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RPE, 57-2001 O Mal no Pensamento Africano JOHN MbiTi* REsUMO: Muitas sociedades africanas dizem que Deus 56 faz.0 que & bom e ndio criow o mal. Cada sociedade tem costumes, tradicBes, comportamentos e relagdes interpessoais estabele- cidos que mantém a boa ordem na comunidade. Contudo, as relagdes intensas também criam animosidades ¢ as pessoas tentam fazer-thes frente através da fetcaria, buaria e magia. Os individuos usa os poderes “escondidos” ou “secretos” para fazer mal aos vizinhos e colegas, ou aos seus bens e actividades. Nalgumas sociedades, as pessoas pensam que 0s es- piritos sao a origem e/ou os agentes do mal. Contudo, os espiritos das pessoas falecidas sto ainda parte das suas familias humanas, e de muitos modos actuam como guardides do bem- -estar familiar. E sobretudo nas relagdes humanas que as pessoas identificam 0 que é mau, tentam evité-lo,e lidam com ele através do castigo, tabus, proibigdes, leis e forga de vontade Juana. A administragao da jusiga é confiada aos mais velhas, tanto homens como mulhe- res e governantes tradicionais. Outra forma de combater o mal é encorajar o que & bom, tal como a amizade, respeito (para com as pessoas e a natureza), hospitalidade, harmon, paz, “justiga, alene@io mitua ou ajuda e outros valores que so ensinados nas familias e nas comu- rnidades. PALAvRAS-CHave: Africa; Akamba; Barundi; Bavenda; Bruxaria; Castigo; Deus (religies africanas); Feiticaria; Gikuyu; Herero; Idowu; Mla; Magia; Mal; Mal moral; Mal natural; ‘Maldigéo; Natureza do mal; Nuer; Origem do mal; Personalidade corporativa; Yoruba. ABSTRACT: Many African societies say that God does only what is good and did not create evil. Each society has established customs, traditions, behaviour and interpersonal relations that uphold good order in the community. However, the intense relationships also creates tensions cand people try to cope with them through witchcraft, sorcery and magic. Fellow persons use the “hidden” or “secret” powers to do evil to the neighbors and colleagues, or their property «and activities. In some societies, people think that spirits are the origin and /or agents of evil However, family spirits of the departed are still part of their human families, ard in many ways act as guardians of family welfare. Its largely in luoman relationships that people iden- ify what is evil, try to prevent it, and deal with it through punishment, taboos, prohibitions, laws and huaman will power. The elders, both men and women and traditional rulers, are en- trusted with administering justice in the community. Another way of combating evil isto foster what is good, such as friendship, respect (towards persons and nature), hospitality, harmony, ‘peace, justice, mutual care or helpfulness and other values that are taught in families and communities. Key Worbs: Africa; Akambo; Barundi; Bavenda; Corporate personality; Curse; Evil; Gi- ‘kuyu; God (African religions); Herero; Idowu; Ha; Magic; Moral evil; Natural evil; Na- ture of evil; Nuer; Origin of evil; Swazi; Witchcraft; Yoruba. * Professor Emésito, Universidade de Berna (Bema, Suica).— Tradugio de Deolinda Miranda. © Revista PoRTUGUESA DE FiLosoFiA, 57 (2001), 847-858, 848 JOHN Mairi A Origem e Natureza do Mal formas tentam combaté-lo. Existem varias visOes relativamente a origem do mal. Muitas sociedades dizem categoricamente que Deus no criou 0 que € mau, nem Ele Ihes faz qualquer mal, seja ele qual for. Por exemplo, os la consideram que Deus est sempre na razio, € ndo “pode ser culpado de nenhuma ofensa, nfo pode ser acusado, no pode ser questionado ... Ele faz bem a todos, sempre.” Relata-se que um dos sacerdotes Ashanti terd dito que Deus “criou a possibilidade do mal no mundo... Deus criou o conhecimento do bem ¢ do mal em cada pessoa e permitiu-Ihe escolher o seu caminho,” sem a proibir ou sobre cla forcar a Sua vontade. A partir de vérios mitos vimos que quando Deus original- ‘mente criou © homem, havia harmonia e relago familiar entre os dois; e os primei- ros homens gozaram 0 que era bom. Algumas sociedades véem o mal como tendo origem em, ou associado com, se- res espirituais que nio Deus. Parte deste conceito é uma personificagio do proprio mal. Por exemplo, os Vugusu dizem que existe uma divindade m4 que Deus criou boa, mas que posteriormente se voltou contra ele e comegou a fazer 0 mal. Esta divindade mA € assistida por espfritos maus, e todo o mal vem agora de todo esse grupo. Assim, existe um tipo de contenda entre as forgas boas e més no mundo. Hi ‘outros povos que consideram a morte, epidemias, gafanhotos e outras grandes calamidades, como divindades em si préprias, ou como causadas por divindades. Em quase todas as sociedades afticanas pensa-se que 0s espiritos ou so a ori- gem do mal, ou agentes do mal. Vimos que ap6s quatro ou cinco geragées, os mor- tos-vivos perdem as ligagdes pessoais com as familias