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SRR 2013

BR PETROBRAS
SEMINÁRIO DE RESERVAS E RESERVATÓRIOS 2013

Obtenção de parâmetros cinéticos de reações de dissolu-


ção/precipitação de carbonatos a partir do teste de interação rocha-
fluido realizado no poço 9-LL-19-RJS.
Aline Machado de Azevedo Novaes, CENPES/PDGP/IRF
Rafaella Magliano Balbi de Faria, CENPES/PDGP/IRF
Carlos Henrique Vieira Araújo, CENPES/PDGP/IRF
Marco Antônio Gomes Teixeira, CENPES/PDEDS/QM

Este trabalho foi preparado para apresentação no SEMINÁRIO DE RESERVAS E RESERVATÓRIOS 2013, realizado pela PETROBRAS - Petróleo
Brasileiro S.A., de 03 a 06 de setembro de 2013, nas instalações do CENPES no Rio de Janeiro, sob a coordenação da UNIVERSIDADE PETROBRAS
/ ECTEP, E&P-ENGP, CENPES e INTER-TEC. Seu conteúdo está sujeito a correções pelo(s) autor(es) a qualquer tempo. Os conceitos apresentados e
as análises e opiniões emitidas não refletem necessariamente o pensamento da comissão organizadora do evento, sendo de responsabilidade exclusiva
do(s) autor(es). É permitida a cópia de um resumo de, no máximo, 300 palavras. As ilustrações não podem ser copiadas ou reproduzidas sem autoriza-
ção prévia.

Introdução
Resumo
As grandes descobertas de petróleo na região do pré-sal
O comportamento dos carbonatos do pré-sal brasileiro brasileiro, que se estende do litoral do Espírito Santo ao
frente à injeção de fluidos ainda é pouco conhecido. litoral de Santa Catarina, trouxeram à tona grandes
Sabe-se que esse tipo de reservatório apresenta uma desafios operacionais. Uma das particularidades dessa
reatividade que pode promover uma série de alterações nova fronteira exploratória é a existência de reservatórios
no sistema como aumento da porosidade e da permeabi- carbonáticos, que são extremamente heterogêneos e
lidade devido à dissolução da matriz rochosa, mudança ainda pouco estudados. Diferentemente dos arenitos
de composição química dos fluidos envolvidos, aumento turbidíticos comumente encontrados em reservatórios no
do potencial de incrustação causando plugueamento em Brasil, os carbonatos apresentam reatividade frente à
algumas partes do reservatório ou nos poços de produção injeção de fluidos. Tal reatividade promove reações
e alterações no pH dos fluidos produzidos. químicas diversas, sendo as mais importantes a dissolu-
ção de carbonatos e a dolomitização (conversão de
O levantamento de parâmetros cinéticos para modelar as calcita em dolomita). Essas reações são dependentes da
reações envolvidas é essencial. Tais parâmetros podem composição química dos fluidos injetados, da mineralogia
ser obtidos em laboratório ou diretamente do campo. do reservatório, da pressão, da temperatura, entre outros.
Até o momento, os únicos dados de campo disponíveis Como consequência, pode haver no sistema: aumento da
para analisar a interação rocha-fluido no pré-sal foram porosidade e da permeabilidade devido à dissolução da
obtidos no teste de backflow realizado durante processo matriz rochosa, mudança de composição química dos
de perfuração do poço Lula Norte ADR 1 (9-LL-19-RJS) fluidos envolvidos, aumento do potencial de incrustação
em dezembro de 2012. Foi injetado um total de 1.053 m
3 causando plugueamento em algumas partes do reservató-
de água do mar em 30 horas. Após o fechamento do poço rio ou nos poços de produção e alterações no pH dos
por 39 horas (tempo de soaking), iniciou-se a produção fluidos produzidos.
para verificação da reatividade através das alterações na Visto que em todos os projetos de poços do pré-sal está
composição da água produzida. Análises da concentração prevista a injeção de fluidos como método de aumento da
2+ 2+ - -
de Ca , Mg , HCO3 e Cl foram feitas concomitantes à recuperação de óleo, torna-se essencial o conhecimento
produção de água na sonda. de parâmetros relativos às reações químicas de forma a
O presente trabalho tem como objetivo apresentar o calibrar modelos matemáticos para prever o comporta-
ajuste de um modelo computacional aos resultados mento do meio ao longo dos anos.
obtidos durante esse teste de forma a obter as constantes Até pouco tempo, havia somente parâmetros de literatura
cinéticas das reações envolvidas. Para realizar as e de laboratório para representar a cinética reacional, mas
simulações foi utilizado o COORES, um simulador estes, embora ajudem a nortear os estudos, falham em
multifásico, acoplado ao ARXIM, um simulador geoquími- representar as heterogeneidades de um sistema real. Em
co. A obtenção desses parâmetros permite uma simula- dezembro passado foi realizado então um teste de back-
ção mais precisa do transporte reativo durante a injeção flow no poço 9-LL-19-RJS, na Bacia de Santos, visando
de fluidos em carbonatos do pré-sal. levantar dados de campo para comprovar as alterações
do sistema causadas pela interação entre rocha reserva-
tório e fluido injetado e também fornecer parâmetros
cinéticos mais compatíveis com a realidade. Tais parâme-
tros serão, posteriormente, utilizados em simulações
numéricas.

