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POUL ANDERSON

O Viajante das Estrelas

Tradução de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn

LIVRARIA FRANCISCO ALVES EDITORA S.A.
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Para Gordon Dickson 5 .

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As idas e vindas do homem têm suas estações. por exemplo. apreendem. Nós também somos descobridores. a violência. É essa a natureza das sociedades contidas por fronteiras. hoje. Le Matelot 7 . e recomeçará no futuro. seus postos avançados. na primeira. nos assemelhamos mais aos europeus invasores da América ou aos gregos colonizadores do litoral mediterrâneo que a nossos ancestrais de gerações recentes. . a insensibilidade.” Assim como começou um dia. que esse homem estabeleça uma analogia entre a Liga para a Ciência do Sol Polar e as guildas de mercadores da Europa medieval. Basta. Impossível predizer o que dela advirá. Não sabemos para onde vamos. compositores do épico e da saga. de fato. E nem nos preocupamos com isso. num mundo impossível de ser compreendido por qualquer homem restrito aos limites da Terra. a cobiça. . cada vez mais diluída. missionários. que estejamos em nosso próprio caminho. retornaram. pioneiros. para o bem ou para o mal. e à medida que se dissemina. para nós. tampouco menos. a negligência para com o futuro. num exame mais detido. seu âmago. No lado obscuro. Mas não há duas primaveras idênticas. aquilo que os seres não-humanos têm a ensinar: que ela muda de maneiras imprevisíveis. embora com mutação e miscigenação em seus vasos sangüíneos. Vivemos. comerciantes. Não mais misteriosas que o ciclo anual do planeta. e até mesmo o banditismo desenfreado. de conceitos do passado terrestre. A civilização técnica não é clássica nem ocidental. É possível. mais ambicioso e individualista. por estirões de espaço cada vez mais inimagináveis. em nossa grande maioria. Por navegarmos hoje por entre as estrelas. nosso povo é hoje mais afoito. herdado. entretanto. Mais que seus pais. algo novo. Descobrirá.“’Recomeça a grande era do mundo.

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para nunca mais. Prossiga. no espaço quadrático. quando se esvaiu. Torrance procurou além da Via-láctea. conquistasse rápida promoção. naves. E embora. Ouviu-a até o fim. a nave zunia. de nosso braço galático. Ao final. até detectar a Estrela Polar. Apenas sentia-se reconfortado em saber que seus olhos estavam apontados para a base mais próxima da Liga (casas. Em volta. a essa distância. não deixou de congelar ao ouvir sua sentença de morte. e fora bem recompensado. o oficial engenheiro deixou a cabine — a notícia não era do tipo das que se podem transmitir pelo intercomunicador —. a uma velocidade limite que. humanos. nesse setor. a uns tantos graus de distância na outra direção. e interrompeu apenas com uma ou outra pergunta inteligente. ainda pouco mapeado. Não que ele conseguisse. Por favor mantenha isso em segredo até notificação posterior.B. Tenho que pensar para ver o que fazer. 9 . E ali estava Valhala. que só um astronauta seria capaz de identificar as unidades isoladas. E principalmente agora. embora deixasse a luz bem para trás. — Bom trabalho. estava calmo. Cidadão Yamamura. serviu-se de um uísque triplo.ESCONDERIJO O Capitão Bahadur Torrance recebeu a notícia como convém a um Comandante da Irmandade Federada dos Espaçonautas. aninhados num vale verde de Freia). Quando. pulsava e se contraía. de um brilho duro e invernoso. vira muito. sentou-se e. porém. era ainda muito lenta para salvá-lo. O visor exibia tamanha multidão de estrelas. nesse tipo de trabalho tão difícil. distante. Já viajara distâncias. a esperança de ali aterrissar novamente. portanto. ver um sol do tipo G sem instrumentos óticos mais fortes que os existentes na Hebe G. contemplou o visor. sentia-se ainda muito jovem e.

senhor. aquilina. então. . — Peço desculpas pela interrupção. vai se lembrar de mim e desejar ter agido melhor comigo. Tarde demais. de. no dia em que você for um sujeito gordo. Torrance suspirou. de olhos grandes. . pelerine e culotes brancos. Casado. Torrance. Loura. da tripulação. Posso conversar em particular com o senhor? É urgente.. ao alcance daquele homem escarrapachado no divã. Nicholas van Rijn ergueu o garrafão de dois litros que acabara de chegar-lhe às mãos. Àquela temperatura quase tropical. palpitaram os diversos queixos. melodioso. solitário. Torrance forçou o olhar de volta para o mercador. curvou-se.Pela sífilis! Pela peste bubônica! Como é boa a primeira cerveja da manhã! Tem um quê de gelado.. Por um corredor. mais do que nunca. — Ahhh! Van Rijn bateu a caneca de cerveja na mesa e enxugou a espuma do bigode. Van Rijn suspirou — como um tufão ligeiro — e coçou os cabelos do peito. hein? 10 . colocada na antepara do lado oposto. O comissário de bordo acabara de sair. tinha que pensar antes dos outros. usava. Outra vez o capitão. Gastou alguns instantes para verificar a aparência. de Huy Braseal. que vai me afastar do meu trabalho. Algo semelhante a Mozart cantava. em que fazia questão de manter o escritório. carente de todas as suas forças. desde a escrivaninha com papéis espalhados até a tapeçaria. — Qual é a bobagem agora. inteiramente tridimensional. galão dourado. um turbante com o broche “Nave e Sol Irradiante”. Por baixo do cavanhaque teso. Jeri Kofoed coleava no canapé. e que eu vou ter que resolver para você. agora. bateu os calcanhares. precisou apenas enrolar um sarão no corpanzil. Caramba! Qual é mesmo a palavra? O punho cabeludo golpeou a testa inclinada. na cabeça morena. mas ausente de casa já há algum tempo. incrustada de jóias. foi à suíte do proprietário.Bem. cinza. o moral era importante. Torrance fez sinal para que a porta permanecesse aberta. E como cidadão do planeta Ramanujan. da Liga para a Ciência do Sol Polar. uma bandeja nas mãos. cadenciado. o ruído do sorvo encheu o aposento. vai olhar para trás.. que já é muito. levantou-se. ele preferia o uniforme completo: túnica azul. Ao guarda-pó habitual. — A cada semana que passa eu fico mais desmemoriado! Ah. num toca-fitas.

com o inimigo a persegui-los. escapar de três cruzadores era muito mais que uma façanha. — Bem. Na mesa. muito distantes de seu planeta. Quando eu trabalhava como espaçonauta. Van Rijn apanhou o cachimbo comprido. com certeza foi a de qualquer outro planeta. que sabia arriscada. entre estrelas desconhecidas. embora tivesse sentido a morte de perto. uma das maiores forças em toda a Liga para a Ciência do Sol Polar — era boa demais para ser recusada por uma garota oportunista. 11 . Capitão Torrance. hoje é um novo dia. e me empreste o isqueiro. duas horas atrás . quando a bebida demorava um pouco mais que o desejado. fique à vontade. juro pela morte e pelo diabo. — Eu preferia conversar a sós. mesmo armada com equipamento ultrapoderoso. algumas vezes. Van Rijn. estivera de bom humor desde que conseguiram escapar da Patrulha-Cobra (Quem não estaria? Para uma simples nave de passeio. porém. . não costumavam produzir esse tipo de gente. quatro velas acesas diante da estatueta de São Dismas. e despedir todos a bordo ao menos uma vez ao dia. Van Rijn ainda mantinha. feita de raízes arenosas marcianas). Jeri Kofoed arqueou as sobrancelhas. mesmo os agradáveis. . senhor. soubera manter a calma. Os seus rapazes não têm estamina. ele costumava jogar pratos no comissário de bordo. de fato. Ela não era covarde. Hoje em dia. Os planetas fronteiriços. — E então. Van Rijn bateu na barriga de barril. você está com o aspecto de creme dinamitado. sente-se. Nicky? Na verdade. o que há de errado com o fuzuê agora? Timothy umedeceu os lábios. de argila e começou a enchê-lo. Ainda estavam. nie? Portanto. vocês vêm me perguntar até mesmo como é que vão limpar o nariz! Eu sou o único aqui com coragem. murmurou: — É mesmo a primeira cerveja. E viu a cor sumir do rosto de Jeri. É bem verdade que. Mesmo que não tenha sido à meia-noite de Greenwich. e a fuga subseqüente. pois uma chance assim — envolver-se com o príncipe mercador da Companhia Solar de Condimentos & Bebidas. em gratidão. Mas isso era normal. como Freia. Ela viera nessa viagem. — Claro! Mas isso foi antes da meia-noite. Filho. Durante a luta.O tom era jovial. nós tínhamos que resolver nossos próprios problemas. por Judas. era quase um milagre.

ficaremos tão pequenos que os fedorentos da patrulha não poderão nos encontrar. não uma nave de guerra. de tão alto. dispostos junto ao nariz adunco de Van Rijn. E acontece que metade dos circuitos do gerador da couraça de proteção derreteu. e o estalido surpreendeu. em cinqüenta horas todo o conversor se fundirá. Sem se levantar. senhor. revoltada. ao contrário de um lerdo como você. então é isso? Van Rijn ficou sério. fuzilaram. Jeri murmurou: — Eu gostaria de ouvir a verdade. Os olhos negros. que ressoou como o disparo de uma pistola. Van Rijn apertou a campainha. antes de chegarmos. não fique aí parado com esses olhos de louco. embora. O senhor sabe que recebemos um tiro de raspão durante a luta. O conversor não parece avariado. Ele berrou: — Dormideirazinha petulante! Quando eu disser para pular fora. que ganha muito mais do que merece. não temos peças de reposição suficientes. E então? — Não podemos. Acabo de receber um relatório de Yamamura. e que nos acertou na casa das máquinas. pequenos.— Vá para o quarto. e disse a Torrance: — Isso exige mais cerveja. Se continuarmos à velocidadelimite. De um salto. Jeri inspirou um ganido de indignação e irrompeu para o interior da suíte. e podemos repor apenas parte dele. Van Rijn ordenou. e ajudem este pobre homem atrelado a trabalhadores que mais parecem caixeiros com papa de aveia na cabeça! Com esforço. Não tenho tempo a perder com constrangimentos. Isto é uma nave de passeio. Van Rijn deu-lhe um tapinha no local adequado. O isqueiro tocou o cachimbo. depois que o buraco foi remendado. Tenho que rever a programação dos preços da pimenta e da noz-moscada para Freia. Eu juro! Que meus bons santos me escutem. não senhor. a turma ainda esteja averiguando para ter certeza. chocada. Bem. — Ah. para chamar o comissário de bordo. Em seco. 12 . em vez de reduzir o volume de vendas. Como eu disse. — Muito bem. Por Satã! Pelos fedorentos! Aquele fabricante idiota poderia ter cobrado uns dez por cento a mais. — Não podemos parar e fazer os reparos? Se desligarmos a hiper-propulsão. Torrance subjugou a irritação. você tem que pular fora. Jeri ficou de pé.

quem sabe? — Nie! Van Rijn balançou a cabeça. no espaço. — Homens como nós. sem antagonizá-lo. — Andou cochilando por aí. Como é que você quer que eu pense com a boca assim. pois o velho diabo tinha a fama de debater-se entre alternativas de um dilema. — Eu aceito sugestões. de maneira marcante. claro! O comissário chegou. creio que sim. — É. senhor. e uma mulher. apagou as velas. No mínimo. um planeta habitável. A que velocidade temos que baixar para conseguirmos chegar a uma distância em que possamos nos comunicar com Freia antes que nossas máquinas derretam? — A um décimo da velocidade-limite. mas não posso assumir a responsabilidade de atrair ataque inimigo. fumegando obscenidades e nuvens vulcânicas. um deserto em pleno verão? Torrance foi cuidadoso na escolha das palavras. não levaríamos tanto tempo assim. Sobre os ombros. com os dedos. quem sabe? Não é só a Patrulha pestilenta que navega nessa região do espaço! Talvez entremos no raio de detecção de alguma nave em boas condições. bem . irem viver numa rocha imunda. Levaríamos uns seis meses. arrastou-se pela cabine.— Está bem. sem videiras? Prefiro descer numa cápsula da Patrulha. E. Ao passar pela prateleira de São Dismas. Virou-se. A Patrulha nos encontraria antes disso. não foi? Minha cerveja! Que as pragas de Deus caiam sobre você! Preciso dela para pensar. e algo pareceu despertar nele. — O que me ocorre agora é que. cujo povo possa aprender a fazer os circuitos de que precisamos. Torrance olhou o painel. meu caro capitão. giraram os cachos de cabelo negro e oleoso.. — Não. talvez possamos chegar a uma estrela próxima. Então vamos continuar com a hiperpropulsão. pesado. a última palavra sempre cabia ao capitão. Teria de lembrar a Van Rijn que. ja. . Van Rijn levantou-se e..Ah! Civilizações industriais. de qualquer modo. nie? Mande Yamamura aumentar a sensibilidade de nosso detector até 13 . Há uma remota possibilidade de existir algum planeta com civilização industrial. não temos suprimentos para seis meses a bordo. como um cavalheiro.

A perseguição nos alcançará enquanto procuramos uma hélice de sonda... Torrance acenou para que ela se sentasse na poltrona. ofe14 . Van Rijn esticou-se. por favor. Ela pousou a mão sobre a dele. — Cidadã! Que . vai me escutar. Jeri Kofoed entrou.. queimamos a ponte. Van Rijn exultou: — Ah. na cabine de comando.. e curvou em reverência. senhor. para Valhala. mais do que conseguiu enumerar. de que temos que ser levados imediatamente. pois fora o único tipo que Van Rijn encontrara para oferecer a ela. depois de tantas horas.. Jeri usava uma toga de corte espalhafatoso. Mas o olhar que ela agora lançava a Torrance não tinha qualquer relação com isso. e os perseguidores se aproximaram. Embasbacado. existir.. — . Talvez o senhor tenha tazão.conseguirmos ouvir baterem as asas dos borrachudos no meu escritório em Jacarta.. surpresa! Posso ajudá-la em alguma coisa? — Sim. Sombrio. ou não. Aqueles faxineiros são uns preguiçosos! Depois tomamos essa rota em frente e vamos navegá-la num plano de vôo de sondagem. — E se encontrarmos uma nave? Talvez ela seja do inimigo. virginal! Era essa a palavra que eu estava procurando! Para a primeira cerveja do dia. Torrance resmungou. em velocidade reduzida. seu imbecil! A porta da cabine soou. Torrance ponderou por um momento. Esperava dormir ao menos um pouco. Mas quando a nave rondava na escuridão em busca de outra que podia. Principalmente se tivermos de perder muitos dias para persuadir uma tripulação de não-humanos. que nunca ouviu falar da raça humana. — Quando entrarmos. — Entre. na Terra. sem pudores. Torrance levantou-se. — De todo jeito. de um salto.. — Vamos correr o risco. Você tem algum esquema mais promissor? — Bem. o senhor sabe. Comandante. — Tive que vir. Eu vou . vamos perder tempo.. apanhou-o. e mais rápido ainda. Se o senhor for um homem piedoso. O comissário entrou com um novo garrafão..

inalada até o fundo dos pulmões. para mim. deve fazer um esforço antes de julgar a insignificância do inimigo com relação aos colonos que pouco se afastam de seu mundo natal. de fato e em status. Não que ele tenha qualquer direito sobre mim. tempo superior à duração de nossas provisões. Ninguém me disse nada. a Patrulha-Cobra nos encontraria em uma ou duas semanas. até retomar um certo grau de serenidade. iríamos derretêlo antes de chegarmos. sem energia. e acendeu um.. — Está dormindo. e então.receu cigarros. Uma explicação particular. admito que sejamos inferiores a ele. Se continuássemos viajando à velocidade-limite máxima. Jeri estremeceu. além disso. — Como quiser. melhor do que eu. Capitão. — Bem. vou ter que começar a gritar. sabe que terei prazer em fazê-lo. e o Cidadão Van Rijn . o senhor sabe que Freia é um planeta primitivo. e um certo toque de humor. desconheço inteiramente. Essa. e se eu não descobrir o que de fato está acontecendo. Mas.. sofisticada. a melhor solução para ela. mais detalhada que a exigida para a tripulação. no último contorno da civilização humana. levaríamos meio ano para chegar a Valhala. A fumaça. E . Quanto à tecnologia militar ou política. A irritação deu lugar a um sorriso irônico. Cidadã Kofoed. Torrance ponderou alguns fatores. em Freia. E. Como espaçonauta da Liga. sem dúvida alguma. seria. Mal temos tráfego espacial. Torrance considerou o quadro geral. a ponta do cigarro. a não ser a nave mercante da Liga. e concluiu: — E não temos condições de consertá-lo nós mesmos. O nome “Patrulha-Cobra” 15 . — Se eu puder ajudá-la. ela não passa muito tempo no espaçoporto. e perguntar não me passou pela cabeça. — Eu bem que poderia passar por uma garota fácil. mesmo assim. Torrance relatou o que acontecera ao conversor. por um momento. E se prosseguirmos a uma velocidade lenta. Fitou. de fato. não passava de uma missão de reconhecimento. É só que ele não quer responder às minhas perguntas. acalmou-o um pouco. de modo a preservá-lo. eu não assinei contrato algum. Sentou-se do outro lado da mesa.. Eu não estou propriamente transgredindo os desejos dele. nem nada parecido. Cidadã. —Por quê? Não compreendo. logo morreríamos.. E. Por que a Patrulha-Cobra está tão ávida para nos pegar? Antes de estruturar a resposta.

e também suas naves de guerra. O Cidadão Van Rijn quis fazer uma última tentativa. mas a hostilidade contra nossos postos avançados para que os considerássemos “mau negócio” e desistíssemos deles. o fim do arrocho tributário e do comércio realizado a preços extorsivos. Torrance optou pela explicação sistemática. planeta que é. Se voltarmos com a informação. fomos parar num planeta colonizado por humanos. lançou-se. isso significaria o fim dos ataques aos Planetas hoje impossibilitados de se defender. e voamos para lá. e não possuía empreendimentos extraplanetarios para ser saqueados. Não que os membros da Liga sejam santos. sabem que a Liga para a Ciência do Sol Polar deseja expandir suas operações naquela região e não querem que isso aconteça.era originário de Freia. fomos detectados e atacados por muitas naves de guerra. A Patrulha conta com a vantagem de conhecer o setor do espaço em que atuam. mantendo uma boa 16 . mas a oposição foi tão grande que ele próprio teve que vir para liderar a expedição. Em algum lugar das profundezas inexploradas. com certeza quase absoluta. não teremos mais problemas com a Patrulha. Então. e eles cresceram em quantidade. E a Patrulha-Cobra. e tivemos sorte em conseguir escapar. os freianos jamais tiveram com eles um novo contato. As naves da Patrulha são obsoletas e. o mundo natal dos próprios flibusteiros. portanto. pois não toleramos santos. Desde essa época. De algum modo. Conseguiu uma pista de um segmento inexplorado. e nós não fazemos a mínima idéia do nosso. — Bem. para lá de Valhala. E. na verdade. e para juntar fatos estranhos. Freia não tinha com que se preocupar. os fugitivos se estabeleceram num planeta desconhecido. procuram manter-se a par dos acontecimentos. E eles sabem disso. Não depois que a Liga enviar para lá algumas naves de guerra do tipo Astéria e ameaçar bombardear o planeta. E você deve saber como ele agiu. Seguindo uma trilha de neutrinos. Mas Freia ainda era muito forte para ser invadida por eles. não a uma guerra declarada contra nós. mas apenas porque a pirataria interfere nos lucros de nossas companhias-membros. Usou a arte profana do suborno e do blefe para extrair até a última gota de informação dos prisioneiros que fizemos. entretanto. Para eles. só temos fugido. até o momento. mesmo que tivesse que repetir o óbvio. chegamos ao ponto de apagar essa região do mapa e ir tentar em outro lugar. os homens da Patrulha-Cobra não são estúpidos. um termo de depreciação designativo dos marginais expulsos do planeta há um século. As gerações passaram. como você deve saber.

Sentou-se por um momento. e entrar nela — e nós. usaremos o último suspiro de nosso motor para abordá-la. — Espero que tenhamos oportunidade de nos conhecermos melhor. sem falar. . os interrogatórios de prisioneiros. Esperta. durante a viagem rumo à Terra..distância deles. Esse espaço é grande demais! — E se for mesmo não-humana? — Então faremos o que parece mais indicado. A Hebe G. bem. Portanto. a 17 . forçando nossos próprios detectores. Jeri puxou uma tragada forte no cigarro. vamos prosseguir em hélice-sonda a uma velocidade média. Ou. Os relatórios de nossa espionagem. O senhor sabia disso? O Cidadão Van Rijn prometeu me arrumar um bom emprego lá. — Obrigado Capitão. que seja uma nave nãohumana. era uma nave de passeio. Torrance reprimiu um sorriso bobo. Os próprios homens da Patrulha-Cobra não as conhecem todas. Se for um vaso-patrulha. quem sabe. talvez possamos apreendê-lo. quer dizer. O senhor não sabe o quanto me aiudou.. Como sempre promete. Capitão. quais são? — Um contramovimento.. acidentados — será o fim. Se descobrirmos outra nave. a avaliação das observações dos exploradores. As vibrações da hiperpropulsão se transmitem instantaneamente e podem ser detectadas a uma distância de cerca de um ano-luz. agora mesmo? Naquele exato momento. e tudo o mais. Em vez de tentar chegar a Freia . com Nicholas van Rijn a bordo. não uma fragata de piratas do espaço. — Entendo. — Eu vou para a Terra com o senhor. Jeri acenou com a cabeça. — E seus planos. E vão enviar toda a armada de cruzadores em nossa busca. Jeri inclinou-se. e depois fascinou-o com um sorriso. soou a campainha de alarme. aproximou. Cidadã. Nós temos um par de armas leves em nossa torre de tiro. . revelam que três ou quatro espécies diferentes desta região possuem hiperpropulsão. . — Foi um prazer. também. mas permanecia calma. Torrance pensou.B. bem. Entretanto. se alguma patrulha identificar nossa “esteira”. Mas não creio que tenham desistido de nos perseguir. ou qualquer coisa assim. Mas pode ser.

algumas vezes. haveria contato em três ou quatro horas. pois. Baça. parecia algo confusa. Torrance confirmou com a cabeça. O tamanho. porém. em intervalos. Soturno.diferença. para colher amostras da névoa de neutrino. O conhecido vetor superluz. Um cilindro de ogiva arredondada. e uma única torre de tiro.B. de menor porte. Mas a Hebe G. conseguiu identificar seu plano de curso e. A Hebe G. e continuou ganhando terreno em relação à presa. possuía mais esporas que as demais naves. Ao perceber que o perseguidor encurtava a distância. E reverteu à velocidade abaixo da luz. os computadores agora isolavam uma fonte próxima. o conversor fechou-se até atingir a emissão mínima. portanto. forneceram aos computadores uma idéia aproximada da localização da presa. débil. Assim. A nave conseguiu detectar a hiperemissão da outra nave antes que as próprias vibrações fossem observadas. pois. e cones de propulsão maciços. a outra nave surgiu nas telas. A manobra costuma funcionar. através da análise estatística. E a nave converteu-se num ponto infinitesimal no espaço efetivamente infinito. depois de procurar em vão por alguns momentos. mas têm motivos para temer estranhos. durante as investigações preliminares. Em vez disso. muitas vezes maior. detectores de sensibilidade incomum. Se o estranho tivesse mantido a velocidade-limite. E prosseguiu naquele volume de espaço e. o inimigo desiste e se retira.B também mudou de rota. e uma tripulação tarimbada em tática de inspeção. uma tentativa de fuga. emitida por qualquer motor nuclear. A nave de passeio dirigiu-se para lá . contra o céu bruxuleante. mas. Ditam os princípios da física que a conformação das naves feitas 18 . revertendo ao estado normal. com inúmeros encaixes para embarcações auxiliares.. o perseguido desligou a hiperpropulsão. — Estão com medo de nós — concluiu Torrance — E não estão voltando para o sol da Patrulha-Cobra. E ao seguir o objeto ainda não visível. inspecionara alguns planetas visitados pelos piratas. rombuda. em seguida. essencial. em conjunto com o instante do desligamento. Os verdadeiros motores nucleares conhecidos pelo nome de estrelas são os que a emitem em maior quantidade. despejar toda sorte de material viscoso para interceptá-la.. estava preparada. deslocouse de um lado para outro num plano de sondagem bem concebido. a esteira indicava uma mudança de rumo. dois fatos que indicam que eles mesmos não são de lá.

podemos abordá-los e forçá-los a nos transportar. quando começassem a desconfiar. e acrescentou: — Pagamos bem. E que a Patrulha-Cobra estava muito atrás da nave da Terra. alcançariam esse tão estranho mercador. senhor. poderiam ficar na espreita.para uma mesma finalidade deve ser. pelo diabo! Se ficarmos muito tempo parados. perceberia que aquela nave. Se a parlamentação com os estranhos demorasse mais que o esperado — mais que uma semana.B. e não era rival para a Hebe G. se for necessário. Torrance estava prestes a deixar bem claro que a nave estava em segurança quase absoluta. Veio. o que os humanos não poderiam fazer por falta de alimentos. então. com facilidade. Que. Embora eles possam identificar nossa nave como de construção humana. como dorminhocos vadios. não fora construída por membros da civilização da Liga. uma carona para Valhala. interceptada por um míssil disparado pelos atiradores-robôs de Torrance. na melhor das hipóteses — os esquadrões da Patrulha-Cobra poderiam penetrar nessa região genérica e até mesmo ultrapassá-la. bem mais veloz. é possível que os únicos humanos que já tenham encontrado sejam os da Patrulha-Cobra. rapidamente. nie? Mas ande depressa. por meses. 19 . podemos falar de negócios. — Bem. Coloqueos no telecomunicador e estabeleça uma linguagem comum. Mas lembrou-se de que o caso não era tão simples assim. Quando a hiperpropulsão fosse ligada. — Muito bem — disse Van Rijn —. porém. Aquela nave não era. não haveria probabilidade mensurável de encontrá-la. de modo algum. O ataque fora muito lento. num titubeio nítido.. o disparo. grosso modo. queremos apenas uma carona para Valhala. e nem poderia imaginar que a hiperpropulsão estivesse desligada. Os instrumentos disseram-lhe que o estranho havia disparado uma cápsula de fusão. muito débil. A única esperança seria conseguir. Torrance ficou enceguecido por um momento. como esta não o era para o cruzador da Patrulha-Cobra que a perseguia. ali adiante. E. a mesma. Hesitou. Mesmo com o desligamento automático do visor. um vaso de guerra. Rápido! Depois explique que não queremos prejudicá-los. Qualquer espaçonauta. vamos ser apanhados. Torrance ponderou: — Talvez encontremos dificuldades. agora que já nos desvencilha-mos dessa bobagenzinha. eles a detectariam e.

no momento em que Torrance determinava ação espacial belicosa. Por que. então. porém. — . a Hebe G. não respondem? Não custa nada. nenhuma resposta. Torrance sacudiu a cabeça. A retirada fez sacudir a nave de passeio. Torrance vestiu o capacete. sob veementes protestos. Suave. afinal. Eles devem saber que os congelamos. Mais uma 20 . Yamamura relatou novidades. Até agora.. E tamanha naturalidade de Van Rijn ao executar a transformação de fases fez Torrance esquecer-se de que a operação era considerada difícil até mesmo por pilotos-mestres. Continue tentando. era um espaçonauta fíta-azul. Cidadão Betancourt. As telas receptoras permaneceram vazias.. Num sopro e meio. prendeu-o. como o deslizar de um tubarão (o velho suíno. Ao final. Van Rijn esquivou-se de um jato de compressão frenético e engatou a nave ao casco maior emanando faixas indestrutíveis de força. Preocupado. Van Rijn rosnou: — Por Belzebu! Pelo botulismo! Entrou em hiper de novo. Algum processo envolvendo pequenas quantidades de energia encontrava-se em evolução. — Eu não compreendo. B.. — Estamos tentando todas as faixas.. Aumentara a emanação de neutrino numa fonte próxima à popa do estranho. —Talvez tenham salva-vidas movidos a hiperpropulsão. deixou uma tripulação mínima — o próprio Van Rijn. Teríamos detectado . entrou numa trilha de tração e projetou-se até a nave maior. do período estipulado. hein? Já damos um jeito nisso! Solicitado.utilizando a dianteira já obtida para compensar a desvantagem da velocidade reduzida. o Capitão constatou algo surpreso). Mas a nave maior desapareceu. — Talvez tenham abandonado a nave — sugeriu o oficial de comunicações.. Se não conseguirmos resposta em uma hora. Torrance franziu o cenho. senhor. mas a força chegou aos motores. A postos. a nave terrestre dominou a forasteira. — Não . vamos encostar e abordar. — Vamos dar uma olhada. o conversor ulcerado esganiçou.. assumiu a ponte de comando — e conduziu a comitiva de abordagem à câmara de ar. e devem ter recebido nossos chamados e percebido que queremos conversar.

as duas fuselagens. Mais velozes que a luz. deixou-se arrastar pelo campo de força do estranho. Jamais vira algo assim antes..cortiçosa. Torrance concentrou a mente em preocupações práticas. Jamais tentara forçar a entrada numa nave hostil. convocou seus homens e saiu.. em chafariz. Torrance. As tochas de seus homens vomitavam labaredas. e dançavam na gravidade zero. Entrementes. Ao penetrar no casco. ficou desapontado. e apontou um facho de luz pelo interior adentro. pois o conversor não conseguiria suportar muito mais. fantástico. A última defesa cedeu. fascinado. Subiu à 21 . Torrance engoliu em seco. Lá fora. Esta raça. A Hebe G. não havia porquê dizimar a tripulação do inimigo. estudou a estrutura interna das placas. cuja velocidade-limite foi consideravelmente reduzida com o “rebocar” daquela massa extra. Presumiu. como iria comunicar-se com eles? Principalmente se. porém. Embora a engenharia obedecesse às mesmas leis naturais. Que substância seria aquela.vez.B. Depois de escolher o local. flutuou. pela aberração e pelo efeito Doppler. o céu distorcia-se. como se se debatessem na outra existência. que não deveria ser muito diferente do que abrir caminho a fogo numa nave abandonada. A escuridão e o vácuo vieram encontrá-lo. rumo ao Juízo Final. Sem os visores eletrônicos de compensação.. era radicalmente diferente. como se os homens já estivessem mortos. desenvolvera sua espaçonáutica de maneira bem independente com relação à espécie humana. Com firmeza. e aprisionasse os não-humanos. o resto da equipe aguardava com desintegradores e granadas. com certeza. a tripulação se escondia. primeiro. no detalhe. Se Van Rijn esperava que a nave aprisionada desistisse e revertesse ao estado normal. despojado de peso. Torrance engoliu uma promessa. dura. estariam embutidos nela? Torrance não os via em lugar algum. Em uma hora Torrance retornou à nave de passeio. tivesse que abater uns tantos? A carcaça exterior foi desmontada. os contornos das duas fuselagens pareciam sumir no infinito. a gravidade artificial fora desligada. que revestia a cápsula interna? E os circuitos. Torrance inflou um balão para conservar ar. E . continuaram mergulhando rumo a uma constelação sem nome. entretanto. as azuis fagulhas actínicas eram expelidas para trás. desligou a hiperpropulsão. E. unidas.. Assim que entrasse. Nalgum lugar.

pequenos. e trincou os dentes. A voz saiu. concebera-a para um só piloto. Fora colocado. revelavam. a maior que já vi depois do Zoológico de Luna City. desconfortáveis para o olho humano. — Bem. senhor. — Isso não significa coisa alguma para mim. Um tubo foi estendido entre a câmara de descompressão principal da nave de passeio e o corte de entrada na outra. Um console de controle descrevia um semicírculo ao longo da parede frontal. é claro. e seus amiguinhos caçadores! Torrance engoliu em seco. — Acho melhor o senhor vir dar uma olhada. distante. o mesmo desenho dos astros com. compartimentos de controle ambiente — com uma variedade infernal de criaturas. hein? Torrance preferiu. Com um salame numa das mãos e uma cebola crua na outra. em primeiro lugar.. curta. olhou detidamente a fisionomia do Capitão. lançava um olhar feroz à ponte capturada. — Parece uma nave de carga interestelar. responder à última pergunta. grande demais para ser operada por um único homem. indagou: — E então? Torrance pigarreou. O mercador. Mas o projetista.B. e a fiação elétrica foi passada para iluminar a presa. Utilizando-se de um truque extravagante no gerador gravítico da Hebe G. Mesmo em tais condições. como. embora à altura do pescoço. pois um único assento fora colocado no meio do arco. Uma estaca metálica. desconhecida. as plataformas estavam sujeitas a inclinações violentas e súbitas. presumivelmente. Van Rijn caminhava. Os visores ainda funcionavam. o ar era bombeado. Por ali.ponte e encontrou Van Rijn sentado ao lado de Jeri. O compartimento principal é cheio de jaulas — ou melhor. Eu quero o coletor em pessoa. e não da cintura. Entre os próprios animais. entretanto. e cavilhas 22 . entretanto. Estruturas similares eram vistas em outros pontos. coletora de animais. erigia-se no convés. mal-humorado. não conseguisse mantê-la em rumo uniforme. A jovem começou a falar. Yamamura forneceu à nave desconhecida cerca de um quarto do peso-Terra. Só podia ser isso mesmo. pesado. — Você descobriu em que raio de inferno se escondeu a tripulação? Como são eles? E de que tipo é a nave que aprisionamos. o mesmo tipo de compensadores óticos. A esta altura podemos afirmar que estão se escondendo de nós.

Torrance arriscou: — O piloto senta-se ao centro. este painel. nie? — Não é bem assim. ao que parecia. O console. ou o quê? Pareciam. isto quando não estão navegando simplesmente no automático. viria lacrar novamente a fuselagem. para manobrar esse sistema sem ficar exaustos. pronto. Algumas encontravam-se comprimidas. ou ideograma. senhor — retrucou Torrance. todas de cerca de vinte centímetros quadrados. feito. mas aquela estaca na popa parece sugerir a cadeira de um oficial extra. pois a câmara de carga se abriu e boa parte do ar se perdeu antes que Torrance conseguisse força suficiente para apertar a placa que. Torrance apontou para um jogo de instrumentos do tamanho de botões. O tamanho das coisas parece provar o que eu digo. Não se deve brincar a esmo com o desconhecido atômico. agora. chinês antigo). vagamente. puxava os fios do cavanhaque. como veio provar a experiência. Não havia dúvida de que eram os controles. Mas a experimentação terminava ali. em cada um deles. haviam sido retirados. um símbolo mudava de valor.. luzia um único número. principalmente no espaço galático. — Os visores parecem feitos para anões. suponho. era necessário apertar com força. estava fixa no 23 . De qualquer modo. Van Rijn ruminava a cebola.. para assumir. luminosas. Parece uma raça desgraçada de polvos! Olha como é complicado! E acenou o salame ao longo do meio-círculo. tocou o interruptor. É claro que o fato de terem olhos mais adaptados que os nossos para ver de perto não significa que não sejam gigantes. aqui e ali? Não posso afirmar. E aquele interruptor. exige braços longos. e parece ter sido projetado para mãos grandes. A experimentação cautelosa evidenciara que. é provável que não usem co-piloto. possuía poucos interruptores e botões. — Um humano não conseguiria operá-los por muito tempo sem chegar a uma grave fadiga visual. para acioná-los. — Grande que nem a peste. Torrance ficou na ponta dos pés. de algum polímero fluorocarbônico. para ser alcançado daqui. e uma infinidade de placas chatas. O navegador e o oficial de comunicações. semelhante a uma haste dupla. De quando em quando. de reserva. (Ou letra. Uma coisa descomunal. Os medidores ainda mais. Os assentos. porém.indicavam os locais onde se fixavam as poltronas. Van Rijn prosseguiu: — Eles devem ser fortes como mulas.

— Seus polvos imbecis! Van Rijn berrou e esticou as pernas coluniformes. teríamos acelerado.. senhor? Devo ter aplicado menos de meio-quilo de força. Torrance apressou-se até a porta da ponte.. Torrance cambaleou para trás. Para firmar-se. E para fugas rápidas e. — E você. não? É mais seguro que aquele interruptor.. Para girá-lo.. puxou-o com toda força! Torrance enrubesceu. A normalidade voltou. Claro que. alcançou o interruptor e colocou-o de volta na posição original. como estamos em hiperpropulsão. 0 interruptor desprendeu-se. Em estado normal. Torrance dominou o leve estado de nervosismo. O tom de voz titubeou: — .. no mínimo. — Interruptor de emergência. puxado por uma força repentina.. Interruptores de emergência não são para ser acionados por fios de cabelo. com seu cérebro de molho de carne fermentado. — Posso ver que este gancho aqui é para prender o interruptor.. Liga o campo gravítico a toda velocidade de propulsão. bem acima do assento hipotético do piloto. Lá no fundo. com seus dedos de banana. um arco bem alto. teve que agarrar-se a uma prateleira à frente. o fino metal envergou. suponho. de um centímetro de diâmetro e de quinze centímetros de profundidade. Ao agarrá-la. com palavras ligeiramente mais vigorosas. muitos Gs. — Isso deve ser outro controle especial.teto. e gritou para o interior do corredor: — Está tudo bem! Não se preocupem! Está tudo sob controle! — O que aconteceu com esse pisca-pisca azul? — perguntou Van Rijn. afinal! E se pensarmos na força necessária para movimentar estas placas. Um ronco veio da popa. — Como eu iria saber. Talvez o usem para passar por planetas de alta gravidade.. são necessários alicates muito finos. Cessou o ruído. Ocasionou apenas um impulso intrínseco menor que 1-G. E viu um orifício próximo ao centro do painel. sem desperdiçar força com os compensadores de aceleração. emergia uma pequena chave. a coisa não foi muito eficiente. e . quem poderia pensar que esse interruptor reagiria com tão pouco? Van Rijn aproximou-se para uma olhadela mais acurada. 24 .

