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S U P E RI O

Revista Portuguesa de Teosofia


Publicação quadrimestral da Sociedade Teosófica de Portugal

Maio ~ Agosto 2010, nº 19 ISSN 0873 – 0814


DECL ARAÇÃO DE PRINCÍPIOS
OSIRIS
Revista Portuguesa de Teosofia

A Sociedade Teosófica é composta por estudantes que Maio - Agosto 2010, nº 19


pertencem a qualquer religião no mundo, ou a nenhuma, Periodicidade quadrimestral
que estão unidos pela aceitação dos Objectivos da Sociedade, ISSN: 0873-0814
pela vontade de remover os antagonismos religiosos e de Depósito legal: 88327/95
aproximar os homens de boa vontade, independentemente S.R.I.P. 100 777 STP
das suas opiniões religiosas, e pelo desejo de estudar as ver- Tiragem: 400 Exemplares
dades religiosas e de partilhar os resultados dos seus estudos
com os outros. O seu vínculo de união não é professar uma Propriedade: Sociedade Teosófica de Portugal
crença comum, mas uma busca comum e a aspiração pela
Verdade. Eles sustentam que a verdade deve ser procurada Rua Passos Manuel 20, cave
pelo estudo, pela reflexão, pela pureza de vida, pela devoção 1150-260 Lisboa
aos ideais elevados, e consideram a Verdade como uma re- www.sociedadeteosoficadeportugal.pt
compensa a ser alcançada pela força da vontade, e não como geral@sociedadeteosoficadeportugal.pt
um dogma a ser imposto pela autoridade. Eles consideram Telf.: 21 353 47 50
que a crença deve ser o resultado do estudo individual ou NIF: 501 465 251
da intuição, e não a sua premissa, e deve fundamentar-se no
conhecimento, não na alegação. A todos eles estendem a sua Director: Carlos Guerra
tolerância, mesmo aos intolerantes, não como um privilégio Colaboradores: Ana Maria Coelho de Sousa,
por eles conferido, mas como um dever que desempenham, António Roque, Maria de Lurdes Rodrigues,
procurando eliminar a ignorância, e não puni-la. Eles vêem Rosa Duarte
qualquer religião como uma expressão da Sabedoria Divina e
preferem o seu estudo ao invés da sua censura, e a sua prática
A S.T.P. é responsável pelas notícias oficiais
ao invés do proselitismo. A Paz é o seu lema, assim como a
Verdade é o seu objectivo. publicadas nesta revista. Os artigos são da
exclusiva responsabilidade dos seus autores.
A Teosofia é o corpo de verdades que constitui a base de
todas as religiões, e que não podem ser reivindicadas como Impressão: Gráfica Eborense, Sociedade
propriedade exclusiva de nenhuma religião. A Teosofia ofere- Instrutiva Regional Eborense, S.A.
ce uma filosofia que torna a vida inteligível, e que demonstra Rua da Misericórdia 9-13, Apartado 28,
a justiça e o amor que guiam a sua evolução. A Teosofia coloca 7002-501 Évora
a morte no seu devido lugar, como um incidente recorrente
numa vida sem fim, abrindo a porta para uma existência mais Capa: Henry Steel Olcott (1832-1907),
plena e radiante. A Teosofia restitui ao mundo a Ciência do primeiro Presidente da Sociedade Teosófica
Espírito, ensinando o homem a conhecer o Espírito como Internacional (Adyar, India) de 1875 a 1907,
ele mesmo, e a mente e o corpo como seus servos. A Teosofia da qual foi fundador com Helena Blavatsky
ilumina as escrituras e as doutrinas das religiões, desvendando
os seus significados ocultos, e, desta forma, justificando-as à (1831-1891).
luz da inteligência, uma vez que elas são sempre justificadas
aos olhos da intuição.

Os Membros da Sociedade Teosófica estudam essas


verdades, e os Teósofos esforçam-se por vivê-las. Todo aquele
que estiver disposto a estudar, a ser tolerante, a desejar o mais
elevado, e a trabalhar com perseverança, é bem-vindo como
membro, e dele dependerá poder tornar-se um verdadeiro
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Teósofo.
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in The Theosophist S U P E RI O
SUMÁRIO Editorial

A
Maio ~ Agosto 2010 abertura mental à renovação é fundamental nas nossas
vidas. A regeneração do ser humano, como consequência
Editorial dinâmica do conhecimento de si mesmo, pressupõe essa
Carlos Guerra 1
abertura mental. Uma tal abertura mental gera a harmonia
entre as nossas vidas e o facto indiscutível de que tudo nelas é
Paciência: O Aspecto Espiritual impermanente; por sua vez, esta harmonia dá leveza às nossas
Radha Burnie r 2
vidas, e aprofunda-lhes o sentido.
A revista Osíris, cujo primeiro número data de 1933, na
A Energia da Meditação continuação da anterior revista Ísis, iniciada em 1921, dá agora,
J. Krishnamu r t i 6
uma vez mais, sinais desse sentido de renovação – uma renova-
ção que valoriza todo o trabalho anteriormente desenvolvido e,
Libertar-se da Ilusão ao mesmo tempo, abre novas oportunidades a um trabalho que
Danielle Audo i n 8
aguarda a sua concretização. A revista Osíris pretende ser um
reflexo dos princípios de carácter filantrópico que têm norteado
A Dinâmica da Fraternidade o trabalho da Sociedade Teosófica, desde a sua formação oficial
N. Sri Ram 12
em Novembro de 1875. Desde o seu início, tal trabalho, do qual
a dedicação de H. P. Blavatsky e de H. S. Olcott, entre outros, é
A Natureza do Silêncio referência inspiradora, tem sido marcado pelo questionamento,
Surendra Naraya n 16
do qual a investigação partilhada é, simultaneamente, uma
causa e uma consequência. O questionamento e a investigação
O Caminho da Verdade favorecem o aprender; e a vontade de aprender, no seu sentido
Phan-Chon-Tô n 18
dinâmico, é um elo de ligação entre os membros e os amigos da
S.T., e deveria assumir-se como um elo de ligação entre todos os
A Fraternidade como uma Via seres humanos. A revista Osíris pretende ser um canal daquela
para a Consciência Desperta Sabedoria Universal que não é pertença de nenhum ser humano,
nem de nenhuma organização; o nome dado a essa Sabedoria
Trân-Thi-Kim-D i ê u 22
Universal é de somenos importância, mas conhecemo-la e divul-
A Vida e a sua Mensagem gamo-la sob o nome de Teosofia. De uma forma despretensiosa,
a revista Osíris assumir-se-á como um estímulo à reflexão, evi-
C. Jinarajadas a 27
tando o mero intelectualismo, bem como a falsa espiritualidade
Nos Sábios Não Existe Apego que, por vezes, tendem a afirmar-se no nosso tempo.
Expressamos um agradecimento a todos aqueles que, com
C. A. Shinde 31
empenho desinteressado, têm contribuído para manter em
Teosofia para Quando? plena actividade a S.T.P. e lançamos um apelo a todos aqueles
que, de uma forma igualmente generosa, desejem envolver-se
José Correia 35
num novo fôlego impulsionador dessa actividade.
Notícias da S.T. A todos os membros e amigos da S.T. manifestamos um
voto de indómita determinação – como afirma H. P. Blavatsky
37
num pequeno texto intitulado Autoconhecimento – para
Notícias da S.T.P. percorrermos, sem motivo e sem meta, os caminhos daquele
conhecimento maior que é o conhecimento de si mesmo, o qual
38
está na base da regeneração humana.
Carlos Guerra

Maio - Agosto 2010 nº 19 1


Paciência - O Aspecto Espiritual
RADHA BUR N I E R

I
maginemos uma pessoa que nasceu cega; nar-se-iam. Este é apenas um nível em que o
não só está impossibilitada de ver muitas tempo funciona.
das coisas que são necessárias para facilitar A ilusão do tempo faz com que o ser huma-
a vida, como também não pode ver a beleza da no encare o mundo de forma psicologicamente
terra, as cores do céu, os pássaros, as plantas, os diferente daqueles para quem o tempo não tem
animais e, está claro, o rosto dos seres humanos. valor. A primeira regra do livro Luz no Caminho
Mas a pessoa cega consegue apreender, sentir diz “Mata a ambição”. A ambição só existe sob
o gosto, cheirar, ouvir, pensar, etc. É capaz de o controlo do tempo. É o desejo de se obter
experienciar o mundo de forma diferente da- algo, para se conseguir fazer algo dentro de
queles que vêem. De modo idêntico, podemos determinado tempo. Assim, a ambição tem mui-
imaginar como várias outras criaturas, por to a ver com o tempo tal como o conhecemos.
exemplo animais e pássaros, sabem como viver Tudo na natureza existe, cresce e morre
no seu próprio mundo, porque o poder do de acordo com as suas regras. Quando uma
raciocínio e a experiência da razão que afecta a criança nasce, não temos muito a fazer com o
vida humana não têm qualquer significado para seu crescimento. De modo semelhante, quando
eles. A nossa compreensão dos animais faz-se uma semente é plantada, se o tiver sido nas
através do afecto, mas eles não podem compre- condições correctas, germina e torna-se uma
ender esta experiência humana, tal como não planta nova, tornando-se depois numa árvore
podem compreender o que faz o raciocínio, com flores e frutos. Isto acontece por si. Tudo
pois vivem pelo instinto e entendem as coisas isto acontece não apenas fisicamente sob a
de forma diferente. forma de crescimento, mas também através
Por analogia, compreendemos que há das mudanças que ocorrem nas faculdades que
pessoas que levam uma vida muito diferente da todo o homem possui.
nossa. O que é essencial e vital para elas não é Todo o ser humano possui faculdades ex-
para nós importante e o que é importante para traordinárias, não só a faculdade de raciocínio,
nós não possui qualquer relevância no mundo mas também outras que despertam o sentido da
em que elas vivem. O tempo é muito impor- beleza, que criam a consciencialização da paz,
tante no mundo dos homens, sendo muito etc. Estas faculdades cresceram até ao estado
mais importante para o homem moderno do actual por si mesmas, mas estranhamente não
que para os antigos. Organizações e institui- aceitamos o crescimento, essa expansão que
ções funcionam com o tempo, como aconte- vem através da Natureza. Por causa do nosso
ce como a maior parte dos seres humanos. sentido do tempo pensamos que durante um
Se não prestassem atenção ao passar do tem- determinado período de tempo temos de che-
po, grande parte das organizações desmoro- gar a determinado ponto e obter certas coisas.

2 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • Paciência - O Aspecto Espiritual

O tempo é uma ilusão; passa de forma livre é aquele que não sente em si a opressão
diferente consoante estamos felizes ou em so- do tempo, pois deseja que as coisas cresçam e
frimento. Se estamos de pé numa fila ele pode se movam de acordo com o fluxo da Natureza.
passar muito lentamente, mas se nos encontra- Porque é que a planta pequena não é uma ár-
mos no princípio da fila então o tempo já não vore grande? Se não nos sentirmos ansiosos em
passa tão lentamente. Se pensarmos nisto ve- termos do tempo, limitar-nos-emos a observar
mos que o modo como o tempo passa depende a planta a crescer até se tornar uma árvore;
do nosso desejo. Se estivermos no fim da fila e veremos que o homem a quem chamamos um
quisermos desesperadamente estar no começo, homem mau se tornará um homem bom, sem
o tempo passa lentamente, mas se estivermos o forçar e sem o modelar para que se modifi-
no princípio da fila o tempo não parece mover- que. Fazemos todas as coisas que o ser humano
se da mesma maneira. médio deseja fazer, mas aqueles que sabem, os
Talvez esta seja uma das coisas a ter em Mestres da Sabedoria, não fazem estas coisas.
mente quando Krishnamurti afirmou “O desejo Actuam com paciência. A qualidade da paciên-
é tempo”. A ambição é um tipo de desejo – um cia é uma grande qualidade que inunda o
desejo intenso – e provoca muitas dificuldades mundo com luz.
nos relacionamentos. As guerras em curso que
causam muito sofrimento a um imenso número Ser Livre do ‘Conhecimento’
de pessoas são produto da ambição. A ambição O conhecimento que possuímos – conheci-
faz com que as pessoas desejem cada vez mais mento mental – pode ser uma ilusão. Pensamos,
coisas. Podemos sentir ambição por coisas vemos e sabemos, mas o que sabemos não vale
pequenas ou por coisas grandes, por satisfação realmente ser sabido. Com excepção de uma
espiritual ou apenas por satisfação intelectual pequena parte da existência física, para a qual
ou sensorial. É tudo a mesma coisa – o desejo poderá ter valor, do ponto de vista espiritual
de se alcançar algo neste tempo de vida. não tem qualquer valor. Conhecemos alguns
Os animais não têm ambição porque, ao ‘factos’ que podem não ser realmente factos.
contrário dos seres humanos, não possuem o Por exemplo, quando dizemos que conhecemos
sentido do tempo. Não se apercebem de que determinada pessoa, é possível que conheçamos
outros passaram à frente e por isso são mais alguns factos acerca dessa pessoa. Mas a maior
livres. O ser humano ambicioso quer que todo parte das vezes existe a ilusão de que se conhece
o mundo saiba que foi ele quem fez mais e me- a pessoa, mesmo quando não conhecermos
lhor. Esta é parte da satisfação que a ambição todos os factos acerca dessa pessoa.
proporciona – comparar-se com os outros, dizer Certo tipo de significado, que não conse-
“corri mais depressa do que todos os outros”. O guimos descrever, é o coração do conhecimen-
animal corre muito depressa inconscientemen- to. No início de A Voz do Silêncio encontramos
te sem tentar impressionar ninguém. a frase “Tendo-se tornado indiferente para
A competição no mundo é origem de com os objectos da percepção…’ Isto é muito
imenso mal, como Madame Blavatsky escreveu significativo. Os objectos da percepção não
no seu livrinho Ocultismo Prático. É a parte desaparecerão, pois existem, pelo menos por
do mundo em que a ilusão do tempo é forte. enquanto. Mas o que acontece ao ser humano
Ambição, desejo, consecução, são tudo apenas vulgar é que ele se envolve, e depois se enreda,
expressões das ilusões da mente. Aquele que é nesses objectos. A partir do momento em que

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OSIRIS • Paciência - O Aspecto Espiritual

dizemos “gosto disto, não gosto daquilo, isto é que chamamos conhecimento. É a percepção
agradável, aquilo não é”, o juízo que fazemos da verdade da divindade em todo o lado. É a
é uma forma de envolvimento, um enredo verdadeira percepção de que a Realidade Una é
psicológico. imanente em todo o átomo. Esta percepção é a
Embora o objecto de percepção ainda exis- origem da consciência desperta, da beleza e do
ta, e a mente esteja em observação, pode não amor no relacionamento. É um insight que vai
ficar poluída se não se formularem opiniões, directo à natureza oculta das coisas. O mundo
se não houver atracção nem repulsão. Fica, da Luz é diferente por causa da consciência
de certa forma, indiferente. Quando a mente desperta, não pelo conhecimento superficial
pessoal não avalia, não emite opinião, sem ser que actualmente tanto apreciamos. Nesse co-
atraída nem repelida, através da observação ou nhecimento não existe a ilusão do tempo nem
da atenção, a mente chega a saber o que está conhecimento de qualquer género particular.
dentro, não apenas a aparência do objecto. Isto O Teósofo não é apenas um membro da
aplica-se não só a um determinado objecto da Sociedade Teosófica. Cabe-lhe um papel espe-
percepção, mas a todo o mundo, isto é, a tudo cial – descobrir o verdadeiro conhecimento.
o que experienciamos. O Caminho do Meio
ensinado por Buddha consiste em não experi- A Promoção do Trabalho
mentar nenhuma reacção, quer seja atracção, A evolução que ocorreu até agora tem sido
quer seja repulsão. A mente é, então, apenas muito instrutiva. Alguns dos pontos de vista
uma testemunha. Isto é a verdadeira renúncia, científicos recentes confirmam o que alguns
o espírito de não movimento que é o verdadeiro teósofos têm vindo a dizer – que a futura evo-
conhecimento. lução na terra será uma continuação do actual
Um Mahatma diz, numa carta, que aos processo nosso conhecido. As chamadas coisas
Mahatmas basta focar a atenção em algo para não vivas, depois as pequenas criaturas, a vida
obterem a compreensão instantânea daquilo vegetal e a vida animal impulsionaram a evolu-
para que estão a olhar. Do seu ponto de vista, ção até ao actual estádio humano; novos passos
todo o nosso conhecimento é trivial e gastamos serão dados quando o ser humano melhorar.
demasiado tempo no esforço para acumular Está claro que todas estas partes da evolução
conhecimento que é trivial. Até nos podemos levam um tempo imenso, mas a Natureza nada
considerar peritos mas, para além da utilização tem a ver com o tempo inventado pelo homem.
prática, se é que existe alguma, o conhecimento O futuro conduzirá o ser humano para lá
não tem qualquer valor. Será que aquele que do estádio humano até ao nível do Rshi, o qual
é muito conhecedor de aviões ou de qualquer sabe muitas coisas sobre as quais não pode por
coisa do género, é mais generoso por causa enquanto falar ao homem. Mas neste processo
disso, mais compassivo, mais capaz de se evolutivo misterioso aprenderá aquilo que
libertar da infelicidade ou do sofrimento? Não mencionámos atrás, isto é, a natureza da beleza,
creio. O conhecimento vulgar não faz qualquer do amor e a percepção que é consciencialização
diferença, a não ser na imaginação do próprio, do que reside no interior, bem como do que
e é isto que acontece com todo os outros que se reside no exterior das coisas. É uma nova fase
encontram na mesma situação. para a qual nos dirigimos. Já há sinais deste
De acordo com certas ideias espirituais, movimento nas afirmações de alguns cientistas
o verdadeiro conhecimento não é o mesmo a e, está claro, das pessoas que sabem.

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OSIRIS • Paciência - O Aspecto Espiritual

O insight ou consciencialização do que irá que são intelectualmente avançados pode não
acontecer no futuro é de grande importância ser muito válida. Temos de fazer apelo aos que
para toda a humanidade. Sabemos que seres conseguem ver para a frente, para um modo
humanos mentalmente espertos não são ne- de vida que será extremamente diferente. Este
cessariamente as pessoas que virão a ser figuras modo de vida só se pode concretizar quando as
líderes no avanço para o futuro. Serão antes iniquidades do pensamento e da acção actuais
aqueles cuja intuição os leva para níveis mais não fizerem parte deste quadro. Pertence à
elevados e, para tal, é necessária preparação. nova mente substituir o pensamento antigo.
Para a intuição funcionar não pode misturar-se Encontramo-nos no processo de iniciar uma
com um pensamento confuso sobre as próprias nova vida e não nos podemos permitir que-
capacidades de cada um. Por outro lado, a rermos parecer inteligentes a partir do ponto
intuição faz apelo a uma mente pura – os de vista competitivo vulgar. Tem de haver uma
que aprenderam a manter as suas mentes não mudança radical na nossa abordagem em que
tocadas por impulsos animalescos, medos e o possam existir pureza, amor, o sentido do que
género de sentimentos que caminham a par está certo e verdade. Todas estas coisas são
dos estádios de crescimento. Por conseguinte, importantes.
o nosso ajuizamento sobre várias coisas será ba- Se na Sociedade Teosófica existirem algu-
seado não no que sabemos serem considerações mas pessoas que possam exemplificar estas
mundanas, mas em factores que são necessários qualidades nas suas vidas, elas começarão a
para o novo estádio. Este novo estádio foi produzir efeito. O perigo é que, à medida
grandemente tocado nos primeiros tempos da que o tempo passa, esquecemos o propósito
Sociedade Teosófica, mas agora desapareceu original. ∞
para último plano.
Por exemplo, a ideia de que devemos in The Theosophist, Setembro de 2009
produzir literatura que seja apelativa para os

Como a Sociedade Teosófica se espalhou por todo o mundo civilizado e para


ela entraram membros de todas as religiões sem deixarem os ensinamentos
especiais dos seus respectivos credos, é de salientar o facto de não existir
doutrina nem opinião, ensinada ou mantida seja por quem for, que de
alguma forma prenda qualquer membro da Sociedade. Nenhum instrutor
ou escritor, desde H. P. Blavatsky, tem autoridade para impor os seus ensi-
namentos ou opiniões aos restantes membros.

