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Revista Online quadrimestral da Sociedade Brasileira de Eubiose - Ano I – Nº 1 –fevereiro a maio de 2012

EDITORIAL
Acompanhando o notório processo de evolução dos “Dhâranâ” surgiu, em suma, para congregar e
meios de comunicação, nossa instituição não poderia, construir, para aspirar e vivificar, para proteger e segurar a
jamais, ficar à margem da história. O avassalador Vida e o Caráter, a Sabedoria Profana e a Sagrada, únicos
progresso tecnológico atual exige que a comunicação seja tesouros eternos que recebemos como precioso legado das
imediata, precisa e pontual, portanto, a Revista Dhâranâ mãos da Providência.
Online surge como fruto desse processo, não abrindo mão “Dhâranâ” deseja estimular nos homens adormecidos,
da Tradição de quase nove décadas de história, porém a força poderosa do Pensamento, por demonstrações
adequando-se à modernidade dos dias atuais. práticas, reduzindo os célebres milagres às simples
O lançamento da Revista Dhâranâ Online não proporções de fenômenos naturais, satisfazendo assim à
suprime a publicação da edição impressa. Ambas serão Ciência, sem escandalizar a Religião. (...)
direcionadas para um público externo, utilizando-se            
de uma linguagem moderna, não mística, com uma Eis que, 87 anos depois, Dhâranâ Online mantém os
formatação que busca o padrão das revistas culturais e mesmos compromissos e amplia seus objetivos, abrindo
científicas.        espaço editorial para que os discípulos e, também,
O primeiro número da Revista Dhâranâ – órgão oficial quaisquer outras pessoas afinadas com os ensinamentos
de divulgação da SBE – Sociedade Brasileira de Eubiose – dos fundadores de Dhâranâ – Sociedade Mental e
circulou em agosto de 1925, um ano depois da fundação da Espiritualista, que depois tornou-se Sociedade Teosófica
instituição, então, de mesmo nome. Na apresentação de Brasileira e, desde 1969, Sociedade Brasileira de Eubiose,
sua primeira edição são definidos os principais objetivos possam produzir novos saberes.
da publicação que perduram até hoje: Partindo da hipótese de que os diferentes discursos
(...)  “Dhâranâ” já divulgou o seu manifesto ao humanos   – das ciências, das tecnologias, das artes, das
povo brasileiro, definindo a sua razão de ser como uma filosofias, das místicas, das religiões, enfim, uma variada
Sociedade Mental e Espiritualista, de onde surgem deveres, gama da produção cultural, não esgota nem diz tudo
cujo programa, irá sendo desenvolvido de acordo e à medida sobre o real, Dhâranâ Online abre a seus colaboradores,
que ele for sendo revelado pelos seus Augustos e Veneráveis a partir destes diferentes conhecimentos, a possibilidade
Dirigentes. de um mais além, que possa ajudar, além da interpretação
“Dhâranâ” apareceu, portanto, como uma obra do mundo objetivo, a antecipar o futuro grandioso da
prática, destinada a cumprir os altos ensinamentos de todas humanidade já revelado em vários textos considerados
as Religiões que pregam o Amor, a Luz e a Paz. sagrados.
“Dhâranâ” veio para conciliar os dogmas científicos com Em outras palavras, Dhâranâ Online será mais um
os aspectos religiosos esparsos pelo mundo, estabelecendo a instrumento engajado no trabalho essencial de humanizar
harmonia do coração e da mente, pelo diapasão espiritual o sagrado e sacralizar o humano.
do sol sustenido, misteriosa vibração que competiu ao
Brasil, na orquestra mística do concerto universal.
SUMÁRIO

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DHÂRÂNÂ CONEXÕES NUM MUNDO EM (R)
Henrique José de Souza EVOLUÇÃO

Grande é o erro daqueles que confundem , o


Marcelo Wolf
Espírito ou Inteligência (Nous) com a Alma Esta pintura é um belo exemplo do conceito de
(Psyké). Não menos os que confundem a Alma com espiritualidade: aquilo que vem do espírito, que é
o corpo (Soma). Da união do Espírito com a Alma externalizado pela mente humana, e que se traduz
nasce a Razão; da união da Alma com o Corpo no mundo concreto através de quatro grandes
nasce a Paixão. frentes principais: Filosofia, Artes, Ciência e
Religião. E são elas que, como anunciadores ou
archotes do Fogo Divino, iluminam o caminho
dos homens e propiciam a criação das miríades de
possibilidades no mundo material.

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A CULTURA, O SUBLIME E A EU- A LENDA DO FAROL: OS SETE
BIOSE SABERES DE UM EDUCADOR
Dirceu Moreira
Laudelino Santos Neto
“Jamais haveria evolução se o Verbo se
Pensar a SBE a partir da articulação entre manifestasse proferindo sempre as mesmas
sublime, cultura e eubiose é refletir sobre as palavras”. Professor Henrique José de Souza.
condições individual, grupal e institucional O educador como porta voz do conhecimento
do estar-no-mundo para em seguida se inserir deverá estar atento para não cair na mesmice,
conscientemente no Pramantha e ter condições pois, o mesmo conteúdo de hoje, talvez tenha
melhores e maiores de ser-no-mundo. que ser dado de forma diferente noutra ocasião.
Podemos chamar a isso de educação continuada e
inovadora.

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A LIDERANÇA NO TERCEIRO MI- EUBIOSE: CONSCIÊNCIA DA NA-
LÊNIO TUREZA E NATUREZA DA CONS-
Silvio Piantino CIÊNCIA

“Reconstruir é o brado que nos compete! Sim, Alberto Vieira da Silva


reconstruir o homem, o pensamento, a moral, os Os chacras em número de sete, como os astros
costumes; reconstruir o lar, a escola, o caráter, ou planetas, como o espectro solar etc., não são
para que o cérebro se transmute ao lado do mais do que “as forças sutis da natureza”. Para
coração. Só assim a humanidade se tornará conhecê-los e manejá-los é preciso ser um Adepto. –
digna do estado de consciência exigido pela Nova Prof. Henrique José de Souza.
Civilização”. JHS
DHÂRANÂ
Henrique José de Souza
(Fundador da atual Sociedade Brasileira de Eubiose)

Grande é o erro daqueles que confundem , o Espírito corpos de que o homem se compõe, aparte opiniões até
ou Inteligência (Nous) com a Alma (Psyké). Não menos hoje divulgadas, por serem completamente errôneas.
os que confundem a Alma com o corpo (Soma). Da Referimo-nos a Hatha-Yoga, “como ciência do bem
união do Espírito com a Alma nasce a Razão; da união estar físico”, desde que tal corpo é o sustentáculo da
da Alma com o Corpo nasce a Paixão. alma e do espírito. "Mens sana in corpore sano". A
Desses três elementos, a Terra deu o corpo; a Lua, seguir, Gnana-Yoga e não Raja, como querem outros,
a alma, e o Sol, o Espírito. Por isso que, todo Homem porquanto o mesmo termo Gnana ou Jnana, tem por
justo, consciente de todas essas verdades, é, ao mesmo étimo Jim ou Jina, que de ser um habitante do Astral,
tempo, durante a sua vida física, um habitante da Terra, ipso-fato, relaciona-se com a Alma ou Psiké. Donde o
da Lua e do Sol". – Plutarco (De Ísis e Osíris). termo: poderes psíquicos. O mesmo termo Espiritismo,
usualmente empregado, é errôneo por suas práticas
YOGA, dizem os clássicos do Ocultismo, "é uma envolverem única e exclusivamente o mundo astral.
filosofia ou sistema que tem por fim dar àquele que Nesse caso, ANIMISMO OU PSIQUISMO. Finalmente,
a pratica, o poder de se abster de comer e de respirar Raja-Yoga (União real, régia ciência etc.) ou do Mental,
durante considerável tempo, e processo, ainda, de se como sede do Espírito desde que acima dele se acham
tornar insensível a todas a impressões exteriores". as consciências Búdica e Átmica que, a bem dizer,
Para nós, aquele que pratica Yoga visando tais são Portas abertas ao Tabernáculo Divino. No corpo
poderes é apenas um Faquir e não um Yogi. humano, a hipófise tem que ver com a Alma, enquanto a
epífise ("sobrenatural") com o Espírito.
Tal maneira de definir o termo Yoga tem provocado
tantas perturbações entre os pretendentes à Vereda Por tudo isso, dizer-se que “tal união com o Todo
da Iniciação, como o próprio termo “Deus”, através (pela prática da verdadeira Yoga) é feita por três
de lutas religiosas entre os que se extasiam diante de caminhos”, que a mesma Vedanta denomina de: Karma
definições, que não podem, de modo algum, expressar, ou ação para o físico; Bhakti ou “devoção” (a mística da
com precisão e clareza, tudo quanto pertence ao mundo Fraternidade Humana, como o maior de todos os Ideais)
subjetivo. Ademais, no que diz respeito à Yoga, logo e Jnana ou do conhecimento, visão espiritual, sabedoria,
se manifesta o desejo egoísta de sobrepujar os demais, Gnose etc.
de ser enfim, um homem completamente diferente Todo e qualquer processo de livrar o Ego das ilusões
dos outros, sem falar nos perigos que de tal prática do mundo terreno com o fim de uni-lo à Consciência
procedem, quase sempre em detrimento do próximo. Universal, é uma YOGA.
Nesse caso, Magia Negra e não Magia Branca ou Na de Patanjali, como a mais importante de todas
Aquela que praticam os Seres Superiores, como Guias existem oito graus ou estados:
ou Instrutores dessa pobre Humanidade acorrentada
nas férreas cadeias da Ignorância, qual Prometeu 1. YAMA: restrição, controle de si mesmo;
‘amarguradamente infeliz”, como diria Junqueiro, na 2. NI-YAMA: observações religiosas, ou antes,
sua mítica montanha, que é o Cáucaso, que tanto vale alicerçamento do caráter;
pelo “cárcere carnal” ou “pote de argila” bíblico. 3. ASANA: posição especial para a meditação,
Yoga, querendo dizer “união”, nada mais é do que embora que esteja incluída nos bailados iniciáticos,
a adoção deste ou daquele sistema por parte de quem, tanto do velho Egito como da índia e posteriormente,
de fato, só tenha a preocupação de se UNIR, ao seu na Grécia (“mistérios eleusinos” etc.) e hoje, de modo
Eu ou Consciência Imortal, na razão do que diz Paulo, velado, na arte coreográfica, em geral. Tais “asanas” ou
em Efesus, III, 16,117: "Todo ser bom pode falar ao posições, sempre debaixo de um certo ritmo, traduziam,
Cristo em seu Homem Interno": Cristo ou Consciência muitas vezes, toda a história de um deus do Panteon do
Universal, tanto vale. País, quando não, mensagens desses mesmos deuses
Das inúmeras espécies de Yoga que se ao Templo onde eram praticados semelhantes rituais.
conhecem, sobressaem as que se conjugam com os três Haja vista, os bailados exigidos no começo de nossa

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Obra, todos eles expressando mensagens e divulgações de etc. E quanto ao ponto ou sinal que traz na fronte (“olho
remoto passado, em referência aos fundadores da mesma de Shiva", como se chama na Índia, “ureus mágico”,
Obra; no Egito, como prova a “serpente que se vê na fronte do
4. PRANAYAMA: retenção do hálito para controle faraós”), em relação à mesma visão espiritual. E assim
de todas as funções orgânicas (a mesma medicina atual por diante.
já aconselha essa prática nas crises “simpaticotônicas”
etc. em relação com o lado solar, do mesmo modo que as Por todas essas razões e outras mais ainda, a
vagotônicas, com o lunar. E a prova é que as duas narinas nossa Escola Iniciática ter sido fundada com nome
estão classificadas nas antigas escrituras orientais, como: "DHÂRANÂ", e seu órgão oficial o conservar até hoje
Ida ou lunar (a esquerda) e Píngala ou solar (a direita). como uma homenagem àquela época.
Quando a respiração flui por ambas as narinas, recebe o
nome de Sushumna (respiração andrógina, dizemos nós DHÂRANÂ serviu, pois, de “sumo controle
ou equilibrante etc.). Este é o momento mais apropriado do Pensamento”, para que, Dhyâna abrisse suas
para semelhante YOGA, principalmente se levada a efeito "Portas de Oiro" a Samadhi, além do mais, através de
em PADMASANA (Padma, loto e Asana, posição. Nesse desconcertantes fenômenos psíquicos, que o vulgo
caso, "posição do loto”, ou seja: de pernas cruzadas, denomina erroneamente de “milagres”. E logo chegando
como se vê nas imagens do Buda etc.) o domínio do Mental (Dhyâna ligada a Samadhi, ou
antes. Budhi e Atmã, como 6º e 7º princípios teosóficos,
5. PRATY AHARA: o poder de afastar o mental das para a formação da Tríade Superior), a própria Lei lhe
sensações físicas; exigir o de SOCIEDADE TEOSÓFICA BRASILEIRA*,
6. DHÂRANÂ: “a intensa e perfeita concentração da além de excelso e significativo lema, que é: SPES
mente em determinado objeto interno, com abstração MESSIS IN SEMINE, ou “a esperança da colheita está
completa do mundo dos sentidos”. Em síntese: o sumo na SEMENTE”. E isso porque, todos quantos forem
controle do pensamento; atraídos para as suas fileiras, desde já representam os
7. DHYANA: Meditação, contemplação abstrata arautos dessa civilização de elite que fará seu surto nesta
ou afastamento do mundo dos sentidos, melhor dito, parte do Globo, e para a qual foi a mesma S. T. B. criada.
estado de "isolamento completo". Constituí uma das Assim, o mesmo leitor; ao manusear as iniciáticas
"seis Paramitas” budistas. E a prova é que, em um dos páginas de seu órgão oficial, embora que não o saiba,
mantrans (hinos) do começo de nossa Obra – o mesmo pratica um rápido estado de "Dhâranâ", por ter de
que nos foi enviado do Oriente – figuram estas palavras: abandonar o “mundo dos sentidos”, sob pena de não
"Dhyâna, tuas portas de oiro nos livram da deusa Mayá poder compreender o que, por “baixo da letra que mata”,
(“ilusão dos sentidos”); refulge, como um Novo Sol, a iluminar-lhe a Consciência,
8. SAMADHI (ou Samyâma): estado de meditação o “Espírito que vivifica”.
obtido pela concentração, no qual o Adepto se torna Vitam impendere Vero!
consciente de seu Mental Superior, o que tanto vale, por
se tornar Um com o Todo, a Consciência Universal etc.
A mesma “posição do Buda” não significa outra coisa.
Por isso, traz os olhos cerrados (visão para dentro ou Dhâranâ nº 119 a 122 – Janeiro a Dezembro de 1944 –
espiritual), orelhas enormes, que muitos criticam sem Ano XIX
saber que é apenas um símbolo; na razão daquele que * (Hoje Sociedade Brasileira de Eubiose)
além de CLARIVIDENTE é CLARIAUDIENTE. As
pernas cruzadas ou na posição já apontada como de
Padmasana, sendo as mãos unidas e os dedos curvos,
formando a última letra do alfabeto sânscrito, ou Aquele
que alcançou o Fim de sua evolução terrena: o Nirvana

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CONEXÕES NUM MUNDO EM (R)EVOLUÇÃO
Marcelo José Wolf