Cada um com cinco metros em um dos lados. não seria uma maneira agradável de terminar meus dias.. estilhaçado em gases radioativos. O interior da nave está todo destruído.. suporte ou gaveta para guardá-los. porém. e muito mais do que pensam. até mesmo. um plástico flexível. E nós iríamos junto.. fedorentos. Na sala de máquinas. para ajudar-nos a identificar a tripulação dentre os animais! O recinto principal compreendia quase a metade do volume da imensa nave. acoplados no espaço — quem sabe. — Claro que não. É. e placas fluorescentes. ajustáveis. todo o equipamento necessário! Teria sido mais simples fazer explodir a nave.. estendiam-se no meio de duas fileiras de cubículos de dois andades.Van Rijn coçou os cachos tratados com creme fixador. Prateleiras e barras paralelas estendiam-se ao longo das paredes laterais. Torrance foi o primeiro a sair. metal fundido. desgraçado. E essa foi a causa daquele fluxo de neutrino detectado por Yamamura. — Que tal irmos dar uma olhada mais acurada no zoológico.. por cima. Eu suei como um porco. presumivelmente inerte. um velho pecador. que a tripulação não apresenta pendores para o suicídio. plástico carbonizado. podemos dizer que não chegaram a sabotar o essencialmente vital. Conseguiram nos pegar.. No exame superficial que fizemos. senhor? Yamamura falou algo a respeito de montar um equipamento.. é claro. — Mas. a trezentos anos-luz de distância dos vinhedos da Terra. Um corredor. temendo que fizessem isso. mobília. A equipe de Yamamura precisaria de muitas semanas apenas para formar uma idéia geral de como esta nave foi montada. no teto. e eram idênticos. Concordo. tudo o que sobrou foi um montículo de escória metálica. Devem ter trabalhado mais que o diabo! — Mas claro que não destruíram todas as ferramentas. e um passadiço estrito. por baixo. que somavam noventa e seis. E usaram o próprio conversor para gerar calor. revestimento. tudo derretido numa caldeira improvisada. — Isso não faz diferença. no chão. Não temos certeza absoluta. excluindo os detalhes práticos de como operá-la.. rumando para o próprio astro-natal dessas criaturas — em ângulos quase perpendiculares à rota que desejamos. tudo que julgaram possíveis pistas para os identificarmos. Indefesos. Para mim. e os alicates? Por que não estão à mão? Não vejo nenhum gancho. para uso de animais que gostassem de pular e 25 .

nas cabeças maciças. do tamanho de um urso. laranja. E notavam-se. . — É provável que o alimento seja sintetizado na hora. Torrance e Van Rijn atravessaram as sombras. semelhantes a lontras hexápodes. nos dedos curtos. 26 . para regular a atmosfera. . Na jaula ao lado. pois eram desnecessárias. que brincavam num tanque d’água apropriado. quatro mamíferos estavam agachados em meio a uma bruma amarela. fluía à volta dos dois: vermelha. a temperatura. por entre os animais. com câmaras de descompressão compactas. de frente para o corredor e para o passadiço. não fossem os cachos de pêlos a esvoaçar na cabeça. disse apenas que serviam. levantavam-se. coleavam e tintavam o ar. As paredes frontais. Do outro lado. tudo sintético? Não tem nem um copinho de genebra holandesa para antes do jantar? E iluminou-se: — Ah. amarela. com listras de tigre. E bom! E até que eles descubram a situação. Os humanos não haviam instalado luminárias no local. pois um alimentador jorrava. as garras retrácteis. mandíbulas de carnívoros. de vez em quando. que não ousou violá-las. esverdeada e azul-elétrico forte. numa canaleta. minúsculos répteis voadores.escalar. eram transparentes. as condições sanitárias e outros fatores ambientais em cada “jaula”. quase da mesma altura do próprio cubículo. não vejo nada por aqui que se pareça com uma cozinha de bordo. do lado de dentro e do lado de fora. belas criaturas. de uns doze sóis distintos. Apenas alguns compartimentos estavam vazios. com escamas que faiscavam matizes prismáticos. segundo as especificações de cada espécie. nadava num cubículo d’água em meio a algas frondosas. Yamamura. e motorizadas. Algo que poderia ser um tubarão. a gravidade. Van Rijn encolheu os ombros. Para a tripulação também. a luz simulada. ligavam-se máquinas bem capeadas. — Mas. Adiante. caminhavam nas quatro patas e. repleta. determinada por métodos bioquímicos. e. nacos de material proteínico e as lontras refestelavam-se para cortá-los com as presas. À parede dos fundos. embora controladas por rodas simples. podemos cobrar preços triplicados. talvez estejamos diante de um novo mercado. de tons fortes. era óbvio. Pelo menos. As máquinas ambientais deviam ter decidido que era hora da refeição. os humanos passaram por umas seis feras lustrosas. — Alimentação automática — observou Torrance.

que culminavam em cabeças encarapaçadas com um certo material ósseo. senhor. é óbvio que esta nave não foi feita por peixes ou pássaros. de membros atarracados. com nossas limitadas ferramentas de pesquisa. para fuçar e fustigar coisas que não temos possibilidade de compreender em menos de um mês de trabalho. — Claro — exclamou Van Rijn. Yamamura focava uma série de instrumentos na direção de determinada jaula. pesaroso: — . ligando e desligando numa pequena fonte de alimentação. uma luz vermelha.. Dos corpos quadrúpedes. 27 . principalmente por causa da aritmética necessária a converter a leitura do medidor em tais informações. Eu amarrei essas coisas para avaliar o valor aproximado da gravidade. sem rosto. — Mesmo para um organizador sindical. e entregava o que ele pedia. e eu vou me juntar a eles assim que conseguir treinar a Cidadã Kofoed nessa tarefa específica. isoladamente? — Estou sim. da temperatura. algum tipo de mão deve ter sido necessário! — Ou tentáculos! Com a cabeça. tênue.. do espectro de iluminação. e nem mesmo a maioria deles. As palavras fugiram-lhe. saíam torsos à maneira dos centauros. e dois deles culminavam em três dedos sem articulações ósseas. não temos que testar cubículo por cubículo. andavam de um lado para outro.. Diversas criaturas negras. Portanto. embora provavelmente fortes. e assim por diante. da pressão e composição atmosféricas. — O resto da tripulação está examinando a nave em detalhe. dispostos em grupos de três. mas não sabemos lê-las. senhor. Van Rijn interveio: — Um mês nós não temos. é claro. Lá dentro. Para fazê-la. Por sorte. Ela pode dar conta da rotina enquanto o resto de nós usa nossas capacidades especiais para. Yamamura resmungou. afobadas. Van Rijn apareceu à vista e perguntou: — Mas o que há aqui? O engenheiro-chefe voltou o rosto moreno na direção de Van Rijn. Elas contêm medições. Abaixo das cabeças. É um trabalho lento.los! — Mas antes — emendou Torrance — precisamos encontrá- Próximo ao centro do recinto. viam-se seis braços grossos e fibrosos.. Você está verificando as condições dentro de cada jaula. Yamamura apontou para o compartimento em frente. temos que traçar nossas próprias medidas. Jeri estava ao lado.

a tripulação sangrou todo o ar da nave. O que encontraram.. — Nós temos um gato e um par de papagaios a bordo da Hebe G. de muitas dobras. — Por que não? — observou Van Rijn. provavelmente. — De fato. do tipo hidrogenado. vão abrir a porta da jaula em que estão. — Mas. Antes de entrarmos. encontrei três outros cubículos com condições similares. por exemplo. lançou-o no espaço.B. — Já sei aonde quer chegar. forçar o químiossintetizador a repor o ar. E eles não encontraram nada. Respiram hidrogênio a alta pressão e a gravidade tripla. A Terra e Freia. isso não prova nada. Qual um globo em rotação. — Eu já pensei nisso — retrucou Yamamura. Torrance perguntou: — Eles são os únicos que gostam desse tipo de clima? Yamamura lançou-lhe um olhar penetrante. não é mesmo? Quer dizer. e neles os animais são apenas animais. certamente não vai carregar. a uma temperatura de setenta graus abaixo de zero. Portanto. Enquanto eu montava e testava o equipamento. isso sim. foi a primeira coisa que pedi que meus homens procurassem. ajustável. então.— Desconfio que sejam nossos amigos assustadiços — comentou Yamamura. E nem acho que encontrarão. Se for verdade. animais domésticos. usando.. foi um fole catalítico. apenas um pouquinho. existem muitos planetas com condições bem semelhantes. veja. vamos perder o dobro do tempo com eles. nie? Além disso. Em dado 28 . são planetas oxigenados. e são muito semelhantes. Minha suposição é de que esse fole serve para renovar o ar expelido e agir como químiossintetizador para repor as perdas. Ao menos parece um fole. Van Rijn virou-se para Yamamura. embora precisemos de muitos dias para nos certificarmos.. Capitão. não são não. Se a tripulação de fato esvaziou todo o ar da nave antes de entrarmos. que jamais poderiam ter construído esta nave. por que não vamos verificar os tanques de reserva? Se encontrarmos ar armazenado. se a tripulação está à cata de animais de outros planetas. se sairmos. automaticamente. Não. a bordo. e vão deixar o ar escoar pouco a pouco. Jeri aparteou: — Quer dizer. como carga. Tímida. compostos inorgânicos simples. do tipo que esses embromadores aqui estão respirando. cobras e outros. O ajuste ambiental irá. que esses cavalos-polvos não podem ser a tripulação. Assim que sairmos.

o que indicava gravidade menor que a da Terra. Yamamura estremeceu. melhor chamar de chimpanzé do tamanho de um gorila. 29 . — Ah.. um dia. ou partamos. Torrance concordou: — É possível. terminava num anel de pseudodáctilos.. é bem provável que uma astronave oficial — ou o que quer que possuam — nos detenha. Em frente ao cubículo seguinte.. a nave já conterá ar suficiente. Por que não damos mais uma olhada por aí para selecionarmos as espécies que apresentem possibilidade de inteligência? Pesado. Os olhos com que espiava para fora eram vigilantes e enigmáticos. do tipo de que precisam. se aproxime de nós e nos aborde para verificar o que está acontecendo. Estamos sendo conduzidos numa nave que não sabemos como parar.. Torrance falou.instante. ou então que nos mantenhamos fora do curso até que a nave entre em sua região natal. A pele era verde. Eles devem estar esperando que desistamos. A simples força compensaria. parou. Já tivemos uma dessas lá na Terra. — . levemente escamada. talvez. A tromba. Nessa ocasião. Essa tromba é bem capaz de envergar uma barra de ferro. embora com uma compleição um pouco mais delgada. Van Rijn girou e acompanhou Torrance. Isto é. essas feras aqui devem nos servir. o quadrúpede era do tamanho de um elefante. Torrance respondeu: — Não foi idiotice termos trabalhado até agora. fortes e sensíveis.. e eles poderão aventurar-se a sair e ajustar as coisas com maior precisão. Uma franja de pêlos escorria pelas costas abaixo. e talvez com a mesma facilidade. Van Rijn rosnou. pensativo: — O que poderia conseguir uma raça de um braço só? Talvez o mesmo que nós. Como é mesmo o nome? Quintila? Gorila? Não. parecida com a de um elefante. Resmungou: — Que tipo de inteligência podem ter esses cuspidos? E por que levar avante essa idiotice? Seco. Diante de um compartimento. Torrance fez uma pausa.. como os dedos humanos. Lá dentro. passou por um cubículo de ungulados plumosos. se é que terão que ajustá-las! Talvez as condições terrestres os satisfaçam plenamente. — Isso me faz pensar.

Com dois metros de altura. grossos. Os corpos eram cobertos de uma penugem marrom. Se a tripulação está se escondendo. com coxas humanas. Os animais que conheço. Em cada lado do pescoço. e como o mercador silenciasse.Torrance sentiu o coração vibrar. — E tampouco podemos nos guiar pela atmosfera. em vinte ou trinta por cento. fechados por esfíncteres. A cabeça era relativamente pequena. de um tipo que parecia bastante promissor. Os pés de três dedos eram. têm o cérebro junto aos órgãos sensitivos principais. pode fazer variar em muito as condições normais. — Suposições e suposições! E. Os focinhos eram massudos. que possuem algum tipo de sistema nervoso central. e Torrance percebeu que se dividiam em machos e fêmeas. de pernas curtas e braços longos. dentro de certos limites. e isto restringiria a capacidade craniana. e se tiverem os cérebros na barriga? — sugeriu Van Rijn. quatro animais. de quatro dedos. Epa. ou pela luz. sem se prejudicar. destinados ao caminhar. — Eu só espero que respirem oxigênio. afílava-se até quase formar um ponto. não significa que não sejam inteligentes. Na verdade. 30 . Envolvia-os a conhecida luz branco-amarelada das estrelas do tipo Sol.. Seus neurônios podem ser muito mais eficientes que os nossos. qualquer um deles sozinho conseguiria operar a mesa de controle. senhor. em geral localizados na cabeça. olhos grandes e redondos emergiam das órbitas cavernosas. Os pulsos. — Bem. E a gravidade também. Eram bípedes. acrescentou logo: — Não. Torrance forçou-se a comentar: — Não sei. As trilhas nervosas teriam que ser muito compridas. Por sob as sobrancelhas espessas. Duas seções contíguas abrigavam. Estas mandíbulas imensas devem exigir músculos maxilares à altura. — Valham-me meus bolos confeitádos! — exclamou Van Rijn.. de um lado para outro. e com um raio de alcance de três metros nos braços. e tudo o mais. Andavam sem rumo. que se liguem a uma borda no topo do crânio. algumas pessoas têm mesmo — murmurou Torrance. cada uma. terminavam em mãos proporcionais. — Mas. incluindo um polegar verdadeiro. isto é muito difícil de acreditar. distinguiam-se dois lúmens. Posso assegurar que o fato de estas criaturas terem o cérebro relativamente pequeno. prosseguindo por entre outras formas estranhas. como os pés humanos.

conversam com os nativos e instalam. e apenas isso.Torrance parou. ou sanguessugas superdesenvolvidas. — O que faremos depois de estabelecermos quais as espécies que apresentam possibilidades de ser a tripulação? Tentar nos comunicar com cada uma delas? — Isso seria inútil. mas o espaço é tão grande que jamais se haviam deparado com humanos. E assim sabem qual o aspecto dos humanos. Talvez espionem. tão humanos como. talvez. a Srta. — Com os diabos! Vou explicar porquê. como costuma ocorrer com os animais extraterrestres. Kofoed verificar o ambiente deles também — disse Torrance. Muito bem. Quatro pernas atarracadas projetavam-se sob o ventre: caminhavam desajeitados. por que iriam se esconder se já tivessem tido contato com os bandidos da Patrulha? Não iria adiantar nada. Não havia nada de especial neles. de longe. — Um momento! Afinal. tatus! — Creio que não há mal nenhum em deixar Jer.. os olhos de um polvo. ou capturem uma nave solitária desses piratas. bem. de certo modo. Eles estão se escondendo porque não querem se comunicar. surge a nação da Patrulha-Cobra. A menos que possamos provar a eles que não pertencemos à Patrulha-Cobra. — Perda de tempo! — O que será que comem? Não vejo boca nenhuma. ou algo semelhante a um dos meus concorrentes. então. Um instante depois. Os Eksers tomam conhecimento de que uma espécie sinistra acaba de adentrar o espaço. Mas. exceto os dois olhos que fitavam fixos por baixo dos capacetes: tão grandes e. apoiados em pés providos de garras.. neste setor até então inatingido por seres humanos. — Aqueles tentáculos parecem capilares de sucção. E mais um par de tentáculos curtos terminando num tufo de cílios. difícil prever. E pousam nos planetas primitivos saqueados pela Patrulha-Cobra. os acampamentos da Patrulha.. e não querem que os humanos sai31 . e mais ou menos da mesma forma. E. percebeu o que havia de tão estranho naquelas tantas formas iluminadas pelo brilho alaranjado. agora. Os Eksers estão viajando pelo espaço já há algum tempo. Chamemos de Eksers a esta raça desconhecida. câmaras automáticas nos locais onde julguem que novas invasões ocorrerão. Vamos escolher um nome para eles. . — No máximo... — Tartarugas! — bufou Van Rijn. Possuíam carapaças quitinosas. Venha. Aposto que são parasitas. pouco maiores que capacetes militares.

embora mais robustos. Mas uma vibração mais profunda a atravessava. que conduzia a nave dentro da escuridão. as cabeças desses seres. e os ancestrais simiescos do Homo sapiens tinham mãos tão boas como as nossas hoje em dia. o zumbido quase subliminar do hipermotor. os passos. pensou Torrance. pelo menos. Não querem confusão. eram silenciosos. A investigação produziu uma nova possibilidade. — Então é melhor parar de lançar esses olhares derretidos para Jeri Kofoed. Quatro organismos. A passagem consistia de um grande hemicilindro. ressonância. Van Rijn brandiu os punhos no ar e berrou: — E nosso dever é evitar que isto aconteça! Ríspido. revestido com o mesmo plástico borrachoso e cinzento das jaulas. na Terra. e as palavras. semelhante ao dos centauróides tentaculares. Eu a vi primeiro. Promissor de quê?. um dia vamos acordar com alguns planetas sendo atacados pelos Eksers. do tamanho de um homem. de rostos achatados e arredondados. estranhamente. e com a compleição de lagartos de pernas grossas. e evitam contato.bam a respeito deles. portanto. quando pronunciadas. ao corredor central. salpicados de prata. Eu tenho esposa e filhos. os olhos grandes e claros por trás de antenas emplumadas. Isso não queria dizer que mãos adequadas constituíssem prova de inteligência superior. de função obscura. As mãos careciam de polegares. Não antes. e antes que a batalha termine. Os corpos eram azuis-escuros. rumo à sala das máquinas dos Eksers. rumo a uma 32 . Entretanto. já teremos desperdiçado bilhões de créditos. Pelo inferno escaldante! Nós temos que deixar patente a nossa boa fé para com essa tripulação. as pequenas mandíbulas e os lábios delicados. os símios e certo número de répteis e anfíbios possuem mãos eficientes. O torso. apressado. para que ela nos leve a Freia e diga a seus líderes que os seres humanos não são todos tão maus como os salteadores da Patrulha! Caso contrário. viviam sob uma luz esverdeada. apresentava dois braços verdadeiros. Como um touro ferido. ainda que as do Homem sejam mais aptas. Três dias terrenos depois. Torrance desceria. Torrance retrucou: — Eu diria que nosso primeiro dever é chegarmos em casa vivos. não produziam. de estar preparados para a guerra. tudo parecia promissor. mas os seis dedos dispostos em três quartos de círculo seriam capazes de realizar as mesmas coisas.

Tão desmantelado estava. “Por Deus. era possível perceber. E um outro talvez houvesse sido utilizado para estudos científicos. Nas prateleiras. os alienígenas preferiram não optar pela solução mais fácil. todos destruídos. na sala de máquinas. à espera de que os monstros partissem — sem destruir a nave por mera malevolência — ou de que uma nave de combate. e assim. de impressão primorosa. Entretanto. Capturados por seres que. nas paredes. a nudez de certas cabines. embora todas as instalações tivessem sido arrancadas. em folhas e microfilmes. Nichos compridos. não fosse a possibilidade de esta nave ser um parque zoológico. Claro. que bem poderia ter sido o compartimento-salão. que os locais onde se penduravam quadros estavam danificados. Nas grandes cabines particulares. a explosão atômica que viria aniquilar as duas tripulações. antes habitadas. no entanto. Recintos sem portas escancaravam-se para o corredor. os talheres ou coisas do gênero. e na maior delas.estrela desconhecida. Não tinham meios de saber que seus captores não eram da Patrulha-Cobra. temos mesmo que admirá-los. os ornamentos. eram uma reafirmação de que ali ainda se vivia. os lugares vazios faziam adivinhar que os volumes ilustrados haviam sido sacrificados. à vista de todos. via tiras de sombras. e nem tampouco 33 . e cochichós. de sua própria gente. Restavam livros. e por mais peculiares que fossem as formas das ferramentas e das embalagens. os utensílios culinários.” pensou Torrance. só tinham sido deixadas as estacas onde se aparafusavam os móveis. Mas como saber onde teria sido o dormitório quando todo revestimento fora atirado numa caldeira branca. As luminárias instaladas pelos humanos estavam distantes umas das outras. de tão quente? Se é que havia dormitório! As roupas. havia vestígios pessoais. baixos. de que ainda não se era uma alma a bordo do FantasmaVoador. Em canto algum. na oficina e na ponte. ainda repletos de suprimento. que seria impossível a qualquer humano afirmá-lo. e anunciava sua presença a qualquer caçador que vagasse num raio de um ano-luz dali. viesse socorrê-los. quem passasse por ali. podem bem considerar monstros sem consciência. com a simbologia do planeta alienígena. Um dos recintos talvez tivesse sido um lavatório. Mas mantiveram a esperança de sobreviver. com toda razão. fez arrepiar a pele de Torrance. e agarraram-na com uma ousadia imaginativa só ao alcance de poucos humanos. haviam sido construídos na antepara da cabine. Talvez a tivessem adotado. presumivelmente de animais capturados. Alguns. E agora ali permaneciam.

eram um mistério. 34 . os princípios com que isto era feito eram conhecidos de Torrance. É mais provável que eles o enganem. do modo de operar a nave. o encarregado das comunicações. em declive. As máquinas. O rosto de Yamamura parecia conturbado. Torrance sabia. No momento em que Torrance se aproximou. os alienígenas agiam com lógica absoluta. A primeira porta. Se conseguirmos mais uns três ou quatro dias de cortesia. o engenheiro conversava com Betancourt. Toda a tripulação da Hebe G. Outras coisas. “Se não esclarecermos logo este mal-entendido. Lá dentro. e rampas curvas. Mas. “Meus motivos são mais pessoais.de saber se o setor não estaria. numa tentativa frenética de flanquear os Eksers através do aprendizado autodidático. montando uma peça de equipamento eletrônico. eram enigmas acondicionados em metal e em símbolos desconhecidos. entrou na oficina. os bandidos ousavam.” pensou. conduzir à sala de máquinas. muitas. e travar amizade com eles. pululando com esquadrilhas da patrulha. porém. Os Eksers dariam ótimos amigos para a Terra — ou para Ramanujan. Freia ou toda a Liga para Ciência do Sol Polar. como eu gostaria que isso acontecesse!”. Torrance abriu a outra porta. um conversor nuclear alimentava o sistema elétrico da nave. os cones gravíticos e a hiperpropulsão. estaremos com sorte. Betancourt dizia: — Consegui identificar a disposição elétrica básica. embora distorcido diante de seus olhos: um torno. abriam-se para os dois lados. pensou Torrance. uma prensa de brocar. e suas mãos tremiam. encontravam-se próximos.” A passagem desembocava num vão. Conseguia identificar boa parte do equipamento. para fazê-lo. Estivera todo esse tempo à base de estimulantes que o mantinham acordado. nem eles nem nós sobreviveremos. embora raras vezes. E tem que ser logo. com um sorriso irônico. Ah.B. encontrava-se sob a direção de Yamamura. presos em painéis de papelão. só com nervos de aço! “Eu gostaria de poder identificá-los. Yamamura ali estava sentado à bancada improvisada. Dentro dos limites da informação disponível. enviesado: “Aposto que eles não são tão fáceis de enganar como pensa o Velho Nick. em breve. Diversos outros aparelhos. senhor.” E. aventurar-se a esta proximidade de Valhala. um osciloscópio e um aparelho de cristal para provas. invadido novamente pelo desânimo. culminavam em duas portas automáticas.

como conseguiremos consertá-las? Portanto. Quando há necessidade de corrente contínua. serviria para justificar a ingenuidade do cambiador de calor e do sistema de retificação. devido à quantidade de energia que as atravessa. Para mim. por si só. festina lente. como nós fazemos. Mas pode ser que os Eksers sejam melhores engenheiros que nós. Cidadão Betancourt.. Em vez disso. mas estão tão aquecidas. que seria difícil olhá-las de perto. Yamamura confirmou com a cabeça: — Os Eksers saberiam que uma nave como a nossa. de propagar diretamente a corrente elétrica. quem sabe. a corrente alternada atravessa uma série de placas retificadoras e. Se não as manusearmos com cuidado.. Yamamura suspirou: — Ou.. — Por medo de destruir a nave? — perguntou o Capitão. ao ver Torrance: — Bem. que apresenta a vantagem. É possível que eles tenham aperfeiçoado um tipo de usina elétrica que utilize elementos moderadamente pesados. há muito tempo. apenas diferente. não conseguiria gerar um campo de hiperforça capaz de rebocar-lhes a nave para o planeta de onde vieram. é. onde geram a corrente alternada para a nave. Mas. com pequenas frações positivas de alimentação.Eles não acionam o conversor diretamente. atrás de uma tela de segurança. sacudindo a cabeça. usam um cambiador de calor para movimentar um gerador imenso.. aquilo que o senhor pensou que fosse um dínamo do tipo induzido. — Nós não sabemos droga nenhuma! E. E assim resolveram assegurar-se de que sua tripulação não seria aprisionada para realizar o trabalho para nós. procedemos 35 . pelo que pude ver. prossiga. e aí. pequena. não sabemos. estas coisas poderão destruir-se como um brinquedinho de criança. Este tipo de sistema apresentaria a vantagem de menor necessidade de refinamento de combustível — o que seria uma vantagem real para uma nave que se encontra aos tropeções em meio a planetas inexplorados. Estão descobertas. Nós usamos um conversor à base de fusão de elementos leves. Lembro-me de que isto já foi tentado na Terra. tudo isso parece meio primitivo. na verdade. Isto é tão evidente quanto o fato de não terem desenvolvido nossos métodos de redução. e que foi considerado impraticável. dentre outras. Yamamura soldava os fios e fitava-os. E lembre-se. E isto. tenho certeza de que são de óxido de cobre.

tirando fotografias. talvez. Na verdade.com a mais absoluta cautela. venha ou não a provar alguma coisa. fazendo sinais.. — Bem. Os gorilóides.. Aqueles bípedes peludos. no mínimo. suponho. uma careta de macaco. são muito improváveis. Todos os animais nos lançaram um olhar interessado. Segundo os testes. devemos começar com eles. Mas você espera que os Eksers dêem qualquer sinal que os identifique? Jeri Kofoede e eu andamos desfilando diante de todas as espécies. por ordem de similitude. Os centau36 . O próximo. Assim. sei disso. ele próprio. vêm de um planeta de alta gravidade. a pressão do ar nos deixaria imediatamente narcotizados. é claro. Ha! Ha! Bem. como já disse. tudo parece em ordem. os bichos de capacete e os lagartos-suínos. senhor. — E é uma boa maneira de manter a tripulação ocupada. são os lagartos-suínos e os centauros tentaculares. e o elefantóide também não é nada convincente. Não tivemos sorte. Mas os lagartos-suínos. é muito bom. as condições em que vivem são tão semelhantes às nossas que podemos entrar nas aulas com facilidade. eu já consegui montar quase todo o aparato básico. os centauros tentaculares. além de respirarem oxigênio. tudo o que conseguimos imaginar. de dois metros de altura. gostaria que o senhor me dissesse que animal o senhor prefere investigar primeiro. Os gorilóides possuem o tamanho ideal. Foi assim que Jeri e eu os chamamos. os macacos-tigres e os bichos de capacete. Mas isso seria ampliar demais as coisas. principalmente se a criatura respirar hidrogênio. embora respirem oxigênio. — Oxigênio. pela frente das jaulas. podemos chamá-los os macacos-tigres. com tanta cautela que não temos a menor esperança de desvendar os controles antes que a PatrulhaCobra nos descubra. e mãos de aspecto mais eficiente.. — O que. o elefantóide. o engenheiro explicou: — Terei que adaptar o equipamento para a criatura em questão. por sinal. na tentativa de transmitir a mensagem de que não somos da Patrulha-Cobra.. — Mas que animais foram esses? Eu estou tão ocupado que. com exceção dos gorilóides. Yamamura fez. com cara de macaco. Agora. Torrance balançou a cabeça. — Esses brutamontes terão tanta força assim? Chegaram a mostrar algum sinal de inteligência? — Não. e que o artigo genuíno está em nosso encalço. Diante da hesitação de Torrance. o que.

correlacionado com a anatomia bruta permite identificar. Dá para pensar que ele nem ligaria se nos visse explodir nos céus! 37 . no mínimo. E. Em termos lógicos. Afinal. não. que muito bem poderia estar aqui ajudando você. Uma espécie de oftalmoscópio. Torrance deitou uma citação: — “Tudo o que podemos fazer é tentar”. os sistemas simpáticos e parassimpáticos. caso o animal pense. — Yamamura encolheu os ombros. não tem não. mais ou menos independente dos outros centros nervosos. Com uma voz impaciente. é mantido a bordo da nave apenas para preparar-lhe as malditas refeições gastronômicas. pensando? Já faz muito tempo que não o vejo.ros tentaculares respiram hidrogênio. Agora. nem morais. Detecta os fluxos sinápticos e joga a imagem tridimensional numa caixa de cristal de corte Y. a grosso modo. tão bons quanto os nossos. é provável que os olhos dos Eksers sejam. talvez. espero. — Quais são exatamente seus planos? Estou tão ocupado com a minha parte do trabalho que não consegui saber nada a respeito da sua. Isto é. mesmo depois disso. por exemplo. que. o grau de atividade do cérebro. ou seus equivalentes. Disse-nos que nossa tentativa de comunicação seria fútil a menos que conseguíssemos provar aos Eksers que sabíamos quem eles eram. para podermos observar o funcionamento de todo o sistema nervoso como um conjunto de traços luminosos. E mais importante ainda. Nos dois casos. não sei. — Ele não tem ajudado a mim e a Jeri também. os instrumentos da nave usam códigos de cor e símbolos de primorosa impressão. segundo ele. Mas tenho certeza de que vai nos deixar intrigados. — Não. — Adaptei algumas peças com o estojo médico. com aquela caixa de brandy e a caixa de charutos. Mas. — Talvez ele tenha razão. — Ora. E isso aqui é um traçador de impulsos nervosos. a única comunicação inicial deveria estabelecer-se através de gestos feitos com uma pistola. em termos psicológicos. na suíte. O cozinheiro. Ele fica lá. teremos que trabalhar com o escafandro espacial. Yamamura observou: — E o velho Nick? Continua sentado. muito obrigado! Torrance olhou a bancada. E o cérebro. e principalmente num tipo diverso de atmosfera. — Comigo funciona. os gorilas já vão nos dar enorme trabalho. se vai funcionar num não-humano. Portanto.

para os quatro bípedes. depois de todo esse tempo a um quarto de G. Mas Torrance não estava acostumado a sentir-se pequeno e frágil. Torrance levou a mão à pistola de estontear. Cidadão Yamamura. no limiar da morte. ali. mas. Agora. e anunciou em voz baixa: — Vou tentar separar esse dos demais. Mas o hábito é coisa muito forte. Um macho rosnou. Olhos quase ocultos por sobrancelhas espessas o fitavam. Torrance recuou até o canto. Era esperença de Torrance. Embora as diferenças de pressão não merecessem preocupação. com os lança-raios apontados. peguem-no. — Muito bem. do fundo do tórax e deu um passo à frente. Ele as atravessou e entrou na jaula dos gorilóides. — Eeee . permaneceu de pé. esqueça o que eu disse. e amargurou: — Desculpe-me. A cabeça pontuda projetou-se. e se esses que ali estavam. Não era preciso dizer que as ondas ultra-sônicas são capazes de causar ao sistema nervoso de um não-humano. mais ainda: que. Os corpos marrons. pareciam não fazer muito sentido. repleto de gases malcheirosos. ser comandante. embora ele. agigantaram-se. que não tivessem que atirar. Torrance cambaleou. foi como uma pancada.. absurdamente altos. ele próprio pudesse escapar vivo. de fato. fervorosa. Apoiou-se de costas contra a parede. 38 . Por favor. até o topo das cabeças grosseiras. O motor da câmara de descompressão zuniu. Então. grosso. e engoliu um ar quente.Torrance lembrou-se do juramento de fidelidade. Fez um gesto para os quatro tripulantes às suas costas. Engoliu. abriu as portas. da posição oficial que ocupava. Torrance girou a roda de controle externa. fossem na verdade a tripulação. rapazes! E umedeceu os lábios. lanudos. vamos testar os gorilóides.. muito altos. Quando estiver pronto. entrar num campo com dez por cento a menos que a Terra. inomináveis. quase caiu. É muito bom ser capitão. não desejasse dispará-la. se tivessem que fazê-lo. num momento como esse. Jeri. na passagem. Aquela coronha nodosa era. E. e tudo o mais. as mandíbulas escancararam-se e exibiram dentes brancos. juntamente com seis homens. e olhou. os esfíncteres no pescoço abriram-se e fecharam-se como embocaduras de sucção. feri-los seria a pior coisa a acontecer. O coração disparou. também. do outro lado. a gente é obrigado a devolver todos os privilégios especiais. reconfortante.

penetraram-no. varado de dor. em que os quatro homens tentavam amarrar. robusto. aquele monstro que urrava. apontou-a. viu as outras três criaturas. ridícula. saberiam que era uma arma. de repente. O gorilóide fez uma pausa. Uma fêmea soltou um pio agudo. na direção da câmara de ar. que bem poderia arrancar-lhe a cabeça. o gorilóide foi arrastado até a entrada. e passou um laço naquele torso colossal. Um outro macho avançou. trêmulo. estendeu a duas mãos. Dela. Espremidas no canto oposto. Mesmo sendo. O peso fez estremecer o cubículo. Depois. o homem de Altai amarrou uma das patas. o macho pareceu extrair resolução. O Capitão sacou a pistola. Torrance atravessou a câ39 . Apertou com um nó corrediço. Para além da refrega.. Capitão. os outros três estenderam uma rede confeccionada para esse fim. uivavam num tom baixo. O ulular dos animais e a gritaria humana envolveram-no. na rede. Torrance fincou pé. — Já terminamos. agora vermelhos de fúria. Atrás dele. o gorilóide desmoronou. não fossem a pele preta. quase humano e. e berrou: — Amigo. se debatia. Com habilidade. aquelas mãos. com toda clareza.. Imobilizado pelas cordas de fibra fortes como aço. E ele percebeu. tão parecidas com as suas. Torrance pôs-se novamente de pé.Um ajudante espacial.. foscos. de olhos puxados. apoiou-se nas mãos. O compartimento parecia o interior de um tambor. Atabalhoado. A voz de Torrance saiu embargada: — Tragam-no para fora. Acenou para os demais com um gesto estranho.. mais uma vez. O gorilóide rosnou e tentou agarrá-lo. um nômade de Altai.. Aos tropeços. . passo a passo. aqueles olhos pequenos.. O gorilóide investiu. desenrolou um laço. talvez atacassem. antes que os outros ataquem! E apontou a pistola. A pata rasgou-lhe o blusão e deixou-lhe no peito um fio de sangue. aproximou-se de Torrance. Torrance caiu de joelhos. Laçado nos tornozelos. os quatro dedos. O laço do altaiano. girou... Torrance não foi suficientemente rápido. sorrateiramente. A rede entrou em posição. e o tamanho enorme . Se fossem inteligentes. cortou o ar. — Peguem-no! Cuidado com as patas! Aqui. Torrance deu um salto para trás. recolocou-a no coldre. A esperança de que toda aquela encenação ruísse por terra tornou-se. A ferida latejava. aquela focinheira cheia de dentes.

embutida. Foram para o salão. Jeri debruçou-se sobre ele. estremeceu. com uma blusa manchada de tabaco e o habitual sarão. Van Rijn estava lá. a enfermaria. E então. Torrance levantou-se.mara de descompressão. os homens de Yamamura mantinham a presa trancafiada numa armação de aço. sentado à mesa de mogno. Colocá-lo de volta no cubículo. Quase nada foi dito enquanto Jeri retirava o blusáo de Torrance. na outra. viu um gorilóide fêmea rasgar. Numa das mãos. Um pouco mais adiante. Torrance fechou a câmara. e disse. Pela parede transparente. não foi nada. Depois. e estremeceu. o brutamontes gania e tentava morder o engenheiro. Van Rijn ergueu os olhos. e fazia os curativos. que se aproximava com o equipamento. Torrance sugeriu um aperitivo. a ferida que ardia demais. no corredor. Pode infeccionar. E tomou-o pelo braço. Suspirou: — Bem. olhou em volta com um quê de espantado. limpava. O gorilóide o seguiu. e apontou a pistola. Para surpresa dos dois. O gorilóide parou. Papéis jogados espalhavam-se ao redor. Jeri apanhou um cigarro no bolso do cinto. em tiras. Dirigiram-se ao vão da entrada. ofegante: — Você está bem? Oh! Você está ferido! — Ora. com a rispidez que Torrance tanto admirava: — Só um hematoma. sentou-se. vamos descansar um pouco. Vamos. e para desprazer de Torrance. Me dê um cigarro. — Até que enfim! O que houve? — Estão testando um gorilóide. Torrance concordou com a cabeça. de qualquer modo. seria provavelmente tão difícil quanto o fora retirá-lo. e recuou. depois. Torrance firmou-se no corredor. furiosa. com desinfetante universal. Mas é melhor irmos verificar. um charuto. nada mais a fazer até que Yamamura nos dê seu veredicto. Como o comissário 40 . mas permaneceu sentado. atravessaram o tubo e alcançaram a Hebe G. Torrance deixou-se cair numa poltrona. e um arranhão profundo. Ileso mas inerme.B. um pedaço de alguma coisa. uma garrafa. até terminar o cigarro. E percebeu que perdera o turbante no momento em que fora derrubado. e esterilizar. Jeri foi firme: — Primeiro.

Eu disse a todos que fizessem anotações completas sobre tudo o que observarem. ao mesmo tempo. com olhos de hadoque? Não vamos transformar a coisa numa história de terror. Van Rijn tirou uma baforada do charuto. as outras possibilidades. Por que você ao menos não foi dar uma espiada. talvez esteja a pista que possamos utilizar. devagar e longamente. O olhar de Torrance a acompanhou. Torrance esfregou os olhos. desafiador. qualquer não-humano ficaria também muito intrigado com o nosso instrumental.. na verdade. Relaxada a tensão. Nick? O mercador escarneceu: — Que utilidade teria? Ficar olhando. essa não é minha função. uma mesma raça usar. começava a sentir-se terrivelmente cansado. Boa parte do que encontramos parece ter sido projetada para mãos grandes..de bordo fora recrutado para a equipe de captura. por exemplo. bem merecia ser acompanhada. Os gorilóides são uma possibilidade. aqui. e não junto a Van Rijn. o mercador falou com delicadeza: — Eu gostaria que você me relacionasse. não tenho diplomas requintados. é natural. aprendi na escola dos que dão duro. Eu também já pensei em algumas. para caçar macacos tamanho-família. Torrance expirou. Contudo. Algumas ferramentas. Jeri foi buscar os aperitivos. contraíram-se. E. Os olhos de Van Rijn. Sua voz deixou um rastro flutuante. agora. — O Capitão Torrance quase morreu na operação. de azeviche. Bem. e a transformar o que fazem em coisas lucrativas. são tão pequenas. e a única maneira que vejo para eliminá-los é através das verificações de Yamamura. muito gordo. como turista. E o que aprendi foi a mandar outros fazer as coisas para mim. e os motivos que você tem para considerá-las. E nem sou tão técnico a ponto de poder ajudar Yamamura a girar botões. Faria sentido. — Os gorilóides não são tão plausíveis assim. Jeri sentou-se junto a ele. complacente: — Além disso. Em algum lugar. marretas e pontas-secas? Jeri trouxe duas doses fortes de uísque com soda. Naquela blusa apertada. porém. mas minhas idéias 41 . Perguntou: — Que é que o senhor está examinando? — Os relatórios dos engenheiros sobre a nave Ekser. de universidades. Eu já estou muito velho. Isto se os gorilóides não forem os Eksers. Não sou nenhum especialista. nestas notas. naquela saia à altura do joelho.

Todos os outros respiram oxigênio. Creio que o mundo em que vivem. um campo de evolução semelhante ao da Terra. algo que tenha ocorrido a você possa iluminá-las. Torrance sorveu um gole demorado e continuou: — Quanto ao resto. A temperatura é muito alta: cinqüenta graus. Assim como os gorilóides. talvez. com muitas pernas. que parecem tartarugas corcundas.não estão ainda muito claras e. são todos possibilidades remotas. O sol tênue e a temperatura baixa talvez possibilitem a retenção de hidrogênio em seu planeta natal. Os bichos de capacete. no cubículo em que estão. — São aquelas coisas. deixando. desejaria que fossem os mais prováveis. são grandes demais para dirigirem esta nave com facilidade. É aquela figura enorme. não muito maiores que sua cabeça. e. os centauros tentaculares parecem bastante prováveis. Eles vivem em luz vermelha. Deve ser grande. e isto revela que a gravidade. o planeta de onde vêm possui oxigênio e nitrogênio — e não hidrogênio . O ar que respira é muito rarefeito para nós. já não deve ser mais um mar de rosas. umas oito ou nove. porém com exceção dos gorilóides. embora de massa quase jupiteriana. Arrastam-se. esteja tão próximo ao sol que todo o hidrogênio já se tenha evaporado. — Bem. de cor azul-prateada. torsos com cabeças recobertas por placas ósseas. Mesmo assim. O elefantóide vem de um planeta cuja gravidade é apenas metade da nossa. e numa gravidade superior à metade da gravidade da Terra. — Você se lembra deles — interveio Jeri. o ajuste do fluido corporal poderá desordenar-se. e tentáculos cheios de dedos. embora ele já tivesse quase esgotado o assunto em conversas com Jeri e Yamamura. Os que eu chamo de lagartos-suínos — aqueles compridos. por esse motivo. Torrance assentiu com a cabeça. com mãos peculiares e rostos de aspecto particularmente inteligente provêm de um mundo excêntrico. nitidamente. Se estiverem acostumados a um peso muito menor. todos vivem em condições bastante terrestróides. estão a uma pressão de 3 G. Na verdade. Melhor mesmo seria conversar sobre seu trabalho. Na jaula. de um lado para o ou42 .. com uma tromba que termina em dedos. também não foi adulterada. pois é exatamente isso que respiram. O senhor já os conhece.a uma pressão de doze atmosferas terrestres.. que a esta altura dos acontecimentos. — Que bichos são esses? — interrompeu Van Rijn. E o senhor já lhes conhece o aspecto: corpos do tipo rinoceronte. hidrogênio e argônio.

.. e se não estão escondendo as mãos debaixo daquelas carapaças. Bem. nie? E. creio. expeliu fumaça. — Quanto tempo vai demorar para agarrá-los e verificar cada um deles? Horas. E os outros? — Há os macacos-tigres — respondeu Torrance. — Rajados como gatos. de vez em quando. na verdade. nos entretempos. Após demorado gargarejo. balançaram os copos e a garrafa. E possuem mãos — malconformadas. arrotou.. aquele caldo grosso que as máquinas jogam na canaleta. talvez os. que estão sempre acenando. quem será o próximo? — É melhor que sejam os lagartos-suínos — respondeu Jeri — apesar da pressão do ar. pois parecem possuir olhos bem desenvolvidos para ser simples parasitas. quem são os Eksers. os centauros tentaculares. mas. em seu ambiente de origem. — E se não conseguirmos nada com os gorilóides. outras tantas horas para ajustar o aparelho e eliminar todas as falhas surgidas nas novas condições. Yamamura vai ter um colapso. — E é só isso. Passam quase o tempo todo de quatro. E que outra pessoa vai fazer o trabalho dele? Enquanto isso. antes de cortá-los da lista. terminam em filamentos. não? Van Rijn ergueu a garrafa. É melhor certificar-se se esses bichos de capacete são. 43 . levou-a aos lábios. parasitas. E embora não apresentem nada que se pareça com mãos eficientes — os tentáculos seriam capazes de executar apenas coisas muito simples — resolvemos dedicar um certo tempo a eles. Quatro mãos sem polegares valem tanto quanto duas mãos com polegares? Não sei. a única coisa que nos vai ajudar será a lógica.. por onde comem os alimentos.observou Van Rijn. sem polegares. pelo nariz majestoso. caramba. E depois. são carnívoros. pousou-a. levantam-se e caminham com as patas traseiras. — Tentativas! Tentativas! — O punho de Van Rijn golpeou a mesa. Depois. esses bandidos fedorentos da Patrulha-Cobra estão se aproximando! Nós não temos tempo para esse método! Se os gorilóides não vingarem. têm os pés cheios de garras. — Possuem meios de vida mais eficazes.tro. E os tentáculos. dos fatos que temos. Temos que deduzir. Estou muito cansado para pensar. de compleição algo semelhante à de um urso. com garras retrácteis — em todos os membros.. e. . — Parasitas não desenvolvem inteligência . Ele tem que ir dormir.

insensível.roxo. em todo esse Universo. brilhando vivamente contra o azul do Monte Gandhi). era ele próprio. Eram insensíveis à cor e incapazes de focar os instrumentos da nave. Não era como a outra. pois estavam situadas na direção da Terra. voce sempre tem o coitado do velho Nicholas van Rijn para acumular trabalho e ficar com toda a preocupação nas costas. aproveite o dia. cante. em espiral. pois conhecia o lugar. uma nebulosa brilhava. Embora Torrance não estivesse familiarizado com as constelações locais. Valha-me São Dismas! Por que o senhor não faz ao menos uma pessoa. Nos planetas em que estivera. onde torres douradas emergem. a ambarina Spica.. mesmo em seu próprio planeta. Jamais o vira assim antes. o olhar treinado identificou Perseu. Touro. Van Rijn ficou — Está bem — bufou. Eu vou dormir um pouco. (E de Ramanujan. o céu fervilhava de fagulhinhas congeladas. dance. Auriga. O espaço estava maravilhoso. A Via-láctea era uma fria faixa prateada. numa explosão de violência tão rápida que mal seria sentida. por entre as brumas. . cujo painel de controle. do que agonizar em suas masmorras. Conhecia cada interruptor. contra a escuridão sem nuvens e sem fim. de certo modo. necessitava de um gigante e de um anão. e que estava prestes a terminar. 44 . O Capitão permaneceu na ponte da nave. Os cérebros eram pequenos.. a mão acariciou as formas dos controles. tênue e verde. Folgue. Os gorilóides não eram os Eksers. Torrance amassou o cigarro. para o primeiro banho de sol. se divirta. — Pois vá em frente. Torrance esvaziou o copo. pensava menos do que nesta viagem que agora fazia entre eles. além. No plano geral. — Seja como os outros. tão bem quanto os próprios dedos. quando chegassem os homens da Patrulha-Cobra. Esta nave era sua e. E sua inteligência não devia ser superior à de um cachorro. no limiar misterioso da visibilidade. estrelas-guia pelas quais navegara em toda a sua vida de trabalho. sem muita distorção. cada botão. tão estimadas. Claro. quase toda a massa era dedicada a funções meramente animais. Pois ela terminaria. Ao retornar. que faça alguma coisa útil. Procurava acostumar-se ao fato de ser um condenado. Torrance foi acordado por Yamamura. e uma outra galáxia girava. Melhor sair disto limpo. Umas poucas estrelas isoladas também podiam ser identificadas: a rubicunda Betelgeuse.

