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FERNANDO CATROGA
MORTE EM LISBOA - ATITUDES E REPRESENTAÇÕES - 1700-1830
Ana Cristina Araújo
BRUXARIA E SUPERSTIÇÃO - NUM PAíS SEM CAÇA AS BRUXAS - 1600-1774
José Pedro Paiva

A GUERRA EM PORTUGAL - NOS FINAIS DA IDADE MÉDIA


João Gouveia Monteiro
A TERNURA AMOROSA - SÉCULOS XVl-XVm
Maurice Daumas
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL - DA FORMAÇÃO AO 5 DE OUTUBRO DE 1910 - 2.° edição
Fernando Catroga

O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
DA FORMAÇÃO AO 5 DE OUTUBRO DE 1910

2.a edição

DEDALUS - Acervo - FE

~ nol~ícias
Biblioteca / FEUSP

~, 4932,5
Capa: Pormenor de um postal ilustrado de homenagem à eleição de Manuel POLIEDRO DA HISTÓRIA
de Arriaga para Presidente da República (Agosto de 1911) e reproduzido em
Sousa Figueiredo e António Vicente, A Queda da Monarquia e a Implantação
da República através do Bilhete Postal lllustrado, Lisboa, 1997, p. 95.

ISBN 972-46-1092-6

© Fernando Catroga

Direitos reservados
EDITORIAL NOTICIAS
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E-mail: editnoticias @ mail.telepac.pt
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1~Lü'SOMU»Oo
Capa: 3designers gráficos
Revisão: Ayala Monteiro

Edição n.o O 1 407 005


1.a edição: 1991
2.~ edição: Março de 2000
Depósito legal n.o 144 799/99

Pré-impressão:
Mulüüpo __ Artes Gráficas, Lda.
Impressão e acabamento:
Tipografia Lousanense O RDA
EP U B L I C AAO
FORMAÇÃO NIS M OOUTUBRO
5 DE E M P ODE
RT UGAL
1910
t)(.A

SOIiCltí~n~e / ]

Proc J

Este livro reproduz quase integralmente a sua versão


de 1991. Reactualizá-la, seria adiar ainda mais a
sua reedição. Como toda a obra histórica tem a sua
própria história, essa condição é aqui assumida, sem
que, com isso, se pretenda negar os contributos que
posteriormente saíram sobre o tema.
EC.
PARTE I

O MOVIMENTO REPUBLICANO
CAPÍTULO 1

AS ORGANIZAÇÕES REPUBLICANAS

MOVIMENTO POLiTICO E PARTIDO

As primeiras manifestaçSes de republicanismo em Portugal traduziram mais


uma esperança do que uma possibilidade real de imediata concretização histú-
rica. E certo que, com as lutas liberais, alguns combatentes antiabsolutistas,
pela voz do general Marinho~, e poucos intelectuais isolados -- Castilho, por
exemplo, em 1836 -- sonharam com a solução republicanaL No entanto, essa
corrente só ganhou alguma ênfase por volta de 1848, sob as sequelas da
Patuleia e o impacte das revoluções europeias3. O surto de jomalismo democrá-
tico e republicano verificado nesse período, a célebre «revolta das hidras» (en-
cabeçada, em Lisboa, por Oliveira Marreca, José Estêvão, António Rodrigues
Sampaio, mas com ramificações em Coimbra), o surgimento, em 1851, de uma
obra sistemática a fundamentá-la -- os Estudos sobre a Reforma em Portugal,
de José Félix Henriques Nogueira4 ~, o esboço de um militantismo social a que
não era estranho um certo antimonarquismo, são sintomas inequívocos de
que esta atitude política lançava as primeiras raízes na nossa sociedade. Porém,
isso não é suficiente para se poder afirmar que o republicanismo se elevou à
estatura de um grande movimento e muito menos de um verdadeiro partido. Ao
contrário, parece-nos que, desde 48 até 1883, foi sobretudo um «movimento»
doutrinai que, no plano orgânico, não superou o estádio protopartidário.

Em 1829, ainda na ilha Terceira, o general Marinho, «director do cartmnismo portu-


guês, discutindo com os seus amigos (bons cousins) os diversos alvitres da redenção liberal
da mãe-pátria, propôs que se recobrassem os diferentes territórios ultramarinos, que na
Europa, ~,sia e Oceânia ainda atestavam o grão poder do antigo Portugal, constituindo com
ele -- a República dos Estados Portugueses Ultramarinos» (Republica Portugueza, I armo,
n.° 3, 15-V-1874, p. 2)
2 Cf. Joaquim de Carvalho, «Formação da Ideologia Republicana», in LuIs de Montalvor
et ai., História do Regimen Republicano em Portugal, Lisboa, 1932, p. 163 e ss.
s Sobre as lutas políticas e o debate ideológico nesta conjuntura, veja-se Maxia Manuela
Tavares Ribeiro, Portugal e a Revolução de 1848, Coimbra, 1988.
4Cf. Jos6 Félix Henriques Nogueira, Obra Completa, T. I, Lisboa, 1976.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
AS ORGANIZAÇOES REPUBLICANAS

Como se sabe. o conceito moderno de «partido político» tem uma his- Por outras palavras: a proliferação de jornais, clubes, centros eleitorais ou o
sucesso de manifestações cfvicas não são s~ por si factores suficientes para
tória recente, intimamente conexionada com a consolidação do sistema caracterizar urna cabal e definitiva organização partidária. E, como as estru-
representativo. Dm" que. na Europa, seja uma instituição que só se delineou
com nitidez a partir do século xIx. E Portugal, com algum atraso, não fugiu turas de cariz dominantemente ideológico (como foi o caso do Partido
à regra. Não admira, por isso, que, na consciência dos actores políticos das Republicano) requerem que um forte movimento de opinião as prepare e as
décadas de 50 e dos anos posteriores, a ideia de «partido» aparecesse com consolide, isso explica o grande investimento propagandístico e educativo que
uma conotação polissémica: «facção», «tendência», «parcialidade», «tomada o republicanismo fez durante décadas de oposição.
de posição», «movimento» e partido propriamente dito. Ora, a marginalidade Será a partir desta exigência que se terá de inteligir o papel que os agentes
do republicanismo em relação ao regime e o peso da tradição clubista e ideológicos (intelectuais, imprensa, escolas, associações) desempenharam no
conspirativa na memória dos nossos radicalistas fizeram com que, nos seus cumprimento dessa tarefa. A queda da Monarquia foi uma reivindicação essen-
primórdios, aquele se tenha assumido como um «movimento» organica- cial, sem dúvida, embora específica, pois inscrevia-se numa tendência que
mente atrasado em relação aos «partidos» (regenerador e histórico) em que apontava para a realização de objectivos mais vastos: a secularização, ou,
radicava o jogo político monárquico-constitucional consolidado com a Rege- talvez melhor, a laicização das instituições e das consciências. À boa maneira
neração ( 1851 ). iluminista, a chamada «revolução republicana» pressupunha, portanto, a con-
Se existem razões sociológicas e políticas que explicam esta situação, importa sumação de uma verdadeira revolução cultural.
sublinhar, contudo, que a corrente republicana, desde 1848 at¿ 1883, só pode ser
considerada como um «partido» numa acepção pouco rigorosa. Sendo uma ten-
dência de esquerda que emergiu no seio da falmqia demoliberal, compreende-se A conjuntura
que o seu ideal de sociedade se alicerçasse numa proposta dominantemente f

