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COLEÇÃO

OFICINAS DA HISTóRIA
VOL. 4 Natalie Zemon Davis
Direção: Edgar Salvadori de Decca
····~@~·· · ·

O Retorno
de
Martin Guerre
Tradução
Denise Bottmann

~
Paz e Terra .
Oficinas da História
Copyright by
Éditions Robert Laffont, SA, Paris, 1982
Traduzido do original em inglês:
The Return of Martin Guerre
cotejado com a versão francesa.
Capa
Isabel Carballo
Revisão técnica
Margareth Rago
Stella Bresciani Para Chandler Davis
Revisão
Barbara E. Benevides
Arnaldo Rocha de Arruda
Vera Lúcia F. P. Gião
Fernando de B. Gião
Cely Naomi Uematsu
CIP-Brasi!. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ-

Davis, Natalie Zemon


D294r O retomo de Martin Guerre I Natalie Zemon Davis;
tradução Denise Bottmann. - Rio de Janeiro; Paz e
Terra, 1987.
(Coleção Oficinas da Hist6ria, v_ 4)
Tradução de: The Retum of Martin Guerre. Bi-
bliografia.
1. Idade Média - Hist6ria. I. Título. li. Série.

87-0643 CDD-909.5
CDU-94

Direitos adquiridos pela


EDITORA PAZ E TERRA S/A
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0

Centro, Rio de Janeiro, RJ


Tel.: 221-4066

Rua do Triunfo, 177


Santa Ifigênia, São Paulo, SP
Tel.: 223-6522

Conselho Editorial
Antonio Candido
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso

1987
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
Prefácio
····~@-····

STE LIVRO surgiu da aventura entre um historiador


E e uma forma diferente de falar sobre o passado. A estó-
ria de Martin Guerre foi muitas vezes recontada. Nos anos
1540, no Languedoc, um camponês rico abandona sua mu-
lher, filho e propriedades, e durante anos não há notícias
suas; ele volta- ou é o que todos pensam- mas, depois
de três ou quatro anos de agradável casamento, a esposa
diz que foi enganada por um impostor e leva-o a julgamento.
O homem quase convence a corte de que é Martin Guerre,
mas no último momento surge o verdadeiro Martin Guerre.
Imediatamente foram escritos dois livros sobre o caso, um
deles por um juiz do tribunal. Por toda a França é comen-
tado, entre outros pelo grande Montaigne. A estória foi
recontada, ao longo dos séculos, em livros sobre impostores
famosos e causes célebres, e ainda é lembrada na aldeia de
Artigat, nos Pirineus, onde os acontecimentos ocorreram há
quatrocentos anos. Inspirou uma peça, três romances e uma
opereta.
Quando li pela primeira vez o relato do juiz, pensei:
"Isso precisa virar um filme". Raramente um historiador
encontra uma estrutura narrativa tão perfeita ou com um
apelo popular tão dramático nos acontecimentos do passado.
10 PREFÁCIO Agradecimentos 11

Por coincidência, fiquei sabendo que o roteirista Jean-Clau- o historiador de modo tão seguro quanto fora colocad?. à
de Carriere e o diretor Daniel Vigne iniciavam um roteiro mulher de Martin Guerre. Tinha de voltar .ao meu ofl~i?
sobre o mesmo tema. Consegui encontrá-los, e de nosso original; mesmo durante as filmagens e.xtenores n.os Pm-
trabalho conjunto resultou o filme Le Retour de Martin neus, eu escrevia às pressas para os arqu.ivos em Fo~x: Tou-
Guerre. louse e Auch. Eu daria a essa impressionante estona seu
Paradoxalmente, quanto mais eu saboreava a criação primeiro tratamento histórico global, usando todos os pa-
do filme, mais aguçava-se meu apetite para ir além. Estava péis e documentos legados pelo ~assado. Descobriria por
pronta a escavar o caso mais profundamente, a dar-lhe um que Martin Guerre deixou sua aldeia e par~ onde fora; com?
sentido histórico. Ao escrever para atores e não leitores, sur- e por que Arnaud du Tilh se tornou um impos~or; se ludi-
giram novas questões sobre as motivações das pessoas no briou Bertrande de Rols e por que não conseguiU sustentar
século 16 - por exemplo, se se importavam tanto com a sua posição. Isso nos daria novas in.f~rmações ~obre a s?-
verdade como com a propriedade. Ao observar Gérard De- ciedade rural do século 16. Eu seguma os aldeoes atraves
pardietÍ representando o papel do falso Martin Guerre, sur- das cortes criminais e explicaria os diferentes verédictos d~s
giram-me novas idéias de como pensar o desempenho do juízes. E teria a rara oportunidade de mostrar um acont~~I­
verdadeiro impostor, Arnaud du Tilh. Senti que tinha meu mento da vida camponesa remodelado como uma estona
próprio laboratório histórico que gerava, não provas, mas por homens de letras. . . ., ..
possibilidades históricas. As coisas se mostraram mmto mais dificeis do_ que ~u
Ao mesmo tempo, o filme se destacava do registro his- imaginara - mas é um prazer relatar uma vez mais a his-
tórico, e isso me inquietava. Sacrificava-se a origem basca tória de Martin Guerre.
dos Guerre, ignorava-se o protestantismo rural e, principal-
mente, o duplo jogo da mulher e as contradições internas N.Z.D.
do juiz eram amenizados . Essas alterações possivelmente
ajudaram a dar ao filme a poderosa simplicidade que per- Princeton
mitiu que a estória de Martin Guerre se convertesse antes Janeiro de 1983
de tudo numa lenda, mas também tornavam mais difícil ex-
plicar o que realmente acontecera. Nessa bela e forte recria-
ção cinematográfica, onde estavam o espaço para as incerte- Agradecimentos
zas, os "talvez", os "poderia-ser" a que o historiador tem de
recorrer quando as evidências são inadequadas ou geram Agradeço a Princeton Universit~ .e a ~atio~al Endow-
perplexidades? Nosso filme era uma emocionante estória ment for the Humanities peio auxtho fmanceuo para a
de suspense que mantinha o público tão incerto sobre seu a preparação deste livro~ Tall_lbém ~uero agradecer aos ~~~
final quanto os aldeões e juízes da época. Mas onde ficava quivistas e à equipe dos Arch~v~s Depar~e~entales .de Ane
o espaço para refletir sobre o significado da identidade no ge, Haute-Garonne, Gers, Pmneus-Atlant_tcos, Gironde .e
século '16? Pas-de-Calais pelas suas informações e g~nttleza, .que perm~­
Assim, o filme colocou o problema da invenção para tiram um rápido avanço na minha pesqUisa. Mane-Rose Be-
12 Agradecimentos

lier, Paul Dumons e Huber Daraud de Artigat tiveram muito


boa vontade em partilhar comigo S\}as memórias da aldeia
e da história de Martin Guerre. Jean-Claude Carriere e Da-
niel Vigne proporcionaram-me novas formas de pensar sobre
as conexões entre as "correntes gerais" dos historiadores e
a experiência viva das pessoas. Emmanuel Le Roy Ladurie
ofereceu importante estímulo, quando foi necessário. Fo- Sumário
ram-me apresentadas idéias e sugestões bibliográficas por
vários colegas nos Estados Unidos e França: Paul Alpers,
Yves e Nicole Castan, Barbara B. Davis, William A. Dou-
glass, Daniel Fabre, Stephen Greenblatt, Richard Helmholz,
Paul Hiltpold, Elisabeth Labrousse, Helen Nader, Laurie
Nussdorfer, Jean-Pierre Poussou, Virgínia Reinburg e Ann
W altner. Alfred Soman foi generoso em suas informações
para os capítulos sobre direito penal. Agradeço ainda a Introdução 17
Denise Bottmann por contar a estória de Martin Guerre aos De Hendaye a Artigat 23
meus leitores brasileiros. Sem o auxílio do meu "verdadeiro" O Camponês Descontente 37
marido, Chandler Davis, essa história de um marido-impos- A Honra de Bertrande de Rols
tor poderia nunca ter existido. 45
As Máscaras de Arnaud du Tilh 53
O Casamento Inventado 61
Querelas 71
O Processo de Rieux 83
O Processo de T oulouse 95
O Retorno de Martin Guerre 105
O Contador da Estória 117
Histoire prodigieuse, Histoire tragique 129
Dos Coxos 139
Epílogo 149
Bibliografia Selecionada de Textos sobre Martin
Guerre 153
Notas 159
Sobre a autora 187
ARREST ME-
MORABLE, DV PAR-
LEMENT DE
TO L OS E,
ilustrações
Conrenant vne hifloire prodigienfe, de
····-@-···· noflre temps, auec cent belles, & do-
él:es Annotadons, de monlieur mai-
fl:re x E A N" o E c o a. A s, Confetl1er
en ladice Cour, & rapporteur du
Primeira edição de Coras, Arrest Memorable (1561). proces.
Bibliotheque Nationale 15
Primeira página de Arrest Memorable (1561). Biblio- rprononcé ti .A"fk Gtnerulx lt xii.
theque Mazarine 16
St!ternwt ~ V. L X.
Os caminhos de Martin Guerre 27 A Jlai(oo c:cdo.
Soldados imaginários, ca . 1545. Archives départamen-
tales de l'Ariege, 5E6220 41
Dança camponesa. Bibliotheque Nationale, Cabinet des
Estampes 47
Máscaras de Guillaume de La Perriere, Theatre des
Bons Engins (Lyon, 1549). Houghton Library,
Harvard University 59
Um casal rural. Bibliotheque Nationale 63
Acareação entre acusado e testemunha. Harvard Law
School Library, Treasure Room 85
Primeira representação pictórica do caso. Bibliot'.1eque
Mazarine, Paris 111 A L Y O N,
Jean de Coras. Bibliotheque Nationale, Cabinet des
P A R A N T O I N E V I N C E N T,
Estampes 125
t)lll. ']), L X /,
Um caso de notável semelhança. University of Pennsyl-
vania, Furness Memorial Library, Special Collec-
tions, Van Pelt Library
Auec Priuilege du Roy.
143
O castigo vem com perna de pau. Princeton University
Library, Department of Rare Books and Special
Collections 14 5
RREST DV PARLEM ENT
de T olofe, coritenanr vne hifioire memorable,
& prodigieufe , auec cem beJies & dot;les
Annotations, de monfieur maifire
I E A N D E C O R A s, rap-
porteur du proces. ·Introdução
Texte de la toile du proces ····-@-· ···
& de l'arreft.
~:W.WJ~~il V moys de Ianuicr, mil
~~~,., 1 cinq cens cinquanre"' neu~
~~~ Bercrande de Rolz, du 1ieu
"F EMME BONNE qui a mauvais mary} a bien souvent
le coeur tnarri} ("Mulher boa com mau marido geral-
=""".-""'"-...,. d'Artigat , au diocefe d~
\U:.t/P._.... , mente tem o coração ferido"). "Amour peut moult} argent
'"""".,._.... Rieux, fe rend fuppliant, peut tout" ("0 amor pode muito, o dinheiro pode tudo").
& plaintiue, deuant lé Iu- Esses são alguns dos provérbios com que os camponeses ca-
1
ge de Rieux : difant, que racterizavam o casamento na França do século 16. Os histo-
i~~~'~ vingt ans peuuéc dl:re paf- riadores vêm conhecendo mais e. mais as famílias rurais, a par-
tir de contratos de casamento e testamentos, registros paro-
ez,ou enu1ron, qu efiant ie!Jne filie, de neufà
dix ans,fut mariee, auec Martin Guerre, pour lors quiais de nascimentos e óbitos, e relatos de rituais pré-nup-
aufsi fort ieune, & prcfque de mefmes aage, que ciais e charivaris (com panelaços e assuadas após a cerimônia
2
la fuppliant. de casamento). Mas ainda sabemos pouco sobre as esperan-
Annotation I. ças e sentimentos dos camponeses; as formas como viven-
ciaram a relação entre marido e mulher, entre pai e filho;
Les mariages ainfi conrraaez auant l'aage legitime , ordonné
de naturc,ou pa~ les loix policiques, ne p~uucnr eíhe (s'íl ellloy- as formas como vivenciaram as restrições e possibilidades de
libl~ d.e ~o.nder.' IUfques aux fecrecz, & intcrutables iugemens de suas vidas. Muitas vezes pensamos neles como pessoas com
la diUinlte!plaifans,ny aggreables à Di eu, & r itfue, en ellle plus poucas escolhas; mas, de fato , será verdade? Será que alguns
fouuent p1reufe,& mifcrablc, & (comme on voit iourncllement
par cxemple) pleine, de mille repenrances : p:h' nnt qu'cn rellcs !uc~;~!;~~:
aldeões individualmente nunca tentaram modelar sua vida
pr~occ,s,& deuancees conionaions, ceux qui ont rramé,& gidlltmalrfic. de formas insólitas e inesperadas?
pro!crcc Ic .cout , n'onr aucunemcnr refpeaé l'honncur, & 1.1 ~~·llt~~~~·:;.,
giOire de D1eu:& moins la .fin, pour laquellc cc f.'lint, & venera- de vor. & vor.
Mas como fazem os historiadores para trazer à super-
blc etlac de mariage, ha cllé par luy inllitué du commenccment ~;1~~p.au Sis fície tais informações das profundezas do passado? Esqua-
du monde. • ( ui fuc clcuanr 1'o1fence de noíl:rc pcrc, drinhamos as cartas e diários íntimos, as autobiografias , me-
mórias e histórias de família . Examinamos as fontes literárias
18 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Introdução 19

-peças teatrais, poemas líricos e contos - que, quaisquer emerge de tais relatos não deixa de ter seu valor - a co-
que sejam suas relações com a vida real dos indivíduos, mos- média, afinal, é um instrumento precioso para explorar a
tram-nos os sentimentos e reações que os autores considera- condição humana - , mas é limitada em seu registro psicoló-
vam plausíveis num determinado período. Já os camponeses, gico e no leque de situações em que se encontram os aldeões .
dos quais, no século 16, noventa por cento não sabiam es- Mas existe uma outra série de fontes onde os campo-
crever, deixaram-nos poucos documentos sobre sua vida neses aparecem em situações desagradáveis e o desfecho nem
privada. Os diários e histórias de família que chegaram até sempre é feliz: os anais judiciais. É aos registros da Inquisi-
nós são escassos: uma ou duas linhas sobre nascimentos, ção que devemos o quadro de Emmanuel Le Roy Ladurie
mortes e o tempo climático. Thomas Platter pode nos dar sobre a aldeia cátara de Montaillou e o estudo de Carlo
um retrato de sua mãe, uma camponesa que trabalhava ar- Ginzburg sobre o intrépido moleiro Menocchio. Os regis-
duamente: "Quando quisemos dizer adeus à nossa mãe, ela tros dos tribunais diocesanos estão cheios de casos matri-
chorou ... Exceto essa vez, nunca vi minha mãe chorar, moniais, que vêm sendo usados pelos historiadores par?.
pois era uma mulher corajosa e viril, mas rude". Mas tal entender como os aldeões e a arraia-miúda urbana mano-
página . foi escrita quando esse erudito hebraísta há muito bravam no interior do rigoroso mundo .da lei e do costume,
tempo deixara sua aldeia suíça e os pastos de suas monta- para encontrar uma companheira adequada. 5
nhas.3 Existem, enfim, os processos verbais de diversas juris-
Quanto às fontes literárias sobre os camponeses, quan- dições criminais. Eis, por exemplo, a história contada em
do existem, seguem as regras clássicas que fazem dos aldeões 1535 por um jovem camponês lionês, que tenta obter do
um tema reservado às comédias. A comédia apresenta per- rei o perdão por um assassinato cometido impulsivamente.
sonnes populaires, pessoas de baixa condição, assim diz a Mesmo na transcrição elaborada de seu procurador ou escri-
teoria. "A comédia descreve e representa em estilo simples vão, temos um pequeno retrato de um casamento infeliz:
e humilde o destino privado dos homens. . . Seu final é
feliz, divertido e agradável.'' Assim, em Les Cent Nouvelles Há cerca de um ano, o dito suplicante, tendo encontrado bom
Nouvelles (coletânea de histórias cômicas do século 15, vá- partido de casamento, desposou Ancely Learin ... a qual tem
mantido e sustentado honestamente como sua mulher, e dese-
rias vezes reimpressa no século 16), um camponês ganan-
java viver em paz com ela. Mas a dita Ancely ... muitas vezes
cioso, ao surpreender sua mulher na cama com um amigo,
sem como nem pot quê, resolveu que tinha de matar e bater
apazigua sua cólera com a promessa de doze medidas de tri- no dito suplicante, e de fato bateu nele .. . O dito suplicante
go e, para manter a transação, tem de permitir que os aceitou pacificamente. . . esperando que se reduzisse com o
amantes concluam seus entretenimentos. Em Propos Rusti- tempo ... Não obstante isso ... no domingo, segundo dia des-
ques, publicado pelo jurista bretão Noel du Fail em 1547, se presente mês de maio próximo passado, enquanto o dito
o velho camponês Lubin recorda o tempo do seu casamento, suplicante jantava pacificamente com ela em sua casa, sem
aos trinta e quatro anos: "Eu não sabia o que era estar lhe fazer mal nem desprazer , pediu para beber do vinho que
apaixonado. . . Imagine se hoje em dia um rapaz passa dos ela mantinha numa garrafa de vidro que não queria lhe dar.
4
quinze anos sem ter tido nenhum caso com essas moças". A Assim disse que lhe daria na cabeça, o que fez. . . e quebrou
imagem do sentimento e comportamento camponeses que a dita garrafa esparramando o vinho no rosto do dito supli-
20 O RETORNO _DE MARTIN GUERRE
Introdução 21
cante. . . Sempre continuando no seu furor [ela] se levantou
da mesa, pegou uma escudela e. . . a atirou contra o dito su- cias mais corriqueiras dos seus vizinhos. Desejo também
plicante e · tê-lo-ia ferido gravemente [se] a criada do dito mostrar como uma estória que pareceria adequada apenas
suplicante [não] se colocasse entre os dois. E então o dito para um simples panfleto popular - e de fato foi relatada
suplicante . . . alterado e acalorado por tais ultrajes . . . pegou dessa forma - fornece material também para as "cento e
uma faca que estava na mesa. . . e correu atrás da dita mulher · onze belas anotações" do juiz. Finalmente, gostaria de
~ lhe deu um único golpe ... no ventre. arriscar a hipótese de que estamos frente a uma rara identi-
ficação entre o destino dos camponeses e o destino dos
Sua mulher não viveu o suficiente para nos contar sua ricos e instruídos.
versão da história. 6 Para as fontes, parti do Arrest de Coras de 1561 e da
Tais documentos nos ensinam alguma coisa sobre as breve Historia de Guillaume Le Sueur, publicada no mesmo
expectativas e sentimentos dos camponeses em épocas de ano. Este é um texto independente, dedicado a um outro
agitações súbitas ou crises. Em 1560, contudo, vem ao Su- juiz do caso, pelo menos em duas passagens há deta-
premo Tribunal de Toulouse um càso criminal que lança lhes que não se encontram em Coras, mas que verifiquei
uma luz sobre vários anos de casamentos camponeses; um nos arquivos. 8 Utilizei Le Sueur e Coras como complemen,tos
ca:so tão extraordinário que um dos juízes escreveu um livro mútuos, embora, nas poucas passagens em que diverg~m,
sobre ele. Chamava-se J~an de Coras, nativo da região, ju- tenha dado maior peso ao juiz. Na ausência dos interroga-
rista eminente, autor de comentários em latim sobre o di- · tórios do processo (no Tribunal de Toulouse, faltam todos
reito civil e canônico, e, além do mais, humanista. O Arrest os registros dos processos criminais anteriores a 1600), in-
Memorable, como o in titulou, reunia todas as provas, argu- vestiguei os registros das sentenças do Supremo Tribunl:l.l
mentos formais e julgamentos do caso, incluindo ainda suas para encontrar informações suplementares sobre o caso, a
anotações. Não se tratava de uma comédia, dizia ele, mas de prática e atitudes dos juízes. No rastro dos meus atores ru-
uma tragédia, mesmo que os atores fossem autênticos rústi- rais, consultei contratos notariais em muitas aldeias das dio-
cos, "pessoas vis e abjetas". Escrito em francês, o livro foi ceses de Rieux e Lombez. Quando não consegui encontrar
reimpresso cinco vezes ao longo dos seis anos seguintes e meu homem (ou minha mulher) em Hendaye, Sajas, Artigat
conheceu ainda muitas outras edições em francês e latim ou Burgos, fiz o máximo para, descobrir, através de outras
antes do final do século.7 fontes da época e do local, o mundo que devem ter visto,
Combinando as características do texto jurídico e do as reações que podem ter tido . Q_que aqui ofereço ao leitor
texto literário, a obra de Coras sobre o caso Martin Guerre é, em parte, uma invenção minha, mas uma invenção cons-
pode nos introduzir no mundo secreto dos sentimentos e trUídà pela atenta escuta das vozes do passado.
aspirações camponeses. Não me incomoda que seja um caso
excepcional, pelo contrário, pois uma disputa fora do comum
por vezes desnuda motivações e valores que se diluem na
agitação da vida cotidiana. Espero mostrar que as aventuras
de três jovens aldeões não estão tão distantes das experiên-
1
De Hendaye a Artigat
····-@-····

O ANO DE 1527, o camponês Sanxi Daguerre, sua


N mulher, seu jovem filho Martin e seu irmão .Pierre
abandonaram sua propriedade familiar na região basca
francesa, e foram se instalar numa aldeia do Condado de
Foix, a três semanas de caminhada.
Não era algo usual para um basco. Não que os homens
do Labourd fossem muito apegados à casa, mas seus deslo-
camentos geralmente levavam-nos ao outro lado do Atlânti-
co, na caça à baleia, às vezes até Labrador. E quando se
expatriavam, em vez de subir para o norte dos Pirineus,
atravessavam o rio Bidassoa, para alcançar a região basca
espanhola ou adentrar no interior da Espanha. Além disso,
em sua grande maioria, os emigrantes, ao contrário de Sanxi
Daguerre, não eram herdeiros da propriedade familiar, mas
filhos mais novos que não podiam ou não queriam perma-
necer sob o teto ancestral. Aos olhos dos aldeões bascos, a
importância da casa dos pais era tal que cada uma trazia um
nome retomado pelo herdeiro e sua mulher: " [eles] se fa-
zem chamar senhores e senhoras de tal-e-tal casa [mesmo]
que esta não passe de um chiqueiro", como diria a seguir
um comentarista malévolo. 1
Contudo, a casa de Sanxi Úaguerre estava longe de ser
24 O RETORNO DE MARTIN GUERRE De Hendaye a Artigat 25

um chiqueiro. Situava-se em Hendaye, uma aldeia na fron- x i não teria podido vendê-la facilmente, pois os Fors, isto é,
teira espanhola composta apenas por "algumas casas" se- os costumes da região de Labourd, proibiam a alienação dos
gundo ~m viajante em 1528, mas cercada por amplas t~rras bens patrimoniais, exceto em caso de extrema necessidade,4
comuna1s. Encerrados entre as montanhas, o rio e o mar c mesmo assim com o consentimento de todos os parentes.
os habit~ntes dedicavam-se à criação, pesca e agricultura. O Em contraposição, era livre de dispor dos acquêts, isto é,
solo ~rglloso, de fato, prestava-se apenas ao painço, entre os tudo o que reunira com seu próprio esforço; e Sanxi levou
cerea1s, mas era excelente, em contraposição, para as maciei- recursos suficientes para se estabelecer honradame nte em
ra~. O_s irmãos Daguerre exploravam-no também para a fa- sua nova aldeia.
bncaçao de telhas. Certamente, a vida no Labourd não era As estradas tomadas pelos nossos imigrantes em seu
fácil,' mas tinha seus bons aspectos, pelo menos aos olhos êxodo para o leste eram muito freqüentadas. Cruzavam uma
dos visitan.tes: a extraordinária beleza das aldeias; os pra- zona de trocas secular entre os Pirineus e as planícies, que
z~res ~ pengos da pesca de baleias, a repartição da presa, os agora vivia um desenvolvimento econômico particularmente
d1vert1mentos dos homens, mulheres e crianças nas ondas. intenso, desde que Toulouse se afirmara como importante
5
"As pessoas de toda esta região são alegres . . . estão sem- centro distribuido r da região. Nesse perímetro entre os rios
pre rindo, brincando, dançando, mulheres e homens", des- Save e Ariege, que serviriam de limites à sua nova existên-
crevem-nos em 1528. 2 cia, era um vaivém de carroças carregadas de nozes de pas-
No entanto,. Sanxi Daguerre decidiu partir. Talvez de- tel-dos-tintureiros, a caminho para as tinturarias de Toulou-
vido às eternas ameaças de guerra que pesavam sobre a se; peles, lã bruta e cardada, madeira, trigo, vinho e frutas.
região: o país basco e Navarra há muitos . anos eram um Os Daguerre devem ter visto comerciantes e mascates diri-
pomo de discórdia entre a França e a Espanha, e essa zona gindo-se a feiras e mercados locais, pastores conduzindo o
de fronteira sofria os conflitos que opunham Francisco I ao gado ou o rebanho para as montanhas no verão ou trazendo-
imperador Carlos V. Em 1523, as tropas imperiais lança- os às planícies de Toulouse e Pamiers para a invernada, pe-
ram-se contra Hendaye e arrasaram o Labourd. Em 1524, a regrinos em direção ao santuário sempre popular de Santia-
peste atacou de modo particularmente violento. Foi no ano go de Compostela, jovens deixando suas aldeias pelas ruas
seguinte que nasceu Martin, o primeiro filho de Sanxi. Na de Toulouse ou alhures. Finalmente, por uma decisão lon-
or~gem da partida talvez estivesse um motivo pessoal, uma gamente amadurecida ou devido a informações apanhadas
bnga entre Sanxi e seu pai, o "antigo senhor", o senior pelo caminho, detiveram-se em Artigat, uma aldeia situada
echekojaun, como se dizia em basco (admitindo-se que ainda na vasta planície ao sopé dos contrafortes dos Pirineus, a
estivesse vivo), ou outra pessoa qualquer; ou talvez a ini- algumas horas de cavalgada de Pamiers.
ciativa viesse da mãe de Martin, pois as mulheres bascas Artigat estendia-se de ambos os lados do Leze. Esse
passavam por intrépidas e davam suas vontades a conhecer.
3
rio, insignificante em comparação ao Ariege a leste e ao Ga-
. Qualq~er que fosse a causa, Sanxi arrumou suas baga- ronne a oeste, era porém suficientemente impetuoso para
gens e partm, levando consigo sua família e o irmão mais devastar os campos adjacentes em suas enchentes sazonais.
novo solteiro. A propriedad e ancestral permanecia em Hen- Nessas terras e colinas circundantes viviam de sessenta a
daye, e um dia Martin a herdaria. Mesmo que quisesse, San- setenta famílias que, além do painço do Labourd muito fa-
26 De Hendqye a Artigat

miliar a Sanxi e Pierre Daguerre, ainda cultivavam trigo ,


aveia e vinhas, e criavam vacas, cabras e sobretudo carnei-
ros. Artigat contava com alguns artesãos: um ferreiro, um
moleiro, um sapateiro e um costureiro; talvez houvesse al-
guns tecelões, como no burgo vizinho d~ Le Fossat. Perio-
dicamente havia dias de mercado, e membros da família
Banqueis se autodenominavam "comerciantes", embora as
feiras medievais não passassem de uma lembrança e a maior
parte do comércio local passasse por:- Le Fossat. Por volta
de 1562, e mesmo antes, na chegada dos Daguerre, Artigat
tinha seu próprio notário; contudo, um notário de Le Fossat
fazia sua ronda pelas aldeias, para firmar os contratos.'
Os Daguerre devem ter compreendido imediatamente
que tipo de laços econômicos uniam Artigat às aldeias e
burgos vizinhos. As trocas mais importantes ocorriam com
a aldeia de Pailhes a montante, Le Fossat a jusante e o bur-
go de Le Carla numa colina a oeste. A zona privilegiada de
trocas se estendia a jusante até Saint-Ybars, a leste para além
de Pamiers, e do lado dos Pirineus até Le Mas-d'Azil. Jean
Banqueis de Artigat arrenda uma égua a um camponês de
Pailhes por um prazo de seis anos. Um comerciante de Le
Fossat arrenda bois a dois lavradores de Le Carla, que lhe
pagarão em trigo, na feira de Pamiers, em setembro. Jehan-
not Drot, lavrador de Artigat, vai a Le Fossat, em todos os
invernos, para vender a lã dos carneiros do seu rebanho es-
panhol. Firma o contrato : pagam-lhe com dinheiro à vista e
volta para entregar a lã no mês de maio. Outros vendem a
lã bruta a comerciantes de Pamiers. Um pastor de Le Carla
conclui um acordo de gasailhe (como se diz na langue d'oc)
com um comerciante de Saint.Ybars: o pastor se encarrega
de alimentar e pastorear trinta ovelhas às suas expensas, as
despesas da estiada "nas montanhas" e os lucros serão repar-
tidos meio a .meio entre os dois associados . J ames Loze de
Pailhes concluiu um trato de parceria com um comerciante
de Pamiers, em relação a cinqüenta e duas ovelhas : dividem
28 O RETORNO DE MARTIN GUERRE De Hendaye a Artigat 29

gastos e lucros; após a tosquia, a lã é enviada a Pamiers, deyro cedem seis sesteiros de suas terras aos irmãos Grose de
9
em troca de sal para Pailhes. Os cereais e o vinho também Le Mas-d'Azil que, após a compra, instalam-se em Artigat.
circulam, sob forma de arrendamentos pagos em gênero ou Essas vendas esporádicas dos propres, como se chama-
compras realizadas pelos camponeses em Pamiers e Le Fos- vam os bens herdados, não significavam que os ribeirinhos
sat.7 do Leze não fossem apegados às suas terras. Se os bascos
Esse pequeno mundo azafamado não podia ser total- davam nomes às suas casas, os camponeses de Artigat e seus
mente estranho aos Daguerre, pois as trocas entre aldeias e vizinhos faziam o mesmo em relação aos terrenos. Setores
burgos também eram praticadas no Labourd. A novidade intclros da jurisdição de Artigat traziam os nomes das famí-
fundamental em relação à região basca residia na cessão de lias da região: "Les Banqueis", não distantes do centro da
terras, tanto por herança como por venda. Aqui, na planície aldeia, "Rols" a oeste, "Le Fustié" perto das margens do
ao pé dos Pirineus, as pessoas comuns praticamente não se Leze, onde vivia o moleiro Fustié. Os campos, as terras ará-
esf~rçavam para manter o patrimônio familiar. Na região de veis e também os vinhedos recebiam nomes ·_ "a la plac",
Artlgat, raramente os testamentos davam mais vantagens a "al sobe", "les asempres", "al cathala", "la bardasse" - ,
um filho em detrimento dos outros, e o costume era o de e os camponeses que os adquiriam às vezes adotavam esses
10
dar dotes às filhas e dividir a herança em tantas parcelas títulos, como alcunha. ·

qua_?to.s fossem os filhos, mesmo que chegassem a cinco; na Naturalmente, em Artigat, talvez mais do que em Hen-
ausencra de herdeiros masculinos, a propriedade era repar- daye, essa identificação entre família e terra era regida pela
tida entre as filhas. Às vezes, dois irmãos ou dois cunhados estrutura econômica e social da aldeia. No ápice, figuravam
decidem cultivar juntos as terras, ou ainda um irmão deixa as famílias prósperas como os Banqueis, seguidos pelos Rols,
a aldeia, cedendo sua parte a um outro herdeiro; em geral, que possuíam várias propriedades espalhadas por Artigat,
como se pode ver no terrier, isto é, registro fundiário de Ar- algumas cultivadas por eles mesmos e outras arrendadas a
tigat no século 17, os herdeiros dividem a terra e vivem lado lavradores por pagamento fixo ou parcela da colheita. Eram
a lado. Quando uma família cresce e passa a contar com esses homens que anualmente compravam do bispo de Rieux
duas gerações de membros casados, não é absolutamente o o direito de coletar as rendas dos cargos eclesiásticos de Ar-
modelo basco, antigo senhor e jovem senhor, que aqui fun- tigat e dirigiam a irmandade paroquial da igreja da aldeia.
ciona, e ,sim a combinação entre o genitor viúvo (geralmente Davam-se com as melhores famílias locais que não perten-
a mãe).~: um dos filhos casados. Assim compreende-se que
8
ciam ao mundo dos senhores: os Loze de Pailhes, os Boeri,
a propnedade possa ser vendida, de tempos em tempos, com comer~iantes e sapateiros rurais de Le Fossat, os Du Fau,
muito menos obstáculos do que no Labourd. Desse modo notários em Saint-Ybars. Na outra extremidade, encontra-
vê-se um padre deLe Fossat vender seu jardim para um co- vam-se Bernard Bertrand e sua mulher, que, em tudo e para
merciante, alegando que teve de sustentar seus velhos pais tudo, possuíam um miserável campo de dezesseis sesteiros
nos últimos oito anos. Da mesma forma, Antoine Basle de
para alimentar a si e a seis filhos; o pastor Jehannot Drot,
Artigat cede, pela módica quantia de 35 libras, "a quarta
parte dos bens e sucessão do falecido J acques Basle seu pai'' quando os tempos eram difíceis, obrigado a pedir de em-
a um homem do povoado vizinho, e em 1528 os irmãos Cal- préstimo vinho e trigo; os irmãos Faure, parceiros que esta-
30 O RETORNO DE MARTIN GUERRE De Hendaye a Artigat 31

vam com os pagamentos tão atrasados que o proprietário residiam os Villemurs, senhores de Pailhes e capitães docas-
tinha-os citado para comparecer à justiça. 11 telo de Foix, tudo teria sido diferente. 13 O caso · Martin
Entretanto, nenhum habitante de Artigat, fossem seus Guerre não teria seguido seu curso caso um senhor local ou
bens modestos ou importantes, pagava taxas nem realizava seus representantes tivessem autoridade para intervir. Em
corvéias para um senhor. Eram "livres e alodiais", do que sua situação, os habitantes de Artigat só podiam contar com
não pouco se orgulhavam. Por mais de um século, não havia os mexericos e pressões dos seus pares.
na aldeia domínios pertencentes a nobres; um certo Jean Afora essas liberdades específicas, Artigat apresentava
d'Escornebeuf, senhor de Lanoux, a oeste de Artigat, com- uma identidade razoavelmente fluida e heterogênea. Do pon-
prara terras após a chegada dos Daguerre, mas tinha de Pl!- to de vista lingüístico, a aldeia estava na fronteira dos dife-
gar a derrama como qualquer outro camponês. Na aldeia, rentes sons nasais e líquidos da Gasconha e do Languedoc.
toda a administração da justiça- alta, média e baixa- era Geograficamente, ligava-se ao Condado de Foix, mas, jun-
da alçada da própria comunidade ou do rei representado em tamente com Pailhes e algumas outras aldeias, dependia do
primeira instância pelo juiz de Rieux, a várias horas de cava- governo do Languedoc. Embora próxima a Pamiers, sede
lo de Artigat, pelo senescal de Toulouse e, para a apelação, de diocese, Artigat fazia parte da diocese mais distante de
pelo Tribunal de Toulouse. Nos escalões inferiores do apa- Rieux. A nomeação do prior da principal igreja paroquial,
relho judiciário, encontravam-se os três ou quatro cônsules ·~< Saint-Sernin de Artigat, dependia dos cônegos de Saint-
de Artigat, notáveis locais, anualmente autorizados pelo juiz Etienne, na ainda mais distante Toulouse; o cura de Bajou,
de Rieux a portar os barretes vermelho e branco, insígnia uma paróquia menor que estava sob a jurisdição de Artigat,
de suas funções. Exerciam sua jurisdição sobre questões re- também era designado por um cabido sediado em Toulouse.
lativas à agricultura, particularmente em matéria de terras Os habitantes de Artigat tinham de atravessar muitas fron-
comunais (em Artigat, geralmente de pequena extensão), e teiras em suas atividades de agricultores, pastores, litigantes
fixavam a data das colheitas de inverno; firmavam os inven- e cristãos, e recebiam vários rótulos: gascões, "foixianos",
tários de bens em caso de morte; puniam as fraudes nos .
1angue doc1anos. 14

pesos e medidas. A vigilância dos detentos, a manutenção É, então, nessa aldeia que chegam os Daguerre. Insta-
da ordem pública- os delitos de blasfêmia ou as rixas-, lam-se a leste do Leze, compram terras (talvez os propres
igualmente eram de sua alçada. Convocavam periodicamente de algum habitante) e fundam uma telharia como a de Hen-
assembléias compostas pelos homens da aldeia. 12 daye. Durante um certo período, os dois irmãos moram sob
Esse sistema agradaria aos Daguerre, que provinham o mesmo teto e prosperam - "tornaram-se bastante abas-
de uma região onde (apesar do poder crescente dos "nobres" tados para gente de modesta condição", escreverá mais tar-
Urtubies} o poder senhorial era frágil e os paroquianos ti- de Guillaume Le Sueur, a seu respeito. Suas posses aos
nham o direito de se reunir livremente e promulgar estatutos poucos estendem-se pelas colinas perto de Bajou, e às telhas
relativos às necessidades da comunidade. Se tivessem se e tijolos vieram se somar a cultura do trigo, do painço, os
estabelecido um pouco mais a montante, em Pailhes, onde vinhedos e a criação de carneiros .15
* Consul: ant:gamente, juiz escolhido entre os comerciantes para intender Para serem "aceitos", tiveram de adotan:ertos costumes
em assuntos comerciais, aqui traduzido simplesmente como cônsul (N. do T.) do Languedoc. Daguerre tornou-se Guerre; se Pierre alguma
32 O RETORNO DE MARTIN GUERRE De Hendaye a Artigat 33

vez tivesse utilizado a forma basca do seu primeiro nome, , , :.\'puindo o costume basco de que os irmãos casados não
Betrisantz ou mesmo Petri, doravante teria renunciado a ela. v 1wtn sob o mesmo teto, foi se instalar ao lado, em sua
A mulher de Sanxi provavelmente continuava a carregar l'tnpria casa. Nessa ocasião, sem dúvida procedeu-se a uma
cestos de trigo sobre a cabeça, mas deve ter dado novos pes- p u·tilha da propriedade. A seguir, em 1538, os Guerre
pontos em sua touca e nos enfeites de sua saia, de modo a 'P"I' ·cem num contrato que mostra o caminho percorrido
adequá-los aos de suas vizinhas. Na missa paroquial, deve dtlt': tnte onze anos em. Artigat: trata-se do casamento do pri-
ter se acostumado ao fato de que, aqui, as mulheres não se ntngênito e único filho de Sanxi com Bertrande de Rols, filha
adiantavam aos homens em suas oferendas, não estavam .1, ubastada família Rols do outro lado do Leze.
autorizadas a fazer coletas para os fundos da sacristia e não O fato de o pai de Bertrande ter considerado aceitável
podiam preencher as funções de sacristãs .16 :1 1111ião é um testemunho suplementar sobre a relativa aber-
E todos, é claro, puseram-se a falar correntemente a t11ru das pessoas da aldeia em rel~çã~ aos forasteiros. O_s
langue d'oc e habituaram-se a um mundo onde a palavra < :ruse tinham chegado deLe Mas-d Azll, e prosperavam: u-
escrita desempenhava um papel mais importante do que em 11lwm-se associado aos Banqueis e foram nomeados cônsules.
Hendaye. "A língua dos bascos", escrevia o conselheiro de ( :nntr:aíam-se muitos casamentos dentro da jurisdição de
Coras, "é tão obscura e difícil que muitos acharam que ela Artigat, freqüentemente entre cônjuges de duas paróq~ias,
não podia se exprimir por nenhum caractere escrito." Na como no caso dos Rols e dos Guerre, mas por vezes la-se
realidade, fora editada em Bordeaux, em 1545, uma coletâ- procurar mais longe o esposo ou esposa. Jeanne de Banqueis
nea de poesias em basco, mas no Labourd todos os documen- trouxe Philippe Du Fau de Saint-Ybars, ao passo que Arnaud
tos administrativos e contratos eram redigidos em gascão ch.: Bordenave foi buscar a jovem esposa e sua mãe numa
ou francês. Entre eles, os Guerre teriam realizado oralmente alc.leia da diocese de Couserans. Embora a região basca fi-
seus negócios, em basco, espanhol ou gascão. Na zona entre t'<tsse ainda mais distante, seus imigrantes não eram desco-
Garonne e Ariege, muitas vezes recorreram aos tabelionatos nhecidos na diocese de Rieux: por exemplo, em Palaminy,
para redigir os contratos. Estes dividiam suas · atividades H montante do Garonne, viviam Bernard Guerra e sua mu-
entre vários pequenos burgos e, antes mesmo que o édito lher Marie Dabadia, dois nomes autenticamente bascos. E
de Villars-Cotteret de 1539 declarasse obrigatório, redi- os Guarys de Artigat, por acaso, não seriam oriundos do La-
giam contratos em francês com, aqui e ali, algumas grafias bourd? 18
e palavras occitânias. Os Guerre tinham adquirido prática Os cônjug·es Rols-Guerre eram singularmente jovens.
suficiente quanto à escrita para fazer contas simples, em- Pelos trabalhos de demografia histórica, seria de se esperar
bora, como a maioria dos habitantes de Artigat, nunca te- que tivessem ao menos dezoito anos. Ora, Mart~n não _tinha
nham assinado contratos com seus nomes e provavelmente mais de catorze anos e quanto a Bertrande, se unha a 1dade
não sabiam ler. Na verdade, não havia nenhum mestre-escola que posteriormente declararia,* seu casamento, segundo o
em Artigat que pudesse ensiná-los.17
Enquanto se radicavam na aldeia, a família aumentava. '' Em sua queixa dirigida ao juiz de Rieux, Bertrande declara que, "sendo
menina de nove a dez anos casou com Martin Guerre, então também muito
A mulher de Sanxi deu à luz mais crianças, e quatro filhas novo, ~ quase da me~ma iq~de da suplicante" (Coras, Arres~, p. 1) ._ Mas em
sobreviveram à mortalidade infantil. Pierre Guerre se casou 1560, durante o processÔ, considera-se Martin Guerre com trmta e cmco anos
34 O RETORNO DE MARTIN GUERRE
De Hendaye a Artigat 35
direito canônico, não era válido. Contudo, os Rols e os Guer-
re estavam muito ansiosos por uma aliança, e o cura de Ar- dns Ro1s e encontra:se posteriormente, no século 16, entre
11 : proprieda des dos Guerre.) Além disso, havia a mobília e
tigat, messire Jacques Boeri, era de uma família local e evi-
11 enxoval trazidos por todas as noivas da região: um leito
dentemente não levantou nenhum impedimento. Como
comentaria Le Sueur, "grande é o desejo, não só entre os ,·tJtn travesseiros de penas, lençóis de linho, colchas de lã,
lllll<l coberta,. uma arca com fechadura e chave, e duas ou
grandes senhores, mas também entre as pessoas comuns, de
1r ~·s roupas d e cores d"f
20
casar cedo seus filhos para ver continuar neles sua posteri- 1 eren t es. ·.
dade".19 As bodas foram celebradas na igreja de Artigat, onde
\'S iavam enterrados o avô de Bertrande, Andreu, e vários
Mas a vontade de assegurar uma posteridade não era
tntepassados seus. A seguir, a prociss~o voltou à casa de
o único móvel nessas uniões precoces. Os bens e trocas de
Sanxi Guerre onde, à moda basca, o JOvem senhor devia
serviços certamen te pesariam na balança: a olaria dos Guer-
viver com o antigo senhor. À noite, após o banquete , o casal
re pode ter sido importan te aos olhos dos Rols, da mesma
foi conduzido ao leito nupcial de Bertr_ande. Ao soar da
forma como para os Guerre, aflitos com todas as suas filhas,
meia-noite, irromperam nó quarto os jovens convi~as trazi-
contava o irmão de Bertrande. O contrato de casamento en-
dos por Catherine Boeri, parente do cura de Arugat. Ela
tre Bertrande e Martin não chegou até nós, mas podemos
lhes traz.ia o resveil: ge~erosamente temperada com ervas e
imaginar o seu conteúdo a partir de muitos outr.os que lhe
·spedaria s, a beb~agem asseguraria aos novos esposos abra-
sobreviveram. Em geral, nessa região entre o Garonne e
Ariege, o casamento não acarretava grandes transferências ços ardentes e. casàmento fec:undo. 2L
de terra de uma a outra família camponesa: como vimos, a
maior parte da propriedade era conservada para ser dividida
entre os filhos, por presentes inter vivos Ol! testamentos.
Mas as filhas recebiam um dote equivalente ao pr~ço de
venda de, digamos, um vinhedo ou um pequeno campo. Nas
famílias mais modestas, o pagamento era escalonado em vá-
rios anos. Os abastados entregavam a soma total ao casal,
e às vezes acrescentavam um pedaço de terra. O dote da
jovem Bertrande de Rols provavelmente pertencia a esta úl-
tima categoria: um pagamento à vista entre 50 e 150 libras
- um presente pequepo para uma noiva da cidade, mas
generoso pelos padrões rurais - e um vinhedo a oeste do
Leze, chamado Delboura t. (Ficava próximo a outras terras

