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Apontamentos

sobre a história das


igrejas cristãs e
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4. Reforma protestante.

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História da Igreja: de Cristo até a Contrarreforma, 9
1.1 A igreja nos planos de D eus, 11
1.2 A igreja apostólica, 14
1.3 A expansão da igreja, 25
1.4. A s perseguições imperiais, 28
1.5 Os pais da igreja cristã, 39
1.6 O aparecimento das seitas, 51
1.7 A igreja imperial, 62
1.8 A igreja medieval, 64
1.9 A reforma religiosa, 71
1.10 A Contrarreforma católica, 81

Questionário de História da Igreja, 83


Referências, 84

Respostas, 88

História da igreja no Brasil, 91


2.1 O período infrutífero, 93
2.2 O início da semeadura (século XIX), 99
2.3 A explosão evangélica no século XX, 105
2.4 A igreja brasileira no século XXI, 121
Questionário de História da Igreja no Brasil, 125

Referências, 126

Respostas, 127

3
Livros proféticos e poéticos, 131
3.1 Livros proféticos, 132
3.2 Livros poéticos, 184

Questionário de Livros proféticos, 212


Questionário de Livros poéticos, 213

Referências, 214

Respostas, 217

Profetas maiores e menores, 221


4.1 A natureza da profecia hebraica, 223
4.2 O ofício profético, 224
4.3 As finalidades da profecia, 230
4.4 Os meios de comunicação dos profetas, 234
4.5 Localização geográfica dos profetas, 244
4.6 Classificação dos profetas, 245
4.7 Profetas maiores, 248
4.8 Profetas menores, 263

Questionário de Profetas maiores, 297

Questionário de Profetas menores, 298


Referências, 298
Respostas, 302
i

. A c u t e s d e i n i c i a r m o s n o s s a s discussões pontuais, é
válido ressaltarmos que, independentemente de quantas páginas
sejam escritas, a história da igreja1 2 certamente se estende além
delas. Por mais dedicado que seja o autor, a realidade mostra
que alguns fatos serão omitidos, outros serão esquecidos e assim
por diante. Em virtude dessa imensa complexidade, esta obra
fornece uma visão panorâmica da história da igreja e do seu
entrosamento com a história do mundo. Não se trata, nesse
sentido, de um manual de história eclesiástica.
Apresentamos, de forma abreviada, os principais eventos
ocorridos na caminhada percorrida pelas igrejas cristãs até a
Reforma Protestante. A igreja passou por séculos de perseguição,
e inúmeros mártires demonstraram sua fé.

1 Todas as passagens bíblicas indicadas neste capítulo são citações de Bíblia (2002).

2 0 termo igreja, nesta obra, é grafado em minúsculas e pressupõe tanto a comunidade cristã que veio
culminar na Igreja Católica quanto as igrejas cristãs em geral.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
Jesus disse que “se o grão de trigo, caindo na terra, não
morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João, 12:24).
Essa divina palavra aplica-se perfeitamentç aos primótdios da
história do cristianismo, pois os três primeiros séculos dessa
história foram a época da semeadura, e a semente caiu por terra
e morreu. Por mais de 200 anos, a igreja viveu sob a opressão
do Império Romano, “escondida na terra”, oprimida, marti-
rizada. Foram três séculos de luta renhida entre o politeísmo
dominante no mundo e o monoteísmó de tradição judaica que
o cristianismo defendia.
A história da igreja é, nesse sentido, um assüntó de enorme
relevância para o cristão que deseja estàr informado sobre sua
herança espiritual para imitar os bons exemplos do passado, e
evitar os erros que a igreja tem cometido ao longo de sua existên­
cia. Paulo nos lembra em I Coríntios (10:6-11) que os eventos do
passado devem nos ajudar a evitar o mal e buscar o bem.
O conhecimento dos fatos que marcaram a sobrevivência
da igreja é de suma importância para aquele que deseja enten­
der como aconteceram a fundação e a configuração de todo o
arcabouço teológico e eclesiológico da igreja cristã, uma vez
que a compreensão dessas questões nos permite tirar conclusões
pertinentes acerca desse tema.

1.1 A igreja nos planos de Deus


A origem da igreja é um tema efetivamente complexo, entretanto,
podemos facilmente refletir sobre dois períodos distintos:
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1. O momento do projeto da igreja: nessa primeira fase, pode­


mos afirmar que a igreja sempre existiu no eterno propósito
de Deus. Ela já existia antes da fundação dó mundo, pois
estava determinada por Ele desde a eternidade.
2. 0 momento da execução da igreja: nessa segunda fase, a
igreja, que antes era desconhecida dos homens, tornou-se
manifesta em Cristo. Ela, que era um projeto de Deus na
plenitude dos tempos, veio a ser conhecida por meio do
ministério terreno de Jesus Cristo. Por tudo o que fez e
ensinou, Cristo é mais o fundamento do que o fundador
da igreja, fato evidente pelo uso do tempo futuro que está
mencionado em Mateus (16: 18), que diz: “Também eu te
digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a m in h a
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”.
Em uma ordem lógica, evidenciada pelas Escrituras, sem
diminuir as pessoas da Trindade, podemos dizer que Deus Pai
é o criador e arquiteto da igreja, Jesus Cristo é a figura que a
materializa e o Espírito Santo a edifica. Paulo, ao escrever aos
efésios, afirmou: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou
por ela, para santificá-la, purificando-a com a lavagem da ágüa,
pela palavra, para apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem
mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreen­
sível” (Efésios, 5: 25-27). Com essa e outras passagens, a Bíblia
mostra que Deus planejou a igreja, Cristo deu sua vida por ela,
seu corpo, e o Espírito Santo foi enviado para dar poder à igreja
para cumprir sua missão de testemunhar Cristo em toda a par­
te da Terra (João, 14: 16-17; Atos, 1: 8) e chamar os pecadores
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
para a comunhão nesta nova sociedade que Ele está edificando,
guiando e preservando para a eternidade.
Independentemente da data que viermos a estabelecer para o
nascimento da nova associação, seja na ocasião da grande confis­
são de Pedro em Cesareia de Felipe, seja na noite da ressurreição
do Senhor, há poucas dúvidas de que, depois do Pentecostes, os
12 apóstolos estavam conscientes de sua missão como propaga­
dores do Evangelho. Apesar de ter iniciado sua história com um
reduzido número de pessoas, a igreja contou com a influência
do Espírito Santo desde sua fundação. Isso estava de acordo
com a promessa de Jesus Cristo, quando, nas últimas semanas
de Sua vida, prometeu enviar “outro Consolador” que lideraria
a igreja após sua ascensão.
Judeus de todas as partes do mundo estavam presentes em
Jerusalém para participar da Festa de Pentecostes, evento que se
tornou um marco na vida dos primeiros seguidores de Cristo e
no qual os discípulos foram agraciados pelo Espírito Santo (Atos,
2: 5-11). A manifestação sobrenatural do poder divino no no
conhecimento repentino de línguas, claramente evidenciou uma
nova etapa para a igreja. Todos os membros da recém-formada
igreja eram judeus, e, inicialmente, nenhum desses membros,
bem como nenhum dos integrantes da companhia apostólica,
aceitava que algum gentio fosse admitido como membro da igre­
ja. Para tanto, o gentio teria que se tornar judeu, e somente então
seria aceito no círculo cristão. Esse tipo de situação perdurou
até que Deus levantou Paulo para corrigir tal atitude, deixando
evidente a igualdade entre todos os servos de Jesus Cristo.
I
M
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1.2 A igreja apostólica


A igreja do primeiro século (30 d.C.-90 d.C.) era formada por
um pequeno grupo de cristãos reunidos em Jerusalém, poste­
riormente espalhados por diferentes regiões do vasto Império
Romano, seguidores diretos de Jesus Cristo: “Simão, chamado
Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu
irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago,
filho de Alfeu, e Lebeu, apelidado Tadeu; Simão, o Zelote, e
Judas Iscariotes” (Mateus, 10:2-4). Com a pregação dos apósto-
l°s, a igreja foi se multiplicando, entretanto, a grande maioria dos
seguidores eram pessoas humildes, e alguns escravos, embora
houvesse cristãos da classe mais alta, especialmente na igreja
de Roma (Nichols, 2000).
O período apostolico abrange desde o dia de Pentecostes
até a morte do último apóstolo, João, por volta de 90 d.C. Isso
significa que a igreja se desenvolveu por cerca de 60 anos com a
supervisão direta ou indireta de algum apóstolo, como veremos
nos itens a seguir.

1.2.1 Pedro

De acordo com o historiador Eusébio de Cesareia (2002), em sua


obra História eclesiástica, o apóstolo Paulo faz referência a Pedro
em I Coríntios (1: 12; 3: 22) e afirma que havia, inclusive, um
grupo que se identificava com ele. Logo, não podemos negar o
trabalho desse apóstolo em Corinto, e provavelmente um traba­
lho de longo prazo, deixando margem para presumirmos, ainda,
em I Coríntios (9: 5), que Pedro esteve ali com sua família.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
Eusébio de Cesareia3 (2002) aborda ainda o ministério de
Pedro em Antioquia da Síria, cidade de extrema importância na
história do cristianismo. Nela, surgiram grandes nomes da igreja,
como Inácio, apontado como sucessor de Pedro naquela cidade.
Há controvérsias sobre a hipótese do trabalho de Pedro na
região da Mesopotamia, baseada na citação de I Pedro (5: 13).
Alguns historiadores creem que seja uma referência literal,
outros que se trata de uma referência simbólica à cidade de
Roma. De qualquer forma, permanece a possibilidade.
Há outro campo missionário onde as evidências do trabalho
de Pedro parecem ser plenamente reconhecidas - a região da
Grã-Bretanha (ou Inglaterra). Sabemos que o Império Romano,
por volta de 44 d.C., havia conquistado pelo menos metade da
ilha britânica, e muitos são os pesquisadores que reconhecem
um ministério efetivo do apóstolo nessa região.
Por fim, há grande evidência histórica de que Pedro tenha
morrido em Roma, por ordem do Imperador Nero. A história
afirma que o imperador teria colocado fogo na cidade, para ter a
glória de reconstruí-la a seguir, e responsabilizado o cristãos pelo
incêndio, iniciando um cruel período de perseguição que levou
muitos ao martírio. Nessa ocasião, Nero teria mandado matar
Pedro no ano de 67 d.C. e Paulo no ano seguinte. Devido à cidada­
nia romana, Paulo foi decapitado, enquanto Pedro foi crucificado.
Conta-se que este último pediu para ser crucificado de cabeça para
baixo, pois não se julgava digno de morrer como Cristo.

3 “Eusébio, bispo de Cesareia, nasceu em cerca de 270, faleceu no ano 339 ou 340. A data de seu nascimento
só pode ser inferida de sua obra, pois ele narra a perseguição dos cristãos sob Valeriano (258-260) como
sendo algo do passado, e os eventos seguintes como sendo contemporâneos seus. Não se sabe onde nasceu,
mas passou a maior e mais importante parte de sua vida em Cesareia, na época a maior cidade romana [•
da Palestina. [...] Eusébio nada fala de si mesmo em sua extensa obra. Foi bispo de Cesareia de 313 ou I
315 em diante. [...] Sua formação teológica foi baseada no estudo da obra de Orígenes." (Cesareia, 2010). j
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1. 2.2 João

João foi o último dos apóstolos a morrer e o único que morreu,


segundo Se acredita, de morte natural. Há ampla literatura sobre
ele, posterior ao período apostólico; a mais confiável informação,
vinda de Eusébio de Cesareia4 sobre seu trabalho, aponta que
o apóstolo teria vivido em Éfeso. Embora existam contestações
sobre o fato de que ele teria habitado ali com Maria, mãe de
Jesus, a presença de João na cidade não é questionada.
Parece bastante evidente, também em citações bíblicas, que
João tenha habitado em Éfeso. Como vemos em Atos (19: 1-4),
Paulo encontrozu ali discípulos do apóstolo Galileu, o que mos­
tra uma forte influência dele na região. Em seu Evangelho, João
enfatiza a distinção entre João e o Messias de um modo mais
incisivo do que a feita pelos demais Evangelhos, o que demons­
tra a necessidade de esclarecer o assunto entre seus seguidores,
que talvez o tivessem como o Prometido. Desse modo, parece
bastante plausível o trabalho de João em toda a região de Éfeso.
No ano de 81 d.C., o apóstolo teria sido exilado na ilha de
Patmos pelo Imperador Domiciano. A intenção era que o dis­
cípulo morresse, uma vez que a ilha era infestada de serpentes
venenosas, mas ele não pereceu e ainda retornou a Éfeso para
escrever seu Evangelho e também o Apocalipse. De acordo com
a historiografia, ele teria morrido de morte natural e sido sepul­
tado na própria cidade de Éfeso com mais de 90 anos (Cesareia,
2002, p. 61; 63; 69).

4 Eusébio de Cesareia escreveu a História eclesiástica, obra sobre as primeiras décadas da igreja. Ver Cesareia,
2010.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
1.2.3 Bartolomeu
H á três hipóteses referentes ao trabalho missionário dê
Bartolomeu. Uma diz que ele teria feito seu trabalho na Ásia
Menor, enquanto a outra afirma que ele também foi para a índia.
Também os armênios indicam a possibilidade da presença de
Bartolomeu em suas terras.
De acordo com Barros (1999, p. 44):
A região da Á sia M enor (atual Turquia) é notoriam ente apontada
p ela tradiçãof5] como um dos palcos de m aior atuação do apóstolo
Bartolomeu em suas jorn adas missionárias. A obra apócrifa A to s
d e F ilip e, p o r exemplo, registra a incursão de Bartolomeu nessa
região onde, ao lado de Filipe (provavelmente o apóstolo), ministrou
a Palavra em Hierápolis. A li, após curar a esposa do procônsul e
conseguir sua conversão, despertou a fú ria do magistrado romano
que os teria condenado à m orte p o r crucificação. Filipe parece ter
realmente sofrido o m artírio em ta l ocasião, [...] m as Bartolomeu,
p o r alguma razão desconhecida, obteve a suspensão da pena quando
j á se encontrava no madeiro.

1.2.4 Mateus
Mateus, que nos deixou uma brilhante narrativa da vida de
Cristo, foi missionário nas regiões do Egito e da Etiópia. Embora
nma minoria afirme que ele morreu de velhice, a maior parte
da tradição o coloca perecendo ferido por lança ou por espada.

5 Tradição é um termo muito usado em Teologia. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa
(Houaiss; Villar; Franco, 2009), é o “conjunto de doutrinas essenciais ou dogmas não explicitamente
consignados nos escritos sagrados, mas que [... ] são usados na interpretação dos mesmos". Segundo o
Dicionário Michaelis (2009) é “a palavra de Deus não escrita, transmitida de viva voz à igreja." A Tradição
e a Sagrada Escritura são, para os católicos, as duas fontes da Revelação divina.
j /s
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1.2.5 Simão, o Zelote

O sobrenome de Simão derivou provavelmente de seu envolvi­


mento com a seita dos zelotes, grupo extremista que desejava se
insurgir militarmente contra Roma. Era um nome muito comum
nos tempos do Novo Testamento.
Segundo a tradição, Simão também teria feito sua obra
missionária nas Ilhas Britânicas. Além disso, teria também ido
a outras regiões distantes, principalmente do norte da África,
como Egito, Província Cirenaica, M auritânia e Líbia. Ele
teria morrido na Inglaterra por ordem do procurador romano,
embora algumas tradições narrem um trabalho posterior na
Mesopotâmia. E, no entanto, essa afirmação é duvidosa.

1.2.6 Tomé

A riqueza de tradições sobre a vida e obra de Tomé é muito


grande, pois ele é o apóstolo sobre o qual existem mais infor­
mações históricas. Entre as regiões por ele visitadas, constam na
tradição a Babilônia, a Pérsia, Média e China, mas seu trabalho
mais expressivo foi realizado na índia. A origem literária dessa
tradição é fundamentada no apócrifo Atos de Judas Tomé, atri­
buído ao famoso escritor Bardesanes (154 d.C,-222 d.C.)
Segundo Barros (1999, p. 100-101):
Historicamente falando, sabe-se m ais acerca de Tomé do que de qual­
quer dos demais discípulos, excetuados Pedro eJoão. São tão numerosas
quanto variadas as tradições que relatam suas campanhas missionárias
pelo mundo do primeiro século. Constam das regiões tradicionalmente
J9_

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


visitadaspor Tomé a Babilônia, a Pérsia, a Média, a misteriosa Etiópia
asiática, a China e, sobretudo, a exótica índia, cujo cristianismo deve
suas origens à determinação evangelística do apóstolo.
A cristianização da índia p o r Tomé - ou Judas Tomé, como
algumas lendas o chamam - é atestada por manuscritos antigos como
O E nsino dos A póstolos (D idascalia Apostolorum ), composto
entre o fim do segundo e início do terceiro século.
“A índia e todas as regiões a ela pertencentes, assim como suas
adjacências até o mais distante mar, receberam a ordenação apostó­
lica do sacerdócio de Judas Tomé, que se tornou o guia e o líder da
igreja ali estabelecida, na qual ele mesmo ministrou.”

Embora sejam muitas as tradições sobre a morte de Tomé,


há muitos pontos em comum entre elas. É possível que ele tenha
perecido no sul da índia, sendo assassinado pelos sacerdotes
brâmanes que invejavam seu sucesso graças à nova doutrina
que ele estava proclamando.

1.2.7 André
O Leste Europeu foi o lugar onde o discípulo André teria exer­
cido a ordem missionária. Uma das mais fortes tradições, endos­
sada por Eusébiõ de Cesareia (2002), indica o sul da Rússia,
especialmente as regiões outrora conhecidas como Cítia e Partia,
próximas ao Mar Negro. Outros lugares em que ele teria traba­
lhado seriam Bizâncio, na Trácia, Epiros e Peloponeso, como
também na Bitínia.
A tradição diz que seu martírio teria ocorrido na Grécia. Um
fato curioso é que ele teria perecido em uma cruz em forma de
“X” a qual recebeu o nome de cruz de Santo André.
\ 20
3
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1.2.8 Filipe

Filipe tem sido confundido com Filipe, o Evangelista, que foi


diácono e se tornou um personagem de destaque no livro de
Atos (6: 5; 8: 5-40; 21: 8-9).
Conforme Barros (1999, p. 132):

Filipe era um nome de origem gentílica relativamente comum em


regiões de forte influência grega como a Galileia. Seu significado -
am ante de cavalos —deriva da associação das palavras gregas
F ilos e Hippos. São estes, pois, os demais F ilipes encontrados no
Novo Testamento.
—Filipe, filh o de Herodes, o Grande, e marido de Herodias.
Deserdado pelo pai, passa sua vida na obscuridade em Roma.
O adultério de sua mulher com seu meio-irmão Herodes Antipas,
Tetrarca da Galileia, torna-se público em Israel. [...];
—Filipe, Tetrarca da Itureia, outro descendente da casa de
Herodes, o Grande [...];
— Filipe, um dos sete diáconos da igreja de Jerusalém.
Tradicionalmente conhecido como Filipe, o Evangelista [...].

Segundo a tradição, Filipe teria trabalho na região da Frigia,


tendo antes pregado na Cítia, região do Mar Negro. Teria tam­
bém realizado trabalhos missionários na Gália (região da atual
França) e em Atenas, na Grécia, onde entrou em conflito com os
filósofos que ali abundavam. Morreu como mártir na Ásia Menor.

1.2.9 Judas Tadeu


Há pouca informação a respeito de Judas Tadeu; mesmo nos
Evangelhos, sua figura permanece muito obscura. Há conexões
entre seu trabalho missionário e a igreja armênia, mas trata-se
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
apenas de especulação. Alguns historiadores afirmam que ele
teria morrido ainda jovem.

1.2.10 Tiago, filho de Zebedeu


Tiago, filho de Zebedeu, era irmão de João. É geralmente cha­
mado de Tiago, o Maior, para distingui-lo de Tiago, Filho de
Alfeu, que recebeu o título de Tiago, o Menor.
A carreira de Tiago, filho de Zebedeu, foi bastante curta:
foi morto por Herodes, segundo Atos (12: 2), o que teria agra­
dado aos judeus (Atos, 12: 3), já que seu ministério era bastante
impactante entre os judeus de Jerusalém.

1.2.11 Tiago, filho de Alfeu


Também não há muito material sobre Tiago, o Menor. As tra­
dições indicam uma semelhança física e de conduta entre ele
e Jesus Cristo. Também é comum nas tradições confundir sua
figura com a de Tiago, irmão do Senhor.
As tradições apontam uma semelhança muito grande entre
o seu martírio e o do irmão do Senhor. Tiago, o Menor, teria
sido jogado de cima do Templo e apedrejado em seguida, mas
esse fato pode se tratar de mera confusão com Tiago, o Justo,
irmão do Senhor.
Segundo Barros (1999, p. 210):
São quatro os personagens neotestamentários conhecidos p o r esse
nome.
- Tiago, chamado “O M a io r”, filh o de Zebedeu e irm ão m ais
velho de João [ ..] ;
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

- Tiago, chamado “O M enor”, filh o de Alfeu eprová vel irmão


de M ateus [ ..] ;
- Tiago, p a i de Judas Tadeu [...];
- Tiago, irmão de Jesus. [ . . ]
D o s quatro personagens encontrados no universo neotestamen-
tàrio, interessam-nos dois em especial: Tiago, filh o de Zebedeu, e
Tiago, filh o de Alfeu. Isto porque am bos compunham o rol dos doze
apóstolos, embora o prim eiro seja m uito m ais conhecido que o segun­
do, tanto na literatura bíblica como histórica. Há, entretanto, um
terceiro Tiago que cumpriu um p a p el im portante na liderança da
igreja prim itiva. Trata-se de Tiago, irm ão de Jesus. A tradição p o s­
terior acabou confundindo m uito da obra desse valoroso líder cristão
com a de Tiago, filh o de Alfeu.

1.2.12 Matias

Matias foi o substituto de Judas Iscariotes, o traidor. Da pouca


tradição que restou, ele teria realizado sua obra missionária
na região da Armênia e sido martirizado por mãos judaicas
em Jerusalém, após retornar de uma campanha na Macedonia
entre 61 d.C. e 64 d.C.

1.2.13 Paulo
Paulo foi um homem de grande representação moral, intelectual
e espiritual. Viveu em Tarso, na Cilicia, região da Ásia Menor
(atual Turquia), e foi educado por Gamaliel, um dos grandes
mestres do judaísmo (Atos, 22: 3). Portanto, o apóstolo adquiriu
dupla formação: gentia e judaica. Tarso era um centro cultu­
ral grego, e Jerusalém um cèntro cultural judaico. Esse fato
capacitou Paulo para o ministério do apostolado junto aos gen­
tios, que lhe foi confiado.
Por meio de Paulo, o Evangelho tornou-se compreensível
ao mundo de cultura grega daquela época. É bom lembrarmos
que os judeus tinham uma cultura completamente distinta do
mundo ao seu redor: por sua própria natureza, o judaísmo era
um sistema “fechado”, do qual os gentios só poderiam participar
se servissem ao Deus de Israel, e se tornassem prosélitos, isto é,
judeus convertidos ao judaísmo.
No conjunto das epístolas paulinas, treze ao total (a autoria
paulina de Hebreus é questionada), encontramos uma ampla
exposição do Evangelho nos aspectos teológico, ético, moral
e espiritual. A igreja tem uma enorme dívida para com este
gigante da fé. Após 2 mil anos, a força de seus escritos continua
a orientar vidas e a moldar o pensamento da igreja.
Além de seu trabalho como pensador, a obra missionária de
Paulo também merece destaque. Aliás, ele é o único que teve seu
trabalho registrado no livro de Atos, no qual temos descritas três
viagens missionárias e uma viagem a Roma como prisioneiro do
império; todas essas viagens expandiram o cristianismo muito
além das terras da Judeia.
A primeira viagem de Paulo foi iniciada em Antioquia da
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Síria e estendeu-se para a ilha de Chipre, de onde ele seguiu
para a região da Ásia Menor (Turquia). Nessa primeira viagem,
o apóstolo foi auxiliado por Barnabé e seu método permaneceu
sempre o mesmo, obedecendo à ordem “primeiro do judeu”
(Romanos, 1: 16). Ele ia à sinagoga, que, na ocasião, estava
espalhada por todo o Império Romano, buscando convencer
os judeus de que Jesus era o Messias. Após a recusa dos judeus,
ele se voltou para os gentios. Dessa forma, as igrejas iam se
3

formando com um misto de judeus e não judeus. Paulo percor­


reu diversas cidades plantando igrejas até retornar a Antioquia.
Após o Concilio de Jerusalém, Paulo iniciou sua segunda
viagem, dessa vez acompanhado por Silas. Visitou as cidades
nas quais havia deixado igrejas, comunicando o parecer do
Concilio com respeito aos gentios. Foi nessa ocasião que Paulo
e seus seguidores foram conduzidos pelo Espírito Santo para
a região da Europa, onde, na cidade de Filipos, surgiram os
primeiros convertidos. A partir daí, o trabalho continuaria por
outras cidades europeias como Tessalônica, Bereia, Atenas e
Corinto. Esse esforço foi de extrema importância, uma vez que
o cristianismo criou profundas raízes no continente europeu,
para depois se espalhar pelo mundo inteiro. Paulo então retornou
para Jerusalém e depois foi para Antioquia.
Na terceira viagem missionária, Paulo deteve-se na grande
cidade de Éfeso por um ano e meio. Muitas pessoas que vinham
de toda a Asia para essa cidade eram instruídas pelo Evangelho.
Foi um trabalho muito proveitoso que permitiu a muitos ouvirem a
Palavra de Deus. Dali, o missionário visitou novamente a Europa,
mais precisamente a Grécia, retomando em seguida, passando
por Mileto (Ásia Menor) até chegar a Jerusalém, onde foi preso.
Sua viagem a Roma não foi como as anteriores, pois dessa
vez ele foi como prisioneiro, apesar de ter tido a oportunidade de
pregar aos nativos de Málta, devido ao naufrágio do seu navio.
Uma vez em Roma, Paulo pôde ficar em uma casa alugada às
suas custas. Nessa ocasião, o apóstolo realizou um bom trabalho
evangélico na capital do Império Romano. A tradição indica que
o apóstolo foi solto nesse período, pois sua segunda epístola a
Timóteo, a última a ser escrita, fala de viagens não narradas à
Ilíria e à Espanha, o que indica viagens missionárias posteriores.
* 5- |

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


Como você pode notar, este é um resumo do trabalho mis­
sionário da igreja que nos dá uma ideia da amplitude adquirida
pelo Evangelho. Mesmo que não tenhamos detalhes do trabalho
dos demais apóstolos, já é possível percebermos a expansão do
cristianismo e notarmos que esse primeiro século de semeadura
foi bastante eficaz.

1.3 A expansão da igreja


O crescimento da igreja ocorreu de modo rápido. Outros seguido­
res eram acrescidos diariamente ao número dos 3 mil (Atos, 2:41) f
até chegarem logo a 5 mil: “muitos, porém, dos que ouviram a j
palavra creram, e chegou o número desses homens a quase cinco
mil” (Atos, 4: 4). Há menção de multidões que se integraram à j
igreja: “E a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens ;
como mulheres, crescia cada vez mais” (Atos, 5:14). Nem mesmo •
os sacerdotes ficaram imunes ao contágio da nova fé, “E cres- •
cia a palavra de Deus, e em Jerusalém se multiplicava muito o !
número dos discípulos, e grande parte dos sacerdotes obedecia j
à fé” (Atos, 6: 7). j•
O aumento rápido das conversões não aconteceu, no entanto,
I
sem a oposição por parte de judeus. As autoridades eclesiásticas ;
logo perceberam que o cristianismo representava uma ameaça !
às suas prerrogativas como intérpretes e sacerdotes da lei; por !
isso, reuniram suas forças para combater o cristianismo. A per- j
seguição à nova religião iniciou-se primeiramente por meio de
um organismo político-eclesiástico, o sinédrio, que, com permis- i
são do Império Romano, supervisionava a vida civil e religiosa j
26

do Estado. Pedro e João tiveram que comparecer perante esse


importante órgão por duas vezes e foram proibidos de pregar o
Evangelho, mas se recusaram a cumprir a ordem. Mais tarde, a
perseguição tomou um cunho mais político: foi a fase em que
Herodes matou Tiago e prendeu Pedro (Atos, 12). Daí por diante,
a perseguição seguiu esse padrão eclesiástico ou político.
A perseguição pelo clero judaico deu ao cristianismo seu
primeiro mártir, Estêvão, um dos mais destacados dos sete
homens escolhidos para administrar os fundos de caridade na
igreja de Jerusalém. Testemunhos falsos, que não podiam resistir
ao espírito e à lógica com que ele falou, obrigaram-no a compa­
recer diante do sinédrio.
Após um emocionante discurso em que denunciou líderes
judaicos por sua rejeição a Cristo, Estêvão foi condenado ao
apedrejamento até a morte. Sua figura de primeiro mártir da fé
cristã foi um fator importante para a divulgação e o crescimento
do cristianismo. Saulo e, depois, Paulo, guardaram as capas
daqueles que apedrejaram Estevão.
A perseguição que se seguiu foi mais dura e acabou sendo o
motivo da igreja nascente para que sua mensagem fosse levada
a outras partes do mundo (Atos, 8: 4).
O cristianismo primitivo promoveu uma grande mudança
social em certas regiões. A igreja de Jerusalém insistiu sobre
a igualdade espiritual dos sexos e deu muita importância às
mulheres na igreja. A liderança de Dorcas na promoção do
trabalho de caridade foi registrada por Lucas (Atos, 9: 36) e a
criação de um grupo de homens para tomar conta das necessi­
dades do próximo foi outro acontecimento de relevância social
ocorrido ainda nos primeiros anos do nascimento da igreja cristã.
A caridade deveria ser administrada por um corpo organizado,
os precursores dos diáconos. Com isso, os apóstolos ficaram
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
completamente livres para o exercício de sua liderança espiritual.
A necessidade, devido ao rápido crescimento e possivelmente à
imitação das praticas da sinagoga judaica, levou à multiplicação
de ofícios e oficiais bem cedo na história da igreja. Algum tempo
depois, os presbíteros (anciãos) passaram a integrar o corpo de
oficiais, finalmente formado de apóstolos, presbíteros e diáconos,
que dividiam a responsabilidade de liderar a igreja de Jerusalém.
A natureza da pregação dos líderes dessa igreja primitiva
desponta logo no relato do surgimento do cristianismo. O sermão
de Pedro foi o primeiro de um apóstolo registrado nas Escrituras
(Atos, 2: 14-36); nesse discursso, Pedro apelou aos profetas do
E
Antigo Testamento que haviam preanunciado o Messias sofredor.
O apóstolo propôs, então, que Cristo era esse Messias, porque Ele
havia sido levantado dentre os mortos por Deus, como disseram
os profetas, e, portanto, somente Ele era capaz de trazer a salva­
ção para aqueles que O aceitassem pela fé. O Cristo crucificado e
ressurreto era o conteúdo da pregação de Pedro tanto aos judeus
quanto aos gentios (João, 5: 22-27; Atos, 10: 42; 17: 31).
A igreja judaica em Jerusalém, cuja história foi descrita,
logo perdeu seu lugar de líder do cristianismo para outras igre­
jas. A decisão tomada no Concilio em Jerusalém, de que os
gentios não eram obrigados a obedecer à lei, abriu o caminho
para a emancipação espiritual das igrejas gentílicas do controle
judaico. Durante o cerco de Jerusalém no ano 70 d.C. por Tito,
os membros da igreja foram forçados a fugir para Pela, do outro
lado do Jordão. Depois da destruição do templo e da fuga da
igreja judaica, Jerusalém deixou de ser vista como o centro do
cristianismo; a liderança espiritual da igreja cristã se centralizou,
então, em outras cidades, especialmente em Antioquia, fato que
evitou o perigo de que o cristianismo jamais se libertasse dos
quadros do judaísmo.
28
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1.4. As perseguições imperiais


O cristianismo era considerado uma ameaça à sociedade romana,
afinal, os cristãos eram contra a ganância, a escravidão e prin­
cipalmente contra a adoração prestada ao imperador. Isso fez
com que a igreja cristã fosse perseguida por mais de 200 anos.
Milhares de cristãos pagaram um alto preço por sua fé ousada.
Durante esse período, alguns dos melhores imperadores
foram mais ativos na perseguição ao cristianismo, ao passo
que os imperadores considerados inferiores eram brandos na
oposição ou simplesmente não perseguiam a igreja.
As perseguições aos seguidores de Cristo começaram com
o Imperador Nero e perduraram até o ano 313 d.C., quando
Constantino, o primeiro imperador romano convertido ao cris­
tianismo, fez cessar todos os propósitos de destruir a igreja cristã.
Não bastasse o ataque externo, nesse meio tempo surgi­
ram grupos heréticos, que introduziram doutrinas estranhas
aos ensinos do Novo Testamento, principalmente na cidade
de Colossos. O apóstolo Paulo sem demora escreveu aos fiéis
nessa cidade, dizendo: “Cuidado que ninguém vos venha a
enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição
dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo
Cristo; porquanto, nele habita, corporalmente, toda a plenitude .
da divindade” (Colossenses, 2: 8-9).
Durante o século II, na Síria, no Egito e na Ásia Menor,
surgiu o gnosticismo, com seus diversos sistemas filosóficos.
Os ebionitas e os nazarenos pregavam a volta do cristianismo aos
moldes judaicos; os gnósticos procuravam reduzi-lo aos moldes
pagãos; os primeiros rejeitavam as cartas de Paulo, tachando-o
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
de impostor; os segundos rejeitavam todo o Antigo e também o
Novo Testamento, com exceção das cartas de Paulo.

1.4.1 As cau sas das perseguições


As causas que desencadearam as perseguições que perduraram
por mais de dois séculos foram as mais variadas, conforme
| veremos a seguir.

| 1.4.1.1 Religiosas
O paganismo romano tinha seus altares, ídolos, ritos e práticas
que podiam ser vistos pelo povo, enquanto os cristãos não tinham
ídolos e rejeitavam qualquer forma ou objeto de adoração. O culto
era espiritual, suas orações não eram dirigidas a nenhum objeto
visível.
A adoração aos ídolos estava entrelaçada com todos os
aspectos da vida do cidadão romano, pois imagens eram encon­
tradas em todos os lares, e nas cerimônias cívicas eram oferecidas
libações aos deuses. Os cristãos, por sua vez, não participavam
dessas formas de adoração e, por essa razão, eram considerados
antissociais, ateus e aborrecedores de seus companheiros. Com
a reputação tão desfavorável por parte do povo em geral, apenas
um passo separava os cristãos da perseguição.
Outro fator preponderante era a adoração ao imperador,
considerada como prova de lealdade. Havia estátuas dos impe­
radores reinantes nos lugares mais visíveis para que o povo
adorasse. Os cristãos, é claro, não participavam desses atos e
se recusavam a prestar adoração.

I
1

j 30
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

1 .4 .1 ,2 P olítica s

Enquanto a igreja era vista pelas autoridades como uma facção


do judaísmo, pouco sofreu, mas quando o cristianismo foi dis-
tinguido da religião judaica, passou a receber a interdição do
Império Romano, que não admitia nenhum rival à obediência
por parte de seus súditos. O cristianismo, em seu rápido cres­
cimento, prestava lealdade moral e espiritual a Cristo. Quando
a escolha entre a Cristo ou César tinha de ser feita, este último
era colocado em segundo plano.

1.4.1.3 Sociais
O cristianismo considerava todos os homens iguais e, consequen­
temente, ganhou simpatizantes das camadas mais pobres, espe­
cialmente os escravos. Temendo a influência do cristianismo na
sociedade, a classe dominante romana difamava a religião cristã.
Naquele tempo, a sociedade romana era controlada pelas
grandes famílias de aristocratas (nobres), donas das maiores e
melhores searas de terras, clàsse cujos membros eram chamados
patrícios. As decisões mais importantes das cidades romanas eram
tomadas por uma assembléia, conhecida como senado, formada
apenas por cidadãos escolhidos dentro daquela classe. Havia
também os plebeus, classe composta por trabalhadores, mas que
não possuíam terras e não podiam participar das assembléias
dos mais abastados, embora tivessem alguns direitos políticos.
Por fim, havia os escravos, classe que não tinha nenhum direito.
Quando qualquer um dessês indivíduos se convertia ao
cristianismo, não havia qualquer distinção entre éles. Por isso,
foram considerados “niveladores da sociedade”, portanto, anar­
quistas, perturbadores da ordem social.
1.4.2 Os principais perseguidores da igreja
cristã

Depois da morte de Jesus Cristo, a igreja encarou um período de


semeadura, como havia dito o Mestre: “Na verdade, na verdade
vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica
ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (João, 12:24). A semente
caiu por terra e morreu. Por mais de 200 anos, a igreja viveu sob
a opressão do Império Romano. No decorrer desses dois séculos,
quatro dinastias ocuparam sucessivamente o poder em Roma:
1. Júlio-Claudiana (14 d.C.-68 d.C.);
2. Flaviana (68 d.C.-96 d.C.);
3. Antonina (96 d.C.-192 d.C.);
4. Severa (193 d.C.-235 d.C.).

1«4.2,1 Dinastia Júlío-CIaudiana (14 d.C«-68 d.C.)


Depois de vencer Marco Antônio e Emílio Lépido, Otávio se
proclamou imperador. A partir de então, esse período da história
romana passou a ser denominado pelos historiadores de Império.
No Império, o poder era concentrado em uma única mão: a
do imperator (imperador). Era o Imperador Otávio quem coman­
dava os exércitos e a marinha, quem governava, indicava os
senadores e outros magistrados, além de ser o responsável pela
elaboração das leis e pelo controle dos cidadãos e quem detinha
a maior autoridade religiosa. Em 27 d.C., Otávio recebeu o título
de Augusto (consagrado, divino) e, por isso, ninguém poderia
realizar um culto religioso sem sua autorização. O imperador
nomeava as pessoas para os cargos de confiança, como o de
32
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

prefeito de uma cidade ou governador (chamado procônsul) de


uma província.
Antes de morrer, Augusto, prevendo uma possível anarquia,
instituiu a continuidade dinástica que, embora fosse disfarça­
da, permitiu que quatro membros da família Júlio-Claudiana
ocupassem o comando do império depois dele. Tibério (14 d.C-
37 d.C.) chegou ao poder por determinação de Augusto; Caligula
(37 d.C.-41 d.C.) o conseguiu por proposta do prefeito preto-
riano; Cláudio (41 d.C.-54 d.C.), por imposição da guarda
pretoriana; Nero (54 d.C.-68 d.C.), pela vontade de sua mãe,
Agripina, mulher de Cláudio, que também teve o apoio da guar­
da pretoriana.
Durante a administração Júlio-Claudiana, ocorreram vários
conflitos com o senado romano. Jesus nasceu na época do
Imperador Augusto, sendo crucificado no governo do Imperador
Tibério. No tempo de Nero, foram iniciadas as primeiras grandes
perseguições aos cristãos.

Governo de Nero (54 d.C,-68 d.C.)

Muito já foi escrito sobre o Imperador Nero e sua fama de cruel.


Com relação ao cristianismo, são interessantes dois registros
históricos: o de Tácito e o de Eusébio de Cesareia (2002).
De acordo com Joly (2004), Tácito deixou registrado em
seu livro chamado Anais que Nero, para se livrar de suspeitas
de ter iniciado os incêndios que ocorreram em Roma, culpou
os cristãos, aplicando-lhes terríveis penas. Ordenou que fossem
presos aqueles que se confessavam cristãos, os quais, em segui­
da, deveriam admitir não apenas que iniciaram os incêndios,
mas que também eram inimigos da humanidade. Além disso,
33

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


os cristãos foram insultados, cobertos de pele de animais para
serem devorados por cães, crucificados, queimados à noite para
servirem de tochas, entre outras punições.
Já Cesareia (2002, p. 25) atribui a Nero o martírio de Paulo
e Pedro: “Dessa maneira, aclamando-se publicamente como o
principal inimigo de Deus, Nero foi conduzido em sua fúria
a assassinar os apóstolos”. Relata-se, portanto, que Paulo foi
decapitado em Roma e que Pedro foi crucificado no governo
do imperador insano. Sobre a tumba dos dois apóstolos foram
edificadas, no tempo de Constantino, duas basílicas.
Nessa época, inúmeros cristãos foram aprisionados. Próximo
ao Vaticano, onde hoje se eleva a monumental Basílica de São
Pedro, erguia-se outrora o circo de Nero, em meio aos jardins
imperiais. Consta que Nero expôs os cristãos aos mais cruéis
suplícios, como crucificação, caçada de animais e incinerações
que iluminavam o espetáculo noturno. Não sabemos o número
exato de mártires, porém, de acordo com Joly (2004), Tácito
afirmou que foi uma multidão desmedida.

1.4,2.2 Dinastia Flaviana (68 d.C.-96 d.C.)


Após a morte de Nero, em 68 d.C., iniciou-se o governo dos
Flávios. Sob o comando de Vespasiano e Tito, os cristãos vive­
ram dias tranqüilos. Apenas Domiciano (81 d.C.-96 d.C.), no fim
da vida, mudou de política. Não se sabe por que ele perseguiu os
cristãos no final de seu reinado, mas provavelmente em virtude
de seu respeito às tradições romanas. Supõe-se que a persegui­
ção se originou porque os judeus não queriam enviar a Roma o
dízimo antes pago a Jerusalém e, como ainda não estava bem
definida a diferença entre cristianismo e judaísmo, os cristãos
também sofreram as conseqüências.
34
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Entre os mártires da época, podemos citar Tito Flávio


Clemente, primo do imperador Domiciano, e sua esposa Flávia
Domitila, que foram condenados sob a acusação de ateísmo
(negação do culto aos ídolos) e de costumes judaicos (prática
da vida cristã).
Por volta do ano 95 d.C., a perseguição diminuiu e foi repri­
mida pelo Imperador Domiciano, que, no ano seguinte, foi assas­
sinado por professar a fé cristã. Nerva, sucessor de Domiciano,
por dois anos deixou em paz os cristãos, proibindo qualquer
violência contra eles.
As perseguições do primeiro século trouxeram terríveis
conseqüências aos cristãos;; muitos morreram, perderam seus
parentes e amigos e, apesar de toda essa contestação, o cristia­
nismo foi se fortalecendo.

1-4.2.3 Dinastia Antonina (96 d.C.-193 d.C.)


O século II esteve sob o governo dos chamados Antoninos;
Trajano, Adriano, Antonino Pio, Marco Aurélio e Cômodo.
Esse foi um dos períodos mais prósperos do Império Romano
em razão da estabilidade política, que favoreceu o aumento e
a expansão das atividades produtivas e comerciais, inclusive
culturais, do império. Nenhum desses governantes se manifes­
tou declaradamente contra os cristãos, entretanto, perdurava a
ordem que proibia a propagação do cristianismo.
Entre os documentos mais importantes da época, está a
consulta de Plínio, o jovem governador da Bitínia, ao impera­
dor Trajano sobre o tratamento dispensado aos cristãos. Plínio
exigia que os cristãos acendessem incenso ao imperador e que
maldissessem a Cristo; caso recusassem, seriam condenados à
morte por desobediência. A resposta do imperador foi a seguinte:
“eles não devem ser perseguidos, mas se surgirem denúncias pro­
cedentes, aplique-se o castigo, com a ressalva de que, se alguém
nega ser cristão e, mediante a adoração dos deuses, demonstra
não o ser atualmente, deve ser perdoado em recompensa de sua
emenda, por mais que o acusem suspeitas relativas ao passado”
(Bettenson, 1998, p. 6).
Entre os mártires mais importantes do século II d.C., mere­
cem atenção Inácio de Antioquia, Policarpo de Esmirna, Justino
e os mártires de Lião.

1.4.2.4 Dinastia Severa (193 d.C.~235 d.C.)


Com a morte do Imperador Cômodo, ascendeu ao poder a
Dinastia Severa: Sétimo Severo (193 d.C.-211 d.C.), Caracala
(211 d.C.-217 d.C.), Heliogábalo (218 d.C.-222 d.C.) e Severo
Alexandre (222 d.C.-235 d.C.). A partir desse período, o Império
Romano começou a ser ameaçado internamente pela corrupção e,
nas fronteiras, pelos confrontos militares. A hegemonia de Roma
não era mais a mesma: pairava no ar o rumor da decadência.
Com a subida de Sétimo Severo ao trono imperial, a per­
seguição aos cristãos foi retomada. Na primeira metade do
século III d.C., as perseguições orientaram-se contra determina­
da classe de pessoas. Em 201 d.C., o imperador promulgou um
decreto que proibia, sob severas penas, a conversão ao judaísmo;
no ano seguinte, foi a vez do cristianismo.
A perseguição teve origem na política religiosa de Sétimo
Severo. Sua intenção era unir todas as religiões sob um único
culto, o culto ao deus Sol, de modo que a unidade tão necessária
ao Império Romano se fortalecesse. Com essa atitude, o impe­
rador se defrontou não apenas com os judeus, mas também com
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

os cristãos que se recusavam a tal ato. Para que sua ordem fosse
obedecida, o governante instituiu pena de morte para quem se
convertesse ao cristianismo.
No mesmo ano em que foi promulgada tal ordem, Irineu6
foi martirizado, bem como uma cristã de nome Felicidade com
sua escrava, Perpétua,
Nos últimos anos do governo de Sétimo Severo, os cristãos
gozavam de relativa paz, a qual perdurou por um período de 40
anos, quando foi interrompida com a ascensão de Maximino
Trácio.

1.4.3 Perseguições gerais


Os anos seguintes à Dinastia Severa foram caracterizados por
uma profunda crise institucional, social. Dentre os imperado­
res que subiram ao poder, deve ser lembrado o nome de Décio,
monarca que celebrizou-se principalmente como perseguidor
dos cristãos. Com esse imperador foi inaugurada uma nova fase:
as perseguições gerais (Modoni, 2006).
Em 249 d.C., ou no início do ano seguinte, Décio decretou
um edito definindo que todos os seus súditos deveriam sacrificar
aos deuses por meio de um ato solene. Funcionários públicos
registrariam em listas oficiais o nome das famílias dos sacrifi-
cantes. Dessa forma, o imperador teria em sèu poder o número
exato de pessoas que lhe eram sujeitas.
Assim, criou-se uma difícil conjuntura para os cristãos: rene­
gar a fé por ato idolátrico ou expor-se a cruéis penas. Novamente

6 "Padre da igreja, grego de nascimento, filho de pais cristãos, [Irineu] nasceu na ilha de Esmirna, no
ano 130. Foi discípulo de Policarpo, outro Padre e santo da igreja. Dele Irineu pôde recolher ainda viva
a tradição apostólica, pois Policarpo fora consagrado bispo pelo próprio João Evangelista, o que torna
importantíssimos os seus testemunhos doutrinais”. {Santo..., 2015).
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
a igreja cristã seria colocada à prova. Nas grandes cidades, como
Alexandria, Cartago, Esmirna e Roma, muitos renegaram sua Fé.
Todavia, uma enorme multidão de fiéis, de ambos os sexos e de
todas as idades, deram testemunho da própria fé com sangue.
Essa terrível perseguição foi breve, diminuindo na primavera
de 251 d.C.
Valeriano (253 d.C.-260 d.C.), sucessor de Décio, foi favorá­
vel aos cristãos no início de seu governo, perseguindo-os apenas
nos últimos anos. Cesareia (2002, p. 249) registrou o relato que
Dionísio fez sobre esses dois últimos monarcas:
M as nem Galo compreendeu a perversidade de Décio, nem pre­
nunciou o que havia destruído, antes, tropeçou na mesma pedra
colocada diante de seus olhos. Pois quando seu reinado avançava
com prosperidade, e seus negócios sucediam-se de acordo com seus
desejos, perseguiu aqueles homens santos que intercediam com Deus
por sua p a z e segurança.

Em 284 d.C., subiu ao trono imperial Diocleciano. Durante


seu governo, várias foram as reformas realizadas, permitindo
a sobrevivência do Império Romano ao longo de um século.
Ele decidiu que o imperador não devia morar em Roma, mas
se estabelecer o mais perto do possível das fronteiras. Mudou
completamente a forma de governo, pois entendia que uma úni­
ca pessoa não era suficiente para atender a todas as complexas
necessidades do império. Assim, instituiu a tetrarquia, um sis­
tema de governo que previa a divisão de poder entre Augustos -
ele mesmo e Maximiniano - ajudados por dois Césares que, no
caso de morte ou abdicação dos dois imperadores, assumiriam
o poder e nomeariam dois outros Césares (Modoni, 2006).
Influenciado por Galério, Diocleciano iniciou a última e
mais sangrenta perseguição contra o cristianismo. Em 303 d.C.,
38
2EEH3
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

publicou uma série de editos determinando que todos os exem­


plares da Bíblia fossem queimados e que os templos fossem des­
truídos, além de exigir que seus súditos queimassem incenso em
homenagem à sua imagem. Aqueles que não o fizessem seriam
desprovidos da cidadania romana e, consequentemente, da pro­
teção da lei (Modoni, 2006).
Em alguns lugares, os cristãos eram encerrados nos templos,
que depois eram incendiados com todos eles em seu interior.
Consta que o Imperador Diocleciano erigiu um monumento com
a seguinte inscrição: “Em honra ao extermínio da superstição
cristã” (Cesareia, 2002).
Em 305 d.C., Diocleciano retirou-se à vida particular e indu­
ziu Maximiniano a fazer o mesmo. Os dois Césares, Galério e
Constâncio, assumiram o poder, deflagrando uma luta acirrada
entre os dois aspirantes a César, e que não chegaram a assumir o
título: Maxêncio e Constantino. Constantino venceu Maxêncio
no campo de batalha em 312 d.C. e em seguida, às portas de
Roma e sobre a Ponte Mílvio, proclamou sua devoção à cruz,
o símbolo cristão. No ano seguinte, 313 d.C., foi promulgado o’
Edito de Milão, que encerrava para sempre o capítulo das per­
seguições imperiais aos cristãos e concedia a eles total liberdade
de adoração (Cesareia, 2002).
Próximo do Coliseu de Roma, é possível contemplar, ainda
hoje, o arco de Constantino, erigido em comemoração à vitória.
Por inspiração da divindade” realizou-se o evento - recorda a
grande inscrição que encabeça o monumento.
Constantino não escondeu suas predileções para com a
nova religião. Por sua ordem e com seu auxílio, foi construída
a principal basílica romana: a de São Pedro, no Vaticano.
g_J:

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


1.5 Os pais da igreja cristã
O período que comumente é chamado de pós-apostólico foi de
intenso desenvolvimento do pensamento cristão. O trabalho e
a influência desse meio milênio garantiram a unidade da igreja
cristã nos séculos seguintes.

-•Ai-!.

I q | antigos escritores cristãos dos primeiros séculcfg


^ e ra m chamados de “pais da igreja”, em virtude des
suas obras serem consideradas pela tradição comi?
testemunho particular autorizado da fé. Esses religio-i
r* sos eram homens que, devido ao zelo e ao amor que . ii
. tinham pela igreja, não mediam esforços para defen­
der a fé que fora dada aos fiéis. Assim sendo, pode-'
£ mos dizer que os “pais da igreja” foram aqueles que
£■ forjaram, construíram e defenderam a fé, a disciplina,
™a doutrina e os costumes da igreja, decidindo, assim,í
| os fumos dessa instituição. Seus escritos tornaram-sel
1fontes de discussão, de inspiração, de referências a<§!
lylongo de toda a tradição posterior. f

Para facilitar a sua compreensão do assunto, dividimos os


pais da igreja em três grandes grupos: apostólicos, apologistas
e polemistas. Todavia, devemos levar em conta que muitos deles
podem se enquadrar em mais de um desses grupos, em razão
da vasta literatura que produziram pára a edificação e a defesa
do cristianismo.
l
i
i ,5 Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 40

1.5.1 Apostólicos

Pãis apostólicos é o título utilizado para descrever os escritores


ortodoxos da igreja primitiva que, de alguma maneira, tiveram
contato com os apóstolos. De acordo com Lane (1999), os escri­
tos dos pais apostólicos pertencem à chamada era subapostólica
e datam, geralmente, do primeiro e segundo séculos, sendo
compostos de cartas que serviam de instrução e exortação.
Assemelham-se bastante em conteúdo e forma às cartas apos­
tólicas, seus autores buscavam mostrar a seus destinatários a
importância da salvação manifestada em Cristo e fortalecer-lhes
a esperança da volta de Cristo, em meio a uma geração que
estava cercada de falsos Evangelhos e ataques de céticos pagãos.
Não há entre os estudiosos uma concordância quanto aos
pais apostólicos. Primeiramente, eram citados Barnabé, Clemente
de Roma, Inácio, Policarpo e Hermas. Mais tarde, foi acrescenta­
do o nome de Papias, assim como a Carta a Diogneto e a Didaquê.
Para o estudo ora proposto, faremos menção apenas à escritores
que provavelmente estiveram em contato mais ou menos direto
com os apóstolos, ou que, mesmo sem esse conhecimento pessoal,
apresentam escritos semelhantes ao espírito do Novo Testamento.

1-5.1.1 Clemente de Roma (30 d.C.-100 d.C.)


Embora seja um personagem reconhecido da Antiguidade, não
há muitas referências históricas a respeito de Clemente de Roma,
mas destaca-se a sua carta aos coríntios, a qual, segundo Altaner
e Stuiber (1988, p. 55), a “igreja siríaca contou entre as Sagradas
Escrituras e [...] foi inserida também no Codex Alexandrinus
da Bíblia”.
Muitas são as informações sobre Clemente de Roma, desde
as de caráter lendário até testemunhos fidedignos. De acordo
com um romance siríaco, Clemente teria vagueado o mundo em
busca da verdade, quando encontrou Pedro e se tornou discípulo
do apóstolo.
As pseudo-clementinas7identificaram Clemente com o côn­
sul Tito Flávio Clemente, parente do Imperador Domiciano, exe­
cutado em 96 d.C. por professar a fé cristã. Orígenes e Eusébio
de Cesareia o identificaram como aquele colaborador que o após­
tolo Paulo cita em sua carta aos Filipenses: “E peço-te também
a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres
que trabalharam comigo no Evangelho, e com Clemente, e com
os outros cooperadores, cujos nomes estão no Livro da Vida”
(Filipenses, 4: 3). Irineu de Lyon, por sua vez, escreveu que
Clemente teria sido o terceiro sucessor de Pedro no episcopado
de Roma, e que conhecera pessoalmente o apóstolo. Tertulianô
indica que Clemente teria sido consagrado pelo próprio Pedro
(Champlin; Bentes, 1995).
Clemente escreveu uma carta aos coríntios, conhecida como
Primeira Epístola de São Clemente, datada por volta do ano 95 d.C.,
citada na carta de Policarpo. Nessa carta, encontram-se dados
sobre o desenvolvimento do cânone do Novo Testamento, práti­
cas litúrgicas e eclesiásticas da igreja primitiva e muito mais. Era
uma carta que apresentava tamanha semelhança com a carta do

7 De acordo com Leite e Reis (2011, p. 2, grifo do original): "Narratologicamente o título Pseudo-Clementinas
não se sustenta, pois se deriva do pressuposto histórico crítico que avalia a autenticidade desses escritos.
Todavia, recebe esse título o corpus literário que abarca três escritos cristãos do Mundo Antigo: Carta de
Clemente a Tiago; que se trata de uma correspondência fictícia do bispo de Roma, Clemente, ao "bispo dos
bispos , Tiago que governa a igreja de Jerusalém. [...]. Em seguida vem o Romance de Clemente, também
conhecido como Reconhecimentos, nesse escrito Clemente conta sua peregrinação em busca do esclare­
cimento para suas questões existenciais, que o levou a conhecer o cristianismo e se tornar companheiro
do apóstolo Pedro. [...] 0 terceiro item desse corpus é Kerygmata Petrou que é a reunião de sermões do
apóstolo Pedro, retomando os temas apresentados nos dois escritos anteriores.”.
apóstolo Paulo aos Coríntios que Olson (2001, p. 41) afirma que
“alguns cristãos do século II no Egito consideravam-na parte das
Escrituras, assim como muitos pais apostólicos”.

1*5.1.2 Inácio de Antioquia (35 d.C.-107 d.C.)


De acordo com Cesareia (2002, p. 107), Inácio foi “o segundo
a obter a sucessão de Pedro no episcopado de Antioquia”.
Antioquia era uma cidade muito importante do Império Romano
na Síria e também uma cidade importantíssima para os cristãos.
Foi ali que, pela primeira vez, eles foram chamados cristãos e
também a partir dali que Paulo iniciou as primeiras viagens
missionárias (Atos, 11: 26). „
Poucas informações há, sobre a família de Inácio, sua for­
mação, se era de família cristã ou convertido. Tudo o que sabe­
mos sobre sua vida se encontra em suas sete cartas escritas a
caminho de Roma, desde a Síria, pela Ásia Menor, rumo ao
martírio. Os títulos indicam os lugares para onde essas cartas
foram endereçadas, a saber: aos Efésios, aos Magnesianos, aos
Romanos, aos Tralianos, aos Filadelfianos, aos Esmirneanos
e uma a Policarpo, jovem bispo de Esmirna (Cesareia, 2002).
De acordo com Lane (1999), Inácio é o primeiro escritor a
apresentar claramente o padrão tríplice de ministério: um bispo
numa igreja com seus presbíteros e diáconos. Opôs-se às here­
sias gnósticas, sendo sua principal preocupação a unidade da
igreja. Foi martirizado em Roma, durante o reinado de Trajano
(98 d.C.-117 d.C.).

1.5.1.3 Papias (60 d.C.-140 d.C.)


Há poucas informações a respeito de Papias, com exceção
do que escreveram Eusébio de Cesareia e Irineu. Segundo os
h:

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


testemunhos, Papias era bispo de Hierápolis, na Frigia, atual
Pambukcallesi turca; foi contemporâneo de Inácio de Antioquia
e de Policarpo de Esmirna; escreveu uma coleção de cinco livros
intitulada Logíon Kuriakon Ecsegéseis (Exegese das Palavras do Senhor).
Por intermédio de Papias, conforme registrado por Cesareia
(2002), chegaram até nós as informações sobre os Evangelhos de
Marcos e Mateus. Sobre Marcos, Papias disse que: “foi intérprete
de Pedro, pôs por escrito, ainda que não com ordem, o quanto
recordava do que o Senhor havia dito e feito” (Cesareia, 2002,
p. 113). Sobre Mateus, segundo Cesareia (2002, p. 113), Papias
disse que: “ordenou as sentenças em língua hebraica, mas cada
um as traduzia como melhor podia”. Sobre a veracidade histórica
do testemunho de Papias, atualmente, pesa sobre suas afirma­
ções sérias críticas, principalmente porque a crítica literária da
Bíblia demonstrou que os Evangelhos são escritos com base em
tradições orais e não são produto da memória.

