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Texto 1 - Feminismo Brasileiro: revolução de ideias e políticas

públicas

Lia Zanotta Machado

No Brasil, são duas as grandes temáticas que mais ganharam espaço na movimentação
feminista dos anos 1970 aos dias de hoje: a violência contra as mulheres e os direitos das mulhe-
res à saúde, à sexualidade e à reprodução. Todas as duas temáticas estão em consonância com
a palavra de ordem das movimentações feministas dos anos 1960 e 1970 ocorridas nos Estados
Unidos e na França: a politização do privado. Politizar o privado é denunciar as desigualdades de
poder entre homens e mulheres na esfera das relações afetivas, amorosas, conjugais, familiares e
domésticas.

Há, no entanto, similaridades e diferenças. A movimentação feminista de libertação das


mulheres nos Estados Unidos (anos 1960) e na França (anos 1970) enfatizava a “liberdade sexual”
e denunciava que o corpo e o sexo feminino eram controlados pelos homens. A luta pela liberdade
sexual era ao mesmo tempo denúncia da violação sexual, da relação sexual obtida à força pelo
companheiro e do controle das mulheres pelos homens. Era ao mesmo tempo demanda por uma
sexualidade que não implicasse obrigatoriamente reprodução, pelo direito à contracepção e pela
denúncia da criminalização das mulheres que abortavam. Toda a organização baseava-se em gru-
pos autônomos de reflexão e a produção de eventos e de produção de jornais e revistas, além de
acesso a jornais de ampla repercussão.

Se, nos seus primórdios, a movimentação feminista dos anos 1970 no Brasil também se
organizava em pequenos grupos de reflexão por influência de mulheres de esquerda exiladas em
Paris, Berkeley ou Santiago, em reuniões com escritoras, jovens universitárias e mulheres de ori-
gem partidária e sindicalista de esquerda, não somente reivindicava a politização do privado, como
inseria suas demandas articulando as lutas pelos direitos das mulheres com a defesa dos direitos à
cidadania e à democracia, contra a ditadura e contra as desigualdades sociais. Ao mesmo tempo,
a movimentação feminista estimulava e se articulava com os movimentos sociais de mulheres de
bairros e comunidades em busca de acesso a bens como água e escola. O feminismo buscava se
posicionar como “bom para o Brasil”, na expressão de Goldberg (1991). Se a proposta francesa
de “o nosso corpo nos pertence” e a “liberdade sexual” estava presente na fala feminista brasileira,
não era a palavra “liberdade sexual” que ganhava maior visibilidade no Brasil, mas sim a denúncia
da “violência contra as mulheres”.

As movimentações feministas anteriores que ocorreram no século XIX e na primeira meta-


de do século XX na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil tiveram como foco o acesso à esfera

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Introdução Crítica ao Direito das Mulheres

pública: ao trabalho, à educação, às diferentes profissões e ao mundo da política, como o direito de


votar, de ser eleita e de ser representante política. A nova movimentação retoma as reivindicações
anteriores, vinculando-as umas às outras.

As lutas pelo acesso às condições de igualdade na esfera pública e na privada estão, de


fato, intimamente articuladas. A tradição social que tornou desiguais homens e mulheres e que
interditou as mulheres por muito tempo de se tornarem juízas, magistradas e médicas, ou de vota-
rem e serem eleitas, é derivada, com certeza, da ideia, criticada pelo feminismo, de que “mulheres
devem ser, idealmente, apenas mães e se dedicarem obrigatória ou exclusivamente à maternida-
de”. Para o feminismo, a maternidade é uma escolha e não pode ser impeditiva do exercício de
profissões. Em nome deste tipo de concepção de maternidade exclusiva, um grande campo de pro-
fissões foi interditado às mulheres, ou ainda é considerado inapropriado ou justificador de menores
remunerações. O paradoxo é enorme, se pensarmos que, em todo o século XIX e início do século
XX, as mulheres pobres foram recrutadas como operárias, por necessitarem do sustento, receben-
do menores rendimentos. Assim, se as movimentações feministas diferenciaram-se no tempo por
darem mais ênfase à esfera pública ou privada, hoje, reconhece-se que todas estas demandas
estão intimamente entranhadas.

