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Amor de Perdição

O romance reúne, em síntese, elementos típicos de uma


mundividência que tem raízes na cultura portuguesa, particularmente na sua
expressão literária, desde épocas remotas.

Dois quartos da novela constam de uma lenta narração sobre o


namoro entre Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, a separação do
casal por rixas familiares, a obstinação de Teresa mantendo-se fiel a Simão,
não cedendo à insistência do pai, Tadeu de Albuquerque, em casá-la com o
fidalgo Baltasar Coutinho.

Por outro lado, Simão, estudante em Coimbra, regressa a Viseu,


resolvido a resgatar a amada, mantida num convento, à guisa de castigo por
sua teimosia. Simão, que não conta com o apoio de sua própria família,
mantém-se escondido na casa de João da Cruz, um ferrador. Contando com
a cumplicidade do ferrador e da filha Mariana, o jovem está a salvo. Mariana
apaixona-se pelo hóspede e auxilia-o de todas as formas, no sentido de que
comunique com a amada Teresa.

O capítulo 10 pode ser considerado o clímax da narrativa: é quando


se dá a morte de Baltasar Coutinho. Simão Botelho tenta encontrar-se com
Teresa, aquando da mudança do convento de Viseu para Monchique.
Baltasar provoca-o e Simão atira matando-o. Assim os acontecimentos
precipitam-se.

Os outros dois quartos da novela, ou seja, do capítulo 11 em diante,


preparam o desenlace trágico. Simão é preso na cadeia da Relação, no
Porto. Teresa é mantida enclausurada no convento de Monchique, também
no Porto. Julgado e condenado à morte na forca, Simão passa os dias em
desespero, tendo ao lado a fiel companhia de Mariana. Domingos Botelho,
pai de Simão e corregedor, nega-se a auxiliar o filho e só o faz tardiamente,
quando então consegue comutação da pena e um degredo para as Índias.

O final trágico dá-se quando da partida de Simão para o exílio. Teresa


assiste do mirante do convento à passagem do navio que leva a seu amado
e vem a falecer. Simão, não resistindo à dor de perder a amada, também
morre, no navio. Mariana suicida-se, abraçada ao cadáver do jovem, já
lançado ao mar.

Aplicação das categorias da narrativa:

Ação:

A ação é fechada, pois o público é informado sobre o destino final das


personagens centrais (Simão, Teresa e Mariana). A ação é formada a partir
de uma sucessão de sequências narrativas, ligadas por casualidade.
Contudo os acontecimentos posteriores são sempre uma consequência dos
anteriores - encadeamento.

· Sequências narrativas ligadas à intriga central:

- nascimento de Simão Botelho;

- visão mútua de Simão e de Teresa e nascimento do seu amor;

- relação secreta entre Simão e Teresa;

- simão hospeda-se em casa de João da Cruz;

- encontro entre Simão e Baltazar;

- Teresa é mandada para o convento de Monchique e,


posteriormente, para um convento no Porto;

- Simão mata Baltazar e recusa fugir à polícia;

- Simão é condenado à morte, por enforcamento;

- morre João da Cruz;

- partida de Simão para o degredo;

- morte de Teresa;

- morte de Simão;

- suicídio de Mariana.

Pode ser considerada uma obra de ação aberta: Camilo convida o


leitor a fazer uma reflexão acerca dos preconceitos existentes e caducos,
em Portugal, sobre o amor.
· Interação das personagens centrais:

- afastamento crescente dos amantes, partindo de uma rua até à


despedida de Teresa que parte para o convento de Monchique;

- adiamento do encontro dos amantes no Céu: representação


metafísica e romântica do amor.

- Mariana cada vez se aproxima mais de Simão, apesar de classes


sociais diferentes, desde o primeiro encontro até ao suicídio de Mariana;

- movimento ultrarromântico, há a ligação em vida e após a morte.

Narrador

Não participante – heterodiegético – é apenas narrador, não é


personagem, recorrendo à terceira pessoa gramatical; é omnisciente, pois
tem um conhecimento total e absoluto sobre a história e as personagens
dessa história: sabe o que é exteriormente observável, mas também o que
faz parte do interior das personagens; o narrador é judicativo/ parcial, pois
expressa opiniões e emoções.

Espaço

O espaço físico, em Amor de Perdição, conhece um afunilamento


progressivo à medida que a acção trágica se encaminha para o seu clímax
e, posteriormente, para o desenlace final. Assim, de um espaço amplo
exterior onde as personagens evoluem livremente, passa-se para um
espaço fechado e reduzido onde as personagens são encarceradas. Este
espaço reduzido simboliza a prisão da própria vida, visto que estão
enclausuradas na dimensão da própria tragédia.

Verifica-se, ainda, que, quanto maior é a privação de liberdade,


menor é o espaço onde evoluem as personagens.