— Temos que esperar. E agora ardia. — Ora. cujo. Jeri fez uma careta e voltou as costas para a estrela. não teremos tempo para testar uma terceira espécie. Quando viu que era Jeri. Se demoramos dois dias para seguirmos para Valhala. E eu não acho que possamos dispor de tanto tempo assim. Não essa preocupação odiosa. o coração disparou dentro do peito. fútil.cujo botão de emergência cairia com um simples toque caso não estivesse no gancho apropriado. — Yamamura está reajustando o aparelho dos testes. relaxou os músculos. tão esgotado se sentia. e mal consegue fazer o trabalho. Um passo leve fê-lo virar-se. Jeri contemplou o visor. Teremos que fazê-lo com nossas roupas espaciais. e começou outra. Por que não admitimos que 45 . refletia naqueles cabelos louros e no azul daqueles olhos. — disse. funesta. aposto que seremos detectados e interceptados antes de chegarmos lá. E ele não diz nada. só fala para si mesmo. na própria jaula deles. Mesmo que os lagartos-suínos sejam os Eksers. numa voz sumida. Até já acabou aquela garrafa. ainda. — Não há ninguém aqui que saiba o suficiente para ajudá-lo. a um ano-luz de distância. E o velho Nick fica lá. Não é não. até verificarmos o lagarto-suíno. na direção da curvatura da vigia. mas a pulsação continuou rápida. crescera visivelmente. caso os lagartos-suínos sejam meros animais.. E. no sangue. Não pude suportar. Mas Jeri evitou o olhar de Torrance. ou qualquer coisa assim. — Não. — O que a traz aqui? O tom veio mais suave do que Torrance pretendera. que nos deixa como ratos encurralados. em malaio. ou esta a eles. Jeri aproximou-se. e ele já está tão exausto que não pára de tremer. desde que haviam capturado a nave alienígena. Espero que não nos ataquem. fumando e bebendo. dadas as condições.. A luz do teto. Eu não conseguia mais respirar. por que nos incomodarmos? — É a única coisa que temos a fazer. uma estrela vermelha. Durante todo o tempo. Devagar. Jeri desabafou: — Para que nos incomodarmos com isso? Eu conheço a situação tão bem quanto você. vamos precisar de uns dois dias para prová-lo. com os lábios não muito firmes. o mesmo que você. Então. sentado naquela suíte. De modo irracional. Já fizemos tudo o que podíamos. de tanta fumaça.

a arma enfiada no cinto.. por vocês. — . Berrou: — O que é isso? — Oh . ou qualquer coisa assim. O coração de Torrance palpitava. sermos humanos de novo? Espantado. deixando-os frente à frente. — E você? O que prefere? Jeri sorriu. bem.. 46 .. isso vai depender do que cada um de nós prefira. — O que é isso? — insistiu o mercador.. e peça perdão. Cerrou os punhos e partiu na direção de Van Rijn. A voz de Torrance veio. contratada com meu dinheiro suado. desconsolada. seu bastardo. Jeri virou-se. e gosto de viver a vida enquanto a tenho nas mãos. enquanto isso. queira colocar os pensamentos em ordem. tocaram aqueles ombros nus. mandou-o ir para a plataforma. Torrance. com o cachimbo na mão. filho de uma cobra caspenta com um bicho de queijo. Torrance beijou-a. Nicholas van Rijn surgiu na soleira da porta.vamos mesmo morrer. que olhava o céu. — Seus piolhentos! Entro aqui. E desvencilhou-se. e viraram-na. — Bem. rouca: — Não mesmo? Jeri cerrou os olhos e inclinou o rosto... ou vou esmagá-lo e vendê-lo como alimento para cães. os lábios entreabertos. Ali permaneceu um instante. os meus ossos. Torrance.. inúteis e. Jeri sentiu-lhe as palmas sedosas das mãos. ficando quase de costas para Torrance. — O que você quer dizer com isso? Os cílios de Jeri tremeram e baixaram. Sou apenas uma pessoa meio superficial. enquanto isso você agarra minha própria secretária. você.. Talvez. Pelas gárgulas e Gõtterdammeraung! Ajoelhese. e o que vejo? O rabo de Satã preso numa armadilha de ratos! Eu fico horas a fio a gastar o meu cérebro. E logo esbravejou com o mordomo.. e aproveitamos o tempo para . Eu não sou uma filósofa. Mas não consigo encontrar alguém para vivê-la comigo. As anteparas pareceram estremecer com o ribombo daquela voz. virou-se para Jeri.. ou as mãos de Torrance. — desculpou-se Jeri. Um segundo depois ela retribuiu. Torrance foi tomado por uma onda de raiva.

não quero que você perca o espetáculo. com a leveza de um furacão. por fim. Por um instante. Eu tinha ido procurá-lo. mas eu gosto de pessoas assim como você. Van Rijn cutucou Torrance e. e. embora menos corpulento. Jarry. perguntou: — Eu ouvi o senhor falar que. Torrance devolveu a esquerda no estômago do mercador e. vamos dar um jeito nele em Freia. menino. e caído ficou.Torrance parou.. Era ligeiramente mais alto do que o mercador. — Eu ainda sou o Capitão desta nave. o Capitão apoiou-se no mercador. e pelo menos trinta anos mais jovem. com nervos de aço. Saia da ponte. E agora. até que o estimulante veio eliminar as dores e a tonteira. para irmos apanhá-los na jaula.. e vou fazer o que bem entender. Coloque na conta de despesa. Calminha. Van Rijn o pôs em pé. Então. antes que eu o bote daqui para fora! Van Rijn perdeu a cor das bochechas. e recuou a mão machucada.. levante-se. — Saia! — repetiu Torrance. vou ter que brigar toda hora. sem interferência de qualquer parasita espalhafatoso. Com uma das mãos. Que tal um traguinho? Vai fazer bem. caiu para trás. o cosmo explodiu. ficou imóvel. menina. encontrou músculos. Por uns bons segundos. Tome. . O rosto de Van Rijn mudou de cor. À volta de Torrance. . do contrário.. como é mesmo o seu nome? Me passe o estimulante. ao cubo! Não é que ele tem a petulância de responder! O punho esquerdo de Van Rijn abriu o compasso e desferiu um soco. brusco. depois de afundar um pouco na gordura. A direita de Van Rijn acertou-o. — Saia! — falou. você só perdeu um dente. sussurrou: — Pelo Diabo! Pelo Diabo e pela Morte. envergado. segredou: — Não vá contar a ninguém . de sua garganta saiu um ruído engasgado. com os lábios inchados. estou pensando em 47 . Isso já o deixa mais animado. Acabaram-se os trabalhos no porão. nie? Agora. Depois. embora a força fosse tanta que quase o desequilibrou. Quando recuperou a consciência. pois. a alguns centímetros de Van Rijn. rapaz. — É. Quando chegarmos em casa. Van Rijn lhe acariciava a cabeça e oferecia brandy que uma lacrimosa Jeri fora buscar. aí. numa voz estrangulada. Torrance bloqueou-o. — Aqui. Torrance subiu. Jelly. Com o polegar grande. eu já sei quem são os Eksers.

podemos nos utilizar dos meios normais para estabelecermos comunicações alimentares.. como prisioneiros.. Algumas horas antes de queimarse o conversor. eu pensei que. Creio que não vai ser preciso. Depois. relaxada que se aprumou. e que queremos ser amigos e vender-lhes. — Você pensou o que eles queriam que você pensasse — sentenciou Van Rijn pomposamente. coisas. debatendo-se. por desenhos. Todo 48 . ainda temos muito trabalho. quando Van Rijn parou diante da câmara de ar. e embora os Eksers tivessem traçado a rota indicada. Não! Pelo terror dos impostos! Alimentares não. Torrance quase explodiu: — Não é possível! Esses aí? Caramba. Ameaçados. E teria dado certo. Aí. Bem. Que tal? Mas venha. passaram pelo corredor. E eles vão nos levar a Valhala. rudimentares. a viagem começaria. com uma postura exausta. Espero não ter que agir com muita severidade com eles. Van Rijn fez um gesto para os tripulantes. pela rampa.B. Atravessaram a pequena nave. ali postados em guarda para evitar que os Eksers tentassem escapar. irão cooperar. trariam da Hebe G. com a própria hiper-propulsão. que iria em seu encalço. alerta. nossas armas servirão como demonstração de força. Primeiro. vamos incutir-lhes a idéia de que nem todos os humanos são dessa perversa Patrulha-Cobra.. de qualquer modo. para fora da jaula. e entraram na outra. Enquanto isso. a entrada que fizeram na nave aprisionada teria que ser fechada. todos os suprimentos e equipamentos. que já descobrimos o segredo.. Primeiro. o tubo.. Torrance teve que dedicar todo o tempo ao próprio trabalho. porém. Van Rijn atravessou a câmara de descompressãoo e com a manopla agarrou um bicho de capacete e levou-o.. quando explicarmos a eles. Queria dizer.transferi-lo desta nave de passeio para comandar uma frota mercante. deveriam ser vigiados sem descanso para que não tentassem alguma façanha suicida. teriam de soltar a nave de passeio. e chegaram ao recinto do zoológico. mas vamos ao que interessa. Bem. Está bem? Então vamos. — O esquema era bom. Vamos entrar e apanhá-los.. Em passadas largas. guiados por aqueles lindos diagramas astronáuticos feitos pelo Capitão Torrance.. se não estivesse aqui Nicholas van Rijn. ela talvez atraísse uma Patrulha-Cobra. Torrance o acompanhou. Os guardas sacaram as armas e juntaram-se a ele. mesmo com a perseguição da Patrulha-Cobra. eu. então. Durante a viagem. Atordoado.

. Para ele. á combinação parecera. Jukh rosnou algo... para girar uma delicada chave de ajuste. ao conduzirem a nave numa rota hiperbólica. O capitão da nave-patrulha declarou que gostaria de subir a bordo. Torrance tirava um cochilo. o mercador tivera apenas um palpite de sorte. Porém. já sabia operar. é claro. as coisas estão desorganizadas. que.momento livre devia ser dedicado à tarefa urgente de conseguir estabelecer com eles uma linguagem comum e simples. De vez em quando. terei muito prazer em recebê-lo. Seria dever de Torrance.. com força.. depois das explicações. de onde extraía alimento da corrente sangüínea. Não tomo banho desde que deixamos a Hebe G. — Junto com. uma nave-patrulha da Liga aproximou-se. Isso ainda não acontecera. o bicho de capacete. a esta altura. Torrance o dissuadiu prontamente: — Quando estivermos em órbita. os humanos teriam de se lançar em hiper-propulsão e esperar poder despistar o inimigo. Cidadão Agilik. No começo. acenou um tentáculo e enfiou-o num orifício de proteção. E desligou o telecomunicador. recebia impulsos sensoriais e emitia os comandos motores nervosos. mas a tensão era considerável. E assim não teve muita chance de conversar a fundo com Van Rijn. a uma velocidade subluz. no mesmo lado em que estava. Se alguma nave inimiga fosse detectada. porém. o Cidadão Jukh-Barklakh — completou. As mãos grandes. dignos de um piloto espacial qualificado.. também. O gorilóide estava muito ocupado para conversas. embora os ancestrais dos bichos de capacete deves49 . observar o radar-detector de vasos inimigos. montado nas costas do gorilóide. acalmar-lhe os receios. Torrance hesitou. supervisionar a tripulação. Até despontar Valhala. não possuía cordas vocais próprias. Assuma. meio vampiresca.B. Uh. Barklakh. no pescoço maciço do gorilóide. e. O outro tentáculo permaneceu agarrado. escarrapachado no lugar que antes marcava o assento do piloto. que brilhava mais que as outras estrelas. Cidadão Laferge. — Bem. Mas deixou ficar como estava. escoltou-os no trajeto rumo a Freia. apertavam placas de controle. O senhor compreende. a Torrance. acho que vou descer e tomar um banho. um disco minúsculo amarelo. Agora.

E assim que os bichos de capacete se acostumaram à idéia de nem todos os humanos eram inimigos. Cortesia profissional.um charuto. evidenciaram uma afeição positiva por eles. Jeri soltou um gritinho agudo e correu para a cabine que. as duas espécies não valiam nada. Coloque o tubo.. — Bem. que teremos que receber a bordo o capitão da nossa escolta. assim que entrarmos na órbita de Freia. que se lhe aninhava no colo. É natural que ele esteja ansioso para conhecer os Ek . Torrance percebeu que o fato de um bicho de capacete usar as garras para montar o gorilóide. acariciou o pêlo de Jukh. vou correr descalço por todos aqueles campos frescos e macios.. Um vozeirão de baixo ribombou: — Entre. Eram simbiontes. Sente-se. juro. — Eu passei para dizer-lhe. — Muito bem. quer dizer. Torrance deu um tapinha na carapaça de Barklakh. Van Rijn sentava-se num caixote vazio de brandy. e a roupa limpa apagaram-lhe as marcas do cansaço. a cabeça de Jeri.. o que acontecerá em breve. eram algo muito especial. Van Rijn recostou-se na parede. montar um cavalo. Assim que se acostumou à idéia. regado a essências. e que não fique muito tempo. Isoladas. muito cordial. Pensou em ir alertar Van Rijn. Quando chegar em Freia. Bateu na porta da cabine que o mercador resolvera tomar como sua. Numa das mãos.sem ter sido parasitas dos ancestrais dos gorilóides. num esteréopico histórico. senhor. Quero aterrissar. ali no canto — trovejou Van Rijn. Torrance entrou num cubículo azul de tanta fumaça. não era mais desagradável que o ato de um homem. e deixou aponte. — Talvez o senhor queira trocar de roupa — insinuou Torrance. sem dúvida — refletiu Torrance — estão pensando que conseguiram novos e excelentes espécimes para vender ao seu zoológico. ocupava. na outra. Veja se encontra uma garrafa no meio da roupa suja. às vezes. companheiro. Só peça a ele que traga a própria garrafa. apanhou o sarão 50 . O banho de esponja. os Togru-Kon-Tanakh. Deixe-o vir a bordo. já não agüento mais o espaço. agora já não o eram mais. enquanto os gorilóides entravam com a força e as mãos. sente-se. Eles. Combinadas. Os bichos de capacete forneciam os olhos e o intelecto. o senhor sabe. Van Rijn franziu o cenho.

pois. Mas a espécie parece reverter à postura quadrúpede. trabalhando duro desde os doze anos de idade. — Agora sente-se. — Compreendo. não. Torrance engoliu em seco. Então. mais bípedes. quem iria socorrê-lo? Torrance concordou com a cabeça. desenvolver cérebro. juntei os pensamentos e resolvi analisar a coisa. vou precisar de ajuda para que minhas palavras sejam tão elegantes como minha lógica. Mas admito que não percebi que a coleta de animais invalidava a hipótese de que a expedição fosse de uma pessoa só. E foi por isso que pensei em eliminar o elefantóide. seria possível a uma só pessoa pilotar esta nave. tudo aconteceu por simples eliminação. não? Van Rijn lançou-lhe um olhar desconcertantemente penetrante. tomou um gole vigoroso e. — O capitão quer conhecer os Eksers. Eu sabia. Van Rijn apanhou a garrafa. intrigado.. Eu não tive a sua boa educação. Pois veja. afinal. Ergueu a garrafa. Só havia um. tamanho. Portanto. apanhar animais selvagens. Os animais não se especializam em tudo ao mesmo tempo. Pois então que conheça os Eksers. eu também não os levei a sério. e tudo o mais. a nuvem de tabaco fazia-lhe arder os olhos. E. também.Pensei que o senhor tivesse adivinhado. estavam na minha alça de mira até que me lem51 . ele era muito grande. Talvez seus ancestrais fossem menores. acrescentou: — Quer dizer. cuidar deles. Nada disso. É impossível. E não vou entretê-los contando como foi que descobri quem eram eles. rapaz. se algo acontecesse de errado. sim senhor. Você compreende. depois que Yamamura descobriu que os gorilóides. me sentei. Isso será exclusividade minha. magnânimo. . — De qualquer modo. numa emergência. E quanto aos macacos-tigres. — Eu também considerei a coisa sob o prisma do espaçonauta.. Me ajude a colocar minha estória em ordem. Nicholas van Rijn jamais adivinha. E quanto aos lagartos-suínos. sozinhos.e cruzou as pernas cabeludas. não poderiam ser o povo que queríamos. Mas não aterrissá-la. e solitário. O elefantóide foi eliminado logo. Sempre fui um velho pobre. Talvez. Eu vou ficar no meu conforto. de uma vez só. — Adivinhado? Você me considera tão pouco assim? Não. dentes carnívoros e garras felinas. para vender ao sindicato de notícias que fizer a melhor oferta. — Lógica? — Torrance ecoou.

Só que não poderiam ter construído a nave. esta nave não foi projetada para respiradores de hidrogênio. algumas pessoas talvez o sejam. então. aquela prateleira em que você se apoiou. mas não quero dizer quem são. cochichós grandes e pequenos. E não têm bons olhos também Mas os bichos de capacete pareciam ter olhos muito bons. esqueceu-se da química dos primeiros anos de faculdade. E como ficaria o retificador? Puf. mas não todas. caramba! Por isso. ergo. pelo que pudemos averiguar. puxou aquele acelerador de emergência. Ou. para exalar a fumaça do charuto na direção da caldeira. por eliminação. Portanto. Com tanta facilidade que o próprio peso o puxaria para baixo e acionaria a três gravidades terrestres. possível de ocorrer com uma forte eletrificação. tão pequenos. o perigo de isto acontecer seria muito grande. Poderiam. os Eksers nos fizeram o favor de usar retificadores de óxido de cobre. fossem os centauros tentaculares. chegamos aos bichos de capacete. acidentalmente. ao mesmo tempo. também: o cérebro humano não é uma tartaruga só porque possui carapaça óssea! E nem um parasita por viver de sangue oriundo de outros lugares! Bem. da Com52 . Eu mergulhei a fundo nos relatórios de bordo.. manusear certas ferramentas. Prosseguiu: — Bem.brei daquela vez em que você. produzem água e cobre puro. nem os parasitas. de qualquer maneira. como o Juan Harleman. no mínimo. a uma temperatura não muito alta. Eles não construiriam prateleiras tão leves num planeta de alta gravidade. Lembro-me que. quem sabe. como aquela chave embutida. vou dar uma renda para o altar de São Dismas. pois hidrogênio e oxigênio explodem. E não é que encontrei mesmo. A menos que estivesse no gancho — e um botão deste tipo deveria permanecer no gancho apenas em casos especiais — cairia com muita facilidade. E ainda. o que seria ruim para nós. são tão lentos. talvez. nas cabines. Pois veja. é claro. Van Rijn resmungou: — Você com sua educação científica tão sofisticada. na esperança de encontrar algo para eliminá-los.. Falha imperdoável! — E. O óxido de cobre e o hidrogênio. animais assim tão pequenos não têm espaço suficiente para cérebros capazes. Van Rijn virou-se. certos controles. Tampouco os animais encarapaçados. Pareciam olhos humanos. existiam. expostos ao ar. como conseguiriam permanecer vivos o tempo suficiente para inventar espaçonaves? Ainda. E. é claro. Não muito alta. leitos. para dois tipos de seres? E pensei. Torrance estalou os dedos.

D. Esse. Mas eu. todinha para você. eu fiquei observando sua técnica. Muito fraca. Jeri lançou-se em direção ao mercador. como num devaneio. você não é velho.) Rouco de tanto falar. nem gordo.panhia de Plantadores de Café e Chá de Vênus. Van Rijn apanhou a garrafa. Você tem uma família feliz. Sentiu o olhar dela demorar-se nele. — Pedras preciosas de Marte. mas como o outro parecesse ter encerrado a conversa.. À porta. — Casacos de pele de lontra mutante — sussurrou Van Rijn. — Claro que tenho. — Que é que eu posso fazer para você? Van Rijn piscou para Torrance: — Naquele dia. muito enfatuadamente: — Q. E completou. não. como se tivesse pena de partir. Num deslumbrante longo azul que lhe deixava à mostra os ombros e os seios e se colava ao seu corpo como uma camada de pintura. nem solitário.. sim. em vez de cérebro tem a cabeça uma tartaruga parasita. E. Um apartamento de luxo na Torre das Estrelas. Deixou cair a cortina e voltou para a ponte. — Você está bem. (Como acaba de ser demonstrado. Acariciou-lhe demoradamente os cabelos.. 53 . Torrance permaneceu sentado por alguns minutos. levantou-se para sair. lá na ponte. — Sim. Nicky querido? — ronronou.. E depois de tudo. Por isso desvendei o enigma. ela era uma estrela de primeira grandeza. claro — gaguejou Torrance. Torrance estacou. cruzou com Jeri.

54 .

. O controle da gravidade e a hiperpropulsão abriram uma galáxia à exploração. poderia emigrar para onde desejasse. tenderão. uma quota exorbitante de crueldade.. em si mesma. Portanto. relaxaram as fronteiras dos antigos mundos. O fato veio fortalecer os planetas libertários. nem tudo foi doçura e fraternidade. Uma raça limitada a um planeta. E houve uma demanda ativa para o escambo de mercadorias. também muito o que permutar. os velhos mundos tiveram. cujas máquinas básicas. por sua vez. o equilíbrio de poder permaneceu razoavelmente estável. de comércio e guerra. muita guerra: muito destrutiva. entretanto. cuja influência. Em tais condições. a descobrir interesses mútuos. embora as ferramentas determinem as possibilidades: impossível o comércio interestelar sem espaçonaves. Não eram apenas as colônias que desejavam a luxúria da metrópole. Prestes. Uma espécie não consegue ser inteligente sem conter. a estrutura da sociedade é basicamente determinada por sua tecnologia. A livre iniciativa necessita de espaço para manobrar. tampouco. São tão grandes as distâncias interestelares. exijam. entretanto. de escapar à ruína. a 55 . para o coletivismo. Não em sentido absoluto — pois é possível que existam diferentes culturas que utilizem ferramentas idênticas —. é inevitável. e tão próprias as idéias de cultura das raças inteligentes. e muito pouco por que lutar. Nem houve. com pouquíssima chance. e o custo da energia mergulhou de cabeça quando da invenção do conversor de prótons. também. que se julgasse oprimido pelo governo. e forneceram a válvula de segurança: todo cidadão.Um truísmo. um grande investimento de capital. que possua um grande conhecimento de mecânica. para qualquer dos lados. e os planetas-metrópoles que desejavam o produto colonial. não importa o nome que ostente. que não houve união universal. A automação transformou a manufatura em algo barato. o capitalismo exuberante estava prestes a fincar raízes.

Era uma sociedade horizontal. Os governos foram restritos. e. seus problemas. desistiram da tentativa. muito fez. a uns poucos sistemas planetários. A Liga para a Ciência do Sol Polar transformou-se num supergoverno. ou por mero desespero. no sentido de disseminar uma civilização verdadeiramente universal e reforçar uma Pax duradoura. cada um. o melhor. de uma coisa boa. que determinava as próprias políticas de ação. enquanto ordenhava a Via-láctea. permaneceram divididos. em termos oficiais. Os governos dedicados.constituir alianças. estabelecia as próprias bases. pouco puderam fazer para controlar seus mercadores cosmopolitas. coerção. combatia as próprias guerras menores. angariando associados de milhares de espécies. estendendo-se de Canopo à Estrela Polar. que atravessava todas as fronteiras políticas e culturais. Um a um. de um modo geral. O egoísmo é uma força poderosa. mais que todos os diplomatas da galáxia. Margem de Lucro 56 . Poderosas companhias juntaram-se para espremer a concorrência. para majorar os preços e. a determinar esferas de influência. no máximo. ao altruísmo. para fazer. contudo. que fazia os próprios tratados. Teve. por suborno.

carrancudo. que dois bandos caçavam-se mutuamente. na cabeça. fora em Chabanda. sentiu sacudir a cabeça. ouviu coisinhas estilhaçar. Naquela ocasião. agora. Aqueles guerreiros listrados de tigre. senão em Kusulongo a Cidade? E isto significava que os Anciãos haviam decidido: melhor para todos. que morressem os humanos. acompanhados de um rufar de batidas surdas. numa onda. Onde. De repente. significava. O medo da morte percorreu Joyce. como a uma criança que se choca sem motivo algum. eram apenas figuras numa tela. e ouviu. chacinados e mortos. o assobio atingia a estação em que estava. Mas. Ao sair. ela se encontrava em segurança. Joyce suspirou em reconhecimento. O que viu. reluzente. apenas indivíduos que jamais conhecera. num espaço-rápido. eles não eram reais. No tampo da mesa. lá fora. a guiá-la. Impossível! A explosão fez pam. contudo. sentada. e invadido. em vôo. Por que fariam isto com ela. os glissandos aumentaram. mas. mais uma vez. deixou espanto e dor. de um estampido metálico. com ela que viera apenas ajudar? 57 . Os agressores deviam ter explodido a porta do setor das máquinas. porém. de algum modo. chegou a ela amplificado por instrumentos que esquadrinhavam o deserto de gelo. Ela se preocupava com o todo. átomos que pareciam. e chegar-lhe aos tímpanos. o metal e o isolamento. O assobio chegava. com força suficiente para penetrar o revestimento. teriam conseguido a pólvora? Onde. pois perecia o mundo em que viviam. então. No escuro. de um estridente de objetos arrancados das prateleiras. Joyce sentira pena deles. com homens armados dos lados e um Ancião.TERRITÓRIO Joyce Davisson acordara com a sensação de que fora ferida. Na última vez que ouvira aquele ganido de lince.

por enquanto. a área humana não seria penetrada com a mesma facilidade com que o setor das máquinas fora destruído. abaixo de zero. com armas na mão.Os pés batiam no corredor. ligou a fiação à rede elétrica instalada à vestimenta principal. Joyce ficou de pé. desordenado. os shangas. o ar o ressecará. entre as máquinas. pesado. é de sessenta graus Celsius. Porque estou com medo. se auxiliado com conteúdo oxigênico suficiente para mantê-lo em vida. com que contava a missão. Não existe vapor d’água detectável pelos sentidos. o capacete de vitril mergulhava sobre os ombros. percebeu. Estou num pesadelo vivo. pistola e cartucheira. As espadas retiniam. Muito bem protegida contra as condições exteriores. mais adiante. Calçou as luvas ralíssimas. Não havia outro clã próximo. Os invasores eram. Depois. E o resto do pessoal? Não havia intercomuni58 . o minicomunicador. Aquele recinto estreito. nesta noite de verão. destorcido naquele brilho alvo. A pressão parcial do nitrogênio induz à narcose. rações de ferro. Existiam. Mas nenhum destes fatores difere tanto na Terra a ponto de matá-lo instantaneamente. A turma nativa da missão levantara-se. Verifique as pegas. centenas de machos shanga no oásis. o combate se desencadeou. Nervos e músculos prosseguiram sem o cérebro. parecia. da milícia do oásis ao pé de Kusulongo a Montanha. e de sono. Rápida. A turma. vestiu o forro cintado. a amônia queima os pulmões. bem ali fora.. a pistola. Joyce ouviu gritos selvagens. nas costas. passou ao largo do interruptor central. com certeza. Joyce virou-se. agora. é claro. caso não abrissem uma fenda nas paredes. de certo modo. o sistema de ar. rumo ao painel de câmbio. ocupados. A temperatura. Agora: botas de solas de espuma de querosene. entretanto. E lá fora. e possuem pólvora para derrubar as paredes. e agora deixava os alojamentos. falou com um estalido de fúria. Isso. que dera a Uulobu. shangas. Uma das mãos. até perder a consciência. Num salto. junto ao setor terrestrino do domo. porém. em matar os assistentes nativos. as machadinhas rachavam ossos. tudo. e o uniforme fibroso. no bolso do peito. e as luzes se acenderam. O exterior é letal em t’Kela. mantivesse a viseira aberta. não conseguiria manter por muito tempo a posição. nas médias latitudes.. o sistema de aquecimento. você poderá saborear o processo por minutos a fio. contra umas poucas duas dúzias de t’Kelanos de confiança. o tanque de renovação de ar e a fonte de alimentação. embora. e os Anciãos jamais tomavam a iniciativa da agressão. local de estudo. Não. nos bolsos dos cintos.

Ouviu o próprio grito abafando o ruído exterior: — Abram.. e duas outras voltadas para os quartos contíguos. hein? Van Rijn berrou. O quarto de Joyce era o último da fila. o setor do depósito das máquinas. primorosamente cacheado até os ombros. Seco. deixou que Joyce tomasse a dianteira. em que Van Rijn aterrissou e aquartelou-se ao lado. e olhou em volta. O imenso nariz adunco protuberava no capacete aberto. Temos que fugir! Através das almofadas. Ao fundo do corredor. cada quarto apresentava uma pequena abertura na porta. porém. Empastados. mas.. respondeu: — Abrir? Como? Você se trancou por dentro! Claro. logo que aqui chegou pela primeira vez. Fora ela quem fechara a porta por dentro. titubeou o cérebro de Joyce. Solteira. balançou. embaixo. Entulhado com material de sobrevivência.cador. Como a maioria dos esperancianos. elevados à décima potência.. não houve motivos para trancá-la. o mercador entrou. de tecido fibroso. — E então. A pulsação e o tumulto crescentes da batalha quase lhe afogaram o pensamento. Alcançou a porta do quarto contíguo. alcançava-lhe apenas os ombros. manchados de tabaco. Gingando. a resfolegar no domo. — Vocês são uns errados. mesmo durante o dia. mesmo assim. uma voz rouca. Durante o tempo da missão propriamente dita. Venham. os aposentos pessoais davam todos para um mesmo corredor. seus imbecis. Joyce era alta. Vamos encontrá-los. O barrigão de Van Rijn deformava o uniforme. negro.. repleto de adornos de rendas e pregas. com apenas doze pessoas no domo. Nada aconteceu. Joyce apertou o botão. Van Rijn concordou. No setor humano. No momento. O salão-clube era 59 . desnecessário. o bigode e o cavanhaque. para conter as investidas ursinas do mercador. de um lado para outro. fora ela quem escolhera seus aposentos. amante da privacidade. que preenchiam o vão da porta. dez vezes errados. Estremeceram-lhe os diversos queixos. ela começou a ter muitos problemas. Joyce embargou: — O pessoal. parecia ainda mais monstruoso do que quando fora encontrado. na base logarítmica! Pensei que você gozasse da confiança dos nativos. que pareciam chifres. claro. e farejava o ar como se em busca de um rastro de sangue. que lhe fora fornecido. ameaçavam todo o lugar. o cabelo oleoso.

A terceira explosão perfurou. apoiadas em membros estruturais retorcidos. câmaras-extras construídas para a eventualidade de visitas exteriores. embora não conseguissem alcançar-lhe o cérebro. provocou ligeiro terremoto. remotas. o chão corcoveou. — Explodiram a parede! De um salto. Joyce disparou numa corrida. vigoroso. e descido para o salão-clube. Olhou para trás e viu. e todo aquele sonho de valentia que construíra a Comunidade. sombrias. pertenciam a câmaras não ocupadas por ninguém. A parede ao fundo. mais outro. a gravidade era mais ou menos a mesma que na Terra ou em Esperança. Por um instante. no planeta verde chamado Pax — um campo encapelado de trigo. A coisa parecia muito estranha para ser real. a atmosfera de t’Kela parecia brotar. tensa como o próprio arco que apontava. Atrás dele. montanhas azuis. e os tons graves foram alcançar Joyce através do amplificador. todos já haviam vestido os uniformes. na curvatura do domo. listrada. quase a encegueceu a lembrança de sua casa. um técnico esperanciano surgiu na curva do corredor. viu escancarar as portas. rachava-se. Se prendesse a respiração. Ao emergir de seus aposentos. A figura robusta. As que permaneceram fechadas. o meio-trote. a bandeira daquele mundo soberano a tremular. Figuras selvagens. uma a uma. o gosto de sangue misturou-se ao da fumaça. Na boca. contra o céu lanuginoso. De um lado a outro do capacete. refletiam à luz dos flúores. um novo estrondo. vermelha e dourado. no corredor. Seguiu-se uma saraivada concussiva. Joyce insistiu. a escuridão felpuda. de Van Rijn. Ele já fechara a viseira de seu capacete. A única coisa igual. — Explodiram a parede! — Feche o capacete! — gritou Van Rijn. quebrava-se. Assim. Em t’Kela. tão aparvalhada estava. próxima ao próprio quarto. local de encontro predeterminado. pensou Joyce. postou-se.no outro extremo do corredor. Joyce caiu. Joyce caiu. enérgico. nervosa. moviam-se na penumbra. com fendas nas pupilas. Rolou. Correndo. Joyce estava estupefata. O estrondo veio de trás. movida pela maior pressão do exterior. que ia e vinha. Sob os pés. a cabeça estralejou. um nativo entrou pela fresta. como a comitiva de Van Rijn. diante dos olhos. Os olhos imensos. 60 . Atrás dela. conseguiria suportar o ar e a temperatura terrestres.

Joyce apertou o interruptor. Deitado. você é uma linda menina. A sala do salão-clube ali estava. O arco produziu um som cortante. Instantes depois. está bem? Van Rijn arrastou-a pelo ombro. em todos os postos comerciais.. atiradas da escuridão. continuaram lá fora. e tudo o mais. Já retomara a plena consciência. Ainda mais sabendo que seus ajudantes. como uma prostituta.. . O lança-raios de Van Rijn. irão roubá-lo até os ossos. ficou de joelhos.— Joyce! Cidadão Van Rijn! Onde. Com os olhos negros. e prosseguiu de costas. olharam-na. O técnico deu meia-volta. Levantou-se. Resmungou: — Caramba.. num bonito escritório. assim. chegamos. . Joyce sacudiu a cabeça. já bem gasto. já velho. E berrava: — Abram! Pelos trovões! Pelos fêmures! Que brincadeira é 61 . nos calcanhares. as sombras sumiram de vista. tomando um calicezinho de Genebra. vão desaparafusar-lhe os globos dos olhos.. — Ahh. A flecha farpada foi rasgar-lhe o uniforme. tombou de costas. disparou. . Ja. Van Rijn pousou-a no chão. . Isso não é trabalho para um homem velho. Van Rijn arremessou-se em direção a Joyce. a esta hora. são tão cabeças de cocoroca que o coitado do Nicholas van Rijn tem que vir ele mesmo. Ali atrás. entretanto. Van Rijn bateu até fazer tremer a porta. não é? Muito bem. essa concorrência de lobos e coelhos vai despedaçar a Companhia Solar de Condimentos & Bebidas. contraídos. lanças. pulou-lhe nas mãos.. e deixá-lo. com o lança-raios a oferecer cobertura na direção da fresta. vai? Levantou-se. embora não devesse cortar o cabelo tão curto assim. e fugiu. quem sabe. e fechou-lhe a viseira. o clangor. Vamos. O obstáculo não se moveu. deite. A figura felpuda. na fresta. . Ah. bem em frente. o ar — parecia — já estava repleto de flechas. para sondar novas possibilidades de comércio. estar em seu planeta natal. uma bela figura. paralisante! É assim. Mas os fabricantes. a pedir vem! Vou socorrê-la. fumando um charuto e. Van Rijn gritou: — Você não vai querer respirar vômito de dragão. a cem anos-luz na direção do umbigo de Órion. aqueles cabeças de chaleira. quando menos esperar. que deveria. dardos.. A gritaria. ofegante. . Caso contrário. grudados um no outro. — Está trancada. e os joelhos já não falhavam muito. Quem desperdiça o que tem. A primeira fungada de amoníaco fez arder as narinas de Joyce. pequenos.

quem não morreu. — Eles não nos abandonariam. Se eles nos encontrarem. a brandir espadas e machados. Nossa maior chance será sair pelo setor das máquinas. — Seus covardes! Vocês não passam de comida de cupim! Deixem-nos entrar! Ao notar que o vocabulário de Van Rijn tornava-se cada vez mais melancólico. no corredor. Não podemos impedi-los. para poder tomar um caminho diferente até as espaçonaves. O ruído que ouvem agora é a pilhagem dos shangas. parece deserto. bateu-lhe nas costas. Trancaram a porta para retardar o inimigo. de osidiana. se voltarmos para os ferros que movem. Não há mais luta. do clã Shanga. — Ah. — Acerte-os! O lança-raios de Van Rijn cuspiu fogo. tentaram fugir. Van Rijn perguntou: — O que é que esse sujeito está ruminando? Joyce traduziu. Joyce pôde perceber o que acontecera. É melhor nos 62 . lá atrás. Uulobo uivou atirou a machadinha. — Não! ÉUulobu! O t’kelano deve ter gasto a pistola que usava. Com os punhos cerrados. Um dos invasores tombou. e havia muitos projéteis no ar. e a machadinha pingava. e jogou-o novamente para terminar o trabalho. podemos sair por lá e contornar o domo. Os outros dois viraram-se. recolheu o machado. nós estávamos caídos no chão. O gume afiado. — Entre nós.. Joyce empurrou o lança-raios. ja. trazia uma machadinha na mão. Quando Carlos nos viu. com apenas duas armas. agora. foi acertar um dos shangas.essa? Um nativo surgiu correndo na curva do corredor. Devem estar pensando que estamos mortos. No momento. ja. . e acrescentou: — Creio que ele tem razão. com a mesma intensidade com que Van Rijn batia na porta. tê-la jogado fora. Mas creio que. vão nos encher de flechas. Eles não estão mais no salão-clube. derrubou-o sangrando. com saiotes decorados com a insígnia do quadrado circular. é capaz. fugiu. fêmea celeste. pois. Van Rijn voltou para a porta. Três outros autóctones estavam em seu encalço. até vê-lo parar e olhar para trás. Van Rijn virou-se. E nós. Uulobu deu um puxão na corda que unia a arma ao pulso. o que faremos? Arrombar a porta e segui-los? Uulobu falou na língua gutural da região Kusulongo.

perfeitamente apta a perfurar-lhe o uniforme. e outros tantos espaço-rápidos. a câmara. pelo humano. sacou a faca e disse. sem iluminação. e a geada embranquecia as paredes e deixava o chão escorregadiço. numa corrida. Você vai atrás de mim. Uma lança curta ergueu-se. como chicote contra os próprios companheiros. ao longe. Com o frio de t’Kela. Do outro lado das paredes. A entrada encheu-se de dezenas de formas. puxava-o para baixo. O estalo da arma ressoou-lhe dentro do próprio crânio. no alto. — A—ta-car! Van Rijn saiu na frente. perguntou “Por quê?”. para o exterior. que se esgueiraram. antes mesmo que Van Rijn tocasse o gatilho. apesar de utilizado. e cobre minhas costas. Além disso. nie? Num trote. Uulobu veio juntar-se ao tumulto. esconderam por entre sombras e máquinas. Outro segurou o cabo da arma. em júbilo carnívoro. Os veículos ali estavam estacionados: quatro carros de superfície. sacou a pistola. lá adiante. um atirador de projéteis de metal. exultantes. o equipamento ali jazia no chão. voltaram por onde haviam entrado. A bota tropeçou em algo. Agora. — Melhor. era a saída. com vistas a descobrir uma maneira de salvar o planeta. despedaçava-se o trabalho de anos. um instrumento no chão. com frieza: — Agora vamos ter que lutar para passar. Sacudindo-o. 63 . E Joyce não fez por menos. golpeando. O ser não largou. em ruínas. a fenda escancarava-se. então que esse felino vá na frente. Uulobu ajeitou a machadinha. puxar o gatilho foi a coisa mais difícil para Joyce. abrigava o equipamento especializado dos estudos feitos pelos esperancianos.apressarmos. Algo esbarrou-lhe no respirador. Houve um brado de ameaça. Mesmo assim. A sua volta. e não obteve resposta. que clangorou ao chocar-se com outra coisa qualquer. Joyce ouvia gritos cortantes. viu olhos brilhando à pouca luz. Van Rijn tentava livrar-se dele. Qual uma boca negra. Os três entraram na área do depósito. Metal e pedra polida giraram na escuridão. Diversos t’kelanos o cercaram. Dorida. Um nativo gritou. Os olhos de Uulobu. sufocantes. estocando. mais adaptáveis à escuridão que os olhos humanos. comprida. O lançaraios do terráqueo acendeu-se. Joyce tenteou à frente. sondaram por entre as formas compactas. o vapor d’água condensava-se. no setor de máquinas. Joyce viu presas. O retângulo de luz tênue.

que refletiam. de folhas prateadas. uma luz de cobre. A lua maior. Em algum lugar. Entre um fôlego e outro. o grande vaso de transporte da missão e a luxuosa nave de passeio que trouxera. perpendicular. O vento da noite roçagava-lhes os pêlos. e adentraram a noite. Van Rijn irritou-se. rosnava um guerreiro ferido. Van Rijn e seus assistentes. à artemísia terrestre: baixas. em aspecto. que lembravam dentes. com o gelo. um esplendor irreal. A frente. A oeste. Dois cilindros afunilados tremeluziam ao luar.Depois. 64 . As árvores do oásis — onde acampavam os shangas — proporcionavam uma mancha de sombra. houve esbarrões. despejava. ramosas. as rampas estavam contraídas. Joyce ouviu os últimos shangas fugir. Joyce identificava o ganido de Uulobu. Não temos tempo para dar laços nos presentes. A cidade entalhada a partir do topo era vista como um simples lampejo de torres. Fora preciso muita luta para chegar a este ponto em segurança. Ao norte erigia-se a muralha negra. Em meio à gritaria. o grito de guerra do clã Avongo. quase semelhantes. Uulobu foi cortar-lhe a garganta. — Depressa! Se o pessoal pensar que morremos. os três saíram porta afora. cintilavam constelações desconhecidas. corria o sagrado Rio Mangivolo. As armas foram demais. disparos e o delírio do corpo.. decalcada sobre a Via-láctea. Van Rijn ordenou: — Levante-se. mortos. de Kusulongo a Montanha. lá no alto. com arbustos eventuais. destacou-se a voz de trompete de Van Rijn: — Valha-me São Dismas! Fora cães sarnosos! De repente. as câmaras de ar fechadas. luta desordenada. ao sul. Como fosse baixo demais para inclinar-se Van Rijn ofereceu o braço à jovem. Por alguns quilômetros a leste. no chão. De vez em quando. Cambaleantes. Deitada no chão. da Terra. desenrolava-se um trecho da planície. por alguns instantes. Ao norte de Kusulongo enfileiravam-se colinas.. no sopé. Onde não existiam cercados. quase cheia. apenas t’Kela. debatendo-se em busca de fôlego. estremeceram. jazem alguns shangas. apenas o domo. Joyce viu o jato de luar vermelho pairar na amônia líquida. tênue. os motores ganiram. Uulobu foi ajudar Joyce a levantar-se. Por sobre a cabeça. tudo acabou. Nas proximidades. Van Rijn aproximou-se. vai levantar vôo mais rápido ainda! A comitiva contornou o domo no passo titubeante da exaustão.

o que eu acho que vou fazer é enfiar o pé nos que já tenho. Joyce correu até ele.— Ei! Esperem por mim. com cautela. — Vamos ter que sobreviver até que alguém volte aqui. Levantou-se arrastando. Quando eu chegasse em casa. Van Rijn foi levantado e arremessado a alguns metros de distância. Depois. nie? — Os carros de superfície estão equipados para períodos maiores — observou Joyce. — Eles não nos viram. Depois. na direção do domo. Ah. irritantes. Mas. A sucção de ar derrubou Van Rijn. a possibilidade de ser abandonada sozinha. Sacudiu-se. Os três entraram no setor das máquinas. detestável. imóvel. desolada. Horrozizava-a. com estrondo. como a evitar que algo lhe caísse das vestes. Van Rijn bufou: — Não diga! Uulobu aproximou-se. zarpou a embarcação de Esperança. Ao tropeçar num corpo. as quatro traseiras corriam em trilhos. reserva de energia suficiente 65 . Fora ela mesma quem o matara? Os carros de superfície eram compridos. Van Rijn ruminou: — O quê? Com esses sujeitinhos pestilentos. meu São Dismas.aterrissou. súbitas. quais estrelas nascentes. como um relâmpago. Apanhado na orla do campo de impulsão. e desapareceram.. de formato quadrado. Van Rijn nem precisou de tradução.. Joyce ergueu os olhos. a nos perseguir de um lado a outro? Adeus alegria irreprimida! — Vamos para oeste — observou Uulobu —. As espaçonaves reluziram. — Os shangas devem ter ouvido. ia colocar mais um vitral na sua capela. — Vamos tomar um espaço-rápido. naquele lugar. Engasgou: — O senhor está bem? Van Rijn era um velho paspalhão. das oito rodas. cambaleante. Joyce estremeceu. mas tenho certeza de que podemos encontrar outros clãs da Horda Rokulela entre os Estreitos e os Descampados. agora. Virão para ver o que é. Não sei onde estão os avongos. e voltou. seus cabeças de coalhada! A nave de passeio foi a primeira a decolar. Temos que fugir. Van Rijn praguejou: — Ú — ú — ú. rumo ao céu. porém. subiu. Os acumuladores estavam com carga plena. deitado. e nos encontrarão. encontrar meu povo.

