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Doi: 10.5212/OlharProfr.v.13i2.

0006

Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental:


potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

Consumption of technologies by elementary students:


potentials of qualitative research techniques

Stela Conceição Bertholo Piconez*


Rosária Helena Ruiz Nakashima**
Régis Luiz Lima de Souza***

Resumo: Esta pesquisa focalizou a integração das metodologias e técnicas qualitativas como forma de
aproximação da realidade pesquisada. Como estudo de caso de natureza descritivo-exploratória, teve
como embasamento teórico os estudos contemporâneos sobre metodologias qualitativas de pesquisa
(BOGDAN; BIKLEN, 1994; SÁNCHES GAMBOA, 2003; FLICK, 2002; dentre outros). As técnicas
selecionadas (questionário, entrevista, grupo focal, filmagem e diagrama) captaram dados sobre o tema
consumo de tecnologias em uma escola pública da Grande São Paulo, com estudantes do Ensino Fun-
damental, e permitiram identificar importantes dados sobre esse consumo em três vertentes: consumo
de tecnologia para uso pessoal, consumo de tecnologia na escola e conhecimento sobre o descarte do
lixo eletrônico. O conjunto de dados quantitativos e qualitativos confirmou o uso das tecnologias di-
gitais caracterizado pelo acesso às mídias sociais. Revelou os desafios de infraestrutura para inserção
das tecnologias nas atividades escolares e a consciência ecológica sobre o descarte do lixo eletrônico. A
integração de técnicas quantitativas e qualitativas contribuiu para o melhor entendimento do fenômeno
pesquisado. Amparado nos estudos referenciados, o tratamento metodológico dos dados favoreceu o
processo analítico das representações, permitindo sua análise compreensiva. Possibilitou também o
jogo de sentidos que fundamentou a definição de um horizonte ampliado de interpretação. Este estudo
concluiu também que a complexidade na busca da qualidade da pesquisa depende mais da lógica das
articulações do que das escolhas técnicas, confirmando o valor agregado com o entrecruzamento de
perspectivas teórico-metodológicas da pesquisa qualitativa.

Palavras-chave: Técnicas de pesquisa qualitativa. Consumo das tecnologias da informação e da comu-


nicação (TIC).

Abstract: This research integrated qualitative methodologies and techniques in order to approximate
the reality studied. As a descriptive and exploratory case study, the study had as its theoretical basis
contemporary studies on qualitative research methodology (BOGDAN; BIKLEN, 1994; SANCHEZ
GAMBOA, 2003; FLICK, 2002, among others). The selected techniques (questionnaire, interview,

*
Doutora em Educação pela USP. Professora Titular do Departamento de Metodologia do Ensino e de Edu-
cação Comparada da USP. E-mail: spiconez@usp.br.
**
Mestre em Educação pela Unicamp. E-mail: rosarianakashima@usp.br.
***
Mestre e Doutorando em Educação pela USP.E-mail: regisluiz@usp.br.

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Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental: potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

focus group, video recording and diagram) were used to collect data about consumer technologies with
students from a public elementary school in Sao Paulo. These techniques allowed the identification of
important data on the use of technology by students in three areas: consumer technology for personal
use, use of technology in school and knowledge about e-waste discard. The set of quantitative and
qualitative data confirmed the use of digital technologies characterized by access to social media.
The study also revealed the challenges related to the infrastructure necessary for the integration of
technology in school activities and about ecological awareness for the disposal of electronic waste.
The integration of quantitative and qualitative techniques contributed to a better understanding of
the phenomenon studied. The methodological approach of the data supported by relevant studies
favored the representations of the analytical process, allowing for a comprehensive analysis. The study
also demonstrated that the complexity in finding quality in research depends more on the logic of
connections than on the technical choices, confirming the value added to the crossing of theoretical and
methodological perspectives of qualitative research.

Keywords: Qualitative research techniques. Consumption of information and communication


technology (ICT).

Introdução

Trata-se de uma pesquisa descritivo- focal, fazendo uso de filmagem e elabora-
exploratória desenvolvida em uma escola ção de diagramas pelos participantes sobre o
pública da Grande São Paulo, em Barueri, tema Consumo das Tecnologias da Informa-
com estudantes do 9º ano do Ensino Funda- ção e da Comunicação (TIC).
mental. A metodologia adotada foi desenvol- Segundo Chizzotti (2003), a adoção
vida em duas etapas. Inicialmente buscou-se de multimétodos de investigação contribui
o perfil dos entrevistados a partir das variá- para o estudo de um fenômeno situado no
veis: idade, gênero, fluência digital, uso de local em que ocorre, procurando tanto en-
computadores e de aplicativos. Para essa contrar o sentido desse fenômeno quanto in-
etapa foi realizada a tabulação dos dados terpretar os significados que as pessoas dão
com posterior análise frequencial. A segunda a ele. Nesse sentido, a pesquisa buscou em
etapa ocorreu através da análise de conteú- uma escola pública, junto aos adolescentes
do sobre o tema “consumo”, com a qual foi do Ensino Fundamental, a compreensão das
possível a construção de três nucleamentos três vertentes, por meio de métodos quantita-
de ideias (GARNICA, 1997). O primeiro tivos e principalmente qualitativos.
nucleamento destacou o consumo pessoal da Os objetivos da pesquisa situaram-se
internet; o segundo abordou o consumo nas em um enfoque sócio-histórico, uma vez
atividades escolares e o terceiro investigou a que, segundo Bogdan e Biklen (1994), a
consciência ecológica dos estudantes sobre o investigação não se limita em razão de re-
descarte de lixo eletrônico. sultados, atentando-se para as questões im-
Esses nucleamentos foram investiga- portantes que surgem no desenvolvimento
dos por meio das potencialidades de técnicas da pesquisa. A principal finalidade consistiu
híbridas e qualitativas de pesquisa, tais como em compreender comportamentos e pos-
a utilização do questionário e da entrevista turas sobre o consumo das TIC a partir da
semiestruturada, sob a perspectiva de grupo perspectiva dos sujeitos da investigação,