Este trabalho contém informações classificadas como NP -1, segundo a gerência gestora CENPES/PDGP/IRF, confor-
me PG-0V3-00054-D.
2 Seminário de Reservas e Reservatórios 2013

Formulação
O poço escolhido para o teste de backflow foi o 9-LL-19- fície, a despressurização, que faz com que o CO2 saia da
RJS. O teste ocorreu durante o TFR (teste de formação), fase aquosa, pode causar pequena precipitação, indicando
iniciando-se a injeção logo após o primeiro período de que os valores de cálcio e bicarbonato em condições de
estática. A escolha do poço levou em conta o fato de que fundo podem ser maiores que os aqui retratados.
não havia previsão de acidificação durante o teste de
formação, o que era essencial já que a presença de ácido A Tabela 3 apresenta a porcentagem de AF na água produ-
no meio comprometeria os resultados. Foi realizada a zida e a Tabela 4, um resumo das operações realizadas
injeção de um volume conhecido de água do mar no poço, durante o backflow:
seguida de um período de soaking (fechamento do poço), Tabela 3: Porcentagem de água de formação (AF) na água
para que houvesse tempo de contato entre água injetada produzida.
e rocha reservatório, e posterior reabertura para produ-
ção. A Tabela 1 apresenta a composição da água do mar Horário de Coleta Conc. Cloreto %AF
injetada e da água de formação baseada em amostra do 28/12/2012 06:30 22200 1.66
poço 8-LL-1D-RJS (5215,3 m). 28/12/2012 07:30 22200 1.66
28/12/2012 08:30 21850 1.26
Tabela 1: Composição da água do mar injetada e da água
de formação baseada em amostra do poço 8-LL-1D-RJS 28/12/2012 09:30 21750 1.15
(5215,3 m). 28/12/2012 19:00 23100 2.68
28/12/2012 21:00 23200 2.79
28/12/2012 23:00 22800 2.34
Amostra 29/12/2012 07:00 24500 4.27
Consti- do poço 29/12/2012 11:00 24650 4.44
Água do mar
tuintes 8-LL-1D- 29/12/2012 15:00 24400 4.15
RJS
Tabela 4: Resumo das operações realizadas no backflow:
Ca+2 420 mg/L 4840 mg/L
Mg+2 1296 mg/L 2340 mg/L Dia Hora Operação
25/dez 09:00 Início da Injeção
58970
Na+ 11155 mg/L 26/dez 15:00 Início do Soaking
mg/L
28/dez 03:45 Início da Produção
109000 28/dez 11:56 Disparo do 1º conjunto de amostradores
Cl- 21974 mg/L 29/dez 18:00 Fechamento do poço por possível hidrato
mg/L
29/dez 22:00 Reabertura do poço
HCO3- 148 mg/L 738 mg/L 30/dez 07:20 Disparo do 2º conjunto de amostradores
pH 8,2 6,6

