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ILYA PRIGOGINE - AUTOBIOGRAFIA 221

Autobiografia1

ILYA PRIGOGINE

Na memorável série “Études sur le te no futuro. Dessa forma, não é muito


temps humain” [Estudos sobre o tem- fácil a tarefa de escrever esta autobio-
po humano], Georges Poulet dedicou grafia, para a qual gostaria de dar um
um volume ao “Mésure l’instant” [Me- tom pessoal. Mas o presente explica o
dir o instante],2 em que propôs uma passado.
classificação de autores de acordo com Em minha conferência ao Nobel,
a importância que dão ao passado, pre- falo muito de flutuações; talvez por-
sente e futuro. Acredito que em tal que durante minha vida tenha perce-
tipologia minha posição estaria em uma bido a eficácia de notáveis coincidên-
extremidade, pois vivo principalmen- cias cujos efeitos cumulativos serão
notados em meu trabalho científico.
Nasci em Moscou, em 25 de janeiro
de 1917, alguns meses antes da revolu-
1. Texto publicado originalmente em PRIGOGINE, ção. Minha família teve uma relação
I. (1987), Autobiography. Physicalia Magazine, difícil com o novo regime e, assim, dei-
n. 9, pp. 262-311. Disponível também no site ofi-
cial da NOBELSTIFTELSEN – The Nobel
xamos a Rússia no início de 1921. Du-
Foundation, http://www.nobel.se. Traduzido por rante alguns anos (até 1929), moramos
Adrian Ribaric (e-mail: adribaric@uol.com.br) com como imigrantes na Alemanha, antes
revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho (e- de fixarmo-nos na Bélgica. Foi em Bru-
mail: edgardcarvalho@terra.com.br).
xelas que freqüentei a escola secundá-
2. POULET, G. (1949), Etudes sur le temps humain
[Estudos sobre o tempo humano]. Tomo 4. Paris, ria e a universidade. Adquiri naciona-
Edições 10/8. lidade belga em 1949.

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Meu pai, Roman Prigogine, morto meus professores exerceram influência


em 1974, era engenheiro químico da po- duradoura na orientação de meu tra-
litécnica de Moscou. Meu irmão balho futuro.
Alexander, que nasceu quatro anos an- Mencionaria em primeiro lugar
tes de mim, seguiu, como eu mesmo Théophile De Donder (1873-1957). 3
fiz, o programa de Química na Univer- Que caráter amável ele tinha! Filho de
sidade Livre de Bruxelas. Lembro-me um professor de escola primária, co-
de quanto hesitei antes de escolher essa meçou sua carreira da mesma manei-
direção; como vinha dos estudos clás- ra, e, em 1896, foi-lhe conferido o grau
sicos cursados no Ateneu de Ixelles, de Doutor de Ciência Física, sem que
meu interesse estava mais orientado nunca houvesse cursado nada na uni-
para história e arqueologia, para não versidade.
mencionar a música, especialmente o Em 1918, quando tinha 45 anos, De
piano. De acordo com minha mãe, eu Donder pôde, depois de alguns anos,
era capaz de ler notações musicais an- dedicar seu tempo ao ensino superior
tes de que pudesse ler palavras escri- como professor secundário. Promovi-
tas. Ainda hoje meu passatempo favo- do, então, a professor no Departamen-
rito é tocar piano, embora meu tempo to de Ciência Aplicada, começou ime-
livre para a prática esteja se restringin- diatamente a preparação de um curso
do cada vez mais. em teoria termodinâmica para enge-
Desde minha adolescência, tenho nheiros.
lido muitos textos filosóficos, e ainda Permitam-me dar-lhes um pouco
me lembro de me deixar capturar pelo mais de detalhes, como esta fantástica
feitiço de L’évolution créatice [Evolução circunstância, que deve ser associada ao
criativa]. Mais especificamente, sentia nascimento da Escola de Termodinâmica
que alguma mensagem essencial esta- de Bruxelas.
va embutida naquela observação de Para entender a originalidade da
Bergson: abordagem de De Donder, tenho que
recordar que, desde o trabalho funda-
Quanto mais estudamos a natureza do mental de Clausius, o segundo princí-
tempo, melhor entendemos que aque- pio da termodinâmica tem sido formu-
la duração significa invenção, criação lado como uma desigualdade: a tem-
de formas, elaboração contínua do ab- peratura de desequilíbrio é positiva ou,
solutamente novo.
em termos mais recentes, a produção
de entropia é positiva. Essa desigual-
Coincidências afortunadas conspi-
dade se refere, é claro, a fenômenos
raram para meus estudos na universi-
que são irreversíveis, como quaisquer
dade, que me conduziram a uma dire-
ção quase oposta, para a química e a
física. Em 1941, recebi meu primeiro 3. Ver a nota De Donder in the Florilège (durante o
século XIX e início do século XX), Acad. Roy. Belg.,
título doutoral. Desde cedo, dois de
Bull. Cl. Sc., p. 169, 1968.