Para passar pela porta. instalações culinárias. usar o produto do concorrente. Seis leitos. como se algo visível pudesse explicar por que a hostilizara. às rodas tão barulhentas. silhuetado contra a escuridão. comunicando-se através do intercomunicador. de um lado a outro. a raça era diferente. tão espantado. Os recicladores de ar e os alimentos existentes manteriam dois humanos por. ainda. hein? Van Rijn acendeu os holofotes. . apenas os Anciãos gostavam de andar nos veículos. Mas nem precisaria ter se dado ao trabalho. Na maioria dos planetas. Mas.. as outras portas começaram a expelir shangas. Talvez centenas deles. ágeis. assim que se estabelecia. condições terrenas. Ali no domo. Ao passar pela porta. As mãos gordas de Van Rijn movimentavam-se. Os lábios de Van Rijn retesaram. os guias e os guardas subiam para o topo do carro.. mapas. Bem. Entre os t’kelanos. manter. Um guerreiro foi apanhado no facho de luz e. usar a propulsão de campo. Ah! O motor ronronou. . Aquela forma robusta tinha um metro e cinqüenta de altura. . sabemos. as raças costumavam variar. o ambiente terrestróide. peças de reposição para os acessórios básicos — estava tudo ali. pensou Joyce. um transceptor de rádio. muita coisa se aprendeu. hummm . Era um t’kelano típico da localidade. entretanto. Joyce o percorreu com os olhos. sanitárias. Nas viagens de campo. equipamento de navegação. agora. não tanto. . tinha os olhos assustadiços. Em outras regiões. Não gosto muito destes Globetrotters. no interior. . no interior. Joyce lembrou-se. Tinha que estar. os pêlos trêmulos. . — Querem brincar. muitos planos foram traçados para salvar o mundo. Assim. Joyce arriou. quanto as raças humanas. Ao lado dele. bastante esteatopígico para armazenar líquido numa terra resse66 . apática. Van Rijn envergou o corpanzil. no mínimo. ajeitou-se no assento do piloto. muitos quilômetros foram cobertos. Desta maneira. exibiram dentes. entretanto. que não estava trancada. . . quando se viajava num planeta como esse. Depois. — Na minha empresa. ali ficou imóvel. . viveu. nos controles. Uulobu entrou. usamos Landmasters. Isso.para navegar milhares de quilômetros e. por um ano. às vezes os nossos rapazes têm que. cujo teto era de um metro de altura. não constituiria problema. Van Rijn preferiu. quatro meses. .

no peito. Joyce percebeu que estava prestes a chorar. era cor-de-laranja-vivo.. Você disse que o pessoal lá é muito sorridente. emoldurados por cílios irrequietos. em forma de lâmina. Algumas lanças se chocaram contra as laterais do carro. Apoiou o capacete nas mãos. haviam evoluído para a música. não fossem as unhas grossas. — Pronto. Os outros tentaram atacar. — Os Anciãos? Não. afiados. só podem ter sido eles. e deixou. Assim que calculamos a bioquímica deles. amarelos. Mas. feito de cilindro ósseo. 0 pêlo. vamos.. Devem ter sido eles que causaram tudo isso! — Ah. uma única narina que se estendia de um lado a outro do nariz largo. e os ajudamos. De relance. E Van Rijn conseguiu passar. com oito graus de inclinação axial. é? Por quê? — Não sei. azuis. O guerreiro portava uma espada — o chifre. repleta de dentes brancos. Divirta-se. sintetizamos alguns remédios e. Joyce viu um deles com um apito na boca.quida. As mãos e os pés eram de forma quase humana. de um gondyanga. O guerreiro saltou de lado. — Você é uma menina valente. Sempre foram tão prestativos. um triângulo em branco. e soltou todos os controles emocionais. A cabeça era redonda. uma boca sem lábios. afastou-se a cem quilômetros horários. à qual pertencia o clã shanga. Agora. nunca tivemos inimigos dentre os clãs. como um cometa. De repente. a cem 67 .. não sei. Ninguém mais teria feito isso. Van Rijn fez “Bi! Bi!”. Está tudo bem. Com a boca. T’Kela girava uma vez a cada trinta horas e alguns minutos.e arremessou o carro à frente. e os quatro dedos por peça. uma cauda de poeira. Van Rijn acariciou-lhe o ombro. Nós. Joyce enrijeceu o corpo. pronto. Os yagolas jamais usavam gritos de guerra formais. Perguntou: — Para onde vamos agora? Para o outro lado da montanha. na hora exata. com cabo de madeira — e um escudo circular pintado nas cores da Horda Yagola. que cobria todo o corpo. Eles instigaram.. dois cachos carnosos na testa. Quando o carro parou. listrado em negro. com orelhas pontudas e olhos felinos enormes. e muito bonita também. Relaxe...

Deitado. vou providenciar para que seja colocado 68 . Obrigou-se a levantar. nua. volteava. ainda era noite alta. O céu era violeta-escuro. ainda vestindo o forro. levantou-se do leito e apanhou uma xícara. Uulobu foi lá para fora com um saco de dormir. traiçoeiro. Mais próxima. Joyce sentou-se. fez a higiene. com asas plumosas. O cheiro de café acordou Van Rijn.. — Ahhh. Joyce dormiu.. perdido na escuridão. Desconfiado. cheirou o café.quilômetros de Kusulongo. Mas ela mal o percebeu. pois lembrar do que aconteceu provocou dentro dela um grande vazio. Vestiu calça e blusa. coriáceas. Os bigodes tremeram. o horizonte. visto de Esperança. sem nuvens. imediata. — Mas. não fossem a escassa vegetação cinza. Um animal necrófago. Sombras espessas penetravam em todo declive. aos olhos humanos. Desejou enfurnar-se nas cobertas. ao sul. As papadas tomaram a cor-de-pulga. ao norte. afundar a cabeça e dormir de novo. descascaram-se dos uniformes e subiram nos leitos. no alto. Foi à cabine do banheiro.. ou de Pax. Embora com um diâmetro aparente de quase uma vez e meia o diâmetro do Sol visto da Terra. Voltou ao compartimento central do carro e começou a trabalhar no fogão. — Ótimo. os outros dois propiciaram as condições terrenas para o interior do carro.. — O quê?. em toda fenda. Enquanto isso. A voz embargou: — Nada para beber? Por quê? Isso me deixa enfurecido! Quem é o responsável? Eu juro. — Não há bebidas alcoólicas aqui — retrucou Joyce. e trocou de roupa. Todo o corpo doía. o campo de gelo.. sentiu fome. a luz era opaca. Apesar dos roncos de Van Rijn. estendia-se a planície. Os fugitivos baixaram acampamento. das plumas amarelas de uma tempestade de poeira. Por algum tempo. que nem se incomodara em tirar. não muito longe. com o brilho de uma brasa que fenece. a única coisa que o mercador conseguiu fazer foi olhar para Joyce com olhos retorcidos. Dormir até que chegasse o socorro.. os penedos esparsos. tremeluzente. como uma baleia. porém. O alvorecer veio despertá-la. frio. O sol vermelho raiou a leste. Refrescada. sem brandy? Depois de tanta confusão. se chegasse. repleto. precisamos de brandy.

voltou para o trabalho no fogão. — Não nessas condições. leite em pó e sucos de frutas. e têm gosto horrível. hein? É como se fossem caldeiras de fundição no próprio inferno! Há quanto tempo você já está aqui? Joyce preferiu ser complacente. chá. Ela sentiu náuseas. não é? Mas aqui não há nada que apeteça aos humanos. Mas a missão esperanciana já está aqui há muitos anos. Sentado à mesa escamoteável. A baforada foi ter com Joyce. que trouxera escondido no peito. Tudo defumado! Quanta morte. Além disso. Mas carecem de coisas de que precisamos. certos compostos biológicos — nem todos são venenosos para nós. Eu estava aqui há apenas dois dias. sei disso. Esta galáxia é tão grande que é impossível. minha equipe de pesquisas esbarrou nos originais do relatório científico da expedição que descobriu este planeta há quinze anos. daqui até a Estrela Polar. tão complicadas. Van Rijn vistoriou o armário mais próximo. Deixe-me ver o estoque de alimentos. — Ufa! Que lugar. controlar tudo o que aconte69 . os planetas são coisas tão grandes. O seu negócio é condimentos. — Ja. Quando estamos no campo. E não sei como conseguem. como certos aminoácidos. Cidadão Van Rijn. quando o barulho começou. você se lembra. — Há não muito tempo. — Fiquei mesmo espantada de o senhor ter vindo para cá. E saiu batendo os utensílios. — Minha empresa negocia com não-humanos também — explicou Van Rijn. vejo que pelo menos um cérebro devia estar funcionando. não tenho tempo para investigar as coisas por aqui. Acendeu.. — Os civilizados ocupam. Lamentou: — Carne defumada. não ocupamos espaço do depósito com bebidas alcoólicas. esmigalhou-os dentro de um cachimbo de urze branca. a qualquer um. A unidade química remove a amônia e as outras impurezas.. como biotécnica. e coisas do gênero. E eu tenho mais o que fazer. Bem. quanta destruição! Nem uma latinha de caviar? Vocês querem me ver esfarelar? — O senhor ainda tem que agradecer por estar vivo. Alguém colocou cigarros aqui.em todas as listas negras. legumes defumados. — Temos café. Van Rijn apanhou uma mancheia. Van Rijn enfiava a papa goela abaixo e espiava a paisagem escurecida. junto a um dos janelões. — Eu? Há mais ou menos um ano. A água é obtida do gelo lá de fora. Poderíamos comer certas proteínas. Demora muito para começar a compreendê-los. com maior ferocidade que a necessária.

abençoados sejam seus dois corações! Em galope ligeiro. Na cintura. Então. os primeiros exploradores vieram de Throra. Joyce desvencilhou-se e. — Ah. claro. pensou. entretanto. furtiva. vim pessoalmente. E o gelo não faz bem à vida indígena. Muita água congelada. e coisa e tal — só nascia neste mundo. Aí estava. 70 . ele encontrou uma fonte de amônia. apenas não tão repulsivo. o Kungu. foi até a janela. São uma raça carnívora. Puxa. de qualquer modo. algo frenética. Descobriram. e. de costuras soltas. isso é uma das coisas que está matando este mundo. Joyce engrolou. havia menção a um certo vinho feito pelos nativos. que a planta — por causa da ecologia.ce. por não ter. como é duro ser assim. esperta. em relação aos shangas: um colar de conchas fósseis. Van Rijn irritou-se. Acharam o kungu delicioso. trazia um animalzinho morto. pois Van Rijn bordejava a mesa e vinha em sua direção. trazia uma bolsa de couro cheia de líquido. eventualmente. neste planeta. A mão cabeluda. nômade. — Veja. e dirigiu-se ao intercomunicador: — Fêmea celeste. e outras plantas que produzem fibra. na Terra. ficou de pé. abaixo de zero. o t’kelano atravessava a planície. Estamos sempre atrás dos acontecimentos. Centenas de quilômetros quadrados. encontrei pegadas de caçadores ao largo. vêm para a colheita. características do clã — Avongo — e da Horda — Rokulela — a que pertencia. Mas. como você sabe. uma chance de articular um ligeiro comércio com Throra. pensou Nicholas van Rijn. Nos ombros. numa estirada só. e até quiseram levar as sementes. plantam algumas sementes. Quase todos os clãs do hemisfério o fazem. em busca do efeito. De fato. Uulobu chegou ao carro. atravessou a mesa e apertou a mão de Joyce. suspenso. com exceção dos Anciãos. que caçara. — Aí vem Uulobu! Bem na hora. ninguém de confiança para mandar para cá. Bem. Não que sejam fazendeiros. Uulobu trajava-se de maneira diferente. É para isso que servem aqueles cachos. de um salto. na época oportuna. um planeta bastante semelhante a este. o senhor sabia? São sensíveis aos vestígios do vapor de amônio. Mas. — Exato. Em qualquer lugar que se vá. Eles cultivam uvas. A temperatura máxima. e uma tanga azul. existe gelo. aqui é de quarenta graus Celsius. tão só! Van Rijn fez boca mole. Este é um mundo muito seco.

ir ter com os povos do seu amigo. Portanto. ou Senis. Ruminou: — É claro que não vão conseguir procurar no planeta inteiro. quando souberem o que aconteceu.. Uulobu começou a juntar gravetos para fazer a fogueira. — Se o socorro vier. ou algo assim. por todo o lugar. uma nave de guerra virá fazer uma investigação completa. e vão aterrissar lá. Ergo. com certeza. ora. já estão tão sofisticados em questões interestelares. para nós. — Está vendo? Não há nenhuma utilidade. devemos nos estabelecer. na periferia de kusulongo. Joyce estremeceu. você tem razão. ao alcance do rádio. 71 . já que estão nos caçando. E agora tenho que oferecer aos Reais a sua quota. E também saciei minha sede.rumando oeste. teremos que permanecer na área. com toda força de ataque. que bom! Joyce respirou. num planeta de anã vermelha. Só podem ser rokulelas. Dentro de um mês. Vão saber que estive naquele lugar fedorento dos kusulongos. — Ahh. — Ofereça por todos nós. Creio que aqueles Velhotes. Mas. como é mesmo o nome deles?. — Claro — comentou Joyce. Isto significa que vamos precisar de aliados e. para Lubambaru.. pois são fracos os traços característicos da ionosfera. Van Rijn franziu o cenho. enviarão uma expedição para investigar o que houve de errado.. também não podemos nos aproximar dos inimigos. Mas talvez não se apressem. em nos associarmos a estes selvagens. pois não sabem que estamos vivos. Van Rijn assegurou: — Meu povo virá. Podem ter cavado armadilhas. relaxou e sentou-se novamente. aos gritos. Lá em Esperança. podem nos atirar bombas caseiras. Creio que podemos encontrá-los sem muito trabalho. e consegui carne para a minha fome. Temos apenas que esperar por socorro. De um modo ou de outro. assim. E o alcance do rádio é muito curto.. Assim que a informação chegar à Terra. Van Rijn perguntou: — O que foi que ele disse? Joyce traduziu. podem nos matar neste carro. devemos. que são capazes — se não estivermos por perto para estavelecer contato — de querer iludi-los com alguma estória. A Liga para a Ciência do Sol Polar preocupa-se com seus membros.

duvido muito que vocês possam transformar esses t’kelanos em conselheiros paroquiais. ficar de cócoras. breve. e vocês ainda estão fazendo o bem para todos. eu não saberia como consegui-lo. Faz. que deixou apenas a selvageria. — Por que não? — Quer dizer. agindo assim. Mas são capazes de desenvolver uma ordem de mundo e adotar a tecnologia das máquinas. certo? Joyce fez uma pausa. irônico. em termos práticos. até hoje. Mas.. Já ouvi dizer que vocês. Não são suficientemente gregrários. . conquistamos sua boa fé e os persuadimos.. concordo. ou coisas assim. certa feita. Se. da melhoria das condições. Isto é. a ver as coisas a nosso modo. Em vista. passaram a cultivar trigo para alimentar os animais de corte. Que seus ancestrais estruturam o planeta com vistas a uma comunidade utópica. será forte e influente sem ter que manter serviços armados. que aquelas cobras. Esperança conseguir muitos amigos. no máximo. nie? A missão de vocês. São carnívoros ao extremo. pelo que você me contou a respeito delas.... porém. Van Rijn olhou para Joyce. a de vir ajudar este planeta. Eles jamais terão nações unificadas. Depois. — Pelo que vejo. imbuído em sua cultura. o último remanescente é Kusulongo a Cidade. Dessa civilização. tenho certeza de que os autóctones podem recriá-la. não estaria correto. uma questão de política exterior. mesmo que o senhor o conseguisse. O resto foi varrido pela idade do gelo. confirmou com a cabeça.. esperancianos. Ao prestar assistência a outras raças. um pouco. Joyce admitiu: — Mas é. E. apenas. — Bem. não querem que isto aconteça.raça! Joyce protestou: — Mas o senhor não vai conseguir que lutem contra a própria Van Rijn enrolou o bigode.. a uma cobra. Por um momento. da maneira como as compreendemos. Mas o homem não começou como um primata carnívoro? E os t’kelanos desta área já tiveram. com que se sintam bem. — Humm. sob o feitiço da honestidade. acocoradas lá no alto da montanha. . uma civilização agrícola. há milênios. — Exceto. 72 . não tem objetivo de lucro. são idealistas. e riu. o barbarismo. também. apenas para tentar compreender como seria possível.

você e eu. do tipo M. Os Anciãos. — O que significa que precisam que um pouco de juízo seja inculcado naquelas cabecinhas ossudas. vamos providenciar a inculcação. sempre foram muito prestativos. num dado momento. então... mesmo assim. O sol é muito velho. Sentou-se ao lado de Joyce. posso apreciar seus lábios. um pouco de cobre.. Quando voltou. sentou-se mais longe. e tudo o mais. Lúgubre. estou certa. nela. e ficar bonita..— É. nos oceanos de amônia líquida. Acariciou-lhe o joelho. Mesmo assim. Joyce levantou-se. se quiserem. — Deixe a filosofia comigo. um pouco de ferro.A. Uulobu acendera a fogueira. 73 . preciso compreender a situação. creio que não. não há nada de estranho no fato de uma estrela anã. Poucos átomos pesados estavam disponíveis à época em que se formou.. talvez.. — . Não em termos físicos.. hein? Civilizem-nos vocês. — Tanto assim? Deve ser densidade baixa. para o bem eterno de t’Kela. que a vida.. embora não consiga entender o porquê. com seus planetas. A gravidade específica total de t’Kela é de apenas quatro vírgula quatro. Então. Forçou-se a usar um tom impessoal. E o senhor deve saber. com uma massa de cerca de quarenta por cento superior à da Terra. começa bem devagar. Quer dizer. para começar. E reacendeu o cachimbo. mesmo nos períodos de incandescência. — Bem. Existe. Mas. Os sóis emitem tão pouco ultravioleta. mas não há mal algum em repetir. Eu me contento em chegar em casa sem ser espetado por aquelas lanças tão afiadas. é claro. atirara os olhos da vítima. o canto aos deuses gemeu. Falta de metal. a vida começa.. — Para agir. este planeta é bem incomum. possuir um planeta a uma distância de metade de uma U. Van Rijn acariciou-lhe a cabeça. Van Rijn estalou a língua. e. — Material nada promissor. Que tal você explicar? Alguma coisa você já me contou. — Bem. que os materiais orgânicos primordiais não dispõem de energia para interagir com rapidez. foi apanhar mais uma xícara de café. Você tem apenas que cozinhar. presunçoso. nestes mundos. — É. enquanto você fala. no início. atravessou a parede do carro.

t’Kela atravessou uma fase crítica. Através de uma série de passos. Bastou que se perdesse uma certa quantidade de amônia para que o efeito de estufa se reduzisse consideravelmente. As células vegetais t’kelanas ou throranas têm seu análogo para a clorofila. desenvolver a fotossíntese. Foi o que me disseram. e o nitrogênio que os animais respiram. É um planeta pouco maior que t’Kela. livremente. Nesses mundos. Com a queda da temperatura. 74 . quantidades cada vez maiores de amônia líquida solidificavam-se. Bem. embora não desprendam a água liberada. — E o oxigênio. portanto. com aqui e em Throra? — Ninguém sabe ao certo. o efeito de estufa depende do dióxido de carbono e do vapor de amônia. a amônia e o oxigênio produzem nitrogênio livre e água. — Isso. esta água é novamente absorvida pelas plantas. de vez em quando. assim. em seguida. Sempre que um organismo morre. desprendido pelas plantas. talvez. não é? A atmosfera é mais densa e. há bilhões de anos. Os mares encolhem. Os animais invertem o processo. iam para o fundo. lá. Em todo caso. e fabricar carboidratos. da mesma maneira como o fazem na Terra. o equilíbrio tenha sido atingido. Ela desce para o fundo dos oceanos e fica. como parte das moléculas de hidróxido de amônio. A água congela. há milhares de anos. Algum agente catalítico. nem toda água é sólida. O processo é lento. — É tanta coisa que eu tenho aqui dentro desta sineta velha e estúpida! Mas por que. há uma conversão gradual. Em outras palavras.— Ja. — Isso eu aprendi em Throra. há maior conservação de calor. — Thora teve sorte. o ar torna-se mais carente de oxigênio. ou apodrece. Embora. especialmente em vista do fato de que a amônia sólida é mais densa que a fase líquida. mesmo nestas temperaturas baixas. a evolução ocorre de maneira diferente. Mesmo assim. Há uma certa quantidade presente nos oceanos. que desempenha a mesma função: a de usar o dióxido de carbono gasoso e água “dissolvida” para obter carboidratos e liberar oxigênio. aumentam as áreas desérticas. Van Rijn deu um tapinha na testa inclinada. As bactérias fixadoras de nitrogênio evoluíram e a ressecagem foi interrompida. E costuma ter continuidade para. por uma molécula especializada. ataca a amônia. que permanece nos tecidos. aqui o H—dois—O tem ação bastante semelhante à ação do material orgânico nitrogenoso no nosso tipo de planeta. usando amônia e dióxido de carbono. conservada. protegida contra a ação do ar. certa feita.

Depois.. Temos sim. entretanto. Mas. Prosseguir. e 75 . E. As temperaturas caíram tanto que até o dióxido de carbono passou a liquefazer-se. já não há mais qualquer força para equilibrar a oxidação da amônia. mas muito pouco. reconfortou-a. dentro de mais um milênio. — A solução definitiva. A evolução tem trabalhado muito. em silêncio. Nossos laboratórios projetaram uma espécie extremamente produtiva. ou mesmo solidificar-se.. incluindo os nativos. E isto significa muito trabalho para a química de solos. murmurou: — Mas vocês já têm um programa de cura elaborado. para sobreviver. com a constatação. pior que isso. é reintroduzir as bactérias fixadoras de nitrogênio. Vamos desmanchar a água. a vida vegetal ficou muito abalada. ja? — Já. Por um instante. necessárias a construir-lhes os tecidos. viu passar a nuvem de poeira. E. Estimamos que. Isso ocasionou uma mudança climática catastrófica. os desertos aumentam. mas já não consegue acompanharlhe o passo. dentro de uma década. Áreas do tamanho de um continente terrestre tornaram-se inteiramente áridas. Completamente. falar no assunto sempre a chocava. teremos que fazê-lo pois. quase de um dia para o outro. todos os animais superiores. Por todo lugar.. já. Eu já mencionei que a civilização agrícola nativa foi dizimada. Em dez mil anos não haverá mais um único ser vivo por aqui. tentando adaptar a vida à mudança. o processo de morte sobrepujará todas as conquistas das bactérias. Embora Joyce já convivesse. um programa microagrícola. durante parte do ano. a geologia nos ensina que as bactérias fixadoras de nitrogênio foram destruídas. claro. A pesquisa está pronta e já estamos em vias de convocar os engenheiros. que irá necessitar. com métodos menos sutis. e o ano de t’Kela é apenas seis décimos do ano-padrão. De tanto bater na borda da xícara de café. há meses. com ela. e já. Ainda existe algum vapor na atmosfera. Não conseguiram sobreviver às temperaturas do inverno. foi-se a vida animal. ano após ano.. Sem o dióxido de carbono e a amônia. os dedos feriram-se. de fato. não pode desenvolver-se. do contrário. começar a apresentar resultados. Procurava conter o choro. Pela janela. estarão extintos. Portanto.onde estavam protegidas da liquefação. de tão súbita. em equilíbrio. quase gentil. Mas podemos apressar as coisas. O efeito de estufa caiu de verdade! — Como o senhor pode imaginar. Van Rijn exalou nuvens esparsas de fumaça. de uma ecologia apropriada.

liquefazê-la. O oxigênio poderá ser liberado diretamente para o ar, refrescando-o. Parte dele, porém, servirá para a queima do hidrocarboneto local. t’Kela é muito rico em petróleo. A queima irá gerar dióxido de carbono e, desta maneira, fortalecerá o efeito de estufa. E a energia química liberada poderá igualmente suplementar as estações de energia nuclear que instalaremos, para realizar a eletrólise a ativar a combinação do hidrogênio da água com o nitrogênio da atmosfera e, por fim, recriar a amônia. — Trabalho bastante dispendioso, não? — Muito. O maior já empreendido por Esperança. Mas os planos e as estimativas já estão elaborados. Sabemos que podemos fazê-lo. — Isto se os nativos, a título de exercício após as refeições, não resolverem praticar nos engenheiros. Joyce baixou a cabeça. — É verdade. Isto inviabilizaria o projeto. Temos que contar com a boa vontade deles, em todas as regiões. Terão que cooperar, trabalhar conosco e entre si, num esforço conjunto de todo o planeta. E Kusulongo a Cidade tem influência sobre um quarto de todo este mundo! Não sei o que houve. Pensei que fossem nossos amigos... — Talvez possamos — insinuou Van Rijn — arranjar alguns guerreiros para acertá-los com flechas até gostarem de nós. O carro prosseguiu, ligeiro, mesmo em terreno tão irregular. Depois de uma hora de iniciado o trajeto, Uulobu gritou, lá do assento do teto. Pela clarabóia, os humanos viram-no inclinar-se sobre o pára-brisa da guarda e apontar. Ao olhar na direção do local apontado, viram uma nuvem de poeira no horizonte noroeste, maior e mais baixa que a que haviam visto ao sul. Uulobu disse: — Animais pastoreados. Naveguem para lá, povo celeste. Joyce traduziu. Van Rijn moveu a alavanca naquela direção, e observou: — Pensei que você havia dito que eles eram apenas caçadores. Mas... pastores? — A economia do povo da Horda tem algo dos antigos criadores de gado mongóis e dos caçadores de bisonte ameríndios. Atualmente, não fazem uso doméstico dos izirus nem dos bambalos. Já os utilizaram, outrora, antes da era glacial. Agora, porém, a terra já não comportaria tamanha concentração de pastores. As Hordas ainda, de fato, exercem algum controle sobre as migrações dos re76

banhos; selecionam-nos e os protegem contra os predadores. — Hummm... Mas, o que são estas Hordas? — Seria difícil descrevê-las. Nenhum humano as entende, na verdade. Não que a psicologia t’kelana seja incompreensível; mas é não-humana, e nossa.missão tem andado tão ocupada angariando informações planetográficos que ainda não teve tempo para realizar estudos psicológicos em profundidade. Palavras como “bando”, “clã” e “Horda” são traduções grosseiras de termos nativos — imprecisas, com certeza — assim como “t’Kela” é um nome arbitrário pelo qual nos referimos a todo o planeta. Na língua Kusulongo, “t’Kela” significa “esta terra”. — Está bem, não há necessidade de me embromar com as obviedades. Já entendi. Mas, escute, Cidadã Davisson... Ou posso chamá-la de Joyce? Van Rijn amanteigou o tom. — Nós estamos no mesmo barco, para afundar ou nadar, se existisse água. Portanto, por que não travarmos amizade? E inclinou-se insinuante, na direção de Joyce. — E você pode me chamar de Nicky. Joyce afastou-se, para o lado, e disse, com a voz mais congelada que conseguiu emitir: — Eu não posso evitar que o senhor se dirija a mim como queira, Cidadão Van Rijn. — Ha! Ha! Quem me dera ser jovem de novo, não tão adiposo assim! Mas, que sou eu? Todo velho solitário tem que engolir a tristeza. Van Rijn suspirou, num furacão autopiedoso. — E, a propósito de “engolir”, por que é que não tem pelo menos uma caixa de cerveja aqui? Uma caixa só? Uma hora ou duas de goles, para fazer sentar as tempestades de areia na minha goela de múmia. Será que é pedir muito? — Mas, não tem mesmo! Joyce contraiu os lábios. A viagem prosseguiu, em silêncio. Atualmente, cultivavam rebanhos: o iziru, corcovado, de cauda espinhosa, do tamanho do gado terreno. Atingiam os milhares, Joyce estimara, segundo experiências anteriores. A vegetação tão escassa exigia que se espalhassem por muitos quilômetros. Dois nativos, a uma certa distância, viram o carro e vieram a galope. Montavam dois basai, que lembravam antílopes grandes, corpulentos, com focinhos de anta, um chifre comprido. Os t’kelanos usavam tangas semelhantes às de Uulobu; em vez de co77

lares de concha, porém, medalhões de couro.Van Rijn parou o carro. Os nativos frearam, e puseram armas a postos, o arco esticado e a flecha curta. Uulobu pulou do teto e aproximou-se, as mãos espalmadas. Saudou-os, por ordem formal de importância. — Sorte na caça, força, saúde e prole! Eu sou Uulobu, filho de Tola, Avongo, Rokulela, e agora acompanho o povo celeste. O guerreiro mais velho, grisalho, foi frio. — Estou vendo. O mais jovem rosnou e, num floreio elaborado, recolheu o arco. Uulobu firmou a mão na machadinha. O velho fez um gesto algo conciliador, e Uulobu relaxou um pouquinho. Atento, Van Rijn estivera a observar. — O que é que estão dizendo? Quero saber palavra por palavra. O que foi aquela bobagem com as armas? Inauspiciosa, Joyce respondeu: — Aquilo foi um insulto que o arqueiro lançou a Uulobu. Desarmar-se antes de realizadas as cerimônias de paz. Significa que Uulobu não é temível o bastante para que se preocupem com ele. — Ah, então é isso! Valentões, hein? Não há garantia de paz nem mesmo dentro das próprias Hordas. Ha! E por que a grosseria com Uulobu? Ele não goza de prestígio por trabalhar para vocês? — Receio que não. Já perguntei isso a ele uma vez. Ele é o único t’kelano a quem me atrevo a perguntar essas coisas. — Ja? Por quê? — Dentre os nativos, ele foi o único que, pode-se dizer, chegou a ser amigo íntimo do pessoal da missão. Nós o salvamos de uma morte horrível. Acabáramos de descobrir a cura para o equivalente local do tétano, no momento em que ele foi infectado. Ele é grato a nós, embora exista, também, um motivo de ordem econômica. Nossos assistentes regulares estão, ou melhor, estiveram arruinados, certa feita. Ou por causa de uma seca que lhes dizimou a caça no território, ou então foram desapropriados. Foi qualquer coisa assim. Joyce mordeu os lábios. — Eles... eles nos juraram lealdade... à maneira tradicional... e o senhor bem sabe que lutaram por nós com muita bravura. Mas o fizeram em nome da própria honra. Em termos de afeição real, porém, o único a demonstrar algo do gênero, com relação aos humanos, foi Uulobu. — É estranho, já que vocês vieram aqui para ajudá-los. Mas,
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o que é uma grande perda de respeitabilidade. Uulobu regressou. enquanto isso. vendettas. é claro. fedorentas. 79 . Uulobu subiu para o teto. clã da mesma Horda que o Avongo. e informou. para começar. um dia ao cumprimentar um polvo. Suas sororocas podres. que. os que nos procuraram eram todos expatriados. também. Pertencem ao Gangu. pelo interfone: — Eles têm que andar depressa. através de Uulobu. para não estourarmos os animais. — Bem. fêmea celeste. Os dois partiram. mas. Enquanto Van Rijn ligava o carro. hoje. Depois. Diga-me tudo o que tem a dizer. Eis o paradoxo. em disparada. hein? — Não. — Cultura guerreira. não mais se mantinham nas terras de caça de seus ancestrais. Eles não têm guerras. ficam azuis na escuridão! O rosnado de Van Rijn afunilou-se num sussurro. com a psicologia profunda. Joyce transmitia as palavras de Uulobu. Aquela planetografia idiota poderia esperar. Essa gente se torna muito hospitaleira. Isto é. — Uma coisa de cada vez — interrompeu o mercador — como disse aquele sujeito. Creio que isto seja fruto da organização política. vamos voltar ao por que os nativos não são gentis com os que trabalham na missão. pelo que pude depreender. as guerras são questões menores. Ágil. depois que percebem as boas intenções. O outro. ainda por cima. Espalhava-se a acusação de que eram covardes. percebemos a mesma coisa entre sociedades da cultura Horda de características inteiramente diferentes. à moda deles. no sentido em que as conhecemos. e cobrir-se ainda é uma boa maneira de proteção. faça a gentileza de me fazer um sanduichezinho de quatro andares. Ele se sacudiu e exigiu que a tradução prosseguisse. e fomos convidados a ir compartilhar do acampamento deles. em primeiro lugar. Embora aconteçam com freqüência. chefe do bando. O sol vai brilhar. De maneira alguma. de Uulobu. confessou — muito envergonhado — que o prestígio dos que nos ajudavam decaía porque não os envolvíamos em guerra alguma. Vocês deveriam ter começado. Joyce relatou: — O mais velho se chama Nyraronga. É melhor que os sigamos bem de perto. Será que é? Nas regiões remotas de t’Kela.caramba! Vocês são mesmo um monte de cabeças de sororoca. As formalidades já foram concluídas. é um de seus filhos. — Explique e.

Os pequenos. o povo da Horda — a cultura maior. porém. mais ou menos. que este. embora unidades isoladas. e os rebentos de idade subadulta. E o que chamamos de bando. quer dizer. nós temos o macho mais velho. mesmo em termos locais.. talvez se organizem de maneira diferente. — Entendo. por arbítrio ou combate.. conforme a cultura. socializar-se. tenha acolhido.. embora apenas os machos participem das lutas com outros t’kelanos. e todas as fêmeas desimpedidas de encargos maternais. Os clãs. porventura. — E não há guerra entre as Hordas? — Não. Cada Horda tem sua própria indumentária. participam na caça. e cada um deles realiza sua reunião anual. quantidade capaz de viver numa área que possa ser coberta a pé. as crianças ajudam no trabalho do acampamento. 80 .Joyce mordeu os lábios. ou. e que controla um vasto território por onde pastoreiam os rebanhos selvagens. por sua vez. neste planeta deserto. nós nunca chegamos a desenvolver. a menos que você queira chamar de guerra as coisas terríveis que costumam acontecer durante o Völkerwanderung. são livremente confederados em Hordas. que a unidade social básica é a mesma em todas as regiões deste mundo. O bando t’kelano corresponde à família humana.. e se origina do fato de que a proporção sexual é de três fêmeas para cada macho. Há muitas rixas entre os clãs. Sabemos. não? Quanto às unidades maiores. uns vinte elementos. ocupando mais da metade do hemisfério — possui uma superestrutura mais elaborada. — Como disse. das diferentes Hordas. entretanto. como as fontes de amônia. e assim por diante. seus costumes. sobre questões de honra ou assuntos práticos. tratar dos casamentos — os machos recém-adultos compram esposas e dão início a novos bandos — é isso mesmo. E também as viúvas do pai do líder. Todos os machos. as esposas. engoliu a contrariedade e foi até o aparador do fogão. Normalmente. — Exato. O bando é o máximo de organização atingido pelos selvagens mais atrasados. com certeza. Todos quase sempre se casam dentro da própria Horda. também. Vivendo juntos. para efetuar as permutas. É tão universal quanto ela. deuses. A sociedade Kusulongo. Um bando desses tem. e para julgar as disputas. como a chamamos. pesquisas xenológicas intensivas. e a mais avançada. Dez ou vinte bandos formam o que chamamos de clã. um grupo cooperativo que alega descendência de um macho ancestral comum. em algum oásis tradicional.

são fabricantes de pólvora. a galope. pois possuem. vieram os gritos. Lá. claro. contemplou a cena: arbustos. para ela. A seleção genética. e recebem em espécie. — Talvez seja esta a chave que irá abrir o cadeado e resolver nosso problema. aqueles sujeitos das montanhas. Hummm. A mão livre de Van Rijn pôs-se a puxar o cavanhaque. Quando os humanos querem fazer guerra.. — Bem.. Van Rijn perguntou: — E como vivem? — Fornecem serviços e mercadorias. não existe campanha organizada. O carro chacoalhou. esquecidas pelos demais. picos pontiagudos que tremeluziam contra o céu crepuscular. aqueles que não gostaram do lugar tenham saído para ir-se juntar aos nômades.. escalavam a montanha e eram adotados pelo grupo. que o motivo é mais profundo. Creio que por não possuírem excedentes econômicos que lhes permita manter exércitos no campo. vermelha. não deixam que questõezinhas menores os interrompam. Pelos vãos da boca cheia. penedos e a poeira em remoinho. desta maneira. que vendem apenas fogos de artifício..possam entrar em choque. — Ah. Permaneceram em sua cidade. são médicos. por sobre o murmúrio do motor. Fale a respeito deles. para quem a cidade talvez apresentasse conveniências. bem mais adiante. que o devorou. Joyce terminou de fazer o sanduíche. bateu. E eu duvido que os fkelanos sejam diferentes. enquanto alguns nômades eventuais. Joyce sentou-se. Disse: — Os Anciãos são sobreviventes da civilização perdida. os Anciãos são antibelicosos. para a maioria dos t’kelanos. tecelões de tecidos finos. Os Anciãos são um tipo psicológico distinto. para recolher os desgarrados. uma cordilheira de gelo. metalúrgicos qualificados. Costuman mediar as disputas inter-Hordas. mais intelectuais — que todo o resto. para uso próprio. São muito mais reservados e — creio que você diria. Indistintos. via-se o Lubambaru. a massa escura do rebanho ao largo. registram ocorrências. ruidoso. ao curso de milênios. — Hummm.. Eu presumo que. eu. apenas alguns canhões. Eu desconfio. e mantiveram as artes. a eles.. estaria assegurada. poderes 81 . São escribas. Esse tipo de vida não é espontâneo. à luz rude. dentre outras coisas. se conseguirmos descobrir corno enfiá-la no cadeado. Joyce sentiu a superfície nos ossos. um cavaleiro voltando. deu-o a Van Rijn. o frear dos animais. E atribuem-se.

O velho Nyaronga chefiava o grupo. Os filhos crescidinhos flanqueavam a comitiva. por onde corria. Tenho certeza de que acreditaram em nós quando explicamos que viemos para salvar-lhes a raça da extinção. Van Rijn tanto futucou o painel de controle que a coisa estalou. as mães regurgitavam o alimento para os pequenos que ainda não haviam cortado as presas. Ainda não consigo atinar o porquê. Gritou: — Caramba! Faz sentido! Joyce aprumou-se na cadeira. um rio de amônia. pisca-piscavam ao longo da paisagem. na mão. Os cavaleiros apressaram seus iziru bosque adentro. espinhosos. Ao fim da tarde. flechas armadas. a espada retinia. Bom tempo depois. As horas passaram-se. sem dúvida. e rumaram norte. secreta. umedecia o solo. arbustos compridos formavam moitas. lentas. com rostos narigudos. os t’kelanos não eram mamíferos. armados. retorcidas. e a infiltração. no braço. Embora peludos e homeotérmicos. Entre elas. — E até ontem eram amistosos? — À sua maneira arredia. limpou os dentes com a unha e caiu num silêncio cismático. um pouco. ralo. encobrindo o sopé de Lubambaru. Já deviam estar planejando atacar-nos há algum tempo. a lança. Van Rijn voltou aos pensamentos. — Ja. de troncos azuis. uma floresta surgiu-lhes à frente. os olhos amarelos. ao todo. arrotou. de quinze. imensos. num grupo compacto. ao lado do corpo. Van Rijn terminou de comer. — O quê? — Mas ainda não sei como irá funcionar. e uma densa folhagem de folhinhas cinza-esverdeadas. As fêmeas eram mais robustas que os machos. principalmente por preverem as incandescências solares. sem contar os animais de carga e uns dois infantes felpudos.mágicos. Joyce procurou não demonstrar a saudade desesperada que sentia de casa. talvez. não tenham percebido todas as implicações. colocaram alguns piquetes de vigia. instigando os shangas e fornecendo-lhes a pólvora para explodir nosso domo. O carro 82 . As árvores eram baixas. o escudo. Cidadã. claro. — A que o senhor se refere? — Cale-se. no início. nos arcos. Só que.