ideológica. O republicanismo, de facto, pretendeu ser, desde o seu início, tanto


Pelas razões que adiante serão explicitadas,[não concordamos com a tese
uma alternativa de regime, como um projecto que visava modificar a ordem cul-
segundo a qual a fundação do Partido Republicano se deu a 25 de Março de
tural existente. Relembre-se que, na linha de tradição iluminista, que conscien-
18766. Reconhecemos, contudo, que foi na década de 70 que o movimento
temente invocava, a sua alternativa se fundamentava não só em termos de dife-
lançou as suas bases. Com efeito, a conjugação de condições internas e ex-
renças político-regimentais (República versus Monarquia), mas também se
definia à luz de critérios doutrinais mais latos («partido do progresso» versus temas de forte incidência social e política criaram uma conjuntura que, acen-
,<partido da ordem», partido da justiça e da «ciência» versus «partido obscuran- tuando muitas das contradições que min~vam a ordem regeneradora, foi pro-
tista~ e «ultramontano», etc.). Estas antíteses poderiam ser multiplicadas. Mas, pícia ao crescimento do republicanismo.|
para o intento deste estudo, registe-se a conclusão essencial: desde os seus co- Oliveira Martins chamou à Regeneração «o nome português do capita-
meços, o republicanismo caracterizou-se por ser uma proposta política que só lismo»7. E, na verdade, a partir de 1850, o sistema monárquico-constitucional
será devidamente compreendida se for inserida no fundo doutrinai que a justifi- entrou numa nova fase. A luta entre facções liberais e o peso da ideologia na
cava. Logo, a sua análise tem de sopesar esta realidade indesmentfvel: antes de mobilização para essas lutas deram origem, sob o trauma da Patuleia e o es-
ser (e depois de o ser) um partido politicamente organizado, foi um movimento pectro das revoluções de 48, à formação de um bloco social constituído para
em que a ideologia exerceu um tal peso que acabou por sobredeterminar o sen- gerir, sem grandes atribulações, os negócios públicos segundo uma estratégia
tido e a intensidade da própria luta a favor de um novo regime. Em suma: contra desenvolvimentista e pragmática8. O «modelo» impôs-se sob a tutela britânica
os partidos de patrocinato típicos do liberalismo monárquico no poder, pre- e em proveito dos sectores sociais que irão prosperar através da especulação
tendeu afirmar-se vocacionalmente como um partido de ideologia e de massas». e dos negócios ligados ao import/export, bloqueando o crescimento acelerado
Por conseguinte, será necessário precisar com rigor quando é que a aspi- de uma burguesia nacional de inserção industrialista.
ração ~ciopo]ítica anõmonárquica se concretizou em partido no sentido estrito Apesar de tudo, a formação de um espaço económico mais unificado que
do termo. Quanto a nós, não têm razão os que defendem que o Partido permitisse o domínio das relações capitalistas e as correspondentes medidas
Republicano foi fundado em 1876, ou os que localizam a sua criação em 1880 de estruturação de um aparelho de Estado que lhes fosse adequado tiveram
(comemorações do centenário de Camões). Subjacente a estes juízos, julga- efeitos sociais que se traduziram no crescimento relativo das cidades. Lisboa
mos estar uma confusão clara entre a noção de «partido político» e as formas
protopa~ãdárias que antecederam a sua emergência em sistema representativo.
6 Cf. Lopes d'Oliveira, História da República Portuguesa. A Propaganda na Monarquia
Constitucional, Lisboa, 1947, pp. 33-34.
s Sobre estes conceitos, veja-se Max Weber, Economy and Society, 2 vols., Beckley,
7 Cf. Oliveira Martins, Portugal Contemporãneo, rol. 3, Lisboa, 1953, p. 173.
1978. 8 Cf. Manuel Villaverde Cabral, O Desenvolvimento do Capitalismo em Portugal no
Século xtx, Porto, 1976, p. 161 e ss.
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL ASORGANIZAÇÕESREPUBLICANAS
rectamente, com a influência das propostas sociopolfticas que, nos países mais
irá passar de cerca de 187 000 habitantes, em 1878, para cerca de 450 000, em próximos, como a Espanha e a França, foram avançadas para resolver um aná-
19! 1, sinal inequívoco de algum desenvolvimento tanto na indústria como na logo estado de coisas.
prestação de serviços. Isto é, estavam a ser criados alguns factores que, tarde Em primeiro lugar, há que destacar o eco da revolução espanhola de 1868 e
ou cedo, teriam de aparecer na cena social e política. A revolta pelo pão barato de tudo o que se lhe seguiulL É que, com a queda de Isabel II, as forças demo-
(1856, 1882), os protestos contra as tribntações exageradas (1865-68) e, depois cráticas peninsulares e, em particular, os republicanos, então liderados por
de 1870, o primeiro surto grevista com real significado9 são manifestações que Castellar e Pi y Margall, ganharam um novo ânimo. Em Portugal, as reper-
radicam nos antagonismos gerados pelo choque entre os interesses capitalistas,
cussões desta revolução teriam de ser grandes, tanto mais que a vacatura do
as relações pré-capitalistas subalternizadas e a aparição de propostas visando
trono por ela provocada veio reacender a velha questão ibérica. Uma facção
a construção de uma sociedade mais justa. Tais lutas envolveram não só assa-
lariados e artesãos, mas também alguns sectores comerciais directamente pre- importante dos liberais monárquicos do país vizinho passou a jogar forte na
judicados por uma política financeira assente no défice crónico do orçamento candidatura de D. Fernando (e de seu filho D. Luís) ao trono de Madrid.
geral do Estado. Como esta situação se manteve nas décadas seguintes -- ou Acalentavam o secreto desejo de conseguirem salvar a instituição monárquica
melhor, acabou por se agudizar ainda mais --, não é de estranhar que um com a inauguração de uma dinastia com tradições mais liberais do que a
movimento como o republicano começasse a encontrar um terreno favorável bourbónica e, através dela, reunificar, tarde ou cedo, as duas nações ib6ricas.
para semear as suas ideias. Não interessam os pormenores da querela que se arrastou nos anos seguintes e
Em 1867, rebentaram os protestos mais significativos contra esta ordem de que chegou a estar na base de um golpe de Estado (o de Saldanha, em 1870).
coisas, os quais, animados pelo pequeno comércio portuense, vieram a desa- Aqui, basta lembrar que o empolamento da questão apareceu, neste contexto,
guar na Janeirinha (1868). E este episrdio é relevante não tanto pelos seus no cruzamento dos conflitos de interesses entre as grandes potências (Inglaterra,
efeitos estruturais, mas pelo facto de marcar o inicio de uma nova fase na his- França, Alemanha). E, internamente, embora a grande maioria dos monár-
tória constitucional de Oitocentos. Com a revolução de Janeiro -- a que os quicos se opusesse à união das duas coroas, alguns procuraram viabilizá-la
republicanos do Porto, da União Patriótica, e de Lisboa, ligados ao Clube dos pensando que, com ela, se Portugal corda o risco de perder a independência,
Lunáticos, nâo foram inteiramente estranhos --, subiram ao poder alguns libe- conseguir-se-ia, contudo, salvar a Monarquia e evitar a revolução social12.
rais pertencentes a uma tradição radical que já se julgava ultrapassada; por Aproveitando a polémica, republicanos de inspiração socializante res-
outro lado, entrou-se num período de crise partidária que se arrastará até finais ponderam ao unitarismo com os argumentos de Henriques Nogueira,
de 1876. E a subdivisão dos sequazes do regime (regeneradores, históricos, Tocqueville, Proudhon e com os exemplos dos Estados Unidos e da Suíça, pro-
reformistas, constitucionais), numa conjuntura tão agitada como a que se viveu pondo a divisão do país em estados federados e, a nível externo, a criação de
depois de 1867, foi um elemento de evidente perturbação política (o golpe de uma República federalista pactuada livremente entre todos os povos da
Saldanha em 1870 e as conspirações do grupo ligado ao conde de Peniche Península. Encaravam, assim, a revolução espanhola como o início da inevi-
sâo as provas disso), pois deu origem a uma situação em que, para alguns,
tável republicanização e federalização da Ibéria, primeiro passo no caminho
começavam a estar em causa as possibilidades de sobrevivência da própria
da República federativa formada por todos os povos civilizados. (Escrito sobre
Monarquia~O.
o calor dos acontecimentos, o opúsculo de Antero, Portugal perante a
O republicanismo, explorando (e integrando-se) na crise das facções monár-
quicas e correlacionando as suas posições com os movimentos populares e a Revolução de Espanha (1868), é o melhor testemunho degta euforia ecumé-
alternativa socialista, ganhou, de facto, um novo alento. É que esta crise ins- nica e antinacionalista, que invadiu parte significativa da nossa «inteli-
crevia-se num quadro de lutas sociais e políticas a que já não era estranha a gência»)13. E, em 1869, um jornal desta corrente era taxativo acerca dos seus
agudiT~çâo da questão social provocada pelo embate de acontecimentos ex- propósitos: «E pois o nosso fim, entrando nas lides da imprensa, apostolar
ternos muito relevantes. Tanto os agrupamentos monárquicos como o próprio como futuro sistema político deste pais a Federação dos Estados Republicanos
movimento republicano começaram a sentir a urgente necessidade de se en- Portugueses.»14
contrar uma resposta para os perigos resultantes dessa instabilidade. E, como
é típico em países dependentes, essas soluções tiveram a ver, directa ou indi-
~~ Cf. Maria Victoria López-Cordón, La Revolución de 1868 y la I Republica, Madrid,
1978; Emilio Oliver Sanz de Bremond, Castellar y el Periodo Revolucionario Espaaol
(1868-1874), Madrid, 1871; Antoni Jutglar, Pi y Margall y el Federalismo Espaaol, Madrid,
cf. Carlos da Fonseca, A Origem da Primeira Internacional em Lisboa, Lisboa, 1973, 1975; José Luis Fernández-Rda, 1873. La Primera Republica, Madrid, 1975.
p. 87. 12 Para uma perspectiva global da inserção desta crise na polémica oitoeenUsta acerca
do iberismo, veja-se Femando Catroga, «Nacionalismo e Ecumenismo. A Questão Ibérica
até aos finais
t0 Para umada pormenorizada
década de 70, veja-se Joaquim
descrição faetualde
daCarvalho,
crise que«Estabelecimento
se arrastou desdedo Rotati-
a «fusão» na Segunda Metade do Srculo xIx», Cultura, História, Filosofia, vol. 6, 1985, pp. 419-63.
vismo», ir Damião Peres et ai., História de Portugal, vol. 7, Barcelos 1935, p. 401 e ss. 13 Cf. Antero de Quental, Prosas, vol. 2, Coimbra, 1926, p. 47 e ss.
14 A Republica Federal, I armo, n.° 1, Outubro, 1869, p. 1.
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O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
AS ORGANIZAÇÕES REPUBLICANAS
Foi tamb6m um condicionante decisivo para o reforço do movimento Casino, o célebre opúsculo A Comuna de Paris e o Governo de Versaihes
republicano e para a autoconsciencialização dos limites dos seus objectivos (1871), escrito por José Falcão e publicado em CoimbratS, são testemunhos
sociais o desfecho da guerra franco-prussiana e as sequelas que provocou. do entusiasmo que a revolução de Paris inicialmente provocou em muitos
A queda do império de Lufs Napoleão Bonaparte significou a derrota de um republicanos. Porém, se atentarmos na evolução ideológica de todos
modelo conservador que tanta sedução havia exercido sobre os nossos rege- esses autores, verificar-se-á que muitos republicano-socialistas de então aca-
neradores. Mas, por outro lado, com o espoletar de uma revolução san- barão por desaguar no politismo estrito; outros, ao contrário, definir-se-ão
grenta de cariz social (Comuna), gerou-se uma nova situação que neces- como adversários irredutíveis do republicanismo jacobino e continuarão a
sariamente teria de se repercutir por toda a Europa. E, se o lenitivo de lutar para que não se confundisse o socialismo com o republicanismo. E era
origem espanhola foi pouco duradouro, dado o fracasso espectacular da o grupo de Antero que o jornal republicano e federalista O Rebate já ata-
aventura republicana (1874), a gradual consolidação da III República fran- cava, em 1873, ao escrever: «Crêem alguns indivíduos e proclamam aher-
cesa e o modo como os seus políticos (Thiers, Gambetta) tentavam solucio- tamente que do governo republicano nenhum proveito pode resultar para
nar a questão do regime e o problema social fizeram ressuscitar o tradicional as classes trabalhadoras e que portanto a estas cumpre abster-se completa-
francocentrismo da nossa esquerda liberal. Esta passou a viver com entu- mente de tomar parte nos trabalhos tendentes a estabelecer semelhante
siasmo esses acontecimentos, pois muitos acreditavam que a III República forma de governo... Nada receamos desta propaganda, que em Lisboa se
estaria para a I República portuguesa a instaurar como a Grande Revolução tentaria pôr em prática por parte de alguns ou alguns daqueles mesmos
esteve para a nossa revolução de 1820. A França era vista como o labo- que a princípio se achavam no nosso campo de agora, mesmo condicional-
ratório social em que se prefigurava o futuro inexorável do nosso país! mente.»~9
Queremos com tudo isto sugerir que os acontecimentos externos, nomeada- Perante o exposto, sustentamos que o estudo da formação do Partido
mente a Comuna de Paris, o fracasso do federalismo espanhol, em 1874, e o
Republicano ultrapassa o levantamento dos seus passos cronológicos e das
crescente sucesso da III República contribuíram determinantemente para suas lutas internas. Sob pena de não se abarcar a visão total do fenómeno,
uma melhor clarificação das várias tendências que reivindicavam a aspiração
ter-se-á de correlacionar este com o avanço da proposta socialista e com o pro-
republicana. Mas tambúm queremos sublinhar que a crise conduziu ao rea-
cesso de reagrupamento das facções monárquicas tendente a consolidar o
grupamento dos partidários da Monarquia de molde a conseguirem o reforço
de uma instituição que ainda era vista como o melhor garante dos interesses bipartidarismo necessário à rotatividade do poder e a integrar, no sistema, as
mais conservadores. novas propostas contestatáfias. Na verdade, em termos organizativos, os socia-
Assim, até 1871, a par dos republicanos históricos ligados à memória de listas, no seguimento das conclusões do Congresso de Haia (1872), fundaram
48. é possível encontrar um núcleo importante de ideólogos e activistas que o seu partido em 10 de Janeiro de 18752°, e a oposição monárquica (histórica
se consideraram, simultaneamente, defensores da República e do socialismo. e reformista) unificou-se no Partido Progressista em 1876. Logicamente, os
A Comuna e a chegada da Associação Internacional de Trabalhadores (1871) republicanos, acicatados por estas iniciativas, pelos sucessos dos republicanos
vão modificar a situação~». Em O Que É a Internacional? (1871), Antero franceses e impelidos pelo descontentamento decorrente da agudização da crise
aspirava à República sociall«, mas desvalorizava já __ na linha de Proudhon financeira (1875-77)21, intensificaram, também por esta altura, o seu activismo,
e da lição dada pelos internacionalistas espanhóis (Lorenzo, Mora e tentando lançar as bases de um partido que veiculasse um projecto afirmativo
Morago) -- a importância da luta política propriamente dita. A Teoria do e, ao mesmo tempo, constituísse uma resposta aos que, entretanto, tinham
Socialismo (1872) e Portugal e o Socialismo (1873) -- ambas estas obras emergido na cena política. Por outro lado, o relançamento da estabilidade do
de Oliveira Manias -- e alguns artigos insertos em O Pensamento Social regime tinha convencido alguns dirigentes monárquicos de que seda necessário
(1872) são aparentemente republicanos. Todavia, bem lidos, ver-se-á que garantir uma expressão parlamentar ao republicanismo a fim de melhor o
fomentaram uma clara separação entre o socialismo (e a sua maneira de integrar na ordem vigente.
encarar a questão do regime) e o republicanismolT. As Conferências do

~~Cf. Ara Maria Alves, Portugal e a Comuna de Paris, Lisboa, 1971; Carlos da Fon- ,8 Cf. Femando Catroga, «dos~ Falcão. Um Lente Republicano», Biblas, rol. 52, 1976,
seca. As Origens da 1.o Internacional em Lisboa, cit.; Anselmo Lorenzo, El Proletariado
Militante. Memorias de un Internacional, Barcelona, 1974, pp. 158-63.
pp. 275-303.
,90 Rebate, I armo, n.° 23, Dezembro, 1873, p. 2.
'~ Antero de Quental. ob. cit., rol. 2, p. 170 e ss. 2o Cf. Cúsar Nogueira, Notas para a História do Socialismo em Portugal, rol. 1, Lisboa,
'~ Sobre a tle~ entre republicanismo e socialismo, leia-se Fernando Catroga, 1973, pp. 17-33; Carios da Fonseca, ob. cit., pp. 41-58.
O Problema Político em Antero de Quental
2, Vejam-se Rodrigues de Freitas, A Crise Monetaria e Politica de 1876. Causas Reme-
1981. pp. 41-71. Um Confronto com Oliveira Martins, Coimbra,
dios, Porto, 1876; Armando de Castro, A Revolução Industrial em Portugai no Sdculo XlX,
Lisboa, 1972, pp. 142-85.
16
O REPURLK'ANISMO EM pORTI.UGAL