O futuro da Sociedade [Teosófica] está na liberdade de opinião dentro do


seu seio e na tolerância que deve existir ente os seus membros com respeito
às opiniões dos outros. A Sociedade Teosófica serve a Sabedoria Divina e a
sua divisa é esta: “Não há religião superior à verdade”

Annie Besant

Maio - Agosto 2010 nº 19 5


A Energia da Meditação
J. KRISHNA M U RT I

O
pensamento é limitado porque o as posturas, todos os exercícios de respiração,
conhecimento acumulado é limitado, todas as actividades do pensamento.
e qualquer que seja a acção que ele Quando tudo isso é posto de lado, então
realiza, ou invente, tem de ser limitada. Temos surge a questão: Pode o pensamento ficar
de ter uma mente e um coração lúcidos para suspenso? Ou seja, sendo o pensamento tempo,
podermos compreender o que é uma mente pode esse tempo parar? Não o tempo exterior, o
religiosa. Para descobrirmos o que é uma cronológico, mas o tempo psicológico que tem
mente religiosa temos de negar por completo a ver com o «vir a ser – vir a ser iluminado, vir
todos os rituais e símbolos inventados pelo a ser não violento, um homem vaidoso vir a
pensamento. ser um homem humilde. Todo este padrão de
Se rejeitarmos, negarmos aquilo que é psicologicamente «vir a ser» é tempo, e este é
falso, então encontraremos o que é verdadeiro. também pensamento.
Negamos todos os sistemas de meditação por- Pode o pensamento parar? Não através de
que vemos que esses sistemas foram inventados disciplina ou de controle, porque quem é essa
pelo pensamento; eles foram elaborados pelo entidade que disciplina? Existe sempre em nós
homem. E porque a vida é tão medíocre, tão este sentido de dualidade: o «controlador» e o
incerta, desejamos ter uma qualquer satisfação controlado, o «observador» e o observado, o
«profunda», algum amor, por algo que seja «experienciador» e o experienciado, o «pensa-
estável, permanente, que perdure. Queremos dor» e o pensamento. Há sempre esta dualidade
algo que seja imutável, e julgamos que o con- divisionista em nós. Provavelmente surge a par-
seguimos se fizermos certas coisas. Essas coisas tir da observação que se faz do mundo exterior.
são inventadas pelo pensamento, e este, em si Neste há dualidade: luz e sombra, homem e
próprio, é contraditório, e deste modo qualquer mulher... Provavelmente trouxemos essa dua-
estrutura em meditação gerada pelo pensamen- lidade para o campo da psique. Assim, haverá
to não é meditação. Tem de haver uma rejeição um «controlador» que seja diferente daquilo
completa, uma negação total de tudo o que o que é controlado? Examinemos isto com muito
ser humano tem inventado psicologicamente, cuidado.
não tecnologicamente. Na meditação tradicional os gurus, que a
Não se pode negar a tecnologia, trata-se propagam, estão interessados no «controlador»
de negar todas as coisas que o homem tem e naquilo que é controlado. Afirmam que te-
inventado e escrito ao buscar a Verdade. Como mos de controlar os pensamentos porque desse
queremos fugir do nosso tédio e do nosso so- modo faremos parar o pensamento, ou passar a
frimento, caímos nessa armadilha. Portanto, na ter apenas um pensamento. Mas nós estamos a
meditação, temos de rejeitar totalmente todas investigar quem é o controlador. Pode-se dizer:

6 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • A Energia da Meditação

«é o eu superior», ou «é o que testemunha», ou na concentração esse centro existe a partir do


«é algo que não é pensamento», mas o «con- qual ela se exerce.
trolador» faz parte do pensamento. Portanto, Precisamos também conversar acerca do
o «controlador» é aquilo que é controlado. O espaço. O modo como vivemos neste mundo
pensamento divide-se a si próprio como «con- moderno com apartamentos por cima de
trolador» e aquilo que vai controlar, mas isso apartamentos, não temos espaço físico. Não
é ainda a actividade do pensamento. É um fe- há espaço exterior, e interiormente não temos
nómeno estranho esse do pensamento inventar mesmo espaço nenhum porque os nossos cé-
deuses e depois adorá-los. Isso é auto-adoração. rebros estão em constante tagarelice. Meditar
Quando compreendemos que toda a é compreender ou descobrir o espaço que não
actividade do «controlador» é aquilo que está é construído pelo pensamento, o espaço que
a ser controlado, então deixa de haver qualquer não é espaço do «eu» ou do «não eu». Esse
controle. Isto é uma coisa perigosa para dizer a espaço não é espaço inventado, não é uma ideia
pessoas que o não tenham compreendido. Não de espaço, mas sim um espaço real; ou seja, é
estamos a defender a ausência total de controle. distância vasta e sem limites, é observação sem
O que dizemos é que quando se observa que o barreiras, é movimento perpétuo sem quaisquer
«controlador» é o controlado, que o «pensador» obstáculos. É um espaço sem fim, e nele não há
é aquilo que é pensado, e se permanecermos tempo; tempo, como pensamento, há muito
com essa verdade, com essa realidade, sem qual- que parou por termos observado que apesar do
quer interferência do pensamento, então temos pensamento ter o seu próprio espaço, ele não
uma espécie de energia totalmente diferente. tem esse outro espaço sem limites.
Meditação é a soma de toda a energia. Não A memória é necessária a um certo nível,
da energia criada pelo pensamento através do mas não a nível psicológico. Quando há essa
conflito, mas da energia de um estado da mente percepção que limpa o cérebro de qualquer
no qual todo o conflito deixou de existir. A pala- acumulação da memória, então o «eu» que quer
vra religião talvez signifique juntar toda a nossa conseguir, que quer atingir, o «eu» em conflito
energia para que possamos agir correctamente. cessa porque pusemos a nossa casa em ordem.
Uma mente religiosa actua com inteligência, O cérebro tem o seu próprio ritmo, mas este
quer dizer, com cuidado, observando. Nessa é distorcido pelas nossas extravagâncias, por o
observação há afeição, amor por todos os seres. maltratarmos, através das drogas, através das
A concentração é outra invenção do pensa- crenças, através da bebida e do tabaco. E, assim,
mento. Na escola somos ensinados a concentrar- o cérebro perde a sua vitalidade original.
nos nos livros. Aprendemos a concentrar-nos, Meditar é sentirmos uma compreensão
tentando excluir outros pensamentos, fazendo da vida total, e a partir disso há acção correcta.
um esforço para não olharmos pela janela. Na A meditação é o silêncio absoluto da mente.
concentração há resistência, há um estreitar da Não um silêncio relativo ou um silêncio que o
enorme energia da vida para um determinado pensamento projecta e constrói, mas o silêncio
ponto. Enquanto que na atenção, que é uma que é ordem, que é liberdade. Apenas nesse
forma de percepção em que não há qualquer puro silêncio total reside a Verdade, aquilo que
escolha, toda a energia está lá. Quando temos é eterno.
uma tal atenção, não há nenhum centro a partir Isto é meditação. ∞
do qual estamos a prestar atenção; ao passo que

Maio - Agosto 2010 nº 19 7


Libertar-se da Ilusão
DANIELLE AU DO I N

Q
ualquer encontro teosófico é uma presa aos mesmos problemas psicológicos e
ocasião para clarificar e aprofundar relacionais, incapaz de alcançar a serenidade de
a nossa compreensão do ensinamen- que fala o ensinamento, de escapar às dores e
to. Não se trata tanto de adquirir novos conhe- aos sofrimentos da existência.
cimentos mas, antes, de ponderar sobre aquilo No início de qualquer pesquisa existe um
que acreditamos saber e de nos questionarmos descontentamento, um sentimento de limitação
se estamos, verdadeiramente, na direcção certa. mais ou menos confuso. É o germe do desejo
É tão fácil acomodar-se em certezas que depois de libertação. De facto, falar de libertação pres-
se revelam estéreis. Quando a teoria não dá supõe a existência de um aprisionamento. Mas
acesso à prática, quando se vê que os nossos estaremos nós verdadeiramente conscientes da
conhecimentos teosóficos não conseguem natureza dessa prisão na qual nos sentimos en-
produzir dentro de nós uma transformação clausurados? Saberemos verdadeiramente a que
profunda, é preciso ousar questioná-los, ainda é que queremos escapar? Talvez que até aqui
que seja desconfortável, e até mesmo doloroso. não tenhamos sabido enfrentar esta questão
Os ensinamentos, eles próprios, não estarão em fundamental. Por conseguinte, sem conhecer
causa, mas como os temos interpretado. O que a natureza do obstáculo, não tomámos as
é que aconteceu para não os termos assimilado medidas adequadas para fazê-lo desaparecer.
mais? Na verdade, não conhecemos a nossa prisão.
Sri Ram dizia que seja quem for que queira Não nos interrogamos sobre quem a construiu,
dominar a arte de viver… somente pode descobrir nem como foi construída. Acreditamos estar
o quanto é difícil e como é vital interrogar-se aprisionados, limitados pelas circunstâncias,
de que natureza é a nossa abordagem e qual é a pelos outros, pelo nosso mau karma, e assim
direcção do verdadeiro progresso. por diante.
Teremos seguido a melhor direcção? Se nos temos na conta de Sábios, de
Consideramos como adquirido que estamos Seres Libertados, estamos totalmente presos às
comprometidos numa busca espiritual. Mas pa- armadilhas da ilusão, e a nossa suposta prisão
rece que, se o nosso objectivo fosse justo e claro, não tem a solidez que lhe atribuímos. Afinal
deveríamos aproximar-nos dele de forma mais depende apenas de nós vê-la desabar como
fácil e mais rapidamente. Se formos honestos um castelo de areia, ou dissipar-se como a
perante nós mesmos, devemos reconhecer que, bruma matinal. De Shankaracharya a Plotino,
após anos de estudo e de participação em reu- de H.P.B. a Krishnamurti, os Instrutores de
niões teosóficas, “progredimos” muito pouco. todos os tempos falaram da busca espiritual
Podemos até ter a desagradável sensação de per- como de uma viagem da aparência à Realidade.
manecermos mais ou menos a mesma pessoa, Do irreal conduz-me ao Real – esta frase dos

8 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • Libertar-se da Ilusão

Upanishads, posta em moldura no livrinho Poder-se-ia dizer o seguinte: visto que


Aos Pés do Mestre, indica, num resumo impres- todos nós vemos o mesmo mundo material,
sionante, a direcção do verdadeiro progresso, as mesmas montanhas, as mesmas ribeiras, as
que é a libertação da ilusão. mesmas cores, será que isto não significa que
O que é a ilusão? É, segundo o dicio- este mundo é real? Isto pode bem significar
nário, um erro dos sentidos que faz ver os que todos os seres humanos partilham de uma
acontecimentos diferentes do que são, ou um mesma ilusão quanto à consistência da matéria,
erro do espírito que faz tomar a aparência pela uma espécie de ilusão colectiva devido à pró-
realidade. Existem ilusões patológicas que são pria natureza do mental humano, esse mental
puras alucinações, sem nenhuma relação com que todos nós temos em comum. De acordo
algo existente. Mas geralmente a ilusão é uma com H.P.B., a mesma visão limitada existe para
interpretação errónea de um acontecimento todos, excepto para aqueles que, no decurso da
que é uma realidade evidente. Por isso, quando presente incarnação, alcançaram o mais alto grau
falamos em nos libertarmos da ilusão, é preciso de clarividência e de visão espiritual. (A Chave
ter cuidado para não cairmos num niilismo que da Teosofia). Somente esses podem ver o que a
nos levaria a negar toda a realidade do mundo Ciência descobriu recentemente, a saber, que a
que nos rodeia. matéria não é senão um turbilhão de energia.
É verdade que, de um certo ponto de vista, Uma vez que tenhais alcançado o conhecimento
do ponto de vista do Absoluto, o mundo feno- de Maia, disse também H.P.B., sereis um Adepto.
menal no seu conjunto é uma ilusão. Segundo (Ensinamentos dados ao Grupo Interno). Existe,
H.P.B., não é senão o reflexo periódico [da portanto, uma ilusão inerente ao mental huma-
realidade única] sobre as profundezas do espaço no, uma ilusão da qual só o Adepto está livre
infinito. Este reflexo, diz ela, que vos parece ser porque alcançou o estado sobre-humano.
o universo material e objectivo, consideramo-lo Mas, a esta limitação inevitável cada um
como uma ilusão temporária e nada mais. Só o de nós acrescenta a sua própria distorção. Os
que é eterno é real. (A Chave da Teosofia). Isto homens despertos, dizia Heraclito, podem
não quer dizer que o mundo à nossa volta não entender-se, quaisquer que sejam as suas dife-
exista, mas tem apenas uma realidade relativa, a renças: eles têm apenas um mundo. Os homens
realidade de um reflexo. Não tem nem a consis- adormecidos têm cada um o seu mundo, daí
tência, nem a permanência que lhe atribuímos. as incompreensões, os antagonismos e os con-
Assim, devemos compreender que os fenó- flitos. Nós não vemos o mundo, cada um vê
menos não são nem completamente ilusórios, o seu mundo. Os nossos órgãos dos sentidos,
nem completamente reais. Do ponto de vista incluindo o mental, agem como filtros que
da Verdade Última, são ilusórios. Do ponto de obscurecem e deformam a realidade do mundo
vista da verdade relativa, têm alguma realidade. manifestado. De modo que este nos aparece
Se o mundo em que vivemos, e nós próprios, como um imenso caos. Nele não vemos o re-
não tivéssemos nenhuma realidade, então para flexo do Absoluto, a beleza, a ordem e a harmo-
que servia a pesquisa, para que serviam os nia de um Cosmos. É desta ilusão adicional,
esforços para nos transformarmos? Um grande que para cada um toma formas diferentes, que
Mestre Tibetano disse considerar o mundo como nos devemos libertar. Assim, não se trata de
sendo real é uma atitude ignorante, considerá-lo sair do mundo do Samsara, mas de vê-lo tal
como vazio é ainda mais imbecil. como ele é.

Maio - Agosto 2010 nº 19 9


OSIRIS • Libertar-se da Ilusão

Krishnamurti disse que o acto de ver é a quando estiver vazio de qualquer pensamento.
única verdade, acrescentando mesmo que não Disse um poeta: Assim como o dia depende da
era necessário procurar a verdade, que nos inocência, o mundo inteiro depende dos teus
devíamos somente libertar da ilusão. Quando olhos puros (Paul Eluard). A pureza é a ausência
esta se dissipa, a verdade está ali. de egoísmo, o esquecimento de si. Quando
A verdade não é, portanto, uma questão de cessam as preocupações pessoais, as motivações
crenças ou de conceitos, mas de percepção direc- interesseiras, quando o eu é esquecido, o pen-
ta, de visão. Para ver, é preciso olhar. Podemos samento pára, o olhar é puro, nem que seja só
interrogar-nos se olhamos para o mundo que por um instante, e a visão penetrante torna-se
nos rodeia. Estamos a tal ponto encerrados no possível. É pelo facto de o eu ser tão raramente
pequeno e limitado círculo das nossas preocu- esquecido, que só muito raramente conhece-
pações pessoais que não vemos para além dele. mos esse estado de encantamento que revela a
E, mesmo no interior desse horizonte muito verdade e a bondade do mundo manifestado
restrito, quando alguma coisa nos desagrada na sua essência. As experiências místicas, que
ou nos perturba, fugimos. Refugiamo-nos nas são tomadas de consciência da essência das
distracções que são a nossa última escapatória coisas, são sempre acompanhadas de um estado
– distracções que nem sempre são coisas fúteis: de admiração. Aquele que não sabe contemplar,
mergulhar em estudos teóricos ou actividades disse Albert Einstein, que não conhece a vibra-
frenéticas pode ser uma forma de distracção que ção profunda da alma maravilhada, esse pode
nos permite escapar áquilo que não queremos considerar-se morto, já tem os olhos fechados.
ver. De facto, existem poucas coisas que aceita- Iremos manter sempre os olhos fechados
mos ver. E, mesmo no caso em que acreditamos ou embaciados pela ilusão, perdidos nos cami-
levar as coisas em consideração, com efeito nhos sem saída? Ou vamos realmente tomar a
não olhamos verdadeiramente, comentamos, direcção certa, esforçar-nos por purificar o nos-
julgamos, pensamos. A alguém que perguntou so olhar, por desembaraçá-lo progressivamente
a Krishnamurti o que é que ele pensava de uma de todas as ilusões, nas suas formas grosseiras
certa coisa, ele respondeu Senhor, eu não penso, ou mais subtis: ilusão da permanência, ilusão
eu vejo, e acrescentou porque pensamos, que nós da separatividade, ilusão sobre si mesmo… de
não vemos. todas as formas de ilusões nascidas do pensa-
O pensamento é um movimento na maté- mento? Muitos véus deverão ser levantados an-
ria mental. Assim como o mais pequeno sopro tes mesmo que o olhar esteja purificado de toda
de vento agita a superfície da água e perturba o a deformação e de toda a limitação. Mas, desde
reflexo da paisagem – do mesmo modo o me- as primeiras etapas deste processo, a vida toma
nor movimento da matéria mental criado pelo um novo significado, uma nova dimensão.
pensamento deforma o reflexo da Realidade. E Qualquer coisa – logo que seja vista tal
somos o brinquedo da ilusão, nunca vemos as como é, sem referência ao observador, ao uso
realidades tais como elas são. que ele possa fazer, aos benefícios que dela
Alguém disse que a lucidez é a observação possa retirar, às suas preferências e às suas
silenciosa e sem escolha daquilo que é. Mas conveniências – revela o seu carácter único e
isto só acontece quando o pensamento pára. insubstituível. Quando não existe avidez, nem
Observar não é pensar. O mental não pode re- apego, o movimento da vida é percebido como
flectir a realidade do mundo manifestado senão uma descoberta apaixonante, de momento a

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OSIRIS • Libertar-se da Ilusão

momento. Nascimento e morte, contemplados Sim, nós podemos descobrir a dimensão do


no silêncio do pensamento, podem ser uma sagrado. É uma descoberta que não depende senão
causa idêntica de encantamento diante do mis- de nós. Ninguém nos pode obrigar a isso. Não
tério deste processo ininterrupto de renovação se trata aqui de moral, mas de uma descoberta
da vida. E cada forma manifestada torna-se estritamente individual, que enche o nosso coração
digna de respeito, por mais ínfima, por mais com uma alegria serena – e nunca deixa de colocar
efémera que seja. Torna-se sagrada. o mundo no lugar…Pertence-nos a nós fazer esta
Gostaria de terminar com duas citações, descoberta. (Krishnamurti) ∞
uma de Sri Ram, outra de Krishnamurti.
A liberdade é como um céu aberto, sem nu- (Le Lotus Bleu – Maio de 1997)
in Le Lotus Bleu, Dezembro de 2009
vens, através do qual se espalha a luz que ilumina
cada forma, de modo que cada forma é vista como
realmente é. (Sri Ram)

Agora somos os filhos da terra; na eternidade somos filhos de todo o


universo. Não sinto eu na minha própria alma que constituo uma parte
deste poderoso todo harmónico? Não tenho eu consciência de que nesta
enorme, inumerável colecção de seres em que a Divindade – Força Suprema,
se se preferir este termo – se manifesta, constituo um elo, um degrau entre as
ordens inferiores da criação e as superiores? Se vejo claramente esta estrada
que se eleva da planta até ao homem, então porque haveria de supor que
ela se detém em mim e não conduz mais acima, cada vez mais alto? Eu sei
que, assim como nada é jamais aniquilado no universo, também eu não
perecerei, existirei sempre e sempre existi. Eu sei que para além de mim
outros seres espirituais existem e que a verdade está neste universo.