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processos naturais. Naquele tempo, (...) estou surpreso que você preste mais
esses “últimos” eram pobremente com- atenção a fenômenos irreversíveis, que
preendidos e eram considerados por são essencialmente transitórios, do que
engenheiros e físico-químicos como “fe- para o resultado final da evolução deles.
nômenos parasitários”, capazes apenas
de escalar algo: a produtividade de um Felizmente, alguns eminentes cien-
processo ou crescimento regular de um tistas rechaçaram essa atitude negati-
cristal, sem apresentar nenhum interes- va. Recebi muito apoio de pessoas como
se intrínseco. A abordagem habitual do Edmond Bauer, o sucessor de Jean
estudo da termodinâmica se limitava à Perrin em Paris, e Hendrik Kramers em
compreensão das leis de equilíbrio para Leyden.
as quais a produção de entropia é zero. De Donder, claro, teve precurso-
Isso só poderia fazer da termodi- res, especialmente na escola termodi-
nâmica uma “termoestática”. Nesse nâmica francesa de Pierre Duhem. No
contexto, o grande mérito de De estudo de termodinâmicas químicas,
Donder foi tirar a produção de entropia De Donder foi mais adiante e forneceu
desse sfumato, quando precisamente uma nova formulação ao segundo prin-
relacionou-a a um passo de uma rea- cípio, baseado em conceitos como afi-
ção química, através de uma função nidade e grau de evolução de uma rea-
nova, que ele chamou de “afinidade”.4 ção, considerados como uma variável
É difícil avaliar hoje a hostilidade que química.
tal abordagem encontrou. Lembro-me, Dado meu interesse no conceito de
por exemplo, que no final de 1946, no tempo, era natural que minha atenção
encontro da Iupap, em Bruxelas,5 após fosse relacionada ao segundo princípio,
uma apresentação sobre os processos pois sentia, desde o começo, que ele
irreversíveis em termodinâmica, um introduzia um elemento novo e ines-
especialista de grande reputação dis- perado na descrição de evolução do
se-me: mundo físico. Não tinha dúvidas de que
era a mesma impressão que físicos ilus-
tres como Boltzmann6 e Planck7 tinham
sentido antes de mim. Uma parte imen-
4. DE DONDER, T. (1936), Paris, Gauthier-Villars.
sa de minha carreira científica foi
Ver também, PRIGOGINE, I. e DEFAY, R. (1944-
46), Thermodynamique chimique conformément aux dedicada à elucidação de aspectos
méthodes de Gibbs et De Donder [Termodinâmica macroscópicos e microscópicos do se-
química conforme o método de Gibbs e De gundo princípio, para estender sua va-
Donder]. Liège, Desoer, 2 v.; ou a versão em in-
lidade a novas situações e a outras abor-
glês: Chemical thermodynamics [Químicas
termodinâmicas]. Trad. D. H. Everett, Langmans
1954, 1962.
5. Ver Colloque de Thermodynamique. Union
International de Physique Pure et Appliquée – 6. BOLZMANN, L. (1872), Wien, Ber. 66, 2275.
I.U.P.A.P. [Colóquio de Termodinâmica. União 7. PLANCK, M. (1930), Vorlesaungen über
Internacional de Física Pura e Aplicada], 1948. Thermodynamik. Berlin/Leipzig, Walter de Gruyter.

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dagens fundamentais de teorias físicas, Sempre tive grande prazer em tra-


como a clássica, a dinâmica e a quântica. balhar no campo da química física, por-
Antes de considerarmos esses pon- que a ligação direta com experimenta-
tos em maior detalhe, gostaria de ção permite à pessoa testar a intuição
enfatizar a influência do segundo de do teórico. Os sucessos que obtivemos
meus professores, Jean Timmermans depois foram muito importantes em
(1882-1971), em meu desenvolvimento minha confrontação posterior com pro-
científico. Ele era mais experimentalista, blemas mais abstratos e complexos.
especialmente interessado nas aplica- Entre todas essas perspectivas
ções da termodi-nâmica clássica em abertas pela termodinâmica, a que fi-
soluções líquidas e, em geral, siste- nalmente manteve meu interesse foi o
mas complexos, conforme a aborda- estudo de fenômenos irreversíveis, o
gem da Grande Escola Holandesa de que tornou visível a “flecha do tem-
termodinâmica de Van der Waals e po”. Desde o início sempre atribuía a
Roozeboom.8 esses processos um papel construtivo,
Desse modo, fui confrontado com em oposição à abordagem corriqueira,
a aplicação precisa de métodos de que só via a degradação de fenômenos
termodinâmica, e pude entender sua e a perda de trabalho útil. Isso se de-
utilidade. Nos anos seguintes, dediquei via à influência do L’évolution créatice
muito tempo à abordagem teórica de de Bergson, ou à presença em Bruxe-
tais problemas, que exigiram o uso de las de uma ativa escola de biologia
métodos da termodinâmica, ou seja, a teórica?10 Pareceu-me, então, que aque-
teoria de soluções, a teoria de estados las coisas vivas nos proporcionariam
correspondentes e de efeitos isotópicos notáveis exemplos de sistemas, que
na fase condensada. Uma pesquisa co- eram altamente organizados, em que
letiva de V. Mathot, A. Bellemans e N. fenômenos irreversíveis desempenha-
Trappeiniers conduziu à previsão de vam papel essencial.
novos efeitos, como o demixtion de
isótopos de hélio 3He + 4He, que em-
parelhou de modo perfeito os resulta- molecular de soluções, com A. Bellemans e V.
Mathot]. Amsterdam, North-Holland Publ.
dos de pesquisa posterior. Essa parte
Company. Ver também PRIGOGINE, I e DEFAY,
de meu trabalho é resumida em um li- nota 3.
vro escrito em colaboração com V. 10. Citamos alguns trabalhos notáveis dessa es-
Mathot e A. Bellemans, A teoria molecular cola: BARCHET, A. (1927), La vie créatrice des
de soluções.9 formes [A vida criativa das formas]. Paris, Alcan;
DALCQ, A. (1941), L’oeuf et son dynamisme
organisateur [O ovo e seu dinamismo organizador].
Paris, Alban Michel; BARCHET, J. (1946),
8. TIMMERMANS, J. (1936), Les solutions concentrées Embryologie Chimique [Embriologia química]. Pa-
[As soluções concentradas] Paris, Desoer, Liège e ris, Desoer, Liège et Masson. Interessou-nos mui-
Masson, 1936. to o belo livro FLORKIN, M. (1944), Biochimique de
9. PRIGOGINE, I. (1957), The Molecular Theory of l’evolution [Bioquímica da evolução]. Paris, Desoer,
Solutions, avec A. Bellemans et V. Mathot [A teoria Liège.