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correlacionada ao contexto do qual fazem ênfase. Ambos trouxeram grande subsídio a


parte, valorizando os aspectos descritivos e este trabalho, num conjunto híbrido de pro-
as percepções pessoais. cedimentos de âmbito racional e intuitivo,
Os dados recolhidos tiveram formato capaz de trazer contribuições para o melhor
híbrido, apurados por palavras e imagens entendimento do fenômeno pesquisado.
adequadas às características de uma pesqui- Tais contribuições se confirmam, quando
sa qualitativa e analítico-descritiva. Citações consideramos que
e imagens retiradas da pesquisa de campo e
As diferentes formas de fazer ciência não
da transcrição foram indicadas para ilustrar
se esgotam na alternativa quantitativista
e substanciar a apresentação dos resultados. ou qualitativista. As abordagens científi-
Pautando-se nesses princípios, pro- cas não se limitam às duas anteriores: uma
curamos conduzir esta investigação privi- abordagem que dá ênfase a objetividade
legiando o diálogo entre o pesquisador e do conhecimento e a explicação dos fenô-
os respectivos sujeitos, entendendo que “os menos e a outra que aceita a subjetividade
campos de estudo não são situações artifi- dos fenômenos humanos e procura a sua
compreensão e interpretação. (SÁNCHES
ciais em laboratório, mas as práticas e intera-
GAMBOA, 2003, p. 395).
ções dos sujeitos na vida cotidiana” (FLICK,
2002, p. 21). De acordo com Minayo (2001), A combinação adotada na presen-
esse modelo de investigação segue o dese- te pesquisa foi chamada por Jick (1979) de
nho metodológico de uma “pesquisa estraté- “triangulação”, ou mesmo de validação con-
gica”, que permite ao pesquisador orientar- vergente ou multimétodo, quando foram es-
-se para problemas que surgem na sociedade. colhidas as técnicas qualitativas.
Ainda que não preveja soluções práticas para
esses problemas, tem a finalidade de lançar O desenvolvimento da pesquisa foi
luz sobre determinados aspectos da realida- encaminhado na perspectiva de estudo de
de. caso, com a intenção de compreender uma
situação em particular: o consumo de tec-
Entretanto, cabe aqui destacar que en- nologias por adolescentes do Ensino Fun-
tendemos a pesquisa como um ato que pos- damental no âmbito das características do
sibilita também transformações sociais por próprio ambiente dos sujeitos da pesquisa.
meio da reflexividade pessoal ou conjunta. Permitiu investigar como o uso de técnicas
Tal pressuposto pode, inclusive, gerar novos híbridas de pesquisa qualitativa de certos fe-
questionamentos em direção à remodelação nômenos pode ser investigado mais próximo
de opiniões e tradições envolvidas no fenô- de seus contextos específicos.
meno estudado.
A pesquisa foi realizada em uma es-
cola situada em Alphaville, Barueri, região
metropolitana da Grande São Paulo. É im-
Metodologia portante ressaltar que, segundo os dados do
Ministério da Educação, o Índice de Desen-
Nesta pesquisa foram utiliza- volvimento da Educação Básica (IDEB) no
dos métodos quantitativos e qualitativos, ano de 2009 destaca essa escola como uma
entendendo-se que os mesmos não se ex- das melhores do estado de São Paulo. O
cluem ou se opõem como instrumentos de IDEB considera dois fatores para a apura-
análise, mas diferem quanto à forma e à ção do índice: o rendimento escolar (taxas

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de aprovação, reprovação e abandono) e as de 23 questões fechadas, o questionário foi


médias de desempenho na Prova Brasil. aplicado pelos próprios pesquisadores e as
A escola atende atualmente 2377 alu- questões foram respondidas anonimamente
nos, distribuídos em três níveis: Ensino Fun- pelos estudantes durante um período de aula.
damental I e II; Ensino Médio; e Ensino Pro- Como parte do processo de triangula-
fissional Técnico de Nível Médio. Possui 63 ção de métodos foi elaborada uma entrevista
salas de aula e quatro salas de informática, semiestruturada, com o objetivo de colher
cada uma com 20 computadores, sendo três dados que não foram possíveis de coletar
delas de acesso aos alunos e uma de acesso somente pelo questionário. Para Lakatos
restrito aos professores. (1996), a preparação da entrevista é uma das
O ponto de partida foi o estudo de etapas mais importantes da pesquisa, requer
técnicas de pesquisa qualitativa e o planeja- tempo e exige alguns cuidados, tais como: o
mento da coleta de dados. Muitos cuidados planejamento da entrevista, que deve ter em
foram tomados em relação ao preparo da co- vista o objetivo a ser alcançado; a escolha
leta de dados e da inserção na escola. Foram do entrevistado, que deve ser alguém que te-
realizadas reuniões anteriores ao processo nha familiaridade com o tema pesquisado; a
de atuação junto aos estudantes, em que os oportunidade da entrevista, ou seja, a dispo-
pesquisadores por meio de documentos es- nibilidade do entrevistado em participar da
colares, visitas à escola e conversas com a entrevista, que deverá ser marcada com ante-
coordenação e direção do estabelecimento cedência para que o pesquisador se assegure
investigaram os dados de caracterização dos de que será recebido; e a preparação especí-
estudantes e dos projetos pedagógicos de- fica, que consiste em organizar o roteiro ou
senvolvidos com o uso das tecnologias. formulário com questões importantes.
Das sete classes de 9º ano do Ensino Quanto à formulação das questões o
Fundamental, uma das turmas foi escolhida pesquisador deve ter cuidado para não
por meio de amostra aleatória simples (PAR- elaborar perguntas absurdas, arbitrárias,
FITT, 2005). Com o objetivo de caracterizar ambíguas, deslocadas ou tendenciosas. As
os sujeitos da pesquisa, foi elaborado um perguntas devem ser feitas levando em
questionário que permitiu a coleta de dados conta a sequência do pensamento do pes-
sobre a identificação dos estudantes e das quisado, ou seja, procurando dar conti-
percepções acerca das três vertentes deste es- nuidade na conversação, conduzindo a
entrevista com certo sentido lógico para
tudo. Segundo Parfitt (2005), trata-se de uma
o entrevistado. (BONI; QUARESMA,
ferramenta indispensável quando se pretende
2005, p. 72).
obter dados primários, de caráter explorató-
rio, sobre as pessoas, seus comportamentos, Essas orientações foram contempla-
atitudes, opiniões e conhecimentos sobre um das no planejamento de um roteiro com nove
determinado tema. Tal questionário, intitu- questões principais e oito questões comple-
lado “Formulário de Fluência Digital”, foi mentares sobre as três vertentes desta pes-
adaptado do documento elaborado e aplica- quisa. Nessa técnica, a interação entre o
do em professores do ensino superior, estu- entrevistador e os entrevistados favoreceu
dantes de graduação e pós-graduação. Para as respostas espontâneas, em que o entre-
esta pesquisa foram feitas adequações em vistador ficou atento para dirigir a discussão
relação ao tema e à faixa etária. Composto tendo como foco o tema principal, fazendo

