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03 MODULO 2 – HISTÓRIA DA BIOETICA

2 HISTÓRICO DA BIOÉTICA

Todo estudo que envolve o ser humano, de forma direta ou indireta,


individualmente ou coletivamente, incluindo o manejo de informações ou materiais,
necessita de diretrizes bioéticas para que o participante dessas pesquisas seja protegido.

2.1 Principais fatos históricos relacionados com a Bioética

Mesmo antes do neologismo Bioética existir, houveram fatos históricos que contribuíram
para seu surgimento. A partir de agora, vamos ver quais foram esses fatos e como
ocorreram suas contribuições para a criação desse conceito tão atual e essencial no mundo
de hoje.

1900: foi elaborado o primeiro documento que estabelecia os princípios éticos da


experimentação em humanos. Esse documento foi formulado pelo Ministério da Saúde da
Prússia.

Observação

A aplicação desse documento não ultrapassou a região onde foi elaborado. Em 1930 em
uma área vizinha 100 crianças foram submetidas a testes com a vacina BCG, sem
consentimento de seus pais, 75 delas morreram - desastre de Lübeck.

1931: Devido a limitada repercussão do documento de 1900 e a desastres como o de


Lübeck, o Ministro do Interior da Alemanha estabeleceu 14 novas diretrizes para pesquisas
em seres humanos, que determinavam padrões técnicos e éticos da pesquisa. Para alguns
historiadores, esse documento era ainda mais preciso e amplo do que a própria Declaração
de Helsinque. No entanto, nem todo esse cuidado foi suficiente para impedir as
experiências realizadas com os seres humanos durante o período nazista.

Lembrete

A Declaração de Helsinki foi elaborada em 1964 e, foi redigida especialmente em


detrimento da proteção dos participantes das pesquisas. Esse documento direciona ainda
hoje as pesquisas com seres humanos.

1933-1945: Período nazista e 2ª Guerra Mundial. Nesse período algumas leis foram criadas
em prol de atitudes racistas:

1. Lei de 14 de julho de 1933 - Sobre a esterilização, essa lei foi elaborada para prevenir
uma descendência doente e foi complementada com outros documentos, mas, sobretudo
interditava o casamento entre pessoas de “raças diferentes”.

2. Circular de outubro de 1939 - Sobre a eutanásia em doentes incuráveis, criando seis


institutos para a prática da eutanásia.
3. Criação de campos de extermínio, a partir de 1941.

1945: Fim da 2ª Guerra Mundial e das atrocidades cometidas pelos nazistas contra os seres
humanos.

1946: Julgamento de Nuremberg – Tribunal de Guerra.

1947: Julgamento de Médicos Nazistas no Tribunal de Nuremberg onde 20 médicos e 3


administradores foram julgados por “assassinatos, torturas e outras atrocidades cometidas
em nome da ciência médica”.

1947: Código de Nuremberg.

1948: Declaração Universal dos Direitos Humanos – ONU

1953: Descoberta da Estrutura do DNA

1954: Primeiro Transplante Renal,

1960: Comitê de Seleção de Diálise de Seattle (God Commission)

Observação

A God Commission esteve envolvida com o primeiro problema ético, historicamente


conhecido como “bioético” onde O Seattle Artificial Kidney Center possuía 9 leitos
destinados ao tratamento de diálise, raro e caro e assim foi criada uma comissão para
decidir quem poderia, ou não fazer o tratamento.

1960: Pílula Anticoncepcional que revolucionou a vida sexual e social ocidental. A mulher
passa a querer autonomia para gerir seu corpo (debates sobre a questão do aborto).

1964 – Declaração de Helsinki (versões 1975, 1983, 1989, 1996, 1999 e 2000).

1966: Artigo denuncia inúmeros casos de artigos científicos publicados com inadequações
éticas.

1967: Primeiro transplante de coração

1968: Definição de Morte Cerebral

1969/1970 – É fundado o Hastings Center em Nova York por Daniel Callahan, católico com
formação em teologia e filosofia esse centro reunia grupos que tinham o objetivo de
desenvolver regras e normas éticas para problemas específicos.

1970 - Potter cria o neologismo Bioethics.

