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SOMOS SOBREVIVENTES DO PDV.

VULNERABILIDADE E RESISTÊNCIA ENTRE EX-SERVIDORES


PEDEVISTAS.
Marcela M. Serrano
UERJ/ CEFET-RJ
Rio de Janeiro/ Brasil.

Resumo

A primeira frase do título deste trabalho reproduz trecho do depoimento de um dos meus dez
entrevistados, todos ex-funcionários públicos federais, que aderiram a um dos três Programas de
Demissão Voluntária (PDVs) lançados na década de 1990 como parte das chamadas “Reformas
Estruturais” (às quais chamarei contra-reforma neoliberal), implementadas durante os dois
mandatos do Presidente FHC. Quase vinte anos após o primeiro PDV, mesmo diante de mudanças,
como o aumento das taxas de emprego formal, a precariedade e vulnerabilidade ainda vincam as
trajetórias desses sujeitos. Sete dos meus entrevistados afirmaram que depois da adesão nunca mais
tiveram emprego formal, vivem de “bicos” (vendem produtos variados, fazem frete, trabalham
como ajudantes de obras, fazem apontamentos do Jogo do Bicho, dentre outras atividades informais
e às vezes ilegais) e garantem que esta situação predomina entre os pedevistas. Muitos, já com
idade avançada e saúde comprometida, não têm sequer a perspectiva da volta ao mercado formal.
Sendo assim, para alguns o engajamento na luta pela reintegração tem tido papel fundamental na
manutenção de sua integridade física e mental. Finalmente, este é o outro lado que pretendo
evidenciar, as estratégias de “sobrevivência”, mecanismos de resistência articulados a fim de
encarar os problemas concretos enfrentados.

(Palavras-chaves: Programas de Demissão Voluntária; Precarização; Vulnerabilidade;


desemprego; resistência)

PRIMEIRAS PALAVRAS: Contextualizando os Programas de Demissão Voluntárias PDVs

Peso e ineficiência do Estado, enxugamento da máquina pública, privatizações, fazem parte


dos chamados Planos de Ajuste Estrutural (PAEs), impostos por organismos internacionais, tais
como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI). Os governos brasileiros eleitos após
o fim da ditadura militar acataram as exigências e implementaram sem maiores restrições a
chamada agenda neoliberal. Na Era FHC foi criado o MARE, Ministério da Administração Pública
e Reforma do Estado, a fim de implementar a reestruturação, da qual fazem parte os Programas de
Desligamento Voluntário (PDVs) que ora analisamos.
Em 1996, ainda no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique Cardoso, através
da Medida Provisória de nº 1530, que resultou na Lei nº 9468/ 1997, foi implementado o primeiro
das três edições de Programas de Desligamento Voluntário (PDVs) da administração direta, os
outros aconteceram em 1999 e 2000, mas foram menos expressivos. Segundo dados do Ministério
do Planejamento Orçamento e Gestão (MPOG), no total, foram 15.003 adesões.
Em 2003 o MOVIMENTO PELA READMISSÃO/ REINTEGRAÇÃO DOS
PEDEVISTAS (MURP) foi fundado; o argumento central era que o governo não havia cumprido
suas promessas, como, por exemplo, a linha de crédito especial no Banco do Brasil ou os cursos
de empreendedorismo que, segundo as cartilhas de esclarecimento, seriam oferecidos pelo
Ministério do Trabalho em parceria com o SEBRAE.
Em 2008 o Deputado Federal (PMDB/ RJ) Leonardo Picciani submeteu à câmara um
Projeto de Lei visando a reintegração dos ex-servidores que aderiram aos PDVs, com base na
seguinte justificativa: “É fato notório que um significativo contingente de ex-servidores federais
que se desligaram do serviço público mediante adesão a programas de desligamento voluntário,
implementados a partir de 1996, encontram-se em situação de penúria”1 (PL 4293/ 2008).
A situação de penúria a que se refere o autor do PL nada mais é do que o processo de
precarização e pauperização a que tais pessoas foram submetidas. Processo este que se inicia antes
mesmo da adesão ao PDV, isto é, ainda na condição de funcionários públicos experimentaram uma
degradação material e moral: anos sem reajuste salarial, o que fez com que muitos se endividassem,
e um processo de depreciação do funcionalismo público, que culmina na campanha de Fernando
Collor para presidência da República em 1989, cujo slogan principal era o de “caça aos marajás”,
generalizando a imagem de ineficiência do funcionário público.
Na presente ocasião teço algumas reflexões acerca de tal situação e sobre as estratégias de
sobrevivência articuladas pelos pedevistas perante a evidente precarização das relações de trabalho.
Para tanto, analiso as dez entrevistas realizadas até aqui (3 mulheres e 7 homens), além dos
documentos oficiais, como a cartilha de esclarecimento sobre o PDV, que em 1999 ao lado da
Redução de Jornada com remuneração proporcional e da Licença Incentivada sem Remuneração,
compôs o chamado “Programa de Gestão de Pessoal”. Como referencial teórico lançarei mão do
quadro elaborado por Pedro Araújo, autor português que, no livro A Tirania do Presente, analisa a
situação de ex-funcionários de uma fábrica de louças fechada recentemente em 2007, em Coimbra,
Portugal.
PRECARIEDADE E VULNERABILIDADE

Em sua pesquisa, Araújo (2007) analisa 13 entrevistas realizadas junto a ex-funcionários da


