores latifundiários e políticos nas provín-
cias do Sul.
“Índios misturados”, “acaboclados”, vivendo entre “os sistema do Índio
e do branco”, significava, um Índio errante, desaldeado (categoria com contor-
nos preconceituosos fortíssimos utilizada até o presente para desqualificar os
Índios que não vivem nas Terras Indígenas) desvinculado dos núcleos duros da
organização social e política autóctones, exatamente como os Kaingang afir-

4
Claro que estamos deixando de considerar aqui a longa história de contato travado entre esses coletivos
indígenas e missionários, também protagonistas do tempo uri, que remontam desde o Século XVIII. Ver,
por exemplo, Amoroso 1998.

75
mam ser a vida no tempo uri. Este Índio, torna-se menos resistente à luta por
seu território e ethos, facilitando a sua expropriação, expulsão e extermínio.
Mais tarde, já no período Republicano o SPILTN (Serviço de Proteção ao Índio
e Localização de Trabalhadores Nacionais) fundado em 1910, trazer o Índio
para a civilização respondia a princípios positivistas de teorias raciais, onde o
casamento dos indígenas com os nacionais os elevaria, naturalmente, a um
patamar mais elevado, da “selvageria” para a o “camponês”, enfim, torná-lo um
caboclo, um Índio “aculturado”, genérico, como afirmou Darcy Ribeiro.
Me parece clara que a não diferenciação entre “caboclos” e “Índios”
por parte de agentes governamentais, estudiosos e demais fontes históricas
como crônicas nos jornais da época, tiveram um caráter político-ideológico
deliberado em contribuir para com a invisibilidade indígena. O que não se pre-
via, é que em meio a todas essas estratégias de pulverização e construção de
invisibilidades indígenas na região se deparasse com processos socioculturais
autóctones mediados pelo protagonismo indígena, os quais geraram a indiani-
zação do branco, do caboclo indianizado. Muito menos puderam antever, como
resultado, o aumento do contingente populacional indígena e potencial sobre-
posições socioculturais entre Índios e “caboclos fanáticos” que lutaram no
Contestado junto a outros caboclos e sertanejos. 5
É evidente que muitas pesquisas etnográficas, históricas e documen-
tais ainda estão por ser realizadas. Só então poderemos construir um quadro
mais apurado das particularidades observadas entre os coletivos indígenas
que permaneceram em seus Aldeamentos e Postos Indígenas e dos outros con-
tingentes que circulavam entre esses espaços e demais ambientes como nas
reduções caboclas na região Contestada; antes, durante e depois do período da
guerra em si. Como tenho tentado argumentar, a complexidade inerente a estas
relações e à sua história, demandam um longo trilhar nas investigações de
cunho antropológico e histórico. Trago abaixo alguns pontos para os quais
identifico prováveis fragmentos de respostas a esse respeito, mas que devem
ser encarados com muita parcimônia.
Em termos sociológicos, é provável e lógico que o novo regime especu-
lativo e de relação capital-trabalho capitalista e mercantil, da Lei de Terras de
1850, da grilagem cartorial de terras e sua concentração fundiária observadas
no início do período Republicano, assim como a devastação ambiental em nível
industrial internacional com o emprego de alta tecnologia como a empregada
pela Lumber Company, somada a presença de novos contingentes populacio-
nais europeus trazidos para a região Contestada pelas companhias de coloni-
zação sejam, em seu conjunto, deflagradores do Movimento e acirramento de

5
Os Kaingang formam atualmente um dos coletivos indígenas mais expressivos em termos populacio-
nais no Brasil. Somam mais de trinta mil indivíduos espalhados em mais de trinta Terras Indígenas que
se estendem entre os Estados de São Paulo e Rio Grande do Sul.

76
conflitos e levante social, e os mesmos afrontassem tanto os sertanejos e cabo-
clos quanto indígenas da região. A marginalidade cabocla, sertaneja e indígena
(em alguns casos, formado por segmentos sobrepostos como apontei) são co-
muns neste nível macrossociológico, o que indica possíveis estratégias de ali-
anças entre os mesmos contra os “novos inimigos” comuns de nova fase do
tempo uri. Claro, estamos tratando em termos amplos e gerais, pois a rigor, e
sob a luz do campo de conhecimento antropológico, devem ser guardadas e
consideradas as especificidades socioculturais inerentes aos indígenas envol-
vidos, assim como os marcos legais por parte do Estado e em resposta às re-
presentações exógenas que pairavam sobre os contingentes indígenas e à
própria Questão Indígena. Porém, um certo tipo de invisibilidade indígena en-
contra-se neste nível, e portanto, deve ser objeto de investigação.
Outra invisibilidade indígena, que causa estranhamento, reside na pró-
pria geografia política do Movimento, a qual indica onde as reduções caboclas
se instalaram e os principais locais onde os conflitos ocorreram. Ao nos depa-
rarmos com mapas e demais fontes documentais sobre a área Contestada em
seu todo, a localização das principais batalhas e formações das “cidades santas”
que se formaram em torno das Irmandades de São Sebastião lideradas por José
Maria, observamos que as mesmas são muito próximas a vários Aldeamentos e
Postos Indígenas à época. Não possuímos ainda mapas que possibilitem visua-
lizar suas sobreposições – encontramos atualmente em fase de sua elaboração.
Porém, independentemente da possibilidade desta valiosa representação grá-
fica, que deverá ajudar a demover a invisibilidade, já se pode concluir que cole-
tivos indígenas estavam “em meio ao campo de batalha”, voluntária ou
involuntariamente. Os Xokleng do Rio dos Pardos na região de Mattos Costa e
Calmon (SC), por exemplo, não deviam estar distante da Batalha do Irani. Em
1911, o SPI instala um Posto de Atração bem na região. Praticamente não se
sabe nada sobre seu envolvimento no Contestado, nem através de seus des-
cendentes que ainda vivem na região. Sabe-se sim, que foram diretamente
afetados pela construção da Ferrovia São Paulo – Rio Grande, segundo Walmir
da Silva Pereira (1995). Sabe-se que as Colônias Militares instaladas na região
Contestada, em especial a de Santa Thereza, praticou extermínios de “Botocu-
dos” (como eram conhecidos os Xokleng à época) para garantirem o escoamen-
to de mercadorias e bens para o litoral a cargo dos tropeiros.
Dentre vários fragmentos que evidenciam a presença indígena no Mo-
vimento do Contado, sabe-se que Kaingang de Palmas se deslocaram para a
região dos conflitos; que uma liderança cabocla do Contestado, sobrevivente da
Batalha do Irani, chamado Jacinto Pereira da Silva, refugiou-se após a batalha
na Aldeia do Toldo Chimbangue, por lá viveu, constituiu família e por lá mor-
reu; que em 1915, Alemãozinho e Chica Pelega se refugiam em um Aldeamento
kaingang próximo a Papanduva e que os Índios os protegem e atacam o Pique-

77
te de Pedro Ruivo, que parte em retirada; que o coronel Fabrício Vieira plane-
java exterminar esses Kaingang, da mesma maneira que tentara fazer em rela-
ção aos Xokleng na região de Canoinhas, atribuindo a culpa de planejado
extermínio aos “soldados” de José Maria, porém sem sucesso. A estes fragmen-
tos, que demandam por si mesmos pesquisas aprofundadas, soma-se ao inven-
tário de invisibilidades vários registros fotográficos que evidenciam a presença
indígena no Conflito quando expostos como prisioneiros após batalhas.

Dos (Des)Encontros Antropológicos: Mediações no Campo do Sagrado

Rumo ao término desta prosa grafada, gostaria de considerar alguns


aspectos de natureza antropológica que caracterizam o encontro entre os ín-
dios e – em resposta ao evento do – Contestado.
Retornando ao tema das alianças estabelecidas entre Índios e caboclos
no período prévio e do Contestado, inspirados na narrativa do Seu Jorge Garcia
e, agora, acrescentando o que tenho observado (assim como outros colegas
Etnólogos, como por exemplo Rogério Rosa e Ledson Almeida) em nossas pes-
quisas etnográficas contemporâneas acerca da marcante presença do São João
Maria na vida social, ritual e cosmológica dos Índios nas Terras Indígenas por
onde temos trilhado, conforme brevemente mencionados anteriormente, indi-
ca termos conseguido chegar a uma provável conclusão sobre a origem de sua
acentuada presença no ethos indígena. De igual maneira, pudemos identificar
os críveis processos socioculturais que levaram os Kaingang a designar São
João Maria como Paí Kofã (“Pai Velho”, “avô”) ou Topë Kupri (“Deus”)
(CRÉPEAU, 2010, p. 75 - 81). Assim como os “caboclos” foram kainganizados”
através de processos de incorporação do outro pelo meio das mesmas opera-
ções descritas acima, São João Maria, que primeiramente fora introduzido aos
Índios pelo ethos caboclo em decorrência do contato, foi igualmente kaingani-
zado. Não “do nada”, mas através de uma lógica cultural preexistente e persis-
tente extraída da temporalidade vãsy aplicada a um personagem do uri.
Havia, houve e ainda há, elementos comuns atrelados a figura mística e
mitológica do Monge do Contestado, cujos quais foram e continuam sendo
experimentados e traduzidos pelos caboclos do Contestado e pelos Índios co-
mo (sendo) São João Maria. Estes elementos têm permitido a tradução e a in-
corporação do personagem histórico ao mundo mitológico, cosmológico e
xamãnico kaingang à luz de eventos históricos, como fora o Contestado. Pre-
sença espiritual, aparições em sonhos, transmutações, procedimentos de cura
para enfermidades atualizaram o completo xamanístico a cargo dos kujä no uri,
coletivamente legitimados. Profecias e messianismos, dentre outras expres-
sões e experiências sensoriais, assemelham-se – guardadas as devidas propor-
ções e particularidades – tanto ao sistema de crenças caboclas, quanto
indígenas.

78
Construções acerca da figura e poderes atribuídos a São João Maria,
assemelharam-se aos feitos dos heróis míticos kaingang, criadores do mundo e
dos Kaingang. Kamé e Kairu, criadores do universo, de todas as criaturas e das
metades kaingang que carregam seus respectivos nomes, assim como as suas
criações também são passíveis de equiparação e designação – não na mesma
intensidade e contexto – pelos mesmos termos pelos quais São Joao Maria
também o é, ou seja: Paí Kofã ou Topë Kupri.
Se a teoria antropológica acerca das transformações culturais e sociais
pode ser aplicada neste caso, é bem provável que a indianização de São João
Maria tenha transitado por estoques e repertórios semânticos e simbólicos
simbolizáveis comuns e passíveis de traduções nativas postos em uso frente a
personagens, igualmente, qualificados como heróis; todos pertencentes ao
campo do sagrado. Ouso afirmar, a título especulativo no estado atual das mi-
nhas investigações, que sobreposições como as observadas entre Capitão Cook
e o Deus Lono, entre os havaianos segundo a interpretação de Sahlins (1985),
pode ter ocorrido entre os Kaingang mediado pelo Evento Histórico do Contes-
tado.
Se a chave interpretativa proposta por Sahlins para dar conta das con-
tinuidades e rupturas observadas no caso havaiano pós presença sistemática
do ethos ocidental entre eles está correta, e se esta for passível de ser aplicada
ao caso aqui exposto, resta identificar nas futuras pesquisas, não somente as
ressignificações simbólicas advindas com a incorporação de São João Maria ao
sistema e ethos kaingang, mas principalmente identificar os novos repertórios
simbólicos que sustentam as transformações históricas advindas pelo contato
com o novo via Contestado.
Por fim, o messianismo protagonizado através do papel (au-
to)atribuído a José (São João) Maria, o qual, sob o olhar antropológico, foi o
caráter mister que articulou e “azeitou” a adesão incondicional de milhares
pessoas à resistência camponesa e indígena, merece destaque. Movimentos
similares ocorridos entre outros coletivos indígenas têm sido documentados
pela Etnografia, dentre eles destaca-se os casos Krahô, Tikuna, Kanela, Baniwa.
Claro que ainda seria prematuro afirmar que São João Maria deflagrou movi-
mentos messiânicos entre os jê meridionais per se, porém cumpre aqui desta-
car um relevante episódio ocorrido recentemente entre os Kaingang da Terra
Indígena Xapecó, no Oeste Catarinense, quando reocuparam um território
tradicional tomado por fazendeiros locais no passado e criaram a Aldeia do
Toldo. A deflagração do movimento de ocupação foi atribuída uma profecia de
São João Maria que se fez real através de um kujä que o recebeu através de um
espirito-guia nos moldes tradicionais. Trata-se, neste caso, de mais uma “cida-
de sagrada” cuja motivação da ação prática consciente, fora operada pela laten-

79
te temporalidade vãzy, como observado nas demais “cidades santas” do Con-
testado aos olhos kaingang.

Considerações Finais Iniciais

Estamos todos achegados em torno da reescrita da história (além da


oficial hegemônica) do Movimento do Contestado, estranhando-a, relativizan-
do-a criticamente; cientes da necessidade de se dar atenção às versões a cargo
de outros agentes (descendentes, filhos e netos) envolvidos no Conflito. São,
igualmente, sujeitos da memória, cujas perspectivas sobre o Evento devem ir
além das (re)considerações encapsuladas em si mesmas, posto que também e,
principalmente, devem ser concebidas como mediadoras de dimensões extra-
poladoras do próprio Evento. Eventos são bons para pensar – como bem defi-
niu Lévi-Strauss em relação ao totemismo – aspectos e dimensões mais
profundas da vida e das relações sociais, da produção do conhecimento, das
questões de poder inerentes à (re)condução e reordenamento de um novo
olhar sobre os mesmos eventos passados que impactaram e impactam o pre-
sente circunstancialmente. Eles transformam o próprio olhar que se tinha so-
bre o mesmo, inaugurando algo novo, uma Nova História do Contestado.
Estamos, enfim, diante de um fenômeno cultural, o qual também é
acessado por instrumentos e produções comuns a nossa cultura do pensar de
baseamento racional que caracteriza os campos do saber histórico e antropo-
lógico. À guisa de conclusão, a Antropologia Histórica, através da Etnografia e
de uma postura etnográfica frente às fontes históricas, cria um espaço de en-
contro de saberes, nivelando e colocando em perspectiva equânime e simétri-
ca, diferentes versões e significações para um mesmo Evento, o qual passa a
adquirir status multi-e-plurivocal. A voz indígena no Contestado deve começar
de deixar a invisibilidade de lado para entrar na sua Nova História que estamos
ajudando a (re)contar.

Fontes utilizadas

Caderno de Campo, 2015.

Referências bibliográficas

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no Norte-Amazônico. São Paulo: UNESP, 2002.
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80
CRÉPEAU, R. La figure de l’étranger chez les Kaingangs du Brésil meridional. Recherches
Amerindienne au Québec, XL, n. 1 - 2 (p. 75 - 81), 2010.
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URBAN, G. A Model of Shokleng Social Reality. Dissertation in Social Anthropology. Uni-
versity of Chicago, Chicago, 1978.

81
OBSERVAÇÕES SOBRE AS APROXIMAÇÕES
ENTRE POLÍTICA E LATIFÚNDIO NO
PLANALTO

JANAINA NEVES MACIEL1

Introdução

O presente estudo refere-se ao início de uma investigação acerca da


relação entre os latifundiários, geralmente pecuaristas, do Planalto Serrano
catarinense e o cenário político da primeira república em Santa Catarina.
Sabe-se que no Brasil, assim como em outros lugares do mundo, o
domínio sob grandes extensões de terras também concedeu aos seus proprie-
tários posição e status social privilegiados. No entanto, o que não se encontra
são trabalhos que analisem as trajetórias que levaram os detentores de terras
ao poder político. Este trabalho propõe-se a investigar alguns indícios da rela-
ção entre essas trajetórias e o cenário político local e estadual na primeira
república em Santa Catarina.

Primeiros apontamentos teóricos

A propriedade da terra é compreendida aqui, conforme Rosa Congost,


como uma construção social. Segundo a autora

No nos interesan sólo las condiciones legales, es decir, nominales, de la pro-


piedad, sino el conjunto de elementos relacionados com las formas dia-
rias de aceder a los recursos, com las prácticas diárias de la
distribución social de la renta, que pueden condicionar y ser condicio-
nados por las diferentes formas de disfrutar de los llamados derechos

1
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina e
Professora da Rede Pública de Ensino de Santa Catarina. E-mail: janaina.nevesmaciel@gmail.com

83
de propiedad, y también por los derechos y prácticas de uso, es decir, por las
diferentes formas de ser propietarios. (CONGOST, 2007, p. 15).2

Sendo assim, a propriedade da terra deve ser compreendida dentro do


seu contexto histórico-social. No Planalto Serrano catarinense, alguns municí-
pios podem ser destacados por evidenciarem a relação entre o cenário político
e a vinculação com a propriedade da terra. Neste trabalho ressaltam-se os
municípios de: Curitibanos, Campos Novos e Lages. Tal vinculação certamente
também pode ser relacionada ao coronelismo.
No livro Coronelismo, enxada e voto, Victor Nunes Leal (2007) entende
o coronelismo como um fenômeno político, exercido especificamente na pri-
meira república, o qual, segundo o autor, cruza diferentes esferas de poder e
dependia do poder armado e eleitoral dos dependentes dos chefes locais para
se efetivar. Porém, embora já consagrada, essa visão pode ser questionada por
conter algumas limitações.
Ibarê Dantas (1987), destaca que o coronelismo se instalou no Brasil
de forma ainda mais ampla que a de um fenômeno unicamente político, sendo
utilizado como uma forma de dominação de classe que dependia muito mais da
autoridade (também militar) dos chefes locais sobre seus dependentes, do que
propriamente do poder eleitoral que esses chefes podiam representar.
Apesar dessa divergência entre as interpretações de Leal e Dantas,
ambos concordam que alguns aspectos sustentavam o coronelismo no interior
do Brasil. Para esses autores a aquisição de grandes porções de terras, autori-
dade local e poder militar, este último representado geralmente pela participa-
ção no oficialato da Guarda Nacional, compunham um cenário fértil para a
implantação do coronelismo. Aqui entendido como uma forma de dominação
de classe.

Grandes proprietários, a Guarda Nacional e alguns cargos políticos

Criada em 1831 com o objetivo de atuar no auxílio às forças militares


do Brasil, a Guarda Nacional manteve-se instaurada ao longo de grande parte
da primeira república. Teve seu oficialato composto, majoritariamente, por
grandes proprietários de terras que poderiam, em caso de guerra, dispor de
uma significativa quantidade de armas e homens.
Destaca-se que o poder dos latifundiários da região encontrava-se
também na Guarda Nacional. Segundo Machado (2004, p. 100), no final do

2
Em tradução livre para o português: Nós não estamos interessados apenas nas condições legais, ou seja,
nominais da propriedade, mas sim no conjunto de elementos relacionados com as formas diárias de
acessar aos recursos, com as práticas cotidianas da distribuição social da renda, que podem condicionar e
serem condicionadas pelas diferentes maneiras de desfrutar dos chamados direitos de propriedade, e
também pelos direitos e práticas de uso, ou seja, pelas diferentes formas de ser proprietário.

84
período monárquico, Lages possuía o maior contingente de praças e o maior
número de oficias, entre eles Vidal Ramos, Vidal Ramos Junior, Laurentino José
da Costa, João da Silva Ribeiro Jr., Francisco Borges do Amaral e Castro e Hen-
rique Ribeiro Córdova. Todos grandes proprietários de terras do município.
Selou-se aqui o poder dos latifundiários do Planalto Serrano, uma vez que de-
tinham destaque econômico, social, político e, com o comando da Guarda Naci-
onal, também detinham poder policial.
O poder político no Planalto catarinense nos primeiros anos do século
XX influenciou também as forças de segurança do estado. Durante o Movimen-
to do Contestado, no ano de 1914 o capitão Euclides de Castro, então delegado
especial em Lages, enviou numerosa correspondência ao secretário-geral quei-
xando-se acerca das constantes intromissões do coronel, e superintendente do
município, Belisário Ramos sobre o comando efetivo das tropas municipais e
estaduais; como resposta recebeu que “deveria agir em concordância com os
Superintendentes Municipais” (MACHADO, 2004, p. 107).

Os políticos, a pecuária e a estrutura agrária

A seguir uma citação encontrada na obra do memorialista Licurgo


Costa acerca da pecuária em Lages:

A raça ‘Hereford’, procedente da Inglaterra e que se aclimatou bem em La-


ges, teve seu ponto de partida nas fazendas dos Coronéis Belisário e Vidal
Ramos, respectivamente, Morrinhos e Paiquerê, de onde se irradiou pelos
campos da Coxilha Rica, antes de abranger toda a região. (COSTA, 1982, p.
1490, grifo meu).

A escolha por apresentar a citação supracitada justifica-se pela de-


monstração da relação existente no referido espaço entre a propriedade fundi-
ária pecuarista e o poder militar e político no início da República. Conforme o
memorialista Licurgo Costa, foram os coronéis Belisário e Vidal Ramos que,
com o auxílio do governo estadual, introduziram o uso da raça de gado bovino
Hereford na região do Planalto, por meio do “pioneirismo” de suas fazendas.
A família Ramos destacou-se na região principalmente a partir da Co-
marca do município de Lages. Ocuparam importantes cargos políticos por dife-
rentes gerações, em distintas esferas, possuindo estrita vinculação com a
propriedade da terra, uma das fontes de seu poder. Aliás, o sobrenome Ramos
aparece no comando administrativo do município de Lages ao menos oito ve-
zes, conforme pode ser observado na imagem a seguir:

85
Figura 1: Administradores do município de Lages. Fonte: COSTA apud PEIXER, 2002, 105.

Membros da família Ramos ocuparam o cargo de superintende ou pre-


feito de Lages por muitos anos. Costa inclusive afirma que Belisário “[...] se
manteve no cargo, por sucessivas reeleições, desde 9 de outubro de 1902 a 31

86
de dezembro de 1922. Exerce-o portanto, num período de mais de vinte anos”
(1982, p. 1257). Licurgo comenta ainda mais sobre o Cel. Belisário Ramos,
segundo ele o referido político era “Abastado fazendeiro, [...] frequentemente se
afastava das funções, passando-as ao substituto por ele mesmo designado, como
era da lei. E ia para suas fazendas, tratar de interesses particulares” (1982, p.
1258, grifo meu).
Essa relação entre propriedade fundiária e poder público local parece
bastante imbricada na afirmação de Costa, acima destacada. Essa relação não
parece ter ficado restrita ao âmbito local. A família Ramos ocupou outros car-
gos políticos que ultrapassaram a esfera municipal. Abaixo é apresentada uma
figura com nomes de alguns membros da referida família e diferentes cargos
por eles ocupados:

Figura 2: A família Ramos e o poder político. Fonte: COSTA apud PEIXER, 2002, p. 106.

Conforme as informações contidas nas figuras apresentadas, constata-


se que são pelo menos quatro gerações de Ramos no poder político e mais de
oito mandatos no comando administrativo do município de Lages. Parece pos-
sível afirmar que uma demonstração da relação entre o cenário político catari-
nense com os latifundiários do Planalto Serrano começa a ser delineada.
Importante ressaltar que o município de Lages no início da primeira
república abrangia um território que atualmente é composto por outros muni-
cípios que foram se emancipando ao longo do século XX, são eles, e suas res-
pectivas datas de emancipação: Anita Garibaldi, 17/07/1961; Bocaina do Sul,

87
16/07/1994; Bom Retiro, 04/10/1922; Campo Belo do Sul, 17/07/1961; Ca-
pão Alto, 29/09/1994; Cerro Negro, 26/09/1991; Correia Pinto, 10/05/1982;
Otacílio Costa, 10/05/1982; Painel, 07/08/1994; Palmeira, 18/07/1995; e São
José do Cerrito, 07/12/1961.
Nilsen Borges (2005) comparou a estrutura agrária de Lages com a do
Rio Grande do Sul do final do século XVIII:

Esta estrutura agrária era bastante semelhante da encontrada em Lages, on-


de a pecuária foi adquirindo, além do caráter econômico, o político e social,
condicionando o processo de colonização da região, assim como a própria
estratificação social e as formas de acesso à terra. Inicialmente, as primeiras
fazendas que ali se estabeleceram através das concessões régias eram com-
postas por currais para aprisionar o gado reiúno capturado, remanescentes
do gado vacum e eqüino das missões jesuíticas (BORGES, 2005, p. 63).

A citação acima sugere que a estrutura agrária e pecuarista de Lages


implicava em uma influência que ultrapassava o âmbito econômico e social.
Cenário provavelmente muito semelhante ao dos municípios de Curitibanos e
Campos Novos.
A propriedade fundiária parece ter sido tão decisiva para a represen-
tação do poder local que homens já abastados, como por exemplo, o imigrante
alemão Henrique Rupp, mesmo após ter sido titular do cartório de Campos
Novos, tornou-se grande proprietário de terras, adquirindo logo depois título
de coronel da Guarda Nacional (MACHADO, 2004 p. 102). Henrique Rupp ainda
ocupou os cargos de juiz de paz, vereador, superintendente municipal e depu-
tado estadual.
Em Curitibanos destaca-se Francisco Ferreira de Albuquerque, que
trabalhou como caixeiro, comerciante, proprietário de terras e superintenden-
te municipal. Embora tenha sido fiel aliado da família Ramos, não conseguiu
estabelecer um cenário político local de estabilidade.
Na tentativa de compreender o processo de regularização da proprie-
dade fundiária no início da primeira república, a dissertação defendida em
2015 por Maciel aponta alguns nomes de políticos da região serrana que tam-
bém desenvolveram atividades ligadas à pecuária ou a fazendas particulares.
Como o objetivo desse trabalho é assinalar o início de um estudo mais apro-
fundado sobre essa relação faz-se importante a apresentação de um quadro
onde essas informações possam ser visualizadas:

Nome Ano/ Naturali- Atividades parti- Cargos políticos/públicos


dade culares
João da Silva 1807 Fazendeiro Integrante da lista tríplice
Ribeiro Lages para Senador do Império
pela província de Santa

88
Catarina
Henrique Ribeiro 1809 Fazendeiro Vereador e presidente da
de Córdova Lages Câmara Municipal

José Maria Antu- 05/05/1864 Agropecuarista Deputado provincial


nes Ramos
Francisco Ferreira 1º/07/1864 Fazendeiro Superintendente de Curiti-
de Albuquerque São Joaquim banos

Vidal José de 24/10/1864 Fazendeiro Senador e Governador


Oliveira Ramos Lages
Júnior
Otacílio Vieira da 02/12/1883 Advogado, pecu- Superintendente Municipal
Costa Lages arista e memori- de Lages e Deputado Esta-
alista dual
Adolfo José Mar- 13/08/1917 Fazendeiro e Deputado Estadual
tins Lages pecuarista

Cândido de Oli- 13/03/1889 Fazendeiro e Secretário de Estado da


veira Ramos pecuarista Fazenda, Viação, Obras
Públicas e Agricultura
Antônio Palma 02/06/1891 Pecuarista Vereador, Prefeito e Depu-
São Joaquim tado

Celso Ramos 18/12/1897 Pecuarista Governador e Senador


Lages
Celso Ramos 04/04/1909 Advogado e Deputado estadual e Fede-
Branco Lages pecuarista ral

Wilmar Ortigari 07/08/1917 Pecuarista Prefeito de Curitibanos e


Curitibanos Deputado Estadual

Quadro 1: Políticos e suas atividades. Elaborado por Janaina Neves Maciel. Fonte: PIAZZA.
Dicionário Político de Santa Catarina, 1985.

Muitos outros nomes podem ainda ser acrescentados a essa lista com
o decorrer da investigação. Ainda assim, ela já pode contribuir como um dire-
cionamento de possíveis trajetórias a serem pesquisadas.

Os grandes proprietários e a legislação

O início da primeira república mostrou-se um momento crucial para a


legislação agrária, uma vez que a Constituição brasileira de 1891 transferiu aos
estados a responsabilidade de legislar sobre as terras devolutas, bem como a
consequente elaboração das leis estaduais de regularização da questão da ter-

89
ra. Em Santa Catarina alguns políticos sentiram-se suficientemente confortá-
veis para aprovar leis que beneficiaram a pecuária em detrimento da agricul-
tura.
A socióloga Ligia Osório aponta, no livro Terras devolutas e latifúndio,
que a passagem da responsabilidade de legislar sobre as terras devolutas na
primeira república favoreceu às oligarquias estaduais, que foram, mais ou me-
nos, elaborando leis que reproduzissem a estrutura fundiária vigente até a
Proclamação (OSÓRIO, 2008, p. 268).
O processo descrito por Osório parece ter acontecido também em San-
ta Catarina, muito embora Costa defendesse que os governos catarinenses
pouco auxiliaram o homem do campo do Planalto. Segundo Costa, o desenvol-
vimento que houve nesse âmbito foi fruto do árduo trabalho do pecuarista
lageano. O autor, ele mesmo filho dessa linhagem da elite lageana latifundiária
e pecuarista, afirma que o atraso no desenvolvimento das atividades pecuaris-
tas - referia-se a pecuária extensiva – era responsabilidade dos governos esta-
duais, para ele “o que o pecuarista lageano já realizou, sem amparo oficial, é
extraordinário” (COSTA, 1982, p. 1505).
Todavia um estudo um pouco mais cuidadoso em relação às fontes faz
com que essas afirmações de Costa sejam refutadas. O governo estadual, assim
como a legislação estadual de Santa Catarina, no início da República privilegiou
os pecuaristas por mais de uma vez, inclusive permitindo a regularização de
extensões de terras mais de três vezes maiores aos pecuaristas do que aos
lavradores.
A primeira lei estadual de Santa Catarina referente à regularização de
terras é a Lei nº 70, de 22 de maio de 1893. Portanto, de 1891 até a
implantação da Lei nº 70 há um vazio na legislação fundiária no estado.
Ao contrário da Lei de Terras nacional, de 1850, a lei estadual de 1893
imprimiu limites de extensão para a legitimação de posses. Em seu Artigo 7º
§2º consta que: “A área total das posses, havidas por ocupação primária em
virtude desta lei, nunca poderá exceder aos seguintes limites: em terras de
lavoura, 1.089 hectares, em campos de criação, 4.356 hectares”. Essa definição
de área também foi inscrita no Artigo 6º § 2º da Lei nº 173, de 30 de setembro
de 1895.
Apesar de estipular limites à área a ser legitimada em terrenos ocupa-
dos por posse, é possível observar também o caráter desigual dessas leis no
que diz respeito aos privilégios concedidos aos pecuaristas. Fica nítido o favo-
recimento concedido aos criadores de gado com a autorização de legitimação
de posses mais de três vezes maiores do que o tamanho permitido às áreas
destinadas somente para agricultura. E, embora, haja muitos defensores da
necessidade de grandes propriedades para a criação de animais, Machado ar-
gumenta que

90
Ao contrário, a forma e a extensão das terras apropriadas deviam-se muito
mais às condições sociais, históricas e políticas, ao padrão senhorial de ocu-
pação vigente (não apenas) naquele período, no qual a grande fazenda re-
presenta a possibilidade do acúmulo de riquezas, do exercício e afirmação de
poder político sobre a vizinhança e a comunidade local e, muitas vezes, sua
projeção regional (2004, p. 78).

Sendo assim, as grandes extensões de terras para criação de gado,


possuem uma relação muito mais coerente com as condições histórico-sociais
do cenário em questão do que especificamente com uma necessidade de gran-
des espaços para a criação do gado.
Outro privilégio pode ser observado na Lei municipal de Lages nº 94
de 08 de julho de 1902 com a supressão da cobrança de imposto sobre expor-
tação. Certamente um favorecimento aos pecuaristas, os quais detinham o
maior montante das exportações realizadas à época pelo município. A data de
aprovação dessa lei está inserida no período do mandato do superintendente
Vidal Ramos Júnior.

Um possível caminho de investigação

De acordo com o que já fora exposto nesse texto, a proposta aqui apre-
sentada é apenas o início de uma investigação. O desenvolvimento dessa pes-
quisa irá exigir uma base metodológica que se baseará em trabalhos que
analisam a questão da terra e das leis como resultados de construções sociais
e, como tais, pertencente a cenários históricos específicos.
Entre os trabalhos que influenciam essa visão estão obras como as de
E. Thompson, em Senhores e Caçadores e Costumes em comum, estudos que se
destacam pela leitura inovadora que fazem das leis inglesas. Thompson inter-
preta a legislação, e o uso desta, como um campo de disputa, e não como um
palco de vitória intacto “dos de cima”. Tais análises podem contribuir para a
leitura das fontes, pois as leis municipais, estaduais e brasileiras, estas últimas
em menor número, serão assim compreendidas.
A presente pesquisa também é influenciada pelo trabalho de Giovani
Levi, no seu livro intitulado Herança Imaterial. O autor analisa de forma fasci-
nante suas fontes e consegue elaborar análises com perspicácia, como por
exemplo, quando apresenta o mercado de terras de Piemonte. Levi afirma que,
apesar de as transações comerciais terem sido realizadas por sujeitos que per-
tenciam sanguineamente, ou não, aos mesmos grupos de sociabilidade, o preço
das terras não sofreu decréscimo, ao contrário, foi elevado para que justamen-
te servisse também como uma forma de auxílio aos vendedores que estavam se
desfazendo de suas terras em momento de crise.

91
Segundo Levi, em palestra realizada na Universidade Federal de Santa
Catarina, no dia 24/10/2014, “Nada na história tem relevância em si. Nós, os
historiadores é que lhe damos relevância”. Propõe-se, portanto, dar relevância
a estrutura agrária dos municípios do Planalto Serrano de Santa Catarina e
compreendê-la à esteira das relações políticas do estado catarinense no início
da primeira república no Brasil.

Considerações Finais

O desenvolvimento deste trabalho, que se encontra em fase inicial,


busca evidenciar que os direitos de propriedade foram utilizados por seus
proprietários para, direta ou indiretamente, influenciarem no cenário político
da região. Nesse sentido, muitos questionamentos ainda precisam ser esclare-
cidos para a compreensão dessa relação, alguns deles são: Por quais mecanis-
mos tornou-se viável a chegada ao poder dos latifundiários, na maioria
pecuaristas, da região do planalto catarinense no início da primeira república?
Como foram formadas as redes de sociabilidades que entrelaçaram esses per-
sonagens? Como se deu essa influência política nas legislações municipal e
estadual? Quais as formas de transmissão/regularização desses patrimônios?
Na busca por respostas a essas questões, parte-se da premissa de que
a política de terras numa região de fronteira agropastoril (como o Planalto
catarinense na virada do séc. XIX ao XX) foi decisiva para a afirmação do poder
local de grandes proprietários sobre o conjunto de outros proprietários, agre-
gados e peões. Este estudo preliminar buscou recolocar para discussão e análi-
se o papel e a força local do coronelismo no prestígio social e nos possíveis
privilégios recebidos pelos coronéis.
Por ora, constata-se que foram pelo menos quatro gerações de Ramos
no poder político e mais de oito mandatos no comando administrativo do mu-
nicípio de Lages. Parece possível afirmar que uma demonstração da relação
entre o cenário político catarinense com os latifundiários do Planalto Serrano
começa a ser delineada.

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04/06/2014.
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92
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Colonização: do Estado de Santa Catarina, 1892-1939. Arquivo Público do Estado de
Santa Catarina.
SANTA CATARINA. Lei nº 173, de 30 de setembro de 1895. In: Coleção de Leis de Terras
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94
APRENDENDO NA NOVA TERRA:
IMIGRANTES E NACIONAIS NO TRABALHO
AGRÍCOLA, SÉC. XIX

PAULO PINHEIRO MACHADO1

Muitos documentos e memórias de senadores, ministros e demais au-


toridades do Império defenderam a vinda de imigrantes europeus como um
processo de construção de um novo país, imaginado como “enxerto”, na ex-
pressão de Miguel Calmon du Pin e Almeida, o Marquês de Abrantes, autor de
uma das primeiras obras sobre a imigração para o Brasil (1846). Tal como José
Bonifácio, o Marquês de Abrantes imaginava que este enxerto daria mais
“energia e moralidade” à população brasileira.
Este capítulo analisará um texto do engenheiro Louis Leonce Aubé,
anexo ao livro de S. Dutot, France et Brésil, onde há uma apresentação da Colô-
nia Dona Francisca (Notice sur Dona Francisca), que em anos seguintes passou
a ser denominada Joinville. Nesta apresentação, redigida originalmente em
francês e dirigida a agricultores, o engenheiro Aubé apresenta as culturas típi-
cas do país, as lavouras e seus rendimentos, além de detalhar as formas de
preparação do solo e explicar processos de cultivo.2 Destacaremos ao longo
desta análise a incorporação de práticas tradicionais e produtos alimentícios
próprios da lavoura cabocla de subsistência - mandioca, cana, milho, batatas -
como meio de subsistência, alimentação e comercialização de agricultores
europeus. Os conselhos de Aubé são importante forma de transmissão de co-
nhecimentos tradicionais da agricultura brasileira.

1
Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade
Federal de Santa Catarina, bolsista em Produtividade de Pesquisa II do CNPQ. E-mail pau-
lo.pinheiro.machado@ufsc.br.
2
Trabalho neste capítulo com uma versão em português traduzida por Sara Farias da Silva, a quem
agradeço pelo empenho e atenção. DUTOT, S. France et Brésil. Paris: Librairie de Guillaumin. 1857. O
texto anexo de Aubé será daqui para frente apenas citado como AUBÉ, L.L. Anexo, ano, p.

95
Introdução

A partir da segunda metade do século XIX esta política de estímulo à


imigração europeia se intensificou. O aparelho de Estado Imperial passou a ter
condições para investir de forma mais sistemática na vinda de imigrantes,
aumentando para isto a atividade de propaganda, atração e construindo uma
estrutura de recepção. No plano prático foram firmados numerosos contratos
com comerciantes tanto para a atração, transporte e assentamento de imigran-
tes em colônias públicas, como para o loteamento de terras e a organização de
colônias particulares subsidiadas pelo Estado (MACHADO, 1999).
O processo de atração de imigrantes atendia a diferentes objetivos. Pa-
ra as Províncias sulinas (como São Pedro do Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná e Espírito Santo) o governo imperial planejava dar continuidade ao
processo iniciado no I Reinado, de instalação de famílias de colonos na condi-
ção de pequenos proprietários. Foi o que Caio Prado Júnior denominou coloni-
zação com povoamento (PRADO JR, 1982). Diferentes gabinetes, tanto liberais
como conservadores, tiveram como política permanente durante o II Reinado a
construção de uma camada social de pequenos proprietários de origem euro-
peia como parte de um processo estratégico. Não seria mais de um “enxerto”,
mas sim um processo de construção de um “povo novo” algo efetivamente
diferente. Isto implicava num deslocamento da população nacional (considera-
da indolente, rarefeita ou inexistente) e na intensificação da produção de gêne-
ros alimentícios para o abastecimento do mercado interno, além de ficar
disponível mais uma população sujeita ao recrutamento militar.
Para o centro-sul do país, principalmente para as Províncias de São
Paulo, Rio de Janeiro e zona da mata de Minas Gerais a atração de imigrantes
estava orientada para a busca de trabalho para a grande lavoura cafeeira, den-
tro de diferentes formas e combinações de parceria com assalariamento, que
resultou na consolidação das relações de colonato nas décadas finais do século
XIX. Aqui o imigrante vinha para se transformar em mão de obra para a grande
lavoura (DAVATZ, 1960; DEAN, 1977; ALVIM, 1986).
Apesar das destinações serem muito distintas para o imigrante, a atra-
ção das correntes migratórias para o Império contava com esta combinação da
atração pela pequena propriedade, no sul, para uma maior capacidade de car-
rear os destinos de trabalhadores para a grande lavoura, muitas vezes lado a
lado com trabalhadores escravizados. O investimento do Império na formação
de colônias de pequenos proprietários não foi residual, foi crescente a partir da
década de 1850, chegando a alcançar algo perto de 10% do orçamento anual
executado em 1878, o que revela a relevância de uma política de Estado.

96
As terras Dotais

Como parte da negociação pelo casamento de Dona Francisca, irmã


mais velha de Pedro II, o terceiro filho do Rei da França, François de Orleans
(Príncipe de Joinville), viajou ao sul do Brasil para escolher as terras que, junto
com uma parte em dinheiro, seriam parte de seu dote pessoal. Os representan-
tes da França teriam feito gestões para que estas terras fossem próximas à
Guiana Francesa. Mas por temer um expansionismo estrangeiro sobre o vale
amazônico, o Governo Imperial definiu como local de destino dos solos dotais
um território devoluto no nordeste da Província de Santa Catarina.
Não se tratava apenas de um casamento, mas de aliança política entre
os países, desta maneira todo o processo foi tratado como uma questão de
Estado. Na escolha das terras dotais o Príncipe de Joinville teve auxílio de seu
procurador e representante oficial no Brasil, o engenheiro Louis Leonce Aubé,
autor de um texto anexo ao livro de S. Dutot que analisaremos a frente.
Existia no Rio de Janeiro uma colônia muito influente de negociantes,
profissionais e intelectuais franceses. Desde o governo Joanino vários france-
ses radicaram-se na Corte e foram contratados para diferentes funções pelo
Estado nascente, como a formação da Escola de Belas Artes, a fundação de
empreendimentos no interior do país, como a Fábrica de Pólvora na Serra da
Estrela e a Fábrica de Ferro em Sorocaba, o fornecimento de professores ao
Colégio Pedro II, além de muitas atividades ligadas ao mundo militar e a enge-
nharia (TAUNAY, 2004).
Este grupo radicado na Corte exerceu importante função de recepção e
mediação com diplomatas, viajantes europeus, naturalistas e outros que foram
desembarcando ao longo do século. Não era um grupo politicamente homogê-
neo, existindo entre eles partidários da Restauração, liberais constitucionalis-
tas e até alguns socialistas utópicos - seguidores de Saint Simon, Fourier e
Cabet - como era o caso do farmacêutico Benoït Jules Mure. Apesar da diversi-
ficação profissional e política, vários relatos apontam para a existência de uma
comunidade de franceses e demais europeus que se relacionava mutuamente
de forma cotidiana.
Efetivamente era uma comunidade que compartilhava os mesmos ho-
rizontes de expectativa e estava no entorno da família imperial e pertencia ou
estava próxima de postos elevados do aparelho de Estado. O engenheiro Louis
Leonce Aubé era integrante desta comunidade. Além de ser procurador dos
Príncipes, Aubé também foi engenheiro contratado pela administração da Co-
lônia Dona Francisca, em 1855 foi escolhido Diretor da Colônia. Em 1858 Aubé
foi eleito Deputado Provincial em Santa Catarina. Ao longo da década de 1850
exerceu também o cargo de Vice-Consul da França (agora representando o
governo de Napoleão III) para Santa Catarina (PIAZZA, 1990). Sua participação

97
em redes de relacionamento político e de negócios era muito intensa e diversi-
ficada (TERNES, 1984). Dutot, o autor do livro que possui o anexo de Aubé,
dedica o livro ao Visconde do Uruguai, Paulino Soares de Souza, o que revela a
aproximação e a intimidade do autor com este importante político do Império. 3
Em muitas partes de seu escrito, Aubé reproduz alguns dados e proce-
dimentos agrícolas que também estão relatados no livro de Carlos Augusto
Taunay (filho de Nicolas Taunay, integrante da Missão Francesa de 1816 e
professor na Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro). Estes observadores eu-
ropeus desenvolveram uma aguda percepção dos costumes da terra, das for-
mas tradicionais de cultivo, que não era desqualificadora, mas seria o ponto de
partida para formas de modernização, com introdução de maquinaria. De
qualquer forma, havia uma acesa percepção sobre a inadaptabilidade da maior
parte das culturas europeias aos trópicos e a necessidade de se trabalhar com
o que efetivamente existia. Os autores tinham uma percepção capitalista da
agricultura, pensando na relação investimento\lucratividade, identificando
esta mentalidade como já existente no meio agrícola brasileiro em meados do
século XIX.
A região escolhida para ser o território dotal, entregue aos príncipes
quando houve o casamento, em 1843, compreendia 25 léguas quadradas no
nordeste da Província de Santa Catarina. Esta região já havia abrigado, em
1841, a iniciativa de criar o Falanstério do Saí, processo que fracassou por
diferentes razões, desde a falta de um apoio de Estado mais decisivo até a
ocorrência de sérios conflitos entre os colonos e pela inadaptação de uma po-
pulação de origem urbana ao meio rural de uma floresta tropical fechada
(GALLO, 2002).
As terras dotais tinham a vantagem estratégica de fácil acesso de na-
vegação, por causa da disposição física da baía da Babitonga e dos vários rios
que para ali confluíam. Ficavam um pouco ao norte, mas muito próximas do
porto de São Francisco, com um bom calado para as exigências da navegação
da época. Por terra, já nos primeiros anos da década de 1850 estava quase
pronta a estrada de rodagem que ligava a Colônia de Dona Francisca a cidade
de Curitiba. Esta facilidade geográfica, para escoamento e venda da produção
agrícola, tornava a Colônia Dona Francisca uma das mais bem posicionadas do
Brasil. Segundo Aubé, mesmo a cidade de Curitiba tinha melhores condições de
comunicação e transporte via Colônia Dona Francisca e porto de São Francisco
(considerado melhor e mais seguro que Paranaguá).

3
Paulino José Soares de Souza foi Ouvidor, Juiz e Desembargador. Na carreira política foi Deputado,
Senador, Ministro da Justiça por duas vezes, Ministro dos Estrangeiros e membro do Conselho de Esta-
do. Foi um dos fundadores do Partido Conservador e autor de vários projetos de Lei dentro do espírito do
“Regresso”, como a Reforma do Código do Processo Criminal.

98
Quando a monarquia foi derrubada pela Revolução Francesa de 1848,
a família real refugiou-se na Inglaterra e, devido a dificuldades econômicas, o
Príncipe de Joinville e a Dona Francisca decidiram colocar em marcha um pro-
cesso de exploração das terras dotais. Como parte de uma estratégia de busca
de valorização fundiária a partir da colonização de um conjunto de lotes inici-
ais, os Príncipes doaram aos representantes da Sociedade Colonizadora de
Hamburgo um terço do território dotal, numa extensão de 8 léguas quadradas
próximas ao litoral, para a colonização por um grupo inicial de suíços, alemães
e noruegueses.
Aprendizagem do colono poderia ser direta com os nacionais, como
frequentemente ocorria (relatos de Herman Blumenau, dos italianos da serra
do RS, de correspondências de imigrantes em vários núcleos) com sertanejos,
mateiros, tropeiros, indígenas aldeados, trabalhadores na demarcação de lotes
coloniais, escravos (que existiam, mesmo proibidos por legislação).
Mas há também uma aprendizagem indireta, realizada através de do-
cumentos oficiais do Império, Manuais e relatos de viajantes, muitos publica-
dos em línguas estrangeiras. No texto de Louis Leonce Aubé, publicado em
1855, certamente há muitas informações provenientes de Auguste de Saint-
Hilaire, mas cita o viajante Humbolt e vários “brasileiros” como fonte de infor-
mações para sua descrição de técnicas e meios para a produção agrícola.

As orientações aos colonos

Louis Leonce apresenta o clima e o território ao lado da Colônia de


Joinville, suas facilidades de comercialização, pela proximidade do mar e de
vias navegáveis ao interior e de estradas para localidades ao oeste e a ligação
de estrada carroçável para Curitiba. Descreve as temperaturas médias como
moderadas em relação ao norte do Brasil e o regime de chuvas bem distribuí-
do. Informa que todos os solos da região são férteis, que correm riachos e nas-
centes de água por praticamente todas as propriedades coloniais e ressalta a
boa condição sanitária, argumentando que as epidemias que atingiram outras
partes do país não chegaram à Colônia Dona Francisca. A apresentação lembra
determinadas narrativas edênicas, muito presentes desde o período colonial e
ao longo do século XIX, por uma visão recorrente de diferentes viajantes euro-
peus que ligam o novo mundo à um verdadeiro paraíso (MEIRA, 2014).
O acesso à Colônia é facilitado pela proximidade do mar e acessibilida-
de dos rios que levam até a próxima região colonial. A Colônia Dona Francisca
e a Vila de Joinville, então com apenas 60 casas em seu núcleo urbano, já existia
há seis anos. Apesar de ser tão nova, a estrutura da Colônia já estava pronta
para receber novos imigrantes. Na descrição de Aubé:

99
Menos de duas horas após ter deixado o navio, o colono vê as primeiras ca-
sas da colônia, situadas no porto mesmo que irá descer. Uma destas casas es-
tá destinada a receber os colonos em sua chegada, e é composta por uma
dúzia de pequenos quartos que podem acomodar, cada um, uma família. Ao
lado há uma loja onde as bagagens são desembarcadas e colocadas em um
abrigo. Um caminho de, em média, quatrocentos metros, conduz ao centro
da cidade de Joinville, ou seja, a parte mais populosa e mais viva da colônia
(AUBÉ, L.L. Anexo, 1857, p. 4).

Louis Leonce Aubé não esconde do colono que encontrará um lote to-
mado pela floresta tropical nativa, que terá que dispender ou contratar muito
trabalho para abri-lo para a exploração agrícola regular:

A primeira coisa, como sabe-se, é o arroteamento dos campos e a preparação


do solo. É o trabalho que mais assusta o recém-chegado e é, entretanto, o
menos penoso e o menos dispendioso. Em três semanas, um bom trabalha-
dor pode abrir um hectare de mato virgem ou fazer executar esse trabalho
por, em média, uma soma de 50 fr. A madeira derrubada é deixada de lado
durante oito ou dez semanas, de acordo com a estação, e após esse tempo,
havendo um belo sol e um vento fresco, coloca-se o fogo que se alastra con-
sumindo as folhas e os pequenos galhos, limpa o terreno sob o qual restam
apenas os troncos derrubados, enegrecidos pelo fogo, e as raízes que não
puderam ser arrancadas. O corte de árvores é uma operação das mais impor-
tantes pois disso depende a combustão mais ou menos completa e, para o fu-
turo, o descarregamento de um grande trabalho. Assim o brasileiro começa
imediatamente a plantação, mas é mais vantajoso, se não for para limpar
completamente o terreno, o que seria quase impraticável, ao menos limpá-lo
com mais cuidando queimando, em diferentes pontos, as árvores médias que
escaparam da primeira queima (AUBÉ, L.L. Anexo, 1857, p. 6).

Como é descrito acima, Aubé recomenda a preparação dos terrenos


através de queimadas e derrubadas parciais, mesmo processo clássico indíge-
na. Chega a detalhar a melhor época do ano para esta atividade, nas primave-
ras, entre setembro e novembro. Chama a atenção do imigrante que depois da
queimada pode começar a plantar ao lado dos troncos queimados e do chão
calcinado pelas chamas. A abertura da clareira na floresta é descrita como uma
atividade caracteristicamente familiar. O homem deveria promover a queima-
da e as grandes derrubadas. Mulheres e crianças fariam a manutenção da lim-
peza do terreno, evitando o renascimento da mata, num processo contínuo e
trabalhoso de retirada de plantas inconvenientes para as culturas principais.
Desta maneira, seguindo o processo tradicional, o colono em poucos dias inici-
aria sua plantação, mesmo que ainda fosse inicialmente numa clareira limitada.
Aubé não deixa de advertir para a capacidade forte de restabelecimento da
mata e a importância da manutenção do terreno com plantio de culturas de
interesse do agricultor para evitar o domínio de vegetação indesejada:

100
Se a mata for queimada no seu devido tempo, quer dizer, em outubro ou no-
vembro, e a semeadura feita imediatamente, a planta aparece ao fim de al-
guns dias e com tamanha energia que não permite que nenhuma outra
planta a ultrapasse, sufocando-as, ela mesma, logo no nascimento, as ervas
parasitas (AUBÉ, L.L. Anexo, 1857, p. 11).

O engenheiro francês não tem rodeios em defender qual o melhor


produto a ser produzido na colônia – a mandioca. O processo de plantio é o
tradicional, consorciado ao cultivo de feijões e milho nos intervalos do pé de
mandioca:

[...] os galhos da mandioca são cortados em pequenas partes de oito a dez


polegadas de comprimento e são empurrados para dentro da terra de quatro
a cinco polegadas em uma posição inclinada a, em média, dois pés uns dos
outros. Nesse intervalo, pode-se semear milho ou feijões, o que se faz por
meio de um pequeno bastão pontudo, abrindo um buraco no qual se coloca
alguns grãos e cobre-se a terra com o pé (AUBÉ, L.L. Anexo, 1857, p. 7).

Chama a atenção do viajante que no Brasil o agricultor é, ao mesmo


tempo, um fabricante, pois seus produtos in natura dificilmente podem ser
diretamente comercializados (como os cereais europeus). Um engenho, mesmo
simples, será importante para descascar, ralar e espremer a mandioca, além de
cozinha-la em fogo brando em chapas de ferro. No caso da cana de açúcar, um
engenho será importante tanto para a produção do melado e do açúcar, como
para a produção de cachaça (AUBÉ, Anexo, 1857, p. 5).
O engenheiro francês propõe a cultura de mandioca, feijão, milho, café,
banana, cana de açúcar e arroz. Não recomenda trigo, cevada, centeio. A roça
cabocla renasce com toda a força. A mandioca é pensada não apenas como um
produto para subsistência, mas como uma agricultura produtora de exceden-
tes, tal como praticavam populações ribeirinhas e litorâneas de Santa Catarina
e de todo o litoral brasileiro. Aubé coloca as contas na ponta do lápis e afirma,
categoricamente, que o rendimento da mandioca era, em média, muito superi-
or ao da agricultura europeia. E argumenta não só pelo volume, mas também
pelo valor da produção (convertendo os investimentos e resultados em Fran-
cos):

um hectare produz, ao fim de 15 a 18 meses, em torno de 120/130 alqueires


de farinha, cujo preço médio é de 4 fr., sendo uma soma de 500 francos dos
quais é preciso deduzir 200 fr. para os gastos de colheita e fabricação, e algo
em torno de 200fr., nas circunstancias menos favoráveis, para os gastos das
aberturas de clareiras e de manutenção, se esses trabalhos forem feitos por
homens pagos por dia. Para registro, o produto em feijões e em milho forne-
ce em grande parte as necessidades da casa e do galinheiro. O produto de um
hectare seria, então, de 100fr. Pode ser interessante comparar esse resulta-
do com o produto médio de um hectare de terra na Europa, semeado de ce-

101
reais. Se tomarmos nosso ponto de comparação na França e na Inglaterra, e
se negligenciarmos os extremos, ou seja, as terras situadas em uma posição
excepcional, como as vizinhanças dos grandes centros de população, ou de
algumas culturas necessariamente limitadas como o tabaco, o lúpulo, a ga-
rança, etc., e ao mesmo tempo os alqueives, as florestas e as terras pouco cul-
tivadas, a renda média de um hectare fica em torno de 30 fr. na França e 75
fr. na Inglaterra – uma média geral de 50 fr. (AUBÉ, L.L. Anexo, 1857, p. 8).

Aubé ainda argumenta que a manutenção da mandioca é muito fácil,


deixando a limpeza do terreno para mulheres e crianças e liberando o agricul-
tor para outras atividades. Então, além dos rendimentos diretos da mandioca
acima colocados, que já são por si sós superiores ao rendimento médio da agri-
cultura europeia, há ainda a renda não contabilizada pelo rendimento do milho
e feijão (poderá ser usado para alimentar animais domésticos, já que sua co-
mercialização era pequena, pela abundância e baixo preço) das ruas da mandi-
oca e do tempo livre do agricultor. Aqui incide um cálculo camponês insinuado
por Aubé. Ele sempre pensa no proprietário com sua família, mulher e filhos,
portanto está calculando para a vida de toda uma unidade familiar de produ-
ção onde as mulheres e crianças jogam um papel importante, não apenas no
cultivo e manutenção, mas também no processamento em engenho:

Se agora quisermos estudar a produção de farinha de mandioca sob o ponto


de vista econômico, seria realmente difícil de determinar algo de maneira fi-
xa e invariável, por exemplo, as despesas que ocasionam as diferentes ma-
neiras de capinar que a terra exige entre a época da plantação e a do cultivo,
que são eminentemente variáveis. Essas despensas são pesadas para um
proprietário que faz executar todos esses trabalhos durante o dia, mas são
leves para uma família que trabalha, ela mesma, ou para um fazendeiro que
empregue várias famílias, já que as mulheres e as crianças podem bastar
muito bem para as operações as quais é preciso mais atenção e paciência do
que força. [...] Uma vez arrancadas as raízes, ocupa-se então em retirar a pele
que as cobre. Esse trabalho é executado pelas crianças (AUBÉ, L.L. Anexo,
1857, p. 7 - 8).

Ao contrário que defendia a crônica e a literatura da época, o trabalho


agrícola pesado nos trópicos poderia ser feito por europeus, não só por indíge-
nas ou escravos negros. Refuta o argumento de pesquisadores do sul dos EUA
que diziam que o fim da escravidão significaria a decadência da lavoura da
Lousiana. Ao explicar o processo de produção da cana de açúcar e sua adequa-
ção climática ao litoral de Santa Catarina, Aubé explica que:

[...] na colônia Dona Francisca e na província de Santa Catarina, a temperatu-


ra é alta o suficiente para que a cana atinja uma completa maturidade, sem
estar sujeita a tornar o trabalho impossível ao homem europeu. No mais, a
época da colheita da cana e da fabricação de açúcar é justamente no inverno,
estação do ano em que um trabalho forçado não tem nada de sofrível, e

102
quando estar próximo ao fogo é mais comumente procurado. Poderia, então,
o cultivo da cana chegar a ser no futuro – confinada até hoje sob os trópicos
– uma das principais riquezas de Santa Catarina e das regiões ao redor onde,
com aparelhos adequados, os resultados seriam sempre bem superiores a
tudo o que se poderia retirar da beterraba no norte da Europa (AUBÉ, L.L.
Anexo, p. 12).

Ao longo do texto Aubé argumenta a lucratividade da cana tanto para a


produção do açúcar como para a produção da cachaça, lembrando que a última
exige instrumentos mais simples e baratos para beneficiamento. Nas partes
finais do texto são apresentadas as culturas do café, arroz e fumo, com preços
de mercado muito favoráveis e clima e solos adequados em Dona Francisca. O
café já era plantado em Dona Francisca, mas numa escala ainda pequena. Para-
lelamente, também apresenta para a subsistência das famílias o cultivo de
batatas, inhame e aipim, além da abundância da caça, recomendando que os
colonos tragam armas (mais baratas na Europa que no Brasil). A caça, além de
suplementar a alimentação, pode ser uma fonte alternativa de renda, pela ven-
ta de peles e couros.

Considerações finais

As práticas agrícolas tradicionais foram estudadas, sistematizadas e


didaticamente transmitidas pelo engenheiro Aubé em seu texto dirigido aos
agricultores interessados em imigrar para o Brasil. Embora pense numa agri-
cultura de rendimento comercial, não deixa de se preocupar com as condições
de vida e trabalho da família camponesa, reunindo conhecimentos e práticas
não apenas das culturas comerciais, mas de gêneros de subsistência. Os termos
comparativos, considerando a alteridade de um relato de viagem, dão um di-
agnóstico indireto das dificuldades e da vida do campesinato europeu durante
o século XIX.

Fontes utilizadas

DUTOT, S. France et Brésil. Paris: Librairie de Guillaumin. 1857. (contém o anexo Notice
Sur Dona Francisca, de Louis Leonce Aubé).

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promover a colonização. Berlin: Unger & Irmãos, 1844.
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103
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gração no Brasil Império”. Fronteiras – Revista Catarinense de História, Florianópolis, n.
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TERNES, Apolinário. História de Joinville. Uma abordagem crítica. Joinville: Ed. Do autor.
1984.

104
CABOCLOS E IMIGRANTES NA
“GUERRA DO PINHEIRINHO”:
REFLEXÕES SOBRE UM CONFLITO LOCAL

ALEXANDRE KARSBURG1

Introdução

Após resistirem ao primeiro ataque dos imigrantes, o grupo reunido


ao redor do “monge Chico” se deslocou para um ponto mais distante e de difícil
acesso, próximo a uma gruta, talvez aguardando novo ataque, que não tardou
em acontecer. Dias depois do primeiro conflito, com apoio da Brigada Militar
deslocada de Porto Alegre e de alguns municípios vizinhos, houve nova incur-
são para acabar de vez com o “bando”. Os soldados da Brigada deram poucas
chances aos “fanáticos religiosos”: apesar de muitos terem conseguido fugir,
sete foram capturados e o restante foi morto dentro de uma cabana onde resis-
tiram, dentre eles o líder “o monge” João Maria Francisco de Jesus. Enterrados
de cabeça para baixo para que não “ressuscitassem”, os corpos foram coloca-
dos em cova rasa com pedras por cima. Anos depois, ao limpar o terreno para
plantar, o proprietário das terras encontrou vários ossos humanos que, pron-
tamente, foram incinerados para que nada mais restasse do grupo de “facíno-
ras” que haviam “amedrontado a próspera vila de Encantado” e seus
“laboriosos habitantes” (FERRI, 1975).
O evento acima narrado, insuficientemente explorado pela historiogra-
fia e pouco conhecido pela população sul-rio-grandense,2 foi o resultado do
confronto entre grupos étnicos e sociais distintos. De um lado imigrantes eu-
ropeus privilegiados pela política de Estado que disponibilizava terras para a
mão de obra branca para que produzissem para o mercado através de agricul-
tura familiar; do outro, lavradores nacionais pobres, pequenos proprietários

1
Bolsista PNPD/CAPES no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Vale do Rio
dos Sinos. Doutor em História Social (UFRJ). E-mail: alexkarsburg@yahoo.com.br.
2
O evento é conhecido na região do Vale do Taquari entre as cidades de Encantado e Muçum, conforme
constatou Giaretta (2011).