1971 – Fundado o Instituto Kennedy de Ética na Universidade de Georgetown, primeiro


Centro Nacional para a Literatura de Bioética e com o primeiro programa de pós-
graduação em Bioética do mundo, foi fundado por André Hellegers.

1971 – Potter publica o livro “Bioethics – Bridge to the Future”.


1932-1972 - Nesse período ocorrem três casos que mobilizaram a opinião pública
americana:

 1963 - Hospital Israelita de Doenças Crônica, em Nova York - foram injetadas


células cancerosas vivas em idosos doentes;
 Entre 1950 e 1970 - Hospital Estadual de Willowbrook, em Nova York- injetaram o
vírus da hepatite em crianças com deficiência mental;
 1932 - Estado do Alabama- caso Tuskegee

1974 –1978 – Relatório Belmont

1973 - Caso Roe x Wade

1975- Caso Karen Ann Quinlan

1978 – Publicação da Encyclopedia of Bioethics,

1978 - Nascimento de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta,

1979 – Livro Principles of Biomedical Ethics de T. Beauchamp & J. Childress, considerado o


texto de referência da corrente bioética conhecida como principlism (principialismo),

1997 - Nasce a Ovelha Dolly - primeiro mamífero clonado 2000 - O Genoma Humano

Muitos outros fatos foram responsáveis pelas mudanças comportamentais no campo das
pesquisas. Nesse momento, vamos interromper essa cronologia para explicar com mais
detalhes alguns desses principais fatos.

2.2 Um mergulho nos fatos históricos

Como já vimos, apesar do ministério do Interior da Alemanha (1931), ter estabelecido


regras quanto ao controle de experimentos com seres humanos1, durante toda a 2ª Guerra
Mundial (1939-1945), essas normas não foram aplicadas.

Os "experimentos" realizados nesse período, em nome da "ciência" eram aplicados em


ciganos, judeus, poloneses e russos nos campos de concentração e a desculpa para
aplicarem as regras de 1931, era de que essas pessoas eram seres inferiores (pela ideologia
nazista) e portanto, podiam e eram tratadas como cobaias2.

A maioria desses "cientistas" eram médicos que queriam expandir seus conhecimentos e
não se importavam em sacrificar outro ser humano. Essas cobaias humanas, como estavam
exiladas e eram consideradas inferiores, suas ausências, poderiam até mesmo, ser
consideradas um benefício para humanidade.

Dentre os experimentos nazistas ocorridos naquela época podemos citar:

1. Encaminhamento de judeus russos para o Museu da Universidade de Strasbourg, na


França. O diretor do museu encomendou uma coleção de esqueletos para que a
evolução da espécie humana pudesse ser exemplificava. Para esse simples pedido,
123 pessoas foram sacrificadas. A foto abaixo nos dá uma ideia de como os
prisioneiros eram tratados.
Figura 4: Crianças, vítimas das experiências "médicas" do monstruoso Dr.Josef Mengele, em
Auschwitz-Birkenau. Polônia, 1944 — National Museum of Auschwitz-Birkenau, onde a
dignidade humana não estava presente em momento algum. Fonte: enciclopédia do
Holocausto

1. Pesquisas sobre hipotermia mataram centenas de prisioneiros do campo de


Dachau. Os prisioneiros eram deixados em câmara frigorífica até morrer, para
analise do tempo, individual e coletivo, do ser humano submetido a baixas
temperaturas.

Figura 5 - Vítima de uma experiência "médica" nazista sendo forçada dentro de um


recipiente com água quase congelada gelada no campo de concentração de Dachau. O
monstruoso "médico" das SS, Sigmund Rascher, supervisiona a experiência. Alemanha,
1942. Fonte: enciclopédia do Holocausto

1. O professor de medicina Julius Hallervorden, coletava e armazenava cérebros de


pacientes com transtornos mentais, exterminados pelo regime nazista. Sua coleção
era composta por 697 cérebros2.
2. Joseph Mengele foi o mais sanguinário dos pesquisadores nazistas. Suas
experiências exterminaram cerca de 400 mil pessoas em Auschwitz. Dentre os
experimentos feitos por Mengele, está a injeção de tinta azul em olhos de crianças,
a união de veias de gêmeos, amputação de membros de prisioneiros, dissecação de
anões vivos e coleta de milhares de órgãos em seu laboratório, entre outros3,4,5.

