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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – USP

ESCOLA DE ARTES, CIÊNCIAS E HUMANIDADES – EACH.

ALINE CAMPOS DOS REIS

ROSTOS FEMININOS NAS MIGRAÇÕES INTERNAS: MULHERES BAIANAS


UNIVERSITÁRIAS EM SÃO PAULO.

São Paulo

2018
ALINE CAMPOS DOS REIS

ROSTOS FEMININOS NAS MIGRAÇÕES INTERNAS: MULHERES BAIANAS


UNIVERSITÁRIAS EM SÃO PAULO.

Trabalho de conclusão de curso apresentado a


Escola de Artes, Ciências e Humanidades da
Universidade de São Paulo (EACH-USP) para
obtenção do titulo de Bacharel em Lazer e Turismo.

Orientadora: Prof.ª Dra. Valéria Barbosa Magalhães

São Paulo

2018
Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio
convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada à fonte.
CATALOGAÇÃO-NA-PUBLICAÇÃO

(Universidade de São Paulo. Escola de Artes, Ciências e Humanidades. Biblioteca)

REIS, A. C.

Rostos femininos nas migrações internas: Mulheres baianas universitárias em São


Paulo / Aline Campos dos Reis; orientadora: Valéria Barbosa Magalhães. – São Paulo, 2018.

XX f. : il.
REIS, A. C. Rostos femininos nas migrações internas: Mulheres baianas universitárias em
São Paulo - Escola de Artes, Ciências e Humanidades, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2018.

Trabalho de Graduação Individual apresentada à Escola de Artes, Ciências e Humanidades da


Universidade de São Paulo para obtenção do título de Bacharel em Lazer e Turismo.

Área de Concentração: Lazer e Turismo.

Aprovado em: ___ / ___ / _____

Banca Examinadora

Prof. Dr. ____________________ Instituição: __________________

Julgamento: ____________________ Assinatura: __________________

Prof. Dr. ____________________ Instituição: __________________

Julgamento: ____________________ Assinatura: __________________

Prof. Dr. ____________________ Instituição: __________________

Julgamento: ____________________ Assinatura: _________________


Aos meus pais que sempre me apoiaram e me
auxiliaram e aos meus grandes amigos nessa
jornada Anne Yurie, Carolina Watanabe, Cinthia
Ruozo, Elizabeth Scartezini, Lais Reis, Leticia
Lourenço, Tatiani Andrade e em especial a minha
orientadora Valéria Magalhães, sem o apoio
incondicional de vocês certamente não teria
forças para concluir este trabalho.
Agradecimentos

Agradeço aos meus pais, Mauricio e Eliane, que sempre acreditaram em mim e me deixaram
livre para fazer minhas próprias escolhas na vida, por sempre me instigarem a busca o melhor
e me incentivarem a voar o mais alto que eu puder. Tenham certeza de que nunca esquecerei
tudo o que fizeram e continuam fazendo por mim. A minha irmã Lais por sonhar comigo e
sempre se preocupar com o andamento do trabalho.

Não posso deixar de agradecer especialmente a minha professora orientadora Valéria


Barbosa, sempre serei grata por ter despertado em mim, desde o início da graduação, a paixão
pelo tema e a dedicação à pesquisa. Admiro a sua determinação, comprometimento, energia e
principalmente, sua paciência comigo.

Minha gratidão aos meus amigos em especial Cinthia e Leticia e professores da USP. Dos
quais me proporcionaram ensinamentos que me ajudaram a evolui e amadurecer enquanto
pessoa. Certamente nem todos eles foram fáceis, porém pude extrair de cada situação sempre
o melhor, com essas lições que aprendi irei levá-las para a vida inteira, tanto para o lado
pessoal, quanto profissional e acadêmico.

Não posso deixar de mencionar os professores e amigos da UNESP Rosana que foi onde eu
comecei a graduação de Turismo e me proporcionaram momentos inesquecíveis, um
agradecimento em especial a todos os professores que um dia passaram pela minha vida e me
marcaram de uma forma que jamais irei esquecer principalmente aqueles que acreditaram em
mim e sempre me incentivaram em especial os professores Eliane, Vlademir, Gislaine e
Alfredo (em memória) vocês viram coisas em mim, que nem mesma eu conseguia enxergar.
Também agradeço as mulheres que tive a oportunidade de conhecer um pouco e que
compartilharam suas histórias para que este trabalho pudesse ter sido realizado.

E por fim a Deus que permitiu com que eu chegasse até aqui e tem me conduzido por
caminhos dos quais eu jamais sonhei e aos líderes e amigos da minha igreja que sempre
estiveram presente nos momentos de alegrias e tristezas e sempre me deram suporte para o
que foi necessário.
“O caminho muda, e muda o caminhante

É um caminho incerto, não um caminho errado

Eu, caminhante, quero o trajeto terminado

Mas, no caminho, mais importa o durante

Deixei pegadas lá no vale da morte

Um solo infértil aos meus muitos defeitos

Minha vida alargou-se em caminhos estreitos

E eu vi você

A Partida

E o Norte”

(Estevão Queiroga)
RESUMO

Este projeto pretende analisar o papel da universidade na construção da identidade das


mulheres baianas em São Paulo. Por meio da revisão bibliográfica, foi possível compreender,
conceitos e características, do perfil das entrevistadas. Para tanto, optou-se pela história oral
como forma de obtenção de dados. Foram realizadas nove entrevistas com mulheres baianas e
que em algum momento de suas vidas tiveram contato com o ensino superior em São Paulo.
Após as entrevistas, foi realizada a analise das relações que se tinham antes da inserção no
ensino superior e as percepções e as construções identitárias geradas a partir dessa inserção.
Percebe-se que a faculdade permitiu uma visão mais humanizada sobre si e sobre o outro.

Palavras-chave: Migração interna. Mulheres. Ensino superior. Baianas. História oral.


ABSTRACT

This project intends to analyze the role of the university in the construction of the Bahian
women in São Paulo. Through the bibliographic review, it was possible to understand,
concepts and characteristics, of the profile of the interviewees. For that, oral history was
chosen as a way of obtaining data. Nine interviews were conducted with Bahian women and
at some point in their lives they had contact with higher education in São Paulo. After the
interviews, the analysis was carried out of the relations that were had before the insertion in
the higher education and the perceptions and the identity constructions generated from this
insertion. It is perceived that the faculty allowed a more humanized view of himself and the
other.

Keywords: Internal migration. Women. Higher education. Baianas. Oral history.


SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 12

1.1. METODOLOGIA .......................................................................................................... 15

2. MIGRAÇÕES NORDESTINAS EM SÃO PAULO ........................................................ 17

3. CONSTRUINDO IDENTIDADES .................................................................................. 22

4. O PAPEL SOCIAL DA MULHER ................................................................................... 32

5. HÁBITOS E PRÁTICAS DE LAZER.............................................................................. 37

6. A RELEVÂNCIA DAS UNIVERSIDADES NA CONSTRUÇÃO DA MULHER ........ 40

CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................... 48

BIBLIOGRAFIA ...................................................................................................................... 54
12

1. INTRODUÇÃO

Sabe-se que os fluxos migratórios foram intensos na década de 1950 do Nordeste para
o Sudeste, em suma os migrantes vinha para São Paulo, em busca de empregos e melhores
condições de vida, além de outras motivações, eles vinham e trabalhavam em indústrias e iam
residir em áreas periféricas como aponta Fontes (2017); Magalhães (2015), um número
significativo vinha para conseguir ter uma vida melhor e melhores condições, pois a situação
em que se encontrava em sua terra natal não era favorável.

Era comum entre os moradores das áreas rurais o homem migrar primeiro e sem a
família, isto era algo não tão comum entre às mulheres, em boa parte de relatos de
pesquisadores o homem vinha primeiro se estabelecia e depois a mulher vinha com os filhos,
segundo Falci (2008) a sociedade nordestina foi fundamentada no patriarcalismo
extremamente segregada entre homens e mulheres, ricos e pobres, cabia às mulheres com
poder aquisitivo alto cuidar dos afazeres domésticos, as mais pobres não tinham outra escolha
a não ser trabalhar como costureira, lavandeira, roceira. Este perfil patriarcal é algo que se
estende por todo o Brasil, entretanto em áreas menos desenvolvidas este perfil é ainda mais
notável.

O que se pode notar é que, “mantem-se vigente por séculos uma estrutura social que
confere ao sexo feminino uma condição subordinada ao sexo masculino.” (PUDENZI, 2015.
p. 12). Era comum até pouco tempo atrás, e ainda em alguns lugares nos dias de hoje, em que
a mulher fosse posse de um homem, do qual ela devia respeito e submissão, mas, com o
avanço do sistema capitalista estes tecidos sociais foram criando rupturas e a mulher passou a
assumir papeis que antes ela não poderia ter.

Essas novas conotações foram surgindo com o decorrer do tempo, na medida em que a
sociedade foi se transmutando e passou a expressar novas características de identidade
coletiva. Com a expansão das áreas urbanas, a mulher passa a ter papéis diferentes na
sociedade, como trabalhar em profissões que até então só poderiam ser realizadas por homens,
para Bosi (1994) “A cultura do povo é localista por fatalidade ecológica, mas na sua dialética
humilde e virtualmente universal: nada refuga por principio, tudo assimila e refaz por
necessidade” (p.55). Ou seja, com a mudança do ambiente e o seu entorno e as novas
13

demandas que foram surgindo, o papel da mulher se refez perante a sociedade e novas
identidades coletivas foram se refigurando.

Compreender estas construções que vêm ocorrendo em nossa sociedade é fundamental


para entender os processos que se transmutam e a forma das novas relações que estão sendo
produzidas e expressadas culturalmente e socialmente.

Além disto, recuperar, registrar, difundir a memoria [...] implica a valorização das
experiências identitárias da comunidade, de sua historia e seus valores culturais,
permitindo-nos entender a dinâmica da complexa convivência entre diferentes grupos.
(MAGALHÃES, 2011. p.73)

A construção social do indivíduo vai se moldando e construindo novas formas de se


relacionar com o ambiente em que está inserido. Para Gertz (1989) o homem é um animal
amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu; sendo assim, essas teias que fazem
parte da raça humana, podem ser comparados com a cultura que o homem adquire desde o
momento em que se dá o seu nascimento, e a busca pelos seus significados durante a vida,
conforme ele vai criando e estabelecendo novas relações essas teias vão de moldando e
adquirindo aspectos deste processo.

É nessas redes sociais que os migrantes vão interagindo e desenvolvendo sua


subjetividade lembrando que é um processo mútuo, os migrantes trazem consigo uma
bagagem cultural que foi adquirida ao longo de sua vida, e os que residem naquele espaço
também possuem bagagens, o que muitas vezes ocasionam divergências, e os grupos vão se
moldando para adaptar, para Oliveira (2011) todo este processo exprime um caráter subjetivo,
tendo um conjunto de relações sendo elas das mais variadas que se transformam em um
espaço e se difundem em um todo maior.

Esta interação que se dá com o meio acaba resultando em novos aspectos culturais,
mas, a memória social ajuda na manutenção das raízes, pois o migrante nunca perde de todo a
sua construção subjetiva, alguns valores podem se transmutar, mas, as memórias que foram
repassadas ajudam a manter algumas bases sólidas, é necessário entender que devido ao
tempo, essa identidade é cambiante e nem sempre será a mesma, pois passamos por mudanças
e às vezes, a forma de se expressar pode mudar, mas pode adquirir outro significado.
14

A memória dos povos é importante porque lhes dá significado e sentido de vida. No


entanto, em algum momento o imigrante muda de sistema social e de significados
culturais, fazendo com que a memória social não tenha eco no seu novo entorno.
(RIBEIRO, 1988, p. 23).

Desta forma pensaremos na construção da identidade das mulheres baianas migrantes


que estão em São Paulo e que fizeram ensino superior aqui, entendo o contexto que estão
inseridas e de que modo suas identidades foram moldadas e se este percurso acarretou no
processo de emancipação social, averiguando a forma em que ela enxerga ser mulher na
sociedade vigente, é importante ressaltar que algumas já trabalhavam fora de casa, enquanto
outras não, e que a raça, classe e gênero influencia na construção de suas historias.

Visando isto, este estudo tem enquanto relevância acadêmica e social, o intuito de
constatar a construção das identidades das mulheres que vieram para São Paulo e qual foi o
impacto do ensino superior nas suas construções sociais. Vale salientar que é pertinente a
analise destas vivencias, pois a formação social se dá pelas relações expressas no cotidiano.
Acredita-se que este trabalho auxiliará em discussões sociológicas, pela sua relevância e por
aspectos nele mencionados, que são as vivencias destas mulheres, a importância do ensino
superior para emancipação, e a forma em que ela é expressa.

Verificaremos se a mudança de cidade e ingressar em uma universidade mudou o


papel social dessas mulheres no contexto familiar e do meio social de origem também
analisaremos se esta experiência acarretou uma nova percepção sobre a experiência de ser
mulher, e as possíveis relações entre cursar o ensino superior e o empoderamento feminino e
suscitar indagações se o ambiente acadêmico altera as percepções sobre o feminino às
vivencias de mulheres, compreendendo os fluxos migratórios e a mobilidade social;

Sendo assim averiguaremos se o envolvimento nas universidades produz a


emancipação social destas mulheres ou se suas vivencias anteriores já eram de emancipação,
o grupo analisado das migrantes baianas deve-se ao contexto de que a Bahia ocupa o segundo
lugar no ranking brasileiro de atendimento do Ligue 180, violência contra a mulher. Deste
modo a discussão sobre essas migrações se tornem necessárias para entender estas relações
sociais e as mudanças acarretadas em sua construção enquanto individuo, já que os efeitos
gerados podem ser duradouros para a sociedade.