INTRODUÇÃO
Na parte alta da cidade de Praga, na República mundo concreto, paulatinamente, no dia a dia.
Tcheca, há um mosteiro muito aprazível, um dos pontos Ao longo dos séculos, a civilização ocidental, sem
turísticos da cidade. O Monastério de Strahov abriga uma o perceber, passou a dissociar o espiritual do material,
sala de grande magnitude, chamada “Salão Filosófico”, criando uma polaridade entre ambos, que, na verdade,
uma espécie de biblioteca, com um grande acervo sobre o não existe. Nesse ponto, as culturas ditas “primitivas”
pensamento humano. Mas o que chama a atenção dos que e, também, os povos antigos tratam essas duas facetas
visitam essa sala é um afresco que toma todo o seu teto, de uma forma bem mais natural, sem apresentar
criado pelo pintor vienense Franz Anton Maulbertsch, essa dissociação. Mas pior que isso foi a redução da
entre os anos de 1776 e 1778. O nome dessa obra é “A espiritualidade em religião, fenômeno, que, na maioria
Evolução Espiritual da Humanidade”. Nela vemos uma das vezes, não exprime adequadamente sua verdadeira
função, descrita na acepção do termo: re-ligar ou tornar a
ligar o homem à sua essência imortal.
No ano de 2011, vimos muita coisa acontecer no
nosso planeta, algumas inéditas, outras seguindo um
processo que vem se desenrolando nos últimos anos. A
mais notável e surpreendente é a Primavera Árabe. O
inegável é que estamos passando por transformações
sociais, culturais, econômicas e políticas, que estão
redesenhando a face do mundo, do poder e da vida dos
seres humanos. E, se tomarmos como corolário o fato de
que o espiritual nunca está dissociado do material, e que
este é uma expressão concreta das tendências imanadas
do primeiro, fica a pergunta: por quais caminhos a
humanidade está trilhando sua marcha? Espiritualmente,
há uma tendência a ser seguida em sua evolução?
clara junção entre ciência, filosofia e religião. A Divina Podemos antever os seus caminhos futuros?
Providência, colocada no centro do afresco, está cercada
por representações de vícios e virtudes. Motivos do Antigo
Testamento, como os Dez Mandamentos de Moisés e CONSTATAÇÃO NO MUNDO
a Arca da Aliança, fazem frente ao desenvolvimento da
civilização grega, desde seu período mítico até os filósofos
Apontamos aqui alguns fatos significativos que vêm
Sócrates, Diógenes e Demócrito, passando por Alexandre
ocorrendo no mundo e que estão redesenhando o cenário
“o Grande”. A evolução da ciência está representada
da vida humana em nosso planeta. Através desses fatos,
por Esculápio, Pitágoras e Sócrates na prisão. Tudo
vamos tentando deixar mais claro um pano de fundo,
transcorre até o desenvolvimento do Cristianismo.
um leitmotiv, ou um padrão, em vigência nesse terceiro
Essa pintura é um belo exemplo do conceito milênio. Após esses exemplos concretos, vamos propor
de espiritualidade: aquilo que vem do espírito, que é uma ideia para tentar responder à questão sobre qual a
externalizado pela mente humana, e que se traduz no tendência espiritual de nossos dias.
mundo concreto através de quatro grandes frentes
A partir de 1989, avançamos em passos de
principais: Filosofia, Artes, Ciência e Religião. E são elas
gigante para o que conhecemos como Globalização:
que, como anunciadores ou archotes do Fogo Divino,
países perdem suas fronteiras econômicas, culturais,
iluminam o caminho dos homens e propiciam a criação
monetárias, para fazerem parte de grandes blocos.
de miríades de possibilidades no mundo material e suas
Ninguém mais vive isoladamente; nenhuma nação vive
infinitas ramificações, como a política, o comércio,
sozinha. Todos realizam intercâmbios econômicos,
o entretenimento, etc., tendo como objetivo último o
culturais, políticos, etc.
aprimoramento, a evolução do ser humano. O espiritual
expressa uma tendência arquetípica, manifestada no

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A popularização da Internet, também, foi uma economia e com empréstimos milionários a grandes
das grandes propulsoras dessa globalização. A Internet empresas, em detrimento da população em geral.
conecta a todos. Promoveu uma grande revolução na Outras formas de ganho de capital estão nascendo.
forma de produzir conhecimento, de comprar, de se Muitas tentativas de cooperação e trabalho coletivo
conhecer pessoas, de obter-se informação, de organizar despontam no mundo. A mais popular é a produção
movimentos e de formar opiniões. Graças a ela, as de software livre. Um bom exemplo disso é o sistema
distâncias encurtaram, e o mundo tornou-se uma aldeia operacional Linux; outro, a enciclopédia Wikipédia, na
global. qual há uma produção conjunta do saber.
Com a popularização da Internet, o termo Hoje em dia, o conhecimento, como acúmulo de
“ciber” passou a ter relevância na vida das pessoas. informação, não é mais um privilégio nem o diferencial de
Tudo que é ciber mudou nossa forma de atuar no ninguém. Para isso existe o Google! Com poucos cliques
mundo: Cibercultura, ciberespaço, ciberterrorismo, na Internet, você pode descobrir o significado de quase
ciberativismo, etc. Um dos filósofos e escritores tudo. Como usar essas informações e produzir algo que
mais influentes nessa área é Pierre Levy, com muitas supra uma demanda, ou como fazer a diferença frente a
publicações sobre o assunto, mostrando a importância uma situação passou a ser o foco principal da questão.
desse novo paradigma nos dias presentes e vindouros. Para isso é preciso saber como encontrar a informação
Nas redes sociais da Internet, a exemplo do correta e elaborá-la corretamente. E isso requer uma
Facebook, há uma comunicação entre pessoas do mundo versatilidade mental e uma boa dose de intuição.
todo. E, muitas vezes, elas se organizam para criar grupos Diante da socialização do conhecimento promovida
específicos ou reivindicar melhorias e mudanças em pela Internet, um aspecto passou a ser essencial para o
determinados setores da vida coletiva. Possibilitaram bom desempenho de tarefas: a criatividade. Qualquer
que opiniões individuais tivessem um peso considerável profissional, para desenvolver-se (e muitas vezes, apenas,
na formação da opinião global, contribuindo com a para manter-se no mercado de trabalho), precisa muito
criação do que chamamos de uma consciência coletiva. mais do que fazer bem feito o que lhe compete. Precisa
O coletivo passa a ter uma grande importância frente ao responder, instantaneamente, às mais diversas demandas
individual. e situações inesperadas que podem ocorrer. E, para isso,
Essa consciência coletiva tem seus efeitos no mais do que conhecimento, é necessário se ter “jogo
mundo. Estamos assistindo a uma onda de manifestações de cintura”, no dito popular, ou, em outras palavras,
e protestos no Oriente Médio e no Norte da África, criatividade e outras formas de inteligência, como a
denominada Primavera Árabe, contra os regimes emocional.
autoritários que lá imperam e que são calcados na Pouco se falava em sustentabilidade e
repressão e na censura. Impulsionadas pelas redes preocupação com o meio ambiente há algumas
sociais, essas manifestações clamam por uma maior décadas. Hoje, esse tema entrou em todas as pautas da
liberdade política, intelectual e, até mesmo, econômica. vida humana, desde política e econômica até cultural e
Cada vez mais caminhamos para o fim dos comportamental. O homem passa a olhar de uma forma
governos autoritários onde poucos ditam as regras a ser diferente para a natureza, o planeta e seus recursos
seguidas por todos. As regras passam a ser elaboradas naturais.
coletivamente, de uma forma mais democrática.
O Capitalismo vive uma grande crise, e vemos Com o aumento das demandas em nossas vidas, o
vários protestos em Wall Street, na Europa e em todo o homem passou a ter uma maior preocupação com sua
mundo, formando uma campanha contra a desigualdade vida interior. Vemos uma busca crescente por terapias
econômica e a concentração de riquezas nas mãos de alternativas, autoconhecimento, psicologia, autoajuda,
pouquíssimos. Centenas de pessoas acampam no parque espiritualidade, meditação, etc. Basta darmos uma
Zuccotti, perto do centro financeiro de Nova York, olhada na sessão de livros mais vendidos ou verificar a
demonstrando o descontentamento com os rumos da procura por palestras de autoajuda. Isso é um reflexo de

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que o homem está, cada vez mais, tentando aprimorar sua melhorias e ajustes. Não nasce pronto, perfeito e
qualidade de vida. A agitação da vida moderna o empurra imutável, vai se aperfeiçoando ao longo do caminho;
para buscar, dentro de si mesmo, um caminho mais 3. Num projeto, a ideia está perfeita. Quando passa
satisfatório com seus anseios e desejos íntimos. para a execução real, ele, sempre, apresenta
Em consequência dessa maior busca interior, imperfeições, pois isso é inerente à polaridade da vida
passamos a viver uma espécie de “neorrenascimento” no e é, praticamente, impossível termos a perfeição no
qual, novamente, o homem ocupa o centro do universo, mundo manifestado.
dessa vez não culturalmente, mas sim espiritualmente.
Enquanto alguns movimentos religiosos crescem e
ganham importância, muitas pessoas estão abandonando Mas o que se entende por conectividade para
as práticas religiosas institucionalizadas e tradicionais, a divinização do humano? O ser humano tem, cada
devido a não mais preencherem seus anseios íntimos vez mais, a possibilidade de estabelecer conexões (ou
de satisfação e significação da vida. Cada vez há menos relações) de todos os tipos. Num mundo globalizado
espaço para guias ou gurus espirituais, que mostrem “o” e digital, é difícil se viver sozinho ou isolado. Essas
caminho a ser seguido. As pessoas percebem que cada conexões promovem a troca, a partilha, o intercâmbio
um precisa construir e descobrir seu próprio e individual de diversas formas, nas quais um lado não apenas deixa
caminho interior. algo de si para outro, mas também o transforma um
pouco. Essa é a base de todo relacionamento afetivo,
de amizades, de comércio, de partilhas. Água parada
PROPOSIÇÃO DE UMA TESE apodrece, diz o dito popular. Num caldeamento racial, a
troca de material genético é indispensável para a melhoria
da espécie. Toda troca implica uma transformação.
Diante dos fatos a que vimos assistindo e de que
vimos participando no mundo, voltemos à questão Essas conexões promovem em cada indivíduo
original e mote deste artigo: qual a tendência espiritual um aprimoramento e um crescimento, auxiliando na
a ser vivida pela humanidade nesse terceiro milênio? principal conexão em termos individuais: a ligação entre
Lançamos aqui uma hipótese que, longe de ser uma o ego inferior e mortal e sua individualidade imortal,
verdade absoluta, tenta, apenas, ser o pontapé inicial conhecido nas tradições como o despertar espiritual, a
para reflexões individuais por parte de todos que estão vivenciação plena do arquétipo do “Self”, da psicologia
lendo este texto. Ela é a união de conceitos, propostos analítica, a paz interior de você estar conectado com
pelas mais diversas correntes filosóficas e espirituais, você mesmo, com sua verdadeira essência. Essa ideia é
com a verificação do que lemos diariamente nos jornais e antiqüíssima, e todo culto, verdadeiramente, religioso
do que vivemos no nosso dia a dia. A hipótese é a de que tem essa proposta em seu âmago. E o homem, cada vez
vivemos numa época em que, cada vez mais, caminhamos mais, busca o Divino dentro de si mesmo, não mais em
para a Conectividade entre tudo e todos, resultando na templos, profetas ou tradutores do saber divino. Busca,
divinização do humano. em si mesmo, aquilo que o ligará com algo superior
Antes de franzirem o sobrolho e acharem que e transcendental. Fazendo isso, está despertando,
o autor vive numa redoma de vidro frente a todos os internamente, todo o potencial divino que possui, e
problemas, barbáries e injustiças, vistas no mundo, três realizando o milagre da humanização do divino, para que,
ressalvas são necessárias: através da vivência do divino no humano, possa ocorrer a
divinização do humano.
1. Tendência espiritual é aquilo que inspira a
humanidade, que a direciona e que vai se tornando Muitos filósofos apontam essa como uma das
real gradativamente, muitas vezes de forma metas do homem. Ludwig Feuerbach, em 1843, no
imperceptível, e não o que já está realizado, seu “Princípios da Filosofia do Futuro”, escreveu que
conquistado e pleno. A própria palavra já o diz: “a tarefa dos tempos modernos foi a realização e a
tendência; humanização de Deus - a transformação e a resolução da
teologia na antropologia”. Marcel Gauchet, com sua ideia
2. Todo processo de evolução é gradativo, longo, feito de “individualização do crer”, propôs que “a crença diz
passo a passo, na maioria das vezes sem rupturas respeito a um ato de adesão estritamente pessoal, fora da
drásticas e radicais, e, sempre, passando por

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existência comunitária, ou mesmo contra ela”. Segundo vida. E, consequentemente, passamos a ser um dínamo
Luc Ferry, a humanização do divino se dá com a laicidade, irradiador de espiritualidade, amor e sabedoria para a
iniciada na Europa com o Iluminismo, reforçada com o face da Terra.
Positivismo e consagrada com a revolução tecnológica Um pré-requisito para isso é a conexão das mentes,
e científica. Disso decorre uma divinização do humano, a concreta, lógica e racional, com a abstrata, criativa e
ligada ao nascimento da família e do amor modernos, intuitiva. Esse padrão tem como maior exemplo o cérebro
responsáveis pela solidificação de laços sociais humano. Este faz, naturalmente, uma sinergia entre seu
fundamentais para a emancipação do homem, não mais lado esquerdo (racional, analítico) e o direito (sintético,
governado pela tradição ou por obrigações, mas, sim, intuitivo, criativo). Hoje, a humanidade, ainda, tem um
pelo sentimento e pela afinidade. baixo uso de todo o potencial cerebral, principalmente, de
Novamente, frisamos ser essa uma tendência para a seu hemisfério direito.
qual caminhamos, não a situação vigente atual! Quanto mais esse supramental, ou Mental
completo, bafejado pela plena intuição, desenvolve-se,
mais o coração passa a agir, despertando as chamas do
amor verdadeiro, o Amor Universal. Quando o homem
E A NOSSA TAREFA INDIVIDUAL vence as provas evolucionais e atinge um patamar mais
NESSE PROJETO? alto de consciência, passa a agir com o coração em
sintonia com a mente, num perfeito equilíbrio entre
ambos.
Diante de várias tendências coletivas que operam
no mundo, fica a pergunta: e o homem individualmente? Estamos adentrando a tão propalada “Era de
Como se processam essas tendências no homem Aquário”. A humanidade inicia uma nova era astrológica.
individual? O homem é o ponto focal onde se concentram, Muito foi dito, muito foi especulado e, também, muito
hoje, as esperanças de evolução do plano arquetipal do foi iludido a respeito dessa fase, como se todos os
Eterno, da Divindade. A evolução global da humanidade problemas sumissem num passe de mágica, e um mundo
depende da evolução individual de cada homem. Ele perfeito surgisse para os homens. Será uma nova etapa
passa a ser peça chave na evolução do cosmos, pois é de experiências, com seus prós e contras, acertos e
um pontífice, um construtor de pontes, aquele que liga o erros. Mas será uma Era marcada pela fraternidade
passado animal ao futuro divino. universal através da união dos povos, da superação das
diferenças, da convivência fraterna. Daremos mais um
O primeiro passo dessa grande jornada é a passo rumo à visão uraniana de mundo, sintetizada no
transformação do homem, para que possa conectar- ideal da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade,
se ao seu ser mais íntimo, ao seu Deus Interior, ao Fraternidade. A bondade e o conhecimento passam a ser a
arquétipo do “Self”, segundo a terminologia junguiana. verdadeira religião, com a união entre ciência e tradição,
A realização da Eucaristia, ou a união do Eu finito com formando uma terceira via, hoje, já aventada por alguns
o Cristo Interno, é o passo primordial para a elevação da pensadores do mundo e denominada de “Metaciência”
humanidade. O homem passa a ser o verdadeiro Templo (Basarab Nicolescu) e de “Metarrealismo” (Jean
da “religião” do futuro, pois, em seu íntimo, localiza-se Guitton).
o “Sanctum Sanctorum”, onde vibra a chama viva da
Consciência Humana ou seu Princípio Crístico ou Atmã.
Através do autoconhecimento, vamos descortinar
o caminho que nos levará à nossa verdadeira
essência. Então, passaremos a viver nossa verdadeira
individualidade, nossa verdadeira vida, nossos mais
reais anseios e propósitos, em sintonia com a nossa
Mônada, Tríade Superior ou o Espírito no homem. Nesse
momento, estaremos conectados com o sentido da vida, o
que, junto com a alegria, é inerente a essa nova forma de