Estaco, fábrica fechada mediante a crise econômica pela qual aquele país vem passando desde
então. Seus informantes são em sua maioria homens e mulheres de meia-idade, o que significa que
estão longe ainda da aposentadoria e, ao mesmo tempo, considerados "velhos" para os padrões do
mercado de trabalho. As chances de arrumar um novo emprego que ofereça a mesma estabilidade
da Estaco é considerada como nula pela maior parte dos entrevistados, a realidade se restringe,
portanto, às vagas temporárias, contratos precarizados, aos benefícios do Estado e o suporte a rede
familiar. O mercado retraído, devido à crise e ao próprio processo de reestruturação produtiva, e o
Estado incapaz de rearticular políticas de emprego e renda, tornam ralas as expectativas desses
desempregados. Ao contrário dos mais jovens, já não é tão fácil buscar alguma oportunidade em
outra cidade ou até outro país.

A situação vivenciada pelos trabalhadores da Estaco não é uma peculiaridade ou um caso


isolado. Como bem observou István Mészáros, no artigo “Desemprego e Precarização: um grande
desafio para a esquerda” (2006):

"Atualmente, nenhum setor do trabalho está imune à miséria desumana do


desemprego e do 'trabalho temporário' (casualisation). Na verdade o 'trabalho temporário'
é chamado, em algumas línguas, de 'precarização', apesar de, na maioria dos casos, seu
significado ser tendenciosamente deturpado como 'emprego flexível' (...) A questão não é
se o desemprego ou o 'trabalho temporário flexível' vai ameaçar oz trabalhadores
empregados, mas quando estes, forçosamente, vão vivenciar a precarização" (Mészáros,
2006: 27).

Neste artigo, o autor mostra que o desemprego é uma fenômeno global, o que nos dá a
dimensão do impacto desta nova fase de avanço dos lucros do capital sobre o trabalho. No mundo
inteiro há pessoas desempregadas, sem a perspectiva de retornar ao mercado de trabalho, o que as
torna suscetíveis às imposições do mercado de trabalho e pouco resistentes à precarização do
trabalho. Assim, trabalhadores em Portugal vivenciam experiências parecidas com aquelas
vivenciadas por trabalhadores brasileiros, por exemplo, ainda que os desdobramentos destas
transformações no mundo do trabalho sejam diferentes de acordo com a história de cada pais.

Os relatos dos desempregados da Estaco revelam que tal experiência é vivida com muito pesar, o
que se explica pelo fato de representar o desmantelamento de suas certezas, o fim da estabilidade,
a inviabilidade de planejamento futuro é, portanto, como o título do livro diz, submeter-se à tirania
do presente. Tudo isso se torna ainda mais grave quando se trata de sujeitos para quem a ideia de
um "trabalho para a vida toda" é um valor.

Esta realidade apresentada por Araújo em muito se aproxima daquela que vem se
desenhando entre os pedevistas. Mesmo que, a princípio, os pedevistas tenham ingressado nesta
nova experiência voluntariamente - o que, como veremos, deve ser relativizado - em algum
momento, os meus informantes, mais cedo ou mais tarde, também deram falta da estabilidade, dos
vencimentos regularmente depositados em suas contas bancarias - mesmo que estivessem sem
reajustes havia muito tempo - falta de ter um lugar para onde ir diariamente, falta do ambiente, do
meio, dos colegas de trabalho, isto é, falta do pertencimento a algum grupo, a uma categoria para
além da família.

No quadro elaborado por Pedro Araújo, são três os tipos de mediadores de compensação
analisados pelo autor: Estado Social, Redes Sociais e atividades de substituição, atividades em
outros ramos diferentes do trabalho na Estaco, dentre as atividades listadas, mereceu destaque o
trabalho informal na agricultura familiar (notadamente entre os homens) e no cuidado doméstico
(especialmente entre as mulheres). Esta não é uma tarefa fácil, pois muitos não dispõem de recursos
para atender às mudanças no mercado de trabalho ou esbarram na idade avançada. Mesmo com
esforço e investimento pessoal em se requalificar, nem sempre são bem sucedidos uma vez que
esbarram na retração do mercado de trabalho, um fator estrutural.

As redes sociais envolvem, obviamente, a família. Especialmente em Portugal, onde


1
prevalece um modelo familista, que significa este é um mediador importantíssimo na
compensação do desemprego.

O modelo familista (familialistic model), com maior expressão nos países da Europa do
sul, rejeita a exclusiva responsabilidade colectiva pelo desemprego e coloca a ênfase na
responsabilidade das redes sociais, leia-se outra vez a família, para assegurar protecção aos seus
membros. Neste modelo, as políticas sociais são essencialmente dirigidas à família, de modo a
permitir-lhe desempenhar as suas “obrigações». Sendo os níveis de protecção (montantes e
período de concessão) extremamente reduzidos, a dependência familiar faz-se aqui mais vincada.
(ARAÚJO, 2007:37)

1
O modelo familista, assim como o modelo Público-Individualista e o de Responsabilidade Partilhada, é
apresentado como modelo de regulação social do desemprego.
Finalmente, o Estado Social refere-se aos mecanismos e políticas públicas implementadas
a fim de compensar/ amenizar os impactos do desemprego. Segundo o Autor, as políticas de
emprego, que priorizariam reinserção dos desempregados no mercado de trabalho, são
praticamente nulas, restando basicamente os benefícios. Araújo apresenta uma análise
pormenorizada sobre os tipos de Estados Sociais predominantes na Europa, mas na presente
ocasião não irei ater-me às comparações detalhadas no texto, o que fugiria ao foco deste trabalho.

