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EVANDRO LINS E SILVA

DEPOIMENTO AO CPDOC

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EOITORA
NOVA
fRONTEIRA

-
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SEM'AE
UM
BOM LIVRO
HISTORIA DA ADVOCACIA r da
lida profl~~,onal do ~d\'ogJdo
não CUI1\m UI cm gcr~1 objelo de
estudos e dr ~l1jlisC!i, pois o tla-
balho dmes profl!.siollais sr eXl l1 ll: nu ;\ti vl-
o SALÃo DOS
(bd~s do fOlo, 1101 Jums dos proce..sos, nos
P:lICCC[C<; c lias IlIst<:maçocs orais. ],i se di,sc
quc () (oro absorl'c {('1m exclusi"i'llIo o nlJ-
'PAssosJhúmIDoS
: , 1- .,0 _~'f~~:r-,;:. -_ .

11~I1(iJI d,l il1ldigênti.\ dos .1dvog.1dos.


D>POIMEI fTO AO CPD OC
St cm Jlgul1s pJi~es!ie cnCOnlr~m rt'btos
oems .lllvidades. J bibl iografia ent re nós é
P,lup<'rrima. I'oder-sc·,i menClOn.H o lil'TO
pioneiro dt' Evaristo de Mor.lil, Rmllll ifr(,m(l
(Ir UIII ráblllJ crimillll{iJ/II (lo tdiçiio el, 1 1932,
2° ediç~o em 1989), os perfis biográficos de
Camo Nunes em Algum homrm do mru Irm-
po (l9;7)-e o Livro dr 11111 advogado (1964),
de Lcvj Carneiro, com subsidiO! valiosos par..t
o eslUdo da organização da Ordem dos Ad-
vogados Bnsilt'iros, d~ qual foi o primt'i ro
prt'sidel1(c.
Evandro Lins e Sill'3 vem constituir ex-
ceçiio a esta regra, publicando em 1980 A dr-
frsn um II palJ/lTa (a CIISO Doca Strrrt t algu mas
InnbUllíllJ), com o relato, al ~ m desse processo
F.imo~o, de alguos outros episódios de exJl(-
nencia profi ssional, e mais reccmcmeme, em
199 ; , ATra dr [,UardtJdm (UIlltm r mommlDs 110
Ctlmillho da Vida), com discursos em função da
pTOfI~o,
, Jl(rfls diversos e prefácios. ~ li-
n os faziam prenunciar o que seri ~ o depoi-
mento sistemático de uma I'ida profissional
que se e)tend~ há quase setenta anos.
N~o foi f~cil coovenc,:-lo desta illlcl~t i va,
mas lima Vr::L iniciado o depoimento Evandro
Uns e Sil,,~ emusiasmou-se e oos dá em O $II-
/40 dOJ PassllJ perdido! um Pili nel exmordi-
n:irio de sucessos e hilOs.
Nem livro eSIiio rdawdos o início difícil
na profissão, )Cm apoio e )Cm padrinhos, os
gra ndes Jd vogados cri min.al ims com quem
conviveu, esptcialmemc E\";(ri510 de MoraiS e
Mário Bulhões PedrClr.I, o êxiw logo alcan-
çado, a II1Wrs~O Jl(lo jOlOalj~mo e uma
SLlCess~o de grandes mom~m os 11 .1 profi ssão, ;
EVAN DRO LINS E SILVA

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AlÃo DOS '-
;. . .' . '
PASSOS PERDIDOS
DEPOIMENTO AO CPDOC

Entrevista e notas:
MarfJrMoita
VerenaAlberti

Edição d e texto :
Dom Rocha

-
UH TORA
NOVA
fRONTEIRA
C by E,"~ndro Lms e Silva. 1'J97

Dlrellos de ediçâo da obra cm língua poI'1uguesa nO Br.. ~11 ad<lulndos pela


EDItoRA NOVA F llfJl'fT'ElRA S.A.
RlI<l 1I.lInl.>ll1a. 25 - S(){"fogo
CEP.: 2225 1·050 - Rio de Janeiro - RJ - Br.lsil
T.:I .: (U21) 531 8170 - Fax: (02 1) 286 ú755 Sumário
ln I p: I/w IV w.II,)va fI 011 1"i ra .COITI. br

1::0.'011/\ FUNI1AÇJ,.O GnlÍL~.1 v ARCA'


Pmiá de 801:.fogo. 190 - 6' anJa r
C EP.: 22253-900 - RIo de JaneiJO - RJ - Orasil
Td .: (021 ) 536 9 110 - F .• x: (021) 536 9155
c-m"i l. edilOr.a @fg v.br
hup:llwww.fgv.br/fgvpublicacaolli\·ros.htrn Prefácio 9
Edição de originais
DOTo Racho Apresentl:l ção 17
Coo rdenação ed it orial
Reginu Marques
R evis~o tipográfica 1. Raízes nordestinas
IJllbt!l Grau
Caderno de fOlos
o sonho do magistrado 23
CV D~signer A odisséia maranhense 27
Projeto grMico e diagramação A grande família 34
Marcio PUI!S O Ginásio Pernambucano 37
C 1 P -Bra~il. Calalogação-na-fonte
O intelectual e os revolucionários 43
Sindicato Nacional dos Editores de Livros. RJ A capital federal 45
O Colég io Pedro n 51
S519s
Silva. Evandro Uns e. 1912-
O salão dos pa~sos perdidos: depoimento ao CPDQC I
EVBndro Lins e Silva; elllrevlstas e nalas. Marly Moita. Vercna 2. A escol a da vida
Albcni ; edição de t~)l.to. Dora Rocha - Ria de Janeiro' Nova
Fromelra : Ed. FGV. 1991. Bacharel por decreto 61
O Clu be da Reforma 64
ISBN 85 - 209-0836-5
A escola do jornal 69
I. Silva. Evandra Lins e. 1912- - Biografia. 2. Advosado~ - A escola do júri 78
Brasil - Biogr~fia. 3. Bra~il - Politica e governo. 4. Brasil· O tempo das revol uções 83
História. I. Maua. M urly. II. AlbcnÍ, Vercna. III . Rochll. Dora.
IV. Título.
CDD 923481
CDU 92 (S iLVA. E. Lins e)
3. A audácia da juventude 6. Paixões e desatinos
Estréia nojúri 97 Os grandes c rilllil1 ~Lli sta s 229
Profissão: ild vogado criminal / 07 Ocaso Zulmira Gai vão Bu eno 234
A ave ntura da Inte nto na e o fasci smo O crimc do padre de Ma ri ada Fé 239
nLpiniquilll 11 5 O caso do Marcha-ü- Ré 244
Defensores de presos po líticos /2/ 250
O caso Pedro Ernes to / 25
GCnlÇÕCS de ad vog:ldos
Os acusadores
, --
.))
Perfis : Sob ral Pinto e Prestes / 30 Casos e mai s casos 263
Criando f amOja / 35 Conselho aos moços 269

4. A página negra do TSN 7. Anos polêmicos


Crime político, matéria da História 147 A C PI da Úlrima Hora 277
Denúncia era condenação 150 O bessarabiano 282
Os juízes e os advogados /56 O atentado da Toneleros 288
Problemas com a repressão /62 A Liga de Defesa da Legalidade 295
Vitórias sobre o arbítrio /66 Carlos Lacerda 299
A gue rra e os espiões / 7/ O dever do advogado 306
Lobão x Chateaubriand 178
O fim do Estado Novo /8/
8. O homem de governo
Contatos com João Goulart 3 /9
S. O defensor da liberdade
Viagem à Chi na 322
Da pri vação de sentidos à legítima Impressões: os chineses, Araújo Castro
defesa da honra / 95 e Goulart 331
O Código Penal de 1940 200 A renúncia de Jânioe a posse de Goulart 334
O direito e as ciências 202 Procurador-geral da República 339
Em defesa do júri 206 Chefe do Gabinete C ivil 342
A pri são é monstruosa 214 M.inistro das Relações Exteriores 350
Vivendo em Brasília 356

6 7
9. O ministm do Supremo
Batalha no Senado 365
,
A queda de J050 Goulan
O STF co go lpe militar
J68
377
I
I
Prefácio
O STFeo reg ime militar 384
Coesão c coerência
Aposentadoria compuls6ria
393
397
I EV,I NDRO LINS E SU.VA. 00 o
O STFsoboAT-5 403
I MINISTÉ'HIO P ÚBLICO D,\ ADVOCACIA

10. Volta à tribuna II Neste m emoria l fascinante de uma vida qu e atravessou


quase todo o século, o leitor encontrará, ao mesmo tem-
Li cença panrtrabalhar po, um testem unho histórico e uma lição de cidadania. O
417
O caso Doca Strecl testemunho é de um observador arguto da evolução de
425
Sempre socialista 435 nossos costumes e da personalidade de alguns dos prin-
O caso Collor: um mandato invisível 440 cipais vultos de nossa história política contemporân ea. A
A acusação e a defesa 445 lição de cidadan ia e dada por um advogado que soube
A famJ1ia CoBor de Melo 453 fazer da profissão, desd e a juventude, uma missão de
O impeachmem e a renúncia 456 serviço público, antes e depois de ocupar alguns dos mais
elevados cargos na es trurura fe d eral d e Pode res.
Como explicar essa ex traord inária harmonia
11. O Judiciário e a Justiça, hoje entre a atividade profissional e a vida pública? A explica-
ção, a meu ver, está na fidelidade a uma mesma linha de
O STF absolve Collor: decisão jurid ica
o u decisão po litica? conduta ético-social. Enndro } ..i ns e Silva ê, com efeitO, a
469
O Judiciário, o Leg islativo e o Executivo ilustração de uma espécie p olí tica rarí ss ima em nosso
483
Ju stiça rápida e para lodos mela: um autêntico social-democrata.
492
A lei do trabalho 499 Hoje, mais do que nunca, neste momento de uni-
,-ersal confu são ideológica, importa sublinhar que o socia-
Índice onomástico 509 lismo democrâtico não veio negar os grandes valores do
autêntico liberalismo, mas sim complementá-las. O social-
democrata é, antes de tudo, um liberal no sentido genuíno
da palavra, ou seja, é o defensor intransigente das liber-
J dades individualS e do principio da igualdade perante a lei.

8
o SA I... ÃO DOS PASSOS PERD IDO S PREFÂCIO

Onl, nao é preciso grande capacidade de aná - Ora, na vida profissional e funcional de Evandro
li se ou conh ecimento hi s tórico para p e rceber qu e os Lin s e Si1\'a, esse lam e ntá vel mal -entendido nun ca e xis -
m ov imento s ou partidos dito s libe rais, em nosso meio, tiu, e fOI isto que surpreendeu muita gente. Como pod e
se m p re r e pr es cnt:lram uma es c andal os a contra fa ç ão. um so cia lista de fender intransigentemen te os direito s in -
O Partido Liber al do Império em nad a se dIstin g uiu di viduai s , a ponto de se p (ocbmar corn bonomia "um
do Partido Cons e r v:1dor, no tocant e :l. inst.ituição qu e alquimista d3 liberdade" , que forceja utOpi camente por
e nca rnava, a c poca, a pcrmanente negação d a hbcrd3 - e ncontrar um dia "um pó, um elix.ir, uma p edra filo sofal,
de Individua l e d o pri ncípio da ig u aldade pe r ante a ca.paz d e mante r a lib e rdad e de toda a gente" (capítulo
· Iei: o trabalho esc r avo . O primeiro grande p a rtid o de 5)? Que socia.lis mo é esse, que interpreta o princípIO da
Ideologia liberal na República - a União Dem o c r ática igualdade de todos perante a lei como justificativa da
Na cional - tornou-se em pouco tc mpo a organização defesa enérgica, tant o de comunist as quanto de
onde se aninharam os lideres civis do golpe de 1964, integralis t as, diante do infame Tribunal de Segu ranç a
instituidor do vintenário regime militar. 1 E o atual Par- N acional do Estado Novo? Como entender o nacionalis-
tido da Frente Liberal , cujos prõceres vêm servindo mo de alguém que advoga perante a jurisdição militar a
ininterruptamente a todos o s governos d es de a do- causa de brasileiros, culpad os de atuar a favo r do Eixo
minação m ilitar, redu z toscamente o seu liberalismo durante a Segunda Guerra Mundial? Qual o sentido soci-
à defesa da propri e dade privada e da supremacia al, ainda se perguntam muitos, de se defender com ardor
empresarial. na tribuna d o júri os homicidas paSS ionaIS, sejam eles
Foi , sem dúvida, à vista de ss a mistificação homens ou mulheres?
permanente qu e Sérgio Buarque de Holanda pôde quali- Essa miopia política é incapaz d e enxergar o fato
fi car a democracia, en tre nós, como um "lamentável mal- óbvio de que, para a d em ocracia socia lista, todo s os ho -
entendido". "Uma aristocracia rural e semi feudaJ", lem- mens nascem livres e iguais, em dignidade e dIreitos.
,/ brou ele, "impo rtou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse É justa mente sobre esta base democrática que o
possível, aos seus direitos ou privilégios, o s mesmo s pri- socialismo assenta o princípio da solidari ed ade univer-
vil égios que tinham sido, no Velho ~lundo, o alvo da luta sal, ou se ja, o reconhecimento de que os seres humanos,
da burguesia contra os aristocratas.,,2 Democracia legíti- de qua lquer cla sse, po vo ou cultura , fo rmam um to do
ma, a rigo r, nunca tivemo s neste país, pois jamais aceita- indi ssociável, o nd e não há excluídos n em ex.plorados;
m os, honestamente, o regime da iguald ade de todos na uma sociedade o nd e o direito à vida não pode ser sacrifi -
fruição das liberdad es civis e, portanto, a negação dos cado à barb árie da especulação fi nanceira ou da acumu-
privilégios de raça, sexo, classe, religião, in struçã o ou lação de capital.
fortuna. Para os nossos falsos liberais, ser democrata con - E aí vai a segu nda dimen são do pnncíplo ético-
Siste apenas em saber aju star, de stramen te, a domina ção I social , que semp r e norteou a vida d e .Eva ndro Lins e
oligárquica à reali zação periódica de eleições. Silva: a defesa consta nte do fraco contra o forte, do pobre

10
" ,,,.J,. " • •
o SALÃO I)OS r'AS~OS PERDIDOS PREFACIO

contra O rico; a luta pela supremacia do bem público, isto do dIreito penal, com a abolição da pena de pnsão. Como
é, ° bem comum de: rodo o povo ("rcJ publica, res advogado de júri, sobretudo, ao mostra r incessantemen-
popul/', lembro u Cícero), contra a tr:1.cl iciona l hegemonia te, contt:1 a opilli~o desdenhosa das elites, a excelência
dos interesses pnva.dos; a suslcntação do p:1.pel dirigente,; de um Irihun:1l onde o povo, retomando em suas mãos o
e regubdor do Hsrado na defesa do interesse nacio!l:ll, poder de julgar, pode corrigir os excessos leg islativos c
perante as potências est'rangeir:ls ou :1.S empresas Illulti- faLcl" justiça, se m p reoc upações de coerência teórica.
nllClon:llS. Como chefe do Ministério Púb]jco Federal c dU:1s
Foi essa li conv Ic ção d e princípios l.Jue lhe vezeS ministro de Estado, cm seguida, Evanclro Lins e
permi tiu compreender, desde logo, :l terrível falácia da Silv:1. soube di~tinguir os inlcresscs n:teionais dos mera-
modernidade neoliberal, no momentO e m <=iue multas se mente estatais ali gove rn amenta Is, mostr:lndo por essa
deixavam contaminar peja p ropaganda de ssas idéia s, forma, a governantes e políticos, que a fidelidade aos
após a liquida ção do comunismo soviético. "Acho que o interesses da nação há de ter preced éncía sobre a fideli-
socialismo nào acabou. O tempo mo strará como é ilu- dade ao governo de onde provieram as nomeações para
sória a euforia ncolibe ral que anela por aí. O sociali smo esses ca rgos públicos.
democrâtico ainda é :1. sol ução para :1. humanidade" (capí- Como magistrado, enfim, ao defend e r com bra-
tulo 2). Esta lúcida previsão realjzou-se, como se esta a vura, num momento em que tantos se submetiam
ver, mais cedo do que se supunha . Já se começa a perce- tim oratamente a for ça armada, a in d ependência do Su-
ber, em tod o o mundo, a profundidade da crise, premo Tribunal Fed eral diante do Poder Executivo, sub-
provoca da pelo assa lto aos direitos dos trabalhadore s e metido a ocupação militar.
ao Estado do Bem-Es tar Social, dois dos maiores benefíci- Aí está o que significa exe rcer em sua pleni -
os que o socialismo democrático deu a humanidade. Pois tude, em qualquer posição profissional ou funcional, a
a so lid ar iedad e socialista não é apenas um prtncípl o defesa da Constituição e dn o rdem jurídica, segundo o
ético, mas também uma regra inafastâvel de eficiência mandamento que o Esta tuto da Ordem dos Advogados do
/
eco nómica . Brasil impõe a todos os seus membros.
Foi ainda com base nessa mesma conVIcção P ois foi exatamente com base nessa qualidade
de princípios que Evandro L ins e Silva soube empre star de permanente advogado do int e re sse público que
a tod as as atividades profissionais o u fun cio nais clue Evandro Lin s e Silva, no crepúsculo da vida , veio assumir
exerceu - como ad\"ogado, procu rador-ge ral da Repú bli- a missiio de resgatar, em memorável processo, a dig-
ca, ministro de Estado e ministro do Supremo Tribunal nidade do povo brasileiro, duramente ofendida pelo
Federal - uma :1.utêntica dimensão pública, isto é, o senti- comportamento indecoroso de um chefe de Estado.
do do serviço permanente a causa do po\"o. Tive então a venrura e a honra de acompanhá -
Como advogado, primeiramente, ao InICIar des- 10, perante o Senado e o Supremo Tribunal Federal, no
de tedo uma campanha 100nterrupta pela humanização desempenho desse 'mandato popular invisível'.

-
I ,

L 13

".
o SALÃO 0 0$ PASSOS PERDIDO S
PREFÁCIO

Guardo vivamente na memória um dos ep Isó- chamou "um rouiro da revolução", e que veio a ser aplicado, (.om
ligeiras var i anlc~, após o golpe de 1964 . Propõs a in~talaç50 dI.' uma
dios mais express ivos d ess :l bat:llh:l cívica . Na manhâ do JUllta Militar, IllClJl11h"b de, com b :1SC num 'ato imtilllCIOllal' cui(' pro-
dia em que se julgav:l, no Sup remo T ribun:ll Federal, o jelO anexara :lque!a mi~siva, outorgar uma nova Constirulç~o ao país,
dissolvCT todas as Cãm:UllS Lc:~i~1ativas da L;ni:iu. dos CS!;lJo~ e municí-
m:lndado de seg ur anç:l \l1lpetrado pelo ex-p resident e
pios e expurgar os Irlbunais. Ficaria impedida a apreci".,::io iud":l.ll dos
contra a decisão condenatória do Senado, en contrc i alO~ do gO\'erno pro"l~ório C excluído o vabwI'(orp/U 1.'111 relaç~<) aos

Ev:-tndro muito indisposlO num hotel de Br:-tsília. Lastimei "c rim c5 conlr1l as mSllIUlçóes. bem assim os crimes cOntfõl. 11. org.ln;7.a-
ção do trahal11o, os meios de COffillniClçãú e transporte, :1 sau(!c pllbli.
o destino q ue vinha at:lcar aquela es plêndid:l rijeza .:a e os ((imes, funclon~lis ou não, COIlI U a AJministr"ção públic~." Ou
nord estina, exatamentc na hora e m q ue o povo mais seja. a reediçio reforçada do CSf;ldo Novo gctulisra. I:.sse 'rol,·i ro da
rcvoluçào' fOI publicado no O E./odo de S. Pmt/o t:m $ua edlção de
prec isava do seu de fensor. t\ o chegarmos para a sess30 domingo. Jia 30 de tnllfÇO de 1969, e no livro de Júlio {le r''! csqu ita
d e julgamento, Evandro d eixou -se exa m inar pelo m édi - Filho, intitulado Poli/iro r ~.dlurn. S. Paulo (Ed. Martins), 1969.
co do tribunal. Dirigimo- nos le ntam ente para a e n trada
1 RoiZI'1 do Bnui/, 5 ed., Rio de Janeiro (Liv raria J 05 <" Olympio. Editora),
da sala das sessões. Minha inquietação aumenta\-a de mi-
1969, p. 119.
nuto a minuto, até o momento em que o velho colosso
subiu à tribuna. Aí, subitam en te, tudo se transfigurou : o
Advogado de semp re aprumou-se, tomou a palavra com
galhardia e assumiu el1ergicamente a causa do povo
traído, reproduzindo o mesmo a rdo r juven il com que o
estudante de direito, sessenta anos antes, defendera seu
primeiro cliente no T ribunal do júri do Rio de Janeiro.
P o is é a história de ssa permanente juventude
que se vai ler nas páginas des te livro.

Fábio Konder Comparolo


Pro fesso r tilular da Faculdade de DireilO
da Unive rsi dade de São Paul o
Dou lOr em D ireito da Uni"ersidade d e
••
Paris

NOTAS

I cc. Maria Victoria dI.' Mnquita Ben (vides, A UDN t " UdtniJmo _
ambigiiidadtJ d" libm:Jlumo braJilúro (1945- 1965), Pu I.' T erra, 198J.
E m carta dirigida, em 20 de janeiro de 1962, a um dos mmistros mIlitares
do ex- presidente: Jânio Quadros , o dirc:tor do jo rnal O EUoJo d~
s. POIII", POtta-v01; nOtório da UON, traçou aquilo qu~ de: próprio

" 15
• II

i•
• Apresentação

Este livro ê a edição du depoimento de catiter históricO


e documental que Evandco Lio s e Silva concedeu ao
• Centro de Pesquisa e Documentação de H istória Contem-
porânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas
em 17 encontros realizados entre 16 de agosto de 1994
e 25 de janeiro de 1995. O resultado d esta conversa que
se estendeu por cinco meses foi uma entrevista lo nga,
de 36 horas e 30 minutos de gravação, e rica, tanto em
histórias quanto em testemunhos da H istória. O depoi-
mento acompanha a crajetória pessoal e a atuação profis-
sional de E vandro Lins e Silva desde su a infância no inte-
rior do Maranhão até o julgamento do impeachment do
ex-presidente Fernando Collor.
Hoje com 85 anos, Evandro Lin s e Silva é tes-
temunha privilegiada de diversos acontecimentos e
conjunruras da história contemporânea bras ileira. Desde
antes de 1930, com menos de 18 anos, já tinha cantato
com os debates políticos em curso no país, graças ao am-
biente politico-intelectual que enCOntrava principalmen-
te na casa de seu avô, Pedro Celso Uchoa Cavalcanci. Al.i
conheceu alguns integrantes do movimento tenentista
que mais tarde viri am a participa r da revolução que de-
pôs Washington Luís em outubro de 1930, quando ele
próprio, estudante de direito e jove m repórter do Diário
• de Notícias, saiu às ruas do ce ntro do Rio de Janeiro à
1
o SA L Ã O DOS P ASSOS PERO IOOS A P R E SEN T AÇÃO

p rocura d e info nnações so bre a in srabçã o d o gove rn o D efesa d a Lega lidad e, qu e d efe nd e u a posse de J uscc ü-
provisório de Getúlio Vargas. Foi como jornali sta também no K ubi !schck e m 1956. O espírito púb lico, fina lm e nte,
qu e cob riu import:lnres julgamentos que nlObi lizaram a o fez participar di rcramentc do governo João Goubn,
opinião pública no iníci o du s :IIlOS t930 e du rante os pri m eiro como p roc uracl or-ge ral da República e e m sc -
(IU:1is, :1ssisundo ?l. atllação do vel ho liv;\risto d e p.·lo r:1is e gui dn como chefe do C::Ibincrc Civ il e mini st ro das Reb-
de o utros :1dvogados de re nome, fo i tomando gosto pela çõ es Exteriores . Em 1963 ton10U posse como m ini sLro do
profi ssão q ue o notabilizaria no cen:lrio nacional. Supremo T ribunal Fede r::l l (ST F). Sua atu:lção no ST Í' fo i
i\ fe m bro d a "ge ração de 30", pro fundamen te pa rtic ula rmente m:lrCfl.da pd:l s restrições impostas pelo
m:ll:cada p elo de bate ideo lógico e ntre "d ireita" e "esquer- regi m e militar in sta urado e m 1964, um a ve~ gue po ucos
da", Evandro Lins e Silva fili ou -se, desd e os tempos da m eses d epois de ass umü o cargo já julgav a pedido s d e
Faculdad e de D ireito, à co rre nte sociali sta , que co nqui s- h abeas-co rpu s em favor d e preso s p oliticos. E m 1969,
tO u co rações e m e ntes de boa pane d a intelectualjdade por força do Ato ln stitucional n° 5, foi aposentado do STF
brasiJ eira d:1 época. Ao lado de Sobral P into e d e o utros juntamente com H ermes Lima e Vitor Nunes L eal, e pi só~
advogados, atuo u na defesa de preso s políticos p erante o dio es p ecialm e nte signific a ti vo para a análi se da s r e l a~
Tribunal de Segura nça Nacional (TSN), o tribunal de ex- çõcs e ntre o autoritarismo e o sistema judiciário no Brasil .
ceção criado pa ra julgar os e nvolvidos na revolta comu - Ao longo desse p e rc urso, E vand ro Lin s e Si lva
nista de 1935 que só fo i extinto ao fina l d a ditadura d o convIveu com p er sonalidad es como Carlo s L acerda, O s·
E stado N ovo, em 194 5. T inha 25 anos quando defende u valdo Aranha, Lu ís Carl os P restes, Assi s C hateaub riand ,
o primei ro preso politico - já e ra e ntão um advogado J o ão GouJart, entre o utros, d os guais traça perfis argutos
res p eitado e n t re seu s pares - , e acab o u por to rnar-se e revel ado res . Se u de poim ento se d e bru ça também so~
um do s mais requisi tad os defenso res d e ré u s julg ad o s b re gu es tõ es que nu nca d eixaram de se r atuais, com o
p elo TSN . Após a rede m o crauzação d o pais, parti cipou as cau sas sociais e eco nôm.icas do crim e, a p ouca ou n e·
e m 1947 d a fund ação do P a rtido Sociali s ta Brasil ei ro nhuma eficácia d a p risão co m o m étodo pe n al e ---;; p ap el
(PS B), Iniciand o uma lo nga militânc ia em favo r d e u m do advogad o no ape rfeiçoam e n to da o rdem jurídica . Ao
soci alism o d em o crático . ; re p r o du z ir uma e xp e r iência profi ss io n al co ncr e ta , a
A paixão pelo T ribunal do J úri o tran sfo rmou em entrevis ta dá um a n oção mai s ex ata d as relaçõ es e ntre
1
um criminalista à altura dos q ue admirava na juve nrude. A , a teo ri a e a prá tica d o direitO, abordand o os diferentes
co mpe tênci a p rofissiona l O fez atuar e m pro cessos d e l asp ec tos impli cados n o exe rcicio da advoca cia , como
g r a nd e rep e rcu ssã o n aci o n al, com o o q ue fo i m o vid o por exe m pl o o relacionam e n to com o s cli e ntes, co m as
contra Samuel \Vainer e Ri cardo J afet em decorrê ncia da o utras panes e se u s r ep r esenta ntes, o u aind a co m os
CP] do jo rnal Últim a H om , em 1953. A defesa da demo- Juízes.
cracia o levou a ser um dos principa is a rticul ad o res, ao :M as a a tu ação de Eva nd ro Li n s se este nd e até
lado de Sobral P into e de Vítor N un es Lea l, d a Liga de mom e ntos mai S recen tes d a hi stó ria politica b rasilei ra, e

18 19
o SALÁO DOS P ASSOS PI~ROIJ)O S
A PR ESENTAÇ ÃO

é por esta razão que sua ent revista tem uma relevância colaboração do aux ili ar d e pesqui sa Cristiano Sa nti ago
especial para o cená rio atua l. Sua participação direra no de Sousa.
p rocesso de impeachmcnt do ex-prcsidenre Fernando Companhia de Cimento Portland I'aralso e o in-
CalJor, em t 992, perm ite uma aproximação edvez inêdi- ce ntiVO de ~U.l direlo ra-p residcnLe, li ra. Soni:l PereJr:t da
ta (b relação e nlre os p ode res Ex ecutivo, Lcgisl:nivo e Si lva Jsnard, c do presidente do conselho de adl1ltnistra_
Judiciário, cm uma situaç3:o em qlle 1.:SCIV,I111 e nvolvidas çlo, dr. F):1u lo r.lârio Prci re. No C lJ])OC, em pe nharam-se
prc.~sõc.s políticas d as m:lis difer entes o r igens. As re- esp ecialmente na rea li zação deste projeto as professoras
flex6e s sobre o ru ncion amento do :lp:l rclho judi ciá rio J\larieta de J\ toraes Fer reira, endo coordenadora do Setor
conduzem finalmente o d epoim e n to para um terreno de H istória Oe:1l, Alzira Alves de AIJI'cu c Lúcia Lippi Oli -
ulLimamente bastante ex plorado nos d e b:l tes n acion ais . veira, diecwras do Cent ro. A eles expressa mos o nosso
Todas as dimen sões destacad as têm na trajetória reco nhecimento.
d e vida de Evandro Lins e Silva seu eixo de anco ramento . Ao dr. Evand ro Lios e Si lva, que abriu m ão d e
Este é o pressupos tO bá sico da m e todo logia da história seus afazeres para reco nstituir con osco a história de sua
oral, que ori entou o trab al ho da entrevista: revelar a rela- vida e rever atentamente os orig inais deste liv ro, acres-
ção e ntre o indivíduo e as con junturas politicas, econômi- centando-lh es inclu sive novas passagens, nosso s agrade-
cas e socia is e m que ele se inse re, d e m o do a pro d uzir cimentos espeCia iS.
um d epoim ento de valor histórico e documental. A expe-
rié ncia do C PDOC nesta área é hoje inegável: seu Progra- Mar(y /V[otla,
ma d e História Oral tem 23 anos de existência, e seu acer- Verma Alherti e
vo de entrevistas com homens públicos que se destaca- Dom Rocha
ram em nossa história rccente compreende cerca d e 350
d epoimentos. A e ntrevi sta que se segue, um longo pas-
seio por nossa história a partir do pomo d e vista d e um
ad vogad o cujo papel como atar, testemunh a e pensador
de n ossa sociedade é largamente reconhecido, constitui

l
mais uma contribui ção do C PDOC à preservação da me-
mória do país .
As e ntr ev istas foram condu zi d as pelas pes-
quisadoras Marly Morta c Verena Alberti e gravad as pelo
técnico de som C lodom ir Oliveira Gomes. A t[flnsfo r-
mação do depoimento e m livro exigiu a edição do ma-
terial transcrito, fe ita por Dora Rocha, e a elab oração de
notas explicativas, a cargo das entrevistadoras, com a

20
"
j
I
1. Raízes nordestinas

o SONHO 00 MAGISTR A DO
No começo do século, o mundo vivia um período de calmaria,
de ttanqüilidadc. Não havia expectativa de conflito entre os pa-
íses e os povos. Foi nessa época, em 1906, que meu pai se for-

l mou pela legendária FacuJdade de Direito do Recife, criada em,


1827 juntamente com a FacuJdade de Direito d e São Paulo.

[ D epois de formado de deveria começar sua vida profissional, e


o fez indo em 1907 para Sama Catarina, para ser promotor em
Araranguá, município lirrútrofe com o Rio Grande do Sul. Na-
quela época os estados que não tinham faculdade de direitO fica-
vam procurando quem qui sesse ir ocupar cargos que só o
diplomado em direito podia desempenhar, e foi esse o motivo
da sua nomeação para Sama Catarina. Mas ele lá permaneceu
apenas um ano. Não ficou satisfeito com suas tarefas - não sei
se também não se adaptou bem ao clima, já CJue vinha do Nor-
deste - e quis mudar de pouso. Além disso queria casar, eSL'lVa
,
noivo de minha mãe. Veio então ao Rio de Janeiro, onde m O Ta-
va João Barbalho Uchoa Cavalcanri, tio-avô de minha mãe, que
foi uma grande figura na Primeira República - vinha da ch a-
mada Escola do Recife, que fez aparecer e deu d estague a Tobias

,
Barreto, Oó,,;s Bevilaqua, Silvio Romero, toda uma geração i1us-
tre daquele tempo. E João Barbalho obteve para meu pai um
cargo de advogado da Central do Brasil, que era na época uma
função de certa importância, além de rudo exercida na capital
federal. Frustrou-se, porém, essa solução, por um motivo im -
preV1.sto.
o SA L ÃO D OS PASSOS P ERDIDOS R A I ZES NO Iol.OE ST I NAS

Freqüentava a casa de João Barb:l1ho uma figura m ui- riOS:l Constituição de 1891 , um dissico que ainda hoje é citado
ro interessante de politico bras ilei ro, Luís Domingues da Si lva, nos tribunais. Ninguém pode fazer um trab:llho sob re direito
govern:ldo r e também sen ad or pelo eSt:1Jo do j'vbranh?ío e, cons ti tucion:tl, Ulll ~1 interpretação de sua histón>l, sem consultar
cont am todos, um causeur m :lgnífico e encantador. I.uis o livro de João l3arbalho. Em relação 3 origem flO1iliar de nu-
DominhTUcs romou conhccimento do assumo e convt:nceu meu nha mãe vou um pouco mais longe, conhcço-:l melhor por ou-
p:11 de queo fUluro Jos joven s bacharéis do com eçado século vi r J e b própria . Minha bisavó ch:1mava se i\fa ria Umbelina
es rava na m agistratu ra. Fa~ i a essa ava]jação tendo em vista um Wandcdcy CavaJcan ti de Albuquerque.
projeto lluC ele, o u h:lvia apresen tado, o u prc.:ten\ li:\ :tpresentar
ao Sen ado, para a fcde ralização d:t magistratura. E ofereceu a Família tradiciol1al, não é?
meu paj um cargo de juiz municipal no interior do Maranhão- Sim, tanto que o livro Casa-grol1dee senzala, de Gilberto
naquela época não havia concurso, era O próprio gover nador Freire, registra como o povo se vingava dessas fanuli as que pre-
quem nomcava. Meu pai se sentiu seduzido, viu-se começando tensiosamente deitavam imponância, sabedoria, prestigio e no-
como juiz m unicipal, ascendendo na carreira e aca bando minis- breza, dizendo em tom de zombaria: ''Nào há Wandedey que
trO do Supremo Tribunal Fe- deral. Uma ilusão, um sonho, uma não beba, Albuquerque que não minta c Cavalcanti que não
utopia. Mas a realidade ê que ele se d eixou fascinar por Luis deva ... "
Domingues e aceitou o cargo. A família de minha mãe é muito numerosa. Meu avô
Agora façamos uma pausa para saber quem são as materno chamava-se Pedro Celso Uchoa Cavalcanti . Foi uma
pessoas de qu e m falei. Meu pai, Raul Lins e Silva, e ra figu ra de grande prestigio intelectual no seu tempo, professor
pernambucano de nascimento, como toda a sua familia, e minha do G inásio Pernambucano, fil ólogo, poliglota. Foi o tradutor de
màe também , como todos os seus ancestrais. Nreu pai era ftlho um livro de Watjen, da Brasiliana, intitulado O domínio colonial
de um fu ncioná rio do Tesou ro do es tado de Pernambuco cha- holandês no Brasil, para o gual teve gue traduzir inclusive textos em
mado Augusto Paulino da Silva e de uma professora jubilada, •
holandês. Era um homem de grande popula ridade no Recife,
como se dizia naquela época, o que significa aposentada, nascida porque lecionou dezenas de anos em vários colégios. Por exem-
Leobina de Barros Jjns. Quando lhe nasceu o prim eüo 6.1ho, ela p lo, foi professor de m eu pai e meu professor no Ginásio
achou que fica va mais eufônico, mais bonito botar como sobre- Pernambucano, que era um colégio modelar, tal como o Pedro
nome, nào ''Lins da Silva", mas "Lins e Silva". Porr.'lmo, o no me II no Rio de Janeiro. O s grandes professores da época ensina-
da fam ília foi criação dessa minha avó. Ela era professora pri - vam lá.
mária, uma mu lher inteligente, de olhos verdes, muito ;uiva, .M jnha avó materna chamava-se M'aria da Conceição
dominadora. Cavalcanti de Albuquerque. Era filha d e Maria Umbelina e
J\1.inh a mãe chamava-se Maria do Carmo Uchoa prima do marido, meu avô Pedro Celso.
Cavalcanti e era, como jâ disse, sobrinha-nem de J oão Barbalho.
Quem era João Barbalho Uchoa Cavalcanti? Foi o grande co- De onde veio o 0Pfão de seu pai pelo direito? Seu avô AuguJIO
mentarista da Constiruição de 1891. Escreveu o livro Comentá- Poulino da SiAJo lambim era formado em direito?

"
o SALÃO 005 I'ASSO S I' E RDIDO S RAIZES NOR D EST I NAS

Não. Não era diplomado. Sei pouco sobre sua ori- era viva. Ela (Iuase teve pentane tos! Casou-se com 13 anos de
gem, a nào se r que c ra filho de portugueses e m o rreu rela tiva- idade, leve quatro filha s, e essas fiJh as oei.. . .aram uma desce ndcll -
mente cedo. Quanto ?t escolha de meu pai, a m ocidade daquele cia numerosíssima (Iue hoje ainda exi ste espalhal.b por aí. Basta
tempo tinha co m o :l spiração, co mo sonho, como projeLO de dizer que só a descendê ncia de minha m ãe, que e ra sua neta, foi
vi(b, ser advngac!o. Era o n1"i s comum. Ou m édico. E mais de 13 fiU10S.
raramente engenheiro. Por exemplo, minha màe tinha 17 i(m:ios,
dos quais conheci 14. Eram dois advogados, três médico s, um D ona l\fmia U",belú1f1 era " IIIa grande senhom de Pem a",blfío.
form:ldo numa escola qualquer de :1dminisU':1ção dagucla épo- Sim. Eh! morava COI11 meu avô P..;Jro Cel so, seu ge n-
ca, que não sei bem co mo se chamava, dois e ngenheiros ... E as ro. E tinha um grande dominio sobre a casa. i\landava em todo
mulheres, de modo geral eram donas de casa, não tinham pro- mundo, influía em todas as decisões, e ra uma pessoa d e muita
fissão remun erada. Uma era freira, e as demais se casaram. Essa pet:Sonalidade.
que era freira não usava hábito. Morava e lecionava nwn colégio
eucarístico que havia no Reci fe, onde professou, embora não Seu pai tinha irmàos? O que faziam eles?
fosse wna ordem reJjglosa. Foi professora de gerações e gera- Um era médjco e dois eram bacharéis em direito, ad-
ções de moças no Recife. Outra irmã de minha mãe - foi, na vogados também.
época, uma surpresa imensa - se desquitou do marido e de-
pois di sso passou a trabalhar em banco. Todas elas eram muito o senhor sabe como seu pai e SIIa màe se conheceram?
preparadas, por influência, talvez, do meu avó, do esrudo em Como se conheceram, eu não sei Recife era uma cida-
família. Todas falavam ünguas. 1-.finha mãe casou aos 17 anos e de pequena, ele era estudante de direito, ela e ra uma jovem
falava corrente mente O francês e o inglês, o que era raríssimo casadoira, deviam freqüentar os mesmos circulas, dai o conhe-
naquele tempo.
cimento entre ambos e o casamento. Tenho ainda uns cartões
dele do A raranguá para da. Eles se casaram em 1908 e foram
A f amilia de sua mãe era muito Iradicional e importanle 110 Reci- /
logo para o Maranhão.
fi· Já a de Sei( pai sm'a o que se poderia definir como uma Iam/lia
de selores médios?
A ODISSÉIA MARA..'-lH.f.,'1SE
Nas genealogias pernambucanas, os Lin s ap arecem lá
no começo, miJ seiscentos e poucos. E os Barros também são Posso citar as cidades em que meu pai foi Juiz no
antig os. Agora, eram g ente de classe m édia, como a família de Maranhão, e pode ser que ainda haja outras de que não me lem-
minha mãe também: meu avô materno era um professor. bro. Sei que houve T utóia; Imperatriz - era um a cidade
Quem tinha maior destaque era minha bisavó Maria Umbelina, pequenissima, hoje ê uma grande cidade, um entroncamento
porque foi casada com um Cavalcanti de Albuquerque e tinha importante; Barra do Corda; P astos Bons ; Colinas, que se cha-
engenho. Mas isso tudo foi acabando. Ela ficou viúva muito mava Picos naquela época; Brejo do Anapurus; São Bernardo;
cedo, aos 21 anos de idade, niio casou ou tra vez e viveu até os São Luis Gonzaga; I tapicurumirim ... A permanência de meu pai
99. Tanto que quando minha filha mais velha nasceu, ela ainda no Maranhão durou d e 1908 até 1920. Foram 12 anos percor-
26 27
o S AL ÃO DOS PASSOS P ERDIDOS RAI Z E S NOR DIZS TINAS

rendo essas cidades, uma verdadeira odisséia. Contavam eles - um pouco e afinal aceitou um IUbra r de funcionário do Banco do
minha m ãe sobretudo - que, numa das transferênci:ls d e m e u Brasil. Ele tinha mujlO o rgulho da sua pro fi ssão de magistrado.
p:ti de um a cidade pa ra outra, fi zem os unu. vi3gem de 100 Jam ais se idcnti ficou, cm q ualquer docu me nto, como bancário
léguas, que c ~m 600quilômetros, cm co ndições tenívei". J á é ra- ou fu ncionário do Banco do I3r~I <:I L Sempre, (juando pergu nta-
mo s três irm ão'5 n:l<icido s, o s dois mais velhos e e u, que e ra o u m sua pro fi ssão, ele d izia: " t\l agisu :tdo aposentado."
te rceiro, e fom os a cavalo : minha m ãe num c:walo, m e u pai no
o utro, o s três irmãos num outro, co m duas cangalhas, os dois IVa mesma época em que SII(J flUI/í/ia era asso/ada por dOeJIfOS
mais mag ros de um lacloe o mais go rdo do ou[ro... E um:l vaca fomo f) impaludismo 110 il/tm'or do A/aranhõo, aqlli no 5111 a glipe
para aljment:lr as cri:lnças, e o guia. Ess:l viagem levou um m ês! C1panhola provOCfJ L'a grandes estra)!,os.
Parand o cm pousadas, com um desconforto total. D urante essa Exato. E lá também. Nós estávamos em I tapicuru-
viagem , contava minha mãe, nós três, os filhos, tivemos saram- mirim quando veio a gri pe espanhola. No fim, o grande risco
po e catapora ... E havia o impaludismo, que contraímos desde que houve foi a morre de meu pai, porque ele teve a gripe em
cedo, todos nós, com aquela febre terçã, em que à noite:l gente condições ultradesfavoráveis, em um local CJue não tinha recur-
rrenua. sos. Nós tivemos lima gripe logo debelada, ele tratou de todos
ltapicuru foi a última cidade em que meu pai foi juiz. e depois adoeceu. Ficamos muito p reocupados. Nessa época eu
Hoje a geme vai de lá a São Luis de automóvel em uma hora e tinha oito anos, mas me recordo perfeitamente dele gravemente
meta, duas horas. Antigamente ia-se num vapor gaiola. Eu me doente. Mas se salvou.
recordo muiro dessa viagem, porque já tinha oito anos quando
viemos de ltapicuru para São Luis, deixando o Maranhão. Mi- Quais sõo JIIas le11lbranças maú antigas?
nha mãe g ravememe doente, nós todos com impaludismo... A primeira recordação que tenho gravada na minha
Meu pai foi compelido a se aposentar pelas condições de saúde retina e na minha memória é da cidade de P icos, hoje Colinas.
da familia. E scava para ser desembargador, já tinha sido pro- Isso deve ter sido em 1916 ou 17, porque tenho um irmão
movido a juiz de direito, estava numa comarca importante....c nascido nessa cidade em 1915. Havia lá um pistoleiro, um ho-
logo poderia ir para o Tribunal de Apelação, como se chamava mem considerado perigo so, violemo, autor de vários homi-
na época o Tribunal de J ustiça. E aí iríamos morar em São Luís. cídios, que estava pronunciado e tinha que ser preso, mas que
Era o sonho dele ser desembargador. ninguém prendia. Todos O temiam . Meu pai, ao assumir o cargo
de juiz de direito, resolveu que fos se cumprida a lei . Mandou
Mas d~/Jido ti dOel1fa da Janu/ia ele IJili esse sonho... prender o bandoleiro e foi ameaçado de morte. Até hoje me
Desmo ronar. Então ele voltou para a sua te rra, para lembro de nós, os m e mbros da família, no meio de um grupo
Pernambuco, aposentado em condições muito precária s, por- de pessoas que nos p ro tegi am - eu era bem pequeno, devia
que tinha po uco tempo de serviço. Para poder sustentar a fami- ter meus quatro ou cinco anos - , caminhando da nossa casa até
lia, que estava sendo m antida po r minha avó Lcobina, com a casa de um chefe p olítico ou prefeito local, que ficava no alto
quem morávam os, Jeciono u em co légios secundários, advogou de urna colina. Íam os ali, no meio das pessoas, resguardados

28
"
R A f zES NO RD E S T I NAS
o SA L ÃO I)OS PASS O S P ~ R I) IDOS

para evitar um ataque contra meu pai - um ambiente de muita d uas cidades era um cid adão chamado Henriq ue Co uto, pai de
tensiio. Deolindo Co uto e d e Berna rdo Couto. A mbos m éd icos:
Tenho c::~sa lembranÇl da nossa passagem em Pico!", D t:olindo, q ue foi da Academia Brasileira de Letras, e l3ernardo,
I11:lS 5:'10 Luis Gonzag.t (; a cid:1 c1 c de que ço m~ço a te r ]ctl) - Cjue tem um co nsultório de neurologista farn o so. Pois bem, es-
b ra nç l. mais niueb . E u devia Hêr uns seis anos (Iuando fomos sas cidades ficav am em fren te 3 cidade da Parna.Hxt, no Piauí,
para lá. Fo i qU :1 ll do com ecei a fu gir p:1 ra ir à escola. M eus ir- :"tpenas com o rio de permeio, llue er.l o lim..i te entre O Nlamnhào
e o Pi au í. Parnlllbll er:1. próspera, po rque p roduzia cera el e
í
I
m ãos m aiores iam , eu nào queria fica r em casa e saí::t co rrendo
awis dele::;. Lemb ro que uma vez levei um bo lo po r<"ltlc errei carnaüba, que era a m atéria-p rima com que se faziam o s di scos II
uma tab uad:1. O aluno segui.nte flcerto u e ficou com o d.ireito dc d e música no mundo inteiro - o simético só foi descobe rto
m e bater na m ão com a palmatória. E u, na hora, quis fechar depois da Segunda Guerra Mundial. Por ser mais adiantada,
a mão ... O certo é que apanhei d e palmatória. Lembro muito meu pai levou minha mãe e m eus doi s irmãos mais velhos para
tam bém gue a nossa distração era mo ntar em carneiro. N ó s, Parnruba, para eu nascer lá. Alugou uma casinha no delta do rio
gflrOtoS, e u e n1eus irmãos, cada um tinha um carne.irinho, e Pamruba , na ilha de Santa I sabel. O delta do rio Parnruba é d e
passeávamos m ontados neles. Essa é a recordação mai s nitida wna rara beleza! Sabem que ê o segundo ou terceiro maior delta
que tenho dessa época. do mundo? Meu pai p rocuro u o m édico, combino u o ate ndi-
D e São Luís G on zaga fomo s para o Itapicuru , ond e mentO à minha mãe, mas, no momento do parto, fo i chamá-lo
fic amos até 1920, ano de no ssa volta para Pernambuco. Já nessa e não O encontrou. O médico tinha saído para fazer parto num
cidade recordo de um detalhe que causa espanto, porque mos- outrO lugar longe, e n ão se sabia quando voltava. M.eu pai foi
tra as dificuldades de comunicação naquela época. E stava ha- para casa e fez o parto, aco mpanhando as nOtas de um livro
vendo a guerra d e 14 a 18, e não me lembro de qualquer refe- dado por seu irmão m édico! Havia, nesse livro, a indicação de
rência sobre ela, a não ser gue me u pai só soube da terminação como se fazia um parto, ele acompanhou a lição e eu estou aqui,
da guerra mais o u menos um mês depoi s, por uma carta que vivo e salvo, com 82 anos! Ficamos na casinha tosca da ilha de
recebeu do irmão, de Recife! Não havia jornal na cidade, não Santa Isabel uns 20 dias, regressamos ao Maranhão, e passaram-
havia telefon e, rácüo, televisão, não havia nada. E stávamos num se mais o ito anos até voltarmos para Pernambuco.
fim de mundo .. Só m uito tempo depois vim a conhecer a cidad e em
que nasci. E u não tinha parentes Já, ninguém. Como co nhecer a
D eve ler sido um conlraJte muito grande para l ua mãe, sair do minha terra? Eu tinha vontade, mas nào tinha opo rtunidade.
Recif e para enfrenlar }lO A1aranhão lantas doenças e percalfos ...
Quem prop<?rciono u minha ida a P arnruba p ela primeira vez foi
Claro. E a resistência, a bravura, com que ela enfrentou
José Sarne/ Em 1968, eu era mini stro do Supremo Tribunal e
isso? E a capacidade que teve de se orientar diante de uma situ-
recebi wn convite p ara faz er uma conferência na Faculdade de
ação nova, delicad a, dificil, em gue tinha que tomar m edidas... E
DireitO d e São Luís. Fui para lá com um cidadão que foi muito
de pois, o desconforto tOlal! Po r exemplo, vou contar a história
m eu amigo, foi senador pelo Maranhão, de putado muito tem -
do meu nascimento. .Meu pai era juiz m unicipal em duas cida-
po, chamado Henrique de La Rocque Almeida. A estada no
des: Brejo do Anapurus e São Bernardo. O juiz de direito dessas

30 31
RAIZES NORDE ST INAS

.i\ laranh?io foi cheia de emoções. imcialm e nte fui VIS ita r logo sed uzido pelos encantos da cidade e a ela me semi, de ,
O ltapicurumirim, a última cidade onde meu pai tinha si- súbito, Integra(!o como qucm \"olta aos seus penares."
do jU!í' e onde aprendi;l ler. Eu visualll:1Va a topogr;dia da ciJa
de em proporções malore.;; do <-IUt' a<.J.uelas que encontrei. Ao o senhor rhe..~()1I ir ri ilha de S flnltl I.frlbel, Irm/bi!ll?
(!

cheg:ll', alnl\'CSSava-sc U!11 riozinho, Ull1a ponte, e estavam lú as Sim. I\:aqueh ocasião aind :t não existia a ponte. l:ui 1:'t
c rianças da escola com h~lI1deirinhas ... roi urna coi sa q ue me depois, outras V(;:i:CS, e jâ eXistia. Da primelf3 \'ez :til1(b St: ia de
lucOU muito, a rccepç:i.o. O prefeito, o padre, a pro fessora, to- bOle. E idt:núfi(!uei a casa o nd e nasci . ;\f inh a m:'ic di%ia (Iue era
dos. Lev;lram-mc :i. Cimara '!'vf un icipa l, onde recebi u útulo de próximo do dcscmbarqut:. Eu estava por ali, h:wia um senho r
cidadão itapicu ruen sc. E fomos também â casa o nde únhamos idoso Li 1Iuma ja nel:t, pergu ntou o <Iue estávamos o lh:mdo, c
morado. D ali a pouco - isso m e comoveu m uito - come- então expliquei que estava p rocurando a casa onde e u tinha nas-
çaram a surgir processo s com a letra de meu pai, sentenças, cido em 1912. Ele disse: "Era filho de um juiz? Pernambucano?"
decisões que ele tomou ... E u a té brinqUeI: ''Vocês estão queren- Respondi: "E ra , exatam ente." Ele: "Então é aquela casa." E eu
do vaga no Suprem o T ribunal Federal! E stão q uerendo ma tar con heci. Era uma casa tosca, m od estíssima. D e p ois, na
um mini stro de em oção p ara arran jar uma vaga!" sef,1W1da ou terceira vez que fui a PamaIba, ela já não existia, tinha
E ra governado r na época O dr. J osé Sarne)', que m e sido posta abaixo.
convidou para um ja ntar no palâcio, em São Luis, com autOri-
dades. Co ntei-lhe, nessa o p o rrunidad e, que e u não co nh ecia a E ra sobretudo sua mãe quem lhe conlava essas histónos do tempo
terra em que tinha nascido, a Parnruba. E le pergunto u seeu go s- do A1arallhão?
taria de co nhecer. Respondi: "Sim, gostaria im en samente, mas Sim , J\1inh a mãe era um a mulher sumam ente inteli-
os aviões nào passam na Parnruba; eles vão po rTeresina, que é a gente. V in ha d e um a famllia de Jetr:ldos e tinha m uita curio si-
capi tal." Nem a Teresina eu tinha ido ainda. Ele sugeriu: "Vam os dade intelectual . E u me lem bro que ela lia m uito, a família lhe
fazer então o seguinte. O aviàozinho do governo leva você mandava livros, po rq ue a distração qu e ela tin ha era exclusiva-
até Parnaíba. Podem os fazer daqui as com unicações. Lá, certa- mente a leitura. Ela aprendeu a fazer tudo: nossa ro upa era fcim
mente, o s juizes, O prefeito, esperam, e você então conhece a sua por ela, ela estava na cozi nha todo dia, ar rumando as coisas. E
terra." Fui nesse aviãozinho, que era um monomoror de três ou um fI lho atrás do outro. Mas a leitura dela era sagrada. Q uando
quatro lugares - até brinquei com ele depois, di zendo que tinha um vaga r, estava sempre le ndo um livro. E conversava
aquilo não e ra u m aviào, e ra um a em ergência! - e lá, de fato, muito comigo, não sei se porque eu era o mais falador dos ir-
estavam o juiz federal, o p refeito, as autoridades locais, m e espe· mãos maiores. G ua rdo essas históri as na m em óri a porque OUV1
rando no pequeno aero porto local. Almocei e fiquei encantado dela. Há poucos dias assisti na relevisão a um a aula da minhrt
com a cid ade. D igo isso no discu rso que fiz qua ndo re· fi1brt Patrícia, que é uma das diretoras da Escola Parque, exata-
ceb i a medalha Ru i Barbosa da O rd em dos Advogad o s mente sobre a memória, a transmissão das coisas e dos conheci-
do Brasil: "Tardei muito a realizar esta viagem, nus pagou a mentos de geração a geração. Aprendi então que a história da
pena fazê-Ia.l..ibertei-me de um \'ago sentimento de culpa, fui Cinderela é uma antiga lenda chinesa, coisa que eu não sabia.

33
o SALÃ O D OS PA SS OS Pl::; R O IDOS

Guardei IllUÜO:1S coisas porque minha mãe contava


, R AI Z ES NO R DE S TI NAS

Depoi s vem Joel. F.ssc quase foi p:'lclre, chegou a rece-


todos cs~es ep isód ios que eu hoje rem emoro : a tTa\ essia pelo
ber as orden s IllC'_Ilores. Pac\ dei x<J r de ser padre, preci sou 3té de
J\branhão ... FOI um:l epopeia! P;1ze r 30 dias a c l.va lo! E m C;1S:1S
lice nça da s al1 toriJ ades superiores eh Tgreja. Di zia e le, não que
de pouso, sem sa nicírio s e com lima c1cimba no Cjuintal. i\Ll1ha
perdera a fé, po n.]UC contin uo u religioso, m3 S 'lue :1chou que
ll1:le supo rto u ac]ui lo tuelo . E h , 'luC \'inh:1 ele uma famíl i;1 el e
n:io sena um bom pad re. N:'io se eli plomou nou tro curso c d e-
classe med ia bcm-situada no Recife, meteu-se naquelas bren has
pO I S trab:l.lhou no I nstituto do Ca fé . ~\'fo rrc\J cedo também ,
do im.erior do 1 bra nh?ío, 11 0 C()Il1 CÇO do século, (' teve uma vida
com quarenta c poucos anos, ele um :1t:1"--lue cardíaco fu lm in:lll l"e.
multo di fícil. Um filho atrás do outro! Criar esses filhos! Não
E m seguida \'em f-b roldo, que foi um ildvogado de
morrer ninguém ! N o i\ h ra nhão n::'io morreu nmguém. j\'finh a
desta"--lue em m atéria de direito de familja, falecido há pouco s
m ãe fo i uma heroína.
anos. Depois, Álvaro: form o u-se em direito, mas fo i jornalista, e
também faleceu poucos ano s atrás. Pomos sete ho m en s seg ui-
A G RAN D E FAJ\ÚU A
dos, e de pois, as mulheres. A primeira, Maria do Carmo, tinh a o
5 e!JS pais IÍl1tI"alJl '3 filhos, nào é IS.ro ? Como se chamavam e q ue nome de minha m ãe. Falece u co m um an o, um ano e pouco de
pnifissões tiveram ? idade. D epois vem i\hria. Foi professora primária, é aposenta-
Meu irmão mais velho chama-se H amleto. D e Hamlet. da. D epois, Célia, tam bém professora primária aposentada .
De scon fi o CJu e a suges tão tenh a sido d o m e u avô ma - Sempre encontro gente que diz: " Fui aluno de sua irmã ..." Elas
terno ... É funcionário apo sentado do Banco do Brasil e também en sinavam no C olégio Antô nio Vieira . Depo is, Leobina - o
b acharel em direito. N asce u em 1909, fez agora 85 anos. Mora nome de min ha avó paterna. Essa é bibli o tecária, aposentad a
em Santos. O segundo chamava- se José e estudou medicina. Foi também . E depoi s vêm mai s doi s ai nda, que nasce ram no Rio
até o sexto ano, formava-se no me sm o ano que eu em direito, deJaneiro.
ma s ad oeceu gravemente, com p er turbações psíquicas. Durou
ainda muitos anos, mas não teve ne nhum a ativi.dade. Onde nasceram os outros?
D epois de m im vem Raul, faJecido, que foi meu COI11 - Quase todos nasceram em Pernambuco. ]'v[eus pais
p anlleiro de esc ntório en qu anto ad voguei. Q uando me afastei vieram do Maranhão para Recife para na scerem os prim eiros
p ara ser p roc urador-geral da Repúbli ca, depois che fe da Ca sa fil hos, H amleto e José. N o terceiro, que fui eu, eles não vieram.
Civil, ministro do Exterio r e do Supremo, ele ficou com o escri - R aul também nasceu no Reci fe. Joel nasceu e m Picos, hoje

tó ri o. Foi W 11 excelente companheiro, morreu em 1968 com d n - Co linas, Harolelo no Recife, Álvaro em 1tapicuru . As menin as
qüenta e po ucos anos, de um p roblema cardíaco, um aneun sma nasceram tod as no Reci fe, e depois, os dois m ai s m oços, no
d a aorta. Era o m ais ligado a mim, evid entem ente, trabalhou a Rio: G eraldo e Jório. Am bos se for maram em direito. G eraldo
_vida toda comigo, desde que en trou para o primeiro ano da advogo u um pouco e aposentou-se como pro curador previ-
faculd ade. E u saí da faculdade em 1932, ele entrou e m 34 e se denciário. J ório n unca advogou. Foi fu ncionário do fvLi nistério
formou em 37, mas trabalhava co migo desde estuda nte. Foi, da Fazenda e morreu ceelo.
também, p rocurador do estadQ do Ri o de J aneiro.
Quem escolheu seu l1ome? 5eu pat~ sua màe, seu avó?
o SA L ÃO DOS I'ASSOS 1'1 RDIDOS

Meu nome resultou de uma opçao puramente casu:ll.


~()ntavaTll meus pais '"lue eles conver:;avam sobre que nome
, RA I 71~S

gens naquele rempo eram longas, porgue não havia avião, via ia-
va~se de navio, e o fato é que ele :lqui recebeu a noócia de que o
1 ~1T1 escolher, c minha mãe dis<.,c ao meu paI: " Você \ ê lá, no gerente do Banco do Brasil d e Recifc o havia demitido . Come-
tahdiao, p,\:;.,a assim :.IS f"lhas do li\TO de regi<;tro de na<;cimen- çou emã0 a se movimentar, a proc U1~l r pessons Jibond:l5;i r:lmíha,
rog,., " fi
-'. e começou :t ex"minar .IS folh:l s, vi II vnrios nOlnes, :lt(: Procurou o con<;ultor ju rídico do B:lnC0 do Bnls il , que (:: 1':1 ,)
(jllt; encon trou " E, ~tn"ko". t\chou bonito e botou . grande c0l1lcrci.llista C:t.rvalho de !'\'lcndonça, homem origin:i-
rio tambêm de Pcrn:1mbuco, cujo 1rm:10, Tr:1jano de ~ I endo nç:l,
Sendo H/I pai dt' lili/ti /dlllllin /mdirfolla/ em PCl"lllIm/n/t"o, slIa foi meu professor d e matem ática no Ginásio Pernambucano.
mne talllbém, por 1"f, fIO voltar para Hecije, ele mio cO!luf!,Hi" Car valho deJ\!cndonça ficou indignado com o ato arbitrário
111110 vaga de jlliZ? Houre iI!Júl1çàes políh"cas?
Também injunções polfticas. Existia a di6culdade d~
<.: da demissão e, ao que ollvi de m eu pni, deu um p:lrccer dizendo
que a demissão era ilegal, arbitrária, violenta, e n30 se justificava
I
idade - ele já tinha pa ssado da idade de com eçar _ e, em de manei ra alguma. Em face russo, meu pai foi para o Recife e
segundo lugar, havia a siruação politica. Tenho uma recordação propôs uma ação contra o Banco do Brasil - ação na qual foi
pouco nítida, m eio esfumaçada, mas sei gue houve naquela épo- vitorioso em todas as instâncias, pois O Banco do Brasil recorreu
ca uma g rande djsputa pelo governo. Um dos candidatOs eu até ao Supremo Tribunal Federal. Outro dia estive vendo o
me lembro Cjue se chamava Lima Castro, Do Outro não 'me memori:t.1 dele ao Supremo Tribunal Federal, para contrariar
recordo o nome. Mas chegou a haver até ameaça de luta arma- razões do recurso do Banco do Brasil. Lembro-me Cjue fun -
da, ~ ~ntão surgiu um lerlillI, um candidato de conciliação, gue cionou como advogado aqui no Rio, acompanhando esse
era )WZ federal em Pernambuco, chamado Sérgio Loreto. ' O processo, um parente nosso que foi muito ligado à Funda ção
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fato é que a farnilia do me u avô materno estava em oposição ao Gerulio Vargas: Tem ístoc!es Brandão Cavalcanti - cuja
governo na época em que meu pai voltou _ não posso ga rantir primeira mulher, Dolo res Barros Barreto, era prima-irmã de
que o governado t fosse Sérgio Loreto ou o antecessor de Sér- minha mãe. Temístodes depoi s foi meu colega no Supremo
gio Loreto - , e isso difi cu ltou a obtenção de um lugar de juiz Tribunal Federal.
para ele, confor me era sua pretensão. Aré ir para o Banco do Meu pai, vitOrioso na ação, recebeu a proposta de um
Bras~, ele ficou lecionando e advogando para poder m anter a acordo, Uma das condi ções desse acordo era que ele não volta-
famHia, gue já era bastante numerosa _ em 1920 nós já éram os ria à agência do Recife. e sim à agência do Rio d e Janeiro, o que
sete irmãos. Ele teve muifa dificuldade de vida nessa ép oca. ocorreu em 1927.
. M.esmo já trabalhando no Banco do Brasil, meu pai
amda mantlnha alguns clientes residuais, remanescentes da sua o GI N.\SIO PERNA.\lBucru'\lQ
pequ enina banca de advogado. T inha ll!l13 causa no Rio de
Como trallscorreu sua I'ida no Recift? Seus eS/lldos? O senhorjá
Jane~ro, no Supremo Tribunal Federal, e por volta de 1925 26
foi para lá a!fabefizado,
preCJsou vir ao Rio atender ao interesse desse cliente. Pedi~ a~
gerente permissão p ara, -Ir CUl'd ar do caso e emba rcou. As via- Já fui sabendo ler e escrever.. Continuei o curso primá-
rio em Recife numa escola pública peno de casa, no bairro do
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RAI Z E S NORD r, S T 1 NAS
o SALÀO DOS r'ASSOS I'ERD I D O S

Espinheiro, perto do I-Iospital Portug uês. L.embro da professo- o aluno que tivesse cap,lClClade p:x-lia fazer quatrO cadeiras cm cada
ra, don:t C:trmen - nunca m:t \s tive noticia dessa St:nho ra - e :mo, ou seja., podia f.'1Zer toJos os preparatórios :1té cm três anos. p~~
sei Cjuc fui um aluno normal, comum . I'rcl..lüentei U CLl rs<) primá- isso é que ~c cnco nll'\ muim gente d iplomada cedo n.aql,da é):xx:l.
rio cm 1920,21 e 22, e me recordo da solenidade de fo r ma tura , Perdi um ano no gin:ísio, por causa da transferência do
cm (jue [ui o ondur d'a tlHm,!. j'v[eu pai resolveu coLlbora r no ReCIfe par;l o Rio de J,meiro, q uc se d eu no mês de março de
m eu discurso c b()lOU Un1:1 frase mui to empolad:1. Eu cr:\ um \927. Eu n?!o Li nh a sido aprov:1c1o na c:1deim de geometri :\ no
garoto de 10 ou 1 1 anos e!c idade, não queria dizer a fmse e não ano anterio r. Lcmbro muito bcm q ue eu sabia geometri:1 de cor.
disse. Começava assim: " Delegado por esta coone de bravos Em o livro de Serrasquei ro, um autor portugu ês. D ecorei ;1(IUC-
batalhadores invcndveis do ideaL." Lemb ro que fiz um discur- les teo remas lodos, e na hon da prova oróll, o professor m e
so simples de um m enino da rninha idade. mandou ao quadro: " Teorema tal ." Não tive dúvida: desenhei a
figura, botei aquelas letras e fiz a d emonstração igualzinho ao
De Ioda forma o senhor se destacalJa por gostar de fala r.. livro. Ele então apagou, fez uma figura dífereme, com letras
Sim. No meio da minha família, dos m eus irmãos, eu diferentes, e eu aí me atrapalhei ... la fazer ou tro exame em se-
era aquele que mais se comunicava com os pais e falava mai s. gunda época, estava estudando muito e esperando passar para
Conversava muito com minh a mãe - acho que já registrei isso o quinto ano. Mas foi quando nos mudamos para o R io de
_ , tanto que da família, hoje em dia, sou aquele que conhece Janeiro: exatamente em março. Nào pude fazer a segunda épo-
mais os ancestrais e suas atividades. I sso é resultado das con- ca, e então repeti o quarto ano no Colégio P edro n, já no Rio.
versas com ela. É a conservação da memória dos fatos pela
transmissão oral dos mais velhos aos mais moços. Como era o G inásio Pernambucano? Ván'os depoimentoJ imis-
tem na importância deS.fe colégio, sobretudo para a sua geração.
Ah , sim , não há d úvida. Para a minha formação, o
,
Terminado o curso primário, o senhor entrou para o Ginásio
Ginásio Pernambucano foi básico. Costumo dizer que o pouco
Pernambucano?
Sim. Em 1923 fiz o vestibular para o G inásio Pernam- que sei, devo em graIide parte ao Ginásio Per nambucano. Era
bucano - naquele tempo se fazia vestibular - e entrei no um excepcional colégio, de curso secundário, com um corpo
primeitO ano. De acordo com a chamada teforma do ensino docente d e alto nível. Por exemplo, meu avô Pedro Celso
Rocha Vaz, que foi fcita naquela época, instiruiu-se o que se cha- Uchoa Cavalcanti, na época em que fu i aluno de lá, era profes-
ma\'a de curso seriado no ginásio. Quer dizer, o aluno entrava sor e diretor. P rofessor de línguas. Inicialmente fe z concurso
e faZIa a té o quimo ano. Até então permitia-se que os alunos para a cadeira de inglês - os concursos para o G in ás io
fiz essem os exames parceladamente - os chamados prepara- P ernambucano eram famosos como o s da Faculdad e de Direi-
tórios. Eram 12 preparató rios ao tOdo, compondo o curso g i- to. Meu avô então lecionava inglês, e quem lecionava alemão era
nasial, o curso de humanidades. Aqueles que não eram alunos um amigo dele chamado l\hx Hut, um alemão de nascimento
do Ginásio Pernambucano, que vinham dos colégios de fora, que morava no Recife, um homem também hum anista. Faleceu
só podiam fazer os prep ara tórios lá, que era o gi násio o fi ci:1 1. esse professo r de alemão, ficou vaga a sua cadeira, mas não

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havia conco rrente pa ra substi tuí-lo. Para a c:ldeira de JI1glê<;, ha-
,
I
It AfZES -.;OItOt:;STINAS

v(:1"i:1. Meu aVI), então, deixou :1. cadeira de ing lês e fe:.:: conc urso o senhor lembra de colegas que Imham se deslacado? Sérgio j\1a-
par:1 :1. de :1lcf11:1fl. j\ las Jecion:1V:1., como algu ns ourros pr< ,(esso- gnlbõrs, /)01' rxtll/plo, foi sef! (o/~p'a?
res, praticamente tndas as cadeiras. Se fa ll asse um prufc<;<;or de Niil). Não me lembro delc 11') gin:i:;i0. I -cmbro que
geografia, ()u de 11.i<;tória, ou (h:: â lgebra, eles en rravam n.\ s:l la e l\ gamCnoll \lag:J lhiics, !2 seu !(lnão, foi meu prolessor. Entre
dav:l111 a :iUb. Eram \'crd:ldciros sábios, real mcnte er:ll1r1l g ru- U~ C01cg~l~ havi:1 Paulo 1\ 1ontenegro, um rapaz {jlle se disungui ll

po d e homens d e con hecimentos hum:lnísfi cos muito am plos. um pouco, l:~c r eveu em jornais etc.; C iov:1.ni Ba rba lho, que era
I b vi:l Li, por exemplo, o professor Leal de Ba rros, de até meu COl1tl":1.parenrc, nito <;ei que destino tomou ... São o s de
geografia. Era pai de João Alberto Uns de 8:II"I"OS, quc fo i te- I..juc me lembro. t\<'luelcs:l quem eu era mais ligad0 não u\"eram

nente e intervclllor em São P:lulo q uando a Re\'olução de 30 destalluc m:1ior, ao CJue eu saiba, na vida públi ca, ncm na vid a
assumlU . "
o pod er. João Alberto era até meu parente, porq ue intdecru:tl.
minha avó Leobina era prima-irmã de sua m ãe. Havia O svaldo
tVlachado, professor de história; o cônego J onas T au rino, que S eus irmãos também jreqiienlaram o Ginásio Pernambucano?
substitui u meu avô na cadeira de ingles; o padre Cabral, que era O mais velho, I lamleto, nào freqüemou o curso seria-
um severíssimo professor de português , reprovava muito os do, fez o s exames parcelados. Mas J osé já entrou em 1922 no
alunos ... O s pais dos maus alunos sempre o atacavam nos jor- curso seriado, a conselho do meu avô, que achava que era um
nais, fX>rque achavam que ele rinha sido injuSto ao reprovar seus estudo mais sistemático, mais orgãnico, mais co rreto, com
filhos. H avia o Cabral de Melo, que devi a ter um pa rentesco continuidade de ensino de ano a ano, até o aluno terminar o
próxim o com o poeta J oão Cabral de Melo Neto. E ass im por curso de humanidades. O outro sistema era fragmentârio: a pes-
diante. Ah! P rofessor de matem:itica: T raj:l.I1o Ca.r\"a!ho de Men- soa ia lá e fazia o exame, sem obedecer a um curriculo regular e
donça, cujo irmào foi o g rande comerclalista brasiJei ro. Costa ordenado.
P into, professo r de história natural. E ra um grupo selcdona-
dissimo que ledonava nessa época no Ginásio Pernambucano Como era ser neto do diretor?
não só pela capacidade de ensinar, como pelo esti;:;;uJo que pro~ Não tinhamos nenhuma regalia por essa razão. Éra-
vQCava nos aJunos, pelos conselhos para lei ru ras, para conhed- mos alunos absolummente iguais aos o utros. Participávamos das
~entos, para aperfeiçoamentos. Era, de fato, um grupo exce p- aulas, éramos chamados pa1"a sermos ouvidos, fazímnos prova,
aonal. D evo muito a esse g rupo na minha fo rmação intelecrual . de maneira inleiramente idênoca a todos os alunos. E podíamos
ser reprovados, como acon teceu comigo em geometria
Era Jm} coligio só masmlil1o, Hão?
Só masc ulino. Nào havia ncnl",m
' a moça naque Ia
o o senhor passalla o dia inteiro 110 colégio?
época. Também nào ha\;a nenhwna professora. Só professores Nilo. A carga horária era d e oito da manhã ao meio-
homens. E ra um colégio gratuito. dia. E ram quatro horas de auja. Eu morava longe, primeiro em
Olinda, e "nha de bonde. D efX>is morei em Teglpló, um subúr-
bio mais distante, e yinha de trem.

"
RAfzES NORDE ST IN AS

o SA L ÃO D OS P ASS O S PFõRDIDOS

() sen!Jor tin!Jtl CO/lttl!O com seus prrftssores jom ria f"rola? Eles
\ Quando comecei a ler, fOl":1m mais os clássicos, no gi~
míslo. Ha via, naturalmente, a bib lioteca do meu :lVÔ, que era
jreqJien/{I/'(lI!! {/ cllsa de self ,!t'o? ~eduton. E:li comecei a ler :llguns rOm:lll Ces. N:lo me lembro
~;io os encontrava na casa do m e u avô, n;;o. l\laS o qual foi O pn meiro. "1"'-:1lvez tcnh:l sKlo Eça de Queiroz. No gi n :í.~
cônego Jonas Taurino, po r exemplo, professor de inglê~, nos sio, por exemplo, tive que fazer análise lógica c!'OJ·!rJJ;m!rls. HaVD
levm"a p'lr~l ,\ IlltSS:l na Igreja da Santa Cruz dos l\ti l itar.:~, ue que uma b'T::tm:ítica em fratlC~$ de Habout, ou Ha\bou t. J\ de portu-
er:1 capd ão, :lOS domingos ele manhã, para aprendermos inglês. guês , era de Eduardo Carlos Pe reira. H avia mu itos trechos de
Depois d:! missa otCreci:l o café U:l man hã aos alunos, c <lguilo chssicos \l O livro de gnlmáúca. Eu lia t:lmbém um pouco Jc
er,l um complemento da a ula. Ninguém unha obrigação de ir, jornal, o Diário de PemalJlbuco. De vez em quando havia umas
acredito mesmo que não fos sem todos, mas i:1 um 6":upo razo- crónicas do G ilberto Freire. Havia um professor de h..istÓria que
ável. O que sei de inglês aprendi exclusivamente nesse período. escrevia noutro jornal, cujo nome acho que era jornal Pequeno,
De francê s também . E comecei a estudar o alemão, que parei de To mé Gibson, em que trabalbou Assis Chateaubriand - vi
co m a mudança para o Rio de Janeiro. isso ago ra no livro sobre ele. " Lá eu lia os artigos do professor
Na casa do meu avô o ambiente era de estudo. hleu s O svaldo Machado.
tios, irmãos de minha mãe, tinham mania de participar de con~
cursos par:1 a deci fração de charadas. As revlstas antigas do Rio, O INTELEC11]AL E OS REVOLUClONÁ1UOS
como O Malho , A Careta, e n1esmo alguns jornais de
Por tudo o que o senhor já nos contou, seu a/Jô deve ter Jido um
I~ernambuco tinham a su a seção de charadas, e meus tios e eu
personagem realmente interessante.
nos reUlúamos e ficávamos temando decifrá-las: "Um rio com
Sim. Ele tinha uma biblioteca extraordinária, em gran-
duas sílabas ... Um rio da Rú ssia ... " Leitura constante e pesguisa
de parte provinda do seu anugo, o professor alemão Max Hut.
em dicionários. Havia lá o "Calepino", que era um dicionário
Nunca o vi. noutra postura - quando a gente ia falar com ele-
não m e lembro de guê. Guardo esse nome, mas nào sei se é o
que não fosse com um dedo dentro do livro, marcando, preo-
au.tor ou se ~i?nifica regi stro de nomes d e aves. D esconfio que
cupado e Impaciente que acabássemos a conversa para ele po~
seja o autor. T ive às vezes incumbências assim : "Você vai ter
der continuar a leitura dos clássicos de que gostava. Meu avó foi,
que ler a letra ln do dicionário tal, ou do 'Calepino', para achar
como já disse, professor de meu pai e meu pro fessor. Ensinou a
uma ave ou pássaro de duas sílabas que caiba na charada ..." Isso
muitas gerações. Era um homem de conhecimentos enciclopé-
me fo i muito vantajoso para a aquisição de vocabulário: a leitura
dico s, um grande ledor dos clássicos, uma fi gura d e intelectual
do dicionário. Tanto que eu me lembro que brincávamos em
difícil de se encontrar hoje em dia. Falava com tal perfeição a
casa, jovens, garotoS, e um dizia: "Eu Já li isso!" O outro: "Eu já
lingua inglesa, por exemplo, que um inglês com quem estava
li aquilo!" Aquele que queria mostrar que sabia mais dizia: "Eu já
conversando _ eu assisti a isso no Rio de Janei ro - - , ao cabo
li até o dicioná rio!" Leu até o dicionário! Ele sab e tudo!..
de algum tempo, perguntou~ lhe: "Quantos anos o senhor mo~
rou em Londres?" E ele respondeu que nunca tinha saído de
Qualfoi seu pn"meiro COlltatO com a leitura? O senbor se lembra do Pernambuco. Falava correntemente, também, o francês, o iralia~
primeiro h"tJro q1le leu ?
43
" '" ,. 0:.., ,. '_""JO_ . . .•. • ...

no, o alemão. D omin;'l\'a as línguas m ortas, o grego, o latim e o estava um tenente, Cleto Cam pelo, fo ragido na sua casa em
hebraico. Er:t uma figura muito in tereSS<l nte de fi lósofo e c::duca ~ Reci fe, e esse tenente sa.iu de lá para um episódio que a história
elor. Ilá um livro de E ustórgio \Xlanderley, um intelectual registra: at:lCOll um 'Juar lel no l11tcrior e foi morto. 1sso pro\-o-
pernambucano, sobre tipos populares de Per n:ullbucn, 15 C csd cou lInu divergência entre meu avo c o governo do estado, e
Li retnllado O vdho ])edro Celso Uchoa Cav:lkanti como pro~ meu avô en tão se aposentou c \"t: U) morar no Rio de Janeiro.
fessOf c.::mérito c poliglota . Ele era elo lnstitut~ ) I lisf,'l11t:o c Geo~
gráfico de Pernambuco, foi a :tlgu ns congressos, trad uziu [-forn:e probleJlla politico.
11111

\v·iiqcn ... Sim . l\ leu :l.VÔ não cr:l. polfrico. Tinha um rtlh~ ) CJue era
rcyolucionário, o tI..: nemc 1.ub Celso UdlO:l.l.:l.vakami, mas ele
COI/lO sell avô aprendi(/ tallttls lillguas? Porqlte, para falar se", mesmo n::io fazia política. O ftlho eddenrclllcnre é que deu gua-
sotaque, é p reciso Oll/Ji!: rida ao seu co mpanh eiro d e id eais, de revo lução, Cl eto
Max J-1ut era seu g rande amjgo desde m oço, e ele Cam pelo não estava lá po r co nvite d o m eu avô. Mas diante da
aprendeu línguas co m esse cidadão, além d o curso no rm al. repercussào do epi sódio envolvendo seu nome, meu avô, que
Naquele tempo, em Pernamb uco, surgiu a Escola do Recife, era um homem respeitado, resolveu se afastar. Homem de bem,
grand e m o'vimento intelectual da Faculdade de Direito, com não iria delatar ou censurar o procedim ento do filho.
To bi as Barre to à freme, Sílvio Romero, Clóvi s Bevilaqu a ... O
prôpri o To bias nào falava o alemão? Aquela era exa tam ente a Sm tio L uis Celso taJllbém participou desse ataque ao quartel
epoca do m eu avó, que também era bacharel em djreito e so~ junto COIII Clelo Campelo?
freu influência daquele mllbiente intelectual Agora, nào sei com o Ao que me lemb re, L uís Celso não eSL"lva nesse ataque.
ele d eselwolveu essa capacidade de falar língu as sem sotaque. "
Não foi p reso nessa o portun idade. O que fez com que m eu
Talvez tivesse um dom natural. Tenho um fLlh o que [em esse avo se mostrasse m uito agastado com O governo foi que fize-
dom: fala tam bém as ünguas estrangeiras mw to bem . Talvez seja ram uma reyista em sua casa, certamente para verificar se Luís
wn problema genetico. 1nfelizmem e, não fuj premiado com essa Celso estaria lá. Talvez o ob jetivo fosse esse. Aquilo foi conside-
herança .. rado um a espêcie de aft0nta do goverm.dor contra ele, pessoal-
mente. As condições que se criaram tornaram intolerável sua
COlIJO esse M ax H uI veio parar em Recife? permanência no Recife, e ele resolveu vi.r para o Rio de Janeiro.
Não sei com o esse homem bateu cm Pernam buco.
Mas era um intelectual. D eixou, co mo já disse, uma bela bib li o- t\ CAPITAL rEDERAL
teca para o meu avô . Ai nda ho je con ser vo alguns livros 'lue
foram da bib lioteca do velho Max Hut. Coma foi, para O smhor e para SIM família, a perspeclivo de I'Ú-
para a capital federal? Em ulJla coisa que tra zia muitos s011hos,
Até quando !eU (mó foi dire/or do Ginásio Pernambucano? muitos medos, ilmirdades?
1 '1eu avó seaposemou do Ginásio Pernambucano an~ Não realjzei, n5.o fiz nenhum cálculo sobre as van~
tes de 30, em 1926, por aí aSSIl11. Houve um incidente, porque tagens que isso represemarb na mmha vida. Mas é claro gue

"
o

I
SA LÃO DOS 1',\SSOS PERDIDOS R. A I ZES NOI(DEoSTINAS

representou. Não h :1 clú"ida: dnhamos para a metrópole. para a Qua/ era a fOl7lldfiio religiosa tia fa1l!i/ia? Sm {}/'â 1liio permitia
capiml da República! Eu tinIu apen:lS UI11 ,·ago sentimenro d I,: que a fi/ht' fosse strfrúm...
q ue i s~() era melhor do que fica r no Recife. D a palTC de l11 eU$ Num primeiro momemo nào permitiu, mas depois
p;lis. eles dC\"(~ 1Il te r \'isto na l11udanç:l melhores p~rl'peclivas 111an«::\C um excelente relacionamento C01l1 eb. J\ku avó não
pa ra o futuro do" filhos, cum as oportull](bdes mais ampbs l111h.10 ft;nor religiOSO da tllulher c da:; fil1us _ minha mãe e:ls
oferec idas po r um m eio m aio r e mais dcsen\'oh-ic-ln m;\leri:ll irmãs _ . que e ram ultra-rdigiosas. Eu próprio quase fui desti-
ecuJ luralnlcme. nado a ser pad re. ~ I illha mi'ic tinh:l o sonho de ter um filho
N:1'-lueb l'poca cu tiniu 15 anos. Tinha fcito os exames padre. 1\ final, m elllrm:l.O J ael foi p.lr:l o seminá rio. to. fas eu ti ve
no Ginásio l'ernal11bucano, n:"io tinha passado d c :l.J10, estava formação religio sa, de freqüent:lf igreja, desde a infância. No
dependendo de fazer o exame de segunda épOC:l de geom etria, Maranhão, eu devia ter meus sete, oiro anos, às vezes ajudava a
e meus pais me tinham mandado para a casa de um casal amigo missa. E ssa influência religiosa foi muiro grande, comunguei até
em Campina Grande, na Paraíba. Estava lá quando veio o reca- o terceiro ano da faculdad e. Mnha màe tinha uma outra ir mã,
do do Recife para eu vo ltar imediatamente porque have ria a de quem já falei, que era freira leiga num colégio eucarístico em
nossa mudan ça. Fiquei surpreso com a noóci:1, voltei e vim em Recife.
seguida com minha mãe e irmãos para o Rio de J aneiro num
navio do Lloyde Brasileiro, o A/miranteJacegfifli. Meu pai já est."l"',a Seu alJÔ de/Jia ser !JIais positi/Jista, IIÕO?
Não me lembro de P edro Celso ter ido a uma missa ...
no Rio, tinha ,"i ndo um pouco antes, para assumir seu lugar no
Banco do Brasil. Ele não ia à ITÚssa, não. M eu pai também era assim, como se diz,
católico não-praticante. Mas P edro Celso acabou se conver-
01lde I/OtéS foram morar? Perto de seu avô? tendo ao catolicismo numa mi ssa fe stiva no convento das
Meu pai logo alugou uma casa em Vila Isabel, na rua carrnelirn5.
J orge R udge, 81. Era ao lado de um centro espírita. Meu ayó,
quando yeio para cá, morou de irl'Ício numa pensão na rua M ariz o senhor tinha !!Juito cOl/vil'io com a família de ma mõe aqui 110

e Barros. D epois foi pa ra a rua Visconde de Abaeté, também Rio de Jal1úro?