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Assim, conectado com sua essência interior, com algo maior, como um computador, que mantém
o homem, também, conecta-se com a Terra e com a suas características e amplia-as ao se conectar numa
natureza; passa a se integrar de forma holística ao meio rede. Expandimos nossas capacidades e, graças a isso,
que o cerca. Esse sentimento de união com o Todo podemos fazer muito mais coisas. Passamos a “operar
desperta o verdadeiro sentido de Humanidade, pois aí, em rede”, ou a sermos parte de algo maior. Como nos
efetivamente, ele se sente encaixado e fazendo parte disse Pierre Weil, “o homem passa a ser o elo entre
de uma família global, de um todo maior, que tem uma o invisível (abstrato) e o visível (órgãos sensoriais)”.
função definida dentro de um todo maior ainda, do qual Passamos a ser muito mais do que simples homens,
ele faz parte. E, como consequência natural disso, brota tornamo-nos algo maior, mais completo e mais sublime:
em si a Compaixão e o Amor Universal. Seus atos não tornamo-nos partes da grande família humana na Terra.
são mais individuais, mas pautados dentro dos atos da REFERÊNCIAS
hierarquia. Não por obrigação, mas pelo sentimento de
amor, que une todos os seus membros, como uma grande 1. FEUERBACH, Ludwig. Princípios da Filosofia do Futuro.
família cósmica. Lusosofia Press, 2008.
2. FERRY, Luc; GAUCHET, Marcel. Depois da Religião. Difel
(Brasil), 2008.
CONSIDERAÇÕES FINAIS 3. FERRY, Luc. O Homem Deus. Difel (Brasil), 2007.
4. LÉVY, Pierre. Filosofia world: o mercado, o ciberespaço,
a consciência. Instituto Piaget, 2000.
Procurou-se, neste texto, fazer reflexões sobre
indícios, caminhos e horizontes, que mostrem a 5. WEIL, Pierre. Rumo à nova transdisciplinaridade.
conectividade como um apanágio em nossas vidas, Summus Editora, 1993.
e como ela nos conduz para um patamar superior,
divinizando o homem. Sem dúvida alguma, o homem
caminha, cada vez mais, para aquilo que chamamos
de “a Era das Conexões”, onde as partes se conectam
para formar algo muito maior que a simples soma delas.
Como última reflexão, cabe, aqui, lembrar o sentido
do termo conexão. Segundo o dicionário Houaiss,
conectividade significa a capacidade ou possibilidade de
operar em um ambiente de rede. Conectivo é o que une
uma coisa à outra, e conectar é unir, ligar. Quando nos
conectamos a algo, não perdemos nossa identidade para
nos tornar outra coisa, mas sim passamos a comungar

Fevereiro - Maio/2012 09
A CULTURA, O SUBLIME E A EUBIOSE
Laudelino Santos Neto

Pensar a SBE a partir da articulação entre sublime, cultura e eubiose é refletir sobre as condições
individual, grupal e institucional do estar-no-mundo para, em seguida, inserir-se, conscientemente,
no Pramantha e ter condições melhores e maiores de ser-no-mundo.

A articulação dos conceitos de sublime, cultura e


eubiose é importante para entendermos o trabalho da
SBE – Sociedade Brasileira de Eubiose e, por analogia
e extensão, de outras instituições iniciáticas. As
abordagens que expressaremos neste texto, visam a nos
tirar de uma região de conforto contemplativo, algumas
vezes, provocado não por uma beatitude pós-sabedoria,
mas sim, por um encadeamento de platitudes, que
podem transformar o processo iniciático num manual de
autoajuda politicamente correto.
Pensar a SBE a partir da articulação entre sublime,
cultura e eubiose é refletir sobre as condições individual,
grupal e institucional do estar-no-mundo, para em
seguida, inserir- se, conscientemente, no Pramantha e ter
condições melhores e maiores de ser-no-mundo. Não é
uma jornada fácil e confortável. Significa nos livrarmos,
paulatinamente, de identificações maiávicas que, apesar cena  a noção do homem educado, culto, inserido numa
de  essenciais para a constituição da nossa anterior e atual  ordem racional e politicamente construída.
subjetividade, devem ser deixadas para trás. Na Inglaterra, berço das transformações sociais,
Ao mesmo tempo, temos que inventar novas e políticas, econômicas e religiosas, que marcam o fim
nelas focar, num trabalho de facilitação da travessia da Idade Média e o início da Idade Moderna, começa a
para o Quinto Sistema de Evolução. Paradoxalmente, surgir, no início do século XVIII, o termo “cultivation”
o ingrediente mais difícil de introduzir nesse labor para expressar as noções de cultura, então, vista como
alquímico é a alegria. O sofrimento desnecessário, ainda, um desenvolvimento subjetivo e harmonioso do espírito
é um forte estruturante de nossas existências. humano e, também, das suas diversas faculdades.
No mesmo século XVIII, aparece, na Alemanha, a
palavra “kultur”, no sentido de refinamento espiritual,
A Etimologia do Termo Cultura enobrecimento de toda uma sociedade, e, praticamente,
todos os outros significados, hoje, atribuídos à “cultura”,
No Ocidente, o termo “cultura” origina-se do latim em sua extensão social e coletiva.
“culturae”, que quer dizer cultivar, cuidar, e está ligado, Existe, ainda, outro valor semântico de cultura,
inicialmente, ao trabalho agrícola. Mas, com o passar voltado ao cultuar dos Deuses, rememorar os eventos
do tempo, amplia seu significado, abrangendo, então, o e fatos importantes da vida, das gerações, dos
sentido de dois vocábulos gregos: o primeiro é Geórgia, antepassados. É uma espécie de atualização dos mitos no
que quer dizer a cultura do campo, as lides, relativas momento presente, fazendo, com isso, uma espécie de
à agricultura. O outro é mathemata, significando renovação dos compromissos do cotidiano, do presente
conhecimentos adquiridos, o acervo de saber de um com um passado muitas vezes idealizado.
indivíduo, de uma sociedade.
Na Idade Média, há uma mudança na utilização
das palavras. “Colere” vai, paulatinamente, caindo em
desuso, e dois novos vocábulos começam a aparecer, num
reflexo das mudanças sociais, que surgem para expressar
a ideia de “cultura – humanitas” e “civitas”, pondo em

Fevereiro - Maio/2012 10
A Concepção Clássica A Concepção
Contemporânea de Cultura
de Cultura

A concepção contemporânea
A concepção clássica de cultura,
de cultura – entendam-se
abarcando visões da antropologia,
contemporâneos, os últimos 50 anos
economia, política, sociologia, que
– aproxima-se muito do conceito de
começa a partir do século XVIII com
civilização. Os dois praticamente se
o termo kultur, na Alemanha, de uma
misturam, e é impossível pensar um
forma ou de outra, ainda, permanece
sem o outro. Pode-se, então, conceber
majoritária  nos tempos atuais. É a que
a cultura/civilização como um
se organiza a partir de uma estrutura
complexo de conhecimentos, crenças,
binária em que cultura se opõe à
artes, moral, hábitos, costumes e
natureza, ou, se preferirem, cultura x
capacidades, adquiridos pelos homens
natureza.
como membros de uma sociedade. Para citar, apenas,
Por esse raciocínio, em determinado momento de sua um dos intelectuais contemporâneos, que pensaram
evolução, o antropóide se desvia, entra em conflito com a de forma inovadora a cultura, sublinho o antropólogo
natureza em geral e com a sua específica. Torna-se, então, francês Claude Lévi-Strauss, um dos fundadores do
um “inadaptado”. Karl Marx usa, para tal, a expressão estruturalismo, que vê a cultura como um sistema de
alemã “mängel wesen”. Literalmente, o primeiro termo signos. Para ele, toda cultura pode ser considerada um
significa “falta”, e o segundo, “ente”, “existência”. Quer conjunto de sistemas simbólicos, em que se situam, como
dizer que, em determinado momento da evolução do mais importantes, a linguagem, as relações econômicas,
homem, ele se torna um ser, um ente, em que falta alguma a arte, a ciência, as relações matrimoniais – em torno das
coisa, por isso mesmo, não conformado, inteiramente, à quais se organizam os parentescos – e a religião.
natureza.
É importante salientar que o fundador da
Por lhe faltar uma conexão completa com a natureza, antropologia cultural, Claude Lévi-Strauss, concebeu
ao contrário de outros mamíferos e animais em geral, o suas teorias após estudar a cultura dos índios bororos,
homem é, então, capaz de se produzir separadamente quando de uma estada no Brasil, nos anos 30, época em
da natureza, quer dizer, produzir-se como um ser. Com que foi professor da recém-inaugurada Faculdade de
isso, também, é capaz de produzir seu próprio mundo, Letras e Artes, embrião da futura USP – Universidade de
dissociado da natureza, de todo o resto. Isso tem São Paulo.
profundas implicações, porque produzir-se a si próprio e
Como um pequeno exercício para compreendermos
seu próprio mundo significa, outrossim, a capacidade de
melhor o trabalho dos atuais Dianis Planetários e sua
apropriar-se do mundo bem como, de si mesmo.
repercussão na Face da Terra, trocaremos a palavra
Talvez, nessa falta, nessa ausência, esteja o primeiro cultura pelo termo Pramantha. Com isso, veremos que
passo da criação da Hierarquia Jiva... e da caminhada a concepção estruturalista de Lévi-Strauss vale para
para o Quinto Sistema de Evolução... os dois, possibilitando-nos afirmar que, no interior do
E como é próprio do Humano a caminho do Pramantha, os sistemas simbólicos se organizam em
Divino, surgem as primeiras contradições, os primeiros rede, sem qualquer hegemonia de uma Linha em relação
paradoxos. Um deles é que a cultura, sempre, busca à Outra. Devemos, então, respeito e veneração a todas
a universalidade, mas carrega, no seu interior, a elas, inclusive para aqueles aspectos que se apresentam
diversidade, a especificidade. Ao deixar o determinismo com linguagens materialistas e ateias.
animal da natureza, o homem “em falta” cria os
fenômenos culturais e passa, ao mesmo tempo, a tecer
sua própria história.

Fevereiro - Maio/2012 11
A Desconstrução A Sublimação como
Pós-Moderna Processo Fundador da
Cultura

Mas nem tudo são flores na época


contemporânea. O “destruens et A sublimação é uma palavra
construens” permanece como uma que Freud foi buscar na química,
lei universal. As finalidades místicas, na antiga alquimia, e, talvez, até no
religiosas ou cívicas das manifestações conceito de sublime, de Aristóteles,
culturais, praticamente, desvaneceram- para explicar o processo em que a
se, principalmente das obras de arte. pulsão de vida, sexual, é desviada e
Sublime é aquilo que é elevado, transformada em produtos culturais
Foram substituídas por uma espécie
grandioso, que está acima de tudo e – tanto artísticos como científicos
de esteticismo puro, que se basta a si
de todos. e tecnológicos. A questão da
mesmo, e pela chamada comunicação
de massa, cada vez mais estruturada sublimação é tão importante, que,
como espetáculo. O historiador inglês Arnold Toymbee, sem ela, não poderia existir o que se conhece hoje como
usa pela primeira vez, a expressão pós-moderno para civilização.
indicar essa nova vaga de desconstrução dos cânones Sublime é aquilo que é elevado, grandioso, que
estabelecidos. está acima de tudo e de todos. Na Grécia Antiga,
Os valores da Renascença e do Iluminismo do século principalmente em Aristóteles, o sublime é o tipo de
XVIII, tais como o predomínio da razão, a liberdade conhecimento que ultrapassa a razão humana, a lógica,
política, os progressos científicos e tecnológicos, o e só é percebido por uma espécie de elevação espiritual,
desenvolvimento social e a ampliação da igualdade divina. Como decorrência dessa linha de pensamento, os
foram postos em questão. O pós-moderno coloca as alquimistas chamavam de sublimação a transformação
manifestações culturais como obras do acaso e da do chumbo em ouro. Em química, até hoje, sublimação é
indeterminação (influência da física quântica), da a transformação do estado sólido, diretamente, em estado
irracionalidade e do relativismo. E a grande contradição gasoso.
desse pós-modernismo é que foi construída uma Um aspecto curioso do processo sublimatório
sociedade, ao mesmo tempo, de massa e individualista. é que ele opera com duas grandes inovações. Na
Outros encaram pontos positivos na sociedade primeira, consegue desviar a energia da pulsão do seu
pós-moderna, que ao invés de abolir o racionalismo e destino natural para a criação de novos fatos culturais e
o humanismo, revisitam-nos com novos instrumentos científicos, de toda e qualquer monta. Na segunda, fura
teóricos e práticos. Isso ocorre, hoje, principalmente, o bloqueio dos universos da cultura, de tudo que está
na arquitetura e na indústria da moda. Ao mesmo aceito e consolidado, e imprime a marca individual do
tempo, já se fala numa nova “episteme” (conjunto de criador. Sendo muito singular, a criação carrega em si
conhecimentos de determinado momento histórico) um “quantum” de desafio e revolta contra o estabelecido,
ocidental se organizando, em que o princípio de numa espécie de anarquia visionária.
autoridade centralizadora é substituído por uma mescla Em sentido contrário, uma situação extrema de
de indeterminação, pluralismo, ecletismo, aleatoriedade, império absoluto de conceitos universais, não há espaço
paródia e ceticismo em face das antigas criações para as manifestações individuais, consequentemente, é
espirituais e dos comportamentos tradicionais de grupo. impossível haver sublimação. Por isso mesmo, a maneira
Nesse cadinho de transformações surge, entre outras, mais rápida de se cair na barbárie é impor, de forma
uma nova classe dirigente, o gestor ou “decisor”, os ditatorial, modos de pensar e agir. Todo ditador está a
novos executivos de empresas, os altos funcionários de serviço da pulsão de morte.
órgãos governamentais e, também, das organizações não- A sublimação, também, pode ser entendida como
governamentais, das universidades, etc. a aplicação, a transferência, o deslocamento da energia
para outro campo, para outro local, em que são possíveis
realizações socialmente mais úteis, mais valiosas. Com