Leo Tolstoi, Guerra e Paz

Maio - Agosto 2010 nº 19 11


A Dinâmica da Fraternidade
N. SRI R AM

P
ode dizer-se sem exagero, que, se existe uma forma vazia, um rótulo de exclusividade
uma chave para a solução de todos os e respeitabilidade, além de ser um meio de
problemas no relacionamento humano, auto-ilusão e causa de antagonismos. A caridade
ela é a simples, mas contudo profunda, verdade transforma-se num meio de auto-exibição e de
da fraternidade universal, que emerge do facto se ganhar consideração e apoio, como também
de que todos os seres humanos se originaram um bálsamo para a consciência.
das mesmas raízes, e que são essencialmente da De modo idêntico, a Fraternidade, mes-
mesma natureza, por mais que este facto possa mo quando considerada como uma dou-
estar velado e eclipsado pelas modificações trina prática e não apenas suportada como
por que passa esta natureza, apresentando uma ideia inócua, é vertida em termos de
assim diferenças nas características mentais e coexistência que apenas reclama paciência e
físicas. Mesmo que todos os sistemas sociais e tolerância para com aqueles com os quais dis-
políticos existentes permaneçam como estão, cordamos e de que não gostamos. Meramente
imperfeitos e nada satisfatórios como são, se for existir neste planeta simultaneamente com um
dado um sentido e realização genuínos a esta outro, sem que um ataque o outro, pode ser
verdade subjacente, o mundo presenciará uma uma melhoria no que respeita à lei da selva,
mudança milagrosa; em vez de ser, como é, um mas é o mais pobre dos pobres objectivos do
grande caos emergente, quase um inferno para ser humano, dado ser ele constituído como
inúmeras pessoas cujo sofrimento não vemos, uma fonte de energias que podem florescer em
ele tornar-se-á quase um paraíso. muitas formas diversas de beleza, agindo sobre
Toda a palavra que possui um significado os outros e produzindo uma diversidade de
bonito tende, com o decurso da utilização, a bençãos e de felicidade para si mesmo e para
tornar-se uma coisa gasta e vazia, uma moeda os demais. Também contém em si energias,
praticamente sem valor. Tornada um conven- talvez a mesma energia fundamental levada
cionalismo, um mero sinal, a indicação de uma a padrões auto-deformantes, que explodem
ideia, não a realidade, torna-se um oposto que em violência e catástrofe. A Natureza não
dá jeito, que cobre a nossa falta de sensibilidade permite um vácuo no espaço sem que este es-
e ignorância. Todo o conceito que encerra um teja cercado de pressões. Não existem durante
valor, que é espiritual num sentido fundamen- muito tempo paredes de isolamento sem que
tal, isto é, desprovido de qualquer elemento se gerem ou provoquem forças fora dessas
de interesse próprio e de auto-satisfação, é paredes que se organizem para as atacar. A
degradado e materializado; vê-se transformado, História oferece inúmeros exemplos desta lei.
na prática, em termos que desdizem o seu Aí onde existem privilégios, legalmente ou co-
significado original. Assim a religião torna-se mummente protegidos, baseados em nenhum

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OSIRIS • A Dinâmica da Fraternidade

princípio justo, existem também forças de no plano dos afectos e da compreensão, e nesses
inveja e descontentamento; e quando estes sentimentos mais profundos normalmente ge-
privilégios negam oportunidades legítimas ou rados pelo contacto íntimo. Tal como as estrelas
causam dificuldades aos que deles são excluí- e as galáxias se diz estarem a afastar-se umas das
dos, também criam ressentimento e violência. outras num universo em expansão, do mesmo
Assim nascem e se alimentam revoluções, a lei modo no mundo moderno cada homem, perse-
da acção e reacção actuando de forma cega e guindo de forma intensa e febril o seu objectivo
catastrófica nas relações humanas, bem como particular, afasta-se dos seus companheiros,
psicologicamente, tanto como no campo dos cada qual movendo-se na sua própria direcção.
fenómenos naturais. Na medida em que cobre um terreno maior –
Os homens são supostos darem-se com os não sendo este o caso com o número crescente
seus iguais em respeito e compreensão mútuos, de especialistas e técnicos que não saem muito
e aprenderam a cooperar, de formas diversas, para fora dos seus estreitos trilhos – ele perde
para o seu enriquecimento e bem mútuos. Este profundidade de compreensão e profundidade
interesse surge por si quando as circunstâncias nos relacionamentos. Com toda a variedade de
não são desfavoráveis, tal como a natural curio- contactos e de interesses que o excitam, ainda
sidade de um jovem animal ou a sua ligação que superficialmente, a vida é um assunto
à mãe. Infelizmente, as condições modernas muito pouco satisfatório.
não parece serem propícias para estes instintos Vivemos um período da história mundial
verdadeiros e profundamente enraizados no em que a mente humana anda à procura, acti-
homem, que o podem guiar ao longo de um va, agitada, inquieta. Esta actividade, dirigida e
caminho de felicidade para si e para os demais, controlada, resulta nos avanços construtivos da
florescendo nessas graças e virtudes sem as Ciência e da tecnologia que emprestam a sua
quais a vida tende a tornar-se vulgar, demasiado tónica particular a este período, diferenciando-
excitante e desprovida de qualquer significado -o de outros, mas também traz dificuldades à
profundo. A competição agressiva, a luta pelo condição da mente do homem comum que é
sucesso e pela construção daquilo que se chama empurrado, puxado e excitado por uma va-
auto-identidade, como se tal já não existisse, a riedade de forças e acontecimentos. Existe
incessante procura de sensação de uma outra uma maré mista de ideias, criada não só pelos
forma, tudo isto não só destrói a paz da mente contributos notáveis do conhecimento, como
e do coração como também a capacidade e a também pelos acontecimentos diários, crónicas,
disposição para a concretização de qualquer da- comentadores e livros que tratam de mil e um
queles valores que não se encontram no plano assuntos diferentes. Estas ideias que penetram
das respostas superficiais de cada um. na mente do homem mediano de maneira
É um facto infeliz que, à medida que as nenhuma ajudam à sua iluminação. Até mesmo
oportunidades se expandiram com todos os as melhores mentes tendem actualmente a viver
meios de movimentação e de comunicação em segunda mão, satisfeitas com ideias que mais
que a Ciência nos proporcionou, e à medida não são que representações, mesmo quando
que novos campos de actividade foram abertos verdadeiras, e não a realidade. As imagens que
devido a um maior conhecimento científico, as formamos tornam-se paredes ou tabiques que
pessoas afastaram-se umas das outras, não só não deixam que a vida seja vivida em contacto
fisicamente, e nos seus interesses, mas também directo com as pessoas e as coisas tal como

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OSIRIS • A Dinâmica da Fraternidade

elas são. Aquilo que podemos começar por A Fraternidade tem um significado na
considerar como uma fonte de enriquecimento realidade das coisas que nos passa despercebido
torna-se uma desvantagem. Um americano não quando se torna uma doutrina académica.
vê um habitante do Vietname como o ser hu- Significa, no plano psicológico, um interesse
mano que é, mas como a imagem desse homem positivo e sentimento pelos outros, bem como
já impressa na sua mente. A imagem classifica a compreensão dos mesmos. A partir dessa
aí os seres humanos em pró-América e pró-Viet base, ascendendo a realizações mais profundas
Cong. De modo idêntico, pessoas de outros pa- e subtis, ela pode tornar-se uma expressão de
íses têm as suas próprias imagens. Porque não toda aquela beleza de sentimento veiculada por
estamos em contacto com a realidade que é a S. Paulo nas suas Cartas aos Romanos e aos
vida, perdemos a capacidade de compreender a Coríntios. S. Paulo fala da caridade do coração
vida seja sob que forma for, e somos capazes dos ou, como alguns traduziram, do amor, que é
actos mais atrozes, tudo em nome da imagem, sempre belo. O amor, tal como a afeição, é real
da ideia que perseguimos. A nossa preocupação quando existe, porque é preciso e claro. É tão
com o recheio das nossas próprias mentes, bem real como os vários raios que penetram uma
como com as ideias daí resultantes, torna as substância sólida ou como uma corrente de
nossas vidas irreais, rotineiras, vulgares e nada electricidade que difunde um campo magnéti-
satisfatórias. co e despoleta várias reacções físicas.
A simpatia por uma pessoa procede da Por que a Fraternidade se aplica a uma
compreensão dos seus sentimentos, das suas variedade de seres, torna-se ou uma abstracção
necessidades e experiências, e normalmente a ou um sentimento enfraquecido pela sua
simpatia provoca afeição. Mas o ritmo louco disseminação, algo vago e amorfo a que falta
em que a vida é vivida por causa das atracções um foco e delineamento precisos. É ineficaz
que hoje existem no mundo, tão diferente de porque se trata de um conceito colocado numa
épocas passadas, não permite que haja tempo prateleira do nosso pensamento e não uma
para esse conhecimento. Quando fazemos uma força que muda a nossa maneira de pensar e o
observação superficial ou convencional sobre nosso comportamento de forma absolutamente
algum fenómeno significativo ou sobre algum definitiva. Se existe a mesma essência, com as
acontecimento importante que afecta as vidas mesmas energias, metaforicamente o mesmo
humanas, ou sobre algo belo, e rapidamente sangue, em diferentes indivíduos em alguma
passamos para outros assuntos, é óbvio que não camada do seu ser, ela pode desenvolver neles a
fomos tocados por isso. Estamos preocupados capacidade para se conhecerem como parentes
com as nossas próprias ideias, fins e objectivos. e responderem-se entre si com afeição e beleza.
A mente raramente está liberta deles e, por É neste conhecimento e nestas respostas que
conseguinte, trata-se de uma mente quase nada tem de ser descoberto o verdadeiro significado
aberta. A ideia que formamos de nós mesmos da Fraternidade. Sendo a Fraternidade um
e de todas as coisas geralmente está em parte termo abstracto, ela soa como uma condição
moldada por reacções que não paramos para estática de que se deve apenas tomar nota,
examinar e, em parte, deriva de leituras e de embora na realidade consista num intercâmbio
vários meios de propaganda. Só raramente natural entre dois seres humanos, em que cada
entramos em contacto directo com outro ser um é uma forma especializada de Vida ou
humano sem esta barreira. Espírito, o termo Espírito referindo-se a uma

14 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • A Dinâmica da Fraternidade

profundidade e âmbito de sentido que terá quereria ser mais proeminente do que é. Uma
de ser descoberto por cada qual dentro de si. nota particular pode ser soada apenas para fazer
Quando a Fraternidade é imbuída desse signi- ressaltar o significado de outra. Ficará contente
ficado torna-se um relacionamento em que o com o seu próprio lugar e contribuição para a
desenvolvimento de cada um se vê enriquecido beleza e eficácia do conjunto, não desejando
pelas respostas do outro. que o conjunto rode à sua volta, dando-lhe a
A vida, que começa como uma unidade, tónica ou função dominante.
presta-se a diferenciações que constroem uma É desta forma, a cada passo, em associação
árvore com numerosos ramos e galhos, cada com membros de cada grupo natural que nos
um com as suas características especiais. Cada possa incluir, que começamos a perceber como
homem é diferente de outro no seu ser interior, a vida deve ser vivida, o que realmente significa
embora este ser pertença à mesma árvore da cooperar com os outros, qual é o dharma de cada
Vida. Esta diferença, quando correctamente um em relação com eles, o que a Fraternidade
entendida, torna-se um meio de intercâmbio significa em acção e prática. Todo o auxílio e
e de enriquecimento para ambos. O professor serviço que possamos prestar aos outros para
beneficia tanto como o aluno, o homem suprir uma necessidade ou promover um em-
tanto como a mulher, no relacionamento que preendimento benéfico faz parte desse dharma,
estabelecem entre si. Até mesmo um homem que é o caminho do nosso progresso em frente,
estúpido pode ajudar um amigo inteligente ao fora do campo das limitações e sombras, para
dar-lhe oportunidade de penetrar na máscara o reino da unidade e da luz; é também uma
da sua estupidez e encontrar forma de a solu- expressão dessa Fraternidade que é a verdadeira
cionar. Onde quer que haja interdependência, relação entre os seres, seja ela reconhecida ou
seja de que forma for, o tipo de interacção que não. Diz-se que quando finalmente se entra
conduz não só ao serviço das necessidades ime- nesse reino de luz e o ser mais interno se funde
diatas de cada parte, como também ao seu bem na essência que o constitui, toda a Natureza
supremo comum, deve ser considerado acção canta um hino de alegria, porque a Natureza,
da Fraternidade. ou melhor, as suas camadas mais profundas, são
As possibilidades de enriquecimento um tampo harmónico para cada frémito, quer
mútuo – sem prejuízo do carácter dos tipos es- de alegria quer de dor, sentido por qualquer
pecializados – multiplicaram-se enormemente um dos seus filhos. É a unidade que subjaz a
devido aos desenvolvimentos ocorridos neste toda a diversidade que nos faz participantes da
século. Não resta dúvida que é na unidade que parte e destino uns dos outros. Cada um actua
o verdadeiro progresso acontece, mas a natureza inevitavelmente sobre os outros de formas que
dessa unidade deve ser compreendida por forma aumentam ou diminuem as suas próprias ale-
a incluir o facto do processo de diversificação grias e sofrimentos, dependendo se a sua acção
e de especialização da Vida. É só a partir de segue as leis da unidade que constituem o bem
diferentes notas na sua pureza, diferentemente e o belo, ou as formas de separatividade sempre
espaçadas, que a harmonia é produzida. Se cada causadoras de distorção e de conflito. ∞
uma dessas notas fosse uma entidade conscien-
te, ela não só estaria consciente do valor das ou- in The Theosophist, Dezembro de 2009
tras notas, bem como partilharia da harmonia
produzida em colaboração com elas. Nenhuma

Maio - Agosto 2010 nº 19 15


A Natureza do Silêncio
SURENDRA N A R AYA N

N
os ensinamentos dos Grandes Seres, a ficar irritado nem perturbado por aquilo que nos
ênfase é posta sobre a necessidade de chega do exterior. Que pode ser uma censura, ou
silêncio nos diferentes níveis de cons- o sentimento de não se ter sido suficientemente
ciência. Relativamente à palavra, um instrutor apreciado ou louvado, ou por se ser ignorado,
disse: o silêncio é o controlo da palavra. Aquela por não se ter sido convidado a falar numa
jóia teosófica, Aos Pés do Mestre, também nos reunião. Pode mesmo ser o facto de não se ser
aconselha: festejado pelo aniversário de nascimento ou de
É bom falar pouco, melhor ainda nada casamento. O amor-próprio e a teimosia tornam-
dizer, a menos que estejamos certos de que o que se grandes obstáculos para o desenvolvimento e
se quer dizer é verdadeiro, amável e útil. Depois conservação do silêncio dos nossos pensamentos
acrescenta: e dos nossos sentimentos. Na sua mensagem à
Um enunciado das qualidades requeridas é secção Americana em 1889, Madame Blavatsky
assim apresentado: saber, ousar, querer, calar; e a advertiu:
última destas qualidades é a mais difícil. São numerosos os membros activos da
Podemos recordar aqui aquele incidente Sociedade Teosófica que desejam trabalhar e que
bem conhecido da vida de Buda quando, en- trabalham firmemente. Mas eles exigem, como
quanto pronunciava um discurso, uma pessoa, prémio da sua ajuda, que todo o trabalho seja feito
de repente, se pôs a insultá-lo com palavras abo- conforme as suas ideias e não segundo as de outrem.
mináveis, mas Buda ficando calmo, e sem estar Se não acedermos às suas exigências, afundam-se
afectado por aquela torrente de injúrias, no final na apatia ou retiram-se inteiramente da Sociedade,
perguntou-lhe simplesmente: “Amigo, o que é proclamando bem alto que só eles são os verdadeiros
que acontece a um presente que não é aceite pela teósofos.
pessoa a quem é dado?” A Luz da Ásia, do Sr. Algumas vezes, mesmo nas publicidades
Edwin Arnold lembra-nos: humorísticas da televisão, passa uma mensagem
Vigiai os vossos lábios séria, como aquela na qual os passageiros se
Como se fossem as portas empurram para encontrar um lugar num auto-
de um palácio habitado por um Rei. carro abarrotado, um homem grita para outro:
Que todas as vossas palavras sejam calmas, “Porque é que me deu um soco?” Responde o
francas e corteses outro “ Não lhe dei um soco, mas, mesmo que
Como se Sua Majestade estivesse presente lhe tivesse dado, porque é que o apanhou?”
Outro nível de consciência relaciona-se Infelizmente, nós apanhamos e, imediatamente
com os nossos pensamentos e os nossos senti- e com pressa, acumulamos tantos “golpes” no
mentos. O silêncio dos nossos pensamentos e nosso cérebro que continuamos a estar de mau
dos nossos sentimentos inclui o facto de não se humor e a sofrer.

16 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • A Natureza do Silêncio

Como um instrutor uma vez observou, a O silêncio supremo nasce quando começa-
função do cérebro é a de registar, mas é assim mos a compreender o nosso puro Eu, “o espírito
para o vosso cérebro como o é para o vosso no nosso coração” e experimentamos viver nele.
gravador: parai a gravação quando alguém vos Este Eu é a nossa verdadeira natureza, unitiva
lisonjeia ou vos critica com palavras cáusticas e sempre harmoniosa. Uma tal compreensão
e pouco amáveis. Com o tempo isso irá trazer vem através do discernimento entre o real e o
felicidade à vossa vida! irreal, o permanente e o transitório, o durável e o
O silêncio, ou um dos seus aspectos cha- mutável, o Eu e o “não-eu”. A vigilância e a total
mado calma, vem também pela compreensão consciência acentuaram-se como guias. Olhar
das Leis da Natureza. Essas Leis são imutáveis e sabiamente para as coisas e para os acontecimen-
imparciais, e, consequentemente, a justiça, uma tos é uma outra forma de exprimir o mesmo
justiça absoluta, prevalece na aplicação dessas ensinamento.
Leis. Somos tentados a citar aqui uma passagem J. Krishnamurti exorta:
inspiradora de Annie Besant: Deveis estar intensamente conscientes, cons-
Ele sabe que tudo o que lhe acontece na vida cientes das vossas palavras, conscientes do vosso
é o que ele próprio criou no passado. E assim a sua snobismo, conscientes dos vossos medos, das vossas
atitude é uma ausência de ressentimento… fica en- ansiedades, do vosso sentimento de culpa. E ao
corajado ao lembrar-se que a dívida uma vez paga morrerdes para tudo isso, então dessa morte virá a
está paga para sempre… Qualquer dívida que é beleza do silêncio.
satisfeita é riscada da lista da vida para sempre. E Mais adiante, elucida o impacto do silêncio
é assim que está à vontade no meio do sofrimento, sobre as nossas vidas quotidianas e acrescenta:
porque o homem interno se satisfaz com a Lei. À luz desse silêncio, todas as acções podem
Podemos dizer que na essência, o silêncio ter lugar, na vida quotidiana… e questionamos,
é perturbado quando temos tendência em nos será possível agir neste mundo com esse imenso
identificarmos com os nossos veículos – os corpos sentimento de silêncio?... Quando se coloca esta
físico, astral e mental, e os seus desejos incontro- questão, separamos o silêncio da acção. Por isso é
láveis. Daí nasce uma distinção entre “eu” e “vós”, uma pergunta perigosa… Sabem, é como um tam-
a minha vontade e a vossa, as minhas simpatias bor que está perfeitamente afinado, se lhe baterdes
e antipatias e as vossas, e, depois, os meus inte- ele dará a nota correspondente, mas está sempre no
resses, a minha felicidade, as minhas exigências e vácuo, silencioso!
os meus desejos. Como foi dito por Buda, para É este o estado de pura atenção, suprema-
aquele que se agarra, o movimento existe, para mente silencioso e, no entanto, vibrando com
aquele que não se prende, não existe movimento. uma ressonância sagrada.
Os ensinamentos vão mais longe e acrescentam Aquele que se harmonizou através da yoga,
que até mesmo o sentimento ou a emoção mais cujo eu está purificado, cujos sentidos estão domi-
subtil, como a inclinação para o que quer que nados, cujo eu se tornou o eu de todos os seres, esse
seja, é um estremecimento de sede, sede talvez sob não é afectado mesmo quando ele age. (Bhagavad
a forma mais nobre. E, quanto à questão o que Gita, V.7). ∞
resta quando é retirado tudo o que é da natureza
do apego, a resposta é fica a bondade, a pura bon- (in The Theosophist, Novembro de 2001)
in Le Lotus Bleu, Agosto-Setembro de 2009
dade. A bondade é o amor purificado pela visão
penetrante das escórias do desejo e do apego.

Maio - Agosto 2010 nº 19 17


O Caminho da Verdade
PHAN-CHON -T Ô N

A
presento-vos alguns pensamentos que porta da nova Era. O desenvolvimento de todos
me foram inspirados pela divisa da os sistemas anteriores, desde a Índia, Egipto,
Sociedade Teosófica: “Satyan Nasti Paro China, até ao Budismo, ao Cristianismo e ao
Dharma” [“Nenhuma Religião é superior à Islão, levou a um entrelaçamento inextricável
Verdade”]. que encerra o indivíduo humano de forma
A VERDADE está, por conseguinte, inexorável e podemos dizer que, na maioria
muito solidamente colocada como fundamento dos casos, em lugar de conduzirem o homem
dessa obra grandiosa – a que foi empreendida para a liberdade, todos esses sistemas religiosos
pelos Fundadores da Sociedade Teosófica. amarram o homem, fazem dele um escravo, um
Nós sabemos, porque no-lo foi dito bastantes adorador, um fiel. Por essa razão, a nova palavra
vezes, que no último quarto de cada século, a de ordem deve ser para cada um de nós a des-
Grande Hierarquia Branca, o Governo Interno truição dessa cerca, abrir a fenda na muralha e
do Mundo, faz um novo esforço para preparar ter acesso à Verdade por meio da liberdade.
a vinda do século seguinte, tentando incutir Em lugar de decretar dogmas ou de
na mentalidade da humanidade do século que constituir um corpo para veicular os segredos
finda a nota directriz do século vindouro. Isto superiores, a nova Teosofia explica as coisas,
com o sentido de tentar assegurar uma marcha revela os segredos reveláveis, e, no todo, pede
normal na evolução da humanidade, uma um estudo inteligente e ponderado. Um canto
entrada normal nas sucessivas etapas do seu do véu foi levantado, diz-se, mas agora, em vez
desenvolvimento. A etapa que se abre na nossa de ser levantado para um pequeno número,
frente parece, pois, estar marcada pela Verdade. é-o para todos. Também nada de indiscrição.
A humanidade conheceu outras épocas As Leis Ocultas são rigorosas porque são reais:
onde a tónica esteve posta em um ou outro “Somente aqueles que têm os olhos abertos
aspecto da busca espiritual, no conhecimento, podem ver.” E uma vez os “segredos” revelados,
no símbolo, na fé… Mas hoje nenhum desses conhecidos pela maioria dos homens, damo-
sistemas particulares predomina sobre os nos conta de que sempre estiveram expostos
outros, todos são estimulados e aprofundados. aos olhos do público, mas que este público
Hoje, é o próprio centro de toda a esfera espi- permaneceu cego porque procurava a verdade
ritual, o próprio objectivo da busca espiritual, algures, uma verdade que ele julgava estar bem
que é levado para a frente: a Verdade. Verdade escondida, até mesmo inacessível.
inteiramente pura, completamente despida, Quando o investigador abre um pouco
sem nenhuma roupagem misteriosa, sábia ou os olhos, fica admirado por ver o número de
fascinante. “Nenhuma Religião é superior à coisas, que lhe foram sempre declaradas como
Verdade”. Esta é a fórmula mágica que abre a extremamente secretas, expostas à luz do dia e,

18 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • O Caminho da Verdade

isso, desde há séculos. Mas os seus olhos esti- razão por que vê aparecer toda aquela floração
veram sempre velados, ou desviados, e nunca de mestres, de magos e toda essa “plêiade” de
viram a realidade das coisas. ciências esquecidas e ignoradas pela ciência
Se nos voltarmos para o lado material da oficial.
pesquisa, damo-nos conta de que aí, igualmen- O que é a Verdade? O Dicionário Larousse
te, se iniciou algo de novo. Até ao presente, a definiu-a muito bem nesta espécie de prestidi-
ciência seguiu um sistema após outro. Demoliu gitação. Quando o abrimos na palavra Verdade,
um a um todos os princípios enunciados segun- lemos: “qualidade do que é verdadeiro”. E
do as experiências e considerados invioláveis. quando nos reportamos à palavra verdadeiro
Por exemplo, o princípio de conservação da está escrito “conforme a verdade”. Existe algo
matéria “nada se perde, nada se cria”, que foi de… verdadeiro, nesse reenvio de um para o
destruído com a descoberta da radioactividade outro lado. Sim, a Verdade, em verdade, não
e pela famosa fórmula de Einstein. se define e não pode definir-se por palavras. A
Aqui também o sábio ao fazer uma des- Verdade não se aprende, não se lê, não se diz,
coberta apercebe-se de que o princípio que não se ensina. Lembremo-nos daquela frase do
descobriu sempre estivera operante, sem que os Senhor Buda: “Aquele que interroga engana-
seus olhos, turvados pelas teorias convergentes, se, aquele que responde engana-se. Não digas
o tivessem detectado. nada.” É um conselho de valor inestimável,
E a ciência, no seu impulso de descoberta, um conselho cuja sabedoria e autenticidade
lança em cada dia uma revelação à cabeça da apreciamos, e que não seguimos de modo
humanidade, que fica atordoada com tudo nenhum. Com efeito, não se desperdiça tanto
isso. A humanidade encontra-se bruscamente tempo, tanta energia, tanto dinheiro, para dar
confrontada com um número incalculável e conferências atrás de conferências, palestras e
insuspeito de “descobertas” que ainda não sabe mais palestras, discursos, simpósios, debates e,
como utilizar. No seu prazer da descoberta e no por acréscimo, para publicar todos os livros e
seu tacteamento pueril, a ciência brinca com todas as revistas. No fundo, todos os que falam
as energias postas à sua disposição e mal se dá e escrevem, sabem bem, com a maior sinceri-
conta dos perigos em que incorre. dade, que sabem apenas pouca coisa, e tomam
Se regressarmos ao domínio do invisível, sempre a precaução de dizer que, simplesmente,
produz-se o mesmo fenómeno. Para fazer não é necessário agarrarem-se às suas palavras,
tocar o despertador no séc. XIX, Madame que a Verdade está muito para além de tudo o
Blavatsky, em conjunto com o Coronel Olcott, que possam dizer. Esta é uma verdade muito
colocaram a ênfase nos fenómenos sobrenatu- difícil de ser compreendida pela maioria.
rais. Despertaram tão bem no homem aquela Com efeito, o que quer que se possa dizer,
atracção pelo maravilhoso, e, sobretudo, de tal por maior que possa ser quem se expressa, o que
modo tornaram a colocar ao alcance do homem diz nunca será a Verdade, mas uma expressão
essas possibilidades, essas ciências, essas práti- pessoal do que ele retirou da luz da Verdade.
cas esquecidas, que o homem da actualidade, “Tu entrarás na Luz, mas nunca tocarás a
ao encontrar-se bruscamente diante de uma chama.” Somente uma pequena parcela de luz
revelação cuja amplitude o assombrou, não é que pode ser percebida, ao mesmo tempo, e
sabe onde mergulhar. Ainda aqui, a atracção somente uma parcela ainda mais pequena é que
pelo prazer, pelo agradável o arrebata; e é essa a poderá ser transmitida pela palavra.

Maio - Agosto 2010 nº 19 19


OSIRIS • O Caminho da Verdade

E, no entanto, algumas pessoas, mesmo saímos da influência desse ser, reencontramos


aquelas que passam ao nosso lado no dia a dia, a nossa complexidade e, com ela, a dificuldade
seres que, por isso, não estão, de modo nenhum em compreender o que é verdadeiro.
colocados num pedestal pela opinião pública, Em nome da nossa personalidade, temos
podem revelar-nos algo de maravilhoso e, no sempre a tendência de nos defendermos, de
seu contacto, naturalmente, dão a impressão de afirmar os nossos direitos perante os outros,
algo de verdadeiro. É isso que é maravilhoso. contra os outros, e é essa autodefesa que nos
Frente a determinadas pessoas, estamos certos leva a erijirmos um muro de separatividade e
de que a verdade existe, que há alguma coisa de a vivermos de aparências que não são a nossa
verdadeiro, e o que é ainda mais maravilhoso, natureza real. Fazemos isto a cada momento da
é que tais pessoas, com a sua presença, não só nossa vida. Qual de nós, com efeito, confessa
nos provam que essa verdade é acessível, mas espontaneamente a sua ignorância sobre um
ainda e sobretudo nos aproximam, nem que ponto ou outro; mesmo encostado à parede,
seja por um momento, da realidade. Tais seres inventa-se uma resposta evasiva: “esqueci-me”
podem escrever livros ou dar conferências, mas ou “não tenho tempo” ou “já não me lembro”.
não é tanto os seus argumentos que nos provam Ou então refugiamo-nos atrás de um sorriso
a verdade, nem o que dizem, é a sua condição silencioso que, ao dissimular totalmente a
de ser, são eles próprios que nos certificam que nossa ignorância, dá a ilusão do nosso saber. E
é verdadeiro. É aí que reside a característica fazemos isto a cada instante. Agimos, falamos,
essencial da verdade. A Verdade é inseparável pensamos, vivemos no fictício, e com estes
da vida; e é somente pela vida, na vida, que a modos, estas atitudes falsas, que cobrimos com
verdade brilha. um véu de falso saber, temos a pretensão de
O que é que eles fizeram, perguntamos procurar a Verdade. Não, não é possível ver a
nós, para serem, assim, a própria expressão Verdade se metermos sempre debaixo dos olhos
da verdade? É esta a pergunta fundamental de um par de óculos de uma cor ou de outra. A
qualquer investigador da verdade. Que cami- Verdade não pode revelar-se àqueles que a
nho seguiram? procuram por meio da falsidade. Ora, é tudo
Posso responder imediatamente: o cami- isso que nós fazemos. É um hábito herdado do
nho da verdade. Eles são expressões da verdade, passado, adquirido quando tínhamos de lutar
muito simplesmente porque são sempre para evoluir, quando tínhamos de desenvolver a
verdadeiros. Isto é uma verdade muito sim- nossa personalidade. Mas, então, desde que nos
ples, totalmente desnudada; talvez demasiado voltámos para a Verdade, é preciso abandonar
simples para o nosso mental complicado, talvez todos esses hábitos. “Não existe compromisso”,
demasiado nua para nós que damos muita im- lê-se em Aos Pés do Mestre.
portância às formas. E, não obstante, o primeiro Esta autodefesa é o resultado do medo.
pensamento que nos vem, quando em presença E o medo é a consequência da ignorância, da
de um ser verdadeiro, é que é verdadeiro. Nada ignorância das leis que governam o Universo e a
mais. E um impulso quase irresistível brota do sua Evolução. Para não ter mais esta atitude de
mais profundo do nosso ser, abre-nos, e nós autodefesa é necessário que desapareça o medo.
somos efectivamente verdadeiros, sem nenhu- E o medo desaparecerá naturalmente quando a
ma auréola, sem nenhuma tomada de posição, ignorância se dissipar.
sem nenhum atributo supérfluo. Mas logo que Foi com este objectivo que foi levantada

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OSIRIS • O Caminho da Verdade

a ponta do véu. Foi com este objectivo que os lido este ou aquele livro, se envaidecessem por
Fundadores da Sociedade Teosófica voltaram saberem muito de Teosofia ou se precipitassem
a colocar em livre circulação todas essas leis nas práticas cerimoniais ou psíquicas, mas para
que constituem a base da sabedoria de todos aqueles que, tomando consciência dessas leis,
os tempos. Foi com esse objectivo que tiveram pudessem orientar a sua vida no sentido da
a bondade de nos revelar a construção e o evolução, para aqueles, cujos olhos estivessem
progresso do universo. Mas, como todos os abertos para estes ensinamentos, experimen-
homens, tiveram de utilizar a linguagem hu- tassem pô-los em prática nas suas vidas, mais
mana, e além disso tiveram que encontrar uma ainda, para que a sua vida fosse a expressão das
maneira compreensível de apresentar as coisas leis naturais.
aos homens da época em que iniciaram o traba- É este o caminho que foi iniciado pela
lho. Daqui resulta o carácter rígido e parcial de Sociedade Teosófica; aqui está, na minha
algumas apresentações da Teosofia, daquilo que opinião, a nota da Era que se abre: “Viver
actualmente muitos teósofos se comprazem em verdadeiramente o que se aprendeu”. Sem ne-
designar “a antiga” apresentação da Teosofia. cessidade de sistemas, de rituais, de códigos, de
Foi também com este objectivo que Madame religiões. Mas uma vida totalmente impregnada
Blavatsky consentiu em produzir certos fenó- pela expressão das leis naturais; uma vida muito
menos. Se o fez, foi muito menos para produzir simples e pura; uma vida natural sem medo,
fenómenos, foi muito menos para erigir um sem autodefesa, uma vida espontânea, uma
sistema, foi muito menos para fazer o novo, do vida livre. É somente com esta liberdade que se
que para demonstrar com exemplos e provas pode esperar alcançar a luz da Verdade.
que o Universo, e, em consequência, o homem,
são regidos por Leis imutáveis, e que, quando Cada Homem é para si mesmo o Caminho, a
se obedece a essas leis, a evolução acontece. Verdade, a Vida. (A Luz no Caminho) ∞
Se os nossos antecessores falaram, escreveram
tanto, não foi tanto para que os membros da (in Le Lotus Bleu, Novembro-Dezembro de 1960)
in Le Lotus Bleu, Novembro de 2009
Sociedade Teosófica se glorificassem por terem

A Verdade é a mesma em toda a parte, mas há mil maneiras diferentes de a


expressar. E todavia, o todo nunca é perfeitamente expresso. As várias religiões
são métodos que os homens seguem no caminho para Deus e justificam-se pelos
estados diferentes de civilização em que as sociedades se encontram. Muita
gente há no mundo que não aceita cegamente, sem as compreender, quaisquer
doutrinas; para muitos uma afirmação não tem valor real senão depois de
comparada com outros factos e como parte de um esquema mais ou menos com-
preensível. São essas pessoas as que precisamente apreciam o tesouro que Deus
nos deu ao qual chamamos razão. A Teosofia mostra-lhes que a crença tem
um significado verdadeiro, que o esplendor, a beleza e a poesia do pensamento
religioso existem e não são meros sonhos agradáveis, mas verdades da natureza
que podem por eles ser investigadas.
C. W. Leadbeater

Maio - Agosto 2010 nº 19 21


A Fraternidade como uma Via
para a Consciência Desperta
TRÂN-THI-KI M - DI Ê U

M
ais do que uma vez me foi dito que de guias mediúnicos de baixa condição que
as pessoas que não pertencem à continuam a enfeitiçar tantas mentes confusas.
Sociedade Teosófica são bem mais Um membro da ST em particular ou
fraternas do que aquelas que são membros da qualquer outro ser humano em geral, que tenha
ST. Confesso que, de ambas as vezes, senti alí- atingido um certo nível de cultura e de com-
vio. De facto, tendo a ST menos de trinta mil preensão, só poderá ver a fraternidade como
membros e, se se assumir que esses membros uma necessidade. Na verdade ela representa o
são mais ou menos fraternos, isto contra seis objectivo principal da trilogia de objectivos da
biliões de humanos, não podemos deixar de Sociedade. É a condição para:
ficar muito felizes com a observação e esperar - em primeiro lugar, viver em paz com o
que seja mesmo assim. E há verdade nisto. meio circundante e com o próprio,
O núcleo de fraternidade a ser formado de - em segundo lugar, descobrir algo mais
acordo com o primeiro objectivo da Sociedade amplo e mais profundo no campo da consci-
Teosófica está na realidade em formação. Estar ência, e
em vias de formação significa que não está - em terceiro lugar, experienciar a verdade.
ainda totalmente formado… Consideremos estes três pontos. Em pri-
Quando os objectivos da Sociedade foram meiro lugar, a fraternidade é uma necessidade
estabelecidos, há mais de 130 anos, o primeiro pata se viver em paz com o meio circundante.
objectivo consistia em ‘formar um núcleo de Não podemos manter a separação entre amigos
fraternidade sem distinção de raça, credo, sexo, e inimigos. Temos de chegar a um ponto na
casta ou cor’. Houve uma altura, pelo menos em mente em que esta distinção desapareça. Então
algumas Secções, em que só o primeiro objecti- quem é que está à minha frente, à vossa frente,
vo era exigido como condição que o candidato se não são amigos nem inimigos? Apenas seres
teria de aceitar. É perfeitamente óbvio que o humanos a lutarem, a maior parte das vezes,
primeiro objectivo seja o mais importante. pela sua sobrevivência, seres humanos muitas
De facto, imaginemos o segundo objectivo vezes apegados às suas posses, a esse pequeno
parcialmente realizado, produzindo eruditos pedaço a que chamam reconhecimento ou
‘medianos’; se o primeiro objectivo não for apli- prestígio. Esses seres humanos sentem-se prin-
cado, esses ditos eruditos iniciarão lutas entre cipal e inconscientemente ameaçados pelo pós-
si apenas para promover o seu próprio ponto morte e semi-conscientemente amedrontados
de vista. Isto aplica-se igualmente a pessoas não pela morte. A morte é o terminal do comboio
cultas. E imaginemos igualmente o terceiro desta vida em que vós e eu viajamos e onde
objectivo só parcialmente explorado e fazendo partilhamos a mesma sorte. Durante a viagem
as delícias de todo o tipo de gurus baratos e a caminho do terminal, os viajantes muitas

22 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • A Fraternidade como uma Via para a Consciência Desperta

vezes zangam-se por questões ínfimas. Quando importante e de ordem essencial requer este es-
se agrupam em famílias, clãs, tribos, etc., as tado unificado de consciência em que a mente
zangas transformam-se em guerras. dualista é transcendida num todo indiviso. Este
Podem observar-se muitos fenómenos estado é denominado ‘consciência desperta’ ou
como efeitos secundários da guerra. Por vezes ‘inteligência em acção’. A consciência desperta
os clãs acalmam-se, mas algumas facções, por somente poderá habitar numa mente serena.
causa de interesses pessoais, mantêm o clima de Por conseguinte, uma mente agitada vive num
tensão de forma a dominarem a situação ou, estado não inteligente. A descoberta de níveis
pelo menos, a não perderem influência. Todos mais profundos de consciência leva à inteligên-
sabemos que, pelo mundo fora, algumas pessoas cia ou ao insight capazes de oferecer indicações
‘especiais’ lucram sempre com a guerra. Mas o sobre a natureza da Verdade.
comboio continua a correr inexoravelmente em Em terceiro lugar, a fraternidade é uma
direcção ao seu terminal. As famílias, os clãs, necessidade para se experienciar a Verdade. A
as facções, acabarão por ser arrastadas. Alguns Verdade é o objecto da pesquisa dos ocultistas.
dirão, “Não importa! Consegui aquilo que que- É a Realidade para os cientistas e o Supremo
ria” e, ao agirem, esquecem as consequências. para os místicos, o objectivo último de todo o
Outros, de certo modo mais conscientes do inquiridor genuíno. Para se investigarem as leis
facto de o comboio levar todos até ao final, não inexplicadas da Natureza e os poderes latentes
iniciarão um conflito. O risco continua para no homem, tal como é afirmado no terceiro
além desta vida. A próxima questão é como objectivo, a fraternidade tem, até certo ponto,
evitar o conflito. de ser concretizada, bem como feito algum
O conflito tem início na nossa consciência estudo aprofundado. Abordar-se a Verdade não
antes de se exteriorizar. Isto implica que, para significa explicá-la. Como é que se explica e
se estar em paz com o meio circundante, temos veicula a Verdade se, ‘enquanto tal’, ela é vazia?
de estar em paz connosco próprios. Nenhum Qualquer tentativa para a explicar ou definir
conflito, nenhuma atormentação, nenhuma iria circunscrevê-la e provocar mais confusão…!
auto-tortura… A paz interior não pode de for- Contudo, é inegável que experienciar a Verdade
ma alguma ser conseguida sem uma vida limpa pertence à vivência individual; todo o processo
e um coração puro, bem como sem alguma ocorre dentro da consciência do indivíduo.
compreensão que acabará por levar, na altura Portanto a experiência da Verdade é necessaria-
própria, ao insight. Não há outro caminho a mente subjectiva. Mas, a subjectividade desta
seguir. Penso que, embora não consigamos experiência não pode ser assemelhada a nenhu-
compreender isto totalmente, disto possamos ma experiência de realidade virtual, na qual
ter alguma percepção. está envolvida grande parte da imaginação que
Em segundo lugar, para se descobrir algo a cria. A experiência da Realidade ou Verdade,
mais amplo e mais profundo no campo da apesar da sua subjectividade, é uma experiência
consciência a fraternidade é uma necessidade. real vivida pela consciência individual dentro
É justamente por isso que a descoberta de algo da consciência unificada, sem intervenção da
mais amplo e mais profundo exige um campo imaginação.
unificado dentro da consciência, um estado em Assim, a fraternidade vista a partir do
que nem sempre haja dicotomia entre um e o ângulo da actividade é uma necessidade.
outro, entre isto e aquilo. Qualquer descoberta Vista do ângulo do intelecto é um estado de

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OSIRIS • A Fraternidade como uma Via para a Consciência Desperta

relacionamento natural onde ainda existe a fraternidade origina-se deste estado de inocên-
distinção entre ‘tu’ e ‘eu’. No entanto, o rela- cia em que o amor ainda não caiu na corrupção
cionamento não se deixa ensombrar, quer pelo de ser nomeado, mas que surge espontanea-
fardo de hierarquias, quer pela obscuridade mente nos cuidados e no serviço. Se o serviço
da inveja ou ainda por alguma confusão de fosse entendido não como estando ao serviço
funções. A fraternidade representa uma mente do egoísmo da humanidade, a fraternidade
onde não existe ambição para o próprio e ne- não seria vivida como um privilégio recebido
nhuma expectativa em relação aos outros. Este e conferido a uma população limitada, um clã,
estado natural faz lembrar o estado de inocência uma família, uma etnia, etc.
descrito pelo filósofo Taoista Tchuang-Tzu que Se a fraternidade for o caminho para a
escreveu sobre o tempo ‘quando a vida era plena consciência desperta, este caminho deverá
não havia história’. precisamente traçar a via de regresso a esta ino-
No tempo em que a vida na terra era plena cência original em que não existe luta interior
ninguém prestava especial atenção aos homens capaz de produzir conflito exterior. Este estado
com valor, nem fazia sobressair o homem com de inocência exalta a ética universal que não é,
mais capacidades. Os governantes eram sim- em definitivo, nem moralidade nem assunto a
plesmente os ramos mais altos da árvore, e os ser codificado.
homens eram como veados nos bosques. Eram Então, sendo mais do que uma necessida-
honestos e rectos sem que se apercebessem de de para a paz de espírito, para uma consciência
que ‘estavam a cumprir o seu dever’. Amavam- mais abarcante e para experienciar a Verdade, e
-se entre si e não sabiam que isto era ‘amor ao mais do que o primogénito natural nascido da
próximo’. Não enganavam ninguém, contudo inocência, a fraternidade representa a dinâmica
não sabiam que eram ‘pessoas em quem se do relacionamento. Exploremos um pouco mais
podia confiar’. Eram de confiança e não sabiam esta observação.
que isto era ‘boa fé’. Viviam juntos livremente Todos estamos de acordo com o facto de
dando e recebendo e não sabiam que eram a vida ser uma rede de relacionamentos. Estar
generosos. Esta a razão por que as suas acções relacionado implica geralmente estar-se envol-
não foram narradas. Não fizeram história. (1) vido nalguma forma de parentesco, de amizade
Infelizmente, a história passou a ser escrita ou de conhecimento pessoal. Mas que tipo de
desde então. Onde se encontra agora a frescura relacionamento se tem com o homem da rua?
da inocência? A honra perdeu-se. O que se pode Ele e eu partilhamos a mesma humanidade.
fazer? Tentar formar um núcleo de fraternidade! Ambos viajamos, como anteriormente se disse,
É o que estamos a tentar fazer, não é? no mesmo comboio em direcção ao fim, a
É evidente que quando a vida ‘era plena’ morte. Todos partilhamos o destino colectivo
(significando que não havia divisão) e se desen- de todas as criaturas, o que inclui a raça hu-
rolava sem ego (o que significa, de acordo com mana. Parentes e amigos têm mais pormenores
o Tao, a Via do Céu ou o Divino), não havia a partilhar como as suas profissões, crenças e
necessidade de se levantar a questão da virtude. talvez mesmo as suas idiossincrasias. Mas é
Quando se perde o Tao aparece a virtude. De tudo? Tem de se acrescentar um factor especial,
igual modo, quando a inocência é perdida, a solidariedade, a solidariedade de ser humano.
surge a fraternidade; quando a fraternidade se A solidariedade tem um significado muito mais
perde surge a noção de justiça, lealdade, etc. A profundo do que simplesmente dar de comer

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OSIRIS • A Fraternidade como uma Via para a Consciência Desperta

aos pobres e/ou auxiliar pessoas necessitadas. propósito imediato é identificado no âmbito da
A solidariedade implica respeitar a dignidade consciência? Quantas vezes não conseguimos
dos outros e, ao fazê-lo, respeitar a sua própria estar conscientes do nosso próprio estado de
dignidade e vice-versa. consciência?
E ainda mais do que isso. Quando encon- A fronteira entre a capacidade na acção,
tramos alguém, o que predomina na mente como yoga, e a hipocrisia, é muito ténue, tão
de cada um? Encontramo-lo com uma mente ténue como a fronteira entre a esperteza não in-
preconceituosa? Trata-se de um amigo? Sim, teligente e a loucura. Sem consciência desperta
absolutamente, ele pagou as minhas despesas. e sem integridade, essas fronteiras poderão ser
Não está do meu ‘lado’? Certamente que não, ignoradas inconsciente ou conscientemente.
pois nunca deixou de tagarelar sobre mim. É No seu discurso em Ommen, na Holanda,
um idiota; magoou-me, etc. Krishnamurti antes da bem conhecida A Verdade é uma
salienta que, a maior parte das vezes, na rea- Terra sem Caminhos, Krishnamurti exortou a
lidade não vamos realmente ao encontro do audiência:
outro. O dito encontro não é mais do que uma […] Falo daquele eu de que todas as coisas
justaposição de imagens, de realidades virtuais, dependem e do qual todas as transformações
dos respectivos egos, por vezes chocando-se surgem. Esse eu está em toda a gente e digo que, se
entre si, por vezes elogiando-se mutuamente, quiserdes essa glória, essa força, que é Libertação,
para se contornarem dificuldades ou para se que é Verdade, deveis olhar para esse eu e pôr tudo
conseguirem recompensas, de acordo com a o resto de lado […] (2)
esperança ou expectativa de cada um. Será Olhar para esse eu e pôr tudo o resto de lado
que existe algo de genuíno no relacionamento leva a que se tenha uma visão real da situação,
ou apenas queremos uma aproximação? A das pessoas e de si próprio – é o todo. Para se
fraternidade não pode ser vivida sem uma ser mais preciso, dever-se-ia dizer que a visão do
consciência desperta – a consciência desperta todo, do eu, leva à percepção das situações, das
de ser genuíno para consigo próprio, de ser rec- pessoas e do relacionamento. Esta percepção dá
to, honesto para consigo mesmo e para com os vida ao relacionamento, bem como um sabor
outros. Esta integridade pode ser sentida a par de frescura e de inocência. Do lado interno
do movimento de motivações escondidas que das coisas significa que a pessoa está a morrer
estão sob controlo e bem visíveis. A integridade para si própria pois nenhum eu pode sobreviver
deve ser vivida pelo próprio, por si mesma, e quando a consciência desperta está em acção.
não por qualquer reputação ou recompensa E Krishnamurti prosseguiu:
moral/material, porque a vida cumprida na sua Para que serve uma multidão de pessoas
completude e expressão última é incorruptível. sempre acomodadas, um grande número que são
Então, a fraternidade é uma via para a indecisas, vagas, receosas [e] com dúvidas? (3)
consciência desperta? Ou antes, não será a Como se disse atrás, o núcleo de fraterni-
consciência desperta uma via para a frater- dade a ser formado de acordo com o primeiro
nidade e para outros estados de consciência? objectivo da Sociedade Teosófica está na verda-
A consciência desperta parece ser a base das de em formação. Estar em formação significa
virtudes. Porque não somos fraternos? Não será que não está ainda totalmente formado …
porque todo o género de motivações masca- A Humanidade é o nosso reservatório. E
ram a visão interior de modo que somente o a fraternidade está sempre a ser construída. É

Maio - Agosto 2010 nº 19 25


OSIRIS • A Fraternidade como uma Via para a Consciência Desperta

como os bandos de gansos selvagens a voar no uma permanente consciência desperta não
céu. A sua composição varia consoante a época, comprometida.
mas há sempre bandos a voar.
Continua a haver perguntas para colocar. Roma, Julho de 2010 ∞
Sois vós, sou eu, indeciso, vago, receoso e des-
Referências:
crente? Estou acomodado? Estais acomodados? (1) The Way of Chuang-Tzu, traduzido por Thomas
A formação do núcleo de fraternidade Merton, p.114/115
depende da procura e da resposta da alma de (2) Agora, de J. Krishnamurti – Ommen Camp, 1929
(3) id.
cada um. E a resposta pertence a todos. Tem a
sua validade no pano de fundo da consciência,

Os membros da Sociedade Teosófica têm um objectivo único no mundo,


objectivo que devem realizar na sua própria esfera individual, quer esta
lhes pareça reduzida ou muito vasta. Nenhum esforço se perde no trabalho
teosófico e, como poderia ser de outro modo, quando, como disse um Mestre
da Sabedoria, “A Teosofia só pode encontrar expressão objectiva num
amplo código de vida, totalmente impregnado de um espírito de tolerância
mútua, caridade e amor fraternal. A sua Sociedade, como corpo, tem uma
tarefa diante de si que, se não for realizada com a máxima discreção, fará
levantar em armas contra ela o mundo dos indiferentes e dos egoístas. A
Teosofia tem de combater a intolerância, o preconceito, a ignorância e o
egoismo, ocultos sob o manto da hipocrisia. Tem de derramar toda a luz
possível do facho da verdade, que foi confiado aos seus servidores. Deve
realizar esta tarefa sem receio nem hesitações, não temendo censuras, nem
condenação. A Teosofia através do seu porta-voz, a Sociedade, tem de dizer
a VERDADE contra toda a Mentira, enfrentá-la sem qualquer receio de
consequências más e resistir à calúnia e às ameaças. Como Associação tem
não só o direito, mas também o dever de revelar os defeitos e esforçar-se por
corrigir os erros, quer pela voz de conferencistas escolhidos, quer através
da palavra impressa nos seus jornais e publicações – tornando, contudo,
as acusações tão impessoais quanto possível. Mas os seus Membros, indivi-
dualmente, não têm esse direito. Têm de seguir o exemplo de uma moralidade
firmemente delineada e firmemente aplicada, antes de ganharem o direito
de apontar, mesmo com espírito amável, a ausência de semelhante unidade
ética e honestidade de propósitos noutras Associações ou indivíduos.”

John Coats

26 Maio - Agosto 2010 nº 19


A Vida e a Sua Mensagem
C. JINARAJA DASA

E
xiste uma máxima, cuja exactidão todos ao que pensa e ao que sente. Daqui resulta que
nós podemos verificar com a nossa cada um de nós transporta consigo uma forma
própria experiência que afirma que nos subtil de antipatia para com os que não são seus
elevamos na vida espiritual através dos degraus compatriotas ou para com aqueles que não têm
estabelecidos no nosso passado. as mesmas crenças religiosas; e se não for uma
A vida do homem consiste numa mudança verdadeira antipatia, será então um sentimento
contínua no modo de encarar a existência. À de superioridade. Manifestamos um espírito
medida que ele passa por experiências, uma crítico e fazemos com que tudo dependa do
atrás da outra, eleva-se, por assim dizer, de um nosso eu e das suas necessidades. O que pode
nível para outro, no caminho escarpado de servir ao nosso “eu”, designamos como “bem”
uma montanha e a paisagem que avista muda mas, em qualquer lugar, se alguma coisa parece
continuamente. restringir a expansão do nosso eu denominamo-
Reconhecemos que existem duas espécies la por mal.
de visão ao nosso alcance: a do homem co- É por isso que possuímos a visão comum
mum e uma outra visão que foi revelada pelos do homem médio que se baseia no sentido
grandes guias da humanidade, os Fundadores crítico, e somos muito pouco influenciados
das Religiões. No entanto, somos levados a por aquela simpatia mais alargada de que, na
acreditar que essa visão dos Grandes Instrutores realidade, somos capazes.
tão elevada é só para Eles e que, nós, os huma- Mas existe uma visão diferente que qual-
nos, vivendo em níveis inferiores, não somos quer homem e qualquer mulher mais cultos
capazes de semelhante visão. Mas o objectivo começam a entrever porque lhes é revelada
da mensagem da Teosofia é precisamente o de pelos grandes poetas. O que caracteriza um
mostrar que aquilo que os Seres maiores alcan- poeta é precisamente essa visão mais ampla
çaram também um dia será alcançado por cada e, em particular, o poder ver o Divino no
ser humano. homem. O grande poeta mantém-se afastado
Em primeiro lugar, vejamos em que da humanidade; descobrireis que Shakespeare,
consiste a visão comum do homem. Qual é a que vê todos os homens como do alto do
atitude do homem médio perante aqueles que Olimpo, aponta as suas fraquezas e os seus
o rodeiam? Sabem que, de uma forma ou de defeitos mas, no entanto, envolve-os com a sua
outra, resvala no ressentimento. O homem benevolência. Dá prova dessa capacidade de
comum não gosta de ver à sua volta coisas visão quando coloca na boca de um dos seus
diferentes daquelas a que está habituado; não se personagens, ao falar de um outro a seguinte
sente à vontade entre os que pensam de outro afirmação: Deus o fez, então admitimos que seja
modo, e não é feliz se encontra uma oposição um homem.

