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De chofre

24.3.2019, 10:15h

Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí eu estarei.


Esta frase terá sido pronunciada por Cristo. Muito repetida, presta-se a
tudo. Por exemplo, para fundamentar ou legitimar a subordinação da
vida prática e religiosa, ou mística, a uma instituição muito centralizada,
rígida, policiadora das mentes.
Em meu nome, porém, é em nome de quem? Quem é aquele «eu»? Eu sou
Aquele que É. Para mim, esta é a única definição inquestionável de Deus
e que posso admitir que ele próprio a desse. Todas as outras são nossas.
Mas Ele também disse, em princípio, a frase que pus na primeira linha.
E também disse, em princípio, que vinha trazer um mandamento novo.
Vinha superar a Bíblia anterior – a partir dela, no que diz respeito às
referências discursivas; a partir da Sua divindade no que diz respeito à
vivência que traz e faz o Mandamento.
Qual é que foi o mandamento? Amai-vos uns aos outros. Não
propriamente nas orgias, isso já existia muito e ninguém esquecia no
império romano. Mas ‘como eu vos amei’. Como nos amou Cristo? Não só
trazendo-nos o Mandamento, vivendo connosco uma vida só assim, em
dádiva e liberdade. Mas também chegando ao ponto de morrer condenado
por pecados ou erros habituais entre os homens. Que erros? Os de criar
bodes expiatórios para destruir tudo o que se gere espontaneamente, em
vivência e liberdade, sem condicionamentos, ingenuamente, ‘em meu
nome’. Porque tudo o que foi feito assim, só por isso, já pôs em causa as
estruturas e as hierarquias dos poderes humanos. Uma tal reunião é
revolucionária, desmente e desorganiza o poder. O que ensina, então, o
Amor de Cristo ao se deixar crucificar? Aparentemente, a resignação,
mas, esquecidos que ficamos da origem, a reSignação. Qual o recado que
nos traz? Se vos ameaçaram, não se amedrontem. Se vos matarem, não
matem. É o medo que mata. A fé (manter-se fiel, ou seja, ligado, manter
a ligação) salva até da morte. Porque a Ele o mataram e continuou vivo,
até se mostrou de corpo e alma para que o víssemos e não duvidássemos
e depois é que se desmaterializou. Porque, se não partisse, o iríamos
iconizar e transformar em novo chefe. Deixem que vos matem, sejam
coerentes até ao fim, mantenham-se fiéis, ligados, amando e dizendo a
verdade. Só o medo resiste. A verdade afirma, pela palavra ou pelo
silêncio. Se vos matarem vocês continuarão vivos e eu também estou aí.
Não se preocupem com mais nada. Cumpram, só, o novo mandamento,
a nova ordem: amai-vos uns aos outros.
-
Quem está, portanto, reunido ‘em meu nome’? Os que se reúnem
amando-se uns aos outros, por amor, esse amor que se realiza
independentemente do poder, do medo e da morte.

Agora a segunda parte: vocês já repararam que, muitas vezes (e


principalmente entre pessoas novas, ainda não muito presas às
preocupações e aos medos da vida), quando se reúnem alguns, mesmo
ateus, em torno de uma obra, de uma realização, por mais simples que
seja, estando entre eles a falar e agir naturalmente, ingenuamente, sem
cartas na manga ainda, esses que se reuniram realizam mesmo alguma
coisa, geram dinamismos, são criativos e objetivos, concretizam e
inovam, afirmam, abrem perspetivas. Depois, é o depois. Geralmente
cada um acabará se fechando sobre a sua própria estória, com ideologia
e partido ou sem eles, e envelhece. Depois recontam a sua estória sendo
geralmente pouco humildes, embora alguns disfarcem bem. Mas isso é
depois e o depois não me interessa, já todos conhecemos, não nos traz
respostas, apenas negações, nega a esperança, sobretudo.
Em momentos verdadeiramente revolucionários (ou seja: que nos
encaminham para as origens, a Origem), há qualquer fagulha disto que
falo. Ainda que se trate de ateus, seja qual for o partido ou a ideologia ou
o ícone com que se identifiquem nesse momento. Esses são os aspetos só
aparentemente mobilizadores e, na verdade, os que vão travar o
movimento.
O que, verdadeiramente, mobiliza nesse momento é estarem reunidos
colaborando com boas intenções, a do bem comum sobretudo. Isso é,
também, amarem-se uns aos outros. Ingénuos, dirão os céticos, sentados
nas confortáveis cadeiras amealhadas com um realismo de anos e anos,
carunchosas mas cómodas.
Sim. De facto, o problema está em que essas comunidades que,
momentaneamente, se organizam numa espécie de verdadeira estrutura
(autorregulando-se, com intenso dinamismo interno e interações com os
outros sistemas, formando um conjunto atuante), essas comunidades e
esses momentos não têm maneira, pela sua ingenuidade, não têm
maneira de se defender. Qualquer ataque programado e centralizador
rapidamente acaba com as boas intenções e destrói essas células de
liberdade e amor. Mas se, para se defenderem, tais estruturas confiam
num poder coordenador, que se destina, somente, a evitar choques
internos e fortalecer o conjunto para evitar os externos, essa mesma
confiança vai gerar a sua destruição. Assim quando, por exemplo, um
determinado poder acompanha um surto, uma manifestação destas,
insinuando-se enquanto companhia atenta e vigilante, que visa verificar
se ali não houve, mesmo, mal, ou maldade, logo em seguida o surto
acaba, o milagre se desfaz e os santos, continuando vivos, ficam no
desemprego, os seus atos perdem brilho e se apagam, ou se orientam em
qualquer sentido mais miúdo, que se irá confundir com a legitimação de
algum poder – novo ou antigo.
Portanto, são momentos únicos, intransmissíveis e descontínuos, além
de transversais (e nessa medida é que desorganizam as hierarquias
instaladas).
É justamente aí que radica o sentido de outro tipo de mito: o do Quinto
Império, o da Terceira Idade (a do Espírito Santo, que na verdade já
começou com a partida de Cristo e, portanto, a entrega total da cena à
terceira pessoa da trindade cristã). O sinal de que ainda não chegámos
lá é, justamente, a descontinuidade dos instantes do Mandamento.
O que mantém a esperança e constitui matéria de fé é, precisamente, a
reunião ‘em meu nome’, ou seja, continuarmos a, inesperadamente para
os poderes humanos e até para nós próprios, nos reunirmos amando-nos
uns aos outros. O que, etimologicamente, não é ingénuo, mas em certa
medida é inocente, na medida em que não prevíamos, nem nunca
sabemos como vai terminar. Justamente o mesmo que se passa quando
começamos um poema.

Rio Grande – RS – Brasil.


Francisco Soares.