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EDiÇÃO DO AUTOR
Copyright © 1 ª Edição 1999 by Vinícius Bittencourt
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Amarilclo
Revisão gráfica: Romeu Caridade Cotta
Editoração e fotolitos: Copiset Ltda. (copíset@clube.interlink.com.br)

À Ingratidão que liberta; que extingue


preocupações com a sorte dos ingratos; que reduz
nosso sofrimento com as dores alheias.

Direitos desta edição reservados por:


Vinícius Bittencourt
Rua Dionísio Rosendo, 155, Sala 301, Ed. Renata
Te!.: 223-7266 - Vitória (ES)
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Quis compreender, quebrando estéreis normas,


A vida fenoménica das Formas,
Que, iguais a fogos passageiros, luzem ...
E apenas encontrou na idéia gasta,
O horror dessa mecânica nefasta,
A que todas as coisas se reduzem!

Augusto 60S Anjos


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"Odeio este meu livro. Odeio-o de todo coração. Deu-


me essa pobre coisa que é a glória, mas deu-me também
é muitas misérias. Por sua causa conheci a prisão e o desterro,
a traição dos amigos, a má-fé dos adversários, o egoísmo e a
c maldade dos Dele nasceu a que
(
na
um um
, um livre que com os ou-
tros do que com os seus". Assim iniciou Malaparte o prefácio
para a reedição de "Tecnica deI Colpo di Stato", livro que o
incompatibilizou com o Fascismo.
ç Ao publicar, porém, numa época de ebulição política,
um livro que alertava sobre os métodos mais eficazes de usur-
pação do poder, é óbvio que o genial autor de "Kaputf' e "La
Pelle" não podia ignorar que sofreria retaliações. Mesmo em
tempos normais, a prudência recomenda a hipocrisia como
norma de conduta. Isto porque, como escreveu Kalil Gibran:
"Se falássemos a verdade durante cinco minutos, perdería-
mos nossos amigos; durante dez minutos, seríamos banidos;
durante quinze minutos, seríamos enforcados". A franqueza é
um ultraje ao pudor, como a nudez humana em praça pública.
Ao falar francamente sobre Deus, as religiões, os
governos, a justiça e a família, sei que me arrisco a ser difa-
mado pelos que lucram com alguma dessas entidades ou ins-
tituições e pelos que acreditam sinceramente em sua existên-
cia ou pureza. Muito mais cômodo e vantajoso, ainda que avil-
tante, seria louvar as tradições e crendices, como fazem os
escritores convencionais e os que exploram a mitomania. Sei
que mil amigos é pouco e um inimigo é demais. Portanto, ao
emitir opinião sobre monstros sagrados, não tenho a intenção
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de acirrar contra mim a ira dos intolerantes, nem desviar de teridade é uma tolice, estou certo de que "Falando Francamen-
ti sua rota espiritual os que preferem estagnar. . te" não foi redigido para agradar a primeira, nem para ensejar
C Sigo apenas uma das lições de Shakespeare, que, elogios futuros. Minha conclusão, ainda que provisional, é a de
ti no "Hamlet", atribuiu a Polonius a seguinte advertência ao fi- que obedeci instintivamente a uma injunção do meu amor pró-
lho que partia: "Isto acima de tudo, fiel a ti mesmo". Res- prio, que me obrigou a dizer que a mitologia social não conse-
guarda-me também o fato de ser este um ensaios guiu me seduzir ou cooptar. Minha insurreição, porém, não é
só pode interessar pessoas de cultura superior, acostuma- excêntrica, caprichosa ou gratuita, porque está amparada em
das a avaliar sem preconceitos o mérito das idéias. Ademais, argumentos incontestáveis, já esgrimidos por pensadores re-
~ como provam a indicação autores e os trechos transcri- nomados. Nada mais fiz, portanto, do que vulgarizar conceitos
ir tos, quase todos os temas livro foram abordados, com que os eruditos não ignoram.
conclusões análogas, por filósofos e escritores de prestígio Meu niilismo não envolve, traduz ou reflete um desa-
universal. Os argumentos que não se arrimam em preceden- gravo, porque, excetuada a angústia pelas dores alheias, a
é tes famosos são de fácil intuição e acolhimento. vida sempre me tratou com benevolência. No âmbito profissi-
c Somente um tolo pOde pretender, com suas idéias, onal, convivi com juízes honestos e colegas generosos. No
c reformar a sociedade. Segundo Ruy, a evolução social é "la- relacionamento social, conheci pessoas bondosas e sacerdo-
boriosa e como as . Os costu- tes que acreditavam realmente nas que difundiam.
r ,as me
sem que
E natu , transformacões. alcançado por qualquer tragédia. o egoísmo como
Os fatos precedem e determinam as idéias. Enquanto os fatos uma injunção da Natureza e a maldade como uma doença,
ç permanecerem inalterados, não há necessidade alguma de não consigo odiar meus semelhantes. Posso, pois, sem res-
patrulhar o pensamento. Sobretudo com relacão ao culto de sentimentos, dizer o que penso da humanidade.
divindades, porque este jamais será erradicado. Até mesmo Além de "Falando Francamente", o livro reproduz trinta
quando a ciência descobrir a origem do Universo, ainda have- artigos de minha autoria, quase todos publicados pela imprensa.
rá quem acredite em deuses e duendes. Esses artigos abordam questões permanentes, de índole filosó-
O que realmente me intriga é não saber, com certe- fica, cujo debate aproveita a todos os leitores. Neles não se dis-
za, o motivo que me induz a escrever. A literatura, mormente a cute o sexo dos anjos, não há politiquice, questiúnculas em torno
erudita, é uma arte falida. Os leitores são cada vez mais raros. de taxas, problemas de trânsito e melhorias urbanas, como se vê
A receptividade das idéias impressas é insignificante em con- diariamente nos jornais. Em seu conjunto, o livro é uma fonte de
fronto com o ópio colorido da televisão. Além disso, a esta indagação e um estímulo ao raciocínio. Sobre cada um dos te-
altura da vida, nem mesmo a "pobre coisa" a que Malaparte mas abordados, o leitor poderá pesquisar em jazidas mais pro-
aludiu, pode me interessar. Os elogios nada significam, por- missoras, construindo a sua própria doutrina e prevenindo-se
que, como Erasmo observou, Homero cantou as Virgílio, contra desvios ideológicos ou erros de julgamento.
o mosquito; Glauco, a injustiça; Favorino, as sezões; e Lucia- As distonias ou contradições que forem percebidas
no, o burro. Não me interessando a glória e não havendo pão entre a argumentação de alguns artigos e a de "Falando F~an­
à espera deste livro, só posso atribuir a sua à minha camente", devem ser debitadas à própria índole das publlca-
incapacidade de digerir embustes ou Ao livro - se destina a um
Sabendo que já , ao menos em sua parte literária,
nas o a e julgando, como a a fim que os mitôma-
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nos não fiquem revoltados. Além disso, o tempo decorrido entre
t as datas de publicação daqueles artigos e as da redação do
c estudo em apreço, serviu para depurar minhas e possibi-
litar a escolha de palavras que melhor traduzissem meu pensa-

mento. outro lado, há e üonceitos no
rial jornalístico e na análise. Isto, porém, demonstra minha ad-
t miração pelos autores e mrrtha incapacidade de encontrar ou
produzir mais certeiras e convincentes.
Para não incidir no vício dos escritores que costu-
mam partir do nada, percorrer o vácuo e chegar a lugar ne- As conclusões desta análise poderão provocar rea-
nhum, abordei apenas questões relevantes e sintetizei argu- ções virulentas ou simplesmente atrair contra mim a antipatia
mentos, a fim de não confundir ou entediar o leitor. Em torno
dos que não toleram contestação. Minhas convicções, toda-
dos assuntos aflorados já existe, na literatura mundial, uma
via, impelem-me a arrostar com as conseqüências deste pro-
( imensidão de livros que poderiam ainda ser infinitamente mul-
nunciamento, cuja recon que
os temas crendice, política e
( a
que
, é uma
e os podem O excesso ou me a as
indicia a mendacidade ou a insegurança do expositor. Mor- que serão comentadas a seguir. O fato de não professar qual-
mente quando o assunto é controverso ou de alta indagação, quer religião e não estar vinculado a corporação alguma, pos-
impõe-se o máximo de clareza e objetividade. Esta foi a nor- sibilita-me apreciar livremente os temas que logo serão abor-
ma que adotei ao falar francamente sobre temas cuja ilação dados com sinceridade e franqueza. Ainda que possam desa-
dominante envergonha a humanidade. gradar a muitos, ninguém negará que minhas conclusões cons-
Embora a ignorância seja um estado de graça que tituem um estímulo e um desafio à meditação.
possibilita aceitar passivamente as injustiças sociais e atribuir Sei que a Lua não é a mesma coisa para um astrôno-
ao destino os infortúnios, o fato é que a dignidade exige a mo, um camponês, um poetayu um menino. Se julgasse, pois,
ilustração, para que o homem não se confunda com os outros que minha visão do mundo e minha interpretação da vida fos-
animais. Com sua inteligência, infinitamente superior, o ho- sem iguais à visão e interpretação de meus semelhantes, é
mem conseguiu efetuar, no âmbito da tecnologia, avanços óbvio que não me animaria a encetar este trabalho. Seria cho-
espantosos. Entre inúmeras realizações, conseguiu desinte- ver no molhado, matar o reão morto ou arrombar uma porta
grar o átomo, reproduzir animais em laboratório e conversar aberta. Poucos, todavia, são os que puderam estudar, e insig-
com outra pessoa situada no espaço, fora do campo de gravi- nificante é o número dos que indagam sobre sua própria ori-
tação de nosso planeta. Não se justifica, pois, que, no mundo gem, seu psiquismo, suas relações sociais e sobre o mundo
espiritual, ele permaneça nas trevas, submisso a preconcei- em que vivem. A imensa maioria submete-se às injunções da
tos e crendices que aviltam sua existência. crendice e à lavagem cerebral da mídia, absorvendo concep-
ções errôneas e abdicando de raciocinar. A verdade, porém,
O Autor deve ser dita para todos, ainda que poucos se interessem em
mudar de opinião ou corrigir suas próprias erronias. .
Apesar de minha descrença na lucidez da humamda-
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de, sempre ouvi com interesse a opinião de qualquer pessoa, ras, exercia um poder comparável ao da nobreza, nos idos do
porque, como dizia Churchill, uma das coisas mais surpreen- Império. Ao povo, para sobreviver, só restava bajular aquela
dentes é que, às vezes, os tolos estão certos. Não me censu- casta de sibaritas. Ali vigorava o princípio: ''Manda quem pode
ro pelos erros que cometi ao longo de minha vida, porque e obedece quem tem juízo".
aprendi com Schopenhauer que tudo que acontece, acontece Para aquela corja de velhacos e suas famílias tradicio-
necessariamente. Fossem, menos compulsórias as nais, que nada produziam, é que estavam reservadas as
circunstâncias que ensejaram meus equívocos, nada haveria coisas da vida. Habitavam mansões, tinham apartamentos em
em meu passado que eu devesse lamentar. Por isso, basta a Paris e Copacabana, desfilavam em automóveis de luxo, na-
r lembrança dos fatores que ocasionaram meus tropeços, para turalmente importados, porque no Brasil ainda não se fabrica-
ii que eu reconheça a impossibilidade de haver procedido de vam veículos motorizados. Até mesmo querosene e lâmpa-
modo diverso. Como Espinosa lecionou, o livre arbítrio resu- das elétricas vinham do exterior. Como o poder econômico
me-se na ignorância das causas que o determinam. determina o poder político, aqueles plutocratas elegiam os go-
é No decurso desta análise e sobretudo em seu térmi- vernantes, distribuíam cargos e comandavam a opinião públi-
( no, ficará bastante claro que embora a ignorância seja humi- ca , nela implantando uma filosofia de subserviência e de de-
( lhante, a opção pela sabedoria não é recomendável. Como reza voção incondicional. Submetido a um permanente aviltamen-
quem aumenta sua to, o povo percebia a sua própria e
r há como fugir A e
ma. a na ou e debochava
E
pelo excesso de luz, que, penetrando nas coisas, nas pessoas Ninguém, com ~ma cultura e espírito crítico, po:
e nas idéias, reflete um mundo sem adornos. Quem busca a deria contemplar com indiferença a torpe situação local, onde
sabedoria está renunciando a tudo que encanta a vida dos ig- imperava a mais escandalosa inve-rsão de valores. Nas Facul-
norantes. Reputará como fúteis ou ridículas as festas e soleni- dades os filhos da classe dominante tinham aprovação ga-
dades. Sentirá repugnância por tudo que as multidões aplau- rantid~, enquanto os do povo dificilmente conseguiam ingres-
dem. Considerará com extrema reserva as relações amorosas. sar. As moças mais bonitas também pertenciam àqueles privi-
Não participará jamais como figurante no teatro da vida, onde legiados. Na consciência do povo estava tão enraizada a con-
será sempre um espectador descrente e taciturno. Encontrará vicção de sua vassalagem, que ele nada reivindicava, acei-
satisfação apenas nas verdades que confirma 06descobre. tando com naturalidade todas as preteriçôes e abusos. Não
foi sem razão, portanto, que Salvador produziu os mais ferre-
Nasci em Salvador, numa época em que o Brasil era nhos comunistas que existiram no país. Cedo compreendi que
ainda um país feudal e aquela cidade vivia das glórias de ter não poderia permanecer naquela pocilga. Ainda resisti, por
sido a capital da Colônia. No âmbito cultural, todavia, ela con- algum tempo. Finalmente, porém, saí para não mais voltar.
servava seu anterior prestígio, embora em tudo mais estives- Em Salvador, como disse Vargas Vila da terra onde
se em fragorosa decadência. Em minha juventude, a socieda- nasceu, o amor era de má qualidade e difícil. Como na época
de que ali existia era uma das mais sórdidas do planeta. Sua a função social da mulher limitava-se à procriação e aos afa-
população era composta de mulatos pernósticos, brancos ar- zeres domésticos, as mães preparavam as filhas para casa-
ruinados, e de descendentes de escravos africanos. Sobre ela, mentos visando lucrar com esse expediente, ou,
uma casta de ociosos que vivia de sinecuras, quando libertar-se do ânus de mantê-Ias. Envolviam as
transações imobiliárias, agiotagem e especulações filhas em um manto de preconceitos que as isolava do mundo
li
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exterior, impedindo ou dificultando seu relacionamento com ção de fronteiras, onde os países tendem a desaparecer em
ti os jovens de sua preferência. Por isso, além de raras, as mo- função do império global das empresas multinacionais, seria
C ças bonitas eram inacessíveis, fúteis e pretensiosas. Eram ridículo depreciar esta ou aquela Para mim, Salvador
ti bonecas oferecidas em aos rebentos ou velhotes da vale tanto como Paris ou cubata africana. Os
dominante. era o casamen- as e as me
tos de conveniência. As que nada conseguiam, tornavam-se empolgam as idéias e os As mais
crentes ou devotas e dedicavam-se a falar mal da vida alheia. mundo podem deslumbrar os arquitetos e os turistas, mas não
Não posso que devo àquela cidade e respondem a indagações O me é a
à época em que nasci a minha propensão para os livros. À espécie humana. Obviamente, e outros benfeitores va-
cidade, porque, em sua decadência, só lhe restava cultuar a Iem mais do que os monumentos erguidos em seu louvor.
memória dos literatos que havia produzido. A lembrança de Ao contrário do poeta que cantou sua "infância queri-
Ruy Barbosa e Castro Alves era um estímulo permanente para da, que os anos não trazem mais", lembro-me com tristeza da
a juventude, sobretudo porque não havia como escapar à primeira etapa de minha vida. Assim como Nietzsche admitiu
c mendicância senão através da cultural. , e Trotsky em sua , eu
c

a
E todas as frustrações. A e os romances de os obriga a a sua como
I e espada eram dois entorpecentes que eles consumiam com Schopenhauer advertiu, só a dor é positiva. Como esta prevale-
avidez. Flutuando nas nuvens, os jovens sonhavam, ignoran- ce sobre o prazer, esquecemos a alegria e só lembramos o
ç do as mazelas do convívio social. sofrimento. A experiência, alertando o homem a não repetir os
Esse amor aos livros compensou os acessos de vômi- erros do passado, é também um antídoto contra o influxo do
to provocados pelo ambiente latrinário em que fui compelido a saudosismo. Como deduziu Kierkegaard, aprendemos com o
viver em minha juventude. Os livros enriqueceram-me por den- passado, mas devemos viver olhando para o futuro.
tro, fazendo-me desprezar o mundo exterior. Embora a sabe- Procurando interpretar a humanidade e não apenas
doria seja fonte de decepções e angústia, SChopenhauer justi- os indivíduos, acostumei-me a desprezar os fatos e pessoas.
ficou sua opção pela cultura ao declarar que a Filosofia nada Por isso, não mencionarei nomes nesta análise, nem aludirei
lhe dera, mas o livrara de muita coisa. A ignorância, ao contrá- a eventos que não estejam estritamente vinculados teorias
rio, é a origem das grandes catástrofes da humanidade. Com a respectivas. Meu escopo é revelar minha apreciação geral
sabedoria, o homem não necessita buscar nos outros o que já sobre a humanidade. Para tanto, não necessito relatar minhas
tem em si mesmo, e liberta-se da convivência social, que é, andanças, à minha atividade profissional, nem
sem dúvida, a causa de muitos infortúnios. Em razão da sua observar no convívio com meus semelhantes. Tam-
vacuidade interior, o ignorante não suporta a solidão. Necessi- bém preciso narrar o que vi em meus contatos com a
tando de companhia, expõe-se a relacionamentos deletérios. miséria, com o serviço público, com os meios de comunica-
É bem de ver que escrevo sobre Salvador apenas para ção, com as leis e com tudo que influencia ou determina a
indicar os fatores ambientais que atuaram em meu espírito, conduta humana. As pessoas individualmente e os fatos em
determinando, em parte, minha atual postura com relação a particular não cabem em um resumo de conclusões teóricas,
meus semelhantes. Em um mundo que avança para a elimina- relativas a mitos e instituições.
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Nunca acreditei que pudesse viver até o fim deste bria o consumidor e extrai dos governos as verbas que deve-
ti milênio. Quando olho para o passado e lembro-me das pes- riam ser aplicadas em benefícios sociais. Em tributo à propa-
C soas de minha geração, vejo um desfile de cadáveres. Perce- ganda, o dinheiro que deveria fazer é gasto em anunciar que
t, bo, ademais, que o próprio mundo de minha juventude tam- já se fez ou pretende fazer. É notória também a coação que a
bém morreu. Na época em que nasci não.havia cinema fala- mídia exerce sobre as autoridades, cujas passaram
do, aviação comercial, penicilina, televisão, nuclear, a depender expectativa de elogios ou
computador, astronave, transplante de órgãos, pílula anticon-
cepcional, clonagem, ciência genética e tantos outros recur- Tudo mudou, mas o'homem é sempre o mesmo. No
sos que alteraram profundamente a vida humana e o relacio- mundo ideologias é o Midas da putrefação. O que ele toca,
i: namento social. Como disseram Marx e Engels, o moinho a logo apodrece. Basta ver o que ocorreu com as idéias genero-
vento cria uma sociedade e o cavalo-vapor outra diversa. A sas do Cristianismo, da Revolução Francesa e da Revolução
revolução sexual e a liberação da mulher eliminaram precon- Soviética. Na política, na religião, na distribuição da justiça, na
ceitos que, durante a minha juventude, morbidizavam as rela- administração pública ou em outra qualquer missão, o homem
c ções amorosas e fomentavam o crime passional. tudo subverte. Sobre ele atuam poderosamente os sete peca-
( No âmbito cultural, a transformação foi verdadeira- dos capitais, de seus
o advento

tra se m , na ,
exclusivamente propaganda. ou simplesmente difamados. É clássica a conclusão de Lord
Sobretudo na música e na literatura, comprova-se o sucesso Acton, no sentido de que todo poder corrompe, e o poder ab-
de profissionais da mais baixa categoria. Indivíduos que nun- soluto corrompe absolutamente.
ca estudaram música e não têm voz alguma, são impingidos A Revolução Francesa acenava com a liberdade, a
como cantores e seus discos vendem-se aos milhões. Escri- igualdade e a fraternidade. Mas descambou na corrupção do
tores vazios, que discorrem sobre temas banais, são os úni- Diretório e desaguou na tirania de Bonaparte. A Soviética pro-
cos que não dão prejuízo às editoras. Com a imensidão da metia acabar com o antagonismo de classes e a exploração do
ignorância atual, a televisão fabrica bonifrates que o público homem pelo homem. Intensificou, porém, esse antagonismo e
aplaude inconscientemente. Para os artistas, seja qual for o essa exploração, errando uma nova classe de privilegiados, a
seu virtuosismo, não existe mais qualquer possibilidade de êxito dos funcionários do Partido Comunista, que passou a escravi-
sem o ostensivo patrocínio ou a colaboração da mídia. zar o resto da população. O Cristianismo pregava a humildade,
Aliás, quando ainda não existia rádio ou televisão o ascetismo e a caridade. Os fariseus, todavia, apropriaram-se
assim escreveu Thomas Jefferson: "Quem nunca lê jornai~ da doutrina do profeta e continuaram a viver como antes, cultuan-
está melhor informado do que aquele que lê, quem do a hipocrisia e explorando a humanidade. Por isso, Nietzsche
nada sabe está mais perto da que observou que: "O Evangelho morreu na cruz". E como disse
a mente cheia de erros e invencionices". A mídía eletrônica e a 'Ruy: "O que ficou é uma simbólica sem alma e sem verdad~,
propaganda são as maiores calamidades da atual. Ca- pasto à credulidade das classes ignorantes e manto ao ceptI-
valgando a ignorância, o cismo dissimulado e da minoria
tumes, os confirmar as regras
lodo e o de Le Bon: "Nos
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grupos humanos a média da moral é constante". Há sempre, mem, como os fatos comprovam em demasia.
em todos eles, patifes e benfeitores. O número, porém, dos As mesmas atrocidades cometidas em épocas re-
ti
últimos, é tão insignificante que não modifica o conceito do motas, continuam sendo praticadas, em proporções maiores,
C pelos povos mais civilizados. O massacre foi um
grupo. No homem, o egoísmo é inato e raramente
te ou em com o
é um animal e, como todos os outros, luta por judeus consumado em época recente. Por a parte, os
sua sobrevivência. Busca instintivamente uma vida de confor- conflit~s religiosos ou' políticos têm produzido milhões de víti-
to e luxúria pode ser com o sacrifício de mas. A própria existência, rotineira e pacífica populações
seus semelhantes. A simples dos poli- urbanas, é diariamente conturbada pela de homicí-
ciais e judiciários evidencia que a maldade humana precisa dios, assaltos, estupros, latrocínios e seqüestros. A todo ins-
ser submetida a permanente vigilância. tante o homem exibe e comprova a sua índole predatória. Por
Nenhum animal é mais perigoso do que o homem. isso, segundo Bertrand Russell, há mais sucesso em promo-
Nenhuma outra espécie tem o seu poder destrutivo. O animal ver o ódio do que a concórdia. E para Maquiavel, é mais segu-
selvagem contenta-se em matar homem vampirismo ou
c
c mata