1.5.1.4 Policarpo (69 d.C.-155 d.C.?)


Nada sabemos a infância, a formação e a família de Policarpo.
De acordo com Irineu, citado por Cesareia (2002), Policarpo
foi discípulo do apóstolo João. Com a morte de João, findou-se
a classe de líderes cristãos primitivos, os apóstolos. Policarpo
fora instruído na fé por João e, portanto, era considerado um
vínculo vivo com os discípulos de Jesus e os apóstolos. Sobre seu
contato com os apóstolos, escreveu Eusébio de Cesareia (2002,
p. 127), aplicando as palavras de Irineu:
Não somente fo i instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos
que haviam visto o Senhor, mas também f o i instituído bispo da
Asia pelos apóstolos, na igreja de Esmirna. Nós inclusive o vimos em
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

nossa idade juvenil, já que viveu anos e morreu muito velho, depois
de dar glorioso e esplêndido testemunho. Sempre ensinou o que havia
aprendido dos apóstolos, que é também o que a igreja transmite e o
único que ê verdade.

Das sete cartas destinadas às sete igrejas do Apocalipse, a


carta de Esmirna é a única não recriminada por alguma falta:
E ao anjo da igreja que está em Esmirna escreve. Isto diz o Primeiro e
o Último, quefo i morto e reviveu: “Eu sei as tuas obras, etribulação,
e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus e
não o são, mas são a sinagoga de Satanás. Nada temas das coisas'
que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão,
para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sêfie l
até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida". (A pocalipse, 2: 8-10)

Relacionadas a Policarpo existem duas obras por meio


das quais podemos reconstruir sua personalidade: a Carta aos
Filipenses, talvez a mais conhecida, na qual ele revela toda sua
alma, seu coração e sua compreensão para com os fracos, e o
Martírio de Policarpo, onde se encontram registradas as famosís­
simas defesas de Policarpo em prol de Cristo: “Oitenta e seis
anos há que sirvo a Cristo. Cristo nunca me fez mal. Como
blasfemaria contra meu Rei e Salvador?” (Bettenson, 1998, p. 41).
Tudo indica que Policarpo conhecia alguns personagens
ilustres de sua época, como Inácio, Irineu, Aniceto de Roma
e Marcião, o qual resistiu à doutrina de Policarpo e chamou-o
de primogênito de satanás.
Policarpo sofreu o martírio no ano de 155 d.C., com 86 anos
de idade, em um domingo.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
1.5.2 A pologistas
No decurso da história da teologia, a filosofia tem tido um rela­
cionamento de amor e ódio com o cristianismo e a teologia cristã.
A teologia foi claramente influenciada de forma profunda pela
filosofia, especialmente a filosofia grega (helenísticâ).
Tertuliano, um dos mais influentes pais da igreja, ficou pas­
mado ao constatar que alguns de seus contemporâneos faziam
uso da filosofia grega, como o platonismo e o estoicismo, para
explicar as idéias cristãs.
Desde aqueles tempos, uma fenda divide os pensadores
cristãos; há quem considere a filosofia como serva da teologia,
vendo como tarefa desta última a formulação de argumentação
para a defesa do cristianismo. Outros têm considerado a filosofia
como a ferramenta do diabo, assim como Tertuliano.
O ponto de vista de Tertuliano teve pouca repercussão, pois
a maioria dos apologistas buscava demonstrar semelhanças
entre a mensagem e cosmovisão cristã e o que havia de melhor
na filosofia grega, a ponto de considerar o cristianismo como a
“verdadeira filosofia”, buscando demonstrar sua superioridade,
como filosofia, ao pensamento helenístico. Embora essa ideia
fosse escandalosa para Tertuliano e para outros pensadores
cristãos primitivos, foi amplamente aceita em grandes centros
difusores do cristianismo, como Alexandria e Roma, os centros
culturais mais proeminentes do Império.
Os apologistas foram aqueles que empregaram suas habilida­
des intelectuais e literárias em defesa do cristianismo, entretanto,
nos séculos II e III havia duas classes de pais apologistas: os
que defendiam o cristianismo à luz da filosofia grega e os que
a rejeitavam.
•1
46
2=213
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Assim como sobre os pais apostólicos, não há concordância


universal a respeito do grupo de apologistas. As listas de apolo­
gistas são variadas e boa parte da diversidade surge das tentativas
de incluir ou excluir o autor da obra anônima Carta a Diogneto.
Em geral, o grupo dos apologistas está situado no segundo
século, sendo os mais proeminetes indicados a seguir.

1-5.2.1 Justino, o M ártir (? d.C.-165 d.C.)


Justino nasceu em Flávia Neápolis (hoje Nablus), a antiga
Siquém, na Palestina. Filho de pais pagãos, em sua infâmia
teve contato com um mestre estoico, passando logo após para
um peripatético e, finalmente, a um pitagórico, se tornando um
devoto dos conhecimentos intelectuais e, logo, um “filósofo”.
Quando conheceu o cristianismo, provavelmente emÉfeso, disse
que o cristianismo seria a única filosofia realmente confiável e
útil que havia encontrado. Depois de sua conversão, peregrinou
até Roma, onde fundou uma escola.
Justino merece a reputação de o apologista mais importan­
te do século II d.C., sobretudo por sua criatividade e por suas
idéias a respeito de Cristo, como o Logos e o cristianismo como
a filosofia verdadeira.
Cesareia (2002, p. 137) conta-nos que Justino escreveu um
grande número de obras, mas só três são aceitas como genuínas:
Primeira apologia, Segunda apologia e o Diálogo com Trijdo, o Judeu.
Sua Primeira apologia é dirigida ao Imperador Antonino Pio, que
reinou de 138 d.C a 161 d.C., aos filhos do governante, Lúcius e
Marco Aurélio, e a todo o senado romano. A Segunda apologia é
dirigida a Antonino Vero. Ambas as cartas foram escritas para
contestar a perseguição contra os cristãos. No Diálogo com Trijdo,
Justino explica de que modo a graça divina o levou à doutrina da fé.
Justino foi decapitado em Roma com seis outros cristãos.
47

História da igreja; de Cristo até a Contrarreforma


1.5.2.2 Tertuliano (160 d.C,~220 d.C.)
Quintus Septimius Florens Tertullianus nasceu em Cartago, um
dos principais centros culturais do Império Romano. Filho de
um centurião proconsular romano, recebeu esmerada educação,
principalmente jurídica e retórica e, aos 20 anos, seguiu para
Roma, onde ampliou sua formação. Conhecedor do grego e do
latim, foi um advogado notável e lecionou oratória em Roma,
onde se converteu ao cristianismo. Regressou a Cartago por
volta do ano 195 d.C., dedicando-se ao estudo das Escrituras,
da literatura cristã e profana e dos tratados gnósticos. Iniciou
então uma produtiva atividade literária voltada à consolidação
da igreja no norte da África.
Tertuliano foi o principal apologista da igreja ocidental
e o primeiro teólogo cristão a escrever em latim. O religioso
contribuiu com seus escritos para fixar o léxico e a doutrina do
cristianismo ocidental. Suas contribuições de maior importância
foram suas discussões sobre a Trindade e a Encarnação do Logos.
Assim como Irineu, ele considerava o gnosticismo o pior inimigo
do cristianismo e, para combatê-lo, escreveu duas importantes
obras: Adversus Marcionem {Contra Marcião) e De praescriptione
Haereticorum (.Prescrição contra oshereges). Escreveu vários tratados:
Adversus Hermogenem {Contra Hemógenes), Adversus Praxean {Contra
Práxeas). Escreveu ainda sob questões práticas e morais: como
De monogamia {Sobre monogamia), De exhortatione castitatis {Sobre
exortação da castidade), Depatentia {Sobre apaciência), Depaenitentia
{Sobre apenitência). De cultufeminarum {Sobre o vestir das mulheres)
e outros (González, 2005).
Tamanha fora a influência de Tertuliano que, segundo
Altaner e Stuiber (1988, p. 156), “seus escritos contribuíram,
juntamente com a ‘Vetus Latina’ e a ‘Vulgata’, com maior cabe­
dal para a formação do latim cristão da Antiguidade”.
I
!

1 .5 .2 3 H ip ó lito (160 d.C.~236 d .C .) i

Da vida de Hipólito, sabe-se apenas que foi um escritor com­


plexo e fecundo e discípulo de Irineu, seguindo, com o mesmo
vigor de seu mestre, o combate aos gnósticos. Cesareia (2002,
p. 211) aponta uma lista com alguns dos escritos de Hipólito:
“Do Hexaemeron, Das Obras Sobre o Hexaemeron, A Marcião,
Dos Cânticos, Sobre Partes de Ezequiel, Da Páscoa, Contra
Todas as Heresias”.
Hipólito não concordava com a posição teológica do Papa
Calisto, acusando-o de sabelianista. Recebeu apoio de uma fac­
ção da igreja, tornando-se uma espécie de antipapa. Em 235 d.C.,
durante a perseguição levantada por Maximino, Hipólito e
Ponciano foram exilados para a ilha de Sardenha, onde vieram
a falecer. No episcopado de Fabiano, em 250 d.C., os ossos de
Hipólito foram trazidos para Roma, onde foram feitas homena­
gens a ele, como mártir.

1.5.3 Polemistas
Diferentemente dos apologistas do segundo século, que procu­
raram fazer uma explanação e uma justificação racional do cris­
tianismo para as autoridades, os polemistas empenharam-se por
responder ao desafio dos ensinos dos heréticos, condenando com
veemência as doutrinas e os mestres dessas formas de pensamento.
Apesar de a maioria deles ter vivido no Oriente, os gran­
des polemistas vieram do Ocidente. Os pais desse grupo não
mediram esforços para defender a fé cristã das falsas doutrinas
surgidas fora e dentro da igreja. De maneira geral, os polemistas
estão situados no terceiro século.
A seguir, apresentamos os mais importantes polemistas.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
1.5.3.1 Irineu (130 d.C.-202 d.C.)
Irineu nasceu na Ásia Menor, provavelmente em Esmirna, onde
foi discípulo de Policarpo de Esmirna, com quem aprendeu as
tradições do apóstolo João, discípulo de Jesus. Em 170 d.C.,
como presbítero, estabeleceu-se na Gália (França), na cidade de
Lyon, junto ao vale do Ródano, onde tornou-se notável defensor
da fé cristã.
Em 177 d.C., o Imperador Marco Aurélio iniciou uma ter­
rível perseguição aos cristãos da Ásia Menor, especialmente
daqueles que habitavam o vale do Ródano. Foram mortos cen­
tenas de leigos e presbíteros, juntamente com o bispo daquela
região. Irineu escapou da morte durante esse ataque contra os
cristãos porque havia sido enviado a Roma a fim de contestar
as heresias que de lá chegavam ao seu conhecimento. Quando
retornou de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lyon.
Irineu foi autor de diversos livros, porém, somente duas
obras atualmente são conhecidas: Adversus haereses (iContra as
heresias) e Epideixis tou apostolokou kerygmatos {Demonstração ou
Exposição da pregação apostólica). A primeira é essencialmente
teológica, enquanto a segunda é cristológica e soteriológica.
Enquanto no Adversus haereses a ênfase recai sobre a doutrina de
Deus criador, em Epideixis tou apostolokou kerygmatos.

1.53.2 Cipriano (210 d.C.-258 d . C . )


Thascius Caecilius Cyprianus era de família nobre e influente
de Cartago e converteu-se ao cristianismo em 246 d.C., sendo
posteriormente eleito bispo em sua cidade natal, por volta do
ano de 249 d.C. Exerceu um ministério pastoral influente, pro­
duzindo vários escritos antes de ser perseguido e decapitado nos
dias do Imperador Valeriano.
50
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Biblia

As principais obras de Cipriano são as seguintes: De ecclesiae


umtate ÇTratado sobre a unidade da igreja) e De lapsis (Dos caídos) -
ambas escritas em 251 d.C. e enviadas aos confessores romanos
da fé; De habitu virginum (249 d.C.), De mortaUtate (252 d.C. ou
mais tarde), De opere et eleemosynis (252 d.C.) e a coleção de cartas.
Algumas de suas obras são revisões dos escritos de Tertuliano,
a quem Cipriano chamava de mestre (Gonzáles, 2005).

1.533 Orígenes (185 J.C.-254 d.C.)


Orígenes foi o maior dos intérpretes alegóricos e mais prolíficos
da antiguidade cristã. A maior parte das informações sobre a
vida de Orígenes pode ser localizada no livro História eclesiás­
tica, de Cesareia (2002), que indica que o intérprete nasceu em
Alexandria, no Egito, onde foi aluno de Clemente e seu sucessor,
anos mais tarde. Ficou à frente da escola por 28 anos, levando
uma vida extremamente ascética e piedosa. Devido ao seu zelo,
Orígenes interpretou literalmente o texto de Mateus (19:12), que
diz. Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe;
e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos
que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus.
Quem pode receber isso, que o receba”; e mutilou-se a si mesmo.
Seu pai, Leônidas, morreu martirizado em 202 d.C., o que
fez com que Orígenes tivesse o mesmo sentimento, a ponto de
dizer ao pai que se encontrava preso: “não vás mudar de ideia
por causa de nos . Em 212 d.C. esteve em Roma, na Grécia e na
Palestina. A mãe do Imperador Alexandre Severo, Júlia Mameia,
chamou o intérprete a Antioquia para ouvir suas lições. Morreu
em Cesareia durante a perseguição do Imperador Décio.
A produção literária de Orígenes foi enorme. Segundo
Cairns (1995), estima-se que Orígenes seja o autor.de 6 mil
J I
, : - 'i

pergaminhos. Uma vez que seus conhecimentos bíblicos eram


amplos e ele estava consciente de que o texto das Escrituras
continha ligeiras variantes, compôs a Hexapla, segundo Gonzáles

História da igreja: de Cristo até a


(2005), uma obra monumental de erudição bíblica que não foi
conservada na íntegra.

1.6 O aparecimento das seitas


Enquanto os apóstolos escolhidos por Cristo viveram, a reve­
rência era geral para com eles, como fundadores da igreja, bem
como homens dotados de inspiração divina. Segundo os Atos
dos Apóstolos, os primeiros cristãos viviam em comunhão de
bens, celebravam a partilha do pão em suas casas e oravam
diariamente no templo (Atos, 2: 42).
O fervor dos primeiros tempos gerou nos cristãos um eleva­
do nível de vida moral. Notória nos primeiros tempos da igreja
foi a prática da caridade, como podemos observar em Atos
(4: 35): “E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada
um tinha”. Os diáconos e as diaconisas encarregavam-se dos
enfermos, dos órfãos, das viúvas, dos escravos, dos prisioneiros e
dos peregrinos, de modo que todos recebiam cuidados especiais.
No final do primeiro século, o cristianismo espalhou-se por
todas as partes do Império Romano. Entretanto, juntamente
com o desenvolvimento da doutrina teológica, desenvolveram-se
também as seitas. Além das perseguições do mundo pagão, os
cristãos também tiveram de enfrentar as heresias e as doutrinas
corrompidas dentro do próprio rebanho.
r
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Vários foram os grupos que se levantaram contra a igreja de


Deus, dentre Os quais destacamos a seguir os mais importantes.

1.6.1 Judaísmo
O rompimento doutrinário com o judaísmo não se deu sem
muita luta. O cristianismo poderia ter permanecido como mera
seita judaica, não fosse a visão e a persistência de Paulo diante
das tentativas de alguns grupos de transformar a mensagem do
Evangelho em um apêndice da lei mosaica. Paulo foi o homem
usado por Deus para fazer a conexão entre os mundos judaico e
gentio, e seu conhecimento de ambas as religiões foi um impor­
tante fator de ligação entre as culturas.
Ao lermos os escritos paulinos, é fácil perceber que um dos
piores problemas enfrentados pelo apóstolo refere-se à salvação
pela graça, independente da lei mosaica, o que valeu-lhe a inimi­
zade de pregadores com fortes raízes judaicas. Para atacar Paulo,
os opositores buscavam invalidar sua autoridade apostólica, uma
vez que ele não fazia parte dos 12 apóstolos. Por conseqüência,
ele se via obrigado a defender não apenas o Evangelho, mas
também sua própria autoridade.
Dos escritos mais significativos sobre o tema, temos a
Epístola aos Gálatas, na qual Paulo defende sua autoridade reli­
giosa e combate elementos judaizantes das igrejas daquela região.
Defmitivamente, ele exorta os cristãos a não aceitar “outro
Evangelho” sob pena de maldição (Gálatas, 1: 8-9). O tom da
carta é severo, pois, se essas heresias não fossem rejeitadas, o
cristianismo seria uma espécie de judaísmo com um Messias.
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
Entre as práticas existentes entre os judeus, podemos iden­
tificar as seguintes:
00 A prática da circuncisão - A circuncisão era um sinal do
pacto de Deus com o povo de Israel, a descendência física
de Abraão (Gênesis, 17: 10). Entretanto, os judaizantes exi­
giam que os convertidos a Cristo se circuncidassem e Paulo
protestou veementemente contra aqueles que se deixaram
circuncidar (Gálatas, 5: 3-4), defendendo que os que assim
procederam, fizeram-no por motivos falsos. Mostrou que a
circuncisão não tinha valor em si mesmo, mas que o valor
era se tornar nova criatura em Cristo e viver uma vida de
fé e amor (Gálatas, 6: 15). Para o apóstolo, a verdadeira ; ’- ■
circuncisão era a do coração, e isso estaria de acordo com a
l :: ;
lei e os profetas (Romanos, 2: 28-29; Deuteronômio, 30: 6). l

oo A guarda de dias especiais e das festas judaicas - Quando


os gálatas começaram a guardar festas judaicas, tanto o
sábado quanto as luas novas e demais festividades, Paulo
viu isso como um retrocesso, chegando a duvidar da eficá­
cia da mensagem do Evangelho entre eles (Gálatas, 3: 3).
Na Epístola aos Colossenses, entre os quais parece ter havido
uma heresia semelhante, ele mostra que as festas eram ape­
nas “sombras”, em contraste com a realidade revelada em
Cristo (Colossenses, 2: 16-17).
oo A lei como padrão de comportamento para o crente -
O terceiro elemento a respeito da judaização do Evangelho
envolvia as questões relacionadas à santificação. A lei não
era mais o padrão para o viver diário (conforme Paulo apre­
senta em II Coríntios, 3:11; Gálatas, 3:24-25; Gálatas, 4: 30;
o apóstolo aponta para a obra de Cristo na Cruz e a atuação
do Espírito Santo, fatos suficientes para levar o cristão à
santificação.
Como você pode notar, essa foi a postura de Paulo frente
as heresias judaizantes. Suas epístolas inspiradas foram causas
da ruptura definitiva entre o cristianismo e o judaísmo. Seria
apenas questão de tempo para que os elementos judaizantes
esaparecessem do seio da igreja, pelo menos nos moldes que
expusemos.

1.6.2 Gnosticismo
O gnosticismo foi uma das doutrinas de maior oposição ao cris­
tianismo. Embora existissem várias correntes diferentes de gnos­
ticismo, todas elas foram influenciadas pelo neoplatonismo e
pelo pensamento grego em geral. Segundo o historiador Edward
Gibbon (2012), havia mais de 50 seitas gnósticas diferentes; por
esse motivo, de acordo com o estudioso, não podemos chamar o
gnosticismo de seita ou religião, mas sini classificá-lo como uma
corrente de pensamento dividida em vários sistemas e escolas.
Ao que parece, alguns dos elementos gnósticos foram conside­
rados as primeiras heresias cristãs; além disso, de acordo com
a opinião de alguns pesquisadores, os escritos do apóstolo João
foram criados visando combater essas idéias a respeito de Cristo.
Podemos classificar o gnbsticismo como a tentativa racio-
nalista grega de incluir o cristianismo em um sistema filosófi-
co-religioso, com forte predominância do elemento cognitivo
Em outras palavras, embora a fé fosse o elemento primordial no
cristianismo apostólico, o gnosticismo tratou de transformar o
conhecimento e a sabedoria em elemento-chave, bem ao sabor
da cultura grega.
Embora os costumes litúrgicos e os elementos mitológicos
do gnosticismo fossem variados, é possível indicar os principais
SS

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


conceitos básicos dessa corrente de pensamento, os quais apre­
sentamos a seguir:
oo Dualismo da natureza - O gnosticismo enfatizava a dua­
lidade da natureza: o mundo físico e o mundo espiritual.
O primeiro era identificado com o mal, como algo inferior;
enquanto o segundo era identificado com o bem, sendo
superior à materialidade. Com base nesse princípio, origi­
nado do platonismo e do neoplatonismo, o cristianismo foi
desfigurado, pois o conceito atingiria toda a doutrina cristã,
oo 0 Deus criador - Pelo fato de o mundo físico ser identificado
com o mal, ele não poderia ter sido criado por um Deus bom.
Logo, a criação não teria sido obra do Pai de Jesus Cristo, o
Deus do Novo Testamento, mas obra do Deus judaico, que
se revela no Antigo Testamento. Esse “deus” criador, que foi
chamado de demiurgo, só poderia ser um Deus inferior, nma
vez que era o criador da matéria. Também por causa desse
fato, o gnosticismo era antagônico a tudo que dizia respeito
ao Antigo Testamento, rejeitando a Lei de Deus e ensinando
que o homem se libertaria dela ao adquirir “percepções
superiores”. Os pais eclesiásticos, principalmente Irineu,
combateram essas idéias, mostrando que havia um Deus
único, que foi o criador de todas as coisas, que Se revelou
aos profetas e, por fim, revelou-Se a SÍ mesmo em seu Filho,
oo Doutrina dos éons - Para explicar essa distinção entre o
Deus verdadeiro e o demiurgo, entre o mundo espiritual e o
mundo material, os gnósticos criaram a doutrina dos éons.
Um dos principais gnósticos, Valentino, ensinava que have­
ria uma corrente de 30 éons que emanavam da divindade,
sendo que o mundo material fora originado pelo mais baixo
éon da cadeia, não como resultado de um desejo criativo,
t
■t
( S6
l_
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia ■

mas como resultado de uma queda. O Deus supremo, ou


progenitor, teria formado o primeiro éon, também conhe­
cido como buthos (abismo). Depois viria, em ordem, o silên­
cio ou ideia; posteriormente, o espírito e a verdade. Em
seguida, por sua vez, a razão e a vida e, desta, o homem e a
igreja. Então os outros dez éons teriam aparecido. O último
e°n tena caído como resultado de um ataque de paixão
e ansiedade e, por causa dessa queda, o mundo material
chegou a existir. O demiurgo que criou o mundo teria sido
originado desse éon caído.
oo Salvação - Os éons mais elevados teriam dado origem a
Cristo e ao Espírito Santo. A tarefa de Cristo seria livrar
as almas dos homens de seu cativeiro do mundo material
e trazê-las de volta ao mundo dos espíritos. Este era o con­
ceito gnóstico de salvação: o retorno das almas do mundo
material, onde tinham caído e sido aprisionadas, para o
mundo espiritual, o que só seria possível por meio da per­
cepção superior (,gnosis) - um tipo de sabedoria esotérica que
proporcionava conhecimento relativo ao pleroma, ou mundo
superior espiritual, e ao caminho que conduzia para esse
plano da existência. Apenas os chamados pneumáticos, que
tinham o poder necessário para receber esse conhecimento,
poderiam receber a salvação. Os que não fossem capazes
de adquirir esse saber eram classificados como materialistas.
Alguns gnósticos criaram uma classificação intermediária
chamada psíquicos, na qual os cristãos eram geralmente
inclusos. A grande refutação dos polemistas (pais da igreja
que combateram essa heresia, entre outras) era que os gnós­
ticos excluíram a fé do seu sistema, substituindo-a por um
conhecimento pertencente a um grupo seleto.
«57

ao Cristologia - A posição gnóstica a respeito de Cristo rece­


beu o nome de docetismo, palavra originária do grego dokeo,
que significa “parecer”. Como a matéria era má, Cristo
não poderia ter um corpo humano, apesar de a Bíblia dizer
o contrário. Como bem espiritual absoluto. Cristo não se
misturaria com a matéria; então, o homem Jesus seria um
fantasma com aparência de corpo material ou o Cristo teria
tido seu corpo por ocasião do batismo e o deixado no início
de seu sofrimento na cruz.

1.6.3 Nicolaítas
O termo nicolaíta aparece nas cartas do Apocalipse por duas
vezes e por isso ganhou a atenção de estudiosos das heresias pri­
mitivas. Se considerarmos o ano 90 d.C. como data provável para
o Livro do Apocalipse, então já temos aqui uma seita bastante
desenvolvida, mas de difícil identificação. O Novo Testamento
fala em “obras dos nicolaítas” (Apocalipse, 2: 6) e em “doutrina
dos nicolaítas” (Apocalipse, 2: 15), o que dá a entender que se
tratava de um grupo organizado com práticas e doutrinas.
Irineu teria dito que os nicolaítas, cujo mestre era Nicolau,
vivam sem moderação, estimulavam a fornicação, o consumo de
carne e a adoração aos ídolos. Também Tertuliano de Cartago
atribui ao diácono helenista a paternidade da seita ao afirmar
que teria oferecido a própria esposa à assembléia dos crentes,
afirmando que era necessário não ter em muita estima a carne í !■
(Bettenson, 1998).
Embora combatido, esse movimento herético conseguiu
sobreviver até meados do ano 200 d.C., quando então se dis­
solveu em um tipo de gnosticismo denominado ofita, ligado ao
culto às serpentes.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 58

Como podemos ver, o desenvolvimento de certas heresias


a partir da doutrina cristã foi bastante amplo. O risco de perder
a identidade em meio a tantos desvios diferentes era grande.
Mas a igreja reagiu nos momentos certos e, se não conseguiu
refrear completamente certos elementos, conseguiu firmar sua
doutrina de modo coerente, deixando fundamentos que mais
tarde possibilitariam o desenvolvimento do cristianismo.

1.6.4 Ebionismo

Os ebionitas se originaram no cristianismo judaico de Jerusalém.


Embora alguns tenham tentado conceber certo Ebion como o
fundador dessa seita, o certo é que o nome deriva de uma pala­
vra hebraica que significa “os pobres”. A princípio, ebionita era
um nome honroso para os cristãos em Jerusalém. Esse grupo
religioso migrou para o leste do Jordão e misturou de forma
inadequada elementos judaicos e cristãos.
A diferença substancial que separava os ebionitas dos demais
judeus-cristãos e dos helenistas consistia na maneira de conce­
berem a pessoa e a obra de Jesus. Por seu monoteísmo restrito,
não admitiam qualquer insinuação sobre a divindade de Jesus.
Alguns Supõem que os ebionitas se misturaram e, conse­
quentemente, receberam forte influência dos essênios, povo que
praticava um judaísmo ascético e vivia na região do Mar Morto.
Com o pouquíssimo material existente sobre eles, é impossível
fazer uma descrição minuciosa, mas podemos ter um pequeno
vislumbre do pensamento dessa seita.
1.6.5 Mcmiqueísmo
Antiga religião que recebeu o nome de seu fundador, o sábio
persa Mani, ou Manes, ou ainda Maniqueu (216 d.C.-276 d.C.).
Ele afirmava que um anjo lhe havia aparecido e o nomeara como
profeta de uma nova e última revelação. Pregou por todo Império
Persa, inclusive enviou missionários ao Império Romano. Foi
preso, acusado de heresia e morreu pouco tempo depois.
O maniqueísmo reflete uma forte influência do agnosticis-
mo e sua doutrina baseia-se em uma divisão dualista do universo,
na luta entre o bem (Deus) e o mal (Satã): esses dois âmbitos
estavam separados, porém a escuridão invadiu a luz e eles se
mesclaram. A espécie humana seria o produto dessa luta. Com
o tempo, poder-se-ia resgatar todos os fragmentos da luz divina e
o mundo se destruiria; depois disso, a luz e a escuridão estariam
novamente separadas para sempre. É difícil não notar a forte
influência do zoroastrismo nos conceitos estabelecidos por Mani,
Podemos afirmar que o maniqueísmo era uma combinação
do pensamento cristão, do zoroastrismo e de idéias religiosas
orientais. Em muitos pontos se assemelhava a outros ramos do
gnosticismo; seu ascetismo, por exemplo, era extremo, exaltando
o celibato como a maior das virtudes.
Os maniqueístas dividiam-se em duas classes:
1. os eleitos, celibatários rigorosos, eram vegetarianos e se
dedicavam somente à oração;
2. os ouvintes, cuja esperança era voltar a nascer convertidos
em eleitos.
O maniqueísmo exerceu influência durante um bom tempo
após a morte de Mani. Agostinho de Hipona, por exemplo, no
século IV, foi discípulo dele por 12 anos. O futuro Doutor da
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Igreja se viu atraído por esse grupo devido à sua explicação


racional do mundo, bem como pelo seu código moral ascético,
que temporariamente lhe ofereceu solução para os seus proble­
mas espirituais. Com o tempo, o caráter herético da doutrina
maniqueísta foi se tornando evidente para Agostinho, até que o
religioso decidiu deixá-la, e após sua conversão trabalhou ardua­
mente para refutá-las.

1.6.6 Montanismo
O montanismo foi um movimento forte, principalmente na
região da Frigia. Seu fundador, Montano, intitulava seu movi­
mento de Nova Revelação ou Nova Profecia. Ele rejeitava a crescente
autoridade dos bispos (como sucessores herdeiros dos apóstolos)
e a autoridade dos escritos apostólicos; considerava as igrejas e
seus líderes espiritualmente mortos e reivindicava uma “nova
profecia”, com todos os sinais e os milagres dos dias da igreja
primitiva no Pentecostes.
Montano alegava ter recebido uma revelação direta do
Espírito Santo de que ele, como representante do Espírito, lide­
raria a igreja durante o último período dela na Terra. Por isso
se intitulava porta-voz do Espírito Santo e acusava os líderes da
igreja de prender o Espírito Santo dentro de um Livro, limitando
a inspiração divina apenas aos Livros apostólicos.
O líder do montanismo colocou-se como alguém por meio
de quem o Espírito Santo falava, no mesmo nível que falara por
meio de Paulo e dos outros apóstolos. Na sua visão, o “mais
elevado estágio da revelação” havia sido atingido nele, o fim
do mundo estava próximo e o Espírito o havia escolhido, jun­
tamente com duas profetisas, Maximila e Priscila, para falar
à humanidade sobre os últimos julgamentos de Deus sobre o
mundo.
Montano acreditava piamente que ele era o último profeta
escolhido por Deus para revelar seus eternos planos (Cartaxo,
2015). Tertuliano, o mais famoso adepto do montanismo, em
sua obra De Anima (Sobre a Alma), deu o seu relato sobre o movi­
mento. Falando sobre uma das profetisas, Tertuliano, citado por
Fábio (2015), disse:

Nós temos entre nós uma irmã que tem sido agraciada com muitos
dons de revelação, os quais ela vivência no Espírito, p o r meio de
visões extáticas, na igreja, no meio dos ritos sagrados do D ia do
Senhor. Ela conversa com anjos e, às vezes, até com o Senhor. Ela vê
e ouve comunicações misteriosas. Ela consegue discernir o coração
de alguns homens e recebe instruções para a cura sempre que precisa.
Seja lendo as Escrituras, cantando Salmos, pregando ou oferecendo
orações - em todos estes serviços religiosos, oportunidades são ofere­
cidas a ela para que tenha visões.

Além das visões e conversas com anjos, uma das profecias


do movimento era a de que, após à morte de uma de suas pro­
fetisas, Maximila, viria o fim, com tumultos e guerras por toda
a parte. A história provou a falsidade dessa profecia. O movi­
mento também se caracterizou por uma moral ascética, na qual
o casamento e, algumas vezes, até mesmo as relações sexuais
dentro do casamento eram proibidos. Além disso, os jejuns eram
extremamente severos.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia
62

1.7 A igreja imperial


A partir do século III, o fato mais notável e influente foi a insti­
tucionalização do cristianismo como religião oficial do Império
Romano. No ano de 305 d.C., quando Diocleciano abdicou ao
trono imperial, a religião cristã era terminantemente proibida, e
aqueles que a professassem eram castigados com tortura e morte.
Por muitos anos, os cristãos foram privados de sua dignidade e
de seus direitos civis (Modoni, 2006).
Segundo Wand (2004), essa brutal e sangrenta perseguição
só teve fim após o Imperador Galério Maximiano ter promulga­
do o Edito de Tolerância, no dia 30 de abril de 311 d.C. Assim,
logo os cárceres foram abertos e muitos cristãos foram soltos;
eram pessoas marcadas pela violência, porém exultantes por
terem sido afligidas por causa de sua fé em Cristo.
Em 313 d.C., Constantino proclamou o Edito de Milão,
fazendo cessar a perseguição aos cristãos e devolvendo-lhes igre­
jas, propriedades e outros bens que o Estado havia confiscado,
pondo fim ao período de tirania e crueldade (Modoni, 2006).
Mesmo diante de tamanhas afrontas e dores, a igreja cresceu
e produziu muitos frutos; como disse Tertuliano, o sangue dos
oprimidos acabou fortalecendo o cristianismo (Modoni, 2006).
A partir da era do Imperador Constantino, o cristianismo
deixou de ser uma religião perseguida para se tornar a religião
oficial do Império Romano. Os cristãos passaram do anfiteatro
romano, onde tinham que enfrentar leões, aos lugares de honra
junto ao trono que governava o mundo. Em vez de persegui­
dos, eram privilegiados; em vez de espoliados, eram ajudados.
Se antes confessar o nome de Cristo era motivo para ser morto,
passou posteriormente a ser sinônimo de projeção e segurança.
A declaração do cristianismo como religião oficial do
império trouxe várias vantagens à religião cristã, entre as quais
podemos relatar o rápido crescimento da religião; a isenção de
impostos e serviço militar ao clero; a construção de grandes cate­
drais nas principais cidades do império; e a devolução dos bens
confiscados pelo Estado. Portanto, desde 313 d.C. até o fim do
império, a espada foi não somente embainhada, mas enterrada.
Por outro lado, a oficialização do cristianismo como reli­
gião oficial do império trouxe conseqüências trágicas para a
igreja, como a filiação de milhares de pessoas pagãs que não se
importavam com as Leis de Deus, mas sim com os benefícios
e favores que essa filiação poderia render. Dessa forma, per­
maneciam com seus hábitos e costumes, sem se importar em
seguir as leis divinas e vinham em quantidades muito maiores
do que poderiam ser instruídos ou assistidos. Acostumadas aos
rituais pagãos mais complicados, essas pessoas não gostaram da
simplicidade do culto cristão e começaram a introduzir práticas
e crenças pagãs no seio da igreja. Gradualmente, em virtude da
negligência para com a Bíblia e também da ignorância do povo,
a igreja foi contaminada e, paulatinamente, sua identidade de
insitituição cristã fiel a Jesus Cristo e à doutrina dos apóstolos
foi perdida.
Assim, com o decorrer do tempo, a igreja cristã começou
a apresentar um sacerdócio suntuosamente vestido que fazia
ofertas de sacrifícios, rituais complicados, com a inserção de
imagens, água benta, incenso, e também personagens como
monges e freiras. A igreja incluiu ainda a doutrina do purgatório
que, de um modo geral, defende a crença de que a salvação pode
ser alcançada por meio de obras e não pela graça. A igreja em
Roma e, de um modo geral, as igrejas por todo o império, dei­
xaram de constituir a igreja cristã apostólica, transformando-se
numa grande instituição religiosa.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 64

Permaneceram, entretanto, alguns grupos numericamente


pequenos, geralmente isolados, que mantiveram a fé cristã em
pureza, perdurando por toda Idade Média até o século XIY, até
o reavivamento religioso no Ocidente, conhecido como Reforma.

1.8 A igreja medieval


Nossa atenção, a partir daqui, será voltada para a igreja do
Ocidente, ou igreja latina, cuja sede de poder estava em Roma,
que permaneceu como cidade imperial, apesar de seu poder
político ter desaparecido. Pouca atenção será dada à igreja do
Oriente, ou grega, sediada em Constantinopla, salvo quando
alguma de suas decisões envolver o cristianismo.
Após a morte do Imperador Constantino, o fato mais notá­
vel no desenvolvimento da igreja na Idade Média foi o desen­
volvimento papal. Havia bispos espalhados em várias cidades,
sendo as mais importantes Jerusalém, Antioquia, Alexandria,
Constantinopla e Roma. Os bispos que dirigiam essas cidades
eram chamados de metropolitanos e, algum tempo depois, de
patriarcas (Modoni, 2006).
Havia freqüentes e fortes disputas entre esses patriarcas pela
supremacia eclesiástica. Dos cinco grandes líderes eclesiásticos
metropolitanos, apenas o patriarca de Constantinopla e o bis­
po de Roma viviam, em 590 d.C., em cidades de importância
mundial e, desse modo, a disputa papal acabou ficando entre
eles. O bispo de Jerusalém perdera seu prestígio com a rebelião
judaica contra Roma, no século II. Alexandria e Antioquia decli­
naram logo em importância, deixaram de ter influência cristã
e se submeteram ao governo islâmico, no século VII. (Modoni,
2006).
O bispo de Roma tomou o título de pai, que mais tarde foi
modificado para papa. Roma afirmava ser a capital da igreja.
O bispo de Roma, já com o título de papa, reclamava seus direi­
tos ao governo universal na igreja como sucessor legítimo do
apóstolo Pedro (Modoni, 2006).
Damaso I (366 d.C.-384 d.C.) foi possivelmente o primeiro
bispo de Roma a expor a sua diocese como a Sé Apostólica. Foi
nesse período que o sacerdote Jerônimo traduziu as Escrituras
para o latim, a pedido desse bispo, de quem era secretário
(Modoni, 2006).
Jerônimo tinha o bispo de Roma em alto conceito, pois
entendia que Damaso era o “sucessor do pescador”, a ponto
de afirmar, de acordo com Bettenson (1998, p. 143), que: “com
ninguém me comunico senão com Vossa Santidade, isto é, com
a cátedra de Pedro, pois ela é a rocha sobre a qual está edificada
a igreja, a arca de Noé, na qual, se alguém não estiver, perecerá
quando o dilúvio cobrir todos”.
Em 381 d.C., o Concilio de Constantinopla reconheceu
a primazia romana. Ao patriarca de Constantinopla foi dada,
segundo Bettenson (1998, p. 146), a “primazia de honra ime­
diatamente depois do bispo de Roma, pois Constantinopla é a
nova Roma”.
A palavra papa, nome pelo qual o cabeça da igreja romana é
conhecido, e o termo papado, que se refere ao sistema de governo
eclesiástico, no qual o papa é reconhecido como chefe supremo,
não se encontram na Bíblia. A palavra papa vem do latim e
significa “pai”. Na Itália, o termo veio a ser aplicado a todos os
bispos como título de honra, e posteriormente ao bispo de Roma
_ Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 66

exclusivamente, como bispo universal. O título foi concedido


pela primeira vez ao bispo Gregório I pelo ímpio Imperador
Focas, no ano de 604 d.C. O governante teria feito isso para
irritar o bispo de Constantinopla, que acabara de excomungá-lo
por ter causado o assassinato de seu predecessor, o Imperador
Maurício. Gregório, entretanto, recusou o título, mas o sucessor
seguinte, Bonifácio III, aceitou-o e, desde então, essa tem sido
a designação dadas aos bispos de Roma (Modoni, 2006).
O papa de Roma era considerado “bispo universal”, “chefe
da igreja”, “governante de nações”, acima de reis e imperado­
res. O período de crescimento do poder papal começou com o
pontificado de Gregório VII, nascido Hildebrando (1021-1085).
No começo do século IV, certas igrejas em Roma e cida­
des vizinhas à grande metrópole tinham sido designadas como
lugares exclusivos para o batismo. Os pastores dessas igrejas
eram conhecidos como sacerdotes cardeais. Ocorrera divisão de
Roma em distritos para obras de caridade, e os sacerdotes dessas
regiões ficaram conhecidos como diáconos cardeais.
No século IX, os bispos próximos de Roma eram conheci­
dos como bispos cardeais e formavam o núcleo daquilo que viria
a ser o Colégio dos Cardeais. Hildebrando foi encarregado das
finanças da Sé romana e tornou-se um cardeal, exercendo grande
poder no governo de Nicolau II (1058-1061), quando ajudou na
aprovação de uma legislação eclesiástica que tomou o direito de
eleger o papa das mãos da população do arcebispado de Roma.
Os bispos de Roma eram eleitos, desde os primórdios, por voto
popular, embora os imperadores do santo Império Romano
tenham interferido quase sempre nas eleições. No mandato de
Hildebrando, a aristocracia de Roma controlou as eleições de
forma corrupta (Modoni, 2006).
No Concilio de Latrão, em 1059, o Papa Nicolau I, acon­
selhado por Humberto, mudou o método de eleição dos papas,
a fim de que a influência aristocrática ou imperial pudesse ser
eliminada. Morto o papa, os bispos cardeais se reuniriam para
escolher seu sucessor; deveriam então consultar os sacerdotes
cardeais e os diaconos cardeais. Só então o povo do arcebispado
de Roma tinha permissão de votar nos nomes indicados pelos
cardeais. Em termos práticos, isso colocava a eleição do papa
sob o controle do Colégio dos Cardeais (Modoni, 2006).
Nessa época, certas doutrinas foram desenvolvidas na igreja
romana, especialmente a veneração de imagens, o purgatório e
a transubstanciação, isto é, a crença de que, na consagração, o
pão e o vinho se transformam no verdadeiro corpo e no sangue
de Cristo. Além disso, o poder do papa foi colocado em primeiro
lugar, fazendo com que os governantes e o povo deixassem de
decidir quem comandaria a igreja e, assim sendo, o Colégio
dos Cardeais decidiria o modo como seriam levadas adiante
as Leis de Cristo.

1.8.1 O crescimento do poder m aom etano


A partir do século VII, os árabes muçulmanos passaram a inva­
dir territórios e organizar um grande império. A necessidade
de controlar novas rotas e cidades comerciais e a busca por ter­
ras férteis foram motivos importantes para as invasões, porém,
a causa mais significativa para os homens e mulheres da época
foi a necessidade de espalhar a fé religiosa muçulmana.
O movimento que agora chama a nossa atenção é a religião
e o império fundados, no início do século VII, por Maomé,
o qual tomou, uma após outra, várias províncias (nações) dos

I
68

£o

imperadores gregos que moravam em Constantinopla, até a


a
o extinção dessa cidade.
v:
C/5
O Maomé, nascido em Meca, atual Arábia Saudita, no ano 570,
O4
3 iniciou sua carreira como profeta e reformador no ano 610, aos
p
tr 40 anos de idade. No início do movimento o religioso conquistou
poucos discípulos, porém o suficiente para sofrer perseguições.
p
p
Em 622, Maomé fugiu para a cidade de Meca e sua fuga, a hégira,
fornece a data inicial em que se baseia o calendário maometano.
Maomé alcançou pleno êxito na conquista das tribos árabes,
impondo-lhes a sua religião. Voltou à cidade de Meca como con­
quistador e, quando morreu, no ano 632, era profeta e governador
reconhecido por toda a Arábia todas as demais terras conquis­
tadas, como Damasco, em 635, Antioquia, em 637 e Jerusalém,
em 638. Com isso, os árabes não tiveram nenhuma dificuldade
em submergir o Império Persa, apoderar-se de Chipre, Creta e
Rodes. Em 712,os maometanos encontravam-se já nas fronteiras
op* da índia, com bases para um novo impulso que transportaria o
w Islã para a Indochina.
s
p’ No Ocidente, a vitória árabe foi mais rápida. Alexandria foi
tomada em 638, Tripolitana foi invadida e passaram-se apenas
oitos anos (700-708) para que fossem atirados ao mar os últimos
bizantinos da África e ocupados os territórios de Magrebe até
o Atlântico. Em 711, doze mil berberes muçulmanos (povo do
norte da África) desembarcavam em Gibraltar e, em 713, apesar
de sua valentia, os cristãos godos foram eliminados da Espanha,
restando apenas alguns nas montanhas do noroeste do país. Em
718, os muçulmanos dominam o povo dos Pirineus, mas o reino
franco, liderado por Carlos Martelo, colocou um fim no avanço
dos árabes na Europa na Batalha de Tours, na França, em 732.
(Mather; Nichols, 2000, p. 231).
Cáda vitória militar era também uma vitória religiosa,
pois os habitantes das regiões dominadas eram convertidos ao
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
islamismo. Além disso, os árabes passavam a controlar novas
rotas, terras e cidades. Ainda no século VII, a capital do Império
Árabe foi transferida para Damasco, na Síria e, em 750, a capital
do império foi transferida para Bagdá, na Pérsia.

1.8.2 As Cruzadas
Outro grande movimento da Idade Média, sob a inspiração e o
comando da igreja cristã, foram as Cruzadas, que se iniciaram
no fim do século XI e se prolongaram por quase 300 anos. Eram
expedições militares organizadas por papas, reis e nobres euro­
peus ocidentais para tomar a cidade de Jerusalém, que estava
em posse dos muçulmanos.
A região da cidade de Jerusalém, na Palestina, onde atual­
mente fica o Estado de Israel, é sagrada para os fiéis das três
mais importantes religiões monoteístas do mundo: o judaísmo,
o cristianismo e o islamismo. Desde épocas muito remotas,
judeus, cristãos e muçulmanos faziam peregrinações a Jerusalém
para venerar os lugares santos.
Em 638, os muçulmanos tomaram a Palestina, inclusive
Jerusalém, e durante séculos aquela ocupação não chegou a criar
problemas para os cristãos, pois os árabes respeitavam a religião
cristã e, portanto, as peregrinações seguiam permitidas. Em 1071,
porém, a Terra Santa foi capturada pelos turcos otomanos que,
apesar de serem muçulmanos, eram intolerantes para com os Cris­
tãos, passaram a criar todo o tipo de dificuldades aos peregrinos.
Além do motivo religioso, as Cruzadas envolveram outros
interesses, pois a igreja católica queria expandir o cristianismo
pelo Oriente Médio e eliminar a influência da igreja ortodoxa
70
3
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

de Bizâncio (a primeira Cruzada iniciou-se apenas meio século


após o Grande Cisma entre católicos romanos e ortodoxos gregos
em 1054. Cidades italianas como Gênova e Veneza comerciali­
zavam com o Oriente Médio desde o século VIII e apoiaram as
Cruzadas, pois tinham interesse em tomar postos de comércio
dos bizantinos e também dos árabes do Egito.
Para atender aos fiéis desejosos de retomar as peregrinações
e escoar o excesso de mão de obra ociosa na Europa, o Papa
Urbano II declarou guerra aos “infiéis” muçulmanos, convo­
cando multidões sob o brado de “Deus o quer! Deus o quer!”, e
então fervor religioso espalhou-se por todo o mundo europeu.
As pessoas acreditavam firmemente que o cristianismo estava
em perigo e que defendê-lo, portanto, era cumprir a vontade de
Deus. O Papa Urbano II prometeu que todos os que partissem
para a guerra contra os “infiéis” teriam seus pecados perdoados
e iriam para o céu após a morte. Os cavaleiros que, a partir de
1095, atenderam ao chamado do papa para fazer parte de uma
expedição à Terra Santa, escolheram como símbolo uma cruz
pintada na armadura ou bordada nas vestes, e por isso foram
chamados “cruzados”. Eles seriam os guerreiros da cruz, os
defensores do cristianismo.
Eram homens oriundos de quase todos os lugares da Europa
Ocidental: da França, da Alemanha, da Itália, e também da
Inglaterra, da Holanda, entre outros países. Os nobres no coman­
do, protegidos por armaduras, sobre vigorosos cavalos; os cam­
poneses na infantaria; os homens da igreja em carroças; os
maltrapilhos e descalços - todos vestiam um pano com a cruz
vermelha simbólica e, com um mesmo objetivo, originaram
séculos de guerras, que deixaram um rastro de roubos, incêndios,
estupros e assassinatos. A Constantinopla cristã e a Jerusalém
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
muçulmana e judaica foram saqueadas. Milhares de crianças,
mulheres e velhos desarmados foram mortos.
No final, essa primeira Cruzada fracassou, mas abriu prece­
dentes para mais seis, pois Jerusalém continuava ém poder dos
maometanos. As primeiras Cruzadas foram convocadas pelos
papas e por isso a igreja as dirigia, unindo e conclamando para
essas iniciativas toda a Europa cristã. Mais tarde, a liderança
desse movimento passou às mãos dos reis; porém, com o passar
dos anos, o entusiasmo religioso, sem o qual as Cruzadas jamais
teriam sido organizadas, foi arrefecendo. Os nobres europeus
não conquistaram grandes extensões de terras como desejavam.
Alguns se arruinaram; outros conseguiram retornar ricos à terra
natal. Portanto, os motivos que impulsionaram outras Cruzadas
foram sobretudo a necessidade de conquista e de apreensão de
riquezas (Nichols, 2000).
A própria igreja católica foi abalada, uma vez que as
Cruzadas provaram que os papas eram incapazes de estar à
frente da cristandade. Eles se preocupavam com o enriquecimen­
to da igreja, fato que gerou nos sacerdotes arrogância e abuso
do poder, causando um descontentamento que mais tarde deu
início à reforma religiosa.

1.9 A reforma religiosa


A principal característica do período medieval era o teocen-
trismo, que colocava Deus no centro de tudo.
Dessa forma, para o teocentrismo, os valores religiosos pre­
dominavam sobre quase todos os aspectos da vida dos indivíduos.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 72

Os homens e as mulheres acreditavam que os fenômenos da


natureza eram o resultado direito da vontade de Deus: acredita­
vam, por exemplo, que, se uma chuva destruísse uma plantação,
era porque Deus queria punir aquela aldeia; ou que o número
de vítimas da peste diminuía graças às orações; ou ainda que o
mundo era daquela maneira por vontade de Deus, sem qualquer
influência do homem. í
No que diz respeito aos aspectos espirituais, as pessoas do
período medieval acreditavam que não tinham acesso direto a
Deus e que somente poderiam se comunicar com Ele se perten­
cessem à igreja católica. Desse modo, o papa e os bispos exerciam
exclusiva autoridade sobre todas as verdades, e ninguém podia
contrariar as declarações desse seleto grupo de religiosos. Para
a mentalidade medieval, a verdade estava na Bíblia e a igreja
católica era a única que podia dar sua interpretação. Com isso,
a instituição abusava de sua posição de “porta-voz dos céus”
(Lindberg, 2001).
Ao contrário desse pensamento que dominava os inte­
lectuais da Idade Média, surgiu o pensamento, que defendia
que o ser humano deveria estar no centro das atenções. Esse
período renascentista (que foi iniciado no século XV e perdurou
até o século XVII) apresentou como principais características
o florescimento das artes e um vigoroso despertar de todas as
formas de pensamento, bem como a redescoberta da antiga
filosofia, da literatura, das ciências e a evolução dos métodos
empíricos de conhecimento. Em oposição ao espírito escolástico
e ao conceito metafísico da vida, o Renascimento caracterizou-se
pela busca de uma nova maneira de olhar e estudar o mundo
natural, e esse naturalismo vinculou-se estreitamente à ciência
empírica, cujas descobertas foram aplicadas nas obras de arte —
os novos conhecimentos da anatomia, da fisiologia e da geome­
tria foram prontamente incorporados, possibilitando, por exem­
plo, a representação do volume pelo uso da perspectiva e dos
efeitos de luzes e cores. Do ponto de vista filosófico, surgiu uma
nova concepção do mundo e do destino do homem, uma visão
mais realista e humana dos problemas morais (Lindberg, 2001).
Esse movimento foi um choque para a época, pois a vida
intelectual esteve durante muito tempo vinculada à igreja
católica, pois os padres e os monges eram praticamente os únicos
que liam e escreviam livros. O Renascimento gerou um novo
critério para reconhecer a verdade sobre as coisas do mundo.
A visão do mundo medieval respeitava a tradição e a autoridade
dos antigos; em contrapartida, para os renascentistas, a verdade
era obtida empiricamente, ou seja, era fruto da experimentação
e da observação racional.
A filosofia renascentista procurava substituir a visão
transcendentalista medieval pela visão imanentista do mundo.
Enquanto a mentalidade medieval dava prioridade à vida reli­
giosa, espiritual, celeste, transcendental (superior a este mun­
do), os renascentistas da Idade Média olhavam a vida terrena,
imanente (que pertence a este mundo), o ser humano de carne e
ossos, a natureza, o corpo e a experimentação. O Renascimento
provocou a secularização da cultura, isto é, o afastamento da
vida cultural da autoridade da igreja.
Nos séculos XV e XVI, a cultura renascentista se espalhou da
Itália para outros países europeus. Na França, o Renascimento
foi representado por François Rabelais (1494-1553); na Espanha,
destacou-se Miguel de Cervantes (1547-1616); na Alemanha,
destacaram-se os pintores Hans Holbein (1497-1543) e Albrecht
Dürer (1471-1528); a Inglaterra foi representada por William
74
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Shakespeare (1564-1616), e a Holanda, por Erasmo de Rotterdam


(1466-1536).
Durante todo o período de crescimento do domínio da igreja
católica, diversos movimentos se rebelaram contra essa insti­
tuição e não obedeciam ao seu representante maior. Veremos a
seguir alguns dos grandes movimentos de reformas que surgiram
na história e que foram reprimidos com sangrentas perseguições.

1.9.1 Valdenses
Os valdenses eram discípulos de Pedro Valdo, rico comerciante
francês de Lyon, na França, que, no século XII, doou todos os
seus bens aos pobres e reuniu os fiéis dispostos a lutar contra
o luxo e a opulência do clero. Valdo lia, explicava e distribuía
as Escrituras ao povo, contrariando os costumes e as doutrinas
vigentes, espalhando-as na região de Lyon, depois na Provença,
até ao norte de Itália e à Catalunha. Valdo congregou em volta
de si vários discípulos que foram conhecidos como “os pobres
de Lyon”. Os valdenses mostraram os absurdos da imposição
do absolutismo papal e como a reforma religiosa viria a ser
inevitável. Foram cruelmente perseguidos e expulsos da França,
porém encontraram refúgio nos vales ao norte da Itália. Existem
evidências da sobrevivência dos valdenses até o século XV, sendo
que o destino mais provável desse grupo tenha sido a junção ao
protestantismo e ao anabatismo (Lindberg, 2001).
7S
E 222^’
|

História da igreja; de Cristo até a Contrarreforma [


1.9.2 John Wycliffe

John Wycliffe, nascido em Yorkshire, Inglaterra, pôr volta do


ano de 1330, iniciou um movimento em favor da libertação
inglesa do domínio e poder romano, bem como da reforma da
igreja católica.
Wycliffe foi um filósofo de destaque na Universidade de
Oxford, onde lecionou filosofia. Conselheiro do Rei, atraiu a
ira da igreja católica pela primeira vez ao defender o direito do
governo de confiscar as propriedades de sacerdotes corruptos.
Escreveu várias obras de cunho teológico e apologético, entre
elas a Suma Teológica, que abordou assuntos sobre a predestina­
ção, a justificação pela fé, o estado da graça, a autoridade papal
e a igreja como comunidade dos santos.
Um fato que trouxe diversos problemas a Wycliff foi sua
negação da doutrina da transubstanciação que havia se tornado
um dogma desde 1215. De acordo com González (2005, p. 673),
“Além de não aceitar a transformação das substâncias, Wycliffe
insistia na prática de oferecer ao laicato, não somente a hóstia,
mas também o cálice”.
A mais importante obra de Wicliffe foi a tradução do
Novo Testamento para o inglês, terminada em 1380. O Antigo
Testamento foi publicado em 1384, ano de sua morte.
O ataque à doutrina da transubstanciação fez Wicliffe criar
inimigos influentes, fazendo com que ele e seus seguidores fos­
sem expulsos de Oxford. Por decreto papal, as obras de Wycliffe
foram proibidas. O filósofo foi postumamente declarado herege
em 1415, tendo seu corpo desenterrado e queimado na fogueira
em 1427.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Apesar da morte de seu líder, os seguidores de Wycliffe


foram conhecidos como lolardos, mantendo-se firmes e intrépi­
dos, em um grupo organizado com os seus próprios ministros.

1.93 John Huss (Jcm Hus)


JohnHuss, nascido na Boêmia, no ano 1369, condenava o culto
aos santos e a venda de indulgências pela igreja. Huss também
condenava o luxo excessivo em que vivia o alto clero católico e
pregava a livre interpretação da Bíblia pelos cristãos. Foi perse­
guido e morto na fogueira, mas suas idéias deixaram seguidores.

1.9.4 Mortinho Lutero


M artinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano, vivia na
cidade de Wittenberg, na Alemanha, onde conquistou o título
de doutor em Filosofia, tornando-se professor univesitário e
pregador oficial de seu convento. Protestava contra o pagamento
de indulgências porque acreditava que somente Deus poderia
perdoar o pecador (Lindberg, 2001).
Inicialmente, Lutero não pretendia criar uma nova igreja,
e sim reformar o catolicismo. Na busca do verdadeiro caminho
para se encontrar a vida eterna, Lutero encontrou, na Epístola
aos Romanos, finalmente, uma resposta às suas indagações: a
doutrina da salvação alcançada unicamente pela fé em Deus,
tema central de sua futura teologia.
Em 1517, o Papa Leão X, desejando terminar a constru­
ção da Basílica de São Pedro, em Roma, determinou a venda
de indulgências, principalmente na Alemanha, onde a igreja
História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma
era possuidora de imensos territórios. Em protesto a essa falsa
“segurança” religiosa proporcionada pelas indulgências, Lutero
fixou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 31 de
outubro do mesmo ano (Lindberg, 2001).
Em 1518 e 1519, o Papa Leão X exigiu que Lutero se retra­
tasse e reconhecesse o valor das indulgências, mas não foi obede­
cido. Nesse período, o religioso escreveu os livros que serviriam
de base para a sua nova doutrina: O papado de Roma, O apelo
à nobreza cristã da nação alemã, O cativeiro babilônico da igreja e
Da liberdade do cristão.
Em 1520, o monge queimou publicamente a bula papal
Exsurge Domine, que declarava seus escritos heréticos. Levado
perante Carlos V, na Dieta de Worms, recusou-se a se retratar;
por isso, foi expatriado do império e seus livros foram queimados
em 1521. Lutero conseguiu refúgio no castelo de Warlburg, do
príncipe Frederico da Saxônia, de onde traduziu a Bíblia para o
alemão, tornando-a acessível ao povo. Cidades como Constança,
Nurenberg, Erfurt, Magdeburgo, Bremen se recusaram a aplicar
o Edito de Worms. O ex-monge transformava-se no líder espiri­
tual de um número cada vez maior de alemães, entre humanistas,
artistas, burgueses, príncipes, pequenos nobres e camponeses
(Lindberg, 2001). !
Em 1526, a cidade de Espira não aceitou empregar o Edito
de Worms contra Lutero. Carlos V tentou forçá-la, provocando
o protesto de 6 príncipes e de 14 cidades (fato que originou a
palavra protestante). Em 1529, as cidades protestantes se reuniram
na Liga de Smaikalde contra Carlos V, que, em guerra contra a
França e o Império Otomano, nada pôde fazer para impedir o
avanço do luteranismo (Lindberg, 2001).
Em 1539, em Augsburgo, foi apresentada a doutrina de
Lutero, redigida por Felipe Melâncton, seu principal colaborador.
Essa doutrina baseava-se nos seguintes princípios: [
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 78

oo a única fonte de fé é a Bíblia, livremente: interpretada pelos


cristãos;
oo o único meio de salvação é a fé em Cristo;
oo os sacramentos e as boas obras não são válidos como meio
de se obter a salvação;
oo a igreja é a simples reunião dos crentes, todos com os mes­
mos direitos;
oo o culto consiste na pregação feita pelos pastores ou “minis­
tros de Deus”.
Quando Martinho Lutero morreu, em 18 de dezembro de
1546, na sua cidade natal de Eisleben, a identidade cristã já se
encontrava profundamente modificada.
A Reforma Protestante ultrapassou largamente as frontei­
ras da Alemanha, espalhando-se por países como Dinamarca,
Noruega, Suécia, Suíça, Países Baixos, Inglaterra e por parte
da França. Fávorecidas pelos princípios de livre interpretação
da Bíblia, novas seitas surgiram e se propagaram pela Europa.
As razões iam desde o verdadeiro intuito de reformar a igreja
e atender adequadamente à devoção dos fiéis, até os motivos
políticos como os que levaram Henrique VÍII da Inglaterra a
romper com o papa, criando a igreja anglicana, da qual se tor­
nou chefe, em 1534.