Fevereiro - Maio/2012 12
isso, a sublimação tem tudo Sublimar não é reprimir,
a ver com as forças ligadas à não é recalcar. Vive, em
vida, à evolução e age, também, ledo engano, quem reprime
como um inibidor das forças suas energias, que podem
de destruição, que começam, se transformar em objetos
sempre, com um discurso singulares, artísticos,
voltado à extinção da diferença, científicos, tecnológicos,
do individual, que a pretexto da imaginando que se está
volta à paz e à harmonia, leva- sublimando e, com isso,
nos ao silêncio terrível do fim da chegando mais perto do divino.
vida, do inorgânico. Sublimar não é reprimir, não é recalcar. Sublimar é a grande saída
Vive, em ledo engano, quem reprime suas humana para a explosão de
energias, que podem se transformar em vida de origem universal.
Sublimação, Alegria objetos singulares, artísticos, científicos,
e Prazer tecnológicos, imaginando que se está Em Carta-Revelação de 1º
sublimando e, com isso, chegando mais de agosto de 1951, JHS cita um
perto do divino. Sublimar é a grande saída livro que se encontra na Secção
Além de contribuir para humana para a explosão de vida de origem 7, códice 17, da Biblioteca de
o melhor entendimento dos universal. Duat, intitulado Sublimatum
processos criativos, através – Le Coeur et La Croix, escrito
do conceito de sublimação, pelo Jesuíta e grande pensador
resgatado por Freud da química, a psicanálise foi mais Rosa-Cruz – e, também, Adepto - Louis Lerov, que se
além em apontar sua origem, muito diferente do existente apresentou sob o pseudônimo de Giuliano Benfica. Essa
em termos de senso comum. O nascimento da cultura obra é de grande transcendência mística e revela os mais
e da civilização teve um custo para o antropóide. Ele se profundos aspectos espirituais da sublimação.
tornou menos animal e mais humano com o sacrifício da
realização de parte dos seus instintos.
A Eubiose como Método de
Mas ao contrário do que pensam muitas pessoas,
Transmissão/Invenção
sublimação não tem nada a ver com recalcamento e
repressão. Estas são essenciais para o viver em sociedade,
para as organizações humanas funcionarem. Podemos Nascida na transição do Quarto para o Quinto
dizer que se relacionam com o princípio de realidade, com Sistema de Evolução, a Eubiose deve ser vista e operada
as condicionantes e determinantes da estruturação do através de vários vetores. Escolhemos, para esse trabalho,
ego, da personalidade. Mas a conformação à sociedade, os relativos à transmissão do conhecimento e da invenção
à socialização, para a qual o sujeito paga o preço da de uma nova cultura, de uma nova civilização, como
alienação da sua singularidade, não gera o objeto oriundo estratégia para antecipar 3005.
da sublimação, o novo, o inusitado, o sinalizador do
Quinto Sistema de Evolução. A primeira questão que se nos apresenta é: transmitir
o que? Uma das respostas possíveis está na própria
As questões ligadas à cultura e à civilização, história da Sociedade Brasileira de Eubiose. Transmitir a
como tudo que é complexo, têm suas contradições e Tradição Iniciática das Idades. Mas, no contexto do século
ambiguidades. Uma dessas é a repressão ser origem XXI, com todos os avanços do conhecimento humano,
da cultura e, ao mesmo tempo, seu desenvolvimento propiciados pela presença dos Dhianis Planetários,
depender de seu oposto, a sublimação. Sublimação é algo devemos ultrapassar o método e o conteúdo puramente
mais além, e sua origem está no chamado princípio de teosófico.
prazer, na alegria de criar, de transformar o mundo pela
concepção de um novo objeto, ou conceito nunca antes Como fazer? Essa é a próxima questão que se
pensado. apresenta. A cultura contemporânea nos dá indicadores

Fevereiro - Maio/2012 13
seguros. Devemos revisitar os conhecimentos seculares e Mas o processo iniciático, apesar de não
fecundá-los com as novas descobertas e, num movimento poder prescindir do conhecimento, é algo
dialético, também, sermos fecundados por aquilo que eles mais profundo. Ele visa, em última análise, à
possuem de essenciais. utilização de uma linguagem eubiótica bem
Isso implica dar nova vida ao sagrado, trazê-lo ao contemporânea, a inserção consciente do
nosso cotidiano para uma transformação recíproca. discípulo no Pramantha, a transformar o atual
Pressupõe não uma simples adoração de textos sagrados, estado de consciência humana em andrógina,
mas uma interpretação hermenêutica do passado à luz do profética, integrada com os construtores do
saber atual. Ou seja, temos que conhecer, sistematizar e Quinto Sistema de Evolução.
organizar tanto o passado como o presente.
Para o futuro, para 3005, para o Quinto Sistema de
Mas, até o momento, nesse item, estamos tratando Evolução, é impossível a revisitação. Mas o processo,
de informação, conhecimento, administração de dados. estruturalmente, pode ser o mesmo. A partir do passado
Ou seja, como as redes de transmissão se organizam no transformado e do presente eubiótico trabalhado,
interior da sociedade e, também, em nossas estruturas podemos imaginar, inventar o futuro. E essa invenção,
cognitivas. Mas o processo iniciático, apesar de não poder necessariamente, terá, como primeiro ponto de partida,
prescindir do conhecimento, é algo mais profundo. Ele criar ambiências para que a sublimação aconteça em
visa, em última análise, à utilização de uma linguagem sua plenitude, numa vertente psicodinâmica, como
eubiótica bem contemporânea, a inserção consciente do denominavam os professores Sebastião Vieira Vidal e
discípulo no Pramantha, a transformar o atual estado de Margarida Estrela, saudosos orientadores dos jovens da
consciência humana em andrógina, profética, integrada SBE na segunda metade do século passado. O segundo
com os construtores do Quinto Sistema de Evolução. é trabalhar os conteúdos revelados pelo seu fundador,
A SBE, no século XXI, deverá, então, levar em conta Henrique José de Souza, e transformá-los, dentre outras
as novas questões relativas à transmissão e, também, coisas, em matrizes operacionais de ação.
repensar o processo de iniciação, que não pode ser mais Essa invenção cotidiana se transformará, então,
focado numa volta à Idade de Ouro idealizada, mas sim, num novo processo iniciático, que se estrutura num
na contribuição humana para a construção do Quinto compartilhamento de novos estados de consciência,
Sistema de Evolução. surgidos não da mera sacralização de discursos passados,
A nossa proposta é estender o presente em direção mas de experiências, de trabalhos concretos. E aqui
ao futuro e ao passado. Deste último já abordamos aparece mais uma contradição, mais uma ambiguidade:
alguns aspectos, como a revisitação do antigo com as a consciência abstrata é construída a partir do trabalho
ferramentas contemporâneas para aprimorar o processo concreto, que passa a ter valor iniciático, se coadunado
de transmissão do conhecimento. com a inserção consciente no Pramantha.

Fevereiro - Maio/2012 14
A LENDA DO FAROL
Os Sete Saberes de um
Educador
Dirceu Moreira

“Jamais haveria evolução se o Verbo se manifestasse proferindo, sempre, as mesmas palavras.”


(Professor Henrique José de Souza.)

O educador, como porta-voz do conhecimento, deverá estar atento para não cair na mesmice, pois o
mesmo conteúdo de hoje, talvez, tenha que ser dado de forma diferente em outra ocasião. Podemos
chamar a isso de educação continuada e inovadora.

A busca pelo conhecimento, sempre, foi e será a única durante anos seguidos, deu-se a primeira revelação de um
forma de o ser humano sair da prisão do apedeutismo, conhecimento.
que tanto o torna dependente e manipulado por aqueles Foi um momento mágico, pois, de uma pequenina
que, possuindo tal conhecimento, esquecem-se estrela perdida na imensidão do cosmo, lançou-
da Lei que os rege. Tal Lei não permite, jamais, se um facho de luz que, como um farol, iluminou
que esse conhecimento seja segregado de muitos e projetou algumas palavras escritas na pedra à
em detrimento de uma minoria. O preço disso sua frente, onde ele pôde ler: “esta é a pedra do
será inexoravelmente caro, pois se constitui conhecimento, ligado à arte de transformar o mais
em crime de lesa-humanidade, ofendendo ao insano e vil metal em ouro, utilizada pelos antigos
próprio Criador que o disponibiliza a todos, alquimistas”.
indistintamente, a fim de que não aconteça o que
disse o grande baiano Rui Barbosa: “Há tantos Tome muito cuidado, porque nada disso
burros mandando em homens de inteligência, acontecerá sem a sua transformação interior,
que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma afinal, todos esses conhecimentos, somente, serão
ciência”. Para que isso não aconteça, esperamos sabedoria depois de tê-los colocados em prática,
que se profetizem as palavras de outro baiano, Castro caso contrário, não passarão de um livro cujas páginas
Alves: “Oh! Bendito aquele que semeia livros... |livros à foram arrancadas.
mão cheia... | E manda o povo pensar! | O livro caindo Passaram-se muitas luas para que o ermitão pudesse
n’alma | É germe - que faz a palma, | É chuva - que faz o vivenciar e iniciar sua jornada interior; como peregrino,
mar”. Eu complemento dizendo que livros são os faróis vagou por muitos caminhos.
do conhecimento iluminando as mentes e os corações dos
homens como bênção divina. De retorno ao alto da montanha, contemplou,
novamente, o céu, sendo que a segunda estrela
Para falar desse mal apedêutico, que acomete escolhida, também, exigiu dele muito tempo de reflexão,
uma grande parcela de pessoas inscientes na mas, quando se distraiu com todas aquelas
humanidade, contarei o fato através de uma possibilidades de miríades de estrelas, o fato se
lenda criada, especialmente, para este caso. repetiu.
Certa vez, no interior do sertão baiano, vivia O farol ilumina, novamente, a pedra na qual
um desses ermitões habitando no alto de uma costumava sentar-se. Então, pôde ler: “esta é a
pequena montanha; todas as noites, punha-se a segunda pedra, que traz o conhecimento sobre
observar e contar estrelas. todas as artes, que inspiraram os grandes seres
Ele ouvira dizer, pela boca de um sábio, que a iluminarem esse planeta através da música,
vivia não muito distante dali, que as estrelas pintura, canto, dança (artes em geral). Seja
poderiam lhe revelar grandes segredos da vida e cauteloso para não deturpar sua essência,
“enrique-SER” seus conhecimentos. principalmente, se o caminho da primeira estrela
não tiver sido percorrido com êxito, para conduzi-la à
Seguindo as palavras daquele mestre, ele grudou seu sua autotransformação. Assim, a magia da arte voltar-
olhar no céu todas as noites e, somente, depois de muito se-á contra você. Nunca é demais avisar o que os grandes
tempo de perseverança, subindo e descendo a montanha

Fevereiro - Maio/2012 15
Mestres, sempre, recomendaram: olhos e ouvidos conhecimentos, registrados pelo tempo afora.
alerta, porque a lei de polaridade espreita por Procure ler muito para que possa cumprir o que
todos os lados, e tudo tem seu oposto. Todo ser lhe trouxe a 4ª estrela, e tudo que produzir o faça
humano leva, em si, imanente, a tendência e a com ética e com estética da sublime arte do bem
força para transformar-se em algo superior; viver, assim, estará transformando a si mesmo,
jamais se esqueça dessa lei de evolução, para alquimicamente”.
que não desqualifique as pessoas. A quem Foram tantas as luas que se passaram, que
encontrar pelo caminho cumprimente-o dizendo Maquiavel
nem mesmo o relógio do Sol poderia registrar
NAMASTÊ: O Deus que habita em mim, saúda o desaparecimento do ermitão e, muito menos,
o Deus que habita em você. Eis aí a síntese dos o que ele fez em sua caminhada pelo mundo. 
relacionamentos”. Num lindo dia, daqueles em que o verde cobria
Conta-se que, tempos depois, o ermitão todo o semiárido baiano, o alto da montanha
produziu muitas obras de artes e, só depois de um estava, ainda, mais lindo para recebê-lo. Ao
tanto de luas, retornou ao seu lugar de origem. cair da noite, pôde vislumbrar que havia cinco
No seu terceiro encontro, no alto da estrelas cintilantes, que se destacavam no céu.
montanha, chovia muito, mas ali ele permaneceu Ali sentado, recebeu sua sexta revelação, e uma
e, só no terceiro dia consecutivo, deu-se a estrela projetou, novamente, aquele farol de luz
projeção do farol de luz trazendo-lhe outra tônica esplendoroso, possibilitando-lhe que, naquele
do conhecimento: instante, pudesse ler a seguinte mensagem: “sou
a essência que lhe trago o dom de aprender a
“Preste atenção, esta é sua terceira revelação: pensar, com isso, poderá, novamente, “re-ligar-
para que as duas anteriores sejam vivenciadas se” ao Criador, não a confundindo com a religião
por você, será preciso que atue no mundo de forma comum: Eu sou a filosofia e a teogonia, teosofia
ética, estética e politicamente correta”. que dá ao homem as possibilidades de acessar sua
Nessa altura dos acontecimentos, o ermitão consciência superior, conhecer o céu e a terra e seus
começou a perceber que, a cada passo, as coisas mistérios (cosmogênese e antropogênese). Com
ficariam mais difíceis, porém, também, isso, poderá mergulhar para dentro de si e tornar-
sabia que, para “enrique-Ser”, era se mais criativo. Junto comigo, trago uma
preciso ter a riqueza não só do ouro, mas das minhas irmãs, a 7ª estrela, que lhe
também do saber SER.  revelará a arte da cura por um ramo do
conhecimento, ainda, pouco praticado
O tempo passou depressa, e a quarta pelos homens – a medicina teúrgica
revelação lhe veio de súbito quando (palavra de origem grega, que significa
descia da montanha. E, quando menos Obra, Magia Divina)”.
esperava, observou novamente um
clarão. Voltou, então, a sentar na pedra, e O ermitão ficou, completamente, em
assim foi registrado: “existe uma lei da sublime mecânica êxtase, no entanto percebeu que todo seu aprendizado
celeste que se projeta em todas as coisas; o homem não fazia sentido algum isoladamente. Sua
a denomina de ciências exatas. Ela tem inspirado, visão, ainda, era fragmentada com um monte
nos seres humanos, grandes possibilidades de de disciplinas, que não se conectavam, não
descobertas e força impulsionadora da tônica do interagiam umas com as outras. Novamente, a
progresso tecnológico. Antes que possa retornar presença de “Cronos”, o deus do tempo, fez um
ao seu refúgio, como nosso tempo é curto, peço único dia da vida do ermitão ser uma eternidade e
que nada tente fazer sem antes compreender o o atormenta tanto, que ele retornou à montanha
que lhe ensinará a 5ª estrela, que vem trazendo o e pos-se a pedir, incessantemente, que as estrelas
dom acumulado ao longo de gerações, contido na lhe dessem a chave do conhecimento secreto, para
literatura, através de livros dos mais diferentes resolver tal enigma.