(p. 76), e os testemunhos relativos ao número de anos que viveu com sua
mulher e tudo o mais mostram que tinha perto de catorze anos na época do
seu casamento. Quanto a Bertrande, provavelmente atingira a adolesçência ,
conforme sugiro no ~apítulo 3.
2
O Camponês Descontente
····~@~··· ·

ADA SE PASSOU no leito conjugal naquela noite,


N nem nos oito anos que se seguiram. Martin Guerre era
impotente; o casal estava sob "um feitiço maléfico".'
Talvez não fosse a primeira desventura de Martin. Não
deve ter sido fácil para um menino do Labourd crescer em
Artigat. Em primeiro lugar, fora-lhe preciso ziguezaguear
entre duas línguas: o basco dos pais e a língua falada pelas
pessoas que via na olaria, nas vindimas e na missa. Às
vezes, imagina-se, tivera permissão para correr com os me-
ninos da aldeia - os mais velhos queixavam-se de moleques
que roubavam as uvas nas vinhas. Não teria ouvido graça-
las dos camaradas por causa do nome Martin? Bastante di-
fundido em Hendaye, aqui era insólito em meio aos Jehan,
Arnaud, }ames, Andreu, Guillaume, Antoine, Pey e Ber-
nard de Artigat. Que fosse o nome de uma aldeia vizinha, não
fazia nenhuma diferença. Martin era nome de bicho, de asno,
e na tradição local os pastores usavam-no para o urso que
2
encontravam nas montanhas.
Entre os Guerre, o jovem senhor se deparava não só
com uma, mas duas fortes personalidades masculinas, igual-
mente exaltadas, como veremos. Cercado somente por meni-
nas mais novas, sua irmã Jeanne e as outras três, além das
38 O RETORNO DE MARTIN GUERRE
O Camponês Descontente 39
primas, filhas de Pierre Guerre - apenas pisseuses ("mij _
nas"), e mal se~ pênis crescera dentro da braguilha, eis q:e tnulher e se reunido em frente a casa dos Guerre, batendo
l'tndornas de vinho, tocando sinos e fazendo retinir as es-
uma nova _memna entrava em sua vida, Bertrande de Rols.
] am~Is deve ter passado pela cabeça de Sanxi Guerre pudas.4 Era realmente humilhante.
que seu filho pudesse ter dificuldades em consumar seu ca- Martin estava enfeitiçado. Como Bertrande dirá mais
samento. P?dia-se reprovar na aldeia uma união demasiado t1ude, estavam "ligados" pelos encantos de uma feiticeira
pr~c?ce, pois o_ ~apazote não tinha os meios econômicos nem com inveja dos Guerre e da sua aliança com os Rols, de mo-
o JUIZo necessarw para fundar uma família e também p _ do que não podiam consumar o casamento. (Atualmente, a
'
que os "humores , aquosos e moles do seu corpo or impotência do marido costuma ser atribuída à esposa domi-
de adoles-
fente, segu~do a crença do século 16, produziam um sêmen nadora. No século 16, responsabilizava-se uma outra mu-
raco dema:s. _Mas, uma vez com pêlos no púbis, julgava-se lher, exterior ao casal.) A se crer nos tratamentos usados
que os agmlhoes da carne despertariam naturalmente e até tanto no Labourd como no Condado de Foix, sem dúvida
com um certo excesso. ' consultaram mais de uma vez uma dessas curandeiras famo-
No início, Martin e sua família provavelmente espe- sas pela sua sabedoria. Finalmente, após oito anos, uma ve-
raram que su~. impot~ncia passasse. Na região basca, um lha "aparecida miraculosamente, como que caída do céu"
cos~~m~ permltla aos Jovens "a liberdade de terem uma ex- mostrou-lhes como romper o sortilégio. Os padres rezaram
fenencia com suas mulheres ... antes de esposá-las e tomá- quatro missas por eles e deram-lhes a comer hóstias e foga-
as na forma de um ensaio". Podia-se considerar como uma ças. Martin consumou o casamento; Bertrande engravidou
prova sexua~. Mas Martin prometia se tornar um rapaz alto imediatamente e deu à luz um filho que recebeu no batismo
e magro, ágil como diziam ser os bascos exímio na esgri- o nome basco de seu avô Sanxi. 5
ma i< e exer~ícios físicos. Bertrande se t;ansformara numa Infelizmente, as coisas não melhoravam para o jovem
en~antadora JOV~m (belle seria a primeira palavra que Coras pai. Se se julgar o estado de espírito de Martin Guérre pela
ma~s tarde u~~fla para descrevê-la). No entanto, nada acon- forma que escolheu para passar os doze anos seguintes de
~eCia. A. fam1ha de Bertr~nde pressionava-a para se separar sua vida, é-se levado a concluir que, afora a esgrima e os
. e Martm. Em_ caso de nao-consumação após três anos, um exercícios físicos, pouquíssimas coisas lhe agradavarri em
casamento pod~a ~er desfeito: segundo o direito canônico, Artigat. Sua sexualidade precária após anos de impotência,
Bertrand~ est~na hvre para contrair uma nova união. 3 a enfiada de irmãs em idade de casar, sua posição de herdeiro
A situaçao era humilhante, e a aldeia não deve ter dei- agora realçada pelo nascimento do seu filho Sanxi, tudo isso
xado de ~azê-lo~ sentir. Um casal que, ao cabo de um certo lhe pesava . Na melhor das hipóteses, num lar basco, as re-
tempo, .nao ~egis_trava nenhuma gravidez era o alvo perfeito lações entre o antigo senhor e o jovem senhor eram delica-
para ~t_:I carzbarz. ou calivari, como se chamava o charivari das; pode-se imaginar o que deviam ser entre um pai auto-
na reg1ao ~e Pam1ers. Os rapazes que se mediam ou lutavam ritário como Sanxi e seu filho relutante.
com Martm devem ter pintado o rosto, vestido roupas de Boa parte do tempo, historiadores do movimento po-
pulacional julgam que a migração camponesa se deve apenas
*~o irt;io. do século 16, a esgrima não era um jogo elegante reservado
a considerações econômicas; o caso dos Guerre mostra que
aos no res. avia uma versão aldeã do esporte. (N. do T.)
a história não se encerra aí. Martin sonhava com uma outra
40 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

vida, longe dos campos de painço, das fábricas de telhas,


das proprie dades e dos casamentos. Viajara um pouco. Fora
a Pamiers, a leste, para sua crisma e seguramente em outras ~ ..
ocasiões, e a oeste estivera em Mane, junto ao rio Salat, onde
fizera amizade com o estalajadeiro. 6 Mas tudo o reconduzia a
Artigat. A sociedade aldeã tinha, de fato, instituições que
serviam como válvulas de segurança para os jovens, permi-
tindo-lhes escapar tempor ariamente às restrições da vida fa-
miliar. Na região basca, era o mar e a pesca da baleia. Cer-
tamente Martin ouvira estórias dos seus pais e tio a respeito.
Nos Pirineu s e na planície , havia a transumância dos
pastores e seus rebanhos, como Le Roy Ladurie mostro u
admiravelmente em relação a Pierre Maury de Montaillou.7
A primeira opção, por razões práticas, era inacessível a um
habitan te do Condado de Foix. A segunda estava excluída
por razões sociais: não convinha a um membro das melhores
famílias de Artigat . Os que levavam os carneiros a pastar
nas montanhas não tinham a responsabilidade da comercia-
lização da lã, das vendas e negócios que se tratava m no vale
do Leze.
E havia outras saídas? Le Fossat tinha uma escola; o
jovem Dominique Boeri a freqüen tara e preparava-se para "·, I
cursar direito na universidade. Havia as tropas que Fran- ~. 1
cisco I arregimentava no Languedoc e outros lugares . No ... ..
""~t
";
~
.'"
Labourd, um Daguer re servira no exército do rei. Mesmo •. --<f
um honorável notário de Le Mas-d'Azil podia sonhar com
isso e rabiscar soldados imaginários em seus registros. En- :; J

fim, havia a Espanh a que, todos os anos, atraía homens da


diocese de Rieux. Pey dei Rieux de Saint-Ybars, "deCidido
a ir ao país da Espanh a para ganhar a vida", fez seu testa-
mento antes de partir, de forma que, se viesse a morrer , sua
irmã poderia herdar seus bens. François Bonecase de Lanoux
partia com sua mulher para Barcelona, mas em certos con-
. tratos de casamento o cônjuge previa o sustento e aloja-
42 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Camponês Descontente 43

mento de sua mulher na casa dos pais, caso decidisse partir ção conta com cerca de 19.000 habitantes, ainda é a capital
para a Espanha após as núpcias. 8 . comercial de Castela, o centro de distribuição de lã e uma
To?os .eram empreendimentos para os quais Sanxi etapa para os peregrinos a caminho para Santiago de Com-
Guerre Jamais daria autorização a seu filho Martin. Mas, em postela. Naquele ano, seria nomeado bispo dessa magnífica
1548: quando .Martin ia atingir seus vinte e quatro anos, e catedral Francisco de Mendoza y Bobadilla, antigo bispo de
~eu filho Sanx1 era ainda bebê, deu-se um fato que tornou Coria, erudito e humanista, amigo em vida de Erasmo e
urelevante o consentimento do antigo senhor. Martin "rou- Vives, cardeal desde 1544 e membro do partido imperial na
b?~" uma pequena quantidade de trigo de seu pai. Como primeira sessão do Concílio de Trento. Encarregado de altas
vivi.am sob o mesmo teto, esse "furto" provavelmente re- missões políticas pela Igreja e Carlos V, Dom Francisco per-
fletia uma luta p~lo poder entre os dois herdeiros. Mas, de maneceu vários anos na Itália. Em agosto de 1550, delegou
qualquer forma, o roubo, particularmente no seio da família ao seu irmão Pedro de Mendoza, um comendador da ordem "
era um crime imperdoável segundo o código basco. "Os bas~ militar espanhola de Santiago, capitão do exé.rcito espanhol,
cos são fiéis", escreveria o juiz Pierre de Lancre; "acreditam para apresentar suas credenciais ao cabido da catedral. Pro-·
que o furto é uma vileza da alma e uma submissão de um vavelmente Pedro providenciou que tudo se desenrolasse
coração abjeto e baixo que mostra apenas sua miséria." Mar- sem problemas no palácio episcopal durante sua ausência."
tin Guerre se colocara numa situação impossível. "Por temor Foi neste palácio que o jovem camponês de Artigat se
à severidade do seu pai", deixou patrimônio, pais, filho e . .tornou lacaio."~< Do seu baixo lugar na esc~la, agora contem-
mulher, e por anos não mais se ouviu falar dele. 9 plava um mundo de homens importantes, cônegos oriundos
da nobreza, grandes comerciantes do Ayuntamiento de Bur-
gos, jesuítas recém-chegados e outras pessoas que iam e vi-
nham pela residência do bispo. Observava o ritual faustoso
····~@----····
da catedral, que contrastava singularmente com a rusticidade
da missa paroquial de Bajou e Artigat. Perçorria as ruas
fervilhantes da cidade, espada à cinta, com a libré de uma
Seria interessante saber se Martin Guerre tornou a das maiores casas da Espanha. Terá lamentado a aldeia que
p~rcorrer em sentido contrário o caminho que seu pai fizera deixara para trás ou contado seu·passado ao confessor?
vmte anos antes, e se visitou o Labourd. Seu estatuto de
,., O comentário de Coras é: "Esse Martin Guerre, que partiu jovem para
herdeiro, agora, era contestável e talvez tenha preferido não as Espanhas, onde o Cardeal de Burgos, e depois seu irmão se serviram dele
se enco?trar com Johanto Daguerre e seus outros primos, como lacaio" (p. 137). Francisco de Mendoza não residiu em seu bispado antes
para evitar que prevenissem sua família. Mas ao menos terá de 1557, e nesta data Martin já deixara Burgos. Supus que fora lacaio no
palácio de Burgos antes da chegada de Francisco. É possível que tenha servido
deseja~o ver sua região natal e as ondas de suas praias. O na casa do cardeal em Roma e Siena - o que teria introduzido Martin Guerre
certo e que alcançou a Espanha através dos Pirineus, apren- a um número ainda maior de novidades - , mas não há menção de uma estadia
deu o castelhano e terminou em Burgos como lacaio na na Itália nem no relato em latim de Le Sueur. Os bascos eram apreciados como
lacaios no século 16 devido à sua alacridade. Gargântua tem um lacaio basco;
casa de Francisco de Mendoza, cardeal da igreja romana. 10 Montaigne fala do seu amor ao :movimento (Rabelais, Gargântua, cap. 28;
Em 1550, Burgos é uma cid~de próspera: sua popula- Montaigne, Essais, III, cap. 13).
44 O RETORNO .DE. MARTIN GUERRE

A seguir, Martin passou para o serviço do irmão de


Francisco, Pedro, que deve ter f10tado suas qualidades atlé-
ticas e quis que se tornasse soldado. Uma campanha levou-o
a Flandres e fez parte daquele exército que Filipe II envia-
ria a ~aint-9uentin contra a França. Pode ser que jamais
tenha Imagmado que era culpado de lesa-majestade; mas 3
provavelmente jamais imaginou que um dia voltaria à
França.
A Honra de Bertrande de Rols
Enquanto combatia (seja sob as ordens do seu superior ·· ··~@._,_.__ ....
Pedro, na cavalaria ligeira, seja na infantaria), Martin atra-
vessou sem um arranhão os primeiros dias do bombardeio
espanh~l à cida_de da Picardia. Depois veio o dia 10 de agos-
to, o dia de Sao Lourenço, em 1557, quando os exércitos
O MOMENTO em que começava a vida de aventuras .
de Filipe TI puseram em debandada as tropas francesas vin-
das em socorro à cidade sitiada, massacrando muitos solda- N de Martin Guerre, sua mulher Bertrande mal tinha vin-
te e dois anos. A '.'bela jov.em·" ·também devia olhar para o
dos e fazendo prisioneiros, entre os quais o condestável de
Fral).ça. "Recolheu-se grande botim, armas, cavalos, corren- seu passado com algumas queixas.
Tanto quanto, se sabe·, Bertrande passara sua infância
tes de ouro, prata e outras coisas", anotava em seu diário
em companhia de pelq menos um irmão e junto ~ sua mãe,
um ofic~al · espanhol. Pedro de Mendoza fez dois prisioneiros,
inicianc~o-se no trabalho' da roca- e outros trabalhos femini-
dos quais extraiu um resgate de 300 escudos. Quanto a Mar-
. nos. Em At-tigat e aldeias vizinhas, às vezes as moças eram
tin Guerre, um arcabuz francês antingiu-o na perna. Ampu-
colocadas ern outras casas - conhece-se o caso de uma mu-
taram-na. Acabavam-se seus dias de agilidade. 12
lher de um çomerciante de Le Fossat que legou suas roupas
à empregada - , mas, em famílias como as de Bertrande,
1
as moÇas ajudavam a cuidar da casa até se casarem.
Em seguida, antes de ter tido oportunidade de dançar
ao som de violinos com um rapazola da aldeia em 15 de
agosto, na Festa de Nossa Senhora em Artigat, antes de ser
cortejada, ei-la casada com Martin. Parece provável que já
conhecesse suas "flores", como na época chamava-se a mens-
truação, sem o que suas famílias não teriam permitido que
lhe administrassem, na noite de suas núpcias, o "despertar",
essa beberagem de fecundidade destinada a facilitar a gravi-
dez. Mas, muito jovem, conduzida a um lar estranho, sentia
o mesmo mal-estar de Martin; também ela estava "enfeiti-
çada", conforme declarou anos mais tarde perante o tribunal
46 O RETO RNO DE MART IN GUER RE A Honra de Bertra nde de Rols 4?

de Rieux. É verdade que as feiticeiras, quando tentavam se A seguir, quando Bertrande estava prepa rada para tal,
:t velha "apar eceu miraculosamente, como que
opor ao coito entre marid o. e mulher, reservavam seus cui- caída do céu'~
dados ao membro viriL"' Mas pode acontecer a uma mulher: c ajudou-a a romper o malefício. Acabou por dar à luz uma
em Malleus maleficarum, como explicam os inquisidores, ·riança um acontecimento que, para ela (como para as ou-
''o diabo pode enlouquecer de tal modo a imaginação [da tras aldeãs cujos casamentos começavam sob melhores auspí-
mulhe r] que ela passa a considerar seu marido tão execrável cios), era o primeiro verdadeiro passo para a vida adulta.
que por nada consente que ele a conheça". 2 Bertra nde conhecia esse mundo pela sua mãe, pela sua
sogra basca) pelas madrinhas. O que lhe reservava ele?
Bertrande não teria formulado as coisas nesses termos,
Antes dé tudo) era um mundo onde a estrut ura formad e a
mas é claro que, por algum tempo, sentiu-se aliviada por
identidade pública estnvam exclusivamente associ'adas aos
não' poderem ter relações sexuais. Contudo, quando seus
home ns. A partícula ·''de" , que se encontra com tanta fre-
pais a pressionaram para se separar de Marti n, recusou-se
categoricamente. Aqui devemos nos deter sobre alguns tra-
ços do caráter de Bertrande de Rols que se manifestavam
desde os dezesseis anos: a preocupação pela sua reputa ção
de mulher, uma independência obstinada, uma astúcia e um
realismo, finalmente, de que se servia para se mover d~ntro
das restrições impostas ao seu sexo. Sua recusa em anular
o casam ento- o que tê-la-ia deixado livre para contra ir um
novo matrimônio segundo a vontade dos seus pais - per-
mitia-lhe subtrair-se a certos deveres conjugais. Dava-lhe
oport unida de de viver uma adolescência em companhia das
irmãs mais novas de Marti n, com quem se enten dia bem.
Além disso, podia-se vangloriar de sua virtude. Com efeito,
o juiz Coras falará de sua resistência à vonta de dos seus pais
nos seguintes termos: "este ato dava (como uma pedra de
toque) grande prova da honestidade da dita de Rols" ; 3 cer-
tas comadres de Artig at poderiam expressar os mesmos
sentimentos.
1
' De fato, ao comentar as palavras
de Bertrande, Coras supõe que só
Martin fora enfeitiçado e descreve apenas as formas de sortilég
ios que visam
ao· macho. A impotência feminina, diz ele, deve-se a causas
naturai~, tal como ·
uma mulher que seria "tão apertada e estreita ·em suas partes
secretas que não
·poderia sofrer companhia carnal de homem" (Arrest, pp.
40-4). Ma·s não era
a·· caso de Bertrande. Os versados em direito canônico, da
mesma forma, pouco
se interessaram pelas causas "ocultas" da impotência feminin
a .(Pterik Darmon,
Le tribunal de l'impuissancé, Paris, Seuil, 1979, pp . 48-52).
~,
D_ança camponesa, '~or Georges Reverdy, Le Branle, ca. 1555
48 O RETORNO DE MARTIN GUERRE A Honra de Bertrande de Rols 49

qüência nos nomes femininos em Artigat e redondezas, não cIn mulher sobre os bens do marido no caso específico em
traduzia o desejo dos camponeses em imitar os nobres, mas que seus pais ou mãe viúva pretendam viver com o casal.
uma maneira de expor o sistema de classificação da socieda- A maior parte dessas disposições vem consignada no testa-
de aldeã. Bertrande era "de Rols" como seu pai era Rols; tnento do marido. Na melhor das hipóteses, ele estipula que
. Jeanne era "de Banqueis", seu pai, Banqueis; Arnaude "de sua mulher poderá gozar do usufruto dos seus bens enquan-
Tor", seu pai, Tor. Nas margens do Leze, osherdeiros eram lo viver "em estado de viuvez" (alguns testamentos acres-
s~I?p~e .homens, como vimos, a menos que ~ · família, por má ·cntam "e honestamente"). Se realmente confia nela ou
sorte, tivesse apenas filhas. Em suas deliberações, os côn- deseja recompensá-la "por seus agradáveis serviços", especi-
sules da aldeia admitiam apenas os homens; as mulheres fica que poderá usufruir dos seus bens " sem prestar contas
casadas e as viúvas só eram convocadas para receber or- u ninguém no mundo". Se ela não se entende com seus her-
dens.4 deiros, o marido inclui em ata uma cláusula detalhada a seu
.Na vida cotidiana do trabalho no campo e na " casa, favor: sete sesteiros de trigo e uma pipa de bom vinho por
as
mulheres, porém, des_empenhavam um papel importante. ano, uma roupa e um par de sapatos e meias de dois em dois
. Realizavam as tarefas tipicamente femininas de mondar, po- anos, lenha para o aquecimento, etc. Em caso de segundo
dar as vinhas, cortar as uvas. Ao lado dos maridos ar- casamento, ela receberá uma soma total, talvez previamente
rendayam e cultivavam as terras, tosquiavam os carneiros ' fixada, em geral equivalente ao seu dote aumentado em um
e levavam as vacas e bezerros em gasailhe. Uma certa Mara- terço. 6 ·

gille Cortalle, uma viúva de Saint-Ybars, adquiriu en gasai- O funcionamento desse mundo camponês estimulava
lhe dezoito ovelhas por conta própria, comprometendo-se a não só as qualidades domésticas e agrícolas da· esposa, como
mantê-las "como bom pai de família" durante quatro anos. também sua habilidade em manobrar os homens e pesar as
Fiavam a lã para os tecelãos de Le Fossat e faziam pães que vantagens em se manter viúva ou casar novamente. Uma
vendiam a outros aldeões. Mulheres como Marguerite, dita esposa de Artigat jamais poderia esperar alcançar a posição
La Brugarsse, de Le Carla, emprestavam pequenas quantias de Rose d'Espaigne, senhora de Durfort, uma nobre herdei-
de dinheiro, ao passo que as esposas e viúvas de pequenos ra que comprava terras e atormentava seus meeiros instala-
comerciantes rurais, como Bertrande de Gouthelas e · S~zan­ dos a leste da aldeia. Mas podia esperar desfrutar do respei-
ne de Robert, de Le Fossat, vendiam quantidades· conside- to das outras aldeãs e retirar do seu estado de viúva um
ráveis de trigo, painço e vinho. Naturalmente exerciam o certo poder informal; receber o título honorífico de Na e
ofício de parteiras e, ao lado de alguns cirurgiões, dispen- ser livre para outorgar um vinhedo a um filho recém-casado
savam cuidados aos doentes. 5 . . . ~
'
e meias a todos os seus afilhados e afilhadas.
As mulheres, ao enviuvareJill, dependiam da boa vonta- As mulheres parecem ter se adaptado ao sistema, afrou-
de dos seus maridos e filhos. Em princípio, o costume do xando-o graças ao profundo laço e cumplicidade secreta en-
Languedoc garantia à viúva a recuperação do dote que trou- tre mãe e filha. Esposas, faziam dos maridos seus herdeiros
xera, aumentado em um terço do seu valor. De fato, em universais. Viúvas , preferiam os filhos às filhas, como her-
Artigat e nos burgos e aldeias vizinhas , os contratos de casa- deiros. Sentiam-se gravemente ofendidas e exigiam repara-
mento não se pronunciam a respeito. Só prevêm os direitos ção quando tratavam-nas de bagasses , isto é, prostitutas.
50 O RETORNO. DE MARTIN GUERRE A Honra de Bertrande de Rols 51

Uma boa mulher de Le Fossat arrastou sua vizinha à justiça Martin . Viúvo com filhas, casou-se com a mãe de Bertrande,
não só porque esta lhe batera durante uma briga por . uma que igualmente perdera o marido.~< Seu contrato de casa-
questão de galinheiros, mas também porque chamara-a de mento pertencia àquela categoria especial dos contratos fir-
''galinha'' .7 mados com a reunião de dois lares. A mãe de Bertrande,
Tais eram os valores em que Bertrande de Rols cres- sem dúvida, trazia o dinheiro e os bens que lhe deixava o
cera. Em todas as vicissitudes que iria atravessar, Bertrande · defunto em caso de segundo casamento; Pierre deve ter se
jamais manifestou a mínima veleidade de se diferenciar ou comprometido a sustentar Bertrande e seu filho Sanxi e, in-
se destacar da sociedade de sua aldeia. Contudo, empenha- dubitavelmente, terão decidido partilhar as novas aquisi-
va-se em seguir seu próprio caminho. Pode ter sido influen- ções. A casa vizinha onde tinham vivido o antigo senhor e
ciada pelo exemplo de sua sogra, uma dessas mulheres base o jovem senhor provavelmente foi alugada com um contrato
cas donas de si. Muitas vezes herdeiras e exercendo uma a curto prazo (ninguém esperaria que a jovem Bertrande,
autonomia de pleno direito, eram famosas pelo seu "atrevi- em tais circunstâncias, fosse conservá-la), e· Pierre Guerre
mento" e, mais tarde, engrossariam as fileiras das "feiticei- tornou-se chefe de uma família essencialmente composta de
ras" .8 mulheres, em suas próprias terras.
No mesmo momento em que se instaurava um novo O estatuto de Bertrande perdera muito do seu brilho
tipo de relação entre Bertrande, agora mãe de um filho, e com todos esses acontecimentos. Nem esposa nem viúva,
sua sogra, Martin Guerre desaparecia sem deixar rastos. Era vivia novamente na casa de sua mãe. Nem esposa nem viúva ,
a catástrofe. Mesmo entre os camponeses amigos de mexe- devia enfrentar as outras mulheres no moinho, na olaria,
ricos, o desaparecimento inesperado de um membro erm- nas vindimas. E a lei poucas escapatórias oferecia. Desde o
nente de sua comunidade perturbava os espíritos, deixando pontificado mais brando de Alexandre III no século 12, os
um vazio inquietante entre os jovens casais. doutores da Igreja tinham decretado que uma mulher não
Para os Guerre, que não eram do lugar, era umnov() podia se casar novamente na ausência do marido, qualquer
escândalo a ser esquecido. Os pais de Martin morreram sem que fosse a duração de tal ausência, exceto se tivesse provas
notícias do filho. O velho Sanxi acabara por perdoar; legava seguras de sua morte. Das duas tradições simultâneas no di-
;. a Martin sua propriedade de Hendaye e as terras de Artigat. reito civil, foi a mais rigorosa, a de Justiniano, que preva-
Os notários locais então sabiam como proceder enquanto leceu. O Tribunal de Toulouse invoca-o em 1557, ao julgar
o herdeiro universal·estivesse "ausente da presente região": um caso de casamento: "Durante a ausência do marido, a
"se- estivesse morto ou não voltasse", havia outros designa- mulher não pode voltar a casar: a menos que tenha prova
dos para substituí-lo. Entrementes, Pierre Guerre era o de sua morte. . . Nem mesmo quando ele tenha ficado au-
administrador das propriedades do seu irmão e tutor das sente vinte anos ou mais ... E a morte deve ser provada por
irmãs solteiras de Martin. 9 * Coras não cita a data de casamento de Pierre Guerre e a mãe de Ber-
Ao longo desses anos, provavelmente no início de trande (pp. 67-8), mas esta parece a mais plausível. Jamais se referiu às filhas
1550, após o vazio deixado pela morte do velho Sanxi, de Pierre como irmãs ou meia-irmãs de Bertrande, portanto deviam ter nascido
do casamento anterior. Quaisquer que fossem as disposições financeiras testa-
Pierre Guerre esforçou-se por salvaguardar as relações entre mentárias que seu marido possa ter tomado em relação a ela, a mãe de Ber-
os Guerre e os Rols e por ajudar a mulher abandonada de trande, devido à posição de sua filha, tinha interesse em se casar novamente.
52 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

testemunhas, que depõem com certeza ou grandes e eviden-


tes suposições" .10
Naturalmente , os camponeses podiam tentar contornar
a lei (jamais se privaram disso) e forjar uma história de mor-
te por afogamento ou na guerra, ou simplesmente ignorar
a lei, bastando que houvesse na aldeia um padre compreen- 4
sivo. Mas Bertrande afastou essa solução. Seu interesse ma-
terial mantinha-a ligada ao seu filho e ao que, um dia, seria As Máscaras de Arnaud du Tilh
sua herança; além disso, possuía um senso inflexível de sua
dignidade e reputação. Indiferente às investidas e convites, ····-@-·· ··
a bela jovem vivia (todos os testemunharam depois) "vir-
tuosa e honradament e" .11
Sempre trabalhando, ela criava seu filho Sanxi e espe-
rava. Talvez tenha sido amparada em sua solidão pelas suas
quatro cunhadas e a sábia velha que a aconselhara durante
D guedoc,
U TILH ERA um nome comum na Gasconha e Lan-
ouvido com muita freqüência na diocese de
Lombez, onde nascera Athaud . Seu pai, Arnaud Guilhem du
seu "enfeitiçamen to". Os curas que se sucederam a Jacques
Boeri na igreja de Artigat não pertenciam a famílias locais e Tilh, era originário da aldeia de Sajas; sua mãe, em solteira
nem sempre residiam na paróquia; Bertrande só podia con- Barrau, vinha da aldeia vizinha de Le Pin. Esses lugares se
encontravam a noroeste da diocese de Rieux, bem adiante
fiar seus desgostos a Santa Catarina, cuja capela se encon-
de Garonne; uma boa jornada a cavalo separava Sajas de
trava no cemitério. 12 Mas certamente terá refletido sobre sua
Artigat.
existências, que dividia em três partes, conforme expôs poste-
riormente ao juiz de Rieux: os nove ou dez anos de sua in- Os contemporâneos de Arnaud chamavam essa região
fância, os nove ou dez anos do seu casamento, os anos de de Comminges . "Fértil em trigo", escreverá seu compatrio-
sua espera que ascendiam a oito, e talvez mais .13 Além de ta François de Belleforest, "fértil em vinho, frutas, feno,
uma vida de mulher que teria apenas um curto período de óleo de noz, painço e outras coisas necessárias à vida huma-
sexualidade, além de uma união com um marido que não a na. [A região de Comminges] abunda em homens e estes
compreendia, sem dúvida temia-a e, em todo o caso, abando- valentes e guerreiros ao máximo. . . com uma infinidade de
nara-a, Bertrande sonhou com um esposo e amante que vol- grandes burgos e ricas aldeias e castelos antigos, aí havendo
taria e seria diferente. Foi então que, no verão de 1556, um tanto ou mais nobreza do que em qualquer outro lugar da
homem se apresentou a ela como o Martin Guerre há tanto França." 1
tempo perdido. Este homem antes era conhecido pelo nome Arnaud du Tilh provavelmente descreveria sua provín-
de Arnaud du Tilh, dito Pansette. cia em termos menos bucólicos. Sajas tinha seu senhor Jean
de Vize , ao qual se sucedeu o filho Séverie . A antiga casa
de Comminges-Péguilhan possuía o senhorio de Le Pin . Isso
significava, além dos pagamentos usuais, o direito de inter-
54 O RETORNO . DE MARTIN GUERRE As Máscaras de Arnaud du T ilh 55

ferir na vida da aldeia, como por exemplo em Mane, onde entre meninos com quem se entendia bem. Baixo e encor-
os senhores se empenhavam em limitar as liberdades dos pado, não se destacav_a especial~ente nas justa~ "e j_ogos ?a
habitantes, opondo-se por exemplo à abertura de uma taber- aldeia. Em contrapartida, seduzta pela sua eloquenc1a e dts-
na e um açougue. "A abundância de gente" não significava punha de uma memória assombrosa ~e, c_ausar inv_eja a um
apena~ reforços de mão-de-obra para os trabalhos no campo, ator. Era o tipo de menino que os v1gar1os de SaJas - os
mas atnda uma pressão sobre as terras disponíveis. Na dio- únicos na aldeia que sabiam assinar seus nomes - notavam
cese de Lombez., com muita freqüência os notários tinham pelas suas aptidões e enviavam à escola para fazer dele um
de preparar contratos de parceria. 2 futuro padre.
5

