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impossível fazê-lo - a inconstitucionalidade de todas as possíveis interpretações de certo

texto normativo. Por outro lado, a afirmação de que a interpretação conforme à

Constituição e a declaração de inconstitucionalidade são uma e mesma categoria, se

parcialmente correta no plano das Cortes Constitucionais e do Supremo Tribunal

Federal, é de todo inadequada na esfera da jurisdição ordinária, cujas decisões não são

dotadas de força vinculante geral. Ainda que se não possa negar a semelhança dessas

categorias e a proximidade do resultado prático de sua utilização, é certo que, enquanto

na interpretação conforme à Constituição se tem, dogmaticamente, a declaração de que

uma lei é constitucional com a interpretação que lhe é conferida pelo órgão judicial,

constata-se, na declaração de nulidade sem redução de texto, a expressa exclusão, por

inconstitucionalidade, de determinadas hipóteses de aplicação do programa normativo

sem que se produza alteração expressa do texto legal. Assim, se se pretende realçar

que determinada aplicação do texto normativo é inconstitucional, dispõe o Tribunal da

declaração de inconstitucionalidade sem redução de texto, que, além de mostrar-se

tecnicamente adequada para essas situações, tem a virtude de ser dotada de maior

clareza e segurança jurídica, expressas na parte dispositiva da decisão (a lei X é

inconstitucional se aplicável a tal hipótese; a lei Y é inconstitucional se autorizativa da

cobrança do tributo em determinado exercício financeiro)”.

A alternativa “c” está equivocada. Ela define bem as decisões manipulativas de efeitos aditivos.

Segundo Mendes:

“A doutrina italiana considera manipulativa a decisão mediante a qual o órgão de

jurisdição constitucional modifica ou adita normas submetidas a sua apreciação, a fim


de que saiam do juízo constitucional com incidência normativa ou conteúdo distinto do

original, mas concordante com a Constituição. Como anota Roberto Romboli, tratando

das manipulativas, a ‘Corte modifica diretamente a norma posta ao seu exame, através

de decisões que são definidas como ‘autoaplicativas’, a indicar o caráter imediato de

seus efeitos, que prescindem de qualquer sucessiva intervenção parlamentar’. É fácil

ver que se trata de técnica unilateral de supressão da inconstitucionalidade dos atos

normativos”. Entretanto, há sim registros no Brasil do uso da técnica pelo STF. Nesse

sentido: “Acrescente-se que é extremamente difícil excluir tal técnica de decisão de

regimes como o brasileiro e o italiano, onde inexiste um recurso como o de amparo

espanhol ou a Veifassungsbeschwerde alemã, já que em tais circunstâncias as decisões

aditivas tornam-se a via preferencial para a ‘reinterpretação e tutela dos direitos

subjetivos’. Interessante notar que a complexidade de nosso sistema de controle de

constitucionalidade emprestou linhas singulares ao fenômeno das decisões

manipulativas de efeitos aditivos. O STF pôde chegar ao resultado aditivo, inovando o

ordenamento jurídico, tanto por meio das ações do sistema concentrado de controle,

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como nas ações diretas decididas com uso de interpretação conforme com efeitos

aditivos, quanto através dos remédios constitucionais individuais, sendo numerosos os

casos em que, por exemplo, o veículo da pretensão aditiva foi o mandado de injunção.

Em decisão de notável relevância doutrinária para o tema em discussão, o Supremo

Tribunal Federal determinou a aplicação, aos servidores públicos, da Lei n. 7. 783 / 89,

que dispõe sobre o exercício do direito de greve na iniciativa privada, pelo que promoveu
extensão aditiva do âmbito de incidência da norma. Outro caso de extensão do âmbito

subjetivo de incidência da norma ocorreu no julgamento do RMS 22.307, ocasião em

que se discutiu a possibilidade de extensão jurisprudencial da revisão de vencimentos,

em percentual de 28,68%, para alcançar categorias de servidores públicos não

contempladas na lei que disciplinou a revisão. O Supremo Tribunal, por maioria,

entendeu desnecessária lei específica que estendesse a revisão de vencimentos aos

servidores não atingidos e, de plano, determinou o reajuste nas folhas de pagamento”.

Por fim, a alternativa “d” está correta. Segundo Gilmar Mendes:

“Em decisão de 23-3-1994, teve o Supremo Tribunal Federal oportunidade de ampliar a

já complexa tessitura das técnicas de decisão no controle de constitucionalidade,

admitindo que lei que concedia prazo em dobro para a Defensoria Pública era de ser

considerada constitucional enquanto esses órgãos não estivessem devidamente

habilitados ou estruturados. Assim, o Relator, Ministro Sydney Sanches, ressaltou que

a inconstitucionalidade do§ 5° do art. 5° da Lei n. 1.060, de 5-2-1950, acrescentado pela

Lei n. 7.871, de 8-11-1989, não haveria de ser reconhecida, no ponto em que confere

prazo em dobro, para recurso, às Defensorias Públicas, ‘ao menos até que sua

organização, nos Estados, alcance o nível da organização do respectivo Ministério

Público’ (...) Fica evidente, pois, que o Supremo Tribunal deu um passo significativo

rumo à flexibilização das técnicas de decisão no juízo de controle de constitucionalidade,

introduzindo, ao lado da declaração de inconstitucionalidade, o reconhecimento de um

estado imperfeito, insuficiente para justificar a declaração de ilegitimidade da lei”