Com isto buscaremos analisar os fluxos migratórios destas migrantes que além da
busca por melhores condições de vida também buscam a oportunidade de ingressar no ensino
15

superior, visando quais foram suas motivações e anseios e quais foram as suas mudanças
ocasionadas sejam elas emocionais; psíquicas ou sociais, além de analisar se a faculdade
gerou novos olhares e perspectivas. O trabalho será composto por capítulos de análises do
objeto que serão as mulheres que vieram da Bahia para São Paulo e estiveram em algum
momento inseridas na academia.

1.1.METODOLOGIA

Para o desenvolvimento do presente projeto, optou-se pela história oral, ela tem sido
muito utilizada nos últimos anos pelas Ciências Sociais, buscando compreender ainda que de
forma parcial os processos que ocorrem na sociedade, a fonte oral pode trazer novas
perspectivas, Bosi (1994), confirma que as memorias transmitidas estão relacionadas à
trajetória de vida do entrevistado que testemunha das mudanças ocorridas ao seu redor. As
memorias reveladas são advindas de um conjunto estabelecido através de uma ótica que
permeia questões psíquicas, sociais, intelectuais que fazem parte do individuo como um todo,
quando contatado não expõe apenas a memoria individual, mas também memorias coletivas
que exibem partes da sua formação social.

Para Halbwachs (1990), a memória é um fenômeno social que se manifesta nos


seguintes tipos: coletiva, individual, histórica. A primeira, que se poderia chamar de memória
social, está relacionada a uma história vivida, na qual o passado permanece vivo na
consciência de um grupo social. Por seu turno, a memória individual será sempre “um ponto
de vista sobre a memória coletiva”. As memórias que são retratadas através da história oral
são o intermédio da cultura, nos retratam as marcas que ficaram.

Cabe-nos interpretar tanto a lembrança quanto o esquecimento. Esquecimento,


omissões, os trechos desfiados da narrativa são exemplos significativos de como se
deu a incidência do fato histórico no cotidiano das pessoas. Dos traços que deixou na
sensibilidade popular da época (BOSI, 2003, p. 18).

A palavra memória tem alguns significados, entre eles estão o de fazer recordar,
iluminar, instruir. Sendo coletiva, a memória se diferencia da história a partir de dois
aspectos. Está configurada por uma linha de pensamento em continuidade, que nada tem de
16

artificial, por remeter a ocorrências do passado, mas ainda vívidas na consciência do grupo
que mantém tal memória. E por definição, ela não extrapola os limites estabelecidos pelo
grupo mantenedor (HALBWACHS, 1990).

Dentre as várias considerações de autores sobre o que é e o que representa a memória,


Le Goff (1990) aplica o conceito de memória coletiva (memória que parte e se complementa
somente com um grupo de indivíduos organizados em sociedade) ele ainda ressalta que o que
permanece não é o que houve no passado, mas sim aquele que está em desenvolvimento
conforme os anos. Porém, nas palavras de Halbwachs (1990), o agrupamento de todas essas
concepções, gera uma nova ideia:

[...] Mas se eu quiser reconstituir em sua integridade a lembrança de um tal


acontecimento, seria necessário que eu juntasse todas as reproduções deformadas e
parciais de que é o objeto entre todos os membros do grupo”. (HALBWACHS, 1990.
p.55)

Como aponta Amado (1995) as memórias podem ser construídas e reproduzidas


através de elementos que fizeram parte da construção individual ou coletiva de um individuo.

“É sua capacidade de associar vivencias individuais e grupais com vivências não


experimentadas diretamente pelos indivíduos ou grupos: são as vivencias dos outros,
das quais nos apropriamos, tornando-as nossas também, por meio de conversas,
leituras, filmes, histórias, músicas, pinturas, fotografias... Nossas memórias são
formadas de episódios e sensações que vivemos e que os outros viveram.” (AMADO,
1995. p.132)

Para Kotre (1991) a memória tem a função de nos dar um amparo ancestral que é
quando o individuo se assemelha com a história que lhe foi contada, ou de alguma outra
forma aprendida e a reproduz como se fosse sua, fica tão vivo dentro de si, que às vezes a
pessoa tem a sensação de que ele mesmo viveu a memória. Visto que o propósito deste
trabalho é conhecer as vivencias das mulheres nordestinas e como se deram as suas
construções sociais através das relações de gênero, iremos entrevistar um universo de nove
entrevistadas a fim de compreender melhor os caminhos traçados por estas mulheres.
17

Os procedimentos da pesquisa foram divididos em quatro etapas. A priori foi realizado


um levantamento bibliográfico, buscando-se referenciais teóricos, como em artigos
científicos, dissertações de mestrado, teses de doutorado e livros, suscitando maiores
informações sobre os termos: memória; migração; identidades; gênero, a fim de compreender
o que já vem sendo discutido sobre os temas.

No segundo momento foi produzido um formulário no Google Forms e disparado para


algumas pessoas, a fim de realizar um levantamento sobre quais mulheres se encaixavam no
perfil da pesquisa, as perguntas bases eram, qual era a idade, quando tinham vindo para São
Paulo, se tinham feito ou estavam fazendo faculdade em São Paulo e se topariam realizar uma
entrevista oral, com as respostas com as mulheres que se enquadravam no perfil, entramos em
contato para verificar a disponibilidade, dezesseis mulheres demonstraram interesse, mas sete
delas protelaram e não tivemos a oportunidade de realizar a entrevista.

Na terceira fase foram realizadas as entrevistas de história oral temáticas, os


questionamentos norteadores foram de como é o núcleo familiar, como foi a infância e
adolescência, como são as questões de gênero na família, o que é ser mulher, e como foi a
experiência na faculdade, a fim de compreender melhor os percalços vividos por essas
mulheres, e assim tecer a construção social vivenciada buscando elementos das memorias
para alcançar maior compreensão das relações de gênero antes e depois da faculdade.

Por fim, foi realizada a análise dos dados coletados nas entrevistas, que permitiram
traçar o histórico de vivencias e as construções sociais. Desta forma verificamos as
construções das identidades que foram construídas ao de correr da vida e quais foram os
fatores que contribuíram para o empoderamento feminino.

2. MIGRAÇÕES NORDESTINAS EM SÃO PAULO

No começo do século XX São Paulo passava por um grande processo de urbanização.


Privilegiada por sua posição geográfica, a cidade é vista por muitos como um lugar para se
mudar de vida, esta visão é consequência do desenvolvimento industrial, Baeninger in Bógus
diz que

“Até 1930, período em que se encerra a etapa de desenvolvimento primário-


exportador no brasil, o surgimento das cidades e a estrutura territorial estiveram
voltados para os interesses de comercialização ligados aos ciclos produtivos de
monoculturas de açúcar, algodão e café.” (2012. p.12)
18

O Nordeste possuía naquela época áreas de cotonicultura que empregava muitos de


seus habitantes regionais, no entanto com São Paulo também realizando estes serviços, o
Nordeste não consegue se equiparar com a produção, segundo Baeninger (1992) o
desenvolvimento industrial exigia articulação regional, com isto vias de transportes eram
expandidas e a urbanização ia atingindo principalmente o centro-sul do país acarretando o
êxodo das populações rurais para as áreas urbanas.

Novas vias foram implementadas, e as indústrias passaram a se alojar próximo as áreas


urbanas com a chegada das mesmas iam sendo implementados os transportes como trens e
ônibus, casas de saúde, vendas, atribuindo infraestrutura para estas áreas. Conforme Fontes
(2008) após a segunda guerra mundial a economia agrícola do Nordeste que ainda permanecia
latifundiária entrou em colapso e demonstrou-se incapaz de acompanhar o desenvolvimento
do centro-sul do país, consolidando a imagem de atraso da zona rural nordestina.

A urbanização de São Paulo fazia encher os olhos dos habitantes das áreas rurais, os
empregos, saúde, educação, direitos trabalhistas criavam uma ideia de que em São Paulo a
vida seria mais fácil, era atrativo, para Fontes (2008) a vinda de muitos significava escapar
das relações de domínio e poder dos senhores agrícolas, no campo seus direitos eram
renegados.

Em contrapartida existia em São Paulo uma preocupação do Estado em oferecer um


salário mínimo aos seus trabalhadores, que reivindicaram que o Estado subsidiasse habitações
aos trabalhadores de baixa renda. Segundo Bógus (1992), foi dado, no entanto, através dessa
iniciativa, um passo importante no sentido de demonstrar que a população trabalhadora de
baixa renda podia ter acesso à casa própria, símbolo de estabilidade social e melhor condição
de vida. (p.33)

Na concepção de muitos grupos o migrante é visto como alguém que vive na miséria e
foge à procura de algo melhor, nas migrações internas do Brasil estes casos aconteciam com
frequência, segundo Andrade (1964) o homem nordestino se deparava com uma posição
econômica difícil e a falta de estabilidade no sertão fazia com que partissem a procura de
melhores condições de vida. No entanto esta imagem não se construí a partir de si mesma,
19

A chegada dos trabalhadores migrantes em São Paulo a partir dos anos 1930 inseria-se
num contexto de reforço de uma representação negativa sobre o Nordeste. Se de um
lado o Nordeste ia constituindo-se enquanto região de seca, pobre e inviável, São
Paulo constituía-se, ao mesmo tempo, como o lugar de possibilidades de uma vida
melhor. Assim a imagem negativa do Nordeste não foi contribuída nos anos 30 apenas
a partir de si mesma, mas também na comparação com outro lugar, pleno de
potencialidades (PAIVA, 2004. p. 204-205)

O volume populacional na segunda metade do século XX em São Paulo crescia


deliberadamente uma das causas para tal crescimento eram essas migrações, com a expansão
da metrópole requeria-se mão de obra para construção civil, indústria e fábricas. De acordo
com Mata (1973) muitas vezes a vinda do campo para a metrópole estava associada às
mudanças no sistema de produção.

O processo migratório esteve assim, organicamente ligado a toda uma serie de


transformações econômicas, sociais e culturais que consubstanciaram a partir deste
período (PAIVA, 2004. p. 180)

O projeto de São Paulo era inovador, para os empresários da época a mão de obra
migrante era aprazível, enquanto os habitantes locais não queriam trabalhar nestes setores
mais pesados o migrante aceitava de bom grado. Com as demandas surgindo e a cidade
passando por constantes remodelações, as obras estavam por toda parte. O nordestino que
chegava ansiava por trabalhar, os dialetos e costumes diferentes provocavam estranheza, não
era o tipo de migrante que as classes mais avantajadas esperavam, para Santos (1998) havia
uma tentativa de remodelar a cidade nos moldes europeus.

Encontrava-se uma aversão àqueles que chegavam para muitos de Minas Gerais para
cima eram todos vistos como baianos,

A velocidade da urbanização e a intensidade do processo migratório na São Paulo dos


anos 1950 causaram grande impacto na vida cotidiana da cidade com importantes
repercussões, nem sempre notadas para o debate político local e nacional. A crescente
e numerosa presença de migrantes rurais de origem nordestina causava estranheza e
frequentemente gerava tensões entre a população já residente e os recém-chegados.
Rivalidades e preconceitos entre os trabalhadores de origem paulista ou estrangeira e
os nordestinos foram relativamente comuns. (PAIVA, 2008. p.68).
20

O crescimento desordenado distanciava os migrantes das zonas centrais para as zonas


periféricas. A burguesia se instalava em bairros nobres como Higienópolis, Paulista, os de
classe média e baixa conviviam em bairros onde as fabricas estavam instaladas como, por
exemplo, bairros do Bixiga, Mooca, Brás, já os migrantes que muitas vezes vinham em
condições financeiras difíceis eram empurrados para zonas periféricas.

Os primeiros loteamentos ocupados, em áreas afastadas das estações ferroviárias,


foram aquelas sendo pelo ônibus que complementavam o trajeto feito por ferrovias e
cujo ponto inicial ficava junto à estação, coincidindo seus horários com a chegada e
partida dos trens. No entanto, aos poucos, os ônibus foram substituindo, em
importância, os trens e possibilitando uma ocupação territorial ao longo de todo o seu
percurso, onde surgiram inúmeros loteamentos. (BÓGUS, 1992. p. 34)

Como são os casos dos bairros mais distantes do centro, um exemplo é a zona leste,
onde há uma grande concentração de migrantes nordestinos. Os empregos continuavam a
surgir e como viam no nordestino a força para trabalhar as mulheres passaram a serem
recrutadas para o trabalho, as mesmas recebiam menos que os homens.

Para o migrante três pontos são tidos como essenciais: trabalho, saúde e educação. De
acordo com Sposito (1988), o diploma é visto para o migrante como uma ascensão social que
pode trazer melhorias de vida, rompendo e projetando um ser diferente, ou seja, para sair de
uma posição social destituída a educação é visto como uma solução.

Segundo Albuquerque Jr. (2009) com a intenção de criar uma identidade nacional às
manobras politicas passam a favorecer algumas regiões e criam uma visão dicotômica de
outras como é no caso do nordeste.

Em algumas formulações, o Nordeste aparece como o mundo “primitivo”, em


oposição à degenerescência do mundo “civilizado”. O regional ai se torna sinônimo de
rural ou de manifestações folclóricas quando ocorridas nas cidades. (...) Constrói-se a
imagem de uma sociabilidade rotineira em que apenas a irrupção da natureza vem
quebrar a rotina, com as secas, enchentes, os nascimentos, as mortes, os primeiros
reclamos da carne. (ALBUQUERQUE JR., 2009. p. 132).