Transpondo o quadro de mecanismos de compensação para o universo da minha pesquisa,


cabe, antes de mais nada, fazer alguns esclarecimentos; o primeiro deles diz respeito ao fato de que
embora haja muitos pontos em comum entre as experiências dos meus entrevistados e os
desempregados da Estaco, o percurso feito por uns e outros não foi o mesmo; os meus entrevistados
não foram demitidos, por isso não teriam mesmo acesso aos benefícios reservados a quem se
encontra em tal situação. Contudo, segundo as promessas do governo à época dos PDVs, seriam
criados alguns mecanismos para que pudessem se reinserir no mercado, num outro setor da
economia. Ou seja, de alguma maneira, acionariam, assim, através de uma política governamental,
linhas de crédito especiais e cursos de empreendedorismo a fim de que pudessem recomeçar suas
vidas profissionais atuando numa outra área (mecanismo de substituição). Entretanto, tais
promessas não foram cumpridas e poucos foram aqueles que conseguiram se estabelecer como
autônomo, microempresário ou mesmo como assalariado num emprego estável.

Em sua pesquisa, Araújo identificou um ciclo pernicioso, onde a situação de desemprego


alterna com o emprego precário. Quanto mais tempo desempregado, mais suscetível às vagas
temporárias, sem garantias, que caracterizam a precarização do mundo do trabalho. Assim como
os informantes da Estaco, os meus entrevistados também revelaram trajetórias ocupacionais
amplamente marcadas pela precarização, pela instabilidade e vulnerabilidade. Seu Jorge, que
afirma nunca ter nutrido o sonho de ser empresário, conta que ao aderir ao PDV, sua prioridade foi
a militância política, à qual sempre se dedicou e que acabou pesando na sua decisão em aderir ao
PDV.

Seu Jorge vendeu produtos naturais, teve uma carrocinha de churros confiscada pela
prefeitura, fez frete até se tornar funcionário do Sindsprev, o qual ele conta que ajudou a fundar.
Assim como Seu Jorge, os demais entrevistados relatam uma trajetória de ocupações precarizadas,
predominam aquelas atividades entendidas como biscate: auxiliar de obra, frete, vendedor
ambulante, doceira, dentre outros. Segundo Seu Marcos (63 anos, IBGE) e Seu Paulo (INCA 61
anos), que antes de se tornarem servidores públicos foram bancários, nunca mais tiveram carteira
assinada desde que se tornaram pedevistas.

Entrevistador: O senhor, depois da adesão (ao PDV), teve a carteira assinada?


Entrevista 7 (Sr. Marcos, 63 anos, IBGE): Nunca, não. Eu fiz bico, assim.... Né? Cheguei
a trabalhar com contrato temporário em algumas pesquisas, trabalhei fazendo frete, como te falei,
mesmo depois dos problemas de saúde, ainda peguei serviço de ajudante de pedreiro...
Os resultados do inquérito ISSP-97 (International Social Survey Programme, de 1997)
apontaram que segurança era, para os portugueses, o elemento mais importante com relação ao
emprego. Aqui no Brasil, frente a concorrência nos concursos públicos, creio ser possível afirmar
que a estabilidade também consiste num valor importante quando o assunto é emprego. Entretanto,
fatores como a perda de status (houve um processo de desmoralização do funcionalismo público
no final da década de 1990)2, depreciação salarial, problemas no convívio/ambiente de trabalho;
desmotivação devido à ausência de expectativas em relação à carreira e ao próprio tipo de tarefa/
função desempenhadas, foram mencionados pelos entrevistados como fatores preponderantes na
hora da adesão ao PDV.

Gilmar (58 anos, INAMPS/SUS) foi um dos que apontaram a insatisfação como fator que
pesou na sua decisão. Ele afirma que resolveu deixar o serviço público porque se sentia “inútil” e
desmotivado pela ausência de um plano de carreira atraente. Segundo ele, 70% ou 80% do Servidor
Público fica bitolado, ele nunca faz um curso fora, nem dentro da instituição. Nesses casos, os que
fazem acabam se vendo como muito melhores que os outros. Interpreta a inexistência de programas
de requalificação do servidor como sinal de sua irrelevância. Portanto, a mesmice e falta de
estímulos, confessa, foram determinantes para sua adesão.

Seu Jorge (68 anos, INSS) explica que aderiu ao PDV devido ao dilema que vivia entre sua
militância política e o Serviço Público, não só pela questão do tempo, mas pela perseguição que
julga ter sofrido. Um outro ponto elaborado por ele diz respeito aos critérios de promoção utilizados
à época; neste momento faz a séria acusação de assédio sexual no funcionalismo Público.