Sim. Alguns tios meus, filho s do velho Pedro Celso,
em Vila 1sabeI. Ele m o rava aqui com minhaayó e alguns filhos.
H avi:\ também uma ftlh a, chamada Asta. Era o nome de uma v'ieram para o Rio. Primeiro, João Celso, já m édico. Viveu até há
grande atri ", sueca, na época, As ta Nielsen. 1'leu avó gost:wa pouco tempo. Era oculista. Paulo Celso, na época, era estudante
muito de cinema, naturalmente se impressionou co m essa atriz de medicina, depois se fo rmo u. Está vivo ainda, é o unico so-
e deu seu nOIl""\e à filha, que depois fOi ser frei ra ... M eu avó ni'io brevivente da família. Todos eles tinham Celso no nome: o Cel -
so, que er:l. de Pedro Celso, um no me composto, virou sobre-
a d eixava ser freira, só concordou quando ela completou 21
anos. Ela foi ser carmelita descalça, no convento de Santa Tere- nome. Tanto que eles ermn chamados: "Dr. Paulo Celso, dr.
sa, jUntO dos Arcos. João Celso... " Ninguém mais se len""\brava do Uchoa Cavalcanti.
Luis Celso, o militar, também m o rava aqui. Depois
veio o C:l.rlos, também n1édico. Esse tinha-se formado quando
46
q
o SA L ÀO DOS PASSOS PER I) . DOS

nós ainda estávamo s em Recife. Le mbro de C]uando ele chegou


t RA I Z E S NO R PES T 1NAS

Er:l professor d o Colégio Paula F rei t:t s, na rua


I

tb 13ahi a, formado méclico. moço, soltt.:i ro ainda, e reso l\'eu Haddock Lo bo, na T ij uCl . M eu irmão Raul fCi: o gi n;Í si o lá e
aprender :lkll1~() .;;ozinho. Cf)m aqueh força d e vontade llue d..:pois ] Inroldo tamhém I;;stucloL! nesse cok:gi(). Sem p re estuda-
,

tinham o.:; Llehoa Ca\'akanri para estudar, me!cu-."c dent 1"0 (Ie mos cm escol,l pública, m col~gios tinham q ue "cr grátjs, por(lu(:
casa e não ~aiu p:n-:t lugar nenhum : " Rcsol\'j aprende r alem:tn." meu paI não podia p:l.gar. i\'I:l ~ esse nâo e ra UI1"I colégio público. I
Passa\-a () dia (; :l noite estudando, Realmente, ao fim de dois Nunca soube como mcus irm?ios o freqll eT11~1\ 'am, mas acho
nu trcs 111eSC''', já tinha fcito um avanço grande. Tinha a faólida -
Je de, a '-lu:lk]uer m om ento, co nsulta r o p:1 i, meti avô. Acbava
que frellLi<:nt avam graluiumente pela condiç:'o de professor do
meu avô. li
que o alemiio era neccs s~ )'iu pac1 o exe rcício da profissão de
médico, Já o senhor foi para o Pedro /J,
Outro que também veio para o Rio fo i Ak enor. Esse Sim. J á contei que tive de repetir o quarro ano, porque
quase se tornou padre, com o meu ir mão Jae!, mas quando che- não p ude fa zer a p rova de geometria em segunda época no
gou ao fin al acho u qu e não tinh a vocação. Para desagrado e Recife. M::ts aquelas cadei ras que eu ti.nh a te rminado já eram
grand e trisreza, ele, de mi nha avó, e o J oel, de mi nha m ãe, os definiti vas, 1,:3:0 p reci san repeti r. D e m aneira q ue fiqu ei com
dois d eixaram a batina. Esse tio A..lcenor tem um ftlho, ilus tre poucas aulas, mas freqüemava diariamente o co légio, nao pocüa
professor, Pedro Celso Uchoa CavalcantÍ Neto, autor da H is/ó- deixar de ir.
lia 11Ot'a do Brasil. " O outro fi lho, Fernando Celso Uchoa
Cavalcanti, é hoje p residente do Clube de E ngenharia. o senhor m/do fiz o quarto e o quinto atlos do gil1á.rioPedro 11.
110

Não, só o quarto, A refor ma Rocha Vaz permitia, a


Do fomíliaLil1s e Silvo tamWm veio alguém para o Rio de Janeiro? quem tivesse feito o exa.me vestibular para O ginásio no ano de
Veio um primo meu, j\ ,{auro Lins e Silva, médico 1923, faze r os exames parcelados. E ram cinco cadeiras no quin-
otorrinolaringologista. Tinha consultório em I... :lranjeiras, na Casa tO ano. Resolvi então dei.",ar o Pedro n no fi m do quarto ano e
de Saúde Sama Maria. Ainda é \';vo. É um pouco mais velho do faze r parceladamente os exam es que fa ltavam. Mas temi faze r
que eu . os cinco de uma vez. Fiz três cadeiras em março de 1928 e
No começo nós tínhamos também muita ligação com passei. M as deixei duas por fazer e fiquei, no ano de 28, não
a família J\ lota e Albuquerque. Era um médico que morava no mais aluno do P edro II , mas já trabalhando. N o fim do ano fiz
Boulevard, em Vila I sabel, peno da casa do meu avô, e tinha as duas cadeiras restames, fw aprovado e, em 29, fiz O vestibular
umas fi lhas moças amigas da mmha tia que veio a ser freim. para a Faculdade de D ireito,
T ivemos um Contato m uito grande com essa famJlia, que tinha
um parentesco conosco, j:í (Iu e o l'vlota cra casado com uma o senhor te", recordarão de Vi/a [sabei como 11m bairro boémio?
fllha de João Barbalho Uchoa Cavalcanti. OU UIII bairro operário, COIII a faJ/Josa fábn'ca de tecidos?
O bairro não era operário, não_ Em balrro de classe
Seu avó ainda teve alguma alll'idade /lO Rio de Janeiro? média. A fábrica em mais adiante, no fim, na rua Maxwell. Lem-

"
RAIZES NOROr:: S T1NAS

o SAL Ã O DOS PASSOS PEl'.D!DOS

Brasil e tinha família numerosa. D epOIS fo m o s p:1fa a rU(I


bro, por e xemplo, que no BouleY~rd, depoi s da rua Vi sconde Gustct\"o S:1mpaio, no Leme, un1a casa de centro de terreno, que
de Abacté, na cSllu ina eb rua Sous~ Franco, tinha um ponto de nào tin h:1 segundo and'lr. D essa casa nluclan lo~ para unIa outra
seçi10 do bonde, I.) "ponto de cem réis" . Ponto de seç;io era o n:t pró pri:1 Gustavo Samp:tio. N 30 sei bem ',I S razões, m as ccn ct-
seguinte: você pagava uma quantia até aquele po nto, c dali e m m e nre porque o t:onlr:tto de lo cação teria :lCabado . D :1 li p(lssa-
diante era o utra e lap·.l. l-', ntào, se você tomasse um bonde na moS pa ra Botafogo. Recordo-lne Llll e '.l Cll11 sdho m édico, por-
cid:lde para ir ao Engenho Novo, pag:wa trez;,;l1lOS réis. Se vies- que o L-': n1c er:1 beira ele praia, I11lnh:1 m?i c 11.] 1113 p robknYls C:1r-
se da cidade só até O ponto de seção da So usa Franco, paga"';t lUacos, e o médico aconselhou llll C ela 11:10 m o ra sse n:\s proxi-
duzentos réis. i\Ias se você po r acaso toma sse o bond(; no pon - nlid:tdes elo 111a(. .. Em Botafogo mo ramos em v:írias casas. Pri-
to de seção para chegar ao Engenho Novo, pagava cem réis. melrO, na rua Conde de Trajá, depois na rua :tv1cna 13atreto, na
Registro esse detalhe para J11Qstrar que se pagava pela distància rua Viúva I...acerda, na rua da Matriz. Essa foi a {tltima casa, onde
percorrida e não, como hoje, uma passagem lOteira, qualquer faleceram minha mãe e meu pai, no m esmo ano de 1951 . M inha
que seja o percurso. A cobrança era feita pelo condutor, que màe ia fazer 60 anos, e meu pru tinha 68, mais nove anos do
fazia um verdadeiro malabarismo nos estribos, debaixo de sol que ela . Ela morreu de infarto, e ele porque, depois da morte
ou de chuva, p;tra ir de banco em banco cobrar de cada passa- dela, levou um tombo em casa e nunca se reequilibrou. Morreu
geiro, ainda por cima quantias diferentes. Era um trabalho peri- alguns meses depois.
goso, estafante e inadonaL
o COLÉGIO P EDRO II
Na esqui1la da rua Sousa Franco até hrje existe 11m botequim
o senhor estudou Pedro TI internato ou exterllato?
110
chamado Ponto Cem Réis. Externato. Eu ia e voltava de bonde todos os dias para
Pois é, e ali eu vi muitas vezes Noe\ Rosa . Mais velho o colégio. Naquela época andava-se de bonde, não ha'vi.a ônibus.
que eu li1l pouco. Nunca tive aproxImação com ele, que naque- Só pouco depois foi que começaram a surgir aqueles ônibus
la época já e ra um compositor extraordinário. Tudo aquilo que grandes, uma c-;;isa esquisit.a. Eu pegava o bonde na esquina da
fazia tinha uma repercussão Imensa auavés do rácüo ou no car- minha casa, na rua Jorge R udge, e saltava na porta do Pedro II,
naval. As poesias de suas músicas são o retrato do Rio da minha na rLL"1 Larga. O internato era em São Cristóvâo. Afonso Atinas
juventude. Até hoje gostO de ouvi-las e me comovo: "Feltiço da conta muito bem sua passagem pelo colégio nas suas memórias.
Vila", "Conversa de botequim", ''As pastorinhas" E Pedro Nava também, conta nas suas memórias sua vida no
internato do P edro II .
Sua familia sempre morou em Vila Isabel?
Não. Moramos lá um período talvez de dois anos, o sellhor estm/lhou a maneira de ens/na,., os profe.rsores, o ambi-
mas depois nos mudamos para a rua Campos Sales, quase em ente dos colegas?
frente ao campo do América Futebol S:lube. Depois Santa Te- Não estranhei, não. Sou um homem·de fácil convivia.
resa. Como sempre, casas modestas, simples, porque meu pai Apesar de expansivo, sou reservado nos lneU$ sentimentos. }.'Ias
nào dispunha de recursos maiores: era funcionário do Banco do
5\

50
R"'I?ES

me de! muito bem; atê hoje me dou muito bem com todos
conl quem convivo. prova prática de história natural, h:lvia um professor, i\1indelo,
que vinha de um outro colégio. Era militar. Eu esta\':! absoluta-
/-IOI'ia outr os perllflnlb//C(lIlos na sua turma? mentc conscien te d e que sabh1 aCJuil n 1Udo dc co r e não tinha
Rncontrci - é curioso - um coleg:l tlUe linha com>,.;- tlualCJllcr dÚVltb de que devena pas~ar 110 exam c. Esse proles-
ç:ldo comigo no Cin:1 siü Pen urnbucano, na mesma IUfm:l que sor J\lindcJo comcçou então a l11e pergtlnw r. Manda";l busc:lr as
cu: Teócrito d e C:lSlro Almeida Nc\rtS. Era fil ho de milit:l r. Vtio pedr,l:> e cu imed iatamen te identificava, J.iZL;l o que c r:1., por que
de I)e rn:lmbuco e estav:1 faz endo o P edro ]1 :llIU.1. Depois se era, como é qu e se reconheci:"! ... Atê (lue ele ...lisse: ''Vo u mandar
formou C 111 med icina . Um dia, eu j:1 advogado, no começo da buscar um:l pedra que está. fora do programa. Se o senhor res -
,
cMreira ~lind;l, ele me apareceu: dirig indo se u automóvel, tinln ponde r Ct:.:rtO, cu lllc dou [O - port!ue eu não costumo d a r 10
atropelado uma p essoa em Vila JsabeJ, no Bo uleva rd 28 de a ninguém, a nota mai o r que eu dou é 9." QU:lndo vi, de longe,
Setembro. Eu o defe ndi nesse processo. Lembro ainda dos ir- o conónuo trazendo a pedra, era minha velh a conhecida: mine-
mãos Cravo, um deles se tornou medico e o outro militar. Havia ral de bário! Ainda fiz uma encenação, o lhei, m edi, falei da expe-
o Mem Xavier da Silveira, que se tornou mêdico de destaque na riência que era preciso fazer com ácido sulfúrico para identi fi car,
sua especiaJidade, endocrinologi:l.. Havia o AnacJeto, que era um po rque borbulh ava etc. E le: "Es tá m uito be m. Então lhe dou
tamo indisciplinado, o Néri, que depoi s trabalhou na Alfânde- 10." E deu.
ga ... A.nacleto se for m ou em d ireito também. E u O acompanhei A primeira aula q ue tive no Pedro ] I tin ha sido de his-
no curso da vida. Também tive oportunid ade de defendê~lo tória narur.al, com o professor Vald emi ro Po tsc h, que estava
num processo por causa de u ma briga que ele tinha tido num dando mineralogia. Cheguei um pouco atrasado, as aulas já ti-
bar. Não era uma cau sa difícil nem grave que justificasse qual- nham começado, a transferência demoro u alguns dias. Eu esmva
quer condenação. amda à paisana, não tinha farda, esmva sentado no fundo da sala,
e ele já começava a inrerrogar os alunos sobre os p ontos dados.
o ambiente 110 Pedro 11 era ",ais liberal que no Ginásio Pernam- Lembro que o assunto era sistemas cristalográ fi cos. Chamou
bucano?
/ um ou o utro, e pe rcebi que es tava com o o lhar d irigido para
Muito menos liberal. H avia d ois chefes de disciplina, o mim. Fui me escondendo atrás do outro menino e ele foi me
Castro e o utro de cujo nome não me lembro agora, que fiscaü- :l.companhando... Tentei ver se não me locaüzava, m as dali a
zavam os corredores. O s alunos iam fumar no banheiro, e eles pouco ele chamou: '~ocê ru que está â p aisana!" Fui lá para a
iam vigiar. Havia algumas cadeiras e m que eu não precisava ir::1 frente da sala, diante da mesa, e ele pergunto u como é que cris-
aula, (Xlrque já tinha feito o exame finai em Pernambuco. Nesses talizava a pedrax. Eu não sabia absolutamente. Não tinha estu-
momentos e u podia fica r na própria sala o u ir para o labo rató- dado, n:io tinha tido aula nenhuma e disse: "É o primeiro dia
rio de história meural. Não podia ficar no co r redor. que eu venho à auja, não tenho nem livro, não sei." Ai ete me
Nessas situações eu pedia sempre para ir para o labo- perguntou: " O e onde você veio?" Respondi, com um sotaque
ratório, daí ter aprendido tud o sobre as plantas e o s minerais bem acenruado: "Eu/úl/ di Pémambuco." Quando eu disse isso, a
que lá se encontravam. Lembro que no dia d o exame oral, na garotada deu uma gargalhada ... Fiquei com um ódio danado
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53
o S AL ÃO DO S r'A SSOS PE R D I D O S NORDE S T I NAS

daquilo. E ele fo i du ro co migo, dis<;e: "Veio d e tào lo nge para Fui trab,llh:u numa firma c ham::ld:.1 r.'les rre e 8 largé,
l...:\'ar /.cro!" j\1:1s ai ~Ll clprichei na históri:l n:ltu l":l l, comecei a c]ue hojl; é:.1 i\ 1c..<;bb. Era lima oficina de auromó\"eis, na :l\<enida
csrud:lr c me tornei um aluno de ceno desta<lue. É mmos OOb: Osva ldo C ruz. Aprendi :l d irigi r :.1u tom Óvd :l Li, co m 16 anos.
tU e um out ro, l\ f:1 fCclo, <-lue (h:p uis fOI se r méd ico, nào sei q ue J\h s n50 tr:.1b:l lha\'l n:l oficina. c sim no escritó rio, onde (: l':1m
tim levou. Sei que <-(:1 um excelente ;lluno. E o Potsch no<; deu .l vend idas peça..,;. o lHle havia esclituraçl0 de livros. E u regis tr>lva
tarefa de d :l rm os um:l aula. Fui in cum b ido d e dar unl:l aub a'-Iue las notas de vend a em li vro s. mi nha tare fa er;1 essa. Nilo
so b r~ estômago. 1\ teu lrm:lO, estuda nre de rned icl11a, me ajuJou havia lei trnbalhist:t, d e n1:1nein que nós enlrávamos pc1:l. ma nhã
mu ito. Pui P;1 r:1 a Bi b lit)lcC:l Nacio n;d, lembro '-lue peguei lá o ,I S oito. fic ávam os até m ci o-d i~, voldvamos d o alm oço a llll1:1
Tes n lt, um livro d e m ed icina, e me prep:1 rei. Aí fui: suco gás tl.;- e íamos até seis. l\í freqüe nte m e nte a gente saía, jantava e vol-
co, composição do suco gáS trico etc ... Fiquei envaid ecido com tava às sete, pa ra continuar trabalhando até 11 da noite. Naquela
o elogio do p ro fe sso r Potsch no final da aula sob re estômago... época eu p recisava esmdar para fa zer o s d o is últimos pre pa ra~
O Po tsch se [Ornou muito m eu amig o, de poi s desse °
tó rios, e tive que fazer estudo p o r mim mesmo. Ia para baixo
episódio inicial. M ais adia nte, eu já advogando, ele era amigo de d e uma árvo re no quinml d e casa, em Vila I sab el, para ler o s
um m édico, Afo nso H o m em d e C arvalho, casado com uma livro s de cosmografia, de física e química, para fazer o exame
Konder, tia da minh a mulh er. F reqüenta va a casa do A fonso, no Pedro II.
e algumas vezes nos enco ntramos lá. Depois ele fo i ju rado,
quando eu já era advog ad o no Tribunal doJú ri . Ai relem b ra- Como o senhor conseguiu esse emprego na Mestre e B lalgé?
mo s o s episódios da no ssa vida, e ele gentilmente, talvez para Através de um pa rente nosso chamado F ran ci sco
me estimular, disse que se orgulhava de ter sido meu professor. Brandão Cava1canti, que era engenheiro e tinha uma ligação qual-
Depo is, o filho dele foi p rofessor e dir etor do Pedro 11 . quer com a empresa. Ele é ir mão do Te mísrocles Brandão
Cavalcanti, pai de H enrique B randão Cava1can ti, amal minis tro
Além de Valdemiro Potsch, de que olltros p rofessores do Pedro 1/ cio M e io Ambiente e da Amazônia Legal, que também é meu
o senhor se lembra? parente. "
Havia o Venâncio Filho, gran de professor e educador. Nesse meu emprego eu ganhava quatrocentos réis por
Havia um o utro , que e ra p ro fessor de q uím ica, Cor régio de hora. O dono da empresa era um francê s, o senhor La Saigne.
C astro. Aco ntec ia o seguin te: havia dois professores que d e vez H avia o chefe do escritôrio, José Kopke F róes, e um irmão
em quando saía m , po rqu e e ram parlamentares. Um era o dele, ch am ado RafaeL H avia um funcionário que se chamava
He nrique Dods,,"orth , que era sub stituído pelo Venâncio Filho, Mário Freire, outrO que tinha o nom e de Guilher mino . O chefe
°
e o ou tro era Oliveira de i\'leneses, que era subsrJtuído pelo da oficina era um francês que, se não me e ngano, se chamava Le
.. de C astro. " No Pedro J1 também n ào havia professo ~
CorreglO Garric. A li eram conse rtado s o s carros. O M.estre e Blatgé e ra,
ras nem alunas no m eu tem po. como é até ho je a !'. lesbla, sua sucessora, representante da G ene-
ral Motors. Vendia o s ca rros d e luxo da época - o CadiUac, o
Em 1ue o senhor trabalhou 110 011 0 em que lião freqiiel/tou o colé. Buick - e o Chevrolet, que era o carro mais po pular. Tin ha um
gio, ficou apel/as faZei/do os exames parcelados? grande m ovimento, e nós, os emp regados, muüo trabalho .

55
NU I {UI~::' I IN AS
o SA I ,ÃO [)OS PASSOS PERDIDOS

a~ do Bnml, \·er Clóvis Bevilaqua, !-IIJ/Ónu da Fnmldrlde de Direito do ~âft


o senhor foi trabalbar porque precisara qjfldar na renda familiar? (2" cd., BrasllJa, INL/Comclho Fed.:::ral de Cultura, 1977; I~ cd. 1927);
Cl:tro, CX:lt:lmcnre. O que eu recebia dava para me Rugue Spencer l\ laClcl de fhrrús, A iliull'l1ç.70 vroJÍltiro e ti idii,l de IIniurúdo·
de (Siio Paulo, l JS P, 1959); J oão Cru:.!. Costa, ClllllrilJ/lifiio ,i lJiJlúlo dm idiias
mmltcr, para pagar lTleu almoço, nleu jantar, para comprar U1n:1.
no Br",il (2" ed., l{Jo de JmeltO, CI\'III7.açiio Ur:lsi1clr ,I, 1967; RetntlOS do
roupl1 ... Era apenas o suficiente, nào havia sohra desse dinheiro. Bra~il, 56), Albeno Ven:í.ncio Filho, Dlls of(lldaf ao barhor(/iJIJ/(J: 150 tlllOJ de

O scl'::io, no fundo, me agradava, porque eu recebia hom cxtl':l. tmúlOJúridiro /10 Brasil (S:lo P;lulo, Per~pc.:::(i\-':l. s.d . , E~ruJos, 57), c Sêrgio
,\dumo, Os oprel1di{!s dll ~&r: 1'1 vocbordÚlllo li/;o,I/II0 polítiw brasiltim (Rio
I\feus irmi'ios t.llnbém [r:1.balhavalll. HamJeto fez concurso para
de J:l.l1ciru, P:l.Z e Ternt, J 988).
o Banco do Bra::HI. Daqui ele se transferiu para Santos, port1ue
João Ba,b;tlho U... hoa C:l.\alcallll (1846- 1909) fO I b:Ich:lTd pela Faculda-
noivou lá, c lá se casou . Ganhava melhor e ajudava a família. de de Direito do Rceife e m 1867. (lcP\'UJO consritlllnt ...' por Pernambuco
Jo~é, que era estudante de medicina, duranre um período traba- cm 1891, ministlo da Agriculmra, C::omércio e Obras P úhllcas, da In Slm-
lhou como mata-mosquitO. çio PúblJca, Correios c Telégrafos e do [ntenor (interino) no gO\lCmO
Deodoro da Fonseca, senado r por Pernambuco (1892. 1896) e ministro
do Supremo Tribunal Federal (STF) de 1897 até aposentar-se em 1904.
Quais eram .ruaS leitllras nessa época? Escreveu a obra CO!IJmtririlJl aQI dúposit/voI da ConlfiluiçãQ Bmsilúra de 1891,
Nessa época eu começo a ler mais os romanc.ist,as c1:is- cQm referinatu OOJ dQ P'o/tIQ do Cl'lmiJlíiQ dQ C QI'f!mo Prot'Úón'Q, lUOI emendaI e
leis antm'Qres, editada pda primeira vez cm 1902.
sicos, sobretudo Machado de Assis, E ça de Queiroz ... Um pou- ,
co de Sha kespea re, os autores franceses de um modo geral: A Escola dD Reci fe foi um movimento intdecrual quc começou a des-
pontar nos anos 1870, em Recife, e se estendeu atê a década de 1910 apro-
AnatOJe France, Bah:ac, Zola. Euclides da Cunha! Euclides eu já ximadamente. Constituiu um dos foco~ mais importantes do chamado
vim a ler na faculdade, nos meus 19, 20 anos. Nabuco, Um esta- "surto de idéias novas" gue ocorreu em meados do século XIX no pais
dista do JlIlpbio - já mais tarde um pouco, depois de formado. e repercuciu nas áreas da literatura, da fi losofia, do direito e do pensamen-
to político. Uma de suas características foi a admi ração pelo pensam ento
AJl, os poetas! Também gostava mu.ito de ler poesia: Guerra alemão, especialInente o movimento neokantiano. Sobre o assunto, ver,
Junqueiro, Castro Alves, os brasileiros todos. Ainda hoje gosto além das indicações relacionadas na nota 1, Antonio Paim, A fi/osrifio do
Estola do Rmfe (Rio de Janei ro, Saga, 1966), HÚfôrio das idiios filosiificos no
de ler poesia. Drummond, P essoa ... OutrO dia ti esse livro do
Brosil (Sio Paulo, Gri jalbo/USP, 1967), e O (Iludo do pmsanunlo filosófüo
João Cabrru de Melo Neto, que é uma delicia, Sm"lha andando. É brasileiro (Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1979). Ver também Norma
uma beleza. É o elogio da mulher sevilhana ... W'erneck, O ronaito d, fi/osrifio do ribuia tm Si/l'iQ RDmero (Rio de Janeiro,
PUC-RJ, 1978, dissertação de mestrad6).
NOTAS Hennan \'<'iitjen, O dO'I/imo (o/Qllial holondh 111'1 Brosil. Um ropitulQ do histô·
t\ criação das faculdades de dudro de Recife e de São Paulo por lei de rio colonial do litulo XVI! (tradução de Pedro CcI~o Uchoa Cavalcanti, São
II de agos to de 1827, ~ancionada por Pedro J após votaçãO pela Assem- Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Companhia Edirora Nacio-
bleia Geral, é marco imporrame na história da formação da nal, 1938: Brasiliana. 123). A obra foi traduzida do original alemão Dai
mtdecrua!ldadt: brasileira, pOIS as duas escolas constituíram os primeiros bc/kindischt KO/Qniall7i{h in Braltlim. Ein Kapitelolll dtr K%lllalgeu!Jübte da
cursos )uridJCos no Brasil. :\ Faculdade de Direito de Recife foi inSlal:lda /7. jahrhundfrls (1921).
inicialmente em QÜncla. nas dependencias do mosteiro de São Bemo,
~ Jose! Sarncy foi governador do Maranhão de 1966 a 1970 e seria mais
transferindO-St: para Recife em 1854. A de São Paulo também funcionou
urde presidente da Rcpúbbca (1985-1990).
iniciaJmemc em instituição religiosa. o convento de São Francisco. :\ rele·
vância dessa origem para a constituiçãD de uma identidade profis~ional ~ Evandro Uns e Silva, "Diseurso do homenageado", em Primio I7Itdolhu
ll.par.e~, por exemplo, no nome do Centro Academico tI de Agosto, da Mi Barboso 1991. AgraáadQ: EI.'andro COl'okantl Lins t Silvo (Brasilia, Asses-
~a~çlonal es.:::ola do largo de São Francisco, em São Paulo. Sobre a Impor- ~oria
de Imprensa do Conselho Federal da O:\B, 1991).
tanCla de ambas as instiruiçõc:s na formação política e na historia das idei

" "
,j: -:r
o SALÃO DO S I'''SS O S f'!'.: R D I OOS NOI<.DES T I NAS I'
~
I~s~a disput:t pelo go\-erno de Pernambuco ocorrell em 1922, :lpÓ~ a 10A rdo nn'! de ensino )050 Luís Ahcs - Rocha Vaz, dc 1925, \·CIO alterar
mone do .~o\·("rn:ldor J05~ Ru fino l3e7err.l C:t\·ak . . mi, em 2R de març'), :t~ dispo~iç?>cs dl refornla Carl()~ 1'\ la :';.lmiliano, (Ic 1915. D e 3 0 )rdo com
antes do filu l de ,,:c:u m.U1J.Ho. DI sputaram .1 ~ucc"~'i,) c~I.l<lu.II, de um e~u úhi1ll,!, u •• Iuno n10 tn:ttricubdo t:nl escol.1 uflôal pudi'l fuc r 1::":,\1I1C'
l.ldo, Carlos ,Ic I ,im:l r:a~tn1, enrão pref('lto de ReCIfe, apnüclo pelos che- parccl:ldos, <)ll cxame~ preparatórios, sob :t fi~calização de lI1~pct"re~ do
fc" políticos F.~tkio C0ll11hr:l o.: Dantas Ribei ro c: peln~ I'cs ~",1 lil- Ql!<;iró ~ .
~(lbrinhns do prc~ilknte d.1 Repúblic:l Epitkio Pes~n:1 (191') 1(22), t, de
1 C()n~clh o Superior <1..; En~in(), a tim de obter os cc nificado~ ITClmhcCI'
dos pela lIniiin. J:i. a reforma Rocha V .•~ ge!l\'ralizou o cstudu _cnado, até
\)Utro, Jos~ I-knri'l ut' C,trnciru d.1 Cunha, ilpoi.Ldn, entrc <)u[ro~, por emào eMlu~i\-o J(J Colégio Pl'dro [] c dos gln:i.~io' esta.lu'li~ c'l"ipa~ ­
~bnud Borb:t (govl::f1l'!dor de Pernambuco de 1915 a 1919) c Carlos de
I
dos, :tbolindo 0'<: ex.1mes parcelados. t\ panir de cntào o "luno era. obn-
LITl1a Cav~lcanti, ljue h.!"i:L1l1 sido parti&\rios eh lkaçiio RCPllhlicana cm
I'ern,unbuco. t\ ~egund l f.1Cl,:,io vence u a~ dciçVc~ de. 27 de nui,), !lllS o
"'Hlo a frcl.J'icnl~ r .I~ :\lIl.1s e a prestar pro\'as ao lotl).;o de cinco anos, ~e n , li
do \·edado o .!Ce~~<) a 'lu.1Iqucr séuc sem ,I aprovação na~ Inal.:rias ,lo ano
conflito prosseguiu, ~ur~n do constames rumorc;s sobre a p,lrtiópaçào amcnor. Ver )orgc Na.l!,k, E,II/ro{ào t son,dad,. //(/ P,i"uird /{'PliMiro (Siío
(lo E xácit o n:t preparação de um golpe cm Penumbuco. O s dois g r up''lS Paulo, r.:,PU/EDUSP, 1974), c ",\ f.:duc:tção na Primeira Rcpl.blica", em
politicas acabara m entrando cm :tcordo e escolheram par'! govcrna r o Boris FaUStO (dir.), O Brasil npllblirt11/O (São P:tulo, Difel, 1977, H i~tó ri a
estad o, de 1922 a 1926, o juiz fed er:!1 Sérgio Loreto. Ver !','la.nucl de SOU!;a Geral da Civilização Brasileira, 10mo !lI , vaI. 2, p. 259-291).
Barros, A dirodo d,. 20 t"' p,.r1/omb/lro: ""10 tnll'rprtlof'ào (RJo de Janeiro,
Grâfica Editora AcadêmICa Ltda, 1(72).

~T('místocks Brandão Cavalcanci (1899- 1980) fo rmou-se em d ireito pela


Faculdade de Ciências JtJridicas e SociaiS do Rio de Janciro (1922), defen-
"João Alberto Lins de Barros (t89i,1955), filho de J o:tquim C:tvatcantl
Lul de Barros e de Ma ria Carmebtl. J.ios de Barros, foi revolucionârio de
1924 c i nt eb'T~ me da Coluna Presti,'.S. P artic ipou aovam e m e d a Revolução
de 1930, foi inter vemor cm São Paulo de 1930 a 1931 e cm seguida chefe
I'
deu mtegrantes dos movlmemos lenentistas de 1922 e t 924 e participou de polici:t do D istritO Federal, de 1932 a 1933. Nesse último ano, p:trticl-
da Revolução de t 9 30. JuriSta de renome, exerceu dlferemes funções ao pou da fundação do jornal A No{ão, destinado a apoia r o governo Vargas,
longo de sua carreira, emre as q uais as de consult or ge ral da Repúb li ca (de no q ua l Evandro Lms e Silva trabalha n a de 1934 a 1936. J oão AlbertO fOI
1945 a 1946 e em 1955), procurador ge ral ria República (1946-1 947) e ainda deputado constit ui nte em 1934, no\'ame nte chefe de policia do
mmistro do STF (1967-1969). Em 1947 foi um dos fundadores do I ns- D istri to Federal, em 1945, \'0IL1ndo a ocupar cargos técnicos na adminiS-
tituto de Direito P úb!Jco e Ciência Política (lndipo) da Fundação G etulio tração federal no segundo governo Vargas. Vcr DHBB, op. Cl1.
Va rgas, ó rg:'ío que d irigiu até o final de sua vida, assu m indo inclusive a
d ireção da Rnúla dr Omito Públiro t Ciil/cia PolI/ira, depois Rn'ilta dr Ciêll- 'l Agam enon Magalhães (1893- 1952), bacharel pela Faculdade de D ireitO
cia Políliro da FG V. Ver Dirionário hiJlóni:o-biográjiro brariltiro: 1930-1983 do Recife (1916), fOI deputado federal po r Pe rn amb uco (1924-- 1929), re·
(coord. Israel Beloch e Alzi ra Alves de Ab reu. Rio de Janeiro, FGV. volucionário de 1930, deputado constiruime em 1934, ministro do Tra-
CPD OC/ Forcnse-U ni versmiria / Finep, 1984), deSIgnado da'lui em dian- balho (1934- 1937) c daJustiça (1937 e 1945), inter vc m o r em Pernambuco
te pela 5igb DHB B. /' ( 19 3 7- 19 4 5), novamen te d e p u tado (194 6- 195 1) e governad o r de
Pernambuco de 1951 até agosto de 1952, gU:lndo faleceu. Respondt' u pela
qo Ginásio Pernambucano faz parte do conjunto de mstituições dc ensi- cadeira de geografia no Ginásio Pernambucano de 1924 a 1932. Seu ir-
no tradICionais de Pernambuco. Sua criação, em 1825, miciaLmente como mão Sêrgio i\'lagalhães (1916- 1991 ) foi deputado federal pelo D isUlto
Liceu Provi ncial , esteve conc eitu:thnen te \'inculada ao Semin:i.rio de Federal e depoiS pelo estl.do da Gua nabara entre 1955 e 1964, qua ndo
Olinda: mnto seu idealizador como seu primeiro di re tor haviam sido teve seu m andatO cassado pelo A to I nsti tucional nO 1 (9.4.1 964), editado
padres mestres daquele seminário. Em 1855 o Gmásio PcrnambuclnO poucos dias após o movimemo político militar de 1964 . Ver D H BB, op.
recebeu o nome :ltual e, a partlr dc 1895, passou a seguir, como modelo, Clt.
o GlOásio NacLonal (depois Colêglo Pedro II), orienta!ldo-~e p redomi-
na ntemente para a fortnação literária c h umaniStlca. O tl o-b i ~avô do cn- n Calepino: nome de mo nge italiano que paSSOU a vida a redigir um
trevisrado, ) oão BarbaU10 Uchoa Ca\·a1cano, também foi aluno do Giná· dicioná rio poliglótico tido como resum o d a c iência mu ndial da época
sio Pernambucano. Sobre o papel da mstiruição na his[ória d:l educação (1502). Sigruflca \'ocabuláno, I~x.ico.
em Pernambuco, \'cr RUI Be!lo, Subsídios poro a hutória do ,.dllfo{ão ti" '4Fern:tndo Morats, Chal6, ,.ti do Brasil" a llllo dt AsJi.l C holtoubriond (São
Pernambuco (Recife, Secretaria de Educação e Cultura/D epartamento de
Paulo, Companhia d~s Letras, 1(94).
Cultura, 1978; Pernarnbucana, XVlIl).

"
,.
o .'lALÃO DOS P ASSOS I' l:;RD1DOS

" Eustó rgio Wanderler, 'fi'pOJ populaw do & cift tllIl/f,o (Recrfe. Colégio jl. lo-
clc rno, 1953). 2 . A escola da vida
,.
Fm fever<? Il"O de ]926, for phnc jadOl um"'- s \lblev~ ç50, cm Rcuf.... , com o
ob jeti" o de apoil r a Coluna Prestes gue, por ~s~a c pot:a, Cl' tan a pass;mdo
pclu Interio [ de Pu·nam huco. O s aceno", fln:ll S do Ino \'imen lo clCvCl"1:lm
oco rrer na CIS:!. de P.:-clro Cdso Uchoa Cwalcantl, l]lle ai ahrigava SUl filho,
! .uis Celso, rn ilit;lr c xduido do I':: xcrcito por 1lloti~'os p0 Ijd Cl)~ , 1\ conspi-
ração fUI denunciada e ~I rc uni50 ~ uspensa, Inconformado com o fracasso
do movimento, o te nente CICIO Campdo I"ilho, ii. fre nt e dr:.: um grupo de
B ACllAllEL POR D ECRETO
80 pe ss o:'l~, inv" diu ~· .í ri as cid ad es du agresle p ernam b uca no, se ndo
mOrto no alague .1 Gra\';I\.í. No Ul<]uérilo poliCial sobre a re hd i:ío. foi CI -
tado J oão Celso, outrO filho de Pedro Celso. I\!ão fig uraram, no ent;\llto,
os nomes de Luís Celso e Adolfo Celso, apesar de indiciados no p rocesso Por que o senhor escolheu estudar direito?
judicial. Ver M:muc1 de Sousa Barros, op.cit., p. 115-26.
Não sei se el"":l. uma vocação, se era seguir quase que
" História nOt'a do Brasil foi um conjunto de monografias p roduzidas en- uma tradi ção de fanu1ia, Sei que foi narural o m cu ingresso na
tre 1962 e 1964 pelo D e partament.o de H.istória do l nstituto Superior de
Estudos Brasileiros (lSEB) (criado em 1956 e extinto em 1964), com a Faculdade d e Dil""eiro. Era muito diffcil a opção por uma o utra
fin alidade de renovar O ensino da his tória no nível médio. Além de Pedro carreira naquele insL"tnte. Eu não era um bom aluno de matem á*
Celso Uchoa Cavalcanti NetO, participaram do projeto Nelson \X'erneck rica, portanto n ão se podia presumir que preferi sse fazer enge-
SoJrê, Rubem César Fernandes, Joel Rufino dos Santos, Pedro de
Alcântara Figueira e Mauricio M arrins de Melo. Até 1964 haviam sido nharia. Lembro que quando estud ava no Pedro II, quando fazia
publicadas pelo l\[iniSlério da Educação e Cultura cinco monografias com os exames lá, eu já dizia que iria fazer direito, E era essa a expec-
o selo da H útóna not'a, mas logo depois do mo"imento político-militar
de 31 de março, com a il1\'as50 e a I:xtinçiío do ISEB, o s livros foram apre-
tativa da m inha familia, porque eu , entre os irmãos, talvez fosse
endidos e seus autores, presos - com exceção de Pedro Celso Uchoa o mais desembal""açado, o mais falante, o mais conversador na-
Cava1canti e Rubem César Fernandes, gue se exilaram, Houve uma se- quela época, Então era tido como uma p essoa indicada para
gunda publicação das monografias, pela edito ra Brasiliense, mas a edíção
também foi apreendida. O inniío de Evandro Uns e Silva, Raul Lins e faz er o curso de direitO,
Silva, integrou, ao lado de ModestO da Silveira, Evaristo de Morais Filho Fiz o vesribular em 1929, mas não fui um freqüentador
e George Tavares, o grupo de advogados que defendeu os :lutores da
assíduo da Faculdade de Direito, Meu curso foi o pior possível,
Húlória novo do BrtlJiI no Incluérito Policial .Militar do ISEB. Sobre o as-
suntO, ver Nelson \X'erneck Sodré, Históritl da hislóna 1I0t'(1 (petrópolis, e lastimo muitO que tenha acontecido isso, No primeiro ano,
Vozes, 1986). não pude freqüentar as aulas porque trabalh ava no J\l estre e
" Henrique de Toledo D ods\\'onh Filho (1895-1975), professor de fisica Blatgé, Absolutam ente não fui à faculdade, porque tinha a tarde
do Colégio Pedro II, fOI depurado federal pelo Di strito Federal de 1924 inteira ocupada com o trabalho. D epois, já no fim do ano de 29,
a 1930. Em 1934, \'oltou ao Congresso como deputado con stituinte pelo
DF, c nele pcrmencceu alé julho de 1937. Com o Estado Novo, em no- dei.xej o Mestre e Blatgé e fui trabalhar como revisor no jornalA
vembw de 1937, tomOu-se prefeito da capital, cargo que ocupou até Batalba, onde fiquei até meados de 30, quando fui para o Diário
outubro d e 1945.Jâ Oliveira de i\kneses foi intendente do Conselho da de Notícias. Quem não freqüentasse a fac uldade podja fazer os
Intendência Municipal do Dis trito Federal (hoje seri:~ ve reado r d:. Câmara
Municipal) de 1926 a 1928. exames em segunda época, de maneira que me preparei indivi*
" dualmente _ sou absoluto autodidata - para fazer os e.xames
Henrique Brandio Cavalcan u fo i minis tro do M eIO Am biente e da
Amazónia ugal de abril de 1994 até 1. 1.1995, no governo Itamar Fmnco. das duas cadeiras do primeim ano: direito constitucional e direi*

60
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS
A ESCOL/\, D A V I DA
"
.-
1
mas também não assisti às sllas aulas. Em direito comercial-
tO romano. Recordo de um demlhe curioso. Na cadeira de direi-
também niio freGü entc, - O professor era Castro Re belo. Di -
tO r0l11al10, o professor sempre escolhia o mesmo ponto. Em
reitO internacional - d esse eu me lembro, , assisti a algumas
'
:lUla s
um homem religioso, o professor Abc brdo Lobo, e o único
- cm R:1UI Pcdcmeims, o caricaturista. Depois veiu economia
pomo qu e;: caia era "1 nfluência do cristbnismo no direito roma-
POlitic l, que foi uma cadeira C)u e fuj f:l~ e r no Guarto ano. N essa
no" . Ponto 14. Até hoje sei de cor como começlva: " Um dia , às
c:'ldeira meu professor veio a ser l.eÔrl1das Resende. Assisti a
margens Jo lago de Gcnezareth, humildes pescadores ouviram
uma ou oulra aula dele. Depois, cm m edi cina legal, era Afrãnio
lima voz cstranh:l cluC lhes dj'lia: 'Deixai vossas redes e vinde ;
PCLXOlO, que foi o nosso paraI1in[0.
comigo pescar almas para o senhor de Israel' ... " Todo mundo
l\-Iuito bem: em 193 t houve a reforma do ensino do
tinha que decorar isso para fazer a prova ... Em direitO constitll-
Chico Campos,6 com uma alteração muito grande no curncuJo
cionaI o professor era Eusébio de Queiroz. Estudei muito atra-
escolar, e em virrude disso, não sei por C)ue motivo, O governo
vés do seu próprio livro - Teon'a do Estado, se não me engano
bai..xou outro decreto e nós passamos para o ano seguinte. Eu
- e dos Comentón'os à Comtituifão do velho João Barbalho Uchoa
possivelmente teria que ter feito exames em segunda época, por
Cavalcanti, e assim passei para o segundo ano.
não ter fregüentado as aulas, mas não foi preciso. Em 32, 110
No fim do ano de 1930, com a revolução, o governo
C)uarto ano, nós pleiteamos faze r tan"lbém a cadei ra única que
baixou um decretO promovendo todos os alunos ao ano se-
nos sobrava, em virtude da reforma, para o quinto ano, e fo-
guinte, sem exame. Eu também havia freC)üentado muito pouco
mos atenclidos. Então fizemo s todas as cad eiras gue falra vam
a faculdade, C)uase nada. Não me recordo agora de todas as em 32, e chegou no fim do ano, decretQ outra vez. Nos forma-
cadeiras do segundo ano, mas sei que havia direito civil- O mos sem exame por causa da Revolução Constitucionalista de
professor era Virgilio de Sá Pereira. A uma ou outra aula, posso São Paulo. Quer dizer, sou um bacharel por decreto!
ter ido. Havia direito penal, mas não sei se no segundo ano...
Também nunca tive auJa de direito penal. É inleres.!allte, porqJle e1Jlbora a freqüél1tia nào foue obngalóna,
havia lia Faculdade de J)ireito um ambiente intelectual, 11m ambi-
Realmente, 1I1arcelo LalJenere, 110 discurso que fiz quando o se-
, ente político, jor1JlalJa!JI-se liga.!, c/llbes, cmtros de estudos ...
IIhor recebeu a medalha Rui Barbosa, diZ exatamente isso: que O Havia grupos C)ue se reuniam. Po r exemplo, eu tinh a
unhar nunca teve aula de direito penal. um grupo de amigos, e fazíamos uma reunião mais ou menos
Não tive, no curso todo da faculdade. Estavam vagas permanente, digamos, quinzenal, ou mensal. Nós nos interessá-
as cadeiras de direito penal. Lembro C)ue O titular de uma delas vamos pelas cadeiras, pelo C)ue estava ocorrendo, e tínhamos
,
~ra Carvalho Mourão, 'Itle depois foi ministro do Supremo Tri- informação do que estava sendo ministrado como matéria por-
buna! Federal. E a outra cadeira veio depois a ser ocupada por que havia alguns gue eram freqüenL'ldores, eram daqueles gue
Gilberto Amado, que era professor em Pernambuco e transfe- nào perdiam uma aula. Foi muito ruim não ter freqüemado a
. ,
ou-se para o Rio. Mas nunca os vi na facuJdade, nunca tive aula facuJdade, não foi bom, não. Ser autodidata não é vanL'lgem
com eles. Uma ocasião foi designado um professor,júlio dos nenhuma. Eu me especializei em direito penal muito em função
Santos, docente de direito comercial, para lecionar direito penal, dos qt.Sos concretOS C)ue m e eram rra:ddos. Nunca flz wn estudo

63
62
A ro SCOLA DA VI»"

sistem:i.tico da matéria, quando deveria ter feitO. Fi/. um cur:>o L.embro, sim . Não fui multo freqüentador da caS<1 do
deficiente, precário, e lastimo muito que tenha sido assim. Tam- Leônicbs, fui lá umas d U<1s vezes. Eu me formei cedo, em 1932,
bém tive que estud:n por mim mesn10 direitO CIvil, dirdto co- cxaraml.:nte no ano cm que Lcônida<; :'oe [ornou professor da
merc iai, direito constlUlcional... l\ luit<'l s vezes havia Interh,l.,raç'io faculdade. Foi também o ano em que C:1rlos l..-accreb entrou, no
entre o direito pena l e o direito civi l. Por exemplo, um crime Je primeiro ano. Sei disso, porque houve I.:ndo a t.: IÜÇi'iO do Clube
apropliação indéLita: a questão da pos:>c. O Llue é posse? Posse da Reforma. Ele não fala 110 Clube da Refo r ma?
ê u m in stituto de direito civil. Eu então ia estudar direito civil
pa ra sabe r com o a p licar o direito pena l. H á uma inte r-relaçilo, 1010 1/0 Clube d" Reforma, lia CrfJII, l!(1 Fl'dera[ãf) dos Estudautes
uma interligaçào e ntre os diversos ramos do direito, elue nào silo Vem/elhos, 110 Li..Pf1 dor Ej'ludalltrs Ateus, do A lán'o l ..a,go. O Clube
depart.'1mentos absolutamente est.1.nques. da JvforlJlt1 eram A'liguel LillS, A4am'O Barcelos... O Crg/( eram San
Nós devemos, como dizia m eu avô, saber o Uldo de Tiago Dantas, O tavio de Fana, António Cal/oti... Lacerda traça
um pouco e um pouco de tudo. E eu fui aprendendo fragmen- 11m painel muito il1teressante desse ambiente inteleduaL Como o senhor
tariamente, por mim m esmo, sem professor, a vida toda. O se situava nesse ambiente baslante polali~do?
es fo rço gue tive d e fazer foi muito maior! D epois, com esse E u ficava sempre do lado esquerdo. Com a reforma
es forço, pude me d esempenh ar de cargos em que se exigia o do ensino do Chico Campos em 1931, criaram-se os diretórios.
conh ecimento aprofw1dado do direito, como os de procura- Antes os estudantes não tinham representação oficial, mas a
dor-geraJ da Repúbljca e mini stro do Supremo Tribunal Fede- partir de então os diretórios pass<1ram a ser um organ.ismo
ral. Mas foi porque e u aprendi a esrudar. Aprendi, somente, não! reconhecido por lei. E houve eleição na fa cu ldade, para o
Eu sempre tive gosto por estudar. I sso é que é o mai s importante: diretório. Criou-se também O Clube da Reforma, exatameme
o gOSto pelo esrudo. Depois eu lecionei. Mas quando lecionei, já em 1932. Quem criou o Clube da Reforma forarn Alceu '
fui contratado pela UERJ para dar aulas nâo mais 110 curso de Marinho Rego, Miguel Lins, Chagas Freitas... O clube nào tinha
bacharelado, e sim no curso de doutorado. Leciol1ei uma cadei- nada a ver com a esquerda, tinha até uma colo ração e ornas
ra cham ada " Hi stória do direi to penal e ciência peni tenciária", veleidades monarquistas.
que resultava das minhas leituras, da minha curiosidâ'de intelectu-
al em torno de todos os problemas relacionados com o ramo Lamia jàIa em 'WIIL1 eflndum monarquista em que o A'!iu;e/ L.ins em o n>j'~
do direito em que m e havia especializado. },-riguel Lins não era O rei, não. Era o primeiro-minis-
tro, primeiro-par, como se chamava. O rei era Alceu Marinho
o CLUBE DA REFORM:\ Rego, que era o presid ente, o criador do clube - morreu muito
Carlos Lacerda, em seu D epoi mento, rifen'lldo-se ti época da cedo, era meu colega de rurma, foi muitO meu amigo. Até eu fui
Faculdade de D ireito, diZ o seguinte: "NÓ.f íamos para fi casa do presidente do Clube da Reforma! Quando o clube foi criado,
Leónidas Resende - Chagas Freitas, Et'andro Uns e Silva - , começamos a fregüentá-lo, AJceu, [\'liguel, Chagas, Soares de
ficávamos lá ati de madrugada, batendo papo e cont'ersando sobre 1Ioura, Cesar Luccheto, l\1auro Barcelos, eu e alguos outros.
Marx e Engels.,1 O senhor lembra disso? Carlos Lacerda, que entrou 0<1 faculdade naquela ocaslao, já era

" 65
o SAL.ÃO DOS PASSOS PERDIDOS A ESCOL. .... DA V I DA
I,
meu amigo, porque trabalhávamos juntos no D;(ítio de Notícia!. época - queriam eleger. H ouve dois empa tes nessa voração:
Ele era red;1for eh página de cducaç:l:o. Muito moço, devia ter duas assembléias. Afinal, fui eleito}X>r unu maioria muito escas-
uns 16 ;1n0S, trabalhava com Cecilia}. feireles e Nóbrega da sa. Na êpoc:1 da minha eleição até tiro saiu!
Cunha. O C;1r1os ni'io conheci;'! o Alceu, el1lluanto cu me da v;'! H avia um g rupo que apoiava a correntc contrári>l, do
muito be m com tüdos. Lembro que um dia de pegou os esta- qu:u fa zia pane um r:'lpaz forte, lImito ligado ao l\ligud, chama-
UltOS do Clube eb Reform a e achou que era preciso fazer do Rubens de Paula e Silva Tavares. Quando nós nos reuníamos,
uma série de moclificações. Levei-o a um:"!. reunião na C;1sa do eles ficavam no caf~ vendo o nlll11Cro de pessoas para propor
l\liguel Lin s, na rua Farani, e lá chegou o Alceu. O Alceu era O voto de desconfiança contri! o m.ini sléri ü . Tínhamos que ter

um ópo impelioso, talentoso, brilhante... Deixou até vários livri- uma vigi lância muito grande, botar gente lá para evitar sofrer
nhos : um:'! biografia do Nabuco, uma biografia do Bolivar, era um impacto dessa ordem, de um dia perder o poder. .. Eu en-
um bom intelectual. Naquela época todo mundo usava chapéu, tão, para neutralizar aquele moviment.o todo, fi z um acordo e
e o Alceu ainda usava uma barbicha. Chegou ele d e bengala, designei o Rubens para primeiro-ministro. Foi um jogo politico,
chapéu gelô, e o Carlos começou a sugerir mudanças que, na sua porque quase todo aquele grupo que apoiava o Alceu e o Miguel
opinião, deviam ser feitas naqueles estatutOs. Quando o Alceu se bandeou para o nosso lado. Chagas Freitas fa zia parte desse
ouviu aquelas objeções e observações do Carlos, levantou-se nosso ministério também - tinha uma função de que não m e
e disse: "Não discuto idjoticesl" Botou o chapéu na cabeça e recordo agora. E havia duas grandes figuras que nos apoiavam
foi embora ... muito. Um era o Jaime de Assis Almeida, que foi secretário do
O Clube da Reforma tinha um regime parlamentar e Supremo Tribunal Federal durante muitos anos, e o outrO era
permitia, po rtanto, a derrubada do ministério através do vOtO um cunhado dele, também muito nosso anugo, Haroldo Mauro,
de desconfiança. Um belo dia, depois daquelas discussões que irmão do cineasta Humb erto Mauro.
havia lá, muito freqüentes, nós propusemos um VOtO de des- Já ia esquecendo d o tiro! Um dia, antes dessa concilia-
confiança . Tínhamos a maioria, e o Carlos era o nosso lider. ção, houve uma discussão - eu não estava presente na ocasião
Falava muito bem, pediu a palavra, o VOto de desconfiança foi -entre o Rubens de P aula e Silva Tavares e dois companheiros
aprovado, e desabou o ministério ... O Alceu, que eSla\-a na pre- do nosso grupo, um pai, oficia} da Policia Militar, e o filho, que
sidência - .Miguel não estava presente na hora - , renunciou. Ai e.ram colegas de turma_ O Rubens era um homem exaltado,
o :Miguel chegou, foi convidado para assumir a presidência p ro- puxou a arma e deu um tiro. Não sei como não atingiu ninguém
visoriamente, para djrigU os trabalhos, mas não aceitou. Foi naquele corredorzinho ali da rua do Catete! Foi um escarcéu
muitO veemente e di sse: ''Nào presido uma assembléia de creti- danado. Ele foi retirado de lá de dentro, e nós nos encontramos
nos!" Aquilo callSOU uma turbulência danada... Chagas Freitas no Lamas. Era diretor da faculdade O Car valho Mourão_ Fica-
asswniu m omentaneamente, e ficou m arcada a eleição. Fui can- mos preocupados düme d a possibilidade da expulsão do
didato à presidência pela oposição. O contrário era o Pais Rubens: ele deu um tiro d entro da faculdade! Parece que a san-
Barreto, que não era uma figu ra de expressão e que, p or isso ção regulamentar seria a expulsão. Mas esses pai e filho tiveram
mesmo, O AJceu e o Jv[jguel- que eram os conservadores, na uma atirnde espontànea e benevolente::: con testaram que civcss:

66 67
., :'A I .A U DUS r'AS", OS "1;. K01DO S

em v:írias oportunidades. e nós live m o~, de fato, uma relação


havido uso de arma. D e forma que isso salvou o Rubens da
muito estreita na mocidade, desde o tempo do Ditino de l, 'otírias,
perspectiva de qualquer pu niçiio disclphn ar.
depoi s no pet iodo d e facu kbd e, c ~epois j:í casados, até que

Qual alivir/ade do CI"be da Reforma I/a SilO geslão?


Ira fi
nos afastamo:>:.
Era. disculir, debate r política, Sil lvar o mundo ... Tam-
1\ 1 ~':iCOLA DO JOHN \1
bé.m melhor:1 r :1s condições da [acukhde.
Com() o senbor foi trabalhar 110 jornal i\ 13:ltalh3?
(.01/10 era li rela(ão do Clube da Ivforllla COIII es.res olllro.f gmpos íOIllO ~ leu tio AlCC!i01" Celso Ucho:1 Cava1canti, era revisor
f) Caju) (J , ·edém;iio dos /-::s/lIrlalltes Vermelhos? l/mia brig(ls? de dois jo rn,üs 'll:e havia 110 fim tia rua d o Ouyidor,A J3alalh(/ e
Nós não nos enconróvamos. Nunca hou ve briga, A Esqllerda. Foi ele quem m e levou para lã. A revisão d e JOOl :l1
m:1S havia evidentem ente uma. rlivergência ideológica. O Clube cra fcita dentro da própria oficina - o que h oje se vê qu e era
da Reforma não era o riginariamente um g rupo de esquerda. um risco mu itO grande, porque o gás qu e emana do chumbo é
Tornou-se um g r upo de esqu erda mai s com esse incid ente da venenoso, e nós trabalhávamos no meio daquele barulho ternvel
derrubada do ministério e da minha eleição para a presid ência das linotipos.
e, pOrt<lnto, com a liderança exercida pelo Carlos Lacerda. Nes-
sa é poca o Carlos fez um di scu rso no lnsti tul0 N:1cional d e Os dois jornais eram feitos no mesmo lugar?
Música em nome do nosso gr upo, contra o g rupo do l\1.iguel e Os doi s. Um era matutino e o o utrO vespertino. E ram
do AJceu, Cjue foi um sucesso ex traordinário. Me recordo: o do mesmo dono, um cidadão chamado João P allur, que era
Carlos jovem, magro, era bonito, fez um discurso fantãstico bicheiro.
sobre os rumos Cjue a mocidade devia seguir naCjueb hora, a
dificuldade de informações no mundo, fez uma coi sa que o o que um bicheiro eslava fazendo por Irás desses jornais?
teatro veio abaixo. O representante do outro grupo, Célia Lou- É o que eu também não en tendi até ho je ... Mas os
reiro, era um bom colega, mas foi intei ramente ofuscado pejo jornais tiyeram redato res-chefes importantes. Pedro ~ [ota Lima
brilho do Ca rlos naguele dia. O Carlos, na époc:l, tiniu 18 anos. foi de lã Leônidas Reser"lde também . Co nheci os dois. Leô nidas
D epois disso o Clube da Reforma fo i fenecendo. rv(e Resend;, de pois, foi professor da Faculdade de Direito. Quanto
formei, saí da faculdade, e o clube praticamente desapareceu, ao P edro Mora Lima, fui até seu ad\"ogado quando foi p reso.
não se recon stituiu mais. E o Alceu, depois, fez uma evolução Na épo ca da A liança Nacional LibertadoraS ele d irigia O jornal
política. Um belo dia, deixou a monarcluia e se tOrnou comurus- A Manhã, que era o jornal oficial dos comunistas. Quando do
ta ... E passou a ser muito amigo do Carlos. T ão amigo gue o movimento comunista, exilou-se e ficou fora até 41 ou 42. Vol-
Carlos, quando caso u, muito cedo, estava cm dificuldades e tou, se apresentou e foi e ntão para ilha Grande, que era o presí-
m o ro u no apa n amemo do Alceu, gue também não era pessoa dio dos presos politicas. Estive com ele, como cliente já, e fiz a
Cjue tivesse muitos recursos. Nessa época nasceu o Sérgio, pri ~ sua defesa no Tribunal Militar.
melro filho do Carlos. O Carlos nunca deixou de me m encionar

68
6.

o SA I~ÁO DOS PASSOS PERD I DOS A ESCOL A DA VIDA

Con heci também o Carlos Sussekind de Mendonça, Qual em t1lillha politica de A Batalha e A E squerda?
que também foi red:lIo r-chefc d 'A ErfJllerda e A BataliJa. Em Apesar do nome, não eram propriamente jornais de
geral os red:Hores trabalhav:lm nos dois jonuis. i\las nós só fa:d- esquerda. Tinham uma posição liberal, não crm)) vi nculados a
:'Imos a rc\ isãn d '/J 13(t/alha, do jornal m:Hutino. j\ s provas Cf:'lm qU:11qucr organi zação política. Tan1hêm n~o havia só esses reda-
tiradas da5linotipo~ c cnLregues :lOS revisores. Um revisor lê e o tores que mencionei, que cnm pessoas de esquerda, havia outras
outrO acompanha . O revisor mais import<1nre é al]ul!!e (lue esd pessoas, <.:om outra s o rientações. Po r exemplo, na revisão não
lendo, porclue ele é que faz as em e ndas, as cn rreçõcs. O outro me recordo de ninguém qu e fosse de esquerda .
:tpenas ouve, c advene se faltou alguma coi"a - é:1 função do
aux iliar do revisor. Quando m eu tio Alcenor me levou, fiquei Seu tio era de esquerda?
inicialmente como suplente. O suplente ia à noite, esperava a Era. E ra revisor aqui, depois voltou para Pernambuco
falta de algum revi sor para, então, preencher aquela vaga. D e e depoi s de 35, veio de novo para o Rio. Foi con siderado sus-
maneira que era um emprego muito precário, em que eu recebia peito em Recife. Era um homem de esquerda, ex-seminarista.
só pelos dü\s trabalhados. Se não houvesse trabalho ia embora, Mais tarde, aqui no Rio, foi ser escrivão do T ribunal do Jun,
tinha que voltar para casa. onde nos encontramos outra vez.

o senhor trabalhava à noite? E o O iârio de Notícias? Como o senhor foi trabalhar lá?
Sim. E aí foi realmente um período difícil, porque eu A aspiração do revisor, naquela época, era trabalhar na
era muito frágil, muüo magro, e o mais cedo que nós saíamos Imprensa Oficial, que pagava melhor. E correu a noácia, na re-
era cerca de uma e meia, duas horas da manhã. Nessa época visão deA Batalha, de que o Diário Oficia/ia fazer um concurso
eu morava em Santa Teresa, e me lembl'O que era um d rama para revlsor. Era uma fase de mudança da ortografia, discutia-se
para pegar o último bonde, às duas d a manhã. O bonde saía do muito se se usava o ph em física, se quimiCl1 era com eh ou qll,
largo da Carioca, não era longe da rua do Ouvidor. Era preciso se realizar era com s ou com Z e tudo o mais. Sou do tempo
que eu saísse do jornal uns dez minutõ's antes, mas algumas em que se escrevia "apelação" com dois pp e dois II! E quem
vezes perdi o bonde. Só havia outrO às quatro da manhã. Uma não obedecesse a isso era considerado um ignorante: não sabia
ocasião fiz a aventura de subir a pé. Não pelo largo da Carioca, escrever a língua. Muito bem. Sabendo disso, fuj à BibJjoreca
mas pela rua do Ri achuelo, porque por aJj havia os Arcos da Nacional, d e que eu era freqüentador desde o tempo do P edro
upa, e não dava para passar. Eu morava lâ em cima, na rua II, e pedi o Diário Oficial, exatamente para ver como eles esta-
Monte Alegre, e só subi a pé essa tinica vez, porque havia muitos vam grafando as palavras, diante da variação de critérios dos
cach orros na rua, e eles me ameaçavam ... Tive muito medo do diversos jornais. f.. ,endo o Dián'o Oficial para me preparar para o
ataque dos cachorros e nunca mais fiz essa aventura, preferia concurso, encontrei a ata de fundação da Sociedade Anônima
esperar até as quatro horas. 1vluitas vezes fazia um pouco de cera D iário de Notícias: fundava-se o jornal Diário de Noticias. Li
no jornal, outras vezes ia para a estação, no largo da Carioca, e aqu.ilo e verifiquei que, entre os nomes dos dirctOres. havia um
ficava sentado no banc~ lendo um livro, uma coisa qualquer. diIetor-secretário da sociedade anônima que se chamava Auré-

70 71
(.) SA I.A O 00<; l'A"'iOS l' EK DIOO'i A E!>COL~ A DA V I DA

lio Si lva - o nome desse homem é um marco na minha vida. nanceiras, Orla nd o Damas assumiu a d ireção e tornou o Didno
Me lernbret que havia um Au rél io Silva e m Recife, que era advo- de j\ ,TollciUJ um jornal de grande desr;1que na vid a polítiC(l, soci al e
gado e tinha escritório nn mesmo anda r em que um tio meu, econômic(l do paí...
médico, unh:\ () seu consld tÓrio. Pergu ntei:1 Illeu p:\i, de di !'se Afinal, d epois de cu tcr procurad o justi ficar que não
que realmente se da\':1 com o Au rélio Stlva, e me deu um clrt?i.o era foca, que trabalhava em jurn:tI- apenas n:l0 (ltsse que tra-
de ap resen tação. E u rne comuni<luei cum de pelo telefone, e de bal1uva em rC\'ü::ão _, l~iguelrcdo Pimenccl n"\c deu a tarcfa de
marcou em sua CIsa ii noite. r. [on\\'a em Copacabana, n um dos colhe r, j:í no dia seguinte, element os no Foro - po rque o Auré-
primeiros edifícios de " part.:lI'nentOs, na rua S:í Fer rei ra. liodizia q ue cu ia Wlbalh ar LU p:ígina jurídica, sob a supe rvisão
Era junho de 1930, e o Dián'o de j'lotkias ia sair imedia- dele. Eu não s:t bia ne m onde er3 o Foro ! Sab ia apenas que exis-
tamente, dali a dias. Aurél.lO 5iJva me receb eu muito bem, foi tia, porque de vez em qU(lndo fazia revisão do noticiário que
muito amável, e disse achar prová\7el que pudesse m e colocar lá vinha de lá.
como repórter, porque estava eXlltam ente incumbido da o rga-
nização da página jurídica. Eu era estudante de direitO e p ode ria Onde em o Foro?
ser repó rter forense. M andou -m e procurar no dia seguinte o No antigo palácio da Justiça, na rua D om Manuel.
secretário do jornal, que se cham:Jxa Figuei redo P imentel - Quando cheguei lá, aqu ele prédio tinha três anos. É um prédio
também uma pessoa que marcou muiro a minha vida. O s jo r- de 1927 . Imaginava-se que ser visse para a Justiça p,or muito
nais naquela época funcionavam muito e m torno da figura do tempo. Havia seis varas cíveis e o ito varas criminais. E verdade
secretário, que era o organizado r, o pagi nador, o distribui dor que havia tamb ém varas de sucessões, varas de acidentes do
do ser viço. Todos os o riginais eram entregues a ele, que botava trabalho. Todo o FOTO, todo o serviço judiciário cabia ali . H oje,
o visto para autorizar a publicação. O secretário e ra a figura que, fu nciona lá o Tribunal d e Alçada Criminal e mais nada, pratica-
no jornal, tinha o d o mínio sobre tOda a parte editOrial. mente. É um prédio p equeno.
Fui à redação, na rua Buenos A.ires, pertO da rua dos :r.. tas o Aurélio Silva, muiro gentil, combinou encon-
Andraclas, e procurei o Figueiredo Pime ntel, cujo p ai L'Ul1bém já trar-se comigo no Foro, para m e apresentar às p essoas a quem
fo ra jornalista - à imitação do pai, el e fazia uma seção com o eu devia m e dirigir. O no ticiário fore nse era recolhido p o r um
titulo de " Binóculo", que seria hoje a crôruca social. E ele me grupo de repórteres que pas5ava de va ra em vara colhendo as
recebeu com uma pedra na mão. Nervoso, sobrecarregado de notícias: o que h avia, o que não havia ... Era um grupo de cinco
serviço, gr.itou um palavrão e disse: "Só me d á foca neste jor- ou seis repórteres, e eles iam sempre e m conjunto, havia uma
nal!" lvl:ls eu vi nha com a recome ndação do Auréli o Si lva, que espécie de co mbinação entre eles para não haver furos, para um
era o direto r·secretário da e mpresa, portan tO ligado aos donos não noticiar uma coisa que o QUIXO não noticio u . O que lnteres-
do jornal, os Berardo Cameiro da Cunha, família import.1.nre de sava naquele tempo, em 1930, era o foro civil: eram as falências,
,
Pernambuco, homens de for tuna. E ra diretor-gerente aquele que porque tinha havido o rrark da bolsa de Nova York em 1929.
depois veio a ser o dono do jornal, Orlan do Danras. Mai s tar-
de, quando o jorna l começou a fracassar, a tcr dificuldades fi-
.
Q uando cheguei com o Aurélio, enue os repórteres que esta-
vam ali havia um, Carlos Medeiros Silva, de O Jornal, a quem

72 13
A ESC O L A D A V IDA
o S ALÃO DOS f'ASSOS PEfl:DIOOS

"Bem, se vocês não colocarem no grupo esse moço, que o Au-


eu não conhecb, que estava colhendo as suas notas. Era jovem
rélio m e pediu, Vali dar:! ele as nOLíci:.ls, vou d:!r furo cm vocês!"
ad vogado, e desencorajou o Aurélio qu ando ele új sse <.Jue e u ia
Fui enrão adnutido n:1q uela con fra ri:! e com ccei :1 fazer o fo ro
co lhe r as notas para o Diririo de Notíáas, po rque ele, Ca rlos
criminal. E eu digo que esse é o com..:ço da m inha vid3, pon.jue
M c:d eiros, estav:! acompanh :!elo ele UlT\ estudante ue direi tO seu
eu tinha IS anos, fui 3ssisür a um julS:r:lmento e achei 3c\uilo f:l sci-
amig o, l]Ue ele já h:l.Via indicado ao Diário de N oticias par:! fazer
nante: o promotor acusa, vem o defen sor,:l ge ntc toma pa tti-
aquele trabalho. Quase desabei na hora. ivfas ele teve a idéi:! de
do ... Um júri com bon s expositorcs é um esp et:íc ulo e xtraorJi -
djze r: " Ele nao faz essa parte, mas pode fa ze r o foro criminal,
n:irio, é a vida de 3lgué m que eSL-l sendo d ecidida ali na hora. D e
que nós: :!(1ui não fazemos." Para ver como a sucessão de acasos
maneira (Iue eu me empolguei lmedi atamente por aquilo. E co-
vai fazendo a vida da geme... O Aurélio ainda disse: "!vras eu
mecei a fazer as reportagens.
não conheço ninguém no foro criminal, eu advogo no dvel. Ah,
não! Recentemente, um escrevente da 4 a Vara Ovd foi promo- E o f oro civil ficou para Irás ...
vido e é escrivão do Tribuna! do Júri: o Sales Abreu . Vamos lá Nào, porque o rapaz que o Carlos Medeiros queria
em cima ver como se fará isso." Wilson SaJes Abreu, assim colocar, queelepois se tornou muito meu amigo também, Cân-
como Figueiredo Pimentel, foi uma figura que se tornou muito dido Álvaro d e G ouveia, não foi trabalhar lá. Eu fazia o foro
minha aITÚga. criminal e o civil também, de vez em quando. Mas não tinha
• maior interesse para O jornal.
Também havia um grupo de repórteres cobrindo o foro nimil1al? Naquele an o de 1930, pouco tempo depois de eu co-
Sim. Quando chegamos lá em cima verifican10s que meçar, haveria dois grandes julgamentos. Um, do Ildefonso
havia, n a sala de um dos cartórios do Tribunal do Júri - o Simões Lopes, em que se sentava também no banco dos réus
tribunal era um só, mas tinha dois cartórios - , uma mesa onde seu filho, Luis Simões Lopes. A história havia começado com
estavam sentados os repórteres dos diversos jornais. H avia um um incidente entre o Luís e o Sousa Filh o, d e putado p o r
velho porteiro que colhia as noócias nas diversas varas criminais Pernambuco, deRtto do recinto da Câmara dos D eputados, em
- que eram poucas, só o ito - , fazia a seleção e trazia para torno do debate que estava se desenrolando naquela hora sobre
aquele grupo de jornalistas, que e ntão tomavam os seus apon- a sucessão presidencial: de um lado, a candidatura de Júlio P res-
tamentos e o s levavam para os seus jornais. O noticiário do tes, escolhido pelo presidente da República, \X'ashington Ltús, e
foro c rin-unal era uma coi sa muito rotineira. P ublicava- se: "Su- do outro, a candidantra de Getúlio Vargas. D esse incid ente re-
mário de culpa. Serào sumariados amanhã nas varas criminais sultou que o ndefonso achou que o Luís estava sendo agredido
os seguintes réu s: fu lano de tal, 7" Vara Criminal; sicrano, pelo Sousa Filho - dizia-se ~~e ele usava um pur~hal -.-, e ati*
b eltrano etc." O porteiro obtinha esses nomes nas varas, e aqui- rou e matou o Sou sa Filho. D e modo que fOI um fatO de
lo e ra o principal prato do dia de todos os repórteres que co- muita repercussão. N o mesmo dia desse crim e, 26 de de:tem-
lhiam notícias ali. bro de 1929, houve um outrO, também de grande repercussão:
Quando cheguei, no primeiro instante houve uma cer- Sílvia Serafim Thibau m:ltou, na redação d'A Critica, que penen-
ta resistência. E o Sales Abreu foi o meu salvador, porque di sse: 'cia ao jornalista Mário Rodrigll es, o filh o dele, Roberto

"
o SA I_ AO I-:>OS PA SS OS f'hRI)II)OS ,\ ESCOLA I)A VIl)A

Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigue..<;.'2 Esses processos esta- do daquele ju lgamento - O réu foi absolvido - já com os
vam pr~parados para serem ju lgados pelo jú ri. detalhes , com tudo. E isso me credenciou muito para O m eu
Naquela :'lltut;l, cu Já ~stav a mai 'i fa miliari:t.:1Jo com o ruturo nu joma!.
Figuei redo Pimentc1, que, ape$:lr de me le r rece bido com Em scguieb vinha o julga m ento d a Sílvia Thib:lU .
irritação, se tornou um :1migo, um prOtelOr. Depois, ele m e COI1- Figucircdo Pimcntd era seu :lOligo, gostava Jda. Eh era lima
\idou para ir p ara a G azetll de J'Jot!cúlI,A Naçao; para os v,inos mulher que unha se sep:lrado do marido, e i~~o era uma coi sa
lugares onde ia tmbalhar, me levava. Sobrevieram esses J o is jul- incoffium no Rio de Janeiro d :H.-juele tempo. J\ mulher fic ava
gamento", grandes, e no di ~l do primeiro deles, que fui o do sempre susp eita de não ~t:r uma pessoa co rrera pelo fato d e
Simoes J .opes, recebi a credencial Jo UitÍrio de Noticias. Esú\'c se ter scp. lraclo. E eh era jurnalisl>J., assinava lima coluna com
com Pil11ente l e ele me di sse: "Você faz a primeira parte - o pseudônimo de Pelite S Ol/ree, Pequena Fome. Uma mulher
chegada do acusado, interrogatório... " À noire é que viria O de- que escrevia em jornaL. Uma mulher que conversava com aS
bate, em que falariam o promotor e o advogado de defesa. pessoas, que leva\'a os seus trabalhos para a redação... Isso tudo
"P ara a segu nda etapa, vou mandar um redaror mais experi- fez com que ela fosse vítima da reportagem da Critica, que a
mentado." Era um redatOr mais antigo, que fazia também a par- apontava C0l110 uma mulher Hvre, uma mulh er que não devia
te jurídica, chamado Eduardo B:lhouth. D epois foi procurador praticar certas ações, que emm censuráveis diante da sociedade
da Repllbtica. muiro rigo rosa e machista da época. Ela leu a notícia e foi para
Muito bem. Julgamento marcado, fui para lá na hora o jornal com um revólver pequenino, 22, procurar o dono, o
certa - naquele tempo o júri funcionava realmente na hora. Ao velho Mário Rodrigues, que não estava. Estava o Roberto, seu
meio-rua em ponto o juiz :Magarinos Torres abriu a sessão, sen- filho, que era ilustrador, pintor, desenhista. Tinha sido o ilustra-
taram no banco dos réus Ildefonso Simoes Lopes e Luís Simões dor da notícia. Os dois foram ao gabinete, tiveram uma Egeira
Lopes, que era co-réu no processo -- não acusado do homicí- discussão, e ela deu um tiro único. A bala o atingiu no coração e
dio, mas do incidente anterior - , e comecei a preparar a repor- o matOu.
tagem. Fiz realmente um minucioso trabalho de r.ocJas as ocor- Pimemel eSL'1va muitO interessado nesse julgamento,
rências aré as seis, sete hor3s da noite. Fui para o jornal para levar era até testemunha no caso, a favor dela. E me pediu, antes do
aquela primeira parte ao Figueiredo P imenteJ. Ele começO~1 a julgamento , para eu fazer uma entrevista com O advogado de
ler, me deu grau dez pelo que eu tinha feÍlo aTé então e me defesa. Ela foi defendida pelo ClÓVIS D unshee de Abranches,
incumbiu de continuar durame a noite. Ai assisti ao debate. Fa- irmão da condessa Pereira Carneiro, e fo i acusada por um ad-
lou, como advogado principal do 1ldefonso Simões Lopes o vogado que depois se destacou muitO no jllri, um pouco mai s
"
velho Evaristo de Morais. Foi uma das últimas g randes defesas '
14
velho que cu, Romeiro Neto. Também foi absolvida. Ai já
CJue ele fez no júri. E eu fiquei fascinado por aquilo! Achei que participei mais um pouco como repórter, o que p:1ra mim foi
encomrava ali o meu caminho. O juri foi até de madrugada, eu muito importante como afirmação.
já redigindo as co isas, preparando tudo... Acho que o D iálio de Naquela época muitas vezes eu também ficava fazen -
Noticias foi o único jornal que noticiou no dia segW nte o resulta- do plantão no jornal. A.ntigamente, o s matutinos só fecha\'an1 às

76 77
o SA I_AO DO S PA SSOS I' E RD!I)OS " ESCO LA D A V ID A

duas, l"rês horas d a manhã e saiam na ro tativa às quatro, cinco didos era freqü cmado pelo s grandes criminali stas da época, por
hora:;. R entJ.o havia n!darores que fi cav:lm d c plantão. Pime ntel todos os estud iosos do di reito penal: o velho Evaristo,
começou :l pedir para e u fica r e com'crsava comigo, m e pedi a Magacinos Tones. Roberto Lira,l~ Mário Bulhõcs Pedreira,Jor-
para fazer um tópico. Sa bem o que é um tópico? Tóp icos são ge Severl:lno Ribeiro. Havia também o s m ais jovens, como Ro -
aqudas noúcias que antigamente lodos OS jamais tinham, e ainda meiro Neto e Stélio GaIvão Bueno; hav ia um rábula, ch amado
hoje tem, sob re, por exempl o, a fa.lt:.l d 'água no Rio de Janeiro, João da Costa Pinto, com quem estreei. no júri. Dali, d aquele
ou o hocino dos trens, uma coi sa qU:1lquer desse lipo. H á o salão-corredor, saiu a Socied ade Brasileira de Climi nologia, que
artigo de fundo, llu e é O edito ri al, o pen sam ento do jornal, e os foi idéia do Roberto L.ira, saiu também a Kevisfa de Direi/o Pena!.
tópicos, que são opin.iões sobre di versos :1 Ssuntos. De vez em O juri tinha uma u11po rtãncia muito grande e teve um peso
quando O Pimentel dizia: " Faz um tópico aí, sobre a falta enorme na minha formação. Quase todo s o s dias h avia um júri,
d 'água." Voces não alcançaram a época em que a água era di6cil. e eu, como repórter, assistia, via os advogados, alguns co mpe-
Havia momentos em que se ficava semanas sem ter água che- tentes, outrOS fracos... Quando eu achava gue a defesa não eSL'l-
gando em casa. Fazer esses tópicos, para mim, também foi um va muito bem-feita, fazia comigo mesmo um julgamenro e, com
aprendizado magnifico. O s jornalistas d e maior d estaq ue tam - uma certa vaidade, di zia: "Acho que faço melhor..." Eu sempre
bém faziam tópicos de m atéria p o lítica - a eleição para a Cã- invocava uma ftase do Tobias BarretO, que havia lido naquela
mara dos Vereadores, um projeto de lei qualquer gue estava em época: "Quando m e julgo, envergonho-me; quando me com-
andamento e qu e interessava ao público de modo geral. Havia paro, orgulho-me." Eu di zia isso e achava que faria melhor...
topiguistas ilustres, como Osório Bo rba, grande jornalista;
Othon P aulino, que de poi s foi um d os donos d' Q Dia e d'A Naquela época O swhor tinha 18 anos.,.
Noticia, d ois jornais de grande circulação; Xavier de Araú jo; Sim. Havia um porteiro do Tribu nal do Júri,João Ba-
Nóbrega da Cunha, que era um dos diretores do Diârio de Notí- tista de Assunção Filho, uma figu ra curiosíssuna de hom em
cias; G arci a de Resende. H avia jornalis tas de grande nomeada modesto, porém de uma inteligência cintilante, espirituOSO, com
que faziam tópicos, que eram algo muito importante no corpo um comentário apropriado a cada dia. Quando comecei a fazer
do jornal. a reportagem do júri, que era a vitrine da advocacia criminal, ele,
A ESCOLA 00 JÚRI em tom de brincadeira, de guando em vez m e proibia de entrar,
Quando comecei a assistir a julgamentos e a fazer a porque eu era menor e, dizia ele, segundo o Código de Menores
reportagem para o D iário de lVotidas, m e encantei com o jú ri! não podia assistir a julgamentos ...
Porque o júri era realmente um a escola. D ali se irradiava todo o
estudo de direito penal para o Brasil inteiro. Ao lado do salão No discurso que fiz ao receber a 1J1edalha & d B arbosa, O senhor
d o Tribunal do Júri, que é muito bonito, há um co rredor bem também diZ 1ue ]icou fascinado com a deftsa de E varisto de A10-
largo que se chama Salão dos P assos Perdido s, porque é inteira- rais 1/0 caso Simõc.r Lcpe.r. O que o faset"nou tanto?
mente vazio, nào tcm bancos nem cadeiras, e as pessoas ficam Os detalh es e o conjunto : tudo m e fascinou! Ele con-
vagândo e se enco ntrando por aJi. Aquele Salão dos Passos Per- seguiu demonstrar aos jurados que o seu cliente ti nha agido em

78
7'
o SALAo DOS I'ASSOS. PERDIDOS A loSC OLA 0/\ VIDA

legitima defesa. Para dcmon sU(lr o exercíCIO da legítima d efesa, Publico _ era um cidadào de Pernambuco qu e linha o preno-
é claro que ele foi procurar os elemen tos, a l1l:1téri:1 de fato, no me d c 1\lex:1ndrino; não me lembro Jo seu sobrenome.
incidente ocorrido entre o Luís Simões r ..opcs t:: a vitinu, o Sousa
./.I all/(1ç(70 do adt'ogado de drjúa 110 caso Síltia Thiball lambém o
FIlho. Mostrou '-Iue aquela ::tgrcssão punh:l em risco a \"Ida do
mcalllo,,?
Glho <lo Ildefon so, ç que e<;lC leria, então, defendido um direito
N:l0 tanto. j\ fuiw menu". I)nrquc j,i o rema era difen..:n~
- pod ia não ser o seu próprio d.ireito, e sim um din.: ico de
tc. Era um drama, era uma reaçiio contra uma ofcnsa n1ur,tl.
terceiro, mas isso estava amp:lr:ldo pela lei . Na legítima defesa é
Não era uma. legitima dcfesa llue se alegava. 1\ reaç:'io deb. t::St~l­
prcci..;o que ocormm simultaneamente v:í.rit)s rC<ILusitu~. Primei-
ria comprcc.:ndida mUlla dirimente llue havia na lei penal n:KllH:le
ro, que haja umCl agress:lo >tnw.l de parte da vitima . Segundo, LJue
tem po, que era a perturbaçào dos scnLidos e da inteligência. 1\
a repulsa seja modcr>td a, seja na proporção do ataque, que não
pessoa ofendida gravemente por o utra tinha uma reação emo~
luja excesso na reação. Evaristo de Morais começou p o r fazer a
cional capaz de levá~la a um gesto de violência e desespero .
demonstração do que era uma agressão arual. E também fez
uma demo nstraç?io de que a repulsa n unca podia ser medida Mas levar lima arma /ta bolsa "ão significava premeditação?
em ter mos ma temáticos: uma reação em ocional não se mensura Exato, isso cudo era discutido no de bate. O advogado
nos mesmos termos em que se med e llm metro de fazcnda. A mostrava que não, que não havia essa prem editação. D o pOntO
reação psicológica é muJtas vezes exagerada em relação à pro- de vista formal, naquele tempo, havia quem sustentasse - nem
vocação. A tod a ação corresponde um a reação, que sempre lhe todos - que, para que houvesse premeditação, era preci so que
sobrepu ja em intens idade. houvesse um intervalo de 24 horas entre a resoluçào crim inosa e
Aquilo mdo fOi me encantando: a capacidade do ve- o cometimento do crime, ou seja, um espaço de temp o desde
lho Evaristo de demonstrar que o seu cliente tinha agido de que germinasse a idéia até a eclosão do ato criminoso.
acareio com a re:tção que qualquer cidadão te ria em face de
uma situação idêntica, a capaciebde de persuadir, de convencer M as isso também não se mede co", fita métn"ca...
os outros do pOnto de vista que ele estava defendendo. A clare~ ExatamentuEntão o advogad o mOStrava que, essa
za da exposição. Talvez houvesse nele um pouco de excesso de reação de desespero não sendo mensurável, na hora em que
gesticulaçao. Mesmo para a época, ele usava um ripo de oratória apanhou a arma ela já estava perturbada em face da ofensa rece~
com encenação muito grande, mas sua linguagem, no fundo, b ida. E le não contestava que ela havia ido lá com a idéia de um
era simples. E le tinha a simplicidade dos clássicos. Não usava desforço pessoal. Mas esse desforço pessoal, embora não justi~
expressões, digamos, quinhentistas. Não era um orador que pro- ficado do pontO de vi sta legal, era explicável em razão d os sen~
cu rasse entremear seu discurso com imagens que levavam ao tirnentOs humano s, das ofensas que nos levam muitas vezes a
ridículo. Era um argumentador, sobretudo, um expos itor ex- gestos de desespero. Contava~se na época, até como pilhéria, o
celente. E aquilo m e encantou. Me encantoul Não me recordo caso de um cidadão que tinha um apelido depreciativo. Ele pas-
agora quem foi o promotOr nesse caso, mas lembro que o sava, e um sujeito o chamava pelo apelido. Foi fazendo isso, até
auxiliar de acusação - hoje se chama assistente do l'v1.Jlu sténo qlle um dia o cidadão perdeu a cabeça e reagiu. No julgamento

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o SALÃ O DOS PASSOS PERDIDOS A ESCOLA DA VIDA

do júri, O advogado teri:t usado um estratagema, que foi o d e ir lar uma solução desse tipo. Sobretudo sabendo que as pri sões
re petindo: "Senhor p ro motor, senhor pron1otor, senhor pro- são jaulas reprOdutOl"3S J e criminoso s, e não es tabelecimento,>
motoL .", :lté haver uma reaçii.o, que afinal veio: "Que diabo!" r onde se rcssoci ali ze, ou se recupere, o acusado.
Aí o advohP.l.do aproveitou: "Est:i vendo? O homem linha toda E. muito importante o advogad o s:lbcr d isso, estar in ·
razão : sofreu uma agressão moral diária , até que um dia nii.o fonn<l do disso, ler muito. N o s nram:1.S da vida, nos romance'>,
na poesi:l, em todos o s lugares, em todos os autores de direito,
re sistiu e repeliu o que era ofensivo à sua dignid:lde. r or muiro
m enos o m!'!u ilustre adversário nào conteve a s ua ira ... " f a gente vê como o homem muitas vezes é condu;ódo pelos
Essa perturbação de ânimo, que ensejava a dirimenTe, é ( acontecimentos. QU:lndo se lrat:l de um criminoso prim3.rio, de
um homem que, já idoso, cometeu uma viofência pc b primei ra
perfei tamente compreensível. Quando a pessoa tem um inci-
d ente qualquer em que é o fendida, às vezes acaba perdendo a vez na vida, é l1:ltural que se procure explicar e justificar esse ato
cabeça, entrando em desespero e cometendo um ato de violên- e que se dê a esse homem um certo crédito de confiança nas
cia em que ela não é idêntica a si mesm a. O sujeito deve contro- informações que ele presta. J á uma pessoa de mau passado,
lar todas as suas ações, sim, mas às vezes há erros até de visão °
maus antecedentes, um reincidente, que ele informa ao juiz
nas agressões - o que se chama uma agressão puta tiva. Por tem menor credibilidade. Eu me lembro que, no caso Colior,
exemplo, à noite, ven ho passando, e um cidadão faz um gesto citei uma frase do Fer ri,l6 mostrando como ele variava de ver-
qualquer. E le está até desarmado, mas eu suponho qu e ele esteja sões. Po rtanto, estava mentindo. E nrko Ferri, grande penalista
armado, que vá me agredir, e ati ro. É o que se chama uma legí- italiano, de muito talento, usa um a m etáfora e diz que, quando o
tima defesa putativa - quer dizer, imaginária. Intimamente, sujeito está mentindo, lembra o voo do morcego, tOrtuoso, em
subjetivamente, eu estou convencido d e que vou ser agredido. zigue-zague; quando diz a verdade, é coerente como o vôo da
Isso, no júri, muitas vezes leva a discussões muito interessantes. andorinha: um vôo reto.
No caso de uma mulher que se julga ofendida, o ad·
vogado procura dar um colorido 'pais intenso à ação que pro- O TRfPQ D,\S REVOLUÇÚES

vocou de parte dela uma reação aparentem ente excessiva, de- No periodo de 1929, 30, em que o senhor estava na faculdtuie e traba-
masiada, e explicar que .a reação é compreensível, humana. A lhava em j omal, houlJt a campanha do Aliança Liberal e a pnJpn"a
reação pode ter sido demasiada na sua aparência, m as isso não Ra'O/ução de 30. Como o senhor tÚ{ aquele clima de ifeme.scência poh'tica?
justifica, diz o advogado, que a ré seja colocada numa enxovia, Eu já era estud ante de direito quando surgiu a candida-
numa cadcia, numa cela: isso não traz vantagem alguma p ara a rura de Getúlio Vargas. Como sabem, havia a chamada política
sociedad e. Vamos procurar então uma solução concilia tória. do café-com-leite, o qu e significava que uma presidencia era de
Muitas vezes o advogado pleiteia uma solução intermediária, ou São P aulo, e a seguinte era de :Minas. E isso fo i se mantendo
uma solução que conceda o SlIms ao réu, quer dizer, que expres- através da P rimeira República durante muito tempo. Quebrou-
se a reprovação da sociedade mas, ao mesmo tempo, não im- se esse critério com Epit.'icio P essoa, porque Rodrigues Alves
plique o enclausuram ento, a segregação do réu . ] sso é muito foi eleito pela segunda vez, para o período de 191 8 a 22, m as
comum. E há uma tendência, acho que de todos nós, para acei- morreu antes de tomar posse. Suced eu-o o vice-presidente,

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o SALÃO DOS PASSOS PCR1)11)OS A F"COI A I) " VIl)A

Delfim Moreira, que, todos dizem, estava d ecrépito, muito ve- do Rio Grande do Sul, mas aC l;itou di sputar, como candidato
lho, c também morreu pouco depois, antes de compk:t;lr um da oposição, do que se chamou a i\liança Liberal, a eleição COl1+
.1110 d e governo. D<.: acordo com a Constituiçilo, tinh;ll.llIc scr lra Júlio P restc);. A clc.:ição n;io er:t por voto secreto, era feIta
felt;l uma nOV;l cleiçno. Ai ficuu a di scussiio entre São Paulo c a bico-ele-pena, e Júlio Pn.:Slcs fOI prcx:lam:tdo eleito. Toda
1\ 11I1as. São Pau lo di zia: " I ~;l minha vez, porque o Rodrigues aquela conspiração latente dos tcnenres se avolumou , e dessa
Alves nào ;lSSUI"lUU." 1-: 1\ li1US dizia: "I:'\:ão, a vez é nunha , porl..]ue conspiração resulto u o mo\ imcnlO mi lirar para a denubada
cumprimos o compromisso com São P;lulo, elegemos um de \'va sh.ington Luís - movimento que se desencadeou no
p:wlista." D aí resu ltou um des;lÇf)rdo e o nno cumprimenlO Rio Grande, vcio aré o Paraná, c já estava em ltar-Aré quando
dessa cI:'tu su la s imbóljca que existia entre os dois lados: surgiu \X/ashmgton Luis foi deposto aqui no Rio por uma jw1ta militar.
u nome de Epitácio Pessoa, que estava na Liga das Nações, na O movimento estudantil, naquele tempo, estava em
Europa. Não fosse isso, jamais um hom em do Nordeste, baixa, não estava muito atuante. j\hs havia os comentários, ha-
naquela época, poderia ser presiden te d;l Repúbüca. Mas o com- via as simpatias, as manifestações a favor ou contra o movimen-
promisso continuou sendo relativamente cumprido, porque de- to da Aliança Liberal. A cla.sse média, de um modo geral, achava
pois de Epitácio elegeu-se Artu r Bernardes, de i\1inas, que foi gue era necessário lima mudança; o país estava atrasado, não
de 1922 a 26; em seguida o paulista \X!ashington Luís, de 26 a 30, ma rchava para a frente, sempre o p redomínio dos politicos de
e aí deveria ser eleito um mineiro. Se!:,'Undo se esperava seria Minas e São Paulo... Havia um descontentamento que se alastrou
o presidente - antigamente chamava-se assim - de lvli.nas e ampliou o movimentO no sentido da derrubada de \V'ashing-
Gerais, Antô nio Carlos Ribeiro de Andrada . Mas Washington tOn LtÚs. Eu, no jornal, trabalh~ndo, estava informado rodo dia,
Luis resolveu não manter o compromisso e indicou, para subs- sabia do que estava ocorrendo. É claro gue fui simpático ao
tirui-Io, O governador de São Paulo da época,Júlio Prestes. Essa movimento de 30, à ascensão de Getúlio, à tOmada do poder
ruprurn levou a um grande descontentamento da classe política, pela revolução. E tive aí um trabalho imenso como jornalista.
sobretudo dagueles ligados a J..finas Gerais. Havia uma turbu- No dia em que \V'ashin gton Luis foi depoSTO, eu estava no Ditirio
lência politico-mil.ita r muito grande, que principiara em 1922, de l'Jotíâas e saia a todo instante para buscar informações. Os
com os 18 do Forte. D epois de 22, em 24, tinha havido outro telefones eram poucos, não havia cidio, televisào, nada disso, e a
movimento em São P:lUlo, o gual veio a resultar na Coluna Pres- gente tinha que ir colh er a noticia na rua, no local do fato. Lem-
tes, que fez uma travessia pelo país Inteiro. .l\1.uitos lnilitares jo- bro que fui ao .Ministério da Justiça para saber quem tinha assu-
vens aderiram a esse movimento, também participaram dessa mido o ministério, fui ii. Chefatura de Policia para saber quem
inquiet."1ção geral. tinha entrado, tudo isso a pé. Nesse dia, o Ditirio de 1\lotíciasdeu,
Ora, com essa desavença entre os p olíticos paulistas e se não me engano, 12 edições. Qualquer noticia nova que surgia
mineiros surf:,';u o nome de Getúljo \largas. Esse livro C!Jaló,1 7 -"Fubno assumiu o Ministério da Fazenda", ''Fulano assunuu
que tern-unei de ler, fascmante, traz uma noticia mu.ito correta a Chefatura de Políci a" - , saía um novo clichê. Os vendedores
sobre o surgimento da candidatura de Getúlio, que ha via sido mal chegavam na esquina, porque todo mundo comprava o
mini Stro da Fazenda e saiu do ministério para ser gove rnador jornal, queria saber o que estava ocorrendo.

"
o SALÃO DOS PA SSOS p e RDIDO S A ESCOLA D A V IDA

Eu próprio, na avenida Rio Branco. assisti ao incêndio a fa . . ·or do governo de \'(/ashington Luís. Apesar d e ser um jor-
do fOnlal do 13msi/. cio O Pais, que em o jorn:ll oficioso, ficava ali nal popubr, foi incendiada. Em geral no Rio d e Janeiro havia
na esquina d e Sete d e Setembro, c de A Cd/ira, do M:irio um estado de ins:lusfação, el e inquictaç1io, todos achavam 'lue
Rodrigues, na rua do Carmo. V i quando a muJtidão enfurecida era preciso caminhar para a frenre. O governo era muito ro ti -
entraV:1 nos jornais e co m eç:lv:l a joga r objctos - mesas, c7ldei- neiro... O C lobo cra oposicinnlsta. A Noitf, não. Era o jornal
ras, m:iquinas, tudo. Dali a pou co a fum açl., o fogo, o incendio. de maior circubção no p:ds na época, c era mais simpática ao
T iroteio na avenida Rio Branco! O Diááo da Noite era um jornal governo. O Dirín"o de Notina.r não era um jornal governista, mas
do Chateaubriand que ficava na esquina de Ouvidor com aveni- também não era um jornal de luta, de oposição. No começo
da Rio Branco - também peno. Eu m e lembro que, na bora procurava m anter uma certa ul1parcialidade. Depoi s, n3:o; de-
do tiroteio, me escondi no corredor d71 entrada do D itin'o da pois, acho que foi um jornal que apoiou muito a revolução. Mas
Noite. Assistia àquilo tudo, sentindo que alguma coisa ia mudar, e sempre com um critério fir.me de decência, de correção da dire-
corria para o jornal para dar as notícias. 1 ção. O jornal se impôs muito por isso. Orlando Dantas ficou
.M.inha participação foi essa naqu ela oportunidade. E como um marco da seriedade com que se deve conduzir uma
na facu ldade, claro, havia debates, discursos, sobretudo depois empresa jornalística.
da deposição de Washington Luís. Até que chegou Getúlio e
assumiu o pod er. E ai uma figura se destacou 'm uito - outro Um tio seu já se havia emlo/vido com os revo/ucioná,ios em R ectft.
"
'd ia fiz um discurso sobre ele: Osvaldo Aranha, que assumiu o O senhor tinha contato com ek aqui, converSdva sobre a revo/ufão?
:M inistério da Justiça e foi o organizador, sem dúvida alguma, Eu realmente tomava conhecimento de todo o des-
naquele primeiro momento, das forças gue assUlTl.Íam o coman- contentamento e da inquietação política que havia naqueJa época
do da nação. Era o 11.inistério da Justiça o palco o nde se davam através do meu tio Luís Celso Uchoa CavaJeanti, gue era oficial
os entendimentos, as conversações, e de onde saiam as procla- do Exército. Mas desde 1922, 24. ainda em Pernambuco, eu,
mações. Lá foi preparada a edição de uma espéCIe de ato garoto, ouvia aquelas conversas. Meu tio J oão Celso chegou a
instirucional, '1ue regulamentou o funcionamento do novo go- ser preso aqui no Rio, no governo Bernardes, porque estava
verno que se inst:tlava. Osvaldo Aranha foi uma figura de muito metido com os tenentes. O mais conspirador era o mais moço,
destaque, uma figura fa scinante. Era jovem ainda, um homem Paulo Celso. Quando nós viem os para cá, na casa do meu avô
de 36, 38 anos, mas tinha, segundo o sen timento geral, uma compareciam conspiradores: Eduardo Gomes, Cordeiro de
esp éçje de controle da siruação, ou de influência decisiva nas Farias, Silo Meirel es, João AJberto, Fiünto Mü]Jer... Toda essa
deliberações. gente eu conheci quando jovem. Agora, da conspiração em si,
eu tinha percepção, intuição, mas eles não iam me Contar...
Como a illlpremo abordava esses aconteúIllento.r? O Di ário de
S eu lio Luis C elso morava COIII seu alJÔ?
No tícias era favorável à Alianfa Libera/, não?
:M orava. Ainda era solteiro, solteirão, e morava com o
Era simpático. Mas havia também jornais conserva-
pai. Casou depois de 30. Esse grupo ia lá, mas eu não partici-
dores. O País, po r exemplo, o jO""IIal do Comércio ... A Crítica ficou
pava da conversa entre eles. Eu percebia que m eu tio recebia
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o SA LAO DOS PA SSOS PERD I DOS A I' SCO I A I)A V ID A

pessoas cujos nomes evidentemente eram pseudô nimos. l.....em - Não, o lado Lins e Silva não tinha auvi dade politica. A
b ro CJue um dia, C u d CV1:l. ter meus 16 anos, saí d:l casa dele, e não ser um tio meu, médico, (Iue cen a vez foi deputado esta-
tinha um sujeitO de chapéu, tiplcamence polici:t l, na cS'luin:l. dual. Era professo r ria r:acu lrbde de i\ 1c(ucina e da Faculdade
Quando pa ssei, ele me p erguntou :-c um amig()do meu lia CJue de D irei to. Ch:um\\:l-se Augu!'>to. Sua auvidade política era pou-
"
tinh:l saído de lá antes de mim era o c:lpitão Costa 1.citc. Eu co intensa, e sua projeção foi decorrente mais da sua atividad e
não s:1bi:l que era esse o nome dele, conhecia-o como '·seu" como ml:dico e professor. Não houve rx)líticos importantes no
.\ l\a ro... Dei a volta no quarteir::'io, para u homem nào me ver, g rupo Lin s e Silva. I-louve um p 1'imo que foi vereador; houve
\ olrel :l casa do meu :1VÔ lá no fim da rLLI Viscon de de l\bactc c um Outro, já primo cm segundo grau, que foi d eputado fed eral
Tl'ansmit.J :\ notícia. 1mediatamente VI que m eu tio começou :l numa legislatu ra ... D os Ueho:l Cavatcanu, hou ve um que leve
Tomar providências pa ra advertir o COSta Leite, porque ele ia des taque, o Adolfo Celso, tJll C fo i deputado federal por
VOltM para do rmjr lá. Pernambuco no período de 34 a 37. Ele tinha sido secretário de
Justiça do Lima Cavalcanti, qu e foi interventor e governador
CosIa Leite e Silo Nl eireles depois iriam pmticipar da revolta co- do estado.
J1l!(lIÚla de 35. Seu tio Lllis Celso segui{( aquela linha de esqmr-
da que se afastoH de 30? Que peso leve a Revolução de 30 110 sua forlllação política?
Não. E le foi apenas de 30. Era muito amigo do dr. Primeiro, teve o sentido de uma visão liberal dos acon-
"
Pedro Ernesto, que era um civil mas apoiava muitO os tenentes tecimentos, da comprees1s?io do mundo e da "ida não nun1a
na sua casa d e saúd e, era um conspirador. Depois, com Pedro posição conservadora, misoneísta, atrasada. Ao contrário: sem-
Ernesto prefeito, ele foi diretOr do Abastecimento da prefei- pre olhando para a frente, para o futuro. Tanto que logo depois
rura. Sempre foi um homem de posição muito conservadora, de 30 houve a Revolução Constitucionalista de 32 em Sào Paulo,
nào apoiou absolutamente o lado comunj sta, O bdo do Pres· e fiquei do lado do Getúlio, a favor da manutenção da situação
"
tes, como Costa Leite, Silo i'vleireles, Agildo Barata, Trifino da revolução, p o rque p ercebi, apesar de muito jovem, que o
Correia ... E sses, depois, marcharam para a esque,:9a. Luís Celso, movimento paulista representava um retrocesso. Não há dú-
não, ficou do bdo do João Nbeno, do próprio Filinto, do Cor- vida de que o movimento de 30 provocou uma abertura politi-
deiro de Farias, do Juraci Magalhães ... Havia um Seroa da Mota. ca muito grande. I nc1usive começavam a surgir as notícias e as
Eram os tenentes interventores, cuja anulção inspi rou, em 1931 informações sobre o movimento socialista no mlmdo. Nós éra-
ou 32, a marcha carnavalesca O teu cabelo não negtT. "Fui nomeado mos uma mocidade à procura de rum os, mas não sabíamos
teu tenente interventOL ." Até hoje essa marcha faz sucesso, muitO bem o que estava acontecendo. Sabíamos que d epois da
por sua m elo dia, an.imação e letra, que registra com ironia a Primeira Guerra Mundi a! houvera uma grande mudança: vários
nomeação d :lqueles jovens para os governos dos estados. impérios haviam caído, tinha-se instalado lU11 regime comunista
na União Soviética. M as as dificuldades d e comunicação eram
A família L i 11S e S ilva, que ficou fia .rua maior parte em
Pernambuco, também apoiou a Revolução de 30? T inha relorães grandes, não era como hoje. Hoje nós vemos um fato na China,
com João Alberto, com L ima Cavalcanti...? na Indochina ou na Alemanha na hora em que está acontecendo.