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perguntas adicionais com o intuito de elu- com Pink (2001), é possível explorar o po-
cidar questões que não ficaram claras, ou tencial do vídeo para uma abordagem refle-
ajudar a recompor o contexto da entrevista xiva na investigação qualitativa. Pinheiro,
(BONI; QUARESMA, 2005). Após a apli- Kakehashi e Angelo (2005) completam essa
cação do questionário, optou-se pelo desen- ideia ao afirmarem que a filmagem é relevan-
volvimento da entrevista semiestruturada em te, pois minimiza a questão da seletividade
um grupo focal. Do universo de 39 partici- do pesquisador, uma vez que a possibilidade
pantes, foi utilizada uma amostra aleatória de rever várias vezes as imagens gravadas
de dez estudantes. direciona a atenção de um ou mais pesqui-
Os estudantes foram reunidos em uma sadores para aspectos que teriam passado
sala indicada pela direção da escola sob a despercebidos, podendo imprimir maior cre-
perspectiva de uma reunião. Segundo Ier- dibilidade ao estudo.
volino e Pelicioni (2001), a coleta de dados Um dos pesquisadores utilizou a câ-
em um grupo focal caracteriza-se fortemente mera móvel para registrar o evento, enquanto
pela tendência humana de formar opiniões o terceiro pesquisador, presente no momento
e atitudes na interação com outros indiví- do grupo focal, foi responsável pela observa-
duos, em contraste com os dados colhidos ção geral da discussão e pelo registro de in-
em questionários fechados em que os sujei- formações relevantes para a pesquisa. Sobre
tos são convocados a emitir opiniões sobre esse procedimento, Kindon (2003) ressalta
assuntos que talvez nunca tenham pensado a importância, no processo de investigação
anteriormente. qualitativa, de agir como um “observador
participante”, e não como um “participante
As pessoas, em geral, precisam ouvir as observador”.
opiniões dos outros antes de formar as
suas próprias, e constantemente mudam
O grupo focal foi encerrado com a
de posição (ou fundamentam melhor realização de um registro sobre os benefícios
sua posição inicial) quando expostas à e os malefícios da internet e, logo após, a
discussão em grupo. É exatamente este representação por meio de um desenho, ca-
processo que o grupo focal tenta captar. racterizada pela escolha de um animal cujas
(IERVOLINO; PELICIONI, 2001, p. 116). características mais se assemelhassem à in-
ternet. De acordo com Kesby (2000), dia-
O desenvolvimento do grupo focal foi gramas podem incorporar palavras ou ser
de, aproximadamente, 50 minutos. Um dos criados inteiramente com representações em
pesquisadores conduziu as discussões, exer- que se utilizam papel e caneta. O uso de dia-
cendo a função de solicitar esclarecimento gramas em um grupo focal mobiliza a parti-
ou aprofundamento de pontos específicos, cipação dos sujeitos, a fim de compartilhar
conduzir o grupo para o próximo tópico experiências e desenvolver ideias. Nesse
quando um ponto já havia sido suficiente- sentido, o autor destaca que, dentro dos gru-
mente explorado e estimular os participantes pos, a natureza visual de diagramação facili-
mais tímidos (CARLINI-COTRIM, 1996). ta o envolvimento dos menos participativos
Simultaneamente, para registrar a dis- e os ajuda a expressar sua “voz” sem neces-
cussão do grupo focal foi utilizada a técni- sariamente exigir que eles “falem”.
ca de filmagem (coleta de dados visuais) e Após a atuação no campo de pesquisa
a gravação do áudio, seguindo, com rigor, e transcrição dos dados coletados, o caminho
as normas do Comitê de Ética. De acordo percorrido por meio da reflexão crítica em

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torno da entrevista transcrita e textualizada mais o que os estudantes queriam expressar