105
ou posseiros que viviam da subsistência em terras de mato. Na luta por espaço
os encontros podiam ser tensos e sangrentos. Os “monges do Pinheirinho”,
contudo, podem ser vistos como um movimento de pessoas que praticavam
uma religião sem instituição, seguindo determinado indivíduo tido como santo
que não fazia parte da Igreja, recriando regras de convivência baseados em
ensinamentos oriundos do catolicismo oficial. Estes “habitantes do mato” esta-
beleciam acampamento em determinados lugares a fim de levarem “vida san-
ta”, reproduzindo, em meio à natureza, o comportamento de monges em
mosteiros.3
Neste artigo, não iremos analisar o caso pela perspectiva do messia-
nismo, pois, segundo nosso entendimento, o termo contorna o problema não
levando em conta os aspectos históricos envolvidos. Para este texto queremos
responder duas simples perguntas: quem eram os envolvidos nesse embate e
por que imigrantes e Polícia Militar agiram de forma tão contundente no com-
bate aos monges do Pinheirinho? Para realizar tal tarefa propomos uma análi-
se partindo do conceito de história social dos movimentos religiosos, 4 visando
esclarecer o processo que levou ao enfrentamento.
Guiamo-nos por duas hipóteses: a primeira, é que a hostilidade dos
imigrantes contra os monges do Pinheirinho foi resultada de uma convicção de
que as terras eram destinadas a eles, italianos, para viver em liberdade e auto-
nomia, sem interferências externas e sem a “intrusão” de elementos “estra-
nhos” à sua cultura. Na base destas ações estava a “ideologia de
branqueamento da raça” levada a cabo pelo Estado brasileiro e interiorizada
pelos imigrantes italianos. A segunda hipótese é que os monges do Pinheirinho
eram um grupo de beatos andarilhos que se preparava para o “Juízo Final”,
seguindo as orientações do “profeta” monge João Maria que havia passado pela
região décadas antes. Porém, o estranhamento e reação dos imigrantes ao grupo
de sitiantes que se preparavam para o “Fim do Mundo” não deve obscurecer
nossa visão para o fato de que o que estava em disputa eram as terras da região.

Os Monges do Pinheirinho

O grupo reunido no Pinheirinho – lugar de mata fechada na margem


esquerda do Rio Taquari e próximo da colônia de Encantado (RS) – foi descrito
pelos jornais da época (1902) como sendo de “fanáticos religiosos”, “facíno-

3
O termo sociológico “messianismo” pode ser um guia de entendimento para o estudo dos Monges do
Pinheirinho, inserindo-se em uma tradição ligada à religiosidade popular e rural que teve nos movimen-
tos dos Mucker (Rio Grande do Sul, 1873-1875), de Canudos (Bahia, 1895-1897) e do Contestado (Santa
Catarina, 1912-1916) os exemplos mais conhecidos.
4
História social da religião procura ser uma história das religiosidades segundo uma perspectiva particu-
lar dada pelo nexo evidente entre vida religiosa e vida social, política, econômica e simbólica. História
social da religião entende que as relações de produção ou as estruturas sociais estão na base material do
fenômeno religioso em grupos cuja ideologia religiosa dá sentido ao mundo material.

106
ras”, “bandidos”. Os termos pejorativos mostram como a sociedade urbana,
letrada e “civilizada” via os habitantes do interior; talvez até desconhecessem
que muitos viviam em extrema pobreza no meio rural, tirando sua subsistência
das florestas da região e utilizando a itinerância como estratégia de sobrevi-
vência. Apesar de não ser um termo comum à época, iremos utilizar a definição
de “caboclos” para descrever os membros dos monges5 do Pinheirinho, já que é
um conceito aceito pela historiografia que trabalha com questões agrárias no
sul do Brasil (ZARTH, 2002; SILVA, 2011; 2016).
Um dos primeiros registros até agora encontrado sobre os monges do
Pinheirinho foi escrito no Jornal Correio do Povo, de 07 de maio de 1902 (três
dias depois do ataque dos imigrantes italianos ao grupo). Este artigo, sem au-
toria definida, foi uma tentativa de esclarecer aos leitores da capital quem era
o “bando chefiado por certo capuchinho, chamado Munche”,6 que estava per-
turbando os moradores da colônia de Encantado. Eram aproximadamente 200
pessoas reunidas ao redor do Munche que, à noite, costumava puxar rezas ao
redor de uma cruz construída especialmente para tal fim, onde se ascendiam
velas e faziam orações. Chamado pelos seus seguidores como “Nosso Deus,
Nosso Pai”, o Munche era muito conhecido pelos caixeiros-viajantes que o ape-
lidaram de “José Conselheiro” – sem dúvida alusão a Antônio Conselheiro e o
arraial de Canudos. O cronista afirma que os jornais alemães 7 de Porto Alegre
vinham, há algum tempo, se ocupando do grupo reunido ao redor do Munche,
dizendo, também, que esse era jovem ainda. 8
Na verdade, o tal Munche não era Capuchinho como diziam os jornais,
mas, sim, um beato andarilho sem vínculos com instituições monásticas, que
reproduzia os hábitos de um missionário leigo que havia passado pelo Rio
Grande do Sul décadas antes: o eremita italiano João Maria de Agostini
(KARSBURG, 2014). Os monges do Pinheirinho, portanto, faziam parte de uma
tradição de religiosidade existente havia meio século no sul do Brasil: comuni-
dades rurais autônomas que seguiam certos preceitos religiosos ensinados

5
Monges foi como ficaram conhecidos, mas, na realidade, eram leigos sem quaisquer vínculos com
entidades monásticas e nem pertenciam aos quadros da Igreja Católica. Eram homens simples, “gente do
mato”, andarilhos que procuravam levar “vida santa” segundo haviam aprendido do eremita italiano João
Maria de Agostini, sujeito que havia passado pelo Rio Grande do Sul no final da década de 1840 e início
de 1850. Os monges do sul encontram seu equivalente nos beatos nordestinos (KARSBURG, 2014).
6
“Munche” pode ser uma variação dialetal da palavra alemã “Mönch” (monge em português). Porém,
talvez seja a maneira como os descendentes de alemães (que viviam em Lajeado e Estrela, municípios
próximos de Encantado) pronunciavam a palavra Monge.
7
O jornalista não apresenta quais jornais alemães trazem notícias sobre o grupo. Em nossas pesquisas,
também não conseguimos encontrar que jornais eram esses. Além do Correio do Povo, encontramos
referência aos Monges do Pinheirinho no jornal O Taquaryense, de maio de 1902. Esse, contudo, não
apresentou algo de diferente em relação ao que foi publicado no Correio do Povo (Arquivo de Comuni-
cação Social Hipólito José da Costa, Porto Alegre).
8
Esta descrição de o monge ser ainda jovem guarda relação com o depoimento que o médico baiano
Ângelo Dourado fez sobre certo monge que encontrou próximo à cidade de Passo Fundo oito anos antes,
em 1894, quando regressava junto às tropas federalistas que haviam cercado a cidade da Lapa durante
alguns meses: “O monge é moço ainda, figura simpática, ascética…” (DOURADO, 1896, p. 257).

107
pelo referido eremita italiano e que podiam, ou não, ser liderados por algum
beato que se lançava à vida andarilha e percorria amplo espaço territorial, ao
estilo de João Maria de Agostini, amalgamando conhecimentos de cura com
ensinamentos religiosos. No caso dos monges do Pinheirinho, temos a união
das duas tradições, ou seja, um sujeito andarilho que passou a ser venerado
como santo e milagroso – possivelmente herdando o capital simbólico do ere-
mita italiano João Maria de Agostini – e um séquito que aumentava a ponto de
se fazer necessário a criação de uma “vila” capaz de organizar a vida de todos.
As palavras de Eric Hobsbawm talvez sejam as que mais bem sintetizam o que
buscavam os monges:

Mesmo aqueles que aceitam a exploração, a opressão e a submissão como


norma da vida humana sonham com um mundo em que esses males não
existam: um mundo de Igualdade, Fraternidade e Liberdade, um mundo to-
talmente novo, livre do mal. Raramente será mais que uma expectativa apo-
calíptica, embora em muitas sociedades persista o sonho do milênio: o santo,
o imperador, a rainha um dia desembarcará e tudo mudará e ficará perfeito.
No entanto, há momentos em que o Apocalipse parece iminente: em que to-
da a estrutura da sociedade existente, cujo fim total o Apocalipse simboliza e
prevê, parece realmente prestes a desmoronar e em que a minúscula luz da
esperança se torna a luz de uma possível alvorada (HOBSBAWM, 2010, p.
48-49).

Assim como os bandidos estudados por Hobsbawm, os andarilhos


eram:

[...] homens que, em sua própria maneira limitada, mostram que a vida sel-
vagem no agreste pode trazer a liberdade, igualdade e fraternidade para
aqueles que pagam o preço da falta de lar, do perigo e da morte quase certa.
Nada é mais surpreendente que a coexistência do banditismo com revolu-
ções camponesas de vulto [...]. Historicamente, o banditismo e o Milenarismo
caminham de mãos dadas. E quando sobrevêm os grandes momentos apoca-
lípticos, os grupos de bandidos, aumentados pela fase de tribulação e expec-
tativa, podem insensivelmente converter-se em outra coisa. Podem fundir-se
com os enormes contingentes de aldeões que abandonam campos e casas
para vaguear numa exaltada esperança; podem transformar-se em exércitos
camponeses, ou podem deixar de ser bandidos e vestir a farda de soldados
da revolução (HOBSBAWM, 2010, p. 49-50).

Indo além das qualificações negativas atribuídas ao grupo – de ser


formado por “bandidos, facínoras, ladrões e fanáticos” 9 –, é importante apre-
sentar a organização daqueles que estavam reunidos ao redor do monge Chico.
Temos por base as informações presentes nos periódicos, relatórios oficiais

9
Os termos eram frequentes nos jornais da época e, posteriormente, foram reproduzidos na obra de Ferri
(1975).

108
escritos por aqueles que os condenaram ou deram combate a eles e uma escas-
sa bibliografia.10
Os meios de subsistência do grupo eram, por contingências normais
dos itinerantes, a caça, a pesca e a coleta, mas poderiam receber dos posseiros
e proprietários doações de milho, feijão e mandioca por onde passavam. Em
troca, faziam orações e realizavam curas dos doentes. Quando se estabeleciam
por mais tempo em determinados lugares, cultivavam alguns produtos ou se
colocavam a serviço de alguém na colheita e no beneficiamento da erva-mate,
produto muito comum na região de florestas do Rio Grande do Sul. Pequenos
proprietários eram os que frequentemente se colocavam como benfeitores do
grupo andarilho, indicando ou mesmo dando licença para que pudesse erguer
acampamento neste ou naquele ponto. Uma vez que o pequeno acampamento
ia tomando forma, pela limpeza do terreno e construção de ranchos e capela
(quase uma ermida pela simplicidade da construção), passava-se para a pró-
xima fase: a organização dos afazeres diários.
Enquanto uns se dedicavam à construção das casas, outros cuidavam
da alimentação, indo aos matos para caçar e ao rio para pescar; todos, em de-
terminadas horas do dia, paravam seus afazeres e se reuniam para rezar. Se
houvesse um líder, que era o caso dos monges do Pinheirinho, esse fazia ser-
mões, ensinava a catequese, dava bênçãos e se retirava para algum ponto iso-
lado a fim de meditar. Os demais voltavam aos seus afazeres. Quando os
imigrantes italianos chegaram para averiguar a situação e conhecer quem
eram aqueles sujeitos – contam os jornais que eram aproximadamente duzen-
tos indivíduos –, perceberam que eles tinham armas de fogo e armas brancas.
Porém, isso não indica que os monges visassem algum saque, roubo ou assas-
sinato, como foram acusados pelos jornais da época. As armas poderiam ser
usadas para a caça e também para proteção, apesar de haver depoimentos
(todos dados pelos italianos) acusando os sitiantes de já terem roubado pro-
priedades da região – o que não é inviável devido à proximidade deles com as
terras de imigrantes italianos, ao norte e ao sul: no norte, com imigrantes da
colônia Guaporé; ao sul, com os imigrantes da colônia Encantado; e ambas as
colônias em franca expansão no início do século XX, além da colônia Alfredo
Chaves que não ficava distante da região e que também estava crescendo devi-
do à chegada de mais italianos que compravam terras e dilatavam as fronteiras
(ver mapa nos anexos).
Do lado dos imigrantes sabemos exatamente quem deu combate aos
sitiantes;11 por outro lado, do grupo seguidor do monge, sabemos os nomes de

10
Além de Gino Ferri (1975) já citado, temos o trabalho de Denise Scheid (2003) e Mircele Giaretta
(2011) que centraram suas pesquisas no caso do Pinheirinho. Há, também, estudos que apenas menciona-
ram os monges, sem aprofundar as análises (MACHADO, 2004; FILATOW, 2015).

109
poucos: além do próprio líder, que se chamava João Maria Francisco de Jesus,
temos também João e Antônio Enéias, possivelmente irmãos, e o filho desse
último; uma senhora chamada “Cananeia”, incumbida de tocar o sino da pe-
quena capela existente no acampamento; e Antônio Lisboa, um dos protetores
do grupo ao lado dos irmãos Enéias; Antônio Lisboa e os irmãos Enéias eram
pequenos proprietários da região do Pinheirinho. 12 No primeiro combate mor-
reram oito seguidores do monge, dentre eles o filho de Antônio Enéias; do lado
dos imigrantes, faleceram dois: Eduard Sartler e Giovanni Lucca. No segundo
combate, já com a presença da Polícia Militar, não morreu nenhum do lado
atacante; em compensação, faleceram vinte monges, todos encurralados den-
tro de um dos ranchos; sete foram capturados (ver foto nos anexos) e alguns
conseguiram fugir, como João Enéias.
A acusação mais grave contra os monges e que fez mobilizar os italia-
nos era o de estarem tramando um assalto à casa de comércio do imigrante
José Colombo, situada no local chamado “Conventos Vermelhos”, 13 do outro
lado do rio Taquari, de onde se podia ver o acampamento dos monges. Real ou
não essa ameaça, o fato é que os italianos parecem ter se mobilizado mais por
receio do que por algum evento concreto de assalto ou roubo. A incursão ar-
mada contra os monges se deu por medo do desconhecido e por acreditarem
que era melhor prevenir, expulsando-os ou prendendo-os, do que esperar se-
rem atacados primeiro. Além disso, os italianos tinham convicção de que aque-
las terras lhes pertenciam, e nenhum grupo que não fosse o seu poderia se
instalar naquele espaço – algo similar ao que acontecia em outros espaços do
Brasil no mesmo período.14 A prova de que as terras do Pinheirinho eram cobi-
çadas pelos imigrantes foi que, anos depois, a família Aldrovandi adquiriu, por
compra, lotes daquela região. Como dito no início deste artigo, ao lavrarem as
terras para plantio, a família encontrou a cova onde foram enterrados os mon-
ges mortos, sendo os ossos incinerados.

11
O grupo de imigrantes era assim formado: Guerrino Lucca (subdelegado de polícia); Pietro Rotta;
Giovanni Sanna; Pedro Mottin; Giovanni Ferri (Hoteleiro); Silvio Lucanon; Olderigi Bigliardi; Giovanni
Lucca (morto no combate); Pietro Turella; Eduard Sartler (caixeiro viajante, o único alemão do grupo, e
morto no combate); Hipólito Fontana; Ambrósio Senatori; Napoleão Maiolli Primo (subdelegado);
Antônio Valandro; Luigi Ferri (Hoteleiro). Lembrados por Gino Ferri (1975) como “heróis”, muitos
deles viraram nomes de ruas e praças na cidade de Encantado (GIARETTA, 2011).
12
Região do Pinheirinho ficava em território onde hoje é o atual município de Roca Sales, do lado
esquerdo do Rio Taquari.
13
Conventos Vermelhos foi o primeiro nome de Roca Sales.
14
Conforme Karl Monsma, os conflitos étnico-raciais foram uma constante entre os imigrantes italianos
e os negros ou “nacionais” nas fazendas de café do oeste paulista (2016). No Rio Grande do Sul, também
tivemos inúmeros casos de conflitos envolvendo imigrantes italianos e “nacionais”, como os casos de
linchamento e morte levados a cabo por grupos de imigrantes contra “negros” da região da atual Quarta
Colônia de Imigração Italiana do RS (VENDRAME, 2014).

110
Expansão territorial e controle sobre a terra

O evento dos monges do Pinheirinho evidencia uma conflituosa rela-


ção entre grupos que procuravam manter-se afastados da influência do Estado
e outros que, até certo ponto, eram protegidos pelo Estado por representarem
a ordem, a civilidade e a prosperidade. No caso específico, os desconhecidos
seguidores do monge eram andarilhos e posseiros que viviam nas matas da
região serrana do Rio Grande do Sul, às margens das colônias fundadas por
iniciativa do Estado para receber imigrantes europeus (ver mapa nos anexos).
Esses eram os beneficiados pela política do Estado brasileiro, alemães e italia-
nos que, durante grande parte do século XIX, chegavam da Europa e recebiam
terras para cultivo familiar e que, por iniciativa própria e amparados pelos
governos, foram expandindo suas propriedades através da compra. Era esse
movimento de expansão que os faziam encontrar os posseiros e os andarilhos
das matas.
Passou a haver, nas últimas três ou quatro décadas do século XIX, es-
peculação fundiária nas terras de matos do Vale e do Alto Taquari, desdobra-
mento da Lei de Terras de 1850. Proprietários particulares – luso-brasileiros e
também alemães chegados ao sul do Brasil em meados do século XIX –, sabe-
dores do interesse dos imigrantes em comprar mais terras, passaram a demar-
car e a expandir suas propriedades, mesmo que isso significasse se apossar de
terras devolutas ocupadas por posseiros pobres. Uma vez passando tais terras
para seus nomes, os proprietários loteavam e negociavam lotes com os italia-
nos. Além da colônia Encantado, havia, ao norte, a Colônia Guaporé; e a leste, a
Colônia Alfredo Chaves (atual Veranópolis). O local onde se estabeleceram os
monges do Pinheirinho ficava exatamente no meio do caminho de expansão
das colônias (ver mapa nos anexos). A presença desse grupo era, no mínimo,
inoportuna, pensavam os imigrantes e proprietários locais.
As empresas colonizadoras particulares vinham atuando em regiões
do país onde havia a expectativa da chegada de imigrantes. Na região do Vale
do Taquari, de acordo com José Alfredo Schierholt:

[...] as empresas imobiliárias expulsavam os posseiros quando mediam e


vendiam os lotes coloniais aos imigrantes. Sem títulos de propriedade, sem
direitos de usucapião, sem qualquer defesa jurídica, desprovidas de recur-
sos, muitas famílias se embrenhavam nas matas, serra à dentro, à procura de
terras devolutas para poder sobreviver (SCHIERHOLT, apud SCHEID, 2003,
p. 71).

As leis estavam do lado das empresas colonizadoras e dos imigrantes.


Em 1900, por exemplo, foi publicado o Decreto 313, cobrando a necessidade de

111
legitimação das terras.15 De fato, quantos posseiros tomaram conhecimento
desta lei e quantos foram até o governo do Estado para legitimarem suas ter-
ras? O assunto vem merecendo alguma atenção dos historiadores nos últimos
anos,16 mas para a região do Vale do Taquari ainda precisaríamos de mais pes-
quisas. Se outros casos servem para entender o Vale do Taquari, o mais prová-
vel é que houve uma ampliação dos domínios de empresas particulares
colonizadoras na região, preocupadas em legitimar e expandir as propriedades
que seriam, em seguida, vendidas aos imigrantes. Não é gratuito que, a partir
desse momento, Denise Scheid (2003, p. 71) tenha identificado um aumento
nos confrontos entre imigrantes e caboclos – se bem que atritos vinham já de
longa data.17
A região em questão – o Vale do Taquari, entre as vilas de Encantado e
Guaporé – era bastante valorizada por possuir um porto onde escoavam pro-
dutos do norte para a capital Porto Alegre: o porto de Muçum. Também ali
havia mercado para compra de produtos que os colonos italianos não produzi-
am. O porto de Muçum era via de acesso de pessoas e mercadorias das colônias
à capital e vice-versa (BUSATO, 2017, p. 44), portanto, sitiantes desconhecidos
instalados nas redondezas certamente causariam desconfiança e temor nos
comerciantes.

Considerações Finais

Os devotos do monge João Maria, quando reunidos em grupo, suscita-


vam sentimentos negativos naqueles que não entendiam os motivos das aglo-
merações e não compartilhavam das mesmas crenças. Ao se reunirem para
exteriorizarem sua fé, geralmente causavam antipatia de outros. Apesar de
serem, na maior parte das vezes, pacíficos, tais movimentos foram combatidos
com hostilidade e violência, primeiramente por grupos organizados localmen-
te. Esses, quando não alcançavam os resultados pretendidos, recorriam às
forças do Estado para dispersar e reprimir os “fanáticos”, o que acarretava,
então, em perseguições e mortes. É emblemático que na história do Brasil ti-
vemos inúmeros movimentos sociorreligiosos rurais, de norte a sul do país,
combatidos dessa ou de pior maneira.

15
O decreto exigia a legitimação da posse da terra, formalizada a partir de um requerimento do posseiro
ao presidente do Estado, especificando o nome, idade, naturalidade e estado civil do requerente; época
em que fora constituída a posse e motivos que haviam levado o posseiro a estabelecê-la; situação da
posse, área provável dos cultivos, todas as confrontações, natureza e descrição das benfeitorias, dentre
outros. In: Coletânea da legislação agrária do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Secretaria da Agricultu-
ra, 1961, p. 75.
16
Vale citar os trabalhos de Zarth (2002; 2011); Motta (2008); Christillino (2010; 2012); Silva (2011),
dentre outros que tratam de questões de terra em várias partes do Brasil.
17
Segundo a autora, entre 1898 e 1902, foram registrados 10 processos-crime (com morte) envolvendo
caboclos e imigrantes nas vilas de Encantado e Guaporé (SCHEID, 2003, p. 72).

112
Mesmo após a instauração da República, em 1889, e a Constituição
(1891) que assegurava, ao menos na lei, liberdade de culto a todos,18 o Estado
não tolerou certas manifestações religiosas populares. A resposta para enten-
der esse “terrorismo” de Estado talvez resida na ideologia positivista da “Or-
dem e Progresso”, porém, cada ação estatal deve ser analisada a partir da
complexidade dos fenômenos históricos locais – como o combate ao Arraial de
Canudos e às “cidades santas” do Contestado –, mas sem perder de vista certas
contingências gerais como: a ideia de civilidade e progresso de países como o
Brasil e tudo o que ela passou a representar para camponeses pobres que pas-
saram a ser vistos como “invasores” em sua própria terra.
Indo ao encontro da ideologia do Estado, a ação muitas vezes violenta
dos imigrantes contra os caboclos encontra justificativa na ideia de superiori-
dade racial que os italianos (e também alemães) trouxeram para o Brasil e que
foi alimentada/sustentada pelo racismo e autoritarismo do próprio Estado.
Talvez por isso se explique argumentos do tipo usado por Gino Ferri quando
quis justificar as mortes dos monges do Pinheirinho:

Sabemos que medidas excepcionais, como o emprego da força militar, foram


uma constante [...], como única maneira de restaurar a ordem subvertida,
mesmo com sacrifício de vidas humanas. Justificam-se, às vezes, estas medi-
das, com o fim único e imprescindível de impedir um mal maior (FERRI,
1975, p. 15-16).

Não houve e não há constrangimento no uso da violência quando o


grupo combatido era formado por “bandidos, facínoras e fanáticos religiosos
que atormentavam a pacífica e ordeira colônia de Encantado”.19
Recorrendo ao Estado para assegurarem os privilégios recebidos por
serem brancos e católicos, os imigrantes hostilizaram os que ameaçavam suas
propriedades e estilo de vida, perseguindo os devotos errantes do monge João
Maria que circundavam as áreas colonizadas, tanto no Rio Grande do Sul como
em Santa Catarina.20 Aqui chegamos a um paradoxo: os mesmos imigrantes

18
Segundo Artigo 72, parágrafo 5º: “[...] ficando livre a todos os cultos religiosos, à pratica dos respecti-
vos ritos em relação aos seus crentes, desde que não ofendam a moral publica e as leis”. No parágrafo 8º,
lê-se: “A todos é licito associarem-se e reunirem-se livremente e sem armas, não podendo intervir a
polícia senão para manter a ordem pública”.
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao91.htm>. (Acesso em 07 de julho de
2016).
19
Gino Ferri, autor da frase, baseou sua pesquisa em documentação (jornais da época do conflito) e fonte
oral. Além da sua discutível interpretação dos fatos, fica nítido, pelo ano da publicação da obra (1975),
que ela se inseriu nos festejos do Centenário da Imigração Italiana ao Rio Grande do Sul, portanto,
compõe-se de um livro idealizado e apologético ao grupo étnico em questão.
20
Quando se fala de conflitos envolvendo seguidores do monge João Maria, o mais comum é citar a
Guerra do Contestado. Ainda pouco estudada é a participação de imigrantes, italianos e alemães, na
Guerra, tanto de um lado quanto do outro. Sabe-se, contudo, que os sertanejos estavam descontentes com
a chegada dos imigrantes, que eram privilegiados ao receberem lotes de terras, enquanto aqueles eram
despejados de suas posses (MONTEIRO, 1974; MACHADO, 2004).

113
que eram proprietários de terras no sul do Brasil, poucas décadas antes havi-
am se sublevado contra o nascente Estado Italiano reclamando do excesso de
impostos e da perda de certos direitos comuns no uso da terra. Milhares de
camponeses emigraram por não aceitaram as novas leis do Estado Italiano. Lá,
contudo, não era uma questão racial como foi e é no Brasil, antes uma luta de
classes entre os camponeses pobres e os proprietários amparados pelo Estado
que não pouparam armas para reprimir, prender e matar os revoltosos campe-
sinos italianos.21 No Brasil, uma vez proprietários das próprias terras, os imi-
grantes "esqueceram-se” do passado subversivo e passaram a agir como os
antigos senhores, inclusive acionando as forças repressivas do Estado quando
lhe convinha. Aqui, como lá, o arcaico, o atrasado, deveria ser substituído pelo
moderno, por novas relações de trabalho e produção, e, para atingir tais objeti-
vos, o custo de algumas vidas era o preço a ser pago.

Fontes utilizadas

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Constituição Brasileira de 1891. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao91.htm>. Acesso em:
07 de julho de 2016.
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Jornal Correio do Povo, 07/05/1902 (Arquivo de Comunicação Social Hipólito José da
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AZZI, Riolando. O Episcopado brasileiro frente ao catolicismo popular. Petrópolis: Edito-
ra Vozes, 1977.

21
É verdadeiramente esclarecedor acompanhar as revoltas dos camponeses italianos contra o Estado
recém-formado, os patrões e grandes proprietários de terras. O auge das revoltas foi no ano de 1868,
quando a repressão do Estado foi violentíssima, com milhares de mortes e presos, conforme se pode
constatar nas pesquisas de Casellato (2012) e Vendrame (2017).

114
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117
Anexos

Figura 1: Os sete “monges” presos pela Brigada Militar em maio de 1902. Caboclos andarilhos
seguidores do monge Chico, cujos paradeiros são incertos após a captura. Segundo Gino Ferri
(1975, p. 139), esta fotografia estava sob a guarda do filho do capitão Francisco Rath, um dos que
combateram os monges do Pinheirinho.

Figura 2: Os círculos indicam as áreas onde estavam se instalando os imigrantes italianos, a partir
de 1875: 1) Colônias Caxias, Conde D´eu e Dona Isabel; 2) Quarta Colônia; 3) Colônia Alfredo
Chaves; 4) Colônia Encantado; 5) Colônia Guaporé. A estrela assinala o local de instalação dos
monges do Pinheirinho. Mapa adaptado a partir do original: Atlas Eólico (2001).

118
Figura 3: Região Colonial de Imigração alemã e italiana. A estrela assinala que os monges do
Pinheirinho estavam exatamente em área de expansão das migrações. Mapa retirado do livro
Comércio, carretas e trapiches: a colônia de Guaporé e o porto de Muçum, 1892-1940 (apud BUSATO,
2017, p. 41).

119
SÃO JOÃO MARIA E A SANTA CRUZ DO
FAXINAL BRAÇO POTINGA (RIO AZUL, PR)

ANCELMO SCHÖRNER1
IVAN GAPINSKI2

Este texto trata da crença em São João Maria, Monge do Contestado na


comunidade de Braço do Potinga, interior do Município de Rio Azul (PR), anti-
go Faxinal. Para tanto, por meio de depoimentos colhidos juntos de moradores
desta comunidade, pretende-se compreender suas peculiaridades, perceptí-
veis, entre outros elementos, em uma cruz de cedro que teria sido por ele cons-
truída e deixada em sua passagem pelo local, no início do século XX e em uma
capelinha, recentemente construída por seus devotos, no local em que ele teria
pernoitado, junto a um olho d’água e uma guabirobeira.
Esta cruz, todavia, tem sido motivo de certa controvérsia e disputa
ideológica entre os adeptos do Monge e aqueles que não seguem suas orienta-
ções, o que fez com que a mesma tenha que estar, já há algum tempo, envolta
em panos e em um local de pouca visibilidade para que possa permanecer no
âmbito do templo cristão e, assim, não “incomode” aqueles que não acreditam
na santidade de São João Maria.
Braço do Potinga é uma das vinte e nove comunidades que pertencem
ao Município de Rio Azul (PR)3. Distante vinte e cinco km de sua sede, localiza-

1
Doutor em História (UFSC). Professor do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação
em História da UNICENTRO, campus de Irati. E-mail: ancelmo.schorner13@gmail.com. Pesquisa feita
no âmbito do projeto “Os processos de desagregação dos Faxinais Porto Soares, Rio Azul dos Soares e
Rio Azul de Cima (Rio Azul/PR): 1970-2011: terra, território e territorialidade”, que foi aprovado por
nós na Chamada 22/2014 do CNPQ.
2
Mestre em História (UNICENTRO/PR). Professor da SEED/PR. E-mail: ivangapinski@yahoo.com.br
3
Localizado no espaço denominado Centro-Sul do Estado do Paraná, na chamada região dos pinheirais,
Rio Azul faz limite com seis diferentes municípios: ao Norte com Irati, ao Leste com Rebouças, ao Sul
com São Mateus do Sul e Mallet e ao Oeste com Inácio Martins e Cruz Machado. De acordo com o
censo realizado no ano de 2010, o Município contava com 14.093 habitantes, destes cerca 65% habitan-
do a área rural, nas 29 comunidades existentes. (Encontrável em: <http://www.rioazul.pr.gov.br/>,
acesso em 06/08/2016).

120
se na extremidade Sul onde este é lindeiro dos Municípios de Mallet e São Ma-
teus do Sul. Possui o mesmo nome do Rio que na comunidade se encontra com
o outrora navegável Rio Potinga.
Como praticamente todas as comunidades rioazulenses, Braço do Po-
tinga também esteve organizado no Sistema de Faxinal, guardando até hoje
alguns resquícios daquilo que predominou em praticamente toda a Região
Centro Sul do Estado do Paraná e que, atualmente, passa por um visível pro-
cesso de desarticulação e desestruturação4.
Embora este não seja o tema central deste trabalho, faz-se pertinente e
necessário citar algumas de suas características pois, embora o Sistema Faxinal
nesta comunidade já tenha deixado de existir a algum tempo, isso não signifi-
cou o esquecimento de certas práticas por parte principalmente dos morado-
res mais antigos, que mantêm na memória muitos traços daquilo que
predominou em todo o Município. Assim sendo, é comum ouvir nos quatro
cantos do mesmo o seguinte adágio popular: “antigamente, tudo isso era um
grande faxinal”. (GAPINSKI, 2013, p. 36).
Por tais razões, é mister, ainda que de maneira sumária, explicar o que
aqui entende-se por Faxinal. Utilizamos, então, a definição dada por Campigoto
e Sochodolak, para quem a denominação faxinal refere-se,

[...] ao modo de utilização das terras em comum, para a criação de animais,


delimitados por cercas, existente na região sul do Brasil e que se tem classi-
ficado como manifestação cultural dos povos tradicionais, a forma própria
de uso e posse da terra, o aproveitamento ecológico dos recursos naturais,
como o pinhão, araçás, guabirobas, pitangas e jabuticabas, o cultivo da vida
comunitária e a preservação de memória comum (CAMPIGOTO e
SOCHODOLAK, 2009, p. 33).

Enquanto modo de produção familiar, os faxinais chegaram a predo-


minar na Região Centro Sul do Estado do Paraná, estando associados ao extra-
tivismo, às tradições comunitárias e à agricultura. Sua ocorrência se dava,
essencialmente, nas antigas regiões das matas de araucária e dos ervais, confi-
gurando-se como uma cultura de subsistência a partir do aproveitamento e
preservação dos recursos naturais.
Assim como os faxinais5, outra característica marcante do Município
de Rio Azul é a presença, em praticamente todas as suas comunidades, inclusi-

4
No caso específico da Comunidade de Braço do Potinga, alguns depoimentos dão conta de que o
Sistema de Faxinal começa e entrar em desarticulação e desestruturação no final da década de 1970 e
início da década de 1980 quando da chegada de elementos externos ao sistema, “os de fora”, como
foram chamados pelos moradores. Cf: PACHECO, João Maria. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em
27/05/2016, PICHEBICHEVISKI, Vitoldo. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016 e
GAPINSKI, João. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016.
5
Tal atributo é perceptível nos nomes de algumas comunidades que embora há muito não estejam orga-
nizadas neste sistema, denunciam aquilo que nem sempre está presente nos escritos oficias. Faxinal dos

121
ve em seu perímetro urbano, dos olhos d’água de São João Maria, Monge do
Contestado canonizado pelo imaginário popular na região Sul do Brasil.
Nesses locais que fazem parte da paisagem das comunidades de prati-
camente toda a região, as pessoas vão fazer suas preces, acender velas, levar
fotografias e imagens sacras, pegar água e até mesmo batizar crianças nas
águas abençoadas pelo Monge. A esse respeito, assevera Menezes que,

A devoção ao Monge São João Maria nos dias atuais, sobretudo a peregrina-
ção aos locais santos, pousos, águas santas e cruzeiros, são coletivas, muito
embora os ritos ganhem feições individuais. Os rituais dos devotos unem o
sobrenatural com o mundo terreno, o mundo do cotidiano. O drama pessoal
e desigualdades, é exposto de forma bastante crua nas rezas, nos pedidos,
nas oferendas. O batismo é o rito de passagem que permite a entrada neste
outro mundo, sagrado, efêmero e liminar; ele é a condição sem a qual pessoa
alguma pode se considerar devota e, nesta condição, estabelecer uma rela-
ção com a dimensão sagrada do Monge. As rezas individuais são o meio de
estabelecer esta relação (MENEZES, 2012, p. 117).

Tal devoção, explícita em vários aspectos da vivência daqueles que


buscam conforto espiritual por meio da crença em São João Maria, é uma das
marcas características da cultura faxinalense, sendo aqui compreendida como
o conjunto das relações “que o sujeito estabelece com a natureza, com o meio
em que vive e com o sobrenatural” (SOCHODOLAK e CAMPIGOTO, 2008, p. 19).
Além dos olhos d’água, existem vários relatos, legados pela oralidade,
sobre a passagem de um dos monges, sendo neles recorrentes as curas, as his-
tórias, bem como as profecias que este realizou quando cruzou em terras que
viriam a ser denominadas, anos mais tarde, Rio Azul 6. A esse respeito, há regis-
tros de que:

Paulas, Faxinal de São Pedro, Faxinal dos Elias, Faxinal dos Mouras e Faxinal do Limas são comunida-
des que em seu primeiro nome levam algo que outrora predominou no Município e que aqui ousamos
dizer, em praticamente toda a região.
6
Os registros históricos disponíveis dão conta de que a colonização de Rio Azul iniciou-se por volta do
final do século XVII. Além da etnia indígena Kaingang, que era em número maior, percorriam ou habi-
tavam a região os índios Xetás e Guaranis. Por muitos anos, o território onde hoje está localizado o
Município foi habitado por poucos moradores, que eram esparsos e temporários, vivendo da coleta de
produtos nativos. No último quarto do século XIX, aumentam as penetrações de bandeirantes e desbra-
vadores e começam a se estabelecer os primeiros colonizadores (WZORECK e VALASKI, 1988, p. 33-
34). Somente em março de 1918 é que Rio Azul ganhou o status de Município, ainda com o nome de
Roxo Roiz, nome do engenheiro responsável pela estrada de ferro na região, pela Lei estadual nº 1.759,
sendo desmembrado do Termo de São João do Triunfo e integrando-se ao termo de Irati, comarca de
Ponta Grossa. Entre março e julho de 1918 foram eleitos os primeiros administradores, prefeito, vice-
prefeito e camaristas, sendo empossados no dia 14 de julho de 1918, data em se comemora o aniversário
de emancipação política do Município. Em 18 de setembro de 1920, a denominação do município
mudou novamente, de Roxo Roiz passou a se chamar “Marumby”. Isso ocorreu devido à mudança de
nome da estação da estrada de ferro. No dia 02 de janeiro de 1930, a Vila de Marumby, como era conhe-
cida e oficialmente chamada, passou a ter seu nome atual, ou seja, Rio Azul (GUELTES, 2005, p. 6).

122
Um dos fatos mais curiosos e marcantes que aconteceram em Rio Azul, logo
no princípio da colonização, foi a passagem de uma pessoa, identificada co-
mo monge, sendo por muitos considerado profeta, o profeta do povo. Seu
nome, João Maria de Agostinho, hoje uma lenda em toda a região. São João
Maria trajava-se de maneira simples, quase maltrapilho, com penduricalhos
amarrados à cintura (canecas, chaleiras, colheres, etc.). Peregrinava pelas
comunidades, agarrado a um cajado. Costumava acampar aos pés de uma ár-
vore frondosa, à sombra. Sempre ao lado de uma nascente. Nas comunidades
rioazulenses por onde passou, até hoje encontramos vestígios; em alguns lo-
cais a população construiu grutas e oratórios, onde faz pedidos, orações e
agradece milagres alcançados, atribuídos a João Maria. Nos locais onde pou-
sava, não demorava muito, juntava o povo que vinha para ouvir seus ensi-
namentos. Neste pequeno período, ouvia as pessoas, praticava atos de
curandeirismo. Tinha um grande conhecimento de ervas medicinais, ensi-
nando receitas curativas que são praticadas até os dias atuais. Falava do fu-
turo sem deus, desejava a paz e a igualdade, fazia premonições, aconselhava
o povo a rezar, pedia a todos que se mantivessem firmes na fé e na justiça
para encontrar a paz e a felicidade. Quando se despedia do local que acam-
pou, erguia uma cruz com as iniciais de seu nome e abençoava a água, dan-
do-lhe poderes divinos. Até os dias de hoje, algumas pessoas de Rio Azul
acreditam que são curativas e muitas batizam os recém-nascidos nessas
águas. Profeta ou monge, São João Maria é muito respeitado nos dias atuais
pela maioria do povo rioazulense, sendo que suas histórias são repassadas
de geração em geração (CARNEIRO JR. ET AL, 2005, p. 34).

João Maria de Agostinho, conhecido em toda a região como São João


Maria, foi o primeiro dos três monges que passaram pelos Estados do Sul entre
a segunda metade do século XIX e o início do século XX. Figuras estranhas que
levavam uma vida ascética, os chamados monges eram leigos e pregadores
itinerantes que se assemelhavam aos remanescentes medievais. Recomenda-
vam ervas medicinais curativas, exercendo grande poder de atração entre as
pessoas mais necessitadas, sobretudo (MOCELIN, 1989, p. 11).
De acordo com Paulo Pinheiro Machado, em sua obra Lideranças do
Contestado: a Formação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916), “[...] a
figura deste monge curandeiro, conselheiro e profeta, pode ter as mais diferen-
tes origens e épocas distintas, mas, para o habitante do planalto catarinense, só
existiu um monge João Maria” (MACHADO, 2004, p. 163-164).
Tal característica também é perceptível nos depoimentos que seguirão
a respeito do Monge em Rio Azul, ou seja, no credo popular, existiu apenas um
São João Maria, o profeta, o curandeiro, o santo. Todavia, faz-se necessário e
pertinente citar a partir do estudo de Renato Mocelin, que em sua obra Os
guerrilheiros do Contestado, sobre os monges, afirma que:

O primeiro monge teria sido João Maria D’Agostini, imigrante italiano, que
levava uma vida austera, pregava e fizera muitos milagres. Morreu não se
sabe quando e nem como. Após a sua morte, os sertanejos passaram a cha-
má-lo de “São João Maria” e passaram a acreditar que ele voltaria. O segundo

123
“monge” teria chegado à região junto com os federalistas. Seu nome era Ata-
nás Marcaf e, ao que tudo indica, era de origem síria. Usava o nome de João
Maria de Jesus, desprezava as coisas materiais, criticava o regime republica-
no e fazia terríveis profecias (MOCELIN, 1989, p. 11).

No entanto, é um terceiro monge que ficou mais conhecido e que vai


unir os sertanejos desalojados da região contestada em torno de uma causa
comum, fazendo com que haja a eclosão da guerra. Seu nome, Miguel Lucena
de Boaventura, conhecido, na Região Sul como José Maria. E é justamente este
terceiro Monge que irá passar pela região de Rio Azul em meados do século XX,
onde permanece até hoje no imaginário popular seu legado como profeta, cu-
randeiro e santo, canonizado, não pela Igreja, mas pelo povo que, na ausência
da Igreja e do Estado, se apega àqueles que lhe dessem conforto físico e espiri-
tual, bem como à esperança de melhores dias, tal como fizera São João Maria.
Conforme afirmou Paulo Pinheiro Machado,

José Maria perambulou pelo interior do Paraná, pelos campos de Palmas e


por Lages, até se estabelecer por algum tempo na casa de um agregado de
Francisco Almeida, nos campos do Espinilho, em Campos Novos. Consta que
em 1912 recebeu a visita de uma comissão, proveniente de Curitibanos...
(MACHADO, 2004, p. 177).

Pinheiro Machado fala sobre a figura e a atuação de José Maria na soci-


edade sertaneja às vésperas do início da Guerra do Contestado (1912-1916),
todavia, nos fornece um elemento importante que corrobora com outro citado
anteriormente. Com base nessas afirmações, pode-se constatar que José Maria
passou pela região de Rio Azul, interior do Estado do Paraná, no início do sécu-
lo XX, pouco antes do início do conflito na região então contestada pelos Esta-
dos do Paraná e Santa Catarina.
Morto no combate do Irani em 22 de outubro de 1912, José Maria foi
santificado pelos caboclos da região contestada que tomaram sua morte como
ato extremo de heroísmo e buscaram levar a cabo seus ensinamentos e profe-
cias, visto que a “reelaboração religiosa processa-se através da transformação
de José Maria de simples curandeiro a indivíduo santificado, com qualidades
proféticas” (MACHADO, 2004, p. 191). Tais prerrogativas dadas ao monge ex-
trapolam os limites contestados por Paraná e Santa Catarina e são perceptíveis
até hoje em praticamente toda a Região Sul do Brasil, em lugares onde se regis-
trou sua passagem.
Desta forma e, a partir de relatos colhidos junto a alguns moradores da
Comunidade de Braço do Potinga, pretende-se, a partir daqui, contar a História
da Santa Cruz, padroeira da mesma, da presença do monge São João Maria no
imaginário local, bem como da disputa ideológica que há em torno da Cruz de
cedro supostamente por ele deixada quando por ali passou.

124
Em texto sobre História, Religião e Cultura: temáticas de história cultu-
ral das religiões, José Adilçon Campigoto e Paulo Benatte discorrem sobre as
peculiaridades desse fenômeno e defendem que,

O religioso não é, pois, imune às urdiduras de autoridade e poder que envol-


vem e estabelecem as relações pessoais e sociais. Como sempre, os efeitos da
religião extrapolam o terreno puramente religioso, abarcando a família, a
educação, o trabalho, a política, as relações de amor e de amizade, em suma,
a vida em sua inteiriça cotidianidade. As experiências religiosas implicam
modos de produção de identidades e alteridades; e esses discursos dos sabe-
res que se dedicam a explicar ou compreender esses processos não são,
também, imunes a essas tramas (BENATTE e CAMPIGOTO, 2013, p. 17).

As experiências religiosas, então, extrapolam o campo religioso, fazen-


do-se presentes seus efeitos e implicações em praticamente todas as facetas da
vida, perceptíveis até mesmo nas mais singelas práticas cotidianas. Tais fenô-
menos implicam, em grande medida, em relações de poder, como no caso da
retirada da cruz de São João Maria da Igreja do Braço do Potinga, em que se
“confrontam” a autoridade Eclesiástica com o credo popular.
Assim, os testemunhos colhidos serão imprescindíveis para o enten-
dimento do que aqui se propõe, pois é sabido que a memória individual é ver-
balizada pela memória oral. Este é o processo da lembrança e da oralidade das
recordações e também a forma de registro mais antiga que se possui. Seletiva-
mente, indivíduos e grupos articulam suas experiências passadas formulando
uma narrativa histórica acerca de suas trajetórias. Essa narrativa é construída
e reconstruída segundo as perspectivas presentes, constituindo a base a partir
da qual se vislumbra o porvir. Assim, a memória oral representa a forma mais
antiga de transmissão e consolidação dessa narrativa (BENJAMIN, 1985).
Por conta de algumas críticas e controvérsias em torno das fontes
orais e da pesquisa oral na contemporaneidade, Lozano defende que “fazer
história oral significa, portanto, produzir conhecimentos históricos, científicos,
e não simplesmente fazer um relato ordenado da vida e da experiência dos
“outros” (2006, p. 17). Assim sendo, este texto implica, pois, na tentativa de
produzir conhecimento histórico a partir dos depoimentos colhidos a fim de
que estes sejam valorizados enquanto sujeitos históricos e também possam
dar suas versões sobre os fatos, o que não seria possível com a adoção de ou-
tros métodos e perspectivas.
De acordo com Paul Ricoeur, a narrativa é uma forma de configurar os
eventos do passado na sucessão temporal, construindo significados e sentidos
humanos. Narrar, então, é criar um fluxo de eventos e estabelecer uma duração
que oportunize o entendimento humano (seja o próprio entendimento ou o
entendimento do outro). Cada pessoa, ao relatar sobre o passado, utiliza a

125
narrativa para articular suas lembranças, todavia, conforme o contexto
presente no qual se enconta inserido e não a partir do próprio passado. Deste
modo, a narrativa é construída a partir de determinado enredo que articula os
elementos mobilizados para lhe dar conteúdo (RICOUER, 2010).
Apresentamos a seguir o depoimento de Dona Constantina Ferreira da
Silva, conhecida na comunidade e nas adjacências como Dona Tantica. Dona
Tantica atualmente possui 85 anos e é uma das moradoras mais antigas do
local. Seu depoimento ajuda a entender aspectos importantes a respeito da
passagem de São João Maria pelo Faxinal Braço do Potinga. A esse respeito,
assim falou Tantica:

Foi meu avô, Pedro Ribeiro da Silva, que tomou chimarrão e conversou com
o Monge São João Maria lá no Braço do Potinga7. Depois, logo depois, meu
pai foi batizado pelo monge, quer dizer, é afilhado de São João Maria. O nome
do meu pai era João de Deus da Silva. Quando ele foi batizado ele estava nos
cueros ainda. Isso faz tempo. Mas dá para ter ideia tirando pela minha idade.
Eu tenho 84 anos e quando o meu pai morreu com 63 anos eu tinha 20. Daí
pode fazer a conta. Foi nesse ano que o São João Maria veio no Braço do Po-
tinga (SILVA, Constantina Da. Depoimento cedido a Ivan Gapinski e Ancelmo
Schörner em 15/10/2015).

Dona Tantica nasceu em 1931. Seu pai morreu quando ela tinha 20
anos, isto é, em 1951. Se as datas supracitadas procedem, o pai de Dona Tanti-
ca, seu Pedro Ribeiro da Silva, afilhado de São João Maria, morreu com 63 anos,
tendo nascido então em 1888, sendo bem provável que tenha mesmo sido
batizado por ele, haja vista que este passou pelo interior do Estado do Paraná
entre os fins do século XIX e início do século XX.
Sobre o local onde o pai de dona Tantica teria sido batizado, onde ou-
trora havia a Igreja antiga e no local em que hoje está a capelinha construída
pelos devotos do Monge, Maria Odete Gapinski assevera que:

Falavam que São João Maria pousou ali onde que é a igreja agora, mas não
sei quantos anos faz isso ai, até como diz tem a igreja nossa, não é de São Jo-
ão Maria é de Santa Cruz, mas é ali diz que São João Maria diz que pousou em
um olho d’água pra baixo um pouco, só que a igreja agora foi mudada na bei-
ra da estrada. Mas sempre é conservado o lugar lá onde São João Maria pou-
sou, dizem que não é São João Maria é um profeta, como é que se diz, um que
andava pelas comunidades, pelas cidades e ali sempre estão conservando o
lugar onde ele posou e tudo então, tem até uma capelinha, tem a imagem de-

7
Dona Tantica ainda vive na comunidade de Braço do Potinga, todavia, não mais tão perto do local onde
seu pai fora batizado e onde se encontra a guabirobeira, a capelinha e a cruz de cedro feita por São João
Maria, por isso sua referência ao batizado de seu pai ter sido “lá no Braço do Potinga”. Sua residência
hoje fica mais perto da comunidade de Porto Soares, por isso na maioria das vezes ela frequenta as
cerimônias religiosas nesta comunidade e não mais no Braço do Potinga, como outrora fazia.

126
le e tudo, a foto dele (GAPINSKI, Maria Odete. Entrevista cedida a Ivan Ga-
pinski e Ancelmo Schörner em 15/10/2015).

A Igreja a que dona Odete se refere é a atual, a terceira, construída, se-


gundo outros relatos, há cerca de 20 anos e bem próxima da estrada principal.
Pouco abaixo da Igreja, ao lado do olho d’água, encontra-se atualmente uma
capelinha consagrada a São João Maria, construída pela iniciativa dos devotos.
A esse respeito, João Gapinski, relata que:

A primeira capelinha, lá onde tem o olho d´água do São João Maria foram as
Meninas Viera que fizeram. Mas nem os mais velhos sabem quando isso foi
feito. Nós achamos que foi feita logo depois que o monge dormiu lá embaixo
da gabirobeira. Onde hoje tem a capelinha de tijolo. Antes era de madeira.
Era lá que estava a cruz que o monge São João Maria deixou (GAPINSKI, João.
Entrevista cedida a Ivan Gapinski e Ancelmo Schörner em 27/05/2016).

Quando a Igreja atual foi construída, muitos moradores não mais que-
riam a cruz deixada por São João Maria, o que gerou certo desconforto e dispu-
ta ideológica entre os devotos e os que não seguem os preceitos do Monge.
Símbolo máximo do cristianismo, a cruz de cedro já foi motivo de discórdia na
comunidade. Contudo, na liturgia cristã,

A cruz, de maneira geral, é reconhecida como um dos símbolos religiosos


mais importantes e usada, especialmente por católicos, como forma de pro-
teção contra qualquer perigo ou ameaça. No caso da “cruz de João Maria”,
denominada muitas vezes como “Santa Cruz”, mais do que um símbolo reli-
gioso, é demonstração da fé em João Maria, mas também presença de sua
proteção contra perigos externos (WELTER, 2012, p. 99).

Ora, “Santa Cruz”, juntamente com São Sebastião são os padroeiros da


comunidade de Braço do Potinga, coincidência ou não, ambos também forte-
mente presentes entre os rebeldes do Contestado, um dos legados do monge
João Maria. Conforme afirma o senhor Vitoldo Pechibecheviske, morador da
comunidade, os padroeiros foram deixados pelo próprio João Maria. Segundo
afirmou,

Desse João Maria eu só vi falar, eu não me lembro porque foi antes de eu me


conhecer por gente, foi antes. Então o vizinho falou que diz que ele ia pas-
sando por ali e daí ele falou, mas aqui não tem estrada, daí ele chegou e dis-
se, pra mim não precisa estrada, pra mim se abre a estrada eu passo e vou
pra São Mateus e ele foi pra São Mateus e deixou uma cruz, por isso que o
nome da capela é Santa Cruz, Santa Cruz e São Sebastião (PICHEBICHEVISKI,
Vitoldo. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016).

127
De acordo com Élio Cantalício Serpa, estudioso do tema, durante suas
peregrinações, João Maria D’Agostini, o primeiro dos monges, também

Tinha por hábito erguer cruzes nos locais onde se estabelecia por algum
tempo. Assim aconteceu no Rio Grande do Sul, Lages, Mafra e outras locali-
dades. Em Lages isto se deu por volta de 1862, onde foi erguido, então, o seu
cruzeiro dando origem à capela de Santa Cruz, a qual gerou conflito com a
ordem Franciscana (SERPA, 1989, p. 60).

Helena do Rosário Pacheco é uma das devotas mais fervorosas de São


João Maria na comunidade e uma das responsáveis pela construção da capeli-
nha no lugar onde São João Maria pernoitou, bem como pela não retirada da
cruz da Igreja da comunidade. Em suas palavras:

Pois, olha, minha mãe sempre contava pra nós que no lugar que ele posava,
podia dar a chuvarada que desse, no lugarzinho que ele estava o fogo dele
não apagava, pela fé que ele tinha. Então em cada lugar que ele pousou ele
deixou a cruz, que lá no Passo do Meio também tem o cercadinho dele, só
não tem a casinha né, mas tem o cercadinho dele e tem a imagem dele lá
também. E daí de lá que ele foi vindo e daí o último lugar que ele posou foi
aqui. Então desde que eu me conheci por gente falavam que São João Maria
posou por ali e deixou os padroeiros Santa Cruz e São Sebastião e dai quando
foi abandonado, dai quando o compadre contou que ele apareceu 8, nós todos
nos incomodamos, daí combinamos de pegar e ajeitar (PACHECO, Helena do
Rosário. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016).

O depoimento de Dona Helena corrobora com o que afirmou o senhor


Vitoldo, ou seja, foi o próprio São João Maria que deixou a Santa Cruz e São
Sebastião como padroeiros da comunidade e é amparado nesta autoridade que
os devotos do monge vão se unir para que a mesma permaneça dentro da
“igreja nova” junto com a imagem de São Sebastião, santo reconhecido 9 pelo

8
Dona Helena se refere à aparição do Monge a um morador da comunidade. Foi a partir de algumas
aparições a este morador que mora em frente ao local onde São João Maria pernoitou que os moradores
se uniram, dividiram as despesas e resolveram construir uma capelinha no local, que estava praticamente
abandonado.
9
De acordo com a crença cristã, São Sebastião nasceu na França entre os anos de 256 e 258, tempos
depois foi com os pais para Milão, na Itália. Lá cresceu na fé cristã e ficou famoso como valente soldado
e depois capitão da guarda do imperador Romano. Nesta época em que cristãos eram perseguidos, presos
e martirizados, as pessoas não sabiam que São Sebastião era cristão, desta forma teria conseguido ajudar
muitas pessoas presas por seguirem o Cristianismo, diminuindo as penas, dando alimento e animando a
perseverarem na fé em Cristo, mesmo que isso implicasse em seu martírio. Teria conseguido a conversão
de vários prisioneiros para o Cristianismo, junto com a realização de milagres, como a cura de uma
mulher surda. Quando descobriram que era cristão, foi atado a uma árvore, recebeu várias flechadas e foi
abandonado. Contudo, sobreviveu às flechas. Após recobrar a saúde, retornou as suas atividades apostó-
licas e foi preso novamente pregando o Cristianismo. Desta vez, o imperador ordenou o seu martírio
definitivo e se assegurou que ele de fato havia morrido. No calendário cristão seu dia é comemorado em
20 de janeiro, data em que supostamente foi morto. (São Sebastião, História, Vida e Milagres. Encontrá-
vel em: <http://www.blogcruzterrasanta.com.br/sao-sebastiao-historia-vida-e-milagres/>. Acesso em: 22
ago. 2016).

128
catolicismo. Tirar a Santa Cruz da Igreja, segundo os devotos de São João Maria,
seria uma afronta a ele e seus ensinamentos, pois sem sua benção a comunidade
não teria os padroeiros que têm e não talvez não fosse o que hoje é.
Sobre a retirada da Santa Cruz, a cruz de São João Maria da Igreja do
Faxinal Braço do Potinga, João Maria Pacheco, esposo de Dona Helena do Rosário
Pacheco e atualmente o morador mais velho da comunidade afirma que:

Queriam mudar, tirar a cruz dali, até a nossa comadre a comadre Leoni disse
não, pois é a Santa Cruz a padroeira do lugar, santa cruz e São Sebastião, co-
mo que vão tirar a cruzinha daqui. Então enlearam bem enleadinho com uma
fita. Foi enleado numa fita porque está enleado num pijuquinha, então me-
xeu quebrou, então muita gente quer tirar. Então a comadre Leoni falou:
Deus o livre, até a minha mulher falou, Deus o livre tirar essa cruz da Igreja
aqui, daí ponharam água no fogo, porque sempre existe pessoa má no meio
dos que prestam já digo. Tem gente que quer ser ele e mais ninguém no
mundo, mas não é assim, tudo tem que ter união (PACHECO, João Maria.
2016).

A esse respeito, Dona Helena acrescenta o seguinte:

Até tiraram dali, a Santa Cruz e ponharam na sacristia, no confessionário,


esconderam lá atrás numa estante que tinha. Um dia eu fui lá e daí perguntei
pra comadre Leoni, escuta o que fizeram da Santa Cruz aqui, ela disse viu
comadre a Santa Cruz depois que fizeram a Igreja pegaram e está escondida
lá atrás, lá no confessionário, daí ela foi comigo lá, me mostrou onde que
estava e a daí eu falei pro João Milão, escuta João o que foi feito com a Santa
Cruz, que a Santa Cruz o lugar dela era ali e agora não está ali, onde que
levaram? Ele falou, sabe que eu não sei, eu disse, pois é, foi tirada dali e
estava escondida e vai ser posta no lugarzinho que estava no começo, vai ser
posta ali na frente, não é pra estar encondida. Dai foi posto, já arrumaram
outra vez e foi posto no mesmo lugar, eu, como sendo a mais velha daqui,
peguei e falei pra eles. (PACHECO, Helena do Rosário. 2016).

João Gapinski explica as razões pelas quais os que não seguem as


orientações de São João Maria e nem acreditam no mesmo queriam tirar a cruz
da Igreja, afirmando que tal crença pertencia ao passado e deveria ser deixada
de lado. Segundo afirma,

São as missionárias que dizem isso, do ‘tempo do era’. E elas são as ministras
da igreja também. Daí elas fazem curso lá em União da Vitória e vem dizendo
que o padre disse que o São João Maria podia ser um foragido, um bandido,
algo assim, e que por isso não se deve dar atenção pra isso... Que ele nem
santo é. Elas dizem que isso do Monge São João Maria é coisa do ‘tempo do
era’. Elas querem dizer que era, que já foi e que por isso não tem mais impor-
tância. Que a cruz não pode ficar na igreja (GAPINSKI, João. 2016).

