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PESQUISAR EM LIBERDADE

A vida é uma procura constante. Em princípio, a ciência busca a verdade


e, portanto, os cientistas são os especialistas da procura, da pesquisa –
como os poetas são da palavra, os filósofos da perquirição e os polícias
da investigação criminal.
“apurar os factos” é uma expressão muito útil neste contexto. Os factos,
em si, na sua complexidade, exatidão e concretude não serão conhecidos
nunca tal como aconteceram – tanto quanto um prisioneiro não consegue
saber exatamente o que se passou com o da outra cela.
O que buscamos, em ciência, é apurar a verdade, apurar os factos. Tudo
vem num magma no qual se misturam coisas e atos vistos, expectativas,
pontos de vista, imprecisões, medos, preconceitos, desilusões, deduções,
intuições, emoções. Há depois que apurar a verdade, há que depurar,
confrontar uns aspetos e outros até sustentarmos uma intuição da
complexidade e da totalidade do facto nos seus encadeamentos.
Quando o cientista está a trabalhar, não se pode proibir a si próprio de
nada, nem pode ser impedido. Não pode guiar-se ou limitar-se, nem por
tabus, nem por véus e muito menos por preconceitos. Tem que se despir
até de si próprio para receber a luz, o insight, o flash que lhe dá a ‘dica’,
a indicação, a intuição do que sucede com determinado fenómeno, ou do
que sucedeu num determinado momento da História.
Como ninguém é dono da verdade, o que pensamos precisa sempre de
ser examinado e revisto. Não faz sentido, em ciência, dizer que os outros
estão errados sem fundamentarmos a nossa afirmação, sem
demonstrarmos o erro. Isto é básico. De resto, muitas vezes, o que
pensávamos ser um erro aproximou-nos da verdade. Por isso os índios
moram na América e não na Índia, mas com isso o resto do mundo ficou
a conhecer melhor a América. O erro faz parte da busca pela verdade,
que se faz por tentativas e erros. Então o cientista nada pode tomar como
erro quando parte de uma situação de ignorância. Que é a situação de
partida de qualquer pesquisa. Começamos por reconhecer que não
sabemos nada, por isso é que pomos hipóteses. E temos de ser
inteiramente livres, quando pesquisamos, para colocar todas as
hipóteses em cima da mesa, ou debaixo da lente. Porque é da
experimentação de todas as hipóteses, ou de qualquer hipótese, que pode
nascer a perceção básica, a intuição geral do que tenha acontecido. Quem
estuda os processos cognitivos e criativos sabe que é assim, que essa é
uma característica fundamental do cientista e do criativo.
Muitas vezes, essa mistura de cientista e romancista que é o historiador,
ao debruçar-se sobre factos relativamente recentes, é proibido de colocar
hipóteses, ou simplesmente é proibido de pesquisar sobre o assunto,
muito mais de compreender humanamente a psicologia de cada um dos
protagonistas. Ainda para muitos, a política é a definição do inimigo e o
inimigo é o alvo a abater, a fazer sumir do mapa, da História e da
fotografia. É a visão estritamente militar da política: eliminar o perigo,
eliminar ou neutralizar completa e definitivamente quem nos combate.
O poder político alberga ainda e protege protagonistas que exercem as
suas influências no sentido de proibir a discussão dos seus atos. Eles
têm medo de revanchismos, mas a ciência histórica é um resgate, não
uma revanche. Ela procura perceber o que foi mesmo feito, como foi feito
e porque foi feito.
Deixem-me trazer um exemplo da literatura e vou buscar o exemplo de
alguém que esteve contra o fraccionismo, para que também nós, aqui,
mostremos a nossa isenção, a nossa capacidade de superação. Luandino
Vieira, em nós, os do makulusu, podia simplesmente demonizar um dos
irmãos (o que era a favor do colonialismo) e exaltar o outro (que era a
favor da independência). Mas, pelo contrário, mostra-os na sua
complexidade psicológica e mostra-nos que o integracionista, o que
defendia o colonialismo, era o mais integrado dos dois, o mais enraizado,
porque o outro realizava um processo intelectual de aproximação. Seria
bom que, um dia, fôssemos capazes de escrever o romance histórico do
27 de Maio conseguindo abordar a psicologia de outros dois irmãos: um
que esteve contra, outro que estaria a favor e morreu. Os inimigos são os
alvos da compreensão do historiador, como do romancista. A política da
eliminação do inimigo é um entrave grave à ciência. Não merece
contemplações.
A História faz-se melhor quando os acontecimentos estão próximos,
porque podemos ouvir testemunhas variadas, versões opostas de quem
estava lá, participou e nos dá aquela parte do filme. Por isso temos que
fazer já, o mais rápido possível, a verdadeira história do 27 de Maio. Não
para darmos razão e distribuirmos culpas, mas para entendermos a
complexidade do problema e como evitá-lo futuramente. Como evitá-lo
dialogando e falando com verdade, sem ameaças nem dissimulações.