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Tais conexões intelectuais, embora Onsager são aplicadas. 14 A pergunta


bastante vagas no princípio, contribuí- era: nos estados estacionários distan-
ram para a elaboração, em 1945, do tes do equilíbrio, para os quais as rela-
teorema de produção de entropia mí- ções de Onsager não são válidas, quais
nima, aplicável a estados de não equi- delas ainda constituem o escopo da des-
líbrio estacionários.11 Esse teorema per- crição macroscópica? Relações lineares
mitiu uma explicação mais clara da ana- são abordagens muito boas para o es-
logia que relaciona a estabilidade dos tudo de fenômenos de transporte
estados de equilíbrio termodinâmico (condutividade, termodifusão, etc.),
e a estabilidade de sistemas biológi- mas, geralmente, não são válidas para
cos, como expresso no conceito de as condições da química cinética. O
“homeostasia” proposto por Claude equilíbrio químico é realmente assegu-
Bernard. Isso porque, em colaboração rado pela compensação de dois proces-
com J. M. Wiame, 12 apliquei esse sos antagônicos, enquanto, em química
teorema à discussão de alguns proble- cinética – longe de equilíbrio, fora da
mas importantes em biologia teórica, ramificação linear –, um deles normal-
especialmente na energética da evolu- mente é confrontado com a situação
ção embriológica. Como sabemos me- oposta, em que um dos processos é des-
lhor hoje, esse teorema pôde permitir prezível.
uma explicação mais esclarecedora de Apesar desse caráter restrito, as
alguns fenômenos “recentes”, mas é termodinâmicas lineares de processos
notável que continue interessando nu- irreversíveis já haviam conduzido a
merosos experimentalistas.13 numerosas aplicações, como foi mos-
Desde o começo, soube que a pro- trado por pessoas como J. Meixner,15
dução de entropia mínima só era váli- S. R. de Groot, I. P. Mazur16 e, na área
da para a ramificação linear de fenô- de biologia, por A. Katchalsky.17 Para
menos irreversíveis, para os quais as mim, esse foi um incentivo adicional
famosas relações de reciprocidade de

Organization in Non-Equilibrium Systems [Auto-


organização em sistemas de nãp-equilíbrio]. Caps.
11. PRIGOGINE, I. (1945), Acad. Roy. Belg. Bull. III e IV, Nova York, J. Wiley and Sons.
Cl. Sc. 31, 600; Do mesmo autor, Etude 14. ONSAGER, L. (1931), Physicalia Magazine,
thermodynamique des phénomènes irréversibles [Es- n. 37, p. 405.
tudos termodinâmicos dos fenômenos 15. MEIXNER, J. Ann. Physik, pp. 5, 35, 701, 1939;
irreversíveis]. Tese apresentada em 1945 na Uni- pp. 36, 103, 1939; pp. 39, 333, 1941; pp. 40, 165,
versidade Livre de Bruxelas. Desoer, Liège, 1947. Zeitsch Phys. Chim. B 53, 235, 1943.
Introduction à la Thermodynamique des processus 16. GROOT, S. R. e MAZUR, P. (1962), Non-
irréversibles [Introdução à termodinâmica dos pro- Equilibrium Thermodynamics [Não-equilíbrio
cessos irreversíveis]. Tradução da versão inglesa termodinâmico]. Amsterdam, North-Holland.
por J. Chanu. Paris, Dunod, 1968. 17. KATCHALSKY, A. e CURRAN, P. F. (1946),
12. PRIGOGINE, I. e WIAME, J. M. (1946), Non-Equilibrium Thermodynamics in Biophisics [Não-
Experientia, n. 2, p. 451. equilíbrio termodinâmico na biofísica]. Harvard
13. NICOLIS, G. e PRIGOGINE, I. (1977), Self University Press, Cambridge, Mass.