1.9.5 Zuínglio (Zwirigli)


Ulrico Zuínglio (1484-1531) foi o líder da reforma que ocorreu
na Suíça. Por meio de uma votação, cada parte do país esco­
lheu sua própria religião. Embora mais tarde fosse influenciado
pelos ensinos de Lutero, Zuínglio chegou ao conhecimento do
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História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


Evangelho por sua busca pessoal. Discordou de Martinho Lutero
na questão da transubstanciação (transformação do pão e do
vinho no corpo do Senhor), e por isso não foi possível uma união
efetiva entre os dois. Zuínglio exigia o recurso exclusivo da
Bíblia como fundamento da fé e da autoridade e o uso da língua
alemã na liturgia. Atribuía maior importância ao problema da
santificação do que ao problema da justificação e, além disso,
para o religioso suiço, o batismo e a ceia não seriam sacramentos,
mas simples memoriais, ou seja, a afirmação da comunhão dos
fiéis (Lindberg, 2001).

1.9.6 Anabatistas

Com o surgimento da Reforma Protestante liderada por


Martinho Lutero, criou-se a oportunidade de que muitos gru­
pos dissidentes intensificassem suas pregações; entre eles, havia
os religiosos chamados de anabatistas, os quais sustentavam que
o batismo infantil não tinha validade e requeriam o rebatismo
daqueles que quisessem se tornar membros de seu grupo.
Os anabatistas não formavam um grupo particular ou coe­
rente, mas representavam vários graus de ortodoxia. Os grupos
variavam de uma relativa ortodoxia, como era a posição de
Conrado Grebel (1485-1528), até a posição mais radical e menos
ortodoxa de Baltasar Huebmaier (1480-1528) (Lindberg, 2001):
No século XVII, surgiria na Inglaterra um movimento de
igrejas anabatistas, que defendiam idéias como o batismo em
idade adulta, a não adoção de credo oficial e a Bíblia como única
regra de fé e prática. Embora não propusessem o radicalismo
social dos anabatistas na Alemanha, As igrejas anabatistas não
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia
SO

aceitavam a ingerência do Estado sobre assuntos religiosos, o


que ocasionou severas perseguições contra eles. A maioria delas
acabou imigrando para uma das 13 colônias britânicas, locali­
zadas nos Estados Unidos (Lindberg, 2001).

1.9.7 Calvino
Calvino, cujo nome francês era Jean Cauvin ou Calvin, nasceu
em Noyon, na Picardia, norte da França, em 10 de julho de
1509, filho do secretário episcopal daquela cidade. Estudou
em algumas das melhores escolas de Paris com o objetivo de
seguir a carreira eclesiástica, desistindo mais tarde para seguir
a carreira jurídica (Lindberg, 2001).
Em 1533, Calvino se tornou protestante. Depois de convertido,
escreveu a obra Depsychopannychia (Sobre os sonhos da alma), na qual
o religioso refuta a doutrina de alguns anabatistas que defendiam
que as almas dormem até 0 dia da ressurreição final. Com o desejo
de escrever um catecismo para os protestantes de língua francesa,
publicou na Basiléia, em 1536, a obra Christianaeréligionisinstitutio
{Institutas da religião cristã). Em Genebra, de acordo com González
(2005, p. 147), “escreveu comentários sobre quase todos os livros
da Bíblia, vários tratados sobre a teologia e sobre o governo da
igreja, e, sobretudo, uma série de reedições das Institutas, cada
uma mais extensa do que a anterior”.
A principal ideia de Calvino era a teoria da predestinação.
Segundo ele, Deus tem poder infinito (é onipotente) e sabedoria
infinita (é onisciente); nada no Universo pode existir sem a auto­
rização de Deus, e não há nada que Ele não saiba, nem no pas­
sado, nem no futuro. Assim, antes de nascermos, Deus já sabe
o que irá acontecer conosco. A conclusão a que Calvino chegou
foi que Deus já traçou o destino de todos os seres humanos antes
nascerem. Se serão salvos ou não, não depende da vontade, do
que façam ou sintam, logo, todos foram predestinados. A salva­
ção seria uma graça que Deus concede a alguns e não concede
a outros. E não adianta alguém perguntar a Deus o porquê de
Ele ter predestinado uns à salvação e outros à condenação. Ele
decidiu e ponto final.
Calvino, auxiliado por seus seguidores, tomou o poder em
Genebra (Suíça) e exerceu comando até sua morte, em 1564.

1.10 A Contrarreforma católica


A igreja católica não ficou passiva diante do avanço do protes­
tantismo. Para combater essa expansão, reuniu-se na cidade
de Trento, no final do ano de 1535, e, após muitas hesitações e
desentendimentos entre papa, bispos e reis, editou um documento
contendo as principais medidas que julgava necessárias para
eliminar os abusos (ou os abusos mais evidentes): reafirmar a
doutrina católica e reprimir os que pensassem de modo contrário.
A primeira medida foi uma “faxina geral” na igreja. Corruptos
foram expulsos e a venda de indulgências foi cancelada. O poder
do papa foi reforçado, o Index8foi criado, a comunhão de ambos
os elementos da ceia (pão e vinho) foi eliminada, mantendo
apenas a comunhão do pão. A igreja obrigou os bispos a residi­
rem em suas sedes, conservou os sete sacramentos, reforçou o
Tribunal da Inquisição, afirmou que somente a igreja poderia

8 0 index era a relação delivros proibidos para leitura dos cristãos. A lista de livros condenados pela igreja
incluía todos os escritos protestantes e todas as versões da Bíblia, exceto a Vulgata. 0 Index não se limitava
a combater as crenças protestantes, mas, igualmente, todo o pensamento que conduzisse ao progresso.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 82

interpretar a Sagrada Escritura e fixõu regras para a formação


e a vida dos padres.
O instrumento mais importante da Contrarreforma foi o
terrível e célebre Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido como
Santa Inquisição, que durou até o século XVIII. Nesse tribunal,
as pessoas eram julgadas por crimes contra a fé católica. Para
que as confissões fossem obtidas, havia uma técnica toda espe­
cial: a tortura e, por fim, a morte. De acordo com Peres (1998,
p. 162), “A igreja católica na Espanha empregava regularmente a
tortura para conseguir ‘confissões completas’, e, em 1480, o papa
Sisto IV deu aprovação aos processos inquisitórios e teve o apoio
de Torquemada. Este, em 1483, aprovou o emprego de torturas”.
Todos aqueles que a igreja católica considerava culpados
de heresias eram perseguidos e mortos pela Santa Inquisição.
Entre os hereges estavam, lógico, os protestantes, os filósofos, os
cientistas, os judeus, as bruxas etc. As penas variavam de uma
simples multa até a prisão ou a execução na fogueira. Milhares
de pessoas foram executadas pela Inquisição.
Um evento muito importante para a divulgação dos ideais da
Contrarreforma foi a criação, em 1543, da Companhia de Jesus.
Essa entidade, fundada pelo nobre militar espanhol Ignácio de
Loyola, adotou uma estrutura militar, chegando mesmo a ser
conhecida como o “Exército de Cristo”. Ao contrário das antigas
ordens religiosas, não se afastavam do mundo, mas atuavam
nele, procurando ter o apoio dos governantes europeus na sua
luta contra o protestantismo, fundando escolas e catequizan­
do os aborígenes nos novos mundos surgidos com a expansão
marítima.
A Contrarreforma não conseguiu eliminar o protestantismo,
mas conseguiu evitar que ele se espalhasse mais ainda.
83

História da igreja: de Cristo até a Contxarreforma


Questionário de História da igreja
1. Quando se trata da origem da igreja, podemos refletir
sobre dois momentos distintos: quais são eles? Como eles
se caracterizam?
2. Qual festa judaica se tornou um marco divisor na vida dos
primeiros seguidores de Cristo?
3. A igreja do primeiro século era formada por um pequeno
grupo de cristãos. Quais eram seus nomes?
4. Qual espaço de tempo compreende o chamado período
apostólico?
5. Quem foi o discípulo do Senhor que foi martirizado em
uma cruz em forma de “X”?
6. Qual dos discípulos do Senhor foi morto por Herodes?
7. Descreva a primeira viagem missionária do apóstolo Paulo.
8. Qual é o nome do organismo político-eclesiástico que ini­
ciou a perseguição ao cristianismo?
9. Cite as três causas que desencadearam as perseguições aos
cristãos.
10. Por mais de 200 anos, a igreja viveu sob a opressão do
Império Romano. No decorrer desses dois séculos, cinco
dinastias ocuparam sucessivamente o poder em Roma.
Quais eram elas?
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia M

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Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Respostas
1. O momento do projeto e o momento da execução da igreja. N a primeira
fase, podemos afirmar que a igreja sempre existiu no eterno propósito
de Deus. Ela já existia antes da fundação do mundo, pois estava deter­
minada por Ele desde a eternidade. Na segunda fase, a igreja, que antes
era desconhecida dos homens, tornou-se manifesta em Cristo.Ela, que
era um projeto de Deus na plenitude dos tempos, veio a ser conhecida
por meio do ministério terreno de Jesus Cristo.
2. Festa de Pentecostes.
3. “Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu,
e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano;
Tiago, filho de Alfeu, e Lebeu, apelidado Tadeu; Simão, o Zelote, e Judas
Iscariotes” (Mateus, 10: 2-4)
4. O período apostólico abrange o espaço de tempo desde o dia de Pentecostes
até a morte do último apóstolo, João, por volta de 90 d.C. Isso significa
que a igreja se desenvolveu por cerca de 60 anos com a supervisão direta
ou indireta de algum apóstolo.
5. André.
6. Tiago, filho de Zebedeu.
7 . A primeira viagem de Paulo foi iniciada em Antioquia da Síria e dirigiu-se
para a ilha de Chipre, de onde Paulo seguiu para a região da Ásia Menor
(Turquia). Nessa primeira viagem, ele foi auxiliado por Barnab e seu
método permaneceu sempre o mesmo, obedecendo à ordem primeiro
do judeu” (Romanos, 1: 16). O apóstolo ia para a sinagoga, que, na oca­
sião, estava espalhada por toda a região do Império Romano, buscando
convencer os judeus de que Jesus era o Messias. Após arecusa dos judeus,
Paulo se voltou para os gentios. Dessa forma, as igrejas iam se formando
com um misto de judeus e não judeus. O religioso percorreu diversas
cidades plantando igrejas até retornar a Antioquia.
8. Sinédrio, que, com permissão do Império Romano, supervisionava a
vida civil e religiosa do Estado.
S9

História da igreja: de Cristo até a Contrarreforma


9. Religiosas, políticas e sociais.
10.

• Júlio-Claudiana (14 d.C.-68 d.C.);


• Flaviana (68 d.C.-96 d.C.);
• Antonina (96 d.C-193 d.C.);
• Severa (193 d.C-235 d.C.).

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92
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

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Capítulo 21 'Ha.'

Contemporaneamente, o Brasil, que, até a


primeira metade do século XX, foi um campo missionário, tem
enviado missionários para o mundo todo e produzido, até certo
ponto, um Evangelho forte e comprometido. Esse panorama
atual nos leva a perguntar: Quando e como tudo isso começou?
Que pessoas foram instrumentos para tornar o Brasil a potência
evangélica que é hoje? Quais foram as denominações e os mis­
sionários que ajudaram a lançar as bases da igreja brasileira? O
que aconteceu de positivo e negativo nessa história? Todas essas
perguntas fazem parte da inquirição histórica.
E é no propósito de compreender a vida da igreja cristã
protestante no Brasil que nos voltamos para a história: para
entendermos e sabermos como se desenvolveu a trajetória da
igreja brasileira até a contemporaneidade.
i
í 1 Todas as passagens bíblicas indicadas neste capítulo são citações de Bíblia (2002).

•I1
2.1 0 período infrutífero
Talvez infrutífero não seja o termo adequado para descrevermos
esse período. De uma forma ou de outra, a Palavra de Deus
sempre dá fruto. O que queremos dizer realmente é que, por
um bom tempo, as poucas tentativas de estabelecimento das
igrejas cristas no Brasil foram frustradas. As poucas ações rea­
lizadas não foram suficientes para que uma, ou várias igrejas
nascessem de fato; seriam necessárias mudanças profundas no
Brasil e no mundo para que isso viesse a acontecer. Entretanto,
nao podemos ignorar essas louváveis tentativas iniciais, que
descrevemos a seguir.

2.1.1 A antecipação católica


O Brasil foi colonizado por uma nação fortemente católica -
Portugal. Conforme vimos no capítulo anterior, a Europa vivia
o clima da Contrarreforma, período em que havia um esforço
contínuo e intenso para extinguir as idéias nascidas da Reforma
Protestante, cujos principais representantes foram Martinho
Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio. Dentre as principais for­
ças que personificaram a Contrarreforma, estava a Companhia
de Jesus, ordem religiosa fundada por Inácio de Loiola em 1534,
em Paris (Giraldi, 2008).
Os jesuítas, como eram chamados os membros da ordem
Companhia de Jesus, tinham na obediência ao papa, na expan­
são da igreja católica e no combate ao protestantismo seus prin­
cípios centrais. Como resultado, o Brasil tornou-se um dos seus
principais campos missionários, fosse para expandir a fé católica
94
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

na colônia, fosse para impedir que os protestantes aqui lanças­


sem raízes no recente território português.
A obediência dos jesuítas à igreja católica era extrema.
Inácio de Loyola declarou: “Acredito que o branco que eu vejo
é negro, se a hierarquia da igreja assim o tiver determinado”
(Prado, 2013). Essa afirmação deixa clara a qualidade dos pre­
gadores que foram enviados ao Brasil.
Em 1549, chegaram à Bahia os primeiros jesuítas acompa­
nhando o Governador-Geral Tomé de Souza, liderados pelo
padre Manoel da Nóbrega. O trabalho deles se deu na área da
catequese e da educação: fundaram diversos colégios, sendo
que alguns deles deram origem a cidades, como foi o caso de
São Paulo. Procuraram levar os índios ao catolicismo e, com o
passar do tempo, assumiram a educação no país (César, 2000).
Essa ação inicial em nossa nação infante fez com que o
catolicismo se enraizasse profundamente no pensamento geral.
Por mais de 200 anos, não apenas jesuítas, mas diversas outras
ordens religiosas foram enviadas para o Brasil no intuito de
fortalecer o catolicismo e impedir qualquer presença protestante.
A ação do jesuíta, somada à presença do colono português
católico, resultou na situação religiosa que predominou durante
quatro séculos, mas catolicismo miscigenou-se ao longo do tem­
po com outras influências, cômo a indígena e africana, criando
um catolicismo sincrético.
De qualquer forma, essas raízes fizeram do Brasil a maior
nação católica do mündó, ao passo que o protestantismo, ainda
iniciante, lutava para sobreviver no continente europeu e não
contava cõm estrutura e maturidade suficientes para se lançar
em projetos missionários. Aihda assim, o Brasil foi alvo de ações
missionárias por parte da igreja protestante.
2.1.2 A tragédia da Guanabara

O projeto da colônia brasileira França Antártica entrou para


os anais da historiografia brasileira como a primeira tenta­
tiva de implantação uma colônia protestante em nossas terras
Liderados por Nicolau Durand Villegaignon, de origem católica,
e com o apoio do Almirante Gaspar Coligny, os huguenotes’
(calvinistas franceses) buscaram refúgio no Brasil. Em 1555, os
franceses planejaram, então, se fixar permanentemente na Baía
da Guanabara, um ponto do litoral brasileiro que os portugueses
amda não tinham povoado; instalaram-se nas ilhas de Serigipe
(hoje Villegaignon) e Paranapuã (hoje Ilha do Governador),
Uruçu-mirim (hoje Flamengo) e em Laje, e denominaram toda
essa região de França Antártica (Crespin, 2006).
O primeiro culto protestante foi realizado em 10 de março
de 1557, numa quarta-feira. No dia 21 de março, domingo, foi
realizada a primeira Santa Ceia (Crespin, 2006).
Logo houve atritos entre Villegaignon e os calvinistas fran­
ceses, até que, por fim, franceses protestantes foram expulsos
da ilha. A expulsão colocou os calvinistas em contato direto
com os índios tupinambás, aos quais procuraram evangelizar:
evento que foi o primeiro contato missionário protestante com
um povo não europeu.
Os frustrados colonos resolveram então pegar um navio e
retornar ao seu país. Pouco depois, quando o barco ameaçou
naufragar, cinco calvinistas ofereceram-se para voltar à ter­
ra. Estes cinco - Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre
Bourdon, André Lafon e Jacques Le Baíleur - foram pronta­
mente aprisionados por Villegaignon, que apresentou-lhes uma
série de questões teológicas e exigiu uma resposta por escrito no
96
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

prazo de 12 horas. Esses leigos redigiram um notável documento,


conhecido como Confissão de Fé da Guanabara, que finalmente
custou a vida de boa parte do grupo (Crespiri, 2006).
Assim, uma vez que os calvinistas se recusaram a abjurar
suas convicções, Villegaignon condenou-os à morte. Bourdel,
Yerneuil e Bourdon foram estrangulados e lançados ao mar;
André Lafon, sendo o único alfaiate da colônia, teve a vida
poupada sob a condição de que não divulgasse as suas idéias
religiosas (alguns historiadores dizem que ele negou sua fé);
Jacques Le Balleur fugiu, indo parar em São Vicente, onde pre­
gou as suas convicções. Por insistência dos jesuítas, foi levado
à capital colonial, Salvador; onde ficou aprisionado por vários
anos (1559-1567). Em 1567, o Governador-Geral Mem de Sá
levou-o para o Rio de Janeiro, que havia sido fundado recen­
temente, e lá ele foi enforcado. Assim terminou essa primeira
tentativa frustrada de estabelecer o protestantismo no Brasil
(Crespin, 2006). '

2.1.3 A experiência holandesa


A segunda experiência protestante no Brasil ocorreu em 1624,
quando os holandeses conquistaram Pernambuco e ali perma­
neceram por 30 anos. Não se tratava de um empreendimento
missionário, de forma alguma, mas por esse caminho a igreja
reformada holandesa foi implantada no Brasil. Isso não significa
que o protestantismo trazido pelos holandeses não teve nenhuma
influência na população brasileira, muito pelo contrário, como
acontecia com os países católicos, também os países protestan­
tes viam nos empreendimentos comerciais uma oportunidade
para divulgar sua fé. A igreja na Holanda era influenciada pelo
puritanismo e, por isso, procurava apresentar uma fé vigorosa
(Crespin, 2006).
Foram designados diversos ofícios para pastorear o rebanho
no Brasil: havia pregadores, presbíteros, diáconos, consoladores,
mestres-escolas (ou mestre de primeiras letras) e proponentes
(aspirantes ao ministério que trabalhavam como auxiliares de
pastores). Suas funções iam desde pregar aos indígenas até cuidar
da assistência social aos órfãos e viúvas (Crespin, 2006).
Estima-se que no Brasil holandês havia cerca de 22 igrejas,
54 pastores e proponentes, 120 presbíteros, 120 diáconos e mais
100 consoladores e mestres-escolas (Crespin, 2006).
Foi feito um intenso trabalho de evangelização com os indí­
genas, tendo sido escrito, inclusive, um catecismo em língua
tupi. Muitos índios abraçaram a fé protestante, sendo que muitos
deles já haviam sido anteriormente batizados como católicos.
Os protestantes não batizavam novamente os índios, apenas
faziam questão que eles soubessem proferir sua fé.
Infelizmente, toda essa estrutura terminou com a expulsão
dos holandeses pelos portugueses em 1654. Não só esse grupo
teve de deixar o país, mas também os convertidos à fé reforma­
da, assim, tanto índios quanto portugueses e pessoas de outras
nacionalidades foram embora com eles.

2.1.4 Os anos de om issão


Entre a tentativa de Guanabara e o estabelecimento da igreja
reformada holandesa no Nordeste do Brasil, correram 73 anos.
A próxima tentativa dessa natureza demorou mais de 183 anos
i .

I 98
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

para ocorrer, quando ocorreram as imigrações alemã e suíça.


Os primeiros missionários vindos com intuito evangelístico só
chegaram de fato em 1855, ou seja, 225 anos depois. Portanto,
houve um período de ausência das igrejas protestantesnas terras
brasileiras.
Muitas foram as razões, para essa omissão. Mesmo tendo
o protestantismo conquistado definitivamente seu direito de
existir após o fim da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), a
situação ainda era difícil. As grandes porções da América do Sul
estavam nas mãos da Espanha e de Portugal, nações católicas,
mima época em que religião e Estado se confundiam. Mesmo
na ala protestante, a noção de que a religião do rei deveria ser a
religião do povo prevalecia, e a religião somente acompanhava
os empreendimentos estatais. Além desses fatos, a experiência
com os holandeses endureceu o coração da liderança católica e
da Inquisição aumentassem e que todo estrangeiro fosse proibi­
do de entrar no país. Mesmo com o grande mover missionário
iniciado na Inglaterra a partir do fim do século XVIII e início
do XIX, o Brasil não parecia um campo propício para missões
evangelizadoras, preferindo-se para o trabalho missionário as
regiões da Ásia (Crespin, 2006).
Sobre as missões, temos o importante registro de Henry
Martim, missionário que, quando rumava para o seu campo na
índia, passou alguns dias em Salvador, na Bahia. Ele escreveu
em seu diário, segundo Reily (2003, p. 49): “Que missionário
será enviado para trazer o nome de Cristo a estas regiões ociden­
tais? Quando será que esta terra será libertada da idolatria e do
cristianismo espúrio? Há cruzes em abundância; mas quando
será levantada a doutrina da cruz?”

1
2.2 0 início da semeadura
(século XIX)
Mesmo sendo descrito como o “grande século das missões pro­
testantes” no Brasil, o século XIX representa apenas o início
de um trabalho árduo. Com quase quatro séculos de hegemo­
nia católica, em uma estrutura religiosa estatal, não seria fácil
introduzir neste país a religião protestante. Ainda assim, alguns
acontecimentos colaboraram para issq. A terra foi arada e mais
tarde estaria apta para uma maior semeadura e para uma grande
colheita, conforme veremos a seguir.

2.2.1 A família real portuguesa e a ação


da Inglaterra
Ao chegar aqui, uma das primeiras atitudes de Dom João VI
foi abrir os portos brasileiros para as nações amigas, sendo a
preferência da Inglaterra. Pelo Tratado de 1810, os ingleses que
aqui residiam ganharam liberdade para realizar seu culto sem
serem molestados, desde que não fizessem prosélitos, os templos
não parecessem igrejas e seus praticantes não perturbassem a
boa ordem pública. Ainda que pequeno, esse passo seria uma
importante abertura para a ação protestante, somada a outras
q u e se se g u ir a m (G ira ld i, 2008).
Também por via inglesa, a Bíblia na língua portuguesa,
traduzida por João Ferreira de Almeida, entrou no país. Já em
1814, a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira introduziu
discretamente as Escrituras no Brasil, a bordo de navios portu­
gueses que para cá se dirigiam (Giraldi, 2008).
fOO
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

2.2.2 A colonização alemã e os luteranos


Menos de dois anos após a proclamação da independência do
Brasil, começaram a chegar as primeiras levas de alemães lute­
ranos. A maior parte deles sé dirigiu ao Rio Grande do Sul, mas
alguns se estabeleceram em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro
(César, 2000).
Essas ações não constituíam ainda um evento missionário:
os ministros religiosos que aqui vieram destinavam-se apenas
a atender às necessidades de sua comunidade. De fato, não
houve qualquer esforço missionário por parte dos colonos, que
permaneceram fechados em torno de si mesmos, tânto cultural
quanto espiritualmente (César, 2000).
Ainda assim, os eclesiásticos existentes recebiam proventos
do Estado, à semelhança do que já acontecia com os padres
católicos romanos. Essa atitude mostrava uma transformação no
quadro religioso do Brasil. Já não se podia afirmar que éramos
um país estritamente católico, pois, mesmo que os brasileiros
vivessem sob restrições religiosas de diversas naturezas, novos
ventos já sopravam no Brasil.

j
2.2.3 As primeiras tentativas missionárias
A ação missionária para o Brasil teve início em 1855, exatos 355
anos depois de seu achamento. Geralmente, os missionários
eram anglo-americanos, habitantes dos Estados Unidos, mas de
origem inglesa. O movimento começou com os congregacionais,
! depois vieram os presbiterianos, os metodistas, os batistas e,
por fim, os episcopais, em 1889 (César, 2000).
/O/ !' - '!

História da Igreja no Brasil


Em geral, os missionários eram homens dedicados, piedo­
sos e com boa cultura teológica. Alguns podem ser descritos
como “bivocacionados”, ou seja, religiosos que, além da voca­
ção missionária exerciam trabalhos como médicos, educadores,
agrônomos, escritores, entre outros. Esses missionários funda­
ram igrejas, escolas, hospitais, seminários, institutos bíblicos,
clínicas, jornais e editoras, colocaram a Bíblia na mão do povo,
lutaram em favor da liberdade religiosa no país e obrigaram
a igreja católica a reconhecer e respeitar a diversidade (César,
2000; Giraldi, 2008).
Não bá dados exatos sobre o número de missionários que vie­
ram para o Brasil. Sabe-se que somente a igreja presbiteriana do
Sul dos Estados Unidos enviou 65 missionários. Destes, 47 eram
casados e 18 eram solteiros. Entre os solteiros, havia 5 homens
e 13 mulheres. Essa é apenas uma amostragem dos primórdios
do esforço missionário no Brasil (César, 2000; Giraldi, 2008).
Nesse período inicial das missões no Brasil, geralmente é
omitido o nome de Robert Reid Kalley, um missionário congre-
gacional que chegou ao Rio.de Janeiro em 1855. Devido a sua alta
posição cultural e econômica, Kalley teve acesso à elite brasileira
nos tempos do império, batizando inclusive membros da nobreza.
O próprio Imperador Dom Pedro II chegou a freqüentar a casa do
religioso. No mesmo ano em que chegou à então capital do pais,
o imperador fundou uma escola dominical que funcionava em na
luxuosa residência do missionário (César, 2000; Giraldi, 2008).
Quando veio para o Brasil, Kalley trouxe com ele alguns
irmãos de religião, da Ilha da Madeira, que o ajudaram princi­
palmente no trabalho de colportagem (venda de Bíblias), muito
-comum nesses primeiros tempos de evangelização. Embora
fosse um congregacional de origem presbiteriana, o missionário
/02
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

escocês era alheio a denominacionalismos e fórmulas rígidas de


credos. A Igreja Evangélica Fluminense, pnr ele fundada, veio a
ser a matriz da União das Igrejas Evangélicas Congregacionais
do Brasil (César, 2000; Giraldi, 2008).

2.2.4 A chegada dos presbiterianos


A vinda dos presbiterianos está ligada à história de Ashbel Green
Simonton, que chegou ao Brasil em 1959 e permaneceu aqui por
apenas sete anos, mas cuja dedicação tornou esse tempo bastante
frutífero. Desembarcou no Rio de Janeiro ainda solteiro, após
ter se formado no seminário de Princeton (Estados Unidos) e
ser ordenado ao ministério.
No curto período em que permaneceu no Brasil, Simonton
fundou a primeira igreja presbiteriana (hoje, Catedral
Presbiteriana do Rio de Janeiro), o primeiro jornal presbite­
riano (Imprensa Evangélica), o primeiro presbitério, a primeira
escola paroquial e o primeiro seminário. Recebeu, em média,
dez profissões de fé por ano, escreveu sermões e poesias em por­
tuguês e participou da ordenação do primeiro pastor brasileiro,
o ex-padre José Manuel da Conceição, o qual foi uma grande
aquisição para a igreja protestante no Brasil. Simonton morreu
no Brasil, de febre amarela, aos 34 anos de idade (César, 2000;
Giraldi, 2008).

2.2.5 As investidas m etodistas


Os metodistas, por seu forte ardor missionário, já tinham rea­
lizado uma primeira empreitada no Brasil na primeira metade
r.

História da Igreja no Brasil


do século XIX. Justus Spauding veio para o Brasil em 1836,
e Daniel Kidder, em 1837. Com a morte da esposa, em 1840,
Kidder voltou aos Estados Unidos; Spauding foi embora ao final
de 1941, deixando uma Congregação de 40 membros. Após esses
eventos, em razão de problemas denominacionais e por causa da
Guerra Civil Americana (1861-1865) e a recessão que ela trouxe,
os metodistas demoraram mais 25 anos para retornar ao Brasil.
Em 1867, o cinqüentenário Junius E. Newman recomeçou
o trabalho em terras brasileiras e permaneceu por 24 anos, ten­
do trabalhado a maior parte do tempo em Saltinho, próximo
a Campinas, junto aos colonos americanos que aqui estavam.
Morreu em 1898, aos 66 anos de idade.
O quarto missionário metodista chegou ao Brasil em 1876,
isto é, 22 anos depois de Newman. Chamava-se John James
Ranson e tinha apenas 22 anos. Meses depois de chegar ao Brasil,
Ranson perdeu a esposa, vítima de febre amarela, e casou-se
novamente 4 anos depois. Embora tenha vivido até os 80 anos,
permaneceu por apenas 10 anos e meio no Brasil. Fundou o
jornal M eth o d ista Catholico, que no ano seguinte receberia o nome
de E x p o sito r C ristã o e que, até hoje, é o órgão oficial da igreja
metodista no Brasil.
O quinto missionário metodista, James William Koger,
chegou ao Brasil em 1881, aos 29 anos de idade. Do mesmo
modo que o presbiteriano Simonton, Koger morreu de febre
amarela aos 34 anos de idade. Conseguiu, contudo, uma gran­
de proeza: recebeu autorização para construir, em São Paulo,
o primeiro templo protestante com aparência externa de templo.
Até a proclamação da República do Brasil, em 1889, somente os
edifícios católicos dispunham desse direito.
m
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

O primeiro pastor metodista brasileiro chamava-se Bernardo


de Miranda e foi batizado por Roger no dia da organização da
Igreja Metodista de São Paulo, em 1884. Bernardo de Miranda
foi ordenado pelo bispo Granbery em agosto de 1890, teve ape­
nas seis meses de ministério e faleceu em seguida. N a verdade,
a morte, geralmente por febre amarela, atingiu a igreja metodista
mais do que outras denominações.

2.2.6 A chegada dos batistas


O trabalho batista começou com dois casais que atenderam ao
convite de imigrantes americanos radicados em São Paulo: Anna
e William Bagby vieram primeiro e, no ano seguinte, chegaram
Zacarias e Kate Taylor (César, 2000; Giraldi, 2008).
O casal Bagby chegou ao Rio de Janeiro em 2 de março de
1881, sem conhecer pessoa alguma. Ainda assim conseguiram
fazer contatos e terminaram por se estabelecer primeiramente
em Santa Bárbara d’Oeste, onde começaram a aprender a lín­
gua portuguesa. Seguiram depois para Campinas, indo para o
Colégio Presbiteriano, a fim de continuar os estudos da língua
e prestar auxílio à instituição (César, 2000; Giraldi, 2008).
Em 1882, chegou o casal Taylor, que, terminado o aprendiza­
do da língua, decidiu ir para a Bahia, onde não havia nenhuma
igreja evangélica. Um brasileiro e sua família seguiram com
o casal. Tratava-se de um ex-padre, convertido pela pregação
da igreja metodista, que havia se mudado para Santa Bárbara
d’Oeste (César, 2000; Giraldi, 2008).
Assim, em 15 de outubro de 1882, o casal Taylor fundou a
primeira igreja batista da Bahia, com 5 membros. Em dezembro
de 1883, havia 25 membros e 35 alunos matriculados na escola
dominical dessa congregação (César, 2000; Giraldi, 2008).
História da Igreja no Brasil
Após dois anos na Bahia, o casal Bagby resolveu se mudar
para a capital do império, Rio de Janeiro, onde repetiram o
mesmo sistema para iniciar o trabalho. Apesar da ajuda de
outros missionários, a obra na metrópole carioca não cresceu
muito. Após 18 anos, mudaram-se novamente, desta vez para
São Paulo (César, 2000; Giraldi, 2008).
Anna Bagby já havia terminado a educação dos filhos e
queria tomar parte mais ativa no trabalho. Assim, por meio de
seu esforço, foi iniciado o Colégio Batista Progresso Brasileiro,
em 1902, com 70 alunas matriculadas. Em 1910, a religiosa
entregou o colégio à junta de educação e ele passou a ser chama­
do Colégio Batista Brasileiro, localizado no Bairro de Perdizes.
Anna Bagby faleceu em 1942, três anos após seu marido, Willian
(César, 2000; Giraldi, 2008).

2.3 A explosão evangélica no


século XX
Estando as bases evangélicas lançadas no solo brasileiro, no
século XX o país abrigou um movimento que, tendo se iniciado
nos Estados Unidos, espalhou-se por todo o território brasileiro,
o movimento pentecostal.
Inspirado com Charles Fox Parham, a partir de 1906, hou­
ve o que se chamou de Movimento da Rua Azuza (avivamento
pentecostal nos Estados Unidos), em Los Angeles. Nessa época,
a experiência do batismo com o Espírito Santo e os dons espi­
rituais ganhavam força no Brasil (César, 2000; Giraldi, 2008).
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

É inegável que a entrada do movimento pentecostal brasi­


leiro, por meio do trabalho das igrejas Assembléias de Deus e
outras denominações, produziu um crescimento significativo da
igreja evangélica. A prova disso é que as maiores denominações
são pentecostais, enquanto outras igrejas mais tradicionais, mais
tarde, passaram por uma experiência dê renovação,
Ainda assim, não podemos falar de um crescimento evangé­
lico expressivo na primeira metade do século XX. Nesse período,
tanto as igrejas históricas quanto as pentecostais tiveram um
desenvolvimento lento, mas constante, embora dentro de um
percentual baixo. Foi na última metade do século XX que esse
crescimento se acelerou, não somente nas igrejas “importadas”,
mas também por meio das denominações que nasceram em solo
brasileiro. Esse fato contribuiu para tornar a igreja brasileira uma
das maiores do mundo (César, 2000; Giraldi, 2008).

2.3.1 Os primeiros pentecostais


O movimento pentecostal brasileiro realizou sua primeira reu­
[ nião oficial em janeiro de 1901, em uma reunião de oração no
Colégio Bíblico Betel em Topeka, Kansas. Ali, muitos chega­
ram à conclusão de que falar em línguas era o sinal bíblico do
batismo no Espírito Santo. Charles Parham foi o fundador dessa
escola, que mais tarde passaria a Houston, Texas (César, 2000;
Giraldi, 2008).
Apesar da segregação racial em Houston, W illiam J.
Seymour, um pregador negro, foi autorizado a assistir a aulas
bíblicas de Parham. Seymour viajou para Los Angeles, onde
sua pregação promoveu o Avivamento da Rua Azusa, em 1906.
História da Igreja no Brasil
Apesar do trabalho de vários grupos wesleyanos avivalistas,
como os de Parham e Dwight L. Moody, o início do movimento
Pentecostal difundido nos Estados Unidos é geralmente consi­
derado como tendo começado com Seymour no avivamento da
Rua Azusa. A partir dali, saíram diversos líderes para vários
lugares do mundo, fundando igrejas dentro dos mesmos prin­
cípios estabelecidos (César, 2000; Giraldi, 2008).

Congregação Cristã no Brasil


Ainda que seja apontada por boa parte da liderança evangélica
como nma seita, ou pelo menos como um movimento contra­
ditório, a verdade é que a Congregação Cristã no Brasil é con­
siderada por alguns como a primeira igreja pentecostal que se
estabeleceu no país.
Louis Franscescone, um ítalo-americano ligado à primeira
igreja Presbiteriana de Chicago, teve contato com o Movimento
da Rua Azuza, assim como os futuros fundadores da Assembléia
de Deus, embora essas igrejas apresentem características bas­
tante distintas.
Em março de 1910, tendo primeiramente freqüentado a
igreja Presbiteriana do Braz, Francescone desligou-se dela e,
juntamente com Giacomo Lombardi e Pietro Ottolini, iniciou a
Congregazione Christiana. As pessoas que fizeram parte desse
núcleo inicial eram geralmente de origem italiana. Entre eles
havia dissidentes batistas, presbiterianos, metodistas e católicos.
Dessa forma, o movimento pentecostal se iniciou no Brasil,
pouquíssimo tempo antes da chegâda dos missionários suecos.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Assembléia de Deus
Em novembro de 1910, um navio de nome Clement, que veio
de Nova Iorque, chegou ao Pará trazendo a bordo dois homens
que seriam os responsáveis pela maior denominação brasileira:
os suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren.
Chegando ao Pará, os missionários filiaram-se à igreja
batista. Logo depois, devido a pressões, desligaram-se desse gru­
po e, com simpatizantes da experiência pentecostal, fundaram
a Missão da Fé Apostólica, no dia 18 de junho de 1911. Esse
nome era utilizado por Seymour, um dos líderes da Rua Azuza
em Los Angeles. O nome Assembléia de Deus só seria adotado
seis anos e meio depois, em janeiro de 1918.
Ao contrário das igrejas históricas que se estabeleceram
mais ao sul do país e depois subiram para outras regiões,
a Assembléia de Deus, tendo iniciado no Pará, somente mais
tarde chegou ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Logo se tornou
a maior denominação do país, com cerca de 22 mil templos
espalhados por todo o território nacional. O número de fiéis é
estimado em torno de 8 milhões.

Missão Evangélica Pentecostal dó Brasil


O terceiro grupo pentecostal, a Missão Evangélica Pentecostal
do Brasil (MEPB), foi organizado pelo missionário americano
Harland Graham e pelo canadense Harold Matson. A princípio,
eles não tinham o objetivo de estabelecer uma denominação, o
que acabou acontecendo, de qualquer forma.
Os missionários chegaram ao Brasil em 1939, na cidade de
Manaus, capital do Amazonas. Entretanto, o trabalho dos dois
não teve início com membros de outras denominações, mas
/o?

História da Igreja no Brasil


iniciou-se com o do evangelismo e o discipulado, Apesar de
menos expressiva do que as duas primeiras denominações que
vimos anteriormente, a MEPB não pode ser esquecida dentro
da historiografia evangélica pentecostal do Brasil.

Igreja do Evangelho Quadrangular .


A próxima importante denominação é a Igreja do Evangelho
Quadrangular, que chegou ao Brasil somente em 1951, vinda
dos Estados Unidos, onde foi fundada por uma jovem canadense
chamada Aimme Semple McPherson. O nome da igreja deriva
da interpretação de sua fundadora para os rostos dos quatro
seres viventes que o profeta Ezequiel teria visto no início de seu
ministério. Eles seriam quatro ângulos do ministério de Jesus:
1) Ele salva; 2) Ele cura; 3) Ele batiza com o Espírito Santo;
4) Ele há de voltar.
O fundador da igreja quadrangular no Brasil foi o ex-ator
de filmes de faroeste Harold Willians, que já havia tido uma
experiência missionária na Bolívia durante nove meses. Após
uma longa viagem, os missionários desembarcaram em Santos,
seguindo depois para Poços de Caldas, no sul de Minas. Após
viajar por todo o país a fim de conhecê-lo melhor, Willians
completou 33 anos de idade.
Os quatro primeiros anos desse missionário no Brasil não
foram muito produtivos: dois anos em Poços de Caldas e dois
anos em São Paulo, no bairro de São João da Boa Vista. Fundou
então a igreja Evangélica do Brasil, de doutrina quadrangular,
mentora da Cruzada Nacional de Evangelização. Em 1958, sete
anos depois, a Igreja Evangélica do Brasil mudou de nome e
passou a ser chamada de Igreja do Evangelho Quadrangular, assim
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como ocorreu nos Estados Unidos. A partir de então, o trabalho


dessa igreja teve um crescimento significativo, principalmente
nos estados de São Paulo e Paraná.
A Igreja do Evangelho Quadrangular deu bastante ênfa­
se ao trabalho com tendas. A necessidade surgiu pelo fato de
Willians ter trazido ao Brasil o evangelista e pregador de curas
divinas Raymond Boatright. Com o apoio da igreja presbiteriana
independente e da igreja metodista, Willians e Boatright foram
para a região de Araçatuba, Presidente Prudente e Americana,
no interior de São Paulo. Os lugares disponíveis para reunião
do povo se tornaram por demais pequenos e, por isso, Willians
foi para os Estados Unidos e trouxe uma tenda de 1.200 lugares
que foi usada pela primeira vez em 1954, no bairro do Cambuci,
em São Paulo. Em pouco tempo, os missionários já dispunham
de cerca de 300 ministros ordenados, e cada um deles recebeu
uma tenda e um sistema de autofalante para realizar um traba­
lho itinerante.
Uma das grandes contribuições dessa denominação pen-
tecostal foi o fato de que, diferentemente das demais, ela deu
ênfase ao preparo bíblico e teológico dos obreiros. Outro des­
taque dessa denominação é o espaço concedido ao ministério
feminino. Talvez pelo fato de ter uma mulher como fundadora,
boa parte das igrejas do Evangelho Quadrangular são condu­
zidas por pastoras.

Exército de Salvação
Seria uma omissão deixarmos de citar a chegada do Exército de
Salvação ao Brasil, trabalho fundado por William Booth, um
pastor metodista inglês, em 1865. Os primeiros missionários
I
História da Igreja no Brasil
dessa denominação chegaram a terras brasileiras no ano de 1922
e, ao contrário do que aconteceu com outros grupos, realizaram
um trabalho com missionários de diferentes nacionalidades.
Havia oficiais (denominados ministros) suecos, ingleses, dina­
marqueses, alemães, canadenses, noruegueses, australianos, neo­
zelandeses, norte-americanos, japoneses, chilenos e argentinos.
Com forte ênfase no trabalho social, o Exército de Salvação
trabalhou muito em zonas de meretrício. Era muito comum
ver jovens e adolescentes percorrendo os bairros sombrios das
grandes cidades, entrando em bares e outros lugares escusos,
para divulgar o jornal Brado de Guerra, hoje chamado de Rumo.
O casal David e Stelle Miche, pioneiros desse trabalho, per­
maneceram no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, por pouco
tempo, apenas de maio de 1922 até agosto de 1928. David já esta­
va com 61 anos de idade quando retornou à Suíça, por motivos
de saúde, falecendo no país europeu dez anos mais tarde. Mesmo
com o regresso do casal pioneiro a sua terra natal, o trabalho
do Exército de Salvação prosseguiu frutífero, contando com o
apoio dos convertidos.
Embora a instituição não pertença ao grupo pentecostal, foi
incluído aqui por ter sido uma das últimas grandes denomina­
ções que vieram ao Brasil, Não podemos deixar de mencionar
que esse grupo, com sua ênfase no trabalho social, permanece
como nma das maiores instituições filantrópicas do mundo,
além de se destacar por seu zelo evangelístico e missionário. ['
i
Outras denominações
í
Com certeza, outros trabalhos merecem ser lembrados como j
importantes instrumentos de Deus para o estabelecimento das j
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia //2

religiões protestantes em nossa nação. Entre eles, podemos citar


a Igreja Cristã Nova Vida no Brasil e a Igreja do Nazareno.
A Igreja Cristã Nova Vida é fruto do ministério do Bispo
Robert McAlister, canadense que chegou ao Brasil em 1960, no
Rio de Janeiro. Oriundo do pentecostalismo clássico e filho de
pastores, sua origem religiosa está na Assembléia Pentecostal do
Canadá. O Bispo Robert foi missionário em vários lugares do
mundo e pregou no Brasil em 1958 e 1959 a convite das igrejas
Assembléia de Deus e do Evangelho Quadrangular.
O ministério do Bispo Robert iniciou-se no Rio de Janeiro,
por meio de um programa de rádio, a “Voz de nova vida”. Em
1961, foi realizado o primeiro culto na sede da Associação
Brasileira de Imprensa (ABI), no centro da cidade. A partir de
então, o crescimento da Igreja Cristã Nova Vida foi constante.
A Igreja do Nazareno é uma denominação centenária de
nível internacional surgida durante o Movimento de Santidade,
ocorrido na Europa e América do Norte ao longo do século XIX.
A Igreja do Nazareno tem como base os princípios do
wesleyanismo e do metodismo, sendo que em algumas regiões
seus membros são referidos como nazarenos. Em 2008, o número
de membros já ultrapassava a marca de 1,8 milhão, em 23 mil
templos diferentes, em 155 lugares do mundo.
O primeiro culto da Igreja do Nazareno no Brasil foi rea­
lizado no dia 12 de outubro de 1958, em Campinas, quando a
denominação celebrava 50 anos. Participaram desse evento três
famílias americanas, os Mosteller, os Gates e os Stegmoller, e
alguns brasileiros. Logo vieram outros americanos e cabover-
dianos, formando assim o embrião que lideraria por anos os
caminhos da igreja recém-nascida. O esforço dos missioná­
rios americanos e caboverdianos, no final dos anos 1960 foi
U3 !

História da Igreja no
fu n d a m e n ta l p á ra a im p la n ta ç ã o d e ssa d e n o m in a ç ã o e m terras
b ra sileir a s, m a s f o i n a fig u r a d e u m h o m e m , o P a sto r A g u ia r
V a lv a sso u r a , q u e a d e n o m in a ç ã o e x p e r im e n to u c r e s c im e n to

numérico e fortalecimento.
Em Campinas, Valvassoura conseguiu transformar uma
igreja de 225 membros em uma comunidade de 7 mil pessoas.
O religioso não apenas construiu creches para crianças caren­
tes, viabilizou a construção de acampamentos para jovens e
adolescentes, instalou um colégio e uma faculdade, mas ainda
conduziu a multiplicação de novos trabalhos que garantiram
saúde e crescimento ao distrito paulista, tendo estabelecido a
Igreja do Nazareno como uma das três maiores denominações
em todo o mundo.

2.3.2 As prim eiras igrejas nativas


Na segunda metade do século XX, surgiram as primeiras deno­
minações brasileiras, originadas geralmente nos círculos pente-
costais. Alguns desses grupos cresceram de forma espantosa, hoje
são grandes denominações com centenas ou mesmo milhares
de igrejas espalhadas pelo país e no exterior. A tendência geral
desses trabalhos foi desenvolver-se com base no carisma de um
líder, embora nem sempre tenha sido assim. De qualquer forma,
essas denominações foram importantes acréscimos à igreja cristã
protestante brasileira (César, 2000; Giraldi, 2008).

Igreja Evangélica Avivamento Bíblico


De modo oficial, podemos dizer que a Igreja Evangélica
Avivamento Bíblico nasceu no dia 7 de setembro de 1946, em
//4
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

meio aos eucaliptos que, havia no pátio aos fundos da Faculdade


de Teologia da Igreja Metodista do Brasil, em Rudge Ramos,
município de São Bernardo do Campo, caracterizando-se como
a primeira denominação pentecostal brasileira. A próxima deno­
minação, O Brasil Para Cristo, nasceu somente em 1955, nove
anos depois.
Um grupo de irmãos metodistas das igrejas de Tucuruvi e Vila
Mazzei, bairros da capital paulista, acreditavam no batismo com
o Espírito Santo como uma experiência pessoal (e muitos deles
já haviam experimentado tal plenitude); reunidos na, faculdade,
juntamente com os então seminaristas Mário Roberto Lindstron,
Oswaldo Fuentes e Alídio Flora Agostinho, resolveram continuar
a obra iniciada no seio da igreja, sob qualquer circunstância.
Esse grupo de irmãos era conhecido como grupo de clamor
porque orava intensamente por reavivamento no seio da igreja e
pregava a experiência da santificação e do batismo no Espírito
Santo como uma grande necessidade para os crentes. Tornou-se
um grupo muito ativo em Tucuruvi e Vila Mazzei, entretanto,
como era previsto, não foi tolerado por muito tempo e teve de sair
da igreja e se organizar, pretendendo ser mais um movimento
do que uma denominação. O grupo escolheu um nome que o
caracterizava, Igreja Evangélica Avivamento Bíblico, denomi­
nação que permanece até os dias atuais.

0 Brasil para Cristo

A Igreja O Brasil para Cristo foi iniciada por Manoel de Mello e


Silva, um trabalhador da construção civil que veio a São Paulo
do sertão pernambucano, foi membro da Igreja Assembléia
de Deus e participou por algum tempo depois da Cruzada
História da Igreja no Brasil
N a c io n a l d e E v a n g e liz a ç ã o (m a is ta rd e Ig r eja d o E v a n g e lh o
Q uadrangular). F o i o rd en ad o m in istr o p e la In tern a tio n a l C hurch
o f t h e F ou rsq u a re G o sp e l, igreja e s ta d u n id e n se q u e o r g a n iz o u
o s tra b a lh o s m issio n á r io s q u e fu n d a r a m a ig reja Q u a d r a n g u la r

n o B rasil.
Em 1955, Manoel teria tido uma visão de Jesus Cristo para
iniciar um trabalho de evangelização, reavivamento espiritual
e cura divina. A Igreja O Brasil para Cristo cresceu na maior
parte em áreas pobres e operárias da zona leste de São Paulo e
alcançou destaque entre as denominações pentecostais do Brasil,
ainda que seja timidamente representada no exterior.
E s s e m o v im e n t o d e u o r ig e m a p e lo s m e n o s d u a s o u tr a s
d e n o m in a ç õ e s p en te c o sta is: a Igreja P e n te c o s ta l D e u s é A m o r

e a Igreja Casa da Bênção.


Manoel de Mello deixou a direção de sua igreja em 1986 e
morreu em maio de 1990. Após a morte de seu fundador, a Igreja
O Brasil para Cristo perdeu seu ímpeto inicial e parte dos mem­
bros migrou para igrejas neopentecostais. Dessa forma, houve
significativa redução de seguidores (a Brasil para Cristo chegou
a agregar 1 milhão de pessoas na década de 1970), contando,
atualmente, com 4 mil congregações compostas por 400 mil
membros no Brasil, além de estar presente em países como
Paraguai, Bolívia, Peru, Chile, Uruguai, Argentina, Portugal
e Estados Unidos.

Igreja Casa da Bênção


A Igreja T a b er n á c u lo E v a n g é lic o d e J esu s (Itej) é u m a d e n o m i­
n a ç ã o e v a n g é lic a p e n te c o s ta l q u e a tu a lm e n te c o n ta c o m a p ro ­
x im a d a m e n te 140 m il m e m b r o s e é m a is c o n h e c id a c o m o Casa
m
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

da Bênção. E mais presente nos grandes centros urbanos do que


nas pequenas cidades do Brasil.
O primeiro culto foi realizado em junho de 1964, na Praça
Yaz de Melo, Belo Horizonte, por Doriel de Oliveira. Esse foi
o primeiro culto oficial, pois Doriel já tinha realizado vários
cultos como ministro da Igreja O Brasil para Cristo. Os segui­
dores se reuniram por cinco meses na praça até arranjarem um
templo. O crescimento da Igreja Casa da Bênção foi investigado
pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e alguns
pastores foram presos no período da ditadura militar.
Em 1969, o líder da Casa da Bênção decidiu ir para Brasília
instalar uma nova sede. Nessa época, a denominação já contava
com 40 congregações em toda a região de Belo Horizonte. Então,
em maio de 1970, o casal Oliveira e mais quinhentos membros
partiram para Brasília.
Após se estabelecerem em Taguatinga, cidade-satélite de
Brasília, foi construído o primeiro templo e, em 1983, deu-se
o trabalho para a construção da sede mundial, a Catedral da
Bênção, inaugurada em 1985, com capacidade para 5 mil pessoas.

Igreja Pentecostal Deus é Amor


A Igreja Pentecostal Deus é Amor (IPDA) é uma denomina­
ção evangélica brasileira originária da segunda onda do pente-
costalismo, fundada em 1962 pelo missionário David Martins
Miranda.
A quantidade de membros da IPDA foi estimada em mais
de 774 mil, de acordo com o Censo 2000, feito pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2015), distribuídos
em 11 mil templos, o que torna essa denominação a quinta maior
I

igreja em número de membros do ramo pentecostal no Brasil,


ficando atrás da Assembléia de Deus, da Congregação Cristã
no Brasil, da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja do
Evangelho Quadrangular.
Oficialmente, a IPDA foi fundada em 3 de junho de 1962,
tendo nessa data sido registrada como pessoa jurídica em cartó­
rio e passando a existir oficialmente perante a lei. Mas, de fato,
essa igreja foi iniciada alguns meses antes, em março de 1962.
A IPDA se caracteriza por sua rigidez nos costumes, por seu
conservadorismo, mantendo os padrões dos primeiros grupos
pentecostais da primeira metade do século XX.

2.3.3 Os m ovim entos de renovação


Nas décadas de 1960 e 1970, houve no Brasil uma onda de avi-
vamento que atingiu principalmente as denominações históri­
cas. Presbiterianos, batistas, metodistas e mesmo o Exército de
Salvação foram influenciados pelo movimento pentecostal. EsSe
fato deu origem a diversas denominações, entre elas, a Igreja
Presbiteriana Renovada e a Igreja Batista Renovada, tendo ainda
atingido outras igrejas históricas.
Nem sempre o resultado desse avivamento foi a criação
de outras denominações, embora o cisma possa ser apontado
como um procedimento comum. Esses cismas ocorreram geral­
mente pela rejeição da experiência por parte da liderança das
denominações. Os grupos que haviam experimentado o aviva­
mento não viam opção senão o desligamento. Em alguns casos,
porém, como no Exército de Salvação, grupos carismáticos ou
m
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

pentecostais passaram a conviver lado a lado com grupos que


rejeitavam a experiência de renovação.

2.3*4 As igrejas neopentecostais


O neopentecostalismo é uma vertente do evangelicalismo que
congrega denominações oriundas do pentecostalismo clássico
ou mesmo das igrejas cristãs tradicionais (batistas, presbiteria­
nas etc). As igrejas neopentecostais surgiram 60 anos após o
movimento pentecostal do início do século XX, também nos
Estados Unidos.
Diferentemente do primeiro grupo de pentecostais que
davam muita ênfase ao falar em línguas e profecias, o grupo
neopentecostal enfatizou a cura divina e o exorcismo. Outras
características dos grupos neopentecostais que merecem desta­
que são a rejeição aos costumes rígidos dos primeiros pentecos­
tais e a adesão à chamada teologia da prosperidade (César, 2000;
Giraldi, 2008).
Dentro do grupo neopentecostal, podemos inserir principal­
mente a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional
da Graça de Deus e a Igreja Renascer em Cristo, sobre as quais
trataremos a seguir. Entretanto, a partir da criação dessas igrejas,
o estilo de culto e pregação passou a ser imitado por outras deno­
minações mais tradicionais ou considerado integralmente como
modelo para novas denominações (César, 2000; Giraldi, 2008).

Igreja Universal do Reino de Deus


A Igreja Universal do Reino de Deus (lurd) foi fundada em 1977,
quando Edir Macedo, com o apoio de Romildo Ribeiro Soares,
História da Igreja no Brasil
decidiu criar sua própria igreja. Após a criação da instituição,
Soares desligou-se da Iurd e fundou a Igreja Internacional dã
Graça de Deus. Ambos eram membros da Igreja Cristã Nova
Vida antes de fundarem a Iurd.
A Iurd foi criada a partir de reuniões ao ar livre (chamadas
de Cruzada para o Caminho Eterno) realizadas por Edir Macedo.
Mais tarde, as reuniões passaram a ocorrer em um antigo cinema
(Bruni Méier) e, ainda depois, em outro cinema (Ridan). Em
9 de julho de 1977, nasceu oficialmente a Iurd (a princípio sob
o nome de Igreja da Bênção). Nessa época, a igreja estava sediada
em um galpão na antiga Avenida Suburbana, hoje Avenida Dom
Hélder Câmara, zona norte do Rio de Janeiro. Três anos depois,
foi aberto o primeiro templo nos Estados Unidos. Atualmente,
a sede da Iurd é a Catedral Mundial da Fé, também conhecida
como Templo da Glória do Novo Israel, localizada na zona norte
do Rio de Janeiro, e há outra sede no Templo de Salomao, no
bairro paulistano do Brás.
Entre 1990 a 1995, a Iurd passou de 900 mil para mais
de 3 milhões de fiéis, possuía mais de 2 mil templos no Brasil
(e 7 mil pastores) e estava presente em 34 países, com 225 tem­
plos nos cinco continentes. A denominação é uma das mais
polêmicas da linha neopentecostal, tanto pelos escândalos finan­
ceiros ocorridos quanto pelo uso de objetos diversos em seus
cultos. Além disso, há uma tendência sincretizante dentro dessa
denominação.