an sua se a e
r tudo o pelas N se , exemplo, julgar
as ou nas em paz,
E ocorrem nas metrópoles. Esgrimindo a perfídia e outros meios a Igreja Católica pelos mártires do Cristianismo, nem os ho-
I de trapacear, o homem busca ascender em todas as comu- mens pelos benfeitores. Essas exceções servem apenas para
ç nas, para comer o pão com o suor do rosto alheio e desfrutar confirmar a regra de que o homem, como disse Hobbes, é ?
de todos os prazeres. Ludibriando eleitores, explorando a cren- lobo do homem. A História da Civilização, como observou GI-
dice religiosa ou simplesmente fraudando compromissos, o bbon é a história dos grandes crimes da humanidade. Milhões
homem esbulha os frutos do trabalho individual ou coletivo. de p~ssoas já sucumbiram em guerras inúteis. Outros milh?es
Como disse Ghandí, a Terra tem bastante para a ne- morreram e continuam morrendo de fome, por falta de solIda-
cessidade do homem, IT],aS não para a sua cupidez. O que se riedade dos que comem à tripa forra. A maldade é uma con~­
gasta em material bélico e em futilidades, daria para alimentar tante na conduta humana. Essa maldição jamais será exorcI-
bilhões de indivíduos e erradicar todas as doenças. Aplicada zada. Nenhuma campanha educacional será capaz de erradi-
na produção, a fortuna dilapidada em aviões de , bom- car o egoísmo, porque ele é inerente à natureza humana. .
bardeiros, mísseis, canhões, metralhadoras, torpedos, cruza- Aceita essa premissa, que reputo fundamental, sera
dores e submarinos, daria de sobra para garantir alimentação fácil deduzir que a humanidade jamais sairá do pântano em
a toda a humanidade. O que se desperdiça em festejos ridícu- que chafurda. Basta ver que todas as idéias redentoras, ?apa-
los, automóveis de luxo e jóias inúteis, bastaria para financiar zes de sublimar as relações humanas, são logo apropna?as
pesquisas científicas que eliminariam as causas de todas as por demagogos e estelionatários que as subvertem e m~nlpu­
enfermidades. A simples conduta individual, orientada no sen- Iam em funcão de seus interesses. A industrialização da fe e de
tido do bem comum, determinaria uma revisão total dos con- tudo o mai; que serve de isca para pescar adept~s, evidencia ~
ceitos de moralidade que denigrem a nossa espécie. isso, índole utilitária do homem e seu propósito ineqUlvOCO d: .doml-
porém, é absolutamente incompatível com a vocação do ho- nar e explorar seus semelhantes. Acenando com as deliCias do
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paraíso ou ameaçando com as torturas do inferno, o homem sentia pena e socorria alguém, ensejava ao beneficiado a opor-
cavalga os outros e locupleta-se com os dízimos ou doações tunidade de demonstrar-/he ingratidão, para que pudesse, sem
( da crendice. Hasteando abandeira das transformações sociais remorso, livrar-se do sentimento de piedade. De fato, nada
t e prometendo indenizar os espoliados, o demagogo alcança o melhor para libertar-nos de dependências sentimentais do que
poder político, para nele enriquecer e praticar abusos. possibiiitar ao necessitado, ao amigo ou à pessoa amada a
r oportunidade de o seu o homem ido-
Sempre fui extremamente sensível às dores do mun- so, aliás, nem mesmo é necessário percorrer as etapas que
do e encarei com repugnância os atos de violência ou grosse- levam do benefício à ingratidão. lembrar-se de aconte-
ria. Não podendo, porém, socorrer os aflitos, nem impedir os cimentos análogos para antecipar o se a
arroubos da prepotência, preferi afastar-me das pessoas, para guarda. O bloqueio, portanto, é o único recurso disponível para
que seu sofrimento ou brutalidade não contaminassem meu quem não deseja colecionar decepções. Quando, porém, as
psiquismo e enlutassem minha existência. Para não sofrer súplicas do apelante vulnerarem esse bloqueio, o apelado verá
dores alheias e não conviver com a tragédia humana, optei que, realmente, só a ingratidão liberta.
(
pelo bloqueio de minha afetividade, só admitindo relaciona- Embora houvesse dedicado grande parte de minha
( mentos que não implicassem em aderência ou e das
timental.
intuir ou
mos mesma na é nos me 00
confundíamos. O mundo para mim passou a ser um jardim inimigos, a maior punição é deixá-los conviver com sua peço-
zoológico onde convivem, sem vigilância efetiva, animais do- nha. O crime contra a liberdade sexual expulsa o prazer, ine-
mésticos e predadores. . rente à participação espontânea da fêmea cobiçada. O crime
Ao andar pelas ruas, não vejo pessoas. Vejo animais contra o patrimônio não me aliciou, porque as coisas materi-
de todas as espécies, que só adquirem personalidade após ais não me fascinam e sempre foram mínimas as minhas ne-
isolados dos grupos em trânsito. Enquanto permanecem reu- cessidades. Entretanto, como Hamlet também admitiu, sem-
nidos, são para mim rebanhos de bovinos, matilhas de cães, pre tive mais crimes em minha mente do que imaginação para
bandos de carneiros ou de porcos. Antes de dialogar com qual- concebê-los, ou tempo para executá-los. Jamais tive, porém,
quer transeunte, não consigo distinguir a que espécie biológi- como ocorreu com ele, motivação para cometê-los. Nada devo,
ca ele pertence. Só através da palavra é que posso saber se pois, no particular, porque o pensamento não imposto.
algum deles é da espécie humana. O que distingue o homem A elaboração de um tratado geral sobre a estupidez
dos outros animais é a superioridade de sua inteligência. humana é tarefa irrealizável. Para não imitar aqueles que já
e/e, por sua ignorância ou estupidez, permanece no mesmo abordaram esse tema e se perderam em sua vastidão oceâni-
nível dos outros seres animados, não pode pretender uma clas- ca, devo restringir-me a uma rápida incursão na mitologia so-
sificação diversa. Os seres que transitam pelas ruas, seduzi- cial, emitindo alguns conceitos sobre a crença em
dos pelas atrações mundanas e robotizados pela televisão, deuses, nos governos e na justiça. Lateralmente, apreciarei
devem ser encarados como os outros animais, porque os também a influência da mídia e dos preconceitos na mentali-
superam em inteligência ou raciocínio. dade a acaba
Ainda com ao por contra os seus próprios
do um romance de Pitígrilli que merecem porque já se
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mem não é confiável. Como dizem os curdos, o lobo é suspei- que, desde que nasce, o homem está sujeito a doenças, a
ti to, mesmo quando dorme com fome. O que importa, pois, é acidentes e a uma infinidade de perigos que o impelem a bus-
C estudar as causas que aluam em seu psiquismo, a fim car a proteção de uma divindade. Da covardia, porque o te-
ti preender as que o tornam destrutivo. mor de um eventual castigo o força a bajular essa potência
invis esses podem a
uma crendice que não se arrima em qualquer princípio razoá-
for considerado que ninguém vel. Os livros religiosos e as pregações respectivas estão ei-
so foi e que a Terra é uma vados de contradições, incoerências e que não re-
será óbvia a conclusão que a idéia da Deus foi sistem à mais superficial análise. Somente uma
concebida para suprir essa ignorância. O argumento de que inelutável de deixar-se iludir, pode forçar alguém a acreditar
nada sem um criador não convence de que um Deus nas fábulas que os religiosos propalam.
haja criado o Universo, porque implica na dedução de que algo Mesmo assim, todo mundo reza e se ajoelha em sub-
anterior houvesse criado o Deus que criou o Universo. Por ou- missão a um ente imaginário. toda parte erguem-se tem-
( tro lado, se esse plos de
(

r foi
E
os os os a as na realidade, partidos políticos, hegemônícas
ças os sinistros e mazelas, bem como a própria índole do ho- já foram e continuam sendo deflagradas, com o sacrifício de
I
mem, escorraçam as deduções da crendice. muitas vidas. Os crimes cometidos pelas facções religiosas
\ Um Deus que produz seres venenosos como a cobra são os mais abomináveis da história da humanidade. O Teo-
e o escorpião e que condena os animais à imolação recípro- cali, os rituais de magia negra e a incineração em praça públi-
ca, não pode, de modo algum, ser considerado um ente bon- ca são símbolos da crueldade religiosa. Também execrável,
doso. Um Deus que permite o nascimento de crianças mon- ainda que incruenta, é a doutrinação com que os industriais
golóides, cegas ou xifópagas, e que enche o corpo humano da crendice conseguem estupidificar as multidões.
de vírus, micróbios e células cancerígenas, tem de ser, sem /Tão poderosa é a compulsão da crendice que, quan-
dúvida, um ente cruel ou impiedoso. Basta pensar nas cozi- do um indivíduo consegue escapar de um acidente mortal,
nhas particulares ou dos restaurantes, na vivência dos ani- logo abre a boca para dizer que Deus o salvou. Não lhe passa
mais nas selvas, nos rios ou nos mares, para compreender pela cabeça que se Deus existisse e fosse onisciente, onipre-
que o mundo é um matadouro, onde os mais fracos são a sente, onipotente e de infinita bondade, teria evitado o aciden-
todo instante, devorados pelos mais fortes. O homem, ape~ar te. São comuns os desastres de veículos que transportam ro-
de sua imperfeição e maldade, concebeu a idéia de justiça e, meiros, e templos já desabaram sobre devotos, no exato mo-
ao menos em tese, condena os morticínios. O Deus, porém, mento em que oravam ou pediam a proteção divina. Em todos
que tantos adoram, instituiu a carnificina como condição fun- esses casos, os sobreviventes agradecem a Deus pelo salv~­
damentai para a sobrevivência. mento. Demonstrando claramente que não confia na proteçao
Deus é produto da ignorância, da fraqueza e da co- de Deus, o Papa atual, que já foi vítima de atentado homicida,
vardia. Da ignorância, porque o homem nada sabe sobre sua prefere exibir-se no interior de um carro blindado. A qualquer
origem ou sobre a razão de sua existência. Da fraqueza, por- objeção, todavia, responderá o crente que não nos cabe inda-
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gar sobre a conduta de Deus e seus insondáveis desígnios. tomando-os receptivos às incubações do misticismo e imper-
ti Enquanto isso, iludindo a todos, fazendo espuma e meáveis ou opacos para as noções de piedade, solidariedade
C vendendo fumaça, uma legião de parasitas e vampiros, tra- e amor ao próximo. Os crentes entendem que, cumpridas suas
ti vestidos de sacerdotes, pastores, adivinhos e curandeiros, obrigações rituais, podem praticar, contra seus semelhantes,
forjando milagres e ameaçando com as chamas do inferno qualquer indignidade.
r vão sugando dízimos e imbecilizando o povo em geral. Duran~ Uma simples com de com
t os mil anos Idade Média, as religiões conseguiram man- a indumentária do Papa evidencia que, para reinar sobre a
ter a Europa na mais completa ignorância. Foi a época das estupidez humana, não é necessário, nem mesmo, velar pela
~ pestes, atribuídas à malfcia demônio, e a das Cruzadas, aparência. Para o povo é perfeitamente admissível que a pre-
ii instituídas a pretexto de libertar o Santo Sepulcro, mas, na gação da humildade seja feita por quem mora em palácios e
realidade, convocadas para a matança de maometanos e a usa vestes suntuosas. É possível também inculcar como sa-
pilhagem de suas riquezas. A cupidez, a crueldade e a hipocri- grado um livro sobre o qual assim escreveu Thomas Paine:
sia são, conjunta ou isoladamente, as características marcan- "Quando lemos as histórias obscenas, as libertinagens volu-
( tes de todas as seitas religiosas. O que a elas realmente inte- tuosas, as cruéis e traiçoeiras execuções, as vinganças impi-
( ressa é o poder total sobre a e a fortuna dos beatos. edosas, que enchem mais da metade Bíblia, pensamos
Uma que
con-
a tribuem e . O povo
uma interminável entre um Deus que tudo pode e quer ser iludido. Os padres e os pastores suprem essa carên-
um ser inferior que o afronta e consegue sobreviver eternamen- cia, fornecendo imposturas.
te. Inconcebível também é a admissão de que um Deus, de A história das religiões demonstra claramente que,
infinita bondade, possa tolerar que seus filhos sejam atormen- como também disse aquele pensador: "Todas as Igrejas, se-
tados por um ente maligno que ele, em sua onipotência, pode- jam elas maometanas, judias ou cristãs, me parecem meras
ria destruir. Não há dúvida de que a Teogonia, a Teologia e a invenções humanas, estabelecidas para amedrontrar e escra-
Demonologia, imposturas que até hoje confundem o espírito vizar a humanidade e açambarcar as riquezas e o poder". Nada,
humano, são, como Mencken disse da Metafísica, "tentativas porém, absolutamente nada, conseguirá jamais erradicar do
de provar o inacreditável, apelando para o incompreensível." espírito humano os estigmas da crendice. Na Rússia, onde os
Somente a ingenuidade pode justificar a crença nos fantasmas cultos religiosos foram, por mais de setenta anos, cerceados
com que as religiões poluem a mente dos devotos. ou proibidos, as igrejas renascem agora em seu máximo es-
Alega-se que as religiões civilizam os povos, abran- plendor. A crendice, como o uso das drogas estupefacientes,
dando sua índole agressiva e fazendo-os proceder bondosa- é uma dependência da qual poucos se libertam. Entretanto,
mente, pelo temor do castigo divino. Não é isso, porém, o que melhor seria se os crentes, abolindo e dispensando os
a História da Civilização tem demonstrado. As guerras religio- profetas, uma religião de princípios morais que os
sas já dizimaram populações inteiras. A doçura exibida pelos obrigasse a proceder com dignidade em suas relações.
crentes e devotos em suas relações públicas é contrastada vez de esbanjar dinheiro em celebrações religio-
pela crueldade com que costumam seus dependentes. de Natal, quando fortunas são
A intolerância, alimentada por de iluminações feéricas,
queia o súcubos mais compatível com
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a doutrina cristã socorrer as crianças abandonadas, os famin- pende da receptividade dos eleitores aos apelos da demago-
t tos e os que padecem ou morrem por falta de remédios e assis- gia. Os prejuízos decorrentes de uma péssima escolha,
tência hospitalar. Nada, aliás, exibe melhor a índole bovina do devem, pois, ser debitados à cobiça ou à estupidez do povo.
(
povo em geral do que o espetáculo A prática estelionato tem, sobre as a
t
casas nos garantia ea
r É, um estouro pela crendi- natário ingressa na política porque, ao defraudar os cofres
ce, pelo egoísmo familiar, pelo senso imitação e pela propa- públicos, a única penalidade a que se arrisca é a deser
ganda. No dia Natal é comum o de Inimigos se guido ladrar dos que não conseguirem das fal-
abraçam, mas a inimizade Tudo é falso, artificioso e catruas. Como, todavia, nem de pão vive o homem, há os
cerebrino, como o próprio Natal - dia do nascimento Jesus - que, além do enriquecimento ilícito, buscam na política a sa-
que nem os historiadores sabem em que data ocorreu. tisfacão dos mais variados interesses. O egoísmo, porém,
Para que as pessoas vivam como consta que Jesus encO'berto pela bandeira do humanitarismo, é sempre a moti-
viveu, exprobrando a hipocrisia e praticando a caridade, a vação suprema. Como ocorre com as corporações religiosas
~ crença em deuses é absolutamente que que exploram a em os
seu políticos
acesso ao
mas. a éa
ta e a a cu/tua, Hoje, quando a m eletrônica a lavagem cere-
mais úteis à convivência social e à sublimação do espírito do bral dos povos e os manipula como fantoches, não mais per-
que a verborréia mendaz dos padres e dos pastores. Como guntaria Chamfort de quantos tolos se precisa para formar a
o próprio Jesus teria dito, nenhum valor moral tem a esmola opinião pública. Atualmente, ele procuraria saber quais são os
oferecida com ostentação, nem, como se deduz desse prin- índices de audiência do rádio e da televisão. Poucas pessoas
cípio, a abstenção do mal para evitar o castigo divino ou a raciocinam. As demais, preferem delegar essa prerrogativa aos
prática do bem para a obtenção de crédito no paraíso. A reli- locutores de rádio e de televisão que, por sua vez, veiculam o
gião única e verdadeira, a religião do humanitarismo, dis- que seus patrões determinam. E estes procedem de acordo
pensa deuses, templos e oráculos. com os interesses de seus acionistas, anunciantes ou Manci-
adores. Às pessoas que não abdicaram do direito de racioci-
Se, como disse Bernard Shaw, a democracia é um nar, só resta o isolamento. Só assim poderão encarar com
sistema que não nos permite ter um governo melhor do que desprezo a humanidade e criar um mundo interior, invulnerá-
merecemos, é claro que, nesse regime, não se deve reclamar vel à poluição eletrônica e às cretinices de seus semelhantes.
dos crimes e dos abusos dos governantes e sim do próprio
povo que os elege. Sendo a política, em toda parte, um este- Outro ídolo de pés de barro que ainda consegue im-
lionato multitudinário, o sucesso dos candidatos a cargos ele- pressionar os ingênuos é a justiça. Apesarde sua vulnerabilida-
tivos depende sempre do nível moral e intelectual dos povos de, de seus caprichos e prevaricações, a justiça ainda man.tém
que eles pretendem empulhar. No estelionato a colaboração algum prestígio, induzindo os povos a acreditar que ela eXiste.
da vítima é sempre indispensável. Seja por ingenuidade, ig- O homem, como ente real e palpável, não suporta o nada. Onde
norância, ou cupidez, a vítima colabora com o estelionatário, percebe o vazio, ele o preenche com sua imaginação, a fim, de
possibilitando o êxito de suas artimanhas. Tudo, portanto, lidar com coisas concretas. Exatamente p~r ser o mais temlvel
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assassino. Mas afirmar que nunca serei condenado como la-
drão ou assassino seria presunção", Os crimes judiciários cos-
tumam ser justificados pela traição das provas, pelo livre con-
vencimento ou outra qualquer circunstância que assegure im-
punidade a seus autores. crimes não são sequer de-
nunciados, porque a judiciária, em parte, é
um dinossauro que a prudência aconselha a não desafiar.
Entretanto, disse Ruy que: "Os piores de todos os crimes, os
que mais atacam a moral pública e depõem contra a civil
ção de um povo, são as violências contra a lei pelos a quem
ela incumbiu de sua guarda".
No âmbito da justiça civil, dizem os árabes que quem
ganha fica sem camisa e quem perde fica nu. Para os chine-
ses, vencer uma demanda judicial é ganhar uma galinha e
perder uma vaca. ndo Ambroise Bierce, uma judi-
ciai é uma

homem é ser um
nho e não somente um patrono legal, o inocente corre o ris-
co de ser condenado. Como a Rainha da Inglaterra, a lei rei-
na, mas os juízes é que governam. A sorte dos acusados
depende até mesmo da simples distribuição dos processos,
porque há juízes que tendem a condenar e outros a absol-
ver. Há também os que detestam crimes banais e são tole-
rantes com crimes gravíssimos.
Na loteria forense, portanto, o destino dos acusados
dê'pende da índole dos julgadores. E no processo criminal a
vitória é sempre negativa, porque consiste apenas em não
perder a liberdade. Perde-se, porém, os anéis, para salvar os
dedos. Em todo o mundo os anais judiciários registram deci-
sões que nenhum sistema lógico poderia justificar. Os livros
de jurisprudência transcrevem, às vezes na mesma página,
ementas de arestos antagônicos que, como dizem os france-
ses, uivam de susto por se encontrarem juntas. O tráfico de
influência comanda as decisões mais importantes dos órgãos
judiciários. mesmo as leis atualmente ditadas ~elos
À toda denúncia, veraz ou caluniosa,
pela mídia eletrônica, segue-se
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logo uma lei absurda. Quem comanda atualmente a ordem com que promovem o nepotismo e abocanham frutos do tra-
jurídicaé a televisão. balho coletivo. Tais famílias só se interligam para aumentar os
Os ju modo geral, temem a publicidade tentáculos com que tencionam novas ou
tíva. Mas, quando o noticiário os favorece, não assegurar a posse dos privilégios já usurpados.
tir ao apelo to, núcleos que
buem, aos caprichos da mídia. aliás, é como Marx e Engels advertiram, sob a condição de que a fa-
o que acontece em todos os setores da administração pública. mília proletária não possa existir. Como ocorre com as cance-
O livro, do e de . das rígenas, o conceito de célula, atribuído à fam , só
teses, foi banido ópio eletrônico que, com suas imagens seria admissível no âmbito da Oncologia.
coloridas, fascina os olhos e bloqueia o raciocínio. Sabendo Consta que quando disseram a Jesus que sua e
que a televisão a lavagem cerebral das multidões e que o seus irmãos queriam vê-lo, ele apontou para seus discípulos
povo não tem capacidade de distinguir alguma, os funcio- e exclamou: "Minha mãe, meus irmãos, são os que ouvem a
nários não se arriscam a enfrentar a opinião pública. Até mes- minha palavra e a praticam". Sua família, pois, não era com-
mo por comodismo, posta de seus parentes e sim todos aqueles

o um j outro manam e
homem faria rebentar de riso se não fosse tão trágico. Embo- nea. Assim construída, a verdadeira família deixará de ser um
núcleo de interesses mesquinhos e poderá expandir-se, vin-
ra as leis tentem coibir o arbítrio judicial, há sempre como ilu-
culando pessoas de descendência heteróclita. As afeições
dir os seus ditames. Por isso, dizem os italianos que feita a lei
recíprocas e não o parentesco, devem ser consideradas como
começa a trapaça. O desvio de finalidade, pois, é inerente aos
os verdadeiros laços de família.
órgãos judiciários, como também ocorre com todos aqueles
que têm o poder de decidir sobre o patrimônio, a liberdade e a
Para perpetuar as espécies, a Natureza impõe às fê-
vida dos cidadãos. A hipótese de substituição dos juízes por meas o ónus de procriar. Entre os animais, ainda que selva-
computadores não solucionaria o eterno problema dos capri- gens, percebe-se o zelo com que elas alimentam e protegem
chos, das prevaricações e das erronias, porque nem sempre sua prole. Vendo nos filhos a continuidade de sua própria vida,
será um funcionário zeloso e imparcial o encarregado de ma- a fêmea obedece ao instinto de conservação, cumprindo rigo-
nipular os dados que conduzam ao julgamento. Ademais, os rosamente os encargos da maternidade. Na espécie human~
fatores subjetivos, de suma importância nos casos criminais, ocorre o mesmo fenómeno. Nesta, segundo Schopenhauer, ate
não podem ser computados. a atracão sexual é determinada em funcão do filho que pode
ser g;rado. Instintivamente, os parceiro~ buscam compens~r,
Considerada a célula mãe da sociedade, a família um com o outro, as suas imperfeições anatómicas, para nao
burguesa é uma instituição que tem sido indevidamente reve- transmiti-Ias ao ente a ser concebido. Por isso é que os opostos
renciada. Ao contrário, porém, de constituírem células do teci- se atraem. Como a espécie humana adora fantasias, chama-
do social, as famílias burguesas são núcleos de egoísmo que mos de amor sensual o que, na realidade, é um ditame da Na-
se antagonizam e concorrem ferozmente na luta por vanta- tureza. Na mente humana, porém, como Nietzsche observou, o
gens e privilégios. Sua característica fundamental é a cupidez fato é secundário. O que prevalece é a versão do fato.
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Se não resultasse de uma injunção da Natureza, o do para que todas as pessoas, sentindo-se em culpa, neces-
ato de conceber um filho deveria ser considerado como uma sitem de penitências e absolvições. Sabendo que o apelo se-
leviandade, porque a transmissão da vida não é, de modo al- xual é irresistível, exploram essa fatalidade. Na época das In-
gum, uma ação bondosa. Com ela, impõe-se ao herdeiro uma dulgências, eles só perdoavam alguns relacionamentos ou atos
infinidade de tormentos cuja incidência é possível prever ou sexuaig--a troco de dinheiro.
antecipar. eventuais ou íquicas, Embora não mais, como na Idade
bem como os prováveis fracassos na luta pela vida, deveriam impor seus preconceitos a ferro e fogo, o fato é que, apesar
alertar os genitores de que a procriação é um salto no escuro. de suas incoerências e contradições, os padres ainda influen-
Além de submeter a mulher a graves e deformar-lhe ciam muita gente. Dizem eles, por exemplo, que defendem a
para sempre o corpo, a maternidade responde ainda pelo trá- vida quando combatem o aborto e os anticoncepcionais. En-
gico espetáculo da infância abandonada, doentia, faminta e tretanto, adotam o celibato e pregam a castidade para pode-
analfabeta que, conforme nosso índice de moralidade, con- rem debitar aos leigos o pecado da luxúria. Aviltam, portanto,
templamos com tristeza, revolta ou indiferença. A decantada uma função naturalíssima, para que o povo os admire e se
função maternal, portanto, costuma transformar o ventre da submeta à sua autoridade. Só os tolos, porém, e os hipócritas,
mulher em uma Caixa Pandora. aplaudem essa moral la, que, se por todos
o instinto cida, . Uma
em os
que,
,a é, como as
humana, , a tendência é virtudes, um vício disfarçado. Para ele, ser casto é ser horren-
causa de desequilíbrio social e fator de criminalidade. A ânsia do, porque a castidade é um crime contra a Natureza.
de procriar produz uma legião de famintos e rebeldes que Para Nietzsche, toda ação determinada pelo instinto
ameaçam a tranqüilidade das comunas. Embora a Natureza, vital encontra no prazer a prova de sua legitimidade. Disso de-
como disse Bacon, só possa ser dominada por quem a obe- duzia que a pregação da castidade, por ser contrária àquele
dece, o fato é que a ciência fornece vários meios de controle instinto, é uma agressão à Natureza. Acrescentava que des-
da natalidade. Nenhum filósofo, porém, conseguirá jamais prezar o ato sexual, considerá-lo indecente, pecaminoso ou
convencer as mães de que seus filhos não são as maravilhas impuro, é um atentado contra a essência da vida. Co~cluía q~e
que elas supõem. E basta esta circunstância para demonstrar o padre reina com a invenção do pecado, porque a Invocaçao
que o impulso maternal concorre também para inutilizar a pro- da moral é o melhor artifício para levar a humanidade pelo na-
le com que se empenha em superlotar o mundo. riz. Para Pitigrilli, à mulher que ninguém deseja, resta o co~solo
Razão, pois, tinha Lyndon Johnson quando declarou de ser moralista. O mesmo ocorre com os eunucos mentais ou
que cinco dólares aplicados no controle da natalidade valem fisiológicos. Os hipócritas aplaudem os preconceitos relativos à
mais do que cem dólares investidos no cresdmento econômi- sexualidade, porque deles se servem para infamar a reputa-
coo Os padres, todavia, condenam os métodos anticoncepcio- ção alheia. Só a velhacaria, porém, pode pretender que a hu-
nais e fazem cruzadas contra o aborto. Com isso, agravam a manidade considere imoral a sua própria origem. .
miséria das famílias proletárias e enchem as ruas peque- Realmente, instituir o comportamento sexual como In-
dice de é uma . É um obsceno que
nos mendigos que, já na criminali-
Evidenciando que sua revela a protérvía censores e a ingenuidade dos que se
os ao seu domínio, os preocupam com a maledicência ou se submetem a essa torpe
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avaliação. O simples fato de sermos, todos nós, produtos de que macula a sua reputação é a crença de que eles optaram
relações sexuais, deveria bastar para que ninguém admitisse a livremente pela inversão sexual.
ti infamação do ato que nos originou. A conjunção camal entre Em vez disso, se entregam ao deboche e, na
c ativos, ' verdadeiros de-
um homem e uma mulher que obedecem a uma atração recí-
ti . ículo. como
proca é um ato natural, instintivo e com-
ou um parceiros, a cópula consen- Zweig retratou, os homossexuais viviam esmagados pelos
tida é absolutamente incensurável. As fábulas do pecado origi- preconceitos e adotavam uma postura . de humi-
nai e virgindade de Maria, concebidas a cas- lhacão. É claro que nenhuma dessas e .A
tidade e denegrir o ato sexual, são patranhas que devem ser pri~eira porque consiste em um exíbici<?ni:mo torpe e
escarnecidas ou simplesmente ignoradas. vagante. A outra porque importa na adn:lssao culpa
O preço que a humanidade pagou e continua pagan- tente, uma vez que ninguém é censuravel por um~ condut~
do pelos preconceitos relativos à sexualidade é verdadeira- involuntária. A hostilidade contra ospederastas passIvos eqUi-
mente incalculável. São incontáveis as vidas arruinadas pela vale às manifestações racistas que, ainda hoje, envergonham
condenação do amor livre. Em holocausto a essa A se justifica os