humanas e tornam-se seres impessoais e estranhos. Quando se desligam do contacto humano, as pessoas sen- tem-nos ou temem-nos como “maus” ou “nocivos”. Muito disto é simplesmente o medo do que é estranho; mas acredita-se que alguns tomam individuos possessos € causam varias doengas como epilepsia ou loucura. Se os mortos-vivos nao forem convenientemente enterrados, ou se tiverem um ressentimento, se forem negligen- ciados ou se as pessoas nao Ihes obedecerem quando eles do instrugbes, pensa-se que eles se vingam ou punem os transgressores. Neste caso, sio os homens que levam 0s mortos-vivos a agirem de modos “maus.” Em todas as comunidades h4 pessoas suspeitas de agirem maliciosamente con- tra os seus parentes e vizinhos, através do uso de magia, bruxaria e feiticaria. Como realearemos brevemente mais adiante, este € 0 centro do mal, tal como as pessoas o sentem, O poder mistico em si mesmo nem é bom nem mau: mas quando € usado maliciosamente por alguns individuos, é sentido como mau. Esta visio faz do mal um objecto independente ¢ externo que, contudo, néo pode actuar por si proprio mas tem que ser empregado por agentes humanos ou espirituais. Tal como em todas as sociedades do mundo, a ordem social e a paz sio reco- nhecidas pelos povos africanos como essenciais e sagradas. Onde o sentido de vida colectiva é to profundo, ¢ inevitavel que a solidariedade da comunidade tenha que O 's povos africanos est4o muito conscientes do mal no mundo, e de varias REVISTA PORTUGUESA DE FILOSOFIA, 57 (2001), 847-858 O MAL NO PENSAMENTO AFRICANO 849 ser mantida, sendo h4 desintegrago e destruicao. Esta ordem € concebida primei- ramente em termos de relago de parentesco, que simultaneamente produz. muitas situagdes de animosidade visto que toda a gente é aparentada com todos os outros € intensifica 0 sentido do dano causado pela tensio de tais animosidades. Se uma pessoa rouba um cameiro, as relages pessoais estio imediatamente envolvidas Porque 0 cameiro pertence a um membro do corpo colectivo, talvez a alguém que pai, irmao, irma, ou primo do ladréo. Como tal, é uma ofensa contra a comunidade, € as suas consequéncias afectam nao s6 0 ladrao mas também todo 0 conjunto dos seus parentes, Existem, por consequéncia, muitas leis, costumes, formas estabelecidas de ‘comportamento, normas, regras, costumes ¢ tabus, que constituem 0 c6digo moral a ética de uma dada comunidade ou sociedade. Alguns destes stio considerados sagrados e acredita-se que tenham sido institufdos por Deus ou lideres nacionais. Tém origem no Zamani, onde esto os antepassados. Isto d4 um carécter sagrado 0s costumes e normas da comunidade. Qualquer quebra deste cédigo de compor- tamento é considerada perversa, errada ou mé, porque é uma ofensa 3, ou destrui- do da ordem social aceite e da paz. Tem que ser punida pela comunidade colectiva dos vivos e falecidos, e Deus pode também infligir castigo e fazer justiga. Nas relagdes humanas h4 énfase no conceito de hierarquia baseado em parte na dade e em parte na categoria, Na prética isto significa uma escada que vai de Deus até ao filho mais novo, Deus € o criador e, por ineréncia, o pai da humanidade, e detém a posigdo mais elevada, de modo que Ele € o ponto iiltimo de referéncia apelo. Abaixo d’Ele estdo as divindades € os espfritos, que sto mais poderosos que © homem e alguns dos quais foram fundadores e antepassados de diferentes socie- dades. A seguir vém os mortos-vivos, sendo os mais importantes aqueles que fo- ram seres humanos completos em virtude de terem passado pelos ritos de iniciagao, terem casado e criado filhos. Entre os seres humanos a hierarquia inclui reis, go- vernantes, sacerdotes, adivinhos, curandeiros, os mais velhos em cada casa, pais, irmdos e irmas mais velhos, e finalmente os membros mais novos da comunidade. Considera-se que a autoridade aumenta desde a crianga mais nova até ao Ser mais elevado. No que respeita ao individuo, a autoridade mais elevada é a comunidade de que ele é membro. Esta autoridade também tem graus, de modo que alguma dessa autoridade est nas miios da familia que vive na mesma casa, alguma est investida nas pessoas mais velhas de uma dada drea, parte nas mios do cla, e parte std em toda a nago que pode ou nio estar investida em governantes centrais. Segundo algumas sociedades, individuos ou 0 povo como um todo ou através do seu chefe ou rei, podem ofender a Deus. Por exemplo, os Barundi acreditam que Deus se zanga com uma pessoa que comete adultério. Os Bachwa acreditam que Deus castiga quem rouba, quem negligencia os pais idosos, quem comete um homicfdio ou adultério. Os Bavenda dizem que se o seu chefe ofende a Deus, Ele pune todo o povo com gafanhotos, cheias e outras calamidades. ‘A maior parte dos povos africanos aceitam ou reconhecem Deus como o tiltimo guardido da lei e da ordem e dos c6digos morais e éticos. Por consequéncia o que- Revista PORTUGUESA DE FiLOSOFIA, ST (2001), 847-858 8