Algumas partículas do sol. o teor de oxigênio decresceu a tal ponto que a camada de ozônio já não consegue bloquear tanto ultravioleta quanto deveria. um planeta como esse. É assim que pensamos em Esperança: 83 . evoluem mais devagar que os pequenos. E talvez um dos fatores seja também a ausência de muitos minerais radioativos. e muitos chegam a morrer de tão queimados. e acrescentam-se ao cenário já rico em raios cósmicos. não falei?. não. — Ja. Para eles. em pânico. entendo. aumentam de luminosidade muitos centos por cento. gesticulou. Mas entenda que os iziru e os bambalo estouram com o incandescer do sol. — Você disse que eles são caçadores. — Esperam encrenca? Joyce irrompeu dos pensamentos soturnos. numa época de incandescência como essa. e não pastores. pois a humanidade evoluiu no sentido de suportar radiação bem maior do que a norma por aqui. Hoje em dia. que eles eram uma raça briguenta? Não fazem guerra. ao disco vermelho que baixava. Os clãs não podem se dar ao luxo de perdê-los e. de gerações duradouras. também atravessam. e. essa precaução é pura rotina. Como norma. É óbvio que irão baixar acampamento com os outros bandos do clã. em t’Kela. — O cosmo é cruel. a incandescência não os perturba. é até dia de festa. assim. — Eles sempre esperam encrenca. mas costumam ter encontros muito sangrentos. Além disso. observam de perto os rebanhos e os conduzem a locais onde haja sombra e onde a vegetação rasteira impeça que fujam. o mundo de t’Kela não teve tanta sorte quanto o de Throra. Van Rijn seguia-lhes a trilha. Em Thora. na maior parte do tempo. carregadas. com um centro carente de metal. A coisa não incomoda a mim. zombeteiro. nem a você.rolava. Hoje em dia. quando incandescem. Isto talvez se deva ao fato de não terem desenvolvido qualquer proteção contra o ultravioleta desde que a atmosfera começou a mudar. Mas é como você disse. Elas incandescem. os animais grandes. possui um campo magnético fraco. porém. Mas você conhece as anãs do tipo M. — E são mesmo. essa brasa não tem energia para machucar nem mesmo uma borboleta doente! — Se a borboleta for oriunda da Terra. Eu falei. Para controlar um rebanho desse tamanho são necessários todos os gangus. O polegar de Van Rijn sacudiu. — Ora. Joyce estremeceu.

tanto fizéssemos. não muito calorosos. em todos os lugares em que os encontramos: no início. sem correr. Mais uma hora. um lapso. A luz é tão débil que os fenômenos das manchas e da incandescência podem ser observados com facilidade — ao contrário das estrelas do tipo G — e os padrões são muito característicos. Sempre agiram assim. circundavam um campo plano. com a escuridão e a tempestade de estrelas. exceto que nem todos os seres foram feitos para isso. depois. a mensagem para todas as Hordas. sem. corcoveadas. nossas máquinas. com dias de antecedência. Lá fora. Se os Anciãos disseram que vai. para o bem ou para o mal. que se formava lá fora. Ela percebeu que a coisa não a incomodava tanto assim. O bando começou a armar o próprio acampamento. bravateavam. e chegaram ao acampamento. com olhos a brilhar. guardadas por jovens. Tendas de couro. e insistiam em pagar. viu a multidão. contudo. leve. nos jogavam pedras. nem para os rituais. e as crianças. Sempre nos agradeceram. todos juntos. o braço no ombro de Joyce. Era uma ordem. uns duzentos rostos não-humanos. Van Rijn olhou o sol. As mulheres estavam agachadas mexendo tigelas de comida. então vai.combater o universo. se afastaram. os pêlos amassados pelo vento chorado. ardiam fogueiras. alguém já lhe disse isso? Van Rijn pousou. todos os clãs. 84 . — Eles têm certeza de que vai incandescer hoje? Joyce assegurou. mas jamais nos convidaram para as festas comemorativas. como se. Os sinais heliográficos transmitem. a fascinação selvagem diante de nosso aspecto. Não é difícil predizê-lo. pelos favores que lhes pudéssemos fazer. às vezes. — Uma bela filosofia. de um lado para outro. as setas das lanças a cintilar. A frente das porteiras. os homens. gradualmente. Os outros. de Kusulongo. as mãos nas empunhaduras das armas. — Claro. com vidro fume e um telescópio primitivo que permitam observar a superfície do astro. Ou será mesmo só aparência? Joyce pensava. onde havia uma fonte de amônia. Nyaronga ladrou. quase um único som de alguém. todas as Hordas. Você é uma menina muito meiga. A chegada do carro fez com que todos viessem observar. e a cortesia formal e fria. com um ar de estudada indiferença. Qualquer astrônomo de segunda é capaz de predizer. a incandescência das anãs de classe M.

comprido. o conhecimento empírico. ja. a voz veio embargada: — Somos visitantes. Uulobu desceu do carro. uma teia de aranha que se alastrava em alças feéricas. Noutra ocasião. desprendeu-se. Joyce percebeu-se agarrando o braço de Van Rijn.— Creio que esses Velhos Caducos herdaram. Joyce viu formar-se. Ainda não muito brilhante para que os olhos humanos não a pudessem enxergar desprotegidos. Joyce gritou: — Não! Nós somos visitantes! Por um momento. de um vermelho mais claro. os dois t’kelanos fuzilaram-se mutuamente. as crianças. No disco solar. Joyce ouviu-o perguntar a Nyaronga: — Posso ajudá-lo a fitar o Real zangado? — Não — respondeu o patriarca. com estardalhaço. apresentavam-se negras. Embora já tivesse presenciado o espetáculo antes. aos tempos primitivos. nele. guincharam. Reluziram os dentes de Uulobu. O vento fortaleceu-se. morreu. lá vem ele! O sol não estava muito acima das cordilheiras ocidentais. No intercomunicador. o pêlo eriçou-se. Os basai recuaram.. O céu começou a empalidecer. Um deles negaceou. estendido sobre estacas. e por trás delas. e levaram-nas a um abrigo de couro. os t’kelanos puxaram as feras. Nyaronga.. no chão. — Entre na tenda com as mulheres. vamos re85 . A luz jorrou ao longo das colinas sombreadas. os babilônios já conheciam os movimentos planetários. lançou. contra aquele disco intumescido. A labareda expandiu-se.. ao longo das planícies. Um guerreiro girou o laço. imobilizaram-nos.. aterrorizadas. Um ronco percorreu o povo do clã. a concentrar luminosidade. e por falar no diabo. O mercador socou o cachimbo e exalou baforadas imperturbáveis. Uulobu desenrolou a machadinha. As fêmeas apanharam as tigelas. Com força. Nas costas. a protuberância continuava a aumentar. Uma labareda rala. que. À cintura. Uma gota de radiância brotou. e entraram nas tendas. clareou. e derrubou a criatura. Dois outros ajudaram a carregá-la para dentro do abrigo. minuto a minuto. malhou os bosques no contorno do acampamento. A lança de Nyaronga apontava para a garganta de Uulobu. afinal. Caramba. lenta. Os machos agarraram as rédeas dos animais. de um dos lados. O avongo fez ligeira reverência. renasceu.

mais para si mesmo: — Isto se ajusta aos padrões. os jovens não-casados formaram um círculo maior. — Quem? Você. o acampamento estava deserto. O último basai acabara de ser colocado lá dentro. Os t’kelanos começaram a dançar.solver isso. As lanças ergueram-se. Uulobu entrou na tenda mais próxima. de repente. — O que fazem? — perguntou Van Rijn. quase do mesmo tamanho que ele. A protuberância intumesceu-se. Van Rijn ficou de pé. O próprio Nyaronga empunhou uma trombeta de metal e tocou. Com as pernas endurecidas. Era. e agora não há tempo para desdizê-la. Não precisamos de ajuda. de um matiz alaranjado. Trata-se de um desafio. a coisa se ajusta mesmo. um sem-terra? O líder se conteve. as espadas e as machadinhas sacudiram. a amarelecer. caminharam para as tendas. ele não é um demônio. 86 . sempre mais rápidos. Nyaronga. defenderemos nossos próprios rebanhos e pastos. despejando quase tanta luz quanto ele. O vento aumentava. de modo a deixá-los numa escuridão apaziguadora. é um deus. De um salto. devagar. Os chefes dos bandos caminharam até o centro do acampamento. — A paz foi estabelecida entre nós. tocou novamente a trombeta. pálida. Tanto se acostumara à luz vermelha. agora. Mas nós. a avivar. Van Rijn concordou com a cabeça. próxima ao disco solar. Os machos terminaram a dança. à medida que aumentava a radiância. de um desafio. — Ahhh! Minhas juntas! — Hein? Joyce fitou-o. deste dia de viagem. porém. Uma nuvem de flechas zuniu na direção do sol. uma lâmina de fogo. E continuava a crescer. — Exorcizam o demônio? — Não. que a nuança. À volta deles. Toda vez que um deus abandona seus deveres de justiça. e disse. Sob o sol. gangus. que sempre fazem. rombuda. Ja. Eles não acreditam nisso. numa lentidão arrogante. A aba da tenda encontrava-se fechada com um laço. não devemos bajulá-lo para que se contenha. As abas das portas foram desenlaçadas. E. que agora entrava pela janela. Devemos ameaçá-lo. Formaram um círculo. para que desça e lute. por sinal.

que troaram. Van Rijn entrara na câmara de ar. agora devia esgueirar o olhar até lá para ver o que ele fizera. e disse. quando eu acenar. E esse homem já saberia como se comportar? Porque. adquirira uma cor bronzeada. bem alto. no campo. já a atravessara. Ela. quase branca. no vernáculo: — Os gangus que forem valentes. observem! Olhem para o macho dos lugares longínquos. Mais uma vez. e parava no meio do acampamento.parecia horrível nas bochechas de Van Rijn. de modo que todos a ouçam. breve. É possível que Van Rijn tenha acenado. Joyce umedeceu os lábios. fora através das informações que ela lhe transmitira nas últimas dez ou quinze horas. se não lhe fizessem muitos furos naquela barriga gorda. que. e fez estremecer as tendas. ao vento. nem mesmo ouvira falar deste planeta. como se fosse uma outra estrela. Quando aquela forma rude acabou de se enfeitar. você aumenta todo o volume do intercomunicador. E estava aqui há menos de uma semana. com ferro afiado. significaria a mais completa falta de justiça no universo. agora. Por causa do contraste. O que aquele idiota pensava estar fazendo? Há um mês. entendeu? Antes que Joyce retrucasse. 87 . diga àqueles supostos machos que olhem para mim. debaixo do sol enfurecido! As infexões ribombaram. A incandescência. nivelou as fogueiras. às pedaladas. Van Rijn sacudiu o braço. com a língua embasbacada. o sol já se encontrava no topo das colinas. e triplicara a radiância. Um minuto depois. se tiverem coragem. e sim flamiforme. E tudo o que conhecia a respeito do planeta. A labareda era. e não por causa da claridade propriamente dita. — Vou lá fora — disse Van Rijn. O vento soprou a poeira e as folhas mortas no chão. e agora pisava. Ele está só. porém já não arredondada. As sombras compridas oscilavam no mundo. — Em vez de ficar aí parada. — Agora. que ainda representava um baixo percentual em relação à atingida na Terra. — E fale com grosseria. pesado. porém. E ele achava que ela se deixaria afundar com ele? Uma imensa. nada natural. Van Rijn lançou um olhar fixo para Joyce. Fez um sinal.vá apanhar minha roupa! Joyce se percebeu obedecendo a Van Rijn. negra silhueta desenhava-se contra o céu incandescente. Joyce ligou o intercomunicador. ocas. Depois. agora.

Van Rijn sacou o lança-raios. por um momento. Van Rijn abriu o capacete. qual. Os jatos luminosos.. Um a um.? Joyce gritou. O mercador terminou com um gesto irreproduzível. quando inspirei aquela amônia. Mas. ofegante. nos poucos minutos que consegui prender a respiração. E ostentou o fato. Lamentou-se: — Caramba! E nem uns centimetrozinhos cúbicos de uísque para consolar minhas pobres membranas lamacentas! Joyce sussurrou: — O senhor poderia ter morrido! — Não. Pelo terror dos impostos! Van Rijn foi à cabine do banheiro. — E agora. Van Rijn atravessou a penumbra. a estes pobres habitantes de Hades. — Nãao! Van Rijn abriu a viseira. dançou em círculos. no horizonte. pretendo morrer com um tiro de um marido enfurecido.. Não é assim que Nicholas van Rijn irá morrer. também — pensou num dos cantos do cérebro — tão fraco. mas era forte o bastante para trazer a dor.. Mas. jogou água no rosto. reluziram na escuridão. Lá fora. e blasfemava em dez línguas diferentes.. à vista. O gelo começava a formar-se no uniforme. de pé. ainda turvo com a aurora.. chorava de dor. que crepitaram. 88 . os ruídos. emitia em freqüências às quais seus olhos eram sensíveis. enquanto o sol.a uma temperatura efetiva de um milhão de graus. uma lâmina de radiância espectral. à plena luz. Com muita determinação. As partículas carregadas. ainda demorariam horas. esticou o rosto para fora do capacete. bufando alto. cutucaram as lareiras. ou mais. Grotesco. e até a morte. não daria para avermelhar nem mesmo a pele de um bebê humano.. aos bamboleios e. Aos cento e cinqüenta anos. O céu. A protuberância ainda demorou-se. permaneceu de braços cruzados. E o ultravioleta. fechou o capacete. Nada disso. por sobre as árvores. Joyce abriu-lhe a passagem. disparou mais dois jatos e. os t’kelanos emergiram. Afundou-se a última luz do incandescer. disparou diversos raios contra o astro. pareceram insignificantes diante de tanta ira desfechada lá de cima. tudo tranqüilo. baixava. mais penetrantes. exibia apenas as estrelas mais vividas. voltou para o carro. colocou o polegar na ponta do nariz escarpado e fez pouco do céu. Não estava tão frio assim.

— Por que você desafiou o sol? Nenhum ser celeste jamais fez isso antes. que. Diante dele. para ela. Diga que nenhum de vocês achou que valia a pena fazer o desafio. emergiu. às cegas volteavam na escuridão. farpada. A maioria era bem jovem. como a noite. deparou-se com o olhar atento de Nyaronga. Os pais dos bandos postavam-se à frente. Reuniram-se assim que viram aproximar-se os humanos. ia alto. Ela viu. a tanga esvoaçava. e o brilho opaco da fumaça projetava-se na direção do grupo. uma labareda subia com o vento. por fim. para os t’kelanos. 89 . Joyce ouviu os gritos assustados dos iziru. percorreu os guerreiros. Nyaronga quebrasse o silêncio. Van Rijn entufou o peito. uma espada feita de chifre. imperturbável. e percebeu que estava encurralada. a lança na mão. Aos pés de Joyce. atrás deles. visível. mas que eu achei que valia. as fogueiras. à sua passagem. A roda que formavam. neste aspecto. num balbucio apressado. apesar de uniformizado. o plac-plac Uulobu. fagulhas despencavam em samambaias. Agora. Dos dois lados. Um murmúrio. Nyaronga.Van Rijn voltou. fechava-se. Para a visão de Joyce. quase fabricavam a luz do dia. os cachos agitados. Mas o terráqueo. Para entrar no círculo circundado pelos contornos chamuscados das tendas. entretanto. mal iluminavam a primeira fila. Em seguida. atrás. como o suspiro que antecede a tempestade. parecia privilegiado. De vez em quando. Uulobu acocorou-se. quando viu os machos que esperavam junto à fonte de amônia. Vamos conversar com eles. — Estou pronto. Com o ar irrequieto. naqueles olhos. esperou para que. a floresta murmurava. a velhice não era muito comum no deserto. Tênue conforto. Reconfortaram-na a proximidade do corpanzil de Van Rijn e. Joyce traduziu. Joyce postou-se próxima a Van Rijn. um machado ou uma adaga de ferro faiscar. Joyce viu uma seta de obsidiana. o reflexo do brilho de fogo. vista o uniforme e vamos lá fora. eram como uma única sombra. Ali estava ele. Para lá do acampamento. Van Rijn parou. — Diga a ele que cheguei há pouco tempo. A boca secou. as presas expostas nas mandíbulas entreabertas. Joyce teve que forçar passagem por entre fêmeas e crianças.

do contrário..Joyce implorou: — O que é que você tem em mente? Um passo em falso e seremos mortos. Alguém retrucou: — Vocês jamais se dignaram? Como assim? Joyce improvisou: — O brilho do sol não é ameaça para nosso povo. — Ei. aí mesmo é que seremos mortos. vamos desperdiçar nossa última chance por causa de alguma bobagem. quando você. Há alguém aqui que já nos tenha solicitado? A quietude pairou novamente. ou alguém como você. mas vem de um povo mais poderoso que o meu. — Droga de luvas! Seria mais gostoso sem elas.. que esperavam: — Este macho celeste. mas demonstre irritação. não pertence à minha equipe. agora. Ele quer que eu diga a vocês que. Portanto. vituperou: — Eu os ouvi no ano passado. — Verdade. puderam ver que é verdade. não fosse ele suficientemente esperto para resistir a todos. esteve na terra de meu bando curando alguns rebentos adoentados.. pois. por um momento. Mas. Nós já dissemos isto por diversas vezes. Nada de insultos imperdoáveis. E então? Van Rijn acariciou a mão de Joyce. mas não sei por que. o povo celeste. a desafiar o sol.. diga a eles tudo o que eu disser. e use um tom áspero. 90 .. até agora.. é melhor você falar primeiro. jamais tenhamos nos dignado. embora nós. Correto? Isso mesmo. está bem? Joyce engoliu em seco. por esses tantos planetas turbulentos. Joyce conteve o medo. até que um patriarca de um olho só. ou então morreremos de fome por não tentarmos entrar no raio de alcance do rádio da nave de socorro. aqui comigo. virou-se para os t’kelanos. Joyce. — Está bem.. confie em mim. o que está havendo? É melhor deixar que eu fale. com uma cicatriz. nem engordado. É da mesma raça que eu. em todo caso. Mas se não fizermos nada. ele julga que fazê-lo não está abaixo de suas possibilidades.. — Então — Joyce acrescentou — vocês. Nicholas van Rijn não teria envelhecido. Se. Van Rijn puxou-lhe a manga do uniforme.

Você estava indo muito bem.. por diversas vezes. e não serve nem como espantalho de criança. dentro do meu capacete.. Os pêlos eriçaram-se. eu já pude observar. Um dos chefes. Meu sol poderia comer o seu de sobremesa e ainda pedir bis. E ele a deixou espantada. Iriam virar pipoca. jovem. Mas eu. — É.Joyce não ousou enraivecer-se. — Me ajude com esse desgraçado desse equipamento de ar. — Muito bem. apenas recontou a conversa. do povo celeste. iriam crepitar e subir numa nuvenzinha pastosa de fumaça. em linha. grande. ao dizer: — Me desculpe. que eles chamam de ar. para variar? Eu os desafio! Um bramido percorreu os guerreiros. Com uma das mãos. que vocês. menina. — Vocês viram. aprontando armas. — Mas.. E que tal vocês irem dar uma fungada no meu ar. Posso muito bem cuspir no seu sol. — Vocês têm que se enfardar todos para se proteger do ar. meio de apreensão. meio de ira. Não quero nem mais um pingo desse veneno de besouro. apagar. Aquilo os fez retroceder. repetidas vezes. Van Rijn dava cuteladas de desprezo no ar. Desaparafusou a válvula da uni91 . impotente. — Eu aceito o desafio. tenho algo a dizer. Concedo-lhe uma fungada. Nyaronga cuspiu. bem abaixo do nariz de Nyaronga. e ele irá rechinar. mas. agora. ou. se tentassem.. entre meu povo. eu coloquei a cabeça do lado de fora. está bem? Van Rijn inclinou-se à frente e apontou o dedo indicador em riste. áspero: — Vocês me perguntam por que eu me expus ao sol incandescente? Foi para mostrar-lhes que não tenho medo do fogo que ele produz. Nyaronga revidou. ao enunciar. são quase cegos. aproximaram-se. Indignado. Van Rijn voltou-se para Joyce. Joyce obedeceu. caramba! A luz dessa bolota aí não dá nem para enxergar. — Vocês conseguem ficar na frente dos holofotes de nossos carros? Ficariam cegos. deu um passo à frente. Você traduz frase por frase... talvez. Os t’kelanos rosnaram. nie? Vocês não agüentariam a Terra. — Estão vendo? Vocês são mais fracos que nós.

Se afeta os throranos. — Diga a eles — ordenou Van Rijn — que lutarei desarmado com o homem mais forte deles. a estes companheiros. situada a meio-caminho entre um ombro e outro. Van Rijn caçoava. Esfregou o nariz e os olhos lacrimejantes. Oxigênio demais. depois. Somos um povo de caça. um pouco mais. de um lado para outro. Nyaronga ergueu os braços. ele pode usar armas. Muito quente. eu tinha certeza. num resmungo. quaisquer que sejam suas armas. muito vapor d’água. poderemos tratá-los como cachorros e mandá-los. Já que usarei o uniforme. esteve aos tropeços. Joyce tranqüilizou-os. Van Rijn ordenou: — Jogue o ar no rosto dele! O guerreiro manteve o arco esticado. às chicotadas. que me protegerá contra mordidas. Van Rijn gritou: — Ande logo! Joyce apontou.dade de reciclagem. O guerreiro uivou. através de Joyce: — Para provar que somos tão fortes quanto vocês e. nie? Joyce protestou: — Ele irá matá-lo! Van Rijn lançou a Joyce um olhar de malícia. A observação provocou alarido. e num suspiro das fêmeas que assistiam da escuridão. Joyce pensou na dor que iria sofrer. num jato. nada mais justo. 92 . A atmosfera terrestre saiu. Isto significa que possuem artes que não possuímos. prostrou-se nos braços de um assecla. o velho chefe proferiu: — Sabemos que vocês dominam armas que não dominamos. para seus canis. o que jamais negamos. principalmente. que vocês respiram veneno? Van Rijn respondeu. — Já ouvi algumas estórias a respeito disso. de certo modo. cambaleou de costas. por que não faria mal também. e vocês não. a pedir silêncio. Pedras pontiagudas relampejaram no ar. Num orgulho lívido. elas vão perfurar apenas o tecido de corda! Portanto. Por um minuto. Se quisermos. Que veio. Um t’kelano não é mais forte que um bambalo só porque possui um arco que pode matá-lo â distância. Nyaronga sacudiu-se. Por que tiveram que mostrar a este pobre-coitado o que todos já sabíamos. Mas não significa que sejam mais fortes. Afinal. num murmúrio. Diga a eles que o guerreiro estará bem em alguns instantes. e não conseguia apontar a mangueira. Joyce recolocou a válvula no lugar. — Eu sabia.

A lâmina estocou. — Se eu perder. Van Rijn virava-se. como os de um macaco. Os t’kelanos gritaram. Kusalu veio. formando um círculo de olhos e armas envenenadas. saltaram. o braço de Van Rijn torceu. a adaga de ferro.— Se eu morrer. Van Rijn investiu para atacá-lo.. cercando. sussurrou: — A única coisa que posso fazer é lutar com ele eu mesmo. Dos ombros arqueados.. Van Rijn sacou o lança-raios e jogou-o aos pés de Nyaronga. 93 . caiu de rosto no chão. na esquerda. numa velocidade impossível. Kusalu caiu num joelho. Os outros machos abriram a roda. — Eu sei o que estou fazendo. ele avançou. você talvez sinta remorso de não ter sido mais boazinha para com um pobre velho. — Eis meu próprio filho. — . Uns dez machos selvagens. Debaixo dos pêlos. sim! Van Rijn apertou-lhe os pulsos com tanta força. morrerei pela mulher mais linda do planeta. apanhou-a no ar. estivessem à mostra. ela pôde senti-lo no próprio braço. as presas brilharam. aos murros. Soltou um grito: — Haaah! Kusalu praguejou. atirou a machadinha com força estilhaçante. Aquilo os tocou. As fogueiras iam tingir-lhe as feições grosseiras. A voz baixou. Van Rijn atirou-se de costas. A correia esticouse. que porventura. ali dentro do capacete. vieram para a luz da fogueira. Uulobu puxou Joyce para o lado. Nyaronga berrou. gritaram. agarrou a correia e deu um novo puxão.. pendem os braços. Kusalu deslizava. Joyce transmitiu o desafio. A mão esquerda de Van Rijn. Ele defenderá a honra do bando e do clã. — Não! Recuso-me a dizê-lo! — Você vai dizer. Com o pulso trêmulo. Van Rijn desviou-a com o pulso direito. os músculos serpentearam. jovens. Kusalu. Joyce teve de encolher-se. recolocou-os em ordem. Kusalu rolou no chão e levantou-se a tempo. e. a machadinha. Aí. Nas costas. na mão direita. o vencedor pode ficar com isso. O t’kelano era mais baixo que Van Rijn. majestoso como um planeta. entendeu? Entorpecida.. Olhou de um em um e brandiu a lança na direção de um deles. então. embora de mesma largura.

Recuou. e já recebia um direto enluvado no estômago. Cambaleante. Aos soluços. Depois diga que eu tenho muita terra. Kusalu. Van Rijn fechou sobre ele com uma cutelada de caratê ao lado do pescoço. Devagar. Depois de forçá-lo a largar a faca. Coisas aconteceram. girou-o. Kusalu foi agarrado. Kusalu permaneceu parado. Van Rijn entoou: — Là ci darem la mano. Implacável. Kusalu cambaleou. o nativo disse: — Você deu provas de si mesmo. Eu não o invalidei para sempre. Kusalu permanecia de pé. ainda empunhando a adaga. Joyce fitava-o. Ao investir sobre Van Rijn. e retirou o pé antes que fosse agarrado. mal se levantava. Van Rijn desfechou-lhe um pontapé preciso na barriga. macho celeste. Van Rijn quase nem conseguiu esquivar-se da ponta da faca. Van Rijn chutou-a para longe e soltou Kusalu. — Ele morre. Nyaronga ajudou o filho a levantar-se. arremessado por cima dos ombros do mercador. soco por soco. Ofegava. Kusalu guinchou.. O mercador afastou-se para o lado. para retomar o fôlego e. Van Rijn espetou-lhe o joelho nas costas. Outros dois levaram Kusalu dali. Van Rijn e Nyaronga confrontaram-se. horrorizada. mas não diz. com sangue a escorrer do nariz. de um salto aprumouse. 94 . e atacou. Van Rijn esperou. — Então. arremessou-se num movimento atabalhoado. Kusalu cambaleou. você luta bem. e foi bom não tê-lo matado. por um momento. Joyce jamais vira algo igual. Um entusiasmo surdo varreu os t’kelanos apinhados. levantou-se.. até fazer vergar o guerreiro. vamos adotar o caminho mais difícil. Para alguém sem terra. o terráqueo agarrou-lhe o braço direito. Joyce traduziu. Van Rijn respondeu: — Diga que não matei o jovem porque não há necessidade disso. depois. parou bem próximo. — Diga “titio”! Joyce deplorou. que. Cuspiu. Kusalu preparou-se para estocar. ereto de novo. Van Rijn acalmou-a — Está tudo bem. Van Rijn insistiu. foi malhar o chão num ribombo surdo.Kusalu chicoteou a correia. enganchou-o.

brandiram armas. — Diga que ali estãos meus campos de caça! Depois de digerir a resposta. Os cachos eriçaram-se nas cabeças nativas.. e 95 . novamente. Como é mesmo que aqueles comunicados militares costumam dizer. quase lamuriento: — Então o que quer ele em nossa terra? O que ele ganha com isso? — Nós viemos ajudar. não teriam as tantas coisas que têm. e as mãos.... Caso contrário. — Vocês querem refúgio entre nós? — Não. Nyaronga intrigou-se. para posições previamente preparadas. comerciam uns com os outros. um avanço à ré. quando levam uma surra no traseiro? . viemos apenas fazer negócio. diga que tivemos que fazer uma. E a relação que mantêm com a cidade é essencialmente de troca. —Uulobu respirou. brumoso. Van Rijn informou: — Não viemos roubar suas terras. Débil.. os filhos achegaramse. Os pais do bando juntaram-se a ele. Joyce instalou-se ao lado de Van Rijn. como já lhe disse antes. as pupilas contraíram-se. Nyaronga perguntou. Diga. pois se forem dizimados não poderemos realizar bons negócios lucrativos. Joyce se conteve.. Estes povos. Diga que os shangas apossaram-se das armas que vocês tinham no domo. com bons lucros para os dois lados. — Ah! Agora estamos falando de coisas sérias! O terráqueo vangloriava-se. Diga que aqueles velhotes da montanha têm inveja de nós. passou a pergunta a Van Rijn. sua caça. o senhor não pretende dar uma demonstração de força? Vamos admitir que estamos foragidos? — Bem. as estrelas cintilavam no céu ventoso. — Então irão entender a barganha proposta. Diga a ele que viemos alertá-los. Quer dizer. — Ah... ordenado. Não. Ococorou-se junto a uma das fogueiras. lá. por motivos estratégicos. para escutar. apertados. claro que comerciam. com certeza. Diga que incitaram os shangas a atacar nosso acampamento. toda a verdade. aliviado: — Fomos considerados amigos! Num tom oleaginoso. Joyce disse. — Como? Eu pensei.Van Rijn apontou para cima. e não envernize demais.

que virão, com os clãs amigos, rumo ao território Rokulela. Joyce ouvira bem? — Mas nós não... não.. . nós trouxemos apenas algumas poucas armas pessoais, portáteis. E, na retirada, cada um deve ter ido para um lugar diferente. — E estas pessoas sabem disto? — Bem... irão acreditar em você? — Minha linda, bondosa loura, de curvas em lugares tão adequados, dou-lhe a minha palavra, de Nicholas van Rijn, de que isto seria a única coisa em que acreditariam. Joyce, de modo truncado, proferiu a mentira. A reação foi horrível. Por todo o acampamento, efervesceram, saltaram de um lado para outro, empunharam lanças e, qual lobos, uivaram. Só Nyaronga permaneceu sentado, embora com o pêlo arrepiado. A pergunta veio como um suspiro nasalado. — Isto é verdade mesmo? Van Rijn replicou: — Que outro motivo teriam os shangas para nos atacar com a ajuda dos Anciãos? Joyce interveio. — Você sabe muito bem qual é. Foram subornados pelos Anciãos, que se utilizaram das superstições dos shangas e, é bem provável, ofereceram a eles o nosso metal para a confecção de facas. — Ja, sem dúvida. Mas transmita a minha retórica a esse velho demônio, exatamente como eu disse. Pergunte a ele se não faz sentido que os shangas tenham nos atacado em busca de lançaraios e lança-projéteis, já que os velhotes devem tê-los incitado a isso e fornecido a pólvora? Depois, diga a ele que os Grisalhos devem estar do lado da própria Horda dos shangas... qual é mesmo o nome? — Yagola. — Isso. Diga a ele que você ouviu coisas que dão a você bons motivos para acreditar que o clã shanga vai libertar a Yagola, vai rumar oeste e expulsar a Rokulela desta terra boa. Nyaronga, e os demais, num silêncio sinistro durante a fala de Joyce, não tiveram problemas em perceber a conceituação. Como já dissera a Van Rijn, a guerra não era uma instituição t’kelana. Mas a idéia que transmitia era, não a de uma guerra de gala, mas sim a de um Volkerwanderung em busca de novos campos de caça. E estas coisas eram bem freqüentes neste planeta moribundo, pois quando uma região chega à aridez absoluta, seus habitantes pro96

curam desalojar outras Hordas, para, em último caso, morrer na tentativa. A diferença, agora, era que os Yagolas, que não passavam fome e nem haviam sido expulsos de seu território, procuravam, presumivelmente, antecipar-se ao acontecimento e, de posse das armas roubadas, agarrar mais terras e conquistar a superioridade absoluta. — Não pensei que fossem tamanhos monstros — ponderou Nyaronga. — E não são — protestou Joyce, em Ânglico, dirigindo-se a Van Rijn. — Isto é uma terrível calúnia. Eles... — Bem, bem. No amor e na propaganda, vale tudo. Proponha a Nyaronga que voltemos a Kusulongo, angariando reforços no caminho, para verificar se tudo isto é verdade ou não, e utilizar a vantagem numérica enquanto dispomos dela. — O senhor vai jogar uns com os outros. Me recuso a tomar parte numa coisa dessas. Prefiro morrer. — Escute, minha batatinha-doce, ninguém morreu ainda. E talvez ninguém morra. Talvez, depois, eu possa explicar melhor. Mas, agora, temos que atacar enquanto o toucinho está na brasa. Eles estão excitados, quase fanáticos. Não vamos dar-lhes a chance de acalmar-se antes de ter decidido seguir viagem. O homem pousou a mão sobre o coração. — Você acha mesmo que esse velho, meio covarde, Nicholas van Rijn, já sem fôlego, amante do conforto, iria querer participar da guerra? Pense bem. Uma poltrona, macia, daquelas que se amoldam ao corpo, um aperitivo, refrescante, num copo longo, um charuto venusiano, Eine Kleine Nachtmusik no gravador; isso é tudo o que ele quer, a bordo de um queche, navegando pelos Estreitos de Sunda com um monte de dançarinas. É pedir muito? Portanto, seja boazinha, seja gentil. Ajude-me a incitá-los à luta. Tomada pela própria perplexidade, Joyce deixou-se levar. Naquela mesma noite, cavaleiros foram enviados com mensagens a outros clãs Rokulela que se sabiam localizados nas proximidades. Rumo a leste, o primeiro avanço ocorreu na escuridão, para evitar o sol, que ainda incandescia. Quase todos os machos, crescidos, meio-crescidos, seguiram viagem em suas montarias; as fêmeas e as crianças permaneceram no acampamento. Usavam túnicas e albornozes largos, os basai eram forrados, como proteção contra a violenta coceira que atacava os t’kelanos expostos nestes perío97

dos. Boa parte das partículas carregadas do astro atacavam o lado do dia do planeta; havia, entretanto, campo magnético suficiente para levar algumas delas para o hemisfério oposto. Mesmo assim, a comitiva desenvolveu boa velocidade. No carro, Joyce espiava pelas janelas, e os via, de relance, sob as duas luas, formas amorfas, sombrias, deslizando no terreno áspero; de vez em quando, um reflexo das setas das lanças. Em meio ao ronrom débil do motor, ouvia-os chamando uns aos outros, e o plaque-plaque surdo de cascos sem ferraduras. Van Rijn fez uma preleção. — Entenda, estou há pouco tempo neste mundo, mas já estive em muitos outros, e já li relatórios sobre outros tantos. Isto é necessário, na minha linha de negócios, pois sempre estabelecem paralelos. Fazendo analogias, consegui pistas suficientes, sobre os t’kelanos, para adivinhar-lhes o padrão básico das mentes. Vocês, de Esperança, neste aspecto, não têm muita experiência. Como as demais colônias, vocês estão muito isolados do curso central da galáxia e, assim, não conseguem manter-se au courant das coisas, como, por exemplo, das modernas técnicas de exploração. Isto estava óbvio, em vista do fato de não terem vocês realizado, como primeira coisa, os estudos psicológicos profundos. Não, em vez disso, aceitaram a avaliação superficial. Não faça mais isso, Joyce. É necessário morder a moeda que a alimenta, pois esse mundo é difícil, e perverso. — Você parece saber o que quer, Nick. — Joyce admitiu. Van Rijn sorriu, levou a mão de Joyce de encontro a seus lábios. Ela balbuciou algo confuso, a respeito de ir esquentar café, e retirou-se. Não queria ferir-lhe os sentimentos. Debaixo daquela crosta, era um bom velho. Quando voltou para o assento dianteiro, já estava fora de alcance. — Bem, conte qual o padrão que você deduziu. Como funciona a mente deles? — Você presumiu que eles se assemelhavam a humanos primitivos, belicosos, dos dias primevos da Terra. Até aí, em termos superficiais, está correto. Eles são inteligentes, possuem língua; sabem raciocinar e conversar. E isto fez com que parecessem facilmente compreensíveis. O que você esqueceu, creio eu, é que a inteligência consciente é apenas uma pequena parte de todo o eu. O que ela faz, apenas, é ajudar-nos a conseguir o que queremos. Mas, o querer em si — alimento, moradia, sexo, tudo... os nossos
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para compreendêla. Se somos! Nossos ancestrais eram pacíficos comedores de castanhas. Aumentava a curiosidade de Joyce. Temos que pensar no modo de evolução de uma raça. apanhou-o.. são carnívoros desde quando ainda andavam nas quatro patas. de instintos assassinos. possuíam um aparelho de mordedura bem fraco. O café está pronto? — Acho que está. Mas não possuem. dirigia com o pé chato. Os carnívoros não podem ser gregários. Éramos animais. e que se transformaram em carnívoros quando as florestas murcharam na África durante milhões de anos. Não há razão lógica nem mesmo para se estar vivo. como nós. Se houver grande concentração de carnívoros num só local.. portanto. Não eram especializados. não possuíam garras nem dentes. Ainda somos omnívoros. Van Rijn bebeu-o. dizem os especialistas. então. Enquanto bebia. somos capazes de sobreviver à base de couve de Bruxelas. começaram há muito tempo.. Para eles. Muito bem. que possivelmente queimaria o palato de Joyce. Os t’kelanos. que não 99 . e viveram das próprias pulgas por muito tempo. para aturá-la.. Parece. como macacos que caminhavam pelo chão. até o teto. ao contrário dos leões. E o instinto já vem numa evolução muito antiga. se precisarmos. o jogo termina. muito antes de nos tornarmos pensadores e de. sem nem se incomodar com a temperatura. E foi por isso que também desenvolveram mãos. Mas não somos exclusivistas. de maneira alguma. — . por muito mais tempo do que foram caçadores. para sempre. — Os humanos. Não muito bons carnívoros.. E não são gregários. por sua vez. — Começo a entender. piegas. passamos a querer viver. Mas o instinto diz que fiquemos vivos. De um gole só. o que os levou a possuir cérebros maiores. descalço. quer dizer. não possuíam garras e.. as grandes organizações são coisas inteiramente artificiais. somos uma estirpe daninha. nós Homo sapiens.motivos — provêm de profundezas maiores. porém. mesmo que mais forte que o dos humanos. E foi a partir daí que começaram a caminhar eretos. e desenvolveram mãos suficientemente aptas ao fabrico de armas porque. de recebermos alma. que fabricaram ferramentas. Foi por isso que jamais desenvolveram nações verdadeiras ou travaram guerras de verdade. Joyce estendeu a mão. Os olhos de conta de Van Rijn giraram. E têm instintos assassinos muito mais poderosos que nós. ancestrais vegetarianos.

Muita porfia. O clã. O clã está para os brios dos t’kelanos assim como. Mas. — É por isso que jamais se prepararam para nos atacar? Quer dizer. Até mesmo os animais da Terra possuem o instinto para demarcar e defender um pedaço de terra para si próprios. muito. Você me diz que não há vendettas por aqui. Eu tinha que provar que era tão forte quanto eles. talvez. E o que vocês. Não que o bando e o clã sejam a bondade terna e o açúcar cândi. Van Rijn pousou a xícara vazia. O bando. O comportamento de vocês. não conseguirão sobreviver à custa de raízes e amoras. Ninguém sai por aí a arrumar encrenca com você se você não ofendeu ninguém e. com laços sangüíneos. Isto lhes satisfez os instintos que. imaginavam que havia algo de errado com vocês. nos carnívoros. a missão esperanciana? — Em parte. e não são levadas muito a sério. — Humm. Eu já presenciei muito olhar sanguinário em mesa de bridge. humanos. é apenas menos um degrau. se é útil. Isto significa que matar alguém não é um mal. ainda por cima. Todo humano possui. que os nativos que foram procurá-los. — Outra coisa que faltava a vocês era o território. e sentiam um desprezo complacente. no conjunto. não se morre pela Horda. Vocês viram. é como a família humana.. e permitiram que eles me ouvissem com mais respeito. Ha! Eles tinham mesmo que pensar 100 . é como se fosse inferior ao normal. por não conseguir manter o lugar de caça no solo ancestral. este instinto tem que ser muito. Os humanos têm rusgas familiares e guerras civis. porém. muito poderoso. este mundo aqui esteja para os humanos. a pregar que não queriam a terra de ninguém. esperancianos. logo depois. possuíam? Apenas um domo numa nesguinha de terra inútil. com os próprios olhos. apanhou o cachimbo. pois se forem afastados da caça. É um arranjo de mera conveniência. E foram por aí. creio que você percebeu a coisa. transformou-se em algo que não conseguiram compreender. muito. Morrem. aquele que não luta — macho. Mas.. E quanto às Hordas. Na verdade. adormeceram. Os t’kelanos possuem instintos de luta ainda mais fortes que nós. não entramos em guerra por nosso clube de bridge. assim como nós. então! Nem se fala. porém. é claro — é considerado não-natural. Não que esperassem que vocês lutassem em determinado momento específico. é uma coisa natural. ou mais forte ainda.exigem lealdade. por aqui. ja. são desprezados. muita carnificina. Em pequena escala. Não se luta.

ja. não foi você quem disse isso? E mil anos é muito tempo para ser preenchido com emoções. milhares de quilômetros quadrados. que nem nos parecemos com eles. os especialistas em questões solares. Mas vocês os ameaçaram mortalmente.. Joyce permaneceu sentada. ou estavam mentindo — e talvez este seja um dos motivos que levaram os shangas a atacá-los — ou então eram uns fracos anormais. contemplava a noite. — Lembre-se. a morte foi programada para daqui a mil anos. civilizados. Mas todo lutador nascido por meios naturais receia menos a morte que as outras espécies de animais. A ameaça que significavam para eles era real. vocês estavam lidando com bárbaros ingênuos. — Mas será que não poderiam nos compreender? — perguntou Joyce. sua pregação de uma cooperação a nível de planeta parece não ter caído bem. sem nossa ajuda. O que queriam que fizessem? Que lhes beijassem os pés? Que lhes beijassem partes da anatomia? Eles? Jamais! Eles são carnívoros também. Vocês chegam e começam a fazer as mesmas coisas. talvez tivessem percebido a coisa. só que de maneira muito melhor que eles. Contudo. artesãos de alto nível.. entre paredes. apenas. — Talvez. explicamos que. a razão é precisamente a falta de instinto. Além disso. e agora. tenho certeza de que compreenderam. ela protestou: — Mas nós explicamos a eles. estupefata. estava aqui.. o território deles — vocês avançaram nele.. E isto significaria. — Mas jamais pensamos em desalojá-los! Van Rijn sacudiu a haste do cachimbo na direção de Joyce. 0 tempo passou. este planeta morrerá. Não reivindicam. Tenho certeza de que percebem. Não caçam. Partem para a luta.. Os velhotes são mais sutis que os demais. não perceberam? Eles sempre foram os escribas. — Ja. — Por que esperavam que nós. por acaso.que vocês. — Exceto os Anciãos. — Outra coisa. Sublimaram-no.. por eras e mais eras. O trabalho deles — quer dizer. doutores. É bem possível. Van Rijn acendeu o cachimbo. para si. Duvido que conseguissem 101 . que não possuem instinto de territorialidade? Ha! Muito improvável. Depois. pensássemos como eles? — Se os t’kelanos fossem sofisticados. Eles conseguem permanecer sentados num só lugar.

não podemos. em si. Os Anciãos talvez façam uma idéia vaga de seus motivos. não permite que seja realizada. Kusulongo a Montanha ergueu-se. de couve-flor de lata. monstruosa. E o teriam usado também. É mais fácil construir um carrossel nos anéis de Saturno. A coisa. Com as mentes que têm. Acreditaram no que contei sobre as armas deixadas no domo. e chorou até dormir.. fez apenas com que desconfiassem de vocês.. Joyce exclamou em aflição: — Mas você conseguiu organizá-los para a luta! — Não. além dos horizontes mentais destes povos.. O altruísmo. Quem não usaria? Ergo. não são nações — jamais conseguiram entender o que vocês diziam. Joyce sentiu o frio. Van Rijn pousou o cachimbo. Aposto que as Hordas — que. — Talvez não tenhamos que fazê-lo. na planície. — Mas o que você quer que eles façam? Que derrubem a montanha? Eles não conseguem viver sem os Anciãos. Veremos. a trama de Yagola contra Rokulela. nos vãos encostas escarpadas. se quiser. você se lembra. contra o disco solar. até surgir. A coisa não é prática para eles. a oportunidade escapou. tenho que apurar meu ouvido. colina sobre colina. Não fique tão triste assim. lúgubre. como agora. por enquanto. Todos têm. Apenas dei a eles um objetivo. nem de leve. ofereceu-o a Joyce.compreendê-la a fundo. Os carnívoros só cooperam numa escala bastante rudimentar. se tivessem oportunidade.. Vocês teriam que ter um arsenal. Joyce achegouse. — Claro que conseguem. pois não possuem tais instintos.. chore à vontade. Quando chegarmos. É impossível organizar este povo. — Vamos. Poucas vezes. Depois Papai Nicky lhe enxuga os olhinhos. afundou o rosto na parte lateral do ombro do mercador. geleiras. Joyce já não conseguia conter as lágrimas. mas. parece lógica a eles. sopra o narizinho. ao menos o suficiente para que resolvessem ir investigar melhor.. mas. compartilham deles. pois os shangas agiram com rapidez. não devemos. as cúspides entalhadas no topo. Van Rijn curvou o braço. ao lado. seria a coisa mais fácil de acreditar. de maneira alguma.. Basta que os humanos os substituam. e capturaram as armas. a escuridão 102 . O resto da estória. — Não. vamos..