2.2.1 Código de Nuremberg, 1947

Os experimentos exemplificados acima foram julgados na cidade de Nuremberg, situada ao


norte da Bavária, Alemanha. O tribunal foi composto com o objetivo de decidir sobre os
assassinatos cometidos por médicos do regime nazista “em prol da ciência”. Começou em
Dezembro de 1946 e terminou em julho de 1947. O Código de Nuremberg criado depois
desse julgamento, foi formulado em Agosto de 1947 por juízes dos EUA e descrevia 10
principais pontos que por lei, teriam que ser seguidos nas pesquisas que envolvessem seres
humanos (Figura 6). Esse conjunto de normas éticas para a pesquisa clínica foi publicado
em 1949.

1. O consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial.


2. O experimento deve produzir resultados vantajosos para a sociedade e seus
resultados podem ser obtidos de outro modo.
3. O experimento deve estar baseado em resultados de experimentação em animais
e, no conhecimento prévio do que está sendo estudado, de forma que os
resultados já conhecidos justifiquem o experimento.
4. O experimento deve ser conduzido de maneira a evitar sofrimentos e danos
desnecessários (físicos ou materiais).
5. Nenhum experimento pode ser realizado se existirem razões de que possa ocorrer
morte ou invalidez permanente. A exceção do próprio médico pesquisador de se
submeter ao experimento.
6. O grau de risco aceitável deve ser limitado pela importância do problema que o
pesquisador se propõe a resolver.
7. Devem ser tomados cuidados especiais para proteger o participante da pesquisa de
qualquer possibilidade de dano, invalidez ou morte, mesmo que remota.
8. Os experimentos devem ser conduzidos apenas por pessoas cientificamente
qualificadas.
9. O participante do experimento deve ter a liberdade de se retirar no decorrer do
experimento, se assim o desejar.
10. O pesquisador deve estar preparado para suspender os procedimentos
experimentais em qualquer estágio, caso haja motivos razoáveis para acreditar que
a continuação dessa pesquisa poderá resultar em dano, invalidez ou morte para os
participantes6.
A introdução desse código trouxe para pesquisa médica uma fase mais organizada e com
regulamentações mais consistentes, onde os pesquisadores se viram obrigada a apresentar
uma postura de maior responsabilidade frente às novas normas7.

Figura 6 - O Procurador Geral


Norte-Americano Robert Jackson inicia a leitura dos autos de acusação quando da abertura
do Tribunal Militar Internacional. Nuremberg, Alemanha. Dia 21 de novembro de 1945.
Fonte: enciclopédia do Holocausto

Saiba mais

Para conhecer o Código de Nuremberg na íntegra acesse


www.gtp.org.br/new/documentos/nuremberg.pdf

2.2.2 Declaração de Helsinki, 1964

Mesmo com o código de Nuremberg os seres humanos ainda estavam bastante


desprotegidos quando submetidos à pesquisas. Com a intenção de preencher as lacunas
deixadas pelo documento elaborado em Nuremberg e tornar a regulamentação nas
pesquisas ainda mais rigorosa, em 1964 na 18ª reunião da Associação Médica Mundial
(AMM) ocorrida em Helsinki, Finlândia, foi elaborada uma declaração.

A Declaração de Helsinki utilizou a Declaração de Genebra (1948), que regulamentava a


ética médica, como uma de suas bases e com isso um documento mais completo, com
diretrizes e normas de pesquisa clínica que envolvesse seres humanos, foi elaborado. Essa
declaração em pouco tempo se tornou referência na área.