AS ORGANIZAÇOES REPUBLICANAS

A b ' O R M A Ç Ã O D O PA R T I D O R E P U B L I C A N O
evolufram para formas mais próximas de uma organizaçio partid¿-ia. O clube
polftico oitocentista constituiu, de facto, uma fusão das ,~~aciedades de pensa-
Como facilmente se compr~nde, a formação do Partido Republicano não mento à século XVIII com OS grupos políticos nascidos sob a influ~ncia do
~guiu o caminho que levou ao estabelecimento do Partido Progressista. Este Clube Jacobino. O Sinédrio (antes da revolução liberal) e o célebre Clube do~
instalou-~ ~guindo uma via típica no sistema representativo oitocentista. Camilos (1836), entre outros, reproduziram essas características. Os republi.
Um grupo de «notíveis». vinculados ao regime monárquico-constitucional canos manterão esta prática, tanto mais que ela se adaptava aos cuidados de
deputados. ~mugos ministros --. juntou-se para edificar um partido capaz de vigilância requeridos pelo secretismo de muitas das suas iniciativas. E o peso
aglutin~ a fragmentação dos herdeiros monárquicos da tradição patuleia e desta forma orgânica e a sua carga mítica, enfim, continuaram a ser tio grandes
de formar uma alternativa estável ao Partido Regenerador. Para isso, uniram-se que o clube, mesmo em conjunturas em que se gozava de uma maior liberdade
à volta de uma direcção central (António Alves Martins, Adriano de Abreu cívica, continuou a ser o núcleo essencial da sua estrutura política. Em suma:
C,wdoso Machão. Mariano Cirilo de Carvalho, Tomás António de Oliveira como se reconhecia em 1882, o clube ou centro era «a pedra angular, o orga-
Lobo. Jos~ Luciano de Castro), liderada por uma figura de prestígio nacional nismo típico do Partido Republicano Ponugu~s»~.
(Anselmo B~)":. A partir dei& impulsionaram a instalação de alguns A clandestinidade pura perdeu sentido com a gradual institucionalização
centros regionais necessários à criação de uma rede eleitoral que cobrisse todo das liberdades públicas. E, embora as leis vigentes não reconhecessem
o pais e I~wraram um programa (16 de Dezembro de 1876) virado para a capta-
explicitamente o direito de associação para fins políticos, os republicanos
Crio das caunad~ sociais descontentes com a política dos regeneradores e cujos
contornos ideológicos radicavam na invocação da memória das experiências lançaram-se na formação de clubes ou centros, escudados no espírito da Carta
liberais mais avançadas (vintismo, setembrismo, patuleia). Porém, tal como o Constitucional e do C6digo Civil, o que lhes permitia uma acção legal cen-
seu ~lv~o monárquico, o Partido Progressista afirmou-se, sobretudo, atra- trada na dupla função característica do clubismo radical: a formação ideol6-
v¿s do peso moral e político do seu líder nacional -- e seus caciques locais -- gica e cultural e a acção política. Isto é, e como prescrevia o texto atrás citado,
e pela influ6ncia do seu grupo parlamentar, embora a sua orgânica já denote os centros democráticos podiam (e deviam) «organizar-se como associaç¿es
alguns sinais de modermdade. Mas, como o republicanismo era um movimento eleitorais», sociabilidade que estava recoberta pela Carta Constitucional e, em
que se pretendia exterior ao regime e de vocação mais marcadamente demo- particular, pelo art.o 38 do decreto eleitoral de 30 de Setembro de 1852; «como
crática, torna-se 6brio que a sua concretização como partido se tenha operado instituições de propaganda e de crítica cientffica destinadas a preparar evolu-
de um modo mais pr6ximo da estruturação dos partidos políticos do século XX. tivamente, pelo estudo das leis vigentes, a sua transformação para outras
Do ponto de vista formal, a sua génese também nada teve de similar com melhores, embora em sentido democrático», dado que este tipo de associaç6es
a do P~mdo Socialista. É que este pretendeu ser, em primeiro lugar, um par- estava tutelado pela Carta Constitucional e pela Lei de Imprensa de 17 de Maio
ado de classe: em segundo lugar, a miscigenação do modelo organizativo de de 1866, art.° 15 §2; finalmente, «como associação de instrução e recreio e an-
inspiração «marxista». com as influências proudhonianas, então ainda muito xflio»24, já que, para o reconhecimento oficial destas, bastava a aprovação do
fortes na consciéncia dos socialistas, levou-o a institucionalizar-se como uma governo.
espécie de confederação económico-ideológica (cooperativas, associação de Como se nota, pretendia-se que os centros republicanos tivessem uma acção
msisténcia, jornais) desvalofizadora do combate políaco propriamente dito. predominantemente pedagógica, a par da militância política determinada pelas
Ao contrário, o movimento republicano colocou desde logo como pedra-de- necessidades decorrentes da luta eleitoral. Eram, assim, associaç0es lffbridas,
-toque do seu proj¢cto a luta pela mudança de regime e tentou mobilizar para uma mistura de sociedades de pensamento, comités eleitorais, escolas e núcleos
a ptos2,ecução dessa tarefa prioritária não só os trabalhadores, mas também as
protopartidários. Mas, no seu todo, não constituíam um partido político, pois
camadas u~ciais descontentes com a governação monárquica. Quis ser, expli-
não superavam o particularismo ideológico, a subordinação a «notáveis» repu-
citamente, um partido que privilegiava a propaganda e a luta políticas e que
blicanos e, sobretudo, não tinham ainda conseguido eleger uma direcção na-
apelava para uma base social interclassista.
cional que fosse aceite como coordenadora de todas as suas actividades. Com
efeito, seguindo a lição clássica de Joseph La Palombara e Myren Weiner, um
O clubismo partido político distingue-se das formas protopartidárias por quatro caracterís-
ticas essenciais, a saber: a durabilidade organizativa, uma organi~ção de
Conunuador de uma tradição ilumiaista, o republicanismo teve nos clubes âmbito local e nacional, a vontade deliberada de exercer directamente o poder
ou centros o.~ tem primeiros núcleos organizativos, os quais só lentamente (sozinho ou em alianças), e o desejo de procurar um suporte popular tanto a

=- Sobrr a fun~ do PLmdo Progressista, vejam-te Diario Popular. Supplemento ao


a. 593.5-X11-11~'70; l~mm de Carvalho, ob. cü., pp. 406-7. z3 Manuel de Arriaga, Projecto de Organizaçdo Definitiva do Partido Republicano
Portuguez, Lisboa, 1882, p. 7.
z4 Idem, ibidem, p. 46.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
AS ORGANIZAÇÕES REPUBLICANAS
nível do eleitorado, como de sbnl~tizantes25. Ora, tendo presente a estrutura do tipo de militância conduziria, como o passado o tinha demonstrado, à reali-
activismo republicano durante a década de 70, tem de se reconhecer que não se zação do seu objectivo último: a democratização da sociedade portuguesa.
É uma verdade que estas associações mantiveram aceso o fogo «jacobino»,
está perante um verdadeiro parado político, mas tão-só na presença de condi-
ções que apontavam para o seu iminente advento. Os centros eram núcleos polí- mas é também indiscutível que s~ na década de 70, e pelas razões já apon-
tadas, o movimento republicano entrou numa fase quantitativamente nova. Nos
aco-ideológicos independentes entre si. Misto de sociedades de instrução, de
recreio, de auxilio mútuo, mas também de discussão ideológica e de comité elei- anos 60, a par da velha guarda de 48, tinha emergido uma nova geração defen-
toral, foram a alma do movimento e estiveram na base de algumas lutas deci- sora de um republicanismo mais socializante. Nomeadamente na Universidade,
sivas encetadas durante este peffodo. Alguns, como o Centro Federal de Lisboa uma plêiade de jovens estudantes, nascida já sob o regime liberal, aproveitou
(1873), chegaram a lançar um programa. Contudo, a sua vida foi curta e todos as facilidades de comunicação recentemente introduzidas e assimilou uma nova
os esforços tendentes à unificação do movimento esbarraram com o autono- literatura social que julgava adequada às necessidades portuguesas. Antero de
mismo clubista e com fortes divergências ideológicas e pessoais. Por outro lado, Quental, José Falcão, Emídio Garcia, Filomeno da Câmara, Manuel de Arriaga,
enquanto os partidos monárquicos tinham nos seus líderes (Braamcamp e Fontes Teófilo Braga, Eça de Queirós e tantos outros pertenceram, na verdade, à pri-
Pereira de Melo) um dos principais suportes da sua unidade, os republicanos, meira geração que, recebendo o testemunho de 48, tentou actualizí-lo à luz de
por razões que se prendiam com o democratismo que perfilhavam, contestatário ideias novas trazidas pelos livros e pelo eco de acontecimentos internacionais
de todas as formas de poder pessoal e apologista de métodos descentralistas de carregados de mitologia revolucionária.
organização, opunham resistências a lideranças individuais e reivindicavam a Em particular, as lutas em Itália e, sobretudo, a revolução espanhola de 1868
autonomia dos centros. Daí que o trânsito do clubismo para o partidarismo tenha foram suficientemente empolgantes para contaminarem não só a vanguarda
sido um processo muito diferente, semeado de conflitos e de contradições. académica, mas também alguns sectores extra-universitários. E, em sintonia
com as doutrinas então em voga (Proudhon, Vacherot, Tocqueville, Littré),
ganhou naturalmente força a aspiração federalista, a qual, mesclada com rei-
A rede orgãnica vindicações de carácter social, rapidamente se transformou na tendência hege-
mónica dentro do movimento republicano.
A primeira intentona republicanizante (1848) teve nos clubes (em arti-
Foi nesta conjuntura que nasceu o primeiro núcleo republicano-federalista
culação com a Carbonária) os seus centros de agitação26. Com o mesmo cariz
português organizado e com imprensa própria. Em Outubro de 1869, saía o
encontramos a Associação Patriótica e o Clube dos Lunáticos, agrupamentos
liderados por Elias Garcia e que, nos inícios da década de 60, conglomeravam semanário A República Federal, dirigido por Felizardo Lima. Era o órgão de
alguns democratas lisboetas27. Na mesma linha se inscreve a União Patriótica, um centro republicano de que faziam parte, para além do director do jornal,
grupo que exerceu papel importante nas agitações que, no Porto28, conduziram Casimiro Gomes, Domingos Ferreira, Venâncio Pinto, um tal Calado (todos
à Janeirinha ~ fundado em Março de 1867, teve em Rodrigues de Freitas um comerciantes), Blanco (escritor), Mackonel (tipúgrafo), Salema Garção, Costa
dos seus primeiros associados. Em Lisboa, este mesmo movimento animou o Goodolfim (empregadOs públicos) e o engenheiro Sousa Brandão31. Chegaram
entusiasmo conspirativo dos republicanos que, aglutinados à volta de um grupo a apresentar-se publicamente num comício realizado em Arroios para de-
maçúnico29, se reuniam no Pítio do Salema (Oliveira Marreca, Elias Garcia e fenderem a candidatura de Latino Coelho3z. A fraca duração desta experiência
outros)~°. E, se muitos destes núcleos não se declararam explicitamente como -- como de outras que lhe sucederam -- prova o estado ainda incipiente em
republicanos, isso não implicava que não estivessem conscientes de que esse que se encontrava o movimento. No ano seguinte, temos noúcia de que se
instalou o chamado Centro Democrático de Lisboa (Rua da Adiça, n.° 16,1.o)33.
Como primeiro acto público enviaram uma saudação aos republicanos fran-
z~ Cf. J. La Palombara e M. Weiner, Political Parties and Political Development, Prin- ceses: «Viva a República Francesa! Viva a ilustração dos Povos. Viva a Demo-
ceton, 1966, p. 6 e ss. cracia Universal»34. No ano imediato (22 de Agosto de 1871), fundou-se um
Cf. Maria Manuela Tavares Ribeiro, ob. cit., p. 100 e ss. novo Centro Democrático (Rua da Padaria) presidido pelo serralheiro José
_,7 Cf. Augusto José Vieira, Historia do Partido Republicano Portuguez. Obra de
Maria Chaves; teve como vice-presidente Costa Goodolfim e como secretários
Propaganda Repablicana, Lisboa, s. d., pp. 151-54; O Seculo, II armo, n.o 348, 1-111-1882, p. 1.
José Máximo Pereira e José Augusto da Assunção35.
Foi fundada no Corpo da Guarda e tinha como principal objectivo rnoralizar o sis-
tema eleitoral. Cf. O Seculo, [] anno, n.o 671, 17-[]-1883, p. 1.
Tratava-se da Federação Maçomca. Cf. M. Borges Grainha, História da Franco-Maço.
tmrta em Portugal. 1733-1912, 2., ed., Lisboa, 1976, p. 122. 31Cf. O Seculo, II armo, n.° 554, 31-X-1882, p. 1.
Este núcleo também ficou conhecido por Grupo dos Lunáticos. Cf. Silva Lobo, 32 Ibidem.
33 Cf. A Republica Federal, I armo, n.° 12, 30-VII-1870, p. 3.
Ai868,RevoluçãOpp. 52-53. de Janeiro. Apontamentos para a História Contemporãnea (1867), Lisboa, 34 In lbidem, n.° 14, 15-IX-1870, p. 2.
35 Cf. O Seculo, 11 armo, n.° 494, 22-VIII-1882, p. 1.
20
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL AS ORGANIZAÇÕES REPUBLICANAS