129
Na comunidade de Braço do Potinga, bem como nas demais comuni-
dades do Município de Rio Azul, o padre se faz presente apenas uma vez ao
mês, conforme calendário definido no início de cada ano, salvo raras exceções
como missas de corpo presente. Na ausência do padre, as celebrações nos fi-
nais de semana ou em dias santos ficam a cargo dos ministros da eucaristia,
pessoas da comunidade que, depois de cursos preparatórios, são incumbidas
de oficiar as rezas.
Ao que tudo indica, o atrito a respeito da cruz de São João Maria ocor-
reu com os ministros que, conforme seu João, fazem os cursos de formação em
União da Vitória, diocese a que Rio Azul pertence e não mais aceitam aquela
religiosidade autorizada, não oficial. Ainda segundo o senhor João Gapinski: “o
padre uma vez questionou, mas aí foi conversado com ele e ele não ligou e os
outros padres que vêm não falam nada, são bons, só vêm rezar a missa, fazem a
parte deles e não incomodam nós” (GAPINSKI, João, 2016).
Dona Tantica lembra que o monge havia profetizado 10 algo sobre a re-
tirada da cruz do que lugar onde o mesmo a plantou. Segundo ela,

Não era para ter tirado a cruz de lá. Isso foi um erro porque o Monge São Jo-
ão Maria disse pro meu avô que se tirasse de lá tudo ia se acabar em água. Ia
sobrar só a copa do pinheiro. A cruz ele disse pro meu avô que era para ficar
sempre ali. Nunca era pra tirar a santa cruz de lá. Ia vir uma praga se o povo
tirasse, que era que tudo ia se acabar em água. Não aconteceu, mas já deu
uma enchente grande e o povo não aprendeu. Agora querem tirar ela da
igreja. Outro erro (SILVA, Constantina Ferreira Da. Entrevista cedida a Ivan
Gapinski e Ancelmo Schörner em 15/10/2015).
Fazer profecias era umas das qualidades atribuídas aos monges e que
fizeram que com que os mesmos cativassem as pessoas e tivessem tantos de-
votos até hoje. Paulo Pinheiro Machado, ao falar da legenda que se formou em
torno do nome João Maria, afirmou que:

O que auxiliou de forma irresistível o aumento da devoção a são João Maria


foram as inúmeras referências às suas prerrogativas e poderes sobrenatu-
rais. Pela tradição cabocla, muitas curas são atribuídas diretamente à ação
do monge, ou indiretamente, através da cura nas “águas santas” do chá que
era feito a partir das cinzas de suas fogueiras, das cascas das árvores onde
ele “pousava”. João Maria, como Cristo, tinha poderes especiais, como atra-
vessar rios caminhando sobre as águas, sofrer tempestades e tormentas sem

10
Dona Helena do Rosário Pacheco fala de mais algumas profecias que o monge teria feito na região do
Faxinal Braço do Potinga a partir do que sua mãe havia lhe ensinado. Segundo ela: “ele falava que quem
tivesse fé nele, se desse uma tormenta, atrás de um canudo de taquara se livrava, era só ficar a par de um
canudo de taquara que estava livre, ali não caia. Pois ele posava e ali no lugar com quem ele conversava
falava que ia chegar um tempo que ele não ia andar mais por ai, e ele não era santo, era um profeta.
Então diz que ele não ia andar porque a estrada ia estar muito suja, dizia: vocês vão encontrar bastante
rastro e pouco pasto, vocês vão ver e os ares vão estar tudo tramado de cipó, a estrada vai ser tudo cheia
de pedra. Então isto nós estamos vendo, saimos da porta de casa e já vemos pedra e os cipós são os fios,
isso tudo ele falou e isso que ele falou tudo se deu” (PACHECO, Helena do Rosário. 2016).

130
nunca se molhar, realizar curas milagrosas, adivinhar os pensamentos das
pessoas e profetizar sobre o futuro (MACHADO, 2004, p. 168).

A disputa ideológica entre os seguidores do monge e os responsáveis


por zelar pelo catolicismo oficial na comunidade, parece ter tido uma trégua e
a cruz de São João Maria, a Santa Cruz, padroeira do Faxinal Braço do Potinga
permanece dentro da Igreja. Enleada em panos, fica em um lugar de pouca
visibilidade a fim de que não ofenda e nem incomode aqueles que não seguem
as orientações do monge.
Os panos ajudam a preservar o pouco que ainda resta da cruz centená-
ria. Segundo Maria Odete Gapinski,

A cruz foi ficando encarquilhadinha, daí foram colocando panos para a ma-
deira não aparecer. Desde que me lembro por gente a cruz é assim, enrolada
nos panos. Eu nunca vi a cruz sem os panos. Já ajudei a arrumar três vezes,
colocar panos, mas nunca vi a madeira. [...] não se tiravam os panos velhos,
iam colocando em cima e pregando com tachinha, alfinete e até agulha
(GAPINSKI, Maria Odete. 2015).

Atualmente, várias são as camadas de panos que, periodicamente, são


acrescentadas à cruz de São João Maria a fim de que a mesma possa resistir
mais um pouco ao tempo que insiste em devorar seus filhos. Todavia, sabemos
que assim como a Dona Odete, a grande maioria dos crentes no monge não
conhece a cruz sem os panos que a cobrem. Tirá-los seria um sacrilégio, então,
se acredita nela como legado de São João Maria e busca-se seguir o preceito de
não tirá-la daquele local.
Ao falar sobre a crença das pessoas na cruz de São João Maria, bem
como na permanência da mesma ante a passagem dos anos, Tomazi assevera
que:

Em todos os lugares onde passava, o Monge plantara ou pedia que plantas-


sem cruzes, sendo que, em diversas cidades da região, estas se conservam
praticamente intactas e são preservadas, cercadas de cuidados e rodeadas,
muitas vezes de velas a queimar, até hoje. Quase sempre estas cruzes são
chamadas de "cruz do Monge" ou "cruz de São João Maria”. Mesmo quando
houve substituição das antigas por novas cruzes, este fato da “substituição”
logo entra no esquecimento. O povo faz questão de lembrar e propagar a
ideia de que aquela cruz, mesmo que substituída várias vezes, é a verdadeira
cruz de São João Maria, feita e plantada por ele. Assim como o santo “não
tem morredô” também as suas cruzes permanecem para sempre. É como se
a cruz de São João Maria tivesse uma espécie de proteção que impedisse o
tempo ou os cupins de a consumirem (TOMAZI, 2005, p. 330).

Por tais razões, entende-se que, enquanto a cruz, embora envolta em


panos, permanecer dentro da Igreja e enquanto na memória dos moradores

131
ficarem guardados os ensinamentos e o credo no monge, bem como não forem
consumadas pelo tempo a capelinha e a guabirobeira, serão lembrados o São
João Maria e a Santa Cruz do Faxinal Braço do Potinga.

Fontes utilizadas

GAPINSKI, João. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016.


GAPINSKI, Maria Odete. Entrevista cedida a Ivan Gapinski e Ancelmo Schörner em
15/10/2015.
PACHECO, Helena do Rosário. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016.
PACHECO, João Maria. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016.
PICHEBICHEVISKI, Vitoldo. Entrevista cedida a Ivan Gapinski em 27/05/2016.
SILVA, Constantina Ferreira da. Entrevista cedida a Ivan Gapinski e Ancelmo Schörner
em 15/10/2015.

Referências bibliográficas

BENJAMIM, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
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133
OS MAPAS DE DEVOÇÃO A SÃO JOÃO MARIA:
UM ESTUDO SOBRE LUGARES DE MEMÓRIA
E FÉ POPULAR NOS ESTADOS
DO SUL DO BRASIL

MÁRCIA JANETE ESPIG1


GABRIEL KUNRATH2

Esse caso conta-se ter acontecido em vários lugares: Trata-se de uma senho-
ra que teria ofertado como promessa, uma galinha ao monge. Tendo esta lhe
excretado no colo, a mulher, irritada, jogou-a ao solo, bradando: “Ó galinha
porca do diabo”! Mais tarde ao entregar-lhe a oferta no pouso, João Maria re-
cusou-se a recebê-la, argumentando que a ave já tinha dono: não se recorda-
va a mulher dos termos que usara quando a galinha lhe sujara a roupa?
Poderíamos recolher mais dezenas de casos semelhantes, se saíssemos a
procurá-los (FELIPPE, 1995, p. 57).

Desde muito tempo, João Maria, ou São João Maria, vem provocando o
interesse e a curiosidade de historiadores, antropólogos, sociólogos, folcloris-
tas e do povo em geral. 3 Tanto sua existência real quanto as lendas criadas ao
redor de sua pessoa, bem como os discursos produzidos sobre ele, são objeto

1
Doutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Associada da Uni-
versidade Federal de Pelotas (UFPel). Atua no Programa de Pós-Graduação em História desta Universi-
dade. E-mail: marciaespig@terra.com.br.
2
Bacharel em História pela Universidade Federal de Pelotas. Mestrando do Programa de Pós-Graduação
em História da Universidade Federal de Pelotas. Bolsista CAPES. E-mail: gabrielkunrath@icloud.com.
3
A bibliografia acadêmica sobre João Maria é bastante extensa e aborda diferentes aspectos desse perso-
nagem, desde sua existência histórica até as reminiscências e memórias produzidas sobre ele. Em geral
convenciona-se falar em três “Joões Maria” históricos, que teriam percorrido a região Sul do Brasil em
diferentes momentos, solidificado a crença popular nessa figura. Essa tese foi lançada inicialmente por
um militar que combateu na Guerra do Contestado (SOARES, 1931, p. 14) e abraçada por Cabral, que
produziu obra clássica sobre o tema (1960). Atualmente se considera improvável quantificar o número
de indivíduos alcunhados ou relacionados ao nome João Maria, visto que esse se tornou uma legenda
poderosa. Algumas bibliografias relevantes para o estudo do tema, além das muitas que serão menciona-
das ao longo desse artigo, são: Oliveira (1992); Fachel (1995); Góes (2007); Welter (2007); Tonon
(2010), dentre vários outros.

135
de inúmeros estudos, produzidos por pesquisadores acadêmicos ou diletantes.
A breve história citada acima encontra-se em inúmeras fontes orais e folclóri-
cas, e nos mostra uma pequena faceta do que se diz sobre esse grande perso-
nagem. Em nosso artigo, desejamos mostrar alguns aspectos da devoção atual
ao Santo Monge, mapeando as reminiscências atuais e os ecos, populares ou
institucionais, dessa forte presença.
O trabalho aqui apresentado é resultado de um projeto de pesquisa
desenvolvido junto a Universidade Federal de Pelotas. Este projeto foi dividido
em duas partes. Uma delas estudou o João Maria histórico, enquanto outra
pesquisou as formas de lembrar São João Maria nos estados de Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul em tempos atuais. Nesse artigo apresentamos aos
leitores a segunda parte do projeto, que se deteve sobre aspectos significativos
do patrimônio material e imaterial sobre o Monge. Para tanto, utilizamos fon-
tes impressas, bibliografias e pesquisa on line, visto que infelizmente o projeto
não contava com verbas para saídas de campo na vasta região a que nos refe-
rimos. Com isso, foram construídos mapas da devoção a João Maria referentes
aos três estados meridionais do Brasil. 4
Tais mapas de devoção, sabemos, são falhos e necessariamente provi-
sórios, visto que o rol de manifestações culturais, simbólicas e materiais sobre
o monge jamais conseguirá ser integralmente mapeado, devido a sua comple-
xidade e constante expansão. Contudo, acreditamos que um trabalho como o
realizado aqui contribua para o conhecimento e reconhecimento de um amplo
espectro patrimonial referente a esta devoção. 5

Identidade e Patrimônio: cultura regional e a fé no Santo Monge

Embora inicialmente ligado a materialidade, a noção atual de patrimô-


nio ultrapassa tal limite, estendendo-se à imaterialidade e ao sentido de per-
tencimento identitário. Um bem cultural imaterial, além da profunda conexão
com os saberes, identidade e memórias de determinado grupo social, liga-se a
construções como fábulas, mitos, representações, canções, músicas, alimentos,
costumes, rituais, formas de fazer, dizer, consumir, etc. Ressalta-se ainda a
relação afetiva desenvolvida pelas populações com as diferentes manifesta-
ções.

4
A referida primeira parte do projeto foi desenvolvida pelo professor Dr. Alexandre Karsburg durante
seu período como pós doutorando junto ao PPGH da UFPel. Colaboraram ainda na pesquisa, como
bolsistas ou voluntários, os alunos de graduação Maria Eloisa Pinto, Gabriel Ribeiro, Felipe Weber, além
do co-autor deste artigo, Gabriel Kunrath.
5
Neste artigo não trataremos do João Maria histórico. Para tanto sugerimos a leitura da tese de Karsburg,
já publicada em livro (2014).

136
É na atribuição de determinados valores – nacional, histórico, artístico, ar-
quitetônico, paisagístico, afetivo, entre outros – que se opera a definição do
que será considerado patrimônio, portanto digno de preservação, e o que se-
rá relegado ao esquecimento (POSSAMAI, 2000, p. 17).

No caso da memória sobre São João Maria, a preservação através da


oralidade é significativa. Muitas das manifestações acima descritas (histórias
maravilhosas, décimas, sabedorias) encontram-se registradas por meio de
publicações ou de entrevistas realizadas por pesquisadores, 6 criando aquilo
que Pierra Nora chamou de lugares de memória.
Segundo Nora (1993) a memória, diferentemente da história, inscreve-
se no campo do afetivo e do presente. Haveria uma tendência desta em destru-
ir a memória espontânea, devido a criticidade particular ao conhecimento
científico. Daí a necessidade dos lugares de memória nos tempos atuais, por
atuarem como espaços de preservação da memória legítima.

[...] a razão fundamental de ser de um lugar de memória é parar o tempo, é


bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar
a morte, materializar o imaterial para [...] prender o máximo de sentido num
mínimo de sinais, é claro, e é isso que os torna apaixonantes: que os lugares
de memória só vivem de sua aptidão para a metamorfose, no incessante res-
saltar de seus significados e no silvado imprevisível de suas ramificações
(NORA, 1993, p. 22).

Como meios de preservação, os lugares de memória expressam uma


disposição, uma “vontade de memória”, que se espalha coletivamente em um
grupamento social. Com relação às lembranças regionais (lembrando que aqui
nos referimos aos estados do Sul do país) sobre o Monge João Maria, inúmeros,
talvez incontáveis, são os lugares de memória a ele associados. Materializando-
se em forma de grutas, capelas, águas santas, cruzeiros, pousos, árvores, alta-
res particulares, dentre tantos outros. Nora nos ajuda a refletir sobre outra
característica importante da devoção a São João Maria, que é sua apropriação
pelo poder público, religioso e mesmo político.
Lugares de memória, afirma Nora, podem ser naturais ou artificiais
(NORA, 1993, p. 21). Os naturais possuem a espontaneidade da criação popu-
lar, e são gestados diretamente da cultura e do pensar populares. Os lugares
artificiais, como o nome diz, são criações institucionalizadas, de certa forma
impostas, a fim de fazer lembrar de determinada maneira. Podem se nutrir do
saber popular, mas carregam em si alguma intencionalidade. Em relação a João
Maria, verificamos a ereção de monumentos, a venda de estatuetas e fotografi-
as do “Santo”, a institucionalização de parques, uso de imagens e referências

6
Vide, por exemplo, Fellipe (1995), Welter (2007); Góes (2007); Machado (2004); Valentini (1998),
dentre outros.

137
em cavalgadas e procissões, chegando inclusive ao uso da imagem em locais de
comércio.7 Nessa categoria, nos lembra Nora, encontramos uma grande varie-
dade de manifestações, ou de “marcos testemunhas de outras eras”: “Museus,
arquivos, cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, processos ver-
bais, monumentos, santuários, associações [...]” (NORA, 1993, p. 13).
A própria oralidade acerca do “Santo Monge” configura lugares de
memória. As histórias, estórias, mitos e folclore gerados em torno dessa em-
blemática figura são lugares de memória simbólicos, que diferentes agentes se
preocupam em plasmar e preservar em papel. Mesmo que a memória e a orali-
dade passem por processos de seleção, construção e reelaboração constantes,
sua preservação garante para as populações uma tentativa do bloqueio de
esquecimento, de fixação da experiência, de lembrança da afetividade pessoal,
familiar ou comunitária. Existem inúmeras obras publicadas, por iniciativa
individual ou institucional, que reproduzem aspectos folclóricos e memórias
coletivas acerca de São João Maria. 8
Os locais de devoção ao Monge, seja em sua forma material ou imateri-
al, constituem um valioso e complexo Patrimônio Cultural de diferentes popu-
lações. Seguindo a definição de Maria de Lourdes Parreiras Horta, podemos
considerar Patrimônio Cultural como um conjunto de

[...] bens e valores, tangíveis e intangíveis, expressos em palavras, imagens,


objetos, monumentos e sítios, ritos e celebrações, hábitos e atitudes, cuja
manifestação é percebida como ‘marca’ que a identifica, que adquire um sen-
tido ‘comum’ e compartilhado por toda uma ‘comunidade’ [...] (HORTA,
2000, p. 29).

A fé, devoção e sentimento religioso em relação a João Maria configu-


ram aspectos intangíveis desse rico patrimônio cultural. A valorização de bens
culturais imateriais é aspecto relativamente recente em nossa sociedade, tendo
seu registro se tornado objeto de lei apenas no ano 2000. 9 O reconhecimento

7
O restaurante Confraria do Monge, que fica em Correia Pinto, cidade próxima a Lages (SC), além de
evocar João Maria em seu nome, também possui uma trilha ecológica anexa, na qual se colocou uma
estátua do peregrino, esculpida em uma pedra de arenito de 3,5 toneladas.
<https://www.utiama.com/correia-pinto/>.
8
Dentre outros exemplos, temos o importante livro de Felippe (1995), Folclore na História do Contesta-
do; a obra de Gorniski (1980), Monge: Vida, Milagres, Histórias, Lendas; o trabalho organizado pelo
professor Guerino Bebber sobre Lendas Caboclas do Contestado (1989), que foi resultado de um con-
curso literário promovido pela Prefeitura de Caçador (SC); e mais recentemente o livro Centenário do
Contestado: Poesias, Memórias e Canções (2013), também resultado de um concurso de poesias, desta
vez alusivas ao Centenário do Contestado. Lembre-se ainda da publicação organizada pelo Governo do
Paraná, intitulada Lendas e Contos Populares do Paraná (2005), que recolheu memórias e estórias
presentes em todo território paranaense, parte delas referindo-se ao personagem João Maria.
9
Decreto nº 3.551 de 04 de agosto de 2000. Institui o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial
que Constituem Patrimônio Cultural Brasileiro. Cria o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial e dá
outras providências. Fonte: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto/D3551.htm>. Contudo as

138
dos aspectos imateriais ou intangíveis dos bens culturais ocorre, historicamen-
te, graças à amplificação do próprio conceito de cultura, a partir da evolução
acadêmica dos estudos sobre o mesmo. Ao valorizar o relativismo cultural, a
Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial (Paris, 17 de
Outubro de 2003) postula que

Entende-se por “patrimônio cultural imaterial” as práticas, representações,


expressões, conhecimentos e técnicas – junto com os instrumentos, objetos,
artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades,
os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte inte-
grante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial, que se
transmite de geração em geração, é constantemente recriado pe-
las comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com
a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e conti-
nuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultu-
ral e à criatividade humana. 10

As múltiplas e sempre ricas representações e expressões sobre o Mon-


ge João Maria, configuradas nas falas, mitos, poemas e diferentes formas orais
e materiais, apresentam-se ao pesquisador como uma delicada teia de signifi-
cados. Nestas falas, coletadas por historiadores, sociólogos, antropólogos, fol-
cloristas, ou mesmo pelos devotos, João Maria é único, poderoso, sábio, duro e
ao mesmo tempo gentil. Grande conselheiro e aliado dos populares, ele ensina,
cura, restaura, e, por vezes, ameaça. Sempre, contudo, estabelecendo uma es-
pécie de relação paterna e amistosa, mesmo que misteriosa. Afinal, sobre o
sagrado há de incidir um grau de mistério, fundamentado nos poderes sobre-
naturais que desfruta, graças a sua santidade. Assim, o Monge João Maria
transforma-se em São João Maria, santo de grande devoção, expresso pela ora-
lidade e pelas marcas materiais registradas junto a região que estudamos.
Muitas são as falas populares sobre o Monge, que por vezes evocam
lendas e estórias maravilhosas sobre esse personagem, tal como a que iniciou
esse artigo. A estória da “galinha do diabo” aparece transcrita em várias publi-
cações e parece ser uma das mais populares ao tratar daquele personagem. Em
comum com várias outras narrativas sobre o Santo Monge, nesta se destaca
sua capacidade de “saber”. Saber o que se passa longe de sua presença, o que
sobre ele falam, ou mesmo o que irá acontecer no futuro, seja de um indivíduo
ou de uma cidade. Além disso, diz-se de João Maria ser um grande curandeiro,
possuidor de hábitos muito simples. Em algumas versões, seria vegetariano,

dimensões materiais e imateriais do conceito de patrimônio cultural já aparecem estabelecidas no Artigo


216 da Constituição Federal de 1988.
<http://portal.iphan.gov.br/dicionarioPatrimonioCultural/detalhes/85/patrimonio-imaterial>.
10
UNESCO. Convenção Para A Salvaguarda Do Patrimônio Cultural Imaterial. Paris, 17 de outubro de
2003. Fonte: <http://portal.iphan.gov.br/uploads/legislacao/Convencao_Salvaguarda_2003.pdf>.

139
por não querer maltratar qualquer criação. Sua passagem pelo município de
Mangueirinha, no Paraná, foi assim descrita popularmente:

São João Maria é muito lembrado em nosso município pelas pessoas mais an-
tigas. Eles relatam a passagem de um homem com mensagens divinas, que
não parava em casa de ninguém, apenas conversava, dormia no mato, era
cabeludo, barbudo e bem velhinho. Vestia-se apenas com uma túnica em
forma de pala, uma espécie de ceroula comprida, usava sandálias, comia so-
mente o que a natureza lhe oferecia, ou o que as pessoas lhe davam. Ele não
tinha morada fixa, era um andarilho e até hoje ninguém sabe nada sobre sua
família. Sua morada era sempre no mato e perto de um olho d’água. Quando
abandonava o lugar abençoava esta água e o povo dava o nome de águas de
São João Maria (CARNEIRO, 2005, p. 29).

Se a oralidade se mostra tão rica, viva e pulsante, expande-se inevita-


velmente para o campo material. Indo além do intangível, o lugar de memória
se mostra em espaços físicos, seja construídos ou naturais, objetos, imagens,
etc. Através da iniciativa pública ou da espontaneidade popular, São João Maria
é plasmado em grande número e volume de manifestações, verdadeiras marcas
culturais:

As marcas, nos processos de produção dos conhecimentos sobre o passado,


assumem um valor cognitivo de instrumentos de informação ou, então, valor
estético, afetivo ou mesmo simbólico, ou os quatro valores juntos: por isso,
se tornam bens culturais, objeto de atenção, de estudos, cuidado, proteção,
manutenção e de restaurações pelas instituições e administrações públicas
ou privadas (MATTOZZI, 2008, p. 136).

Veremos, a seguir, algumas das marcas culturais relacionadas ao Santo


Popular João Maria, e que possibilitaram a organização dos Mapas de Devoção
ao Monge.

A devoção e a materialidade

Na busca de localizar as diferentes formas de expressão de fé, bem


como a presença do monge João Maria entre as populações dos estados do
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, durante a realização de nossa pes-
quisa buscamos fontes impressas, bibliografias e materiais on line, visando
destacar essas manifestações no presente. A localização das informações dis-
poníveis no ambiente virtual ocorreu basicamente através de palavras-chave
tais como devoção em São João Maria, olho d’água, crença Santo Monge; João
Maria; bem como nomes de cidades e estados.
Para organizar os dados de pesquisa e armazenar as informações en-
contradas foi elaborado um quadro em que constava o nome das cidades, a

140
situação de pesquisa sobre a mesma e, caso fosse localizada a devoção atual ao
monge, o link desta informação. Estes quadros foram divididos por estados
(Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), buscando melhor organização. A
seguir, produzimos um modelo de ficha catalográfica, nas quais depositamos as
informações coletadas, incluindo referências bibliográficas, imagens, um breve
resumo sobre a forma de devoção encontrada e palavras-chave condizentes.
Foram identificados durante as pesquisas diversas materializações de
fé, tais como: lendas, músicas, olhos d’água, cruzeiros, grutas, bonecos, procis-
sões, parques alusivos ao monge, entre outras manifestações espalhadas pelo
planalto meridional brasileiro. No decorrer do projeto realizamos pesquisa em
cerca de 95% das cidades do estado do Paraná e 98% das cidades de Santa
Catarina. Já no Rio Grande do Sul o número de localidades pesquisadas foi
significativamente menor, pois desde o início da investigação localizou-se nes-
te estado um número menor de manifestações atuais referentes ao Monge João
Maria. Com isso, chegamos a aproximadamente cem cidades que apresentam a
devoção em João Maria, apenas nos Estados da região sul do Brasil.
A metodologia utilizada buscou sistematizar ao máximo os dados que
precederam a elaboração dos mapas de devoção. Lamentavelmente, por não
contar com financiamento que proporcionasse atividades de campo, o projeto
não realizou toda a potencialidade de pesquisa pretendido ao seu início. Mes-
mo assim, acreditamos trazer a público um resultado interessante, através da
sistematização dos dados através dos mapas de devoção ao monge João Maria
aqui apresentados. Para as populações do planalto meridional brasileiro, João
Maria ainda está presente no dia-a-dia. Encontramos marcas materiais e ima-
teriais de devoção nas localidades catarinenses de Curitibanos, Lapa, Campos
Novos, Taguaruçu, Fraiburgo, Monte Castelo, Porto União, Irineópolis, Major
Vieira, Três Barras, Mafra, Calmon; no estado do Paraná localizamos cidades
como Ponta Grossa, Antônio Olinto, Campo Tenente, Campo do Mourão, Pitan-
ga, Faxinal, Lapa, Mallet, Rio Negro, Mangueirinha, Rio Covó, Teixeira Soares;
no Rio Grande do Sul encontramos a presença de João Maria em Soledade,
Santa Maria, Candelária, Lagoa Vermelha, Lagoão, Marau, entre tantas outras
aqui não citadas, mas que aparecerão ao longo do texto através dos mapas de
devoção.
Dentre as tantas cidades localizadas, consideramos importante menci-
onar individualmente algumas delas. Começando pelas cidades encontradas no
Estado do Paraná, destacamos uma matéria do Jornal Tribuna do Norte sobre a
existência de uma capela, na cidade de Marilândia do Sul, em meio a uma mata
nativa do bairro de Barro Preto. “[...] Segundo o ministro João Batista Pereira,
61 anos, o popular João Sapateiro, que mora na cidade há 34 anos, a construção
teria sido feita por seguidores do monge” (TRIBUNA DO NORTE, 11/07/2011),

141
em homenagem a João Maria, que teria passado pela região realizando curas e
milagres.
Na cidade de Catanduvas, encontramos uma gruta ligada a figura do
monge João Maria. Noticiado no site paranaturismo.com.br como um atrativo
turístico desta localidade, consta também informações sobre a possibilidade de
identificar outros locais que o monge teria abençoado na região, entretanto o
mais famoso deles seria a gruta de Tormentinhas construída em homenagem
ao monge João Maria. Esta “é visitada por devotos que buscam suas “águas
abençoadas” para diversos males do cotidiano e depositam moedas em agra-
decimento a “graças” alcançadas através do Monge”. 11

Imagem 1 – Parque do Monge em União da Vitória. Fonte: Arquivo pessoal dos autores.

O Parque do Monge (imagem 1), existente em União da Vitória (PR).


Inaugurado em 2008, o local é referenciado pela Prefeitura Municipal como
espaço turístico e histórico, pois ali o Monge João Maria teria abençoado as
águas em 1896.12 Merece destaque, ainda, o Parque Estadual do Monge, na
localidade de Lapa (PR). Apresentado como local de eco-turismo e de turismo
religioso. Novamente os sites relacionam o local à passagem pela região do
peregrino, que teria se abrigado em uma gruta da região entre 1847 e 1855. 13
Percebe-se, de forma prática, como neste caso os locais de memória são associ-
ados as práticas de turismo e lazer regionais.

11
<http://www.paranaturismo.com.br/?p=2465>.
12
<http://portouniao.sc.gov.br/turismo/item/detalhe/2404>.
13
<https://www.tripadvisor.com.br/Attraction_Review-g2167776-d4474756-Reviews-
Monge_State_Park-Lapa_State_of_Parana.html>;
<http://www.wikiparques.org/wiki/Parque_Estadual_do_Monge>.

142
No estado de Santa Catarina um grande percentual das cidades desta-
cadas pela pesquisa se encontram na região central do estado, mesma região
que entre os anos de 1912 e 1916 presenciou a Guerra do Contestado. Entre
elas, estão Campos Novos, Curitibanos, Taguaruçu, Fraiburgo, Monte Castelo,
Porto União, Major Vieira, Mafra, Três Barras, Canoinhas, Campo Belo do Sul,
além de outras. É importante comentarmos algumas materializações da devo-
ção no santo monge encontradas neste estado, como na cidade de Lebon Regis,
onde se localiza o capitel Monge São João Maria (imagem 2).

Imagem 2 – Capitel em homenagem ao Monge João Maria de Lebon Regis em Santa Catarina. Foto
de Denize Rech. Fonte: <http://cidadelebonregis.blogspot.com.br/2007/08/capitel-monge-so-joo-
maria.html>.

Na cidade de Fraiburgo, em Santa Catarina, na região de Taquaruçu,


encontra-se talvez a mais emblemática manifestação de fé que conseguimos
encontrar durante nossa investigação. Emblemático, por este lugar ter sido
palco de acontecimentos impressionantes antes e durante a Guerra do Contes-
tado. Foi nessa localidade que os sertanejos do Contestado ergueram seu pri-
meiro reduto, onde obtiveram a primeira vitória perante as forças oficiais e
onde infelizmente muitos indivíduos morreram no bombardeio a “Cidade San-
ta” em 1913.14 Percebe-se nesse local uma capela que protege um olho d’água e
uma cruz de cedro (Imagem 3), espaço que nos dias de hoje ainda recebe visi-
tas de devotos aos monges. 15

14
Para mais informações sobre o segundo ataque a Taquaruçu durante a Guerra do Contestado, indicamos a
leitura do livro clássico de Mauricio Vinhas de Queiroz (1966), principalmente as páginas 140 - 143.
15
Essa imagem foi publicada no blog Fragmentos do Tempo e junto a ela encontram-se outras referentes
à devoção ao monge, mas também ao cemitério de Taquaruçu e à elevação onde as forças policiais
posicionaram seus canhões no segundo ataque a Taquaruçu, em 1914.

143
Imagem 3 – Gruta que protege o olho d’água de João Maria em Taquaruçu, Fraiburgo – Santa
Catarina. Foto de Flávio Furtado. Fonte:
<http://www.radiofraiburgo.com/index.php/noticia.php?id=7334>.

Assim como no estado do Paraná, em Santa Catarina também encon-


tramos várias publicações de cunho acadêmico sobre o tema, tal como a pes-
quisa realizada na Unochapecó. Nessa, André Luiz Onghero relata as memórias,
os costumes e os saberes da comunidade de Formosa do Sul. Entre as narrati-
vas presentes no texto está a do Senhor Sebastião Ribeiro de Saldanha, que
realiza curas e benzimentos: “É um pedido que a gente faz. Então faz um chazi-
nho da natureza, ensina...” (ONGHERO, 2012, p. 74). Sua fala reproduz aspectos
do discurso de São João Maria referente a natureza. A imagem 4 retrata

[...] o Sr. Sebastião Ribeiro de Saldanha em sua residência com imagens pelas
quais tem devoção: “eu tenho a foto de São João Maria, de quando ele andou
pelo mundo e Nossa Senhora, tenho minhas devoções, apóstolos... faço mi-
nha oração e peço que a pessoa tenha saúde” (ONGHERO, 2012, p. 74).

Imagem 4 – altar de Sebastião Ribeiro de Saldanha, morador de Formosa do Sul – SC. Foto de
André Luiz Onghero. Fonte: ONGHERO (2012).

144
O Rio Grande do Sul é o estado em que a devoção atual ao Santo Monge
encontra-se menos documentada. Contudo, queremos destacar a presença do
Capitel de São João Maria no município de Lagoa Vermelha, conforme visto na
Imagem 5.

Imagem 5 – Capitel de São João Maria em Lagoa Vermelha. Fonte: Pontos Turísticos de Lagoa
Vermelha em <http://www.lagoavermelha.rs.gov.br/municipio/turismo/pontos-turisticos/>.

Outro relato importante sobre a devoção ao Monge vem da famosa fes-


ta de Santo Antão, realizada em Santa Maria (RS). Tal festa teria sido criada
pelo primeiro João Maria em 1848, durante o tempo em que se estabeleceu no
Morro do Campestre. Supostamente o peregrino teria transportado uma está-
tua de Santo Antão para a região, tratado de enfermos com as águas que viriam
a ser consideradas santas, até ser expulso da região pelas autoridades devido à
grande concentração de devotos que estavam se estabelecendo no morro
(MACHADO, 2013, p. 72-73).
Passados tantos anos, o culto a Santo Antão e as memórias referentes
ao Monge João Maria seguem vivas na comunidade que participa da festa. Con-
forme pode ser percebido através do trabalho de Cesar Goes (2007) que afir-
ma:

A festa [de Santo Antão] tradicional desde o século XIX promove a memória
de Santo Antão, mas os rituais que marcam é a crença no Santo Monge. A uti-
lização das fontes, como poder de cura, continua sendo venerada pelos pere-
grinos. E a via-sacra instaurada, segundo as narrativas, em dezessete cruzes
dispostas entre a capela, no pé do Cerro, e a ermida é repetida ano-a-ano pe-
los devotos. Segundo depoimento da Família Burin, a festa está nas mãos da
família desde o seu início, os tornando herdeiros diretos da convivência dos
antepassados com João Maria (GOES, 2007, p. 149).

145
Relatos orais contidos em trabalhos acadêmicos também são um gran-
de indicador da fé existente em João Maria. Em uma pesquisa sobre a dinâmica
de fabricação de produtos artesanais entre os camponeses do norte e noroeste
do Rio Grande do Sul, encontra-se uma entrevista com uma senhora de 82
anos, moradora da cidade de Marau, que

[...] há mais de 50 anos como camponesa e tendeira, a mesma diz que é devo-
ta de João Maria [figura da cultura popular religiosa do caboclo, muito pre-
sente na região em estudo] e que, por isso, “como ele [Monge João Maria]
sempre dizia e fazia”, preserva a natureza e quer criar os bicho nela; “é a na-
tureza que cuida e cria deles, nós só damos uma mãozinha, um milhozinho
que a gente mesmo colhe” [referindo-se às galinhas e porcos criados às sol-
tas] (TEDESCO, 2012, p. 22).

Os exemplos de devoção aqui citados cumprem a função de demons-


trar situações e formas de crença presentes em cada estado, detalhando ainda
sua grande diversidade. Ao exibir imagens e referências atuais, buscamos in-
formar ao leitor sobre a riqueza acerca dos mais diversos lugares de memória
ligados ao Monge João Maria em tempos atuais. Partindo para uma análise
mais próxima do quantitativo, passamos agora à apresentação e interpretação
dos Mapas da Devoção construídos ao longo da pesquisa.

Os Mapas de Devoção

Para a realização desta etapa do projeto, optou-se por transportar os


dados coletados para mapas que foram selecionados dentre os mapas disponi-
bilizados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) referentes
ao ano de 2010 (os mais recentes naquele momento). Destacamos ainda que os
mapas da devoção atual a São João Maria não apresentam escalas. São resulta-
do das alterações que fizemos nos mapas disponibilizados pelo IBGE e são
ilustrativos, com o objetivo de assinalar as marcas (materiais ou imateriais) da
devoção ao peregrino nos três estados do Sul.
Nos mapas alterados os círculos verdes marcam as cidades que apre-
sentam a devoção, os círculos cinza marcam as cidades em que não encontra-
mos a devoção ao monge ou que não foram pesquisadas. As demais marcações
que constam no mapa são o sistema fluvial de cada estado (sinalizado em azul)
e as divisas dos estados, representadas em preto.
Dito isso, começamos a análise dos mapas pelo Estado do Paraná. Nes-
te estado a grande maioria das cidades localizadas se deu através de publica-
ções (livros e artigos), mesmo se utilizando concomitantemente um grande
volume de blogs e sites institucionais, que usam os espaços ligados a João Ma-
ria como atrativos turísticos. Parte das cidades marcadas pela tradição do

146
Monge se encontram em uma região de divisa com Santa Catarina, o que pare-
ce sugerir relações com o tratado de limites entre os estados, assinado em
1916. Outro fato a se levar em consideração é o caminho das tropas, que tam-
bém parece justificar o traçado das cidades que possuem referências à devo-
ção, concentradas mais ao centro e ao sul do Paraná.

Imagem 6 – Mapa da devoção em João Maria no atual estado do Paraná. Fonte: Mapas elaborados
pelos autores com base em mapas disponibilizados pelo IBGE.

O caminho das tropas foi utilizado como meio de ligação entre a então
capitania de São Paulo e o Rio Grande do Sul, principalmente durante os sécu-
los XVIII e XIX. Esse caminho não se apresentava como um caminho único, mas
sim com algumas variantes que eram utilizados pelos tropeiros, dependendo
da época do ano, conforme nos aponta Machado (2004). Os diversos persona-
gens que carregaram o nome de João Maria circularam por estes caminhos e,
por consequência, a devoção ao monge se torna ampla pelo planalto meridio-
nal. Desta forma, as “[...] andanças e a pregação, pela região, dos diferentes
indivíduos que assumiram a identidade de João Maria criaram um espaço men-
tal de cultivo de práticas locais de cura, normas de conduta e procedimentos
sociais e religiosos” (MACHADO, 2004, p. 338).
No estado de Santa Catarina localizamos apenas três cidades na região
litorânea. Isto pode ser explicado devido as migrações dos indivíduos que car-
regaram o nome de João Maria, terem sido realizadas, predominantemente,
pelo interior do Estado.16 O monge teria passado pela atual Florianópolis de-
pois de ter sido deportado do Rio Grande do Sul devido as aglomerações em
sua volta no morro do Campestre no ano de 1848. Desta forma, conforme
aponta Machado (2013), João Maria de Agostini ficou retirado durante um

16
Roberto Iunskovski aborda a experiência religiosa de caboclos e caboclas provenientes da Região do
Contestado que se fixaram no Morro do Horácio, em Florianópolis. Dentre as devoções analisadas
encontra-se a fé em João Maria, bem como uma série de práticas a ele associadas (IUNSKOVSKI In
ESPIG; MACHADO, 2008, p. 169 - 207).

147
período na Ilha do Arvoredo, posteriormente a isto, é provável que tenha se-
guido suas peregrinações pelo continente americano. Cesar Goes (2007) regis-
tra que os moradores de Bombinhas e Porto Belo (SC) ainda guardam a lenda
do monge ter saído caminhando sobre uma palha de coqueiro ou pelas águas,
estória recorrente na região estudada.

Imagem 7 – Mapa da devoção em João Maria no atual estado de Santa Catarina. Fonte: Mapas
elaborados pelos autores com base em mapas disponibilizados pelo IBGE.

É importante destacar que a grande maioria das cidades que apresen-


tam de alguma forma a devoção ao Santo Monge nos dias atuais está localizada
na região onde instalaram-se os redutos dos sertanejos, durante a Guerra do
Contestado, entre os anos de 1912 e 1916, como podemos perceber analisando
os mapas disponibilizados por Paulo Pinheiro Machado (MACHADO, 2004, p.
380 - 381). Outra questão a se analisar no estado de Santa Catarina é o fato do
ex-governador Esperidião Amim ter concretizado uma política de valorização a
Guerra do Contestado durante suas gestões; fato que com certeza influenciou
para que encontrássemos diversas prefeituras utilizando os lugares ligados a
João Maria para promover o turismo religioso em sua cidade, valorizando estes
espaços como atrativos turísticos. 17
Machado, ao refutar a tese de que o movimento do Contestado tenha
sido um movimento isolado social e geográfico, como é normalmente atribuído
a movimentos messiânicos, afirma que

[...] durante quase todo o desenrolar do conflito, a maior parte da população


“pelada”, ou simpática ao movimento rebelde, não chegou a viver nos redu-
tos e estava dispersa no planalto. As características mercantis e tropeiras da
região jamais favoreceram o isolamento social, cultural ou geográfico da po-
pulação serrana (MACHADO, 2004, p. 35).

17
Esperidião Amim foi Governador do Estado de Santa Catarina por duas gestões, entre os anos de
1983/1986 e 1999/2002. Sobre a ação política de Amim em relação ao Contestado, vide a tese de Marli
Auras (1991).

148
Pensando nessa afirmação de Machado, podemos considerar que tais
características da população serrana se aplicam também na relação entre essas
comunidades e a formação da devoção em João Maria pelo planalto de Santa
Catarina, uma vez em que as informações, mesmo no início do século XX, circu-
lavam e se propagavam pelo interior do Estado. O que nos leva a crer que o
número de cidades em que há presença de devotos de João Maria entre suas
populações poderá ser significativamente superior àquelas que localizamos em
nossa pesquisa.
O Estado do Rio Grande do Sul é o que apresenta o menor número de
cidades localizadas. Entre as hipóteses para tal fato, podemos considerar que
no Rio Grande do Sul as políticas de valorização identitária, traduzidas na figu-
ra do gaúcho e nas mitologias ligada à Revolução Farroupilha, sobrepujaram
outras manifestações culturais populares. Outra hipótese a ser levada em conta
é o fato de que a presença dos Monges, no Rio Grande do Sul, esteve sempre
muito vinculada a movimentos que envolveram a repressão por parte das ins-
tituições de Estado, como nos casos que ficaram conhecidos como “Os monges
do Pinheirinho” ocorrido na cidade de Encantado e o caso dos “Monges Barbu-
dos”, em Soledade e Sobradinho. 18

Imagem 8 – Mapa da devoção em João Maria no atual estado do Rio Grande do Sul. Fonte: Mapas
elaborados pelos autores com base em mapas disponibilizados pelo IBGE.

A primeira aglomeração que ocorreu em torno de João Maria de Agos-


tini foi em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Esse monge teria vindo se esta-
belecer no Cerro do Campestre após se transferir de Sorocaba, São Paulo,
através do caminho das tropas, o que confirma de certa maneira a sugestão de
que este caminho era utilizado pelos monges para realizar suas peregrinações.

18
Sobre esses episódios históricos, consultar Kujawa (2001); Filatow (2017); Ferri (1975); Pereira e
Wagner (1981).

149
Podemos considerar a existência do caminho das tropas como fundamental
para a disseminação geográfica da devoção aos indivíduos conhecidos como
João Maria, ou São João Maria, interferindo ainda na permanência desta devo-
ção até os dias atuais. Se marcarmos as cidades que existiam durante as pere-
grinações de João Maria e que se situavam próximas a este caminho,
constataremos que em sua grande maioria ainda apresentam a devoção ao
mesmo. Ressaltamos, ainda, que possivelmente existam mais cidades com de-
votos a João Maria que não conseguimos localizar, devido à natural limitação
das pesquisas on line.

Considerações finais

Levando em conta a experiência da pesquisa realizada e os dados cole-


tados, podemos afirmar que os resultados desta pesquisa serão sempre parci-
ais. Os Mapas de Devoção estão e continuarão em permanente construção.
Sabe-se seguramente que cerca de cem cidades espalhadas pelo planalto meri-
dional do Brasil apresentam, material ou imaterialmente, a devoção no Monge
João Maria, cada qual com suas peculiaridades. A importância de tais crenças é
variável de comunidade para comunidade, contudo as evidências apontam a
valorização cultural, histórica, folclórica e turística em cada cidade e comuni-
dade investigada. Novos lugares de memória e novas formas de devoção po-
dem se apresentar a cada período. Acreditamos que o grande esforço de
pesquisa realizado venha contribuir para ensejar novos estudos sobre a temá-
tica, abrangendo a observação detalhista e microscópica de cada lugar, de cada
devoção, bem como o olhar macroscópico e genérico, que possa captar tendên-
cias gerais.

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153
FRONTEIRA SANTA CATARINA/PARANÁ: UMA
ANÁLISE SOBRE A “QUESTÃO DE LIMITES”,
1853 A 18891

FRANCIMAR ILHA DA SILVA PETROLI2

Introdução

A partir do início do século XIX, com a Independência, um dos proble-


mas políticos mais significativos acerca da construção do Estado e da nação foi
com o território. Naquele momento era necessário concretizar a unidade terri-
torial, com o intuito de eliminar possíveis fragmentações. Poder-se-ia até
mesmo dizer que, no momento da emancipação, o Império do Brasil não possu-
ía um território unificado. Ao contrário do que destacam muitos livros didáti-
cos, o país que emerge em 1822 tinha um conjunto heterogêneo de territórios
herdados da época colonial (SENA, 2012). Nessa perspectiva, a unidade terri-
torial emerge, segundo Magnoli (2003, p. 294), “[...] como um desafio e um
programa histórico. Esse programa, contudo, correspondia aos interesses con-
cretos gerados pela marcha de apropriação e valorização de terras empreendi-
da pelos colonos”.
A unidade como uma condição para a formação e consolidação do pró-
prio Estado Imperial, está sendo aqui pensada do ponto de vista da delimitação
das fronteiras, de acordo com as condições estabelecidas no oitocentos, ou

1
Este texto contempla discussões que também foram desenvolvidas na tese de Doutorado intitulada
Fronteiras, províncias e unidade nacional na formação do Brasil: uma análise sobre a “Questão de
Limites” entre Santa Catarina e Paraná (1853-1889), defendida no PPG/História da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 09 de maio de 2018. É importante pontuar, contudo, que
este artigo foi escrito durante o transcorrer da produção da tese, sendo que muitas das questões aborda-
das necessitam de aprofundamento, sobretudo do ponto de vista empírico. Sendo assim, para uma melhor
compreensão sobre a contenda de limites entre Santa Catarina e Paraná, ver: PETROLI, Francimar Ilha
da Silva. Fronteiras, províncias e unidade nacional na formação do Brasil: uma análise sobre a “Ques-
tão de Limites” entre Santa Catarina e Paraná (1853-1889). Porto Alegre, 2018. 383f. Tese (Doutorado)
– Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2
Doutor em História (UFRGS). E-mail: francimar_hst@hotmail.com

155
seja, da constituição do Brasil nos moldes de um Estado-nação – e aqui inspi-
ramo-nos em Guerra (2003) e Hobsbawm (1990) – cujo controle fronteiriço foi
colocado como elemento central para a garantia da “soberania nacional”.
Muitos foram os estudos desenvolvidos com o objetivo de compreen-
der de que forma, no Brasil, se lidou com os problemas relativos às fronteiras
externas, a partir da consideração dos limites entre o “nós” (nacional) e o
“eles” (estrangeiro).3 Nossa preocupação se insere dentro de uma lógica dife-
rente, de priorizar as discussões sobre a delimitação das fronteiras entre duas
províncias que, situadas no Sul do país, foram importantes na manutenção da
ordem imperial. Torna-se profícuo, assim, avançar no campo da história políti-
ca provincial, com o intuito de perceber – guardadas as devidas proporções e
especificidades de um caso particular – como o “território nacional” foi sendo
forjado.
Este artigo pretende demonstrar a importância da Questão de Limites
entre Santa Catarina e Paraná na formação territorial e política do Império do
Brasil. As fontes demonstram que a disputa de limites provinciais, de 1853 a
1889, contemplava itens considerados fundamentais, tais como: consideração
política provincial, controle fiscal, desenvolvimento da administração pública,
questões envolvendo a propriedade da terra e, principalmente, a possibilidade
de expansão das atividades econômicas. Itens vistos como vitais para as pro-
víncias e também para o governo central, pois estavam relacionados com a
unidade.

A emergência de disputas territoriais provinciais na fronteira sul

Neste trabalho, defende-se a ideia de que a Questão de Limites deve ser


pensada a partir das condições históricas relativas à construção do Estado
Imperial, principalmente a partir da introdução das reformas liberais da déca-
da de 1830. Reformas liberais que, de acordo com Dolhnikoff (2005), se fize-
ram presentes até o final da monarquia, pois a chamada “revisão
conservadora” não alterou as bases do arranjo institucional produzido na Re-
gência. É possível afirmar, assim, que a emergência de preocupações políticas
com a definição das fronteiras entre Santa Catarina e Paraná tem como pano de
fundo o contexto de desenvolvimento de uma nova correlação de forças nas
instituições imperiais de poder, com destaque para a instalação e atuação das
Assembleias Legislativas Provinciais. Essa nova correlação de forças possibili-
tou às províncias exercitarem sua autonomia, especialmente na área tributária,
orçamentária e empregos públicos.

3
Sobre o assunto ver: Rodrigues, 1995; Magnoli, 1997; Goes Filho, 2013. Para situações específicas
envolvendo o Sul do Brasil, contemplando a região dos chamados Campos de Palmas: Heinsfeld, 2007;
Ferrari, 2005.

156
No início do século XIX, observa-se um movimento de expansão terri-
torial luso-brasileira na fronteira sul 4 proporcionada por fazendeiros e autori-
dades imperiais que, em certo sentido, “[...] desejavam essas terras e
entendiam que os povos indígenas que nelas viviam deveriam ser integrados
as vilas e cidades, ou afugentados, ou aldeados, ou simplesmente escravizados
e eliminados” (SOUZA, 2014, p. 44). É dessa maneira que a história da expan-
são fronteiriça no Sul pode ser inicialmente explicada, ou seja, através da com-
preensão da ocupação e invasão das terras indígenas, em paralelo ao
funcionamento dos “Caminhos do Sul” (SOUZA, 2011). Esses caminhos eram
responsáveis pela interligação comercail fronteira sul/feira de Sorocaba-SP,
proporcionada pelos negócios do gado. É importante registrar, então, que a
partir desse contexto ocorrem diversas concessões e legitimações estatais de
terras, domínios sobre campos nativos, desenvolvimento de uma extensa rede
de negócios, existência de inúmeras possibilidades de lucros, busca pela obten-
ção de cargos no processo de avanço da presença pública e a formação de po-
voados e vilas como condição estratégica de controle sobre espaços
considerados – pela cartografia do período – como “vazios” e/ou “desconheci-
dos” (SOUZA, 2012).
Para o aprofundamento da discussão sobre os interesses e as ações es-
tatais, contudo, coloca-se como ponto vital a problematização da noção de
“fronteira sul” enquanto “fronteira aberta”. No século XIX, o que estava em jogo
era o exercício de domínio econômico, político e militar de um espaço não
plenamente controlado pelos poderes governamentais. Desse modo, o termo
fronteira aberta aparece nas fontes oficiais oitocentistas como uma área espa-
cialmente indefinida. Ideia também muito contemplada pela historiografia, em
que a fronteira é pensada como um espaço de “[...] intensa circulação de ho-
mens e mercadorias, em um contexto demográfico heterogêneo e numa con-
juntura de instabilidade política” (KÜHN, 2011, p. 24).
A ideia de fronteira aberta aplica-se em função do comércio do gado,
não sendo possível explicar o movimento de ampliação das fronteiras sulistas
sem discorrer sobre tal atividade. Inicialmente, os caminhos foram estabeleci-
dos pelo litoral, em direção à Laguna, São Francisco do Sul, Curitiba e Sorocaba.
Em meados da década de 1730, foi aberto o Caminho das Tropas que interliga-
va os Campos de Viamão, Lages, Rio Negro, Lapa, percurso principal sentido
Ponta Grossa, Castro e Itapeva, até Sorocaba. Também foram construídos ca-
minhos alternativos, conforme nos mostra Suprinyak (2008), sendo o mais

4
A expressão “fronteira sul”, do ponto de vista historiográfico, é muito recente. De fato, não cabe aqui
uma discussão mais detalhada a respeito dos significados e usos dessa expressão nos estudos históricos.
Consideramos pertinente destacar, porém, que ao utilizarmos o termo fronteira sul referimo-nos ao “Sul
do Império Brasileiro”, quer dizer, referimo-nos a uma “região” e/ou “espaço” não delimitado.

157
importante a Estradas das Missões. 5 Para o autor, os tropeiros, ao abrirem tais
caminhos, tinham em mente encurtar distâncias. Ademais, a tentativa de evitar
o fisco também é apontada como ponto fundamental. A partir do processo
histórico descrito, conclui-se que a atividade do gado contribuiu para a forma-
ção daquilo que Machado (2008) denomina de “macroterritório político”, en-
volvendo o Sul do país e o Prata, onde redes, alianças e relações se estendiam
do Uruguai à Sorocaba.
Nos primeiros anos do Segundo Reinado, destacam-se interesses im-
periais mais acentuados em torno da fronteira sul. Interesses tanto com as
fronteiras externas quanto com as fronteiras internas: as preocupações exter-
nas diziam respeito às pretensões argentinas de incorporar boa parte dos
Campos de Palmas ao território de Misiones e as preocupações internas esta-
vam relacionadas ao movimento de emancipação da comarca de Curitiba.
Os Campos de Palmas eram considerados de suma importância por es-
tarem localizados numa área de fronteira extremamente estratégica. Situados
entre os rios Iguaçu e Uruguai, limitados a oeste pelos rios Santo Antonio e
Peperi e, à leste, pelos rios Chapecó e Jangada, com uma área de cerca de
40.000 km², os citados campos eram considerados ricos em madeiras, ervais
nativos, pastagens e terras férteis (MACHADO, 2009). Sendo assim, iniciativas
oficiais foram desenvolvidas com o objetivo de assegurar o domínio territorial,
como no caso dos esforços iniciais em produzir mapas 6 e no desenvolvimento
das ideias em torno da formação de Colônias Militares. 7
Na fronteira sul, preocupações imperiais também são verificadas em
relação aos problemas internos, mais especificamente em relação às instabili-
dades políticas ocasionadas pela Revolta Liberal Paulista de 1842 e pela Revo-
lução Farroupilha (1835-1845). Dois eventos que, de certa forma,
contribuíram para a constituição de novas relações de forças e de poder entre
o governo central e grupos situados na região de Curitiba. Grupos, diga-se de

5
Como será adiante demonstrado, não compartilhamos a ideia da Estrada das Missões como um simples
caminho alternativo. As fontes indicam que a construção da estrada, nos anos 1840, era considerada
imprescindível não apenas para o estabelecimento de uma nova rota comercial, interligando São Paulo
ao Rio Grande do Sul. A Estrada das Missões possibilitaria, de acordo com os discursos provinciais, o
controle do espaço situado entre os rios Iguaçu e Uruguai. Com isso, a Estrada das Missões está sendo
aqui pensada como uma obra estratégica – tanto para as províncias quanto para o Império – na busca
pelo domínio dos vastos e ricos Campos de Palmas.
6
Sobre o assunto consultar acervo cartográfico do Arquivo Histórico do Exército – AHEX, disponível
em <http://www.ahex.ensino.eb.br/index.php/pt/>.
7
As Colônias Militares foram estabelecidas no Sul do país com o objetivo de “[...] defender e proteger as
fronteiras já definidas e as em litígio e também povoar os pontos extremos” (BARROS, 1980, p. 26). É
no final dos anos 1850 que as Colônias Militares de Chopim e Chapecó são criadas (Decreto Imperial nº
2.502, de 16 de novembro de 1859), com a instalação das mesmas ocorrendo apenas no ano de 1882.
Citamos a questão da criação de Colônias Militares, no contexto das duas primeiras décadas do Segundo
Reinado, pelo fato de que é nesse período que se verifica, conforme documentação consultada, a confi-
guração inicial de uma vontade política mais agressiva em termos de controle estatal regional.

158
passagem, ansiosos por concretizar suas demandas econômicas e políticas,
particularmente acerca da emancipação de Curitiba.

O fato de o governo ter precisado negociar com parte da elite da comarca de


Curitiba – no caso os liberais dessa região – mostra a força que esses grupos
poderiam ter, caso estivessem em uma situação favorável. Subitamente colo-
cados entre dois movimentos embaraçosos para a administração saquarema,
eles conquistaram, apenas com a possibilidade de apoio a esses levantes, a
promessa de que uma de suas principais reivindicações seria atendida. O
problema, entretanto, residia no fato de que, na lógica do sistema represen-
tativo imperial, não bastava que o governo central apoiasse uma medida pa-
ra que ela fosse adotada. Era preciso conseguir, também, a aprovação do
Parlamento [...] (GREGÓRIO, 2015, p. 322 - 323).

No decorrer da primeira metade do século XIX, no atual território pa-


ranaense, ocorreu o fortalecimento de grupos ligados às atividades da pecuá-
ria, tropeirismo e erva-mate e que adquiriram prestígio e força política
defendendo seus interesses. Por isso que a noção de “emancipação negociada”
(GREGÓRIO, 2015) é tão importante na análise da criação da província do Pa-
raná em 1853 com o Parlamento como instância de produção de decisões.
A questão que se coloca, na nossa ótica, para a análise de temas sobre
fronteiras internas no Sul do Brasil, é o problema da autonomia provincial pos-
sibilitada pelas reformas dos anos 1830. Nesse sentido, no tocante à emancipa-
ção de Curitiba, torna-se necessário assinalar o fato de que, além dos
problemas envolvendo as instabilidades provocadas pelos casos anteriormente
destacados, observa-se a configuração de complexas situações inerentes à
formação política e territorial brasileira. 8 Situações que, de certa forma, encon-
tram-se estreitamente vinculadas ao nosso objeto, as disputas territoriais pro-
vinciais.
É necessário pensar o território não apenas considerando as preocu-
pações, os interesses e as iniciativas desenvolvidas pelo governo central, pois
as províncias também foram peças importantes na configuração da unidade.
Sendo assim, a não desintegração territorial brasileira é uma problemática
histórica eminentemente complexa, não sendo possível pensá-la sem conside-
rar o peso dos governos regionais. O exame da construção das fronteiras sulis-
tas é, portanto, pautado na citada perspectiva.
As ações provinciais em torno da ocupação e do controle dos Campos
de Palmas foram de extrema relevância no processo de construção da fronteira
sul. Os esforços iniciais desenvolvidos pelos paulistas nos anos 18409 devem

8
Situações complexas que explicam, inclusive, o sucesso emancipatório curitibano. Sobre o tema con-
sultar Gregório (2015).
9
Sobre as iniciativas iniciais desenvolvidas pelos paulistas nos Campos de Palmas consultamos os
relatórios/discursos da presidência da província, disponível em: <http://www-

159
ser considerados como elementos significativos na delimitação territorial do
Estado Nacional: concessões e legitimações de terras pensada por São Paulo,
com o intuito de garantir a posse de ricos e extensos campos; 10 inúmeras inici-
ativas em relação à catequização e civilização das populações indígenas, espe-
cialmente diante da necessidade de garantir a segurança da propriedade e do
funcionamento das práticas comerciais relativas ao gado; 11 medidas adotadas a
respeito da construção da Estrada das Missões como uma obra estratégica na
busca pela consolidação do domínio fronteiriço provincial (e de certa maneira
também nacional)12; e interesses com a estruturação e desenvolvimento da
povoação de Palmas.13 As questões ora pontuadas foram, enfim, estrategica-
mente tratadas por São Paulo, pois estavam relacionadas à possibilidade de
afirmação da província nos espaços imperiais de poder.
Também destacamos como ponto fundamental na configuração terri-
torial sulista, no início do Segundo Reinado, os interesses pelo controle fiscal
relativo ao transporte do gado no registro do Rio Negro. Para se ter uma ideia
mais precisa a respeito do peso de tal registro na soma das rendas provinciais
paulistas de 1835 a 1851, elencamos os dados da Tabela 1:

apps.crl.edu/brazil/provincial/s%C3%A3o_paulo>. Também foi consultada a documentação da Assem-


bleia Legislativa Provincial, conforme pesquisa no Acervo Histórico da Assembleia Legislativa do
Estado de São Paulo, disponível em: <https://www.al.sp.gov.br/acervo-historico/>.
10
Sobre concessões de terras como estratégia de posse e povoamento, consultar principalmente a seguin-
te documentação: São Paulo (1841 e 1842).
11
Esse assunto foi muito discutido nas instituições provinciais. Para se ter uma ideia mais precisa sobre a
importância do controle dos povos indígenas, citamos posição do presidente de São Paulo Felisardo de
Souza e Mello, datada de 1844. Nota-se, na fala de Felisardo, que a principal preocupação é com a
“população” da província, ou seja, com a necessidade de superar os “sertões desconhecidos” por meio da
“civilização”. Assim, de acordo com o chefe do Executivo paulista: “Ao lançar os olhos sobr’a Carta
Topographica da Provincia, a presença dos extensos sertões ainda desconhecidos, e a lembrança de que
n’elles existe innumera porção de homens, que poderiam augmentar nossa diminuta população, e contri-
buir para o engrandecimento de nossa agricultura, e industria, comnosco partilhando os benefícios da
Religião, e da Sociedade, suscitão naturalmente a idéa de empregar todos os esforços para atrahil-os á
civilisação, arredando-os da vida errante, que o habito lhes tem feito adoptar” (SÃO PAULO, 1844, p.
47 - 48). Para a concretização de tais objetivos, o governo paulista procurou atrair importantes lideran-
ças indígenas, como são os casos de Viri e Conda. Tal prática também foi adotada posteriormente pela
província do Paraná. É necessário pontuar, no entanto, que os povos originários desenvolveram formas
de resistência ao processo de invasão de suas terras, tema esse amplamente discutido por Souza (2012).
A documentação consultada indica que as lideranças indígenas fizeram uso, principalmente, da legisla-
ção de terras – Lei de Terras de 1850 e Regulamento de Terras de 1854 – com o propósito de garantir a
demarcação de áreas aos seus pares. A legislação de terras possibilitava que parte das terras devolutas
fossem destinadas aos povos originários. Condá e Viri estavam cientes disso e no transcorrer das décadas
de 1850 e 1860, reivindicaram determinadas áreas nos Campos de Palmas.
12
No que diz respeito as preocupações iniciais com controle territorial e interligações comerciais na
Fronteira Sul da província de São Paulo, ver: São Paulo (1845 e 1846).
13
O problema do estabelecimento de uma povoação nos campos situados ao sul do rio Iguaçu foi colo-
cado logo nos primeiros anos de ocupação. Estabelecimento de uma povoação pensada, pela província,
em paralelo à construção da Estrada das Missões. É importante registrar, entretanto, que não havia
consenso sobre a exata localização da povoação de Palmas, uma vez que interesses provinciais e locais
divergentes foram constantes no período. Sobre tais questões é importante consultar Lago (1987).