A Declaração de Helsinki tem como principal fundamento, o bem estar do ser humano, que
“deve ter prioridade sobre os interesses da ciência e da sociedade". O Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) passou a receber atenção especial após esse
período e será detalhado ainda nessa unidade7.
De acordo com essa declaração, o projeto e a execução de cada procedimento
experimental envolvendo seres humanos, devem ser claramente formulados em um
protocolo experimental que será avaliado por uma comissão independente, para ser
analisado, comentado e orientado. Este comitê de ética independente deve agir de acordo
com as regulações e leis locais do país onde a pesquisa será conduzida. Os princípios
básicos para toda pesquisa clínica de acordo com a Declaração de Helsinki são:

1. É dever do médico na pesquisa clínica, proteger a vida, saúde, privacidade e


dignidade do ser humano.
2. As pesquisas devem estar em conformidade com os princípios científicos e
baseados no conhecimento da literatura científica.
3. Cuidados apropriados devem ser tomados na conduta da pesquisa quando houver
o risco de afetar o ambiente. O bem estar de animais usados em pesquisas também
deve ser respeitado.
4. O desenho e a realização de cada procedimento experimental (com seres humanos)
devem ser discutidos no protocolo experimental.
5. O comitê responsável pela análise do projeto tem direito de monitorar os estudos
em andamento e, o pesquisador tem obrigação de fornecer informações para essas
monitorias.
6. Pesquisas clínicas envolvendo seres humanos somente deverão ser conduzidas por
indivíduos cientificamente qualificados sob supervisão de um médico competente.
7. Todo projeto de pesquisa clínica envolvendo seres humanos deve ser precedido
pela avaliação cuidadosa dos possíveis riscos e encargos para o paciente. O
desenho de todos os estudos deve ser publicamente disponível.
8. Os investigadores devem interromper qualquer investigação se a relação
risco/benefício tornar-se desfavorável ou se houver provas conclusivas de
resultados positivos e benéficos.
9. Pesquisas clínicas só deverão ser conduzidas se a importância dos objetivos exceder
os riscos e encargos inerentes ao paciente.
10. A Pesquisa clínica é justificada apenas se houver uma probabilidade razoável de
que as populações nas quais a pesquisa é realizada se beneficiarão dos resultados
da pesquisa.
11. Os participantes devem ser voluntários e estar informados sobre projeto de
pesquisa.
12. O direito do paciente de resguardar sua integridade deve sempre ser respeitado.
13. Todo paciente em potencial deve estar adequadamente informado quanto aos
objetivos, métodos, fontes de financiamento, possíveis conflitos de interesse,
afiliações institucionais do pesquisador, benefícios antecipados e riscos em
potencial do estudo.
14. O participante deverá ser informado da liberdade de se abster de participar do
estudo ou de retirar seu consentimento em participante a qualquer momento, SEM
retaliação.
15. O TCLE deve ser obtido após o participante não ter mais dúvidas.
16. O investigador deverá ter especial atenção em relação aos que possuem relação de
dependência com o médico ou que possam consentir na realização do estudo sob
coação.
17. Para participantes de pesquisa, legalmente incompetentes, o investigador deverá
obter o consentimento informado do representante legalmente autorizado.
18. Pesquisas com indivíduos dos quais não é possível obter consentimento, incluindo
consentimento por procuração ou superior, deverá ser realizado apenas se, a
condição física/mental que impede a obtenção do consentimento informado seja
uma característica necessária para a população da pesquisa.
19. Os resultados das pesquisas devem ser publicados mesmo que negativos8.

Saiba mais

Para conhecer a Declaração de Helsinki na íntegra acesse


http://iprexole.com/pdfs/Declaration_of_ Helsinki_Portuguese.pdf

2.2.3 Relatório de Belmont, 1978.

Os movimentos em prol da determinação de diretrizes para pesquisa clínica com seres


humanos continuou e, em 1974 um comitê se formou para avaliar, especificamente, a
relação de risco-benefício dos projetos com relação aos participantes de pesquisa. O
comitê "National Commission for the Protection of Human Subjects of Biomedical and
Behavioral Research", ou seja, "Comissão Nacional para Proteção de Participantes Humanos
em Pesquisas Comportamentais e Biomédicas", tem o objetivo de identificar e assegurar
que os princípios éticos básicos direcionem e delimitem os meios e procedimentos nas
pesquisas com seres humanos.