. porém. e os shangas avançavam montanha acima. caso ela morresse ali nas alturas. adiante. Viemos em bom tempo. cujo fim. tão alegres. carregava num mastro. montada num animal cornígero. muitos guerreiros despedaçados. Joyce admitiu. A cor dos pêlos perdia-se na luz quase lúgubre. E conseguimos muitos aliados pelo caminho! Tristonha. também tenho medo do que poderá acontecer comigo se voltar para Esperança com vida. zangados. mas mesmo que isso acontecesse. estavam os asseclas quinhentos rokulelas. e obteve êxito. estariam à disposição das aves carniceiras. escuro. os mantos esvoaçavam. e encostou seu basai no outro que bufava. Mas conduzir estes caçadores jovens. Era possível — ou não — que os Anciãos mantivessem a promessa e deixassem o grupo partir incólume. — Que bom que a incandescência terminou logo! — Ja. ia fustigá-la e fazer estalar a bandeira que Uulobu. mas julgou compreender-lhes as carrancas. é menos do que eu esperava. ao subir a trilha. agora. ali embaixo o arco de pedra. Só três dias de Lubambaru até aqui. Claro. Tocaram-se os joelhos. antes do pôr-do-sol. rosnava. no sopé da montanha. lanças subiam e desciam. e seis outros chefes que receberam permissão de acompanhar a comitiva. haviam chegado. já que existia uma chance de evitá-lo. A volta deles. poderiam oferecer a ela apenas a vingança que não desejava. que. um tanto decidida a fugir trilha 103 . que não conseguia ver outra saída. Joyce sabia. jamais. Joyce olhou para trás. em sua montaria. Mas. um piso à frente da bateria Rokulela. Joyce estremeceu. A informação fora tola.deste mundo. escondidos. suportando o peso de Van Rijn. Muito lá embaixo. Joyce preferiu reunir-se à caravana. armados. rumo à cidade.. para Joyce. para a morte? Joyce sacudiu as rédeas. — Ao menos temos companhia. com o andar das montarias. que provocava vertigens. Instigação à guerra! Se tiver sorte. mais do que ela esperava. mas tivera a intenção de fazer algo que pudesse abafar o vento. Van Rijn passara o tempo divertindo-os. o vento esganiçava. Os agressores haviam batido em retirada. jamais volte. obrigatoriamente forrado contra o calor desprendido pelo uniforme humano. e viu Nyaronga. como punhos cerrados. contornava os penhascos e. viria com derramento de sangue. dez anos de detenção corretiva. a menos que fuja com Nick e jamais. Concordaram em realizar uma conferência. indesejosos de enfrentar um canhão. pela penumbra. No céu vazio.

em corseletes. com o polegar. será o suficiente. Naquela luminância vermelha. pelas planícies. mais longos do que. Nos dois lados. arrogante com o respeito que acabara de conquistar junto aos clãs. Joyce apontou para cima. Podem usar os heliógrafos. Uulobu avançou. Van Rijn agarrou-a pelo ombro. trechos de detritos. o gume da adaga. armados de arcos e piques. o espelho refletia. — O povo celeste jamais teve o espírito de um corajoso yangulu. Trotaram em silêncio. Só mesmo um t’kelano seria capaz de perceber os demais. Joyce suplicou. — Conseguiremos? Eles podem se defender contra qualquer aproximação. Veremos.. Uulobu percorreu. espaçados em muitas direções. O reflexo do ferro atravessava as sombras. Uulobu retrucou: — Eles sempre tiveram o espírito de um makovolo furioso.abaixo e embrenhar-se no deserto. — Se conseguirmos contê-los por um mês. Agora. No topo do muro. A passagem. Berrou: — Calma. Buff! O bufido partiu do capitão do posto. calma por favor. que condescendeu em vir falar com seus patriarcas. Eles vão ser muito mais difíceis de engrupir do que esses bárbaros. depararam-se com um muro construído de um lado ao outro da trilha. do que poderemos suportar. contava com dois canhões primitivos. opaco. em arco. Quatro elementos da guarnição da cidade ali estavam postados. — Ou então um mensageiro poderá furar nossas linhas — de tão espalhados. estaremos muito rarefeitos — e levantar toda a Horda Yagola contra nós. Exigiu: — Deixem passar o poderoso povo celeste. pelas colinas. guardas postavam-se com seus capacetes de couro. Talvez não. — Se vocês querem provas. Uma hora depois. para uma das pontes estruturais. não fosse o vento. Por baixo de Joyce.. preciso pensar. — Talvez sim. pensem em quem ousou enjaular 104 . Tenho certeza de que têm estoques para longos cercos. a fera deslizou. pois a nave da Liga chegará. baixe o facho. escarpas intransponíveis. tochas tremeluziam junto ao detonador. — Mas eles têm meios de pedir ajuda. Temos que vencê-los no blefe lá em cima.

Você sabe. Nyaronga arreganhou os dentes. Joyce observou: — Não podemos fazer nada.. com mais disciplina que a habitual entre as Hordas. Dois soldados de elite marchavam em ronda. coitado. Entretanto. diante da muralha da cidade. Usavam túnicas brancas. em voz alta: — Vocês têm permissão de passar. com alarde. Os coldres de Joyce e Van Rijn já estavam vazios. Nick possuía qualidades tão boas.. — Não — protestou Van Rijn. — Já chega de conversa fiada. lisas. Outras sentinelas armadas franziram os cenhos para os que se aproximavam. Joyce absteve-se de traduzir. 105 . numa voz incolor: — Que seja. Desarmar um t’kelano era uma emasculação simbólica. somente os Anciãos e os guerreiros nascidos na cidade podem atravessar esta porteira armados. — Este é o escriba-chefe. e enfiá-las num lugar em que não costumam caber muito bem.os Anciãos na própria montanha. Joyce quase viu encolher os corações dos rokulelas. segundo a lei dos pais. nos calcanhares de Van Rijn. lançavam olhares arrogantes aos recém-chegados. ríspido. Começou. Joyce umedeceu os lábios — O chefe do povo celeste exige o início imediato da conferência. se não. o guerreiro recolheu-se. Joyce hesitou. Van Rijn passou bem pelo meio do desfiladeiro e prosseguiu trilha acima. então.. e permanecer a salvo enquanto a paz entre nós não for silenciada. Quero ir direto ao chefão. e a idade já lhes acinzentara os pêlos. de costas retas. Num ruído confuso.. tão bem quanto eu. Que desembocava num terraço amplo. Van Rijn interveio. ao atravessar a porteira. Mas terão que deixar as armas aqui. Mas Joyce percebeu-lhes os olhos piscando incessantes. caminharam. Um dos Anciãos respondeu. pousaram os implementos no chão. — Não quero ser apresentado a secretárias e mensageiros. Mas tivera uma vida tão dura. e lembrou-se do que o terráqueo dissera sobre os instintos. Nós queremos passar. e afirmou. e desmontaram.. que. como os olhos de animais apanhados em armadilhas. Ninguém jamais dera qualquer ajuda a ele. Com a expressão atrevida.. vamos tomar-lhes as espingardinhas de estalinho. os olhos de Joyce dirigiram-se às três formas no portal.

de uns bons vinte metros de altura. Joyce disse a si mesma. que Nyaronga sabia que os humanos poderiam assumir-lhes as funções. Os três conselheiros não disseram palavra. de ascendência Anciã. na cidadela. Os rokulelas acompanhavam os humanos adentro. As suas costas. entretanto. Joyce. ao se aprofundarem. e Joyce teve vontade de gritar. o macho ossudo retorquiu: — Aqui há justiça. — Ra! Ra! Pergunte a esse velho hipopótamo por que foi que iniciaram toda essa confusão. negras e maciças sob as torres de vigia. que se associou aos clãs rokulelas. na parede. Hábitos antiquíssimos. que ali habitavam por direito de nascença. em túnicas brancas. — Falo por Nicholas van Rijn. vivido apesar de toda a penumbra nervosa. sentavam-se num tablado semi-circular. iluminada por tochas. e trespassaram as túnicas.Kusulongo a Cidade edificava-se em fileiras quadradas. filho de Oluba. não? — Eu quero dizer o que eu quero dizer. As ruas eram calhas estreitas que coleavam no interior. patriarca do povo celeste. Os guardas levantaram espadas e assoviaram. diversas vezes. Akulo. chefe do conselho. apenas a porta e os respiradouros. um prédio erguia-se. como a evitar o contato. para a passagem dos bárbaros. A respiração de Nyaronga chiou entre dentes. fora projetada. Por que vocês ergueram espadas contra nós? Van Rijn riu. Joyce pensou. Eu sei 106 . Os moradores. ao ser informado da pergunta. não se quebram com facilidade. Os guias dos Anciãos estavam igualmente sentados. Os recém-chegados permaneceram de pé. sem janelas de ventilação. em saudação ao hierarcas. Seis decanos. Acabara de lembrar-se do poder dos Anciãos. no momento em que atravessam a porta de entrada. de modo bastante inteligente. um mosaico de um sol incandescente. No meio da cidade. Viemos exigir justiça. Vamos. pois aquela gruta. por todo lugar. mas não teriam utilidade. Atrás deles. Eu. falo por Kusulongo a Cidade. automática: — Você quer dizer “hipócrita”. No meio do tablado. cheias de vento e de ruídos do martelar proveniente do quarteirão dos ferreiros. afastaram-se para o lado. a quietude pairava. E bem verdade. desceram por um corredor sinuoso. ande. Joyce ouviu um ligeiro rosnado. Joyce engoliu em seco. para solapar os nervos de qualquer caçador.

devem ter retirado a pólvora. poderiam ter-lhes fornecido os meios para fazê-lo? Akulo acariciou os pêlos do rosto. Uma inverdade é um preço muito barato comparado ao valor das armas. a voz já não tão suave quanto antes. claro. senão vocês. — É verdade que Kusulongo a Cidade nada fez para desencorajar a possibilidade de ataque ao acampamento do povo celeste. Akulo girou os cachos carnosos. para mágicas e comemorações. estavam causando inquietação entre os clãs. — Muito estranho. de fato. a questão que mantêm contra eles. como era desejo deste conselho explicar. E a boca retorceu: . gesto de ceticismo. fêmea celeste. Joyce explicou. são presas legítimas. para usá-la contra vocês. É muito natural. minando as maneiras 107 . Nyaronga resmungou. Não há normas para regular o quanto pode ser adquirido de uma vez. Joyce colocou a pergunta. nós. — Será que é muito. de bom grado. Quando vocês atacaram os shangas. vendemos fogos de artifício. e que os shangas capturaram para usar contra minha Horda. Joyce antecipou-se a Van Rijn. E ainda. corajoso. Mas esta briga não é nossa. oferecemos refúgio a eles. Os Anciãos jamais tomaram parte nas disputas abaixo das montanhas. — Claro. e murmurou. caso outros transportadores de seu povo viessem para nos acusar. mas vamos ouvir o que ele está escondendo. Compreendo seu modo de pensar. e estabeleceremos uma solução justa. Ouviremos. não têm sangue. Bem.. pois os Anciãos escutavam: — Claro que os pais do bando shanga vão confirmar a estória. Quem. Mas é um Costume antigo. Eles são fracos. e não perguntamos por quê.muito bem o porquê. Por conta própria. Os shangas compraram grande quantidade. para o desinteresse dos Anciãos? — Não! Claro que não! Akulo inclinou-se à frente.. — O que ele disse? — exigiu Van Rijn. — Que armas são essas? Nyaronga vomitou: — As armas que o povo celeste possuía. Um dos conselheiros interrompeu. Retrucou num rompante de indignação: — Eles explodiram as paredes de nossa nave.

dos pais... — Maneiras que engordaram Kusulongo a Cidade — acrescentou Joyce. Akulo franziu o cenho para Joyce, e continou dirigindo-se a Nyaronga. — Com este ataque, os shangas apuraram, de fato, valiosa bagagem de metal. Possuirão facas muito boas. Mas não serão acréscimo suficiente à força atual dos shangas, que lhes permita invadir novas terras, já que não estão assolados pelo desespero. Também pensamos nisso, aqui na montanha, e não quisemos que isto acontecesse. A preocupação dos Anciãos foi a de sempre preservar o equilíbrio justo das coisas. Se o povo celeste fosse embora, este equilíbrio que ameaçavam, acabaria sendo restaurado. Um pouco mais de metal nas mãos dos yagolas não constituiria perturbação maior. O povo celeste jamais foi visto com armas, senão com algumas poucas armas de mão. E dessas foi que levaram na fuga. Não havia arsenal, no domo, que pudesse ser apreendido pelos shangas. Vocês, rokulelas, temiam por nada. Em sotto voce, Joyce traduzira para Van Rijn, que concordou com a cabeça. — Muito bem. Agora diga a eles o que eu lhe disse para dizer. Já fui muito longe para recuar, Joyce percebeu, desolada. Proferiu, num impulso: — Mas nós tínhamos armas de reserva. Muitas, centenas, caixas repletas, que não tivemos oportunidade de usar. E, depois, o ataque nos expulsou de lá. O silêncio fendeu-se. Os conselheiros olharam-na, horrorizados. Saltaram as labaredas das tochas e as sombras, pelas paredes, procuraram-se umas às outras. Os chefes rokulelas observaram, austeros, aquilo que lhes devolvia um pouco de autoconfiança. Akulo, por fim, balbuciou: — Mas... mas vocês disseram... eu mesmo perguntei uma vez, e vocês negaram... negaram que possuíssem mais que umas poucas... — Claro — insistiu Joyce — nossa força principal foi mantida em reserva, não revelada. — Os shangas não revelaram nada disso. — E vocês esperavam que revelassem? Joyce deixou-os afundar-se, antes de continuar. — E nem irão encontrar-lhes o esconderijo, mesmo que pro108

curem por todo o oásis. Não resistiram ao nosso ataque com fogo, portanto as armas não devem estar nessas vizinhanças. É mais provável que alguém as tenha levado imediatamente para as terras yagolas, para que fossem distribuídas depois. — Iremos verificar... Um outro Ancião encurtou as palavras. — Guarda! Uma sentinela atravessou a porta e parou no túnel de acesso. — Vá apanhar o porta-voz dos convidados de nosso clã. Enquanto esperavam, Joyce colocou Van Rijn a par dos acontecimentos. O mercador exultou: — Ótimo. Até aqui, está indo bem. Mas a parte das cócegas está para chegar, e não vai ser tão divertida quanto fazer cócegas em você. Joyce afastou-se, levantou-se; o rosto pegava fogo. — Não diga! Você é mesmo impossível! — Não. Sou apenas improvável... Bem, lá vamos nós, de novo. Um t’kelano reverente, em indumentária shanga, marchou recinto adentro. Cruzou os braços e olhou irritado para os rokulelas. Akulo apresentou. — Este é Masotu, filho de Batuzi. O t’kelano curvou-se, tão tenso quanto os colegas. — O povo celeste diz que vocês levaram, de seu acampamento, muitas armas terríveis. É verdade? Masotu começou: — Claro que não! Lá havia apenas aquela arma de mão, descarregada, que mostrei ao senhor, quando foi nos ver lá embaixo, na alvorada. Na comitiva de Van Rijn, a voz áspera de um t’kelano: — Quer dizer, então, que os Anciãos estão mesmo em liga com os shangas?! Levemente desconcertado, Akulo recolheu-se, e disse, num tom de aço: — Muito bem. Não há por que negar, afinal. Kusulongo a Cidade procura o bem de todo o mundo, que é o próprio bem de Kusulongo. E esses estranhos ardilosos traziam novos métodos que faziam apodrecer os velhos costumes. Será que não estariam aliciando vocês para invadir o próprio povo? Que outro motivo teriam para perambular por suas terras? Que outro motivo teriam? É verdade, este Conselho instou os shangas a varrê-los daqui, como
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bem merecem. Joyce ainda conseguiu traduzir para Van Rijn, mesmo com as batidas do coração a quase afogar-lhe as palavras. Os lábios do mercador contraíram-se. — E agora confessam bem na nossa cara. E já têm estórias prontas para justificar o roubo de naves dos terráqueos e para fazer com que os humanos jamais desejem retornar. Eles não têm intenção de nos deixar descer a colina vivos, para que, depois, não discutamos as contradições. Mesmo assim, Van Rijn não pronunciou, para Joyce, palavras a serem repassadas aos nativos. Akulo apontou para Masotu. — Você nos diz, então, que o povo celeste mentiu, que você não encontrou arsenal algum? — Digo! O shanga trocou olhares com Nyaronga, e deduziu, perspicaz: — Ah, seu povo estava preocupado a considerar que usaríamos aquelas armas para tomarmos seus pastos? Não há o que temer. Voltem em paz, e nós concluiremos as negociações com os estrangeiros. — Nós não tememos. — Nyaronga corrigiu, e lançou, mesmo assim, um olhar duvidoso aos humanos. Impaciente, um Ancião remexeu-se no tablado. — Já chega disso. Acabamos de presenciar mais um caso de fomento bélico do povo celeste. Chamem os guardas, eles os fuzilarão. Que a paz seja declarada entre os shangas e todos os rokulelas. Que todos vão para casa. E está feito. Joyce terminava de traduzir, apressada, quando Akulo abriu a boca. Van Rijn explodiu. — Pelo botulismo! Pelos burocratas! Não tão rápido assim, meu caro. Van Rijn estendeu a mâo às costas e, embaixo do tanque de reciclagem, apanhou o lança-raios. — Fiquem onde estão! Nenhum t’kelano se mexeu, embora um sibilo os percorresse. Van Rijn recuou até a parede, para cobrir também a porta. Sorriu. — Agora podemos conversar mais amistosos. — A lei foi quebrada — expeliu Akulo. — Da mesma forma que vocês quebraram a trégua declarada entre nós! — Joyce interveio, embora toda cultura desse planeta
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necessário se faz estabelecer uma causa comum entre os Anciãos. como antes. — Em primeiro lugar. desta vez. Estancaram. Diga a eles que Nicholas van Rijn tem um discurso a fazer. — Ainda existem muitos espaços vazios. Sempre haverá tempo para lutar depois. Nyaronga poderá dizer-lhes que sou capaz de brigar como um credor esfomeado. Para Joyce. Ergo. Duas sentinelas chegaram apressadas. os ecos tocaram. Van Rijn aproveitou-se da surpresa geral e deflagrou rápida ofensiva verbal. Nyaronga e Masotu concordaram com a cabeça. Akulo. — Quieta! Van Rijn ribombou. Joyce quase desmaiou de alívio. moveu o cano da arma de um lado ao outro. Se viesse só.. Juntos. De uma parede a outra. — Temos a situação nas mãos. que tenham manufaturado um arsenal moderno. Não que o lança-raios fosse resolver muitos problemas. os rokulelas e 111 . Joyce repassou a mensagem. O Ancião disse: — Vamos ouvi-lo. de pedra. que lhes conceda tanto poder que mesmo esta cidade se torne um simples cliente. se necessário. não é mesmo? Joyce transmitiu as palavras. frase por frase. quero que saibam que armei todo esse tumulto para que pudéssemos conversar. na verdade. em cobre. pois não os tiraria daquela cidade que pupulava de arqueiros e lanceiros. Mas. Vamos supor que os shangas estejam mentindo. Num gesto retórico. e traduza à medida que vou falando. — Ótimo! A forma gigantesca de Van Rijn deu um passo à frente. Fracamente. Mas. vocês me acertariam com suas pedrinhas pontudas.. talvez não seja necessário. Cheguem-se à festa — convidou o terráqueo. clientes rigorosos. e carga de energia para todos. e esperou que o pai do bando gangu confirmasse que os humanos eram. tive que vir acompanhado. Nie? Para evitar que isto aconteça. ao ver a arma. Agora é que vamos descobrir se somos suficientemente inteligentes para não sermos heróis.considerasse a quebra de promessa uma simples falta leve. e não mais. um primus inter pares. — Entrem. o que não seria bom para nenhum de nós. diante dela. Um lampejo de relaxamento exibiu-se naqueles corpos tigrinos. disse: — Muito bem.

e não vão querer ser acusados de falta de pagamento. vocês precisarão da presença de humanos aqui. observava Nyaronga.nós. Então. e talvez estilhacem esta montanha. que virá de meu próprio território — o céu cheio de estrelas — alguma estória tem que ser inventada para explicar a destruição do domo. trocou olhares com os colegas. a menos que inventemos. por outro lado. que o mentiroso seja eu. Colocarão a culpa nos Anciãos. se estarão expostos a ser chantageados pelos shangas? Para manter um certo equilíbrio. rokulelas. porém. Muito bem. não vamos querer correr o risco de sermos enganados quando tivermos de vir aqui para o julgamento de alguma disputa. Masotu insistiu: — Mas não existe tal acordo entre nós! — É o que você diz! Joyce começava a entender o plano de Van Rijn. os shangas e os Anciãos devem continuar trabalhando juntos. Meu povo ficará zangado por ter perdido uma boa oportunidade de realizar lucros. — Agora vamos supor. de antemão. Van Rijn prosseguiu. — É. pensam que os Anciãos agirão com imparcialidade com vocês? Como poderão ser imparciais. não é verdade? Muito bem. a terra de Yagola talvez se depare com anos ruins à frente. A antena do fone de Joyce enviava 112 . uma estória convincente. assim que nossa nave de socorro chegar. os shangas — e através deles. eles saberão que os shangas fizeram o trabalho. quando. Correto? Ja. rokulelas. o chefe ponderou.. Uulobu trincou os dentes. Também. por muitos anos. vocês estariam dispostos a aceitar a palavra deste homem numa questão de tal porte? A indecisão crescia no tablado. daqui para a frente. por utilizar os shangas como fantoches. No mínimo. e uma única falha na previsão de uma incandescência poderia nos enfraquecer a todos e expor o país a invasões. — Anciãos. Para a nave de meu povo. isto talvez aconteça. — É verdade! Joyce. Então. humanos. que seja confirmada pelos shangas de modo a eximir os Anciãos. que não existiam armas mortíferas no domo. então os yagolas terão que se deslocar.. todos os yagolas — estarão em contato estreito com a cidade kusulongo. Por longo tempo. Os únicos que conseguiram escapar fomos eu e essa linda bonequinha ao meu lado e. E vocês. assim. oportunidade por que vem lutando há muito tempo. pois podemos conseguir armas de maior porte para conter os yagolas. A quietude alastrou-se.

interessados na paz dos clãs e das Hordas. enquanto Nicholas van Rijn vai fazer dinheiro neste aqui mesmo. Não sei qual a melhor maneira de transmitir a idéia. sobre os fatos. perguntei. com as poucas armas que possuem. já que eles não têm qualquer noção de teoria química. nem possuírem armas. Disse. — O que.. à senhorita ao meu lado. amônia e nitratos produzidos nas usinas de fixação de bactéria 113 . eu quero o vinho kungu. Obteremos nosso lucro de outras maneiras. para eles. ja. que você tem a solução? Van Rijn esfregou as mãos. ou mesmo estes pais de bando que você transformou em aliados.a ela apenas o crepitar das tochas e. Akulo fitava o cano da arma de Van Rijn. sem um único movimento sequer. do lado de fora da porta. depois. e também seria bom manter um comércio paralelo de peles. radiante. o ribombar do vento. De qualquer modo. — Não há necessidade disso. Pois. o objetivo de assumir as funções de justiça de Kusulongo a Cidade? Para isso. nada poderão realizar. Joyce. Pensa que poderemos deixar alguém tão perigoso. apenas provei. Nick. vejam vocês. não criei confusão alguma. ja! Elaborei tudo direitinho. Porque eu.. se os humanos se manifestarem pacíficos. — Ja. que vocês não podem confiar uns nos outros. — Ja. mas. ainda assim não haverá motivo para que a cidade trabalhe unha e carne com eles. venderemos. com os humanos por aqui. Em troca. Veja só. Ou se. Vocês. os clãs virão trazer-me estes materiais.. em benefício de vocês mesmos. e que precisam de pessoas humanas para manter a ordem. sair daqui vivos? Complacente. assuma. os yagolas. nos ajudam no início. De todas as regiões.. — Quer dizer. portanto. Q. Joyce ficou de queixo caído. podem ir investir seu dinheiro em qualquer outro planeta deteriorado. na verdade. Akulo argumentou: — Mas. Minha própria empresa assume as operações em t’Kela. na verdade. esperancianos.E. estranho. O que você tem em mente? — Escute... Van Rijn respondeu através de Joyce. sem desejo de vingança pelo domo. e ela os uniu de maneira primorosa. terão que nos matar a todos na montanha.D. com suas armas. estará restabelecido o equilíbrio correto entre os pastores e a cidade. por fim: — Você semeia a discórdia com grande habilidade. Bem. por que o povo celeste desejaria estabelecer-se aqui? Teriam. por acaso. é natural. Enquanto viajávamos para cá.

vim. da maneira como você os ensinou a fazer. também conseguiremos resolver. de modo a aumentar a produção das colheitas para que possam comprar mais amônia. Em Esperança. há poços de óleo a ser estudados e usinas de eletrólise a ser construídas.que construiremos. principalmente se houvesse apenas uma única maneira de realizar o trabalho. As usinas de eletrólise venderão hidrogênio às usinas de amônia. E farão isso. Então. foi torcer o bigode. E em toda essa negociação. — Já elaborei a coisa. 114 . Precisarão delas para adubar os solos. Isto resolverá o problema de muitos Anciãos jovens. também. E veja. tenha que se transformar em fazendeiro de meio expediente. principalmente. A caridade não faz parte dos instintos deles. para obter excesso de crédito que lhes possibilite adquirir aparelhos modernos. que nome bobo! Quanto ao resto. exatamente como você deseja que sejam. Armas. riu.. fez uma careta. Entendeu? Algo aturdida. E sentir-se-ão bem em nos roubar no preço do vinho. lentamente. E meus fabricantes irão vender-lhes. consegue resistir à compra de armas. e as instalações de queima de óleo poderão vender eletricidade. ferramentas. é provável que destrua a base de toda a economia deles. Mas eu. e coisa e tal. com certeza. muitos funcionários nativos. em especial. eles saberão compreender isso. Ninguém. os clãs. mas. um momento! Joyce objetou: — E os Anciãos? Como você irá conciliar as coisas com eles? Ao apresentar-lhes tantos elementos novos. de expandir nossos territórios de mercado.. máquinas e coisas assim. Não haverá mais “pé atrás” nem desconfiança com relação aos humanos. mas o lucro faz. com instintos de caça. A Comunidade procurava manter-se numa posição moral elevada em relação à Liga para a Ciência do Sol Polar. Ergueu a mão. no entanto. não iriam gostar nem um pouquinho. gente esperta capaz de escriturar livros. e também para cultivar as bactérias fixadoras de nitrogênio. sem. deu uma pancada no capacete. a Solar de Condimentos & Bebidas terá ótimos lucros. — Mas não viemos aqui para explorá-los! Van Rijn sacudiu os ombros. manter a unidade de poder e prestígio da cidade. Nós vamos precisar de muitos representantes. não tenham vindo para isso. que farão com que se tornem. mais nitratos.. esperancianos. — Talvez vocês. para isso. gente civilizada. não quando sabem que os humanos vieram apenas em busca de dinheiro. muito fanatismo.. Joyce concordou com a cabeça. mesmo que. Lembre-se.

lá embaixo. que pensava que seu governo seria capaz de salvá-lo? Bah! Os governos são umas chateações! Qualquer mudança de ideologia.. Você está me dizendo que eu. As próximas semanas. Quer dizer... ou até mesmo de humor. não pode ser! — Bem. mais vivido que nunca. Será que consigo uma rentabilidade de vinte por cento ao ano. como verdadeiros seres humanos. E. Desceram a montanha. sobre isso e tudo o mais.. depois. os deixarão contentes. tão essenciais. A política. com maior segurança. a oeste. colocá-lo nos sucos de frutas e fazermos uma espécie de vinho para tomarmos às refeições. pareceu. onde todos os envolvidos são necessários aos ganhos de todos os demais. de algum modo. Creio que posso fazer umas pequeninas manobras para extrair álcool do kungu. ou terei que baixar para quinze? Joyce respirou fundo.muito bem. Seriam. e deixou que as comprem de mim em amortizações a longo prazo. fogueiras cintilavam no acampamento. Van Rijn mal conseguiu evitar o olhar manhoso. eu. Nicky. à espera da nave.. porém. O que via. caramba! — Bem. sozinhos. nós dois. na verdade... não serão nada más. — Hummm.. e. Joyce contestou: — Não.. é quem vai ter que mostrar a você como ser jovem?. poucas. nie? Pensativo. para Joyce. por alguns instante para começar a procurar por expressões kusulongos. mas a ganância é imortal.. Van Rijn olhou para um dos cantos escuros do recinto. composta.. — A gente só é jovem uma vez. 115 . presunçoso: — Uma outra vantagem é que transformar isso tudo numa operação lucrativa para todos é garantir. no carro teremos muito tempo para discutir.. Van Rijn acrescentou. de eletrólise. rumo ao pôr-do-sol. salvas. é estável. Utilidades tão lucrativas. que o trabalho continuará por tempo suficiente para salvar o planeta. e as entrego à gerência dos Anciãos. pronto! Lá se vai todo o projeto! A ação privada. onde um povo livre perambulava pelas próprias vidas. pensou. eu não posso. um pobre velho. para dar-lhes as boas vindas. Eu construo essas fábricas de óleo.. bem divertidas. Atrás. vai e vem. E havia beleza naquela planície ilimitada.. E você.

pensou... eu aceito. Joyce empalideceu. afinal.— . Claro.. pois.. afastou o olhar. um pouquinho que fosse. uma pessoa muito interessante. ele era. Bem. Teria que ficar de olho nele até chegar a nave... de minha parte. de fato. se relaxasse. 116 . por falar nisso. E em si própria.

chora. Outro Orfeu canta. mais uma vez. Um novo Ulisses deixa.Argo mais soberbo singra o alto-mar. Shelley 117 . novamente. Carregando uma presa mais recente. rumo à praia natal. Calipso. e morre. E ama.

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Depois. de sua propriedade. já foi há muito tempo. e em outro planeta. de todas as minhas viagens de negócios à Terra. há aqueles que sustentam que Nicholas van Rijn possui. à vista de todo o povo. A oeste. Vênus já acordara. e. O que ele fez não importa agora. Depois. o Integrado de Chicago abria luzes numerosas. nos olhamos. fizemos incursões no estoque comercializável do fornecedor da Companhia Solar de Condimentos & Bebidas. o freqüentador de bordéis já morreu. Quando a porta me detectou. nos afastamos. houve um rei que se colocou acima dos mercadores estrangeiros. Zangado e feio. no minarete mais alto. Nos jogamos nos braços um do outro. Talvez seja verdade. como sem119 . A penumbra do verão suavizava a massa de edifícios menores que se estendia até o horizonte. Harry Stenvik e eu o penduramos.A CHAVE MESTRA Antigamente. caminhei para a porta. esta era a mais curta. e o nome da Liga para a Ciência do Sol Polar era grandioso na terra. e dilatou. apenas a vibração surda de uma máquina atingia meus ouvidos. Ele mentiu: — Você não mudou quase nada. onde Van Rijn mantém o que acredita. Mas ele jamais se esquece de um bom trabalhador. O espaço-rápido deixou-me no topo do Cruz Alada. já que. e depois dele. honestamente. além disso. e rogamos a Deus com tantas violações. Por entre rosas e jasmins. de Seu terceiro mandamento. ser um pequeno e modesto apartamento de cobertura. e juramos fraternidade imorredoura. um computador criogênico. Nesta altura. em voz alta. pelo fundilho das calças. Harry já estava à espera. no espaço usado pelo ser humano comum para abrigar o coração. talvez não tivéssemos outra oportunidade para nos encontrar. Bem. E não sei de nenhum motivo que o levasse a me convidar para jantar. a não ser pela presença de Harry e.

há bem pouco tempo.pre. transparente. vamos juntar-nos a eles. Apenas um deles levantouse.. Sem contar o fêmur artificial e uma estória para contar. que ela mesma fez. ele trabalhava como aprendiz numa das naves de Van Rijn. de barro.. ainda durava. um estranho. a menos que tivessem alguma utilidade especial para ele. — A esta altura já deve ter obtido o grau de mestre. e chegamos à outra extremidade da sala de estar. ergueu a caneca de cerveja. para o céu. Talvez um gesto de bondade deva ser introduzido neste encontro. — Já. Como vai Sigrid? Como é dever de todos os homens. Eu o corrigi. numa espécie de alerta à vontade. mas isso também é irrelevante. hoje. Mas já faziam tantos anos. na cintura. Per teve alguns problemas. Ele está aqui. para a cidade. em algum ponto da região Hércules. construíra uma casa nas colinas. — . Três homens sentavam-se junto à parede do visor.. No caso dele. e uma caixa de biscoitos. — Amônia. dê um jeito de ficar mais tempo. O metano do ar deve fazer bem para você. Hum. quem consegue sobreviver ascende rápido. mas já estão se arrumando. Para mim.. Nicholas van Rijn afundou ainda más o corpanzil na espreguiçadeira. tão alegre. que ótimo! A última vez que tivera notícias do filho mais velho de Harry. de tão charmoso. pensei. curvo. com um lança-raios. Manda lembranças.. que já presenciara muito serviço. então o velho Nick está de novo economizando suas pedras de matar passarinho. Atravessamos o vestíbulo. — Ora. Da próxima vez. Venha. por onde tenho andado. no momento. característico dos tigres. — Está ótima. e. Estava sentado um pouco de lado. criara mastins e filhos. — E os meninos? — A mesma coisa. E a mim. Possuía tantas anedotas próprias que não precisava colecioná-las. a domesticidade o atingira também. e venha nos visitar. e roncou: 120 . Você está revoltante. 0 sotaque escandinavo estava um pouquinho mais áspero. OFICIAL DE ADMINISTRAÇÃO TRABALHISTA: tiros eventuais e barganhas incessantes. escuro. na Liga. alguns anos-luz de tapete de pêlos de felino. em cima do Fiorde Hardnager..

magro. e eu não vou conseguir me comunicar com essa canequinha nesse desgraçado de Ânglico. Nem gosto de pensar em quanta coisa já foi substituída em mim. e estendi a mão para Per Stenvik. — Descupe-me. 121 . perguntei à ele: — Quanto tempo você vai ficar em casa? — O tempo que for necessário! — respondeu Harry. como convém diante de um príncipe mercador. pelo que conhecia dos costumes daqueles colonos pobres e arrogantes do extremo de Arcturo. Recuperava a saúde. E nem voltou ao assento. O rosto de Per ainda estava pálido. Mas meu dever é saber a respeito de meu capitão. nunca mais.. mas. e depois. forte. e eu não passo de um velho solitário num mar de ressentimentos. eles me chamam de fera apocalíptica. Capitão! Quem sabe você não aceita um aperitivo antes do jantar. — Claro. — Todos. puxou o cavanhaque. — Não desejo desmentir meus superiores.. Um criado humano — macho. neste estabelecimento específico de Van Rijn — trouxe-nos os pedidos. mas a juventude. eu vou ficar bom. que tenta. na mesma velocidade. virei-me. de Novo México.— Ha! Bem-vindo... — Não irá mandriar nem um milimomento a mais que a natureza possa suportar. com o Natal tão próximo. akvavit para Harry e martini para mim. se as partes importantes permaneceram. com certeza. Apresentei-me com grande formalidade. Ele igualou-me em cortesia. Bem. nem à taça de clarete antes que Harry e eu nos sentássemos. e os médicos estão enganados. Curvei-me. Per brincava com um copinho de vermute de Ansan. rápido. Manuel interveio. Graças a Manuel. você vai ficar bom. resmungou: — Acho que Gabriel vai estrilar. Acho que acabei de pedir um aperitivo para mim. Não se preocupe. e ele é jovem. — Mas nem um minuto mais! — acrescentou Van Rijn. Ele deve repousar nunca menos que até o Dia dos Mortos. — Eu soube. — Tive um machucadinho... Meu alferes. — Com delicadeza e deferência. como eu? Depois. queixando-se. Manuel Felipe Gomez y Palomares. antes de virar para assegurarse de que o cobertor estava bem preso nas pernas de Per. señor. Um pouco depois da ligeira conversa. o señor não irá negar-lhe os feriados em casa. — Peço desculpas por não me levantar. pois não? Van Rijn jogou as mãos para o alto.

eu não. é atirado aos lobos. ele mesmo. por Judas! Ele está lá. — Benditos sejam os lobos! Não se preocupe. que promete. e o aroma penetrou na parte mais velha. muito gordo. Em silêncio. e meu novo planeta. ele baixa enfermaria. ja! Deixei Lupescu. — O que você procurava lá. Dou a ele uma educação cara. manter-se na superfície. é o planeta inteiro. O quê? Sou o único pronto a repetir a dose? Com o olhar fixo em Van Rijn. ele tem 122 . Um mundo inteiro. você quer que eu resseque. Bah! Tudo o que meus químicos sabem fazer é jogar joguinhos divertidos no laboratório de álcool! E. Per? — Tudo — respondeu o jovem.. que não tem mais nenhum prazer. abriu-a e estendeu-a para mim. Lá dentro. Você. Harry perguntou a Per: — Você tem certeza de que quer ver aquele Helheim de novo? — Claro.com dificuldade. vulcanizando as que irá comprar de mim. que pife? . na esperança de que não se transforme em mais uma cabeça de coalhada e. e o observo desde antes que suas calças sequem. foram as peles e as ervas. tão bonito. mais profunda. Per riu. tanto quanto o senhor. — Mas. — Não. — É como eu disse. Van Rijn troou à volta do charuto que acendia. para um iniciante — acrescentou Per — o que nos atraiu. Encontro um bom menino. da Peleteria. pois conheço-lhe a estirpe. Era de um sabor acre-doce. em primeira instância.. Estou ansioso para voltar. e despertou reminiscências que eu nem sabia que perdera. Nem um por cento da superfície foi ainda mapeada. Harry concordou com a cabeça. e o transforme num velho asmático. Abdul! Abdul. nem sintetizar. papai! Não se lembra? O olhar atravessou a parede. irônico. — São produtos químicos que ainda não conseguimos compreender. Provei. Apressei-me a intrujar naquele silêncio. de nuanças silvestres. um pó de folhas. você pensa que tem problemas? Ah. seu perna de geléia. à espera do homem certo. quando menos espero. Estou muito velho. É. Manuel apanhou uma caixinha no bolso. traga bebida. de meu cérebro. verde-azulado. e as peles. pois então espere que o tempo o corroa. Ele até bajula os espiões. como eu. — O quê? Nem mesmo da órbita? A expressão de Manuel veio mostrar-me o que os dois pensavam a respeito de mapas-orbitais. Eu não vou. senhor.

antes de enviar para lá naves caras. Talvez eu consiga estabelecer um padrão. — Mas. Van Rijn interveio. — Depois de tudo o que fiz por eles. — É melhor nem eu mesmo mencionar as coordenadas. fui mandado para lá para estabelecer um posto comercial. Manuel adiu. exalado por Van Rijn. Só ele gastou. para realizar a plahetografia superbásica e os levantamentos biônicos. — É o primeiro cargo de chefia de Per — disse Harry. trapaceando por aí em tantos planetas. Ah. Quando já se andou tanto quanto eu. Uma estrela anã. de fato. então. Oito planetas. Mas. para quase todas as novidades. conseguiremos os análogos para seus dados. — Ah. quinze mil. o cansaço é o pior de tudo! O anel de fumaça. É no caminho de Pégaso. Afável. e talvez até perdêlas. no mês passado. G-9. 123 . um deles terrestróide. voltou. quanto às peles e às ervas. A palavra exata não se ajusta a ouvidos educados. julgou-o interessante. o que. você acha? Pois deveríamos querer nos assegurar disso. ao que parece. senão a ele mesmo. — Teve problemas com os nativos? — perguntei. para tentar descobrir onde fica o planeta. foi localizar-se nos cachos brilhosos de Per. não interessava a ninguém. os santos ainda me dão um chute desses na alma. — Y algunos hombres buenos. com cerca de metade da luminosidade do Sol. Van Rijn sacudiu-lhe o dedo indicador. — Andei lendo os relatórios do pessoal de Brander — disse Van Rijn. cabeludo. já os derrotamos — disse Per. — Problema não é bem a palavra exata. tão baixo que mal foi ouvido. Teve tempo apenas para gravar a língua da localidade onde acampara. E mergulhou na caneca de cerveja.. Uma das mãos caiu sobre o cabo da arma. Per foi cuidadoso.a ética de uma doninha paranóide. menino. conseguiu descobri-las.. E. — E os seus também. Brander esbarrou nele durante uma pesquisa. resfolegando. meu novo capitão. e desceu para saber mais detalhes. Harry perguntou: — Como você soube o quanto ele gastou? Van Rijn procurou parecer arrogante e magoado ao mesmo tempo.

de seus próprios dentes. Seres humanos morreram. A atmosfera é mais densa. — Desculpe. Mas estivemos a 1540 norte. Como é o planeta? Dizer que é “terrestróide”. a própria fita de gravação da visita. Harry reclamou: — Eu.. O senhor tem razão. não podemos ter certeza. o que foi que aconteceu por lá. do que. gosta de pregar peças em nós. meia hora. Isto dito pelo conquistador solitário de Borthu. atrapalhou-se com o corpo. Diomedes e t’Kela! Per enrubesceu.. — E se não caem da gravidade. já deixei muito para trás. em colinas razoavelmente baixas. — Não há nada de bobo nelas. tudo que eu.A. Quer dizer. no entanto. sempre fui enviado a lugares onde os macacos de metal costumavam derreter. de vez em quando. — Bem. não quero tomar conclusões afoitas antes de ouvir. não há luas. chamaram-na assim. e era 124 . Harry fez um gesto para as pernas recobertas. o senhor sabe. e raio orbital médio um pouco superior a uma U. pobres mortais. Período de vinte e quatro rotações... As pessoas se sentam num escritório numa das faces da Terra. O meneio de Van Tijn fez com que seus cachinhos negros esvoaçassem de um ombro ao outro. — Tem quase o tamanho da Terra. posso reviver as lutas. Através de você. Acho que Deus.. durante todo o ano. — Bem. cidadãos. bem.. Relatórios. muito o que dizer. no mínimo. Principalmente porque não é muito bom insistir por muito tempo com pessoas que perderam o comando que lhes pertencia. têm o sabor de produto vendido pela concorrência. eu disse. caduco. e não esperam. dizendo Uff!. vocês. um episódio tão bobo. em cerca de quinze por cento. quando nos tornamos muito confiantes.— Mas. o que complica sobremodo as estações. as travessuras. Trinta e dois graus de inclinação axial. responsável por efeito estufa maior. mesmo assim. de um modo geral. por. que não tenham macacos de bronze por ancestrais. O rosto relaxou. nas latitudes baixas — disse Per — Caim não é tão mau assim. Portanto. e. é piada. as mãos avivaram em gestos rápidos que me lembraram sua mãe. Não há. na verdade. se conseguem respirar o ar. Os lábios de Per repuxaram. já passaram por coisas muito mais importantes do que.

armas. Pequenos lotes. fluir na minha cabeça. tecidos. — Mas a missão ia bem. — Sempre haverá problemas — afirmou Van Rijn. Transporte à altura de Chelândia. cobre. Per protestou. prata. construído mais para velocidade do que para capacidade. Não sei porquê. Os caimitas pareciam vestir-se e enfeitar-se ao bél-prazer.verão. O vazio. entretanto. Em Ulash. há um arremedo de metalurgia. a única sobre a qual contávamos com detalhes em mãos. porque os xenólogos de Brander não chegaram a elaborar qualquer padrão consistente para o item. toda a tripulação aprendeu com muita facilidade. E essencialmente caçadores — quer dizer. na verdade. como sempre. pelo menos. como tesouras e moedores de carne. e coisas de casa. apressado. Dentro da túnica. Per apanhou uma fotografia e estendeu-a 125 . Per bebeu. pois esperávamos apenas instalar o primeiro posto e transmitir. — Um pouco de cultura primitiva. como extensão da floresta. também são essencialmente neolíticos. estes povos? — Tenho uma fotografia comigo. Até mesmo a língua e todas as informações pareciam. nada mal para um planeta de uma estrela G-9. Ela era uma beleza.. Leváramos a nossa linha habitual de mercadorias. Poucos ornamentos.. — Brander chamou-a de Caim? — perguntei. ferramentas. — Agricultura? — inquiri. novamente. Voltou momentos depois. os yildivanos — juntamente com os lugais que empregam para ajudá-los. Apropriado demais. Um lago próximo congelava-se toda manhã.murmurou Harry. mas eles. foi um nome apropriado. Mas. Manuel apanhou o copo vazio de seu capitão e afastou-se. — Você irá aprender. Na área de Ulash. para os autóctones. e os bancos de neve permaneciam nas encostas. — Éramos vinte na Miriam Knight. — Bem. na viagem de volta. com o copo cheio. ouro. — E com que se parecem. Mais que isso seria desnecessário. cultivados pelos lugais. E voltou-se para mim. De fato. — E muito poucos . — Chamou. a melhor parte da cultura porventura existente é destinada à fabricação de tecidos. O alimento principal é a caça. a idéia da existência de comércio regular. vocês sabem. no fim. De fato.

os olhos verdes apresentavam pupilas fendidas. de uma compleição física bastante semelhante à de um homem de pernas compridas. que Brander trouxe cadáveres para dissecar? — Bem. Estudei a imagem com interesse crescente. de pêlos marrons. A evolução traça suas paralelas.acrescentei. À direita. entretanto. tingida com espalhafato. — Quer dizer. e a luz do sol. mas duvido que o admitisse. apesar das tantas diferenças em anatomia e química. E. de pernas curtas. o nariz chato lembrava um felino até mesmo pelos cilios que os circundavam. é obvio. um sistema complicado de reações exo e endotérmicas regula a temperatura. Per estremeceu. o céu estava exangüe. laranja. distorcia as cores. — Sempre descobrimos análogos para as coisas que já vimos antes.a mim. se procurarmos com insistência. No sangue. — São mamíferos. 126 . — E suas oblíquas também . no cinto.. do outro caimita. Shivaru. denso. E eles não suam. ao lado dele. áspera. então. uma faca comercial. vislumbrei um vale arborizado. Tinha quase dois metros de altura. móveis. Acima. e um colar de pedras semipreciosas.. orelhas redondas. A cabeça era menos antropóide: no topo. porém. um penacho escuro. está roxo de pânico. Per dissera. junto aos yildivanos.. crescia entre penedos escuros. Espero que não tenham matado lugais exclusivamente para esse fim! Minha atenção desviara até a criatura agachada atrás de Shivaru. — Esse é o velho Shivaru. olhava fixo para a lente. de aço. rijo. de um turquesa-amarelado. como seria de esperar. Os pêlos castanho-claros. de tórax cavado. Brander. com lâmina de obsidiana. Era uma versão atarracada.. mais ou menos. e a mandíbula afunilando em V. logo no começo de nossa amizade. boca de lábios grossos com presas protuberantes nos cantos. A mão esquerda um machado de batalha. Ao fundo. muitos cadáveres de lugais. Perceba que o lugal. Usavam uma espécie de tanga. de pé. — Suar não é muito comum nos terrestróides frios — observou Van Rijn. A testa e o queixo eram maldesenvolvidos. até a extremidade da elegante cauda. empinado. brutas. onde a grama. — . É provável que estivesse com medo da câmara. tantos quanto quis. uma encosta plutônica. conseguiu. os lugais pertencem ao mesmo gênero eles. nenhum yildivano. pálido. malhados.