160
Ano Taxa de Registro do Direitos de Décima de Meia siza
barreira Rio Negro saída herança de escravos
1835- ------- 81:869$950 31:351$648 28:010$910 16:475$977
1836
1836- 132:236$697 72:961$780 49:282$769 12:580$340 10:197$760
1837
1837- 141:515$707 133:934$576 78:597$267 9:995$409 5:125$250
1838
1838- 67:688$266 57:748$671 100:396$780 20:175$845 16:727$246
1839
1839- 115:325$227 79:513$690 93:189$983 7:113$828 14:253$553
1840
1840- 23:263$268 56:196$562 66:999$977 8:424$524 18:087$058
1841
1841- 129:076$409 33:438$480 45:624$359 9:391$917 17:710$592
1842
1842- ------- 52:796$314 53:071$675 6:842$120 15:711$131
1843
1843- ------- 54:996$878 58:955$816 17:295$790 17:917$161
1844
1844- 71:102$463 31:152$122 83:107$403 13:844$215 19:991$570
1845
1845- 182:718$482 89:033$000 90:555$000 21:530$000 36:195$000
1846
1846- 181:883$389 37:478$932 96:809$631 30:166$390 24:689$139
1847
1847- 151:461$328 38:866$787 79:954$088 15:003$858 21:838$346
1848
1848- 109:313$368 35:280$560 57:089$514 14:828$466 18:936$674
1849
1849- 161:035$229 42:378$388 81:224$078 16:658$583 97$500
1850
1850- 148:461$607 26:692$533 123:842$458 17:393$992 21:931$577
1851

Tabela 1: Tributos da província de São Paulo (anteriores à emancipação de Curitiba). Fonte: COSTA
(2001) apud GREGÓRIO (2012, p. 302 - 303).

De acordo com as informações citadas, constata-se que, de 1836 a


1838, o registro do Rio Negro era a segunda maior fonte de receita da provín-
cia de São Paulo. De 1838 em diante, porém, perde posição para os “direitos de

161
saída”, assumindo, assim, a terceira posição. Mesmo com uma diminuição na
arrecadação após 1846, Rio Negro permaneceu na terceira colocação como
uma importante renda provincial, muito valorizada pelas elites paulistas. 14
Torna-se importante destacar que, tendo como pano de fundo as pos-
sibilidades apresentadas pelos Campos de Palmas e pela região de Rio Negro,
Santa Catarina procede com contestações de terras, o que passa a ocorrer a
partir do ano de 1841. As primeiras discussões são estabelecidas entre as pre-
sidências das províncias de Santa Catarina e São Paulo, porém, com a não reso-
lução do problema as questões sobre território são encaminhadas à Câmara
dos Deputados. É assim que, devido à necessidade de definição territorial, San-
ta Catarina encaminha, em 12 de abril de 1845, uma primeira representação ao
Legislativo.

Não estando ainda legalmente defenidos e determinados os limites desta


Província de Santa Catharina, pois com quanto convencionalmente estejam
reconhecidos no litoral ao Norte, ao Sul, nada se sabe de positivo quanto aos
do interior, e para Oeste, por não terem sido demarcados os do Município de
Lages, enquanto pertencia á Provincia de São Paulo: e como uma tal falta pó-
de vir á ser danosa á Provincia de Santa Catharina, dando lugar a conflictos
com as outras com quem visinha, que he prudente acautelar quanto antes,
pois que já sertanejos de São Paulo tem explorado, e feito estabelecimentos
nos campos das Palmas, encravados no Municipio de Lages ao Oeste dos
Campos Novos: por estes motivos, e ainda mais, convindo determinar-se até
onde pode chegar a acção da authoridade administrativa da Provincia; a As-
sembléa Legislativa Provincial de Santa Catharina considéra de urgencia ro-
gar-Vos a determinação dos limites dos limites da sua provincia áfim de
poder, sem risco de contestações, e conflictos, sempre prejudiciaes á causa
publica, e ao bem dos Povos, adoptar aquellas medidas legislativas, que re-
clamão os interesses da mesma Provincia, e para os quaes está authoridade
pelo Acto addicional á Constituição do Império; cumprindo que sejam taes
limites os seguintes: Ao Sul com a Provincia de São Pedro, o rio Mompituba,
limite reconhecido por este lado, desde a sua fos no oceano, e seguindo por
elle ate a fralda da Serra; d’alli ao Norte, costeando as quebradas da mesma
Serra até encontrar os caminhos da Pedra, e correntes que descem ate o Ara-
ranguá, acompanhando sempre as referidas quebradas, até ganhar pela di-
reita de Tubarão, atravessando a Serra, o Arroio das Contas, por elle abaixo
até o Rio Pelotas, descendo este igualmente até entrar no Uruguay; e seguin-
do-se por este abaixo á sua confluencia com o Arroio Peperigassú. Deste
ponto, que se contam os limites com o Paraguay, deve seguir-se o Arroio
Peperiguassú acima até ganhar a cordilheira á Oeste, e pelas vertentes dos
Arroios Santo Antonio, Santo Antonio mirim, e São Francisco, até cahir no

14
Torna-se relevante evidenciar o peso destes dados, que foram também constatados por Gregório
(2012), nas discussões em torno da emancipação ou não de Curitiba. De maneira geral, a província de
São Paulo muito perderia se os curitibanos obtivessem sucesso com o projeto emancipatório. Perderia a
quantia arrecadada com o comércio do gado referente à Rio Negro que, para as elites provinciais, era
imprescindível na realização de investimentos em áreas prioritárias, por exemplo, as estradas. Esse fato
foi, sem dúvida, “[...] elemento importante no cálculo dos deputados paulistas que se envolveram na
discussão do tema” (GREGÓRIO, 2015, p. 330).

162
grande Rio Iguassú [...] no lugar onde tem hum grande salto, e onde desagua
o Rio Negro. D’aqui, que onde começão os limites reconhecidos com a Pro-
víncia de São Paulo, deve seguir-se do indicado salto para cima, até a embo-
radura do Rio Canoinhas; por este acima até atravessar, no sertão, a estrada
que de Lages segue para São Paulo, continuando até as vertentes d’elle na
serra ou mesmo pelo Rio Negro, segundo a opinião do General Andréa; e de-
pois seguindo ao Norte até ganhar, no caminho, que atravessa de São Fran-
cisco á Coritiba, o logar denominado Cachoeira: d’aqui sempre áo Norte até
as vertentes do Sahy grande; e por este, que é o limite reconhecido ao Norte,
até desembocar no Oceano (REPRESENTAÇÃO. 12/04/1845).

É possível perceber através da leitura do documento, a importância do


exercício da jurisdição territorial, “[...] convindo a determinar-se até onde pode
chegar a acção da authoridade da Provincia” (REPRESENTAÇÃO. 12/04/1845),
de acordo com os princípios estabelecidos pelo Ato Adicional de 1834. Outra
questão importante é o fato de os catarinenses destacarem a ideia da não exis-
tência de dúvidas a respeito de determinados espaços fronteiriços, mesmo com
a ocorrência de algumas indefinições: “[...] pois com quanto convencionalmen-
te estejam reconhecidos no litoral ao Norte, ao Sul, nada se sabe de positivo
quanto aos do interior, e para Oeste, por não terem sido demarcados os do
Município de Lages, enquanto pertencia á Provincia de São Paulo”
(REPRESENTAÇÃO. 12/04/1845). Apesar do documento tratar dos limites
territoriais da “província de Santa Catarina”, nas entrelinhas deixa transpare-
cer a ideia de que havia necessidade de definição somente dos limites acerca
do “município de Lages”, pois apenas esses não eram ainda “reconhecidos”. De
fato, naquele momento, a base da discussão entre catarinenses e paulistas era
em relação aos Campos de Palmas, se na época da incorporação de Lages à
Santa Catarina – fato ocorrido em 1820 – os citados campos pertenciam ou não
à Lages. Santa Catarina, por seu lado, defendia o pertencimento desses campos
à Lages, pois a própria Constituição de 1824 reconhecia essa definição, ao es-
tabelecer para as províncias os mesmos limites das capitanias, ou seja, de
acordo com as “fronteiras naturais” oriundas do período colonial. São Paulo,
por sua vez, defendia o princípio do uti possidetis, da ampliação das fronteiras
através das ações dos bandeirantes paulistas. Conforme narrativas da época, a
resolução dessa grande “dúvida” poderia solucionar a contenda de limites
existente no Sul.15
Após encaminhar a mencionada representação, ocorreram outros des-
dobramentos na Câmara,16 porém, nenhuma decisão foi tomada a respeito das

15
As argumentações acerca do pertenciamento ou não dos Campos de Palmas à Lages mantiveram-se
presentes durante o transcorrer da contenda de limites, tanto no Império quanto na República. De fato, a
citada dúvida constituiu-se como base nas argumentações jurídicas de catarinenses e paranaenses, no
início do século XX. Ambas as partes buscando a sustentação das ideias através do uso do conhecimento
histórico e geográfico. Os Institutos Históricos e Geográficos regionais foram, então, muito utilizados.
16
Anais da Câmara dos Deputados. Disponível em: <www.camara.gov.br>.

163
contestações de terras entre Santa Catarina e São Paulo. Nesse sentido, após a
criação da província do Paraná – em 1853 – Santa Catarina solicita a definição
das suas “divisas” provinciais através do Art. 1.º do projeto do deputado geral
Livramento: “As divisas entre as provincias de Santa Catharina e Rio Grande do
Sul são os rios Mampituba, o Aroio das Contas, o rio Pelotas e o Uruguay; e
entre aquella provicia e a do Paraná são o rio Sahy Grande, o Rio Negro e
aquelle em que elle desagua” (ANAIS, 02 de junho de 1854, p. 12). Nota-se, pelo
documento, que tratava-se, agora, do exato e “legal” reconhecimento – por
parte do Legislativo – do “território catarinense”. Não se tratava mais de solu-
cionar apenas as dúvidas relativas aos Campos de Palmas, como havia sido no
momento anterior (1841-1853).
O que precisa ser destacado, aqui e agora, é o fato de que os interesses
pelo controle de determinados espaços ocorreram no âmbito da existência das
elites provinciais. Elites provinciais compreendidas como grupos “fechados”,
comprometidos com suas demandas econômicas e políticas. Pode-se afirmar,
assim, que não é possível discutir território sem considerar a legislação e a
organização política do Brasil Imperial. As “elites provinciais” estão sendo aqui
pensadas como grupos sociais que além da propriedade da terra, da utilização
do trabalho escravo e da constante participação nas atividades comerciais
sulistas, estavam totalmente inseridas nas instituições públicas (locais, regio-
nais e nacionais) exercendo cargos administrativos e/ou políticos. 17
Em última análise, as questões aqui pontuadas – que tornaram possí-
vel a configuração da Questão de Limites entre Santa Catarina e Paraná – não
encontram-se dissociadas do processo de construção da unidade nacional,
posto em prática a partir da Regência. É dessa maneira que, para Dolhnikoff
(2005), a unidade do território sob a hegemonia do governo situado no Rio de
Janeiro foi possível não pela neutralização das elites regionais e pela centrali-
zação política, mas devido ao estabelecimento de um “arranjo institucional”
por meio do qual essas elites se acomodaram, ao fazer uso da autonomia para
administrar suas províncias e, ao mesmo tempo, obter garantias de participa-
ção no governo central através de suas representações no Legislativo. Dessa
forma, “[...] as elites provinciais tiveram papel decisivo na construção do novo
Estado e na definição de sua natureza” (DOLHNIKOFF, 2005, p. 14), pois parti-
ciparam intensamente das negociações e das decisões políticas.

17
No Paraná, o Partido Liberal representava os interesses do tropeirismo e o Partido Conservador os
interesses da erva-mate (ALVES, 2016). Eram grupos fechados, o que pode ser constatado por meio de
informações sobre as características da Assembleia Legislativa Provincial: “[...] dos 187 deputados
provinciais eleitos no período de 1854 a 1889, 181 deles, 96,8%, integravam as tradicionais famílias
paranaenses, sendo que elas possuíam uma intrincada rede de parentela entre si” (ALVES, 2016, p. 253).
Como visto, uma Assembleia Legislativa Provincial composta por “famílias tradicionais”, isto é, famílias
que receberam sesmarias entre os séculos XVII e XIX. Em Santa Catarina, por sua vez, predominavam
os interesses de grupos oriundos principalmente de famílias de negociantes e militares (PIAZZA, 1994).

164
A importância da delimitação das fronteiras provinciais

A respeito do que foi até aqui exposto, procedemos com o seguinte


questionamento: em que medida a delimitação de limites político-
administrativos foi considerada importante para as províncias? Falamos para
“as províncias”, pois em 1855 é o Paraná que trata de pleitear – através de
representação da sua Assembleia Legislativa – a fixação de limites provinciais
no Parlamento.

[...] cumpre pór um termo a este estado de duvidas que torna litigioso os li-
mites entre esta provincia e a de Santa Catharina, e isto se conseguirá to-
mando por linha divisória os accidentes naturaes que existem entre diversos
municipios desta provincia e de Santa Catharina. Estes accidentes são: 1.º O
rio Canôas desde a sua confluencia no Pelotas até a confluencia do rio Ma-
rombas, e por este acima até a sua nascente principal, e desta em linha recta,
na direcção de L., até a Serra do Mar. 2º A serra do Mar desde a intersecção
desta linha até o parallelo da nascente principal do rio Sahy-Guassú. 3º Rio
Sahy-Guassú desde a sua nascente principal até o Oceano [...]
(REPRESENTAÇÃO. Redigida em 22 de março de 1855).

É possível afirmar, considerando o documento citado, que não se tra-


tava apenas da definição de uma simples – conforme termo de época citado –
“linha divisória”. A Questão de Limites contemplava itens que eram considera-
dos centrais para a estruturação/desenvolvimento provincial e, de certa forma,
também para a delimitação territorial do Estado Nacional. Sem dúvida, a deli-
mitação territorial proposta pelo Paraná (conforme figura 1) tinha como pano
de fundo as possibilidades apresentadas pelos Campos de Palmas e pela região
ao sul do vale do rio Negro.

Figura 1: Mapa do “território contestado”, de acordo com as delimitações propostas nos anos de
1854 (Santa Catarina) e 1855 (Paraná). Fonte cartográfica readaptada de: FLEMING, 1917.
Organização e arte: Thiago Ribeiro.

165
A importância de territórios plenamente definidos pode ser inicial-
mente explicada através da observação das condições históricas das duas pro-
víncias. Santa Catarina era considerada, segundo narrativas oitocentistas, uma
“pequena província”, do ponto de vista territorial, renda pública e representa-
ção política. O Paraná, por sua vez, conforme posicionamentos das elites pro-
vinciais nos anos 1850, necessitava proceder com adequada organização
financeira e definir investimentos em muitos setores, especialmente em ins-
trução pública e estradas. Igualmente era destacada a necessidade de afirma-
ção política em âmbito nacional, de acordo com as demandas apresentadas
pelas elites da nova unidade administrativa. Nesse contexto, três são os itens
que podem ser elencados como imprescindíveis para a vida das citadas provín-
cias: consideração política no cenário nacional, desenvolvimento das práticas
fiscais mediante (principalmente) controle do comércio de animais e possibili-
dade de expansão das atividades econômicas com destaque para a erva-mate.
Primeiro item, o problema da consideração política. A ideia de conside-
ração política encontrava-se estreitamente vinculada às demandas por territó-
rio, mas que não pode, no entanto, ser entendida sem a reflexão em torno do
funcionamento do sistema político imperial, das questões relativas ao proble-
ma da representação parlamentar, conforme conceituação de Gregório (2015).
Nessa lógica, a extensão do território apresentava-se como elemento primor-
dial na configuração da força política regional, nas relações de interesses e de
poder desenvolvidas entre as partes (províncias) e o todo (governo central).
Conforme organização do Império, a dimensão territorial de uma província
poderia contribuir para a composição do número de representantes na Assem-
bleia Geral, pois, segundo Dolhnikoff (2005), assuntos sobre população, civili-
zação e renda não se encontravam dissociados do tema território. A
consideração política, ou melhor, a importância política vinculava-se a tais
questões. Com isso, “[...] quanto maior a quantidade de representantes e, por-
tanto, a capacidade de determinadas províncias – e suas elites políticas – faze-
rem valer seus interesses na arena parlamentar, tanto maior era sua
consideração política” (GREGÓRIO, 2015, p. 337).
Para duas províncias consideradas pequenas, o assunto limites foi visto
pelas elites como um problema de extrema relevância. As fontes demonstram
que o tema “elevação do número de parlamentares”, por vezes muito debatido,
está estreitamente atrelado às disputas territoriais. No ano de 1854, Santa
Catarina e Paraná contavam com um número muito reduzido de representan-
tes: 01 deputado e 01 senador para cada uma das províncias. A “baixa” repre-
sentatividade, sem dúvida, muito preocupava as elites provinciais. Nessa
perspectiva, consideramos profícuo citar trecho do texto de Zacarias de Góes e
Vasconcellos – que foi presidente de província e deputado geral pelo Paraná –
publicado em periódico situado em Curitiba. No texto, Vasconcellos refere-se

166
aos relatórios elaborados pelo presidente de Santa Catarina, João José Couti-
nho. O governo de Coutinho que, de 1850 a 1859, teve como uma de suas prin-
cipais características a defesa do território catarinense.

O Sr. Coutinho descreve o Paraná como um potentado, possuidor de leguas de


terras, e a provincia de Santa Catharina como um pobre visinho que possue
uma pequena chácara : diz que, feita a vontade ao potentado, fica Santa Ca-
tharina demasiadamente pequena, e sob a pressão de duas provincias mui
vastas, que a rodeam, S. Pedro e Paranã. A razão de ser uma provincia menor
do que outras, se autorisasse a reclamação de parte do territorio destas,
provocaria uma divisão geral do imperio, onde ha provincias vastas como as
do Amazonas, Matto Grosso, &., pequenas como as de Sergipe, Espirito-
Santo, &., e faria nascer, com assomos de justiça, a discordia em todo o paiz.
Uma tal razão, pois, não póde ser aceita. O medo da pressão das duas provin-
cias, que rodeiam Santa Catharina, é também argumento sem alcance, por
que não é verdade que as provincias mais vastas opprimam as de territorio
menos extenso, nem, quando fosse possivel que a circumstancia de terem es-
tas menos terreno lhes importasse alguma desvantagem, seria isso motivo
para tirar ás provincias visinhas parte do seu territorio. Assim como é da
natureza das cousas que os homens, do mesmo modo que as nações, não se-
jam iguaes em forças e riquezas, também não é possivel que as provincias
tenham todas as mesmas extensão e recursos. Ha outras circumstancias, a
que cumpre attender e que eficazmente determinam a divisão territorial do
imperio, que não há uniformidade em o numero de leguas de que cada pro-
vincia deve constar (DEZENOVE DE DEZEMBRO, 23/01/1858, p. 3).

Estão presentes na fala de Vasconcellos importantes pontos sobre


questões territoriais, dentre eles destacamos: a tentativa de desconstrução da
ideia de que a extensão territorial fosse obstáculo para o desenvolvimento de
Santa Catarina e, principalmente, a inviabilidade do regime imperial proceder
com uma ampla reorganização territorial. Nota-se, ainda, que quando Vascon-
cellos afirma “Há outras circumstancias, a que cumpre attender e que eficaz-
mente determinam a divisão territorial do império [...]” (Dezenove de
Dezembro, 23/01/1858, p. 3), está se referindo as características da organiza-
ção política imperial. Dessa forma, as pretensões dos catarinenses não poderi-
am ser atendidas, até porque a existência do Império não possibilitava
“uniformidade territorial provincial”.
A questão fiscal, por sua vez, também se apresentava como fundamen-
tal, pois estava basicamente vinculada a dois assuntos específicos: estrutura-
ção financeira e gestão orçamentária das províncias. É importante frisar que o
controle fiscal muito poderia contribuir para a afirmação econômica e, de certo
modo, também política das províncias no cenário nacional. Dessa forma, o
controle das atividades comerciais internas foi entendido como assunto de
extrema relevância. Atividades cuja base principal, em termos fiscais, era a
taxação dos impostos de animais – especialmente os de carga – destinados à

167
feira de Sorocaba que, nos anos 1850, constituíram-se como a principal fonte
de renda paranaense. Assim, para se ter uma ideia mais específica a respeito da
centralidade de tal prática, citamos trecho da “Exposição” – cujos dados apre-
sentados são do ano de 1854 – elaborada por Vasconcellos, ao passar a admi-
nistração da província ao vice-presidente, Theofilo Ribeiro de Rezende:

Em relatório de fevereiro eu havia dito à assembléa: “No principal recurso


dos cofres da província, que é o imposto chamado dos animaes, arrecadou-se
no Rio Negro até 31 de dezembro ultimo, a quantia de 108;695$400, no Xa-
pecó 5:859$680 e no Itararé 19:400$000, prefazendo tudo a somma de
133:955$080 rs., de sorte que póde se calcular essa Renda, até o fim do exer-
cicio, em Rs: 140:000$000”. Hoje direi a V. Ex. que o resultado vae exceden-
do, de um modo tão notavel, as minhas previsões, que não está findo o
exercicio, e já o producto do imposto dos animaes arrecadado até 15 de
abril, é de 174:017$760, isto é, 54:017$760 mais do que os 120:000U000 em
que fora orçado na lei financeira vigente, e 34:017$760 acima do calculo que
apresentei á assembléa legislativa provincial na sua ultima sessão (PARANÁ,
1855, p. 18-19).

Na verdade, logo nos primeiros anos após a emancipação de Curitiba,


inúmeros foram os esforços oficiais desenvolvidos para estruturar a organiza-
ção fiscal da nova província. O que pode ser observado – ao analisar leis, decre-
tos e resoluções provinciais – acerca da regulamentação da arrecadação de
impostos de animais nas localidades de Rio Negro, Itararé e Xapecó. A renda
possibilitada pelo fisco era prioritariamente destinada para melhoramentos
e/ou abertura de novas estradas. O objetivo ao investir em estradas era asse-
gurar o controle das fronteiras a fim de aplicar o uti possidetis. De qualquer
forma, os investimentos em infraestrutura – como na questão das estradas –
eram também fundamentais na medida em que estavam vinculados aos negó-
cios das elites provinciais.
As questões fiscais foram responsáveis, a nosso ver, por duas decisões
(embora provisórias) tomadas pelo Império acerca da Questão de Limites. San-
ta Catarina também apresentava muitos interesses com a cobrança de impos-
tos sobre animais, sendo que por Lei Provincial nº. 542, de 15 de abril de 1864,
procede com a criação da coletoria dos Campos de Palmas, situada em frente
ao Passo do Goio-En, no rio Uruguai. Tal fato contribuiu para a configuração de
instabilidades políticas entre as duas províncias sulistas. Nessa perspectiva, o
Decreto n.º 3.378, de 16 de Janeiro de 1865, estabelece provisoriamente as
divisas entre as duas unidades administrativas “pelo rio Sahy-guaçú, Serra do
Mar, rio Marombas, desde sua vertente até o das Canôas, e por este até o rio
Uruguay”. Entretanto, a pressão catarinense foi muito intensa, fazendo com
que o Império suspendesse o mencionado decreto. Assim, por Aviso Imperial,

168
de 14 de janeiro de 1879, altera-se parte dos limites estabelecidos em 1865, ao
modificar a linha divisória do rio Marombas para o rio do Peixe.
Para finalizar, a possibilidade de expansão das atividades econômicas
provinciais – com destaque para a atividade da erva-mate – era um importante
assunto relacionado ao problema das fronteiras. É relevante registrar, entre-
tanto, que a constituição de maiores preocupações com a erva-mate nas terras
contestadas ocorre a partir dos anos 1870, com a diminuição dos negócios do
gado. Nos Campos de Palmas destacam-se preocupações com as entradas ar-
gentinas na região, não ocorrem, no entanto, maiores investimentos em rela-
ção à exploração e comércio do mate. É com a possibilidade de exploração da
erva-mate na região ao sul do vale do rio Negro que Santa Catarina e Paraná
demonstram interesses mais acentuados, o que pode ser observado a partir do
mapeamento e da análise das iniciativas provinciais desenvolvidas em torno
dessa questão. Em resumo,

A ocupação efetiva da região não foi pacífica, pois o Paraná tinha interesse
nos lucros gerados pela economia ervateira. Para participar dessa atividade
lucrativa e concretizar a ocupação territorial, Santa Catarina utilizou-se de
duas estratégias: a construção da Estrada Dona Francisca e a construção da
Colônia Agrícola São Bento. Com esses dois empreendimentos, empresários
e agricultores vindos de Joinville, puderam entrar nos ervais e disputar a
matéria prima abundante na região, a erva-mate (MAFRA, 2008, p. 13).

Para as elites regionais, cuja atuação nas Assembleias Legislativas pos-


sibilitava o controle fiscal e orçamentário, o estabelecimento de uma linha
divisória – no sentido da definição territorial e consequente domínio da ativi-
dade ervateira – colocava-se como questão fundamental para o desenvolvi-
mento da vida econômica e política das províncias.

Os anos finais do Império e a consolidação de uma questão extremamen-


te complexa

Os anos finais do período imperial, no que diz respeito à Questão de


Limites, são marcados por intensas instabilidades, especialmente na região ao
sul do vale do rio Negro. As disputas entre catarinenses e paranaenses acerca
da exploração e controle comercial da erva-mate contribuíram para a configu-
ração de inúmeros problemas e conflitos de jurisdição de território.
É importante ressaltar que a erva-mate constituiu-se na principal ati-
vidade econômica, para a região ao sul do rio Negro, entre o final do século XIX
e início do século XX (MAFRA, 2008). Nesse contexto, muitos eram os interes-
ses provinciais em torno da mencionada região, pelo fato da erva-mate ser
considerada importante atividade econômica interna. Vista, inclusive, como

169
imprescindível para a efetivação do desenvolvimento regional, mediante con-
trole fiscal e de definição de investimentos públicos em áreas prioritárias, co-
mo a questão viária. Em relação aos conflitos de jurisdição, tendo como pano
de fundo os interesses com a economia ervateira, destacamos o posicionamen-
to paranaense em torno do assunto:

Subsiste ainda a questão de limites entre esta e a provincia de Santa Cathari-


na, e o anno que findou, tornou-se ella tão incandescente que ameaçou seri-
amente a tranquilidade publica. Os nossos visinhos entenderam que por uma
serie de actos attentatorios do nosso direito e do uti possidetis do Paraná no
terreno contestado, podiam resolver essa questão, sem esperar a decisão do
corpo legislativo. Depois de fundarem no territorio desta provincia o nucleo
colonial S. Bento [...] promulgaram uma lei provincial creando uma freguezia
naquelle nucleo, tendo esta por divisa o Rio Negro (PARANÁ, 1877, p. 4).

Considerando os avanços efetuados pelos catarinenses, a resposta


paranaense fundamentou-se na continuidade da aplicação do princípio do uti
possidetis no processo de construção/definição de suas fronteiras. Nessa pers-
pectiva, a introdução de postos/registros fiscais nas terras contestadas consti-
tuía-se como recurso político importante.

O desvio feito pelos habitantes do municipio de Joinville, cortando a passa-


gem na antiga estrada, que o communicava com os municipios do – Rio Ne-
gro e S. José –, annulou completamente o registro da Encruzilhada,
estabelecido na referida estrada e á pequena distancia do mesmo desvio,
com inteiro prejuizo da arrecadação dos impostos, á cargo desse registro.
Entretanto, não convem tratar de sua transferência e muito menos de su-
pprimil-o, emquanto não fôr definitivamente resolvida a questão de limites
entre esta provincia e a de S. Catharina, porque será aquelle posto o signal
evidente do uti possidetis e do direito legitimo que ão desarrazoadamente se
disputa ao Paraná (PARANÁ, 1878, p. 70).

Como observado até aqui, muitos eram os interesses provinciais em


torno de uma possível definição fronteiriça. Em todo caso, do ponto de vista
das possibilidades de resolução da contenda, é importante que se diga que o
contexto envolvendo as disputas de fronteiras internacionais constituiu-se
como problema para a definição de assuntos sobre limites provinciais, até
porque o Brasil também buscava resolver a “Questão de Palmas”, cuja área era
– de acordo com dados fornecidos por Heinsfeld (2007) – de 30.621 km² (ver
figura 2).

170
Figura 2: Mapa da “Questão de Palmas”. Fonte: Readaptado de BARROS, 1980, p. 59.
Organização e arte Thiago Ribeiro.

Na realidade, a definição de limites político-administrativos entre Bra-


sil/Argentina tinha como problema central o reconhecimento dos rios – con-
forme documento cartográfico acima citado – Peperi-Guaçu e Santo Antônio.
Para se ter uma ideia mais adequada do impasse, vejamos:

Os argentinos, a partir de 1881, passam a reivindicar como fronteira do seu


território com o Brasil, nos atuais estados de Santa Catarina e Paraná, não
mais os rios Peperi-guaçu e Santo Antônio, que desde a emancipação políti-
co-administrativa marcavam a fronteira entre os dois países, mas sim dois
rios localizados mais a leste, em território brasileiro: o Chapecó e o Chopim;
após 1888, a reivindicação passou a ser os rios Chapecó e Jangada
(HEINSFELD, 2007, p. 33).

A respeito da Questão de Palmas, conforme Ferrari (2005), os interes-


ses brasileiros centravam-se na ideia de assegurar a segurança nacional atra-
vés da consideração dos seguintes pontos: impossibilitar possíveis entradas
argentinas no sudeste brasileiro; possibilidade de apoio argentino ao Rio
Grande do Sul (Revolução Federalista); preocupação quanto à necessidade de
integração nacional na fronteira sul, pois a perda de território poderia contri-
buir para a emergência de instabilidades e fragmentações. Para a concretiza-
ção dos interesses nacionais foram, então, instaladas, no início dos anos 1880,
as Colônias Militares de Chopim e Chapecó, ambas localizadas em plena área
litigiosa. O estabelecimento de tais empreendimentos fundamentava-se na
ideia da defesa, povoamento e, em certo sentido, também de colonização das
fronteiras. Poder-se-ia até mesmo dizer que as Colônias Militares foram impor-
tantes na afirmação do discurso brasileiro em torno do uti possidetis. A resolu-
ção da questão ocorreu somente em 1895 por meio de arbitramento

171
internacional efetuado pelo presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland,
tendo pesado “[...] a favor do Brasil o fato de a região em litígio já estar sendo
habitada por brasileiros desde 1830” (FERRARI, 2005, p. 4966).
As preocupações do governo central com o Sul fundamentavam-se na
necessidade de estabelecer limites político-administrativos precisos, pois as
indefinições territoriais do período colonial dificultavam o desenvolvimento da
administração pública, bem como o próprio controle econômico de um espaço
considerado rico em madeiras e erva-mate. Dessa maneira, para o Império, a
resolução definitiva da Questão de Palmas era entendida como primordial. O
não reconhecimento ou a perda de território para os argentinos poderia gerar
dificuldades para a consolidação da unidade política e territorial nacional,
tendo em vista que o território em disputa situava-se no contexto de uma regi-
ão extremamente estratégica. Dessa forma, a partir do final da Guerra do Para-
guai (1870) a maior preocupação do Estado Brasileiro foi com as fronteiras
internacionais. No Parlamento, o tema fronteira Brasil/Argentina foi muito
mais debatido do que a pendência de limites Santa Catarina/Paraná. A priori-
dade da definição da Questão de Palmas também era reforçada pelos presiden-
tes de províncias – os “delegados do chefe da Nação”, conforme expressão de
Slemian (2006) – o que pode ser verificado através da documentação do Exe-
cutivo provincial.
No entanto, um ponto importante que precisa ser destacado é a ideia
de que em determinados espaços imperiais a continuidade de pendências de
limites entre províncias era vista como extremamente prejudicial aos interes-
ses do país, especialmente na fronteira sul:

Tem sido muitas vezes apontados os grandes inconvenientes que resultam


das linhas divisorias das circumscripções provinciais, cujo mau traçado ori-
gina, pela maior parte, as múltiplas qustões de limites, ainda não resolvidas.
Destas, a que exige mais promta solução, á vista dos conflictos a que tem da-
do logar, é incontestavelmente a linha divisoria entre as provincias de Santa
Catharina e do Paraná (BRASIL, 1885, p. 9).

É por isso que, apesar da prioridade em relação ao problema fronteiri-


ço com a Argentina, a contenda entre Santa Catarina e Paraná era sim conside-
rada importante. Defende-se, então, a ideia da não resolução da pendência
entre as duas provincias pela própria complexidade da questão. Conforme
posição do Ministério dos Negócios do Império:

Há alguns annos tomou o Governo a resolução de marcar os respectivos limi-


tes, fixando-os provisoriamente pelo Decreto n. 3378 de 16 de janeiro de
1865, sujeito á approvação da Assembléa Geral. Longe, porém, de acabar
com a contenda, suscitou esse decreto novas reclamações, e forçoso foi sus-
pender a sua execução, afim de ser o assumpto definitivamente decidido pe-

172
lo Poder Legislativo. Depois de longos debates, deliberou a Assembléa Geral
que competia ao Governo marcar novos limites, sujeitando-os á sua appro-
vação. A questão é das mais delicadas, porquanto nenhuma das populações
confinantes quer ceder dos seus pretendidos direitos, e difícil tem sido man-
ter a observancia dos limites estabelecidos. O Governo tem sob suas vistas
este assumpto, e espera, ouvindo os representantes das duas provincias e
profissionais competentes, resolvel-o de modo satisfactorio (BRASIL, 1885,
p. 9).

A não resolução da pendência por parte do Legislativo pode ser expli-


cada através das características da organização política imperial, de como a
unidade territorial foi sendo constituída ao longo do século XIX, considerando
não ter sido nada fácil “[...] acomodar em uma mesma nação territórios tão
distintos, com poucos laços de integração e cujas elites apresentavam deman-
das muitas vezes contraditórias entre si” (DOLHNIKOFF, 2005, p. 23-24). Tais
questões, portanto, podem ser apontadas como responsáveis pela consolidação
da Questão de Limites como problema extremamente complexo no contexto da
fronteira sul do Brasil.

Considerações Finais

Nosso objetivo com a pesquisa que ora finalizamos foi demonstrar a


importância da Questão de Limites entre Santa Catarina e Paraná na formação
territorial e política do Brasil oitocentista. A contenda contemplava temas con-
siderados centrais para a estruturação e desenvolvimento de duas importantes
províncias situadas na fronteira sul. Fronteira sul que era considerada um
espaço estratégico para a delimitação territorial do Estado Nacional.
Pode-se afirmar ter sido a Questão de Limites parte do complexo pro-
cesso de formação do território nacional no século XIX. Território forjado não
apenas com base nas preocupações e iniciativas do governo central em torno
das fronteiras externas, mas sim a partir das múltiplas demandas de interesses
e de poder apresentadas pelas elites provinciais. Elites, como destacado, como
grupos estritamente fechados.
É importante que se diga que a continuidade do desenvolvimento de
estudos sobre formações territoriais no século XIX é fundamental. Compreen-
der como o território foi, em determinado momento, pensado e sentido como
problema político, é algo extremamente necessário, até porque muitos são os
resquícios do passado – principalmente em relação à forma como os governos
lidaram com questões de terras: concessões, legitimações e favorecimentos –18

18
A cláusula IX, do Acordo assinado em 20 de outubro de 1916, é importante para a reflexão acerca de
como determinados grupos foram beneficiados em relação ao assunto/problema “terras”. Assim, de
acordo com o documento: “Serão respeitados e mantidos pelo Estado de Santa Catharina todos os direi-

173
ainda muito ativos no nosso próprio tempo. Por fim, destacamos a necessidade
tanto social quanto historiográfica de trabalhos sobre questões territoriais,
pois, como demonstrado, muitos são os problemas – políticos, econômicos e
sociais – vinculados a tais temáticas. É o que podemos, por ora, pontuar a res-
peito da fronteira sul:

A história da região pode ser entendida como um caso de guerra de histó-


rias, e o resultado dessa disputa influencia diretamente na interpretação so-
bre a formação social do território e, pode ter implicações na elaboração nas
políticas públicas para a região. O importante é que o leitor tenha condições
de identificá-las no campo historiográfico e tenha consciência desse proble-
ma (ZARTH, 2015, p. 11).

Eis, então, possibilidades que se apresentam para o historiador de ho-


je, parafraseando Benjamin (1994), de escrever a história das fronteiras sulistas
a contrapelo.

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PARANÁ. Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial do Paraná, no dia 07
de fevereiro de 1878, pelo Presidente da Província Bento de Oliveira Junior. Curitiba, Typ.
Da Viúva Lopes, 1878.

tos privados, creados até hoje no territorio que passa a sua jurisdicção, por actos regulares legislativos ou
executivos do Estado do Paraná” (Acordo de Limites. Rio de Janeiro. Ano de 1916).

174
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de 1855. Documento publicado no jornal Dezenove de Dezembro, em 11 de abril de
1855.
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Paulo, Typ. Imparcial de Silva Sobral, 1842.
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Typ. Costa Silveira, 1841.
SÃO PAULO. Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo pelo
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SÃO PAULO. Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo pelo
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Agrários. Rio de Janeiro: UFRRJ/UNIRIO, 2011. v. 1.
SUPRINYAK, Carlos Eduardo. Tropas em marcha: o mercado de animais de carga no
centro-sul do Brasil imperial. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2008.
ZARTH, Paulo. Fronteira Sul: história e historiografia. In: ZARTH, Paulo; RADIN, José
Carlos; VALENTINI, Delmir José (Orgs.). História da Fronteira Sul. Porto Alegre: Letra &
Vida, 2015.

177
O CONTESTADO DO CONTESTADO: OS
CONFLITOS DO TIMBÓ E PACIÊNCIA NA
HISTORIOGRAFIA

ELOI GIOVANE MUCHALOVSKI1

Introdução

Os vales dos rios Timbó e Paciência, localizados no atual planalto cata-


rinense, foram objeto de intensas disputas entre os estados do Paraná e Santa
Catarina no início do século XX. Disputas motivadas preponderantemente pela
indefinição dos limites territoriais entre os respectivos estados. Contenda bas-
tante noticiada pela imprensa da época e conhecida por meio dos títulos de
chamada das matérias como o “caso do Contestado”, “caso de Canoinhas”,
“Questão de Limites”, “fatos do Timbó” ou, mais corriqueiramente, como “caso
do Timbó”.2
Se por um lado as contestações territoriais tramitavam no Supremo
Tribunal Federal, por outro, grupos armados agiam por conta própria na regi-
ão, reivindicando o controle do território e o direito à exploração da erva mate,
planta abundante naqueles vales e cobiçada pelos coronéis locais. Cada um dos
estados considerava-se no direito de exercer a posse da área enquanto corria o
processo em juízo. Desta forma, ambos governos nomeavam autoridades polí-
ticas e policiais nos povoados de Canoinhas e Vila Nova do Timbó, cada qual
por justificativas próprias.

1
Mestre em História e Regiões pela UNICENTRO, membro do Grupo de Pesquisa Estudos em História
Cultural da UNICENTRO. E-mail: eloigiovane@gmail.com.
2
O “caso de Canoinhas”, a “Questão de Limites”, os “fatos do Timbó” e “o caso do Timbó”, são títulos
de chamada publicados com certa frequência em jornais de Santa Catarina e Paraná entre os anos de
1900 e 1908, os quais noticiavam disputas políticas sobre o domínio da região compreendida entre os
rios Timbó e Paciência em um momento anterior a eclosão da Guerra do Contestado. Devido à maioria
das fontes jornalísticas consultadas utilizarem como título dos conflitos a denominação “o caso do
Timbó”; este é, por vezes, empregado neste trabalho para referir-se a tais eventos.

179
Santa Catarina entendia como sua jurisdição provisória o território de-
limitado até a margem direita do rio Timbó e a esquerda do Iguaçu. Já o Para-
ná, até a margem esquerda do rio Canoinhas, o que colocava uma interseção de
domínios promovendo rivalidades entre os diferentes poderes políticos.
A partir do ano de 1900 os jornais passaram a noticiar a uma série de
homicídios na região.3 Tais ocorrências tiveram maior vulto no ano de 1905,
quando o coronel Demétrio Ramos – maragato oriundo do Rio Grande Sul e
radicado no planalto de Santa Cataria desde o findar da Revolução Federalista
(1893-1895) – posicionou-se em defesa da causa catarinense, sendo acusado
de cometer assassinatos nas imediações de Vila Nova do Timbó. A ação moti-
vou as autoridades de Porto União da Vitória – estado do Paraná – a enviar
força armada para busca e captura de Demétrio em sua residência. Não o en-
contrando, decidiram levar prisioneiros a mulher e filhos de Demétrio, incen-
diando em seguida a casa da família.
Catarinenses consideraram a ação da força policial do Paraná uma
afronta à a sua jurisdição, uma vez que a propriedade de Demétrio ficava na
margem direita do rio Timbó, o que no entendimento dos catarinenses consti-
tuía território de Santa Catarina. Os atritos prolongaram-se, ameaças e protes-
tos de ambos os lados se multiplicaram através de telegramas trocados entre
as distintas autoridades estaduais. Mensagens que a imprensa publicou com
considerável destaque, reproduzindo matérias jornalísticas sobre o assunto.
Com a possibilidade de uma nova invasão de forças do Paraná na regi-
ão, desta vez em Canoinhas, o governo de Santa Catarina enviou armamento e
munição para civis da vila no intuito de combater as intenções do estado vizi-
nho e, ao mesmo tempo, solicitou junto ao ministro da guerra intervenção fe-
deral. Solicitação aceita e colocada em prática em janeiro de 1906, causando
revolta no presidente do Paraná, Vicente Machado. Tal ação fez com que os
jornais, de ambos os estados, conflitassem discursivamente da segunda metade
de janeiro até primeira metade de fevereiro de 1906, multiplicando fontes
sobre o evento.
Ao analisarmos a historiografia do Contestado, vemos uma lacuna so-
bre os aspectos até aqui descritos, não que eles sejam inéditos, desconhecidos,
mas porque não foram até o presente momento objeto de pesquisa. É muito
comum encontrarmos estudos que objetivaram a Questão de Limites no seu
aspecto jurídico, enfatizando o processo judicial como fonte norteadora, e tra-

3
Em 18 de setembro de 1900, o jornal República, noticiou telegrama recebido pelo Prefeito de Polícia de
Santa Catarina, no qual menciona que em conflito de forças do Paraná com supostos catarinenses na
região de Timbó e Canoinhas, fora vítima o comandante da força paranaense. No dia 29 de setembro, o
mesmo jornal, publicou matéria tecendo críticas ao governo do Paraná por este promover incêndios e
mortes na região. Na mesma edição, também transcreve nota publicada pelo jornal O Comércio, afim de
efetivar seu discurso acerca da presença de catarinenses na área, o que firmaria o território como perten-
cente ao estado catarinense.

180
balhos sobre a Guerra do Contestado que partem, em sua maioria, da chamada
Batalha do Irani, ocorrida em 1912, tratando os conflitos nos vales do Timbó e
Paciência apenas como contextualização do espaço onde se desencadearam os
conflitos armados da guerra. Mas, aspectos anteriores à eclosão do movimento
sertanejo do Contestado, assim como questões do coronelismo enquanto agen-
te social, da inserção do índio no contexto da época 4 – haja vista que os jornais
publicavam notícias sobre presença de indígenas na região – e os próprios
aspectos étnico-culturais dos sertanejos não foram devidamente explorados.
Pretendemos, com este expediente, refletir sobre uma pequena parcela possí-
vel de problematização na temática do Contestado, especialmente no material
historiográfico já produzido, no que tange aos já mencionados momentos ante-
riores da guerra, naquilo que Paulo Pinheiro Machado (2004) chama de “o
contestado do Contestado”, denominação que por seu turno dá título a este
artigo.

Um debate teórico possível

Inspirados pelas reflexões de Jurandir Malerba (2006), acreditamos


que ao tratarmos de aspectos lacunares em um considerável conjunto de obras
já produzidas sobre o Contestado, há necessidade de atermo-nos à produção
escrita do conflito, atribuindo à esta um caráter de fonte, de representação de
um espaço temporal. Uma vez que ao se escrever acerca de uma época se faz
uso de conceitos, normas, práticas, ideologias, entendimentos, percepções,
emoções. Enfim, contextos que se referem à outra: a época de vivência do autor
que a escreve. Assim, quando analisamos, a título de exemplo, as obras dos
oficiais memorialistas5 do Contestado, devemos entender o making off da pro-
dução destas, realizando um intenso interrogatório das condições de sua escri-
ta, desde os conceitos utilizados até os motivos que os levaram a redigir suas
memórias e análises sobre o movimento sertanejo.
Hayden White (2014, p. 97), ao analisar o texto histórico como artefa-
to literário, aponta que uma das formas “pelas quais uma área de pesquisa
erudita faz uma avaliação de si mesma é examinando a sua história”. Sendo
assim, como poderíamos desejar empreender uma observação aprofundada
sobre os “fatos do Timbó” sem que para isso pudéssemos compreender a
abordagem realizada no material intelectual já existente? Como poderíamos
denominar de lacunares tais aspectos sem que antes de mais nada inquirísse-

4
Segundo Tomporoski (2015, p. 15), “[...] pouco mais de uma década antes do início do movimento
sertanejo do Contestado (1912-1916), a imprensa paranaense noticiava conflitos entre indígenas e colo-
nos na região do Timbozinho, [...] é plausível supor que um número significativo de indígenas estivesse
na região durante os eventos ligados ao movimento sertanejo. É preciso situá-los nesse contexto”.
5
Entenda-se por “oficiais memorialistas”, membros do Exército que após o fim de suas respectivas
participações na campanha do Contestado, escreveram e/ou publicaram trabalhos sobre o conflito.

181
mos os motivos de sua omissão? Como poderíamos denominar omissos tais
escritos sem sequer determinar as circunstâncias de sua escrita?
Ora, como diria Paul Veyne (2014, p. 19), “a história é filha da memó-
ria”, ela é um aprofundamento teorizado e esquematizado da memória. Assim,
a partir da historiografia, torna-se um discurso, algo que se manifesta materi-
almente através da escrita, permeando muito daquilo que Eni Orlandi (2005, p.
31) chama de interdiscurso ou memória discursiva, “o saber discursivo que
torna possível todo dizer e que retorna sob forma do pré-construído, o já-dito
que está na base do dizível, sustentando cada tomada da palavra”. Ou seja, o
interdiscurso é o que nos permite produzir novos discursos com base na me-
mória. Quando se vivencia, se lê ou se ouve, as informações passam a fazer
parte da memorização, ao ponto que não mais nos lembramos da origem da
informação, de seu sujeito enunciador, mas apenas da informação pura ou
distorcida. É quando o anonimato age que o discurso faz sentido, tornando-se
memória discursiva. Como nos diz Charles Olivier Carbonell (1987), a historio-
grafia nada mais é que a história do discurso escrito, o qual afirma-se como
verdadeiro.
Quando, por exemplo, se trabalha com análise de textos memorialistas,
que são o início da historiografia do Contestado, o interdiscurso faz parte da
narrativa. Muitas afirmações e citações da sua textualidade estão intrinsica-
mente atrelados a um interdiscurso. Considerar a exterioridade presente em
cada obra abordada deve ser um elemento norteador da observação, uma vez
que as circunstâncias de escrita são, muitas vezes, tão importantes quanto a
própria materialidade do texto. As diversas motivações e situações, exteriores
ao objeto de problematização do trabalho analisado, em vários casos, permi-
tem trata-lo por enfoques diversificados, dando ênfase muito mais ao seu con-
texto de produção do que necessariamente a sua materialidade narrativa. Ao
se exteriorizar o conteúdo narrativo, a análise historiográfica pode trazer a luz
aspectos implícitos na materialidade do texto. Assim como nos ensina Jörn
Rüsen (2006, p. 117):

Não se pode evitar o conflito entre engajamento e interesse relativo à identi-


dade histórica das pessoas cuja historiografia pode e deve ser comparada.
Esse engajamento e interesse têm de ser sistematicamente levado em conta;
têm de se refletir sobre eles, explicá-los e discuti-los.

Todavia, uma discussão historiográfica não se faz de maneira ataba-


lhoada. Segundo Horst Walter Blanke (2006, p. 28 - 32), existe um arranjo
tipológico necessário na organização historiográfica, que pode ser feita pela
história dos historiadores, pela história das obras, pelo balanço geral, pela
história da disciplina, pela história dos métodos, pela história das ideias histó-
ricas, pela história dos problemas, pela história das funções do pensamento

182
histórico, pela história social dos historiadores ou pela história da historiogra-
fia teoricamente orientada. Porém, para Blanke (2006), é a funcionalidade o
aspecto mais importante da historiografia. É com uma função afirmativa ou
crítica da historiografia que se verificam as contradições e as lacunas existen-
tes entre as obras em análise, é com ela que é possível superar e rever posi-
ções.
Desta forma, procuraremos, a partir de então, fazer a análise historio-
gráfica conforme sugestionada por Blanke (2006), “pelas obras” que tratam do
Contestado, apontando a abordagem que cada uma delas faz acerca dos confli-
tos nos vales do Timbó e Paciência. Considerando para tal, o que Agnes Heller
(1993, p. 69) chama de objetivação, uma tradução do entendimento da história
pelo historiador, fazendo com que os atos de violência praticados naquele es-
paço, entre 1900 e 1908, sejam objetivados. Possam ser traduzidos através da
historiografia, convertendo a reflexão intelectual já produzida sobre a temática
em conhecimento.

As obras memorialistas: os militares

Os primeiros trabalhos escritos sobre a Guerra do Contestado foram


empreendidos pelos oficiais memorialistas, militares que participaram da
campanha e publicaram suas memórias após o fim do conflito em 1916, po-
dendo também serem chamados de historiadores de farda. 6 Destes, a principal
obra é a de Demerval Peixoto, intitulada A campanha do Contestado: episódios e
impressões, publicada originalmente em três volumes, sendo o primeiro em
1916, o segundo em 1918 e o último em 1920, curiosamente utilizando-se do
pseudônimo Criveláro Marcial.7
Este autor, teve seu trabalho muito elogiado pela crítica e imprensa da
época. Foi o primeiro livro publicado sobre o Contestado, o qual surpreende
não apenas pela riqueza e refinamento da pesquisa, mas também por ter sido a
primeira obra publicada por Peixoto (RODRIGUES, 2012, p. 242).
Em seu texto, Peixoto aborda os conflitos do Timbó e Paciência num
capítulo específico, intitulado “fatos anteriores”, destinando assim um espaço
próprio de sete páginas para tratar do tema. Para este autor, a região de Canoi-

6
O uso da expressão “historiador de farda” é utilizado por Rogério Rosa Rodrigues (2008; 2012) para
definir oficiais que se dedicaram à pesquisa histórica sobre o Contestado, não sendo aceitos nessa cate-
goria militares que apenas produziram obras de memória ou relatórios técnicos sobre o conflito. Para
Rodrigues (2008, p. 106), um “historiador de farda seria um oficial que se dedica, embora não exclusi-
vamente, mas principalmente, à história militar”.
7
Não se sabe ao certo os reais motivos que levaram Demerval Peixoto a utilizar-se do pseudônimo
Criveláro Marcial. Supõe-se que o tenha usado pela proximidade temporal entre o término do conflito e a
publicação da obra, temendo, quem sabe, algum tipo de retaliação pelas opiniões nela expressas. Porém,
Rodrigues (2012, p. 103) alude que o uso do pseudônimo “parece ter um caráter mais simbólico do que
de busca de anonimato [...] o nome Criveláro Marcial é uma clara menção à carreira das armas”.

183
nhas foi inicialmente um povoado pacato que após ocupação catarinense pas-
sou a ser refúgio de criminosos oriundos do Paraná, os quais incialmente não
reconheciam a autoridade de nenhum dos estados e por esse motivo formavam
bandos armados (PEIXOTO, 1995a, p. 85 - 86).
A figura de Demétrio Ramos é central na narrativa de Peixoto sobre os
primeiros conflitos no Contestado. É em torno dele que o oficial memorialista
refaz a trajetória de conflitos, narrando as primeiras rixas por movimentações
de paisanos armados na região. Contudo, não menciona nenhum outro episó-
dio além daqueles que se deram com o antigo maragato. Ao tratar dos casos de
violência, Peixoto coloca-se muito próximo da narrativa paranaense dos fatos,
inserindo em seu texto uma linguagem que define os vales do Timbó e Paciên-
cia como um espaço de periculosidade, onde imperaria o derreamento de san-
gue e a crueldade extrema. Elementos que não necessariamente refletem o
discurso dos jornais catarinenses, os quais preocupavam-se com maior vigor
no enaltecimento das decisões e medidas adotadas pelo então governador do
estado, Antônio Pereira da Silva e Oliveira, ocupante do cargo interinamente
enquanto o governador eleito, Lauro Muller, exercia o posto de ministro dos
transportes.
Outro ponto a ser evidenciado na obra de Peixoto, diz respeito ao des-
tino de Demétrio Ramos após as escaramuças no Timbó. Segundo o historiador
de farda, teria o “caudilho” desaparecido e ido viver pacificamente no interior
de Mato Grosso (PEIXOTO, 1995a, p. 91). Contudo, assim como em boa parte
da sua escrita, não menciona as fontes que o levaram a esta conclusão.
A estrutura narrativa de Peixoto e bastante objetiva e de fácil leitura.
Interpreta o surgimento do “fanatismo” como consequência da falta de instru-
ção da população tal como a expropriante ação dos coronéis locais e das em-
presas transnacionais. Elementos que naquele contexto, promovidos por
desejos de cobiça, causaram instabilidades políticas agravadas pela Questão de
Limites, levando a população sertaneja, motivada pela crença nos monges, a
rebelar-se contra o governo republicano, exigindo enérgica ação do Exército
nacional. Para este autor,

Além de fanatismo, banditismo, politicagem, limites contestados e associa-


ções de rapinantes, verdadeiras societas sceleris, havia também na conflagra-
ção mista uma dose regular de insurgimento restaurador embutido no
cérebro daquela gente infeliz. Era, pois, mais uma modalidade para a incom-
preensível e cada vez mais baralhada situação criada e criminosamente ali-
mentada pelos principais interessados na continuação da ingrata contenda
(PEIXOTO, 1995a, p. 61).

Apesar de tecer algumas críticas a ação das forças militares no Contes-


tado, especialmente ao comando do general Setembrino de Carvalho, uma vez

184
que não reconhecia como adequado o jeito germânico na instrução do Exército
– pelo menos nas campanhas militares efetuadas no interior do Brasil –, en-
tendia como dever do Exército a defesa nacional, e o Contestado exigia sim
uma intervenção federal (RODRIGUES, 2008, p. 144 - 145).
Em suma, Peixoto mostrou-se muito mais que um oficial memorialista.
Sua preocupação em implementar uma narrativa que abrangesse mais que a
descrição cronológica dos fatos, atendo-se a elementos políticos constituintes
do contexto histórico em que ele mesmo foi expectador e protagonista, o tor-
nam um intelectual, o qual, apesar de todos os objetivos implícitos no seu fazer
discursivo, contribuiu para com a implementação imediata de uma proposta de
observação e interpretação dos eventos conflituosos do início do século XX no
Sul do Brasil. Nas palavras de Machado (2004, p. 45), de “alguma maneira, os
relatos militares são semelhantes a relatos de viajantes europeus sobre regiões
atrasadas”.
O trabalho de Peixoto, iniciado possivelmente ainda durante a campa-
nha, instigou outros oficiais, colegas seus na empreitada da escrita sobre o
Contestado. Tanto que ainda na década de 1910, cerca um ano após a assinatu-
ra do acordo de limites entre Paraná e Santa Catarina, veio a público outra
densa obra memorialista sobre o conflito, A campanha do Contestado: as opera-
ções da columna sul, de autoria do então primeiro tenente do Exército, Hercu-
lano Teixeira d’Assumpção. Obra que, ao contrário de Peixoto, procura
enaltecer os feitos militares da campanha organizada pelo general Setembrino
de Carvalho, oficial comandante da última operação militar no Contestado.
Assumpção destina pouco mais de uma página para tratar dos “fatos
do Timbó” e o faz muito pela necessidade de abordagem da ação de Demétrio
Ramos, o qual chama de cabecilha politiqueiro e desabusado, responsável por
causar as primeiras anormalidades dos sertões nos primórdios do movimento
armado (ASSUMPÇÃO, 1917, p. 213). Utiliza-se da respectiva abordagem para
tecer elogios ao capitão Aleluia Pires, comandante de pequena força enviada
em 1905 para pôr fim aos conflitos na região, dado que corrobora com as con-
siderações de Rodrigues (2012, p. 243) quando este autor menciona a tendên-
cia de Assumpção colocar em primeiro plano a heroicização do Exército em sua
narrativa.
Segundo Assumpção (1917, p. 214), depois que o coronel Demétrio
Ramos teve sua família presa por força policial no Timbó, este nunca mais foi
visto na região. Contudo, jornais da época por vezes noticiaram a presença do
maragato na Lapa e em Canoinhas. Mas, tais fontes não foram obviamente uti-
lizadas pelo autor, o que vemos é mais uma vez um discurso influenciado pelos
jornais paranaenses.
Ainda dentre os memorialistas, podemos mencionar a figura de Alce-
bíades Miranda, autor da obra Contestado, que não é muito presente na histo-

185
riografia recente sobre o tema. Apesar de ter concluído seu texto em 1939,
uma publicação somente veio ocorrer em 1987, o que pode ter impactado para
sua não costumeira presença nos debates historiográficos.
Miranda era capitão do 10º Batalhão do 4º Regimento de Infantaria,
sediado na cidade de Curitiba, quando participou das operações do Exército no
Contestado. Segundo o próprio, teria decidido registrar diariamente o que com
ele se passasse quando completou 35 anos de idade. Fato este, a indicar sua
consciência sobre a importância que teria para a temporalidade, tanto que fez
questão de mencionar em livro o desejo de que seu trabalho prestasse algum
serviço à história da sua pátria (MIRANDA, 2012, p. 12).
Em análise ao texto, verificamos que Miranda destinou um capítulo
para tratar da Questão de Limites sendo este o próprio título do referido tre-
cho. Entretanto, sua perspectiva é muito mais preocupada em detalhar nuan-
ces do processo judicial do que os “fatos do Timbó”, embora os relate
sucintamente. Nesta tarefa, suas colocações não trazem grandes diferenças em
comparação àquelas apontadas por Peixoto. Não se põe em defesa de nenhum
dos lados da contenda, apesar de também considerar Demétrio um criminoso,
um jagunço. Aliás, para este memorialista, Demétrio Ramos pode ser abalizado
como o primeiro jagunço de briga surgido no Contestado (MIRANDA, 2012, p.
47).
Assim como Peixoto, sem citar fontes, Miranda infere que o antigo ma-
ragato após conferenciar com o capitão Aleluia Pires, emissário de Santa Cata-
rina, teria decidido não mais continuar com os atos de violência no Timbó,
retirando-se para Lages (MIRANDA, 2012, p. 48). Percebemos neste ponto
uma menção diferente daquela estabelecida por Peixoto, quando este último
cita o Mato Grasso como paradeiro do “caudilho do Timbó”. 8
Segundo Rodrigues (2012), as narrativas dos oficiais memorialistas
podem ser divididas em dois momentos. A primeira se dá logo após o findar
das operações no Contestado (1916-1920), momento em que as lembranças de
experiências dos eventos da guerra se faziam muito presentes na memória
local e nacional, permitindo que os autores deste período dispusessem de vas-
ta documentação oficial e do testemunho de várias pessoas que atuaram na
contenda. O segundo momento (1930-1941), caracteriza-se por ser um perío-
do em que aqueles oficias que participaram dos combates já encontravam-se
em postos mais altos na hierarquia militar, dando-lhes maior autonomia para
dizer o que pensavam sobre as ações do Exército. Entretanto, já não dispu-
nham de tantos documentos como aqueles que os antecederam (RODRIGUES,

8
Utilizamos aqui a denominação “caudilho do Timbó” em referência a publicação do jornal paranaense
A Notícia que, em matéria de capa, apresenta os atos praticados Demétrio Ramos no vale do Rio Timbó,
sendo inclusive esta edição a única publicação onde encontramos uma suposta imagem sua (A
NOTÍCIA, 08/02/1906).