O relatório de Belmont, formulado por essa comissão, reunida na cidade com o mesmo
nome, concluiu serem três os princípios Bioéticos fundamentais:

1. Respeito pelas pessoas - para que as pessoas sejam respeitadas é necessária, a


liberdade de escolhas e para isso, a autonomia das pessoas deve ser respeitada.
Autonomia é a capacidade das pessoas decidirem fazer ou buscar o que julga ser
melhor para si mesma. No entanto para exercer esse princípio são necessárias duas
condições fundamentais:

 Capacidade para agir intencionalmente. Para tanto é preciso que a pessoa tenha
compreensão, razão e deliberação para decidir entre as alternativas que lhe são
apresentadas;
 Liberdade, no sentido de estar livre de qualquer influência controladora para esta
tomada de posição9.

O respeito à Autonomia significa poder agir segundo seus valores e convicções.


Respeitar a autonomia significa preservar os direitos fundamentais do homem, aceitando o
pluralismo ético-social10,11. Este princípio está eticamente fundamentado na dignidade da
pessoa humana. As pessoas devem ter o direito de se desenvolverem de acordo com suas
convicções pessoais, desde que não interfiram com a mesma expressão de liberdade dos
outros9.

Lembrete

Para que as pessoas tenham autonomia é necessário que tenham informações suficientes
para que possam exercer seu poder de escolha.
2. Beneficência - em linhas gerais quer dizer não fazer o mal, não causar dano. Além disso,
os benefícios devem ser maximizados e eventuais riscos minimizados. Por esse princípio o
pesquisador é responsável pelo bem-estar físico, mental e social do participante que está
incluído em sue estudo. A proteção e assegurar o bem-estar do participante são mais
importantes do que a busca de novos conhecimentos. A beneficência tem sido associada à
excelência profissional desde os tempos da medicina grega, e está expressa no Juramento
de Hipócrates: “Usarei o tratamento para ajudar os doentes, de acordo com minha
habilidade e julgamento e nunca o utilizarei para prejudicá-los”12. Beneficência quer dizer
fazer o bem.

De uma maneira prática, ser beneficente quer dizer ter obrigação moral de agir para o
benefício do outro. Na área da saúde signifca fazer o melhor para o paciente fazendo uso
de todos os conhecimentos e habilidades profissionais, com a minimização dos riscos e
maximizando dos benefícios13.

O princípio da Beneficência obriga o profissional de saúde a ir além de não causar danos


intencionalmente, exige que o profissional contribua para o bem estar dos pacientes,
promovendo ações como:

 Prevenir e remover o mal ou dano (doença e incapacidade),


 Fazer o bem. (saúde física, emocional e mental)14.

3. Justiça - procura estabelecer a equidade, o equilíbrio, ou seja, os riscos e benefícios


devem estar igualmente distribuídos no que diz respeito à participação na pesquisa. Na
prática quer dizer que, durante o recrutamento e seleção dos participantes, nenhum grupo
deve ser colocado em risco em benefício de outrem15.

A justiça está associada com as relações entre grupos sociais, distribuição de bens e
recursos considerados comuns, procurando sempre igualar as oportunidades de acesso a
estes bens13. Como exemplo destes princípios materiais de justiça pode citar:

 Distribuir as partes de acordo com as necessidades,


 Distribuir as partes de acordo com os esforços.
 Distribuir as partes de acordo com suas contribuições,
 Distribuir as partes de acordo com os méritos.

Algumas teorias de justiça incluem mais de um destes princípios, ou mesmo todos, quando
precisam decidir sobre a distribuição mais justa de bens e recursos.

Com a crescente socialização dos cuidados com a saúde, as dificuldades de acesso e o alto
custo destes serviços, as questões relativas à justiça social precisam cada vez mais ser
consideradas quando os conflitos éticos que emergem da necessidade de uma distribuição
justa de assistência à saúde das populações aparecem. Segundo Jussara Loch (2002), o
conceito da justiça deve fundamentar-se na premissa que as pessoas têm direito a um
mínimo decente de cuidados com sua saúde o que inclui:

 Garantias de igualdade de direitos,


 Equidade na distribuição de bens,
 Riscos e benefícios,
 Respeito às diferenças individuais
 Repeito na busca de alternativas,
 Liberdade de expressão
 Igual consideração dos interesses envolvidos nas relações do sistema de saúde, dos
profissionais e dos usuários14.

A ética, em seu nível público, além de proteger a vida e a integridade das pessoas, objetiva
evitar a discriminação, a marginalização e a segregação social16.