Entrevista 6 (Seu Jorge, 68 anos, INSS): Existia dentro do serviço público... É que eu não
quero caracterizar que toda mulher bonita, que tem o corpo bonito, é favorecida, mas em grande

2
Trato disso de forma mais detalhada em outros trabalhos, como na própria introdução da Tese de Doutorado.
parte era verdade sim. Tinha o DAI. O que era o DAI? DAI era o que, na época, se chamava
“Direção de Assessoramento Interno”. E existia o DAS, tinha o DAS que não precisava ser
necessariamente da empresa, era “Direção de Assessoramento Superior”, podia ser alguém de
fora da empresa de fora da casa, ele não tinha compromisso nenhum com o Serviço Público.
Chegava ali, cumpria o dele, muitas vezes fraudava, e ia embora. E eu percebia que as mulheres
bonitas, quase todas tinham DAI, ou as que faziam o jogo do chefe, né? Quer dizer, o assédio
sexual sempre houve... E eu percebia que as mulheres que eram mais desfavorecidas, que não
eram tão belas, que não tinham o corpo escultural, elas podiam falar seis idiomas, é.... fazer
duzentos e cinquenta toques por minuto, mas não eram contempladas na hora das promoções.
Pros homens, com a perna cabeluda, barbudos, ficava mais difícil ainda, né? Então, eu percebi
que aquilo ali era uma falcatrua, que o serviço público na verdade, era um jogo de interesses
também, né? E as pessoas utilizavam essas promoções pra essas coisas, assim, baixa, né? Pra
questão sexual mesmo, né? (...) Aí eu comecei a ficar desestimulado porque eu vi que ali dentro
eu não tinha... que meu horizonte era curto ali. Eu não tinha o nível superior, só tinha o primeiro
ano de jornalismo, pra tentar galgar é.... ser procurador ou fiscal – porque quase todo mundo que
trabalhava lá no INSS tinha esse objetivo, ou ser fiscal ou procurador, que eram salários bem
altos, acima da média. Daí eu fui tomado pela política, pela paixão pela política, daí eu ajudei a
fundar a FASSIMPAS, ajudei a fundar o sindicato, fui diretor da Organização Nacional, movido
pela política, ainda em plena ditadura
Uma outra leitura possível é que talvez, no auge dos acontecimentos, os pedevistas não
tenham se dado conta das transformações que estavam em curso; afinal, até início da década de
1980, a segurança no emprego não era exclusividade do funcionalismo público, mesmo não tendo
garantida a estabilidade, a ideia de um emprego pra toda vida não era totalmente estranha à
iniciativa privada. Richard Sennet, em A corrosão do Caráter mostra exatamente isto, como os
trabalhadores até a década de 1970 costumavam planejar sua vida a longo prazo, sendo comum
aposentarem-se na mesma empresa onde tiveram seu primeiro emprego.

Podemos fazer algumas ponderações, contudo não se questiona que a nova experiência de
incertezas e precarização gerou sofrimento e inconformismo entre os pedevistas. Mas como bem
lembrado por Bourdieu (1981), mesmo nos piores momentos da privação do emprego, onde
isolamento e depressão se tornam frequentes, o tempo não é morto, estratégias de reação são o
tempo todo acionadas pelos que se deparam com tal situação. Tais mecanismos tanto podem se
tratar da mobilização das redes sociais a fim de galgar alguma oportunidade, quanto podem se tratar
da mobilização de redes, mas com outra finalidade, mais especificamente, refiro-me aqui à
militância política e à filiação religiosa.3

DRIBLANDO OS ESTIGMAS DO DESEMPREGO.

A militância no Movimento Unificado pela Reintegração/ Readmissão dos Pedevistas


(MURP), bem como a militância política de forma mais ampla tem um papel fundamental nas vidas
dos meus entrevistados; ficou evidente que, de alguma maneira, a participação ativa no Movimento
acaba sendo uma forma de sublimar a culpa que cada um individualmente carrega por ter feito uma
escolha que, agora, consideram errada. Os encontros, as conversas e discussões também servem
para atenuar o peso do fracasso pessoal, é uma forma de politizar o que, por outro viés, pode ser
lido de forma individualizante.

Embora, em algumas ocasiões, até possam fazer uma avaliação autocrítica dos erros que
cometeram, há sempre um outro lado que os permite mitigar a culpa através da historicização dos
fatos; seja um discurso mais refinado que lança mão de noções como “neoliberalismo” e
“reestruturação produtiva”, ou ainda aquele tipo de compreensão mais difusa que atribui
responsabilidades ao governo que, por não ter cumprido as promessas acerca da linha de crédito
específica para pedevistas (com juros mais baixos) e dos cursos de empreendedorismo do SEBRAE,
teria determinado seu fracasso.

As cartilhas oficiais do governo apresentavam o PDV como uma grande chance de atuação
em setores outros da economia e de realização do sonho de ser “seu próprio patrão”. Ao final da
cartilha, sob o título de Informações Gerais, o servidor já é tratado como “empreendedor”, num
dos tópicos, divulga-se o curso Iniciado um Pequeno Grande Negócio, oferecido pelo SEBRAE,
dividido em 5 módulos: O perfil do empreendedor, Oportunidade de futuro, A competitividade que
você precisa, O mapa da mina e Seu diferencial no Mercado. Há um forte discurso de valorização
do empreendedorismo, o que confirma a tese de Mônica Alencar (2008) sobre a substituição das
políticas de emprego e renda da década de 1970 pelo “nacional-empreendedorismo” hegemônico
nos anos 90. Segundo a autora:

3
Não tratarei sobre a questão da religiosidade de forma pormenorizada neste trabalho, contudo, vale grifar, que
este foi um traço importante de algumas trajetórias, tendo tido destaque nos depoimentos de alguns dos meus
entrevistados.
“As iniciativas de apoio e incentivo às pequenas unidades econômicas tornaram-se, a partir da
década de 1990, uma das principais ações de enfrentamento do desemprego no Brasil no âmbito
das políticas de emprego e renda[...] Se na década de 1970, o horizonte que se delineava na
atuação sobre o informal era a sua incorporação em direção ao assalariamento [...] Na década de
1990 os propósitos são outros[...] No discurso e na política governamental passou a predominar
a concepção de que as pequenas unidades produtivas têm um papel central na redução dos níveis
de pobreza e como alternativa em face do desemprego [...] A inserção produtiva e social do
excedente de força de trabalho e dos trabalhadores urbanos pobres passa a ser prerrogativa da
proposição que vislumbra o apoio e o incentivo aos pequenos empreendimentos como o meio
mais eficaz de garantir renda ou ocupação (não necessariamente emprego assalariado)” (p.117).