186
2012, p. 240). Tal análise, justifica o uso por Demerval Peixoto do pseudônimo
Clivelaro Marcial nos dois primeiros volumes de sua obra, haja vista que este
ousou criticar determinadas ações do general Setembrino de Carvalho.
Os nuances de crítica verificados nas obras dos historiadores de farda,
demonstram uma preocupação destes oficiais escritores em construir uma
instituição militar fortalecida e participante opinativamente no governo repu-
blicano. As narrativas históricas dos memorialistas, embora estes tenham feito
estada por pouco tempo na região, podem ser consideradas fontes primárias
sobre o contexto da época (MACHADO, 2004, p. 44). Apresentam-se, além de
fonte para o estudo dos projetos de modernização e moralização do Exército
naquele período da história do Brasil, também como objeto de pesquisa aos
historiadores atuais. Pois, durante muito tempo, as informações trazidas por
estes escritores foram reproduzidas. Recentemente, tais informações estão
sendo melhor problematizadas, constatando-se, em determinados casos, como
imprecisões.9

As obras clássicas: os sociólogos

É durante as décadas de 1950, 1960 e 1970, respectivamente, que os


sociólogos passaram a objetivar pesquisas sobre a temática do Contestado.
Nesse expediente, destacam-se as obras de Maria Isaura Pereira de Queiroz, La
"Guerre Sainte" au Brésil: le mouvement messianique du "Contestado" – tese
defendida na França em 1955 e publicada no Brasil em 1957 no Boletim nº 187
da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo –;
Maurício Vinhas de Queiroz, Messianismo e conflito social: a guerra sertaneja do
Contestado; e Duglas Teixeira Monteiro, Errantes do novo século: um estudo
sobre o surto milenarista do Contestado. Estes três trabalhos são de presença
obrigatória na abordagem historiográfica do tema, muito pelo fato de serem
pesquisas que adentram em uma tentativa de compreensão erudita e acadêmi-
ca do conflito, agregando novas metodologias e fontes para as análises empre-
endidas.
Desde os trabalhos realizados pelos memorialistas, que tinham efeti-
vamente um interesse institucional, em determinados momentos particulares,
mas acima de tudo institucional – preocupados com a imagem do Exército
enquanto entidade defensora da sociedade brasileira, encarregada de pôr em
prática um modelo de desenvolvimento capitalista que a República Velha esta-

9
Um exemplo que aqui pode ser apontado, é a pesquisa de doutoramento de Márcia Janete Espig (2008).
Trabalho em que a respectiva historiadora demonstra improcedente a menção feita pelo general Setem-
brino de Carvalho em seu relatório apresentado ao ministro da guerra, e reproduzida por inúmeros textos
subsequentes, de que após o fim das obras na Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (EFSPRG),
vários trabalhadores oriundos do Sudeste e Nordeste, formaram considerável parcela dos rebeldes do
movimento do Contestado.

187
va adotando, subordinando as áreas rurais às necessidades do litoral bem co-
mo os mercados externos (MCCANN, 2007, p. 213) –, foi através dos trabalhos
dos sociólogos que a guerra adquiriu uma conotação de movimento social.
Em caminho contrário ao qual a sociologia encaminhara-se nos anos
50 – momento do surgimento de uma sociologia autêntica, nacionalista, preo-
cupada com a libertação nacional e com a transição da sociedade rural para
uma sociedade industrial e moderna (LIEDKE FILHO, 2005, p. 386) –, os estu-
dos sociológicos do Contestado, especialmente pelo pioneirismo de Pereira de
Queiroz, entendiam a modernidade ocidental não como uma meta necessária e
absoluta de civilização, mas que impedia a aproximação da realidade nacional,
a qual poderia ser considerada falha ou lacunar, uma vez que conservava ele-
mentos considerados tradicionais, distanciando assim Pereira de Queiroz de
seus colegas contemporâneos das décadas de 1950 e 1960, bem como outros
intelectuais do final do século XIX e cientistas sociais da atualidade (VILLAS
BÔAS, 2010, p. 39).
Muitos dos documentos utilizados por Maria Isaura Pereira de Queiroz
foram fornecidos por Maurício Vinhas de Queiroz, outro pesquisador da socio-
logia que dedicou-se ao estudo do conflito sul brasileiro e que esteve na região
durante as décadas de 1950 e 1960, coletando uma série de fontes e depoi-
mentos de sertanejos, os quais infelizmente foram sucessivamente negados a
pesquisadores que dedicam-se à temática do Contestado (MACHADO, 2004, p.
39).10 Fato este lamentável, tendo em conta o nível de erudição desta intelectu-
al e o valor documental que o levantamento efetivado por Vinhas de Queiroz
poderia simbolizar em novas pesquisas do tema.
Vinhas de Queiroz trouxe a público seu trabalho em 1966, sendo esta
uma das obras mais citadas pela historiografia do Contestado. Rico em deta-
lhes e embasado em quantitativa documentação, a obra Messianismo e conflito
social: a guerra sertaneja do Contestado é certamente de leitura obrigatória
para aqueles se aventuram na compreensão acadêmica do movimento sertane-
jo. Apontado por Monteiro (1974, p. 10) como “uma excelente reconstrução
histórica dos eventos, feita com espírito de historiador, mas com um desenvol-
vimento sumário da parte interpretativa”, este sociólogo reconstrói cronologi-
camente a Guerra do Contestado, desde a descrição geográfica e as primeiras
fases do povoamento até as últimas ações do líder rebelde Adeodato. Para tal,
objetivou desenvolver um estudo relacionado com a teoria do messianismo em
geral, refletindo sobre de que maneira a guerra poderia ser entendida em
comparação com outros movimentos parecidos (VINHAS DE QUEIROZ, 1977, p.

10
Apesar da menção feita por Machado, o sociólogo Duglas Teixeira Monteiro parece ter tido melhor
sorte, uma vez que registrou na introdução de seu livro, Errantes de novo século, agradecimentos a
Pereira de Queiroz por ter cedido parte do material utilizado por ela e por Vinhas de Queiroz para o
desenvolvimento de seu estudo sociológico sobre o Contestado (MONTEIRO, 1974, p. 10).

188
14). Nas palavras de Espig (2008, p. 72), Vinhas de Queiroz “estabelece uma
competente obra de reconstrução do movimento, traçando os antecedentes
históricos e o desenvolvimento, passo a passo, do conflito”.
Para este autor, “em linhas gerais, a série de fatos ocorridos no Contes-
tado se configurou em um movimento messiânico de tipo clássico, no sentido
em que foi clássico o capitalismo concorrencial na Inglaterra do século XIX”
(VINHAS DE QUEIROZ, 1977, p. 255). Nada obstante, ao elaborar suas conclu-
sões, o autor acaba por contradizer-se em vários aspectos antes defendidos no
interior de sua narrativa. Atribui ao movimento motivações relacionadas a um
“surto messiânico”, a uma “exaltação emotiva” com a presença de uma “domi-
nação carismática”, onde os “sertanejos não tinham condições militares, mate-
riais e culturais para vencer a guerra santa” (VINHAS DE QUEIROZ, 1977, p.
252).
Com relação aos conflitos nos vales do Timbó e Paciência, Vinhas de
Queiroz aprofunda interpretativamente vários elementos que desde Peixoto
não vinham sendo devidamente tratados, incluindo a ação do coronel Demétrio
Ramos. Todavia, sua abordagem não levanta nenhum dado novo, inclusive se
utiliza e cita Peixoto durante o texto evidenciando que teria embasado sua
consideração no respectivo oficial memorialista. Porém, é importante destacar
que o autor insere outra perspectiva narrativa, não estabelecendo julgamentos
sobre a região entre Porto União da Vitória e Canoinhas, ou seja, apesar de
considerar o trecho violentamente disputado, não atribui aos distintos grupos
características que viessem a designá-los como criminosos, sanguinários ou
malfeitores como até então se fazia nas narrativas memorialistas. Mesmo para
tratar do bando do coronel Demétrio, Vinhas de Queiroz (1977, p. 67) utiliza-se
da nomenclatura “sertanejos assalariados em armas”, impingindo assim uma
rotulagem menos depreciativa a figura daqueles que se dispunham a entrar em
beligerância. Curiosamente, de maneira distinta a Peixoto e Miranda, o sociólo-
go, também sem citar fontes, aponta o interior do estado de São Paulo como
destino de Demétrio Ramos.
Como já mencionado anteriormente, outro profissional da sociologia
que dedicou-se a estudar o Contestado foi Duglas Teixeira Monteiro, o qual
teve seu trabalho publicado no ano de 1974 sob o título Errantes do novo sécu-
lo: um estudo sobre o surto milenarista do Contestado. Obra tão importante para
a historiografia do Contestado quanto a de Pereira de Queiroz e Vinhas de
Queiroz, trazendo igualmente uma minuciosa análise de fontes, porém sem
preocupar-se com uma cronologia dos fatos, mas sim com o contexto geral do
movimento, observando aspectos antropológicos e sociológicos, “sobretudo, o
universo de significados simbólicos construído pelos rebeldes no transcorrer
do movimento” (ESPIG, 2008, p. 5). Nas palavras do próprio autor, sua inten-

189
ção é focalizar “predominantemente do ângulo da sociologia da religião”
(MONTEIRO, 1974, p. 10).
Na opinião de Machado (2012, p. 18), foi com a interpretação de Mon-
teiro que houve uma verdadeira virada na compreensão do movimento do
Contestado. Seu entendimento em ver o sertanejo como um elemento social
“normal”, como as mesmas condições psicológicas e físicas que qualquer outro
brasileiro – ao menos nas mesmas condições dos soldados com quem comba-
teram – promoveu uma mudança substancial na historiografia que o sucedera.
Este sociólogo inaugurou uma nova fase interpretativa, elaborando uma visão
que retirou da imagem construída dos rebeldes características fortemente
estabelecidas pelos escritos militares e repetidos nos trabalhos seguintes, na
qual estes eram vistos como “fanáticos” e “ignorantes”, parcela da sociedade
incapaz de promover o progresso tão desejado pelo projeto republicano.
A obra de Monteiro caracteriza-se por empreender uma enfática tenta-
tiva de interpretação do Contestado sob a égide do milenarismo, sem que para
isso estabeleça uma abordagem cronológica como fizera Vinhas de Queiroz. O
expediente tem por intenção “analisar o comportamento social de uma comu-
nidade humana que enfrentando uma crise global, recolocou, dentro dos limi-
tes que lhe eram dados, os problemas fundamentais de sua existência
enquanto grupo” (MONTEIRO, 1974, p. 11).
Monteiro, em termos de compreensão dos embates violentos do Tim-
bó, é o autor que mais contribuiu para o delineamento de uma estrutura social
vigente naquela região no período aqui problematizado (1900-1908). Inclusi-
ve, evidencia uma abundante documentação sobre a participação de bandos
civis armados chefiados por coronéis e mandões locais, se referenciando nos
trabalhos de Assumpção, Carvalho e Peixoto como fontes de comprovação
(MONTEIRO, 1974, p. 22).
Em outro significativo trecho de sua interpretação, o autor realiza uma
distinção das práticas de violência daquele espaço, categorizando-as, sob o
prisma weberiano, em “violência costumeira” e “violência inovadora”. Segundo
ele, o “sertão do Contestado é unanimemente descrito como um mundo de
violência. Violência por questões de honra, violência por questões políticas,
violência por questões de terra” (MONTEIRO, 1974, p. 37). Para este sociólogo,
a violência costumeira seria aquela que “faz-se entre homens que se represen-
tam em nível ideológico como iguais ou potencialmente iguais, ou entre ho-
mens efetivamente beneficiados por uma autonomia necessária” (MONTEIRO,
1974, p. 43). Por outro lado, a violência inovadora teria surgido como uma
ruptura dessa consciência de nivelamento, sendo a que se veria como mais
clareza nos conflitos surgidos a partir de 1912, já a primeira, condizente com
os “fatos do Timbó”.

190
Como foi possível perceber, as análises que a emergência da sociologia
das décadas de 1950, 1960 e 1970 trouxeram para compreensão da Guerra do
Contestado, malgrado suas críticas aqui já apontadas, nos permitem considerar
que estes trabalhos, desenvolvidos sob o âmago da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, 11 propuseram, naquele perío-
do, um impulso na produção bibliográfica da temática. A partir da década de
1980 inúmeros trabalhos – uns motivados pelo interesse dos sociólogos, ou-
tros como intenção de rebater suas interpretações – possibilitaram, muito pela
catalogação de fontes e sistematização interpretativa, o surgimento de pesqui-
sas de caráter histórico acadêmico, as quais, até a atualidade, concorrem com a
contínua e insistente publicação de livros que ainda tomam por embasamento
as considerações das narrativas militares e das obras clássicas.

As obras acadêmicas: os historiadores

No que tange a historiografia mais recente, bem como nosso foco de


análise, destacamos aqui a pesquisa de Marcia Janete Espig, 12 historiadora que
acaba por tratar rapidamente de alguns aspectos relativos à atuação de Demé-
trio Ramos (ESPIG, 2008, p. 54 - 55) quando busca desconstruir a tese, até
então reproduzida em várias obras sobre o Contestado, de que foram os supos-
tos trabalhadores vindos de diversas regiões do Brasil para a edificação da
Estrada do Ferro São Paulo-Rio Grande, que formaram o contingente respon-
sável por organizar intelectualmente o movimento sertanejo do Contestado.
No entanto, o contexto geral das ações de violência nos vales do Timbó e Paci-
ência não são propriamente problematizados por esta autora, assim como não
traz novas fontes sobre o caso. Sua preocupação destina-se em observar a ori-
gem dos líderes e integrantes dos bandos armados na região, e para tal, faz uso
de obras já abordadas neste debate, ou seja, Herculano Teixeira d’Assumpção e
Demerval Peixoto, bem como Paulo Pinheiro Machado, último autor por nós a
ser aqui versado. Em nota de rodapé, Espig (2008, p. 55) faz referência a Ma-
chado (2004) para reportar-se ao suposto destino de Demétrio Ramos após
sua respectiva prisão pela força paranaense em 1905, apontando que o “caudi-
lho” teria fugido sem destino certo.

11
A partir da década de 1950, a Universidade de São Paulo tornou-se uma instituição de referência em
estudos sociológicos. A conhecida “Escola de Sociologia da USP” empreendeu uma série de projetos de
pesquisa que tinham a frente renomados estudiosos como Roger Bastide, Florestan Fernandes, Octavio
Ianni, Fernando Henrique Cardoso, entre outros. Os estudiosos da sociologia aqui problematizados,
Maria Isaura Pereira de Queiroz, Maurício Vinhas de Queiroz e Duglas Teixeira Monteiro, ou fizeram
carreira como docentes desta instituição e/ou lá produziram suas pesquisas de pós-graduação.
12
Referente ao trabalho de Espig, utilizaremos aqui sua tese de doutorado, Personagens do Contestado –
os turmeiros da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, porém é importante destacar que este traba-
lho originou um livro sob o mesmo título publicado em 2011.

191
Em geral, a pesquisa de Espig deu um passo largo para queda de um
antigo paradigma da historiografia, o qual afirmara ter havido uma enorme
leva de migrantes trabalhadores da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande
(EFSPRG) formando a massa de rebeldes no Contestado, incluindo alguns líde-
res. Esta interpretação perdurou por décadas na bibliografia, atravessando,
sem questionamentos, os trabalhos memorialistas e sociológicos. Por seu tur-
no, a tese de Espig abarcou interpretações que permitiram um entendimento
do perfil social dos turmeiros, os quais, por suas conclusões, foram explorados
física, psíquica e economicamente, tal como segregados de assistência de mé-
dica e segurança. A autora, após esmiuçar um considerável conjunto de fontes,
conclui que “não houve operários da construção da ferrovia entre os líderes do
conflito” (ESPIG, 2008, p. 362).
Já a obra de Paulo Pinheiro Machado, Lideranças do Contestado: a for-
mação e a atuação das chefias caboclas (1912-1916), fruto de sua tese de dou-
torado, é considerado o mais completo e aprofundado trabalho já produzido
sobre o Contestado. No texto, Machado procura investigar minuciosamente
nuances das lideranças caboclas do movimento, fazendo uso de uma grande
quantidade de fontes, inclusive orais, assim como também analisa em detalhes
toda a historiografia até então existente. Porém, a principal contribuição deste
historiador foi introduzir nos debates do Contestado uma nova perspectiva de
abordagem dos sertanejos, desconstruindo a rotulagem, corriqueiramente
reproduzida, de que os caboclos combatentes formavam uma leva de aliena-
dos, ignorantes, fanáticos e jagunços.
Desde Miranda, Machado é o autor que mais detalhadamente abordou
os “fatos do Timbó”. Neste sentido, destina sua atenção sobre aquela região no
capítulo intitulado “aspectos institucionais”, mais precisamente no tópico de-
nominado “desmando e usurpações”, trecho onde disserta sobre as particula-
ridades da ação coronelista e o processo sobre a Questão de Limites em
trâmite nas esferas jurídicas federais naquele momento. Inicia as discussões
dos casos de violência do Timbó e Paciência pelo viés das disputas políticas na
região, listando aspectos econômicos e sociais. Dentre todos os autores aqui
tratados, Machado é aquele que mais se preocupou em fazer uma crítica dos
discursos realizados pelos governantes do Paraná e Santa Catarina, não ex-
pressando assim um posicionamento tendencioso para com uma ou outra fon-
te, o que, até então, frequentemente se verificara na historiografia. É, inclusive,
um dos únicos a preocupar-se com citação exata das fontes utilizadas em cada
informação.
Machado, de maneira sintética, descreve nuances da ação do coronel
Demétrio Ramos citando e problematizando os dados apresentados pelos do-
cumentos. Segundo o autor, seria muito difícil que Demétrio tivesse consegui-
do reunir uma milícia de 500 homens para investir contra União da Vitória. “O

192
mais provável é que a presença do grupo armado de Demétrio em apoio às
autoridades catarinenses no Timbó houvesse tolhido a ação paranaense neste
vale” (MACHADO, 2004, p. 131). Levanta este questionamento em análise ao
texto de Vinhas de Queiroz, que, por sua vez, baseia-se nos dados apresentados
por Peixoto, o qual “normalmente dá maior crédito à versão paranaense”
(MACHADO, 2004, p. 155).
O aprisionamento da família de Demétrio também é presente na nar-
rativa de Machado. Utiliza como fonte o pronunciamento feito pelo então go-
vernador de Santa Catarina, Antonio Pereira da Silva e Oliveira, na abertura do
Congresso Representativo do Estado em 18 de setembro de 1906:

Houve um grande número de casas incendiadas e violências praticadas con-


tra a população pela força paranaense. O líder dos moradores da região, De-
métrio Ramos, foi preso, tendo sua casa invadida e incendiada à noite, nunca
mais se tendo sabido de seu paradeiro. Alguns afirmam que ele fugiu para o
Mato Grosso; outros, que foi para São Paulo, mas não há dúvidas de que De-
métrio teve de abandonar a região porque sua família tornou-se refém da
força paranaense depois daquele episódio (MACHADO, 2004, p. 131, grifo
nosso).

Duas considerações são sugestivas quanto ao trecho citado. A primeira


diz respeito à prisão de Demétrio já que o pronunciamento do governador de
Santa Catarina não deixa claro quem exatamente o juiz de União da Vitória e
sua força teriam levado presos, posto que menciona apenas terem invadido a
casa e aprisionado a família. Em edição do jornal paranaense Diário da Tarde
de 19 de janeiro de 1906, o caso é tratado com maiores detalhes, destacando
que apesar da busca ser especificamente para a captura de Demétrio, 13 o pro-
curado não se encontrava na residência no momento da ação, tendo ainda
tentado interceptar o vapor em que a força policial retornava a União da Vitó-
ria após atearem fogo a sua propriedade, mas desistindo quando mulher e
filhos foram expostos na proa da embarcação.
A segunda consideração refere-se ao destino de Demétrio Ramos após
terem feito sua esposa e filhos reféns. Pelo texto de Machado, teria ele seguido
para São Paulo segundo uns, ou para o Mato Grosso segundo outros, não refe-
renciando exatamente quem seria “uns” e quem seria “outros”. Contudo, pelo
que aqui já discutimos, ficou claro que a menção de São Paulo está embasada
na obra de Vinhas de Queiroz (1977, p. 67) e a de Mato Grosso na de Peixoto
(1995, p. 91), não entrando no debate as considerações trazidas por Miranda
(2012, p. 48) ao mencionar Lages como suposto destino do “caudilho do Tim-
bó”.

13
O juiz de União da Vitória teria recebido uma precatória, enviada pelo estado do Rio Grande Sul,
solicitando a prisão do coronel Demétrio Ramos (DIÁRIO DA TARDE, 19/09/1906).

193
Na verdade, indiretamente todos podem estar certos, pois, fazendo uso
dos jornais como fonte, verificamos que a trajetória de Demétrio no Sul do
Brasil teve outros desdobramentos. Matérias do jornal A Federação sugerem a
participação do antigo maragato na Revolução Gaúcha de 1923, juntamente
com a figura do Coronel Fabrício Vieira, outro personagem bastante citado na
historiografia do Contestado, líder de um numeroso grupo de vaqueanos que
atuou junto a Exército em combate aos sertanejos na região do Timbó, Iguaçu e
Canoinhas. Em telegrama emitido pelo então intendente e o Conselho Munici-
pal de Vacaria ao governador catarinense, Hercílio Luz, consta:

Exmo. Dr. Hercílio Luz, governador de Santa Catarina. - Florianópolis - Os


abaixo firmados, intendente e Conselho Municipal do município de Vacaria,
limítrofe com o estado de Santa Catarina, vêm em nome do povo de Vacaria,
que legitimamente representam, protestar perante v. ex. contra a ostensiva
concentração de forças revolucionárias aliciadas pelo desalmado filho dessa
terra sr. Liborio Antônio Rodrigues e capitaneados pelos conhecidos bando-
leiros Manoel Fabricio Vieira e Demétrio Ramos. Essas forças estão acampa-
das em Campo Belo, distrito do município de Lages, proximidades do rio
Pelotas, sendo ali o ponto escolhido para a concentração [...] (A FEDERAÇÃO,
17/07/1923).14

Antes ainda, em abril de 1906, o jornal paranaense A República já noti-


ciava em texto intitulado “O Demétrio”, que Ramos estaria em Lages, depois de
ter ido até Florianópolis, onde teria recebido o título de doutor. O periódico
comenta que grandes festas foram feitas para o “caudilho do Timbó”, incluindo
bailes e foguetórios. Seria ele, segundo o jornal, um herói para os catarinenses
(A REPÚBLICA, 19/04/1906).
O nome de Demétrio Ramos ainda aparece em outras publicações do A
Federação. Em matéria de primeira página, publicada no dia 24 de julho de
1923, consta, logo na chamada, que “os bandoleiros de Demetrio Ramos foram
completamente derrotados - 48 Mortos e numerosos feridos” (A FEDERAÇÃO,
24/07/1923). Já em publicação do dia 30 de julho, encontra-se outro dado
interessante, dando fortes indícios para a hipótese de que o estado do Mato
Grosso foi destino do maragato:

Apesar dos vários meses de campanha, do ardor combativo dos guerrilhei-


ros libertadores, do entusiasmo cívico que a causa desperta em toda a gente,
como servem de exemplo o sr. Baptista Pereira, no Rio e Pacheco Prates em
São Paulo; apesar do concurso valioso e desinteressado que ela vem rece-
bendo de toda a parte, de Demétrio Ramos, de Mato Grosso, de Fabricio Viei-
ra do ex-Contestado, e dos correntinos e uruguaios que servem ás ordens de
Adalberto Correia e Baptista Luzardo, apesar de tudo isso o que se vê é que a
masorca, em vez de progredir e produzir, realmente, a saturação desejada,

14
As citações de fontes de época tiveram sua grafia atualizada.

194
rarefaz-se, evapora-se, dia por dia, dilui-se e quase se extingue (A
FEDERAÇÃO, 30/07/1923).

Em uma breve pesquisa pelas pistas indicadas na historiografia e nos


jornais, pudemos chegar ao nome de Demétrio José Ramos, originário do esta-
do do Rio Grande do Sul e radicado no Mato Grosso, onde, pelo que consta em
documentos do arquivo Municipal de Três Lagoas, chegou, no mesmo municí-
pio, oriundo da cidade de Vacaria. Ocupou o cargo de prefeito municipal no ano
de 1932, durante a Revolução Constitucionalista de São Paulo.
Não é nosso objetivo neste trabalho aprofundarmo-nos na biografia do
coronel Demétrio Ramos. Contudo, fica aqui a menção de que esta tarefa pode
constituir-se de uma razoável e exequível futura pesquisa dentro de um refe-
rencial teórico atrelado à micro-história ou mesmo de história biográfica, ten-
do em conta que a trajetória de Demétrio permeia um ambiente de
estruturação do Brasil enquanto República, quando as revoltas e conflitos esti-
veram intrínsecos a tal estruturação, assim como podem iluminar as ações
coronelistas da época, a qual, como já apontamos, é carente de aprofundamen-
to na temática do Contestado.
Pelo apresentado, fica claro a considerável evolução promovida com
dedicação acadêmica sobre as diversas lacunas que a interpretação militar e
sociológica deixara sobre o Contestado. Lacunas que ainda são muitas, porém,
vêm a passos largos sendo preenchidas pela dedicação de profissionais, não só
da história, mas de outros campos do conhecimento.
A redemocratização do Brasil, iniciada em 1984 com as campanhas em
prol de eleições diretas e sua concretização em 1988 com a promulgação da
atual Constituição, deram novos e esperados ares a intelectualidade brasileira,
a qual se viu, a partir daquele momento, mais aberta e segura para fazer uso de
crítica a determinados discursos então vigentes, colocando-se definitivamente
contra a visão preconceituosa perpetuada na historiografia da Guerra do Con-
testado. Aliado a isso, houve um grande salto na criação de universidades,
principalmente estaduais e particulares naqueles anos – se, em 1980 o país
possuía 65 instituições de ensino superior, em 1998 esse número passara para
153, um crescimento de 135% (MARTINS, 2000, p. 43 - 44) – fato que propici-
ou acesso à educação superior a um número consideravelmente maior de bra-
sileiros, aumentado consequentemente a leitura interpretativa da temática.
Some-se ainda o maior incentivo a pós-graduação a partir da década de 2000,
fomentando novas pesquisas que possibilitaram estender o leque de alcance
dessas novas interpretações a um número maior de interessados.
Todo esse contexto contribuiu para que hoje o Contestado, finalmente,
inicie um processo de reconhecimento como um evento único na história do
país e não mais fique como um subtema de Canudos nos livros didáticos. A

195
expectativa certamente é esta, especialmente porque o atual momento reme-
mora o centenário do movimento, situação que contribui para sua maior foca-
lização, materializada no considerável número de eventos acadêmicos e não
acadêmicos que se seguem desde o ano de 2012.

Algumas considerações

Por fim, cabe-nos apontar algumas considerações sobre a trajetória de


análise historiográfica dos “casos do Timbó” que aqui procuramos desenvol-
ver. A primeira delas, diz respeito ao caráter de fonte que as inaugurais publi-
cações sobre o Contestado apresentam, especialmente aquelas produzidas
pelos oficiais memorialistas, os quais participaram ativamente do conflito,
atuando na repressão dos sertanejos, fato que os fazem protagonistas de suas
próprias narrativas. Estes textos, são uma narração de memória e, assim sen-
do, evidenciam pensamentos, sentimentos, ideologias e preferências. Preferên-
cias que cada oficial atribuiu aos distintos estados brasileiros – Paraná e Santa
Catarina – na disputa pelo território em litígio. Pois, conforme pudemos perce-
ber, as versões paranaenses dos conflitos nos vales do Timbó e Paciência são
as que predominam nessas narrativas, constituindo um lado tendencioso do
discurso, aquilo que Hyden White chama de “elaboração de enredo histórico”,
uma vez que, do ponto de vista da narrativa, historiadores e romancistas não
se diferem. É através da elaboração do enredo que os historiadores escrevem
“estórias”. Por conseguinte, “estórias, com declarações factuais, são entidades
linguísticas e pertencem à ordem do discurso” (WHITE, 2006, p. 192).
Em segundo lugar, ainda sob a questão do discurso, percebemos sua
relação intrínseca com a memória, especialmente no que Orlandi (2005) con-
sidera como “interdiscurso”, ou seja, informações de memória e esquecimento
agindo antes da materialização discursiva. Questões que são observáveis nos
textos dos historiadores de farda quando estes efetivam narrativas de fatos dos
quais não foram testemunhas oculares, como também não formaram opinião
pela análise de fontes documentais. Mas, narrativas que passaram a integrar os
seus discursos em uma lógica de “memória discursiva”, pela redação de infor-
mações que faziam parte de suas memórias subjetivas, mas que não mais po-
deriam ter sua fonte originária determinada.
Outro aspecto de relevância, diz respeito aos problemas de rigor aca-
dêmico apontadas por Espig (2008), no sentido de que grande parte da produ-
ção bibliográfica do Contestado foi realizada por meio de um “amadorismo
historiográfico”, em geral por entusiastas da guerra. Situação que hoje propicia
a continuidade de publicações de trabalhos a perpetuarem discursos pejorati-
vos, preconceituosos e superficiais. Em contrapartida, vemos nos últimos anos,
principalmente a partir da publicação do trabalho de Paulo Pinheiro Machado

196
(2004), um crescimento bastante significativo na produção acadêmico sobre o
Contestado, trazendo a público um grande avanço nas pesquisas bem como na
utilização de fontes.
Neste contexto, os jornais estão aos poucos ganhando significativo
destaque, materializados, a título de exemplo, nas recentes obras de Liz Andréa
Dalfré, Outras narrativas da nacionalidade: o movimento do Contestado, e a
organizada por Márcia Janete Espig, Notícias de uma guerra centenária: o mo-
vimento do Contestado através do jornal A Federação (1912-1916). Trabalhos
que vêm a alicerçar as fontes jornalísticas como documento possível para cons-
trução de boas produções historiográficas do Contestado, desconstruindo uma
visão positivista de que os jornais não constituem exequíveis ferramentas de
análise para o ofício do historiador.
Por último, se faz necessário considerar como insuficiente o tratamen-
to historiográfico dado aos conflitos nos vales do Timbó e Paciência entre 1900
e 1908, cerne de nossa observação analítica. Verificamos que estes conflitos,
antecedentes a eclosão da batalha do Irani – batalha ocorrida no atual estado
de Santa Catarina e definida como marco do início do movimento do Contesta-
do – foram, até o presente momento, diminutamente desenvolvidas na biblio-
grafia do tema. Com exceção de Machado (2004), as demais obras dedicaram
pouco mais de uma página para abordar os conflitos, políticos e coronelistas
pela posse e exploração dá área constituída entre as vilas de Porto União da
Vitória e Canoinhas, sendo que as fontes jornalísticas podem compor-se numa
alternativa de avanço para com a pesquisa histórica deste contexto.

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199
A QUESTÃO DE LIMITES ENTRE O PARANÁ E
SANTA CATARINA E A IMPRENSA
HUMORÍSTICA PARANAENSE1

ANA CRHISTINA VANALI2

Introdução

Uma imagem vale mais do que mil palavras? Essa é uma frase comum
que estamos acostumados a ouvir. A imprensa teve um papel muito importante
na implantação da República no Brasil e a imprensa humorística serviu como
instrumento de crítica política e social contribuindo para a formação de uma
opinião mais informada e esclarecida e para a demonstração de sua diversida-
de ideológica.3 A imprensa era o mais importante instrumento de ação e o
principal veículo de afirmação dos partidos nesse período da Primeira Repú-
blica. Eram os jornais quem marcavam a agenda política e pressionavam ou
defendiam os governos, eram eles os grandes formadores da opinião pública.
A caricatura e a charge são formas de linguagem artística, são imagens
concebidas para “dizer” o que não é explícito, é um outro olhar, que ao focali-
zar o essencial extrapola, para mostrar aquilo que permanecia oculto. Estão
inseridas no campo da reflexão, e não do humor, possuindo uma linguagem
sofisticada que nos faz pensar. Elas conseguem, de forma quase sempre cômica
e com impacto, resumir toda a essência de uma informação. Transmitem a
informação com leveza e graça. O riso como sinônimo de contestação. O humor
pode ser investigado por diferentes áreas de conhecimento, como por exemplo,
a Sociologia pois a imagem se torna fonte de pesquisa para os costumes sociais

1
Parte das reflexões realizadas nesse trabalho foram originalmente publicadas nos anais de evento do
XVII Congresso Brasileiro de Sociologia.
2
Doutora em Sociologia pela UFPR. Professora de Sociologia da UTFPR - Campus Curitiba. E-mail:
anacvanali@gmail.com.
3
Um outro aspecto da importância da imprensa humorística desse período da Primeira República seria a
análise da renovação da arte da caricatura e do desenho humorístico ou mesmo a introdução de novas
correntes estéticas, mas esses temas não serão tratados nesse trabalho.

200
e políticos da época em que está inserida. Por meio das imagens somos condu-
zidos ao cotidiano de uma época, mas somente quem possui o conhecimento
sobre a ocorrência poderá entender adequadamente a mensagem contida na
imagem.
Charge4 é a representação pictórica de caráter cômico que provoca um
riso, uma sátira gráfica. Um produto jornalístico, que satiriza um acontecimen-
to real e fato específico, geralmente de caráter político e de conhecimento pú-
blico. É atrelada a uma notícia e publicada na mesma época desta.
Caricatura5 é a representação de um personagem conhecido, político
ou artista. Ela dá ênfase ao exagero das características da pessoa acentuando
gestos, vícios e hábitos particulares do caráter físico e moral do indivíduo,
representado de forma humorística. Pelo exagero dos traços e pela síntese
formal, a caricatura alarga os pontos de vista, desloca o leitor mediante a iden-
tificação ou o estranhamento para então abrir a possibilidade de outras reali-
dades, alteradas ou reelaboradas. Revela o absurdo no familiar e a
familiaridade no que é estranho, mostrando além da imagem, além do alvo que
pretende atingir. Torna exposto muitos julgamentos, mas de forma democráti-
ca, abrindo espaço para a decisão do leitor. É formadora de opinião, mas de-
pende de uma relação de compromisso do leitor com a realidade, estando o
autor/leitor inseridos num mesmo contexto, numa experiência cultural co-
mum. Os caricaturistas são influenciados pelo contexto tanto quanto tentam
influenciar o mesmo. Por isso, entender e interpretar caricaturas de outros
tempos implica em observar atentamente o contexto em que foram produzi-
das. A caricatura se destina principalmente ao grande público, porque sua
linguagem plástica é muito mais fácil de se apreender do que o verbal
(JANOVITCH, 2006).
As caricaturas e as charges, o humor gráfico, desafiam a lógica pro-
pondo intercâmbios entre imagens e palavras. O permanente alvoroço político
da Primeira República fornecia a melhor matéria-prima para a imprensa hu-
morística, para um humor simples e direto, por vezes um pouco grosseiro, que
encontrava o melhor dos ecos numa população cansada de tamanha confusão.
O humorismo não vive exclusivamente em jornais satíricos e humorísticos,
mas aparece também nos diários noticiosos e políticos, pois toda a imprensa

4
Charge é um estilo de ilustração que tem por finalidade satirizar, por meio de uma caricatura, algum
acontecimento atual com uma ou mais personagens envolvidos. A palavra é de origem francesa e signifi-
ca carga, ou seja, exagera traços do caráter de alguém ou de algo para torná-lo burlesco. Mais do que um
simples desenho, a charge é uma crítica político-social onde o artista expressa graficamente sua visão
sobre determinadas situações cotidianas através do humor e da sátira. Para entender uma charge, não é
preciso ser necessariamente uma pessoa culta, basta estar ao par do que acontece ao seu redor, pois a
charge satiriza um certo fato, como ideia, acontecimento, situação ou pessoa, envolvendo principalmente
casos de caráter político que seja de conhecimento do público (TEIXEIRA, 2005).
5
Caricatura é palavra de origem italiana “caricare” que significa carregar, exagerar, aumentar algo em
proporção (TEIXEIRA, 2005).

201
toma consciência da importância de ter desenhos humorísticos, caricaturas e
charges em suas páginas (LUSTOSA, 2011).
Os caricaturistas registraram os momentos mais importantes da im-
plantação republicana. Suas imagens reunidas retratam as articulações parti-
dárias da política local e do país. A nós, resta descobrir o contexto em que
foram elaboradas e a indignação diante da abordagem de determinados assun-
tos. A caricatura política tem por alvo não o achincalhamento do indivíduo,
mas o ataque ao sistema, a sátira política. As caricaturas e as charges têm uma
carga opinativa, pois ao fazer chacota de algum assunto, estão se posicionando
diante dele. Assim como, também ao representar certos personagens locais,
como os políticos, muitas vezes o homenageiam.
Os primeiros anos da república foram tempos difíceis e a austeridade
que caracteriza a vida político-administrativa não inspirava tiradas críticas e
jocosas. As limitações impostas à imprensa diária se estenderam e se intensifi-
caram para os periódicos de ilustrações caricaturais. 6 A normalização política
do país é alcançada no governo de Campos Salles (1898-1902) e iria constituir
um forte incentivo para o ressurgimento da caricatura. O país vivia um período
de estabilidade política, financeira e social, graças à austeridade e prudência
dos primeiros presidentes republicanos e nesse período surgem no Rio de
Janeiro os seguintes periódicos humorísticos: Revista da Semana (1900)7, O
Malho (1902)8, Fon-Fon (1907)9 e Careta (1908).10
Esse clima também envolve Curitiba onde aparecem os seguintes pe-
riódicos: Guarany, Fanfarra, Caras e Carrancas (1902) e Pierrot (1904). Todos
de curta existência. O grande momento da caricatura paranaense é o ano de
1907 quando são lançados os periódicos O Olho da Rua (13/04/1907 a 1911) e
A Carga (01/08/1907). Depois segue-se A Rolha (1908), Troças e Traços

6
A charge pode ter um alcance maior do que um editorial, e como desenho crítico, é temida pelas pesso-
as com poder. Por isso que quando se estabelece censura em algum país, a charge pode ser o primeiro
alvo dos censores.
7
Revista da Semana circulou de 1900 a 1959 e foi fundada por Álvaro de Tefé com a ajuda de Medeiros
e Albuquerque e Raul Pederneiras. Foi a primeira revista ilustrada a utilizar fotografias em suas páginas
(TEIXEIRA, 2007, p. 84).
8
O Malho circulou de 1902 a 1954 e foi fundada por Luís Bartolomeu. Teve pequena interrupção duran-
te a Revolução de 30 por sua oposição aos candidatos da Aliança Liberal. Por suas páginas passaram
praticamente todos os chargistas da Primeira República. A partir de 1918 passou a ser dirigida por J.
Carlos e Alvaro Moreyra. Foi a mais importante revista de crítica política de seu tempo (TEIXEIRA,
2007, p. 84). Ver Anexo Figuras 1, 21 e 22.
9
Fon-Fon circulou de 1907 a 1958 e foi fundada em plena euforia da belle-époque e seu nome homena-
geia os fords-bigodes que começaram a percorrer a recém-inaugurada Avenida Central no Rio de Janei-
ro. Seu nome é uma alusão ao barulho produzido pela buzina dos automóveis. Considerada legítima
representante do movimento simbolista tinha mais cunho literário do que chargista e foi grande divulga-
dora da arte da fotografia que no início da república dava os primeiros passos (TEIXEIRA, 2007, p. 83).
10
Careta circulou de 1908 a 1960 e foi fundada por Jorge Schmidt reunindo alguns dos maiores chargis-
tas da Primeira República. Dotada de excelente padrão gráfico a revista se caracterizou pela capa colori-
da sempre com charges de crítica política (TEIXEIRA, 2007, p. 83). Ver Anexo Figura 20.

202
(1908)11, Paraná Moderno (novembro 1910)12, A Bomba (12/06/1913 - único
ano de circulação)13, Revista do Povo (21/10/1916) e O Garoto (1916)14. O Olho
da Rua, revista de caricaturas, ilustrada por Mário de Barros 15, marcou o apo-
geu do desenho humorístico em Curitiba.16
Pelo humor e pela sátira, as pessoas se identificam, ao mesmo tempo
que pelo estranhamento do cômico, reelaboram seus conceitos e suas posturas
na sociedade. A imprensa humorística possibilita a ponte entre o espaço públi-
co e o privado, a rua e a política, e a intimidade dos lares, a reflexão individual,
convidando à participação da vida lá fora. As charges da Primeira República
têm pouca semelhança com as linguagens gráficas contemporâneas. Nesse
período as imagens em geral não eram utilizadas no cotidiano para informar e
divulgar a política. A fotografia mal dava os primeiros passos nos jornais e
revistas da época. De modo geral a sociedade ainda não havia descoberto a
potencialidade da narrativa das imagens, não supunham que ela pudesse por si
só nomear seu conteúdo, por isso era comum as charges virem acompanhadas
de textos verbais, as vezes longos, monótonos e prolixos que tinham a tarefa de
explicar seu conteúdo dizendo aquilo que se supunha que seu traço não pudes-
se evidenciar. O texto verbal funcionava como suporte doador de sentido e
significado à sua narrativa visual.
Com o amadurecimento da charge e dos meios de comunicação, o texto
verbal vai aos poucos perdendo a importância como suporte para as significa-

11
Troças e Traços foi um livro com texto de Euclides Bandeira e ilustrações de Mario de Barros que
focaliza e satiriza ângulos típicos da vida curitibana e retrata pessoas de projeção na cidade.
12
Paraná Moderno, com direção de Jayme Reis e Romário Martins. Mario de Barros faz pequenos perfis
em silhueta das principais figuras políticas da época (DEMENECK, s.d).
13
Ver Anexo Figura 18.
14
O Garoto foi um jornal humorístico que saiu exatamente quando o acordo da questão dos limites entre
o Paraná e Santa Catarina monopolizava as atenções gerais. Segundo Carneiro (1975, p. 50 - 51) quase
todas as ilustrações se inspiraram no acontecimento. Tanto as charges, como o título, as vinhetas, os
detalhes, até mesmo os anúncios, denotam firmeza e bom traço e não há como identificar suas autorias –
o anonimato é geral. Sua tiragem teria sido limitadíssima. Apesar de inúmeras tentativas, ainda não
conseguimos localizar um único exemplar desse periódico. Ver Anexo Figura 23.
15
Herônio e Sá Christão eram os pseudônimos de Mário de Barros, um dos caricaturistas mais importan-
tes do período. Nasceu em 1879, em Jaú, no estado de São Paulo e mudou-se para o Paraná, com o
advento da República. Estudou na Escola de Belas Artes, sob a supervisão de Mariano de Lima, estu-
dando desenho e técnicas de gravura. Entre seus colegas estavam João Turim, Zaco Paraná, Aureliano
Silveira, que marcaram a arte paranaense. Foi funcionário público nos Correios e Telégrafos e professor
de desenho do Ginásio Paranaense. A sagacidade de suas charges políticas e seu sarcasmo anticlerical
destaca-se pelo traço aprimorado. Foi colaborador de O Olho da Rua, A Carga, O Sapo, Paraná Moder-
no, A Bomba, entre outras revistas. Muitas vezes usou o pseudônimo de Sá Christão, especialmente
quando seus alvos eram os padres (CARNEIRO, 1975, p. 43 - 44). Ver Anexo Figuras 4, 6, 7, 8, 10, 11,
12, 16 e 17.
16
A revista "O Olho da Rua" era um periódico quinzenal, com uma tiragem inicial de 2000 exemplares,
dobrando a partir do segundo número. Custava 200 réis e o endereço da redação era à rua Ébano Pereira,
número 4. Os sócios fundadores da revista foram Seraphim França, Heitor Valente e Mário de Barros. A
revista compunha-se, geralmente de 28 a 30 páginas e sua capa trazia sempre uma charge colorida.
Circulou de 1907 a 1911. A proposta de trabalho da revista era ser o centro das novidades, das notícias,
das mudanças e ter um contato mais próximo com a modernização (QUELUZ, 1996). Ver Anexo Figu-
ras 2, 3, 5, 9, 13, 14, 15 e 19.

203
ções, tornando-se dispensável. Por toda a República Velha foi através das char-
ges veiculadas nas revistas ilustradas, que uniam traço de humor mais a infor-
mação política, que circulou a opinião dos mais cultos a respeito de fatos e
personagens políticos, sem a aborrecida e verborrágica sisudez dos jornais
diários.

A imprensa humorística paranaense e a questão de limites


entre o Paraná e Santa Catarina

Nepotismo, gastos excessivos, corrupção, filiações partidárias – ques-


tões que ainda hoje fazem parte do meio político brasileiro já eram temas de
debates e discussões na imprensa humorística do início do século XX. As ane-
dotas, caricaturas e charges são marcadas por assuntos relacionados ao cotidi-
ano e a política, mostrando fragmentos das redes de relações entre os
diferentes atores. Inseridas nesse discurso, estavam as queixas dos eleitores
diante da falta de empenho dos políticos paranaenses em defender os interes-
ses do Estado. Durante as disputas de terras entre o Paraná e Santa Catarina,
diversas charges defendiam o território paranaense e se transformaram em
instrumentos de contestação frente aos governos federal e estadual. Questio-
nava-se a passividade dos políticos paranaenses ante a movimentação catari-
nense que desde 1891 vinha requerendo parte do território vizinho, numa
disputa de terras que se desenrolou desde o final do século XIX e culminou na
Campanha do Contestado (1912-1916) (ver Anexo Figuras 2, 7, 8, 9, 10, 11, 13,
17, 18, 20, 21 e 23).
É importante considerar que nesse momento da Primeira República, a
fixação de fronteiras era primordial para o fortalecimento político do Paraná e
para a construção de sua identidade. Desde a instalação da província, em 1853,
os intelectuais do Paraná vinham tentando forjar uma identidade para o Esta-
do. A vinda dos imigrantes europeus, na segunda metade do século XIX altera-
ram a sua composição luso-brasileira, o que dificultava a definição de
elementos que caracterizassem a região e seu povo (ver Anexo Figura 5). Dessa
forma, a definição das fronteiras paranaenses, uma questão que se arrastava
desde a Questão de Palmas (referente ao limite entre o Brasil e a Argentina)17
adquiria contornos políticos e econômicos importantes (TRINDADE, 1997).

17
Algumas disputas territoriais se acirraram nos primeiros anos do século XX, em especial com relação
ao Paraná e Santa Catarina. Porém, desde o século XIX haviam disputas territoriais entre Santa Catarina
e São Paulo, e entre o Brasil e a Argentina. A primeira delimitação a Oeste com relação à região Argen-
tina veio do Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, que definia os pontos geográficos fronteiriços, como
os rios Uruguai, Paraná e uma parte do Iguaçu. Em 1857, o Estado brasileiro aproveitou a guerra civil
argentina para renegociar os limites a partir dos rios Peperi-Guaçu. A discussão, que ganhou o nome de
Questão de Palmas, se estendeu até a solução através do instrumento internacional da Arbitragem, feita
pelo presidente estadunidense Grover S. Cleveland que em 1895 considerou de posse brasileira os
30.621 km² disputados a partir da posse por ocupação. Segundo Censo Demográfico de 1890, havia na

204
A questão de limites entre Paraná e Santa Catarina é antiga. Desde a
formação do Império Brasileiro, as províncias de São Paulo e Santa Catarina
não conheciam seus limites. Em 1853, com a criação da Província do Paraná,
desmembrada de São Paulo, abriu-se o debate sobre a linha limítrofe, discus-
são que passou a ser mais acirrada entre as duas unidades federativas após a
implantação da república. A questão envolvia o chamado “Território Contesta-
do”, na época sob a administração do Paraná e localizado entre o rio Iguaçu (ao
Norte), o rio Uruguai (ao Sul), a Serra Geral (ao Leste) até a fronteira com a
Argentina (ao Oeste). Enquanto Paraná e Santa Catarina procuravam encontrar
uma solução para o assunto, o Império havia decidido em 1879 que provisori-
amente caberia ao Paraná administrar as terras ao Oeste do Rio do Peixe. Em
1900, o governo catarinense entrou com uma ação judicial contra o Estado do
Paraná no Supremo Tribunal Federal (STF) reclamando seus direitos sobre
todo o território. Em 1904, o STF manifestou-se oficialmente a favor de Santa
Catarina (ver Anexo Figuras 1 e 3), decisão confirmada em 1909 e ratificada
em 1910 (ver Anexo Figuras 12, 14, 15 e 16), determinando que os paranaen-
ses entregassem a administração das terras aos catarinenses. O governo do
Paraná apoiado pela população, rebelou-se e não acatou a decisão, o que gerou
um impasse jurídico-administrativo no país (ver Anexo Figuras 4 e 6).
A construção da ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul trouxe a valori-
zação da região então contestada entre Paraná e Santa Catarina. 18 Em 1901, a
influência dos deputados catarinenses, e sobretudo de Lauro Muller, no cená-
rio federal fez com que o Paraná fosse colocado no banco dos réus, mesmo a
questão não sendo de competência do Supremo Tribunal Federal. Em 1904, o
STF deu ganho de causa para Santa Catarina (ver Anexo Figura 1). Os parana-
enses recorreram da decisão em 1909 e 1910, sem sucesso. A decisão só não
foi executada de imediato porque o Juiz Federal de Curitiba, João Batista da
Costa Carvalho, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, con-
cordava com a posição paranaense da necessidade de uma lei federal para a
concretização da decisão.
Parte da região em litígio tinha grupos políticos que viam no Paraná
maiores possibilidades de participação política e de atendimento de suas de-
mandas do que se pertencessem à Santa Catarina. Quando a decisão foi dada
como favorável ao estado catarinense, muitos deles protestaram e chegaram a

região 5.763 brasileiros e 30 estrangeiros, nenhum desses de nacionalidade argentina (MARTINELLO,


2016).
18
Paralelamente à disputa jurídica travada no Supremo Tribunal Federal, travava-se uma guerra entre os
habitantes da região, agravada com a concessão de terras feita pelo governo, em 1908, à empresa norte-
americana Brazil Railway Company. Através desse acordo, a companhia recebeu inicialmente 15 km de
largura de terras (de cada lado) para a construção da estrada de ferro São Paulo – Rio Grande do Sul. Os
caboclos que moravam nessas áreas foram violentamente expulsos e agruparam-se em torno da figura do
monge José Maria, dando início a um movimento social de luta pela posse da terra.

205
cogitar a possibilidade da formação de um estado independente para a região,
denominado Estado das Missões, apoiados inclusive pelos políticos paranaen-
ses. A tensão cresceu ao ponto da quase deflagração de um conflito armado
fazendo com que o governo federal interferisse na questão (ver Anexo Figura
19). Após os conflitos e as negociações, o acordo de 20 de outubro de 1916
definiu que o Paraná mantivesse 20.000 km² do seu território que estava em
disputa e os outros 28.000 km² passaram para a administração de Santa Cata-
rina (ver Anexo Figuras 21 e 22). O relatório final da comissão de limites entre
o Paraná e Santa Catarina, foi apresentado somente em 1923.

Considerações finais

Ressaltamos que as caricaturas estão abertas a inúmeras leituras e


aqui apontamos algumas possíveis interpretações dos elementos levantados. É
apenas uma interpretação entre as tantas possíveis que esse tipo de material
permite. Selecionamos algumas charges que satirizam a questão dos limites
entre o Paraná e Santa Catarina. Esse material tem que ser entendido dentro
do contexto da implantação da república marcado pela decepção e pela falta de
envolvimento popular no processo da proclamação e pelo desgosto da repúbli-
ca materializada. Tentou-se criar um imaginário republicano, mas esse perdeu-
se com a ausência do envolvimento popular abrindo espaço para a crítica e a
denúncia.
A imprensa humorística teve um papel importante na criação de uma
opinião pública, sobretudo no período da Primeira República. Além da rele-
vância política, a imprensa humorística deste período teve também uma im-
portância social. Num país com uma das mais elevadas taxas de analfabetismo
(cerca de 80% da população em 1890 19), os jornais e as revistas humorísticas
eram, por vezes, o único meio dos cidadãos se inteirarem da república.

A caricatura é uma arma poderosa de combate e de alcance incalculável. É o


meio de propaganda mais rápido e de mais profundos efeitos. E isto pela
simples razão de que, para entender um artigo e para ele fazer emergir uma
convicção num cérebro qualquer, é necessário que esse cérebro saiba ler, e
para uma caricatura convencer alguém, basta que esse alguém veja e seja
sensível (MATTOS, 2010, p. 62).

A sátira na forma literária que acompanha as caricaturas e charges


aqui analisadas faz o julgamento moral e ridiculariza as figuras públicas rea-
gindo aos eventos e polêmicas políticas da época em questão. Trabalham com o
jogo de palavras e imagens, com a ambiguidade. Esses periódicos humorísticos

19
Na virada do século XIX para o XX menos de 20% da população curitibana era alfabetizada
(PEREIRA, 2002, p. 59).

206
se propunham, através do humor, censurar e ironizar atitudes, ideias, valores e
pessoas exercendo um importante papel, tanto como meio de informação como
objeto de questionamento e protesto. As ilustrações mais os elementos textu-
ais fazem citações e trocadilhos nos títulos ou nos versos justamente para for-
talecer e evidenciar as imagens. Algumas ilustrações são acompanhadas de
textos explicativos que reforçam sua interpretação e entendimento.
Palavras de duplo sentido era uma característica dos diálogos que ilus-
tram as charges. Malícia e sátira marcaram os assuntos tratados pela imprensa
humorística paranaense com relação a questão de limites entre o Paraná e
Santa Catarina. Às vezes, observa-se uma desvinculação da imagem com o tex-
to embora tenhamos buscado a elucidação dos códigos da época em que as
charges se inserem, como os termos gramaticais utilizados e que hoje soam
estranhos porque caíram em desuso, em alguns casos a questão da ausência da
interação imagem/texto permanece sem explicação óbvia.
O humor e a caricatura ou charge, mesmo quando apresentados de
forma sutil, são uma poderosa arma de protesto, contestação e subversão.
Exprimem não somente o ponto de vista de seu autor, mas também refletem a
opinião pública, tornando-se uma importante e temida arma de expressão.
Para Fonseca (1999), as caricaturas e as sátiras ocupam espaço privilegiado
em jornais e revistas de todo mundo por serem comentários sociais velados de
ironia e sarcasmo, mostrando com simples figuras o que não poderia ser dito
com mil palavras. Combinam arte, crítica e humor e fornecem um rico e pouco
explorado material que possibilita conhecer e compreender as relações sociais,
culturais e políticas de uma sociedade. Assim, caricatura e humor protagoni-
zam uma importante crítica política e social à república, e à sociedade que a
legitimou, ganhando, com o passar dos anos uma dimensão histórica que me-
rece ser estudada e divulgada.

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Sinete parvulos venire ad me. O Malho/Rio de Janeiro, 07/10/1916, p. 6.
Tentação de Santo Antônio. O Olho da Rua/Curitiba, 25/09/1909, p. 7.
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Último escárnio – foi ocupado o território contestado pela força federal. O Olho da
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Um escândalo. : O Olho da Rua/Curitiba, 14/10/1911, p. 17.
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rial em Santa Catarina. Tese de Doutorado em Geografia, USP, São Paulo, 2016.
MATTOS, Álvaro Costa de (2010). Da imprensa humorística na I Republica ..., In: Revista
JJ, Nº 44, Lisboa: outubro-dezembro, p. 50 - 64.
PEREIRA, Luís Fernando Lopes. O espetáculo dos maquinismos modernos: Curitiba na
virada do século XIX para o XX. Tese de Doutorado em História. São Paulo, USP, 2002.

208
QUELUZ, Marilda Lopes Pinheiro (). Olho da Rua: humor visual em Curitiba (1907-
1911). Dissertação de Mestrado em História. Curitiba, UFPR,1996.
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. A Águia de Haia: Rui Barbosa no imaginário político
dos chargistas brasileiros. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2007.
TEIXEIRA, Luiz Guilherme Sodré. Sentidos do humor. Trapaças da razão: a charge. Rio de
Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2005.
TRINDADE, Etelvina Maria de Castro (1997). Paranidade ou Paranismo? A construção
de uma identidade regional. In: Revista da SBPH. Curitiba, nº 13, p. 65 - 74.

209
Anexos

Figura 1

A recepção do Catete – o melhor da festa


Rodrigues Alves: - Vejam lá! Precisamos de deitar elegâncias diante do
corpo diplomático.
Lauro Muller: - Isto é comigo! Depois da vitória de Santa Catarina, ando
só a cantar a Marselhesa ...
Rio Branco: - O que lhes digo é que já estou a pensar no próximo ban-
quete em Petrópolis ....
Argollo: - Se o Barão engolisse o negócio do Peru com mais um almoço
... Oh! ferro! ...
Bulhões: - Mao! ... Peru! ... Almoço! ... Lá vai facada no Tesouro! ...
Pires & Lamounieur: - Entremos .... Engrossemos ... Pintemos ...
Seabra: - Ah! Vem cantata em dueto, Deus os fez e o diabo os ajuntou ...

Fonte: O Malho/Rio de Janeiro, 16/07/1904

Em recepção no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, Lauro Mul-


ler demonstra sua satisfação com relação ao parecer favorável
do Supremo Tribunal Federal dado a Santa Catarina referente a
questão de limites com o Estado do Paraná.

210
Figura 2

Até as Santas são gatunas!


- Que progresso!!!!

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 11/05/1907

O Paraná está representado na figura masculina e Santa Catarina na figura


feminina que possui uma aréola angelical que contrasta com sua atitude furti-
va, lesando o Paraná. Nota-se ela ultrapassando o Rio Iguaçu, o limite entre os
dois estados, e a atitude do Paraná, que caça borboletas, enquanto se mantém
alerta em relação à Santa Catarina.
No cesto de Santa Catarina já estão os municípios de São Bento e Curitibanos e
agora ela puxa do bolso do Paraná o município de Canoinhas.

211
Figura 3

Artista hábeis
Esses dois santos escultores, cada qual mais jeitoso, tanto procuram desbastar
o pescoço do busto que quando ele enfim perder a cabeça ... só haverá um re-
médio: queixarem-se ao bispo.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 07/09/1907

Vemos ao centro o mapa das terras contestadas em posição vertical, uma posi-
ção diferente da comumente apresentada que é na horizontal. No lado esquer-
do temos Santa Catarina representada na figura feminina e no lado direito o
Paraná representado na figura masculina. Ambos estão esculpindo o mapa de
acordo com seus respectivos entendimentos do território que lhes pertencem.
Os dizeres chamam a atenção que como os dois concentram o trabalho no
mesmo local: o pescoço do busto (que seria a área contestada), esse pedaço
poderia ser perdido, ou seja, de tanto esculpirem no mesmo local ele se des-
prenderia do mapa e daí não teriam mais a quem recorrer para fazer suas
queixas e reivindicações, a não ser a Deus.

212
Figura 4

Mapa de Santa Catarina


Zé Paranaense: Julga então a senhora que me há de levar no embrulho com a
sua tradicional perspicácia?! ... Está muito enganada, senhora Catarina! Os
seus planos já são muito conhecidos, e eu cá estou sempre pronto, de brocha
em punho ... para corrigir esses seus enganos topográficos ... Para outra vez,
quando confeccionar os seus mapas, não se esqueça de ... mim.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 03/10/1908

A charge destaca a importância da cartografia na definição dos limites entre o


Paraná e Santa Catarina. A posse da região disputada garantiria maior prestí-
gio político e econômico ao estado que ficasse com ela. O Paraná é a figura
masculina que com uma brocha “corrigi” o mapa alegando que Santa Catari-
na, a figura feminina com face masculinizada, sempre ganhava pela sua pers-
picácia referindo-se as ações no Supremo Tribunal Federal.

213
Figura 5

O Ministro Calmon na sua tarefa de povoar o solo brasileiro.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 16/05/1908

A caricatura é do Ministro da Indústria, Viação e Obras Públicas - Miguel Cal-


mon (1906-1909) – que através do Decreto nº 6.455 de abril de 1907 criou o
Serviço de Povoamento do Solo Nacional devolvendo à União um controle mai-
or sobre a imigração e a colonização. O objetivo principal era atrair imigrantes
para núcleos coloniais existentes ou em vias de constituição. A intenção de
criar uma pequena classe de proprietários rurais (colonos) era bastante evi-
dente: somente em casos excepcionais o governo subsidiaria a vinda de imi-
grantes interessados em trabalhar meramente como assalariados.
Subvencionado pelo governo federal, o movimento imigratório retomou im-
pulso em 1908, com a chegada de 94 mil imigrantes, permanecendo em alta até
a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Vários núcleos coloniais foram fundados
mediante acordos com os governos estaduais, empresas de viação férrea, com-
panhias e associações particulares.
Repare que o mapa abaixo de Calmon considera a região contestada como
paranaense.

214
Figura 6

Salve Palmas autônoma!


Santa Catarina: - Como é isto! ... Não se sujeita então ao meu jugo?! ...
Palmas: - Nunca! ... Viva a liberdade !!

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 05/06/1909

Palmas com os braços aberto simbolizando a liberdade. Santa Catarina com a


algema na mão, atrás do Supremo Tribunal com cara irritada por ter “perdido”
Palmas. Charge criticando os jornais de Santa Catarina que chamavam de cata-
rinense a região de Palmas, localidade paranaense segundo a opinião dos juris-
consultos pelo princípio uti possedis admitido na constituição brasileira de
1891 e julgada como prova decisiva em todas as questões territoriais.

215
Figura 7

Para os grandes males ...