Fevereiro - Maio/2012 16
Neste dia, de tanto suplicar (e a súplica de um o ermitão era conhecido como Glorioso, o mesmo
sertanejo sábio tem o poder de uma medicina teúrgica), significado para o nome Euclídes, assim, também, todos
fez jus a seu pedido, caso semelhante ao que acontecera os educadores são gloriosos, e suas ferramentas são os
a Esculápio de Epidauro, que renasceu das cinzas, ou, diversos ramos do conhecimento, verdadeiras Cunhas,
mesmo, ao estalo de Vieira (padre Antônio Vieira). capazes de erguer, remover e transformar os maiores
Eis a revelação provinda da 8ª estrela: “eu sou o poder pesos da ignorância do ser humano.
sintetizador, unificador e integrador de todas as revelações Educação, família e sociedade é uma tríade perfeita
que você recebeu das sete estrelas, minhas projeções. Para à medida que cada uma delas cumpra seu verdadeiro
que possa “enrique-SER”, ou seja, aplicar o conhecimento papel. Que a família o faça através do amor, a escola
recebido, deverá vivenciar a metáfora: um por todos e todos pela inteligência e a sociedade pelo trabalho. Amor sem
por um, não a luta pelo poder, mas a luta pelo dever. Daqui sabedoria cria protecionismo sem os devidos limites.
pra frente, a jornada é sua, e lembre-se sempre: a quem São Mestres e pais bonzinhos, não justos. A inteligência
muito for dado, muito lhe será cobrado”. sem amor torna o homem distante e frio em seus
Conta-se que, depois de muito tempo, o ermitão relacionamentos, mas, também, amor e sabedoria sem o
casou-se e teve oito filhos, e os batizou com o nome trabalho (ação) não gera, absolutamente, nada; é como
dos sete ramos do conhecimento da Árvore da um livro fechado e trancado numa biblioteca. Escola,
Vida, que lhe fora revelado. Tornou-se um grande família e sociedade constituem o palco da vida onde se
pensador e, hoje, caminha pelo mundo, ensinando seu desenrolam os saberes, sintetizados pelas revelações das
método de aprendizagem denominado de “o farol do estrelas; em suas interrelações, é que se dá a harmonia
conhecimento”, divulgando que todos os saberes são tão desejada de todos os educadores, para que a educação
analógicos. não seja mais o bode expiatório de toda sociedade,
porque nosso país é como disse Jorge Amado: “Eu sou
Embora de conteúdos diferentes, encontramos, muito otimista, muito. O Brasil é um país com uma força
nesses saberes, semelhanças, inclusive, contendo o bem, enorme. Nós somos um continente, meu amor. Nós não
o bom e o belo, para serem integrados de forma eclética e, somos um paísinho, nós somos um continente, com um povo
sincreticamente, aplicados no dia a dia de cada um. Sem extraordinário”.
dúvida alguma, trata-se de uma visão sistêmica, integral
e holística, na qual as múltiplas disciplinas, quaisquer Antonio Conselheiro disse, por volta de 1900: “Há
que sejam, interagem de forma multidisciplinar, inter de chover uma grande chuva de estrelas e aí será o fim
e transdisciplinar. O farol do conhecimento é móvel do mundo”. Primeira tradução: é o fim, a morte pela
e, como tal, gira 360 graus, iluminando a escuridão transformação do ser humano, através das estrelas do
provocada pelo apedeutismo, que tanto atrasa o conhecimento, citado na lenda, tendo à frente a educação
desenvolvimento do ser humano. A educação é o farol como farol a iluminar o grande espetáculo da criação
do conhecimento, cujo potencial vai além do farol de Divina, mas, também, pode ser o aviso, há tempos,
Alexandria. A educação não tem fronteira, é a fonte de anunciado pelos grandes sábios. Ou mudamos pelo amor,
toda Criação, e os limites, a ela impostos, são produtos ou pela dor, mas mudamos.
da ganância dos homens, para dominar os povos. Esse Essa lenda é uma homenagem a todos os educadores
conhecimento é incorruptível e volta, sempre, ao seio dos baianos e a todos os educadores brasileiros, que, com
homens, como fez Prometeu ao nos entregar as chamas dignidade, fazem da educação seu principal baluarte.
desse fogo (Este prometeu e cumpriu). A educação é o “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, disse Euclídes
farol do conhecimento; os educadores, suas cores e luzes; da Cunha. Os educadores, além de fortes, são, também,
e as sete estrelas são suas múltiplas disciplinas. Cada persistentes e sábios, para que possam transformar
escola possui um farol do conhecimento, réplica perfeita pequenas estrelas em grandes Sóis. Há uma condição
daquele contido nas estrelas. Todas as escolas possuem “sine qua non”, para que tudo isso possa acontecer, que
a mesma essência, e nenhum educador pode arrogar o se encerra na frase do Prof. Henrique José de Souza: “O
direito de dizer que a sua, ou seu método, é melhor do homem não é sábio porque sabe, ele é sábio porque ama.
que o outro, e, sim, compartilhar suas experiências e Em essência, esse amor é pleno de sabedoria”.
qualificar o que os outros estão fazendo. Assim como

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A LIDERANÇA NO TERCEIRO MILÊNIO
Silvio Piantino

“Reconstruir é o brado que nos compete! Sim, reconstruir o homem, o pensamento, a moral, os costumes;
reconstruir o lar, a escola, o caráter, para que o cérebro se transmute ao lado do coração. Só assim a
humanidade se tornará digna do estado de consciência exigido pela nova civilização.”
(Professor Henrique José de Souza.)

É imperioso que esse brado da reconstrução encontre INTRODUÇÃO


eco na mente e no coração de cada membro da Sociedade A procura da liderança é constante e viva em todos os
Brasileira de Eubiose e de cada cidadão do mundo, sintonizado setores da sociedade. No entanto, a incapacidade de preencher
com os ditames da Era de “Aquarius”. Urge que cada um a riqueza de atributos e comportamentos, desejados àqueles
desses assuma a liderança de uma parcela da humanidade, de que se propõem à posição de líderes, resulta na falta de
forma a satisfazer as exigências transformacionais do novo liderança capaz e eficaz, nos governos, nas indústrias, nas
Ciclo. empresas, nas religiões, nos esportes, na educação, bem como
Entendemos, no entanto, que essa liderança deva se nas demais formas de organização humana.
mostrar hábil e eficiente, encontrando-se, necessariamente, A liderança tornou-se quase uma obsessão. Os livros se
embasada em técnicas e conceitos testados e validados amontoam nas prateleiras das livrarias e, a cada mês, mais
através dos tempos. Percebemos, ainda, que a reconstrução e mais títulos são acrescentados. Hoje, 02 de dezembro de
do homem, do pensamento, da moral, dos costumes, do 2011, digitando “leadership”, no Google, em 26 segundos,
lar, da escola, e do caráter passa, necessariamente, pela fomos brindados com, aproximadamente, 123 milhões de
estreita vereda da significação, do autogerenciamento e do referências!!!
autoconhecimento.
Bernard Bass e Ralph Stogdill (1990) catalogaram 7.000
Assim, iniciamos uma série de artigos que apontam como estudos sobre liderança. Penner (2001) pressupõe que esse
objetivo abordagens e tendências históricas da liderança, número já deveria ter ultrapassado a casa dos 12.000 estudos.
fomentando o relacionamento de Liderança com Significação, E estamos aqui falando de trabalhos que introduzem ou
Autogerenciamento e Autoconhecimento, de modo a se propõem algo de novo nesse assunto, ou seja, não são, apenas,
tornarem cenários inseparáveis. Nesse trajeto, reforçaremos coletâneas ou releituras do já realizado.
a conceituação de liderança como um estado dinâmico no
É fato que o evento da liderança existe desde o início dos
domínio espaço-tempo.
tempos. O homem é um ser, essencialmente, social. Assim,
Tomando como ponto de partida a abordagem dos traços, desde o alvorecer das civilizações, sempre, buscou formatos
dos estilos e dos contextos, ultrapassaremos os conjuntos organizacionais, que visassem a fins específicos, fossem
situacionais e o enfoque servil até aportarmos na tão almejada grupais ou individuais. Sabemos que toda ação demanda
Liderança Transformacional. Compartilharemos, entre esforços e, também, que maior probabilidade de êxito teríamos
outras, as ideias e propostas de Bernard Bass, Joseph Host, se lográssemos construir e manter estruturas grupais coesas e,
Maslow, Holander Fieder, até alcançarmos James C. Hunter, uniformemente, direcionadas.
que definiu Liderança como a “habilidade de influenciar
Em qualquer grupo, formal ou informal, cada indivíduo
pessoas para trabalharem entusiasticamente, visando ao bem
desempenha um papel particular e uma função conjunta. Em
comum, inspirando confiança por meio da força do caráter”. E,
qualquer aliança, sempre, aflorará, alguém cujo desempenho e
assim, preparamos o caminho para Viktor Frankl, que colocou
posição são essenciais ao êxito do grupo como um todo. Está,
liderança como um “Relacionamento de estímulo mútuo
assim, caracterizada a liderança como um elemento natural
que eleva os seguidores à condição de líderes de si mesmos”.
e espontâneo da função de influenciar outros para se atingir
Intentamos, com todo esse desenvolvimento, alcançar o marco
objetivos comuns.
sem retorno, onde, unicamente, o irrestrito autoconhecimento
pode nos permitir continuar e alcançar a verdadeira liderança, Toda literatura, sempre, orbita na figura dos heróis,
que tem como base o encontro pleno consigo mesmo. personagens de caracteres especiais, que conduzem outros a
metas específicas. Seres que atuam como espelho, caminho e
meio, para valores oportunos na situação em apreço. Ou, em
outras palavras, líderes.

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Uma pesquisa literária remontando à Grécia antiga, Como objetivos específicos, poderíamos detalhar os
representada por “A República” de Platão, pela “Odisseia” seguintes tópicos:
e pela “Ilíada” de Homero, ou ao extremo Oriente, com sua I. Conceituar e caracterizar a liderança;
epopéia MahaBharata, passando pelos livros do Antigo
II. Apresentar modelos básicos utilizados através dos
Testamento e de todas as outras religiões, irrefutavelmente,
tempos, reforçando a sua linha evolucional;
comprova essa afirmação. O que dizer de seres mitológicos
como Ulisses, Arjuna, Krisnha, Rama, Abraão, Zoroastro, III. Diferenciar Líder e Gestor;
Tupã e outros mais? A história humana está, também, repleta IV. Conceituar liderança como um estado dinâmico no
desses personagens. Quem nunca se inspirou em Gandhi, domínio espaço/tempo;
Júlio César, Aknaton, Marco Polo, Joana d´Arc, Alexandre, o V. Demonstrar a importância da significação na
Grande, Dalai Lama ou Churchill? motivação individual;
Apesar de tão vasto manancial teórico, poucos assuntos VI. Demonstrar a importância do autogerenciamento no
são tão controversos quanto este, não havendo, até agora, um convívio das pessoas;
modelo de liderança universalmente aceito, independente da VII. Demonstrar a importância do autoconhecimento,
época, posição geográfica ou situação avaliada. Cada nova como identificação das limitações e potencialidades, tanto de si
abordagem critica aspectos e reforça partes das anteriores. É como dos outros.
como se cada proponente acrescentasse uma pedra ao edifício
conceitual da liderança, contribuindo, assim, com seu quinhão
para a conclusão do todo. Cremos se explicar a escolha desse tema no diferencial
Fiedler, assim, expressou-se sobre esse tema: “Um estilo que uma liderança adequada, sempre, apresentou em todos os
de liderança não é, em si mesmo, melhor ou pior do que outro, aspectos da vida humana, tanto no âmbito profissional como
nem, tampouco, existe um tipo de comportamento em liderança no pessoal.
apropriado para todas as condições. Dessa forma, quase todo
mundo poderia ser capaz de ter sucesso como líder em algumas Acreditamos, assim, que todo esforço, no sentido de lançar
situações e quase todo mundo está apto a falhar em outras” mais um pouco de luz em tão complexo como relevante tema,
(FIEDLER, 1967, p.115). seria mais que plenamente justificável.
Bernard Bass (1990) afirma, textualmente, que “Existem De forma a atingirmos nosso intento, valemo-nos
quase tantas definições de liderança quantas pessoas que da Metodologia Bibliográfica, Exploratória, baseando-
tentaram definir o conceito”. Já Joseph Rost (1993) vai ainda nos em pesquisas em sites de instituições e organizações
mais longe, afirmando, com um senso de humor ímpar, especializadas nesse assunto. Os artigos e publicações foram
que “Os eruditos não sabem o que eles estão estudando, e os selecionados com base em autores renomados e considerados
praticantes não sabem o que eles estão fazendo”. como autoridades nesse assunto. Entre tais: Bernard Bass,
Sabemos que tudo, na vida, evolui, o mesmo, Joseph Host, Maslow, Holander Fieder, Yukl, James C. Hunter
necessariamente, devendo se aplicar à liderança. Acreditamos e Victor Frankl.
que, nesse terceiro milênio, deveríamos alcançar patamares
relacionais mais elevados, objetivando um processo REFERÊNCIAS
transformacional de si e do outro. Acreditamos que não nos
BASS, Bernard M. Bass, Ruth Bass. The Bass handbook
sustenta mais o mero atendimento de metas e objetivos. Ao
of leadership: theory, research, and managerial applications,
final do processo há de existir, com igual ênfase, evolução e
1990.
engrandecimento humano.
FIEDLER, F. (1967). A theory of leadership effectiveness.
Somos, assim, atraídos pela questão: Qual o caminho a ser
New York: McGraw-Hill
trilhado pelo líder no processo transformacional de si mesmo e
de sua equipe? PENNER, David S. Revisão Literária Sobre Liderança.
2001. Disponível em <http://www.unisa.br/cbel/
Aqui chegamos ao objetivo geral deste trabalho, como
artigos04/09_david_penner.pdf>. Acesso em 25 de agosto de
sendo a identificação de uma postura de Liderança, que prime
2010.
pela transformação holística, grupal e individual, baseada no
tripé: Significação, Autogerenciamento e Autoconhecimento. ROST, Joseph C. Leadership for the Twenty-First Century,
1993.

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E UBIOSE: Consciência da Natureza e
Natureza da Consciência
Alberto Vieira da Silva

“Os chacras em número de sete, como os astros ou planetas, como o espectro solar, etc.,
não são mais do que “as forças sutis da natureza”. Para conhecê-los e
manejá-los é preciso ser um Adepto.”
(Prof. Henrique José de Souza.)

As grandes transformações: sinais e


indícios

A interação entre o ser humano e a Natureza vem


de tempos imemoriais. A partir do momento em que os
homens romperam o elo original, que os ligava às forças
naturais e às demais criaturas, destacando-se destas através
do intelecto, essa mesma interação passou a gerar uma
importante produção artística, literária, filosófica, religiosa
e, mais recentemente, científica. Através da diversidade
humana, essa relação adquiriu, ao longo dos tempos e das
civilizações, aspectos muito diversos, que ora proporcionaram
uma harmonia e proximidade, ora geraram alheamento
e até desarmonia, como é o caso de nossa civilização, – questionarão alguns. O próprio termo “civilização” –
essencialmente, urbana e industrial, completamente originado do latino “civile” (conjunto organizado de indivíduos
divorciada da “Máquina do Mundo”, na cosmovisão ou “cives” vivendo sob leis comuns), agrupados normalmente
renascentista de Luís de Camões em Os Lusíadas. Assim fala a em uma “urbs” (cidade) – fala, claramente, sobre essa
deusa Tétis a Vasco da Gama no alto de uma montanha da Ilha perspectiva herdada da Antiguidade, que o Cristianismo, no
dos Amores, para onde havia sido conduzido para contemplar Ocidente, perpetuou até hoje: o centro conceitual do mundo
a harmonia universal: humano não é a Natureza com o Homem dentro dela; pelo
contrário situa-se num polo oposto dela, fora dela, um “Deus
"Vês aqui a grande Máquina do Mundo, ex machina”, mais com perfil de imperador tirano, sentado
num trono urbano e isolado da realidade humana e natural por
etérea e elemental, que fabricada
elevadas muralhas. Não é sem razão que Fernando Pessoa, em
assim foi do Saber, alto e profundo, um de seus ensaios, sob o raro heterônimo “António Mora”,
que é sem princípio e meta limitada. escreveu: “A Igreja Católica não deriva, não descende do
Quem cerca em derredor este rotundo Império Romano. A Igreja Católica é o Império Romano.” 2
globo e sua superfície tão limada, Por outro lado, mesmo abstraindo as emissões nocivas
é Deus: mas o que é Deus ninguém o entende, de origem urbana e industrial e o acúmulo de lixo nos lugares
que a tanto o engenho humano não se estende".1 mais inesperados, existe algo que denuncia, desde logo, esse
afastamento: o fato de se considerar, com toda a naturalidade,
o ser humano por um lado, e a Natureza por outro, não
Com efeito, segundo diversos estudos realizados será revelador sobre o grau de fragmentação conceitual das
nos últimos anos por comissões de especialistas criadas sociedades ocidentais, em relação ao grande todo natural que,
pela ONU, governos e entidades privadas para análise de algum modo, as envolve?
das questões ambientais – onde a par das biológicas se
encontram, também, as climáticas – o resgate de uma relação Essa característica cultural, que, com toda a
equilibrada, harmoniosa, de toda atividade humana com a naturalidade, aliena o ser humano do meio ambiente para
Natureza ou meio ambiente já não é opção: é uma necessidade centrar-se no confortável mundo urbano, encontra-se
e uma obrigação de todos, de modo a evitar ou, pelo menos, presente diariamente, inconsciente e sutilmente em nossas
minimizar catástrofes ambientais e, inevitavelmente, sociais. atitudes. E ela determina as causas próximas e remotas do
Já a caminho da tão esperada Conferência Mundial das Nações viés predatório de uma sociedade cunhada por um conceito de
Unidas Rio+20 (Junho 2012), todos os estudos realizados “desenvolvimento”, que devasta florestas inteiras, contamina
desde a conferência original revelam, de modo conclusivo, os ou aniquila ecossistemas, condena à extinção espécies naturais
danos da ação humana sobre o meio ambiente perpetrados e injeta, diariamente, no ambiente, milhares de toneladas de
nas últimas décadas, numa escala que está se aproximando, produtos sólidos, líquidos e gasosos, que a biologia natural
perigosamente, do limite irreversível dos chamados serviços não consegue degradar em tempo útil. Como é evidente,
naturais. semelhante paradigma, também, não poupa o ser humano que
o alimenta. E, entre competição feroz, envolvendo pessoas
Será que nossa civilização, essencialmente, urbana e empresas, corrupção e degradantes falhas de caráter,
se encontra tão afastada assim, da Natureza e de uma tal mentalidade surge como uma das principais causas do
relação harmônica entre o ser humano e o meio ambiente? desequilíbrio psicossomático dos indivíduos e do conjunto de