Como premissas do teste foi assumido que o reservatório Com o objetivo de se obter um ajuste dos parâmetros ciné-
seria composto de calcita, dolomita e quartzo, sendo este ticos, que regem as reações geoquímicas entre o reservató-
último inerte, e também que o CO2 presente no óleo rio carbonático e a água do mar injetada, a partir dos dados
poderia migrar para a fase aquosa. As reações químicas obtidos no teste de backflow, foram realizadas simulações
que podem vir a ocorrer durante a injeção são as seguin- de transporte reativo utilizando o COORES acoplado ao
tes: ARXIM.
Dissolução da Calcita: CaCO3 + H + ⇔ Ca+2 + HCO3− EQ 1 Para isso, foi utilizado um modelo de simulação simples,
Dolomitização: 2CaCO3 + Mg ⇔ Ca + CaMg(CO3 )2 EQ 2
+2 +2 tipo "caixa de sapato" (Figura 1), onde foram alimentados e
honrados as vazões de injeção e produção e o tempo de
Como não foi utilizado nenhum traçador químico, a con- soaking observados durante o teste. O modelo utilizado
- +
centração de íons inertes, como o Cl e o Na , foi utilizada consiste de uma malha cartesiana com grid de 5 x 5 x 5
para determinar a proporção entre água injetada (AI) e metros, onde se adotou a seguinte mineralogia: 49% de
água de formação (AF) na água produzida. Na ausência calcita, 28% dolomita e 23% de quartzo, sendo este último
de reações, as concentrações finais de todos os íons um mineral inerte.
podem ser obtidas por simples regra de mistura. Mudan-
ças nessas concentrações finais calculadas para mais ou
para menos, apontam a ocorrência de reação no reserva-
tório. São esperadas variações nas concentrações de
cálcio, magnésio e bicarbonato em virtude das reações
com calcita e dolomita presentes.
As amostras coletadas no choke manifold (antes do
separador multifásico) foram analisadas em tempo real na
própria sonda e depois enviadas aos laboratórios de
Interação Rocha-Fluido (CENPES/PDGP/IRF) e Métodos
Especiais (CENPES/PDEDS/QM) para serem reavaliadas
por diferentes técnicas. Na sonda, foram feitas análises
+2 +2 - -
de Ca , Mg , Cl e HCO3 . Nos laboratórios do CENPES
foi possível quantificar outros íons tais como sulfato e
espécies orgânicas. Como se tratam de coletas de super- Figura 1 – Modelo de simulação usado no ajuste.

Este trabalho contém informações classificadas como NP- 1, segundo a gerência gestora CENPES/PDGP/IRF, conforme
PG-0V3-00054-D.
Obtenção de parâmetros cinéticos de reações de dissolução/precipitação de carbonatos a partir do 3
teste de interação rocha-fluido realizado no poço 9-LL-19-RJS

Após o ajuste de histórico das vazões, foi necessário Teste de backflow no poço 9-LL-19-RJS
ajustar o teor de cloreto produzido. Essa etapa é impor- 4000
tante para garantir que a quantidade de água de formação Alcalinidade analisada
3500
na água produzida observada no teste (Tabela 3) seja Simulação do teste (com IRF)
respeitada na simulação. 3000

Alcalinidade (mg/kgw)
Simulação do teste (sem IRF)
++ ++ - 2500
Por fim foram ajustados Ca , Mg e HCO3 .
2000

1500
Resultados
1000
- ++ ++
As figuras 2,3,4 e 5 mostram os ajustes de Cl , Ca , Mg
_ 500
e HCO3 ,respectivamente.
0
0 5 10 15 20 25 30 35
Teste de backflow no poço 9-LL-19-RJS
Tempo (horas)
50000

45000
Teor de cloreto analisado Figura 5 – Ajuste da alcalinidade durante o teste de
40000
backflow.
Teor de cloreto (mg/kgw)

35000 Simulação do teste (com IRF)

30000 Para o cálcio e o magnésio, pode se observar que a


25000 simulação considerando IRF (curva azul) se ajusta bem
20000 aos dados experimentais. Já para a curva de alcalinidade,
15000 se observa que os valores experimentais ficaram um
10000 pouco maiores que os simulados. Essa diferença pode
5000 estar associada ao fato da metodologia analítica conside-
0 rar tanto o teor de bicarbonato quanto os ácidos orgânicos
0 5 10 15 20 25 30 35 presentes como alcalinidade enquanto o modelo numérico
Tempo (horas) considera apenas o bicarbonato.

Figura 2 – Ajuste do teor de cloreto durante o teste de É importante ressaltar que os teores de cálcio e a alcalini-
backflow. dade ficaram bem maiores quando comparados à curva
de simulação sem considerar a IRF (curvas vermelhas).
Teste de backflow no poço 9-LL-19-RJS Esse fato indica que a reatividade do sistema é alta,
2000 principalmente com relação à dissolução de calcita.
1800 Teor de cálcio analisado

1600 Simulação do teste (com IRF)


Os resultados da simulação geoquímica foram obtidos
Teor de Cálcio (mg/kgw)

Simulação do teste (sem IRF)


1400
através do ajuste dos parâmetros cinéticos de cada um
1200
dos minerais reativos (calcita e dolomita). O modelo
1000
cinético utilizado foi o de Steefel & Lasaga (equação 03) e
800
os parâmetros obtidos se encontram na Tabela 5.
600