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 15/09/1909

O Paraná representado por um homem alto e forte segura Santa Catarina na


mão. Ela pequena e frágil quando o Supremo Tribunal Federal não está junto.

216
Figura 8

Na Câmara dos Deputados (vitória da causa paranaense)


Paula Ramos e Companhia: - Homem! ... o melhor é metermos as violas nos
sacos! ... Este seu Carlos Cavalcanti nos estragou o latim ...

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 25/09/1909

O deputado federal pelo Paraná, Carlos Cavalcanti, na tribuna da Câmara dos


Deputados discursa a favor da causa paranaense na questão de limites com
Santa Catarina fazendo a bancada catarinense manter-se calada. Juntamente
com o outro deputado paranaense, Manoel Correia Defreitas, defendiam os
interesses do Paraná dentro do Congresso Nacional com relação à questão de
limites.

217
Figura 9
Tentação de Santo Antônio
Santa Catarina: - Não seja mau simpático .... Resolva esta minha questãozinha,
agora que a força paranaense tocou debandada ...
Supremo Tribunal: - Senhora Catarina, não sei onde estou que não faço uma ...
asneira!
Paraná: - Só quero ver em que param as modas ...

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 25/09/1909

Santa Catarina, representada na figura de uma senhora usando brincos e ma-


quiagem, tenta seduzir o Supremo Tribunal Federal, representado na figura de
um senhor idoso e com aspecto cansado, para lhe ajudar na questão de limites
com o Paraná, que está representado no canto inferior direito da charge como
um homem pequeno perto dos outros dois personagens. Ele está observando
com um cassetete na mão o diálogo entre o STF e SC, aguardando o resultado.
O título da charge faz referência a Antônio o Grande, eremita que após parti-
lhar os seus pertences com os desafortunados, passou vinte anos
no deserto dedicando-se à meditação. O santo eremita teria então sofrido toda
a espécie de tentações diabólicas, às quais resistiu continuamente, tornando-se
um poderoso símbolo de renúncia à vida mundana e ao pecado. Neste contexto, A
Tentação de Santo Antônio tornou-se a questão de limites entre o Paraná e Santa
Catarina, e o STF estaria resistindo para não cair nas tentações catarinenses.

218
Figura 10
Emboscada
O governo catarinense requereu ao Supremo Tribunal a execução da sentença,
que condena o Paraná a perder metade de seu território.

Catharina: - Vamos, execute a sentença. Faça fogo: aproveite enquanto ele está
distraído no trabalho.
Supremo: - E se ele gritar ...?
Catharina: - Nós ... fugimos.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 27/05/1911

Charge satirizando a atuação do Supremo Tribunal Federal frente a questão de


limites entre os estados do Paraná e Santa Catarina.
O cidadão paranaense, de costas, está com o arado trabalhando as terras
contestadas.
Santa Catarina, representada na figura da senhora com feição nervosa e irritada,
está com o dedo apontado para o senhor idoso e frágil que representa o Supremo
Tribunal Federal. Ela cobra a execução da sentença favorável ao seu estado. A
charge destaca a pressão e força que Santa Catarina tinha junto ao STF.

219
Figura 11
Último escárnio – foi ocupado o território contestado pela força federal.
- Que faz ali aquele soldado?
- Está ensinando como se exercita hoje a justiça.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 08/07/1911

O soldado em cima da constituição brasileira a mantendo fechada, representa a


posição das forças legais que estavam tomando decisões referentes a região
contestada que não respeitavam a legislação estabelecida. Pode-se estender a
crítica também ao Supremo Tribunal Federal que estava à frente da questão de
limites entre o Paraná e Santa Catarina não respeitando a Constituição à época
que indicava que o assunto de fronteiras internas tinha que ser resolvido pelo
poder legislativo e não pelo poder judiciário.

220
Figura 12
Themis completamente cega

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 10/06/1911

O Supremo Tribunal está mexendo nas vendas da justiça, o que acaba influen-
ciando a sua decisão a favor de Santa Catarina. Na balança da justiça, na bande-
ja referente à causa catarinense, vemos os dizeres “ambição catarinense” e
Lauro Muller dependurado nela demonstrando “o peso”, a influência que ele
tinha junto ao Supremo Tribunal com relação. Na outra bandeja estão os dize-
res “direitos do Paraná” que são leves, ou seja, não são levados em considera-
ção.

221
Figura 13

A questão de limites não vai bem. Eu não duvido que seja o Manolo quem este-
ja apurando a decisão ... mesmo que ela vá apunhalar o Estado ... Pois ele tem a
pretensão de ser seu presidente

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 10/06/1911

O cidadão reflete e chega à conclusão que a questão de limites entre o Paraná e


Santa Catarina não ia bem para o lado paranaense visto que até mesmo Manoel
de Alencar Guimarães (o Manolo) que era senador pelo Paraná estava a favor
das sentenças do Supremo Tribunal favoráveis à Santa Catarina. Manolo tinha
intenção de ser governador do Paraná nas eleições de 1911, mas o eleito foi
Affonso Camargo.

222
Figura 14

O Congresso de Geografia vai se reunir logo. É bom: É preciso que se comece de


uma vez, a ensinar geografia aos brasileiros afim de que estes não digam mais
que Paranaguá está em Santa Catarina.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 05/08/1911

O 3º Congresso Brasileiro de Geografia foi realizado em Curitiba de 7 a 14 de


setembro de 1911. Nesse congresso Romário Martins, secretário do evento,
apresentou seu trabalho sobre “Os limites do Paraná em face da jurisprudência
do Supremo Tribunal Federal” referindo-se a decisão do STF ratificada em
1910 determinando que os paranaenses entregassem a administração das
terras contestadas aos catarinenses. A escolha de Curitiba para a realização
desse evento foi uma estratégia para mostrar que o Paraná, apesar de gover-
nado por um franciscano burguês [Francisco Xavier da Silva], tinha homens de
valor e estava num estado “adiantado”. Era uma maneira de resistir a decisão
do STF favorável a Santa Catarina.

223
Figura 15

- Se eu fosse do Congresso de Geografia apresentaria um projeto muito útil.


-?
- Marcar limites do estado corrompido da política nacional.

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 14/10/1911

Charge relacionando o 3º Congresso de Geografia com a questão de limites


entre o Paraná e Santa Catarina conforme explicado na figura 14.

224
Figura 16

Pelo arbitramento
Aplaudamos a luminosa ideia que ressurge, integrados no espírito de generali-
zação desses ideais risonho de paz e fraternidade (Romário Martins).

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 14/10/1911

Charge referente a questão de limites entre Paraná e Santa Catarina sendo a


favor do arbitramento, ou seja, de se fazer cumprir as regras, no caso a Consti-
tuição de 1891 que estabelecia que os casos de fronteiras dos estados da fede-
ração deveriam ser resolvidos de maneira política (pelo legislativo) e não
jurídica (no caso pelo Supremo Tribunal Federal). Assim, iniciou-se uma dis-
cussão baseada em interesses, instituições, discursos e documentos. No ano de
1897 o Paraná instaurou uma comissão para estudar os direitos do estado, que
incluíram viagens de seus membros até Portugal em busca de documentos.
Romário Martins foi um dos intelectuais empenhados em reunir documentos,
viajando várias vezes para São Paulo e Rio de Janeiro para suas pesquisas. A
própria fundação do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná em maio de
1900, tem por função recolher documentos que provem os limites do estado.

225
Figura 17

Um escândalo
Zé: - Com franqueza, Dona Catarina, este seu apego excessivo ao Supremo
Tribunal, agora, está um tanto ... escandaloso! Tenha paciência: entregue a
questão de limites ao arbitramento, ao contrário desconfiam. Olha que o Barão
está lhe observando ...

Fonte: O Olho da Rua/Curitiba, 14/10/1911.

Charge satirizando a atuação do Supremo Tribunal Federal frente a questão de


limites entre os estados do Paraná e Santa Catarina. No lado direito vemos
Santa Catarina representada como uma mulher jovem que abraça o senhor
idoso, que representa o Supremo Tribunal Federal, com todas as suas forças o
imobilizando. Do lado esquerdo está o Zé, que representa o povo e que adverte
a jovem Catarina que sua relação com o STF já está um escândalo e sendo
percebida por todos, inclusive pelo Barão do Rio Branco, ao fundo de cartola e
com as mãos no bolso.

226
Figura 18

A invasão catarinense
Examinador: - Qual a capital de Santa Catarina?
Examinado: - Curitiba.
Examinador: - Curitiba! Então Curitiba não é a capital do Paraná?
Examinado: - Isso foi antigamente, mas já sob o governo do Micado, passou a
pertencer à Santa Catarina

Fonte: A Bomba/Curitiba, 10/12/1913

Critica a passividade dos governantes do Paraná diante da perda territorial do


Estado para Santa Catarina conforme as decisões do Supremo Tribunal Fede-
ral.
“Micado”, título do imperador do Japão se refere ao governador do Estado,
Affonso Camargo.

227
Figura 19

Pedacinho de Ouro
Venha o meu arnez1, a minha cotta2 e malha3!
Quero vos seguir, o meu cavalo é guapo4!
(Falam cavaleiros: - Ríspida batalha para o menestrel gineteando5 um sapo ...)
Domingos Nascimento

Fonte: A Bomba/Curitiba, 12/06/1913

Charge elaborada sob a influência da Guerra do Contestado. O soldado parana-


ense está domando um sapo que é verde e, portanto, tem a barriga verde, ter-
mo pelo qual ficaram conhecidos os catarinenses devido ao lendário
Regimento Barriga Verde, criado no século XVIII, de cujo uniforme destacava-
se o peitilho verde. A charge destaca o estado tenso que cresceu entre os esta-
dos do Paraná e de Santa Catarina pela questão de limites ao ponto da quase
deflagração de um conflito armado.

1 arnês = armadura que cobre o corpo do guerreiro


2 cota = túnica usada debaixo da armadura
3 malha = trança metálica das cotas e de outras peças das armaduras
4 cota = túnica
5 ginetear = cavalgar bem

228
Figura 20

Salomão versus Supremo Tribunal (?)


Em vez da espada de Themis, a tesoura do acordo ...

Fonte: Careta/Rio de Janeiro, 10/07/1915

Charge ilustrando as negociações para a partilha do território


contestado. Da esquerda para a direita: vemos a figura do governador de Santa
Catarina (Felippe Schimidt), a figura do presidente da república Wenceslau
Brás (segurando a tesoura) e a figura do governador do Paraná (Carlos
Cavalcanti). É a imprensa carioca satirizando as negociações do acordo de
limites entre o Paraná e Santa Catarina. Os dizeres fazem referência a história
bastante conhecida que versa sobre a sabedoria de Salomão – a de duas
mulheres que vieram até ele exigindo, ambas, a guarda de uma criança. As duas
diziam ser a mãe do bebê. Salomão mandou que trouxessem uma espada para
cortar ao meio a criança viva e dar uma metade para cada mulher. A falsa mãe
deu de ombros, mas a verdadeira desesperou-se e falou para entregar a criança
a outra muher. Salomão então deu o bebê à mulher que nutria verdadeiro
amor pelo filho. No caso da questão de limites entre o Paraná e Santa Catarina,
a espada do poder judiciário/STF foi substituída pela tesoura comandada pelo
poder executivo, o presidente Wenceslau Brás que definiu o acordo final.

229
Figura 21

SINETE PARVULOS VENIRE AD ME


Por intervenção amistosa do Sr. Presidente da República, está feito o acordo
entre Santa Catarina e Paraná, na questão de limites. Os presidentes dos dois
estados virão a esta capital assinar o respectivo tratado.

Wenceslau: - Vinde, vinde a mim guris, e prometei que nunca mais brigareis
por causa do queijo do Contestado!
Felipe Schimidt: - Não há novidade! Pela fatia que me tocou prometo e juro
nunca mais brigar!
Affonso Camargo: - E eu também, apesar de só me haver tocado este “tiquinho”
...
Wenceslau: - Mais nobre é o teu sacrifício! Maior o meu carinho e a minha
admiração por ti ...
Zé do Povo: - Muito bem! E que as benções do anjo desçam sobre todas as
cabeças principalmente a do mestre Wenceslau que, nesse caso do Contestado,
foi incontestavelmente mais feliz do que o Facada * ... Resgatou os fiascos de
outros casos e lavrou um tento, por isso tido na bola! Peça aos céus que sempre
assim aconteça para o futuro, com todas as “encrencas” que ele ainda nos
reserva! ...

Fonte: O Malho/Rio de Janeiro, 07/10/1916

230
Charge ilustrando a partilha do território contestado: vemos a figura
do governador de Santa Catarina (Felippe Schimidt) com a maior fatia e a
figura do governador do Paraná (Affonso Camargo) com a menor fatia.
Wenceslau Brás aparece vestido como Jesus Cristo que chama pelas crianças.
Os governadores do Paraná e de Santa Catarina estão vestidos como crianças.
Wenceslau pede para os dois governadores não brigarem mais. Fala que
admira Affonso Camargo, que ficou com a “menor fatia” do território.
O Zé do Povo observa tudo de longe, com um sorriso irônico, e pede para que
as bençãos do anjo desçam sobre Wenceslau que acabou “com a encrenca” da
questão de limites entre o Paraná e Santa Catarina.

* expressão “ser mais feliz que o Facada” era muito utilizada nos periódicos
dessa época, mas não encontramos seu significado.

231
Figura 22

O senhor Wenceslau Brás, o presidente pacato que tudo harmoniza, menos o


Mato Grosso, deu uma solução satisfatória ao caso crônico da questão de limi-
tes entre Paraná e Santa Catarina.
Todos ficaram contentes, menos o Correia Defreitas, que sistematicamente,
nunca fica contente com coisa alguma.

Fonte: O Malho/Rio de Janeiro, 07/10/1916

A charge retrata a figura do presidente da república Wenceslau Brás com a


divisão do território contestado em mãos (na mão esquerda, a parte referente
à Santa Catarina é maior que a parte destinada ao Paraná na mão direita). O
presidente é observado pelo Zé do Povo, cuja expressão facial é de quem está
entendo pouco da situação.
Nos dizeres, o periódico ainda faz menção ao caso de limites entre os estados
do Mato Grosso e do Amazonas1 que apesar do acórdão de 1889 ainda não
estava com a situação de limites resolvida. Finaliza destacando o papel questi-
onador de Correia Defreitas, ex-deputado paranaense, que o deixou conhecido
como alguém que nunca estava satisfeito com as decisões oficiais. Era árduo
defensor dos interesses paranaenses.

1
O Supremo Tribunal Federal em 11 de novembro de 1889 fez um acordão entre o Amazonas e Mato
Grosso: ordenou que o estado do Amazonas restituísse o território de Mato Grosso e estabeleceu os
limites entre esses dois estados. Numa das sessões da Câmara, Correia Defreitas fala da questão dos
limites entre os estados do Paraná e de Santa Catarina e se remete ao papel de Supremo Tribunal que
invadiu as atribuições do Poder Legislativo na questão idêntica ocorrida entre o Mato Grosso e o Ama-
zonas e questiona se seria tomada a mesma atitude no caso entre Paraná e Santa Catarina (CORREIO
DO ESTADO, 09/10/1910).

232
Figura 23

Queijo Paranaense
Garoto: - Então doutor, como é que deixa os ratos comerem o queijo?
Doutor Affonso: - Que queres menino! As ratoeiras há muito que não funciona-
ram. Para evitar que roessem mais cortei o queijo!

Fonte: O Garoto/Curitiba, 09/11/1916

O Garoto, descalço e maltrapilho, aponta para o mapa do Paraná e pergunta ao


governador do Estado, Affonso Camargo, porque ele aceitou o acordo de limi-
tes com Santa Catarina onde o Paraná ficou com a menor extensão de terras.
Recebe como resposta do governador que não havia muito o que se fazer e que
para evitar mais sacrifício decidiu aceitar o acordo.

233
O COMBATE DO IRANI NAS PÁGINAS DOS
JORNAIS: OLHARES DA IMPRENSA

DELMIR JOSÉ VALENTINI1


GERSON WITTE2

No dia 22 de outubro de 1912 o Regimento de Segurança do Paraná


protagonizou um confronto bélico com um grupo de sertanejos que se encon-
travam na localidade denominada Faxinal do Irani 3 (atual município do Irani -
SC). Na época, o trágico acontecimento causou repercussão nacional e um
grande volume de notícias se propagou, agitando os meios políticos, militares e
a população, principalmente das grandes cidades.
Nas capitais, os jornais eram procurados pela população que, em pol-
vorosa, buscava novidades e ansiava por mais informações sobre os aconteci-
mentos. O periódico de Curitiba Diário da Tarde imprimiu uma edição as 14
horas, sendo os exemplares extremamente disputados (DIÁRIO DA TARDE,
22/10/1912).
Embora não sendo possível uma análise mais apurada sobre as maté-
rias dos principais jornais do país que publicaram sobre estes acontecimentos,
principalmente no mês de outubro de 1912, este texto mostra, sem muitos
detalhes, os debates na perspectiva do olhar da imprensa. Na época os jornais,
de farta disseminação nos centros urbanos, refletiram um contexto que precisa
ser observado através do viés ideológico da construção das narrativas sobre os
acontecimentos do que passou a ser conhecido como Batalha do Irani.
Na sua História da Imprensa, Albert e Terrou se referem às fontes para
a pesquisa histórica destacando o papel deste veículo de comunicação. Con-
cordamos quando estes autores afirmam que “o jornal é talvez o que mantém

1
Docente da UFFS/Chapecó. Doutor em História pela PUC/RS. Membro do Programa de Pós-
Graduação em História PPGH/UFFS. E-mail: valentini@uffs.edu.br
2
Docente do Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC, Campus de Chapecó. Mestre em Educação pela
UNIOESTE/PR. E-mail: gerson.witte@ifsc.edu.br
3
Neste texto, optamos pela grafia atual e não a da gramática vigente na época, Irany.

235
as mais estreitas relações com o estado político, a situação econômica, a orga-
nização social e o nível cultural do país e da época dos quais constitui o refle-
xo” (ALBERT e TERROU, 1990, p. 10).
Este breve olhar sobre as matérias publicadas no contexto já referido,
buscou-se, principalmente nos seguintes jornais: A Federação, influente órgão
do partido republicano do Rio Grande do Sul, publicado entre os anos de 1884
a 1937, com circulação por todo o Estado. O Dia, do partido republicano de
Santa Catarina, de Florianópolis, em constante “guerra verbal” com os periódi-
cos do Paraná. Neste último, também um influente órgão do partido republica-
no representado pelo A República e, ainda em Curitiba, O Diário da Tarde,
acompanhando e detalhando toda a movimentação das tropas e publicando até
edições extraordinárias.
Além dos três estados do Sul, também foi importante buscar O Paiz,
impresso da capital brasileira, que embora não tenha publicado com tanta
frequência, destacou na edição do dia 25 de outubro uma matéria maior, pro-
curando enfatizar o contexto dos acontecimentos. Também é importante des-
tacar que muitas matérias foram republicadas a partir destes e entre ambos,
com uma verdadeira avalanche de informações, principalmente naquele mês
de outubro de 1912. Muitos fatos foram replicados em outras capitais brasilei-
ras e um volume de documentos oficiais publicadas no período, principalmente
a correspondência lacônica entre as autoridades políticas, um grande número
de telegramas que circularam entre as capitais estaduais e a federal, bem co-
mo, mensagens gerais entre as autoridades civis e militares.
O lado oposto, entendido aqui como o grupo de José Maria e seus se-
guidores, não teve veículos oficiais e nem mesmo alternativos que apresentas-
sem sua versão dos fatos. O que se pode conjecturar acerca do que pensavam,
do que pretendiam, de como reagiram ao ataque das forças oficiais ou mesmo
sobre uma perspectiva própria sobre os acontecimentos, aparecem em fugazes
expressões de alguns entrevistados dos periódicos que disseminavam as notí-
cias, e seus entendimentos próprios sobre os acontecimentos, deixando uma
grande lacuna, criado pelo poderoso filtro dos veículos anteriormente citados.

A culpa do combate pesando nos ombros de um monge

Antigas são as notícias que relatam a existência de monges, peregri-


nos, benzedores, curandeiros e eremitas pelo interior do Brasil, mas no ano de
1912 surgiu em Campos Novos e Curitibanos uma figura que a imprensa ga-
nharia significativas notícias, curiosidades e muitas matérias para exibir. Já nas
primeiras referências ao monge protagonista do combate do Irani, se percebe
dificuldade na definição de qual monge se trata, imprecisão na identificação e
atribuições que nem sempre correspondem ao que o personagem representa-

236
va. Espalhou-se a notícia de que o Monge João Maria havia retornado, como o
impresso no jornal A Federação, que escreveu que o mesmo havia desapareci-
do em uma localidade chamado Bateas, mas que havia retornado em Curitiba-
nos, SC, dizendo que falava com Deus, proclamava a volta da Monarquia e de D.
Pedro II como imperador (A FEDERAÇÃO, 28/09/1912).
As notícias dos jornais, nos dias seguintes, destacaram que o mesmo
declarava se chamar José Maria de Agostini, e que seria o irmão de João Maria
de Agostini. O jornal A República publicou no dia 24 de outubro de 1912 uma
entrevista realizada com um boiadeiro de Campos Novos, tratava-se de um
cidadão identificado pelo jornal como Candido Baptista. Segundo o entrevista-
do, José Maria ocupa-se “[...] em ministrar remédios para os caboclos, que por
ele tem grande estima” (A REPÚBLICA, 24/10/1912).
Ao ser perguntado sobre aspectos deste monge, relatou que não se tra-
ta do “velho monge de 150 anos”, mas de outro personagem que chegou de um
local remoto, homem forte, moreno, de 55 anos de idade. “José Maria de Agos-
tinho, assim se chama ele, passa por adivinho e conselheiro, dando instruções a
quem o pede e se mostrando muito inteligente” (A REPÚBLICA, 24/10/1912).
Dando instruções e se mostrando muito inteligente, novamente apare-
ce nos jornais como uma das carências básicas da população cabocla do interi-
or brasileiro. Nos mesmos dias em que o Jornal A República buscava
informações e um perfil do líder dos caboclos, na Câmara dos Deputados os
debates sobre o alarmante conflito consumado no Irani, levaram o deputado
Correa de Freitas a discursar que “é por causa dos fatos desta ordem que o
orador tem apresentado projetos de combate ao analfabetismo, uma das mais
fundas e dolorosas chagas que afligem a nossa sociedade” (O PAIZ,
24/10/1912).
No mesmo tom, chamou a responsabilidade para o Congresso e para o
Governo do Paraná, nos seguintes termos: “infelizmente o Congresso não tem
tomado em consideração esse problema, que é capital e essencial para que
possamos constituir uma nação forte, de homens civilizados”. Em seguida,
alertou: “Diante dos fatos do Paraná, espera que a Câmara não mais hesitará
em resolver de pronto o problema da instrução pública” (O PAIZ,
24/10/1912).
Uma entrevista publicada no jornal A Federação, feita com o General
Oliveira de Freitas, antigo diretor da Colônia Militar do Chapecó, também auxi-
lia nos entendimentos sobre o(s) monge(s). “É muito frequente, nos sertões do
Paraná, o aparecimento de indivíduos de hábitos estranhos, que se intitulam
adivinhos e curandeiros, aos quais os sertanejos dão logo o tratamento de
monges”. Seguiu afirmando que “[...] estes indivíduos adquirem imediatamente
um prestígio imenso, indescritível mesmo, sendo tidos como semideuses pelo
povo que os obedece cegamente” (A FEDERAÇÃO, 28/09/1912).

237
Oliveira de Freitas ainda relatou que, durante o seu tempo de diretor
da Colônia Militar do Chapecó e também no tempo do Marechal Bormann, tive-
ram casos idênticos de monges atuando junto à população dos interiores. Fez
menção ao João Maria, de quem ele próprio não chegou a conhecer, mas que
teve informações de pessoas que mereciam “inteira fé”, afirmando que “teci-
am-lhe os maiores elogios”. “Exprimia-se com clareza, mostrando ter instru-
ção” Fica claro que o(s) monge(s), para os diretores da Colônia Militar, não
representava(m) grandes perigos ou ameaças. “Enquanto fui diretor da colô-
nia, ele esteve na sede por duas vezes sem praticar ato que merecesse reprova-
ção, por isso mesmo, não tive necessidade de agir contra a sua pessoa e não o
conheci pessoalmente” (A FEDERAÇÃO, 28/09/1912).
José Maria se identificava com os monges anteriores, tinha instrução e
atuava de modo idêntico aos antecessores, mas em Curitibanos, embora admi-
rado pela população que o acompanhava, se tornou odiado por um coronel e
execrado pelos jornais, que publicaram notícias ininterruptas, principalmente
logo após o encontro com as forças do Paraná. Entre outras expressões, evi-
denciam-se: “o bandido José Maria”, “gaúcho audaz penetrado de ideias revo-
lucionárias”, “levando vida errante, cheia de alternativas entre o jogo, a
malandrice e o desejo de se fazer seguir” (O PAIZ, 25/10/1912).

Notícias alarmantes, mobilizações e o deslocamento do corpo de se-


gurança do Paraná: o caminho das mortes no Combate do Irani

Indisposto a enfrentar a fúria do Coronel Albuquerque em Curitiba-


nos, José Maria partiu da localidade de Taquaruçu, atravessou o Rio do Peixe e
se refugiou no Irani. Este deslocamento foi noticiado pela imprensa como uma
invasão de catarinenses ao território paranaense. Além de alimentar uma
guerra em curso, por parte da imprensa, envolvendo principalmente as ques-
tões de limites entre o Paraná e Santa Catarina nas disputas pelo território
contestado, também acirrou os ânimos das forças de segurança do Paraná.
Desde os primeiros dias até o final do mês de outubro, farto material
impresso foi produzido pelos principais jornais do país, principalmente do
Paraná, destacando notícias sobre José Maria, os seus seguidores, as questões
políticas envolvendo a disputa jurídica entre os dois estados, as escaramuças
militares e, finalmente, uma verdadeira avalanche de matérias sobre o comba-
te do Irani.
Nos dias anteriores ao combate, o jornal curitibano A República des-
creveu as atitudes tomadas pelo governo paranaense após o recebimento da
informação de que o monge refugiou no Irani. O telegrama da incursão dos
sertanejos foi enviado no dia 13 de outubro, assinado pelo Chefe da Polícia de
Santa Catarina para o desembargador Vieira Cavalcanti, que comunicou imedi-

238
atamente o presidente do estado do Paraná, Carlos Cavalcanti de Albuquerque.
O periódico destacou que a polícia catarinense pediu ajuda para a polícia para-
naense, com o objetivo de cercar o monge e seu séquito, que haviam se enca-
minhado para a Vila de Palmas, seguindo a linha do telégrafo. A ideia era
formar um cerco para impedir qualquer tentativa de fuga para a Argentina (A
REPÚBLICA, 14/10/2012).
No mesmo dia foram arregimentados 400 homens, incluindo três
companhias de infantaria, uma metralhadora, um piquete de cavalaria, uma
banda de música, banda de tambores, corneteiros e um corpo de saúde. A mu-
nição disponível era de 30 mil cartuchos de carabina, 3.500 cartuchos para
mosquetões e 10.000 cartuchos para metralhadora, sob o comando do coronel
João Gualberto Gomes de Sá Filho (A REPÚBLICA, 14/10/2012).
As formalidades foram cumpridas com uma apresentação em honras
ao presidente Carlos Cavalcanti, às 16 horas, em frente ao Palácio Presidencial,
para prestarem continência. Embarcaram num trem da ferrovia SP-RG às 18
horas e trinta minutos, após um atraso para alocar tamanho contingente nos
vagões. Muitos soldados (praças) tiveram que viajar no trem de carga. A che-
gada em Porto União ocorreu às 9 horas da manhã do dia seguinte, sendo o
grupo recepcionado pelo coronel Amazonas Marcondes (A REPÚBLICA,
14/10/2012).

Fotografia 01: Embarque das tropas paranaenses em Curitiba.


Fonte: Arquivo Público de Caçador, SC.

239
Fotografia 02: O comandante João Gualberto desfilando com a banda marcial e a banda de tambores nas
ruas de Porto União. Fonte: Arquivo Público de Caçador, SC. Foto de Claro Gustavo Jansson.

No dia 15 de outubro o Coronel João Gualberto permaneceu em Porto


União providenciando mantimentos e carroças, reclamou das condições do
terreno por causa das chuvas e ordenou a marcha do contingente em direção a
Palmas. A tropa acampou à beira do Rio Jangada (A REPÚBLICA, 16/10/2012).

Fotografia 03: As tropas do Corpo de Segurança do Paraná se dirigindo para Irani e Palmas. Fonte:
Arquivo Público de Caçador, SC. Foto de Claro Gustavo Jansson.

No dia 17 de outubro foi enviado um telegrama de Palmas para Curiti-


ba, comunicando que o regimento estava acampado na entrada dos campos de

240
Palmas e que a coluna foi dividida, sendo destacado uma companhia para se-
guir até a cidade de Palmas. Na mesma página, em telegrama enviado pelo
diretor do jornal Xanxerê, Antônio Cavalheiro, foi anunciado que existiam 400
homens prontos para o combate, junto das forças legais, na cidade de Palmas
(A REPÚBLICA, 18/10/1912).
Aconteceu no dia 18 de outubro um encontro de dois emissários do
monge, de nomes José Julio e Varella, que requisitaram um encontro com o
Coronel Domingos Soares, que acompanhava um pelotão. Na conferência, os
dois anunciaram as intenções pacíficas dos seguidores de José Maria, que bus-
cavam apenas um refúgio enquanto eram "acossados" pela polícia de Santa
Catarina e que pretendiam retornar para acionar por "perdas e danos" o coro-
nel Francisco Albuquerque, que os estava perseguindo. José Maria e seu grupo
estariam acampados a duas léguas da cidade de Irani, com cerca de 100 ho-
mens armados e não desejavam o conflito, mas avisam que poderiam "levan-
tar" mais 200 ou 300 para enfrentar a polícia paranaense caso continuasse a
perseguição, segundo o relato. O jornal descreveu que essa força de resistência
seria formada pelo grupo de "bandidos da pior espécie", liderados por Miguel
Fragoso. Os emissários são liberados em seguida. O Coronel João Gualberto
encontrava-se em outro acampamento, a uma distância de três léguas e, quan-
do foi comunicado do encontro e da localização do grupo do monge José Maria,
decidiu pelo "ataque decisivo aos bandoleiros" (A REPÚBLICA, 24/10/1912).
No dia 22 de outubro foi noticiado o acampamento da tropa, coman-
dada pessoalmente pelo Coronel João Gualberto, em uma localidade denomi-
nada Fazenda Irani, próximo ao Rio do Peixe. 4 A outra companhia acampou na
Fazenda do Cedro, a uma légua da cidade de Palmas (A REPÚBLICA,
22/10/1912).
Dia 22 de Outubro de 1912 as tropas partiram de madrugada. O núme-
ro total de soldados paranaenses envolvidos no combate é desconhecido e com
um significativo número de informações contraditórias. Foi reconhecido pelo
governo o deslocamento de 265 homens em seu efetivo, sendo que parte des-
tes havia se dirigido para a cidade de Palmas (PARANÁ, 1913). O jornal O Paiz
(28/10/1912) repercutiu um relato de um morador da região, chamado de
Zeca Cachoeira, que afirmou que o contingente do Coronel João Gualberto era
cerca de 90 praças.
As notícias da imprensa destacaram que, às duas horas da manhã, o
tenente Busse recebeu ordem para preparar a cavalaria. A tropa partiu às três
horas e meia da manhã, formada pela infantaria, um comboio de munições e a
cavalaria, seguidos depois pelos suprimentos. Quando amanheceu, se aproxi-

4
O Rio do Peixe fica a aproximadamente 100 quilômetros da cidade de Irani, o que mostra a imprecisão
desta informação.

241
maram de algumas casas que existiam numa possível localidade, quando foram
surpreendidos por disparos de armas de fogo. Na narrativa atribuída pelo pe-
riódico ao tenente Busse, foi destacado que o tiroteio durou aproximadamente
5 minutos e que enfrentaram um grupo de 8 a 10 homens, que correram para a
mata (O DIA, 26/10/1912).
As tropas paranaenses estabeleceram um acampamento e tentaram
fazer funcionar a metralhadora, que havia caído em um pequeno rio durante o
deslocamento. A notícia do jornal descreveu que o local desta base provisória
ficava num outeiro, um terreno elevado onde existia uma casa, protegido por
um penhasco à direita, um brejo na retaguarda, uma estrada à esquerda e uma
mata fechada à frente. Os sertanejos atacaram com um contingente a cavalo,
mas com o grosso dos combatentes a pé, surpreendendo os soldados da tropa
de segurança do Paraná (praças). Os relatos apontam que aproximadamente
trezentos sertanejos atacaram a vanguarda das tropas de segurança armados
com facões (A FEDERAÇÃO, 28/10/1912).
Os sertanejos conseguiram tomar o local das munições, impedindo o
remuniciamento das armas, que rapidamente se tornaram ineficazes, sendo os
soldados obrigados a lutarem no corpo a corpo. O jornal A Federação relatou
que João Gualberto teria sido visto lutando durante a retirada da cavalaria,
com uma carabina em punho e fazendo fogo sentado, para lhe atribuir uma
atitude heroica de proteger a retirada dos soldados, mas esta versão não é
corroborada pela própria notícia, porque a retirada da cavalaria teria sido
ordenada após a confirmação da morte do comandante e alguns oficiais:

Atacados fortemente pela frente, mandou o tenente Busse recuar até a face
esquerda da casa onde se achava o heroico comandante e não sendo visto o
comandante e mais oficiais pelo tenente Busse, que adotou a seguinte solu-
ção: mortos o comandante e alguns oficiais, desbaratada a infantaria, a me-
tralhadora em poder dos adversários, a munição tomada e a força
completamente sitiada, sem mais um único cartucho, com reduzidíssimo
número de soldados, o tenente Busse gritou “Avança!” “Avança!”, brado este
que foi ouvido pelo soldados restantes. Estes conseguiram então romper o
cerco a pata de cavalo (A FEDERAÇÃO, 28/10/1912).5

A retirada desordenada da cavalaria deixou no campo de batalha uma


metralhadora, 40 carabinas, alguns mosquetões e 3.000 cartuchos, aproxima-
damente. A fuga teria sido possível somente porque estavam montados. Dos
oficiais, sobreviveram os tenentes Busse e Russo e o alferes Adolpho Guima-
rães (O PAIZ, 28/10/1912).
A morte do coronel João Gualberto, descrito como heroica por conti-
nuar lutando sentado após ser atingido, também é contraditória à notícia de

5
A gramática foi atualizada para melhor compreensão.

242
que ele foi encontrado debruçado sobre a metralhadora, vítima de um ferimen-
to de arma branca e não por alvejado por arma de fogo (O PAIZ, 28/10/1912).
As notícias da época são imprecisas ou omissas em descreverem os ferimentos
que vitimaram o comandante da força paranaense. Os relatos que descrevem a
morte do coronel possuem esta característica de evidências anedóticas. Por
exemplo, o Coronel Soares, em telegrama enviado de Palmas no dia 26 de ou-
tubro, diz não ter visto o corpo, mas atribuiu a uma pessoa de nome “Nasci-
mento”, que teria visto que o comandante havia caído por disparo de arma de
fogo no peito e ferimento por arma branca na cabeça (A REPÚBLICA,
28/10/1912).

Fotografia 04: Caixão do coronel João Gualberto. Fonte: Arquivo Público de Caçador, SC.

Não existe precisão nem no número de combatentes nem no número


de vítimas. O jornal A República (29/10/1912) denunciou o exagero no núme-
ro de baixas pelo Diário Popular, de São Paulo, que atribuiu 120 vítimas entre
os "fanáticos" e de 405 no Regimento, porém, o jornal catarinense O Dia
(26/10/1912) também calculou em 120 a baixas entre os seguidores de José
Maria. No periódico da capital paranaense, entrou em combate um destaca-
mento de apenas 50 soldados, sendo 20 de um piquete de cavalaria e 30 mem-
bros da infantaria (A REPÚBLICA 29/10/1912), mas o presidente da província
do Paraná registrou oficialmente terem tomados 50 soldados, dois oficiais e 24
praças do regimento, além do Coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho, omi-
tindo quantos membros da Força de Segurança do Paraná estiveram no Com-
bate do Irani. Do lado dos sertanejos, pouco foi descrito sobre as circunstâncias
da morte do monge José Maria e um número de 93 pessoas entre seus seguido-
res, reconhecido oficialmente pelo governo paranaense (PARANÁ, 1913).

243
Os relatos dos jornais descrevem com frequência que os sertanejos
avançaram armados de facões, sem se abalarem com os companheiros mortos.
De qualquer modo, a narrativa de que foram atacados por um número muito
superior de sertanejos é bastante controverso, isso sendo escrito a posteriori.
Na análise da linha do tempo, passaram-se apenas 9 dias entre o tele-
grama catarinense noticiando o avanço dos sertanejos liderados pelo Monge
João Maria em direção ao Irani e o combate. A primeira atitude do Comandante
foi mobilizar as tropas, duas bandas musicais, corneteiros para perfilarem
diante do Presidente da Província. Após confusão para o embarque, partiram
em um trem que não possuía vagões suficientes para a demanda. Os manti-
mentos foram adquiridos quando chegaram em Porto União, e, no caminho, a
expedição foi dividida para que se dirigisse a Palmas enquanto outro grupo
prosseguiu para Irani.
Um periódico do Rio de Janeiro, o jornal O Paiz, apresentou o que apa-
rentemente era uma defesa das atitudes do Coronel João Gualberto, mas, ao
fazê-lo, mostrou que houve contestações aos procedimentos que resultaram no
fracasso da expedição. Na análise, declararam de ser “inadmissível que João
Gualberto tivesse sido um afoito, um irrefletido, um precipitado” e que, se o
mesmo dividiu suas forças e adentrou em território desconhecido sem guias,
foi porque teria razões militares para fazê-lo (O PAIZ 25/10/1912). O jornal
sugeriu como explicação para as decisões do comandante uma possível traição,
porém, como tal hipótese não apareceu em nenhum outro jornal nem nos rela-
tórios oficiais, o resultado trágico pode ter sido fruto de atitudes irrefletidas e
precipitadas por parte do coronel, mais preocupado com bandas de música do
que em conhecer as pessoas refugiadas e seus motivos para estarem no Irani.
A narrativa em prol da expedição Regimento de Segurança do Paraná
aparentemente foi construída para transformar em heroísmo a fuga dos solda-
dos que “avançaram” contra o inimigo para debandarem do combate, abando-
nando munições, peças de artilharia e seu comandante tombado. Os seguidores
do monge enfrentaram uma força militar organizada, realizaram um ataque
coordenado com estratégia, armados principalmente de facões e, mesmo ven-
do companheiros caindo devido aos disparos, investiram até a completa de-
bandada do adversário. A estes o jornal da antiga capital federal chama de
"massa sedenta de sangue" que ataca traiçoeiramente (O PAIZ, 26/10/1912).

105 anos da tragédia do Irani: considerações

Os relatos dos jornais sobre o Combate do Irani carregam as marcas


dos entendimentos oficiais, destacando o protagonismo dos soldados, as cor-
respondências, as estratégias militares, os jogos políticos das autoridades civis
e militares dentro daquele contexto. Ao analisar as notícias publicadas sobre a

244
Guerra do Contestado nos jornais da época, entre 1912 e 1916, percebe-se as
lacunas e o “vazio” de qualquer outra forma de entendimento, com um olhar
nitidamente contrário à população cabocla. Desde o início dos conflitos, os
caboclos foram sempre associados as palavras fanáticos, ignorantes e bandi-
dos. Conforme os acontecimentos foram se desenrolando e a revolta atingiu
maiores proporções, os adjetivos depreciativos também foram evoluindo.
Eliminar o elemento "pernicioso" que perturbava a ordem ganhou ares
de faxina da pátria. Outros termos comumente são utilizados em relatórios e
abertamente pela imprensa, como: facínoras, desordeiros, impatrióticos e in-
cautos. Poucos são os debates sobre as razões do analfabetismo e o abandono
de qualquer iniciativa de instrução e acesso aos bens materiais ou culturais
destas populações mais distantes dos centros urbanos.
Relendo as notícias dos principais jornais da época não resta dúvida
que os entendimentos apontaram os soldados como heróis na defesa do direito
e da pátria, podendo ser analisadas em muitas circunstâncias diante dos escri-
tos da imprensa. Por outro lado, apenas degenerados do crime, bandidos e
malfeitores fanatizados por monges exploradores e que nada de bom deixaram
como legado.
Esta relação também faz parte da obra do célebre autor Monteiro Lo-
bato (2014, p. 145), que descreveu o caboclo como um funesto parasita da
terra, que não poderia se adaptar aos avanços pretensamente civilizatórios que
almejavam para o país. Esta relação dos habitantes no Contestado com uma
doença a ser erradicada fazia parte do ideário positivista vigente, para os quais
os surtos de revoltas populares eram o resultado da superstição oriunda de
mentes atrasadas, carentes da racionalidade e que, como se recusavam a se
adaptar, precisavam ser erradicadas.
Segundo Lazarin (2004, p. 155), o fenômeno que ocorria no sul do
Brasil era um mistério assustador e ameaçava à ordem social que brutalmente
estavam implantando, muitas vezes com violência e por isso mesmo muito
frágil. Os relatórios e jornais simularam uma máscara de imparcialidade para
criarem a representação nos leitores de que as forças da ordem e segurança
lutavam contra um bando de semibárbaros estúpidos, sujos e indolentes que se
escondiam em choupanas imundas, mais adequadas a feras do que para a mo-
radia de seres humanos. Esta narrativa alicerça a construção de um imaginário
sobre essa região que legitima as ações militares punitivas.
Não temos conclusões e nem ponto final para o presente texto, apenas
sugestões para algumas reflexões: qual foi o principal discurso sobre o papel e
as ações das forças de segurança paranaense? Quem foram os antigos morado-
res deste sertão e quem são seus habitantes hoje? Qual era a representação
que se fazia e que ainda se faz hoje sobre estes moradores (principalmente
pela fonte de pesquisa eleita neste texto: os jornais)? Quais eram os indicativos

245
sociais, econômicos e culturais da população dos antigos Campos de Palmas e
da população que vive hoje na Mesorregião da Grande Fronteira do Mercosul?
Em que nos orgulha este passado? O que precisamos aprender deste passado
para conhecer melhor o contexto presente? Que memórias precisamos preser-
var? São tantas perguntas...

Fontes utilizadas

Jornal A Federação. Porto Alegre 28/09/1912. N.228. p. 01.


Jornal A Federação. Porto Alegre. 28/10/1912. N. 252. P. 1, 2 e 3.
Jornal A República. Curitiba. 14/10/1912. N. 242. p. 1.
Jornal A República. Curitiba. 15/10/1912. N. 243. p. 1 e 2.
Jornal A República. Curitiba. 16/10/1912. N. 244. p. 2.
Jornal A República. Curitiba. 18/10/1912. N. 246. p. 2.
Jornal A República. Curitiba. 19/10/1912. N. 247. p. 2.
Jornal A República. Curitiba. 21/10/1912. N. 250. p.1.
Jornal A República. Curitiba. 22/10/1912. N. 249. p. 2.
Jornal A República. Curitiba. 28/10/1912. N. 253. p. 1.
Jornal Diário da Tarde. Curitiba. 28/10/1912. N. 4.210. p. 1.
Jornal O Dia. Florianópolis. 26/10/1912. N. 7.047. p.1.
Jornal O Paiz. Rio de Janeiro. 24/10/1912. N. 10245. p. 2
Jornal O Paiz. Rio de Janeiro. 25/10/1912. N. 10246. p. 3.
Jornal O Paiz. Rio de Janeiro. 26/10/1912. N. 10247. p. 1.
PARANÁ. Mensagem Enviada ao Congresso Legislativo do Estado. Tipographia do Diário
Official. Curitiba, PR. 1913.

Referências bibliográficas

ALBERT, P. e TERROU, F. História da Imprensa. São Paulo: Martins Fontes, 1990.


LAZARIN, Katiuscia Maria. Lendo o Contestado: discurso e construção de sujeitos na
bibliografia sobre a Guerra do Contestado - 1915 a 1960. In: Esboços - Revista do Pro-
grama de Pós-Graduação em História da UFSC, v. 11, n. 12, 2004. p. 151-164.
LOBATO, Monteiro. Contos Completos. 1. ed. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.
VALENTINI, Delmir J. Memórias da Lumber e da Guerra do Contestado. Porto Alegre:
Letra & Vida/Chapecó: Ed. UFFS, 2015.
WITTE, Gerson. Os Caboclos dos Campos de Palmas e sua Representação na Guerra do
Contestado. Dissertação de Mestrado em Educação. Francisco Beltrão, UNIOESTE, 2017.

246
VAQUEANOS OU MERCENÁRIOS? SAQUES,
ESPOLIAÇÃO E MORTE DE IMIGRANTES NO
MOVIMENTO SOCIAL DO CONTESTADO

VIVIANI POYER1

Os vaqueanos no movimento do Contestado

Demerval Peixoto no início de sua obra, ao esboçar um quadro da regi-


ão contestada e seus limites, nos aponta nomes de diversos homens direta-
mente envolvidos e sobretudo responsáveis pela eclosão do movimento social
do Contestado. Tanto do lado paranaense quanto catarinense, os inúmeros
"chefes e chefetes" políticos se proliferavam como um cancro naquela região.
Para Peixoto (1995a, p. 18 - 19) eram "coronéis da roça, mandões políticos uns
e proprietários despóticos outros", preocupados exclusivamente com o enri-
quecimento pessoal a partir da dilatação de suas terras e com o aumento do
número de seus rebanhos. Nesse contexto, era algo comum a arregimentação
de grupos, compostos por homens obedientes e geralmente fiéis a esses chefe-
tes e coronéis, que acabaram sendo amplamente utilizados pelo Exército brasi-
leiro ao longo das diversas campanhas do Contestado, sobretudo, naquela
comandada pelo general Setembrino de Carvalho. Se tratavam de homens
"maus ou vingativos, apaixonados todos na questão palpitante dos limites"
(PEIXOTO, 1995a, p. 29).
Sabe-se contudo, que no Contestado muitos foram os grupos de va-
queanos, não se restringindo a um ou outro, e nem a pequenas intrigas e faça-
nhas atribuídas aos mesmos. Cometiam crimes os mais diversos, mas
geralmente com uma certa semelhança de natureza: roubos, incêndios crimi-
nosos, saques, espoliações, estupros e mortes, compunham o rol de ações deli-

1
Doutora em História pela Universidade Federal de Santa Catarina, com bolsa Capes. E-mail: vivianipo-
yer@gmail.com.

247
tuosas praticadas por estes mercenários. Pode-se dizer que eram mercenários
no sentido literal da palavra, uma vez que agiam ou trabalhavam apenas por
interesse financeiro, fosse dinheiro, posses, ou algo que representasse vanta-
gens materiais. Como já afirmado, muitos foram os grupos que se organizaram,
em prol de uma suposta causa única: combater os "rebeldes fanáticos" do Con-
testado.
O general Fernando Setembrino de Carvalho, em seu relatório sobre a
campanha do Contestado, apresentado ao então Ministro da Guerra - José Cae-
tano de Faria, ao prestar contas sobre a atuação das tropas sob seu comando
na Guerra, apontou que foram incorporados às forças militares, cerca de mil
homens civis. A partir de um árduo estudo realizado em sua tese de doutorado
e com base no cruzamento das folhas de pagamento de civis, e vasta produção
intelectual e militar existente sobre a Guerra, Rodrigues (2008), estima que
durante as diferentes campanhas empreendidas entre os anos de 1912 e 1916,
o número de homens que participaram da guerra compondo os piquetes ou
grupos de civis armados, pode ter sido superior a 1.500. A falta porém de fon-
tes que remetam aos pagamentos desses homens distribuídos pelas quatro
colunas organizadas na campanha de Setembrino de Carvalho, dificulta uma
estimativa mais precisa, uma vez que a maioria das folhas de pagamento se
referem a Coluna Norte com comando em Canoinhas.2
Desta forma temos números, mas não tão precisos quanto os referen-
tes a Coluna Norte, sobre os diferentes grupos de vaqueanos espalhados pelas
demais Colunas e/ou regiões do Contestado. Peixoto (1995c), nos coloca que
mais ao leste da zona conflagrada, outro coronel da Guarda Nacional, Nicolao
Bley Neto, armou grande montante de civis a serviço do Exército, todos arma-
dos com winchesters. Já na zona do Erval, atuou como chefe de piquete, o ne-
gociante e ervateiro Eugenio La Maison, que contava com mais de 50 homens
armados e arregimentados, prontos para o que desse e viesse, segundo afirma-
va o próprio chefe do grupo.
Na região de Canoinhas atuava o afamado Pedro Ruivo. Homem co-
nhecido pela sua má fama, enriqueceu durante a guerra, a partir de roubos e
saques de moradores da região e que muitas vezes não possuíam qualquer
relação com os sertanejos rebelados. De ação inescrupulosa e sanguinária não
poupava mulheres ou crianças.

2
Nesta que foi a última campanha do Exército no Contestado, o General Setembrino de Carvalho, tomou
como estratégia dividir o contingente do Exército em quatro grandes colunas. Essas foram nomeadas de
acordo com o ponto cardeal ao qual estava localizada a sede de seu comando. Desta forma criou-se a
Coluna Norte comandada pelo coronel Manoel Onofre Ribeiro; a Coluna Sul comandada pelo coronel
Raul de Estilac Leal; a Coluna Leste sob o comando do coronel Júlio César Gomes da Silva e a Coluna
Oeste comandada pelo coronel Arthur Sócrates.

248
Da cadeia de Canoinhas eram tirados diariamente levas de desgraçados que
se tinham apresentado voluntariamente, e entregues a Pedro Ruivo, um ce-
lerado vaqueano promovido a heróe. Pedro Ruivo conduzia as victimas para
fora da villa e, na primeira curva do caminho, degollava-as. Os cadaveres fi-
cavam insepultos. Os porcos e os corvos tinham fome (O ESTADO,
18/05/1915). 3

As ações do grupo de vaqueanos liderado por Pedro Ruivo, chegou a


despertar atenção de autoridades catarinenses. O então governador do Estado
de Santa Catarina, Felippe Schmidt, em telegrama remetido a Setembrino de
Carvalho, solicitou de forma bastante educada e cordial esclarecimentos sobre
os abusos praticados por aqueles homens, e que fossem abertos inquéritos
policiais militares, para investigar tais acusações e denúncias.

De Florianópolis
Sr. General Setembrino de Carvalho - Porto União - communico presado
amigo noticias chegam Canoinhas me deixam verdadeiramente contristado
continúa toda aquella zona sendo feita destruição systhematica proprieda-
des arrebanhamento gado cavallos assassinatos praticados Pedro Ruivo con-
tractado commandar ellementos civis sendo de notar depredações
assassinato exercido indistinctamente contra fanaticos ou não ha poucos di-
as Pedro Ruivo assassinou nove individuos eleitores Canoinhas contra os
quaes não havia menor accusação ainda ante-hontem chegaram Canoinhas
cavallos arreiados de pessoas que foram assassinadas Pedro Ruivo se sobre-
põe ali a todas autoridades e tem assassinado pessoas portadoras de salvos
conductos fornecidos autoridades millitares afim evitar que mais tarde se-
jam força vosso Exercito accusadas coparticipação esses crimes que aviltam
nossa civilisação conviria fosse instaurado urgente inquérito militar apural-
o convenientemente Pedro Ruivo Dente de Ouro são individuos sem escru-
pulos ciosos exercer vinganças contra população toda região confio provi-
denciara com urgencia exigidas circunstancias. Salvar Canoinhas completo
anniquilamento castigar criminosos. [...] Affectuosas saudações - Felippe
Schmidt (CARVALHO, 1916, p. 239).

Ao que tudo indica, o general Setembrino de Carvalho além de não


gostar do telegrama enviado por Schmidt, em que esse acusa homens como
Pedro Ruivo e Dente de Ouro4 de cometerem atrocidades contra eleitores da
região, parte na defensiva dos mesmos, bem como das ações efetuadas em
diferentes comunidades pertencentes ao município de Canoinhas. Pode-se
perceber a postura do então general, a partir de um trecho do telegrama em
resposta a correspondência anterior:

3
No desenvolvimento do presente artigo, optei por manter a linguagem original conforme encontrada
nas fontes consultadas.
4
Dente de Ouro, como era conhecido Salvador Pinheiro Machado era um afamado comerciante de
animais, que vivia nas proximidades do Rio do Peixe, até se juntar com o bando liderado pelo Coronel
Fabrício Vieira, e se destacar como um dos mais violentos e facínoras vaqueanos que participou da
Guerra, ao lado das forças militares.

249
De Porto União, 18-02-915.
Exm. Sr. Coronel Felippe Schmidt, governador Santa Catharina - Florianópo-
lis - Respondendo vosso terceiro telegramma não posso occultar mágua me
causa a facilidade com que meu presado amigo acceita informações, desairo-
sas a cerca forças sob meu commando geral e de distinctos camaradas exer-
cito em particular, que se salientam pela manutenção da disciplina, espirito
de ordem e energia para conservarem os seus commandados obedientes aos
princípios da moral. [...]
Como dever de cortezia somente ao prezado amigo, occuparei a minha at-
tenção neste momento para tratar de semelhantes infamias, tal o desgosto
que me trazem.
Nem Pedro Ruivo nem Dente de Ouro tem commettido depredações e assas-
sinatos de natureza alguma. Operam juntamente com as forças da Columna
Norte. Foram, é verdade, incendiadas muitíssimas casas encontradas em re-
ductos, alguns desconhecidos, na marcha triumphal operada pelo tenente-
coronel Onofre, como destruídos têm sido por outras columnas os aldea-
mentos de fanáticos. [...]
Quanto aos assassinatos a calumnia não adquire menores proporções. [...]
Tudo quanto dizeis, por informações pérfidas, da polícia do Paraná não po-
derá subsistir pelo testemunho irrefragável dos nossos camaradas do Exer-
cito, que a tratam como ser do Exercito fosse pela conducta irreprehensivel
inalteravelmente mantida desde o começo da campanha [...] (CARVALHO,
1916, p. 240 - 241).

Assim como Setembrino de Carvalho o governador do Estado de Santa


Catarina, também era militar e sabia bem do que estava falando. Mas ao con-
trário do que se esperava, as investigações oficiais só vieram depois do térmi-
no da Guerra do Contestado, e Pedro Ruivo e seu bando, saíram ilesos das
diversas acusações. Além de ser defendido, chegou a ser elogiado pelo próprio
general, ao tomar parte nas "arrojadas aventuras do capitão Potiguara"
(PEIXOTO, 1995a, p. 29).
Sobre os fatos citados por Felippe Schmidt em seu telegrama, Mauricio
Vinhas de Queiroz, quando trata do cerco feito aos redutos do Tomazinho e do
Pinheiros, nos aponta um pouco das atrocidades cometidas pelos vaqueanos
de Pedro Ruivo que acompanhavam a Coluna Norte, tendo no comando o capi-
tão Potiguara. Com uma força composta por 200 soldados e 50 vaqueanos,
primeiro mataram, no trajeto que ia a Vila Nova do Timbó, o conhecido Carnei-
rinho e mais 7 homens, sob o pretexto de que os mesmos haviam tentado se
rebelar e fugir. Neste evento os soldados aproveitaram para saquear o que
havia ficado para trás pelos sertanejos e atearam fogo nas casas aí existentes.
No reduto do Pinheiros também não foi diferente, porém as ações dos seus
vaqueanos junto a comunidade civil, causou escândalo e foi alvo do processo
reivindicado em 1915 pelo governador de Santa Catarina. Tal processo só se
deu em 1917, e segundo muitas testemunhas que depuseram, “Pedro Ruivo,
seu filho João e outros vaqueanos chegados ao chefe, assassinaram durante a

250
campanha diversos indivíduos que não eram fanáticos, roubaram centenas de
cabeças de gado, cavalos e mulas, incendiaram casas e estupraram mulheres”
(QUEIROZ, 1981, p. 220).
Ao final do processo, Pedro Ruivo e os homens sob seu comando, en-
volvidos nos crimes, foram absolvidos. Segundo Queiroz, após o fim da Guerra,
o famigerado chefe de vaqueanos se estabeleceu no Município de Lapa no Es-
tado do Paraná, onde levava vida luxuosa e confortável. De acordo com Rodri-
gues, "atuar ao lado do Exército garantia vantagens reais com aparato de
legalidade que a situação de guerra propiciava. Nessa situação dificilmente se
poderia contestar tais apropriações" (RODRIGUES, 2008, p. 352).
Outros grupos foram contratados e armados pelas diferentes expedi-
ções que combateram no Contestado, se autodenominavam como o piquete do
"fulano de tal" ou do "coronel tal", de forma genérica se reconheciam como
vaqueanos. Com o intuito de reforçar os efetivos militares, faziam as avançadas
e as explorações, uma vez que eram exímios conhecedores da geografia da
região, mas sobretudo, cometiam crimes muitas vezes incentivados por vin-
ganças pessoais e visando benefícios próprios, como o saque e a pilhagem. Esta
era uma forma de rápido enriquecimento!

O Batalhão Patriótico

Entre os grupos de vaqueanos que participaram ao lado do Exército na


última campanha empreendida no Contestado e sob o comando do general
Fernando Setembrino de Carvalho, outro chefe de vaqueano que se destacou
pelos crimes e atrocidades cometidas, foi Fabrício Vieira. Coronel da Guarda
Nacional, combatente da Revolução Federalista (1893-1895), lutou sob o co-
mando de Pinheiro Machado no Estado do Rio Grande do Sul. Após o fim da
revolta no estado vizinho, se estabeleceu com seus homens na localidade de
Frontin, à beira do rio Iguaçu, onde se apropriou na margem direita desse
mesmo rio, das terras de uma fazenda conhecida como Chapéu do Sol, há muito
tempo de propriedade da família do conhecido político Pinheiro Machado.
Polêmico e destemido coronel, considerado um dos mandões locais,
tinha grande interesse em terras para a venda e para exploração da erva-mate,
principal produto extrativo da região. Era acusado de espoliar os moradores
das localidades próximas as margens do rio Iguaçu, por meio do processo de
venda de terras a prestação, sendo que quando as mesmas já estavam quase
pagas, os expulsava e as tomava de volta, para revendê-las novamente.5

5
O capitão Matos Costa numa viagem a Capital Federal, alegou que esse coronel e Arthur de Paula, se
apropriavam das terras dos sertanejos para vendê-las posteriormente a Brazil Railway Company (BRC).
Sobre esse aspecto ver Rodrigues (2008, p. 356).

251
Por conta desses aspectos e de outros relacionados a sua pessoa, o Ca-
pitão do Exército João Teixeira de Matos Costa, que assumiu a missão no Con-
testado, logo após a retirada das tropas do General Mesquita, anterior portanto
a campanha de Setembrino de Carvalho, também o acusou juntamente a Arthur
de Paula, como os maiores responsáveis pela deflagração do movimento entre
os sertanejos, e o primeiro como envolvido no caso de derrame de notas falsas
pela região. A partir de sindicância aberta pelo capitão do Exército, ficou con-
firmada a coparticipação daquele coronel e de seus homens no referido crime,
porém os mesmos nunca foram punidos por esses atos. Segundo Queiroz,

Matos Costa conseguiu cartas e documentos que comprometiam o coronel.


Conseguiu-os por intermédio de Gabriel Vieira, sobrinho do próprio manda-
chuva, e de Filhinha, também sobrinha e ex-amante de Fabrício, mulher com
quem Matos Costa se relacionara. Mais tarde, durante sua viagem ao Rio, o
capitão mostraria esses documentos ao Ministro da Guerra. Sabe-se que em
revide os capangas de Fabrício andavam procurando Matos Costa para matá-
lo (QUEIROZ, 1981, p. 161).

Por conta disso, algum tempo pairou no ar suspeitas sobre o envolvi-


mento do Coronel Fabrício na morte do capitão Matos Costa, mas nunca foi
comprovado nada nesse sentido. De certa forma aquietadas as denúncias e
acusações sobre suas ações inescrupulosas, Fabrício com seus "patriotas" vol-
tam a ação durante a campanha empreendida pelo general Fernando Setem-
brino de Carvalho, a partir de meados de setembro de 1914.
Ao que tudo indica, Vieira foi o mais poderoso e influente chefe de va-
queanos que prestou serviço ao Exército brasileiro durante o movimento do
Contestado. Sua influência era tamanha, que segundo pesquisa empreendida
por Rodrigues (2008, p. 357) "é bem provável que seu Batalhão tenha sido
incluído como pertencente ao Exército, uma vez que entre os integrantes en-
contravam-se dois oficiais militares cedidos pelo próprio comandante-em-
chefe". Peixoto (1995c), afirma que ele e seu grupo eram muito bem remune-
rados, ao prestar serviços às tropas legais, já que aquele era possuidor de "ha-
bilidade inconfessável".
Possuidor de expressiva autoridade diante dos militares, seu bando de
"patriotas" ou fabricianos, como eram chamados os vaqueanos que prestavam
serviços à ele, gozavam de significativa autonomia diante das forças legais do
Exército em ação no Contestado.