Seremos capazes? É duro…
É notável, por exemplo, o esforço feito nesse sentido no filme da
associação Tchiweka Angola - Nos Trilhos da Independência. E torno a
trazer exemplos incómodos para esta assembleia, se calhar são
incómodos. Mesmo assim, o filme fez um contraditório, por mínimo que
fosse. Mas ainda sendo mínimo o contraditório, houve limites e foi preciso
enfrentar a frieza, no mínimo a frieza de alguns meios oficiais e oficiosos.
Porém podemos, a partir do filme, comparar testemunhos diferentes de
pessoas diferentes, que estiveram em campos opostos. Isto é
imprescindível para compreendermos como e quanto, apesar de tudo, o
processo de luta pela independência resultou de uma conjugação de
fatores e vontades diversos e opostos.
Sobre o que se passou depois da independência ainda não se fez nenhum
documentário como aquele. Os acontecimentos do 27 de Maio,
traumatizantes para qualquer nação, não foram por isso estudados. Os
piores acontecimentos porque passámos, nem podemos falar neles à-
vontade! É preciso sabermos o que se passou, termos uma ideia das
forças e das variáveis em jogo, de como uma frase consegue despoletar
uma explosão de mortes e sofrimentos incalculáveis. É preciso, também,
compararmos com outros países sob influência soviética na altura, como
o Afeganistão, a Etiópia, parte do Iémen. Qual foi o papel dos soviéticos?
Qual a razão por que pareciam alhear-se do assunto? Mas é preciso
compreendermos o que se passou entre nós, também. Como foi possível
chegarmos a esse ponto? Falta de diálogo? O que possibilitou que nos
tornássemos tão facilmente meras peças de jogos alheios pelo controlo do
poder? Falta de liberdade? E, afinal, não tínhamos feito já isso durante a
luta pela independência? Também, não nos matávamos já desde 1975?
Primeiro, ‘deram-nos’ a liberdade e disseram-nos para escolhermos;
depois disseram-nos que tínhamos escolhido errado e, portanto,
devíamos morrer ou fugir…
A nossa história recente está coberta de zonas proibidas e a ciência
histórica não pode evoluir por causa da interferência constante, não só
do poder político, mas até da autocensura e da pressão pessoal de
protagonistas ainda vivos. Empenhando-se oficialmente na paz, há um
governo e um Estado que pretendem impor uma visão partidária da
História ainda hoje. Dou exemplos. Erguer um monumento aos
angolanos que lutaram no Cuíto Cuanavale, como se só houvesse
angolanos de um lado, diabolizando os angolanos que estavam do outro
lado pelo mesmíssimo motivo: lutar pela pátria. Os dois exércitos eram
compostos por soldados e oficiais que acreditavam estar a libertar a sua
pátria. Qualquer afirmação sobre a batalha do Cuíto que ignore isto
ignora um fator fundamental do processo: o fator humano. Impedir-nos
de colocar a hipótese de a famosa batalha do Cuíto ter sido um empate,
que por isso obrigou a negociações, é outro erro – ponho isso como
hipótese de trabalho numa futura investigação sobre a batalha do Cuíto.
Como se pode chamar de vitória quando o objetivo de nenhuma das
partes foi alcançado? Quando ambas as partes, na sequência da batalha,
tiveram de concordar em prescindir dos seus aliados? O MPLA e seus
aliados não conseguiram entrar na Jamba, o que tentaram desde
15.11.1987 e não a 23.3.1988, dia do último confronto; a UNITA e seus
aliados não conseguiram tomar o Cuíto, em retaliação face à ofensiva do
governo. Nenhum deu cabo do outro. Por isso se fez a independência da
Namíbia e por isso retiraram-se os cubanos e soviéticos e por isso houve
conversações de paz e abertura, mais tarde, ao partidarismo. O que se
passou realmente ali foi forte. Mas foi o quê? Qual a exata contribuição
das forças estrangeiras no terreno? Até onde chegou cada exército dos
angolanos divididos, que avanços e recuos houve exatamente? Quais as
concretas movimentações das tropas nesses dias cruciais? É preciso fazer
a história militar de Angola, sem dúvida. Mas com rigor científico e sem
pruridos político-partidários ou pessoais. Os que fizeram a História
nesses tempos, fizeram, mas agora retirem-se, por favor, e deixem-nos
estudar.
