You are on page 1of 2

Psicopatologia e religião

 Olá, gente! Bem vindos novamente ao canal Psicologia e Religião aqui da academia do
Psicólogo. Sou Rebecca Maciel e este é o Rafael Lins e hoje viemos trazer um tema
bastante comum, importante e polêmico – como sempre – que é a relação entre
psicopatologia e religião.
 Pois é, em relação a esse assunto muitas dúvidas surgem? Quando eu sei se é
experiência religiosa ou a pessoa está delirando? A pessoa está ouvindo vozes ou está
falando com a divindade que ela acredita? E, durante muito tempo, a relação entre a
psicopatologia e a religião foram muito próximas, associando doenças mentais com
possessão de demônios, por exemplo, na idade média.
 E, no início da formação da ciência psicopatológica, todas essas experiências que eram
jogadas para o campo do demoníaco entraram no campo da doença. Logo, um homem
que se contorcia com vozes não era mais um endemoniado, mas esquizofrênico, sem
se analisar se isso tinha a ver com a religiosidade dele ou não.
 Hoje, especialmente na sociedade brasileira, é muito complicado não se olhar para as
experiências religiosas. A pluralidade religiosa, a mistura e a configuração que temos
aqui no Brasil dá espaço a diversos modos de expressão de fé que se parecem muito
com uma doença psiquiátrica: uma pessoa que fala em língua estranha sozinha, uma
pessoa que recebe um passe e incorpora outra ou que ouve vozes etc.
 E como lidar com isso? Os autores XXX propuseram uma diferenciação bem
interessante para falar dessas experiências. Existiriam o que eles chamam de sintomas
psicóticos e o que eles chamam de fenômenos psicóticos. Qual a diferença dos dois?
Os sintomas psicóticos são experiências que só existem na psicopatologia, como a
paranoia enquanto os fenômenos podem existir na cultura, como o transe, o êxtase e
a mediunidade. Desse modo, já dá para facilitar a construção de um diagnóstico.
 Porém, outro problema surge. E se a pessoa tem uma manifestação aparentemente
psicótica, mas que tem conteúdo religioso? Para isso, Andrew Sims traz outra resposta
para agregar nesse diagnóstico. Nesse caso, fica importante analisar o background
desse paciente, isso é, seus interesses, a história familiar etc. Porque com essas
informações vamos descobrir se: essa experiência que ele está tendo é mais próxima
da religião que ele tem do que um transtorno? Os sintomas são reconhecidos em
outros momentos da vida dele, isso é, há mudança de humor no dia a dia, alucinações,
confusão no pensamento?
 Outra questão que é importante notar quando fazemos um diagnostico diferencial são
as conseqüências dessa experiencia na vida do paciente. Ele está conseguindo se
inserir na sociedade? Foi benigno para ele? Não causou desorganização nem
deteriorização de suas atividades psíquicas? Caso não, caso seja uma experiência que
chamamos de a-social, isso é, sem inserção na sociedade, existe uma grande chance de
ser um transtorno psiquiátrico.
 Para facilitar ainda mais o diagnóstico, o DSM IV fez uma categoria que se chamou
“Problemas religiosos e espirituais”, que foi um grande avanço na psicopatologia
brasileira. Seguindo essa mesma necessidade de facilitar um diagnóstico tão difícil, o
professor Paulo Dalgalarrondo, que possui livro acerca de Psicopatologia e religião,
elaborou uma tabela de temas que diferenciam um delírio de uma experiência
religiosa de forma bem mastigada.
 Os temas são de conteúdo, características sensoriais (se são de audição, visão etc.),
grau de certeza, duração, controle, o quanto a pessoa se sente sujeito da situação,
relação com outros sintomas, personalidade e até se é capaz de contar para outras
pessoas. Um exemplo disso: as experiências espirituais são na maioria das vezes de
alucinação visual enquanto as psicopatológicas, auditivas.
 Isso tudo compõe um diagnóstico muito complexo, que realmente tem que ser
diferencial. Se você trabalha com essa área, recomendamos fortemente que você olhe
essas características do DSM IV e que tenha acesso a esse livro do Dalgalarrondo
chamado Religião, Psicopatologia e Saúde Mental, lançado em 2008 pela Artmed.
 Qualquer dúvida, comentário, mande para nós e não deixe de acompanhar nosso
canal! Abraço e até a próxima.