o sua e submetido o ' ser


aos efeitos deletérios da castração psicológica. O ato sexual, do que a mulher. A própria sabedoria a ela se subm~te, P?rq~e
porém, não deveria jamais ser censurado, porque nele não há não é indispensável. É possível viver feliz em plena Ignorancla.
impureza alguma. Qualquer reprovação em torno da conduta A agnosia, aliás, é a condição principal para que .0 homem al-
sexual é fruto da malícia, da hipocrisia e da torpeza dos cen- cance a felicidade. A mulher, porém, é a fonte da Vida. Sem ela,
sores. Estes é que - por poluírem a mente das pessoas e o mundo seria intolerável. Só os homossexuais ou os mental-
infelicitarem gerações - deveriam ser execrados e punidos. mente castrados, como os anacoretas, poderiam sup<?rtar u~a
existência sem o fascínio que emana da mulher desejada. ~In­
Um estigma cuja origem os próprios portadores msis- da que não possa tê-Ia em seus braços, o hom~m norm~1 v;bra
tem em ignorar, é o da pederastia. Alegando que o homosse- e vitaliza-se com a simples esperança de um dia conqUista-Ia.
xualismo é opcional, o pederasta passivo assume uma culpa E se isso ocorre, nada no mundo é comparável a essa recom-
que cabe exclusivamente à Natureza. O homem normal, toda- pensa pelas angústias de sua expectativa. Co~o. escreveu Var-
via, não pode jamais conceber que outro renuncie voluntaria- gas Vila, a mulher nua é a mulher amada. Nao Importa, como
mente à sua masculinidade. A pederastia é determinada por versejou Stecchetti, se é casta ou pecadora.
compulsão fisiológica, de origem hormonal e genética. O pe- Por isso, sempre me revoltei contra o desapreço com
derasta passivo pertence a uma espécie intermédia e não que se encara a função socia! das putas. Sei que essa po.s~u­
necessita justificar sua conduta, porque ela é comandada pela ra resultou, como Schopenhauer esclareceu, do corporatiVIS-
Natureza. Se os invertidos reconhecessem sua própria ano- mo das mães e dos pais de família que precisavam desc~rtar
malia, não pretendessem criar um mundo à sua imagem, e suas filhas. Na época em que as mulheres estavam exclUldas
agissem como agem os deficientes físicos, sem complexos das profissões rendosas, era necessária a união de todas para
de culpa ou superioridade, seriam certamente respeitados. O que o homem só pudesse consegui-Ias através do casamen-
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to. Quando, pois, alguma entregava-se sem exigir matrimó- gamento pelo serviço que lhe prestam. As vestais familiares,
nio, a corporação sentia-se prejudicada em seu monopólio porém, concentram no homem suas ambições e pretendem
sexual e hostilizava a infratora. Hoje, porém, quando os antibi- que ele satisfaça todos os seus caprichos. Atuam como o ic-
óticos e a pílula anticoncepcionallíbertaram as mulheres, quan- nêumone, cujas larvas devoram os tecidos do seu hospedei-
do elas competem com os homens em todas as atividades ro. Mantêm permanente vigilância sobre a conduta do homem
não mais se justifica a conduta que depreciam as mulhe~ e só aprovam as ações que a beneficiam. Condenam tudo
res que optam pela prostituição ou a ela são compelidas. que não as favoreça ou concorra para libertar o prisioneiro.
Quando, numa zona boêmia, um jovem tentou es- Em suma, para concederem o que as putas vendem ao preço
conder-se de disse-lhe o severo censor romano que de mercado, as moças de família simulam ingenuidade e pu-
melhor seria ali permanecer, pois de outro modo estaria reza, iludem o homem com promessas de amor eterno e o
pondo em risco a integridade sexual das moças de família. exploram a mais não poder. Para Don Juan, porém, que as
função social que as putas exercem, ou seja, a de pre- conhecia, elas eram "santas na igreja e macacas na cama".
servar a tranqüilidade das famílias, não deveria ser esqueci-
da pelos seus beneficiários. Muitos estupros e casamentos As sociedades primitivas não conheceram o casamen-
temerários são evitados porque suprem uma to. Enquanto o trabalho mulheres foi mais importante do
da de que a normais. As homens, a do

servem a , en- antes se a como a e a


carecer os prostibulares e degradar uma classe que rapina, começaram a produzir mais do que elas, essa relação
todos deveriam proteger e respeitar, porque sem ela estari- fqi envesada. Eles passaram a ter tantas mulheres, quantas
am condenados à frustração, a convolar casamentos incon- pudessem sustentar. O casamento monogâmico foi estabele-
venientes ou ao onanismo.
cido para vincular dinastias, acumular património e preservar
Sim, porque todos os homens devem às prostitutas o o direito de herança. No passado, as mulheres sem dote não
que não teriam conseguido sem sua colaboração. Muitos se conseguiam casamento. A vulgarização do matrimónio decor-
iniciaram sexualmente nos bordéis. Outros livraram-se de psi- reu do senso de imitação, uma vez que os pobres, deslumbra-
coses recorrendo a essas clínicas de desafogo. Casamentos dos pela vivência dos ricos, procuram copiar seus hábitos e
ainda perduram porque os maridos podem, de vez em quan- costumes. Não tendo, porém, os mesmos recursos, logo per-
do, livrar-se da monotonia conjugal em leitos estranhos. Ade- cebem que caíram numa arapuca e anseiam pela evasão.
mais, além de ser a mais barata, a mulher paga não tem ciú- Reza um aforismo que não se pode odiar o homem
mes, não atormenta o homem, não o enche de filhos, não pede que se conhece. Isto porque o conhecimento do caráter de
pensão ou alimentos, nem comete adultérios porque a nin- um "indivíduo e dos fatores que nele atuam, explica e justifica
guém pertence. Só a ingratidão e a hipocrisia podem explicar a sua conduta. No casamento, porém, essa regra é invertida.
a hostilidade com que muitos se comportam com relação a Os cónjuges, quanto mais se conhecem, mais se odeiam. E~sa
essa classe benemérita. Assim compreendendo, sempre tra- fatalidade decorre da perda gradual e constante das calonas
tei com extrema cortesia essas mulheres e, quanto à sua re- . passionais que determinaram o casamento e das decepções
muneração, sempre entendi que dinheiro puta é sagrado. recíprocas. A frustração é o estado inevitável a que cond~z o
Em sua profissão, as putas mais honestas matrimônio, porque o tempo a fantasia. Como disse
as moças família, porque exigem homem Vargas Vila, o casamento é o encontro dois desgostosos e
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o túmulo do amor. Nada mais estúpido, portanto, do que acre- circundante. Como isso raramente ocorre, pode-se afirmar que
t ditar que os anos de convivência reforçam os laços conjugais a solidão é um estado negativo. Imuniza o indivíduo contra o
c e a estima entre os cônjuges. O casamento é uma instituição contágio social, mas suprime eventuais . . " _ Para o
anacrônica, destinada à a infinidade de homem comum, a verdadeira da felicidade e a lIusao. Sem
t
que ocorrem na a valorização
~ Nos idos fluentes, mesmo para as mulheres o duos ele não encontrará em si mesmo
t casamento é um péssimo negócio. Influenciadas por psi copa- tejar 'sua existência. Sem a ele será um animal como
lésbicas e pederastas, o feminismo e assu- qualquer outro, preocupado em não morrer de
mem a chefia conjugal, delegando aos atribuições Despidos de fantasias, os fatos, as e .os seus.semelhan-
incompatíveis com a masculinidade. Com essa postura, só tes serão sempre aquilo que são, em sua tnste realidade.
conseguem parceiros que as exploram a troco de uma sub- Exatamente por isso, consta dos Evangelhos que Je-
serviência vergonhosa. A esposa sai para trabalhar e o marido sus teria dito: "Bem-aventurados os pobres de espírito, por-
fica em casa, fazendo serviços domésticos e assistindo televi- que deles é o reino dos céus". A realidade é sem?r~ cruel,
relacionamento conduz a unlca
que
nce
a
o reconheceu a a ver-
como um com inclusive com dade. Creio que a humanidade precisa dela. Necessí~a, po-
adultérios, desde que sejam lucrativos. Em ablação ao casa- rém mais ainda da mentira que a adula, consola, da - lhe
mento, a mulher paga um tributo que não precisaria pagar se esp~ranças ilimitadas. Sem a mentira a humanidade viveria
continuasse solteira. em desespero e pereceria de angústia". A espiritualidade, como
disse Augusto dos Anjos, é que "faz da clo~ca .uma urna de
Como disse Chamfort, a felicidade é muito difícil de perfume". Sem embargo, pois, de tudo que fOI aCima argumen-
ser achada em nós mesmos e impossível de ser encontrada tado sobre os mitos e instituições que governam os povos, o
alhures. A solidão, portanto, é o único recurso de que dispomos fato é que, sem eles, o homem igno,!-ante es~aria per~ido.
para alcançá-Ia. Se a felicidade consistisse na ausência da dor, Como a galinha, que entre um grao de milho e un;
física ou moral, a morte seria a melhor solução. Pelo suicídio, diamante preferirá aquele, o homem sem ilusões desprezara
porém, o que se consegue é apenas escapar das mazelas da os mitos e verá em seus semelhantes apenas os concorren-
vida e das torpezas da convivência social. Como nada existe tes com os quais deve contender, em obediêncía à lei ,de sele-
após a morte, a não ser a transformação da matéria, tornada ção natural. Como disse Vargas Vila, amar a mulher e amar o
inerte e insensível, o suicidio conduz apenas à paz eterna. sonho que dela faz o coração. O mesmo ocorre co:n tudo o
anestesia, total e irreversível, é melhor do que a dor, a angústia mais. Todas as paixões gravitam em torno de fantasias que o
e a repugnância. Mas, morto o cérebro, a matéria orgânica re- espírito humano concebe e desenvolve, na ânsia de ~dornar
gride ao nada espiritual, servindo apenas para transplante, au- uma existência, que, desnuda, seria simplesmente animales-
las de anatomia ou para adubar a terra. ca. Quando o êxito não traz dinheiro, o ânimo de exc~der, ~m
Sendo o homem, porém, como disse Aristóteles, um qualquer atividade, inclusive a intelectual, é também Ilusono.
animal político, só encontrará a felicidade na solidão se dispu- Nem mesmo a humildade, sincera ou encenada pa~a provo-
ser de uma riqueza interior capaz de suprir a exclusão do meio car admiração, escapa a essa tendência. Disse Socrates a
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í '
I
~ntí~tene,s: "Através dos buracos de tua roupa, vejo a tua jac- não redime as atrocidades do fanatismo. Para tolerar a huma-
tancla. Ha orgulho demais em tua humildade", nidade, o único recurso é ignorar suas mazelas. A meta a ser
t
O segredo da felicidade consiste em acreditar em alcançada é o paraíso dos tolos a que Milton aludiu. aestrada
c a percorrer é a valorização dos costumes, futilidades e das
~e~s, nos padres, nos pastores, no amor, nos políticos, na
t
Justiça e em todos os mitos que envolvem e dominam as mul- imposturas que fascinam os ignorantes. É preciso não indagar
r qualquer o jamais a causa ou a mundanos, nem
t regozijar-se. Para Nietzsche, acreditar no nada é mais confor- pretender que o homem proceda com abnegação e honestida-
tável do que em nada Ainda que a causa de. Na vida, como nos presídios, é perigoso e inútil afrontar o
todas as da huma , a ignorância é um regulamento. Ao prisioneiro resta obedecer, resignar-
?e ~raça que deve ser conservado para que o homem possa se com a condenação e esperar o término da pena.
Iludir-se e sentir-se feliz;·As científicas e as É necessário também não cultivar o ódio, porque, como
ções filosóficas, tendentes a exorcizar os mitos que f~scinam escreveu Dale Carnegie: "Quando odiamos nossos inimigos,
a huma,ni~ade, só poderão conduzir o indivíduo a um estágio estamos dando-lhes poder sobre nós, sobre nosso sono, nosso
de angustIa e desespero. Em sua fragilidade e covardia o ho- apetite, nossa ínea, nossa saúde e nossa felici-
mem acreditar em dade. quanto nos es-
judiciárias,

ao amor ,d como
se não a imaginação o homem feliz nos bra- modo geral, os homens não devem ser tratados como mere-
ços de uma empregada como nos braços de uma duquesa. cem, porque, como inquiriu Shakespeare pela boca do Hamlet,
Na mente exaltada de Don Quixote, a labrega Dulcinéa fulgu- se assim procedêssemos: "Who should escape whípping?".
rav~ como uma deidade. No deserto, a miragem anima os que Embora visse "tudo e seu oposto" - mas não conhecendo o
estao exaustos e sedentos. No mundo real, o valor das coisas leitor - Montaigne também concluiu que: "Não existe homem
é ígu~1 ao custo de sua reprodução. No mundo ideal, porém, algum que não mereça a forca, dez vezes na vida, se forem
as cOisas ~alem o que imaginamos valer. O sentimento, pois, submetidos à lei todos os seus pensamentos e ações".
de prosperidade, d~ êxito ou de realização, depende do v5i1or
que a~ pessoas atribuem . suas posses ou suas conquis- Embora meus órgãos vitais ainda estejam funcionan-
tas. Disse um poeta que é impossível alcançar a felicidade
do satisfatoriamente, sinto que já se aproxima o fim de minha
porque nunca a pomos onde nós estamos. Mas se ad-
existência. Nesses longos anos de convivência com os livros
missível uma impossibilidade relativa, s~ria evidente e com meus semelhantes, não pude, infelizmente, convencer-
porque só os intelectuais colocam a felicidade além de se~
me da existência de Deus, nem da pureza das instituições
alcance. Os ignaros, como as crianças, a felicida-
que muitos veneram. Minha estudo e o hábito
. de em sua própria singeleza.
Como disse Montaigne, viver ver tudo e de meditar, privaram-me das emoções e alegrias que encan-
seu oposto. O egoísmo, porém, é uma constante na conduta tam a vida. Isso, porém, permite que eu dela me despeça sem
que ' através
humana. Ainda
,O de minha existência, eu
de,
do o esse venábulo, porque o mundo e meus
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42
mentos permaneceriam inalterados. Aceitaria, porém, o pro-
t cesso de esvaziamento cerebral sugerido por Krishnamurtí, a
fim de que meu raciocínio fosse igualado ao daqueles
por sua ignorância, podem a felicidade.
os mitos ocupar em meu cérebro o es-
paço atualmente entulhado de prevenções, eu concordaria em
rejuvenescer. Mas, para ultimar esse acordo, estabeleceria a
condição de ser imunizado contra o vício de perquirir e inter-
pretar. Somente protegido pela ignorância e sem risco de per-
der esse escudo eu poderia aceitar o prolongamento de mi-
nha vida. Se a vontade, como Schopenhauer lecionou, é uma
força cega e imutável, o mesmo não ocorre com a representa-
ção. Como um calidoscópio, a representação produz imagens
múltiplas e coloridas. o cérebro isento

, no amor,
eem
nova uma sucessão eventos em-
polgantes, capazes de compensar as tristezas da atual. Emenda, dispõe que em os pro-
Mas, se Deus existisse e fosse justo, como propalam cessos Criminais o tem direito a um julgamento público
seus idólatras, o melhor seria a morte imediata, porque, sem e rápido, por um Júri imparcial, no distrito onde o crime ocorreu.
dúvida, eu seria hospedado em uma suíte do paraíso. De fato, A Constituição do Império do Brasil (1824) estabele-
fazendo um inventário de minha vida, verifico que meu crédito ceu que o Poder Judiciário composto de juízes e jura-
justifica um processo de beatificação. Em minha atividade pro- dos, mas confiou à lei ordinária a delimitação de sua compe-
fissional impedi que muitas famílias fossem arruinadas ou des- tência. A Constituição (1891) restringiu-se a
truídas e consegui devolver inúmeros braços ao trabalho. Im- manter a instituição 1934 também manteve o
pedi, em muitos casos, o triunfo da iniqüidade. Embora não fi- Júri "com a que a lei lhe der". A
zesse milagres, como, aliás, nenhum santo fez, espalhei bene- de 1 determinar que fos-
fícios por toda parte. Quanto à justiça terrena, se algum tribu- votações,
nal me julgasse culpado, eu teria o direito de proceder como
Sócrates que, intimado a optar pela pena de morte ou a de ceu J nos crimes
multa, assim respondeu a seus julgadores: "Considerando mt- doto~os a vida. A 1967 manteve o Júri, sua sobera-
nha idade, minha pobreza e os serviços que já prestei, quero nia e competência. No mesmo sentido a Emenda n° 1, de 1969.
ser condenado a comer de graça no Pritaneu, pelo resto de Finalmente, a atual a de 1946. .
minha vida". O Júri brasileiro diverge imensamente do amenca~o.
Nos Unidos, todos os crimes de sua compete~­
cia. O processo é instruído perante os jurados. O int~rrog~to­
rio do réu e a inquirição das testemunhas procedidos dlre-
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tamente pelas partes. Os jurados não respondem a quesitos. A Constituição dos Estados Unidos, em sua Quinta
Decidem apenas se o réu é culpado ou inocente. Se o réu Emenda, dispõe que ninguém será julgado m~is.d: uma vez
t .
quiser renunciar ao direito de ser julgado pelo Júri, basta ante- pelo mesmo crime. No Brasil, embor~ a. C?onsÍlt~lçao garan~a
cipar-se ao veredicto, confessando a sua culpa, em audiência a soberania dos veredictos, a lei ordlnana admite que o reu
prévia. Somente nesse caso é que será julgado pelo juiz. Não seja julgado duas vezes pelo mesmo f~to. Sendo essa norma
há incomunicabilidade entre os jurados e não se deci- evidentemente inconstitucional, é obvIo que a do
são por maioria. Na velha Inglaterra, o rei Alfredo mandou Júri vem sendo usurpada pelos tribunais togados. De tudo,
enforcar o juiz Cadwíne que impôs a pena capital a um réu porém, que nos humilha em nos~~ si~tema judiciári~, o m~is
condenado por maioria de votos e não por unanimidade. lamentável é a sobrevivência do JUIZ singular, com o Inadmis-
Em nosso Pa , o Júri só tem competência para jul- sível poder de julgar crimes gravíssimos e aplicar penas equi-
gar os crimes dolosos contra a vida, que são, grosso modo, os valentes ao confisco de vidas humanas. . .
praticados voluntariamente. Ademais, só lhe compete julgar o Por isso, em meu livro "O Criminalista" ,diz o mestre
homicídio, o infanticídio, a indução, a instigação ou o auxílio ao aluno: "Um povo que permite a um indivíduo julgar a c:u~ro
ao suicídio, e o aborto. Os outros crimes, ou seja, virtualmen- e condená-lo até mesmo a uma pena de trinta anos de pnsao,
te todos os previstos nas penais, do demonstra claramente seu hu-
juiz singular. do
se
é
o
a ser pelo Júri,
Júri e é
As testemunhas inquiridas através do juízo Os jurados res- com recurso a outros tribunais. Um homem armado com a lei
pondem a quesitos relativos às teses apresentadas pela acu- penal, se for desonesto ou prepotente, é mais perigoso do
sação e pela defesa. O Júri, entre nós, só assiste aos deba- que uma quadrilha de malfeitores".
tes, embora possa inquirir as testemunhas que eventualmen-
te sejam convocadas.
Em defesa do Tribunal do Júri, sempre ameaçado de
extinção em épocas de tirania, Ruy assim alertou: "Sentido,
senhores. Quando o tribunal popular cair, é a parede mestra
da j~stiça que ruirá. Pela brecha hiante varará o tropel desa-
tinado, e os mais altos tribunais vacilarão no trono de sUa
superioridade". Só os países do terceiro mundo admitem o
juiz singular, com poderes de decidir sobre crimes graves. Nas
nações realmente democráticas, o juiz togado apenas instrui
processos e só julga contravenções e delitos menores. Os cri-
mes mais graves são de competência do Tribunal do Júri. Aqui,
o juiz singular pode, sem assistência alguma, irrogar penas
de até trinta anos de reclusão, ou prender o réu a pretexto de
conveniências da instrução, da ordem pública, ou da e
eventual aplicação da lei, mantendo-o "provisoriamente" en-
por tempo indefinido.
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As artes plásticas ou visuais e ou audi-
tivas. As plásticas são a pintura, a escultura e a arquitetura. As
fonéticas são a música e a literatura. A oratória é ramo da
literatura e bifu~ca-se em eloqüência e retórica. A eloqüência
convencer. A