Igreja Internacional d a G r a ç a d e D e u s
A Igreja Internacional da Graça de Deus é uma igreja evan­
gélica neopentecostal fundada pelo missionário Romildo
/20
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Ribeiro Soares (conhecido como Missionário R. R. Soares) em


1980, na Rua Lauro Neiva, no Município de Duque de Caxias,
Rio de Janeiro. Romildo fundou a sua própria denominação
logo após se separar de seu cunhado, na época pastor, Edir
Macedo (hoje bispo).
Atualmente, a Igreja Internacional da Graça de Deus tem
mais de 2 mil templos abertos em todo o mundo. Desse número,
mais de 100 templos estão localizados no Rio de Janeiro, onde
tudo começou. Conta ainda com todo um complexo de comu­
nicação, que inclui um canal aberto de televisão, programas em
outras emissoras, revistas, livros, editora e gravadora.
i

Igreja Renascer em Cristo


A Igreja Renascer em Cristo, uma denominação da linha neo-
pentecostal, foi fundada em São Paulo, em 1986, por Estevam
Hernandes e Sônia Hernandes. A denominação possui nma rede
de televisão, uma gravadora, uma rede de rádio, uma editora e
uma linha de confecções. No Brasil, há cerca de 1.200 templos
e mais de 2 milhões de seguidores. Esses dados tornam a Igreja
Renascer em Cristo a segunda maior denominação neopente-
costal brasileira.
Inicialmente, as reuniões da Igreja Renascer em Cristo eram
realizadas no apartamento do casal Hernandes, sendo poste­
riormente alugado um salão, no piso superior do edifício onde
se encontrava a Pizzaria Livorno, na rua Vergueiro, no bairro
de Vila Mariana, em São Paulo. Com o aumento do número de
membros, foi disponibilizado um espaço na Igreja Evangélica
Árabe de São Paulo, no mesmo bairro. O foco principal eram os
cultos para jovens. Após um rápido crescimento, foi adquirido
História da Igreja no Brasil
um prédio na Avenida Lins de Vasconcelos, onde seria erguida
a sede com capacidade para 5 mil pessoas.
Desde então, a Igreja Renascer em Cristo cresceu de modo
acelerado. Em pouco tempo, já ocupava muitos espaços na mídia.
Entretanto, essa denominação foi alvo de diversas matérias na
imprensa, geralmente destacando escândalos financeiros.

2.4 A igreja brasileira no século XXI


A igreja cristã protestante no Brasil cresceu de forma admirável,
apresentando atualmente várias denominações e diversos grupos
distintos oriundos de várias interpretações bíblicas. Com base
nesse contexto de variadas expressões evangélicas, é fundamen­
tal ter como base dados e características atuais para compreender
as diferentes manifestações litúrgicas e doutrinária da igreja
protestante no Brasil.

2.4.1 Estatísticas brasileiras


O número de evangélicos está atingindo a cifra de 25% da popula­
ção do Brasil, esse país de dimensões continentais, o que significa
algo em torno de 50 milhões de pessoas. Mesmo assim, durante
um bom tempo, a situação da Região Nordeste apresentou o
contraste mais significativo (César, 2000; Giraldi, 2008).
Entre 1980 e 1981, o crescimento populacional da região
Nordeste foi de quase 2%, enquanto o crescimento de evangéli­
cos foi de quase 6%. No período de 1991 a 2000, o crescimento
populacional não chegou a 1,5% e o crescimento do número
f22
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

de evangélicos nesse período chegou a quase 10% (César, 2000;


Giraldi, 2008).
Em um primeiro momento, esses números parecem positivos.
No entanto, à medida que outros números surgem, a perspectiva
das religiões protestantes sugere outro cenário. Por projeção, o
percentual de evangélicos na Região Nordeste atingiu, em 2009,
a casa dos 19,2%. Poderíamos dizer que é um número expressi­
vo, todavia, é o menor percentual das cinco regiões brasileiras,
ficando atrás da Região Sul e abaixo da média nacional, que é
de 25%. Logo, a Região Nordeste é a mais carente (César, 2000;
Giraldi, 2008).
Além disso, dos 11 estados brasileiros que contam com muni­
cípios com população evangélica inferior a 1%, sete deles estão
localizados na Região Nordeste. Se considerarmos os estados
com municípios com menos de 2%, teremos também 11 estados,
sendo 8 deles localizados na Região Nordeste (César, 2000;
Giraldi, 2008).
Portanto, o crescimento e o desenvolvimento da igreja cristã
protestante são realidades. O Brasil, com suas dimensões conti­
nentais, apresenta várias formas de desenvolvimento dessa igreja;
é necessário entender a dimensão desse movimento para poder
contribuir de forma objetiva e prática para seu aprimoramento
e para sua consolidação.

2.4.2 Aspectos positivos da igreja


brasileira
Talvez o aspecto mais positivo da igreja cristã protestante no
Brasil seja seu crescimento. Alguns a colocam como a terceira
maior igreja do mundo. De fato, são inúmeras as denominações
e igrejas evangélicas. Elas variam em tamanho, desde pequenas
congregações em áreas rurais e subúrbios, até megaigrejas nas
grandes capitais.
Esse crescimento também está presente em outras esferas
em que o trabalho cristão protestante contribui para a divul­
gação das denominações: escolas, universidades, estações de
televisão, rádios, organizações filantrópicas, revistas, jornais,
editoras, gravadoras etc.
A distribuição de Bíblias no Brasil também é outro fator que
merece destaque. A Sociedade Bíblica do Brasil chega a distri­
buir cerca de 1 milhão de Bíblias anualmente, uma associação
missionária chega a distribuir 10 milhões de Novos Testamentos,
isso sem falar no trabalho de inúmeras editoras de grande e
médio portes.

2.4.3 Aspectos negativos da igreja


brasileira
Infelizmente, há aspectos negativos que precisam ser levados
em consideração no que se refere à igreja protestante no Brasil,
pois muito do crescimento da igreja brasileira é realizado com
carência de ensino teológico, o que produz, às vezes, uma lide­
rança imatura e incapaz de estabelecer os pontos básicos do
Evangelho. Muitas dessas dificuldades já foram superadas com a
criação de seminários e cursos teológicos, inclusive por extensão,
mas as necessidades ainda não foram completamente supridas.
Outro fator preocupante são os numerosos escândalos envol­
vendo autoridades evangélicas, muitas delas ligadas à política.
Í24
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

O ambiente político brasileiro é suscetível a todo tipo de cor­


rupção e os evangélicos nem sempre conseguem se resguardar.
Porém, o desafio ainda permanece em regiões pouco evan-
gelizadas, como as populações ribeirinhas da Amazônia e o
Sertão Nordestino. As comunidades carentes das grandes capi­
tais tornaram-se zonas de grande risco, onde predominam os
cartéis de drogas, assim, torna-se necessário um auxílio para os
moradores dessas comunidades.
Conforme estudamos neste capítulo, a igreja cristã protes­
tante brasileira tem pouco mais de 150 anos e, por esse motivo,
deve ser olhada com respeito pelo seu significativo crescimento
e sua influência. Sendo um campo missionário tardio, os resul­
tados alcançados foram realmente surpreendentes.
Nem sempre esse crescimento se deu de modo sadio, mas
os erros do passado foram pouco a pouco corrigidos e outros
pontos avaliados e trabalhados. Em matéria de campo missio­
nário, o Brasil é hoje abundante, e, apesar do muito que foi feito,
ainda apresenta potencial para se realizarem mais missões, e
além disso, os recursos disponíveis à igreja, sejam financeiros,
sejam humanos, possibilitam que a igreja brasileira tenha grande
impacto no mundo.
Um fato a ser trabalhado ainda de modo mais expressivo é
a questão da unidade. Nos últimos anos, houve uma explosão
incomparável de denominações, nascidas muitas vezes de cis­
mas marcados por conflitos não resolvidos. Observando a igreja
brasileira, e para que ela seja novamente colocada nos trilhos,
muitos fiéis têm sentido que somente um novo avivamento pode­
rá corrigir erros de longa data.
Questionário de História da igreja
no Brasil
1. Como o Brasil ficou conhecido até a primeira metade do
século XX?
2. Como eram chamados os membros da Companhia de Jesus
e que funções caracterizavam seus princípios centrais?
3. Pelo Tratado de 1810, os ingleses que aqui residiam ganha­
ram liberdade para realizar seu culto sem serem molestados.
Quais eram as condições para a realização dos cultos?
4. Por que as primeiras levas de alemães luteranos para o Brasil
não constituíram um evento missionário?
5. Como eram descritos os missionários anglo-americanos que
chegaram no Brasil a partir de 1855?
6. Por que a vinda dos presbiterianos está ligada à história de
Ashbel Green Simonton?
7 Qual foi o grande feito do missionário metodista em 1881?
8. Quais foram as primeiras igrejas pentecostais que se esta­
beleceram no Brasil?
9. Qual denominação deu ênfase ao trabalho social e perma­
nece com uma das maiores instituições filantrópicas do
mundo, além de destacar-se por seu zelo evangelístico e
missionário?
(
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Referências
ATAÍDES, F. M. Simonton: o missionário que impactou o Brasil.
Arapongas: Aleluia, 2008.
CÉSAR, E. M. História da evangelização no Brasil. Viçosa:
Ultimato, 2000.
CRESPIN, J. A tragédia da Guanabara: a história dos primeiros
mártires do cristianismo noBrasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
GIRALDI, L. A. História da Bíblia no Brasil. Barueri: SBB, 2008.
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo
Demográfico 2000. Disponível em: <http://www.ibge.gov.
br/hom e/estatistica/populacao/censo2000/populacao/
censo2000_populacao.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2015.
JOHNSTONE, P.; MANDRYK, J. Intercessão mundial.
Camanducaia: Horizontes, 2003.
MACEDO, C. C. Imagem do eterno: religiões no Brasil. São
Paulo: Moderna, 1991.
PRADO, A. C. A viagem missionária da Companhia de Jesus.
IstoÉ, n. 2261,15 mar. 2013. Disponível em: <http://www.istoe.
com.br/reportagens/283264_A+VIAGEM+MISSIONARIA+
DA+COMPANHIA+DE+JESUS>. Acesso em: 14 jun. 2015.
REILY, D. A. História documental do protestantismo no Brasil.
São Paulo: Aste, 2003.
SOUSA, J. B. de. Metamorphosis e necrosis: notas sobre a igreja
evangélica histórica e pentecostal em solo potiguar. [S.l.]: [s.n.],
2007.
História da Igreja no Brasil
TUCKER, R. A. Até os confins da terra: uma história biográfica
das missões cristãs. São Paulo: Yida Nova, 1989.
VAINFAS, R. Dicionário do Brasil colonial: 1500-1808. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2000.
VAINFAS, R.; NEVES, L. B. P. das. Dicionário do Brasil joanino.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

Respostas
1. Até a primeira, metade do século XX, o Brasil era um campo missionário.
2. Jesuítas, os quais tinham na obediência ao papa, na expansão da igreja
Católica e no combate ao protestantismo seus princípios centrais.
3. Não fizessem prosélitos, os templos não parecessem igrejas e seus prati­
cantes não perturbassem a boa ordem pública.
4. Os ministros religiosos que aqui vieram apenas atenderiam necessidades
de sua comunidade. D e fato, não bouve qualquer esforço missionário por
parte dos colonos, que permaneceram fechados em torno de si mesmos,
cultural e espiritualmente.
5. Em geral, os missionários eram homens dedicados, piedosos e com boa
cultura teológica. Alguns podem ser descritos como “bivocacionados”,
sendo missionários e médicos, missionários e educadores, missionários
e agrônomos, missionário e escritores. Eles fundaram igrejas, escolas,
hospitais, seminários, institutos bíblicos, clínicas, jornais e editoras, colo­
caram a Bíblia na mão do povo, lutaram em favor da liberdade religiosa
no país e obrigaram a igreja católica a reconhecer e respeitar a diversi­
dade religiosa.
6. Ashbel Green Simonton chegou ao Brasil em 1959 e permaneceu aqui
por apenas sete anos, mas sua dedicação tornou esse tempo bastante
frutífero. Desembarcou no Rio de Janeiro ainda solteiro, após ter se
/2S
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

formado no seminário de Princeton (Estados Unidos) e ser ordenado ao


ministério. No curto período em que permaneceu no Brasil, Simonton
fundou a primeira igreja presbiteriana (hoje, Catedral Presbiteriana do
Rio de Janeiro), o primeiro jornal presbiteriano (Imprensa Evangélica), o
primeiro presbitério, a primeira escola paroquial e o primeiro seminá­
rio. Recebeu, em média, dez profissões de fé por ano, escreveu sermões
e poesias em português e participou da ordenação do primeiro pastor
brasileiro, o ex-padre José Manuel da Conceição, o qual foi uma grande
aquisição para a igreja protestante no Brasil.
7. James William Roger recebeu autorização para construir, em São Paulo,
o primeiro templo protestante com aparência externa de templo. Até
a proclamação da República do Brasil, em 1889, somente os edifícios
católicos tinham esse direito.
8. Assembléia de Deus, Missão Evangélica Pentecostal do Brasil, igreja do
Evangelho Quadrangular, Exército de Salvação, entre outras.
9. Exército de Salvação.
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Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia
/32^

A profecia é uma temática importante no contexto


das escrituras sagradas. Deus chama o profeta, e este, por sua
vez, proclama as verdades da parte de Deus e toma enfrenta-
mentos e posicionamentos.
Ao estudar sobre os profetas, podemos perceber, de forma
ampla, a força e a dimensão transformadora das ações inspira­
das e orientadas por Deus para o seu povo e para a sociedade.

3.1 Livros proféticos


Na concepção popular, o termo profeta refere-se a alguém
que consegue predizer o futuro, e o termo profecia significa
“predição do futuro, que se crê de inspiração divina” (Houaiss;

1 Todas as passagens bíblicas indicadas neste capítulo são citações de Bíblia (2002).
Villar; Franco, 2009). Embora não estejam incorretas, essas
definições populares não estão de acordo com as da Bíblia.
O profeta, de acordo com as Escrituras Sagradas, era
alguém chamado por Deus e, como se pode verificar no Antigo
Testamento, era instado a falar em nome do Pai (em várias
passagens, p. ex. Deuteronômio, 18: 20 - Bíblia, 2002). Esses
abnegados servos estavam certos não apenas porque Deus lhes
havia falado, mas também porque eram convocados a proferir
a mensagem de Deus. Em alguns casos, o chamado (ou seja,
a vocação do profeta) é descrito com muitos detalhes, e cada
relato apresenta elementos distintos não encontrados em outros.
Na Bíblia Sagrada, encontramos profetas “orais”, ou seja,
“sem escritos”, como também profetas “literários” ou “escritores”.
Mas não se deve pressupor que os profetas escritores puseram-se
à escrever Livros de profecias. Os indícios no Livro que leva o
nome de um profeta nem sempre significam que foi esse profeta
quem o escreveu. Por exemplo: o Livro de Jeremias indica que
ele era um profeta “oral” e que o registro escrito de sua profecia
foi em grande parte trabalho de Baruque (Jeremias, 36: 4-32).
Nem sempre conseguimos determinar com precisão quem escre­
veu o Livro que chegou aos nossos dias; pode ter sido escrito
pelo profeta ou talvez por um de seus discípulos (EUisen, 1999;
Feinberg, 1996).
Os Livros proféticos que estudaremos neste capítulo são
aqueles que vão desde Isaías até Malaquias, sendo subdivididos
do seguinte modo:
co Profetas maiores: de Isaías a Daniel (5 Livros);
oo Profetas menores: de Oseias a Malaquias (12 Livros);
m
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

IpiPtermos maiores ou menores, criados por Agostinho dó


f‘H ipona (354 d.C.-430 d.C.) não se referem ao mérito
■wi©'profeta, mas ao tamanho do Livro e à extensão do
réspectivo ministério profético.

3.1.1 Cronologia dos livros proféticos


A Bíblia Sagrada não segue uma ordem cronológica para os pro­
fetas. Existiram 4 chamados de grandes ou maiores: 1) Isaías;
2) Jeremias; 3) Ezequiel; 4) Daniel. Além desses, existiram 13 pro­
fetas chamados menores: 1) Miqueias; 2) Zacarias; 3) Obadias;
4) Malaquias; 5) Baruque; 6) Oseias; 7) Joel; 8) Amós; 9) Jonas;
10) Naum; 11) Habacuque; 12) Sofonias; 13) Ageu. A divisão em
maiores e menores não quer dizer que os primeiros foram mais
importantes, mas escreveram mais do que os demais.
oo Amós e Oseias profetizaram para o povo do Reino do Norte
(Israel).
oo Isaías, Miqueias e Joel advertiram o povo do Reino do Sul
(Judá) a obedecerem a Deus, caso contrário a Assíria os
derrotaria.
oo Jonas e Naum profetizaram para a grande cidade de Nínive,
capital da Assíria,
oo Jeremias, Sofonias e Habacuque advertiram que os babilô­
nios derrotariam Judá.
B

oo Obadias lamentou a queda do Reino do Sul e a destruição


da cidade de Jerusalém,
oo Ezequiel e Daniel profetizaram para o povo cativo na
Babilônia, anunciando que Deus os traria de volta para a casa.
oo Ageu, Zacarias e Malaquias anunciaram mensagens de
esperança ao povo que retornou do cativeiro.

Como o chamado de Deus faz o profeta, era de se esperar


que cada Livro profético fosse iniciado com o relato da vocação,
mas esse não é o caso. Alguns Livros das Escrituras apresentam
esse tipo de início (Jeremias e Ezequiel, por exemplo), mas outros
Livros proféticos não são iniciados com um relato da vocação
e forma, o que significa que não se pode restringir a “vocação
divina” a determinado relato. Além disso, a cada página dos
Livros nos deparamos com a afirmação de que os profetas se
entendem como enviados e vocacionados por Deus.

3.1.2 Profetas de Israel e profetas de Judá


Podemos fazer uma divisão geográfica do trabalho dos profe­
tas, ou seja, indicar onde esses servos de Deus atuaram em seus
ministérios.
De acordo com as Escrituras, as 12 tribos foram divididas
em duas nações após a morte de Salomão. Durante o reinado
de seu filho Roboão, dez tribos se desligaram de sua autoridade
e se ligaram a Jeroboão, criando o Reino do Norte, chamado
de Israel, com capital em Samaria. Duas tribos se mantiveram
fiéis à casa de Davi e formaram o Reino do Sul, conhecido como
Judá, composto pelas tribos de Judá e Benjamin, com capital em
/36
| j Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia \____j

Jerusalém. Por isso os israelitas ficaram conhecidos posterior­


mente como judeus (Ellisen, 1999; Feinberg, 1996).
Entre os profetas que escreveram Livros, alguns profetiza­
ram para o Reino do Sul (Judá), enquanto outros, por sua vez,
profetizaram para o Reino do Norte (Israel). Alguns dos profetas,
como veremos a seguir, de certo modo não profetizaram para
nenhum dos dois povos especificamente, pois seu contexto histó­
rico era distinto, quando a distinção entre os reinos já não mais
existia. Sohre alguns autores, a situação geográfica é incerta.
Também podemos afirmar que houve profetas pré-exílícos,
exílicos e pós-exílicos, ou seja, profetas que deram seus teste­
munhos antes, durante e após o cativeiro babilônico, muito
bem registrado na Bíblia Sagrada, que durou aproximadamente
70 anos, entre 605 a.C e 535 a.C. Judá foi derrotado, Jerusalém
teve os muros e as portas destruídos, bem como o Templo
que Salomão havia erguido. A maior parte do povo foi levada
para a Babilônia e ali permaneceu até terminar o império de
Nabucodonosor e começar o de Ciro, rei dos persas e dos medos
(Ellisen, 1999; Feinberg, 1996).
É uma classificação em bases históricas e também uma boa
maneira de entendermos o contexto dos profetas no tempo e
compreender o pano de fundo de seus ministérios.

3.1.2.1 Isaías
Isaías é o primeiro grande profeta do Reino do Sul, de Judá.
É bem provável que Isaías fosse natural de Jerusalém (Isaías,
7: 1-3; 22: 15), onde teria sido um tipo de professor, sábio, enfim,
um funcionário. Como filho de Jerusalém, Isaías conhecia as
tradições sagradas dessa cidade. De acordo com seu Livro (6: 1),
Isaías foi chamado ao ministério profético no ano da morte do
[

Rei Uzias, por volta do ano 740 a.C., e exerceu sua atividade
durante os reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, e possivelmente
até o início do reinado de Manasses, numa época de grande
agitação política, quando os reis assírios Teglat-Eálasar 111(745-
727 a.C.), Salmanasar V (726-722 a.C.), Sargão II (721-705 a.C.)
e Senaqueribe (704-681 a.C.) procuravam conquistar os estados
siro-palestinenses e avançar até o Egito.
O pai de Isaías chamava-se Amos e, ao que parece, foi mem­
bro de uma família nobre e influente, o.que talvez explique por­
que tinha fácil acesso ao rei e intimidadecom o sumo sacerdote,
mesmo durante o reinado de Acaz.
Isaías refere-se à sua esposa como “a profetisa” (Isaías, 8: 3),
com quem teve dois filhos, a quem deu nomes simbólicos e profé­
ticos. O mais velho foi chamado de Sear-Iasub, “um resto voltará”
(Isaías, 7: 3), e o mais jovem, de Maer-Salal-Hás-Baz, “toma
depressa os despojos, faze velozmente a pressa” (Isaías, 8: 3).
Uma tradição judaica diz que Manassés teria serrado ao
meio o profeta Isaías, amarrando-o ao tronco de uma árvore.
Talvez essa seja a referência dada pelo escritor da Epístola aos
Hebreus (Hebreus, 11:37).
O tema dos pronunciamentos de Isaías retrocede aos con­
selhos eternos de Deus e à criação do Universo (42. 5) e vis­
lumbram o período quando O Senhor vai criar novos céus e
nova terra (65: 17; 66: 22). Nenhum outro profeta escreveu com
tão majestosa eloqüência sobre a glória de Deus ,(40). Todas as
nações da Terra são atingidas pelas predições de Isaías (2: 4;
5: 26; 14: 6-26; 40: 15-17, 40: 22; 66: 18).
O ministério de Isaías durou a vida inteira, desde a sua
juventude até se tornar senhor de idade avançada. Sua vida
foi ocupada por pregação, predição, argumentação com reis,
sacerdotes e pessoas, e a escritura de profecias.
/38
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Profecia de Isaías

Embora encontremos em Isaías muitas profecias importantes


referentes à cidade de Jerusalém, como também profecias sobre
Israel, Judá e as nações da Terra, o Livrô apresenta as grandes
predições messiânicas nas quais foram preditos o nascimento
de Cristo (7: 14; 9: 6), Sua divindade (9: 6-7), Seu ministério
(9: 1-2; 42: 1-7; 61: 1-2), Sua morte (52: 14; 53: 12), Seu futuro
reino milenar (Isaías, 2: 11).
De todos os profetas do Antigo Testamento, Isaías é o mais
amplo no seu raio de ação. Nenhum profeta ocupou-se mais
detalhadamente da obra redentora de Cristo e em nenhum outro
lugar do Antigo Testamento encontramos uma explanação tão
clara da graça. Em virtude de seu notável trabalho, ele foi cha­
mado de profeta messiânico e támbém de profeta do Novo Testamento.
De fato, ele é amplamente citado no Novo Testamento, seja nos
Evangelhos, para demonstrar que Jesus era o Messias profetiza­
do, seja nas epístolas paulinas, para confirmar a doutrina cristã.

Questões da Alta Crítica

Os estudiosos da Alta Crítica puseram em dúvida a autoria do


Livro de Isaías. Para eles, o Livro não foi escrito por um único
autor, mas por dois, e passou a ser chamado de deutero-Isaías
(segundo-Isaías). Outros ainda chegaram a falar em trito-Isaías
(terceiro-Isaías).
Essa opinião se fundamenta principalmênte no preconcei­
to que os estudiosos da Alta Crítica desenvolveram no século
XVIII. Eles rejeitaram qualquer forma de sobrenaturalismo e,
portanto, não podiam aceitar a profecia preditiva. Com base nes­
se ponto de vista, procuravam-se explicações racionalistas para
profecias que antecipavam grandes acontecimentos históricos.
A melhor saída que esses críticos encontraram foi atribuir reda­
ções posteriores sobre essas profecias, ou seja, afirmar que elas
não teriam sido escritas antes dos eventos, mas depois. Como
elas se estendiam por um longo período, a solução foi atribuir
esses escritos a dois ou três autores diferentes que teriam vivido
após os eventos (Ellisen, 1999; Feinberg, 1996).
Na realidade, levando em consideração o texto bíblico,
Isaías predisse a reconstrução de Jerusalém antes mesmo de
sua destruição por Nabucodonosor. Na mesma ocasião, o profeta
ainda cita o nome de Ciro, o Grande, do Império Medo-Persa,
que ordenou a restauração de Jerusalém (Isaías, 44: 28; 45: 1).
Fatos como esse perturbavam os racionalistas, que foram pro­
curar formas de objetar essas profecias.
Esse ataque à autoria e datação não se limitou a Isaías.
Todos os profetas que continham elementos preditivos em suas
profecias foram alvo dessa distorção. Alguns deles, como Daniel,
pela grandeza de suas previsões, foi totalmente contestado, em
termos de data, sendo atribuída aos seus escritos uma data muito
posterior àquela tradicionalmente aceita.
Entre os argumentos dos críticos para atribuir a vários auto­
res o Livro de Isaías estão as diferenças de temas e assuntos e de
linguagem e estilo e ainda diferenças teológicas. Essas diferenças
são apenas aparentes ou facilmente explicáveis. Os pontos de
apoio dos críticos podem ser refutados, pois a própria duração
da vida de Isaías, os períodos e as ocasiões diferentes nos quais
as profecias foram escritas e a necessidade de se abordar temas
variados são suficientes para justificar essas diferenças (Ellisen,
1999; Feinberg, 1996).

tr'
/40
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Lembramos ainda que a literatura profética tem caráter


próprio e não se trata, portanto, de uma narrativa coesa com
começo, meio e fim. Na maioria das vezes, são oráculos inde­
pendentes dirigidos apessoas diferentes, em contextos diferentes
e que podem variar no tom conforme a necessidade.

Esboço do Livro de Isaías e a s subdivisões de cada capítulo

i. Profecia de denúncia e convite (1: 1; 35:10)


a) Mensagem de julgamento e promessas (1: 1; 6: 13)
b) Mensagens concernentes ao Emanuel (7: 1; 12: 6)
c) Mensagem de julgamento sobre as nações (13:1; 24:23)
d) Mensagem de julgamento,, louvor, promessa (25:1; 27:13)
e) Os infortúnios dos descrentes imorais em Israel (28: 1;
33: 24)
f) Resumo (34: 1; 35: 10)
n. O procedimento de Deus com Ezequias (36; 1; 39: 8)
a) Deus liberta Judá (36: 1; 37: 38)
b) Deus cura Ezequias (38: 1; 22)
c) Deus censura Ezequias (39: 1; 8)
ui. Profecia de consolo e paz (40: 1; 66: 24)
a) A garantia de consolo e paz (40: 1; 48: 22)
b) O Servo do Senhor, o Autor do consolo e da paz (49:1;
57: 21)
c) A realização do consolo e da paz (58: 1; 66: 24)

3.1.2.2 Jeremias .

Jeremias é originário de uma família sacerdotal de Anatote


(El-Harrube, perto de Anatá), ao nordeste de Jerusalém, terra de
Benjamim (Jeremias, 1: 1). Gomo Jeremias se considera jovem
por ocasião de sua chamada, ele deve ter nascido por volta
de 645 a.C. De acordo com as Escrituras, sua vocação se fez
presente no 13° ano do reinado de Josias (Jeremias, 1: 2; 25: 3)
e exerceu sua atividade, sem interrupção, por mais de quatro
décadas, até depois da destruição total do reino de Judá.
Jeremias, presenciou a sucessão de cinco reis no trono dê
Davi em Jerusalém: Josias, Jeoacaz, Jéoaquim, Joaquim e
Zedequias. Josias fez uma reforma, que incluiu a destruição dos
lugares altos pagãos em Judá e Samaria, mas que teve um efeito
pouco duradouro sohre o povo. Alem disso, Josias conseguiu
expandir seu território para o norte. Nessa época, a Babilônia
era governada por Nabopolasar e o Egito pelo Faraó Neco, e
ambos disputavam o espaço em que estava localizado o reino
de Judá. Em 609 a.C., Josias foi morto em Megido ao tentar
impedir o Faraó Neco de ir contra o que restava da Assíria. Os
três filhos de Josias, Joacaz, Joaquim e Zedequias e um neto,
Joaquim, sucederam-no no trono.
Jeremias presenciou a insensatez dessa linhagem real,
advertindo-os sobre os planos de Deus para Judá, mas nenhum
deles deu atenção à sua voz. Jéoaquim foi abertamente hostil
a Jeremias e destruiu um rolo enviado a ele, cortando-o em
pedaços, e logo após queimando-o. Zedequias foi um governante
fraco e vacilante, buscando às vezes os conselhos de Jeremias,
outras vezes permitindo que os inimigos de Jeremias o maltra­
tassem e aprisionassem.
Sofonias e Habacuque foram contemporâneos de Jeremias
no começo de seu ministério; Daniel, no final do ministério.
Este último parece ter tido boas condições financeiras, uma vez
que não foi difícil a ele comprar a fazenda penhorada de um
parente falido.
/42
A p o n ta m e n to s sobre a h istó ria das igrejas cristãs e os livros proféticos d a B íblia

As primeiras profecias de Jeremias, enunciadas durante os


últimos anos de Jerusalém, foram principalmente advertências
ao povo de que a cidade seria destruída, sé não sé arrepen­
dessem dos seus pecados. Depois da quedâ de Jerusalém, em
586 a.C., Jeremias recebeu de Nabucodonosor ò direito de esco­
lher se queria ir para a Babilônia ou permanecer com o rema­
nescente pobre (II Reis, 24:14) de seu próprio povo. Ele preferiu
ficar e ministrar ao povo remanescente.
Após o assassinato de Gêdalias (41:2), Jeremias aconselhou
seu povo a permaneCer na terra, mas ô povo foi para o Egito,
levando o profeta e Baruquè junto (43: 6-7). Enquanto esteve
no Egito, o profeta continuou procurando fazer o remanescente
voltar para o Senhor (44) e também predisse a volta de Israel à
terra no final dos tempos (23: 5-8).
O ministério de Jeremias foi difícil: primeiro porque sua
mensagem de rendição a Nabucodonosor, rei da Babilônia, não
podia ser popular de modo algum (parecendo até mesmo algo
antipatriótico) e não era uma mensagem agradável; segundo por­
que essa mensagem foi proferida em meio aos acontecimentos,
isto é, muitas delas tiveram cumprimento dentro do período de
vida de Jeremias. Tudo isso contribuiu para que ele caísse no
desagrado da classe sacerdotal e monárquica, tórnando-se nm^
espécie de prônunciador de maus agouros.
Depois da morte do Rei Josias, a situação de Jeremias se
complicou com o surgimento de uma facção idólatra e um par­
tido qüe era a favor de uma aliança com os egípcios. Por sua
oposição a essa aliança, cm diversas vezes o profeta esteve a
ponto de ser preso. Foi proibido de entrar na área do Templo
e, por isso, muitas de suas profecias foram entregues pelo seu
copista Baruque.
Jeremias teve seu Livro de profecias queimado pelo Rei
Zedequias e foi acusado de traição, pois estaria desanimando o
coração do povo com sua mensagem. Sua exortação para que se
colocassem sob o julgo de Nabucodonosor soava como incitação
à rebeldia e, por esse motivo, foi encarcerado e depois lançado em
uma cisterna, escapando por pouco com vida. Posteriormente,
foi levado para o Egito, onde profetizou ainda por alguns anos
e provavelmente morreu ali.
Ao que parece, a personalidade do profeta era terna e sensí­
vel; amava seu povo de todo o coração e lhe era muito doloroso
entregar as profecias de que foi incumbido. Passou por provações
e perseguições inúmeras que debilitaram seu físico. Alguns histo­
riadores consideram Jeremias o homem mais importante de seu
tempo, e o fato de ele ter resistido a todas as tempestades pelas
quais passou comprovam que Deus fez de Jeremias uma coluna
de ferro e um muro de bronze. Seu nome esta merecidamente
entre os grandes profetas de Israel.
Nem só de juízo falou esse profeta, que trouxe também
mensagens de esperança para a nação: anunciou que uma nova
aliança seria estabelecida para substituir a mosaica, realizada
no Sinai (31: 32); referiu-se ao Messias como o “Renovo justo”,
“Renovo de Justiça”, que reinará no trono de Davi e executará
julgamento e justiça na Terra (23: 5-6; 33: 14-17).

Esboço do Livro dejeremios e q s subdivisões de codü copítulo

i. O chamado de Jeremias (1: 1; 9)


li. Coleção de discursos (2: 1; 33: 26)
ni. Primeiros oráculos (2: 1; 6: 30)
a) Sermao do templo e abusos no culto (7: 1; 8: 3)
b) Assuntos diversos (8: 4; 10: 25)
c) Eventos na vida de Jeremias (11: I; 13: 27)
d) Seca e outras catástrofes (14: 1; 15: 21)
e) Advertência e promessas ( 16: 1; 17: 18)
f) A santificação do sábado (17: 19-27)
g) Lições do oleiro (18: 1; 20: 18)
h) Oráculos contra leis, profetas e povo (21: 1; 24: 10)
i) O exílio babilõnicõ (25: 1; 29: 32)
j) O Livro de consolação (30: 1; 35: 19)
Apêndice histórico (34: 1; 35: 19)
a) Advertência a ZedequiaS (34: 1-7)

b) Revogada a libertação de escravos (34: 8-22)


c) O exemplo dos recabitas (35: 1-19)
Julgamentos e sofrimentos de Jeremias (36: 1; 45: 5)
a) Jeoaquim e os rolos (36: 1-32)
b) Cerco e queda de Jerusalém (37:1; 40: 6)
c) Gedalias e o seu assassinato (40: 7; 41: 18)
d ) A fuga para o Egito (42: 1; 43: 7)

e) Jeremias no Egito (43: 8; 44: 30)


f) Oráculos para Baruque (45: 1-5)
Oráculos contra nações festrangeiras (46: 1; 51: 64)
a) Contra o Egito (46: 1-28)
b) Contra os filisteus (47: 1-7)
c) Contra Moabe (48: 1-47)
d) Contra os Amomitas (49: 1-6)
e) Contra Edom (49: 7-22)
f) Contra Damasco (49: 23-27)
g) Contra Quedar e Hazor (49: 28-33)
h) Contra Helão (49: 34-39) I
i) Contra a Babilônia (50: 1-3) ;■ ■■
vn. Apêndice histórico (52: 1-34) : v
a) O reinado dê Zedequias (52: i-3)
b) Cerco e queda de Jerusalém (52: 4-27)
c) Sumário de três deportações (52: 28-30)
d) Libertação de Joaquim (52: 311-34)

3.1.23 Lamentações' |
s ■
O Livro das Lamentações não recebe título, mas, semelhan­
temente aos Livros do Pentateuco, ele era conhecido pela sua
primeira palavra, uma interjeição que indica espanto, perplexi­
dade ou tristeza. No entanto, no decorrer dos séculos, os rabinos
começaram a referir- se a esse Livro como Lamentações ou •Hinos
Fúnebres. Os tradutores da Septuaginta2 seguiram os rabinos ao
usar o termo grego para Lamentações; além disso, foram um
passo adiante e atribuíram o Livro a Jeremias. Por conseguinte,
as versões gregas posteriores, a siríaca, a antiga versão latina,
a vulgata de Jerônimo e as versões em inglês e português têm
colocado o títulò As Lamentações de Jerémias.
Trata-se de um poema fúnebre relatando as misérias e deso­
lações de Jerusalém, resultantes de seu estado de sítio e posterior
destruição. O profeta expressa seu profundo pesar sobre o evento
calamitoso na história do povo escolhidjó de DettS, a destruição
de Jerusalém, em 586 a.C., por Nabucodonosor, réi de Babilônia.
O Livro Lamentações é o terceiro dos cinco Livros que com­
põem as Meguillot ou Rolos das Festas (Cântico dos Cânticos, Rute,
Lamentações, Eclesiastes e Ester), usados em determinadas

2 Septuaginta é o nome da versão dá Bíblia hebraica para o gregè.


a

festas judaicas. Esse triste cântico de Jeremias foi adotado pela


nação judaica, que o canta todas as sextas-feiras, junto ao Muro
das Lamentações, em Jerusalém, e o lê nas sinagogas, em jejum,
no dia destinado à lamentação das cinco grandes calamidades
que sobrevieram ao povo judeu.
Pela simplicidade do Livro, alguns pesquisadores afirmam
que nele não há nenhum conteúdo teológico significativo; toda­
via, isso nao é verdade. A soberania, a justiça, a moralidade, o
julgamento divino e a esperança de bênção para o futuro distante
são temas constantes desse escrito. Mesmo sendo um Livro
único em seu gênero, Lamentações apresenta temas comuns a
toda a Escritura.
O significado mais profundo dessa obra está na intensa preo­
cupação de Jeremias e sua simpatia por Jerusalém revelar o amor
e a tristeza do de Deus pelo próprio povo que Ele está castigando,
um fardo semelhante àquele que o Senhor Jesus Cristo expressou
em sua lamentação sobre Jerusalém (Mateus, 23: 37-39).

Esboço do Livro Lamentações e as subdivisões de cada capítulo

i. O primeiro poema: a miséria, o pecado e a oração de


Jerusalém (1: 1-22)
a) A derrota, a humilhação, o sofrimento e o pecado de
Jerusalém (1: 1-11)
b) Falando ao mundo descuidado sobre seu castigo
(1: 12-19)
c) Uma oração por ajuda em grande aflição (1: 20-22)
Í47

Livros proféticos e poéticos


ii. O segundo poema: a destruição mandada por Deus e
a reação do profeta (2: 1-22)
a) Como o próprio Deus destruiu Israel (2: 1-10)
b) O sofrimento do profeta, desesperança e exortação
à oração (2: 11-19)
c) A oração angustiada de Judá (2: 20-22)
in. O terceiro poema: a severidade e misericórdia de Deus;
a submissão e a oração do povo (3: 1-66)
a) A severidade do castigo conduz a pensamentos de mise­

ricórdia (3: 1-24)


b) Submissão e humildade trazem misericórdia (3:35-39)
c) O arrependimento do povo chega tarde demais (3:40-47)
d) O profeta e o povo confiam em Deus para vindicação
no fim (3: 48-66)
iv. O quarto poema: devastação, o resultado da desobediência
(4:1-22)
a) A devastação do povo e de seus líderes (4: 1-11)

b) A desobediência e seus resultados (4: 12-20)


c) Edom será castigado e Israel será ajudado (4: 21-22)
v. O quinto poema: uma oração registrando o sofrimento
e apelos finais de Jerusalém (5: 1-22)
a) Uma lembrança de seu estado lamentável (5: 1-10)
b) Ninguém está isento do sofrimento (5: 11-14)
c) Todo o orgulho e a alegria se foram (5: 15-18)
d) O apelo final desesperado (5: 19-22)

3,1.2.4 Ezequiel
Ezequiel, um profeta do exílio que foi levado para a Babilônia
entre a primeira e a última deportação de Judá (II Reis,
24: 11-16), era filho de Buzi, da linhagem elevada, portanto,
m
| j
EE5233
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

provavelmente pertencia a uma classe social elevada o isuficiente


para ser incluído entre os reféns que Nabucodonosor levou para
a Babilônia em 597 a.C.
O profeta Ezequiel foi chamado para o seu ministério por
volta de 592 a.C. (o quinto ano do cativeiro do Rei Jeoaquim),
quando tinha aproximadamente 30 anos de idade. Seu casamen­
to feliz terminou com a morte de sua esposa (Ezequiel, 24: 16).
Tornou-se um pregador famoso entre os exilados e frequente­
mente o povo vinha para ouvi-lo, inclusive muitos anciãos de
Israel. Seu último discurso é datado de 571 a.C., o 27° ano do
cativeiro de Jeoaquim.
Diferindo dos profetas pré-exllícos, cujo ministério se deu
principalmente em Judá ou too reino das dez tribos, Ezequiel
foi a voz do Senhor para “toda a casa de Israel”. Em notável
contraste com Jeremias, todo o material na profecia de Ezequiel
está arranjado em ordem cronológica, conforme Deus a revelou.
Uma parte da profecia trata da destruição de Jerusalém e
sua restauração; como os habitantes de Jerusalém, os exilados
apegados aos falsos profetas, acreditavam obstinadamente que
a cidade de Jerusalém não seria invadida e que logo eles retor­
nariam à sua terra. Já que Deus havia escolhido Jerusalém para
sua morada e já que ele mesmo a defendeu no passado, não seria
diferente dessa vez. Entretanto, o profeta Ezequiel os advertiu
que o castigo era certo por causa de suas transgressões do povo
judeu, e que o exílio babílônico fora usado por Deus para cor­
rigir os rebeldes e afastá-los de sua vil maneira de viver. Muitos
não deram crédito a suas palavras, e em pouco tempo viram e
ouviram que a cidade do grande rei (Jerusalém) fora destruída
e o restante do povo foi levado cativo. Cumprida a profecia, a
mensagem profética tomou outro rumo e o profeta passou a
Livros proféticos e poéticos
consolar os desterrados, dando-lhes promessas de libertação
futura e retorno à terra de seus pais.
Dois temas teológicos agiram como equilíbrio no pensa­
mento do profeta. N a doutrina do homem, em Ezequiel (18:4),
ele colocou a ênfase no dever pessoal: “a alma que pecar, essa
morrerá”. Por outro lado, enfatizou a graça divina no renasci­
mento da nação. O arrependimento do remanescente fiel entre
os exilados resultaria na recriação de Israel a partir dos ossos
secos (37: 11-14).
A inclusão desse Livro no cânone judaico foi difícil em
razão das visões relativas ao Templo de Jerusalém, narradas
nos capítulos 40 a 48. Tanto as dimensões quanto os detalhes
estruturais diferem do real Templo de Salomão, e mesmo os
sacrifícios não estão de acordo com as leis sacerdotais.
Tal situação, todavia, não representa grande dificuldade
levando em conta que Ezequiel era um sacerdote e essas dis-
crepâncias não estavam ali por engano. Mesmo que nem todos
aceitem essa posição, o mais provável é que essas discrepâncias
se refiram uma descrição futura do Templo. Não apenas uma
descrição do Templo erguido por Zorobabel e reformado por
Herodes, o Grande, mas ainda o Templo em um período futuro,
no milênio. A riqueza de detalhes é imensa e o tom escatoló-
gico deixa transparecer a situação dos tempos finais, além do
contexto da história atual.
Alguns historiadores, utilizando método alegórico de inter­
pretação, têm traçado paralelos entre o Templo de Ezequiel
e a Igreja no Novo Testamento. Tal comparação evita certas
dificuldades criadas por um entendimento literal milenar, mas
cria barreiras intransponíveis. Nem tudo é resolvido definitiva­
mente. De qualquer forma, a vivacidade da descrição não pode
/50
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

ser ignorada e os estudiosos com certeza podem tirar muitas


riquezas espirituais dessa porção do Livro de Ezequiel.

Esboço do Livro de Ezequiel e as subdivisões de cada capítulo

i. O início da visão e chamada de Ezequiel (1: 1; 3: 21)


a) Visões introdutórias (1: 1-28)
b) O encargo dos profetas (2: 1; 3: 21)
n. Profecias e visões sobre a destruição de Jerusalém (3: 2;
24; 27)
a) Oráculos de julgamento (3: 22; 7: 27)
b) Visões de idolatria no templo (8: 1; 11: 25)
c) O exílio e cativeiro de Judá (12: 1; 24: 27)
ui. Oráculos da ruína contra nações estrangeiras (25:1; 32: 32)
a) Contra Amom (25: 1-7)
b) Contra Moabe (25: 8-11)
c) Contra Edom (25: 12-14)
d) Contra a Filistia (25: 15-17)
e) Contra Tiro (26: 1; 28: 19)
f) Contra Sidom (28: 20-26)
. g) Contra o Egito (29: 1; 32: 32)
iv. Profecias de restauração (33: 1; 48: 35)
a) Ezequiel como vigia, (33: 1-33)
b) Deus como Pastor (34: 1-31)
c) Julgamento contra Edom (35: 1-15)
d) Restauração de Israel (36: 1; 37: 28)
e) Julgamento contra Gogue (38: 1; 39: 29)
f) Restauração do Templo (40: 1; 46: 24)
g) Restauração da terra (47: 1; 48: 35)
ip!
/5 /

3.1.2.5 Daniel
O Livro de Daniel pertence a um gênero literário conhecido
como apocalíptico. Essa categoria de Livro é assim conhecida
porque se caracteriza pelo reíato de histórias e visões. Quando
a impiedade parecia suprema no mundo, e os poderes do mal,
dominantes, foi dado um apocalipse para mostrar a verdadeira
situação por trás daquilo que era aparente, e para indicar a vitó­
ria final da justiça sobre a Terra. As obras apocalípticas usam
muitas figuras e símbolos; Deus usou essa forma literária para
transmitir a Sua verdade ao Seu povo.
Daniel foi, ainda jovem, levado à Babilônia, por volta do
ano 605 a.C., numa das campanhas que Nabucodonosor realizou
logo antes de ascender ao trono. No reino babilônico, o profeta
e seus amigos foram treinados no serviço do palácio real. Logo
deu demonstrações de sabedoria sobrenatural naquela terra
famosa por seus sábios e, finalmente, foi elevado a altos postos
até tornar-se o primeiro entre os três oficiais mais importantes
do Império Medo-Persa (5: 29; 6 : 1-3).
Daniel é um Livro de reis e reinos, de tronos e domínios.
Embora inclua alguns registros históricos, compõe-se de pro­
fecias sobre a seqüência de reinos nos “tempos dos gentios” e
descreve o fim desse período. Os acontecimentos históricos
de Daniel, que ocorrem no começo dos tempos dos gentios,
ilustram acontecimentos profeticamente apresentados no Livro
que vão acontecer no final desse período, culminando catas­
troficamente com o fim do governo mundial gentio na volta de
Cristo, o Messias. Assim, a perseguição aos filhos de Deus nos
capítulos 3 e 6 é uma sombra da perseguição mais severa e uni­
versal ao povo de Deus que vai acontecer no fim da dispensação
/S2

£O
d

drt> (7:25; 8:24; 12: Dl do mesmo modo, o repúdio blasfemo ao Deus


o
a* fes,aran l 7 f f° rme “ CaPÍtUl° S 5 M * 6 (H 2 >- ™ * ™ ni-
n> estar numa forma mais universal e até com uma intensidade
maior que a dessa dispensação (7:25; 9 : 26; 11: 37. 33)
o> Esse Livro foi mencionado ou citado muitas vezes no Novo
J3.
&
CL Testamento (compare cspecialmente as referências de Nosso
enhor a Daniel em Mateus, 24: 15; Marcos, 13:14) e é a chave
igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

do Apocalipse. O profeta exerceu grande influência sobre a


greja primitiva; seu esquema de quatro impérios sucessivos
dominou a historiografia europeia atê os meados do século

Daniel tem uma característica distintiva entre os profetas


Apesar de o próprio Senhor Jesus Cristo té-lo chamado dt profeta
ele nunca fez pronunciamentos semelhantes aos demais profe­
tas, utilizando sempre a expressão “Assim diz o Senhor”. Sua
mensagem consiste em sonhos e visões interpretadas conforme
a ureçao divina. Talvez por ésse motivo o Livro tenha sido colo­
cado no cânone hebraico entre os chamados escritas. A mescla
de visões e nanativas tornou o Livro ainda mais peculiar, uma
joia distinta entre os profetas.
A soberania de Deus é a mensagem central do Livro de
Daniel Deus está no controle do céu e da terra, dirigindo as
orças a natureza, o destino das nações e cuidando do Seu povo
Jerusalem pode ser destruída e ter seu templo reduzido a ruínas-
o povo de Deus pode ser exilado e os maus governantes podem
parecer triunfantes, mas somente Deus permanece supremo.
Ele, e somente Ele, “quem muda o tempo e as estações, remove
reis e estabelece reis; Ele dá sabedoria aos sábios e entendimento
aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o
que esta em trevas, e com Ele mora a luz” (2- 21-22)
Livros proféticos e poéticos
Por causa de suas muitas visões, o Livro de Daniel tem
sido chamado de “O Apocalipse do Antigo Testamento”, como
afirmou Ellisen (1999, p. 264): “é um Livro ‘apocalíptico’, no
verdadeiro sentido de ‘apocalipse’, uma ‘revelação’ de Deus”.

Esboço do Livro de Daniel e as subdivisões de cada capítulo

i. As convicções religiosas de Deus (1: 1-21)


a) O exílio de Judá (1: 1-2)
b) A decisão de Daniel de manter-se separado (1: 3-21)
li. O primeiro sonho de Nabucodonosor (2: 1-49)
a) O sonho esquecido (2: 1-28)
b) A revelação e a interpretação de Daniel (2: 29-45)
c) Daniel é honrado através de promoção (2: 46-49)
in. A libertação da fornalha de fogo (3: 1-30)
a) Convocação para adorar a estátua de ouro (3: 1-7)
b) A recusa dos três hebreus de se prostrarem perante a
estátua (3: 8-18)
c) Os três hebreus são miraculosamente protegidos
(3:19-25)
d) O rei reconhece o Deus verdadeiro (3: 26-30)
iv. O segundo sonho de Nabucodonosor (4: 1-37)
a) O sonho de Nabucodonosor (4: 1-37)
b) A interpretação da Daniel (4: 19-27)
c) O cumprimento do sonho (4: 28-33)
d) A oração e restauração de Nabucodonosor (4: 34-37)
v. A festa blasfema de Belsazar (5: 1-31)
a) A escrita manual na parede (5: 1-9)
b) A interpretação de Daniel da escritura (5: 10-31)
/5 4
-

vi. Daniel na cova dos lqões (6: 1-28)


* * „ W ! , , „ qos;—

a) Complô contra Daniel (6: 1-9)


b) Darnel é lançado na cova dos leões (6: 1 0 -1 7 )
c) Daniel é liberado (6: 18-28)
v i l A primeira visão de Daniel (7: 1-28)

) O sonho da Daniel sobre os quatro animais (7• 1 -14 )


b) A interpretação de Daniel (7: 15-28)
viu. A segunda visão de Daniel (8- 1-27)
•) O Sonho de Daniel sobre um carneiro, um bode e sobr,
w

os chifres (8: 1-14)


b) A interpretação de Gabriel (8: 15-27)
-

IX.
A profecia das setenta semanas (9: 1-1 7 )
a) A oração de Daniel (9: 1 -19 )
w

b) A visão de Daniel (9: 20-27)


x. A visão final de Daniel (10: 1; 12: 13)
" ™ »p «

a) A visão de Daniel de um ser glorioso (10: 1-9)


b) A visita de um anjo ;(10: 10-21)
c) Guerra entre reis do Norte e do Sul (11: 2-45)
d) O tempo da tribulação (12: 1 -1 3 )

3.1.2.6 Oseias

Oseias, cujo nome significa “o Senhor salva”, levou a efeito o


seu ministério durante os dias de quatro diferentes reis de Judá .

ó I L T ’ Acaz e “ >■e d° rei de


O profeta foi contemporâneo de Amós em Israel e de Isaías e ’
Miqueias em Judá. laS e

veiro^ou^o cat^0 d6SSe ^ro^eta continuou depois do primeiro cati-


Zl7daT T ^ cidadao do Remo do Norte, uma vez que se refere ao
/5S

Livros proféticos e poéticos


rei de Israel como “nosso rei” (7: 5). Judá só é mencionada oca­
sionalmente no Livro e o interesse se centraliza nas dez tribos.
O tema dos capítulos iniciais da profecia de Oseias é a infi­
delidade de Israel, apresentada em termos de um relaciona­
mento conjugãl, mas descrevendo o relacionamento de Deus
com o povo escolhido (Êxodo, 34:15-16; Levítico, 17: 7; 20: 5-6;
Deuteronômio, 32: 16-21; Isaías, 54: 5). O alvo principal do
casamento de Oseias, porém, não era recapitular o tratamento
de Deus dispensado a Israel, mas colocar em destaque a dege-
neração de Israel naquela época.
A questão matrimonial de Oseias tem sido motivo de acalo­
rados debates acerca desse Livro, contra o qual foram levantadas
diversas objeções. Deus ter ordenado a um homem consagrado
que se casasse com uma mulher adúltera foi algo mal-visto e
que não parecia ser uma ordem coerente e nem moralmente
adequada com a natureza e a ética divinas, afirmam os críticos.
Tentando resolver esse problema, alguns estudiosos suge­
riram que tal experiência não era real, e sim uma espécie de
parábola. Todavia, o tom narrativo simples da história não deixa
espaço para um tipo de interpretação alegórica. Era sem dúvida
u m a narração direta daquilo que Deus ordenara que Oseias
fizesse e dos fatos que se seguiram. O próprio texto não fornece
qualquer indicação de um caráter não literal para o evento.
Aliás, aceitar como alegórica e não histórica uma narrativa
como essa abre precedentes para se entender como não históri­
cas inúmeras outras passagens das Escrituras que apresentam
a mesma forma de narrativa simples e direta.
Uma explicação mais coerente para esse Livro é considerar
que Oseias casou com Gômer quando esta não apresentava o
comportamento infiel, em uma união realizada mediante a
/56
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

direção de Deus. Posteriormente, quando o caráter adúltero de


Gômer se manifestou e Ezequiel começou a exercer seu minis­
tério profético, ele entendeu que, apesar de dirigida por Deus,
sua união apresentava um caráter profético.
O fato é que a nação mergulhara em densas trevas, ficando
destituída de verdade, bondade e conhecimento de Deus (4: 6),
e cheia de perjúrio, mentira, morte, furto, adultério e derrama­
mento de sangue. Deus desejava que Israel abandonasse seus
pecados e voltasse a adorar somente a Ele; porém, o povo con­
tinuava em sua iniqüidade. Essa decadência espiritual, social e
política foi se intensificando até que culminou com o cativeiro
Assírio, em 722 a.C., por Salmanaser V (II Reis, 17: 3), consu­
mado por Sargão II (Isaías, 20: 1).

Esboço de Oseias e as subdivisões de cada capítulo

i. Oseias e Gômer (1: 1-3; 5)


a) O casamento de Oseias e Gômer (1: 1-9).
b) O Casamento do Senhor com Israel (1: 10; 2:23)
c) A volta de Gômer para Oseias (3: 1-5)
ii. O Senhor e Israel (4: 1; 14: 9)
a) Amor e restauração (11: 1; 14: 9)

3.1.2.7 Joel
O Livro de Joel nada nos informa a respeito do profeta a não
ser o seu nome: Joel, filho de Petuel (Joel, 1: 1). Esse Livro é
de difícil datação, porquê nada é mencionado a respeito de rei
israelita ou nação estrangeira.As indicações de datas variam
desde o século IX a.C. até o século IV a.C. Para indicar uma
157 í
i •;

Livros proféticos e poéticos


data mais equilibrada, muitos pensam que foi escrito no tempo
de Joás, o que seria por volta do ano 830 a.C.
Para atribuir uma data tão remota, os estudiosos percebem
que a influência do rei e da monarquia não é tão forte nesse
Livro, sendo atribuído um papel mais importante aos sacerdotes.
Outro fator preponderante para aplicar uma data mais longín­
qua à redação da profecia de Joel é o fato de nem assírios, nem
babilônios, tampouco persas, serem citados em sua profecia. Há
referências a egípcios, filisteus, fenícios e edomitas. Isso aponta
para um período mais tardio, quando os império da Babilônia e
da Assíria ainda não estavam exercendo seu domínio.
Existe uma referência aos gregos em Joel (3: 6). Por causa
desse dado, alguns críticos atribuem uma data pós-exílica ao
Livro do profeta, visto que os gregos só entram tardiamente na
história de Israel. Todavia, se atentarmos para o versículo men­
cionado, percebemos que se trata de uma confirmação de que
o Livro foi escrito em data remota, pois a obra fala da venda de
israelitas para os gregos em uma terra distanteo que demonstra
que os gregos não estavam próximos de Israel. E a supremacia
grega sobre os mares e seu intenso comércio e expansão na
região do Mar Mediterrâneo não é dessa época.
Felizmente, a mensagem de Joel não depende de datas. As
palavras do profeta se destacam, apesar da nossa incapacidade
de reconstruir seu contexto histórico com exatidão.
Em relação ao conteúdo, o Livro de Joel se ocupa de três
temas: 1) pragas; 2) exortações; 3) juízo final. Os capítulos 1 e
2 tratam da praga de gafanhotos e da seca, sendo ambas inter­
pretadas como prenuncio da aproximação do “Dia do Senhor”.
Duas vezes Joel conclama a se publicar um dia de penitência
geral, para colocar um freio à catástrofe.
/ss
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Certos oráculos de Deus contêm a promessa de uma salva­


ção futura para o povo. O capítulo 3 do Livro de Joel promete
o derramamento do Espírito sobre toda a população de Judá,
incluindo os escravos. O capítulo 4 anuncia o juízo final para
todas as nações que são convocadas para o vale de Josafá.
No geral, o Livro de Joel é uma mensagem de advertência
e juízo e, apesar de curta, inclui muito dos temas recorrentes
nos demais profetas hebreus.
A profecia presente em Atos (2:28-32) será marcante para a
igreja do Novo Testamento. Foi essa profecia referida por Pedro
no dia de Pentecostes (Atos, 2: 17-21) e está profundamente rela­
cionada com o “tempo da graça”. Dessa profecia, a passagem
“Aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Joel, 2: 32)
veio a se tornar o grande elemento confessional da salvação
neotestamentária (Romanos, 10: 13).
A profecia de Joel ainda contém outros valiosos elementos
escatológicos, como a descrição da guerra, no capítulo 3, que
apresenta fortes imagens ligadas ao Armagedom e à segunda
vinda de Cristo.