No entanto, a região conhecia uma intensa átividade Com Arnaud teriam arriscado uma amarga decepção.
econ~mica dentro da órbita de Toulouse. Os camponeses O rapaz se destacou "
' como um "deb och ado " , "de ma, v1"da.,
de SaJas eLe Pin iam a Rieumes e, adiante, a Isle-en-Dodon, "consumado em todos os vícios". Isto é, cet.:tamente bebta
~ombez, <?imont e Toulouse, para comprar ou vender trigo, e se divertia na taberna com as moças de Rieumes, e talvez
vtnho, teCidos e madeira; receber en gasailhe cabras car- também freqüentasse as meretrizes de Toulouse, _Ape~ida­
neiros e bois; e entregar a lã bruta e as peles. Sajas er; uma ram-no Pansette ("barriga"), devido aos seus apetites Imo-
das menores aldeias de Rieumes. Em suas colinas e encostas derados: devia ser louco por carnavais, bailes de máscara,
disseminavam-se trinta ou quarenta famílias, lavradores e dançase todos os divertimentos das "abadias de juventude"
pastores em sua maioria, trabalhadores dedicados a tecer o (grupos de jovens) que ocupavam um lugar tão considerável
li-?ho e al~ns outros artesãos rurais. Maior que Sajas, Le na vida das aldeias da Gasconha. Tinha o sangue quente e
Ptn oferecta um mostruário mais amplo de ofícios ainda estava sempre pronto a jurar pela cabeça, corpo, sangue e
que, até o século 17, provavelmente não contasse c~m ne- -., chagas de Cristo, blasfêmias certamente menos graves do
nhum notário residente na aldeia. 3 que as que punham em causa a Virgem ~aria, mas mes~o
Os du Tilh e os Barrau eram famílias totalmente co- assim bastante sérias para que se associasse seu nome as
muns nesse pequeno mundo. Em 1551, durante uma visita pessoas desordeiras, jogadores de cartas e trapaceiros. A as-
diocesana, rião figuram entre os cônsules e bassiniers de suas túcia de Pansette era tão maravilhosa que até chegaram a
aldeias, ao lado dos Dabeyrat, Dauban, de Soles e Saint- suspeitar de magia, acusação quase lisonjeira se se pensar
Andrieu, que deliberavam sobre questões locais e geriam os que não se dirigia a alguma velha solitária, mas a um rapaz
fundos paroquiais. Os du Tilh ocupavam um lugar inter- de vinte anos. 6
mediário na sociedade aldeã; possuíam campos e vinhedos À sua maneira Arnaud du Tilh não se adaptava ao
suficientes para que, com a morte de Arnaud Guilhem mundo camp~nês d~ família e às propriedades da mesma
quando a propriedade seria dividida igualmente entre os fi~ forma que Martin Guerre em Artigat. f:mbora suas pr?ezas
lhos (em Sajas eLe Pin, era o mesmo costume de Artigat), conduzissem-no a Pouy-de-Touges e ate Tolouse, ardta de
restasse uma parcela de terra para Arnaud. 4
vontade de alcançar o universo além das colinas ~a dioce~e
A única coisa que distinguia os du Tilh do conjunto de Lombez. Sempre poderia se unir às tropas da mfantana
dos outros aldeões era o seu filho Arnaud. Sua juventude real esses "aventureiros " entre os quais os gascões figura-
fora totalmente diferente da de Martin Guerre. Crescera vard com destaque. Os notários de Gimont muitas vezes
56 O RETORNO DE MARTIN GUERRE As Máscaras de Arnaud du Tilh 57

tinham de redigir os testamentos "dos soldados de guerra" esbelto e um pouco mais moreno do que Arnaud. Descobri-
da região. Após uma série de pequenos furtos, Pansette dei- l"am essa semelhança não por sua própria observação, mas
xou a aldeia para servir a Henrique II nos campos de ba- através de terceiros; no século 16, os aldeões praticamente
talha da Picardia .7 não tinham oportunidade de formar uma imagem de suas
fisionomias com freqüentes olhadas ao espelho (objeto que
não se encontrava numa casa camponesa). A revelação os
····-@-···· consterna, fascina-os, e como abundam os provérbios campo-
neses que estabelecem uma relação entre o feitio dos olhos
ou o desenho do maxilar e certos traços do caráter/ eles se
Será que os dois fugitivos em algum momento se en- perguntam se essa semelhança não iria além da simples apa-
contraram an_tes que du Tilh decidisse encarnar o persona- rência física. Trocam confidências. Martin se exprime com
gem ~e Martm Guerre? Em seu depoimento perante o juiz uma certa ambigüidade a respeito de sua herança e esposa,
de R1eux, Bertrande de Rols disse que poderiam ter sido talvez diga tacitamente ao seu sósia: "Fique com ela". E
colegas de regimento - "E estando o dito du Tilh como é Pansette pensa: "Por que não?". De qualquer forma, uma
provável, acompanhado na guerra pelo dito Martin' e deste das raras confidências de Pansette a um conhecido de Sajas
(sob prete~to de amizade) tendo ouvido várias coisas priva- durante seu período em Artigat é: "Martin Guerre morreu,
das e partlc~lares dele e de sua mulher", sugestão que for- deu-me seus bens". 10
neceu matenal a Coras para uma dissertação sobre a amizade É um roteiro possível, mas não é o que Arnaud du
traída . Um ponto do depoimento de Arnaud em Rieux dá Tilh finalmente confessou. Afirmou jamais ter encontrado
algum fundamento à hipótese de um encontro anterior entre Martin Guerre antes de vir a Artigat. Se disse a verdade,
os dois homens; é a sua enumeração dos lugares e pessoas o fenômeno de identificação é tanto mais assombroso ("mais
que Martin Guerre visitou na França e na Espanha durante maravilhoso", "mirabilis magis", dirá mais tarde Le S1JPur)
a sua _ausência, os quais foram todos verificados pela Corte. e psicologicamente mais provável: aí está toda a diferença
Essa mformação podia provir de Martin ou de outros que entre assumir a vida de um outro e limitar-se a imitá-la. Ele
o conheceram. Entretanto é difícil entender como poderiam voltou da Picardia ' por volta de 1553, sem dúvida após as
ser amigos íntimos no exército, visto que Martin estava batalhas de Thérouanne, Hesdin e Valenciennes. Um dia,
lutando pdo rei da Espanha, inimigo do rei da França, e passando por Mane sur le Salat, encontra dois amigos ín-
Arnaud deve ter voltado da Picardia antes mesmo de Mar- timos de Martin, messire Dominique Pujol e o estalajadeiro
tin ter deixado Burgos. 8 Pierre de Guilhet, que o tomam pelo desaparecido de Ar-
Contudo, os dois rapazes poderiam ter se conhecido em tigat.11
suas perambulações pela sua região ou alhures. Imagine- Então desperta o trapaceiro em Pansette. Informa-se
mos por _um momento, por puro exercício intelectual, o que com a maior habilidade possível sobre Martin Guerre, sua
se podena passar se o herdeiro de Artigat tivesse feito ami- situação, sua família e as coisas que costumava dizer ou fa-
zade com o camponês língua de ouro de Sajas. Perceberam zer. Serve-se de Pujol, Guilhet e "outros amigos familiares
que eram parecidos, embora Martin fosse mais alto, mais e
e vizinhos" dos Guerre, os dois primeiros, na realidade,
58 O RETORNO DE MARTIN GUERRE As Máscaras de Arnaud du Tilh 59

puderam até tornar-se cúmplices. 12 Naquele mundo movi- dores contavam a História de Três Irmãos: dois impostores
mentado, podia recolher informações na rede de boatos da tinham tentado reivindicar a herança do verdadeiro filho; b
aldeia sem precisar ir até Artigat - e eram abundantes; príncipe descobriu quem era o filho legítimo, ao ordehar qUe
incluindo detalhes íntimos como o lugar onde Martin dei- os três disparassem flechas contra o cadáver do pai . Gente
xara as meias brancas, num certo baú, antes de partir. de verdade também tentou. Em 1557, por exemplo, um cer-
Aprendeu os nomes de muitos aldeões, e os feitos e gestos to Aurelio Chitracha, originário de Damascus, veio a Lyon
de Martin ao longo dos d~z ou quinze anos anteriores. onde, valendo~ se do nome do falecido Vallier T rony, pôs-se
Adquiriu algumas noções sobre o Labourd e aprendeu algu- a embolsar as somas devidas a Trony, até qUe as freiras que
mas palavras de basco. O estudo do seu papel levou meses, tinham herdado os bens do defunto descobriram a impostura,
já que Arnaud só chegou em Artigat em 1556.>'< e foi preso. No mesmo ano, à distância de apenas algumas
· O que havia, então, de excepcional nas aldeias e burgos ruas, Antoine Ferlarz e Jean Fontanel anuncia_vam em alt:o·e
do século 16 quanto a se mudar de nome e adotar uma bom som chamar-se Michel Mure, e como cada um deles to-
nova identidade? Tais acontecimentos eram cotidianos. Os mara os préstimos de um notário, cada qual enviava recibos
Daguerre deixaram Hendaye, tornaram-se Guerre e muda- e recebia em seu nome, até que Mure descobriu o mistério. 14
ram seu modo de vida. Qualquer camponês que se estabe-
lecesse -ã -uma boa distância da região natal fazia o mesmo.
De resto, mesmo os que permaneciam no local podiam assu-
mir uma alcunha, um apelido. Em Artigat, essa alcunha era
ligada à propriedade; em Sajas, dependia da personalidade:
um dos camaradas de Arnaud na aldeia recebera a alcunha
de Tambourin ("tambor im"), como também Pansette. 13
Mas assumir uma falsa identidade? Por ocasião do
Carnaval ou outras festas, permitia-se que um jovem campo-
nês se fantasiasse de animal, mudasse de sexo e condição
social e se exprimisse através dessa máscara. Num charivari,
um aldeão podia desempenhar o papel de outro, apresentar-
se como a pessoa ridicularizada por um casamento desigual
ou suas infelicidades domésticas. Mas tratava-se de máscaras
temporárias, adotadas para o bem geral.
Havia, porém, embustes menos desinteressados: men-
digos em perfeita saúde que fingiam ser mancos ou cegos,
pessoas que usurpavam um nome falso para conseguir uma
herança ou desfrutar de alguma vantagem econômica. Narra-
1
'Não se sabe exatamente onde viveu Arnaud durante esse período prepa-
ratório. Talvez não tivesse voltado a Sajas e sua antiga "vida de deboches".
Máscaras de Guillame de La Perriere
Theatre des Bons Engins
60 O RETORNO .DE MARTIN GUERRE

Quanto a Arnaud, tinha algo a ganhar com sua instala-


ção em Artigat, pois a herança de Martin Guerre era mais
atra~nte do que a su~. Mas também é evidente que em seus
meuculos,os preparativos, sua investigação, memorização e
talvez ate em sua representação, Pansette ia além da más- 5
cara do ator carnavalesco e do embuste do caçador de heran-
ças; aspirava a forjar uma nova identidade e construir uma O Casamento Inventado
outra vida nessa aldeia às margens do Leze.
····~@~····

NOVO MARTIN não se dirigiu diretamente a Artigat.


O Como registra Le Sueur, instalou-se na hospedaria de
uma aldeia vizinha, provavelmente Pailhes. Contou ao hos-
pedeiro que era Martin Guerre e derramou lágrimas ao ouvir
notícias de ·sua mulher e família. O boato chegou aos ouvi-
dos de suas quatro irmãs, que correram à estalagem, sau-
daram-no com alegria e voltaram para buscar Bertrande.
Esta, porém, quando o viu, ficou surpresa. Só depois que
ele lhe falou com ternura, lembrando-lhe as coisas que ti-
nham feito juntos, mencionando as meias brancas, é que se
lançou em seus braços e o beijou. Fora a barba que a impe-
dira de reconhecê-lo imediatamente. Da mesma forma, Pier-
re Guerre examinou-o atentamente, sem querer acreditar
que fosse seu sobrinho, até que Arnaud fizesse alusões às
suas atividades passadas. Finalmente, apertou-o contra si e
agradeceu a Deus pelo seu retorno.
Mesmo então, o novo Martin não seguiu para Artigat,
permaneceu na hospedaria para descansar das fadigas da
viagem e se recompor de uma doença. (Le Sueur afirma que
estava com "sífilis" e demonstrava estranhos escrúpulos de
consciência ao proteger o corpo de Bertrande da doença, ago-
ra que estava prestes a contaminar sua alma e o leito con-
jugal.) Esse arranjo deu oportunidade a Bertrande para
62 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

cuídar dele e se habituar à sua presença. Isso lhe permitiu


aprender mais sobre o passado de Martin Guerre. Quando
se sentiu melhor, ela o levou a casa, acolheu-o como marido
e ajudou-o a reconhecer os aldeões.
A recepção que lhe reservou a aldeia não foi muito di-
ferente da dos seus parentes. Ele cumprimentava as pessoas
pelos nomes, e quando pareciam não o reconhecer, evocava
coisas que tinham feito juntos há anos. A cada um expli-
cava que servira ao rei de França, passara vários meses
na Espanha e agora estava desejoso de ficar novamente em
sua aldeia, com seus parentes, o filho Sanxi e, acima de tudo,
sua mulher Bertrande. 1

Acho que podemos explicar a aceitação inicial pela fa-


mília e vizinhos sem recorrer à feitiçaria de que posterior-
mente foi acusado e sempre negou. Antes de tudo, deseja-
va-se seu retorno a Artigat, de uma maneira talvez ambígua,
pois aqueles que voltam sempre frustram certas esperanças
e desfazem o equilíbrio de poder, mas, de modo geral, sua
reaparição respondia a uma expectativa. O herdeiro e chefe
de família Martin Guerre retomara seu lugar. Além disso,
voltava após ter-se anunciado, assim preparando Artigat
para reconhecê-lo como Martin Guerre. 2 Esse 'reconhecimen-
to era reforçado por sua arte de persuasão e pela exatidão
de suas lembranças . É verdade que não apresentava total-
mente a mesma aparência que tinha ao partir, e sem dúvida
não tinha a mesma linguagem do antigo Martin Guerre. Mas
os Guerre não tinham retratos com que pudessem compará-
lo e era natural que um homem mudasse ao envelhecer, e
que a vida de soldado transformasse um camponês. Assim,
quaisquer que fossem as dúvidas sobre sua identidade, os
habitantes de Artigat guardaram-nas para si ou até enterra-
ram-nas por algum tempo, permitindo que o novo Martin en- Um casal rural de Roussillon, sul de Artigat, 1529,
trasse na pele do seu personagem. · extraído de Das Tractenbuch des Christoph W eiditz
64 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Casamento Inventado 65

E quanto a Bertrande de Rols? Saberia ela que o novo que ele não é seu marido, aceitará que os juízes submetam-
Martin não era o homem que a abandonara cerca de oito no "a mil mortes cruéis" .5
anos antes? Talvez não de imediato, quando ele se apre- Em dias mais_felizes, conversavam muito. Foi "ao con-
sentou com todos os seus indícios e provas. Mas a obstinada versar dia e noite juntos" que o novo Martin enriqueceu a
e honrada Bertrande não parece ser uma mulher que se deixe coleção de suas informações sobre Bertrande, os Guerre e
enganar facilmente, mesmo por um sedutor como Pansette. Artigat. Trocas tão íntimas entre marido e mulher corres-
Uma vez acolhido ao leito, ela deve ter notado a diferença; pondiam, no século 16, ao ideal dos humanistas cristãos e
todas as mulheres de Artigat estariam de acordo sobre esse moralistas protestantes, praticadas, se é que o eram, em fa-
ponto: "o toque" do homem não pode enganar a mulher. 3 O mílias de nível mais elevado que as de Artigat. Mas, como
que Bertrande encontrava no novo Martin era a possibilidade Le Roy Ladurie já mostrou em relação a um período ante-
de realizar seu sonho: um homem com quem viveu três anos rior, o gosto dos occitânios pela conversa nã<? se expressava
em paz e amizade (para citar os ideais do século 16) e paixão. apenas em serões en_tre vizinhos, mas também nas frases tro-
Era um casamento inventado, não arranjado como o cadas entre amantes. 6 O novo Martin certamente teve outros
que contraíra há cerca de dezoito anos, ou de conveniência, assuntos de conversa com Bertrande, além de colheitas, car-
' como o de sua mãe e Pierre Guerre. Começara com uma neiros e filhos. Entre outras coisas, pode-se conjeturar que
mentira, mas, como mais tarde dirá Bertrande, passavam decidiram tornar permanente o casamento inventado.
seu tempo "como verdadeiros casados, comendo, bebendo e Tal ato era mais facilmenté justificável para pessoas
deitando geralmente juntos". Segundo Le Sueur, o "Pseudo que tinham às costas séculos de práticas camponesas que vi-
Martinus" vivia em paz com Bertrande, "sem brigar se e savam a conciliar os rituais populares com a lei católica do
conduzia para com ela de maneira tão irreprovável que nin- casamento. Desde o final do século 12 até 1564, o que va-
guém suspeitaria de nenhuma trapaça". No leito conjugal lidava um casamento segundo o direito canônico era o con-
da bela Bertrande, agora as coisas iam bem. Em três anos, sentimento mútuo, e apenas ele; se os parceiros aceitavam
nasceram duas filhas, das quais uma, Bernarde, sobreviveu tomar-se mutuamente como marido e mulher de verba pre-
e se tornou a irmãzinha de Sanxi. 4 senti, mesmo na ausência de padres ou testemunhas, troca-
A t-.;;_nura entre o novo Martin e Bertrande manifesta- vam os penhor~s do seu assentimento e, sobretudo se se
se mesmo durante o período em que o casamento inventado conheciam carnalmente, estavam unidos por um casamento
é contestado. Tudo, então, evidencia que se apaixonou pela indissolúvel. A Igreja desaprovava essa via "clandestina"
esposa para quem representou a comédia e ela, por sua par- do casamento;" mas ainda existiam pessoas, principalmente
no campo, que, por razões pessoais, tinham recorrido a ela:
te, apegou-se profundamente ao marido que a tomou de sur-
presa. Ouando, entre dois autos, ele sai da prisão, ela lhe '' Como disse Béatrice 'Gottlieb "os casuístas e os homens da lei tratavam
dá uma camisa branca, lava-lhe os pés e recebe-o em seu o casamento clandestino como um p~cad~ e um mal" [The Meaning of Clandes-
tine Marriage", in R. Wheaton e T . K. Hareven (org.), Family and Sexuality
leito. Quando tentam matá-lo, ela se interpõe entre ele e in French History (Filadelfia, University of Pennsylvania Press, 1980), p. 521.
seus agressores. Perante os juízes, dirige-se "docemente" a Era um mal devido aos numerosos casos de queixas registradas por ruptura
de promessa ou bigamia, que passavam pelos tribunais eclesiásticos . Como
ela; põe sua vida nas mãos dela, dizendo que, se ela jurar fazer para estabelecer a prova na ausência de testemunhas? Na última sessão
66 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Casamento Inventado

menores a quem os pais recusavam o consentimento; con- vertidos deixavam Pamiers e Le Mas-d' Azil, seguindo para
sangüíneos que não conseguiam obter permissão especial; Genebra. Depois de 1557, o movimento aumentou, e em
um homem ou uma mulher com desejos de manter um con- t5 61, Le Mans, encorajado pelo exemplo de sua condessa
tato carnal e que só dispunham de tal meio: um dos dois protestante Jeanne d'Albret, declarou-se cidade Reformada .
parceiros já tinha marido ou mulher em outro lugar .7 Ainda mais perto de Artigat, Le Carla tornou-se um bastião
Tal tradição não oferecia uma solução eficiente ao ca- da Igreja Reformada. A agitação também reinava nas al-
sal de Artigat. Afinal, o novo Martin assumira uma identi- deias e burgos às margens do U:ze. Um católico extremado,
dade falsa; quanto a Bertrande, tentava conciliar uma even- como Jacques de Villemur, senhor de Pailhes, conduzia seus
tual bigamia com seu senso de honra, para nem falar de camponeses com mão de ferro, mas em 1563 Le Fossat con-
sua consciência. Mas oferecia-lhes a ·possibilidade de conce tava com um grupo importante de famílías "suspeitas da
ber o casamento como um ato que dependia de sua vontade, nova religião". Em 1568, na igreja de Art.igat, os ídolos
e apenas dela. foram quebrados e o altar saqueado, não só pelos soldados
Aquilo que, segundo o dogma católico, não H ,·s per- Reformados, mas também por convertidos locais .. Referin-
tencia de forma alguma eram as suas almas. Emhor~ .:tmbos do-se a esse episódio, uma visita diocesana posterior fala do ·
pudessem considerar sua conduta culpada, é pouco provável período em que "os habitantes do dito lugar de_ Artigat
que tenham confessado seus pecados aos curas de Artigat ou . eram huguenotes " .8
Bajou. Todos os relatos apresentam-nos como um casal res- Um movimento de tal amplitude ~ão pode nascer do
peitável durante os anos desse casamento pacífico; aliás, um nada. Isso significa que, dez anos antes, em meio àquelas
padre que, na confissão da Páscoa, viesse a saber que o novo trocas que uniam Artigat a Pamiers, Le Fossat, Saint-Ybars,
Martin não era senão Pansette, tê-los-ia excomungado como Le Carla e Le Mas-d' Azil, as idéias protestante~ circulavam
adúlteros , a menos que concordassem em se separar ime- juntamente com a lã, o trigo e o vinho. Significa que Anto~­
diatamente. Isso nos leva a colocar a questão do protestan- ~e Caffer, pastor de Genebra que em 1556 pregava no c~ml-
tismo em Artigat. É possível, e até provável, que o novo ''ltério de Saint-Vicent, em Foix, também passou por Arugat.
Martin e Bertrande de Rols tenham se interessado pela nova Significa que na aldeia alguém possuía um Novo Testamento
religião, quando menos para daí extrair alguma justificativa reformado ou um libelo protestante redigido em 'francês,
para suas próprias vidas. que lia em voz alta em langue d'oc para seus . viz~nhos.
Prosélitos protestantes difundiam , por volta de 1536, Mesmo continuando a batizar as crianças segundo o nto ca-
suas pa"lavras no Condado de Foix, e desde 1551 os con-
tólico , alguns ouvintes esperavam com impaciência o dia em
do Concílio de Trento em 1564, a Igreja decretou que, para que um casamento que um pastor protestante tomaria o lugar do cura. Entre-
fosse válido, teria de contar com a assistência de um padre com os procedi- mentes, o clero local não tinha como reagir. Quando Messire
mentos adequados . Foi preciso muito tempo para que o clero conseguisse acabar. Pierre Laurens de Le Caylar tornou-se prior de Artigat, por
com a prática mais antiga. Na França, o principal motivo de reprovação era
que o casamento clandestino permitia que os filhos contraíssem uma união volta de 1553, tinha à frente um candidato rival: só o Tri~
válida e indissolúvel sem o consentimento dos seus pais . Em fevereiro de 1557, bunal de Toulouse pôde resolver o caso. (0 mesmo aconte-
Henrique 11 promulgou um édito sobre os casamentos clandestinos, que seria
tema de um tratado de Jean de Coras. Sobre essa questão, ver diante, capí- ceu a Messire Dominique de Claveria em 1540, e Messire
tulo 10. Jacques Boeri, em 1530). O cura da paróquia de Baiou, um
68 O RETORNO . DE MARTIN GUERRE O Casamento Inventado 69

dos irmãos Drot, oriundo de uma família modesta, pouco Que esperança oferecia a mensagem protestante ao novo
peso tinha na aldeia. 9 Martin e a Bertrande durante os anos que viveram juntos
Quais são as provas de que nosso casal inventado tenha como "verdadeiros casados"? A de poder contar sua histó-
sido tocado pela nova fé? Em primeiro lugar, a família Rols ria a Deus, sem intermediários. A de que a vida que tinham
se converteu ao protestantismo: deram a seus filhos nomes forjado voluntariamente fizesse parte da providência divina.
tomados ao Antigo Testamento, como Abraham, e no século Talvez tivessem ouvido alguns ecos das novas ordenações
17, quando os habitantes de Artigat, em sua maioria, eram sobre o casamento, promulgadas em Genebra a partir de
bons católicos, os Rols ainda· iam a Le Carla para ouvir as 1545. Lá, o casamento não era mais um sacramento e uma
pregações da Igreja Reformada. 10 Quanto ao novo Martin, n.1ulher abandonada por seu marido, "sem que a dita mu-
duvido que em sua chegada a Artigat já viesse penetrado lher tivesse dado ocasião ou fosse culpada disso", podia,
pelo novo Evangelho. O bispo de Lombez, Antoine Olivier, ~fÓS uma investigação de um ano, obter do. Consistório o
era tido como simpatizante protestante e havia um forte divórcio e a autorização para um segundo casamento. 13
movimento protestante na diocese de Arnaud, 11 mas o ex- Mas, se se apoderaram de tais idéias para aplicá-las ao
soldado Arnaud du Tilh, entre 15.53 e 1556, tinha mais coi- seu caso, devem ter compreendido que não havia saída para
sas a fazer e talvez nem residisse em Sajas nessa época. Eu eles. Como explicar a um Consistório Reformado a ressur-
me inclinaria antes a pensar que foi em Artigat que seu es- reição de Arnaud du Tilh como Martin .Guerre? O n~v?
pírito se abriu às novas idéias, onde a vida que construíra Martin obtivera, pelo menos por algum tempo, a cumphcl-
para si operava como uma conversão, afastando o blasfema- dade de Bertrande de Rols, mas poderia um impostor con-
dor, o rapaz "de má vida", se não totalmente o trapaceiro. tar com os outros habitantes de Artigat?
Como quer que fosse, é significativo que nenhum pa-
dre de Artigat ou Bajou tenha desempenhado um papel im-
portante nos processos do novo Martin em Rieux e Toulou-
se. Talvez estivessem presentes entre as cento e oitenta teste-
munhas que foram ouvidas ao longo do processo, mas seus
depoimentos não constam do relatório oficial de Coras, onde
estão registrados todos os dados essenciais. Outro fato sig-
nificativo é o respeito manifestado pelo novo Martin em
relação aos dois conselheiros encarregados do seu interroga-
tório, Jean de Coras e François de Ferrieres, protestantes
assumidos que viriam a ser os defensores mais firmes do
protestantismo no Tribunal de Toulouse. Pediu para ser
ouvido por eles numa última confissão que não fazia refe-
rência a nenhuma fórmula católica, nem aos santos, mas
implorava apenas a misericórdia de Deus para os pecadores
que esperavam em Cristo crucificado. 12
6
Querelas
· ··-@-····

NOVO MARTIN era não só marido, mas também


O herdeiro, sobrinho e importante proprietário camponês
em Artigat. Foi aí que as coisas se complicaram.
A casa que outrora pertencera ao velho Sanxi Guerre
agora tornou-se o lar do novo Martin. ,., Suas duas irmãs
solteiras provavelmente vieram morar com ele, como seria
de se esperar pelo costume basco. De lá participavam, ele
e Bertrande, do mundo aldeão de hospitalidade, apadrinha-
mento e trocas, recebendo e fazendo visitas a Pierre Guerre
e sua mulher (a mãe de Bertrande, lembremo-nos), às irmãs
casadas de Martin Guerre, ao irmão de Bertrande e outros
vizinhos e amigos que mais tarde deporiam sobre sua iden-
.· tidade. Catherine Boeri, que anos antes trouxera a ineficaz
poção ao leito conjugal de Bertrande, os Lozes de Pailhes,
a família Del Pech, seleiros de Le Carla, James Delhure e
sua mulher Bernarde Arzel de Pamiers e Artigat (Bernarde
talvez fosse a madrinha do bebê Bernarde Guerre), todos
faziam parte do seu círculo de famílias rurais prósperas, 1
O ingresso na vida rural não foi difícil para o novo
Martin; o trigo, o painço, vinhedos e rebanhos já lhe eram
conhecidos na diocese de Lombez. Também havia olarias
··· A propósito deste caso ver a nota 11 , des te capítulo à pág. 171.
72 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Querelas 73

de telhas nos arredores de Sajas, mas como os tijolos não modos - "em belas palavras" que o talentoso Pansette
são citados entre as transações do novo Martin, é possível sempre tinha na ponta da língua - , mas suspeitava que
que Pierre Guerre mantivesse o controle sobre essa empre- Pierre retinha uma parte da herança, e de qualquer. forma
sa familiar. O impressionante era como o novo Martin im- queria os lucros que Pierre dela extraíra. Por muito tempo,
primia agora uma direção comercial no desenvolvimento dos brincaram jovialmente com o assunto, mas finalmente, no
bens dos Guerre; tornou-se um "comerci ante" rural como fim de 1558 ou início de 1559, o novo Martin abriu um
Jean Banqueis, lidando com cereais, vinho e lã de uma processo civil contra Pierre perante o juiz de Rieux. ~<
ponta à outra do U:ze e mesmo além. Em Artigat, seria Tais litígios não eram desconhecidos entre as famílias
difícil tornar-se senhorio e dirigente de uma grande pro- camponesas. Pelos costumes do Labourd, seria de se esp~­
priedade - o caminho de maior êxito para um capitalista rar que Pierre fizesse um inventário sobre os bens do sobn-
rural no Languedoc - , pois não havia nenhuma proprie- nho no início de sua administração e depositasse uma cau-
dade nobre ou eclesiástica em sua jurisdição. Talvez tenha ção como garantia de que os devolveria em boas condições.
conseguido se incluir entre os homens que arrendavam Na diocese de Rieux as viúvas com direitos sobre os bens
terras senhoriais de Artigat em 1558 ... 1559 (há uma la- dos maridos prestav;m contas aos seus filhos, quando atin-
cuna nos relatórios desses anos), mas certamente envolveu- giam a maioridade, a menos que o marido tivesse declarado
se na compra, venda e arrendamento de terra. Isso signi- especificamente que elas "não deviam ser molestadas". Na
fica que ele tentou tirar vantagem comercial das proprie- verdade, em Artigat, o repasse amistoso da prestação de
dades que Sanxi Guerre pacientemente adquirira em Arti- contas e rendimentos da propriedade pelo tutor fazia-se pe-
gat e legara ao seu herdeiro Martin. 2 rante um notário, de modo a não haver mal-entendidos. 4
Bertrande de Rols deve ter apreciado esse novo rumo Para Pierre Guerre, porém, o novo Martin tinha se
dos acontecimentos, pois a mulher de um comerciante. ru- excedido. Talvez achasse que as circunstâncias da ausência
ral muitas vezes tornava-se, ela também, comerciante. Mas de Martin não o autorizavam a nenhum rendimento. Talvez
Pierre Guerre começou a se desagradar. Inicialmente, ficara achasse que um sobrinho que tinha "criado desde a infân-
feliz com a volta do sobrinho à aldeia e gabara-se dele junto cia" não devia exigir tais acordos contratuais e seguramente
aos seus amigos íntimos, como Jean Loze, um cônsul de não devia recorrer à litigação. Talvez o velho patriarca se
Pailhes. A seguir, o novo Martin começou a vender parce- indignasse com o desafio à sua autoridade; ele dissera não,
las dos propres, uma prática não estranha ao ativo mercado e isso significava não. Talvez fosse simplesmente o que o
fundiário do vale de Leze, como vimos, mas avessa ao cos- novo Martin dizia ser - "avareza ", desejo de manter os
tume basco. Quando propôs arrendar, ou até vender, algu-
bens e rendimentos para sua própria casa, filhas e genros.
ma propriedade em Hendaye, Pierre Guerre deve ter se
horrorizado. 3 '' Tudo o que Coras nos relata ' sobre o desfecho desse processo é que o
novo Martin "foi obrigado a processar (Pierre Guerre) e pela justiça buscar
Nesse ínterim, Martin tomou uma atitude que desen-
a recuperação dos seus ben~: mas quanto aos frutos e prestaçã6 de contas,
cadeou a poderosa cólera dos Guerre. Pediu a Pierre que aquele Pierre Guerre tio não queria nem ouvir falar" (Arrest , pp. 33-4). Parece
lhe prestasse contas sobre os bens que administrara para o ser um compromisso onde Pierre concorda em lhe devolver o resto da herança,
s0brinho, após a morte do velho Sanxi. Pediu-lhe com bons e em troca Martin renuncia a exigir a prestação de contas e o saldo das rendas.
74 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Querelas 75

De qualquer forma, as dúvidas que o esperto Martin des); os genros de Pierre insistiam que o novo Martin era
acalmara em sua primeira aparição agora se revelavam às um embusteiro. (0 que o irmão de Bertrande disse não foi
claras e proliferavam na mente de Pierre. Por que esquecera registrado.) Bertrande se mostrou feroz na defesa de "Mar-
tantas expressões bascas, algumas das quais devem ter tin Guerre [como] seu marido": "É Martin Guerre, meu
acompanhado toda a sua infância? Por que não se interes- marido [teria dito] ou algum diabo em sua _pele. Conheço-o
sava mais por esgrima e exercícios físicos? Aquele corpo bem. Se alguém é tão louco para dizer o contrário, farei
robusto que aceitara como a forma adulta do seu sobrinho com que morra". E quando Pierre Guerre e seus genros
agora parecia-lhe estranho. Quando observava Sanxi, o me- bateram nele com um cacete, Bertrande o protegeu, como
nino não se parecia com o homem que partilhava o leito de foi dito, com seu próprio corpo.
6

Bertrande. Acima de tudo, "o basco é fiel". Por um peque- Os cônsules de Artigat, sem dúvida, discutiram o caso
no furto de trigo do seu pai, Martin Guerre .abandonara de Martin Guerre em muitas reuniões na prima~era e verão
seu patrimônio em desonra. Agora um impostor estava a de 15 59. Com a opinião da aldeia tão dividida; nunca po-
roubá-lo desavergonhadamente do seu herdeiro. 5 deriam ter arbitrado a disputa. Para alguns, o novo Martin
Pierre convenceu sua mulher e genros da terrível ver- era um íntegro pai de família, marido e comerciante rural
dade. A mãe de Bertrande estava de pleno acordo com seu injustamente vilipendiado por um tio ganancioso; para ou-
marido, não só como esposa obediente, mas também como tros, era um hábil impostor que maculava a reputação de
mulher prática e boa mãe, devotada aos melhores interesses uma família honesta. Outros ainda estavam incertos quanto
de sua filha. Não implorara, há anos que Bertrande se sepa- à verdade. De ~mbos os lados, a família rural é valorizada,
rasse de Martin e contraísse uma união melhor; durante seus mas os primeiros dão mais peso às aspirações da geração
anos de irppotência? Agora devia salvar sua filha da desonra mais jovem em sair e ver o mundo por algum tempo e em
do adultério. Juntos, pressionaram Bertrande a levantar um gerir seus bens por conta própria; ao passo que os outros
processo contra o homem com quem vivia. Bertrande dão mais peso às decisões dos mais velhos e a longa conti-
recusou-se obstinadamente. nuidade dos comportamentos familiares.
Durante todo o ano seguinte, e ainda mais, a família Seria interessante saber se tal divergência de opiniões
Guerre se manteve dividida, · e a querela espalhou-se por correspondia a algumas outras diferenças que atravessavam
toda a aldeia e arredores. Pierre Guerre saía dizendo a a sociedade aldeã. Coras diz-nos que o número de defenso-
todos que o novo Martin era um impostor que o enganara. res do novo Martin era equivalente ao de Pierre Guerre
Pediu ao seu 'amigo Jean Loze que o ajudasse a juntar di- em Artigat e arredores, mas fora da f~mília Guerre cita
. nheiro para mandar matar o impostor. Loze recusou-se, posições específicas em apenas três cas.os: Catherine Boeri
chocado. i Martin saiu dizendo que seu tio inventara essa e Jean Loze defendiam Martin, e o sapateiro defendia Pier-
história porque ele lhe pedira as contas O sapateiro da al- re. O certo é que Artigat não se estruturava por linhas clâ-
deia perguntou, por quê,_ se ele era Martin Guerre, seus pés nicas estritas, como as que dividiam Montaillou entre os
tinham diminuído tanto com os anos. As irmãs de Martin · Clergue e os Azéma há cerca de duzentos e cinqüenta anos.
insistiam que' o novo Martin era seu irmão (talvez preferis- Possuía instituições políticas que antes favoreciam alianças
sem-no ~o tio, como chefe da família e de suas proprieda- entre as famílias influentes em Artigat e aldeias vizinhas.
~I

76 O RETORNO .DE MARTIN GUERRE Querelas 77

Os Banqueis, os Loze e os Boeri tinham seus próprios cír- (talvez o enfeitasse) capaz de surpreender os juízes. (A pro-
culos e dependentes, mas, conforme podemos ver pelos con- pósito, Coras diria mais tarde que era "muito mais fácil
t~atos notariais, eles se sobrepunham. As brigas que sur- de entender do que relatar ou escrever" .9)
giam, como esta, nem sempre seguiam estritas linhas fami- Nesse momento, irrompeu um outro golpe teatral.
liares.7 Se eu tivesse de arriscar um palpite sobre o caso Uma fazenda arrendada em parceria, de propriedade de Jean
· Martin Guerre, seria o de que os simpatizantes protestantes d'Escornebeuf, senhor de Lanoux, incendiou-se, e ele acusou
locais tendiam a acreditar no novo Martin e os católicos em o novo Martin de incêndio voluntário e fez com que fosse
Pierre Guerre. preso naquela cidade, por ordem do Senescal de Toulouse.
Seja como for, no final do verão e no outono de 1559 Os Escornebeuf pertenciam à pequena nobreza do vale do
ocorreram dois acontecimentos que pioraram muito a situa~ Leze; as propriedades de Jean se concentravam na paróquia
ção de Martin e Bertrande. Um soldado de Rochefort pas- a oeste de Artigat. No entanto, comprara te~ras na própria
sava por Artigat e, ao ver o homem em questão, declarou Artigat e, em 1550, estava entre os que, como Antoine
a testemunhas que era um embusteiro. Martin Guerre esti- Banqueis e outros, recebiam o arrendamento dos seus bene-
vera em Flandres e tinha perdido uma perna dois anos antes, fícios. É possível que alguns lavradores deJArtigat, descon-
no cerco de Saint-Quentin. O verdadeiro Martin Guerre tentes em ver um nobre se imiscuir numa aldeia tão orgu-
tinh~ uma perna de pau, disse o soldado, e segúiu seu lhosa de não ter senhores, tenham ateado fogo à fazenda.
cammho. 8 Mas Escornebeuf escolheu como alvo o camponês-mercador
Assim, depois de onze anos, talvez o Martin Guerre Martin Guerre, objeto de escândalo, e em sua queixa -
original ainda estivesse vivo e multiplicavam-se as provas evidentemente instigado por Pierre Guerre - declara ao
quanto à falsificação do novo Martin. Parecia cada vez mais juiz que o prisioneiro "usurpara o leito conjugal de um ou-
provável que Pierre Guerre encontraria meio de conduzir tro homem" .10
o impostor à corte. O casal devia se preparar para desmontar Bertrande estava em profunda aflição. Via-se, uma vez
sua argumentação, e agora p.rovavelmente elaboravam a es- mais, obrigada a voltar ao lar de sua mãe e Pierre Guerre. 11
tratégia a seguir durante o processo. O depoimento dele Foi a Toulouse (talvez sua primeira ida àquela cidade em
devia ser o mais completo possível, sobre os mínimos aspec- trinta e dois anos de existência), levou dinheiro e outros
tos da vida de Martin Guerre, desde a infância no Labourd objetos necessários a Martin na prisão, declarou que esse
até sua partida, e sempre de acordo com o testemunho dela: homem era seu marido e que Pierre Guerre e sua mulher
s~ria preciso fornecer detalhes íntimos que ninguém pode- tentavam coagi-la a acusá-lo falsamente. Faltavam provas
na contestar. Talvez então os juízes pronunciassem o vere- sérias que pudessem Jundainentar a acusação de Escorne-
dicto de que era o verdadeiro Martin Guerre e o padrasto beuf. Se fosse senhor de Artigat, é fácil imaginar o que
de Bertrande seria reduzido ao silêncio. Assim recomeça- teria acontecido, mas perante o Senescalato de Toulouse
vam as "representações" de Pansctte; novamente recitava teve de renunciar à acusação de incêndio voluntário, e o
sua antiga existência, as bodas, as festas, a impotência, a preso foi liberado. 12
quebra do sortilégio e a consumação do casamento. Ber- Nesse ínterim, Pierre Guerre tomara providências para
tr::~nde revirava a memória em busca de um episódio íntimo descobrir a verdadeira identidade do impostor. É surpreen-
78 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Querelas 79

dente que, nesse mundo de intenso tráfego e muitos mexe- Martin nunca mais voltasse, Arnaud du Tilh conseguiria se
ricos, não tivesse descoberto antes. O próprio novo Martin livrar da situação? Alguns colegas historiadores americanos,
espalhara indícios pelo caminho. Um exemplo: em Pouy- de espírito pragmático, são da opinião que, se o impostor
de-Touges, aldeia ao sul de Sajas pertencente à diocese de não tivesse exigido a prestação de contas, tivesse sido um
Rieux, o estalajadeiro referiu-se a ele como Arnaud du Tilh · pouco mais respeitoso em relação às idéias do seu tio quan-
tinha-lhe recomendado segredo pois "Martin Guerre mor~ to à propriedade familiar, poderia continuar a desempenhar
reu; deu-me seus bens". Um certo Pelegrin de Liberos re- o papel de Martin Guerre durante anos, sem ser molestado.
conheceu-o como Pansette; o novo Martin pedira-lhe que se Por outro lado, quando falei com pessoas de Artigat, que
calasse, mas fora bastante imprudente para esquecer seu conheciam muito bem a estória de Bertrande e Arnaud, sor-
papel e lhe confiou dois lenços a serem entregues a seu riram e deram de ombros, dizendo: "Está tudo muito bem,
irmão Jean du Tilh. 13 mas esse belo malandro mentiu".
Esse tipo de estória chegou aos ouvido's de Pierre Creio que as pessoas de Artigat têm uma vis~o mais
Guerre, que, de ora em diante, podia dar um nome ao trai- correta das coisas. A questão não é saber se, com mais
dor que se introduzira em sua casa: Arnaud du Tilh, dito prudência e previdência, Arnaud du Tilh poderia dar alguns
Pansette, um homem de má vida de Sajas. Para pegar um retoques ao seu papel. Tampouco Arnaud era o único menti-
mentiroso, é preciso mentir também. Apresentou-se ao juiz roso em Artigat: acabamos de pegar Pierre Guerre numa
de Rieux como representante de Bertrande de Rols (talvez mentira, e ouviremos outras antes de concluir. Mas uma gran-
munido de uma procuração firmada por um notário; quando de mentira, uma mistificação desse porte- principalmente
Messire Jean Pegulha vinha de Le Fossat para redigir os sendo imposta por uma só pessoa às outras - tem incidên-
contratos, muitas vezes usava como escritório a casa de cias perturbadoras sobre as consciências e as relações sociais. 16
Pierre). Obteve em nome de Bertrande a autorização para Dos aldeões e da família Guerre que, em certa medida,
a abertura de um inquérito sobre o homem que se dizia assentiam com sua mentira, Arnaud exigia uma cumplici-
chamar Martin Guerre e sua imediata prisão com o recurso dade constante. Não era um lago rural, uma encarnação do
à força, conforme permitia a lei em casos especiais, quando espírito do mal que procurava lançar as pessoas umas con-
o acusado era "muito mal-afamado e difamado por vários e tra as outras. Mas, a partir do momento em que se tornava
enormes delitos'' .14 um honrado chefe de família sob um nome usurpado, não
Quando o novo Martin saiu da prisão de Toulouse, em poderia mais confessar a mentira nem esperar perdão. Des-
janeiro de 1560, Pierre estava pronto. Como vimos, Ber- sa forma, sua mentira e uma profunda desconfiança tinham
trande recebeu-o com ternura, lavou-lhe os pés e concedeu- se insinuado entre as relações sociais. Quando as pessoas
lhe o leito. Na manhã do dia seguinte, à aurora, Pierre e começaram a se indagar abertamente da sua identidade,
seus genros, todos armados, apoderaram-se dele em nome novamente a suspeita de magia levantou-se contra ele. E
de Bertrande e conduziram-no à prisão de Rieux. 15 agora, por trás dessa acusação, ocultava-se um temor muito
mais sério do que no tempo de sua juventude.
Detenhamo-nos um momento para perguntar se um tal A mentira de Arnaud sempre cria uma distância inter-
desfecho era inevitável. Em outros termos, se o verdadeiro na perturbadora entre ele e os outros aldeões. Tenqo a crer
80 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Querelas 81

que não era um simples impostor que quisesse o dinheiro


de Martin Guerre para depois fugir. Muitos atos seus,
como a venda dos propres ou a exigência da prestação de ····-@ -····
contas que lhe reprovava Pierre Guerre , podem receber uma
interpretação totalmente difere nte- e que deve ter ocorri-
do aos seus defensores de Artigat - , como um comporta- Depois que o novo Martin foi lançado à pnsao em
mento típico, ainda que sob forma inovadora, do camponês Rieux, Bertrande sofreu o dia inteiro terríveis pressões por
do Languedoc. O que o novo Martin desejava era se radicar, parte de sua mãe e padrasto. Chegaram ao ponto de amea-
voltar, como fazia após cada viagem, ao leito de Bertrande. çar expulsá-la da casa se não aprovasse formalmente a ati-
Seu pedido de prestação de contas indica como se sentia à tude de Pierre. A mulher obstinada calculava e arquitetava
vontade em seu papel. Em sua cabeça, porém, sempre havia seus planos. Levantaria uma queixa contra o impostor,
uma saída, não aquela saída criativa, aquele distanciamento esperando perder o processo. Seguiria a estrat'égia que ela-
momentâneo dos seus camaradas que permite a reintegração borara de acordo com o novo Martin em relação aos seus
("so~ cristão e estou acima de tudo isso") ou pelo menos d<;poimentos e desejaria que o juiz o declarasse seu marido.
a lucidez e a sobrevivência ("sou basco e esta não é real- Iyfas, em vista do seu dilaceramento íntimo e os perigosos
mente minha região"), mas uma saída vergonhosa ("não acontecimentos dos meses passados, também devia se pre-
tenho nenhuma verdadeira obrigação em relação a essas parar para ganhar o processo, por mais terríveis que fossem
pessoas"). as conseqüências para o novo Martin . Durant e o dia, enviou
Para Bertrande, que conhecia a verdade, a mentira roupas e dinheiro ao prisioneiro em Rieux. À noite, deu
acarretaria ainda outras conseqüências. Procurara modelar sua concordância à atitude _que Pierre tomara em seu nome
sua vida da melhor forma possível, usando todos os seus e " tornou-se queixosa" perante o juiz de Rieux contra o
rodeios e sua imaginação feminina. Mas também fora ciosa homem que tomara o lugar de Martin Guerre , seu verdadei-
de sua honra e virtude e, além do mais, como diria mais ro marido. 18
tarde aos juízes, temia a Deus. Aspirara a viver no seio da
sociedade da aldeia, como boa esposa e mãe de família. De-
sejara qu~ seu filho fosse herdeiro. Iria Deus puni-la pela
sua mentira? E se o seu casamento não passasse de uma .
invenção, ela seria, aos olhos de sua mãe e de todas as mu-
lheres da região, uma esposa adúltera, objeto de escândalo?
E sua filha Bernarde estaria irremediavelmente maculada
já que se diz que um filho concebido no adultério carreg~
o peso do pecado dos seus pais? 17 Ela amava o novo Martin ,
n:as ele a eng~nara uma vez e, afinal, o que garantiria que
nao a engana na novamente? E o que aconteceria se o outro
Martin Guerre voltasse?.
7
O Processo de Rieux
····-@-····