2.3 Escola principialista

Após os acontecimentos trágicos ocorridos durante a segunda guerra o mundo se uniu


para proteger as pessoas os que se voluntariam em prol da pesquisa. Essa “proteção” foi
vista e revista durante muitos anos até que em 1979, Beauchamp e Childress publicaram a
primeira edição do livro Principles of Biomedical Ethics onde apresentaram outro principio
aos três elaborados no ano anterior em Belmont: a não maleficência.

Esses autores acreditavam que a Beneficência não era suficiente para proteger os
participantes da pesquisa. Era necessário que além de não fazer o mal (beneficência), as
pesquisas que envolvem os seres humanos, precisam evitar sofrimentos desnecessários
(não maleficência).

De acordo com o princípio da não maleficência, o profissional de saúde tem o dever de,
intencionalmente, não causar mal e/ou danos a seu paciente. Considerado por muitos
como o princípio fundamental da tradição hipocrática da ética médica, é frequentemente
utilizado como uma exigência moral da profissão médica que se não cumprido, coloca o
profissional de saúde numa situação de má-prática ou prática negligente da medicina ou
das demais profissões da área biomédica.

A Não Maleficência tem importância porque muitas vezes, o risco de causar danos é
inseparável de uma ação ou procedimento que está moralmente indicado. Do ponto de
vista ético, este dano pode estar justificado se o benefício esperado com o resultado deste
exame, for maior que o risco. Porém, se o paciente tiver problemas, este risco ficará
aumentado. Jussara Loch (2002), afirma ainda que quanto maior o risco de causar dano,
maior e mais justificado deve ser o objetivo do procedimento para que este possa ser
considerado um ato eticamente correto14.

Esses quatro princípios são seguidos e direcionam toda a análise ética dos projetos de
pesquisa.

Os “princípios éticos básicos”, sejam os três do Relatório Belmont ou os quatro de


Beauchamp e Childress, propiciaram para os estudiosos de ética, um esquema claro, para
uma ética normativa que precisava ser prática e produtiva.

Segundo Albert Jonsen, um dos pioneiros da bioética, os princípios deram destaque para as
reflexões. Em sua simplicidade e objetividade, forneceram uma linguagem para falar com
um novo público, formado por médicos, enfermeiros e outros profissionais da área de
saúde17.

A bioética tornou-se então principialista, por várias razões:

1. Os primeiros bioeticistas encontraram uma terra árida com visões da ética


teológica, geralmente inacessíveis,
2. O Relatório Belmont, contituiu uma declaração simples e clara das bases éticas
necessárias para regulamentar à pesquisa e foi fundamental para responder as
necessidades latentes e contribuir para elaboração de normas públicas,
3. Os profissionais da saúde começaram a ser introduzidos nos dilemas éticos
auxiliando no entendimento e na clareza de muitos dos conflitos e polêmicas
vividas nessas profissões, trazidas pela tecnociência.
4. Os clínicos colocaram o modelo principialista em uso e isso fez com que essa escola
se tornasse um sucesso. Os quatro princípios Bioéticos, forneceram um vocabulário
que até então não exista, onde categorias lógicas para percepções e sentimentos
morais não verbalizados anteriormente, começaram a contribuir nas razões para
tomadas de decisão18.

2.4 Vertentes da Bioética

No Ocidente existem três vertentes Bioéticas que são reconhecidas:

1. Anglo-americana – onde o princípio de autonomia é privilegiado.


2. Europeia – tem como base a tradição filosófica grega e judaico-cristã. Está voltada
principalmente para as questões de fundamentação dos princípios morais.
3. Latino-americana – ainda em construção, se municia das reflexões oriundas das
outras duas vertentes.

A maior diferença da escola Latino-americana com as demais é a priorização do lado social.


Os fatos científicos e os valores morais tem a mesma importância e é dada a mesma
ênfase19.

Referências Bibliográficas

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Edições Loiola, 1996, 686 (Manual de Bioética)
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14. Silva, R. G. A, Silva, N. G. A., A bioética e sua relação com os direitos humanos – uma
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16. Gracia, D. Ética y Vida. Santa Fé de Bogotá, DC: Editorial El Búho,1998 (Estudios de
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