Esse “novo espírito do capitalismo”, tal qual abordagem de Boltanski e Chiapello, onde há
uma (re)valorização do indivíduo empreendedor contrasta com a, cada vez mais frágil, organização
coletiva do trabalhador. Especialmente em alguns setores, como o bancário, a competitividade
gerada pelas novas atribuições decorrentes da reestruturação do trabalho bancário, além de
aumentar a lucratividade, contribuiu para “obnubilar os laços de pertencimento de classe e diminuir
a capacidade de resistência sindical dos bancários, dificultando sua organização no espaço de
trabalho” (ANTUNES, 2006: 21).4

Há ainda os casos onde a competição não foi exatamente o que concorreu para desmobilizar
os trabalhadores, mas o desenvolvimento de uma “cultura do comprometimento” (ALVES, 2006:
468), digamos assim, onde o trabalhador é levado a se pensar como um “colaborador” da empresa
(mentalidade incorporada até mesmo pelos sindicatos), obscurecendo os antagonismos das relações
de classe. Guardando as devidas proporções, vários pontos deste “espírito” foram levados para o
setor público, onde ex-diretores de empresas privadas foram encarregados de implementar as
mudanças.

“O impacto sobre a subjetividade da força de trabalho é perverso, pois caminha no sentido de


suprimir a idealização de classe as bases subjetivas de uma identificação com um projeto
antagônico para além da lógica (e dos ideais) do capital (...) O ideal de classe, sob a pressão
contingente da defensividade instrumental, transformou-se num ideal corporativo, restrito ao
âmbito da empresa, cuja projeção e idealização, no plano da subjetividade de classe, é totalmente
capturada pelos ideais do capital” (ALVES, 2006:469)

É exatamente no contexto de tais mudanças, nada favoráveis à organização da classe


trabalhadora, que surge o MURP, que o tempo todo terá que enfrentar a desmobilização eminente.
Os motivos são os mais diversos, no caso específico desta organização, pesa o fardo inefável da
precarização e vulnerabilidade, recorrentemente descritas pelos entrevistados, que avaliam tais

4
Sobre os impactos da reestruturação produtiva e neoliberalismo sobre a atuação dos sindicatos ver, dentre
outros, ALVES, 2006: 461-474; ANTUNES, 2006: 15-27; ANTUNES, 2006: 499-509.
dificuldades como verdadeiros obstáculos para que boa parte dos pedevistas se mantenha ativo na
luta pela reintegração. Segundo um dos entrevistados, liderança do MURP, muitos deixavam de ir
às reuniões marcadas porque não tinham o dinheiro da passagem.

Entrevista 9 (Seu Emerson, 58 anos, IBGE) A maioria das pessoas que saiu não tinha garantia...
Isso era bem visível, a gente vê... eu tive um amigo que saiu depois de mim, ele saiu bem depois de
mim... Entrou no PDV e a vida dele acabou ali, e ele era um cara que tinha uma estrutura... Virou
alcoólatra, virou viciado e morreu de AIDS (longa pausa) E vou dizer mais, eu acho... Acho eu
que o alcoolismo e as drogas vieram em função, quando ele descobriu que tava com a AIDS e tinha
saído do IBGE. Porque aí vem a questão do exame demissionário... Que não teve. Quando eu
entrei eu fiz exame! (...) Pra sair não teve nada disso... Foi uma coisa triste, se tu verificar, alguns
colegas que eu conheço aqui do Rio de janeiro, dá pena de ver! Dá pena! Foram abandon... Porque
aí não é o problema da separação, tá certo? Foram abandonados totalmente pela família. Eu
conheço pessoas que tão vivendo na rua e dormindo em albergue de noite. Espera a prefeitura
passar pra ir dormir, pra comer... E não é um, nem dois. Ex-servidor, e não é um, nem dois.
Entrevistadora: O senhor tem o contato de algum deles?
Entrevistado 9: Olha o contato que eu tenho é de ter passado na rua e ter conversado (...) Aqui,
ali na Cinelândia, na Av. Chile, onde tem o IBGE, porque (o incrível) parece que os caras ficam
perto do local aonde trabalhavam, até pra que, até porque talvez alguém passe e possa ajudar.
Porque eu fiz isso, se eu to com dinheiro no bolso, eu passo e o cara diz “pô, Emerson, ô gaúcho,
não tem um dinheirinho aí pra comprar um cigarro?” então, se eu tenho... E essa é a realidade. E
o interessante é isso, essa coisa do cara estar perto do local de trabalho. Isso aí é o que chama
atenção, porque o cara ele se desvinculou, mas ao mesmo tempo se arrependeu e diz “não, eu vou
ficar perto”. Independente do dinheiro, mas pra tá perto ali... alguma referência...