CORTE DE Rieux não era desconhecida das famílias


A de Artigat. Alguns litígios não conseguiam ser resol-
vidos localmente e acabavam perante esse tribunal: Jeha-
nard Loze processou na justiça o bispo ausente de Rieux
por não-pagamento de uma pensão anual devida à paróquia;
dois lavradores mantinham um processo pela propriedade
de um pedaço de terra; Jeanne de Banqueis lá se apresen-
tara para contestar uma outra herdeira. 1 Quando o caso
Martin Guerre compareceu perante os juízes, muitas teste-
munhas tinham uma idéia aproximada dos custos e perigos
da justiça real e das vantagens que poderiam extrair disso .
O próprio juiz recebia apenas uma remuneração me-
díocre, em comparação às somas destinadas aos magistrados
que dependiam do Supremo Tribunal de Toulouse. Mas, no
mundo de Rieux, era uma figma importante que, pelo pres-
tígio e poder, elevava-se sobre os senhores locais. Era assis-
tido por seu ajudante geral , Firmin Vayssiere, licenciado
em direito, cujo catolicismo intransigente mais tarde lhe
valeria o encargo de investigar os danos dos huguenotes
contra os bens da Igreja na diocese .2 Juntamente com o pro-
curador do rei em Rieux e os advogados da Corte, o juiz e
84 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

o assistente enfrentavam um dos casos mais espinhosos de


suas carreiras.
A falsa alegação de identidade, com intenção de lesar
a pessoa usurpada, era considerada na França do século 16
como um grave crime. Não era passível de pena prefixada,
como veremos, mas desde que o procurador do rei assumis-
se a queixa da parte civil - conforme Bertrande foi desig-
nada - , o acusado se arriscava a algo mais do que uma
simples multa. Se fosse declarado culpado, podia ser con-
denado a castigos físicos e até à morte. Neste caso, onde
estavam em jogo a honra e a vida de um homem, as provas
deveriam ser "certas, indubitáveis e mais claras do que o
dia" .3 Mas numa época em que não existia a fotografia, os
retratos pintados eram raros, sem impressões digitais~' nem
carteiras de identidade, com registros paroquiais ainda
mantidos de modo irregular - quando o eram - , como
estabelecer a identidade de uma pessoa de modo indubitá-
vel? Podia-se sondar a memória do acusado, ainda que sem-
pre pudessem ter lhe assoprado a lição; pedir que as teste-
munhas o reconhecessem, contando com seu discernimento
e sinceridade. Podia-se examinar os traços distintivos do seu
rosto e corpo e, ainda assim, para que essa prova tivesse
algum significado, seria preciso que as testemunhas tivessem
uma lembrança exata da pessoa. Podia-se verificar se ele
se parecia com os outros membros da sua família. Podia-se
examinar sua letra, com a condição, porém, de que ele e
seu duplo soubessem escrever e houvesse amostras da letra
deste último. À luz de tais provas, a Corte de Rieux devia
reconstruir a verdade, e era este o objetivo dos depoimentos
dos aldeões sobre Martin Guerre.
* Mesmo com impressões digitais, pode haver dúvidas, conforme mostra
o célebre caso Giulio Canella em Turim, em 1927-1931. As impressões digitais
mostravam que o homem em questão era o impressor Mario Bruneri, mas a A acareação entre o acu~ado e uma testemunha,
esposa do professor Canella, contudo, declarava que ele era seu marido . Leonar- extraído de Jean Milles de Souvigny ( Ioannes Millaeus),
do Sciascia, Il teatro delta memoria (Turim, 1981). Praxis Criminis Persequendi (Paris, 1541)
O RETORNO. DE MARTIN GUERRE O Processo de Ríeux 87

O primeiro procedimento consistia em recolher infor- Em seguida, vieram as "reinquirições" das testemu-
mações junto a testemunhas citadas pela parte civil, num rol nhas e suas acareações com o prisioneiro (é ainda a parte
sem nenhuma dúvida elaborado por Bertrande e Pierre. 4 civil que arca com as despesas!) . O juiz se assegura de que
(Pierre arrolaria pessoas que esperava apoiarem a acusação, a testemunha confirma seu depoimento, e então convoca-se
Bertrande as que esperava que pudessem lançar dúvidas o acusado. Este começa por dirigir reproches, objeções às
s?~re ela.). P~ra reduzir os custos, todos a cargo da parte testemunhas, ou aceita-as como confiáveis, antes mesmo de
civil, a maiOria dos depoimentos provavelmente foi regis- conhecer o conteúdo dos seus depoimentos. É sua umca
trada em Artigat ou arredores, de preferência a Rieux. Po- oportunidade de semear a dúvida quanto à moralidade dos
de-se imaginar a comoção geral quando o juiz ou o seu re- seus acusadores e tem de se empenhar ao máximo nisso.
presentante apareceu em cena e as opiniões antagônicas Depois, o depoimento da testemunha é lido em voz alta e
espalharam-se à direita e à esquerda, proferidas pelos notá- o homem que se pretende Martin Guerre rec:usa-a quando
rios locais e por Messire Dominique Boeri, bacharel em lhe parece necessário, fornecendo álibis e fazendo perguntas.
direito em Le Fossat. As testemunhas tinham de jurar dizer Muitos processos se encerram após essas acareações,
toda .a verdade e quando encerravam seus depoimentos, o tão evidente se mostra, a esse ponto, a culpa ou a inocência
exammador relia suas declarações, palavra por palavra (pelo do réu aos olhos do procurador real e do juiz. Mas não no
menos em princípio), para que pudessem acrescentar ou re- caso de Martin Guerre. O acusado citara testemunhas para
tirar o que bem lhes parecesse. A. seguir, os que sabiam es- confirmar as declarações que fizera ao longo dos interroga-
crever assinavam seus nomes e os outros punham sua ru- tórios e acareações. Bertrande ainda não retirara sua queixa,
brica. .
e ele tinha certeza de poder apresentar a prova de que fora
Após um prazo razoável para que o procurador real subornada. O próprio juiz não estava satisfeito com .as
pudesse estudar a massa dos depoimentos e emitisse sua testemunhas; gostaria de saber mais sobre essa enigmática
op.i~ião,. o j~iz abriu as audiências em Rieux. Interpelou o camponesa de Artigat, a reputação das outras tester~m~has
prisiOneiro, mter~ogou-o sobre as acusações de que era ob- e a identidade do prisioneiro. O procurador do re1 freou
J~to e· so?re a vida de Martin Guerre, e ouviu o que ele encarregado de reunir as testemunhas do acusado (agora era
tinha a dizer em sua defesa. A seguir, interrogou Bertrande a sua vez de pagar as contas e teria de depositar antecipada-
de Rols e tornou a dar a palavra ao acusado, permitindo-lhe mente o dinheiro; é de se perguntar como a Corte de Rieux
responder. Neste ponto, o juiz levou a sério a declaração conseguia se entender nessa embrulhada. Foi lida uma mo-
do prisioneiro, corroborada por testemunhas da aldeia de nitória solene nas igrejas de Artigat, Sajas e arredores, ape-
que Pierre Guerre obrigara Bertrande a dar queixa co~tra lando para todos os que conhecessem a verdade na matéria
sua vontade; decidiu que ela devia abandonar a casa de
Pierre e se alojar em outro lugar. >'c nenhuma situada entre Artigat e Rieux: a abadia de Salenques, perto de Le
Mas-d'Azil, e mosteiros em Longages, La Grace-Dieu e Sainte-Croix-Vol:'est~e
[L. H. Cottineau, Répertoire topo-bibliographique des Abbayes et Prteures
* Coras diz que o acusado pediu que Bertrande fosse colocada "em alguma (Macon, 1935-1939), cols. 1315, 1643, 2183 , 2932] . Havia também uma casa
casa de pessoas de bem", o que foi feito (pp. 37-45) . Acrescenta que " antiga- de Pobres Claretianas em Pamiers. Nenhuma delas era prática para Bertrande,
mente" as mulheres podiam ser conduzidas a um convento (p. 38) . A diocese que provavelmente foi instaJada, de iníc~o, com uma famíli~. de co~fiança em
de Rieux tinha quatro casas femininas, · todas absolutamente aristocráticas e Artigat e, durante seu depoimento em Rteux, com uma famtha de la.
88 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Processo de Rieux 89

em questão que a revelassem ao juiz, sob pena de excomu- acusado, tinha um nariz chato e o lábio inferior mais sa-
nhão. Mesmo os protestantes, apesar do seu ceticismo quan- liente, além de uma cicatriz na sobrancelha que não se via
to aos poderes ·do padre, devem tê-la levado a sério. 5 nesse impostor. O sapateiro contou sua história sobre as
Cento e cinqüenta pessoas desfilaram durante o proces- diferenças do tamanho do sapato, Martin calça doze "pon-
so em Rieux. Nas duas dioceses, em todas as aldeias, as tos", o acusado, nove. Outras testemunhas, pelo contrário,
pessoas se perguntavam como fazer para afirmar quem era ressaltaram que Martin Guerre tinha dentes a mais em seu
um homem - um homem arrancado do contexto cotidiano maxilar, uma cicatriz na testa, três verrugas na mão direita;
dos campos e da família, agora exposto na sala da corte de ora, o prisioneiro apresentava todos eses sinais particulares.
Rieux. Todas, ou quase todas as testemunhas do Artigat, Finalmente, um grupo importante de testemunhas,
concordavam sobre um, e apenas um, ponto: quando o pri- cerca de sessenta, recusava-se a se pronunciar sobre a iden-
sioneiro apareceu entre elas, cumprimentara-as cada qual tidade do prisioneiro. Talvez temessem, ao. tomar posição,
pelo seu nome e lembrara-lhes coisas exatas que tinham alguma conseqüência desagradável, processos por calúnia da
feito juntos em circunstâncias precisas muitos anos antes. parte do acusado, se fosse reconhecido como inocente, ou
Afora isso, suas opiniões divergiam, como divergiam também aborrecimentos com Pierre Guerre. Mas o que diziam era
as das testemunhas vindas de outros lugares. Quarenta e menos tortuoso: apesar de todos os testemunhos relativos
cinco pessoas, ou mais, declararam que o prisioneiro era à sua boca, sobrancelhas e nariz, o réu parecia-se realmente
Arnaud du Tilh, dito Pansette, ou que, pelo menos, não com Martin Guerre. Não estavam certos de sua identidade
era Martin Guerre, pois tinham comido e bebido com um e, num caso de tamanha gravidade, como ousariam ser
ou outro desde a infância. Entre eles encontravam-se Car- categóricos ?6
bon Barrau, o tio materno de Arnaud du Tilh de Le Pin · Essas semanas que precederam a sentença foram uma
pessoas com que Pansette fizera contratos há muito tempo;' prova dolorosa e solitária para a mulher do prisioneiro.
três homens que tinham reconhecido o prisioneiro como du Vivia num meio estranho, longe do novo Martin, o qual
Tilh, mesmo quando ainda vivia com Bertrande de Rols. tinha razões para duvidar de sua lealdade. Sua mãe e seu
Trinta a quarenta pessoas afirmaram que ele era Martin padrasto queriam conseguir a morte do impostor, ou pelo
Guerre e conheciam-no desde o berço. Esse grupo incluía menos sua condenação às galeras; suas cunhadas certamente
as quatro irmãs de Martin, seus dois cunhados e Catherine censuravam-na por ter dado queixa contra ele. A honra de
Boeri, que pertencia a uma das famílias mais respeitadas Bertrande de Rols era objeto de uma monitória lida do alto
da localidade. do púlpito no vale do u~ze e mesmo adiante. Era preciso
Essas testemunhas que conheceram Martin antes de sua ser cautelosa: em seu depoimento, para fortalecer a causa
partida de Artigat. esquadrinhavam suas memórias em busca dele, devia se limitar a revelar aquilo que o réu sabia do
dos seus traços. Esperava-se que os camponeses tivessem passado de Martin Guerre, sem dizer nada que pudesse
uma boa memória visual - com efeito, devem armazenar comprometê-la como adúltera. Devia apresentar no tribunal
muitas paisagens, formas e cores durante seus trabalhos - a imagem de uma mulher crédula, papel este que, como
mas ainda aí havia divergência. Alguns sustentavam qu~ mostrou Nicole Castan, as mulheres desempenhavam diante
Martin era mais alto, mais magro, mais moreno do que o dos oficiais da justiça sempre que lhes parecia conveniente. 7
90 O RETORNO .DE·MART IN GUERRE O Processo de Rieux 91

Bertrande provavelmente teve oportunidade de consul- convidado usava no dia do casamento de Martin Guerre ou
tar um advogado antes das audiências em Rieux, mas frente contando como, na calada da noite, insinuara-se no leito on-
ao juiz, ao escrivão, ao procurador real, estava entregue a de Bertrande dormia com sua prima. Não poupava detalhes
si própria. Mesmo para uma mulher que, em sua aldeia, an- sobre suas atividades na França e Espanha após a partida
dava com a cabeça erguida e não media suas palavras, era de Artigat. Deu nomes de pessoas capazes de confirmar seu
um tormento enfrentar esse mundo de homens. Mas respon- relato (de fato, a Corte verificou e elas confirmaram). Du-
deu às perguntas do juiz sobre a vida de Martin Guerre, rante as acareações, sua avaliação das testemunhas deve ter
desde seu casamento demasiado precoce até a fuga do rapaz, sido excepcionalmente penetrante - "vivamente e valida-
e forneceu por iniciativa própria alguns detalhes inéditos. mente objetadas" , dirá Coras mais tarde, ao julgar a ma-.
Assim, o juiz ouviu o relato da impotência de Martin Guer- neira como rejeitara Carbon Barrau e outras testemunhas
re e sua cura, ao qual acrescentou um episódio mais íntimo. "que particularizam tanto os fatos contra o .dito prisionei-
Tinham ido, há muito tempo, a um casamento, e como fal- ro" .10 Só podemos imaginar o que pode ter dito. A Carbon
tavam as camas de casal (cubília), Bertrande teve de passar Barrau, por exemplo: "Nunca vi esse homem antes deste dia.
a noite com sua prima; com seu consentimento, Martin E se ele é realmente meu tio, como é que não consegue
deslizou para a cama delas, depois que a outra moça ador- nenhum outro membro da família que apóie sua declara-
meceu (Le Sueur interrompe aqui o seu relato, mas Bertran- ção?". Ao sapateiro: "Este homem é compadre de Pierre
de pr"vavelmente continuou, revelando as "conversas que Guerre. Que mostre-nos seus registros sobre o tamanho dos
tiveram antes, depois e durante o ato secreto do matrimô- meus pés. O que mais pode encontrar para sustentar suas
nio") .8 mentiras?" .
Bertrande desempenhou à perfeição seu duplo papel O réu parece ter conduzido sozinho sua defesa, sem
até a acareação com o prisioneiro. Era uma situação delica- recorrer a conselhos de um jurista. A ordenação de Villers-
da também para ele e tinha de "objetar" seu testemunho Cotterêts de 1539 negava formalmente ao acusado num
com muitas precauções: ela era "uma mulher de bem e ho- processo criminal o direito à assistência de um advogado,
nesta" que dizia a verdade, exceto quando afirmava que ele embora trabalhos recentes mostrem que a lei às vezes
era um impostor; nesse aspecto, fora incitada a mentir por era contornada. 11 No caso do novo Martin, um advogado se
seu tio Pierre Guerre. A seguir, pôs à prova o amor dela e sentiria em seu ambiente; os procedimentos a.presentavam
exprimiu o seu (como vimos) declarando ao juiz que, se ela ir~egularidades que poderia alegar para recorrer em apelação
jurasse que ele não era seu marido Martin Guerre, aceitaria a uma instância superior, a começar pela sua prisão por
a morte que o tribunal decidisse lhe infligir. E Bertrande homens armados antes do amanhecer. Mas apesar das moni-
manteve silêncio. 9 tórias e do desfile das testemunhas, o processo durou apenas
Se a mulher de Martin Guerre estava dilacerada, o alguns meses. É lícito supor que, com a perspicácia que o
novo Martin nunca pareceu tão seguro de si mesmo quanto caracterizava, o réu aprendeu rapidamente os argumentos
durante esse processo. Sob as luzes da ribalta, todos os seus mais adequados para impressionar os juristas. O acu~ado
talentos mobilizados para provar sua identidade, não come- centrou sua defesa em um ponto: Pierre Guerre o od1ava
teu o menor deslize, fosse descrevendo as roupas que cada porque ele o levara à justiça. Como sua tentativa de assas-
92 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Processo de Rieux 93

sin~to fracassara, ele e seus genros montaram esse complô, punha de elementos sólidos e o acusado simplesmente ape-
forJando uma nova acusação contra ele, a de impostura: "Se laria da sentença de tortura ao Tribunal de Toulouse.
a~gum dia um marido foi maltratado por seus parentes pró- Seja como for, o juiz declarou o acusado culpado de
ximos, certamente era ele, e injustamente". 12 Deviam liber- usurpação do nome e pessoa de Martin Guerre e abuso de
tá-lo e condenar Pierre Guerre por difamação, com a mesma confiança em relação a Bertrande de Rols. A parte civil
severidade aplicada a Martin por fraude.* solicitara que reconhecesse publicamente sua culpa, pedisse
perdão e pagasse-lhe 2.000 libras, além das custas do pro-
Após a audição do último grupo de testemunhas, o
cesso. O procurador do rei, por sua vez, requereu a pena
procurador pressionou o juiz para apresentar seu veredito.
de morte, o que tornava caduca a pena reclamada por Ber-
O caso era delicado de se deslindar e o requerimento do trande. Nada de surpreendente nisso, mesmo sem a acusa-
juiz para que se examinasse a semelhança do acusado com ção suplementar de adultério: em 15 57, o Senescalato de
suas irmãs e o filho de Martin Guerre não esclarecia as Lyon condenara dois homens à forca, simplesmente por
coisas. O prisioneiro não se parecia com seu filho Sanxi, terem firmado falsos contratos, durante alguns meses, em
mas se parecia com suas irmãs. Não podiam submetê-lo a nome de um terceiro. O juiz de Rieux condenou o prisio-
um exame grafológico pois, se por acaso o réu agora sabia neiro a ser decapitado e esquartejado, curiosa homenagem
escrever seu nome (e os comerciantes rurais eram as únicas . - estava reservada aos noh res. 14
se se pensar que a decapltaçao
pessoas da aldeia, além dos notários e padres, que sabiam O condenado apelou imediatamente da sentença junto
assinar contratos), nem Pansette nem Martin Guerre jamais ao Supremo Tribunal de Toulouse, protestando sua inocên-
souberam antes. A Corte pode ter pensado em submetê-lo cia. Pouco depois, foi conduzido sob escolta àquela cidade,
à tortura para arrancar-lhe confíssões: uma tal decisão supu~ às suas expensas. A grande pilha de dossiês e papeladas ge-
nha sérias presunções de culpabilidade após o depoimento radas pelo caso seguiu-o às expensas de Bertrande. Desde
de um testemunho irreprochável ou provas circunstanciadas 30 de abril de 1560, a Câmara Penal do Tribunal tinha à
apresentadas por duas testemunhas. 13 Mas o juiz de Rieux sua frente o caso de "Martin Guerre prisioneiro na Concier-
não tinha nenhuma vontade de pôr o dedo nessa engrena- gerie", que apelara do veredito pronunciado pelo juiz de
gem. Talvez achasse que não daria certo (e novas pesquisas Rieux. 15
sobre o Supremo Tribunal de Toulouse têm mostrado que
não era muito freqüente que a tortura resultasse em confis·
sões) . Talvez ten,ha achado que, mesmo sem confissão, dis-
,., Coras justificava essa lei de talião em sua anotação (p. 35), mas o
assistente criminal Jean lmbert, em seu tratado contemporâneo de prática
judicial, declara que ela não estava mais em vigor. Os indivíduos culpados de
calúnia eram condenados à confissão e pedido de perdão públicos e uma soma
em dinheiro. Considerando a leviandade com que as pessoas caluniavam seu
próximo, lmbert às vezes desejava que a lei fo~se restabelecida. Jean lmbert,
Institutions Forenses, ou practique iudiciaire (Poitjers: Enguilbert de Marnef,
1563), pp. 446-98.
8
O Processo de Toulouse
····-@-····

F UNDADO CENTO e setenta anos antes, o Supremo


Tribunal de Toulouse é agora uma entidade que desfru-
ta de imenso poder no Languedoc: seus edifícios acabam
de ser restaurados, o número de seus conselheiros, aumen-
tado. Em 1560, aí são .julgados não só processos civis e
criminais em apelação, e às vezes até mesmo em primeira
instância, observando as atividades das cortes inferiores em
sua região, como também decide-se sobre o destino dos
iconoclastas anticatólicos de Toulouse; de lá despacham
comissários encarregados de investigar as reuniões ilegais,
os portadores de armas, as heresias e os assassinatos na dio-
cese de Lombez. Seus presidentes e juízes constituíam uma
elite rica e cultivada, possuindo belas mansões em Toulouse
e domínios no campo. Enfim, todos se empenhavam em
adquirir títulos nobiliárquicos. Suas roupas jurídicas se
tornavam a cada dia mais faustosas. As pessoas se dirigiam
a eles em termos que ressaltavam o respeito e a considera-
ção : "Integerrimus, amplissimus, meritissimus", dizia Jean
de Coras a um deles, numa dedicatória escrita antes
que viesse a ocupar um lugar entre eles; ou ainda a um
outro: "Eruditissimus et aequissimus", e a todo o Tribunal ,
"gravissimus sanctissimusque Senatus" .1
A Câmara Criminal, uma das cinco câmaras do Tribu-
96 O RETORNO .DE MARTIN GLERRE O Processo de T oulouse 97

nal, La Tournelle, como a chamavam, era composta por um do, ·durante mais de três anos, um outro homem? O adul-
grupo de dez a onze conselheiros, designados alternadamen- tério, o concubinato, a bigamia eram-lhes conhecidos; mas
te, e dois ou três presidentes. Entre os magistrados que já se ouvira falar de um "suposto" marido? Jean de Coras
acompanhavam o processo em apelação de Martin Guerre, foi designado pela Câmara como relator: após um exame
certamente encontravam-se algumas das sumidades da cor- minucioso dos elementos do processo, foi encarregado de
te. Lá estava o erudito Jean de Coras, autor de muitas obras redigir um relatório sobre o conjunto do caso e de recomen-
de direito. Estava também Michel Du Faur, antigo juiz de dar uma sentença. François de Ferrieres tinha a tarefa de
Toulouse e um dos três presidentes do Tribunal; oriundo assisti-lo em suas investigações e interrogatórios. Antes de
de uma dinastia de juristas ilustres, desposam uma Bernuy tudo, a Corte quis ouvir Bertrande de Rols, que pedirá
cujo dote provinha dos lucros obtidos com o comércio de para compàrecer, e também Pierre Guerre. 3
nozes de pastel-dos-tintureiros. Jean de Mansencal, primei- Enquanto estes se dirigiam a Toulouse, o homem que
ro presidente do Tribunal, veio pessoalmente da Alta Câma- se obstinava em afirmar ser Martin Guerre encontrava-se
ra ràra assistir ao último dia do processo. Proprietário na acorrentado na Conciergerie. Não era vítima de uma medida
cidade de um luxuoso palácio renascentista possuía ainda de exceção; o índice de evasões era tão elevado que tinham
uma propriedade familiar na diocese . de Lombez, não dis- acorrentado todos os homens, com exceção dos gravemente
tante da aldeia natal de Arnaud du Tilh. doentes, dos condenados por dívidas e devedores de multas.
Unidos pela profissão, às vezes até por casamentos ~a Ele tinha a liberdade de falar a todos os que se encontravam
filha do conselheiro Étienne de Bonald estava para se casar ao alcance de sua voz e sua verve inesgotável deve ter ale-
com o filho de Mansencal), os homens que em 1560 cons- grado seus camaradas de infortúhio: o alegado "raptor" de
tituíam a Câmara Criminal começavam a tomar consciência Carcassone; o notário, o padre e o esporeiro de Pamiers,
das profundas divergências que os separava!l).. Três dos con- acusados de heresia; e os dois misteriosos homens que .se
selheiros, Jean de Coras, François de Ferrieres e Pierre Ro- pretendiam oriun"dos de "Astaraps no Pequeno Egito" .4
bert, logo se tornariam firmes defensores do protestantismo, No início de maio, os juízes ouviram Bertrande e
e alguns outros, como Michel Du Faur; eram pelo menos Pierre; a seguir, em plena câmara, foram alternadamente
simpatizantes da causa da Reforma. No outro extremo, o acareados com o réu. Parece que não houve problemas
presidente Jean Daffis, Étienne de Bonald e Jean de Man- quanto à língua; a maioria dos membros do tribunal perten-
sencal estavam decididos a empregar todos os meios para cia à região. Bertrande começou com uma declaração visan-
extirpar a nova heresia. 2 do a convencer os juízes de que jamais fora cúmplice do
Mas o estranho caso que lhes chegava da corte de Rieux detido; sua honra, ela sabia, estava maculada, mas fora víti-
permitia-lhes esquecer por alguns momentos o fosso que se ma de urna horrível maquinação. Falava com tremor, os
alargava entre eles. Todos tinharp. anos de experiência no olhos cravados no chão (((defixis in terram occulis satis tre-
ofício. Simon Reynier julgava casos há quase quarenta ::mos, pide"). O prisioneiro então se dirigiu a ela com urii ar ani"
e Jean de Coras, o menos antigo na carreira, era conselheiro mado (((alacriori vultu") e afetuoso, dizendo que não lhe
desde 1553 -mas algum deles já teria um dia se deparado. queria nenhum mal, que sabia que todo o caso fora tramado
com um caso onde a mulher pretendia que tomara por mari- pelo seu tio. Mostrava um rosto "tão seguro", comenta
98 O RETORNO DE MARTIN GUERRE O Processo de T oulouse 99

Coras, e "muito mais que a dita de Rols, de tal modo 'que ra vez. Sete testemunhas foram convocadas a Toulouse no
havia poucos juízes assistente.s que não se persuadiram ser final de maio, para uma acareação com Bertrande de Rols.
o prisioneiro o verdadeiro marido e proceder a impostura Colocada na situação infamante de prisioneira, teve de en-
do lado da mulher e do tio". Após a acareação entre o réu frentar sua cunhada J eanne Guerre e pessoas importantes
e Pierre Guerre, a câmara ordenou que Pierre e Bertrande do vale do Leze, como Jean Loze e Jean Banqueis, que
fossem ambos encarcerados, Pierre presumivelmente a uma provavelmente tiveram de se pronunciar sobre a questão
boa distância de "Martin Guerre", e Bertrande na seção da das pressões de que teria sido objeto. 7
Conciergerie reservada às mulheres. 5 . '
Durante o verão de 1560, Jean de Coras passou todos
Recomeçaram os intermináveis relatos da vida de Mar- esses dados pelo seu crivo e decidiu o que faria figurar em
tin Guerre. Coras e Ferrieres interrogaram primeiro Ber- seu relatório. Deve ter sido um descanso ocupar-se do caso
trande. Se, a essas alturas, ela quisesse traí-lo, bastava con- de Martin Guerre. Acabava de concluir seu grande tratado,
tar uma história que ele não pudesse repetir; no entanto, De iure Arte, e não preparava nenhuma nova obra. Entre-
aferrou-se à versão que tinham elaborado juntos, meses mentes, exacerbavam-se na França as paixões políticas des-
antes. A seguir, interrogam inúmeras vezes o réu, tentando pertadas pela conspiração protestante de Amboise, aborta-
inutilmente pegá-lo em erro.* Coras registrou: da poucos meses antes, e até em Toulouse multiplicavam-se
os confrontos entre partidários da nova e da antiga religião.
Esses comentários aqui longamente discorridos e a quan- A cada vez que a Câmara Criminal julgava heréticos, Coras
tidade de tantos e tantos sinais tão verdadeiros davam grande
contentava-se em se manter à distância. 8 Ele sabia de que
oportunidade aos juízes de se persuadirem da inocência do
dito [réu], e além disso admirar a sorte e a felicidade de sua
lado encontrava-se a verdade, mas ainda não estava pronto
memória, que soube contar inumeráveis coisas feitas e passa- para se lançar na refrega. Por ora, era-lhe mais fácil desco-
das há mais de vinte anos: no que os comissários, que por brir a verdade sobre a identidade de um homem.
todos os meios a eles possíveis tentavam surpreendê-lo em Os testemunhos suplementares pouco acrescentaram.
alguma mentira, não conseguiram porém obter nada dele, nein Nove ou dez pessoas estavam convencidas de que o acusado
fazer com que não respondesse verdadeirament~ a todas as era Martin Guerre, sete ou oito juravam que era Arnaud

cOisas ... 6 du Tilh, os restantes se abstinham. Coras se dedicou a uma
análise sistemática das testemunhas e seus depoimentos.
Certamente procedeu-se à audiência das test~munhas, Era o que, achava ele, faltara no julgámento anterior em
e os membros da comissão interrogaram de vinte e cinco Rieux . Nos dois processos, o peso numérico depunha contra
a trinta delas, algumas já ouvidas. Houve novas acareações o acusado. Contudo, tratando-se da identidade de um ho-
com o réu. Carbon Barrau chorou quando viu o prisioneiro mem, o que contava não era o número, mas a qualidade
acorrentado, mas Martin Guerre recusou-o como da primei- das testemunhas - eram pessoas íntegras, empenhadas na
* "Às vezes é permissível que os juízes mintam", escreveria mais tarde
verdade, ou, pelo contrário, falavam dominadas pela paixão ;-
um juiz do Supremo Tribunal de Toulouse, "a fim de descobrir a verdade medo ou interesse? Enfim, ponto essencial, a plausibilidade
sobre crimes e felonias" . Bernard de La Roche-Fiavin, Treize livres des Par- dos seus testemunhos. Nesse caso insólito, Coras julgava
lemens de France (Genebra, 1621), livro 8, cap. 39. que o testemunho dos parentes próximos tinha a mais alta
100 . O RETORNO · DE MARTIN GUERRE O Prgces,so ide T oulouse 101

importância: 1< eles estão em melhores condições para reco- testemunhas que concordassem entre si. Por outro lado, se
nhecer um homem "pela proximidade do sangue" e porque era verdade que Martin Guerre, quando jovem, tinha per-
foram criados juntos. Mas aqui estava-se em presença de nas mais magras do que as do acusado, a experiência de-
parentes que divergiam formalmente sobre sua identidade. monstra que os adolescentes esguios tornam-se mais pesados
Para condenar um acusado, um tribunal deve possuir com a idade. O fato de o réu praticamente não saber falar
a prova de que realmente foi cometido· um crime e que o o basco podia significar que não era Martin Guerre, pois é
acusado é o seu autor. Mesmo uma confissão isolada não pouco provável "que um basco nativo não saiba falar sua
bastava para estabelecer esses dois fatos, pois um acusado língua", ou apenas que, tendo deixado o Labourd com pou-
podia não dizer a verdade, com ou sem tortura. De qualquer cos anos de vida, jamais aprendera realmente a língua dos
forma, neste caso preciso não houvera confissão. Podia-se pais. 9
concluir pela culpabilidade com o recurso à regra tradicional Coras estava em "grande perplexidade" .. Mas o relator
que reconhecia valor de prova ao depoimento concordante devia fazer uma recomendação. Quanto mais refletia sobre
de duas testemunhas dignas de fé? Coras tinha fatos preci- os fatos, mais parecia-lhe que o réu era quem pretendia ser
sos que acusavam o prisioneiro, mas a cada vez deparava e que a sentença do juiz de Rieux teria de ser invertida.
com dificuldades. Por exemplo, Pelegrin de Liberas decla- Ele começava por refletir no caso de Bertrande. Era
rara que o réu respondia pelo nome de Arnauld du Tilh e uma mulher que vivera 'virtuosa e honradamente" e as
lhe entregara dois lenços para seu irmão Jean, mas era a informaçõe~ obtidas com as monitórias confirmavam-no.
única testemunha a apresentar tal depoimento, e foi des- Partilhara seu leito com o prisioneiro por mais de três anos,
mentido pelo réu. Duas te~temunhas declaravam ter ouvido "em cujo intervalo tão longo não é provável que a dita de
um soldado de Rochefort dizer que Martin Guerre perdera Rols não o tenha reconhecido como estranho, se o prisionei-
uma perna na batalha de Saint-Quentin. Mas cómo não pas- ro não fosse realmente Martin Guerre". Ela o defendera
sava de um ouvir-dizer, não se podia atribuir grande peso a durante meses contra seu padrasto e sua mãe, chegando a
ISSO. protegê-lo com seu corpo, para que não lhe sucedesse ne-
A prova material, cada vez mais valorizada nos proces- nhum mal; ela o recebera em seu leito, poucas horas antes
sos criminais do século 16, embora não fizesse parte da teo- de ter depositado sua queixa. A seguir, diante do juiz de
ria medieval quanto ao estabelecimento das evidências, Rieux, recusara-se a jurar que não .fosse Martin Guerre. De
tampouco trazia uma resposta decisiva. Baseava-se em larga um ponto de vista jurídico, tal fato não ajudava em nada a
medida no testemunho de pessoas que se lembravam dos descoberta da verdade, pois nos casos ~riminais "a prova
traços de Martin Guerre. E se elas estivessem mentindo, ou por juramento não é legítima", mas era revelador do seu
simplesmente a memÓria as traísse? Os que declaravam que estado de espírito, e essa impressão era reforçada pela sua
o prisioneiro apresentava os mesmos sinais distintivos e ci- atitude hesitante e nervosismo durante a acareação com o
catrizes de Martin Guerre não estavam de acordo sobre suas acusado, no mês de maio, perante a Câmara Criminal. Pa-
verrugas ou particularidades das unhas. Não havia duas recia provável, como aliás Bertrande inicialmente dissera,
10
'' Ver adiante, p . 108, sobre a questão geral dos testemunhos dos parentes
que tinham-na coagido a fazer uma falsa declaração.
num processo criminal e sobre os irmãos de Arnaud du Tilh. Ele observava Pierre Guerre. Seria interessante saber
102 O RETORNO ·DE MARTIN GUERRE O Processo de T oulouse 103

o que se passou efetivamente durante os interrogatórios falta de semelhança deste com Sanxi, dizia Coras, pois está
entre o jurista de Réalmont e o velho fabricante de telhas mais próximo delas pela idade, ao passo que Sanxi era ape-
de Artigat, com sua forte pronúncia basca. Em que termos nas um menino de treze anos. Havia também o fato inegá-
teria o tio exprimido sua cólera e indignação em relação vel de que o prisioneiro se lembrava com certeza de tudo o
ao impostor, a ponto de levar Coras (a cujos olhos, como que se referia à vida de Martin Guerre, incluídos os detalhes
se sabe, o comportamento das testemunhas era um critério íntimos fornecidos pela própria queixosa. Os relatos sobre a .
essencial de sua boa-fé) a exigir seu encarceramento? De conduta dissoluta de Arnaud du Tilh, "dado a todo tipo de
qualquer forma, as provas que tinha sob as vistas não apre- maldades", não' prejudicavam a causa do acusado, pelo con-
sentavam o homem sob uma luz propriamente favorável. trário, pois parecia não ter nada a ver com esse gênero de
O litígio pela prestação de contas e devolução das rendas homens.
figurava no dossiê e fornecia um motivo plausível para uma Além disso, uma decisão que inocentas.s<" o réu daria
falsa acusação. O próprio Pierre confessava ter se apresen- expressão a um princípio do direito romano, segundo o qual
tado abusivamente em nome de Bertrande perante o juiz "seria melhor não punir um culpado do que condenar um
de Rieux. Sua "conspiração" com a mulher e genros, para inocente". E, mais importante, daria peso a uma disposição
tentar matar o acusado, fora descrita por "várias testemu- no direito civil levada muito a sério pelos tribunais do sé-
nhas", entre as quais o respeitável cônsul Jean Loze. Isso culo 16, favorecendo o casamento e os filhos nascidos do
era prova suficiente para motivar uma ordem de tortura a casal. "Em coisas que há alguma dúvida", dizia Coras, "o
Pierre Guerre, para confessar a tentativa de assassinato, favor do marido ou dos filhos ... faz inclinar a balança."
acusação caluniosa e suborno da testemunha Bertrande de Bertrande teria um marido; Sanxi e Bernarde teriam um
Rols. · pai.12 . .
A bem dizer, Le Sueur afirma que a Câmara Cri~inal La Tournelle estava prestes a apresentar sua sentença
pensara em tomar tal medida, embora não tenha chegado a final, com as opiniões "mais dispostas a favor do prisioneiro
fazê-lo. Seja como for, Coras considerava a calúnia como um e contra os ditos Pierre Guerre e de Rols" ,13 quando um
crime grav~ e demasiado difundido que, visando a prejudi- homem com perna de pau apresentou-se nas dependências
car o próximo, violava o Oitavo Mandamento. 11 do Tribunal de Toulouse. Disse que seu nome era Martin
Finalmente havia o acusado. Muitos fatos ·depunham Guerre e pediu para ser ouvido.
a seu favor. Coras considerava as quatro irmãs de Martin
como testemunhas excepcionalmente boas, "mulheres de ·
bem e honestas, se é que existem na Gasconha, as quais
sempre constantemente sustentaram que o prisioneiro era
seguramente Martin Guerre seu irmão". (Seu apoio deve ter
parecido especialmente desinteressado a Coras, pois teriam
possibilidades ainda menores de herdar as propriedades de
Guerre, se Martin Guerre tivesse mais filhos.) Sua seme-
lhança com o réu era ainda mais comprovadora do que a
9
O Retorno de Martin Guerre
····-@-····