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“A neurastenia nas grandes
cidades”, capítulo de uma
coletânea de textos3,
editada em 1949 pela,
então, Sociedade Teosófica
Brasileira, Henrique José
de Souza, sob o heterônimo
Laurentus, denunciava
as patologias físicas e
psíquicas das grandes
cidades, apresentando
como causas, justamente, o
afastamento da Natureza e
o desconhecimento de suas
leis.

perturbações, doenças e aula e atividades extracurriculares.


anomalias, que explodem nos consultórios clínicos de todas
as especialidades. Já em “A neurastenia nas grandes cidades”, Apesar das tendências e transformações em curso,
capítulo de uma coletânea de textos3, editada em 1949 pela, numa época que muitos já identificam com o renovador Ciclo
então, Sociedade Teosófica Brasileira, Henrique José de Souza, de Aquário, semelhante paraíso terrenal não surge da noite
sob o heterônimo Laurentus, denunciava as patologias físicas para o dia. Ainda existe um longo caminho a percorrer para
e psíquicas das grandes cidades, apresentando como causas, o surgimento de cidades e de sociedades, ambientalmente,
justamente, o afastamento da Natureza e o desconhecimento sustentáveis e, sobretudo, harmônicas, nas quais a maior parte
de suas leis. de seus habitantes seja ajustada emocionalmente e viva dentro
de padrões éticos, consciente de sua integração harmoniosa
Porém, nas cinzas desse divórcio secular entre com a totalidade da Natureza: a Natureza global ou integral,
as sociedades urbanas e a Natureza global, agudizado, que possui sua parte visível e outra sutil, invisível aos olhos
particularmente, desde o final do século dezoito – quando grosseiros. O que, hoje, ainda, não é possível porque o ser
foi iniciada a era industrial – parece existir uma esperança. humano vive sobretudo para o corpo e as explosivas emoções
Um pouco por todo lado no mundo, e, particularmente, no ligadas a ele, certamente, fará parte de etapas evolucionais da
seio das próprias sociedades industriais, começa a estar em mônada.
alta, nos dias de hoje, na aldeia global, todo um conjunto
de preocupações e práticas mais ou menos ambientais e Semelhante movimento de rearmonização com a
naturalistas, o que parece ser sinal de uma busca individual Natureza global – induzido parcialmente, mas, também,
e coletiva por uma harmonia perdida. Ou, talvez, nunca significativamente, pelas preocupações ambientais –
encontrada desde os míticos tempos do paraíso terrenal – o não significa, bem-entendido, um retorno às matas e ao
paradiso, paradesha ou país supremo, etimologia sugerida desconforto de uma vida dura, primitiva e perigosa. Significa,
por René Guénon, em 1927 (“Le Roi du Monde”), consistente na visão eubiótica, a conquista de um equilíbrio justo e
com o avéstico pairi-daeza, como lugar murado, reservado, perfeito entre ambientes naturais e ambientes que reflitam
etc. Paraíso donde foram, simbolicamente, “expulsos” Adão e o melhor da própria natureza humana, ou antes, de sua
Eva para adquirirem a sagacidade e a inteligência da Serpente verdadeira identidade, que, segundo a Eubiose, é divina
(conquista da Mente no plano do concretismo). E para onde em sua origem e em seu destino final, o que pressupõe uma
serão reconduzidos, como Humanidade, já pela Inteligência revisão conceitual de toda a nossa civilização e a inserção de
superior ou abstrata, búdica, ou a mesma “consciência reformas importantes em muitas práticas sociais, começando
imortal”, com a vitória sobre o materialismo ligado ao corpo e pela reforma das mentalidades – como encontramos,
aos sentidos. Portanto, sobre a própria Morte, libertando-se do frequentemente, em Edgar Morin, por exemplo, em Os Sete
kármico ciclo dos nascimentos e mortes. Saberes para a Educação do Futuro 4 – ou, na perspectiva
da Eubiose, pelo interior do próprio ser humano, como
Preservação ambiental, proteção a espécies em extinção, preconizou o Prof. Henrique José de Souza:
denúncia de maus tratos a animais domésticos e das brutais
linhas de produção de animais para abate; alimentação O homem moderno, que criou para si tantos
saudável e balanceada, higiene do pensamento, vida ao ar instrumentos de conforto, não poderia mais volver ao seio das
livre; gestão ambiental das empresas, tecnologias “verdes”, florestas como os seus ancestrais, vivendo primitivamente.
engenharia ambiental, consumo de materiais naturais e novos Seria um retrocesso, e a EUBIOSE não preconiza retrocessos.
hábitos de vida ou de pensamento; o sucesso mundial de O homem moderno criou uma literatura, possui teatros,
autores como Fritjof Capra (O Tao da Física, Ponto de Mutação cinemas, rádios, geladeiras, fogões elétricos, aviões, máquinas
e A Teia da Vida, entre outros), de palestrantes como Al Gore, de lavar e passar roupa, telefone, automóveis,etc. Ser-lhe-ia
ou de filmes premiados como Uma Verdade Inconveniente impossível prescindir de tudo isso. A finalidade da EUBIOSE é
(2006) deste último; o Avatar, de John Cameron (2009), tornar o homem feliz, integrando-o, harmoniosamente, nessa
com sua mensagem fortemente ecológica e naturalista; a civilização, com um novo caráter impresso em sua mentalidade:
forte comunicação e sensibilidade das animações de Hayao viver procurando a felicidade alheia. É uma afirmação que, à
Miyazaki ou de Isao Takahata; o tempo crescente dedicado primeira vista, parece um tanto utópica, considerando a posição
a programas ambientais nos canais televisivos – entre atual do homem em meio das suas próprias contradições
muitíssimos mais são, apenas, alguns exemplos de toda internas e externas, que caracterizam o nosso ciclo e que são
uma mudança cultural que está imprimindo sua influência os frutos da nossa formação didática errônea, da perda da
em adultos, jovens e crianças, e que alguns pesquisadores e Tradição, portanto, do meio social distorcido e, porque não
educadores, à falta de políticas públicas de educação nesse dizer, pervertido, em que vivemos. 5
sentido, já começam a transportar, inclusive, para as salas de

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A dúvida ou questionamento – como impulso
para descobrir e aperfeiçoar-se – permite
ao ser humano acercar-se de si mesmo,
aprofundando os dados dos sentidos,
Consciência da Natureza e natureza desafiando as aparências, observando-se como
da consciência se ele próprio fosse um objeto distinto... visto
que quem observa o objeto é o sujeito.

Será que o ser humano constitui, efetivamente, uma Na verdade, é o próprio ato de duvidar – ou melhor, de
partição completamente distinta da Natureza em geral, questionar-se – que constitui o motor do aperfeiçoamento
a ponto de se considerar uma criatura exógena a ela? No humano em todos os seus aspectos, tanto individual como
entender de Edgar Morin, sistematizador da complexidade coletivamente, tanto subjetiva como objetivamente, tanto
na Ciência e um dos maiores vultos do pensamento mental como afetivamente, visto que as emoções, também,
contemporâneo, “nós fazemos parte da Natureza e, ao aprimoram-se. Como? Segundo o Prof. Henrique José de
mesmo tempo, estamos separados dela. É um problema Souza, cultivando e desenvolvendo um padrão afetivo superior,
epistemológico. Será que o Homem faz parte da Natureza? como o que está presente no altruísmo ou, pelo menos, na
Sim e não. É preciso saber evitar esse tipo de questão, que nos preocupação constante pelos outros, seja reforçando o bem
obriga a uma resposta binária. Nós pertencemos à Natureza comum acima das exigências egoístas, seja minimizando-lhes
e, ao mesmo tempo, estamos além dela porque temos uma a dor e o sofrimento, seja de que forma for. E o que dizer desses
cultura, um espírito, uma consciência” (MORIN, 2006, p.2). 6 mesmos sentimentos pelos restantes seres vivos? – questão
para refletir o que significa a emergência e a popularidade
Aparentemente, não existem quaisquer evidências das preocupações ambientais e da conservação da Natureza
ou argumentos, sobretudo do ponto de vista biológico, em tantos milhões de pessoas em todo o mundo. Não admira,
que sustentem tal afirmação. O ser humano compartilha, portanto, que o Mestre aconselhasse aos discípulos perpassar
praticamente, todas as suas características somáticas e até todos os dados dos sentidos ou das emoções pelo “crivo da
psíquicas com a restante vida biológica de nosso planeta, inteligência superior”, visto que essa superioridade não reside,
muito especialmente com os animais superiores: medo, desejo, verdadeiramente, em considerar-se superior aos demais, mas
ira, atração, sofrimento, alegria, concentração, trapaça... São encontrar-se em um estado superior de ser e de fazer justo,
reações encontradas, com perturbadora semelhança, tanto nas sábio e generoso, onde a vaidade não tem qualquer lugar.
comunidades humanas, como em nossos animais domésticos,
em mamíferos e noutros animais que vivem nas matas mais A dúvida ou questionamento – como impulso para
distantes dos centros populacionais, em plena imersão nos descobrir e aperfeiçoar-se – permite ao ser humano acercar-se
ecossistemas intocados pela mão humana. Porém, o ser de si mesmo, aprofundando os dados dos sentidos, desafiando
humano não é um animal... as aparências, observando-se como se ele próprio fosse um
objeto distinto... visto que quem observa o objeto é o sujeito. E
Estudos recentes sobre o genoma humano, comparado esse sujeito o que é, senão o “Eu” – ou “Eu-consciência” – que
com o genoma do chimpanzé, mostram que os pares de genes a maior parte das pessoas confunde com a alma, mas constitui
das duas espécies diferem menos de 4%. Porém, que mistério a chave-mestra da própria Iniciação, já que liga o ser humano
enorme encerra essa percentagem mínima na diferenciação ao seu princípio divino, ainda, adormecido na maior parte dos
genética, para que, pesadas as inegáveis semelhanças, indivíduos?
existam, ao mesmo tempo, diferenças tão abismais entre
humanos e os animais mais próximos? O que se encontra no Todo o processo de elaboração, expansão e
ser humano que o faz, instintivamente – assim como o fez aprofundamento da consciência se passa de uma forma oculta,
durante a História – rejeitar o mundo natural e concentrar-se invisível, ou seja, faz parte de um mundo imponderável,
em ambientes inteiramente antrópicos? Do ponto de vista da porque se situa, imediatamente, acima do físico, embora,
Eubiose e dos ramos mais importantes da filosofia iniciática e sempre, com reflexo neste. É comum alguém se referir a um
espiritualista tradicional, o traço fundamental, que distingue o grande expoente da música, das artes, da ciência, ou até da
ser humano de seus irmãos animais, é o que se poderia chamar espiritualidade como sendo “imortal”, ou como tendo deixado
de consciência. E o que é a consciência? – poderá questionar o uma “obra imortal”. Justamente, nesses casos, o gênio criador
leitor. ou o pensamento redentor, proveniente do interior desses
indivíduos – invisível e sem forma – agiu sobre o mundo
“Cogito, ergo sum”, diria o filósofo na tradução latina humano, trazendo benefícios, evolução, aperfeiçoamento ou
de seu “Discurso do Método”. Embora René Descartes melhoramento, consoante aos casos. É o mesmo lado oculto,
seja, em alguns círculos intelectuais, apontado como um íntimo e reservado da Natureza, que, consoante a altura a que
dos responsáveis por certo tipo de pensamento quadrado, o indivíduo consegue erguer-se, oferece- lhe a identificação
mecânico e limitado (vide cartesianismo), existem razões para ou fusão perfeita com todas as criaturas viventes e com os
supor que o eminente filósofo apresentava um pensamento elementos naturais, chamem-se estes por seus antigos nomes
muito mais amplo e completo, que incluía Deus em seu cenário de Terra, Água, Fogo, Ar e Éter, ou elementos sutis, que, no
existencial e, portanto, a assimilação da inteligência humana Oriente, são conhecidos por Tatwas, as forças ou elementos
à Inteligência universal. Por outras palavras, a busca de uma sutis da Natureza, coroados pelo quinto elemento, o Akasha,
Ciência universal, em Descartes, não só não exclui a existência em sânscrito, ou o mesmo “Aether” da Antiguidade Clássica
de Deus, mas também integra o Divino na própria Ciência, Ocidental. E só pode dominar os Tatwas quem conseguir
como busca – séria e metódica – de um sentido para o mundo. dominar a si mesmo...
Afinal, o oráculo de Delfos, na antiga Grécia, não afirmava
algo muito diferente na célebre lápide: “Homem, conhece-te a Com efeito, a consciência e seus estados ou patamares
ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”. possíveis – os estados de consciência – não têm peso nem
ocupam lugar material, e a sabedoria popular aí está com o