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quando tive que conhecer situações oportunidade de transformar profun-


mais gerais. Esses problemas nos ti- damente a interpretação tradicional.
nham desafiado por mais de vinte anos, Além da estrutura de equilíbrio clássi-
entre 1947 e 1967, até que, finalmente, ca, para condições longe de equilíbrio
alcançamos a noção de “estrutura suficientes, enfrentávamos agora estru-
dissipativa”.18 turas dissipativas coerentes. Uma apre-
Não que a questão fosse intrinse- sentação completa desse assunto pode
camente difícil de controlar, só que nós ser encontrada em meu livro co-escri-
não soubemos nos orientar. Talvez uma to com Glansdorff, em 1971.19
característica de meu trabalho científi- Numa primeira tentativa, pensamos
co seja que as questões amadureçam de principalmente em aplicações na
um modo mais lento, e então apresen- hidrodinâmica, e usamos nossos resul-
tem um súbita evolução, de tal modo tados como ferramentas para computa-
que a troca de idéias com meus cole- ção numérica. A ajuda de R. Schechter,
gas e colaboradores é necessária. Du- da Universidade do Texas, em Austin,
rante essa fase de meu trabalho, foi a foi aqui muito importante.20 Essas ques-
mente original e entusiástica de meu tões permanecem em aberto, pois nos-
colega Paul Glansdorff que exerceu um so centro de interesse migrou para sis-
papel principal. temas dissipativos químicos, mais fáceis
Nossa colaboração era dar à luz um de estudar que processos convectivos.
critério de evolução geral que pudesse Uma vez formulado o conceito de
ser utilizado longe de equilíbrio em estruturas dissipativas, um novo cami-
ramificações não lineares, fora do do- nho estava aberto para a pesquisa, e,
mínio de validade do teorema de pro- dessa forma, nosso trabalho mostrou
dução de entropia mínima. Os critérios uma notável aceleração. Isso devido à
de estabilidade daí resultantes condu-
ziram à descoberta de estados críticos,
de inesperados desdobramentos e no
possível aparecimento de novas estru- 19. GLANSDORFF, P. e PRIGOGINE, I. (1971),
turas. Essa manifestação inesperada Structure, stabilité et fluctuations [Estrutura, estabi-
lidade e flutuações]. Paris, Masson;
dos processos de “desordem/ordem”, Thermodynamic Theory of Structure Stability and
longe do equilíbrio que valida a segun- Fluctuations [Teoria termodinâmica da estabilida-
da lei da termodinâmica, constituía a de e das flutuações da estrutura], Londres, Wiley
and Sons. Trad. da língua russa: Mir, Moscou,
1973; Trad. da língua japonesa, Misuzu Shobo,
1977. Este livro apresenta um debate sobre o tra-
18. PRIGOGINE, I. (1969), Structure, Dissipation balho original dos autores que conduziram o con-
and Life. Theoretical Physics and Biology. Versailles, ceito de “estruturas dissipativas”. Para um breve
1967 [Estrutura, dissipação e vida. Física e biolo- histórico sobre o assunto, ver também: Acad. Roy.
gia teórica]. Amsterdam, North-Holland Publ. Belg., Bull. des Cl. Sc., LIX, 80, 1973.
Company. Foi nessa comunicação que, pela pri- 20. SCHECHTER, R. S. (1967), The Variational
meira vez, o termo “estrutura dissipativa” foi Method in Engineering [O método da variação na
usado. engenharia]. Nova York, McGraw-Hill.

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presença de uma feliz reunião de cir- to do estudo de estruturas dissipa-