sável à ascensão social. Todos os que se distingui-


ram naquela época eram oradores admiráveis. Por toda parte
havia escolas de oratória. E os fazedores de discursos, os
logógrafos, eram mais prestigiados do que os fantasmas que
redigem para os demagogos atuais.
Todos os indíviduos, exceto os mudos, são oradores
em potencial. Basta que tenham razoável cultura, persistên-
cia e determinação. Demóstenes era inculto, gago, e tinha voz
fraca, antes de iniciar a carreira que o tornaria o maior dos
oradores gregos. Para não sair de casa e ficar estudando, ras-
pava a cabeça e fazia a barba pela metade. Para corrigir a
gagueira e a insuficiência vocal, colocava pedrinhas na boca
e discursava nas praias, tentando suplantar com a voz o baru-
lho das ondas. Aprende-se a falar em público como se apren-
de a representar no teatro, na televisão e no cinema. O pró-
prio Demóstenes, vaiado em suas primeiras apresentações,
foi depois instruído pelo ator Sátiro, que lhe ensinou a mímica
teatral e a usar devidamente as cordas vocais.
Ainda que a oratória, na Grécia e em Roma, fosse
uma arma temível nos confrontos políticos, como provam a
"Oração da Coroa", de Demóstenes contra Felipe, e as "Cati-
49
A memorização dos discursos é necessária, porque
finárias"~ de. Cíc~ro contra Catilina, a arte de falar em público ninguém pode improvisar com êxito na oratória. Para Henri
estava tao difundida que os contemporâneos a encaravam com Robefi, a nascente não brota sem que o orador haja previa-
espirito esp?rtívo. Ésquines, por exemplo, intentou querela mente acumulado uma riqueza de vocabulário; idéias e ima-
contra Demostenes e acabou banido. Exilou-se em Rhodes gens, que saca da memória quando discursa. Para a im-
onde fundou uma escola de oratória. Numa de suas aulas: é o resultado um trabalho acumula-
empc:lgou os alunos recitando o discurso proferira contra ção. Por isso, dizia Mark Twain que, em média, gastava três
Demos~enes. Q~ando .os discípulos alegaram que, com tal
semanas para preparar um improviso. Grandes oradores como
acusaçao, ele nao podia ter perdido a causa, o mestre argu- Cremieux e Ferri, decoravam seus discursos passeando, o
me~tou que eles assim falavam porque ouviram o leão primeiro pelas margens do Sena e o segundo pelas do Arno. A
rugindo. Consta, aliás, que Demóstenes sempre lhe enviava arte e a ciência não têm caminhos para príncipes. Gênio é
algum numerário para auxiliá-lo em sua manutenção. trabalho ou, como disse Edison, um por cento de inspiração e
Cícero, o mais famoso orador romano, era de família noventa e nove por cento de transpiração. Para Andrew Car-
abastada e estudou com os melhores professores. Em Rho-
negie, o preço da perfeição é a prática constante.
des: foi aluno de Apolônio de Mólon que, quando de sua des- O fator, porém, que contra os que pre-
pedIda, confessou que chorava porque C iria e nas discus-
a da , última Cí-
ser, ao mesmo uma , para
seus a ver- a cura dessa deficiência é desprezar o auditório. Consta que
d~de, . mentir. como Demóstenes, redigia os pró- famoso ator, vítima dessa inibição, costumava chegar ao tea-
pnos discursos e os decorava integralmente. Outros, porém, tro lamentando-se da triste sina de ter de representar perante
~pe.l~vam para os redatores. Isócrates, renomado logógrafo,
uma platéia composta de analfabetos, absolutamente incap~~
Justificando o fato de não ser também, como seus clientes um zes de valorizar a sua arte. Só entrava no palco quando Ja
bom orad?r, dizia de si mesmo que era como a pedra de ;mo- estava totalmente convencido da ignorância dos espectado-
lar, que nao corta, mas serve para afiar muitas lâminas. res. O melhor exemplo, todavia, dessa postura, é o de Fócion,
. Ce:ta feita, quando Demóstenes discursava, um dos que, em Atenas, ao ser estrepitosamente aplaudido quando
ouvIntes o Interrompeu dizendo que seus discursos cheira- discursava em um comício, perguntou a um de seus assesso-
vam a azeí~e de lamparina, com isso insinuando que ele pas-
sava as nOItes decorando os textos. Demóstenes respondeu res: "Terei dito uma tolice?"
que preparava seus discursos porque prezava o povo de Ate-
nas, e que se a lamparina do aparteante não testemunhava
seus esforços, deveria assistir a cenas escabrosas. A célebre
de~esa de Milon, escrita por Cícero, não foi pronunciada. Co-
agido pelo ~parato militar montado por Pompeu no dia do jul-
gamento, Clcero acovardou-se, falou de improviso e Milon foi
banido. Posteriormente, em Marselha, respondendo a Cícero
que lhe enviara uma cópia do discurso Milon
dizendo-lhe que se aquela defesa '
não condenado. 51

50
Como tudo que existe, o crime não tem geração es-
pontânea. É uma doença do corpo social, como as que agri-
dem o corpo humano. Mais do que ao criminalista, compete
ao psiquiatra o estudo das causas endógenas do crime. As
por-

concorrem
a a
rural , a televisão, o lixo cultural importado, a
riqueza, o consumismo, a procriação irresponsável, a igno-
rância, o uso das drogas e o abuso do álcool, a ociosidade, a
desconfiança na justiça, a falta de policiamento, a impunidade
e a contaminação carcerária.
Embora cada um desse fatores possa ensejar muitas
monografias, é fácil explicar, em poucas palavras, a trágica
influência que eles ,/
exercem. Quanto à corrupção política, é
certo que todo povo tem o Governo que merece. Mas a con-
duta dos políticos influencia a do povo, que, quando a impro-
bidade éa regra, tende a seguir o exemplo dos governantes.
A inversão de valores, fonte de frustração e revolta, é causa,
até mesmo , de atos de terrorismo. A invasão das cidades
pelos egressos do campo vem criando bolsões de pobreza
onde proliferam, em razão do desemprego ou dos salários de
fome, os agentes do narcotráfico e os réus de latrocínio.
A televisão, com seu noticiário escandaloso, sua la-
vagem cerebral e suas infames novelas onde tudo se faz para
subverter os costumes, é talvez o fator criminológico mais
degradante da época atual. Seu ópio colorido estimula a ocio-
sidade, rouba o tempo ao trabalho, escorraça os livros, estu-
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pidifica os pais de .família e aliena a juventude. O lixo cultural
importado, sobretudo a música e o cinema americanos, aque-
la histérica e alucinógena, e este vazio de espiritualidade, po-
rém referto de "exterminadores", "punks" , "rambos" e "robo-
cops", equivalem a um rolo que esmaga a auto-
censura e instintos
A ostentação dos ricos, com a acintosa divulgação
de seus regabofes e vagabundagens planetárias, é um convi-
te aos seqüestradores, e uma àqueles que não
tem ao apelo brutal do consumismo. Como poucos podem, A história da pena, em geral, é a de sua própria abo-
como Sócrates, visitar as lojas para ver quantas coisas exis- lição. Não obstante, a pena de morte sempre existiu e ainda
tem, das quais não precisam, é claro que muitos sofrem a sobrevive em muitos países. Jesus vaticinou (Mateus, 26.52)
influência deletéria do consumismo, e que alguns buscam a que morreria pela espada quem com a espada matasse. Para
satisfação das necessidades artificiais através de crimes con- Jerônimo, Agostinho e Tomás de Aquino, a aplicação da pena
tra o patrimônio. A procriação capital médico que, salvar o nis-
mo,
como
,a o e o con- um se o ao ao me-
sumo de drogas, dispensam, como causas do crime, qualquer nos por parte da justiça, o que ele fe'z à sua vítima jamais fhe
esclarecimento. A desconfiança na justiça induz o lesado ou acontecerá. Esgrimem também com a clássica advertência de
ofendido a optar pelos recursos mais práticos do Direito Natu- Alphonse Karr aos assassinos, no sentido de que, se dese-
ral. Quanto à falta de policiamento e à impunidade, é óbvio jam a abolição da pena capital, devem deixar de aplicá-Ia em
que a inoperância policial e a ineficácia dos meios repressivos suas vítimas. Entendem ainda que a audácia dos maus não
estimulam a ação predatória dos malfeitores. A contaminação deve exceder à coragem dos bons. Ademais, impedindo que
carcerária é foco de criminalidade, porque, como os tribunais os assassinos voltem a matar, a pena de morte seria, na rea-
já reconhecem e proclamam, nossas prisões são escolas pri- lidade, um autêntico salva-vidas.
márias, secundárias e superiores d6 crime. A .:'Falange Ver- Os antagonistas pretendem que a pena de morte é
melha" confirma esse entendimento. ineficaz, porque nos países onde foi abolida não teria havido
Colaboram, portanto, na etiologia do crime, além da aumento da criminalidade. Dizem que a vida humana é obra
própria índole do delinqüente, inúmeros fatores cuja elimina- de Deus e que só a ele cabe extingui-Ia. Argumentam que o
ção é impossível em qualquer sociedade, seja qual for o seu espetácuio da aplicação da pena capital concorre para em-
estágio de civilização. O homem, por sua inteligência, é o mais brutecer a sociedade. Ponderam também que a execução do
perigoso dos animais. E a vida comunitária, com seus apelos condenado torna impossível a reparação de eventual erro ju-
e antagonismos, será sempre um laboratório do crime. Já di- diciário. Os que não acreditam na justiça afirmam, com co~­
zia La Bruyére que: "Todo nosso mal advém de não podermos vicção alarmante, que, se houvesse pena de morte no BraSil,
ser sós; do jogo, do luxo, da do vinho, da sexuali- só os desvalidos
dade, da maledicência, inveja, do , esses argumentos, favoráveis
mento de nós mesmos e de morte, que podem ser refutados com
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54
outros não menos convincentes, o fato é que ignoram o Direi- Golfo. A função da lei penal é amparar a norma de cultura. Se
to Penal aqueles que pretendem agravar as penas em função esta, porém, aprova que se justiça pelas ~róprias m.?os ~
exclusiva da natureza dos delitos. Desde o advento da se a sociedade consegue conviver com tal sistema, nao ha
necessidade alguma de legalização da pena de morte.
que a a a a
retribuição do mal pelo mal foi, há muito, substituído pelo de
""'Toe,,,, contra a periculosidade do delinqüente. O crime é uma
periculosidade e um indício que o criminoso
repetirá sua maléfica. A portanto, destina-se a inter-
romper a aíividade criminosa e a reeducar o de1tflqüente.
O criminoso não é segregado pelo que fez, mas por-
que sua liberdade é um risco social. Se houvesse certeza de
que ele hão voltaria a delinqüir, sua prisão seria inútil. A gravi-
do um sintoma

a Em suma,
o que importa na avaliação da pena aplicável é a personalida-
de do delinqüente e não o crime cometido.
A pena de morte, se aqui fosse legalizada, deveria
destinar-se aos profissionais do homicídio. Aos pistoleiros,
aos sicários, àqueles que, mediante.paga, extinguem vidas
humanas. Não deveria, jamais, alcançar o delínqüente primá-
rio, mesmo qu~ haja cometido um daqueles crimes que a
cegueira jurídica de nossos legisladores classificou como he-
diondos. A espécie criminal é secundária, acessória, adiáfora.
Basta ver que o mais grave de todos os crimes, ou seja, o
matricídio, pode ser cometido até mesmo por piedade, como
ocorre na eutanásia. Não há crime hediondo. Existem, sim,
legisladores, leis e criminosos hediondos.
No Brasil, todavia, a discussão em torno da pena de
morte é um devaneio. Uma abstração da realidade ontológi-
ca. Uma incursão pueril no mundo encantado do faz-de-con-
ta. Isto porque, sem lei e sem entraves processuais, a pena
de morte vem sendo aplicada em todos os recantos do País,
por policiais, sicários e justiceiros. Na Baixada Fluminense,
por exemplo, mata-se mais do que se matou na Guerra do
57
56
EVER DO ADVOGADO

Respondendo à consulta de um criminalista que in-


dagava se devia aceitar o patrocínio da defesa de um adver-
sário político, acusado de homicídio, escreveu Ruy Barbosa
uma carta magistral, onde sustentou que: "Ante a deontologia
forense não há acusado, embora o fulmine a mais terrível das
o acabrunhem, que
Quanto ao

88, que:
autoridade, nem de incorrer em impopularidade, deterá o
advogado no cumprimento de suas tarefas e deveres Ainda H.

hoje, entretanto, há quem não entenda por que os advogados


assumem, sem constrangimento, a defesa de acusados que a
opinião pública já condenou antecipadamente.
O criminalista, todavia, não pode preocupar-se com a
sociedade, porque só tem deveres para com seus patrocina-
dos. Do contr~o, a defesa criminal só seria admissível quando
os interesses do réu não colidissem com os da comuna, e isto
só ocorre quando ele é inocente. Nada podendo esperar da
coletívidade, porque com ela se acha, como representante dos
réus, em conflito permanente, não deve o criminalista afligir-se
com o que dele pensem, nem temer a impopularidade. Se
agir de outro modo, estará servindo a dois senhores e sacrifica-
rá forçosamente um em favor do outro. o criminalista neces-
sitar de motivação filosófica, bastará lembrar-se de que, segun-
do Hegel, toda sociedade é a síntese de seus próprios antago-
Quem a afronta concorre aperfeiçoá-Ia.
argüiu lachaud em sua Trop-
pmann, abominável que trucidara uma família in-
59
teira (o casal, um adolescente de dezesseis anos, e quatro grave for o crime - disse Ruy - mais necessita o acusado de
meninos, o mais velho de treze e uma criancinha de dois), os assistência e defesa.
que "confundem, A recusa patrocínio em da natureza do cri-
meou da constitui imperdoá-
vel socorro. , a
e com tantas vítimas, aca- confissão do acusado, porque seu dever é defendê-lo em qual-
bam por querer que se , de quer circunstância. Para tanto, basta-lhe indagar quais os
mesmo ocorre tos ou que podem ser utilizados
não indig- , assegurar justiça ao povo, o Estado não
no tratamento. Ninguém ousaria censurar um médico que necessita do ou da omissão dos advogados. Muito
socorresse, com sua ciência, o pior dos criminosos. Não é menos ainda, da traição daqueles a quem os acusados confi-
função do médico, nem do advogado, facilitar a eliminação aram seu destino. Polvo gigantesco, o Estado possui tentácu-
dos inimigos públicos. los poderosos, capazes de sugar dos réus até mesmo o âni-
ao com e com-
os

um corno
, sem a este lícito a absoluto direito de com se a
texto de constituir um risco social a liberdade daquele que o ainda quando a condenação seja inevitável, há sempre ~ q~e
chamou. Para o criminalista não há culpado nem inocente. fazer em defesa do acusado. Além de velar pela observancla
Apenas alguém que caiu ou está prestes a cair nas malhas da do devido processo legal, cabe ao advogado denuncia.r con-
justiça. O advogado que julga o réu, usurpa as atribuições do trafações, impugnar o falso testemunho e as provas II~ga~­
juiz e do tribunal. Evidencia alarmante ignorância de sua mis- mente obtidas, bem como apurar e expor a eventual contrIbUI-
são e estorva a dialética, evertendo o sistema racional de in- ção da vítima para o delito, e recorrer, quando a pena exceda
dagação da verdade, onde a acusação é a tese, a defesa a os limites razoáveis. Consciente da indispensabilidade de
antítese e o juízo a-síntese. sua função, uma vez que sem defensor não pode haver pro-
O criminalista não tem direito de sentir aversão algu- cesso, o criminalista deve ignorar a opinião pública, mormen-
ma pelo acusado, seja qual for o crime por ele cometido. O te porque, hoje em dia, ela já não é pública e nem mesmo
repúdio à causa em razão exclusiva da gravidade do delito é opinião. É apenas o que a mídia impinge.
prova de cegueira jurídica, pusilanimidade e hipocrisia. Porque
os sãos não precisam de médico e sim os doentes, Jesus não
veio cuidar de justos e sim de pecadores. Simples cireneu, o
criminalista apenas ajuda o acusado a carregar a sua cruz. Se
o médico não pode, sequer na véspera da execução, recusar
tratamento ao condenado à pena de morte, não pode também
o advogado, a pretexto algum, descumprir sua missão. O de-
fensor é a voz do acusado. A ele cumpre fazer o que o próprio
réu faria, se estivesse habifitado a defender-se. E quanto mais
61
60
o JUDICIÁRIO

Na história da criminalidade, os erros mais famosos


foram os consumados no "Caso do Correio de Lyon" e no "Caso
Dreyfus", ocorridos na França, em 1796 e 1894, respectiva-
mente. No primeiro, o comerciante Lesurques foi reconheci-
do por oito testemunhas como o chefe dos ladrões que assal-
uma diligência, matando o
vultosa

o e
durante () assalto, usara uma peruca loura, igual à cabeleira
natural de Lesurques, com quem fora confundido. Após a re-
tratação das testemunhas, Dubosq também foi executado.
No outro, que provocou acirrados debates em vários
países, tendo sido Ruy Barbosa um dos primeiros a censurar
o julgado, o Capitão Dreyfus, do Exército Francês, foi conde-
nado à degradação militar e à prisão perpétua na Ilha do Dia-
bo, sob a acusação de haver fornecido documentos militares
a uma potência estrangeira. No caso, a prova era uma carta ./
que os peritos atestaram haver sido grafada pelo punho do
acusado. Posteriormente, comprovou-se que o documento fora
escrito pelo Capitão Esterhazy, que acabou ficando impune,
porque o tribunal militar jamais reconheceu o erro. Este caso
motivou a célebre campanha de Zola, que concorreu para a
cassação da sentença por um tribunal civil.
Embora não mereça perdão a impenitência do tribu-
nal militar, que, no "Caso Dreyfus", perseverou na injustiça, o
fato é como no "Caso do Correio de Lyon", o erro
judiciário foi determinado pela prova e não incapacidade
dos ju No primeiro, a prova testemunhal era esmagadora
63
e no outro a perícia era conclusiva. Só decidindo contrÇl a pro- ração da ignorância, quando somente o erro autêntico pode
va é que se poderia, antes da retratação das testemunhas e impedir ou reparar uma injustiça. Na ciência jurídica, como em
da invalidação perícia, absolver os O erro judiciá- tudo o mais, não se deve colaboração alguma. Nem
rio é produto muitos a começar pelo inquérito mesmo a de um imbecil. Como dizia Churchill, uma das gran-
é que, vezes, os certos.
que, um
Nada ilustra melhor as vantagens uma justiça re-
prova e conduzir o em qualquer isso,
na maioria dos casos, quem condena ou absolve é a polícia. lativa do que a anedota - creditada à imaginação de Rabelais
Mas, o erro judiciário vírtu- _ do juiz que ao sentenciar substituía o o código e a
Às vezes, somente errando é poss justiça. Isto jurisprudência por uma onde guardava feijões pretos e
ocorre, por exemplo, quando os autos foram forjados, com as marrons, em igual quantidade. Conforme a cor do feijão que
provas ajustadas para induzirem o juiz a uma decisão iníqua, retirava da sacola, absolvia ou condenava. E as sentenças
única e inevitável, e este, sem se render ao clamor das pro- eram exatíssimas. Somente no fim da vida suas decisões tor-
vas, pois soube resistir à tentação de ler o processo, conse- naram-se absurdas e começaram a ser reformadas. Isso por-
proferir uma C',",'"TC.''''''' que, com a velhice e o enfraquecimento da ele já não
a GAUCU

65
o CRIME PASSIONAL

A paixão é uma emoção que perdura. É um estado


psico-morboso, uma força anímica incoercível, uma energia
sentimental incontrolável, uma irreprimível monomania afeti-
va. Kant comparou a emoção à enxurrada que desmorona um
dique e a paixão à torrente que mina seus alicerces. Como
Proteu e Vixnu, os deuses caràs, as paixões, quan-
to ao seu podem ser quantos os sentimen-
manos: m
(Shylock),
vin), etc. Portanto, matar por fanatismo religioso, partidário ou
clubista, é também crime passional. Obviamente, as paixões
podem ser construtivas ou destrutivas. Quando se fala, po-
rém, em crime passional, pensa-se logo no homicídio por pai-
xão amorosa.
Segundo a fórmula de Abrahamsen, o crime é direta-
mente proporcional à soma da tendência com a situação e
inversamente proporcional à resistência do indivíduo. Quando
a tendência predomina, é a situação que o produz. No crime
passional, a tendência prepondera, porque a paixão, além de
reforçá-Ia, debilita a resistência e cria situações favoráveis à
eclosão de atos desvairados. Por outro lado, o motivo deter-
minante de um crime é o antecedente psíquico da ação, a
força interna que transforma a vontade em ato, ou, como o
define Schopenhauer, a causalidade vista do interior. No ho-
micídio passional, o motivo é a própria paixão que, hipertrofian- .
do as forças impelentes e debilitando as frenadoras, desequi-
libra o psiquismo do indivíduo e o precipita no delito.
Como uma arma engatilhada, o passional dispara ao
mais leve atrito. Os fatores todavia, não devem ser
67
confundidos com o motivo determinante, porque este é endó- Hoje, quando o romantismo já desapareceu até mes-
geno e reside na própria passionalidade do indivíduo. Nenhum mo literatura, quando a poesia perdeu a rima e a música a
I, no mundo culto, harmonia, quando as homem e mulher são es-
piritualmente ' o crime
é um a
Tribunal do Júri. Mellusi ("Do amor ao delito") e ("O
micídio-suicídio"), relembram muitas tragédias motivadas pelo
amor. I Y em o mesmo
a muto o amor"),
psiquiátrica, o imuniza contra as sentimento afetivo. Atualmente,
dimana autocen- homens e o machismo mui o crime
sura, de perda irreparável, em suma, do remorso sua raridade, não interessa ao criminalista.
provocado pela morte da vítima. queólogos.
Como tudo influi no com

remotas, a
a bucólica e a literatura sentimental, concorriam
poderosamente para sublimar as vinculações amorosas. Hoje,
entretanto, na era da tecnologia, da televisão, dos amores
descartáveis, das relações sem compromisso, o crime passio-
nal está, cada vez mais, desaparecendo. Se o medo da A~ds
não ressuscitar os poetas e o romantismo, o crime passional
só será encontrado, doravante, nos museus de criminologia.
Com a revolução dos costumes, a falência dos valo-
res tradicionais, a permissividade e a massificação, é claro
que o crime passional, cujos fundamentos são a auto-estima
e o culto da personalidade, tende a desaparecer. Em vez do
crime motivado por injunções espirituais, teremos somente o
crime util . O ânimo de lucro é o princípio e o fim na soci-
edade consumista, que pode perder tempo com questões
de honra, sentimentos e preconceitos O amor atual não con-
duz à tragédia. Quando o marido moderno, avançado, pro-
g , encontra um rival em sua cama, não cerra os pu-
nhos, brande o punhal ou saca o revólver. Limita-se a inquirir,
como o Conde de Artois, em situação análoga: "Como, se-
nhor, sem a isso estar obrigado?!" Aliás, os franceses não
ciúmes de suas esposas. das amantes.
69
68
o SUIcíDIO

o nosso Código Penal não incrimina o suicídio. Pune


apenas quem induz, instiga ou auxilia alguém a suicidar-se.
Entretanto, o suicídio já foi crime, punido com o confisco dos
bens do morto, a degradação e o sepultamento em estrada
pública. O cadáver do autocida era atravessado por um pau ou
suspenso pelos pés e arrastado pelas ruas com o rosto voltado
velha infame,

os
fossem postos na cruz e abandonados às aves de rapina. Na
Idade Média, o Direito Canônico equiparou o suicídio ao homi-
cídio, passando então, os juízes, a processar cadáveres.
Exaltando o martírio a ponto de considerá-lo como
um passaporte para o reino dos céus, o Cristianismo, em seus
primórdios, não reprovava o suicídio. Somente no Século IV,
através de Agostinho, foi que a Igreja começou a pregar contra
o suicídio, incluindo-o no preceito: "não matarás". Nos Concí-
lios de Arles (452), Orleans (533), Praga (563) e Toledo (693), a
Igreja costurou sua doutrina oposta ao suicídio, inclusive reedi-
tando as sanções abomináveis do direito primitivo. Estribando-
se na fábula do suicídio de Judas, que, segundo Renan ("Ori-
gens do Cristianismo"), os fatos não confirmam, a Igreja pas-
sou a estigmatizar o suicida como uma sentinela que abandona
o posto e, conseqüentemente, como um covarde e traidor.
Enquanto era frágil e perseguida, a Igreja estimulou
o martírio. Quando, porém, superou a fase de seita subversi-
va e assumiu o poder, adotou uma ideologia domi-
nante, a combater. as incredulídade ou
ateísmo, e concebendo o suicídio como uma demonstração
71
lhas, unhas típicas dos escavadores, pêlo am~rel?e cabeç~
preta. Nutrem-se de musgo, ervas e liquens. Tem otlma prevI-
são do tempo atmosférico e emigram conforme as
-Mas procriam com irresponsabilidade. Quando as colô-
se tornam populosas e há escassez
alimentos, os lemingues reúnem-se em legiões abnegadas que
descem para as praias e precipitam-se nos mares. Co~ essa
ação altruísta, consegttem manter o equilíbrio entre o ahmentQ
restante e os consumidores que permanecem nas montanhas.
Na conjuntura atual, quando o brasileiro não pode
mais acreditar em coisa alguma, e muito menos ainda no al-
truísmo dos lemingues políticos, marajás e empreiteiros, por-
que estes, de barriga cheia, jamais se atirarão nos ~ares p~r~
o suicídio é uma questao maxl-