Apareciam, assim, sinais, embora débeis, de um gradual aumento de mili- Garção; por fim, o grupo federalista, composto, entrc outros, por Eduardo
tância demo-republicana. Há notícias de que, também por esta altura, o movi- Maia, António Joaquim Nunes, Leão de Oliveira, Hipólito Barcclos, Damião
mento procurou carismar-se com o prestigio de figuras como Herculano e da Silva, Silva Pinto, Francisco José Figueira, Augusto de Faria Sertão, Tito
Antero de QuentaP6. Ora, se o primeiro nunca foi republicano, no que con- Lívio Dias Mendes, Infante da Câmara, Conceição Fcrnandes, Cccflio de
Sousa, Gomes Monteiro, Martins Contreiras, Silva Lisboa, Eduardo Fernandes,
cerne a este último a consciencialização das diferenças entre o socialismo e o
republicanismo levá-lo-á, dentro em breve, a separar-se definitivamente desta Teófilo Braga, Horácio Esk Ferrari e Carrilho Videira. Este agrupamento
contava ainda com «alguns raros operários que por aí persistem, propagando
última corrente. Tal afastamento coincidiu com a demarcação entre ambos os
movimentos depois da criação do núcleo da Internacional e da Fraternidade doutrina em vez de exaltarem indivíduos»«. O que não admira, pois este núcleo
Operária e da luta pelo controlo de algumas associações populares -- como o teve o mesmo tronco comum donde partiu a organização autónoma do movi-
Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas. Facções repu- mento socialista.
blicanas e socialistas começaram a disputar entre si o apoio dos trabalhadores Na verdade, alguns dos seus principais activistas -- como Carrilho Videira
lisboetas37. E, se as greves e o alargamento da actividade cooperaavista e de em 1871 -- começaram por militar no velho Centro Promotor dos Melhora-
resistência38 são a prova de que os socialistas estavam a obter algum sucesso, mentos das Classes Labodosas. E, no ano seguinte, tomaram parte acúva no
os acontecimentos franceses -- progressos na consolidação da III Repúbli- movimento grevista impulsionado pela Fraternidade Operária. Mas, «como no
ca39 -- e a implantação da República espanhola (1873), conjugados com a Centro FYomotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas se manifcsmssem
necessidade de se dar resposta, por um lado, à política fontista e, por outro, ao diversas nuances políticas, devido aos seus diversos componentes, com o que
aparecimento da propaganda socialista, impeliram os republicanos de todas as Carrilho Videira e os seus amigos não concordavam, fundaram depois a
tendências para um redobrado militantismo. Na verdade, antes da formação do Internacional, que começou a reunir n'uma loja maçonica na Carrcirinha do
Parado Republicano, foi no ano de 1873 que surgiu o seu primeiro grande surto Socorro, hoje R. Feruandes da Fonseca». Seguidamente, «como na Interna-
de activismo. cional estivessem reprcsentadas duas correntes de opinião política, a socialista
e a rcpublicana federal, ambas com tendências a desenvolver-se, os republi-
canos federais resolveram fundar um centro retintamente republicano, para o
AS FACÇÕES REPUBLICANAS NA DÉCADA DE 70 que abandonaram a Internacional e começaram a reunir na Livraria Interna-
cional [cujo proprietário era Carrilho Videira] de onde sahia em breve o sema-
Com o entusiasmo suscitado pela proclamação da República espanhola, nário republicano federal O Rebate»43.
ter-se-iam formado, em Lisboa, três grupos republicanos: o democrata, òu a De facto, a 29 de Junho de 1873 começou a publicar-se o jornal O Rebate,
«guarda avançada dos reformistas», que se reunia em casa de Tomás Lisboa e órgão do recém-formado Centro Federal de Lisboa44. O radicalismo da publi-
do qual faziam parte, entre outros, Latino Coelho, Oliveira Marreca, Sousa cação levou-a a ser querelada nos finais daquele ano. Quer isto dizer que os
Brandão, Gilberto Rola, Bemardino Pinheiro, Osório de Vasconcelos, Alves federalistas eram, dentre todas as tendências republicanas, a mais aguerrida
Branco, Santos Lima e Elias Garcia40; o grupo republicano moderado, <<cons- tanto no plano ideológico como no nível organizativo: ainda em 1873, fun-
tituído pelos legítimos representantes de 4841, à frente dos quais estavam davam núcleos no Beato e em Belém4»; por outro lado, parece-nos indesmen-
Antrnio Maria da Silva, Alfredo de Melo, Albano Coutinho, Costa Goodolfim, tfvel que, nesta época, os intelectuais mais importantes do movimento perfi-
Eça Ramos, João Bonança, Júlio Máximo Pereira, Silva Viana e Salema lhavam o federalismo.
Os democratas, liderados por Elias Garcia e Osório de Vasconcelos, cons-
tituíam um agrupamento em que se dava maior relevância à táctica do que às
Cf. Antero de Quental, Cartas Inéditas a Oliveira Martins, Coimbra, 1931, p. 5. questões de princípios. Alguns vinham das hostes monárquicas (Latino Coelho,
~~ Cf. Biblioteca Nacional de Lisboa, Joaquim Damião Duarte Talhé, Apontamentos
para a Historia da Fundação do Partido Republicano em Portugal, ms. 249, n.° 60, ti. 2.
~Cf. Costa Gotxiolfim, A Associação, 2.a ed., Lisboa, 1974; Carlos da Fonseca, História
do Movimento Operário e dos Ideais Socialistas em Portugal. IV. Greves e Agitações 42 Idem, «Elias Garcia», Almanach Republicano para 1887, Lisboa, 1886, p. 9 e ss.
Operárias (l.o parte), Lisboa, Europa-América, s.d., p. 66 e ss. 43 BNL, Joaquim Damião Duarte Talhé, Apontamentos para a Historia da Fundação do
» Sobre a III República francesa, vejam-se, entre outros: Alexandre Zúvaès, Histoire de
Partido Republicano em Portugal, ms. 249, n.° 60, tis. 2-3.
la..Troisième République (1870-1925), Paris, 1926; Pierre Barrai, Les Fondements de la Troi- 44 Para se provar a vigilância que então existia entre federalistas e socialistas, atente-se
sleme République, Paris, 1968; Paul M. Boujon e Henri Dubois, La Troisième République,
nestas palavras de Antero a proprsito do aparecimento de O Rebate: «Enfio-lhe la O. Martins]
Paris, 1980.
4o Cf. Carrilho Videira, «José Elias Garcia», Almanach Republicano para 1887, Lisboa, o 1.° número dum jornal de Teófilo, que me mandou o Fontana. É um documento! Que pro-
grama! Tiraram ao acaso frases do nosso, e amalgamaram-nas com asneiras da própria
1886, p. 10; O Seculo, U armo, n.o 338, 16-U-1882, p. I.
lavra» (Antero de Quental, ob. cit., p. 158).
« Carrilho Videira, art.o cit., p. 10. 45Cf. O Rebate, I anno, n.° 19, 9 a 16-XI-1863, pág. 4.
O REPUBLICANISMO EM POR~IGAL
AS ORGANIZAÇOF_.S REPUBLICANA$

Bemardino Pinheiro) e todos concordavam que, no momento, importava lançar nas outras facções, o que, segundo Carrilho Videira e os seus amigos, estavl
um programa democríãco avançado, que não colocasse directamente a questão a colocar o movimento a reboque do jogo eleitoralista dos partidos monár-
do regime, de modo a conseguir-se a congregação dos sectores da esquerda quicos.
liberal. Admiraram, por isso, tanto a maleabilidade táctica de Thiers, como o No entanto, a conjuntura vivida no país ap6s 1871 parecia ir ao encontro
«oportunismo»'~ que, a partir de certa altura, Gambetta começou a usar como das teses conservadoras. Relançavam-se as indústrias de construçlo civil, de
forma de luta contra as coligações monárquicas. Sintomaticamente, tiveram tExteis e metalurgia e, no campo dos neg6cios, tudo parecia começar a correr
corno órgão o jornal Democracia (12-X-1873), o qual, logo no primeiro número, no melhor dos mundos48. O fim da guerra do Paraguai fez retomar o envio das
publicava o seu programa. Este denotava uma orientação demoliberal, silen- remessas dos emigrantes brasileiros, a gestão de Fontes ainda não tinha sobre-
ciando ainda a reivindicação directa de um regime republicano para Portugal. carregado os contribuintes com novos impostos e o capitalismo banclrio~
Os moderados criaram a União Republicana, agremiação que, em 1 de desenvolvia-se -- os bancos passaram de 15 (1872) para 51 (1875). Depois de
Junho de 1873. lançou o seu primeiro manifesto ao país. Sem ter a estrutura anos difíceis, o país parecia iniciar uma nova fase de prosperidade; vivia-se,
de um programa político, este escrito revela uma intenção pedagógica e, sobre- no dizer de um contemporâneo, um período de «opulência de sonhos
tudo, manifesta um claro receio de que as hostes republicanas pudessem ser ridentes»°. Isso conduziu a que muitos, incluindo o rei e o pr6prio Anselmo
invadidas por elementos até aí ao serviço da Monarquia. Consequentemente, Braamcamp, pensassem ser urgente reagrupar as facçõ¢s antifontistas de modo
visava muitos dos que se uniam à volta de Elias Garcia. Mas, pelo seu tom a conseguir-se a consolidação de uma estrutura bipartidária adequada à rotaç~
moderado, demarcava-se igualmente do radicalismo federalista, definindo pacífica do poder51. É que, segundo Ladislau Batalha, o próprio rei D. Luls
como objectivo mais visível a preservação de um purismo que julgava amea- pretenderia animar «um movimento igual àquele que o seu sogro Vftor Manuel,
çado com a infiltração dos reconvertidos. na Itália, tinha fomentado, chamando ao poder os reformistas e os democratas
A degradação do republicanismo espanhol e, ao contrário, os avanços con- portugueses logo que a situação regeneradora se [tornasse] impossível»S2.
seguidos pelos republicanos franceses, unidos nas questões essenciais, conso- E, como atrás ficou escrito, foi dentro desta estratégia que nasceu o Partido
lidaram a aspiração unificante do pr6prio republicanismo português. Deste Progressista (1876), através da fusão das facções monárquicas mais à esquerda
modo. nào admira que, a 24 de Janeiro de 1874, se tenham reunido secretamente (históricos e reformistas).
rodas as fac¢,ões do movimento tendo por objecãvo a formação do Centro A deflagração da crise financeira (1876) e a confirmação da hegemonia
Republicano Eieitoral de Lisboa47. Para a realização de tal desiderato, chegou-se republicana em França com a obtenção da maioria no próprio senado confir-
a eleger uma comissão encarregada de elaborar um programa a apresentar às mavam aquela necessidadeS3; mas, ao mesmo tempo, convenceram também os
eleições desse ano. Sabe-se ainda que, nesse conclave, estiveram presentes republicanos portugueses de que era preciso lançar as bases de uma organi-
172 pessoas. No entanto, as iniciativas deste centro não obtiveram quaisquer zação que lhes permitisse afirmarem-se como uma força polfãca a ter em conta.
resultados práticos, pois a divisão entre os republicanos lisboetas e, conse- E é com esse desígnio que, no ano de 1876, se assiste a um processo tendente
quememente, em todo o movimento continuou.
a alargar a frente de combate aos regeneradores e, simultaneamente, a institu-

O Centro Republicano Democrático de Lisboa (1876) 48 CL Manuel Villaverde Cabral, ob. cit., pp. 264-67.
49 Cf. Miriam Halpern Pereira, la'vre-Cambismo e Desenvolvimento Económico. Por-
As condições ainda não estavam maduras para a realização da unidade. tugal na Segunda Metade do Século XlX, Lisboa, 1971, pp. 288-92; Armando de Castro, ob.
É que as diverg¿ncias de princípios apareciam correlacionadas com outras de
cit., pp. 168-70; Joaquim de Carvalho, ob. cit., p. 404 e ss.
ordem pessoal e táctica. Se, para os federalistas, se impunha a necessidade de se 50pinto Coelho, «Os Bancos em Portugal em 1875», in Joaquim de Carvalho, ob. c/t.,
oficializar uma política declaradamente republicana e tacticamente incom- p. 405. Sobre a circulação fiduciária e o clima de esp¢culação financeira, vejam-se Ro-
patível com alianças contra natura, o «oportunismo» ganhava terreno drigues de Freitas, A Crise Monetaria e Politica de 1876. Causas Remidios, cit.; Oliveira
Martins, A Circulação Fiduciária, Lisboa, 1935, p. 404 e ss.
51Cf. Joaquim de Carvalho, ob. cit., p. 402.
52 Ladislau Batalha, A Nova Inquisição ou o Directorio Republicano os Seus
Actos perante a Opinião Publica, Lisboa, 1876, p. 16. Esta versto ~ cotroborada
« Segundo
l'heure Gambeua.
pmplce, ies oportunismo
cwcomtances significava
favorables, mais ne «politique
sacrifiantavisée, ne hasard,
rien ni au laissantnijamais
à l'esprit por Sebastião de Magalhães Lima, A Revolta (2.« Parte). Processo da Moaarchia, Lisbos,
de vmleace», in Pierre Banal, ah. í;t~ 2P3130" Vejam-se tamb6m G. Worrnser, Gambetta 1886, p. 27.
dans les 7empétea, Paris. 1964, pp. 53 Sobre as vitórias dos republicanos franceses nas eleiç6es realizadas de Dezembro de
the Thlrd Repubiic. Londreb. 1973. - u, e J. P. T. Bury, Gambetta and the Making of 1875 a Março de 1876, que conduziram à sua maioria no senado (60 lugares relmblicanm
'~ Cf. O Rebate. 11 armo, n.o 30. 1-11-1874, p. 3; n.o 32, 22-11-1874, p. 2; Democracia, contra 10 legitimistas e cinco de centro-direita), vejam-se: Jacques Chastenet, Naisuuwe et
11 armo. n" 87, 28-VI1-1874, p. 3; n.o 94, 6-11-1874, p. I. Jeunesse. Histoire de la !!!¿'' Rdpublique, Paris, 1952, p. 200 ss.; J. P. T. Biry, ob. cit.,
pp. 263-82.