cunstâncias; principalmente a presen- tivas. A atenção dos cientistas se voltou
ça, em nosso grupo, de uma nova ge- às estruturas de não-equilíbrio coeren-
ração de jovens e inteligentes cientis- tes, depois de descobertas as reações
tas. Não posso mencionar aqui todas químicas oscilantes experimentais, como
essas pessoas, mas desejo enfatizar o a reação de Belusov-Zhabotinsky,23 a ex-
importante papel desempenhado por plicação de seu mecanismo por Noyes
dois deles, R. Lefever e G. Nicolis. e seus colaboradores,24 o estudo de rea-
Com eles nós estávamos em posição de ções oscilantes em bioquímica (por
construir um novo modelo de cinética, exemplo, o ciclo glicolítico, estudado
que provaria ser bastante simples e por B. Chance25 e B. Hess26 ) e, eventual-
muito instrutivo ao mesmo tempo – o mente, a importante pesquisa condu-
“Brusselator”, como J. Tyson o chama- zida por M. Eigen.27 Desde 1967 fomos
ria depois – e que manifestaria a sur- confrontados a uma enorme quantida-
preendente variedade de estruturas ge- de de documentos sobre esse tema, em
radas pelo processo de difusão–reação.21 flagrante contraste com a total ausên-
Este é o momento de reconhecer o cia de interesse das décadas anterio-
pioneiro trabalho de A. Turing 22 que, res.
desde 1952, vinha fazendo comentários A introdução do conceito de estru-
interessantes sobre a relação entre a tura dissipativa teve também outras
formação de estruturas e instabilida- inesperadas conseqüências. Desde o
des químicas no campo da morfogenia começo, ficou evidente que as estru-
biológica. Havia conhecido Turing em turas estavam evoluindo fora das
Manchester, aproximadamente três flutuações. Na realidade, apareciam
anos antes, quando M. G. Evans, que como gigantescas flutuações que esta-
morreu muito cedo, tinha formado um bilizavam as trocas de matéria e ener-
grupo de jovens cientistas, alguns dos gia com o mundo exterior. Da mesma
quais alcançaram fama. Apenas tempos forma que a formulação do teorema de
depois vim a recordar os comentários produção de entropia mínima, o es-
de Turing sobre essas questões de es- tudo de flutuações de não-equilíbrio
tabilidade, talvez porque, muito inte-
ressado em termodinâmica linear, não
estivesse então bastante receptivo.
Voltemos para as circunstâncias que 23. BELUSOV, B. P. (1958), Sb. Ref. Radiat. Med.
favoreceram o rápido desenvolvimen- Moscow; ZHABOTINSKY, A. P. (1964), Biofizika,
9, 306. Acad. Sc. U.R.S.S. Moscow (Nauka), 1967.
24. NOYES, R. M. et al. (1974), Ann. Rev. Phys.
Chem. 25, 95.
25. CHANCE, B., SCHONENER, B. e
21. TYSON, J. (1973), Journ. of Chem. Physics, 58, ELSAESSER, S. (1964), Proc. Nat. Acad. Sci. U.S.A.
3919. 52, pp. 337-341.
22. TURING, A. (1952), Phil. Trans. Roy. Soc. 26. HESS, B. (1971), Ann. Rev. Biochem. 40, 237.
London, Ser B, 237, 37. 27. EIGEN, M. (1971), Naturwissenschaften, 58, 465.

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tinha atraído toda a minha atenção.28 mento, permitindo-nos esperar impor-


Era natural que eu retomasse esse tra- tantes resultados para os próximos
balho para propor uma extensão do caso anos. O que já está claro hoje é que um
de reações químicas longe de equilíbrio. domínio como a química cinética, que
Propus esse tema a G. Nicolis e A. foi considerada conceitualmente restri-
Babloyantz. Esperávamos encontrar, ta, deve ser completamente repensa-
para estados estacionários, uma distri- do, e que uma novíssima disciplina,
buição de Poisson semelhante àquela capaz de lidar com transições de fase
enunciada para as flutuações de equilí- de não-equilíbrio está surgindo.31
brio nas célebres relações de Einstein. Progredir na teoria de fenômenos
Nicolis e Babloyantz desenvolveram reversíveis conduz-nos também a re-
uma análise detalhada de reações quí- considerar sua inserção nas dinâmicas
micas lineares, e puderam confirmar clássicas e quânticas. Vejamos as mecâ-
esse enunciado,29 acrescentando algu- nicas estatísticas de alguns anos atrás.
mas observações qualitativas, que su- No início de minha pesquisa, tive opor-
geriam a validade de tais resultados tunidade de usar métodos convencio-
para qualquer reação química. nais de mecânica estatística para situa-
Considerando os dados novamen- ções de equilíbrio. Tais métodos são
te, para o exemplo de uma reação muito úteis para o estudo de proprie-
biomolecular não-linear, notei que essa dades termodinâmicas de soluções de
generalização não era válida. Uma aná- polímeros ou isótopos. Lidamos prin-
lise adicional, para a qual G. Nicolis cipalmente com problemas compu-
exerceu um papel fundamental, mos- tacionais simples, como os instrumen-
trou que um fenômeno inesperado apa- tos conceituais de equilíbrio que têm
recia quando se considerava a questão sido estabelecidos desde os trabalhos
da flutuação em sistemas não-lineares de Gibbes e Einstein. Meu interesse em
longe de equilíbrio: a lei de distribui- não-equilíbrio conduzia-me necessaria-
ção de flutuações depende de sua es- mente ao problema das estruturas da
cala e apenas pequenas flutuações se- mecânica estatística e, especialmente,
guem a lei proposta por Einstein.30 De-
pois de uma prudente recepção, esse
resultado é agora amplamente aceito, 31. PRIGOGINE, I. (1954), Proc. 3rd Symp.
e a teoria das flutuações de não-equilí- Temperature, Washington D.C.; PRIGOGINE, I. e
brio encontra-se em pleno desenvolvi- NICOLIS, G. (1971), Proc. 3rd. International
Conference: From Theoretical Physics to Biology [Con-
ferência Internacional: Da Física Teórica à Biolo-
gia]. França, Versailles; NICOLIS, G. e TURNER,
28. PRIGOGINE, I. e MAYER, G. (1955), Acad. J. W. (1977), Proc. of the Conference on Bifurcation
Roy. Belg. Bull. Cl. Sc., 41, 22. Theory [Conferência sobre a teoria da bifurcação],
29. NICOLIS, G. e BABLOYANTZ, A. (1969), Nova York; PRIGOGINE, I. e NICOLIS, G. (s/d),
Journ. Chem. Phys., 51, 6, 2632. Non-Equilibrium Phase Transitions and Chemical
30. NICOLIS, G. e PRIGOGINE, I. (1971), Proc. Reactions [Transições da Fase de Não-Equilibrium
Nat. Acad. Sci. U.S.A., 68, 2102. e Reações Químicas], Scientific American.