O MURP assume, em certa medida, o papel de referencial, uma forma de pertencimento


que substitui aquela perdida a partir do momento em que deixam de ser "funcionários públicos",
não se tornam "patrões" e não reingressam no mercado de trabalho de forma permanente.
Especialmente nos casos em que o apoio familiar não se concretizou, e não foram poucos os
exemplos; Seu Jorge afirma que muitos dos pedevistas do Rio de janeiro, por exemplo, eram
imigrantes e, portanto, já não tinham um ampla rede familiar por perto à qual recorrer; outros, como
ele próprio, preferiram não “incomodar a família”, dentre estes percebe-se uma vergonha pela
situação de desemprego.
Dois dos meus informantes não estavam ligados ao MURP, um deles, Gilmar (58 anos,
INAMPS/ SUS) afastou-se depois de um tempo, pois, segundo afirmou, não concordava com as
táticas de mobilização do movimento que, várias vezes propôs apoio a outros Movimentos Sociais,
como o MST (Movimento dos Sem Terra). Este informante discordava das lideranças, que
propunham o engajamento numa "luta mais ampla contra o capital", conforme dito por outro
entrevistado (uma das lideranças do movimento).

É interessante notar que os dois entrevistados que não tinham ligação com o MURP foram
justamente os que assumiram individualmente “a culpa” por todas as dificuldades que passaram
depois do PDV; Gilmar – que chegou a frequentar as reuniões no MURP no início do Movimento
– avalia que seu negócio não prosperou porque ele não estava preparado para ser patrão. Contudo,
apoia a Reforma implementada pelo governo FHC. Para ele, a única falha foi o não cumprimento
das promessas, pois acredita que se tivesse tido uma orientação sobre empreendedorismo poderia
ter prosperado no ramo da joalheria. Segundo ele, o problema foi não ter “tino para patrão”, pois
que a sua "cultura" de servidor público não era compatível com a sua nova realidade.

O entrevistado passou por um divórcio e voltou para a casa dos pais quando tinha mais ou
menos 45 anos. Depois da falência, isto é, depois de fechar as duas lojas que tinha aberto em
Madureira, não abriu outro negócio em outro ramo, tampouco conseguiu emprego fixo. Chegou a
fazer algumas tentativas frustradas, que não deram certo nem mesmo na loja de colchões de um
amigo. Fez um teste vocacional e o diagnóstico: não tinha espírito de liderança, por isso não poderia
ocupar a vaga de gerente que estava disponível.5

Esta situação gerou muita ansiedade e acabou, segundo ele, resultando numa depressão.
Desde então jamais deixou de frequentar a psicanálise. Em seu depoimento, bastante emocionado,
relatou como é difícil conviver com estes transtornos, confessou que houve períodos que não tinha
vontade de fazer nada. A tristeza era ainda maior, afirma, quando as pessoas julgavam ser
"frescura". Quando o entrevistei pela segunda vez em 2011 estava finalmente concluindo a
faculdade de Direito, depois de sete anos. A situação, a depressão certamente pesaram.

5
Sobre esta discussão acerca das diferentes concepções e modelos de gestão empresarial (empreendedorismo,
capacidade de liderança e capacidade de mobilização como atributos necessários a um líder) ver Boltanski e
Chiapello, 2009.
Seu Jose é o outro pedevista sem ligação com o MURP e sua trajetória também chama
atenção. Depois da adesão (1997) usou os incentivos financeiros para injetar capital nos negócios
de um dos irmãos de quem se tornou sócio. Na verdade, a empresa no ramo da produção editorial
e diagramação já existia e vinha muito bem. Depois da sua entrada, ainda se tornaram maiores, o
que os obrigou a encontrar um espaço mais amplo, saíram do Centro da Cidade e alugaram um
galpão no Rocha, Zona Norte do Rio de Janeiro. As coisas andaram bem nos dois anos seguintes
até que começaram a enfrentar severas dificuldades financeiras, um dos sócios sofreu um grave
acidente quando voltava para casa, as coisas começaram, então, a "andar pra trás". A sociedade foi
desfeita e a maior parte das dívidas, inclusive as trabalhistas, que fizeram questão de honrar,
acabaram sendo arcada pelo meu entrevistado e seu irmão. Abriram uma empresa no nome de um
parente e usavam o próprio apartamento para trabalhar, aproveitaram o pouco do mobiliário e
alguns computadores, mas as maquinas grandes, as impressoras de última geração acabaram sendo
vendidas. Resistiram por cinco ano, mais ou menos, contudo novas dívidas se acumularam e por
motivos diversos fecharam definitivamente a empresa. Era chegada a hora de buscar um outro ramo,
depois de mais de duas décadas teve que voltar a procurar emprego, com um agravante: a idade; já
beirava os cinquenta anos. Resolveu que faria novos concursos públicos, mas não para nível
superior, escolheu as vagas de Ensino Médio, esbarrando numa concorrência enorme. Além de
tudo, uma boa parte de seus concorrentes era de jovens, também com nível superior, porem com a
"cabeça mais fresca", como ele diz, e matriculados em cursos preparatórios, o que estava fora das
suas possibilidades.