25
O REPI~LICANISMO EM PORTUGAL
AsORO^NtZAçt'ESREPUBt.~ANAS
É indiscutível que o novo centro, no inicio, pmvoctm entutiasmo ~ em
cionalizar o movimento como partido. Mas. como se verá, as divergências pouco tempo contara «para cima de 500 associados» ~ aglutinou todm as
eram tio grandes que. passado pouco tempo, cafa-se numa situação de dissídio facçúes do republicanismo lisboeta e, por outro lado, o seu exemplo repto.
igual (ou superior) à existente antes de 1876. cutiu-se a nível nacional. Em Agosto de 1876, lançava uma carta-circular a
Para o combate contra o Partido Regenerador, houve, de facto, uma conver- todos os republicanos do país noticiando a sua formação e definindo como fina.
gência de esforços entre republicanos de todos os matizes e a oposição monár- lidades «o desenvolvimento gradual pacífico das ideias democráticas nas int,
quica (reformistas e históricosP'. Em meeting conjunto", realizado a 19 de
tituições do país e, em evolução natural do futuro, o estabelecimento da
Março de 1876, e convocado para reclamar contra os impostos, pelo sufrágio
República em Portuga163». Este apelo foi escutado, pois nasceram novos cen-
universal e pela respon~bilidade ministerial, a voz dos oradores republicanos
tros em Alcântara, no Porto, Setúbal, Tarifa, Coimbrau Vila Real. CatMola.
(Casimiro Gomes e Joio Bonança) juntou-se à dos monárquicos de esquerda56.
Figueira da Foz (Vila Verde), Angra do Heroísmo, confirmando.~, assim, o
O suces~ popular da manifestação~7 empolgou os seus proponentes de tal
que Joaquim Martins de Carvalho noticiava: «Nos grandes cantrm de povoa~;lo
modo que os republicanos, igualmente entusiasmados com os sucessos elei-
desenvolve-se activamente a propaganda republicana, e dentro em pouco o
totais dos seus correligionários franceses, aproveitaram o clima de euforia para
partido adversário de todo o governo monárquico terá lançado fortes raízes no
criar as condições que possibilitassem a unificação da sua militância.
Em jantar democrático (25 de Março de 1876) presidido por Oliveira país»>6» De facto, entre 1876 e 1880, nota-se um inequlvoco crescimento de
Marreca. tentou« selar o compromisso entre todas as facções, culminando, militância expresso no aumento de organizações, na fundar/to de jornais e
assim, um processo que sànha de trás. Com efeito, sabemos que, já em 1874, revistas de informação e de doutrina, e num maior empenhamento eleitoral.
tinha realizado no Teatro do Príncipe Real um sarau com o fito de <<arras- Mas será tudo isto suficiente para se poder concluir que o movimento atingiu.
tar os democratas a definir-se»-~* e. em finais de 1875, os federalistas promo- finalmente, a dimensão de um verdadeiro partido? Pelas razões que passamos
vetam uma homenagem ao velho republicano Gilberto Rola, para a qual con- a expor, somos da opinião de que uma descida ao fundo deste activismo con-
vidaram os unizários. Eiias Garcia e alguns emigrados políticos espanhóis duz a uma resposta negativa. Em primeiro lugar, apesar da influ~.ncia do Centro
(Ram6n de Cala e remando Garrido)-~~. As relações entre as várias tendências Republicano Democrático de Lisboa, os núcleos regionais continuaram a mio
iam-~ estreitando e. em 1876. com a nova conjuntura internacional e com o vindicar a sua independência políãco-ideológica. Polarizados i volta de «aoUi-
sucesso do comicio. «todos os grupos se encontraram de acordo para come- veis» ~ Porto (Rodrigues de Freiras, Manuei Francisco Pereira de Sousa,
morar aquele facto com o banquete democrático realizado, no palácio do Largo Eduardo Augusto Falcão, José Jerónimo de Faria, Títo Jorge de Carvalho
do Quintela. a Zç de Abril desse ano»60. Aí se decidiu, sob grandes aplausos, Malta, Alves da Veiga), Coimbra (Abro Roque, Emídio Garcia, Jus~ Fale/toh
fundar o Centro Republicano Democrático, que veio a instalar-se a 2 de Abril Grândola (Jacinto Nunes), Vila Verde (António da Costa, Alvaro Alves
na Rua da Rosa. n.~ 105. Em assembleia geral ocorrida nesse mesmo dia, ele- Ribeiro), Vila Real (Augusto César), Angra do Heroísmo (Jacob Abohbot) --,
$t=-se o autodenominado Directório do Partido Republicano Português com- possuíam estatutos próprios e gozavam de plena autonomia em relaçlo a
pemo por M elementos«. Para muitos historiadores esta data assinala o nasci- Lisboa. Deste modo, nenhum centro emergiu, nesta altura, como líder em re-
mento do Partido Republicano«'. Mas será assim? Poderá dizer-se que se lação aos restantes. E, ao contrário do que acontecia com os partidos mo~-
consolidou uma estrutura qualitaãvamente diferente da anterior? quicos, também nenhuma das suas figuras se alcandorou à dimenslo de chefe
nacional incontestado. A ideologia democrática e descentralista típica do movi-
mento era um óbice a que isso ocorresse.
~'Cf./k'mocracu~. IV armo, n.~ 915, 14-II/-1876, p. 1.
s" Do~ li¿eres republicanos, somente se recusaram a assistir ao comício Gilberto Rola, De certa maneira, a própria unidade do Centro Republicano Democrático
qtl~ invocou velhas inimizades com alguns dos participantes monárquicos, e Carrilho de Lisboa foi mais um desejo do que uma realidade duradoura: as pritmirM
Valelra, que. em nome do seu radicalismo, afirmava não «transigir com tais partidos» divergências (e suspeições) sobrevieram logo nas retmiúes prtlmmtúdas da ma
(Lildlshm Batalha. oh clt., pp. 9-10).
~" Sotnr o comtclt~, vejarn-se: Democracia, n." 721 21-III-1876, p. 1 ; O Seculo. II anno,
B,' .a,¿4, I çLlll- ! Igg2, p 1 ¢,3 «Carta-circular que foi dirigida a muitos cidadio~ de IAsboa Pmvinc~ dep~ de
'" - estavam centenas de pessoas, que já não achavam lugar no salão. E muita gente que
oam,, ¡una entrar, ta-se embora ao ver a rnuludão apinhada à porta» (Democracia, n.o cit., p. 12). organisado o Centro Eleitoral Republicano Democratico na capital», m Feio Te~n~, «Para
a Historia do Partido Republicano Portuguez». O Partido do Povo. 1 armo, ri, 2& Julho.
»Camlho Vi¿eu'a, arl.. c,.. p. 12.
Idem thldem 1878, p. 114.
640 regulamento deste centro, constitu[do em 1878. eatipulava no aro im~ pomo:
«'l-a~stau Batalha. ob «,.. p. i i e es.
b~ Soiwe as mstalaç6es ¿este centro, ve]am-se: Democracia, n.o 726, 28-111-1876, p. 1; «O Centro Eleitoral Democrático Republicano de Coimbra tem par fim ~ as ideias
O Secuh~. 11 annt~, n' .~9.25-111-11Sg2, p. 1. n." 374. 28-111-1882, p. 2; Carrilho Videira, republicanas, e cooperar para a implantaçlo do sir~ma mptã~cmm ¿ma ~ par
ah.. «R. p 13. Luas d'Ol|vetra, ob. «'iz., pp. 33-34. da imprensa, da urna, das escolas, dos comlcios e das confef¿ncias» (Retadameaao da Cea-
«;C~ la~pe.~ d'Ohvetra.-b. «,.. p 33 e es. tro Eieitoral Democratico Republicano de Coimbra, Coimbra 11878]. p. 1).
O Conin~ricense. XXIX armo, n.° 3041, 19-1X-1876, p. 1.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL AS ORGANIZAÇOES REPUBLICANAS