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à interpretação microscópica da Green,35 e de Bogoliubov 36 atraíram


irreversibilidade.32 muita atenção para a questão que con-
Desde o tempo de minha gradua- duziu ao nascimento da mecânica esta-
ção em ciência, era um leitor entusiás- tística de não-equilíbrio. Como não
tico de Boltzmann, cuja visão dinâmica podia permanecer alheio a esse movi-
da formação da física era, para mim, mento, propus a G. Klein, um discípu-
um modelo de intuição e relevância. No lo de Fürt que veio trabalhar comigo,
entanto, não podia deixar de observar que tentássemos aplicar o método de
alguns aspectos insatisfatórios. Estava Born e Green a um simples exemplo
claro que Boltzmann apresentava hipó- concreto, no qual a abordagem de
teses estrangeiras à dinâmica. Sob tais equilíbrio não conduzisse a uma solu-
suposições, falar acerca de uma justifi- ção exata. Essa foi a primeira tentativa
cativa dinâmica de termodinâmica pa- em estatística mecânica de não-equilí-
recia-me uma conclusão excessiva, para brio.37 Seu eventual fracasso levou-nos
dizer o mínimo. Em minha opinião, a a concluir que o formalismo de Born
identificação de entropia à desordem e Green não conduziu a uma genera-
molecular poderia conter apenas uma lização satisfatória do método de
parte da verdade se, como continuei Boltzmann para sistemas densos.
pensando, processos irreversíveis eram Esse fracasso não foi total, uma vez
dotados de um papel construtivo que que me conduziu, durante um traba-
jamais deixei de atribuir-lhes. Por ou- lho posterior, a uma primeira pergun-
tro lado, as aplicações dos métodos de ta. Seria possível desenvolver uma “te-
Boltzmann estavam restritas a gases oria dinâmica exata” de fenômenos
diluídos, enquanto eu estava mais in- irreversíveis? Todo mundo sabe que,
teressado por sistemas condensados. de acordo com o ponto de vista clássi-
No final dos anos 1940, havia um co, a irreversibilidade resulta de apro-
grande interesse na generalização da ximações adicionais às leis fundamen-
teoria cinética a meios densos. Depois tais de fenômenos elementares que são
do trabalho pioneiro de Yvon,33 as pu- estritamente reversíveis. Essas apro-
blicações de Kirwodd, 34 de Born e ximações adicionais permitiram a
Boltzmann mudar de uma descrição
dinâmica reversível para uma proba-
32. PRIGOGINE, I. (s/d), Non-Equilibrium bilística, estabelecendo seu célebre
Stastistical Mechanics [Mecânicas de estatística do teorema H.
não-equilíbrio]. New York, London, Interscience
Publ., 1962-1966. Para um breve histórico ver re-
ferências originais.
33. YVON, J. (1965), Les Corrélations et l’Entropie en 35. BORN, M. e GREEN, H. S. (1946-47), Proc.
Mécanique Statistique Classique [As correlações e a Roy, Soc. London, A 188, p. 10, e A 190, p. 45.
entropia na mecânica estatística clássica]. Paris, 36. BOGOLIUBOV, N. N. (1949), Jour. Phys.
Dunod. U.S.S.R. n. 10, pp. 257 e 265.
34. KIRKWOOD, J. G. (1946), Journ, Chem. Physics, 37. KLEIN, G. e PRIGOGINE, I. (1953), Physica
14, 180. XIX, pp. 74-88; 88-100; 1053-1071.

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Encontramos ainda a mesma atitu- o qual Van Hove trabalhou conosco.