Estas são percepções regionalistas que foram fundamentadas pelos os que tinham um
maior capital,
21

A partir daí podemos perceber que o processo de estereotipia do nordestino associado


ao sertanejo, ao homem da roça, não nasce apenas de uma disputa do Sul contra o
Norte. É claro notar que o estereótipo associado aos atributos negativos do rural, e a
criação de estigmas como: tabaréu, violento, fanático, messiânico, incapaz,
miserável... nasce da necessidade do Sul se afirmar como: educado, moderno, capaz,
rico, produtivo, racional... pela diferença. (VASCONCELOS, 2006. p. 8).

Entre as entrevistadas duas vieram com a família em busca de melhores condições de


vida, enquanto sete delas vieram em busca de ensino e depois da conclusão pretendem
retornar para o Nordeste. Essas visões regionalistas ainda continuam sendo propagadas, então
ainda existe a questão de que os que vivem no sul e sudeste são superiores, mais cultos,
sábios, enquanto aquele que vem do nordeste é chulo, pobre, não tem educação, veio para o
sudeste a fim de ocupar os lugares de subemprego, seis das nove entrevistadas relataram que
em algum momento sofreram xenofobia por ser do Nordeste.

Eu lembro que umas das primeiras semana que nós chegamos na escola minha irmã
brigou com uma das meninas mais bravas da escola, por que vieram zoar a gente, o
nosso sotaque, clássico, e eu lembro que ela deu um murro nessa menina (risos) e aí
ninguém mexia mais com a gente, mas a gente sofreu muito preconceito porque além
de ser nordestina eu sou negra então tem um monte de questão colocada. (LARISSA)

Um ponto para se analisar é que além do fator do outro se impor como o superior em
relação a ser do sudeste é possível quando a questão em relação à raça, o individuo que já
possuía uma visão em ser o superior se apropria ainda mais do seu discurso, principalmente
pela questão que o negro durante muito tempo foi escravizado no Brasil.

O que eu já sofri aqui em relação a preconceito foi mais por eu ser baiana, teve uma
vez que eu me senti um pouco incomodada porque eu estava dirigindo e a placa ainda
era de Salvador, eu até que dirijo bem, mas aí nesse dia em especial, o farol ficou
vermelho e eu freei bem em cima e deu uma cantada de pneu, eu estava próximo à
Paulista, eu fiquei com muita raiva porque eu vi que algumas pessoas olharam para a
placa, viram que era Salvador e falaram: “olha a baianada” nesse momento eu fiquei
um pouco incomodada, teve uma paciente, uma menina, que tinha lesão cerebral, e ela
disse: “ah, porque tal coisa é baianada”. (ADRIANA).
22

O uso de valor utilizado é que o sulista é mais culto, mais informado, quando vemos
que a Adriana retrata que no trânsito ela teve esta experiência é possível notar que aquela
situação foi desencadeadora para eles demonstrarem quais eram os seus valores em relação ao
nordestino, de que ele não sabia fazer as coisas como “deveriam ser”. Um dos discursos muito
recorrentes pelos sulistas é de quando vê algo estranho se utilizar do termo “isto é coisa de
baiano”, por que na visão que é repassada o “baiano” é o estranho, não entende as coisas, é
feio.

Eu senti dificuldade em relação a ser de outra região, ficar ouvindo piadinha por causa
do sotaque, na época da faculdade eu fiz estágio numa escola particular e às vezes eu
falava algumas palavras com o sotaque baiano e virava outro professor para me
corrigir por conta do sotaque sendo que a palavra que você tá falando é a mesma,
ambas estão certas. E aí nessa questão de piadinha a gente vai aprendendo a lidar.
Quando você fala ser baiana e for mulher a pessoa já pensa em subemprego porque
quando elas perguntam a você trabalha no quê e eu respondo que sou coordenadora,
elas falam: “nossa, coordenadora” como se o fato de você for mulher e for baiana você
não merecia, como se você não fosse capaz, eu acho que a gente sofre muito em
relação a isso. (MÔNICA).

Quando há está busca por mostrar a sua superioridade em relação às normas cultas do
português usando o sotaque como um valor para caracterizar a sua fala como a correta,
frisando que as expressões culturais da sua dialética é valorizada e certa enquanto a do outro é
inculta e não possui valor. Outro ponto importante a ser visto é que quando a Mônica
compartilha que é coordenadora as pessoas se espantam, porque o que seria o certo perante o
individuo que se vê como superior é de que o nordestino deve ocupar subempregos.

Segundo Sobral (1993) no jogo dialético da construção das identidades por contraste,
o migrante põe-se, então, como o nortista do campo ante o sulista da cidade, aparência,
vocabulário regional, sotaques e costumes são traços distintivos que passam a ser ressaltados
enquanto marcas negativamente valorizada do outro. A educação tem sido um fator entre as
entrevistadas primordial para o fluxo migratório, em busca de qualificação e transformação
monetária e social.

3. CONSTRUINDO IDENTIDADES

Neste capitulo abordaremos alguns aspectos das construções das identidades das
mulheres entrevistadas, analisando de forma coletiva os relatos. Nota-se que entre as
entrevistadas, as que moravam em Salvador possuíam um padrão de vida melhor em relação
23

as que moravam em regiões interioranas, e os que a trouxeram foram às oportunidades e o


ensino superior.

Como meus pais trabalhavam muito e nós não tínhamos muitas condições nós não
saímos muito, pra você ter noção eu fui conhecer o shopping com 14 anos por que eu
fui procurar emprego e aí eu comecei a frequentar o shopping por que eu fui trabalhar
lá e tanto é que eu fui no cinema com 17 anos e mesmo trabalhando no shopping a
situação financeira era muito mais difícil. (SARA)

Entre as que moravam no interior, duas delas vieram com os pais ainda quando eram
crianças, e seus sentimentos em relação à Bahia são fortes e elas pretendem voltar para morar
por lá assim que conseguirem ter uma condição financeira mais estável, o estudo é uma forma
de conseguir se desvencilhar dos subempregos.

E mesmo que eu esteja aqui há 25 anos eu me considero uma migrante, por que ainda
tem coisas das minhas raízes que são muito forte tipo culinária, alguns tipos de
costumes, em casa que eu vejo que é muito raiz da Bahia e as pessoas daqui de São
Paulo não tem esses costumes. Minha mãe não faz panquecas ao domingo a gente faz
feijão tropeiro. Por que isto é uma raiz nossa. (SARA)

É possível notar que a relação com a gastronomia local é uma forma de manter e
preservar as raízes culturais, e isto é passado através do núcleo familiar, como uma forma de
reviver hábitos e costumes que eram praticados antes da migração.

Eu me considero muito uma migrante. As pessoas às vezes falam: “a mais faz muito
tempo que você está aqui”, mais mesmo assim são muito diferentes, as relações e
como eu fui criada, imagina, a gente se mudou pra cá e fomos morar na Lapa que era
um centro comercial e eu vivia na rua descalça com minha família em todo lugar e vir
pra cá foi um susto, era inverno inclusive e eu fiquei: “o que é isso?” e morava todo
mundo em um único quarto então foi muito chocante. (LARISSA)

Mesmo que elas tenham ficado menos tempo na Bahia em relação às outras
entrevistadas os vínculos emocionais com o seu local de origem é muito forte, e repetir alguns
hábitos e costumes e manter o ciclo de pessoas do seu núcleo familiar são uma forma de
preservarem sua origem.
24

O que pode se observar é que nos núcleos familiares encontram-se alguns hábitos
machistas, mais em suma os estereótipos são repassados através de avós e familiares como
tias, mas algumas atitudes também são vistas em casa.

Da minha família por parte de mãe eu vejo muito essa questão de que a mulher tem
que ficar fazendo as coisas para o homem e na minha casa meus pais eles são de idade
já mas quem cozinha é meu pai, a roupa cada um lava a sua e minha mãe sempre dava
o mais pesado pro meu irmão fazer, as vezes ele lava a louça, eles tem mania de fazer
o prato pro meu irmão e eu vejo esse cuidado maior com ele por que ele foi o primeiro
filho, porque minha mãe não podia engravidar e teve alguns abortos espontâneos
então tem um cuidado maior com ele, eu e minha irmã viemos de escape e ela até diz
que não queria menina porque ela sabe o quanto sofreu, e ela dizia: “ah, mulher sofre
demais” mas que agradece por ter dito a gente, e ela diz: “minha filha quando eu
morrer, cuida do seu irmão”. Mas tem às vezes essa questão de machismo, meu irmão
sempre levou as namoradas pro quarto e eu não, era só na sala, e na cozinha, ele fazia
o que queria, na minha família ainda tem bastante essa questão de mulher ser dona de
casa, estruturalmente, minha tia que faz a panelada de comida então ela tá sempre no
fogão. (INGRID)

As gerações com idade avançada ainda vivem alguns hábitos e que são difíceis de
serem mudados por já possuírem uma longa trajetória de vida, além do que no relato acima
podemos notar que na frase em que a mãe diz “mulher sofre demais” pode empregar uma
serie de significados de coisas das quais ela viveu e viu outras mulheres vivendo que remete
que ser mulher é significado de sofrer, e ter filhas mulheres significaria as ver sofrendo por
coisas que ela já vivenciou e saberia que seria difícil impedir que suas filhas vivenciassem.

Na distribuição de tarefas por mais que a gente não tivesse muitas tarefas, no final de
semana todos tinham que fazer a cama, ah e durante um tempo a minha mãe colocava
a comida no prato do meu pai, mais aí ela se rebolou e falou que não ia fazer mais, aos
finais de semana todo mundo comia e ajudava a tirar as coisas da mesa, mas minha
mãe ficava lá na pia fazendo as coisas, as vezes eu brigava com ela porque quando
acabávamos de comer meu irmão fugia da mesa para não tirar o prato, e eu ficava ali
ajudando a tirar, eu achava que ela me cobrava mais do que cobrava ele. (ADRIANA)

Nesses relatos podemos ver que as atividades que as meninas desenvolveram durante a
infância não havia uma separação de gênero, mas nas atividades havia algumas distinções
entre o dever da mulher e o dever do homem.

Como minha mãe trabalhava muito quem acabava mandando em mim e meu irmão
era minha irmã, nós até falamos que ela era mãe (risos) por que ela que cuidou da
gente, minha irmã conseguiu mandar no meu irmão minha mãe não (risos) eu lembro
25

que ela tinha umas regras em casa e a gente até fazia e ela dizia que se você não fizer
não vai assistir televisão e eu lembro que teve uma vez que eu e meu irmão nós
dissemos que íamos morar atrás do sofá por que a gente não aguentava mais (risos) e
foi uma greve nossa. (LARISSA)

Mas percebemos que no caso da Larissa que foi educada pela irmã mais velha, já que
os pais trabalhavam bastante não ocorre à distinção nas atividades devido ao gênero, pois para
a irmã as atividades deveriam ser atribuídas igualmente.

E como eu falei meu pai e meus irmãos cozinham super bem, eu nunca fui de fazer as
coisas em casa e minha mãe nunca ficou assim: “você vai ter que fazer isso porque
você é mulher” e como eu fazia muitas coisa para minha mãe na rua ela nunca me
questionou sobre isso de fazer coisas em casa, se eu tiver tempo livre eu até faço, mas
não é uma obrigação, hoje eu estudo integralmente então eu não tenho tempo para
fazer e ninguém me questiona sobre isso, os meninos sempre ajudavam. Nas reuniões
de família tem uma tia que questiona, falar ela nunca faz nada diz para mim: “deixar
de ser preguiçosa”, mas eu também nunca me importei. (ILANA)

Observa-se que como a mãe da Ilana era envolvida com causas politicas e questões
sociais isto também resultava na forma em que ela criou os filhos.

“O meu pai nunca se importou muito com isto, minha mãe tem aquela coisa da
delicadeza, mas nunca foi uma coisa impeditiva, ela nunca me proibiu de fazer nada
tipo se ela fosse escolher que eu jogasse balé ou futebol ela ia escolher que eu fizesse
balé, mas se eu escolhesse fazer futebol ela ia me colocar no futebol, é mais ou menos
isto (risos)”. (JÚLIA)

Em alguns casos a menina era “livre” para escolher quais atividades queria realizar
entretanto, nota-se que isto acontecia caso ela se opusesse a alguma atividade e dissesse que
iria querer outro caso ao contrario os pais as colocariam em atividades que julgassem ser mais
“para meninas”

Meus pais nunca me proibiram de brincar de nada, eu tinha muito amigo homem e que
nem brincar de hotweels eu brincava com meu irmão então eu brincava mesmo e eles
não se incomodavam com isso mais com esse negocio de “fecha a perna” nossa, eu
odiava isso tipo menino pode dar a língua, e pra mim era olha: “o jeito que você fala”
ou então “tem que aprender a limpar e a cozinhar para ser a mocinha de casa” e eu
ficava: “não”, e nem era tanto dos meus pais, era mais dos parentes sabe assim tipo tia
falava toda hora a avó então meu Deus do céu, hoje em dia eu ignoro, mas antes eu
ficava questionado a minha avó. (ANA)
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A questão de ser mais delicada, e mais podada em algumas formas de se expressar e


falar é ainda bem característico em relação à cobrança do papel da mulher, e esta cobrança é
bem presente perante o núcleo familiar.

Teve uma fase da infância que eu gostava de futebol e os meus pais não me deixavam
jogar porque era coisa de menino, porque tinha o preconceito de ser lésbica, então não
me deixam jogar futebol por isso achando que se eu jogasse seria lésbica, então não
me deixaram por conta desse medo, mas também acho que se fossem hoje talvez eles
deixassem. A mulher lavava a louça e o menino secava, porque lavar louça não é coisa
de menino, e eles não podiam lavar o banheiro, varrer, passar pano, mas quando a
gente foi crescendo ficando adolescente, adulto a gente foi tendo outra visão, hoje o
meu irmão ele é melhor dona de casa do que eu (risos). (MÔNICA)

Outro fator é as formas de se comportar, no qual as meninas eram desenvolvidas para


serem delicadas e femininas, diferenciando-as de hábitos que as faziam parecerem mais
masculinizadas. No caso da Monica que morava no interior algumas atividades eram
carregadas de alguns estereótipos o que tornava o acesso a elas restrito.