de que, apesar de tudo, havia algum respeito pelos princípios liberais, era inter-
instalação. Enquanto Elias Garcia, Bemardino Pinheiro, Consiglieri Pedroso e
pretado pelos mais radicais como um sinal de conivência táctica entre o poder
Eduardo Maia defenderam que a nova associação deveria ser designada tão-só e muitos dos principais «notáveis» do movimento republicano de Lisboa.
por Centro Democrático, Gilberto Rola, Carrilho Videira e outros advogaram Como prova suplementar aduziam a resistência que estes últimos faziam à
a necessidade de este receber uma conotação declaradamente republicana. Na
penetração do elemento popular nas fileiras do novo centro. Para os federa-
assembleia constituinte, a controvérsia foi sanada através de uma solução de listas, «uma República que não transformasse radicalmente rodas as institui-
compromisso: o novo agrupamento passou a chamar-se Centro Republicano
ções sociais»69 não seria digna desse nome, e acusavam os moderados de trans-
Democrítico~. formarem os trabalhadores em meros instrumentos de luta política contra os
Esta querela não era formal e secundária, pois a força que os federalistas
partidos monárquicos. Por isso, ecoando a génese socialista do seu republica-
faziam no sentido da explicitação do carácter republicano do novo grrmio
nismo, criticavam-nos por arredarem a classe operária de uma participaqão
tinha por base uma prevenção bem mais funda. Sem uma opção inequivoca-
mente antimonárquica, correr-se-ia o perigo de o movimento ser facilmente activa nas decisões do Centro. «O proletariado», escrevia Ladislau Batalha em
integrado nos esforços tendentes à reorganização partidária do regime fomen- finais de 1876, «não está ali nunca, e quando algum desses aparece, se pede a
palavra, pode ser desconsiderado, mormente na actualidade em que a mesa da
tada pela Coroa e pela esquerda monárquica. Para os sectores mais «opor-
tunistas» e menos radicais, seria importante que o novo agrupamento se assu- presidência se tornou capciosa e venal»70. Em síntese: os anátemas dos fede-
misse somente como associação «democrática», pois isso facilitada acordos ralistas assentavam nesta convicção -- o Centro Republicano Democrático de
com as facções monárquicas -- José Elias Garcia estaria a jogar numa aliança Lisboa teria nascido para ser um destacamento da política monárquica.
com o grupo regenerador de Barjona de Freitas, enquanto outros se inclinavam Consequentemente, os seus dirigentes deveriam manter uma linha moderada
para os pmgressistas. e impedir que a penetração popular o levasse para posições revolucionárias.
Na verdade, as ligações anteriores de muitos republicanos de agora com os Ora, como o «centro republicano fazia assembleias tão numerosas, as adesões
reformistas e históricos eram uma forte razão para tornar credível esta mano- eram tão repetidas e em tão grande número, as propostas de novos associados
bra. Daí que a crítica federalista fosse mais longe e denunciasse tanto os obs- afluíam tão constantemente, e o partido impunha-se por tal forma passados
táculos que estariam a ser criados à implantação popular do novo agrupamento, apenas dois meses da sua existência, que o paço assustou-se deveras e o
como o carácter contraditório da composição social da sua direcção, a qual, governo fez prevenir a Granja [isto é, os progressistas] da imprudência do seu
sendo teoricamente a vanguarda de um movimento que lutava contra o poder destacamento, ameaçando-a de que seria fatalmente condenada ao ostracismo
estabelecido, era dominada por altos funcionários públicos67: Sousa Brandão se o partido republicano continuasse a crescer pela forma em que ia. Os pr6-
era funcionário do Ministério das Obras Públicas; Gilberto Rola, oficial do prios reformistas da véspera, os destacados, tiveram medo da sua obra e tra-
Exército; Elias Garcia, professor da Escola do Exército; Latino Coelho, pro- taram de desmoroná-la»7L Para bloquearem o peso da influência radical, isto
fessor da Escola Politécnica; Oliveira Marreca, professor e guarda-mor da é, «para conservarem a direcção do grupo, que começava a libertar-se da
Torre do Tombo; Bernardino Pinheiro, secretário do Supremo Tribunal de tutela», decidiram «expulsar os federalistas, que eram os mais irrequietos e
Contas. É certo que tambrm Te6f'do ensinava no Curso Superior de Letras, arrojados, e que conseguiam entusiasmar as assembleias»72.
mas os federalistas ressalvavam-lhe a idoneidade política e o seu espírito inde- Descontando o exagero das acusações deste tipo -- os «moderados» denun-
pendente. Quanto aos outros, o paradoxo não estava no facto de serem funcio- ciavam os federalistas de serem, por sua vez, agentes do governo73 --, o certo
nários públicos e, simultaneamente, adeptos da causa republicana. Radicava, é que tal clima de acusações e de desconfianças levou à expulsão de Ladislau
antes, na circunstância de ocuparem posições de comando perante a passivi- Batalha e de Carrilho Videira. Não admira: «Carrilho Videira como republi-
dade repressiva do poder estabelecido. Como lembrava Carrilho Videira, «bas-
cano federal, foi dos primeiros a combater o programa do Direct6rio [do Centro
tantes conservadores conta o partido republicano francês e espanhol, mas,
apesar de conservadores, nenhum é funcionário do Estado e o próprio profes-
sorado, profissão de todas a mais independente, apesar de não se intrometer
69 Carrilho Videira, «Aos Leitores», Almanach Republicano para 1883, Lisboa, 1882, p. 53.
na direcção do partido, só pela exposição da doutrina liberal é suspenso e per-
70Ladislau Batalha, ob. cit., p. 18.
seguido, como Michelet e Quinet, em França, e Salmerón, em Espanha>»68. Como 710 Trinta, I anno, n.° 79, 21-IX-1879, p. 1.
isso não acontecia em Portugal, o que deveria ser entendido como uma prova 72 lbidem.
73 Concretamente, acusavam Carrilho Videira de ter escrito uma carta anrnima a Casi-
miro Gomes (ajudante de José Elias Garcia) que terá ido parar ao Governo Civil. Acusa-
~Cf. Ladislau Batalha, ob. cit., p. 16 e ss. vam-no ainda de ter contactos com o regenerador Rodrigues Sampaio e de ter sonegado
«7 No fundo, a elite republicana limitara-se a reproduzir as características sociais da elite uma cópia da declaração do Centro Democrático aos republicanos do país. Os federalistas
políuca da época. sempre afirmaram que tudo isto não passava de uma montagem, feita com a conivência das
autoridades, a fim de irradiar os radicais do movimento republicano. Cf. Homem Cristo,
*' Almanach Republicano para 1878, Lisboa, 1877, p. 74.
Notas da Minha Vida e do Meu Tempo, Lisboa, 1936, p. 104.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
AS OROANIZAÇOE5 ItEPUBLICANAS
Carrilho Videira revela, se mantiveram intransi8entemente fi~is ~ denúncia do
Republicano Democrático], que apodou de retrógrado, pelo que incitou da «oportunismo» dos unitários e à inexistência, na sua opinião, de uma orien-
parte de alguns dos ~us componentes, uma guerra sem tréguas e infame que tação republicana liberta de concessões tácticas aos partidos mon ui ».
chegou ao ponto de o acusarem de espião, ao serviço da monarchia e pago E o Centro Republicano Democrátic,, a,, : .... árq cos
pelos cofres da polícia para fazer a intriga e a rizania no centro, e por esp]ao momentos entusiásticos de 1876, sabe-se que , ,,~entrou,
L,i~,ooapelas
como evolui?
razões Depois de
jl apontadas,
foi expulso do centro de que foi o fundador». Ladislau Batalha, «que ousou em refluxo. Diminuiu o seu activismo e só se conhece como acção significativa
tomar a sua defesa, foi igualmente expulso do centro e a Cecflio de Sousa, pelo o lançamento de um projecto de programa para o Partido Republicano. Por
mesmo motivo, sucedeu outro tanto». Enfim, «todo o campo federal foi posto outro lado, o alvitre para se convocar um congresso republicano democrático")
na Rua à excepção de Theophilo Braga, que, apesar de se dizer amigo de não teve continuidade e, nas vésperas de uma outra cisão (1878). tem-se no-
Carrilho Videira... não teve ddvida em assignar a sua expulsão»TM. tícia de que havia sido eleita uma comissão com a finalidade de estudar as
Os federalistas expulsos procuraram organizar-se autonomamente. A 3 de causas da sua decadênciaS~. Todavia, o aparecimento de uma nova ruptura
Dezembro de 1876, fundaram uma sociedade de pensamento chamada Clube
tornou inúteis os seus trabalhos. Qual foi a causa deste novo diss[dio?
Mundo Novo7:, que teve vida curta. Sustentaram ainda as candidaturas de Dando razão, pelo menos em parte, às suspeitas dos federalistas, a sua moti-
Te6filo Braga e de Manuel de Arriaga nas eleiçõcs de Outubro de 1878; e, a vação assentou em divergências acerca da política de alianças: Elias Garci¢
2 de Janeiro de 1879, instalaram o Centro Republicano Federal76 no Largo do que até 1876 tinha alinhado com os reformistas, passou depois a ter compro-
Contador-Mor. n.° 20. 1.° Integravam-no Carrilho Videira, Teixeira Bastos,
missos com os regeneradoresS2. Estes apoiaram a sua candidatura a deputado
Horácio Esk Ferrari. Manuel de Arriaga, Manuel Goulart de Medeiros e, entre
em 1878. Como protesto, o sector composto, entre outros, por Oliveira Marreca,
outros. Te6filo Braga, «que confessou reconhecer a iniquidade da expulsão de
Bernardino Pinheiro e Latino Coelho, abandonou o Centro Republicano
Carrilho Videira [do Centro Republicano Democrático] .... declarando que ao
Democrático (em 31 de Outubro de 1878). Mas, por sua vez, os «garciistas»
sancionar a referida expulsão tinha sido ingenuamente iludido na sua boa-fé»77.
acusavam este grupo de ser uma mera facção «progressista- no seio do movi-
Deste Centro terá ainda nascido, a 30 de Setembro de 1879, o comité central
do Partido Republicano Federal7s. mentos3, enquanto os dissidentes não deixaram de protestar contra tais insi-
Os f¢deralistas mostravam-se particularmente activos neste final da década nuações e, como resposta, advogavam que os republicanos (leviana seguir uma
linha política sem concessõesS4; tese que foi imediatamente apoiada pelos
e nos inícios dos anos 80. No entanto, a situação la evoluindo no sentido de
se atenuarem algumas das contradições anteriores. E os sucessos da campanha centros de Coimbra, Porto e Vila Real. Daí que inscrevessem nos princípios
contra o tratado de Lourenço Marques (1879-1881), das comemorações camo- do Centro Republicano de Lisboa, que fundaram na sequência do dissídio, esta
nianas (1880) e em honra do Marquês de Pombal (1882), acontecimentos em enfática e inequívoca declaração política: «Os abaixo assinados declaram, sob
que os republicanos desempenharam um papel decisivo, prepararam o terreno sua palavra de honra, que professando, sincera e profundamente, os princípios
para a reorganização do movimento e para a sua unificação. Uma cisão do e dogmas do credo republicano democrático, se associam0 livre e espontanea-
C¢mro Federal. liderada por Silva Lisboa e por Manuel de Arriaga, fundou o mente ao Centro Republicano de Lisboa, no firme e inabalável prol~sito de
Clube Henriques Nogueira com o fito de impulsionar esse projecto, ideia que cooperar com todos os seus esforços e meios de aeção na obra de propagar e
teve ainda o apoio de vários federalistas (Teófilo Braga, Teixeira Bastos, difundir esses princípios e de estabelecer e sustentar a República em Portugal,
~tião de Magalhães Lima), enquanto outros, como o caso exemplar de por todos os modos legais, honestos e legítimos -- ajustar o seu procedimento
político às normas e princípios que para bem do Partido forem adoptados por
comum deliberação do Centro -- e procurar, firmes e inalteráveis, na profissão
e defesa do credo republicano», lutar pela República. E, numa alusão indirecta
~4 BNL, Joaqaim Damião Duarte Talhé, Apontamentos para a Historia da Fundação do
Parndo Republicano em Portugal, nas. 249, n.o 60, ti. 10.
~»Cf. O Seculo. I1 armo, n.o 583, 3-XII-1882, p. 1.
~Cf. Horácio Esk Ferrari, Centro Republicano Federal de Lisboa. Discurso na Sessão ~9 Cf. Carrilho Videira, «Ao Leitor~, Almanach Republicano para 1883, Lisboa, 1882,
de Aberlura em 2 de Janeiro de 1879, Coimbra, 1879; O Seculo, II anno, n.° 605, pp. 59-60.
29-X11-1882. p. 1. s°Cf. Feio Terenas, art.° cit., O Partido do Povo, I mano, n. 36, 22-VI11-1878, p. 145-46.
7~ BNL. ~oaquLm Damião Duarte Talhé, Apontamentos para a Historia da Fundação do s, Cf. Teófilo Braga, Historia das Ideias Republicanos em Portugal, 1880, pp. 210 e í~;
Pa~ido Republicano em Portugai, tos. 249, n.~ 60, ti. 12. O Seculo, II anho, n.° 528, 30-1X-1882, p. i
~~ Os corpos gerentes deste agrupamento eram os seguintes: presidente da Comissão ~2 Cf. Homem Cristo, ob. cit., p. 104.
Executiva, Teixeira Bastos; vice-presidente, Joaquim Reis; secretário, Joaquim Furtado; ~3 Sobre esta crise, vejam-se: Teófilo Braga, ob. cà., pp. 210 e ss.; O Seculo, n.« 544,
tesoureiro, António da Silva; vogal, Morais Caravela; presidente da Assembleia Geral, 31-X-1882, p. 1; Sebastião de Magalhães Lima, ob. cit., pp. 26-27; Homem Cristo, ob. cit..
Silva Lisboa; vice-presidente. Ant6nio lnácio de Almeida; secretários, Manuel de Medeiros p. 103 e ss.
Silva Graça; vice-secretários. Agostinho da Costa e Santos Coelho. Cf. O Seculo, II anno, u Cf. Homem Cristo, Notas da Minha Vida do Meu Tempo, rol. 2, Lislx~ 1932,
n." 528, 30-1V-1882. p. 1, e n.o 577, 26-1X-1882, p. 1. pp. 108-110.
31
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL ASORGANIZAÇOESREPUBLiCANA$
mentais da elite republicana em ordem a superar-se a sua indisciplina ideo-
aos prosélitos de Garcia, concluíam: «E se algum dia qualquer de nós faltar a lógica e os seus particularismos clubistas. E, para o grande doutrinador, como
estas solenes promessas será banido por desonrado e indigno de ser contado para muitos dos seus correligionários em filosofia e em política, essa acção
entre o número de honestos republicanos e dos verdadeiros homens de bem»>s5 pedagógica teria de inspirar-se num novo saber: o positívismo, a única teoria
Como se vê, a situação era polémica e a rede orgânica dos republicanos de que, possuindo um estatuto que se julgava científico, permitiria ultrapassar
Lisboa, nos finais da década de 70, estava polarizada à volta de três núcleos
principais: os federalistas, instalados no Centro Republicano Federal; os «rege- todas as divergências e superar um estádio de organização que, bem vistas as
coisas, estava ainda demasiadamente sujeito às formas de sociabilidade polí-
neradores» do velho Centro Republicano Democráaco, agora dominado por
Elias Garcia; e os «progressistas», facção dissidente que se reuniu no Centro tica herdadas da Revolução Francesa, do vintismo e do setembrismo (socie-
dades de pensamento, clubes), quando os pressupostos filosóficos e as neces-
Republicano de Lisboa~, presidido por Oliveira Marreca e fundado a 4 de
sidades da luta política exigiam a edificação de um partido adequado ao
Janeiro de 1879. (Estava igualmente em funcionamento o Centro Eleitoral
Democrático. instalado em 1870, em Alcântara). Como é lógico, esta situação sistema representativo e assente numa base de apoio mais larga.
repercutiu-se pela província e não era de molde a incentivar a militância.
Alguns centros desacüvaram-se, e outros, como os do Porto e de Coimbra, pro-
curaram manter-se à margem dos conflitos lisboetas, apelando, contudo, para As comemorações camonianas
a necessidade de se proceder à urgente redefinição ideológica e organizativa
do movimento republicano dentro de uma linha que, em última análise, criti- Perante a fragmentação do movimento republicano, e tendo presente as
cava o sucessivo «opommismo» da corrente liderada por José Elias Garcia. hesitações (e dificuldades) do seu enraizamento popular, é pertinente perguntar
Perante este estado de coisas, só muito dificilmente se poderá concluir que se o êxito das comemorações camonianas (1880) não assinalou o começo de
o Parado Republicano nasceu em 1876. Como escrevia Martins de Carvalho, uma nova fase na sua história. É que alguns historiadores localizam neste
tr6s anos depois desta data «uma parte do partido republicano subordina-se ou sucesso a génese do Partido Republicano. Embora não desprezemos a sua
deixa subordinar-se ao governo regenerador; e uma outra parte subordina-se contribuição para um novo fluxo de militantismo, julgamos, no entanto, que
ou deixa subordinar-se ao governo progressista! Por ambas as formas os repu- aquelas foram condicionadas por causas bem mais importantes. É uma ver-
blicanos não fazem mais do que servir de instrumentos dos ambiciosos monar- dade provada que as festividades foram impulsionadas por figuras eminentes
quistas»sT. E, na ópuca (interessada) de Teóf'flo, verdadeiramente, só a facção (Teófilo, Ramalho Ortigão, Emídio Garcia)91. Por outro lado, os seus promo-
federalista estaria «imaculada de conluios com os partidos monárquicos»ss. tores procuraram dar-lhes uma conotação cívica que, inspirada no positivismo,
Como os socialistas se haviam apartado do republicanismo, e se alguns radicais ia ao encontro da mensagem veiculada pelo movimento a que pertenciam, e o
ainda estavam «no partido republicano, era com intuitos de má-fé, para justi- seu móbil político é hoje transparente: apropriaram-se da figura do Epico, sim-
ficar a inscrição de alguns nomes nos arquivos da polícia e envolver os sin- bolo de um período de grandeza pátria, para, em contraponto, fazerem emergir
ceros quando fosse preciso89», terá de concluir-se que o movimento se conglo- o estado de decadência da sociedade portuguesa, responsabilizando, ainda que
mcrava à volta daquelas três tendências fundamentais. E, como se verá, aquela implicitamente, a Monarquia e, em particular, a Casa de Bragança, por essa
classificação tinha a ver não só com princípios ideológicos, mas referenciava, situação. Isto é, com o recurso ao mito de uma idade do ouro perdida por culpa
igualmente, divergências tácticas que dividiam os diversos sectores republi- de um regime, queriam «tirar da maior tradição do nosso passado histórico o
canos.
estimulo para um renascimento»92, o qual só poderia ser realizado por um
No entanto, segundo Te.6filo, mais do que aos homens, a responsabilidade
projecto político que encamasse a esperança de uma verdadeira regeneração
de tal situação caberia ao eclectismo doutrina] reinante no movimento e ao
para a Pátria decaída. E a República era apresentada como um m~ssianismo
carácter retrógrado da sua organização: «Não é tanto aos homens, como à
social.
forma atrasada do clubismo que devemos atribuir a desmembração do nascente
Não se pense, contudo, que as comemorações foram uma manifestação
partido republicano português»>90 Impunha-se, por isso, renovar os quadros
política exclusivamente controlada pelos «jacobinos». Ao contrário, consti-
tufram uma grande confraternização cívica que envolveu todos os sectores
sociais e empenhou por todo o país indivíduos das mais variadas proveniências
Regulamento do Centro Republicano de Lisboa, Coimbra, 1879, p. 5. ideológicas. Porém, as resistências oficiais à iniciativa, a simbologia do cor-
Faziam parte dos seus corpos gerentes Oliveira Marreca, Latino Coelho e Anselmo
Xavier. Cf. O Seculo, II anno, n.o 302, 4-I-1882, p. 1.
~~ O Conimbricense, XXXUI anho, n.o 3376, 10-XII-1879, p. 2. 91 Sobre estas festividades cívicas e respectivo enquadramento ideológico, veja-se
u Te6filo Braga, ob. cit., p. 215.
sç Idem, ibidem. Fernando Catroga, A Militãncia Laica e a Descristianização da Morte em Portugal
Idem, ibidem, p. 221. (1865-1911), vol. 2, Coimbra, 1988, pp. 891-991.
92 Teófilo Braga, ob. cit., p. 356.
33
O REI~ ~NI i('ANI~MO I-'M pç)RTLVG ~I
AS [}IR[JANIlAI~,'(~~.~ Itl-Jlq llllJ( &NAS