de negativa, de “passividade”, impu- Alguns de seus trabalhos tiveram im-
tada aos fenômenos irreversíveis, ati- pacto duradouro no desenvolvimento
tude essa que eu não podia comparti- da física estatística. Refiro-me não ape-
lhar. Se, na verdade, como acreditava, nas ao seu estudo sobre a dedução de
os fenômenos irreversíveis cumpriam uma equação “mestre” para sistemas
uma função ativa, construtiva, seu es- não-harmônicos, mas também à sua
tudo não podia ser reduzido a uma des- contribuição fundamental em transi-
crição em termos de aproximações adi- ções de fase, que conduziram a desdo-
cionais. Além disso, em minha opinião, bramentos da mecânica estatística, que
em uma boa teoria, um coeficiente de partilhavam com os chamados resulta-
viscosidade apresentaria tanto um sig- dos exatos.41
nificado físico quanto um calor especí- Esse primeiro estudo de Van Hove
fico, assim como o tempo de vida de restringia-se a sistemas não-harmôni-
uma partícula significaria tanto quanto cos de fraca atração, mas, de qualquer
sua massa. maneira, o caminho estava aberto para,
Sentia-me autorizado, também nos com alguns colegas e colaboradores,
anos 1940, a afirmar isso, pelas relevantes principalmente R. Baleson, R. Brout,
publicações de Chandrasekhar e Von F. Hénin e P. Résibois, alcançarmos
Newmann. 38 Foi por isso que, com a uma formulação em mecânica estatís-
ajuda de G. Klein, decidi rever um tica de não-equilíbrio, de um ponto de
exemplo já estudado por Schrödinger,39 vista puramente dinâmico, sem qual-
relacionado à descrição de um sistema quer suposição probabilística. O méto-
de osciladores harmônicos. Fomos sur- do que usamos se encontra resumido
preendidos ao ver que um modelo sim- em meu livro de 1962,42 que conduziu
ples permitia concluir que essa classe a uma “dinâmica das correlações”,
de sistemas tendia ao equilíbrio. Mas como a relação entre interação e corre-
como generalizar esse resultado para lação, componente essencial da descri-
sistemas dinâmicos não-lineares? ção. Desde então esses métodos con-
Nesse momento, o desempenho duziram a numerosas aplicações. Sem
verdadeiramente histórico de Leon Van entrar em maiores detalhes, restringir-
Hove apontou-nos o caminho (1955).40 me-ei a mencionar dois recentes livros,
Lembro-me, com prazer sempre reno- um de R. Balescu 43 e outro de P.
vado, o tempo – muito curto – durante Résibois e M. de Leener.44

38. CHANDRASEKHAR, S. (1943), Stocastic


Problems in Physics and Astronomy [Problemas de 41. VAN HOVE, L. (1959), Physica, 16, 137.
Stocastic na física e na astronomia]; Rev. of Mod. 42. PRIGOGINE, I., cf. nota. 31.
Physics, n. 1, p. 15. 43. BALASCU, R. (1957), Equilibrium and Non-
39. SHRÖDINGER, E. (1914), Ann. der Physik, Equilibrium Statistical Mechanics [Equilíbrio e não-equi-
n. 44, p. 916. líbrio na mecânica estatística]. Wiley, Interscience.
40. VAN HOVE, L. (1955), Physica, 21, 512. 44. RÉSIBOIS, P. e DE LEENER, M. (1977), Classical

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Isso levou-me a concluir o primei- tífica, essa foi resultado de um esforço


ro passo de minha pesquisa em mecâ- coletivo. Não teria tido o sucesso que
nica estatística de não-equilíbrio. O se- tive, não fosse a ajuda de meus colegas
gundo se caracteriza por uma forte ana- M. de Haan, Cl. George, A. Grecos, F.
logia com a abordagem dos fenôme- Hénin, F. Mayné, W. Schieve e M.
nos irreversíveis, que nos conduziram Theodosopulu. Se a irreversibilidade
da termodinâmica linear para a não- não for resultado de aproximações adi-
linear. Também nessa tentativa fui cionais, só pode ser formulada em uma
pressionado por um sentimento de in- teoria de transformações que expres-
satisfação, uma vez que a relação com sem “explicitamente” o que a formula-
a termodinâmica não tinha sido ção habitual da dinâmica não é capaz
estabelecida em nosso trabalho em me- de cobrir. Nessa perspectiva, a equa-
cânica estatística ou por qualquer outro ção cinética de Boltzmann corresponde
método. O teorema de Boltzmann esta- a uma formulação de dinâmica em uma
va tão isolado quanto antes, e a ques- nova representação.45
tão da natureza dos sistemas dinâmi- Concluindo: dinâmica e termodi-
cos, para os quais a termodinâmica apli- nâmica tornam-se duas descrições com-
cava-se, ainda estava sem resposta. plementares da natureza, ultrapassadas
Sem dúvida, o problema era mais por uma nova teoria de transformações
amplo e complexo do que as conside- não unitárias. Chego assim às minhas
rações puramente técnicas que havía- preocupações atuais e ao término des-
mos alcançado anteriormente e que ta autobiografia intelectual. Como co-
tocavam a mesma natureza dos siste- meçamos por problemas específicos,
mas dinâmicos e os limites da descri- tais como o significado termodinâmico
ção hamiltoniana. Eu jamais teria ou- de não-equilíbrio em estados estacio-
sado tal abordagem, se não tivesse sido nários, ou de fenômenos de transporte
estimulado pelas discussões com al-
guns amigos altamente competentes,
como recentemente Leo Rosenfeld de
Copenhague ou G. Wentzel de Chica- 45. PRIGOGINE, I., GEORGE, C., HENIN, F. e
ROSENFELD, L. (1973), Chemica Scripta, n. 4,
go. Rosenfeld fez mais que me aconse-
pp. 5-32; PRIGOGINE, I., GEORGE, C., HENIN,
lhar, pois estava diretamente envolvi- F. (1969), Physica, n. 45, pp. 418-434; PRIGOGINE,
do na elaboração dos conceitos que tí- I. e GRECOS, A. P. (1976), The Dynamical Theory
nhamos que explorar, caso fôssemos of Irreversible Processes [A teoria dinâmica do pro-
construir uma interpretação nova da cesso de irreversibilidade]. Proc. Intern. Conf. on
Frontiers of Theor. Phys., New Delhi. Kinetic Theory
irreversibilidade. Mais do que em qual- and Ergodic Properties in Quantum Mechanics [Teo-
quer outra fase de minha carreira cien- ria cinética e as propriedades ergonic na mecânica
quântica]. Abhandlungen der Akad. der Wiss.,
der D.D.R. n. 7. Berlin, Jahrgang 1977; GRECOS,
A. P. e PRIGOGINE, I. (1977), Thirteenth IUPAP
Kinetic Theory of Fluids [Teoria clássica cinética dos Conference on Statisyical Physics [Conferência sobre
fluídos]. Nova York, Wiley, Interscience. estatística física]. Haifa, agosto.