Esboço do Livro de Joel e as subdivisões de cada capítulo

i. A mão do Senhor no presente (1: 1; 2: 27)


a) A destruição pelos gafanhotos (1: 2; 2: 11)
b) O arrependimento de Judá (2: 12-17)
c) A restauração do Senhor (2: 18-27)
ii. O Dia do Senhor no futuro (2: 28; 3: 21)
a) A graça do Senhor (2: 28-32)
b) O julgamento do Senhor (3: 1-17)
c) A bênção do Senhor (3: 18-21)

t
3.1.2.8 Amós
Amós nasceu na cidade de Tecoa, situada a 20 quilômetros de
Jerusalém, nas montanhas, próximo de Belém, beirando os
desertos de Judá. Nessa cidade, ele viveu como pastor e culti­
vador de sicômoros, uma espécie de figueira brava.
Parece ter estudado bastante a Lei de Deus, visto que sua
mensagem apresenta um forte conhecimento do Pentateuco,
mesmo não tendo sido indicado formalmente para o ministério
profético. Dentro dessas condições, não foi fácil para Amós
desenvolver seu trabalho como profeta, pois teve de deixar seu
lar em Judá e dirigir-se para Samaria, capital do Reino de Israel,
para repreender a classe governante que vivia uma vida idólatra
distante do padrão divino.
Devido a essa repreensão, Amós foi acusado de conspiração
por Amâzias, sacerdote de Betei, perante o Rei Jeroboão. O sacer­
dote alegou que as predições de Amós eram por demais pesadas e
não se cumpririam. Então Amazias ordenou-lhe que se retirasse
para Judá e não mais profetizasse em Betei (Amós, 7:12), mas o
profeta tornou a testemunhar contra Israel (Amós, 7: 10-17).
Enquanto Oseias foi oprimido pelo sentimento da infidelida­
de de Israel para com o amor de Deus, Amós foi ultrajado pela
violência contra a justiça e a integridade de Deus. As palavras
mais descritivas da mensagem de Amós são as seguintes. Corra
o juízo como as águas, e a justiça como ribeiro perene (5. 24),
ou seja, a justiça social é inseparável da verdadeira piedade. Por
causa da ênfase de sua mensagem, Amós já foi chamado de pro­
feta da justiça social”. A situação de opulência de uma classe,
enquanto a outra parcela da sociedade sofria agudas necessidades,
levou o profeta a pronunciar sua palavra contra essa situação de
desigualdade e injustiça.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Além das mensagens inspiradas contra os pecados de Israel,


Amós também narra pelo menos cinco visões em que são indi­
cados os juízos de Deus. Esses julgamentos divinos foram
representados por gafanhotos, fogo, prumo, cestos de frutos e
um capitel derrubado. Apesar da intercessão de Amós junto a
Deus pedindo misericórdia para Israel, não foi possível evitar a
catástrofe. Portanto, o profeta foi mais um dos vários profetas
que predisseram o fim do reino das dez tribos, definitivamente
ocorrido em 722 a.C., pela mão dos assírios.
O que chama a atenção na literatura geral é a uniformidade
dos temas. As afirmações de castigo e de derrota sempre vêm
acompanhadas de promessas de restauração e elevação. Amós
não termina sua profecia em tom de amargura e fim, mas recon­
firmando o que outros profetas já haviam predito. Deus tornará
a reunir o seu povo de Israel em sua terra e tornará a abençoá-los.

Esboço do Livro de Amós e as subdivisões de cada capítulo

i. Introdução (1: 1-2)


ii. Julgamento sobre as nações (1:3; 2: 16)
a) Damasco (1: 3-5)
b) Gaza (1: 6-8)
c) Tiro (1: 9-10)
d) Edom (1: 11-12)
e) Amom (1: 13-15)
f) Moabe (2: 1-3)
g) Judá (2: 4-5)
h) Israel (2: 6-16)
16/

Livros proféticos e poéticos


ui. Oráculos contra Israel (3: 1; 6: 14)
a) Julgamento sobre o povo escolhido de Deus (3: 1-15)
b) Julgamento de Deus sobre o povo insensível (4: 1-13)
c) Julgamento sobre o impenitente povo de Deus (5:1; 6:14)
iv. Visões de julgamento (7: 1; 9: 10)
a) Visões de abrandamento (7 : 1-6)
b) Visões de rigidez (7: 7; 9: 10)
v. A restauração de Israel (9: 11-15)
a) A tenda de Davi levantada (9: 11-12)
b) A terra e o povo restaurados e abençoados (9: 13-15)

3.1.2.9 Obadias
Obadias é totalmente desconhecido, não há registro de sua vida
pessoal e quase nada se sabe a seu respeito, salvo o significado
do seu nome: “servo ou adorador do Senhor”. O nome Obadias
era comum no Antigo Testamento (I Reis, 18. 3, II Crônicas,
34: 12; Esdras, 8: 9). Há pelo menos 13 pessoas com o mesmo
nome no Antigo Testamento.
O Livro de Obadias é o menor daqueles dos profetas meno­
res: conta apenas com 1 capítulo composto de 21 versículos.
A data da profecia desse Livro é incerta, mas as evidências
internas parecem apontar para uma data próxima de 586 a.C.,
ano em que Jerusalém foi destruída por Nabucodonosor, o rei
da Babilônia.
A mensagem de Obadias é uma repreensão aos edomitas,
por se alegrarem com a catástrofe que sobreveio a Judá. Essa
rivalidade entre os povos tinha raízes no rancor ainda existente
entre os descendentes de Esaú, irmão de Jacó.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

A profecia desse profeta é muito semelhante à profecia de


Jeremias (49: 7-22). Os que datam a profecia de Obadias do
tempo da destruição de Jerusalém pelo império bâbilônico enten­
dem que o profeta apoiou-se no material de Jeremias. De qual­
quer forma, essa repetição é bastante comum entre os profetas,
demonstrando que Deus tornava a lembrar o que já havia dito.
O Livro de Obadias, que, na forma literária, é uma “can­
ção do destino”, tem um único tema: o julgamento de Edom,
a nação que descendia de Esaú. No tempo de Obadias, a cidade
conhecida como Sela (mais tarde chamada Petra) era a capital
de Edom. Suas ruínas singulares, recortadas na rocha sólida de
colorido rosa, que ficaram muito tempo escondidas nas áridas
regiões ao sul do Mar Morto, foram descobertas em 1812.
O encerramento da profecia de Obadias é curioso. Nele, o
presente e o futuro se mesclam como o fazem a história e a profe­
cia. Ele termina dizendo que “o reino será do Senhor”, atribuindo
na comum linguagem profética o domínio de Deus sobre a Terra.

Esboço do Livro de Obadias e as subdivisões de cada capítulo

i. Visão de Obadias
n. O decreto do Senhor (1: 1-14)
a) A condenação de Edom (1: 1-4)
b) O colapso de Edom (1: 5-9)
c) Os crimes de Edom (1: 10-14)
ui. O Dia do Senhor (1: 15-21)
a) O dia da retribuição divina (1: 16)
b) O dia da restituição divina (1: 17-20)
c) O dia do domínio divino (1: 21)
I . ;

163 _ j j

Livros proféticos e poéticos


3 ,1.2.10 Jonas
Jonas foi um profeta de Israel que viveu mais ou menos na época
de Jeroboão II, período em que profetizou sobre as conquistas
desse rei (II Reis, 14: 25), que realmente ocorreram. Jonas, cujo
nome significa “pomba”, ocupa um lugar especial de primeiro
missionário no estrangeiro.
O caráter histórico da preservação de Jonas no ventre do
grande peixe e a sua pregação aos habitantes de Nínive foi auten­
ticado por Cristo, que compara a experiência do profeta com
o Seu próprio sepultamento e ressurreição (Mateus, 12: 38-42).
Também os ninivitas são citados por Jesus em referência ao
Juízo Final (Mateus, 12: 41).
O Livro de Jonas apresenta uma série de peculiaridades
que o distingue dos demais Livros dos profetas: não contém
oráculos, e sim narrativa; é mais uma biografia do que um oráculo,
a mensagem é a história de Jonas. Enquanto os outros mesclam
pontos narrativos em oráculos proféticos, esse Livro apresenta
apenas uma curta profecia dentro de um texto em prosa.
A lição é dada por meio do próprio Jonas, sendo que o capí­
tulo 4 é o ápice do Livro. O foco principal do Livro de Jonas
não é a conversão dos ninivitas, mas sim o erro do profeta que
se recusava a proclamar a Palavra de Deus na capital assíria,
temendo que seus habitantes se arrependessem e, dessa for­
ma, Deus os poupasse. Ele desejava ver a destruição da cidade.
A aboboreira foi a maneira que Deus encontrou para mostrar
ao profeta que seus sentimentos não eram retos, uma vez que
se apiedou de uma planta e não aceitava que Ele se apiedasse
de uma grande cidade.
Uma obra-prima de narrativa, o Livro de Jonas tem sofri­
do uma superenfatização do milagre do grande peixe (1. 17).
Contudo, nem a anulação, nem a racionalização resolvem as
/64
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

dificuldades do milagre que permanece como um objeto de fé, e


não de explicação. O Livro de Jonas está cheio do sobrenatural;
além do grande peixe, temos a aboboreiía, o verme, o vento
oriental e, principalmente, o arrependimento de toda a cidade
de Nínive (1: 2-3)
Qualquer dificuldade encontrada em acreditar na história
se dá apenas pela negação do sobrenatural. Os que aceitam
milagres não veem no Livro nenhum obstáculo intransponível.
O caráter de Jonas e o relacionamento com Deus são figuras
da história da nação de Israel; fora da terra, uma perturbação
para os gentios, mas um testemunho diante deles; expulsos, mas
milagrosamente preservados; no futuro e profundo desespero,
clamam ao Senhor como salvador, para o livramento e, então,
se tornam missionários dos gentios. Mas, principalmente, Jonas
é um tipo de Cristo, como um enviado, ressuscitado dos mortos
e que levou a salvação aos gentios.

Esboço do Livro de Jonas e as subdivisões de cada capítulo

r. A retirada ordenada (1: 1-3)


a) O chamado (1: 1-2)
b) Jonas foge para Társis (1:3)
ri. O retorno providencial (1: 4; 2: 10)
a) O Senhor manda uma tempestade (1: 4-9)
b) Os marinheiros jogam Jonas ao mar (1: 10; 16)
c) O Senhor prepara um grande peixe (1: 17)
d) Jonas ora (2: 1-9)
e) Jonas é vomitado na terra (2: 10)
ui. A renovação bem-sucedida (3: 1-10)
a) A segunda chance de levantar e ir é oferecida a Jonas
(3: 1-3)
b) Jonas prega (3: 4)
c) A população se converte (3: 5-9)
d) Deus demonstra piedade (3: 10)
iv. Uma reação negativa (4: 1-11)
a) Jonas descontenta-se (4:1-5)
b) Deus ensina uma lição (4: 6-11)

3 .1.2.11 Miquelas
Miqueias oferece poucas informações a respeito de si mesmo,
apenas que profetizou durante os reinados de Jotão, Acaz e
Ezequias, portanto, fica evidente que foi contemporâneo do pro­
feta Isaías. Isaías e Miqueias formavam uma dupla interessante:
o primeiro era um era aristocrata, confidente do rei e estadista,
enquanto o segundo era camponês, lavrador de terras. Miqueias
era originário da pequena cidade de iVíorescte, localizada a
cerca de 40 km ao sudoeste de Jerusalém. O fato do nome de
seu pai não ser mencionado pressupõe que Miqueias pertenceu
a classes mais humildes.
A mensagem de Miqueias, assim como a de Amós, aponta
os pecados sociais da nação; a exploração do povo pelo governo
recebeu a sua censura, e esse foco pode ser mais um indício de
sua origem humilde. A nobreza latifundiária, rica e sem escrú­
pulos, foi duramente repreendida no Livro. É fácil perceber que
o contexto contra o qual Miqueias lutava era muito semelhante
com aquele de Isaías, Amós e ainda de Oseias.
Há muita semelhança entre passagens de Isaías e Miqueias
(compare Miqueias, 4: 1-5, com Isaías, 2: 2-4). Aliás, críticos
alegam que Miqueias falou sobre os mesmos temas, como se o
seu Livro fosse um “pequeno Isaías”.
(66
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Jeremias menciona Miqueias pelo nome (Jeremias, 26:18) e


o relaciona com o reino de Ezequias, e o Senhor Jesus também
o citou (compare Mateus, 10: 35-36 com Miqueias, 7: 6).
Samaria, Jerusalém, toda Judá, Israel e as nações são o
assunto da profecia de Miqueias, que vê na Assíria o poder
estrangeiro proeminente. As mensagens são particularmen­
te contra as capitais, Samaria e Jerusalém, como centros de
influência da nação. Deus roga a Israel e a Judá que voltem
para Ele e abandonem o pecado, estabelecendo a Assíria como
a vara de Sua ira, e Ele conclui, com promessas de glória futura
sob o Messias e o Seu justo reino.
A menção de Miqueias a Samaria demonstra que seu minis­
tério foi exercido antes da queda dessa cidade, em 722 a.C.
A situação lembra o tempo do Rei Acaz ou mesmo os primei­
ros anos de Ezequias antes da reforma efetuada por ele. Sobre
o término de seu ministério não há evidências.
Ainda que a mensagem de Miqueias se destinasse a Judá,
pelo menos em um capítulo o vemos se dirigindo ao Reino do
Norte, onde a corrupção já tinha atingido níveis muito maiores,
social e espiritualmente. Mesmo sua pregação para o Reino do
Sul parece ter sido dirigida a classes mais simples da população,
enquanto Isaías, por sua posição social e relacionamento com a
classe reinante, dirigiu sua mensagem ao reino.
Miqueias utilizou uma linguagem forte, até mesmo ríspida,
empregando metáforas e jogos de palavras. Ele resumiu em
poucas palavras as exigências de Deus para a nação: “Ele te
declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede
de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a benignidade, e
andes humildemente com o teu Deus?” (6: 8)
É simples identificar no Livro pelo menos três discursos
distintos, que se iniciam com a expressão “ouvi” (1:2; 3:1; 6:1).
O primeiro trata do julgamento de Deus contra os Reinos do
Norte e do Sul (Israel e Judá), o segundo apresenta Deus como
juiz e aquele que é fiel à sua aliança e o terceiro procura trazer
à memória tudo o que Deus fez pelo seu povo.
Também são de Miqueias fortes passagens messiânicas (capí­
tulo 5), inclusive a indicação de Belém como a cidade onde
nasceria o Messias (5: 2).

Esboço de Miqueias e as subdivisões de cada capítulo

i. A dramática vinda do Senhor em julgamento (1: 1; 2: 13)


a) Sobre as cidades capitais de Samaria e Jerusalém (1:1-9)
b) Sobre as cidades localizadas a sudoeste de Jerusalém
(1: 10-16)
c) Sobre os crimes que trazem ocupação estrangeira
( 2 : 1- 11)
d) Sobre todos, exceto um restante liberto pelo Senhor
(2: 12-13)
ii. A condenação dos líderes feita pelo Senhor (3: 1-12)
a) Sobre os líderes que consomem o povo (3: 1-4)
b) Sobre os profetas, exceto Miqueias (3: 5-8)
c) Sobre os oficiais: chefes, sacerdotes e profetas (3: 9-12)
m. A vinda do reino universal do Senhor (4: 1; 5: 15)
a) A atração de todas as nações pelo nome do Senhor
(4: 1-5)
b) A compaixão sobre o povo dependente e rejeitado
(4: 6-13)
P ' ' •

i. -
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

c) O lugar de nascimento e a administração do Messias


(5:1-6)
d) A restauração de um restante num lugar sem ídolos
(5:7-15)
iv. A apresentação da contenda do Senhor (6: 1; 7: 6)
a) O cuidado redentor (6: 1-5)
b) Expectativas do profeta para uma reação apropriada
( 6 : 6 - 8)

c) O fundamento do Senhor para o julgamento do ímpio


(6: 9; 7: 6)
v. A salvação do Senhor como a esperança do povo (7: 7-20)
a) Apesar do julgamento temporário (7: 7-9)
b) Apesar dos inimigos do povo (7: 10-17)
c) Por causa da incomparável compaixão do Senhor
(7: 18-20)

3 .1.2.12 Naum
Naum era natural da cidade de Elcós, cidade cuja localização é
desconhecida (existem pelo menos quatro pontos diferentes sobre
a localização da cidade). De qualquer forma, parece que o profeta
pertencia ao Reino do Sul, Judá.
A mensagem de Naum é monotemática: destina-se unica­
mente à cidade de Nínive, capital do Império Assírio e grande
metrópole da Antiguidade. Seu Livro forma uma seqüência com o
de Jonas. O arrependimento, no tempo de Jonas, adiou o juízo de
Deus por cerca de um século. A profecia de Naum pode ser data­
da entre a destruição de Tebas ou Nô (3: 8) por Assurbanipal em
666 a.C., e a captura de Nínive pelos babilônios e seus aliados em
612 a.C. O estilo de Naum é de poesia lírica da mais alta qualidade,
e alguns críticos o têm considerado como o mais apaixonado de

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todos os profetas. Concordamos que suas mensagens são vivas
e impetuosas.
Naum começa sua mensagem fazendo uma referência ao
caráter de Deus. Dizer que Ele era “tardio em irár-se, mas grande
em força e ao culpado não tem por inocente” (1: 3) consistia em
n m a forma de relacionar o caráter de Deus e o julgamento que
viria sobre Nínive. Sua predição quanto ao destino da cidade é
exata; cumpriu-se literalmente sobre a capital Assíria. Em Naum
(1: 8), Deus transformaria aquela cidade em ruína e acabaria de
uma vez com o lugar de Nínive.
Curiosamente, a profecia bíblica vai falar de rios e de inun­
dação. Naum (1: 7) afirma que Deus destruiria Nínive, com uma
inundação transbordante, e diz: “As portas do rio se abrem e o
palácio se derrete” (2:6). Cumprindo-se exatamente essa predição,
no ano de 612 a.C., as tropas babilônicas, medas e citas acha-
vam-se acampadas próximas à cidade, contudo, sem poder entrar.
O Rei Sincharichkun, em seu sentimento de invencibilidade, ban-
queteava-se com seus principais, comendo e embriagando-se e
ignorando completamente a palavra do profeta, que anos antes
havia decretado: “Pois ainda que eles se entrelacem com os espi­
nhos, e se saturem de vinho como bêbados, serão inteiramente
consumidos como palha” (1: 10).
Na própria cidade de Nínive havia um provérbio que dizia
que nenhum inim igo jamais tomaria a cidade de surpresa, a não
ser que o rio se tornasse o primeiro inimigo dela. Sardanápalo,
então general, considerou que isso jamais aconteceria. Todavia,
a mão divina entrou mais uma vez na história para ditar seus
rumos e fortes chuvas fizeram o rio transbordar de tal forma e
com tal força que desmoronou boa parte dos muros e inundou
parte da cidade.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia no

Os muros estavam quedados, a brecha fora aberta e o inimi­


go agora penetrava em Nínive, cidade sobre a qual pesava o mar­
telo da palavra divina: “As tuas tropas no meio de ti são como
mulheres! As portas da tua terra estão de todo abertas ao teu
inimigo, o fogo consome os teus palácios” (3: 13). O rei entrou
em pânico, perdeu todas as esperanças e ordenou que seus bens
reais, bem como suas concubinas e seus servos fossem colocados
numa área do palácio e, lacrando-o, pôs fogo nele e o destruiu
totalmente. Cumpria-se a profecia. O golpe definitivo fora dado
sobre a Assíria com a espada de Deus. Nunca mais haveria de
levantar-se e não pôde escapar da ordenação divina: “O fogo
ali te consumirá; a espada te exterminará e, como gafanhoto,
te consumirá” (3: 15).
Ao escavar aquelas ruínas, aproximadamente 25 séculos
depois, Henry Austin Layard pôde contemplar as cinzas dei­
xadas pelo incêndio que destruiu a cidade. Era mesmo difícil
de crer que ali havia a grande cidade de Nínive, com inúmeros
palácios, templos, casas e estátuas, sede de um grande império,
dominador de toda região do crescente fértil. O arqueólogo
inglês, após desvendar toda a história soterrada, pôde, mais do
que qualquer homem, entender a seriedade da mensagem divina,
dada por meio do profeta Naum, o elcosita (Keller, 1992).

Esboço do Livro de Naum e as subdivisões de cada capítulo

i. O veredicto de Deus (1: 1-15)


a) O zelo de Deus (1: 2-6)
b) A bondade de Deus (1: 7)
c) O julgamento de Nínive (1: 8-14)
d) A alegria de Judá (1: 15)
e) A vingança de Deus (2: 1-13)
f) A destruição de Nínive (2: 1-12)
g) A declaração do Senhor (2: 13)
Livros proféticos e poéticos
ii. A vitória de Deus (3: 1-19)
a) Os pecados de Nínive (3: 1-4)
b) O cerco de Nínive (3: 5-18)
c) A celebração sobre Nínive (3:19)

3.1.2.13 Habacuque
Habacuque, cujo nome significa “abraço”, profetizou a Judá
quanto à invasão iminente dos caldeus (1: 6). Não há qual­
quer identificação de sua linhagem ou mesmo do lugar de seu
nascimento.
Os nobres de Judá, aliados aos líderes espirituais e outros,
estavam inescrupulosamente oprimindo e roubando o povo.
Tinham, portanto, de ser punidos, e Deus utilizou-se do povo
caldeu para exercer juízo sobre eles. É importante destacarmos
que a nobreza foi a primeira parte da população a ser levada ao
cativeiro nas duas deportações preliminares de 605 a.C. e 597 a.C.,
realizadas por Nabucodonosor, conforme podemos observar no
Livro do profeta Daniel. A maior parte da população, perten­
cente às classes mais humildes, foi deixada na terra até a terceira
deportação de 586 a.C.
Depois disso, Habacuque percebeu que os caldeus se cons­
tituíram num problema difícil de conciliar com a doutrina da
santidade de Deus, sendo um povo sanguinário, sem compaixão
e sem a mínima reverência pela lei moral. O profeta deu um
exemplo muito saudável de espera pelo Senhor (2:1), compreen­
dendo que o pecador orgulhoso que confia em si mesmo será
condenado e seu tempo está próximo e que somente o justo fiel
ficará em pé, justificado, no julgamento do Senhor (2: 4). Essa
é a única passagem que faz referência à palavra fé no Antigo
Testamento, e a expressão “o justo por sua fé viverá” se torna
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia Í72

o grande grito do Evangelho e a grande verdade resgatada pela


Reforma Protestante no século XYI. Dessa fôrma, o conflito
interno de um profeta e a resposta que obtém de Deus torna-se
uma poderosa verdade a transformar o mundo. Habacuque ain­
da manifesta sua confiança de que Deus tomou nota do pecado
dos caldeus e vindicará gloriosamente no final, ao trazer julga­
mento à sua terra (Capítulo 2) (Ellisen, 1999; Feinberg, 1996).
Habacuque foi um homem de natureza profundamente
meiga e de caráter espiritual, que manifestou um grande amor
por seu povo, cumprindo a posição de seu sentinela. Suas per­
guntas e dúvidas surgiram de seu zelo pela santidade e justiça
de Deus. O profeta ficou perplexo vendo que Deus permitiu o
mal em Judá e ainda mais quando Deus usou a Babilônia como
vara de correção para com o seu povo. Ele pronunciou as cinco
profecias contra os caldeus, manifestando o caráter julgador
de seu testemunho: 1) Por causa do orgulho e ambição (2: 6-8);
2) Por causa do orgulho e da cobiça (2: 9-11); 3) Por causa da
crueldade (2: 12-14); 4) Por causa da bebedeira (2:15-17); 5) Por
causa da idolatria (2: 18-20).
Habacuque irrompe Judá com esse salmo de santo regozijo
e rememora os dias do êxodo, da conquista e a época dos jui­
zes, além de recordar os acontecimentos do passado nos quais
Deus, de maneira semelhante, vindicou seu caráter de retidão
e demonstrou sua soberania perante o mundo. A fé e o amor
inabaláveis do profeta são demonstrados quando ele coloca
sua devoção acima de qualquer dificuldade que possa surgir
(3: 17-19).
A profecia de Habacuque tem vários aspectos singulares.
O estilo com que ele aborda o assunto é digno de nota. Em vez
de se dirigir à nação diretamente como porta-voz do Senhor,
f73

Livros proféticos e poéticos


o profeta entregou a mensagem divina como ela chegou até ele,
respondendo às perguntas que estavam surgindo dentro de sua
alma Com exceção de Daniel, não há outro autor bíblico que
empregue essa técnica.

Esboço do Livro de Habacuque e as subdivisões de cada capítulo

i. As perguntas de Habacuque (1: 1-17)


a) Uma pergunta acerca da preocupação de Deus (1: 1-11)
b) A pergunta declarada: “Por que Deus não faz alguma
coisa?” (1: 1-5)
c) A resposta dada: “Porque eis que suscito os caldeus”
( 1:
6- 11)
ii. Uma pergunta acerca dos métodos de Deus (1: 12-17)
a ) A resposta do Senhor (2: 2-20)

b) O alcance da resposta (2: 2-3)


c) A verdade central para os crentes (2: 4)
d) As conseqüências da verdade para os incrédulos (2: 5-20)
in. A oração de Habacuque (3: 1-19)
a) O poder do Senhor (3: 1-16)
b) Um grito de misericórdia (3: 1-2)
c) O poder da natureza (3: 3-11)
d) O poder contra as nações (3: 12-16)
e) A fé do profeta (3: 17-19)
f) Confiança apesar das circunstâncias (3: 17-18)
g) Confiança por causa de Deus (3: 19)

3.1.2.14 Sofonias
Quase nada se sabe a respeito de Sofonias, exceto o que se encon­
tra em seu escrito. Era filho de Cusi, da descendência de certo
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia
174

Ezequias, provavelmente do Rei Ezequias (1: 1), o que faz dele


o único profeta de sangue real.
As evidências internas do Livro de Sofonias indicam que ele
profetizou durante o reinado do Rei Josias, provavelmente antes
do grande reavivamento de 621 a.C. A situação moral e espiritual
do contexto em que o profeta viveu era muito ruim, resultado
dos reinados ímpios dos reis Amom e Manassés. Movido por
esse declínio moral do seu tempo, o profeta previu a queda de
Jerusalém, que, em sua inspirada visão, tornou-se uma figura
do “Dia do Senhor”. Além disso, ele previu o juízo dos gentios
e a restauração de Israel no reino messiânico.
O tema principal de Sofonias é o “Dia do Senhor”, um
acontecimento futuro que ele descreve com vivo poder. O pro­
feta usa a expressão “õ Dia do Senhor” mais do que qualquer
outro profeta; mas também roga a Judá que “busque o Senhor”
para que possa “esconder-vos no dia da ira do Senhor” (2: 3).
A expressão Dia do Senhor aparece sete vezes neste pequeno Livro.
Se considerarmos as referências a “o dia”, esse número aumenta
para 13, demonstrando a importância que o tema adquire.
Alguns críticos acreditam que a profecia de Sofonias se refe­
re à invasão súbita e devastadora dos citas, povo da região do
Mar Negro que realizou um ataque rápido na região do Cáucaso,
em cerca de 630 a.C., e varreu a região da Média e da Assíria.
De acordo com o historiador Heródoto, eles teriam saqueado
a Síria e ameaçado o Egito de tal maneira que o Faraó teve de
comprar a paz. Esse flagèlo de nômades guerreiros servia como
uma advertência a Israel da proximidade do Dia do Senhor, um
fpma profético recorrente nessa literatura do Antigo Testamento
(Llywelyn, 1988).
De forma semelhante a outros profetas bíblicos e, princi­
palmente, aos profetas maiores, Sofonias também profetizou
para outras nações, declarando que a Filistia sentiria o peso
da mão de Deus e que Moabe e Amom seriam aniquiladas de
modo semelhante a Sodoma. A Etiópia e a Assíria também
são alcançadas pela palavra de Sofonias, mais especificamente
Nínive, capital do Império Assírio.
Um apelo ao arrependimento e uma ordem para se buscar
ao Senhor vêm como a humildade (ou mansidão). Esse apelo
foi respondido pelos simpatizantes do Rei Josias, apesar de eles
não terem ficado no poder após a morte súbita de seu herói na
Batalha de Megido contra o Faraó Neco (609 a.C.).
.Algumas passagens de Sofonias parecem fazer referência ao
Milênio, como nabem-aventurança final de Israel: “Os restantes
de Israel não cometerão iniqüidade, nem proferirão mentira e
na sua boca não se achará língua enganosa; porque serão apas­
centados, deitar-se-ão e não haverá quem os espante” (3: 13).
A era futura seria de fé universal, e todas as nações, inclusive
as “de além dos rios da Etiópia”, serviriam ao Senhor com con­
sentimento comum, falando a mesma linguagem da fé (3: 9-10).
Em Sofonias, um dos elementos da profecia hebraica se
tom a notável. Eventos e oráculos dirigidos a Judá e nações
circunvizinhas adquirem um colorido de advertência universal,
que transcende os limites geográficos e históricos para compor
os grandes temas da escatologia bíblica.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia m

Esboço do Livro de Sofonias e as subdivisões de cada capítulo

i. O dia do julgamento de Judá (1: 2-13)


a) O julgamento sobre toda a criação (1: 2-3)
b) Contra os líderes religiosos (1: 4-7)
c) Contra os líderes políticos (1: 8-9)
d) Contra os líderes do comércio (1: 10-11)
e) Contra os descrentes (1: 12-13)
ii. O Dia do Senhor (1: 14-18)
a) O dia próximo que se aproxima rapidamente (1: 14)
b) Um dia de indignação (1: 15-16)
c) A Terra inteira para ser destruída (1: 18)
ui. Um chamado ao arrependimento (2: 1-3)
a) Um chamado para congregar (2: 1-2)
b) Um chamado pra buscar o Senhor (2: 3)
iv. O dia do julgamento contras as nações circunvizinhas
(2: 4-15)
a) Aos da borda do mar - filisteus (2: 4-7)
b) Aos do Oriente - Moabe e Amom (2: 8-11)
c) Aos do Sul - Etiópia (2: 12)
d) Aos do Norte - Assíria (2: 13-15)
v. O dia do Julgamento contra Jerusalém (3: 1-7)
a) Contra os líderes (3: 1-4)
b) O Senhor é justo; no meio da cidade de Jerusalém (3: 5)
c) Jerusalém não mudou (3: 6-7)
vi. Um remanescente fiel (3: 8-20)
a) Falar com pureza e honestidade (3: 8-13)
b) Os juízos são afastados, e os inimigos são exterminados
(3: 4-15)
c) O Senhor se regozijando (3: 16-17)
d) O povo restaurado (3: 18-20)
/77

Livros proféticos e poéticos


3,1.2.15 Ageu
Ageu foi um dos profetas pós-exílicos, os últimos profetas do
Antigo Testamento, e pouco se sabe dele: seu nome vem do
hebraico hag, que significa festivo, e provavelmente recebeu esse
nome por ter nascido durante alguma outra festa importante
da nação judaica.
O Espírito Santo levantou Ageu, juntamente com Zacarias,
para despertar no povo o interesse pela reconstrução do Templo
de Jerusalém (Esdras, 5: 1-2) e essa interferência do profeta foi
de fundamental importância. Devido a intrigas políticas contra
o remanescente que retornou de Judá, as obras de reconstrução
ficaram paralisadas durante um período de 14 anos, por deter­
minação do Rei Artaxerxes, da Pérsia, devido a uma denúncia
de seus vizinhos invejosos (Esdras, 4: 7). Não houve ânimo
para enfrentar a oposição e os judeus passaram a cuidar de
suas vidas, deixando de lado o propósito para o qual haviam
retornado à terra. O empreendimento exigia muito esforço, em
termos financeiros e de mão de obra, e, portanto, era mais fácil
procurar trabalhar pelo próprio conforto.
Graças à pregação de Ageu e Zacarias, esse quadro mudou
e os judeus conseguiram terminar a obra. Mais tarde, Herodes,
o Grande, remodelou e embelezou o templo, que permaneceria
de pé até o ano 70 d.C., quando foi destruído pelos romanos.
Era o templo que Jesus e seus discípulos conheceram.
As três curtas mensagens que formam o Livro de Ageu estão
entre as mais detalhadas profecias, especificando o ano, o mês e
o dia em cada caso (1:1-15; 2:1-20). Talvez por esse motivo a data
de composição e a autoria do Livro jamais foram contestadas por
qualquer um dos críticos. O Livro é reconhecido pelos estudiosos
como obra do próprio Ageu e a datação é aplicada corretamente.
i
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia 178

A primeira mensagem de Ageu foi entregue no dia Io de Elul


(agosto-setembro), no segundo ano de Dario, ou seja, 520 a.C.;
a segunda mensagem veio no dia 21 de Tisri (setembro-outu-
bro) do mesmo ano; a terceira mensagem vieram no dia 24 de
Quisleu (dezembro-janeiro) do mesmo ano. Todos os sermões
foram pronunciados dentro de um período inferior a 4 meses.
A mensagem de Ageu foi recebida e teve o efeito desejado.
Expressões como “veio a palavra do Senhor” e “assim diz
o Senhor dos exércitos” aparecem 25 vezes nos dois capítulos
da profecia. A mensagem central do Livro de Ageu é a de que o
povo não estava prosperando e não prosperaria até que colocasse
os propósitos de Deus em primeiro lugar.

Esboço do Livro de Ageu e a s Subdivisões de cada capítulo

i. A primeira mensagem do Senhor: “Aplicai o vosso coração


aos vossos caminhos” (1: 1-15)
a) Considerai o que tendes feito: negligenciastes a Casa
de Deus (1: 1-6)
b) Considerai o que devíeis fazer: edificar a casa de Deus
(1: 7-11)
c) Os resultados de considerar vossos caminhos (1:12-15)
ii. A segunda mensagem do Senhor: Esforçai-vos e trabalhai
(2:1-9)
a) A comparação do novo Templo com o Templo de
Salomão (2: 1-3)
b) Chamado para o esforço (2: 4-5).
c) A glória vindoura do novo templo (2: 6-9)
m

Livros proféticos e poéticos


in. A terceira mensagem do Senhor: “Eu vos abençoarei”
(2: 10-23)
a) Um pergunta aos sacerdotes (2: 10-19)
b) Uma promessa para Zorobabel (2:20-23)

3.1.2,16 Zacarias

Zacarias foi um profeta da restauração da Babilônia. Como


contemporâneo de Ageu, começou seu ministério no segundo
ano de Dario I Hystaspis, em 520 a.C. Suas mensagens cobrem
os acontecimentos que começaram com a restauração e a recons­
trução do Templo e se concluíram com o Milênio. Era filho de
Baraquias e neto de Ido. Segundo Neemias, Ido era um dos
sacerdotes que regressaram a Judá (Neemias, 12:4-16). Portanto,
Zacarias provavelmente era um sacerdote que foi chamado para
o ministério profético.
As profecias de Zacarias são datadas como as de Ageu,
embora não com a mesma precisão. Com base em Zacarias
(2: 4), podemos supor que ele fosse bastante jovem quando
começou a profetizar ao lado de Ageu. Alguns julgam que as
últimas profecias datam de 480 a.C., 40 anos após suas primei­
ras profecias, o que também apontaria para uma idade tenra no
começo de sua pregação.
Expositores, judeus e cristãos têm se queixado das dificul­
dades do Livro, fato que se deve principalmente às visões dos
primeiros capítulos. Mas nenhum profeta do Antigo Testamento
tem mais profecias referentes a Cristo, Israel e às nações em
tão pouco espaço como Zacarias. Ele prediz a segunda vinda
de Cristo, o Seu reino, o Seu sacerdócio, a Sua realeza, a Sua
humanidade, a Sua divindade, a edificação do Templo do Senhor,
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia m

a Sua vinda em humilhação, a Sua concessão de paz permanente,


a Sua rejeição e traição por 30 peças de prata, a Sua volta a Israel
como crucificado e a ferida pela espada do Senhor.
As predições de Zacarias de outros acontecimentos pro­
féticos do fim dos tempos são igualmente claras e significati­
vas. Só no último capítulo o profeta revela o último cerco de
Jerusalém, a vitória inicial dos inimigos de Israel, a ruptura
do Monte das Oliveiras, a defesa de Jerusalém pelo Senhor no
Seu aparecimento no Monte das Oliveiras, o julgamento das
nações confederadas, as mudanças topográficas na terra de
Israel, a Festa dos Tabernáculos no Milênio e a santidade final
de Jerusalém e o seu povo.
O Livro de Zacarias é iniciado com a descrição de oito
visões de cunho apocalíptico, recebidas em uma única noite;
assim como no caso do profeta Daniel, um anjo auxiliou o
profeta no entendimento das visões. No término das advertên­
cias, Zacarias recebe uma mensagem a respeito da coroação do
sumo-sacerdote como rei, aviso que apresenta um valor profun­
do. Perante a lei mosaica, os dois ofícios jamais poderiam se
envolver. Todavia, na mensagem se fala que “ele será sacerdote
no seu trono”. Tais uniões dos ofícios sacerdotais e reais apontam
para o rei sumo-sacerdote, Jesus, tão magistralmente apresen­
tado na Epístola aos Hebreus, onde sua função é confirmada a
partir de Melquisedeque, rei-sacerdote de Salém.
A parte seguinte da obra do profeta é constituída de men­
sagens com temas abrangentes. Tão amplo é o escopo de sua
profecia, que Zacarias bem poderia estar classificado entre os
profetas maiores, uma vez que o alcance de suas mensagens é
imenso e muito há ainda para oferecer em termos de conheci­
mento do futuro.
O conteúdo do Livro é altamente escatológico, como se pode
ver pela expressão “naquele dia” que é utilizada pelo menos 20
vezes.
Depois de Isaías, Zacarias é o profeta que mais escreveu a
cerca da vinda do Messias. Muitas dessas profecias tiveram o
seu cumprimento durante o ministério de Cristo; muitas delas
ainda aguardam seu cumprimento e apresentam um tom mais
escatológico. O paralelo entre Zacarias 14 e Apocalipse 19 é bas­
tante forte, indicando, sem dúvida, a manifestação e a segunda
vinda do Messias para a destruição das forças inimigas.
Alguns críticos entendem que o profeta teria morrido marti-
rizado pela ação de uma multidão no templo, já que o Zacarias
mencionado por Cristo é filho de Baraquias, e não filho de
Joiada, sendo que este último morreu de maneira semelhan­
te durante os dias do Rei Joás, conforme indica II Crônicas
(24: 20-21).
A unidade e a autoria o Livro de Zacarias foi um dos pon­
tos mais atacados pela Alta Crítica. Para muitos pesquisadores,
o Livro de Zacarias foi composto por uma série de autores em
diversas épocas diferentes, tranformando-o em um verdadeiro
mosaico. Todavia, estudiosos conservadores têm demonstra­
do a unidade de Zacarias e indicado persistência de traços de
estilos que confirmam a unidade e a autoria do Livro de forma
incontestável.

Esboço do Livro de Zacarias e as subdivisões de cada capítulo

i. O chamado ao arrependimento (1: 1-6)


ii. As oito visões (1: 7; 6:15)
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

a) O homem e os cavalos (1: 7-17)


b) Os quatro chifres e o ferreiro (f: 18-21)
c) O homem com um cordel de m edir (2: 1-13)
d) O sumo-sacerdote (3: 1-10)
e) O castiçal e o vaso de azeite (4: 1-14)
f) O rolo voante (5: 1-4)
g) A mulher no meio do efa - recipiente (5: 5-11)
h) Os quatro carros (6: 1-8)
in. A coroação do sumo-sacerdote (6: 9-15)
iv. Ritual religioso ou arrependimento verdadeiro (7: 1-14)
v. A restauração de Sião (8: 1-23)
vi. O triunfo de Sião (8: 1-23)
a) A primeira profecia: o messias rejeitado (9: 1; 11: 17)
b) A Segunda profecia: o messias reina (12: 1; 14: 21)

3.1.2.17 Malaquias
No hebraico, Malaquias significa “meu mensageiro”. Por muito
tempo não se sabia se “Malaquias” era nome do profeta ou se
era referência a um mensageiro do Senhor. Além do significado
do seu nome, não há informações sobre ele, tanto que alguns
intérpretes conferiam a autoria do Livro de Malaquias a Esdras,
todavia, essa tradição não merece consideração, uma vez que o
contexto do Livro não nos fornece muito material para concluir
a época e as circunstâncias envolvidas na mensagem, tornando
difícil de ser definida a datação.
Mesmo com essas dificuldades, algumas evidências inter­
nas parecem indicar o século V a.C. como a data mais provável.
O Templo de Jerusalém já estava edificado, um governador persa
Livros proféticos e poéticos
estava no poder, conforme consta em Malaquias (1: 8) e os peca­
dos que o profeta denuncia são semelhantes aos que Neemias
teve de enfrentar durante seu segundo período. Esses pecados
indicados por Malaquias representavam a frouxidão moral e a
pobreza dos levitas, trazida pelo descuido dos dízimos e o casa­
mento com mulheres estrangeiras. Alguns críticos acreditam que
Malaquias pode ter exercido seu ministério profético durante a
ausência de Neemias, mas isso é apenas suposição. Nesse caso,
uma estimativa justa seria por volta do ano de 435 a.C.
Um dos temas de Malaquias é a sinceridade perante Deus e
uma maneira santa de viver, ações absolutâmente essenciais aos
olhos de Deus, para que Ele derrame bênçãos sobre as colhei­
tas e o bem-estar econômico da nação. Israel precisava viver à
altura de sua vocação de nação santa, aguardando a vinda do
Messias, que, por meio de um ministério de cura e não somente
de julgamento, levaria a nação a concretizar suas mais ternas
esperanças.
O Livro de Malaquias é a última mensagem do Antigo
Testamento que contém a profecia sobre o ministério de João
Batista, que se cumpriu no Novo Testamento. Malaquias desen­
volve o seu tema principal, que é a corrupção dos sacerdotes e
os pecados do povo contra a família e a mesquinhez de ambos
para com Deus, seguido de perguntas feitas pelos destinatários
e as declarações que comprovam as afirmações iniciais, uma
forma dialética de discussão que mais tarde tornou-se bastante
popular no judaísmo.
O Livro de Malaquias, seguindo o modelo usual dos profe­
tas, apresenta perspectivas tanto presentes quanto futuras. As
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia /S4

considerações presentes são a condenação dos pecados, tanto


do povo quanto de levitas e sacerdotes. As considerações futu­
ras estão ligadas à vinda do Messias e de um mensageiro que
o antecede, identificado com o profeta Elias. Apesar de breve,
o Livro não perde a visão messiânica e a esperança do “sol da
justiça”, um tempo de grandes bênçãos para Israel.

Esboço de M alaquias e as subdivisões de cada capítulo

i. O amor do Senhor por Israel (1: 2-5)


ii. O fracasso dos sacerdotes (1: 6; 2: 9)
in. A infidelidade do povo (2: 10-16)
iv. O dia do julgamento (2: 17; 3: 5)
v. Bênção na oferta (3: 6-12):
vi. O destino do ímpio e do justo (3: 13-4)
v il Exortação e promessa (4: 4-6)

3.2 Livros poéticos


Os livros denominados poéticos fazem parte dos livros hagiógra-
fos (livros que narram as histórias dos santos) dos cânones judai­
cos. São eles os seguintes: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes
e Cantares de Salomão. Três deles são chamados de livros
sapienciais, que significa “livros de sabedoria” - Jó, Provérbios
e Eclesiastes. O primeiro trata do problema do “sofrimento do
justo”, o segundo aborda a “ética e moral” e o terceiro versa sobre
o “problema da felicidade” (Hoff, 1996; Mears, 2006).
Esses livros são classificados como poéticos porque as poe­
sias são predominantes na estrutura do texto; contudo, neles
Livros proféticos e poéticos
há narrativas e profecias. Essas poesias foram produzidas por
inspiração divina para servirem como instrumento de comunhão
com Deus e meditação nas coisas espirituais, conforme escreveu
o salmista: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo
o dia!” (Salmos, 119: 97).
Os livros classificados de sabedoria são diferentes dos Livros
proféticos de Israel porque expressam melhor a filosofia dos
pensadores do que as determinações das mensagens do Senhor
Deus. A frase “Assim diz o Senhor” não é encontrada nos Livros
poéticos nos momentos em que o texto aborda os problemas
da vida e as conclusões dos homens (Hoff, 1996; Mears, 2006).

3.2.1 Características dos Livros poéticos


Há uma característica peculiar da poesia hebraica chamada
paralelismo, recurso que se divide em três formas: a antitética, a
sinônima e a sintética. Cada uma dessas formas admite muitas
variações; às vezes, duas formas se combinam em um só verso
(Hoff, 1996; Mears, 2006).
A forma antitética (que denota contraposição) consta de
duas cláusulas, uma fazendo contraste com a outra e, assim,
esclarecendo a significação de ambas. É muito utilizada no
ensino, assim como no Livro de Provérbios, como mostram os
exemplos indicados a seguir:
/86

4t?V.
r ^'
# 0 ;que ama a correção ama o conhecimento, mas o qul
- x
-• - ■

íâborrece a repreensão é um bruto” (Provérbios, 12: 1).


“Balança enganosa é abominação para o Senhi
mas o peso justo é o seu prazer” (Provérbios, 11: ljf
“A memória do justo é abençoada, mas o npngj
dos ímpios apodrecerá” (Provérbios, 10: 7)

Em certas ocorrências, há duas frases, ou cláusulas, na pri­


meira afirmação e duas na segunda, como no seguinte salmo:
“Pois não foi por sua espada que possuíram a terra, nem foi o seu
braçò que lhes deu vitória, e sim a tua destra, e o teu braço, e o
fulgor do teu rosto, porquê te agradaste deles” (Salmos, 44: 3).
A forma sinônima (de significado semelhante) da poesia
hebraica consta nas passagens em que o mesmo pensamento
geral é repetido em duas ou mais cláusulas. Em alguns versos,
as cláusulas paralelas repetem idêntica verdade com palavras
diferentes, enquanto, em outros casos, há somente uma seme­
lhança geral. Vejamos alguns exemplos:

ii
Livros proféticos e poéticos
PpRcMS do Senhor é o reino, é ele quem governa as
Kações” (Salmos, 22: 28).
»■ “Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó
Senhor, em socorrer-me” (Salmos, 70: 1). i
“Sejam envergonhados e cobertos de vexame op
que me demandam a vida; tornem atrás e cubram-se
de ignomínia os que se comprazem no meu m al'1
•(Salmos, 70: 2).
“A falsa testemunha não fica impune, e o que pro-
w%r£ mentiras não escapa” (Provérbios, 19: 5).

Há nos Livros da Bíblia casos de paralelismo em que as cláu­


sulas chegam a ser tão numerosas que constituem uma série de
frases com o mesmo significado, como no trecho de Provérbios
(23: 29) indicado a seguir: “Para quem são os ais? Para quem,
os pesares? Para quem, as rixas? Para quem, as queixas? Para
quem, as feridas sem causa? E para quem, os olhos vermelhos?”.
Em determinadas passagens, as cláusulas paralelas são
precedidas ou seguidas por uma frase curta, como consta no
Salmo 131, versículo 11: “Senhor, não é soberbo o meu coração,
nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas,
nem de coisas maravilhosas demais para mim”.
Na terceira forma de paralelismo, a sintética (termo que vem
do grego synthétikós que significa reunido ou juntado), é necessária
uma cláusula para explicar a significação da outra. A relação
M
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

de uma cláusula e outra pode ser de comparação, causa e efeito


ou esclarecimento. Veja os exemplos a seguir:

■■'"A csi ii Itícia do homem perverte o seu caminho, mas c


contra o Senhor que o seu coração se ira” (Provérbios,
: 19: 3).
“Não te glories do dia de amanhã, porque não
; sabes o que trará à luz” (Provérbios, 27: 1).
“Melhor é a repreensão franca do que o amor
encoberto” (Provérbios, 27: 5).
“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará”
(Salmos, 23: 1).

Há várias combinações dessas três formas de paralelismo


na poesia hebraica, que apresenta versos bem variados e gracio­
sos. Nos Salmos, por exemplo, encontramos três paralelismos
sintéticos (uma cláusula independente da outra) que formam
um paralelismo sinônimo (de; igual significação) tríplice: “Pois
quanto o céu está elevado acima da terra, assim é grande a sua
misericórdia para com os que o temem. Quanto está longe o
Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões.
Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se
compadece daqueles que o temem” (Salmos, 103: 11-13).
Em alguns fragmentos, em estrofes de quatro linhas, as
cláusulas se correspondem alternadamente - a primeira linha
corresponde à terceira linha, e a segunda, à quârta: “O Senhor
olha desde os céus e está vendo a todos os filhos dos homens;
da sua morada contempla todos os moradores da terra” (Salmos,
33: 13-14).

3.2.2 Livro de Jó
O Livro de Jó ocupa um lugar muito particular na Bíblia: ele tem
um caráter totalmente próprio e ensina lições que não vamos
achar em nenhuma outra parte das escrituras. Não é nosso pro­
pósito abordar a questão da autenticidade desse precioso Livro,
tampouco abordar as provas da sua divina inspiração. Tais
coisas temos por certas. Recebemos o Livro de Jó como parte
das Sagradas Escrituras e, portanto, para proveito do povo de
Deus. Não precisamos de provas para nós, nem pretendemos
oferecer nenhuma delas aos nossos leitores.
O Livro de Jó conta com um prólogo (1: 1; 2: 13) e um
epílogo (42: 1-17) muito bem escritos. Entre esses capítulos de
abertura e encerramento se encontra registrada uma série de
conversações que ocorreram entre Jó e seus amigos (capítulos
3 a 37). Suas falas formam a parte principal do Livro e estão
registradas com detalhes, de forma que podemos compreender
as angústias de Jó por ter sido acusado de não crer em Deus e
no Poder Divino.
A estrutura do Livro de Jó é essencial para compreendê-lo.
O religioso era conhecido na tradição hebraica como um homem
santo, conforme está escrito: “Havia um homem na terra de Uz,
cujo nome era Jó; e este era homem sincero, reto e temente a
Deus; e desviava-se do mal” (Jó, 1: 1). O diálogo poético (3: 31)
lida com o profundo problema teológico do significado do sofri­
mento na vida de um homem justo.
Que o pecador sofra, todos entendemos! Mas o justo? Aquele
que faz de tudo para agradar a Deus? Jó não entende as causas
/90
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

dessas calamidades, mas consola-se com o pensamento de que


Deus envia aos homens tanto o bem quanto o mal. É sob essa ótica
que o livro vai desenvolver o problema do sofrimento humano.
Em uma série de debates, Jó defende sua integridade con­
tra as acusações de três amigos que pensam estar defendendo
a Deus. Nos capítulos 29 a 31, Jó encerra o debate com um
protesto formal de sua inocência e lança um desafio a Deus,
momento em que Eliú interfere para falar contra o religioso
(32:37). Finalmente, o Senhor intervém para fazer dois discursos
(38: 41) e Jó tem uma reação final (42).

3 . 2 . 2.1 Autoria
A autoria do Livro de Jó é incerta e várias são as hipóteses
levantadas, pois conteúdos semelhantes aparecem nos textos
egípcios e nas Cartas de Armána (citações de textos do Antigo
Testamento). Tanto a derivação quanto o significado do nome
permanecem incertos.
A tradição judaica, bem como alguns estudiosos, declara
que o autor foi Moisés outros atribuem a autoria a Eliú; outros,
atribuem a Salomão e, por fim, ào próprio Jó.
O fato é que não há nenhuma fundamentação consistente
quanto à autoria dessa obra. Tudo o que se pode sabèr do autor
é o que consta no livro.

3.2.2.2 Tema
O Livro de Jó investiga questões que têm perturbado o ser
humano desde o princípio - o sofrimento do justo. A pergunta
que ecoa por toda a obra é a seguinte: Por que sofrem os justos?
Há muito tempo as pessoas têm se preocupado com as terríveis
/?/

Livros proféticos e poéticos


desigualdades da vida e perguntam: Como um Deus bom pôde
fazer um mundo como este, onde existe tanto sofrimento? Como
pode um servo de Deus continuar convencido de que Ele é justo,
quando frequentemente se abatem sobre ele tragédias e desola­
ção? Assim sendo, é oportuno que esse livro trate de um dos
problemas mais antigos que afetam toda a humanidade. Desse
modo, o drama de Jó oferece uma solução para esse problema.
Archer Junior (2000) faz uma interessante análise do tema
de Jó, afirmando o seguinte:
Este livro trata com o problema teórico da dor na vida dos fiéis.
Procura responder à pergunta: Por que osjustos sofrem? Esta resposta
chega de forma tríplice:
1. Deus merece nosso amor à parte das bênçãos que concede;
2. Deus pode perm itir o sofrimento como meio de purificar e for­
talecer a alma em piedade;
3. Os pensamentos e os caminhos de Deus são movidos p o r consi­
derações vastas demais para a mente limitada do homem possa
compreender, já que o homem não pode ver os grandes assuntos
da vida com a mesma visão ampla do Onipotente. Mesmo assim,
Deus realmente sabe o que é o melhor para Sua própria glória
e para nosso bem final. Esta resposta é dada em contraste aos
conceitos limitados dos três “consoladores” de Jó: Elifaz, Bildade
eZofar.

Se a princípio é indesejável a experiência do sofrimento,


o seu propósito, de acordo com a soberana vontade de Deus,
é sempre sublime. O Livro de Jó ensina, de acordo com Pearlman
(1996a, p. 91), que Deus “tem um propósito ao enviar o sofri­
mento aos homens; que Ele castiga o homem com a intenção
de trazê-lo mais perto de si mesmo. Deus usou as aflições para
experimentar o caráter de Jó e como um meio de revelar-lhe um
pecado do qual até então não se tinha dado conta: autojustiça”.
#2
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

3.2,23 D a ta de compilação
O Livro de Jó é um dos Livros mais difíceis de se traduzir do
Antigo Testamento. Essa afirmação é feita com base nas dife­
renças existentes entre versões modernas e antigas do texto
desse religioso. A obra tem muitas palavras raras, o que força
os tradutores a fazerem cautelosas suposições. É desconhecida
a data em que o Livro de Jó foi escrito, entretanto, várias datas
têm sido sugeridas pelos críticos, como no período interbíblico,
na época de Salomão, no período mosaico etc. (Hoff, 1996;
Mears, 2006).

3.2.2.4 Estrutura
A estrutura do Livro de Jó segue um esquema lógico e literaria-
mente harmônico. O Livro foi escrito seguindo uma seqüência
coerente, e apresenta o seguinte esquema:
co Prólogo - Composto em prosa, resume a existência de Jó
antes do seu sofrimento e as acusações que Satanás levantou
contra ele perante o Senhor Deus.
oo Diálogos - Mediante três diálogos, Jó discute com seus
amigos o tema principal do Livro: o sofrimento do justo,
oo Monólogos - Há dois monólogos no livro: o de Eliú e o de
Deus. O primeiro afirma que Deus tem o direito de provar
os seus servos, com a finalidade de que eles alcancem a
perfeição. O segundo, o monólogo de Deus que leva Jó a
compreender os desígnios divinos.
co Epílogo - Narra a restauração de Jó, período em que Jó
apresenta um estado melhor daquele em que se encontrava
anteriormente.

3.2,2,5 Deus no Livro de Jó


Há uma variedade de nomes divinos no Livro de Jó. No prólogo
e no epílogo, o narrador se dirige a YHWH na forma israelita
normal (o Senhor), como o verdadeiro Deus e Senhor Supremo
e também na forma do termo genérico Elohim (Deus). Fora isso,
três nomes de Deus são adotados consistentemente: El (Deus),
Eloah (Deus), e El Shadday (o Todo Poderoso).

3.2.2.Ô Esboço do Livro de Jó


a) Introdução (1: 1 ; 2: 13)
b) Jó é consagrado e rico (1: 1-5)
c) Satanás desafia o caráter de Jó (1: 6-12)
d) Satanás destrói as propriedades e os filhos de Jó (1:13-22)
e) Satanás ataca a saúde de Jó (2: 1-8)
f) Reação da esposa de Jó (2: 9-10)
g) A visita dos amigos de Jó (2: 11-13)
Capítulos:
i. Diálogo entre Jó e os seus três amigos (3: 1; 26: 1)
a) O clamor de desespero de Jó (3: 1-26)
b) O primeiro diálogo (4: 1; 14: 22)
c) O segundo diálogo (15: 1; 21: 34)
d) O terceiro diálogo (22: 1; 26: 14)
ii. O discurso final de Jó aos seus amigos (27: 1; 31: 40)
ui. Eliú desafia Jó (32: 1; 37: 24)
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

iv. Deus responde de um remoinho (38: 1; 41: 34)


v. A resposta de Jó (42:1-6)
vi. A parte histórica final (42: 7-17)

3.2.3 Livro de Salmos


O nome hebraico para o livro de Salmos é “sepher tehillim”, que
significa “livro de louvores”. As versões gregas levam os títulos
“Psalmoi e Psalterion”, de onde tiramos nossos títulos Salmos e
Saltério.
O Livro contém 150 poemas de adoração para serem can­
tados em louvor e engrandecimento ao Senhor, exaltando Seus
atributos, Seu nome, Sua Palavra e Sua bondade. Confiança é a
ideia principal do livro, sendo uma palavra repetida muitíssimas
vezes.
Muitos dos Salmos são preces e súplicas a Deus: alguns con­
têm bons conselhos, indicando o caminho da verdadeira felicida­
de por meio da virtude e do cumprimento dos mandamentos de
Deus. Desse modo, os Salmos refletem todos os incidentes que
podem ocorrer na vida, tanto ao indivíduo quanto à coletividade.
Muitos acontecimentos da vida e do ministério do Senhor
Jesus Cristo se encontram profundamente detalhados no Livro
de Salmos, como Ele mesmo disse: “São estas as palavras que
vos disse estando ainda convosco: convinha que se cumprisse
tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos Profetas,
e nos Salmos” (Lucas, 24: 44).
Desse modo, em relação a Jesus Cristo, em Salmos
encontramos:
a) Sua função profética (Salmo, 22: 22);
b) Sua função sacerdotal (Salmos, 22; 40: 6-8; 49; 110);
c) Sua função real (Salmos, 22: 22; 45; 72).
d) Seus sofrimentos (Salmos, 22; 69).
e) Sua ressurreição (Salmos, 16).
Nos Salmos são apresentados outros temas de suma impor­
tância, como a criação do homem (8: 5), a aliança estabeleci­
da com Abraão e seus descendentes (105: 9-11), o sacerdócio
de Melquisedeque (110: 4), Isaque, Jacó, José, Moisés e Arão
(105: 9-45), a libertação do Egito e a herança Cananeia (78: 12;
105: 44).
Os Salmos retratam a mais íntima expressão de dor, angús­
tia, coragem, louvor e confiança em Deus. Eles representam o
clamor de corações aflitos em busca do auxílio divino, a fim
de aliviar o pranto amargo que muitas vezes a vida provoca,
conforme bem expressou Pearlman (1996b, p. 5): “nos livros
históricos da Bíblia, Deus fala acerca do homem; nos livros
proféticos, Deus fala ao homem; nos Salmos, o homem fala a
Deus”. Portanto, podemos afirmar que a Bíblia está repleta de
cânticos - de adoração, expressão de gratidão e até mesmo de
expressão de tristeza e lamentação.

3.23.1 Autoria
De modo geral, a única informação definida sobre a autoria
do Livro de Salmos se encontra nos títulos desta obra. Não são
todos os títulos que contêm os nomes dos autores, entretanto, os
títulos que apresentam os nomes são assim definidos: 73 Salmos
são atribuídos ao Rei Davi - poeta e cantor de Israel; o Salmo
90 é atribuído a Moisés; Salomão seria o autor dos Salmos 72 e
127; Asafe, dos Salmos 50 e 73-83; Hemã, do Salmo 88; Etã, do
Salmo 89; e os filhos de Coré, dos Salmos 42,44-49, 84, 85 e 87.
06
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Não há dúvidas de que o Saltério foi completado depois do


exílio e que a compilação final se deu no período posterior ao
retorno da Babilônia.