Fevereiro - Maio/2012 22
provérbio, de todos conhecido: “O saber não ocupa lugar”.
E saber, no caso, pode ser tudo, desde a simples acumulação
de conhecimentos – constitui, nesse nível, a ilusão do
conhecimento, porque se limita à capacidade de acumulação
da memória e a um jogo lógico elementar – até à sabedoria
propriamente dita, celebrada e colocada em prática pelos
grandes gênios e iluminados, que já passaram por esse mundo.
Esta, como Quintessência do conhecimento e da própria vida
humana, que, se tocada pela luz búdica, não necessita mais
de literatura e de fenômenos materiais ou visíveis para ser
alimentada, porque consegue ler, diretamente, do Mundo
das Causas, o mesmo do Tronco da Árvore da Vida ou dos
Kumaras, a Mente Universal. Porém, antes de chegar a ela,
longa peregrinação é necessária pelos tortuosos caminhos
da mente, da ilusão para a desilusão, e desta para as certezas considerado, pouco a pouco, pela ciência oficial. Sabedoria,
finais do Atmã ou Sétimo Princípio, com o sopro da Divindade à qual seu discípulo, amigo e companheiro, Dr. Eduardo
bafejando a criatura consciente dela mesma. Será que existem Alfonso, dedicou uma de suas obras mais conhecidas – La
certezas antes desse estágio final da evolução, na concepção Religión de la Naturaleza – onde é discutida e exposta a
da Ciência Iniciática? Podem existir, mas, sempre, provisórias, veneração dos antigos sistemas teosóficos por essas mesmas
porque o homem ou a mulher, trilhando um caminho sábio, forças sutis da natureza e por seus aspectos visíveis, em
não deixam de questionar-se, afastando de si o fanatismo, a harmonia, como os ciclos cósmicos e naturais, dentro dos
crendice e a preguiça mental ou fossilização da mente; ou, quais se desenvolve a vida em todas as suas manifestações.
como ensinou o Prof. Henrique José de Souza, “A pior das
rotinas é a rotina da inteligência”.
Em suma, o ser humano é parte integrante da Natureza
em termos biológicos e psicológicos, assim como, através A Eubiose, ciência da vida harmônica
desses superiores estados de entendimento ou inteligência, com a Natureza
constitui o elo com a consciência global da Natureza e o
próprio Mundo das Causas: algo tão real e palpável como
reais nos parecem os objetos que podem ser admirados nas É nesse contexto que fica mais clara a apresentação da
vitrines ou adquiridos em qualquer shopping. Do mesmo Eubiose elaborada em 1948 pelo Prof. Henrique José de Souza,
modo, no ser humano, existe uma dupla Natureza: uma no célebre artigo com o mesmo nome7, numa época em que
visível e outra invisível, ou antes, aspectos visíveis e invisíveis a Ecologia, ainda, não se tinha constituído como ciência, e
da Natureza, que é uma só e que, do seu lado oculto ou da as abordagens de sustentabilidade ambiental estavam longe
consciência, segreda a todos os Mistérios do ser e do não-ser, de ser iniciadas. Argumentava o Mestre: “A nossa civilização
da morte e da vida, como vida universal. E a vida universal afastou e continua, cada vez mais, afastando o homem da
não termina nunca, porque se renova, constantemente, nas Natureza” – uma crítica, que já havia sido argumentada e
formas, orbitando em torno da mesma Árvore da Vida. Por aprofundada no livro O Verdadeiro Caminho da Iniciação e que
outras palavras, se o lado visível, vital, material e efêmero da continuaria em Ocultismo e Teosofia, de 1949, este último de
Natureza é pura energia, já o lado invisível constitui o universo autoria de seu heterônimo Laurentus.
dos estados superiores da consciência, de tal forma, que este Nesse artigo, onde lançou, pela primeira vez, a
só consegue realizar-se plenamente, quando habita um corpo conceituação geral da Eubiose, o Professor Henrique José de
físico, preparado, devidamente para semelhante casamento Souza qualificava-a como “Ciência da vida bem vivida, isto
místico, como induziu Andreas (ou Andreae) em “As Bodas é, harmônica com a Natureza. É um programa de trabalho,
Químicas de Christian Rosenkreutz”, que, trazendo a referência um processo de fazer a Humanidade evoluir e melhorar”8. E
de 1459, só veio a público em 1616, em Estrasburgo. É assim advertindo logo, enquanto a classificava como ciência universal
que o Professor Henrique José de Souza, com a profunda e sinônimo de um Naturismo Espiritual: “Nossas afirmações
simplicidade de sábio iluminado, propôs a seus discípulos são categóricas: não se fundam em uma fé ou numa convicção
que pensassem no seguinte: “Iniciação é transformar a vida- formal, mas numa base intrínseca, num conhecimento
energia em vida-consciência”. objetivo”.
Outro sentido não têm as referências constantes que se Justamente, porque, nesse plano ou patamar de
encontram nas obras do Dr. Mário Roso de Luna – El Libro entendimento, no qual se dá a fusão do indivíduo com a
que Mata a La Muerte, por exemplo – observação da Natureza Natureza global, não existe lugar para, apenas, “acreditar”,
e de suas leis, por parte dos sábios, entre todos os antigos para uma fé cega e proselitista no estilo do que exigem a maior
povos e civilizações, cujo estudo e práticas constituíam um parte das religiões e misticismos. Existe lugar, sim, para
corpo, único místico-científico, que só agora começa a ser

Fevereiro - Maio/2012 23
E no que respeita ao equilíbrio ou à
harmonia do ser humano consigo mesmo?
Será que a busca dessa harmonia interior e
da harmonia com a Natureza e com todos
os elementos fará parte de um mesmo
processo? Justamente, esse é o ponto onde
entra a Eubiose e onde se pode aprofundar
a “consciência da Natureza global”.

buscar, investigar, compreender e operar o que for possível nem por isso, irreal, o mundo mental e mental superior, ou
para realizar-se como indivíduo, por um lado, e contribuir espiritualidade, que já engloba as melhores expressões da
com generosidade e altruísmo para o melhoramento da vida afetividade humana, como generosidade, compaixão e amor
humana, por outro. Trata-se, como várias vezes afirmou o por todos os seres, como ensinaram, desde sempre, todos os
Mestre, de um “corpo único, místico-científico”, nem que seja Grandes Iluminados, Avataras ou manifestações da Divindade.
para fazer jus à antiquíssima Ciência Iniciática das Idades, tão O Budismo, por exemplo, é, dentre os diversos caminhos
maltratada, incompreendida e até perseguida em todas as suas espiritualistas tradicionais, o que mais dá ênfase à interação
manifestações ao longo dos séculos. do ser humano com a Natureza em seu caminho para a
Como todos os precursores, gênios e iluminados, iluminação, insistindo, sempre, na harmonia do todo e na não-
Henrique José de Souza não foi entendido na sua época. Quase violência com os seres vivos, sejam eles humanos ou não. E o
50 anos depois de seu desaparecimento, pode constatar-se, Cristianismo poderia ser semelhante, se São Francisco tivesse
sem favorecimento, que a maior parte dos atuais estudos e sido levado a sério no século treze, em sua filosofia de vida, que
das conclusões sobre meio ambiente e educação ambiental tinha muito mais ensinamentos do amoroso Nazareno do que
segue uma orientação, perturbadoramente, próxima das todo o Vaticano em peso, na época...
palavras do Mestre. E, também, que a maior parte das O saber antigo do Oriente, em certas escolas mais
abordagens ambientais, sobretudo no Brasil, ultrapassam, reservadas, vamos dizer assim, estabelece, também, cinco
em muito, as abordagens estritamente científicas ao elementos ou forças sutis da Natureza, a que se dá o nome de
gosto clássico, entrando, claramente, na linha conhecida Tatwas, objeto de aprofundamento nos ensinamentos do Prof.
por pesquisa-ação. Nos dias de hoje, a palavra de ordem, Henrique José de Souza aos seus discípulos: Prithivi (a terra
especialmente no que diz respeito à sustentabilidade em seu aspecto geológico), Apas (o elemento aquoso), Tejas
ambiental, é interdisciplinaridade, ou seja, o diálogo entre (o fogo), Vayu (o ar, o vento) e, por último, Akasha (o éter),
diversas disciplinas do saber, com o intuito de perceber uma que, sendo invisível, reúne os quatro anteriores e sintetiza
realidade, um todo que não é fragmentado em especialidades, o sexto e o sétimo, respectivamente, Anupádaka e Adi,
existindo além das disciplinas científicas. Com efeito, é apenas, desenvolvidos ou realizados nas cadeias de evolução
aceite, entre os principais pesquisadores e autores, que a posteriores à atual. Por sua vez, segundo nosso Mestre, cada
temática ambiental não existe isolada: ela permeia todas as uma dessas forças sutis da Natureza está relacionada com
atividades e campos do conhecimento e, apesar de socorrer-se um dos sete grandes ciclos ou Cadeias de evolução e, por sua
de diversas ciências exatas, como a Biologia, a Química e a vez, com os sete chakras ou vórtices de energia vital no corpo
Ecologia, não se encontra divorciada da vida humana e, por humano, que formarão a estrutura básica dos seres do Quinto
isso mesmo, é aperfeiçoada e posta em prática nas decisões Sistema de evolução. Do mesmo modo que o ser humano,
cabíveis, através das ciências sociais aplicadas. Assim, pode como criatura do Quarto Sistema, segundo a Eubiose, tem
se dizer que a temática ambiental é, sempre, socioambiental. como base de sua estrutura fisiológica o sistema cérebro-
Em outros termos, é consenso entre os estudiosos que a espinal. Naturalmente, esses cinco elementos formam um
abordagem ambiental, além de interdisciplinar é, também, sistema completo e indivisível, sendo o quinto a ponte que liga
transversal – atravessa toda e qualquer particularização a Natureza visível à Natureza invisível. O Quinto Elemento,
científica ou de outra ordem, embora todas possam e devam portanto, está em relação simultânea com os aspectos mais
dar seu contributo para a meta geral da sustentabilidade avançados da consciência humana e da Natureza global, como
planetária: o resgate do equilíbrio perdido, que não é reservada fator integrador e, portanto, “transversal” de tudo o que existe.
a universidades e centros de pesquisa, mas que se encontra ao
alcance de qualquer cidadão dotado de percepção e consciência É interessante, nesse ponto, voltar aos domínios da
ambiental. ciência acadêmica e observar algumas premissas das diversas
concepções contemporâneas sobre meio ambiente, tal como
E no que respeita ao equilíbrio ou à harmonia do ser são consideradas nas universidades e centros de pesquisa,
humano consigo mesmo? Será que a busca dessa harmonia em estudos de referência, produzidos por organismos
interior e da harmonia com a Natureza e com todos os internacionais, como o PNUMA (Nações Unidas), declarações
elementos fará parte de um mesmo processo? Justamente, esse internacionais, como a Carta da Terra, etc.
é o ponto onde entra a Eubiose e onde se pode aprofundar a
“consciência da Natureza global”, discutida acima. – Existe um relacionamento estreito e dinâmico
entre clima, vida biológica e vida sócio-cultural-humana. A
O caso não é para menos: pode dizer-se que meio realidade planetária é uma coisa só: um só sistema complexo,
ambiente é tudo o que envolve o ser humano, ou seja, a dotado de inúmeros subsistemas interdependentes e em tal
totalidade da Natureza: a terra em si mesma, os elementos grau, que qualquer dano ou desequilíbrio em um deles afeta,
atmosféricos que formam o clima, todos os seres vivos necessariamente, os demais;
(biosfera) e seus ambientes particulares (biomas,
ecossistemas), e, ainda, a própria vida sociocultural, – Todas as orientações epistemológicas clássicas,
exclusivamente, humana (antroposfera), que, portanto, pode presentes, ainda, nas práticas sociais, econômicas e políticas,
e deve ser considerada parte da Natureza, embora abrindo assim como nos sistemas de ensino em todos os graus,
portas para outra realidade, não objetivamente material, mas, levam o indivíduo a considerar-se algo à parte da Natureza,

Fevereiro - Maio/2012 24
“Sim, porque a Natureza tem as suas leis,
que devem ser estudadas por todos, mas não
contrariadas por ninguém - principalmente
a maioria da Humanidade, ignorante de tais
leis, e por isso mesmo, semelhante à criança
que se queima com o fogo, por ignorar o mal
que lhe poderia causar em brincar com ele;
do mesmo modo que o desconhecedor da
química, quando entra em um laboratório
para fazer experiências."

conferindo-se o direito de usar os recursos e serviços por ela dominar-se conscientemente, dominará, também, a Natureza,
proporcionados e abusar deles; porque, conhecendo as suas leis e obedecendo a elas, a
Natureza - submissa e escrava - obedecerá às suas ordens.
– As relações entre ser humano e meio ambiente são Porém, enquanto imperar o egoísmo entre os homens, os
consideradas nos níveis científico, econômico e político, elementos transbordados serão tão caprichosos e cruéis como a
sendo passíveis de um envolvimento emocional, estético, humana natureza". 9
afetivo; conforme a intensidade e a qualidade dessa relação,
o ser humano respeitará, mais ou menos, o meio ambiente, Pode entender-se do contexto, com relativa facilidade,
identificar-se-á com ele e ensinará outros a fazê-lo. que esse “domínio da Natureza” – benigno e esclarecido
porque derivado da mais elevada espiritualidade – se distingue
Tais premissas, aqui muito condensadas ou resumidas, do predomínio dominador e predador que, nos dias de hoje,
podem ser consideradas, sem qualquer favorecimento, ainda que já denunciado amplamente e com alternativas
francamente eubióticas, abrindo, desde logo, uma visão, credíveis, continua vazando resíduos químicos e biológicos
sistêmica, integral ou holística, como se quiser chamar, do para os rios, lagos e mares; desmatando florestas inteiras
relacionamento entre ser humano e Natureza, por um lado, com todos os seres vivos que elas contêm e rompendo
e do ser humano consigo mesmo, na mesma direção da cadeias importantíssimas dentro dos ecossistemas; secando
célebre máxima referida: “Homem, conhece-te a ti mesmo”. mananciais de água potável; incentivando o consumismo
Além do mais, as novas abordagens ambientais e seus a qualquer custo sem cuidar dos resíduos dele derivados;
desenvolvimentos dão noção de uma evolução notável no enchendo de lixo estradas, ruas e calçadas, agravando,
pensamento humano: elas são resultado dos desdobramentos inclusive, o nível das inundações urbanas em enchentes.
permanentes que, desde o final dos anos 60, vêm sendo
elaborados por inúmeros estudiosos e interessados pelo
relacionamento entre homem e meio e pelo resgate de
uma relação harmoniosa entre ambos. Sobretudo, depois
de ser constatada a maior destruição coletiva, alguma vez A Iniciação na Eubiose e o
experimentada pela mão do homem, quando ficou mais claro despertar de um novo estado de
que algo não estava bem na fórmula de “progresso” e de consciência
“desenvolvimento” da civilização ocidental. Fica óbvio, assim,
que esse desenvolvimento, tal como se encontra hoje, e por
ser entendido, apenas, no sentido econômico ou material, não O trabalho do Professor Henrique José de Souza,
serve à evolução ou desenvolvimento integral da Humanidade, ao longo de 40 anos, veio trazer um enfoque integral e
sendo passível de importantes reformas. verdadeiramente inédito ao espiritualismo em geral e,
É de notar, mais uma vez, que o fundador da Sociedade particularmente, ao que se chama de “Iniciação”. Com
Brasileira de Eubiose (SBE) já havia tocado em muitos desses a ousadia de quem sabe aquilo por que vem e o que está
aspectos muito antes de começarem a ser investigados e revelando ao público, o Mestre transgrediu o “teoricismo
popularizados, dando o mote para uma sociedade humana teosófico” da época e o misticismo passivo dos colecionadores
mais ajustada, não, apenas, com as leis naturais e universais, de textos e definições, colocando a Iniciação como processo,
mas de cada um consigo mesmo, consagrando-os como como uma via prática, viva: não para seguir, religiosamente,
premissas fundamentais da Eubiose. Logo em 1932, no início mestre ou guru, mas para atingir um estado de profunda
da caminhada da Instituição, fundada em 1924, o Mestre comunhão com o universo consciente, chame-se de Deus,
escrevia: Todo, Absoluto, Logos ou qualquer termo equivalente. E não
bastando atingir esse estado, mas passar a agir de acordo, com
“Sim, porque a Natureza tem as suas leis, que devem sabedoria, com caráter, enfim, com espiritualidade. E como
ser estudadas por todos, mas não contrariadas por ninguém - se atinge esse estado? Através do despertar do “Eu Superior”,
principalmente a maioria da Humanidade, ignorante de tais do Deus Interno ou do Mestre Interior de cada um, como
leis, e por isso mesmo, semelhante à criança que se queima com se quiser chamar, que todo ser humano possui dentro de si
o fogo, por ignorar o mal que lhe poderia causar em brincar mesmo, como Centelha da Divindade. No Budismo, seria a
com ele; do mesmo modo que o desconhecedor da química, iluminação ou o despertar (Buddha significa, em sânscrito,
quando entra em um laboratório para fazer experiências. “o que despertou” ou “o iluminado”); no Cristianismo, algo
Essas leis, que regem a Natureza, por sua vez, vivem como o que induziu São João nas palavras que ouviu do Cristo:
no homem. E, por isso mesmo, é que a Esfinge diz: "Ou tu me “Eu e o Pai somos um” ou “O reino de Deus está dentro de
decifras, ou eu te devoro". Aprendendo, portanto, o homem a vós” – logo, esperando ser despertado, para cada um tornar-se
dominar a si próprio, dominará a Natureza. um “Christós”, em grego, “o ungido ou iluminado”.
E foi por essa mesma razão que dissemos no final Assim, longe de ser um processo de motivação egoísta,
de nossa palestra pelo rádio: "Quando o homem chegar a voltado, exclusivamente, para o benefício individual, o Mestre

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"Quando o homem chegar a dominar-se
conscientemente, dominará, também, a
Natureza, porque, conhecendo as suas
leis e obedecendo a elas, a Natureza -
submissa e escrava - obedecerá às suas
ordens. Porém, enquanto imperar o
egoísmo entre os homens, os elementos
transbordados serão tão caprichosos e
cruéis como a humana natureza".