D EPOIS QUE Martin perdeu sua perna na ba.talha de


Saint-Quentin, teve dois golpes de sorte em seu infor-
túnio. Em primeiro lugar, não morreu do ferimel}to, ma~
sobreviveu ao tratamento do cirurgião e conseguia coxear
com uma perna de pau. A seguir, seus senhores, I)edro de
Mendoza ou seu irmão, o Cardeal, pediram a Felipe II que
assistisse Martin em seu estado de diminuição físic:a. O rei
recompensou-o pelos serviços prestados concedendo-lhe uma
posição vitalícia como irmão laico num dos mosteiros da or-
dem militar de São João de Jerusalém. Essa orderrt, a mais
estrita do país, exigia títulos de nobreza dos seus cavaleiros;
os banqueiros de Burgos suplicaram em vão que a regt;a
fosse suavizada a seu favor Martin Guerre pross~guia sua
1

vida como antes, pequena parte de um universo n1asculino


dominado por aristocratas.
Como terá se decidido, após uma ausência de dl)ze anos,
a atravessar os Pirineus com sua perna de pau e voltar à sua
antiga existência? É o enigma mais cerrado da e~tória de
Martin Guerre. Coras cala-se sobre suas razões, errtbora su-
gira que só descobriu a impostura após seu retorno. Le Sueur
declara que, ao chegar, foi primeiramente a Artigat, soube
do que se passara e partiu imediatamente com Sanxi para
Toulouse. Mas o relatq de Le Sueur levanta algun, proble-
106 O RETORNO. DE MARTIN GUERRE O Retorno de Martín Guerre 107

mas, pois torna difícil explicar, entre outras coisas, certos marido de minha mulher e o pai do meu filho? O verda-
acontecimentos dos últimos dias do processo, como a sur- deiro Martin Guerre pode ter voltado para readquirir sua
presa demonstrada pelas suas irmãs.* · identidade e pessoa antes que fosse tarde demais.
Contudo, é possível que Martin Guerre tenha voltado Quando chegou a Toulouse no final de julho, foi posto
por acaso na última hora. Pode ter se cansado da atividade à disposição do Tribunal e começaram as audiências. "Re-
restrita de uma instituição religiosa e; como irmão laico, ter cém-chegado", teria gritado o réu no início de sua acareação
preferido voltar, com seu aleijão, ao seio da família onde com o homem que vinha da Espanha, "pérfido, malandro!
poderia exercer uma certa autoridade. A paz de Câteau-Cam- Este homem foi comprado por dinheiro sonante e instru-
brésis fora assinada entre a Espanha, França e Inglaterra no ções de Pierre Guerre." Viera romper os laços sagrados do
ano anterior, e o Cardeal de Bnrgos fora enc-arregado por casamento. Se ele não conseguisse desmascarar "o afron-
Filipe II da missão de receber sua noiva Elisabeth de Valois tante", seria enforcado. E, coisa estranha, o homem de per-
na fronteira francesa, em dezembro de 1559.2 Martin Guerre na de pau se lembrava muito menos dos acontecimentos
podia esperar que, nessa época de reconciliação, seria per- referentes a Martin Guerre do que o prisioneiro.4
doado por ter lutado pela Espanha. A pessoa que outrora respondia pela alcunha de Pan-
Mais provável parece-me a hipótese de que tenha ou- sette teve seu momento de triunfo. Seria um erro interpretar
vido alguma coisa sobre o processo antes· de seu retorno. sua conduta, naquele dia e nas semanas seguintes, como um
,Pierre Guerre certamente esperaria notícias suas, se ainda esforço desesperado para salvar sua pele. Vivo ou morto,
estivesse vivo. O caso estava sendo discutido por todas as defendia contra um estranho a ideritidade que forjara para
aldeias do Languedoc, e o juiz de Rieux enviara investigado- si. (0 leitor lembrará que, provavelmente, os dois homens
res à Espanha para verificar os testemunhos do novo Martin nunca tinham se encontrado antes.)
sobre sua estadia naquele país. Os burgueses de Toulouse e Coras e Ferrieres tiveram dez ou doze interrogatórios
os juristas de todos os lugares interessavam-se pelo caso, com os dois homens em separado, colocaram ao recém-che-
mesmo que supostamente as deliberações se mantivessem gados questões "secretas" sobre assuntos até então não abor-
secretas e o público não fosse autorizado a assistir ao pro- dados, verificaram as respostas e constataram que o réu
cesso antes da sentença final. Os rumores também poderiam respondia a elas quase tão bem quanto o outro. Da pessoa
ter chegado aos ouvidos do verdadeiro Martin, por intermé- do acusado parecia se desprender algo de mágico. Tentando
dio da ordem de São João de Jerusalém, que tinha várias descontrolá-lo, Mansencallhe perguntou como fazia para in-
casas no Languedoc e no Condado de Foix.3 vocar o espírito do mal que lhe soprava tantas informações
. Quem sou eu então, deve ter se perguntado Martin sobre as pessoas de Artigat. Coras registra que o acusado
Guerre, já que um outro homem vive a vida que abandonei empalideceu e hesitou, sinal certo de culpabilidade aos olhos
e está para ser declarado o herdeiro do meu pai Sanxi, o do Conselheiro. 5 Ao meu ver, essa reação pode ter resultado
1
não só da sensação de perigo por parte do réu, como também
Se for verdade, esvazia o significado do confronto decidido pela Câmara
'

Críminal entre o recém-chegado -e as irmãs e cunhados de Martin Guerre. Se


da cólera ao ver não-reconhecidos seus talentos naturais.
já tivesse passado por Artigat e visto seus parentes ("os seus"), a prova do A Câmara Criminal então procedeu às últimas acarea-
tribunal era inútil .. ções. Carbon Barrau foi novamente convocado a comparecer,
108 O RETORNO DE MARTIN GUERRE · O Retorno de Martin Guerre 109

e desta vez também os irmãos .de Arnaud du Tilh, violando das testemunhas) e correu para abraçá-lo, implorando seu
(mas tal prática se difundia cada vez mais no século 16) perdão pelo erro cometido por imprudência e por ter sido
uma lei medieval que estipulava que os irmãos não podiam enredada pelas manhas e seduções de Arnaud du ·Tilh. De-
prestar testemunhos recíprocos de acusação num caso crimi- senrolou todas as desculpas preparadas: suas irmãs não des-
nal. Os du Tilh preferiram antes fugir do que comparecer a confiaram; seu tio o reconheceu; eu desejava tanto que meu
Toulouse. marido estivesse de volta que acreditei nele, por tantas
Para Pierre Guerre, macilento após meses de prisão, coisas íntimas que conhecia a meu respeito; quando com-
os membros da comissão imaginaram uma encenação tea- preendi que era um impostor, quis estar morta e teria me
tral. O recém-chegado foi colocado no meio de um grupo matado se não fosse por temor a Deus; quando compreendi
de pessoas, vestidas de modo semelhante. Pierre reconheceu .que tinham roubado minha honra, dei queixa contra ele.
seu sobrinho, chorou e alegrou-se que finalmente a sorte Martin Guerre não manifestou o menor sinal de dor diante
tivesse mudado. d~s . lágrimas de Bertrande de Rols e com um ar feroz e
Para as irmãs, introduzidas uma após a outra, os dois severo (lembrando-se talvez dos pregadores espanhóis que
· ·Martin foram colocados lado ·a lado. Após examinar atenta- tivera oportunidade de ouvir), disse a ela: "Deixe de lado
mente o perneta, Jeanne disse: "Eis meu irmão Martin Guer- . essas lágrimas. . . E não se desculpe pelas minhas irmãs
re". O traidor que se parecia com ele abusara de sua con- nem por meu tio: pois não há pai~ mãe, tio, irmã nem irmão
fiança por todo aquele tempo. Estreitou Martin em seus ,que deva melhor conhecer seu filho, sobrinho o~ ir~ão do
braços, irmão e irmã derramaram lágrimas - e a mesma que a mulher deve conhecer o marido. E quanto a catastrofe
• ,.. • - 6
cena se repetiu com as tres outras 1rmas. que sucedeu à nossa casa, só você é culpada". .
Chegou-·a vez de Bertrande de Rols. O que acontecera ' Coras e Ferrieres lembraram-lhe que ele tinha alguma
cqm ela após três meses passados na Conciergerie? Emagre- responsabilidade no assunto, já que abandonara Bertrande,
c~ra e ficara doente, mas, como pelo menos algumas de suas mas el~ se manteve inflexível.
8

companheiras de cativeiro eram acusadas de heresia, teve Agora Martin Guerre fora reconhecido. Mesmo sem
ocasião de discutir o Evangelho com elas. Lá estava também confissão, a Corte dispunha de provas suficientes para apre-
uma proprietária queixosa que, como ela, fora encarcerada. sentar uma sentença definitiva. Jean de Coras reescreveu seu
E ainda u.ma das reclusas sumiu por algum tempo para dar relatório e redigiu uma sentença; a Câmara Criminal pôs-se
7
à luz. Era um mundo de mulheres, que talv.ez recordou a de acordo sobre o texto. Arnaud du Tilh, dito Pansette, era
Bertrande os anos de espera pelo retorno de Martin Guerre. reconhecido culpado de "impostura e falsa alegação de nome
Estava preparada para todos os desfechos possíveis: assim, e pessoa e adultério" .9 As suspeitas de recurso à magia e
quando chegou à Câmara Criminal, embora ignorasse o re- invocação do Demônio que pesavam sobre ele nas últimas
torno ele Martin Guerre, desempenhou muito bem o seu semanas do. processo não foram mantidas na sentença. Du
papel. Tilh foi condenado a fazer confissão pública e pedir perdão
Após um olhar ao recém-chegado, pôs-se a tremer, der- em Artigate depois conduzido à morte.
reteu-se em lágrimas (são expressões de Coras que, como A condenação à morte sem dúvida foi objeto de dis-
bom juiz, considerava dever seu anotar todas as expressões cussão entre os juízes. Uma sentença de prisão evidentemente .
110 O RETORNO. DE MARTIN GUERRE O Retorno de Martin Guerre 111

não cabia para o caso de Arnaud du Tilh, pois as pnsoes e em 1556, quando a mulher de um proprietário rural foi
se destinavam apenas a pessoas à espera de julgamento e acusada de adultério com seu meeiro (ambos foram enfor-
devedores condenados. A escolha se distribuía entre multas, cados).11
vários tipos de punição física (açoitamento, estigma a feno Foram tais considerações que determinaram a opção
ou fogo, mutilação), banimento, um período como remador pela condenação à morte para Arnaud du Tilh, opção que
nas galeras do rei e morte. Coras não encontrava no direito sabemos, ao menos por um exemplo, ter chocado certos ju-
francês praticamente nenhum texto que pudesse orientá-lo, ristas. Tampouco foi decapitado, como ordenara o juiz de
pois o crime de "usurpação de nome e pessoa" era pouco Rieux, mas enforcado como convinha a um simples plebeu
tratado, além do caso restrito de fraude em assinaturas. Os culpado de traição e luxúria. A Corte não chegou ao ponto
textos antigos divergiam, uns tratando a impostura como um de queimá-lo vivo, mas , devido ao seu detestável crime, quei-
jogo que não acarretava nenhuma punição, alguns prevendo mou seus despojos ''para que a memória de pessoas tão des-
uma pena leve, outros o banimento, pouquíssimos a morte. graçada e abominável se anule totalmente e se perca".
Em 1532, um édito real tornara possível a aplicação da pena
de morte à "multidão" de falsificadores de contratos e falsas
testemunhas perante as cortes, mas a prática judiciária não
era uniforme. Coras pode ter ouvido falar do que acontecera
em 1557 à apelação de dois impostores de Lyon (aqueles
que assinavam contratos sob o nome de Michel Mure) da
sentença de morte pronunciada pelo Senescalato de Lyon: o
Supremo Tribunal de Paris reduziu a punição a açoitamento
e nove anos nas galeras. A outra vez que o Senescalato sen-
tenciou um impostor, o grego Citracha, que recebera dívidas
devidas a um defunto, foi condenado a devolver todas as
quantias recebidas indevidamente, pagar 500 libras ao rei
e ser banido da França. 10
O crime de du Tilh, porém, era mais grave. Implicava
a apropriação indébita de uma herança, delito comparável
ao de uma mulher que apresenta ao marido um filho ilegíti-
mo como se fosse seu, para que possa herdar. Mais impor-
tante, cometera adultério, crime que, segundo Coras, devia
ser punido severamente e de modo mais regular pelos seus
contemporâneos. O Tribunal de Toulouse só aplicava senten-
ças de morte a adúlteros que transgrediam a ordem social,
como em 15 53, quando o auxiliar de um conselheiro foi
condenado à forca por ter seduzido a mulher do seu patrão, A primeira representação pictórica do caso,
. mostrando o casal com uma condição social mais
elevada do que a real,
112 O RETORNO . DE MARTIN GUERRE O Retorno de Martin Guerre 113

De certa maneira, La Tournelle levou em consideração seu erro? Após longos debates, os conselheiros concordaram
os interesses de Arnaud du Tilh. Essa atitude, certamente, em aceitar sua boa-fé; afinal, o sexo feminino era frágil. Não
facilitava as coisas para Martin Guerre e Bertrande de Rols, foi processada por fraude ou adultério (este poderia lhe
mas expressa igualmente um respeito inconfesso pelo homem custar a clausura num convento até que seu marido decidisse
cujo sistema de defesa os fascinara. Sua filha Bernarde foi retomá-la) e, como acabo de dizer, sua filha fora declarada
considerada legítima. O tribunal baseou sua decisão sobre legítima.
o reconhecimento da boa-fé de Bertrande: aceitou sua decla-.
ração de que pensava viver com Martin Guerre quando a O mesmo se deu com Martin Guerre. A Corte passou
criança foi concebida. Aqui se dispunha de diversos pre- muito tempo a examinar as acusações que poderiam ser le-
cedentes. Para que um filho fosse bastardo, seria preciso que vantadas contra ele, por ter abandonado a família durante
os dois pais estivessem a par da situação; as crianças de uma anos e combatido nas fileiras dos inimigos da França. Fi-
mulher que ignorava estar casada com um padre eram decla- nalmente concluiu que sua partida podia ser· debitada à ju-
radas legítimas. ventude, "o calor e leviandade de juventude que então fer-
Decisão mais surpreendente, a Corte não confiscou os viam nele". Quanto ao engajamento a serviço de Filipe II,
bens e propriedade de Arnaud du Tilh na diocese de Lom- seria atribuído à obediência que, como lacaio, devia aos seus
bez, para entregá-los ao rei (como usualmente ocorria nos senhores, e não tanto ao desejo "de ofender seu príncipe
casos dos condenados à morte). Ao invés disso, depois de natural". A perda da perna, o que acontecera aos seus bens
Bertrande reembolsar as despesas com o processo, os bens e a sua mulher eram um castigo suficiente. Tampouco
passariam para sua filha Bernarde, como dote e auxílio para Pierre Guerre seria processado por ter se apresentado falsa-
seu sustento. 12 mente como agente de Bertrande, nem pelo seu plano de
Além disso, a chamada question préalable ("questão matar Arnaud du Tilh. Já arriscara seus bens e até sua vida,
. prévia"), a tortura a que se submetia o condenado antes de ao instaurar o processo contra o impostor; se tivesse perdido
sua execução, para que entregasse seus cúmplices, foi-lhe a causa- como quase aconteceu - , teria sofrido uma pena
poupada. Coras recomendava o seu uso em alguns casos, já severa por falsa acusação perante um TribunaP 4
que em 1560 ele e o presidente Daffis tinham assinado uma Tudo na sentença final tendia a satisfazer os critérios
sentença ordenàndo que um certo Jean Thomas, dito Le Pro- que tinham levado Coras a formular um primeiro julgamento
vincial, "será posto .à questão para saber de sua boca a ver- favorável ao novo Martin: protegia o casamento e os filhos
dade dos excessos, crimes e malefícios a ele atribuídos" .13 A dele saídos. A 11 de setembro, o presidente de Mansencal
Câmara Criminal deve ter achado pouco provável que u~ . convocou Bertrande de Rols, Ma~tin Guerre e Arnaud du
criminoso de tal envergadura cedesse à tortura - e' em caso Tilh perante toda a Câmara. Este último persistiu em afirmar
contrário, certamente os juízes não queriam ouvi-lo denun- que era Martin Guerre, sem levar em conta o que dizia o
ciar no último minuto Bertrande de Rols como sua cúmplice. presidente. Mansencal, a seguir, tentou reconciliar Bertrande
Agora, La Tournelle tinha de decidir quanto à sorte e Martin, censurando-os por seus erros e insistindo que es-
da mulher prisioneira na Conciergerie. O que se podia dizer quecessem o passado. O réu interrompeu-o diversas vezes,
da bela esposa tão fácil de se enganar e tão obstinada no refutando cada uma de suas palavras.
114 O RETORNO . DE MARTIN GUERRE O Retorno de Martin Guerre 115

Foi a representação mais lamentável - ou a mais sin- para ver o impostor e assistir à sua execução. A aldeia não
cera - do novo Martin. Perdera a partida e agora era sua estava mais dividida como estivera por mais de um ano. O
vez de ser o marido ciumento. Mostrou-se petulante e iras- mentiroso fora desmascarado e ia-se assistir ao ritual da sua
cível perante a Corte, e esse comportamento acarretou uma humilhação, arrependimento e rejeição.
alteração de última hora em sua sentença. 15 Estavam previs- Pansette deu o melhor de si para tornar a ocasião me-
tas duas confissões e pedidos de perdão públicos, um peran- morável. Começou o dia retomando seu antigo nome. Apre-
te a Câmara, outro em Artigat. Agora só teria de fazê-lo em sentou voluntariamente sua confissão ao juiz de Rieux, con-
Artigat. Quem sabia o que poderia dizer à corte?'~ tando como fora cumprimentado pelo nome de Martin
Em 12 de setembro, o Tribunal abriu suas portas para Guerre por dois homens em Mane. Tudo se produzira por
que o público pudesse ouvir a sentença. Uma imensa multi- meios naturais, seus e de seus cúmplices, os quais nomeou.*
dão precipitou-se na sala do tribunal; entre ela parece ter Nada se devia à magia. Manteve em segredo o.papel de Ber-
estado o jovem Michel de Montaigne, há pouco tempo con- trande do início ao fim. Segundo Coras (mas não Le Sueur),
selheiro no Tribunal de Bordeaux. 16 Mansencalleu a senten- também confessou vários pequenos furtos da · juventude.
ça: a justiça declarava Martin Guerre, Bertrande de Rols, A seguir, como qualquer bom camponês pai de família,
Pierre Guerre livres de qualquer processo e recusava a ape- fez seu testamento. Arrolou todos os seus devedores e cre-
lação de Arnaud du Tilh, dito Pansette, "autodenominado dores em dinheiro, lã, trigo, vinho e painço, e pediu que as
Martin Guerre". Devia iniciar sua apologia pública perante dívidas fossem pagas com as propriedades que herdara de
a igreja de Artigat, depois ser conduzido através da aldeia Arnaud Guilhem du Tilh e outros parentes; atualmente eram
para ser executado diante da casa de Martin Guerre. O juiz ocupadas por Carbon Barrau. Para ter certeza de que seu
de Rieux se encarregaria do caso. Coras não registrou a tio pagaria, abriu processos civis contra ele, certamente con-
expressão dos rostos de Bertrande de Rols e Arnaud du Tilh. tinuados pelos seus executores testamentários. Fez de sua
filha Bernarde - agora Bernarde du Tilh - herdeira uni-
versal, tendo como tutores e executores testamentários seu
· ··-@-···· irmão Jean du Tilh deLe Pin e um certo Dominique Reh;n-
daire de T oulouse.
Para o perdão público, ajoelhou-se diante da igreja, na
Quatro di*s depois, o patíbulo estava erguido. defronte à posição tradicional dos penitentes - camisa branca, cabeça
casa onde ' se preparara o leito conjugal de Bertrande de desnuda e pés descalços, um archote na mão. Pediu perdão
Rols, vinte anos antes. A família completa voltara de Tou- a Deus, ao rei, à justiça, a Martin Guerre e Bertrande de
louse e vinham pessoas de vários lugares das redondezas Rols, marido e mulher, e a Pierre Guerre. Conduzido atra-
,., O relato de Coras é muito estranho. Por que punir Arnaud du Tilh em vés da aldeia, corda no pescoço, o camponês de língua de
sua má conduta suspendendo uma das apologias públicas? Não teria sido mais
adequado trocar a apologia frente à Corte por uma apologia mais humilhante ,., Coras diz apenas que ele confessou "que alguns tinham lhe dado certas
perante a aldeia? Ou Coras está deturpando o que aconteceu , ou temos aqui informações e conselhos" (p. 83) . Le Sueur diz que ele "nomeou duas pessoas
um outro exemplo dos sentimentos mesclados dos juízes em relação ao extraor- que tinham-no ajudado" (Historia, p. 22). Talvez se trate dos dois amigos do
dinário Arnaud du Tilh . desaparecido que inicialmente tomaram du Tilh por Martin Guerre.
116 O RETORNO. DE MARTIN GUERRE

ouro dirigiu-se às multidões: ele era Arnaud du Tilh que,


por infâmia e astúcia, tomara os bens de um outro e a honra
de sua mulher. Louvou os juízes de Toulouse pela maneira
como conduziram a investigação e expressou sua vontade de
que os honoráveis Jean de Coras e François de Ferrieres
estivessem presentes para ouvi-lo. Na escada que o conduzia 10
ao patíbulo, ele ainda falava, recomendando ao homem que
ia tomar seu lugar que não se mostrasse rude para com Ber- O Contador da Estória
trande. Podia testemunhar que era uma mulher de honra,
virtude e constância. Desde que ela suspeitara, tinha-o repe-
····-@-····
lido. Ao agir assim, manifestara coragem e elevação de es-
pírito incomuns. A Bertrande, pediu apenas que o perdoasse.
Morreu implorando a misericórdia de Deus em nome do seu OUCO DEPOIS do processo de Arnaud du 'Tilh, o Tri-
filho, Jesus Crist0. 17 P bunal de Toulouse entrou em recesso a partir de setem-
bro, como em todos os anos. Jean de Coras, ao invés de
partir imediatamente para sua residência familiar em Réal-
mont, entregou-se ao seu estudo em Toulouse, onde começou
a escrever a história do homem que fora queimado, para
que se apagasse sua memória. Em 1. 0 de outubro, pratica-
mente terminara sua primeira redação. 1 Por' sua vez, um
jovem chamado Guillaume Le Sueur punha no papel sua ver-
são dos mesmos acontecimentos. Algo de assombroso, de
perturbador nessa história encontrava uma ressonância em
suas próprias vidas: e esse algo precisava ser dito. .
No caso de Guillaume Le Sueur, é difícil encontrar a
corda que fora vibrada por esse caso, pois é uma figura pou"
co conhecida . Filho de um rico comerciante de Boulogne-sur-
Mer na Picardia foi enviado à universidade de Toulouse
para' estudar direi~o civil. Seu irmão Pierre tornou-se funcio-
nário das finanças reais , e no final de 1561 usava sua casa em
Boulogne para "reuniões e preces segundo a nova religião".
Guillaume parece ter partilhado dos seus sentimentos, e por
algum tempo fez parte do círculo do Príncipe protestante
de Condé. Sabe-se que em 1566 já era advogado no Senes-
calato de Boulonnais ; vários anos mais tarde, tornou-se o
118 O RETORNO. DE MAR'I}N GUERRE O Contador da Estória 119

encarregado de suas águas e florestas. Em 1596 escreveu reito canônico e civil em Angers, Orléans e Pari~, pr~puse­
a primeira história de sua cidade natal, obra de cer~o mérito . ram-lhe várias vezes que ensinasse direito. A segmr, fm para
Mesmo antes disso, La Croix du Maine tinha ouvido falar Pádua, onde propôs cem temas de dissertação aos seus exa-
de~e e cita-o em sua Bibliotheque de 1584 como "poeta em minadores e foi aclamado pelas suas boas respostas. Em
lati~ e francês " . Conhecia também o grego, e em 1566 1536, com 21 anos, seria aprovado em se~ doutor~d~ e~
~ubhcou uma tradução em versos latinos da versão grega do Siena com Philippe Decius, "um gran.de luminar ~o dir~tto .
hvro dos Macabeus. (Coras disse posteriormente que Decms esta~a ~a? seml qu.e
A seu crédito ainda figura a Admir ável História do não se lembrava mais de uma única palavra Jundtca e preci-
Falso M~rtin de T_oulouse, composta em latim, que circulava sava de um quarto de hora para pronunciar a prim~ira frase
manuscrita pela cidade. Dedicou-a a Michel Du Faur quarto de sua peroração. Finalmente, o grau de doutor foi-lhe con··
presidente do Tribunal e membro de La Tournelle duran te cedido por outra pessoa. Essa anedo ta. most.rou, ~ue Coras
o. processo de Martin Guerr e. Como Le Sueur disse poste- não levava tão a sério sua fama de memno prod1g10.)
riormente numa dedicatória ao Chanceler Michel de l'Hôpi - De volta a Toulouse, Coras entrou como regente na
tal, fora "adota do na família e clientela de Du Faurs, pma universidade, e seus cursos de direito civil tiveram enorme
~asa q~e supera~a todas as da região pela sua erudição única, sucesso. Usillis diz que não se lembra de nenhum outro pro-
Integn dade de vida, esplendor e honrà ". Suas evidências so- fessor capaz de atrair tamanhas multidões. Estav~ pr~sente
A

bre o julga~ento pro~avelmente foram obtidas com as pala- quando Coras derramava as torrentes d~ sua eloquenCla}as-
vras e dossu·," ~o presidente - ele diz ter "colig ido" (colli- cinante sobre um auditório de duas mil pessoas, com sua
gebat) a e"tona - e talvez estivesse presente no tribunal voz suave, fluente, clara, melodiosa". Esse entusiasmo .é
em alguma função menor. O certo é que, em 1560, Guillau- tanto mais impressionante se se lembrar que as ~ulas ,de di-
me Le Sueur esperava ascender dentro do mundo jurídico reito em Toulouse geralmente eram dadas das cinco as dez
e da cultura retórica legal, além de uma inclinação pessoal
3
horas da manhã.
pela literat ura clássica.2
Duran te esses anos de glória precoce, Coras mantinha
. Sobre Jean de Coras existem muitas informações. Era com 0 direito .relações de outra ordem, não mencionadas por
"Ilustr e", "clarissimus", como anunciavam os editores nas Usillis: tornou-se litigante. Sua mãe Jeanne de Termes
páginas de rosto dos seus livros. E não era uma celebridade morreu em Réalmont, legando-lhe por um testamento d~
recente . .No ano do processo de Martin Guerr e, acabava de 1542 todos os seus bens e propriedades. Jean de Coras pai
aparecer sua própri a "Vita" , contada por um dos seus anti- opôs-se ao testamento e o mestre Jea? de Coras filho ata-
gos discípulos, Antoine Usillis , como prefácio à obra de Co- cou-o na justiça. O caso foi finalmente Julga~o ~m 154~ pel?
ras, De iuris Arte. Nascera por volta de 1515 em Réalmont Tribun al de Toulouse. Foi confirmado o duetto do filho a
Albigeois, a primogênito de quatro filhos, e crescera e~ herança e ordenaram ao pai permi tir que ~ filho f~z~sse o
Toulouse, onde seu pai, Jean de Coras, licenciado em direito, inventário no momento desejado . Coras pai usufru ma. dos
era advogado no Supremo Tribunal. Já aos treze anos in- bens e propriedades durant e' sua vida. Ao final, os dms s ·
terpretava o direito civil de cátedra (pelo menos é o que diz reconciliaram (Coras lhe dedicaria uma obra em 1549), m ~l H ,
a lenda), e nos anos seguintes, quando era estudante de di- assim como o relato cômico da cerimônia de doutor ame nt o,
120 O RETORNO . DE MARTIN GUERRE O Contador da Estória 121

o pr,ocesso contra seu pai revela uma atitude pelo menos de Toulouse. Os cardeais de Châtillon e Lorraine recebem
ambtgua em relação à ordem e à autoridade. 4 na hora adequada as obras adequadas.
6

Entrementes, Coras se casara e tivera filhos, para felici- Essa tática rendeu seu frutos em janeiro de 15 53, quan-
dade sua. "Um casamento afortunado", diz-nos em sua obra do vagou um cargo no Tribunal de Toulouse. Ele retornara
de direito, De ritu nuptiarum, e não hesita em inserir bem de Ferrara à cidade por uma triste circunstância: sua mulher
no meio do seu comentário um trecho sobre sua mulher Ga- Catherine Boysonné morrera e voltou por um período de
therine ~oyso.nné. Filha de uma antiga família de magistra- luto. Henrique II aproveitou sua · presença na França para
d?s muntctpats de Toulouse, era parente do jurista huma- consultá-lo sobre suas negociações com o Duque e o Cardeal
nista Jean Boysonné, grande amigo de Coras. O casal teve de Ferrara, e depois concedeu-lhe o cargo que cobiçava. Em
primeirame~te u~a filha, Jeanne, e depois um filho, Jac- fevereiro de 1553, Jean de Coras prestou juramento como
ques, tambem objeto de citação em meio a uma discussão conselheiro no Supremo Tribunal, onde seu pai por muito
7
jurídica: "Ontem, 13 de abril de 1546, fiquei comovido com tempo fora (e talvez ainda fosse) advogado.
uma alegria incrível pois tornei-me por nossa florescente Durante os sete anos que separam seu ingresso na fun-
Catherine pai de um filhinho". 5 ção de juiz e o caso Martin Guerre, spa vida conheceu novas
Nomeado para uma cátedra, Coras muda-se com a famí- mudanças. Casou-se novamente, interessou-se cada vez mais
lia para Valença, onde ensina direito civil de 1545 a 1549· pela causa protestante; suas obras se abriram a novas pers-
a seguir, durante dois anos dá cursos em Ferrara. Durant~ pectivas. Em segundas núpcias, desposara Jacquette de
t?dos esses.anos, não deixou de escrever e publicar comentá- Bussi, viúva que era também sua prima e sobrinha de um
r~os em lattm sobre o direito romano, em assuntos que va- presidente do Tribunal. Sem filhos do primeiro casamento,
tampouco teve filhos com Coras, mas serviu de mãe a Jac-
rtavam .de~d_e o casamento e contratos até ações judiciais e
ques de Coras, que sempre chamou de "meu filho". Conhe-
a c?nstttmçao do Estado. A partir de 1541, pelo menos,
cemos as relações do casal por cartas trocadas por vários
envtava seus manuscritos a editores, principalmente em Lyon,
anos após o processo, mas sugerem, porém, o que pode ter
grande centro de publicações jurídicas. E os estudantes de sido seu casamento num período anterior.
8

direito gostavam dos seus livros: "Corasissima" escreveu


Coras é abertamente, profundamente, quase loucamente
um deles à margem de uma frase particularmente' adequada apaixonado por Jacquette de Bussi: "Nunca mulher alguma,
sobre o tema da herança de menores.
presente ou ausente , foi tão querida e amada pelo marido
As edições revelam ainda dois aspectos interessantes de quanto você é e será. Suplico-lhe que acredite que , dia ~
Coras .. Primeirament.e, uma vontade de desenvolver, repen- noite, em todas as horas e momentos, penso em você, espe-
sa:, retnterpretar. Dtz com freqüência ao·s leitores: "Come- ro-a, desejo-a e amo-a tanto que sem você não existo em
cei ~ trab~lhar sobre este tema em Toulouse no ano tal, nada" ..Envia-lhe livros, "uma roupa maliciosa" e "duas pe-
reveJ?-o agora e~ Ferrara". A seguir, a habilidade que lhe nas bem talhadas e fendidas a meu gosto como ..você". E
P,er~ute pr.ogredtr na carreira. Suas publicações de juventude quando esfria em Réalmont, recomenda-lhe: "Não durma so-
Ja sao ded~cadas ao primeiro presidente do Supremo Tribu- zinha, desde que não seja com um monge" (um trocadilho :
nal de Pans e a Mansencal, primeiro presidente do Tribunal moine é uma ·antiga palavra francesa para "aquecedor" ou
122 O RETORNO .DE MARTIN GUERRE O Conta dor da Estória 123

o móvel de madeira que o sustinha). Apresenta-lhe relató pontífice devia ser sempre um pasto r fiel e não um tirano
- .
rios políticos e conta-lhe notícias sobre a causa Refor Por volta de 1557 , seu tratad o sobre os casamentos cland
mada· es-
instrui-a para receber as visitas impq rtante s e entre gar
men~ tinos, em todo caso, está de acordo com a sensibilidade
pr~­
sagens. Preocupa-se com sua saúde e' quer saber se seu testan te em sua crítica ao direito canônico, seu press
afeto enti-
é correspondido. Quan do fica sem notícias, escreve: mento de que seria atacado por "venenosas calúnias ...
"Isso sob
me faz ter a opinião, contr a minha vonta de, de que não prete xto de religião" e sua afirmação de que seus argum
estou entos
tão gravado nas entranhas da sua memória como semp estavam "conf ormes a' pa1avra de D eus " .10
re
desejei". Le petit discours . .. des mariages cland estine ment
De fato, Jacqu ette é um pouco reservada com seu ma- e
irrev erem ment contractes marca uma nova guinada
rido. Ele a persegue e ela se esquiva: tais são as regra em sua
s de vida. Era a primeira obra que publicava em vernáculo.
seu jogo amoroso. Ele assina as cartas como "seu ~eu O
seu e objetivo deste gascão não era o de enriquecer· a língua
cem mil vezes seu Jean de Cora s"; ela ássina as suas fran-
como cesa, "a qual confesso muito pouco favorecida pelo meu.
".sua muito humilde e muito obediente espos a". Ele a I?o-
pres- do de falar natural e espinhoso". Procurava antes mobt
siOna arden teme nte para que lhe diga se deve aceitar ou hzar
não a opinião pública: a autorização dos pais para o casam
um cargo impo rtante . Ela lhe responde: "seja feita ento
a sua dos seus filhos é um assunto que "não pertence meno
vonta de", o que lhe vale em resposta uma carta mago s aos
ada que não são letrados do que aos conhecedor~s, ,d?utos
com uma assinatura impessoal, como um decreto. Nesse e sá-
ín- bios" . Dedicou seu livro a Henr ique li, cuJO edtto recen
terim, apesar da saúde frágil, ela administra seus bens te
com sobre os casamentos clandestinos ele aprovava e que,
competência, arrendando terras, consertando as cercas pouco
veri- depois, iria lhe conceder um privilégio de nove anos
ficando os livros da derra ma e dando orden s para ~ue para
os todas as obras que quisesse publicar ou reeditar. Esse
campos sejam semeados com painço e aveia. Envia-lhe pre-
notí- sente incomum permitiu a Coras controlar a impressão
cias e livros que leu, jarreteiras que confeccionou para e os
ele, lucros de uma forma melhor que a grande maioria dos
capões e água medicinal para seus olhos. Espe ra que auto-
esteja res de sua época. Utilizou-o em 1558 para a tradução
"cont ente e alegre" .9 em
francês de um diálogo entre o imperador Adriano e o filóso
fo
Marido e mulh er estavam partic ularm ente unidos pelo Epíte to, dedicado ao Delfim, e depois, em 1560 , para
seu engajamento na nova religião. Jean de Coras pode ~ua
ter grande síntese sobre a estru tura da lei, De iuris Arte, dedtc
sido instru ído no prote stant ismo por vias diversas, a-
por da ao Chanceler de França. 11
exemplo por seu amigo Jean de Boysonné, que nutri a
senti-
mentos heréticos muito depois de ter abjurado deles
em
Toulouse, e por pessoas do círculo da Duqu esa René ····- @-· ···
e, em
Ferra ra, centr o dos refugiados religiosos da França. Quan
do
em 1548 surgiu sua impo rtante obra sobre o direit o
canô-
nico, Paraphrasis in unive rsam sacerdotiorum mater Em 1560 , quando Jean de Coras assumiu o cargo
iam
a~n~a não tinha se convertido efetivamente; aceitava a legi~ em
La Tournelle , tinha quarenta e cinco anos de idade e estav
ttmtdade do papa, limitando-se a observar que o sober a
ano no apogeu do sucesso. Mas , como sugerem os fatos ;que
aca-
124 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

bamos de citar, era um homem ambivalente com aspirações


contraditórias. Moldara , é verdade, uma carreira brilhant e,
mas seu compromisso com o protestantismo era maior, o
que finalmente lhe custaria a carreira e a vida. Eminen te
especialista de direito romano , acreditava na autoridade da
família e no poder do soberano; não obstante, viria a ser
uma das grandes figuras implicadas nas sublevações protes-
tantes de Toulouse. Advertia as famílias contra as "temerá -
rias paixões do amor", mas a simples idéia de que poderia
ir buscar sua mulher dali a um mês, corria a procurar a mala
e começava a embalar suas saias de tafetá. 12
Quando Jean de Coras entrou em contato com "Martin
Guerre" , encontrou nele algumas de suas próprias qualida-
des. Embora não passasse de um simples camponês, o prisio-
neiro era ponderado, inteligente e sobretudo eloqüente.
"Não par'ecia que contava as coisas aos juízes", diz Le Sueur,
"fá-las reviver diante dos seus olhos." "Não me lembro de
jamais ter lido que algum homem tivesse a memória tão
boa", diz Coras. 13 Tinha também a aparência de um homem
respeitável, apegado à família, e seu amor pela bela esposa
era evidente. O fato de ter processado na justiça seu tio,
por causa de uma prestação de contas, não escandalizaria
além das proporções um homem · que indiciara seu pai num
processo por inventário de bens . Se é correta minha hipótese
de que "Martin Guerre" nutria simpatia pela causa protes-
tante, Coras tinha mais uma razão para pensar que ele era
pessoa digna de fé.
Foi então que apareceu no tribunal o homem de perna
de pau, "como um milagre", um ato da Providência, uma
graça de Deus para protege r Pierre Guerre e demons trar a
Jean de Coras que estava enganado.14
Coras refletira sobre os perigos da mentira dois anos
antes, po.r ocasião de sua tradução do diálogo entre Adriano
e Epíteto. Jean de Coras no final do~ anos ~~60 , .
cópia do século 17, por Bastet, de um ongmal perdtdo
126 O RETORNO DE MARTIN GUERRE 0 Contador da Estória 127

Adriano: O que é que o homem não pode ver? . uinada em sua obra, uma nova
Epíteto : O çoraçã.o e o pensamento de outrem . Mals um~nova ? .de tudo esse livro permitia-ledição em
francês. as, aclma he julgar
'b de exec utar· condená-lo
Comenta o juiz: "E na verdade não há entre os home novamente o homem que b, aca ara
dar-l he ou pelo
·
meno
,
ns uma segunda vez, mas tam e~ s a sua
nada mais · detestável do que fingir e dissimular, '
embora estória, uma segunda oportumdade.
nosso século seja tão --desventurado que, em todas
as posi-
ções, aquele que melhor sabe refinar suas mentiras,
simu-
lações e hiprocrisias muitas vezes é o mais rever
encia -
do ... ". 15
Teria imaginado Coras 'algum dia que seria tão enga
na-
do, e por alguém cuja trapaça suscitaria sua admiração
? Que
obra profunda e bem-acabada era aquela impostura
- "as
mil necessárias mentiras" de Arnaud du Tilh! ("Ele
respon-
deu tão bem ", disse Le Sueur, "que parecia estar
represen-
tand o"). Os advogados, os funcionários do rei, e
por que
não os próprios juízes, conheciam tudo sobre a arte
de se
automodelar (do self-fashioning, para retomar a expre
ssão
de Stephen Greenblatt), sobre a modelagem do
discurso,
das maneiras , gestos e conversação, como qualquer
pessoa
que, no século 16, alçava-se a uma posição elevada.
Ond e
se detinha a modelagem e onde começava a mentira?
A in-
ventividade de Pansette colocava o problema de modo
agudo
aos seus juízes, muito antes que Montaigne colocasse
a ques-
tão para seus leitores num ensaio auto-acusatório. 16
A primeira reação de Coras foi negar que se tratasse
de
inventividade humana. Du Tilh devia ser um mági
co, auxi-
liado por um demônio. Era um traidor e Coras não
tinha
absolutamente nada a lamentar em sua morte, tanto
do pont o
de vista jurídico como do ponto de vista moral.
A segunda reação de Coras foi reconhecer que Arna
ud
du Tilh tinha algo de fascinante que traduzia a situa
ção das
pessoas de sua classe, e que, no casamento inven
tado do
novo Martin e Bertrande de Rols, havia algo de profu
nda-
mente falso, mas também profundamente justo .
Assim pôs-se à mesa de trabalho e afiou suas pena
s.
11
Histoire prodigieuse, Histoire tragi<que*
····-@-····