3.23.2 Organização
Os Salmos são cânticos de louvor a Deus como sublime criador,
sustentador e redentor; esse louvor consiste em reconhecer, apre­
ciar e expressar a grandeza de Deus. Eles foram organizados
em cinco livros, delimitados por uma fórmula conclusiva, em
correspondência com os cinco Livros do Pentateuco:
oo Livro I - Salmos 1 a 41
co Livro II - Salmos 42 a 72
oo Livro III - Salmos 73 a 89
co Livro IV - Salmos 90 a 106
oo Livro V - Salmos 107 a 150

Os Salmos refletem o culto, a vida devocional e o sentimen­


to religioso da nação de Israel. Um fato interessante na obra é
a predominância do nome divino YHWH nos Salmos 1 ao 42,
onde aparece 272 vezes. Já dos Salmos 43 ao 72, prevalece o
nome genérico Elohim, que é apresentado 164 vezes. Há tam­
bém entre os Salmos aqueles que são chamados de “cânticos
de romagem” ou “cânticos de peregrinação”, que estão entre os
Salmos 120 e 134.

3-233 Classificação
De acordo com o Livro de Crônicas, que diz “E pôs perante
a arca do Senhor alguns dos levitas por ministros; e isso para
recordarem, e louvarem, e celebrarem ao Senhor, Deus de Israel”
(I Crônicas, 16:4), podemos concluir que haviatipos de Salmos
para ocasiões diferentes.
Alguns Salmos históricos reveem os atos de Deus e as res­
postas de Israel (68; 78; 105; 106). Salmos penitenciais expressam
a tristeza do autor sobre pecado e falhas pessoais (6; 32; 51).
Os Salmos imprecatórios protestam contra a injustiça e clamam
pela intervenção divina (35; 69; 109; 137). Os Salmos litúrgicos
eram usados na adoração do Templo de Jerusalém em ocasiões
especiais (30; 92; 120-134). Outros Salmos são classificados
como de louvor, em que o foco está na pessoa ou obra de Deus
e cuja intenção é exaltá-lo (33; 103; 138).
Muitos Salmos são messiânicos, pois enfocam a vida e o
ministério do Messias esperado (2; 8; 16; 22; 40; 45; 69; 72; 89;
102; 109; 110; 132). Esses Salmos descrevem com precisão o
nascimento, a vida, a morte, a ressurreição e a segunda vinda do
Prometido para julgar o mundo. Entre outras coisas, os Salmos
proclamam a divindade de Cristo (45: 6-7); Sua filiação (2: 7;
110: 1); Sua obediência (40: 6-8); Seu sofrimento (69: 9); Sua
morte (22: 1-21); Sua ressurreição (2: 7; 16: 10); Sua ascensão
(68: 18); e Sua segunda vinda para julgar o mundo (46 e 47).

3.2 3 .4 Títulos do Livro de Salmos


Os títulos de cada salmo são indicadores de sua natureza lite­
rária. Alguns títulos se referem ao uso litúrgico dos Salmos a
serem cantados em certas ocasiões (Hoff, 1996; Mears, 2006).
Há títulos descritivos da característica poética (Ellisen, 1999,
p. 166):
oo Mizmor - 57 Salmos são assim chamados. Referem-se à
música que deve ser cantada acompanhada de instrumentos
de cordas.
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

oo Shir - cântico de qualquer qualidade ou espécie; ocorre


30 vezes (46 e 120 a 134).
oo Mashkil - um cântico de especial qualidade, ocorre em

13 salmos, podendo significar vários tipos de cânticos: medi­


tativos, didáticos. -
oo Miktam - Salmo com ideia de lamentação pessoal consta
6 vezes (16: 56-60).
oo Shiggayon- ocorre uma vez (7).
oo Tephittah - significa “oração” (17, 86, 90, 102, 142).
oo Tehillah - significa “louvor”, ocorre somente uma vez (145).
Há títulos que indicam a direção musical:
oo Lamnatseach - palavra que vem ao título de 55 Salmos.
oo Neginoth - significa “instrumentos de cordas” e aparece em
6 títulos, sempre combinado com Lamnatseach. Em quatro
dos títulos em que aparece, vem associado ao termo mizmor.
oo A l hashsheminith - significa “sobre a oitava” e ocorre duas
vezes, nos Salmos 6 e 12.
oo A l ‘alamoth - significa “instrumentos de cordas”e se encontra
no título do Salmo 46.
oo Gittith - pode significar “canção de vindima”
oo Nehiloth - significa “flauta” e ocorre somente no Salmo 5.
oo Mahalath - significa “doença, aflição”, e possivelmente indi­
cava um salmo fúnebre,
oo Selah - palavra que não aparece nos títulos, mas nõ fim de
algumas seções (46: 7); chama a atenção por ocorrer 71
vezes no Livro I, 30 vezes no Livro II, 20 no Livro III, e 4 no
Livro V. É uma indicação musical, não para ser lida, mas
significando uma pausa no cântico, um interlúdio instru­
mental, ou, uma elevação de som (forte).
Livros proféticos e poéticos
3.23.5 Data de compilação
Podemos dizer, de acordo com a autoria dos Salmos, que sua
compilação se estendeu desde a época de Moisés (aproximada­
mente 1440 a.C.) até depois do cativeiro babilônico (586 a.C.)
(Hoff, 1996; Mears, 2006).

3.23.6 Esboço do Livro de Salmos


Capítulos:
i. Livro I (1-41)
a) Cânticos introdutórios (1: 1; 2: 12)
b) Cânticos de Davi (3: 1; 41: 12)
c) Doxologia (41: 13)
li. Livro II (42-72)
a) Cânticos dos filhos de Corá (42: 1-49)
b) Cânticos de Asafe (50: 1-23)
c) Cânticos de Davi (51: 1-71: 24)
d) Cânticos de Salomão (72: 1-17)
e) Doxologia (72: 18-19)
f) Versículo de conclusão (72: 20)
ui. Livro III (73-89)
a) Cânticos de Asafe (73: 1-83: 18)
b) Cânticos dos filhos de Corá (84: 1-85: 13)
c) Cânticos de Davi (86: 1-17)
d) Cânticos dos filhos de Corá (87: 1-88: 18)
e) Cânticos de Etã (89: 1-51)
f) Doxologia (89: 52)
IV Livro IV (90-106)
a) Cânticos de Moisés (90: 1-17)
b) Cânticos anônimos (91: 1-92: 15)
200
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

c) Cânticos “o Senhor reina” (93: 1-100: 5)


d) Cânticos de Davi (101: 1-8; 103: 1-22)
e) Cânticos anônimos (102: 1-28; 104: 1-106: 47)
f) Doxologia (106: 48)
V. Livro V (107-150)
a) Cânticos de ação de graças (107: 1-43)
b) Cânticos de Davi (108: 1-110: 7)
c) Hallel egípcio (111: 1-118: 29)
d) Cânticos alfabéticos sobre a lei (119: 1-176)
e) Cânticos dos degraus (120: 1-134: 3)
f) Cânticos anônimos (135: 1-137: 9)
g) Cânticos de Davi (138: 1-145: 21)
h) Cânticos “louvai ao Senhor” (146: 1-149: 9)
i) Doxologia (150: 1-6)

3.2.4 Livro de Provérbios


O título de Provérbios procede do primeiro versículo que
diz: “Provérbios de Salomão, filho de Davi, rei de Israel” (em
hebraico: “Mislê Shelomóh ben David melék yisrael". Essa palavra
vem do latim “proverbium” —pro, “antes” e verbum, “palavra”. Na
versão grega, esse livro se chama “paroimi,ai” (Paroimiai), que
significa “provérbios, palavras” (Ellis, 1999).
O Livro de Provérbios é uma coleção de avisos e conselhos
com a intenção de inculcar as virtudes que a Bíblia persevera em
afirmar do começo ao fim. O propósito primário dos Provérbios
é didático, pois suas declarações compactas e práticas fazem com
que seu conteúdo se fixe facilmente na memória.
Um provérbio é uma frase curta que expressa um princípio
moral ou uma lição prática em forma precisa e eficaz. Dessa
20/
W " íi! ííiíir ,s ii

Livros proféticos e poéticos


maneira, podemos afirmar que o Livro de Provérbios é a princi­
pal fonte de ética e moral do Antigo Testamento, principalmente
sobre questões relacionadas à virtude e ao dever. Os Provérbios
abrangem os mais variados assuntos: a sabedoria, a justiça,
o temor a Deus, o conhecimento, a moralidade, a castidade,
a diligência, o domínio próprio, a confiança em Deus, o emprego
correto do dinheiro, a consideração pelos pobres, o controle da
língua, a bondade para com os inimigos, a escolha dos compa­
nheiros, o treinamento das crianças, a honestidade, a preguiça,
a falta de ocupação, a solicitude, a boa disposição de ânimo,
o bom senso, entre outros temas.
De acordo com Turner (2004, p. 224), nesse livro temos
“o melhor texto para o estadista, o melhor código para o gover­
nador, as melhores instruções para o juiz, a melhor receita para
o êxito do comerciante, os melhores ensinamentos para o estu­
dante, o melhor guia para o jovem e a melhor meditação para
o ancião”.

3.2.4.1 Autoria
Muitos dos Provérbios foram escritos por Salomão. Famoso por
seu saber e sua riqueza, sobre ele as Escrituras dizem o seguinte:
“Era mais sábio do que todos os homens, mais sábio do que Etã,
Ezraíta, e do que Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol; e correu
a sua fama por todas as nações em redor. Compôs três mil pro­
vérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco” (I Reis, 4: 31-32).
Tendo recebido sabedoria da parte de Deus, Salomão estava
altamente capacitado para escrever esse Livro: “Deu também
Deus a Salomão sabedoria, grandíssimo entendimento e larga
inteligência como a areia que está na praia do mar” (I Reis, 4:29).
Alguns Provérbios saíram da pena de Salomão, outros podem
ter sido coletados por ele, e ainda outros foram adicionados à
202
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

coleção básica, em várias épocas por diversas pessoas. Vejamos


o que diz Salomão sobre isso: :“o Pregador, além de sábio, ainda
ensinou ao povo o conhecimento; e, atentando e esquadrinhando,
compôs muitos provérbios” (Eclesiastes, 12: 9).
Outros autores mencionados por nome em Provérbios são
Agur (30: 1-33) e Lemuel (31: 1-9), autores que a Bíblia não
menciona em outra parte, e mais aqueles cujos nomes não são
citados, como os sábios (22:17) e os homens de Ezequias (25:1).
A tradição judaica afirmá que Ezequias e seus companhei­
ros escreveram os Provérbios. Provavelmente, essa declaração
talmúdica refere-se a “Ezequias e seus companheiros” não como
autores, mas como compiladores que ajuntaram e editaram o
Livro, acrescentando outros Provérbios (Ellis, 1999).

3.2,4.2 Tema s
O livro de Provérbios é farto em expressões concisas que têm a
finalidade de ensinar as pessoas a viverem em retidão de acordo
com o padrão divino. O Deus do Antigo Testamento é um ser
moral que, consequentemente, supervisiona as escolhas morais
humanas. Assim, o indivíduo que pratica o que é bom e certo
pode esperar ser abençoado, e o indivíduo que pratica o erro e
o mal pode esperar desapontamento e infortúnio.
O propósito do Livro é esclarecido em seus versos iniciais:
“Para aprender a sabedoria e o ensino; para entender as palavras
de inteligência; para obter o ensino do bom proceder, a justiça, o
juízo e a equidade; para dar aos simples prudência, e aos jovens,
conhecimento e hom siso” (Provérbios, 1: 2-4). Dessa forma,
é um Livro prático para a vida diária.
203

M
Livros proféticos e poéticos
3 .2 .4 3 D ata de com pilação

Não temos como ser exatos em relação à data final da composição


ou da compilação do Livro de Provérbios. É provável que a obra
tenha sido elaborada no tempo do Rei Ezequias (726 a.C.-698 a.C.),
conforme é sugerido em Provérbios (25: 1).

3.2.4.4 Esboço d o Livro de Provérbios

Capítulos:
i. Introdução (1: 1-7)
a) Título, propósito e introdução (1: 1-6)
b) Tema ou lema (1: 7)
ii. Avisos de um pai e advertências da sabedoria (1: 8-33)
a) Avisos de um pai, parte I (1: 8-19)
b) Advertências da sabedoria, parte I (1: 20-33)
c) Avisos de um pai, parte II (2: 1-7; 27)

d ) Advertências da sabedoria, parte II (8: 1-36)


ui. O caminho da sabedoria em oposição ao caminho da lou­
cura (9: 1-18)
iv. Os provérbios de Salomão e as palavras do sábio (10:1-29; 27)
a) Os provérbios de Salomão - primeira coleção (10:1-22; 16)
b) Palavras do sábio - primeira coleção (22: 17-24; 22)
c) Palavras do sábio - segunda coleção (pelos homens de
Ezequias (25: 1-28; 27)
V. Provérbios de Agur (30: 1-33)
a) A vida de moderação temente a Deus (30: 1-14)
b) As maravilhas da vida observadas sobre a Terra
(30:15-31)
c) a insensatez do orgulho e da ira (30: 32-33)
vi. Provérbios do Rei Lemuel (31: 1-31)
a) Conselhos de uma mãe para um filho nobre (31: 1-9)
204
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

3.2.5 Livro de Eclesiastes


O título do Livro de Eclesiastes é derivado da tradução grega
de “qoheleth”, que significa “pregador”. O Livro contém uma
análise das experiências adquiridas por seu autor ao longo de
sua vida e uma conclusão sobre o verdadeiro significado de sua
existência: longe de Deus tudo é vazio, oco, sem sentido, enfim,
“tudo é vaidade”. Esse tema é desenvolvido em vários discursos,
sendo que o primeiro bloco demonstra a insignificância da vida,
enquanto o segundo esboça deduções éticas das observações
sobre a existência. Enfaticamente, cerca de 27 vezes, o autor do
Livro de Eclesisastes alerta que está relatando sua observação
nas eventualidades que ocorrem “abaixo do sol”, excluindo,
portanto, a realidade “além do céu ou sol”!
A conclusão de que tudo é vaidade e aflição de espírito é, por
conseguinte, inevitável, e a mensagem de Eclesiastes é que a vida
longe de Deus é repleta de canseira e desapontamentos. Dessa
maneira, segundo Mears (2006), o problema que Salomão enfren­
tou foi como achar felicidade e a satisfação longe do Pai (1:1-3). O
governante buscou-as na ciência (1:4-11), mas não teve resposta;
buscou-as na filosofia (1:12-18), em vão. Descobriu então que o
prazer (2:1-11), a alegria (vers. 1), a bebida (vers. 3), a construção
(vers. 4), as possessões (vers. 5-7) e a música (vers. 8) são todos
vazios. Ele experimentou o materialismo (2:12-26), o fatalismo
(3: 1-15), o deísmo (3: 1-4: 16), mas esses também eram vãos.
A religião natural (5:1-8), a riqueza (5: 9; 6: 12) e mesmo a mora­
lidade (7: 1-12; 12) mostraram-se igualmente inúteis.
3.2.5.1 Autoria

Encontramos alusão à sabedoria (1: 16), à riqueza (2: 8), aos


servos (2: 8), aos prazeres (2: 3) e à atividade de edificação de
Salomão espalhada por todo o livro. Portanto, têm-se atribuído
a Salomão a autoria desse Livro devido à informação oferecida
nos dois primeiros versículos do capítulo inicial. Segundo David
(1998), a tradição judaica é pacífica em atribuir ao rei Salomão
a autoria do Livro de Eclesiastes.
Ellisen (1999, p. 191) afirma que “caso Salomão não fosse seu
autor, a falsa personificação do mais sábio de todos os homens
sábios teria sido descoberta há muito tempo pelos rabinos de
Israel, e esses não permitiriam a inclusão do livro no cânone”.
Portanto, devemos destacar os seguintes fatos:
a) O autor afirma: “venho sendo rei em Jerusalém” (1: 12).
b) A descrição de Eclesiastes (2: 1-11) confere com as riquezas
que Salomão possuiu e construiu (II Crônicas 8: 1-9; 28).
c) O autor identifica-se como aquele que reuniu e organizou
muitos provérbios (12: 9).
d) Ninguém tem tanta sabedoria, prosperidade e expressão
mundial no período monárquico quanto Salomão; de fato,
ele se tornou uma referência em muitos sentidos para seus
posteriores.

3.2.S.2 Tema
O escritor de Eclesiastes se dispõe a explorar o significado da
vida, e conclui dizendo: “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade!”.
Esse é o tema que será desenvolvido por todo o livro.
206
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

O “pregador”, como é chamado o autor, escreve sob a pers­


pectiva humana, só neste mundo, olhando para frente, para
trás e para os lados, porém, quando olha para cima, vê Deus e
encontra respostas para o anseio de sua alma e fica satisfeito.
O autor apresenta uma experiência de frustração - procurou
a felicidade nos bens materiais e, quando conseguiu tudo o
que desejaram seus olhos, concluiu que “tudo era vaidade e
correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol”
(2:10-11). Se essa declaração fosse pronunciada por um homem
pobre, poder-se-ia chamá-lo de leviano. Porém, advinda de um
homem que tudo possuía, a quem nada faltava, torna-se então
uma máxima verdadeira.

3,2.5.3 Data de compilação


Estudiosos modernos têm argumentado que esse Livro não
poderia ter sido escrito antes do exílio, em virtude do gênero
filosófico do livro e suas muitas palavras distintas. Entretanto,
a corrente mais conservadora tem datado o livro na época de
Salomão, por volta dos séculos VIII a.C. ou VII a.C.
Archer Junior (2000, p. 436), de linha tradicional, afirma
que foi Salomão quem escreveu o Livro de Eclesiastes:
Esta suposição é confirmada p o r numerosas referências internas,
tais como as referências à sua incomparável sabedoria (1:16), suas
riquezas sem igual (2:8), seu séquito de inúmeros servos (2: 7), suas
oportunidades para o prazer carnal (2:3), e suas atividades extensi­
vas de construções (2: 4-6). Nenhum outro descendente de D avi se
enquadra nestas especificações senão o próprio Salomão.
O livro de provérbios apresenta principios variados a respei­
to da ética, sabedoria e fudamentos para uma vida equilibrada,
contém ensinos sobre finanças, família e relacionamentos com
o semelhante. A partir do Livro de Provérbios encontram-se os
fundamentos para uma vida harmônica, consigo mesmo, com
o próximo e com Deus.

3.2.S.4 Esboço do Livro de Eclesiastes


Capítulos:
i. Prólogo (1: 1-2)
a) Identificação do livro (1:1)
b) Resumos das investigações do pregador (1: 2)
n. Estabelecimento do problema (1: 3-11)
a) Pode-se encontrar algum valor verdadeiro nesta vida?
(1:3)
b) Uma refutação das soluções humanísticas (1: 4-11)
ui. Tentativas de solução para o problema (1: 12-2: 26)
a) A refutação da razão pura: a sabedoria humana, sozi­
nha, é inútil (1: 12-18)
b) O fracasso do hedonismo: o prazer não tem sentido em
si mesmo (2: 1-11)
c) O fracasso da compensação: o sábio e o tolo encaram
um fim comum (2: 12-17)
d) O fracasso do materialismo (2: 18-26)
iv. Desenvolvimento do tema (3: 1; 6: 12)
a) Inutilidade dos esforços humanos em mudar a ordem
criada (3: 1-15)
b) Inutilidade de um fim igual a criaturas desiguais
(3: 16-22)
208
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

c) Inutilidade de uma vida oprimida (4: 1-3)


d) Inutilidade da inveja (4: 4-6)
e) Inutilidade de ser sozinho (4: 7-12)
f) Inutilidade de uma monarquia hereditária (4: 13-16)
g) Inutilidade do fingimento numa religião formal (5: 1-7)
h) Inutilidade de sistemas de valores materialistas (5: 8-14)
i) Inutilidade de deixar para trás, na morte, os produtos
do trabalho (5: 15-20)
j) Futilidade de uma vida despojada (6: 1-9)
k) Inutilidade do determinismo da natureza (6: 10-12)
v. A sabedoria prática e os seus usos (7: 1; 8: 9)
a) Provérbios moralizantes sobre a vida e a morte, o bem
e o mal (7: 1-10)
b) A sabedoria e as suas aplicações (7: 11-22)
c) Observações sábias variadas (7: 23; 8: 1)
d) A sabedoria na corte do rei (8: 2-9)
vi. Um retorno ao tema (8: 10; 9: 18)
a) Inutilidade da compensação (8: 10; 9: 12)
b) Inutilidade da natureza instável do homem (9: 13-18)
vii. Mais sobre a sabedoria e seus usos (10: 1; 11: 6)
viu. O único valor é temer a Deus e obedecê-lo (11: 7; 12: 7)
a) O primeiro resumo das conclusões (11: 7-10)
b) O segundo resumo: alegoria da velhice e da morte
(12: 1-7)
ix. Epílogo: confirmação da conclusão (12: 8-14)
a) Resumo das conclusões do pregador (12: 8)
b) Resumo das conclusões do pregador através de um dis­
cípulo (12: 9-14)
3.2.6 Livro Cantores de Salomão
O título em hebraico de Cantares de Salomão é shir hashirim, ou
seja, “o mais excelente dos cânticos”. A Septuaginta3traduziu lite­
ralmente por Ásma asmáton, isto é, “Cântico dos Cânticos”.
Como sugere o texto original hebraico, o primeiro versícu­
lo deveria ser, para seu autor, o único cântico por excelência,
o melhor entre muitos. Assim sendo, Cantares de Salomão é,
antes de tudo, uma canção de amor, na qual o nome de Deus
nem sequer é mencionado e no qual não há referência à oração
ou ao louvor a Deus. Entretanto, o Cântico foi incluído entre
os cinco Rolos das Festas (Meguillot) do cânone hebraico e no
judaísmo posterior, sendo designado para ser lido na Páscoa,
devido a sua alegoria do amor divino por Israel (Ellis, 1999).
Cantares é um drama em poesia, uma história de amor de
Salomão por sua noiva Sulamita, enfeitada pelo corõ das ami­
gas da noiva que se alegram com ela. Cantares de Salomão, de
acordo com Halley (2001, p. 290): “Trata do amor, num ambiente
de primavera florida, com metáforas e figuras de linguagens
orientais em profusão, que demonstram o gosto que Salomão
sentia pela natureza, pelos jardins, pelas campinas, pelas vinhas,
pelos pomares e pelos rebanhos”.

3.2.6.1 Autoria

Em virtude à cláusula hebraica “asher li-shelomoh”, que pode ser


lida tanto como “que é de Salomão”, indicando sua autoria, como
“que diz respeito a Salomão”, indicando, nesse caso, que dele
trata ou a ele concerne. Assim, alguns estudiosos interpretam

3 Tradução grega da Bíblia.


2/0
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

essa frase como uma dedicação e não como uma atribuição de


autoria (David, 1998).
Entretanto, tradicionalmente a autoria dese Livro tem sido
atribuída ao Rei Salomão. Há razões pelas quais a autoria salo-
mônica deve ser aceita: há no poema evidências internas que
apoiam tal atribuição, a começar pelo próprio título onde está
dito que se trata do mais belo Cântico de Salomão (1:1); Salomão
é mencionado explicitamente em várias partes do poema (1:1,
5; 3: 7; 9: 11; 8: 11-12); o livro aponta para um estilo de vida
opulento, com várias referências à riqueza, ao luxo, à presença
de bens importados (3:6-11); o autor exibe amplo conhecimento
da flora e da fauna de Canaã, o que corrobora com o a descrição
bíblica: “Também falou das árvores, desde o cedro que está no
líbano até ao hissopo que nasce na parede; também falou dos
animais e das aves, e dos répteis e dos peixes” (I Reis, 4: 33).

3.2.6.2 Tema
O tema do Livro de Cantares, é o amor do Rei Salomão por sua
noiva, Sulamita, e a profunda afeição de sua prometida por ele.
Sendo assim, Cantares relata uma história de amor, que glorifica
o amor puro e natural e focaliza a simplicidade e a santidade de
uma pessoa que busca o seu amado.
Segundo Melamed (2001, p. 648), até os dias de hoje os
judeus interpretam o Livro de Cantares como representação do
“símbolo do amor de Deus pela Congregação de Israel, sendo o
dia de sábado seu intermediário”.
Já os cristãos o têm visto como uma imãgem do amor de
Jesus por sua igreja, a ser consumado em Sua segunda vinda.
Independentemente da perspectiva, de acordo com Richards
(2006, p. 402), “é melhor tomar este poema pelo que ele parece
ser: a celebração do dom de Deus do amor conjugal”.
2/ /

Livros proféticos e poéticos


3 .2 .6 3 D a t a dé c o m p o s i ç ã o

A falta de referências históricas no Livro Cantares de Salomão


dificulta a datação do material. Alguns estudiosos defendem a
compilação durante o período persa, mais exatamente na época
de Neemias, com base em argumentos lingüísticos e dados
geográficos.
Entretanto, as referências geográficas favorecem uma data
anterior ao ano de 930 a.C., uma vez que o autor faz menção de
localidades do Reino do Norte como do Reino do Sul: Engedi,
Hermom, Carmelo, Líbano, Gileade, Hesbom e Jerusalém.

3.2.6.4 Esboço do Livro de Cantares de Salom ão


Capítulos:
i. Cenas de abertura (1: 1-2; 7)
a) Recordando o amor do rei de bom nome (1: 1-4)
b) A morena e agradável guarda das vinhas (1: 5-6)
c) Procurando amor nas pisadas do rebanho (1: 7-8)
d) Removendo as marcas da escravidão (1: 9-11)
e) A linguagem do amor (1: 12-17)
f) O espírito e a árvore (2: 1-6)
g) A primeira súplica (2: 7)
n. A busca por abertura (2: 8-3; 5)
a) Começando a busca (2: 8-15)
b) A alegria do amor no frescor do dia (2: 16-17)
c) A procura determinada pelo objetivo principal (3: 1-4)
d) A segunda súplica (3: 5)
m. A busca por mutualidade (3: 6; 5: 8)
2/2
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

a) A carruagem matrimonial real do amor da aliança


(3: 6-11)
b) Conhecendo Sulamita (4: 1-7)
c) Uma visão sobre a terra de cima do monte Hermom (4:8)
d) Uma vida de união íntima num banquete no jardim
(4: 9; 5: 1)
e) A queda de Sulamita (5: 2-7)

f) A terceira súplica (5: 8)


iv. A busca por unidade (5: 9 ; 8: 4)
a) Conhecendo Salomão (5: 9; 6: 3)
b) A glória triunfante da Sulamita (6: 4-10)
c) O nobre povo de Sulamita (6: 11-12)
d) A dança memorial de Maanaim (6: 13; 7: 9)
e) O início do novo amor de iguais (7: 3; 8: 10)
f) A quarta súplica (8: 4)
v. Últimas cenas com resumo de realizações (8: 5-14)
a ) Alcançando o objetivo principal (8: 5)

b) Alcançando o amor autêntico (8: 6-7)


c) Alcançando a maternidade e a paz (8: 8-10)
d) Obtendo uma vinha igual à de Salomão (8: 11-12)
e) Obtendo a herança (8: 13-14)

Questionário de Livros proféticos


1. Na concepção popular, quem eram os “profetas”?
2. Quem eram os “profetas”, de acordo com a Bíblia?
2/3

pi
Livros proféticos e poéticos
3. Os profetas Amós e Oseias profetizaram para o povo de
qual reino?
4. Os profetas Jonas e Naum profetizaram para qual grande
cidade?
5. Em que ano Isaías foi chamado ao ministério profético?
6. Segundo uma tradição judaica, quem serrou ao meio o
profeta Isaías?
7. Quais foram os profetas contemporâneos de Jeremias, no
começo e no final do seu ministério?
8. Quais são os cinco Livros que compõem as Meguillot ou
Rolos das Festas?
9. Em relação ao conteúdo, o Livro de Joel se ocupa de quantos
temas? Explique resumidamente cada um deles.
10. Qual é o menor Livro dos profetas menores? Qual é o seu
único tema?

Questionário de Livros poéticos


1. No cânone judaico, quais são os livros denominados poéticos!
Por que esses livros recebem essa classificação?
2. Por que os livros classificados de sabedoria são diferentes
dos Livros proféticos de Israel?
3. Como é chamada a característica peculiar da poesia
hebraica?
4. Qual é a ideia principal do Livro de Salmos e que se repete
muitas vezes?
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia
2J4^

5. Como os judeus interpretam o Livro de Cantares até os


dias de hoje?
6. Como os cristãos interpretam o Livro de Cantares?
7. Alguns estudiosos defendem que a compilação do Livro
Cantares de Salomão foi realizada durante ú período persa.
Em quais argumentos eles se baseiam?

Referências
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Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
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2/5

Livros proféticos e poéticos


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ELLISEN, S. A. Conheça melhor o Antigo Testamento. Tradução
de Emma Anders de Souza Lima. São Paulo: Vida, 1999.
FEINBERG, C. L. Os profetas menores. São Paulo: Vida, 1996.
GILBERTO, A. Daniel e Apocalipse: compreendendo o plano de
Deus para os últimos dias. Rio de Janeiro: CPAD, 1984.
HALLEY, H. H. Manual bíblico de Halley. Tradução de Gordon
Chown. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Vida, 2001.
HILL, A. E. WALTON, J. H. Panorama do Antigo Testamento.
São Paulo: Vida, 2006.
HOFF, P. O pentateuco. Tradução de Luiz Aparecido Caruso.
São Paulo: Vida, 1993.
____ . Os livros históricos. São Paulo: Vida, 1996.
HORTON, S. M. Isaías: o profeta messiânico. Rio de Janeiro:
CPAD, 2002.
HOUAISS, A.; VILLAR, M. de S.; FRANCO, F. M. de M.
Dicionário HouaisS da língua portuguesa, versão monousuário
3.0. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.
JOSEFO, F. História dos hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 1990.
KELLER, W. E a bíblia tinha razão. 18. ed. Tradução de João
Távora. São Paulo: Melhoramentos, 1992.
LLYWELYN, M. Xerxes. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
(Coleção Os Grandes Líderes).
2/6
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

MALANGA, E. A Bíblia Hebraica como obra aberta: uma


proposta interdisciplinar para uma semiologia bíblica. São
Paulo: Humanitas, 2005
MALTA, I. V. Caminhando pela Bíblia. São Paulo: Mensagem
para Todos, [S.D.].
MEARS, H. C. Estudo panorâmico da Bíblia. Tradução de
Walter Kaschel. São Paulo: Vida, 2006.
MELAMED, M. M. Toró: a Lei de Moisés. São Paulo: Sefer, 2001.
MELO, J. L. de. Eclesiastes: versículo por versículo. Rio de
Janeiro: CPAD; 1999;
MESQUITA, A. N. de. Estudo no livro de Daniel. 3. ed. Rio de
Janeiro: Juerp, 1986.
____ . Estudo nos livros de crônicas, Esdras, Neemias e Ester.
Rio de Janeiro: Juerp, 1983a.
____ . Estudo nos livros dos Reis. Rio de Janeiro: Juerp, 1983b.
PEARLMAN, M. Através da Bíblia: Livro por Livro. 18. ed.
São Paulo: Vida, 1996a.
____ . Conhecendo as doutrinas da Bíblia. São Paulo: Vida, 1999.
____ . Salmos: orando com os filhos de Israel. São Paulo: Vida,
1996b.
PFEIFFER, C. E; HARRISON, E. F. Comentário bíblico Moody.
São Paulo: IBR, 1995. v. 3.
PHILLIPS, J. Explorando as Escrituras: uma visão geral de
todos os livros da Bíblia. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.
RICHARDS, L. O. Guia do leitor da Bíblia. 5. ed. Rio de Janeiro:
CPAD, 2006.
Livros proféticos e poéticos
SHEDD, R. 0 novo comentário da Bíblia. 3. ed. São Paulo: Vida
Nova, 1997.
SOARES, E. Oseias: a restauração dos filhos de Deus. Rio de
Janeiro: CPAD, 2002.
____ . Visão panorâmica do Antigo Testamento: formação,
inspiração, cânone e conteúdo de seus livros. Rio de Janeiro:
CPAD, 2003.
SWINDOLL, C. R. Ester: um a mulher de sensibilidade e
coragem. 3. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999. (Série Heróis
da Fé).
TURNER, D. D. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo:
Batista Regular, 2004.
WALTON, J. O Antigo Testamento em quadros. São Paulo:
Vida, 2001.
WOLF, H. Ageu e Malaquias. São Paulo: Vida, 1986,

Respostas
Livros proféticos
1. Na concepção popular, o termo profeta refere-se a alguém que consegue
predizer o futuro, e a palavra profecia significa “predição daquilo que
ocorrerá”. Embora não estejam incorretas, essas definições populares
não estão de acordo com as da Bíblia.
2. O profeta, na acepção das Escrituras Sagradas, era alguém chamado por
Deus e, como se pode verificar no Antigo Testamento, era convocado a
falar em nome do Pai. Esses abnegados servos estavam certos não apenas
2/S

porque Deus lhes havia falado, mas também porque eram instados a
transmitir a mensagem do Altíssimo. Em alguns casos, o chamado (ou
seja, a vocação do profeta) é descrito com muitos detalhes, e cada relato
apresenta elementos distintos não encontrados em outros.
3. Amós e Oseias profetizaram para o povo do Reino do Norte (Israel).
4. Nínive, capital da Assíria.
5. Isaías foi chamado ao ministério profético no ano da morte do Rei Uzias,
por volta do ano 740 a.C.
6. A tradição judaica diz que Manassés teria serrado ao meio o profeta Isaías,
amarrando-o ao tronco de uma árvore. Talvez essa seja a referência dada
pelo escritor da Epístola aos Hebreus (Hebreus, 11: 37).
7. Sofonias e Habacuque foram contemporâneos de Jeremias no começo
de seu ministério; Daniel, no final de seu trabalho.
8. Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester.
9. Em relação ao conteúdo, o Livro de Joel se ocupa de três temas: 1) pragas;
2) exortações; 3) juízo final. Òs capítulos 1 e 2 tratam da praga de gafa­
nhotos e da seca, sendo ambas interpretadas como prenuncio da aproxi­
mação do “Dia do Senhor”. Duas vezes Joel conclama a se convencionar
um dia de penitência geral, para colocar um freio à catástrofe. Certos
oráculos de Deus contêm a promessa de uma salvação futura para o povo.
O capítulo 3 do Livro de Joel promete o derramamento do Espírito sobre
toda a população de Judá, incluindo òs escravos. O capítulo 4 anuncia o
juízo final para todas as nações que são convocadas para o vale de Josafá.
10. O livro de Obadias é o menor entre os profetas menores: conta com ape­
nas com 1 capítulo composto de 21 versículos. A mensagem de Obadias
é uma repreensão aos edomitas, por se alegrarem com a catástrofe que
sobreveio a Judá.
Livros proféticos e poéticos
Livros poéticos
1. Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares de Salomão. Esses livros
são classificados como poéticos porque as poesias são predominantes na
estrutura do texto, apesar de haver neles narrativas e profecias. Essas poe­
sias foram produzidas por inspiração divina para servir como instrumento
de comunhão com Deus e meditação nas coisas espirituais, conforme
escreveu o salmista: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo
o dia!” (Salmos, 119: 97).
2. Os livros classificados como de sabedoria são diferentes dos Livros pro­
féticos de Israel porque expressam melhor a filosofia dos pensadores do
que as determinações das mensagens do Senhor Deus. A frase “Assim
diz o Senhor” não é encontrada nos Livros poéticos nos momentos em
que o texto aborda os problemas da vida e as conclusões dos homens
(Hoff, 1996; Mears, 2006).
3. Paralelismo, que se divide em três formas: a antitética, a sinônima e a
sintética. Cada uma dessas formas admite muitas variações; em certas pas­
sagens duas formas se combinam em um só verso (Hoff, 1996; Mears, 2006).
4. Confiança é a ideia principal do Livro de Salmos, sendo uma palavra
repetida muitíssimas vezes.
5. Segundo Melamed (2001, p. 648), até os dias de hoje os judeus interpretam
o Livro de Cantares como representação do “símholo do amor de Deus
pela Congregação de Israel, sendo o dia de sábado seu intermediário”.
6. Os cristãos interpretam o Livro de Cantares de Salomão como uma ima­
gem do amor de Jesus por sua igreja, a ser consumado em Sua segunda
vinda. Independentemente da perspectiva, de acordo com Richards (2006,
p. 402), “é melhor tomar este poema pelo que ele parece ser: a celebração
do dom de Deus do amor conjugal”.
7. Alguns estudiosos defendem a compilação do Livro Cantares de Salomão
durante o período persa, mais exatamente na época de Neemias, com
base em argumentos lingüísticos e dados geográficos.
Capítulo 41

O s Livros proféticos constituem um bloco muito


importante do Antigo Testamento, pois foram de suma impor­
tância para a igreja primitiva; além disso, os profetas também
se mostram atuais em nosso tempo.
Esses Livros tão interessantes costumam ser de difícil com­
preensão para o leitor contemporâneo, pois os profetas se expres­
savam em linguagem poética, que é mais densa e complexa que
a prosa, além de menos atrativa ao leitor comum. Além disso, os
profetas fazem alusões a questões históricas, políticas e econô­
micas, culturais e religiosas de seu tempo, que, embora fossem
evidentes para a época, são certamente enigmáticas atualmente.
Como vimos no capítulo anterior, a ideia mais comum entre
nós, atualmente, é a de que profeta é aquele que fala uma profe­
cia, ao passo que, no Antigo Testamento, encontramos o termo

1 T o d a s a s p a s s a g e n s b íb lic a s i n d i c a d a s n e s t e c a p í t u lo s ã o c ita ç õ e s d e B íb lia ( 2 0 0 2 ) .


223

Profetas maiores e menores


profeta referindo-se a um porta-voz ou arauto de Deus entre os
homens.
Um profeta era um homem especialmente selecionado; não
herdava sua posição, como acontecia com os reis e sacerdotes -
a escolha era de Deus e não sofria influências por fatores como
família, tribo ou treinamento intelectual.
O profeta bíblico era chamado por Deus para transmitir
sua mensagem. A maior atuação profética registrada na Bíblia
ocorreu no período da monarquia, tanto unida quanto dividida.

4.1 A natureza da profecia hebraica


Por definição generalizada, o termo profecia, nos parâmetros
bíblicos, é uma revelação oral ou escrita, em palavras humanas
e por meio de um porta-voz humano, que transmite a revelação
de Deus e esclarece aos homens Sua divina vontade.
Em sentido mais amplo, até eventos como a travessia do
Mar Vermelho ou o episódio da “serpente de bronze” podem ter
significados proféticos, sendo que sua importância não se esgota
na ocorrência histórica propriamente dita, mas prenuncia um
cumprimento na época do Messias, seu antítipo.
As ordenanças do tabernáculo (símbolo da presença de Deus
entre o povo) e do sacerdócio estavam repletas de significado
profético, pois muitas vezes incluíam tipificações que prefigu-
ravam a pessoa e a obra de Jesus Cristo. Nessa classificação,
pode ser incluído o sacerdócio de Arão, o próprio tabernáculo,
os vários artigos dè móveis que continha, os rituais do sacrifício,
e assim por diante. Nesse sentido mais amplo, portanto, uma
224^
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

grande arte do Antigo Testamento se constitui em profecia. No


entanto, no sentido restrito (menos amplo), o termo limita-se aos
discursos de homens especiâlmente escolhidos e ungidos para
ocupar o ofício profético.
Mesmo entre entre os profetas, porém, houve um número
considerável de declarações que nunca foram preservadas por
escrito, apesar de haver alusões indiretas às suas mensagens
nos vários livros proféticos. Esse foi o caso de Semaías, Aias,
Elias, Micaías, Eliseu, Obede, Natã, Gade e muitos outros. São
chamados profetas orais, uma vez que suas mensagens foram
apenas transmitidas pela palavra falada. Na maioria dos casos,
suas mensagens foram endereçadas a crises contemporâneas na
vida de Israel, não tendo nenhum significado permanente para
as futuras gerações, pelo menos não no mesmo grau e sentido
como os escritos do cânone profético. Mas, quando uma revela­
ção de Deus continha informações relevantes às épocas futuras,
o Espírito Santo inspirava os autores a registrar as mensagens por
escrito. Estes, pois, são os documentos que nos foram conserva­
dos nos Livros que denominamos Profetas maiores e Profetas
menores. Essa distinção será utilizada para classificarmos os
profetas e entendermos as distinções de seus papéis.

4.2 0 ofício profético


A responsabilidade dos profetas do Antigo Testamento não era
principalmente a de predizer o futuro, no sentido moderno da
palavra profetizar, era muito mais do que isso. Eles tinham a
responsabilidade de anunciar a vontade de Deus comunicada
por meio de uma revelação.
2Z S

Profetas maiores e menores


A palavra hebraica profetizar é aB’nl(niba), e sobre a etimolo­
gia desse termo há muitos comentários. A explicação que conta
com melhor fundamentação, porém, parece relacionar a raiz
niba ao verbo acadiano nabu, que significa “chamar, anunciar,
convocar”. No prólogo do Código de Hamurabi, o rei babilônico
assevera que ele este “vocacionado de Baal” (jmbit Bel) e que os
deuses “chamaram” ou “nomearam” (nibiu) a ele para ser seu
vice-regente na terra (Ellisen, 1999).
Desse modo, concluímos que o verbo hebraico aB’n l (niba)
significa “uma pessoa chamada ou nomeada para proclamar,
como arauto, a mensagem do próprio Deus”. Desse verbo deriva
a palavra característica ay’bin (nãbi’), “profeta, pessoa chamada”.
De acordo com essa interpretação, o profeta não deve ser con­
siderado o profissional que nomeou a si mesmo, cujo propósito
seria persuadir as pessoas a aceitar opiniões do próprio profeta;
pelo contrário, seria a pessoa chamada por Deus para procla­
mar, como arauto da corte dos céus, a menságem que deve ser
transmitida de Deus para os homens.
Outro nome que frequentemente se aplicava aos primeiros
profetas era homem de Deus, título que evidencia que o profeta
era um enviado de Deus, totalmente dedicado à Sua causa, e
que gozava principalmente de comunhão íntima com Deus. Por
essa razão, era digno de confiança para transmitir a Palavra de
Deus, pois falava de acordo com a revelação ou a iluminação
recebida da parte dAquele que o vocacionou.
A expressão homem de Deus não era restrita aos profetas,
sendo também aplicada a outros personagens' que não eram
distintamente profetas, embora ocasionalmente mostrassem
esse ofício.
226

Um terceiro termo aplicado aos profetas era vidente (ha’ro). í


Esse título indicava que o profeta não seria iludido pela apa- I
rência externa de tudo nem pelas falsas impressões do mundo I
material, mas que perceberia o mundo como realmente era do
ponto de vista do próprio Deus. Como vidente, o profeta rece­
beria visões especiais e revelações especiais da parte do Senhor,
sendo, portanto qualificado para transmitir as realidades espi­
rituais que outras pessoas não poderiam perceber. Portanto, o
profeta evitaria confundir-se com as opiniões ou idéias de sua
própria mente, restringindo-se apenas àquilo que Deus na rea­
lidade lhe mostrara.
No período mais remoto, a função profética pertencia aos
levitas, que tinham a responsabilidade de ensinar a Lei de Deus
ao povo. Entretanto, o Pentateuco previa 0 surgimento de uma
classe de profetas distinta dos sacerdotes, desempenhando
um papel análogo ao de Moisés, como se pode observar em
Deuteronômio (18: 18-22):
Suscitar- lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti,
em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que
eu lhe ordenar. D e todo aquele que não ouvir as minhas palavras,
que elefalarem meu nome, disso lhepedirei contas. Porém o profeta
que presumir defalar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não
mandeifalar, ou o quefalar em nome de outros deuses, esse profeta
será morto. Se disseres no teu coração: Como conhecerei a palavra
que o Senhor não falou? Sabe que, quando esse profeta falar em
nome do Senhor, e a palavra dele se não cumprir, nem suceder, como
profetizou, esta é palavra que o Senhor não disse; com soberbafalou
o tal profeta; não tenhas temor dele.

Essa passagem das Escrituras não somente prediz o profeta


messiânico, mas também estabelece a ordem dos profetas como tal.
Alguns dos profetas surgiram da tribo sacerdotal dos levitas,
como Jeremias e Ezequiel, mas a maioria deles pertencia a outras
comunidades. De fato, não havia um conflito entre os profetas e
os sacerdotes, ambas as funções foram estabelecidas em razão da
necessidade espiritual da nação escolhida, mas principalmente
para corrigir desvios do povo de Deus.
Os profetas hebreus foram marca distintiva na história de
Israel. Eram homens levantados por Deus para chamar Seu povo
ao arrependimento, para corrigir os desvios cometidos e revelar
o futuro da nação. Também foram instrumentos de Deus para
revelar a outras nações o juízo de Deus sobre elas.
Ao lado dos “nazireus” (homens consagrados a Deus), havia
os profetas. Na obscuridade do passado, encontramos a “pro-
fetisa-juíza” Débora (Juizes, 4: 4), que, nos confusos decênios
após a conquista de Canaã, proclamara com êxito a guerra santa,
merecendo, como salvadora do povo de Deus, o título honroso
de “mãe em Israel” (Juizes, 5: 7).
Entre os do Reino do Norte, encontramos Moisés sendo
chamado de profeta. Oseias, oriundo de Samaria e contemporâ­
neo de Amós, num olhar histórico sobre o passado, disse: “Mas l-v.. ,vj
i
o Senhor, por meio de um profeta, fez subir a Israel do Egito e, i•- - ' 1
h ;V|
por um profeta, foi ele guardado” (Oseias, 12: 13). :i•• **\v!
- -.j
Samuel, um homem de Deus, descrito como nazireu
(I Samuel, 1: 11), profeta e vidente (I Samuel, 3: 20; 9: 9), conse­
guiu, no fim do segundo milênio, tirar Israel da situação crítica
de uma instável federação de tribos para transformá-la em um
Estado sólido.
Os profetas, com uma firmeza exemplar, puseram em ris­
co a própria vida para conservar a pureza da fé. Como exem­ !7 .•:•*$!
plos, podemos citar Elias, que, cheio de zelo por Yahweh, Deus j 'V .tl
L/^i
228
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

dos Exércitos (I Reis 19: 14), mandara destruir os sacerdotes de


Baal, evento que provocou chuva após uma estiagem de três anos
(I Reis, 18: 40-45).
A consciência da própria vocação e da própria missão, que
permite ao profeta dizer “Assim disse o Senhor”, repousa sobre
uma vivência fundamental de Deus, de algum modo sempre sen­
tida: a vocação que coube a cada um. Com ela, Deus irrompeu
em suas vidas para ocupá-las de uma vez por todas.
Deus chamou Moisés, enquanto este apascentava ovelhas
(Êxodo, 3: 1-5); a Samuel chamou durante o sono, e o interpelado,
ao responder “Eis-me aqui”, tornou-se o chamado (Samuel, 3:1;
4:1). Amós descreve concisamente a mesma experiência de Deus,
que fez dele um profeta, de forma a explicitar bem a complexi­
dade do fato: “O Senhor me tirou do serviço junto ao gado e o
me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Amós, 7: 15).
Nesse relacionamento com Deus, o profeta, como escolhi­
do, santificado e, consequentemente, separado (Jeremias, 1: 5),
está em uma relação estreita com Deus, o qual se torna, assim,
o “seu” Deus. De sua parte, o profeta se torna sujeito de dois
títulos específicos: homem cie Deus e servo de Deus.
Assim como um ministro está diante de seu rei e à sua dispo­
sição, o profeta coloca-se comó um servo diante do Senhor: “Tão
certo como vive o Senhor dos Exércitos, perante cuja face estou
[...]” (I Reis, 18: 15) é o grito dé batalha de Elias. Estar a serviço
de Deus eqüivale a uma relação de confiança particularmente
íntima. Deus consagra o profeta, que, além de obter acesso e
possibilidade de visão do mundo espiritual, participa dos planos,
secretos do Senhor: “Certamente, o Senhor Deus não fará coisa
alguma sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os
profetas” (Amós, 3: 7).
O dever do profeta é transmitir àqueles aos quais ele é envia­
do a palavra recebida de Deus; ele pronuncia, em nome de Deus,
por Sua ordem e na Sua pessoa, o oráculo de Yahweh (Ellisen
1999).
O historiador Will Durant (1943) fez curiosas observações
sobre os profetas:

Isto [a condenação dos pecados sociais] soava de maneira inédita na


literatura do mundo... M as aqui, pela primeira vez na literatura da
Ásia, a consciência social toma form a definida e enche a religião
de um conteúdo que a eleva do simples ritual e da lisonja à flam a
moral e ao apelo à nobreza. Com Amós começam os Evangelhos de
Jesus Cristo.

A maior admiração por Amós se dá pelo fato de que sua


mensagem não atingia àqueles que praticavam pecados sociais
e econômicos cometidos, principalmente, pelas classes abastadas.
Sua crítica não era apenas ao culto falso, não se restringia a meros
conceitos subjetivos —ela ia até o âmago da sociedade e condenava
os pecados coletivos.
Para Durant (1943), isso era algo especial. Também sobre
Isaías ele tece o seu comentário:
Sua denúncia [do profeta Isaías] cai sobre o ponto mais merecido -
a exploração econômica e a ganância. Neste aspecto a eloqüência
de Isaías alcança o ápice, em passagens que se tornaram o ponto
mais alto da prosa m undial... Isaías e Am ós inauguraram, numa
era militar, a exaltação das virtudes da simplicidade e da bondade,
da cooperação e da amizade, que em Jesus iria tornar-se o elemento
essencial de seu credo". (D urant, 1943)

Sobre Jeremias, Durant (1943) escreveu:

Jeremias apresenta-se como traidor, mas seu livro de profecias, toma­


do pelo discípulo Baruc, além de serum dos mais eloqüentes escritos
de todas as literaturas, vem marcado de uma sinceridade que acabava
na dúvida sobre toda a vida humana. .. a chama da indignação o
devorava, à vista da depravação moral e da loucura política de seu
povo e seus chefes; ele se sentia compelido a erguer-se e clamar pelo
arrependimento.

O historiador Durant (1943) ainda exprime sua opinião


sobre o livro de lamentações de Jeremias, classificando-o como
o livro mais fervoroso do Antigo Testamento.
As observações sobre os profetas feitas por Durant (1943)
ganham força ao levarmos em conta essas considerações que
foram feitas por um erudito cético. O estudioso ficou admirado
diante da grandeza dessa literatura e percebeu a força existente
nos escritos dos profetas. Mesmo que as limitações espirituais de
Durant o tenham impedido de captar elementos mais profundos,
não deixaram de impactá-lo de alguma forma.
A palavra profética não Somente erâ uma palavra viva - ela
permanece viva, mesmo ou justamente porque está fixada por
escrito e, como tal, já em razão de seu aspecto humano-literário,
ela se destina às gerações futuras e, portanto, a nós.

4.3 As finalidades da profecia


O desenvolvimento do ministério profético é um dos atos divi­
nos mais importantes na história de Israel. Além da predição
de eventos do porvir, podemos destacar outros elementos no
ministério dos profetas do Antigo Testamento que os fazem ser
singulares. Confrontando e desafiando os padrões de crenças
e comportamento aceitos em Israel, a mensagem dos profetas
têm um significado teológico que remove a casca do prazer e
do orgulho com incrível habilidade.
O profeta tinha a responsabilidade de encorajar o povo dé
Deus a confiar exclusivamente na graça de Deus e no Seu poder
libertador, e não nos seus próprios méritos Ou no poder dos seus
aliados humanos. Assim como Moisés admoestava os israelitas
a confiar em Deus nas horas difíceis, também os profetas sem­
pre exortavam seus patrícios a depender totalmente do poder
libertador do Senhor, e não da ajuda de aliados humanos, tais
como os assírios ou os egípcios.
O profeta tinha a responsabilidade de lembrar seu povo de
que a segurança e a bem-aventurança dependiam da fidelidade
do povo à aliança, que não consistia apenas em convicçõe$
doutrinárias, mâs principalmente na Submissão aos preceitos
de Deus.
Sem essa submissão, nenhum sacrifício ou rito poderia satis­
fazer ao Senhor. Em outras palavras, uma fé salvadora incluía
uma vida santificada. Esta, talvez, fosse a principal ênfase dos
profetas: “Não continueis a trazer ofertas vãs [...] vossas mãos
estão cheias de sangue [...] Cessai de fazer o mal; aprendei ã
fazer o bem [...] Vinde, pois, e arrazoemos [...]” (Isaías, 1:13-18).
Não que os profetas tenham considerado a vida moral como
sendo a essência da religião; entendiam, porém, que a conduta,
segundo a vontade de Deus, era o resultado infalível de uma fé
salvadora. Os profetas reconheciam que todos os homens são
culpados perante Deus, e que não há esperança para eles sem
a graça redentora de Deus (Salmos, 14: 2-3; 130: 3; Provérbios,
20:9; I Reis, 8:46; Isaías, 53:6; 59:4; 12-16; 64:6; Miqueias, 7:2).
Ninguém seria salvo por meio da própria virtude ou bondade.
Por outro lado, Israel precisava da lembrança (e o mesmo também

i 'a!
(■' -i
2 32
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

se aplica à igreja de nossos dias) de que Deus não aceitaria nada


como substituto de uma fé sincera que se exprime por meio de
uma vida piedosa. À medida que iam surgindo vários problemas,
a função dos profetas era a de naturalmente interpretar e aplicar
a lei de Moisés de acordo çom os padrões estabelecidos.
O profeta devia encorajar Israel quanto às coisas futuras.
Frequentemente, os esforços em prol de reavivamento, apoia­
dos por reis piedosos ou pelos profetas, só conseguiam atingir
uma porcentagem mínima da população. A maioria da nação
permanecia endurecida na desobediência e essa obstinação só
poderia provocar a ira divina, conforme já havia sido advertido
nos livros da Lei de Deus (Levítico, 26; Deuteronômio, 28), o
que levou a nação da aliança a ser expulsa da Terra Prometida.
Entretanto, esses julgamentos divinos não poriam um ponto
final a Israel como nação santa, separada para testemunhar aos
pagãos sohre o único Deus. Por meio dos profetas, Deus decla­
rava que depois do exílio haveria a restauração do remanescente
fiel, que voltaria à Terra Prometida.
A nação ainda chegaria a cumprir seu destino de ser teste­
munha aos gentios, sob a liderança do Messias vindouro. Essa
segurança quanto ao futuro fortalecia os fiéis dentro de Israel,
no sentido de confiarem plenamente em seu Deus, apesar de
todas as aparências contrárias e de todas as circunstâncias hostis.
Além disso, a profecia hebraica selava como fonte inquestio­
nável a veracidade da mensagem de Deus, pois as profecias se
cumpriam de maneira inquestionável. Não é o profeta que intui
ou sabe uma coisa desconhecida, mas é Deus que a comunica
(I Reis, 14: 5). Nesse caso, o profeta não opera em virtude de
algum poder seu, mas sob ordem de Deus (I Reis, 13: 3) ou então
pautando-se em Sua vontade (II Reis, 4:43). Em outras palavras,
233

Profetas maiores e menores


o profeta age pronunciando uma palavra de Deus (I Reis, 17:14),
ou o próprio Deus intervém (II Reis, 6: 18; 20).
A palavra de Deus anunciada pelo profeta age como um
martelo que despedaça as pedras (Jeremias, 23: 29); alcança o
fim para o qual foi enviada, como a chuva (Isaías, 55: 10); crava
fundo como um escapelo que mata (Oseias, 6: 5); cai sobre Israel,
de modo que todo ò povo a experimenta (Isaías, 9: 7); na boca
dos profetas, torna-se um fogo, que devora o povo como um mon­
tão de lenha (Jeremias, 5: 14). Assim, há em Deuteronômio (28)
uma prova da veracidade do profeta: o que predizia tinha de ser
cumprido. Em certos momentos, esse cumprimento se verificaria
dentro de um período breve, como no caso do capitão incrédulo
que riu da profecia de Eliseu, que disse que o preço da farinha
baixaria dentro de 24 horas a uma simples fração dos preços do
período de escassez que imperavam (II Reis 7). Noutras oca­
siões, o cumprimento se daria em um futuro distante, que estaria
além da experiência da geração que vivia quando a profecia foi
pronunciada.
Naturalmente, o benefício seria só para as eras futuras;
mesmo assim, as circunstâncias exigiam confirmações dessa
natureza:

Eis que asprimeiras prediçõesjá se cumpriram, e novas coisas eu vos


anuncio; e, antes que sucedam, eu vo-lasfarei ouvir (Isaías, 42: 9)

Quem há, como eu, feito predições desde que estabeleci o povo mais
antigo? Que o declare e o exponha perante mim! Esse que anuncia
as coisas futuras e as coisas que hão de vir! N ão vos assombreis,
nem temais; acaso desde aquele tempo não vo-lof iz ouvir, não vo-lo
anunciei? Vós sois minhas testemunhas. (Isaías, 44: 7-8)
i
J, 224
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Essa última declaração se vinculava a uma declaração de


que os judeus seriam libertados por Ciro, acontecimento se
cumpriria somente 150 anos apos a profecia.
Há diversas passagens, especialmente em Jeremias e
Ezequiel, que profetizam sobre acontecimentos futuros, em
que consta a seguinte expressão “E saberão que eu sou o Senhor
(isto é, o Deus de Israel que guarda a Sua aliança). Esse conhe­
cimento viria aos observadores depois que os julgamentos pro­
fetizados acontecessem aos ofensores ameaçados nas profecias.
Todos reconheciam que tal cumprimento de profecias futu­
ras ofereceria evidências objetivas que não seriam passíveis
de qualquer outra explicação, senão que o mesmo Deus que
revelava a profecia aos seus servos era o Deus da história que
operaria o cumprimento da predição.
É certo que os profetas tinham o futuro em suas mãos e o
concretizavam; não que esse fato se desse com base na força
imanente de suas palavras, mas pelo fato de que anunciavam
a palavra de Deus, que concretizaria aquilo que tais palavras
dissessem sob Suas ordens.

4.4 Os meios de comunicação


dos profetas
O Antigo Testamento é uma reunião de escritos nos quais está
registrada em linguagem humana a palavra que o Senhor disse
na antiga aliança. Seus escritores, alguns conhecidos e outros
desconhecidos, colaboraram na formação dessa magnífica obra
235 í; - V
E2SHSS.

literária. O autores faziam parte do povo de Israel, ao qual Deus


Se revelou em ações salvíficas e nas manifestações de Sua vontade.
Durante séculos, os colaboradores de Deus trabalharam na
form ação da Escritura Sagrada, compuseram-na e comunica-
-ram-na; em seguida, compilaram-na, redigiram-na e a transmi-
tjtam-na. De sua força criativa e entre as suas mãos, a Palavra
âe Deus dirigida aos homens recebeu uma forma particular de
existência e se tornou Escritura.
O meio mais habitual entre os profetas para transmitir a
mensagem de Deus foi, naturalmente, a palavra. Muitos pode­
riam pensar que essa mensagem foi comunicada mediante um
discurso, ou um sermão, que são os gêneros mais habituais entre
os oradores de nosso tempo. Em certas ocasiões, os profetas
agiam desse modo, mas geralmente empregavam uma grande
variedade de gêneros literários, tomados dos âmbitos mais dis­
tintos. Vejamos os diferentes exemplos, para que você tenha uma
ideia da riqueza e da vitalidade da pregação profética. h \
u . -S

Gênero tom ado da sabedoria tribal e f*


familiar j;
Desde a Antiguidade, a família, o clã, a tribo tem empregado os '; ‘!
recursos mais diversos para inculcar um reto comportamento, j . i
incentivar a reflexão sobre a realidade que rodeia os filhos e adul- 1, 1 . |
tos. exortação, interrogação, parábola, alegoria, enigmas, bênçãos 1,
e maldições, comparações (encontramos exemplos de todos esses l,:' ]
recursos nas palavras dos profetas). Vejamos uma das parábolas [ ■■I
mais famosas, dirigida pelo profeta Natã ao Rei Davi depois do [ ,' i
adultério com Betseba e o assassinato de seu esposo, Ufias. Natã fy j
não aborda o caso diretamente, mas propõe um conflito a ser '*C vj
solucionado dizendo o seguinte: :, i
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

O Sen h or enviou N a tã a D a v i. C hegando N a tã a D a v i, disse-lhe:


“H a v ia n u m a cidade dois hom ens, u m rico e outro pobre. T in h a o
rico ovelhas e g a d o em gra n d e núm ero; m a s o p o b re não tin h a coisa
nenhum a, senão u m a cordeirinha que com prara e criara, e que em
su a casa crescera, ju n to com seu s filh o s; com ia d o seu bocado e do
seu copo bebia; d o rm ia nos seu s braços, e a tin h a com o filh a . V indo
u m via ja n te ao h om em rico, não qu is este to m a r das su a s ovelhas e
do g a d o p a r a d a r de c o m e r ã o via ja n te que viera a ele; m a s tom ou
a cordeirinha do h om em p o b re e a preparou p a r a o h o m em que lhe
h a via chegado.” E n tão, o fu r o r de D a v i se acendeu sobrem aneira
contra aquele hom em , e disse a N a tã : “Tão certo com o vive o Senhor,
o h om em que f e z isso deve se r m orto. E p e la cordeirinha restituirá
quatro vezes, porqu e f e z ta l coisa eporqu e não Se com padeceu. ” E ntão,
disse N a tã a D a v i: “Tu és o h o m e m .” (II Samuel, 12: 1-7)

Em outro caso, o profeta Ezequiel acusa o Rei de Judá por­


que o governante viola o juramento e busca ajuda do Egito depois
de prometer fidelidade ao Rei da Babilônia. Para levar a cabo sua
denúncia, Ezequiel recorre a uma alegoria dizendo o seguinte.
Veio a m im a p a la v r a do Senhor, dizendo: “F ilho do h om em , propõe
u m en igm a e usa de u m a p a rá b o la p a r a com a casa d e Israel; e dize:
a ssim d iz o Sen h or D eu s: U m a gra n d e águia, de gran des asas, de
com prida p lu m a g em , fa r ta d e p e n a s d e vá ria s cores, veio ao L íb a n o
e levou a p o n ta d e u m cedro. A rra n co u a p o n ta m a is a lta dos seus
ram os e a levou p a r a u m a terra de negociantes; na cidade d e m erca­
dores, a deixou. Tomou m u d a d a terra e a p la n to u n u m cam po fértil;
tom o u -a e p ô s ju n to às m u ita s águas, com o salgueiro. E la cresceu e
se torn ou videira m u i larga, d e p o u c a altura, viran do p a r a a águia
os seus ram os, p o rq u e a s su as raízes esta va m debaixo dela; assim , se
torn ou em videira, e p ro d u z ia ram os, e lan çava renovos.
Houve outra gra n d e águia, de gran des a sa s e d e m u ita s pen as, e
eis qu e a videira lançou p a r a ela a s su a s raízes e estendeu p a r a ela os
seu s ram os, desde a cova do seu p la n tio , p a r a que a regasse. E m boa
terra, à borda de m u ita s águas, estava ela p la n ta d a , p a r a p ro d u z ir
m m os, e d a rfru to s, e se r excelente videira. D ize : A s s im d iz o Senhor
D eus. acaso, prosperará ela? N ã o lhe arrancará a águ ia a s raízes e
nao cortará o seu fru to , p a r a que se sequ em to d a s a s fo lh a s d e seu s
renovos? N ã o será necessário n em po d ero so braço n em m u ita gen te
p a r a a a rran car p o r su a s raízes." (Ezequiel, 17: 1-9)

Ao âmbito sapiencial pertence também a benção e a maldi­


ção, como demonstra este trecho que encontramos em Jeremias
(17: 5-8):

Á ssim d iz o Senhor: "M aldito o h om em que confia no hom em , f a z da


carn e m o r ta l o seu braço e a p a rta o seu coração d o Senhor! P orque
será com o o arbusto so litá rio no deserto e n ão verá q u an do v ie r o
bem ; antes, m orará nos lugares secos do deserto, n a terra salgada e
inabitável. B en d ito o h o m em que confia no S en h or e cuja esperança
é o Senhor. P orqu e E le é com o a árvore p la n ta d a ju n to à s águas, que
esten de a s su a s raízes p a r a o ribeiro e n ão receia qu an do vem o calor,
m a s a su a fo lh a f ic a verde; e, no an o d e sequidão, n ão se p ertu rb a ,
n em deix a de d a r f r u to ”.

Nessa passagem, unem-se a benção e a maldição com as com­


parações, outro gênero freqüente entre os lábios do profeta, como
se pode ler em Jeremias (17: 11): “Como a perdiz que choca ovos
que não pôs, assim é aquele que ajunta riquezas, mas não retamen­
te, no meio de seus dias, as deixará e no seu fim será insensato”.
A pergunta é uma forma de causar reflexão e de inculcar
uma conclusão inevitável. É o que ocorre em Amós (3: 3-6),
quando o profeta prepara passo a passo a questão final:
A n d a rã o d o is ju n to s, se n ão h o u ver entre eles acordo? R u g irá o leão
no bosque, sem qu e ten h a presa ? L eva n ta rá o leãozin h o no c o v il a
su a voz, se n a d a tiv e r apan h ado? C airá a ave no laço em terra, se
n ão h ou ver a rm a d ilh a p a r a ela? L evan tar-se-á o laço d a terra, sem
que ten h a apan h ado algu m a coisa? Tocar-se-á a trom beta n a cidade,
sem que o p o v o se estrem eça? Sucederá algu m m a là cidade, sem que
o S en h or o ten h a fe ito ?
238
7A Z S323
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Gênero tom ado do culto


Nesta seção podemos classificar os hinos, as orações, as instru­
ções e os oráculos de salvação. Em Amós, encontramos um caso
curioso, no qual, em diversos momentos, surgem fragmentos de
um hino exaltando o poder de Deus, conforme os exemplos que
indicamos a seguir.

%Pç>í<que é ele quem forma os montes, e cria o vento, e


t declara ao homem qual é o seu pensamento; e faz da
manhã trevas e pisa os altos da terra; Senhor, Deus
dos Exércitos, é o seu nome” (Amós, 4: 13).
“Procurai o que faz o Sete-estrelo [grupo de
■■ estrelas] e o Órion, e torna a densa treva em manhã,
e muda o dia em noite; o que chama as águas do
mar e as derrama sobre a terra; Senhor é o seu nome.
|L É ele que faz vir súbita destruição sobre o forte e rum a,
fcv eontra a fortaleza” (Amós, 5. 8-9).
“Porque o Senhor, o Senhor dos Exércitos, é o que.
jfpoea a terra, e ela se derrete, e todos os que habitam,
aela se enlutarão; ela subirá toda como o Nilo e abai­
x a rá como o rio do Egito. Deus é o que edifica as suas
Câmaras no céu e a sua abóbada fundou na terra; é
o que chama as águas do mar e as derrama sobre a|
terra; Senhor é o seu nome” (Amós, 9: 5-6)/2

2 Devido aos numerosos problemas de tradução e de interpretação, alguns autores sugerem que este
hinc^não foUomposto pelo profeta Amós, mas que teria sido tomado por ele e copiado em seu Livro, em
momentos-chave para exaltar a onipotência de Deus.
I Em Isaías, encontramos um hino composto pelo profeta
que diz o seguinte:

O rarás n aqu ele dia: g ra ça s te dou, ó Senhor, porqu e, a in d a que te


iraste contra m im , a tu a ira se retirou, e tu m e consolas. E is que
D e u s é a m in h a salvação; confiarei e n ão tem erei, p o rq u e o S en h or
D e u s ê a m in h a fo rça e o m eu cântico; ele se tornou a m in h a salvação.
I
Vós, com alegria, tirareis água das fo n te s d a salvação. D ire is naquele
dia. D a i gra ça s ao Senhor, in vo ca i o seu nom e, to r n a i m anifestos os
i
seus fe ito s en tre os povos, relem brai que éexcelso o seu nom e. C a n ta i
louvores ao Senhor, p o rq u e f e z coisas gran diosas; saiba-se isto em
to d a a terra. E x u lta e ju b ila , ó h a b ita n te d e Sião, p o rq u e g ra n d e é
o S an to d e Isra el no m eio d e ti. (Isaías, 12: 1-6)

Amós usou o gênero tomado de culto com intenções distin­


tas, de forma irônica:

V inde a B etei, e transgredi; a G ilgal, e m u ltip lic a i ã s transgressões;


e, cada m an h ã, tra ze i os vossos sacrifícios e, d e três em três dias, os
vossos d ízim o s; e oferecei sacrifício d e louvores do que é levedado, e
apregoai ofertas volu n tárias, e p u blicai-as, p o rq u e disso gostais, ó
filh o s d e Israel, disse o S en h o r D eu s. (Amós, 4: 4-5)

Gênero tom ado do âmbito judicial


Em determinados trechos, os profetas utilizam o discurso acusa-
tório, a formulação casuística, ou alguns elementos deste gênero
para inseri-los em um contexto mais amplo, como na passagem
a seguir:

E veio a m im a p a la v r a do Senhor, dizendo: “Tu, p o is, ó filh o do


h om em , ju lgarás, ju lg a rá s a cid a d e san gu in ária? F aze-lh e conhecer,
p o is, to d a s a s su a s abom in ações e dize: a ssim d iz o S en h o r Jeová:
A i d a cid a d e que derram a o san gu e no m eio dela, p a r a que venha
240
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

o seu tem po! Q u e f a z ídolos contra s i m esm a, p a r a se contam in ar!


P elo teu sangue que derram aste te fiz e s te culpada, e p e lo s teu s ídolos
q u efa b rica ste te con tam in aste, e fiz e s te chegar os teus dias, e vieste
ao f i m dos teus anos; p o r isso, eu te f i z o opróbrio d a s nações e o
escárnio de to d a s as terras. A s que estão p e rto e a s que estão longe
de t i escarnecerão d e ti, in fam ada, cheia d e inquietação. E is que os
p rín c ip e s de Israel, cada u m conform e o seu poder, tiveram dom ín io
sobre ti, p a r a derram arem o sangue. A o p a i e à m ã e desprezaram
e m ti, p a r a com o estrangeiro u saram de opressão no m eio de ti e ao
órfão e à viú va o prim iram em ti. A s m in h as coisas san tas desprezaste
e os m eu s sábados profanaste. H o m en s caluniadores se ach aram em
ti, p a r a derram arem o sangue; e em t i sobre os m on tes com eram e
p e rv e rsid a d e com eteram no m eio d e ti. A vergonha do p a i descobri­
ra m em ti e a que estava im pu ra, n a su a separação, h u m ilh a ra m no
m eio de ti. U m com eteu abom in ação com a m u lh er do seu próxim o,
outro con tam in ou abom in avelm en te a su a nora, e outro hum ilh ou
no m eio d e t i a su a irm ã, f d h a de seu p a i. P resentes se receberam
no m eio d e r ip a r a se d erra m a r sangue; u sura e lucros to m a ste e
u saste d e avareza com o teu p róxim o, oprim in do-o; m a s d e m im te
esqueceste, d iz o Sen h or Jeová. E eis que b a ti as m ãos contra a tu a
avareza d e qu e u saste e p o r causa de teu sangue, que h ouve no m eio
d e ti. E sta rá f ir m e o teu coração? E starão fo r te s as tu a s m ãos, nos
d ia s em que eu tratarei contigo? E u, o Senhor, o disse e o fa re i. E
espalhar-te-ei entre as nações, e e sp a lh a r-te-eip e la s terras, e p o re i
term o à tu a im u n dícia. E tu serás p rofan ada em ti m esm a, aos olhos
d a s nações, e saberás que eu sou o S en h or”. (Ezequiel, 22. 1-16)

São acusações típicas de um promotor de justiça em um


processo. Podemos afirmar que são declarações jurídico-sacrais,
existentes principalmente no Livro do profeta Ezequiel. Entre os
gêneros tomados no âmbito judicial, um dos mais interessantes
é aquele citado pelo profeta Miqueias, que diz.
O uvi, agora, o que d iz o Senhor: levanta-te, contende'com os m ontes,
e ou çam os outeiros a tu a voz. O uvi, m ontes, a con ten da do Senhor,
e vós, fo r te s fu n d a m e n to s d a terra; p o rq u e o Sen h or te m u m a conten­
d a com o seu p o v o e com Isra el entrará em ju ízo . Ó p o v o m eu ! Q u e te
ten h o fe ito ? E em que te enfadei? Testifica contra m im . C ertam ente,
te f i z su b ir d a terra do E g ito e d a casa d a servidão te rem i; e p u s
d ia n te d e t i a M oisés, A rã o e M iriã . P ovo m eu, ora, lem bra-te d a
consulta d e B alaque, rei d e M oabe, e do que lhe respondeu B alaão,
filh o d e Beor, desde S itim a té G ilgal; p a r a qu e conheças a s ju s tiç a s
do Senhor. C om que m e apresen tarei ao S en h or e m e in clin arei an te
o D e u s altíssim o? Virei p e ra n te ele com holocaustos, com bezerros
d e u m an o? A g ra d a r-se-â o S en h o r d e m ilh ares d e carneiros? D e
d e z m il ribeiros d e a zeite? D a r e i o m e u p rim o g ê n ito p e la m in h a
transgressão? O fr u to do m e u ventre, p e lo p e c a d o d a m in h a alm a?
E le te declarou, o h om em , o que e bom ; e que é o que o S en h or p e d e
d e ti, senão qu e p ra tiq u e s a ju stiç a , e a m es a beneficência, e an des
h u m ild em en te com o teu D eus?. (Miqueias, 6: 1-8)

Gênero tom ado da vida diária


No gênero tomado da vida diária está incluída uma série de
cantos que surgem das mais diversas situações da vida: o amor,
o trabalho, a morte etc. A famosa canção da vinha do profeta
Isaías é um exemplo de hino de amor:
A gora, ca n ta rei ao m eu a m a d o o cân tico do m e u querido a respeito
d a su a vinha, o m eu a m a d o teve u m a vin h a n u m outeiro fertilíssi-
m o. Sachou-a, lim p o u -a d a s p e d ra s e a p la n to u de vides escolhidas;
edificou no m e io dela u m a to rre e ta m b é m a b riu u m tagar. E le
esperava qu e desse u vas boas, m a s deu u vas bravas. A gora, p o is, ó
m oradores d e Jeru salém e h om en s d e Ju dá, ju lg a i, vos peço, entre
m im e a m in h a vin h a. Q u e m a is se p o d ia f a z e r a in d a à m in h a
vin h a, que eu lhe n ão ten h a fe ito ? E com o, esperando eu que desse
-H
"••Ij_____
2 42

u vas boas, veio a p r o d u z ir u vas bravas? A gora, p o is, vos fa r e i saber


o que p reten d o f a z e r à m in h a vinha: tirarei a su a sebe, p a r a que a
vin h a sirv a de p a sto ; derribarei o seu. m uro, p a r a que seja p isa d a ,
torná-la-ei em deserto. Mão sera po d a d a , nem sachada, m a s crescerão
nela espinheiros e abrolhos; às nuvens darei ordem que não derram em
chuva sobre ela. P orqu e a vin h a do S en h or dos E xércitos e a casa
de Israel, e os h om en s d e J u d á são a p la n ta dileta do Senhor, este
desejou que exercessem ju ízo , e eis a í qu ebran tam en to d a lei; ju stiç a ,
e eis a í clam or. (Isaías, 5: 1-7)
Ezequiel nos oferece um exemplo de cântico de trabalho
doméstico, realizado por uma dona de casa, que lhe serve como
exemplo do futuro de Jerusalém:
P ropõe u m a p a rá b o la à casa rebelde e dize-lhe: A ssim d iz o Sen h or
D eu s: “P õ e ao lu m e a p a n e la , p õe-n a, deita-lh e água dentro, aju n ta
nela p ed a ço s de carne, todos os bons pedaços, as coxas e as espáduas;
enche-a d e ossos escolhidos. Pega do m elh or do rebanho e em pilh a
len h a debaixo dela; fa z e -a fe r v e r bem , e cozam -se den tro dela os
o sso s”. [ . . . J P o rta n to , a ssim d iz o S e n h o r D eu s: “A i d a cid a d e
san gu in ária! T am bém eu fa r e i p ilh a grande. A m o n to a m u ita lenha,
acende o fogo, cozinha a carne, engrossa o caldo, e a rd a m os ossos.

(Ezequiel, 24: 3-5; 9: 10)


Entre os cânticos que surgem em distintos momentos da
vida, o canto fúnebre é entoado pelos profetas para representar
a trágica situação do povo no presente e apontar para seu futuro,
como se pode ver em Amós (5: 2-3): “Caiu a virgem de Israel,
nunca mais tornará a levantar-se; estendida está na sua terra,
i. - e não há quem a levante. Porque assim diz o Senhor Deus. a
! V -'j
cidade da qual saem mil conservará cem, e aquela da qual saem
cem conservará dez à casa de Israel’”.
Gênero estritamente profético
Dois casos de gênero profético merecem nossa atenção: o oráculo
de condenação dirigido a um indivíduo e o oráculo dé condena­
ção contra a coletividade. Ambos são constituídos de diversos
elementos, porém são essenciais em ambos a denúncia do pecado
e o anúncio do castigo. Um exemplo pode ser visto na palavra
de Elias: Quando o Rei Acabe se apoderou da vinha de Nabote,
que havia sido assassinado, o profeta lhe sai ao encontro para
confrontá-lo, dizendo: “Assim diz o Senhor: ‘Mataste e, ainda
por cima, tomaste a herança?’ Dir-lhe-ás mais: Assim diz o
Senhor: ‘No lugar em que os cães lamberam o sangue de Nabote,
cães lamberão o teu sangue, o teu mesmo’.” (I Reis, 21: 19).
Em outra ocasião, o Rei Acazias, enfermo, envia seus servos
para consultar um deus pagão. Elias intervém de novo, dizendo:
M a s o A n jo do S en h or disse a E lias, o tesbita: “D ispõe-te, e sobe p a ra
te encontrares com os m ensageiros d o rei d e S am aria, e dize-lhes:
Porventura, não há D e u s em Israel, p a ra irdes consultar Baal-Zebube,
deu s d e E crom ? P o r isso, a ssim d iz o Senhor: D a c a m a a que subis-
te, n ão descerás, m as, se m fa lta , m o rrera s ”. E n tã o ; E lia s p a r tiu .
(II Reis, 1: 3-4)
!
O gênero profético também é encontrado em Amós, que se
confronta com o sumo sacerdote de Betei, Amasias, dizendo:
Ora, p o is , o u ve a p a la v r a d o Senhor. Tu dizes: N ã o p ro fe tiza rá s
contra Israel, n e m fa la ra s contra a casa de Isaque. P ortan to, assim
d iz o Senhor: “Tua m u lh e r se p ro stitu irá n a cidade, e teu s filh o s e
tu a s filh a s cairão à espada, e a tu a terra será rep a rtid a a cordel, e tu
m o n e r á s n a terra im u n d a , e Israel, certam ente, será levado cativo
p a r a fo r a d a su a te rra ”. (Amós 7: 16-17)
244

£0
Nesses três casos apresentados, apesar de as situações
1n>
B serem muito distintas, emprega-se sempre a mesma estrutura.
o
cn
Ü3 Denúncia (assassinar e roubar, consultar a Belzebu, proibir de
O
>“4"
CD profetizar) e anúncio do castigo (que sempre é a pena de morte)
P
£3* precedido por uma chamada (“Assim diz o Senhor ). O juiz
é sempre o mesmo Deus, guardião do direito, que pode atuar
inclusive contra o rei, Seu vassalo.
<8

4.5 Localização geográfica dos


3
profetas
O
1-4
00
►o Entre os profetas literários, isto é, aqueles que tiveram suas pro­
O
1-4

fecias registradas em um livrp canônico, podemos ainda fazer


P-
uma divisão geográfica que nos ajudará a entender o papel de
P
tri cada um deles.
3*
Como sabemos, após a morte de Salomão, as 12 tribos
foram divididas em duas nações. Durante o reinado do filho
de Salomão, Rohoão, dez tribos se desligaram de sua autori­
dade deste e se ligaram a Jeroboão, criando o Reino do Norte,
chamado de Israel, com sua capital em Samaria. Duas tribos
se mantiveram fiéis à casa de Davi e formaram o Reino do Sul,
conhecido como Judá, que era composto pelas tribos de Juda e
Benjamin, com capital em Jerusalém.
Foram profetas para o Reino do Norte (Israel): Joel, Jonas,
Amós, Oseias e Habacuque. Foram profetas para o Reino do
Sul (Judá): Miqueias, Isaías, Jeremias, Sofonias e Ezequiel.
JM S _ >

Profetas maiores e menores


Os demais profetas, como dissemos, profetizaram para outras
nações3.

4.6 Classificação dos profetas


i
Uma das melhores maneiras de dominarmos um assunto com
elementos diversos é classificá-lo. Com os profetas bíblicos não
é diferente, pois, ao classificá-los, identificamos certas caracte­
rísticas peculiares desses indivíduos e entendemos o contexto
nos quais eles se inserem.
Para facilitar nossa compreensão, sugerimos a classificação
dos profetas em literários e não literários, que é apenas uma das
muitas distinções feitas pelos diversos autores cristãos, mas que
pensamos ser suficiente para definir características e limites de
cada um dos profetas.
Houve muitos profetas em Israel, inclusive alguns dos quais
sequer sabemos o nome. Eram comuns grupos de profetas, como
aqueles com os quais Saul se encontrou e que, mesmo que fossem
profetas do Senhor e sua mensagem fossem verdadeiras, t i n h a m
apenas função local e momentânea. Esses profetas que não
escreveram suas mensagens, mas que as tiveram preservadas
pela comunidade, são os que chamaremos de profetas não literários.
Por outro lado, temos aqueles profetas que não apenas fala­
ram, mas principalmente deixaram escritas as suas mensagens,
aos quais chamaremos, portanto, de profetas literários.

3 A s lo c a lid a d e s d e p r e g a ç ã o d o s p r o f e ta s p o d e m v a r ia r d e a c o r d o c o m a s o c u p a ç õ e s e s tr a n g e ir a s n o s
re in o s d e j u d á e Is ra e l.
246
L
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Ninguém t i n h a em Israel uma consciência tão clara de que


era Deus que falava e de serem porta-voz do Senhor como os
profetas. Eles tinham um contato pessoal com Deus, de modo
que não lhes pairava dúvidas de que foram comissionados pelo
Senhor. Por isso, quando falavam ou escreviam, os profetas não
recorriam a arquivos ou documentos, como os historiadores,
tampouco se baseavam na experiência humana, como os sábios
de Israel. Seu único ponto de apoio, sua força, se encontrava
na palavra que o Senhor comunicava pessoalmente, sem que o
profeta pudesse negar-se a proclamá-la.
Trata-se de uma Palavra que às vezes se assemelha ao rugido
do leão, como indica Amós (1: 2); e, em certas ocasiões, é gozo
e alegria íntima (Jeremias, 15: 16); é tamhém Palavra dura e
exigente em muitos casos, porém que se converte em “um fogo
ardente encerrado nos ossos” que é preciso seguir proclamando
(Jeremias, 20:9). Palavra de que muitos desejariam fugir, como
Jonas, mas que termina se impondo e triunfando.
Com a palavra de Deus, os profetas romperam barreiras,
a barreira do sexo, porque, em Israel, existiram profetisas, como
Débora (Juizes, 4: 4) e Hulda (II Reis, 22: 14); a barreira da
cultura, porque não eram necessários estudos especiais para
transmitir a palavra do Senhor; a barreira das classes, porque
pessoas vinculadas à corte, como Isaías, ou pequenos proprie­
tários de terra, como Amós, ou mesmo simples campesinos,
como Miqueias, poderiam ser chamados por Deus; as barreiras
religiosas, porque não era necessário ser sacerdote para ser pro­
feta, haja vista que um grande número de profetas não pertencia
a essa classe religiosa; a barreira da idade, porque Deus usava
tanto adultos quanto jovens.
4.6.1 Profetas pré-exílicos, exílicos
e pós-exílicos

Entre aqueles que profetizaram antes de Judá ser levado cativo,


temos Joel, Jonas, Amós, Oseias, Miqueias, Isaías, Naum,
Sofonias, Habacuque e Jeremias. Durante o exílio, profetizaram’
Daniel, Ezequiel e Obadias. Após o exílio, profetizaram Ageu,
Zacarias e Malaquias.
O período da escravidão na Babilônia foi marcante para
o povo de Israel e o reino de Juda sofreu uma dura derrota;
Jerusalém teve suas portas e muros derrubados, o Templo de
Salomão foi atacado e mais uma vez destruído e a maior parte do
povo fora levado como cativo para a babilônia. Nesse contexto,
os profetas tiveram um papel preponderante para o cumprimen­
to das profecias: compreender a ação dos profetas nos ajuda a
entender a ação de Deus e seu plano libertador.

4.6.2 Profetas maiores e menores


Os termos menores e maiores não se referem a uma classificação
ligada à qualidade dos profetas, mas sim ao tempo em que os | N'i4,
profetas exerceram seu ministério. A teologia cristã nãò prevê
diferenças no grau de inspiração. Obadias é tão inspirado quanto
Isaías, embora saibamos que o conteúdo deste último se reveste
de uma importância maior, uma vez que fornece uma revelação 'S
muito mais abrangente.
Essa divisão dos profetas em maiores e menores está eviden­
te na própria disposição dos Livros em nossas Bíblias. Os quatro
primeiros são chamados de profetas maiores'. Isaías, Jeremias (com
248
531

£0
33 B Lamentações como apêndice), Ezequiel e Daniel. Os 12 seguintes
3 -I 1n
B são chamados de profetas menores. Na Bíblia hebraica, os livros
o
dos profetas menores formam um único volume.
§*
P
gw
t-t-
O'
3.
4.6.3 Cronologia dos profetas
P
!A P*
;
P
v> A Bíblia é composta de duas grandes seções, conhecidas como
Antigo Testamento e o Novo Testamento, totalizando 66 Livros
p *
V3 (73 na Bíblia católica), sendo 39 (46 na Bíblia católica) no Antigo
3.
Testamento e 27 no Novo Testamento. O Antigo Testamento é a
<T> primeira parte da Bíblia, sendo dividida, para os judeus, em três
o
grupos - Torah, Neviím e Ketuvím - para os cristãos, e em quatro
grupos - Lei, Históricos, Poéticos e Proféticos. Essa seqüência é
ainda alterada em outros cânones, como de católicos romanos,
a. ortodoxos, armênios, etíopes, coptas etc.
p*
A disposição em que se encontram os Livros do Antigo
p
W Testamento hebraico é diferente da de outras versões, pois se
5s constitui de 24 livros. Todavia, são textos exatamente iguais
aos 39 das Bíblias protestantes, pois os escritos dos profetas
menores formam um único Livro.

4.7 Profetas maiores


Como já dissemos, os profetas maiores são aqueles que por
mais tempo e com mais textos exerceram a função de profetas.
Trataremos de cada um deles a seguir.

|
4.7.1 Isaías

Nascido por volta de 760 a.C., durante o reinado de Uzias, Isaías,


considerado o maior de todos os profetas da última metade
do oitavo século e conhecido como profeta messiânico, viveu no
turbulento período assírio, presenciando o cativeiro de seu
povo (Horton, 2002). Os Reinos do Norte (Israel) e do Sul (Judá)
haviam experimentado poder e prosperidade. Israel, governado
por Jeroboão e outros seis reis de menor importância, havia
aderido ao culto pagão; Judá, no período de Uzias, Jotão e
Ezequias permaneceu em conformidade com a aliança mosaica,
cujo rigor foi gradualmente diminuindo, fato que causou um
sério declínio moral e espiritual (Isaías 3: 8-26).
Lugares secretos de cultos pagãos passaram a ser tolerados;
o rico oprimia o pobre; as mulheres negligenciavam suas famí­
lias na busca do prazer carnal; muitos dos sacerdotes e falsos
profetas buscavam agradar aos homens (5: 7-12: 8-23; 22:12-14).
Tudo isso deixava claro e patente aos olhos do profeta Isaías
que a aliança registrada por Moisés (Deuteronômio, 30: 11-20)
havia sido inteiramente violada, portanto, a sentença divina
estava proferida; o cativeiro e o julgamento eram inevitáveis
para Judá, assim como o era para Israel.
Ainda bastante jovem, recebeu a vocação de profeta, “no ano
da morte do Rei Uzias” (Isaías, 6: 1). É difícil datar com exati­
dão esse acontecimento, pois as opiniões dos críticos oscilam,
indicando desde 747 a.C. até 735 a.C. Atualmente, entretanto,
a maioria dos estudiosos se inclinam a pensar que Uzias morreu
em 740-739 a.C., quando Isaías contava então com aproxima­
damente 20 anos de idade.
Com a experiência da vocação, abre-se um novo mundo
ao profeta. Das verdades tradicionais, da piedade juvenil, o
escolhido para o trabalho profético passa a captar o grande plano
de Deus com respeito ao seu povo.
Pouco depois de sua chamada profética, Isaías deve
ter contraído matrimônio. Desconhecemos o nome de sua
mulher, visto que simplesmente lhe chama de “profetisa”
(Isaías, 8: 3). Desse matrimônio nasceram dois filhos que Isaías
chamou por nomes simbólicos: Sear-Jasube (Um resto volverá)
e Maer-Salal-Hás-Baz (Rápido-Despojo-Presa-Segura).

4,7.1.2 Autoria
Isaías teria sido o autor do Livro que leva seu nome, embora
seja contestada essa afirmação na atualidade.
O profeta demonstra uma cultura que dificilmente pode­
ria haver conseguido fora da capital. A origem jerosolimitana
(natural de Jerusalém) é importante, porque o futuro profeta
cresceu em meio das tradições religiosas que condicionaram sua
mensagem: a eleição divina de Jerusalém e a dinastia davídica-
duas realidades, a capita! e a monarquia, com as quais Deus
Se havia comprometido desde tempos antigos. Diferentémente
de seu contemporâneo Oseias, profeta do Norte, Isaías baseou
grande parte de sua fé e de sua pregação nesses dois pilares.
Pode-se conhecer o caráter de Isaías suficientemente por
meio de sua obra. Foi um homem decidido, sem falsa modéstia,
que se ofereceu voluntariamente a Deus no momento de sua
vocação. Essa mesma dedicação foi demonstrada anos mais
tarde, quando ele enfrentou os reis e os políticos.
4.7.1.3 Tema

Em sua denúncia social, Isaías foi muito influenciado por Amós,


profeta da época, que, embora este último tenha profetizado para
o Remo do Norte, também era conhecido no Sul. Isaías criticou
a classe dominante por seu luxo e orgulho, por sua desenfreada
ganância e por suas injustiças. Além disso, conclamou o povo
a abandonar a vida de pecado e, ao mesmo tempo, os advertiu
do julgamento e da punição futura como castigos divinos. Sua
mensagem se destinou a Judá, Israel e às nações pagãs vizi­
nhas e contém vários oráculos ou mensagens constituídas de
acusações, condenações, julgamentos, consolação e, ainda, algu­
mas passagens apocalípticas, tudo escrito num estilo nobre e
clássico.
O profeta foi cauteloso em mostrar que o juízo de Deus reve­
la não Sua arbitrariedade, mas Sua justiça - devido à idolatria e
imoralidade, o povo de Deus havia se tornado como as demais
nações em seu orgulho e egoísmo. Por outro lado, o Livro de
Isaías está repleto de promessas de restauração e redenção, do
advento garantido do Messias, de salvação para todas as nações
e do triunfo dos propósitos de Deus.

4.7.1.4 Esfera de ação

Tudo indica que Isaías escreveu seu livro durante os reinados de


Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, e a parte final do livro (40: 66),
durante o reinado do tirano Manassés. Portanto, os aconteci­
mentos históricos registrados pelo profeta abrangem um período
de aproximadamente 60 anos, e sua mensagem foi dirigida con­
tra os grupos dominantes: autoridades, juizes, latifundiários e
políticos. É terrivelmente duro e irônico com as mulheres da
252
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

classe alta de Jerusalém (3: 16-24; 32: 9-14); quando defende


alguém compaixão, nunca se trata dos aristocratas, mas sim dos
oprimidos, dos órfãos, das viúvas (1: 17) e do povo explorado
pelos governantes (3:12-15).

4.7.2 Jeremias
Jeremias é sem dúvida um profeta do qual mais sabemos, pois
numerosos textos falam das virtudes do profeta e sua necessi­
dade de não só transmitir a palavra de Deus, mas de também
legar sua palavra, suas dúvidas, inquietação e temores. Desse
modo, a personalidade do profeta aparece como uma das mais
peculiares do Antigo Testamento.
Jeremias iniciou seu ministério em um dos períodos mais
difíceis da história de Israel, no reinado de Josias, um rei bom
que adiou temporariamente o juízo de Deus prometido por
causa do governo terrível de Manassés. O profeta presenciou a
sucessão de cinco reis no trono de Davi em Jerusalém: Josias,
Jeoacaz, Jeoaquim, Joaquim e: Zedequias. Josias fez uma refor­
ma, a qual incluiu a destruição dos lugares pagãos em Judá e
Samaria, mas essa reforma teve um efeito pouco duradouro
sobre o povo. Além disso, Josias conseguiu expandir seu terri­
tório para o norte. Nessa época, a Babilônia era governada por
Nabopolasar, e o Egito, pelo Faraó Neco - ambos disputavam
o espaço em que estava localizado o reino de Judá. Entretanto,
Josias acabou sendo morto por Neco.
Os três filhos e um neto de Neco o sucederam no trono, e
Jeremias os advertiu sobre os planos de Deus para Judá, mas
nenhum dos reis deu atenção ao profeta, que presenciou o do
253 J

Profetas maiores e menores


fim do Reino do Norte, com a destruição da cidade e Templo de
Jerusalém e do exílio do povo judeu para Babilônia. Jeremias
teve o fim de seus dias no Egito, contra sua vontade (43: 4-7).
Tudo isso ocorreu porque seus melhores conselhos foram igno­
rados, seus escritos, rasgados em pedaços por um rei tirano;
seu nome, denegrido; sua vida, perseguida; e suas profecias,
cumpridas horrivelmente.

4-7.2.1 Autoria
Jeremias nasceu por volta do ano 650 a.C., em Anatote, povoado
localizado a aproximadamente 6 km de Jerusalém, pertencente
à tribo de Benjamim. Esse dado é importante, pois Benjamim,
unida politicamente a Judá, manteve, sem embargos, uma grande
vinculação com as tribos do norte. Dessa forma, podemos com­
preender como Jeremias conhecia as tradições de ambos os rei­
nos. O profeta fala de Raquel e Efraim (31: 15-18), do santuário
de Siló (7: 14; 26: 6) e, sobretudo, concede muita importância
ao êxodo, à marcha pelo deserto e à entrada na terra prometida
(2: 1-7; 7:22-25; 16:14; 23: 7; 31: 32). Já as tradições tipicamente
judaicas (eleição divina de Jerusalém e a dinastia davídica) não
dão a esse profeta especial relevância.
O título do Livro de Jeremias nos indica que o profeta era
filho de Hilquias, sacerdote residente em Anatote. Apesar de não
haver provas, é possível que sua ascendência viesse de Abiatar,
sacerdote desterrado por Salomão a Anatote (I Reis, 2:26). Por
outro lado, Jeremias nunca atuou no sacerdócio.
O certo é que o profeta foi chamado para o ministério ainda
muito jovem (1: 4-10) e que seu Livro foi elaborado por volta
do ano 627 a.C.: “a ele veio a palavra do Senhor, nos dias de
254

Josias, filho de Affiom, rei de Judá, no décimo terceiro ano do


seu reinado” (Jeremias, 1: 2).
No momento da chamada, o profeta não se sente atraído
pela missão, assim como Moisés, pois sente receio e se considera
incapaz e não habilitado. Porém, Deus não admite recusas e o
vocaciona para uma tarefa muito difícil: transmitir a palavra
de Deus em um momento crucial e trágico da história de Judá.
vi
! (TO’ A partir desse ponto, podemos dividir a vida de Jeremias
1
• wp>’ em quatro grandes períodos: os três primeiros coincidem com o
n
reinado de Josias, Joaquim e Zedequias; e o quarto corresponde
aos anos posteriores à destruição de Jerusalém.
A autoria do Livro de Jeremias é fato provado, tanto interna­
mente (seu nome, assim como o de Baruque, são constantemente
citados) como externamente - o livro é atribuído a Jeremias pelo
profeta Daniel (9: 2), por Esdras (1: 1) e também pela tradiçao
P
p
* judaica.

4J.2.2 Tema
O tema do Livro de Jeremias é a hora do juízo. A decadência
e o desastre que se abateram sobre Judá vieram pela falta de
'] sensibilidade, desconsideração e desobediência da nação a Deus.
«I O profeta confrontou muitos israelitas que pecavam contra Deus,
r' Ji listou os pecados de Judá, predisse o juízo de Deus e rogou que
a nação se arrependesse. Entretanto, enquanto a mensagem
de Jeremias era de destruição e de tristeza, os falsos profetas
anunciavam livramentos, paz «prosperidade (14:11-16; 23:9-40;
28:1-17).
Em razão de sua predição, Jeremias foi acusado de trair
sua nação. Porém, viveu para ver muitas de suas profecias se
/
255

cumprirem, em especial as que se referem à destruição do centro


religioso - o Templo.
Nem só de juízo falou Jeremias, que trouxe também mensa­
gens de esperança para a nação: anunciou que uma nova aliança
seria estabelecida para substituir a mosaica, realizada no Sinai
(31. 32), referiu-se ao Messias como o profeta que reinará no
trono de Davi e executará julgamento e justiça na Terra (23- 5-6-
33: 14-17).

4.7.23 Esfera de ação

A vida do profeta Jeremias compreende dois períodos muito


distintos, cortados pelo ano 609 a.C., data da morte do Rei
Josias. Os anos que precedem esse acontecimento são marcados
por otimismo, devido à independência política que abre espaço
para uma prosperidade crescente e a reforma religiosa. Os anos
que seguem constituem um período de rápida decadência: Judá
seria dominada, primeiro pelo Egito, depois pela Babilônia. As
tensões internas e as lutas dos partidos foram acompanhadas
pelas injustiças sociais e pela corrupção religiosa. O povo de
Judá caminhava para seu fim. No ano 586 a.C., a cidade de
Jerusalém caiu nas mãos dos babilônios e o reino de Judá desa­
pareceu definitivamente da história.

4.7.3 Lamentações
O Livro de Lamentações é um poema fúnebre que relata as
misérias e as desolações de Jerusalém, resultantes de seu estado
de sítio e posterior destruição. O profeta expressa seu pro-
fundo pesar sobre esse evento calamitoso na história do povo
í 256
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

escolhido de Deus, a destruição de Jerusalém, em 586 a.C., por


Nabucodonosor, rei de Babilônia. A segurança de Jerusalém era
vista como uma doutrina preciosa pelos habitantes da cidade.
Nos meses e nos anos que se seguiram, suas mentes foram impor­
tunadas com muitas perguntas não respondidas acerca de sua
história passada e de seu destino futuro.
Dos cinco poemas que compõem o livro, os quatro primeiros
são canções fúnebres, enquanto o quinto apresenta mais a forma
de oração: 1) Canção de uma cidade em luto; 2) Canção de um
povo alquebrado; 3) Canção de um profeta sofredor; 4) Cançao
de um reino devastado; 5) A oração de uma nação penitente.
O Livro de Lamentações é o terceiro dos cinco que com­
põem as M eguillot ou “Rolos das Festas” (Cântico dos Cânticos,
Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester), usados em determina­
das festas judaicas. Esse triste cântico de Jeremias foi adotado
pela nação judaica.
Os judeus cantam esse Livro todas as sextas-feiras junto ao
Muro das Lamentações, em Jerusalém, e o leem nas sinagogas,
em jejum, no dia destinado à lamentação das cinco grandes
calamidades que sobrevieram à nação.

4.73.1 Autoria . . .
Embora o livro não mencione o nome do autor, a tradiçao
judaica, bem como os cristãos, atribui Lamentações ao profeta
Jeremias. Não se pode negar que o livro é escrito no espirito desse
profeta e que há muitas similaridades com suas profecias. Alem
das aflições e as lágrimas dó autor de Lamentações refletirem
vmdamente a personalidade desse profeta, há outros fatores que
\ podem ser Atados como comparativos: o castigo que tinha vindo
\ a Israel em virtude de seu persistente pecado e sua dependên­
cia de aliados desleais; a mesma atitude com relação aos falsos
profetas e sacerdotes; a descrição detalhada da destruição da
cidade, pois Jeremias esteve presente quando a cidade caiu e nela
permaneceu para observar e lamentar a destruição avassaladora.
Assim, a afinidade em conteúdo (espírito, tom e linguagem) falam
a favor da autoria de Jeremias.

4.73.2 Tema
O tema do Livro Lamentações é a fidelidade de Deus. Na mais
extrema angústia e esmagadora derrota, sem haver absoluta­
mente esperança de conforto, o profeta aguarda a salvação da
mão do grande Senhor do universo.
Os poemas tinham a intenção de ajudar o povo a aprender
uma lição do passado e, ao mesmo tempo, conservar sua fé
em Deus mesmo quando confrontados como um infortúnio
avassalador.
Lamentações deve gerar em todos os verdadeiros adoradores
a obediência e a integridade, dando, ao mesmo tempo, um aviso
temível concernente àqueles que desconsideram a revelação de
Deus por meio de Sua Palavra. Não há registro na história de
outra cidade arruinada que tenha sido lamentada em tal lingua­
gem patética e comovente.
Lamentações é, certamente, proveitoso em sua descrição da
severidade de Deus para com os que continuam a ser rebeldes,
obstinados e impenitentes.
4.7.4 Ezequiel
No ano 609 a.C., quando o Rei Josias morreu na Batalha de
Megido, terminou o último momento de esplendor do reino de J
Judá. A partir de então, o Reino do Sul perdeu a independência
plena e o país foi assolado por impostos egípcios e babilônicos.
As injustiças sociais se propagaram, fomentadas por um dos
reis, Joaquim. Este, que havia subido ao trono no ano 609 a.C.,
por decisão do Faraó Neco, teve de se submeter à Babilônia no
ano 603 a.C. Mais tarde, porém o governante deixou de pagar
tributos, fato que provocou o primeiro assédio de Jerusalem e a
deportação de um grupo importante de judeus no ano de 597 a.C.
Entre os deportados para a Babilônia, encontrava-se um jovem
que pouco tempo depois receberia a vocação profética: Ezequiel.
Jeconias, que teve três meses de reinado, também marchou
para a deportação. Para substituí-lo, Nabucodonosor nomeou a
Rei Zedequias (597 a.C-586 a.C.). Durante nove anos, esse rei se
manteve calmo com a nação babilônica, devido ao pagamento
de tributos. Somente em 594 a.C. houve um momento de tensão,
pois, aproveitando certas revoltas internas na Babilônia, repre­
sentantes de Edom, Moabe, Amom, Tiro e Sidom se reuniram
em Jerusalém. Parecia ter chegado o momento de independence,
mas foi apenas um motivo para a indignação do rei da Babilônia.
Nabucodonosor respondeu de imediato, assediando
Jerusalém, que foi sitiada por mais de três anos. Forçada pela
fome, a capital se rendeu em 586 a.C. Um mês mais tarde, ocor­
reu o incêndio do Templo, do palácio real e das casas. Os babi­
lônios saquearam os tesouros, derrubaram as muralhas e depor­
taram um novo grupo de judeus (II Reis, 25). Esse novo grupo
de desterrados engrossou as filas dos que marcharam para a
! , I

Profetas maiores e menores


Babilônia em 597 a.C.; perderam tudo: a Terra Prometida, a
Cidade Santa, o Templo e a independência.
A época de exílio foi uma das mais fecundas da história
de Israel, uma “sementeira entre lágrimas” que produziu uma
“colheita entre músicas” (Salmos, 126). Ezequiel foi um dos pro­
tagonistas mais ativos da época, revelando, por meio de sua men­
sagem, â iminência da catástrofe e a esperança de restauração.

4.7.4.1 Autoria

Conhecemos poucos dados sobre a vida íntima de Ezequiel, mas


sabemos que era filho de um sacerdote chamado Buzi (Ezequiel,
1: 3) e que provavelmente exerceu o sacerdócio, devido ao seu
conhecimento da legislação sacra e seu interesse pelo Templo.
De todo modo, ao ser desterrado para longe de Jerusalém, não
pôde exercer seu ministério sacerdotal.
Ezequiel marchou para o exílio no ano 597 a.C., onde rece­
beu sua vocação profética e exerceu seu ministério. Seu chamado
teve lugar na terra dos caldeus, junto ao rio Quebar (Ezequiel
1: 3), depois da visão do templo profanado.
Não sabemos a idade que tinha Ezequiel quando foi depor­
tado. No entanto, segundo Josefo (1990), era ainda um menino.
Portanto, o profeta deve ter nascido entre 610 à.C. e 605 a.C.

4 .7.4.2 T e m a

O tema do Livro de Ezequiel é a destruição de Jerusalém e sua


restauração. Assim como os jerosolimitas, os exilados apegados
aos falsos profetas acreditavam obstinadamente que a cidade não
seria invadida e que logo eles retornariam à sua terra.
i -I
'!
: 7 ' ’••!

! •: 1
\ 260
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Já que Deus havia escolhido Jerusalém para sua morada e


já que Ele mesmo a defendeu no passado, não seria diferente
dessa vez. Entretanto, o profeta Ezequiel os advertiu de que o
castigo era certo, por causa de suas transgressões, e que o exí­
lio babilônico fora usado por Deus para corrigir os rebeldes e
afastá-los de sua vil maneira de viver.
Muitos não deram crédito às suas palavras e, em pouco
tempo viram e ouviram que a cidade do grande rei (Jerusalém)
fora destruída e o restante do povo foi levado cativo. Cumprida
a profecia, a mensagem tomou outro rumo: Jeremias passou a
consolar os desterrados, dando-lhes promessas de libertação
futura e retorno à terra de seus pais.
Dois temas teológicos agiram como equilíbrio no pensa­
mento do profeta. Na doutrina do homem em Ezequiel, ele
colocou a ênfase no dever pessoal: “A alma que pecar, essa
morrerá” (18: 4). Por outro lado, enfatizou a graça divina no
renascimento da nação. O arrependimento do remanescente
fiel entre os exilados resultaria na recriação de Israel a partir
dos ossos secos (37: 11-14).

4 .7.43 Esfera de ação


Dos livros proféticos, somenté Ageu e Zacarias oferecem dados
tão minuciosos como o profeta Ezequiel, que recebeu seu cha­
mado profético em 593 a.C. e profetizou entre 593 a.C. e 571 a.C.,
como indicam 13 datas específicas fornecidas no Livro de
Ezequiel (1: 1; 8:1; 20: 1; 24: 1; 26:1; 29:1; 29:17; 30: 20; 31:1;
32: 1; 32: 17; 33: 21; 40: 1).

I
i
^ '!

Profetas maiores e menores


4«7.5 Daniel
Uma vez que o Império Assírio entrou em decadência, o Faraó
Neco veio do Egito no intuito de restaurar o antigo domínio
egípcio naquelas regiões ao norte da Palestina. Lá, seus exércitos
se defrontaram com os de Nabucodonosor, e a batalha decisiva
não foi fácil para qualquer das partes em contenda. Isso tanto é
certo que Neco voltou para sua nação afirmando que tinha ven­
cido os exércitos inimigos, mas o profeta Jeremias nos informa
que isso não era verdade (Jeremias 46: 2).
De qualquer forma, na sua volta para o Egito, o Faraó Neco
depôs Joacaz - que o povo havia colocado no trono pela mor­
te de seu pai Josias - e colocou no trono o irmão de Josias,
Eliaquim, mudando-lhe o nome para Jeoaquim. Este ficou sub­
misso, naturalmente, ao rei do Egito, até que subiu contra ele
Nabucodonosor, rei da Babilônia, que e o amarrou para levá-lo
\;
à Babilônia (II Crônicas, 36:6; II Reis, 24:1). Desejoso de tomar
a cidade de Jerusalém, Nabucodonosor recebeu a notícia de que
seu pai havia falecido, evento que o levou a entregar os exércitos
a seus generais e retornar à Babilônia.
Nessa sua primeira passagem pela Terra Santa, por volta do
ano 605 a.C., Nabucodonosor levou alguns utensílios da Casa
do Senhor (II Crônicas, 36: 7), juntamente com um pequeno
grupo de príncipes. Entre eles, achavam-se Daniel, Hananias,
Misael e Azarias, aos quais o Chefe dos eunucos pôs outros
nomes, Beltessazar, Sadraque, Mesaque, e a Abede-Nego, res­
pectivamente (Daniel, 1: 7).
Daniel e seus companheiros vinham de linhagem real e
pertenciam à nobreza de Judá. O futuro profeta era de boa apa­
rência, instruído em toda sabedoria, douto em ciência e versado

fc
em conhecimento. Sendo um jovem notável, e também em razão
de sua piedade e sua devoção ao Deus de seus pais, ascendeu
rapidamente, tornando-se um dos oficiais mais respeitados do s
governo.

4.7.5.1 Autoria
A tradição judaica tem atribuído o Livro que recebe seu nome a
Daniel. Os cristãos, com base em declarações explícitas feitas no
próprio Livro de Daniel (7: 1; 9: 2) e em harmonia com o teste­
munho de Cristo (Mateus, 24:15), parecem claramente dar seu
endosso para a legitimidade de Daniel como profeta e veracidade
da mensagem de Deus. Entretanto, entre os estudiosos moder­
nos, a autoria desse Livro tem sido objeto de muita polêmica.

4 J .5 .2 Tema
O tema de Daniel é a soberania de Deus, centro do Livro. Deus
está no controle do Céu e da Terra, dirigindo as forças da natu­
reza, 0 destino das nações e cuidando do Seu povo. Jerusalém
pode ser destruída e ter seu Templo reduzido a ruínas, o povo
de Deus pode ser exilado e os maus governantes podem parecer
triunfantes, mas somente Deus permanece supremo. É Ele, e
somente Ele, “quem muda o tempo e as estações, remove reis e
estabelece reis; Ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos
inteligentes. Ele revçla 0 profundo e o escondido; conhece o què
está em trevas, e com Ele mora a luz” (2:21-22). Em virtude de
suas muitas visões - as crises dramáticas, o choque de forças em
uma esfera cósmica, a ênfase acerca do fim dos tempos, as mui­
tas imagens simbólicas, os animais com chifres representando
263 f

os poderes terrenos, a visão do glorioso, a visão dos tronos,


enfim, o clímax da história - o Livro de Daniel é chamado de
“O apocalipse do Antigo Testamento”, como afirmou Ellisen
(1999, p. 264): “é um livro ‘apocalíptico’, no verdadeiro sentido
de ‘apocalipse’, uma ‘revelação’ de Deus”.

4.7.53 Esfera de ação


Daniel profetizou desde o primeiro cativeiro babilônico, liderado
por Nabucodonosor, até Ciro, o Grande, abrangendo um período
de aproximadamente 70 anos.

4.8 Profetas menores

O movimento profético é o fenômeno mais surpreendente de


toda a história de Israel. Os profetas são habitualmente intro­
duzidos pelo nome no início de seus escritos e identificados pela
data e lugar de atividade. A pessoa histórica do profeta assume
importância fundamental para a transmissão de sua mensagem.
A seguir, apresentaremos a você uma visão geral sobre os
Profetas menores e seus Livros.

4.8.1 Oseias
Oseias, assim como os nomes Josué e Jesus, é derivado do hebraico
e significa “salvação”. O profeta concentrou sua atividade prin­
cipalmente no Reino de Israel, ao Norte, fundado por Jeroboão,
filho de Nebate. Os profetas Oseias, Amós e Miqueias viveram
264
i
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

na mesma época. Com o profeta Isaías, eles formam o quarteto


do período áureo da profecia hebraica, entre 790 a.C. e 695 a.C.
Em virtude da decadência em todas as áreas da vida (espi­
ritual, social e política), o juízo de Deus era inevitável. O Reino
do Norte em pouco tempo seria devastado pelo poderio militar
dos assírios. A nação estava tão afundada na idolatria que sua
relação com Deus foi comparada ao pecado de adultério. Deus
mandou Oseias casar-se com uma mulher de prostituições, ao
que ele logo obedeceu; desse modo, o profeta presenciou no pró­
prio casamento o que Deus estava passando em relação a Israel.
Não há profeta sobre o qual saibamos tantos pormenores
sobre os fatos da vida familiar como Oseias, porque aí reside
a mensagem de Deus ao seu povo. Ele é reconhecido como o
profeta mais antigo que interpretou a vontade de Deus relacio­
nada ao “amor”.
Oseias era o primeiro profeta da graça, o primeiro “evange­
lista” de Israel, o apóstolo João do Antigo Testamento. A dou­
trina do amor de Deus apresentada por Oseias não era inédita;
contudo, foi expressa com clareza e propósito.

4.8.1.1 Autoria
A autoria do Livro de Oseias é atribuída ao próprio profeta,
filho de Beeri (Oseias, 1: 1). Provavelmente ele veio de família
importante, pois, quando o indivíduo era de família humilde ou
inexpressiva na sociedade, o nome do pai não era mencionado.
Seu ministério desenvolveu-se no Reino do Norte, nos dias
de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, e nos dias de
Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel (Oseias, 1: 1). Ele era um
pouco mais jovem que Amós, compartilhando com ele a mesma
época de predições.
O profeta demonstra profundo conhecimento tanto de seu
povo quanto do sistema político e religioso, bem como dos assun­
tos particulares da monarquia, da política interna e externa, e
do pecado dos sacerdotes. Desse modo, sua mensagem não
agradava o povo nem as autoridades, porém era a voz que ecoava
dos Céus.

4.8.1.2 Tema

O Livro de Oseias contém 14 capítulos e está dividido em duas


partes principais. A primeira constitui uma parte distinta do
Livro e registra as experiências domésticas do profeta (Oseias,
capítulos 1 a 3). A segunda parte trata do mesmo assunto, de
maneira mais ampla e detalhada. Nos capítulos 4 a 14, temos os
discursos proféticos propriamente ditos. Amós havia pregado o
arrependimento para reconduzir Israel a Deus; Oseias por sua
vez prega o amor. Amós havia prenunciado a inacessível justiça
de Deus; Oseias, o infalível amor de Deus.
O profeta casou-se e teve três filhos. Muitos estudiosos
não querem aceitar o casamento de Oseias com uma prostituta
(Gômer) como um fato real, mas simbólico. Outros acreditam
que, quando Oseias se casou, sua mulher não era meretriz, mas
tornou-se, talvez, após o casamento, uma prostituta no templo
de Baal. Sendo assim, a ordem de tomar uma mulher das pros­
tituições era algo que ainda iria acontecer em sua vida real.
Entretanto, a linguagem simples com que Oseias narra os fatos
e o contexto do Livro leva a crer que essa experiência foi real em
sua vida. Os nomes de seus filhos representavam o espírito de
desobediência de seu povo: Jezreel (Deus espalhou), Lo-Ruama
(desfavorecida), Lo-ami (não meu povo).
266
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Por meio desse casamento maculado pela infidelidade, Deus


demonstrou Seu amor e fidelidade para com Israel, bem como a
ingratidão e infidelidade de Israel para com Deus. Antigamente,
os laços entre Yahweh e Israel haviam sido tão doces como
os laços do primeiro amor; posteriofmente, Israel, como uma
esposa infiel, buscava outros amantes, como declarou o profeta:
“Porque sua mãe se prostituiu, aquela que os concebeu houve-se
torpemente porque diz: Irei atrás de meus namorados, que me
dão o meu pão e a minha água, a minha lã e o meu linho, o
meu óleo e as minhas bebidas... Ela, pois, não reconhece que
eu lhe dei o grão, e o mosto, e o óleo e lhe multipliquei a prata
e o ouro, que eles usaram para Baal” (Oseias, 2: 5-8).
O Livro de Oseias denuncia o adultério espiritual de Israel
e condena os líderes espirituais como responsáveis por o povo
ter perdido a fé em Deus.

4.8.13 Esfera de ação


Os quatro remados de Judá, Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias
somam um período de 113 anos: 52 anos de Uzias, 16 anos de
Jotão, 16 anos de Acaz e 29 de Ezequias (II Crônicas 29. 1).
É evidente que o ministério de Oseias não abarcou todos esses
anos. Os acontecimentos históricos a que se refere o Livro de
Oseias cobrem um período de aproximadamente 60 anos. O pro­
feta Isaías, Miqueias, Amós e Oseias foram contemporâneos; basta
uma leitura do primeiro versículo de cada um desses Livros para
confirmar esse fato. Isaías era profeta da corte e conselheiro da
casa real, ao passo que Miqueias era profeta do campo, ambos do
reino do Sul, cuja capital era Jerusalém. Oseias e Amós eram pro­
fetas do reino do Norte, tendo como capital a cidade de Samaria.
4.8.1.4 Esboço de Oseias

I. O casamento de Oseias ilustra a infidelidade de Israel e a


rejeição e restauração da nação (1: 2; 3: 5)
a) O casamento com Gômer (I: 2)
b) O nascimento dos três filhos (1: 3-9)
c) A profecia da restauração (1: 10; 2: 1)
d) Gômer como símbolo de Israel (2: 2-23)
e) O adultério de Israel (2: 2-5)
f) O juízo divino (2: 6-13)
g) Deus promete a restauração de Israel (2: 14-23)
h) A redenção de Gômer (3: 1-5)
ii. A mensagem de Oseias descreve a infidelidade, a rejeição
e a restauração de Israel (4: 1; 14: 9)
a) O adultério espiritual de Israel (4: 1-19)
b) O juízo divino sobre Israel (5: 1-14)
c) O arrependimento não sincero de Israel (5: 15; 6: 3)
d) O registro dos pecados de Israel (6: 4; 8: 6)
e) A violação do concerto (6: 4-10)
f) A recusa em confiar em Deus, e obedecê-lo (6:11; 7: 16)
g) Servidão a falsos deuses (8: 1-6)
h) A predição do juízo de Israel (8: 7; 10: 15)
i) O povo de Israel será devorado pelas nações (8: 7-14)
j) A prosperidade evaporará (9: 1-9)
k) A madre se tornará estéril (9: 10-17)
l) A nação será destruída (10: 1-15)
m) O amor persistente de Deus por Israel (11: 1-11)
n) A repetição dos pecados de Israel (11: 12 ; 12: 14)
o) O cuidado passado de Deus e Sua ira presente (13: 1-16)
p) A idolatria de Israel (13: 1-3)
A p o n ta m e n to s sobre a h istó ria das igrejas cristãs e os livros proféticos d a B íblia

q) O cuidado divino no êxodo (13: 4-6)


r) O plano divino em destruir Israel (13: 7-13)
s) O plano divino para a restauração final de Israel (13:14)
t) Insistência na destruição iminente de Israel (13; 15; 16)
m. Deus promete restaurar Israel (14: 1-9)
a) A chamada ao arrependimento (14: 1-3)
b ) A promessa de bênçãos abundantes (14: 4-9)

4.8.2 Joel
A terra de Israel tinha acabado de ser visitada por uma terrível
praga de gafanhotos, que devoraram todo o verde, deixando
em seu rastro só desolação, não deixou nada por tocar - tudo
foi atingido: o campo, o cereal, a vide, a oliveira, o trigo, a
cevada, a figueira, a romeira, a palmeira, a macieira, todas as
árvores. A gravidade da situação foi acentuada pelo acúmulo
de palavras descritivas de ruína e desolação escritas no capítulo
primeiro do Livro de Joel: “cortada”, no versículo 9; “assolado,
luto, destruído, secou, murcharam”, no versículo 10; “pereceu ,
no versículo 11; “secou, murchou, secaram”, no versículo 12.
Joel acredita que esse fato tenha sido o juízo de Deus para
rhamar o povo ao arrependimento. Ele relaciona a praga dos
gafanhotos ao Dia do Senhor, prevendo catástrofes naturais,
calamidades sobrenaturais e invasões militares. Esse dia é men­
cionado em Joel (1: 15; 2: 1, 11, 31; 3. 14).
Assim como outros profetas, Joel predisse o futuro à luz
do presente, considerando um acontecimento atual e iminente
como símbolo de um acontecimento futuro. Por isso, o profeta
ilustrou a invasão dos gafanhotos, tanto para ressaltar a invasão
269

Profetas m aio res e m en o re s


dos assírios que viriam com grande força anos mais tarde (II
Reis, 19; Isaías, 36) quanto para indicar, ainda mais para o futu­
ro, a invasão final dos exércitos confederados do Anticristo na
Palestina, por isso a expressão O Grande Dia do Senhor. Tornando
o Dia do Senhor o pensamento central e tendo em mente que a
mesma expressão é usada com referência à invasão dos assírios,
Joel é o Livro que descreve o Dia do Senhor.

4.8.2.1 Autoria

Pouco se sabe de Joel: era filho de Petuel; as numerosas refe­


rências a Sião (Judá) e ao ministério do Templo indicam que ele
era profeta em Jerusalém, de acordo com as referências que o
Livro faz ao santuário da capital do Reino do Sul (1: 9, 13, 14;
2: 15 17). Embora não haja provas, supõe-se que Joel era sacer­
dote ou, pelo menos, um profeta ligado ao Templo. Enquanto
Joel profetizou para Judá (Reino do Sul), o profeta Elias o fez
em Israel (Reino do Norte).

4.5.2.2 Tema
O profeta Joel começa sua narrativa descrevendo uma terrível
praga de gafanhotos que devasta a terra de Judá, e dessa grande
invasão ele conseguiu visualizar o que seria a invasão realizada
pelos exércitos inimigos. O profeta descreve a praga como um
exército humano que, movendo-se sempre, deixa para trás a
terra desolada (Joel, 1: 4-12; 2: 2-10).
Por meio desse ataque de insetos, Joel compreende que Deus
estava conclamando seu povo ao arrependimento e a manter-se
fiel às Suas promessas. Todos eram culpados, por isso, todos
deviam humilhar-se diante de Deus.
270
A p o n ta m e n to s sobre a h istó ria das igrejas cristãs e os livros proféticos d a

Depois dos efeitos das pragas dos gafanhotos terem sido


sentidos em toda a sua intensidade, Yahweh se compadece de
seu povo e promete que “se compadecerá do seu povo” (Joel,
2: 18). Essa reação reflete o amor do Senhor por Israel, amor
expresso em Ezequiel (16) e Oseias (11: 1-9),
O E sp írito de D e u s com pletaria e g a ra n tiria a restauração, p o is o

Sen h or disse:
E vós sabereis que eu estou no m eio de Israel e que eu sou o Senhor,
vosso D eus, e n inguém m ais; e o m eu p o v o n ão será envergonhado
p a r a sem pre. E há de se r que, depois, derram arei o m eu E spírito
sobre to d a a carne, e vossos filh o s e vossas filh a s profetizarão, os
vossos velhos terão sonhos, os vossos jo v e n s terão visões. E ta m b ém
sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, derram arei o m eu
E spírito. (Joel, 2: 22-29) (
Joel conclui com a imagem de Deus rugindo de Sião a fim
de que o pecado seja erradicado e Deus seja reconhecido como
Senhor soberano:
Bíblia

E o Senhor bram ará de Sião e dará a sua voz de Jerusalém , e os céus e


a terra tremerão; m a s o S enhor será o refúgio do seu p o vo e a fortaleza
dos filh o s de Israel. E vós sabereis que eu sou o Senhor, vosso D eus,
que h abito em Sião, o m o n te d a m in h a san tidade; e Jerusalém será
san tidade; estranhos n ão pa ssa rã o m a is p o r ela [ . . . ] E pu rifica rei o
sangue dos que eu não tin h a pu rificado, p o rq u e o Sen h or h abitará
em Sião. (Joel, 3: 16-17; 21)

Essa é a dimensão da profecia de Joel.

4.8 .2 3 Esfera de ação


Várias teorias tentam estabelecer uma data para o Livro de Joel.
Para alguns críticos, ele teria profetizado em uma época em
que não havia rei em Israel, ou seja, após a queda de Jerusalém.
Outros alegam que o profeta realizou seus testemunhos na época
da menoridade de Joás, que subiu ao trono aos 7 anos de idade
(II Reis, 11). Outros ainda dizem que ele foi profeta pós-exílico.
A verdade é que desconhecemos a data em que o Livro de Jóel
foi escrito, porém a mensagem ressoa até nossos dias, tendo
cumprimento no dia de Pentecostes (Atos, 2).

4.8.3 Amós
A prosperidade em Israel, sua sensação de segurança e suas vitó­
rias militares apontam que Amós teria profetizado no período
do reinado de Jeroboão II. A história do Antigo Oriente durante
esse período foi repleta de mudanças políticas. O Egito estava
fragmentado pelos reis libaneses e Sudaneses, portanto, não
consistia mais em uma forte influência militar sobre a Palestina,
e o envolvimento da Síria e Assíria com Israel era mais direto
e doloroso.
O sucesso militar de Jeroboão II tornou o ministério de
Amós muito difícil, pois poucos levaram a sério suas advertên­
cias sobre a condenação vindoura. O povo estava orgulhoso e
tranqüilo (6: 1); logo, a exortação do profeta sobre a morte, o
exílio e o fim de Israel pareceu-lhes em desarmonia com as
realidades políticas ao redor.
A mensagem de Amós é simples e empolgante, sendo o
protesto clássico contra a imoralidade; depois dele, todo profeta
reiterará esse protesto, mas ninguém o faz com tanto ardor como
Amós, que foi o primeiro dos profetas literários que se esforçou
em a eliminar os elementos pagãos que se insinuaram na vida
religiosa e social de Israel.
272
A p o n ta m e n to s sobre a h istó ria das igrejas cristãs e os livros proféticos d a B íblia

4.83.1 Autoria

Amós era natural de Tecoa, cidade de Judá (Reino do Sul), que


se situava a cerca de 10 km ao sul de Belém e 20 km a sudeste
de Jerusalém. Era boiadeiro, pastor de ovelhas e cultivador de
sicômoros (7: 14-15); além disso, foi contemporâneo de Oseias.
Embora natural de Judá, Deus o enviou a profetizar em Betei e
Samaria, centros religiosos do Reino do Norte.

4 .8 3 .2 Tema

Os reinados de Uzias, em Judá, e Jeroboão II foram marcados


por grande prosperidade. Israel estava no auge do poder, o que
fez manifestar-se o desejo de luxo, a arrogância, a segurança
carnal e a opressão dos pobres, aque chegaram a ser vendidos
como escravos.
Foi nesse contexto social que Deus chamou Amós para pre­
gar. Sua mensagem foi direcionada aos que vivem em palácios e
acumulam riquezas (3: 10), às senhoras da alta sociedade (4: 1),
aos que constroemboas casas e plantam excelentes vinhas (5:11),
aos que aceitam suborno na administração da justiça (5:12), aos
os que vivem no luxo e na boa vida (6: 4-6), aos que controlam
o comércio (8: 4-6).
A mensagem do profeta foi diretamente de encontro àqueles
que detinham o poder econômico, político e jurídico de Israel.
Amós descreveu as injustiças que provocaram o cativeiro.
Em razão dos privilégios qüe Deus lhes havia concedido e por
não os valorizarem, o castigo para Israel seria maior do que para
aqueles que não gozavam dos mesmos privilégios (3: 2); ou seja,
o castigo é proporcional ao privilégio. Pearlman (1996a, p. 149)
sintetiza o tema de Amós da seguinte forma: “exposição dos
í
I
pecados de um povo privilegiado, cujos privilégios lhes trouxe-
ram grande responsabilidade e cujas faltas sob essa responsa­
bilidade lhes acarretaram um castigo de acordo com a luz que
tinham recebido”.
O poder político teve maior influência na condição social
de Israel. O controle das rotas comerciais e estradas traziam
riquezas e acesso a caríssimos marfins e m obílias (3: 15; 6: 4).
Com a prosperidade vieram também as influências culturais,
novos padrões de moralidade e uma ética comercial que não
era compatível com a antiga tradição hebraica em Israel.
Gradualmente, uma nova classe de ricos latifundiários, ofi­
ciais do governo e comerciantes começou a emergir: eles cons­
truíram lindos palácios (5:11) que mais pareciam castelos (6: 8);
suas casas eram imensas e alguns possuíam tanto residência de
verão quanto de inverno (3: 15); opressão, violência e aparente
ignorância da diferença entre o certo e o errado caracterizavam a
vida nos castelos da nação (3: 9-10); a vida luxuosa com o melhor
do vinho, do óleo, da música e da carne era considerada parte
da recompensa do rico (6: 4-7).
Esses bens e prazeres materiais eram provavelmente adqui­
ridos por meios tanto legais quanto ilegais. O pobre, o fraco, o
devedor e o servo eram maltratados, e algumas pessoas eram
até mesmo vendidas como escravos (2:6-8; 8 :4-6). As condições
sociais eram precárias devido ao pecado e à ganância.
Na cidade de Betei, ao lado do altar idólatra, Amós pro­
nunciou juízos de Deus. Primeirâmente, ele alertou as nações
estrangeiras (Síria, Amom, Edom e Moabe) de que elas seriam
castigadas por sua política externa e militar, depois Judá, por cau­
sa da sua idolatria e, finalmente, Israel, por sua injustiça social
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

e sua exploração dos pobres e necessitados. A palavra de Amós


era como um chicote para os opressores e mel para os oprimidos.
O profeta apresenta um remédio eficaz para a enfermida­
de que ameaçava a vida da nação: Aborrecei o mal, é amai o
bem, e estabelecei o juízo na porta; talvez o Senhor, o Deus
dos Exércitos, tenha piedade do resto de José” (Amós 5: 15).
As palavras do profeta se cumpriram literalmente, inclusive a
restauração de Israel, não mais como reino do norte, mas como
descendência de Israel.

4,8.33 Esfera de ação


O profeta Amós exerceu o seu ministério em Israel no século
VIII a.C., e foi contemporâneo de Jonas e Oseias. O ministério
de Amós em Israel foi desempenhado durante o reinado de
Uzias, em Judá, e Jeroboão II, em Samaria. O reinado de ambos
coincide com o período que vai de 767 a.C. até 753 a.C.

4.8.4 Obadias /
O Livro de Obadias é o menor Livro do Antigo Testamento,
contendo apenas um Capítulo, no qual é pronunciada üma sen­
tença de destruição contra Edom, nação vizinha de Judá, ao
sul do Mar Morto. /
De acordo comMears (2006, p. 325), Edom era a cordilheira
de montes rochosos localizada ao leste do vale da Arábia. Era
bem irrigada e tinha abundantes pastagens,/tetra era sua capital,
situada entre montanhas quase inacessíveis. Seu único acesso
era por meio de uma profunda fenda na rocha com mais de 1 km
de extensão, com enormes penhascos de mais de 200 metros de
altura, de ambos os lados. A cidade podia resistir a qualquer
invasão e “possuía cerca de mil templos”.
Obadias descreve a conseqüência das antigas hostilidades
entre Edom, descendentes de Esaú e Israel, descendentes de
Jacó, ambos os filhos de Isaque. Sua profecia foi uma reação ao
papel de Edom na queda de Jerusalém, nas mãos dos exércitos
babilônicos do Rei Nabucodonosor.

4.8.4.1 Autoria
Ao contrário dos profetas de outros Livros, Obadias não apre­
senta informação sobre a época ou o lugar de sua origem, nem
inclui qualquer dado autobiográfico sobre o profeta e o autor,
exceto que seu nome significa “servo do Senhor”.

4.5.4.2 Tema
Obadias profetiza duas mensagens importantes: a ruína dos
orgulhosos e rebeldes edomitas e o livramento dos mansos e
humildes judeus. Por isso sua mensagem dirige-se a Edom, repre­
sentada pela figura de Esaú, e a Sião, representada pela figura
de Jacó. No Novo Testamento, afirma-se que Esaú era “profano”,
ou como diríamos hoje em dia, ateu, materialista e secularista;
e sua descendência também seguiu esse padrão.
O fundo histórico do Livro de Obadias nos revela que o
profeta exorta os descendentes de Esaú a nunca mais zombarem
dos filhos de Judá. Ele descreve o julgamento de Edom.
Tudo indica que a profecia de Obadias ocorreu quando
Nabucodonosor capturou Jerusalém em 586 a.C. Esse evento
deixou o povo de Edom muito feliz e, então, eles aproveitaram a
ocasião para também saquearem a cidade e matar alguns judeus
276
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

(Salmo, 137: 7). Vale ressaltarmos que os edomitas já haviam


participado de mais quatro saques em Jerusalém: no reinado de
Roboão, juntamente com o Egito em 926 a.C. (I Reis, 14; 25-27);
no reinado de Jorão, entre 848 a.C. e 841 a.C. (II Crônicas,
21: 16-17); no reinado do Rei Amazias, em 790 a.C. (II Reis,
14: 13-14); no reinado de Ezequias, em 701 a.C., juntamente
com a Assíria (II Reis, 18: 13 ); por fim, juntamente com os
Babilônicos, entre 606 a.C. e 586 a.C. (II Reis, 24: 2) - acredi­
ta-se que é justamente nesta última ocasião que se dá a profecia
de Obadias, enquanto muitos judeus foram levados para o cati­
veiro e outros ficaram em Jerusalém sem água e sem comida.
O tema é claramente observado à primeira leitura do Livro,
o orgulho de Edom. Os edomitas provinham de Esaú, irmão
gêmeo de Jacó. O Livro de gênesis retrata a inimizade que existia
entre esses irmãos.
Edom se tornou uma grande nação (Gênesis, 36; Exodo,
15: 15; Números, 20: 14). Quando os israelitas subiram da terra
do Egito, os edomitas negaram-lhe passagem através de sua terra
(Números, 20: 20-21) entretanto, Deus ordenou a Israel que tra­
tasse a Edom como irmão (Deuteronômio, 23:7-8). Não obstante,
Edom sempre persistiu em prejudicar Israel, como atestam as
Escrituras.
O orgulho de Edom é seu tropeço. Devido a sua insistente
perseguição ao povo escolhido, o profeta anuncia a destruição
final de Edom, assim como, no futuro próximo, de todas as
nações que têm dessa forma maltratado o povo de Deus.
O Livro de Obadias é uma profecia contra a orgulhosa
nação de Edom, que se regozijou com a destruição de Juda pela
Babilônia. A nação encontrava-se nos planaltos e desfiladeiros
de arenito na extremidade sudeste do Mar Morto e, dessa for­
ma sua terra estava protegida naturalmente pelos altos montes.
Apesar de toda a segurança que Edom julgava ter, o profeta
Obadias predisse a queda e a ruína da região.
De acordo com Hill e Walton (2006, p. 545), os juízos de
Deus contra Edom servem de advertência a todas as nações, “já
que elas também correm o risco de receberem a retribuição por
suas ações à medida que o dia da ira do Senhor se aproxima”.

4 .8 .4 3 Esfera de ação
E desconhecida a data em que o Livro de Obadias foi escrito,
porém, com base no texto do Livro, acredita-se que tenha sido
escrito por volta do ano de 586 a.C., data em que se verificou a
tomada da cidade de Jerusalém por Nabucodonosor. Portanto,
as profecias de Obadias se relacionam com essa ocasião.

4.8.5 Jonas
Nínive era a capital do Império Assírio (Genêsis, 10: 11-12), que
foi império mundial por 300 anos (900 a.C-607 a.C.) e era inimiga
de Israel. Justamente na época da história em que Jeroboão II
assumiu trono, a Assíria havia se enfraquecido politicamente e
não perseguia os israelitas. Foi quando Deus mandou Jonas à sua
capital pregar o juízo para aquela nação.
Mesmo enfraquecida politicamente, a Assíria era uma
grande fortaleza; sua capital, Nínive, dispunha de muralhas
de 30 metros de altura e permitia que quatro carros corressem
lado a lado sobre elas, e contava com uma população de quase
1 milhão de habitantes. Havia grandes e belos palácios com os
mais lindos jardins, o templo da cidade tinha a forma de uma
grande pirâmide que reluzia ao sol, e ela era tão grande em ini­
qüidade quanto em riqueza. A religião dos assírios foi trazida da
278
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Babilônia - Assur era o deus principal dos assírios. Adoravam


a natureza, como participante da alma humana. Cada objeto e
cada fenômeno da natureza, segundo eles, era animado põr um
espírito, ou um deus. Os grandes deuses, depois de Assur, eram
proeminentes da natureza: deus Anu (céu); Bel, como deus-sol;
Ea, como a deusa das águas; Dagom, o deus-peixe. Foi para essa
nação gentia que Deus mandou que seu servo Jonas pregasse o
arrependimento.

4.8.5.1 Autoria
Jonas era galileu, filho de Amitai, natural de Gate-Hefer, um
vilarejo perto de Nazaré, mais ou menos a 5 km de Nazaré,
dentro das fronteiras de Zebulom, na Galileia. O ministério
de Jonas teve início logo após o fim do ministério de Eliseu
(II Reis, 13: 14-19; 14: 25), coincidiu com o ministério de Amós
(1: 1) e foi seguido pelo de Oseias (1: 1). Quanto ao seu cará­
ter, Jonas era obstinado (persistente, teimoso, inflexível, irre­
dutível), irritado, mal-humorado, impaciente e acostumado a
viver somente entre o seu grupo. Politicamente, era um amante
leal de Israel e um homem comprometido com sua pátria.
Religiosamente, professava seu temor ao Senhor como Deus,
criador dos Céus e da Terra. O proprio Cristo deu testemunho
da sua existência, do seu livramento e do seu ofício profético
(Mateus, 12: 40).
!
4.8.5.2 Tema
Diferentemente dos demais Livros proféticos, no Livro de Jonas
não há nma mensagem direta ao povo de Deus, mas aos ninivi-
tas. Por meio de Jonas, podemos observar a extensão da graça
de Deus em oferecer salvação aos assírios, os mais cruéis e
poderosos entre os inimigos de Israel. Assim, o Livro de Jonas
é uma repreensão contra o exclusivismo, pelo que o povo de
Deus hoje tem a responsabilidade de pôr de lado o nacionalismo
inflexível e o ódio racial, devendo compartilhar o amor de Deus
com todas as nações, tribos, povos e línguas.
O profeta foi comissionado para pregar contra a cidade em
conseqüência do pecado e da corrupção nela presentes. Deus
falou a Jonas que fosse aNínive, mas ele era de opinião contrária
e fugiu para Társis (1: 3). Jonas não pensava em ir para Nínive;
seria o último lugar que ele gostaria de ir, porque ele era um
grande inimigo de Israel (II Reis, 8: 7-20).
Nínive ficava ao leste da Palestina, e Társis, a oeste. Jonas
comprou uma passagem em um navio que se direcionava ao
destino oposto ao qual ele deveria ir. Ele se isolou e dormiu.
Logo após a partida do navio, desencadeou-se uma severa tem­
pestade. Os marinheiros, aterrorizados, começaram a lançar ao
mar a carga do navio e a invocar seus deuses (1: 6). Por meio de
sortes, Jonas foi identificado como o causador de todos aqueles
males. Por sua sugestão, foi lançado ao mar, cessando a fúria
das águas (1:15). Jonas foi engolido por um grande peixe (1: 17).
Arrependido, no ventre do animal, orou sinceramente pedindo
salvação, quando Deus o colocou ileso sobre a terra (2: 10).
O profeta obedece então à ordem de ir a Nínive e proclama
em alta voz a mensagem de arrependimento. Todo o povo reagiu
com sincero arrependimento, voltando-se para Deus, que, conse­
quentemente, suspendeu o julgamento que havia notificado (3:10).
280
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

4 .8 .5 3 Esfera de ação
Não há qualquer declaração no texto de que Jonas teria escrito o
Livro, apesar de a tradição judaica creditar ao profeta a autoria
do texto. Dessa forma, o Livro de Jonas seria datado durante o
reinado de Jeroboão II, no início do século VIII a.C., cerca de
793 a.C. a 753 a.C. Entretanto, nos últimos anos, alguns críticos
têm defendido que o Livro é sobre Jonas e não escrito por ele.

4.8.6 Miqueias
Por Miqueias ter sido contemporâneo de Isaías, o propósito de
suas mensagens são semelhantes: denuticiadoras e consolado-
njs. Miqueias apresenta como Israel estava iludido nas mãos de
governantes falsos e corruptos e, em razão do pecado da cidade,
o juízo de Deus viria tanto contra Samaria, como para Jerusalém.
Porém, na mensagem consolatória Miqueias já retrata o reino
de Israel governado pelo seu verdadeiro regente: o Messias.
Miqueias, um profeta corajoso, determinado em seu pro­
pósito e cheio de poder que advinha da presença do Espírito
Santo em sua vida, como está escrito: “Mas, decerto, eu sou
cheio da força do Espírito do Senhor e cheio de juízo e de ânimo,
para anunciar a Jacó a sua transgressão e a Israel o seu pecado
(Miqueias, 3: 8).

4.8.6.1 Autoria
Miqueias era natural da pequena cidade de Moresete-Gate, uma
aldeia localizada a cerca de 32 km ao sudoeste de Jerusalém, na
28/

Profetas maiores e menores


fronteira da Filístia. Vindo da zona rural, o profeta provinha
de uma família humilde e foi contemporâneo de Isaías e Oseías.

4.S.6.2 Tema
Miqueias era portador de uma mensagem tanto para Judá quanto
para Israel, que predizia o cativeiro desses reinos e, portanto,
viveu em tempos difíceis - dentro dos muros havia opressão e
fora deles estavam chegando os inimigos. Miqueias denunciou os
pecados sociais dos seus dias (2:2) e viu como os ricos tratavam
os pobres. Aliás, nenhuma classe estava livre das corrupções,
nem os príncipes, nem os sacerdotes e nem o povo: todos esta­
vam reprovados por Deus. Por isso, como os demais profetas,
Miqueias predisse tanto a queda de Israel e também de Judá,
bem como a restauração do remanescente fiel.
O profeta é minucioso em detalhar o juízo de Deus sobre
Israel e Judá e também sobre todos os habitantes da Terra.
A repreensão virá “por causa da prevaricação de Jacó e dos
pecados da casa de Israel” (Miqueias, 1: 5). Miqueias passa
a enumerar os pecados da nação: desonestidade (2: 2); roubo
(2: 8); cobiça (2: 9); devassidão (2:11); opressão (3: 3); hipocrisia
(3: 4); heresia (3: 5); injustiça (3: 9); extorsão e mentira (6: 12);
assassinato (7:2), entre outras ofensas. Por esses motivos, o juízo
de Deus não tardaria.
O Livro de Miqueias pode ser dividido em três partes: capí­
tulos 1 e 2, capítulos 3 a 5, capítulos 6 e 7. Cada uma dessas divi­
sões vem marcada pela palavra ouvi (1: 2; 3: 1; 6: 1), chamando
a atenção do povo para a repreensão do pecado, com anúncio
do juízo e com promessas de bênção no Messias.
Miqueias é um dos poucos profetas citados nominalmen­
te em outro Livro profético. Ele foi mencionado pelo profeta
282
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Jeremias (Jeremias, 26: 18-19), e seu Livro, pelo Senhor Jesus


(Mateus, 10: 35-36; Miqueias, 7:6). Nele encontramos a profecia
da cidade do nascimento do Messias: “E tu, Belém Efrata, posto
que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será
Senhor em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos,
desde os dias da eternidade” (Miqueias, 5: 2).

4 .8 .6 3 E sfe ra d e a ç ã o ; -
O ministério profético de Miqueias abarcou o reinado de Jotão,
Acaz e Ezequias, reis de Judá (Miqueias, 1: 1). Esses três monar­
cas reinaram durante a segunda metade do século VIII a.C.

4.8.7 Naum
Após cerca de 150 anos depois de Jonas ter profetizado em
Nínive, a nação caiu novamente em impiedade, imperando o
mal. Assim, Deus enviou Naum a Nínive para denunciar a
destruição da cidade por causa dos pecados; Deus julgaria essa
cidade por sua idolatria, arrogância e opressão. Orgulhosa de
sua autossuficiência e poderio militar, a nação mais poderosa
da Terra saqueava, oprimia e matava suas vítimas.
Os assírios são colocados entre os povos mais cruéis da
Antiguidade, em virtude do tratamento dado aos povos conquis­
tados. Foi sob o domínio da Assíria que o Reino do Norte foi
levado para o cativeiro, quase um século antes (722 a.C.-721 a.C.)
da profecia de Naum. Nínive, que fora usada por Deus para
corrigir Israel, seria agora julgada.
4.S.7.1 Autoria

Elcosita, a designação suplementar do profeta, indica que Naum


estava intimamente ligado à localidade conhecida como Elcós.
Quatro localizações são sugeridas para esse lugar. Jerônimo
dizia que Elcache (Het Kesai) era uma pequena aldeia da
Galileia e que lhe fora mostrada por um guia. Outra sugestão é
Cafar-Naum, nome que é transliteração de duas palavras hebrai­
cas que significam vila de Naum”. Uma terceira hipótese seria
Alquis, perto de Mossul, na Assíria, que localmente se considera
cidade nativa do profeta Naum. Em quarto lugar, Pseudepifânio
mantinha que “Elcesei” era uma vila de Judá.
Naum viveu no tempo do bom Rei Josias e era contemporâ­
neo dos profetas Jeremias e Sofonias. Quando os cruéis assírios
invadiram sua pátria (Israel-Norte, em 722 a.C), Naum deve ter
fugido para Judá. Provavelmente fixou residência em Jerusalém,
onde 7 anos depois presenciou o cerco de Senaqueribe, que ter­
minou com a miraculosa destruição do exército assírio, com a
baixa de 185 mil soldados mortos (II Reis, 19: 35).

4.S.7.2 Tema
O tema do Livro de Naum é a destruição de Nínive, a cidade à
qual Jonas advertiu. Nínive é sanguinária e Deus manda Naum
declarar seu justo juízo contra ela. No julgamento da cidade,
podemos perceber como Deus julgará o mundo pecador. Ellisen
(1999, p. 318) conclui com precisão “que a ‘lei da selva’ não é
a Lei de Deus. Embora o pecado e a violência possam ficar
sem punição por algum tempo dentro da longanimidade divina,
todavia não serão esquecidos”.

í
284
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

As profecias de Naum são dirigidas quase que exclusivamen­


te a uma nação estrangeira: o Império Assírio, que ameaçava o
Reino de Judá. O profeta proclama o julgamento iminente que
Deus traria sobre a poderosa, ímpia e cruel cidade de Nínive,
capital do império. Nenhuma nação tão terrível, como os assí­
rios, poderia alimentar esperança quanto ao juízo divino. Ela
não ficaria impune.
O Livro de Naum é uma expressão do clamor por justiça;
o seu nome significa cheio de consolo. A mensagem entregue aô
povo de Judá é que Ser é um Deus de justiça e não permitirá,
jamais, que a violência domine para sempre.

4.8.73 Esfera de ação


De acordo com os historiadores, Naum teria profetizado por
volta dos anos 663 a.C. e 612 a.C., porque ele menciona a captura
da cidade de Nô-Amon, ou Tehas, seu nome grego, no Egito,
como um fato já ocorrido (3: 8-10). Tebas caiu nas mãos dos
assírios em 663 a.C., sob o governo de Assurbanipal. A queda
de Nínive ocorreu por volta de 612 a.C.

4.8.8 Habacuque
O império mundial da Assíria caíra como Naum predisse (612
a.C. ou 607 a. C.). O Egito e a Babilônia disputavam então a
posição de liderança. Na Batalha de Carquemis, em 605 a. C.,
na qual o Rei Josias fora morto (II Reis, 23: 29-30; II Crônicas,
35: 20), os babilônicos foram vencedores. A Babilônia assume
então o poder mundial, marchando fortemente para subjugar
285

Profetas maiores e menores


Jerusalém. Habacuque sabia muito bem que Judá deveria cair
diante desse poder iminente, em razão de seu pecado.
A Assíria, que havia sido usada como vara de Deus, estava
saindo de cena, e Judá permanecia impune por seus pecados.
Foi diante dessa situação que Habacuque “questionou” a Deus,
obtendo como resposta que a Babilônia seria o meio pelo qual
Judá seria castigada. Assim sendo, o Livro está organizado em
torno das orações do profeta e das respostas de Deus.

4.8.8.1 Autoria
Praticamente nada se sabe de Habacuque, exceto o que se pode
deduzir do Livro que leva o seu nome. Ele não é mencionado
em nenhum outro lugar da Bíblia, mas duas vezes na obra cujo
título é o nome do Profeta (1: 1; 3: 1). Do capítulo 3, versí­
culo 19, pressupõe-se que Habacuque tinha qualificações oficiais
para tomar parte no canto litúrgico do Templo de Jerusalém.
O arranjo musical do capítulo 3 confirma essa opinião. Esse era
um oficio de uma das famílias dos levitas, que tinham a incum­
bência de cuidar da música do templo. Porém, tal raciocínio não
se mostra lógico, pois, do mesmo modo, Davi escreveu vários
Salmos litúrgicos e não era levita.

4.8.8.2 Tema
O Livro de Habacuque apresenta o quadro de um homem de
Deus embaraçado com a aparente tolerância do Senhor pela
iniqüidade de sua nação. A época em que o profeta viveu foi
cheia de injustiça, idolatria e imoralidade por parte de seu povo,
inclusive de seus companheiros (levitas e sacerdotes do templo).
Por isso, Habacuque começou a clamar pelo julgamento e a
286
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

justiça de Deus para a sua gente e, segundo pareceu ao profeta,


Yahweh não estava ouvindo (1: 1-4). No entanto, quando o Pai
lhe respondeu e pronunciou a Sua sentença sobre o Seu povo,
o profeta ficou mais surpreso e confuso, pois como poderia
Deus usar. como instrumentos de justiça um povo como os cal-
deus, que são muito mais ímpios que suas vítimas? Por isso,
Habacuque levou sua inquietação a Deus, que logo o ensinou
a grandedição, que é o coração do Livro: “[...] o justo viverá dâ
sua fé” (2: 4), demonstrando que a fé consiste na capacidade
de a pessoa estar confiante a respeito de seu Criador, tão con­
fiante que não importa quão obscuras sejam as circunstâncias
ou quais são os recursos que Deus possa usar para realizar a
Sua obra: o que realmente importa é que o verdadeiro servo de
Deus aprenda a viver somente pela fé e pela confiança, trazendo
a vitória sobre suas vidas.
Para Pearlman (1996a, p. 169), “isso quer dizer que, por
mais triunfante que pareça o mal, o justo não deve julgar pelas
aparências, mas sim pela Palavra de Deus. Embora os ímpios
vivam e prosperem nas suas impiedades e os justos sofram, estes
últimos devem viver uma vida de fidelidade e confiança”.
Diferentemente da maioria dos profetas, Habacuque não
profetizou à desviada Judá, mas escreveu para ajudar o remanes­
cente piedoso a compreender os caminhos de Deus em relação
ao castigo iminente.
Habacuque escreveu seu diálogo com Deus, expôs suas
dúvidas e queixas, mas, no final, deixou claro que compreendeu
que Deus julga todas as coisaS no momento certo (2: 3) e que
o justo vive pela fé e, muitas vezes, viver pela fé não é tentar
entender todas as coisas, mas sim continuar confiando naquele
Profetas maiores e menores
que tem todo o controle em Suas mãos, mesmo não entendendo
as circunstâncias ao redor.

4.8.83 Esfera de açâo -


Os limites estabelecidos para as profecias de Habacuque sugerem
que sua datação seja entre 640 a.C. e 626 a.C.,, aproximadamente.
Muitos estudiosos entendem que 630 a.Ç. seria a data ideal, o
que tornaria o profeta contemporâneo de Jeremias.

4.8.9 Sofonias
As circunstâncias dentro das quais Sofonias foi chamado
a profetizar eram ao mesmo tempo perigosas e promissoras.
Correlacionada aos perigos políticos de fora, estava a deca­
dência ética dentro da nação hebraica. Durante o longo rei­
nado de Manassés (696 a.C.-642 a.C.), o perverso filho do bom
Rei Ezequias, pai de Amom e avô de Josiâs, o estado moral e
religioso de Judá tinha se deteriorado (II Crônicas, 33: 1-11).
O Reino do Norte já havia sido levado cativo pelos os Assírios
em 722 a.C. e Manassés agora pagava impostos aos assírios para
evitar que Judá fosse invadida.
Essa aliança não só afetou a área política de Judá, mas
também a área religiosa. Durante todo o seu reinado, Manassés
tinha se oposto ao reavivamento religioso que havia caracteriza­
do o reinado de seu pai. O governo edificou novamente os altares
que seu pai havia derrubado e restaurou a adoração da natureza
associada à adoração a Baal. Superstição, adoração das estrelas
e até mesmo sacrifícios humanos se tornaram parte de uma reli­
gião de formalidades e cerimônias externas privada de realidade
I . 288—
\
j Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

interna e sem convicções espirituais ou éticas. Aqueles que


haviam tentado preservar a pureza da adoração a Javé tinham
sido recompensados por seus esforços, com a perseguição e até
mesmo com a morte, como está escrito: “Manassés derramou
muitíssimo sangue inocente, até que encheu a Jerusalém de um
ao outro extremo” (II Reis, 21: 16).
É verdade, naturalmente, que Manassés se arrependeu dessa
atitude antes de Sua morte e que “humilhou-se muito perante
o Deus de seus pais” (II Crônicas, 33: 12). Também é evidente
que as más tendências de seu reinado não haviam conquistado
inteiramente o apoio do povo. Uma vez mais, havia um rema­
nescente que não havia dobrado os joelhos; havia aqueles que
desejavam e trabalhavam para a vinda de tempos melhores. Era
esse fator que tornava aquele período ao mesmo tempo promissor
e perigoso. Josias tornou-se rei de uma nação, no qual muitos
(remanescentes) ansiavam por uma religião mais pura e estavam
prontos tanto para ouvir Sofonias como para seguir o rei em seu
zelo reformador.
Vale destacarmos que durante um período de 50 anos
(Manassés) o espírito profético havia adormecido, tendo ressur­
gido no reinado de Josias (II Crônicas, 34; 35). Também se deve
fazer menção à invasão da Média e da Assíria pelos citas, em
632 a.C., que transformou seus campos frutíferos em um deser­
to, como se uma nuvem de gafanhotos tivesse passado por eles.
4.8.9.1 Autoria
O primeiro versículo do Livro de Sofonias indica que ele foi
escrito pelo profeta Sofonias, que traça a sua descendência até
seu bisavô, Ezequias.

4.8.9.2 Tema

A repetição da expressão O Dia do Senhor sugere que o profeta


trazia uma mensagem de julgamento, e indica o Deus de Israel
como lugar de descanso para o arrependido. Somente no capí­
tulo primeiro, Sofonias menciona essa expressão por 13 vezes e
termina dizendo que é “dia da indignação do Senhor, mas, pelo
fogo do seu zelo, a terra sera consumida, porque, certamente,
fará destruição total e repentina de todos os moradores da terra”
(1: 18). Deus consumiria e destruiria tudo sobre a face da Terra,
seja homem, seja animal. O Todo-Poderoso consumiria a Terra
com o fogo da sua indignação, em conseqüência do pecado e
da intransigência dos homens (1: 8; 3: 8).
Para os primeiros profetas, o Dia do Senhor tratava-se de
uma crise mundial em um ponto definido da história. Mas os
acontecimentos desse “dia” seriam “naturais” e até tumultuo­
sos - e depois a história continuaria. Sofonias vê esse dia como
um acontecimento final, como a manifestação da intervenção
sobrenatural. Em suma, com Sofonias, o Dia do Senhor tende
a se tornar o “último dia”.
O profeta conclui sua profecia com palavras de bênçãos e pro­
messas para as nações e para Israel: “Naquele tempo, vos trarei,
naquele tempo, vos recolherei; certamente, vos darei um nome
e um louvor entre todos os povos da terra, quando reconduzir
os vossos cativos diante dos vossos olhos, diz o Senhor” (3: 20).
t 290
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

O Livro começa com um anúncio de julgamento por causa da


idolatria, depois proclama, com muita ênfase, o Dia do Senhor,
isto é, o dia da prestação de contas. Descreve também o julga­
mento das nações vizinhas e termina com as profecias contra
Jerusalém, com o prenúncio da restauração dos remanescentes
de Israel, os quais são salvos, sem pecados e firmes em suas terras
e com ordem de se alegrarem pela vitória final:
O rem anescente de Israel n ão com eterá iniqüidade, n em proferirá
m entira, e n a su a boca não se achará língua enganosa; po rq tíe serão
apascentados, deitar-se-ão, e n ão h averá qu em os espante. C an ta
alegremente, ó filh a de Sião; rejubila, ó Israel; regozija-te e exulta de
todo o coração, ó filh a de Jerusalém ”. (Sofonias 3: 13-14)

4.8.93 Esfera de ação


Sofonias profetizou durante o reinado de Josias, rei de Judá, e
antes da queda de Nínive, em 612 a.C. (1: 1; 2: 13).

4.8.10 Ageu
Ageu é um dos primeiros profetas pós-exílio que voltou da
Babilônia para Jerusalém sob o comando de Zorobabel. O rema­
nescente que havia regressado do cativeiro estava mais preocu­
pado com seus assuntos particulares, com sua própria vida, seu
próprio eu e com o embelezamento de suas casas do que com a
reconstrução da casa de Deus. Ageu foi contemporâneo do pro­
feta Zacarias para despertar no povo o interesse pela construção
do templo de Jerusalém que estava parada por determinação do
Rei Artaxerxes, da Pérsia, por causa de uma denúncia acusatória
dos opositores da cidade (Esdras, 4: 7, 8: 17-24).
4.8.10.1 Autoria
Pouco se sabe da vida de Ageu, além do Livro que traz seu
nome. Só Esdras o menciona (Esdras, 5: 1 e 6: 14). Seu nome
é ímpar, sendo o único com esse nome no Antigo Testamento,
significando “festivo” ou “alegre”.

4.8.10.2 Tema
O Livro de Ageu tem por finalidade conclamar Zorobabel e o
povo a retomar a construção da casa de Deus e, para isso, faz
uso de três mensagens:
1. Com uma mensagem de despertamento, pois nesse momento
o povo havia se tornado egoísta, apenas se preocupando com
o seu bem-estar e deixando a casa do Senhor (1: 7-9).
2. Com uma mensagem de encorajamento para aqueles que
haviam visto a glória da primeira casa (2: 4-5);
3. Com uma mensagem de repreensão para os líderes que
queriam que houvesse uma restauração muita rápida em
Jerusalém e o profeta os alerta que isso dependeria da apli­
cação sincera dos seus corações (2: 10-19 ).
O Livro de Ageu tem por finalidade demonstrar aos judeus
que a reconstrução do Templo não estava parada somente pela
perseguição dos inimigos, mas sim porque o povo havia desistido
de lutar pelos seus ideais e principalmente pelos ideais de Deus.
Por isso, Ageu exorta o seu povo a lutar e se animar e voltar a
trabalhar na obra, porque Deus estaria com eles.
Após os judeus terem voltado a reconstruir o templo, seus
inimigos voltaram a se opor (Esdras, 5), novamente mandando
cartas ao Rei Dario, porém, dessa vez o governante acha o rolo
que continha a ordem de Ciro para o povo de Israel voltar à sua
terra e edificar o templo (Esdras, 6); por isso, Dario não persegue
os judeus dessa vez e permite que eles finalizem a obra.
Desse modo, a ênfase do Livro de Ageu é demonstrar que
havia a necessidade de empenho do seu povo para a reconstru­
ção do templo e que Deus não eStava preocupado com a beleza
exterior dessa casa, mas sim em voltar manifestar ao Seu povo
a Sua glória.

4.8.10.3 Esfera de ação

O Livro de Ageu contém quatro curtas mensagens proferidas


num período de aproximadamente quatro meses. A primeira
mensagem (“Chamada à ação”) veio ao profeta no “sexto
mês, no primeiro dia do mês” do segundo ano de Dario (1. 1).
A data mencionada pelo profeta corresponde a agosto de 520 a.C.
A segunda mensagem (“Chamada à motivação ) veio no mês
seguinte, “no sétimo mês, ao vigésimo primeiro do mês” (2: 1)
que corresponde ao mês de setembro. A terceira ( Chamada à
paciência) veio “ao vigésimo quarto dia do mês nono , janeiro
de 519 a.C. (2: 20).

4.8.11 Zacarias
Os exilados que retornaram à sua terra natal em 536 a.C., sob o
decreto de Ciro, estavam entre os mais pobres dos judeus cativos.
Cerca de 50 mil pessoas retornaram para Jerusalém sob a lide­
rança de Zorobabel e Josué. Rapidamente, reconstruíram o altar
e iniciaram a construção do Templo. Logo, todavia, a apatia se
estabeleceu à medida que eles foram cercados com a oposição
dos vizinhos samaritanos, que finalmente foram capazes de
conseguir uma ordem do governo da Pérsia para interromper
a construção. Durante cerca de 16 anos, a construção foi obs­
truída pelo desânimo e pela preocupação com outras atividades.
Zacarias e Ageu persuadiram o povo a voltar ao Senhor e aos
seus propósitos para restaurar o Templo. Zacarias encorajou o
povo de Deus indicando-lhes um dia, quando o Messias reinaria
de um templo restaurado, numa cidade restaurada.

4.8.11.1 Autoria
Acredita-se que Zacarias era filho de Ido, tendo pertencido a
uma das famílias sacerdotais da tribo de Levi (Esdras, 6: 14).
Nasceu na Babilônia e foi contemporâneo de Ageu. Seu minis­
tério profético deu-se no ano de 520 a.C., dois meses após Ageu.
Zacarias era um jovem que profetizou para os remanescentes
dos judeus que voltaram da Babilônia. Vale ressaltarmos que o
ministério de Ageu durou quatro meses, e o de Zacarias, dois ou
três anos. No entanto, eles sem dúvida cooperaram, exortando,
animando, ajudando e trabalhando juntos para o acabamento
do templo. O Livro de Esdras nos informa que Zacarias com­
partilhava com Ageu o trabalho de animar Zorobabel e Josué a
reconstruírem o Templo (Esdras, 5: 1-2; 6: 14).
Tendo sido o profeta da restauração e da glória, Zacarias era
tanto sacerdote quanto profeta que via o mundo por meio dos
olhos físicos e combinava a ênfase ética dos profetas anteriores
ao exílio com a visão maior do futuro comum aos profetas pos­
teriores. O Livro de Zacarias foi o mais apocalíptico, messiânico
e escatológico dos profetas menores. Há mais profecias nesse
Livro do que em todos os outros Livros dessa categoria.
294
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

Nada sabemos sobre os anos restantes da vida ou ministério


do profeta Ageu, com exceção da declaração de nosso Senhor
de que foi morto “entre o santuário e o altar” (Mateus, 23: 35).

4.8.11.2 Temo
O ministério de Zacarias, assim como o de Ageu, procurou
estimular o restante dos exilados que voltou para reconstruir o
templo de Jerusalém. Em virtude da oposição local e ao desen-
corajamento do povo, Zacarias transformou essa situação cala­
mitosa em uma cena gloriosa por meio de uma série de visões e
profecias, descrevendo uma Jerusalém restaurada, protegida e
habitada pelo messias, a ser promovida a capital de uma nação
acima de todas as demais nações. O povo reagiu e a construção
foi concluída em 516 a.C., o sexto ano do reinado de Dario.
Zacarias finaliza o Livro com uma descrição da culminante
batalha na Terra, quando o próprio Senhor se envolverá ttâ peleja
(14:2-4), e, então, “O Senhor será Rei sobre toda a terra” (14: 9).
O Livro de Zacarias pode ser dividido em três partes:
1. As visões sobre a restauração;
2. O jejum;
3. As profecias sobre o futuro de Israel.
A primeira parte começa com a seguinte palavra: “Assim
diz o Senhor dos Exércitos: Tornai para mim, diz o Senhor dos
Exércitos, e eu tornarei para vós, diz o Senhor dos Exércitos”
(Zacarias, 1: 3). Essa é uma êlara mensagem para o povo se
arrepender de seus pecados e se voltar para Deus. Assim temos
na primeira mensagem um chamado ao arrependimento.
Seguem-se oito visões, todas elas com a promessa da presença
de Deus junto ao seu povo.
295 i

Profetas maiores e menores


Na segunda parte do Livro, temos a consulta sobre o jejum
e a resposta de Deus: “Continuaremos nós a chorar, com jejum,
no quinto mês, como temos feito por tantos anos?” (Zacarias,
7: 3). Zacarias exorta o povo a deixar aquele tipo de religião, só
de aparência, e a observar e obedecer a Deus com sinceridade de
coração, como está escrito: “Executai juízo verdadeiro, mostrai
bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimais a
viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente
cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo” (Zacarias,
7: 9-10). O profeta mostra que sem atos de justiça a religião é vã.
Na terceira parte, o profeta retrata o glorioso futuro de Israel,
como também a presença do messias entre o seu povo.

4.8.113 Esfera de ação


Zacarias foi contemporâneo de Ageu, tendo iniciado seu minis­
tério ainda jovem (2:4), dois meses depois de Ageu ter iniciado o
seu ministério (Ageu, 1:1; Zacarias, 1: 1) e continuando-o até o
segundo ano depois do final do ministério de seu contemporâneo.

4.8.12 Maiaquias
O Templo já estava reconstruído, já havia retornado à adora­
ção ao Senhor, entretanto, o povo precisava ser lembrado de sua
desobediência voluntária, a começar pelos sacerdotes (1: 1-2, 9),
e também incluía cada um em particular (2: 10; 3: 15). Eles mos­
traram desprezo pelo nome de Deus (1:6), ofereceram sacrifícios
profanos (1: 7-14), cometeram outros pecados (2: 7-9), infringi­
ram as Leis do Senhor (2: 11-16), chamaram o “mal” de “bem”
(2: 17), guardaram os dízimos e as ofertas de Deus para si mes­
mos (3: 8-9), e tornaram-se arrogantes (3: 13-15). Por tudo isso,
296^
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

o relacionamento foi rompido, e o povo experimentou o juízo


e o castigo. Malaquias pintou um retrato impressionante da
deslealdade de Israel, mostrando claramente que o povo era
merecedor de castigo.

4 .8 .12.1 Autoria
Nada se sabe sobre a família, a cidade natal, o cargo ou a
data do ministério de Malaquias que conste fora das páginas
desse pequeno Livro. A tradição atribui a autoria do Livro de
Malaquias a Esdras.

4.8.12.2 Tema
Podemos afirmar que o tema central do Livro de Malaquias é a
grandeza de Deus. Nenhum outro profeta enfatizou tanto essa
qualidade divina como o fez Malaquias.
Por 3 vezes (1: 11) o Senhor declara sua “grandeza”, e por
10 vezes em todo o Livro Deus chama a atenção para a honra
devida ao Seu nome (1: 6; 11; 14; 2: 2; 5-3: 16- 4: 2). O Livro
termina com uma profecia da vinda de Elias, o precursor do
messias, antes do “grande e terrível Dia do Senhor” (4: 5).
O profeta Malaquias apontou os pecados do povo que vol­
tou do cativeiro babilônico, apresentou o quadro de um povo
religioso externamente, mas interiormente indiferente e falso,
tendo o culto se tornado enfadonho e cansativo para eles (1,13),
porque nele colocavam o “coração” (Isaías, 43:22-24; Miqueias,
6: 3); os sacerdotes pouco se importavam com o que ofereciam a
Deus, de modo que ofereciam o animal cego, o coxo e o enfermo
(1:6-8). A grave natureza do pecado dos sacerdotes e do povo em
geral inevitavelmente ocasionaria o juízo de Deus: questionavam
Seu amor (1: 2), Sua honra e grandeza (1: 14; 2,2), Sua justiça
(2: 17) e Seu caráter (3: 13-15).

4.8.12.3 Esfera de ação


Malaquias foi contemporâneo de Neemias, na época de
Malaquias Jerusalém e o templo haviam sido restaurados, denun­
ciando os mesmos males que existiam na época de Neemias
(compare Neemias, 13: 5, 10; 2: 10-12, com Malaquias, 3: 8-10;
Neemias, 13: 29 com 2: 4-8 com Malaquias, 2: 4-8).

Questionário de Profetas maiores


1. Quais são as definições do Antigo Testamento e da atuali­
dade para o termo profeta?
2. Qual é a definição generalizada para “profecia” nos parâ­
metros bíblicos?
3. Quais foram os profetas orais cujas declarações nunca foram
preservadas por escrito, apesar das alusões indiretas às suas
mensagens nos vários livros proféticos?
4. Quais eram as funções dos profetas do antigo Testamento
no sentido moderno da palavra profetizar!
1

r• I
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

5. Cite um dos atos divinos mais importantes na história de


Israel. '
6. Qual título evidencia que o profeta era um enviado de Deus?
7. Qual é o terceiro termo aplicado aos profetas?
8. A quem pertencia a função profética no período mais remoto
da história do povo judeu?
9. Qual era o meio mais habitual èntre os profetas para trans­
mitir a mensagem de Deus?
10. Por que o livro de Daniel é chamado de Apocalipse do Antigo
Testamento1

Questionário de Profetas menores


1. Qual profeta Deus manda casar-se com uma mulher de pros­
tituições? Como ele era reconhecido?
2. Como está dividido o Livro de Oseias?
3. O que denuncia Livro de Oseias?
4. Os acontecimentos históricos a que se refere o Livro de
Oseias cobrem um período de quantos anos?
5. O que Joel prevê com a praga dos gafanhotos?
6. A quem é direcionada mensagem de Amós?
7. Quais eram os centros religiosos do Reino do Norte?
8. Qual o menor Livro do Antigo Testamento?
9. Quais são as duas importantes mensagens de Obadias?
10. Qual é o tema central do Livro de Malaquias?

Referências
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ANDRADE, C. C. de. Jó: o problema do sofrimento do justo e
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300
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

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1■’
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302
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

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Janeiro: CPAD, 2005.

Respostas
Profetas maiores
1. A ideia mais comum entre nós atualmente é que profeta é aquele que faz
um a profecia: entretanto, no A ntigo Testamento encontram os profeta
como um porta-voz ou arauto de D eus entre os homens.
2. Por definição generalizada, o térmo profecia, nos parâmetros bíblicos,
é um a revelação oral ou escrita, em palavras humanas e por meio de um
porta-voz humano, que transmite a revelação de D eus e esclarece aos
hom ens Sua divina vontade.
3. Semaías, A ias, Elias, M icaías, Eliseu, Obede, N atã, Gade, entre outros.
4. A responsabilidade dos profetas do A ntigo Testamento não era exclusi­
vamente predizer o futuro, no sentido moderno da palavra profetizar, era
muito mais do que isso. Eles tinham a responsabilidade de anunciar a
vontade de D eus que Ele comunicara por meio da revelação.
5. O desenvolvimento do ministério profético é um dos atos divinos mais
importantes na história de Israel.
6. Um nom e que frequentemente se aplicava aos prim eiros profetas era
homem de Deus, título que evidencia que o profeta era um enviado de
D eus, totalmente dedicado à Sua causa e que gozava principalmente de
comunhão íntim a com D eus. Por essa razão, era digno de confiança para
transmitir a Palavra de D eus, um a vez que só falava de acordo com a
revelação ou a ilum inação recebida da parte dA quele que o vocacionou.
7. U m terceiro termo aplicado aos profetas era vidente (ha,ro). Esse título
indicava que o profeta não seria iludido pela aparência externa de tudo,
nem pelas falsas impressões do mundo material, mas que perceberia o
mundo conforme realmente eram do ponto de vista do próprio Deus.
8. N o período mais remoto, a função profética pertencia aos levitas, que
tinham a responsabilidade de ensinar a L ei de D eus ao povo.
9. O meio mais habitual entre os profetas para transmitir a m ensagem de
D eu s foi, naturalmente, a palavra. M uitos poderiam pensar que essa
m ensagem foi comunicada mediante um discurso, ou um sermão, que
são os gêneros m ais habituais entre os oradores de nosso tempo. Em
certas ocasiões, eles agiam desse modo, mas geralmente empregavam
um a grande variedade de gêneros literários, tomados dos âmbitos mais
distintos.

10. Por causa de suas muitas visões - as crises dramáticas, o choque de forças em
uma esfera cósmica, a ênfase acerca do fim dos tempos, as muitas imagens
simbóhcas, os animais com chifres representando os poderes terrenos, a
visão do glorioso, a visão tronos e trono, enfim o clímax da história - faz
com que o Livro de Daniel seja chamado de o Apocalipse do Antigo Testamento;
como afirmou Ellisen (1999, p. 264): “é um livro ‘apocalíptico’, no verda­
deiro sentido de ‘apocalipse’, uma ‘revelação’ de D eus”,

Profetas menores
I
1. Oseias, reconhecido como o profeta mais antigo que interpretou a vontade
de D eus relacionada ao “amor”.
2. O Livro de Oseias contém 14 capítulos e está dividido em duas partes
principais. A primeira constitui uma parte distinta do Livro e registra as
experiências domésticas do profeta (Oseias; capítulos 1 a 3). A segunda

I
Apontamentos sobre a história das igrejas cristãs e os livros proféticos da Bíblia

parte trata do mesmo assunto de maneira mais ampla e detalhada. N os


capítulos 4 a 14, temos os discursos proféticos propriamente ditos.
3. O Livro de Oseias denuncia o adultério espiritual de Israel. Ele condena
os líderes espirituais com o responsáveis por o povo ter perdido a fé em
D eus.
4. Os acontecimentos históricos a que se refere o Livro de Oseias cobrem
um período de aproximadamente 60 anos.
5. Joel relaciona a praga dos gafanhotos Com o D ia do Senhor, prevendo
catástrofes naturais, calamidades sobrenaturais e invasões militares. Esse
dia é mencionado em Joel (1: 15; 2: 1,11, 31; 3: 14).
6. A m ensagem de A m ós foi direcionada aos que vivem em palácios e
acumulam riquezas (3: 10), às senhoras da alta sociedade (4: 1), aos que
constroem boas casas e plantam excelentes vinhas (5:11), aos que aceitam
suborno na administração da justiça (5: 12), aos que vivem no luxo e na
boa vida (6: 4-6), aos que controlam o comércio (8: 4-6). A mensagem
do profeta foi diretamente de encontro àqueles que detinham o poder
econômico, político e jurídico de Israel. A m ós descreveu as injustiças
que provocaram o cativeiro.
7. Betel e Samaria.
8. O Livro de Obadias.
9. Obadias profetiza duas mensagens importantes: a ruína dos orgulhosos
e rebeldes edomitas e o livramento dos m ansos e humildes judeus.
10. O tem a central do Livro de M alaquias é a grandeza de D eus. N enhum
outro profeta enfatizou tanto essa qualidade divina como ò fez Malaquias.
Os papéis utilizados neste livro, certificados por
instituições ambientais competentes, são recicláveis,
provenientes de fontes renováveis e, portanto, um meio
responsável e natural de informação e conhecimento.

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MISTO
Papel produzido
a partir de
fontes responsáveis
FSC® C074432

//

Impressão: Maxi Gráfica


Junho / 2018
O con h ecim en to dos fatos que m arcaram a

sobrevivência da igreja cristã é de sum a

im portância para quem deseja com preender

m elhor a sua fundação e a configuração do seu

arcabouço teológico e eclesiológico.

Com o objetivo de fornecer ao leitor um a visão

panorâm ica sobre a história da igreja e do

en trosam en to desta com a história do m undo,

a presente obra evidencia, de form a abreviada,

os principais eventos da cam in hada da igreja

cristã até a Reforma P rotestante. N esse sentido,

são retratados os séculos de perseguição que ela

sofreu, bem com o a trajetória dos m ártires que

dem onstraram a própria fé entregando suas vidas

a Deus.

EDI TORA
intersaberes

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