rejo (em que era dado lugar privilegiado is entidades que representaram a des- A F U N D A Ç À O D O PA R T I D O R E P U B L I C A N O
¢,~ntrahza~,'ão. a ciência « o trabalho ~ valores caros aos republicanos), e a
cna~-ão de um clima de revive.~c~ncia mítica da grandeza nacional foram fac- Da aglutinação de todos estes elementos, tremeu o terreno prop[¢|o para o
tore~ que levaram à fuslo desse momento colectivo, de ardor quase religioso, avanço do militantismo antimonárquico. E este avanço foi tão importante que
com as expectativas republicanas. Não admira, assina, que a celebraçâo se não será exagerado sustentar que, entre 1880-1884. emergiu a rede org[miea
tenha ,~aldado por um triunfo de Terfilo, Ramalho e seus correligionários. do movimento republicano português das décadas ~guintes. Na verdade. ~
Todavia. o entusiasmo que provocou foi só por si suficiente para enca- em 1879, em Lisboa, existiam somente quatro centros activo~, entre I g80 e
minhar os republicanos para a unidade? Pensamos que não, pois em concomi- 1884 foram fundados cerca de 30 centros, 42% dos quais no er~tal ano de
timcla com o «estímulo moral» das comemorações encontramos outros condi- 1881. Sintomaticamente, a sua inserção maioritária hx:alizou-~e no Bairro
cionantes que impulsionaram decisivamente o movimento nessa direcção. Oriental, tendo-se depois alargado para o Bairro Central. ~ndo menor o pe~~
De.,~ logo. ~ de primordial impoa[mcia assinalar que as festividades em honra republicano na zona mais burguesa da cidade (Ocidental). Por sua vez. ru,quela
de Caro¿es j~ ~ efectuaram sob uma acentuada tensão antibritânica. É sabido mesma conjuntura existiam à volta de 23, abertos em v~ias Iocalidades do pah
que as preten«,¿~es ingle.,as em relação a Lourenço Marques (e às colónias por- (Ponta Delgada, Aldeia Galega, Cacilhas, Póvoa de Varzim. Guarda. Figueira
tugue~sJ, e a atitude negociadora dos governos monárquicos, abriram uma da Foz, Paços de Ferreira, Tomar, Alhandra, Grãndóla, Riba-Tua. Galreias.
questão que. iniciada em 1879. constituirá um dos problemas essenciais da Belém, Coimbra, Lagos, Porto (dois), Bragança, Lordelo, Évora e viseu). E.
n~~~.~a politica e um dos objecnvos mais valorizados pela propaganda dos repu- nem todos os centros conseguiram manter uma vida activa permanente. ¿ indis-
blicanos nas drcadas seguintes. Através de comícios e petições -- que atin- cutível que a maior parte se enraizou. Assim, a partir dos jornais republiean~
girSo o ~u auge em 1881 u. estes lideraram um forte movimento de opinião da época, conseguimos arrolar cerca de 50 em efectiva actividade, no Comi-
c(vatra o tratado, o que possibilitou o acasalamento da componente naciona- nente, entre 1886 e 1887.
lista com a expectativa republicana apostada em mostrar que só ela poderia Pela sua distribuição geográfica, confirma-se a domin~.cia lisboeta e sulista
fazer reviver a nossa perdida grandeza colonial. E, se o antibritanismo cons- deste activismo, já que 31 (60%) se situaram na capital (incluindo um em Car-
titui uma carataen'stica do liberalismo radical desde os inícios do século, a nide e outro em Sacavém), quatro (10%) no Porto (incluindo um em Vila Nova
questão colonial veio dar-lhe uma ~nfase nunca antes atingida, e os republi- de Gaia) e os restantes, descontando os casos de Barcelos e de Aveiro, esta-
canos souberam aproveitar-se da situação. vam instalados a Sul (Tomar, Santarém, Chamusca, Cacilhas, Évora -- dois --,
Por outro lado, os começos dos anos 80 trouxeram uma carga tributária e Sines, Grândola, Faro, Olhão e Tavira). No essencial, a geografia republicana
um decr¿~cimo do nível de vida das populações (voltam a ser frequentes os
começava a ficar esboçada, apesar de, por volta dos finais da década, ~
~os a favor do pão barato). A conUnuação do escândalo da salamancada
um evidente recuo. De facto, somente 42 centros (incluindo tr~s das Ilhas) e~ti-
(con~ dos caminhos de ferro), os protestos contra o imposto de rendi-
vetam presentes no Congresso Republicano de Janeiro de 1891. Destes, quatro
mentos, as discussões à volta da exagerada dotação régia e, sobretudo, a fra-
queza revelada em relação à influência crescente do elemento clerical (jesuí- localizavam-se no Porto, 19 em Lisboa e os restantes confirmaram a exis-
ueo) ~ recor~-se a questão do Padroado da Índia ~ foram motivos que os tência de focos significativos de militantismo republicano em localidades
rqmblicanos ~~roveitaram para intensificar a sua propaganda. Nomeadamente situadas sobretudo na zona do Tejo e no Sul do país.
a campanha antijesuíüca voltou a atingir um ponto alto com a celebração do Seja como for, é um facto, que naquela conjuntura, uma boa parte destas
eem¢~ário do Marqués de Pombal (1882). Com a ressurreição do espectro das agremiações já tinha quase uma década de funcionamento, o que é um sinal
,sotainas negras,,, tentou-se captar a adesão de sectores que, sem se declararem inequívoco de radicação partidária. Mas, ao crescimento dos centro~ terá cor-
contra o regime, se mantinham fiéis à tradição antiultramontana e regalista do respondido a criação de uma direcção nacional capaz de transformar os n~leos
not~~ liberalismo. Como. perante esta ofensiva, os governos monárquicos au- regionais num verdadeiro partido político? A par do esforço doutrin',d de
Teófilo Braga e de Manuel Emídio Garcia nos anos 70, outra não foi a inten-
a sua aç..ção repressiva, assiste-se a perseguições93 a dirigentes dos
republicanos e a jornalistas~ sendo a principal vítima o recém-criado
Ceglll~ ção do novel jornal O Século (o primeiro número saiu a 4 de Janeiro de 1881 ).
O Sécuio. Ora. tudo isto serviu de pretexto para o lançamento de campanhas Assim, logo neste ano, o poeta Alexandre da Conceição exarava, nas suas co-
a favor das liherd~es civicas que acabaram por sensibilizar muitos liberais lunas, este diagnóstico sobre o estado interno do movimento republicano:
~tentes com a política financeirà e cultural da Monarquia. «Temos em Portugal quatro ou cinco frac{õ¢s do partido republicano, e por
isso nenhum partido digno desse nome fortemente e seriamente oqlanizado.-~
E, como solução, propunha, com a ajuda do positivismo, que ~e ~sem
"'Cf O hr,'ulo. Suplemento ao n." 583, 4-X11-11t82, p. !; n., 585, 6-X11-1882, p. 1;
n" I(101. 15-1V-II~I~. p i
' ~ d'Ohveara. O.L CaJre~ (Protesto contra ~ Perseguifões à Imprensa), Pollo, 1885. ~~ Alexandre da Conceiqlo. ,,Ao Partido Republicano,,, O $¢c,do, I armo. n." 15,
21-1-1881. p. I.
34 35
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
AS ORGANIZAÇOES REPUBLICANAS
todas as «etiquetas mais ou menos fantasiosas», que dão ao republicanismo distanciados de tais querelas e, desde sempre, apelaram para a necessidade
«a feição desordenada de um grupo de seitas dissidentes e irreconciliáveis»96. de se buscar uma plataforma aceite por todas as tendências e facções.
E esta campanha recebeu, de imediato, o apoio de Teófilo Braga e de Sebastião Compreende-se, assim, a atitude propulsora que assumiram. E que a sua acção
de Magalhães Lima, para o qual «o partido republicano português carece, pri- não ficou na esfera das intenções prova-se pelo que a seguir se passou. Com
meiro que tudo, de afirmar a sua vitalidade, por uma sólida e definitiva organi- efeito, a 10 de Abril de 1882, a comissão eleita na reunião do Porto -- compos-
zação, de que está já dependente o seu crédito como partido de combate e de ta por Emídio Garcia e José Falcão (Coimbra) e por Alves da Veiga, Júlio
futuro»; para Teófilo Braga, tambrm a divisão e autonomia dos centros seria de Matos e Manuel José Teixeira (Porto) -- escrevia aos centros e às indivi-
dualidades de Lisboa a solicitar-lhes que promovessem a eleição de represen-
um bem, mas começava a tomar-se necessário «coordenar a sua acção mútua, tantes que deveriam juntar-se à comissão nortenha. Este pedido foi escutado,
federando-os por meio de delegados que constituam uma junta superior diri-
gente que tome a sublime responsabilidade do nome do partido republicano já que, a 19 de Abril, a comissão lisboeta estava constituída. Formavam-na
por'~l.lguês ~,~97.
Oliveira Marreca, Teófilo Braga, Bernardino Pinheiro, Latino Coelho e Manuel
Para a concretização deste objectivo (e para o custeamento das despesas de Arriaga1°°.
eleitorais), seriam necessários meios financeiros que só uma organização de Como fruto dos seus trabalhos, nasceu o Projecto de Organização Defi-
âmbito nacional poderia angariar. Com esta finalidade, criou-se, em Agosto de nitiva do Partido Republicano. Publicitado a 10 de Junho, foi escrito e relatado
1881, a Liga Económica do Partido Republicano, espécie de caixa mutualista por Manuel de Arriaga. Este documento é de crucial importância, pois trata«
que ida subsidiar as campanhas eleitorais e socorrer os militantes atingidos da primeira sistematização do ideário republicano articulada com a regula-
pela repressão monárquica. Sabe-se que, na sua constituição, participaram mentação dos seus órgãos constituintes. Compunha-se de oito partes: I-- Cau-
todos os centros de Lisboa e «todos os jornais da mesma cor política»98. Ora, sas justificativas; II -- Carácter e índole do Partido Republicano Português;
tudo isto mostra que se ia impondo a ideia de se sufragar uma direcção nacio- III -- Fundação, organização e fins dos centros democráticos, sua coordenação
nal do movimento que, respeitando a autonomia dos núcleos de base, teria uma e subordinação ao governo da província e intervenção directa no directório do
função essencialmente de coordenação e de representação externa. E o passo partido; IV -- Instalação, organização e administração do governo da pro-
decisivo para o definitivo lançamento do Partido Republicano foi dado pelos víncia; V-- Instalação, organização e principais atribuições do governo central
activistas de Coimbra e do Porto. A convite de Joaquim José Marques ou directório definitivo do partido; VI -- Atribuições do corpo consultivo;
Marinho, António Machado da Silva e Pedro Roxa, e sob a presidência de Vil -- Comissão permanente dos delegados do partido; VIII -- Comissão exe-
Manuel Emídio Garcia (lente da Universidade), efectuou-se uma reunião na cutiva e suas principais atribuições1% Embora exíguas, temos algumas infor-
cidade nortenha tendo por objectivo estudar as possibilidades de unificação do mações que indicam que este Projecto foi discutido nos centros~02 e, presumi-
movimento (2 de Abril de 1882). Estiveram igualmente presentes Alves velmente, debatido nas reuniõ~s preparatórias do congresso. No entanto, este,
da Veiga, Júlio de Matos, Manuel José Teixeira, Joaquim Duarte Moreira de
por razões que ignoramos, mas que se prendem, sem dúvida, com as dificul-
Sousa, Alfredo da Costa Braga, Eduardo José Coelho, António Machado
dades de coordenação inerentes à índole do republicanismo, só veio a rea-
da Silva. Desse concflio saiu a proposta para a convocação de um congresso
lizar-se um ano depois. Pelo teor do que lá foi aprovado -- infelizmente não
de todos os republicanos portugueses a fim de serem aprovadas as bases orgâ-
encontrámos qualquer documentação sobre os trabalhos da assembleia, e a
nicas e o programa político do agrupamento. Para dinamizar esta iniciativa,
imprensa republicana, por razões de segurança, não é prddiga em notícias --,
elegeu-se uma comissão composta por três elementos do Porto e dois de é permitido concluir que, com algumas altorações, as decisões foram tomadas
Coimbra, cuja tarefa prioritária seria contactar, de imediato, os centros e «os
tendo por base o escrito de Manuel de Arriaga~°3.
homens notáveis do partido»99 de todo o país.
Como vimos, entre 1876 e 1879, Lisboa foi o grande palco da dissidência Entre 18 e 21 de Agosto de 1883, nas salas do Clube Henriques Nogueira,
republicana. Situados numa área socioprofissional sensível aos jogos de poder, reuniram-se os delegados dos centros da capital, da província e os represen-
rivalizando entre si por razões de ordem ideológica e de liderança nacional, os tantes da imprensa republicana|°4. O número de mandatários foi de cerca de
republicanos da capital mostravam-se incapazes de consolidar a unidade do
movimento. Ao contrário, Coimbra e Porto mantiveram-se um pouco mais
l°°lbidem, n.° 690, 10-IV-1883, p. 1; n.° 698, 19-IV-1883, p. 1.
1ol lbidem, n.° 742, 10-VI-1883, p. 1.
l°2lbidem, II anno, n.° 448, 27-VI-1882, p. 1.
~03 Manuel de Arriaga, Projecto de Organização Definitiva do Partido Republicano
Sebastião de Magalhães Lima, «Aplaudimos», ibidem, n.o cit., p. 1.
Terfilo Braga, «Disciplina do Partido Republicano», ibidem, I anno, n.o 19, 27-1-1881, Portuguez, cit.
p.l. 1o4 Um jornal republicano noticiou esta reunião assim: «Acaba de realizar-se um facto