caras
, os toda os SUICI- brasileiros uma psicológica para o suicíd
dios por motivação amorosa estão rareando, mas ainda ocor- voo Depois do Plano Funaro, do Plano Collor e desse .último
rem. Em compensação, há quem se suicide até por brincadei- com que se pretende debelar a inflação estimulando as Im??~­
ra, como no caso da roleta russa. tações, promovendo o desemprego e aumentando o defiCit
Sócrates e Jesus foram suicidas indiretos. O primei- público, só através do suicídio será possível escapar do flage-
ro, após condenado a sofrer, entre as penas cominadas, a lo que nos aguarda.
que ele mesmo escolhesse, afrontou os juízes ao declarar que
desejava, pelo resto da vida, ser alimentado no Pritaneu, res-
taucante do Estado, onde hóspedes oficiais e outros privilegi-
ados comiam de graça. Por isso, impuseram-lhe a cicuta.
Quanto a 'Jesus (João 10.17 e 18), é eloqüente sua assertiva
de que daria a vida para tornar a tomá-Ia e que ninguém a
tiraria, senão ele mesmo. Certo de que seria crucificado, che-
gou a pedir ao Pai (Mateus 26,39) que afastasse o cálice de
amargura. Como Filho de Deus, ele tudo antevia. Como Filho
do Homem, não podia ignorar que sua pregação revolucioná-
ria equivalia a um autocídio.
Os animais também se suicidam. Os lemingues, por
exemplo, que habitam as montanhas da Noruega, merecem
respeito, admiração e reverências. Eles são mamíferos roedo-
res, do tamanho de um rato, cauda curta, quase sem ore-
73
72
A FOME EA LEI

o iate "La Mignonnete", tripulado pelo capitão Dud-


ley, o piloto Stephens, o marinheiro Brooks e o grumete Par-
ker (de dezessete anos), navegava de Southampton à Austra-
lia, quando, no dia 15 de julho de 1884, naufragou a 1600
milhas do Cabo da Boa Esperança, refugiando-se os tripulan-
tes em um bote. Após dezoito dias à deriva, acossados pela
fome, o capitão e o piloto mataram o

gio, os e
Inglaterra. O Tribunal de Londres condenou Dudley e
à morte e impôs pena mais branda ao marinheiro Brooks, que
também comera do cadáver, mas não participara do homicí-
dio. A Rainha, porém, comutou para seis meses de prisão a
pena de morte.
Em 1888, numa região da Sibéria, Procópio Kalenine
estabelecera um acampamento à margem de um riacho, jun-
tamente com seus irmãos Nikita, Davi e Maria, esta uma me-
nina de onze anos de idade. Durante algum témpo, consegui-
ram viver do produto da pesca, que, entretanto, com a chega-
da do inverno e o congelamento do riacho, veio a faltar com-
pletamente. Davi saiu a procura de um lugar mais favorável,
deixando os outros no acampamento. Sentindo-se morrer de
fome, Procópio matou a irmãzinha, comendo-lhe as carnes,
em companhia dê Nikita. Salvos mais tarde, Procópio confes-
sou o fato e foi condenado a treze anos e meio de trabalhos
forçados. Nikita foi absolvido porque não participara do fratri-
cídio, embora houvesse também se alimentado com a carne
da irmã sacrificada.
Júlio ("De Bello Gallíco"), comenta que os gau-
75
leses preferiam recorrer ao canibalismo a ceder ao cerco dos australiano esmagar com uma pedra a cabeça de um filho
romanos. Giuseppe FlávIo ("Guerra Degli Ebrel'), relata que enfermo e o devorar, depois de assado. Também ali as mulhe-
durante o cerco de por Tito, uma judia matou e co- res comiam freqüentemente os filhos mortos.
meu um filho. França; a partir 1030, houve uma Quanto ao Direito, que na índia as Leis
Manu o matasse um seme-
lhante nutrir-se com seu cadáver. Na , as
das" justificavam o guardião do castelo que, para não se ren-
o homem e os meni- der pela fome ao cerco do inimigo, comesse o próprio filho.
nos, carne era O canibalismo, que, Atualmente, em todos os povos cultos, entende-se que a ne-
início, parecera abominável, integrou-se aos costumes. Uma cessidade dispensa a lei. O nosso Código Penal dispõe que
mulher rica nutria-s~ habitualmente de carne humana. Um não há crime quando o agente pratica o fato para salvar de
comerciante acumulou gr;ande quantidade dessa iguaria que perigo atual, que não provocou por sua vo~tade,. nem ~~~ia
salgou para vender. de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cUJo sacnflclo,
. Portanto, por
em

o filho, a o mesrno ao
o ,e ao outra Mas, como a dor, que a doença, a é a .
soa, temendo ser assassinado e comido. Em lugares como que nos previne contra a inanição e a morte. Em~ora mUlto~
Mainz o povo saqueava os cemitérios, violava as tumbas es- consigam comer o pão com o suor do rosto alheio, o fato e
calava patíbulos e levavá 'Os mortos para comê-los. No~ ar- que,sem a fome, a preguiça inutilizaria a humanida.de. AAfo~e
redores de Coburgo exist~am bandos de assassinos que mo- ou o medo da fome é que extrai do homem a sua mdqlencla,
ravam em cavernas e casas abandonadas, de onde saíam transformando-o em um trabalhador infatigável. A fome é a
para matar e comer seü.~ semelhantes. Em Landau, nessa própria vida a exigir nutrição. Por isso, quando não é atendi-
época (1634 a 1638), também se roubavam cadáveres das da, expulsa os sentimentos de humanidade, deixando prepon-
fossas para comê-los. Uma mulher matou o própno filho, o derar os instintos ferozes que coagem o homem a comer seus
salgou e o deglutiu com avidez. semelhantes, inclusive os próprios filhos. Este, porém, é o preço
Relata Ferri CEI Homicida") que os selvagens austra- que ela cobra pelo estímulo e pelas energias que fornece, para
lianos, quando famintos, chegavam a desenterrar cadáveres livrá-lo da ociosidade.
para comê-los. "Depois cte dias de sepultura - diziam a
um missionário - um cad?ver é ainda um alimento possível".
Quando faltavam cadávéres, matavam uma mulher ou um
menino que esquartejavám e comiam. Cunningham encon-
trou um pescoço humano ~m um saco de um dos australianos
que o seguiam. Em Taiti, chamava-se de "estação para comer
gente" o. ~eríodo de falta de alimentos. Nas Ilhas Fídji, um
ch~fe eXIbIa os ossos de centenas de vítimas humanas que o
paI devorara no curso de sua vida. Sturt conta que viu um
77
76
o CASO COLLOR

A Constituição Federal, em seu artigo 85, parágrafo


único, dispõe que os crimes de responsabilidade do Presiden-
te da República: "serão definidos em lei especial, que estabe-
lecerá as normas de processo e julgamento". Transcorridos
mais de'"quatro anos da data em que foi promulgada a Consti-
tuição (5/10/1988), o Congresso Nacional não se dignou de
elaborar essa lei que os
as normas
data, atravessa o uma ou
de vácuo legislativo, de ausência de lei, substantiva ou pro-
cessual, no que tange aos crimes de responsabilidade do Pre-
sidente da República.
Durante esses quatro anos, nossos representantes
no Congresso Nacional visitaram muitos países, discursaram
bastante, participaram de incontáveis tertúlias e banquetes,
ficando, por falta de tempo, impossibilitados de proceder como
os Pais da República, que, obedecendo ao artigo 54, da Cons-
tituição de 1891, logo produziram a Lei nO 30, de 8/1/1892,
sobre os crimes de responsabilidade, hoje apenas aludidos
em norma programática, cuja eficácia depende de complemen-
tação legislativa. Portanto, não havendo lei posterior à Consti-
tuição de 1988, que defina os crimes de responsabilidade do
Presidente da República e estabeleça as normas do respecti-
vo processo, é claro que não se pode, juridicamente, vindicar
o impeachment.
A Lei 1079 de 10/4/1950, com a qual se pretende su-
prir a do Congresso, foi evidentemente revogada pela
Constituição, porque já quando preceituou que os
crimes responsabilidade do da República: "se-
79
rão definidos em lei especial, que estabelecerá, as normas sa a que ele foi submetido se estendesse aos Governadores e
do processo e julgamento". Para a sobrevivência daquela lei, Prefeitos, poucos escapariam à guilhotina. O Brasil é, sabida-
a dos modo mente, o paraíso dos políticos e dos empreiteiros. A corrupção
o tempo está generalizada. indiciá-Ia, basta ver que o dinheiro
nas à
soma dos proventos legais de todos os pleiteados, e
que os governantes, de modo geral, não se preocupam com o
coonestar um
reajuste de seus vencimentos, quase aos
princípios nu/tum
de funcionários subalternos. Há, como Ruy, nesses
À míngua legislação o impeachment, os submarinos, esqualos de engolir, com uma golfa-
ram um estranho "roteiro" com dispositivos da Canstituição, da só, um fornecimento inteiro. Do contrário, , não se en-
da revogada Lei 1079, do Código de Processo Penal, dos tenderia por que um país tão rico vive na miséria.
Regimentos Internos do Senado e da Câmara dos Deputa- O débito imperdoável de Collor não é o que se apu-
dos, e mesmo Civil, tremem da e a desmoralização
pelo

ou
tes o cidadão seu dinheiro no
um ucasse que, sumariamente, resolvesse o assunto. Se o do~ bancos para não ser roubado pelo Governo. Naquele ato
caso é político, deve ser resolvido com as armas da política, é que o Presidente deveria ter sido afastado, como ocorr~u
sem comprometer, com a aprovação uma mixórdia, a repu- com a Ministra inglesa que queria aumentar impostos. E nao
tação da justiça.
se alegue que o dinheiro dos investidores, poupadores e cor-
Quanto à hipótese de crime comum, para a qual exis- rentistas foi devolvido. Além da inadmissível desvalorização
tem leis em vigor (Código Penal e Código de Processo Penal), dos ativos, restou a perda da credibilidade do sistema bancá-
convém observar que o artigo 86, parágrafo 4°, da Constitui- rio, que jamais será restaurada. Ademais, nos crimes contra o
ção Federal, dispõe que: "O Presidente da República, na vi- patrimônio, a devolução dá coisa não extingue a punibilidade.
gência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por
atos estranhos ao exercício de suas funções". Como ninguém
conseguiu, até o momento, indicar ato algum do Presidente
da República, relativo suas , de ser enqua-
drado nas leis penais, é claro que também não será juridica-
mente possível processá-lo por crime comum. Os crimes de
p.revaricação e corrupção passiva, de que tanto se fala,
dlspe~sam, como qualquer outro, a indicação dos atos que os
constituem. O de fiscal, único até eviden-
te, é estranho ao exercício da função pública.
,' O que se imputa ao Presidente afastado é uma gota
d agua no oceano de corrupção que afoga o País. Se a devas-
80 81
A IA JULGAR

A pretensão de julgar é inerente ao espírito humano.


Nem mesmo Jesus, com sua advertência de que não deve-
mos julgar para não sermos julgados, conseguiu coibir essa
trágica mania. Sem que conheça a etiologia das ações e rea-
ções, sem que conheça sequer a si mesmo, o homem julga
diariamente seus . Impelido por essa tendência,
já j mesmo seres inanimados. Plutarco refere

julgar os
cesso, julgamento e condenação das coisas
homicídio. Em 480 A.C., Xerxes I, rei dos persas, mandou chi-
batear as águas revoltas do Egeu, porque haviam destruído a
ponte de embarcações por ele montada para que suas tropas
atravessassem o Helesponto, hoje estreito de Dardanelos.
No Egito, a arma utilizada na prática de homicídio era
condenada a perecer com o assassino. Em 1591,0 sino da
Igreja de. Uglitsh, na Rússia, foi condenado à proscrição por-
que dera o sinal de início de uma rebelião sufocada. Em um
vilarejo da Tcheco-Eslováquia, já neste século, uma cruz foi
condenada à fogueira, por ofensa aos sentimentos de uma
facção católica. Quanto aos animais, consta da Bíblia (Levíti-
co, 20.15 e 16), que: "Se um homem tiver comércio com um
animal, será punido de morte, e matareis também o animal.
Se uma mulher se aproximar de um animal para se prostituir
com ele, será morta juntamente com o animal". Também no
Êxodo, 20.28-32, está prevista a lapidação do boi que chifrar
homem, mulher, ou . Até mesmo se a vítima fosse um
escravo, o boi àquela punição.
Em 1386, no burgo , na Normandia, uma
83
porca foi executada pelo carrasco, num patíbulo armado em gamentos e condenações não são invencionice.s. São fc:tos
praça pública, porque devorara o rosto e um braço de um re- históricos, atestados por juristas da alta categona de Flonan,
Em um porco foi enforcado Filangieri, Ferri, Alimena, , Manzini, Tissot,
matara um 1499, Maurach, e Von Hippel, as do
to ea humano, no
à campo da criminalidade. também chegaram à
1530, ainda em de que entre alguns animais da mesma espécie existem os
Autun, sentimentos de nociva, da pu
o devido , com as do con- e do arrependimento.
traditório e da ampla , foram eles patrocinados pelo Hoje, tudo isso parece uma fábula. No futuro,
advogado Bartolomeu Chassanée, que argüiu a nulidade da via, parecerá também inacreditável o nosso si~tema ~tu~1
eimpugnou decreto revelia, alegando a impossibi- julgar e punir. Como vaticinou o grande penahsta LUIS JI
lidade de comparecimento dos réus, porque faltavam pontes nez de Asúa, a Criminologia absorverá o Direito Penal. As
de acesso ao do ju e ju
.A

menos no
em 1 um autos em normais. Do
~rquivados em Portugal. Na Revolução Francesa (1789), foi
conduta ou não se arriscaria a sofrer as conseqüências dolo-
Julgado e condenado um papagaio que gritava: "Viva o Rei". A rosas da repressão penal. Certamente porque não acreditava
ave acabou sendo vingada, porque seu juiz, Joseph Lébon na justiça e talvez já vislumbrasse os tempos futur?s, quando
foi guilhotinado em 1795. Na Itália, em 1865, foi processad~ os nosocômios substituirão os juízos criminais, fOI que Flau-
por injúria outro papagaio, ensinado pelo dono a insultar um bert ironizou: "Um homem julgando outro, faria chorar de hor-
vjzi~ho. Há também noticia de um outro papagaio, supliciado ror, se não fizesse rebentar de riso".
na Austria porque ameaçava o regime, repetindo uma frase
subversiva. Em 1864, em Leeds, na Inglaterra, foi processado
pelo Tribunal do Júri, sendo julgado "culpado" e a seguir exe-
cutado, um galo que ferira gravemente uma crianca. Em 1894
o Tribunal de mira, nos Estados Unidos, teria processado ~
condenado um macaco. Em 1926, em Píckville, também nos
Estados Unidos, um cão que mordera um rapaz foi executado
na cadeira elétrica.
Dessa obsessão de julgar e punir, não escaparam os
"crimes" ocorridos entre animais. Na Pérsia, as leis de Zoro-
a~tro. puniam com mutilações crescentes, em ordem à reinci-
de~cl~, os animais que lesionassem seus semelhantes. Na
Pru~sfa, Frederico /I condenou à morte um de seus melhores
falcoes de caça, que matara uma águia. processos, jul-
85
84
A LEI DE GRESHAM

Quando as moedas tinham valor intrínseco, isto é,


valiam pela quantidade e qualidade do ouro ou da prata em
que eram cunhadas, algumas desgastavam - se na circula-
ção, outras eram limadas por seus possuidores e outras, nas
sucessivas cunhagens, passavam a conter ouro ou prata de
inferior qualidade, embora mantivessem o mesmo valor nomi-
nal. quem e de me-

as
ção a moeda boa, cujo valor real passara a o valor de
troca. Nessa praxe, arrima-se a Lei de Gresham, segundo a
qual: "Em todo país onde circulam duas moedas, a moeda má
expulsa a boa."
Esse fenômeno, aparentemente paradoxal, não ocorre
apenas no campo das finanças. Verifica-se em quase todos
os ramos da atividade humana. Sobretudo no serviço público,
nas artes e, às vezes, até mesmo no. restrito e severo âmbito
da ciência. Nesses, porém, gexpulsão da moeda boa não re-
sulta de sua retenção ou entesouramento. É conseqüência do
poder de expansão da moeda má, que, como os gases, mo-
nopoliza o direito de preencher todos os espaços. Consoante
a lei de Boyle-Mariotte: "A densidade de um gás, a temperatu-
ra constante, está na razão direta da pressão que suporta".
Portanto, quando não é represado, não é contido, não sofre
pressão alguma, o gás expande-se por toda parte.
É o que acontece atualmente, quando a incultura já
demoliu as que continham a moeda má. No serviço
público, contemplar as figuras têm exercido
o cargo Presidente da República. É claro sempre hou-
87
ve e haverá moeda boa para ocupar todos os lugares. Mas, flexo condicionado), desfilam os fabricados pela mídia. Tudo
com sua fúria expansionista, não sendo contida por agora é mistificação e propaganda. Acabou-se a era dos valo-
ou alguma, a moeda res autênticos. Mais opressiva do que o Irmão George ou Bíg
Brother, que, na crítica Orwell aos regimes vigi-
no cer- o a
a política é a indústria mais valores tradicionais e introduz na mente do povo a
Por isso, indivíduos que sa de suas cretinices. Locutores - que falam sobre tudo, sem
en- entender de alguma - impõem normas conduta, in-
duzindo os vídeotas a insultar ou agredir os que discordam de
é repulsivo o que acontece com a música suas charlatanices.
e a literatura. música vocal, os sopradores microfone Como se , de muitas áreas a Lei de Gresham es-
expulsaram a voz. orquestrada, os roqueiros baniram a corraça Darwin e sua lei da seleção natural, bem como Nietzs-
harmonia, substituindo-a por uma convulsão histérica que alu- che e sua teoria do super-homem. Mormente no serviço públi-
a co, não ecoa a advertência Ruy:" competência que

se
como os o nu. para se distribuírern, como librés, a idos e a
Na prosa, uma tolice como "O Analista de Bagé" aproxima-se rantes e nulos, a comensais e parásitos, é um valor de cultura,
da centésima edição. E os romances americanos, os mais um valor de produção, um valor de riqueza, que se subtrai ao
vazios do mundo, porque fogem dos teoremas como o diabo tesouro geral da humanidade. São atos de esperdício, dila pi-
da cruz, abarrotam as livrarias. dação e loucura, com cada um dos quais ninguém sabe quan-
Na televisão, o lixo invade os melhores espaços. Os to vai perder a nação e o gênero humano".
horários mais cômodos destinam-se a novelas alienantes,
que subvertem as normas de cultura. Nelas, como verberou
o Cardeal Lucas Moreira Neves, em--1ldmirável artigo publi-
cado no "Jornal do Brasil", cultua-se a violência, o deboche,
a pornografia, o adultério, oincesto, a esperteza, o io-
nato e tudo que degrada a espécie humana. Em quase
das, os filhos afrontam os pais, cuja autoridade falece com-
pletamente. Numa delas, o pai expulsou de casa a filha que
se iniciava na prostituição, mas, quando ela prosperou nos
lupanares, passou a adorá-Ia e a viver de seus proventos.
Os filmes culturais ou de melhor qualidade só são exibidos
quando não há mais tempo para assisti-los.
Os verdadeiros músicos e cantores dificilmente apa-
recem na televisão. Em seu lugar, cercados de cocotas que
desmaiam ou fingem desmaiar (por dinheiro, sugestão ou re-
89
88
A FELICIDADE R DECRETO

Talvez porque Deus, apenas com palavras, criou o


mundo em sete dias, há entre nós uma tendência generaliza-
da para acreditar que se possa resolver com leis ou decretos
os problemas nacionais. Já se pretendeu, por exemplo, elimi-
nar a inflação com o congelamento de preços e o confisco da
poupança, quando é sabido que nenhum país, em tempo al-
oferta e

que em
tas, os da Revolução Francesa e da Revolução Soviética, que
dispunham do concurso sumário da guilhotina e do fuzilamen-
to, não conseguiram tabelar preços. Aos decretos respectivos
seguiram-se a ocultação de mercadorias, o desabastecimen-
to e o câmbio negro.
Na França e na União Soviética, durante aquelas re-
voluções, a fome foi a resposta dos camponeses, porque, seja
qual for a ameaça, o homem não produz para vender com
prejuízo. A inflação, seja decorrente da escassez de mercado-
rias ou do excesso de moeda em circulação, só se combate
com o aumento da produção e o saneamento das finanças
públicas. O aumento da produção e o combate ao déficit pú-
blico, porém, importariam numa opção amarga pelo trabalho
e pela austeridade. Talvez por isso, não se tem notícia, em
nosso País, de medida alguma tendente a aumentar a produ-
ção e reduzir as despesas públicas. Cuida-se apenas de criar
impostos para cobrir o rombo do erário e conseqüentemente
aumentar a inflação, porque, como é óbvio, os novos encar-
aos usuários e consumidores.
Enquanto perdurarem os do Go-
91
verno e a devoção do povo ao culto do lazer, não será redu- pode merecer a mesma pena atribuível ao incubo de sua ação
zida a inflação. No serviço público, continuam imperando a delituosa. A lei tem de ser feita para o homem, porque o ho-
corru , o devorismo, as mordomias, o nepotismo, o em- mem foi feito para a lei.
o desperd e a ineficiência. Só remediando as causas é que se pode reduzir a
o é man ho. a ou No Brasil, as
comprova-se , pelo turismo, causas principais do crime a corrupção , a inver-
remunerada. Um olhar de valores, o êxodo rural, a televisão, o lixo cultural impor-
os sítios que pro- tado, a , o consumismo, a procriação
os proplcloS ao como Ipanema, , irresponsável, o abandono menores, a ignorância, a ocio-
Frio, Búzios, Guarapari, Porto uro e outros. Para o sidade, o abuso do álcool e outras drogas, o desemprego, o
brasileiro a glória consiste em produzir. Consiste em fin- subemprego, a desconfiança na justiça, a falta policiamen-
tar a maldição bíblica que o obrigaria a comer o pão com o to, a impunidade e a contaminação carcerária. Enquanto não
suor do próprio rosto. forem removidas essas causas, não haverá redução da cri mi-
.A hedionda (8072, de 25/7/1990), editada para
não

na
que A
Quando ocorre um crime, ainda que de índole passional, mas em parte, a criminalidade, é o policiamento ostensivo, diurno
que, em razão da notoriedade da vítima ou do acusado, a mí- e noturno, em todos os bairros. Mas a longo prazo e para efe-
dia entende de explorar, surgem logo sugestões de reforma tiva redução da criminalidade, é necessário atacar as causas
das leis e até mesmo de institutos seculares e universais, cuja do crime acima indicadas. O agravamento das penas não
abolição faria regredir o Direito Penal aos in-fólios da Idade concorre~á, de modo algum, para solucionar o problema. Já
Média. Ignorando que o crime é apenas um sintoma de peri- alertava Beccaria, há mais de dois séculos, que a pena deve
culosidade, os reformistas confundem o criminoso com o deli- ser a mínima possível, porém de aplicação rápida e inevitável,
to, forcejando pelo agravamento das penas e pela supressão porque o criminoso não teme a gravidade da pena e sim a
dos direitos de defesa. presteza de sua aplicação e inexorabilidade. Assim c?mo os
Desde o advento, porém, da Escola Positiva, que, há velhos alquimistas se perderam na busca da pedra fIlosofai,
um século, revolucionou a ciência penal, o crime é fator se- também se perderão os novos utopistas que esperam resol-
cundário, acessório,adiáforo, em comparação com o seu mo- ver, com leis ou decretos, os problemas gravíssimos da infla-
tivo e a índole do criminoso. A razão, aliás, é claríssima. Matar ção e da criminalidade.
a própria mãe é o mais abominável dos delitos. Sólon recu-
sou-se a incluir o matricídio nas leis atenienses, porque não
acreditava que alguém o pudesse cometer. Entretanto, o filho
que mata a mãe para livrá-la de sofrimentos atrozes e irreme-
diáveis, pratica uma ação meritória. Também o tolo ou imaturo
que:. influenciado por outrem, participa de um assalto, de um
sequestro, de uma curra ou do tráfico de entorpecentes, não
93
92
A ADVOCACIA CRIMINAL