O pela
LIVRO DE Coras, Arrest Memorable,
é inovador tanto
pluralidade dos pontos de vista como pella mescla
de gêneros. Embora possam se encontrar alguns ttraços ori-
ginais nele, Admiranda Historia de Pseudomartirw de Le
Sueur, inscreve-se na longa tradição dos "relatos v'erídicos"
gue desempenharam um papel tão importante ante!s do apa-
recimento da imprensa periódica. Panfleto de formato pe-
queno, simplesmente conta a história desde a chegada dos
Guerre em Artigat até a execução de Arnaud du Tilh, e ter-
mina com um pequeno dístico moral. Um "amigo" de Tou-
louse enviou o manuscrito a Jean de Tournes, o célebre hu-
manista livreiro e impressor de Lyon, gue às veze!s editava
relatos verídicos. Mesmo sem esperar a obtençãc> de um
privilé2:io real para a obra, imprimiu-a imediatamente em
latim. Um outro manuscrito chegou às mãos do livr~eiro Vin-
cent Sertenas, em Paris. No final de janeiro de 1561, Serte-
nas já estava com a tradução para o francês e conse!5uira um
privilégio real de seis anos segundo a boa e devida forma .
Editou-o sem o nome do autor, sob o título Histoire Admira-
ble d'un Faux et Supposé Mary, advenue en Languedoc, l'rzn
mil cinq cens soixante. Foi assim gue as notícias da impos-
,., Em francês no original ( N. do R. .).
130 O RETORNO DE MARTIN GUERRE
Histoire prodigieuse, Histoire tragique 131
tura começaram a circular, engrossando a literatura
já volu- E ainda havia a expressão "um a estória prodigios
mosa das "terr íveis " ou "maravilhosas" estórias a", a
de assassi- melhor possível para a venda. As coletâneas de
natos, adultérios e catáclismas de todos os gêne "prodígios"
ros. 1 - plantas ou animais fabulosos, visões estrar:has
Entrementes, em 2 de fevereiro de 1561, Jean de nos céus
Coras e nascimentos mon stru oso s-, tão logo eram Impr
assinava a dedicatória do seu manuscrito e expe essas, su-
dia-o ao co- miam como pãezinhos frescos . Um ano antes,
merciante-livreiro Antoine Vincent, de Lyon, Vincen_t Ser-
transferindo- tenas publicara as Histoires prodigieuses de Pier
lhe seus direitos, cobertos pelo privilégio geral de
nove anos. r~ Boa1~tuau
Até então, o editor lionês publicara pouquíssimos e, quando saiu o opúsculo de Le Sueur, a expressao
livros em se mt~o­
vernáculo; sua fortuna se construíra sobre a publ duzira no soneto introdutório do relato do falso
icação de Martm:
obras em latim, entre as quais De actionibus, de "As histórias mais prodigiosas que se lêem I Do
Coras, apa- tempo dos
recido em 1555, e seu De iuris Arte , de 1560 2 cristão ou dos pagãos . . . I Se leres este escri
; O novo tí- to, nada te
tulo em si já era muito atraente e cheio de fresc parecerão I Ao lado do falso marido . . . ". Cora
or para um s tampouco
leitor de 1561: Arrest Memorable, du Parlemen hesitara em usá-la no título, dando-lhe o mesm
t de Tolose, o senudo de
Contenant une histoire prodigieuse, de notre Boaistuau, que aliás fora seu aluno em Valença~
temps, avec Certamer:te,
cent belles, & doctes Annotations, de monsieur um prodígio é algo bizarro e maravilhoso, mas_
maistre Jean nem por 1sso
de Coras, Conseiller en ladite cour~ f, rapporteu é único. Os prodígios constituem os casos ma1s
r du proces. extremos e,
Prononcé es Arre stz Generaulx le xii Sptembre portanto, os mais raros dentro de um c~njunto
MDL X. de coisas ou
Esporadicamente eram publicados relatórios de acontecimentos de mesma natureza. Ass1m, no
senten- caso que nos
ças criminais na França, como o processo daqu interessa, a impostura ultrapassava tudo o que
ele italiano •
até então se
condenado por ter envenenado o Delfim em ouvu a. 4
1536. E já À primeira vista, o livro de Coras parece
começavam a surgir coletâneas de julgamentos; ser um co-
tanto crimi- mentário jurídico, com o jogo constante das relaç
nais como civis. 3 Mas, na obra de Coras, a sente ões entre
nça propria- Texto e Anotações. Na realidade, a maior parte doJe
mente dita ocupava apenas duas páginas, num xto não
total de 117. consiste em documentos oficiais, mas naquilo
E o juiz, ao invés de reservar seus comentários que o autor
para algum chama le texte de la toile du proces 5 - a "tram
douto tratado de direito_ criminal, preferira dese a" tecida
nvolvê-los pelo próprio Coras - , e muitas vezes as Anotaçõe
ampla e profundamente nesse entretenimento. s nada têm
Coras pode a ver com a lei. Poder-se-ia defini-la simultaneame
ter sido o primeiro jurista na França a explorar nte como
um dos seus uma obra jurídica que questiona o funcionamen
próprios casos criminais numa obra na língua to da lei,
vernacular. * um relato histórico que duvida da sua própria
* Desde o édito de Villars-Cotteret de 1539, todos veracidade e
judiciais deviam ser em francês . Nos casos civis, os procedimentos uma narrativa que se desdobra entre as fronteira
abertos ao público, os dis- s do conto
cursos formais dos advogados às vezes eram impre
ssos, e no final do século 16 moral, da comédia e da tragédia.
tornaram-se um gênero literário apreciado [Cath
erine E. Holmes, L'Eloq uence É evidente que essa forma heterogênea deu a
iudiciaire de 1620 à 1660 (Paris, 1967)] . Os
casos criminais, em contraposição, · Cotas uma
eram em princípio fechados ao público, até a liberdade que nunca tivera antes , mesmo que suas
caso Martin Guerre, muitas vezes não tinha
leitura da sentença, e, como no obras em
discursos de advogados. Isso latim abarcassem temas bastante amplos. Inicialme
significava que qualquer tratamento literário nte, pro-
grande reconstrução por parte do autor . .
posterior do caso exigiria uma · porcionou-lhe ocasião para se entregar a uma refle
xão sobre
as questões essenciais da prática jurídica de sua
época: tes-
132 O RETORNO DE MARTIN GUERRE
Histoire prodigieuse, Histoire tragique 133

temunhas, evidências, tortura, natureza da prova, etc. O caso pressor, Jean de Tournes, defensor da nova religião. Coras
Martin Guerre fornecia-lhe um exemplo onde os "melhores" e Le Sueur podem ter se perguntado se as desgraças dos
testemunhos se revelavam falsos, a verdade se encontrava Guerre ocorreriam na cidade reformada de Genebra, onde
nos boatos e os juízes se extraviavam. Em segundo lugar, as novas leis sobre o casamento e um Consistório vigilante
podia discutir o casamento e problemas a ele ligados: noi- não teriam permitido um casamento entre pessoas tão jovens
vados de filhos impúberes, impotência, abandono do leito ou então forçariam Bertrande a se divorciar logo, e em todo
6
conjugal e adultério. Aí encontraria também material para ca;o des~obririam rapidamente o adultério. E não era um
comentários religiosos, como sobre a blasfêmia; sem dúvida, deus protestante que concebera o retorno do homem com
deu-se ao malicioso prazer de lançar algumas alfinetadas dis- perna de pau no momento oportuno, para abater a confiança
cretas contra o catolicismo. A água benta, hóstias e fogaças, excessiva dos conselheiros do Tribunal de Toulouse? 8
longe de serem meios eficazes para livrar do malefício um
Se Coras e. Le Sueur tinham tais concepções, não as
homem afetado pela impotência, não passavam de "vãs su-
impunham aos textos. Arrest Memorable encontrava .le~to­
perstições'': mais valia orar e jejuar. E suas observações sobre
res entre as duas crenças, católica e protestante, e sena Im-
a feitiçaria deixam transparecer sua sensibilidade protestan-
presso posteriormente em Paris por editoras. católica~. Vin-
te: redimidos péla paixão de Cristo, devemos suplicar-lhe
cent Sertenas, o editor de Le Sueur em Pans, tambem era
"que queira elevar nossos corações e nos dirigir para seus
católico. Na realidade, a dedicatória de Coras a Jean de Mon-
caminhos, para que pela luz de sua palavra possamos expul-
luc só apresentava os propósitos leves do, livro: havia aí "um
sar de nós todas as ilusões, artifícios e imposturas, com as
argumento tão belo, tão aprazível e tão monstruosamente
quais o diabo que sempre tenta nos enredar faz incessante-
estranho" que poderia trazer ao bispo "recreação e descan-
mente novos embustes contra os filhos de Deus e sua Igre-
• " 7
Ja . . so" em meio às suas preocupações. 9
De fato, a construção de Arrest Memorable é bastante
Mas não seria de uma forma bem mais fundamental
que Coras via nessa estória e confirmação das teses protes- complexa: a mescla de tons e de formas são as características
tantes? Certas circunstâncias que acompanharam sua publi- centrais. É um livro jurídico que questiona as operações do
cação inclinam-nos a crer nisso. O editor, Antoine Vincent, direito; é um relato histórico que levanta dúvidas sobre sua
era uma das figuras de proa do calvinismo francês. Um pouco própria verdade. É um texto que se move entre.~ conto m~­
depois, no mesmo ano de 1561, viria a obter o privilégio ral, a tragédia e a comédia. Os heróis parecem viloes, e os. vi-
real para o Salmério Calvinista, um best-seller da língua vul- lões· parecem heróis; e a história é contada de duas maneiras
gar que superaria Arrest Memorable. Coras dedicara seu li- ao mesmo tempo. A matriz legal do livro ajuda a criar essa
vro a Jean de .Monluc, bispo de Valença, cujas idéias 'foram complexidade. O Texto de Coras inspirava-se no documento
consideradas heréticas pela Faculdade de Teologia de Paris que redigira como relator da corte de Toulouse, onde pesava
naquele mesmo ano. A publicação inicial de Le Sueur tam- os argumentos a favor da acusação e os da defesa. Agora ,
bém tinha uma certa posição protestante: um autor que se ele joga constantemente com a distância entre o seu estilo
voltava para sentimentos calvinistas; uma dedicatória ao juiz administrativo, onde se trata do "réu" , do "dito du Tilh",
Michel Du Faur, suspeito de simpatias heréticas; um im- e as Anotações, onde o mesmo homem é.qualificado de " esse
134 O RETORNO pE MARTIN GUERRE
Histoire prodigieuse, Histoire tragique 135
rústi.c o", "esse luxurioso" ou ainda "esse prodigioso ofen-
sor". pastores dos tempos bíblicos, da antigüid~~e clássica e .te~­
pos mais recentes. Tamanha semelhança flSlca entre d01s In-
Além disso, optou deliberadamente por acentuar certos divíduos sem nenhum laço de parentesco já era em si algo
traços e .omitir outros. Pode-se até dizer que se permitiu al-
pouco comum, mas, tão longe quanto Coras pudera levar
gumas dtst<;>rções da verdade para enfeitar seu relato. A me-
suas pesquisas, jamais houvera um e~emplo onde a s~m~: .
mória de Arnaud torna-se ainda mais prodigiosa 'do que já lhança do físico e dos costumes- "mil fraudes e mentiras
era. Pelo que nos conta !,te Sueur, ele teria esquecido o nome · _ conseguira enganar tanto e p~r tanto te~po. O falso
de um dos padrinhos, que assistira à crisma de Martin Guer- conde Baudouin de ·Flandres, no seculo 13, nao enganara a
re. Mas em Coras ele nunca esquece. Ademais, esforça-se em
filha do conde, Jeanne, apesar de todas as pro~as que pudes-
se apresentar a si e toda a corte como imensamente menos
se apresentar. Mas, aqui, não só os parentes unham s1do 1~­
convencidos da inocência de Arnaud do que de fato. Nunca
grados, mas até, coisa "que,de~e levar cada um. a uma admi-
menciona a prisão de Bertrande e Pierre - no entanto du-
ração ainda maior", sua propna ~ulhe:, qu~ v1vera com ele
rou meses. O fato é relatado por Le Sueur e, principal~en­
na intimidade durante três anos s~m Jamais se ap~rceber c
te, anotado duas vezes r:tos registros do Tribunal. A sentença
nem sequer suspeitar da fraude". Essa versão exphca ? en-
de 12 de setembro de 1560 .diz, com todas as letras, sobre
gano pelo assombroso poder de iludir ~e. Ar?aud du Tdh, .o
Bertrande de Rols e Pierre G;uerre: "antes prisioneiros por
que tornava plausível a acusação ~e.!eltlç.ana - Coras ~1z
razão do assunto", mas· quando Coras reproduz o veredito
que não podia se livrar dessa op1mao, amda que du Tdh
em seu liv~o, contenta-se em substituir a frase por um "etc.".
negasse qualquer artifício di~bólico - e ao m_:smo tempo
A omissão não se devia a um cuidado de concisão ou aceitável sua execução exemplar. Bertrande nao passa d.a
economia de espaço, já que vemo-lo acrescentar à sua versão simplória tapeada, o que é com~ree~sível visto 9u.e "a ~ragl­
da sentença vários crimes de que Arnaud du Tilh não era lidade do seu sexo, fácil de ser Ilud1do, pela astuc1a refmada
realmente acusado: "rapto, sacrilégio, plagiato [no direitO e habilidade dos homens".
11

romano, seqüestro de uma pessoa para venda ou outro abu-


Contudo, havia algo inquietante nessa ve;s~o, tanto
so], furto e outros casos pelo dito du Tilh prisioneiro cometi-
para os cônjuges como para os amantes. Nas estonas engr~­
dos".10 ~s Anotações de Coras mostram-nos que considerava
çadas, tão correntes na época, onde um personage~ substi-
esses cnmes como extensão do adultério e usurpação de nome
tui um outro para fazer amor ~m seu lugar, proteg.ldo pela
e pessoa; sem dúvida, também lhe permitiam tornar mais
aceitável a pena de morte.* escuridão da noite, geralmente a vítima não nota a d1f~rença.
(Só conheço um exemplo contrário: o velho cavale1ro das
Todas essas modificações tendiam a fazer de Arrest Cent Nouvelles Nouvelles percebe a diferença entre o colo
Memorable um conto moral. As qualidades excepcionais de firme da jovem criada e as formas amolecidas de sua e.sp~­
Arnaud eram realçadas por comparações com os grandes im- sa.)12 Mas no caso de Bertrande, tratava-se de uma hlsto-
* Coras tinha alguma dificuldade apenas com o fuito, pois Justiniano não ria verdad~ira e não de um estereótipo da literatura gala~te,
prescrevera a pena de morte para tal crime. Ao demonstrar que o furto era tanto mais que a trapaça durou bem mais que uma n01:e.
grande (a herança .de Mart~n), envolvendo traição e perturbação da paz do
casamento, Coras dtsse que Isso acarretaria condenação à morte (pp. 126-7).
A "fragilidade do sexo" seria tão grande que as esposa~ ~ao
conseguiriam distinguir entre o amor conjugal e o adulteno?
136 O RETOR NO DE MART IN GUER RE Histoire prodigieuse, Histoire tragique 137

O marido traído, Martin Guerre, estava convencido do Texto: Vendo e considerando que, já que os mais privados e
contrário, como provam as palavras que teria pronunciado particulares amigos do dito Martin Guerre tinham se iludido
cóm ele, . . . trata-se de desempenhar a tragédia que vocês
perante o tribunal, segundo Coras e Le Sueur. E é difícil
crer que Coras, cujas relações com Jacquette de Bussi co- aqui ouviram. , .
Anotações CIV: Era verdadeiramente uma tragedi a para ess~
nhecemos, pudesse acreditar realmente que as mulheres se gentil rústico: tanto que o resultado foi muito funesto e mt·
enganassem com tanta facilidade.* . serável para ele, Além do que ninguém sabe a diferença entre
Mas o juiz deixara falhas no próprio conto edificante. tragédia e comédia .. .
Onde estava, então, o seu herói? Um conto, supostamente,
abre-se com a partida do herói e conclui com seu retorno O impressor parisiense da edição de 1572 acrescenta
s~a vitória s~bre o fals~ herói e seu casamento. Mas a par: seu grão de sal falando em "tragicomédia", a quall~nt~me?~e
tida ?eMartl~ Guerr e e condenada, seu retorno, por provi- abria seu caminho tanto na prática como .na teona hteran~
dencial que seJa, mostra-o a nós como inflexível e impeniten- francesa do século 16:>'< "Pois a Prótase, ou abertura, e
te; não vence a justa da memória contra Pansette. Coras muito divertida, agradável e recreativa, conte~do,~s astúc.ias,
não nos diz se o casal ficou feliz com o novo reencontro. Le manhas e trapaças de um falso e suposto mando . (Ó leitor
Sueur, que não demonstra grandes simpatias por Martin poderia pensar que tem nas mãos um exemplar. do Decame-
nem por isso deixa de reproduzir a cena onde o president~ rão, de Boccaccio, ou o Heptamerão, de 1:1arguente de Na~~r­
Mansencal tenta reconciliar os dois esposos; nada disso apa- ra ou ainda o romance picaresco Lazarzllo de Tormes.) A
rece em Coras .13 E~ítase, ou entrecho, incerta e duvidosa, para os debat,es
Uma omissão ainda mais curiosa é a escassez de detalhes e diferentes fatos sobrevindos durante o processo. A Catas-
da primeira edição .de Arrest Memorable sobre a confissão trofe ou a Moral da estória triste, lastimável e miserável. · · ''
e execução de Arnaud du Tilh. A confissão é mencionada Le Sueur também dá ao seu relato mais simples uma outra
d~as vezes de passagem 14 - o .fato escapa totalmente ao coloração, ao falar várias vezes de tragédia. 15 , •
leitor apressado - , e o livro conclui com o reenvio do con- Mas a originalidade da visão de Coras nessa estona
denado ao Tribunal de Rieux. Coras deixa ao leitor um certo camponesa merece ser ressaltada. A tragicomédia na França
espaço de dúvida se a Câmara Criminal realmente apanhara tinha um desfecho feliz .e tratava de nobres - pel~ menos
o homem certo. para os personagens principais. Se as Histoires tr~gtques do
É apenas na sua edição de 1565 que Coras.. preenche italiano Bandello, traduzidas, adaptadas e pubhcadas, ~or
essa lacuna, fornecendo-nos a confissão de Arnaud du Tilh Pierre Boaistuau em 1559, combinavam bem a força tragica
em ~rtigat, mas apena syara nos deixar nD;ma nova situação e a paixão "prodi giosa" , nenhum dos protagonistas. era al-
amb1gua, quando nos d1z, em uma de suas belas Anotações, deão. O fato de Coras ter concebido "peças de tragédia entre
que toda a estória é uma "tragé dia": pessoas vis e abjetas" devia-se indubitavelmente (conforme
* A~ relações com sua filha Jacqueline de Coras também permitem supor ressaltei no capítulo anterior) ao seu caráter, capaz de se
que nutria p~r ela um gran~e afeto. Em setembro de 1559, traduziu
para ela '' É bastante interessante que o termo "tragicomédia"
Les Douze rezgles de Juan Pico de la Mirandola do latim para o francês, tenha sido empre-
uma defesà contra a tentação. O livro foi editado .em 1565 em
como gado pela primeira vez no pró.logo de A,nfitriã~,, ~e Plauto, uma
Lyon, junta- peça sobre
mente com uma nova edição de Arrest Memorable. imposturas, com edições em latim e frances no m1c1o do século 16.
138 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

identificar de certa forma com um homem rústico que, como


ele, soubera se reconstruir. 16 .
Na versão "comitrágic~", Arnaud du Tilh possui ainda
dons incomuns: é comparado a Júpite r disfarçado de An~
fitrião, para seduzir sua mulher, e ultrapassa as memórias
mais prodigiosas da antigüidade, como Portius Latro, ami- 12
go de _Sêneca. Mas tem cúmplices, entre eles Bertrande de
Rols, que, longe de ser apenas a tola enganada, decide com
Dos Coxos
pleno conhecimento de causa viver conjugalmente com ele. · ··-@ -····
(Esta Bertrande está presente no texto de Coras, mas de
modo menos evidente do que a esposa ludibriada, e foi total-
mente eliminada da versão de Le Sueur. A imagem de uma
mulher que dispõe do seu corpo à sua vontade é muito mais "ENV IO-L HE . . . um dos meus arrestz de Martin
pertü-roadora do -que a automodelagem de Pansette. É tema Guerre, novamente e pela quinta vez reimpres.s o", es-
de pesadelos, como quando Coras escreve a Jacquette sobre crevia Jean de Coras a sua mulher em dezembro de 156 7.
"um estranho sonho que tive ., ontem, que na minha frente Podia-se orgulhar da forma como caminhava o livro, mesmo
você ~stava casada com .\lm outro e quando lhe mostrei o talvez com as edições publicadas em Paris e Bruxelas em
erro que fazia a mim, em troca você me deu as costas".) 17 1565, em violação ao seu privilégio de nove anos. O formato
Aqui pode~se aprovar a traiÇão a um marido inicialmente agora era menor, um sinal certo do menor preço do livro e
impotente e depois ausente. Arnaud du Tilh converte-se nu- ·de que os editores esperavam alcançar um mercado maior.
ma espécie de herói, um Martin Guerr e mais real do que o No iníCio de 1572, editores parisienses publicaram-no com
homem de coração empedernido e perna de pau. A tragédia · sua própria concessão real de dez anos. 1
reside menos na impostura e mais na sua descoberta. Nessa época, Coras pouco estaria pensando sobre seu
Arrest Memo rable. Inicialmente entrara em conflito com
seus colegas católicos no Supremo Tribunal, após o levante
calvinista em Toulouse em maio de 1562 (as testemunhas
declaravam que os arcabuzes tinham sido disparados das
janelas da casa de Coras, o que ele negava calorosamente).
No início de 1568, os juízes protestantes não só tinham sido
expulsos do Tribunal como também condenados por alta
traição e enforcados em efígie. Coras servia à causa como
chanceler para a rainha huguenote de Navarra, Jeanne d' Al-
bret. De volta a Toulouse após a pacificação, ele e François
de Ferrieres foram encarcerados na esteira dos massacres do
Dia de São Bartolomeu em Paris. Em outub ro de 1572 ,
140 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Dos Coxos 141

for~I? linchados em seus mantos vermelhos por uma turba tiplicação dos crimes" de Arnaud du Tilh (multiplicação,
catoltca defronte ao edifício do Tribuna1.2
lembremos, que foi obra de Coras na edição impressa) e
Contudo, as obras de Coras continuavam a ser publica- achava que cada um deles mereceria a pena de morte. Para
das: E~quanto _as pessoas lutavam sobre a verdadeira e a fal- Géraud de Maynard, ex-aluno de Coras e posteriormente
~a IgreJa e as Ilusões do demônio, · o livro sobre o marido- juiz no Tribunal de Toulouse, era a questão da legitimidade
Impostor era mais uma vez, em 1579, editado em Paris. Em de Bernarde du Tilh e seus direitos à herança do seu pai
1576 e 1588, surgiram traduções latinas da primeira edição acusado de impostura que constituía o material de Nota-
em F,ra?kfurt (e uma delas chegou à Inglaterra). Finalmente, bles ... questions du droict. Étienne Pasquier inclui o caso
nos ultimos anos d~ século, Barthélemy Vincent, em Lyon, de Martin Guerre em seu Recherches de la France, entre ou-
retomou o autor editado por seu pai. 3 tros processos que se encerraram com provas miraculosas.
_o livro foi a~quirido principalmente por juristas e con- Retirando detalhes principalmente do relato de Le Sueur, o
selhei~os, que ass:navam seus nomes nas páginas de rosto, historiador e ilustre juiz de Paris achava - ·e tinha certeza
escreviam anotaçoes nas margens, comparavam-no a Para- que as mulheres concordariam - que Martin Guerre devia
6
phraze sur l'Edict des Mariages clandestinement contractez ter sido punido por abandonar a esposa.
~e, ~oras, ~u a outros livros sobre as leis de casamento. N~ Para os comentadores menos interessados em questões
IniCio do seculo 17, Arrest de Martin Guerre era citado en- jurídicas, o que os atraía eram as características "prodigio-
tr: os textos fundamentais para qualquer estudioso de di- sas", maravilhosas da estória. O erudito editor Henri Es-
r~Ito. Mas t~mbém era apreciado por suas qualidades literá- tienne utilizou-a para demonstrar que uma história de Heró-
rias; um _leitor, ~or essa razão, encadernou-o juntamente doto sobre uma impostura bem-sucedida não era tão incrível.
com Admzranda hzstoria, de Le Sueur. 4 . Gilbert Cousin e Antoine Du Verdier incluíram-na entre
A obra de Le Sueur encerrava sua carreira transforman- relatos de revoltas camponesas, cometas e inundações, trans-
do-se, como c_ert~s rela~os verídicos, em lenda popular. Já: formações de mulheres em homens e conspirações políticas.
desde su~ primeir~ 7dição em francês, desapareceram as François de Belleforest colocou-a num capítulo sobre seme-
c?mparaçoes com Jupiter, Mercúrio, Anfitrião e Sosius. Ar- lhanças físicas notáveis em sua continuação de Histoires
tigat transformou-_se_ em Artigne e dti Tilh em Tylie _ e prodigieuses de Boaistuau. (Evidentemente, , encontrava-se
nunca foram corrigidos. Na reedição de 1615, Bertrande entre a multidão que aguardava o pronunciamento da sen-
converte-se. no título numa "mulher notável". A trama tem- tença em Toulouse. É de perguntar se Belleforest lembra-
~o~al se dissolve: o acontecimento ocorre "durante esses va que Pansette era seu conterrâneo quando afirmou que
. ul~Imos problemas", sem nenhuma referência à batalha de os maridos do Comminges tratavam ~mas esposas "doce-
7
Samt-Quentin e Filipe IJ.S . mente e não com essa rudeza que se atribui aos gascões".)
Sab;mos como o livro do juiz foi récebido pelos leito- Quaisquer que fossem seus motivos literários ou pro-
res atraves daqueles que reescreveram-no ou comentaram-no. fissionais, todos esses autores concordavam em fazer de Ar-
Jean ~ap?n, Conselheiro do rei no Forez, inclui-o em seu naud du Tilh o personagem marcante, a figura inventiva do
Recue_z~ d arrestz. notables, redigido em 1566, na seçã.o sobre conto, a ser admirado e temido, invejado e repelido. Alguns
adulter10s. Ele ficara particularmente chocado com "a mul- mencionavam a possibilidade da magia, mas não a acentua-
142 O RETORNO PE MARTIN GUERRE

vam muito, visto que a personificação não era ·o· tipo ·de 2. 7'
malefício de que se acusavam as feiticeiras nos processos DE DE VX GE NT ILS -
contemporâneos.8 Bertrande e seu papel composto .desapare- h"mmes fe ,·apportans tellement de {4~
ceram completamente, assim como quaisquer dúvidas ·sobre t::".L
ce, -v~ix ~ ptlrole & gfH·e , ·z ç-j •
a" justiça da sentença. Contudo, é preciso acrescentar que s qu t e:, rott'
não possuímos nenhum comentário feminino sobtê ·a histó- impoj?tble de les difc:ertJcr e1z, forte
ria até o século 20. Não chegou a nós a reação de Jacquette
'J.liC lconlj :i-e.
Bussi ao livro que lhe foi presenteado pelo marido. Mas
duvido que ela tenha acreditado que Bertrande de Rols se
deixara enganar por tanto tempo.* Hifi oire pren 1iere .
Há duas exceções que vêm discordar da unanimidade
desse concerto de vozes masculinas. A. primeira provém · do
poeta occitânio Auger Gaillard, antigo soldado do Albigeois
e protestante. Em seu Amou rs prodigieuses, de 1592i publi-
cado em francês e occitânio, identifica-se não ,com o "enga-
nador aguerrido" (trompeur aguerri), mas com a esposa
ludibriada:
Em Béarn e em França
Muitas moças vi com semelhança
Que entre si prontamente trocariam
De modo que teriam me enganando facilmente. ,.,*
; * O encantador romance de Janet Lewis, The Wife of Martin Guerre,
sob muitos aspectos difere do seu relato histórico, mas assemelh
am-se ao
apresentar uma Bertrande que não é ingênua e tem alguma independ
ência de
espírito.
*•· Gaillar publicou o poema em francês e occitânio :
En Béarn et en France
Maintes filles ;'ay veu d'une mesme semblance
T ellement que changer se porroint àisément
De sorte que l'on meust trompé facilemente .

En Bear et en Fransso " .


A prou filhos que ·sou toutos d'uno semblansso
Que s'ieu ne prenio cap 'd'aquelos que ne sou
A my m'etz pouirio prene ai tal de la faissou .
Um caso de notável semelhança no século 16,
Coras dá um exemplo de impostura feminina: uma mulher que cobiçava extraído de François de Belleforest, Histoire's prodigieuses
uma herança na época de Augusto, em Milão (p. 23} . (Paris. 1 'l74 )
..
144 O RETORNO DE MARTIN GUERRE

E se regozijava por estar apaixonado por uma mulher


moura, certo de poder reconhecê-la mesmo que ficasse au-
sente por mais de cem anos. 9
A outra exceção é Montaigne, em seu Des boyteux
(Dos Coxos), gue apareceu pela primeira vez em 1588. 10
Muitas vezes pensa-se que esse ensaio introduz o caso de
Toulouse de forma apenas incidental, numa discussão sobre
a queima das feiticeiras, mas de fato as questões que Mon~
taigne levanta não se limitam à feitiçaria, e por todo o texto
ressoam ecos de Coras e seu livro. Montaigne ressalta a difi-
culdade em se saber a verdade sobre as coisas e tenta nos
mostrar a que ponto a razão .humana é um instrumento in-
certo: "A verdade e a mentira têm seus rostos semelhan-
tes ... olhamo-las com o mesmo olhar". Ele próprio admite
se deixar levar pelo calor da argumentação, exagerando a
verdade nua pelo vigor de suas palavras. Todos tentamos
fazer prevalecer nossas opiniões, forçando os outros a acei-
tá-las a ferro e fogo. Não valeria mais sempre hesitar do que
dar provas de presunção? Ser um aprendiz aos sessenta anos
do que se considerar um doutor aos dez?
É neste ponto do seu argumento, que constitui o pivô
central do ensaio, que Montaigne introduz explicitamente
o caso d<; Martin Guerre:

Vi em minha infância um processo de um acidente estranho:


que Coras, conselheiro de Toulouse, mandou imprimir, dois
homens que se apresentavam um pelo outro . Lembro-me (e
não me lembro tanto de outra coisa) que me pareceu ter ele
considerado a impostura daquele que julgou culpado tão mara-
vilhosa e excedendo em tanto o nosso conhecimento, e o seu
O castigo vem com perna de pau, ·
próprio enquanto juiz, que achei muita audácia na sentença
extraído de Otto Vaenius, Quinti Horatii Flacci Emblemata
que o condenava a ser enforcado . (Antuérpia, 1612)

Montaigne teria reservado seu julgamento, como os


146 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Dos Coxos 147

sesse~ta campa.neses de ~rtigat e Sajas que não conseguiam para fustigá-lo. E a tarefa de Montaigne era mais fácil: esta-
ver difefen'Ça entre Martm Guerre e Arnaud du Tilh: * va escrevendo não como juiz, mas "pelo discurso", ao passo
que Coras enfrentara uma família e uma aldeia dividida à
Aéeitemos alguma fo~ma de · sentença que diga: "A corte nada espera da decisão da corte.
ent~nde", com ~ais liberdade e ingenuidade do· que os Areo-
pagttes, os quats ell:corrtrando-se pressionado por uma causa
A leitura conjunta de Arrest Memorable e Des boy-
que não : con~eguiam .desembaraçar, ordenaram que as partes teux dá a ambos uma nova dimensão. Montaigne volta
voltassem palt a cem 1anos. incessantemente à imagem de pernas, ao longo de suas pági-
nas. A perna deformada pela gota do príncipe pretensamente
Mo~:aign_: r.essalta ,as .pobres evidências que existem curado pel~ "maravilhosa operação" de um padre; as pernas
~~r~ de~~soes tao Irrevogaveis quanto a de queimar uma fei- finas dos franceses e as pernas grossas dos alemães, ambos
ticeira. Para matar as pessoas é preciso uma clareza lumi- os casos explicados pela prática da equitação; as pernas alei-
nosa e límpida." E Montaigne cita o provérbio italiano· jadas, enfim, da sensual manca. Mas o próprio Montaigne
"Não conhece Vênus em sua plena doçura quem não dormi~ · é c;leformado, isto é, de difícil compreensão: "Não vi mons-
com a manca". Alguns aplicam-no também aos homens, afir- trÓ e milagre no mundo mais manifesto do que eu mesmo . . .
mando que os que lhes falta nas pernas encontra-se nos seus quanto · mais eu me freqüento e me ·conheço, mais minha
membros genitais. Não é a forma como nossa imaginação deformidade me espanta". As pernas de Martin Guerre e
no~ ar,r~bata o exemplo supremo do coxeamento dos nossos Arnaud du Tilh também foram fonte de perplexidade. Mas
raciOcimo~? Isso o leva a se interrogar sobre "a temeridade" o homem "chegado das Espanhas com uma perna de pau"
de quem Julga. Para Montaigne, "não há outra sentença ou seria um indício tão convincente? Certamente, desde Ho-
ponto de parada além do da necessidade". rácio sabe-se que o castigo, por mais que coxeie, alçança o
Em "Des bo!teu~", Montaigne é muito duro para com criminoso mais veloz. Mas também se conhece o provérbio
o ~obre Coras, ha multo tempo falecido, duro até demais, que a mentira anda de muletas e não se pode ir muito longe
P.o~s, paradoxalmente, exprime aí uma das mensagens essen- com elas.u Coras acreditava ter descoberto quem era o im-
ciais de .Arrest Memorable. Coras, com pouco mais de dez · postor, mas no centro do seu Arrest Memorable encontra-se
~nos, agua como um doutor, e a divisa com que assinara 0 uma incerteza tão profunda como em Montaigne.
hvro era "À razão cede"; mas aos quarenta e cinco anos
reconhec~r~ a que ponto sua razão o enganara e quão difícil
para um JUIZ era separar o verdadeiro do falso. Coras reco-
mendara .a pena de mor~e, quando podia requerer as galeras
ou o bamme~t?. Mas fm a narração do juiz, evocando o caso
sob suas mult1plas facetas, que deu a Montaigne as varas
* É de s~ lem?rar que, no final do julgamento, presenciado por Montaigne,
Arnaud d~ Ttlh amda s~ste~tava .ser Martin Guerre. Além disso, Montaigne
pode t~r _hdo apenas a pr1me1ra ed1ção de Arrest, de Coras, que não apresenta
a conf!ssao de Arnaud.
Epílogo
····~@~····

M 1563, quando novamente dispomos d~ informações


E sobre a aldeia de Artigat, tudo parece estar em seu lugar
e as dúvidas se dissipam lentamente. Pierre Guerre e Mar-
tin Guerre . unem seus esforços para apaziguar uma disputa
entre dois vizinhos. Decide-se que A. Rols será um dos árbi-
tros do conflito e todos se dobrarão à decisão. Pierre ainda
tem assuntos a tratar na corte de Rieux. Processara na jus-
tiça um grande comerciante rural, Ja.mes Delhure e sua mu-
lher Bernarde. Talvez possa-se ver aí uma tentativa para
reobter para a família Guerre alguns dos bens vendidos por
Arnaud du Tilh. Coras julgara que Martin Guerre tinha o
direito de anular tais contratos e o comprador estaria auto-
rizado a manter os benefícios que extraíra da terra naquele
1
ínterim.
Sobre Martin Guerre e Bertrande de Rols não temos
nenhuma informação direta, mas é certo que agora estavam
reunidas as condições para um armistício entre eles . Se ela
cometera o pecado do adultério, ele era um marido traído.
(Em todo o caso, havia uma antiga tradição local que recon-
ciliava os adúlteros com seus cônjuges com o pagamento de
uma multaY E · se ela fizera perdoar com a facilidade com
que aceitara o impostor, ele devia fazer esquecer a levian-
dade e irresponsabilidade que levaram-nO a abandonar o lar .
150 O RETORNO DE MARTIN GUERRE Epílogo 151

Agora Martin tinha estórias maravilhosas a contar sobre postura nunca tivesse acontecido? Que os valores repre-
sua vida entre grandes homens em lugares distantes; invá- sentados pelos direitos de sucessão legítima e casamento
lido, precisaria de uma mulher para cuidar dele. [O terror legalmente contraído tivessem varrido e eliminado qualquer
popular em ficar aleijado se manifesta na praga do Langue- traço do embuste? Creio que não . Bertrande não poderia
doc: "Que suas feridas na perna o devorem" ("le maulubec esquecer sua vida com Arnaud du Tilh e a aldeia encontraria
3
vous trousse").] Ela agora adquirira todas as habilidades meios de comentar o fato sem reavivar demais feridas ainda
e autoridade que antes lhe faltavam e precisava de um mari- recentes. Parece-me provável que tenham chegado ecos da
do e um pai para seus filhos.* A única questão que poderia estória através do livro de Coras - certamente os notários
ser um ponto de discórdia entre eles era a religião, pois Mar- e mercadores que circulavam entre Rieux e as aldeias nos
tin; após servir a um cardeal espanhol e ter sido irmão laico arredores devem ter ouvido falar dele - , mas improvável
em São João de Jerusalém, podia ter voltado como católico que os habitantes de Artigat quisessem ler em voz alta o
fervoroso, ao passo que Bertrande certamente se inclinava Arrest Memorable em suas reuniões noturnas ou aceitassem
para o protestantismo. como sua essa versão de um elemento externo. A estória
·- · Mesmo o leito conjugal de Bertrande retomou uma ati- local seria contada com outras novidades do mais recente
vidade, a julgar pelos registros paroquiais e pelo terrier de bastardo da aldeia ou o mais novo migrante do vale do
Artigat, com a divisão das propriedades entre os filhos do Leze para a Espanha, que tomou uma concubina e teve uma
falecido Martin Guerre em 1594. Sanxi morrera, não sem segunda família durante os anos que lá viveu. 6 Mas sobrevi-
antes passar seu nome a um · afilhado na geração seguinte, veu, ao contrário dos outros episódios, atravessando gran-
Sanxi Rols. A olaria de telhas, três casas e várias parcelas des perturbações sociais, como as Guerras de Religião.
de terra de ambos os lados do Leze foram partilhadas entre Há cerca de vinte e oito anos, em Artigat, uma jovem
Pierre e Gaspard Guerre, filhos de Martin com Bertrande, mãe, recém-imigrada da Catalunha francesa, queixava-se a
e Pierre, o jovem, seu filho (nascido por volta de 1575) com uma avó da aldeia, enquanto empurrava seu carrinho com
4
sua segunda mulher. (Os descendentes de Martin nitida- o nenê: "Nunca acontece nada em Artiga t" _ " Tal vez rião
mente vivem à moda do Languedoc, e não à maneira basca.) agora", respondeu a velha, " mas no século 16 ... ".E con-
Em meados do século 17, há um outro Martin Guerre n~ tou a estória de Martin Guerre.
aldeia e tem pelo menos seis outros parentes com o mesmo
sobrenome de família, entre eles Messire Dominique, o ·no-
tário, e uma certa Anne de Guerre, bem-casada com um · ··-@-····
Banqueis. Os Guerre e os Rols estão em ótimos termos , apa- I

drinham-se os filhos, possuem propriedades vizinhas e, em


. alguns casos, cultivam juntos campos indivisos. 5 A estória de Martin Guerre é contada e recontada por-
. Significaria isso que ~ vida continuou como se a im- que nos lembra que as coisas assombrosas são possíveis.
* Bérnard du Tilh evidentemente ficou· .com sua mãe. Os bens de Arnaud Mesmo para a historiadora que a decifrou, ela mantém uma
du Tilh foram-lhe adjudicados, "para que Martin não ficasse encarregado do vitalidade obstinada. Creio ter desvendado o verdadeiro
seu dote" (Le Sueur, Histoire, E ür). · rosto do passado - ou Pansette terá voltado a agir?
Bibliografia Selecionada de Textos
sobre Martin Guerre
····-@-····

As entradas estão organizadas cronologicamente, segundo a


data da primeira edição. As edições posteriores e as tradu-
ções vêm indicadas após a primeira edição.