Setembrino de Carvalho que orgulhosamente se gaba em sua memória de ter


sido imparcial nessa contenda, de ter levado a cabo uma guerra justa, sem
envolvimento com a politicagem local, não reconhece o quanto o Exército foi
aproveitado pelos fazendeiros da região para assegurar os privilégios tradi-
cionais de alguns. Ele que se preocupava, tal como os oficiais envolvidos di-

252
retamente com a modernização militar, em não confundir os soldados do
Exército com jagunços de coronéis, colocou lado a lado não só bandidos in-
corporados nos piquetes, mas também fazendeiros interesseiros junto aos
homens da força terrestre brasileira (RODRIGUES, 2008, p. 359).

Com uma relação praticamente amigável e de admiração por parte de


Setembrino de Carvalho, conquistou sua confiança e se aproveitava, sempre
que podia, dessas vantagens para entregar, acusar e retalhar as ações de de-
mais coronéis e políticos locais; como podemos perceber ao ler um telegrama
enviado diretamente ao general, que por sua vez, o reproduziu ao enviar ao
Ministro da Guerra:

Com as necessárias reservas, transcrevo o seguinte despacho do Cel. Fabrí-


cio, comandante em S. Matheus de um grupo de vaqueanos, que tem presta-
do excelentes serviços [Fabrício Vieira] "três indivíduos que aqui se
apresentam com as famílias nas suas declarações comprometem seriamente
Raphael Labela, Cel. Rupp de Campos Novos, Henrique de Almeida, de Curi-
tibanos, Eugênio Lamayson, de quem pessoalmente e por telegrama já vos
falei. Dizem afirmativamente que o desfecho geral será o Irany onde tem
pessoal competente para na ocasião oportuna agir e disto eu sou há muito
tempo convencido. É um perigo armar pessoal naquela zona. Bandidos apa-
rentam auxiliar autoridades com o fim de pegar armamentos". Cordiais sau-
dações, General Setembrino.6

Por meio desse, Fabrício Vieira procura fazer intriga entre o comando
central da expedição e homens da região, que de certa forma disputavam ter-
ras e também prestavam serviços como forças civis ao Exército. Esse é o caso
de Eugenio La Maison, citado no telegrama.
É possível perceber a confiança atribuída ao coronel Fabrício Vieira,
quando logo após assumir o comando da última Campanha na região do Con-
testado, o general Setembrino de Carvalho tratou de contratar o dito coronel e
seus homens, deixando de lado, segundo Peixoto (1995c, p. 7) "o passado mau
daquela gente", munindo-os de armamentos e repassando ordens a seu líder,
que após viagem a Curitiba, onde se encontrava instalado o quartel general das
forças em guerra, reuniu seus vaqueanos e empossou sob suas ordens seus
comandos imediatos. Sobre o coronel e amigo, afirmou Setembrino em seu
relatório:

Patriota resoluto e valente, acostumado, desde a revolta de 93, onde comba-


teu galhardamente ao lado do Governo, a dirigir homens, foi-lhe fácil reunir,
em pouco tempo, cento e cinquenta sertanejos, que sobre este, se notabiliza-
ram, no correr da luta, por outros assignalados serviços (CARVALHO, 1916,
p. 46).

6
Telegrama do General Fernando Setembrino de Carvalho ao Ministro da Guerra José Caetano de Faria,
04/12/1914.

253
Além de um grande número de civis que compunham o chamado "Ba-
talhão Patriótico", o grupo, ou melhor bando de mercenários, contava com os
sargentos do Exército, Saturnino e Waldomiro. 7
Foi então em meados de outubro, que o general Fernando Setembrino
de Carvalho incumbiu Vieira, junto de seu grupo de vaqueanos, a tarefa de
patrulhar as margens do rio Iguaçu, pois segundo Setembrino, era comum
utilizando-se do rio, o tráfico de armas, couro, mantimentos, enfim, artigos de
todos os gêneros necessários à sobrevivência dos "fanáticos" no contexto da
guerra. Segundo consta no seu relatório apresentado ao Ministro da Guerra,
Caetano de Faria no ano de 1916, o general tomou essa atitude diante das difi-
culdades que encontrou em acionar os meios ligados a Marinha brasileira.
Chegou a fazer formalmente o pedido ao Ministro da Marinha, Almirante Ale-
xandrino de Alencar, para enviar ao porto de Paranaguá, uma embarcação
apropriada e destinada a fornecer os elementos precisos á armação de peque-
na frota. Urgia então fiscalizar com rigor a navegação por aquele rio, utilizado
por comerciantes locais para este tipo de tráfico, e nesse sentido, era necessá-
rio um policiamento do mesmo, por meio de barcos a vapor com certa artilha-
ria, o que ajudaria a controlar essa porta de entrada de víveres aos revoltosos.

Invoquei, neste sentido, o auxílio do Sr. Ministro da Marinha, Almirante Ale-


xandrino de Alencar, que mandou, prestes, apresentar-se-me o capitão Plínio
Rocha, expedindo, sem tardança, para o porto de Paranaguá, o cruzador Re-
pública, destinado a fornecer os elementos precisos à armação de pequenina
frota. Todos e tais, porém, foram os empecilhos, que no fim de pouco tempo
eu me via forçado a desistir da empresa, agradecendo, penhorado, ao ilustre
almirante, o patriótico empenho que pusera em facilitar-me a dificílima tare-
fa (CARVALHO, 1916, p. 46).

Justificou o general em seu relatório, que foram tantas as dificuldades


encontradas diante da efetivação de tal solicitação, que acabou dentro de pou-
co tempo desistindo de tal ideia e mudando os meios pelos quais pretendia
efetivar o plano de patrulhar as margens do referido rio. Nesse sentido, buscou
a ajuda de um dos homens que melhor do que ninguém, conhecia aquela regi-
ão, uma vez que suas terras ali se localizavam:

Restringi-me, então, ao adjutorio que, no caso, me prestaria o coronel Fabri-


cio Vieira, a quem telegraphei convidando para uma conferencia, na qual se
tratou da organização de uma columna volante de vaqueanos, cuja missão

7
De acordo com as fontes, mais precisamente notícias divulgadas pelo periódico Diário da Tarde do
Paraná, o sargento Saturnino presenciou o episódio do Iguaçu em que se deram as mortes a beira desse
rio e que será abordado nesse artigo.

254
seria bater a margem direita do rio, nos trechos em que se praticava o con-
trabando (CARVALHO, 1916, p. 46).

O fato é que a reincorporação da gente do Coronel Fabrício, despertou


um certo estado de alerta entre a população da região e a imprensa paranaense
e carioca, que já havia tomado conhecimento e cedido espaço em suas páginas
no passado, aos mandos e desmandos que envolviam o grupo sob seu coman-
do. Peixoto (1995c, p. 8) quando na sua obra, trabalha a atuação das forças
legais as margens do rio Iguaçu, salienta que a imprensa extremamente inco-
modada com a incorporação do referido grupo às forças legais, tratou de publi-
car suas opiniões, cogitando consequências para um futuro próximo. É assim
que a Gazeta de Notícias, periódico do Rio de Janeiro, lançou as suas impres-
sões sobre essa reaproximação e utilização dos serviços do referido coronel:

[...] O coronel Fabricio ainda dará que fazer ao próprio general que o tem em
boa conta. Muito perto estarão os dias de aborrecimento para o inspector
militar que dirige as operações contra os jagunços.
E ainda, desarmar depois o pessoal do coronel, será motivo, quiçá, para nova
incursão de tropa - para uma outra expedição militar no territorio contesta-
do.
A "gente" do coronel Fabricio não deve estar armada com assentimento do
governo, sobre ella ha suspeitas as mais graves e ainda não apuradas. Para
que, semelhante gente unida ao valoroso Exercito de tão gloriosas tradições?
Para que serem os soldados da nação irmanados com a baixa gentalha dos
crimes de estradas?
Esperemos pelo resultado. Os dias se passarão breves e os fatos responderão
as nossas interrogações (GAZETA DE NOTÍCIAS, 04/01/1915).

Pois bem, como numa sucessão de fatos, não tardou para começar a
serem divulgadas notícias que denunciavam atrocidades cada vez maiores,
atribuídas a gente do coronel Fabrício Vieira.

Uma chacina de imigrantes!

"A tragédia do Iguassú e a gente do coronel Fabricio


Lista de victimas do "Dente de Ouro" e as suas façanhas."
(GAZETA DE NOTÍCIAS, 29/01/1915).

A pequena epígrafe aqui citada trata do título de uma notícia publicada


pelo periódico Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, em 29 do primeiro mês do
ano de 1915. Esse episódio brevemente abordado em algumas obras que são
referência para o estudo do movimento social do Contestado, é aqui analisado

255
com certa profundidade, já que o presente artigo é fruto de árdua e longa pes-
quisa de doutorado.8
Essa nota, é transcrição de parte de uma outra publicada pelo jornal
Diário da Tarde de Curitiba, que ganhou grande destaque e ocupou duas colu-
nas da primeira página do periódico, em que conta com bastante riqueza de
detalhes, como se deu a chacina. Vamos aos fatos: nas proximidades dos Bugi-
os, a margem direita do rio Iguaçu, residia Rufino Teixeira, sendo que em sua
casa encontravam-se na noite do dia 21 para 22 de novembro José Lyrio Santi 9
e um camarada10 conversando, quando bateu a sua porta um homem chamado
Isaias Daniel11, tenente da guarda nacional e que pertencia ao bando do afama-
do Dente de Ouro.12 Aquele com uma escolta de outros 30 homens, fez prisio-
neiros os dois visitantes e com eles desceram em direção a um rancho
próximo a casa de Rufino, onde se encontravam outros 16 homens, descansan-
do após o dia de trabalho. De acordo com o cruzamento das informações das
diversas notas publicadas pelos periódicos, os dois homens capturados seriam
José Lyrio Santi e Evaristo Felippe, sendo que a maioria dos homens que se
encontravam no referido rancho, trabalhavam para José Lyrio Santi na lavoura
e coleta de nó de pinho, e outros dois ou três integrados também a esse grupo,
eram empregados de Evaristo Felippe.
Os homens aprisionados por Isaias Daniel, foram amarrados de 2 em 2
com uma corda pelo pescoço, tendo a escolta saqueado o rancho e revistado o

8
Para o desenvolvimento deste artigo, utilizei-me de fontes como os periódicos disponíveis na hemero-
teca digital da Biblioteca Nacional, entre eles: Gazeta de Notícias e A Noite do Rio de Janeiro e o Diário
da Tarde do Paraná. Da Biblioteca Pública de Santa Catarina: O Estado e Folha do Comércio de Santa
Catarina. E também de documentos existentes em arquivos diversos, como no Arquivo do Itamaraty no
Rio de Janeiro, Arquivo Histórico do Exército, Arquivo Público do Estado de Santa Catarina e Anais da
Câmara dos Deputados.
9
Encontramos o nome de José Lyrio Santi, grafado de diferentes formas, bem como, diferentes apelidos
atribuídos a sua pessoa, como: José Lille, Justino Lyrio Santi, Giuseppe Lyrio Santi e Bepe Lirio. O
único documento encontrado até agora e que consta seu nome, é sua certidão de matrimônio no religioso,
sendo seu nome grafado como - José Santi. Acredito que ele e os demais homens mortos na chacina, não
tiveram certidão de óbito, já que foram todos enterrados numa vala comum e sem identificação de seus
corpos. Informação confirmada também em entrevista concedida por um bisneto seu.
10
Por meio de informações encontradas nas diversas notas publicadas pelo Diário da Tarde, supomos
que esse terceiro homem seja Evaristo Felippe, que ao que tudo indica, havia junto de mais outros três
homens, levado porcos de Porto União à Porto Marcolino, onde aconteceu o crime.
11
Na notícia publicada pelo jornal Gazeta de Notícias no dia 29 de jan. de 1915, em que se faz uma
longa narração acerca desse episódio e da qual acredito ter sido extraída a citação feita por Demerval
Peixoto, consta a informação de que faziam parte da referida escolta o sargento do Exército Saturnino e
certo Domingos de tal, não mencionando o nome de Isaias Daniel, sendo essa informação proveniente
das edições do Diário da Tarde de 12 e 14 de dezembro de 1914, respectivamente.
12
Segundo Rodrigues (2008, p. 318), Salvador Pinheiro Machado, temido bandido nos sertões catarinen-
ses mais conhecido como "Dente de Ouro", provinha de família influente: sobrinho do senador Pinheiro
Machado, fugiu do Rio Grande do Sul por envolvimento em homicídio. Buscou refúgio no planalto
catarinense e foi recebido pela família Ramos, de Lages, com quem mantinha laços de parentesco.
Durante a Guerra do Contestado foi um dos vaqueanos do coronel Fabrício Vieira e contribuiu para
avultar os crimes cometidos pelo bando desse oficial da Guarda Nacional.

256
bolso de todos, roubaram tudo que podiam, mantimentos, dinheiro e roupas.
Levaram os mesmos até a beira do rio, no Porto Marcolino onde foram obriga-
dos a embarcar na lancha que já os aguardava, afim de subir o rio até o Porto
dos Bugios, local em que encontrariam Dente de Ouro e o outro grupo com o
prisioneiro Joaquim Vicente. E assim se fez, todos embarcados na lancha segui-
ram cerca de 3 quilômetros acima, pararam atracando a embarcação em frente
a um descampado, ao que tudo indica, previamente preparado, onde se deu a
chacina.13
Os jornais provavelmente com a intenção de causar maior comoção
ainda ao público leitor, publicaram que todos os homens, clamavam por suas
vidas e por suas famílias, pedindo para serem levados a presença do coronel
Fabrício para se explicarem, e até mesmo invocando a justiça divina, mas de
nada adiantaram os seus clamores. Dizem que alguns morreram ao ver a cena
macabra, antes mesmo de chegar a sua vez, que ia se repetindo um a um com
seus camaradas que foram degolados com arma branca. Após finalizada a ter-
rível empreitada, a escolta composta pelos fabricianos, voltou a Barra Feia
onde haviam deixado na noite anterior, o referido coronel. Ao chegar no porto
dessa localidade,

[...] ao mesmo tempo que o vapor "Paraná", que vinha de rumo opposto e cu-
jos passageiros viram os sanguinarios desembarcar, com as vestes cobertas
do sangue das victimas, sacrificadas com a frieza com que se abate o gado
nos matadouros, excepto o tal que se aprumava com o terno de Lille
(GAZETA DE NOTÍCIAS, 29/01/1915).

Afirma o periódico ainda, que o sargento do Exército chamado Satur-


nino que acompanhava o grupo e o piloto da lancha assistiram toda a cena e
nada fizeram, apenas ficaram imóveis, sendo que aquele primeiro "abatido e
envergonhado, cobriu o rosto com o chapéo e o capote e, tristemente murmu-
rava para o machinista da lancha, que aquillo era uma infamia e uma covardia"
(GAZETA DE NOTÍCIAS, 29/01/1915). Sendo que o segundo, tomado de pavor
"entorpecera a língua". Diante de um provável inquérito ansiosamente já co-
brado pela imprensa, esse último poderia ser chamado a testemunhar depois
que retomasse os sentidos e conseguisse falar novamente!
Os cadáveres em número de 1814, de acordo com as duas listas divulga-
das pelos jornais, ficaram insepultos por cerca de 15 dias. 15 O jornal aponta

13
Os homens assassinados foram capturados do lado direito do rio, entre Barra Feia e Timbó e levados a
Porto Marcolino onde foram embarcados numa lancha seguindo para a margem esquerda do rio Iguaçu,
território sobre a jurisdição do Estado de Santa Catarina, não muito distante da fazenda Chapéo de Sol,
de propriedade do próprio Fabrício Vieira.
14
Cheguei a esse número depois que analisei e comparei listas divulgadas pelos periódicos pesquisados.
Uma divulgada pelo Diário da Tarde a 14 de dezembro de 1914, em que trás os nomes e nacionalidades
dos assassinados e outra da Gazeta de Notícias, publicada em 29 de janeiro de 1915, que apresenta a

257
ainda, que no caminho, um dos camaradas de Rufino Teixeira, teve a sorte de
ser amigo de um dos homens da escolta, que lhe deu a possibilidade de fugir
para o mato e assim escapar da morte que o esperava, supomos que esse fosse
Evaristo Felippe, pois o mesmo sobreviveu a chacina.
Depois do ocorrido os fabricianos armados em "nome da lei", roubaram
os porcos de Evaristo Felippe, comendo alguns deles e repartindo o restante,
fruto do roubo. Não dando por satisfeitos, ou com medo de que Felippe pudes-
se testemunhar contra os mesmos, fizeram João Bastos, velho prisioneiro, ir
até Porto União com a finalidade de atrair o dono dos porcos ao local da chaci-
na para matá-lo também. "O velhinho, entanto, longe de querer levar Evaristo
aos bandidos, foi avisal-o das intenções dessa gente e do fim que tinham levado
seus camaradas e seus porcos". (DIÁRIO DA TARDE, 14/12/1914). Após o
ocorrido, tanto Rufino Teixeira quanto Evaristo Felippe, foram abrigados em
São Matheus, município do Estado do Paraná.
Mas as atitudes criminosas desses civis a serviço do Exército brasileiro,
não pararam por aí. Segundo o Diário da Tarde, no dia 10 de dezembro, o jor-
nal Commercio do Paraná publicou uma nota em que os "patriotas" do coronel
Fabrício, para justificar o seu hediondo crime, arquitetaram uma mal contada
história, afim de se eximirem dos seus atos, dizendo que os trabalhadores as-
sassinados eram fornecedores de gêneros aos "fanáticos". O Diário da Tarde
diz ainda, que por meio de uma carta recebida de União da Vitória, e publicada
no referido periódico, obtiveram informações de que "os trabalhadores eram
victimas de perseguições commerciais e tiveram a infelicidade de possuir al-
gum dinheiro" (DIÁRIO DA TARDE, 10/12/1914).
Na narração desse caso por Peixoto (1995c), também nos chama aten-
ção quanto ao seu posicionamento um tanto contraditório. Ao mesmo tempo
que ele parece sustentar a ideia de que os homens assassinados eram de fato
fornecedores dos rebeldes, pois era muito difícil a fiscalização acerca da venda
de armas e sal, ele afirma que pairavam dúvidas em torno da forma de como se
deram as mortes cometidas pelos homens do coronel Fabrício Vieira.
Segundo lista divulgada pelo Jornal Gazeta de Notícias, os homens
mortos na chacina foram:

profissão de cada um deles além das informações citadas pelo Diário da Tarde. Até outubro de 2016,
pairavam dúvidas sobre o número exato de mortos, porém numa última incursão ao Arquivo do Itama-
raty, tive a felicidade de encontrar o laudo cadavérico dos homens mortos na chacina. Neste documento,
tive a informação de que havia sido realizado laudo cadavérico em 17 esqueletos, encontrados próximos
as barrancas do Iguaçu. De acordo com informação de moradores da região um dos 18 homens conse-
guiu se jogar no rio, escapando assim da morte.
15
O referido crime aconteceu na margem esquerda do rio Iguaçu, atualmente comunidade de Felipe
Schmidt pertencente ao município de Canoinhas, Estado de Santa Catarina. No local, existe uma lápide
com a seguinte inscrição: "Aqui jazem 17 herois assassinados."

258
Rosalino Alves, lavrador (brasileiro); Alfredo Ferreira, padeiro (brasileiro);
José Sartori, lavrador (italiano); José Lyrio Santi, empreiteiro (italiano); An-
tonio Preti, lavrador (italiano); Angelo Tress, lavrador (italiano); Valentim
Fachim (ou Fachini), pedreiro (italiano); José Merkel, lavrador (allemão); Jo-
ão Merkel, lavrador (allemão); José Lichesky, lavrador (polaco); Adolpho
Souza, lavrador (brasileiro); Domingos Moura, marceneiro (brasileiro); Ho-
racio Felippe, lavrador (italiano); João Antonio, pedreiro (portuguez); Celes-
tino Januario, lavrador (brasileiro); Evaristo Miron, canteiro (hespanhol);
Isolino Miron, canteiro (hespanhol); Joaquim Vicente, negociante (brasileiro)
(GAZETA DE NOTÍCIAS, 15/01/1915), (GAZETA DE NOTÍCIAS,
29/01/1915).

Destes José Sartori, Alfredo Ferreira e Rosalino Alves eram "camara-


das" de Evaristo Felippe, responsáveis pela condução e venda dos porcos que
foram roubados pelos homens do coronel Fabrício após a matança. Os demais
mortos na chacina ao que tudo indica, trabalhavam para José Lyrio Santi. Se-
gundo entrevista concedida na época pela viúva - Justina Berton, ao Diário da
Tarde, Santi exercia há doze anos a função de empreiteiro da Estrada de Ferro
São Paulo-Rio Grande, e vivia em União da Vitória com sua família. Tinha 36
anos de idade, nascido na Itália, veio para o Brasil fazia 20 anos. Estabeleceu-se
primeiro em São José dos Pinhais, indo depois viver na localidade de Morretes
e por último em União da Vitória.
Como a maior parte dos homens eram estrangeiros, afirmavam ainda
os periódicos que atos de selvageria e banditismo daquela natureza, poderia
depor contra a Nação inteira e poderiam ter "reflexo no estrangeiro", uma vez
que as vítimas eram quase todas "naturais de além mar". Que bem provavel-
mente esta questão traria problemas diplomáticos, além de grandes aborreci-
mentos.
Pois bem, de fato não tardou para os consulados começarem a se ma-
nifestar. Em telegrama enviado pelo governador do Estado do Paraná - Carlos
Cavalcanti, ao Ministro Lauro Müller, em 16 de dezembro de 1914, aquele co-
loca que:

Em virtude assassinatos se deram margem Iguassú, Porto Marcolino, cuja


autoria attribuem civis, auxiliares forças federal, denunciando imprensa ha-
ver um ou mais cidadãos de nacionalidade italiana, tenho tido diversas con-
ferencias competente consul, autoridades civis e militares estavam
providenciando toda a urgencia afim apurar responsabilidade culpados seri-
am punidos accordo nossas leis. Fiz lhe sentir que essa região se achava con-
flagrada pelo Banditismo denominado dos fanaticos que nella operavam
forças federaes, afim restabelecer ordem em consequencia intervenção de-
cretada união; que nestas condições tratando se de civis auxiliares forças,
general mandara daqui official exercito abrir inquerito policial militar ao

259
mesmo tempo que autoridade civil mandava proceder inhumação cadaveres
e lavrar competente auto ulterior procedimento judicial.16

Enquanto corria supostamente um inquérito militar sobre o caso, em


paralelo foi aberto um processo de sindicância pelo cônsul ordenado pelo mi-
nistro plenipotenciário italiano no Brasil, que por sua vez agiu de acordo com
instruções de Lauro Muller, bastante interessado na apuração dos fatos. "Aca-
bo estar Ministro Italiano que declarou Consul seu paiz irá a Porto União e
outros logares com o fim indagar situação familias italianas attingidas conse-
quencias factos Porto Marcolino."17
A estas alturas, já sabia o cônsul, sendo repassada informações ao
comando geral da Coluna Oeste - Coronel Sócrates, que as mortes eram atribu-
ídas a "gente" do coronel Fabrício Vieira. E com a intenção de dar orientações
de como proceder em relação a uma provável visita e investigação a ser feita
pelo cônsul italiano, o general Setembrino de Carvalho enviou um telegrama a
seu subordinado:

Diz seguir hoje para ahi o consul italiano que foi por ontem ao ministro to-
mar informações sobre morte um ou dois subditos de sua Nação e que estas
mortes são attribuidas a gente Cel Fabricio.
Deve recebel-o muito bem e se faz esta recommendação não é devido ao Cel
Socrates mas para que não soffra desacato de pessoa alguma afim evitar
complicações.
Quanto ás averiguações, digo, informações que pretende colher nada com el-
las temos.
Já mandei um official proceder a um inquerito. Convem evitar manifestações
a respeito da parte da nossa gente. Toda reserva é conveniente, afim não su-
pponham insinuações.18

Pode-se perceber também por meio desse telegrama, que conforme


Carlos Cavalcanti havia comunicado à Lauro Müller, o general Setembrino de
Carvalho já havia mandado abrir inquérito para a apuração dos fatos. Mesmo
assim, para dar andamento a sindicância, o cônsul foi até União da Vitória,
aspecto que pode ser comprovado a partir do telegrama enviado pelo coronel
Arthur Sócrates em 21 de dezembro, por meio do qual aquele comunicava que
o cônsul esteve por lá entre os dias 19 e 20 de dezembro.

16
Correspondência enviada pelo Presidente do Estado do Paraná Carlos Cavalcanti ao Ministro das
Relações Exteriores Lauro Müller, anexada ao telegrama enviado pelo Ministro da Guerra José Caetano
de Faria ao general Fernando Setembrino de Carvalho, comandante das forças em operações de guerra
no Contestado. 19 dez. 1914. In: Relatório 21 – Cx. 09, Pasta 13. Fundo Contestado, Arquivo Histórico
do Exército – AHEX.
17
Ibidem.
18
Correspondência efetuada entre o General Fernando Setembrino de Carvalho, comandante das forças
em operações de guerra no Contestado, ao Coronel Eduardo Arthur Sócrates, comandante da Linha
Oeste. 17 dez. 1914. In: Inquérito Policial Militar 05 - Cx. 02, Pasta 02. Fundo Contestado, Arquivo
Histórico do Exército - AHEX.

260
Consul esteve commigo. Pedi presença do Fabricio, a quem telegraphei soli-
citando vir aqui [...] vão disposições. Entretanto seguiram hontem Capinsal,.
Peço que mandeis attestados [...] operação comandante linha Oeste para jun-
tar meu ajuste contas contabilidade [...] Coronel accordo solução ministro.
Saudações coronel Sócrates. 19

Na correspondência enviada por Lauro Müller à Carlos Cavalcanti para


comunicar sobre a viagem do cônsul italiano a Porto União, aquele também
pediu ao governador do Estado que providenciasse local em que as famílias
das vítimas, pudessem ser recolhidas provisoriamente e que mais tarde as
mesmas tivessem um destino certo. Afirmava que este ato de humanidade
contribuiria como atenuante à lamentável impressão que os fatos apontados,
se fossem verdadeiros, haveriam de causar na laboriosa colônia italiana no
Brasil.
De fato, além do consulado, representantes da colônia italiana se reu-
niram em Curitiba numa sala do Jornal "Il Roma" para discutir e deliberar so-
bre as atitudes que deveriam ser tomadas em relação aos acontecimentos do
Iguaçu, que envolviam vários de seus "compatriotas".
Tão logo fora divulgada no referido periódico paranaense a reunião
realizada pela colônia italiana, a imprensa carioca já publicava uma nota por
meio do periódico - A Noite, sob o título "Um acto de banditismo - Os italianos
em Curityba tratam do degollamento de seus patricios." (A Noite, 16 dez.
1914). Nessa nota estabeleceram as ações que seriam tomadas pelo grupo:
realizar meetings, mandar apresentar na câmara italiana uma interpelação ao
ministro do exterior daquele país, por meio do deputado romano Salvador
Berrilai, convidar os membros da colônia a assinar protesto para ser remetido
ao ministro italiano, convidar e consequentemente levar o fato ao conhecimen-
to de toda a imprensa italiana e sul-americana, e por fim, manter viva a agita-
ção até que se obtivesse justiça. Para isso, segundo Carlos Cavalcante, a mesma
colônia adotou a seguinte ordem do dia:

[...] Comité italiano de agitação, eleito na reunião realisada no dia primeiro


corrente na redação do "Il Roma", considerando que o assassinio de seus
subditos italianos barbaramente executados pelos homens do famigerado
Coronel Fabrício, constitue mais do que um crime punido pelo codigo penal
uma affronte a civilisação moderna: considerando que a colonia italiana fe-
rida no coração pelo feroz crime tem direito a uma plena satisfação; faz vo-
tos que a autoridade consular saberá fazer valer os direitos das viuvas dos

19
Telegrama enviado pelo coronel Eduardo Arthur Sócrates, comandante da Linha Oeste ao general
Fernando Setembrino de Carvalho, comandante das forças em operações de guerra no Contestado. Em
21 dez. 1914. In: Telegrama 12 - Cx. 02, Pasta 04. Fundo Contestado, Arquivo Histórico do Exército -
AHEX.

261
assassinados: e se empenha a sustentar viva agitação pela imprensa e com
publicos meetings enquanto a questão não esteja completamente resolvida.20

Em pesquisa realizada no Diário da Tarde, encontram-se também no-


tas da colônia espanhola que nos mesmos moldes da italiana, realizaram reu-
niões, publicaram chamados nos periódicos e estabeleceram uma comissão,
para levar adiante seus protestos e cobrar do consulado espanhol ações em
relação aos irmãos Miron, mortos na chacina.
A primeira nota encontrada sobre esses últimos, foi um pequeno cha-
mado na 2ª página do Diário da Tarde, publicada em 19 de dezembro de 1914
em língua espanhola, pela qual se convidava todos os espanhóis a participar de
uma reunião, que se daria no domingo dia 20 de dezembro as 15:30 na Socie-
dade Espanhola de B. I. Alfonso XIII, em Curitiba. No convite, afirmava-se que
seriam reivindicados das autoridades competentes, justiça acerca dos compa-
triotas irmãos Miron Vasquez, barbaramente degolados no dia 22 de novem-
bro na margem esquerda do rio Iguaçu. Dois dias depois da data em que se
daria a referida reunião, foi publicada novamente no Diário da Tarde, uma
nota, agora na primeira página e de porte maior, sob o título: "A colonia Hes-
panhola em Coritiba, protesta contra o degollamento de dous compatriotas
seus" (DIÁRIO DA TARDE, 22/12/1914).
Os textos publicados nos periódicos são muito parecidos com o que a
colônia italiana publicou quando da realização da sua reunião, sendo que as
ações eram basicamente as mesmas: levar o fato ao conhecimento do ministro
plenipotenciário espanhol por intermédio do consulado, e consequentemente
cobrar do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, um posicionamento
bem como, proteção de familiares das vítimas; dar visibilidade ao caso por
meio de convocação da imprensa, não só nacional como também fora do Brasil;
e nomear uma comissão para acompanhar mais de perto, junto ao consulado, o
desenrolar dos fatos.
Tudo indica, que o primeiro consulado a se manifestar em relação a
morte desses homens, na sua maioria estrangeiros e de origem italiana, fora o
consulado da Itália, mas na pesquisa empreendida no Arquivo do Itamaraty,
curiosamente não encontrei nenhum documento diretamente enviado por
aquele consulado.21 Praticamente todos os documentos que até agora consegui

20
Correspondência enviada pelo Presidente do Estado do Paraná Carlos Cavalcanti ao Ministro das
Relações Exteriores Lauro Müller, anexada ao telegrama enviado pelo Ministro da Guerra José Caetano
de Faria ao general Fernando Setembrino de Carvalho, comandante das forças em operações de guerra
no Contestado. 19 dez. 1914. In: Relatório 21 – Cx. 09, Pasta 13. Fundo Contestado, Arquivo Histórico
do Exército – AHEX.
21
Em consulta feita ao Professor e Pesquisador Luigi Biondi e encaminhada por e-mail, esse afirma que
"infelizmente não há documentos digitalizados desse tipo, pior ainda, não há documentos consulares
disponíveis das sedes no Brasil, nem no arquivo do ministério das relações exteriores em Roma. Ao que
parece, o que aconteceu, muito provavelmente, é que os italianos destruíram toda a documentação consu-

262
ter acesso, em relação as mortes dos italianos, são na sua maioria telegramas
trocados entre o Governo do Estado do Paraná, Ministério das Relações Exteri-
ores, Ministério da Guerra e comando geral das forças em operação no Contes-
tado, representado pela figura do general Setembrino de Carvalho. Já em
relação a outros três consulados - Espanha, Portugal e Áustria-Hungria, conse-
gui ter acesso a documentação trocada e diretamente emitida pelos consula-
dos.
Por meio de uma série de correspondências trocadas entre o consula-
do da Espanha e o Ministério das Relações Exteriores, pude perceber a pressão
feita por aquele país sobre o caso, em que cobravam além de um posiciona-
mento, providências do governo brasileiro, em relação a morte dos irmãos
espanhóis, Evaristo e Isolino Miron.
O cônsul espanhol por repetidas vezes, encaminhou telegramas e car-
tas contendo anexos e memorandos, exigindo que os culpados pelo crime fos-
sem condenados, e que o governo brasileiro pagasse uma indenização como
forma de reparação aos familiares das vítimas espanholas. As correspondên-
cias seguem até os primeiros meses de 1918, quando finalmente depois de três
longos anos de muita negociação, o governo brasileiro resolveu pagar em 07 de
março de 1918, o valor de 10.000 pesetas aos pais dos dois irmãos espanhóis
mortos na chacina do Iguaçu.
Mesmo um pouco tardiamente, o consulado da Áustria-Hungria, tam-
bém se manifestou junto ao governo do Estado do Paraná em abril de 1915,
sobre a morte de um súdito Austríaco no episódio. Na correspondência envia-
da pelo cônsul, ele coloca:

Entre as victimas da tragedia que se desenrolou no dia 21 de Novembro p.p.


nas margens do Rio Iguassú perto do Porto Marcollino e da qual são autores
os vaqueanos do Coronel Fabricio de Vieira commandados pelo individuo
chamado Dente de Ouro, encontra-se o operario Antonio Preti, de 26 annos
de idade de nacionalidade austriaca. Conforme as informações recebidas
por este I e R. Consulado do seu tio Isidoro Preti, residente em Jaraguá, bem
assim das respectivas noticias nos jornaes o dito operario foi barbaramente
assassinado e totalmente roubado tendo sido encontrado o seu cadaver
completamente despojado.22

Provavelmente o consulado tenha se manifestado somente após 5


meses do acontecido, por diversos motivos, suponho que entre eles estejam

lar no período da Segunda Guerra Mundial, inclusive a referente a períodos anteriores à chegada do
fascismo no poder. Provavelmente, como essa documentação estava nas mesmas pastas de documentos
referentes a Segunda Guerra, pode ter ocorrido a destruição também de material documental pré-1922".

22
Telegrama recebido pelo governo do Estado do Paraná em 17 abr. 1915. In: Telegramas recebidos pelo
governo do Estado do Paraná - 1875-1915 - 309/2/12. Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro.

263
questões ligadas a demora desde a constatação da chacina, identificação dos
cadáveres e andamento dos respectivos processos na justiça comum e militar.
Reforço essa hipótese pois na documentação acima transcrita, o cônsul afirma
que somente após o recebimento de notícias sobre o assassinato e posterior-
mente, tendo sido provada a nacionalidade da vítima, é que este "Imperial e
Real Consulado dirigiu-se a I. R. Legação da Áustria-Hungria em Petropolis
informando-a sobre o acontecimento". 23 De acordo com as instruções repassa-
das pela Legação ao Cônsul em Curitiba, algumas exigências foram feitas ao
governo do Estado:

[...] mandar tomar providencias afim que sejam presos e punidos os autores
desse crime bem assim providencias afim que sejam restituidos os objectos
de valor e o dinheiro do victimado aos seus parentes. Alem disso tomo a li-
berdade de pedir a V.Ex. o especial favor de dignar-se communicar-me, qual
a attitude do Governo do Estado em face desta questão no caso de uma res-
pectiva reclamação, visto que conforme ás informações do consul da Italia
nesta Capital, o Governo do Estado visa a inquisição do crime e a punição dos
autores eu só a indemnisação, que será eventualmente exigida. (A questão
de uma indeminisação depende das instrucções, que a I. e R. Legação em Pe-
tropolis receberá do meu Governo).24

Ao que tudo indica, esse caso não teve um desfecho tão profícuo para
os familiares da vítima, quanto o caso dos irmãos espanhóis Miron Vasquez.
Em extensa nota remetida ao consulado o secretário do Interior, Justiça e Ins-
trução Pública do Estado do Paraná, justifica que toda aquela zona estava sob
ação das forças legais em operações de guerra contra os "fanáticos e bandidos",
e que somente o chefe das operações - general Setembrino de Carvalho, é que
poderia informar se o caso se tratava ou não de um crime, e para isso havia
sido aberto inquérito do qual, até aquela data, o governo não tinha ainda co-
nhecimento oficial. E para justificar a posição do governo, em relação ao paga-
mento de uma suposta indenização solicitada pelo consulado, enfatiza:

O Governo do Estado, como deverá ter chegado ao conhecimento desse Real


Consulado, não deixou, nem deixa, ao abandono a vida e propriedade dos
seus juridicionados, quer se trate de nacionaes, quer se trate de extrangei-
ros, dessa ou daquella nacionalidade. Não podendo fazer, como em officio ao
Sr. Consul da Italia, foi affirmado, distincção entre nacionaes e extrangeiros
quanto a prejuizos causados, distincção que não existe perante as leis de to-
das as nacções cultas, ao Estado não cabe nenhuma obrigação juridica quan-
to á reclamação a que vos referis. Quanto a informação que pedis a respeito
das victimas dos fanaticos, o Governo não pode por ser extensa a relação del-
las enumerar, separando nacionaes e estrangeiros, porquanto o amparo que
é obrigado a conceder aproveita uns e outros, sem distincção odiosa de naci-

23
Ibid.
24
Ibid.

264
onalidade. Reconhecel-a seria, como foi affirmado ao Sr. Consul da Italia,
deixar os estrangeiros em melhores condições que os nacionaes, o que seria
condemnavel ante os principios que nos regem e a todas as nações cultas ou
então, no caso de attender-se uns e outros nas suas reclamações, um verda-
deiro absurdo, sem assento em nenhuma disposição constitucional. O Go-
verno do Estado consoante aos principios de justiça em que se inspira, sob a
egide da Constituição e leis que nos regem, fará processar e punir como cos-
tuma, todos aquelles cujos actos forem sujeitos a sancção penal.25

Esta documentação foi remetida pelo governo do Estado do Paraná,


em cópia também ao Ministério das Relações Exteriores, para que fosse do
conhecimento desse, a proporção que havia tomado tal incidente. No que diz
respeito a reparação por parte dos poderes públicos estaduais e federais, em
relação a mais esta vítima da chacina do Iguaçu, acredito que como já afirmado
anteriormente, não foram pagas indenizações à nenhum dos familiares. O fato
é que o último documento que tive acesso sobre o súdito austríaco Antonio
Preti, se trata de uma nota da Legação austríaca enviada ao Ministério das
Relações Exteriores, confirmando o assassinato daquele e segundo pequena
nota enviada ao governo do Estado do Paraná por Lauro Müller, junto com o
referido documento, foi também um resumo das declarações feitas por Isodoro
Preti, tio da vítima, "sobre o estado da fortuna e objetos" 26 que se encontravam
em poder da vítima na ocasião de sua morte.
As ações do consulado português em relação ao episódio do Iguaçu,
não foram muito diferentes dos demais consulados envolvidos com a questão.
Procuraram se manifestar por meio de telegramas, notas e memorandos, re-
metidos nesse caso, diretamente ao Ministério das Relações Exteriores. Como o
documento que segue:

Memorandum
Constou o Consul de Portugal em Corityba, por testemunhas de vista devi-
damente ajuramentadas e por informações do Consul d'Italia que pessoal-
mente sindicou dos acontecimentos por ordem do seu Governo, que dos
crimes cometidos pela gente armada do Coronel da Guarda Nacional Fabri-
cio Vieira que age na zona do Contestado (margens do Iguassú) sob as or-
dens do comando militar federal, e a que largamente se tem referido a
Imprensa, foram vitimas dois portuguezes: João Antonio, solteiro, de uns 30
anos de edade, natural de Vila Nova de Gaia, pedreiro da estrada de ferro de
S. Francisco, barbaramente assassinado, e Evaristo Filipe, do Troviscal, dis-
trito de Aveiro, solteiro de 29 anos, residente em União da Victoria, esbulha-
do dos seus haveres no valor de cerca de doze contos de reis.

25
Correspondência enviada pelo governo do Estado do PR ao consulado da Áustria-Hungria em 23 abr.
1915. In: Telegramas expedidos pelo governo do Estado do Paraná - 1885-1930- 309/2/14. Arquivo do
Itamaraty, Rio de Janeiro.
26
Infelizmente na documentação pesquisada não se encontravam as referidas declarações de Isidoro
Preti, relatando os objetos e valores esbulhados da vítima.

265
Na noite de vinte e um de Novembro p.p. um bando de homens do comando
do Coronel Fabricio Vieria, e sob as ordens do tenente da Guarda Nacional
Isaías, assaltaram a propriedade de Evaristo Filipe em Porto Marcolino, na
margem direita do Rio Iguassú, onde se encontravam tres trabalhadores que
Evaristo mandára horas antes do Porto da União buscar uma porcada de
cento e vinte e duas cabeças, doze cabras, dois cavalos, uma vaca e um be-
zerro, sendo esses trabalhadores presos imediatamente. Amarrados aos pa-
res por uma corda ao pescoço foram conduzidos para uma lancha a gazolina
e transportados conjuntamente com quinze outros trabalhadores do rancho
do italiano José Santi (Lirio) para a margem esquerda do Rio Iguassú e ali
desembarcados foram degolados! Uma dessas vitimas foi o portuguez João
Antonio.
Na dita propriedade de Porto Marcolino, arrendada a Rufino Teixeira, tinha
Evaristo vinte cargueiros de milho, arreios completos de cavalos, cangalhas e
outros utensilios e maquinas agricolas e ferramentas de uso da sua profissão
de empreiteiro da Estrada de Ferro - Linha de S. Francisco - mais cento e vin-
te folhas de zinco tendo tudo sido roubado após a prisão dos seus emprega-
dos e dividido pelo bando de assaltantes que obedecia ao dito tenente Isaías.
Dois dias antes já o seu acampamento de empreiteiro fôra assaltado pelos
fanaticos ou bandoleiros que lhe devassaram, roubaram e demoliram tudo,
perdendo nessa razia ferramentas, moradias dos seus trabalhadores, mo-
veis, dinheiro e outros valores.27

Este documento também fortalece a afirmação de que Evaristo Felipe


havia sobrevivido ao tal embuste organizado e praticado pela gente do coronel
Fabrício. E foi o próprio Evaristo Felipe que indicou três testemunhas, para
serem inquiridas no consulado português. Essas testemunhas confirmaram
praticamente todos os aspectos levantados pela imprensa, principalmente de
Curitiba, sobre como se deu o episódio.

[...] que as vitimas, entre as quaes se encontrava João Antonio, foram levadas
para a margem esquerda do Iguassú a alguns kilometros de distancia e já no
territorio contestado onde os degolaram, para que a sua morte fosse atribui-
da aos fanaticos; que o Delegado de Policia em Porto União não quiz tomar
conta da queixa, pelo que tiveram que procurar o Consul; que Evaristo é ho-
mem honesto, trabalhador e bem comportado existindo até uma carta do
proprio filho do Coronel Fabricio, dirigida ao pai, a atesta-lo, bem como o seu
passaporte de "livre transito" fornecido pela Policia local; que nunca houve
por parte de Evaristo Filipe nem do seu empregado João Antonio procedi-
mento algum a favor dos fanaticos ou contra a gente do Coronel Fabricio,
pois sendo velhos empregados da estrada de ferro, durante a atual suspen-
são dos trabalhos se empregavam na creação de gado, sementeiras e em cor-
tar lenha para os vapores das carreiras do Rio Iguassú; que Evaristo escapou
de ser morto apenas por ter sido avisado a tempo; e que estes crimes, pre-

27
Correspondência enviada pelo consulado português ao Ministro das Relações Exteriores Lauro Müller,
26 jan.1915. In: Notas e telegramas recebidos - 1914-1916. 288/3/7. Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio
de Janeiro.

266
meditados, foram executados de noite e sem que as vitimas oferecessem re-
sistencia alguma.28

Ao que tudo indica, este consulado também não conseguiu ir muito


adiante na tentativa de ressarcir financeiramente a vítima sobrevivente e fami-
liares da vítima fatal, a partir de uma indenização solicitada aos poderes públi-
cos brasileiros. Os comunicados sessaram e até o final do ano de 1916, na
pesquisa empreendida na documentação referente ao consulado português,
mais nada foi encontrado sobre esse caso.
Apesar de ainda não ter tido acesso ao inquérito policial militar e in-
quérito civil instaurados para apurar os culpados pelo horrendo crime, pude
todavia constatar, que de fato foram dois inquéritos instaurados e que corre-
ram em diferentes instâncias - civil e militar. Essa era uma dúvida que pairou
no ar por muito tempo durante a presente pesquisa e só foi confirmada a exis-
tência, ou pelo menos a abertura de dois inquéritos, quando tive a felicidade de
encontrar o laudo cadavérico feito nos 17 esqueletos encontrados a beira do
rio Iguaçu, e a partir dos discursos proferidos pelo deputado federal do Rio de
Janeiro - Mauricio de Lacerda, na Câmara dos deputados na Capital Federal.
O laudo apesar de documento valioso, por si só não me apontou mui-
tas informações, uma vez que ele fora realizado aos quatorze dias do mês de
dezembro de 1914, ou seja, somente 22 dias depois das mortes. Bem provável
que essa demora em enviar uma equipe até o local tenha se dado por entre
outros motivos, pela hesitação do Delegado de Polícia de Porto União em regis-
trar a queixa acerca do crime, aspecto colocado pelo cônsul de Portugal no seu
memorando, a partir dos depoimentos das testemunhas indicadas por Evaristo
Felippe.
O documento foi lavrado pelo escrivão Manoel Candido de Lara, da de-
legacia de polícia da então Comarca de São Matheus, conforme segue trecho:

Eu Manoel Candido de Lara escrivão e escrevi. Delegacia de Policia de São


Matheus, doze de Dezembro de mil novecentos e quatorze. Portaria. Tendo o
Excellentíssimo Senhor Dezembargador Manoel Bernardino Vieira Cavalcan-
ti Filho D. D. Chefe de Policia determinado a esta autoridade para se dirigir a
margem esquerda do "Rio Iguassú", na zona contestada e conflagrada, logar
denominado "Bugres", proceder ao enterramento de dezessete corpos hu-
manos e proceder o respectivo auto de exame, determino que se notifiquem
os cidadãos Antonio de Souza Valente e Frederico Prohmam, para como pe-
ritos procederem ao exame ordenado no local e hora que lhes for determi-
nado, depois de comprido o compromisso legal. A. Cumpra-se. José Boiz
Sampaio D'Almeida, alferes Delegado de Policia.29

28
Ibid.
29
Cópia de autos de exames cadavéricos e ofícios enviados ao consulado da Itália em Curitiba pelo
governo do Estado do Paraná em 07 janeiro de 1915. In: Telegrama Expedidos pelo Governo do
Estado PR – 1885-1930- 309/2/14, Arquivo do Itamaraty, Rio de Janeiro.

267
O auto nos dá com mais precisão a localização do crime, informações
que até agora eram um tanto imprecisas:

[...] na margem esquerda do "Rio Iguassú" no logar denominado "Barra do


Bugre", entre o campo das Moças e o depósito de Salvador Leal e na embo-
cadura de uma pequena barra, a quinze metros mais ou menos da barranca
do rio em um local que, foi uma lagôa e que agora se acha secca num perime-
tro de dez metros pouco mais ou menos [...].30

Além dos peritos não profissionais, a diligência contou com as teste-


munhas Tobias Venancio d'Oliveira e Alfredo Venancio d'Oliveira, também
residentes em São Matheus. As perguntas procedidas no auto, não contribuem
muito para encontrar mais pistas acerca do crime. Não sei se elas eram elabo-
radas pelo delegado de polícia, ou compunham uma espécie de rol de pergun-
tas, a serem feitas por via de regra, em qualquer crime e/ou laudo cadavérico.
Os quesitos solicitados no laudo foram:

[...] primeiro: Se houve as mortes; segundo: Qual o instrumento que as occa-


sionou; terceiro: Si foi occasionado por veneno, substancias anesthesicas, in-
cendio, asphyxia ou innundação; Quarto: Si as lesões corporaes por sua
natureza e sede foram a cauza efficiente das mortes; Quinto: Si as constitui-
ção ou estado morbido anterior dos offendidos concorreram para tornar as
lesões coporaes irremediavelmente mortaes; Sexto: Si as mortes resultaram
das condições personalissimas dos offendidos; Setimo: Si as mortes resulta-
ram não porque o mal fosse mortal e sim por terem os offendidos deixados
de observarem o regimem medico hygienico reclamado pelos seus estados. 31

E como que num golpe de misericórdia, relatou-se o estado encontra-


do as ossadas dos 17 homens:

Em no logar "Bugres" a margem esquerda do "Rio Iguassú", entre "Moças" e


o deposito de Salvador Leal, na embocadura de uma pequena barra a quinze
metros mais ou menos do barranco do rio em um logar que foi uma lagôa e
que agora se acha secca, num perimetro de dez metros, pouco mais ou me-
nos encontraram em primeiro lugar dois cranêos e treis esqueletos humanos
e pouco mais abaixo, mais quinze craneos e ossos espalhados sendo que dos
treis esqueletos que viram em o primeiro golpe de vista, duas pernas ainda
conservavam um pouco de carne e os demais completamente despido d'el-
las. Que apoz o exame ordenado foram os ossos enterrados em uma cova
commum aberta para esse fim. Em o local referido estava em certos logares

30
Ibid.
31
Cópia de autos de exames cadavéricos e ofícios enviados ao consulado da Itália em Curitiba pelo
governo do Estado do Paraná em 07 janeiro de 1915. In: Telegrama Expedidos pelo Governo do Estado
PR – 1885-1930- 309/2/14, Arquivo do Itamaraty, Rio de Janeiro.

268
encharcados de sangue. Que encontraram tambem paletoes, camizas, calsas,
chapéus e calçados, que juntamente com os ossos foram enterrados.32

Em seguida os peritos responderam aos quesitos constantes no referi-


do laudo/investigativo:

[...] ao primeiro, sim, houveram as mortes; ao segundo: não podem precizar


por só terem sido encontrados no local ossos; ao terceiro, quarto, quinto,
sexto e setimo, ficaram prejudicados pelas respostas do primeiro, digo com
as respostas do segundo quesito. E são estas as declarações que de accordo
com o compromisso prestado, e em suas consciencias tem a fazer. E por nada
mais haver deu se por concluido os exames ordenados e de tudo se lavrou o
presente auto que vae assignado e rubricado pelo Delegado de Policia, assig-
nados os peritos e testemunhas [...].33

E foi assim, quase que de forma irônica, se concluiu o laudo cadavérico


que constaria dos processos abertos para investigar a morte dos 17 homens a
beira do rio Iguaçu. Segundo discursos proferidos na Câmara dos Deputados na
Capital Federal do Brasil - RJ, pelo deputado federal Mauricio de Lacerda entre
os meses de abril e junho de 1916, os inquéritos foram abertos, os responsá-
veis eram do conhecimento de todos, mas os culpados nunca foram condena-
dos, ficando como diria Demerval Peixoto (1995c, p. 15): "a questão nas dobras
do manto das coisas inexplicáveis!"

Fontes Documentais

Relatórios

CARVALHO, Fernando Setembrino de. Relatório apresentado ao general José Caetano de


Faria, ministro da Guerra, pelo comandante das forças em operações de guerra no Contes-
tado. Rio de Janeiro: Imprensa Militar, 1916.

Periódicos

O ESTADO. Florianópolis, 1915.


GAZETA DE NOTÍCIAS. Rio de Janeiro, 1914 - 1915.
DIÁRIO DA TARDE. Curitiba, 1914 - 1915.
A NOITE. Rio de Janeiro, 1914-1915.

32
Ibid.
33
Ibid.

269
Correspondências e Telegramas

Correspondência efetuada entre o General Fernando Setembrino de Carvalho, coman-


dante das forças em operações de guerra no Contestado, ao Coronel Eduardo Arthur
Sócrates, comandante da Linha Oeste. 17 dez. 1914. In: Inquérito Policial Militar 05 - Cx.
02, Pasta 02. Fundo Contestado, Arquivo Histórico do Exército - AHEX.
Correspondência enviada pelo Presidente do Estado do Paraná Carlos Cavalcanti ao
Ministro das Relações Exteriores Lauro Müller, anexada ao telegrama enviado pelo
Ministro da Guerra José Caetano de Faria ao general Fernando Setembrino de Carvalho,
comandante das forças em operações de guerra no Contestado. 19 dez. 1914. In: Relató-
rio 21 – Cx. 09, Pasta 13. Fundo Contestado, Arquivo Histórico do Exército – AHEX.
Telegrama do General Fernando Setembrino de Carvalho ao Ministro da Guerra, 04 dez.
1914. In: Inquérito Policial Militar 05 - Cx. 02, Pasta 02. Fundo Contestado, Arquivo
Histórico do Exército - AHEX.
Telegrama enviado pelo coronel Eduardo Arthur Sócrates, comandante da Linha Oeste
ao general Fernando Setembrino de Carvalho, comandante das forças em operações de
guerra no Contestado. Em 21 dez. 1914. In: Telegrama 12 - Cx 02, Pasta 04. Fundo Con-
testado, Arquivo Histórico do Exército - AHEX.
Telegramas expedidos pelo governo do Estado do Paraná - 1885-1930- 309/2/14. In:
Arquivo do Itamaraty, Rio de Janeiro.
Telegramas recebidos pelo governo do Estado do Paraná - 1875-1915 - 309/2/12. In:
Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro.
Correspondência enviada pelo consulado português ao Ministro das Relações Exterio-
res Lauro Müller, 26 jan.1915. In: Notas e telegramas recebidos - 1914-1916. 288/3/7.
Arquivo Histórico do Itamaraty, Rio de Janeiro.

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271
CAMPUS DE CURITIBANOS DA UFSC:
UMA UNIVERSIDADE FEDERAL NO
CONTESTADO

EMANOELA CAROLINA VOGEL1

Introdução

O Campus de Curitibanos da Universidade Federal de Santa Catarina


(UFSC) iniciou suas atividades no segundo semestre do ano de 2009, como
parte do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais
(REUNI). O processo de adesão da UFSC ao REUNI não se deu de maneira tran-
quila, pois ocorreram diversas manifestações contrárias e resistências não
apenas em relação à decisão, mas também como o processo foi encaminhado
pela instituição, de “[...] forma arbitrária e impositiva [...] resultando na ocupa-
ção estudantil da reitoria no segundo semestre de 2007” (SILVA, 2014, p. 79).
Mesmo com a resistência de estudantes, servidores técnico-
administrativos e docentes, questionando o modo como o REUNI vinha sendo
aprovado, a adesão da UFSC ao Programa ocorreu no dia 27 de novembro de
2007, na Sessão Ordinária do Conselho Universitário (CUn), a qual também foi
permeada por manifestações contrárias a adesão. Com essa aprovação, a UFSC
encaminhou o projeto para o Ministério da Educação (MEC) ainda no mesmo
ano, sendo que no formulário de apresentação da proposta já constava a im-
plementação de três campi avançados: em Araranguá, Curitibanos e Joinville
(UFSC, 2015a).2

1
Assistente Social no Serviço de Atenção Socioassistencial do Campus de Curitibanos, parte da Coorde-
nadoria de Assistência Estudantil (CoAEs) da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) da Universi-
dade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Serviço Social pelo Programa de Pós-Graduação em
Serviço Social (PPGSS) da mesma instituição. E-mail: emanoelavogel@gmail.com.
2
A aprovação da criação desses campi ocorreu na Sessão Extraordinária do CUn realizada no dia 18 de
novembro de 2008, por meio da Resolução nº. 026/CUn/2008 (UFSC/CUn, 2008a; UFSC/CUn, 2008b).
Já o credenciamento dos campi fora de sede ocorreu no ano de 2010, por meio do Parecer CNE/CES
2004/2010 da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2011).

272
O REUNI faz parte do projeto de contrarreformas encabeçadas pelo Es-
tado brasileiro no capitalismo contemporâneo, a qual vem sendo realizada em
fatias, iniciada durante a ditadura militar, continuada no neoliberalismo da
década de 1990, e posteriormente na década de 2000. Essas contrarreformas
são parte das mudanças ocorridas no modo de produção capitalista, pois se-
gundo Mészáros (2008), os processos educacionais e os processos sociais estão
intrinsecamente ligados.
As mudanças ocorridas a partir da década de 1970 no capitalismo,
apesar de não alterar sua base, induziu a mudanças profundas nos processos
produtivos, tendo como centralidade a flexibilização do trabalho, dos merca-
dos, do consumo, em um processo de mundialização e financeirização do capi-
tal (HARVEY, 1992). Com a íntima relação entre os processos sociais e os
processos educacionais, a educação também recebe novos recortes.

[...] os processos educacionais tornam-se mais flexíveis e inseridos nas di-


nâmicas dos novos recursos informacionais e tecnológicos; a educação, que
já era entendida como mercadoria, torna-se também finança no mercado de
ações; fusões e aquisições por grandes corporações internacionais passam a
fazer parte das instituições educativas; e os novos padrões de gestão da for-
ça de trabalho são também implementados junto aos trabalhadores da edu-
cação” (VOGEL, 2016, p. 42).

Nesse processo, a educação, um direito social, foi transformada em


serviço. O REUNI, juntamente com outros programas como Universidade Aber-
ta do Brasil (UAB) e Programa Universidade para Todos (PROUNI), faz parte
do que Silva Junior e Sguissardi (2013) chamam de terceira etapa das mudan-
ças na educação superior brasileira.3 O REUNI, parte do Plano de Desenvolvi-
mento da Educação (PDE), previa a ampliação do acesso e permanência na
Educação Superior e melhor aproveitamento da estrutura física e dos recursos
humanos das universidades federais. Porém, o que se constatou foi um proces-
so aligeirado, sem o devido planejamento e sem garantia na continuidade da
alocação de recursos, refletindo em precárias condições de trabalho, de ensino,
pesquisa e extensão.
Segundo Leda e Mancebo (2009) quem paga a conta dessas contrarre-
formas são as universidades, com a perda da indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão e perda da autonomia; os estudantes, com uma formação
fragmentada, acrítica e tecnicista; e os trabalhadores da educação, com a pre-
carização das condições de trabalho.
O processo de interiorização, tão necessário para a universidade brasi-
leira foi atravessado por essas precarizações. Em 2003, 114 municípios abriga-

3
A primeira ocorrida no governo FHC na década de 1990 e a segunda nos primeiros anos do governo
Lula (SILVA JUNIOR e SGUISSARDI, 2013).

273
vam campi de universidades federais; em 2011 esse número aumentou para
237, com a criação de 14 novas universidades e 100 novos campi (REUNI,
2010). Porém essa ampliação se torna insuficiente se comparado com o cres-
cimento da rede privada. Em 2013, 73,54% das matrículas no ensino superior
eram da rede privada, e apenas 26,45% da rede pública (INEP, 2015).
A UFSC, que permaneceu “ilhada” no extremo leste de Santa Catarina
por quase cinquenta anos, possibilita sua expansão por meio do REUNI, porém,
processo esse permeado por precarizações, com a criação de unidades sem
estrutura física adequada e própria, sem previsão de número suficiente de
servidores docentes e técnico-administrativos e sem conseguir concretizar o
planejado.
Nesse panorama que foi criado o Campus de Curitibanos da UFSC – lo-
calizado na Região do Contestado e constituído por particularidades regionais
decorrentes de sua formação sócio histórica – enquanto parte de uma contrar-
reforma educacional, diretamente vinculada às mudanças e aos interesses do
capital de promover os interesses econômicos e políticos da classe dominante
nesse espaço territorial. O que se pretende nos próximos itens é apresentar um
pouco dessa realidade regional e sua relação com a criação do Campus de Curi-
tibanos da UFSC e suas atuais configurações.