Em todas as profissões, o começo é sempre difícil e


desanimante. Em nenhuma, porém, o noviciado é tão perigo-
so como na advocacia criminal. Os que tentam exercê-la tro-
peçam a todo instante nos abusos de autoridade, nas ciladas
policiais, na concorrência desleal, nas traições da clientela,
nas d mídia, nas judiciárias e, sobretu-
dos que confundem o
~s como
a contra
porque, como Hill lamentou: "Nas calmas planícies da hesita-
ção repousam os ossos dos milhões sem conta que ao primeiro
alvorecer da vitória descansaram e descansando morreram".
Entre todos os sapos que tem de engolir, o que mais
repugna ao estômago do noviço é a incompreensão do vulgo
sobre a missão do defensor. Para Ruy, todavia, o advogado
"foi o primeiro homem que, com a influência da razão e da
palavra, defendeu seu semelhante contra a injustiça, a violên-
cia e a fraude". Depois que Jesus disse que não veio cuidar
de justos e sim de pecadores, não mais seria admissível qual-
quer confusão entre o acusado e seu defensor. Não há como
se possa confundir o médico com o enfermo. Quem, por igno-
rância ou malícia, deprecia o advogado criminal, costuma
mudar de opinião quando ele mesmo, um filho, um parente ou
um amigo, culpado ou inocente, é encerrado em um cárcere
imundo e superlotado, onde impera a lei do cão.
A missão do advogado é em defesa de seu
constituinte, tudo aquilo que faria se tivesse a mesma
e o mesmo O advogado que julga o réu,
recusando seu patrocínio em da índole do acusado ou
95
da gravidade do delito, usurpa as funções do juiz e do tribunal. cia não têm valor jurídico, porque a verdade só pode ser al-
Revela inaptidão para a advocacia e o sistema cançada através do debate entre a acusação e a defe.:a. Mas
nal , a a acusacão não prende nem condena, e a defesa nao solta
nem ab~olve. Quem prende, solta, condena ou absolve é o
É sandice, que ou ou
advogado vem saltando marginais. Além disso, a "De-
facínora cuja sobrevivência é uma claração dos Direitos do Homem e do Cidadão':' promulg~da
Ao ,e ao há mais de dois todo homem é presumidamente inO-
incolumidade públ cente enquanto não for condenado.
É claro que se não houvesse doença, o médico Por tudo isso, não se pode censurar quem postula
inútil. O mesmo com o criminalista, se os direitos pela liberdade. O habeas corpus é inerente à ~idadania. Sua
não fossem violados. Advocatus, Vocatus ad, "chamado a so- impetração é facultada a qualquer do povo e nao uma prerro-
correr", assim definiu Carnelutti a função do criminalista. Mas, gativa dos advogados. Aliás, a Constituição Federal, em seu
, inciso I, dispõe a de

a de
e porq'ue a comunicação, pura e simples, uma prisão
ascender na profissão, o iniciante exerce um admirável sacer- ilegal, importaria na imediata soltura do paciente. Em vez de
dócio, sublimado ademais pelas animosidades e perfídias que censurar os que defendem os excluídos, é dever de todo~,
tem de enfrentar, inclusive no seio de sua própria classe. leigos ou advogados, aplaudir aqueles que, esgrimindo a lei,
Seja, porém, neófito ou renomado, não pode o crimi- lutam pelos Direitos Humanos.
nalista recusar seu patrocínio a quem o solicita, porque, como
Ruy advertiu, "o último dos criminosos tem o mais absoluto
direito de que com ele se observe alei". Não deve também
preocupar-se com a opinião pública ou temer a impopularida-
de. Do contrário, estará servindo a dois senhores e sacrificará
um em favor do outro. Para ele, não deve haver culpado ou
inocente. Apenas alguém que caiu ou está a cair nas
malhas da justiça. Se necessitar de motivação filosófica para
optar pelo acusado, bastará de que, segundo He-
gel, toda sociedade é a síntese de seus próprios antagonis-
mos. Quem a afronta concorre para aperfeiçoá-Ia. Sem
dadores não há equilíbrio ecológico.
Todo mundo sabe ou devia saber que não pode exis-
tir processo judicial sem a interferência de advogado. Por in-
junção dos princípios constitucionais do contraditório e da
ampla defesa, os atos instrutórios praticados em sua ausên-
97
96
o FRACASSO DO CO

Os mais importantes acontecimentos da história da


humanidade foram o advento do Cristianismo, a Revolução
Francesa e a Revolução Soviética. O Cristianismo pregava a
humildade, a caridade, o altruísmo. A Revolução Francesa
acenava com liberdade, igualdade, fraternidade. A Soviética
pretendia acabar com a exploração do homem pelo homem. A
do teria
por seu
turno, se houvesse a a
Revolução SO\.4ética. Aliás, a simples obediência ao Decálo-
go, que precedeu o Cristianismo, teria dispensado todas as
revoluções, porque, para a inexistência de conflitos, bastaria
que o homem amasse o próximo como a si mesmo.
A humildade, porém, preconizada pelo Cristianismo,
logo converteu-se em templos faraônicos, nas riquezas do
Vaticano,na postura majestática dos príncipes da batina e na
pompa Iitt;Jrgica. A caridade exibiu-se nos antros de tortura da
Inquisição e nas fogueiras que incineraram os contestadores,
como Huss, Savonarola e Giordano Bruno, e as bruxas, como
Joana D'Arc. O altruísmo transformou-se em cupidez, como
atestam o dízimo, as indulgências e o confisco dos bens dos
hereges. A própria ideologia cristã, como disse Ruy ("O Papa
e o Concílio"), foi reduzida pelas distorções clericais "a uma
simbólica sem alma e sem verdade, pasto à credulidade das
classes ignorantes e manto ao ceticismo dissimulado e calcu-
lista da minoria ilustrada".
A Revolução Francesa, que, como Saturno, devorou
seus próprios filhos, passou pela breve ditadura do "Incorrup-
tível", mas logo chafurdou na pornéia do Diretório e naufragou
99
na tirania bonapartista. Pretendia erradicar a nobreza e seus vaidade, a luxúria e o egoísmo são os lemas das sociedades
privilégios, mas só conseguiu colocar um imperador no lugar pretéritas, atuais e futuras. Quanto ao Comunismo, basta lem-
do rei, instituir o capitalismo e restaurar, depois de muito san- brar que, segundo a Bíblia, o trabalho foi imposto ao homem
derramado, a própria monarquia. sua igualdade e fra- como castigo inexorável. O único meio, portanto, de que o
restou. E a foi a ex- maldição é aos
ploração do homem pelo homem. Como observaram Marx e seus semelhantes, tarefa que executa em qualquer regime,
("Manifesto Comunista"), ao o feudalismo, o mormente no comunista, onde a classe dominante tem poder
"substituiu a exploração envolta em ilusões religi- vida e morte sobre o povo em
osas e políticas, pela exploração d cínica e brutal". As religiões e os partidos políticos criações hu-
A Revolução Soviética suprimiu a propriedade priva- manas. E o homem é o Midas da putrilagem. O que ele toca,
da e encampou os meios de produção, a fim que, elimina- logo apodrece. Por mais belas e generosas que sejam as re-
dos os patrões, ninguém pudesse se apropriar da mais valia, formas sociais, propostas ou tentadas, nenhuma resistirá à
ou seja, da parcela de trabalho não pago que representa o índole predatória do homem, cujo egoísmo jamais será sacia-
tudo livrar-se do trabalho e explorar, em função do seu

ma, a seus os
nhados pela burguesia, pelo clero ou pela própria nobreza. históricos que, abstraída a origem divina e
Para essa classe dominante, como também ocorre com a clas- da a sua efetiva entronização como Rei dos Judeus, podería-
se capitalista, é que estavam reservados os prazeres da vida. mos, a seguir, visualizá-lo como um Papa, cercado de luxo e
"Dachas" suntuosas, belas secretárias e férias na Criméia. riqueza, indiferente às mazelas da humanidade.
Essa contrafação foi logo denunciada por Trotsky ("A
Revolução Traída"), e a seguir por Djilas ("A Nova Classe") e
Orwell ("A Revolução dos Bichos"). Em qualquer regime. seja
ele qual for, uma classe parasitária, talvez a pior delas, é por-
tanto inextinguíve(a dos sinecuristas, nepotes e outros rufiões
do erário. Dizer, pois, que o Comunismo fracassou, equivale a
admitir que o mesmo ocorreu com o Cristianismo. É óbvio en-
tretanto, que o mérito das ideologias não se confunde c~m a
sua eventual impraticabilidade. A observância da doutrina cris-
tã pressupõe sublimação espiritual, e a da ideologia comunista
um desprendimento que não se pode esperar do homem co-
mum. Ambas são incompatíveis com a natureza humana.
Seguir ou imitar o Cristo em sua humildade em seu
altruísmo, em sua castidade, em seu amo~ aos pobres, em
sua bondade, não é vocação do homem. Até mesmo no seio
da Igreja, somente Francisco, renunciando ao conforto e bei-
janqo o leproso, conseguiu reavivar a trilha do Nazareno. A
101
100
A GUILHOTINA

Máquina idealizada e construída para decapitar se-


res humanos, a guilhotina tornou-se famosa na Revolução
Francesa, quando decepou as cabeças de um rei, de uma
rainha, de integrantes da nobreza e de inúmeros políticos.
Embora deva seu nome ao médico José Inácio Guillotin, que,
como deputado à Assembléia Constituinte, propôs em 1789 a
humanitário da

te em duas traves verticais com e


uma lâmina afiada que, na execução, cai sobre a nuca do con-
denado. Após experiências em cadáveres humanos e animais
vivos, foi adotada a lâmina oblíqua, que superou em eficácia a
horizontal e a semi-circular.
Acostumado a espetáculos empolgantes, como o da
execução de Damiens, que, por tentativa de homicídio contra
Luís XV, teve a mão direita calcinada, carnes arrancadas e
após desmembrado foi incinerado em praça pública, o povo
não aplaudiu a guilhotiíÍa, cuja atuação era singela, rápida e
monótona. Houve também especulação em torno do suposto
benefício que representaria para os condenados o novo mé-
todo de matar. Sustentou-se que a cabeça separada do corpo
continuava viva por algum tempo. Alguém disse que ao picar
a língua de um guilhotinado o rosto indicou uma °sensação
dolorosa. Um médico declarou que ao efetuar a transfusão de
sangue numa cabeça guilhotinada, os lábios moveram-se como
se q cabeça quisesse falar.
Sem culpa da guilhotina e sim do próprio paciente,
não foi fácil decapitar Luís XVI. Protestando inocência, o mo-
narca travou luta com os ajudantes do carrasco e, mes;"
103
importa alimentos. Um país que necessita de trabalho, é o
mo depois de subjugado, não colaborou com a máquina por-
paraíso dos feriadões, da aposentadoria precoce e da filoso-
que seu pescoço era muito grosso e não pôde ser fixado com
fia do Nele, os expulsos do campo engrossam as fave-
A lâmina mutilou o queixo e a parte inferior
las e as hostes da criminalidade. Não era muito diferente a
que ficou pendente do corpo e na França, quando a guilhotina foi
du XV,
entronizada. A terra pertencia ao clero e à a
minutos, o momento da execução. Chorou,
mantinham improdutiva. Os cargos públicos eram hereditá-
receu à Nação todos os seus bens em troca
rios, doados ou vendidos. Os impostos escorchantes. As
o povo, humilde. consegui-
ses ociosas banqueteavam-se, enquanto o povo fome.
ram prender seu que a lâmina implacável
Os escândalos financeiros ocorriam com freqüência. O povo
cortasse a
Mas, como sentenciou Montaigne sobre a conduta odiava seus governantes.
Tudo no Brasil clama por uma transformação radical.
humana, basta viver para que se veja tudo e seu oposto. En-
O plebiscito para a escolha entre a monarquia parlamentar, o
tre as cenas de desespero ou covardia, não faltaram as de
parlamentarismo e o presidencialismo, é uma questão bizanti-
ou o povo. A

ser <::;A,G'~'U

a tu ao
rem os nossa ruína. O que se é
redor patíbulo. Eloqüente também foi o desafio de Danton
que, graças à tolerância infinita do povo brasileiro, o agrava-
que, avançando para a guilhotina antes que a limpassem do
mento da miséria nacional não produza um estado de revolta'
~angue da vítima que o precedera, perguntou ao carrasco:
análogo ao do povo francês em 1789, de modo que, repudia-
Que diferença faz um pouco de sangue em tua máquina?". E
das como ilusivas ou ineptas as fórmulas do plebiscito, não se
recomendou: "Não te esqueças de mostrar ao povo a minha
venha a optar por uma solução de desespero, da qual Bona-
cabeça. Não é todos os dias que se vêem semelhantes".
Os fatores que determinaram a Revolução Francesa parte se aproveite.
r~petem-se atu~lr:nente no ,Brasil, j?aís riquíssimo que os polí-
tiCOS, os empreiteiros e a elite funcional conseguiram reduzir à
co~dição_ de devedor insolvente, de pátria da desesperança,
da Inflaçao, do desemprego, da corrupção e da delinqüência.
Em vez ?e cortar suas despesas e incentivar a produção, úni-
cas medidas capazes de estabilizar a moeda, o governo emite
~on~anhas ~e ~édulas para financiar a corrupção, a incompe-
tencla e a oCIosidade. Enquanto isso, o flagelo secular da seca
n~ ~~rdeste contínua inalterável. Os trabalhadores vivem na
m~sena:. Os menores permanecem abandonados. Os hospi-
t~IS ~stao falidos. Os cárceres superlotados. E a injustiça so-
clallmpera por toda parte.
. Um país que já foi de imigração e que devia ser o
celeiro do mundo, t'loje exporta mão de obra clandestina e 105
104
A OPINIÃO PÚ

Uma das faltas atribuídas a Danton, no Tribunal Revo-


lucionário, durante o simulacro de julgamento que precedeu sua
execução na guilhotina, foi a de haver dito que: "A opinião públi-
ca é uma meretriz e a posteridade uma tolice". Com a palavra
cassada, enojado da política e do sangue que antes derrama-
ra, como Ministro da Justiça e criador mesmo Tribunal que o
Mas, a

o a a a
ton confirmou sua insopitável repugnância opinião pública,
gritando para seu companheiro de infortúnio: "Cala-te! Espe-
ras, acaso, comover essa vil canalha?"
O desprezo pela opinião pública é uma constante
entre os homens cultos. A crônica da velha Grécia relata que
Fócion, notável orador, surpreendido por frenéticos aplausos
quando discursava em um comício, indagou de seus asses-
sores se havia dito uma besteira. Na França, já neste século,
o escritor e político Aicard, que traduzira do latim para o fran-
cês uma obra de Catulo, também falava em um comício quan-
do um dos presentes, que não gostara da tradução, assim o
invectivou: "Você assassinou Catulo!". Imediatamente, sem
perceberem a metáfora, outros da platéia gritaram: "Assassi-
no!" ,"Assassino!", com tamanha indignação que o orador a
custo conseguiu sair do local onde o tumulto se generalizara.
Não foi Pilatos e sim o povo , insuflado pelos fari-
seus, quem exigiu a crucificação de Jesus. Com dois expedi-
o da flagelação e o da proposta de troca por Barrabás,
o romano tentou salvar o Nazareno. Por le Bon, Sighele
e outros sustentam que a incubação pertinaz pode conduzir o
107
povo a reações teratológicas. Os anais forenses registram inú- livramento condicional. Aliás, sobre o assunto, vale lembrar
que Carlos Luís, futuro Napoleão III, ao ser condenado à pri-
meros erros judiciários, decorrentes da popular. En-
são perpétua em razão de um golpe militar fracassado, per-
tre Araceli é paradigma. boato
que, guntou quanto tempo durava a perpetuidade na Obvia-
o a mas, sobretudo, as
condições em que é cumprida. exem-
plo, o preso freqüenta escolas, tem direito a alimentação sau-
dável, tratamento e dentário, e é de
mesmo, no Rio fato reeducado para voltar ao convívio
No Brasil, o preso é arremessado em cubículos su-
nal, imputado a primários e de
perlotados, onde impera a lei do cão. Quem entra analfabeto,
sendo alvo de tanto alarido que o Poder Judiciário se
sai analfabeto ao quadrado. Quem entra com saúde sai morto
ma a cumprir a lei, ordenando, como de direito, que os réus se
ou infectado. A alimentação repugna até mesmo à vista e ao
defendam em liberdade. Grupos de pressão, portando faixas
olfato. próprios tribunais já declararam que, em nosso País,
e cartazes, o e
e

nunca leu um a os
contra o sistema jurídico em vigor, clamando pel~ adoção da deles podem compreender. Quem pensa em agravamento ?e
penas, devia antes, como estudioso, pesquisador ou analIs-
pena de morte e pela regressão do Direito Penal aos idos te-
nebrosos da Idade Média. ta, passar um dia e uma noite nesses porões do inferno.
Coando o mosquito e engolindo o camelo, aqueles
manifestantes - atores e videotas - fingem ignorar que na
Baixada Fluminense mata-se mais do que se matou na Guer-
ra dO Golfo e que o Rio de Janeiro é a cidade mais violenta do
n:un?o. Ali a criminalidade, a corrupção e o deboche atingiram
nlvelS que nenhuma outra comuna suportaria. Mesmo assim,
como cegos discutindo cores, ousam atribuir ao Código Penal
a sua própria culpa, afirmando que ele está obsoleto anacrô-
nico, defasado, e exigindo o agravamento das penas'. Preten-
dem também acabar com o livramento condicional, que é o
estímulo básico para a recuperação do condenado. Em suma,
querem transportar para o mundo as novelas em que
atuam ou a que assistem.
Nos Estados Unidos, que adotam uma variante da
sentença indeterminada, ou aquela cujos efeitos só ces-
sam qu~ndo o preso está recuperado, há limites de tempo em
que, ate mesmo o condenado à prisão perpétua, pode obter o
109
108
o DIREITO DE MORRER

Em 1924, chamada a Paris por seu amante, o escri-


tor Juan Zinowsky, que padecia de câncer e tuberculose, a
jovem e bela Stanislawa Uminska, atriz polaca, atendendo a
angustiosos apelos do enfermo, que não suportava mais o
martírio, valeu-se de um momento em que ele estava aneste-
siado e o matou com um tiro de revólver, sendo depois absol-
vida pelo Tribunal do Júri. O próprio promotor, prevendo a ab-
solvição, pediu aos que não aplaudissem o resulta-
do do entronizarem a

por
provocando outros análogos e o debate em tor-
no das implicações jurídicas da morte caridosa.
Naquele fecundo ensaio, relata também o sumo mes-
tre espanhol o caso de uma menina de 13 anos de idade,
mordida por um cão raivoso e transportada à cidade de Cór-
doba (Argentina), onde, em 1934, foi examinada por médicos
que atestaram a impossibilidade de salvá-Ia. A enferma grita-
va, ameaçava, investia contra todos e implorava que a matas-
sem. Os familiares também exoravam a compaixão dos médi-
cos, suplicando-lhes que aplicassem uma injeção letal na doen-
. te, que parecia possuída pelo demónio. "E quando a pobre
enferma, num de seus acessos, caiu ao solo, como se fosse
uma fera enfurecida, alguém atirou sobre ela uma colcha, apro-
veitando-se, então, um médico, para aplicar-lhe uma injeção
generosa que a fez dormir para sempre".
A palavra eutanásia, composta de duas gregas: eu
(bem) + thanatos (morte), foi criada por Bacon, no Século XVII,
para definir a supressão de uma vida atormentada por incurá-
vel e dolorosa agonia. A eutanásia, isto boa morte, homíci-
dio caritativo ou consiste, portanto, em matar
111
No Brasil, a defesa do executor da eutanásia não
um enfermo, a seu pedido ou por convicção sincera e fundada
pode esgrimir a coação moral irresistível, porque os tribu-
de que a morte poderá livrá-lo de padecimentos e
nais togados; com manifesta erronia e sistemática impeni-
irremediáveis. A é objeto de e interminável
tência, não admitem que a coação possa emanar própria
, até mesmo entre os
O vítima. isso, o se a tese
homicidio privilegiado, em do motivo de
valor moral que impeliu o agente a praticar a ação incrimina-
da. Com essa porém, lograva-se a
ção de um a um terço da pena cominada ao homicidio
o
O estudo da confunde-se com o do suicí- simples. Hoje, todavia, a defesa dispõe da inexig
dio, porque apenas acrescenta a o auxílio mate- de outra conduta, causa supralegal de
que o Superior Tribunal de Justiça já declarou ser plenamen-
rial do executor e, eventualmente, a falta de consentimento.
Embora para Nietzsche a idéia do suicídio seja um lenitivo, te cabível em casos de homicídio.
sem sem uma

, em sua a vez o
como se com os motivo torpe ou os
uma situação de fato que, se existisse, tornaria inculpável o seu
ta que na França, no reinado de Luíz XIV, o corpo do suicida
era arrastado pelas ruas e atirado em um monturo. Os bens procedimento. Este risco, todavia, como ocorre co.n: ? prete,xto
de legítima defesa, o erro provocado e outros artlflclOS analo-
eram confiscados. Os nobres eram degradados e seus caste-
gos, é inerente a todas as descriminantes e causas de exclu-
los demolidos. Somente com a Revolução de 1789, foi que se
são de pena. A maior ou menor dificuldade, porém, de compro:-
descriminou o autocídio.
vação do fato, é estranha à eficácia dos institutos jurídicos. E
Atualmente, em países cultos, os defensores do di-
questão independente, que se resolve com as perícias, o teste-
reito de morrer insistem pela legalização da eutanásia, advo-
gando sua aplicação, livre e indolor, em clínicas habilitadas. munho e os princípios gerais da lógica probatória. /'
Em 1935,. foi cri.ad~ em Londres a "Exif' ou "The Voluntary
Euthanas/a Society'; na França, Claude Guillon propôs, em
1975, a criação do "Comitê Morte Doce", e Michel Landa fun-
d?u, e~ 1980, a "Associação pelo Direito de Morrer com Dlg-
nld~de (ADMD). Em Amsterdã foi instituída, em 1973, a "As-
sociação Holandesa em Favor da Eutanásia Voluntária". Ali o
~édico Pieter Admiraal dá entrevistas aos órgãos publicitá-
riOS, d? mundo inteiro, admitindo que pratica livremente a eu-
tanasla. Nos Estados Unidos, o médico Jack Kevorkian man-
do~ construir e vem operando, nas barbas da justiça a "Má-
qUina do Suicídio". Em suma, por toda parte, há que~ não se
conforme com as leis que incriminam a eutanásia. 113
112
o ETERNO RETORN

Que acharias - pergunta Nietzsche - de um demónio


que te dissesse: "Terás de viver um número infinito de vezes a
vida que estás levando. É preciso que cada dor e cada ale-
gria, cada pensamento e cada suspiro renovem-se na mesma
seqüência. A ampulheta da vida será sempre virada, e tu com
cairias joelho e,
o demónio que

um e ouvi
divina!". Esta é a idéia do eterno retorno que para muitos
invocaria o suplício de Sísifo, embora em outros, naqueles em
que o instinto de conservação embota o raciocínio, pudesse
despertar uma sublime expectativa.
Mais cruel, todavia, do que esse demónio imaginado
pelo filósofo, é o demónio da AIOS que impõe aos indivíduos
desta geração a mesma vida que levavam os da geração pas-
saga. Depois de, a duras penas, libertarem-se dos preconcei-
tos e do sentimentalismo, as pessoas desta geração sentem-
se subitamente compelidas a regredir aos idos puritanos da
era romântica. Não mais promiscuidade, permissividade ou
irresponsabilidade. Adeus aos amores descartáveis, à sensu-
alidade desenfreada, à libertinagem, aos alucinógenos e à his-
teria acústica que se convencionou chamar de música moder-
na. O mal do século ameaça com a pena de morte a quem
não aceitar aquele retorno. E não dá aos ameaçados espe-
rança alguma de revogar essa terrível cominação.
era romântica foi, em parte, e mantida
por dois demónios: o das doenças venéreas e o da
indesejada. O primeiro foi exorcizado pela penicilina e o
115
outro pela pílula anticoncepcional. Mas, durante séculos, difi- "camélia pálida" de Castro Alves ou pela "moça das pernas
cultaram o relacionamento sexual, impondo a monogamia, o finas" que o toureiro de Blasco Ibánez amou por toda a vida.
Nos do lo a ser a arte e a ciência da harmonia. A
a vacuidade e fonte
e a ser, como
o tema principal da é hoje, uma contrafação cabotina, dissonante e pretensiosa.
moças que, O homem usará bolsa ou brincos, nem vergonha
o suicídio ou se trans- sua masculinidade. A mulher
do lodo", como escreveu Vila, o obrigará o homem a
admirável artífice prosa lírica. O condom, camisa-de,...vênus ou simplesmente
Os sobreviventes da época romântica lembram-se de misinha", não impedirá a propagação da AI porque tam-
que, em seu tempo, a fornicação com a prometida era sacrilé- bém não impediu a difusão das doenças venéreas. es-
gio. Os enamorados viviam em ebriez idílica, sonhando acor- cudo sempre existiu. Antes da utilização do látex, aliás cente-