Alguns elementos relacionados com os espaços que adquirem uma


simbologia importante nesta obra:

· as grades: além das grades materiais que impressionam Simão,


simbolizam os obstáculos sociais que motivam o seu encarceramento.
· a janela: é a ligação entre o interior e o exterior; é conotada,
simbolicamente, com a interioridade de Simão e de Teresa e com a
sociedade. Funciona, ainda, como a cisão entre as personagens e ao
espaço social onde estão inseridos. Associada aos olhos, que são o
“espelho da alma”, refletem o interior psíquico das personagens que se situa
a outros níveis presentes na obra, através dos sentimentos dos
protagonistas: aqui (hostil) que se opõe ao além (esperança e ilusão
fecundante).

· os fios: simbolizam a ligação eterna dos amantes (cartas) que não


se desfaz após a morte, é uma união total do par amoroso. Os próprios
amantes acreditam nessa união eterna (as cartas são testemunhas dessa
teoria). O fio é também o símbolo do destino (mito das 3 moiras). O tempo
liga-se directamente ao destino que terá de ser cumprido. Com a morte esse
fio quebra-se, Mariana antes de suicidar lança as cartas e o seu avental ao
mar reatando de novo os amantes.

· o mar: é fonte de vida, o corpo de Simão, metaforicamente, sítio de


renascimento. O mar espelha o céu, espaça onde os amantes poderiam
consumar o seu amor puro, pois na terra eram condenados pelos homens.

· o avental: assume um valor polissémico, ligado à condição social de


Mariana e o seu sofrimento; ela limpa as suas lágrimas quando chora por
Simão. Referências ao seu estado de loucura, quando Simão está na prisão,
num caixote encontram-se as cartas de Teresa e o avental de Mariana. A
sua simbologia reúne o trabalho e o martírio, significando o percurso de
Mariana na terra que é uma forma de purificação.

Desta forma, continua presente, simbolicamente, a tragédia do


triângulo amoroso, vitimado por um destino que os conduz à morte, única
solução para a realização de uma vida cujos anseios mais profundos das
personagens eram irrealizáveis.

Tempo:

· tempo diegético (tempo vivido pelas personagens) – acção decorre


entre os finais do século XVIII e início do século XIX.
O tempo diegético (tempo da história) caracteriza-se por:

· a cronologia;

· a linearidade.

Na introdução, abarcam-se 40 anos, são os antepassados de Simão.

A acção decorre em 6 anos (1801 - 1807):

· 1801, Domingos Botelho corregedor em Viseu, Simão tem 15 anos.

· 1803, Teresa escreve uma carta a Simão, revelando as intenções de


seu pai de a enviar para um convento.

· 1804, Simão é preso.

· Prisão de Simão de 1805 a 1807. Antes de embarcar para o


degredo, fica 20 meses na prisão.

· 17/3/1807, Simão parte para a Índia.

· 28/3/1807, ao romper da manhã, Simão morre.

· tempo do discurso (forma como o narrador elabore o seu relato).

Visto que o discurso é linear, o narrador segue a ordem cronológica


dos acontecimentos (podemos referir, no entanto, a analepse em que João
da Cruz conta a forma como matou o almocreve; há resumo na introdução).

Conotações simbólicas do estado do tempo:

Simão morre “ao amanhecer, depois de um formoso dia de


Primavera” (o dia 28 de Março), que se seguiu a vários dias de tempestade.
A primavera e a manhã estão conotadas com a luz, com a pureza de um
tempo, ainda libertos de corrupção. Trata-se de um momento de promessa e
de felicidade. Assim, da escuridão e da morte, relacionadas com o caos,
nasce o amor verdadeiramente purificada por um tempo transcendente ao
dos humanos – é o período da realização e da plenitude.

É ainda importante notar que, ao sétimo dia de viagem, acalmou a


tempestade – o número 7 corresponde ao dia da Ordem, aquele em que,
após a criação do mundo, Deus descansou. O 7 remete para a luz e para a
plenitude temporal. E, ao nono dia, Simão delira pela última vez e são as
cartas e as promessas de felicidade que ecoam na sua memória. O 9 é
o número da gestação, o do final de um ciclo para iniciar outro.

Personagens:

· Simão

- nasceu em 1784.

- tinha 15 anos, à data de inicio da ação, em 1801; estuda


humanidades em Coimbra.

- apresenta características hereditárias psíquicas e fisionómicas


(anúncio do realismo): “génio sanguinário”, rebeldia e coragem,
inconformismo político – herança de seu tio paterno, Luís Botelho (que
matara um homem, em defesa de seu irmão Marcos) e de seu avô paterno,
Fernão Botelho (que fora encarcerado por suspeita de uma tentativa de
regicídio, em 1758 (cf. Cap. I) e ainda de seu bisavô Paulo Botelho Correia
(que era considerado “o mais valente fidalgo que dera Trás-os-Montes” (cf.
Cap. I). É belo como a sua mãe, ainda que viril.

- após a visão de Teresa, Simão transforma-se: distancia-se da ralé


de Viseu; torna-se caseiro; cumpre os seus deveres de estudante; passeia
pelo campo, procurando o espaço natural, em detrimento do espaço social.