Maio - Agosto 2010 nº 19 27


OSIRIS • A Vida e a Sua Mensagem

Observareis que cada vez que Shakespeare grandes lições é a da Vida Una. Lentamente,
se ocupa de um ladrão não lhe testemunha muito lentamente, os homens são levados a
nenhuma antipatia; fá-lo viver e realizar as suas compreender que existe uma UNIDADE; essa
perversidades porque não tem ressentimento Unidade será descoberta por cada um de nós
contra o mal que daí depende. consoante o seu temperamento e pouco impor-
Passemos agora ao grande Instrutor Sri ta os nomes que irão dar a essa Vida Única. Em
Krishna, na Índia. Ele dá provas desta mesma primeiro lugar, vem, pois, o reconhecimento
visão divina quando diz qualquer que seja a da Vida Una. Mas isso não é suficiente, porque
forma como os homens se aproximam de mim, eu é necessário que o homem descubra também
acolho-os a todos porque todos os caminhos que a sua imortalidade, a sua libertação da morte,
podem percorrer são os meus caminhos. mesmo enquanto vive num corpo mortal. Cedo
É essa mesma visão divina que nos mostra ou tarde, cada um de nós deverá resolver o pro-
esse outro grande Instrutor, o fundador do blema da imortalidade. É necessário estarmos
Budismo, quando dá um código de conduta absolutamente certos de que somos imortais.
àqueles que queriam segui-lo – do modo que Podemos considerá-lo intelectualmente ou
uma mãe ama o seu filho, o seu único filho, do voltarmo-nos para esta ou aquela filosofia, mas
mesmo modo é preciso que cada um de nós ame não encontraremos a prova da imortalidade
todos aqueles que nos rodeiam, quer esteja senta- senão quando descobrirmos um trabalho ao
do, de pé ou deitado. qual nos consagremos inteiramente. É somen-
Amar todos aqueles que o cercam. Eis te quando nos entregamos completamente a
aquela esplêndida visão do homem na qual já um trabalho assim, sofrendo por ele fazendo
não existe a questão de divisão de raça, credo sacrifícios que teremos, pela primeira vez, um
ou religião e que é dada à humanidade pelos vislumbre da nossa natureza imortal. E quando
maiores Instrutores, aqueles que abriram a tivermos tido essa percepção, quando tivermos
porta do Céu. sentido e conhecido algo dessa Unidade, então
Afigura-se-nos que esta sublime visão todos os homens terão para nós uma nova
não é possível senão a um pequeno número, mensagem.
a esses gigantes espirituais, a esses altos cumes Não menos importante, mas mais difícil
da cadeia da humanidade. Mas a mensagem da de compreender, é a mensagem da Vida que os
Teosofia aí está para nos afirmar que aquilo que vossos inimigos vos trazem. Não pensamos nos
os maiores realizaram também será realizado nossos inimigos, naqueles que nos detestam,
por cada um de nós, por cada um dos milhares como se tivessem para nós uma mensagem.
de seres que vivem no mundo. É por isso que No entanto, na condição de estar desligado e
é interessante estudar o caminho que conduz a de considerar objectivamente o nosso inimigo,
essa realização e de que modo todos os homens esforçando-nos por compreendê-lo, começa-
alcançarão a visão divina. mos a perceber que ele não nos detesta senão
Quando, com a ajuda da Teosofia, ana- pelo que está em nós próprios. Ele apenas faz
lisarem o processo da vida e particularmente o retorno do que faz parte da nossa natureza e
quando começarem a compreender o mistério que já tínhamos exteriorizado. É a isso que nós
do vosso próprio sofrimento, vereis pouco a chamamos ódio.
pouco, que a vida está a forçar-nos, a obrigar- O nosso inimigo pode ensinar-nos algo
nos a aprender certas coisas, e uma dessas do mistério da vida, dar prova de desapego,

28 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • A Vida e a Sua Mensagem

como permanecer sereno entre a dor e o prazer. Beethoven exprimir a grandeza da Vida como
É assim que, de todos os lados, os homens, ele a compreendeu? Não. É muito mais. Ele
o amigo, o Guru, o Instrutor, o inimigo nos desperta, no coração daqueles que o escutam, a
ensinam alguma coisa sobre a Vida. nobreza do coração; ele liberta o músico escon-
Acontece o mesmo quando se trata de um dido na multidão de ouvintes que se apertam
grande número de pessoas. Elas tomarão um para escutar a sua música.
novo significado à medida que se descobre a Aqui está um dos sentidos da Vida.
misteriosa natureza do ser humano. A razão A Vida liberta-nos incessantemente e
de ser dessa mensagem é, antes de mais, a de quando olhamos para os nossos amigos, cada
libertar alguma coisa que existe dentro de nós. um deles liberta em nós a capacidade da Vida
O que é que acontece quando gosto do meu Divina.
amigo? Em verdade, sinto uma grande alegria De modo contínuo, pela troca constante
e, mais ainda, ele liberta em mim uma capa- de pensamentos e de sentimentos, as forças
cidade de amor e de ternura e, desde que essa escondidas dos homens agem umas sobre as ou-
ternura se liberte dentro de mim, poderei dá-la tras, cada um de nós fica liberto e, lentamente,
aos outros. Eu que pensava ser incapaz de fazer o nosso eu mortal é posto de lado e, só então,
algo de grande, ou de fazer o menor sacrifício, descobrimos algo da nossa natureza escondida,
sinto que, porque amo, sou capaz de realizar imortal.
grandes coisas. Esta capacidade sempre estivera Quando aquele que procura a visão divina
dentro de mim, mas foi necessário esperar pelo chegou a este ponto e sente que cada homem
momento em que alguém batesse, que tivesse a tem para ele uma mensagem qualquer, quan-
chave da minha porta, e que pudesse libertar- do vê com “esses olhos mais abertos”, então
me. O amigo é sempre aquele que liberta as aparece-lhe uma cena maravilhosa que faz parte
capacidades do outro que estão escondidas. da visão divina. É como se toda a sua vida de
Quando admiro um herói e fico maravilha- dever, de tribulação, tudo o que torna o mundo
do com o seu acto de heroísmo, é uma forma de tão cheio de obscuridade e de trevas se tivesse
descobrir em mim próprio o poder de vir a ser transformado.
também um herói. Quando tomo a resolução Quando chegamos à fase de ver os homens
de viver como ele, quando me comprometo a sob esse ponto de vista e de compreender que
segui-lo, não faço senão libertar-me das cadeias todos eles têm uma mensagem para nós, então
que me embaraçam, a fim de me elevar até ao começaremos a pressentir e a ver por detrás de
seu nível. cada mulher e de cada homem um arquétipo
Quando vamos aos museus para admirar divino, através do qual Deus se esforça por
as obras de grandes artistas, o que é que aconte- talhar uma obra divina imortal na nossa frágil
ce? Descobrimos alguma coisa da natureza, da humanidade.
beleza que está dentro de nós. Porque o belo É esta visão dos divinos arquétipos por
desperta em nós é que nós somos capazes de o detrás de todos os homens que é, em verdade, a
admirar nas obras de arte. GRANDE MENSAGEM que a vida nos ensina
Qual é o mistério que se verifica numa quando estamos prontos para compreendê-la.
sala quando, ano após ano, milhares de pessoas Anteriormente nunca tínhamos visto a huma-
escutam e se sentem arrebatadas de admiração nidade sob este aspecto. Então, todos os seres
pela mensagem da música? Será somente por sem distinção de raça, credo, casta ou cor, tanto

Maio - Agosto 2010 nº 19 29


OSIRIS • A Vida e a Sua Mensagem

os maiores como os mais pequenos ou os mais até que um número de seres, sempre crescente,
humildes, nos aparecerão como divinos. possuindo a visão divina, se eleve com Eles
Temos o hábito de considerar divinos juntando-se à sua santa companhia.
apenas alguns seres muito elevados. Cristo, A vida de hoje não é totalmente fácil e
Krishna, Buda, Zoroastro, Maomé são divinos, feliz. Tantos espinhos que existem sob as rosas,
dizemos nós, porque sentimos neles algo da tanta fadiga e tanta angústia. No entanto,
Divindade, mas não existe diferença de natu- através dessa nuvem de aflição, podeis escutar
reza entre os seres humanos, quer permaneçam uma maravilhosa melodia porque o Amor é o
no cume ou na base da escada da evolução. seu canto. Essa melodia lembrar-vos-á a vossa
Todos os homens têm a mesma natureza di- própria alegria interior, dando-vos a certeza de
vina, somente que em Cristo, em Buda, essa que a Beleza suprema e o Bem são Um convos-
natureza divina está plenamente desenvolvida co. Para vós, torna-se possível possuirdes todos
e, em todos aqueles que para nós são enigmas, esses tesouros do Reino de Deus. Eles não estão
e cujos rostos nada nos ensinam, a natureza guardados no céu para que os tenhais depois da
divina ainda está aprisionada. vossa morte. O céu e todos os seus esplendores
É para proclamar esta mensagem que cada serão vossos se ousardes viver e trabalhar pela
Instrutor vem. Porque é que Cristo nasceu na visão divina.
Palestina? Seria somente para que os homens Assim, não imagineis que, para se ser espi-
se lançassem aos seus pés e o adorassem? Não, ritual, seja preciso assistir a serviços religiosos,
mas, de preferência, para mostrar que cada ser a conferências ou ler livros. É uma questão
humano podia viver a vida crística. de olhar para dentro do coração dos homens,
Porque é que Buda surgiu? Seria para dizer partilhar das suas alegrias e dos seus desgostos
eu sou como vós, um homem entre os homens. e sentir que, dado que sois um pouco mais
Eu lutei, mantenho-me agora como um salva- velhos e mais fortes do que a maior parte dos
dor da humanidade para mostrar a cada um de vossos semelhantes, podeis tornar os fracos
vós que, se seguirdes o caminho da santidade e mais fortes e purificar os lugares obscuros do
viverdes do modo mais apropriado, sereis como mundo. Ousai começar a trabalhar para essa
eu sou. vida gloriosa e obtereis inevitavelmente a divina
Os Instrutores Divinos vieram e tornarão a visão do homem. ∞
vir ainda muitas e muitas vezes, para nos mos-
trarem que a visão de que são capazes é igual- (Extractos de uma conferência dada em Londres
a 8 de Maio de 1927)
mente a nossa herança. Está ali, no sacrifício, a in Le Lotus Bleu, Janeiro de 2010
sua alegria. Eles tornarão a vir continuamente

A Arte é vida na sua máxima intensidade e revela a beleza e o valor das


actividades humanas, mas a sua missão é mostrar aos homens que a vida é
como um vitral colorido de portentosa cúpula, reflectindo em vários raios
coloridos a branca irradiação da Eternidade.

C. Jinarajadasa

30 Maio - Agosto 2010 nº 19


Nos Sábios Não Existe Apego
C. A. SHI N DE

S
e fizermos a pergunta “quem está apegado à realidade da sua vida e às situações que o
à acção e a quem pertence a acção sem rodeiam. O seu cérebro, mente e consciência
apego”, a resposta que poderá surgir na juntam-se para proporcionar conhecimento em
nossa mente é que os ignorantes estão apegados três níveis diferentes e torná-lo cada vez mais
às suas acções e os sábios vivem desapegados. sábio. O cérebro ajuda-o a processar os dados
Tentemos perceber o verdadeiro significado da sensoriais, a mente reflecte sobre os dados reco-
afirmação nos sábios não existe apego, dividindo- lhidos, a consciência confere-lhe subjectividade
-a em duas partes. Em primeiro lugar para e ele torna-se capaz de obter conhecimento
compreendermos quem é o sábio e, depois, em primeira mão. Assim o homem, com a sua
para compreendermos o processo do apego. mente inquiridora, pode ter convicção intelec-
Consideremos a primeira parte, isto é, quem tual e dar um passo em frente para o insight
é sábio? Poder-se-á responder que, entre as espiritual ou realização intuitiva. Em suma, o
espécies da terra, a espécie humana é a que é homem é único e tem o potencial para se tornar
sábia. O nome científico do homem é Homo sábio se se libertar dos seus reflexos animais, das
Sapiens; Homo é o nome do género que signi- suas paixões animais. Devido aos seus reflexos
fica ‘homem’ e Sapiens o nome da espécie que e paixões animais está apegado, ligado ao seu
significa ‘sábio’. Assim, Homo Sapiens quer di- grupo, e não se importa de enganar e lutar com
zer ‘homem sábio’. É fácil sermos denominados os outros grupos.
sábios, mas não tão fácil agir sabiamente. Agir É comum julgar-se que uma coisa é boa e
de modo sábio significa trazer valores elevados que outra coisa é má, que isto é útil e que aqui-
para a vida. lo não é útil; mas tal não chega para se tornar
sábio. No sábio prevalece a responsabilidade.
Ser Humano – uma Espécie Única Ser-se humano é viver num estado de respon-
O homem é autoconsciente, isto é, tem sabilidade. O sentido da responsabilidade é
consciência de si próprio. Enquanto outras construído na natureza psíquica do homem
espécies possuem uma consciência grupal que como uma força positiva, sendo esta a razão por
pertence à sua própria espécie, o ser humano que ele oscila entre dois pólos. Num pólo existe
é uma espécie única no sentido em que tem a o sentido da responsabilidade e, no outro, os
capacidade de inquirir. Só o homem consegue reflexos animais que tentam escapar-lhe, pelo
fazer perguntas e inquirir sobre a sua origem que o homem fica confuso, permanecendo
e lugar na natureza. O seu cérebro volumoso numa constante luta interior. O homem não é
e postura erecta distinguem-no dos outros sábio porque tem a tendência para se evadir da
primatas. Com esta vantagem evolutiva desen- responsabilidade, que é um impulso puramente
volveu uma profunda sensibilidade em relação biológico e uma forma de egoísmo que conduz

Maio - Agosto 2010 nº 19 31


OSIRIS • Nos Sábios Não Existe Apego

ao apego e ao egoísmo. Neste sentido, o homem e perceptividade, começa a sua caminhada da


é uma espécie única que atravessa o terceiro não inteligência para a inteligência, do egoísmo
milénio. Perguntemo-nos se não estará na hora para o altruísmo e, naturalmente, outras pessoas
de aceitarmos a nossa responsabilidade para segui-lo-ão porque o altruísmo e a generosidade
com as futuras gerações e para com o planeta são as suas qualidades radiantes. A sua vida é
em que, juntos, evoluímos? uma vida de humildade, de observação e escuta
generosas. Trata todos da mesma forma, não
Características do Sábio tem favoritos. É uma criança entre crianças,
O homem precisa de saber que os sábios um jovem entre adultos e um idoso entre os
compreendem e usam a responsabilidade como idosos, corajoso entre os corajosos, partilhando
uma dessas forças humanas invisíveis, como a o sofrimento com os miseráveis. Então, como
força de vontade. A responsabilidade intensifica nos podemos tornar sábios? Está claro que se
a vida do homem quando este a possui. Ele trata de uma caminhada da animalidade para
aprende a pôr em prática o conhecimento, a Divindade.
que é a importante qualidade da auto-respon-
sabilidade. Ele compreende que os princípios Viagem da Animalidade para a Divindade
éticos básicos deverão ser postos em prática. Ele A segunda parte da afirmação passa pela
compreende que, ser sábio, significa conservar compreensão do processo de desapego, que
a vida, promover a vida e dar maior valor à vida é uma viagem da Sala da Ignorância para a
em desenvolvimento. Ele compreende que é Sala da Aprendizagem e desta para a Sala da
insensato destruir a vida, ferir a vida, afastar a Sabedoria, como aparece em A Voz do Silêncio,
vida do seu verdadeiro desenvolvimento. Na de H.P. Blavatsky. Na Sala da Aprendizagem o
vida actual, ele não está nem contente nem homem aprende a pensar e a reflectir, passo a
zangado com a sua sorte. passo, e aprofunda a sua compreensão acerca
Ele compreende que os problemas que hoje da vida, de certas afirmações importantes e
enfrenta são os pequenos desafios de ontem que caminha em direcção a uma maior sabedoria.
pretendeu ignorar. Ele sabe que, se não enfren- Consideremos a afirmação de J. Krishnamurti
tar um desafio quando ele surge, mais tarde vós sois o mundo, que não é uma afirmação
terá de fazer face ao problema ‘aumentado’, tal matemática, mas o insight de uma pessoa sábia.
como se ignorarmos uma cria de leão, um dia Há muitas formas para compreender aquela
teremos de enfrentar o leão adulto. Ao aceitar afirmação. Se se fizer uma abordagem literal de
a responsabilidade, ele cria valores subjectivos e vós sois o mundo, então a palavra ‘mundo’ é um
estabelece códigos morais ao mesmo tempo que substantivo sem qualquer conteúdo atrás de si.
firma contactos sociais. Ele é capaz de aprender Krishna ou Jesus são nomes, mas os indivíduos
e de compreender não só através de experiên- por detrás desses nomes são uma realidade. De
cias, como também pela observação dos outros. igual modo, a palavra ‘mundo’ é o nome, mas
Não precisa de passar por experiências mas nós somos a realidade. Este é o primeiro passo
pode tornar suas as experiências dos outros. É para a compreensão do significado da palavra
esta qualidade de percepção que determina a ‘mundo’ como um colectivo de indivíduos. O
qualidade da sua perspectiva e a estrutura dos segundo passo consiste também em compreen-
valores. Põe em prática o conhecimento e à me- der o nosso contributo enquanto indivíduos. Se
dida que aplica a sua inteligência, sensibilidade formos feios, contribuímos para a fealdade do

32 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • Nos Sábios Não Existe Apego

mundo. Se o mundo estiver cheio de corrup- que existem incarnações de diferença entre um
ção, ódio, inveja, ira, ganância, ambição, etc., homem ignorante e um homem sábio.
então o estudante aceita, com este novo passo, Quantos de nós seremos capazes de reco-
que ele contribuiu para isso. Não pode atirar a nhecer um santo? Para se reconhecer tal pessoa
responsabilidade para qualquer outro. Sempre tem de haver algo dentro de nós que ressoe e
que condena alguém, ele compreende que esteja sintonizado com a sua natureza, que
está a condenar-se a si mesmo. Assim, alcança vibre em harmonia com ela. É uma lei que,
uma visão holística do mundo, vendo-o como se a pessoa criar harmonia dentro de si, então
um todo integrado e não como um conjunto a harmonia divina manifesta-se através dela
dissociado de partes. tornando-a santa ou sábia. O antídoto para o
Com o terceiro passo ele compreende o apego é o desapego ou ‘abrir mão’.
real significado da palavra ‘mundo’; pergunta-se
como é que podemos ser considerados responsáveis O Desapego é a Essência da Virtude
quando só temos bons pensamentos, sentimentos O processo do desapego é a virtude de
de boa vontade e agirmos correctamente? Ele agir sem apego. O homem precisa primeiro
reflecte, profunda e honestamente, e verifica de saber quanto está apegado. Por ignorância
que ele próprio não é sempre o mesmo, porque e egoísmo está apegado à acção; e, por conse-
algumas vezes está agitado e utiliza palavras guinte, está sujeito ao karma, a que chama sina,
ásperas. Ele compreende que esta é a sua con- sorte ou destino. Está apegado ao seu corpo e
tribuição para o estado de fealdade do mundo e é movido pelas emoções e pensamentos. Está
aceita, assim, a responsabilidade e compreende psicologicamente isolado e vive cada vez mais
o verdadeiro valor da frase vós sois o mundo. E para si mesmo, simplesmente aproveitando-se
então compreende que ser-se humano é viver dos outros. Ganância, egoísmo e desonestidade
num estado de responsabilidade. Passa a ser a são características suas. Reage rapidamente,
sua própria descoberta que ele não é apenas sem que tenha compreendido totalmente, ou
uma parte do mundo, mas que é o mundo. realmente percebido, o que está a acontecer.
Como atrás se disse, a responsabilidade é a Predomina a ideia de ‘eu’ e ‘meu’.
qualidade formativa da sua natureza psíquica, O ego é o pensamento eu, mim e meu, mas
reflectindo-se na sua conduta. o verdadeiro ‘Eu’ é o puro Si. Se considerarmos
Utiliza os seus dons como um bem à sua o Si como ego, então tornamo-nos egoístas. Se
guarda e não como posses. O seu tempo, capa- considerarmos o Si como a mente, tornamo-
cidades e posses são os seus dons e ele utiliza-os nos a mente, se como o corpo, tornamo-nos o
em benefício da humanidade. Com esta quali- corpo. É o pensamento que constrói paredes ou
dade magnânima eleva-se acima da futilidade invólucros de tão variadas maneiras. Os homens
e torna-se sábio. Desta forma eleva-se do ego estão apegados aos seus animais de estimação,
pessoal para o ego espiritual. Neste sentido é ao jardim ou à quinta, à sua posição, mobília,
o seu salto quântico – da animalidade para a filho ou filha, aos seus deuses, à sua religião,
Divindade. ao seu país, etc. A sua vida baseia-se tanto em
Então possui verdadeiro conhecimento, apegos materiais como em apego ao dogma,
o qual acarreta naturalmente magnanimidade crenças, ideias, etc. Uma pessoa pode ser letrada
e contentamento. A luta que pertence à perso- e culta, mas também lasciva, gananciosa e fútil.
nalidade perde o seu poder. Annie Besant diz Onde existe verdadeiro conhecimento não

Maio - Agosto 2010 nº 19 33


OSIRIS • Nos Sábios Não Existe Apego

existe apego. Se o conhecimento não ajudar o O corpo não é real. Cada partícula nele
homem a tornar-se desapegado e livre, então é está em constante mutação. O mesmo se aplica
porque há algo errado com a sua interpretação à mente. Num momento está feliz para logo a
ou compreensão. seguir estar infeliz. É como um redemoinho de
O que é necessário ao desapego é com- água sempre a mudar. Então o homem com-
preender e aceitar o apego e aprender a ver e preende e realiza que o corpo e a mente são um
a perceber que no apego há dor, medo, inveja conjunto de fenómenos mutáveis e deixa de se
e ansiedade. É verdade que não se pode evitar sentir apegado ou identificado com eles. Com
que se formem impressões no cérebro e aí se o verdadeiro conhecimento o homem torna-se
acumulem, porque o cérebro regista automa- activo no nível físico e não preguiçoso. No
ticamente. Temos padrões cerebrais de com- nível emocional deixa de sentir zanga, luxúria
portamento. Não precisamos de ter o trabalho e ganância e, no nível mental, deixa de sentir
de fazer parar este registo automático de im- orgulho e inveja. Torna-se desapegado, o que
pressões no cérebro, mas devemos prestar uma passa a ser a sua virtude essencial. Isto ajuda-o
atenção constante a este processo de registo e a posicionar-se correctamente e não tanto a
aprender a ver as nossas próprias reacções. O posicionar os outros correctamente. ∞
verdadeiro conhecimento não conhece apego;
por exemplo, a identificação com o corpo e a in The Theosophist, Julho de 2009
mente é uma ilusão.

Eu sustento que o sentimento religioso cósmico é o mais forte e nobre in-


citamento à investigação científica. Todos os sábios têm um sentir muito
especial sobre a religião, contribuindo para isso a ordem maravilhosa e
sublime que se revela, tanto na natureza, como no mundo do pensamento,
e perante a qual os nossos mesquinhos desejos e intentos nada valem. O
sábio vê na nossa existência uma espécie de prisão e precisa experimentar
a sensação do universo, como um simples todo de estupenda significação.
O homem de ciência vive absorvido na causalidade universal. Para ele, o
futuro é, a todos os respeitos, tão necessário e determinado como o passado.
Os seus sentimentos religiosos concentram-se numa fascinação absorvente
pela harmonia das leis da natureza, que revela uma inteligência de tama-
nha magnitude que, comparados com ela, todo o saber e actividade humana
não passam absolutamente dum pálido reflexo seu. Este sentimento é o guia
primacial na vida científica e prevaleceu sempre e indubitavelmente nos
génios religiosos de todas as idades.

Albert Einstein

34 Maio - Agosto 2010 nº 19


Teosofia para Quando?
JOSÉ COR R E I A

T
odos vivemos na história, num período dimensioná-la por um outro padrão. No fim, e
histórico que é o da nossa vida. Sabemos como alvo, o que nós pretendemos é enquadrar-
bem que o não escolhemos por não nos neste mundo objectivo, nesta vida material e
termos ainda esse direito de opção e que as rosas palpável, quente ou gelada, violenta ou pacífica
e os cardos, as alegrias e as dores, as oportuni- que nos rodeia.
dades e as contrariedades não correspondem, A consciência é neste ponto uma escrava do
como erradamente supomos, àquilo a que am- mundo.
bicionamos. A realidade final está para além da fronteira
As dores, logo e violentamente as rejeitamos da mente.
como obstáculos daninhos e inúteis nas nossas Quando com sinceridade procuramos
vidas. As alegrias e as oportunidades, essas sim, transpô-la, então, oh que tragédia a nossa!... Lá
quadram bem com os nossos desejos. se vai o certo pelo incerto, o seguro pelo inse-
Na aparência assim é. O mal rejeitamo-lo, guro, o conhecido pelo desconhecido. Este é o
o bem abraçamo-lo sôfregos. Mas será o mal um campo de batalha da Vida com maiúscula que a
mal e o bem um bem? si mesma se procura sempre através de nós pró-
Tudo depende do ponto de vista em que se prios. Ninguém mais nos compreende. Somos
veio a situar a nossa consciência. escolhos na vida dos nossos próprios familiares,
A partir da fronteira desta vida material e da criaturas sem préstimo a não ter em conta e com
vida espiritual assim nos é sugerida a realidade ideias estranhas para aqueles que mais se ligam
ou a ilusão do bem e do mal. Essa fronteira é a connosco. Falamos mas é como se não falásse-
mente. Para cima e para baixo há dois homens mos. Não nos entendem nem se preocupam com
distintos: o da matéria e o do espírito. Ao aquilo que ouviram. Avisamo-los mas sorriem
primeiro pertencem a carne, a emoção e o pen- trocistas e atraim sobre si dificuldades e males
samento concreto. Aqui, então, a noção entre o que não quiseram ver e lhes foram mostrados.
bem e o mal revela-se como reacção ao mundo Tudo para eles é experiência e para nós
que nos cerca. As portas dos sentidos abrem-se exemplo.
para ele e tudo, para a consciência que apenas Chegaremos assim à noção de tolerância,
pode perceber o que através deles lhe chega, permitindo ao karma ou destino que se realize
se lhe afigura como a realidade e o fim. Pensa- e dê frutos.
mos, trabalhamos, dormimos, comemos, planea- Só cada um se instrui e salva a si próprio sem
mos e actuamos como se fosse este o metro o recurso a outrem. Se fosse possível chegarmos à
avaliador e bem aferido das nossas vidas, a salvação por interposta pessoa, de nada valeria a
única medida dos nossos actos, desejos e pen- beleza e a fraternidade cooperativa de uma vida
samentos. Difícil e bem difícil é apreciar a vida, vivida com dignidade e aprumo.

Maio - Agosto 2010 nº 19 35


OSIRIS • Teosofia para Quando?

Há quem aguarde no fundo de uma mon- Viajamos num autocarro? Sejamos com a
tanha que outro o transporte ao seu cume sem nossa bênção o perfume que inspire os nossos
ter de dar um passo. Mas isto é loucura. Por companheiros de viagem.
isso tantas vezes me interrogo: – Teosofia para Com esta atitude interior salvar-nos-emos
quando? de muitos sofrimentos e de muitas angústias
Fácil será a resposta: – Para quando a Vida desnecessárias.
transponha a fronteira do mental inferior, racio- Não pretendo dizer que com isto a vida se
cinante, discriminador onde parou a consciência. torne para nós imediatamente um mar de rosas.
E então virá uma nova luz. Nova aparentemente, Pelo contrário, torna-se uma moita de espinhos.
apesar de antiga, que iluminará de dentro e não Mas a dor destes será cada vez menor à medida
de fora, de cima e não de baixo, de um além de que a atitude interior se volte para fora. Então
mistério cujo esplendor dizem não ter limites. a consciência em nós poderá responder de mais
Carregados com os fardos usuais da famí- alto ao que lhe chega de baixo.
lia, da profissão e das capacidades corpóreas, Ao fazê-lo, iluminará o campo da consciên-
encontramo-nos presos, impedidos de atravessar cia e uma felicidade indizível transpirará de nós
a barreira. Não podemos ser livres nem trabalhar por todos os nossos poros.
com assídua segurança naquilo que nos daria É esta uma resposta à pergunta: – Teosofia
a grande oportunidade da realização esperada. para quando?
Tal é o nosso karma, um karma que em geral Para quando as portas da nossa mente se
complicamos com involuntárias reacções que abrirem à luz de dentro, casando-se com a luz
mais nos prendem do que nos libertam. É esta de fora.
a maior de todas as dores humanas, pelo menos Se alguma coisa mais não houvesse para a
para quem algum dia pôde sentir no coração a justificar, esta seria já óptima. Mas a Teosofia é
alegria e a felicidade infinita que se não podem para todos os tempos, para todos os temperamen-
descrever por meio de palavras. tos. Talvez que alguns a vivam por intermédio da
«Teosofia para quando?» mente. Estes serão os filósofos. Talvez alguns a
Para hoje mesmo, para amanhã, para sintam e derramem por meio da emoção. Esses
sempre. Teosofia para todas as horas, todos os serão os santos. Para outros ela será a acção di-
tempos, todos os momentos. recta no campo material. Esses serão os mártires.
Penso que a rosa exala todo o seu perfume e A todos e para todos, à pergunta feita ela dará
expõe toda a sua beleza quando levada ao peito resposta. Esta chama-se Renúncia. E aqui está
de cada um. uma palavra que nos poderá causar arrepios de
Sejamos como ela ao peito da humanidade. horror. Mas o que por ela se pretende dizer é
E em casa, o lugar mais difícil, na rua, no em- que deveremos viver a vida sem reclamação de
prego, façamos como ela, abrindo os corações e salário. É pela renúncia que poderemos vir a
dando as nossas bênçãos a quanto encontrarmos encontrar o Caminho.
e aos que convivem connosco. E o Caminho, diz Patanjali, é a renúncia
Passamos por cadeias? Não o façamos sem voluntária.
enviar a nossa simpatia àqueles que estão na O salário é o prémio que o egoísmo reclama
clausura. do reconhecimento público. ∞
Passamos por hospitais? Abençoemos quan-
tos ali se encontram em sofrimento. in Revista Osiris nº 174, Abril-Junho 1976

36 Maio - Agosto 2010 nº 19


OSIRIS • Notícias da S.T.

Congresso Mundial em Roma Fraternidade, com a participação de Marja Artamaa,


Secretária-Geral da Secção Finlandesa; Viver a
10 a 15 de Julho de 2010 Fraternidade, com a participação de Marie Harkness,
Secretária Organizadora da Sociedade Teosófica na
No conjunto dos eventos teosóficos interna- Irlanda; Solidariedade e Cooperação: Expressões
cionais levados a cabo durante a primeira metade Práticas de Fraternidade, com a participação de
de 2010, salienta-se a realização do 10º Congresso Antonio Martinez e Julia Ballesteros, da Sociedade
Mundial da Sociedade Teosófica em Roma, entre os Teosófica na Colômbia; Prática da Fraternidade na
dias 10 e 15 de Julho. Este evento foi sucintamente Nossa Vida Quotidiana, com a participação do Dr.
relatado num artigo de carácter noticioso publicado Dusan Zagar, Secretário Organizador da Sociedade
em Agosto na revista The Theosophist. Apresenta- Teosófica na Eslovénia; e Autoconhecimento, como
se, a seguir, uma tradução/adaptação desse mesmo a Base para a Fraternidade, com a participação
artigo. de Carlos Guerra, Secretário-Geral da Secção
Portuguesa.
O 10º Congresso Mundial da Sociedade Foram proferidas as seguintes oito pequenas
Teosófica, que teve lugar em Roma, de 10 a 15 palestras: A Descoberta do Eu, Colin Price, ex-
Julho de 2010, subordinado ao tema Fraternidade Presidente da Secção Inglesa; A Sociedade Teosófica
Universal sem Distinção: um Caminho para a sob Provação, Pedro Oliveira, Coordenador
Consciência Desperta, foi um grande sucesso, com do Gabinete Editorial, Sede Internacional; No
a presença de 524 membros de 33 países. As sessões Princípio está o Meu Fim, Mary Anderson, ex-
principais foram exibidas em directo pela Internet. Vice-Presidente Internacional; A Auto-Percepção e
Na sessão de abertura foram proferidas as orações a Acção Fraterna, Marcos Resende, Presidente da
das grandes religiões, bem como as saudações das Secção Brasileira; Amor e Serviço – Estrelas Gémeas
diferentes Secções e dos membros individuais de da Fraternidade, S. Sundaram, Secretário-Geral da
todo o mundo, seguidas de um discurso de boas- Secção Indiana; O Significado de nosce te ipsum na
vindas pelo Secretário-Geral da Secção Italiana da Prática da Fraternidade Universal, Prof.ª Graziella
Sociedade Teosófica. No seu discurso de abertura, a Ricci, membro da Secção Italiana; A Vida: uma
Presidente Internacional, Radha Burnier, sublinhou Sinfonia de Arte e Beleza, Manju Sundaram, mem-
a necessidade de compreendermos que a Sociedade bro da Secção Indiana; Colher uma Flor Afecta uma
Teosófica tem em vista a Fraternidade Universal, o Estrela Distante, Bhupendra Vora, ex-presidente da
que implica uma mente sem barreiras. Secção Africana Oriental e Central.
Foram proferidas as palestras seguintes: Porque Os programas da tarde incluíram as seguintes
pertencemos à Sociedade Teosófica?, Linda Oliveira, sessões: Yoga da Música – Estudo é Transformação,
Vice-Presidente Internacional; O que nos divide, Dr. Edi Bilimoria; Bel Canto Italiano, com soprano,
Professor P. Krishna, Secretário da Educação Centro tenor, barítono e piano; Música Clássica Italiana
de Rajghat, Varanasi, na Índia; A Base Científica pela banda Cidade de Roma; e um programa
da Fraternidade Universal, Dr.ª Dara Tatray, de diapositivos sobre os Centros Teosóficos de
Presidente da Secção Australiana. Foram realizados todo o Mundo, incluindo o Centro Teosófico
os dois simpósios seguintes: um primeiro simpósio Internacional de Naarden, na Holanda, o Centro de
sobre A Sociedade Teosófica como Fraternidade Kreivila na Finlândia, a Sede Olcott em Wheaton,
Regeneradora, com a participação de Ricardo o Instituto de Krotona em Ojai, na Califórnia, o
Lindemann, ex-Presidente da Sociedade Teosófica Instituto Teosófico de Brasília, no Brasil, o Centro
no Brasil, Patrizia Calvi, Secretária da Secção São Rafael, na Argentina, o Centro Manor, em
Italiana, e Jan Jelle Keppler, Secretário-Geral da Sydney, os Centros de Springbrook e Canyonleigh
Secção Belga; um segundo simpósio sobre o tema na Austrália, e a Sede Internacional em Adyar. O
Fraternidade como um Caminho para a Consciência programa da Ordem Teosófica de Serviço teve
Desperta, com a participação de Trân-Thi-Kim- como tema O Serviço como um Caminho para a
Dieu, Secretária-Geral da Secção Francesa, Lissette Consciência Desperta, com a participação de Diana
Arroyo, Secretária-Geral da Secção Mexicana, e Dunningham-Chapotin, Secretária Internacional
Ing-Britt Wiklund, ex-Presidente da Secção Sueca. da Ordem Teosófica de Serviço, Timothy Boyd,
Foram realizados os seis workshops seguintes: Vice-Presidente da Secção Americana e Vicente Hao
Perdão e Interligação: Dois Elementos-Chave na Chin, Presidente da Secção das Filipinas.
Fraternidade, com a participação de Betty Bland, Na sessão de encerramento, todos os parti-
Presidente da Secção Americana; Desafios da cipantes se juntaram para escutar as orações das

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diferentes religiões, às quais se seguiu a comunica- No dia 24 de Abril realizou-se, também na


ção de impressões sobre o Congresso, por parte de Sede da S.T.P., em Lisboa, uma outra sessão pública
alguns participantes, e os votos de agradecimento que integrou quatro pequenas palestras subordi-
de Antonio Girardi. Em seguida, António Girardi nadas ao tema O que é a Consciência?, às quais se
ofereceu uma pequena lembrança à Presidente seguiu uma reflexão em grande grupo. José António
Internacional, como uma expressão de gratidão dos Alves abordou o tema, apresentando um conjunto
membros italianos. No seu discurso de encerramen- de ideais inovadoras sobre A Consciência à luz da
to, a Senhora Radha Burnier disse que, embora um Física Quântica; Dilcarina Durão explorou o tema,
Congresso Teosófico gere alegria e proporcione bons esclarecendo noções essenciais sobre A Consciência
momentos aos participantes, temos de estar cons- à luz da Psicologia; Ana Maria Coelho de Sousa
cientes de que um Congresso é também uma forma desenvolveu o tema, aprofundando conceitos
de nos lembrarmos do trabalho a levar a cabo como fundamentais sobre A Consciência à luz da Teosofia;
membros da Sociedade Teosófica. O mundo neces- Carlos Guerra lançou alguns desafios ao conheci-
sita desesperadamente de um novo entendimento, mento e à transformação de si mesmo através da
cuja essência é a Fraternidade Universal. Ocasiões reflexão sobre A Consciência à luz dos Ensinamentos
como o Congresso Mundial, disse Radha Burnier, de Krishnamurti. A apresentação destas quatro
devem também ser vistas como momentos de refle- abordagens sobre a problemática da Consciência não
xão e nova dedicação ao nosso trabalho essencial, fragmentou, de forma alguma, a visão holística que
que consiste em tornarmo-nos verdadeiros Teósofos, uma tal questão deve implicar. Na realidade, essas
isto é, verdadeiros seres humanos, livres dos impul- quatro abordagens são complementares e podem
sos de natureza animal que tendem a criar divisões, consolidar o nosso entendimento da Consciência
confusão e separação. A Sociedade Teosófica tem um como um Todo insusceptível de qualquer divisão. ∞
trabalho muito importante a fazer no mundo, que é
o de mostrar que apenas uma mudança fundamen- No dia 8 de Maio – Dia do Lótus Branco –
tal na mente humana pode causar uma verdadeira celebrou-se o aniversário da morte de H. P. Blavatsky,
mudança no mundo. A Presidente Internacional na Sede da S.T.P., em Lisboa. A celebração assumiu-
desejou a todos os participantes o melhor para a sua se, naturalmente, como uma expressão da profunda
viagem conjunta rumo à sabedoria, no sentido de afeição, do respeito genuíno, da admiração sem
poderem tornar-se verdadeiros Teósofos, e trazerem limites e da gratidão imensa que todos sentimos por
ao mundo um novo entendimento. ∞ H. P. Blavatsky. Para entender o significado e a im-
portância deste dia, vale a pena relembrar a última
in The Theosophist, Agosto de 2010 Vontade de H. P. Blavatsky, mencionada na Ordem
e recomendação escrita por Henry Olcott em 1892,
Notícias da S.T.P. em Adyar, e expressa pela própria H. P. Blavatsky no
seu Testamento, escrito em 31 de Janeiro de 1885,
também em Adyar.
No dia 11 de Abril realizou-se, na Sede da Na sua última Vontade, H. P. Blavatsky mani-
S.T.P., em Lisboa, uma sessão pública que integrou festou o desejo de que anualmente, no aniversário da
um conjunto de três pequenas palestras subordi- sua morte, alguns dos seus amigos “deveriam reunir-se
nadas ao tema Os Objectivos da Sociedade Teosófica. na Sede da Sociedade Teosófica e ler um capítulo do
Seguidas de uma reflexão em grande grupo, essas livro A Luz da Ásia e [extractos do] Bhagavad Gita”;
palestras foram proferidas por Carlos Guerra, Ana e uma vez que se espera que os seus colegas ainda vivos
Maria Coelho de Sousa e Isabel Nobre Santos. Tal mantenham fresca a memória dos serviços de H. P.
como foi dito aquando da divulgação desta sessão Blavatsky prestados à humanidade, e a memória do seu
pública, os Objectivos da Sociedade Teosófica são, devotado amor para com a nossa Sociedade, aquele que
indubitavelmente, um dos pontos fulcrais da nossa abaixo assina sugere que o aniversário da morte de H. P.
reflexão enquanto Membros da Sociedade Teosófica; Blavatsky seja conhecido entre nós como “Dia do Lótus
deverão ser também um ponto fulcral da reflexão de Branco”, e declara a seguinte Ordem e recomendação:
todos aqueles que aspirem a tornar-se Membros da (…)
Sociedade Teosófica. Na verdade, os Objectivos da 5. Aquele que abaixo assina recomenda a todas
Sociedade Teosófica são uma fonte de reflexão inspira- as Secções e Ramos, em todo o mundo, que doravante
dora e inesgotável. Eles propõem-nos múltiplos desafios promovam anualmente sessões, no dia do aniversário
cuja força transformadora pode ter em cada um de da morte de H. P. Blavatsky, e que expressem, de uma
nós um imenso impacto, o impacto impulsionador da forma simples, não sectária, contudo digna, evitando
própria Regeneração Humana.

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qualquer adulação servil e elogios fúteis, o sentimento os participantes, num clima de partilha e de bom
geral de lembrança afectuosa para com ela, que nos humor. A manhã de Domingo foi iniciada com uma
trouxe o guia da Senda ascendente que conduz aos Meditação conduzida pelo Secretário-Geral e, de-
cumes do CONHECIMENTO. pois de apresentadas as reflexões levadas a cabo pelos
Grupos de Debate, procedeu-se ao encerramento do
H. S. OLCOTT, Presidente da Sociedade Teosófica Seminário. Um ambiente verdadeiramente fraterno
Adyar, 17 de Abril de 1892 marcou todo o Seminário e aproximou os cerca de
Lucifer, vol. X, nº 57, Maio 1892, págs. 250-51 trinta participantes. ∞
Blavatsky Collected Writings, vol 6, pág. 322 ∞
No dia 19 de Junho realizou-se um Passeio
Nos dias 22 e 23 de Maio realizou-se, na Sede Temático, cujo Programa integrou um primeiro
da S.T.P., em Lisboa, o 11º Seminário Teosófico, su- encontro em Guadalupe, entre Évora e Montemor-
bordinado ao tema O Lugar da Beleza na Vida, num o-Novo, e uma visita ao Recinto Megalítico dos
trabalho de cooperação entre a Federação Europeia Almendres, seguida de almoço vegetariano e um
da Sociedade Teosófica e a S.T.P. Por motivos de passeio pelo Centro Histórico de Évora. Antes da
força maior, a Presidente da Federação Europeia partida, os participantes tiveram a oportunidade
– Trân-Thi-Kim-Diêu, não teve a possibilidade de de lanchar ao ar livre numa agradável esplanada da
estar fisicamente presente neste Seminário; ainda Praça do Giraldo. Estiveram presentes no Passeio
assim, enviou uma mensagem inspiradora na qual Temático cerca de vinte e cinco participantes, entre
se pode ler o seguinte:(…). Junto-me a vós em os quais, alguns membros da Secção Espanhola
pensamento nesta exploração do Lugar da Beleza da Sociedade Teosófica, nomeadamente alguns
na Vida. A vida é bela na sua significação profunda, membros do Ramo Ceres, Cáceres, incluindo o
mas também naquilo que ela tem de efémero. É a Presidente do próprio Ramo, Jose Luis Mendoza. ∞
significação da vida que dá um sentido ao efémero,
e o transcende em direcção aos reinos do Inefável. No dia 24 de Julho decorreu na Sede da S.T.P.,
Poderíamos dizer que o efémero é uma espécie de em Lisboa, pelas 11:30, um encontro com Dolores
passagem que conduz a alma sensível à descoberta Gago. Dolores Gago que reside actualmente no
do Imutável como o instante que leva à descoberta Uruguai, onde desempenhou o cargo de Secretária-
da Eternidade. Toda a alma sensível é uma alma de Geral da Secção Uruguaia da S.T., é Membro da
artista… O Programa do Seminário, cuja abertura Sociedade Teosófica há mais de cinquenta anos.
esteve a cargo do Secretário-Geral, Carlos Guerra, Durante os últimos dez anos, aproximadamente,
e da Vice-Presidente da S.T.P., Ana Maria Coelho viveu em Adyar, onde desempenhou os cargos de
de Sousa, integrou dois simpósios nos quais parti- Secretária Internacional da Sociedade Teosófica e
ciparam Lício Correia, Rosa Duarte, Ana Maria de Secretária da Escola de Sabedoria. De facto, foi
Coelho de Sousa, Isabel Nobre Santos, Júlio Teles uma oportunidade excepcional este encontro com
e Maria João Figueira; a participação de Maria João Dolores Gago, a qual, com grande poder de comu-
Figueira incluiu a colaboração de Isolina Lages. Para nicação, e com uma visão pragmática das questões
além dos simpósios, o Programa integrou Grupos de que aborda, a par de um grande sentido de humor,
Debate, nos quais houve a possibilidade de explorar partilhou com os cerca de vinte participantes não só
e aprofundar os diferentes aspectos do Lugar da as suas experiências como Teósofa, mas também ide-
Beleza na Vida, de uma forma partilhada. O serão ais diversas sobre a Teosofia, a Sociedade Teosófica e
de Sábado, dia 22, foi preenchido com um animado os Teósofos de renome internacional com quem teve
e verdadeiramente convivial Serão Criativo, no qual a possibilidade de contactar. A dedicação de Dolores
todas as intervenções, com um carácter mais ou me- Gago não pode deixar de ser referência inspiradora
nos espontâneo, tiveram o dom de aproximar todos para todos os Membros da Sociedade Teosófica. ∞

Tu és infinitamente belo quando dás sem um único pensamento de pedir


ou tirar.
N. Sri Ram

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LIBERDADE DE PENSAMENTO SOCIEDADE TEOSÓFICA
Resolução aprovada pelo DE PORTUGAL
Conselho Geral da S.T. a 30 de Dezembro de 1924 Rua Passos Manuel 20 Cave
1150-260 Lisboa
Uma vez que a Sociedade Teosófica se espalhou por todo
www.sociedadeteosoficadeportugal.pt
o mundo civilizado e que tem nos seus quadros membros
geral@sociedadeteosoficadeportugal.pt
de todas as Religiões, os quais não renunciam às doutrinas
telf.: 213 534 750
peculiares e ensinamentos de suas respectivas crenças – logo
que não vão contra o Princípio da Fraternidade Universal Ramos e Grupos de Estudo
sem distinção de qualquer espécie – conclui-se ser desejável
acentuar o facto de não haver nenhuma doutrina ou opinião ~ ÉVORA ~
ensinada, que o membro da Sociedade seja obrigado a seguir Boa Vontade ~ Maria João Figueira,
ou não tenha liberdade de aceitar ou recusar. A aceitação dos mjoaofigueira2009@gmail.com
seus objectivos é a única condição para tornar-se membro da
Sociedade. Nenhum escritor ou instrutor, seja H. P. Blavat- ~ LISBOA ~
sky ou qualquer outro, tem autoridade para impor os seus en- Annie Besant ~ Carlos Guerra,
sinamentos ou opiniões aos membros. Pode apenas expô-los. carlos.a.g.guerra@gmail.com,
Cada membro tem igual direito de aceitar qualquer escola de telf.: 266 703 135, 965 741 281
pensamento da sua preferência, mas não tem o direito de a Aquário ~ António Almeida,
impor aos outros. A ninguém se pode negar o direito de votar antoniocrpalmeida@gmail.com,
ou de ser elegível por causa das opiniões que defenda ou da telf.: 218 137 424, 964 786 035
escola de pensamento a que pertença, logo que o Princípio da
Fraternidade ~ José António Alves,
Fraternidade seja respeitado, pois as opiniões ou crenças não
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conferem privilégios, nem acarretam penalidades de qualquer
espécie. Os membros do Conselho Geral rogam, encarecida- Isis ~ Maria Lucília Meleiro,
mente, a todos os membros da Sociedade Teosófica, que telf.: 217 165 129
sustentem, defendam e actuem de acordo com os princípios Koot-Hoomi ~ Isabel Nobre Santos,
fundamentais da Sociedade e também exerçam com firmeza minobre@yahoo.com
o seu direito de liberdade de pensamento e expressão, dentro Lotus Branco ~ João Parente,
dos limites de cortesia e delicadeza para com os demais. joao_1952@sapo.pt, 916 008 902
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Embora cooperando com quaisquer outras entidades cujos Dharma ~ Lício Correia
objectivos possibilitem tal cooperação, a Sociedade Teosófica Horus ~ José Almeida
é e deve permanecer uma Organização inteiramente inde- 1ª e 3ª quinta-feira do mês, 21:30,
pendente daquelas, sem compromissos com quaisquer ob- Praça da República 13, 3ºB, Porto,
jectivos que não os seus e atenta ao desenvolvimento do seu shakti@sapo.pt, 963 408 166
próprio trabalho, dentro das normas mais amplas, de modo ~ SÃO MIGUEL, AÇORES ~
a dirigir-se para o fim expresso nos seus Objectivos, que in- G. E. Arcanjo Miguel ~ Lubélia
cluem o conceito de Sabedoria Divina contido na expressão Travassos, lubtravassos@gmail.com,
«Sociedade Teosófica». telf.: 296 285 266
Dado que a Fraternidade Universal e a Sabedoria são insus-
ceptíveis de definições completas, há, individual e colectiva- ~ SETÚBAL ~
mente, total liberdade de pensamento para todos os mem- G. E. Amor, Verdade e Beleza ~
bros da Sociedade, procurando esta manter sempre o seu Maria de Lurdes Rodrigues,
carácter único e distinto, sem se identificar com qualquer luceliaro@gmail.com, telf.: 265 523 624
outra organização.

40 Maio - Agosto 2010 nº 19


Sociedade Te o s ó f i c a
Presidente: Radha Burnier • Vice-Presidente: Linda Oliveira • Secretária: Kusum Satapathy • Tesoureira: Keshwar Dastur
Sede: Adyar, Chennai 600 020, India • www.ts-adyar.org • theossoc@satyam.net.in
Orgão Oficial do Presidente: “The Theosophist”, fundado por H.P. Blavatsky em 1879

Ano+ Secção Secretário Geral Endereço Revista Email


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& Central Kenya
1909 Africa, South Mr Tom Davis 22 Buffels Road, Rietondale, Pretoria, 0084 The S. African Theosophist thosgdavis@icon.co.za
1956 Africa, West Mr P.B. Kwakyi PO Box 720, Accra, Ghana The W. African Theosophist tswafrica@gmail.com
1929 America, Mrs Aura Elena de Calle Julio Mejía Pol. E-7, Colonia Univ. bemapo03@hotmail.com
Central * Martínez Norte, San Salvador, El Salvador fcormayorga@hotmail.com
1920 Argentina Mrs Silvia Liliana Casilla de Correo 166, 5600 San Rafael, Teosofia en Argentina stargentina@sociedad-teosofica.com.ar
Pastore Provincia de Mendoza
1990 Asia, The Theosophical Society, Adyar, Chennai 600 theossoc@dataone.in
Southeast † 020, India
1895 Australia Dr Dara Tatray 4th fl., 484 Kent St., Sydney, NSW 2000 Theosophy in Australia tshq@austheos.org.au
1912 Austria * Mr Herbert Fuchs Joseph Gaubyweg 7, A - 8010 Graz Theosofie Adyar herbert.f.fuchs@gmail.com
1911 Belgium Mr Jan Jelle Keppler Place des Gueux 8, B1000 Brussels Le Lotus Bleu jan.keppler@telenet.be
1965 Bolivia † Mrs Teresa W. de Nuñez Casilla de Correo 3911, Cochabamba saidita_2945@hotmail.com
1920 Brazil Mr Marcos L.B. de Sociedade Teosofica no Brazil, SGAS - Quadra Sophia tsbrazil@sociedadeteosofica.org.br
Resende 603, No. 20, CEP 70200-630 - Brasilia (DF)
1924 Canada * Mr Medardo Martinez 3162 Rue de la Bastille Boisbriand QC, The Light Bearer mmartinez@manhattaninc.com
Cruz J7H 1K7, Canada
1920 Chile * Ms Maximiliano Aguilera Casilla 3603, Santiago 21 Revista Teosófica Chilena sociedad.teosofica@gmail.com
1937 Colombia † Mrs Julia Ballesteros Carrera. 6, No. 56-27 Apto. 201, Bogotá-2 Selección Teosófica julitaballesteros@gmail.com
1997 Costa Rica † Ms Maria Orlich Apartado 8-6710-1000, San José orlichsm@yahoo.com
2007 Croacia ∆ Mrs Nada TepeŠ KrajiŠka Ulica 24, 10000 Zagreb, Croatia Teozofija z.zemlja@gmail.com
1905 Cuba Mr Gaspar Torres Apartado de Correos 6365, La Habana 10600 teocuba.sociedad@gmail.com
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Republic † Aptdo 23, San Juan, PR 00926, USA
1888 England Mr Eric McGough 50 Gloucester Place, London W1U 8EA Insight office@theosoc.org.uk
1907 Finland Ms Marja Artamaa Teosofinen Seura, Vironkatu 7C2, Fin 00170, Teosofi teosofinen.seura@netti.fi
Helsinki
1899 France Ms Trân-Thi-Kim-Diêu 4 Square Rapp. 75007 Paris Le Lotus Bleu editionsadyar@wanadoo.fr
1902 Germany Mrs Manuela Kaulich Hauptstr. 39, 93138 Lappersdorf Adyar theosophie-adyar@gmx.de
1928 Greece Mr Theodoros Katsifis 25 Voukourestiou St., 106 71-Athens Ilisos info@theosophicalsociety.gr
1907 Hungary † Mr Thomas Martinovich Hunyadi Janos ut 17. II. 8, H-1011 Budapest Teozófia tshutau7@hu.inter.net
1921 Iceland Ms Anna Valdimarsdóttir P.O. Box 1257 Ingolfsstraeti 22, 121 Reykjavik Gangleri ts@gudspekifelagid.is
1891 India Mr S. Sundaram The Theosophical Society, Varanasi - 221 010 The Indian Theosophist theosophy_vns@yahoo.com
1912 Indonesia Mr Herry Ispoernomo Jalan Anggrek Nelimurni A-104, Theosofi theosofi.indonesia@gmail.com
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1949 Ireland * Mrs Marie Harkness 97 Mountsandel Road, Coleraine - Co. Insight marieharkness@yahoo.co.uk
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1954 Israel ∆ Mr Abraham Oron PO Box 4014, Ramat-Gan, Israel 52140 Or mail@theosophia.co.il
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Kouahoh Abidjan 23
1971 Japan ∆ Mr Naotsugu Takahashi 4-12-11 Nakamachi, Nishi Tokyoshi, tsjp@hte.highway.ne.jp
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1897 Netherlands Mrs Els Rijneker Tolsraat 154, 1074 VM Amsterdam Theosofia info@theosofie.nl
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1933 Philippines, Mr Vicente Haó Chin, jr. Corner P. Florentino and Iba Streets, The Philippine Theosophist philtheos@gmail.com
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1925 Puerto Rico † Mr Eladio Polanco 1652 Sta. Agueda, C7 Les Chalets Court, Heraldo Teosófico polancoeladio@yahoo.com
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1910 Scotland * Mr Stuart Trotter 28 Great King Street, Edinburgh, EH3 6QH Circles stuarttrotter@hotmail.com
1889 Singapore ∆ Mr Chong Sanne 540 Sims Avenue, No 03-04, Newsletter sanne@singaporelodge.org
Sims Avenue Centre, Singapore 387603
1992 Slovenia * Mr Dušan Žagar Kunaverjeva 1 SLO - 1000 Ljubljana Teozofska Misel zagarbreda@gmail.com
1921 Spain Mrs Clarisa Elósegui Arenys de Mar 14, 1º-1ª E - 08225 Terrassa - Sophia clarisaelo@gmail.com
Barcelona
1926 Sri Lanka † Mr S. M. Jayathilake 20/13, Race Course Road, Badulla (BD) 90000 The Sri Lanka Theosophist smjbadulla@gmail.com
1895 Sweden Mr Pertti Spets Henriksdalsringen 23, SE - 131 32 Nacka Tidlös Visdom teosofiska.samfundet.adyar@telia.com
1910 Switzerland † Mrs Eliane Gaillard 17 Chemin de la Côte, CH - 1282 Dardagny, The Lotus egaillard@bluewin.ch
Genève
1997 Togo * Mr Kouma Dakey S.O., A.R.T.T., BP 76, Adeta
2007 Ukraine ∆ Mrs Svitlana Gavrylenko Office 3, 7-and Zhylianska St., Kiev 01033 ankh@voliacable.com
1886 USA Mrs Betty Bland PO Box 270, Wheaton, IL, 60187-0270 The Quest admin@theosophical.org
1925 Uruguay * Mr Nelson Corrales Javier Barrios Amorín 1085, samadhi@internet.com.uy
Casilla de Correos 1553, Montevideo
1922 Wales * Ms Julie Cunningham Tan y fron, Red Wharf Bay, Pentraeth, Insight j.ecunningham@yahoo.co.uk
Angelsey, Gwynedd LL75 8HJ UK

+
Data de formação * Associação Regional † Agência Presidencial ∆ Grupo adstrito a Adyar
SOCIEDADE TEOSÓFICA
A Sociedade Teosófica foi fundada em Nova Iorque, Estados Unidos da América,
a 17 de Novembro de 1875.
A sua sede internacional foi instalada em Adyar, Chennai (Madras), Índia, em 1882

OBJECTIVOS DA SOCIEDADE TEOSÓFICA


1º Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça,
credo, sexo, casta ou cor.
2º Encorajar o estudo comparado das Religiões, das Filosofias e das Ciências.
3º Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes no Homem.

Conselho da Federação Europeia das Sociedades Nacionais


The Council of the European Federation of National Societies
Presidente: Trân-Thi-Kim-Diêu
67 Rue des Pommiers
F-45000 Orleans, France
kimdieu_ts@magic.fr

Federação Teosófica Inter-Americana


Inter-American Theosophical Federation
Presidente: Terezinha Franca Kind
SHIS QI28 Conjunto 1, casa 29 Lago Sul,
Brasília DFF, 71.670-210 Brazil
t.kind@terra.com.br

Federação Teosófica Indo-Pacífico


Indo-Pacific Theosophical Federation
Presidente: John Vorstermans
60B Riro Street, Point Chevalier
Auckland 1022, New Zealand
john@theosophy.org.nz

Federação Teosófica Pan-Africana


Pan-African Theosophical Federation
Presidente: Kiran K. Shah
55A Third Parklands Avenue
PO Box 40149, Nairobi 00100, Kenya
kirankh33@gmail.com