Estamos diante de trajetórias marcadas, delineadas pela vulnerabilidade. Acerca deste


conceito Araújo tece algumas considerações bastante interessantes:

“Os factores de vulnerabilidade resultam da interacção entre factores de vulnerabilidade


extrínseca e factores de vulnerabilidade intrínseca. Os primeiros reportam-se aos espaços sociais
de ancoragem das vivências do desemprego — com as suas características próprias, as suas
estruturas de oportunidades, as dinâmicas socioeconómicas globais que os atravessam e às
dinâmicas que são eles próprios geradores — que formam “o quadro das fronteiras dentro das
quais os diversos contornos das situações podem ser captados na multiplicidade das suas
influências cruzadas” (Capucha, 2000a: 13).
Os factores de vulnerabilidade intrínseca, como já se referiu, reportam-se às
características sociais dos indivíduos e às suas trajectórias de vida. Inspiramo-nos aqui da
proposta de D. Demazière (1995: 60) que avança em relação à empregabilidade diferencial com
a distinção entre empregabilidade intrínseca e empregabilidade extrínseca, como
correspondendo a dois processos de construção/destruição da empregabilidade que implicam uma
leitura não dissociada das trajectórias profissionais e dos espaços sociais concretos onde estas se
desenrolam (Demazière, 1995: 61). Na mesma linha, para L. Capucha (2000b), a vulnerabilidade
face ao mercado de emprego é uma realidade dual: situa-se ao nível das pessoas individualmente
consideradas e ao nível dos mercados de emprego no seu conjunto (sistema de emprego e
dinâmicas sistémicas que afectam o funcionamento dos mercados de trabalho e sistemas conexos,
ensino e formação profissional, por exemplo)” (ARAÚJO, 2007: 27)

De um modo geral os pedevistas do MURP tiveram que lidar com a vulnerabilidade


extrínseca, o cenário socioeconômico desfavorável à abertura de microempresas, ápice da
implementação da agenda neoliberal que, dentre outras coisas implica numa falta de autonomia
perante os Organismos Internacionais e Instituições Financeiras que, por sua vez, farão uma série
de exigências, como elevação das taxas de juros, o que é mortal para quem depende de empréstimos
para iniciar o negócio próprio. Mesmo aqueles que não quiseram ou não puderam abrir o seu
próprio negócio também foram afetados por este contexto no que diz eleito à retração do mercado
de trabalho ocasionada pelo processo de reestruturação produtiva desencadeado desde a década de
1970. Ou seja, empregar-se novamente não foi nada fácil, nem mesmo para os que tinham um nível
de escolaridade maior; nível superior, mas já com idades avançadas para os padrões do mercado.
Estamos falando, das vulnerabilidades intrínsecas.

Não só a idade pesou sobre os destinos dos pedevistas, conforme informações disponíveis
nos cadastros do MURP, a maior parte Dos pedevistas da Administração Direta, autárquica e
fundacional era composta por funcionários de nível elementar, isto é, ocupavam cargos e funções
para as quais se exigia o equivalente ao Ensino Fundamental.6 Este foi um dos mais severos e cruéis
obstáculos à "recolocação" num outro setor da economia à qual se referia Bresser Pereira na
apostila de esclarecimentos sobre o PDV de 1996, elaborada pelo Ministério da Administração
Pública e Reforma do Estado (MARE). Nível de escolaridade baixo e idade avançada configuram
aquilo que Araújo classifica como vulnerabilidade intrínseca. Sugiro que tenhamos muito cuidado
com a interpretação desta palavra " intrínseca", pois pode nos levar à conclusão de se tratar de
falhas dos sujeitos entrevistados, quando na verdade estamos falando de toda uma geração de
brasileiros onde a maior parte das pessoas frequentou a escola por poucos anos, conforme mostram
os dados dos Censos de 1990 e 2000, realizados pelo IBGE. Isto para não falar da questão da idade,
que é um problema do ponto de vista do mercado, não os indivíduos que envelhecem.

De qualquer maneira, o que gostaria de enfatizar neste trabalho são exatamente as


estratégias de reação à privação de emprego, não só as estratégias econômicas de sobrevivência,

6
Isto se deveu ao fato de a maior parte dos elegíveis aos PDVs serem exatamente os de nível elementar.
mas aquelas de ordem, digamos, psicológica, que de certa maneira amenizam o impacto dos
estigmas que pesam sobre o desempregado.

Segundo Erving Goffman, (1988), vários foram os significados atribuídos ao termo esigma,
“atualmente o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original,
porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal. Além disso, houve
alterações nos tipos de desgraças que causam preocupação” (GOFFMAN, 1988: 23). Um dos casos
abordados pelo autor é o estigma que pesa sobre os desempregados. Neste mesmo livro, Goffman
cita o relato de um pedreiro alemão de 43 anos evidencia o quão “duro e humilhante é carregar a
fama de um homem desempregado” (p.26). Fala do sentimento de inferioridade e da perda dos
laços, da indiferença dos amigos e conhecidos antigos que deixam de ser “cordiais”, e da acusação,
como se tivesse culpa pela situação de desempregado.

Esta sensação foi relatada em algumas entrevistas. Gilmar, na primeira entrevista, lembra
das acusações que recebeu por ter aderido ao PDV, até mesmo de ter aderido para evitar pagar a
pensão à ex-esposa de quem só se separou, na verdade, após a adesão ao PDV. Além destas
acusações, lembra com bastante angústia das pessoas dizendo que a sua depressão não passava de
capricho ou “desculpa para não procurar um trabalho”.

O 5º entrevistado (Seu Jose, 58 anos, CEG) também passou por situação semelhante ao
depoimento narrado por Goffman, não necessariamente devido a uma indiferença por parte dos
antigos amigos, mas especialmente pela falta de dinheiro e de meios para continuar frequentando
os lugares onde os encontrava e até mesmo para visita-los em suas casas. Nestes casos o isolamento
acaba tendo duas razões: a material e a de ordem psicológica, a própria pessoa passa a achar que
não será bem-vista por não ter um emprego ou por não poder pagar a conta de uma rodada de
cerveja no encontro com os amigos.