Em 1975, teve lugar o primeiro ato público do feminismo no Brasil, o Seminário sobre o Pa-
pel e o Comportamento da Mulher na Sociedade Brasileira, realizado no Rio de Janeiro, em que as
questões foram amplas, como a condição da mulher brasileira, as questões relativas ao trabalho, à
saúde física e mental, à discriminação racial e à homossexualidade feminina.

A questão específica do movimento que primeiro toma maior visibilidade política é a ques-
tão do assassinato de mulheres. As palavras de ordem, iniciais, referentes à violência se deram em
1979 em torno da denúncia dos homicídios cometidos por maridos contra suas esposas e o fato
de os homens serem absolvidos. O enfrentamento das feministas buscou revolucionar a opinião
pública e criticar o modo pelo qual o femicídio pelo companheiro era interpretado pelos poderes
jurídicos.

Não foi a violência crônica contra as mulheres que levantou a opinião pública, mas sim a
denúncia do caso extremado do poder de vida e de morte dos homens sobre suas mulheres. Con-
tudo, no seio do movimento, o que estava em jogo era a violência cotidiana contra as mulheres. Al-
guns grupos feministas, dependendo de seus próprios trabalhos voluntários, passaram a constituir
grupos de SOS, oferecendo serviços dirigidos ao atendimento das mulheres vítimas de violência.

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Na década de 1980, foram feitas críticas às propostas de controle populacional da natalida-
de e às políticas locais estimuladas internacionalmente à esterilização das mulheres sem acesso
às informações. O movimento feminista estabeleceu a diferença entre controle populacional e o
desejado planejamento familiar com acesso a informações e respeito à autonomia. Em 1983, no
Rio de Janeiro, diversos grupos feministas organizaram o Encontro sobre Saúde, Sexualidade,
Contracepção e Aborto. Reivindicava-se uma política de oferta de contraceptivos, ao lado da oferta
de informações, entendidas como direitos à autonomia e à decisão. Lutava-se pela descriminali-
zação do aborto. Movimentos de mulheres e profissionais de saúde, com apoio especialmente de
sanitaristas, propuseram um Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) em
1983 e conseguiram que fosse aprovado pelo Ministério da Saúde um sistema de saúde público
que previsse o atendimento integral à saúde das mulheres, contrapondo-o ao atendimento quase
exclusivo das mulheres como mães nos serviços materno-infantis. Incluía-se aí o direito à contra-
cepção e o direito à sexualidade com autonomia.

Logo a demanda da movimentação feminista voltou-se para a inserção nas políticas públi-
cas estatais. Foi proposta a criação de conselhos, que, integrados pelas feministas, fossem legiti-
mados pelos poderes públicos, tornando-se órgãos de consulta e proposição. Os primeiros Con-
selhos Estaduais da Condição Feminina foram criados em São Paulo e Minas Gerais em 1983.
O Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo foi o primeiro a propor a criação da
primeira delegacia especializada de atendimento às mulheres em 1985. Sem uma atenção especial
à violência contra as mulheres, ela continuaria invisibilizada, impune e quase legitimada pelos po-
deres estatais e pelo senso comum dominante. Em 1985, é criado o Conselho Nacional dos Direitos
das Mulheres em resposta ao “Movimento de Mulheres pelas Diretas-já”.

Em 1988, o Conselho Nacional de Direitos das Mulheres liderou a formação de um lobby,


chamado o “lobby do batom”, que apresentou aos constituintes a “Carta das Mulheres”, elaborada
por um grande número de feministas. Sua pauta: justiça social, criação do Sistema Único de Saúde,
ensino público e gratuito em todos os níveis, autonomia sindical, reforma agrária, reforma tributária
e negociação da dívida externa. A segunda parte referia-se aos direitos das mulheres: trabalho,
saúde, direitos de propriedade, chefia compartilhada na sociedade conjugal, defesa da integridade
física e psíquica da mulher como argumentação para o combate à violência, redefinição da classi-
ficação penal do estupro, criação de delegacias especializadas de atenção à mulher em todos os
municípios.

No meu entender, não fossem os movimentos sanitaristas e os movimentos feministas,


que precederam à Constituinte e que continuaram atuantes acompanhando sua implementação,
não teríamos a formulação do Sistema Único de Saúde tal como hoje se apresenta no seu formato
universal e com a proposta de atendimento da Saúde Integral da Mulher.