permitiu, em nível teórico e prático, selecio- em seus discursos. Foram apontados aspec-
nar trechos/fragmentos dos relatos conside- tos comuns que emergiram com maior desta-
rados significativos para o encaminhamen- que em busca da similaridade. Sendo assim,
to de algumas possibilidades de respostas ao realizar a análise das textualizações, a
às três vertentes da pesquisa.   O intuito foi observação fixou-se sobre a existência de al-
deixar emergir vestígios das falas dos estu- gumas proximidades entre os depoimentos.
dantes que direcionassem a análise dos re- Com isso, alguns dados foram destacados
sultados. e denominados “Unidades de Significado”
Segundo Garnica (1997, p. 116), esse (US).
momento, que é chamado de análise ideográ- A construção das unidades de signifi-
fica, cação contribui para a compreensão dos dis-
cursos dos sujeitos de pesquisa. Para Mar-
[…] busca tornar visível a ideologia pre- tins e Bicudo (1989, p. 99 apud GARNICA,
sente na descrição ingênua dos sujeitos, 1997),
podendo para isso lançar mão de ideogra-
mas ou símbolos expressando idéias. [...] é impossível analisar um texto in-
teiro simultaneamente, torna-se neces-
Para o tratamento metodológico dos sário dividi-lo em unidades. [...] as uni-
dados coletados, e com a finalidade de faci- dades de significado são discriminações
litar a identificação dos sujeitos da pesquisa, espontaneamente percebidas nas descri-
foram utilizados alguns indicadores que cor- ções dos sujeitos quando o pesquisador
respondiam à fala de cada estudante em um assume uma atitude psicológica e a cer-
determinado trecho do grupo focal. Dessa teza de que o texto é um exemplo do fe-
forma, os recortes da fala do aluno 1 – A(1) nômeno pesquisado. [...] As unidades de
significado [...] também não estão prontas
foram identificados por A(1-1), A(1-2), A(1-
no texto. Existem somente em relação à
3), A(1-4)..., do aluno 2 – A(2), A(2-1), A(2- atitude, disposição e perspectiva do pes-
2), A(2-3), A(2-4)..., e assim sucessivamente quisador.
até o aluno 10 – A(10), para organização das
informações conforme as categorias eleitas. Dessa forma, é importante destacar
Tal decisão foi amparada nos estudos que esses recortes, eleitos como significa-
de Bogdan e Biklen (1994), quando afirmam tivos, podem variar de pesquisador para
que na leitura dos dados repetem-se ou des- pesquisador, dependendo das vertentes e do
tacam-se certas palavras, frases, padrões de foco da pesquisa. Após extrair as unidades
comportamento, formas dos sujeitos pensa- de significado, ocorreu a identificação das
rem e acontecimentos. Com esse processo convergências, agrupando-as de forma con-
analítico buscou-se apreender a essência si- veniente. Esse reagrupamento “é feito com
tuada nas entrevistas, com base nas sugestões base na análise das divergências e conver-
de Garnica (1997) acerca de como proceder gências expressas pelas unidades de signifi-
na análise compreensiva das descrições dos cado, estando vinculada, ainda, a interpreta-
sujeitos da pesquisa. ções que o pesquisador faz para obter cada
A leitura de cada fragmento permitiu o uma dessas convergências ou divergências”
desvelamento de um sentido significativo em (GARNICA, 1997, p. 117).
cada frase, palavra, evidenciando um pouco

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A partir das expressões sintetizadas O consumo das tecnologias da


encontradas no momento desse reagrupa- informação e da comunicação
mento, houve uma reflexão na busca de uma apreendido por técnicas qualitativas
aproximação à compreensão do fenômeno de pesquisa
pesquisado, constituindo as categorias de
análise – que revelam indicadores de como
Como destacado, de posse dos dados,
se dá o consumo de tecnologias por estudan-
ressaltou-se a essência de cada discurso a
tes do 9º ano do Ensino Fundamental em três
fim de elaborar as Unidades de Significado
vertentes: consumo de tecnologia para uso
(US) e agrupá-las, aproximando os dados
pessoal, consumo de tecnologia na escola e
convergentes. Segundo Garnica (1997, p.
conhecimento sobre o descarte do lixo ele-
117), “é a partir desses agrupamentos que o
trônico.
pesquisador passa a sua segunda fase de aná-
Os dados obtidos na pesquisa foram lise, a nomotética, quando a investigação dos
analisados com a preocupação permanente individuais, feita pelo estudo e seleção das
de serem considerados como situações do unidades de significado, é ultrapassada pela
mundo-vida dos entrevistados, tendo, por- esfera do geral”.
tanto, como origem e contribuição as experi-
Desse agrupamento evidenciaram-se
ências cotidianas dos alunos participantes.
três categorias, intituladas “Categorias de
Por fim, a abordagem dialética suge- Análise”, que se constituem em uma sínte-
rida por Lima (2001) contribuiu para despir se que teve por objetivo integrar as ideias
e/ou mesmo retirar nossas lentes impregna- gerais desveladas através de uma descrição
das de conceitos e/ou preconceitos, possibi- consistente da estrutura situada a partir do
litando-nos analisar fatos e/ou situações de problema de pesquisa. São elas:
maneira justa e coerente. Colaborou, tam-
bém, para concretizarmos a intenção de lan-
çar sobre os fatos o nosso olhar como estra- “O consumo dos jovens e as TIC”
tégia alternativa de educação crítica, a fim de (US-03) Influência das tecnologias no co-
que pudéssemos, dentro de um movimento tidiano do jovem.
reflexivo, assentar simultaneamente as bases (US-04) A visão dos jovens quanto aos
empírica e existencial de nossa pesquisa. benefícios e malefícios da internet.
A base empírica refere-se à descri-
ção obtida, apresenta-se como objeto de re- “O consumo de TIC na escola”
flexão; ou seja, as informações advindas de
outros mundos vividos passam a ser, nesse (US-02) A importância da escola no de-
momento, o nosso mundo vivencial. A base senvolvimento de trabalhos que estimu-
existencial está relacionada à reflexão desen- lem o uso de tecnologias.
volvida pelos pesquisadores sobre as descri- (US-06) Ambiente escolar e recursos mi-
ções obtidas por meio dos sujeitos (GOMÉZ, diáticos: um trabalho coletivo necessário.
1992).
“O descarte do lixo eletrônico e consu-
mo responsável”
(US-01) Consciência acerca do descarte
do lixo eletrônico.

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(US-05) Consciência ecológica sobre o No Gráfico 2 foi identificado que


consumo responsável. 2,7% acessam a internet no trabalho e 2,7%
em lan houses. Outro dado interessante é que
53,8% dos estudantes também acessam a in-
Os dados serão apresentados em ter-
ternet em celulares. Apenas 15,3% acessam
mos de análises que têm como suporte a re-
o computador na escola, ressaltando-se que
flexividade obtida pelas técnicas qualitativas
100% possuem esse equipamento em casa.
da pesquisa. Sua construção apoiou-se nos
dados cruzados entre os obtidos no Formulá-
rio de Fluência Digital e nas categorias ela- Gráfico 2 – Local de uso do computador
boradas enquanto unidades de significação
(entrevista semiestruturada, grupo focal e
filmagem de vídeo), fundamentadas nas pre-
ferências teóricas apontadas ao longo deste
trabalho.

O consumo dos jovens e as TIC

Em relação à caracterização dos estu- Quanto à frequência de acesso, 97%


dantes e consumo pessoal das TIC, a amostra dos alunos navegam diariamente e apenas
foi composta de 51% de estudantes do sexo 3% declararam que utilizam o computador
feminino e 49% do sexo masculino, sendo semanalmente. Quanto ao uso de aplicativos
que a maioria (76%) tinha 14 anos. Do total tanto do computador como da internet, cons-
deles, apenas 5% trabalham; 95% dedicam-se tatou-se que 85% usam o processador de tex-
somente aos estudos. tos; 100% pesquisam na internet; 97% en-
Quanto à fluência digital e uso de viam e recebem mensagens por e-mail; 90%
equipamentos, 87,1% dos estudantes pos- já utilizaram editor de apresentações; 85%
suem celular; 69,2% têm leitor de mp3; conseguem incorporar imagens e tabelas a
74,3% dispõem de câmera digital; 82% pos- um arquivo; 69% usam e criam materiais
suem videogame; e 100% têm computador, multimídia; 69% utilizam planilhas eletrô-
conforme ilustrado no Gráfico 1. nicas; 87% sabem instalar ou remover pro-
gramas e softwares de computador; e 49% já
criaram páginas na web.
Gráfico 1 – Posse e uso de equipamentos
Tal fluência digital justifica as caracte-
rísticas da geração Y (nativos digitais), con-
siderando que ser digitalmente fluente envol-
ve não apenas saber como usar ferramentas
tecnológicas, mas também saber como cons-
truir coisas significativas com essas ferra-
mentas (PAPERT; RESNICK, 1995). Os
dados evidenciam que os alunos, sujeitos da
pesquisa, em sua grande maioria, podem ser
considerados fluentes digitais.

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Durante as discussões no grupo fo- imagens visuais elevam em infinita potência


cal constatou-se que, em relação à categoria o poder de convencimento. “Mais do que
“Consumo dos Jovens e as TIC”, a internet prova irrefutável do fato ocorrido, tomam lu-
causa fascínio aos estudantes. Eles aponta- gar do próprio fato, confundindo o receptor
ram a facilidade de comunicação oportuni- mais desatento” (KOHATSU, 2007, p. 65).
zada pelas redes sociais. Na pesquisa ora apresentada, não fo-
ram poucas as oportunidades de observação
O twitter é um miniblog [...]. O twitter dá dos risos, dos sobrecenhos, ora demonstran-
para conversar com algum famoso [...]. do curiosidade ou surpresa, ora indignação e
Eu já fiquei vinte e quatro horas no com- revolta; dos acenos de cabeça, ora aceitando,
putador. Eu sô muito viciada no Twitter
ora questionando ou negando a fala de um
[...]. Eu tenho muitos amigos. Eu tenho, ó,
colega. São aspectos fundamentais que ates-
amiga da Bahia, amigo do Rio de Janeiro.
Tô viciada e fico o dia inteiro. (Aluno 7) tam o valor e a relevância da filmagem como
técnica qualitativa de pesquisa. A imagem,
Com relação ao consumo na web, segundo Bittencourt (1998, p. 198), “pode
constatou-se que os estudantes são consumi- contribuir para a captura de aspectos visuais
dores ativos. Dentre os itens de consumo ad- que transcendem a capacidade de representa-
quiridos virtualmente estão: celular, roupas, ção da escrita”.
computador, tênis, livros e CDs. O questionário informou sobre a fre-
quência de acesso à internet; entretanto, foi
A leitura reflexiva dos dados permitiu
com a técnica do grupo focal e com a filma-
observar uma dependência que se evidencia
gem que se detectaram questões relaciona-
na relação ser humano-máquina, bem como das aos detalhes desses acessos e à respon-
os perigos provenientes dessa relação. Há sabilidade da família quanto a isso, como se
consciência, por parte dos estudantes, dos pode constatar nas seguintes vozes:
exageros vivenciados com o consumo pes-
soal das TIC: Nos finais de semana, geralmente, saio
com a minha família e tal, é nos dias da
Ontem eu ganhei um celular novo e mexi semana que eu costumo mexer no compu-
no computador de noite. Eu entrei rapidi- tador e esse tipo de coisa. Passo a tarde
nho no Orkut, MSN. Meu Twitter eu não inteira no computador também. Eu fico
tenho mais, foi hackeado [...]. Fiquei uma umas 4 ou 5 horas no computador [...]. Às
meia hora. (Aluno 1) vezes eu fico só no Orkut, twitter. (Aluno
5)
Ah, sei lá. Fiquei lá assistindo televisão
uns 10 minutos, depois fiquei no compu- É, eu acordei ao meio dia, aí eu fiquei no
tador a tarde inteira. Aí, depois fui pra computador, aí eu saí as sete, fui para a
igreja. Voltei à noite, arrumei meu mate- igreja, voltei e fiquei até as três... Eu já
rial. Não tinha nada para fazer e fui para fiquei vinte e quatro horas no computador.
o computador de novo. (Aluno 3) Eu sô muito viciado no Twitter. (Aluno 7)

Cheguei em casa, aí eu liguei o som, eu


Obter mais dados por intermédio da liguei a TV também, assisti um pouco de
filmagem, segundo Kohatsu (2007), indo TV, aí eu fui tomar banho, aí fiquei das
além dos registros em texto escrito, tem o sete até as nove no computador. Entrei no
poder de convencer o leitor de que as pa- twitter, Orkut, num site, num blog lá. Só aí
lavras traduzem e decifram a verdade, as eu fui dormir, tomei banho e fui dormir de
novo. (Aluno 8)

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Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental: potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

Outro dado revelador sobre o local do Gráfico 3 – Uso da sala de informática


computador na casa dos alunos foi obtido
pelo grupo focal quando ocorreram afirma-
ções como estas:

O notebook fica no meu quarto e o compu-


tador no escritório [...]. (Aluno 7)

Eu acordei às três horas. Computador


eu deixo ligado, não desligo, deixo só no
modo de espera. (Aluno 10) Dessa forma, baseando-se na catego-
ria “O consumo de TIC na escola”, foi obser-
Em relação à postura da família, os es- vado que a escola, embora com três salas de
tudantes revelaram o seguinte: informática à disposição dos alunos, prioriza
seu uso para anos escolares determinados e
Meu pai enche o saco demais. [...] uma
atividades curriculares ligadas à opção de
vez eu estava com minha amiga em meu
quarto, a gente tava fazendo twitcam. Aí cursos técnicos.
a gente esqueceu ligada. Minha amiga se Em contrapartida, embora a escola
trocando lá, eu estava no banheiro, ela tenha feito suas opções de uso da sala de in-
tava se trocando lá na frente da cama, fi- formática, quando os alunos são abordados
cou mil acesso, todo mundo viu. (Aluno 7) sobre o uso da internet nos estudos e pes-
Chega no meu orkut e fala “que é isso fi- quisas escolares por disciplinas, é notável
lho”. Mó chato mesmo. (Aluno 2) a percepção da existência de estímulos dos
professores que sugerem temas interessantes
e complementares ao conteúdo curricular re-
gular, conforme demonstrado nos Gráficos 4
O consumo de TIC na escola e 5.

Ficou evidente pelo questionário que Gráfico 4 – Disciplinas e pesquisa na internet


não há uso frequente dos computadores na
escola, pois 72% dos alunos responderam
que não têm acesso à sala de informática
com seus professores. A diretora da escola
justifica o fato alegando que a informática
faz parte da grade curricular apenas dos 1º e
5º anos do Ensino Fundamental. Além des-
sas turmas, os estudantes do curso técnico
“Informática para Internet” também fazem
uso prioritário dos computadores da escola
com o professor de informática, conforme É interessante observar que há um des-
informações apresentadas no Gráfico 3. nível entre a frequência com que pesquisas e
estudos complementares são realizados, in-
dependentes da sugestão dos professores. A
maior frequência situa-se entre Geografia

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(87,1%) e História (100%); a menor situa-se argumentos e justificativas: “Não, quando a


entre as disciplinas de Biologia e Artes. gente tem que fazer, aí a gente pede para o
professor, traz o notebook, aí a gente pesqui-
Gráfico 5 – Temas pesquisados na internet sa. Depende do professor também se deixa
ou não”.
Embora 70% dos participantes do
grupo focal tenham declarado que possuem
notebook, não é frequente a autorização de
seu uso em sala de aula, aspecto confirmado
pelo vídeo, através da expressão corporal. “É
outro jeito de aprender, né? Ah, porque não
fica maçante, o professor não fica falando,
Entre os temas sugeridos pelos profes- falando, falando” (Aluno 8). “É mais legal”
sores são encontrados com maior frequência (Aluno 6). “Porque não fica aquela coisa
os da atualidade, como aquecimento global chata [...]. A gente mexeu uma vez no com-
(89,7%), localização e mapas (64,1%), o que putador da escola” (Aluno 4).
revela certa tendência de que os estudos em
Geografia e História apontados pela questão
anterior são corroborados. É importante des- O descarte do lixo eletrônico e consumo
tacar que os itens “reciclagem”, “consumo responsável
responsável” e “lixo eletrônico” estiveram
presentes no rol de temas do Gráfico 5, pois Os dados quantitativos obtidos pelo
além de fazerem parte do foco desta pesqui- questionário não revelaram detalhes sobre a
sa, já eram trabalhados pelos professores no consciência ecológica, sobre a proteção do
cotidiano escolar. meio ambiente através de consumo respon-
Em relação à categoria “Consumo das sável e nem mesmo quanto à questão do des-
TIC na Escola”, sob a perspectiva de entre- carte do lixo eletrônico. Entretanto, 28,2%
vista semiestruturada e grupo focal, muitos dos alunos já pesquisaram sobre reciclagem;
dos dados acima coletados são confirmados 25,1% sobre consumo responsável; e 10,2%
pelos estudantes, configurando-se a trian- sobre lixo eletrônico.
gulação da pesquisa. Para ilustrar a voz dos Durante o grupo focal, em relação à ca-
pesquisados seguem trechos, palavras e al- tegoria “O descarte do lixo eletrônico e con-
gumas representações captadas pelo vídeo, sumo responsável”, os estudantes revelaram
extraídas das perguntas do roteiro da entre- consciência ecológica apurada, tecendo crí-
vista semiestruturada: “Quando vocês estão ticas sobre a dificuldade do descarte do lixo
aqui na escola, vocês acessam a internet de eletrônico. Muitos repassam para os irmãos
alguma forma? Vocês têm projeto na sala de menores, outros vendem ou vão deixando
informática?” os celulares e outros equipamentos eletrô-
A maioria dos pesquisados afirmou nicos não utilizados (cartuchos, impresso-
que não utiliza computadores na escola. Ou- ras, computadores, celulares) guardados
tros destacaram que usam os celulares no em casa. A maioria dos alunos pesquisados
recreio, para acessar a internet e twittar. Na reconhece os perigos e malefícios causados
voz do aluno 8, encontram-se os seguintes pelo lixo eletrônico ao meio ambiente, mas

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Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental: potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

desconhece local onde o descarte desse lixo reciclar lá em casa. É maior chato ter que
possa ser realizado. ficar separando, mas minha mãe obriga,
né? (Aluno 7)
[...] ele vaza, né? Polui e pode contami-
nar os lençóis freáticos. (Aluno 8) Os alunos atestaram que nunca estu-
daram o tema consumo responsável, embora
Deve sair algum óleo. (Aluno 1)
já tenham ouvido falar sobre ele, e comen-
Vai prá camada de ozônio [...]. O lixo é taram o que viram na mídia de massa sobre
queimado. É. Vai para a terra e, sei lá, a diminuição das sacolas plásticas. O aluno
absorve. (Aluno 7) 7 afirmou: “Eles estão fazendo mais barato
para quem leva a sacolinha de casa... do Wal-
Vai para o lixo comum, aí trituram [...].
mart”. E o aluno 5 disse: “É, tem aquelas sa-
Vai para o solo [...]. Sai gases. (Aluno 4)
colas ecológicas. Levam sempre uma sacola
A filmagem revelou desconheci- de pano”.
mento de muitos detalhes sobre o descarte
do lixo eletrônico, confirmando a reduzida
frequência de pesquisa sobre o tema, obser- Algumas implicações educacionais
vada pelo questionário. Entretanto, os ace- sobre metodologia qualitativa de
nos positivos dos alunos com a cabeça, suas pesquisa e sobre o tema “Consumo”
confirmações com palavras e murmúrios
durante a discussão transformaram o grupo Sobre a consciência do consumo
focal em algo motivador e potencialmente responsável das TIC: malefícios e
gerador de transformações sobre a postura benefícios
em relação a um consumo responsável, não
só de lixo eletrônico como de resíduos orgâ- A triangulação das técnicas utilizadas
nicos e inorgânicos. foi potencialmente reveladora e confirmou
Quando abordados sobre de quem se- sua capacidade de complementaridade dos
ria a responsabilidade pelos desastres ecoló- dados e possibilidade de reflexividade não
gicos, como não ter orientações sobre o des- apenas para os pesquisadores como também
carte correto do lixo eletrônico, não ter locais para o corpo diretivo da escola e, principal-
adequados e outras providências, todos os mente, para os estudantes que participaram
alunos afirmaram categoricamente: “Nós da pesquisa. Na finalização da coleta de da-
somos os responsáveis”. E ainda arriscaram dos, a vocação de pesquisadores-educadores
alternativas para solucionar tal problema: prevaleceu. Sentiu-se necessidade de sínte-
se, quando alguns problemas foram coloca-
Acho que as empresas que vendem deve- dos pelos alunos participantes da pesquisa.
riam recolher e fazer outros ou então rea- Solicitou-se, então, um registro sobre os be-
proveitar. A Vivo faz isso. (Aluno 8) nefícios e malefícios da internet e a repre-
No meu prédio tem um tipo de uma caixa sentação metafórica em forma de um animal,
lá na portaria que é do Santander. Aí dá cujas características se aproximassem do que
para você colocar pilha, celular. (Aluno significava a internet para eles.
1) Os estudantes atenderam prontamente
Meu condomínio também tem, mas não a essa solicitação não prevista na entrevis-
tem marca não [...]. Minha mãe manda ta semiestruturada e a desenvolveram com

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muito entusiasmo e motivação. Como bene- É, lá no google, wikipédia abriu já, dois
fícios, 70% dos alunos afirmaram que não segundos [...]. Mas internet deixa burro!
conseguem viver sem internet (70%), devi- (Aluno 7)
do à facilidade de acesso a qualquer infor-
mação e conteúdo; 100% deles ressaltaram Os estudantes que participaram do
a magnitude da comunicação potencializada grupo focal apontaram os seguintes male-
pela internet; 50% destacaram as facilidades fícios da internet: pedofilia e pornografia;
que a internet proporciona às pesquisas es- vício, sedentarismo e distração; dispersão;
colares; 90% apontaram a dimensão de en- perda da noção entre o público e o privado,
tretenimento por meio da oferta dos games, com invasão da privacidade; convivência
músicas e vídeos, e poucos se atentaram para com posições preconceituosas e presença de
o desenvolvimento de habilidades. sites não confiáveis.
O uso da técnica de diagramas tam-
Ir até a biblioteca. Falei “vai se lascar!”. bém colaborou para a obtenção de dados
Ir até a biblioteca, maior rolê até lá. Abrir importantes para a pesquisa. Segundo Leite
livro por livro. Nem morto! (Aluno 2) (1998, p. 43), o “texto verbal e o visual são
Desenvolve a inteligência, a tecnologia polissêmicos e complementares”. Quanto à
[...]. Exercita o cérebro. Por exemplo, um representação metafórica da internet na figu-
jogo de estratégias, você tem que pensar ra de algum animal, foi produzido o Quadro
pra fazer certa coisa. (Aluno 10) 1 com suas características.

Quadro 1 - Diagramas representativos do Consumo da Internet sugeridos pelos estudan-


tes do Ensino Fundamental

Animal Características

Águia

Veloz, rápida e voa longe

Cobra

Hipnotizadora

Elefante
Grandioso, tem muita informação

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Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental: potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

Leão

Poderoso, dominador, fortaleza, rápido, ágil

Leopardo

Predador, veloz, rápido, certeiro

Macaco

Esperto, inteligente, curioso, atento

O conjunto de dados quantitativos utilização do questionário como técnica de


e qualitativos comprovou que há 100% de pesquisa foi o fato de se correr menor risco
acesso às tecnologias digitais por parte dos de distorção, pela não influência dos pes-
alunos; o uso prioritário pessoal caracteriza- quisadores; de se atingir maior número de
se pelo acesso às redes sociais como forma pessoas simultaneamente, por constituir um
de entretenimento (Orkut e Twitter); a escola meio rápido de obtenção de informações; de
não utiliza as tecnologias digitais na grade se ter maior liberdade nas respostas, em ra-
curricular semanal das aulas, mas sim em zão do anonimato (GIL, 1994).
projetos esporádicos. A pesquisa teve como O desenvolvimento da entrevista
fato revelador a preocupação ecológica dos semiestruturada contribuiu para a triangula-
jovens sobre a necessidade de providências ção dos métodos, o que permitiu a corrobo-
governamentais quanto ao descarte e coleta ração dos resultados do questionário. Boni
seletiva de lixo eletrônico e aos perigos de e Quaresma (2005) destacam que uma das
acesso à internet de forma acrítica. vantagens da entrevista semiestruturada é a
sua elasticidade quanto à duração. Durante o
exercício desta investigação essa vantagem
Sobre a potencialidade das técnicas híbri- foi comprovada, tendo em vista que certas
das da pesquisa qualitativa questões foram claramente respondidas, ou-
tras exigiram uma cobertura mais profunda
A seleção de técnicas híbridas de pes- e houve a necessidade de questões comple-
quisa confirmou que uma das vantagens da mentares obtidas por outros dados.