Jean de Coras, Arrest Memorable, du Parlement de Tolose, Conte-


nant une histoire prodigieuse, de nostre temps, avec cent belles,
& doctes Annotations, de monsieur maistre Jean de Coras, Consei-
ller en !adite Cour, & rapporteur du proces. Prononcé es Arrestz
Generaulx le xii Septembre MDLX. Lyon: Antoine Vincent,
1561. Avec Privilege du Roy. (Quarto.)
Reimpresso em Paris, 1965, in octavo, sem privilégio e sem o
nome do editor.
Reimpresso em Bruges : Hubert Goltz, 1565.
- - -.A rrest Memorable . . . avec cent et onze belles, et doctes
annotations . . . I tem, Les Douze Reigles du Seigneur I ean Pie
de la Mirandole . traduites de Latin en François par ledit de
Coras . Lyon: Antoine Vincent, 1565. Avec privilege du Roy.
(Octavo).
Reimpresso em Paris em 1572, sem Les Douze Reigles, edição
partilhada por Galliot du Pré Vincent Norment. Avec privi-
lege du Roy.
Reimpresso em Paris em 1579, edição partilhada por .Jean
Borel e Gabriel Buon.
Reimpresso em Lyon : Barthélemy Vincent , 1596, 1605, 16 18.
154 Bibliografia Selecionada
.
------------~~~==~----~- - Bibliografia Selecionada 155

---Arrest um síve placítum Parlamentí Tholosani Contínens


---L'Intro duction au traité de la conformité des merveilles
Híst~r~am (in cas~ matrímoníali) admodum memorabiÍem adeoque anciennes ave c les modernes. Ou traité prepartatif à L' Apologie
prodzgtosam: una cum centum elegantissímis , atque doctissimís
pour Herodote. Genebra: Henri Estienne, 1566. Au lecteur.
Annotationibus Clariss. I. C. Dn. Ioan. Corasii .. . Doctiss. Viro
Gilbert Cousin, Narrationum sylva qua Magna Rerum, partim à
Hugone Suraeo Gallo interprete. Frankfurt: Andreas Wechel
1576. ' casu fortunaque, partim à divina humanaque mente evenientium
... Lib. VIII. Base!: Henricpetrina, 1567, pp . 610-1 : "Impos-
Reimpresso em Frankfurt: Heirs Wechel, Claude Marnius e
Jean Aubry, 1588. tura Arnauldi Tillii".
François de Belleforest, Histoires prodigieuses; extraictes de plusi-
Guillaume Le Sueur, Admiranda historía de Pseudo Martino Tholo-
eurs fameux Autheurs, Grecs et Latins, sacrez et Prophanes,
sae Damnato Idib. Septemb. Anna Domini MDLX Ad Michaelum
divisees en deux Tomes. Le premier mis en lumiere par P. Boais-
Fabrum ampliss. in supremo Tholosae Senatu Praesidem. Lyon:
tuau ... Le second par Claude de Tesserant, et augmenté de dix
Jean de Tournes, 1561. "A Gulielmo Sudario Boloniensi Latinita-
histoires par François de Belle-Forest Comingeois. Paris: Jean de
te. donatum" (p. 2); "colligeb. G. le Sueur Bolon" (p. 22). Bi-
bltotheque Nationale, F13876. Bordeaux, 1571. Vol. 2, f. 282r-v: "Faux Martin à Thoulouze".
Edições posteriores incluem Paris, 157 4, Antuérpia, 1594, e
--~H.istoire Admirable d'un Faux et Supposé Mary, advenue en
Paris, 1598.
Languedoc, l'an mil cínq cens soixante. Paris: Vincent Sertenas
1561. Avec privilege du Roy. ' Antoine Du Verdier, Les Diverses lecons d'Antoine Du Verdier ...
duas edições desse mesmo panfleto, Contenans plusieurs histoires, discours, et faicts memorables.
No mesmo ano, saíram
Lyon: Barthélemy Honorat, 1577. Livro 4, cap . 26.
uma delas com o título escrito acima (Bibliotheque Mazarine,
Pierre Grégoire, Syntagma Iuris Universi ... Authore Petro Grego-
4~214}, a out~a com Histoire mal escrita como Histoite (Bi-
27 rio T holosano I. V . Doctore et professare publico in Academia
bltotheque Nattonale, Rés. Ln 9277 bis). A reimpressão dessa
Tholosana. Lyon : Antoine Gryphius, 1582. Parte III, livro 36,
o.br~ ~o r Edouard Fournier em seu V aríétés historiques et
cap. 6, "Sobre o crime de adultério", p. 669.
lttterazres (Paris, 1867, vol. 8, pp, 99-118) está com a data
Michel de Montaigne, ,Essais, Paris, 1588. Livro 3, cap. II, "Des
errada, cheia de erros .e acréscimos do editor e omite quatro
páginas do texto. boyteux" .
---The Essayes or Moral!, Politike and Millitarie Discourses of
Histoire admirab!e d'Arnaud Tilye, leque! emprunta fausse-
Lord Michael de Montaigne . .. dane into English by ... John
mentA le ~om de Marttn Guerre, afin de jouir de sa femme. Lyon :
Benmt R1gaud, 1580, Floria. Londres, 1610. Livro 3, cap. II, "Dos Mancos ou Alei-
Histoire admirable du faux et supposé mary, arrivée à une jados".
fem.me notable au pays de Languedoc en ces derniers troubles. Auger Gaillard, Les Amours prodigieuses d'Augier Gaillard, rodier
Pans: Jean Mestais, sem data [ca. 1615], de Rabastens en Albigeois, mises en vers françois ' et en langue
albigeoise . .. Imprimé .nouvellement. (Béarn), 1592. .
Jean Papon, Recuei! d'Arrests Notables des Courts Souveraines de completes.
Edição moderna por Ernest Negre em Oeuvres
France · · · Nouvellement reveuz et augmentez outre les prece-
dents ímpressions, de plusieurs arrests. Paris: Nicolas Chesneau, Paris, 1970, pp. 514 ; 525-6.
1565, ff. 452v.456v. Géraud de Maynard, Notables et singulieres Questions du Droict
Escrit: Decídees et Iugees par Arrests Memorables de la Cour
Henri Esti.erine, Herodoti Halicarnassei historiae lib. ix . , . Henr.
souveraine du Parlement de Tholose. Paris, -1628, pp. 500-7. Essa
Stephanz pro Herodotu . Genebra: Henri Estienne for Ulrich
Fugger, 1566, f. **** W. obra apareceu pela primeira vez em 1603.
Jacques-Auguste de Thou, Historiarum sui temporis ab anno Domini
156 Bibliografia Selecionada Bibliografia Selecionada 157

Nova edição, revista por M. Richer, Amsterdã, 1772.


1543 usque ad annum 1607 Libri CX.XXV III. Orléans (Gene-
bra): Pierre de la Roviere, 1620. Vol. I, p. 788. Um dos novos relatos mais interessantes do caso de Martin Guer-
re e o único a especular livremente sobre a possibilidade de que
O caso de Martin Guerre não apareceu na primeira edição
Bertrande fosse cúmplice de Arnaud du Tilh: "Muitos acredita-
(1604) dessa famosa estória do membro do Supremo Tribunal
rão que Bertrande de Rols ajudou pessoalmente a enganar, pois
de Paris, de Thou. Após a edição de 1609, escreveu um adendo
o erro lhe agradava". O impostor nunca poderia ter feito todos
sobre o caso (anexado ao volume 4 da edição de 1609 na Ré-
serve da Bibliotheque Nationale, entre pp. 288 e 289); foi final- os mínimos gestos específicos do autêntico .
Tradução inglesa sem comentários pela romancista Charlotte Tur-
mente impresso em 1620, após sua morte, como parte do livro
ner Smith, como um dos quinze casos extraídos de Gayot de
26.
Pitava! e Richer, em The Romance of Real Life, Londres: T .
---His toire de Monsieur de Thou, Des choses arrivées de son
Cadell, 17 8 7 . Voi. 2, cap . 4 : "O pretenso Martin Guerre".
temps. Mise en François par P. du Ryer. Paris, 1659. Vol. 2, pp.
Primeira edição americana, Filadélfia: J. Carey_, 1799, pp. 202-
177-8.
Estinne Pasquier, Les Recherches de la France . Paris: L. Sonnius, 21.
Charles Hubert, Le Faux Martinguerre, ou La Famille d'Artigues,
1621. Livro 6, cap. 35.
Mélodrame en Trois Actes, A Grand Spectacle, Tiré des Causes
Jacob Cats, S'weerelts Begin, Midden, Eynde, Besloten in den Trou-
Célebres . . . Représenté pour la premiere fois à Paris, sur la
ringh Met den Proef-steen van den Selven door I . Cats ... Trou-
geval sonder exempel, Geschiet, in Vranckryck, In het Iaer théâtre de la Gaieté, le 23 aoút 1808. Paris: Barba, J808.
MDLIX, in Alle de W ercken, Amsterdã, 1658. Reimpresso , Paris, 1824.
Tão romanceado que chega a ser irreconhecível : "Marting uerre"
O prolixo moralista holandês conta a estória de Martin Guerre
é um conde que estivera nas índias; Arnaud du Tilh é desmas-
em parelhas rimadas.
carado pelo seu próprio pai etc. _.
Jean Baptiste de Rocoles, Les imposteurs insignes ou Histoires de
Pierre Larousse, Grand dictionnaire universel. Paris, 1865-1890 .
plusieurs hommes de néant, de toutes Nations, qui ont usurpé la
Vol. 8, p. 1603:- "Guerre, Martin, cavalheiro gascão" . .
qualité d'Empereurs, Roys et Princes ... Par Jean Baptiste de Ro-
Celebrated Claimants Andent and Modern. Londres : Chatto e Wm-
coles, Historiographe de France et de Brandebourg. Amsterdã:
dus, 1873, pp. 84-90.
Abraham Wolfgang, 1683. Capítulo 18: "L'Impo steur Mary, At:-
L' Abbé P. aristoy, Galeria Basque de Personnages de Renom in
naud du Thil, Archi-fourbe".
Recherches historiques sur le pays Basque. Bayonne, 1884 . Vol. 2,
Rocoles explica que, embora em princípio seu livro se limite a
cap. 24 : "Martin Aguerre de Hendaye".
impostores que tentaram roubar cetros e coroas, abre uma exce-
Armand Praviel, L'Incroyable Odyssée de Martin Guerre. Paris:
ção para este caso por ser tão "memorável e prodigioso" . Segue
o relato de Coras, afirma ele, fazendo alterações apenas onde "a Librairie Gallimard, 19 33 .
Janet Lewis, The Wife of Martin Guerre. São Francisc?•. 1941.
grosseria da linguagem" não seria mais permitida pela "polidez
atual" (p. 287). Edição francesa, La Femme de Martin Guerre. Paris : Edttlons R.
~--Tradução alemã, Geschichte merkwür diger Betrüger, Halle,
Laffont, 1947. Lewis baseou seu romance num relato inglês do
- 1761. Vol. 1, pp. 419-45. século 19 sobre o caso . Ela conta como suas idéias mudaram após
Germaine Lafaille, Annales de la ville de Toulouse . Toulouse, 1687- ter lido Coras, em The T t iquarterly, 55 (outono de 1982), pp.
1701. Parte 2, pp . 198-9. 104-10.
F. Gayot de Pitava!, Causes célebres et intéressantes. Paris, 1734.
Vol. I, cap. I.
158 Bibliografia Selecionada

f1dendo
Jean de Coras, Processo, et Arresto à sentenza data dal Parlamento
di Tolosa sopra d'un fatto prodiogoso et me.morabile, tradotto di
língua francese nella favella toscana, per Mag. Gio. Baua Forte-
guerri Dottr" Pistorese, con cento annotationi ornate et aggiunte
.da lui. Dedicatória de Forteguerri a 'Christine de Lorraine, grã- Notas
duquesa da Toscana, com data de Pistoia, abril de 1591. (Manus-
····~@-····
crito descrito por H. P. Kraus, Rare Books and ManusClÚpts.,
lista 203, n. 0 132.) Forteguerri traduziu a edição de 1561 do
Arrest Memorable, ocasionalmente acrescentando suas própri~
anotações às de Coras.
Seguem-se as abreviaturas e siglas utilizadas nas notas. As refe-
rências aos Inventários-Sumários dos vários arquivos departamentais
serão indicadas com a letra I, antes da abreviatura.

ACArt Archives communales d'Artigat


ADAr Archives départementales de l'Ariege
ADGe Archives départementales du Gers
ADGi Archives départementales de la Gironde
ADHG Archives départementales de la Haute-Garonne
ADPC Archives départetnentales du Pas-de-Calais
ADPyA Archives départementales des
Pyrénées-Atlantiques
ADR Archives départementales du Rhône
AN Archives Nationales
Coras Jean de Coras, Arrest Memorable du Parlement de
Tholose. Contenant Une. Histoire prodigieuse
d'un supposé mary, advenüe de nostre temps:
enrichie de cent et onze belles et doctes
annotations (Paris: Galliot du Pré, 1572)
Le Sueur, Historia Guillaume Le Sueur, Admiranda historia de
Pseudo Martino Tholosae Damnato Idib.
Septemb. Anno Domini MDLX (Lyon: Jean de
Tournes, 1561)
Le Sueur, Histoire Guillaume Le Sueur, Histoire Admirable d'un
Faux et Supposé Mary, advenue en Languedoc,
l'an mil cinq cens soixante (Paris: Vincent
Sertenas, 1561)
160 Notas das . páginas 17-18 Notas das páginas 18-23 161

Les Cent Nouvelles Nouvelles, ed. Thomas Wright (Paris, 1858),


conto 35. Noel du Fail, Les Propos Rustiques: Texte original de
1547, ed. Arthur de la Borderie (Paris, 1878; Genebra, Slatkine
····~@-····
Reprints, 1970), pp. 43-4.
5. Emmanuel Le Roy Ladurie, Montaillou, village occitan de
Observação em relação às datas: até 1564, o ano novo na França 1294 à 1324 (Paris, 1975); tradução inglesa~ Montaillou: The Pro-
começava no domingo de Páscoa . Neste livro, todas as datas seguem mised Land of Errar, por Barbara Bray (Nova Iorque, 1978). Carlo
o nosso calendário. Nas notas, qualquer data antes da Páscoa é dada Ginzburg, Il Formaggio e i vermi: Il Cosmo di un mugnaio del '500
em ambos os calendários (p. ex., 15 de janeiro de 1559/60). (Turim, 1976); tradução inglesa, The Cheese and the Worms: The
Cosmos of a Sixteenth-Century Miller, por John e Anne Tedeschi
(Baltimore, 1980). Michael M. Sheehan, "The Formation and Sta-
bility of Marriage in Fourteenth-Century England' 1, Mediaeval Stu-
dies, 32 (1971), pp. 228-63; Jean-Louis Flandrin, Le Sexe et l'Occi-
Introdução dent (Paris, 1981), cap. 4.
6. AN, JJ248, 80r-v. Alfred Soman, "Deviance and Criminal
1. Jean Gilles de Noyers, Proverbia Gallicana (Lyon: Jacques Justice in Western Europe, 1300-1800: An Essay in Structure", Cri-
Mareschal, 1519-20), C iiv; "Ioannis Aegidii Nuceriensis Adagiorum minal- Justice History : An International Annual, I (1980), 1-28.
Gallis vulgarium . . . traductio", in T hresor de la langue francoyse 7. Coras, pp. 146-7. Sobre as edições do Arrest Memorable,
(Paris, 1606), p. 2, 6, 19; James Howell, "Some Choice Proverbs ... ver minha bibliografia.
in the French Toung", in Lexicon Tetraglotton (Londres, 1660), p. 2. 8. Segundo Le Sueur, os Guerre montaram uma olaria de telhas
2. Entre outros estudos, ver Jean-Louis Flandrin, Les Amours em Artigat ·(Historia, p. 3); essa olaria encontra-se em 1594 entre
paysans, XVI"-XIX" siecles (Paris, 1970), e Familles: Parenté, mai- as propriedades da família (ADHG, B, lnsinuations, vol. 6, 96v).
•son sexualité dans l'ancienne société (Paris, 1976); J. M. Gouesse, Le Sueur afirmou que Bertrande de Rols e Pierre Guerre foram
"P~rertté, famille et mariage en Normandie aux XVIIe et XVIII• levados à prisão (p. 11) por ordem do Supremo Tribunal de Tou-
siecles", Annales: Economies, Sociétés, Civilisations, 27 (1972), louse (ADHG, B, La Tournelle, vol. 74, 20 de maio de 1560;
1139-54; André Burguiere, "Le Rituel du mariage en France: Prati- vol. 76, 12 de setembro de 1560).
ques ecclésiastiqúes et pratiques populaires (XVIe-XVIIIe siecles) ",
ibid., 33 (1978), p. 637-49; Alain Croix, La Bretagne aux 16• et 17c
siecles: La Vie, la mort, la foi (2 vols., Paris 1981); Jacques Le 1. De Hendaye a Artigat
Goff e Jean-Claude Schmitt (org.), Le Charivari: Actes de la table
ronde organisée à Paris (25-27 avril 1977) par l'Ecole des Hautes
1. Pierre de Lancre, Tableau de l'inconstanc~ des mauvais anges
Etudes en Siences Sociales et le Centre National de la Recherche
et demons (Bordeaux, 1612), pp. 32-8, 44-5 .. ADPyA 1}160, n , 45,
0

Scientifique (Paris, 1981) . 9 de março de 1609, quanto ao "Sr de la maison" em Hendaye e


3. Thomas Platter, Autobiographie, trad. Marie Helmer (Cahier proximidades de Urrugne . }ames A. Tuck e . Robert Grenier, "A
des Annales, 22; Paris, 1964), p. 51. · 16th-Century Basque Whaling Station in Labrador", Scientific Ame-
4. Jacques Peletier, L'Art poetique de Jacques Peletier du Mans rican, 245 (novembro de 1981), pp. 125-36; William A. Douglass e
(1555), ed. J. Boulanger (Paris, 1930), pp. 186-9; Coras, pp. 146-7. Jon Bilbao, Amerikanuak: Basques in the New World (Reno, 1975),
162 Notas das páginas 23-25 Notas das páginas 26-31 163

pp. 51-9. Jean-Pierre Poussou, "Recherches sur l'immigration bayon- 6. Jean F roissart, Chronique s, ed. Léon Mirot (Paris, 19 31 ),
naise et basque à Bordeaux au XVIIIe siecle", De l'Adour au Pays vol. 12, pp. 21-4, livro 3, par . 6. ADHG, C1925; 3E15289, 328' .
Basque. Actes du XXI• Congres d'études régionales tenu à Bayonne, ADAr, G271; 30j2, Reconnaissance de 1679; 5E6653, 188r-189',
les 4 et 5 mai 1968 (Bayonne, 1971), pp. 67-79. Jean-François Sou- 200r-v; 5E6655, 14r-16r.
let, La Vie quotidienne dans les Pyrénées sous l'Ancien Régime 7. ADAr, 5E6653, 9", 96r-97', 101"-102", 142'.. ', 200r-v;
(Paris, 1974), pp. 220-5. William A. Douglass, Echalar and Muré- 5E6655, l"-2", 8r-'·, 3Y", 98'; 5E6656, 12r; 5E6847, 17 de dezem-
.. Zaga (Londres, 1975), cap. 3. bro de 1562. Sobre o contrato de gasailhe e todos os outros costu-
2. Philippe Veyrin, Les Basques de Labourd, de Sou/e et de mes nessa região, ver Paul Cayla, Dictionnaire des institutions, des
Basse-Navarre (Bayonne, 1947), p. 39 ss. L. Dassance, "Propriétés coutumes, et de la langue en usage dans quelques pays de Languedoc
collectives et biens communaux dans l'ancien pays de Labourd", de 1535 à 1648 (Montpellier, 1964). Sobre Le Carla e arredores,
Cure Herria, 29 (1957), pp. 129-38. Davydd J. Greenwood, Unre- ver Elisabeth Labrousse, Pierre Bayle (Haia, 1963), cap. 1.
warding Wealth. The Commercialization and Collapse of Agriculture 8. Dezenove testamentos retirados de ADAr, .5E5335, 6219,
in a Spanish Basque Town (Cambridge, Ingl., 1976), cap. 1. Paul 6220, 6221, 6223, 6224, 6653, 6655, 6859, 6860; ADHG, 3E15280,
Courteault, "De Hendaye à Bayonne en 1528", Cure Herria, 3 15983. ADAr, 5E6860, 110"-111"; ACArt, Terrier de 1651. ADAr,
(1923), pp. 273-7. Sobre o aumento populacional de Hendaye em 5E6220, 8 de outubro de 1542; 5E8169, 12 de março de 1541/42.
1598, ver ADPyA, 1}160, n. 0 46, 3 de abril de 1598. De Lancre, 9. ADAr, 5E6223, 10 de dezembro de 1528; 5E6653, 95"-96';
pp. 45-6. 5E6860, 12r-13", 74r-76r.
3. E. Dravasa, "Les privileges des Basques du Labourd sous 10. ADAr, 5E6653, 95"-97r, 201"-202r; 5E6846, 34'-36"; 30j2,
l'Ancien Régime" (tese de doutoramento, Universidade de Bordeaux, reconnaissance de 1679; ADHG, B50 (arrêts civils), 678"-679"; B,
Faculdade de Direito, 1950), pp. 28-9, ADGi, 1B10, 2P-22r ADPyA, Insinuations, vol. 6, 96''.
1}160, n.0 45, 19 de maio de 1552. De Lancre, pp. 33-4, 42. 11. ADAr, 5E6653, 1r·v, 96"-97r ; 5E6655, , 29', 35'", 158";
4. "Coutumes générales gardées et observées au Pays de La- 5E6656, 12.r, 26"; 5E6837, 126'-127"; 5E6846, 34"-36"; ADHG,
bourd", in P. Haristoy, Recherches historiques sur le Pays Basque 2G134, 2G143; 2G108, p. 263 .
(Bayonne e Paris, 1884), vol. 2, pp. 458-61; os Fors de Labourd 12. ADAr, 30j2, Inventaire pour les consuls .. . d'Artigat,
foram ·redigidos em 1513. Jacques Poumarede, Recherches sur les 1639; Reconnaissance de 1679; ADHG, 2G203, n. 1; C1925. 0

successions dans le sud-ouest de la France au Moyen Age (tese de ADAr, 5E6860, 12r-l3". ADHG, 2G108, 127r, 151r-152r. F. Pas-
doutoramento, Universidade de Toulouse, 1968), pp. 315-20. quier, "Coutumes du Fossat dans le Comté de Foix d'apres une
5. Sobre toda essa região, ver Léon Dutil, L'Etat économique charte de 1274", Annales du Midi, 9. (1897), 257-322; ADAr,
du Languedoc à la fin de l'Ancien Régime (Paris, 1911); Philippe 5E6654.
Wolff, Comínerces et marchands de Toulouse, vers 1350-vers 1450 13 . "Coutumes ... observées au Pays de Labourd", p. 482 .
(Paris, 1954); Michel Chavelier, La Vie humaine dans les Pyrénées ADPyA , 1}160, n. 4, 14 de janeiro de 1550/51, n. 3, 12 de junho
0 0

ariégeoises (Paris, 1956); Gilles Caster, Le Commerce du pastel et de 1559. F. Pasquier, Donation du fief de Pailhes en 1258 et do-
de l'épicerie à Toulouse, 1450-1561 (Toulouse, 1962); E. Le Roy cuments corcernant les seigneurs de cette baronnie au XVI" siecle
Ladurie, Les Paysans de Languedoc (Paris, 1966); Soulet, Vie quo- {Foix, 1890) . ADAr, 2G203, n. 8. 0

tidienne; e John Mundy, "Village, Town and City in the Region of 14 . Pierre Bec, Les I nterférences linguistiques entre Cascon
Toulouse", in J . A. Raftis (org.), Pathways to Medieval Peasants et Languedocien dans les parlers du Comminges et du Couserans
(Papers in Mediaeval Studies, 2; Toronto: Pontifício Instituto de (Paris, 1968), p. 74-5. Pasquier, Pailhes, p. 3. Léon Du til, La H aut e-
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164 Notas das páginas 31-35 Notas das páginas 35-42 165

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1898). A diocese de Rieux se estabeleceu em 1318 e deixou de lettres et arts, 22 (1966), pp. 74-80.
existir com a Revolução.
15. Le Sueur, Historia, p. 3; Histoire, A iir. Coras, p. 150.
ADHG, B, Insinuations, vol. 6, 9JV-9r. ACArt, Terrier de 1651, 2. O Camponês Descontente
34r-41', 209r, 290r, 310r.
16. Veyrin, pp. 43, 263. De Lancre, pp. 42-4. ADPyA, 1}160, 1. Coras, p. 40.
n. 45, 18 de agosto de 1598; n. 46, 14 de janeiro de 1620.
0 0
2. ADAr, 5E6654, 37r. Nos muitos contratos que examme1,
17. Coras, pp. 55-6. G. Brunet, Poésies basques de Bernard desde Le Mas-d' Azil ao longo do vale do Leze, encontrei apenas um
Dechepare . . . d'apres l'édition de Bordeaux, 1545 (Bordeaux, Martin antes de 1561, um antigo arrendatário do senhor de Saint-
1847). ADGi, 1B10, 21v-22r, cartas reais em francês. para as paró- Martin-d'Oydes (ADAr, E182, Reconnaissance de 1549, 50r). Com-
quias de Urrugne e Hendaye; Dravasa, p. 125; ADPyA, 1}160, pare-se com os muitos homens chamados Martin, M?-rtissa~tz ~ Mar-
ticot na área de Hendaye, ADPyA, 1}160, n. 4, 14 de Janeiro de
0
n. 0 3, testamentos da casa senhorial de Urtubie gascão (1493) e
1550/51, 5 de março de 1554/55; n. 45, 18 de agosto de 1598.
0
francês (1559); nenhuma outra família de Hendaye ou Urrugne
deixou testamentos escritos. ADAr, 5E6223 (contratos em francês "Proverbes françoys", in Thresor de la langue françoyse, p. 23;
em 1528); 5E8169 (contrato de casamento em occitânio, 12 de "L'Ours 'Martin' d'Ariege", Bulletin annuel de la société ariégoise
março de 1541). ADAr, 5E6653, 96r-102v. ADHG, 2G207 (o pri- des sciences, lettres et arts, 22 (1966), pp. 137-9, 170-2.
meiro mestre-escola enviado a Artigat, a 2 de· julho de 1687). 3. Coras, pp. 2-4, 40-3, 53, 76. ADHG, B, La Tournelle, vol.
18. ADAr, 5E6223, 10 de dezembro de 1528; 5E6653, 95v; 74, 20 de maio de 1560. Hierosme de Monteux, Commentaire de
5E6654, 24r-v; 5E6655, 29r; 5E8169, 12 de março de 1541/42. la conservation de la santé (Lyon, .1559), pp. 202-3. De Lancre,
ACArt, Registre des Mariages de la Paroisse d'Artigat, 1632-1649. Tableau de l'inconstance, p. 38, 41, 47; Soulet, Vie quotidienne,
ADHG, 3E15983, 126r-127r. Pode-se até encontrar um Pierre de pp. 228-32, 279. A. Esmein, Le Mariage en droit canonique (Paris,
Guerre, dito O Basco, como criado do senhor de Vaudreuille, a 1891), pp. 239-47.
muitos quilômetros a nordeste da diocese de Rieux (AN, ]]262, 4. G. Doublet, "Un Diocese pyrénéen sous Louis XIV: La Vie
245v-24r). populaire dans la vallée de l'Ariege sous l'épiscopat de F. E. de
19. Le Sueur, Historia, p. 3; Histoire, A. W. . C;mlet (1645-1680)", Revue des Pyrénées, 7 (1895), pp. 379-80;
20 . Dezessete contratos de casamento e dois legados de dotes Xavier Ravier, "Le Charivari en Languedoc occidental", in Le Goff
extraídos de ADAr, 5E5335, 6220, 6653, 6656, 6837, 6838, 8169; e Schmitt (orgs.), Le Charivari, pp. 411-28.
ADHG, 3E15280, 15983. O maior dote aqui citado é de 50 escudos 5. Le Sueur, Historia, p. 12. Coras, pp. 40, 44.
(cerca de 150 libras), dado em 1542 a um sapateiro deLe Mas-d'Azil. 6. Le Sueur, Historia, p. 17. Coras, pp. ~45~6.
Para uma comparação com a transferência da terra aos filhos no 7. Le Roy Ladurie, Montaillou, cap . 7.
final do século, ver a doação do comerciante rural Jean Cazalz de 8. ADAr, 5E6220, capa, com figuras ·imaginárías de soldados;
Le Fossat ao seu filho, em 1585: duas propriedades e a promessa 5E6653, 1V, 9Y-96r; 5E6656, llr, 50r; 5E6847, 12 de dezembro de
de 2000 escudos em dinheiro, uma casa e mobília no dia do casa- . 1562; 5E6860, 110v-l1P. Roger Doucet, Les Institutions de la Fran-
mento (ADHG, B, Insinuations, vol. I, 563v-56Y). Cayla, pp. 236-7. ce au XVI• siecle (Paris, 1948), pp. 632-41. Veyrin, Les Basques, p.
ADHG, B, Insinuations, vol. 6, 9Y-9r. 138. J. Nadai e E. Giralt, La Population catalane de 1553 à 1717:
21. ADHG, 2G108, p. 263. Coras, p. 61. A. Moulis, "Les L'Immigration française (Paris, 1960), pp. 67-74, 315.
Fiançailles et le mariage dans les Pyrénées centrales et spécialement 9. Coras, p. 5. Le Sueur, Historia, p. 4, De Lancre, p. 41.
166 Notas das páginas 42-50 Notas das páginas 50-55 167

10. ADPyA, 1]160, n. 0 4, 5 de março de 1554/55. 1.0 de abril bourd à travers les âges (La Science Sociale suivant la méthode
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11. Pàul J acob Hiltpold, "Burgos in the Reign of Philip li: 9. Le Sueur, Historia, p. 9. ADAr, 5E6223, 5 de julho de
The Ayuntamiento, Economic Crisis and Social Control, 1550-1660" 1542; 5E6224, 6 de janeiro de 1547/48. No final dos anos 1550, a
(tese de doutoramento, Universidade do Texas, Austin, 1981), cap. 2. herança e todos os rendimentos de Martin Guerre dela provenientes
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dentina en Burgos", Hispania Sacra, 16 (1963), pp. 61-121. berg, 1603), vol. 1, pp. 730-1. Jean Dauvillier, Le Mariage dans le
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Courteault et al., La Guerre de 1557 en Picardie (Saint-Quentin, Roche-Flavin, Arrests Notables du Parlement de Tolose (Lyon,
1896), vol. 1, pp. ccxxi-ccxxv, vol. 2, pp. 48, 295. 1619), pp. 601-2.
11. Coras, p. 46.
12. ADHG, B38 (arrêts civils), 60v-61r; B47 (arrêts civils),
3. A Honra de Bertrande de Rols 487r; 2G241.
13. Coras, pp. 1, 5, 7,
1. ADAr, 5E6653, 9Y-98r; 5E6655, 110v-llP.
2. ADHG, 2G108, 12T Doublet, "Un Diocese pyrénéen", pp.
.369-71. Coras, p. 44. Henry Institoris e Jacques Sprenger, Malleus 4. As Máscaras de Arnaud du Tilh
maleficarum, trad. Montague Summers (Londres, 1948), p. 55,
1. Coras, pp. 8, 151. François de Belleforest, La Cosmographie
parte 1, questão 8.
universelle de tout le monde . . . Auteur en partie Munster ...
3. Coras, pp. 40-1. augmentée . .. par François de Belle-Forest Comingeois (Paris: Michel
4. ADAr, 5E6654, 29r; 5E6655, 79r; 5E6838, 104v. Sonnius, 1575), pp . 368-72.
5. ADAr, 5E5335, 92..-v; 135r, 282v-28Y; 5E6653, 6r; 5E6654, 2 . ADHG, B78 (arrêts civils), 3r-4r; IADHG, BB58, ff. 220,
29"; 5E6655, 6..-v, l06v-107r, 13r-138r; 5E6656, 5W; E182, 26r. 214. Charles Higounet, Le Comté de Comninges de ses origines à
ADHG, 3E15280, 14 de janeiro de 1547/48. Jacques Beauroy, Vin son annexion à la couronne (Toulouse, 1949), vol. 1, pp. 277, 292.
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julho de 1540; 5E6653, y-v, 54v, 5E6655, ur. ADHG, 3E15280, 3E1570, 7 de abril e 4 de julho de 1557. ADHG, 4E2016, 4E1568,
31 de janeiro de 1547/48; 3E15983, 126r-127r, 322r-334v. 2E2403. Georges Couarraze, Au pays du Saves : Lombez évêché
. 7. ADAr, .5E6846, 34v-36v; ADHG, B50 (arrêts civils), 678v- rural, 1317-1801 (Lombez, 1973) .
679v. Le Roy Ladurie, Montaillou, village occitan, pp. 286-7. ADAr, . 4. ADGe, G332, 47r-48r; 3E1570, 21 de abril de 1557. Coras,
5E6837, 236r-23r; 5E6655, llWllP; 5E6847, 23 de setembro de pp. 97, 151.
1562. Pasquier, "Coutumes du Fossat", pp. 298-9; Cayla, p. 63. 5. Coras, pp. 52, 54. ADGe, G332, 4Yvbis.
8. De Lancre, Tableau de l'inconstance, p. 42-4. Para um re- 6. Coras, pp. 56-7, 77, 97 . Leah Otis, "Une Contribution à
trato posterior das mulheres do Labourd, ver G. Olphe-Galliard, l'étude du blaspheme au bas Moyen Age", in Diritto comune e diritti
Un Nouveau type particulariste ébauché. Le Paysan basque de La- locali nella storia dell' Europa. Atti del Convegno di V aren11a, 12-15
168 Notas das páginas 55-64 Notas das páginas . 64-69 169

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B1901, f. 143 (ordenações reais sobre a blasfêmia de 1493, 1523). 5. Coras, pp. 68, 34, 65-6. Le Sueur, Histoire, C iv, C iii'.
7. Raymond de Beccarie de Pavie, Sieur de Fourquevaux, ' fhe 6. Coras, p. 149. Le Roy Ladurie, Montaillou, village occitan,
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1954), pp. xxix-xxxii. ADGe, 3E1571, 16 de abril de 1558, e passim. 7. Sheehan, "The Formation and Stability of Marriage", pp.
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aux XVI• et XVII• siecles", Bulletin de la société de l'histoire de coutumiere (XII•-XVI• s.)", Rev~e historique de droit français et
Paris et de l'Ile-de-France, 106 (1979), pp. 23-9. étranger, 35 (1957), pp. 503-16. Beatrice Gottleib, "The Meaning
8. Coras, pp. 8-11, 38-9, 144. of Clandestine Marriage", in Robert Wheaton e Tamara K. Hareven
9. Le Grand Calendrier et compost des Bergers avec leur astro- (orgs.), Family and Sexuality in French History (Filadélfia, 1980),
logie (Troyes: Jean Lecoq, 154(1)), M ir-M iii'. pp. 49-83 .
10. Coras, p. 53. 8. Jean-Jacques de Lescazes, Le Memorial historique, conte-
11. Le Sueur, Historia, p. 13; Histoire, C ivv. Coras, pp. 144-6. nant la narration des troubles et ce qui est arrivé diversement de
François de Rabutin, Commentaires des dernieres guerres en la Caule plus re111arquable dans le Pa'is de Foix et Diocese de Pamies (Tou-
Belgique, entre Henry second du nom, tres-chrestien Roy de France louse, 1644), caps. 12-6. Jean Crespin, Histoire des Martyrs per-
et Charles Cinquiesme, Empereur, et Philippe son fils, Roy d'Es- secutez eimis à mort pour la Verité âe l'Evangile (Toulouse, 1885-
paigne (1574), livros 4-5 in Nouvelle Collection des Mémoires pour 1889), vol. 1, p: 457, vol. 3, pp. 646-9. J. Lestrade, Les Huguenots
servir à l'histoire de France, ed. Michaud e Poujoulat (Paris, 1838), dans le diocese de Rieux (Paris, 1904), pp. 4, 10, 29-30 . J. M. Vidal,
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12. Coras, pp. 145-7; Le Sueur, Historia, p. 22. pp. 147-69. Raymond Mentzer, "Heresy Proceedings in Languedoc,
13. ADGe, 3E1569, 19 de dezembro de 1551. 1500-1560" (tes~ de doutoramento, Universidade de Wisconsin,
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Jean Adhémar, p. 273: "L'Histoire des Trois Freres". ADR, BP443, sendorf, Livres des habitants de Geneve, 1549-1560 (Genebra, 1957-
37r.39v, 294v-296r. 1963), vol. 1, pp. 9, 13 . · ADAr, 5E6654, Y, 16v, 29r. ADHG
2G108, 127r-130v; B422 (arrêts civils), 22 de outubro de 1620.
9. ADHG, :a33 (arrêts civils), 156v-157r; B38 (arrêts civils),
5. O Casamento Inventado 60'-61r; ~47 (arrêts civils), 487r; ADAr, 5E6655, 14r-16r.
10 . . ACAart, Terrier de 1651, 137r.139v. "Memoire des person-
1. Le Sueur, Historia, pp. 5-7; Histo~re, B iv-B iiv. Coras, p. 63. nes decedées en la ville du Carla en Foix ou en sa Jurisdiction
2. Mark Snyder e Seymour Uranowitz, "Reconstructing . the commance le vingt et deusiesme octobre 1642", 10', 12v, 13', 1Y
Past: Some Cognitive Consequences of Person Perception", Journal (registros mantidos por Jean Bayle, pastor da Igreja Reformada de
of Personality and Social Psychology, 36 (1978), 941-50. Mark Sny- Le Carla de 1637 a 1685, fotocópia em ·posse de Elisabeth La-
der e Nancy Cantor, "Testing Hypotheses about Other People: The brousse).
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15 (1979), pp. 330-42. . 74, 20 de maio de 1560.
3. Etienne Pasquier, Lés Recherches de la France (Paris: L. 12. Le Sueur, Historia 1 pp. 16, 21-2. Coras, p . 160.
Sonnius, 1621), pp. 571-2 . 13. "Projet d'ordonnance sur les mariages, 10 novembre 1545 ",
170 Notas das páginas 69-77 Notas das páginas 77-79 171

in Jean Calvin, Opera quae supersunt omnia, ed. G. Baum, E. Cunitz 10. Le Sueur, Historia, p. 8; Coras, p. 68. ADAr, 5E6860,
e E. Reuss (Brunswick, 1863-1880), vol. 38, pp. 41-4. 12r-u•; 5E6837, 188•-189•. ADHG, 2G143, 1550; B37 (arrêts
civils), 68r. O lieutenant-criminel no Senescalato de Toulouse para
o caso de incêndio premeditado era Jean Rochon, antigo juiz e fun-
6. Querelas cionário da Casa da Moeda em Paris, homem que provavelmente não
seria dominado por um pequeno nobre do vale do U:ze (IADHG,
1. Coras, p. 61. ADHG, B, La Tournelle, vol. 74 , 20 de maio B1905, f. 125).
de 1560. 11. Pelo menos é como interpreto a declaração do novo Martin
2. Le Roy Ladurie, Les Paysans de Languedoc, vol. 1, p. 302-9. em janeiro de 1559/60, de que Bertrande estava "em poder do dito
ADAr, 5E6655, gr-v, 98r; 5E6656, 12r, 26•, 29r, 58"; 5E6653, 79", Pierre Guerre, permanecendo em sua casa" (Coras, pp. 37, 4 5, 67) .
20or-v, ADHG, 2G143, 2G134, Arrentements des benefices du dio- São mencionadas duas casas pertencentes à família Guerre: "a casa
cese de Rieux. Coras, pp. 150-2. de Martin Guerre" (ADHG, B76, La Tournelle, 12 de setembro de
3. Le Sueur, Historia, p. 7; Histoire, B iW. Coras, pp. 22-3. 1560; Coras, p. 129; Le Sueur, Historia, p. 19) e "a casa de Pierre
4. Coras, pp. 33-4. "Coutumes ... observées au Pays de La- Guerre" (ADAr, 5E6653, 96r-98r). Supus que se tratavam de duas
bourd", pp. 467-8. ADAr, 5E6653, y•, 112r·•, 5E6656, ur. residências diferentes, ainda que vizinhas [ver a disposição das pro-
5. Coras, pp. 12, 47, 53. De Lancre, Tableau de l'inconstance, priedades dos Guerre em 1594 (ADHG, Insinuations, vol. 6, 95"-
p. 41. 97") e em 1951 (ACAart, terrier)], e que, conforme o costume muito
arraigado entre os bascos, os casais só viviam na mesma casa quando
6. Coras, pp. 53, 62, 66-7. Em relação ao irmão de Bertrande,
havia um herdeiro da propriedade entre esses cônjuges. Assim, Martin
documentos de Artigat pouco posteriores ao processo mencionam
Guerre e Bertrande tinham morado com o velho Sanxi Guerre; e
Pey Rols, dito Colombet, herdeiro dos falecidos pai e filho Andreu
Pierre Guerre viveria com sua herdeira designada, seu marido e suas
e Barthélemy Rols, e outro Rols, com o nome iniciado por A (o
outras filhas solteiras. O novo Martin devia ter se instalado na antiga
resto da página está rasgado) no círculo próximo de Pierre Guerre
casa do velho Sanxi, agora transmitida ao herdeiro. Naturalmente,
(ADAr, 5E6653, 9Y-98r). É possível que um dos "genros" de Pierre
sempre é possível que tais costumes não tenham sido respeitados, e
Guerre fosse um "enteado", em nossa acepção contemporânea (oS
o novo Martin e Pierre Guerre podem ter vivido na mesma casa
termos gendre e beau-fils são intercambiáveis no texto de Coras).
de 1556 a 1559. Pode-se imaginar a atmosfera que lá reinaria durante
Neste caso, o irmão de Bertrande teria estado de acordo com sua
mãe e padrasto, contra ela e o novo Martin. Por outro lado, o irmão essas brigas.
de Bertrande simplesmente podia estar ausente entre 1559 e 1560. 12 . Le Sueur, Historia, p. 8; Histoire, B iw-• . Coras, pp . 68, 86 .
7. Le Sueur, Historia, p. 7, Coras, pp. 46, 53, 61-2. Le Roy 13. Coras, pp. 53-4.
Ladurie, Montaillou, village occitan, cap. 3. Várias escrituras mos- 14. Coras, pp. 69-70. ADAr, 5E6653, ff. 96r-9T Jean lmbert,
tram uma ligação entre os Banqueis e os Boeris (ADAr, 5E6653, Institutions Forenses, ou practique iudiciaire .. . par M . Ian Imbert
95•-96r, 186r-•). Não se encontram tantas ligações dos Loze com os Lieutenant criminel du siege royal de Fontenai Lecomte (Poitiers:
Banqueis, mas James Delhure, sócio de James Loze, consta como tes- Enguilbert de Marnef, 1563), p. 439.
temunha de um arrendamento de cavalos por Jean Banqueis (ADAr, 15. Coras, pp. 68-9.
'
5E665 3, 200r-v). 16. Sobre a mentira, ver o número especial de Daedalus, mtl-
8. Coras, p. 54. Le Sueur, Historia, p. 8. tulado "Hypocrisy, Illusion and Evasion" (verão de 1979) e "Speci~l
9. Coras, p. 21. Issue on Lying and Deception", Berkshire Review, 15 (1980) .
172 Notas das páginas 80-89 Notas das páginas 89-93 173