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o SALÃO DOS I'ASSOS ""ROIDOS A ESCOLA DA VIDA

Vimos o homem descendo na lua no momento e m Cjue o fato cadeira de direilo penal de 1911 a 1930, ano em que pediu transferência
par.l a Faculd:tde de DireitO do Rio dc J:meiro. FOI aind:t de purado federal
est::J,V;l ocorrendo. I ~ inteiramente diferente. Nós éramos por Sergipe (1 9 15- 191 7 c 192 1-1926), senador pelo m CS lllU .:st :ulo (1927-
des informado~. 1930) e embaixador do B ra~j l no Chile (1936- 1937), na 11;;li:1 (1939- 1942)
Não ttnho dúvida deque o m ovime nto de 30 influiu e na Suíça (1942-1943). l\l embro ti:! ,\ cademi:! Brasileir.1 de I.clr.ls:! partir
de 1963 e primo de Jorge Amado, rkStaeou-se por sua prod ução li te rária.
em mim no sentido de uma visão mais progres sista, mais avan - A seu respeito ha lund:t um episódio ItltcreSSlmfC do ponto de v ist:1 Jo
çada, no sentido do futuro. Veio ent:i.o o movimento da Cons- di reilo penal: ell) 1915 ln:ttOu a tiros, no Rio de Janeiro, por questões
tituinte de 34, veio em se.b'Uida O movimento comunista de 35, c pessoais, o poeta Aníbal Teófilo, e fo i absolvido. Ver DH BB, op . cito

aí me tornei advogado de presos políticos e criei um;"! ligação O c:1ricaturist:\ Raul Pt:dcmciras (1874- 19 53), irmiio do poeta l\Htio
muito constante, muito di reta, di:ina, com os elementos de es- Pederneiras, foi professor na Faculdade de Direito do Rio de J:mclro e na
Eseola Nacional de BeJas-Anes.
querda no Brasil. Meu irmão Raul, m eu companheiro de escri- ,
tório, era do Partido Comunista, mas eu fiquei naquela categoria Júlio A fránio Pcixoro (1876- 1947) diplomou -se pela Faculdad e de
Medicina da Barna em 1897. Nomeado diretor do Instituto Médieo Legal
dos simpatizantes. Nunca fui do Parrido Comunista. Fui muito do Rio de Janeiro em 1907, seis anos depois veio a ocupar a cátedra de
acusado de ser comunista, mas nunca fui. Sou fundador do Par- medicina pública na Faculdade de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro.
u
rido SociaJista, cornJoão Mangabeira, em 1947. Acho que o Francisco Campos, mIniStro da Educação de 1930 a 1932, instituiu
socialismo nào acabou. O tempo m os trará como é ilusória a reformas no ensmo superior e no ensino secundário. A primeirn se deu
euforia neoliberal que anda por ai. O sociali smo democrático alT.wês de dois decreto s edi tados em 11 de abril de 1931, comendo o es-
taUito das universidades brasileiras e dispondo sobre a organização da
ainda é a solução para a humanidade. É a minha utopia ... Universidade do Rio de Janeiro (posreriormeme Universidade do Brasil
e atualmente Universidade Federal do Rio de Janeiro). A principal mu-
NOTAS
dança na organização do ensino de direito foi o desdobramento do curso
em dois, o de bacharelado e o de doutorado, tendo sido excluidas do
.\1:trcclo Lavencre Machado, "Saudação do presideme da OAB", em primeiro as cadeir.1S que constinúam discipli nas de aperfeiçoamento. O
Prêmio "Iedalha Rlti Barbosa 1991. Agradado: E/:(mdro Ctll 'almr/ti Ljns t Silt-a, objerivo do eurso de bacharelado passou a ser puramente profissional,
op. cle istO é, a formação de práticos do direito, enqu:mto que o curso de douto-
, rado se destinava 11. formação dos professores. Ver AlbertO Venâncio Fi-
João l\hrtins de Can-alho Mourão (1872- 1951), bacharel pela Facul-
lho, Das arradas ao harhartlú lllo: 150 anos dl msinojun'diro no BraJtI, Op.ciL, e
dade de Direito de S:'io Paulo (1892), foi professor subStiUito de direito
DHB/3, op. cito
ei\'il e catedrático de direito penal da Faeuldade de Direi tO do Rio deJanei-
ro a partir de 1914. De 1930 a 1931 foi diretorda mesma faculdade e reitor
,
Carlos Lacerda (1914-1977), um mês ames de morrer, concedeu aos
da Uruversidade do Rio de Janeiro, afastando-se: desses eargos em vl rru- jornalistaS de O Estado dt S. Paulo uma longa entrevista que foi puhLcada
de de sua indicação para o STF, onde pcrmanl'ceu atê 1940. No governo em livro em 1978 pela Nova Fronreira, sob o tirulo de Dfpoim~nto. Foi
Artur Bernardes (1922- 1926) integrou a co mi ssão encarregada da elabo- aluno da Faeuldade de Direito do Rio de Janeiro de 1932 a 1934, quando
ração do prOJeto , com'credo em lei, do CócLgo de Processo C!\"ll e Co- abandonou o curso e passou a se dedicar :i criação da Aliança NaCIonal
merci:tl do Distrito Federal. J\-fais tarde participou da comissão criada em Libenadora (ANL), fund ada no ano seguinte. Rompendo com O movi-
cumprimemo do disposto na Constituição de 1934 para elaborar mn mentO comunista em 1939, a partir de então d edicou-se ao jornalismo.
código de processo civil e comercial uniforme para todo o país, cujo s ua- Em 1947, foi eleito \'er~dor no DIstri to FederaI na legenda da União
balhos foram conrudo suspensos pelo go\'crno federal dUr.lmc o Esta- D emocrática Nacional (llDN), mas renuncio u ao mandato meses de-
do Novo. Ver DHI3B, o p. cito pois. Em 1950 fundou a Tribuna da ImprwIa, jornal em que moveu ferre-
Gilberto Amado (1887-1969) bacharelou-se pela Faculdade de Direi - nha campanha de oposição a Getulio Vargas. Depulado fed eral pela
to de Recife (1909), onde viria a ser professor substitmo e catedrático da UDN / DF de 1955 a 1960, neste ultimo ano foi cleito governador do

90 9J
o SA I .Ã O DOS PASS OS PI;RO I DOS

recém -çriado esudo da Gu:mabara (1960-65). Apoio u o golpe mili tar de trO do STF desde 1963. Em lulho de 1966, con Uldo, deixou ~quele tribu-
1964, mas foi cassado pelo AI-5, em 30 de de zembro de 1968. nal para assumir o Ministério da Justiça, onde per1l1 anec\;u ;l1 é março de
\967, quando ramou posse o presidente Costa c Silva. Em 1969 foi in -
1\ ANL ((li fun dada oficialmente n n Inarço de 1915, reun i, ldo rcpre- cumbido de redigir a p I:Ol:]" maçào 'lue anunciava o impedimcmo de
senta ntes de difc,·e ll1 c~ conCil ies poJitic:\s c m torno dc um prog r:\ma de Costa e Silv;\, ror d ocnç~, e:1 forl11:1liza<;ào tb junu militar na din ·ç3n do
luta contra u fascismo. u imperi~l i sm(), o laufll11dio e a miséria. Foi fecha- gcwer no, med idas 'I " C t()m~ram a fO,-,ll:1 do I\l - 12. Ver DHBIJ, op. eit.
da r or decreto dr.: 11.7.1935, :\pús '1 dl1vu lb'1lçiio de mamfesto de J ,ui,
Carlo~ Pre~tes contra o governo Va rg:ls e a f:l\"or de um govcrno populnr 'l Ildefonso Simõcs I.opes (18(,6-1943) foi d eputado ('d(Tal pe lo ]\ ](,
re\·oluciomírio. r\ i\NL continuo u a anmr na clandestinidade até a edosiio Grande do Sul (190('- 19U8, 1tJ \ 3- 1')19 e 1922- 1930) e mirmtro da t\ gri-
da revolta cOIl1Unis\:\ de no ve mbro eh: 1935, 'luc desencadeo u intensa cultura no gove rn o EpitáclO Pesso ~ (19 19- 1922)_ Com ~ constiruiçiio .la
reaçiio da p:\rte do governo, rcsult:\ndo 11 :\ pri~iio t:H1to de memb ros Alianç:\ Libcr~ l , tornou ~<.:: 111<'::111bro de lim a comissão de parlamcm'lrcs
quanto de sirnpatizantt:s do movimento. Ver D/-//3/i, 0 p . ci r. formada em ago~to de 1929 r,lra din~ir a camp:lnh:1 em favor da ch.lpa
Getúlio V:1tgas _João Pc ~soa . Di.lllte da decisão <oh maioria gover nista d e
" Tambt:m ex-a luno do Ginásio Pernamb ucano, Orla ndo Dant as niio dar quorul/! às se s~õcs da Càrnara, para impcdit que os deputados
(1896-1953) projel.Ou-Se no jornalismo em ambito nacional. Em 1922 opdsicionistas se manifestassem, os integrantes da Alia nça Liberal passa-
trans feriu-se para o Rio de Janeiro, o nde dirigiu a Revúta Comercial t Indus- ram a promO'ver comícios públicos nas escadarias do p alácio T irad emes,
triai e foi diretor de publicidade de O jornal. Em 1928 fundou, com Fran- sede da Cí.mara dos D eputados. No dia 26 de dezembro de 1929, ingres-
cisco de Assis Chat.eaubriand e Rubens do Amaral, o Diário de São Palllo, sando no pabcio de volta de um desses comícios, Simões Lopes foi vio-
m as retirou- se da sociedade dev--jdo a divergências com C ha teaubriand, lentamente interpelado peio deputado situacionism pernambucano t\-Ia-
vindo a funda r, cm junho de 1930, o Diário dr iVo/ieitls, jornal que sairia de nucl Francisco de Sousa Filho. Luís Simões Lopes, vendo o pai ameaçado
circu lação em 1974. À frente do Diáno de Noticias, apoiou inicialmente a pelo punhal do deputado per nam bucano, agrediu Sousa Filho <jue, em
A liança Libera l e a Revo luçào de 1930, mas, com a orientação reação, o atacou. lldefonso sacou e ntão o revólver e desferi u do is tiros no
centralizadora e autori tária do gover no, foi retirando seu apoio a Vargas e deputado per nambucano, mata ndo-o imediatamente. No julgamento,
chegou a ser preso, assim como outros jornalistas, após a decretação do em agosto de 1930, pai e filho foram absolvidos por unanimidade, ten-
Estado Novo. Mais ta rde resistiu às pressões do Departamento de Im- do o tribunal comiderado que agiam em legítima defesa. L uis Simões
prensa e Propaganda (D1P), recusando-se a publicar noticias elogiosas ao Lopes (1 903-1994) foi presidente do Departamento Administrativo do
gover no. Em 1948, por seus relevantes serviços ao jornalismo, recebeu Serviço Público (Dasp) (1938-1945), fund ado r e presidente da Fundação
nos E stados Unidos O prêmio Maria i'vloors Cabo!, um dos mais im- Gemlio Vargas (1944- 1994) e presideme da Sociedade Nacional de Agri.
portantes do continente americano. Foi ainda deputado federal por cuJrora ( \ 960-1979). Ve r DHBB, op. cit.
Sergipe na legenda do Partido Socialista Bnlsikiro (PSB) de 1951 a 1953,
12 Sobre e~se episódio, ver a b iog~afi a de Nelson Rodrigues, A'!JDporno-
quando faleceu. Co mo parlamenmr, participou dos deba tes sobre a cria-
ção da Petrobrás defendendo o pro jeto encaminhado pela UDN em fa - grdftco, de Ru y Castro (São Paulo, Co mpanhia das Letras, 1993) .
/
vor do monopólio estatal do petróleo. Ver DHBB, op_ cit_ 13 Amónio Evaristo de Morais (1871-1939) foi um dos advogados crj-
• Carlos Medeiros Silva (1907- 1983) bacharelo u-se pela Faculdade de minai s mais destacados de sua êpoca. Formado em direito pela E scola
Direito do Ri o de Janeiro em 1929. Foi consultor geral da República Teixeira de Freitas d e Niterói (RJ) em 1916, desde 1894 já vinha aruando
durante o segundo gO\'erno Vargas (1951-1954) e procurador geral d a no Júri. Também em 1894 publicou o primeiro livro de Sllil el-:tensa obra
Repüblica no governo Kubitschek (1957-1960), cargo d o qual se exone- juódica, O jiid e a nom escola penal. Foi um dos fundadores da Associação
rou cm protesto contra o presidente, que deixara de nomeá-lo para uma Brasileira de Imprensa, do Partido Operário (1890) e do Partido Socialis-
vaga no STF. Após o movimenlO de 31 de ma rço de 1964, foi incumbi- ta (1920). Em 1905 publicou Apontam~ntoI dt direito opmído, primeira obra
do, pela junta militar, de elaborar um ato que formalizasse as primeiras sistemática brasileira sobre o di reito operário, na qual defendia o direito
transformações politicas introduzidas pelo no\·o regime, o que deu ot:Í- de greve que o Código Penal enquadrava como crime. Foi advogado de
gero ao Ato rnHitucional n"l (9.4.1964) . Em 27 de outubro de 1965 foi Edgar Leuenroth, um dos dirigentes da g reve de 1917 em São Pau lo.
nome:ado pelo presidente Castelo Branco m inistro do STF para uma das Participou da Campanha Civilista (1909-1910) e da Reação Republicana
vagas abertas pela ediçãO' do A1-2, que elevou o número de ministros de (192 1-1922), movimentos que promoveram respectivamente as can-
11 par:a 16. D esse modo, tornar-se-ia par de Evandro Lms e Silva, minis- didaturas de Rui Barbosa e Nilo Peçanha à presidência da Rep ública.

92 93
o SALÃO DOS PA SSOS PERDIDOS A ESCOLA OA V I OA

Tomou parte ativa na Aliança l..Jbcml e. após a Revolução de 1930, foi


,-
consulto r jurídko do rccém-cri:ldo i\'lmisrério do Tr:lb:llho. p:utldpnndo
d ;t eb boraç i o do D ecreto n" 19.770, de m :lrço de 193 1, ~l"e re~,'ub me ma ­
.. Trata-se do livro de Fernando ""o rais, Chalu. rtJ do Brasil, já clrado.
O svaldo A ranha ( 1894- 1960) foi mllli slro daJus úça e NegóCIOS Inte-
va O ~ sinJical.OS. Ver E l'I1rislo de Alo/'II/I Pilho (dfpl>ill/f'//(J; f 978) (programa rio res de novembro de 1930 :I d ezembro de 1931. A partlr de nO\'cmbro
d e História Oml , CPDOC-FGV, 1986). desse ~no. OC\lpoU cumulativ:lmente o l\l.tnl s!ério ria F:ll cndn, ~lé julho
de 1934. N o meado emhaixadur do Brasil em \X'a ~hinb'1:0 1l, ai perm:mc-
" Jo:io Romeiro N eto (1901- 1969) b"ch"rclO\l-se pela Fac uld:ldc , Ic Di - ccu até dez<:lllbru de 1937. Em m.u ço seguinte, aceitou assumir o l\ linl<;
rcito do Rio deJaneilo em 1924. Foi deputado estadunl no antigo estado lério J:l.S Relações Extcriun.:s. Sua sníd:l. ,b chancelari:!., Clll llgOSlo de 1944,
do RIO de Janeiro na legenda do Partido TrabalhIsta Bra<;llciro (pTB) ligou-se ao e pisódio da repressão:' Socie<bde Amigos da Amé rica, da
(1951-1954) e scc redrio do Ime rior c Jus tiça do RIO de JanelTO (1954- llunl cra vice-p rcsi(Jeme. A o lo ngo de 1947, exerceu a chefia da dclegaçl0
1955) no gO\'erno de F.rnani do '\lllu.tl Pci:<:oto. Em m aio de 1963 fOI do BrAsil, bem comO :l pn:sldcnci:l do Con selho de Seguranç:l da ONU.
nomeado milllSlrO do Superior Tnbunal i\l illtar (STM), ó rgão do {Iual Em outubro dc 1953, :ltcndendo :lO convife de Geuílio Vargas, voho u
foi vice-presidente no biênio 1968-1%9. Ver DHJ3B, 01" cito ao Ministério da Fazend a, onde permaneceu até O suiddio do prcsideme,
o em agostO de 1954. Ver DHBB, op.cit.
Roberto Tavares de Lira (1902-1982) bacharelou-se pela Faculdade de
Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro cm 1920. QuatTO anos de- • Carlos da COSta Leite (1895-1980) foi da mesma turma de Luís Carlos
pois, foi nomeado adjunto de promOtor, iniciando carreira na Procura- PreHes, SiCJuei ra Cam p os e Edua rdo Gomes na Escola l\tilitar do
doria da j usnça. Em 1933, tornou-se professor de direito penal da Facul- Realengo. Ativo participante dos movimentos tenentistas da deeada de
dade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. D e julho a setembro 1920, foi mn dos articuladores da ANL. Em vinude do levame comunis-
de 1962. ocupou o cargo de miniStro da Educação do gabinete parlamen- ta de novembro de 1935, refugiou-se no Uruguai até 1937, quando se·
tarista chefiado por Brochado d:l Rocha. A partir de então, vollOu a dirigir guiu para a Espanha a fim de lutar ao bdo dos republic:l.nos na guerra
o Instituto de Criminologia, que havia criado em 1954, e fez pan e de uma civil. Em maio de 1937, foi conden:ldo pelo Tribunal de Segurança Naci -
série de sociedades nacionais e internacionais de eriminologia e direito onal (1'SN) :I três anos e dez meses de prisão. Voltando ao Brasil cm se-
penal. Sobre esses te mas deixou uma vasta bibliografia. Ver DHBB, op.cit. tembro de 1941, foi prew e levado para a ilha Grande, de onde saiu graças
• Enrieo Ferri (1856-1929), criminalista e politico italiano, diplomou-se
à anistia concedida em abril de 1945. Ve r DHBB, op. cir.

pela Universidade de Bolonha (1877) com a tese A imputabilidade b"malla • Pedro Ernesto Batista (1884-1 942), nomeado interventor no Disrri-
t a nrgafiio do Iii·" arblirio que se IOmou, juntO com a obra N ovos horiZOllln to FederaJ em setembro de 1931, tornou-se, em abril de 1935, o primeiro
do direito t do proa/So pmal (1881), O principal manifesto da eseola prefeito eleito da capital federal. Acusado de en\'olvimenro eom a re,'olra
p ositivista italia na de direilO, representada po r ele próp rio, Cesa re comunista de novembro, foi preso em 3 de abril d e 1936 a mando de
Lombroso e Raffaele GarofaJo. Partindo, como ouuos positiyislas. de Filinto Müller, então chefe de policia do DE Em 24 de outubro de 1936.
uma concepção naturalista do homem seg{Índo a qual as ações humanas o TSN inieiou o sumârio de culpa de Pedro E rnesto c mais 155 indiciados
são determinadas por fatores externos, Ferri nega o livre arbítrio e seu no levante comunista da capital. Em março de 1937, Vargas decre tou a
conceito corre!::tto de responsabilidade moral. O come deixa de ser res- inten'ençào no DF, impedindo uma possívd volta de Pedro Ernesto à
ponsabilidade única do criminoso, p:lssando a ser determin:ldo por faro- prefeimra. Condenado em 7 de maio à rena de [rês anos e quatro meses
res fisicos e sociais. Tido como fundador da sociologia criminal, Ferri foi d e prisão, em 13 de setembro foi absolvido pelo ST M e aclamado po r
professor de direilO penaJ nas universidades de Bolonha, Siena, Pisa e uma enorme manifesração popular. P reso novamente em outubro, só
Roma (1884-1929) e eSteve na América do Sul, inclusive no BraSIl em em janeiro de 1938 obteve a liberdade. Em agosto de 1939, foi julgado e
1908 e 1910 para ministrar conferências e aulas uni\·ersitárias. Em 1919 absolvido pelo juízo da 7" Vara Criminal do Rio de Janei ro. Ver DHBB,
foi nomeado presidente da comissão de reforma do Código Penalltalia- 01" cito Para mais informações. \'er Mjchael Conniff, Urban politia in Brazil'
no, que publicou, em 1921, um projeto de Código Penal que foi trad u- lhe file 0/pop"/úm, 1925-1945 (piltsburgh. University of Pi ttsburgh, 1981).
ZIdo para diversos IdiOmaS, Influenciando marcadamente a cienCla do
direito e a leg1sbção de vános paises. Sua obra principal, Sori%gio mmi-
" Luís Carlos PreStes (1898- 1990) era capitio do Exército quando de-
cidiu, em 1924, participar de Unl movimento de sublevação contra o
nol, foi publicada pela p rimeira vez em 1881 com o titulo N o/iOS hOn"zonlti
governo do presidente Artur Bernardes (1922-26). Vineulando-se 3 re-
do dá'rito ( do prrxuso pmo/. Deputado, Enrico Fero aderiu ao marxismo
volta de São Paulo. comandada pelo general Isidoro D ias Lopes (julho
ortodoxo (1893) e diri~u o jornal mcialista At"anlil (1900- 1905).
de 1924), liderou um grupo de jovens oficiais do Rjo G rande do Sul,

94
'5
nüdeo o rigi nal da clu.mada Coluna Prestes, que nos três anos seguintes
percorreu o pais de poma a ponta. Depois de ncg.lf apolo à Revolução de 3. A a udá cia d a juventude
30, Prestes filIou-se ao mOVimento comunista e ,'ivcu cm r-, loscou de
Ilon:mbru de 1931 :l de"clnhrf' de 1934. Incu mbIdo peh Internacional
t.omunista d e prcp:lrnrl rt.:v,)lu ann:l<h nu Br.t ~il, regl'e~sou no Inicio de
1<)35. I"esse nl011KntO. ffll funrbda ,\ ANL, cujo Lmçamellto público se
cleu no di.l 30 ,1..: m;tr<,:o, c')' n ,) dISCU1·SO do eSll1fhnto: de d ireito Carlo~
L;lCCt,l.l s ugerindo n n0 111 0: ,I..: Prl'~tes pal·a ptesi,kntc ,Ic h,.nra da nova
o rga nização. A1l1nnJo nll clandesrini(l'ld e após o fecll:lmCIH<..I da AN L cm
julho, Prcste~ com:.ndou n derro tado kv,lnlc conmlliSl ;l de novembro.
FS f RÉlA NO J ÚRI
Preso em 5 de ma rç') de 191(" ~Ó (!li liberudo cm abnl d e 1945. Com o
fim do Estado N o vo cm Outubro de 1945 c a rcdcmrxrat1zação do pais,
fo i cieiro senador consrituinte pelo Dis trito Federal na legenda do Parti- o senbor eshT!OIJ 110 TiilJIIJlaf rio Júd ainda (lntes de se fonJ/OI; "ão foi?
do Comunista Hrasileiro (PCB), mas voltou ii clandestinidade: depois que Sim .,Isso está contad o n um dos m e us discursos, n'A
o pan ido tt;:ve seu registro cassado, em maio de 1947. Secretário geral do
pátino do tempo. Um dia, em dezembro de 1931, recebi o convÍ[e
PCB atê: maio d e 1980, P restes enfre m ou camo pcriodos de se"cra re pres-
são por parte do aparato policial-m ilitar, principalmente a pa rti r do golpe de J oão da Costa Pinto, que era um rábula, o u seja, um advoga-
d e 1964, q ua ntO sérias dissidências dentro do par udo. Ve r D uke Pando lfi, do não-diplo mado , para ir com ele ao Tribunal do J úri, para
Camarada! e compallheiro!: "'fll/ária r hútória do PCB (Ri o de J aneiro, Re lume
Oumará/ Fundação Roberto I\ larinho, 1995) . defender um passional. E u rinha 19 anos de idade na ép oca . E o
passional tinha no m e de passional: Otelo !
~ João M a. ngabcira (1880- 1964) foi de p utado federal pela Bahia em
dive rsas legislaturas (1909- 1911, 1915- 1929, 1935- 1937 e 1947-1950).
P a rtic ipou, ao bdo de E,·andro Lins c Silva, da fundação do PSB em 1947 Como o senhor conheceu João da COSIa Pinto?
e foi minisrro das Mmas e Energia c da J ustiça d urante o governo João Fazendo re portagens. Ele fa zia defesas, eu era Jor-
Goulan (1962-1963). Ver DHBB, o p. cit.
nalista e m e dirigia a ele. E ele também gostava de se dirigi r a
mim, porque gostava de ver uma noticia a seu respeito. E u fazia
relações com todos os que estavam aE.
João da Costa Pinto e ra estivado r. Tinha h avido um
crime no cais do pOrtO, ele e ra orado r d a sociedad e dos po rru-
ários, n aquele temp o nâo h avia necessid ade de diplo ma, e foi
designado para defender o colega, que e ra acusado de ter assas-
sinado wn outro. Tinha apenas o cu-rso primá-rio ! Foi fazer essa
defesa- m uito m oço, bem-falante - e b rilhou. Era wn expo-
sito-r m agnifico, talentoso, co m alma de cario ca ... G ostava d e
,
afagar um gato, de jogar uma pa rtid a de b ilhar... Torno u-se d e-
pois intendente m uni cipal - que é o vereador, hoje. Ai deixou
o júri, mas d epois voltou. Queria faze r essa defesa do Otelo e
me convidou para esrrear com ele, auxiliando-o. O promotor
foi Robeno Lra.
96
o SA I.ÀO D OS P ASSOS P~ROIDOS
A AUDÁC I A DA JUVEN T U D E

o ullhor diZ e", .leu dúcurso qfle eJse O/elo era "'" pro",otor, i\'[as antigamente, com freqü ência você abria o jornal e lia: '1vta-
Como IWI pl'f)!lIolor chamou para defendê-lo um rá /mla e seu jOI'em tou a namorada!", "N:t morada :t~·ed iu o noivo!" Eram os dra-
auxiliar? ma s da vida. E o julgamenro de um caso d esses representava
Ma s Costa Pinto cm um g rande advo~ do! O \"elho um espetácu lo emocion ante. QtJc m esmva sendo julbP.ldo cm
E va ri sto foi rábula até 1915. Gilberto Amado, que cr:"! cate- geral era um prim:í. rio, não era um rcincidcme, era um:t pessoa
dnitico de direito penal dal egcndâria F:1cu ldade de D ireito do qu e realmente tinha perdido:t c:tbeça. Alguém que tinha fc::ito
Recife, foi de fendido pelo Evari~to clu ando ele ainda não era o seu julgamento sobre a co nclu ta, o compo rmmento do seu
diplomado em direito. Cost:1 Pinto era um advogado b rilhame!
parceiro, do seu amante, da stJ:"! muUler, do seu marido, e entiio
O Otelo foi muito bem defe ndido, embora tivesse sido conde- passava:l viveraCjuelc drama. O ciúme perturbava inteiramente
nado. A defesa alegou pernlrbação dos sen tidos e da inteligência
o raciocínio da pessoa. Aquilo ia se tOrnando uma coisa mór-
- era o passional, o apaixonado, o ciúme da mulher leyando-o
bida, co mo se fosse uma idéia fIxa, até chegar ao ponto do
a um gesto de desespero. Era realmente diferente, a vida naCjuela
desesp ero. E depois, o arrependimento. Porque, na realidade, a
época ...
pessoa tinha matado o o bjetO do seu amor, da sua vida! Tanto
Como foi a histón'a de.r.re mINe? que os passionais não reincidem. Em geral vivem atormentados
Ele matou a amame. Ciúme. Achava Cjue estava sendo por esse drama, por um remorso que os leva até a sepultu ra.
enganado p or el a. Um:1 di scussão, perdeu a cabeça e acabou Era mu ito comum isso. H oje, os costumes são outros.
atirando. A amante ern uma viúva que tinha quatro filhos. Ele era
advogado, tinha sido promotor no E spírito Santo, conhecia to- Como foi a defesa do Otelo?
dos os advogados, sabia quem era bom, e sabia gu e Costa Pinto A defesa do Otelo foi exatamente isso. NagueJe tem-
era excelente. O crime foi aCjui no Rio, na rua Soares Cabral, em po se ex.igia um exame m ental, um exame psiquiátrico, para
L'l.ranjeiras. Toda vez que passo por ali me lembro d o primeiro poder pleiteara dirimente da perturbação dos sentidos. O OteJo
caso que defendi na vida ... foi submetido a exame, e peja primeira vez tomei conhecimento
de KretSchn1~r.j um autor d e psico logia Cjue criou a classifica-
O senhor dizia que a I)ida era diferente... ção dos esquizotímicos e d os cic1oómicos. Os cicloúmicos são
Era, e o crime passional era muito comum. A tal pon - aqueles qu e vivem tudo p ara fora - "Ioul en dehorl'; os
tO a co ncepção da vida era diferente que havia quase que um esquizotímicos são aqueles Cjue vivem tudo para dentro - " /ouf
direito do homem, reconh ecido peJa sociedade, de ma tar a en dedan/'. São os esquizóides, esses tipos esquisitos Cjue você
mulher se ela o enganasse. No interior, então! O su jeito era víti- en contra de \'ez em Cjuando. O trabalho de Kretschmer era
m a da chacota pública, perdia a respeitabilidade na sua cidade se recenóssim o, de 1929, 30, e ninguêm co nhecia. Veio o laudo do
não tira sse um desforço co ntra a mulher. D epois as mulheres exame psiquiatrico do Otelo, e lá dizia que ele era uma persona-
também começaram a ter a m esma reação, Eu próprio defendi lidade esquizoómica da classificação de Kretschmer... Costa Pin-
po júri algumas mulheres que matar::t m o s m aridos. "Isso era to e eu, absolutamente ignorantes diante daCjuilo. Ele era m uito
muito rreqüeme antigamente. Hoje o s passio nais são raríssimos. espirituoso, muito engraçado, e disse: "Seu Evandro, veja você:
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99
" "u .... ,,'- '" ......... >U" e," , v"'''''
V ~A LAV DUS Pi\SSOS I'ERD I DO S

Senado é um tribunal político que julga de consciência, muito


estão chamando o nosso cliente de filho da puta! ESCJuizo-
p:,recido com o júri. Os senadores não sào b ac haréis, julgam
tímico!" Fui procurar elemen tOS c lembro que li, na revi sta da
muit o l11:lis eücamcnte do clue apegados a critérios puramente
Facu ldade de Direito, um tra\):'dbo do Porto Canero sobre
legais ou doutrinárit )".
KreLSchmer. Eu nâo tinha a menor noção do que fosse. E aí
"prendi o que ~ ra essa cJassific:1çi'ío, :1$ reações dessas personali - o se"hor dJl',goll(I falar 110 j1/lgalllmJo do Otelo?
dades. Comei ao Costa Pinw, cera preciso vê-lo no dia do júri, Sim. I\ b s acho que ningu ém m e ouviu di reito nessa
reperindo aqUllo, (lue tinha sido objcto da nossa COllVcrs.l, como minha esr.réia, purclue eu estava muito emocionado. Falei antes
se fos se um professorl ... I ~ ra lima figu ra ex tr:lordinárial O ta- do Cosr.a Pinto, e mI:: lembro que citei in ici:\lmenlc UI1l:\ f('Ase de
lento dele! O que era es(]uizoúmico, esquizofrêruco, as suas lngenieros, :lu tor argentino muito cm voga na época: "Se algu m
reações... Ele tirava daquilo todo o parüdo para mostrar que a dia haveis lido o drama d e Shakespeare, as páginas do livro te-
reação m ó rbida do Otelo só po dia levar à conseq üência de que rào tremido entre os vossos dedos, como se a corrosiva obses-
ele realmente estava, no instante do atO, absolutamen te perrur- são do mouro fora capaz de indu7.ir-vos a aborrecer O amor."
bado dos sentidos e da inteligência, e que o júri deveria atender Era um passional típico, o desco to no Ottlo de Shakespeare. Ele
a essa pretensão. ,M as a acusação fOI feita pelo RobertO l ira, que mata e depo is tenta o suicíclio: se aplica a punição, se arrepende
fo i o maior promotor publico que conheci. E ele neutralizou a do que fez. Era m uito freqüenre a tentativa de suicídio depois
defesa com todo o empenho e talemo. do crime passional. Costa PintO depois fez a d efesa, e o júri deu
Eu m e recordo que na peroração do Roberto Lira um atenuantes, mas não absolveu. Foi um dos raros casos, naquela
jurado chorou. Era antevéspera de natal, e ele dizia que certa- ép oca, de condenação de passional.
mente a defesa ia explor:lr a d ata para p edir o perdão, mas q ue
o júri se lembrasse que aquelas quauo criancinhas nunca mais E o Jenhor atribui isso à qualidade de Rnberto Lira como promotor?
teriam o seu Papai Noel... Foi teravel isso, como fator emo- Exato. Roberto iniciou uma campanha contra a impu-
cionai e poder de convicção, de persuasão, sobretudo para um nidade dos passionais, achando que o amor não deve ser invo -
júri leigo. Porque o jurado, vocês sabem, julg a 9.e con sciência. cado como faror de destruição, de morte. Ao contrário, o amor
O bed ece a certos parâmetros legais na resposta aos quesitos, deve é con struir. Ele dizia que era preciso, até comO fator
mas tem muita liberdade de con sciência para julgar. Tanto que educativo, impedir que o ho mem punisse com a pena d e morte
muita gente discute se ho uve legítima defesa, se houve legítima a mulher que o enganou . Isso influiu, é claro, e o júri atendeu à
defesa da honra etc. - eu m esmo nu muito aracado no caso do sua argumentação, brilhante e veemente. Mas assim m esmo deu
D oca Street, não é? M as eu sempre digo: o jurado não tem uma pena pequena em relaçâo ao fato. O réu foi cond enado a
compromissos doutrinários. E le procura chegar a um fim, ele sei s anos de prisão.
acha que o sujeitO deve ser preso o u não deve ser preso. Pouco
lhe importa qual sej a a tese. É como no julgamento, por exem- o senhor leve OIdms experiências 110 T ribul1a/ do Júri por essa época?
plo, do Collor. Ele exigia do Senado que julgasse absolutamente Sim. Em fevereiro de 1932, doi s meses depois do jul-
de acordo com critérios e parâmetros puramente legais. Não: o gamento do Otelo, o então preto r Álvaro Ribeiro da Costa, que

101
100
o SAI,.ÃO D OS I'ASSOS P ER I) IDO S A AUDÁC I A D A JUV E NTUDE

depois ,"eio:l. ser mi,nistro e presidente do Supremo Tribunal lar um pedido de absolvição, n ão revelou maior empenho na
Federal,4 assumiu interinamente a presidência do Tribunal do condenaç:i.o, que solicitou de modo formal.
Júri c me nomeou p:lra defender um réu pobre: J:lnuário d:l O c0'1)o de jurados daquele mês foi cxtrcnumentc
Silva Campos, vulgo " Pi tombo". P c b primeirn vez defendi severo. Meu di ente dativo foi o único réu ab solvido, e por
sozinho, m a l COmp1cl:ldos meus 20 anos no m e:> ante rior. E unanimidade, na :-;essão judici ::í ria do mês de fevereiro. Devo
o promotor a cnfrcma r e ra Roberto L ira. t\ud:\.ci:l., temeri- acrescentar que dei tudo de mi.m cm f:lvo r do " Pi tombo". N:i.o
dade, petuJància? O réu j::í havia sido julgado uma vez, em 1924, deixei de ir um só dia, antes do julgamento, ao Salão d os Passos
c absoh"ido peJos jurados, por falta de prova da autOria. Era Perdidos para aguardar os jurados c, qu:\odo possível, falar- lhes,
acu sado de--re r dado uma facada num des:lfeto, nas proximi - para angariar simpatias. Se instado por eles, respondia a pergun-
dades do Arsenal de Marinha. O pmmotor apejou, e a Corte taS sobre a situação do processo, mas não ousava pedir-lhes que
de Apelação mandou-o a novo julgamento, por entender que votassem dessa ou daquela forma. Tenho a sen sação d e que eles
a decisão d o júri era contrária à prova dos autOs. Na o pinião me viam com boa vontade: um jovem ainda estudante defen-
dos desembargadores havia elementos suficientes para a con- dendo um réu pobre, nomeado pelo juiz, empenhado na v:itória
demção. da causa e co mpenetrado de que era respo n sável pela liberdade
Embora o acu sado tivesse maus antecedentes, o tem- do réu . Um principiante esforçado, um embrião de advogado
po deco rrido era um fator que ajudava a defesa. POStO em liber- que talvez pudesse dar certo...
dade havia mais de sete anos, o réu nesse pc,n odo ha...;a constitu- Lembro que, ter minado o julgamento, o réu tentou
ído família e tido uma vida regular. Foi preso numa cidade do me dar uma " facad a", não como aquela de que era acusado,
interior de :Minas Gerais onde trabalhava como engraxate. Fiz m as me pedindo lima ajuda porque estava sem dinheiro ne-
uma defesa com g rande entusiasmo, procurando convencer os nhum, nem para tomar o bonde quando saísse da Casa de D e-
jurados de q\.le sua pri são perdera o objeto e a oportunidade, tenção .. . D e qua lquer forma, a ex p e ri ê ncia fo i válida e
po is ele demonstrara, com sua boa conduta durante tão largo envaidecedora para o jovem principiante que defendia sozinho
espaço de tempo, que estava perfeitamente adaptado à vida em pela primeira vez.
sociedade, já agora com uma família a sustentar. E por ai fui ... Ainda em 1932, que era o m eu quarto e último ano de
Roberto Lira me apaneou algumas vezes, e diante das suas in- faculdad e, trabalhei como urna espécie d e estagiário e auxiliar de
terrupções mostrei-me irritado. Ele me acalmo u dizendo que os João Romei ro Neto, advogado de grande d estaque, e com ele
apanes eram uma " pro vocação", para que e u não perdesse o fiz um julgamento. Recordo-me do caso, muitO curioso: era um
vigor na minha argumentação. Havia p ercebido que eu fica va motorista de praça acusado de um duplo homicídio, cometido
mais vibrante e mais convincente quando espicaçado por suas em lugares diferentes. N unca esqueci o nome dele: Gentil More-
intervenções. Com o passar dos anos, conhecendo m elhor no Alves B rasil do Nascimento. P o r curiosidade, o acusador
Roberto Lira, de que m me torn ei amigo frate rnal, compreendi particular, o ass istente do Mini stério Público, foi exatame~te
que ele também estava convencido de que a condenação do réu João da Costa Pinto. O promoto r foi, ourra vez, Robe rto ~ra.
nenhuma vantagem oferecia à sociedade. Embora sem forrnu- A acusação procurava d emonstrar que o réu, como n:otonsta

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o SALÃO DOS l'ASSOS J' I:cRO IOOS A .... UOÁCI A DA JUVENTUDE

de táxi, tinha se deslocado do local onde comerera o primeiro o fato de que o tenente, embora casado, sedUZira uma irmã das
crime pnr:l o loc;ll onde cometera o segundo, e por isso discuth- vítimas. Não houve morte, e fi. acusaçao ::ttribuia ao réu duas
se muito:l questão do percurso, do tempo. Também cra crime tentaU v:ls J c homidwo. O ju,iz que pronunciou o réu foi o g r:1n-
passional: a :lcusação cm ele que ele 11:1.vi:1 ari r:1do na mulher e de Nelson I [llngria,S c () auxiliar de 3cusaç:;o foi o aclvogado
depois. num o utrO local, no :lm:lI1te. Foi condenado a lima pena :Mário G :l.Il1eiro, C]ue linha certa notoriedade por scu talento e
e1evad:1, acima de 20 anos de prisão. Na apdação, a sentença ilusrração ma .. el~ muilo pcrSQn:llisra, ataCav.l ::.emprc o :lclversá
foi confirmada, de forma que se tornou definitiva, passou em rio e d eixav:1 de lado a demonstração J:l tese que defendia.
julgado. N:1quela ép oca , permiti a- se contudo a intcrposi ç?io Duran re o julb>nmcllto houve um inciden t-e nlrlis sério: qu<tndo
de uma revisão junto no Supremo Tribunnl FederaJ, o que F!%c:- ter minei minha deJes:l e saí da rribuna pa ra o Salão dos PassOS
m os com êxito, porque o Supremo reduziu a pena para seis Perdidos, o pa i das vítimas, coronel do Exército e, como o réu,
anos de prisão. professor do Colégio Militar, ten tou me agredir. Como não
D efendi também nesse ano, novamente com João da conseguiu, pela intervenção de terceiros, ameaçou fazê- lo onde
Costa Pi nto, um caso singu lar, po rque a acusação co n tra O réu, m e en contrasse. Os crimes fo ram desclassificados para lesão
que se chamavaJúlio Esteves, era d e que ele havia atirado álcool corporal, e o réu condenado à p e na de um ano de p risão. Nesse
sobte a am ante e riscad o um fós for o ... r-.hs ele negava termi- caso aind a funcionei ao lado de Romeiro Neto. D aí por diante
nantemente isso, e alegava que era swcídio da mulher. Ninguém as causas de júri foram se sucedendo, e seria impossível relatá-las
havia assistido ao fato, eJe foi julgado pelo júri e foi condenado todas na sua seqüência cronológlca.
a seis anos de prisão. Essa pena reduzida reveJa que havia uma
certa dúvida quanto à aceitação da acusação. Até hoje não estou Como eram designados naquela época os defensores de réus pobres?
convencido de q ue o acusado tivesse areado fogo às vestes da. Não havia defensoria púb lica. Os réus pobres eram
mulher, mas o fato é que ele começou a cumprir a pena, depois 1 defendidos por advogados escolhid os e nomeados pelo juiz,
houve o livramento condicional e foi poStO em liberdade. Uma sem remuneração. O juiz presidente do Tribunal do J úri, no ftm
situação p itoresca foi q ue uma irmã do réu, sem que eu tivesse do mês, quando estava preparando a lista de julgamen tos do
cob rado nada, aproximou-se e me deu um envelop e. Afastei- m ês seguinte, convocava os advogados que lá costumavam fun-
me pressuroso, abri-o, e lá estava uma nota de dez mil-réis, o cionar, ou outros de seu conhecimen to, c, antes de os nomear,
que hoje d eve ser equi\Talente a dez ou vinte reais. D ecepcionado fazia um apelo ao seu espírito d e sacrifício para colaborarem
embora, encarei o faro com bonomia. Guardei-o, para Contar com o p resógio da instiruição e o bom fW1cionamento da Justi-
mais tarde aos meus netos a «fortuna" que recebi como primei- ça. Acontecia que os acusados pobres tinham , de vez em quan-
ros honorários profissionais ... do, grandes advogados para defendê-los. Sucedeu certa vez que
D e muitos juris participei, nesse ano de 1932. Como Mário Bulhões Pedreim foi nomead o pelo juiz Edgard Costa
vêem, comecei com muüo ímpeto... Houve também o caso de para a defesa de um processo complexo e realmente singular:
um tenente farmacêutico do Exército,josé Peres E struc, que um cego, casado com uma mulher que tinha um amante, apare-
atirou contra dois alunos seus do Coléglo Militar. O motivo foi ceu enforcado e morro na parte inferior da cama do casal. As

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o SALÃ O DO S I'AS SO S PEROtOOS .... A uoAc l A O AJUVE NTUDE

suspeitas recaíranl, n:ltu ralm entc, sobre a m ulher e o :lmantc. É claro que o júri absolveu po r unanimidade de votos,
Ouv ido s separad amen te, ambos con fessara m a :Hlto ri.l do cri- e m meio à emoção geral. E O jui z, cumprin do unKl pmxe, ag ra-
me, assumindo Gl.cb u n1 a responsabilid:lde e se dizenJo cad :l deceu - nesse c\ja cm te rm o s m ais calo ro sos - os st: t' viços
um autor exc!u$ivo do fatO, sem a participação fisica o u p:-;icolô- p restados g ratuitamente à Ju sciça p elo :1.d vogad o, que evitara,
gica do o utro. A tais confissões se de u ape nas o valt)!" intrínseco co m seu talento e cultura, q ue do i ~ inocen tes viessem :l ser víti-
gu c eh s continh3m , sem se atentar pa ra a es tranh eza d:1. 3UIO- m as de um crro judiciário e a tna f)~rassem no cárcere m uitOs ano s
acusação e da ênf:lse dada peJos dois aman tes, pessoas sim ples de prisão por uma acusação inj usta, causad a por alx lrêncl:'\s cru-
e ignorantes, à afirmaç3:o d3 inocên cia d o ou tro con fircnre. A éis. A J ustiça tem ~c u s m o m en tos gnllldioso s c de gló ria . E isso
perícia m édico-legal concl uiu pura e simples m ente ter sido a depende muito dos ho m en s que a compõem: :ld vogados capa-
mone cau sada por enforcamentO, descrevendo as lesões enco n- zes, promotores com o sentido ex ato dos seus d everes e juízes
tradas no pesco ço, e a policia não teve dúvida : aceitou as duas com a compreensão de que os réus são seres humanos e podem
confissões. ser inocentes o u vítimas de armadilhas que o destino tece e pre-
Os réus foram porém p remiados com a nomeação de para do modo mais imprevisto e desgraçado .
seu advogado de oficio. M:irio Bulhões Pedreira fez uma defesa
magistral , no fundo e na forma. Do p OntO d e vista técnico de- PRO FISSAQ : AD VOGADO Cru:r.'IlN AL
monstrou, é bem o termo, com vârios tratados de medicina
legal, desd e o de OrfLia, o mai s antigo de todos, até os mais Como prosseguiu sua vida profissio11al depois de formado ?
modernos , gue as lesões e ncontradas no pescoço da vitima, N o fim d o ano de 1932, diplomei-m e em direito e
mesmo de aco rdo co m o gue afirmava a períçja, evidenciavam tive a audâcia e o atrevimento da juventude de montar m eu
que o caso era de suicídio. E na parte do exame das confissões, pró prio escritó rio. D ecidi d ei.." ar o estãgio com Ro m eiro Neto
convenceu a tOdos, sob o pomo de vista p sicológico, d e que as e me tornar advogado so zinho, por COnta própria.
autO- acusações eram fals"ª"". Os amantes, quando confessaram
nos interrogató rios policiais, sem se terem comunicado um com D evia ser difícil para um jovem de 21 al10S montar U1II escritório,
o outro, supondo cada um que pudesse ter o seu par praticado c011seguir recursos e ludo o mais...
o fato, pelo amo r gue se dedicavam, tiveram o desprendimento Não era muito difícil, po rque o escritó rio tinha apenas
de se inculpar falsamente. Na realidade nenhum dos dois tinha uma salinha pequena e uma saleta de espera. Havia um pequ eno
cometido o crime: o caso era de suicídio. O brilho e a lógi ca da grupo de madeira, muito tosco, modesto, na sala de espera e,
defesa extasiou os assistentes. Mais que isso. Terminada a defesa, internamente, uma secretária co m duas cadeiras ao lado, para eu
o promotor Alfred o Loureiro Bernardes, que mais tarde veio a atender aos clientes. Fi cava n:l rua São José, nO 19, em um d e
ser ministro do Tribunal Federal de Recursos, pedi u a palavra uma série de prédios pequenos, de do is andares, o nde hoje é a
para a réplica e se retratou d a acusação feita. Em gesto surpre- g aragem Meneses Cortes. Havia uma singularidade: é gue em-
endente, disse estar convencido , diante da d efesa apresentada , baixo do escritório fi cava uma casa d e secos e m o lhad os, q ue
de que os. réu s eram inoce ntes e po r isso pe(üa sua abso lvição. negociava com queijo, e po r vezes subia um mau cheiro quase
,~

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o SAI.ÂO DOS PASSO S PERDIOOS A AUOÁCIA DA JUVENTUDE

insuport.,ivel... O aluguel era muito barato, 150 mil-rélS por mês. hoje em dia, ao in vés de o s ficharias conrerem crimes de sedu-
No começo eu tinha muita dificuld:1de p:1ra pagar e cheguei ção, contêm muitos casos de tóxico, de entorpecentes. Os escri-
mesmo a fic:1rdcvendo alguns n lcses ao sublocador, um médi- tórios defendem muito:l acusaç.ão de uso de drogas por parte
co que ficava na s"l<-1. de freme para a rua e sublocava as duas de jovens, ou ele tráfico ele drogas. E também são frc<]üentes
~a1as de trás. :Mas eu continuava trabalhando no Diário de !\/()tícfas. crimes d e sonegaç?io 6sca l e crimes contra a 3dministração.
Duranre alguns anos fiquei fazendo, simultaneamente, a reporta- A m odificação nos escritórios ele advocaci:1 criminal se
gem de foro e a advocacia. d eu sobretudo a partir de 1938, qU:lndo fOI editada a primeir:l
Lei de Econ(~mia Popu.b r. l~ra uma lei gue punia os monopó-
6
A advocacia nagllela época era mu..ito precária. O 8r:1.-
sil aind:1 era um país muito pobre. Não havia lei de economia Lios, os cartéis, os crimes de Infração do tab elamento de preços,
popular, não havia crimes financeiros, crimes económicos, de a gerência frauduJenta de empresas, a usura. Uma lei que passou
forma que a base do advogado criminal era a advocacia do júri, a punir o burguês, o comerciante. I sso ampliou muito a acivida-
onde, de quando em vez, havia um crime passional, quer dizer, de do advogado penalista e permitiu que a advocacia criminal
havia um cliente de classe média que podia remunerar modesta- começasse a ser melhor remunerada.
mente o advogado. Havia brigas de rua, incidentes banais, atro-
pelamentos .. Havia um crime mais o u menos freqüente , que era Por curiosidade: como cra tratado um aúne de .feduçao naquela época?
a apropriação indébita, sobrem do depois que surgiram os cassi- O crime era a sedução da mulher jovem, abaixo dos
nos. Para ver como o jogo é nocivo: caixas de bancos e de casas 21 anos de idade . A prova que a acusação fazia era de que tinha
comerciais, que tinham oportunidade de tirar dinheiro para ren- havido o namoro, e a moça tinha se entreg ado convencida pela
tar a sorte no jogo, confiantes em que iam ganhar, perdiam e promessa de casamento do rapaz. Ele acabava o namoro, desa-
acabavam processados. De vez em quando havia um crime parecia, e vinha a queixa. A defesa consistia, freqüentemente, em
contra a administração pública, uma acusação de peculato, de tentar provar que a moça não era séria, era namoradeira, tinha
prevaricação ou de concussão, mas era raro. Não eram freqüen-
I outros casos, tinha wna educação livre ... Que o namoro não era
tes as infrações que pudessem levar um cliente a procurar um I
I-
na porta de casa, que ela saía com o namorado... A prova era
advogado criminal . O forte na época era o crime de sedução: o I sempre nesse sentido. Mas havia muitas condenações. A pena
jovem estudanre acusado de seduz ir a namorada. O fichário do I era de um a quatro anos de prisão. Freqüememente, também,
meu escritório tinha um grande número de processos desse tipo. havia o casamento, que lmportava na extinção da punibilidade.
É curioso como os motivos económicos fazem variar O acusado se submetia à pressão que havia para o casamento,
o fichário dos escritórios. H oje observo que os escritórios dos para se livrar da prisão. Mas muitas vezes o casamento nào
jovens advogados não têm mais uma só fi cha de crime de sedu- vingava: era apenas um aro formal para evitar a condenação.
ção. Isso desapareceu, embora ainda seja conservado no Códi- Outras vezes, nào, o casamenro continuava. Mas era, clara-
go PenaL Aliás, na comissão para a reforma do Código, que mente, um casamento forçado, porque nào havia o desejo do
estou presidindo no momento, nós evidentemente ellininamos acusado de casar. Quantas pessoas, eu me lembro, defendi
do texto esse crime, assim como o de adultério. De toda forma, naquela época ...

<O, 109
o SA I...ÀO DOS ' · ... 5505 PERDIDOS A AUDA clA DA JU VEN TUD E

Como o senbor formoll sua clientela quando abriu o esrntório, tào do governo O utr1l, Roberto lira, Carlos Su ssekind de M endon-
mOfo? E como firmou S('ll J/ome? ça e Tc:óftlo de Andrade.
Primeiro. fu i me relacionando no Fo ro devido à ati- Também cm 1934, o D ítÍtio de j\Jolídascntrou em Crise
vi(bde lornaüsucll. AconlccclI muito de eu ser indicado por fin:lnccira, começOU:l retarchr o pagamento, e resolvi !'air. O
promotores ou juízes. Naturalme nte, eu também tinha co1cga~ secretário do jornal, Figueiredo Pim entel, d e quem já f:lki, me
da advocacia cível C]ue confiavam cm mim e m e indiovam. O convidou para trabalhaI: com ele ,em A Nflf,io, um jornal do
escritó rio de ad vocacia c rumnal é muito abastecido pelos cole- João Alberto Cjue fOI criado ent:i.o, c :lcei tci. Algu m tempo d e-
gas do cível, C]ue, C]uando se us clientes tcm C]ualqucr ptoblema pois Pimentel foi para A Cazelll de NOlícias, m e convocou, e fui
de r1:!tll reza criminal, os enc;'\minham para nós. Acho, sem auto- trabalhar lá, sempre na seção forense, mas já aí com mais desen-
elogio, que eu me mOstrava trabalhador, dedicado ao cliente, voltura. O jornal me remava pouco tempo, era um bico que eu
revelava estudo, competência na defesa. I sso foi se propagando, fazia. porque sempre havia um salário, peC]ueno que fo sse, para
e foi se formando uma rede de clientes. Começaram a surgir me manter, uma vez que a advocada crim.inal ainda era precária.
acusados C]ue me chamavam por indicação de outros clientes, Mas fui me desenvolvendo, e aos poucos fui sendo procurado
que achavam que eu os estava defendendo com eficiênci a, com para a defesa de causas maiores. Mais adiante, já em 1938, de-
dedicação, estava dando toda a atenção ao seu caso. Comecei a pois da Lei de Economia PopuJar, de vez em C]uando ha\'ia
me tornar conhecido e recebia chamados de presos na Casa fraude cambial, havia causas de envolvimento em estelionato
d e Detenção - naC]uela época havia apenas duas casas de re- etc., e aí passei a rer uma clientela que remunerava melhor meu
colhimento dos presos: a Casa de Detenção, onde ficavam os trabaU10 de advogado criminal.
réus que aguardavam julgamento, e, ao lado dela, a Casa de Cor-
reção, dos réu s condenados. Eu ia à D etenção, vez por outra, 1\,1esse perfodo inicial de seu escnlón'o houve alguma causa que
conversar com clientes que me convocavam. Comecei a fazer chamasse mais a alenção?
defesas sozinho na tribuna do júri. Fui me firmando e me im- ./ Sim. Em 1934, houve um júri de grande repercussão,
pondo por minha atuação, pelo estudo, pela dedicação no C]ue eu acho que é um marco na minha carreira. Um cornissário
acompanhamento das causas. de polícia chamado Bias Pimentel Filho, por um problema fun-
No começo eram processos peC]uenos, mas meu cs- •l cional, havia assassinado, na porta da Chefatura de Polícia da fl1a
critório vivia permanentemen te cheio, e essas peC]uenas causas da Relação, um oficial-de-gabinete do chefe de polícia, Filinto
formavam um volume com que eu podia viver modestamente. Mül1er. A vitima tinha o sobrenome Deschamps Cavalcanci, era
Em 1934 ascendi profissionalmente e mudei meu escritório para filho de um general que depois veio a ser ministro do Supremo

a rua 10 de Março, nO 17, 50 andar, onde fiC]u ei 27 anos, até ir _ hoje é Superior - Tribunal !vrilita/ O réu fora julgado,
para a Procuradoria Geral da República. Nesse tempo tive defendido por dois grandes advogados, Mário Bulhões Pedrei~
co mo companheiros grandes advogados e ilustres professores: Ta e João Romeiro eto. Não me lembro do promotor, mas
Adehnar Tavares, depois membro da .Acad emia Brasileira de me lembro que os acusadores particulares tinham sido o velho
Letras, ]osé Pereira Lira, depurado e depois chefe da Casa Civil r Evaristo de Morai s e um professo r de Niteró i chamado Teles

110 " ,
o SACÃO D OS PASSOS P ERD I DOS A AUDÁC I A DA JUVEN rU OF

Barbosa. E o réu tinha sido absolvido no primei ro júri. l a haver OJjveira Neto, autor de uma monografia. E eu então me prepa-
um segundo julgamento, c ln11 cliente meu, jovem, funcion :í.rin rei como ni nguém. Fiq uei doutor, autodidata, em epilep sia ...
da prefeitura, ll uC eSTava açu~ado por um procc~so de brig:l de 1\ aCUS:1ç~0 tinh:l três horas, e o tempo foi divld ido d :l
rua, me propôs, por partI.! (1:1 viúva eh vítima, funciona r como seguinte forma: o promotor f:l\a ria um::! hora, Teles Barbosa,
auxiliar de acusação. Era um:l. jovem senhora, por sinal muito meia hor~l, eu, u ns 20 mil lutOS, e a hora restante seria do velho
bonita, mocinha. Fui consutufdo por ela, e iss() me permITiu ir à E vari'ito. Acho que m e saí bem, falej com desenvoltura, com
tribu na d0 júri ao lado do velho Eva risto de Morais, do Teles clareza, revelando conhecimento sobre o lema, com citação de
Barbosa e do prmTIotor, CJue era o Ru fino de Lny, contra, novrt- autores, e o meu tcmpo chcgou ao fim . Eu d isse ao velho
m ente, os rt d vog~! do s qu e j5 haviam fun cionado no primcin> ,
lê..vCl.n.sto: , ' Bcm, agn ra vou passar :l IXl I:IVl'a... "[':'. Ie : " N ao,
' voce,
júri, Bulhões Pedreira e Ro m eiro Neto. E u tinha 22 anos d e esd indo muüo bem. Conti nue, que eu vou me reser va r para rt
idade e pude ser ouvido por todos os grandes advogados da réplica." E me dei.xou o tempo d ele inteiro. Fui então d esenvol-
época. vendo a acusação, com imeresse do púbJjco, e acho que aquele
foi o meu g rande di a para m e afirmar perante todos, ainda
Por que ia haver um segundo julgamento? muito jo vem, quanto à minha capacidade profissional. O tempo
Se a decisão tivesse si do proferida manifestam ente terminou, e eu ainda não tinha terminado toda a acusação . O
contra a prova dos autos, como foi, a lei permitia ao Trib unal velho Evaristo m e disse: " Peça prorrogação." A lei p ermitia
de Apelação que mandasse o ré u a novo jú ri, uma única vez. prorrogação por uma hora, o que pedi, seguindo o conselho d o
Não p er mitia Cjue se revogasse a decisão do júri, porque, sendo mestre. Essa prorrogação era dada pelos jurados, a quem eram
uma decisão d e con sciência, ela é d e finiti va, soberana e distribuídos ca rtões com a palavra sim e a palavra não, que eles
°
irreformável. Se segundo jll.ri confirmasse a decisão, o caso colocavam numa urna que o o ficial de justiça recolhia. Rom eiro
estava liqüidado; do contrário, poderia haver recurso, apenas por havia anunciado a vitória, mas se os jurados estivessem preveni-
alguma nuJjdade e não m ais pelo méritO. dos contra a acu sação, nào teriam dado, com o me deram, a
Recordo-me bem que quandcyse formou o conseU1o prorrogação, por seis vOtOS contra um. P ude fala r mais uma
de sentença, Romeiro Neto, que era mais expan sivo, no Salão hora, e isso, para mim, fo i realmente uma o po rtunidade 'Iue eu
dos P assos P erdidos, cantou :l. vi tória final: achava que a com- não teria nunca. Foi um acaso. Na realidacle falei duas horas e
posição do conselho lhe era inteiramente favo rável. N1as eu ti.nha tantO, mais do que toda a geme, e fui muito felici tado pelo su-
feito a reportagem do primeiro julgam ento e conhecia perfei- cesso da exposição. Enfrentei a capacidade, o talento e a com-
tamente o debate, as teses levantadas: a argilição da defesa era petência de l\.{ário Bulhões Pedreira, que chegou a se irritar, al-
de que o réu era epilético e por isso irresponsável. A defesa gun1as vezes, em apartes que me dava, porque eu conrestava a
principal da pa rte récnica tinh a sido feita por Bulhões P edreira, sua tese da epilepsia. Como eu já o tinha ouvido no primeiro
e Romei ro Neto havia defendido a matéria de fato, citando júri, sabia a posição cm que ele se colocava, e pude citar autores
vários livros e autores que anotei. Lembro que um se chama- contrariamente àquilo que de pIei reava. O fato é que tivemos
va D ubuisson, os OUtrOS eram Afrânio Peixoro, Sousa Lima e êxiro, e o réu foi condenado. E isso me projetou, me tornou

112 113
o SALÃO D OS PA SS OS l'ERD1DO S A AUDÁC I A DA JUVENTUDE

conhecido dos g randes advogados da época . Pouco tempo de- guinte, vi sandoum objetivo determinado. Minha vi da foi uma
pois, Mário Dulhões Ped reira viaj:lVa p:1ra a Europa. Ele tinha sucessão d e :lcasos felizes. O jlll.i . como se costumava dizer, não
um grande escritório e m e pediu p:1ra ficu tomando conta d:1s dava pi10 a ningu ém, mas podia talvez dar um pouco J e gló ria ...
suas cau sas dur:iOrc o peciodo da viagem, o qu e reve bva confi- Apesa .: de ludo, exercia um fascínio sobre os advogados, por-
ança, mostrav,l que Cu tinha realmcnte conseguido me ~firm:lr que CI:a a vitrine do Foro: era ali que o ad vogado se revelava .
perante eJe e os demais participantes e assistentes daquele d cba- No dja em que havia julgd.mcnto com advogados famosos,
te. O vel ho Evaristo tambérn passou a me tr:1tar com muita bons expositores, a sala e nchia, todo mundo queria assistir ao
s impatia. Eu :11 jâ freqlicntava a Sociedade Brasileira de espet::kulo, que é muito interessante, é um drama da vida (Iue se
Crinüno logia. E ra um principiante estudioso, fazia palestras, es- resolve naq uele dia, atl'avês de um debate ent re as partes e,
crevia na Revúta Bm.Jileira de Giminologia. Adquiri certO destaque, depois, do julgamento secreto dos ju rados. Aquilo empolgava
tive que amadurecer cedo. a assistência, havia correntes, havia torcedores da acusaçào e
Há uma curiosidade que quero registrar: a relaçào en- torcedores da defesa. Muitas vezes h avia apostas quanto ao re-
tre esse julgamento, em 1934, e o caso Doca Street, em 1979, 45 suJtado, prognósoéos: quantos jurados iriam cond enar, quantos
anos d epois. Quando acabou o julgamento d o Doca Streer, saí iriam absolver. O júri era um espetáculo sedutor. Eu me deixei
do júri com êxi to e fui para a casa onde estava hospedado, no fa scinar p elo primeiro julgamento a que assisti e lá fi q uei até
Peró, em Cabo Frio. Entre as p essoas que entraram na sala- hoje, nào sai mais.
havia muita gente - , um jornalista m e apresentou a um cava-
lheiro baixo, de cabeça branca, e disse: "Este aqui ê o Bias \, A AVENTURA DA I I\.'TENTONA E O FASCISMO ru PI NIQUlM
P imentd." Olhei, me lembrei daqueJe tipo fisico, e eJe m e disse:
"Sou o próprio, dr. Evandro, que o senhor acusou, mas nào D epois do flIo/:iJllt1lto comunista de 1935 o senbor iria se tomar
tenho nenhum ressentimento, nenhwna mágoa, porque o senhor ,
conhecido como defmsor de pre.Jo.J políticos p erante O Tribunal de
cumpriu o seu papel." E sse episócüo me deixa perplexo e mos- S egurança Nacional. Como foi esse p rocesso?
tra como a vida cria situações imprevisíveis, inesperadas e capri- Vamos explicar. Em novembro de 1935 houve o mo-
chosas ... Às emoções d aquele dia veio se jun tar mais essa, VlmentO comuni sta. Antes, tinha havido a criação da Aliança
Nacional Libertadora, reunindo civis e militares gue tot:naram
inimaginável, que m e fazia lembrar a :lção do advogado em , parte na Revolução d e 30, m as estavam descontentes com O
outra grande causa, em longínquo passado.
d esenrolar dos acontecimentos e com a o rdem nova que se im-
Se a odvocario m/llillollto início dos ano! 30 era difíci4 já que r. p unha, contta, d iziam eles, os ideais p elos quais h aviam lutado.
quase não havia (all!O.J que deS.Jem retorlto financeiro, é CJl17'OSO Esse movimento tomou uma força muito grande no pais. No
que, mesmo assi/ll, o senhor tenha insistido em ser advogado ni",i- começo. defendia apenas idé.ias nacionalis tas, até que houve um
na/. O fa!dnio do jrin' era lào forte que () senhor prefen'u enfrentar
toda.J os dificuldades?
Sim. Comecei no fo ro crimin al sem nenhum cálculo,
l m anifesto de adesão de Luís Carlos Prestes, que foi lido no Te-
"
atro J oão Caetano pelo jornalista Carlos Lacerda. Com a en-
trada de Prestes, a Aliança N acional Libertadora passou a ter
nada eu fiz na vida calculando o que iria acontecer no dia se- ~ uma colo ração mais esquerdista, e naturalmente o poder passou

114
I I I5
o SAJ...ÂO OOS PA SSOS F'ERDfI)OS A AUr>ÁLIA DA JUVENTUDE

ll
a ser exercido muito mais pelos comunistas do que por aqueles T ribunal de Segurança conferiu à Ordem d os Advogados a
liberais, democratas, esquerdistas mas não filj::tdos ao Partido atribuição de nomear defensores par:'!. aqueles réus que não qui.
COl11Unjsla, que a compunham originatiamcnre. sesscm se defender ali n?io tivessem advoga do, e fui um dos
D:lí resultou, algum tempo d erai"" primeiro, a luta no designaclüs.
lua Cmndc do No rte, onde os re\'olucion:irios tomanl1l o () ' rribun:u de Segu rança NaÓOll:l1 é uma páb,ula negra
poder e o ocuparam durante alguns dias. Logo em seguida hou- na hisrÓn.1 judiciárb. do Brasil. 1\ luitos milha res de cidadãos fo-
ve luta em Recife e no Rio de Janei ro. Em 27 de novembro de ram Ç(lI1c1cnados por ele. Er:l um tribuna l arbitrário, apoiado
1935, sub leva r:!.l11-se aqui a Escola el e Aviação .Militar e O 3° pelo g0verll0, um t.rihuna l que julgava os crimes políticos. O
Regimento de infantaria. O governo sufocou o movimento no próprio Su prem o T ribuna l Federal teve cO:1rcmdos, teve reduzi ·
mesm o di:!., dominando esses focos e restabelecendo a ordem. dos os seus poderes, e n ão podia examinar as violências por ele
Segui u-se urna campanha amicomunista de grande envergadura, cometidas, os abusos praticados. Com O correr do tempo, o
uma caça às bruxas: eram presos os que eram comunistas e tam- T rib unal d e Segu rança fo i conquistando novos espaços. P ara
bém aqueles que eram apenas opo sitores do governo. As cadei- garantir su a permanência, po is era um tribunal provisório, fo i
as se encheram de presos po Uticos. editada, em novembro de 1938, a Lei de E.conomia Popular,
15so acompanhava, é claro, a ascensão do fa scismo no que lhe d eu competência para julgat os infracores das suas dis-
nmndo: 1'v[u ssolini tinha tOm:ldo o poder na Itália; Hitler tam- posições. O TribunaJ de Segurança fi cou com o poder d e julgar
b ém já havia tomado o poder na Alemanha em 33 ... D isso se os crimes contra a econornia popular em tOdo o pais, apesar d e
valeram as fo rças que estavam dentro do governo, simpáticas a se r sediado no Rio de Janei ro. Qualquer aumento de preço de
essa ascensão do fascismo, e di sso se aproveitOu Getúlio Vargas, género que se desse, por exemplo, na cidade de Óbidos, no
para, em 10 de novembro de 1937, fechar a Câmara e implantar Pará, ou em Barra do Pirai, ou em Pira ssununga, em qualquer
o que se chamou o Esta.do Novo. Ele próprio editou uma cantO do país, tinha que ser julgado aqui. Ao ser denunciado, O
"
Constituição, ficou com o poder de legislar através de decre- cidadão era preso e ficava custodiad o até O julgamento, não
tos-leis, e daí por diante foi um penado de oito anos, d e 1937 havia habeaNorpu.r para os casos da competência do Tribunal d e
a 1945, de supressão das liberdades púb licas e de cen sura à Segurança. Com a eclosão da guerra, em 1939, o Tribunal de
imprensa, de férrea ditadura. Se~ran ça p assou a ter mais poder ainda: absorveu poderes até
Pouco antes do Estado Novo, em 1936, ctlou- se o do Superior T ribunal .Militar. Os crimes de espionagem, ou rela·
famigerado Tribunal de Segurança Nacional, para julgar os en- cionados com a guerra, passaram para a sua competência.
volvidos no movimento revolucionário de 35. Era um tribunal Nesse meio tempo a legislação variou muito, porque o
de exceção, não era um órgão do P oder Judiciá rio de caráter presiden te da República legislava através d e decretos-leis. Pouca
permanente, tinha só a finalidade de julgar aquele movimento. gente sabe que milhares de pessoas foram processadas no Tri.
Portanto, era formado por juízes sem garantias, sem indepen- buna! de Segurança Nacional por wn crime que estava incluído
dência. E esses juizes julgaram milhares e rrulhares de brasileiros. numa dessas leis de segurança da época: injúria a agente do po-
Eu aí tive um papel muitO intenso, porque a lei que criou o der público. Um cidadão qualquer que, no interior de J\finas ou

116 117
o SALÃO DOS PASSOS PloRDIDOS A. A U DÁC I A DA JUVENTUDE

ele Per nambuco, numa convcrS;l dc botequim, r,um comentário Há uma interpretação de que hatlen'a "'" forle componente ",ilittlr
dcsprevcnido, dissesse que o deleg:tdo, o u o prefeito, era vio len- no liderallça cOI"'1II1sla brasileira, e lalvez isJO p"desse c:;..plicar o
to, feio ou desonesto - cluak"lucr coisa ' lue fo sse considerada /JlOllill/enlO de 35. O senbor concorda ?
injúria a agente do poder p úblico - , em preso e preso fi cava Concordo que c\es ti veram um erro palmar d e vi são,
ate que o T ribunal ele Segurança o julgasse. E nào hav ia solução po rque o m ovimento que houve antes , da Ali:1nça N acional
para isso.l\1uitagemc cumpliu pena ele um :100, de dois anos de Libertadora, foi ul11l11o vim ento popubr, com comícios muitO
prisão sob a acusação dcs:lc crim e. I-lá um ca so de que m e lel1l- grandes, mUi t a simpatia. Como já cüsse, a Al"J 1:.. comp reendia
bm - é até uma curiosidade pelo ridículo que encerrn- ocor- não ape nas os comunistas, mas também não -comuni stas, sim -
rido no interior do Espíôto Santo. Havia saído a m occlinh:t de patizantes,liberais desco ntentes com o governo, fo rças d e opo-
um tostão, com a efígie de Getúuo Vargas. Um dia uma sição. Esse movimento, que tinha amplitude na sua composição,
moedinJ,a dessas caiu na ma, rolo u pela calçada, e um cidadão acabou po r tomar um sentido nitidamente comunista. Mas ha-
que passava pisou em cima. Era oposicionista, um inimigo o via muitos militares n a ANL que não eram comunistas. a pró-
de nunciou , e ele foi preso por injúria à efígie do p res iden te da "
prio presidente da ANL, H erculino Cascardo, não era comu-
Re públka. Foi afinal julgado pelo Tribunal de Segurança e con- nista, era um homem d e idéias liberais progressistas qu e queria
denado! E quase que o advogado, que era O M ário Bulhões uma mudança na situação do país, mas não a implantação d e
Pedreira, foi preso, porque o defendeu dizendo que a interpre- uma cütadura do proletariado. Confesso que não entendo até
tação de que se considera va aqui lo uma injúria era subjetiva. O hoje como é que o K o mimern, o órgão máximo do comu-
cidadão podia estar querendo, ao invés de ofender o presidente, nismo no mundo, aderiu a essa idéia, estimulou-a, mando u até
evi tar que sua imagem caísse na sarjeta elas ruas ... O juiz não representantes para participar desse movimento. É claro que
gOStou da ironia e repreendeu Bulhões, cbegou a ameaçá-lo de isso, hoje está-se vendo, foi um erro de visào primário. É in-
prisão. Ante sua enérgi ca repuca, o juiz recuou. Ma s o réu foi concebível que o movimento tivesse acontecido sem gualquer
condenado e cumpriu a pena. O Tribunal de Segurança foi real- expectativa razoável de êxito na to mada do poder, porque
"
m ente um tribunaJ tenebroso. Até chamá -lo de tribunal é um inclusive n ão havia nem quadros para ocupar o poder.
escárnio, é uma o fensa à noção que se tem de um órgão a partido que Getúlio tirou do movimento de 35 lhe
juJgador, obrigado a ser sereno e imparcial. J
per mitiu criar uma atmosfera de pânico na população contra o
comunismo. A sociedade, de modo geral, reprovou o movi-
Como o senhor t:iu o movimento de 351
m ento. A imprensa foi absolutamente contrária: "Bolchevistas,
A cho que o movimento de 35, a chamada I ntentona,
b aderneiros, pessoas que queriam a desgraça do país!" Não
foi uma coisa absolutamente sem sentido, estúpida - é a ex-
tenham dúvida de que houve toda uma campanha dirigida,
pressão. Não h avia condição alguma de vitória e nem havia
consciente, de parte daqueles que queriam se manter no poder.
quadros para assumir o poder. Não sei como os comunistas
estrangeiros, sobretudo, concordaram com aquela verdadeira Gctúbo aproveitou 35, aproveitou também o movimento de
ascensão do fasci sm o no mundo, para em 37 d ecretar o fecha-
aventura, que prejudicou imensa m ente o próprio avanço da
esquerda no Brasil. I mento do Congresso Nacional e governar sem Câmara, sem

11 8 !! 9
o S A LÃO DOS PASSOS P ERD ID OS

Judici ário. Quer dizer, o Judiciário fOI mantido. porém sem po- negati vos. A ditadura do E stado Novo é uma mancha na sua
d er político . Nilo tenho dúvida de que Getúlio ~provcirou ~ biografia. \largas era um oportunista politico. Aproveitou- se
situaç:io com rnuit;l habilid:1.de. A gue rra tambêm o (;woreceu claclucle momen to e acompanhou a maré mundial, no sentido
no COIl1t:: ço, mas d cs(:1\'orcccu 110 fim , q uando 3::; democ raó:1s do f:1scismo. E aplit.:ou aq ui UITl fasci ... mo tupinK]Ulln através da
se tOl" n~r:1.1l1 vi toriusas. C:J.ru de 37. 'To rnou-se dit:1dor absoluto, nilo havia quem pu-
dess.e julgar o s seus atos. A trlpartiçiio de poderes desa pareceu
Se tlll JO V(1l;!{dS rl1preSelllaM !ln; siual de 1I1IIt/(111[a, de que o inteiramente com a imposição Jo E Sl:l.do Novo, porque o Su-
pais ia parti a frenle, se IOruat'a mais progressisla, com a represS;}o premo Tribunal Federal não tinha poder, niio havia Congresso.
de J5, t: dejJois (0111 o Estado Novo, o seNhor foi se di'.Iillldilldo? \largas legi slava através de d ecretos-leis, de maneira que era uma
Sim. Enq uanto eJe ITlante ve :1.S liberdades, enquanto ditadura complet:t, absoluta.
vigeu a Constituição de 1934, estive apoiando o avanço que
eStava se verificando no país. O país começava a despontar, DEFENSORES DE PRESOS POLÍTICOS
começava-se a di scutir os problemas da reforma agrária, da i11-
dustdalização... H avia um avanço, sem dúvid:1., em relação:1.o Como Joi flita a designação de dejel1sorer para os p resos políticos
que era antes, e por isso eu achava que se devia apoiar o gover- pela Ordem dos Advogado.. do Brasil?
no. Agora, depois de 35, diante de todos os desmandos, abusos O Tribunal de Segurança Nacional foi criado em virtu-
e arbitrariedades cometidos, evidentemente passei a n1e opor de da Lei nO 244, d e 1936. Essa lei atribu.i u ao presidente da
àquela situação. Quando foi editada a Constimição de 37, sem OAB a faculdade de nomear advogados para os réus Cjue não
uma constituinte, evidentemente eu me coloquei em franca opo- os tivessem ou que não Cjuisessem defender-se, considerando o
sição ao governo. Quando veio o periodo da guerra, o governo T ribunal de Segurança inconstitucional-houve muitos que se
foi inicialmente simpático ao Eixo, ao fascismo, a Hider e a recusaram a constituir advogado. O presidente da GAB, na épo-
J\r.ussolini! O sr. Getúlio \largas chegou a fazer um di scurso, se ca, em um grande advogado, um nome que está eSCjuecido, mas
nào me e ngano em 11 de junho de 1940, encaminhando a poli- "
que merece ser relembrado: Targino Ribeiro. Ele agiu, a meu
tica bra si leira no sentido de apoio aos agre sso res aos ver, com muita sabedoria ao indicar como defensor para os
w ' dois principais réus, que eram Luís Carlos P restes e H arry Berger
desencadeado res da guerra! Aquilo era alarmante, porque os
êxitos iniciais da campanha de Hitler entusiasmaram muita gen- -Arthur ErnstEwenera seu nome autêntico, Harry Berger era
16 • . p
te, que passou a acompanhar, a aplaudir, a aderir ao fascismo. o nome de guerra - , O dr. HeraclitO Fontourn Sob ral Pinto,
Havia no governo uma parcela de simpáticos ao Eixo, mas ha- um homem absolutamente insuspeito quanto às suas idéias poli-
via também uma resistência, sobretudo por parte de O sv:l lclo ticas, de convicções religiosas arraigadas, presidente do Centro
Aranha, q ue, na é poca, era ITlinistro do Exterior. Houve uma Dom Vital., que era uma organização leiga importante e p rescigi-
luta interna, e o Brasil acabou se inclinando em favo r das potên - osa da Igreja Católica. A IgTe ja tinha, naCjuela época, uma posi-
cias democráticas, contra o Ei..-xo nazi-fascista. ção 1I..ltraconservadora, e era port."lnto absolutamente insuspeita
A figura de Vargas é uma figura contraditória. H :í. em relação a qualqu er favorecimento àqueles acusados de
muitos aspetos positivos na sua vida, mas há outros altamente esquerdismo, de tentativa de modificação da ordem política e

120 121
o SAI.ÀO DOS PA SSOS PERDIDOS A A U OÁC I A DA JUVEN T UDE

social. A e scolh~ do dr. Sobral P into foi extremamente feliz, não ço da vida tinha feito advocacia penal, e isso era um motivo
só porque ele estava preservado de qualquer persegui ção o u de de aproximação.
qualquer dúvida sobre sua lealdaJe com o s princípios demo crá-
ticos, co m o t~ m bé m po rque era um homem de bll"ande b nlvurn o Wlho r gOlfou de ter !ido indimdo ar/rogtJflo datil'o do TSN?
pessoal, de gr:lnde competência. O s fatos vieram demo nstrar J\Jaqlfele clima de raro às bruxaI, mio firoll CfJm medo?
que nada podia ter sido mais feliz, porque Sobral Pinto se tor- Não. E digo mais. N esse m o mento também houve
nou uma personalidade universal: pelo mLU1do inteiro se comen- uma pessoa que teve um papel muito importante, de quem me
mv":l sua anlação e nérgica, segur~, flrme, defendendo o s direitos tornei amigo e admirador aTé hoje: o dr. JO;10 Í\ langal:>elra, que
hum:\I)os. era deputado federal. Seguindo o exemplo de seu mestre, Rui
Os direitOs humanos foram muito violados nesse pen- Barbosa, de quem era disápulo amado e de quem escreveu uma
ado: as prisões eram arbitrárias, nâo havia nenhuma b.-arantia, belíssima biografia,18 João Mangabeira resolveu impetrar habeas-
nenhuma segu ranç~ para o cidadão, estava suprimido o hobeoI- carpIu em favor dos presos políticos, que eram notoriamente
corpUJ para matéria política. Sobral teve Uln desempenho que o seqüestrados, levados para a prisão arbitrariamente e em condi-
notabilizou como um defensor das liberdades públicas, um de- ções desconhecidas. Ele requereu babeas-corpuspara muitos des-
fensor dos direitos individuais e humanos. Em d eterminado ses acusados sem que tivesse sido procurado, porque, pela
instante, o Berger estava jogado num socavão embaixo de uma Constituição, qualquer cidadão, mesmo sem ser advogado-e
escada na Policia Especial, no morro de SamoAnt6nio, em con- ele o era também - , pode requerer habeas-corpuI. Eu era jovem,
dições absolutamente insuportáveis, dramáticas, desumanas. tinha na época 23, 24 anos, e o dr. João, a quem me liguei, me
Não havia sequer alrura para ele ficar de pé. Virou um bicho. E deu a tarefa de distribuir os habeaI-corpm que ele requeria - servi
Sobral Pinto teve a idéia - e isso marcou época - de requerer, um pouco como seu estafeta. Mas nessa oportunidade, tive a
em favor do seu cliente, a aplkação da lei de proteção aos ani- ventura de não assinar nenhum desses hobeOJ-corpm. Quem assi-
mais, que exigia que se tratasse sem violência, sem tortura men- nava eram o dr. João, o senador Abel Chermont, os deputados
tal, psicológica, os próprios bichos. Os animais eram mais bem Domingos Velasco, Abguar Bastos e Otávio da Silveira. Um dia
tratados do que estava sendo o seu cliente. eu disse: "Dr. João, eu gostaria de assinar. .. " Ele respondeu:
Ao mesmo tempo em que designou Sobral para essa "Não, você não assina, porque não tem imunjdades." Resulta-
missão muito importante, o dr. Targino Ribeiro designou ou- do: eles todos foram presos, e eu não fui, porque não havia
tros advogados, e entre eles também fui escolhido. Pdm eira, nenhum babeas-corpllI assinad o por mim. "
porque eu era um advogado criminal, começando:l aparecer.
D epois, eu tinha tido na Faculdade de Direito uma certa atuação Segundo Mm'celo Lavencre, embora sem ossúlor, o Ienhor teria
política sabidameme liberal e socialista. Eu fregü entava o In s- !ido o autor do pn'meiro pedido de babeas-corpuI em favor dOI
tituto dos Advogados, de onde o dr. Targino Ribeiro também cabeça! da m/oIto comunista de 35. Isso procede?
foi presidente, ele me conhecia e me tinha, acredito, uma sim- Eu recUgi o pedido. Muitos daqueles hobeas-corpuIque
patia especial. Gostava muito de conversar comigo. No come- foram assinados pelos deputados foram preparados por rrum.

1" 123
A AU Il AC IA DA JUVEN T U D E
o JÕõAL.ÀO DOS PA<;SOS PER D I DOS

virtude dessa decisão, foi postO em liberdade. L.ogo em seguida ,


Eu ia para o escritório do dr. João, e lá ele escolhia quem assina-
ele voltou à Câmam e proferiu um discurso veementissimo con-
va. M::ts depoi s esses pa rlament.ares foram presos e ficaram na
r.r:1a sl t:tl a ç~o.
cadeia u1TI:llempor:lda longa. Houve um pnKesS( ) no Tribunal
de SebJ"Uranç,' contra eles porque reCjucrCr:l111 esses hab('flS-rorplrS.
N'''.lucla época o Tribunal de Segur:11lça er,1. compo~tú de cinco
o CASO PI'.DIlO E.RNES tO

juhcs, e no julgamento do dr. Jo;'ío diF.iam :q"H.:nas que ele linh a /1/é/JI de Sobra! Pinlo e do JeJlbor, quem ii/ais aceitoll a IIlCUIII-
sido condenado por maio,·ia de votos. J\bs transpirou que a bêl1cia dI! defellder presos políticos dada pela OA 13 lias pn·melros
nuioria unha sido resu.\tado de um empate: um dos juízes, o d r. tempos do TSN? Quem 1lfJO (lceitoll?

Pereira ]3raga, que represen tava a clas sc dos ad vobr:l.dos, se deu Diversos aceitaram, de cujos nomes n:Io me lembro. E
po r impedido, po rque tinha rel ações pesso:l.is com o dr. J oão, aqueles que não aceitaram , nã o vou mencion:1r, porque é uma
dois juizes absolveram e d ois condenaram . Entre o s que conde- espécie de censura, eles poderão negar, e eu não tenho nenhuma
naram estava O presidente d o Tribunal, o dr. F rederico Barros prova de que recu saram ... M as M.ário Bulhões Pedreira, por
Bar reto, que d epois passou a desembargador e a mini stro do exemplo, não só aceitou como fez uma grand e defesa no Tribu-
Supremo Tribunal Federal. Ele fez preva lecer, como V OtO de nal de Segurança, a do dr. Pedro E rnesto. E ssa defesa é u ~
qualidade, o seu pronunciamento, e proc lamou o resultado con- ob ra-prima, um trabalho de fôl ego, um livro d e 300 páginas.
trário ao dr. João, apesar de ter havido empate na vot:lção. O dr. Ped ro E rnesto era wn m édico de muita projeção como
O dr. J oão Mangabeira requereu ha/Jeas-corpus ao Tri- o perado r, muito ligado aos ten ent.es de 30, daí ter sido prefeito
bunal I\1ilitar - porque quando se criou O Tribunal de Segu ran- da cidade do Rio de Janeiro. Tal vez tenha sido O maior pre feito
ça, o tribunal de segunda instância que apreciava as suas decisões que O Rio de Janeiro teve em toda a sua história. Toda essa infra-
era o então chamado Supremo Tribunal Militar - , alegando estrutura que existe no Rio, a parte, por exemplo, de educação e
e..... atamente que tinha havido empate e que deveria prevalecer o saúde, foi ele quem fez. Só h avia um hospital, o Sousa Aguia r,
critério do voto de 1\1inerva - o voto de Nunerva é aquele que, que hoje está acabando, desabando. Ele construiu o Getúlio
em havendo um empate, co n fibru ra;.Se lima dúvida do tribunal, Vargas, o Miguel Couto, fez uma red e hospitalar. E fez também
e a dúvida é em favo'· do réu . É o velho princípio do ln dubio,pro uma rede ed ucacional, abrangendo toda a cidade. Era seu se-
rm . No primeiro instante, o presidente do Tribunal de Seguran- cretário de Educação apenas O dr. Anisio Teixeira, e d e Saúde,
ça, solicitado a informar sobre a alegação, disse que não podia se bem me lemb ro, E ljezer M agalhães, irmão do J uraci Maga-
esclarecer, porque, de acordo com o regimento, as VOtações lhães. " O dr. Pedro Ernesto era um homem d e uma i popu· art-
eNlm secretas, e ele não IXXlia dizer se tinha havido ou não aqui- dade tão grande que em 34 encabeçou a chapa do P artido
lo que estava set1do argüido. M as o Tribunal M.ilitar exigiu, di- Autonomista, qu e ele havia criado, e em 10 d e pu tados, penso
zendo que isso comprometeria o próprio julgamento e, portan- qu e fez 8. Em 35, foi acusado de ligações com os comuni stas e
tO, havia a obrigação de info rmaI". E ssa informação foi dada, foi preso.
confessando que tinha havido o empate. OTribunall\1ilitar con-
cedeu então o habeas-corplfJ ao dr. João Mangabeira, que, em o unhar conhecia Pedro Ernesto?