Na verdade, a associação entre desemprego e vagabundagem, no caso dos pedevistas


aparece, por exemplo, da seguinte forma, muitos funcionários públicos alegam que os pedevistas,
enquanto funcionários, não eram dedicados, “gostavam de voar”, “já faziam outras coisas e viam
o serviço público como bico”, “estavam mais preocupados em fazer carreira política” (acusação
feita especialmente no caso de ex-sindicalistas que aderiram ao PDV).7

Há também uma outra acusação que pesa sobre os pedevistas do MURP, muitos dos colegas
que continuaram no serviço público costumam atuar os pedevistas de agirem de má-fé, isto é,
aderiram ao PDV porque "queriam ser empresários, gastaram o dinheiro todo e agora tão querendo
voltar". 8 Meus entrevistados ponderam que este tipo de opinião se deve à falta de informação, pois,
conforme fazem questão de mostrar, nos documentos onde encaminham a proposta de reintegração
está bem claro que o dinheiro recebido seria devolvido em parcelas descontadas do salário.

Se o desemprego é uma situação estigmatizante, a falência também soa para alguns como
desonra ou como desgraça que marca o indivíduo, talvez por sugerir uma inaptidão, especialmente
entre os homens. Seu Jorge (68, IBGE), bem como o Seu Paulo (60 anos, INCA), afirmaram que
fizeram questão de poupar a família, portanto, não pediram ajuda, sequer desabafaram as
frustrações com os familiares mais próximos. Entrevistado 8 diz que nunca foi de consultar nada a
ninguém, portanto também não caberia incomodar as pessoas por conta de uma escolha malfeita.
Ele contou que houve uma situação em que ele estava dormindo no escritório onde funcionou sua
empresa, antes da ordem de despejo, dormia sobre a mesa e recostava a cabeça numa lista telefônica
já que não tinha nem mesmo um travesseiro. Mas mesmo nesta época, quando sua filha ligava ele
dizia que estava tudo bem.

ARREMATES

Diante de tantos percalços, pareceu-me que a participação mais ativa no MURP funciona
não só como estratégia de luta efetiva, mas como uma forma de fincar raízes em algum lugar, de
se sentir parte de algum grupo, de comungar um passado, um presente de lutas e objetivo comuns.
O desenraizamento, a ausência de laços, ao lado das dificuldades financeiras que sucederam a
adesão ao PDV, surgem como um dos maiores traumas ou como uma das maiores transformações
nas vidas dos pedevistas. Sendo assim, estar filiado ao MURP e acompanhar amiúde os

7
Algumas destas frases foram citadas nas entrevistas e outras foram ouvidas em conversas informais com
funcionários que não aderiram.
8
Aqui reproduzo a fala de Seu Jorge, mas este relato apareceu em outras entrevistas também.
desdobramentos desta luta é resgatar o sentimento de pertencimento, é estar protegido de alguma
maneira.

Este efeito positivo da militância ficou sempre muito evidente durante as reuniões do
Movimento. As conversas com os meus informantes nesses momentos onde estavam juntos foram
sempre reveladoras, uma vez que as lembranças de um eram complementadas pelas dos demais,
ou às vezes corrigidas pelas do outro. As discussões também foram sempre um campo maravilhoso
de observação. Desde as discussões mais simples, como a que tiveram sobre quantas pessoas
conseguiram fazer o curso do Sebrae, ás mais gerais sobre política partidária e sobre formas de
lutas político-sociais (entre os pede vistas há uma enorme diversidade, como em uma das minhas
visitas estávamos às vésperas do pleito eleitoral, houve um debate intenso sobre tal assunto. Havia
os petistas ou pedetistas que defendiam o voto em Dilma Rousseff, havia os "Sem-Partido", mas
que temiam a volta do PSDB - partido este que estava na liderança do governo quando houve os
PDVs - mas havia também os que defendiam o voto nulo como a verdadeira postura revolucionária,
o caso de Seu Jorge que se define como anarquista, mesmo sendo dizimista fiel de uma
denominação evangélica). Deste modo, a militância no MURP significa reafirmar-se como sujeito
histórico, livrar-se da sensação de estar "à deriva".

Finalmente, creio ser possível afirmar que, dos mecanismos elencados por Araújo (2007),
as Redes Sociais, o Estado Social e as Atividades de Substituição, entre os meus entrevistados
houve uma maior mobilização do primeiro e do terceiro mecanismos de compensação. Mas para
além desses três, o campo de minha pesquisa revelou um quarto mecanismo de compensação e
sobrevivência aos processos de crescente precarização e desenraizamento impostos pelas relações
de trabalho pós-reestruturação produtiva e neoliberalismo. Este mecanismo é exatamente o
engajamento político, a militância, mais ou menos consistente, no MURP.

LISTA DE SIGLAS
CEG – Companhia Estadual do Gás do Rio de Janeiro
FASSIMPAS – Organização Estadual dos Servidores da Previdência
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INCA – Instituto do Câncer
INSS – Instituto Nacional de Serviço Social
PDV – Programa de Demissão Voluntária
SINDSPREV - Sindicato dos trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência Social
SUS – Sistema Único de Saúde
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