O mesmo se passa relativamente aos acontecimentos de 1992 em
Luanda. A UNITA iniciou mesmo as hostilidades? Iniciou-as junto à sua
sede e a um dos hotéis onde se alojava parte significativa dos seus
quadros? Atacamos o inimigo na nossa casa? Começamos a batalha
dentro do nosso quintal? Ou damos guerra ao outro junto à casa dele?
Num outro espaço, os que foram falar com Savimbi ao Huambo eram, por
isso, aliados dele, ou procuravam mesmo a paz, evitar o pior, novo
derramamento de sangue igual ao do 27 de Maio? E quantas pessoas
morreram nas razias sobre ovimbundos e bakongos em Luanda nesse
tempo? Não falo por raiva ou ressentimento, mas é preciso sabermos o
que aconteceu. Foram razias orquestradas? Ingénuas? Espontâneas? O
que motivou os agressores e assassinos?
O mesmo se passa relativamente à tomada de poder por Kabila.
Estiveram mesmo envolvidas tropas do governo e da UNITA? Chegaram
a confrontar-se no Zaire? Qual o exato contributo de cada uma? Quem
foram os comandantes ou oficiais angolanos (do governo e da UNITA)
envolvidos? Quem armou os seus soldados? O que aconteceu às famílias
dos que tenham eventualmente morrido nessa incursão? Foram
indemnizadas, receberam algum apoio, foram abandonadas?
Mais recentemente, o que se passou em fevereiro de 2002? Quem traiu?
Como foi o momento da morte do chefe da oposição armada? Onde foi
enterrado? Havia ou não dinheiro da UNITA e dos diamantes em contas
individuais? Qual o destino que lhe foi dado?
Mais recentemente ainda: houve ou não fraude eleitoral? Estamos, ou
não, a viver um processo eleitoral transparente? Somos ou não livres para
organizar manifestações de protesto e comícios fora dos períodos
eleitorais? Quem matou mesmo dirigentes e militantes, no interior, que a
UNITA diz terem sido mortos por pessoas ligadas ao MPLA? Como se têm
dado essas escaramuças? Há um padrão comum a todas elas? E o que
se passou exatamente no caso Kalupeteka? Houve massacre ou não? Os
discípulos de Kalupeteka estavam armados com que armas? De onde elas
vieram? Porque não há uma investigação independente, baseada em
critérios e métodos históricos credíveis? Ou, pelo menos, uma
investigação criminal competente, isenta e colocada no domínio público.
Não é para isso que serve a polícia? Ou é para espancar manifestantes
indefesos?
Isto para não irmos mais atrás. Por exemplo: quando foi fundado o MPLA?
Onde e por quem, sob que pressões e circunstâncias, com que metas
imediatas e mediatas? Como foi, realmente, organizado o 4 de Fevereiro?
Porque o MPLA foi dos últimos a reivindicar, em comunicado e fora do
país, um dia e meio depois, a responsabilidade pelo 4 de Fevereiro?
Ou vamos mais atrás ainda: quantos anos tem a mulemba Xangola?
Quem vendia escravos para o tráfico transatlântico? Quais as origens das
nossas nações? Como será o mapa genético da população angolana hoje?
Nenhuma destas questões podemos colocar assim, taxativamente.
Porque temos medo. Sabemos que, fazendo-o, vamos passar mal e não
queremos melindrar este e aquele e mais o poder e o chefe e o subchefe
e a família deles. Mas não conseguiremos estudar, fazer ciência,
pesquisar a nossa própria História com tais medos. Abdicaremos de a
estudar? Arranjamos uma versão confortável para o poder? Ou para a
comunidade internacional? A ética científica não se compadece com tais
atitudes.
Algumas obras saíram já sobre o 27 de Maio, sobretudo nos últimos anos
e sobretudo em Portugal. Provocaram vivas reações. A maioria
esmagadora dessas reações foi no sentido de controlar opiniões, tomar
partido, desacreditar testemunhos sem trazer provas. O que temos a fazer
é bem diferente: examinar, comparar e confrontar esses testemunhos
entre si e com as versões oficiais. Promover, também aqui, o
contraditório. Usar critérios válidos cientificamente para apurarmos a
verdade.
Estudar o que se passou, realmente, no 27 de Maio é, por tudo isto, muito
importante, decisivo mesmo. É dar início a uma relação de verdade, de
liberdade e de respeito entre nós próprios e connosco próprios. É admitir
que a verdade e a liberdade para pesquisar não podem ser limitadas. Não
é, não deve ser, nem pode ser revanchismo. Porque, em ciência, não há
propriamente culpas, há processos encadeados e é o seu encadeamento
que pretendemos estudar, a sequência dos acontecimentos e suas causas
profundas. Aliás, profundamente humanas: a sede do poder, o medo dos
ditadores e a consequente falta de liberdade. Ponho isso como hipótese.

Francisco Soares
Évora, 23.5.2017.