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em sistemas densos, tínhamos que en- para a complexidade físico-química.


frentar, mesmo contra nossa vontade, Tempo e complexidade são conceitos
problemas de grande generalização e que intrinsecamente apresentam rela-
complexidade, que pediam a recon- ções mútuas.
sideração das relações entre estruturas Durante sua conferência inaugural,
de substâncias físico-químicas e bioló- De Donder falou nestes termos:47
gicas, enquanto expressão dos limites
da descrição hamiltoniana na física. Físicas matemáticas representam a
Todos esses problemas têm real- mais pura imagem que a visão de na-
mente um elemento em comum: tem- tureza pode gerar na mente humana;
esta imagem que ilustra todo o caráter
po. Talvez a orientação do meu traba-
da obra de arte que clama por unidade
lho tenha surgido do conflito entre é verdadeira e sublime; esta imagem é
minha vocação humanista, quando ado- a natureza física, sua música são os
lescente, e a orientação científica que mil barulhos dos quais o ar está
escolhi para meu treinamento univer- cheio....
sitário. Quase instintivamente, voltei-
me para problemas de crescente com- Filtre a música que emana do ruí-
plexidade, talvez na convicção de que do. A unidade da história espiritual da
pudesse, então, encontrar uma junção humanidade, como enfatizado por M.
entre a ciência física, a biologia e a ciên- Eliade, é uma recente descoberta, que
cia humana. ainda precisa ser assimilada.48 A pro-
Além disso, a pesquisa conduzida cura pelo que é significante e verda-
com meu amigo R. Herman, na teoria deiro, em oposição ao ruído, é uma ten-
do trânsito de automóveis,46 confirmou tativa fundamental que parece intrin-
minha suposição de que até mesmo secamente relacionada ao fato de que
comportamentos humanos em toda a a consciência humana, diante da natu-
sua complexidade são eventualmente reza, supõe que o homem viva nela e
passíveis de uma formulação matemá- seja uma parte dela.
tica. Desse modo, a dicotomia entre as Muitas vezes tenho defendido a
“duas culturas” pode e deve ser elimi- necessidade do diálogo na atividade
nada. Isso corresponderia à superação científica, e daí decorre a importância
das diferenças entre biólogos e antro- vital de meus colegas e colaboradores
pólogos voltados à descrição molecular, na viagem que tentei descrever. Daria
dedicados às “estruturas elementares”, ênfase também ao apoio continuado
se usarmos a formulação de Lévi- que recebi de instituições que contri-
Strauss; um movimento complementar

47. Sobre esta referência, ver nota 2.


46. PRIGOGINE, I. e HERMAN, R. (1971), Kinetic 48. ELIADE, Mircéa. (1976), Historie des croyances
Theory of Vehicular trafic [Teoria cinética do tráfico et fies idées religieuseu [História das crenças e das
veicular]. Elsevier. idéias religiosas]. Paris, v. l, Payot, p. 10.

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buíram para este trabalho, especial-


mente a Universidade Livre de Bruxe-
las e a Universidade do Texas, em
Austin. Para desenvolvimento dessas
idéias, o Instituto Internacional de Fí-
sica e Química, fundado por E. Solvay
(Bruxelas, Bélgica) e a Welch Foundation
(Houston, Texas), sempre me apoiaram.
O trabalho de um teórico encontra-
se diretamente relacionado à totalida-
de de sua existência. Envolve, acredi-
to, alguma parcela de paz interior para
que seja possível encontrar um cami-
nho entre as bifurcações sucessivas.
Devo essa paz a minha esposa, Marina.
Constato a fragilidade do presente,
mas hoje, considerando o futuro, sin-
to-me um homem feliz.

Ilya Prigogine, físico, químico, prêmio Nobel de


Química 1977.

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