'25
124
o S .... I• .I\O D OS P .... SSOS P E RDI DOS .... AUDÁC IA D .... J UVENTUDE

Sim. O oficial-de-gab inete dele, dr. José O ecusa ti, era para apb udi-lo. l sso já foi em 37. E le não reassumiu a prefeitu-
meu méd ico, e Lcoberto leal Perrci r:1, também uma pessoa i.ll - ra. Na ép oca, havia as c<lndidaturas de A rm ando d e S:11cs O li-
tluente em seu gO\'crno, ern muitO meu :lllligo. Seu tilho, Odilon veira e José Américo à presidência d a República, porCjuedevena
Bati sL'I, também e1':1 méd ico c meu ;1 l11igo. O e fo u n;, que co - haver eleições, c smpreendentementc, o d r. Pedro E rnesto, que
nheci o dr. Pedro :\lr:wés dessas pessoas. Presrei serviço a ele em vinha de uma prisão :\Cus:1do de esquerdismo, ap o iou a candi-
34 , na Justiça EleitoraL N aquela ép oca, h:wia os parlall1co t;1l'es da mr:1 de A rmand o Sales, q ue era considerad a m ais conser va-
c1assistas, não só na Câm ara dos D e pu tados como também na dora. J\ la s ele n,l o viveu muito, porque teve um câncer d e prós-
Câm ara dos Verem.Iores. " I~- h aVia . um can d·J I ato protegI.J o tata, foi para os ES I,ados Unidos, operou -se e f.'\ leccu pouco
pelo dr. Pedro contra o ca ndidato do mini stro d o T raba lho de tempo depois.
então, dr. Agamenon Magalhães. H ouve uma dispu ta judicial
entre os dois, qu e se diziam ambos vitoriosos, e e u, muito jo - o sm hor assistiu à defesa de Pedro E rnesto?
\'em na época, a pedido pessoal do dr. P edro, d efe ndi o seu Sim. Assisti e parcicipei. Eu era defensor d e co-réus, no
candidato. Nosso candidato saiu vencedor: o vereado r Eduar- processo do dr. P edro. No dia do julg amentO fin al, no Tribunal
do Ribeiro. O dr. Pedro Ernesto também havia criado aqui uma Militar, recebi procuração de diversos deles para falar. P o r cada
União T rabalhist.1 do Distrito Federal, o nde havia uma parte de procuração que recebia, eu tinha 15 minutos, d e fo rma que o
assistência m éd ica, dirigida acho qu e pelo Leoberto L:al meu tempo ficou m aior d o que o d e todos os o utros advoga-
Ferreira; uma p arte cultural, dirigjda po r Valéria K onder, e dos. Enquanto M ário Bulhôes Pedreira, que era advogado do
uma parte jurídica, que eu, com 20 e po ucos anos , dirigia. Essa dr. Pedro, falou 15 minutos, eu fal ei mais d e uma hora. Era um
associação promovia conferências, e assisti lá a p alestras d e período de suspen são do estado d e guerra, era ministro d a Jus-
"
Leônidas Resend e, de H ermes Lima, de pessoas tida s como tiça o dr. M acedo So ares,25 e havia uma certa liberdade, o que
de esquerda. m e permi tiu dizer m uitas coisas audaciosas na tribuna co ntra as
Voltemo s ao processo p e nal contra o dr. Pedro perseguições. Eu disse que não era possível viver sem liberdade,
Ernesto no Tribunal de Segurança. Ele fi cou preso durante todo que as violências, as arbitrari edades que ha\Tiam sido cometidas
o período de andamento do processo. Mário B ulhões Pedreira deviam ser denunciadas. Fiz uma pregação em favor da d emo-
o defendeu, juntamente co m seu secretário de Justiça, O advoga- cracia. Logo em seguida veio o E stado Novo, e tive a certeza de
d o Miguel Trimpo ni. E também subscreveu a d efesa Jorge que retornava ali, como retornou, uma ditadura mais con se-
Severiano Ribeiro. Na ap resentação, BuU1ões P edreira diz que qüente nos seus ato s de arbftrio. Até então h avia a Constituição
J o rge Severian o Ribeiro " fez a ho nra" d e assi nar a d efesa, d ei- de 34 q ue, bem ou mal, a gem e p odia, aqui ou ali , in voca r. E ai
xando bem daro que o trabalho era dele, Mário ... Foi realmente veio a cham ada Po laca, que era a Carta de 37. Logo d e poi s
um trabalho m agrúfico . Pedro ErnestO foi condenado na pri - da edição da Carta temi , diante d os pronunciam entos feitos no
m eira instância e depoi s ab solvido pelo Tribunal Militar. N esse Trib unal Ivlilitar, que tinham tido larga d ivulgação nos jo rnais,
dia houve um a m anifestação popular, as ruas do Rio d e J anei ro que eu pudesse ser vítima de uma violência, de uma prisão, e fui
se encheram, desde a Tijuca até Copacabana. o nde ele m orava, para São P aulo, p assar uns d ias lá. Mas fui sem qualquer arma-

12' 1 27
o S ALÃO DOS I'ASSOS P IoRI)IDOS A A U DÁC I A OA JUVENTU DE

ção politica, foi uma coisa inteiramente pessoal. Ligava o telefo- Nào. A fraude cambial é uma p arte do direito penal
ne pata casa - eu era solteiro - para sabe r se havia alguma econônuco, (lue passci a esrudar com afinco quando surgiu a Lei
coisa. Não houve nada durante algum tempo, e resol vi volta r. de Economia Popular. Havia mUlUl Jjgaçiio com o cstelio nato c
Fui esquecido.. a tãlsid:lcle documental. i\luitas vezes a ...lereS.l consistia em mos-
trar .que aL]ude uocumenLO era inúcuo, do ponto de vi sta do
o II/ovill/ento de self e,rcritório all!Jl/JIJlOIJ IIIl/ItO COIJI /I c//mlelrl de
engano de ,·crcciro. Em segu ndo lugar', di scutia-se a v:t1idade ou
presos políticoJ-?
não d ~1 perícia que havia constatado a f:dsieb.de. Nruitas ve%es,
Sim. Dt:poi s do movimento com uru sta de J 5, p::tssci a
Sustentava-se que o réu não cra o aULOr da ralsiticação, ou da
ter uma vastis~ima dientda de presos políticos. Frcqi.ientava os
fraud e. Havia também, por exemplo, C~I SOS de contrabando Ou
presídios para poder conversar com esses clientes, que estavam
descaminho - o nào pagamento do tributO na entrada da mer-
presos em lugares diversos: em quanéis, no navio Pedro J, na
Casa de D etenção, na Casa de Correção, em todos os cantos. Aí, cadoria é descaminho. Eu me lembro que d efendi, isso na justiça
ampliou-se en ormem ente o meu escritório. Daí em diante me comum , o caso de um policial '1ue saiu d o cais do porto com
tornei conhecido, porque as manchetes nos jOfl1:ti s eram sobre duas gartafas d e uisque e foi preso porque não tinha pago o
os julgamentos do Tribunal de Segurança. Meu irmão Raul era tributo. No dia do julgamento, na apelação, o desembarg ador
comunista, e isso também fazia com que ele fosse muito procu- disse que se consideraria um hipócrita se condenasse aquele réu,
rado no escritório, e houvesse a confiança dos comunistas. I sso, porque poucos dias am es ele tinha ido a um navio francês e
naturalmente, me envolvia na d efesa desses presos. EraITI raros havia comprado um perfume para a muJher. tinha saído com
os casos de prisões em que meu escritório nào fosse procurado. ele no bolso e não tinha pago o tributo. A defesa podia ser feita
D o ano de criaçào do T ribunal de Segurança, 1936, até 1945, mostrando a insignificância do fato.
quando ele foi extinto, d evo ter defendido mais d e mil presos Ê claro que tudo isso depencli a de estudo, e eu me
politicas. Só num processo d e P ernambuco defen di algumas esforçava para arrazoar com segurança, citando autores, para
dezenas. D epois, em 38, quando veio o movimento integralista, mostrar que ague1e crime que a lei defmia não estava exatamente
defendi alguns presos integralistas, porque apesar da minha fama configurado ncrfJrocesso. Fw um advogado mwto dedicado às
de esquerdist:l eu era um profissional em quem, sem imodéstia, causas gue patrocinei no foro criminal. E confesso que também
se depositava confiança. Depois vieram os processos de espio- cometi adultérios com o meu direito penal, fazendo defesas no
nagem, com a guerra ... A.lém desses presos todos, defendi tam- foro civil e comercial de vez em quand o. Com os conhecimen-
bém casos de crimes contra a economia popular, em larga esca- tos gerais nas diversas áreas do direito, pude depois, sem des-
la, vindos de todas as partes do Brasil. Aí a situação do escritório douro, desempenhar os cargos de procurador-geral da Repú-
melhorou, tantO que pouco depois pude me casar. blica e de mirustro do Supremo TribunaJ Feder:t1 . La muito so-
bre direitO em geral, assi nava as revistas p eriódicas e acho que
Não era difícil difender réus acusados de crimes contra a economia passei pela vida pública sem decepcionar os amigos...
popular? Um caso de fraude cambia/, p or exemplo, não envolvia
11m tipo espeajico de c011heámento?

128 129
o SALÃO DOS f'ASSOS I'ERDIDOS A AU I;lÁC I A DA J UV ENTUDE

P ERFIS: S OBRAL P INTO E P RESTES vez de um só. O Mârio di sse: " Não há dúvida, Sobral é meu
antigo, meu colega de turma, m e u compadre." Telefonou para
o unhor se lembra de algum (aso interessante de (time rOl/tra (J o Sobr:'!): "l\!uito bem, Sobr:-tl, nós fom os procurados e vamos
economia pOPlllar? funci o n:lt juntos." .M as O Sobral, eu sempre brinquei, tinha um
Eu me recordo de um caso grande no Tribunal d e
"ão na ponta da língua ... Responde u: "N:io! Uma defesa no Tri-
Segurança N:lcional, um crime de u sura, que tinhn como ré u O
bunal de Segurança não compo rta dois :ldvogados na apelação,
dono d e uma casa bancária em $3.0 Paulo chamado S:1mpaio
de forma que fique você." Bulhões começou a inSlstic "1\1as
Moreira, c corno co-réu Vice nte $asso. Eram acusados d e ter
n50 ê possível, Sobral! É um ho m em que tem recursos, ele quer
cobl':ldo juros :lcima da tabela. Ainda hoje a nossa Con stituição
ter o direito de tcr dois bons advogados. Não há razão para
manda punir a usu ra, e no entanto cobram-se juros de 64%,
vocé recusar!" No final, depois de muita luta, Sobral estabeleceu
como o Banco Central chegou a autorizar certa ocasião...
uma condição absurda: ele continuaria na causa, mas sem pe[ce~
Enfim esses dois foram condenados no Tribunal de Segurança
ber honorários.
na pri~eira instância, c queri am apelar. Essa história é muito
Havia o co-réu, Vicente Sasso, e eles me chamarrun
interessante, porque mostra quem era Sob ral P into, seu per-
para defendê-lo, porque havia uma certa incompatibilidade
ft.!, sua acinlde de desprendimento em relação a hono rários
entre as duas defesas. Para evitar que esse choque se acentuasse,
profissionais.
o que seria desfavoráve1 a ambos os acusados, era preciso haver
Como era um caso d e São Paulo, vieram ao Rio mem-
uma certa concordância entre os advogados, ou p elo menos
bros da familia do Sampaio l\Ioreira, q ue estava p reso lá. Um
que eJes se comprometessem com seus clientes a um não ficar
parente, nào sei se um filho ou um genro, procurou o dr. Osval-
atirando pedras sob re o outro.
do Aranha, que em ministro do E xterior, e este indicou o nome
Houve o julgamento, os réus foram absolvidos em se-
de Mário Bulhões Pedreira para defendê-lo; outro parente veio
gunda instância, e Sobral Pinto não recebeu honorários. B ulhões
com a recomendação de um grande advogado paulista cha-
Pedreira tinha aceito a condição da graruidade dos serviços de
mado Plínio Barreto, que....era líder católico, e procurou Sobral
Sobral com este pensamento: quando acabar o processo. nós
P into. Um não sabia do outro. O que procurou Sobral Pinto
mandamos o pagamento. E realmente isso foi feito. Bulhões
perguntou o pr~ço dos seus honorários para fazer a apelaçào, e
fez uma cana, assinada pelo cliente, mandando p ara Sobral um
ele respondeu que eram 5 COntOS de raso O cidadão disse: "Mas
cheque de 50 Contos. Sobral devolveu o cheque com uma cana
doutor, só?!" Sobral ficou indignado: "Não vale mais que isso!
violentíssima: que a palavra dele era uma só, não aceitava paga-
Se alguém cobrar mais que isso é uma exploração!" O emissá.-
mento. Supuseram que ele tivesse achado muito, mandaram um
rio, então, pediu descuJp;ls, e no fim se entenderam. Mas quando
cheque em branco, para ele fixar. Ele ficou ainda mrus indignado
encontrou com o outro parente, soube que este também tinha
e não recebeu, devolveu o segundo cheque. D ias depois, ele
contratado Mário Bulhões P edreira, e que o Mário tinha cobra-
estava sendo despejado do escritório por fal ta de pagamento
do uma quantia bem maior: segundo se dizia, 200 comos. Como
do aluguel! Eu, como amigo, falei com ele: "Sobral , você preci-
resolver aquela dupla cOt1rramção? D ecidiram ir:lO escritório do
sa de um curador! Não havia razão para você deixar de cobrar!
Mário para que os dois advogados ficassem funcionand o, em

130 131
o SA L Ã O DO S I'ASS OS P E R DI IJOS A AU D ÁC I A D A JUVfONT U D E

Compreendo perfe itamente que não se cob re de um pobre, de bo ra e não há co m o receber o s honorári o s. D isseram que nào,
uma pessoa CJuc n?io lClll recurSOS, mas d e um homcnl rico, que q ue o dr. So bral havia d ito q ue lxl.gassem d e pois ... Aí eu fo rcei
pod e pagar o s s ~ u s ho norários, você d evia receber!" IVJas ele: um p o uco, sem qu e ele le nha <;.lbido disso ,I vida inl ci",1. Até
tinha vocaç;Jo pa r3 a pobreza. Nilo !ü o rdens religiosas Cj U C têm hojc, nunca co ntei isso. Di sse aos c1 iemes qu e continuava d e fe n~
essa \Toca~'ão? So b ra l rcz voto de P9b n:/.:1 n:l su:\ ba nca de ad - dcndo, mas co m a condiçiio de m e aprese nlarem o recibo d o
vogado ... Arro lados como testemunhas, Bulhtk s c cu contamos dr. Sobral. Foi a maneira de ele receber os seus honor:írios,
esse e pi sódio em juízo, no processo de despejo. porque cra seu h:íbito fi car sempre adiando O rece bi m ento, ape-
S'JbmJ era Lln1 homem de be m a roda prova, um ho - sar dflS cliucu ld ades q ue tinha para sua própria man ute nção. Era
n l cnl pobre, um hOln em CJLlC mo rre u sem nada, um homem uma pessoa d e bem, uma pessoa de caráter excepcional, um
que poqia ter ganho muiro na profissão, mas tin ha esse despren - homem quc viro u um símbolo da pro fissão, com d est:lque n a
dimento, que era uma característica d a sua personalidade, em defesa dos ch efes do m ovi m ento com unista, como já co m ei.
todas as causas em q ue era p rocurado . E digo m ais: é u ma in-
co nfidência esta, m as, em mem ó rias, a gente [XXIe contar. Sobral Como era Prestes? Oual SilO opi11ião sobre ele?
era muito abas tecido de casos p o r um grande advogado ch a- Acho que quem definiu P res tes mu.ito bem fo i o pro-
mado D ario d e Almeida Magalhães. " Dario sempre lhe enca- fesso r Castro Reb elo, que foi preso em 35 junto com ou tros
minhava causas e também fa zia com que Sobral funcio nasse professores da Faculdade de D irei ro, em co n seqüên cia dos fa-
juntam ente com ele, em causas suas. Um dia m e di sse o D ario
que So bral estava em si tuação econó mica m uito difícil, e que se
j m osos arquivos que Prestes mantinha. Em 35, muita gente foi
presa em \'Í rrude dos documento s apreen dido s em seu poder,
°
eu tivesse causas, indicasse. Eu tinha de fato um caso de extra- e d ep ois, em 64, ele reincidiu nisso, porque houve tamb ém as
dição. Ex tradição é um processo em q ue um governo estran- fam osas " cadernetas d e P restes", que deram lugar à pri são de
geiro p ede a prisão e a volta d e u m réu para o pais, a 6m d e ser m uita gente. O pro fesso r Castro Rebelo costumava di zer, iro -
julgado por um crim e lá cometido . E ram três estrangeiros, e o nicamente, que P restes não era um líder p o lítico, era um arqui-
governo requerente era o da rtália . Vi ali uma opo rru nidad e de VIsra...
dar uma ajuda ao Sobral, convocando-o para trabalhar juntO P restes era um homem de seried ade inegável, mas o
co migo na causa. É claro que eu não estava fazendo o chamado mO\'Ímento de 35 foi uma aventu ra inconceb íveL Como foi
apen as por isso, mas também porque ele era um ad vogado possível desencadear um movim ento armad o, sem a m ais lon-
co mpetente e p odia dar uma contrib uição valiosa no d esenvo!- gínqua p ossibilidade d e sucesso ? O que é importante assi nalar
vimento da defesa . M as já sab endo de antemão da sua maneira é gue vieram estrangeiro s, quer dizer, o K omin tern eSL'l\Ta d e
muito tímida na co brança d e ho norários, d isse-lhe q ue já tinha acordo com aguilo. Ora, o fracasso do m ovimento impo rtou
fixa do o s honorários com os cli entes, e que ele cobrasse 20 co n- num atraso im en so em relação ao próprio desenvolvimento da
tOs d e réis. A s p essoas foram procurá-lo, voltaram, e e u, preo - d em o cracia no Brasil. Não era im aginável que meia dúzia d e
cupado, perguntei se tin ham pago ao Sobral - porque mun tenentes, dirigidos por Prestes, pud essem assumir o poder e,
processo de extradi ção, se ela fo r co ncedida, o acusado vai em - depois, manter e sustentar esse poder. Acho que ele, como polí-

132 133
o SAl_ÃO DO S I'A SS OS l' c RDIDOS
A AUDÁC IA DA JU V I~NTUDE

tico, era insensa to, um homem que não tinha noção do linute do
Pernandes, d e quem os comunistas desconfiavam, a gucm acu-
que po di:l realiza r. O res ulwdo foi q ue viveu na cl:lndestinidade
savam de delator d e comp:mheiros , de c1usado r da prisào de
muito tempo, convencido de uma ideo logia q ue querÍ:l in1pl:ln - v{i rios outros?
tar, mas sem qualque r senso de oportunidade. 1bdas as vt:::t.t:s ele
se colocava num:l posição mdical, extrcmalb, pro\'oc::r.dora do Alasltí lia éPom do plVcesso linha-se tOH/ado conhecilllento de lII/1a
e.flablisbmenl. E o resultado é que O comando que exerceu, o d o- carla de Prestes, em que ele dizia: "Vocês sabem o que fazer com
mínio que tinha sobre o P:"lrtido Comunista foi muito nocivo ao a garota. 1.....Tão compreendo a IJesiltlç(Jo de lJOcês... " Isso não era
próprio desenvolvimento do socialismo, ao prog resso d o pais, 111/1 indício estranho?
I
às reformas de que o país necessitava. É essa a minha impressão Era um indicio, mas havia sempre a negativa dcle.
de Prestes. Era um homem inteiriço, sem flexibilidade para en-
tender e se adaptar às variações da politica em cada momento.
! Agora, no livro, exisre a confissão. É inconcebível. Os dois
jornalistas escrevera m aquilo que ele disse. Ele não foi cons-
Uma das grandes decepções que tive na minha vida foi trangido de forma alguma a dizer o que não queria. Esse é que
"
a biografia do Prestes, escrita por esses dois jornalistas. Porque é O problema.
eu estava plenameme convencido de que nào tinham sido os
"
comunistas os autores da morte de Elsa Fernandes. Eu partici-
pei desse processo como advogado de um co-réu. Quando Quando o senhor se CasOu, como e onde c011heceu SIIa mulher?
Carlos Lacerda rompeu com os comunistas, escreveu um artigo Conheci minha mulh er no Rio de Janeiro. Ela era
no Correio da Manhã, de cujo riruJo me lembro até hoje - "Um catarinense. Eu já conhecia doi s irmãos dela, Valéria Konder e
homem üvido" - , em que acusava Prestes de ter sido o autor Otávia. Valéria era médico, um hom em culto, estudioso. Co-
da ordem que importou na morte da moça. Pois bem, recordo- nheci-o em 1934, no tempo da prefeitura do dr. Pedro Ernesto,
me que Sobral Pinto, na época advogado de Prestes, escreveu na União Trabalhi sta do Distrito Federal. J á tinha conhecido a
uma carta ao Carlos protestando, dizendo Cjue aquilo era uma Otávia ames, nào m e lembro como. Não sei se fui apresent."ldo
indignidade, era falso, nao admitia etc. Influiu, inclusive, num '""'Por um colega ou coisa que o valha. Mais ou menos em 1938,
recuo do Carlos em relação à acusação qu e fazia. Ele não se 39, vim a conhecer minha esposa, através desse relacio namento
desdisse mas parou a campanha que tinha iniciado com aquele com os irmãos. Na época eu tinha 26 anos, ela 25. Namoramos
artigo. Eu também estava convencido de que tudo tinha sido e nos casamos em 1941. Um d etalh e que vou contar é que ela
. produtO de llil"ja armação policial e que aquelas confissões exis- estava se desquitando. Tinha se casado e ido morar em São Pau-
tentes no processo tinham sido arrancadas d ebaixo de tOrtura. lo, tinha se separado e vo ltado para o Ri o, para a companhia da
Pois bem, nesta biografia, ele admite, ele confessa. Para mim~~ mãe. Quando houve a Revoluçào de 30, a familia dela caiu do
uma das grandes decepções da minha vida. Como era possível?!
Então ele realm ente teria ordenado, ou teria mesmo adnutido
í governo em Santa Catarina e mudou-se para O Rio. O velho,
não, ficou lá, em ltajaí, porqu e eles tinham uma usina d e açúcar
que ele dirigia. J\'l inha sogra morava no Rio com os filhos, e ele
que se eliminasse a vida daquela moça porque ela poderia ser
fonte d e informações para a polícia, através do Adalberto v inha freqiientememe ver a famJlia. i'v1inha muJh er se chamava
t>,racia Luísa Régis Konder. Tinha o apelido de Musa, pelo qual
1" 135
o SA I. ÁO D OS PASSOS PF R OI OOS A AUDÁC IA DA JUVlÕNTUDE

era conhecida. Seu pai e ra .i\1arcos K onder, e sua màe, 1\l ari a Boni/a?
Corina Régis Konder. " Boni la. Loura, tjpo germânico, s umamen te inteligente,
unIu <.:!:>tlH.bdo medicin:l, mas sem compkwi" o curso. I ~ r;1 clifTcd
./In/r.r de con/}ecé'-Ia, o St'l1lJor ten 1Imi/as namoradas, f reqiient'llill encontrar um livro que ela não tivesse lido, os clássicos, p()c~ia,
os bailes, os cafés, os (assiNos, a 1/0;/{' (miora? rom:lI1CCS de Eça de Queiroz, de Anatolc I,'ranct, Zola, I.hl.l:tC,
N3.Q. Saía raramen re, porque a minha vida se voltou Proust, qu:tlquer autOr 'Jue você imaginasse. Um a mulher culta,
para o ll":lbalho, d esde muitO cedo e u tinh a muitOs compromis- mu ito interessante, muiro espontânea na maneira de .:;er. b'le
sos p ro fi ssiom.is. Mas me lem bro do Assyrio, esse do Tea tro apaL'i:rmei por ela c fiquei lutando para nos casar mos. C:ons<.:gui
M unicipal, um cabaré que eu achava muito triste ... f-1avi:l um anul ar O seu casamento religioso anterior, o qu e m e permitiu
o utm embaixo do Teatro Cassino, que hoje não existe mai s, ali casal" no religioso, que e ra uma condição 'luase que absoluta da
no fim do Passeio Público. Em cima era o teatro. Assisti ali a minha família, de minha mãe. É muito difícil a anulação de um
Deus lhe pague, peça famosa de Joracy Cam argo, com Procópio casam ento religioso. Naquela época, era di fic ílimo. Mas traba-
Ferreira, na década dos 30. Os amigos que iam a esses lug ares lhei, fui à Cúria, fiz O processo de anulação, lutei como advoga-
comigo eram Adalbe rto João Pinhei ro, Antônio Galbraith do e consegui. Provei 'lue havia um casamento religioso anterior
Gomes da Cruz, Carlos Lacerda, Chagas Freitas... João Batista do ex-marido. Casamos enL10 na igreja na presença d as famílias
Soares de Pina, o homem que teve o incide nte de Moscou, do e dos amigos. Bem mais ta rde morreu o ex-marido, ela ficou
3O
qual surgiu a rutura de relações d o Brasil com a Rússia. Ele e ra viúva, e nós casamos no civil. Nessa época eu já era miniStrO do
do NGnistério do Exterior, tinha o apelido de "Pina Gomalina" , Supremo Tribunal Federal.
porque usava o cabelo preso por gomalina. Era uma compa- Quando a conheci, ela moraVíl na Urca, inicialmente.
nhia muito agradável, recitava os poetas brasileiros e portugu e· Depois mudou-se para a rua Goulart, que hoje chama -se ave-
i
ses, tinha sempre uma história chistosa para COntar. D e vez em nida Prado Júnior. Eu morava em Botafogo, n a rua Viúva
quando, ia m Haroldo Lemos Bastos, l\:rozarr de Almeida L'lcerda, e depois mudei para a rua M en a Barrero. Ti nha auto-
Rodrigues. Gente da Fac uldade de Direito, em geral. Duas vezes móvel e saíamos freqü enremente d e carro. Praticam ente todos
num mês, digamos, saíamos ii noite, sábado, íamos para a nossa os dia s e u ia à casa dela à noite, VIsitá-la. Quando nos ca samos
farta. O s rapazes daquela época - - os costumes eram inteira·
mente diferentes de hoje - freqüentavam muito a zona do
~ fomos morar na rua Barão de I caraí, tra nsversal à avenida Os-
valdo C ruz. D epois, mudei dali para a rua ao lado, que hoje tem
m eretrício. Não fui muito far rista, nao. Não bebia quase, não
I, outrO nome, chamava-se travessa Umbelina. Depois mudei para
por virtude, mas porque o álcool sempre me fez mal. Tive essa \ uma casa onde morei mais tempo, casa aJugada ainda, na r ua
v;da normal de um rapaz daquela época, n:lmoocos, sem noiva- Garcia d 'Ávila., em Ipan ema. Morei ali muitos anos. Minha pri-
do. Quando era convidado, ia a uma festa, a um baile, dançava.
.Mas nunca tive um namoro, como se dizia lá no No rte,fixe,
com som de eh. Namorofixe, só com a Musa. Eu me apaixonei
imediatame nte por ela.
l
,
meira filha, Ana T eresa, nasceu quando eu ainda morava na
travessa Umbelina. Os outrOS três nasceram quando eu morava
na Garcia d' Ávila: Carlos Eduardo, Patricia e Cristiano. São dois
casais, uma escadinha.

136
L 1 37
o SALÃO D OS P ASSOS P E RDI DOS A AU llÁC I A DA JUVENTU D E

Posso d.izer que acho que minha mulher fo i a compa- nciro de 1946, guand o foi nomeado mmistro d o STE Presidiu esse ór-
gãu de 1964 a 1966, lendo seu mandato sido eSlendido até o final da sua
nheira ideal para mim, porque era p reocupada com os :lSsuntos judiearun em de~agr.lVo a ,ILttlUCS do emiio miriistro da Guerra, COSI:t e
da inteligência, do estudo, uma mãe de fa mília exemplar, UI)'l a Silva. Aposentou-se em pneiro de 1967 por limite de idade. Ver DHBn,
super mãe, prOletOra dos filhos, dedicada tOtalmente a eles. Tan- op. cito
to (Iue nós n50 únhamos muitas relações sociais porque n seu clã Nelson Hungria Iloflb:tut:r (1891-1969) diplomou-se em 1909 pela
familiar é que tinha impurtância. Ela me ajudou a1gtunas vezes. Faculdade de DireilO do Hio de J:meiro, onde veio a leClonar direito penal
na década de 1930. Foi advogado c: p romOtor publico em i\1inas Gerais,
Era uma pessoa muito vibrfi.til, emotlva ... Todas as vezes que cu seu eS{;Klo natal, e delegado de policia no Rio de Janeiro, antes de ingres_
ia ao júri, à noite, ela me acompanhava. O problema era que sar na magistrnnlr:1 cm 1924. Em 1944 foi nomeado desembargador do
todo jll ri de que cu participava, depois de cena fase, semp re T ribunal de l\pclaÇ:iO (\0 Distrito Fedeml e em 1951, no início do segun-
do governo Vargas, tomou posse eomo ministro do STF, onde per-
em um júri grande. Advogado de certo destaque, o promotor maneceu até a aposentadoria, em 1961. Teve participação destacada na
queria brilhar, esforçava-se muito, alongava-se muito ... Meu elaboração do Código Penal de 1940 e foi relator, em 1963, do amepro-
destino era falar de madrugada. Muitas vezes falava com o dia jelO de código penal que, bastant e modi ficado, eonstiruiria mais tarde o
Código Penal de 1969, editado pelo D ecreto-Lei nO 1.004. Ver DHBB,
clareando. E ela ia me ver, participava, gostava muito d e tomar op.cit., e H élio Pereira Bicudo, O dirúto t a Jus/ifa /10 Brasil: uma análise critica
conhecimento de tudo. Quando defendi o D oca Street, por de am anln, op. cito
exemplo, ela não fo i assistir. Tenho uma casa em M acaé, ela esta· o D ecreto-Lei nO 869, de 18 de novembro d e 1938, definiu os c rimes
va lá e eu estava hospedado na casa de uma grande amiga, Sónia contra a economia popular, cujo julgamento passou a ser da competéncia
Pereira da Silva Jsnard, em Cabo Frio. Mas no dia em que aca- do TSN (\'er nota 9).

bou o júri, de manhã, o automóvel a trouxe. Há um bom retra- o jornal A Narão foi lançado no Rio deJaneiro em março de 1933 por
José Soares Maciel Filho, com o apoio de Jooo Alberto Lins de Barros,
to m eu com ela nessa ocasião, e u repousando numa poltrona e
entào chefe de políd2 do Distrito Federal. D estinado às classes médias
ela peno, numa cadeira. É o repouso do guerreiro depois da urbanas, foi fundado com o intuito de apoiar o governo Vargas, junta-
batalha, vigiado por sua amada ... mente com o jomal O RPdi(al, destinado à classe operária. Circulou até
1939. Ver OHBB, op. cit.

Trata-se do general Constâncio D eschamps Cavalcanti, que foi mi-


niStrO do STM de fe\'ereiro de 1938 a novem bro de 1940.
A pá/irIa do U"'J>D ... Jubileu proftsJional de ouro do adt'Ogado E"andr() Lins t ,
.fi/lia (Rio de J anei ro, Sociedade Brasileira de C riminologia, 1982). o TSN foi criado pela Lei 1'1 o 244, de 11 de setembro de 1936, para
julgar os envolvidos no movimemo comunista de novembro de 1935.
João da COSt2 Pinto foi intendente municipal de 1926 a 1930. Inicialmente era subordinado ii. J ustiça Militar, havendo possibilidade de
recurso em segunda instância ao STM. Após a decretação do Estado
Ernst Kretschmer (1888- 1964), psiquiatra alemão, ficou conhecido
por sua obra Kiirperbau Il1Id CharaJe/tr (A estrutura corporal e o caraftt';, de
1921, na qual apresenta a teoria da correlação dos tipos corporais com a
,
'1, Novo, conrudo, o D ecrelO-Lei n O 88, de 20 de dezembro de 1937. deter-
mino u a autonomia do TSN, que passou a julgar também os recursos
personalidade.

Ál va ro Ribeiro da COSta (1897- 1967) bacharelou·se peta Faculdade de


i em segunda inslància. A partir de 8 de junho de 1938, de acordo co m o
D ecreto-Lei nO 474, que regu lo u o processo e o julgam emo dos c rimes
de sua competência, O TSN passou a julgar também os integralistas e
Direito do RlO de J aneiro em 1918 e ingressou na magistratu ra em 1924, demais adversários do E stado Novo, como os liberais de modo geral.
chegando a desembargador do Tribunal de Apelação do Di strito Federal Em 18 de novembro de 1938 passaram ii eompeténcia do TSN os c rimes
em 1942. Foi ehefe do Departamemo Federal de Segurança P ublica du- r comra a economia popular, e cm 1 de outubro de 1942, diame da imi-
rante o go\'erno pTovisório de José Linhares, de outubro de 1945 au~ la- nente entrada do Brasil na Segunda Guer ra Mundial, o Decreto-Lei

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A AU I)AC I A DA JUVEN rUDE
o SALAO DOS l'ASSOS I' E KDIDOS

humanos, pusição que lhe valeu dUTls represálias, como foi o caso do
nO 4.766 dete rminou que O TSN passarm a julgar os militares e os cnmes
atentado a bomba que matOU a secretina Lida Monreiro da S ilva, em
contra a ~cgu rança do Estado, entre eles os de espionagem. Órgão de
agosto de 1980. M:"II~ recent~meme, em 4 de )ul11o de 1994, o cntào p re-
exccção que aTraVC~SOl> todo o Estaclo Novo, o TSN fOI finalml..nte cx-
~idcllte dl Ikp"blic" ftamar Franco sancionoll o novo CS1:\tUto .l.1 OAB,
tinlo cm 17 de nU\'t;mhro de 1945, pela l .ci Cons{/tucin!1.11 nO 11, aSSlIl;,-
que ~ubsrituiu a Lei nO 4.215. ConSiderado corporaU\'I~la, o novo estatu-
d:1 por José Ltnhares, ~ll1e as:.umiu a pre~idéncia da Ikpüblica ap,is a de
ra in~li!Ulu, ('mre OUlraS,.1 medida polêmlC:1 J,I obri.í.!;~lO ,· il'(indc de advo-
po~i..,..;I() de Varg;as, t;m 29 de ~ ouTuhro. ,\nles des~a ..!a!,l, conTudo, em 18
g:ldos nos c:\~os 'JlIlg:ldos e m pnnleirJ instância pdu ~ )uizados especiais
(k :lbril de.: 1<)45, j:í durante O pwe.:esso de dissolução d.1 dita,hu'a, V"lrg;l~
de pequenas cw<,as, ~o comdrio de) que h:wia sido previsto na criaç:lo
decretou ;1 anistia a todos ~lllc u\TSSem comeTido cnmes polfll<:os dnde
desses ju;z;Klos. Ver, por exemplo, o ~[tigo de Jose: I\Iut'Ílo de Carvalho,
a prolllulg,lção <ia Comlitui..,..:to de 1934. E~ sa meclj,b, o Dec rdo l....çi nO
"A OAB l1a COlltmlllão da Jemoctacia", p\.lblicado 110 Jomal do Hmsilde 24
7.474, bencticiava a maio r IXlrte do~ e nvolvido~ no movimCll1O el)1l1U-
de julho ele 1994. Ver tamlXm DH/m, op. cito
ni~t.I de 19J5, indu~i\'c Luis Carlos Pre~tes, Illa~ não ~c estendia ;IOS c ri-
mes mlhl~"CS e de espionagcm detiniJos pelo decretO-lei de 1942, nem u Il erculltlo Cascardo (1900- 1967), ofieml daJ\larinh;t, parrielpou a tl va~
aos c l'imc$ com\.m~ n~o conexos cúm os polilicos. Ver 1) /-1 B8, op. cit., c mente dos movimentos lcncmistas da décad:, de 1920. Um dos funda-
Reynaldo Pompeu de Campos. Rrprusiio judiria/ do Eslada j\TOt'O: tsq1lffda e dores do Clube 3 de O utub ro, foi nomeado, cm julho de 1931,
dirtila no bantO dos rtuS (Rio de J anc:iro, Aehiamé, 1982). intcrventor federal no Rio Grande do Norte, onde permeneceu alé feve-
• Segundo Carlos Lacerda, que narra esse episôdio em Dfpoinltnfo,op.
reiro de 1932. Em 23 março de 1935, assinou a ata de fundação da ANL •
da qual se tornou presidente na semana seguinte , Con rT:lno à
cit., p, 42, o major Costa Leite o teria mcumbido de, em nome dos esm-
radicalização da ANL, opôs-se ao manifesto de P restes de 5 de julho e
dantes. propor Prestes para presideme de honra na eerimóni:l de lança- fi cou à margem dos preparativos do movimentO de novembro. Ver
memo d:l AN L, em 30 de março de 1935. Em 5 de julho, aniversário das
DHBB,op.cit.
rcvolt;iS tenentistas de 1922 e 1924, Prestes di\'\.1igou um manifesto radJ-
cal CJue terminava com as palavras de ordem "Abaixo o gO\'crno odioso ]00Na data mencionada, a bordo do cncouraçldo jHinas GeraÍJ, e xclusiva-
de Vargasl Por um governo popular revolucionáriol Todo O poder ia mente perame a cupula da hierarquia militar, \la rgas atacou a o rganização
ANIl" A ANL foi fechada dois diaS depois e a partir de então passou a social e politica liberal, elogiando as "nações fones". Segundo Gerson
aroar na dande~rif\ldade, preparando o levante de novembro. M oura, esse discurso podc ser interpretado como uma manobra para
forçar uma definição dos EUA em favor da implantação d a siderurgia
" Ela bo rada basicameme por Francisco Campos, a Constiruição já esta- no Brasil, o que de fatO ocorreu, Ver G erson 1o.oJoura, Aulonomia no de-
va pront."! quando GelÚlio Vargas decretou o golpe de estado e:m 10 de: pendêl/da: a politica txlerna braJi/úra dt 1935 o 1942 (Rio de Jane iro, NO\'a
novembro de 1937. Inspirada nas legislações nuto ritárJ:l.S então em voga, Fronteira, 1980).
principalmente n:l da Polónia, a Carta de 1937 ficou conhecida como a
" P olaca". Com o fim do Estado No\'o em outubro de 1945, uma nO\'a ... Targino RI beiro (1889-1950) bacharelou-se pela Faculdade d e Direito
constituição foi pro mulgad~ em 18 de: setem bro de 1946. Para mais in- de São Paulo e m 1908 e iniciou sua carreira de advogado em Minas Ge-
formaçÕC':s sobre a Constituição de 1937, ver \X'alter Costa Porto, "A Cons- rais. F ixou-se em seguida no Rio de Jane.iro, tornando-se juiz suplente
timição de 1937'", em Luiz Fel.ipe C. D'Axila, A.f constilU/fiks brnúlúr(1J: da 2" Vara Fede ral. Colaborou na reforma do Código Comercial, na lei do
dI/dliJe hú!6,úa t propostas de !IIuda/lfa (São Paulo, Brasiliense, 1993). SenTiço l\1ilitar e em outrOS assuntos legais de interesse nacional. Foi ain-
da membro e presidente do Conselho Superior das Caixas E.conômicas
" A Ordem dos Advogados do Brasil (OAS) foi criada pelo D~crelO nO Federais. Ver Ex.presidentes do ll/lliluto dOI Advogodol BraltlúrOJ dude
19.408, assinado pelo entiio ministro da Justiça Osvaldo Aranha em 18 MOl/teZ/{!IIa . lrafos blogriji(o! (Rio de Janeiro, 1988).
de novembro de 1930, logo após a vitória da revolução. Um ano depois,
os estatutos da entidade, elaborados sob a responsabilidade do Institu- 16 Arthur Ernst Ewen (1890-1959) nasceu na Pnissia Oriental, entio
tO da Ordem dos .t\d\'ogados Brasileiros, então presidKlo pelo consultor parte da Alemanha. Em 1921 tornou-se membro do Partido ComuniSta
geral da República Levi Caneiro, foram aprovados pelo Decreto nO Alemão e em 1928 foi eleito membro do comiTê exccutivo d a Internaci-
20.784, de 14 de de7embro. Em 27 de abril de 1963, contudo, a l..cl onal Comunista, ou Komintern. RefuSJado na União So\'ie:tica em virru-
nO 4.215 revogou esse decreto, ampbando a ação da OAB na defesa dos de da ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1934 foi incum bido
direitos dos advogados e no controle da profissão. DUflnte o regime mi pela Internacional Comunista de vir ao Brasil para onenrar a ::ttuação do
btar. a entidade se destacou pelo engajamento na defesa dos direitOs PCB. Em 6 de março de 1935 chegou ao Brasil mumdo de um passapor-

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1'0
(
o SALÃO DOS PASSOS PERD I DOS
A AUOÁC I A OA JUVENTUDE

te norte-americano que o identificava como Harry Be rger. nascido e m • Ver M:í. no Bulhôes Pedrelfa, Razõu dt deftJa do Dr. Pedro Enluto Baptista
Nova York em 1892. Em conr:HO com os dirigentes do PCB e vivendo
(RIo de Janeiro, Coachman. Carbone & Cia, 1917).
cbnde~ li namente no paí~, Berge r contnbuiu para a formação da ANL e
passou a Integrar S lJa Cllpub, após a radicali zação do movimento. Em 26 Euezer 1\ lag3lhiies foi nome3tlo, e m 1935, tlJ retor dp ll o~p ital do
de dezembro de 1935, um mês após o movimento comunista, foi preso PrOlllO Socorru, :ltual Sousa AgUJar. O secrerririo de Saúd e (;"f,\ G asd.,
e submetido a tonlua~ c a condiçÕçs p recaríssimas de existência. Em GUlmarãc~.
maio oe 1937 foi jUlg.ldo c condenado pelo TSN a I Ganas dc pri são.
Anistiado c m 194 5, saiu comp1clamente louco da cadeia, devido ao s , " Com base no Có di g(. I-] cito ra l de 1932, que con~agrou o princípio da
maus tr:ltos sorridos. ~·l orreu na RC p l1blica D emOCt:"',Í,ica da AJcmanha representação ctas~js{a, :t Assembléia ConstiTUinte de 1931 foi composm
sem ter recuperado a ra zão. Ver DI-fBB, op. cil. de 2 14 rc prescnlamCS dci fOs c 40 dcputados cb s~ i sL1S, que rcp resenta-
va m em p regados, emptegadores, pro fi ssionai s libe rais c funcion:lrios
" Sobral Pinto (1893-1991) bacharelo u-se pela Faculdade de D ireito do públicos. Apesar de nâo ser prevista peJo anrcprojeto d:t Consti ruição, a
Rio de J aneiro em 19 18. D e 1924 a 1928 foi p roc urado r c riminal d a Repú- representação profissional foi ma ntida na Co nstituição promulgada cm
blica, assummdo em seguida o cargo de procurador geral do D istrilo 16 de julho de 1934, e por conseguinte nos corpos legislativos eleitos
Federal. Em 1928 ingressou no Centro D om Vital, associação a vil fu n- nesse ano. Ve r Ãngda de Castro Gomes, "A representação de classes na
dada em 1922 por Jackson d e Figueired o, com a assis tência de dom Constituiç ão de 1934", RcI'Úla de Ciência Política, 2 1(3), set. 1978.
Sebastiiío u m e, com o objetivo de esrudar e discuti r o aposwl::tdo da •
doutrina da Igreia. Em 1933 aderiu à Liga E leito ral Católica, fundada com Valêrio Konder (1911-1968), médieo, ing ressou no P CB e m 1934,
o fim de orientar os católicos na escolha dos deputados contirui ntes de filiando-se no ano seguinte à ANL. Ai nda em 1935, foi convidado por
1934. Tendo tido a ruação destacad a n a defesa de Luís Carlos Prestes e Pedro Ernesto Batista para cuidar da seção çulrural da Uniiío Tra balhista
H ar ry Berger, tornou-se internacionalm e nte conh ecido. Após o movi- do DislfÍto Federal. Após o levante de novemb ro de 1935 per maneceu
mento de 31 de março de 1964. criticou ostensivamente a ordem politica um ano e m eio na prisão, só sendo absolvido pelo TSN cm julho de
enrno impl::tntada e assu m iu a de fesa de vários acusados d e crim es politi- 1937. Veio a ~r cunhado de Evandro L ns e Silva. Ver DHBB, op. cit.
cas, especialmente a partir da decretação d o AI-5, de 13 de dezemb ro de • H ennes Lima (1902-1978), bacharel pela Fac uldade de Direi to da 8 ahia
1968, ocasião em que esteve inclusive p reso por alguns dias. Ver DHBB, (1924), foi livre-docente de di reito constitucional nas fac uldades de di rei-
op. CIL tO da Bahia (1925) e d e São Paulo (1926- 1933), alê m d e p rofessor (1933·
• Sob re Rui Barbosa, João Mangabei ra publicou RJo, o tlladisto da 1935) e diretor (1935) da Faculdade de D ireito do Rio de Ja ne iro. Na onda
Rtpública (Rio de Ja neiro, José O lympio, 1943), além uma série de oitO repressiva que se seguiu ao movimento eomunista de 1935, foi p reso e
r demitido de sua câtedra, só sendo readmitido em maio de 19 45, na e ntão
discursos profeodos entre 1916 e 1952, intirulada RJli Barbosa: dimmoJ
e ronf"iltdOJ (Rio de Janeiro, Casa de Rui Barbosa, 1958). Universidade do Brasi l, cuja F aculdade d e Direito dirigiu d e 1957 a 1959.
P"oi fund ado r da Esquerda D emocráuca, em junho de 1945, e do Partido
" Em 11 de no\'embro de 1935 J oão Ma ngabeira fundou, jUntO com o Socialista Brasileiro, em 1947, e de putado federa l pelo Di strito Fede ral de
senador Abel Chennont e outros depurados OPOSiCIOnistaS, o Grupo 1946 a 1951, D urante o governo João Goularr foi chefe do Gabinete Civil
Parlamentar P ró- Li berdades Populares para COmb3ter a Lei de Segu rança (196 1- 1962), miniStro do Trabalho (1962), p rimei ro-ministrO no úl timo
Nacional em vigo r desde março daquele ano. E m fevereiro de 1936,
impeu ou um pedido de habraJ-COrplu em favo r de oposicionistas presos
.' gabinete parlam en ta rista (1962-1963) e ministro das Relações Exteriores
(1962-1963), cargo no q ual foi substituido por Evandro Lns e Silva e m
no navio-presídio P~dro /, entre os q uais seu ftIho Francisco Ma ngabci ra, jun ho de 1963. Nomeado ai nda no mesmo m ês m inistro do Supremo
que ha\;a assinado o manifesto de fundação da AN L Os parlamenta res
o posicioniStas impeuaram ainda habroJ.corpuJ em favo r de outrOS presos
, Tribu nal Federal, foi aposentado em janeiro de 1969 jun tamente com
Evandro Uns e Silva e Vílor Nunes Leal. Ver DHBB, op, cito
politicas, inclusive H arry Berge r, atê serem presos em 21 de março de
1936, com a decre tação do c:st,1do de guerra. No Julgamento do TSN, em :!IJosé Carlos de M acedo Soares (1883-1968) foi deputad o constituinte
12 de maio de 1937, Abel Chennont c D omingos Velasco fo ram abso l- em 1934, ministro das Relações Exteriores d e 1934 a 1937 e de 1955 a
vidos, mas Abguar BaSfos, Otâvio da Silveira e João Mmgabeira fo ram 1958, m iniStro da J ustiça em 1937 e interventor federa l em São Paulo
condenados. Após recurso ao ST M, Silveira e Mangabc:ira sairam da pri- de 1945 a 1947. Sua gestão à freme do i\1.inistério da J ustiç a, entre maio
são em junho de 1937 . Ver DI-IBB, op. dr. e novembro de 1937, foi marcada pelo afrouxamentO d as medidas tO-
madas contra os presos politicos. Assi m , em 7 de iunho determinou a

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14 3
o SALÃO DO S PASSOS "I' RO I DOS A AUDÁC I A DA JUVENT UDE

solnll<l de 408 presos ~em proce ~~o formado en\'okid os no 1l1ovimcn!O encarregado d~ negôcios do Brasil em \'{'ashingwl1 em 1940. Seu primo
comUnl~t.1 de 1935. Além diSSO, com a awação de Sobral 1'111\0 e a inter- Antônio C arlos Konder Reis foi deputado federal (1955-1 963) c ~e03dor
ve nção de dom Seba"tião Leme, VI ~ltou na rri~Àa Luis Carlos PTl <;tC~ e (1963- 1975) por Santa Cat:lrina, alêm de h"Ovcrnaclor do cst'Jdo (1975-
I brry Be.ger, Iransfnlndo este Úl1l1l10 do (Iuancl ,h Policia E~peci;IJ p,U.l 1\)79), rendn como SUCel'S,H neSTe ü ltim o C.ll"gO Jorge Konder
a Ca!>a de Correç3.0, onde" tnttamel1lO a de d'fpensadu mdhorou. A, 13ornhaus<.:n, 0111\"0 pruno. :\Iétn de Valcrio Kondcf, Outros dois irmãos
eondiS·õcs dos prtoSos pol ílicos \'o1t;,ram a piornr, contud\), tum ii dccre- d<.: d"nJ l\lu ~:1 li\'cmm at\J;lç:i.o política: Vítor ](ond<.;r fu i jOTllfl1isata e
uçiio do Est"Jo I\'uvo em 10 de J)()\"cmbro de 1937, cinco di:"ls dcpoi" de
Macedo Soares tcr JX=J,do demissão dc !>eu e:lrgo c ter sidO) subsutuido
, membro do PCiJ entre 19"36 e 1956, e t\le)\andn: K.mcler. também jama-
°
li:<;I:l., C!>UC\<:U v:\ rios livros ~obre Jap:io, lendo sid.) ,Kllsado de e~ piona­
por FrancI sco Campos. "tor DT-/TH3, op. cito gcm :1 (:I\·,X dos países do E ixo, processo cm que foi contudu absolvido.
Leand ro Kondcr e Rodolfo Konder, filhos de V:!Ierio, tambêm escrito-
• D ario de Almcida \l agalhiies na~ceu cm 1908 e h:lcha ....J()l1 se em 1928 r<:~ e jt1rn:,lj~ ta~, foram preso~ na déclCb de 1970 aell~,ldos de pertem:er ao
pela F acu1clade de O ir..::1lo de l3elo Ilorizomc. Deputadu federal relo PCB. R(xlolfo tornou-se :.ecrc:tário municipal d c cultUr.l de São Pnulo em
Partido Progressist:l mine,ro de 1935 a 1937, ,. partir de então dedicou-~c março de 1995. Ver DHBB, op. Clt.
ii carreira de advogado. Assinou o Nlt1l1ijúlo dOI minfl·rOI, documento lan- •
çado em OUT ubro de 1943 pregando a redemocratização do país, e foi As rebções entre o Brasil e a União Soviética, abaladas com a eassação
preso, em dezembro do ano seguinte, sob a acusação de conspiração con- do registro do PCB cm 7 de maio de 1947 e a publicação na imprensa
[ta o E stado Novo. Ver DHBB, op. cito ruSS:l de um artigo considerado ofensivo aos militares brasileiros, foram
rompidas em outubro do mesmo ano a prete)\tO da detenção, por em-
XI D enis Moraes e Francisco Viana, Prulu: I"/(JI (al/lordtiras (2" ed., briaguez, do diplo mata João Batista Teles Soares de Pina, segundo-secre-
Peu:ópolis, Vozes, 1982) . tário d :l embruxada brasileir:l cm Mo~cou, pela polícia soviêtica. Ve r Vasco
Leitão da Cunha, Diplomado (/II o/to-mar: d(poil'1l(t/to ao CPDOC (Rio de Ja-
Jl Elsa Cupdo Colam, conhecida com o Elsa Fernandes, era co m pa- neiro, Editor:.l. d:l FG V, 1994).
nheira de António MacieJ Bonfim, secretário ~ral do PCB ~ responsável,
juntamente com Prestes e Harry Berger, entre omros, pela deflagração do
movimento COmuniSL"l de 1935. Presa após O mO\;mentO, fOI posta em
liber:dade mas desapareceu em seguida. Prestes fOI ac?-sado d e ser o prin-
cipal responsávcl por sua morte, decidida pelos di rigentes do PCB, que a
consid eraram informante da polícifl. A prinópal prova comtfl Prestes fo i
um bilhete de sua autoria datado de fevereiro de 1936, em que suposta-
mente cobrava do secretariado nacional d o PCB a execução de Elsa

Fernandes. Amónio l\l acid Bonfun , tambem conhecido como Adalberto
Fernandes ou ainda como Mira nda, apóy:. assassi nato de Elsa e a divul-
~ção de que o crime fora praticado pelos próprios comunistas, terminou
por fazer: declarações em que denunciava seus comp anheiros. Segundo
alguns auto res, mais ta rde u:na sido descoberto que Maclel Bonfim em
agen te policial inflluado no PCB. Ver DHBB, op. cito

" A farru1ia Kondcr teve grande influência em Santa Catarina, d esde a
êpoca do a\'6 de dona Musa, tambêm chamado l\laccos Konder:, negoci- ,
ame alcmiío que se lomou membro des t:lCado do Partido Republicano
CatarinenSe. O pai de dona },lusa foi prefeito de ltajai, e seus tios Adolfo,
Vitor e Arno tambêm tiveram des rague na vida pública. Adolfo Ko nder
foi depurado federal por Santa Cat:1r1na (1921 -1926), presidente do es-
tado (1926-1930) e deputado constimime em 1934. Vitar K onder foi
deputado fede ral em 1920 e ministro da Viação e Obras Públicas do
governo Washington Luís (1926-1930). Arno Kondcr, diplomaw, fOi

'" '"
4. A página negra do TSN

CRIr>.·l1:: POLiTICO, MKrERIA DA HISTÓRIA

o senhor recebia alguma coisa como advogado "0 TSj'J, designado


• pela OABI
Absolutamente nada. E cügo mais: nos processos de
natureza politica, adorei como critério não cobrar honorários.
Nunca cobrei honorários, porgue eu partia do seguinte princí-
pio, que ,sigo até hoj e: o crime politico, diz o grande Fran cesco
earrara, no seu Tratado de direito penal, não é assunto de direiro
penal, é l-tistória. Sempre achei que os presos politicas estavam
ali por uma questão de idéias e procuravam , certa ou errada-
mente, a melhoria das condições de vida d o povo. P odiam não
ter razão, inclusive. Mas eram idealistas, românticos, achavam
que iam mudar o Brasil para melhor, iam estab elecer a igualdade
social, ian"l estabelecer um regime socialista, capaz d e atender as
necessidades do povo brasileiro.

Qual era a motivação dos advogados que aceitavam defender


preso.f políticos quando eram deJignados pela OA B,. mesmo se",
ganhar nada?
E ra que se tinha o verdadeiro sehtido e compreensão
do desempenho de uma missão profissional. A profi ssão de
advogado nào tem apenas ti. destinação de gan har dinheiro, (em
também uma função mais nobre: a prestação de serviços grarui-
toS aos necessitados. É um múnus público que o advogado de-
sempenha nessa hora.

Qual foi o prúmiro caso que o setlhor difendeu.perante o TSN?


" I"'ÁG I N/\ NI;GRA DO TSN
o SALÃO OO S PAS SOS PERDIDOS

vam que não podia haver sigilo entre advogado e preso comu-
o primeiro réu que defendi foi um tenente-aviado r
nista. Fui ao juiz, que me p restigiou, permitiu que eu faJa sse com
ch<Jtnado Benedito d e CarV;Jlho. Houve lu la armada na Escola
o Benedito distante dos policiais (lue exerciam vigiJ:1ncia sobre
de 1\\ i:l.ç?io aqui no Rio, e de estm'll envolvido. Depois n?io o vi
ele. Pwkmos conversar, e ele me disse que ach:l.\"a que aquele ef"3
mllis. Quando fi/. a \·iagcnl à China com Jo~o Goul:ut, em 1961,
um triuunal ele exceção, que ele não reconhecia, mas que admiria
encomrci-o morandu lá com a familia, trabalhando na Rádio
(lU\;: (.;U, como defensor designado pela Ordem, fizesse a SU~I
Pequim! Esse era comunista ...
defesa. Deu os dementas, debati-os com ele - havia a :lCU$a-
O T ribunal de Seb'U ran~·a. quando foi criado, se insta-
ção de emprego de afinas na Escola de Aviação, e ele contcst:1.-
lou no prédio onde era antes a Escola Ba1"th, ali n:1. m-cnida Os-
va a ncusação - , o inte rro~tôrio se rC:llizOll e d ali em diante
vaklo Cruz. Fecholl-se uma escola para se instala r esse organis-
pude faze r 3. sua defesa. Estive com ele d epois, na própria pri-
mO espúrio, esse órgão de exceção da J ustiça. D e modo geral, )
são. Ele fi cou entre os cabeças, e não estOu bem cer to se foi
os m.ilitares presos se recusavam a comparecer ao Tribunal de
condenado a oito ou d ez anos de prisão. Eu defendia também
Segurança e eram o uvidos na Casa d e Correção. O primeiro • •
um outro cabeça, Alvaro de Sousa, capitão do E xército. Aí
ca so em que veio um acusado ao tribunal para ser interrogado
começa ram a surgi r muitos processos de fora, dos estados, de
°
foi do Benedito d e Cal·valho. Havia coi sas ridicuJas. O s comu- Pernambuco, do Rio Grande do Norte, foi um volume imenso.
l"Ustas fa ziam sempre o gesto da m ão fechada para o ar, que é
um símbolo d a m anifestação dos mo\-imentos comunistas no T emos aqui algum livros contendo as denúncias foi/aI pelo pro-
mundo, e havia uma p reocupação muito g rande dos policiais Clfrador do T51'J, H ono rato H imalaia Virgulil1o. O primeiro
de evitar que esse ges to fo sse feito. Ma s o Be nedito burlou a °
refere-u aos cabeças do movimmto de 35; segundo, aos co-réus; o

vigilância da Policia Especial, uma policia que existia na época, terceiro se chama Razões finai s da acusação. O senhor conhece
violenta, de capacete vermelho, que acompanhava os réus. Em eIIeI proceuos, conhece os réus?
determin ado m omento, já na sala de audiência, com certa ha- Evidente. Aqui deve haver réus meus clientes. Po r
bilidade, ele se virou para o juiz, um coronel do Exército cha- exemplo, Álvaro Francisco de Sousa, Benedito d e Carvalho, de
mado Costa Neto, e disse: "Com o o sen ho r sabe, agora, na quem-:ícabei de fala r. D efendi-os no mesmo processo. D efendi
Fran ça da Freme Popular" - porque estava o Léon Blum no em outros processos, deJX>is do julgamento em primeira instân-
2
governo francês - "todos, quando se reu nem, fazem esse cia, vários que estão aqui. Por exemplo: H onório de Freitas
gesto." E fez ... G uimarães, Agildo Barata, Sócrates Gonçalves da Silva, Davi de
Nesse dia houve um outro fato incomum. Eu não co- ~\iledeiros Filho, D inarco Reis. H á muitos aqui que nào me lem-

nhecia o Benedüo. Para poder ex.ercitar a defesa, preci sava bro se defendi ou não, mas são nomes fami liares: José Gay da
conversar com ele. Ha'via uma dependência embaixo da Escola Cunha, Aristóteles Rodrigues Rangel, Francisco I sidoro Rocha .
Barth ond e fi zeram uma espécie de xadrez para colocar o réu Só vendo nos meus arquivos. Dinarco Reis, tenho absoluta cer-
preso que viesse ter até ali. Pedi aos policiais que o guardavam teza, gravei mais, porque, para sobreviver, a mulher dele mon-
que me deixassem falar a sós com ele, mas eles não admitiram. tou uma pensão na rua IOde Março, próximo de onde eu tinha

L
Eu dizia que a conversa tinha que ser sigilosa, e eles argument!.- escritório, e eu la freqüentememe almoçar lá.

'" ".
o S ALÃO D OS PASSOS PERDIDOS A PÁGINA NEG R A DO TSN

o senhor tinha tempo para se preparar para essas defesas todas? em liberdade ai nda na fase da polícia, quando a própria polí-
T inha sim. Como eu dizia, e escrevi em várias defesa", cia se convencia de que sua p:wticipação tinha sido inócua ou
aquilo era politica, t;:ra m:uéria históricl., que não tinha se ntido insignificante.
di scuti r. Em geul, também havia muitas falhas nos processos,
em re lação :l apur:.tção de provas elC. Um processo de Se Jã se sabia que o tendência era à condel1açào co"'o transcorriam
J

Pernambuco, cm que h:wia centenas d e acusados, me obrigou )


os processos /10 TSf'J? O smbor lillha difiCIIldades paro comeguir
até a faze r umas fichas com o nome da pessoa, para ver onde teslemunhas de defesa, por exelJlplo?
ela era mencionada, e eu às vezes não encontmv:1menção algu- Ti vc dificuldad e, sim. Porque chegou um detenninado
m a, de maneira q ue e1':1. fácil mostrar que não havia acus:lção instante, quando O Tribunal de Segurança passou a juJgar, ele
contra ela. Não era difícil a realização dessas defesas. Jâ no caso apenas, o processo em primeira e em segunda instâncias, em
;

do Be nedito de Carvalho, por exemplo, eu mostrava que ele que a lei de ritos, ou seja, a lei que comandava o processo, tor-
havia tomado parte no movimento idealjsticamente. A defesa nou-se extremamente severa, e não assegurava plenamente o
niio tinha o sentido de faze r a prova de que ele não participara, direito de defesa. Por exemplo, a denúncia, segundo o conceito
\
porque ele não negava, confessava. A idéia era mostrar que não geral, deve ser uma exposição do fato criminoso, com as cir-
°
seria com a cadeia que se iria resolver problema. A defesa cunstâncias em que ele foi praticado, para que o réu saiba qual a
nesses casos era mais uma divagação histórica, através do mun- acusação que está sofrendo e possa rebatê-la. Lá, não, instituiu-
do, desde Catilina. A Revolução Francesa era muito invocada se um sistema que era chamado, não uma denúncia, mas uma
também como parâmetro para mostrar que essas pessoas mui- )
classificação do d elito: «Fulano de tal faz parte de uma célula
tas vezes saem das cadeias para as estâruas. Eu m e lembro que comunista. Classificação do delito: artigo tal da Lei de Seguran-
usei muito essa expressão. ça Nacional." Não precisava dizer mais nada. O procurado r
podia valer-se dos d epoimentos prestados na fase policial, e a
D ENÚNCIA ERA CONDEi'1AÇÀO
defesa tinha o direito de arrolar duas testemunhas, apenas, que
-'
O Código Penal admite atenuantes e agravantes para os diferel1tes d everiam comparecer a juízo levadas pelo próprio réu, para
crimes. Nesses processos ligados ao movimento de 35 se adlJlitia isso? poder depor em seu favor. Se o réu não as levasse, não havia
Sim, porque quem regulava a parte geral da legislação, nulidade, elas apenas não eram ouvidas. Quando se queria mqui-
, rir, por exemplo, uma autoridade, a defesª não tinha condições
a questão da responsabilidade, a questão da pena, era O Código
Penal Como atenuante, alegava-se a menor participação, a insig-
nificáncia da ação; havia muitas razões que podiam atenuar e
às vezes até absolver, mOStr.:lr que aquele ato não tinha tido ne-
I de levar essa autoridade para depor. Era preciso que houvesse
uma intimação ofiçjal, ma s isso era absolu tamente impossíveL A
d efesa se restringiu imensamente. E mais: chegou ao ponto de
se transformar exclusivamente em defesa oral, não havia mais
nhuma conseqüência, não tinha provocado nenhum resultado I defesa escrita.
danoso. Mas não era fácil a abso lvição. Via de regra, o cidadão
denunciado era condenado. Quando ele nào devia ser cond e-
nado, não chegava nem a ser denunciado. Ou então era pOStO
( Vou contar um episódio que é característico desse
cerceamento da d efesa . H avia um processo com muitos réus,

I 151
o SA I_Ao DOS PASSOS P ERDID O S A f'ÃO I NA NI'! O R A 1::>0 T SN

muitOs acusados, e com 30 advogados. É impossível reme· Os processos era m , via de regra, malfeitos, porque
morar todos, mas eram Sobral Pinto, .i\'lário Bulhões Ped reira, eram realizados nos quartéis - os famosos IPMs, InCjuéri tos
Jorge Severiano H ibeiro, o velho Evaristo de .i\ 10rais, Pc.: n:l e Policiais l\li lirare:s - por gente sem experiênCia. Eram falhos, e
Cost:l, BdTtolo mçu Anadeto,Jamil Péres... D izia a lei que regula- o advog,tdo invocava muito essas falhas. As provas, muitas ve-
va o processo que o :ldvogado tinha oi reito a 30 minutos p :l ra zes, eram t.n su fici entes. D e nu·o em r:lrO, quando o tempo foi
a d efesa. No dia do julgall1elllo, o presidente do tribunal fI:!/. O passando e, port:lnto, foi-se esmacccndo a impressão contrária
segui m e: são 30 minutos, sào 30 :l.d\·ogados, logo, cada a(l\·o- e hosti l ao movimemo ele 35, O advogado podia ter sucesso.
b>:ldo tem direito a um minutO! Pedimos a suspe nsilo dos tra- Havia lambém certaS infraçõcs que não tinh am rantaimportân-
balhos, nos reunimos, e três advogados fizeram a d efesa. C:lda da, e que o Tribunal não ti nha a mesm a tendência a reprimjr
um falou dez minutos. De m aneira que era d e fato um tribunal co m severidade. O caso d aqueles que pegaram em armas, dos
de exceção, um tribunal arbitrário, um tribunal que se desti nava cabeças de 35, era uma coisa. Ma s havia alguns outros que eram
nào a julgar, mas a condenar aqueles que eram levados a seu acusados de divulg:u: panfletos subversivos.Já aí era uma sanção
julgamento. meno r que a lei estabelecia. Ao mesmo tempo, nesses casos, em
geral eram muitos os acusados, as provas se contradiziam, e, vez
Nesse quadro, qual era o espafo do advogado de dejna? Seu papel por outra, se obtinha uma absolvição, um resultado favorável.
era apenas tentar diminuir a pena? De tod a forma, isso não era muit.o freqüente, porque os juízes
O esp aço do advogado era tentar por todas as manei- quase sempre já vinham com a sentença escrita de casa. A gente
ras demonstrar que o seu cliente não tinha culpa. Mas o advoga- falava inutilmente, falava ao vento. D epois de falarem as partes,
do, quando não consegue obter uma solução total favorável ao a acusação e a defesa, o juiz sacava do bolso uma sentença e lia.
cliente, procura m.inimizar, atenuar a responsabilidade, reduzu- a
,\
Mas eu me lembro que uma vez o velho Evaristo de Morais
sanção. A amplirude que a defesa tem é muito grande, não se
defendeu wn cliente, e o próprio juiz que cirou a sentença do
esgota no aspeto técnico. Podia-se m ostrar a falibilidade do tes-
bolso tinha se convencido da procedência dos argumentos que
temunho humano, os casos de erros judiciários, como o caso
ele apresentou. Rasgou aq uela sentença e fez outra. I sso podia
Dreyfus,6 por exemplo, o caso dos irmãos Naves,7 aqui no Bra-
acontecer - era uma raridade - no meio dos milhares e mi-
sil. Podia-se mostrar que tudo isso podia acontecer ali. O juiz ia
lhares de réu s q ue passavam por lá.
proferir uma decisào em matéria política, onde o tema é muito
Outra co isa é que a prova, em geral, se valia muito do
sen sível e os erros sào muito freqi.ientes. O advogado tem um
depoimento de co-réus, e isso, tecnicamen te, perrn.itia a susten-
papel muito mais extenso do que aquele de absolver. Ele defen-
tação de que a acusação de um co-réu não é válida, porque
de o interesse do cliente, com as limitações que a causa oferece,
muitas vezes o sujeito acusa para se d efender, querendo ficar
Não pode p leitea r aquilo que é absurdo.
bem com as autOridades ou transferir para o outro a sua res-
Mas estamos falando especificamente de u'" tribunal de exceção, ponsabilidade.
em que bavia uma predisposição para condenar. Nessa sÍlllofão,
qual era a expectativa do ad/Jogado? Havia mal-estar enlre os rius det'ldo à de/afão?

15' "3
A P ÁO I NA NEO RA DO TSN
o SA L ÃO D OS P ASSOS PERDI DOS

Sempre m e: perguntam a diferença entre a ditad ura de


Sim. I\ luitos se justificavam diante de outros d e tê-los
37 a 45 e a de 64 em diante cm relação à tornlm. Posso dizer
acusado na policia pelo f:'lto de terem sido obrigados, fo rçados
que, na primeira di tadu ra, no Estado Novn, a torrura não fo i
a fazê-lo. Posteriormente, no trib un;1I, p rocuravam corrigir :l
instirucionalizada, era episódica. D e fato, quem tivesse uma
delação, inforn1:lr que tinham sido compel idos, torturad os, ou
posição !'oci:ll mais d est:lcaei:'l, uma pessoa de cbssc m édi:l, um
fisictl mente ou psicologic:unentc, (XIra presta r tlquda declaração.
Isso era comum. i\ (uüas vezes os acusados também sustenra- oficia l do Exército, um médico, um advogado, de modo geral
vmn que tinham o direito de pensar daquela maneira, que aquela não sofri:l tOrtura; sofria o cons trangimento, a hLlmilhaçi'io, o
situação era função de um sistema de governo que não permi tia insulto, a injúria, o palavrão, m as não lOrtllra ri~ica . Podia so-
a manifestação livre do pensamento, que levava à condição de frer lo rnlra mental, através de interrogatórios p ro longados-
réu gu em estava apenas eXprimindo as suas idéias. E viden- impedi a-se que o cidadão d o rmisse, até que, pela fadiga, não
temente, se alguém confessasse que era marosta, seguramente resistisse ao interrogatório e contasse alguma coisa que fosse do
seria condenado. Nós também tivemos isso em 64. O primeiro interesse d o inquiridor. Mas segundo se comentOU na época, em
caso gu e foi julgado no Supremo TribunaJ Pederal - eu ainda alguns casos, sobretudo de subalternos da Marinha, houve de
estava Já como ministro - foi o d e um jovem economi sta, fato tortura.
professor em Recife, que numa aula tinha feito uma exposição A tortura em 35 não era, como em 64, uma tortura
sobre o marxismo. Ele foi preso, mas o Supremo lhe concedeu que acon tecia em todos os casos , indep endentemente da posi-
habeaJ-corpuI. Havia falta de justa callsa para o processo: a liber- ção social do p reso. Fosse ele homem ou mulher, velho ou
dade de cátedra o autorizava a informar os alunos, do ponto de ? moço, cuJpado ou in ocente, em 64 era preso e imediatamente
vista teórico, científico, daquilo que ele, como professor, b em I torturado fisicamente, com choques elétrk os ou co m pau-d e-
entendesse . .M.as isso, naquela fase de 35, era quase impossível, arara, de maneira a fazer as d eclarações que, ach ava o inquiridor,
pon=Jue o Suprem o nào tinha o poder de conceder haúeaJ-corplls, eram necessárias para O p roceclimento penal. Em 35, a tortura
de m aneira que se o cidadão, p or qualquer motivo, defendesse fisica foi menos freqüente do que depois de 64, sobretudo de-
s
uma posição liberal ou o direitO de exprimir seu pensamento, pois doAI-5, quando ela se institucionalizou como método de
essa pessoa estava no índex dos inimigos do regime. Era impos- investigação criminal.
síveJ que uma pessoa nessas condições pudesse ser absolvida no
Tribunal de Segurança. Algum dos réus que o senhor defendeu depois de 35 lhe relatoll
episódios de tortura?
Como em o problema da tortura dos presos políticos depois de 35? Sim. Houve o famoso processo, em que alguns dos
TUJ'los no CPDOC, por exemplo, o depoimento de Tomás Pompeu G1.beças do movimento, dirigentes do Pattid o Comunisra, fo-
Atioli Borges, qlfe esteve preso nessa época e diZ que, entre (1 o/i- ram acusados de ter mand ado matar Elsa Fernandes. Um dos
cialidade e os intelectuais, não havia tortura. A1t1I ele se lembram acusados nesse processo era H onório de Freitas Guimarães,9
de militares de patente mais baixa que foram torturados. Já Agil- um ho mem até: de situação econômica boa, rico, clirigente do
do Barata, em seu Iiltro de memórias, diZ que hattja tortura ... Partido Comunista. D epois que foi condenado, a famflia m e
Como era isso?
]55
] "
A PÁGINA NEG R A DO TSN

procurou, estive com de e ele me declarou que havia conf(:ssa~


do sob tortura física invencível. que aquele fato nào se enqu::td rava na disposição da lei invoc<lda
peJo ~'I .inistério P líblico. Os juizes acabavam aceitando, algumas
"
A tortura, como diz Maurice Garçon, ê um mal pb-
vezes, uma ou OUlra soluçào f<lvor.ívcl. Vcz por OUlra, era r:tro,
neL-irio. Não foi :Ipenas no Brasil que ela se pmücou. Eh se torna
mais intensa sobrctudo na repressão ao crime polít.ico ou na h:1.vi:l um:t absolviçào por fah~1 de provas, porquc, como já dis ~
se, os processos era m malfeitos.
rcpn..:ss?io ao uimt;; contei a propriedade. Nós todos sa h"InOS
quc há lOrtul1!. e que se tenta acabar com ela, inclusive consif,'l1an ~
do na Consútuiçào, no capítulo dos direiros individuais, que eb é QlIai.r eram o.r jllíZes mais moderados?
crime inafia nçáve! c insusceúve! de graça ou anistia. Por outro Era cOIl:-.iclcr:1.do mai::; modemdo o que repn:<:cntav:l
lado, apesar de ocorrer no mlJlldo intóro, a lOrrura é episódica. os <ldvogados, o Pt.:n.:i ra I3r:aga, que se deu por impedido no
H á um li vro, por exemplo, de Alec ]\kUor, que era um grand e caso JoãoM:angalx:ira. " lhuJ rVlachad.o era um auditor de guer~
advogado francês, com esse nome: La torture. Ele (em também ra, portamo ju.iz togado, e era um homem que tinha idéias
outro livro em que menciona a tortura, chamado Lu grt11u!s fantásticas, fabulosa s, ultra~reac.ionárias. Era poeta, escritor, inte-
problü"es colltcmporaills de I'ins/metion crimillí:/Ie. Nesses livros Me llor lectual, teve suas pretensões de ingressar na Academia Brasileira
sempre diz que a tortura existe em todos os cantos da terra. H ii de Letras. Ma s tinha uma concepção do comunismo muitO
uma exceção que ele faz: a Inglaterra. Na Inglaterra não existe a primária. Por exemp lo, era autor de um folheto chamado O
tortura. O preso, quando chega à Scotland Vard, recebe logo cOllllmisfJ/o IMS letras e nas artes 110 Brasil, que foi distribuído em
uma advertência do inquirid o r ou do policial encarregad o da larguíssima escala peja Biblioteca :Militar, onde sustentava queo
investigação, que recomenda: nào se incrimine, porque qualquer comunismo era a degenerescênc.ia de tudo: família, arte, reli-
incriminação lhe será prejudicial. Assim, a Inglaterra tem o privi~ gião... Chegava ao extremo de achar que o samba era uma for~
légio ou a posição singular e e10giável de não adm.icir a tortura ma de degeneração da música ... A pintura de figuras deforma-
nas suas investigações em matéria penal. das também era manifestação comunista. Ele mencionav:a O
edificio do Ministério da Educação, que em cima, visto do alto,
Os JUiZES E OS ADv6G.>\DOS dizia ele, configurava a fo ice e o martelo... :Mas era um homem
de convívio fácil, agradáveL "
Como tram os juízes do T ribul1al de Seguro1/ça j\lacional? Como o l\1esmo com Lemos Bastos, da Mannha, e com o pró-
senhor os avaliava? prio Costa Neto, do Exército, que era mais azougado, mais im-
.Ao fim de algum tempo de convívio como advogado, petuoso, no fim das contas fiz boas relações pessoais. Este úl-
fui estabelecendo, é claro, uma relação natural, foi se tornando timo, de trato difícil no começo, pela própria função, que o
mais fác i.l o contaro. O tribunal foi aos poucos so frendo a il11 ~ obrigava a ouvir as partes e os advogados, acabou mudando O
posição da própria função de julgar que ele tinha que exercitar. feitio imperativo com que chegou lá. Acabou atenuando a con-
E n.isso os advogados tinham uma importância muito grande, cepção que tinha, de que devia condenar sistematicamente, de
ao procurar demonstrar que o réu não devia ser condenado, que não devia ter contemplação. Acabou se tornando uma fi~
pois não haveria nenhuma vantagem social ou humana nisso, ou gura mais humana.
JS6
JS7
A PÁO I NA NEORA DO TSN
o SALÃO DOS PASSOS P ERDIDOS

"
O p residente do TSN, rreden"ío Barros Barreto, também fez uma critica ao próprio nibur'lal. Dizia: "Aqui todos recebem or+
/(/I/a longa ílIrreira 110 SujJrol/o liil}ff!/{JI Federal. Como fra ele? dem do governo, menos eu." Todo mundo ficou estarrecido:
Ele antes tinha sido juiz do sítio, e sua carreira resultou , como? Logo ele, que ent exaUllnentC o represenunre do gover-
exclusivam ente desse fato. Quando se decretava o estado de no, não unha função julgadora, eSl3va ali apenaS para acusar?!
sítio, segu ndo a Constituição d e 3-1-, era designado um juiz para Ele continuo u: " Porque antes que o governo mande, eu vou
fi scali za r as pri sões. Ele era juiz de direito e foi designado pal':l logo fazendo .....
essa fun ção. Fi sc:ilizava a prisão dos intelectuais, '--jue era no na- Já que estou contando um episódio chisroso, ....ou refe-
vio Pedlv 1, na praça Mauá, ia à Casa de Correção, à Casa de rir outro, pass ado com Aparício Tore lli, o inimitáve l e
Detenção, para verificar a Situação pessoal dos presos. Isso fez imprevisível Bado de Itararê. Preso no navio Pedro I com ou-
com que se ligasse as autoridades, aos carcereiros, que tinham de tros intelectuais, foi requerido babem-cotpu! em seu favor na 2"
dar as ordens para ele poder ir a esses lugares, em suma, fez Vara Federal, de qlle era juiz o dr. Castro Nunes, jurista noclvel,
com que se ligasse ao governo. Foi nomeado presidente do Tri- que veio a ser depois ministro do Suprem o Tribunal Federal.
buna l de Segurança e logo em seguida p r o m ovido a Era comum na época chama r o paciente a juizo para prestar
desembargador. Po r influencia dessas relações foi nomeado mi- informações. O Barão compareceu e enfrentou a figura austera
nistro do Supremo Tribunal Federal . Nào havia o Senado da e sisuda do Castro Nunes, que lh e perguntou se queria expor ou
República para aprovar o u não a nomeação, estávamos em ple- ser interrogado. A resposta logo surpreendeu e descontraiu o
na ditadura, e ele ficou como ministro muito tempo. Mas sofreu ambiente: ''Ponto livre, dOLltor, ponto livre... " O juiz indagou-
pelo seu passado. Em certa fase, quando era a sua vez de chegar lhe o motivo de sua prisão, e o Barão respondeu: " E is a ques-
à presidência, aqui no Rio de Janeiro ainda, o Supremo não o tão... D ei tratOS à bola sem conseguir uma explicação, mas afinal
elegeu presidente porque ele trazia o estigma de ex-presidente parece que só uma razão pode existir. Entrei no Café Belas Ar-
do Tribunal de Segurança Nacional. Ficou duas ou três vezes tes e pedi um cafezinho. No mamemo em que estava levand o a
sem conseguir ser eleito presidente do Supremo. Licenciou-se xicara à boca, um indivíduo me pôs a mào no ombro e disse:
por muito temp o. Só quando o Supremo foi para Brasll ia foi 'O senhor está preso.' Como vê. o dr. juiz, só pode ter sido
que conseguiu ser presidente, porque muitos não queriam ir para aquele maldito cafezinho.. ." Todos riram, e o juiz, já de sem -
lá e, com a entrada de novos miniStrOS, arrefeceu o labêu que blante desanuviado, ia en cerrar a audiência, quando o Aparício
impedia a sua escolha para a direção do Tribunal. pediu para dizer mais alguma coisa: "Dr. juiz, li nos jornais que
me tinha sido enviado um 'ouro de M osco u', mas ele não me
E Honorato Hill/alaia Virgul;,lO? Era linha-dura? chegou às mãos. Algum aventureiro certamente o embolsou .
Esse era o procurador, o homem que d enunciava todo Preso e sem trabalho, estou muito precisado desse dinheiro e lhe
mundo. Torno u-se uma figura folclórica. Muito gentil com os suplico as providências cabíveis para que ele me seja entregue... "
colegas, com os advogados, esforçava-se para n10Strar os pro-
cessos, difíceis de encontrar na balbúrdia in.icial, quando da cria- No! pn"meiros tempos do TSN, além do! advogados dativos, ha-
ção do tribunal. Cerro dia, estávamos numa roda, e ele fazia via advogado! de difCIa contratados particular111t11le?

158 159
o S A I.. ÃO D OS PASSOS P F.'. RDI I;>OS

Também havia :1dvogados que vinh am de fora pna p o rtância davam às defesas apresentadas. M as o ad vogado era
El~c r as defesas. Alguns e ram contratados, muitas vezes em o tratado normalmente, com atenção, com respeito. Tinha~se aí o
ca~o de um am..igo. i\ ras a grande maioria era de advogados escudo da Ordem J os Advogados do Bras il. !vfc smo <"!ue o
dativos, designados pela Ordem. advogado não fosse d e~ i gnad o pe la O rdem, e ra filiado a ela.

,.:: flflioso fllfe (I lei flue crio" o Tribunal de S egurO/Ira allibllísse I-loure difermca 110 "/fU/eim de J"(~ar fI/Umdo a segunda IIIstál1cia
ao presidmte dtl OA B fi jill/riio de designar adl"ogados pflra aqlle~ deixou de ser atn·buirõo do SupreJJJo T,ibm/a/l\1i1itar e passol(
les filie mio PlldesselJl 011 l1ão quisesselJl constituir UIJI. Se era ((fila para o prôptio TSl'J?
lei qlfe m·am 11m tábul1al de l'xceçiio, por que a p reocuparão UII 2\l as sem dúvieb ! OTciounal l\lilitar funcionava com o
comtit"ir adtiogados para os rim? um órgão do Pod er Judiei,i ria, respeintndo tod as as regras em
Por um cochilo da re pressão. 1ànto qu e essa dispo ~ relação ii. prova, à necessidade d e elementos fidedignos para a
sição foi , pouco tempo depois, revof,>ada. O Congresso foi condenação de alguém. Havia muüa refor ma das decisões do
fechado em 1937, e bastou o ditador publicar uma o utra lei Tribunal de Seguran ça pelo Tribunal IV1ilitar. D e pois, não, ficou
14
estab elecendo que essa disposição nào vigorava. Ai fize ram o uma ação entre amigos: um juiz juJgava em ptimeira instância e
segujnte: nom earam um advogado de oficio, vindo da Justiça os outros compon entes do Tribunal de Segurança julgavam a
J\ililitar, que prestava serviços a todos os casos em que o réu não apelação. Era muito difícil alterar a sentença proferida em pri ~
tinha advogado. Era uma sobrecarga tremenda, o que tornava a meira instância. Era raríssimo modificar~se un ... a decisão.
defesa de6ciente. O s réus, na prática, passaram a nào ser defen~
Ha via diferença 110 processo dos réus integralistas em comparação
didos, porque o advogado d e ofício, primeiro, nào tinha tempo
COJJJ os cOflJlmútas?
material de tomar conhecimento dos processo s, de form a que
Não há dú,,;da de que o tratamento dado aos integralistas
eram carimbos o que ele usava. Ele nào justificava nada, não
pelo tribunal era muito menos severo, embora eles tivessem sido,
estudava as causas, não conversava com o preso, par a sabe r
em grande número, condenados. Sobretudo aqueles que participa~
se tinha moti vos para alegar sua inocência ou pelo m enos a
mm diretame!)J:e do putsch. É preciso notar que no movimento
redução da sua cuJpa.
integralista havia também:1 participação de terceiros, que nào eram
Afesmo depois que deixou de ser advogado dativo, o senhor continuou do partido integralista. Por exemplo, o general Euclides Fígueiredo,
deftndendo presos políticos? Se continuou, houve diferença enhy: as pai do presidente Figueiredo, participou da conspiração que
duas fases l1a !lJmuira de os juízes do TSN tratanlll os adtJOgados? desaguou no golpe de 11 de m aio de 1938, e no entanto não era
Continuei defendendo e nâo houve diferença. O s ad~ membro do partido integralista. H avia tambêm o general Castro
vogados, de modo geral, eram be m tratados pelos juizes. Ape- Junior. E havia outrO que foi o comandante do grupo que tentou
nas estes não lhes davam garantias pessoai s nem segurança invadir o palácio Guanabara, o tenente Severo Fourruer. Também
de imparcialid ade. Estavam ali a serviço de uma repressão. O oào era integralista. Houve a participação de políticos, que foram
Tribu,nal de Segurança foi feito exatameme para reprimir o na êpoca suspeitados de estar envoh;dos na conspiração integra-
m ovimento comunista de 35, d e forma que os juizes p ouca im ~ lista para a derrubada da d itadura d e Getúlio Vargas. "

161
160
o SALÃO DOS PASSOS PERD!DOS
A I'ÁO!NA NEORA DO TSN

o mesmO grupo de ad/Jogados que defendeu os comlmútas defendeu de sessôes no Supremo Tribuna l Militar fica va no primeiro an-
IallJbém os integralútas? dar, e em determinado momento ouviu-se lIn1 g ri to lancinante,
Sim, houve alguns qu e defenderam. N:tturalmente,
de protesto, vmdo do térreo. L.ogo em segu ida vieram os pre-
pela ordem n:Hural das coisas, eram procu rados para a defesa
sos que unh :ml pedido pnra (",lar rli :'II1te do tribunal: Prestes,
dos acusados d e eomunisl.ls os advogados q ue rivessem um:! 16 17
Berger, Agildo c Chloldi. Quando O Prestes entrou, vi nha
lig :!ção qu alquec de famíli a, ou um conhecimento, o u que fos-
com a boca sangrando, e foi encaminhado à tribuna da defes:l,
se m profissionais, como era cu, por exemplo, como er:!nl
de onde devcôa falar. Ao lado da tribuna estava um dos mem-
Sobral Pi!110 c outros. Sob,,;!] Pinto defendeI I, indistintamente,
bros do tribun:u, o general A nd.cade Neves, e Prestes se dirigiu
os comuni stas e os integralistas. Eu também defendi algun s
. imediatamente a el e. Disse L]Ue acabava de ser agredido lá em-
integralistas.
baixo, e usou a expressão "por esses vermes da Polícia Especial,
que me retiraram as notas que eu trazia para a minha defesa".
Pessoalmmle, havia diferença para o senhor entre difendrr um
O general ouviu , e me lembro então que P res tes tirou todo o
co""mÚla e deft1Jder um integralista?
partido da ocorrência, disse que aquilo era uma violência, pro-
Não. Eu sempre fui advogado. E como advogado, é
testou com a maior veemência, e ainda terminou com a frase:
claro, defendi com o mesmo empenho, com a mesma determi-
"O sangue que me corre da boca é o sangue d a revolução!"
nação, os interesses daqueles que tinham confiado em mim. Na
Nesse incidente, engllamo Prestes falou, o tribunal ficou absolu-
defesa do preso comunista, em geral, pela própria origem do
tamente sileme.
tribunal, era mais difícil obter um resultado favorável. É claro
Sobral Pinto, como chegou um pouco atrasado, pe-
que a defesa de um preso integralista era mais fáci l, era mai s
diu-me para contar-lhe, inclusive reproduzindo mais ou menos
palatável para O tribunal, havia maior receptividade aos ar-
as palavras, ague tinha acontecido. Eu, então, contei exatamente
gumentos apresentados. Em relação aos cabeças, não. Houve
isso. Nós estávamos juntO d e uma janela, ele se afastou, e um
severidade em relação ao Fournier, por exemplo, que não era
cidadão se aproximou de mim, botou a mào no meu ombro e
sequer integralista. Já Plínio SzIgado não apareceu em nenhum
disse: "O senhor está preso." Perguntei por quê, e ele di sse:
momento como acusado de ter participado dos entendimentos,
''Porque estava comentando esse incidente, e foi proib ido qual-
da conspiração inicial, de forma que nunca foi preso.
quer comentário sobre ele." Respondi: "Mas eu não estou co-
men tando, estou apenas testemunhando um fato para o advo-
PROBLEMAS CO:-"J A REPRESS.';'O
gado dele!" O cidadão: "Não, mas O senhor tem que me acom-
o senhor sofreu pressões ou teve algum confronlo pessoal por ma panhar; vamos paca a D elegacia de Ordem Política e Social." Eu
aluação j unto ao Tnhunal de Segurança Nacional? aí falei alto: ''Não admito que ninguém m e dê o rdem aqlü! Só
Sim. Em certa ocasião, na época do julgamento dos cumpro ordem do presidente do tribunal! A policia aqui é
cabeças de 35 no Supremo Tribunal l\1ili tar, em que fiz a defesa exercida p elo presidente do tribunal!" Começou a juntar gente.
de um g rande número de réus que me deram procuração, fuj Brandão Filho, um delegado de certa nomeada, que comandava
muito vigiado. I-louve um incidente no dia do juJgamemo. A sala o policiamento nesse dia, se aproximou, e eu continuei: "A única

'" lO '
o SALAO D OS PASSOS PERL>![)OS A PÁGINA NEGRA ])0 T SN

pessoa que me prende :!.CJui é o presidente do tribunal, mais nin- o procurador ai era H imalaia VÚ:..f?/di110?
guém pode prender! Tenho de ficar aqui, porque sou :1dvogado Não. Era um que depois foi juiz aq ui no foro comum ,
no c:1sol" Num primei ro in"t:1nrc, Br:1I1dão Pilho ficou lcmt:fO- foi descmbarg.I(lor: l~u ardo Jara. I ~nquantO o s juízes eSUv<l m
so d e não me prender, porque todo mundo tinIu medo de em sessao secreta cu, cá fora , fiz um barulb o (bnado, bt'ig:u ei
pa recer transigente ou generoso com algllêm ncus:lclo de sub- com esse procurador. Nilo era nü pes soa, es tava innucnciado
vcrs~o. Afinal, minh:l[) ri siio foi relax:ld:1. O incidcl1le rerminou pelo ambiente re pressivo d:l époc:l. I-laje me do u muito bem
:"IIi, mas o cidadão qu e queria me prender, um inves tigador d a com ele. '\quilo chegou 3. transpirar dentru do saJ3.o, e o tribunal
Ordem Politica e Social, d:di por diante, v:irias vezes, qu;mdo eu indeferiu O pedido p:.H:l processar crimi nal m ente a mim e ao
saía de casa, estava me vigi:mdo e me acomp:1nhav:l ... Raul . Mas algum tempo depois meu escritório foi vnrcjado,
meus arquivos foram devassados e Raul foi levado p reso. I sso
A1arcelo LavC1fere diZ que, em certa ocmião, um proCllrador do deve ter sido aí pelo ano de 1940.
Tribunal de Segurança Nacional também quis ;,tcrimil1á-lo como
c/;",plice de seus clientes, em razão de Suas deftsas. Como foi isso? o senhor estava no eSC,.ÜóI10?
Já d epois do processo dos cabeças do movi n1ento de Estava . E les queriam me aW1g1r, mas não ti nham
35, na repressão a ourros d elitos, como propaganda subversiva, motivo para me pren der. Ap esar de toda a repressão, da vio-
distribuição de boletins etc., houve um processo com um gran- lência etc., eles sab iam que eu não era membro do P artido
de número de réus. Um deles era um estudante de direitO, ou já Com unista. Sabiam da minha d edicação na defesa de m embros
fo r mado em direito, e com ele foi encontrado um papel onde do partido, m as não dispunham de elementos para m e acusar,
havia várias iniciais e nomes de pessoas CJu e contribuíam para a porq ue era verd adeiro, eu não fazia parte da organização que
atividade do Partido Comu nismoEntre esses nomes havia um eles perseguiam.
g rafado: Rnev. Seriam Raul e Evandro Lin s. Na polícia, nunca Q uando eles levaram RauJ preso, fui p ara a D elegacia
ninguém deu im portância a isso, tanto que ninguém nos cha- de O rdem Politica e Social, o D ops. Consegui que fosse comigo
mou, nem ao Raul, n em a mim, para prestar gualquer esclareci-
mento. Mas no dia do julgamento da segunda instância - os
.
o então presidente da O AB, que não era majs Targino Ribeiro,
era AugustO Pinto lima, um homem muito atuante e dedica-
réus já tinham sido julgados em primeira insláncia, era um grupo do aos colegas. Quando um advogado era preso, ele compar e-
grande, e a maioria tinha sido condenada _ o procurador, de- cia imediatamente. Ficamos lá wn dia inteiro e conseguimos sol-
pois da acusação, pediu que depois do julgamento se extraíssem tar o Raul . Uma coisa raríssima na época.
peças do p rocesso, como é comum, para p roceder criminal-
mente contra aquelas pessoas que estavam m encionadas naquele Como comcguiram isso?
papel, entre as quai s esse Raev. Eu estava no triblmal, assisti àquilo Havia um advogado, que depois veio a ser meu colega
e protestei veementemente. Na verdade, eu jamais dera qualquer no Suprem o Tribunal Federal, O svaldo Trigueiro, '" que eu sabia
contribuição a esse acusado. ser amigo do delegado da Ordem política e Social, o capitão ou
'"
major Frederico Mindelo, porque ambos eram da Parruba.