— Eu não confiaria em escravos armados. Apontei. com certeza. os calos deixados pelo fardo. existem. e é só. Algo que seja o transmissor da tradição. a aljava de flechas. formação eventual de grupos provisórios para a caça de animais muito grandes. eles.. os yildivanos. uma ou duas fêmeas vêm juntar-se a ele. monótono. Pelo que pude aprender. algo para estimular a evolução do cérebro. o arco.e o focinho ainda não se transformara em nariz. Fazem o trabalho pesado. praticamente. pelo que pudemos constatar através de verificações aleatórias. toda a cultura existente é yildivana. Objetei. É como se o Australopithecus tivesse sobrevivido até os dias de hoje na Terra. não estes pobres-diabos? — comentou Harry. artistas. Os grupos familiais dividem-se quando os filhotes atingem idade suficiente para prover o próprio sustento.. — Aquele ali é um lugal? — É. tribo. — Como assim? — Bem. livra-se dos que porventura se aproximem e. Já conversei muito 127 . De outro modo a inteligência não teria qualquer função biológica. As raças inteligentes necessitam mais do que isso. — .. Escambos eventuais. e as duas lanças empilhadas nas costas musculosas. fitou o aperitivo. Veja você. como cães. Os yildivanos — machos e fêmeas — são os caçadores.. não possuem nada que se assemelhe a nação. no fim de um tempo.. Ou seja. O macho jovem estabelecese nalgum lugar. duas espécies correlatas. Pude ver a carne viva. uma mais evoluída que a outra.. ou a qualquer espécie de comunidade. Os lugais que possuem grudam neles. Não sei quão significativa seria esta “cultura” naquelas paragens. Como os cães. em todas as demais regiões de Caim. O ser estaria nu não fossem a sacola pesada. as famílias mantêm contatos meramente casuais. — Um momento. espontaneamente — de novo. no planeta. Per franziu o cenho. — Mas os lugais são de inteira confiança. Os yildivanos escravizaram os lugais: em Ulash. mágicos. uma maneira que permita aos indivíduos comunicar idéias entre si. — Bem maltratados. tudo o que interessa. — Também já me preocupei com isso. Van Rijn ergueu as sombracelhas bem acima dos pequeninos olhos negros. confrontos eventuais entre indivíduos. e.

e coisas assim. Muito nos esforçamos para nos compreendermos. ou não. os lugais recebem. e.com Shivaru. creio que esta é a resposta à sua dúvida. de genética. Todo membro da família. em cavernas. E lembrem-se. no íntimo da floresta — há muito mais lugais que yildivanos. a outros lugais. com freqüência. com mensagens. mas. e os yildivanos já não levam uma vida muito fácil. talvez exista o equivalente numérico. e com outros que surgiam no acampamento quando bem entendiam. contávamos apenas com rudimentos de Ulash. de uma maneira diferente. Os yildivanos 128 . mas Caim é um lugar cruel. e com a mesma rapidez perceberam as vantagens mútuas das relações comerciais. Bem. não significa nada para eles. e a opinar. para ser objetivo. E. algumas vezes. punir os preguiçosos. tudo. Os yildivanos os cultivam com este propósito. talvez não existam clãs ou tribos yildivanas. “Acontece que. Não podíamos nos aprofundar nas sutilezas. Estavam tão curiosos a nosso respeito. E são comerciados. Talvez. E os lugais são enviados em expedições a outras reservas yildivanas. quando não há trabalho a fazer — fazemos o mesmo com nossos cães — e realizar cerimônias rituais próprias. por solicitação do proprietário. porém. não são muito inferiores. permissão para perambular sozinhos. um vocabulário limitado que o pessoal de Brander havia aprendido. definitivamente. canções especiais. colocam-no a chefiar turmas de seus iguais. jamais questionaram o próprio modo de vida. engenhoso. o são. E. Mas não se deve pensar que sejam maltratados. De bom grado. “Todo lugal inteligente é valioso. e coisas tais. choças. apesar da aparência aparvalhada. Fereghir. com seu conhecimento prático. ao que parece. sejam tão inteligentes quanto seus senhores. O que façam. ajudam a selecionar os mais fracos. Assim. trazem as novidades. Ainda. entre os lugais. principalmente porque eles. a ensinar. aos jovens yildivanos. mercadorias para escambo. possuem uma quantidade de escravos. para começar. em cada um dos grupos familiais — organizações patriarcais. é claro. segundo nossos padrões. os lugais não são bobos. Foi um trabalho e tanto! Um planeta inteiramente diferente — dois ou três bilhões de anos de evolução em separado. quanto nós a respeito deles. Na verdade. E soube que algumas famílias os deixam fazer as refeições e dormir em suas próprias residências. mas. comecei a vislumbrar uma certa luz. até mesmo os guris. de volta. habilidades. a lealdade é devida estritamente aos patrões. Mais para o final. sobre a maneira de resolver determinada situação.

progressista — vinha experimentando criar animais de corte. acreditem.. na voz de Per. vocês deveriam vê-lo correndo atrás daquelas feras cornígeras. — Mas. Os yildivanos são os criadores. uma compreensão. Acabamos fazendo caçadas juntos. quão magoado estava pelo que acontecera. os inovadores. vida comunitária. A carne era muito saborosa. tão emocionado. trouxe três companheiros para que se pudessem divertir também. cortavam a caça e levavam-na para o acampamento. mas não cruéis. insensíveis. Meu Deus.possuem. Isto é. mas eles não entenderam. e nem admitiriam. não fos129 . É difícil dizer. quanto ao resto. e ficaram muito impressionados. na ocasião. E como conversávamos! “Creio que isto não deva ser novidade para vocês cidadãos. “Shivaru demonstrou-se muito interessado em nós. Para os fins práticos. Pude sentir. logo compreenderam a idéia geral. A bioquímica caimita carece de algumas vitaminas nossas. Creio. Era de meia-idade. em termos locais. traziam presentes. Sempre que chegavam. e desmiolá-las com um único golpe daquele tremendo machado! Seus lugais.. os filhos já quase todos crescidos. Não era necessário. pois leváramos máquinas. Porém. Rico.. E parece que nos consideravam seus iguais. de “outro país” parecia suficiente. já se haviam ido. E eu me atreveria a dizer que a relação já existe há tanto tempo que até mesmo condicionou a evolução biológica das duas espécies. Honestos e generosos. cada indivíduo se considerava tão bom quanto qualquer um no mundo. da outra vez. Orgulhosos como Satã. no início. — . saltar-lhes nas costas. eram pessoas muito decentes. tentando construir um vocabulário. Levei-o pára um passeio no espaço-rápido. Dois ou três deles nos perguntaram se queríamos que nos cedessem trabalhadores lugais. intimidado — que parece ter-se esquecido do que fizeram a você. indiretamente. qualquer humano pode viver bem lá. nem viável. — Você fala tão bem deles — comentou Harry. pois não conseguiam. de fato. de tão feliz. depois. trabalhando juntos. como suplemento à caça — e seus conselhos eram muito procurados pelos demais. mas. uma sociedade mais ampla. sem pensar em paga. através dos lugais que possuem. e nos acrescentávamos tanto que esquecíamos de comer. que alguém pudesse ser superior a eles. e ele parecia uma criança. e nem tentei explicar de onde vínhamos. Quando entenderam.. mas eu nunca havia passado horas a fio com outro ser.

quando não estava ocupado a chefiar uma ou outra etapa da construção. Às vezes eu divagava e. o machado. E ele esperava por isso. desapareciam. Manuel vinha juntar-se a nós. de um tal local de convergência comum. depois. Shivaru ficava de cócoras. com o rabo enrolado nos joelhos. ao lado. mas ele antevia seu povo trazendo. Seriam iniciados mais empreendimentos conjuntos. Cherkez e mais um ou dois lugais permaneciam. Todo esse tipo de coisa. no contravento de um penedo. Por vezes. nas colinas para lá do acampamento. a uma distância respeitável. pálido. para nós. em troca pelo que oferecíamos. no chão. — Bem. agachados. As folhas possuíam milhões de tonalidades diferentes. como se fossem um outono incessante. o trabalho conjunto de muitos yildivanos poderia tirar bom proveito da desova anual. poderiam aventurar-se por alguns estreitos que conhecia. ainda mais quando eu olhava para aquele sol encolhido. e abrir novos campos de caça. como uma boa arma. Lá no alto. a rocha era quente. do tamanho de uma chácara. “Por exemplo. e exalava fumaça branca contra o céu violáceo. Às nossas costas. E então num tique-taque. Os yildivanos são como os felinos. eu costumava observar o volteio. engraçado. Muito graciosos. da infância — virem nos chamar. organização com que se pudesse assinar tratados. E ele era suficientemente inteligente para perceber que seriam afetados pela existência de um tal mercado. a admirar-lhe a beleza. que costuma ocorrer no alto do Rio Mukushyat. que me fazia lembrar dos gnomos dos meus livros de contos de fadas. as orelhas ficariam de 130 . e de forma muito agradável. E igualmente mortíferos. sem que os olhos jamais abandonassem seu yildivano. percebia que estivera o tempo todo ali. Manuel? Não sei por que você ficava tão quieto! — O silêncio era conveniente. que. a voz cavernosa de Shivaru não parava. um sujeito rude. Eu descobri isso pessoalmente! “Tínhamos nosso local preferido. ou Cherkez — o chefe lugal de Shivaru. quando voltava ao chão. para nós.sem Manuel. Em grandes canoas. Você se lembra. Capitão — respondeu o natural de Novo México. eu ainda ouvia-lhes o assovio das plumas aladas —. A idéia de cooperação estreita criaria raízes. dentro dos estreitos limites que conseguia conceber. o mergulho súbito das aves de rapina — naquele ar espesso. iam pousar nas copas das árvores lá embaixo no vale. Nada de tratados comerciais — não havia. bem lá no alto. quando queriam sê-lo. sentado. o que queríamos. Possuía muitos planos para o futuro.

era apenas uma espécie de tecnologia. e. — São pagos para decidir essas coisas. embora não tenha certeza. com que tínhamos que conviver. nossos métodos de criação de filhos? Como conseguimos produzir coisas tão bonitas? Caramba. sem tom. — Não. nem equivalente do antropomorfismo. vago. é natural. O mundo era uma série de fenômenos. Shivaru me perguntou por que eu perguntara a ele sobre algo tão evidente.pé. — Vamos deixar isto para os teólogos — observou Van Rijn. Mas a coisa não lhes interessava muito. ao que parece. e o eco das colinas. — Tentei explicar a ele a idéia de Deus. como 131 . que eles possuíam um certo conceito. aos animais. Vi Per firmar-se. Com ele. Estávamos penetrando nas bases psicológicas de cada um. Fereghir e Tulitur. E as minhas também. Não havia animismo. meu Capitão. rápido. retomou. perturbado. Durante uma semana. Eles praticavam a magia. vinham uns dois mais. era difícil para ele tentar compreender minhas perguntas sobre o assunto. Prosseguiu. que costumava inspecionar a área. e. Como o senhor iria saber que eles não possuíam alma? — Não possuem mesmo? — balbuciou Per. Shivaru pareceu intrigado e. sobre o colo. com a volta de Shivaru. Já lhe disse que os yildivanos de Ulash usam tambores para comunicações de longo alcance? Bem. que. Estávamos sendo observados. e estávamos ambos fascinados. Tenho certeza de que fracassei. A vida era apenas o que você tinha. aqui e agora. rapaz. Senti-me aliviado. conforme o caso. para eles. “Não fiquei surpreso em saber que a cultura de Shivaru não possuía religião. ou que nos derrotariam. ele tinha todo o cosmos por explorar! Pouco a pouco. Que tipo de país habitávamos? Como era a caça? Como eram nossos casamentos. os pêlos do rosto vibrariam. à medida que crescia meu vocabulário. as perguntas tornaram-se menos práticas e mais abstratas. foi-se. durante toda a noite. no início. com toda delicadeza. disse ter encontrato trilhas. de reencarnação. vestígios. — Talvez esse tenha sido meu primeiro erro. ouvi o cochicho dos tambores no vale. Manuel. foi ao cobertor. Logo depois. Prossiga.. Qualquer yildivano sabia muito bem que era superior às plantas. Per sacudiu a cabeça. Acho. ninguém nos procurou.. e o problema das origens não lhes havia ocorrido. e ele começaria a fazer perguntas sobre meu povo. O olhar desceu. porém. Manuel interveio. de fato.

eu supervisionava os toques finais no nosso sistema de corte de madeira. Eu mal podia ver a nave. “Não. não estava nada caloroso. e os arrastaríamos. Tulitur. “e convidoos a jantar e pernoitar conosco”. e eu não fazia a menor idéia do que teria sido Uma mentira.” Shivaru interrompeu-o. algum dia. pois usaríamos a madeira local em boa parte de nossas construções. cidadãos. Não falamos palavra até sairmos da poeira. e perguntou — não de modo grosseiro. falei em Ulash ao dizer a Tom Bullis que assumisse meu posto e a Manuel que viesse comigo até a colina. minha pele arrepiou. em seguida. espere. apenas com o timbre algo trêmulo — “o que vocês vieram fazer em Ulash?” Gaguejei: “Por quê? Você sabe. ele disse. Inclusive. rachados. exceto Manuel. a priori. “Dou-lhes as boas-vindas”. roncos e ribombos. Venha.ele próprio. É a fórmula educada com que se recebem os visitantes. “Os três se aproximaram. aqueles três caçadores. Se os autóctones pensavam que queríamos fazer-lhes mal. Tulitur. tal a poeira tingida de sangue ao sol. machos importantes. O corte e a apara seriam feitos na própria floresta. que viessem tornar as coisas piores que a verdade. Eu estava desarmado — todos estávamos. Atravessaram a colina e vieram ter diretamente comigo.. não seria conveniente falarmos numa língua que desconheciam. uns doze lugais armados. ergueu-a. como se Shivaru usasse uma máscara de vidro. “Sua pergunta é vaga”. aí não é lugar para yildivanos. e pareciam recobertos por uma película. “Algo dera errado. disse aos yildivanos. vocês conhecem os novos-mexicanos — e temi precipitar as coisas se tentasse apanhar minha arma. que. e nem as barracas. Mesmo assim. hoje. o ruído do acampa132 . Para falar a verdade. atrás deles. até a obra. no vento que cortava como laser. Ele voltou-se para mim: “Vocês foram enviados? “ E o que eu gostaria de perguntar a vocês. diretamente. inquietos. Não ouvi a mesma resposta de costume. e chegarmos ao velho lugar junto ao penedo. Vi a luz do sol brilhar ao longo da lâmina escura do machado. em trenós. todos altos. que nos separava. com pistolas de raios. é se faz algum sentido dizer que determinada voz saiu “preta”? Não me ocorreu nenhuma maneira de contornar as coisas.. onde as fundações já estavam dispostas. da balbúrdia. depois. através das cubas de endurecimento. um pretexto? Provável. Olhei-o nos olhos. carregaríamos os troncos até a serraria. Viemos comerciar”. senti-me diabolicamente bem por ter Manuel ao meu lado. Nada estava. que carregava uma lança. O ar estava repleto de rangeres.

mento já era débil, distante. Ou era o vento que sibilava mais alto? Fiz com que olhasse para mim novamente. Disse: “Você sabe que estamos aqui em nome de outras pessoas de meu planeta, iguais a mim”. Debaixo dos pêlos de Shivaru, os músculos enrijeceram ainda mais. E também... bem, eu não sei ler as expressões nãohumanas muito bem, mas os lábios de Fereghir estavam retesados, exibindo os dentes, como se confrontrasse um inimigo. “Tulitur pousara a lança, a seta para baixo. Segundo os relatórios de Brander, um yildivano jamais faria isso diante de um amigo. E Shivaru, então, foi o mais difícil de entender. Eu poderia jurar que ele estava magoado. Ele perguntou: “Foi Deus quem o mandou?” Aquilo veio culminar toda a loucura. Cheguei a rir, embora não estivesse achando nada engraçado. Minha cabeça fazia clique, clique, clique. Consegui identificar uma questão de semântica. O Ulash estabelece certas distinções claras entre diversos tipos de imperativo. A ordem de um pai para o filho pequeno é inteiramente diferente — tanto em palavra como em conceito — de uma ordem dada a um yildivano derrotado em combate; e esta, por sua vez, é diferente de uma ordem dada a um lugal, e assim por diante, numa gama muito ampla que nossos psicolingüistas ainda não conseguiram mensurar. “Shivaru desejava saber se eu era escravo de Deus. Bem, a hora não estava para explicações sobre a história da religião, e, de qualquer modo, quem era eu para explicá-la? Apenas respondi que não, que não era; que Deus era um ser em Cuja existência alguns de nós acreditávamos, mas nem todos, e, com certeza, não me dera qualquer ordem direta. Aquilo os abalou. A respiração de Shivaru sibilou por entre as presas; o penacho eriçou-se, a cauda chicoteou as pernas. Ele quase gritou: “Então, quem o enviou? “, o que traduzi por “Quem é seu proprietário? “ Por todo o lado do corpo, ouvi um roçagar, Manuel soltou a arma no coldre. Atrás dos três yildivanos, os lugais firmaram machados e lanças a postos. Escolhi as palavras, vocês imaginam por que, não? “Estamos aqui por livre vontade, como parte de uma associação”. A palavra que usei talvez significasse “comunhão de interesses”, mas eu não estava também para explicações sobre economia. “Em nosso país natal, não somos lugais. Vocês viram nossos apetrechos, eles trabalham para nós. Não temos necessidade de lugalidão. “Ahhh”, Fereghir suspirou, e ergueu a lança. A arma de Manuel soltou-se, num estrépito. “É melhor vocês irem embora”, ele disse, “antes que haja luta. Não queremos matá-los.”
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“Brander gostava de exibir armas, para conquistar posições, e nós tivemos de fazê-lo também. Ninguém se mexeu, durante um certo tempo que durou, eterno, ao vento de Fimbul. Nos lugais, o cabelo estava em pé. Estavam prontos para, a uma só palavra, precipitar-se e morrer. Mas isto não estava tão próximo assim. Os três yildivanos, por fim, trocaram olhares. Numa voz inanimada, Shivaru falou: “Vamos considerar as coisas”. Deram meia-volta, e partiram, atravessaram a relva extensa, sibilante, com as sacolas grudadas às costas. “Os tambores tocaram, dias, noites. “Nós, de nosso lado, consideramos as coisas em profundidade. O que acontecera, afinal? Os yildivanos eram primitivos, nada sofisticados segundo os padrões da Comunidade, mas não eram bobos. Shivaru não se surpreendera com as diferenças entre nossos povos. Por exemplo, o fato de vivermos em comunidades, e não em famílias isoladas, fora apenas uma nova singularidade entre nós, intrigante mas não chocante. E, como já lhes disse, mesmo que a cooperação em larga escala fosse incomum entre os yildivanos, eles a praticavam de vez em quando. “Portanto, o que havia de errado em agirmos desta maneira? Igor Yuschenkoff, o capitão da Míriam, fez uma ponderação razoável: “Se eles pensam que somos escravos, nossos patrões, então devem ser ainda muito mais poderosos. Será que pensam que estamos preparando uma base para invasão? “ Respondi: “Mas eu já disse a eles, taxativamente, que não somos escravos. Igor estendeu o dedo ao longo do nariz. “Sem dúvida... mas, será que acreditaram em você?” “Bem, passei a noite, vocês devem imaginar, de um lado para o outro na barraca. Deveríamos levantar acampamento, procurar uma nova área e começar tudo de novo? Seria o mesmo que arrancar dali quase tudo o que fizéramos. E o problema, menor de todos, seria o de termos que aprender uma língua inteiramente nova. Por outro lado, mudar não resolveria as coisas necessariamente, pois as expedições dos espaço-rápidos revelaram, com insistência, que o padrão de vida básico era o mesmo em todas as regiões de Caim, como ocorreu, na Terra, na era paleolítica. Assim, talvez tivéssemos incorrido nalgum erro fundamental, e não apenas numa questão de tabu local. “Eu não sabia o que fazer. E duvido que Manuel tenha dormido mais de duas horas por noite. Andou muito ocupado reforçando o esquema de segurança, treinando os homens, rondando a vizi134

nhança, mantendo-os alerta. “Nosso contato seguinte, entretanto, foi pacífico, ao menos na superfície. Numa bela alvorada, uma sentinela me veio acordar, disse que havia um punhado de nativos lá fora. A noite anterior fora de neblina, que viera transformar o mundo numa fumaça cinzenta e úmida, que nos impedia de enxergar além de três metros. Quando saí, ouvi o pingo de um trator estacionado nas imediações, o único som nítido em todo aquele abafamento. Tulitur, e um outro yildivano, encontravam-se no limiar do acampamento; atrás deles, uns cinqüenta lugais. A água reluzia-lhes nos pêlos, as armas estavam cobertas de geada. Manuel disse: “Devem ter viajado à noite, Capitão, para garantir a cobertura. Com certeza, outros devem estar por aí, fora de nossa vista”. Juntos, lideramos um esquadrão de homens. “Dei as boas-vindas aos yildivanos, em obediência ao ritual, como se nada houvesse acontecido. Mas não recebi qualquer ritual de volta. Tulitur disse, apenas: “Viemos negociar. Por suas mercadorias, daremos as peles e as plantas que desejam”. Aquilo era uma certa precipitação, pois nosso posto encontrava-se apenas parcialmente construído. Mas eu não poderia recusá-la, já que poderia transformar-se num ramo de oliveira. Então, disse: “Muito bem. Venham, vamos comer enquanto conversamos”. Movimento esperto, pensei. Aceitar o alimento de alguém, em Ulash, gera o mesmo tipo de obrigação que na Terra. Tulitur e o companheiro — Bokzahan, agora me lembro do nome — não agradeceram. Mesmo assim, entraram na nave, sentaram-se à mesa desarrumada. Calculei que aquele ambiente seria mais cerimonioso, que impressionaria mais que se fôssemos para uma barraca. E, por outro lado, não estaríamos expostos ao frio cortante, brutal. Pedi algo na linha de ovos com bacon, de que, sabíamos, os caimitas gostavam. “Eles foram direto ao assunto: “Quanto vocês têm para trocar conosco?” Para igualar-lhes o lacônico, eu disse: “Isto depende de o que você quer, e o que você tem para dar em troca”. Bokzahan disse: “Não trouxemos nada conosco, pois não sabíamos se vocês fariam negócio”. “E por que não faríamos? “, perguntei. “Foi para isso que vim. Entre nós não há discórdia. Ou há? “ Fuzilei-o com a pergunta. Aqueles olhos verdes, gelados, nem piscaram. Tulitur respondeu: “Não, não há. E de nossa parte, queremos comprar armas”. “Isto não podemos vender”, informei, sem acrescentar, julguei melhor, que nossa política nos permitiria fazê-lo caso tivéssemos um nível razoável de certeza de que a venda não resultaria
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bufou: “Já contávamos com tais receios. por rio. eu disse. Não que duvidássemos. Queriam de tudo que tínhamos e. caso acontecessem. não barganharam muito. Mas. deixou-me em apuros. os yildivanos disseram a nossos homens que desembarcassem junto a um rio. neste caso. E eu não desejava antagonizálos. Por um lado. Atrás dele. disseram. deixá-los-ia levar metade da quantidade acertada entre nós. junto a elas. mas levariam algum tempo para reunir as mercadorias para a paga. mais bebida. e puseram-se a debater os termos. este vocês o preencham como quiserem. Gabo-me de ter dado a eles uma resposta diplomática. “Tulitur deu um tapa na mesa. nestes termos. para mais adiante. A uns cinqüenta quilômetros. nos desfalcaríamos de uma importância razoavelmente galática... Muito bem. Eles têm grande valor. ou você está pensando que estamos em Marte? Per suspirou. Nada aconteceu. Harry inclinou-se. mais ou menos. Prosseguiu: — Colocamos a mercadoria no trenó. “A proposta. Você agiu bem. Por outro lado. quanto ao preço. das boas intenções deles. os yildivanos sempre haviam agido com muita honra. 136 . ninguém pode antever tudo o que vai dar errado. eles desejavam transportar a mercadoria. Manuel acompanhou-a num espaço-rápido armado.em nenhum malefício para nós. Per silenciou. Queriam apenas crédito. e também muitas ferramentas úteis. sempre falaram a verdade.. Lançaram-se ao trabalho. imediatamente. por um instante sequer. Estava claro. mas não discutiram. Ele observava. deixaremos nossos lugais com vocês até completarmos o pagamento. porém. e. é óbvio. Havia canoas ancoradas na margem e. por menor que seja. na tela. Mas. acaricioulhe a mão.Ja! Puxa. Van Rijn berrou: .” “Ficaram um pouco zangados. Decidi que. e. acidentes acontecem. mordeu o lábio. Manuel chamou-me. pelo que pude verificar. de imediato. Abdul. “Mas temos facas para trocar. do acampamento. rapaz. Eu disse: “Não. Podemos apenas ter certeza de que haverá algo de errado. bem. Não faz diferença! Desejam manter a destinação em segredo. para saber se eu tinha alguma objeção. Precisavam das coisas já. Sabia que os yildivanos eram boa gente. vi Bokzahan. vocês devem levar as mercadorias para o local onde as quisermos”.. por conta própria. A titulo de precaução. Não confiam mais em nós”. uns tantos yildivanos mais.

andaram de um lado a outro no pavilhão que destináramos a eles. porém. e vagiram numa língua não gravada por Brander. Vinham de todo lado. Não que eu esperasse confusão. porém. Era meio constrangedora. e façam o que mandar os erziran até voltarmos para apanhá-los”. os guias.. não eram bobos. não tenho muito a 137 . Encontraram-se naquele extraordinário território chamado Ulash. bem longe”. Em todo pôr-do-sol. crivaram os locais com saraivadas de flechas enquanto o grosso da tropa atravessou pelo meio. um canto estranho. sem nenhum resultado.“Os nossos comunicadores sempre haviam fascinado nossos visitantes. à sua maneira animal. a presença daqueles seres caninos no acampamento. olhando para os dedos. Mesmo assim. provavelmente. Mas o que falavam não fazia sentido. Para mandriar. “Bem . “E que tipo de tarefas vocês têm que cumprir? “ — “As que meus yildivanos estabelecerem”. estavam bem mansos. dormiam. uma ou outra vez. e disse não. depois. onde estavam nossos piquetes e. ou ficavam sentados a olhar coisa alguma. pelos mensageiros que não paravam de correr. ficaram irrequietos. porém. para encurtar a estória. Na maior parte do tempo. em tom menor. “Por algumas vezes. no entanto. muitos acocoravam-se em círculo. que eles apenas passassem o tempo. Naquela noite. pois ouvira seus patrões dizerem: “Fiquem aqui. Vim a saber. e o escravo respondia: “Na floresta.. Eu perguntava: “Onde você vive?”. quando recomeçaram os tambores. rações para os lugais. tentei puxar conversa. formavam fileiras e cantarolavam. e só Deus sabe quantos lugais. fomos atacados pouco antes da alvorada do quarto dia. e um deles até perguntou se poderia ajudar no trabalho. e embora não nos respondessem no estilo deferente que usavam para com os yildivanos. e segredavam. que nos observassem. Jogavam um tipo de jogo que envolvia figuras desenhadas na terra. não consegui desvendá-lo. nada indiscreto. Desisti. seria verdade o que eu via? Um sorriso zombeteiro no rosto de Bokzahan? Andei ocupado arranjando acomodações. nos três dias que se seguiram. não eram insolentes. Ri. eram excelentes. dia e noite. No mais. com as mãos nos ombros uns dos outros. Sabiam. exortados pelos tambores e. e os improvisos muitas vezes fizeram arrepiar meus nervos. Na manhã seguinte. assim. agradeci. Desta vez. Eles se instalaram. só de pensar num lugal diante de um painel de controle de um trator de quinhentos quilowatts. E um guarda ou dois. pelas florestas. correndo. que a tropa contava com uns cem machos yildivanos.

sobre nossas cabeças. “O que deveríamos fazer. Coloquei o blusão. pensei em quantas estrelas estavam a brilhar ali fora. Dois homens dormiam na nave. Os seis que se encontravam de vigia haviam sido dizimados. por questão de doutrina — e despejei ordens. eles pululavam. caçadores altos. mas o resto encontrava-se na nave. arcos. Os lançaraios zuniam. por um instante. a cabeça rachada de pânico. do inferno. Você ainda não contou os detalhes. Vi os rapazes emergir das posições fortificadas pendurados nas cordas de desembarque.. nas colinas. sem uma única imprecação. abotoei o cinturão. — Que coisa mais imbecil que me foi acontecer! Logo no meu primeiro posto de comando! Harry insistiu: — Prossiga. zumbiam. não. as sirenas ululavam. Até hoje me lembro que Zerkowsky se esquecera de amarrar o forro. e rápido. estatelado no chão. gnomos marrons. os primeiros rugidos. saí para o cercado. brilhante demais para ser contemplado. aquelas fraldas 138 . as sirenas já esganiçavam bem alto. — Não há muitos. Se já não fosse muito tarde.dizer. à espera de uma retirada inexpugnável. O frio me cortava. Per encolheu os ombros. em ebulição. enfiei os pés nas botas e. arremeti na direção da nave. Ao mesmo tempo. com a mão livre. “E foi então que Yuschenkoff acendeu os refletores na torre da Míriam. nas mãos machados. Meu caso foi um acidente . Levei o microfone de comando à boca — sempre o usara no pulso.. A luz das estrelas refletia nos montes de neve. com a arma ainda entre os dedos. Parecia uma comédia pastelão. era correr em socorro daqueles guardas. A expressão de Per contorceu-se. e a geada. talvez? Por entre nossas barraças e máquinas. pois podíamos contar com o átomo a nosso favor. Aos tropeços. e as vozes gritavam guerra. Nossos dispositivos estavam programados para ação defensiva. e nossas próprias adagas. mesmo assim. lanças. clavas. um sol artificial ali estava. dezenove ou menos. De repente. Vi apenas um homem. mas. Acordei com os primeiros gritos. com peles de leopardo. contra Ulash. acocorados. em barracas à volta dela. tanto. embora fôssemos apenas vinte. entretanto. e os outros. Tudo era uma só chaleira negra. bodoques. Àquela altura. Ainda. ouvi o chiado de um raio que passou junto à minha barraca. O que teriam pensado os caimitas? Uma incandescência branco-azulada.

que receberam ordens antecipadas. Mesmo sem ter recebido ordens específicas.batendo contra o traseiro dele. Que coisa terrível para se ouvir de perto! Muitos deles já estavam esparramados. A gente repara em cada detalhe. O inimigo voltou para a selva. compreendido nossa força. colocou numa cadeira de rodas. que me atropelou por trás. Manuel estava debruçado sobre mim. que. nem pela sirena. de fato. Eu não sentia dor física. Mas nossas baixas foram muitas.. Manuel foi direto. Pedi ao médico que lhe desse uma pílula para acordá-lo. Ele me ergueu. e Deus me perdoe. Dois estão mortos. até surgir a bendita escuridão. tudo não passou de um vagalhão de gritos. ofuscados pela luz. com dentes e mãos. que deve ter apanhado de algum caimita morto. Ele fechava sobre mim. e o inimigo derreteuse. ganidos e garras. “Eu caí. nessas horas! Os caimitas estavam às tontas. Temos muitos homens feridos. tudo foi dor e ódio. e. pois precisamos imediatamente de uma decisão sua. conseguiram. porém. espreitanto. que me pisaram o corpo todo e me deixaram nas mãos de um lugal. creio que com prisioneiros”. Acho que perguntei.. mortos ou moribundos. para o que precisou de apenas dois tiros.. parecia um corvo. era minha canela esquerda. Os yildivanos não haviam. 139 . de graça. centímetro por centímetro. avançou na minha garganta. mais um deles entrou em cena. no local mais à mão que encontrou. plantaram reforços bem dentro de nossa própria cerca.. por acaso. bateu em mim. segundo. não permaneceriam imóveis vendo seus patrões em luta. “O que ocorreu. levou-me lá fora. Nossos rapazes dispararam uma rajada de fogo. foi que nossos reféns lugais subjugaram os guardas e se soltaram. mas sentia a cabeça leve. Primeiro. o esquema não funcionou. Três desaparecidos. Vocês sabem como a gente fica quando nos entopem com estimulol. Como iriam compreendêla? “O próprio Manuel derrubou os dois lugais que estavam em vias de me matar. “Como nos saímos?” Ele disse: “O señor deve descansar. de arrancar-lhe os olhos. Daí por diante. na verdade. debaixo de muitas pernas. De repente. Ele se sentou no meu peito e. Por Judas. era uma criatura muito forte. para mim.. Tulitur e Bokzahan enganaram-nos direitinho.. estava na enfermaria da Miriam. e meio maluco. uma ótima consignação de nossas mercadorias de troca. É evidente. contra todo meu esforço de empurrá-lo. E então. Mesmo assim. Quando voltei a mim. Não esperavam por isso. se bem que. Com uma clava.

o que não fora muito difícil de fazer. Isto é. haviamno sedado. “Porque são traidores. como o vento que fenece no oceano. feridos. depois de fazer-lhe um curativo. Nossos médicos. Mas não reconheci ninguém. Kochilir.disse-me que meu osso da perna estava bastante pulverizado. Nós nos entreolhamos por algum tempo. A equipe de Brander tivera. “parece” não. O ataque dos reféns. com tanta construção. perguntei: “Por quê? Por que vocês fizeram isso? “.. Em filas. Não liguei mesmo! Afinal. na hora. também em Ulash. Cheng e Zerkowsky estavam desaparecidos. Um deles eu não conhecia. Não creio que a Liga jamais se esqueça da semântica darboriana! Yuschenkoff cuspiu em Kochihir: “Agora vamos perseguir sua raça como os verdadeiros animais que são”. Era Kochilir. “Nada disso”. meus homens haviam vistoriado as redondezas. visitara-nos uma ou duas vezes. dispuseram os cadáveres dos inimigos. mas só dois yildivanos. parece que não liguei muito.. ele e eu. Estava ileso. como o pai. porém. pois uma simples ameaça de morte não basta para fazer com que um lugal pare de lutar por seu patrão. Uns duzentos lugais. Os prisioneiros que fizemos. Os outros feridos haviam sido levados pela própria gente. portanto. peludos. Vinte e três yildivanos — este número me vai perseguir pelo resto da vida! — e não sei ao certo quantos lugais. disse Yuschenkoff. Gower era cunhado de Yuschenkoff. tratei dizer. os empacotamos na escavação que nos servia de porão principal. talvez uns cem. eu reconheci. Eu disse: “Mas. imóveis. em Ulash. Apresentava uma queimadura feia. Enquanto estive inconsciente. tantas máquinas a oferecer cobertura. o cuidado de descobrir se existiam palavras correspondentes aos conceitos de honra e ao oposto. um filho adulto de Shivaru que. Gower e Muramoto haviam morrido. “Sob o sol alaranjado. assassinos e ladrões por natureza. e. fora interceptado com pistolas de estontear. o acampamento apresentava uma quietude nada natural. Manuel explicara. Num dos cantos do buraco. mas. ele se encontrava meio fora de esquadro. pois o rugido que se ergueu entre os lugais foi tamanho que algo insano poderia ter ocorrido. eis porquê”. É uma das melhores armas. Pedi que Manuel me empurrasse para que eu olhasse aqueles rostos sangrentos. e Bullis. Por fim. seu 140 . naturalmente. um depois do outro. O outro. e uma espécie de rumorejo percorreu aqueles corpos apinhados. os yildivanos fuzilavam olhares para os guardas armados lá em cima. provocada por um raio. fora apanhado por um raio de estontear. “Não fale mais desta maneira! “ Yuschenkoff calou-se.

através das copas das árvores. latejava. não!” Sem responder. antes de nos ter traído. minha cabeça rodopiava. possamos conversar. e queimar a relva onde quer que pisem. aqueles demônios. água e floresta. — Não era meu desejo contradizer meu Capitão. Talvez já se tivessem dispersado. Eu tenho tambores aqui no acampamento. por nossos detectores infravermelhos. Você fez continência e afastou-se. julguei que as expedições aéreas não iriam encontrar viv’alma por muitos e muitos hectares de colinas. Aqueles dedos estranhos. não seremos apanhados de surpresa duas vezes. Minha própria paciência já se esgotava. A comitiva de guerra não deve estar muito longe”. — Eu estava meio louco na ocasião. Mas antes. — Ora. e jamais regressar. enroscavam-se uns nos outros. não foi? O novo-mexicano pareceu encabulado. Que não fosse pessoalmente. E temos que ir salvar nossos homens. ravinas. lá fora. eu pensava que fosse. Use-os para chamar seu povo. emboscá-los nas encostas.pai era um bom amigo meu. “Kochihir eriçou o penacho. Eu disse: “Nós não sairemos daqui se nossos amigos prisioneiros não nos forem devolvidos. e eu o chamei de volta. O canto da boca de Per se retorceu. ele escarneceu. Rosnou: “Vocês devem partir. “Não faz sentido ficarmos aqui parados. estourar as feras cornígeras por seus acampamentos. não gostei de contradizer meu Capitão. isto significa que eu estava 141 . Vão. — Mas.. E se estivessem juntos. não estariam tão aglomerados a ponto de ser percebidos. . Gritei. Manuel. É melhor que você mesmo conte sobre nossa discussão. Você disse que enviar espaço-rápidos era desperdiçar uma energia muito necessária em outros locais. e diga que tragam nosso povo de volta. mas você contradisse. a cauda foi chicotear-lhe os tornozelos. Envie espaço-rápidos para procurá-los. sobre o colo. descarreguei em você. Se não. vamos pilhá-los nas florestas. envenenar os poços. que obedecesse às ordens e enviasse os espaço-rápidos. Pelo menos. talvez. como se eu estivesse febril. não foi? Disse que não contestasse. Vamos organizar uma defesa cerrada aqui. Fiz sinal para Manuel. e não ousem regressar”. era muito valioso no acampamento.. na verdade. Depois. sem necessidade. Mesmo assim. Manuel contemplava a noite que caíra. . Kochilir. De que modo ofendemos a ele e a seu povo? “. Isso mesmo. dados por seu pai. de tão delicados.

o que aconteceu a caminho da nave. tanto pior para eles. Manuel confessou: — Para mim. um só gesto. subia e descia.. não? Mas Gwer e Muramoto haviam sido meus amigos. e. mesmo lá de cima. Com delicadeza. afundar nas paredes de um turbilhão. e eu disse: “Veja se consegue a cooperação desse bastardo peludo!”. mesmo que não soubesse nada de Ânglico. Ouvi o Doutor Leblanc resmungar algo a respeito de como seria possível tratar de um paciente cujo sistema já fora maltratado com tantas drogas. não importa. — Eu tinha idéia de como quebrar o moral entre nossos prisioneiros. Cheng e Zerkowsky ainda o eram.e que me encontrava preso num osciloscópio. Não conseguirão esconder-se de olhos que vêem de um extremo ao outro do horizonte. e Bullis... mesmo se tivessem tocado os tambores. ali embaixo. e as escolhia. conforme pedíramos. Fazendo um retrospecto. mandei nossos espaço-rápidos atrás de seu povo. dentes reluziram... Além disso. Dei ordens para que meus homens façam o que for necessário para dobrá-lo”. foi um tanto doloroso ver meu Capitão apontar para aquele que o havia torturado. Seu povo pagará caro se não devolver nossos homens por bem. disseram-me que estive inconsciente por cinqüenta horas. parece. como um bêbedo. Mas Shivaru e os seus conheciam-nos a psicologia com astúcia suficiente para saber que o fato de terem aprisionado três dos nossos causava grande influência sobre nós. até que pensei que me tivesse transformado num eléctron. que dariam para endoidar um camelo. e. Os caimitas não possuem a mesma solidariedade de grupo que nós. se estivessem vivos. Bem. Se Kochilir e o amigo caíram em nossas mãos. Daí por 142 . também como um bêbedo. em diversos planetas. porém. Foi um discurso muito perverso. e nem lutar contra os raios que as armas lançarão do alto. e a escuridão ficou verde e. as palavras. Os yildivanos não conseguirão derrotar nossa máquina voadora. com extremo cuidado. eu estava prestes a desmaiar. de tempos em tempos. Toque os tambores. a cooperação deles teria sido indiferente. Agora. “Kochihir. sempre que houve muita necessidade. Embora. e diga isso a eles. eu mascava as palavras. depois. Mas meu cérebro parecia rodopiar. que continuava. Se não. você vai pagar caro. Olhei para Kochilir.. Ele não perdera uma só sílaba. continuava. para apanhar os nossos que vocês capturaram. dispersaram-se num garrular infindável.retendo o único homem cuja experiência da selva permitir-lhe-ia identificar rastros. Kochilir. deve ter compreendido muito bem o que se passava.