,0
a contra ído com não renunciará ao ato sexual por dispor
mulher já deflorada, se o marido ignorasse tal circunstância. Se não for descoberta uma vacina ou a cura da síndrome, o
As relações amorosas entre homem e mulher eram regidas HIV poderá até mesmo suprimir a maldição do eterno retorno,
por preconceitos imbatíveis, compromissos irrevogáveis, e até transformando o mundo em uma Aidslândia, habitada por ca-
por injunções religiosas que associavam ao ato genésico a micases, onanistas e abstêmios.
noção expiatória do pecado original.
Como é o fato, e não qualquer discurso, que antece-
de e origina a idéia, foram a penicilina e a pílula que desenca-
dearam a reVólução sexual, cuja extinção o demônio da AIOS
vem de determinar. Livre das doenças venéreas e da concep-
ção indesejada, a humanidade abandonou o amor sentimen-
tal e entregou-se ao hedonismo, evertendo os costumes e rom-
pendo seus vínculos com o passado. Dessa repulsa às tradi-
ções, surgiram os rebeldes sem causa, a contracultura, a toxi-
comania, a procriação irresponsável, a "música" alucinógena,
a "poesia" sem rima, a literatura vazia, a contestação sistemá-
tica, o feminismo dos homens, o machismo das mulheres, a
proliferação do homossexualismo, e tudo o mais que caracte-
riza este "admirável mundo novo".
Com a vãlta do romantismo, a mulher esculturada
pelas academias de ginástica será fatalmente suplantada pela
117
116
IGN RÂNCIA

o flagelo da humanidade não é a peste, a guerra, a


fome, a idolatria, o fanatismo, a corrupção ou o crime. O flage-
lo da humanidade é a ignorância. Sem ela, essas calamida-
des não existiriam ou seriam drasticamente reduzidas. Ape-
sar disso, o homem foge dos livros como o diabo da cruz.
Reencarnando os da

e
gos esco-
las, professores, nem motivação para estudar. Por toda
alastra-se a ignorância. E nela se cevam os políticos, os cu-
randeiros, os pastores de almas, os publicitários, a mídia ele-
trânica, a corrupção e o crime.
A peste não existe onde há saneamento básico, as-
sepsia, higiene. Na Idade Média, entretanto, a peste era atri-
buída a sortilégios e combatida com exorcismos. Em vez de
matar os micróbios, cuja existência desconheciam, nossos
antepassados matavam as feiticeiras. A guerra sê'ria evitável
se os povos' não fossem ignorantes. Como disse Frederico, O
Grande, se os soldados raciocinassem,abandonariam o co-
mandante na primeira esquina. A fome não ocorre onde não
há latifúndios improdutivos ou explosão demográfica. O fana-
tismo desaparece quando a sabedoria arranca a máscara dos
ídolos ou sacode seus pés barro. A corrupção elimina-se
com a vigilância, a efetiva aplicação das leis e a transparência
dos atos administrativos.
Excetuadas as causas psiquiátricas, o violen-
to é, sempre, produto ignorância. ver onde
ele mais ocorre e seus autores. O crime
119
tual também, porque sem a simplicidade da vítima o estelio- geiros. Haverá queda das exportações e incremento das im-
nato prospera. Além de ser uma portações. Com as inevitáveis para acudir ao sorve-
, a ignorância ainda douro das subvencionar os preços da gasolina e
exigindo o públicas, bem como pagar aumentos ao funcionalismo,
o Ira como as rosas de
tudo, exceto da redução despesas, única providência ca-
de estabilizar a moeda. O real reprisa entre nós o filme
uta. os argentinos q . o peso mais do
a (Mat.12 o dólar. As mercadorias importadas substitu as
serve para expulsar o demónio. as fábricas faliram, o desemprego aumentou e o custo de vida
A mídia eletrónica é a principal aliada, difusora e tornou-se insuportável.
neficiária da ignorância. Acabou-se a era dos valores autênti- Nada se cura ou concerta sem a eliminação cau-
cos. As preferências e rejeições dependem agora do que im- sas da doença ou do erro. A causa da inflação brasileira não
a é o nome nem a cara . É o déficit público,

ornamento. suma,
importado e Nacional, um mais do um i-
rão as marcas dos figurinistas mais famosos. Desde que haja tar de avião supersónico. No Brasil há funcionários inativos
lucro na supressão de valores antigos e na criação de outros, que ganham mais do que o Presidente dos Estados Unidos.
a publicidade efetuará sua substituição. Por isso, é lugar co- Nenhum plano de estabilização económica terá êxito sem a
mum a assertiva de Paolo Ligeri de que a propaganda é a arte prévia oclusão do tonel das Dana ides das despesas públi-
de explorar a estupidez humana. cas. Sem o equilíbrio das finanças, o real seguirá o curso do
Eloqüente demonstração de ignorância coletiva ocor- cruzeiro, porque não se debela inflação com a simples mu-
reu durante o Plano Funaro e repete-se atualmente através dança do nome e da cor da moeda.
da impenitência cóm "que se pretende tabelar os preços dáS
mercadorias. Todos, entretanto, deveriam saber que nenhum
Governo, nem mesmo o mais sanguinário, como o da Revo-
lução ou o da Revolução Soviética, conseguiu ta-
belar preços. A guilhotina e o fuzilamento não impediram a
sonegação, o desabastecimento e a proliferação do câmbio
negro. Na Rússia, os camponeses que esconderam o trigo
foram desapossados e fuzilados. Ninguém mais se animou a
plan!ar. A fome espraiou-se e a política agrária foi modifica-
da. E elementar que não se combate a inflacão com decre-
tos, ameaças e punições. >

A supervalorização do real determinará o encareci-


mento dos produtos nacionais e o barateamento dos estran-
121
120
AS LEIS H DION

Para os antigos criminalistas, o Direito Penal era a


ciência que associava o crime como fato à pena como sua
legítima conseqüência. Ignorava-se, enlão, o criminoso, e con-
siderava-se a pena como um castigo proporcional ao delito.
Com o advento, porém, da Escola Positiva, que concebeu o
crime como um fenômeno natural e social, a

essa
criminoso a nqüir, a
o delinqüente seja submetido a tratamento que elimine sua
agressividade. A pena, portanto, destina-se a interromper a
ativídade predatória do criminoso e a submetê-lo a um regime
que promova sua recuperação.
O crime, como ente jurídico, é composto de sete ele-
mentos. Desses, um apenas o define ou classifica. Essa defi-
nição ou tipicidade, não tem caráter valorativo e pouco signi-
fica para justificar o agravamento das penas. Os fatores que
importam na avaliação do crime, como fenômeno social, são
o seu motivo e a periculosidade do delínqüente. O dispositi-
vo legal que define o crime é secundário. Qualquer avaliação
que nele se estribe será fonte de injustiças e erronias, porque
não é o crime que se pune e sim o criminoso. Concluir, portan-
to, que este ou aquele crime é hediondo, abstraídos o seu
motivo e a índole do delinqüente, é ignorar os ensinamentos
da ciência penal e fazer regredir a nossa cultura jurídica aos
in-fólios da Idade Média.
Basta ver que não pode existir mais inconce-
bível do que o matricídio. Entretanto se mata a pró-
pria para livrá-Ia sofrimentos que outro
123
modo não podia evitar, terá praticado uma ação caridosa e hediondas servem para confirmar que o Congresso Nacional
não juridicamente condenado porque a eutanásia está não tem para cumprir sua missão. Aliás, sempre
amparada "inexigibilidade outra conduta", causa su- foi assim. Nenhum dos Códigos vigentes é produto ativida-
de dolo ou cu . O mesmo ocorre com de parlamentar. Quando o
é o mesmo
que, devendo ser uma carta princípios, como o Decálogo,
numa infinidade de dispositivos, em sua maioria
o em nta,nrr"" ou cabíveis .A
e motivo, considerando o crime como Constituição Americana, vigente
mero sintoma de periculosidade. apenas 32 artigos. nossa, promulgada há um lustro, tem
As 8.072, 25/7/1990, e 8.930, de 6/9/1994, 245 e já devia, a teor suas disposições ter sido
agravando penas e impondo o cárcere durante o processo, submetida à revisão.
seja qual for o acusado, duas aberrações que confir- É dever indeclinável do Congresso Nacional resistir
do

ou ao
que se como a atual, a opinião pública é pública
contente em imputar homicídio simples. Como a denúncia nem opinião, e sim o que a mídia impinge, a expedição de leis
rege o processo enquanto dura a instrução, é claro que esse para atender a sugestões espúrias é mais que um crime. Em-
monstrengo ressuscitou a prisão preventiva obrigatória e en- bora as negociatas, os banquetes, a logorréia, as mordomias
tronizou o Ministério Público como senhor de baraço e cutelo e o turismo remunerado usurpem o tempo dos parlamentares,
da liberdade dos cidadãos. não seria demais exigir que eles se lembrassem de que, como
Em todas as épocas, em todas as comunas, os ante- o sábado (Marcos 2:27), a lei deve ser feita para o homem,
cedentes ilibados sempre foram um troféu de honra para os porque o homem não foi feito para a lei.
/'
cidadãos. A vida imaculada e a utilidade social do indivíduo
sempre lhe garantiram consideração, respeito e solidarieda-
de. Para as leis hediondas, todavia, nenhuma diferença existe
entre o homem de honra e o bandido. Ambos passam a ser
tratados de igual modo. Se forem presos em flagrante e de-
nunciados por homicídio, com as infalíveis qualificadoras, se-
rão arremessados na mesma pocilga, onde aguardarão o jul-
gamento. Por mais humano e culto que seja o juiz, não poderá
estabelecer distinção alguma entre o benemérito e o preda-
dor, porque onde a lei não distingue não pode o intérprete
distinguir, e porque, como diz Soler, a pior lei é mais imperati-
va do que a melhor doutrina.
Mas como tudo, até o lixo, tem utilidade, essas leis
125
124
INTOLE elA

Quando lhe perguntavam o nome, uma menina ame-


ricana respondia: "Mary Don'f', isto é, "Mary Não", ou' com a
necessária amplitude: "Mary Não Faça Isto ou Aquilo". Em sua
inocência, ela assim retratava a intolerância do meio em que
vivia e a tendência repressora dos que, esquecendo seus pró-
defeitos, pretendem criar um mundo à sua imagem. In-
no seu sobrenome a petulân-
a
e como se
vados, as mais absurdas mendacidades.
a passividade com que os americanos aceitam imposições
extravagantes. Aliás, não seriam eles os reis da propaganda
se seu mercado interno não fosse tão receptivo.
Em 1923 o mundo gargalhou com o "Júri do Maca-
co", encenado por violação do "Anti-Evolution Bílr, uma lei
promulgada pelo Estado do Tennessee, que incriminava o
ensino da teoria de Darwin nas escolas públicas. Um profes-
sor foi condenado, mas a repercussão do julgamento humi-
lhou o povo americano. Em 1932, após o seqüestro e morte
do filho do herói nacional Lindbergh, uma onda de passiona-
lismo e revolta percorreu os Estados Unidos, provocando a
edição de leis que cominavam a pena de morte pelo crime de
seqüestro. O resultado óbvio foi a eliminação sistemática dos
raptados, porque, já estando sujeitos à pena de morte pelo
simples seqüestro, os raptores não hesitavam em assassinar
os seqüestrados para não serem por estes reconhecidos.
Em 191 através da Décima Oitava Emenda Consti-
tucional e do Act" expedido logo a o purita-
nismo conseguiu impor o regime da , em cuja vigên-
127
É claro que os fabricantes de cigarros poderiam re-
cia foram proibidos a fabricação, o transporte e a venda de
verter a situacão atual. Poderiam, por exemplo, interessar os
bebidas alcoólicas no território americano. Como resultado
médicos e o~ meios de comunicação a divulgar, com
. monumental o poder.
que o fumo, como redutor do o remédio
O crime públi-
a
maioria dos problemas e a
a elegância, bastaria essa simples declaração para in-
a postura que, com implicância, agridem
-em
os oplnloes que os sa-
, foi a
bem fabricar estabeleceriam confusão suficiente para ilidir a
com a proibição. O crime
campanha c~ntra o tabagismo. De qualquer forma, c~nvém
intolerância, até hoje sobrevive.
não esquecer que "verboten" (proibido) era a palavra mais pro-
Como não podia deixar de ocorrer, é também dos
Estados Unidos que dimana a histeria atual contra o tabagis- nunciada na Alemanha nazista.
mo. é A flor cheira melhor do

mas urn
é como lixo cultural os
e ,é o pela contamina-
tam. Não se entende, ademais, a não ser por desmesurada
ç~o ambiental. Submetendo ainda os que chegam da rua, em
hipocondria, que num país como o Brasil, onde s~ ~orre ~e'
dias de calor, a uma queda repentina da temperatura, provoca
fome ou por falta de assistência médica e de -remedlos, haja
pneumonias. Embora seja a refrigeração artificial nociva à
quem, com o monóxido de carbono poluindo ruas e invadindo
saúde, prefere-se esconder este fato atrás da figura dolorosa
lares, se preocupe com o tabagismo. De modo geral, quem pre-
do "fumante passivo", uma cretinice inventada para discrimi-
tende restringir direitos e impor os abusos de sua intolerância,
nar os fumantes, fomentar discórdia entre as pessoas e armar
costuma agir como os que, segundo Jesus (MaL 23:25), limpa-
a prepotência dos que tenham alguma parcela de autoridade.
vam o exterior do copo, mas deixavam dentro a imundície.
/' Arvorando-se em protetora da humanidade a ínto-
le~â~cia inventa estatísticas horripilantes, aventura~do que
mllhoes de tabagistas morrendo ou são passíveis de
doenças tenebrosas. Ignora que Disraeli, aludindo a cálcu-
lo~ reais e não simplesmente fabulados, dizia que existem
tres classes d,e mentira: a mentira simples, a supermentira e
a estatística. E velha a praxe. Nos anos 40, as fábricas nacio-
nais de refrigerantes e meias de seda, alarmadas com a con-
corrência, financiaram propaganda que atribuía o câncer à
Coca Col~ e.aos tecidos de nylon. Os que se deixam apavo-
rar com tais Invencionices imitam o jovem que furou um olho
para .~ão ir para a guerra, mas acabou dispensado do servi-
ço militar porque tinha pés chatos. 129
128
HIPOCRISIA

Na admirável pregação Jesus de Nazaré, os tópi-


cos mais contundentes são os relativos à hipocrisia, como os
que censuram os escribas e fariseus por devorarem as casas
das viúvas e se justificarem com longas orações; gostarem
das saudações nas praças, de usar vestes talares, dos pri-
e porque sobrecarregavam

erarn como os
cem belos, mas por dentro estão cheios imund re-
torsão, os escribas e fariseus crucificaram o rebelde e apropria-
ram-se de sua doutrina. Mantiveram, porém, a conduta cen-
surada, continuando, até hoje, a difundir a hipocrisia.
Inúmeras são as manifestações de farisaísmo que
logram aprovação majoritária, deixando estarrecido quem exa-
mina suas premissas para não ser empulhado pelas conclu-
sões. Veja-se, por exemplo, o que acontece com os ecologis-
tas. Nunca plantaram uma árvore: mas fazem estardalhaço
se o lavrador desmata a terra para poder cultivá-Ia. Jamais
criaram um animal, mas pedem cadeia para quem mata um
tatu, ainda que o bicho esteja devastando plantações. Em
outras áreas, a conduta é a mesma. O Governo deixa o povo
morrer à míngua de remédios e assistência médica, mas cla-
ma, com extremo cinismo, que fumar prejudica a saúde. Auto-
riza o tráfego suicida dos motoqueiros, mas impõe o cinto de
segurança nos veículos menos perigosos.
Na história dos povos, na crônica das
e na Literatura, a
social pontificam aqueles que pregam Platão e praticam Epi- serabilidade infantil. Como disse o Barão de Itararé: "O pro-
curo. Na História Civilização, Fouché é paradigma. No blema dos menores é um dos maiores". Não há solução a
o tipo é o Tartufo, comédia Quanto O futuro, porém, ser menos se
do êxodo rural e se
a
qualquer providência
ou decretos não alteram a
devem os , antes
-..r,="n"""" contribuir com dinheiro as
não sejam pela injustiça , a abandonar, ceder
ou vender os filhos.
turpar os fatos e provocar a indignação dos tolos, impelindo- Embora afirme-se que as lágrimas do crocodilo
os a condenar até mesmo o que os favorece, reside na mons- são derramadas por compaixão de suas vítimas e sim porque,
Plínio que os

ver
é como sem- oposta era a na os
pre fica das calúnias mais absurdas. Mas é claro que para a transeuntes, insultando-os a mais não poder, até que os acos,--
prática de mutilações não seria necessário um expediente tão sados atirassem moedas para livrarem-se da perseguição. E
oneroso e complicado. Aqui mesmo, para não falar na África e óbvio que essas condutas são ambas deselegantes. Mas não
na Ásia, órgãos anatômicos podem ser extraídos a preços mais há dúvida de que, por não implicar em aleivosia, traição ou
baixos e sem burocracia. perfídia, a dos mendigos é a menos reprovável. Nela, quando
Num país como o nosso, onde o êxodo rural e a pa- nada, não há cinismo, falsidade ou hipocrisia.
ternidade irresponsável enchem as metrópoles de crianças
abandonadas, famintas e corrompidas, sujeitas a abusos de
todas as espécies, inclusive ao extermínio, somente a mais
abominável hipocrisia pode insurgir-se contra o auxílio que vem
de fora. Cumpridas as formalidades legais, que não são pou-
cas, não há como se possa condenar o fato de serem os me-
nores resgatados da miséria e preservados do contágio crimi-
nal para viverem com famílias idôneas, em país desenvolvido.
Certamente porque incapazes de ajudar seus semelhan-
tes é que os hipócritas não admitem possa alguém, sem outra
compensação além espiritual, assumir encargos que
só assumiriam com ânimo de lucro.
. Infelizmente essas adoções, verdadeiros prêmios de
lotena para os adotados, são gotc:s d'água na fogueira da mi-
133
132
OPOD DAS

Ao contrario de Sócrates, que só visitava as lojas de


comércio para ver quantas coisas existiam, das quais ele não
precisava, as pessoas, de modo geral, escravizam-se ao con-
sumismo. Como escreveram Marx e Engels, no Manifesto
Comunista, as mercadorias são os canhões que derrubam as
muralhas da Não, pois, no mundo atual, necessida-
de

os com seus as
empresas multinacionais passem a governar o país importa-
dor. Os costumes e até o idioma deste país são rapidamente
adulterados, como ocorre no Brasil, onde, a todo passo, so-
mos assaltados por palavras ou expressões alienígenas.
Entretanto, para viver confortavelmente, o homem
precisa de muito pouco. Desde que tenha boa saúde, física e
mental, o homem pode dispensar quase tudo que se fabrica. A
própria culinária, que os peritos buscam sofisticar, é perfeita-
mente dispensável, porque, como adverte a sabedoria popu-
lar, a fome é a melhor das cozinheiras. A propaganda, a inve-
ja, a vaidade e o senso de imitação é que estabelecem a de-
pendência do homem com as coisas materiais. Mesmo no
âmbito da sensualidade, a idéia é que valoriza os parceiros.
Como escreveu Samuel Johnson: "Se não fosse a imagina-
ção, o homem estaria tão felíz nos braços de uma empregada
como nos braços de uma duquesa". Na mente exaltada de
Don Quixote, a rústica Dulcinéa era uma beldade.
Invejamos a vida que levavam os príncipes do
do. tinham as hoje julgamos
indispensáveis. Não dispunham da eletricidade e, conseqüen-
135
temente, de qualquer aparelhos que dela dependem. Não contenta-se com pouco. O adulto, porém, comete crimes para
tinham No conseguir os seus brinquedos. Muitos excluídos pela pobreza
forto, a apodrecem nas cadeias porque precisavam de um automó-
vel, uma televisão ou qualquer outro brinquedo, mesmo ao
sua assim
amargurados e invejando os que tudo . Sua vida
loca-se de seus limites ambientais para gravitar em torno das
que podem E essa
também um sentimento inferioridade que os deprime e
miiha em sua própria casa. Quando as coisas faltam, as
ções de parentesco, inclusive as conjugais, ou
teridram-se.
O próprio Jesus, cuja filosofia os crentes desvalori-
zam com o mito divindade, já contra o consu-

e ao
rico do mundo é n a d a , mesmo porque, Adestrando sua inteligência através do estudo e da medita-
como dizia Epicuro, "a riqueza não consiste em grandes pos- ção, o homem terá dentro de si mesmo tudo de que necessita,
ses, mas em poucas necessidades". Na mesma rota singrava o excetuadas, obviamente, as coisas verdadeiramente indispen-
raciocínio de Thoreau, para quem "um homem é rico na pro- sáveis, como a alimentação, vestl,lário, remédios e um recan-
número de coisas que pode dispensar". to para morar. O mais é prescindível, como foi nos séculos
O poder das coisas, todavia, exerce-se sobre todo o que antecederam a era industrial. Como reza a fábula, o ho-
mundo e está presente na História da Civilização, através de mem feliz não tinha camisa.
/'
inúmeros episódios que confirmam a sua . Os
do mar, como eram chamados os piratas ingleses, patrocina-
dos I, impu e títulos
de nobreza que levavam a coroa.
escândalos que a Revolução Francesa foi o
"Colar da Rainha", alto um bajulador havia
encomendado em nome de Antonieta, numa em
~,~e as finanças realeza estavam em bancarrota. Hoje as
JOlas estão saindo de Mas não é porque a futilida-
de esteja diminuindo. É porque os mais
sos e não há em parte alguma.
Já disseram que a diferença entre o adulto e a crian-
ça é que os brinquedos daquele caros. O menino
137
136
OAPE TÂNATOS

Por sua complexidade, as causas do suicídio não


podem ser equacionadas ou expressas numa fórmula gerai.
Fenômeno dependente conjugação de fatores endógenos
e exógenos, o suicídio é um enigma que a mente humana não
consegue desvendar. A crença de que ele resulta da perda do
instinto por Schopenhauer, para
as condições