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Introdução Crítica ao Direito das Mulheres

Nos anos de 1990, a tendência dos movimentos feministas foi a de se organizar em Orga-
nizações Não Governamentais, buscando recursos para objetivar projetos referidos à elaboração e
ao acompanhamento das políticas públicas. Formaram-se grandes redes de articulação nacional,
como é o caso da Rede Nacional Feminista de Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, criada em
1991, e da Articulação das Mulheres Brasileiras nos anos anteriores à preparação da Conferência
dos Direitos das Mulheres, que teve lugar em Beijin em 1995. Em 2000, foi criada a Articulação das
ONGs das Mulheres Negras e a Liga de Mulheres Lésbicas.

O gesto político do Governo Lula (2003-2010) que possibilita a incorporação das propostas
feministas na formulação de Planos de Políticas Nacionais para as Mulheres é a decisão de chamar
as Conferências Nacionais dos Direitos das Mulheres.

Das Conferências realizadas, foi possível a montagem do I e do II Plano Nacional de Polí-


ticas para as Mulheres. A participação diferenciada na adesão às propostas das conferências por
cada um dos Ministérios depende da inserção mais ou menos profunda e tradicional com os direitos
das mulheres, como é o caso do Ministério de Saúde.

Dois projetos de lei estiveram em andamento por iniciativa política do movimento feminista.
Foram anteprojetos de lei gestados pela mobilização das organizações feministas que depende-
ram, no entanto, do protagonismo da iniciativa oficial da Secretaria de Políticas Públicas para as
Mulheres.

O primeiro anteprojeto trata da caracterização da violência doméstica contra as mulheres.


Foi apresentado um projeto governamental por iniciativa da Secretaria de Políticas da Mulher e
aprovado pelo Parlamento em 07 de agosto de 2006, tornando-se a Lei n. 11.340, Lei Maria da
Penha. A resistência jurídica à Lei aponta o quanto as conformações anteriores do Código Penal e
do Código de Processamento Penal impediam qualquer medida de proteção à mulher e ao enfren-
tamento da violência.

O segundo anteprojeto é o referente à legalização da interrupção da gravidez por decisão


da mulher até as doze primeiras semanas. Foi elaborada e apresentada por uma Comissão Triparti-
te designada pelo presidente da República à Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara
Federal de Deputados em 2005. A resistência foi grande. As posições contrárias cresceram com a
formação de uma Frente Parlamentar contra o aborto, a pressão da Bancada Evangélica, os acor-
dos entre o Vaticano e o Governo Lula e as pressões da Conferência Nacional de Bispos do Brasil.
As campanhas eleitorais de 2010 para a Presidência deram o termômetro das dificuldades políticas
para o Executivo e o Legislativo.

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Os grupos conservadores buscam uma imposição única do controle sobre todas as mu-
lheres, suas decisões e seus corpos. E, ao contrário disso, a movimentação feminista propõe,
em nome da ética, que cada mulher leve em conta suas possibilidades e circunstâncias, e que a
maternidade seja uma escolha e que a mortalidade e a morbidade de inúmeras mulheres não mais
aconteçam.

Se os movimentos feministas brasileiros conseguiram grandes êxitos no desenho das políti-


cas públicas, há também recuos e cooptação pelo Estado. Na busca da igualdade entre homens e
mulheres, heterossexuais e homossexuais e na busca contra a discriminação racial, os movimen-
tos feministas, ao fazerem interlocução com os sentimentos individuais e com as políticas públicas,
exigem reflexão e ações contínuas sobre a vida privada e sobre a esfera pública.

Referências

BARSTED, L. L. O movimento de mulheres e o debate sobre o aborto. Apresentado no Seminário


Estudos sobre a Questão do Aborto. Campinas: Unicamp, 2007. Print.

GOLDBERG, A. Feminismo e autoritarismo: a metamorfose de uma utopia de liberação em ideolo-


gia liberalizante. Dissertação de mestrado. UFRJ, 1987. Print.

PINTO, C. R. J. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,
2003. Print.

SORJ, B.; MONTERO, P. SOS-Mulher e a luta contra a violência. In: Perspectivas antropológicas
da mulher: sobre a mulher e violência. Rio de Janeiro: Zahar Editores,1985.

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