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o SA L À O D OS PASS O S PE RI) I OOS A I> Á G 1 NA NEOR A DO TSN

Trigueiro fo i comigo p~r a lá, m as o ]'vlindelo não era enco ntra- corpus ao Suprem o Tribunal Federal e fiz W'1 g rande movimento
do, ninguém co n seguj~ saber o nde ele eStava. E u também Li nha p-.u-a a dcmons1:I'J.ç5:o de que O SIflTis $C aplic'1va ao ClSO. Afi na.l o Sll/Tis
defendido no j.... ri, tempos atrás, num caso de homicídi o, um fo i concet.hdo rx:1o Supremo. O curioso é que Carlo s r ~cerda coh -
investigador da Ordem Po l.itic::l e Social, e ele me dava in for m a- ooro u lT"uito para esse resultado, pol\.]Ue ft.."Z entrevist'ls com advo-
ções: "D outor, faça fo rça , Po rllL,e não há nada contra o dr. Raul. g.ldos nor:.ívelS d:!. époc;, para o jo rnal O Populur, de D om ingo s
Se o senhor n iio fize r fo rça, ele fic a aí p reso e não tem saída Vdasco, p:u: r o 'lua] trabalh ava. E ntrevistou o velho EV~lI; s ro de
depois. O senh o r insista, porque não há nada contra ele." Aquilo Morais, l\ lário Bulh t~$ Pedreira, Jorge Scveriano Ribeiro, c lodos
m e animava. D e pois de mu iro tem po apareceu o ~{incl elo, e ai, des opinaram em l:tvor da tese SU:;l~nt.Kb no habeas-corpus, <'llle
com a inter venção do Trigueiro, minha, do presidente da O A13, achav.ull perfeitamente correta. Nessa época tinh:l havido o nlOvi -
o j\1indelo deu ordem para liber t.'lr o Raul. Mandou cham á-lo, e m enta imegralista, havia muitos integralistaS condenados à pena de
fiquei com medo, n essa hora, que mudasse d e opinião, porque wn ano de prisão, e todos foram beneficiados por essa decisão.
Raul veio com grande fibra, vigor e energia, prorestando Co ntra Lembro-m e também CJue Sobral P into m e mando u o
aquele absurdo, a violação do seu escritó rio, a violência pratica- pai de um seu cliente, porque ele, Sob ral, não era favorável ao
da. lntervim: "Calma, calm a! Vo cê sai e d e pois proresta ... " Ele habem -cOlpus, achava que o sursis se dá a quem modifi ca as idéias,
acabou sendo pOSto em liberdade naquele mesmo rua, po r esse a quem se regenera, e o poUrico mantém as suas idêias, é coeren -
es fo rço pessoal . E o curioso ê o seguinte: o :M indelo estava te, portanto não tinha direito ao sursis. E le achava que o seu
muito próximo de nós e nó s não sabíam o s. E le estava SLmlido clien te fora p OStO em liberdade em virtude de uma atuação mi-
porque estavam sendo op eradas suas duas filhas, numa ca sa de nha, pessoal, e CJue po rtanto eu devia receber o s hono rários.
saúd e em L..aran jeiras, pelo m éruco M auro Lins e Silva, no sso Respondi: " O senho r volte ao escritô rio d o d r. Sobral P into e
primo-irmão. Talvez isso também tenha sido uma razão de sim- lhe p ague os ho norários porque é ele o se u advo gado." Aqui se
patia, um forte m otivo gue influiu p ara gue Raul fosse so lto... vê o utra vez o de sprendimento d o grande Sobral quand o se
cuidava de cobrar ho no rários.
-'
V lT6RlAS SOBRE o ARBfTRJO
o E stado 1\ .'ovo joi bem claro na definirão d OI limites do
o senhor se lembra de bom momentos na defesa de p resos políticos? u gú lativo e do E x ecutivo: fecbou o Cong reuo, botou interlJen-
Lem b ro de um dia em q ue, como advogado, conse- tores /101 cstados etc. ll/fas parece que os limites impostos ao
gui tirar muitos preso s da cad eia, o CJu e m e deu uma alegria Judiciário joram menos rigorosos, não? Afil1al, não houve órgãos
muito grand e. Aleguei que o Sllrsis - a suspensão condi cional sllpn·midos. O Supremo foi mantido.
da pena - se aplicava ao crim e p olítico, e isso fo i m u ito im - O Supremo não foi fechado, mas perdeu todas as suas
po rtante. E ss a idéia m e ocorreu p o r volta d e 193 8, 39, em garantias! O juiz fico u tolhido, era proibido d e dar habeas-corpus a
favor d e um p ro fesso r d a Esco la d e Engenharia cha mado um preso político . D ir-se-á: os advogadq"s 1,ão foram preso s
João Filipe Sampaio Lacerda, acusado de comunista. E le tinha como advogad os e pelo fato de fazerem defesas. Sim , não fo-
sido conde nado a um ano de prisão, e pleiteei o m rsis. O Tri- ram . Po rém era in ócua a sua ação. Foi aos po ucos q ue nós, os
bunal d e Seg urança não co ncedeu . Regu eri então um babeas- própri os advogados, na luta pela defesa d a liberdad e dos cid a-
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o :s .... LÃO DOS PASSOS PERDIDOS
A PÁO I NA N EGRA DO TSN

dilos, fomo s quebrando o fechamento do J udiciári o. No fIna l desmoronando, com a visível vitól;a da s democracias na guerra,
do Tribuna l de Segurança, eu mesmo requeri inúmeros habem- a situação se modificou. Torno u-se então freqüente a reforma
COIPIlS, e o Sup remo começou :I concedê-l o s, começo LI :I dm'
de dec1sões do Tri b un al de Segurança, com o nesse C:lSO que
um,l interp reuç:lo d e que a p ro ibição do habem-('orPIIS para o acalx>de relatar.
preso político era alé o julga mento do Tribun:ll de Sehrumnç:1.
D epois, ayll<.:: l<.: julg<1l11elltO podia ser (;xa nunado pell) Supremo Em fIgOS/O de /944, o.,valdo./1 ran!Jtl del/eria IOllJar pnHe na
n
Tribunal. presidência da Sociedllt/e A/J/~os da Améri.m, ",as a cerimónia
T ive um ca so muito curióso, um problema d e liberda- foi impedir/II por C ario/ano de Góis, qlle era o (hife de polícia.
de rdih"o sa . Um p astor ,ld ventisra de São Paulo foi preso e con. Em seguid(J jomlJ! presos os dirigenles da S ociedf/(/e. () Jdl/bor 0/
denado pelo Tribunal d e Segurança. Po r quê? Po rque, de acordo deftndell, l1ào foi?
com a sua religião, ele pregava a <lbsoluta proibição do trabalho Sim. A Sociedade Am.igos da América era um:1 ma-
desde o pôr-do-sol da sexta-feira ao pôr-do-sol do sábado. O s neira que tinham o s democratas, o s o positores do sistema e o s
con scritos adventistas, quando eram chamados a ser vir nos comunistas de combater a ditadura, porque ninguém podia
qU:1rtéis, se recusavam a p restar qualquer serviço nesse p eríodo. con siderar comunista uma associação que apoiava o s Estados
Era o tempo da guerra, e isso era consid erado uma sabotagem, U nidos d a América do Norte. E stávamo s em plena guerra.
uma atividade contciria ao interesse nacio nal. AJém do m ais eles Quando os dirigentes fora m preso s, fui convocado como ad-
também pregavam a absoluta proibição de um adventista'ma- vogado de vários deles, inclu sive do.AJceu Mari nho Rego, m eu
tar, mesmo na guerra. Requeri um habeas-corpus para esse pastor colega de turma, uma figura excepcionalmente brilhante, que
no Supremo Tribunal Federal, com base na própria Constitui- morreu muito cedo, de quem já falei. Comecei, então, a desen-
ção, que assegurava a liberdade d e crença. Da primeira vez foi volver m edidas para ver se conseguia lib ertá- los, p o rque não
denegado, mas da segunda, para não repetir o fu ndamento an - havia hobeas-corpus na época. O que fazer? Lembrei-m e de pro-
" . .. 21
teno r, Ulvoquel a Carta das Nações Unidas. Então, com base curar o d r. Osvaldo Aranha, que tinha acabado de deixar o lvli-
na Carta das Nações Unidas, de qUyéram os signatários, foi nistério do Exterior e tinha aberto um escritório de advocacia .
concedido o habeas-corpus por cinco VOtos contra quatro. Nos Procurei-o , mostrei qu e a pri são daquelas pessoas era
E stados Unidos, aliás, esse p roblem a era muito delicado. Um inju sti ficá vel, disse que atingia a ele próprio, ao esforço de guer ra
mini stro de Estado era adventista, e os seguidores da religião do Brasil, e convidei-o para participar comigo da defesa dos
errun bem numerosos. Roosevelt resolveu a difi culdade deter- presos. D isse que ia receber a procuração dos acu sad os e ia in-
~nando qu e os ad ventistas teriam tarefas perigosas, mas que cluir o nome d ele junto com o meu com o advogado de defesa.
Dao os fizessem matar o ini,nigo. A eles ficava o trab3lho de Nu m primeiro instante, ele hesitou: " Mas eu não entendo de
atender aos fe rido s até no meio da s batalha s, e outras incum - Tribunal de Segurança, não conheço essa legislação ." Eu disse:
bências que não violassem suas " objeções de consciência". "O senhor nào preci sa se preocupar com coisa alguma, eu farei
No começo, era inútil recorrer ao Supremo. D epois, tudo. Só quero que, no dia do julgam ento, o senho r compa-
quando o Estado Novo já estava em decadência , em queda , reça." D e faro, colhi as procurações com o no me del e e saiu,
não me lembro como, uma notinha de jornal dizendo que o
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A P ÁG I NA NEGRA 0 0 TSN
o SALÃO DOS P ASS OS P E RDIDO S

dr. Osvaldo Aranha ia defender como ad vogado, junto comigo, um avanço. Foi o começo da p osição que a Ordem ina assumir
o proccsso da Socicebde Amigos da América. Ora, essa simples depois insti tucionalmente. Se a Ordem tinha como missão a
notícia fez arquivar o processo. Foi abortado o processo! Imagi- defesa da Consti tuiç:'io e da ordem jurídica - evide nrcmente,
nem se o dr. Osvaldo Aranha fosse à tribuna do Tribul1:ll de da ordem jUlídica democrática - , não podia deixar de se pro-
Segurança Naciona l defender presos políticos, com a projeção nunciar sohre esses temas. D aí a Ordem foi evoluindo, até to-
que e le tinha no país e no mundo! Foi essa a defesa que fiz dos mar a posição que tem hoje, em elue se pronuncia claramente
acusados. Foi uma guescio de [ática ... E deu resultado... diante de todos os problemas politicos que surge m e que po-
T ambl: 111 no fim de 44 fora m presas cinco pt:rsona li- dem afetar a ordem ju rídica. Por exemplo, o C I SO doimjJeachll/ml
dades: Adauto Lúcio Card oso, D ario de Almeida Magalhães, do CoUo r. Todo mundo pe nsa que a Ordem funcionou no
Virgilio de M elo Franco, A ustregésilo de Ataíde e Rafael Correia impradmuftl. Não. A Ordem a poio u o imprachmenl. Foram o seu
l3 presidente, Marcelo Lavenere M:lchado, e o presidente da ABr,
de Oliveira. Consegui promover uma reunião da Ordem dos
Barbosa Lima Sobrinho, que requereram oimpeochment, de acor-
Advogados - eu já era membro do conselho local da Ordem
do com a Constituição, co mo cidadãos, e nào com o p residentes
em 44, po rtanto, muito cedo - mas a O rdem não concordou
das suas entidades. M as a Ordem apoiou a iniciativa. Quando eu
em reque rer o habcas-corpus por m im sugerido. Eu fiz o habeds-
ia para Brasília para acompanhar o processo, me instalava numa
corpllJ, que fo i as sinado por 300 ou 400 advogados, mas não
chegou a ser julgado. Antes disso eles foram postos em libe,r da- sala da Ordem , onde trabalhava.
de. À reunião da Ordem estiveram p resentes Carlos L1cerda,
A G UERR.... E OS ESPIÕES
Afonso Arinos e José Tomás Nabuco. Este último mandou
imprimir o requerimento e lhe deu larga divulgação. o senhor mencionou qut leVt processos de espionagem dJlran!e a
guerra.
Por que fi OAB se recusou o lomor fi il1icialiva? Sim. Tive co mo clientes alguns aJemães acusados de
A Ordem, naquela época, achava que o seu papel e ra a espionagem . E aí o correu um incidente curioso. Em 1943 hou-
defesa da classe e que ela nào podia ter uma ativ idade ,.
ve um congresso juridico internacional no B rasil, e apresentei
"
institucional política. Era esse o pensamento dominante da m ai- uma tese sobre crime político em que eu sustentava que o fascis-
oria dos conselheiros, ou porque estivessem convencidos clisso mo, doutrinariamente, e como forma de governo, representava
ou para não comprometer a instimição diante da situação polí- um retrocesso. Citava Ferri e Jimenez deAsua, que achavam que
tica dominante. Quando propus que a Ordem requeresse o a criminalidade fascista encarnava um atraso do pontO de vista
habeos-corpllS, fui vencido, tantO que o habeas-cO/pusfoi requerido social, enquanto a criminalidade po lítica de esquerda, socialista,
p e lo s advogados, individualmente. Assinaram todos os diri- era o que eles denominavam uma criminalidade evolutiva. Base-
gentes de cla sse, inclus ive o presidente da OAB local, o p resi- ado nesses autores, escrevi uma (ese que, na época, foi ar rojada.
dente do 1nstituto dos Advogados, do Sindicato, do Clube dos E isso provocou, de parte dos alemães presos, uma reação, tUna
Advogados, todos os advogados de fama. De quaJquer m anei- divergência co migo. n ào mai s querendo que eu os defendesse.
ra houve uma reunião em que a matéria foi debatida, que foi ° Fui destituído da d efesa e não me recordo qua) o advogado que

\ 7\
\70
v »Al,..AV I.J US PASSOS P E::R DI DOS
A I>ÁC; I NA NEC I~A DO TSN

me su b stituiu. Mas logo em seguida a esses acontcime m os vcio


1
quem até cntão não cOl1hecia pessoalmente, era tido pelos pa-
o te rmo da guel'ra.
1 rentes como pessoa de<;assis:lda, impulsiva, neurótica. Passam os
a conversa r, e ele n:'io negava a acusação, m;t5 alegava que er:un
Que Cn'IIIt'J de eSpiOlJflJJ/,1II eralll esse.r?
seus pacceiros personalidades de ):;rnnde imponància, membros
Um ca~o 13moso lllle defendi no Tribunal de Seguran -
do g'lVerno. ,\ Iencionou os nomes e os cl.rgos desses seus cúm-
ça, que ficou conhccidissimo, foi o de um oficial do Exército
25 plices.E pediu-me, en tiio, um com;clho urgl.:l1le, porque ia prcs-
cham:ldo Tl1lio Régis do Nasc imenro. Ele er:l acuS3do como
militar de, j:í cntro.::.ado com os alem:'ies, ler obtido um trabalho car declarações em segu ida: quer;;t s:loer se Jevia referir e acusar
ju nto a uma Hhrica de aviõcs americana, par:l espionar. O chefe tais autoridades ou se devi:! silencia r o seu comprom etimento.
da espionagem alemã 110 Brasil passou um telegrama, que foi Senti um chocluC c pcn:ebi a gravidade do assunto.
interceptado e decifrado pelas autoridades am ericanas, dizendo Que responder? Não havia tempo para meditação. I nstantanea-
que ele iria para essa fábrica e daria informações do interesse mente, refleti sobre a mi ssão do advogado e dei a resposta, que
dos alemães. Foi um caso da maior g ravidade. Túlio fo i conde- nunea esqueci: "Você tcm duas opções: ou chama ao processo
mdo a 30 anos de pri são . Mais tarde, depois da guerra, ob teve os seus cúmplices e se coloca nUll1a posição secundária, porque
um habeas-corpusdo Supremo Tribunal Federal e fo i libertado. serão eles, daí por diante, O foco principal da acusação, ou omite
Esse processo abrangeu muitos acusados. Nele estiver::t111 envol- os seus no mes e eles poderão ajudá-lo no futuro, com a sua
vid os o escriror Gerardo Melo :M ou rão e llm meu cunhado influência. Mas devo frisa r que eu não aconselJlo", continuei,
• "'nem dou opinião sobre qual d eve ser a sua conduta. A matéria

I
AJexandre Konder, que não foram meus clientes. v,f elo Mourão
foi condenado e Alexandre foi absolvido, defendido pelo gran- é politica e a você cabe fazer a esco lha. A opção é sua, exclusiva-
de advogado Mário Bulhõcs Pedreira. Eu não podia d efendê-lo . mente sua." Saí dali temeroso e consciente do risco que passei a
porque havia colisão enu'e a sua defesa e a de Túlio. correr pelo simples fato de ser detentor d e um segredo da mai-
Aqui cabe uma digressão que me parece importante, or gravidade. Eu p assava a ser um arquivo cu ja queima interes-
porque en volve o problema do segredo profissional do ad vo- sava às pessoas m encionadas po r Túlio. Bastava que ele lhes
gado e do risco que ele pode COrTeI' quando O clieme lhe faz trallsmiysse que m e havia feito aquela revelação. Podia ocorrer,
uma revelação !:,JTave e eventualmente perigosa. No caso do ca- também, a hipótese de que de estivesse mentindo. D e qualquer
pitão Túlio, que era primo da minha mulher pelo lado materno forma, temi as conseqüências que poderiam advir da confi-
atendi a seu cha m ado e fui visitâ-Io num quartel de que era co~ dência incómoda. Que fazer d iante de tão delicada sitllação?
mandante o entào coronel Nelson d e },'felo, figura de g rande Comuniquei a Sobral Pim o e a Mário Bulhões P edreira o que
destaque no movimento tenentista. Havia um sentim ento de re- sucedera, mas gu:l.rdando o segredo dos nomes mencionados.
volta na popuJação COntra os alemàes e seus aliados. Os navios T úl!o nunca referiu nos depoimentos prestados os nomes que
brasileiros estavam sendo atacados e afundados em nossas cos- me revelou . A defesa desse cliente, que tantas apreensões me
tas por subma rinos alemães, com um grande nLllnero de mor- causou, baseou-se na sua insanidade mental.
tos, mulheres, vdh os, coanças,. . . .
OV1S, mocentes que nada tinham a B ouve outro processo, que defendi perante a j ustiça
ver com a guerra. Eu sabia, peJos laços de familia, que o Túlio, a }'1ilitar, envolvendo a Condor. J lavia d uas grandes empresas de
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o SAL.Ã O DOS P A S SOS PERDIDOS A I'ÁC I NA N EC R A 00 T SN

aviação no Brasil: uma am ericana, gue era a P anair, e uma alem ã, fo i remetido até para a ilha Gr:lnde. Apelei da decisão, mas no
q ue era a Condo r. E elas ficava m disputando a concessão de primeiro julgam ento noTribunal Militar a condenação foi con-
linhas juntO ao 1\ linl stério da G ucrr:l , porgue naCJuele tempo ain- firm:lda, contra um VOtO, o CJue pe rmmu .. em b argos. N os eln-
da nilo havia o i\ linistério da Aeronáutica." Lutavam mUlto, bargos fo i reconhecida a sua inocência, c de foi absolvido. l'vlas
denrro do m inistério, para obter: a noócia de quais lin h;l s iam ser passou um longo período na prisão, à espera desse julgamento,
abert:ls. Tentavam obter essas informações, segundo a acusação, dad a a lentidão com CJue :l J ustiça fo i julgando cad a U lTl desses
através de métodos não m uito o rtodoxos, junto a funcionários,
e di sso resultou um processo . Como era remp o de guerra, o
1 recursos.
Logo d ep ois d a g uerra, mmb ém defendi pera nte a
caso tomou um vul to mui ro g rande, co m o se se tratasse de um Justi ça "Nlilitar um caso fa m osíss imo : eram dois brasileiros que
processo d e espi o nagem, de tentativa de obter segredos mili- J, estavam na Europa, Margarida Hirshman e Emílio Baldino, ela,
tares. O julgamento correu perante a Justiça Militar, e havia fun - descendente de alem ães, ele, d e italianos. A acusação era de que
cio nário s envolvidos, além dos dois dirigentes das empresas. participavam, como locutores, de uma esmção de rádio alemà
Meu cliente fo i o da empresa alemã, o sr. Ernesto Hólck. O da que fazia campanha para minar o moral das tropas brasileiras.
Panair, de cujo no me não estou lembrado, foi defendido p o r
"
um advogado chamado Moésia Rolim, que era oficial d o
E xército e tinha sido preso político em 35. D e pois foi solto, I Num momento de redemocratização do pais, de fim do Estado Novo,
de .fim do foscismo italiano e do nazismo alemão, como foi defender
tenho a impressão de que fo i absolvido, e advogou muito no J pessoas que estan'am do lado do f ascismo? Como o senhor recebeu essa
Tribunal de Segurança, ele e um outro, também m ilitar, cha- incumbéttcia, como se sentiu em relação a essas duas pessoas?
mad o Lauro Fo nto ura. Ambos vinham das Fo rças Armadas, P reciso explicar o d ever do advo gado, que não deve
m as co mo tinh am diplo ma de b acharel advogavam m uito no limitar sua atividade à defesa dos casos co n siderados populares,
Tribunal de Segurança. quer dizer, aqueles em que há simpatia, ou apoio, ou aplauso da
D evo dar um depoimento sobre ErnestO H Ólck, o opinião pública. Muitas vezes o advogado tem que enfrentar a
.-
dirigente d a Condo r, da empresa alemã . Era filho de alem ães, impopuJaridade. A esse resp eitO há uma carta de Rw Barbosa
não era alem ão de nascime nto. Era um h om em sério, um ho- dirigida ao velho E varisto d e Mo rais, que o havia co nsultado
mem de bem a toda prova. Fi z uma sólida anúzade co m ele e sobre a defesa de um cid adão que havia atirado na mulher, m as
ainda hoje me do u muito com seus parentes. E videntem ente era um adversário politi co, o positor da Campanha Civili sta de
não cometeu crime algum de espionagem. D isputava co m a que ele, E varisto, havia participado, em apoio a Rui Barbosa. Rui
P anair, em concorrênci a legítima, a conqui sta de linhas aéreas escreveu uma carta, qu e está editada em l.ivro com o órulo O
para a sua empresa, mas o ambiente emocional deco rrente da dever do advogado, onde m ostra que o advogado, mesmo nas cau-
pró pri a guerra o levou à condenação a 20 anos de pri são, en - sas impopulares, tem o d ever e o direito de pleitear para o clien-
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quanto o dircto r da empresa americana fo i ab sol vido. I sso mos- te as garantias legais. O exemplo maior é o caso de um famo-
trava nitidamente o conte údo politico do processo, porq ue era so advogado francês cham ado Lachaud, que enfrentou a impo-
idêntica a situação dos do is acusados. E sse homem fico u preso, pularidade, inclu sive foi apedrejado nas ruas, p o rque defendia o

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o SA I~ÃO [)OS PASSOS P EU I) IOOS A PÁGINA NEGRA 1) 0 TSN

~cusado de um crime que revoltou a opinião pública. E ele dizia, do pais. E les alegavam, em sua defesa, que não o tinham fe ito
quando f.'1zi:J. a d efesa: "Eu 03:0 sou Lacha ud , eu sou a d efesa, e nem p o r convicção id eológica, n em porque tivessem se
:t defe"a é impresci ndivd p:1fa assegurar ao acusndo o djn::ito de desvestido da ~ua condição de brasiJciros. I~ que o regime nnis-
pleitear as ga r:J. nti as da lei." ta era um regB11e de terror, e eles eram obrigados a agi !' com o
O advogado n:to é necessariamente d es tinado n obter agiram porque, se não o fize ssem, seriam 1l10rtoS.
i:x.ito na causa. J\luit<ls vezes ele ta mbém tem de e nfrentar difi- !
cuIJa<.k", e quando os ódins, as pai.xões St: exaltam, sua p resença o ljue eles es/rwalll faZl!l1do na Europa, onde mora/lam?
é muito importante p,lra n::danur as garantias da lei para o acu - Est:lvam lá para estudar. Não eram um casal, não se
sado. Quando essas pm:-..ões se :tçulam, todos querem a punição conheciam. Um mo rava na I tâlia e a ou tra na Alemanha. De-
sem limi te, sem ga ra nti a, sem lei, e ai a figura do advogado re- pois, quando as tropas brasileiras fora m para a Itália, começa-
presenta um papel fundamental. D urante a Revolução Francesa, mm a falar numa estação de rádio que se dirigia a elas, para
quantos exemplos houve d e advogado s que arriscaram a vida enfraquecer-lhes o moral e fazer com que não enfrentassem as
na defesa dos decaídos, dos vencidos, da nobreza de e ntão. É forças inimigas. Essa era a acu sação : instalar o d esânimo, o d e-
famosa a frase de Berryer diante do tribunal revoluci onário: sinteresse, pregar a antipatia do papel qu e as tropas brasil eiras
"Aqui trago a minh:1 palavra e a minha cabeça . Podeis dispor da estavam representando, porque eJes diziam como locutores, evi-
segunda, depois de ter ouvido a primeira." Ho uve, realme nte, dentem ente lendo textos que lhes eram levados pelos alemães e
advogados que so fr e ram até a punição m áxi m a, como pelos italianos, que a guerra estava perclida, que os alemães e os
1\-Ialesherbes, advogado de Luis XVJ, peJo fato de terem exerci- italianos iri am vencer, que não adiantava o esforço que eJes ali
tado sua profi ssão com bravura, com denodo, com espírito d e estavam fazendo.
sacrificio, com preendendo que a profissão do advogado é tam- Esse caso foi objeto de julgamento pela justiça N1ilimr,
bém um sacerdócio. O ad vogado deve exercer esse sacerdócio porque foi considerado como crime de guerra. E foi um julga-
com O destemo r e o equ ilíbrio necessários para impedir que a mento sensacional. O juJgamento foi realizado por um conselho
j ustiça se deixe conduzir pelas paixões, pelas e.xaJtações momen ~ composto de quatro oficiais e um a uditor, que é um juiz togado;
tâneas, em períodos de conturbação da orde m e de transfor- era, portanto, o que se chama um escabinatO, quer dizer, um
mações sociais. Faz pane do ofício o risco de sofrer represália. tribunaJ miStO, de leigos e um técnico. Esse conselho foi presidi-
] sso não signj fica que se esteja de acordo com a co nduta do do por um d os militares, o auditor dirigiu os trabalhos, encami-
cliente. nhou a parte legal, juridica, de todo o andamento do feito e,
afinaJ, eles se reuniram em sessão secreta e o julgamento foi
o .renhor so/'reu pressão da opinião pública Ile.rse caso dos locutores? anu nciado pelo auditor de guerra. Os do is foram condenados a
Sim.já tinha havido uma espécie de alívio e m rela ção 20 anos de pri são. H ouve rec urso, m as a decisão foi confirrna-
ao problema da guerra, mas é d aro que fui muito atacado pelo da. H avia, realme nte, uma pressão muito grande da opinião
fato de defender dois brasileiros que eram acusados de ter, publica contra eles. Mas já depois, no go'"erno D utra, quando o
durante a guerra, tomado uma posição contrária aos interesses presideme fez uma viagem aos Estados Unidos e assumiu o

176 177
o SALÃO DOS PA SS O S PERD ID OS A P ÁG iNA NEGRA DO TS N

governo o vice-presidente, quc e ra o dr. Nereu Ramos, requeri Exato. Eu não sofri :l vigilància di rem, por ca usa do
um indulto, mostrando que já 11:1.0 havia sentido para a<'lucla pu- pseudónimo. J\ las cerra vez um preso político me disse que,
nição, os fatos já estava1l1 l!smaecidos pelo tempo, alé m disso a cn(l u~tnto estava sendo Il1tcrrog.ldo, t1nha visto cn) cima da meSa
prova d:l responsabilid:lde dcles n3:o er:l muito segura, ,bda a °
do Serafim Braga - ele e Antunes eram os inspetores da
motivaç?io de que eles teria m sido compelidos a desempenh ar Ordem Polít.ica e Social- ,1S minhas c rúnicas anot:ldas. Portan -
um PliPcl que não e ra a express?io do seu sentimento. Esse in- tO, o Lobão eSlava sendo objeLO de invesugação, de suspeita ...
dulto foi pedido para a Marga rida, porque o Balcl ino esla va J\tl"as Ilunca sofri qualque r restrição 1.:1n relação ao l.jue eu escre-
foragido, nào estava preso. Ac ho que n?io estava presente quan- vi ~L A coluna Cr:l d.iária, e ê claro que c u :lp rove itava, por exem-
do foi julgado. N ão m e recordo b em, mas sei que naquele plo,:l d:H:i da morte de Rui B:lrbosa, e fa~i:l o elogio do g rande
momento ele estava foragido e ela, presa. E o presidente e m defensor das liberdades públicas e d e suas idéias; era a maneira
exerdcio, dr. Nereu Ramos, conced eu o indulto. N houve uma d e driblar e vence r a censura. Noticiava os episódios do Fo ro,
reação muito grande, sobretudo dos pracinhas e da impren sa os julgamentos que estavam em evidência naquela época, o que
de m od o geral, contra esse atO de p erdão do presidente da I estava acontecendo no In stiulto dos Advogados, e ai sempre
República. ~ havia um peque no "contrab ando": a desculpa de alguém que
C erca de um ano atrás recebi uma carta da Margarida I falou sobre democracia, uma notícia assim. Falava também
pedindo uma certidão do processo. Ela está casada, m orando sobre a profissão do advogado, a profissão do juiz, fazia mil e
na Alemanha, segu ndo me disse na carta, e precisava de um uma digressões nessa coluna, procurando e naltecer o s regimes
documento que co mprovasse aCjuel e tempo em que esteve que asseguravam as liberdades públicas.
presa, por causa de uma pretensão qu e ela tinha lá, de caráter
9
previdenciário, juntO a alguma repartição alemã. Ela ficou presa Nunca foi chamado pt/o DlPl
I
não muito tempo, talvez cerca d e dois ano s. Nunca foi co nce- Nunca. A té o dia em que e u deixei o jornal, em 1944.
dido o indulto ao Emilio Baldino, apesar de eu ter pleiteado, U~ dia, escrevi uma c rónica e m que fi z um elogio ao juiz
porque de estava fo ragido. Não sei d ele. Segundo ouvi , foi Elmano Cruz. A n o itc, rece bi um telefonema d o Carlos
morar na Argentina. C o m o tempo d ecorrido, já estaria bene-
ficiado pela prescrição, porque a prescrição máxima no C ódigo
é de 20 anos.
1 Lacerda, que era o secretário do jornal e que me tinha pedido
lO
para fazer a coluna, dizendo que Chateaubriand o tinha cha-
mado e estava indignado, iradissimo com a croniqueta, por cau-
sa d o elogio ao Elmano Cruz, p essoa que ele, C hatô, odiava .
LoBÃO X CH:\TEAUBRlA.t~ D Agora, le ndo o livro Cható, rei do Brasil, soube de uma coisa
que na época igno rava: Elrnano Cruz tinha sido o autor do des-
Durante o Estado Novo, alélll de scfrer pressões COIIIO advogado, o
pacho contra a preten são de le, no caso da posse da filha, da
senhor tambélJl exercia uma outra função que era submetida a IIlJIa
destituição do pátrio p oder da m ãe d essa moça, que se chama
vigilância talvez até lIIais dura: linha lima coluna /10 O J o rnal,
Te resa. Era uma m e nina, na época. Lacerd a me disse que
que assina/la com o p.rcudôlli!!1o de "Lobão ".
Chateaubdand queria conversar comigo, queria m a rcar uma

178 179
..... """ ....... v IJV" '-A"'''U~ I'ERD I DOS I 1\ PÁG I NA NEGRA DO TSN

entrevista para me d ar informações sobre pessoas do Foro que destruidor de ídolo s. era um desabusado panfletário. Pois bem,
eu ignorava c Outros :lss untos. Ora, não se sabia '--lu (: o Lob;'io acho (lue Chateaubrbnd foi exat:1mente isso, no Bra sil. Um ho-
era eu, mas Cb :ltC~lUhn:1ncl ex igiu do L ICCrd<l :1 rc"cb.ção de mem :l mbicioso, de uma :lmbiçiio desmedida, um homem sem
l]UCm enI O autOr da s crônicas. Rc-:pondi que n ?\o ia c (lu",:, ...b - quak1ucr escrúpulo, c (lue com rnui ro mlcnro, nl.uito brilho, como
guel e dia c m d ÜlI1lC. ullla vez (\ue c s t~l.va d esvendado o scgn:do essa bIografia rdarn c documenta, consegu.iu acumular uma for-
gue cu <-Jucria m a nter, n?ío [3 ria mais crônica nenhuma. HcaJmen- tuna cx tr aordi nári ~l c, ao mesmo rem po, construir um império
te, no dia sq,'-uim c, eu C St :1Y:l no Supremo Tribunal Feder .. l, espe- nos mcios de comunicação, que lhe dava um poder terrível,
rando a rcalizllção d e um julgamento, qU<lndo o min istro pOHluc, nào tendo esc rúpul o, ele sempre a m eaçava O seu
Orosimbo Nanato. (IUC tinha sido nomeado tuto r da m enina, Illlerlocutor etc divulb>ar atos que o deS fruiriam pessoal ou poli-
passou por mim e disse: "O, seu Lobão! " Tentei neg:lr, mas de ticamen te. Com is so, ele exerceu um poder nocivo, prcjudici~d
di sse: '~ã o, eu sei que o Lobão que estava até agora anônimo c aos inte resses do país. Vejam como ele se elegeu senador duas
de quem eu gostava muüo é voá:." D epois p assou o ministro vezes. São fatos inacreditáveis! Ao m esmo tempo, acabou em-
FiJade1fo Azevedo e mmbém m e chamou de Lobão. Agor:l, baixado r na Inglaterra. Não tenho po r ele o menor apreço . Era
le ndo a biografia do Cható, faço uma ligação: será que foi essa a um homem que usava a ex torsão, a chantagem, como m étodo
razão para o Chateaubriand combater nos seus jornais a indica- de fazer o seu jornalismo, de obter lucros, ganhos no exercício
ção do m eu nome para O Supremo Tribunal Federal, tantos anos da profissão de jornalista. É essa a impressão que tenho dele.
depois? Não sei. Talentoso, brilhante - era professor d e direito romano na Fa-
culdade de DireitO de Recife - mas inescrupuloso. Vej am o
o senhor teve algum contato com Chateaubn"and depois disso? que ele fez com vários industriais e personalidades do país, para
Sim, tive, no escritório de Severino Pereira d a Sil va , o bter vantagens e regalias. Acho que esse livro de Fernando
que, como o livro de Fe rnando :M o rais registra, foi seu compa- l\'lorais é o retratO perfeitO do Chareaubriand.
nheiro de mocidade e aprendeu a ler junto com ele em Recife.
Severino P ereira da Silva era dono do grupo que rem a Paraíso, o FIM 00 EsrADO Novo
Barroso e Alvorada, fá bricas de ci1'nenro. E a Estam paria Na-
cional, e m São Paulo: tecidos. M as foi um contata amistoso, o senhor manifestou uma cerla surpresa com a decrelafão do Esta-
cordja~ sem qualquer troca d e informações sobre esse episódio do Novo. Nl as deu para perceher que o Estado lVovo estava
ocorrido em 44. acabando?

Que peifil O senhor trafmú de Chateal/brio"d?


"
Ontem, até, escrevi um artigo em que digo que ele
1 ,
Sim. N o tinal de 44, a gente já sentia . A ida das tropas
brasileiras para a h ália evidentemente en fraqueceu o Estado
"
Novo aqui. Pois se nós estávamos lá for;'!. lumndo contra o
"
foi o Aretino brasileiro. Aretino era um escritor italiano de nazismo e o fascismo, íamos ter esse regime aqui dentro do
muito talento que bajuJa\'a o s podero sos, tinha até papas que o país? E ra muito difici!, era um a contradição invencível. Era um
protegiam, É mencionado por Montaigne, que não lhe atribui o trapézio em que o Getúlio se colocou, No momento em que ele
vaJor que a maior parte das p essoas lhe dá. Esse Aretino e ra um concordou com a ida d os pracinhas para a Europa, é claro que

180 'S<
o S" I,ÃO DO S PA SSOS r'E RDII:>OS A PÁC I NA NE CR " D O TSN

1
se enfrnqueceu muito internamen te. porquc, a pretcx to de que as Como o senhor recebeu fi notícia da deposição de VtJ/;gas, UII Olltl/ -

tropas t'stavaml utando conn'a o nazismo, pud.ia haver manifes- bro dt' 45? Olfl'iu 110 rtídio?
tações em favor do Exército brasileiro combatendo o fascismo Ouvi no ddio, c também, no dia seguinte, os jorn ais
lá fora. Ai cu já comecei a sentir, na p rôpria D elegacia de Or- todos dcr:111l manchete. j:i havi:lllllla certa expectativa. Quando
~
dem Po lúica e Social, um ce rto temor, lima cena p reocup_IÇ:'i.o ele tentou [lomen' o irmfio para a Chefann:a de Pol ícia, j:i esta-
antes de efetu::u uma pri<do arbitr:í.ria. No caso, por exemplo, da va agindo de form a que se via <-lue ele estava p erdendo o co-
Soc1edade Am igos d a América, Cu m e recordo que fui lá , c o mando (h siruação. já não conseguia impo r a sua vontacle de
delegado da O rde m Po litica, o Antunes, 111(: di sse: " I~, cst:10 qualquer fo rma, tinha que consulta r, tinha que ouvir terceiros. Já
presos." A situação já p ermitia resIX>nder: "nla s cu não me sa- est~lva na rua a UDN, já tinha s urgido a união de forças em
JS
ti sfaço apenas com uma informação dessas. Quero saber a ra- torno do brigadeiro Eduardo Gomes.
zão, o motivo, qual foi o atO praticado por eles que justifica a
prisão." Já eu falava uma linguagem, não digo mais agressiva, o senhor participou da fundação da UDN?
pe lo m enos mais ousada, como advogado. "Quero informa- Participei, e também da Esquerda D emocrática, um "
ções completas." Dava para perceber que o Esrndo Novo esta- bloco, um grupo integrante da UDN, que era um mo'\~mento,
va se enfraquecendo. J á havia manifestações públicas, a própria assim como o ~IDB foi depois, abrangendo as várias tendênci-
Ordem dos Advogados começou a se tornar t:'l1nbém menos as políticas e ideolôgicas contrárias à ditadura. Eu freqüentava
úmida nos pronunciamentos de vários de seus conselhei ros. de vez em guando o escritório do Virgílio de M elo Franco, "
No fim da guerra, na vitória da democracia, quando com Carlos Lacerda. Virgr.1io tinha uma posição d e muito desta-
os russos começaram a fazer recuar os alemães, é claro que aqui, que nessa época e participava dos acontecimentos que estavam
internamente, começou a haver uma grnnde redução do núme- se desenrolando para a reaüzação das eleições, para a volta do
ro de prisões. Veja m a prisão, a que já me referi, do Adamo pais a um sisrema democrático de governo. Ora, nào era possí-
Ca rdoso, do Dario, em dezembro d e 44: eles fo ram presos, vel que isso deixasse de acontece r, sobretudo com a volta dos
po rém não ho uve processo contra eles. Abortoy o processo. pracinhas e a extraordinária manifestação no Rio de janei(Q
Ora, se tivesse sido antes, nào tinha dúvida, te ria havido um quando de sua chegada. A cidade inteira foi tomada pela multi-
processo no Tribunal de Segu rança, co m de núncia e condena- dão. Era insustentável a siruação de Getúlio Vargas naquela altu-
ção provável. O Tribunal d e Segu rança passou a desenvolver ra dos acontecimentos. Tanto que ele ainda temou a convocação
mai s a sua atividade, nessa época, nos casos de crimes contra a da Constituinte. E surpreendentemente, os comunistas começa-
economia poplJ ar. O s integralistas ai já tinham perdido a força, ram a apoiá-lo.
nã.o tinham a mesma or&':lnização dos comunistas em relação às
atividades clandesti nas; os comunistas m an tinham as suas ativi- Segundo Anita Prestes, lia 1lerdadeJ Prestes queria tl Comtitu;llte,
dades, de vez em quando eram aringldos por uma diligência que lJlas não C e/tUi/' Qual é !eU dfpoilllento?
prendia os chefes o u desmantelava uma célula, mas dali a pouco Não me parece exata a observação. " Constituinte
já estavam se reorganizando. com Getúlio" era o slogan dos comunis tas. Os comunistas esta-

182 18 3
o SA L ÃO D OS PASSOS P G RIJ I DOS

vam de pleno acord o com isso. Prestes n unca desmentiu isso. E que afi nal teve declarad a a su a ilegalidad e, e em seguida , para a
a su rpresa depois foi clue, Getúlio deposto, o movimento cm - dos mandatos d e seus represen tantes no Parlamento."
cassaçao
f:lvor da UDN aparentemente avassaJador, qua ndo veio ;) elei-
ção, o Brigadeiro perdeu. i\ su rpresa foi tão gmnde que Tln mi - o senhor participol( da deftsa dos lIIandatos dus rcpl"f'$eIJ!mJles
cOl)J}lIIistas?
nha casn, uns 12 ou t 5 amigos, pessoas aparen tcmenrc bem in- I
formaebs, fizemos um bolo para saber quem vello a a elelçiio, e N:'io. Na defesa tanto elo Partido CI)tllllnisl:I, con tr:"! o
não houve um .,ó que apontasse D utr:t como vitorioso, lOdos fed,amcnto, como dos mand atos, funciotlOLl um 'ld vogado el ue
:lpostavam no I3ligadeiro. Foi uma surpl·esa par:l. o país inteiro a morreu recentemente, Sinva! Palmeira, homem culto, de rc::t.l
e!ei~ã o de Dutr:1. E foi por uma margem de voros considerá- merecimento, que depois foi deputado es tadual pelo R..io de Ja-
vel. TV!a s Getüüo tinha, habilmente, constituído o PS D, com neiro e çassado peb revolu ção d e 1964. Pa ssou :l residir na sua
aqueles an tigos intervento res, com os homen s q ue tinham as fazenda na Bahi a e mais tarde, em 1984, foi candidato a gover-
p~efeir: ras, e a máquina funcionou em seu favor. Os oposicio- nador p elo PSR D epois de 1946, fiz algumas defesas de comu-
rustas, mocellles, não erLxergaram isso. Faltou-lhes a visão de nistas na Justiça comum. D e vez em quando, surgia um proces-
que a el eição se realizava em todo o país, e a influência da auto- so po r atividade subversiva.
ridade é mu.ito gra nde na hora em que você vai pedir voto s,
organiza as mesas, m:lntém o do mínio da situação. A mâquina é
A u i de Segurança J\Tadoltal de 1935" foi mantida, foi alterada?
A lei de 1935 se alterou muito, ainda durante o pe-
do governo e, na é poca, era ainda a mágwna do E stado Novo,
nas cap itais e no interior. ríodo do E stado Novo. Houve duas leis d e segurança poste-
riores, mais severas, mais agravadoras d as penas. Confesso que
Quando o Estado Novo caiu t o Tn·bunal de Segllrall{a i'Jacional não tenho absoluta certeza se essas leis foram utilizadas durante
fichou, COlIJO evolllill o lJIovimento 110 seu escrildrio? algum tempo, mas sei que foi feita uma nova lei de segurança
Con tinuou muito bem, sempre aumentando as tarefas após a Constituição de 46. Havia uma lei que reprimia a ativlda-
e as responsa bilidad es. A competência em relação à matéria de de política considerada subversiva . ~'[as era mui to rara a conde-
economia p o pular p assou do T ribu nal de Segu rança Nacional nação. g efendi algu ns acusados. Lembro-me de um processo
para ajustiça comum, de maneira gue passei a defender esses em que defendi m eu g rande amigo, hoje notável advogado,
processos perante os juizes comuns. A m atéria politica pratica- Humberto Teles. Um problema de estudantes, de di stribu.ição
mente desapareceu. Houve a anistia, de maneira que foram pos- de manifestO ou de algum pronunciamento, não me reco rdo do
tos em liberdade aqueles réus que eram m eus clien tes e que processo em si, mas sem importância e sem q ualquer conse-
porventura es tivessem presos. E videntemente, serenou também qüência. Foi absolv1do, não havia nenhum elemen to que com-
a ~pressào política, porque logo em seguida veio a Constituin- provasse a suposta atividad e subversiva. Eram raóssimos os
te e foi declarada a legalidade do P artido Com unista, que ti- processos de cunho politico. Houve, por exemplo, ainda no
nh~ representação no Parlamemo.l\1as depois, houve uma fase governo D utra, o fechamento de uma associação de mulheres,
de lntensa propaganda anticomunista, por ocasião dos req ueri- que era considerada ligada ao Partid o Comunista, e lembro
memos, p rimeiro, p:lra o fechan1ento do Partido Comunista, que defendi esse processo numa vara d e fazenda pública. Não

'" IS'
o SALÃO DOS PA SS OS PER ll lDOS A PÂG I NA NEGRA DO T $N

houve nenhum processo político que tivesse expressão maior


J NOTAS
:lté 1964.
I··ranccsco Ca[r:'Irn (1805-1888) é conslder:'ldo ~llll dos m~is nOl:Í\'cis
pen.llisms de tod~)s os tempos. Com s ua obr:ô principal, Pro,l',rmlla dd
Ainda 1/0 gOl'C1W) D"tra o .fel/hol' deixol/ (I UDIV para par/ici- ClIrJlJ d~ Oirillo Crilllil/a/e (1867- 1880), ofereceu a m ais exaustiva exposição
par da Imulaf/lo do P(JIlldo Socialista Ora.fileiro, flllo foi ÚS()? da ciência pcml.! ~egundo a escola cl:issica.

Sim. Continuei na UDN ati: o Partido Sociali sta ser Léon Hlum (1872- 1950) presidiu, de junho de 1936 a jllllho de 1937,
o primeiro governo da !'reme Popular. coalizão dos partidos de csqucrd:ô
fundado, cm 1947 . Sou membro do diretório n::tc!onal do Par-
que manlevc o poder na F[~n ça al~ abril de 1938.
tido Socialista até ho je. Embora não tenh:l militin cia po lítica, , . d
Alvaro Fntnci~co de Sousa, comandante da companhia e melralha-
continuo sendo reconduzido ao diretório, mlvez pelo 6to de ser
dorns do 3 0 lU , sediado na Praia Vermelha, assumiu o comando da re-
um dos únicos fundadores vivos. Há Outro fundador vivo JoeJ volta junto com os capitães Agildo Bar:lta e José Leite Brasil, e fez pane
a '
Silveim, que também assina a ata de fundação. Rubem Braga-14 da junl'lI. revolucionária que recebeu a m ensagem do general E urico Outra
conclamando os revoltosos à ren dição total. Tal como Benedito de Car-
L1mbém assinava. Faleceu no ano p assado. O Partido Socialista
valho, foi condenado, em maio de 1937, a dez anos de prisão. Vc:r DHBB,
está hoje no poder dos que o dirigem por nossa causa . Q uando op. ca.
5
se reconstituíram os partidos depois do movimento milttar,4
Vcr Honorato Himalaia VirguLino, Deminda dOJ (abtraJ da rtvolllriio dr
em relação ao PTB, por exemplo, havia duas correntes que cüs- 27 dl flo/'lmbro de 1935 (Rio de Janeiro. lmprcnsa Nacion:d, 1938), D ~fl/in­
puravam a sigla: uma do Leonel Brizola e outra da Ivete Vargas. da dos co-rius qm /Mgoram em onflas na rrvo/'ifiio d~ 27 d~ flot'tmbro de 1935 (Rio
de Janeiro, Imprensa Nacional. 1936) e Razõtl fiflais da Promradoria do Tri-
Afinal, o tribunal concedeu-a à Ivete, porque ela tinha precedên-
buna/ de Seguranra Nodoflo!, fiO proctsso crime cofltra os co-rius da mO/llrão de 27
cia no pedido de registro. Em relação ao Partido Socialista, esta- dl flovtlllbro dt 1935, queptgaram em arma.r (Rio de Janc:iro, Imprensa Naci-
va acontecendo a rnesma coisa: um grup o de São P a ulo havia onal, 1937) .
requerido o reglstro, e o grupo do antigo Partido Socialista, com
, Referencia ao Decrcto·Lei nO 88, de 20 de dezembro dc:1937 (ver nota
Jamil Haddad à freme, sô requereu de poi s. A expectati\-a era 9 do capítulo anterior).

que fosse concecüdo o,;egistro ao grupo de São PauJo, por cau- 6 A1fred Dreyfus (1 859-1935), oficial fran cês, foi condenado, em dezem-
sa d a p recedência do pedido. 1\ siruação mudou porque fui ch a- bro de 1894, por um conselho de guerra, sob a acusação de ter passado
infonnações ao adido militar alemão em Paris, e foi deportado para a
mado e imerferi. A lei permitia a reconstituição do partido que Guiana Francesa. Em 1894 descobriu-se que o verdadeiro culpado cra um
já tivesse exlscido. Na condição de fundador, convidei Rubem ofidal do Estado-Maior frances, mas mesmo assim o Exército frances
Braga e J oe! SiJveira, e formulamos um requerimemo ao tri- decidiu não Tever o processo, provocando intensa reação da opinião pu-
blica, quc: se dividiu entre dreyfusistll.s e antidreyfu sistas. Apenas em 1906
bunal para reconstituir o Partido Socialista. Não era, portamo, a Corte de Cassação reabilitou Dreyfus, nomeando-o chefe de batalhão e
igual ao caso antenor de precedência de requerimento, ocorrido ab'1'aciando-o com a Legião de Honra. Para ma.iore~ informações, ver J ean-
com o PTB. Havia uma condição diferenre, que era a de sermos Derus Bredin, O (aso Drtyflls (São Paulo, Scrina, 1995). Ve r também a carta
em defcsa de Dreyfus que Rui Barbosa enviou ao Jornol do Comércio em 7
detentores do tírulo de fun dadores e estarmos pedindo a re. de janeiro de 1895, inaugurando a série de cartas publicadas durante seu
consciruição do antigo partido, e não o registro de um partido eXJ1io em Londres: "O processo do capitão Dreyfus", em Cartal da Ingla-
novo. Nosso partido é o que vem de 47, e por isso obteve o terra (Rio de Janeiro. t.-Unistério da Educação c Saúde, 1946; Obras com-
pletas de: Rui Barbosa, v. XXlH , tomo 1).
registr,o.

186 187
A P ÁG I NA NPO R A DO TSN
o SALÃO O OS " A S SQS PE RDI OOS

NOTAS
houve nenh um processo p o lítico que tivesse exp ressão maior
até 1964. . " (1805 • 1888) é considerado um dos m~is nO I ~\"eis
"1 '[anC e~co C:Uf;U"
'le11.llista ~ ~k todo~ os tempos. Com sua obra principal,. l'ro.p'TalJlo ,:d
~·o/J'o de /Jinflo Crilllllla/e (1867-1880), ofcreceu a m~IIS e:X,IUSU~':1 cxpo~lçaf.)
Ainda 110 gOI:emO DIf/ra o Sel/bor dei>.,-oll d U DN Pflli! partici- eh ciência penal ~cgund o a escola cLíssiclI.
par dei fimdar/io do Pr/rlidu Soelfl/is/a l3m.rileiro, I/(Io(oi ;uo?
l Léon BlWll (1872- 1950) presidiu, de junho de 1936 a junhfl de 1937,
Sim. Contllluci na UON até o Partido Sociali~(a se f .
o primeiro gon:rno J a ",en
l - ~
"- Popular c03hzão
. ' .. '
dos p:uudos de esquerda
fundado, em 1947. So u membro do dj retó rio nacional do Pnr- qlle manteve o poder n a F r.l!1ç:\ ate ablll de 1938.
tido Socia lis ta :Hé hoje. F mbon não tenha milit.ância politica, '· -ranCI 'e"
-f'1 V,IN.) F , de <-",a
.:xJ,
cOlllfllldame
'
~b comp:mhia (!c metralha
continuo sendo recond uzido aI) dlrCtório, talvez pelo fato de :o;er doras do 3 0 RI , ~c(li ado na P raia Vermelha, 3ssumiu o comando d:'l re-
volta juntO com os cap idcs Agildo Barata e José Le:it~ \3 r-aSl~, c. fc z pa rte
um d os úruca s fu ndadores vivos. H á o utro fundado r vivo, Jael
a M da junrn revolucionãria q ue recebeu a mensagem do ge nent! E u.rICo O utra
Silveira, que também assina a ata de fundação. Rubem Braga conclamando o s revo ltosoS à rend ição total. Tal co mo ~e~edt;o de Car-
também assin:wa. Faleceu no ano passado. O Partido Socialista valho, foi condenado, em m aio d e 1937, a d ez anos d e: pnsao. \ e r DRBB,
está ho je no poder dos que o dirigem por nossa cau sa. Quando op. cito
a Ver H o no rato Himalaia Viq,>ulino, Dmúnna dOI (~be(as da rn'olu(Jo .de
se reco nstituíram os partidos depoi s do m o vimento militar,
27 de nOl>tmbro de 1935 (Rio d e Ja neiro, I mprensa NaCIo nal , 1938), Denu.n.
em relação ao PTB, por exemplo, havia duas correntes que dis-
da das co.réus que ptgarom em armaI I/a rtvolufJo de 27 de novembro de 1935 ~~
puravam a sigla: uma do Leon el Brizo Ja e outra da l vete Vargas. de: Janei ro, Imprensa Nacional, 1936) e Razõu filiais do. Procuradona_do 1n·
A final, o tribunal concedeu-a à 1vete, po rque ela tinha p recedên- bunal de Stg/lran(u Nanonal, no pro(tsIO mme ~ntra 01 to'~UI da ret'Olufao de 2:
de nOl.Ymbro de 1935, que pegaram em armai (Rio de J aneIro, .Imprensa NaCI-
cia no pedido de registro. Em relação ao Partido Socialista, esta-
o nal, 1937).
va acontecendo a m esma co isa: um grupo de São Paulo havia
c •. D oc .....
- '-0 - Lei· nO 88 ,d e?O
- de dezem bro d e: 1937 ("e:r nota
requerido o registro, e o g rupo do antigo Partido Socialista, com RelerenCla ao
9 do capítulo amerior).
J amil H addad ã frente, só requereu de pois. A expectativa era
~ Alfred Oreyfus (1859-1935), oficial francês, foi condenado, em dezem-
q ue fo sse concedido o registro ao g rupo de São Paulo, por cau- bro de 189 4, por um c o nsdh o de guerra, sob .a acusa.ção de te:r p assado
..... sa da precedência do pedido. A situação mudo u porque fui cha- in formações ao adido m ilitar alemão em Pa n s, e fOI. depon ado para a
m ad o e interferi. A lei pe rmi tia a recon stiruição do partido que °
Guiana Francesa. E m 1894 d escobriu-se: que \"e~adelro c~lp~do e ra u~
c . 1 d o E S --do-Maior
OIJc;m e ", "
fra ncês mas mesmo aSSim o Exe rcito. .francc,
_ •
já tivesse eXJ stido. Na condi ção de fu ndador, convidei Rubem decidiu não rever o proce:SSO, provocando .inten sa : eação da opu'l.lao pu~
Braga e Jae! Silveira, e form ulamos um requerimento ao tri- blica que se dividiu entre dreyfusistas e anod reyfuslstas. Apenas em 190
bunal pa ra reco n stituir o Par tid o Sociali sta. Não era, portanto, a Co~e: de: Cassação reabilitou Oreyfus, nomeando~o chefc ~e: b atalhão e:
af,>Yacia ndo-o com a Legião de H onra. P,ua maiores In fo rmaçocs: \"erJ ean-
igual ao caso anterio r d e p reced ência de requerimento, ocorrido O cnis Bredin, O (aIO DreyfllI (São Paulo, Scrina, 1995). Ver t1mbé~ a cartl
com o PTB. H avia uma condição diferente, que em a de ser mos em defesa de D reyfus que Rui Barbosa en" jou ao Jom~1 do Comemo em 7
· d 1895 '", ugu rando a série de cartaS p ublicadas d ura nte seu
det<7ntores do ótulo de fu n dad o res e estar mos pedin do a re- d e)anClro e: " " C d J 1
e:xílio cm Londres: "O processo do capitão D reyfus ,em ar1a~ a ng a·
constituiç3.o do antigo parcido, e não o registro d e um par tido !trra (Rio de JaneIrO, Ministério da Educação e Saúde, 1946, O b ras corn-
novo. Nosso partido é o que vem de 47, e por isso obteve o pletls de Rui Barbosa, v. XXlIl , tomo 1).
regIstro.

186
I 187
o SALÃO DOS PASSOS PERD I DOS
A P ÁGI N A NEGRA DO TSN

~ebasriào José Na\'CS e Joaguim Naq:s ]{osa foram acu~ados de as- e, em dezembro do ano se,";uinte, tornou-se dest'mbargaclor do Tribl,nal
~aSSln:'l r seu sôc,io Benedito Pereira Cactano, comerciante cm Araguar!
de Apcbçiio do DI'. Em maio de 1939, entrou para o STF, onde perma-
(l\ IG). desaparecido em Ilovembro de 1937 ' IXt~
. '" .,~ ...... "Y"'-'cra
~,"", ....l rClll (1"0 I
e"/ 011 neccu alê 19ó3, 411ando se aposentou. Foi presidcntc do STF de 1960 a
cru:l.clros. Presos, for:lm tOrturados e obrigados a confc~sar o crime. Duas 1962. Ver DHHf3, op.cir.
vezes absohldo~, no lerCCII·O julgamento foram contudo condenados a
25 ~no~ e S('IS meses de prisào. Em 1946. após lerem cumprido oito " Refcrência lO D ecretu- Lci nO 88, dc 20 de Jt"zembro dei 937 (\'cr nou
allos.frH-:l~ll p~stos cm lJbenl~dc conJicion~1. Atin,d o proccsso fOI :tnU _ 9 do capitulo il11lerior).
lado. cm .tunçao do fL'aparecimelHo de l3encdno Pereira Caetano. Ver Joào
°
A~;lmy PJlho, O ,mo dos ir",iio~ NOVf'J: erroJudiddno de /'I I~{gI/Od (5:io P;lulo, I> Em 2 de de;:cmbro de 1937, Vargas decretou a dissoluçào dos par-
Circulo ~Io LIVro, s~ d.) e La5mha Luís Carlos, Erros JúdlridnoJ (Sào P:'lulu tidos políticos, ai sc incluindo a Ação Imegmlista Brm,deira (t\ I \3). Nos
V:mer J3lcego - Editora 5:io Paulo, $. d.). ' pnnlciros meses de 1938, o governo re primiu com \-igor as .1ci\-idades
• integralistas, di~solvcndo seus núcleos, proibindo sua prupaganda e
. O Ato l nstirucionalno 5, de 13 de dezembro d(' 1968, foi o mais d rás+ fechando seus jorilais. Em 11 de março desse ano, houve a primeira
tlCO de todos os :ltOS institu.cionais até entào editados pelo regime militar tenta tiva fracaSSada de golpe chefiada pelo médico Belmi ro Valverde no
IIlsta.urado em 1964. AUlOnzava o presideme da República, entre Outras Distrito Federal e no estado do Rio. A conspiração recomeçou logo a se-
me~das, a decretar o recesso dos órgãos legislativos, a cassar mandatOs guir, com o apoio de militares gue não pertenciam ii. AlE, como o co ronel
d,em-os, a suspender por dez anos os direitos politicas de g ualque r cida- Euclides de Figueiredo., o general José Macia de CaStro Junio r e o tcnente
dao e a suspender a garantia de babeas-rorpus. Ve r DHBB, op. cito Severo Fournier. O assaltO ao palácio Guanabara em 11 de maio fracas-
, sou, e cerca de 1.500 integralistas foram presos sô no Rio de J anei ro.
l-Ionóri~ de Freitas Guimarães (1902-68). pertencente a uma fa m ília P línio Salgado, o principal Líder da Am, foi excluído do processo, e se
de fazendcJIos do estado do Rio de J aneiro, ingressou no PC B em fin s exilou em Porrugal em 1939 . Fournier foi condenado a dez anos d e pri-
de 1931. pass~u a i~tegrar o secrerariado nacional do partido no inicio de são e morreu rube rculoso na cadeia. Para mais informações, ,'er H elgio
1 ?34: e, a parti r de lulho, o comi tê Central. Com a p risão dos m embros da Trindade, In/~grlJliJmo (o jaiCismo brasikiro ria ditada de 30) (São Paulo,Difel;
direçao .do PCB~ assumiu, d urante alguns meses d e 1936, a seCretaria geral Pono Alegre, UFRGS, 1979),
do. parod.o. FUgJu para a Europa em 1937, voltOu em 1939 e no ano se-
gulr~le fOI preso e mandado para a Ilha Grande, onde ficou atê a anistia de 16 Agildo da Gama Bara ta Ri beiro (1905- 1968), depois de particip ar ari-
194::>. Ver DHBB,op. cito "amente da Revolução de 1930, já no ano seguinre começou a divergir
• dos rumos seguidos pelo go\-erno provisório de Getúlio Vargas, Ingres-
Maurice Garçon, ad\'ogado fra nâ;s nascido em 1889, escreveu varias sou no PCB em feve reiro de 1935 e em 27 de novembro comandou o
obras sobre a história e a eloqüênci~ judiciarias. Entre elas estão: Proc.'
levame do 3° Regimento de Infamaria, na P raia Vermelha, no Rio de Ja-
~o",bm (1950), HiJloin de la JIlItiee 10llS la lll! Ripllblique (1957) e L 'o/lf)(tll :~ nei ro. Preso no mesmo dia. permaneceu dez anos·na cadeja, até a anistia
a morale (1963), Foi membro da Academia Francesa de /....eIras (1946).
de abril de 1945. Ve r DHBB, op.-iit.
" . Tal como no caso João Mangabcira, Antônio Pereira Braga negou-se
a Julgar o processo COntra O jornal O ESlado de S. Pmdo acusado em 1938
" Rodolfo Ghioldi, membro do Partido Com unista Argentin o d esde
deco ·- , , , os anos 1910 e do comitê executivo da Internacional Comunista, foi
nsplraçao conrra o governo federal, na gUrll estariam envolvidos mandado ao Brasil em 1934, do mesmo modo gue H arry Berger, com a
Armando 5ales, Otávio Mangabeira e Paulo Nogueira Filho.
missão de onentar a aruação do PCB. Agui cb~~ando em abril de 1935,
". ~aul Campdo Machado atuou como relator no julgamento dos prin_ participou da coordenação da revolta comunista de novembro, foi preso
CIpaiS acusados, reallZado em maio de 1937, e como JUIz no sumário de em janeiro de 1936 e condenado pelo TSN , em' maio de 1937, a quatro
culpa de Pedro Ernesto. anos e quaU"o meses de pnsào. Ver DHBB, op,Sit.
"D . F~edenco .Barros J3arreto (1895- 1969) bacharelou_se pela Facu ldade de IS Augusto Pinto Lima (1874-1944) bachar:;~u-se p ela Faculdade de
ralaet~ do Rio de Janeiro cm dezembro de 1915. Juiz da Justiça E leito_ Direito do Rio de Janeiro em 1894 e aí lecionou economia politica. Em
I ' 01 nomea~o, em 28 de novembro de 1935, no dia seguinte ao do 1893 fundou junto com Cândido Mendes d e Ahneida a Sociedade d e
eVante ' I pe Ia ap li caçào do estado de sítio no
· . comUniSta ' 10 IZ responsave J\ ssistência e Antropologia Criminal, gue comnbulU pra a orgaruzação
D Jstnto Federal E • li d 9 ' judiciária no Rio de Janeiro. Presidente da OAB cm 1944. nunca exerceu
. m Setem ro e 1 36, fOI deSignado presidente do 'r$N
função pública. por ser monarguista. Ver r=;;prtsidenlts do /nslilllto dos

"8 189
A PÁCIN A NEGRA DO TS N

~~;;j.''1dOJ Bra$llemu dudt Al olllt:zuIJ/a 'Taf0.1 hiograficoJ (Rio de Janeiro,


• O .MJOlstério da Aeron:iuuca só sena cnado cm janeiro de 1941.
" O~v:údo Trigueiro de Albuguerque l\ lclo (1 90:;- 1989) b h I " francisco l\ l oé~ i;l. Rolim panicipou, cm ollnlbro de 1934, do grupo
" II I · - ac :1reou-s~'
IX! Ia .I';leu ~:!( e de Direito de Recife elll 1924 e transferi
. I ~, par:lO I"~I()uo.:
lo, org.mizaJor da AN L,;Io ktdo de 1 Ic ro.:u lino Cascudo, AmOleci Osório e
J:lnClro cm 19'31, onJe 'ie dedicou:i :!dvocacia. Dcpoi ~ do l-::Sudo Novo francisco 1\lang;locir',1, <;l1tn; Out ros, ccdcnd.... indu~i~e seu escntó,;o pam.
fOI go\'ernador da P:lr:l.lba (1947-1950' c deputado f,.,I".,1 ~I algumas reuni<":Ks. Em m:lrço de 193-') a~l>inou a ata dc fundaç,io da ,\:'\l L
"cl ( 19 ). ~. ".; o mesmo
t:' .a, o 51-1954). Elllb:ll'(:Idor do Brasil na Indonésia ( 195'11 9%) e cm novembro foi pre~o acus,ldo de envokimcllw no Icv;mte çomunis
llUlllSlIO
d· . do TSE (1961- 1964) c procuraOor' g,ml . d, Rcpu·bl ICI d Urllnte.o~ , 1'1, mas foi "olto cm sCl:,'\liJa por f:llra. de ekmemos <Jue comprovassem
a. Is. pllmelros. _anos do gO\-CnlO Castelo
' . I:hanco ( 1964 1965)
- , tornou se: sua respono;;abilidade dircra no mo\ imcnl0. Ver DHBI3, op. cito
,ru,.n~slro do S~ F cm novemb ro de 1965, nomeado cm consc<ju(~ncia da
• O deurdo "dl''J.,,,fo, c:trla de Ihll B:trbosa .1 Evansto de "'forais daulrla de
e(,çaodoAl-_(27.1O.19Ií'l)
. . ' (Iucelcvolldc I I p,-160·
'.' nurne ro c c lnl!
·
llIStr(')s da(~u~lc ór/,r:lo. Per maneceu no STF atê apOsema r-~c, cm 1975 2(, dc outubm de I') II, toi publicada pela primeira vez cm 1912 (Rio de
tendo presidido o tnbunal entre 1969 e 1970. Ver DHBB ' janeiw, Til'0gr:lfia eh Casa Vent'<ls, 18 p.), mas nenhum dos cxemplares
l O ' , op. cito
dessa edição parece ler subsistido. Em 191 9 foi publicada na edição de:
O major) F~e.derico ~ndelo Carneiro MOnteiro foi direror da Divisiío Carlas polí/ira.1 t literántl.1 (Bahia) c dois anos depois foi reproduzida scpa-
~e Ordem I olluca e Soeml (Dops) de julho de 194 4 a 8 de ma rço de 1945. radamente peJo Instiruto Bib liogr.'tfic:o Brasileiro (Rio de Janeiro, 1921).
Ver Obras rompltltlJ de Rui BarlfOJa (Rio de: Ja neiro, Fundação Casa de Rui
A Car:a das Naçõe~ Unidas, g ue define os prop6sitos e princípios da
Barbosa, 1979), v. 38, t. 2.
ONU, fo! aprovada pel.:lS d.clegações de 50 países e m 26 de ju nho de 1945,
no e ncerramento da pnmelra con fe rê nçÍ:l da ONU, realizada em São F . Z? O OTP (Dcpartrll11enro de Imprensa e Propaganda) foi criado pelo
CISCO, EUA r~ n
D ecreto-Lei n 1.9 15, d e 27 de dezembro de 1939, com o objctivo de di-
D

"
A.Sociedad~ Amigos da América foi fu ndada cm I" de janeiro de 1943
fundir a ide:ologia do Estado Novo c: promover pessoal e polido-
men te o chefe do governo, bem como as realizações go~·ernamentais. Di-
no Ri o de Janei ro, com o objetivo declarado de apoiar a lura dos Aliado;
rigido por Lo uri val Fomes, homem de co nfiança de Vargas, e: dotado de
na Segunda Guerra Mundial, mas, na verdade consti .... ;u_~a a .
I d . ~ , '..... ~,- .. m um nu- crcsceme autonomia, o Ol P tornou-se o principal ô rgão coercitivo da
c eo e OPOSlça~ a~ E stado Novo. Fechada em 1944, foi reaberta c m abril liberdade de: pe:nsam emo e expressão durante o E stado Novo e o pona-
de 1945, agora momamente vinculada ii formação da UD N.
voz autorizado do regime. Foi exumo e m 25 de: maio de 1945, pelo
• A prisão ocorreu no final de dezembro de 1944 . fi Decreto-Lei n" 7.582, que criou a D e:partamento Nacional de I nforma-
d 'd . - , e os cmco Icaram
.eu os por dez dla~, passando o Natal e o Ano Novo recolhidos ao Re- çõcs (DN I).
~mento de Ca\'alana da Po lícia I\olilitar.
JO Francisco de: Assis Ch:ueaubriand Bandeira de Melo (1892-1968) ba-

Trata-se da 11 Conferência Inreramericana de Advog do "" d charc:lou-se pela Faculdade de Direito de Recife em 1913 e: dois anos
d 9 a s, re ..... za ae m ...- depois assumiu a cátedra de direito romano e filosofia do direito dessa
agosto e 1 . 4~. Segundo H aroldo Valadão, nessa conferéncia e no Con-
g resso JU~ld,~o Nacional gue se lhe s eguiu, o mo\'imento de escola. Nessa mesma c:poca, rornou·se e:dilOr e redalOr-chefc do iornal
rede~ocr.auzaçao começou a tomar corpo, com a ap resentação de leses e EJfado de PtrnombuC(). Em 1917, t ransferiu-se para O Rio de Janeiro, onde
a reaJizaçao de debates g.ue: de:fe ndiam a res tauIação do estado de direitO trabalhou no CofTtio da Manhã e no jornal do Bralll, antes de comp rar, cm
e da democracta no Bras!l e no mundo. Ver H aroldo Valladão H · f. " 1924, O matutino O jornal e, logo depois, o Diário da Noite, em São Paulo.

1977).

dire·, '" . f
e_rula fIIm/e ao "1ft/tO hrasileiro (3" ed Rio d J
J J' .

"
. F
, IS ona "o
B
e: anClro. reltas aStos,
Com base neSSeS dois 6rgãos, aos guais se juntaram posteriormente re-
vistas como O CmZdro e emissoras de r:idio e de TV, Chateaubriand
estrutu rou lima poderos:! empresa jornalística, o s Diários Associados. O
" Túlio Régis do Nascimento saiu aspirante da E scola Mi litar do poder que lhe tro uxe esse império de comunicação lhe permitiu eleger-se
Realengo em 1927, c hegando a capitão em 1934 Em 1943 ~ . cl I· d senador pela Paraíba (1952-55) e pelo Maranhiío (I 955-57)e ser designa-
do Exé rCÍ! d d ' 01 es Iga o
d G o e con ena o pelo TSN a 30 anos de prisão. Ver Ministêrio do pelo prcsldente Kubitschck embaixador do Brasil na Inglaterra, Aco-
a uernt, Almanaque do Extrato para o ano dt 1944 (Ri d J . merido, em fevereiro de 1960, de uma trombose gue o deixou
Imprensa l'\'hhtar, 1944). o e anclro, scmiparalíuco, Chll.leaubriand cononuou, no entanto, a dirigir os Diários
Associados :ue mo rre r em 1968. Ver OHBB, op.cit. e Fernando Morais,
op. cit.
190
191
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS
.-- A P ÁGINA NEGRA DO TSN

l- V irg ího de i\·lc1o F ranco (1897- 1?48), filh o de Afrânio de M elo


• Eva ndrú Lins e Silva, "Chalô e Nc1 ..on Hung ria" ,Jomal do BraJ//, 30 de Franco, e rrmão de Afonso ,\rmos de i\ldo Franco, fo i, co mo direto r da
outubro lle 1994, p. 11 . SOCIedade AmIgos da América <.: ~ ignat:i[io do ,lIall/fulo do.f mineirol, um
, aavo m embro da oposiçào li be ral ao Estado Novo. Participou do mo-
O escritor Italiano Pietro AH·ti no, ~Il'c se to rno u eonheciclo por C01'1e-
vimen to cm prol da cand idanrra cio brigadeiro Edu~rd o G o m e~ , , \ue
iar c ao mesmo lempo c hallla~e:l r ~s a 1ta ~ personalidad es ci~·i s c eck si:ís-
acabou d esembocando oa criação d a V ON, da qual .;.e curoou secrel.irrtl
tias, \';\'eu de 1492 :l 1 ';56, p~:;s:l11d<") parte de sua \·ió:l cm Veneza, onele
geral. F}(erceu ri presidência eh seção mineira da UO N no h rê nio 19" 7 48.
r n o rH~ u .
Ver D1-1B8, op. cu.
" O envio das nopas br:tsr1erras 'l h i lia ~t' deu cm iu lho de 1944, apôs "ljA declaração de A nita Prestes fo i fci ta no seminário em comemo-
alguns dc ~ filc s <.: dcmonstraçt"'.es que ocorreram ainda em fins ele março e
ração aos 70 anos d:. Coluna Prestes, promovido pelo I FCS/UPHJ, em
em mmo no Rio de Jr.nl;"iro. Ver i\1arechal J. 13. 1\h Sl"arcnhas de i\lorais,
outubro de 1994.
Mrmón"al (Rio de J:meiro, J osé Olyrnpio, 1969).
,. " O utra obteve 3.251.507 VOtOS (54,16% do loral), enquanto o Briga-
No dia 29 de ourobro, V:ugas anunciou a nome:lção de seu Irmão
deiro ficou com 2.039.341 \'Ot05 (33,97% ),
Benjamim Vargas (Bejo) para a chefia de polici:! do D istritO Federal, em
substiruição :! J oão AlbertO, que iria para a prefeinrra. Desaprovando a ..., A Constituint~ inStalou-se em 2 de feve reiro de 1946, e a 18 de setem-
decisão de Vargas, Góis J'·lomeiro pediu demissão do Ministerio da bro do mesmo ano a Constituição foi promulgada.
Guerra, conseguiu o apoio dos principais chefes militares, e, pouco de-
pois da meia-noite, Genllio assinou sua renuncia fonna!. 41 O caneelamento do ref,>i~tro do peB, ocorrido no dia 7 de maio de
1947, abriu caminho para a cassação dos mandatos dos deputados co-
" Eduardo Gomes (1896-1981 ) foi um dos lideres da revolta dos "18 munistas. Com a apmvação de 179 dos 243 deputados p resentes, a
do Fone", em 5 de julho de 1922, participou do le\'ante paulista de 5 d e cassação sô foi aprovada em 7 d e janeiro do ano seguime.
julho de 1924, e, post~riormente, da Revolução de 30. Um dos prinCIpais
organi7.adores da Força Aérea Brasileira, chefiava o Ser viço de ROt:l5 e H A primeira Lei de Segurança N acional do país, sancionada em 4 de abril
Bases Aéreas quando foi criado o .Ministério da Ae ronâuclca, em janeiro de 1935, inaugurou o critério de deslocar para !eis especiais os crimes con-
de 1941. Promovido a brigadeiro-do-ar em dezembro, foi então nome- tra a segurança do Estado, com o abandono de garantias processuais, O
lido comandante da J e [I Zonas Aéreas, 5ediadas respectivamente em fechamento da ;\NL, decretado por Getúlio Vargas em 11 d e iulho de
Belem e Recife. Diante da perspecti\1a da reconsorucionalização do país. 1935, já foi feito com base nessa lei, Em 14 de dezembro de 1935, apôs
foi lançada, no início de 1945, sua candidatura ... sucessão de Vargas pela a revolta comunisu, a Lei nO 136 defini u OUtrOS erimes políticos. Após:l.
União Democrâtica Nacional (UD N). Nessa época, tomou-se popular o redc:mocratização do país, su rgiu, em 5 de janeiro de 1953,a Lei nO 1.802,
termo "Brigadeiro", rindo de um poema de Manuel Bandeira dedicado esrabdecendo a competência da Justiça I\1ilitar para iulgamento dos
lO candid:Ho de oposição ao Est~do Novo. D errotado nas eleições de crimes de segurança externa, e da Justiça ordinária para julgamento dos
dezembro pelo generlll Eurico G:lspar Dutr~, Eduardo Gomes voltou a crimes contra a sef,'llrança interna. Ve r DHBB, op. cito
se candidatar em 1950, agora contra o próprio Getulio Vargas, e mais uma 00 Joe! Silveira, iornalista e escritor nascido em Aracaju em 1918, cola-
vez perdeu. Foi miniStrO da Aeronâutica nos governo Café Filho (agosto
borou com a rC\'ista Djrttri~fJ de 1942 a 1944 e foi redator do Ditin·o dt
de 1954:1. novembro de 1955) e Castelo Branco (janei ro de 1965 a ma rço
j\;otiaar, tendo feitO a cobertura das açõcs da Fo rça Expedicionária Brasi-
de 1967), Ver DHBB, op. cit.
leira (FEB) na Segund:l Guerra Mundial. D e 1954 a 1964 foi direto r do
" A Esquerda Democrática surgiu publicamente em 12 de junho de serviço de documenução do Minis téno do Trabalho.
1945, ao lI presemar uma moção de apoio ir. candidatura do brigadeiro
H Rubem Braga (1913- 1993), jornaüsta e escrit,?r, também colabnrou
Eduardo Gornes ir. p residencia da Re pública. Vârios membros da E squer-
com a re\·isra DiretriZeJ e cobriu a campanha da FEB na I tália. D e 1961 a
da Democrática, como H e r m es Lima, Domingo s Velasco, João
1963 foi embai;\"ador do Brasil no Marrocos.
Mangabeira, entre OUtros, h aviam participado a metiormem~ da criação
da UD N, ocorrida a 7 de abril. Em agosto de 1947, em sua segunda co n- •• Extimo o sistema b ipartidário com a decretação, em 29 de nO\-em b ro
venção nacional, a E squerda D emoc rática passou a se denominar Partido de 1979, do fim dos dois únicos partidos políticos e}(istemes, a Aliança
SocialiSta Brasileiro (PSB). Renovado ra Nacional (Arena) e o Movimento' Democrático BraSIleiro

193
(MDB), abriu-se espaço para a rcorganizaçào do sistema multipartidário.
A disputa peb sigla do Partido Trabalhista BrasiJeiro (PTB) encerrou-se 5. O defensor da liberdade
em maio d e 1980, a partir da ~enten ça do Tribunal Superior Eleitoral
( TS F:).

D ,\ PRIVAÇAo DE :,ENTlDOS À LECín;\lj\ DF:F1:--.s,\ 0 ,\ HON RA

o smhor estreou 110 Tribunal do Júri defendendo Oleio, um


passional. E !lOS contou que, embora o crime passional Jàsse prati-
camente aceito pela sociedade nos anos 30, Robero Lúa iniciou
uma campanha contm a impunidade dos passionai.r. Como em
°
difinido criminoso passiona~ e em que consistiu esse debate?
Na classificação dos criminosos de Enrico FerrJ, os
passionais estavam na categoria genérica dos criminosos ocasio-
nais - quer dizer, não eram delinqüentes profissionais, não fazi-
am parte do crime o rganizado, não eram reinddentes. Eram
pessoas, em geral, de bom passado, que cometiam o crime nwn
acesso de desespero, de desgraça, de infeliddade, por motivo
de ciúme. E isso era muito freqüente. Para esses criminosos, um
grande n{unero de autores sustentava que a pena não tinha qual-
quer efeito do ponto de vista do contra-impulso psicológico,
nâo traria qualquer benefído: nem para eI~ - para sua recupe-
ração ou ressocialização - , nem para a sociedade, que não jus-
tificava o crime, porém desCl~pava, perdoava o delinqüente
ocasional. O júri, representando o pensamento médio da coleti-
"idade, tinha tendência a atender a esse sentimento generalizado,
e na quase totalidade dos casos as dedsões eram no sentido de
absolver os chamados delinqüentes ocasionais, passionais ou
nãq. No caso, por exemplo, daqueles que cometiam um crime
num incidente de ma, por um motivo que não era torpe nem
revelava cupidez ou interesse patrimonial, também era freqüente
o jú ri manifestar uma decisão considerada benevolente.
194
o SAI.ÃO DOS PA SSO S I'EIH>II) OS o DEFENSOR DA LlIHi RD A DE

Nesse período da década d e 30, eX:H;lmente, C:lpira- ções d e vida, por exemplo. H avendo crime com essa Illotiva-
neou :l luta conrr:l a abso lvição dos passion:ti s o pro fe ssor ç:io, a pena passo u a ser b:lst:lIlte reduzida, me!'lllo quando apli -
Rob er to Lira, um p<::I1:1 li st:1 exímio, UIll pru m otor pú blico ex- c:leb ao crime de mon e. Foi essa a soluç:io encontrad a na lei
cepcional no exercício da sua função, que obteve o que naquela para, suprimind o a di rim ente eh perturbaç:io dos sentidos e d:l
época foram g r:1ndcs ttiunfos contra o passiol1fllismo, contG!. inreligência, t~11l1 bc.': m 0:10 pcrrnitir que se condenasse a uma pena
esse tipo de delim'lüência enC:1rada com benevolência pelos ju r:t- exagerada quem agisse por motivo aceito e compreendido pela
dos. Ainda ass im a lendência cio júri era à comp reensão, porque sociedade.
havia na lei - eu já disse isso - uma dirimente ch:llTI:1d a " pe[- No júri, como sabem, é o juiz (Iue :tplica a pena, de-
lurbação dos sentidos e da i.nteligência" . A tendência era aceitar pois de recolher as respostas dos jurados aos quesiros formula-
que as ofe n sas fe ita s, ou as divergência s, o ciúme, dos. P rimeiro: o juiz pergunta se o réu cometeu o crime. Segun-
despersonalizavam o individuo, e ele praticava um gesto que do: se ele agiu em estado de legitima defesa, ou por doença
não era idêntico ao seu passado, a ele próprio. Ele tinha o re- mental, ou por qualquer motivo que possa excluir a responsabi-
morso como uma sanção que se impunha a si mesmo, p orque lidade. Seguem- se quesitos sobre agravantes: se ele agiu p or
se arrependia profundamente, depois, do gesto de violência que motivo torpe, po r motivo fútil, se dificultou a defesa da vítima,
praticara. O movimento que houve naquele período com se houve emboscada, se usou meios cr uéis, veneno etc. Tudo
Robeno Lira à freme teve influência, não há dúvida alguma, no isso agrava o crime. D epois o juiz pergunta se há circunstâncias
sentido de dificultar as absolvições que O júri freqüemememe atenuantes em favor do réu. Entre as circun stâncias atenuantes
proclamava. Como? O novo,Código Penal promulgado em está a de se encontrar O réu sob o domínio de violenta emoção
1940, que substiruiu o de 1890, suprimiu do seu texto essa diri- provocada por ato injusto da vitima ou d e ter agido por motivo
meme da perturbação dos sentidos e da inteligência, e isso tor- de relevante valor social ou moral. Afirmada essa atenuante, o
nou muiro m ais difícil a solução favorável aos passionais. juiz, p or lei, está obrigado a reduzir a pena. A sanção, nos crimes
Também no estrangeiro, nessa época, a legis J ~ão já passionais ou ocasionais, passou a ser assim, quando afirmado o
,
nào continha mais semelhante disposição. O código penal italia- privilégio pelos jurados, reduzida de um sexto a um terço.
no, por exemplo, no qual se inspirou o nosso Código Penal de Como essa solução não importav a na liberdade ime-
1940, não continha essa dirimente. Mas previa uma outra fór - diata do rêu - ele teria que cumprir uma pena, embora reduzi-
mula de atenuação - não de absolvição, não de impunidade, da - , é claro que os advogados procuraram enconerar outras
nào de libertação rotal do acusado. Adoram os também essa fór- fórmuJ as capazes de faze r com que o jLlri, respondendo aos
mula, e foi criada a figura nova do que se chamou "homicídio quesitos, ou absolvesse, ou aplicasse uma pena ainda m enor, que
priviJegiado", isto é, aquele praticado sob O do minio de violenta permitisse, por exemplo, a concessão do sumi, a suspensão con-
emoção e causado por um ato injusto da vítima ou por um dicional da pena. Daí ter surgido a alegação da " legítima defesa
motivo de relevante valor social ou moral. O que é o motivo de da honra e da clignjdade", que a sociedade algumas vezes admi-
relevante valor m o ral? É aquele que afeta a dignidade, a honra. Dá., porque quando o Código de 1940 entrou em vigor existiam,
E o de valor social ? É aquele que quer U",la melhoria das condi- como.ainda hoje exisrem, resíduos da concepção atrasada de

", 197
o S" I~A O D OS PASSOS PERDIDOS O DEFI~ NSOR DA LIBERDADe

que a infidclkbde conjugal ê: um insulto, uma :lgressão ao cônju~ Quando os adl'ogados podem q!ina/ {IIegar /I legítima drfesa da bonra?
ge enganado. Ainda hoje, a ruprura desse comprom..isso ocasio· No caso d e um;"! mulher que luta para se li vrar de uma
na, dt:: parte de quem julga, sub rctudo no interior, um;"! posição tentat.iva de cstLl pro, é legítima a violência que ela exercer contra
de simpatill cm rdação à(JlU.:k q ue é considerado o fendido pelo o agresso r cm defe:-::l da sua honra. Nos casos 110$ passion,Lis, a
componente do cas:ll que t r:IIU a fé conjubral. 11á um;"! inclinação legiti m a defesa da honra foi uma criação dos próprios ::td\'oga ~
dos juradus p;lról atenu,lr (!e muito a responsabl!.idadc do crimi ~ dos para chega r a um resultado favonl vell.juc fosse "Iilll do
1l0S0 quando isso ocorre. Do I:l$ é cl,Lro que isso tem d.iminuído privilégio. Com isso tornou-se muito freqüente, :lcontcccu em
sc n~i ve lm e ntc com a lihcraçiio dos cosrumes, com a aboliç:'io inúm eros C1SOS - eu próprio d efendi diversos - o júri apli ca r
do preconceito da virgi ndade, com a permissão de encontros uma p<::n:1. que equ ivali a à pena do homicídio culposo . Isso era
dos jovens casaIS antes do casamento. Isso influiu poderosa- possível porque, no exercício da legítima defesa, a própria lei
mente para que não se descuJpasse mais e se entendesse que era prevê um excesso culposo. Por exemplo, :l.lguém me agride, e
absolutamente inaceitável qualquer ação violenm em conseqüên- eu, na minha reação, me excedo, vou além daquela açao que foi
cia de ciúme ou d e atitudes de um cônjuge que pudessem ser violenta. E sse excesso pode ser considerado cu lposo, e nessa
consideradas ofensivas em relação ao outro. A solução civilizada hipótese a pena do homicídio varia de um a três anos de de-
ê: a separação. Isso é O que ocorre hoje em dia na sociedade de renção. Como o réu era primário, o juiz normalmente aplicava
modo geral. E isso se reflete também no julgamento dos jura-
dos. Hoje, o passional quase nunca é absolvido. E, apesar de a lei
conceder uma arenuação - o privilégio de que falci - , muitas
vezes o júri não arende nem a essa concessão legal. Aplica a
I uma pena de dois anos, que p erm.itia a concessào dosurs1s. Com
isso, alegavam os advogados que o júri estava man ifestando a
sua reprovação contra o crime, mas não estava aplicando UITIa
sanção de tal maneira grave e exagerada que o réll fos se ficar
sanção com agravante qualificativa, o que atunenta muito a pena. preso por muitos anos. Não havia qualquer interesse social. nem
No passional, é dificil reconhecer a agravante do motivo fútiJ, hwnano, nem político russo.
mas muitas vezes pode-se encontrar o motivo tOrpe, quando há Em sua argumenmção, os advogados invocavam na
:jngança, por exemplo. A pena do homicídio qualificado por verdade WTIa coisa que me parece absoluramente caneta: a ca-
essas circunstâncias vai de 12 a 30 anos, ao passo que a pena do deia não é a solução. A cadeia é uma jaula reprodutora de de!in -
homicídio simples ê: de seis a 20 anos, podendo ser reduzida se qüentes e não o ferece a menor segurança de CJue vá ressocializar
o júri conceder o privilégio. ou recuperar alguém . Há hoje no mundo um movimento con-
A legítima defesa da honra é um exemplo de como os tra a própria prisão, e os advog ados aproveitaram isso para
advogados procuraram mcios de invocar ourras soluções, que mOStrar que o juri no Brasil não estava distante das informações
podiam até não ser técnicas do ponto de vista jurídico. to.hs isso técnicas, ou das aspirações, ou dos sonhos, ou da utOpia dos
para O júri é um tantO secundário, porque o júri nào tem com- penalistas em relação à abolição da pri são como método penal,
promissos d outrinários, é um tribunal leig o. O júri não é como essa utopia que hoje está expressa em congressos, em tudo que é
o juiz rogado, que está preso ao texto legal. A lei, para os jura- lugar. Pessoalmente, minha utopi a sempre foi essa. Não m e
dos, é apenas um parâmetro: seu julgamento é de consciência. o fendo se alguém disser que eu sou um alquimista da liberdade.