— E quanto aos acontecimentos em Caim. acadêmico. — Pronto. você não estaria aqui hoje sorvendo a bebida dele. Ofuscado. onde me tornei sargento antes de vir trabalhar para o senhor. Eu já passei por isso também. A esta altura. agora ouçamos o que você tem para contar. e o vermute derramou. — Você estava de tão bom humor há meia hora. Dom Manuel. nie? Cortês. de Van Rijn. Reviver os maus momentos é um castigo muito violento. Ao afundar no sofá. peço a ele que nos dê uma palestra. señor. a mínima humildade. Meu pai foi um caçador em Sierra de los Bosques Secos. — Assim que for operado. a estória é de Manuel. Van Rijn falou: — Bem. Per — eu disse — se o Cidadão Van Rijn pensasse mesmo que o fracasso da missão fora culpa exclusivamente sua. mais que o que o próprio Jeová seria capaz de infligir. — Deixe de bobagem! Van Rijn terminava o terceiro ou quarto litro de cerveja desde que cheguei. sem. num sussurro: — Pelo fogo do inferno! Por que vocês tentam fazer com que eu me sinta bem? Eu estraguei o espetáculo! — O que é isso. como mercenário. e daqui a meia hora já estará novamente. come143 . Que tal? Já está quase na hora do jantar. irá à minha casa em Jacarta para uma bela orgia. com uma raiva impotente. pediu mais. ao estilo antigo. — Escute. filho — aventurei-me a dizer. e não há remédio melhor que um verdadeiro rijstaffel. Logo ele estará andando. também não há muito que possa contar. Nada mais que isso. O fantasma de um sorriso irônico veio gratificar-me. eu não sou Dom. e eu. o novo-mexicano respondeu: — Por favor. Per parecia grasnar. latente. Manuel hesitou. Harry o observava. pronto — interveio o mercador. Per explodiu. porém. A minha taça também andara cheia. Você estaria vendendo carne para os canibais. ao erguer o copo. e as luzes da cidade. Uma das mãos mexeu no cobertor.diante. vi que estava bastante lívido. aquele olhar triste procurou o meu. viajei pelo espaço com os Piratas de Rogers. e com um sinal. tanto que as estrelas.

violetas. não conseguia evitar que cantasse. entretanto. caramba. o homem moreno permaneceu sentado. embora poucos já tivessem caçado. Conte vantagens. descubra o padrão. começou a congelar em volta dos capuzes dos forros. tive que esfregar meu nariz no chão — e. tão curto. e oblíquas também. subia novamente até perder-se de vista naqueles desfiladeiros dentados. Preciso construir um planeta real para mim. fale! Por um minuto. Ele disse: “Não. e ele disse: “Mas recebemos ordens”. Por ora. daquelas coisinhas que ninguém jamais pensa em registrar. Pensei na minha casa. Mantinha os olhos fixos em nós. a dizer quase nada.çavam a dançar na escuridão lá de fora. Durante toda a narração. mas. apenas amontoavam-se sobre as armas. As evoluções têm paralelas. que terra árida. — Eu li os relatórios oficiais da expedição. a respiração. o sotaque. e os selecionei para as tarefas que tinha em mente. equilibre uma cadeira na cabeça. e numa certa Dolores que conhecera há muito tempo. — Quando levaram meu Capitão. Quais são as paralelas da evolução de Caim? Fale. com o anoitecer. Eu disse: “Não vamos fazer nada por enquanto. conversei com eles. Conte piadas. ele precisa de muito chão — é que estabeleci meus padrões. perturbado. a que mergulhava vale adentro e. Eu mesmo não 144 . Pelo resto do dia. perambulei entre os remendos de neve na relva. Pois. como alguém já disse hoje. Um a um.. nesta sala. por minha experiência nos tantos planetas em que eu. não importa o que façam!”. Eram todos bons com as mãos. esse velho rachado. concordaram. Van Rijn prosseguiu. se quiser. Alferes Gomez y Palomares. cante. eu mesmo. a não ser por esporte. O que foi feito. Respondi que o Capitão estava ferido. antes que meu próprio cozinheiro. e que Per descreveu com todo seu conhecimento de Lawrence. depois. E perguntei aos que estavam próximos: “Vocês não acham?”. e voltavam. Eu preciso de detalhes. “Os homens não executavam nenhum trabalho. Não deveríamos tê-lo despertado. Inclineime sobre o buraco e perguntei a Kochihir se iria tocar os tambores para nós. Começou. manteve um tom uniforme. Caramba. exceto nos momentos em que os lançava na direção de Per. Depois de uma ligeira discussão. vamos apenas alimentálos”.. São a escória do tédio. fiquei pensativo até ouvir Igor Yuschenkoff dizer: “Bem quem irá com os espaço-rápidos?” Eu respondi: “Ninguém”. Nicholas van Rijn. Soquei o cachimbo para ajudar-me a relaxar.

e eu comecei a perder as esperanças com relação a meu plano. já estavam em cima de mim. Eu respondi: “Não. Se eu não tivesse errado. Abaixei-me.conseguiria seguir. balbuciaram. Os quatro homens que ali montavam guarda pareciam sombras profundas contra as estrelas que povoam o céu. “Eu e isto aqui”. e. tirei uma soneca. Consegui. Para a morte. As formas que granulavam a escuridão do poço mexeram. lentas. Passos farfalharam. da maneira como ocorreu. voltaram. rosnando. para me atormentar?”. afastando as mãos deles de minha garganta com um desengate judoca. Enquanto isso. teria matado muitos antes que me derrubassem. o som daquele mundo estaria inerte. Creio que os caimitas não o sentiam tanto assim. O frio me corroía as entranhas. fugiram. soltar uma perna. entretanto. para o outro extremo do 145 . rolando de dor. E não fossem os cochichos que percorriam os prisioneiros. as estrelas rolavam. Cheguei a pensar que devem ter zombado de nós ao nos ver às cegas depois do pôr-do-sol.. Lá no alto. quão imóvel estava! Fiz uma refeição leve. nele. congelado. e saquei meu lança-raios. Preparamos o necessário. num rufo gutural estrepitoso. com olhos de coruja. para vigiá-los”. Por uns momentos. Um deles subiu no ombro de um outro e pulou. Uma voz sibilou. Quando voltei ao buraco. “Entrei na nave e olhei meu Capitão.. indo. eu disse. haviam sido Ienhadores. um fulgor rápido. e assim que nossa tropa chegou. para o alto: “Você voltou. Bati o lançaraios contra a coxa. Ele bambeou. Os caimitas enxergavam na escuridão. Ohé. Encobrindo minha boca. errei o tiro. de repente. o arquejo surpreso por ainda estar vivo. “Voltem”. Punhos rijos acertavam-me na cabeça. como pensaram. “Podem ir”. na barriga. a trilha dos caimitas pois. por fim. ajudando-se uns aos outros. os lugais andaram de um lado para outro. Mas. Mas. já escurecera. das barracas. por muito tempo. assim que chegaram à floresta. saindo da nave. apagaram as pistas. dois deles pularam em cima de mim. “Quando a coisa aconteceu. e dar uma joelhada num deles. embora ainda me mantivessem agarrado. aconteceu com a pressa dos diabos. Girei por cima do outro e acertei-o na parte inferior do crânio com o cutelo da mão. Ele mofou: “Você sozinho?”. As sirenas e os refletores reviveram. em sua época.”Não venham para o escuro!” Muitos lugais ainda não haviam escapado. que caiu. os prisioneiros. gritei. ao descer. Os homens pularam. eu dei um salto e gritei. haviam passado por uma larga extensão de rocha nua. como se irrequietos e. vim render o guarda. Hamud ibn Rashid e Jacques Ngolo. uma mão abafava meus gritos.

Clareavam o mundo. porém. para que não nos pudessem ver contra o céu. meus controles e um outro lança-raios. O livro estava no fim. e mais alertas. Chegamos. Os caimitas moviam-se num passo natural. de um jeito ou de outro. em vão. já não tinha mais utilidade. pois. iriam apenas atrapalhar. Caminhando de gatinhas. que já oscilava. mas teríamos que prosseguir nas sombras antes que os caimitas se distanciassem além do alcance da bússola. teríamos que segui-los bem atrás. por botas e luvas. talvez um lugal que. Catei. Uma virada da sorte. movíamos com mais cuidado que os inimigos. protegeram o yildivano ferido. era nossa bússola. e. como nos sonhos. Com os corpos. confiantes de que haviam escapado. o grito de uma fera em caça. e o capim amassado evidenciava que haviam parado ali 146 . por fim. “Chegamos ofegantes à orla do arvoredo. O céu estava escuro. logo. naqueles que haviam desaparecido de vista. e tive que ajustar a unidade fotomultiplicadora em minha viseira. sentia a grama áspera em meu rosto. mas tínhamos que prosseguir. o capacete e o torso do uniforme espacial. de Ngolo. a uma ravina. Se não foi Kochihir. o inimigo ainda não parara para apagar as pegadas. contra nossa artilharia. joguei-os no chão. Alguém o apanhara. de agora em diante. pela terra. Os guardas colocaram-se em volta do buraco. cuja agulha tremia na direção da massa de caimitas que subia a encosta adiante. Nos arbustos rasteiros. Uma hora depois. Nós permanecemos abaixados. Por um instante. separava os galhos. assim. sem qualquer esforço especial para deixar pouco rastro. Apanhei-os e demos início à perseguição. Por baixo. E já que estavam menos ansiosos. que me haviam protegido durante a luta. em busca de meu lança-raios. já estávamos no fundo do vale. as moitas. e entrar e sair por entre os penedos arredondados. Até ali. ao perceber o que ocorrera. ainda não tivéramos oportunidade de testar nossas viseiras noturnas neste local. a terra sugava calor. admito. tirei o macacão. o indicador infravermelho. Eu levava as pernas à frente. os afastava para os lados do corpo — segundo o livro da vegetação esmagada e dos galhos rachados. que desaparecera. a emitir radiação. mas havíamos atirado. Nalgum lugar. Jacques Ngolo se aproximara. pudemos vê-los. exclamou: “Isto é mau!”. Trouxe minha fonte de alimentação. Hamud ibn Rashid juntou-se a nós. e. Graças a Deus. tantos eram os troncos. “Levantei-me. o entregaria a ele. Vesti novamente o macacão.poço. A detecção infravermelha. com as mãos. Árvores altas reluziam por toda a volta. ao atravessar a encosta descampada. embora imprimissem nele um fulgor.

eu disse. “Na margem de um rio”. Recue para um local em que não possa ser visto. e aqui ficarão. “Não”. fossem eles apenas yildivanos e lugais tais usados regularmente para a caça. entretanto. Devo voltar à ravina e tomar outra trilha? “. “Já estávamos a uma distância muito grande deles. Ngolo chamou. e os vejo ser recebidos por algumas fêmeas e alguns yildivanos crescidinhos. os escravos de Kochihir. e tudo levava a crer que sua comitiva fosse a maior. “Somos três. pois não poderia dar àquele povo de Novo México a chance de dizer que faltasse coragem a um Gomez. “Com lançaraios. Chamei Hamud e perguntei onde estava. perseguir aqueles caçadores astutos da mata. o que era reconfortante. escolhi para mim. em sua própria terra. “olhando o local por onde atravessaram. eu disse. ou sem lança-raios. esse!” “Não prossiga”. antes mesmo de partirmos. e disse: “Meu pessoal acaba de chegar a uma gruta. menos aptos. e mande um espaço-rápido ir apanhá-lo.para uma pausa. definitivamente. o coração pulou em meu peito. Mande que o 147 . são três trilhas”. “Bismillah!”. tal o longo tempo que pesava sobre mim. Rio difícil de atravessar. das tarefas domésticas. Afinal. o leste já estava cinzento. e não havia motivo para não usarmos nossos rádios para falar uns com os outros e com o pessoal no acampamento. Mas. de lança-raios. “já deve estar muito frio. naquela manhã. dos campos. E não creio que o conseguisse. a uma série de abrigos naturais. Mais tarde. E percebemos o que eu temia: a comitiva se havia dividido em três ou quatro. Eles se desvencilham e se dirigem para as próprias tocas. Os lugais. cujas capacidades conhecia. inconfundíveis. o que tiver que ser. rosnou Hamud. haviam tomado o rumo da região de seus patrões.”Por qual optamos? “. E era Kochihir que queríamos. será. pois deparei-me com uma árvore chamuscada por disparos. eu não faço muita questão de encontrar essa turma sozinho. o acompanharam. Fora fácil perceber. por sua vez. das minas.” “Tanto demoramos para analisar as pistas oferecidas pela floresta que. eu disse. mas usei minha graduação para conceder-me a honra. pois o mais provável era que a primeira fuga tivesse ocorrido sob suas ordens diretas. com seus próprios lugais. Estou sentado numa árvore. Hamud e Ngolo também a queriam. que o ataque fora reforçado com a convocação de outros lugais. demorava. ele respondeu. Creio que vivem aqui. e cada uma seguira por um caminho diferente . Kochihir andara treinando. “Estou na trilha certa. perguntou Ngolo.” Horas depois. Esta trilha. pessoalmente. demorava.

Sussurrei a notícia no rádio.” “O quê? Não vamos nos juntar a você agora? “ “Não. Com a visão obnubilada pela fumaça. prossegui. ferido. Santa Maria!. e se colocar alertas. narrava a fuga ao pai 148 . sem janelas. comprido. ao mesmo tempo quanto silêncio. “Deslizei à frente. e esperei. onde uma fogueira jorrava sombras na parede de uma choça imensa. agacheime à sombra. Ali embaixo. Com toda a suavidade. as asas zuniam por sobre a cabeça. “Sem esperar. que me menosprezava. destacava-lhes as fisionomias chapadas. Ao anoitecer. Os lugais da comitiva de Kochihir devem ter sido mandados para os galpões. porém. e mandei que as comunicações fossem interrompidas até nova ordem. e fiquei contente que tivesse sobrevivido à batalha. atravessei o descampado. poderão ver o espaço-rápido descer. as folhas deixavam refletir a geada. foi uma ordem solitária. acocoravam-se à volta de uma fogueira que. com cautela digna de uma cobra. de troncos. Mais ou menos uns vinte yildivanos. nos escutariam. seguia caminho.” “Confesso. Parei algumas vezes para comer e descansar. junto àquela parede áspera. Não era noite alta ainda. do outro lado. Mas. entre eles reconheci Cherkez. impossível de se originar em seres vivos.apanhem e levem para o acampamento. surpreender-se-ia. tal a beleza das peles penduradas. em círculo. depois do pôr-do-sol. O raio chispou duas vezes. pude ver que se tratava de um único aposento. o suficiente para espiar lá dentro. onde apenas uma cortina de couro bloqueava-me a visão. mesmo assim. ardendo num escavado. e meu detector infravermelho começou a registrar uma fonte muito forte. Torci-a para o lado. saquei minha pistola de estontear. a floresta farfalhava. Com estimulantes. Dois yildivanos apoiavam-se nas lanças. Arqueados. do contrário. A minha volta. um animal pesado irrompia. graves. em pessoa. estendidas por todo o lugar. aquela. Na chaminé. quanta solidão! Até que cheguei à orla de uma pequena clareira. não sei ao certo quão próximo estou deles. muitos lugais também. uma luz cintilava. Kochihir. Se estiver muito próximo. debaixo das árvores. pois. compassados. Fique na escuta. na maioria machos adultos. o rastro pareceu novamente tão fresquinho que moderei o passo e. em vôo espavorido. nalgum lugar distante. atravessada pela luz das estrelas. num canto. correndo. deslizei até a porta. e. que se aninhava. na escuridão. os dois caíram. Ninguém me ouvira. assim. Nada simples. de um tal modo que até mesmo a minha presa. rangia. não faz tanto frio quanto lá em cima.

. com peles trespassadas nos corpos a protegê-los contra o frio. por que fariam isso.Shivaru. E. “Ora. por três de sua gente. “Use um deles como exemplo. para trás: “Estranho que se tenham preocupado tão pouco com vocês”. e prometi acender muitas velas para os santos. As presas de Shirvaru refulgiram à luz da fogueira. imediatamente. A pistola de estontear seria melhor.. ora. a tossir com a fumaça. mesmo 149 . e o sussuro veio como uma faca: “Será que fizeram mesmo? Conte-me. mas. Eu tinha que decidir. tentar barganhar. sim. Quaisquer que sejam seus desejos. Shivaru não pode impedi-los de fazer o que queiram.” Shivaru o conteve: “Vamos. “Mas ainda faltava muito para a felicidade. que rumo tomar. pergunto? Em vez disso. “Kochihir terminou a narração. primeiro. Eles ameaçaram fazer o mesmo comigo. contra mim. interveio: “Ora. que tinham à mão. pois. no zoológico. bem sabemos o que fizemos no passado”. como se estivessem dentro da jaula de uma fera.” “Um rugido os percorreu. Pois a situação estava como eu esperara. Bokzahan. grisalho. eles ainda mantêm presos. como foi que o patrão deu uma ordem e os outros fizeram outra coisa?”. uns bobos. para frente. pensei no que poderia acontecer. mas. Shivaru enrijeceu. segundo Kochihir. interveio. com uma cicatriz. os yildivanos não possuem autoridade uns sobre os outros. como meu Capitão já lhes disse. viera para este local de encontro previamente combinado. Kochihir estava zangado. Os raios não poderiam destrui-los em tempo hábil que os impedisse de atirar as armas. Grande é o poder que possuem. sentados num outro canto.. A cauda de Shivaru chicoteou. Outro yildivano. Se não der certo. de repente. o que mataria nossos próprios homens. numa tal condição que sirva para afastá-los. Aterrorizado. antes de conversarmos. por que não deixamos os corpos num local em que os erziran possam encontrá-los. mais uma vez. na penumbra. “Isso mesmo. Kochihir..”. Então. que eu podia ver agora. olhou para o pai em busca de aprovação. Você acha que eles talvez troquem nossos lugais e gumushes que. Kochihir não fora para o próprio acampamento. Ali estavam Zerkowsky. isto não quer dizer nada. Mas. do outro lado do aposento. a menos que eu regulasse a arma para um ângulo aberto. Kochilir escarneceu. eles não passam de filhotes cegos!” O velho yildivano murmurou: “Não estou tão certo assim. Tulitur e eu provamos que eles são uns fracos. O que temos que planejar agora é uma utilidade para nossos prisioneiros. Cheng e Bullis.

ele ficou paralisado. Forcei passagem até os prisioneiros. Teria sido melhor que tivessem ido dormir. bem junto à fogueira. agarrei-me à borda da chaminé e tomei impulso. “O que eu fiz. Não tenho como me desculpar.. Entre dois outros. dei meia-volta e disparei. pois não sou meu Capitão. que ainda não terminara de rezar o rosário. então. mas Bullis. e com a mão livre. Cheng e Zerkowsky continuariam como reféns. debati-me. naquele lado. Dei-lhe uma cabeçada na boca. Havia muitos corpos entre eu e ele. balançando. zunindo. empurrei um lugal para o lado e vi Kochihir. sacou o lança-raios. e o machado de Shivaru desceu. pobres homens que tentavam ser valentes diante daquele roncar medonho que os envolvia. dei-lhe um chute na barriga. Um terceiro pulou nas minhas costas. não se via Kochihir. E eu. pois poderia tê-los paralisado um a um enquanto dormiam. Consegui derrubá-los com a pistola. Graças a Deus.. Mas ainda estavam sentados a discutir o que fazer com os prisioneiros. ele soltou. Cherkez saltou na minha garganta. porém. um deles gritou “Os erziran estão aqui!” Olhei de volta pela chaminé. pulei. fui despertado pelo trovão. acuados. consegui esquivar-me. nossos espaço-rápidos desceram pelos céus. Qual gaviões. sem risco. por onde cheguei à chaminé. Dei uma volta pelo lugar. apanhei minha arma e disparei à minha volta.assim. e soltei. não os conseguiria derrotar antes que aqueles machados e clavas me derrubassem. Enchi os pulmões de ar puro e inclinei-me para espiar. rolei. “Ali permanecendo. na minha mente. as narinas ressecavam com os vapores que dali jorravam. senti a carne ceder. ele cambaleou. antes disso. Kochihir gritou. desci até o teto coberto de limo. Caí no chão de terra. um tumulto. Esgueirei-me de volta até a orla da floresta e convoquei o pessoal do acampamento. diante daqueles olhos fendidos que se voltavam para eles. dois ou três deles dispararam porta afora a ver o que acontecia. e descobri uma árvore envergada sobre a choça. com mãos acariciando facas. fiquei de pé. Lá embaixo. Subi e. Ele fora ter com os prisioneiros. “Abocanhei a arma. por um galho. para que se orientassem. estirando-me ao máximo. errei. impossibilitados de lutar. Naquela multidão barafustada entre paredes. Disparei. Os yildivanos roncaram. Com o braço com que segurava a arma. sem dúvida. Embora as viseiras me protegessem os olhos. de tão 150 . uma estupidez.” “Venham o mais rápido que puderem!” E deixei o rádio aberto. foi. señores. poderia mantê-los encurralados lá dentro.

Eles foram vê-los antes de vocês partirem. e. segundo os seus escritos. fui cumprimentá-los com a devida formalidade. Desintegrei-o no ar. sem olhar nem para a esquerda nem para a direita. com educação. Mandei que os rapazes que os cobriam colocassem as armas nos coldres. Shivaru correspondeu e. Creio que não se surpreenderiam se os fulminássemos. — O que mais poderíamos fazer? Mantê-los conosco. Bokzahan “ergueu o machado. um objeto adorável. grotesco. bordado em prata em algum planeta que não soube identificar. Ele me viu pelo canto do olho e girou. Van Rijn bufou: — Uff! Mas a estória não termina aí.estupefatos. estava tudo acabado. dirigindo-se a mim: “Trouxe um presente”. parece ter ficado de língua presa. mais um minuto ou dois. na minha cadeira de rodas. Depois de todo o sangue 151 . Para outros casos. Abriu. Per sacudiu os ombros. O raio veio crestar o capuz de meu forro. atirou-o. Não conseguia desculpar-se. surgiu com outros dez yildivanos e seus lugais. e girei. Os caimitas caíram diante de uma verdadeira barragem de raios paralisantes. E. Puxei o gatilho. Deixamos a todos ali. Kochihir desmoronou. Uma dose de força ressurgira nele. para que acordassem oportunamente. a chama cortou a escuridão. Uma granada veio derrubar a parede frontal da choça. pagaremos em dobro pelo resto”. e alimentá-los? Cherkez entregou uma sacola de couro a Shivaru. e matei Bokzahan. Saltei. e. que disse: “Vocês foram bondosos em libertar os prisioneiros”. e apanhou um cigarro marrom. usei a pistola de estontear. de aspecto estranho. Per concordou com a cabeça. Manuel perguntou se poderia fumar. Prometeu: “As mercadorias que ele roubou de vocês. em seguida. e retirou a cabeça de Tulitur. em pessoa. O lança-raios estrondou. se nos concederem tempo. devolveremos todas que encontrarmos. e regressamos ao acampamento. apanhei-lhe o lança-raios. Eu me abaixara. no próprio estojo. postando-me à frente de minha gente. O silêncio pairou novamente. — Mal acabáramos os preparativos e Shivaru. Com a mesma gravidade. — Foram sim. e disse. apoiando-me num joelho. entraram no cercado. com penachos eretos e caudas rijas. recusou o charuto oferecido por Van Rijn. O Ulash não contém expressões de desculpa: Acenou para Cherkez. Devagar.

para mim. pois lembrá-los do que nos haviam feito os deixou de tal modo aborrecidos que apenas balbuciaram quando lhes perguntei por que o haviam feito. nós. as coisas incendiariam de novo.. e de contarmos com dois companheiros que necessitavam de atendimento médico especializado. A mesma que a de Yuschenkoff. Quando agimos com razoável decência. Na direção de Per. “para limpar nossa honra. pensamos. mais ou menos. tão revoltante! Apenas vociferei que não exigíramos tais arras. não poderíamos nos demorar. mas eles declinaram. Preferi não insistir na questão. — Quem sabe você não nos apresenta uma idéia diferente? Vamos. pelo que pude ver. Poderíamos ter permanecido um pouco mais. Eu disse que estávamos de partida. então. ele disse. depois. Mas. Manuel não movera um só músculo. diante do fato de estarmos com pouco pessoal. mas que. o que. era necessário levar os feridos para nosso planeta. Até hoje ainda não sabemos. Outro erro meu. naquele dia. brilharam os olhos de Van Rijn. — Ahh .que rolara e. você contornou as 152 . pois a situação ainda era delicada. ou alguém como nós. pois precisávamos desvendar o equívoco antes de consignar mais homens e equipamentos para Caim. não maltratando os prisioneiros — graças a Manuel — e usando pistolas de estontear em vez de raios na operação de resgate. bem provável. “Mas nós sim”. antes.” Convidei-os para a refeição. em Caim. Durante todo o trajeto de volta. — Por que.. que mais parecia a proa de um navio de guerra. e então partiram. julgaram que estavam enganados. embora parecesse óbvio em vista do estado do acampamento. Mas Van Rijn apontou-lhe o nariz. no corpo. aquele presente não fora. desembuche! — Meu lugar não é o de contradizer meu Capitão — respondeu o novo-mexicano. O que fizéramos de errado? E o que. com o alívio estampado em suas fisionomias. no rosto. Caso contrário. deixou-os espantados. ao contrário do que seria esperado. Eles temiam que fôssemos os pontas-de-lança de uma invasão. afinal. Shivaru apressou-se em explicar que não seria correto aceitar nossa hospitalidade até que tivessem liquidado a dívida para conosco. Depois. discutimos. viera acertar as coisas. que exigiu: — Você elaborou alguma teoria a respeito? Per espalmou as mãos. eu disse que voltaríamos. e o mercador riu.

. Van Rijn sugou o charuto. bebam. depois. raciocinar. Perguntou: — Mais teorias de marinheiro de água doce? — Não senhor — respondeu Per. por toda a vida. nesse velho cérebro aqui em cima. Ora. Coragem e habilidade na luta. que ótimo! Tranqüilizem-se. não. que pulei da cadeira. Os dois estão errados. e. ineptos na floresta. Tametha.. mas você não estava lá. primeiro. e. é de que mais precisam para sobreviver. enferrujado.... e que eles é que são os fracos. máquinas que matam a distância. e o que mais prezam. de mendigos em reis! Ruidoso. ao nos ver cegos à noite. Os ombros de Manuel aprumaram. Seria muita carne! Mas.. — Em carne-e-osso. Já percebo quais são as paralelas. é seu dever nos contar onde estamos enfiando as cabeças. Harry interpôs. Cabeças de alfinete não têm massa para. estive em Caim. a coisa em que estou pensando já se desenvolveu 153 . — Ah. Não nos deviam nada. Dunbar. então fizeram pouco de nós. a seus olhos. — Estas foram as duas únicas escolas de pensamento. Mas não sou homem de conhecimento. Relaxem. caramba. cidadãos. de sua astúcia. de suas armas. Ao nos ver usar armas.ordens? Se você sabe o que aconteceu. A voz ressoou tanto. Desembarque Calamitoso. — Como assim? — Estes povos vivem muito próximos da morte. nos transformamos. boa parte de nós. Xanadu. ríspido: — Peço mil desculpas. Servíamos apenas como presas. Só que. em Caim. flutuando em álcool. e nem dos Piratas. Eles não parecem muito diferentes do povo da terra dos barrancos. ao ouvir-nos contar como vivemos em nosso planeta. que já armazenou tanta informação sobre o universo. o análogo nunca é preciso. pensaram que não tínhamos cojones. só que eu creio conhecer os yildivanos. esta noite. e. — Quando descobriram que os homens são terríveis. lá no meu país. muito mais do que o próprio universo acredita ter armazenado. Van Rijn bateu na barriga. Não possuo conhecimento livresco dos estudos de psiconomia. pois não possuíamos espíritos e jamais poderíamos compreender-lhes o próprio espírito. — Já que o señor ordena. Van Rijn soltou uma gargalhada.

Não que tenhamos que ter um análogo. só que vocês deveriam tê-lo aprofundado. Certo? Harry disse que jamais confiaria num escravo que portasse armas. obedecer. E até agora cultivaram os lugais para 154 . também.. como um raio. mesmo assim.. Preferiu manter a calma. Não possuem os genes da obediência. Van Rijn fez uma pausa. E em seus cães. Bem.. e isto alterou a natureza dos lugais. São selvagens. e entoou. por adivinhação. Sentado. para vocês. que resolvi o quebra-cabeças usando apenas a lógica. tão zangados? Eles têm dentes. ainda por cima. o pensamento é inteligente. O que é um escravo? É um homem que tem que fazer o que outro homem quer. vocês venceram. ainda assim. faz sentido. e nem sempre seriam aqueles seres leais que vocês conheceram. obedecem apenas aos pais. e eu também não. mostram que minha conclusão. os yildivanos são animais selvagens. e rasteiro. na esperança de ser elogiado. que os próprios yildivanos foram afetados. de escravos fugitivos. do contrário. os genes não o deixarão agir de forma diferente. e logo estará na hora do jantar. ainda faziam pipi nas calças. — Impossível!. de escravos que arrastam os pés.. ainda consigo estabelecer o padrão. ao refrescarmos nossos aperitivos. aqui.. nos demoramos na encenação. Serei rápido. por natureza. tão caros.muito . Os lugais são a chave do problema. são animais domésticos.. jubiloso: — Muito bem. A psicologia formal. Afinal. você os deixava no quarto e um cão os vigiava. caso o cozinheiro não tenha caído dentro do curry. Mas o animal doméstico tem que obedecer. O escravo pode. Harry. Van Rijn ficou roxo. à espera de ocasião melhor. nie? Quando seus filhos ainda eram pequeninos. como os tigres. tudo o que vocês contam vem provar que. São animais domésticos. chiou por momentos. ou não. e foi aí que erraram. além de correta. Per aprumou-se. é possível. Fizera tanto espalhafato. ja! E talvez trabalhem com álgebra matricial. quando pequenos.. os yildivanos cuidaram dos lugais durante todo esse tempo. e não animais. Mas os análogos ajudam e. enxertando-os em busca dos traços que desejavam. os búfalos.. que Harry e eu. e o que aconteceu. ja. São tantas as pistas que vocês nos deram. Talvez seja isso. pois. de bom ou mau grado. Mas. Senhor. estudem-na depois. Vocês os chamavam de escravos. Eles possuem língua e. E concluíram. e você confia neles. Eis a diferença. Eles não são escravos. porque a história está repleta de revoltas de escravos. os lugais seriam escravos. e toda essa bobageira. — Ja.

Se quiserem saber de que maneira. são do tipo dos lugais? ! E o velho Shivaru decidirá. talvez. e. nie? E isso. lembrem-se. à medida que se familiarizam. definitivamente. numa piedade algo irritante. Os humanos desembarcam. Ahh! Quer dizer. vocês não encontraram sequer um lugal não-domesticado. admitimos que Ele seja o Senhor. destrói sua teoria do receio de invasão. os yildivanos não possuem qualquer experiência a respeito de raças. então que alguns seres. Isto é possível. Ele é. Assim. nos dias antigos. pois todas as ordens partem dele. todos sabemos que o quadro que fazemos de Deus provém. que todos são lugais. antes de mais nada. então. é natural que presumam que todos pensem como eles. Per Stenvik. a hierarquia poderia formar-se entre os yildivanos. salvo para salvar a própria vida. e não são tão complicados. logo. o que foi que se passou naquelas cabeças? Vamos recapitular. a partir de variações normais em habilidade. Manuel Gomes y Palomares. Bem. mas. se os yildivanos jamais receberam ordens. Van Rijn fez o sinal da cruz. fora do planeta. eles são especializados nos cérebros. como fazem as formigas com os afídeos. dentre os estrangeiros. e esperamos que Ele não leve muito a sério algumas coisinhas 155 . e devemos satisfazer Sua vontade. creio que seria a única coisa que poderiam imaginar. Mas. pois.desempenhar o trabalho sujo — antes que se tornem inteligentes. alguém se dirigia aos reis orientais. esfarelou-se. mas nada mais que isso. o carnívoro nãodomesticado nem possui este tipo de orgulho. não passam de chefes de turma. com exceção de Stenvik. Animais domésticos. debaixo de um inimigo que lhe aponta uma coisa pontiaguda. como Manuel. Outros. — Não é blasfêmia! Mas. Qualquer gene agregador dentre os yildivanos. como você pensa. o que percebem? Pessoas recebendo ordens. estabelecem-se para negociar. nem de perto. E as descobertas que vocês fizeram sobre sua estrutura cultural demonstra que a meia-simbiose com os lugais é igualmente psicológica. como podem ter noção do que seja a conquista? E os animais selvagens. Mesmo um homem com complexo de superioridade é capaz de lamber-lhe as botas se você provar que é superior a ele. em parte. Mesmo hoje em dia. independente em relação a você. mesmo que alguém contasse a eles. Como é possível. basta olhar no livro litúrgico. de nossos reis. simplesmente. Do contrário. quanto o homem. de exército. Se não possuem conceitos de tribo. E. nesse momento. Em função do fato. não se humilham ao ser espancados. Per menciona a idéia de Deus. qualquer desejo congênito de ser chefiados.

possuam-no. com certeza. Uma certa estreiteza de pensamento. como vocês bem podem imaginar. Ora.. gula. enganam os homens. embora os lugais...que costumam acontecer às pessoas. Como é que você iria adivinhar. de perceber certas idéias. embora possuísse faculdades de raciocínio que. O velho Shivaru merece crédito. se estabeleceu na vizinhança? Van Rijn gargarejou a cerveja garganta abaixo. e sua raça lugal deve ter enlouquecido e matado seus yildivanos. em vista da obediência. o que confirmava que Per era também um lugal. De que outra maneira você poderiam ser lugais e não ter donos? Portanto. E o que aprendeu? Sabia que todos os demais eram lugais. evidenciado pelo fato de não possuir religião. orgulho. como raiva. As bochechas de Per arderam de emoção. Confirmei com a cabeça. dois deles trataram de aproveitar-se de você — acrescentou Van Rijn — para tomar o que conseguissem levar antes do ataque.. Os yildivanos puderam presenciar alguns de seus poderes. luxúria. o que vocês fariam. eram tão boas quanto as minhas. sabiam que vocês eram perigosos. E o que tocou fogo no estopim foi quando Per disse que nem ele. — Parece muito forçado — observou Harry. Voltou. ao que parece. Per disse aquilo. E agora Per dizia a ele que não era melhor que o resto. para saber mais. com alguns amigos. nem ninguém. ele também deve ser um lugal. como se ele fosse incapaz de perceber certas coisas. inveja. um animal. Como os pobres yildivanos! Eles estavam mesmo preocupados. em Caim. Todos ponderamos.. assassinos de gente. — Então. admitia possuir um patrão. se vivêssemos em pacatas casas de campo e soubéssemos que um monte de cães selvagens. — Não! A coisa se ajusta.. preguiça. meu jovem. e todo o resto que diverte a vida. calma. têm dono! Calma. e um ou outro lugal. não age corretamente e causa grandes problemas antes de ser morto.. Claro. E um yildivano jamais confessaria possuir nem mesmo um mestre místico. sempre descobrimos as coisas pelo caminho mais difícil. por um momento. intrinsecamente. em nosso planeta. então. Portanto. pois não sabiam se o ataque funcionaria. de vez em quando. O Cidadão Van Rijn acaba de definir o que eu sempre senti desde que comecei a me aproximar de Shivaru. dirigindo-me a meu cachimbo. Não há 156 . que estivem comigo em momentos em que entrei em conflito com seres ainda mais estranhos que aqueles. meus amigos.. Até mesmo os cães. Bem. e eu também.

devem ter sido consideradas. portanto. além disso. se é que tem alguma alma escondida nalgum lugar. E. e seus homens a desobedeceram inteiramente. Assim. Já que provaram não ser do tipo lugal. Além disso. Como tivessem falhado. esperavam. ou admitir-lhe a existência. como a maneira com que você parecia aceitar ordens de um Senhor. Assim que teve tempo de pensar a respeito. embora tão acostumados a ser mandados que talvez não conseguissem resistir ao líder por muito tempo. em relação a outros yildivanos. Convenceu os amigos. por parte dos caimitas. como mal-entendidos. como um cano. Você havia dado uma ordem clara. Manuel. Indicações em contrário. — Ah! Vocês tiveram sorte. Só que Manuel os enganou. Ou. afinal. Animais cujos ancestrais haviam assassinado toda uma raça de verdadeiros humanos. até que o mordomo veio anunciar o jantar. se o conseguissem. sentiu-se mal. Manuel ajudou Per a levantar-se. na alma. talvez. Como animais. E eles fizeram o que de melhor puderam para emendar o erro. permanecemos sentados por mais algum tempo. Em parte. Shivaru não queria perder uma única oportunidade de acesso às suas excelentes mercadorias de troca. seu povo matou apenas a quantidade necessária de yildivanos. sob o ponto de vista deles. portanto. Van Rijn esfregou as palmas das mãos. — Mas. Van Rijn sacudiu o dedo. Em regozijo. Os yildivanos possuem conceitos de comportamento elevado. O jovem falou: 157 . Assim. e. vocês não poderiam ser animais domésticos. percebeu que seu povo foi sujo com vocês. incapazes de pensamentos certeiros. Sinal de que os lugais talvez tivessem enlouquecido e fossem dizimar os yildivanos. aqueles machos alarmados quiserem esfolá-los. Berrou: — Ra! Ra! Ra! Serão ótimos clientes! A digerir a idéia. A estratégia dele funcionou cinco-quatro-três-dois-umzero.vergonha nisso. por que teriam mudado de idéia a nosso respeito — perguntou Per. importante. ao contrário do que fariam os lugais loucos. poder usar os prisioneiros que fizeram como uma alavanca para expulsá-los do mundo que lhes pertencia. vocês não estavam inseridos no conceito de honra. teriam que ser animais selvagens. só poderiam ser do tipo yildivano. quer tenham agido com erro ou não. A mente caimita — uma mente estreita. como você disse — é incapaz de imaginar que algum touro especial possua um terceiro chifre. porém. talvez fosse por ser muito loucos e. pensava certeiro.

Harry intrigou-se. Ou então porque o julgamos acertado. e grunhiu: — Não. que tome conta de suas necessidades. hoje em dia não são. sim. debaixo das estrelas. Manuel insistiu: — Mas. Van Rijn parou. Fazemos o que fazemos porque queremos fazê-lo. fazendo pouco. somos selvagens. E quantas pessoas. olhou-nos por um instante. à de que somos humanos. e que as proteja. com uma cutelada. sacudiu a cabeça com violência. nós somos selvagens. — Como assim? — Nós. não seriam tolos a ponto de nos deixar próximos a alguma arma. que estamos aqui nesta sala. Com a cabeça erguida. apenas alguns de nós o somos. na longa história da Terra. Capitão. ao longo da curvatura do planeta. arrastou-se. Isto é. Mas. Em seguida. nie? Se vocês nos escravizassem. quantos escravos foram considerados “de confiança” do patrão? Muitos! Houve até mesmo exércitos de escravos. no íntimo. que piscava. e. como os Janízaros. de um grito: — Vocês pensam que isso aí é livre? A mão de Van Rijn cortou o ar. cintilava. Nenhum outro motivo. mas. animais domésticos? Que desejam que outra pessoa diga-lhes o que fazer. 158 .• — Teremos que orientar a todos que se dirigirem a Caim. para que não dêem continuidade à idéia de que somos animais selvagens. mas contra si mesmas? Porque toda sociedade humana livre teve duração tão curta? Não seria por que os homens “animais selvagens” nascem às vezes tão sentimentais? Van Rijn contemplou o outro lado da cidade. pesado. até o visor. não apenas contra os companheiros de espécie.

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