E  1 1 
−  ⋅ (1 − IS )
400

200 rm = k 0 exp  a 
0  R  298.15 T  (EQ 03),
0 5 10 15 20 25 30 35
Tempo (horas) Onde:
Figura 3 – Ajuste do teor de cálcio durante o teste de • rm é taxa de reação (por mineral) [mol/m²/s];
backflow.
• ko é constante pré-exponencial do modelo
[mol/m².s];
Teste de backflow no poço 9-LL-19-RJS
1600 • Ea é a energia de ativação [J/mol];
1400
• R é constante universal dos gases [J/mol.k];
Teor de Magnésio (mg/kgw)

1200

1000
• T é a temperatura absoluta [K];
800 • IS é o índice de saturação do mineral;
Teor de magnésio analisado
600
Simulação do teste (com IRF) • Tabela 5: Parâmetros cinéticos ajustados.
400 Simulação do teste (sem IRF)
-Log Ko Ea -Log Ko Ea
200 (Calcita) (Calcita) (Dolomita) (Dolomita)
0 Reações de
8,5 50,0 12,0 45,0
0 5 10 15 20 25 30 35 Dissolução
Tempo (horas) Reações de
11,5 10,0 13,0 45,0
Precipitação
Figura 4 – Ajuste do teor de magnésio durante o teste de
backflow. As Figuras 6 e 7 mostram a distribuição de calcita e
dolomita, respectivamente, ao final da simulação. Pode-
mos verificar que houve um processo de dissolução de

Este trabalho contém informações classificadas como NP- 1, segundo a gerência gestora CENPES/PDGP/IRF, conforme
PG-0V3-00054-D.
4 Seminário de Reservas e Reservatórios 2013

calcita e precipitação de dolomita na zona de injeção,


sugerindo uma dolomitização.
Conclusões
O teste de backflow realizado no poço 9-LL-19-RJS teve
por objetivo avaliar a reatividade dos reservatórios carboná-
ticos do pré-sal frente à injeção de fluidos.
As análises químicas das águas produzidas mostraram
concentrações de cálcio e bicarbonato superiores àquelas
esperadas se houvesse apenas mistura entre água injetada
e água de formação, indicando que houve dissolução de
calcita. O magnésio apresentou valores ligeiramente meno-
res que os esperados por mistura, retratando, portanto, uma
leve dolomitização.
Foram feitas simulações de transporte reativo com o objeti-
vo de se obter um ajuste dos parâmetros cinéticos a partir
dos dados obtidos no teste de backflow. Após o ajuste do
Figura 6 – Fração de calcita ao final da simulação. teor de cloreto, foram realizados os ajustes dos teores de
cálcio, magnésio e alcalinidade. Para o cálcio e o magnésio,
a simulação se ajustou bem aos dados experimentais. Já
para a curva de alcalinidade, se observa que os valores
experimentais ficaram um pouco maiores que os simulados.
Essa diferença pode estar associada ao fato da metodolo-
gia analítica considerar tanto o teor de bicarbonato quanto
os ácidos orgânicos presentes como alcalinidade enquanto
o modelo numérico considera apenas o bicarbonato.
Os resultados apontam constantes cinéticas de dissolução
e precipitação de calcita e dolomita próximas às obtidas
através de testes realizados previamente em laboratório
(CENPES/PDGP/IRF). A obtenção desses parâmetros per-
mite a simulação mais precisa do transporte reativo durante
a injeção de fluidos em carbonatos do pré-sal.
Pela simulação foi possível estimar que, durante o teste de
Figura 7 – Fração de dolomita ao final da simulação. backflow, foram dissolvidos cerca de 800 kg de calcita en-
Pela simulação foi possível estimar que, durante o teste quanto 25 kg de dolomita foram precipitados.
de backflow, foram dissolvidos cerca de 800 kg de calcita
enquanto 25 kg de dolomita foram precipitados, conforme
mostra a Figura 3.14. Neste gráfico, o tempo zero se
refere ao início da injeção, já que as reações químicas já
se iniciam durante a fase de injeção, enquanto a fase de
produção ocorre a partir do tempo de 2,9 dias.

Variação de massa por mineral

0 30

-100
Calcita
25
-200
Dolomita
-300
20
Dolomita (kg)
Calcita (kg)

-400

-500 15

-600
10
-700

-800
5
-900

-1000 0
0.0 0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5
Tempo (dias)

Figura 8 – Frações de calcita e dolomita ao final da simu-


lação.

Este trabalho contém informações classificadas como NP- 1, segundo a gerência gestora CENPES/PDGP/IRF, conforme
PG-0V3-00054-D.