198 199
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS O D r; r- E N S OR DA LIUE RDADE

Eu hei d e e nco ntrar um pó, um elixir, uma pedra fil oso fal , ca- o senhor encaminhol( alguma .wgestào para essa comiJsào, leve
paz de m:llller a Ijberdad c d e toda a geme. Havem os d cencon- algum(J par/iriparrio?
lrar meios inreugentes pnra m anifestar a reprovnção social con- Não. Em 1936 houve um cong rcsso :lqllÍ no lua d e
ln'! o CI; l1le q ue n3:o ~ej arn necessanal1lenre a p n s3.o. E cbro que
Janeiro, no lnsúw lo dos Advogados, sobre o p rojeto S3 P ereira.
aqu ele que fo r perigo so, aquele que puder p or em risco li Eu era m ui to jO\ em , m as c01ll p ar ~ ci e de ba ti o pro jeto. Com-
inco lumidad e alheia, esse deve ficar segregado. Agora, nnquelcs parecerrull muitOs csnldioso s, vieram até penalistas estrangei ros.
casos em que é possível ev itar a prisão, tnnto m elho r. Reco rdo que viCalm Euy.ebio G o m ez, t-.l o li nâ rio, ilustres pro-
fessores argentinos. Já no Código de 1940, não houve de b:1.tc
o CÓDIGO PEt'\JAL DE 1940 algum. A decisão foi tomada dentro do wUnistério da Ju sti ça, e
O senhor chegou a participar dos debates sobre o Código Penal de um belo dia foi editado o código. H avia um jurista paulista que
1940? Parece que havia u'" p ro/eto de Virgílio de Sá Pereira) que . tinha grande presógio na época, um penalista ilustre, chamado
o senhor teria debatido) junto co'" Evaristo de A10rais e A1rÍfio Costa e Silva, que foi consultado pelos próprios componentes
B"lhões Pedreira. da comissão e deu sua opin.ião. A comissão já trabalhou sobre
Ainda antes de 30, na época do governo Washington um projeto anterior, deAJdnt.'l.ra Machado, que se quei..xa muito
Luís, o d esembargador Virgl1io de Sá Pereira, que era professor de ter sido o seu projeto mutilado em alguns pontos, mas na
de direiro civil, foi designado para elaborar um projeto de códi- realidade reivindica a patem.idade do código. O projeto de
go penal. E ele, realmente, foi para a Europa, trabalhou muito, e Alcântara Machado também não tinha nada a ver com o de
apresentou um ~rojeto muito inspirado no de um autor suíço Virgílio de Sá Pereira, também era inspirado no Código Rocco,
chamado StOOS, que era wn código moderno na épo ca. Mas
veio a Revolução de 30, e esse projeto foi pOSto à margem. Por que não aproveitaram O projeto de Virgilio de Sá Pereira) que
Algum tempo depois criaram-se comissões para elaborar uma já eslava pronto?
legislação nova, e esse projeto foi objeto de esmdo e aperfeiço- É inexpJjcável. Havia outro projeto, de 1913, de
amento por 'uma dessa~ comissões, composta do próprio Sâ Galdino Siqueira, que tam~ não foi aproveitado. .t\'luito influ-

Pereira, de Evaristo de Morais e de Mâno Bulhões Pedreira. enciado pela obra do von Liszt,
Esse projeto quase foi o código penal do Brasil. Chegou a ser
Eram muito diferentes, o p ro/eto de Sá Pereira e o Código de
aprovado pela Cãmara que veio depois da Constituinte de 34 e
19401
jâ estava no Senado, quando sobreveio o golpe de 37. Então foi
O projeto de Sá Pereira era b em mais liberal. Os
engavetado outra vez.
passionais, por exemplo. A solução dada pelo projeto de 40 de
Em 1940 constituiu-se uma nova comissão para ela-
que resultou o Código Penal foi o homicídio privilegiado. O
borar um novo projeto de código penal. Eram Nelson H1.mgria,
outrO projeto permitia conceder mrsis ao passional condenado a
Ro berto Lira , Narcélio de Queiroz e Vieira Braga. O projeto
até cinco anos de pris3.o.
elaborado por essa comissão, inspirado no código pena l italia-
no, o Código Rocco, é o que está em vigor até hoj e. Como O smhor atra /ia o Códig o de 1940?
200 2 01
o SALAO DOS PASSOS J>E I( DI DOS o DEFF.:NSO I( DA LIBE R D A DE

De acordo com O momemo político, social e juríd.ico, Brasileira de Letras. Antes do velho Eva risto houve um advoga-
o Código de 1940 modernizou. r-Iavia muit:1 influéncia da l tália do CJue teve certa nomeada: Alber to de C:1rv:1lho. H avia tam-
no d ireito pcn::tl, não há dLJvida de que os )laJi:mos eram os cam - bém outro que se cham:w:1 Goldsmjth. E ain da Sizenando
peõe", tinh::tm os pen"listas mais eminultcs. A inspiração no N abuco, irmão de j oaquim Nabuco. I-[avia muit.os q ue n5.o
cóJigo Ita li::tl1o, de acordo com o sentimento geral 11:1 época, era eram diplomados em direito, mas se deSlacanlm no exercício da
plcn:lmcntc accit<t. Na realidade, viviamos num regime fasci~la. profissão. E eles t..raziam para o debate tocb a ciência penal nova.
O que era o Estado Novo? Era um:l imitação do fas cismo O velho Evaristo fazia isso, dcL.'\ou ván as obras publicadas so-
italiano. bre temas d iversos e tem um r.rahalho sobre a faljbili d aclc do
Embora mU lto severo e rCaC)OIl:t n Q, o Cód igo de testemunho humano, publicado depois da sua mortc. O s advo -
1940 era moderno. E o Cód igo de 1890 precisava realmente ser gados e os promotores levavam esses tem as para o d ebate.
reformado, pois os co srumes tinham se alterado. E como atual- O júri depende muito do bo m expositor. O s jurados
mente: h á um a necessidade im periosa de m udar o Código de são leigos, de forma que é preciso apresen tar a ciência penal em
1940 . Po r qu ê? A tecno logi a avançou m ui to. E m 1940 não se term os que eles entendam para que, em to rno das teses que vào
conh ecia o compu tador: O Có digo d e 40 nào po dia prever o s surgindo, fa çam a sua o pção. D ependendo do preparo técnico
crimes de co mputador. A eco logia também ava nçou no sentido de cada ad vogado, ele exp orá m elhor ou p io r, será mais com -
da defesa da fl o ra, d a fauna, da n antreza . D esenvolveu -se a en- pleto o u meno s completo, t.erá mais recursos técnicos para con-
genharia genética, por exemplo. Surgiu a questão da inseminação vencer o jurado da sua posição. A pan e técn ica é um elemento
artificial, há as experiências que estão sendo fei tas p elo mundo de in formação para que o júrj julgue o fato.
afora, até de hjbridação ... Nada djsso O Código p revê. N ão
podia p rever em 1940, p orque isso n ão existia naquela época. o juiZ não é um leigo, é um bacharel. Q ual deI/e ser sua posição
diante do téCllico 01( do especialista?
O DIREITO E AS CTENClAS O bacharel não d eve, de maneira algum a, abdicar da
sua prerrogativa de juJgar. A j ustiça deve ser com posta de juízes
Na sua estréia 110 júri, O senhor mencionou que foi obrigado a dip lomados em direitO, e não de m éd icos. O médico não vai
estudar o que era um esquizotímico. Logo depois) Ie!Je que se infor- julgar; O médico é um in for mante. N a m atéria técnica, ele dirá se
mar sobre a epilepsia. O arh'ogado também tinba que saber um aquele cidadão tem ou não tem condições, por exemplo, de
pouco de medicina, de outras ciências além do direito? imputabilidade; se ele pode ou não pode ser condenado, se ele é
No Tribunal do j úri, os ad vogados se destacam pelos penalmente responsável. Mas o bacharel nào é necessariamente
conhecimentos que têm. E isso não vem só do meu tempo, já obrigado a aceitar a opinião do perito, se as razões apresentadas
antes de mim acontecia. Você encontra desde o século passado nào forem convin centes. A própria lei diz que o ju iz podem
gran des advogados. Havia o velho Evaristo de Morais, que é desp rezar a perícia, podem entender que ela não d eve ser aplica-
um exemplo de advogado criminal. Havia O Melo Matos, que da. Quando eu era muito jovem, por exemplo, um dia um juiz
veio a ser juiz de menores, também um grande advogado. Ha- me nomeou para defender um motorista de canunhão que era
via o Franklin DÓria,!> que foi um dos fundadores da Academia acusado de furto de vinho. Apontava-se que, ao ir de uma cida-
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o SAI...ÃO DOS P"SSOS PEROIOOS o DEFENSOR DA I...I S ERDAOE

de para a outra, ele, no caminho, furava o banil e tirava o vinho. ,Was às 1Jei!s há também uma disputa sobre quem deve ficar COIII o
Li a perfál, e lá dizia que h:1Via um furo no l:ldo do ba rril. Or:1, nimilloSfl, a área médica 011 rI (Ír('l1 Jllrfrlica. Um laudo médico
se o fu ro era no lado, o vinho não podia jorrar, como se estava porle declamr o ré" irrespollSt7I'C/. e nesse casO ele lião sn7a preso,
dizendo. Por quê? Se não fosse feito um furo em cim:1, para se ma:, intemarlo IJlIIII manicómio J llrlidário.
r.er a preSSdQ do ar, o \-inho podia escorrer, cxudar, mas jamais EX:1tamcnte. Aí dI.! seria :1bsolviJo e fiçaria sujeito :1
sai ria num j:lto. Estudei o laudo e disse ao juiz: " Lembro-me uma medida de segurançl.
do pOntO (lU e estudei no colégio: press30 :1tmosféric:1. Sem:1
pressão :nmosfêrica, o vinho n?io sai." O juiz foi ver o laudo, e o senhol~ por rxelllplo, ta'e {{WJS assim, de ri" ahsolvido e levado
realmente não se falava em outro furo. Acabou achando que para O manicómio?
havia uma dúvida séria, e o laudo não foi aceito como prova T ive, sim. I\1as nós temos um exemplo famoso na bis·
suficiente para condenar o réu. tória judiciária do Brasil, que é o caso de Febrônio Índio do
,
D e forma que a parte científica é apresentada, mas é Brasil. Febrônio foi absolvido pelo juiz. Por quê? Porque era
sujeita ao julgamento do juiz, seja ele o juiz leigo, do júri, ou o irresponsável, não tinha imputabilidade, era incapaz de entender
juiz togado, O juiz profissional . Quantas vezes fui obrigado, por o caráter crimi noso do ato que praticara. O juiz mandou
exemplo, a saber a direção do tiro, a estudar balística, ou a en- recolhê-lo ao manicómio judiciário. Não foi uma pena criminaJ,
tender um exame grafotécnico, para saber se a letra era ou não foi uma segregação determinada pelo juiz para que ele fosse
era da pessoa acusada. Você discute isso a vi d a inteira. O caso tratado d a doença. Ele ficou nesse hospital psiquiátrico mais
Dreyfus, por exemplo: p or que Dreyfus foi condenado? Porque de 50 anos, pois não houve cura. Morreu há pouco tempo, rela-
Bertillon, que era o grande perito na sua época na França, decla- tlvarnente.
rou que a'lueles bordereaux fornecidos aos alemães eram de sua
autoria. E no entanto não eram! Mais adiante se demonstrou o senhor cOl1htceu o advogado de Febronio? Era Uni jovem de 20
que nào eram, \-erificou-se que o perito, tinha errado. Aqui, no /
anos de idade, maranhense.
caso da s "carta s falsas" do Bernardes, foi a mesma coisa. O Sim. Mas ele era bem mais velho do que eu, porque
perito francês Locard também declarou que as cartas eram de
.1 quando houve o caso do Febrônio, em 1927, eu ainda não esta-
sua auto n a, e não eram. va no foro. Hoje há um filho desse advogado que é um notável
Toda perícia é assim um elemento informativo, em procurador do estado do Rio de Janeiro: Letácio Jansen. O
geral valioso e aceito pelo juiz. Para o advog:1do, o preparo li mesmo nome do pai. É um profissional competentíssimo. Es-
técnico é muito importante, porque ele sempre encontra argu- creveu um livro sobre a face legal da moeda, em torno da infla-
mentOS dentro da técnica para persuadir ou convencer o ou- ção. Fez um estudo sobre a deterioração da moeda brasileira, na
vinte - o juiz que vai julgar a causa - do seu pontO de vista. Se fase ainda antes do real, e depois escreveu um outrO livro sobre
ele tem bons elementos, se apresenta argumentos mais convin- jurisprudéncia monetária. •
centes, em geral triunfa. Agora, se ele não tem capacidade para
isso, evidentemente nào convence ninguém. E quanto aos casos de réu inimputável que o senhor deftndeu?

205
'"'
o SALÃ O DOS PASSOS P ERD JI>OS o D!5 F ENSOR DA LtBERDADE

T ive um cidadão - não vou mencionar o nome por- dro Imenso, dentro do qual havia cerca de 30 mil nomes de
que suponho (Iue ele po ssa es tar vivo - que atirou conrra um pessoas que podiam ser sorteadas. No tempo do d r. Mag:l ri nos
seu comandante, c imediatamente verificou-se ,-!uc ele e<;t:lva afe- Torres, frellüemcrnctllc havia pretos enLre os jurados. O júri
tado nas suas faculdades m entais. Foi excluido de qualquer res- era realmente uma inscitlliç~o que exprimia um sistema demo-
pOlls:lbilid:tdc pcn:ll e recolhido a um esulbelecimenro psiquiá- crático. E o júri representa exatamcnre ISSO, O povo na J ustiça, O
trico pa ra tratamento. Ali ficoLl algum fcmpo, poucos ~11l0 S, até povo p:lrúcipando do julgamento dos seus seme!h:'tt1t'cs nas
que rc,-!ueri SU:l liberdade - a lei permite, desde que h:lja cura. infraçõcs m:llS graves, que envolvem, muit:l s ve:les, dramas hu-
Foi fcilo um exame para verificar se se mantinham as condições manos. Rep resenta os sentime ntos e os costumes da sociedade
anteriores, e o laudo afirm:1Va (Iue tinha havido, não cura, mas na época do crime.
- até me lemb ro da express~o - " remissão da moléstia". ,
D iante desse reconhecimento, ele foi pOStO em liberdade. Se ele H oje em dia o jún' é diftrente do que era naquela época?
era irrespo nsável, e se a d oença se curo u, po r que m otivo ficar Sim . Não só a legislação mudou como os critérios de
preso? form ação da lista se al teraram profundam ente. H oje, a lei esta-
EM DEFESA IX) JÚRI bel ece que o juiz escolhe, no fim de cada ano, a relação dos
jurados do ano seguinte, limitando-se a 400 nomes nas grandes
Quando o .renhor comefou a advogar, COfllO funciol/ava o T n'bunal cidades, o que é um número reduzidíssimo e m uito pouco ex-
do pril pressivo. E também tem acontecido o seguinte: a repetição da
O Tribunal do Júri era p residido por um gran de juiz, o lista. E ntão todos os anos a m esm a pessoa é son eada p ara flln-
dr. Antônio E ugênio Magari nos Torres, que se tornou o m aior cio nar no júri, quando esse não deve ser o sentido da instituição.
amigo da instituição. Ele p rocurava semp re elevar O presógio Não se deve com p reendê-Ia dessa for m a, ela deve ser renovad a
do júri diante da opinião pública. Começava pela própria o rga- permanentemente.
nização da lista de jurado s. Ele tinha uma grande preocupação
de que sua composição representasse realmente a m édia do pen-
samento dtf'sociedade, da comunidade, mas também , como ele
dizia, sem rebai..xar o nível. Quando, por exemplo, ele ia às clas-
ses menos instnúdas, digamos, aos trabalhadores, queria aqueles
i

Essa lei é de quando?
O Código de Processo P enal regula o julgamento do
júri, mas houve uma lei especifica que estabeleceu esses critérios,
c guc hoje em dia já foi incorporada ao Código de Processo
que tivessem sido eleitos pelos próprio s trabalhadores para diri- Penal. Era uma lei da década dos 60. Sem pre houve m uitas p re-
gi-los, aqueles que tivessem representatividade na sua categoria; venções contra a instituição do júri, muitos acham que o júri
assim também com os m écücos, advogados, engenheiros, pro- deve ser suprimido, que o julgamento dos homens deve ser fei -
fissionais liberai s de um modo geral, professores. EJe solicitava a to sempre por juizes técnicos, e n~o por leigos. E o júri ê exata-
relação dos funcionános de todas as rep:lrtiçôes públicas, da mente o contrário, não ê um julgamento p rofissional, um julga-
O rdem dos Advogados, das associações médicas, dos sindica- mento têcnico, d e acordo com os compromissos doutrinários,
tos, e organizava uma relação de jurados muito grande. Havia e sim um julgamento de consciência, um julgamento aberto, em
mesmo um móvel, que ainda hoje existe, onde girava um cihn - que o cidadão cü z se o réu é ou não é culpado, merece ou não

206 207
O OEFENSOR DA LIBERDA DE
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDO S

m erece estar preso. O jú ri não te m compromisso com as dou- Sou partidário da instituição do júri também para o
trinas, com;1 teoria do direito penal. Julga pelo born senso, pelo Julgamento dos delitos de opinião. No Brasil, por mais de um
equi líbno de cada um, que se manifesta através da resposta aos • ,
século, fo i o Júri que julgou os crim es de impren s:1. A primeira
quesitos. O julgamento é secreto, quer dizer, o jurado não preCI- .L.ei de Imprensa é de 1822, e foi el" que criou" instituição do
sa fund:tmentar o seu voto. júri, ex;Jtameme pata o julga m ento dos delitos de op inião. Em
1923, com as pernnbações militares e com um regime de su -
o julgt1fl1ento do jurado, além da sua r.mol/ardo própna, 11;;0 de - pressão das liberdades, de perseguição aos :ldvers;Ínos políticos,
pende tamúém da capacidade do advogado de deslacar eHe OH como foi o governo de Artur Be rnmdes, que passou todo o seu
aquele a.rpeclo e influir na decisão? período em estado de sítio, houve uma modifi cação da Lei de
Também, !TIas não só . Porqu e o julgamento do ser I mprensa, com a chamada Lei Infame, L ei Adolfo Gordo, que
humano pode ser feito por qualquer pessoa. Todos os dias nós suprimiu a instiruição do júri para os delitos de imprensa. Veio a
julgamos, não julgamos? Julgamos os politicos, julgamos os pa- Aliança Liberal, que tinha como candidato Getúlio Vargas, e, na
remes, os amigos, os adversários, aqueles que estão próximos de sua plataforma, aparecia como uma das propostas de governo
nós, até nossos próprios filhos. Todos os dias, nós fazemos jul- o restab elecimento da instituição do júri para o julgamento dos
gam emos. De forma que não é difícil para uma pessoa leiga
crimes de opinião. Realmente, em 1934, voltou o júri, que durou
julgar o seu semelhante, dizer se o seu gesto merece uma repro-
até a ditadura militar, até 1967. D esde então se suprimiu nova-
vação da sociedade ou não. O júri é exatamente isso, ele não tem
que se preocupar com o dogmatismo juridico penal, ele só se • .i.
t
mente a instituição do júri para o julgamento dos crimes de opi-
nião, e hoje é um juiz togado quem julga esse tipo de delito.
preocupa em saber se aquele homem tem condições de se recu- ~
· .:t
perar, se a sua p ermanência na sociedade é nociva, prejudicial,
ou se ele pod e retornar ao convívio social apesar do gesto pra-
o jún' para ojulgamento dos delitos de opinião foi mantido mesmo
no E stado Novo?
ticado, que muitas vezes pode não ter W11a justificação legal, mas
Mesmo no Estado Novo. Masài não era um júri puro,
para o quaJ muiras vezes há uma compreensão humana, há uma
de composição leiga, era uma composição mista, que se chama
desculpa, em face dos motivos pelos quais o sujeito agiu.
escabinato. Qller dizer, quem julgava era o juiz togado, que pre-
Esse movimento de esvaziamento da imp ortância do júri é genera- sidia a sessão, e mais quatro jurados leigos. O que aconteceu no
lizado, ocorre em outros paises, ou só no Brasil? E stado Novo foi que se suprimiu a soberania do júri. O júri é
No Brasil e em outrOS países também. Mesmo na Itá- >. soberano nas suas deci sões, mas no Estado Novo as decisões
lia e na França o júri sofreu restrições, porque houve um movi - do júri podiam ser revistas pelo rribunal superior, que podia
mento, no século passado, da escola positivista Italiana, que era modificá-las como entendesse: ou para condenar ou para absol-
contrária à instituição do júri, que achava que o júri d evia se ver o réu, ou para agravar ou para atenuar a pena. No Es tado
destinar apenas ao julgamento dos delitos de opinião, ou seja, a Novo o júri foi deformado, era uma superfctação. D epois, com
manifestação, através da imprensa, do p ensamento sobre de- a Constituição de 1946, restaurou-se a soberania do júri.
tenniml.do sistema político de governo, determinada ftlosofia.

208 209
o S ALÃO DOS P ASSOS P E RD ID OS O I)EF ENSOR DA LIIH 3 R O AOE

A10s mesmo assim opiri hoj" é /J/ais rnlrilo, não é Ião demorrálico, vários. Se um ju rado é pare nte da viti m a ou do réu, uma da s
o senhor d/~a, COfllO /10 época de il1agarillos Torres. panes vem c diz: recuso esse jurado, porq ue ele é imp edido por
Ah, sim . Por exemplo,:I composição do jllr; ficou:l0 lei de func iomr 110 jüri.
critério de um juiz. Ele pode ser um homem CJue te nha um j á nos Estados Unidos, Cjwmdo o juiz está organizan-
entendimemo liberal, a compreens:io do funclonameOlo da ins- do :1 lista de jur.ldos, am es da lista composta, já as partes podem
tituição, d:l necessidade de l.Jue o g ru po d e cilbdãos llue \::11 se pronunóar contra os jurados, alegando motivos. Nilo sei se lá
julgar seja expressivo da média do pensamento coletivo ou, ao existem recusas imolÍvadas.
conmí.no, pode ler uma concepção de CJue :1 repressão é sempre
necessária e esco lher p (:s~oas sabida mente antiliberais ou extrc- Por exell/plo, 110 jlllgtJIIlenlo de II/H réu acusado de assassinar lili/a
n13meOle severas no julgamento. O s jurados devem represent<'lr mulher, o advogado recusa juradas mulheres selJl H/olivoy apmas
o pensamento da coletividade, quer dizer, devem ser pessoas de porque não quer uma predominância feminina no 11m:
todas as p rofissões. H oje em dia não se encontra, por exemplo, Exarameme. Não precisa justificar. E isso é muito fre-
um o p erá rio no corpo d e jurados. Na época do dr. Magarin os , qüente. Por exemplo, diz-se que certas ca tegorias profi ssionais,
Torres Se encontrava, o júri era a mistura de todo o conjunto como os engenh ei.ros, são mais severa s no julg amento . Outros
da sociedade. acham qu e o s m édico s são defen sores d a vida e são m ai s rigo-
rosos nos casos de ho micídio. Ou que os advog ados são m ais
A1as os advogados nào podem recusar um júri? A genle vi isso em ben evolentes. E assim por diante. Mas isso n ão é exato. D ep en -
filme a",en·cano. ,
"
de m uito da fo rmação de cada indivíduo, indep endentemente
Aqui ocorre o segujme: dos 400 jurados da lista a nual d a sua profissão esp ecífica. Na minh a experl ênçja, posso dar
das cid ades grandes, men salmente são escolhidos 21. Digamos
que nós escama s agora em novembro. No dia 22, 23, o juiz
sorteia, daquela lista de 400 que ele o rganizou no ano passado,
l esse testemunho.

E as ","lheres, sào II/ais Je1Jtras qlle os homf!1s? Também há "'"


21 nomes que vão com por o corpo de jurados do...mês de de- certo mllo sobre isso.
zembro. Há um julgam ento m arcado, digamos, p ara o dia 6 de Geralmente, as m ulheres têm se mostrado muito seve-
dezembro. Nesse dia, os 21 jurados comparecem, há a chamada ras como juízas profissionais ... T ambém como juradas elas, em
dos ju rados, em seguida é apregoado o ré u, eentão se procede geral, são severas no julgamento.
ao SOrteio dos sete que vão julgar. O s 21 nomes são colocados
numa utna, e sempre uma crian ça, uma pessoa inteiramente Voltando às criticas à instituição do j úri: de quem partem essas
alheia, desinteressada do p rocesso, vem ali e saca da ur na o clilicas hqje, e a que o senhor as atribui?
nom e de sete ju rados. O juiz lê o no m e: fulano de tal. Pergunta Como disse, elas começaram com um movim ento da
ao promotor e ao advogado se eles aceitam aquele jurado. Eles escola positivista italiana na segunda m etade do século passado,
10 . 11
têm dir eito a r ecusa r trê s jurados sem motivação. com Lombroso, com Enrico Ferri, com GarofaJo, que acha-
Motivadamente, por susp eição do jurado, você pode recusar vam que o julgamento humano deve ser feito através de técnÍ-

210 211
o S ALÃO DO S PA S SOS PERDIDO S o DEFENSOR nA LI B ERDADE

co s e não de leigo s. Isso ganho u co rpo nos livros d e do utrina e portância da sua missão, da sua respo nsabilidade. É poSto, mui -
se abriu o de bate. Nós tem os, por exemplo , d o is g randes (as vezes, diante de situações de drama da vid a bumana, tem que
pcmli stas brasileiros, Nelson Il ungtia, que era con U'ário â insti- julgar O seu semelhante. Seu julgam ento será represenrati vo do
tuiçiio do júri, e Roberto Lir a, q ue era fa voráve l. O júri ê uma pen samento eb soci edade . O júri é uma instituição m agnifica
insti tuição democrática . Assim co mo o povo elege seu repre- exammente por ISSO .
sentante para governar o país, elege seus f<.:presentanu.:s p:'lra fa-
zer as It:is, também d eve ter a sua representação na Ju stiça. No o dilema da ol!Jelividade-StlI?Jetú 'd ade invade vó,úr óreaJ, inclu-
direito ::l.llglo-saxão, n a }\m érlca do N orte, quase tudo é julgado sive a dns ciênritlS sociais. A p rojiwonaliza{;io do jún' não repre-
no júri , os julg amentos tOgados são poucos. sentan'() a t'i/(jn't} da olvelividade sobre a sulvelividade?
Acho que o julgamento nào tem que obedecer, abso-
Os J uízes que achanJ que não deve haverjJÍn~ que quem deve J ulgar lutamente, à objetividade. Ao contrário, ele é eminentemente
é um JuiZ profissional! não estariam Ja z endo uma defesa subjetivo, é feito em função do entendimento que o jurado tem
corporatitJa da profissão? do ato praticado pelo cidadão. Há lUTI parâmetro na lei, não há
Não. É um problema de concepção filosófica. Alguns dúvida, que todos seguem , já que o nosso comportamento está
são contrários porque acham que o melhor é juJgar tecnicamen- muito condicionado ao que estabelece a legislação. Nós todos
te, d ogmaticamente, de acordo com os preceitos legais. Mesmo temos de obedecer às leis, e sabemos disso. Mas o júri tem de
que a lei seja injUSta, iníqua, o juiz deve obedecê-la rigorosamen- juJgarde consciência, [em de levar em conta o motivo do ato do
te. Já o jurado, o juiz leigo, julga de consciência, faz um julga- , acusado. Por exemplo, o cid adão vai passando na rua com a
mentO de valor, de acordo com o que considera O interesse da filha, a mulher ou a irmã, um importuno qualquer começa a
sociedade, o interesse do grupo que ele representa. persegui-los, e ele acaba tendo uma reaçiio, porque é obrigado a
A meu ver o jurado deve ser leigo, pouco importa a ter essa reação; essa [eação, muitas vezes, degenera em vias de
profissão que tenha, pouco impOrta que seja homem ou mulher, fato, num crime, muitas vezes de morte, que vai ser julgado pelo
desde que aquele conjunto de cidadãos que vão compor o júri júri . Apreciando os motivos. as razões que levaram aquela pes-
seja representativo da média do pensamento coletivo. Acho soa a praticar aquele gesto momentâneo, que não foi uma coisa
também que o corpo d e jurados deve ser variável por excelên- premeditada, foi o resultado de um incidente ocorrido na rua
cia, não de\-e se profissionalizar. Com essa limitaçiio dos nomes que levou a um resultado imprevisto e inesperado, o jurado, que
e a repetição dos jurado s a cada ano, vai-se profissionalizando o está formando seu julgamento de consciência. diz: ''Não, este
júri, quando o espírito da instiruição é exatamente o contrário, ê homem não merece ir para a cadeia. Acho que ele p ode perfei-
que sejam pessoas inteiramente fora do exerócio dos julgamen- tamente ficar em liberdade." E o absolve. O juiz togado não
tos. É importante que haja uma variação, o que é até pedagógi- poderia jamais faz er isso, teria que obedecer àqueles critérios:
co: o cidadão está na sua casa, recebe uma intimação para ir houve uma agressão arual, houve uma injustiça da provocação,
julgar seu semelhante no mês seguinte, aquilo estava inteiramente houve uma proporcionalidade entre a ação e a reação e tudo o
fora dos seus objetivo s, das suas aspirações, ele vai, para prestar mais. Isso é que é importante no júri. O jurado tem uma con -
um serviço à Justiça, e se compenetra, freqüenremente, da im - cepção diferente, quando julga, da do juá tOgado.
2 12
'"
o SA\...AO UOt; PA::.t;O::' 1' t:.I<LJIUU::'
o DEFENSOR DA \...IBIS R DADE

A vaflação das concep ções também é muito Impor-


de serviço gratuito à sociedade, uma sanção Cjualquer que não
tante no julgamento do jú ri., Cjue é u m julgamento coletivo. Sou
leve sobretudo o mais jovem para a prisão, que é uma universi-
multo contrário ao julgamento indivIdual, do juiz sozinho, do
dade às avessas, que, em vez de recuperar, \'al formar um delin -
juiz monocrático. Se, na hora da d istribuição, um caso cai r na
Cjüente. A pri são oferece um mau contágio, e quem reconhece
rrunha m:1o, eu tenho um jlugamento; se Glir na mão de OU lro,
isso é a próp ria lei, que manda d 3r o sursis, a suspensão condici-
scr:í um julgamento diferente. Por isso h á semp re necessidad e
do julgam ento coletivo, de três juízes. Na França, des tenta ram onal da pena, nas Infe l.l;ões menos grave s. Por que a lei manda
fazer o juizado monocrático, a pretexto de tornar mais célere, d::tf o Sltrsis? P:Jr:l evi t'lr o con t:íg io do réu n a cadeia, porque a
mais ágil o fu n cionamento d a Justiça. 1fas o grand e Maurice cadei::t não é boa conselheira. P3ra que serve o liv ramento con-
G arçon escreveu umas cartas aberras à J ustiça - Lettres oU/./ertes à d iCIonal? P ara reduzir o convívio COm a prisão, para an tecipar a
la Justice - mostrando como era absurdo o cidadão ser julg ado I volta do acusado â vida social, pois seu bom comportamento
por uma pessoa só, e conseguiu fazer abortar o movimento que durante a redusão é tun indicio suficiente de que se tomou i.nútil
tendia a impor o juiz monocrático. Nós aqui temos, praticamen- a sua segregação.
te, o juiz monocrático na primeira instância. Se você cai na 4 a \ Nos casos em Cjue a prisão é desnecessária p ara a recu-
Vara, é julgado d e uma maneira, se cai na 5\ é julgado de outra peração do indivíduo, o juSto, o correto, o inteligente, o racional,
maneira. Se h o u vesse tun colegiada, três julgando, já haveria uma é que não haja prisão. Encontremos outras fórmulas : suspen são
certa uniformidade nos julgamentos de primeira instância. de direitos, proibição de morar em determinados lug ares, ne-
,, cessidade de prestar contas à Justiça do que se está fazendo ...
A PRl sAo É MONSTRUOSA Mesmo porque essa crinúnalidade Cjue aumenta, que é motivo
o senhor atuou júri sobretudo como advogado de difesa. E já
170 de revolta, de indignação pública, é resultado de quê? Do d e-
IIOS disse também que é contra a pnsão. Poderia explicar melhor semprego, da fome, d a miséria. Na medida em que isso aumen-
.\
sua posição? ta, aumenta a criminalidade. Não se pense que a criminalidade
A prisão é realmente monstruosa, e eu tenho verda- vai acabar se se introduzir a pena de morte, a pena mais grave.
deira alergia à cadeia. A política criminal hoje dominante no -1\bsolutamente! Isso é tuna ilusão~ é uma fantasia, é urna falácia!
pensamento científico dos estudiosos do direito penal é: prisão Ainda ontem estive lendo um livro recente, chamado Le désirde
só ultima mtio, só em último caso. Só deve haver segregação de
,, punir, de um autor francês de cujo nome não me lembro agora.
q uem é perigoso. O cidadão não sendo perigoso, vamos encon - Na realidade, quem está desejando punir demais, no fundo, n o
trar uma maneira de permitir que ele volte à sociedade. Ainda há fundo, esrá querendo fazer o mal, se eqUIpara um pouco ao
mais argumentos em favor dessa posição: é que o preso custa próprio delinqi.iente . Nâo é essa a tendência U111versal. Ainda
muito dinheiro, de três a sete salários mínimos por mês. Se você agora fizemos aqui um congresso da Asso ciação Internacional
der esse din heiro ao preso, em muitos casos ele não vaI cometer de Direito Penal, em que sou presidente do grupo brasileiro, e
crime nenhum. Nos casos, por exemplo, de crirrIe contra a pro- nenhum dos cerca de seiscentos penalistas estrangeiros que
priedade sem Violência, por que a prisão? Muito melhor é en- trouxemos se mostrou partidário da prisão. Todo mundo pro-
contrar uma fórmula de ressarcimento do dano, de prestação cura encontrar uma maneira de substituir a prisão, todos os estu-
214
21'
o SAL Ã O OOS PA SS OS P ERD I DOS O DEFEN SO ~ DA LIB E RD ADE

dos que se fazem no mundo ho je em dia são nesse sentido. N o adorado pelas corres suprema s dos países latino-am ericanos. Por
Brasil, in feliz mente, a pro paganda de ja m ais e de televisões é no outrO lado, :1 politica criminal em torno do problema da droga
sen tido do agravamento das penas. Fala-se em "crimes hed ion - não pod e ser unifo rme nos diversos países, porque o prob lema
dos". Qu ando ouço falar em " lei d e crim es hediondos", digo: em cada pais é diferente. O s países, por exemplo, produtOres da
hediondo não é o crime, hedionda é a lei! O s Climes são aqueles droga: po r que produ zem ? Porque é o meio d e vid3 d e muitos
de6 rtidos no Código [}enal. Para o s praticados eom requintes de camponeses. Se lhes d essem recursos e financiamento parn pb.n-
perversidade, a própria lei estabelece os critérios da ape naç:1o. [~ tar soja , ou aJgod:io, ou milho, eles L1.1vez mudassem a sua plan-
preciso enco ntrar man eiras de puni r, de reprimir, mas é preciso, tação. ~fas enquanto isso não for conseguido, eles vão continuar
sobrerudo, encontrar m aneiras de preveni r O crime. O funda-
mental é prevenir para que não haja o crime. Como prevenir?
I' plantando coca, que é a man eira d e garantir a sua sobrevivência.
Enquanto isso, a tendência, nos países consumido res, é reprimir
Uma boa distribuição de renda na sociedade, emprego, educa- com violênci a, é arrancar O mal onde estiver, é adotar uma po-
ção, atendimento à saúde, transporte ... Tud o isso tem que ser litica, com todas as suas conseqüências, de duro e implacável
dado à sociedade. Nos períodos de crise, aumenra naturalmente combate à difusão, ao tráfico e ao uso dos entorpecentes.
a criminalidade. O problema da d roga é um problema polêmico. Há
H oje há uma preocupação mui to grande em relação penalisras que sustentam a conveniência e a vantagem da legali-
ao chamado crime organizado, que está mwto ligado ao tráfico zação. O álcool, por exemplo : é legal, faz mal à saúde, é um
de drogas. Todo mundo defende uma p unição severíssima, vicio também. D urante o período da Lei Seca n ào se d eixou de
como se isso fosse a solução. Nós todos somos testemunhas, na beber, ainda que com graves prejuízos para a saúde, porque era
nossa época, de que a dureza, a severidade da repressão não uma bebida fabri cada sem quaJquer padrão d e higiene ou segu-
acabou com o tráfico. Então, essa não é a solução. Ainda agora rança. Com o acabou o problema? No dia em que se legalizou
a Suprema Corte da Colôm bia tomou uma deliberação muito o uso da bebida. Não estou defendendo a tese de que a droga
importante em r~ç ão ao u suário da droga, ao viciado: enten- seja legalizada a ponto de não se comb ater o tráfico, mas acho
deu que era inconstitucional p uni r com pena d e prisão aquele que h á hoje correntes no pensamento da polírica criminal que
que e l!ma vítima do vício. Por quê? Porque o indivíduo tem o entendem - estão absolutamente convencidas disso - que, no
direito de fazer o qu e qu.iser, tem o direito de exercer a profis- dia em que houver a legalização, termina toda essa luta em torno
são q ue quiser, tem o direito até de se matar, de suprimir a pró- do tráfico de drogas.
pria vida. Se ele escolheu o vício da cocaína ou do tóxico para se A pesar de velho, tenho um pensamento muito liberal,
inutilizar, para ir perdendo a vida lent.;ul1ente, isso não quer dizer não é? Pico vendo as coisas como elas sào, procurando encon-
que esteja cometendo um crime. Ele pode sofrer uma censu ra trar a melhor maneira de resolver esse problema que envo lve a
da sociedade, que preferiria que ele tivesse uma vida normal, saúd e pú blica. Acho arrojada a tese da pura e simples legaliza-
COrrera, uma vida dentro dos padrões convencionai s, mas não ção. Talvez fosse o caso de substituir as lavouras de coca pela
ser tratado como crim inoso. Eu não me surpreenderei se esse plantação de verduras, hortaliças, fruta s etc. Seria p reciso finan-
critério ad orado pela Cone Suprema da Colômbia vier a ser ciamento para isso. Penso que o assunto deve ser objeto de estu-

" , 217
o SALÃO D OS P ASSOS PERDIDOS o D eFENSOR DA L I IlE R I:>ADI3

do e meditação. Erradicava-se a droga e produzia-se alimento. motivo nobre com que tenha agido. A teoria dos motivos
Parece-me uma solução realizável. Não é uma utOpia . determinantes do crime, deque Ferri é precursor, é importantís-
sima p:lnl se julgar:l ação huma na.
dejua?
ONtra pergul1ta: todo C/il/liIlOJO, lIIe.fll/O o que maloll, Icm Vou fazer aqui uma confissão que nun<.:a fiz publica-
Evidentemente, O atO de matar é um atO criminoso, mente: minh a maior derrota profissional foi uma vitÓ1Ja no jlll·i,
ninguém tem o direito de elimim. r a vida alheia. I\ fas o cidadiio quando acusei um casal de médicos. Eles moravam na Tijuca,
que repele uma agress:io e tn:lta, tt:m um motivo 'lue justifica ou es ra\'am dentro de casa, rcclamaram do barulho ([ue um grupo
explica o seu :1to. Muitas vezes, num desentendime nto pessoa l, de pesso,ls fazia na rua, c :lfinal o marido ll:t"ia dado lÍ ros e
num momentO de desespero, a pessoa pratica um desatino. Nilo m:nado um ril.paz. Fiz essa acusação, por vo lta de 1958, 59, a
se justifica, mas muitas vezes se explica, se compreende que te- pedido da familia da vítima. E, de fato, os réus foram condena-
nha agido daquela maneira. A conduta humana depende muito dos. No dia seguinte, recebi a noócia de que o médico tinha se
da motivação, do que determino u, do que inspirou o gesto. suicidado na prisão. Até hoje sofro com isso. Deveria ter aceito
Enrico Fer ri dá o exempl o da esmola: você pode dar esmola ou aquela acusação? Por isso, quando me perguntam se já acusei,
por caridade - um gesto d e bondade - , ou por ostentação digo: "Cometi alguns pecados na minha \'ida. Um deles foi o de
- para mOStrar que é opulento - , ou para comprar um lugar acusar:."
no céu - porque D e us está vendo, e no juízo fmal você vai ter Acho que todos devemos ter uma vigilante compreen-
aquele crédito a seu favor ... A mesm a ação humana, que é a são humana dos dramas da vida, do infortúnio, da desgraça
esmola, se transfigura, dependendo do motivo pelo qual é pra- alheia, dos gestos impensados, do desespero com que as pesso-
ticada. Se o autor de um homicídio matOu para se defender, as agem. I sso é muitO importante. Eu tenho, realmente, uma
evidentemente o outro é gue era, no começo, au tor de um crime form ação liberal. Está d entro de mim, nas minhas entranhas, o
contra ele. A prôpria lei lhe dá o di reito de se defender. Não há sentido da compreensão dos erros alheios, a capacidade de per-
crim e mais g rave do que o parricidio. O sujeitO matar o pai é doar, de compreender, d e entender, de ajudar aquele que sofre
uma monstruosidade, à primeira vista. Ma s se ele mata o pai um infortúnio, que está num momento de desgraÇ.a, de aflição,
para d efender a mãe que está sendo agredida pelo pai? É o ~e angústia, de padecimento. Acho que esse foi o no rte, o cami-

mesmo atO - a morte do pai - , mas o motivo transfigu ra nho, O rumo da minha vida. Ninguém l"!1e procura para contar
mtettamente Ogesto. urna coisa alegre, uma ameni dade; sobrerudo na advocacia pe-
O advogado tem um papel muito importante de coo- nal, trata-se sempre de uma desgraça, uma infelicidade. E aí, eu
peração e de colaboração com a Justiça, porque ninguém pode tenho que amar. Na hora da afli ção, na hora da prisão ilegal,
ter o direito de dizer que O outrO é culpado e mandá-lo para a violema, arbitrária, o advogado não só é o am paro da pessoa,
cadeia sem lh e dar o direitO de se d efender. Esse direito é asse- m as também causa unl certo telnor ao carrasco que prende,
~l[ado. é um direito hWl1ano inegâvel. Por mais grave que seja a porque ele é a palavra da lei, é o defensor do direito, das garan-
infração ou o crime, o cidadão tem o direito de procurar expli- tias do cidadão. A profissão é muito bonita, exatameme quando
car o seu gesto, ou de pleitear uma atenuação da pena por um se sabe desempenhá-la. É claro que, como em todas as profis-

218 219
o SA I..ÁO D OS PASSOS PERDIDO S o DEF ENSOR DA L I O ER D ADE

sões, há advogados sem ética, que não sabem se conduzir ou sabia, intimamente, que ele era o autOr do crime que vinha ne-
agem sem o entendimentO perfeito do seu comportamento em g:mdo. Isso deve ter sidoem 1950,52, eu ainda era moço. ~Ias
face da profissão. Para isso existe a Ordem dos AdvogaJos, fiz a d efesa discutindo apen:ls a l1l:ltêria de lei, dizendo que a
existe um código de ética. Uma p reocupação que eu acho que o prova era insuficiente pam condená-lo. Nesse ponto eu estav:!.
advogado deve ter ê com a ética profissional. Ele n:io pode absolutamente ceno. Acho que o :!.d"ogado dc\'c tcr Un1:l con-
neg:u a evidência, ncga r o fato, mas pode dar uma explicação duta incensurável no seu procedimento moral, e por isso fiz a
para o fato capaz de atenu:l.r a responsab ilidade do réu uu lor- sustentação daquilo que era ra:::-:o:í.vcl: não estava dizendo que ele
nardesculp:í.veJ o seu gesto. não er:1 o autor, estava dizendo que:l prova ex istente ni\o auto~
r1zava a condenação. Realmente, a prova era muito frágil, tan to
Como o senhor vê tJ!a relação entre a difesa que o adtJogado faz e
que ele foi ab solvido por unanimidade de VOtos. Foi a única vez
a verdade dOI fatos?
em que eu, sabendo qu e o cidadão era o autor do crime, nâo
O advogado, repitO, tem que ter uma noção ética da
neguei a autoria, mas sustentei que o réu não devia ser condena-
sua missão. Por exemplo, se um cliente que eu estou defendendo
do. Havia nesse caso uma circunstância particular importante,
nega a autoria do fato, diz que não é o autor daquele crime e, nas
que me impelia e me pressio nava: o réu era m eu arrúgo pessoal
proximidades do julgam ento, vem e me diz que é o autOr do
e praticara o crim e embriagado.
crime, como devo proceder? Eu não me senriria bem, absoluta-
T ive uma carreira muito longa, defendi milhares e mi-
m ente, na tribuna, jurando que ele não cometeu o crime, e sa-
lhares de pessoas, não foram uma nem duas. D efendi muito
bendo, por confi ssão dele, o contrário. A mim me repugnari a,
pela m otivação, quer dizer, aceitando a autoria, mas mostrando
pelos m eus princípios, pela minha formação, agir dessa forma.
que aquela ação fora motivada por razões nobres e que, portan-
Eu também não poderia dizer publicamente o que o cliente me
tO, embora não se encontrasse uma justificação para o crime,
confessou, delatar o cliente que, em confiança ao seu advogado,
havia uma explicação pela qual se podia perdoar ou atenuar a
fez aquela revelação, porque então estaria faltando ao dever do
conduta do réu. Se o su jeito não revela temibilidade, a cadeia
sigilo p rofissional., que sou obrigado a guardar. Então, como ./
não é a solução, não vai resolver nada, e é melhor que haja abso l-
agir? Sobre esse tema da conduta do advogado, que tem sido
muito discutido, um autor francês chamado Henri Robert, que yição. Tive inúmeros casos de crimes aparentemente graves, mas
fo i membro da Academia Francesa e é uma das grandes figuras em que o motivo, que é o g ue o N elson Hungria chama o "ad-
da advocacia universal, tem um livro chamado L :.4vocat, em jetivo do crime", a "tõnica do delito", transfigurava inteiramen-
que aconselha que o advogado crie um pretexto qualquer para te a ação, de maneira a permitir que a pessoa ficasse em liberda-
não faze r a defesa fin a!; que ele se afaste, para que outrO, a quem de, e não segregada.
talve:::-: o cliente não revele o que lhe revelou, vá fazer a defesa . H ouve causas que defendi que eram impopulares. Isso
não afetou a minha vida. Tenho uma m ágoa profunda de ter
o senhor alguma vez Je viu diante de um dilema nessa área? acusado alguém que fo i condenado e que por essa razão, talvez,
Fiz uma defesa, certa ocasião, de um hom em acusado se matou. ] S50, sim, m e afeta fundamente, até hoje. E é por isso
d e hornicidio em que havia negativa de autoria, n1:1 S em que eu que eu poucas ve:::-:es acusei na vida, pouquíssimas vezes. Porque

220 221
o SAI,..ÃO DOS PA SSOS PE R D I DOS

gado genovês que, depoi s de 1946, quando ternunou a Segunda


nesse caso, o erro que poderia haver, talvez eu tivesse colabo-
rado para ele. Mas se o erro tiver sido em favor da liberdade, a
°
Guerra Mundial, queria acab3r com d.irei to penaJ, porque
achava que era um direito bílrbaro, cr uel, inteiramente desne-
significação é positiva. Faço:ls nunhas defesas com absolut.a
consciénCI:l, porque por trás d e mi m há uma cOl1\'lcção muito cessário, que rudo podia ser re!'õolvido sem ele. Na história do
profunda de que n cadeia, em si mcsma, é uma monstntosidadc Ji reito penal, se vê que, no começo, a pena era vindicativa,
como m{;todo penal. Sou um dos pioneiros no Erasil da luta retnbutiva. Em uma vingança priv:lJa, guer dizer, era o ofendi-
contra a prisiio como método penal, sou partidário ele se acaba r do que se vingava. D epois, o Estado interferiu, passou a Impe-
com a prisão. A humanidade tem que encont rar formas mais dir O extermínio de famílias etc., e a vingança privada tornou-se
civilizadas, capazes de manifestar a repro\'ação da sociedade pública. D :lí esse sentimento de vingança, esse sentido de retri-
contra o crime, que não sejam a prisão. Por exemplo, a multa, a buição, de castigo, que ve iu através dos tempos até o fim do
prestação de serviços graruitos à comunidade, a interdição de século p assado, quando a escola positivista italiana veio dizer
direitos: o cidadão não pode praticar tais atos, não po de m orar que não se pune o crime, pune-se o homem. Pune-se o su jeito
em tal lugar. tem que dar satisfação da sua vida, periodicamente, que é perigoso, e não a infração. E já dizia Ferri, em 1870, 80,
em tal repartição. Mas não a cadeia. A cadeia é m o nstruosa, que ao invés de punir com a cadeia, podia-se punir com o que
Cad:!. dia mais eu me convenço de que :l prisão é uma coisa ele chamava de subscitu civos penai s - ho je em dia chamam-se
infame e devastadora da personalidade humana. E hoje ela ain- penas alternativas.
da vem com a perspectiva da contaminação pela Aids. A pena altern ativa fundamental, a meu ver, é o ressar-
Já fal ei aqui d e Ro berto Lira. El e é autor de um livro cimento do dano ocasionado pelo crime. Isso é que é importan-
magnifico, chamado Penitél1da de um penitendalirta. \3 Como pro- te, isso é que é o direito penal moderno. Mas a gente vê aqui, ao
motOr público, um a ocasião ele se esforçou para condenar um contrário, o sujeito bater na tecla da pena de morte, até com fins
passional que tinha matado a namorada ou a mulher. mas era eleitoreiros. Po r quê? Po rque há no inconsciente coletivo esse
um homem bom. Achava que a cadeia ia recuperá-lo , Anos de- resquicio, esse resíduo do sentimento de vingança. Fica todo
pois, como membro do Conselho Penitenciário foi à cadeia mundo a dizer: "O aumento da criminalidade resulta da impu-
/ '
e encontrou aquele sujeito inteiramente deformado, pederasta, nidade!" Está se repetindo isso de tal forma que todo mundo já
trabalhando na cozi nha. Quer dizer, a cadeia foi um desastre está aceitando até como um axioma, um d9gma. Mas o aumen-
na vida desse homem. E ele então escreveu esse livro, cujo título to da criminalidade não tem nada a ver com Impunidade! Resul-
diz tudo, ta é da falta de emprego, da miséria, da fome, dos motivos
sociais. Raramente a razão de um crime é individual. Quando o
Eua posição contrán'o à prisão é recente 110 história do direito é, em geral está ligada a um desequilibrio psíquico.
penal? O que se tem que ver é como evitar que o crime seja
Não! Escrevi um trabalho longo com o título "De cometido, através d:l melhoria das condições de vida do povo.
Beccaria a Filippo Grammatica". Beccaria é a minha bíblia Se você der alimento, se você der saúde, der educação, der trans~
no direito penal, é o homem que em 1764 denunciou que a pena porte, der essas condições mínimas de vida para que a pessoa
de mone era uma infám.ia, " Filippo Grammatica era um advo-
223
222
o S"'LÃO DOS PASSOS PERDIDOS
o OEF E N S OR DA LI8E R DADE

tenha - como quer a Constiruição - uma vida digna e felü:,


duzem nada. É preciso que os no rdestinos, cmbora con sumin-
evidentem ente o suj ei to não comete crime. Nenhum pai tem o
do po uco, produzam . No d ia em que p rod uzi rem o sufici en te
filho na ru:l. porque quer que ele seja menino de rua; é porque ele
nao só para se abastecer, co mo P:lr:l. ab:lstecer o resto do país, o
não tem condições para mantê-lo em casa!
Brasil vai ser o celeiro do m undo. Podemos sê-lo, perfeitam ente,
E como til/reli/I;,. esse emaranhado de p roblemas em que esltí tII - temos condições c1.im :í.ticas favo.-úveis. Não precisamos csperal"
vokida hOJe a sociedade brasileira? o inverno ou as estações do ano para plantarmos o que qu.i s(::r-
O ponto de p:l.rtida é a educação: que todos tenharn o mos. N ao tenho dúvid:l d e que isso acarrctarb uma melho ria
direito de tet esco la, de tc r ate ndimento de s;1úde, ele tcr I.:o mi - substancial na vida do país. Agora: é preciso educação. A escola,
da,de não tcr fome. l ssoé fundamental. Na hora em que seder a preparação da criatura para ser wn cidadão no futuro. O sujei-
à população condições de vida razoáveis, a criminalidade se re- to não pode ser cidad ão se não sabe nem escrever o nome. O
duz, sem duvida alguma. (rime existe em toda parte. Mesmo que ele vai fazer se não tem nem uma formação profissional
nos países de primeiro mundo existe crime. É claro qu e não suficiente?
como está existindo no Brasil no momento, porque temos uma É claro que nwna sociedade em que há d esemprego,
sociedade que está inteiramente desorganizada . A distribuição há fome, há miséria etc., a criminalidade aumenta . Ninguém
de renda no Brasil é de tal maneira injusta, iniqua, que já não se morre de fome na pana de um armazém; entra e tira a comida
sabe como corrigi-la! Há mansões fabulosas, pessoas com for- para comer. D e forma que a criminalidade não depende da
runas asltonômicas. ao lado de 50 a 60 milhões de miseráveis. pena, do CócJjgo Penal. O Código Penal é uma coisa cruel, ter-
Como resolver isso? i\1inha idéia, desde que eu me emendo e rível. Não é ele que vai reso lver o problema da criminalidade.
que participei do governo, é de que a reforma agrária é inclis- Quem resolve o problema da criminalidade são as posições
pensável - mas uma reforma agrária de verdade - para in- governamentais: é uma politica de governo que crie condições
corporar à sociedade esses 30, 50 milhões de brasileiros que não de vida capazes de evitar que a pessoa vire menino de rua. Qual
têm elementares concliçõcs de vida. Na região Centro-Sul até se é a esperança que tem um menino d~a? O que ele vai fazer no
vive razoavehnente. Há condições de primeiro mundo em áreas fururo? Se ele não aprende a ler, se ele não tem um oficio, não
de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Agora, tcm nada, é claro que vai ~ngrossar as fileiras daquele grupo de
quando se chega ao Nordeste, é a miséria, é a fome. Essa gente marginais que já está em torno da sociedade. Se não lhe dão
então emigra, vem encher as cidades, porque, por pior que seja emp rego, um emprego comum, de mecânico, ou de
a situação a'lui numa favela, ou nwn morro, ou numa residência comerciário, ou de bancário, ele acaba indo ou para a contra-
paupérrjma, é melhor do que lá. venção, ou para o trá6co, para onde haja trabalho, para onde ele
O gue é preciso é criar condições para uma vida nor- obtenha recursos para a sua sobrevivência. D e maneira que a
mal, uma vida digna, nos pontos onde a pessoa nasceu. O que é culpa aí é do próprio Estado, que tem que ter uma organização
preciso é implantar uma reforma séria, para dar a todos o direi- capaz de atender a tOda a sua população. Vamos ver se isso
to de consumir. No Nordeste eles consomem pouco, recebem acontece. Eu sempre tenho a esperança de que venha a aconte-
uma espéci e de esmola que vai do Sul, e, na realidade, não p ro- cer, apesar da minha idade ...
224
'"
o SA LÀO DOS PA SS OS PERDI DOS o I)E"EN SO ~ I)A LIB E RDADE

NOTAS livros sobre direito p enal, ~end o Su;\ obra principal o Aflltpro}tlO do Códi-
go Pr>/olsuíf9, de 1893·94.

Franz von Li ~"t ( 185 1 1919), jUrlSt:I nascido em Viena, foi professor
o C:ôcligo Penal de 1890, elaborado por J- Bati~ta Pereira, fOI O primei- de dncito nas universidades alemã~ de Giessen, Mal-burg, Halle e Berlim
ro COOlgo penal do regime rlOpublicano e substituiu o Código CrimlnHI e deputado no p:ltl.nn(;nl< , Ja PníS<';a a partir de 1908. Fundou na Ale-
de 1830. B:ls!:,1ote Crlucado, sofn:u diversls tentatiVas de reformulação I:i manha o ,lireito penal mo.krno, opondo-se: à Idéia clássica da pena co,no
a parur da década de 1890, com o projeto apresentado ii C:ím:tra dos De retrIbuição ~oci:l l <,; defcndrn<lo a concepção fin:tlistica d:t sançao, com vis-
pUlados pelo depufado Viei ra de A raÚJO cm 1893; o proleto de GaldtnO t:ts princip~lmeme ii. pre"cno,;;l.o da delinquência. Em 188 1 fundou a Rm;s-
Siquelr:t, da~do de 1913, e o projeto de Virgílio de Sá Pereir:t, de 1927- !tI ptlra a áináu Jo d/mIO e <,;01 1889 fOI um rios fund:tdores da Associação
1928, revisto depois por uma comissiio formada pelos advogados Internaôon:ll d e Cnl1)in,,!ogi.1 Sua obra principal, o Tr.7fnd(J dt! dirátu
Ev:u isto de t- Iorals c :i\ lário !3ulhócs Pedreir:t, :l!ém do própriO :lutor. Das penala/nl150 (1881), foi Iradu7.ld:l parn (li ve rso~ Idio m as. Era irmiio do
três tentanv:lS de reformulação, apenas a última chegou :l ser aprL'Çi:lda também juri~ta bJuard von IJ ~Z t, naSCido cm Viena em 1867, e primo
pelo Legishóvo. Aprov:ldo pela Cim:lra dos D e putados em 1935, o p ro - do compositor Franz von J.Jszt (18 11 -1886).
jeto Sá Pereira foi enviado ii Comissão de Justiça do Senado e cm 1936 foi
:l1Uplameme debatido dur:lnte a I Conferência Brasileira de Criminologb, Franklin Américo de Meneses D ória (1836-1906) bacharelou-se pela
promo\·ida no Rio de Janeiro pela Sociedade Brasilei ra de Criminolol:,';:l. Faculdade de Direito de Reci fe em 1856. Foi presidente do Piauí (1864-
Logo após a dec retação do Estado Novo, ~ob o argumemo de que o 1866), do ManlOhão (1867) e de Pernambuco (1880-1881), deputado geral
projeto Sá Pereira ainda continha imperfeições, o mini stro da Ju~tiça e ministro do Império. Muito ]jgado à familia real, chegou a acompanhá-
Franci sco Campos incumbiu Alcântara :r..-lachado, professor da Faculdade la no eXluo quando da p roclamação da República. Foi membro da Aca-
de Direito de São Paulo, de elaborar novo projeto de código penal. En- demia Brasileira de Letras. Ver Carolina Rennó Ribeiro de Oliveira, Bio-
tregue em 1938, o projeto Alcântara l\hchado foi revisto por uma comis- grafias de personalidadu d/ebru (São Paulo, Livros lrradiam es - Editora do
Mestre, 1972).
sào composta por Vieira Braga, Roberto Lira, Narcelio de Queirós e Nc.l-
son Hungria, com a colaboração de Antônio Jose da COSta e Sil\'a, mem- • As "cartas falsas" foram documentos ofensivos ao Exercito publica.
bro do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor d e uma edição comenta- dos no Com/o da Monhã em outubro de 1921, como de ~utoria de Artur
da do Cóchgo Penal de 1890 cm dois volumes (1930 e 1938). O Código Bernardes, candidato ã prt:sidéncia d a República, com a finalidade de
Penal promulgado em dezembro de 1940 e resultado dos trabalhos des- incompatibilizá-lo com as Fo rças A rmadas. Uma sindicáncia posterior
sa comissão c: emrou em vigo r em janeiro de 1942. Ver a exposição de demonstrou trata r-se de textos forjados, mas sua publicação acirrou a
motivos de autona de Francisco Campos que precede o Código Penal de oposição dos militares a Bernardes, eleito, não obstanre, em março de
1940 (Republica Federaciva do Brasil, Código Peflol, Brasilia, 1982); Nelson 1922.
Hungna, "A evolução do direito penal brasildro nos últimos 2S anos",
lU!litio (São Paulo, Associação Paulista do Ministêrio Púbuco, 5 (1-z): 61 S- Em 1° de setembro de 1927, Febrónio índio do Brasil confessou ter
626, 1942); Helio Pereira Bicudo, O dimio e o lUltifo no BraIl!: "mo onã/ist! matado, em 13 de agosto, o meno r AlamlfO José Ribeiro. Sua defesa foi
mhto de um anOI (São Paulo, Símbolo, 1978), e Jorge H enrique Picrangdli, feita pelo advogado ulácio J ansen, que acabara de se fonnar. A tese apre-
Códigos penal! do Broúl: tl'(JIUfão histórico (Bauru, Jalovi, 1980). sentada por uticio, de que o homossexual Febrónio era louco, e p or tan-
, to não responsável por seus atas, foi endossada pelo psiquiatra H eitor
Tambêm co nhecido como Código Rocco, d e autoria de AJfredo Rocco Carrilho, cujo relatório COOStou dos autos do processo. Vitorioso o argu-
(1875-1935), juriSta e político italiano que ocupou diversos ca rgos no mento da defesa, Febrônio foi internado no manicômio judiciário, onde
governo :l partir.da ascensão de l'I'lussolini ao poder (1922). Em 1926 o permaneceu até mo rrer. Para mais informações ver Peter Fry, "Febrônio
eot.ijo ministro Rocco elaborou o Código Extraordmá rio de Defes~ do Índio do Brasil: onde crozam a psiquiatria, a p ro fecia, a homossexualida_
Estado Fascista e cm 1931-1932 promoveu a reforma ge!":11 dos códigos de e a lei", em Carlos Vogr et aI., Caminhos rmzadol: linguagem, antropologia
penal, civil e comercial italianos. Professor de direito em diversas univer- t ciincias nalllraü (São Paulo, Brasiliense, 1982).
sidades, chegou a reitor da Universidade de Roma em 1932.
Letácio de Meddros Janscn Ferreira Júnior esereveu Critico da doutrina
Carl StOOS, junsta suíço nascido em 1849, foi professor em Berna e da (0" '(50 moneM"Q (Rio de Janeiro, Forense, 1983), A corrtriío mOfltlãno
Viena. Fundou a ~J/úta de D/mIo PenalSuÍfo (1888) e escreveu ,hversos em Juizo (RIo de Janeiro, Forense. 1986), Obrigarão monttâria: o face I~a/ do

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o SAL,i.O DO S PASSOS PERDIDOS

dmhtir"l) (Rio d e Janeiro. U FRJ / Faculdade de Direito, 1988) e A rlorma mo- 6. P aix ões e de satinos
IIl/ária (Rio de J:meiro, Forense, 1988)_
9 Ve r E\-lwdro uns c Si!v:l, '"Lei de l mprens:l - do Im perio aos nossos
dias" e m Jose: Paulo Cavak :mti Filho (org,), IlIfo rmarão ~ poder. Amp/a liber.
dade de illjomlf1r x rupo/lJ<Jbilidade 110 extrdcio dUJa rup0lI!abditlnde (Rio de
Janeiro, Recard; Recife, FunJ:lçâo de Cultu ra da CiJade do Reci fe, 1994),
p. 11 -26.

" Ccsare Lombroso (1835-1909), psiyuiaua c penalist a it.1 liano, é consi- O S GR AN DES CRllVU NIIUSTAS
derado o funJaJor da amropolo~,'ia cl'Ímmal, com seu livro O homem cn·
minOJo (1876). Sua tcoria procurava explicar a~ causas dll cnminalidade
Em seu Iit1V A pátina do tempo, o sl!lIbor mendolla IIIJ/a iérie de
através da constituição anatómica, bIológica, fi siológica e psicológica do
homem, estabelecendo os estigmas característicos do delingüente. Em advogados que dOl1linaram o panorama da advocada mnlinaJ nas dé-
1880 fund ou, juntO com Ferri e Garofalo, a publicação Arqlli/JOs dl ps/q/li. cadas de 1940 e 1950. Poderia nos monShlui,. um painel dessa época?
atn'a t antropologia criminal A principal aplicação das id6as de Lombroso
se deu no campo da profilaxia e da terapia do direito. Concebendo o de-
N'A pátina do tempo, eu digo que quando cheguei ao jUri
lito como uma anormalidade, o objetivo da sociedade passava a ser are· encontrei um triunvirato que dominava, pela inteligência, a ad-
generação do criminoso. O desenvohimento de suas teses está vinculado vocacia criminal. Eram o velho EvaristO de M o rais, a maior
à instituição do manicômio judiciário.
figura de advogado que conheci em toda a minha vida, Mário
" Raffaele Garofalo (1851- 1934), magistrado e sen ador italiano, foi li· Bulhões Pedreira, um orador extraordinário e seu sucessor le-
vre-docente da Universidade de Nápoles. Sua obra principal, A cn'minoJogia
(1885), foi tradu zida para di versos idiomas.
gítimo, e Jorge Severiano Ribeiro, um advogado talentoso, ex-
positor magnifico, simples na manei.ra de dizer, sem qualquer
" H e nri Robert (1863-1936), advogado francês, publicou L 'Alwal
p reocupação com o discurso em si e sim com os meios de
(1926), um estudo de ps icologia pro fissional, e uma série de volumes
intitulada L u grandJ prortJ de J'hisloire (a partir de 1923). Foi membro da convencer o juiz que o ouvia . Acho que sofri uma influê ncia
Academia Franeesa (1923). grande de todos os três na minha maneira de expor e na preo-
" Rio de Janeiro, Instituto de Criminologia da Universidade do Dis- cupação que tenho com a simplicidade, porque penso que o
trito Federal, 1957. clássico é sim ples. Deve-se p rocurar convencer os outrOS, não
• Cesare Beccaria (1738- 1794) revolucionou os conceitos de punição pelo brilho da frase, pela beleza estética, e sim pelo di scurso
penal com seu livro DOJ ddilos e daJ pntaJ, publicado pela prim em~ vez em persuasivo. O importante é transmitir ao juiz aquilo que é um
1764. Co ntrário aos suplicios públicos, aos processos secrCtOS e à desi-
gualdade dos castigos segundo as pessoas, defcndia a pena p ro nta e estri- sentimento seu. Quando estou na tribuna, se fi zer uma defesa
tameme necessária, proporcional ao delito e determinada pela lei. Beccaria procurando enganar, dizendo coisas de que não estou convenci-
tornou·se conhecido como sendo o primeiro aUlo r na histó ria ocidental
do, evidentem ente não consigo convencer ninguém. É por isso
a sustentar a ilegitimidade moral da pena de mo rte; segundo ele, a pena
capital não e ra necessária nem útil, po r constituir um exemplo de atroci- que semp re lembro aos joven s: o advogado tem limitações. A
dade. Seu li\'fo fez grande sucesso na Europa; foi traduzido para sete limitação principal é essa: se mentir, inventar, fanta siar, não con-
idiomas em dez anos e innuenciou a re fo rma de alguns códigos penais,
vence ninguém do que está dizendo.
°
como o russo (1767) e o aus tríaco (1787). Sobre papel de Beccaria na
rustória do direito penal , ver 1-1ichcl Fo ucault, VIgiar t punir: hú!óna da
I'iollncia rlaJ pn's&s (9' cd. , Petrópolis, Vozes, 1987). De Severiallo Ribeiro o senhor herdou (J capacidade de convencer.
E dos outros dois?

228
o SA L ÃO D OS ('ASSaS P E RDI DOS

I PA I XOE:S E DE:SAT I NOS

D o Mário, herdei o exempl o da lei tura dos clássicos,


a p reocup ação com a pureza da linguagem, o cultivo do vcr*
náculo. Com E varisto a prendi tudo, porque Eva risto e ra um
I Sobral Pinto foi m ais próximo de mim sobretud o no p eríod o
do Tribu nal de Segurança Nacio nal, cm Cjue nos víamos todos
os di:1s. Mui tas vezes fui à sua casa cuid:1f de assuntos profis$io-
fenô meno com o advogado. Sua histó ri a é fant:ísrlc:1.Estou es* mus ou visitá-lo como am igo. E ra m uito cum um isso. Como fu i
crevendo sua biografia. Posso di%er qu e :1lém dos três, bavi:1 à casa de 'I\vIá rio Bulhões Ped rei ra, também , algumas vezes. Fre·
dois outros que surgiam naquela época como Ut11l'1 projeção qiienr-J.vam os os escritórios, tínhamos uma relação pesso al mui-
de estrelas no futuro: Romei ro Neto e Stélio G a l v~o Bue no. to ho\1. Sobral Pi nto e ra um ad vogado excepcion almen te pro-
El es eram u n, pOlIÇl ) acima de mim; já Alfred o Tr:1njm1, C:1 rlos I)(), um homem de uma g rande rigidl:z d e princíp ios, um profis-
Araú jo Lima e Serrano Neves vic ram em segujd a a mim. Mas sional competen te. N ao fo i, propri<=t m ente, um advog<=tdo
havia m ais gente. Havia meu irmão Raul , gue foi um excelente criminalista. Era professor de direi tO penal, mas além da advo-
advogado, meu companheiro de escritório. Havia um outro ir* cacia criminal, fazia advocacia cível, que talvez fosse o forte do
mão m e u, Haroldo, que foi um g rande advogado em matêria seu escritório. A maior parte da advocacia crim.inal que ele fez
de famili a. foi a advocacia política. fulri ssimas vezes Sobral foi ao Tribunal

Como era sua relação com esses oulros adIJogados? O senhor se I do J úri. Eu m e recordo, durante toda a nossa vida, de ter vi sto
Sobral no júri talvez uma, duas vezes.
encontralla com eles foro do SoMo dos Passos Perdidos? Freqüen-
lavam-se, tinham convivência? Havia muita rivalidade entre os advogados cri",inaú?
Pelo menos no meu tempo, era raro haver vida social Muitas vezes o s ad vogados se encontravam em posi-
entre os advogados. Mas havia, de vez em Cjuando, O aniversário ções adversas, e isso criava realmente certas rivalidades. Na luta
de um, ou um convite para jantar na casa de outra . Em relação pelo êxito, pela vitó ria, certaSvaidades se aguçavam. Ao mesmo

i
ao s mai s velhos, Evaristo d e Morais e Mário Bulhões Pedreira tempo, havia uma variaçao, d e aco rdo com o s ho mens: havia
- Jorge Severiano, menos - , não havia intimidade, nós os tra- uns personalistas, que atacavam o adversário; havia o utrOS mais
távamos com certa cerimônia. Eu nunca ruteei o velho Evari sto compreensivos, CjlJ'€ em encliam melho r que a posição do colega
ou Mário BuJhôes Pedreira. JáJorge Severiano Ribeiro, eu tra- con trário era a de defesa de um inte resse o u de uma causa, que
tava por vocé. Ou João da Co sta Pinto, que e ra um homem i ele também estava desem penhando o seu p apel ; havia aqueles
po pular e não admi tia o senho r. mai s po liticos, mais educados na maneira de se dirigir ao adver-

E Sobral Pinlo?
Tratei-o durante m uira tempo de dr:. Sobral, m as d e-
li sário , outros mai s o fen sivos. Variava. H oje em dia, também, se
quiser traçar o perfil dos advogados, você en contra cada um
deles com o seu estilo, com a sua maneira de ser. Uns sarcásticos,
pois, n o decurso da vida, passei a trat:'Í -lo de você. Po rque t.'lm- irô nicos. o utros simples na sua exposição, outrOS mais o stento-
bém eu m ud ei de patamar pro fi ssional, vim a ser ministro do sos, m ais preocupados com a fo rma, o utros despojados desse
Supremo T rib unal, e era difícil que eu fosse tratado de vocé por empenho em apresentar o brilho pessoal. H á de todos os ripos,
um advogado, e tamb ém não o tratasse da mesma fo r ma. dependendo d a psicologia, da personaJidade d e cada um. Mas,

230
2"
o SAI~ ÃO DOS PASS OS PERDIDOS PAIXÓES E DESATINO S

normalmente, havia cert.'t rivalidade e ntre o s colegas na disputa com ercial. É claro q ue eu tinha uma condição diferente da do
e no julg amen to, dentro da sah. H avia, às ve%es, certas ofensas Stélio, porque Romeiro e ele erml1 companheiros de escritó rio, e
mais duras entre o s :tdvers"rios, mas que norm:tlmCJlte n:io ul- eu era um eSludante, O que hoje se pode ch :-lI11ar um eSUlgiário.
trap~ssavmn os critérios que regem as disputas forenses. JVlesmo NaCJuele momento, acho que Stélio ficou um pouco ag astado
nas umversidades, nas congregações, também nào h" , muita s comigo, por causa do rompimento d e caráter pessoal que ele
vezes, disputas e ofen sas pessoai s? tinha t.ido, e p ela minha aprox..imaç::io com Romeiro. i.\1as isso
não k\·ou a nada, não houve nada de mais gr.lve.
Consta que hOlltlia "'lia grande liva/idade mIre o smhor e S télio Stél io er a um homem extremamente vaido so ,
Galvào Bueno. talentoso, mas não era si.mpácico. Até no trajar ele se d es tacava
Não. Havia aquela rivalidade narural entre os advoga- dos o urros. Vestia-se muito bem, de uma maneixa exagerada
dos, sobretudo de júri. Tivemos alguns debates, causas em que para a época. Usava, por exemplo, uma p elerine, aquela capa
fomos adversários, mas dai não resuJtou inimizade pessoal. sem mangas que vai até O chão, tinha um bigode à Adolfo
Houve tempo em que não nos falamos, talvez, no ardor do Menjou - um ator da época - , a pele muito cl ara, era um
andamento de um processo, mas isso não significou nada aJém homem alto, bonito, sempre muito preocupado co m o talhe
de pequenos amuos passageiros. Logo havia o restabelecimento das suas roupas, feitas em magnífico alfaiate. Usava chapéu coco,
de relações pessoais. Era preciso saber criar condições para um plaJtron, casaca e tal. Não gozava muito da simpatia dos colegas,
bom relacionamento. Uma fra se que se repetia muito, e que e também não procurava cultivá-la. H avia se formado em 1930,
aprendi muito cedo, era que os clientes passam, e os advogados de maneira que ainda era um advogado principiante, m as já ti·
ficam . D e maneira que não há razão para cultivar atritos, irúmi- nha um certo destaque. D epoi s, quando comecei a advogar,
zades ou rivalidades quando os clientes já passaram. come.s;amos a ser concorrentes. No jll.lgamemo dos colegas, ele
Em 1932, quando eu ainda era estudante de direitO, era muito exigente em relação aos clientes na questão de hono-
Romeiro e Stélio trabalhavaj}'l juntos, tinham escritório em co- rários, tod o mundo cUz ia isso. Foi um homem que teve sucesso
mwn, mas houve um rompimento, e Romeiro me co nvidou pro6ssionaJ, êxito financeiro no exercício da profissão. D epois,
para trabalhar c0l!l ele. Fiquei no seu escritó rio, digamos, uns até se tornou fazendeiro. Mais tarde defendi a mulher d ele, que
dez meses, até me formar. E foi um período muito útil para amarou .
mim, porque vi como funcionava um escritório de advocacia.
Romeiro era um homem muito o rganizado, muito trabaU1ador, A mulher de Stélio GaIvão Bueno era rica?
muito eficiente na condução dos seus trabalhos. A advocacia era Não, ao co ntrá rio, era uma ex-bilhetei ra de cinema.
uma atividade individual e autônoma, naquele rempo. Podia ha- Uma moça bonita. Tiveram três ftlh os e d epois legali zaram a
ver uma associação entre advogados que trabalhavam junros, siruação com o casamentO. E em determinado m omento, numa
que estabeleciam os percentuais d e quanto receberia cada um, desavença, p or ciúme, ela acabo u matando-o. ZuJmlra Galvão
mas não havia ainda o que se chama hoje uma sociedade d e Bueno. O julgamento foi em 1950, portanto, o crime foi em 50
advogados, com escrituração, como se fosse uma sociedade ou 49. Ele era muito moço, tinha 44 anos.

'" 233
o SALÃO DOS P ASSOS PER DI DOS PAIXÕE S E DESAT INOS

E por que ela o procurou para defendê-Ia? era uma pessoa criteriosa, uma pessoa honrada, correta, encara
A escol1n foi feita por ele, por incrível que pareça! Ela o gesto do acusado com mais rigor. M as guando se trata de
própria, quando me p rocurou, me disse que de, quando se refe- uma pessoa de maus antecedent.es, ele mau passado, de vida
ri" "OS col egas, dizj,,: "Se alg um d ia você p recisar de um advo - censurável, é claro que o jur:ldo atenua um pouco o seu julga-
g:ldo, procure o Eva ndro L ins e Si!va." mento em relação ao autor do crime.

Se soubesse para quê, laia indicado Oll/ro/


1\1a.J isso não .Jeria ulJ/a .Jcgullrla morte da vitima ?
Exato .. No fundo, fu i indicado po r ele. Sim, poder-se-á fazer o comentário CJue se C]Luser,
procutar-se-á muitas vezes dizer: " Que diabo, além de ter sido
o CASO ZUL'HRA GALVAO B VENO
vítima, ainda está sendo difamado!" Esse argumento é muito
Como foi SUa aluação na defesa de Zulmira Galvào Bumo? Como
,I lançado pelos promotores públicos. Mas esses antecedentes
Iran.Jcorreu o Julgamento?
O julgamento foi sensacional, não só no meio forense,
porque a vítima era um advogado militante, nosso companhei-
ro no júri, como também na cidade, porque o crime tinha tido
,

(
e.x.isriam, e era inev:itável que quem fazia o julgamento os levasse
em conta.
Havia um ponto importante no juJgamemo: é que a
acusação dizia que a mulher teria apanhado o revólver do pró-
uma extraordinária repercussão. Eu me recordo que no dia,
com a multidão que estava ali no Salão dos Passos Perdidos, nos ri prio marido - ele andava armado, e não es tava dormindo no
quarto com ela, estavam rompidos, estava no quarto de um
filho, sozinho - e teria usado o revólver quando ele ainda dor-
corredores do Foro, custei a chegar ao recinto do júri, tanta gen-
te havia . A preparação desse processo exigiu um grande traba-
f'
i mia. Para tomar mais grave a conduta dela, a acusação dizia que
lho. E uma coisa que se deve dizer é a segillnte: a vítima e o ela o matara sem que ele pudesse se defender, pOIS estava deita-
acusado são os grandes personagens do processo. Como é ha- do na cama, dormindo, quando ela atirou. Isso foi objeto de
bitual, desde tempos imemoriais, o perfIl dos protagonistas, larga discussão, e de perícias. Qual era a posição dos protagonis-
com todas as suas virtudes e seus defeitos, é trazido para os tas? O normal é que uma bala, entrando no organismo, siga a
autos. Stélio, nesse terreno, facilitava enormemente a defesa da direção da penetração, e então, pelo ângulo, pejo impacto, se
mulher, porque infelizmente não gozava de bo m conceito no pode ver de onde foi disparado O tiro e a posição em que esta-
Foro, era tido como um advogado que se aproveitava muito vam os protagonistas. Isso é um problema d e balística, que se
dos cli entes, que não agia com muitos escrupulosoEssa má fama di scutiu muito. O perito que fez o exame cadavérico, o dr. Seve
per mitiu uma prova exuberante de gue el e não tinha uma con- Neto, um g rande médico legista, compareceu ao plenário e
duta exemplar, wna conduta normal na sua vida profissional de prestou depoimento. Ele entendia que o tiro não havia sido dis-
advogado, não agia com ética em relação aos clientes. Sua per- parado com o Stélio deitado, e que não era verdadeira, portan-
sonalidade malvista surgiu no processo, e isso influi muito no to, a versão da acusação, de que ela teria atirado nele dormindo.
julgamento dos jurados. O jurado, sabendo que a vítima era wna Esse debate, claro, foi muito importante no júri, por-
pessoa que não merecia, de forma alguma, sofrer um atentado, que se ela tivesse agido à traição, contra o marido dormindo, a

234 235
P A I XOES E OE SATI NOS
o SALÃO DOS I'A SS OS PEROIDOS

suficiente a sanção de dois anos com IUrJlS para resolver aquele


siruação se agravaria. ~I a s ,,-cho que conseguimos demonstra.r,
drama co njugal que tinha degenerado num ho micídio, b stimá-
inclusive com a opiniio do médico legi sta, que isso não tinha
ve!, mas que niio levava a supor 1..1UC e1,,- volmsse a deli11(:~i.i;r.
acontecid o, que o tiro tinha sido resultado ele uma discussão
Nunca m ais a vi. mas out:to dia tive a informação de que ela
entre eles, ele uma mãgo,,-, d e um ressentimento doe ntio, por-
ainda eSL'Í viva. N ão seri:ct t:lm bém tilo idosa, po rque ele nào em
que, m::ie d e três filhos já I""-pno las, eh se sen ti rn tr:lída - isso
.I muito mais velho que eu, c cl:l era bem m:l.is nova CJue ele .
den tro do sentimento da t:!poca, quando nilo havia CSS:1 liberda -
de de costumes I..jue exi ste hoje. D e maneira que ela agira como I HoU/'f' apelarão rio resultado?
uma passional, no desespero daqueb. slUlação, em que se sentira l-louve, alegando-se que a decisão fo ra manifestamen-
agredida moralmente por ele, abando nada, desesperada, noites I te contrária à prova dos autos. Como não existia, tecnicamente,
sem dormir enfraquecendo suas resistências psiquicas. A cabara uma legítima defesa, os juízes togados, de aco rdo com a lei,
praticando um gestO de violência que nào era idêntico à sua
personalidade, um gestO, portanto, ocasional, de um instante só.
E não se julga a vida po r um epi sódio apenas. A vida é um tOdo,
f
,,
I
mandaram a novo júri. Mas eu nào funcionei n o segundo júri.
Ela foi defendida pelo Serrano Neves e pelo José Bonifácio
de Andrada. Não me reco rdo bem o que houve, mas tive um

.,I,
é um conjunto. Que vantagem haveria em m andá-la para a ca- certo desentendimento com ela. H ouve a chamada de um novo
deia cumprir uma pena? Não ressuscitaria a vítima, nem seria advogado, gue não era nenhum d esses dois, era um out:to de
vantajoso para a sociedade. Seria uma manifestação mais de vin- que não me recordo agora, e não concordei com aquilo, achei
I
gança social do que de necessidade de aplicação d e uma sanção.
• que era uma desconfiança. Foi uma sensibilidade de advogado.
E o júri poderia manifestar, clizia eu, sua reprovação com uma
advertência severa, aplicando uma pena diminuta, com .mrsis. Ela
ii.,, Preferi que ela fosse defendida por outras pessoas que nao
eu no segundo júri E o resultado foi o m esmo do primei ro
ficaria com um com promisso perame a Justiça durante aquele julgamentO.
período, e assim estaria o episódio solucionado judicialmente,
'1 Mui ta gente ataca a instituição do júri, cliz que é bene-
t'
sem se sepultar uma criarura para quem a cadeia nào ia produzir
qualquer efeito, a nào ser o do castigo. E esse castigo ela já tinha
fi, "
volente, que absolve todo mundo, criminosos, p erversos, bomi ·
cidas. Foi assim no caso Doca Street, por exemplo, quando o
sofrido na prisão preventiva. Tinha trés filho s, iria continuar a " defendi da primeira vez. As pessoas não entendem que a vida
sua vida, afligida pelo remo rso de ter eliminado o ob jeto da sua 'j tem que ser compreendida, tem que ser vivida de acordo com a
própria vida. O passional, repitO, em geral se arrepende, porque realidade, e nào com ficções que se estabelecem. N o s dramas
elimino u o ser que amava. O remorso é um castigo também.
•,, humanos, é preciso ver por que a pessoa praticou aquele gestO.
O fato é que a discussào foi ampla, com a p articipação Foi por interesse? Foi por cobiça? Fo i por maldade, perversida-

liI
- o que é raro - do perüo na audiência de julgamento para de? Ou foi por um motivo muitas vezes 110bre, para defend er
esclarecer a narureza das lesões, e predominou a versão favorá - um sentimento? É exatamente isso o que ocorre no crime
vel à defesa. Isso in fl uiu no resuJtado do julgamento. Os jurados passional: a pessoa não estã agindo por um interesse, ao con-
acolheram o pedido da defesa e acharam, de consciência, que trário, está sendo consumida por uma paixão que é sempre,
ela não devia ser enclausu rada, segregada da sociedade, que era quando desencadeada, mó rbida. Trata-se de um sentimento de

23 7
236 11
PA I XOES E D~ATINOS

amor mal compreendido, mas que leva ao desespero, leva a uma como método penal. O júri vem fazendo isso com o entc::ndi-
situação de praticat gestOs que não estão de acordo com :l pró- menta, com a compreensão humana e com a inteligência do
pri:l personalidade. A pessoa, então, cheWI a um gesto de violên- • povo. É pena que o júri, hoje, tenh:l perdido a significaç:i.o c a
cia, quando normahnenle ninguém podia esperar esse gesto lmportância que unha.
dela. No caso de Zulmira GaIvão Bucno, l:ra uma mulh er casa - Eu me lembro, por exemplo, ,-\ue no julgamento de
da, com três nlhus :ldolesccmes; um dia, o m3rido arranjou 1111'l;! Zulmira GaIvão Bueno tOdo mundo estava preocupado, ,-\ue-
amame, c ela perdeu a cabeça. Hoje é muito fácil a soluçã\ I: rendo saber O resultado. Um jÚ11 com bons expositores é um
separa, vamos fner o lbvÓrClO. j\ hs naquela época não, era espet:"iculo cXlraordin1rio, apresentam-se argumcnlOs, detalhes.
muito 11l3is dWcil entender isso. Ela foi, de fato, levada por um Naquele caso, os antecedentes do casal, a vida, li dedicação da
ciúme atr07., que não conseguiu conter, não conseguiu don-unar, muU1er, rudo isso foi levado em coma. Era a companhei ra fiel,
e chegou ao pontO de agir violentamente. P odia ter refletido, em todas as horas e em todos os instantes, e ele a abandona. Ela
seria aconselhável que não tivesse matado, mas se matOu, qual é não tinha capacidade para ir ganhar a própria vida, naquele tem-
a melhor solução? Mandá-la para a cadeia? Ela não fez aquilo po a mulher não tinha uma profissão. Ela antes tinha sido vaga-
porque quisesse obter uma vantagem. Ao con trário, só con- lume de cinema, apo ntava O lugar onde as pessoas tinham que
seguiu se desgastar. À sua infelicidade, ainda acrescentou aquela sentar. D epois foi bilheteira. Vejam a decepção, o desespero em
de ter mOrto o objeto do seu amor, da sua vida, que era O que entrou quando se sentiu abandonada por seu companheiro,
marido. E ainda amargou uma temporada na pri são, enfrentou um homem a quem tinha dedicado mais de 20 anos da sua vida.
o julgamento, ficou em incômoda evidência. O castigo que O júri, quando toma uma decisão como a que tomou
sofreu foi esse. nesse caso, a meu ver não está absolu tamente ferindo leis, nem
De maneira que a mim me parece o seguinte: o júri é princípios, nem sentimentos. Ao contrário, está representando o
indispensável nesses casos, porque ele entende esses dramas. sentimento caletivo. Quer dizer, aqueles sete jurados que julga-
Cada um viveu a sua vida. Quem é que não teve, sobretudo ram aquela mulher admitiram que agiriam da mesma maneira
numa média da coletividade, instantes em que pensou até em numa situação semelhante. Ou pelo m enos admitiram que ela
praticar um gesto vio1ento? Apesar da censura que há à decisão não sofresse uma sanção severa por aquele delito. Embora não
dos jurados - que foi benevolente, foi piedosa, foi do coração prati cassem aquele aro, embora entendessem que ali não havia
e não da razão - , o fato é que rapidamente essa decisão é uma legitima defesa, acharam que o gesto dela era perdoável,
absorvida, e muita gente que antcs a condenou, mais adiante, era desculpável. Não é uma justificação, é urna desculpa o que o
diz: "Que diabo, o júri é quem tinha razão naquela solução." Isso júri pronuncia. Isso é que é importante. É uma desculpa ao ges-
é importante. Por que sepultar na cadeia, por um periodo longo, • to impensado, ir refletido, desesperado, que foi praticado.
alguém que praticou um ato que não indica perversidade, t
temibilidade? É preciso encontrar outras formas de sanção. E o O CRl~iE 00 PADRE DE MARIA DA FÉ
júri há muito tempo já vem fazendo isso, que hoje está se discu- Certo dia, fui procurado no meu escritório para de-
tindo em todos os congressos: a supressão da pena de prisão • fender wn jovem dentista, oficial da reserva, daqui do Rio de

238 239
o SALÃO DOS PASSOS PER.DIDOS PAI XOES E DESATINOS

Janei ro, que estava preso em hajubá porque matara um padre quer coisa e tinham o temor de não ter o apoio da Igreja se
em Maria da Fé, interior d e l\1Jn:lS Cerai s, na sacristia de um:], toma ssem uma posição contrária ao pad l·e. Por essa ra zão, com
igreja, apôs uma ligei ra c.ltscussão. Esse cidadão chamava-se
, sacrifício, tendo de m e deslocar do Rio de Jll1eiro, aceitei a cau-
Omar Panaim . A irmà Ijnha pa s~a Jo uma temporada ness :l. cio sa, porque o acusado ficoll indefeso. Ninguém O defendia .
d ade de ]\ ran:l da Fé na co,npanhia de uma cunhada e tinha sido
deflorada p elo padre. N a época, 1948, por aí, isso era de um a • Como é que ele enlrou em conlalo (0111 o senhor?
gravidade enorme. Se a mulher se enuegasse a wn homem antes Através do dr. Wil son Lopes dos S:1I1tos, também ad-
do casamemo, não casava m ais. vogado, que era amigo d a família. Fomos a i\lal'ia da FI! e co-
D e acordo com os sentimentos da época, com os cos- meç:lmos a f:lZer o sumário, ouvir testemunhas, interrogatórios
tumes da época, Omar foi à cidade de Maria da Fé para ter etc. Os ataS de acompanhamento do processo foram todos
feitos pelo Wilson Lopes dos Santos.
um entendimento com o padre. Já tinha havido gestões para O
padre casar com a moça, mas ele se recusava. E Omar foi
Que olé h,!je ainda advoga.
para convocar o padre ao casamento, para lhe dizer que era um ,. Exato. É advogado do Castor de Andrade. Ele advo-
dever de honra abandonar a batina e casar. E ra a única com-
gou no júri com assiduidade e eficiência. O processo prosse-
pensação possível, segundo o sentimento dominante na época e guiu, e o Omar acabou sendo pronunciado, sendo mandado a
naquela região. Omar então, foi à igreja, esperou o padre na jori. Na cidade de Maria da Fé, onde ele seria julgado normal-
sacrisua - ele estava acabando uma solenidade qualquer - e mente, o ambiente era tOdo contrário porque o padre, homem
pediu-lhe que o acompanhasse. A irmã estava na cidade ao lado, • jovem ainda, era querido. Pleiteei então jUntO ao Tribunal de
não me recordo o nome, e ele queria '1ue o padre o acompa- Justiça, como a lei permite, o desaforamento do processo, isto
nhasse para efetuar o casamento. Levava até uma roupa para o é, '1ue ele fos se juJgado em uma outra cidade, porque em Maria
padre vestir, pois naquele tempo padre sô usava batina, nào usa- • da Fé nào havia imparcialidade do corpo de jurados. O tribunal
va ainda calça comprida, como hoje em dia . E há até um deta- deferiu e remeteu o processo para juJgamento))o município de
lhe: é que, na apreensão, havia um pequeno bigode postiço. Um Varginha, tambem no suJ de Minas. Na época do juJgamento, fui
dia perguntei ao Omar que bigode era aquele, e ele disse '1ue era para Varginha e me surpreendi. Ima~ava ir fazer um julgamen-
porque o padre era uma pessoa conhecida, numa localidade to de um caso comum, no interior do pais, e encontrei lá 14
pequena, e então poria aquele bigode para disfarçar, para poder jornalistas de fora, representantes do Times e do Le Monde. Esta-
passar p ela cidade sem ser reconhecido... J\1as o faro é que o vam lá pela importância do caso: um padre assassinado no re-
padre recu sou-se a acompanhá-lo, houve discu ssão, e acabou , cimo de uma igreja, uma imagem atingida, numa região onde o
que o Omar puxou um revólver e atirou no padre. Uma das sentimento religioso era muito acendrado, muito fone, mas o
balas atingiu ate uma imagem. sentimento de honra também. Costumo dizer '1ue nesse julga-
H o uve a morte do padre, a prisão do acusado, e os mento julgou-se o sentimento religioso e o sentimento de honra.
advogados locais nào aceitaram a defesa. Era um período elei- Qual deles predominava no interior de 1\'unas? Predominou o
toral, quase todos aCJueles advogados eram candidatos a qual- sentimento de defesa da honra.

240 241
o
LJ "'AL.AV

riu foi absolvido.


L -'U~ " A~:' V ~ PloRDI DOS , PAI XOI:S l:: DESATINOS

sentimento religioso, apesar do trabalho efetuado no sentido da


Ex:namente. Sempre que há um júri, am es do julga- condenação.
mento, há uma prepa ração, O :1dvogado procu ra sa hcr quem j

são aqueles cidadãos que vão ju lgar o seu dente. P ara podt:r .Mas () padre l1iio foi condl!l1ado pela Igrqo, por ter flito o que fez?
fazer a recusa dos três nomes, por cxem plo, e u que ro saber Não, po rqu e a Igreja não acei tava a acusação. E. cu
quem é aquele <.:J ue sempre cüz; "O sujeitO que matou, comigo, diLia nu jlll'i; mas, então, qual fo i o motivo do crime? Po rque
está liquidado." Para tcr essas informações, adotei um sistem a não h:í. crime sem motivo.
que fo i fazer um memorial prar:l os jurados- mernori:l l é urna
espécie de pequena defe sa, m os trando o s ratos c as rnõcs pe- A mOfa depôs?
las quai s o réu deve ser absolvido. Quando o advogado vai D epôs. Contou qu e foi seduzid a pelo padre. E há
entregar O memorial, sempre há uma conyersa que traz lim a coisas curiosas aí. :Minha mulher, que era uma criatura extraordi-
informação, e é possiveJ fazer uma avaliação do jurado. O jura- nária, üa tudo, conhecia üteratura como ninguém , me ajudou
do é um descon hecido, não é um juiz profissional com quem o muito nesse júri: fez uma pesquisa sobre os padres sem-vergo-
advogado está rodos os dias, e que ele sabe como pensa. O nha da hi stó ria da üteratura, desd e O crime do padre Amaro, do
corpo de jurados é um grupo que só se vai conhecer no dia do Eça, até La joule de I'abbé Mouret, do Zola. E então, todos os
julgamento. Já se sabe antecipadamente quem sào os 21 sortea- padres de mau componamemo na literatura surgiram no d eba-
dos de onde vào ser escolhidos os sete que comporão o conse- te do jú ri, porCjue eu levei as minhas ficha s, para mostrar que

I
lho de sentença, mas esses só se co nhece no dia do julg amento. aquele padre era uma exceção na Igreja. A Igreja não podia
Nesse caso houve coisas singulares. Havia na ci dade amparar nem proteger, ao contrário, devia censurar o procedi-
um médico, dr. Arnaldo Barbosa, que era espírita. Era um ho- men to do padre. O júri também entendeu a atitude do padre
mem que atendia muito à pobreza, muito benquisto, de grande como sendo a de wn sedutor, que não m erecia, portanto, a si m-
prestigio pessoal na cidade. Talvez pelo fato de ser espírita, esta- patia nem mesmo d a própria 19reja. E le tinha v iolado certas
va do lado do réu ... Eu me pus em contaro com esse homem, regras de comportamento ede conduta que a Igreja não podia
para conhecer, pedir informações sobre os jurados. Ele conhe- admitir n um sacerdote.
cia rod o mundo e me dava informações valiosas, me ajudou 1 Esse julgamento teve repercu ssão mundial, saiu publi-
muiro. Fizem os o jú ri, e o ré u foi absolvido pda legítima defesa cado até no estrangeiro, no Le Mondee no Times. Os jornais aqui
da honra. Houve apeJação, e o tribunal mandou o caso a segun- do Rio, de São P aulo, tinham representantes lâ, para cobri-lo . E
do julgamento. Voltei ao segundo julgamento, e o júri, nova- essa foi , de fato, uma d as p assagens d a minha vida profi ss io nal
mente, absolveu. Da primeira vez, a diferença de VOtOS foi de 6 mai s interessa ntes. H oje em di a, seria mui ro difícil, primei ro,
a 1; da segunda vez, de 4 a 3. l'vIas o que aConteceu de curioso oco rrer o fato; segundo, se ocorresse, que houvesse queixa, re-
foi Cjue houve uma mobili zação da Ig reja da região, do bispado pulsa ou rebelião da familia, ou q ue a própria moça demmciasse.
de Pouso Alegre, a favor do padre, contra o réu. Por isso é Não haveria sentido. Os cosnunes se mocüficam e os julgamen-
que eu disse que o sentimento de honra prevaleceu sobre o toS humanos também ...

24 2
'"
o SALÃO DOS PAS SOS PER D IDOS

o CASO DO iVV,RCHA-À-RÉ
, p ", l xOes E DESATINOS

o primeiro trem e veio pa ra Belo Ho rizonte:. Não foi nem em


casa, não procurou a famnja nem nada, foi direro para a polkia,
Um pouco depois d csge, tive um outro caso grande e e lá negou re rminantemente, absolutamente,:\ versão, dizendo
empolg:mte. Um jovem médico, chamado Romu:lldo da Silva que aquilo era uma fanta sia. E o curio so é que ele, po r um feli:.!.
Neiva, fo i conden:1.c\o em Belo Horizonte como co-autor de acaso, descobriu o autor do crime. D a seguinte maneira: ele u-
um crime de morte de um ehofe r de ráx.! que tinha O apelido de nha um primo s:ugento do Exército, e esse primo soubera, no
i\hrcha-à-Ré. Um belo di:1., esse motorista recebeu uma chama- dia do crime, que a empregada da vizinha tinha contado (lue o
d:1 no ponto de t:-1xl, fo i :::ervir a um freguês e n?io voltou. O autor era um motorista chamado Geraldo. Es~c homem come-
carro, depois, apareceu próximo do ponto onde ele ficava, wdo tera o crime por vingança, por ciúme, po rque o l'vlarcha-à- Ré
sujo de sangue, o sangue escorrendo até o chão. O corpo do estava conquistando essa empregada, que era sua namorada.
chofer apareceu un s cinco minutos adiante, jogado na rua. Ao Depois ele fora em casa da namorada, todo sujo d e sangue,
que mdo indicava, ele fora chamado por uma pessoa qualquer para se lavar. Diante disso, Romualdo levou o fato ao conheci-
que o matara com uma barra de ferro, jogara o co rpo na rua e mentO da policia. M:as continuou aquela lenda, aCjuda fantasia de
dirigira o carro até as proximidad es do ponto. Aquilo foi um que O problema era a carta d e uma amante para o professor
escandalo, a cidade inteira comentava. E um detetive lá, chama- Silva de Assis, uma personalidade na cidade, que o jovem assis-
do Zuquim, invento u uma his tória, que anu nciava para todo tente, solidário com ele, tinha resolvido recuperar. Car ta que
mundo. j nunca apareceu! Mas O Zuquim não se deu por achado e resol-
Havia em Belo H ori zonte um m édico, professor Silva • veu ptovar que o autor do crime era o Romuald o .
de Assis, que teria uma amante. Essa mulher lhe teria escrito uma Geraldo foi preso numa cidadezinha peno, veio e con-
cana, e o motorista teria interceptado essa carta e estaria fazen- fessou plenamente o crime. Contou a m esma versão que a em-
do chantagem com o médico. Aquilo p er turbaria a sua vida pregada tinha contado: que o M.archa-à-Ré estava cortejando a
conjugal, e\;dentememe, e tinha de ser evitado. O assistente do sua namorada, e ele, por causa disso, tinha se vingado. ?>.1as as
Silvaye Assis, O jovem médico Rom ualdo da Si.lva Neiva, por investigações do Zuquim continuaram, e ele conseguIU, um dia,
amizade, por solidariedade com seu professor, teria então resol- que O Geraldo mudasse a con fissão inicial e dissesse que tinha
vido ob ter a catta da mão do chofer. Essa versão dizia que ele feito aquilo a mando do Romualdo.
seria o autor do crime e teria até saído de Belo Horizonte depois
de praticá-lo. D e fato, logo depois do crime, o dr. Romualdo da o que esse Zuquim tinha contra o Romua/do?
Silva Neiva, que já tinha construído tuna pequena casa de saúde Nada. Bobagem, não sei, não tinh a motivo. Ou en tão
no caminho cJu e vai para Brasflia, deixara o professor Silva de era a vaidade profissional do detetive que não erra. O fato é que
Assis e fora para a sua casa de saú de . houve essa reviravolta no caso. I sso é o que se chama, nos estu-
Começaram aqueles rumores, e, afinal, os jornais noti - dos sobre a prova, a fal sa chamada de co-réu. É claro que para
ciaram que era o Romualdo o autor do crime, por causa da o Geraldo era muitO b enéfico chamar o outro. E a cidade, no
supoSta carta. Silva de Assis telefonou ao Romualdo: «Olha, os fundo, ficou convencida de Cjue essa versão era a verdadeira, de
jornais estão noticiando Gue vocé matou um sujeito." Ele pegou que o Geraldo tinha agido a mando d o Rom ualdo em função

' 45
'"
I'AIXOUS E DESATINOS

desse problema da carta. AJém do mai s, uma louca começou na cidade. Tive o seguinte di:iJogo com o Ro muaJdo : "Você está
a aparecer na cidade e a repetir essa história em tudo que era muitO bem entregu e ao Pimenta da Veiga. É um excelente
clntO, elil tudo que era esqu ina, e todo mundo CO Il'l.eçou a se 3.J vogado." Ele me disse: "Sim, ma<; ele não está convencido da
, cnw foi
convencer. Romualdo fOI ju lgado e no primeiro julgam minh:l inocência." PergunteI: "Como, não está?" Elc disse: " Po r-
condenado. Seu defensol' foi P imenta eb Veiga, um gra nde t.jllC quandu houve o prlméll'o JLH'i, fll ! conden3.Jo:J. uma pen:l

advog3.Jo.
j peyucna, de C)uatro anos" - con~iderara01 o relcv:J.l1le valol"
U m belo dia, aqui, meu cunhado, Valério Konder, que socbl e m oml com (Iue ele agiu e atenuaram mult o a pena - , "e
cm médico também, e com p:mheiro do Ro mualclo no Partido ele me acon selhou a não ,lpelar, a me conforrn:lc co m aC)ueb
Comunista, começou a insisti!: muito para cu ir a Belo Horizonte
par3. fazer a defesa no segu ndo júri. El e e um outro médico, , decisão, que era boa ... " Eu en tao esta beleci como condição que
aceitaria trabalhar no caSQ. se o Pimenta continuasse. Pim enta
p siquiatra famoso, mineiro d e nascimento, professor aC)ui no continuou, e funcionamos iuntos no segu ndo júri. Ainda havia
Rio , chamado Sá Pir es - contam até uma hjstória do Sá Pires, um terceiro advogado q ue apareceu também, Álvaro Campos,
de que um rua um cliente chegou no seu con sultório com a
mania de que estava sendo perseguido po r: uma mosca; ficava
afastando a mosca com a m ão, atê que chegou uma hora em
que o Sá Pires, que era um tanto excêntrico, virou -se e disse:
"Joga essa mosca no chão, idiota, ela não presta mais!"; assusta-
I que era muiro amigo do Ro muaJdo. Um jovem advogado, na
época.
Nesse segundo julgamento, sem imodéscia, fiz uma
demonstração irrespondível de que o RomuaJdo não tinha sido
o autor do crime nem dele participara. QuaJ foi essa demons tra~
do, o doente curo u~se... Po is bem, o Valéria e o Sá P ires i n s i sti~ ção? O san gue escorreu do automóvel para o chão. A perícia
am, mas eu não queria ir. I ndiquei, me lembro, outros advoga~ veri ficou isso no dia do crime. Na primeira versão do GeraJdo,
dos. Po r exemflo, um famoso ~dv~gado cri ~al, :a época, era
Pedro AJeixo. Mas Pedro AJelXo unha um l111pedlmento qual.
C)uer para fu ncionar no casa. Afinal, depo is de muita luta, fui a
\
,
ele confessava o crime como tendo sido cometido próximo do
pOntO de táxi, d e o nde tinha chamado o Marcha-à-Ré. Após o
crime, praticado com golpes d e uma barra de ferro, jogara O
Belo Horizonte. corpo ali perto. D epois, colocara O carro perto90 ponto e fora
Procurei em primeiro lugar o Pimenta da Veiga e lhe embora. Aí, o sangue escorreu. Na segunda versão, em que ele
disse: "Amigos do Rom ualdo estão me pedindo para examinar acusava O Romualdo, dizia que o crime havia sido cometido na
o seu processo, e venho pedir sua licença para fazê~ lo. Lembro Ressaca, que era um local distante, situado a uns 20 minutos,
d aC)uela história atriblÚda ao velho Clóvis BevilaC)ua C)uando fa~ , m eia hora do pontO de táxi . O grande argumento era portanto
zia o Código Civil: a gente não deve di spensar a opinião nem de o tempo de coagulação do sangue. Se o crime se tivesse dado na
um estúpido, porque âs vezes um estúpido pode ter uma boa Ressaca, conforme a segunda versão, o sangue não esco rreria
idéia. Então, eu sou o estúpido que veio aqui para essa colabora· d o automóvel, já ter ia coagu lado, porC)ue mes mo no s
ção... " Ele me facilitOu, com toda a fid alguia, o exam e do pro· hemofílicos - ai eu botei abaixo as medicinas legais que levara
cesso, esrudei os autos e me convenci de que, d e fato, o e ci tei _ o mai or tempo de coagulação é de 11 minutos. E o
Romualdo era inocente. Mas era muito difícil a absolvição dele tempo do automóvel entre a Ressaca e aC)uele local era maior.

", 247
o S,",LÁO DOS P,",SSOS PERDIDO S

Mas se o crime se uvesse dad o de acordo com a primeira


r PAIXOE S E DESATI NOS

te:tdos, nào pod em mais se comun icar com ninguém, é uma


versào do Geraldo, então, sim, em pertinho do 10c:l1 o nde o proibição absolUla. E videntememe, esse jurado, por causa da
automóvel fo i deixado, o sangue ainda ni'io estaria coagu lad o e morte da m ãe, teve de se COn1unic:1r com tercciros. E o Pimenta
poderb. escorrer. da Veiga não pod ia ter concordado com a saída, e depois argüir
Vej:tlll agora como o júri foi ganho nos primeiros r1"lI - isso como nulidade. Seria uma torpc:.:a da parte dcle. J á e u er::l.
nu tos. Comecei minha defesa di:.:cndo que eu não conhecia Bdo um estran ho e podia argüi r. Maréria de ordem pública . Só foi
I-I orizont:e, e então, quando cheguei lá, procurei conhecer o local poss ível o segu ndo julgamento por essa razão que foi argüjd:1
do crime. Fui à Ressaca de auton1óvel e verifiquei, em horas por mim, ainda na fa se da apelação.
diferentes, de madrugada, durante o dia, no 17Isb, que o tempo Foi um jú ri, realmente, sensacional . Ainda hoje, muitos
minimo que consegW gastar foram 20 minutos. Quando eu dis-
,
mineiros daquela geração me têm relembrado esse casO. Por
°
se isso, promotor me apaneou: ''Vinte minutos da Ressaca ao exemplo, o ministro Sepúlveda Pertence assistiu a esse julga-
lugar onde foi encontrado o carro?" Pensei que ele fos se reduzir mentO quando estudante, José Aparecido d e Oliveira, José
o tempo. Não. "Só um louco faria isso! São 35, 40 minutos, no Guilherme VJ..1cla,5 José Gerardo Grossi. Inúmeros mineiros que
mínimo, da Ressaca até ali!" Aproveitei a deixa e tirei todo o eram esrudames de direitO, hoje homens sessentõcs, ficaram sur-
partido da situação: "Então, vamos fazer um acordo: 40 minu- preendidos com a descoberta da solução. P osso dizer: isso é que
tos. Não pode ser verdadeira essa versão que acusa o dr. confo rta o advogado. É importante o seu papel. O acu sado
Romualdol E stá aqui o tempo máximo de coagulação do san - teria purgado uma pena na cadeia, se não fos se a percepção de
gue: 11 minutos!" Li a opinião dos técnicos, e assim ficou um detalhe médico legal que o inocentava. Vejam como O ad-
demonstrado, num impacto, logo no começo da defesa, que a vogado também é obrigado a estudar, não só o direito. Tive
segunda versão do Geraldo era falsa. Romualdo foi absolvido,
e foi um sucesso extraordinário, sobrerudo pelo inesperado, pela
I que estudar também meclicina legal, tem p o de coagulação do
sangue, e empregar o esrudo no caso concreto. Quando me
surpresa d o resultado.
Agora, por que eu aceitei a defesa? Porque o Pimenta
d a Veiga tinha um problema muito delicado. Dur~te o primei-
ro julgamento do Romualdo, ac o nteceu um fatO
/

I perguntam qual a maior causa que defendi, cosrum o responder


com ironia "a próxima" .. Mas o caso do M.archa-à-Ré foi sem
dú vida um a das mai s marcantes, por uma citcun stância
especialíssima. Para um réu ir a júri, há antes uma senten ça do
desagradabilissimo: a m ãe de um jurado começou a passar mal juiz, que se chama pronúncia. E dessa p ronúncia cabe recurso
em casa, eStava quase à mane, o juiz comunicou a notícia e pe- para o tribunal. Pois bem, o tribunal recebeu e julgou o recurso,
diu publicamente que o jurado fosse em casa para assistir aos mas manteve a pronúncia, achando que o Romualdo, em princi-
últimos momentos da mãe. Pimenta da Veiga, como advogado, pio, e ra culpado. No dia seguinte ao julgamento, os
não pôde deixar de concordar. Num a segunda etapa, morreu a desembargadores que julga.ram esse recurso da pronúncia esti-
senhora, e o jurado saiu para ir ao enterro. Ele também concor- veram com igo no hotel para dizer q ue, se tivessem ouvido
dou com a segunda saída. H á um princípio, que está n a lei, que é aquele argumento antes, não o teriam pronunciado. Posso ter
o principio da incomunicabilidade dos jurados: quando são sor· ficado envaidecido, mas quero frisar que nenhuma culpa teve o

'" '"
o SAL .... O DOS PASSOS PER D IDOS PA I XÓES E D ES,""TINOS

meu antecessor, como não a teve o tribunal. Ninguêm, em Belo do seu caráter e da sua capacidade profiss ional. Em muitos ca-
Hotizonrc, aceitava que o Romu31do fosse inoccmc. To da a ci- sos de jú ri subiu à tribuna como meu co mpanhei ro de defesa e
d3dc, todos o s jornnis, e~tavnm convencidos de que ele tinha em todos revelou seus dotes de brilhante e segu ro advogado.
participado do fato. Hou ve Un1:l. publicidad e p:lrónl c escan d:l- Jvfanteve so:.cinho e com presuglo nosso velho escritório C)uanclo
losa que contagiou a opini?io públic:l. mc afastei, destacando-se como defensor de processos políticos

GFIV\ÇO F.S I)I~ ADVOGADOS


I após o golpe m il ita r de 1964.
Pebs papeletas posso ver que com o passar do tempo
nossa banca de advob>ndo foi crescendo de nível. Os clicntes
Antigam(;:ncc h:wia um pellueno imprcsso ~ob rt;": cada
fo ram, aos poucos, mudando sua posição social. Começamm a
processo, comendo a pron úncia - a sentença do juiz que man-
surgir questões rumorosas, réus di plomados em curso superior,
da O réu a julgamento pelos jurados - , o libelo - o resumo d a
funcio nários categorizados, jornalistas, comerciantes, industriais,
acusação em quesitos - e a contrariedade ao libelo - em geral
oficiais do Exérci to, d a Marinha e da Aero náutica, professores,
resumjda em qu esi tos, em que a d efesa contesta a acusação.
diplo m atas, magistrados... I sso representava a sucessão das ge-
Sempre guardei essas papeJetas, nas quais anotava o dia d o jul-
rações. O s grandes advogados qu e nos an recederam também
gam ento, o nome do jui z-presid ente, do promotor e do assis-
for am desaparecendo, o velho E varisto, Bulhões Pedreira e Jor-
tente, se houvesse, algumas vezes os nomes dos jurados e o (e-
sultado. Algtunas dei.xei de guardar, outras perdi, mas dos apro-
ximados 150 julgamemos de que particip ei no T ribunal do J úri
j ge Severiano, os dois últimos muito moços, aos 54 anos d e ida-
de, Clóvis Dunshee de Abranches e Mário Gameiro, taJvez aos
me restam 120. Ainda assim, só recentemente as reencon trei > 60, Stélio Galvão Bueno aos 44. H ouve outros q ue deixaram o
depois de 25 anos desaparecidas... júri, onde faz iam g rande sucesso, com o Heitor Lima e P ena e
Revendo agora essas papeletas, vejo que no começo COSta, para se dedicar à advocacia civil. AJguns, episódicos, fize-
fiz um grande vo lum e de d efesas dativas, po r nomeação do ram sua apresentação e tomaram outros rumos, como N arcélio
juiz. Com a criação da d efensoria p ública, reduziu-se de m u.ito a de Q uei roz, um dos co -autores do Cócügo Penal de 1940,
mU1ha designação para as causas dos réus carentes. Os clientes já Adauto Cardoso, que fo i para a politica, Berto Condé, que che-
tinham a ass.istC::ncia do nosso escritótio desde o começo, os pro- gou a dirigir a Ret'Úla de Direito Penal, e uma quan tid ade grande
cessos chegavam a julgamento "bem vestidos e bem tratados" > dos que fize ram uma ou o utra experiência na «tribuna en can-
com todos os elementos da defesa à disposição dos jurados. A tada" e não m ais voltaram .
ajuda de Raul, meu irmão e companheiro de escritório, era mui- Os espaços vazios haviam de ser ocupados. E ntre os
to importante, não apenas paI" sua competência, mas pelo con- novos eu era, depois de Romei ro Neto, o mais antigo, talvez
ceitO de que gozava no foro junto a juízes e funcionários, por não o mais idoso porque vivia ainda José Valadão, que durante
sua co rreção pessoal e po r sua lealdade: era um conquistador muitos anos foi um lidador da tribuna do júri. Vinham muitos
de amizades e dedjçações. Raul foi também procurador da em seguida, assíduos freqüentadores, mais ou menos da mesma
prefeirura do então Di strito Federal e, depois, do estado da idade, como Serrano Neves, C)ue deixou livros, inclusive um de
Guanabara, onde deixou uma leglão de anugos e admiradores relativo sucesso sobre crimes de imprensa, e participou da co-

250 251
o PAIXOES IS DESATINOS

l
SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS

missão CJue :<Iterou a parte gemI do Código Penal em 1984; Dos mai s moços, só de alguns co nheço a atuação e o
Carlos Ar:'lú jo Lima, orador imagi noso, que era ad vogado de merecimento, no júri, e d e o utros sei porque fui juiz em ca usa s
uma associação de policiais, o CJL1C lhe propiciava numerosa cli- suas no Suprem o Tribunal Fedcr:lJ . Encabeçando essa geraç:'io
entela, c, al ém de :-tdvogado de merecim ento, é escritor e jorna- nova coloco () nome de t\mó nio EV:lristo de lvforais Filho, <-Iue
li sca , organi zado r e editor d e um li vro muito divulgado chama- estreo u comigo 110 júri. D estaco-o co mo advog:ldo, como eu ()
(O Os grandes processos do Júri, foi agraciado com a medalha
.1 era, com exclusividade. Depois passou a lecionar na UERJ, c o
Teixeira de Freira s do lns rinJto dos Ad vogados Brasileiros; pro fessorado, que também exerci, é um efi caz complemen to d a
Alfredo Tnmjan, vocação perfeita de advogado do júri, autor advocacia. Com isso aperfeiçoou seus conh ecimentos de direito
de um interessante livro autObiográfico,A beco Jltrrada, que tive a penal e é hoje um dos advogados criminai s de maior pres tígio
honra e o prazer de prefaciar. Em certo período Tranjan enve- no foro brasileiro, sendo por ele parrocinados importantes e
redou pela politica, foi deputado estadual, cassado pela ditadura rumorosos casos. AJém disso, declicou-se à defesa dos presos e
militar; voltou à advocacia e foi escolhido para compor o Tri- perseguidos políticos da clitadura militar com brav-ura e des-
bunal d e AJçada Criminal; é boémio de espírito, semeador de prendimento. Se vivo fosse, seu pai só teria motivos para orgu-
simpatia e conquistador de amizades. H avia ainda Wilson Lopes lhar-se da atuação e dos triunfos do filho. Da geração de
dos Santos, mineiro modesto e advogado eficiente, que até hoje Evaristo, temos seu companheiro em muitas causas, Georges
ainda aparece em casos rumo rosos na sua faina .ininterrupta de Tavares, combativo, jogando-se na tribuna com o ardor e os
advogado no júri; Laércio Pelegrino, espíritO conservador e for- ímpetos de um jovem, e que também se declicou ao magistério,
mal, que defendia com freqüéncia causas expressivas com a pos- como professor da UER]. Conhece o seu ofício, e fazem parte
tura solene de quem detestava arroubos tribufÚcios, quaisquer
excessos de linguagem ou os chistes e gracejos dos colegas ou { do seu biótipo o entusiasmo e as explosões de um tempera-
mento irrefreável nas fases mais calorosas das discussões. Gosta
adversários, um homem que teve destaque, era benquisto pelos de versejar e é um repentista '1ue, nos momentos de maior
magistrados, foi presidente do Instituto dos Advogados Brasi-
leiros; Mário Figueiredo, trabalhador, esforçado, que teve mo-
mentos de êxito na sua intensa advocacia', Teodorico Lindsay,
entre os mais antigos, meticuloso, de voz baixa, quase sem gesti-
culação, sem vôos oratórios, simpático, até humilde, que tinha o
I animação, de tudo faz unynote para encantar os ouvintes e
traçar-lhes o perfil. Antes que me esqueça, trago à cena o
Augusto Thompson, que estava brilhando, mas saiu do Rio
como procurador do estado e foi morar em Resende. Cheguei
a prefaciar um livro seu. Ficou um pouco como advogado bis-
respeito de todos. Desses mais próximos da minha geração não sexto e por isso não ampliou a nomeada que merecia. Ourro
é possível eS'luecer Humberto Teles, de '1uem já disse e repito vitorioso é Wilson !\.fuza, adversário temível por sua simpatia
sem favor nem lisonja que é um dos mais completos oradores envolvente, que defendeu com êxito processos contra o presi-
'1 ue tenho visto na tribuna do júri e, como Tranjan , é boémio e dente João GouJart, contra Leonel Brizola e Darei Ribei.ro, e
tem vocação de escritor, de '1ue sei por ter lido um conto seu muitas outras causas rumorosas. Vem caindo a idade e já conhe-
numa coletânea em '1ue figurava junto com Graciliano Ramos ço poucos. Vamos, porém, pu:xar pela memôna. Lembro An-
e outros. tónio Carlos da Gama Baranclier, de quem também prefaciei

253
o S .... LÃO I)OS PASSOS P ERDIDOS

um livro - Relalo$.' oadt'O,gtJdo 1/0 ditadura. Pelo conhecimento, sei Claro que devo ter pecado por omissão, decorridos
que é um advogado de va lor e de sucesso m. profissão. D ois tantos anos. Agora me vem à memóri:1 o non""le de Remo
outros se projetaram: sfio Técio Lins e Silva e Artur 1_'lVignc, ,-!ue Lainctti , com quem tive o prazer de tnbalhar em conjunto em
também enfrentaram os tribunais da ditadura. Com Técio há processo de deliro de imprensa movido conlra () Jornal do Brasil,
uma particularidade: morreu o pai, Raul, e ele aincb não e Slava LJwmdo puck: conhecer o seu valo r e :"l SU:1 c:1pacidade como
formado, ma s j:'i estav,j engajado nas defesas c nelas foi até o
:1dvogado. l:aJta a.lguém? Fllitam o simp~ric() e competente José
final. Manteve o escritório e diplomou-se logo em seguid<1. D os !3o niHcio Diniz de Andrada, proficiente ~\dvog.\do no júri e em
Ol:lis novos conheçu os trabalhos de llidio 'M oura e Nélio J\h- outras tribunas, Clemente Hu ngria, que Irmita sua atividade à
Justiça tcdcr~\I, c o .professor Oscar Stevenson. De muitos tenho
eludo, ambos advogados do melhor quilate, sendo (IUC l1íJio
rido notícias: Jai r Perei ra, Clóvis Sahionc, Alexandra Duman s,
foi companheiro em muitas causas. Perdoem: e as mulheres? Aí
Luis Guilherme Vieira, Carlos Eduardo Machado, este bem jo-
estão D éa Rita Marosinhos,?o.fucia Dinis e Kária Tavares a con-
vem. Acrescento, afina4 por laço de sangue, o meu neto Ranie ri
quistar o espaço, que é delas, com apücação e esrudo. D eixei de
Mazzilli Neto, meu companheiro de escritório, a quem vaticino
propósito para o fim os nomes de notáveis advogados ,:!ue fize-
um fu turo prornissor.
ram o percurso ao contrário do comum, isro é, vieram da cáte-
dra para o foro. Refiro-me em primeiro lug ar a Heleno Fragoso,
Os ACUSADORES
que adquiriu renome por suas obras, chegando à vice-presidên-
cia da Associação lntemaciona1 de Direito Penal (AIO P), entida- Se aludi a motoS colegas, desculpando-me de novo por
de centenária criada por von Liszt, Haus e Prins. Era também o algum esquecimento, gostaria de dizer algumas palavras sobre
presidente do Grupo Brasileiro, no qual o substituí após o seu os promotores que tive de enfrentar nas liças do júri. D estes é
infausto e premaruro falecimento. No Supremo Tribunal Fede- fá cil recordar, senão todos, quase todos, através das papeletas
ral, quando eu lá estava como ministro, travou batalhas memo- oficiais que reencontrei depois de tamos anos.
ráveis na defesa d e lntelecmais esquerdistas, como Caio Prado Havia um único Tribunal do JCtri, com dois cartódos,
Júnior e Ênio Silveira, bem como da jornalista Niomar ~oniz o 10 e 2° Oficioso Eram dois os promotores efetivos, um para
Sodré. Pou,:!uissimas vezes atuou no Tribunal do Júri. OutrOS cada cartório. Os promotores serviam durante um certo tempo
advogados professores, Nilo Batista e João Mestieri, destacados e deixavam o cargo, o ra porque pediam transferência, ora por-
profissionais do foro criminal, não se ativemm às defesas no que eram promovidos a curadores. Quando cheguei ao júri, os
júri, dedicaram-se à chamada advocacia do "colarinho branco" promotores eferivos eram o velho J osé Maximiano Gom es de
e de outros tipos penais. São ambos publicistas de direitO penal, Paiva - não confundir com seu 6Jho, que assinava Ma.. . . Gomes
com a posição filosófica de vanguardeiros e seguidores dos de Paiva, e que veio mais tarde a subsritui-Io - e Roberto Lira.
mestres mais progressis tas e moderniza dores da ciência Eram pessoas de fo rm ação e temperamenro totalmente diver-
criminológica atual. Doi s outros, Sérgio Rego Macedo e I van sos. Roberto era um homem culto, preparava-se para um con-
Pessanha, também professores, não foram freqüentadores do curso na Faculdade de Direito, orador fascinante, emotivo, estu-
júri do Rio, mas se destacavam nas varas criminais. dioso, enquanto o velho Gomes de Paiva, já idoso, de cabelos

"5
'"
o S ALÁO DOS PASSOS P E R DIDOS PA 1XOl;:S E DI;:SAT 1N OS

bem brancos, era simples no falar, b om expositor, tinha a alma Pouco tempo de pois o velho G o mes de Paiva deixou
do acusador, não tran sigia e usava unl m étodo de ra ra efici ência: o júri, ou po r promoção o u por implem e nto dc id ade. Vic r:1I11
tirava partido da sua jchld e. Quando a causa era favorável :1. de- muitos promotores, 29 constam dos fo lhe tos que guardo, pas-
fesa, pe ro rnv:1 de um mo do calrllo, dizendo mais ali menos ° sando pela figu ra. do jo(tl:\lisla e escritor Carlos Sussekind d e
sc.gu inre: "Sou um hom em idoso, poderia ser pai , cal\'c:t avô do ~ rendonça, autor d e divcrsos liv ros sobre o e nsino ju rídico no
acusado. Não O conheço, tenho pena dele, não lhe d esejo o nul. Brasil e de uma biogratia do pai , Lúcio de Mendonça, rcpubli-
i.\1as vejam os senhores jurados, ele tirou a \;da de um seu sem e- cano hisró\; co, depois mini stro do Supre m o TI;b unal Federal e
lh:lOte. O que cu peço p ara ele é o mínimo da pem do homi cí- membro da Academia BrasIleira de Letra s, em colaboração
dio, istO é, seis anos de prisão. Ele já cumpriu dois - e ra a com o irmão Edg:ud, grande educador. Sussekind foi um inte-
média para o réu ir a julgamento - , cumprindo mais um tem o lectual de p restigio no seu tempo e um dos grandes nomes d o
livram ento condicional. Na verdade estou pcdindo um ano de .Ministério Público do Distrito Federal.
pri são pelo homicídio que ele praticou, por uma vida que ele Apesar das rivalidades e emulações resultantes das po-
eliminou." I sso era dito com uma voz blandici osa, suave, como sições antagónicas entre a acusação e a defesa, reglsuo que fiz
se estivesse ajudando O réu. Aprendi com o velho Evaristo a grandes amizades com quase todos os promotores que enfre n-
responde r a esse engodo, a cssa engenhosa formulação, a esse tei na tribuna do jú ri . Guardo com simpatia e afeto as recorda-
habilidoso fingimento, re pelind o o pedido e rotulando-o de ções de cada um deles. Vou citar, numa pincelada, o traço mais
"bombominho envenenado" para iludir os jurados, adoçando- marcante daqueles contra quem mais atuei, embora por vezes
lhes a consciência. A condenação seria menos amarga. em ásperos entreveras. João da Silveira Serpa, Colares Moreira,
Certa ocasião, ainda estudante, o rganizei um júri simu- Otávio Bastos, Otávio Pimentd do Monte, Teodo ro Arthou,
lado na faculdade. Era o processo de um réu julgado tempos Nerval Cardoso, L uís Polli, Silvério Pereira da Costa, Marcelo
atrás. O salão estava repleto e não no tei a presença do dr. Go- Heitor de Sousa, Arna1do D uarte, Maurilio Bruno, Dídimo
mes de Paiva. Ao compor a mesa, convoquei as personalidades Agapito d a Veiga, H ermano Odilon dos An jos, Francisco de
presentes e, quando chamei Roberto Lira, acrescentei: "o prínci- Paula Baldessarini, Milton Sebastião Barbosa, Newton Marques
pe dos promotores do Tribunal do Júri" . Ao chegar à mesa Cruz, Everardo Moreira Uma, Carlos Dodsworth Machado e
diretora dos trabalhos, Ro berto agradeceu e disse que só aceita- Martinho D oyle esgrimiam o seu flo re te com um chumaço d e
ria o título de "principe" se se desse ao dr. Gomes de Paiva O algodão na ponra, não machucavam o adversário... A discussão
órulo de "rei". Minha gafe involuntária ficou marcada. Dias de- podia ser veemente, mas as farpas eram lançadas com graça e
pois, como repórter, assisti a um julgamento e o uvi a acusação sem veneno.
do dr. Paiva. Ao sair, revelando o seu ressentimento pela minha H avia, em grau variável, os lutadores, os apaixonados,
omissão no dia do júri simulado, fez o comentário : ''Não sou O os que davam duras estocadas para subjugar o contendor. O
principe, mas sei fazer as minhas acusaçõezinhas..... O réu tinha primeiro quc assim conh eci no júri, com quem tive altercações
sido condenado. mais fones, foi R ufino de Lay, de quem me tornei amigo e
acUnirador. Eram d o seu feitio as explosões e o sarcasmo contra

256 '57
o SAI.ÁO DO S PAS SO S P E RDID OS f'A IXOE:S a DESAT INOS

o adversário . Passada a tempestade e ra a bonança em pcssoa. chiste dela, m as tinha o consolo de que conheceu mui tos o utros
Emerson dc Lim a e Araújo Jorge eram bn~do res na de fesa com o seu feitio. Tinhamos guerr:ls e pazes intermi tentes, mas
das suas posiçücs m:\s scm o fe nder o colega adversário - tOr- quando ele faleceu, fdlzmcmc. cst,iv:lmos em ple na paz, que
nei-me amigo dos dois. Fi nalm ente, aquele com que m tive os passou para a eternidade.
debates mais calorosos foi Cordeiro G uerr!l, o que jamais nos r .embro de um gmnde julgamento. em que tive d e en-
fez corta r relações pessoais. Os arrufos e amuos das divergênci- frenta r dois adversários de peso: Cordeiro Guerra e Stélio
as passavam rapidamente. Era wn ad versirio vigj lame e perigo- Gaivão B ucno, eSte como assislente do Müüstério P ub lico. Foi
so. Lutava a té o lirn e d esde o começo. Nos meses de grandes em julho de 1949. O réu, R.l\I.T ., em um jovem engenheiro,
julgamentos, boa p arte do m eu tempo d e prep aração e u os de- p remiado no cu rso fei to na E~cora Politécnica, cluC se caso u
dicava a ne utraljza r a ação do Guerra. Com a larga experi énci a muito moço com M.L. F. F.T. Fo ram m orar em Campos, o nde
adquirid a na tribuna da promotoria ele sabia conquistar a sim- ele logo se destacou e trabalhava intensamente na sua profissão.
patia d os jurados. A função que desempenhava - a de repre- Mudaram-se para o Rio d c Jan eiro, ele com 32 anos e ela com
sen tante da sociedade - colocava-o numa posição vantajosa. 27, quando o casaJ já tinha seis filhos, sob a alegaçào do marido
Era inteligente e administrava com sabedoria a vantagem qu e de que a maJedicência das ruas destilava peçonha sobre a reputa-
lhe dava o cargo. Fo i sempre um adversário temível e m e d eu ção de sua esposa, tendo recebido cartas anónimas e advertênci-
sem p re trabalho d obrado quando o tinha do outrO lado. Du- as de amigos no m esm o sen tido. O clima d e desconfiança se
rante o governo dos militares, quando já havíamos sido atingi- agravou e a mulher procurou um advogado, para fazer o des-
dos p elo Ato lnstimcio nal nO 5, Guerra ascendeu e chegou a quite, a quem R. também procurou e propqs a reconciliaçào do
mini sr.ro do Supremo Tribunal Federal. J...evou para O cargo, casaJ. A figura da sogra ap arece e teria in suflado a filha no senti-
naturalmente, a sua témpera de acusador intran sigente. Em tom do de repelir a p roposta. As coisas se precipitaram , a mulher foi
de p ilhéria, os ad vogados chasquea vam que h avia no tribunal para o ap artam e nto da m ãe, e o m arido fo i ao seu encontro,
um prom otor, que não dava parecer, dava \·o to ... E sse gracejo pedindo a sua volta. Ho uve um desaguisado, que terminou na
resultava de seu rigor no julgamento de habeas-corp"s. D eixemos polícia, m as se deu ufíÍa reconciliação, que não durou muito. A
de lad o o juiz e voltemos ao acusador, ao antigo p romo tor, que mulher saiu d e casa de novo e fo i pa ra a ca~a da m ãe. O desen-
batalhava até o último cartucho para d ominar o adversário e tendimen to foi crescendo, co m reuniões no escritório do advo-
comemorar com euforia o triunfo. Não há, nestas ob scrvações, gado, sem que o aco tdo se fi zesse. O m arido era mwto apega-
ncnhum laivo de o rdem pessoal, m as apenas de emulação pro- do aos filho s, e o afastam ento d a esposa ain da m ai s o torturava.
fi ss io nal. Alguns d ebates mais ríspidos não told am as relações Para não alongar a descrição com o utrOS d etalhes, num dia em
civilizadns que 05 ho m ens do foro, de modo geral, sabem n1.an- que foi buscar os fUh os, a exalta ção foi m aior, as ofensas se
ter. Na é poca do julgamento, tornávamo-nos "inimigos cordi-
tornaram m ais cr uas, e R. p uxo u uma arma e descarregou-a,
ais" . Passad a a refrega vo ltávamos às boas ... No Suprcmo, não
num côm odo bem pequeno, atingindo de raspão a mulher e
houve mais O estado de beligerància que antecedia as audiências
a sogra.
do juri. O advogado podja não gostar da sua severidade, fazer

258 259
o SALÃ O DOS P ASSOS PERDIDOS p"txO tlS E DESATtNOS

Stélio propôs a ação de d esCJuite contra R. , e o proces- e não causou lesão grave em ninguém." A.í fui um tanto preten-
so cl11l1inal por tentativa de homicídio seb'U j~ seu curso normal e sioso: "Só se eu fosse um perna-de-pau .. ."
lemo. FiCJuei incumbido, também, da defesa de R. no processo Veio O dia do júr.i. Formado o conselho de sentença,
de separação do casal. E ocorreu CJue o juiz Murta Ribeiro defe- sai da tribuna e encontrei no Salão dos Passo s Perdidos o pro-
riu pretensão de R. mandando entreg:tr os filhos:1 m ãe do ma- motor J\·farcelo Heitor de Sousa, que cstava funci o nando naque-
rido. Atribuo essa decisao ii falta de vigiJància de Stélio, advog.t- le mês, revezando com Cordeiro Guerra. Como meu amigo,
do puramente criminalista, que não cumpriu pr:"!.zos para (Iue preveniu-me de (Iue o SOrtCIO oilo me tinha sido favorável, de
for:"!. intimado. R. queria ver os filhos. ReLjU en ao juiz, que despa- que o con selho estava composto d os jurados mais severos do
chou, deferindo a pretensão com uma condição: os menores mês, e de que, na véspera, na casa dele Oll do GuelTIl, Stélio tinha
seriam levados pelo advogado. Eram seis crianças e eu tinha feito uma demonstração irrespondível para a condenação d o
quatro, mais ou menos da mesma idade. R. estava preso no réu. Perguntei quais eram as pessas presentes à exposição do
quartel de cavalaria da Policia Militar da avenida Mem de Sá. Foi Stéljo, e ele mencionou o Emerson de Lima, ele próprio e mais
uma festa. Era uma manhã de sábado ou domingo, e era hora dois ou três promotores. Ponderei-lhe: "O brilho da acusação
de adestramento dos cavaJos. Os meninos e meninas se diverti- não me impressiona, porque convencer promotores de que um
ram e ainda tiveram montaria, ajudados pelos oficiais ... Lembro réu deve ser condenado é muito fácil, não é preciso nem faJar.
que esses passeios se deram duas ou três vezes. °
Difícil é convencer jurado que prestou um juramento de julgar
Estavam as coisas nesse pé guando resolvi procurar o sem ódios nem simpatia. Quanto â segunda pane, de que o
Stéüo para propor-lhe uma solução racionaJ para o caso: R. ti- conselho está composto de jurados condenadores, não tenho
nha 32 anos, M.L. 27, e havia seis filhos menores. Mostrei-lhe essa impressão. Diga, por exemplo, guaJ o jurado gue você con-
que poderiamos fazer uma composição. R. desistiria da posse sidera severo." E ele indicou: EN.S., seu primo, nome colocado
das crianças, atenderia â pensão solicitada por M.L., e dávamos por ele na lista geral, um jurado do ~finistério Público.
por encerrada a p endência ci-:jl e familiar. A compensação seria Tranqüilizei-me e pude dizer-lhe: ''Ele é seu primo,mas
M.L. deixar O processo criminal., desistindo da assistência do é meu colega de turma. I sso não quer dizer que vá julgar por
-.-<
:Ministério Público, o que facilitaria a tarefa da defesa. Parece uma razão de parentesco ou de coleguismo. Eu o reputo um
incrivel, mas a respOsta de Stêlio foi arrogante e insensata: "O u homem de bem. Mas uma vez que estamos em confidências,
você se submete às minhas condições ou o seu cliente estará vou contar-lhe um fato, ocorrido há alguns meses, que me dá
irremediavelmente condenado a 14 anos de reclusão!" Fiquei uma indicação contrária â sua opinião. F. é um homem casado e

-. .
siderado com aquela reação e respondi-lhe: "Estou propondo com família, já maduro, mas apaixonou-se p or lima linda moça,
uma solução razoável e humana e você não aceita. Muito bem. filha de um homem de posses, amigo dele, e houve resistência
Pois fique certo de que as coisas se ajustarão no desquite. No da família ao namoro. F. entrOu em desespero, e o pai mandou
processo penal, não há jurado no mundo que mande para a a filha paTa a Europa. Ele perdeu a cabeça e comprou um re-
cadeia um jovem e brilhante engenheiro, pai de seis filhos peque- vólver, uma coisa louca, para matar o pai da moça. Foi, acaso,
nos, que, desarvorado, deu vários tiros num cômodo diminuto procurar você? Não, porque a pessoa de quem ele precisava

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o SA L ÃO DOS P ASSOS PER DI DOS PAIXÕ ES E DESAT INO S

naquela hora era este velho colega, ou porque se cometesse o Stélio disse em voz não muito alta: "Sete burros que não me
c rime queria já ter um d efensor, o u porque precisava d o conse- entenderam." Levantou-se e saiu da sala grosseiramente. O juiz
lho d e alguém experiente e que lhe podia ser ú lj1. D epoIs de uma certamente n:'io o u vi u, porque do contrário teria de manda r
breve conversa, mostrei o absu rdo eb sua inrenção, que nem ele autuá-lo por sua in solência ou, no mínimo, rcpreendf>lo. Cor-
ne m nmguém tinha o direito de tira r a vida alheia, a toli ce do seu deiro Guerra es tava de bom humor, sorrindo, quando os jura-
p rojetado crime, as suas con seqüê ncias, o tGI Uma com gue ia dos se levantaram, e foi espirituoso: "Não botei o pé na bola ... "
ab>lbr a pa z da sua famíl ia, e fui por aí a fo ra . Sabe o nde está a O resu ltado foi este: houve a desclassi ficação pedida
arma? No cofre do meu escritório, na ma i Ode .l\farç o, 17, 5'"' pela d efesa , para ferimentos leves, e R. fO I condenado a seis
andar, que você conhece. ro. é u m homem sério, que sofreu o meses d e detenção, pena Já cumprida, tendo sido pOSto
desvario de uma paixão. Recomendei-o a um analista .. . Se ele incontinenti em liberdade.
condenasse R. seria o maior hipócrita da terra, um pérfido
fariseu ... " CASOS E i\1AlS CASOS

Fomos para os debates. O Guerra fez urna de suas


Outro caso de júri singular foi a acusação de tentativa
costumeiras acusações: com energia, com malicia, um certo sar-
de homjcídio atribuíd a a Sílvio de Barros Vasconcelos, homem
casmo, preparou-se na parte técnica e deu o seu rccado com o
modesto, competente técnico na instalação das primeiras televi-
emp enho que costumava pôr nos seus discursos para obter a
sões no Brasil. Autodidata, de vida irrepreensível, de estudo, d e
condenação do réu. A segunda estrela, Stélio, voz metálica, ges-
cultura e de grande sensibilidade, era franzino, portador de úlce-
ticulação artificial, longos trechos decorados de leitor assíduo de
ra e de sinusite. Apaixonou -se por I.R. , dela se tornou noivo e
L 'eloquenza, começou a me atacar, primeiro com ironia - "o
passaram a ter uma vida de convívio e compromissos. Esmva se
meu jovem e já competente colega" - depois de modo gros-
preparando para casar, tinha chamado a mãe em São P aulo para
seiro e irritante. Notei que os jurados se enfadavam com aquela
apresentá-la à fuulra nora, e eis que surge na cidade um oficial
oratória às vezes brilhante, de torneado relevo, porém oca, va-
americano, F.H.P. , vindo de Batan, um dos teatros da guerra
zia, não convincente. Adorando meu critério habitual, ouvi tudo
no Oriente. Era um "guapo mancebo", louro dolicocéfalo, e ...
calado. Não dei um só apane.
tomou-lhe a noiva.
l\Ilinha defesa foi simples, como sempre, m as procu - O passional, feioso, cheio d e complexos de inferiori-
rando ser persuasiva. A causa não era di.ficil, bastava descrever o dade, construiu uma bomba e certo dia, quando o rival entrou
fato, a inocuidade da prisão. Na retaguarda havia aquelas seis no apartamento com a "sua" noiva, enviou-lhe um pacote em -
crianças que precisavam do amparo do pai. Depois, do fato brulhado em papel de presente. Não imaginava o americano
não resultou nenhuma lesão grave. Até parecia que R. atirara que ali se continha o que o promotor chamou de " máquina
para o lado, para o alto, porque o mais dificil, naguele cubícuJo, infernal", que, ao abrir-se, por um mecanismo com espoleta,
era não acertar. explodiu causando-lhe lesões leves. Como bom paSSional, Síl-
Na sala secreta, os jurados responderam ao quesito que vio foi à polícia e confessou a autoria do crime, o que repetiu
interessava à defesa sete vezes com a palavra não. Nesse instante, em juízo.

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o SA L ÃO DO S PASSOS PERD ID OS PAIXÕES 10: DESATI NOS

No meu convívio com o apaixonado Silvio, tOrnei-me sujeito mai s ciumento do mundo... " Com todas essas emoções,
seu amigo. Poucas vezes tenho visto alguém tão preparado, tão niio sei como consegui chegar à minha idad e sem um enfarte ...
simples, rfio confo rm : :t do com a sua desg raça, do arrependido Mas ainJa há mais casos ... D urante a guer ra, época em
do CJue tinha feito. No júri O ad vers,írio era Cordeiro Guerra, que era m ais ardenle a indignação pop ular contra os afund a-
com uma causa CJue lhe dava ensanchas para alargar a acusação, mentos dos navios bra~llt'irv~ que se repcun m em nossas ,i6rua~
com a premeditação do crimc, o d emora do prepar.o da " m á- territorhlis, fui procu rado para a defesa de um cidad :io italiano
quina infernar'. D e minha parte, procurei mostrar a desvant:1 - radkado em A rac:1ju, comerciante, com filhos brasileiros, que
gem do meu doentio e frágil clicnte ao disputar o amor da na- estava preso sob a V:lga suspeita de envolvimento nos ataqul!S
morada aoTar.lan que tinha enfrentado as selvas e as armadilhas de submarinos a vapores de nossa bandeira, com n trágica
orientai s. Um bravo, um forte, um gigante, um G o lias contra conseqüência da mOrte de passageiros e tripulantes das embar-
Davi. O nosso Davi só podia estar de longe. A bomba era cações atingidas. Chamava-se Nicola Mandarino e por wn triz
como a funda de Davi . Menos ainda: só assustou o herói de não fora linchado na invasão de sua residência por uma multi-
Batan, ferindo-o levemente. O argumento, entretanto, que im - dão enfurecida que li d epredou e incendiou. Estava preso e sub-
pressionou os jurados, foi outrO, foi político-nacionalista: "Que metido a processo no Tribunal de Segurança Nacional. A acusa-
os americanos tomem nossas riquezas, que nos cobrem juros ção era frágil : a presunção de sua nacionalidade era desfeita por
escorchantes, que nos comprem matérias-primas por preços sua radicação em nosso país, com família brasileira, homem
onerosos, rudo se suporta . O que não podemos tOlerar é que dado ao trabalho, sem atividade politica e benquisto na socieda-
queir am tomar até as nossas mulberes..." de. O fero Tribunal de Segurança Nacional absolveu-c.
No quesito pr.incipal, sobre a tentativa de morre, o juiz Pois bem. Qwnze ou 20 anos d epois, esse homem
Faustino NaSCimento abriu a uma em que os jurados haviam procurou-me de novo, já agora para defender sua filha num
depositado a cédula com o seu VOto e foi lendo um a um, che- processo que abalou Sergipe. Sua filha era uma jovem senhora,
gando a três votOS COntra e três a favor. Foi sédico ao dizer: :M.il91a Mandarino Firpo, casada com um médico de grande
"Depende desta." A cédula finaJ dizia não. Foi favorável à defe- nomeada na sua profissão e também vice-governador do esta-
sa. O último jurado, que eu nào recusara por já ter esgotado as do, dr. Carlos Firpo. A cidade de Aracaju mobilizo u-se inteira
recusas, aproximou-se de mim e perguntou se eu estava satis- no acompanhamento do caso, especuJando-se em cada esquina
feito. Respondi: "Sim, a descarga emocional foi favorável, evi- detalhes noticiados nos jornais e divulgados no rádio. A acusa-
tou o enfarte ... Mas aquele último VOtO, penso que não foi o seu. ção apresentava-se grave e impiedosa contra MJ.I ena: ela seria
O senhor tem fama de ser muitO severo." A resposta foi surpre- amante de wn tenente-coronel daAeronáurica, Mon so Ferreira
endente: " Deve ter sido o meu. Sou de fato muito exigente d e Lima, e os dois teriam planejado com requintes o assassinato
quando se alega wna negatin de autoria o u tuna legítima defesa. do marido, empecilho e estOrvo para a vid a em comum dos
Se não estiver ab solutamente provada a alegação, condeno. apaixonados. O amante varão contratara dois sicários no interi-
Quando, porém se trata de uma 'dor de cotovelo', so fro juntO o r, e a mulher deixara a porta aberra, sem chave, para que os
com o réu. Em pensamento já fIZ pior que o seu dente. Sou o bandidos entrassem na casa e m atassem o marido a facadas.

'" '"
o S ALÀO DOS PASSOS I'ERDII::' OS PA I XÕES E DE: SAT I NOS

A d enúnCia do promotor apontava o prôpno acusado tinha confessado o crime c apontado como mandante
~fandarino como comp:.rsa da filha. 1-lavi:. um:. rtp:. rência cnlel o coronel Afon,>o, não na deJegacia, mas numa praia deserta,
muito e"'plorada cnntr:' I\ lilena. Naquela noite, ela não donwra lendo Q ~ec ret:'ino de Justiça dito: "Não ncg:unos ter criado um
no 'jWlrto do casal, e sim Çf)m uma das duas Glhas, que estava :m,biente c m que os c rim inosos, atcmori z:tclos, pudessem vir a
com feb re alta e "::lrcccndo d a sua comIJanhi:l. I ~ ra um Iml!edfio
" ,
confe:-S>lr O crime ... " Ü principal autor materia l confessoll mas
de alto COlU rno, roc:lmb~.) ) esco, vislO com kmc de :lU memo pelo morreu no local c!:ls to rturas ou a cami nho da delegacia ...
povo, mas sa rapintado de inverossimilhanças. O c ri me p<lreci.l D a Jeciíião do juiz, houve recurso para o Tribunal de
maior do q ue a cidade c provocava reações va nad as na s diver- Justiça, que: manteve:l sentença por maiori a, contra um longo e
sas camadas da sociedade. O suposto amante, por medida de brilhante vOtO do culto d esemb:ugado [ Hunalcl Cardoso. O
segurança, ficou preso em Recife e nos dias de audiência vinha ad vogado do coronel A fonso, dr. João Me ndes, il ustre profes-
d e avião. No dia do seu interrogatôrio em juizo o avião, uma sor baiano, que fo i de putado p ela UD N e depois ministro do
fortaleza voadora, ficou voando sobre o Foro, onde uma mul- Superior Tribunal ?vulirar, calcado no vOtO vencido, re'1uereu
tidão se acotovelava. Havia uma atmosfera de pânico que poclia habeas-corpus ao Supremo T ribunal Fede ral e a impetração foi
degenerar em tumulto, segundo os próprios respo nsáveis pela deferida, tendo como relator o ministro Nelson H ungria. O
segurança pública, reforçada e vigilante para qualqu er eventuali- Supremo entendeu como absolutamente inválida a prova obti -
dade. Eu próprio fuj advertido para não me hospedar e m hotel. da mediante torrum, em lugar ermo, co m sevícias que mataram
Por sorte, era meu companheiro de eSCD tôrio um então jovem e o torturado, que chegou morto de volta â delegacia. Presente à
com petente advogaclo sCrglpano,José Mesguita Santos, até h oje sessão, dirigi imediatamente ao relator pedido de extensão da
meu amigo dileto, que ia comigo para os diversos aros do p ro- medida, na forma da lei processual p e nal, para Mile na
cesso e me dava abrigo na casa de sua família. Na pronúncia Mandarino Firpo, petição deferid a pelo tribunaL Devo acres-
foram absolvido s algun s acusados, entre os quais Nicola centar que havia suspeitas e alusões de que o crime fora cometi-
Mandarino, defenclido por uma ilustre advogada de Sergipe do por motivo p o lítico, já que o dr. C~rlos Firpo era possível
radicada no Rio, Maria Rita Soares de Andrade, que depois se candidato a substituir O então governador Leandro Maciel. Esse
tornou juíza federal até aposentar-se. murmúrio, gue está nos autos, dava outra tonalidade ao crime.
Quando fui pela primeint vez a Aracaju, pude perce- J\ihs a policia não o apro fundou. H á, nos autos, logo no come-
ber os e..xageros d a imaginação popular e da rrúdia nos comen- ço, um despacho da autoridade po licial d eterminando a convo-
tários picantes sob re o pretenso caso amoroso de .M.ilena e cação de peri tos do Rio de Janeiro para aj udar nas investigações.
Afon so. E ssa versão logo me pareceu um e mbu ste, um a Perguntei ao chefe de policia po r gue não se cumprira esse
invencionice, uma patranha. l\1ilena estava presa, fui visitá-la, e lá despacho. Resposta: ''"Porque com a noss ~ técnica elucidamos O
se encontrava, dando- lhe apoio e assistência, precisamente dona crime sem necessidade do auxilio de ninguém ." Redargüi: "En-
Edna Ferreira Lim a, esposa do indigitado amante. Eram boas tre os m étodos da policia sergipana está a inguirição de acus~ ­
amigas, como amigos eram os dois casais, e amigos de longa dos ou testemunhas cm lugar ermo e fora da delegacia?" H ouve
data o corone l Afonso Ferreint e o dr. Carlos Firpo. O principal

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o SALÃO DO S P ASSOS PERD I DOS PAIX ÕES E D ESATIN OS

um pequeno incidente, que o juiz contor nou, com intervenção constitui crime de falsidade. Mas isso não é ponto pacífico na
Imediara. doutrina, porque mu.itos acham que se d eve proteger a fé públi-
Tive muitos outros casos intercssanres. Po r exemplo: ca e, port.'1.nto, não se deve falsificar um documento. Realmente,
ainda na déC:lda dos 40, houve a edição de unu lei que permiti ~1 esse não deve ser um critério usual.
ao estrangeiro requerer sua permanência no país, desde que pro- Naquele caso, a Justiça aceitou a argtiição como crité-
V;1sse que no ano de 1930 já era residente no Brasil. Com isso, O rio eventual e vcio a reconhecer que, de fato, dada a evidência da
j\fjnistério da Jusúça lhe fornecia uma c:trteira de p ermanência. moradia do intcress:tdo naquela casa , naquela éPOC;1, não se po-
i\'f wtos estra.ngeiros CIU!; tinham essa siruação procurar.uTI bene- rua di%er que a :tfirmação contida naqu ele docu m ento era fal sa.
ficia r-se desse novo critério e começaram a requerer o favo r E isso, então, desfigurava o carnter criminoso do ge~ to de quem
legal. A burocracia criou sistemas de como provar a residência produziu o documento.
desde 19.30, e ficou mais ou menos como uma praxe que a
prova devia ser feita através de um recibo de aluguel de casa. 5 t o senbor não tivesse lido o alltor CJlbano e feito essa defesa,
E ra muito difícil alguém ter con servado, durante tantos anos, ° provavelmmle o réu seria condenado de novo.
Sim, mas a ruscussão ji existia. Esse autOr apenas re-
recibo do aluguel. Houve um despachante, investigador de po-
forçou muito a minha argumentação, porque ele tinha um capí-
lícia, que fez o seguinte: um estrangeiro que de fato m o rara em
nUo do livro d estinado ao tema. Mas já havia outrOS autores que
certa casa no ano determinado pela lei não tinha mais o recibo
cuidavam do assunto, era matéria discuti da. Na sua mai oria,
daquela época; ele então fez um novo recibo, como se o seu
esses autores achavam que era criminosa a atitude, que não se
cliente fosse inquilino do Imóvel. Embora o fato fosse verda-
deveria desculpar a falsidad e, porque a desculpa - e isso é um
deiro, o recibo era fal so. Foi concedida a permanência, mas foi
argumento sério - facilitaria enormemente, dai por diante, a
descoberto que aquele documento não era autêntico. E o despa-
falsifica ção, a produção de documentos inexatos, documentos
chante foi processado criminalmente pelo crime de fal sificação
de origem não regular p ara fazer uma prova em favor de al -
de documento.
guém . D e maneira que o que se deveria exigir era gue a prova
Defendi o caso, mas em p rimeira instincia o réu fo i
fosse corro borada por outroSelementos.
condenado. ApeJei, e em segunda instância lembro que citei um
autor cubano, H ernandes Figueroa, que tinha publicado um li -
CONSELHO AOS M oçOS
vro recentemente sobre o crime de falsidad e. El e desenvolvia
em várias páginas O pOnto de vista de que, quando a falsi dade o senhor costllmava sustentar .ruas difêsas citando autores, perso-
se destinava a provar um fato verdadeiro, poderia haver uma nagens. Os oulros advogados também faziam isso?
censura de o rdem moral, mas não penal. A censura penal se Sem dúvida. Nos grandes julgamentos, os debates
aplicaria à verdadeira falsidade, quepressupêe a inveracidade, a descambavam normalmente para a discussão da doutrina. Ain-
mentira contida no documento. Concordo absolutamente com ,
da ontem eu estava fazendo a introdução de um livro que pre-
isso. D esde aí, os tribunais passaram a aceitar essa tese: de que tendo publicar, e que tem o titulo A rco deguardados. Por que
um docum ento feito para demonstrar um fato verdadeiro niio Arca deguardadoJ. pergunto eu ? Porua ser ':liscelânea, podia ser

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o SALAO DOS l'ASSaS I'E!<.DIOOS

Gat'fta cheia, podiam ser: mujtos outros titulos que signjfica ssem Cl1tO por Latino Coelho, um grande esc ritor por~guês, na tra-
os trabalhos acumubdos de quem teve uma vida imcns:t e dução que fez da Oraçlio da corou, de D emóstenes. Ele mostra
ininterrupt:t de ::Idvogado, de jornali sta , de juiz. p, que Ar(a dI' LlUC a oratória sobrelcv:l nldo, tem um pouco de poesia, tem o
l,lfarnllt!osmc fa:.:: lembrar a Arca de Noé. Com a arca d e :-O:l lvou encanto atê da arquitc tllr:l, te m :Ligo da medicina, de todas as
a espécie, sa l'-IJlI muit:ts vidas. H á também um:1 coiS:l de que artes e ciéncia~.
pouca geme),e kmbr:1::l I3íblia ensina que em n:t /\rca S:tgrada Dcve.-se le r ,I preOCllp:lÇ:io de encontrar fo r mas de
que se guardavam as lâbuas da lei . Ana de guardados combina dizer e1eg:tntcs, apropriadas, ,u\cq uadas, mas, ao mesmo tempo,
be m :tS duas coisas. Re presenta o resultado ele um longo traba- conviocentcs, porque o discurso elo o radur fo rense não é o dis-
lho e também tem um sentido metafórico, para qu em semp le curso pcf:t palavra em si, ele tcm que e.:-..p rimir 31guma coi sa de
traba.lhou com a lei. Sempre conserveI essa arca fechada, m as concretO. Também digo nesse meu livro que n5.o quero saber se
agora a destampei. Ela começa por uma data simbólica que falei bonito, quero saber se falei útil. O advogado não pode que-
foram os meus 50 anos de profissão, minhas bodas de o uro rer ser o personagem do processo. Ele é um dos participantes
com a advocacia . daquele julgamento, mas não é o personagem principal, porque
Na introdução desse livro, recomendo aos jovens que ° seu discurso tem uma finalidade, tem um objetivo, que é favo-
lciam, leiam tudo o que lh es cair nas mãos, romance, história, recer a pessoa Cjue lhe confiou o patrocínio do seu interesse. Ele
poesi;<t., tudo. Ê muito importante isso. Por vezes, quando vou à não deve estar preocupado com o seu brilho pessoal e sim com
1
tribuna - digo isso naCjuele livroA defisa tem a palallf"a - uso o a capacidade de persuadir, de convencer aqueles que o ouvem
que eu li como fonte de inspiração. No famoso caso Doca daquilo de que está convencido, em favor do seu cliente. Isso
Street, reli 5 ertidõo humana, de Somerset I"laugham, para mOStrar me parece muito importante para compreender perfeitamente
o terrível drama do Phillip abandonado pela Ivlildred. Sempre o exercício da profissão. Ao mesmo tempo, o advogado deve
usei o que pudesse sugerir uma metáfora para o julgamento. agir com eCJuilibrio, apresentando soluções razoáveis. O advo-
Numa defesa, é preciso que haja também a apresentação de gado Cjue apresenta uma solicitação despropositada, disparata-
alguma coisa nova. Era minha preocupação, nos juJgamemos, da, não tem bUlO jamais. É preciso que ele tenha sensatez na
trazer alguma novidade, não fazer uma mera repetição de julga- apr6emação dos problemas Cjue leva ao juiz. I sso é muito im-
mentOS anteriores. portante. Quando digo a um jurado CJue a cadeia é nociva, é
contraproducente, é uma jaula reprodutora de delinqüentes, es-
Ou seja, é preciso ler cn·alittidade. tou afirmando uma verdade, e daí e u riro a conseqüência lógica:
Exaro. D epende da imaginação do advogado a ma- ora, mandar este homem para ta! lugar não é eficiente, nem útil,
neira de aprese'1tar as causas. Deve-se apresentá-las de uma ma- do pOntO de vista do interesse da sociedade. A conclusão é que
neira Cjue chame a menção do juiz, que desperte o interesse na- o jurado deve evitar que aquele cidadão, para quem a cadeia não
quilo que se está dizendo. A palavra deve exprirrur o pensamen- é solução, seja enviado para aquele meio nocivo e prejudicial a
tO, e, se se con seguir que seja de uma forma mais bonita, melhor. wna recuperação.
O Cjue é a o ratória senão essa forma de, através de palavras, O conjunto de qualidades do advogado é muito im-
exalta r o belo e demolir o fcio? Isso está primorosam ente es- portante no êxito das causas que patrocina. Isso não quer dizer
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P A I XÕES E OE S ....T I NOS
o SALÃO DOS PA SS OS F'E R D I DOS

que o advogado tenha que sec sempre, necessariamente, um vi- o senhor cu/ali/mIe len a oporlllllidade de da r esses fOllselhos
torioso. Ele poderá o btel" um resultado que não sej a a ~I bsolv i ­ qllando .re tornou professor de direi/o penal.
çiio, um resul tado intermediário, uma atenuação da pena. Por Não me intituJo professor, nunca fiz concurso para
professor. ·1\ las fui contratado pela UEHJ por volta de 1955, e Já
exemplo, quando se pede:l pe na de mo rle, nos pa íses onde essa
ensinei até quando fu i para a Procuradoria GeraJ da Rep Llblica,
monstruosidade ainda existe, se o advog.ldo consegue eviu r e,;S:l
em 1961. Lcciollci uma cadeira, 110 cu rso de dou torado, que se
sol ução e obtém LIma pri são mais lo nga ou até m esm o a prisã0
chamava "História do direito penal c ciência penitenciária". Era,
perpétua, é um êxito: ele evitou a pecda da vid a do réu.
portant.o, par~1 bacharéis já diplomados, e só podi am inscrever-
l1:í. pouco tempo, fiz uma descoberta inespcnlda e
se aqueles que tivessem obtido em todo o curso uma média
q ue me levou a uma pesquisa interessante. Lendo um livro de
igual ou superior a 7. D esde aquele tempo, os alunos ficavam
J....eonardo Sciascia, romancista italiano, chamado Portas abertas,
surpreendidos com as minhas idéias em matéria d e direito pe-
encontrei, num determin ado trecho, uma alusão a um cidadão
nal, quando eu pregava a abolição das prisões como uma meta,
chamado Argisto Giuffredi, que teria sido um precursor d e
como uma utopia, como um objetivo a aJcançar. H oje em dia já
Beccaria, dois séculos antes. E le teria escrito um livro chamado
todo mundo fala nisso, m as naquela época, 40 anos atrás, era
Advertindas crislõs, onde se teria insurgido contr.!: a pena de mor-
chocante, porque ninguém admitia que diame de um crime não
te. Fiquei numa ansiosa curiosidade, po rque eu, wn homem com houvesse a contrapartida do castigo, da prisão.
80 anos, nunca tinha ouvido falar no Giuffredi, nunca nenhum
livro de direito penal o tinha mencionado . Primeiro fui ao meu Em discurso pronunciado na solmidade da OAB-Rj em comemo-
Larousse antigo. E stava lá o Beccaria, mas não estava o rapo dos seus 80 anos, em 23 de janeiro de 1992, o senhor ins-
Giuf&edi. üguei para o consulado italiano, mas eles não tinham truía os 1101/0S advogados a eslarem sempre alentos ao aperftifoa-
nenhuma informação sobre esse autor. Procurei, então, o meu mento da ordem j uridico, o que estaria intimamente ligado à justi-
amigo Eugenio Raul Zaffaroni, grande penalisra argentino, meu fa sodal. Além de exortá-los a sempre alertar os jJlÍzes para os
colega naAIDP,.e ele também também jamais ouvira falar desse males da pn"são, o senhor os incitava a lutar para que o acesso à
pioneiro contra a pena de morte. J\-[andei para Zaffaroni o livro jushfo s9 a garantido a lodos.
do ScJascia, e Zaffaroni um dia me mandou uma xerox d o livro Sim. Em todas as minhas intervenções, tenho destaca-
do Giuffredi! Era uma ediçào, nào de 1500 e tamos, mas do fim do que o advogado, antes de ser advogado, é um cidadão e,
do século passado, de 1890. E, d e fato, Giuffredi dá um conse- antes de ter deveres para com interesses privados que evenruaJ-
lho ao filh o que se formou em direito: se algum rua ele tivesse mente vá de fender, tem deveres para com o seu pais. Ele não
que aplicar uma sentença, jamais aplicasse a pena de mone ou pode estar envolvido com aquilo que seja contrário ao interesse
p ena de sevícias! Feita essa descoberta, escrevi para o Jornal do nacional, defen der interesses apenas por vantagem pessoal. Ele
Brasil um artigo com o titulo "Um precu rsor de Beccaria?",9 tem que ser, ames de tudo, wn bom cidadão. Deve também se
onde des envolvo o tem a todo, COntO essa hi stóri a mai s preocupar com o aprimoramenro do Po der Judiciário, o funci-
detalhadamente. o namento da mâquina judiciária. Eu me preocupo com isso
desde muiro cedo, desde mocinho, tenho escrito inúmeras vezes

272 273
f'AIXOE S e OESATINOS

sobre isso. Ainda ontem li uma frase do Roberto Lira, no seu que eles depois, na \'ida profissional, se desempenhem com
livrinho Pl'!Iiténrin de um penilendansla, onde ele d iz que os presos compc((:ncia. Isso é impo rtan te. Tanto que a gente vé que nos
invejam :IS coudebrias e O ~ c:lni ~, porCjue os anim:t.is vIVem mui- con curSOS:1 taX:1 de reprov:1ção, 3S VC7es, chega a mais de 900/0
to mdh o l' do que eles. L~ preciso acabar com isso! É preó so por incapackhdc dos alunos. F. aí, sem que sej:l um galanteio, ao;;
segregar o perigoso, mas scgrcgm' de uma 111:1nelra hum:l11a, não mulhen:s tl!m tido uma v:llltage m inegável, porque sao mais
cruel, nã0 b:"t rbar:1. f\quele d cpósilO de presos, onde você: bUl:1 :lpucadas. SubretuJo nas profissões rdacionadas com o direito,
3D, e só cabiam 5, eyidentemente ê uma :1front:l :1 di6'I-udade da o número de mulheres tem crescido enormemente. São juízas,
pessoa hum ana. E isso co que acontece tOdos os d ias, todas as promotoras, defensoras públi..:as. No Par;í, SC,brt,ndo ouvi dizer,
hor:lS. Âgorn, neste instante, enquanto est:1HlOS conversando, lá já há um percentu>tl muito :'teima de 60 ou 70% de mulheres
no xadrez eh delebracia, quantos presos estão ;'ll11ontoados, com juizas. j~ um matriarcado, o Judiciário...
este calor teróvel, sem higiene, sem nada? I sso não pode conti- Acho que nos cursos de direito é necessário ensinar a
nuar. Eu não admito que a insensibilidade das eLites brasileiras parredogmárica, a pane propriamente legal. A lei é a ferramenta
chegue ao pomo de querer conservar tal siruação. Vejam como do advogado, com que ele vai trabalhar no futuro, e ele não
estão se repetindo as rebeJjões nas prisões. E eu 6co admirado ê pode deixar de conhecê-la. Agora, era importante ampliar os
de como há tão poucas rebeliões. Porque era de haver todos os conhecimentos gerais. Acho que devia ser obrigatório ler ro-
dias o protesto à violação do direito humano, a reação das víti- mances, ler poesia, ler história, ler sociologia, filos06a. Acabei de
mas dessas \;olações. O fato de o sujeito não reagir já reflete até ler agora uma biogra6a do J acques Isorni, um grande advogado
um amolecimento do can'iter. A cadeia já conseguiu isto. frances, um homem rigorosamente da minha idade. Ele foi ad-
vogado do Pétain. Na descrição que ele faz da preparação para
A seu ver os faculdades de direito dão uma formação adequada àf entrar na faculdade, o bacca/ol(dat, bachot, como eles chamam , a
pessoas que vão exercer funções 110 aparelho )udiciân'o? Como o gente vê que o aluno já entra na faculdade com uma bagagem
fe11hor vi eua proliferação atual das lamldades de direito? de conhecimentos extrao rdiniria, uma preparação magnifi ca
A OAB, nesse sentido, tem tido um papel muito im- para o fururo. Aqui no Brasil, nós somos quase todos autodida;,-
portante: ela tem lutado muito contra essa proliferação, sobretu- tas. Na renJidade, o aluno se destaca, não pelo que ele aprendeu
do em luga res onde não há condições de existir uma faculdade. na faculd ade, mas pelo que ele aprendeu por si mesmo. É preci-
!vIas há outrO aspecto, também, que tem que ser considerado: é so que o curso seja eficiente, porque o autodidatis'm o não é a
que nos meios menores, a faculdade é um centro aglutinador de melhor maneira de se aprender. A orientação do professor tor-
cultura, de estudo, que melhora as condições locais. O problema na mais fâcil e sistemática a aquisição de conhecimentos.
é que eles niio têm pessoas competentes para ex ercer o ensino
numa cátedra. Via de regra, os professores dessas faculdades, NOTAS
primeiro, não fazem concurso, são escolhidos, ou eles próprios
resolvem criar uma faculd ade. É preciso lutar contra isso, de I João Punema da V~iga, nascido em 1910, formol,l-s~ pela Facu1d3_de
de D ireito de 1\1m3s G~rais ~m 1935, romando-s~ IJvre-doc~n~ em 19::.0.
modo que os cursos sejam capazes de preparar os alunos para Foi chefe de gabinete do governador José FranCISCO Bias Fones (1956-

274 275
o SALÃO DO S PASSOS PEII.DIDOS

1958) e depurado federal por ;"[inas Gerais (1959-1960). Seu filho, João
Pimenta da Veiga Filho, nascido cm 1947, bach:lr.::Jou-se peJa Faculdade
7. Anos polêmicos
de Direiro da Univer~idadc Fedcf1l.J do Rio de Janriro em 1972, foi depu-
tado feder:ll por i\lin:lS G<::rnis em trê~ 1cgis1:uurns consecutrvas (1979-
1991) c presidente do PSDB. Ver DHB13, op. crt.

Pedro Aleixo (l90J~1975), form:J.Jo pel:! FaeulJ.1Je de Direito da


Unr\·t:rsr<bde de I\tmas G era.is (1922), tQ rnou-sc livrc-doco.'ntc de di reito
pem) em 1928. FO I dcpu1.:l.do consti tuin te em 1934, depurado f.:dcral por
Minas G erais em dive rsas lc&,slanaras (1935-1937 c 1959. 19(7), ministro A CPT DA ÚnlMr\ H O RA
da Edue:lção no governo Castelo Branco (1966) C vice-presidente da
RcpübliC\ (1967-1 969). Ver D1-I6/3, op. ciL Mesmo que I/(}O lenIJa úavido pmcesso.r políticos (lpÓS Ofim rio
, T.5"1'\f, 50 houve processos de grande repercussão política.
110S 0I10J
José Paulo Sc:púkcda Pertcnce atuou no ?-.1inistério Público até 1969,
quando foi cassado pelo AI -S. Passou cntão a dedicar-se:i defesa de gran- Por ex emplo, o da Última H ora, em que o senhor foi defensor de
des causas políticas. Assumiu a cargo de procurado r·genJ d:l República Samuel lf7ainer, dono do jornal, e rle Ricardo JaJet, ex-presidente
em 1985, e em 1989 tornou-se ministro do STF. Em 1993 foi eleito
presidente do Tribunal Superior Eleitoral, rendo conduzido as eleições do Banco do Brasil. Por que o senhor foi chamado? Como foi esse
gerais de 1994. Em fins dc'1994 foi um dos três mlOistros do STF que caJo?
votaram pela co nden:tção de Fernando Collor no processo de crime de Tudo se iniciou com uma Comissão P arlamentar de
corrupção passiva. Em abril do ano seguime, foi escolhido presidente do
STF para o biênio 1995-1997. Inquérito, em que O principal visado era Ricardo Jafct, na reali-
dade um trampolim p ara atingir o chefe do governo, Getúlio
José j\parccido de Oliveira, nascido cm 1929, foi secretirio parricubr 1
do então presidente da Rc:pública Jânio Quadros (1961), deputado fe- Vargas. Essa Comissão Parlamemar de Inquérito teve uma atu-
derai por Minas GeraIs (1963, 1964 e 1983-1985), secretário de estado ação intensa e uma grande divulgação. A mídia tomou coma do
durante o governo Magalhães Pimo em Minas Gerais (1963-1964), assumo, estimulada por uma campanha feira pela grande capaci-
governador do Distrito Federal (1985-1988) e embaixado r do Brasil em
Portugal durante o governo Itamar Franco (1993·1994). dade de acusador que tinha Carlos Lacerda na televisão. Quem
, primeiro me chamou como advogado fo i Ricardo J afet. J á an-
Josê Guilherme VIlela foi um dos advogad os do ex-presidente
Fernando Collor no processo do impearbment. tes ele me havia chamado para defendê-lo em outro processo,
• O livro foi publicado em 1995 pel:! Civilização Brasileira com o tirulo
causado por um ataque pessoal feito em resposta ao deputado
Arra de guardados: IIUItOJ e momentol "01 mmi"hos da lida. José Bonifácio, da UD N. José Bonifácio o tinha acusado de
Trata-se de A difu a Um a pala/Ta (o raJO Do(a Strett e alguma! lembranfas)
facilitar empréstimos do Banco do Brasil à Última Hora sem
(Rio de Janeiro, Aide Editora). Publicado pela primeira "ez em 1980, o garantias, e ele, ouvido por telefone pelo jornal O Globo, foi ve-
livro se encontra na terceira edição (1991 ) . emente, dizendo que aquela acusação partia de um chantagista.
• Demõstenes, A orarão da toroo (Versão do original grego precedida de D ai resultou uma queixa crime oferecida pelo José Bonifácio,
um esrudo sobre a ci\'ilização da Grécia, por J. M. Latino Coelho. 4a cd., e Ricardo Jafet m e procurou através de um colega q ue era
Usboa, Imprensa Nacional, 1922). O estudo de Latino Coelho totaliza
417 das 522 páginas do livro. seu advogado permanente, um ad vogado notável na parte dveL
chamado Carlos Guimarães de Almeida, muitO meu amigo.
O artigo estâ reproduzido em Arca de guo,.dodoJ, a p. dt., p.243-249.
Foi assim que conheci e 6z relações cordiais com Ricardo J afet.
D efendi esse processo numa vara criminal aqui no Rio de Ja-

276
o SA1..ÂO DOS PASSOS PF.:R OII)OS ANV'> t'VL"'''''' '-V '>'

neiro, e Rica rdo foi absolvido, em primeira e depois em segun- como seu advogado. E aí vou contar uma hisr.orinha, relacio-
da instância, nada com o caso, que me parece interessante.
D epois, ve io o problema da Cornissão Parlamentar No desenrolar da publicidade, guc era intensa e escan-
de J nquérito. Conver... amos muito, fizemos mUlt,lS reumões para dalosa, o próprio Carlos Lacerda reconhecia que Loureiro da
aconselhá-lo sobre vários aspe:CloS, e ele foi muito firn1e na de- Silva não tinha nenhuma responsabilidade nos acomccimcn1()s e,
fe~a da po ... ição go\"ernamenral. O g rande: 'Jbjcti\-o, como disse, no eOlamo, e:,tava denunciado, por crime de pecuhto, inclusive.
era anngir Getúlio V:l.rgas, que teria autorizaclo, segundo:1. opo- Na época, havia lima int<:rpret~çâü de a lguns rnbunais de que,
siçãu, empréstimos irregulares do Banco do Brasil, qu e era um nos crimes cuja pena máxim:t fosse superio r a de~ anos, a pri s30
banco oficial, ao jorn;11 Última 110m, para proteger um afilhado preventiva era obngatóna. Então, havia essa ameaça pairando
do governo, Samuel \X/ainer. Nessas reuniões, recordo que dis- no a r: L.oureiro podia ser preso, como podiam ser presos Jafet
cuáamos isso: todo o objecivo ela oposição era obter a prova de e Samuel. Minha idéia foi reguerer um babeas-colpns, mas Jafet
que Getúlio \largas sabia, tinha conhecimento dague.las opera- est~va na Europa e não foi possível conversar com ele sobte a
ções consideradas prejudiciais ao interesse do banco, operações atuação profissional que eu devia ter, quaJ a tática que eu devia
não digo fraudulentas, mas desaconselháveis, porgue não ofere- adorar para evitar que pudesse aCOntecer esse maJ maior que
ciam garantias de pagamento no futuro. Participavam também seria uma prisão preventiva. Aí ocorreu um fato inesperado. Fui
dessas conversas funcionários do Banco do Brasil, técnicos chamado pelo dr. Osvaldo Aranha, que não era mais ministro,
que haviam fornecido pareceres e infor mações no estudo pa ra mas tinha um escritório de consultoria, e o dr. Osvaldo me pe-
a concessão dos empréstimos, e gue também explicavam a diu para defender Lourei ro da Silva. Ponderei gue tinha dificul-
siruação. dade em aceitar a defesa, porque Ricardo ]afet estava na Euro-
Jafct prestou um depoimento sumamente firme. Ape- pa, eu não tinha facilidade de comunicação com ele, e poderia
sar do bombardeio das perguntas no sentido de arrancar dele a amanhã a defesa do Loureiro se atritar ou se chocar com a de-
informação de que Getúlio tinha responsabilidade nas opera- fesa do J afet. Eu não teria condições de aceitar a defesa de Lou-
ções, assurruu integra.Lresponsabilidade e disse que Gen"wo igno- reiro da Silva, a não ser depois de ter tido um entendimento
rava completamente os empréstimos feitos à Última Hora. Justi- com Ricardo Jafct. Nessa conversa, ficou entendido que outro
ficou-os mostrando Cjue se tratava de uma empresa próspen, advogado, gue o dr. Osvaldo sugeriu e teve a minha aprovação,
alegou que outras empresas também tinham obtido emprésti- o dI. Fausto de Freitas e Castro, um ex-consultor jurídico do
mos, procurou se defender das acusações. Dessa Comissão Par- Banco do Brasil, ex-deputado federal, faria a defesa do Lourei-
lamentar de inquérito foi Cjue sobreveio o processo criminal ro e pediria o babem-corpus - havia necessidade urgente do
contra Jafet e Wainer, que atingia L'1mbém um cliretor do Banco hobtaJ-corplfJ, não havia dúvida. Ficamos então naquela expectaó-
do Brasil chamado Loureiro da Silva, que havia sido prefeito de va da en trada do babeas-corpusdo dr. Loureiro junto ao Tribunal
Porro AJegre, também amigo de Getúlio. Oferecida a de núncia FederaJ de Recursos, que era o competente para julgar a matéria.
contra os acusados, eu, como já tinha atendido aJafet na fase
preliminar da Comissão de Inquérito, naturalmente continuei o senbor já tinbo pedido o habeas-co rpus em favor de lafel?

27' 279
o SAL ÃO D OS PA SSOS PER D IOO S AN O S PO L ~ MI COS

Ainda não. T<'l ticamente e u ach<'lvíl que era m ais con ve~ assim termino u esse processo d" Última H ora. D evo acrescentar
nie nte d:l r ent rad:t no hobulJ-c01pm em favo r do d r. Loureiro que tudo isso represento u um :'t rduo e co m p lexo trabalho p ro ·
primeiro, po rque a acusação contra ele era m uito m ais rênue, fissio nal, não só do ponto de vi sta técniCO, como sob rerudo de
muito m enos :tpaixo!l:ld<'l, muito meno s grave. Já fic~trja d c- lut.'1 COntra a vib,iJante carnpanha publicitária dos advers:'trios.
monstrado (lue não se tr:lt:lv::t dc penJaro, e se tia m ais fkil es-
te nder a decisão a R.ica rdo Jafet. A í, aco nteceu O seguinte. Rece- o sellbor tmnbé", j á cOlllm;ia Sal/luel lP'oillerr
bi nov amcnre um ch:lm ad o do d r. Osva ldo, e ele disse: " Você Sam uel \'<Iai n er era m eu velho amigo, desd e a revisra
vai ser o adyog;'tdo do Loureiro." Respondi: "Mas d r. O svaldo, Diretrize/ Fui advogado da revis ta. Tenho ll m :l vida muito 1

já expli(Juei ao senho r guaJ era a razão po r que cu não aceitava ." cheia ... Q U;1ndo, no s anos 40, :1 revista fecho u c ele se exilou no
Ele redarguiu: "Então, leia a petiçào de habeas.corpus do Freitas e Uruguai, m e procurou e me entregou to da a doculllentação d e
Castro. Quando você ler, vai aceitar." Optou o advogado por Diretri'{!s, porque estava devendo em vários lugares, e não havia
fazer da defesa do dr. Loureir o uma acusação terrível, uma recursos da sociedad e, não dava para pagar um vigésimo d as
catilinária contra Ricardo Jafet. Na terceira página, su spendi a dívidas. Fiquei pntticarnente representando a revista e m e enten·
lei rura e disse: "Nâo há dúvida que eu aceito." Ai eu não precisa~ dendo com o s credores. O s credores acabaram se convencendo
va co nsultar o Ri cardo, era interesse d ele. O dr. Osvaldo m e de que não adiantava ir à Justiça, nào receb eriam nada, e o as·
pediu apenas que eu abreviasse aquilo o m áximo possível Saí da suntO mo rreu sem conseqüências.
sua casa, aJi nas Ltranjeiras, tarde da noite, e ele queria que no dia Na verd ade, Samuel e eu éram o s amigo s desde mo-
seguinte nós d éssemos entrada na petição de bobeos-corpus. ço s. A revista Diretn'zu funci o nava p erto do meu escri tório. E
quem eram o s redatores d a revista? Moacir\X'erneck d e Castro,
Q ual era o interesse de Osvaldo A ranha nisso? Carlos Lacerda, Rubem Braga,Joel Silveira, Francisco Assis Bar·
Ele era amigo pessoal e fraternal do dr. Loureiro da bosa, Alceu Marinho Rego, Otávio M alta, pessoas todas minhas
Silva. Preparei naquela noite a p etição d e habeas-corpllf, e no dia amigas também. Eu p articipav a e saía com eles, íamos aos b ares
seguinte demos entrada ao requerimento no Tribunal d e Recur· juntOS, estávamos sempre em co ntato. E m algu..Jls casos da re·
so s. Sustentei oralmente o pedido, e obtivemos êxitO. Requeri vista Dirttrizesem que havia qualquer p roblema jurídico, legal,
em seguida o babeas-corpus em favo r de Ricardo Jafet e de Samuel m e procurava, fazia uma con~ ulta. Tínhamos uma rela·
Samuel \Xfainer. também concedido. Aco ntece que esses babtas- ção muito cordial, amistosa.
corpus fo ram concedido s somente na parte relativa aos crimes
considerados d a competéncia da J ustiça Federal, do Tribunal de Parece que Samuel Wailter, ao depor 110 CPI, não quis rtlJtlar os
Recursos: pec ulato e o utrOS crimes contra a administração que nO!lJeJ dos financiadores da Última H ora, qUt eram Valter M oreira
eram arro lados na de núncia. A lgumas outras infrações menos SaIu , Jaftt, EUlJ(1!do Lodi e A1ataraz:xo, e foi preso p or desacato ao
importantes fo ram deixadas à competéncia da Justiça comum. Congressa Foi o senhor qut impetrou O habea.Horpu.r que o sollou?
Requeri então novo habeof-corpusem favor de Ricardo, Samuel e N ão, não fui eu qu em impetrou esse habeas-corpus. Te·
Loureiro, no sentido de tam bém trancar a ação penal em rela- nho a imp ressão de CJue foi fe ito por H ariberto MirandaJo rdão,
ção àqueles crimes residuais. Foi concedid o esse habem-corpus, e que era também ad vogado d ele no processo da n acio n alidade.