É possível notar que em alguns casos são com as avós que alguns costumes são
nutridos e o machismo é repassado, principalmente por serem pessoas com mais idade e por
vivenciarem em épocas diferentes e estarem inseridas em contexto totalmente diferentes dos
quais vivemos hoje.

Na casa dos meus avós é assim, eles não colocam comida no prato são minhas avós
que botam, mas na minha casa nunca foi assim, não, nunca foi nem perto de ser assim
(risos) não consigo entender. Tem umas coisas assim que acontece é que as pessoas
nem param pra pensar que aquilo não é natural porque aquilo é um hábito cultural que
está muito enraizado, mas aquilo lá não é natural, porque natural é a gente respirar,
comer (risos), mas elas tratam aquilo como se fosse natural, todo mundo trata aquilo
como se fosse natural e aquilo vai acontecendo e não para e vai se repetindo. (JÚLIA)

Os hábitos muitas vezes não são questionados em razão do respeito à figura mais velha
e porque para estas pessoas aquilo é algo comum e eles não veem nenhum problema, até
mesmo porque foram hábitos que foram construídos ao longo dos tempos e que eram algo até
então normal.

É bem difícil até porque minha avó têm nove filhos e são 6 mulheres e 3 homens e ela
ama muito mais os homens, os homens são não podem fazer nada na casa, e eu fico
27

brava, eu falei: Mãe você sofreu isso na sua vida e você não tem que repassar e aí tá
mudando agora. (ANA)

Alguns hábitos são constantes e repassados e para as entrevistadas mesmo que não
seja algo normal é compreensível, nos relatos das entrevistas é possível notar que esses
hábitos são tão corriqueiros que para algumas nem é uma forma de expressar o machismo,
pois são características da identidade pertencente do núcleo familiar, então não era visto como
algo ruim é só como “acontece e não pode ser mudado”. Quando uma avó cuidava
efetivamente da educação da neta essas construções eram repassadas de forma ainda mais
rígida.

Então, tu sabes que a Bahia apesar de ter o carnaval que todo mundo pode fazer o que
quiser você tem uma tradição muito conservadora, você tinha que brincar só com
menina eu não tinha pra onde sair, eu não tinha colegas para sair, com 12, 15 anos eu
não podia sair de casa que era motivo de confusão de me mandar ir embora, às vezes
eu saia escondido pra ir brincar de corre-corre, pega-pega não sei como chama aqui,
minha avó ia me buscar e tal então foi àquela infância rígida, até na adolescência e na
fase adulta pode-se dizer que minha vida foi muito rígida. (GIOVANA)

Percebe-se que quanto maior o grau de instrução dos pais ou dos responsáveis na
criação menor era a probabilidade de alguns hábitos fundamentados no patriarcado serem
repassados. Nota-se que as mulheres que tinham essa educação se sentiam mais livres e a
vontade para opinarem sobre suas escolhas e onde iriam ir.

Teve uma vez que falamos que íamos voltar às três da manhã, mas já eram 3 horas e a
gente ainda tava na balada então ele ligou e dissemos que estávamos indo embora,
mas eles eram tranquilos, não era uma rigidez severa (ADRIANA)

Em alguns casos se relacionarem com alguém e ter um relacionamento era uma forma
de ter um pouco de liberdade e sair para onde quisesse, já que a família não deixava ter tanta
autonomia por ser mulher.

E aí quando eu fiquei adolescente eu tive que ficar noiva, eu arrumei um namorado e


fiquei noiva, a pulso, por que eu nem queria o cara, mais eu falei: “o cara vai me levar
pra viajar tudo (risos) então eu vou”, conheci vários lugares, eu fui com ele para
Itacaré, pra Barra Grande, pra Salvador, tudo assim do interior da Bahia, eu viajava
28

bastante por causa disso por que se não fosse eu estaria escondida dentro de casa
(risos). Eles não me deixavam sair, ficava presa. (GIOVANA)

Além também de ser um dos motivos para a vinda a São Paulo, porque aparentemente parecia
ser uma fuga para a situação em que estava, o descontentamento com o cenário, então a ideia
de um relacionamento poderia representar a mudança para algo que poderia melhorar.

Vim para cá porque comecei a namorar e acabei ficando por causa desse namoro, eu
fazia faculdade lá na Bahia e aí eu tranquei por condições financeiras, e então vim
morar em São Paulo, acabei vindo sozinha porque a minha família toda é de lá.
(MÔNICA)

No entanto, a alternativa o namoro poderia representar um ambiente manipulador e


autoritário, do qual, colocava as mulheres em uma condição subjugada por serem mulheres e
as forçando a fazer algo que não desejassem.

Eu comecei a namorar com 14 anos ele nunca me obrigou a fazer nada, mas queria
ficar pegando nas minhas partes íntimas e hoje olhando eu fico pensando se isso não
foi um abuso, o problema é que eu fico pensando: “ah, mas eu queria” e nisso você
fica acreditando só que hoje eu fico analisando e penso que eu fui abusada. E o que
me fez querer terminar esse relacionamento foi quando eu entrei no ensino médio e eu
conheci o movimento feminista e eu vi que não era obrigada a aceitar aquele tipo de
coisa. Hoje eu tenho nojo dele e ele continua sendo o mesmo babaca, há uns dois anos
atrás ele veio falar comigo que o sonho dele era transar comigo, é triste você falar que
sofreu abuso, e você queria que não fosse real, eu, minha irmã, a minha tia, a minha
mãe todas nós fomos abusadas parece até que é um ciclo. (INGRID)

O namoro pode ser uma alternativa para algumas mulheres devido a sua construção
social em seu núcleo familiar, e para algumas estudar e se qualificar é uma melhor alternativa
percebe-se que quando há a instrução da família para as mulheres buscarem o estudo e se
qualificar sua motivação são ainda maiores segundo o que pudemos observar nos relatos.

As minhas primas começaram a namorar cedo, logo engravidaram e foram morar com
os caras, não foi algo que minha tia ficou falando, na minha cidade a maioria da renda
é através do setor público e muitas das mulheres são professoras, elas prestam
concurso e passam, então por isso elas acabam até às vezes recebendo mais do que o
homem, meu pai tem um restaurante quando chega um casal para comer geralmente
29

quem paga é a mulher, então tem os dois lados a galera que escolhe sair de casa e ser
dona de casa e as mulheres que escolhem estudar e ter uma vida melhor, os homens
da minha cidade não gostam muito de estudar, eles preferem dar o couro, eles gostam
muito de vaquejada aí vão mais para a parte rural, mas as mulheres da minha cidade
elas gostam de estudar muito, então elas recebem mais que os homens. (ILANA)

A violência contra as mulheres podem ser vistas de diversas maneiras, sejam elas
verbais, físicas ou psicológicas, qualquer uma delas dependendo de como foi o
desenvolvimento social da pessoa, as formas de violência são imperceptíveis e muitas vezes
quando questionadas não são tratadas como tal. Uma entrevistada disse que não havia ter
percebido ter sofrido alguns tipos de abuso até ter tido realizado a entrevista, segundo ela foi
quando começou a falar sobre aquilo que ela se deu conta de que ela havia sofrido abuso.
Como podemos ver retratada na história da Ingrid algumas outras mulheres da família já
haviam sofrido abuso mas, pelo abusados ser parte da família, ele havia sido acobertado
várias vezes, o conceito que é repassado para algumas mulheres é que a culpa não foi do
homem, mais sim delas em muitos casos.

Teve uma vez que aconteceu um caso com a minha irmã, meu avô era pedófilo, a
gente estava brincando no fundo da casa e na nossa casa tinha cinco cavalos, e
estávamos brincando com os cavalos e meu avô chegou e ele chamou a gente, mas eu
não fui porque estava brincando, mas minha irmã foi e ele falou para minha irmã
sentar no colo dele e aí eu chamei ela para vir brincar e ela não respondia, e ela
sempre brincou mais do que eu, nisso chegou a mulher que trabalha em casa e falou
que o almoço estava pronto, e eu chamando ela e ela não vinha, aí eu tinha acabado de
almoçar e ela passou correndo chorando e o meu avô agoniado os meus pais chegaram
e meu pai foi levar meu avô embora, e eu fui perguntar para minha irmã porque ela
estava chorando e ela me falou que ele havia pedido para ela pegar no pênis dele, ela
estava chorando muito porque ela estava com medo da minha mãe bater nela e ela me
pediu para não contar a minha mãe, mas como eu queria ver ela apanhar eu sai
correndo gritando minha mãe dizendo o que tinha acontecido, quando meu pai ficou
sabendo ele queria matar o meu avô, minha mãe que entrou no meio e pediu que ele
não fizesse nada, mais o meu avô também já tinha abusado da minha tia e a história
tinha sido encoberta. (INGRID)

O que foi mais comum elas notarem como preconceito foi à xenofobia, principalmente
na forma de falar ou de se expressar, o sotaque foi apontado como um alvo para as violências
verbais, por ser mais recorrente entre os membros da família e ser um preconceito mais
vivenciado, a questão da xenofobia é mais visualizada como um preconceito, para elas isto era
muito mais visto do que qualquer outra questão relacionada ao gênero.
30

Quando eu cheguei aqui uma coisa que me chamou atenção foi o sotaque, eu lembro
que nos primeiros meses eu ficava treinando muito o sotaque, eu passava horas
fazendo isso, e depois que eu fui tendo uma consciência maior e refletindo todo esse
processo que quando você migra você acaba mudando a sua cultura para tentar se
inserir e eu lembro disso que eu e meus irmãos ficávamos treinando, falar gírias “tipo
assim”, “meu”, “mano”, e a gente ficava treinando, brincando, porque foi bem
assustador, era um bullying muito forte e a xenofobia também, então a gente queria se
inserir, eu acho que esse lance do impacto cultural e não ter a família perto foi um
choque. Para mim a quarta série foi bem difícil por que teve essa fase de se inserir e
foi bem difícil, e depois fui pra uma escola um pouco mais distante mais eu sempre fui
a pé e também foi difícil se inserir, mais logo eu descobri os livros então eu lia muito
e eu lembro que tinha uma biblioteca perto de casa então eu acho que eu fiquei mais
tempo lendo do que tentando fazer amizades. (LARISSA)

Algo que algumas delas fazem para se sentirem ligadas as suas raízes culturais é ter
por perto pessoas que fazem parte do mesmo contexto, que são do nordeste e manter os laços
com patrimônio imaterial no caso comidas, crenças, sotaque, isto são formas de resistências
encontradas pelo grupo para manterem suas origens mesmo que de forma indireta ocorra à
aculturação.

Ah, tem uma coisa que fazemos aqui, por exemplo, ia ser o meu aniversário e eu não
estaria aqui no dia então eles fizeram uma festa, e aí eles acharam aqui quem faz o
pãozinho delícia que é uma comida de lá e teve outras coisa também, então a gente
gosta de manter isso, que nem agora tá tendo uma novela que passa lá em Salvador, eu
não costumo assistir novela, mas como se passa lá e a gente curte o sotaque, acabou
que estou assistindo a novela, e eu dou tanta risada, ah eu acho que isso é uma forma
de manter a tradição, quem nem tem gente que diz: “vamos tomar um brunch”, se
fosse lá eles diriam quem que é esse tal de brunch, entendeu? (ADRIANA)

Pelo desenvolvimento na região do Sudeste, para essas mulheres vir para São Paulo
representa ter melhores oportunidades tanto no mercado de trabalho quanto na área
acadêmica. Para algumas o estudo é a forma para sair dos subempregos e encontrarem
melhores condições, então mesmo que elas relatem que em São Paulo são mais preocupadas
em relação à segurança e que acham que as pessoas são frias e sentem vontade de voltar para
o Nordeste se tivessem melhores condições, elas preferem estar aqui e se qualificar mesmo
não estando contente com seu estado atual.

“mas eu gostava muito daqui e aproveitei a oportunidade de mudar de faculdade, por


que eu já estudava lá em Salvador e aqui tem muito oportunidade tanto acadêmica
quanto no mercado de trabalho, então como eu não sei o que vou fazer eu preferi estar
em um lugar que eu pudesse ter muitas oportunidades.” (JÚLIA)
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São Paulo por ser uma megalópole possui diversas áreas de atuação em seu território
devido à demanda de serviços e o investimento de diversos setores na cidade o que é um fator
que atrai algumas pessoas, que estão em setores que não são fáceis de encontrar demandas
dependendo do local em que estão.

Eu pensei se eu quero trabalhar neste ramo em Salvador não vai ter tanto, e São Paulo
tem tudo pra todo mundo então eu pensei que seria uma boa chance e eu sempre gostei
muito daqui sabe, aqui tem de tudo pra fazer a qualquer horário do dia então isso me
motivou bastante então não só a faculdade. (ANA)

As mulheres que moram em Salvador não sentem tanta diferença e não falam de um
retorno para Salvador só se fosse para irem para algo melhor, o que não se repete com as
mulheres que moram no interior por ser um ambiente diferente do que estão habituadas, sem
contar que em algumas delas a vontade é de voltar e fazer a diferença em suas cidades
observa-se que o anseio por voltar é mais forte nessas mulheres e que devido às diferenças do
ambiente globalizado em São Paulo, a migração é temporária.