é ,o
pulo ou ciúme da própria angústia impõe ao suicida o uso
uma máscara sorridente que engana o observador. É o que
também diz o nosso Raimundo Correia, em seu "Mal Secre-
to", ao versejar sobre as delusões da máscara da face.
Em sua obra clássica sobre o suicídio, afirma Durkheim
que a decisão fatal "eclode e produz seus efeitos com um ver-
dadeiro automatismo, sem que a preceda antecedente inte-
./ lectual algum". Pessoas que obtiveram grande êxito na vida,
suicidaram-se sem motivo aparente. Ernst Hemingway, por
exemplo, acordou cedo, após sono tranqüilo, colocou na boca
os dois canos de uma espingarda e acionou os gatilhos. Nada
dissera à sua mulher, que pernoitara com ele e ainda dormia.
Não deixou sequer um bilhete, embora fosse um escritor fa-
moso. A crôníca das mortes violentas registra uma infinidade
de tragédias semelhantes, onde a ausência ou ignorância da
motivação sugere que o suicídio é um ato irracional e conse-
qüentemente imprevisível.
Também Jack London, sem motivo razoável, suíci-
aos quarenta anos quando seus livros de
aventuras eram os vendidos no mundo. Há quem se suí-
139
cide até por desafio ou brincadeira, como no caso da roleta suicídio coletlvo, nem a ameaça da fome é a causa principal
russa. as curiosidades, conta-se que um cadete inglês fenômeno. A crendice também suas vítimas. Na
já estar cansado de e Guiana Inglesa, suicidaram-se o Jim Jones e seu
ao tédio, são nho de novecentos adeptos.
o amor Ii- por uma
re, Goethe, D'Annunzio,
raram esse tema em obras admiráveis. Para D' Annunzio, o
amor que conduz à
se quandb a vida é uma tortura, o
psicológicas. vida é uma infâmia, o suicídio é um
os e mulheres, em momentos extre- o altar do sacrifício das mais
ma angústia, contemplam o suicídio. Para Nietzsche, a idéia do A ânsia de libertar-se das dores do mundo constitui,
suicídio é consoladora porque acena com um recurso disponí- nos idos fluentes, uma necessidade que a tecnologia busca
Já a nascer. É a eva-
a

unca
morto". a e as construir e vem a
paixões, os budistas levam uma existência que equivale a um nem mesmo o sábio, está isento de optar pelo suicídio, por-
permanente suicídio. Até as crianças se matam. E os animais que, como reza o Eclesiastes, "quem aumenta sua sabedoria
também. Os lemingues, pequenos roedores que habitam as aumenta sua tristeza". Como na vida, segundo Schopenhauer,
escarpas da Noruega, livram-se da vida atirando-se nas ondas o filósofo do pessimismo, "só a dor é positiva", é perfeitamen-
do mar, quando há escassez de alimentos. te natural que muitas pessoas encarem a morte como uma
Em todo o mundo, o suicídio é um evento que só es- doce e definitiva anestesia.
tarrece os nubívagos. Nas grandes cidades, os jornais noti-
ciam, diariamente, a ocorrência de suicídios. Em Londres, re-
centemente, alguns escolares suicidaram-se porque não tole-
ravam a hostilidade de seus colegas. Aqui em Vitória, a im-
prensa informa que mais duas pessoas se atiraram da tercei-
ra ponte. E já se perdeu a conta das que se jogaram de apar-
tamentos. Por bravata, os japoneses pilotavam torpedos e,
por questões de honra, praticavam o haraquiri. No Sudeste
Asiático, os bonzos incineram-se em praça pública. Quem
~b.usa do álcool e das drogas, exerce profissão perigosa, par-
ticipa de competições de alto risco ou afronta tiranias imbatí-
veis, é, sem dúvida, um suicida em potencial.
. A: atração do abismo é mais poderosa do que pode-
mos Imaginar. Não são somente os lemingues que praticam o
141
140
A NTE

Virgil Gheorghiu, o festejado autor de "A Vigésima


Quinta Hora", escreveu em "A Espiã", outro de seus roman-
ces, que: "Em nossa época, os povos civilizados estão absor-
vidos por coisas muito sérias: a poluição dos mares, dos oce-
anos, dos rios e da atmosfera. Estão de tal modo preocupa-
dos com a perigosa poluição do físico não têm

mas, a
poluição do espírito. O cérebro contaminado. senti-
mentos estão contaminados". Nas páginas seguintes, o autor
argumenta, com fatos irrefutáveis, que os Estados Unidos são
os maiores poluidores espirituais da humanidade.
Não é difícil concordar com tese tão certeira. Basta
ler o que ele escreve sobre os "hippies", os "funks", o "rock
and roll", as danças simiesca§, a música alucinógena, a pro-
miscuidade, a toxicomania, em suma, sobre a"anímal·way of
Me", em que chafurda a1uventude americana. Se acrescen-
tarmos-a essa degradação o "Klu-Klux-Klan", a Lei de Lynch,
a seita de Jim Jones, o culto da violência, os filmes de "kung
fu", a contracultura, a apologia do homossexualismo, o êxito
espetacular de monstrengos como Michael Jackson, a hostili-
dade aos latino-americanos, a discriminação racial, as torpe-
zas da mídia e as cruzadas da hipocrisia, chegaremos à con-
clusão de que precisamos levantar uma barreira intransponí-
vel contra a invasão do lixo cultural americano.
Estados Unidos são um país de comerciantes,
inventores e financistas. Aos americanos, nativos
ou importados, o mundo deve o material de que
143
hoje desfruta. Empolgados, porém, com suas realizações téc- mo, foi de trágicas conseqüências. Impõem o ~so do cin!o de
os americanos James Bumham, segurança, mas não param de vender moto?lcletas .. ::'~o os
maiores exportadores mundiais de pornografia, mas Ja Impu-
Até
taram ao Presidente Clinton, a um Juiz Suprema Co~e e a
e anos de idade o cretiníssimo delito
assédio sexual. Em suma, pregam e
Como ali tudo se com indenizações, transformaram ~
numa . O advogado, nos Estados Uni-
o nosso idioma, dos a debitar a ou àquele produto, a ou
conduta humana, uma carrada de males hipotéticos que pos-
e absolutamente
A linguagem do brasileiro hoje poluída por uma sibilitem judiciárias.
O pior de tudo isso é que nós, herdeiros ?e .uma cul-
infinidade vocábulos e expressões anglo-americanas que
tura superior, estamos importando barbaris:nos e Imlta~do os
servem apenas para evidenciar alienação ou pedantismo. "Sho-
americanos em praticam e divulgam. Ate mes-
vez
mo em nosso a e o

ern o
em vez em vez de escapa à poluição com os _ U
cam nossas tradições. É necessária uma reaçao contra os que,
sa. "Stand" em vez de Posto. "Up to date" em vez de simples-
abusando aqui da liberdade de imprens,,:, faz~m propagan.da
~~nte: Atual. ~as, como Ruy censurou na época em que o
dos costumes americanos. Em tecnologia e nqueza matenal,
Idioma portugues estava eivado de galicismos, o nosso ver-
os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo. Mas
n~culo disp,ensa, por sua versatilidade e riqueza, a importa-
em cultura, costumes e vivência espiritual, não há como se possa
çao de vocabulos ou expressões alienígenas.
O povo americano é programado pela televisão que digerir seus preconceitos, sandices e mazelas.
o submete a uma lavagem cerebral implacável. É também o
maior consumidor de drogas do planetá: Se o tráfico de coca-
ína para os Estados Unidos fosse interrompido, a Colômbia
abriria falência. A campanha prioritária televisão america-
na não todavia, contra o narcotismo, porque dos traficantes
não se pode exigir indenizações. É contra o tabagismo, por-
que o patrimônio das fábricas de cigarros está ao alcance dos
tribunafs. Nessa empreitada, só não disseram ainda que os fu-
~:antes respondem pela perfuração da camada de ozônio. Mas
Ja descobriram nada menos de quatro mil e setecentos vene-
nos em um simples cigarro e conseguiram criar, para atrair adep-
tos e fomentar discórdias, a figura rídicula do fumante passivo.
. _Comb~tem o tabagismo, mas não ousam proibir a
fabncaçao de cigarros, porque a Lei Seca, relativa ao alcoolis- 145
144
'0 ÓPIO ELETRÔNICO

Em excelente artigo intitulado "J'accuse!", publicado


no "Jornal do Brasil, edição de 13/1/1993, escreveu o Arcebis-
po Primaz, Dom Lucas Moreira Neves: "Acuso a TV brasileira
de ser demolidora dos mais autênticos valores morais, sejam
eles pessoais ou sociais, familiares, éticos, religiosos ou espi-
rituais. Demolidora, porque não somente zomba deles, mas
do telespectador e propõe, em seu

a e dos
familiares - amor, fidelidade, respeito mútuo, reali-
zada quotidianamente, sobretudo nas telenovelas. Em lugar
disso, o deboche, a dissolução, o adultério, o incesto".
Aduziu o sábio sacerdote, em sua santa indignação,
que as telenovelas incutem na juventude uma concepção inde-
corosa da vida e que, com seus "programas da mais baixa ca-
tegoria moral", o objetivo da televisão brasileira é "imbecilizar" o
povo, criando "uma geração de debilóides". Por sua admirável
concisão e pelas verdades que esgrime, esse artigo deveria ter
sido publicado em todos os jomais do País e discutido em to-
das as escolas, porque, na época atual, a grande inimiga da
cultura, da sabedoria e dos costumes é a mídia eietrônica. Com
seu ópio colorido, a televisão instila a preguiça mental, afastan-
do dos livros os videotas e eliminando até mesmo a conversa-
ção e o relacionamento entre os membros de uma família.
Espalhando seus tentáculos por todos os rincões, a
televisão vai raptando a mente do homem comum, da juventu-
de e donas de casa, em todos inoculando uma filosofia
cuja concorre para subverter os costumes e
as famílias. Depois de telenovelas, cuja
147
cando do raciocínio, não terá condições de.a~~izar, di~tinguir ou
temática é sempre a promiscuidade, os jovens não mais obe- I S á robotizado a ponto de suas Oplnloes estnbarem~s~
decem à hierarquia familiar ou aceitam normas de conduta. :~gt~~n~~eias em programas de auditório ou nos comentan-
Por seu de casa e o chefe da família descobrem , d sua a
não tem os os petulantes locutores e. ,.
criando um mundo Ilusono,
a encarar um ao outro com
com a miragem da do/ce vita, os mes pilotando a volição e a
, Sendo a ignorância a fonte todos os males e o
repudiam o trabalho e com um . aue a deste
livro o portal e.. . .
vulgaridade da televisão em SUlCldlO
se por de cem
viciados naquele entorpecente - pior. os outros, .P~-
capítulos, evidencia que as telenovelas produzem dependên-
ue seus efeitos são direcionados - destinam-se a servir I e
psíquica e êstimulam a ociosidade. Explorando o mundo q de telenove as
inefável do faz-de-conta, o "paraíso dos tolos" de falàva massa de manobra para-quem e f e t ua,
e programas ímbecilizantes, a sua lavagem ceredbral~' A CO~~j':-
Milton, a televisão inverte valores e entorpece multidões, tor- perniciosa a morte o IVro- ,

os
a ser O que hoje
cüra. No âmbito do Direito, provocam a expedição de leis extra-
vagantes, ridículas, inaplicáveis ou contrárias à ordem jurídica.
Houvesse em nosso País um órgão realmente dedica-
do a velar pela cultura e pela mentalidade do povo, a televisão
teria sido obrigada a conter-se nos limites da conveniência so-
cial. Não teria permitido que ela difundisse, entre nós, a histeria
acústica americana - rotulada de música moderna - nem o cul-
to da violência e do homossexualismo. Teria preservado nos-
sas tradições e impedido a exploração sensacionalista de atos
criminosos, cuja divulgação implica, como adverte a Psicologia
Judiciária, numa reação em cadeia. Exemplos
fenômeno são as mutilações penianas que, em sua safra atual,
começaram em Vitória e já se repetem em outras O
mesmo ocorre com os seqüestros e outros delitos.
De todas as mazelas, porém, que a televisão inocula
em seus dependentes, a mais ruinosa é a preguiça mental.
Quem se habitua a olhar figuras em movimento e simplesmen-
te ouvir o som de palavras, não se animará jamais a concen-
trar-se na leitura de um livro. Será sempre, como uma esponja,
mero recipiente do que lhe encherem a cabeça, porque, abdí- 149

148
o FILHO DO HOMEM

A biografia de Jesus está envolta nas brumas do mis-


ticismo, da fabulação e da mendacidade. De tudo que se dis-
se e escreveu sobre o venerável profeta, os únicos fatos indu-
bitáveis são o batismo, a atividade revolucionária, o julgamen-
to e a crucificação. Até mesmo a data e o local de seu nasci-
mento não merecem aceitação unânime. A dúvida contamina
porque
a
milagrosa, é nasceu
Era filho de Maria e pai ignorado, uma vez que José, marido e
protetor de sua mãe, vivia em castidade, mantendo com ela
uma relação paternal.
Para os habitantes da Galiléia, região paupérrima
onde a família de Jesus era radicada, o único meio de ascen-
são social era a exploração da crendice. Não confiando em
soluções terrenas, capazes de suprimir a miséria ou erradicar
as doenças endêmicas, e obrigado ainda a pagar tributos ao
invasor romano, o povo acreditava apenas no socorro divino.
De suas tradições, aliás, constava que um Messias, um enyia-
do de Deus, chegaria a qualquer momento para redimir o povo
judaico. Dos escribas e fariseus, serviçais do domina.dOr ro-
mano, o povo nada podia esperar, a não ser o agravamento
de sua penúria. Somente de Deus viria a salvação.
Ao que tudo indica, Jesus foi, desde criança, prepa-
rado por seus familiares para exercer a missão de profeta.
Embora os Evangelhos não sejam confiáveis, deles consta
que, aos doze anos de idade, Jesus já assombrava os sacer-
dotes oficiais com seus conhecimentos das leis sagradas.
Durante um longo período que a mitologia cristã pretende ocul-
151
or duas mulheres que foram ver o sepulcro e o acharam ~az~o~
tar, Jesus esteve internado em Qumran, comunidade situada p Para os industriais da crendice, entretanto, e.r~ mdls
numa çlas margens do Mar Morto, onde estudou com os es- o Filho Deus. Do contrano,
a viver em rigoroso ascetismo. O mesmo que . t"
poderiam explorar sua imagem. estehona anos
por obra e
aram a humildade a usar
a viver em palácios como os
moveram cruzadas rapina, incineraram
caram a
e do mito imortalidade, . os
não podiam procriar. A era,
as' chamas do inferno. Difundiram a estupidez e
portanto, a única de salvar a . João . . na
manter o mundo ocidental, por vanos
Batista foi o primeiro a internar-se em Qumran, de onde se
afastou para anunciar que um enviado de Deus estava pres-
ignorância. E até hoje, como chacais,. ,~o
ver do Justo. Por sua causa, como disse Nietzsche: O Evan-
tes a surgir. Seguindo.a praxe dos ele vivia em celi-
morreu na

a seus
na cerimônia do que ele era o o
esperado, tanto assim que teria o condão de batizar com o
Espirito Santo. Embora negando essa condição, para não ser
acusado de blasfêmia, Jesus sempre se conduziu como se
fosse um arauto de Deus na terra. Segundo os Evangelhos,
ele acenava com o socorro divino, pregava a humildade, a
renúncia, a caridade, a abnegação e tudo que correspondia
aos anseios dos pobres e dos doentes. Tal doutrina ameaça-
va os privilégios dos fariseus, que cultivavam a hipocrisia e
chafurdavam na corrupção. Por sua conduta revolucionária é
que Jesus foi crucificado.
Não foram os fariseus, todavia, que praticaram con-
tra Jesus a maior ofensa. Foram seus próprios seguidores, ao
lhe atribuírem a divindade. Como Filho do Homem, um
herói e mártir da eterna luta dos oprimidos contra os opresso-
res. A fidelidade aos seus princípios e a admirável resignação
com que suportou as injúrias e os suplícios, garantiriam para
ele uma situação incomparável na história da humanidade.
Como Filho de Deus, porém, a sua postura foi decepcionante,
como escarneceram os ímpios que o desafiaram a descer da
cruz. Sua ressurreição, após inumado, é uma fábula propalada 153
152
DíZIMOS DA C N E

A grande maioria da população mundial, composta


de budistas, maometanos, judeus ortodoxos, ateus, agnósti-
cos, , não admite a origem divina de Jesus nem acredita
em seus milagres. Ele mesmo jamais afirmou que era o Mes-
sias ou o Cristo (o Ungido), e a todos estendia (MaL 23:9) a
sua origem declarou-se apenas o
os vínculos terrenos

o
mortos enterrarem os mortos. E
sua mãe e seus irmãos estavam presentes e queriam vê-lo,
estendeu a mão para os discípulos e disse (Mat. 12:49): "Eis
aqui minha mãe e meus irmãos".
Quanto aos milagres, argumentam os incrédulos que,
aqui e alhures, magos e curandeiros restituem a luz a cegos,
a mobilidade a paralíticos e até mesmo a vida a supostos de-
funtos. Creditam esse imaginário poder à sugestionabilidade
dos -Pacientes e, com relação aos ressuscitados, à súbita ces-
sação de períodos de coma ou catalepsia. Alegam também
que os quatro Evangelhos, fonte única ou principal. de infor-
mação sobre a vida de Jesus, estão refertos de fabulações e
não poderiam retratar com exatídão os eventos de sua ativi-
dade messiânica, porque foram escritos entre trinta e sessen-
ta anos após a crucificação. Declaram que, sobre essa vida
extraordinária, apenas três fatos são irrefutáveis: o batismo, o
julgamento e a crucificação.
Quem ,a para ficar apenas
com a é a concordar não foi o
Filho foi, sem dúvida, um . Nascido
155
ção do Santo Sepulcro, foram na realidade expedições mima-
em u~a regiã? agreste, no seio de um povo pobre e espolia-
res destinadas ao saque, à matança de muçulmanos e a as-
do, nao podena Jesus - cujo nome, da gre-
segurar, sem pagamento tributos, o
ou Josua,
necer insensível à A
vam a ea
o infortúnio

Como ocorre com as


Cristianismo foi abocanhado e em fonte de
desprendimento que o Nazareno exigia de seuS discipulos foi
ao oblívio que as pudessem acumular a
, com

, ser
e
Jesus (Mal. 24:11) advertiu: "Surgirão e.
na exploração da humanidade. Com os dízimos da crendice
narão a muitos". Por tudo isso é que (Luc. 9:58): "o Filho do
ergueram templos em nome de jesus e continuaram vivendo
Homem não tem onde reclinar a cabeça", e a ironia popular usa
através dos séculos, como viviam na época em que o crucifi~
a palavra Cristo para adjetivar a vítima de um logro, de uma
caram. Fingindo adorá-lo, industrializaram sua herança.
perseguição, ou alguém punido por crime que outrem cometeu.
Como disse Ruy, no monumental prefácio de "O Papa
e.~ Concíl~o", fundaram seitas e igrejas: "Em cujo seio a reli-
glao do Cristo soçobrou, deixando apenas à superfície. e ain-
da assim sacrilegar1"f'ente. ulteradas, as feições ostensivas,
o vocabulário e o rito. O que ficou é uma simbólica sem alma
~ sem verdade, pasto à credulidade supersticiosa
Ignorantes e manto ao cepticismo dissimulado e
minoria ilustrada". Explorando a debilidade
mem, sua ignorância, seu fascínio pelo sobrenatu
necessidade patológica de ser iludido, os e
apossaram-se do símbolo da cruz - santificado pelo martírio
do Justo - e continuaram exercendo o poder .
Na Idade Média, esse poder era absoluto.
va reis e incinerava em pública os contestavam o
mandato divino dos sacerdotes ou simplesmente
carne . na sexta-feira. As Cruzadas, institu 157
156
o BORDÃO DOS EXTENUADOS

Quem contempla a miséria humana e a de todos os


seres que vivem na crosta terrestre é induzido a concluir, com
Walter Lippmam, que: "O maior problema da Teologia é recon-
ciliar a bondade infinita de Deus com sua onipotência". Isto
porque, aduz aquele pensador: "Nada deixa o homem comum
mais perplexo do que o espetáculo de tantos sofrimentos com-

e a carn
condicionada à imolação recíproca, o homem comum a
inquirir porque Deus, que tudo criou, tudo sabe, tudo vê e tudo
pode, não socorre, com sua infinita bondade, as vítimas de
tantos sacrifícios.
Considerando a omissão de Deus em socorrer os
desgraçados e o fato de que nenhuma desgraça ocorre sem
que ele permita, foi que Stendhal, em frase que Nietzsche la-
mentou não ser de sua própria autoria, concluiu que: "A única
desculpa de Deus é não existir". E Jules Renard, abonjando
essa mesma questão, ponderou: "Não sei se Deus existe, mas
seria melhor para sua reputação que não existisse". Existindo
porém ou não existindo, Deus tem sido uma mina de ouro e
poder para uma infinidade de seitas e religiões. Sobre elas,
disse Thomas Paine: "Todas as igrejas, sejam elas judias, cris-
tãs ou maometanas, me parecem meras invenções humanas,
estabelecidas para amedrontar e escravizar a humanidade e
açambarcar as riquezas e o poder".
teólogos tentam explicar com a fábula do Paraíso
o de Deus pelo nosso infortúnio, argumentando que
o homem imune aos sofrimentos se co-
159
. d Renan, meio século após a r:'0rte
metido o pecado original. É óbvio, porém, que sem tal pecado tos e dIvulgados: s~gun °ara domesticar o barbarismo, mtro-
- meio natural de se extingui- do profeta, contnbulram P 'dade em um mundo
f ntos e can .
duzindo os sen \!~ne sentimentos, todavia, incompatl-
cruel e incomov1vel. homem, repercutiram na-
com a
na
queles q u e . rédulos sua
tão Temendo o Inferno, os c fingindo acreditar, acobertaram
. Não obstante,
suas com o inerte,
dendo corrigir a mel:ta.li~ade hum~na, ue o homem continuas-
a de ·lxando , com sua. mflnltabbes'
bonda e, q d h
"o lobo o om
em"
.
Explorando a ignorância e a se sendo, como disse Ho t . \~gos que Deus existe, porque
homem, inúmeros profetas, místicos e Argumentam.as eo _ poderia existir. Esquecem,
o Universo nao a teor
uma vez ,
sem um

to essa .. \ a
, - futuro imprevlsl ve , .
os povos e cometeram impunemente os crimes mais abomi- ficos é que po~erao , ~n; ém ue se Deus existe e e
náveis. As guerras religiosas, os sacrifícios do Teocali as fo- do Universo. !=- ind~bltave\, P?r_ ~;m atos benévolos, por-
10
gueiras da Inquisição, as matanças das Cruzadas, retr~tam o onipotente, nao adianta ~~::i:m sua opção pela iniqüi9ade.
poder dos sacerdotes e sua espantosa criminalidade. Por isso, que as dore~ d.o mundo ada aceitam sem comprovaçao - ~
lamentou o cristão Heywood: "Quanto mais perto da igreja, Para os agnostlcoS - que n . ue nele buscam se am-
ó aproveita aos q - d
mais longe de Deus". crença em D eus s d Nietzsche: "o bordao os
mar, como se ele fosse, segun o
Como escreveu Montaigne: "O homem é um louco
varrido; não pode fazer um verme, entretanto deuses extenuados" .
dúzias". Esta, porém, é a conseqüência de sua igno-
rância e fraqueza. Perdido em um mundo
nhece, não sabendo de onde veio e vai, tendo certa
apenas a morte inevitável, o homem precisa acreditar mes-
mo no nada, porque deixaria de existir, como entidade
tual, se em nada acreditasse. Para ele, como disse Schope-
nhauer, o mundo é apenas vontade e Incapaz
de suprimir a vontade, dominado pelo instinto de conservação,
o homem aceita facilmente a idéia da imortalidade da alma e
entrega jubilosamente a bolsa, a consciência e a liberdade a
quem lhe prometer um passaporte para o paraíso celestial.
As lições atribuídas a Jesus pelos Evangelhos,
160
iNO!

Prefácio ................................. .
Falando Francamente.. .................................................. 13
O Tribunal do Júri................................... .................... .... 45
A Oratória....................... ............................... ................ 49
As Causas do Crime............. ......... ................................ 53
A Pena de Morte......... .......... ................. ......................... 55
O Dever do Advogado..................................................... 59
O Erro Judiciário ......... ........... ....... ..... ...................... ....... 63
O Crime Passional ................................................. . 67
O Suicídio .............................. . 71
A Fome e 3 Lei .................................. .. 75
O Caso Collor ..................................... .. 79
A Mania de Julgar ...................................................... . 83
1\ Lei de Gresham ...... ...... ....... ... ............... ................ 87
A Felicidade por Decreto ................................. 91
AAdvocacia Crimin~ ... ....... ..................................... 95
O Fracasso do Cornunismo .......................................... 99
AGuilhotina ................................................................. 103
A Opinião Pública ......................................................... ,· ..... 07
O Direito de Morrer........ ................ ....... .................... .... 111
O Eterno Retorno.......................... .... ............................ 115
A Ignorância .................................................................. 119
As Leis Hediondas ....................................................... 123
A Intolerância ............................................................. ~ 127
A Hipocrisia .............................................................. . 131
O Poder das Coisas .... .' .............................................. . 135
O Apelo de Tânatos ...................................................... .. 139
A Poluição da Mente .................................................... . 143
O Ópio Eletrônico .......................................................... . 147
O Filho do Homem ................................................... 1..51
Os Dízimos da CreRdicé ............................................ :155
O Bordão dos Extenuados ................ .. ....................... . 159
16-: