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ARTIGO ORIGINAL (ORIGINAL PAPER)

EFEITOS DA MÚSICA SOBRE


RESPOSTAS PERCEPTIVAS E
ESTRATÉGIA DE CORRIDA
EFFECTS OF MUSIC ON PERCEPTUAL RESPONSES AND PACING STRATEGY

Thomaz Roberto Carvalho Carnaúba1, Marcos David da Silva-Cavalcante1, João Paulo


Lopes da Silva1, Ana Gabriela de M. Simões1, Agedani Pacheco Correia do Rozario1,
Rômulo Cássio de Moraes Bertuzzi2, Flávio de Oliveira pires2, Fernando Roberto de-
Oliveira3, Adriano Eduardo Lima-Silva1
1
Grupo de Pesquisa em Ciências do Esporte (GPCE), Faculdade de Nutrição,
Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL, Brasil.
2
Grupo de Estudos em Desempenho Aeróbio (GEDAE), Escola de Educação Física e
Esporte, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil,
3
Núcleo de Estudos do Movimento Humano, Departamento de educação Física,
Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG, Brasil.

Brazilian Journal of Biomotricity, v. 5, n. 3, p. 210-220, 2011 (ISSN 1981-6324)


Autor para correspondência:
Marcos David da Silva Cavalcante.
Faculdade de Nutrição (FANUT) - Universidade Federal de Alagoas. Avenida Lorival Melo
Mota, S/N – Campus A.C. Simões – BR 104 Norte Km 97, CEP: 57072-970, Tabuleiro do
Martins – Maceió – Alagoas – Brasil.
e-mail: cavalcantemds@hotmail.com

Submitted for publication: May 2011


Accepted for publication: Aug 2011

RESUMO
CARNAÚBA, T. R. C.; SILVA-CAVALCANTE, M. D.; SILVA, J. P. L.; SIMÕES, A. G. M.; 1, ROZARIO, A. P.
C.; BERTUZZI, R. C. M.; PIRES, F. O.; DE-OLIVEIRA, F. R.; LIMA-SILVA, A. E. Efeitos da música sobre
respostas perceptivas e estratégia de corrida. Brazilian Journal of Biomotricity. v. 5, n. 3, p. 210-220, 2011.
O objetivo desse estudo foi investigar o efeito da música sobre as respostas perceptivas e estratégia de
corrida durante uma simulação de corrida de 5 km. 15 homens (2 2 , 5 ± 3 , 5 a n o s ; 1 7 7 , 7 ± 6 c m ; 7 6 , 0
± 7 , 0 k g ) realizaram três testes em uma esteira. Os dois primeiros testes foram realizados sem música
para identificar o melhor tempo durante 5 km de corrida de cada voluntário, sendo considerado o melhor
tempo como situação controle. O terceiro teste foi realizado com música durante a corrida de 5 km. Durante
os testes a percepção subjetiva de esforço (PSE), a frequência cardíaca (FC) e a porcentagem de
pensamentos dissociativos (PD) foram monitoradas a cada 1000m e a velocidade a cada 500m. A música
aumentou significativamente a velocidade em 500, 1000, 1500 e 2500m e a porcentagem de PD nos
trechos de 1000 e 2000m quando comparado com a situação controle (p<0,05). Não houve diferença
significativa na PSE entre as condições (P>0,05). Os resultados sugerem que a música aumenta o foco de
atenção em sinais que não estão relacionados à fadiga e bloqueia a PSE, resultando no aumento da
velocidade e do desempenho durante a corrida de 5 km.
Palavras-Chave: música, esforço físico, fadiga, corrida.

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ABSTRACT
CARNAÚBA, T. R. C.; SILVA-CAVALCANTE, M. D.; SILVA, J. P. L.; SIMÕES, A. G. M.; 1, ROZARIO, A. P.
C.; BERTUZZI, R. C. M.; PIRES, F. O.; DE-OLIVEIRA, F. R.; LIMA-SILVA, A. E. Effects of music on
perceptual responses and pacing strategy. Brazilian Journal of Biomotricity. v. 5, n. 3, p. 210-220, 2011. The
purpose of this study was verify the effects of music on perceptual responses and pacing strategy during 5-
km running. Fifteen men (2 2 . 5 ± 3 . 5 y e a r s ; 1 7 7 . 7 ± 6 c m ; 7 6 . 0 ± 7 . 0 k g ) they accomplished three
tests in a mat. The first two tests were accomplished without music to identify the best time of the subjects in
a situation it controls. The third test was accomplished with music during all races. During the tests the rating
of perceived exertion (RPE), the heart rate (HR) and the percentage of dissociative thoughts (PD) were
monitored to each 1000m and the velocity to each 500m. The music increased significantly the velocity
during the 500, 1000, 1500 and 2500m and the PD during the 1000 and 2000m than for the control condition
(p<0.05). There was no significant difference in the RPE between the conditions (P>0.05). The results
suggest that music enhances the focus on signs that are not related to fatigue and blockade the RPE,
resulting in increase velocity and performance during the 5-Km running.
Key words: music, physical Exertion, fatigue, running.

INTRODUÇÃO
Estudos têm observado o efeito da regulação da velocidade (estratégia de corrida) em
diferentes momentos da prova durante competições de longa duração (acima de 10
minutos) sobre o desempenho (MATTERN et al., 2001; ALBERTUS et al., 2004; TUCKER
et al., 2006; GOSZTYLA et al., 2006; HAM & KNEZ 2009; HAUSSWIRTH et al, 2009). Um
dos fatores mais importantes que permite o estabelecimento de uma estratégia de corrida
é o conhecimento do ponto final da prova a ser cumprida (COQUART e GARCIN, 2008).
No entanto, o mecanismo pelo qual o indivíduo escolhe uma determinada estratégia de
corrida não é totalmente conhecido, mas alguns estudos sugerem que a percepção
subjetiva de esforço (PSE) seja parte integrante desse mecanismo (JOSEPH et al., 2008;

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FAULKNER et al., 2008; TUCKER, 2009).
Estudos realizados por Joseph et al. (2008) e Faulkner et al. (2008) demonstraram que a
escolha da distribuição da velocidade é baseada no aumento linear da PSE durante o
esforço, de modo a atingir a sensação de desgaste máximo somente ao final da tarefa.
Nesses estudos foi evidenciado que a taxa de aumento da PSE em função da distância
de corrida foi significativamente maior durante distâncias menores, porém quando plotada
em função da porcentagem da distância total, a taxa de elevação da PSE passou a ser
semelhante para todas as distâncias. Esses resultados evidenciam o fato de que o
mecanismo responsável pela escolha e controle da velocidade utiliza, provavelmente,
uma relação escalar entre a taxa de elevação da PSE e a distância da tarefa.
Enquanto alguns estudos demonstraram que a PSE parece ser importante para
estruturação da estratégia de corrida ao longo de uma prova (HAMPSON et al., 2001; ST
CLAIR GIBSON et al., 2006; TUCKER, 2009), outros têm voltado as atenções para
fatores que possivelmente afetam a PSE (NETHERY, 2002; DOHERTY et al., 2004;
ESTON et al., 2007). Potteiger et al. (2000) evidenciaram que a utilização da música
durante o exercício age como um fator de distração, levando ao aumento dos
pensamentos dissociativos (PD), isto é, pensamentos que não estão voltados para fatores
ligados ao esforço (frequência cárdica, respiração, dor muscular), o que resultou na
diminuição da PSE durante o exercício. Os achados de Potteiger e colaboradores (2000)
estão de acordo com os encontrados por Dyrlund & Wininger (2008) que também
evidenciaram um aumento dos PD quando os voluntários do seu estudo se exercitaram
escutando música em relação à situação sem música. Desta forma, o uso da música
durante o exercício pode mudar o foco de atenção voltado aos fatores relacionados à
sensação de fadiga para fatores externos, bloqueando a sensação de dor ou desconforto
gerado durante o esforço físico.

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Mesmo sabendo que a PSE é um fator crucial para a estratégia de corrida, poucos
estudos investigaram técnicas que possam atenuá-la via manipulação psicológica e
verificaram o seu efeito sobre a estratégia de corrida. Apenas três estudos até o presente
momento (ATKINSON et al., 2004; SIMPSON & KARAGEORGHIS, 2006; LIM et al.,
2009) avaliaram o efeito da música sobre a estratégia de corrida. Atkinson et al. (2004)
evidenciaram que na condição com música os indivíduos realizaram 10 km de ciclismo em
um ciclo simulador em menor tempo quando comparado a condição controle (sem
música). Segundo os autores a melhora no desempenho com uso da música foi devido ao
aumento significativo da velocidade nos primeiros 3 km, o que resultou no aumento da
velocidade média durante os 10 km de ciclismo. Os autores sugerem que a música pode
ter exercido um efeito de distração dos sinais internos relacionados à fadiga. No entanto,
os autores não avaliaram a porcentagem de PD.
Sendo assim, o objetivo do presente estudo foi investigar o efeito da música sobre as
respostas perceptivas e estratégia de corrida durante uma simulação de corrida de 5 km.
A partir do modelo teórico apresentado, a hipótese do estudo foi que se a música atua no
aumento dos PD e na redução da PSE, a velocidade de corrida irá aumentar em um dado
momento da prova levando a melhora no desempenho.

MATERIAIS E MÉTODOS
Amostra
Quinze voluntários do sexo masculino e fisicamente ativos (corredores
amadores), com idade média de 22,5 ± 3,5 anos, altura média de 177,7 ± 6 cm e peso

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médio de 76,0 ± 7,0 kg participaram do presente estudo.

Coletas de dados
Os voluntários foram submetidos a três testes de corrida, todos realizados em esteira,
com distância de cinco quilômetros. Os voluntários receberam uma explicação verbal
acerca dos riscos e dos benefícios proporcionados pelo estudo e, em seguida, assinaram
um termo de consentimento informado. Todos os procedimentos foram aprovados pelo
Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Alagoas, protocolo
número 022823/2009-83.

Desenho Experimental
Cada voluntário realizou três testes de cinco quilômetros no mesmo período do dia e com
intervalo mínimo de 48 horas e máximo de sete dias. Os dois primeiros testes foram
realizados sob uma condição sem música. Esses testes foram realizados com o objetivo
de obter o menor tempo para realização da corrida de 5 km de cada voluntário do estudo
e posteriormente compará-lo com a condição com música. O teste subsequente foi
realizado aplicando música via fone de ouvido durante toda a duração dos 5 km. As
músicas utilizadas possuíam um ritmo aproximado de 160 batidas por minuto. Durante os
testes foram mensurados as variáveis de frequência cardíaca (FC) (Polar modelo FX,
Finlândia), a PSE (escala de Borg de 15 pontos) e a porcentagem de pensamentos
dissociativos.

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Testes
Antes de dar início à cada corrida de 5km os voluntários realizaram um aquecimento de 5
a 10 minutos na esteira em velocidade auto-selecionada (Imbramed Super ATL,
Inbrasport, Porto Alegre, Brasil). A FC e o tempo não foram informados aos voluntários
até que os mesmos tivessem completado todos os testes. Somente a velocidade e a
distância transcorrida foram informadas e mantidas visíveis no painel localizado na esteira
durante cada teste. A FC, PSE e a porcentagem de PD foram mensuradas a cada 1000
metros, já a velocidade foi mensurada a cada 500 metros. A escala de pensamentos
associativos e dissociativos consistiram em monitorar o tipo de pensamento do voluntário
durante o trecho transcorrido (1000m), onde é informado pelo voluntário em forma de
porcentagem, aproximadamente, o quanto associativo ou dissociativo foram os
pensamentos deles nos últimos 1000m percorrido (TAMMEN, 1996). Antes da realização
dos testes experimentais todos os voluntários foram instruídos a realizar os 5km de
corrida no menor tempo possível. Para isso, durante as corridas de todos os testes os
voluntários tinham a liberdade para alterar a velocidade quando quisessem.

Análise estatística
A normalidade da distribuição dos dados foi verificada utilizando o teste Shapiro-Wilk. O
teste t pareado, coeficiente de correlação intraclasse (CCI), coeficiente de variação (CV) e
erro técnico de medida (ETM) foram usados para determinar a reprodutibilidade do
desempenho durante os dois testes controles. O teste t pareado foi usado para comparar
o tempo para completar os 5 km de corrida entre as condições controle e música. Uma
análise de variância (ANOVA) de medidas repetidas seguida do ajuste de Bonferroni foi

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usada para comparar a velocidade, PSE, FC e PD entre os trechos percorridos na mesma
condição. Para comparar a velocidade, FC, PSE e PD entre as condições em cada trecho
foi empregado teste t para medidas emparelhadas. Um nível de significância inferior a 5%
foi adotado em todos os tratamentos (P < 0,05). Todas as análises foram realizadas
utilizando o software SPSS 13.0.

RESULTADOS
O tempo para completar os 5 km de corrida no primeiro e segundo testes controles não foi
significativamente diferente [25,8 ± 1,8 min. e 25,6 ± 1,8 min, respectivamente, p= 0,78;
CCI: 0,98; P < 0,001; CV: 7,0%; ETM: 0,33 min. (1,28%)]. Sendo assim, não foi
encontrada diferença significativa entre os testes controle, porém como descrito na
metodologia, utilizou-se o teste controle realizado no menor tempo de cada voluntário
para comparação com a condição música.
A velocidade aumentou em função da distância em ambos os testes, porém na condição
música foi significativamente maior (p<0,05) nas distâncias de 500m, 1000m, 1500m e
2500m quando comparado a condição controle (fig.1).

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Figura 1 - Velocidade de corrida a cada 500m nas condições controle e música. *Diferente de 1500, 2500 e
5000m (p<0,05). **Diferente da velocidade de 2500m (p<0,05). # Diferente de 1000m (p<0,05). † Diferente
entre as condições (p<0,05).

Os PD diminuíram significativamente com o tempo (p<0,05). Foi evidenciada uma


diferença significativa entre as condições (p<0,05) onde os PD foram significativamente
maiores em 1000 e 2000m em música comparado ao controle (fig. 2).

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Figura 2 - Pensamentos dissociativos (PD) a cada 1000m nas condições controle e música. # Diferente de
2000 e 3000m (p<0,05). *Diferente dos valores precedentes (p<0,05). † Diferente entre as condições
(p<0,05).

As variáveis de PSE e FC aumentaram linearmente durante a corrida (P<0,05), porém


sem diferença significativa entre as condições (P> 0,05) como demonstrado nas figuras 3

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e 4, respectivamente.

Figura 3 - Percepção de esforço (PSE) a cada 1000m nas condições controle e música. *Diferente dos
valores precedentes na mesma condição (p<0,05).

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Figura 4 - Freqüência cardíaca (FC) a cada 1000m nas condições controle e música.*Diferente dos valores
precedentes na mesma condição (p<0,05).

Os valores médios de velocidade, tempo, FC, PSE e PD são demonstrados na tabela 1. A


condição música apresentou uma média significativamente maior para as variáveis de
velocidade e PD (P<0,05). Ao passo que, o tempo médio para realização dos 5 km de
corrida foi significativamente menor na condição música quando comparado ao controle
(P<0,05). No entanto, para as variáveis de FC e PSE não houve diferença significativa
entre as condições (P>0,05).

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Tabela 1 - Média e desvio padrão para tempo, velocidade, PSE, PA e FC
Variáveis Música Controle
Tempo (min) 25,2 ± 1,9* 25,6 ± 1,8
Velocidade (km.h-1) 12,0 ± 1,1* 11,8 ± 1,0
PSE 13,7 ± 2,8 13,9 ± 2,9
PD (%) 48,9 ± 10* 40,9 ± 7,9
FC (bpm) 173 ± 14 173 ± 13

PSE: percepção de esforço; PD: pensamentos dissociativos; FC:


frequência cardíaca. *Diferente da condição controle (p<0,05).

DISCUSSÃO
A utilização da música resultou no aumento significativo da velocidade na primeira metade
da corrida de 5 km, mais especificamente nas distâncias de 500, 1000, 1500 e 2500 m.
Nossos achados estão de acordo com os resultados encontrados por Atkinson e
colaboradores (2004), onde também foi evidenciado que a música induz aumento na
velocidade apenas nos primeiros três quilômetros de ciclismo contra-relógio quando
realizada em um ciclo simulador. Desta forma, a música parece interferir na maneira como
o indivíduo distribui a velocidade apenas na parte inicial da tarefa, ou seja, na estratégia
de corrida, mas sem efeito sobre os quilômetros finais da tarefa. Assim como em nosso
estudo, Atkinson et al. (2004) demonstraram que o aumento da velocidade no inicio da
tarefa causado pelo uso da música foi suficiente para melhorar o desempenho, pois os

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voluntários do estudo terminaram a distância a ser cumprida em menor tempo na
condição com música quando comparado ao controle em ambos estudos.
A porcentagem de PD foi significativamente maior em 1000 e 2000m na situação com
música quando comparado ao controle. Os PD se mantiveram constantes entre as
distâncias até o quarto quilômetro, reduzindo significativamente no último quilômetro em
ambas as condições. Entretanto, na condição música os PD no quinto quilômetro foram
significativamente menores apenas em relação ao primeiro e o segundo quilômetros
iniciais da corrida, enquanto que durante a condição controle, os PD no quinto quilômetro
foram significativamente menores em relação a todas as distâncias precedentes. Isso
indica que durante a condição controle os PD sofreram maior queda no último quilômetro
resultados esses que reforçam os achados de Potteiger et al. (2000) que demonstraram a
música como fator de distração durante o exercício.
O aumento da velocidade na primeira metade da corrida de 5 km na situação com música
foi acompanhado do aumento significativo dos PD. Esse comportamento semelhante
entre a velocidade e os PD no início da corrida indica que o efeito distrativo exercido pela
música provavelmente contribuiu para o aumento da velocidade. Uma vez que a teoria de
processo paralelo desenvolvida por Rejeski (1985) sugere que durante o exercício existe
uma competição entre o foco de atenção voltado para os sinais internos ligados à fadiga
(acumulo de metabolitos, dor muscular, aumento da FC e respiração) e sinais externos.
Estudos (BOUTCHER & TRENSKE, 1990; NETHERY, 2002; LIM et al., 2009) têm
sugerido que a utilização da música durante o exercício direciona o foco de atenção dos
sujeitos para os sinais externos, ou seja, fatores que não estão relacionados à sensação
de esforço gerada pelo exercício, como consequência dessa mudança no foco de
atenção, os sujeitos sustentam o esforço físico por maior tempo durante os exercícios
sem um ponto final conhecido (open loop) ou aumentam a velocidade durante os
exercícios com ponto final conhecido (closed loop) como evidenciado no presente estudo.

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Embora a música tenha aumentado os PD no início da corrida quando os indivíduos
escutaram música, o mesmo não foi evidenciado após os 2000m. Isso pode ter ocorrido
devido ao acumulo de fadiga ao longo da corrida aumentando foco de atenção para os
sinais internos como observado por Baden et al. (2005) durante a realização de uma
corrida em esteira a 75% da velocidade pico, os pensamentos associativos, pensamentos
voltados a fatores ligados ao esforço físico, aumentaram linearmente com o tempo. Desta
forma, fatores psicológicos parecem ser predominantes no início da corrida, enquanto que
fatores fisiológicos parecem ser predominantes na segunda parte da corrida o que pode
ter anulado o efeito de distração da música que por sua vez não alterou a velocidade no
trecho final dos 5 km de corrida.
Apesar do aumento na velocidade ter sido acompanhado por uma elevada porcentagem
de PD, sugerindo que a mudança no foco de atenção seja o fator responsável pelo
aumento da intensidade na corrida com música, a motivação gerada pela utilização da
música também pode ter influenciado o aumento da velocidade nos primeiros quilômetros
de corrida. Estudo realizado por Karageorghis et al. (1999) sugere que músicas com
batidas rápidas (acima de 120 batidas por minuto) exercem maior motivação quando
comparado com músicas de menores batidas. Além do efeito do número de batidas por
minuto da música sobre a motivação, alguns autores (EDWORTHY & WARING, 2006;
SZABO et al., 1999; COPELAND & FRANKS, 1991) têm apontado que músicas com
batidas rápidas também podem aumentar a intensidade e o tempo de exaustão do
exercício. Em um estudo realizado recentemente por edworthy & waring (2006) foi
demonstrado que quando os voluntários do estudo escutaram música rápida durante
10min de corrida em esteira a velocidade média (9,46 km/h) foi significativamente maior
em relação a musica lenta (8,92 km/h). Dessa forma, as músicas com rápidas batidas

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utilizadas no presente estudo favoreceu o aumento da velocidade e provavelmente
motivaram os voluntários durante a corrida de 5 km em esteira.
Um achado interessante no presente estudo foi que apesar de a música ter levado ao
aumento da velocidade durante a parte inicial da corrida, não houve diferença significativa
na PSE entre as condições. Esse resultado demonstra que os indivíduos perceberam a
maior intensidade na condição com música da mesma forma quando realizaram a corrida
na condição controle. Isso pode indicar que a música durante a corrida bloqueou o
aumento da PSE através do aumento dos PD, visto que um maior foco de atenção voltado
para os sinais internos ligados a fadiga durante o exercício parece aumentar a PSE
(CORBETT et al., 2009). Uma explicação alternativa para o comportamento semelhante
da PSE entre as condições durante a corrida de 5 km pode ser dada através da teoria da
teleantecipação (ULMER, 1996) onde os indivíduos podem ter aumentado a sua
velocidade para manter a mesma taxa de aumento da PSE da condição controle de modo
a atingir o ponto máximo da PSE apenas no final da tarefa (COLE et al. 1996; CARTER et
al., 2004; JOSEPH et al., 2008; FAULKNER et al., 2008), já que provavelmente, se a
velocidade da prova fosse mantida na mesma intensidade adotada na condição controle
os voluntários terminariam a corrida de 5 km sem atingir a sua PSE máxima.
Assim como na variável PSE, não houve uma elevação da FC apesar da maior velocidade
no trecho inicial da corrida quando os voluntários escutaram música. Esse resultado pode
ser explicado pelos achados de Szmedra & Bacharach (1998), nesse estudo os autores
demonstraram que escutar música durante 15 minutos de corrida em esteira a 70%
VO2max resultou na redução da pressão sanguínea sistólica e FC quando comparado a
condição controle. Esses autores sugeriram que a utilização da música durante o
exercício permitiu que os participantes do estudo relaxassem, reduzindo a tensão
muscular, e consequentemente promovendo um aumento do fluxo sanguíneo. Entretanto,
os achados de Szmedra & Bacharach (1998) devem ser visto com cautela, uma vez que o

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mesmo não tem sido evidenciado em outros estudos (YAMASHITA et al., 2006;
EDWORTHY & WARING, 2006; NETHERY, 2006; BIRNBAUM et al., 2009). Dessa forma,
mais estudos devem ser realizados com o objetivo de elucidar quais são os efeitos da
música sobre as respostas cardiovasculares e os mecanismos envolvidos durante o
exercício.

CONCLUSÃO
Os resultados do presente estudo sugerem que a utilização da música durante a corrida
aumenta o foco de atenção nos sinais externos como demonstrado através do aumento
da porcentagem de PD e bloqueia o aumento da PSE, permitindo dessa forma que a
velocidade seja aumentada na primeira metade da corrida melhorando o desempenho
durante a corrida de 5 km.

APLICAÇÕES PRÁTICAS
Os achados do presente estudo sugerem que a utilização da música por atletas durante
as sessões de treinamentos pode resultar no aumento da intensidade dos treinos, o que
pode gerar maiores adaptações fisio-metabólicas ao treinamento e consequentemente
melhorar o desempenho durante as competições. Adicionalmente, atletas podem utilizar a
música durante competições, onde esse recurso é permitido, para aumentar o seu
desempenho (ATKINSON et al., 2004; SIMPSON & KARAGEORGHIS, 2006)

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AGRADECIMENTOS
Ao CNPq pela bolsa de mestrado concedida ao autor Marcos David da Silva Cavalcante
através do Edital MCT/CNPq N º 70/2009.

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