Ainda assim, alguns pontos da cultura em São Paulo como a competitividade, a


pontualidade são expressos como um fator importante.

Outra coisa que eu gostei também é da competitividade porque aqui ensina você a ser
competitivo, ensina você a ser bom aqui você tem que ser bom de verdade, enquanto
lá na Bahia se eu falar pro professor hoje: “Ai professor hoje eu não vou porque está
muito frio” ele me diz: “Então tá bom Juliana tu fica em casa e manda a atividade por
e-mail.” Aqui não, aqui você tem que ir por que você tem que estudar porque o
concorrente está te esperando, então assim neste aspecto eu gostei, e aqui tem horário
certo, você marcou oito horas são oito horas, entendeu? (GIOVANA)

O conhecimento e o ingresso no ensino superior foram incentivados pela família na


maioria dos casos, é uma forma de conseguir um status quo mais elevado além de pode
proporcionar melhores condições para si e para os que estão no entorno, esta motivação foi
expressas em diversas entrevistas no decorrer das entrevistas, ou seja, em muitas delas há o
desejo de mudar o cenário, sejam em relação ao Nordeste, nas questões de gênero e nas
vulnerabilidades sociais.
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4. O PAPEL SOCIAL DA MULHER

Sassaki (1997) aborda as dominações de gênero a partir das construções coletivas, que
acarretaram na dominação de um sexo sobre outro e que a classe é um fator indissociável
quando se pensa a questão de gênero. Letelier (1997) complementa que com os históricos das
ditaduras militares na América Latina, o período em que ocorreram as lutas pela retomada da
democracia foi um estopim para viabilizar a individualidade.

Segundo Brant (1989) após o período pós-guerra as mulheres começaram a ocupar


mais espaço no mercado de trabalho, mas elas possuíam menos estudos que os homens, o que
também é um fato extenuante.

“a participação crescente das mulheres na forca de trabalho tem contribuído para


reduzir a renda da população como um todo. Nas empresas em que as mulheres são
levadas a substituir homens, quase sempre ganham menos do que estes. E quando uma
profissão inteira se feminiza, como ocorre, por exemplo, com a professora primária, o
seu nível de ganho cai drasticamente.” (BRANT, 1989. p.53).

Ou seja, mesmo com a vigência do capitalismo e a oportunidade das mulheres


ingressarem no mercado de trabalho e ter poder sobre si, as condições eram bem reclusas,
para Pudenzi (2015) essa estrutura seguia os valores da sociedade que tinha como pilar o
patriarcado, na qual a personalidade feminina devida submissão à masculina.

Entre os relatos de algumas das entrevistadas pode-se notar que muitas dessas
estruturas patriarcais se mantém entre os avós, e os tios, as gerações anteriores, mas que nas
novas gerações este contexto vem sido transformado, principalmente nas entrevistadas que
moram em cidades grandes como Salvador.

Teve um dia que nós estávamos em casa e eu estava mexendo no Instagram e tinha
uma atriz que havia interpretado uma cena de estupro e um homem foi na página dela
dizendo que tinha sentido tesão na hora, que se fosse ele, ele teria pego ela, na hora eu
virei para os meus irmãos e falei: “olha que cara escroto, vejam o que ele comentou” e
eles ficaram bem bravos também, e eu fico feliz porque dentro da minha casa nós
temos essa consciência que infelizmente muitas mulheres não têm em suas famílias.
(ILANA).
33

Algumas delas mostram que em suas famílias a pratica de hábitos machistas são
repudiadas. Mas há alguns relatos entre as que moram mais em áreas interioranas tem essa
estrutura em gerações anteriores e algumas práticas continuam sendo repassadas e por isso
alguns hábitos machistas são mais difíceis de serem percebidos como tal.

Hoje é diferente a mulher consegue deixar o filho na creche e ir trabalhar, lutar por
seus direitos. Sobre o feminismo eu tomei aquele choque eu falei: “nossa, elas brigam
mesmo” pra ter os seus direito pra nenhum homem tocar de forma errada nela, como
que eu queria que na Bahia fosse assim. Na Bahia não é assim, infelizmente, só se
agora que eu vou voltar lá e vou ver como tá, mais na Bahia é assim o homem tem que
ter mais e a mulher tem que ter menos, porque aí o homem manda na mulher. Aqui em
São Paulo não, aqui é pau a pau. O homem tem e a mulher também tem, tem não só de
financeiro mais o poder da fala, o poder de ser quem ela é, de vestir a roupa que ela
quiser. Na minha casa é um sofrimento, só a mulher que tem que fazer, é horrível só a
mulher, mais graças a Deus que agora está outra ideia de mundo para os meus primos
e meus sobrinhos assim eles irão agir de outra forma, tipo eu sou a única mulher da
família, dos meus primos então eu que tinha que lavar os pratos, eu que tinha que
varrer a casa, eu que tinha que fazer tudo. Na minha família eu não vejo eles dizendo
ao meu primo: “vai lavar o prato que você sujou”, é aquela mentalidade ainda. Mas
você vai me perguntar: “Giovana, mas eles não são formados não?” São tudo
professores, que ensina em faculdade, mais é aquela mentalidade. Primo é pra
namorar, trazer as meninas, sabe aquela visão de macho, que o homem é pra pegar a
mulher, então, estou esculhambando né? Mais eu tenho que falar a realidade e isto tem
que mudar, eu não sei se aqui é assim deve ter né? Mulher sofre. (GIOVANA).

Então dependendo do contexto familiar que estão isto influência significativamente em


seu juízo de valores em determinadas situações, mas com as novas relações vivenciadas, as
novas gerações de mulheres percebem que o papel da mulher em subordinação ao homem não
é algo natural, mas sim uma construção histórica que necessita de reparos. No caso da
entrevista acima a Giovana relata que em São Paulo foi um impacto ver como as mulheres
lutavam pelo seu direito.

As mulheres através da recriação do seu cotidiano vivenciam modificações no


comportamento e nos sentimentos que apontam para a desconstrução/reconstrução da
representação feminina e é isso que as impulsiona a buscar novas relações de gênero.
(SOBRAL, 1997. p. 360).

A figura materna também foi sofrendo modificação, algumas mães antes repassavam
alguns hábitos que presenciaram durante sua criação, mas depois de um tempo viram que não
34

era algo bom e passaram a mudar suas atitudes. As entrevistadas contam que presenciavam
alguns hábitos, mas que depois eles foram mudando.

Eu entendo que ela teve uma educação assim (mãe), que era só ela e três homens que
causavam e ela tinha que ficar dentro de casa, limpando, eu tentava entender isso, mas
eu reclamava com ela porque eu achava que ela acabava sendo permissiva com ele
(irmão) de não fazer algumas coisas, que nem, meu pai ajudou meu irmão a dirigir
desde cedo e a mim não, eu aprendi a dirigir na autoescola. (ADRIANA).

Enquanto em outras famílias a visão já era que a mulher podia exercer qualquer função
social, que segundo Sobral (1997) são frutos das rupturas do tecido social que foram
desenvolvidas com o avanço do capitalismo e ocasionaram em cima das relações de gênero.
Então para estas mulheres não havia distinções claras de separação em seu contexto, mas
eram de sua responsabilidade e escolher e traçar o seu próprio caminho.

Eu não acho que tenha mais isto, na minha casa eu nunca tive esta visão por que nunca
foi assim, minha mãe sempre trabalhou fora, sempre, sempre e até assim das minhas
avós elas nunca passaram isso pra gente elas acham não só bom, mas normal que a
gente vai pra faculdade que a gente estude e trabalhe e faça as coisas mesmo e as
pessoas que me relacionavam também não achavam que a mulher tinha que ser
subordinada ao homem, eu acho que eu não conheço uma pessoa que tenha chego e
me dito isto e talvez no interior isto aconteça mais, mas em Salvador não percebo
tanto isto, quer dizer no meu ciclo social. (JÚLIA).

De acordo com Oliveira (2011. p. 75) “é no território que ocorrem as relações sociais,
culturais e de poder, o que lhe imprime um caráter subjetivo, simbólico, ideológico e de
campo de forças.”. Ou seja, quando as mulheres têm relações em que ela não é inferior ao
homem às relações de poder possuem outro caráter subjetivo.

Outro fato que deve ser pensado é que a construção de identidade de uma mulher
branca é diferente de uma mulher negra, devido ao período escravocrata as mulheres negras
trabalhavam para os seus senhores, um mito que se tem era de que a escrava negra trabalhava
apenas nas casas dos seus senhores, mas não, elas trabalhavam na roça também.

Embora as mulheres negras usufruíssem de poucos dos dúbios benefícios da ideologia


da condição das mulheres, é algumas vezes assumido que a típica mulher escrava era
35

serva de casa - cozinheira, criada ou mãe das crianças da “casa grande”. [...]
estereótipos que presumem capturar a essência do papel da mulher negra durante a
escravatura. Como acontece, a realidade é realmente diametralmente oposta ao mito.
Como a maioria dos escravos homens, as mulheres escravas, na sua maior parte, eram
trabalhadoras do campo. Enquanto uma significante proporção de 11 escravas nas
fronteiras dos estados foram empregadas domésticas, no sul - a real terra da
escravatura – eram predominantemente trabalhadoras agrícolas. (DAVIS, p.10).

Se pensarmos nas formas de empoderamento ela é dada de forma diferente de acordo


com a raça e classe, pois, devido ao histórico da mulher negra ela sempre trabalhou, mas sua
condição laboral está relacionada aos subempregos. Então para uma mulher negra vai além de
se restringir a atividades domésticas e a vida privada.

Aunque la segregación racial está organizada de distinta manera que em épocas


anteriores, ser negra y mujer [...] continúa exponiendo a las mujeres afroamericanas a
ciertas experiencias comunes. Las similares experiencias familiares y laborales así
como nuestra participación en diversas expresiones de la cultura afroamericana hacen
que, en general, las mujeres negras [...] vivan, como grupo, en un mundo diferente al
de las personas que no son negras y mujeres. (COLLINS, p. 103).

As lutas das mulheres negras são outras, a busca pela legitimação de sua história, o
preconceito que existe na sociedade brasileira e que põe a mulher negra em outra condição.

Para mim eu acho que uma mulher nordestina, vindo pra São Paulo e sendo negra teria
um pouco mais de dificuldade. (ANA).

É possível identificar nesta fala que ser negra inclui uma série de dificuldades, e que
isto é facilmente reconhecido, até mesmo por conta da herança colonial que o Brasil possui, e
por ser um dos últimos países a assinarem a abolição há ainda a identificação do homem
branco como alguém superior ao homem negro.

Algo que mudou em mim foi minha consciência racial, de ver que eu era negra de
verdade, no sentido de refletir sobre isso, porque eu sabia mais eu não refletia sobre
isso eu acho que talvez isso tenha ficado mais forte. Que nem na geografia não tem
nenhuma professora negra então já é uma forma de você sofrer racismo institucional,
você vê um programa de aula e não ter nenhum autor negro, exceto o Milton Santos.
Tivemos uma matéria sobre o nordeste e a população negra não foi citada, nem a
36

indígena, o nordeste que é a onde tem mais população negra do Brasil em


porcentagem, outro exemplo, a gente teve uma matéria sobre o oeste paulista e tem
vários quilombos, não só negros, mas indígenas também e eles não são nem citados,
então nesse sentido já é sofrer racismo, a minha pesquisa foi sobre territórios negros
na Colômbia, e não tem ninguém pra te orientar, ninguém sabe sobre o tema, é solidão
nesse sentido, se não fosse os coletivos, meus amigos, você querer ir atrás, não rola. A
USP tem toda uma estrutura que faz com que você não queira estudar essas narrativas,
têm, mais é apagada, então se for pensar de uma forma epistêmica essas narrativas são
apagadas. Eu lembro uma vez que falando sobre questões Nordestinas e na geografia
é muito difícil falar sobre identidade por que é bem forte o Marxismo ortodoxo então
o Marx ele fala como se a sua identidade fossem diluídas e não fosse só uma questão,
mas que são à parte é como se só economia ditasse e ai eu lembro que eu questionei
isso dentro de sala de aula e eu disse: “se minha mãe, nordestina, negra, pobre
soubesse que o fato dela ser pobre não é porque ela não trabalhou, não é porque os
avós dela não trabalharam, mas é por uma questão histórica, se ela pudesse ver lá atrás
que todos os meus ancestrais foram escravizados e que tem uma estrutura que fez com
que a gente fosse pobre, se ela aprendesse isso talvez ela não teria se culpado tanto
durante a vida dela e tivesse buscado outros caminhos” e aí ele falou que não e tentou
deslegitimar meus argumentos, entender a identidade nesse sentido, de se conhecer,
conhecer o passado e a partir disso ser empoderada, o processo é bem difícil porque
apesar da democracia racial ser um mito, até mesmo porque você um professor que
tem mestrado, doutorado ele não vai ficar pensando nessas coisas porque ele é cheio
de privilégios e ele vive outra realidade então é aquele racismo institucional também,
e quando você traz essa questão de identidade racial você acaba mexendo com esses
privilégios e se torna uma luta política, é minha opinião. (LARISSA).

Como podemos ver acima o papel social das mulheres negra são bem diferentes das
mulheres brancas, principalmente porque as mulheres negras sempre tiveram que trabalhar em
quanto o papel das mulheres brancas era restrito ao lar e cuidar dos filhos, até mesmo no
processo de aceitação de serem negra elas passam por diversas fases nesse processo da
construção, entendendo que ser negra inclui uma série de fatores sociais.

Para Carneiro (1995) os negros são reféns desta dinâmica social, e mesmo que alguns
tenham privilégios eles não possuem relevância politica ou econômica, pois, é uma parcela
descartável da sociedade. Entender essa dinâmica e trazer reparações históricas para as
mulheres negras é muito importante.

Identificar o potencial libertador no seio das comunidades de mulheres negras que


emerge de experiências históricas concretas é bastante diferente de afirmar que as
mulheres negras já chegaram a um ponto final e ideal “mulherista”. Recusar-se a
distinguir cuidadosamente entre esses dois significados colapsa o real histórico e o
ideal futuro em uma posição privilegiada para as mulheres afro-americanas no
presente. Tomar essa posição é reminiscente da resposta de algumas mulheres negras
à agenda feminista branca reconhecidamente limitada da década de 1970. Essas
mulheres negras proclamaram que elas já eram “liberadas", enquanto na realidade,
isso estava longe de ser a verdade. (COLLINS, 2017. p. 11).
37

E ter mulheres negras que entendem a sua posição no cenário atual e se envolve na
vida pública, em especial nos movimentos sociais elas propiciam que outras mulheres se
sintam representadas e passam a entender as suas lutas, como foi o caso de uma das
entrevistadas que não se sentia representada pelo movimento “feminista branco”, mas quando
conheceu o “feminismo negro” ela se sentiu representada e se engajou no movimento.

Eu não me via parte dos movimentos porque minha avó e a minha mãe sempre
trabalhou, porque nós somos mulheres, mas nós somos diversas e nós viemos de
realidade totalmente diferente então quando eu vim para cá e me deparei com o
feminismo eu não conseguia me ver nele, porque era um feminismo mais de classe
média, alta, de mulheres brancas, então não conseguia me ver, eu não me sentia
representava, se não eu teria que me “embranquecer” mais ainda e não seria a minha
realidade, mas quando eu vi o feminismo negro aí sim eu me senti representada, os
coletivos me ajudaram muito. (LARISSA).

Como aponta Collins (2017) quando a mulher negra se envolve com o movimento
feminista ela consegue se engajar nas questões relacionadas à sua etnia, ocasionando uma
globalização dos direitos para todas as mulheres, não o restringindo apenas a uma raça, pois,
questões emergentes das mulheres negras começam a surgir e a serem debatidas buscando
reparos históricos.

5. HÁBITOS E PRÁTICAS DE LAZER

Em sua definição clássica, Dumazedier (1980) propõe uma teoria denominada de


3D’s, sendo eles: descanso, divertimento e desenvolvimento; logo o lazer não deve estar
presente na vida das pessoas apenas por ser um direito, mas também pela sua relevância,
proporcionando o bem-estar e o desenvolvimento para cada indivíduo. O termo “interesse” é
concebido por Dumazedier (1980, p.110) como o “conhecimento que está enraizado na
sensibilidade, na cultura vivida”. Segundo a classificação deste autor, as categorias são
divididas de acordo com o predomínio em suas atividades. Ele divide o conteúdo do lazer em
cinco categorias: os interesses físicos ou associativos, artísticos, práticos ou manuais,
intelectuais, sociais. Mais recentemente foram propostos e adicionados outros dois conteúdos
culturais do lazer, a saber: interesses turísticos (CAMARGO, 2003) e interesses virtuais
(SCHWARTZ, 2003).
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Há barreiras que limitam ou impossibilitam o acesso ao lazer, por uma determinada


parcela da população. Marcellino (2006) cita a classe, o nível de instrução, a faixa etária, o
gênero, a dificuldade de acesso aos espaços, à falta de divulgação e de políticas públicas entre
outros fatores, inclusive os de ordem cultural, como os estereótipos, por exemplo, como
barreiras que limitam a vivência do lazer no espaço urbano. Esses fatores contribuem para a
formação de dois processos: o de “enclausuramento” levando as pessoas cada vez mais há
usufruir seu tempo no ambiente doméstico ou o de mercantilização do lazer. Algumas
entrevistas relataram que a falta de recurso, dificulta nas práticas de lazer.

“Aqui tem muita opção de lazer, eu só não tenho dinheiro pra fazer. Eu faço aulas de
dança de ventre na EACH (ILANA).”

As atividades que não possuem valores são de fácil acesso para algumas entrevistadas
e isto contribui para a prática do lazer.

“O que atrapalha um pouco a prática disto são as questões financeiras por que às vezes
você vai em algum restaurante e alguém te olha torto ou você entra em uma loja mais
cara e o vendedor pensa que você não vai ter dinheiro pra comprar, mais na Bahia eu
me sinto mais em casa do que aqui lá e mais livre é como estar em casa é tirar o
chinelo sabe, ficar a vontade, então lá eu não tenho essa visão mais aqui em São
Paulo, você tem que selecionar os lugares que você vai. (SARA).”

Então para algumas entrevistadas as questões financeiras podem ser uma barreira no
acesso ao lazer, não que por conta disto ela os deixa de praticar, mas tem certas atividades que
não são praticadas sempre e que para realizarem elas verificam se terão condições para
determinada prática.

Nesse sentido, Marcellino (2011) afirma que se o lazer é colocado pela sociedade
capitalista como um momento de consumo, o espaço para ele também é visto como um
espaço para o consumo. Assim os equipamentos de lazer, os espaços de convívio também
seguem uma tendência à privatização. Sob este entendimento, o lazer passa então a ser
vivenciado pela grande maioria como um produto, mercadoria ou mero entretenimento, que
promove distração, aliena e recupera a força de trabalho, fazendo com que os indivíduos
percam seu entendimento enquanto um direito social. Diante dessa perspectiva, se faz
39

necessária “uma educação para o lazer que possibilite aos indivíduos maior autonomia no uso
de seu tempo liberado das obrigações, de modo que não se limitem a corresponder às
expectativas da indústria cultural” (Andrade; Marcellino, 2011, p.15).

É necessário refletir sobre a oferta de espaços e serviços de lazer e para quem eles se
destinam. As ações da iniciativa privada vêm se constituindo como uma das principais
alternativas para tais vivências e o espaço de lazer nas cidades são fatores que tornam o
acesso ao lazer restrito às camadas sociais mais privilegiadas economicamente.

Segundo Marcellino (2006), o lazer atualmente é conhecido como uma problemática


tipicamente urbana e o espaço para o lazer é o espaço urbano. Democratizar o lazer implica
democratizar o espaço. Se procedermos à relação lazer/espaço urbano, verifica-se uma série
de descompassos. A ação predatória, motivada pelos interesses imediatistas, ocasiona
problemas muito sérios, que afetam a qualidade de vida e o lazer das populações,
contribuindo com a violência e a falta de segurança, inclusive.

Entre as entrevistadas as três categorias que mais apareceram foi o social, o cultural, e
os interesses turísticos, muitas delas afirmaram o gosto pela leitura e que em suas horas livres
dedicavam parte do tempo a isto, além de comentarem sobre seus desejos por conhecer outros
estados e países.

Eu amo viajar e a minha meta a partir do segundo semestre é viajar um pouco mais,
acho que a gente precisa se permitir, a gente sempre diz: “não tenho tempo, não tenho
dinheiro” minha mãe sempre falava: “você tem sim, só não consegue porque você não
faz disso sua prioridade” e é verdade, eu quero muito conhecer o litoral brasileiro.
(MÔNICA).

Com isto podemos considerar que muitas práticas de lazer culminam no


desenvolvimento e no aprendizado das pessoas, a possibilidade se ter educação pelo lazer
torna essas atividades mais significativas. Segundo Lombardi (2005), as vivências dos
interesses culturais do lazer podem contribuir para a formação do homem integral crítico e
criativo. Apesar de o lazer ser um direito social (BRASIL, 1988), infelizmente muitas pessoas
não tem completo acesso ao mesmo, isso se dá principalmente pelo fato do lazer ser na
maioria das vezes visto como uma mercadoria. De acordo com Barros (2006, p.05)
“atualmente, o lazer é muito explorado de modo a gerar lucros e diversão, sem qualquer
40

preocupação com o desenvolvimento do ser humano na busca de valores importantes para sua
própria sobrevivência e melhoria da qualidade de vida”.

Oito das nove entrevistadas apontaram o interesse cultural como uma prática assídua
de lazer, conhecer lugares novos, culturas e ler livros, são as formas em que elas desenvolvem
este interesse. Como apontado acima este interesse corrobora para o pensamento crítico e a
formação individual, então ele auxilia como um pilar no desenvolvimento social além de
tornar as mulheres mais críticas em relação às estruturas e pensamentos desenvolvidos pela
sociedade vigente.

6. A RELEVÂNCIA DAS UNIVERSIDADES NA CONSTRUÇÃO DA MULHER

Como aponta Santos (2014) nos séculos passados as mulheres não frequentavam
escolas ou universidades, as mesmas eram ensinadas nos lares e todo o ensino era voltado
para instruir em práticas do lar. No período monárquico como relata Pudenzi (2015) alguns
grupos de mulheres reivindicaram o direito a educação e em primeiro momento conseguiram
o ensino até o 1 grau, foi apenas em 1881 que se registrou o ingresso de uma mulher no
ensino superior, mas, essas conquistas eram restringidas as mulheres de classe alta.

Essas mudanças sociais se intensificaram ainda mais com o advento do século XX, as
guerras passaram a demandar novas necessidades para a sociedade, às mulheres tiveram a
oportunidade de ingressar em outras áreas da sociedade que não fossem relacionadas ao lar.

“Durante a segunda guerra mundial, os homens válidos partiram para as trincheiras.


Ficaram as mulheres na retaguarda e disposta a exercerem o ofício desses homens nas
fabricas, nos escritórios, nas universidades, enfim, as mulheres foram a luta (...) a
pátria em perigo abrindo seus espaços, inclusive em atividades paralelas a guerras,
desafios arriscados que enfrentaram com coragem de assumir responsabilidades até
então só exigidas ao primeiro sexo.” (TELLES, 2008. p.669).

A mulher passa a lutar pelo direito a vida pública, pois até então ela era restringida
apenas a vida privada, pois apenas o homem podia ocupar a condição de atuar livremente na
esfera pública.
41

“A esfera da polis, ao contrário, era a esfera da liberdade, e se havia uma relação entre
essas duas esferas era que a vitória sobre as necessidades da família constituía a
condição natural para a liberdade na polis.” (ARENDT, 1989, p. 40).

As relações de poder são atribuídas de acordo com as necessidades sociais do grupo,


se aquela sociedade vê o homem como superior a qualquer outro gênero, então quando nasce
uma mulher ela já está predestinada a assumir papeis que estão vigentes em seu ciclo social.

“É possível afirmar que os papéis designados a homens, ou às mulheres, não são


atribuições naturais ou biológicas, mas sim construídos de acordo com as necessidades
socioeconômicas de cada sociedade. Isso pode ser comprovado através de relatos de
uma sociedade matriarcal, anterior à origem da propriedade privada, na qual mulher
detinha o poder, dominava as relações, sendo o homem submisso a ela, uma vez que
se acreditava que esta (a mulher) era a única detentora dos meios de reprodução, e por
este motivo se acreditava que possuísse algum poder divino e sagrado, merecendo o
respeito do homem.” (PEDRO; GUEDES, 2010. p.3).

Enquanto que para algumas sociedades a mulher ser genitora é algo sagrado em outras
sociedades ser genitora definirá quem ela será, ela será mãe; esposa; filha; viúva; dona do lar;
a ela esses papéis eram os que lhe cabiam.

“A associação da figura feminina aos atributos de maternidade não é recente, mas


edificada no imaginário e na constituição de todas as civilizações, nas mais variadas
épocas, culturas e classes sociais. Esse imaginário é fortemente impregnado de valores
culturais e religiosos que produzem o emblema do feminino no espaço indivisível,
permeado pelas relações de poder, que se estende da família à sociedade.”
(ALMEIDA; SOARES, 2012. P558).

Surgem então alguns movimentos a fim de combaterem estes estereótipos que durante
anos foram base na sociedade, às mulheres passaram a requerer seu direito à vida pública, e o
direito sobre seu próprio corpo. Na academia as construções destes diálogos são viabilizados,
como aponta Letelier (1997) é na academia que ocorre a validação da categoria de gênero.

“O conceito de gênero remete a um conjunto de práticas sociais que criam assimetrias


entre o que é entendido como feminino ou como masculino, além de estabelecer
parâmetros para as percepções e avaliações que as pessoas têm de si mesmas e dos
outros.” (ASSUMPÇÃO, 2016. p.9).
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As lutas vêm para que a mulher possa se emancipar socialmente, entre as entrevistadas
grande parte veio em busca de um ensino superior com mais reconhecimento para que com
isto obtivessem condições melhores ao decorrer de suas vidas.

“No sonho da educação, da ida a escola, da conquista de um diploma, está à vontade


de melhoria, de ascensão, mas esta escondido, também, o desejo de poder mudar a
vida, a possibilidade de romper com a mera repetição e projetar-se como um ser
diferente do que lhe foi imposto pela realidade social que engendrou como um
destituído, que não pode ter necessidades ou acréscimos.” (SPOSITO, 1988. p.17).

Em algumas falas vemos o desejo de querer mudar a realidade que foi vivida, uma das
entrevistas diz que ser nordestina e mulher muitas vezes isto remete às pessoas que esta classe
está ligada aos subempregos.

Antes da faculdade eu queria trabalhar e estudar para eu pudesse sair da questão do


subemprego, não que isso seja um problema, se a pessoa tá feliz com o subemprego e
gosta, tudo bem aí não tem problema, a minha mãe foi empregada doméstica a vida
inteira isso não foi problema, eu não tinha vergonha dela ser empregada doméstica ou
do meu pai ser trabalhador rural mas eu queria estudar, fazer a faculdade para que eu
não precisasse ser, eu queria ser diferente, queria ser vista de outra forma e aí depois
que entrei na faculdade, consegui ver que a faculdade é bom, vale apenas fazer se eu
realmente gosto daquele curso, mas não para que eu seja diferente das outras pessoas,
ser diferente dos meus pais, mas porque você gosta de se envolver com aquilo, depois
que eu fiz o curso, minha visão mudou e sem contar que possibilitou ter uma questão
financeira melhor. (MÔNICA).

Ou seja, o ensino e a qualificação propiciam uma melhor colocação no mercado de


trabalho e faz com que as pessoas sejam reconhecidas de outra forma, isto é perceptível
quando elas compartilham com amigos ou familiares que estão morando em São Paulo, este
ciclo social associam a uma visão de que elas estão em outro nível, automaticamente as
pessoas remetem isto a ter melhores condições financeiras, quando o fator estudo é agregado,
a separação de classe fica ainda mais latente. E em alguns casos elas não compartilham que
estudam com receio da maneira com que as pessoas irão reagir.

“E quando digo que faço USP as pessoas me olham diferente, eu até evito, minha mãe
diz: “não é pra vestir blusa da USP aqui não porque senão vão pensar que você tá
tirando onda”, mas quando a gente é a gente não precisa tirar onda, mais assim eu
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evito de usar justamente por que as pessoas acham que eu to tirando onda. E eu evito
também falar, eu estudo na USP quando eu to lá, eu falo estudo em São Paulo, eu não
gosto muito de falar por que é um choque muito grande quando você diz, eu estudo na
USP. Eu fui pra uma entrevista e eu fui falar pra coordenadora que eu era orientanda
do Panosso ai ela: “Oh, orientanda do Panosso, meu Deus que massa”, isso aqui em
São Paulo, agora tu imagina lá no interior.” (GIOAVANA).

No caso estas falas aparecem em mulheres que moravam no interior da Bahia, e


conforme relatos percebe-se que estudar na USP é alcançar uma realidade inatingível para
muitos então falar que faz esta universidade traz um ar de superioridade e distinção entre os
que moram onde elas moravam, então elas acabam evitando dizer o nome da instituição de
ensino em que estão.

“Eu tento não falar que eu faço faculdade porque quando que você fala parece que
muda, por exemplo, você diz que faz USP aí à pessoa já olha assim né, e eu gosto
muito de ser tratado como igual, eu vim de Juazeiro da periferia da Bahia e aí eu
chego lá e falo: “eu vim da USP” só o fato de você falar que vem de São Paulo já é
um peso, então é bem bizarro e eu prefiro não falar nada.” (LARISSA).

É notório perceber nestes trechos que ao remetesse a faculdade é como se os outros


que não possuem este contexto fizessem uma diferenciação automaticamente, e isto as
classifica em outras posições e por mais que o ensino superior te coloque em uma classe
diferenciada, elas não se apropriam do titulo em suas regiões oriundas para que o grupo não
perca a identificação com elas, mas, outras entrevistadas não veem problemas em
compartilhar e às vezes acham até legal, porque as pessoas passam a ter mais confiança e
passam a perguntar a ela sobre alguns assuntos voltados para o que elas estudam.

Depois que entrei na faculdade eu me sinto um Google por que tudo eles vem
perguntar pra mim como se eu soubesse além do direito e sobre todas as outras coisas.
Qualquer dúvida as pessoas vão lá e perguntam vê um futuro na gente. Tanto é que
“Sara se forma logo, por que a gente precisa de um advogado na família”. (SARA).

Mas também pode ser um uso de valor utilizado para trazer empoderamento para a
família, ensinando coisas das quais aprenderam na faculdade e instrui-los para que saiam da
condição de leigo, foi possível analisar durante os relatos que tem esse ensejo por ensinar o
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que aprenderam para que algumas visões estereotipadas sejam mudadas, com isso o papel
delas se alteram a universidade traz essa alteridade pois, antes elas recebiam conhecimento
dos seus familiares, mas, agora elas passam a ensinar coisas novas e a quebrar algumas
barreiras que existem em seus ciclos sociais.

Quando elas contam um pouco sobre como é viver em São Paulo, especialmente as
que vieram sozinhas, elas trazem consigo a palavra “liberdade”, elas expressam que após
terem vindo para São Paulo elas se sentem livres, esse sentimento de liberdade pode ser
ocasionado devido ao enfraquecimento das relações de poder exercidas por suas redes sociais.

Poder e visibilidade são construtos históricos, determinados na e pelas relações sociais


vista econômico, político e cultural que incidem na vida cotidiana dos indivíduos e
estruturam valores, modos de pensar, de ser e agir. Ou seja, trata-se não apenas de
reconhecer quem tem poder e visibilidade, mas em quais condições materiais foram
alicerçados e são efetivados. As relações de gênero são construídas historicamente,
sendo fundamental analisar como estão estruturadas as relações sociais, considerando
o processo dinâmico dos indivíduos se relacionarem entre si. É no movimento entre as
determinações socioestruturais, as conquistas culturais e as iniciativas dos indivíduos
em sua singularidade que se definem formas de ser e agir quanto às relações de gênero
(SANTOS; OLIVEIRA, 2010. p. 12)

Sem a rede de relacionamentos que elas possuíam por perto, os seus desejos passam a
ser influenciados apenas por suas escolhas, dependendo das relações que mantém.

Ah e hoje eu tenho liberdade eu moro sozinha posso levar quem eu quiser pra minha
casa, eu posso ficar com quem eu quiser, eu posso comer o que eu quiser, porque até
pra comida que nem beber manga com leite não podia. Agora eu comentei até pro meu
professor parece que eu estou vivendo a minha adolescência aqui em São Paulo. O
que eu não vivi lá, por eu ser presa, por minha família ser assim, ser muito rígida eu
estou vivendo tipo minha adolescência e não a fase adulta, curtindo ainda pra depois ir
pra adulta. (GIOVANA)

Morar sozinha ou longe de pessoas conhecidas representa em alguns casos a sensação


de liberdade, o que vem agregado à tomada de decisões por si própria, não tendo que ter
alguém ao lado dizendo o que e como deve ser feito.
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E estar longe proporcionar isso, porque quando você tá em cidade pequena todo
mundo conhece todo mundo, e tem aquela questão de eu não vou fazer isso porque as
pessoas vão falar e criticar então tem esse medo, aqui em São Paulo não tem isso, os
meus vizinhos onde eu moro, eu só conheço acho que 3 ou 4 vizinhos, então aqui não
tem muito isso, você pode fazer o que você quiser, ninguém se importa, então tem
mais essa liberdade, é bom. (MÔNICA)

É possível notar o quanto o convívio do ciclo social interfere na tomada de decisões


porque se pode perceber que algumas vezes quando estavam neste meio era necessário abrir
mão de coisas que elas gostariam de fazer, mas por conta do que os outros iam falar optavam
por deixar de lado, para conviver em harmonia.

Aqui em São Paulo eu me sinto mais livre, lá meu pai queria fazer tudo para gente e
aqui eu não tenho isso, eu posso ir fazer eu mesma, e muitas vezes eu ficava no ônibus
pensando: “nossa, eu tô sozinha” no dia a dia você está se virando sozinha você, eu
tenho a minha família, mas se alguma coisa me acontecer em São Paulo, eu tô
sozinha, lá na minha cidade não, às vezes eu penso: “nossa o que que eu tô fazendo
aqui?” às vezes dá umas crises existenciais que eu não conheço muita coisa e eu olho
e falo: “meu São João eu nunca imaginei que ia ser dessa maneira” mas aqui eu me
sinto mais eu, sinto que eu cresci nesse sentido, me sinto muito mais independente.
(INGRID).

É possível observar que nos contextos onde não se tem tanta liberdade de expressão,
ou por estar rodeada das diversas informações e opiniões daqueles que as cercam, estar longe
de casa é não se preocupar com o que vão pensar e dizer e consequentemente a sensação de
liberdade aparece, porque antes algumas delas sempre tinham alguém por perto para as
auxiliarem nas suas tomadas de decisão, mas estar em outro lugar e sem muito conhecidos e
família por perto deixam as mais livres de diversos estereótipos.

Porém quando as redes sociais não tinham este papel de domínio às mulheres não se
sentiam mais livres por estar longe de casa, porque elas já possuíam isto antes de vir a São
Paulo, a forma com que a rede influencia na construção da identidade da mulher define muitas
vezes como ela se vê perante a sociedade.

Eu sempre tive liberdade, nunca me senti presa em casa, eu falava para minha mãe
aonde eu ia e ela falava que tá bom, eu fico muito triste com tantas mortes de
mulheres, eu tenho uma visão aberta de fazer o que eu quero porque a vida é minha, e
eu sempre me coloco no lugar do outro acho que é por conta da minha mãe, ela foi
sempre presente nisso. (ILANA)
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Com isso as construções de uma mulher que não se preocupava tanto com a opinião do
seu ciclo social são diferentes de uma que não sabia como se desvencilhar sem magoar
aqueles a quem amava, e sensação de liberdade pode já existir ou aparecer de outra forma.
Também há outros fatores que contribuem para a emancipação social da mulher, algumas
retratam as viagens de intercâmbio, o ensino médio, que foram fatores que as marcaram e
contribuíram para parte da visão que possuem nos dias de hoje.

Eu passei 10 meses na Índia, lá eu fiquei em casa de família e foi incrível, eu fiz o 2º


ano do ensino médio lá, é muito diferente foi meio louco, tem muita coisa diferente,
eu sou muito apaixonada por lá, tem muita coisa ruim mais também tem muita coisa
boa, tem aquilo que você olha e pensa: nossa eu nunca vi isto na minha vida, o que
você não imagina ai tem lá, casamento arranjado tem mesmo tipo escrachado. Essa
questão da mulher lá é bem escrachado, que nem essa questão de mexer lá eles
encaram muito, eles não falam, mas, olham muito e encaram e isto incomoda tem um
vagão só para a mulher por que tem bastante coisa disso, então eles tem noção e é
horrível e tem horas que você se sente bem inútil ainda mais estando em outro País.
(ANA).

Conhecer novas culturas e vivenciar diferentes realidades auxilia na construção do


pensamento critico e permite a abertura para alguns debates de hábitos e costumes que
incomodam, mas que até então eram corriqueiros e tidos como normais.

Minha mãe sempre fala que eu sempre questionava as coisas e quando eu conheci
alguns movimentos entendi na prática o que era a divisão de classes, o meu ensino
médio foi o que mais me marcou o Instituto Federal ele quer preparar o técnico, mas
graças a Deus você encontra professores que te preparam para a vida, te constrói como
indivíduo, o ensino ele foi muito mais de qualidade então pra eu entrar na faculdade
não foi nada de novo. (INGRID).

A ida há um intercambio contribui significativamente na vida dessas mulheres, pois,


elas passam a ter novas visões e perspectiva de diversos outros assuntos e temas, e assim ir
desenvolvendo sua personalidade com outras interações, e o intercambio contribui nas
interações com a universidade de forma ativa.

A faculdade contribui com estas construções que foram ocorrendo ao longo da vida
enquanto “ser mulher” e propicia uma visão mais humanista sobre diversos assuntos
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cotidianos. As entrevistadas relatam estereótipos que tinham e que foram quebrados após
terem contato com a realidade de algumas pessoas que se deparam no decorrer na graduação
ou da pós-graduação, muitos deles ligados a sua condição ou ao assunto em que estão ou
estavam estudando.

A faculdade me deu outros pontos de vista, por exemplo, esta questão mesmo da
minha área ser tipicamente masculina e das mulheres realmente sentirem que não são
capazes de fazer algumas coisas tipo eu nunca senti isto na minha vida então eu nunca
havia parado pra pensar nisto e ai foi quando eu entrei na universidade que eu passei a
ver coisas deste tipo que eu passei a observar as pessoas e ai eu via que isto realmente
existia, por que eu não sentia isto então eu nunca havia parado pra pensar sobre isso,
entendeu? (JÚLIA)

Devido às construções sociais muitos estereótipos foram criados e carregados para


dentro de diversas profissões, mas com a inserção das mulheres em diversas áreas, muitos
estereótipos passaram a ser quebrados dando uma maior visibilidade para algumas mulheres
em determinadas áreas.

Ah a faculdade é um lugar de discussão, na sua casa você não discute com ninguém
sobre assuntos como o feminismo você só aceita e fica quieta, aqui não, se alguém diz
algo e pergunta o porquê você pode tirar suas próprias conclusões e até mesmo entrar
na discussão e isso ajuda só o fato de você estar discutindo já é alguma coisa e isso é
muito bom e passa a mudar a visão de muitas coisas. (ANA).

É através de debates que novos olhares e percepções são gerados, nas discussões das
ideias surgem diversos assuntos que são atuais e pertinentes, então algumas conversas que
talvez muitas delas não encontrar em seus núcleos sociais elas passam a ser encontradas no
ambiente acadêmico.

E eu percebi que eu sempre fui feminista e só não sabia esse nome e aí depois eu
percebi que eu sempre quis essa igualdade com os homens desde criança só que eu
não conseguia expor isso e eu achava um absurdo o tratamento que minha mãe fazia
com meu irmão e comigo. Sabe estudar é uma conquista e dá essa segurança de
conhecer as coisas. A faculdade nos transforma por que daqui algum tempo eu vou
saber passar por algumas situações que talvez eu não conseguiria se eu não tivesse
essa segurança que a faculdade está me dando do conhecimento. (SARA).
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Elas apontam para algumas questões que são estereotipadas e são tabus na sociedade,
mas a universidade as auxiliam a ver outros pontos de vista. Sendo assim, podemos ver que a
faculdade não contribui apenas para mudar a visão que elas têm de si, mas também para
mudar a visão que elas possuem em relação ao outro, é um conjunto de valores que se
agregam e influenciam na construção individual enquanto elas passam pelo ensino superior.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É unânime entre as entrevistadas que quando se pensa no que é ser mulher logo o
termo sofredora e multitarefas aparecem, as lutas, os obstáculos são pensamentos associados
quando se pensa na condição do gênero feminino, independente do construto social. As
mulheres tem buscado alcançar lugares de destaque na sociedade e o ensino abre muitas
portas para que isto ocorra.