17. Coras, p. 19; Jean Benedicti, La Somme des Pechez (Paris, Parlement de Toulouse, 1690-1730", in A. Abbiateci et ai., Crimes
1595), pp. 151-2. et criminalité en France, XVII"-XVIJ I• siecles (Cahiers des Annales,
18. Coras, pp. 69-70, 1, 28. 33; Paris, 1971), pp. 91-107.
8. Coras, pp. 21, 40,·44. Le Sueur, Historia, pp. 12-3; Histoire,
C iUV-C iv•.
7. O Processo de Rieux 9. Coras, pp. 37, 65-6. Le Sueur, Historia, p. 10; Histoire, C iv.
10. Coras, pp. 38-9, 73.
1. ADHG, 3E15289, 46r-47r. ADAr, 5E6653, 96r-98•; 11. Recuei/ Général des anciennes !ois françaises, ed. Isambert
5E6655, 29', 79r. et ai. (Paris, 1822-1833), vol. 12, p. 633: "Ordonnance sur le fait
2. André Viala, Le Parlement de Toulouse et l'administration de la justice", agosto de 1539, n. 162. Langbein, p. 236. Soman,
0

"Criminal Jurisprudenc e", pp. 60-1, e "Justíce criminelle".


royale latque, 1420-1525 environs (Albi, 1953), vol. 1, p. 143.
IADHG, B1, f. 37; B. 47, f. 805; B58, f. 638; B66, f. 290, 294; 12. Coras, p. 29.
Lastrade, Les Huguenots, p. 1. 13. Imbert, p. 478. Coras, p. 54. Jean Imbert e Georges Le-
3. Coras, pp. 28-9, 85; Imbert, Practique iudiciaire, pp. 420-1. vasseur, Le Pouvoir, les juges et les bourreaux (Paris, 1972), pp .
4. Sobre a justiça criminal na França durante o século 16, ver 172~5: Entre os 1069 casos de heresia que compareceram ao Supre-
Imbert, Practique iudiciaire, baseada na experiência de um lieutenant- mo Tribunal de Toulouse em 1510-1560, Raymond Mentzer desco-
criminel; Pierre Lizet, Brieve et succincte maniere de proceder tant briu que a tortura foi ordenada a 27 (2-3%); Raymond A. Mentzer
à l'institution et decision des causes criminelles que civiles et forme Jr., "Calvinist Propaganda and the Parlement of Toulouse", Archive
d'informer en icelles (Paris: Vincent Sertenas, 1555), escrito por um for Reformation History, 68 (1977), 280. Baseando-se num período
membro do Supremo Tribunal de Paris; A. Esmein, Histoire de la de 2 anos (1535-36 e 1545-46), Schnapper descobriu que 16,8%
procédule criminelle en France (Paris, 1882); Bernard Schnapper, dos casos criminais julgados pelo Supremo Tribunal de Paris incluíam
"La Justice criminelle rendue par le Parlement de Paris sous le regne ordem de tortura ("La Justice criminelle", quadro 5, pp. 263-5). Em
de François ler", Revue historique du droit français et étranger, 152 amostras maiores de todos os crimes, com exceção da heresia, apre-
(1974), 252-84; John H. Langbein, Prosecuting Crime in the I?._e- sentados ao Tribunal de Paris em 1539-1542 e 1609-1610, Alfred
n-aissance (Cambridge, Mass., 1974); Soman, "Criminal Jurispru- Soman encontrou 20,4% dos acusados torturados para extração de
dence in Ancien-Régime France: The Parlement of Paris in the Six- confissões no primeiro período e 5,2% no segundo. Em casos de
teenth and Seventeenth Centuries", in Crime and Criminal fustice fraude, perjúrio e falsificação, as porcentagens eram mais elevadas
in Europe and Canada, ed. Louis A. Knafla (Waterloo Ontário que a média em 1539-1542, e zero em 1609-1610. Dos 125 casos
1981), p. 43-74. O ensaio de Alfred Soman sairá, revist~ e muit~ de tortura em 1539-1542, os resultados são conhecidos em 70 casos:
ampliado, como "La Justice criminelle au XVI•-xvn• siecles: Le seis pessoas confessaram; Soman, "Criminal Jurisprudence", quadro 6
Parlement de Paris et les sieges subalternes", in Actes du 107' Con- e p. 54, e "Justice criminelle", quadro 7, a sair. Para um estudo
gres national des Sociétés Savantes (Brest, 1982). Section de Philo- geral sobre a tortura, ver John H. Langbein, Torture and the Law
logie et d'Histoire jusqu'à 1610. of Proof: Europe and England in the Ancien Régime (Chicago, 1977).
5. Coras, pp. 38-46. Imbert, p. 439-74; Lizet, 2v-26v. Yves Cas-' 14. Coras, pp. 28, 47~. ADR, BP443, 37•-39r.
tan, Honnheté et relations sociales en Languedoc, 1715-1780 (Paris, 15. Coras, p. 47 . Imbert, Practique iudiciaire, p. 504-6. ADHG,
1974), pp. 94-6. B, La Tournelle, vol. 74, 30 de abril de 1560.
6. Coras, pp. 46-7, 50-3, 58-61, 63 .
7. Nícole Castan, "La Criminalíté familíale dans le ressort du
174 Notas das páginas 95-101 Notas das páginas 101-107 175

8. O Processo de T oulouse pp. 163-9. Soman, "Criminal Jurisprudence", pp . 55-6, e "Justice


criminelle", a sair.
1. Sobre o Supremo Tribunal de Toulouse, ver Viala, Parle- 10. Coras, pp . 34-5, 47, 59, 68-70, 85 .
ment de Toulouse; B. Bennassar e B. Tollon, "Le Parlement", in 11. Coras, pp . 33-6, 62, 69-70. Le Sueur, Historia, p. 14.
Histoire de Toulouse, ed. Philippe Wolff (Toulouse, 1974), pp. 12 . Coras, pp. 59-60, 71-2, 75-9 .
236-45; e Bernard de La Roche-Flavin (por muito tempo juiz do 13. Coras, p. 87.
Tribunal de Toulouse), Treize livres des Parlemens de France (Gene-
bra, 1621). ADHG, B, La Tournelle, vol. 74, 27 de abril e 20 de
maio de 1560. Jean de Coras, De acqui. possessione Paraphrasis 9. O Retorno de Martin Guerre
(Lyon: Michel Parmentier, 1542), A W; De Ritu Nuptiarum, dedi-
catória, pp. 205-6, in De Servitutibus Commentarii (Lyon: Domi- 1. Le Sueur, Histoiria, p. 4; Histoire, A iiir. Sobre o relativo
nique de Portunariis, 1548); De verborum obligationibus Scholia êxito dos cirurgiões militares ligados ao exército espanhol em Flan-
(Lyon: Guillaume Rouillé, 1550), página de rosto. dres, ver Geoffrey Parker, The Army of Flanders and the Spanish
2. La Roche-Flavin, Parlemens de France, pp. 34-5, 54. IADHG, Road, 1.567-1659 (Cambridge, lngl., 1972), p. 168. No século 17 ,
B43, f. 707; B51, f. 2; B32, f. 219; B57, f. 466; B55, f. 415; B57, foi montada uma casa especial na Bélgica para soldados que perdiam
ff . 70, 73; B56, ff. 556-7, 561; B67, ff. 478-9. Mentzer, "Calvinist os membros. L. P . Wright, "The Military Orders in Sixteenth and
Propaganda and the Parlement of Toulouse", pp. 268-83. Joan Seventeenth-Century Spanish Society", Past and Present, 43 (maio
Davies, "Persecution and Protestantism: Toulouse, 1562-1575", de 1969), 66.
Historical ]ournal, 22 (1979), 49 . 2. Le Sueur, Historia, p. 15, Martin Fernandez Navarreta et ai.,
3. IADHG, B-19, f. 8. Coras, p. 1. Le Sueur, Historia, p. 16. Colección de Documentos Inéditos para la historia de Espana (Madri,
La Roche-Flavin, Parlemens de France, pp. 753-5 . ADHG, B. La 184 3), voi. 3, pp. 418-4 7. O perigo de processo por traição não é de
Tournelle, vol. 74, 30 de abril de 1560. se minimizar: um certo Martin de Guerre foi enforcado em 15 55
4. La Roche-Flavin, Parlemens de France, p. 260. Viala, pp. em Rouen, por ter trazido cartas da Espanha, por Bayonne, a comer-
381 -5. ADHG, B, La Tournelle, vol. 72, 29 de janeiro de 1559160; ciantes espanhóis em Rouen, "altamente prejudiciais a nós [o rei] e
vol. 73, 15 de março de 1559160; vol. 74, 1. 0 de fevereiro de 15591 nossa república" (AN, ]]263\ 271r-272r). Desconhece-se a relação,
60, 31 de maio, 23 de agosto de 1560. se é que existe, entre esse Martin de Guerre e nosso Martin Guerre.
5. Le Sueur, Historia, pp . 11-2; Histoire, C iir-C iW. Coras, 3. Viala, Parlement, p . 409 . M. A. Du Bourg, Histoire du
p. 47 . IADHG, B1900, f. 256 . ADHG, B, La Tournelle, vol. 74, grand-prieuré de Toulouse et des diverses prossessions de l'ordre de
20 de maio de 1560. La Roche-Flavin, Parlemens de France, p. 250. Saint-]ean de Jérusalem dans le sud-ouest de la France (Toulouse,
6. Coras, p. 39. 1883), cap. 5.
7. Coras, pp. 48, 51, 73 . ADHG, B. La Tournelle, vol. 74, 20 4. Coras, pp. 88-9. De Sueur, Historia, p. 15; Histoire, D iir.
de maio de 1560. 5. Coras, pp. 89-90, 149. Le Sueur, Historia, p. 17 ; Histoire,
8. Por exemplo, Coras não estava pr~rnte à condenação de D iW-D ivr. Uma das questões secretas se referia a detalhes sobre
heréticos em 29 de janeiro de 1559160 (B, _La Tournelle, vol. 72), a crisma de Martin Gúerre. Por alguma razão, ela foi feita em Pa-
em 1. de fevereiro de 1559 I 60 ou 1.0 de março de 1559 I 60 (ibid.,
0
miers e não em Rieux, sede do bispado, ou em Artigat, durante
vol. 73), embora estivesse presente a condenações pronunciadas antes uma visita do vigário do bispo. Algumas das aldeias da área faziam
e depois dessas datas . parte da diocese civil de Rieux e da diocese espiritual de Pamiers,
9. Coras, pp. 48-56, 72-4, 76-7. Imbert e Levasseur, Le Pouvoir, mas Artigat não estava entre elas; C. Barriere-Flavy, " Le Diocese
176 Notas das páginas 107-114 Notas das páginas 114-119 177

de Pamiers au seizieme siecle, d'apres les proces-verbaux de 1551", renaissance, 37 (1975), pp. 387-419. Em princípio, apenas o pro-
Revue des Pyrénées, 4 (1894), 85-106. Talvez os juízes achassem nunciamento da sentença era aberto ao público num caso criminal;
que seria uma ótima pergunta para testar o prisióneiro, mas, con- se Montaigne presenciou qualquer procedimento anterior, foi em vio-
tudo, ele deu o lugar correto. lação às regras da corte.
6. Coras, pp. 97-9. Le Sueur, Historia, pp. 15-6; Histoire, 17. Coras, pp. 144-60. Le Sueur, Historia, pp. 20-2; Histoire,
D iir·v. Imbert e Levasseur, Le Pouvoir, pp. 166-7. B. Schnapper, E iir-v.
"Testes inhabiles: Les Témoins reprochables dans l'ancien droit
pénal", Tijdschrift voar Rechtsgeschiedenis, 33 (1965), pp. 594-
604. 10. O Contador da Estória
7. ADHG, B, La Tournelle, vol. 73, 2 e 5 de março de 1559/
60; vol. 76, 6 de setembro de 1560. Le Sueur, Historia, p. 16. 1. Coras, p. 78.
8. Coras, pp. 98-107. Le Sueur, Historia, pp. 16-7; Histoire, 2. Le Sueur, Historia, pagma de rosto e p. 27. Louis-Eugene
D iiv-D iW. de la Gorgue-Rosny, Recherches généalogiques sur les comtés de
9. São as palavras que efetivamente constam do registro do Ponthieu, de Boulogne, de Guines et pays circonvoisins (Paris, 1874-
Tribunal ("L'imposture et faulce supposition de nom et personne 1877), vol. 3, pp. 1399-400. ADPC, 9B24, 120r-12P. A. D'Haute-
et adultere"). ADHG, B, La Tournelle, 76, 12 de setembro de 1560. feuille e L. Bénard, Histoire de Boulogne-sur-Mer (Boulogne-sur-
10. Schnapper, "La Justice criminelle", quadro 4; "Les Peines Mer, 1866), vol. 1, pp. 314-5, 377. Dictionnaire historique et ar-
arbitraires du XIII• au XVIII• siecle", Tijdschrift voar Rechtsges- chéologique du département du Pas-de-Calais. Arrondissement de
chiedenis, 42 (1974), 93-100. S01pan, "Criminal Jurisprudence", Boulogne (Arras, 1882), vol. 1, pp. 267-9. Les Bibliotheques fran-
pp. 50-4. Coras, pp. 111-2. Isambert, Recueil général des anciennes çoises de La Croix du Maine et Du Verdier (Paris, 1772) ; ·.;,ml. 1, p.
lois, vol. 12, pp. 357-8. A. Carpentier e G. Frerejouan de Saint, 349. Liber qui vulgo Tertius Maccabaeorum inscribitur, Latin versi-
Répettoire général alphabétique du droit français (Paris, 1901); vol. bus à Graeca oratione expressus, A Gulielmo Sudorio, Caesarum
22, "Faux". Hélene Michaud, La Grand Chancellerie et les écritures apud Boloniens. Belg. patrono (Paris: Robert II Estienne, 1566),
royales au 16• siecle (Paris, 1967), pp. 356-7. AN, X2a119, 15 de dedicatória a Michel de L'Hôpital. Antiquitez de Boulogne-sur-mer
junho de 1557; X2a914, 15 de junho de 1557. ADR. BP443, 294v- par Guillaume Le Sueur, 1.596, ed. E. Deseille, in Mémoires de la
296r. socié(é académique de l'arrondissement de Boulogne-sur-Mer (1978-
11. Coras, pp. 111, 118-23. La Roche-Flavin, Arrests notables 9), 1-2p.
du Parlement de Tolose, p. 14. 3. Ioannis Corasi Tolosatis, Iurisconsulti Clarissimi, in Nobilis-
12. Coras, pp. 24, 26-7, 109, 132-4. Imbert, Practique iudiciai- simum Titulum Pandectarum, De verbor. obligationibus, Scholia
re, pp. 488-90. (Lyon: Guillaume Rduillé, 1550) . Ioannis Corasii . .. vita: per An-
13. ADHG, B, La Tournelle, vol. 72, 29 de janeiro de 1559/ tonium Usilium ... in schola Monspeliensi iuris civilis professarem,
60. Imbert, Practique indiciaire, p. 516. ' Imbert e Levasseur, Le edita. 1559, in Jean de Coras, De iuris Arte libellus (Lyon: Antoine
Pouvoir, p. 175. Vincent, 1560). O próprio Coras relatou suas façanhas acadêmicas
14. Coras, pp. 135-42. de juventude numa cárta de Pádua, de 22 de maio de 1535, a Jac-
15. Le Sueur, Historia, p. 18; Histoire, D ivv-E ir. Coras, p. ques de Minut, primeiro presidente do Tribunal de Toulouse; foi
128. editada com as cem sentenças no final do seu Miscellaneorum I uris
16. Le Sueur, Historia, p.l9; Histoire, E iv. E. Telle, "Mon- Civilis, Libri Sex (Lyon, G . Rouillé, 1552). Coras, p . 56. Henri de
taigne et le proces Martin Guerre", Bibliotheque d'humanisme et Mesme, Mémoires inédites, ed. E . Frémy (Paris, s/d), pp. 139-40,
178 Notas das páginas 119-121 Notas das páginas 122-126 179

143 ; Coras foi um dos professores de Mesme em Toulouse. Jaçques 9. Lettres de Coras, pp. 10, 12-3, 15, 20-1, 26-8, 35-6. ADHG,
Gaches, Mémoires sur les Guerres de Religion à Castres et dans le cartas de 10 de abril, 12 de julho e 8 de dezembro de 1567.
Languedoc, 1555-1610, ed. C. Pradel (Paris, 1879), p. 117, n. 1. 10. Jean de Coras, In Universam sacerdotiorum materiam ...
Jean de Coras, Opera quae haberi possunt omnia (Wittenberg, 1603), paraphrasis (Paris: Arnaud l'Angelier, 1549), capítulo sobre o Papa.
' vol. 2, p. 892 . O jurista humanista Jean de Boyssoné, ex-professor Coras, Des Mariages clandestinement et irreveremment contractes
em Toulouse, também falou da glória de Coras como conferencista; par les enfans de famille au deceu ou contre le gré, vouloir et consen-
Gatien Arnout, "Cinq lettres de Boysonné à Jean de Coras", Revue tement de leurs Peres et Meres, petit discours . .. A trêcretien ...
historique de Tarn, 3 (1880-1881), 180-5 . prince Henri deuxieme ... Roy de France (Toulouse: Pierre du
4. ADHG, B37 (arrêts civils), 12 de julho de 1544. O nome da Puis, 1557), p. 92.
mãe de Coras aqui citado é Jeanne; Usilis registra-o como Catherine. 11. Des Mariages clandestinement ... contractes, dedicatória a
Jean de Coras, In Titulum Codicis Iustiniani, De Jure Emphyteutico Henrique II. Altercacion en forme de Dialog~e de l'Empe~eur Adrian
(Lyon: Guillaume Rouillé, 1550), verso da página de rosto: "Domi- et du Philosophe Epictéte . .. rendu de Lattn en Françozs par mon-
no Ioanni Corasio patri suo observandissimo, Ioannes Corasius filius sieur maitre Jean de Coras (Toulouse: Antoine André, 1558); o
S. D.", dat.ado de Lyon, setembro de 1549. · privilégio de nove anos é datado de 4 de abril de 1557/58. De iuris
5. Coras, Opera omnia, vol. 1, pp. 549, 690. Archives Munici- Arte libellus (Lyon: Antoine Vincent, 1560). Esta obra e o pensa"
pales de Toulouse, AA10Y; ADHG, 3E12004, 56r (referências gen- mento jurídico de Jean de Coras são o tema de A. London Fell !r.,
tilmente fornecidas por Barbara B. Davis). Origins of Legislative Sovereignty and the Legislative State (Ki:imgs-
6. Mareei Fournier, "Gujas, Corras, Pacius . Trois conduites de .
tein a Cambridge; Mass ., 1983).
professeurs de droit par les villes de Montpellier et Valence au sei- 12. Jean de Coras, Remonstrance Discourue par Monszeur
zieme siecle", Rev~e des Pyrénées, 2 (1890), 328-34. Jean de Coras,
Maistre Jean de Coras, Conseiller du Roy au Parlement de. Tolose:
De Impuberum . .. Commentarii (Toulouse: Guy Boudeville, 1541);
sur l'installation par luy faicte de Messire Honorat de Martms et d~
p. 168 ria cópia da Bibliotheque Municipale de Toulouse traz "Cor- Grille en l'estat de Seneschal de Beauscaire, Le 4 Novembre 1566 a
rasissima" na margem. A obra é dedicada a Jean Bertrand, presiden- Nymes (Lyon: Guillaume Rouillé, 1567), pp. 17-9. G . Bosquet, His-
te, Tribunal de Paris; De acqui. possessione é dedicada a Mansencal toire sur les troubles Advenus en la ville de Tolose l'an 1562 (Tou-
em 1542 . A dedicatória ao Cardeal de Châtillon data de 1548, ao louse, 1595), p. 157. ADHG, B56 (arrêt civils), 557v-558r. Ger-
Cardeal de Lorraine, de '1549 . Coras, Opera Omnia, vol. 1, pp. 22, main La Faille, Annales de la ville de Toulouse (Toulouse, 1687-
162, 191, 225. 1701), vol. 2, pp. 220, 261. Ver também meu capítulo 12, em espe-
7. Usilis, "Vi ta" . IADHG, B46, f. 172. cial n. 2. Lettres de Coras, p. 13 .
8. ADHG, E916. Essas cartas foram parcialmente publicadas 13. Le Sueur, Historia, p. 12. Coras, p. 64 .
por Charles Pradel, Lettres de Coras, celles de sa femme, de son fíls 14 . Coras, p. 87 . Le Sueur, Historia, p. 14 .
et de ses amis (Albi, 1880), e estudadas por F. Neubert, "Zur pro- 15. Coras, Altercacion, pp. 59-63.
blematik franzi:isicher Renaissancebriefe", Bibliotheque d' humanisme 16. Coras, p. 12; Le Sueur, Historia, p. 18; Histoire, D ivr.
et renaissan.ce, 26 (1964), 28-54. Gaches, Mémoires, p. 120, n. 2. Stephen Greenblatt, Renaissance Self-Fashioning: From More t.o Sha-
Coras casara com Jacquette em junho de 1557, data em que escre- kespeare (Chicago, 1980). Para uma abordagem um pouco diVersa,
veu uma afetuosa dedicatória a Antoine de Saint-Paul, "maitre des ver Norbert Elias, The Civili:âng Process : The Development of Man-
requêtes ordinaires de I'hôtel du roi", tio de J aéquette (O pera om- ners, trad. E. Jephcott (Nova Iorque, 1977). Michel de Montaigne,
nia, vol. 2, p. 894). Pradel, Lettres, p. 13 , n. 1; p . 32 , n. 1. IADHG, Oeuvres completes, ed. Albert Thibaudet e Maurice Rat (Bibliothe-
B75, f. 167. que de la Pléiade; Paris, 1962) , livro 2, cap. 18: "Du démentir".
180 Notas das páginas 130-133 Notas das páginas 133-138 181

11. Histoire prodigieuse, Histoire tragique Charon pelas informações sobre as ligações católicas de Vincent Ser-
tenas e os editores parisienses de Arrest Memorable de Coras.
1. Admiranda historia, verso da página de rosto. Histoire Admi- 10. Le Sueur, Historia, pp. 11, 18. Coras, pp. 90, 108-9, 123-8.
rable d'un Faux et Supposé Mary, E iiiv, privilégio de Sertenas por ADHG, B, La Tournelle, vol. 74, 20 de maio de 1560; vol. 76, 12
seis anos, datado de 25 de janeiro. de 1560/61. Jean-Pierre Seguin, de setembro de 1560. .
L'Information en France avant le périodique. 517 Canards imprimés 11. Coras, pp. 11-22, 139, 149.
entre 1529 et 1631 (Paris, s/d); L'Information en France de Louis 12. Cent Nouvelles Nouvelles, conto 35. Compare-se o Hepta-
XII à Henri II (Genebra, 1961). méron de Marguerite de Navarre, Segundo Dia, conto 14 (o Sire de
2. E. Droz, "Antoine Vicent: La Propagande protestante par Bonnivet substitui o amante italiano de uma mulher milanesa);
le Psautier", in Aspects de la propagande religieuse, études publiées Quinto Dia, conto 48 (dois franciscanos substituem o novo marido
par G. Berthoud et al. (Genebra, 1957), pp. 276-93. N. Z. Davis, de uma noiva aldeã de Périgord); All's W ell T hat Ends W eU, de Sha-
"Le Monde de l'imprimerie humaniste: Lyon", in Histoire de l'édi- kespe.are (Helen substitui Diana no encontro amoroso com Bertram)
tion française, ed. Henri-Jean Martin e Roger Chartier (Paris, 1982), e Measure for Measure (Mariana substitui Isabelle no encontro amo-
vol. 1, pp. 255-77. roso com Angelo). Em todos esses casos, a pessoa enganada só sabe
3. Seguin, L'Information ... de Louis XII à Henri II, reinado da verdade quando lhe contam depois. Stith Thompson não dá ne·
de Francisco I: n. 05 55, 142; reinado de Henrique II: n. 0 29. Jean nhuma referência de conto com o mesmo tipo de impostura da
Papon, Recuei! d' arrestz notables des courts souveraines de France história de Martin Guerre; o exemplo mais próximo é o de um
(Lyon: Jean de Tournes, 1557) . gêmeo que engana a mulher do seu irmão; Motif-Index of Folk
4. Jean Céard, La Nature et les prodiges: L'Insolite au XVI" Literature (Bloomington, 1955-1958), K1915-1917, K1311.
siecle en France (Genebra, 177, pp. 252-65. Michel Simonin, "Notes 13. Vladimir Propp, Morphologie du conte, trad. Marguerite
sur Pierre Boaistuau", Bibliotheque d'humanisme et renaissance, 38 Derrida (Paris, 1970) .
(1976), 323-33. Seguin, L'information . . . de Louis XII à Henri II, 14 . Coras, Arrest Memorable (1561), f.** yv, pp. 70-1.
reinado de Henrique II: n. 0 22. Pierre Boaistuau, Histoires prodi- 15. Coras, Arrest Memorable (Lyon: Antoine Vincent, 1565),
gieuses les plus memorables qui ayent esté observées depuis la Nati- pp~ 158-78, anotação 104 . Coras (1572), f.* ir. Le Sueur, Historia,

vité de Jesus Christ iusques à nostre siecle (Paris: Vincent Sertenas, pp. 4, 11, 22; Histoire, A iW, CiW. Henry C. Lancaster, The French
Tragi-Comedy: Its Origin and Development from 1552 to 1628
1560). Jean de Tournes publicara Des prodiges de Jules Obsequent
em 1555,' cinco anos antes de Admiranda historia, de Guillaume Le (Baltimore, 1907); Marvin T. Herrick, Tragicomedy: Its Origin and
Sueur. Le Sueur, Histoire, verso da página de rosto. Coras, pp . 11-2. Development in Italy, France and England (Urbana, 1955); Susan
Snyder, The Comic Matrix of Shakespeare's Tragedies (Princeton,
5. Coras, p . 1.
19?9).
6. Coras, pp. 2-7, 40-5, 118-23. 16. Histoires tragiques, Extraictes des oeuvres Italiennes de
7. Coras, pp. 44-5, 96. Bandel, et mises en langue Françoise: Les six premieres, par Pierre
8. O privilégio de Antoine Vincent para o Salmério data de Boaistuau . . . et les suavantes par François de Belleforest (Paris,
19 de outubro de 1561. Sobre Jean de Monluc, ver AN, MM249, 1580); Richard A. Carr, Pierre Boaistuau's "Histoires Tragiques" : A
130v-133", 136r·v e Vidal, Schisme et hérésie, pp. 165-6. "Projet Study of Narrative Form and Tragic Vision (Chapel Hill, 1979) ;
d'ordonnance sur les mariages", in Calvino, Opera omnia, vol. 38, Coras, p. 147.
pp. 35-44. 17. Coras, pp. 107,- 138. Lettres de Coras, p. 16. A self-fashio-
9. Coras, Arrest Memorable (1561), f.* 2r-v. Agradeço a Annie ning Bertrande não aparece no texto de Le Sueur .
182 Notas das páginas 139-140 Notas das páginas 140-147 183

12. Dos Coxos Sueur está na Bibliotheque Nationale (Fl3876) e traz a assinatura
do grande apreciador de livros Claude Dupuys.
1. ADHG, E916, 8 de dezembro de 1567. Uma inscrição lati· 5. Ver minha bibliografia.
na na guarda da edição de 1579 da Bibliotheque de !'Arsenal diz 6. Jean Papon, Recuei! d'Arrests Notables des Courts souve-
que o exemplar foi comprado por 10 sous em fevereiro de 1583, . raines de France (Paris: Nicolas Chesneau, 1565), 452v-456v. Géraud
preço razoável para esse tipo de livro. de Maynard, Notables et singulieres Questions du Droict Escrit
2. ADHG, B56 (arrêts civils), 55r-558r; B57, 6Y, 70r-73v; (Paris, 1623), pp. 500-7; C. Drouhet, Le poete François Mainard
B67, 473v.479r. IADHG, B64, f. 69; B62, f. 73; B68, f. 449. Ar- (158.3?-1646). (Paris, s/d), pp. 7-8 . Pasquier, Recherches de la
chives Municipales de Toulouse, GG826, depoimento de 26 de maio France, livro 6, cap. 35.
de 1562 (referência gentilmente fornecida por Joan Davies). (Jean 7. Heródoto, Historiae libri IX et de vita Homeri libellus ...
de Coras?), Les Iniquitez, Abus, Nullitez, Injustices, oppressions et ApoúeJgia Henr. Stepbani pro Herodoto (Genebra: Henri Estienne,
Tyrannies de l'Arrest donné au Parlement de Toloze, contre les Con- 15.66), f.***-* iir. Henri Estienne, L'Introduction au. traité de la con-
seillers de la Religion, fevereiro de 1568, in Histoire de Nostre formité des merveilles anciennes avec les modernes (1566), ed. P.
Temps, Contenant un Recuei! des Choses Memorables passees et Ristelbuber (Paris, 1879), pp. 24-5. Gilbert Cousin, Narrationum
publiees pour le faict de la Religion et estat de la France, depuis sylva qua Magna Rerum (Base!, 1567), livro 8. Antoine Du Verdier,
l'Edict de pacification du 23 iour de Mars 1568 iusques au iour Les Diverses Lecons (Lyon: Barthélemy Honorat, 1577), livro 4,
present. Imprimé Nouvellement. Mil D. LXX (La Rochelle: Barthé- caps. 21-7. Histoires prodigieuses, extraictes de plusiers fameux
lemy Berton), pp. 321-54. E. Droz, Barthélemy Berton, 1563-1573 Autheurs ... divisees en deux Tomes. Le premier mis en lumiere
(L'Imprimerie à La Rochelle, 1; Genebra, 1960), pp. 98-106. J. de par P. Boaistuau . . . Le second par Claude de T esserant, et augmen~
Galle, "Le Conseil de la Reine de Navarre à La Rochelle ... 1569- té de dix histoires par François de Belle-Forest Comingeois (Paris,
70", Bulletin de la société de fhistoire du protestantisme français, 2 Jean de Bordeaux, 1574), vol. 2, f. 279r.239r. Cosmographie univer-
(1855), 123-37. Lettres de Coras, pp. 23-8. Jacques Gaches, Mémoi- selle ... enrichie par François de Belleforest, p. 372. Céard, Les
res, pp. 75, 117-20, 193, 417-8. O terceiro juiz assassinado pela mul- Prodiges, pp. 326-35.
tidão foi Antoine I de Lacger, irmão mais velho de Antoine II de 8. Papon, 456r·v; Du Verdier, pp. 300-1; Pasquier, pp. 570-1.
Lacger, o marido de Jeanne, filha de Coras. Alfred Soman, "La Sorcellerie vue du Parlement de Paris au début
3. Ver minha bibliografia sobre essas edições. O exemplar da du XVII• siecle", in La Girondc: de 1610 à nos jours. Questions
edição latina, Frankfurt, 1576, da Bibliotheque Nationale (F32609) diverses. Actes du 104• Congres national des Sociétés Savantes, Bor-
traz a assinatura da Kenelme Digby, colecionador inglês do século 17. deaux, 1979 (Paris, 1981), pp. 393-405.
4. Exemplares do Arrest Memorable de propriedade de advo- 9. Auger Gaillatd, Oeuvres Completes, publ. e trad. Ernest
gados: 1561, Bibliotheque Municipale de Lille; Lyon, 1565, Biblio- Negre (Paris, 1970), pp . 514, 525-6,
theque Municipale de Poitiers. Exemplares encadernados com Pa- 10. Montaigne, Oeuvres completes, livro 3, cap. 11. Uso a tra-
raphraze sur l'Edict des mariages clandestinement contractez, Paris, dução contemporânea de John Floria, The Essayes or Moral!, Poli-
1572: Bibliotheque Nationale (F32604); Bibliotheque Municipale tike a..ttd Millitarie Discourses of Lord Michael de Montaigne (Lon-
de Lyon (337624); Paris, 1579: Robinson Collection, Faculty of dres, 1610), "Of the Lame or Cripple", pp. 612-7.
Law, University of California, Berkeley. Exemplares encadernados 11. Coras, pp . 52, 74, 88. Montaigne, Essayes, pp. 614, 616.
com obras sobre a lei de casamentos: Lyon, 1565, British Library, Quinti Horatii Flacci Emblemata (Antuérpil:\; Philippe Lisaert,
proprietário original francês (G 19.341); Lyon, 1605, Saint Gene- 16t;l), pp. 180-1: "Raro antecedentem scelestum / Deseruit pede
vieve. A edição de 1561 encadernada com Admiranda historia de Le •• poena claudo", das Odes, livro 3, ode 2. Cesare Ripa, Iconologia
184 Notas das páginas 147-150 Notas das páginas 150-151 185

overo Descrittione dell'Imagini universali cavate dall'Antichità et da não jurat da aldeia (d~ Lancre, Tableau de l'inconstance, p. 71, 125,
Altri Luoghi (Roma: Herdeiros Gio. Gigliotti, 1593), p. 37: Bugia. 217; ADPyA, IJ160, n.o 46, 14 de janeiro de 1620). Os du Tilh
A personificação da Mentira tem uma perna de pau porque "la bugia continuaram em Sajas e Le Pin nos séculos 17 e 18, mas seu status
ha le gambe corte". Outros exemplos de significados mistos de uma ,, ainda era modesto (ADHG, 2E2403, 4JV-4Y, 4E2016) .
perna de pau ou aleijão: Saturno com perna de pau (Adhémar, Inven- 6. ACArt, Registro de Batismos, 1634: "nasceu um bastardo
taire, vol. 2, p. 272); aleijão ou deformidade dos pés associada ao Jean, filho de Ramond Guerre" . Pouquíssimos ttabalhadores
extravio da verdade divina e à injustiça [ Giovanni Piero Valeriano imigrantes na Espanha lá formaram uma segunda família, para depois
Bolzoni, Hieroglyphica (Lyon: Paul Frellon, 1602), pp. 366-7]. voltarem à sua mulher e filhos no Languedoc (comunicação oral de
Jean-Pierre Poussou).

Epílogo

1. ADAr, 5E6653, 63", 97'-98r. Coras, pp. 23-4.


2. F. Pasquier, "Coutumes du Fossat", pp. 278-320. Philippe
Wolff, Regards sur le midi médiéval (Toulouse, 1978), pp. 412-4.
3. François Rabelais, Oeuvres, ed. J. Boulanger (Bibliotheque
de la Pléiade, Paris, 1955), Pantagruel, prólogo, p. 169. Esse pro-
vérbio é atualmente corrente no Languedoc. F. Mistral, Lou Tresor
dóu Felibrige ou Dictionnaire Provençal-Français (Aix-en-Provence,
1979), II, 302.
4. ADHG, B, Insinuations, vol. 6, 9Y-9r. Apenas Pierre, o jo-
vem é descrito como o filho da viúva de Martin Guerre, Jehanne
Carolle. Ainda é menor, com dois curateurs, o que sugere que tem
entre 15 e 25 anos de idade e vive com a mãe. A família Carol
(também Carrel, Carolz) era de Artigat, embora de menor status do
que os Rols (ADAr, 5E6656, 9r).
5. ACArt, registro de casamentos e batismos da paróquia de
Artigat, 1632-1642. Terrier de 1651: Dominique Guerre; Gaspard
Guerre, aliás Bonnelle; Ramond Guerre; Jean Guerre; Jammes
Guerre, François Guerre e Martin Guerre, irmãos; os herdeiros de
Marie Guerre. Pierre Rols mantém vários campos em comum com
os herdeiros de Marie Guerre. Os Guerre de Artigat sobreviveram
aos seus processos com maior facilidade · do que os Daguerre de
Hendaye às perseguições à feitiçaria no Labourd, em 1609. Marie
e Johannes Daguerre estavam entre as testemunhas, e Petri Daguerre,
com 73 anos de idade, foi descrito pelo juiz de Bordeaux como "o mes-
tre-de-cerimônias e governador do sabá", e foi executado. Em 1620
ainda havia Daguerre em Handaye, um bastante importante embora
Sobre a autora
···-·-···
N atalie Zemon Davis é, atualmente, uma das mais desta-
cadas historiadoras sociais. Tendo nascido em novembro de
19 2 8, foi educada no Smi th College, Massachuset!\, onde
graduou-se summa cum laude em 1949. No ano seguinte,
graduou-se também pelo Radcliffe College. Recebeu seu
Ph. D., em 19 59, na Universidade Michigan e, desde então,
tem lecionado nas Universidades Brown (19 59-1963), de
Toronto (1963-197 1), da California, Berkeley (1971-197 7)
e Princeton, onde foi professora de História de 1978 a
1981; atualmente é professora de História na Henry Zharles
Lea.
Paralelamente às atividades mais diretament e ligadas
ao ensino, dirigiu por um ano, o Associated Studies da École
des Hautes Études en Sciences Sociales. Foi fundadora e co-
editora ( 1964-1968 ) do "Renaissance and Reformatio n",
tendo participado também do conselho editorial de diversas
publicações especializadas. Foi membro e presidente de inú-
meras associações profissionais.
Natalie Davis tem recebido íncontáveis honrarias ao
longo de sua carreira. É autora de vários ensaios e artigos,
particularmente sobre aspectos da vida na França do século
XVI. Seu primeiro livro, Society and Culture in Early
Modern France, foi publicado nos EUA em 1975. O RETOR-
188 Sobre« autora

NO DE MARTIN GUERRE, seu segundo trabalho, é uma


extensão da pesquisa por ela desenvolvida quando das filma-
gens da aclamada versão cinematográfica desta estória, diri-
gida na França por Daniel Vigne.
Seu último estudo histórico-antropológico, The Gift
in Sixteenth-Century France, acaba de ser concluído. Nata-
lie Zerrion Davis é casada com o matemático Chandler Davis
e tem três filhos.