280 28 1
ANOS !'O l.r.:MICU,,"
o SALÃO OOS P ASS OS PERDIDO S

como Samuel tinha vários muãos, não se sabia ao certo quem


o BESSARI\BlJ\NO
tinha vindo, c perdurava uma dúvida. Aos poucos fui m e con-
o problema foi que, nesse meio tempo, C<lrlo s vencendo de que realmente Sam uel n3scem no Brasil. Por quê:?
Lacerda fe% lima campanh:l COntra Samuel \'(!ain cr, <1clIsando-o O principal argum ento vinha do processo d a na cionalidad e e
de Llsar um registro de nascimento falso. Sustcnta\'a o Carlos imedi:uamcntc me foi com unicado po r Haribe rto !l.iirancl:\
que Samuel unha chegado ao Brasil pequeno, num dctermin:Jclo Jordão: um rabino prestou um depoimentO de que havia feiro a
navio, e ponanto não em cidadão brasileiro. O interesse em pro- ci rcullcisfio de Samuel. Isso era um a pro va realmente
var que S::ll1l ud não havia nasciJo aqui se explicava porque, J e v:l liosíss ima para mostrar que ele tinha J1:l scid o no Brasil. No
acordo com a Consti tui ção, só podi:1 ser propl'1 et{l!~io de jorn,,! p rocesso I.h\ nacionalidade, não fo i reconh L:cida a acusação de
quem fo sse brasileiro nato. lni ciou-sc e ntão um processo de gue era ftlso aquele regis tro de nascimento. 'M :lS no p rocesso
cassação da nacionalidade de Samuel em uma vara de fazenda criminal ocorreu o contrário : o juiz de primeira instância,
pública, inspirado e docwnentado, evidentemente, na campanha Valporê de Castro Caiado, condenou o Samuel.
de Carlos Lacerda. Simultaneamente, abriu-se um processo cri- O processo estava em casa do juiz, para dar sente nça,
minal por falsidade ideológica, por uso de documento falso- havia já algum tempo, quando o Correio da Mar/hã noticiou, diga-
S~uel não era o autor do registro, fora um irmão dele que o mos, OI..Ima quinta-feira, que ele levaria a sentença na segunda.
regtstrara. Os dois processos correram paralelamente, e no da Conversei com Samuel por telefone, dizendo que aquilo me ri·
nacionalidade a parte principal da defesa coube a Hariberto nha preocupado. Não sei por quê, minha sensibilidade indicava
Mir.anda Jordão. Mas no processo criminal amei praticamente que a sentença não seria favorável à absolvição. Na verdade, no
sozmho, com a colaboração eventual de Haribeno. Recordo de curso do processo, houvera um incidente que m e dera a impres-
um detalhe curioso: Samuel foi comigo à delegacia do 14° Dis- são de que o juiz Valporé de Castro Caiado estava convencido
trito Po~cial, numa rua peguena perto da Casa de Detenção, da responsabilidade do Samuel. Mais do que isso, me dera a
paralela a Mem de Sá. O d elegado era um homem de cor um impressão d e que ele tinha certa simpatia por Carlos Lacerda.
homem gue todos eloglavam muito, chamado Urio Coelh~ se ...que era uma figura muito popuJar e tinha muiros admiradores e
não m e engano. Um homem fino, alto. Ele começou o inter'ro- adeptos. Que incidente foi esse? Foi o seguinte: no dia do depo-
gatório do Sa muel indagando, naturalmente, sobre o problema in1ento de Carlos Lacerda, com quem eu ainda tinha relações
do nascimento dele. Eu me recordo do gue o Samuel disse: "O pessoais, nós nos falamos antes, ali, no corredor. E eu justificava
gue eu tenho na retina como lembrança primeira da minha vida a minha intervenção no caso porque, dada s as minhas relações
ê a paisagem do Brasil. Não conheço outra paisagem." Esta ia pessoais antigas, eu não me sentia b em , tinha escnípuJo de acei-
ser uma das grandes decepções da minha vida p rofissionaL. tar gualquer caso em que o Carlos fosse diretamente inreressado
Fazendo a prova de CJue não era verdadeiro CJue tivesse ou parte. Mas aguele caso - isso eu expliqu ei a todos e a ele
chegado ao Brasil já nascido, e sim d e gue havia nascido no próprio _ eu tinha aceito porque estava plenamente convenci-
B""5
ra-=, amueI nos fomecJa . elemento s, testemunhos, depoimen- do da inocência do Samuel. Em segundo lugar, porgue o Carlos
tOS, refe rências, documentos. Havia uma pesqu isa gue Carlos
havia morado na casa do Samuel com a familia. Eu sabia disso,
Lacerda fez sobre a chegada dos navios naquele tempo, mas
283
282
o SA L Ã O DOS PASSOS PE R I' IDOS ANOS POL~ M ICOS

eu O visitei na cas~ do Sam uel na :l.Venid a CopacalxlI1:l, perto da do suposto crime, em virtude do tempo decorrido. !'.'ias nenhu-
Confeitari:!. Colombo. Por esses :m tccedcntes, me p:uecia que ma gestão teve sucesso, e entiÍo eu liguei diretamente para o
ele não devesse fa:.::er aquela campanha contl":l o Samuel. \'.llpo ré. Ele pe rguntou: "Po r que você niio me falou pessoal-
C:lrlos, então, prestou as SU3S dec larações, c eu come- mente? Com as relações que nós tem os , não precisava que ou-
cei a faze r perguntas. A primeira pergunta foi se ele era amigo tras pessoas me f:llassem, eu diria :1 você o que estavn ocorren-
íntimo de Sam uel \Xlainer. Elc, na primeira rCsp0sta, di sse que do." Respondi: "Eu tive um n:1tural escrúpu.lo de falar ao juiz da
não, cluc era um conhecido. Eu, que sabia que ele havia morado I.:ausa. Peço apenas uma coisa. É que você leva ndo a sen tença,
na casa do Sa muel, indaguei unde de tinha morado em tal ano. tod a a imprcl1 sa, to d o mundo esurá hí, v:li ser uma situação
Ele percebeu e di sse: «Isso não interessa." E recuou: "Bcm, eu desagradável e con st.rangedora par:t o Samuel ser preso nU, em
fui amigo íntimo dcle." Insisti: "Mas eu insisto agora, guero sa- meio a um g rande escândalo. Pode estar certo que na pane da
ber mais... " Ai o juiz Valporé indeferiu a minha pergunta, achan- tarde, no fim do expediente, eu levo o Samuel." E de fatO isso
do que ela não tinha interesse para O esclarecimento da verdade aconteceu. Eu o apresentei e disse aO próprio juiz que já esrava
do fato. Surgiu um pequeno desentendimento meu com O juiz. com a pecição de hobeas-corpus pronta, argüindo a prescrição da
Pedi que de registrasse a pergunta e a indeferisse. Ele recusou. E ação penal, porque, dado o tempo d ecorrido, já não tinha sen-
o Carlos, com grand e habilidade, ficou de palanque assistindo tido a punição. Então, impetrei o hobeos-corpllS ao Tribunal de
ao incidente entre o advogado e o juiz. O resultado é que não Recursos, que era o competente, e, por incrível que pareça,
foi registrado esse incidente, mas me ficou a impressão de '1ue o perdi. O babeas-corpus foi denegad o por VOtO de desempate do
Valpo ré tinha admiração pelo Ca.rlos, de '1ue ele não queria ir ao presidente. Recorri para o Supremo TribUl1al Federal, onde en-
fundo desse assunto, que seria muito pessoal. tão o hobeas-corpus foi concedido por unanimidade d e votos. Foi
Isso me fazia temer um resultado contrário, embora reconhecida a prescrição, e Samuel foi p osto em lib erdade.
eu tivesse boas relações com o Valporé. Ele era meu colega,
tenh o m esmg...a impressão que m eu colega de rurma. Conversei o senhor folou em decepção...
com o Samuel, e ele me cli sse que o Valporé era sobrinho do É nue
,
eu , convencido co mo estava
3
da inocência -do.
general Caiado de Castro, chefe da Casa Militar de G etúlio, e Samuel, agora, lendo as suas memórias, vejo que ele admlte
'1ue ele, Samuel, ia fazer uma gestão juntO ao general para saber ter nascido na Bessarábia, e não no Brasil. De m aneira '1ue essa
o que estava ocorrendo. D epois me comunicou que o general é uma das grandes decepções que eu tenho na minha vida d e
tinha falado com o sobrinho e que a solução seria realmente advogado.
aquela que eu esperava, conden atória. Eu me comuniquei com
um juiz muito ligado ao Valporé, um homem de muito talento , Ele nunca lhe disse isso?
que perdeu a evidência, mo ra ho je, segundo informações que Não. Eu soube pela biografia, já depois dele morto.
tenho, no imerior do Piauí, chamado Sousa NetO. Pedi ao Sousa Mas fazendo uma rememoração, olhando mai s para trás, na
Nero que falasse ao Valporé, sobretudo em relação a uma ques- época cm que saíam os juntos, ele e.ra casado com wna moça
tão preliminar que eu levantava, '1ue era a questão da prescrição I€hamada Bluma, muito bonita, m uito linda, de quem se sepa-

'" 285
o SA L Ã O O OS P ASS O S PERDIDOS

testemunha nem acusador. Segun do a lei, nem o pró prio réu é


rou. D epois d esse ep isódio d a leitura do livro m e lembrei CJue obrigado a se incrimin ar.
:11~lll''\:1S vezes ela b r in cava com Sa m ue l e d izia : "6
bess:1rabiano!" E qual era o seu Juízo pessoal nuse episódio? O senhor tlchat:a
" ?
que o G etúlio realmente lião sabitJ dos elJlpresltlJlos. _
f .Llcerd(J frrtanlf.:llte sabia disso, então. Não sei ~e sab ia. Podi.L 1'\::\0 saber, como pod ia saber.
I ~"\ccrrla devia ter conhecido a in timidade do caso, de- D epend ia d as conversas entre c\e c Jafct. O que eu sustentava
\ ia ter cenC'õ!:a. Não est:W3 fazendo uma campanha consciente- era que, mesmo adnu ci ndo que o banco tivesse empre~lado m~,
mente f:llsa. D evia es t:'lr convencioo da vCI<lcidade daqLUlo (IUC com um certo sentido de Lworccimento, esse fato nao era Cri -
:1firmava. Para ete, não era tão relevante o Sam ue l. A relevância minoso. O próprio Jafct alegava que ti nha emprestado a ou tcas
m ajor era o ataqu e a Vargas. .lornals
. eln ~'ondiçõ es semelhantes. Talvez não no m esmo vo lu-
me. Aí havia também o co nteúdo politico do processo, que era
S e Ricardo JaJet lhe dissesse que Getúlio sabia do empréstimo, OJ( muitO in1porrantc. Tudo isso influi na convicção do advogado.
se S amuel IP ainer lhe tivesse dito que nasceu 110 Bessarábia, o
senhor "ão p egallo "'ais o caso? o senhor chegou a ter contata pessoal com Getúlio nessa época?
N ão é isso. Se o Samuel dissesse que nasceu na Tive contato pessoal com ele uma vez, quando houve
Bessarâbia, eu diria: "Então, vamos encontrar uma maneira de aqui um congresso de direito penal, em 1943, em p leno Estado
ficar di scutindo somente a prescrição." Aí nós tínhamos toda Novo, numa época em que eu estava defendendo os presos
razão do po nto de vista legal. Em relação a]afet não ter reve- politicos e estava em certa evid ência. Formo u-se a f~a d:s ad~
lado que G enilio sabia, eu não sei se é verdade que Genilio real- vogados para cumprimentâ-lo, e quando me apr~X1mel e fOI
mente niio sabia. Eu nào sou juiz, nem sou inquirido r, nem sou dado o m eu no m e, ele, que vinha apertando a mao de todos
investigado r d a verdad e. G etúlio podia saber ou não saber, não sem qualquer comentârio, disse: "Ah, o senh or é gue é o dr.
é m eu papel de advogado, que estou defendendo o interesse do Evanruo? D e onde o senhor é?" Me fez algumas perguntas,
m eu cliente, uma vez que ele me afirma que Genílio não sabia, entabulamos uma ligei ra conversação, e ele até me convoc?3
insisti r co m ele e inquiri-lo para dizer que sabia. Eu posso p ro- para que eu aparecesse para conversarmos, co isa que não ocor-
curar esclarecer: «Olha, há um U'ldício aqui de que Getúlio sabia, reu, pois o co nvite de pois n ão fo i formalizado. Na época do
como é que você explica isso?" No caso , Jafet jamais m e in- processo da Última H ora, tive contatOS indiretos.. através ~o
formo u qu e G etúlio soubesse ou tivesse infhúdo na concessão Jafet, do Wainer, e sobretudo d o rninistro da ]usoça de entao,
dos empréstim os. Tancredo Neves: Quando aCJuetcs processos estavam no auge,
eu ia quase djariam ente ao 1vfjnistério da Justiça, depois de en-
S ua opinião pessoall1um caso como esse lião entra em jogo? cerrado o expediente no Foro, para levar notícia ao Tancredo, e
Não, aí, não. E u posso ter um juizo pesso al m as não ele tran smitia ao presidente o que estava ocorrendo. Vargas esta-
vou declarar esse juizo pessoal em desfavor do meu cliente, va em jogo no processo da Última H ora, er a o alvo p rincipal.
daquele que me p rocura p ara defender seu interesse. Não sou
281
286
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS AN OS POLtõM1 COS

Em determinado momentO, a Comissão Parlamen tar d e Inqué· matar Carlos Lacerda. Em relação :la general M endes de Mo-
, .
ritO envolveu o depu tado Lutero Vargas como comprome ti· rais, quando foi ofe recida a de núncia, entrei com uma petição,
do nos emprcstimos do Banco do Brasil. Era o filho do presi. mostrando que a cOl1lpet~ncia p:tr:t O julgamento nào era do
deme que estava cm causa. Elll11e recordo que quando houve foro comum e sim do fo ro milita i·, po rque havia uma disposi-
uma decisão tOmfh..la, :lcho que na Câmara dos D cput:ldos, para ção da lei milita r dizendo que c rime de milit:lr d a a riva contra
exclui r Lutero V:lrgas de qualquer responsabilidade, eu estava milir:u da ativa e ra da con"lpetência da Ju stiça i\ [ilitar. i\fendes de
no gabinete do minisuo Tancrcdo Neves. e ele teJefonou para o j\[orais e ra militar da ativ:\ e () lTl:ljor Ruben s Vaz L'unbém, po r-
presid em e da HeplIblica, que estava em Pctrópoli s, no p:,I:icio tanto a competência se d eslocaria, de acordo co m a lei, para a
Rio Negro. T:lncrcdo mandou tran smitir ao presid en te essa no· Justiça :Militar.
ticia, e p ouco tempo depois o telefone tocou. Era do palácio
Rio N egro, alguém dizendo que o presidente mandava agrade- Isso não tornan"a o julgamento llJais rigoroso?
cer a comunicação feita. Lembro que o dr. Tancredo respon- Suponho que não, porque a opinião pública era muito
deu, com habilidade e elegância: "Diga ao presidente que aqui influenciada pelas campa nh as do Lacerda, e O júri representa a
estou para sen 'i·lo, cada vez com maior entusiasmo ... " média da opinião pública . Para o caso, portanto, o júri seria um
Nesse peóodo, meu escritório ficava cheio de interes- tribunal muito mais severa. D e maneira que eu pleiteei e o juiz
sados no processo da Última Hora. Mas o processo da Última acolheu a argüição. O :Ministério Público recorreu, mas na se-
Hora envelheceu rapidamente com o processo Tonderos, que gunda instância foi mantida a decisão. H ouve recurso então para
teve uma importância muito maior, porque era um atentado o Supremo Tribunal Federal. Eram três miniStrOS, portanto ha-
contra a vida do principallider de oposição na época, o jornalis. via número legal para julgar na rurma. Um deles entendia que a
6
ta Carlos Laccrda. Foi, de fato, um acontecimento que, este competência era integralmente do júri, que não influía a condi-
sim , trawnatizou O país. ção de militar; o outrO entendia o contrário, que a competência
era integralmente da justiça i\1ilitar, porque o foro especial da
o ATENTADO DA T ONELEROS Justiça "Militar atraía o crime comum de tentativa de homicídio
O atentado da rua Tone/eros teve realmente uma repercussão mui· contra Lacerda, e O terceiro entendia que se devia dividir o pro-
to grande, e não só politica. Todos os advogados famoso s naquela cesso: uma pane era d o júri e outra parte era da Justiça :tv!ilitar.
época esti'Jeram presentes na deftsa dos envolvidos. Adaulo Lúcio
Três VOtOS diferentes. Qual seria o varo médlo? Seria aquele que
Cardos/ foi advogado de Carlos Lacerda; Hugo Ba/deJ!an"l1l~ da
dividia o processo? Foi essa a solução proclamada. Mas eu achei
fa mília do m%r Vaz; Humberto Te/es, do A/cino; Romeiro Neto
que não estava certa, porque ela nilo teve dois votos, e a
e Carlos A raújo Lima, do Gregón"o; Evaristo de Morais Fi/ho,
embarguei. Nos embargos, meu ponto de vista foi vitorioso: a
do Nelso n, o moton"sta de tá>.i. E o senhor?
competência era total da J ustiça :Militar. Os autos foram então
,
Eu também estive na defesa, mas os meus clienres
encaminhados à Justiça Militar, o Tribunal entendeu que não ha-
não foram a júri. Eram Euvaldo Lodi e o general M endes de
9 via elementos que comprovassem a co-participação do general
Morais. Na denúncia oferecida, eles foram envolvidos como
Mendes de Morais no crime, e o processo foi arquivado.
tendo aruado junto ao Gregório para ele matar ou mandar
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o SALAO D OS P ASSOS PE RDI DO S
ANUO;; POI~í?: M! COS

No dia em quc houve a acareação entre Gregório e o antes do que se está esperando, em relação ao gene ral :Nlendes
general !\'Iendes de Mo rais, no ~{irustéri o da Guerra, cu estive dc Morais." D ei uma resposta de ad vo.'!;ado, achand o que não
present e. Foi realmente um ato so!elússimo. Um:l m eS:l compri- haVia elementos suficien tes p:mt inculpá-lo C0mo mand:lI1 tc
da , tOOOS os generais sent:ldos, cm silêncio, fisionomia cerr:lda, do cri me, que h:l\i:l apenas malcdicência, c não uma acusação
todos fardados, com Sl:U"; bordados. O único estmnho prescmc, compruvada.
a não ser cu c o advogado do Gregó rio, Carlos Araújo Lil1),l,
era o co ronel Adil de Olivei ra, di rigente do in quérilo do E quanto a EUl'fl/do lJJdi?
>O
G:lldo. Não se Ollvia o \"tio de uma mosca. Solene, l:x tn:ma- No caso de Euva ldo Lo(h, O juiz ende reçou à Cámara
mente sokneo ato. Grcg()rio foi coloc:1do lá no fundo da meS:I, um peJido de licença p.\ra process:'i.-lü, porque ele era deputa-
O general 1 1cndes de Morais estaria a meia dist.'lncia, e o co ronel do, e a CâmClra negou . t.. las vamos agora para os b:lstidores, que
Adil também ficou sentado. A justificação para a sua presença são muito interessantes. Eu não conhecia o dr. Lodi. Estava no
era que ele era o condutor do preso. Terá sido esse o motivo? meu escritório, d e saída pa ra o Foro, po rque tinha qualquer
Também poder- se-ia di zer: para gue Gregório não voltasse compromisso, quando o general Mendes d e Morai s, gue já era
atrás naquilo gue lhe havia dito. Já anteriormente tinha havido o meu cliente no processo, me tele fonou pedindo gue eu fosse à
incidente em gue L'lcerda tinha sido agredido, e atribuiu-se essa sua casa imediatamente, porque ele tinha um assunto de extrema
a!:,:rressão ao mando do general Mendes de Morais, quando era urgência. Realmente eu m e dirigi à sua casa, e lá estava sentado
p refeito do Rio. E ntão, ele também era wna pessoa visada como num sofá, alquebrado, muitO tenso e abatido, o deputado
capaz de ter sido um dos mandantes . Foi perguntado ao E uvaldo Lodi. Ele tinha, na véspera, ido depor na chamada
Gregório se ele confirmava o que tinha düo, e ele confirmou. República do Galeão e m e referiu que tinha sido extremamente
Disseque, nwn enco ntrO que tinha tido com ~ [end es de Morais humilhado no interrogató rio, ofendido. E stava em d esespero, e,
no palácio Rio Negro, em Petrópolis, num vão de janela, este na hora, atribuía tOdo aquele seu infortún..io à ação de Carlos
tinha ditO que era preciso acab ar com aquele "sujeito" . Lacerda, de quem se considerava amigo porque, como presi-
A §plenidade foi muito rápida, todos os generais se dente da Confederação Nacional da Indústria, algumas vezes
levantaram e se reti raram. Ao sair, o coronel Adil, a guem eu já tinha ajudado o jornal do Carlos. Procurei animá-lo, disse que a
conhecia de OUtrO inquérito policial militar, sem caráter político, acusação contra ele não me parecia muito grave... Porque o que
um caso comum de crime militar que eu tinha defendido e em se dizia lá era que Gregório Forrunato teria tido urna conversa
que ele também tinha tido qualquer participação, aproxim ou-se com ele ond e se co ntara uma história de que, na Itália, esses
de mim, cum primentou-me gentilmente-era um homem afá- casos se resolviam de maneira sempre pessoal. Pegavam o sujei-
vel, d e convívio fácil - e disse: "O senhor tem fama de bom to e o jogavam num poço... Eu achava que isso nào con6gurava
ad vogad o, mas esta cau sa o senhor não ga nhará de maneira al- re'alrnente uma co-autoria, nem seria uma sugestão capaz de in-
fluir no ânimo do Gregório. Achava, po rtanto, que a acusação
guma." Ouvi aquilo e disse: "Bem, coronel, não sejamos tão
categóricos. Vamos aguardar a evolução dos acontecimentos. era frágil e que ónhamos muitos elementos para convencer os
jtÚzes que fossem exami nar a matéria de que não havia relação
Estou absolutamente convencido de que o processo terminará
de causalidade entre uma conversa com o Gregário e o resulta-
290 291
o S .... LÃO DOS PASSOS PFR D II;)OS .... NOS POL~M1COS

do final. T~mbém h~via a ~ctl~~çào de CJue ele, como diretor do defesa, o juiz pode absolver, e o réu pode nâo ir a júri. Nor l1l:J.l-
Sc..;i, d:1ria uma ajuJa men1":1I:i gU:lrda pessoal de Getúlio. Pensei: mente vai, pOl'qLJ(' o jui:t ach3 que niio é competente pat:l jul~>:1r:
" Isso também não rem c]ualqucr n.:laçào com o crime." Ele mesmo nos caso~ dU\'ldosos, prefere mand:u o réu fi jÚri. ,..\
est:1va reallllent..:: muiro afliro rnquela hora. Com o con\"lvio, segunda condiç:'io, no CISU de EU":l.klo l.oeli, cra :1 de (11H;:, se ele
depois, passei a ter dele U1WI impressão excelente CO!11t 1 ser hu - niio fosse absolvido na f:l~e eb pronúncic! , haveri:\ lIccessida<.k
l11::1no. De qU:ll1do em vez me telefonava: " DI·. Evandro, eu hnje de um novo pedido d e licença. Obse rvei que isso me parecia
estOu mu.ito dO/I'1I, aflito... \rurto preocup:1do..." E u brincl\·a: inconsritucion:tl: <;e eu dou licença para processar, nilo püsso d:lr
"}'f:1s o senhor está precisando chamar é urll psic<lll<llista, n:'io licença de um" l1l<lneira p~lrcial. Teriam que dar liccn'í-'a p:lra pro-
um advogado, par:1 con\'ersar." Conversáv:1mos sempre amis- cessar integralmente, n:'io poderiam es t:lbelecer limitações ao
tosamente, cordialmente. Poder Judiciário. Ai, eles o bjetaram o seguinte: que isso era uma
Aí, houve o seguinte: estava para ser julgado pela Câ- solução que eles únham encontrado num precedente da Câma-
mara o pedido de licença para o processo penal, e um rua fui ra. E esse precedente era um parecer, que eles elogiaram muito
chamado lá pelos deputados importantes, na época, de grande _ eu não conheço, não li os seus termos - do dr. Afrânio de
influência, Benedito VaJadares, GUStavO Capanema, Godói Ilha Melo Franco, pai do A fonso Arinos de Melo Franco, que era
e um quano de que nao me recordo. Diante da siruaçào de lider da UD , e não iri:l. se opor à opi nião do próprio pai ...
comoção nacional, diante da expectativa de acontecimentos mi- Vejam portanto como são as raposas politicas...
litares da maior gravidade, podendo importar na derrocada da Eu disse que não concordava com isso, Lastimava
d emocrao a, me pediam para dizer ao dr. Lodi que ele pedisse à muito, achava muito hábil a formulação, porém nào aconselha.
Câmara que concedesse a licença para ser processado, porque ria o meu cliente a tomar uma atitude dessa narureza . E então
isso acalmaria aquele ambiente de tensão e aquela expecmciva escrevi, na época, um parecer chamado Esmagando ,,,,,a
calrínia,
terrível para o país. Ponderei que minha inclinação era não dar em favor do dr. Lodi . Antes de ler o meu parecer, ele fez um
esse conselho ao meu cliente. Seria entregá-lo às feras, porque o pequeno discurso dizendo por que achava SUe estava sendo \""Í-
ambiente de antipatia pelo caso i.ria atingir, sem dúvida alguma, cima de uma infámia, de uma calúnia, d e wna acusação impro-
O dr. Lodi, embora eu achasse que ele não tinha qualquer culpa- cedente. Isso deu um folheto, e acho que teve influência. Eu
bilidade, nem houvesse qualquer prova de que ele pudesse ser di~ia que ele era chamado pelo Gregório porque era uma p es-
mandante do crime. €tia importante; Gregório deslocava de si a responsabilidade
Eles entào propuseram uma fórmwa de acomodação. para atingir um terceiro, de uma maneira falsa. 1sso chama-se,
Concederiam a licença, com fi conrução de nào poder ser decre- ltcrs estudos dos processualisus, a falsa chamada de co-réu: para
tada a prisão preventiva. No processo do juri, como sabem, há tié?viarde si a acusação, O réu guer atribuí-la a terceiros, mesmo
uma pronúncia: ames de o réu ser mandado a júri, o juiz presi- 'in&tentes. A Cámara não deu licença para processá-lo. Algum
dente do tribunal profere urna sentença, que se chama sentença . empo depois, o dr. l..o<:li "eio a morrer num desastre de auto·
de pronúncia, que admite fi acusação para ser julgada. Quando é ~ .ni~ó"e1. Dirigindo um carro em São P aulo, bateu num caminhão
evid ente o caso de inocência. quando é um caso de legítima ~· ;'.itl'l'c';u . Extinguiu- se a ação penal por sua morte.

292 29]
... -- ---
o SA L ÀO DOS PASSOS I' ERD I DOS

rir, fico numa aflição terrível. Gostei muito de assisti.r a júri quan-
É mrioso que os réus do processo da Tone/eros lenham recebido em
do era jornalisL1, mas depois que me torneI advogado me aflige,
geral penas altíssimas, embora tenham sido defendidos por ar/vo -
porque eu começo a ser muito crítico, a lluerer sugerir e ver se o
gado.r brilbal/tes. ruo pfllwe revelar que existe !mla refacão do
meu pensamento vai até a cabeça do advogado que está falan -
j/{(/iciário eOIll o ambiente político. '
do ... O presidente do júri foi o Sousa Neto. A ac usação fo i fcita
Acho yuc esse caso Toneleros merece o esnKlo de um por um promotot chamado Araújo J orge, e o aClls:lclor parti-
s~ cjólogo, de um historiador, jUntO com um 3dvogado, um ju-
cular foi Adauto Lúcio Cardoso. Ouvi no rádio algu ns trechos,
rista, que mergulhe nesse processo. E le tem um man anci::tl ex- não complcellllcnte. Era um acontecimento em ljue todos esta-
traordjn:irio par:1 suscit<tr inúmeras questões. I-já multa co isa ali vam inte ress<ldos. Os advogados saíram-se bem, corn destaque
c~ent ro yuc até hoje não surgiu . Eu mesmo gostari:1 um dia, se
para a competente defesa de Romeiro Neto.
a vesse tempo, de reler aquele processo. Recordo-m e de certos
d~talh es que m e chamaram a atenção na época, mas talvez a A L1GA DE D EFESA DA L EGALIDADE
JeJtura ho!e modificasse a impressão daquele tempo, porque eu
agora fan a um estudo desinteressado. O advogado estuda a Como o senhor recebeu a notícia do suicídio de Vargas, na manhã
causa sempre em função de um interesse, e jsso, algumas vezes, de 24 de agosto de 1954 ? O que o senhor sentiu?
d~forma a visão exata do fato, sobretudo para um julgamento Eu estava em minha casa, no Alto da Boa Vista, e rece-
histórico. Mas há aspectos que precisam ser melhor analisados. bi um telefonema, por volta das sete e meia, oito h o ras da ma-
S~ria muito interessante agora um estudo comparativo daqueles nhã, de Hariberto :Miranda J ordão, que era meu companh eiro
diver sos d ~poimento s , das suas contradições, da atuação de na defesa do caso de Samuel \'\Tainer, dizendo que Getúlio
cada um . E preciso também fazer uma análise do julgamento, Vargas tinha se suicidado. Fiquei siderado, paralisado, com aque-
um estudo sobre a composição do júri, a repetição dos jurados... la no tícia absolutamente surpreendente e inesperada para num .
Sobretudo porque nós estávamos em plena defesa daqueles
o senhor acha que foi muito tendeJIcioso? processos que estavam em evidência, que tinham um conteúdo
N ão, nào acho que tenha sido tendencioso. Havia uma eminentemente politico. Depo is, a melhor explicação que achei
paixão coletiva muito grande, de form a que o resultado previsí- para o suicídio de G etúlio foi um artigo na revista L 'Esprit, de
vel era a condenação. O reexarne desse processo, hoje, talvez me
Paris, que tinha o título "O suicídio como arma politica", em <

desse uma visão diferente. Não diferente daquela que tive em que o autor mostrava que, com seu gesto, G etúlio Vargas tinha
relação aos clientes que defendi, mas em relação ao co njun to, conseguido dominar, paralisar, desmoralizar a con spiração que
pretendia alijá-lo do poder. Na verdade, isso aconteceu. Quem
Quanto aos advogados, nào tenho restrição a fazer nem faria
de maneira alguma. Aliás, o nosso código de ética ~rolbe qu~
viveu aquele pcríodo e assistiu aos acontecimentos durante o
'dia, no Rio de Janeiro, tem a lembrança de q ue poucas vezes
demos opinião sobre a cond uta dos colegas, m as posso dizer
muJt:idão igual saiu às ruas em apoio ao p residente.
que acho que o desempenho de todos eles foi muito eficiente
no sentido da exposição. Não quanto ao resultado, que foi ab~
Aquele episódio me causou uma impressào de surpre-
sa, pelo inesperado, repito, sobretudo partindo de uma pessoa
solutamente contrário. Eu não assisti ao júri, não gOSto de assis-
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o SALÁO DO S PA SSOS P ER DIDO S

ANOS POL(::MICOS

como Getôlio V:ugas que, normalmente, pelo seu compo rta-


mento em todos os atos da vi&t, era um homem calmo Screl'o enfrentar de bates. O próprio Carlos estreou no jôn comigo, c m
que ti nha e~(rentado muitas intempéries políticas sem'pratica; 1934. Na minha avaliação, perdi um deb:ue e g an hei O onu-o.
um ges ro impen sado, d e verdadeiro desespe ro, como esse, de No primeiro, com ~H.luelc. poder verbal que o Carlos tin ha, com
tirar:l própria vid a. Com o suicídio, os acontecimentos se des - SU :l. grande capacidade para trans formar faws inocentes em fa -

dobraram de m o do a obedecer, relativamente,:1 Consritul ção toS cnrninosos - ele er!l talemosíssimo - , eu lah'ez ni\o tenha
da República: o vice-presidente C:\fé Filho assumiu, organizou- sido c3paz de reJargilir, de contestar, com superioridade, aquilo
. . • . 11
se um novo mmls tCT"1o. J\ las ficou un,a expec lativa an :'IOS3, que de apresentava como argumentos, no sentido de que o can-
por parte de toda :l. gente, quanto ao desdobramento daqueles didato não pod ia tomar posse se nilo tinha uma maio ria absolu -
acontecimentos, porque vinha a eleição para a presidência da ta de votos. No segundo, a coisa desviou um pouco. Ivlostrando
República em seguida, e, com Café Filho, a oposição pratica- que ele estava defendendo interesses contrários ao interesse na-
mente tinha assumido O poder. Os próceres d a conspiração cional, cheguei à defesa d a P etrobrás. Aí ele exasperou-se,
contra G etúlio tinham ocupado o governo. Recordo-me que se começou a me acusar d e comun.ista, mas os próprios militares
noticiou nessa época um vetO dos milita.r es à candidatura de que estavam presentes, gue o apoiavam, etam a favor da
Juscelino Kubitschek . Ele n ão admitiu O vetO e concorreu :1S Petrobrás. Esse era um p OntO fraco para ele naquela platéia,
eleições. porque os militares são nacionalistas. Co m ecei a ganhar O deba-
te, e de percebeu, com seu tino e acuidade, com um grand e
Foi nesse contexto que foi cn'ada, em ogOltO de 1955, o Liga de
treino naquele gênero de di scussão, que estava ficando em infe-
D eJúo do Legalidade, de que o lenhor foi um dOl f undadorel.
· Éramos eu, Vltor . Nunes LeaJ a e Sobral Pinto. A rioridade. Um irmão mcu, Haroldo, estava sentado na primeira
S1m.
fila, fez um gesto qualqu er, e ele entào aproveitou a oportunida-
Liga eta, na realidade, três mosqueteiros.,. Havia amigos, simpa-
de pata dizer : ''Ele está fazendo um gesto obsceno, imoral!"
tizantes que apareciam, conversavam conosco, debatiam , mas
Não era verdade, m as quando ele sentiu q ue estava em desvan-
,/ quem atuava mesmo éramos nós três. Quando Juscelino foi elei-
tagem, criou o incidente. O debate terminou ali, não prosseguiu,
to, defendemos sua posse, contra o golpe. Participei ativamente
porque aquele tem a não o favorecia. Só d epois é que eu fiz a
desse movimento e tive dois debates com Carlos Lacerda na
avaliação da astúcia com que ele agiu na ho ra. Na saída, incJusi-
TV T upi, ele defendendo a necessidade de impedir a posse, e eu
ve, eu tive a advertência d e que devia sair sem parar o carro,
defendendo o contrágo, que a p osse tinha que ser dad a, que
Juscelino estava d eito. porque podiam as paixões políticas ocasionar algum incidente
de natureza pessoaJ, possivelmente uma agressão.
Como foi enfrentar Lacerda? Todo mundo morn'a de medo dele
pn'ncipalmente na televiJão, que era um veículo ,/Ovo, com queek A Liga de Dejela da Legalidade /e lle alguma partictpação no
labia lidar lJIuito bem. movimento do /1 de nO/Jembro ?"
E le sabia, sim, com extrema com petência. 1>.1as eu tam- Não. Nós estivemos d epois com o marechal Lott, que
bém não era um neó fito, a minha vida toda foi faJar em p úblico, nos COntou todo o episódio, disse que era preciso manter a lega-
lid ade e a Constituição, e que essa tinha sido a razão do seu
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o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS

~~Sto. E le nos cantou também gue quando o presidente Café CARLOS L AC ERO,'
hlho pretendeu reassumir, recom endou que não houvesse vio-
j,\Ta jJll'wtllde o Sei/bo I' era milito próximo de Carlos LAcerda.
lência, ma , cercou a casa• do Café para . . Io Ir
. , n ,ão d el):a- . p~U3 O
ACiJbtl/lJOs dr saber que ele estreolf C01ll o smbor 110 j'(Ji. Quando
Caleje. BOlOl! tanques cm torno, não permitiu 'lll t! o automó vel
COllleçOIl o distanc/iJlIl/'llto?
sílísse. Contou tam bém que teve uma co nversa com Café e
Quando o Carlos rompeu com o s com UJl1 ::,tas, de,
mostrou 'lU!.': ele niio d evia reassumir porqu e tinha ti do a'luele
'1ue freqüentava muito a minha caS:l, deixou de f:l~t:- l0, po rguc
problema cardíaco e 'lualquer es forço podia ser p rej udicial :l sua
da mmbém era frcqüentada por um seu ex-companhei ro de
própria s:1údc. Usou uma exprcssiio q ue, na época, l: U não sabia
idéias c de p:Jrtido, gue era o meu cllnhado Va léria Konder,
o que e~: " O senhor saiu de uma soca, de maneira (Iue es tá meio
irmão da mjnha mu lhcr. Era d ifícil eu fazer uma o p ção pelo
tOnto amda, não d eve voltar." Sa bem o q ue é? É o su jeito ser
Carlos co n lra o Valério, q ue também era uma g rande figura,
embrulhado num a o nda ...
inteligente, b rilhante, c.xpan sivo. Q uando o Carlos e ele rompe-
T ivemos também uma entrevista com o presidente ram, isso n os afastou, m as não h ouve nenhum rompimento de
Nereu Ramos. Reco rdo-me que ele mostro u a delicadeza d a caráter pessoal. Tanto '1ue, eu já disse isso a'l uj , n o dia do depÓ-
s~tuação em que estava o p aís e di sse que aqu ela cad eira de pre- imemo del e no processo do Samuel \'Vainer, nó s ainda conver-
SId ente da Rep úb lica - recordo d a imagem d e q ue se utilizou sam os, antes do depoimento. Não ónham os ro mpido relações,
- d evia ter p regos, porque assim ninguém q ueria fic ar nela. deixado de nos cum p rimentar. l sso n ão existiu. O afastam ento
I?iss e que estava procurando m anter a legalid ade co nsti tucional. se d eu de m aneira ostensiva q uando eu fui para o governo João
E realmente, teve uma p osição, na hora, de m ui ta fi rmeza. Tan- Goula rr, e ele era governad o r d o estado da Guanabara. I sso
to que se d estaco u com o um politico d e projeção nacio n al na nos afastou totalmente, quer dizer, não o vi m ais, não tive mais
ép oca, respeitad o e atua ndo com serenidad e e energia. nenhum enContrO com ele depois disso.

A/ém dessas entrevistas com utt


e l'lereu Ramos, o que aLga Que pe,fii o senhor traça de C arios ulcerda ?
Jeij
em tenlJQs concretos nesse momento? Lacerda foi uma d as criaturas j)1ais r.'lIentosas q ue
Em todas as atitudes, ou gestos, ou manifestações con- conheci em toda a minha vid a. E u o conheci em 1930, no Diádo
tra a po~se, a Liga se punha ao lado da defesa da legaJjdade. de Notíáas. D ois anos depois ele entrou na Faculdade de D ireito,
Sobral PU1to era m uito atuante, d ava entrevistas praticamente e no Clube da Refo rma, de que já falei, tivemos u ma aproxi m a-
tO~os o~ d ias nos jornais, defendendo a p osse do presidente ção muito gran de. Ele cinha uma capacidade de produzir extra-
eleito. Vltor Nunes também, e eu os seguja. A üga da Legalid a- ordinária. Edi tava, po r exem p lo, a revista ,Rmno, em nome da
de era um foco de resistência ao golpe. Um tanto sem força, Casa do Estudante do B rasil, praticamente sozinho. Ro mpeu
mas a .sua p resença tesultava mmla constante vigilância contra as com a Casa do Estudante e a revista passou a ser feita no escri-
tentatlva,s de nltura do sistema constitucional. Era essa a princi- tório '1ue eu cinha monrndo em 1933. Era lá gue ele atendia as
pal fun ção da Liga. pessoas em relação à revi sta, os distribuidores e colaboradores.
Essa revista tinha um nítido sen tido politico, um sentido d e

298 299
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS ..... NOS P Ol..ell.lICOS

esquerda. Combatia muito o imegralismo, defendia:Is posições vida extra-uterina. t\ criança podia tet' nascido morta. Havia uma
socialistas... O Carlos, nesse tempo, tinha uma po ~ ição t:adical de °
dúvida, pelo m enos, e júri nii.o iria conden ar aquela pobre
esquerda. Logo em seguida, ele estreou comigo no júri, em 1934. n1U IIl eI' p O • esc
L
' '3Z'-0 \-"~ ao m eSJll0 t e ll11)O luvi :. o motivo
,.~ .. •

SOCIa l, Jr:'lmárico, de uma mulhe r que já rj nha fIlhos, empregada


o .fmhor o convidou? dom":: stica, mai s um filho indesej ado, que ela nào tinha co mo
Sim. Era um ca so de infnnticfdio. Chama va -se susten tar. O promotor que funci o nou na época, uma g rande
C:1storina Ramos Tei....eira, a ré. Era acusada de te r moera o filho fi brura, chamado Carlos Su ssckind oe 1\fcndo nça, ~edjll a :lbs~l­
no momentO do pano, no banheiro da casa da pnroa. Era vição pelo 1110ti,'0 social. J\hs nós não queríamos ISSO, p~ r~ nao
advogada clda a Maria \X'emeck de Cas tro, lS que nunca tinha ficar a mancha Jc que ela tinha cometido o crime. l nSlstlmos
feito júri, tinha um certO temor, e então me pediu para assumir o muito na parte técnica, na ausência de prova de vida extra-
caso. Tratava- se de ré pobre, de maneira que ela tinha sido no- uterina, e o júri nos deu ganho de causa. Carlos fez uma defesa
meada para defender, como nós fomos nomeados em seu lu- primorosa. ] sso foi em 1934, eu tinha 22, ele tinha 20 anos.
gar, sem remuneração de espécie alguma. NaqueJa época ainda Em 35, su focada a rebelião comunista aqui, nós pro-
não havia o defensor público, era o defensor dativo, nomeado curamos encontrar um lugar seguro onde o Carlos pudesse
pejo juiz. No fim do mês, o juiz via os réus pobres 'para o mês ficar, porque ele estava muito em evidência, já que havia lido
seguinte, chamava os advogados que funcionavam no júri, e to- o manifesto de Prestes na Aliança Nacional Libertadora . Re-
dos tinham que fazer um sacrifício: "Você defende o réu tal, cordo-me que éramos três: Chagas Freitas, Adalberto João
você tal outro etc." Todos os advogados faziam isso , e no fim , Pinheiro e eu. Nós o colocamos num táxi e ficamos â procura
em geral, o juiz agrad ecia a prestação do serviço gratuito. Quan- de um local onde ele pudesse ficar preservado de qualquer vio-
do era moço, de vez em CJuando, eu era a vítima ... lência ou de prisão. A primeira casa em que fomos foi a do pai
Nesse caso, por e xemplo, da Castorina, eu e o Carlos do Chagas Freitas. Mas lá, o desembargador Ribeiro de Freitas,
fomos fazer a defesa e vimos imediatamente que havia um de- pai do Chagas, não concordou. Então fomos para a casa do dr.
feito muito sério no processo, que era a questão da
prova de a Paulo Pinheiro, pai do Adalberto e filho de João Pinheiro, que
criança ter nascido viva. O perito que examinou a vitima fez a foi governador de Minas duas vezes. " Quand o Joao
- P'h '
ln eu:o

prova clássica, a da docimásia hidrostática, pulmonar, que é fazer era governador, ia ser o presidente da República, porque, d.e
um corte no pulmão e colocar numa cuba d'água : se boiar, é acordo com aquela politica do café com leite, era a vez de ?vh -
sinal de que viveu, porque respirou, se não boiar, é sinal de que nas. Mas ele adoeceu gravemente e morreu. P aulo Pinheiro, ir-
não viveu. Mas essa prova é precarissima, é muito falha. Então, mão do Israel Pinheiro e do João P inheiro Filho, havia sido de-
nós fizemos um estudo - o Carlos foi para a biblioteca do avô p\ltado federal antes da vitória da R evolução de 30, fazendo
lá em Comércio, hoje Sebastião Lacerda,16 eu também fui, pu- pane de uma Concentração Conservadora, que tinha como
semos abaixo todas as medicinas legais do mundo, desde a pri- prócer um político chamado Carvalho Brito. Eles represen-
meira, de um autor it.aliano chamado Orfua 17 _ para provar tavam. exatamente os políticos que se opunham ao governo
que aquele laudo era imprestávd p~ra afi rmar que tinha havido g~ !,-1inas, que estava engajado no movimento revolucionário

300 30 1
ANOS PO L~MICOS

de gue resultou a subida de Cctúlio Varg<lS ao poder. Paulo


P inheiro era urna figur:J. interessante. QU:lndo f<llamos COm ele d ~'e'·to um excelente orador. Essa foi a primei ra vez que ~le
ewr , .'li U rua
sobre o problema d o C:II'lo s, ele disse: "Não tenh:IlTI dú vid<l. Se esteve em eXIlO. ..\. . D e pois ho uve um segund ' o ex! o . . m. d ,
n)cu p<li fo sse vivo, nilo negaria as ilo a ninguém. Alanda o meni- em 37 vIeram. as can d Ie , .il \)rc
· \a tur:lS . s i~ênCla da Rep ublIca
. _e
no enrrar. " E ficou corn o Carlos );í uma tc 'npor:lda . Depois O Armando ' · e d e joc;éAméricodeA.lmelda
de Sa\cs 0\·l\'f;:lra ~ . ._. I:..le
Carlos mudou -se p;lr;l a ca<:a de un s parentes, cm Ipanerna, e . . com um g l.upo de estudantes
saIu . p elo interior, pelo
' n o Sao.
de poi s O irmão dele, o .\I ;lurieinho, arranjou um português gue J:: -,' sco fazendo C<lmp;lnha cm [:I\.ur da c:lllcl1datura Jose
rane ,( d E do
fa%ia contrabando d e café nUBla bat'.lIinha, p,lra lcvá-Io par:J fora .Améri co. Quando es tava n:1 Bah.ia, foi p~ocla ~ a o o ~ta
do Ri o ... N ovo, (Iue supnmIU . . ro(.\as as liberdades . . Ele fOI preso e n:cam-
biado pata o Rio.
Contrabando de café 11I1111a baratinha ?!
r' Como eu soube disso? Certo dia, o grande advogado
A baratinha era um carro gue só tinha a parte da frem e Mário Bulhões Pedreira m e deu um telefonema. Ele estava
e uma mala g rande atrás, O cidadão conseguiu aumentar a mala ,numa luta muito grande para derrubar da chefia da Ordem Po-
e colocava aJj sacos de café, para passar na barreira rodoviária lítica e Social um inspetor chamado Emilio Romano, que. era
entre o s est.1do s.,. A policia viglava todos os carros naguele tem-
conSI·d era d O n brutatnontes
U I , um torturador etc. U m seu chen- .
po, havia uma fiscalização muito grande; você não passava numa te um turco de sobrenome Hi.rgué, fora acusado d e te~ p~tlca-
barreira sem gue ab rissem a mala para ver o gue tinha dentro. do, aros irregulares, de corrupçao,
- n o Instituto BraslJelfo do
Era um regime ditatorial eferi ,'o e perseguidor. Mas esse pornl-
.Cafe,. por causa UlSSO
"' e stava preso 'e.ele estava
. lutando para
.
guês tinha um arreglo com a p o licia e passava nagucla barreira
mostrar que o ]-ii rgu ê n5.o
. tinha comendo cnme algum, e sim I
todos os dia s sem problem a. Botou o Carlos na mala do carro,
tinha sido vítima de uma extorsão desse Romano. Ele me te e-
passo u a barreira, o Carlos saiu da mala e foi para o sítio do avô
fano u e Ulsse.
..1: . " Olha , vou te dar duas noticias. Uma boa, -
em Comércio. Lá ele ficou, e várias vezes eu o visitei. Eu ia,
, demorava alguns dias e voltava.
consegui hoje a demissão do E nlllio Romano - , e ~utra ma -
/ esta. preso na D e \egacla. de Ordem Política . e SOCial
. O nosso A

A polícia "ão de.Icotifiava que ele pude.r.re n/ar lá? amigo Carlos Lacerda, que veio da Bahia e pedIU para voc~
Podia desconfiar, mas ai também já tinha amortecido tomar a \guma provI·dAe ncia em favor dele." Afinal O Carlos fOI
~, - de não ficar no Rio de Janeiro, de ficar
solto, com a cooUJçao
ague/e impeto inicial de p erseguição, a caça às bruxa s. Ninguém
estava procurando especialmente o Carlos. Ele não era uma fi. em Comércio. Foi um segundo exílio.
.<
gura de direção. Os mai s importantes, naguela época, passaram
a ser os dirigentes do Partido Comunista ou aqueles que tinham Foi o senhor que conseguiu a soltllra dele? .
lutado de armas na m ão. Talvez se tenha reconhecido que e/e
n ão tinha uma posição de comando na Aliança Nacional
=
N - E fui à delegacia também, mas a soltura fOI
U ~
..resultado de várias gestões. O fato ê Cjue ele foi ~o s to .em . er~
Libertadora. E le ser viu como leitor do manjfesto do Prestes dade, foi pata Com ércio, e eu rambém p assei a Ir mU1t~ la. FOI
porque era wn jovem talentoso, brilhante, jornalista e estudante ai, em Comércio, gue o Carlos se abasteceu de c~nhec~ entos
para f azer essa b rilhante vida polírica gue depOIS tealizo u. A
302
303
o SA L Ã O DOS PA SS OS PERDIDO S ANOS I>Ql..eM I COS

biblioteca do 3VO, do velho Seba stião, que foi mini stro do Su- Nessa época estáv" mos freqi.ientem ente juntOS, próximos um
premo Tribunal Federal , enl exce lente. E e le lia , lia co mpuJsiva- do Outro. Ele fo i secretá rio do Q bsrrmdor Económico e Fillollíl'iro,
mente, tudo qu e lhe batesse às mãos. Com :l.quc le l:tle nto, com que c ra uma re vista do Valentim Bouças . Le mbro q\.l C em 1938,
aquda m emória, com aquela capaódade d e digtrir os aSSuntOs quando saiu a Lei d e Economia Po pula r, ele m e p ediu pa ra es-
que li :l., ele fo rmou uma cultura, não digo li vr esca, mas haurida c rever U111 artigo p ara O ObJert'Odor, c escrevi. Fo i no ü bJl'r/'fldor
dos li vros, panorâmica, a respe itO de rudo quanto se pudesse quc saiu a famos;1 reponagern qu e ele escreveu sobre a história
imaginar. A biblioreca do velho Se basti ão tinha livros desele fIlo- do Paxtido Comunista,• em q ue os comunIstas . d
O acusam e ler:
sofia, literatura, dire ito, o qu e você quisesse. Eu ainela hoje tenho dado indicações que terb.m ocasio nado pri sões etc. T enho essa
livros dessa biblioteca, dados por Carlos Lacerda. Sobretudo rev;sul at.é hoje, e absolutame nte, os comunista s não têm a me-
livros de direitO penal antigos. O Cogliolo, o Carrara, os livros nor razão. A história d essa reportagem, que ele me contOu, ê a
do Ferri, Sighele, todos os livros de direito penal antigos que seguinte: a revista queri3 publicar, não sei se por interesse gover-
você puder imaginar, Carlos Lacerda me deu, da biblioteca do namental ou do dono da revista, essa reportagem, e a encomen -
velho Sebastiào Lacerda. Tenho por exemplo as defesas de dou a uma embaixadora, Odete de Carvalho e Sousa, que era
19 "
Berryer. São quatro volumes. Em algum depoimento _ eu uma campeã do anticomunismo na época. Ela fez uma reporta-
era miniStrO do Supremo T ribunal Federal quando isso aCOnte- gem terrível, me disse ele. Primeiro, não muito fidedigna, nem
ceu - ele disse que um miniStro tinha ficad o com as defesas do muitO certa; em segundo lugar, odiema, muito panfletária.
Berryer dele e não tinha devolvido. Não era bem exato isso, Quem tinha a direção executiva da revista era o Olímpia Gui-
porque ele já tinha lido aqueles quatro volumes e tinha me dado, lherme, que mostrou a reportagem ao Carlos. Ele leu, fez críti-
dizendo: "Olha, isso para você, que é advogado criminalista, é cas e prometeu ao Olímpio Guilherme que faria aguela história
muito mais importante do que para mim. Estou lendo o último do Partido Comunista melhor, mais correta, do ponto de vista
volume, e quando acabar, te dou." E você vê nos livros que ele histórico. De fato, ele fez essa reportagem. Continuo achando
marca\'a do lado, cüscutia com os autores. Tenho, por exemplo, que não havia na reporragemyada daquilo que os comunistas
dele, um livro chamado Relour de I'URSS, do Gide, que foi o lhe atribuíram.
primeiro pronunciamento de um intelectual contra o stalinismo Mais adiante o Carlos foi ser secretário do O jornal, o
e causou impactO na época em que foi publicado na França, uns . ' "
órgão líder dos Diários Associados, e me convidou para fazer
dez, 12 anos depois da implantação do comunismo na Rússia.2(I uma crônica na seção judiciária, que eu assinava com o pseudô-
Gide, que era um intelectual comunista, reclamou muito e so- nimo de Lobão. Portanto, tivemos urna aproximação muito
freu ataques de todos os lados, sobretudo das forças de esquer- ~de no curso da vida. Ele se casou. eu casei também, e tive-
da, wn patrulhamento terrível. Quando oRelollrsaiu publicado, ':~os relações amistosas, cordiais. Posso dizer mesmo que minha
o Carlos leu e me emprestou, me deu. Nas margens, inteirinhas, ~jzade com ele foi ulTIa amizade fraternal, durante um largo
ele responde - na época, ele era comunista -ao Gide. pedodo. Depois que ele morreu, recebi um livro de sua autoria,
, n
Afinal, o Carlos ficou essa outra temporada em Co- em encadernação de luxo, chamado A caJa do meu avó, que me
mércio, em 1937, até voltar e começar a trabalhar em jornal. foi enviado com uma carta amável do filho, Sérgio Lacerda, que

305
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS

ministro do Supremo T ribunaJ, em 63, invoquei essa decis30 do


eu conheci quando nasceu. Respondi numa longa carta, con~ Supremo, em qLle eu tinha funcionado com o advogado, para
tando hi stórias do pai que ele não conhecia. Dai por diante, o justificar a concessão de um babMs-cO/pHsa dirigentes si ndicais.
Sérgio se torno u muito meu amigo, c até hoje sou ;"\migo do
Ollt"ro fuho, Seb astião. A C ristina, que, <"luanc1o nasceu, já tinha Por que a OAB o illdico,,?
havido o rompimento, de maneira c]ue e u não conheci, hoje Pela notoriedade corno advogado em matéria de cri~
é m inh a querida amiga . Reencontrei também a viúva, L eúcia, mes politicas. Agora me lembro que rambém havia uma relação
que no nosso tempo tinha o apelido de Ziloc;"\, e então flzemos de naturez.i1. p essoal: L uísr.fendcs de 110r3olS Neto e ra filho de
uma aproximação, nos tornamos muito amlgos, depoi~ da um gril.nde advogado, Justo de 110r;"\ls. Era irm.ão da 11aria
mOrte do Carlos. D e maneir:l clue houve uma paz póstulll:l, \Xlerneck de Castro, e eu ünha boas relações pcs~oais com d e.
wna reconciliação.. Eu sabia que ele tinha Wlla posição politica reacionária, mas não
que chegasse ao ponto de estar conspicando para a dermbada
o DEVER DO ADVOGADO do governo, d e armas, ou m elhor, de caneta n a mão ... D e ma~
Vamos voltar a 1955, 56. E m janeiro de 56, jinalmente, Jusceli- neira que essa foi a razão: cumpri o dever, segui aquilo que R ui
no tomou pOJJe, fllOS logo 110 mês seguinte houve a rebeliào de dizia, que a defesa é impessoal. Tv1inha petição não tinha nenhum
"
Jacareacanga. O senbor, que vinha da Liga da Legalidade, te- comprometimento politico, nenhum en volvim en to meu, pes-
meu pela democracia nesse momento? soal, era 1l1teiramente técnica. O problema era uma questão d e
Não, acho que não houve esse risco, porque essa rebeJ~ competência para julgar o caso. Eu achava que a Justiça :Militar
dia ficou muito li.rnitada a um grupo diminuto de oficiais da não era competente, que competente seria ajustiça comum.
Aeronáutica . T anto que, rapidamente, se debelou esse movi- Não defendi a questão politica. Isso é preciso ficar b em nitido.
mento. Não tomei p artido político, não me envolvi politicamente.
Jacques I sorni, grande advogado fran cês, lembra que
Já no apagar das luzes do governo JK, em 1959, houve o caso de sempre que o advogado defende um processo politico, todo
Aragarças, el?! que o senhor teve um envolvimento projiJJional, .P'Jr- mundo acha que ele está envolvido na atividade do cliente, que a
que foi adt-'ogado de UÍJ M endes de Morais Neto, que foi o redator sua p resença não é só uma manifeSL"lção de solidariedade com o
"
do manifesto dos rebeldes. Como é que o senhor, definsor da lega- cliente, mas também com as idéias do cliente, quando isso nào é
lidade, foi difender exatamente uma peuoa que estava indo contra exato. D efendi , por exemplo, integralistas, e era contrário aos
a legalidade, querendo derrubar um governo legalmente eleito? ~tegralistas. Na guerra, defendi processos de espionagem . Não
Ai foi a Ordem dos Advogados. Luís Mendes de significava, de maneira alguma, qualquer solidariedade ideológi-
Morais Neto era advogado militante, conselheiro da Ordem, e ca ou política com a condura desses clientes.
os membros da O rdem me designaram para faze r um habeas-
corpus em seu favor. E eu fiz. p rofissionalmente, defendendo fIouve patrulhamento em relação a eJJa sua dife.ra?
uma posição que me parecia correta, aJegando a incompetência Fui um homem muito patrulhado... i\f as nesse caso
da Justiça 1v1il.itar como fundamento do habeas-corpus, que o Su- nào senti, absolutatTlente, nenhum patrulhamento. Pode ser que
premo concedeu. E lembro que, mais adiante, quando eu era
307
306
o SALÃO DOS PASS O S I'ERDIDOS
ANOS PO L ~ Mr cos

tivesse havido estranheza de algu m as pessoas, j:i q ue eu ti nha, Lup ion era governad o r do Paran á. Q ua"d o se criou a
recentemente, defendido processos que ma rchavam numa ou · Petrobrás, rodos os estados, municípios, entidades pllb]jcas
tr:llinha politica. 1\ las cm geral todos compreendcml11 per feita. subscreveram açôes da empresa . O estado do Paran:i possuf:1.
mente a minha posição. E ti minha po~içilo foi nitidamente tecni· açõcs da Perrobôs c recebia rlividenclos do ... lucros (Iue essas
ca, foi a posiç5.o do advog:ldo, do defensor d:llei, do defensor ;lÇÕCS geravam. Lupion, como governad o r, deu procuraç:lo a
da legalichde. A 1cgalicbdc n:1O permitia que o reu fosse proces·
um cidadão chamado Libino P:lchcco panl receber os chvidell.
sado n:lquelas condições. D e mancir:t clue eu concinu:"l\'a fiel mm·
dos. Esse p rocurador recebeu e, ao invés de depositar lU cont:l
bém :lOS princípios com q ue participava da Liga <"la J...egalidadc.
do estado do Para n:'i, depO~lto L1 na conta do dr. .Moisés Lupion.
Q uando houve a denúncia desse fato à Assembléia, imediata-
l'Je.rsa época o senbor atfloll em OlltroS casos qlle também p odem ser
considerados polémitos nesse smlzdo. O senhor foi advogado de Ademar m ente esse procu rado r su rgi u, declaro u que tinh a havi d o um
16 equivoco e tomar am -se p rovidencias para tran sferir o dinheiro
de Barros, que era acusado de wllder um avião de ma propn"edade
ao tVlimslén·o da Saúde, e do ministro da Saúde A1ário Pinotti,17 que de uma conta para a outra. O d r. L upion alegava que n ão tinha
anteriormente h·"ha sido presidente da LBA I' era aCIIsado de pagar absol utamente noticia daquilo, q ue o responsável era o procura-
comissões aos institutos de previdélltia, para obter percentuaú que do r, nào de, e que o estado n ão tinha tido prejuízo, porque,
esses il1Stitutos &viam à L BA. Como.fOi essa deftsa? im ediatam ente, o p róprio procurado r tinh a providenciado o
A acusaçào era essa: fo i vendido um avião ao Ministê· reto rno do dinheiro.
rio da Saude, e teria sido uma vend a sem licitação, um negócio
inteira m e nte irregu lar. H av ia ta mbém , ne sse negócio, o M as ponte que esses dividendos fora", depositados 110 conta parli-
envolvimen to d e uma senhora q ue teria ligações com o d r. cular de uipioll, reglllarfllCllte, de 1957 até 1960. Era tlm POflCO
Ademar de Barros. Mas eu teria que examinar esse m aterial todo difieil L Npion não perreber que l1a conla dele bot!ia esse dinheiro...
p ara relembrar, exatamente, o que se passou. E u me recordo E ra essa, exatamente, a acusação. E le alegava que des-
que fiz uma d efesa, uma sustentação oral em favor do dr. Mário conhecia, mas a acu sação dizia q ue não, que ele não podia det.xar
Pinotti, d e c u jo julgam ento p artici pou O então representa nte e de conhecer, porque em um faro que tinha se repetido várias
p residente d a OAB, d r. P rado KeUy, mais tard e meu colega vezes, e era inverossím il que ele não soubesse. lrl'lpetrei um
co mo ministro do Supremo Tribunal Federal. E sse processo babeas-corpl/s ao Sup remo T rib unal Federal que fo i denegado, por
demorou muito, mas acabou não tendo conseqüências mais gra- m aioria de VOtos. Logo em seguid a d eixei a cau sa, porque fui
ves. Fiz essa defesa, com o sempre disse, como advogado, pro- par:!. o governo, fui ser p rocurador-geral da República, e nào
fissionaLnente, reclamando gar:lOtias legais, me parecendo que acomp anhei m~üs O caso. Não sei, de pois, como terminou O
não havia O p rejuizo argüido. processo. Mas tenho a impressão de que ele n ão chegou a ser
preso. O professor Laene Munhoz, g rande p rofessor de direito
E o caso Lnpio,,? Moisés LupiOl1 " era o Slíllbolo maxilllO da p enal, fo i meu com panheiro d e defesa no p ro cesso do Lup ion.
roubalheira, da cormpçelo. Um pouco ti idéia qlle a gente ' ' 11 hOJe D eve ter contin uado quando eu saL
de PC Farias.
308 309
o SA LÃO DOS PASSOS PERDIDO S A NOS 1' 0\...1::.1'1 ' Lv,,"

o unóor sofreu olgllllla cellSura por estar dife"dendo "''' gOl'erI1O- de SCf um dclinqi.iente. O direito da pessoa humana supera rudo,
rlor tido cormpto?
COIl!O cu acho. Além disso, eu, como advogado, não estou sendo o juiz
Sim, sofn, da'},ucle grupo da U DN, 1.lUC era chalnado da C1.usa, não estou fazend() um ju lgamo.:nto, C,>tOll palrOCülanc\o
de Banda de i\ lú:-.ic:t. J\ leu :1migo Adauto Lúcio Cardoso um intcresse. E no patrocínio des~e inleresse,de"dc que a minha
chegou:1 comcnrar, depoIs, que eu nao podi:\ ser p rocunldor- conduta sej3 ex:ua, correta, leg:li, decente, limp:l, eh tetn que ser
ger:11 eh RepóbljC:l, porque c:-.ta\'a defendendo os beirões da entendida t: respe'ta c.b. Eu não vou pleitea r um absu rdo. Ach<)
República . Chegou a fazc!:" esse comentário na Câma r:l, di sse mesmo que o 3.dvog.tdo tem que comp reender qu e não podc
i~<;o publicamente. RC:-'f.x)I1dl apenas com uma rrase: que ele tam- pleitea r nqu!lo que é desarrazoado, que ê um c!e<;prOIX)sito, que é
bém cm um advogado vitorioso, não havia raziio para d espeito, um dispar:'te, porque ele não obtéJ1l êxito. E le precisa exala·
pelo fato de eu ser nomeado p rocurador-geraL. T rabal har mente saber o li mlr.e, o máxú110 que pode obter em favor do
naquela defesa não m odificou, absolutamente, minh a manei ra seu constituinte, de acordo com as regras legais, morais, éticas.
de p roceder com honestidade, com rigor, com d ecência. E ra O ad vogado tem q ue ter uma postura absoluta m ente
trabalho p rofissional. O médico nào deixa de atende r a un1 cli - correta e decen te diante da \id a. Ele nào é. repito, solidário com
ente porque ele está com uma doença grave, o u um a doença °
o crime, ele é solidário, m uitas vezes, com a dor, com sofri·
contagiosa. No caso do advogado, eu já di sse aqui, a virtude é o mento do cliente. E os limites d a sua atuação são estab elecidos
equilíbrio, é saber se comportar diante do caSO, de maneira q ue na lei e também no equilibrio com que ele deve desempenhar a
a sua ação não seja uma solidariedade à ação porventura ir regu- sua fu~ção. E le não deve ser um trapacei ro a. enganar, a iludir,
lar ou criminosa que o cliente tenha praticado, mas sim ao clien- um m ágico. Não. Ele hã de ser uma pessoa que tenb a uma con-
te. É uma assistênci a q ue se dá a alguém, num m omentO de duta correta. Seu conceito tamb ém ê muito importante. Sempre
aflição, de angústia, de sofrimento. A presença do advogado digo aos jovens advogados: seja honesto, como disse um itaJja·
é muito importante, nessa hora. Isso não significa, de manei ra no an tigo, nem que seja por velh acaria. Po r que eu sou respeita-
alguma, que ele esteja solidário com o crime que p o rventur a do? Po r que p ude se r ministro do Supremo Trib u nal Federal,
esse alguém tenha cometido. tendo feito tod as essas defesas? Porque me comp ortei, em to-
das elas, com absoluta decência e correção. Não perdi minha
Mas parece difícil .reparar essas coisas, desvil1CJ1la,. o alo que o reli reputação ilibada, de que fala a Constituição, pelo fato de ter
praticou e os direitos que ele tem, e que dWflll ser difel1didos. feito essas defe~as. Todo mundo compreendeu exatameme isto,
Mas ele tem muitos direitos. A repercussão do caso e ê isto que a gente deve ensinar aos estud antes: que eles não
muitas \·ezes transforma ii repressão numa perseguição. Jã ai p odem, de maneira alguma, negar a evid ência. O fato é um só,
não se quer que ele tenha as garantias legais, prazos para se de- as versões ê que podem ser diferentes, e aí entra o advogado.
fender. Todo mll11do acha que, para se obte r provas contra ele. Solidário com o cliente nas suas dores e aflições, jamais solidário
pode-se praticar todos o s atas condenávei". por exemplo, a tor- com o crime con"'\etido pejo cl iente, para o qual tem o di reito e
tura. Todo mundo acha que o sujeiro pode ser submetido a o dever de reclamar as garantias legais.
vexames. Não. Tem que ser respeitada a criatura humana, apesar

310
3"
AN OS I'OL~ M I COS
o SAI..ÃO I>OS PASSOS P E ROIOOS

atividades_ Com a extmção do ESlado Novo cm 1945, \'Çainer, que esm\'a


NOT.\S nos Est:tdns Unldo~, voltou ao Brasli e reabnu Dlnln~J. Em 1947, o
jornal passou para o controle de João Albeno, t' \X'aincr foi cnmr!uado
Em abril dc 1953, por prnpo<ta Jo deput:tdo PCSSCdISt.l Aml.melo") por Chateaubnand pan\ trabalhar nos Diá nos Asso(i.l(lo~. Ver DHBB,
F.llcão, instalou-se na C·un:lr.l do~ O"'putados lima CPI IXlr:l investigou' op. cit.
os empréstimos que o Banco (lo I3 r:l< l1, cntOio presichdu pelo Jndu ~tn:t l
pau uq:l RiC:lrdo J:lfct, h:wia cOllc<.:did o:lo jornalist:1 Samuel \\'amcr para , ,\1Í1lba raztio dr lú-tr, 01'. CH.

a fundação do jornal Últill/a I-IQI<', que apoiava o governo di: Gcnilio Tancredo de AlmeJda Neves (1910- 1985) iniciou sua GHrei ra políTica
V:lrgas. Lt:\":lnrando a ' luanu;1 dI! 30 mIlhões de cruzeit·,)<, através <~e fi - em 1935, como ve reador cm Silo João dei Rei, i\ lin:ls Gcrai~, ~ua terra
nanciamentos p~rucutlres oferecidos pelo próprio J:lf<:l, pelo banqucJf() n;,'al. Com a organização pan.i&íria ocorrida em I 1)4'), mgres~ou no PSD
V:tlter '\[oreira S:lles, SUpcrHucndemc da Superimendência da "Iocd:t e de "- linas Gerais c ~c: elegcu deputado estadual em 1947, c deputado fe -
Crédito (Sumoc), c por Eu\'aldo Lo<.!J, indusuülminciro e presideme da deral em 1950. :'i!o .âmbi to de uma reforma ministerial promo\-Ida por
Confederaç ão NaCIonal da Indústria (CNI), Samuel \X'ainer havia adqui- Getúlio Va rgas em junho de 1953, foi nomeado ministro da Justiça,
rido, de Horác io de Carvalho Júnior, o prédio onde funCionavam o jor- cargo que oçupou até o suicídio de Vargas, em 24 d e agosto de 1954 _ Foi
nal Ditíria Cariou1 e a gráfica Éric a, assumindo ainda li dívida de 22 conselheiro político do presidente Kubitsehek (1956-6 1), ocupou c:trgos
milhões que a empresa tinha junto ã Caixa Econômica Federal e ao Ba nco na dire toria de bancos o fi cirus, como o Banco d o Brasil e o Banco Na-
do Brasil. D e posse dessas instalações, \'V'ainer o bteve um empréstimo cional de D esenvolvimento Econômico (BND E), e, no gove rno parla-
d e 26 milhões de cruzeiros jun to ao Banco do Bra ~il para obras de ampli- m entarista de João Goulart, foi primeiro-mi nistro de 8 de setembro de
ação e complementação do equipamento g ráfico_ A edição inicial da Ulti- 196 1 até 6 de junho de 1962. De volta ao Congresso Nacional em 1963,
ma HQro circulou no dia 1" de junho de 1951 , e, cm março seguinte, o exerceu o mandato de deputado federal até 1979, quando foi eleito sena-
jornal foi lançado em São P aulo, financiado pelo conde F rancisco dor por !l.1.inas G erais. Com a instalação do bipartidarismo a partir de
Matlrazzo. PreSIdida pelo deputado Carlos Castilho Cabral, do PSP, a 1966, foi um dos organizadores do Movimento D emocrático Nacional
CPI da Última Hora COntOU com os depulados Alioma r Baleei ro e Gui- (MDB), e m cuja legenda foi eleito go'\"c rnador de J\-Unas em 1982. Eleito
lherme Machado, da UD N, Ulisses Guim:u-ães, do PSD, e FrOla Aguiar, presidente da Republica na última elcição indireta que o p aís te\-e, por
do PTB. E m 19 de julho dc 1953, no depoimento prestado na CPI, motivo de doença não pôde tomar posse em 15 d e março de 1985, vindo
intitulado "-Livro branco da imprensa ama rela", \X?ainer recusou-se a re- a falecer no dia 21 de a bril. Ver DHBB, o p. cito
velar o nome de. seus financiadores, sendo, então, preso por desacatO ao
Cong resso, e condenado a 15 di;l.s de prisão. No dia 27, conseguiu hl1btaJ- Lutero Sarmanho Vargas (1912- 1989), médico, ingressou na política
(()rpIU no Tribunal de J u~ciça do DF. No entanto, a 5 de agos to, o STF,
em 1950, quando fo i eleito d eputado fede ral pe lo PTB do D istrito Fede-
numa decisão unânime, manteve a pena original de 15 dias de prisão, e ral Reeleilo em 1954, fo i presideme do diretório regional do partido ate:
Waine r voltou para a cadeia, sendo solto t6go a seguir. \'V'aincr ~e afas[Qu 1962. Em 1958 candidatou-se ao Senado, mas foi de rrorado por Afonso
Arinos de Melo Franco, da UDN_ Em 1960 foi eleito para a A ssem bléia
da direção da Última H ora, assumida e ntão por Luís Fernando Bocaiú\-a
Constituinte do recém-criado estado da Guanabara, mandato que exer-
Cunha. As conclusões da C PI , publicadas pelo Diano do CO/lgrtJJO Nono-
lia/de 18 d e setembro, referiram-se ao " regime de favo ritismo" aplicado ceu até 1962. I ndicado presiden te nacional do PTB em abril de 1964, ocu-
pou o cargo ate: a extinção dos partidos em outubro de 1965. Va DH BB,
pelo Banco do Brasil, nOL1.damente por Ricardo Ja rer, :is empresas de
\~ainer. Para mais infor mações, \'er a biografia de Samuel Walne r, Minha
op_ ch.
razão de nnr: mtmónl1! dt um rep4rttr (Rio de Janeiro, Record, 1987). • O chamado atentado d:l Tonderos ocorreu na madrugada de 5 de
, agosto de 1954, e resultou no ferimento do )omailsta Carlos Lacerda e na
Samuel \X'ainer (1912-1980), juntamente com Ma uricio Goubrt, fun-
mOrte do m ajor-aviado r Rube ns Flore ntino Vaz. N o processo, fo ram
dou em 1938 Dirrtn''{!I, revista mensal de "politica, economia e cultura".
envolvidos, além do motorista de táxi Nelson Raimundo de Sousa, acu-
A partir de 1941, Diretd~p trans formou-se em jornal semam.l, ado tando
sado dc uansportar o assassino Alcino João do Nascim ento, m embros
uma linha de oposição ao ESlado No\'o, o que lhe valeu constante re-
da gua rda pessoal de G e t úlio Va rgas, como Ciime:rio Euribes de
pressão por parte do 011', O C;l.d.ter provocati\'o da entrevista concedida,
Almeida, que te ria contratado Alcino. Interrogados na base ae:rea do
cm 1944, pelo ex-ministro do Trabalho, jjndolfo Collor, sobre o prová.-
Galeão, estes acabaram denunciando Gregório Fortunato, chefe da guar-
\'d fim da ditadura de Vargas com o término da guerra, determinou o
da pessoal do presidente, como mandante do atcntado. O julgamento
corte de suprimemo de papel ao Jornal, forçado a<slm a e neerr:lr suas

313
o :iALA O J.lO:i J-'AS:iOS l'I=.I<L>IUO :i

só ocorreu em outubro de 19S6. As condcnaçõe~ foram pesadas: ,\lemo 1~ A alegada morosidade do andalTlcnto do mq\lCrito pollcia.1 ~obre o
e Cllmêrio pcgantn 33 anos cada um; GregÓriO, 25: e Nelson, 11. Ver AlentadO da Tonekros fez com que, em 12 dc agosto, o ~ml~uo d.a
Th o rn1~ Skiclm0rc, Rmsil: di Grlldio a CuIdo (Rio de Janeiro, Saga, 1969), J\cronáutiC3, Ncro i\ IOUTa, aUIOTlzasse a ;lbert\1f:l de um. LIlqueTlt~ poliCI-
p.1 7 6-7. al-militar. Sob a dircção do coronel João Adll de OIHClra, ~ue p eSlava
acomp:lOhando a" inve~tigaçú(;s fenas peh pol~cia ciVil, o~ suspeitos p.1S-
Ad.llH0 lúcjo") Carduso (1904-1974) bacharelou-se cm 1927 pd:l s.uam a ~Cl' lc~':lJos para a base aérea d .... G.lk:to, (IUC, em v][fU~le da sua
Faculdade de Din:;lto do DL~lrito Fedcr::lJ. Dcst:lcou -~e çúmo OpO~Llor ao
aluaçào independcm.: ne .. se epl"OO;o, fOI chamada d", R~pllblle~ do
govern') \'"rg:ls durall1e o Estado :--..lavo. tendo sido um dos sign,u..;iri,)~ G:lldo. Para ;nform3\ões mais del.\lharl>ts ver HeliO Slh'a, 19;)4; ,mi llro 1/0
rio ,\lamftilo (!OIIllÚI(ÚVS (1943) e um Jos fundadores do \lo\'i1l1eLlto de
(Orarão (Rio de Janeiro, Ci\"iliLa~ão Ijra~l1cira, 1976).
Resistência D emoc rátIca (1944), movimentos (llIC [ei"LI1\licaV;lrn a
rcJcmOUatLL,lç;io do pais. 1\0 bdo do exerdçio da advocaCia, d.:~cmpc­ .. , I 1 I Rio Grande do
" J<)ão Café Filho (1899-1970), ~epura<.lOI C(~(:I peo .
nhOll cargo., pohucos: fOI "ereador no Distrito l-""t:deral (1947) C depLlIado "l,one d e 191',.l"' 1937 " fundou cm 1946, IlHHamenle com o ex-
. p
federal pdo Distrito Fe:deral (1955-1960) c pela GU1n::lb,nôl ( 1960- 1967). interventor cm São Paulo, Ademar de I.hrro~, °
Pa[tJd~ SOCIal rogres-
Em 1967 fOI nomeado mmJstro do STF por Castelo Br::lnco, rendo rc- 5ista (PSP) . Em outubro de 1950, fOI deito vice-pr.esldcnte na chapa
nunClado ao cargo em 197 1, em protesto comra a decisão do STF de não cncab eça d a po•,,",,,,1.1
Gn.. ',l·o Va r<>as
0:0'
derrotando o udel1lsm Odl10n
.
Braga.
'd'
julgar inconstitucional ° decreto-lei promulgado pelo então presidente Com o suicídio de Vargas em 24 de agostO de 1954, assuffilU a p.re~1 en-
Mêdici instiluindo a censura prévia. Ver DHBB, op. cito cia e nomeou um ministêrio bastante identificado com as po51çoes ~a
UDN. Tendo que enfrcnra( em seguida o e ncan;in~amento da sucessao
EnvaIdo Lodi (18%-1956), líder empresarial mineiro, foi um dos re· p(esidencial, leu na noite de 29 de ianeiro de 195:>, dlam~ de ampla .c,adela
presentantes da banc~lda dos empregadores na Assemblé ia Constituime de rádio e televisão, um documento assinado pelos maust.ros militares
de 1934, assumindo, ~ seguir, o mandato de deputado chssista na C:ima- e destacados oficiais das I.rés armaS, defendendo a neçessldad~ d~ um
ra Federal. Membro do Conselho Federal de Comércio Exterior (CFCE), candidato único, de "união nacional". Ape:sar dessa oposição mtlitar a sua
ó rgão recém-criado com a missão de colaborar na definição da politJca candidatura, lançada desde novembro do ano antenor, o governador
econômica do gove rno, fez pane de um grupo, juntO com Roberto mineiro Juscelino Kubitschek leve seu nome homologado na conven-
Simonsen, Valentim Bouças, e outros, de representantes da industria e - . I d PSD tm 10 de fevereIro Ver Bento Munhoz da Rocha,
çao naClooa o , " .. _ .. 961)
do comércio lig:.do ao presidente Vargas. Entre 1938 e 1940, acumulou Rc.diografta de nO/'tmhro (Rio dc JaneIrO, OVllizaçao BraSileIra, 1 .
as presidências do Centro InclustTial do Rio de J anei ro e da Confederação
Nacional da Industna (CNI), ..'indo também a presidir o Serviço NaCIO- 12 Vítor Nunes Leal (1914-1985) bacharelou-se pela Faculdade de .Direi-
nal de Aprendizagem Industrial (Senai), criado em 1942. Fundador e to do Rio de Janeiro em 1936 e trés anos depois tornou-se o ficlal-de-
diretor-geral do Ser viço Social da Ind ústria (Sesi), criado em junho de gabinete do ministrO da Educação e Saúde. GustaVO Capane~a. Profes-
1946, Lodi exerceu mandato de deputado federal pela legenda do PSD sor de pa!inca da Faculdade Nacional de Filosofia, obte.... e a c~tedra dessa
mineiro de 1947 até 1956, quando veio a falecer. Com a morte de Vargas, disciplina em 1948 com un,a tese depois tr:l.Osfonnada em ~"ro com o
perdeu prestigia, deixando a direção das entidades empresariais que ate tirulo Corondismo, (nxoda t wlo: o nlHl1Itípio e o rtg/~n. rlpI"f!Sfn/~tll'() no Bras,!,
entiio presidia. Ver DHBB, op. cito considerado na :irea acadêmica como um dos dasslCos da lit~raru(a ~.lí­
rica brasileira. Professor da Escola de Comando e Estado-Maior do E xer-
q Ângelo Mendes de MoraiS (1894- 1984), promo,'ido a genera1-de- cito em 1955, foi procur.ldor geral da iustiça do Distrito Federal ~ntre
divisão em agosto de 1946, em junho do ano seguinre foi nomeado março e no\'em b ro d e 19 -6j , e em segu
,'d,
,··umiu a chefia do Gabl11ete
3a •

prefeito do DIStrito Federal, cargo que ocupou até março de 1951. Sua Civil do presidente Kubltschek, cargo qu~ ~upou ate: agosto de 1959.
admInistração so freu forte oposição politJca, liderada pelo \'ereador Em dezembro de \ 960, foi nomeado mmlsuo do STF, o nde pern: a -
udenista Carlos L'lcerda, que o chamava de gOlllúteT (chefe nazista) do neceu até 16 de janeiro de 1969, quando, iuntamemecom Evandro,lins
governo, Voltou ao E.xérCHO até 1958, quando foi eleito deputado federal e Silva e Hermes Lima, foi rtposentado compulsonamente auaves do
pelo Di strito Federal na legenda da coligaçào formada pelo PSP e o PTN. AI-S. Ver DHBB, op.CIt.
Candldaro derrotado ao governo da Guanabara em outubro de 1960,
voltou ii Cimara Federal em 1964, em virtude da cassação dos mandams 11 Os debates ocorreram nos dias 1" e 9 de setembro de 1955.
de v:irios depmados, Deixou a vida parlamentar em 1971, Ver DHBR, ,. As ameaças ii. posse cleJu~cehno KubltSehek e de João Goulart cresce-
o p. eit.
ram a partir do dIscurso do coronel ]urandJr de Bizarrta ~>lamede no

314 315
ANOS I'O L I":"I ICOS
o SALÃO DOS PASSOS PERDIDOS

u[on 1ft lIIedicilla legal (paris, 1828) e Tratado d, exulllafoes JlJ/idirl1! (Pn ~i~ ,
ent~ rro do general Canroberc Pereira da COS{:l, c m 1" de novcmbro de
1955, prc!-,"lndo o impedlll1(~mo d:l pos~e dos ckl((ls. Con ~ ider.mdo esse 1831 ).
dIscurso uma (luebr:l d:l hieraH]ui:l militar c uma demonstraçiio de II Jo:iu Pinhetro da Slh a gO\c::rnou J'l1Jn:\s dc i"u'crciro a ]ulho de 1890,
indisciplina, o ,<.;cncml Henrique TeixClra I -ou, m ll11stro da G llcrr:., cOr1~i ­ \ olt:1ndo ao cargo em 1906, quando se tornou () vtrll];!l suct'ssor de ,\ fon
derou lndi~pcn~ân;l ;. pUlllÇ,lO do c<)roncL Como eSte Icciotlava na I'::~co ­ so Pena nfl pre<:idoência da Republica (1906 09). Pnkce u ~' lll 1908.
I:l Supenor de Gue rra (I-:.5G), lib'!lda au Estado-:-'I.liol· da~ ro rÇl ~ \n11:l-
(I:ls (Ei\.JFt\ ), o qual. por ~ua vez, esta\':l subordul.ldo fl Prcsidênci:l lI:l " PiLffe-t\ntOLnc Iklryer (1-:-90 -1868), ]uri<:c'ms uho e o rado r pulítico
Hcpúblic:l, Lolt pr<:"cis.lV:l do a~sentirnento do presldl:'rHe Clfc Pilho parfl f rancês , roi eleito clc:putado cm 1830, tornado- s e o port:l voz do
puni-lo. No <lifl 3, Café Filho internou se no I I05pital do~ Servidores do kgitimist:\s na Cfltlwra. Notável advog:1do, tmba gr:md.;; popuLlr'dnd.;;.
E s tado com prnblelll h c:lrdiacos e, cinco di:l~ de pois, comunicou Sua Entre suas obras principais de~lac:m\-"e se lt~ J)iJrollrI pa,Jrll1rlifairu (1872)
dccis:io de tr:llls mitir o cargo ao presidc:nte d:l C:imar.l, o r)(;s~ cdista mi - c seus Plaido)'trs (1875).
neiro Carlos Luz, próximo fiO esquema udenista. No dia 10, :la so.;r inror-
mado q ue M amede não seria punido, Loa colocou a pasta da Guerra ã
• André Gide pubhcou Rl!tOl/r de I'URSS em 1936 e, no ano seglunte.
disposição de Luz, o qual niio só aceitou o scu pedido de demissão, como respondeu as críticas com um segundo livro, Rd(JI(c!;u ti mOIl ntol/r dt
tambêm indicou o general reforrnado Alvaro Fiúza de Castro para assu- /'URSS (paris, Gallimard).
mir o ministério. No dia seguinte, a simação se modificou, com o apoio 21 O artigo de L'lcerda "A exposição anticomunista" foi publicado em O
das principais unidades do Exército a Lott. Carlos Luz, e mais 26 passa-
Obserl'tldor E'oliô",iro f. Fillanuiro, ln (36), janei ro de 1939.
geiros, dentre os quais se encontravam o deputado Prado Kelly, o minis-
[ro da Agriculrura, Bento l\ lunhoz da Rocha, o coronel Mamede e Carlos ll. Carlos Lacerda ingressou nas empresas de Chateaubriand em agosto
Lacerda, embarcaram a bordo do navio Tamanda"; rumo a SanlOs, pam de 1942 para dirigi r a agência telegrâfica Meridional, dos D.ários Associa-
onde pretendiam transferir a sede do go\'er no. O Congresso declarou dos. Só em março de 1944 Chaleaubriand deu-lhe o cargo de secretâno de
Carlos Luz impedido parlO exercicio da p residência, e, fls 18:30 h do dia O Joma!. Cf. John \'Q. Foster D uUes, Op.Clt., p. 72-76.
11, O general Lott, na qualidade de chefe do movimento militar \-itOrioso,
empossou o vice-presidente do Senado, Nereu Ramos (pSD / SC), na 11 Carlos Lacerda, A fllSa do 1IItlI avó; ptmall/tnl0S, pa/arras t obras (Rio de

presidéncia da Repub!Jca. Café Filho saiu do hospital no dia 21, e no dia Janeiro, Nova Fronteira, 1976).
seguinte foi votado pela Câmara o seu afasta m ento da presidência. N ereu
:IIA revolta de Jacareacanga (PA), ocorrida em feverei ro de 1956, roi um
Ramos foi con tirrnado como presidente legitimo até a po~se de Jusceb-
levante liderado por oficiais da Aero náutica que se opunham ao presi-
no em janei ro do ano seguime. Ver Bento Munhoz da Rocha, op. Clt.
, dente Juscelino Kubilschek e ii corrente militar que paTrocinou o mO\'i-
menta do 11 de novembro de 1955. Ver D HB8, op. cito
Maria .M orals \'Verneck de Castro, filha do advogado JUSTO de .\10ra.s
e mulh er do jornalista, proressor e advogado Luís \X'erneck de Castro,
1'1 A rt00lta de Ara&,T'flrças eclodiu em dezembro de 1959, sob a chefia do
fonnou-se em direito na década de 30. c: em 1935 participou da fundação
temente-coronel-aviador João Paulo i'vloreira Burnier e do major-a\"iador
da Liga de Defesa da Culrura popular e da Umão FemJnJna do Brasil,
Harolclo Veloso. Os rebelados se apossaram de A ragarças (GO), em pro-
ambos movimentos ligados ii AN L. Com a derrou do levante comunis-
testo conera os turnos políticos que assumia o gO"emo Kuhitschek. Luís
ta em novembro de 1935, foi preSa e processada como uma das cabeças
do movimento. Em julho de 1937 foi julgada e absolvida pelo TSN , exi- M endes de Morais Neto, tenente reformado da Aeron~tltica, Integrou o
lando-se n:l Argentina às vésperas do Estado Novo. D e \'olta ao Brasil, grupo de conspiT:ldores e, em 3 de dezembro, redigiu o manifestO que
filiO\I-se ao PC~ legalizado em nO\'embro de 1945. VCT DHB8, op. cit. firmaw os objenvos do movimento. Ver DHBB, op. ciL

" O avô de C:nlos Lacerda, Sebastiâo Eurico Gonçah'es de Lacerda, fOI " Ademar de B:uros (1901 -69), Inter ventor em São Paulo de 1938 a 1941.
ministro da 1ndústria, Viação e Obras Públicas de 1897 a 1898, e ministro roi eleito em 1947 governado r do estado pelo P SP. ,\ b ri ndo m ão da sua
do STF de 1912 a 1925. A chácara que abrigava sua biblioten situava-se candidarura à presidência em 1950, conseguiu a indicaçiio de seu compa-
no distritO de Vassouras (RJ) então chamado Comércio, hoje Sebastião nheiro de partido, Caré Filho, para a \>ice-presidência na chapa encabeçada
de Lacerda. por Getúlto Vargas. DerrotadO por Jãnio Quadros na campanh:1 de 1954
ao governo de São Paulo, sorreu nova derrota nas eleições presidenciaIs
". Matheo J osé Bona\'enture Orfila (J"'!87-1853), médico c: profc:ssor, do.;- de 1955, que deram a vi tória a Juscelino Kubilschek. Em março de 1956,
dleou-se, a p:J.rtirde 1819, a medicina legal, rendo publicado, entre OUlro~,

3I6 '17
U SA L AU I)O!' PASSOS P ER D II)O!'

teve que fUgir para O Paraguai . Já que fora çondl:nado pelo Tribunal de 8. O homem de governo
Ju <;uça de São Pa ulo a dois anos de redusão no processo sobre a compra
JfTl:&<ula r de aUlOmó,-eis durame o pcriodo em que fora go\crn.ldor. Em
1957 fQi elellO prcCCiH) do.; S:1o Paulo, ma~ no .1110 ~(:guimc foi dc rrol.ldo.
mais uma vez, para o governo d e São Paulo, c!<.:s"a vez por Carn.lho Pin-
10, scçrctário de Finanç:l~ II.,; }inlo Quadn:>s. F.m 1960, ficou ~' m lcrcúro

lu.~ar nas eleições par:l pl'l.:~ id ~n IL· (la República, alrh II..: ),inio QuaJr()~ e
tln ;,;cnLral I.oH. DL \'<'Jlr.1 \lO ~Ol'cmo de ~iio Polu I!> cm 1962, apoiou o
golpe de 1964 , m:1~, i ~ol.ldf) politicanlLllIc, aClbou ca~~ado Lm Junho LIe

,
1961Í, p,lssando, .1 partir de e nt;\n, a vi"cr no CX[CII<1r. Ve r /)// HB, up. dto

.\ 1.1rio P in01l1 (1894 (972) InKiou sua carn,;ln de medico s,mit'l1'ist'l em


1')19 no Departamento 'Jacional de S:n',de Pllbliç.l. DirelOr gCr:l1 do De-
,
l, C ON' f t\'l'OS CO':"I JOAO GOUI..AltT

En; 196/ o senbor jo, ,


cOI1l'idado para fazer p(/rle da ddegofão
que acompanbaria O l'úe-presidente João COlllart em sua t'iagetll
plrtamento dc Saude dp csmdo do Rio dC):'IIlciro de 1938 a 1941, a partir
desse ano assumiu a dlrcção do Serviço Nacional de Malária, onde ao Leste Europeu e ti China. COIllO foi esse convite?
perrnencceu até 1954. Nesse ano ocupou, pela primeIra vez, a pasta da Cerro dia, eu estava em m eu escritório e recebi u m
Saude, desvinculada do Ministério d a Educação desde 1951. Presidente
da Legião Brasileha de Assistência (LBA) de 1957 a 1959, assumi u o M..i- telefonema d e um secretário do dr. João G o uJart - não me
nisrerio d a Saúde em julho de J 958, substituin do i\ lauricio i\ ledei ros, recordo bem se Cjuem fa lou foi o Cailard ou O Raul Ryff, mas
representando ambos 110 governo o PSP, liderad o nacionalmente por
acho Cjue fo i o Ryff- , d izendo Cjue ele Cjueria conversar com.i-
Aderna r de Barros. Após a sua saída do ministério, em agoStO de 1960,
forlm instaurndos inquémos para apu rar irregularidades ocorridas du- go e me convidava p ara um almoço no Copacabana. No pri-
raOle a sua gestão. Ver DJ-IBB, op. ci t. meiro instante pensei que fosse algum assunto profissional,
• Moisés Lupion de T roya (1908-199 1) foi eleito, em 1947, governador porCjue eu tinha lido nos jornais que o J ânio, quando assumiu O
do Paraná pelo PSD. Em 1954 elegeu-se para o Senado, onde permane- governo, mandou fazer uma devassa nos in stiru tos de previ-
ceu até janeiro de 1956. Vencedor das eleições de outubro, assum.iu pela
segunda vez o governo do Paraná. Em 1961, acusado de corrupção por dência, e um desses inq uéritos envolvia o nome do Jango. Essa
Nei Braga, seu sucessor, eXLIou-se na Argentina. Retornou ao Brasil no noticia havia sido divulgada pelo palácio, e o J ango escreveu
ano seguinte e foi eleito depu rado fede ral. Em abril de 1964, em virtude uma carta ao Jânio protestando co ntr.a su a atitude, de divulgar
das acusações de corrupçlio <Iue sobre ele pesavam, foi cassado por dez
anos com base no A1- 1. Ve r DJ-IBB, op, c,!.!. essa história esca ndalosa sem que ele tivesse sido ouvido nem
nada, J ânio simplesmente havia devolvid o essa carta. Eu supu-
" Banda de Musica foi O nome como ficou conhecido o grupo de parla-
menrares da UD N que mais se destacou na oposição consraOle e impla- nha que fosse esse o motivo do convite,
cá\-el aos go'-ernas Vargas (1951 -54), Kubitschck (1956-6 1) e Goulart Fui entào ao almoço, e lá, para su rpresa minha, vi que
(1961-64). SenCl.dos na primeira fila do plenário, freqüenta va m constan-
temente a tribuna com uma oratória intlamada e agressiva. Além de
nào era nada disso. Jango me disse que havia recebido um con -
Ada uto Lucia Cardoso, desllcaram-se, na Banda de Musica, Aliomar vi.te do governo chinês para visitar a China e levar uma comitiva
Baleeiro, Afonso Arinos, Carlos L1cerda, Herbert Levy, BJlac Pimo, Oscar de dez cidadãos brasileiros que considerasse representativos nas
Dias Correia e José Bonif:icio. Para mais informações ver Maria Vitória
°
Benevides, A UDN f /lrlmlJmo; ambigüidade; rio /ibmdiJmo b,.ast!nrrJ ('945· suas atividades profissionais. Achava que eu era representativo
65) (Rio de Janeiro, paz e Terra, 1981). na advocacia e por isso me fazia o convite para acompanhá-lo,
Contou mais, que, numa reuniao em i\1ato Grosso, quando co-
municara ao Jân..io essa \-jsita que pretendia fa zer à China,Jânio

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o SA\...ÂO DOS P ASSO S P E RDIDO S o HOMEM D E COVERNO

havia dito que d esejava que fos se co m ele,Jango, uma co miti"a isso foi no ano de 1961, no auge da guerra fria. "Você nào te ni.
ele pessoas ligada s à indústria, ao com ércio, 3. ntivid ade lXlOdtria, o utra opo rt unid:l.de de con hecer , n em recursos, porque é un):l
~\ produção, para o restabeJeci mcn to de reh.ções co m croaJs com viao-em caríssima. Vai conhecer co mo fun cio na o socialismo, o
~

a C hi na comuni sta. lsso ti n ha ficado 111al S o u m enos co m bin a- regime co munis ta, vai conh ece r Ll lTI co ntin ente!" E la m e con-
do; po ré m , di :mte d aquel e episódio da gro sser1:l do J lln io, co m venceu, e decidi accitat:.
a maliciosa di \Tulgação daquela no úcia d o inqub:i to,J ang o Iria
cmbarcar- já tinha licen ça do Senado - e niío iri a m aIs tocar Esse a/moço !lO Copacab(llla foi a p rimeira vez que o .wi/Jor COIl-
nesse segundo aspec to da vi:1gem tra tad o com J ânjo . lria leva r ver.fOlf com Jongo?
apenas a sua COIYlIO Va de dez convidados do go"erno chin ês . Foi a pflmeira vez. Eu tinha sido :lpresentaclo a el e na
época do processo do Samuel Wainer. Um dia, saí para passear
o senhor ficou smpreso com o convite? A que o atribuiu? com meus ft.l.h os pequenos de automóvel, mas havia um docu-
O convite foi talvez wn reconhecimento, desvanecedor mento qualquer que eu precisava entregar ou receber do Samuel
para mim, de que eu tinha notoriedade profissional e, no con- e passei pela casa dele . H avia uma varandinha e uma sala, onde
ceito dele, era competente e digno de representar a classe dos estava um cavalheiro sentado, conversando com ele. Pedi ao
advogados na comitiva. Samuel: ''Venha até aqui porque os meus filhos estão no auto-
móvel e estou viglando." Ele veio, trouxe o papel ou eu lhe
Aceitou o cO/wite na hom? entreguei o papel, e perguntou: ''Você não conhece o Jango?"
Não. Ponderei, primeiro, não me parecer possível que Eu disse que não, e ele então chamou o Jango e me apresentou .
ele, sendo vice -presidente da Republica, não estivesse com o Mas depois nunca mais o vi. Voltei a vê-lo só nesse almoço,
presidente antes da viagem, ainda mais tendo havido aquela con- quando ele me convidou para a viagem â China.
versa anterior quanto ao restabelecimento de relações comerci- Eu estava disposto, diante da resposta da minha mu -
ais com a China. Disse também que era muito dificil a minha lher, a aceitar. Mas aconteceu o seguinte: li nos jornais que o
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ida, porque eu tinha uma aovidade profissional muito intensa, Jango tinha ido a Brasília, tinha estado durante longo_tempo
UlTl grande número de clientes. Até brinquei, fiz uma observa- com o JâIUO, e dessa conversa tinha resultado a e~colha de uma
ção: "Dizem que a advocacia é profissão liberal, mas não é. Em comitiva oficial para acompanhar a viagem. Realmente, a co -
vez de um patrão, tenho cem patrões, que são todos o s meus mitiva foi de umas 20 ou 30 pessoas: o presidente do I BC,
clientes. D evo saosfação a todos eles .. ." Ele insistiu, e p eru tem- o pr-esidente do Banco do Brasil, da Sumoc, da Siderúrgica
po para responder. J\{inha inclinação ilUcial, pessoal, era não ir, Nacional. .. Parlamentares també m : os senadores Barros Carva-
por causa do trabalho. Mas quando cheguei em casa e comuni- lho e Dix-Huit Rosado, os deputados Franco Montara e
quei o convite à minha mulher, ela, que tinha wna visão imediata Gabriel H ermes. O Diário Oficia/publicou os nomes dos com-
dos problemas, foi rápida no raciocínio e disse: "Você não pode ponentes da missão comercial, sem que eu fo sse mencionado.
dei..xar de aceitar de maneira alguma! Em primeiro luga r, você Jango foi para a Europa, pois a mulher dele estava na E spanha,
não co nh ece o outro lado do mundo." É preCISO ver a época, e pensei: "Acabou a viagem." Mas alguns dias depois veio a

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o SA I_AO DOS l' ASSa S PE;:RO J OOS o HOMEM DE G O V EH NU

no ticia, atra vés do Ryff ou d o Cai1ard, de que eu devia tirar o mesa comprida, todos sentados em tor no, e Kruchev fez um
m eu passaporte e, ao mesmo tempo, procurar VIStO par:l a speecbmuito mumado, n3qucJe tom em gue os soviéticos costu-
Tch ccos lováguja. O projeto inicial da viagem era irmos ao en- num f3lar, gesticulando, procu rando sempre pôr uma piada
co ntro d o J ango em PariS e d epois segu Irmo s para a no mt.:io. Recordo-n le (Iue ele d isse: "O mundo não :1ceita um
Tchecoslováq uia, Mosco u e Peqlllnl. país comun ist:1, nus n(~)s 11:'\0 temos ou tra coisa a ofereu~r sen:l:o
comunismo... " Ficamos em i\[oscou dois ou três dias, e houve
IlllútaShomenagens :10 J:l.Ogo. Fo m os convid:1dos p:1nt Ul11:1
recepção