Eu não tenho uma definição de ser mulher, eu acredito que eu sou mulher porque eu
assumi o peso, o sofrimento da posição que eu tô, mas não têm uma definição ser
mulher, as mulheres são de todos os jeitos e assumir esse papel é assumir uma luta de
pessoas que passam pelas mesmas coisas que eu e às vezes não são as mesmas, mas
são parecidas e que é pelo mesmo motivo, por me enxergar determinada maneira
então eu assumo isso, eu assumo que eu sou um mulher, lutando por essa causa,
porque às vezes tem mulheres que não estão afim de lutar por isso, mas eu enxergo
que isso vai muito além de mim, eu sinto que sou mulher pelo que eu movimento, pelo
o que eu faço e não pelo o que eu sou. (INGRID).

A questão de ser sofredora pode abranger muitas coisas, mas o que pode ser
constatado nos relatos é às vezes em que tiveram de abrir mão de fazer algo que queriam os
abusos acometidos, ter que se portar de determinada maneira por ser mulher e muitas vezes
não poder escolher por si só, tendo sempre alguém presente para apontar o que deve ser feito.

Pra mim o termo mulher é ser sofredora porque você tem que passar por várias etapas
e várias coisas para as pessoa te aceitarem, seja no profissional ou no relacionamento,
você sempre tem que estar posicionada pra alguém te aceitar então o termo mulher é
no aspecto de sofredora e ao mesmo tempo hoje vencedora porque a gente está
conseguindo mudar um pouquinho essa história né. (GIOVANA).
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A identificação com o gênero feminino isto traz consigo uma série de fatores que já
são impostos socialmente e que aplacam em uma infinidade de posturas e costumes que são
cobrados da mulher, mesmo que o ambiente em que algumas delas vivam não tenha tanta
ocorrência do machismo, ainda assim na sociedade há em muitos lugares a cobrança de
algumas posturas, quando há em casa o machismo pungente a cobrança em relação à mulher é
ainda maior, por isto algumas delas remetem ser mulher com o sofrimento, porque algumas
vezes não podem fazer suas próprias escolhas, ou passam por coisas que não gostariam.

Algumas delas apontaram que buscam se envolverem em projetos que promovam uma
melhora na vida das mulheres, algumas dessas ideias relacionadas à sua área de atuação e
outras relacionadas a problemas sociais.

Na faculdade a gente debate bastante sobre essas coisas, tem o lab das minas não sei
se você conhece que é um grupo de estudantes de iniciação tecnológica e cada uma
tem o seu projeto e elas se ajudam e dão workshops para meninas da rede pública.
(JÚLIA)

Podemos ver que uma forma que essas mulheres encontraram para tentar minimizar os
impactos da desigualdade de gênero a meninas de baixa renda foi se organizando e dando
cursos e desenvolvendo projetos voltados a tecnologia, para meninas que não teriam
condições de aprender de outra forma, com isto pode ver como esses projetos desenvolvidas
através das universidades podem mudar a realidade de algumas dessas meninas.

Eu já tinha muito a questão do gênero forte em mim, entendeu? Mas eu não refletia
tanto a questão de eu ser negra e eu sempre fui muito revoltada, mas com a faculdade
eu aprendi a ser mais ponderada porque eu era muito briguenta, e hoje eu penso mais
em como eu posso promover essa mudança, e não ficar tentando impor algo.
(LARISSA)

A universidade é um lugar de reflexões e debate, o que acontece em alguns casos é


que por terem aprendido de que os ideais devem ser introduzidos a todo custo, isto pode
refletir nas suas interações ao tentar expressar seu ponto de vista, mas como podemos analisar
a universidade contribui para que os diálogos sejam aprendidos e as reflexões sejam
50

repassadas de maneira eficaz, não por imposição, mas de forma que o outro opte compartilhar
ou não da mesma visão.

Para mim, por exemplo, eu vejo e penso que no Brasil inteiro já deveria ter várias
casas de parto e as duas casas que têm estão concentradas em São Paulo e a gente olha
a gestação inteira como doença e por isso que as mulheres acabam indo para o
hospital, mas o hospital não foi feito pra parir, antigamente as mulheres faziam em
casa, então só se for alto risco que você deve procurar um médico, porque aí é um
risco seu e para a criança, mas fora disso não tem necessidade de você ir ao hospital.
Eu quero muito voltar para o Nordeste e abrir uma casa de parto lá, mas eu preciso
conseguir experiência antes aqui em São Paulo para quando eu voltar eu poder fazer
tudo certo. (INGRID).

É possível identificar que na gestação também podem ocorrer diversas violências


contra a mulher, sendo elas físicas ou psíquicas, pois assim como há todo um tabu sobre a
menstruação da mulher, há também diversas práticas durante o período gestacional que coloca
a mulher em uma condição vulnerável, como relatado acima hoje em dia às mulheres são
tratadas como enfermas, o que não acontecia antes, e as casas de parto são uma maneira
desenvolvida por alguns obstetras para diminuírem o numero dessa violência, tratando a
mulher com dignidade e respeito na hora do parto, a entrevistada demonstra seu interesse em
ter experiência e abrir casas de partos no Nordeste já que no Brasil só existem duas e ambas
estão localizadas em São Paulo, são muito os relatos das mulheres que sofreram violência e
criar alternativas para o sistema vigente traz empoderamento para essas mulheres.

Então a gente tem que se colocar no lugar do outro e a faculdade me abriu ainda mais
para as lutas que a galera passa os LGBT, as mulheres, eu gosto de ver o que o outros
estão falando, entender o sofrimento, na minha cidade a gente não tem muito contato
com a galera que tem AIDS e aqui no curso a gente acaba tendo esse contato e eu acho
isso é muito legal. A faculdade proporcionar amizades, experiências e me tornar ainda
mais humana, o feminicídio e o machismo é algo que a gente sempre conversa em
casa, até meus irmãos trazem essa discussão. (ILANA).

Há também a interação com outras pessoas que vivem realidades distintas das quais
elas conhecem, criando novas visões sobre diversos assuntos, e proporcionando entender
outros pontos de vista e quebrar alguns estereótipos que lhes foram repassados.
51

A faculdade contribui para a inserção das mulheres em temas recorrentes e emergentes da


sociedade, o contato com essas questões permitem que as mulheres passem a ver a
necessidade das outras e não apenas se restringir as suas, todas elas relataram que tiveram a
visão mais humanizada após o contato com a graduação, isto se deve ao fator de que a
faculdade está aberta a diversos discursos.

Além de promover o empoderamento dessas mulheres frente ao seu ciclo social, nota-
se que quando se diz que faz faculdade o olhar do outro é diferente, as que fizeram faculdade
pública relatam que a diferenciação é ainda maior.

Mas também tem aquela coisa de que quando você diz que faz faculdade as pessoas te
olham de outra forma, tem um primo meu que falou: “você está fazendo USP, parece
tão distante, mas você está lá.” (INGRID).

A faculdade cria novas possibilidades e traz empoderamento para essas mulheres, elas
passam a ser vistas de outra forma, muitas vezes positivamente, como passar a respeitar e a
ouvir o que elas dizem como retratado durante as entrevistas.

A faculdade abriu muito a minha cabeça eu acho que eu criei uma expectativa também
na minha família por que sempre que eu aprendo algo aqui eu chego na minha família
e “Oh pessoal, isto aqui pode, isto aqui não pode, se acontecer isto tem que fazer isto”
Eu sempre passo pra eles o que eu aprendo pros meus pai pra minha filha, meu pai
estudou até a quarta série e minha mãe terminou o ensino médio mais também pela
questão da empresa ajudado. Sem contar que eu acredito que o nome da faculdade
pode abrir muitas portas pela bagagem no mercado que ela traz, e também quem faz a
faculdade é o aluno porque se ele está ali é porque ele é capacidade mais eu acredito
que o nome FMU te dá uma segurança muito maior. (SARA).

Contribuindo para levarem a outro nível social, sendo vista de uma forma mais
respeitosa. O ensino superior torna-se a promessa de um futuro melhor, quando algumas das
entrevistadas falam sobre estarem fazendo graduação elas demonstram um valor conotativo
muito alto, estar na faculdade é ser diferenciado, é ter escolhido um caminho melhor.

A USP me proporcionou ter contado com muitas pessoas que vieram da mesma
realidade que a minha e eu participei de vários coletivos, de negros, de mulheres e o
que ficou mais forte foi ter tido acesso a várias pessoas e encontrar pessoas que estão
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buscando o mesmo caminho, porque no ensino médio tipo a gente tinha pessoas
comum com a mesma realidade, mas eu sempre gostei muito de estudar e lá as pessoas
não, talvez pela pressão social a galera foi mais pro outro caminho de trabalhar e fazer
uma faculdade particular e isso muda muita coisa, as meninas já casadas, com família
e eu não, parece que estou começando agora (LARISSA).

Ter pessoas que estão com uma visão similar e estão em busca do mesmo objetivo é
uma forma de se sentir em um ambiente seguro onde se podem debater ideias e lutar por
causas que querem estar ativos, quando a Larissa discutia os assuntos à raça trazia algumas
visões dicotomizada das quais ela não partilhava por ser negra, então se não há identificação
com o discurso é difícil para as mulheres se sentirem representada e empoderada.

Eu acho que São Paulo oferece mais opções que o Nordeste, e eu fico muito triste com
isso, a gente precisa de educação e trabalho, você pode entrar numa faculdade para se
qualificar, mas a estrutura do Sudeste é outra em comparação com o Nordeste e nós
ficamos em desvantagens, quando eu estudei em colégio particular nenhum dos meus
amigos vieram para São Paulo, mas eu vim e é uma galera que vive razoavelmente
bem, mas não é uma coisa assim que a população toda vai ter trabalho bom, que não
vai ser explorada, que vai ter carteira assinada, ter expectativa de crescimento ao
longo da vida, muitas serão exploradas, tudo bem que lá é tudo mais barato, mas lá
nós somos muito mais explorados, as fábricas não visam crescerem no nordeste, em
uma cidade vizinha tinha uma fábrica da Azaleia, e o prefeito deu dez anos de isenção
nos imposto, assim que acabou esse período, eles saíram de lá, então não tem como
crescer, eu acho que a gente tem um tendência muito forte de se contentar com o
pouco. Mas se tivesse o trabalho e a educação seria melhor, lá a galera pensa só em
terminar o ensino médio e arrumar um emprego. (ILANA).

Esta identificação também é feita pela divisão de classes e etnia no relato acima se
percebe que as questões étnicas são um fator para causar ainda mais uma segregação no
gênero feminino, já que a relação do nordestino no sudeste muitas vezes está relacionada com
os subempregos, e o ensino superior seria uma forma de mudar isto.

Pois, no ensino superior se tem um espaço para debater ideias e conhecer novos pontos
de vista, a mente se expande e o fato de já ter uma construção de identidade não pautada em
valores patriarcais auxilia no processo de empoderamento da mulher, enquanto que algumas
que tiveram os valores em cima do patriarcado tomam “o primeiro contato” com valores que
não permeiam o patriarcado.
53

Foi aquela infância rígida, até na adolescência e na fase adulta pode-se dizer que
minha vida foi muito rígida e também um dos motivos que eu falei vou estudar pra
USP e vou morar sozinha, eu quero viver só, eu quero fazer o que eu quiser e ninguém
vai estar nem ai pra mim. Ninguém vai ficar me olhando, me colocando dedo, não sei
como vocês falam aqui “fazendo críticas”, minha infância foi muito rígida. [...] Sobre
o feminismo eu tomei aquele choque eu falei: “nossa, elas brigam mesmo” pra ter os
seus direito pra nenhum homem tocar de forma errada nela, como que eu queria que
na Bahia fosse assim. Na Bahia não é assim, infelizmente, só se agora que eu vou
voltar lá e vou ver como tá, mais na Bahia é assim o homem tem que ter mais e a
mulher tem que ter menos, porque aí o homem manda na mulher. Aqui em São Paulo
não, aqui é pau a pau. O homem tem e a mulher também tem, tem não só de financeiro
mais o poder da fala, o poder de ser quem ela é, de vestir a roupa que ela quiser.
(GIOVANA).

Ter contato com outras culturas também pode ter grandes influências sobre as
construções das mulheres que sofreram com hábitos machistas e estereotipados, podendo
passar outras visões das quais não estavam acostumadas a presenciar, contribuindo para trazer
novas reflexões e diálogos.

Pode-se observar que algumas entrevistadas que moravam no interior da Bahia sentia
muito mais o peso dos valores patriarcais enquanto que as mulheres que moravam em cidades
maiores já não tinham mais tanta vivência com alguns valores da sociedade patriarcal, o que
pode ser um valor ocasionado pela globalização.

Sendo assim com base nas análises das entrevistas realizadas compreendemos que os
papéis que as mulheres possuíam antes de chegar à faculdade são de extrema importância e
corroboraram para que elas já chegassem a graduação com uma visão de empoderamento, e a
faculdade permitiu expandir ainda mais seus horizontes, enquanto que aquelas que possuíam
em suas redes sociais o modelo patriarcal seja ele direta ou indiretamente a faculdade
contribui para a desconstrução desses valores e as empoderam frente a sua comunidade e traz
consigo o sentimento de liberdade para ser protagonista de suas próprias decisões.
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