Um campus da UFSC no território contestado: particularidades regionais

O município de Curitibanos que abriga o Campus Universitário que


possui centralidade nesse artigo, faz parte da Microrregião de Curitibanos e
Mesorregião Serrana nas divisões político-administrativas do estado de Santa
Catarina, porém, constitui também a Região do Contestado. A região é assim
chamada pela Guerra do Contestado, ocorrida entre 1912 e 1916, nomeada
pela disputa territorial entre Santa Catarina e Paraná pela posse desse espaço
geográfico. Porém, para além dessa disputa decidida judicialmente em 1917, a
Guerra foi marcada pela brutalidade investida pelo Estado brasileiro, aliado às
forças políticas e econômicas locais e aos empreendimentos capitalistas inter-
nacionais - que adentravam a região no período - contra a população cabocla
habitante da região (CARVALHO, 2008; GOULARTI FILHO, 2007).
Assim, a realidade social, política e econômica do município que abriga
o Campus de Curitibanos se mescla entre as particularidades da Região do
Contestado e também da Região Serrana de Santa Catarina. Até o início do
século XX este foi um espaço marcado pela atividade pecuária das grandes
fazendas de posse dos coronéis. Como essa é uma região do Caminho das Tro-
pas, criatórios de bovinos foram sendo construídos pelo caminho, que mais
tarde constituíram-se em vilas e depois em municípios. Em relação a Curitiba-
nos, este:

274
[...] teve sua origem e vida produtiva ligada ao trabalho com a atividade pe-
cuária, sendo caminho dos tropeiros, logo foi criada uma casa de comércio e
demais serviços de que necessitavam os viajantes, criando-se um aglomera-
do de ranchos que passariam mais tarde a constituir-se na vila de Curitiba-
nos. Das vilas sob a administração catarinense, a mais importante depois de
Lages, era Curitibanos, que ficava no centro de uma zona de fazendas de ga-
do, sua principal atividade econômica (BELTRAME, 1991, p. 14)

Nas grandes fazendas, segundo Goularti Filho (2007), eram utilizadas


a força de trabalho escravo, principalmente para as atividades domésticas; e a
força de trabalho do caboclo para as atividades pastoris - o chamado caboclo-
peão. Segundo o autor, junto às fazendas havia também pequenas roças, onde o
caboclo-roceiro plantava para sua própria subsistência. A partir do início do
século XX outras duas atividades econômicas também ganharam destaque na
região: a extração de erva- mate e de madeira.
Apesar da atividade pecuária não ter se esgotado, Goularti Filho
(2007) afirma que sua diminuição decorreu da construção da Estrada de Ferro
São Paulo - Rio Grande (EFSPRG), pois a divisão das terras pelas empresas
colonizadoras expulsou os caboclos-roceiros de suas terras e diluiu as grandes
fazendas, o que aumentou ainda mais a divisão social do trabalho o que levou
aos conflitos decorrentes da luta pela terra.

a decomposição do complexo rural, que era formado pela grande fazenda de


criação e pela pequena economia de subsistência, iniciou com a colonização
e a construção da ferrovia, quando a região começa a ser partilhada em pe-
quenas propriedades pelas companhias colonizadoras, e vendidas aos colo-
nos gaúchos. O regime de pequena propriedade, em oposição às grandes
fazendas, fez aumentar a divisão social do trabalho e o poder foi mais pulve-
rizado. Mesmo com a pulverização relativa do poder, os conflitos sociais aden-
traram por todo o século XX, que eclode no Contestado e se arrasta até os
movimentos dos sem-terra nos anos recentes (GOULARTI FILHO, 2007, p. 99).

Assim, a Região do Contestado passou por significativas transforma-


ções no início do século XX, momento de introdução do capitalismo nesse terri-
tório, propulsado pela construção da EFSPRG, pelas companhias colonizadoras
que promoveram a entrada de imigrantes europeus para povoamento da regi-
ão e pela implementação de grandes serrarias e madeireiras; fruto das alianças
realizadas entre o coronelismo local, as oligarquias estaduais e o capital es-
trangeiro, causando grande impacto na vida da população cabocla, alterando
seu modo de vida, expropriando sua terra e destruindo suas fontes de subsis-
tência.
O desenvolvimento da indústria madeireira na região, e particular-
mente em Curitibanos, teve maior destaque na década de 1960. Segundo Bel-

275
trame (1991), o município chegou a abrigar cerca de 130 serrarias - e na déca-
da de 1990 esse número foi reduzido a cerca de duas dezenas. Esse processo
teve um papel central na proletarização do trabalhador, pois, segundo Muna-
rim (1990), o desenvolvimento da indústria madeira alterou as relações de
trabalho na região:

a) o peão de fazenda (caboclo-peão): de uma relação de trabalho patrimonia-


lista, passa a viver agora, na serraria, uma relação binaria, vertical, moderna,
capitalista; b) o pequeno agricultor (caboclo-roceiro): que antes era autô-
nomo, que dominava todo o processo de produção, que era dono (proprietá-
rio ou posseiro) dos meios de produção – a terra – se transforma, agora, em
trabalhador livre assalariado (MUNARIM, 1990, p. 97).

Segundo Beltrame (1991), na década de 1970 chega ao fim os anos


dourados da produção madeireira na região, decorrente da derrubada indis-
criminada da floresta nativa e consequente esgotamento da matéria prima. É
nesse período também que ocorre a ampliação da agroindústria e da produção
de hortifrutigranjeiros (MUNARIM, 1990) e o desenvolvimento da produção de
maçã em Curitibanos e, com a chegada das famílias nipônicas, o cultivo da nec-
tarina e da produção de alho (BELTRAME, 1991).
O município de Curitibanos é responsável por 15% da produção anual
de alho do Brasil (GOULARTI FILHO, 2007). De acordo com Beltrame (1991),
com a escassez de matéria prima na indústria madeireira e a redução da pro-
dução, os trabalhadores das grandes serrarias tornaram-se boias-frias na pro-
dução do alho:

[...] passaram a ser assalariados rurais que trabalham principalmente na


época da safra, da limpa e colheita do alho. É um trabalhador que recebe seu
salário com base na realização da tarefa, é contratado verbalmente – sem le-
var em conta a legislação do trabalho e os direitos dos trabalhadores – por
tempo determinado, tempo esse que pode durar dias, semanas ou meses.
Portanto, são instáveis os seus vínculos empregatícios, com os compradores
de sua força de trabalho, estando sujeito a ser arbitrariamente substituído
por outro, a gosto do patrão. [...] nestas condições que o boia-fria do alho é
levado a exaurir diariamente as suas forças [...] a fim de garantir o trabalho
necessário à reprodução da sua família. Nessas condições ele ainda amplia o
tempo de trabalho, produzindo um excedente que aumenta ainda mais o ga-
nho do dono da terra. O sistema de pagamento por tarefa empreitada ou ou-
tra forma semelhante, leva o boia-fria a trabalhar intensamente e por longas
horas, para que possa realizar o máximo de ganho durante o tempo limitado
em que se encontra empregado (BELTRAME, 1991, p. 43 - 45).

Além disso, outra particularidade do município de Curitibanos está re-


lacionada à estrutura fundiária. Enquanto o estado de Santa Catarina caracteri-
za-se pela pequena propriedade, reflexo do processo de colonização em

276
minifúndios, no planalto serrano predomina a grande propriedade (GOULARTI
FILHO, 2007). Essa mesma característica é perceptível na microrregião de
Curitibanos (Tabela 01):

Tanto Santa Catarina, quanto especificamente a Microrregião de Curitibanos,


possuem a maior parte de sua área distribuída entre os estabelecimentos
agropecuários com mais de 10 hectares, porém, enquanto o estado possui
uma distribuição bastante parecida de sua área entre os estabelecimentos de
10 a 100 hectares (47,05%) e os com mais de 100 hectares (47,40%); na Mi-
crorregião de Curitibanos essa diferença é maior, pois 22,08% da área da re-
gião dividem-se em estabelecimentos de 10 a 100 hectares e, 76,27% em
estabelecimentos com mais de 100 hectares. Observa-se assim que a Micror-
região de Curitibanos, se comparado com o estado de Santa Catarina como
um todo, possui uma maior concentração de terra. Apesar de tanto o estado,
quanto a região possuírem mais da metade de seus estabelecimentos no es-
trato de 10 a 100 hectares (59,32% e 57,91% respectivamente), a porcenta-
gem que corresponde à área que ocupam esses estabelecimentos nos
territórios apresentam uma diferenciação bastante acentuada. Em número
de estabelecimentos de 100 hectares ou mais, a Microrregião de Curitibanos
ultrapassa em percentuais o Brasil como um todo, apesar de que, no que se
refere ao total de área referente a esse estrato, a Microrregião fica alguns
poucos percentuais abaixo da realidade nacional (VOGEL, 2016, p. 84 - 85).

ESTRUTURA FUNDIÁRIA BRASILEIRA, CATARTINENSE E DA MICRORREGIÃO DE


CURITIBANOS
Santa Cata- Microrregião
Brasil
rina de Curitibanos
< 10 ha 2.477.071 69.390 1.722
Número de Estabele-
10 < 100 ha 1.971.577 112.444 3.569
cimentos Agropecuá-
100 ha e mais 471.817 7.707 872
rios
Total 4.920.465 189.541 6.163
Porcentagem de < 10 ha 50,34% 36,60% 27,94%
Estabelecimentos 10 < 100 ha 40,06% 59,32% 57,91%
Agropecuários 100 ha e mais 9,58% 4,06% 14,14%
< 10 ha 7.799 334 8
Total da Área (1.000 10 < 100 ha 62.893 2.842 108
ha) 100 ha e mais 259.250 2.863 373
Total 329.942 6.039 489
< 10 ha 2,36% 5,52% 1,63%
Porcentagem de Área
10 < 100 ha 19,06% 47,05% 22,08%
(1.000 ha)
100 ha e mais 78,57% 47,40% 76,27%

Tabela 01: Estrutura Fundiária do Brasil, do estado de Santa Catarina e da Microrregião de Curitibanos
no ano de 2006. Fonte: Tabela criada por Vogel (2016, p. 85) com base nos dados do Censo Agropecuá-
rio 2006 e sistematizações (HOFFMANN, NEY, 2010; IBGE, 2009; EPAGRI, 2016).

277
Percebe-se assim que as grandes fazendas ainda perduram nesse es-
paço territorial, mesmo com as transformações ocorridas ao longo dos anos.
Aspectos como esses demonstram as particularidades do espaço geográfico
onde se localiza o Campus de Curitibanos da UFSC, que consequentemente
apresenta características específicas se comparado com outras unidades da
instituição, decorrente de seu processo de criação, dos cursos existentes e,
sobretudo, do espaço social, econômico, político e cultural onde está inserido.

Campus de Curitibanos e Centro de Ciências Rurais: uma universidade


para promover a vocação regional?

Desde sua criação, o Campus de Curitibanos da UFSC contou com a


participação da população local que reivindicava a instalação de uma universi-
dade pública na região central de Santa Catarina. Há registros de que no ano de
2006 ocorreram encontros organizados pela Associação Cultural Dom José
Gomes para discutir possibilidades:

Conforme explicou o presidente da Associação, Breno José Loebens, o prin-


cipal objetivo é a viabilização de projetos e estudos para o desenvolvimento
regional através da educação. “A partir disso temos o projeto de conseguir
uma Universidade Federal nessa região. Pública, gratuita, no primeiro mo-
mento, em conversa com o Reitor da UFSC seria uma extensão. Este seminá-
rio veio com o objetivo de debater essa proposta”. [...] “Estamos debatendo
este projeto há mais de quatro anos. A evolução aconteceu agora porque
conseguimos reunir um maior número de lideranças. Na quarta-feira 21 ti-
vemos uma reunião com o reitor da Universidade Federal. No início foi difí-
cil, quase desanimamos. O reitor colocou alguns obstáculos, mas conforme
fomos explicando a necessidade e exploramos a localização dessa região,
conseguimos sair animados e acreditando que é quase certo”, destacou Bre-
no. [...] Curitibanos seria a região indicada por possuir o índice de desenvol-
vimento humano baixo e um nível salarial minimizado (PEREIRA, 2006).

Mais tarde ocorreu a criação da chamada Comissão Pró-Campus, esta


composta por organizações empresariais e da sociedade civil, que, em feverei-
ro de 2007 encaminhou documento à reitoria da UFSC demonstrando com-
promisso em buscar recursos e soluções para viabilizar a instalação de um
campus dessa instituição no município de Curitibanos. No documento são cita-
das as razões pelas quais a comissão entendia como importante a instalação do
Campus município:

[...] são relacionadas à localização estratégica do município, que facilitaria o


acesso de estudantes de diversos municípios; o baixo Índice de Desenvolvi-
mento Humano (IDH) de Curitibanos e dos municípios próximos; a não exis-
tência de projetos de desenvolvimento sustentável na região; a necessidade
de especialistas e mão-de-obra qualificada; o êxodo para as grandes cidades;

278
o baixo poder aquisitivo da população dificultando o pagamento de mensali-
dades em instituições de ensino superior comunitárias e particulares; e a ne-
cessidade de pesquisas regionais que acarretassem resultados para a
população (COMISSÃO PRÓ-INSTALAÇÃO UNIDADE UFSC, 2007 apud
VOGEL, 2016, p. 67).

Já a definição oficial do município de Curitibanos para a instalação de


um Campus da UFSC ocorreu por meio de Audiência Pública realizada em Curi-
tibanos, em maio de 2007, definindo-se que a construção da nova unidade
acadêmica ocorreria com recursos do Plano de Desenvolvimento da Educação
(PDE) (UFSC/AGECOM, 2007).
Em notícias veiculadas pela UFSC na época já se ressaltava a relação
entre os cursos que pretendiam ser criados no Campus e a realidade regional
da região de Curitibanos, com a frequente afirmação da existência de uma “vo-
cação regional” para as atividades agrícolas, pecuárias e de extração de recur-
sos florestais. “De acordo com o diretor geral do campus, a escolha do curso e
das futuras habilitações levou em conta a vocação do meio-oeste do estado
para a agricultura, a agropecuária e a exploração dos recursos florestais”
(UFSC/CBS, 2009a).
Esta perspectiva está presente também nos Projetos Pedagógicos dos
Cursos (PPC) do Campus de Curitibanos. Segundo o PPC do Curso de Ciências
Rurais, a região de Curitibanos:

[...] enfrenta diversos problemas sócio, econômico e ambiental, frutos do seu


modelo de desenvolvimento, que implica numa estrutura fundiária concen-
trada, numa desigualdade econômica, com altos níveis de pobreza, cujos Ín-
dices de Desenvolvimento Humano estão entre os mais baixos do estado de
Santa Catarina. Na área sócio ambiental, observa-se os problemas advindos
das monoculturas, do florestamento com espécies exóticas, do uso de agro-
químicos, emissão de poluentes industriais, do barramento de mananciais
hídricos, entre outros (UFSC/CBS, 2011b, p. 04).

Nos PPCs dos demais cursos consta também que estes contribuiriam:

[...] para o desenvolvimento de uma região com o menor índice de desenvol-


vimento humano (IDH) do estado de Santa Catarina. Levando-se em conside-
ração esse baixo IDH, a implantação deste curso atenderá à demanda
educacional, humana e social, objetivo básico do projeto Reuni do governo
federal (UFSC/CBS, 2011a, p. 07; UFSC/CBS, 2013, p. 04; UFSC/CBS, 2014, p.
06).

Percebe-se a atenção dada ao Índice de Desenvolvimento Humano


(IDH) na proposição de criação do Campus e também de cada um de seus cur-
sos. Segundo os dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimen-
to (PNUD), o município de Curitibanos possui um IDH de 0,721, estando abaixo

279
do estado de Santa Catarina que possui um IDH de 0,774. A diferença fica ainda
maior se considerada a Microrregião de Curitibanos, que possui um IDH de
0,6684. Se comparado o IDH do município de Curitibanos com os demais muni-
cípios que abrigam campi da UFSC a diferença também é expressiva. Enquanto
Florianópolis (0,847) ocupa a 3ª posição do ranking de IDH dos municípios
brasileiros, Joinville a 21ª posição (0,809), Blumenau a 25ª posição (0,806), o
município de Araranguá pula para a 366ª posição (0,760) e o de Curitibanos
para a 1266ª posição (0,721) (PNUD, 2016).
Além disso, o local onde foi construída a sede do Campus de Curitiba-
nos da UFSC aparentemente foi escolhido com a intenção de estimular o cres-
cimento urbano do município. Segundo notícias veiculadas na época de
construção do Campus, esperava-se que a UFSC trouxesse desenvolvimento
urbano para Curitibanos:

Estamos convictos que, em menos de meio século, os locais onde hoje estão
sendo implantados estes novos campi passem por transformações seme-
lhantes pelas quais passou a antiga fazenda modelo Assis Brasil, situada na
Trindade em Florianópolis que se tornou a sede de uma das melhores Uni-
versidades do país (UFSC/CBS, 2009b).

Percebe-se que há uma clara intencionalidade dos propositores do


Campus de Curitibanos da UFSC de que a sua criação se fazia necessária para a
o desenvolvimento econômico, urbano e demográfico do município e da região.
Mesmo partindo de uma análise superficial, percebe-se que o parâmetro de
instalação de unidades da UFSC em espaços geográficos para possibilitar um
“desenvolvimento” regional não foi utilizado para a criação de todos os campi -
vide os IDHs dos demais municípios. Além disso, se a proposta de criação do
Campus era promover a “vocação regional”, questiona-se o porquê da instala-
ção de uma unidade acadêmica com os mesmos cursos já existentes e consoli-
dados em uma universidade pública localizada a cerca de 80 quilômetros do
município de Curitibanos.5
Além disso, não há como esperar da universidade por si só a propulsão
para o desenvolvimento municipal ou regional desconsiderando sua inserção
na sociedade brasileira e latino-americana e todas suas particularidades. Con-
forme reflexão realizada por Florestan Fernandes (2004) em relação ao papel
da universidade no desenvolvimento no capitalismo dependente, “não existe

4
Os municípios que compõem a Microrregião de Curitibanos são: Abdon Batista 0,694; Brunópolis
0,661; Campos Novos 0,742; Curitibanos 0,721; Frei Rogério 0,682; Monte Carlo 0,643; Ponte Alta
0,673; Ponte Alta do Norte 0,689; Santa Cecília 0,698; São Cristóvão do Sul 0,665; Vargem 0,629;
Zortea 0,761. (PNUD, 2016).
5
A Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) oferece em seu Centro de Ciências Agroveteri-
nárias (CAV) o curso de Medicina Veterinária desde o ano de 1973, o de Agronomia desde 1979 e o de
Engenharia Florestal desde 2004 (UDESC, 2016a).

280
uma universidade que possa realizar idealmente essa condição. Toda universi-
dade produz consequências dinâmicas de certa espécie de rendimento, relaci-
onando-se, assim, com o padrão e o ritmo de desenvolvimento da sociedade
global” (FERNANDES, 2004, p. 304).
Portanto, constata-se que o processo de reivindicação e construção do
Campus de Curitibanos se deu voltado aos interesses do poder econômico e
político local e estadual, com clara intencionalização de formação de força de
trabalho qualificada para as atividades que se colocam como “vocações regio-
nais”. Somada a essas particularidades regionais – e também fruto delas – o
Campus de Curitibanos da UFSC apresenta uma distinção em relação às confi-
gurações de seu corpo discente, características essas que serão apresentadas
no próximo item.

Particularidades do campus de Curitibanos da UFSC: perfil do estudante


de graduação

As particularidades citadas nos itens anteriores acabam por ter tam-


bém rebatimentos na realidade do Campus de Curitibanos da UFSC, sobretudo
nas características específicas do perfil do estudante de graduação no compa-
rativo com os demais campi da UFSC. Com base nos dados disponibilizados
pela Comissão Permanente do Vestibular da UFSC (COPERVE), é possível reali-
zar uma aproximação dessas especificidades. 6
Um primeiro dado a ser levado em conta refere-se ao tipo de estabele-
cimento no qual o estudante cursou o Ensino Médio. Enquanto na UFSC de
modo geral, assim como nos campi de Araranguá, Blumenau, Florianópolis e
Joinville a maioria cursou todo o Ensino Médio em escola particular, no Cam-
pus de Curitibanos a maior parte dos estudantes cursou todo o Ensino Médio
em escola pública (66,51%). O que se observa é que o número de estudantes
oriundos de escola pública vem aumentando no decorrer dos anos, com adesão
da UFSC ao Programa de Ações Afirmativas (PAA) a partir de 2008. As mudan-
ças que vem ocorrendo vêm aproximando a realidade da UFSC e a específica do
Campus de Curitibanos, que desde o vestibular de 2010 tem a maioria de seus
estudantes oriundos de escola pública (Figura 01).

6
Na dissertação de mestrado da autora é possível observar com mais detalhamento aos dados, assim
como ter acesso à informações não apresentadas neste artigo, no qual foram expostos dados mais gerais.

281
Figura 01: Tipo de estabelecimento de Ensino Médio do estudante de graduação da UFSC – por Campus.
Fonte: Gráfico elaborado por Vogel (2016, p. 144) com base nos dados da COPERVE
(UFSC/COPERVE, 2009; 2010; 2011; 2012; 2013; 2014; 2015).

Em relação ao tipo de curso de Ensino Médio que o estudante concluiu,


enquanto na UFSC como um todo 85,50% dos estudantes cursaram Ensino
Médio regular, no Campus de Curitibanos há uma pequena redução, sendo
79,70% a quantidade de estudantes que cursaram esse tipo de Ensino Médio.
Porém, no que se refere ao Ensino Médio Profissionalizante na área agrícola,
na UFSC esse percentual é de 4,53%, e os campi de Araranguá, Blumenau, Flo-
rianópolis, Joinville contabilizam juntos apenas 3,69%, enquanto no Campus
de Curitibanos essa porcentagem é de 15,80%. Esse diferencial deve-se, prova-
velmente, pelos cursos do Campus serem da área das Ciências Agrárias (Figura
02).

Figura 02: Tipo de curso de Ensino Médio dos estudantes de graduação da UFSC – por Campus. Fonte:
Gráfico elaborado pela Assistência Estudantil do Campus de Curitibanos com base nos dados da
COPERVE (UFSC/COPERVE, 2009; 2010; 2011; 2012; 2013; 2014; 2015) apud Vogel (2016, p. 142).

282
Outro dado que se faz importante apresentar refere-se à renda do
grupo familiar, sendo que o Campus de Curitibanos é a unidade acadêmica que
possui a maior quantidade de estudantes com renda familiar de até um salário
mínimo mensal ou de um até três salários mínimos. Enquanto na UFSC a soma
dessas duas categorias alcança 20,25% dos estudantes, no Campus de Curiti-
banos chega a 43,27%. A partir de cinco salários mínimos o Campus passa a
ser a unidade com menos percentagem de estudantes; de 10 a 20 salários mí-
nimos a UFSC chega a ter uma porcentagem três vezes maior; e de 20 a 30
salários mínimos treze vezes maior que a de Curitibanos (Figura 03).

Figura 03: Renda bruta do grupo familiar do estudante de graduação da UFSC – por Campus. Fonte:
Gráfico elaborado pela Assistência Estudantil do Campus de Curitibanos com base nos dados da
COPERVE (UFSC/COPERVE, 2009; 2010; 2011; 2012; 2013; 2014; 2015) apud Vogel (2016, p. 162).

Percebe-se que a procedência de classe dos estudantes do Campus de


Curitibanos possui uma diferenciação em relação à UFSC como um todo e com
os demais campi. Essa diferenciação é perceptível também se considerado
dados dos municípios do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), sendo que a renda média mensal rural e urbana é a menor
no município de Curitibanos no comparativo com os demais municípios que
possuem campi da UFSC (Tabela 02).

283
RENDA MÉDIA MENSAL PER CAPITA
ARARANGUÁ, BLUMENAU, CURITIBANOS, FLORIANÓPOLIS, JOINVILLE
Rendimento médio mensal per Rendimento médio mensal
capita dos domicílios - RURAL per capita dos domicílios –
URBANO
Araranguá R$ 525,00 R$ 630,00
Blumenau R$ 616,67 R$ 916,67
Curitibanos R$ 295,00 RS 510,00
Florianópolis R$ 750,00 R$ 1.166,67
Joinville R$ 600,00 R$ 800,00

Tabela 02: Renda média per capita dos domicílios rurais e urbanos nos municípios sede de campi da
UFSC. Fonte: Tabela criada por Vogel (2016, p. 164) com base nos dados do IBGE (2016a).

Em relação ao nível de escolaridades dos pais, percebe-se que tanto as


mães quanto os pais dos estudantes do Campus de Curitibanos possuem um
nível de escolaridade menor no comparativo com a UFSC em geral. Se na UFSC
a porcentagem de mães com Ensino Superior e Pós-Graduação é de 23,41% e
20,47% respectivamente, no Campus de Curitibanos a porcentagem reduz para
13,30% e 18,24%. Em relação aos pais as porcentagens são de 25,27% e
17,07% na UFSC e 14,86% e 7,66% no Campus de Curitibanos. No lado oposto,
referente ao número de mães que possuem Ensino Fundamental Completo e
Incompleto na UFSC a porcentagem é de 10,70% e 5,56%, no Campus de Curi-
tibanos é de 19,61% e 10,58%. Entre os pais, 12,79% e 6,77% na UFSC e
23,54% e 11,52% no Campus. Além disso, enquanto na UFSC 1,44% dos pais e
0,92% das mães são analfabetizados, no Campus de Curitibanos essas porcen-
tagens são de 2,03% e 1,21%. No comparativo com os demais campi a tendên-
cia se repete: Curitibanos possui a maior quantidade de pais e mães
analfabetos e a menor quantidade de pais e mães com Ensino Superior e Pós-
Graduação.
Essa tendência também é observável nos dados da realidade dos mu-
nicípios, pois Curitibanos possui a maior porcentagem de pessoas sem instru-
ção e com ensino fundamental incompleto e a menor porcentagem de pessoas
com ensino superior completo, comparado aos demais municípios com campus
da UFSC. Apesar da diferenciação entre Curitibanos e Araranguá não ser tão
expressiva, em relação a Florianópolis a distância é significativa.

284
PESSOAS SEM INSTRUÇÃO E FUNDAMENTAL INCOMPLETO; E COM SUPERIOR COMPLETO -
ARARANGUÁ, BLUMENAU, CURITIBANOS, FLORIANÓPOLIS, JOINVILLE
Pessoas
Pessoas de 10 % de pessoas % de
de 10
Pessoas de anos ou mais, de 10 anos ou pessoas de
anos ou
10 anos ou sem instru- mais, sem 10 anos ou
mais,
mais no ção e funda- instrução e mais, com
com
município mental fundamental superior
superior
incompleto incompleto completo
completo
Araranguá 52.530 24.993 47,57% 3.896 7,41%
Blumenau 271.115 105.428 38,88% 32.914 12,14%
Curitibanos 31.783 17.411 54,90% 2.500 7,86%
Florianópolis 373.988 97.248 26,00% 90.436 24,18%
Joinville 445.974 156.161 35,01% 54.860 12,30%

Tabela 03: Pessoas com 10 anos ou mais sem instrução e fundamental incompleto; e com superior com-
pleto nos municípios sede de campi da UFSC. Fonte: Tabela criada por Vogel (2016, p.169) com base
nos dados do IBGE (2016a).

Outro dado que demonstra as particularidades do Campus de Curiti-


banos refere-se à ocupação do principal responsável pelo sustento da família.
Em todos os campi a maior parte dos responsáveis pelo sustento do grupo
familiar são servidores públicos ou empregados de empresas privadas, porém,
no que diz respeito a quantidade de produtores e empregados rurais, os de-
mais campi juntos possuem uma porcentagem total de 11,67%, enquanto em
Curitibanos essa porcentagem é de 20,23%.
Percebe-se assim, que os estudantes do Campus de Curitibanos são em
sua maioria oriundos de escola pública, com renda bruta familiar de até três
salários mínimos, com pais e mães com baixa escolaridade, em sua maioria
empregados de empresas privadas e servidores públicos, e com número signi-
ficativo de trabalhadores rurais. Portanto, esses dados demonstram também
que o acesso ao ensino superior público e gratuito está sendo viabilizado à
parcela da população que vivencia cotidianamente com as consequências da
Guerra do Contestado.

5. Considerações finais

A partir das informações apresentadas, constata-se que o processo de


interiorização da universidade se faz necessário e de urgente ampliação, sobre-
tudo no território Contestado. Isso se dá não necessariamente pelos baixos
índices de desenvolvimento humano, pois se entende que a universidade por si
só não é capaz de produzir uma mudança social e econômica, como se estives-

285
se alheia ao atual modo de produção e de sociabilidade; mas pela constituição
sócio histórica desse espaço.
Questiona-se também como esse processo de interiorização foi condu-
zido, que no caso, foi implantado por um programa que não garantiu as condi-
ções para concretizar aquilo que se propunha, em um contexto de
contrarreforma; somado aos interesses do poder econômico e político regio-
nal, que entendem a universidade como uma propulsora da chamada “vocação
regional”, ou seja, de condições propícias para a continuidade desses poderes.
Por meio dos dados do perfil do estudante do Campus de Curitibanos
da UFSC percebe-se que além das particularidades dessa unidade no compara-
tivo com os demais campi da instituição, parte da população dos extratos mais
baixos da classe trabalhadora, com menores rendas e mais baixa escolaridade
estão acessando a universidade pública e gratuita, porém não o suficiente para
garantir um processo de reparação histórica de acesso à educação, além das
precariedades que a universidade enfrenta, que vão desde as condições de
trabalho dos docentes e técnicos administrativos e das atividades de ensino,
pesquisa e extensão, passando, consequentemente à não garantia da perma-
nência – econômica, social, psicológica e pedagógica – desses estudantes.
Por fim, entende-se assim que o Campus de Curitibanos da UFSC, en-
quanto um elemento do ensino superior público e espaço de construção de
conhecimento precisa ser defendido e valorizado, mas se faz necessário tam-
bém entendê-lo enquanto resultado das contrarreformas e dos interesses da
elite local, na intencionalidade de obter força de trabalho qualificada.

Fontes utilizadas

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de sede implantados e em processo de implementação, decorrentes dos programas de
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286
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Araranguá. Disponível em: <http://curitibanos.ufsc.br/ufsc-cbs/reuni-permite-a-
expansao-da-ufsc-com-campi-em-joinville-curitibanos-e-ararangua>. 05 mai 2009b.
UFSC/CBS. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em Agronomia: bacharelado.
Curitibanos: UFSC, 2011a.
UFSC/CBS. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em Ciências Rurais: bacharelado
interdisciplinar. Curitibanos: UFSC, 2011b.
UFSC/CBS. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em Engenharia Florestal: bachare-
lado. Curitibanos: UFSC, 2013k.
UFSC/CBS. Projeto Pedagógico do Curso de Graduação em Medicina Veterinária: bacha-
relado. Curitibanos: UFSC, 2014.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2009 Suplementar. UFSC: Florianópolis,
2009.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2010. UFSC: Florianópolis, 2010.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2011. UFSC: Florianópolis, 2011.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2012. UFSC: Florianópolis, 2012.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2013. UFSC: Florianópolis, 2013.
UFSC/COPERVE. Relatório Oficial do Vestibular 2014. UFSC: Florianópolis, 2014.
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http://www.cav.udesc.br/>. Acesso em: 13 mai. 2016a.
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UFSC/CUN. Ata da Sessão Extraordinária do Conselho Universitário realizada no dia 18
de novembro de 2008. UFSC; Florianópolis, 2008a.
UFSC/CUN. Resolução Normativa nº. 026/CUn/2008, de 18 de novembro de 2008. Aprova
a criação do Campus da Universidade Federal de Santa Catarina na cidade de Curitiba-
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VOGEL, Emanoela Carolina Vogel. O Reuni e as Condições da Educação Superior no Cam-
pus de Curitibanos da UFSC. 2016. Dissertação de Mestrado em Serviço Social. Florianó-
polis, Universidade Federal de Santa Catarina, 2016.

288
A PERSPECTIVA DIDÁTICA DO ENSINO DE
HISTÓRIA: O CONTESTADO

EVERTON CARLOS CREMA1

Eu gostaria de propor uma definição mais modesta do objeto de pesquisa da


didática da história. Seu objetivo é investigar o aprendizado histórico. O
aprendizado histórico é uma das dimensões e manifestações da consciência
histórica. É o processo fundamental de socialização e individualização hu-
mana e forma o núcleo de todas estas operações. A questão básica é como o
passado é experimentado e interpretado de modo a compreender o presente
e antecipar o futuro. Aprendizado é a estrutura em que diferentes campos de
interesse didático estão unidos em uma estrutura coerente. Ele determina a
significância do assunto da história da didática bem como suas abordagens
teóricas e metodológicas específicas (SCHMIDT et al., 2010. p. 39).

Parte da nossa reflexão, ensejada pelo centenário do Movimento do


Contestado e pela proposta do evento, se desenvolverá próxima ao conceito de
‘educação histórica’2 e suas contribuições para o ensino de um dos maiores
movimentos sociais da história brasileira. Comparativamente analisaremos
pontualmente a produção historiográfica do Contestado em seu conteúdo
equivalente nos livros didáticos do ensino fundamental e médio, dentro do
Plano Nacional do Livro Didático (PNLD). As obras analisadas foram escolhidas
por sua predominância nas escolas da rede pública da cidade de União da Vitó-
ria, Estado do Paraná, caracterizando dessa forma, uma narrativa historiográfi-

1
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná na área
de Cultura, Escola e Ensino. Docente do curso de História da UNESPAR – Universidade Estadual do
Paraná, Campus de União da Vitória. Membro do LAPEDUH - Laboratório de Pesquisa em Educação
Histórica - UFPR. E-mail: evertoncrema@yahoo.com.br.
2
Segundo Maria Auxiliadora Schmidt (2009), a noção de ‘educação histórica’ permite a relação direta
entre a aprendizagem histórica e compreensão histórica a partir dos pressupostos da ciência histórica. O
aluno aprende história da mesma forma que historiadores fazem seu trabalho histórico, sem mediações
cognitivas externas entre o ensino e aprendizagem descontextualizadas. Dentro da aprendizagem históri-
ca a educação histórica se constrói de forma direta com o conhecimento histórico e a consciência históri-
ca do aluno. O resultado desse processo é a criação de uma racionalidade histórica onde as categorias do
pensamento histórico, constroem uma forma de compreensão do raciocínio histórico e não a organização
de um conhecimento histórico específico.

289
ca dominante. Os livros didáticos escolhidos, para o ensino fundamental e mé-
dio respectivamente são: ‘Projeto Araribá’ da Editora Moderna e ‘História em
Movimento: dos primeiros humanos ao Estado Moderno’, Editora Ática, ambos
do triênio de 2014 a 2016.
O livro de História do 9º ano – Projeto Araribá, Editora Moderna optou
por inscrever o ‘tema’ (específico) da Guerra do Contestado, dentro de uma
unidade didática - 2 A República chega ao Brasil – também compostas de ou-
tras subunidades, sendo os subtemas: 1. A proclamação da República, 2. A
Guerra de Canudos, 3. A Guerra do Contestado, 4. Cangaço: uma guerra no ser-
tão; 5. A industrialização e o crescimento das cidades, 6. O Movimento operário
na Primeira República. Sem discutirmos os conteúdos específicos da unidade
didática, podemos constatar uma tentativa da editora e escritores de contem-
plar um contexto de época, num período histórico tradicional da história brasi-
leira. De forma positiva, os movimentos de Canudos e Contestado são tratados
separadamente dentro da opção didática de temas, rompendo com uma didati-
zação histórica onde os movimentos sociais brasileiros, em geral pelo seu viés
religioso, sempre eram caracterizados como tal, ou pouco se afastavam de uma
crônica oficial, em muito já superada pela historiografia.
O capítulo (tema) sobre o Contestado possuiu exatamente duas laudas
onde o texto historiográfico, fotos e o contexto sobre o movimento do Contes-
tado, inclusive numa temporalidade ampla, se articulam com o texto e os sub-
temas propostos, quais sejam: 1. Pobreza e miséria no sul do país, 2. O início da
guerra e 3. O contestado hoje, também se torna importante apontarmos a exis-
tência de um glossário, o que mostra em conjunto a observação e pertinência
para com a exigências do MEC, em relação ao Programa Nacional do Livro Di-
dático (PNLD). Nesse sentido o texto didático sobre o Contestado busca cons-
truir uma narrativa contextualizada da Guerra do Contestado, pois além, de
apresentar o Brasil no início do século XX, descreve de forma abrangente e
específica o conflito e suas consequências até os dias atuais. Contribui, portan-
to, para a geração de sentido critico dos alunos e sobretudo busca relacionar o
passado da história com seu presente, incluindo o aluno, na construção de uma
narrativa de compreensão do tempo histórico a partir da própria dinâmica do
conhecimento histórico. Exemplificando:

Boa parte dos descendentes dos caboclos que lutaram no Contestado vive
hoje em comunidades espalhadas em municípios do interior de Santa Cata-
rina. Em alguns deles, como Timbó Grande, onde ocorreu a última batalha do
Contestado, 44, 2% da população é pobre ou indigente. Segundo dados do
Censo 2010, 39,6% das famílias têm renda per capta de até 3 salários míni-
mos. Esses homens e mulheres dedicam-se, principalmente, aos cultivos de
subsistência e ao trabalho temporário em grandes fazendas ou madeireiras.
Com medo de perder oportunidades de trabalho, muitos evitam dizer que
são parentes dos “jagunços”, nome que receberam os caboclos que lutaram

290
no Contestado. Além do preconceito, essas pessoas sofrem com a ausência
de serviços de saúde, a precariedade do transporte público e a falta de esco-
las e de trabalho. Em algumas localidades, curandeiros e benzedeiras procu-
ram suprir a ausência do Estado, com suas rezas e outras práticas místicas.
Ainda hoje, a religiosidade popular é um elemento muito importante para a
população que vive nessas comunidades (APOLINÁRIO, 2010, p. 55).

Podemos perceber nesse fragmento final, a preocupação e presentifi-


cação do movimento na região do Contestado, fundamental para a criação de
sentido histórico do conteúdo histórico e a validade sobre o conhecimento
histórico, fruto da experiência, apropriada como conhecimento. Como dito a
obra rompe com uma historiografia tradicional, criticando a história oficial, no
momento que elege como eixo estruturante do tema ‘Contestado’ o contexto
social e a miséria pela perspectiva da história social. Um dos aspectos limitan-
tes da narrativa didática, presente no livro é a síntese narrativa exagerada, pois
abrange diversos aspectos e perspectivas da historiografia do Contestado,
exigindo do professor em sala de aula, um conhecimento significativo sobre o
movimento. Outro aspecto equivocado, dentro da referida obra didática, pon-
tuado na citação acima, é a apresentação do conceito ‘jagunço’ para descrever
os descendentes do movimento do Contestado, que na verdade mistura papéis
e perspectivas históricas, numa narrativa inverossímil e equivocada. ‘Jagunço’
é o vaqueano a serviço dos coronéis e dos estados. Muito foi e está sendo pro-
duzido, em termos de pesquisa e bibliografia sobre o Contestado, pouco justifi-
cando o erro, por outro lado devemos perceber que nesse momento, a didática
ou a estrutura narrativa se distancia da historiografia, no livro didático não
podemos escolher um formato narrativo sintético em benefício de um contexto
didático explicativo mais amplo, muito menos acreditar que reduzir os contex-
tos explicativos, ao abordarmos perspectivas mais restritas construiriam uma
narrativa de melhor qualidade. Infelizmente esse debate acaba se determinan-
do a partir dos custos do projeto editorial didático, das normas e exigências do
PNLD e dos próprios lucros das editoras.
Na mesma direção:

A maior revolta civil do Brasil no período da Primeira República ocorreu no


sul do país, em uma região que era disputada judicialmente entre os estados
de Paraná e Santa Catarina. Daí o nome do conflito Guerra do Contestado
(1912 – 1916). No início do século XX, muitos agricultores e posseiros se es-
tabeleceram na área. Mas, ao longo dos anos, viram seus territórios serem
ocupados por fazendeiros interessados na extração da erva-mate e madei-
reiras. A presença de grandes companhias estrangeiras, envolvidas na cons-
trução de estradas de ferro, também reduzia as lavouras de subsistência das
famílias camponesas (APOLINÁRIO, 2010, p. 54).

291
Nessa passagem inicial, podemos perceber que a introdução ao tema
do Contestado, passa por uma orientação temporal e geográfica, necessária a
fim de estruturar o espaço/tempo em seu contexto didático. A obra em ques-
tão utiliza de forma adequada a contribuição da historiografia crítica, em sua
abordagem social para o ensino de história, problematizando socialmente o
movimento do Contestado. Ainda no debate, não discutiremos acerca da fide-
dignidade do nome dado ao tema de aula, se movimento do Contestado, Guerra
Sertaneja, etc..., ainda que possa suscitar crítica, entendemos que dentro do
contexto da obra e do debate historiográfico, ele se apresenta adequado. Fora
isso, em seu segundo parágrafo a obra didática, parece esquecer do enfoque
social, apresentando um anacronismo e desconhecimento sobre as sociedades
e populações locais, quando referência em seu texto ‘No início do século XX,
muitos agricultores e posseiros se estabeleceram na área’, desconsiderando as
populações primitivas, inclusive em termos antropológicos de um segundo
povoamento.
Claramente a obra produz um forte anacronismo e a negação dos con-
textos étnicos – sociais anteriores ao Contestado, primeiro por não apresentar
o processo de colonização e mestiçagem ocorrido na região em torno do século
XIX, hibridando, Indígenas, Negros e Portugueses que formaram a base social
da região. Segundo por apresentar distintamente uma colonização posterior,
que em termos didáticos se constituiu, individual e separadamente. Nessa
perspectiva podemos perceber que a escrita do texto, reproduziu uma pers-
pectiva parcial da historiografia e pouco se preocupou com a didática da apre-
sentação do conteúdo, se desapercebendo dos necessários significados e
estruturas fundamentais para a compreensão da história, de seu conteúdo
formal em direção a compreensão do processo histórico.
Analisando pontualmente a obra - História em Movimento: dos pri-
meiros humanos ao Estado Moderno, Editora Ática, 2013, percebemos que a
obra didática optou por apresentar uma história em ‘bloco’ contendo diversos
assuntos agrupados em capitulo denominado: Primeiros tempos republicanos,
apresentados em sequência, 1. Nas mãos da elite; 2. As oligarquias no poder; 3.
Movimentos messiânicos e 4. A delimitação de fronteiras. Apesar da titulação
provocativamente crítica, o subcapítulo onde Canudos e Contestados são tra-
tados, são enfocados pela perspectiva messiânica, se distanciando de uma his-
tória social, muito próxima de uma historiografia oficial e tradicional, ainda
que a obra apresente um contexto originário para o Contestado a partir do
‘Canudinho de Lajes’. Outro ponto a ser discutido acerca da referida obra, a
história didaticamente apresentada não se liga, nem referencia o presente,
especificamente a narrativa didática se encerra em 1916, como o Acordo de
Limites, isso posto limita a capacidade do aluno em estabelecer relações entre

292
o passado e presente, fundamentais para a compreensão do processo histórico.
Senão vejamos:

A partir de 1913, por várias vezes tropas governamentais estadual e federal


lançaram ataques contra os redutos rebeldes. Em setembro de 1914, uma
tropa federal composta por 7 mil soldados (um terço do efetivo do Exército
na época) ocupou a região. Usando armamentos pesados, os soldados tive-
ram de enfrentar encarniçada resistência dos rebeldes, munidos de velhas
espingardas, foices e fações. Somente em janeiro de 1916, o ultimo líder dos
sertanejos foi preso e a Guerra do Contestado chegou a fim. Cerca de 20 mil
pessoas, entre mulheres, crianças e idosos, morreram no conflito. Em agosto
de 1916, os governantes de Santa Catarina e Paraná firmaram um acordo di-
vidindo entre si as terras do Contestado. Com a expulsão dos camponeses,
boa parte do território acabou colonizado por imigrantes europeus, princi-
palmente italianos e alemães que viviam no Rio Grande do Sul (AZEVEDO e
SERIACOPI, 2013, p. 63).

Pontualmente a título de exemplificação, a partir do fragmento do li-


vro didático acima, percebemos resumidamente a apresentação dos artefatos
da crônica oficial, pouco contextualizada e crítica em relação aos motivos e
consequências do movimento do Contestado e da população cabocla, apresen-
tada no contexto da obra como rebelde, sem identidade e sobretudo percebida
na crônica como oposição as forças do Estado. Ante os limites das análises
postas, a partir de perspectivas limitadas e pontuais, resta claro os limites e
importâncias entre a produção historiográfica e a didática do ensino de histó-
ria posta nos livros didáticos, que consideravelmente vem melhorando em sua
conformação. Torna-se urgente um estudo sistemático sobre o Movimento do
Contestado nos livros didáticos que fazem parte do Programa Nacional do
Livro Didático, sobretudo, dada sua importância, abrangência e presentificação
nas escolas brasileiras, tendo em vista percebermos os limites atuais na didáti-
ca do ensino do Contestado, ou ainda, para que a significativa e continuada
produção historiográfica do Contestado possa chegar a sala de aula, problema-
tizando, ressignificando criticamente nosso presente, suprindo as carências de
orientação de nossas alunas e alunos, ao mesmo tempo em que, dotamos pro-
fessoras e professores de uma maior intimidade e domínio historiográfico e
didático sobre o Contestado em toda a sua beleza e horror.
Ainda de forma crítica não podemos deixar de perceber que o livro di-
dático deve por si só, em sua narrativa didática, permitir que a historiografia se
comunique diretamente com o aluno, já que nas horas de estudos diversas, as
alunas e alunos não dispõem da professora ou professor, para integrar explica-
tivamente o conteúdo didático com o conteúdo historiográfico, distanciando o
aluno da ‘educação histórica,’ reforçando e autorizando o discurso hegemônico
interpretativo do professor. Problematizando o debate sobre a produção histo-

293
riográfica da academia e sua relação com o livro didático, podemos perceber
de forma clara um grande distanciamento e diferenciação entre as formas de
escrita, conteúdo e narratividade. Se por um lado essa diferenciação nos parece
adequada, tendo em vista o público, seus interesses, suas capacidades cogniti-
vas distintas e seus lugares de produção, também devemos perceber que esse
fracionamento é fruto de um processo de cientificização da história em sua
trajetória como conhecimento formal que dividiu e progressivamente distin-
guiu a pesquisa do ensino. Exemplificando:

Durante o século XIX, quando os historiadores definiram sua disciplina, eles


começaram a perder de vista um importante princípio, a saber, que a histó-
ria é enraizada nas necessidades sociais para orientar a vida dentro da estru-
tura do tempo. O entendimento histórico é guiado fundamentalmente pelos
interesses básicos: assim sendo, é direcionado para uma audiência e tem um
papel importante na cultura política da sociedade dos historiadores. Como
os historiadores do século XIX se esforçaram para tornar a história uma ci-
ência, este público foi esquecido ou redefinido para incluir apenas um pe-
queno grupo de profissionais especialistas treinados (SCHMIDT et al., 2009,
p. 25).

Uma parte da equação pode ser entendida a partir da criação do esta-


tuto científico moderno durante o século XVIII, as ciências humanas e sociais,
refletiram em grande parte os paradigmas das ciências exatas, numa época
onde não existia a universalização ou pluralização do conhecimento, muito
menos a educação era um direito social ou uma prática institucional. Nesse
sentido o ensinar história foi fortemente moldado pelos caminhos da ciência
da história, privilegiando a pesquisa e distanciando-se de uma ‘filosofia do
ensino da história’. Como resultado a vinculação da didática e do ensino de
história ao campo teórico da historiografia moderna, impediu teórico e concei-
tualmente que o ensino de história se sustentasse metodologicamente na escri-
ta da história. Reagindo a separação metodológica em curso e vinculado ao
próprio contexto alemão do século XIX, o historicismo criticou o universalismo
histórico, retomando, a partir de um ‘nacionalismo’ os vínculos da história com
o lugar e com os costumes, aproximando estruturas de compreensão histórica
baseadas nas relações cotidianas e no culturalmente próximo.
O que buscamos conjuntamente discutir são os limites e problemas de
uma história e do conhecimento histórico científico, formalizado em relação a
um conhecimento histórico perspectivado pelo ensino, fortemente marcado
pelas teorias do conhecimento, pelas teorias de aprendizagem da pedagogia e
da psicanálise, diferentes de modelos de aprendizagem histórica, baseados na
consciência histórica. Se torna necessário aproximar as licenciaturas de histó-
ria da educação básica, fitando a didática da história como um conhecimento
humanizante e eixo integrador, sobretudo próximo do aluno, permitindo a ele

294
por suas próprias capacidades cognitivas, então suas experiências e expectati-
vas, se perceber como parte da história, ensejando que a compreensão do co-
nhecimento histórico sustente a geração de sentido crítico em direção as
carências de orientação da vida prática.

A educação histórica não se torna mais uma simples questão de tradução de


formas e valores de estudiosos profissionais para a sala de aula. A questão
básica que está sendo colocada é se aquele conhecimento e a forma de pen-
samento que ele representa encontram um conjunto de critérios educacio-
nais preexistentes e extradisciplinares. Os historiadores foram confrontados
com o desafio do papel legitimador da história na vida cultural e na educação
(SCHMIDT et al., 2009, p. 30).

Construída uma tentativa de situar as origens da secção da história en-


tre uma escrita da história formal e cientificamente estruturada e o próprio
ensino da história, ensejada na máxima de Cícero ‘História Vitae Magistra,’
apresentaremos o conceito de ‘educação histórica’ e sua problematização em
relação ao ensino de história. Segundo Maria Auxiliadora Schmidt (2009), a
noção de ‘educação histórica’ permite a relação cognitiva direta entre o conhe-
cimento histórico e a compreensão histórica a partir dos pressupostos da ciên-
cia histórica. O aluno aprende história da mesma forma que historiadores
fazem seu trabalho histórico, baseados na experiência e em suas esferas de
interesses, sem mediações cognitivas externas descontextualizadas entre o
ensino e aprendizagem. Dentro da aprendizagem histórica a educação histórica
se constrói de forma direta com o conhecimento histórico e a consciência his-
tórica do aluno, se aprende história, pela dinâmica da própria história, histori-
camente. O resultado desse processo é a criação de uma racionalidade
histórica onde as categorias do pensamento histórico, constroem uma forma
de compreensão do raciocínio histórico e não a organização de um conheci-
mento histórico específico.
A importância da educação histórica para o ensino de história se apre-
senta fundamental por retomar a perspectiva central do ensino da história na
construção da validade do conhecimento histórico, ultrapassando sua condição
complementar e acessória em relação a historiografia. Nesse sentido, se torna
necessário superar o atributo científico exclusivo e a formalização do conheci-
mento em direção a uma história viva, pensada reflexivamente a partir de um
humanismo histórico,3 dos princípios críticos, transformadores e do empode-

3
Segundo Rüsen (2015) in RÜSEN, Jörn. Teoria da História: uma teoria da história como ciência.
Curitiba: Editora da UFPR, 2015. Compreende a identidade e a diferença como fatores preponderantes
para a organização política e social da vida, rompendo com uma visão humanista tradicional. Dessa
forma, o humanismo é uma forma de pensar conjuntamente as igualdades e diferenças, inerentes do ser
humano, numa tentativa de se superar o racionalismo lógico universal, através da diversidade cultural,
sistematizada no conceito de ‘humanismo diverso’, onde a soma da diversidade e das individualidades

295
ramento inerentes a história. Caminhar em direção a uma história social, não
como objeto, não como uma metodologia das ciências sociais, mas como vivên-
cia, próxima do significado, produzindo sentido e não uma ciência desvincula-
da do homem.

A razão do pensamento histórico também pertence ao processo histórico de


que toma conhecimento. À sua maneira, ela produz a articulação interna dos
processos temporais da vida humana com um processo supraordenado de
evolução cultural. Sua contribuição para a possibilidade de se conseguir vi-
ver a vida não é nada negligenciável. Ela sustenta a orientação fundamental
da vida para a produção de sentido. O ser humano torna-se mais forte na ex-
periência, e mais consciente dos valores mediante a determinação de sentido
de sua temporalidade própria. Não se obtém nada disso sem esforço mental.
A força da experiência pressupõem o esforço de integrar experiências (pró-
prias) negativas... A força da experiência ganha, com isso, capacidade norma-
tiva. Ela se nutre da força do convencimento (obtida pela argumentação e
pela reflexão) dos valores dotados na formação da identidade (RÜSEN, 2015,
p. 265).

As diferentes tratativas, dimensões, sentidos e a carga emocional da


história em suas significações não é alcançada dentro de modelos formais de
pesquisa, nem se apresentam de todo em seus resultados historiográficos,
construindo um distanciamento da vida real que afasta a história de seu poder
de geração de sentido e compreensão crítica da realidade. Nessa direção a
‘burdening history,4 história difícil, como categoria da história, nos lança uma
centelha de compreensão em relação aos limites da escrita da história e ao
mesmo tempo nos força a refletirmos sobre o Contestado, não somente pela
amplitude e complexidade do movimento, mas especificamente sobre o ‘hor-
ror’ produzido e suas consequências. De outra forma, acreditamos que a didá-
tica e a metodologia da história, por estarem mais próximas da sociedade,
através da sala de aula, dentro do campo escolar, já tenham criado modelos
didáticos críticos e contextualizados, ainda que pouco sistematizados, mas que
vem respondendo ao ‘arrasto’ da história. Precisamos ampliar e valorizar pes-
quisas que abordem o ensino de temas ‘difíceis’ e ‘controversos’ da história
brasileira, fazendo e construindo justiça social, se acreditamos, claro, que é a
história seja responsável pelas carências de orientação da vida.
Para Bodo Von Borries (2016) o processo de aprendizagem e compre-
ensão da história não pode ser percebido, especificamente como um processo

criaria a base de um novo e necessário humanismo, um todo construído de partes distintas, diferentes e
diacrônicas integradas.
4
Na perspectiva de Bodo Von Borries (2016), algumas histórias possuem em seu conteúdo uma carga
potencial negativa do drama humano, que exige um tratamento metodológico específico, tamanho horror
produzido em sua ressonância, capaz de gerar o silenciamento e o esquecimento. Retomar a ‘história
difícil’ é recompor o campo social, num entendimento e compreensão necessário ao processo de apren-
dizagem histórico e a ressignificação do papel da história em direção a uma humanização.

296
cognitivo, mas sobretudo, traz consigo uma carga emocional, estética e moral
significativa. Construir uma narrativa ampla e válida é fundamental para que
possamos lidar com os efeitos e consequências da história no presente, sendo
decisiva a necessidade de se perceber e superar a história difícil num país jo-
vem e de tradição autoritária.

Os netos dos vencedores e derrotados, dos perpetradores e vítimas, de ricos


e pobres podem lembrar-se e dirigir um determinado evento ou desenvol-
vimento em formas contrastantes alternativas. Além do processo técnico da
história escrita, as condições (psicológicas sociais) mentais para lida com as
experiências terríveis são o ponto decisivo. Obviamente, os processos se-
guem certos padrões. Quando os seres humanos usam a história em suas vi-
das e para suas legitimações e decisões, ou seja, quando eles orientam por
meio da história para confrontar e encarar o futuro, eles escolhem um con-
junto limitado de estratégias e versões. Conhecê-las é uma condição funda-
mental para a descrição e análise das chances e os riscos para a reconciliação
(BORRIES, 2016, p. 36).

Resta que, para a construção de um processo de reconciliação históri-


ca, segundo Borries (2016) devemos desenvolver a capacidade e a humanidade
de nos colocar no lugar do outro, caminhando lado a lado, distanciando-se do
passado, sem perdê-lo de vista no presente, comprometidos com um futuro
comum. Importante também, perceber que podemos e devemos mudar de
posições e lugares na crônica da vida, negando os erros, falsificações e manipu-
lações da história e seus usos. Objetivamente o autor defende que a história
seja pensada e vivida de uma maneira humanista e universalista, reconhecen-
do e defendendo os direitos civis, através de uma narrativa unificadora, que
ultrapasse o etnocentrismo, o relativismo, o individualismo e a tentativa de
desconstrução e enfraquecimento do outro, pois o debate de ideias, posições e
argumentos não devem se sustentar na perspectiva da superação e sim do
entendimento e progresso de ambos.
Como proposta para a reconciliação histórica, Borries (2016) apresen-
ta um programa de 4 ações concomitantes, acerca do processo de aprendiza-
gem histórica passando pela didática e metodologia a história, sendo 1. Criação
de comissões de avaliação e melhoria continuada de livros didáticos, 2. Implan-
tação e utilização de livros didáticos comuns, 3. Programas de intercâmbio de
jovens, e 4. Intercâmbio das narrativas históricas e dos conteúdos dos livros
didáticos. Ainda que haja certa proximidade entre as propostas elas possuem
metodologias e finalidades distintas e evidentemente refletem o problema da
história do nazismo na Alemanha dentro do contexto Europeu contemporâneo.
Entretanto, entendemos que facilmente podem ser adaptadas a dinâmica his-
tórica brasileira em seus contextos e indiferentemente permanece a relação

297
fulcral da ‘história difícil’ com a metodologia e didática do ensino da história,
bem como com o livro didático.
Apresentadas algumas metodologias e problematizações sobre a his-
tória, seus lugares de produção e seu ensino, de forma objetiva, buscaremos
tecer algumas reflexões e análises sobre o livro didático, tendo em vista, sua
importância e presença dentro da sala de aula, estruturando e embasando a
prática de ensino de história sob diversas perspectivas. Ainda que a Lei de
Diretrizes e Bases (LDB - 1996), os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN -
1997) e a Base Nacional Curricular Comum (BNCC - 2017) e especificamente
do caso do Estado do Paraná, a Diretriz Curricular Paranaense de História
(DCH - 2008), legislem e regulamente o ensino em toda a sua dinâmica o dis-
tanciamento dos documentos de ensino da sala de aula é grande e presente.
Senão vejamos, em geral os documentos de ensino e sua curriculariza-
ção não apresentam um debate específico e consistente sobre ensino, a ausên-
cia desse debate também atinge as licenciaturas de história, muito fortemente
marcadas por uma tradição em pesquisa, que lentamente caminha em direção
ao ensino. Em geral, e especificamente no Brasil e no Estado do Paraná não
existe uma política de formação continuada para professores de rede básica,
criando na prática uma licença quanto ao ensino de história, a didática e a me-
todologia do ensino de história. Somadas as ausências e silêncios, também com
relação a estruturação curricular, a implantação nacional progressiva do livro
didático do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), acabou por suprir as
demandas da estruturação curricular e os processos de ensino aprendizagem,
pois não existe ensino sem conteúdo, bem como não há aprendizagem sem
didática e metodologia de ensino. Dentro do livro didático, encontramos a his-
toriografia, fruto em grande parte da pesquisa acadêmica, construída dentro de
uma narrativa acessível e mediada pela didática do ensino e pelas teorias edu-
cacionais, como a transposição didática adequando o conteúdo as capacidades
cognitivas dos alunos na sua relação série/idade, nesse sentido o livro didático
além de estruturar o currículo de ensino e apresentar uma metodologia de
ensino didaticamente posta, resolve ao mesmo tempo o problema do conteúdo,
do processo de ensino-aprendizagem, quando não da própria avaliação se ob-
servarmos a existência vinculada do livro do professor.
Mesmo com a presença do livro didático estruturando o ensino de his-
tória, carecemos fortemente de uma didática e metodologia específica para o
ensino de história, adequada a dinâmica do pensamento histórico e em conso-
nância com uma educação histórica. A ausência do debate sobre o ensino da
história nas licenciaturas, a secção entre pesquisa e ensino e a distância consi-
derável entre a universidade e a educação básica acabam por limitar a contri-
buição historiográfica, ao mesmo tempo que esvazia do ensino a história toda
sua força e beleza.

298
O currículo primário e secundário de história consistia em nada mais do que
resumos simplificados dos estudos padrão em história. Assim, na melhor das
hipóteses, a didática da história provia os estatutos da função educacional do
conhecimento histórico e dos objetivos correspondentes para o ensino de
história nas escolas. Mas isso incluía também uma didática oculta, aquela da
simples reprodução dos estudos históricos: ao fazê-lo, baixava seu nível das
montanhas da pesquisa para os vales das salas de aula. (RÜSEN, 2015, p. 28)

A aproximação entre a universidade e a educação básica deve aconte-


cer propositivamente a partir da didática da história, pois media a produção
historiográfica e o ensino de história. Além do ganho educacional, da melhora
qualitativa do ensino de história, a partir das próprias estruturas de produção
do conhecimento histórico a relação com educação histórica sustentaria uma
metodologia de ensino inerente, própria e singular da história em direção a
uma compreensão do histórico, melhorando significativamente o processo de
aprendizagem ao mesmo tempo em que a história teria em sí mesma reconhe-
cida sua validade ao orientar as carências de interpretação e orientação do
mundo. Também teríamos como resultado plausível uma maior satisfação na
sala de aula seja por parte dos professores ao ensinar, seja pelos próprios alu-
nos por aprenderem de forma significativa. Nesse sentido sustentar a estrutu-
ração da aula a partir da educação histórica, pensando um currículo através do
livro didático, nos coloca diretamente próximos ao conteúdo histórico nas
salas e ao processo de ensino aprendizagem.

Referências bibliográficas

APOLINÀRIO, Raquel. Projeto Araribá, 9º ano. 3ª ed. São Paulo: Moderna, 2010.
AZEVEDO, Gislaine Campos; SERIACOPI, Reinaldo. História em Movimento: do século XIX
aos dias de hoje. 2ª ed. São Paulo: Ática, 2013.
PNLD - Programa Nacional do Livro didático, disponível em
<http://www.fnde.gov.br/programas/livro-didatico>.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora; FRONZA, Marcelo; NECHI, Lucas Pydd. (orgs) BORRIES,
BODO VON. Jovens e consciência histórica. Curitiba: WA editores, 2016.
RÜSEN, Jörn. Teoria da História: uma teoria da história como ciência. Curitiba: Editora
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SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel; MARTINS, Estevão Rezende. (orgs) Jörn
Rüsen e o ensino de História. Curitiba: Editora da UFPR, 2010.
SCHMIDT, Maria Auxiliadora; BARCA, Isabel. Aprender história: Perspectivas da educa-
ção histórica. Ijuí: Editora Unijuí, 2009.

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