- quando Teresa é obrigada a sair da janela, local onde via Simão e,


posteriormente, quando lhe comunica o desejo do seu pai de que ela se
case com o seu primo Baltasar, Simão revela-se de novo rebelde. A par
desta faceta, irá porém surgir uma outra: a sua nobreza de alma, que se
manifesta no momento em que deseja poupar um dos criados de Baltasar,
que tentara matar Simão, pelo facto de o homem se encontrar ferido.

- surge, entretanto, mais outra faceta de Simão: a de poeta, que se


manifesta nas cartas que escreve a Teresa (cf. Cap. X).

- o seu sentimento exacerbado de honra é também notável – ele


manifesta-se pelo facto de Simão enfrentar sempre aqueles que se lhes
opõem, pelo facto de se ter negado a fugir, depois de ter morto Baltasar, em
legítima defesa, e ainda por recusar qualquer ajuda da família, aceitando a
sua condenação à forca e, depois, ao degredo. O seu código de honra
conduzi-lo-á, em última análise, à sua tragédia. Este sentimento valer-
lhe-á a admiração de personagens como João da Cruz e ainda daquelas
que se situam numa esfera social marcada por valores conservadores, como
é o caso do desembargador Mourão Mosqueira.

- o sentimento de dignidade é, por outro lado, inseparável da


possibilidade de realização do seu amor – é assim que Simão não acede ao
pedido de Teresa, para que cumpra os dez anos de pena, em Portugal, na
cadeia, afirmando: “Quero ver o céu no meu último olhar, não me peças que
aceite dez anos de prisão. Tu não sabes o que é a liberdade cativa dez
anos! Não compreendes a tortura dos meus vinte meses.” Com efeito, para
Simão o amor associa-se à liberdade e à sua integridade pessoal. Simão
representa o herói romântico antissocial, por excelência. Ele significa a
oposição a uma sociedade podre e aos seus valores anti-humanos. Na sua
última carta a Teresa, incluída no Cap. XIX, escreve: “Vou. Abomina a
pátria, abomina a minha família; todo este solo está nos meus olhos coberto
de forcas, e quantos homens falam a minha língua, creio que os ouço
vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem a liberdade tem
opulência; nem já agora a realização das esperanças que me dava o teu
amor, Teresa!”.

§ morre a 28 de março de 1807, no beliche do navio que o


transportava para o degredo e o seu corpo é lançado ao mar.

· Teresa

- tem 15 anos.

- destaca-se pela sua beleza.

- é o paradigma da mulher-anjo, pela sua delicadeza e pela


grandiosidade dos seus sentimentos.

- revela autonomia, para a época, sobretudo, quando se recusa a


casar com Baltasar.

- é astuta, determinada e orgulhosa.

- manifesta uma força de vontade e uma desenvoltura viris.


- esta personagem não tem uma evolução psicológica, pelo que
é considerada uma personagem plana.

· Mariana

. tem 24 anos.

- o narrador salienta a sua beleza física.

- caracteriza-se pela sua intuição, pelo poder de predição, enfim, pelo


misticismo popular.

- apresenta complexidade humana, ao nível das emoções que


experimenta e da esperança que acalenta de poder ser amada por Simão e
ficar junto dele.

- esta personagem apresenta a evolução psicológica, pois o seu amor


motiva as suas esperanças e os seus desalentos, oscilando entre emoções
que fazem vibrar a sua dimensão humana.

· João da Cruz

- é uma personagem que se aproxima bastante do protótipo do


homem popular português.

- pela antítese das emoções que experimenta e pelas atitudes que


apresenta, é considerado o tipo do “bom bandido”.

- ele é, simultaneamente, bondoso, grato, corajoso e violento.

- caracterizam-no, ainda, a sua linguagem de cariz popular, pelo


realismo da expressão.

· Baltasar

- é a personagem que, pelos seus defeitos, se opõe a Simão, fazendo


sobressair as qualidades exemplares do herói.

- é cobarde, mesquinho e vingativo.

- a sua vaidade torna-o incapaz de esquecer o seu orgulho ferido e de


compreender o amor que Simão e Teresa sentem um pelo outro.
- representa os valores sociais instituídos e fossilizados,
contribuindo para a tragédia final.

· Tadeu de Albuquerque e Domingos Botelho

- representam o antagonismo motivado pelo preconceito de honra


social.

- são inflexíveis nas suas decisões e baseiam-se no seu próprio


orgulho e nas suas conveniências sociais.

- preferem perder os filhos, reduzindo-os à dimensão de objetos, a


perder a dignidade social.

· D. Rita Preciosa

- representa a convencionalidade do sentimento materno – age mais


por obrigação familiar do que por motivos afetivos; ajuda Simão porque esse
é o seu papel e não porque o amor de mãe a leve a perdoar e a
compreender as atitudes do filho.

· Ritinha

- distingue-se das outras irmãs de Simão pela sua capacidade afetiva.

- representa, para Simão, o único laço familiar genuíno. Porque é


conduzida por aquilo que sente e não pelas convenções que lhe são
impostas.

- a sua ligação a Simão leva-a a ser ela a relatora da sua história ao


autor da obra, quando este era criança.

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