enfatiza que “A finalidade da EUBIOSE é tornar o homem Em uma palavra, deseja abolir o sistema das concorrências,
feliz integrando-o harmonicamente nessa civilização, com onde a felicidade de uns é amassada com a infelicidade de
um novo caráter impresso em sua mentalidade: o de o homem outros. A riqueza destes, com a fome daqueles, substituindo-o
viver procurando a felicidade alheia” 10. E aponta, assim, uma pelo sistema de cooperação simbiótica, isto é, que cada um
interação necessária e pró-ativa com a sociedade em geral, possa melhorar e conquistar a felicidade, em proporção
donde “nasceriam reformas, plenamente, eubióticas, isto àquela que traz aos demais; que ninguém possa resumir a
é, favoráveis ao aperfeiçoamento e à felicidade dos que são o sua prosperidade e felicidade, de acordo com as daqueles que
seu objeto, aperfeiçoamento e felicidade extensivos, quanto concorreram para as mesmas (isto é, para levantá-lo). Ao
possível, ao meio social”. 11 parasitismo social, pouco a pouco, vá substituindo a simbiose
Por outras palavras, se a Iniciação e o progresso social, pois doloroso é saber que as reformas sociais só se dão
espiritual do ser humano têm a ver, essencialmente, com o através de colisões e violências, quando o simples espírito de
“despertar de um estado de consciência superior”, porém, ele Humanitarismo, o inato sentimento de Justiça devia viver no
não acontece pensando, apenas, em si mesmo e na “salvação” coração de todas as criaturas”. 17
pessoal, mas no contexto de um meio natural e sociocultural, Desde a primeira revolução industrial, o conhecimento
pertencendo a um “meio cósmico ou universal”. Assim, crescente das leis da Natureza através da Ciência e a
quando o Mestre apresenta a Eubiose, em 1948, declara entronização da tecnologia em nossos lares, em empregos e em
que é a “ciência da vida bem-vivida, isto é, harmônica com a nossas vidas, fizeram expandir, poderosamente, a produção
Natureza. É um programa de trabalho, um processo de fazer a e comercialização de variadíssimos produtos e tecnologias e
Humanidade evoluir e melhorar”. 12 E mais à frente: a capacidade humana de intervir cada vez mais na Natureza.
“A Eubiose (...) visa – e isto é que é importante – à Porém, essa evolução relativa deu-se “sem princípios e critérios
evolução interna e espiritual da Humanidade. Cogita do harmonizadores” – sem Eubiose. Tecnologias avançadas tanto
seu melhoramento; é um sistema de vida que pretende podem preservar o equilíbrio natural, como destruí-lo, se
orientar a ciência e a educação, estabelecer a harmonia estiverem a soldo de interesses econômicos selvagens e sem
social, a política, a didática, a moral e o bem-estar dos critérios. Da Natureza são retirados os recursos ou matérias-
povos, para haver felicidade”. 13 primas necessárias para o desenvolvimento econômico, que,
ainda, é visto como “progresso a qualquer custo para acelerar
Sete anos depois, no extenso artigo “O que é Eubiose?”, o crescimento”. Porém, esse desenvolvimento foi e é, ainda,
que expande e complementa a primeira conceituação de 1948, fragmentado, esquizóide, esquecendo, completamente,
o Mestre confirma: “Eubiose é a ciência da Vida. E como tal, é que muitos dos chamados “recursos econômicos” não são
aquela que ensina os meios de se viver em harmonia com as leis renováveis e que as mesmas leis naturais, graças às quais ele
da Natureza, e, consequentemente, com as leis universais, das mesmo se desenvolveu, continuam como meta primordial da
quais as primeiras se derivam”. 14 própria Ciência.
Em suma, uma característica importante no conjunto A ganância comercial e a capacidade tecnológica
e contexto dos ensinamentos do Mestre, é que a Iniciação, tornaram-se, rapidamente, parceiras nesse predomínio; o ser
como caminho místico-filosófico, aparece, sempre, com humano torna-se predador e contaminador dos elementos
um sentido muito prático, quer se trate do despertar da naturais que, sempre, interligados, servem de base aos biomas
espiritualidade individual e da busca da felicidade, quer no e ecossistemas, e… à sua própria sobrevivência: a terra, o
que respeita ao impacto desse sentido superior de vida com ar e a água. Logo, a partir dessa ignorância e de objetivos
o mundo e a sociedade humana, para seu melhoramento. inconfessáveis, revela-se uma desarmonia entre os Tatwas,
Além disso, está, sempre presente na filosofia de vida de os mesmos elementos sutis da Natureza, que, como ensina
Henrique José de Souza, o sentido de compaixão e amor pela o cânone oriental, deveriam estar harmonizados entre si, no
Humanidade e por todos os seres vivos, e, nesse sentido, o próprio ser humano, sob pena de desequilíbrio, sofrimento,
conhecimento e harmonização com “Essas leis que regem infelicidade. Como tal, o “homo oeconomicus” invade, ainda,
a Natureza” e que, “por sua vez, vivem no homem” 15 sem os territórios dos povos nativos e pressiona suas fronteiras,
qualquer distinção, visto que “O homem vulgar, a quem expulsando-os e deserdando-os de seus próprios territórios
devemos estudar e em quem devemos pensar... deixando ancestrais. O modelo econômico dos “brancos”, em muitos
de parte os casos excepcionais, é naturalmente sociável, e, casos, passou a subverter não apenas o equilíbrio natural das
enquanto a sociedade se estabelece entre os seres, já não mais sociedades tradicionais com a terra e a Natureza, mas também
pode ser, senão de dois modos: simbiótica e não-arasitária”. 16 as relações sociais dentro delas. Também, nas periferias das
E no que concerne às implicações da filosofia de vida da grandes cidades, os ambientes humanos se degradaram cada
Eubiose em termos econômicos e sociais, o Professor Henrique vez mais. Armados pelo dinheiro fácil do narcotráfico, bandos
identifica-as com particular clareza e, claramente, com um invadem os lares das classes econômica e culturalmente
sentido mais reformador do que utópico: “Enquanto isso, a dominantes – nada fizeram para evitar a degradação e a
EUBIOSE se propõe a concorrer para a felicidade de todos. miséria – agora suas clientes e dependentes, sobretudo através

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A ganância comercial e a capacidade tecnológica
tornaram-se, rapidamente, parceiras nesse
predomínio; o ser humano torna-se predador
e contaminador dos elementos naturais que,
sempre, interligados, servem de base aos biomas
e ecossistemas, e… à sua própria sobrevivência: a
terra, o ar e a água. Logo, a partir dessa ignorância
e de objetivos inconfessáveis, revela-se uma
desarmonia entre os Tatwas, os mesmos elementos
sutis da Natureza, que, como ensina o cânone
oriental, deveriam estar harmonizados entre si,
no próprio ser humano, sob pena de desequilíbrio,
sofrimento, infelicidade.

dos jovens, aliciados pelos infelizes dependentes, já na mão própria realidade. E ninguém consegue mudar ninguém sem
dos quadrilheiros. A ação de Karma é inexorável… e enquanto ter realizado, em si mesmo, essa mudança e dar o exemplo.
não cessarem suas causas, caso a caso, através de uma filosofia Quando, em 1948, o Mestre apresentou a Eubiose como uma
de vida sábia dentro dos lares, governos e empresas, os efeitos evolução da Teosofia e do Espiritualismo clássico, estava ciente
continuarão sua faina destruidora. do estado evolucional da Humanidade e, portanto, de seus
Tudo isso estreitamente relacionado com algo que o limites, tanto quanto de suas potencialidades. E advertia: “A
Mestre alertou desde sempre: “o grande vazio das faculdades STB não pretende implantar um sistema. Ela é uma entidade
superiores”, a imersão da alma humana nessa zona cinzenta espiritualista, cujas cogitações e atividades são dirigidas
onde se dá o predomínio do egoísmo e do materialismo inteiramente para o aperfeiçoamento interno dos homens”.18”.
selvagem, consubstanciados na ganância cega e na vaidade Tal como, então, não caberá hoje à SBE implantar um
pessoal, contrapartidas caóticas do culto à beleza, à Natureza, sistema, pelas mesmíssimas razões. Contudo, ela tem, dentro
ao respeito pelo próximo e aos nobres anseios da inteligência, de si mesma, em seus Mistérios Maiores, o potencial de um
bases de uma Civilização digna desse nome, o que elevaria, sistema de evolução inteiro, o chamado “Quinto Sistema”,
a bem dizer, o atual conceito de “qualidade de vida” de um correspondente a um estado de consciência mais avançado do
patamar, apenas, material e, ainda, elitista, para outro mais que conhecemos hoje. “Trago um novo estado de consciência
seguro e estável, envolto na qualidade dos pensamentos, das para o mundo” – afirmou Henrique José de Souza. Se a SBE,
emoções, dos anseios e das esperanças, que passariam a ser através de seus membros e simpatizantes, conseguir ser um
mais altruístas e geradores de felicidade em faixas crescentes farol inspirador, um berço de novas práticas e ideias gerais,
da população. enfim, um campo catalisador para todas essas transformações,
Posto isso, consegue-se já enxergar um território, ainda, terá cumprido uma parte importante de sua missão.
inexplorado – ou, apenas, começando a ser explorado – que Não seria aqui o lugar ideal para desenvolver assunto
conduz ao aprofundamento do meio ambiente enquanto tão transcendente, mas poderíamos afirmar que esse estágio
elemento envolvente ideal para uma “educação integral” da evolução humana, cujos primórdios já estão em pleno
– eubiótica – assim como ao entendimento das grandes desenvolvimento, tem como tônica fundamental o equilíbrio
linhas civilizatórias para o Novo Pramantha ou Nova Era, dinâmico dessas duas naturezas que discutimos neste
nitidamente, tomando forma. Muitos concordam que os artigo: a interna – inspiradora, transformadora, redentora
tempos atuais são de grandes mudanças, porém, ninguém e portadora de uma consciência mais elevada, e a externa
ou quase ninguém, começando pela própria classe política, ou material veículo da primeira e, por isso mesmo, muito
intelectuais e líderes de opinião sabe o porquê, ou tem uma mais harmônica do que é hoje em termos humanos e sociais
perspectiva ampla ou um entendimento claro do que está e em sua relação com a tão agredida Natureza. Sobretudo,
acontecendo. Ainda, no que respeita à educação, ela constitui portadora de realização e felicidade individual, porque
um processo fundamental de mudança social no sentido do todos terão oportunidade para exteriorizar o melhor que a
melhoramento e do aperfeiçoamento do “bem-comum”, mas, Humanidade tem dentro dela. Nesse sentido, caberia à SBE e a
poucas vezes, tem sido seu instrumento, porque condiciona, seus componentes:
tradicionalmente, as crianças e jovens, sua formação, seus
ambientes em casa e na escola, a uma perspectiva imobilista, “(...) despertar, nas almas de seus membros e de
conservadora. Talvez, por essa razão, as artes e a educação quantos a queiram seguir ou ouvir, as faculdades que os
ambiental demorem tanto a entrar com maior influência nos possam tornar capazes, nesta e em outras vidas […] de ser
currículos e práticas escolares, onde os alunos aprendem lídimos defensores e aplicadores de tais princípios elevados e
“coisas” ou conhecimentos já mastigados, e não são induzidos necessários. Daí o lema da S.T.B.: “Spes messis in semine”,
à busca, à descoberta e à criação, ao desenvolvimento de definindo, por um lado, a preparação das Mônadas humanas,
ideias próprias, etc. Certamente, é importante uma educação que, pela aquisição de novas ‘skandas’, em função do
harmoniosa, completa, abrangente e com treinamento de conhecimento e prática da Gupta-Vidya dela aprendida, serão
espírito ético, crítico e de descoberta, constituindo uma sólida a safra do futuro, já que, do ponto de vista cíclico, no presente,
base para que os jovens integrem, em sua experiência pessoal, cuida-se do porvir, ou seja, das sexta e sétima sub-raças do
as tendências dos novos tempos e lhes dêem vida e forma, ciclo Aryo; de outro, a obra manúsica que diz respeito ao novo
como construtores efetivos de novas sociedades mais humanas ciclo em que florescerão, pujantes e adultos, os Lotos Sagrados,
e ajustadas com as leis naturais e universais. vicejando nos remansos incólumes desse mundo atormentado,
para onde os trouxe o Bom Semeador de todas as Eras”. 19
É importante destacar, porém, que transformações
desse porte não surgem da noite para o dia, nem muito menos Todos esses sublimes, conquanto práticos
por divino milagre: são resultado de um processo paciente ensinamentos, apontam que, quanto mais perto alguém está
e de tolerância com o ser humano conforme ele é, com seus da Divindade, ou com ela viva e vibrante dentro de si mesmo,
defeitos, virtudes, anseios e ilusões, ou seja, partindo de sua tanto mais perto, sem dúvida, encontrar-se-á do coração da

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Humanidade – e, também, do coração da Natureza global, com 8
SOUZA, H. J. A Eubiose. Revista Dhâranâ, nº 136, Agosto de 1948, Ano
tudo o que ela contém, pouco importa se visível ou invisível aos XXIII.
olhos humanos. Tal como essa grande Árvore da Vida, cujas 9
SOUZA, H. J. Minha mensagem ao Mundo Espiritualista – Quinta, Sexta e
raízes estão ocultas e seguras no seio da Terra e cujos galhos Sétima Partes. Revista Dhâranâ nº 71 – Janeiro a Março de 1932. Nota nº 7.
mais elevados adentram as insondáveis regiões do Espaço Sem SOUZA, H. J. A Eubiose. Revista Dhâranâ, nº 136, Agosto de 1948, Ano
10

Limites. XXIII.
Laguna, Santa Catarina, Dezembro 2011. DOMICIANI, Lorenzo Paolo. O que é Eubiose? Revista Dhâranâ nº 5/6
11

Novembro 1954 a Fevereiro 1955.


SOUZA, H. J. A Eubiose. Revista Dhâranâ, nº 136, Agosto de 1948, Ano
12
Referência: XXIII.
1
CAMÕES, L. V. Os Lusíadas. Lisboa, Instituto Camões, 2002. Edição digital. SOUZA, H. J. A Eubiose. Revista Dhâranâ, nº 136, Agosto de 1948, Ano
13
Disponível em http://cvc.instituto-camoes.pt/bdc/literatura/lusiadas/. XXIII.
Acesso em 21-12-2011.
14
_______. Ibid.
2
PESSOA, F. , MORA, A. O regresso dos deuses - Os sete círculos ínferos
da sombria Visão de Alighieri. Arquivo Pessoa, Obra édita. Edição digital. SOUZA, H. J. Minha mensagem ao Mundo Espiritualista – Quinta, Sexta e
15

Disponível em http://arquivopessoa.net/textos/3943. Acesso em 19-12- Sétima Partes. Revista Dhâranâ nº 71 – Janeiro a Março de 1932. Nota nº 7.
2011. DOMICIANI, Lorenzo Paolo. O que é Eubiose? Revista Dhâranâ nº 5/6
16

3
LAURENTUS, Ocultismo e Teosofia. São Paulo, Sociedade Teosófica Novembro 1954 a Fevereiro 1955.
Brasileira, 1949. Ocultismo e Teosofia - Revelações à luz da Eubiose. DOMICIANI, Lorenzo Paolo. O que é Eubiose? Revista Dhâranâ nº 5/6
17
São Lourenço, Sociedade Brasileira de Eubiose Conselho de Estudos e Novembro 1954 a Fevereiro 1955.
Publicações, 2003.
SOUZA, H. J. A Eubiose. Revista Dhâranâ, nº 136, Agosto de 1948, Ano
18
4
MORIN, E. Os sete saberes para a educação do futuro. Lisboa: Instituto XXIII.
Piaget, 2002.
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Fevereiro - Maio/2012 28
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