Olhar de professor, Ponta Grossa, 13(2): 279-295, 2010.


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Stela Conceição Bertholo Piconez; Rosária Helena Ruiz Nakashima; Régis Luiz Lima de Souza

O planejamento de questões nortea- determinada concepção de ciência e referen-


doras foi essencial para a condução segura ciais teóricos para interpretar os resultados.
do grupo focal e o clima estabelecido pelos As técnicas utilizadas não ficaram desco-
pesquisadores também favoreceu respostas ladas dessas concepções epistemológicas.
espontâneas, fidedignas e válidas, pois foi De acordo com Sánches Gamboa (2003),
constatado que as respostas coletadas pelo se reduzirmos essas escolhas apenas a dois
questionário, respondido anonimamente, fo- modelos epistemológicos, um relacionado
ram corroboradas na entrevista. com as técnicas quantitativas e outro com as
A técnica de filmagem do grupo focal técnicas qualitativas, passamos de um falso
caracterizou-se como um registro impor- dualismo técnico para um falso dualismo
tante no processo de transcrição das falas epistemológico.
correspondentes a cada estudante. Além dis- Em relação à coleta e tratamento de
so, conforme Hassen et al. (2000, p. 718), informações, a pesquisa confirmou que o
“o ambiente, os comportamentos indivi- uso de mais de uma técnica e seus instru-
duais e grupais, a linguagem não verbal, a mentos – como entrevistas semiestrutura-
sequência, a temporalidade em que ocor- das, filmagens, grupo focal – não se fecha
rem os eventos são fundamentais” como à interpretação num único sentido (paráfra-
subsídios para interpretação posterior dos se). Ao contrário: permite o jogo de sentidos
mesmos. A possibilidade de rever o registro (polissemia), como entende Sánches Gam-
da dinâmica do grupo focal fez com que os boa (2003). Houve, portanto, necessidade
pesquisadores se distanciassem das emoções de se recorrer à elaboração de um quadro de
e atitudes presentes do momento e identifi- conceitos ou categorias que permitiram a de-
cassem outros aspectos, sob a perspectiva de finição de um horizonte de interpretação.
um novo olhar. Na busca dos sentidos, além desse horizonte,
Pinheiro, Kakehashi e Angelo (2005), também foi possível captar pela filmagem os
bem como Boni e Quaresma (2005), alertam contextos sociais e culturais dos estudantes
para o fato de que as pessoas podem modi- sobre o consumo das tecnologias de infor-
ficar seu comportamento - ficarem inibidas mação e de comunicação. As palavras, os
ou constrangidas - diante das câmeras, na gestos, os símbolos, as figuras, as diversas
presença do gravador, ou quando são obser- expressões e manifestações contribuíram
vadas. Porém, no momento do grupo focal, sobremaneira para a compreensão e entendi-
e ao rever o vídeo, foi possível notar que os mento dos dois focos da pesquisa: a temática
participantes estavam à vontade. Foram ra- sobre o consumo e as contribuições metodo-
ros os momentos em que eles olharam para a lógicas das técnicas qualitativas.
câmera; a sua concentração estava geralmen- A pesquisa em equipe foi extrema-
te voltada para o condutor do grupo focal. mente relevante para compreender o proble-
Esta pesquisa não se limitou à utiliza- ma, diagnosticar uma situação problemática
ção de instrumentos fechados, de quadros de e elaborar uma resposta diante de tantos ele-
categorias previamente definidas e de técni- mentos técnicos articulados a um procedi-
cas de análise de dados que levassem ou não mento científico e a uma lógica do conhe-
tratamento estatístico. Houve o entendimen- cimento. O que importou para a equipe de
to de que uma pesquisa qualitativa não trata pesquisadores foi a condução do processo, e
apenas da escolha de instrumentos e técni- esta veio da concepção epistemológica cons-
cas, devido à importância de selecionar uma truída durante o planejamento e a realização

Olhar de professor, Ponta Grossa, 13(2): 279-295, 2010.


Disponível em <http://www.uepg.br/olhardeprofessor> 293
Consumo das tecnologias pelos estudantes do Ensino Fundamental: potencialidade das técnicas qualitativas de pesquisa

da pesquisa. Ficou patente no processo que losp.org/pdf/rsp/v30n3/5075.pdf>. Acesso


a questão da qualidade da pesquisa depende em 03 de dez. 2010.
mais da lógica das articulações das formas
CHIZZOTTI, Antonio. A pesquisa qualitati-
de abordar os problemas, dos processos da
va em ciências humanas e sociais: evolução
elaboração das respostas para esses proble-
e desafios. Revista Portuguesa de Educa-
mas, das formas de compreender a ciência
ção, Portugal, v. 16, n. 2, p. 221-236, 2003.
e a produção do conhecimento, do que das
escolhas técnicas (SÁNCHES GAMBOA, FLICK, Uwe. Uma introdução à pesquisa
2003). qualitativa. Porto Alegre: Bookman, 2002.
Essa investigação proporcionou um GARNICA, Antônio Vicente Marafioti. Al-
campo muito rico e gratificante para a for- gumas notas sobre pesquisa qualitativa e
mação dos pesquisadores quanto à compre- fenomenologia. Interface: Comunicação,
ensão dos conflitos gerados entre pesquisa Saúde, Educação, Botucatu, v. 1, n. 1, p.
qualitativa e quantitativa, entre subjetividade 109-122, ago. 1997.
e objetividade, e quanto à seleção de técnicas
GIL, Antônio Carlos. Como elaborar pro-
e procedimentos múltiplos que permitissem
jetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo: Atlas,
a reflexividade e a triangulação, definidas
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por critérios que se aproximassem com cien-
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