~Democracia, IX armo, n.o 2300, I0-VIII-1881, p. 1. de notável importância, pois que, pelas circunstâncias que o revestem, terá de marcar mais
990 Seculo, III armo, n.o 684, 3-IV-1883, p. 1. uma data memorável na vida do partido republicano. Realizou-se em Lisboa, nas salas
do Clube Henriques Nogueira, em os dias 18, 19, 20 e 21 do corrente m~s de Junho, um

37
AS ORGANIZAÇOES REPUBLICANAS
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
sista e ideologicamente heterogénea, s~ muito dificilmente poderia seguir uma
70. E. ao nível das deliberações, sabe-se que o congresso definiu a organização via sempre ascendente e linear na sua progressão. Por outr¿s palavras: o pro-
do partido, proprs o alargamento da acção dos centros e aprovou o princípio cesso formativo e de consolidação do Partido Republicano não esteve isento
da subordinação dos republicanos «em todo o país a disposições gerais e a uma de contradições e de refluxos. Como escrevia Guerra Junqueiro, referindo-se
direcção coroutu»t°'' Com a eleição do Directório, nascia a primeira direcção ao seu estado nos finais da década de 80, o seu peso estava circunscrito «a
nacional do movimento republicano composta por dois órgãos: uma comissão Lisboa, avolumando ou diminuindo segundo os erros da Monarquia», apare-
executiva e um corpo consultivo. Para o primeiro, foram eleitos José Elias cendo «hoje aparentemente forte e numeroso, amanhã exaurido e letírgico»,'~.
Garcia, Manuel de Arriaga, Te6filo Braga, Consiglieri Pedroso, Sousa Bran- Para esta situação, contribuía também a permanente tensão entre modos dife-
dão, Bernardino Pinheiro, Teixeira de Queir6s, Sabino de Sousa, Magalhães rentes de equacionar o ideal republicano e a táctica que o movimento devia
Lima e Castelo Branco Saraiva: no segundo, estavam representados Oliveira aplicar na sua luta contra a Monarquiat0g.
M~. Latino Coelho, Rodrigues de Freitas, Emfdio Garcia, Jacinto Nunes, E, sem querermos dizer que o radicalismo de objectivos foi sempre sin6-
Anselmo Xavier e José de Sousa Larcher~°6. nimo da defesa da via violenta de acesso ao poder, o certo é que, pelo menos
A iniciativa dos republicanos do Porto e de Coimbra e o aparecimento do tendencialmente, estas posições propenderam a coincidir. No campo dos prin-
Projecto de Organizafão Definitiva do Partido Republicano, escrito por um cípios, já sabemos que, nos anos 80, alguns radicais federalistas continuaram
federalista moderado, eram o sintoma de que a hora da ultrapassagem dos par-
a criticar a orientação legalista e «oportunista» da linha dominante e, quanto
ticularismos clubistas e da sobrevalorização das divergências ideológicas es- aos métodos de acção, foi crescendo um núcleo «jacobino», ou melhor, um
taria a aproximar-se. Tal como no concernente ao modelo político propugnado sector que se ia preparando para a eclosão da revoluçãot0L Esta tendência
se começava a compreender que o federalismo interno exigia a unidade coor- deve-se ao espírito conspirativo de homens como Santos Cardoso e Alves da
denadora do poder central, tamb6m no campo da organização partidária se Veiga, a quem se tem de juntar, no período do Ultimatum, publicistas como
concluía que as autonomias regionais e ideológicas dos centros, embora de-
João Chagas e Basflio Teles. Por outro lado, também em Coimbra emergiu uma
vessem ser respeitadas, não podiam impedir a existência de um núcleo coor-
nova geração (AfonsoCosta, António José de Almeida, Malva do Vale, João
denador da militãncia republicana. Daí a dimensão frentista do Directório, que
de Meneses), que encontrará no conflito anglo-português e nas hesitações da
integrava elementos de todas as tendências, pelo que se tem de aceitar que, do
orientação tradicional do movimento os pretextos para defender a urgência de
ponto de vista orgânico, o republicanismo procurava entrar numa fase quali-
tativamente nova, pois, com esses requisitos, estavam criados os alicerces de se fazer a revolução11°, ou melhor, derrubar a Monarquia pela força.
um verdadeiro partido político. Porém, isso, só por si, não afastou as divergên- Naturalmente, o movimento não estava preparado para essa tarefa devido
cias -- como as que, em Lisboa, separavam Carrilho Videira e o grupo ligado ao cariz eleitoral e doutrinário da sua táctica. Em 1887, alguns dirigentes, como
ao Clube Henriques Nogueira, e, no Porto, as que dividiam Emfdio de Oliveira Consiglieri Pedroso, Jacinto Nunes e Elias Garcia, chegaram mesmo a sugerir
e Alves da Veiga --, nem impediu retrocessos e atrasos na sua consolidação. uma aliança com um sector dos regeneradores -- os «barjonáceos» w de
Apesar de tudo, o congresso de 1883 foi o primeiro passo tendente à derro- modo a formar-se um bloco de esquerda dinásticam capaz de defrontar as
gação do peso do localismo e do clubismo republicanos. E, com as suas deli- teses dos que defendiam a política de engrandecimento do poder real -- o gru-
berações, lançou, de facto, as bases para que o movimento ganhasse a expres- po Vida Nova, de Oliveira Martins -- e de encontrar uma solução para a crise
são de um partido político moderno. A existência de uma direcção nacional, política e financeira que o Ultimatum agudizará. É verdade que aquela propos-
o reconhecimento de uma linha polffica independente dos partidos monár- ta, acerrimamente combatida por Manuel de Arriaga, acabou por ser derrotada
quicos, a durabilidade das suas estruturas orgânicas e o seu crescente empe- no congresso extraordinário do Partido Republicano realizado em Dezembro
nhamento na luta eleitoral e na luta pelo poder são características que apon- de 1887; mas o sentido da votação -- 56 votos contra e 50 a favor-- é a prova
tam para a superação da fase protopartidária e que anunciam a entrada em cena
de um parado propriamente dito.
No entanto, sendo uma organização nascida da federação de centros, de per- 107 Guerra Junqueiro, «Em Vez de Prefacio (Fragmento d'Um Estudo)», Memoria a José
sonalidades e de jornais, assumindo-se como uma frente socialmente interclas- Falcão, Coimbra, 1894, p. IX.
toa Um radical como Carrilho Videira, por exemplo, não deixou de criticar e de menos-
prezar o congresso de 1883. Cf. J. Carrilho Videira, «O Congresso Republicano», Almanach
Republicano para 1885, Lisboa, 1884, p. 32 e ss.
congresso a que concorreram delegados de todos os centros e jornais republicanos da capi- to9 Sobre esta questão, veja-se Amadeu José Carvalho Homem, «Conciliação e Conflito
tal. província e ilhas .... Este congresso foi de uma importância muito além do que podia no Discurso Republicano (1870-1890)», Revista de História das Ideias, vol. 7, T.° ti, 1985,
esperar-se,, (A Era Nova, n." 68, li armo, 24-VI-1883, p. 1). p. 298 e ss.
Hocf. «Manifesto dos Estudantes de Coimbra, de 13 de Novembro de 1890,,. A Repu-
'~ O Seculo. 1II armo. n.o 755. i 7-IV- 1883, p. 1.
J~A Era Nova, n,o cit., p. I; A Opinião. n.o 1 I, I anho, 22-V11-1883, p. 1 e p. 2; Lopes blica Portugueza, I armo, n.° 77, 16-X1-1890, p. 2.
d'Oliveira, ob. cit., p. 50. ttt Lopes d'Oliveira, ob. cit., pp. 67-68.
39
O REPUltLICANlsMO EM POR'FUGAL AS OIIGANIZAÇOF..$ RFJ~IBLIC&NA5
conflitos sociais irá favorecer os esforços de reorganização, agora cada vez
cabal das divisOes internas, da precariedade da unidade e das divergências
acerca dos modelos de sociedade que a Repdblica iria realizar e das vias que alturasmais animadosdo UltimatumPela novalt«, geraçilo de militantes que começou a emergir por
inam conduzir ao poder. De facto, é dos meados da primeira década de Novecentos que data o novo
Tudo isto mostra que o seu comando oficial nem sempre conseguiu aglu- arranque da sociabilidade política de inspiração republicana.~: do~ 32 lube~
tinar todos os republicanos e impor as suas directrizes. "leve, assim, um ritmo e centros existentes em Lisboa, em 1908, cinco haviam sido fundados em 1903.
desigual e conflituoso de desenvolvimento, havendo momentos em que o cinco em 1904, três em 1905, dois em 1906 e 17 em 1907; o que denota uma
Directório qua~ se aproximou da inoperância. E é neste contexto que temos significativa resposta contra a política de engrandecimento do poder real que
de entender os esforços feitos, em 1887, visando a reorganização do movi- a ditadura de João Franco exasperou. Este aumento de mililantismo republi-
mento através da convocação de uma Cãmara Constitucionalista e Legislativa
cano confirma, por outro lado, a sua inserção Predominanlemente lisboeta.
do Parddo Republicano. E foi ainda com a finalidade de responder às críticas embora sejam detectáveis pequenas alterações que merecem registo. Assim,
dos radicais e de clarificar o seu projecto perante uma opinião pública agitada numa listagem de centros em actividade publicada pelo Almanach Democrá.
pelo Ultimatum que o partido aprovou o seu novo programa político (Janeiro tico para 1908 ~ referindo-se, por isso, a 1907 --, dos 62 mencionados. 22
de 1891 ~. Mas a eclosão da revolta do Porto veio mostrar que a direcção na-
estavam sediados em Lisboa (35,48%), enquanto as organizações do Porto e
cional não conmalava por completo as iniciativas do combate antimonárquico.
Deste modo. se o congresso de 1883 foi simultaneamente o desfecho natural arredores (Mamufe, Vila Nova de Gaia) tinham crescido: 13 centros (21%~.
dos tentames organizativos da década anterior e o início de uma fase que se Nota-se, igualmente, uma maior dispersão geográfica, conquanto se mantenha
quena nova. o que aconteceu nos anos subsequentes mostra que a história do a dominância das zonas próximas de Lisboa e do vale do Tejo. Com efeito, no
Partido Republicano só pode ser compreendida se for encarada como um pro- Norte, para além da área do Porto, funcionavam centros em Bareelos, Guima-
cesso complexo base.Mo numa unidade plural, de tipo frentista e, por isso, rães, Chaves, Lamego e Viseu; numa zona mais central, encontramo-los em
Coimbra, Figueira da Foz, Gouveia, ficando a rede mais numerosa no Sul:
semEPümPericlitante e cheia
facto que. depois dode contradições
fracasso intemas.
da revolta de 31 de Janeiro de 1891, o Alcobaça, Alenquer, Caldas da Rainha, Oeiras, Carnaxide, Alhandra, Vila
Partido Republicano ainda teve algum alento. Em Lisboa, recebeu 5700 votos Franca de Xira (dois centros), Constância, Aldegalega, Almada, Cova da
nas eleições municipais de 1893: nas parlamentares de 1892, obteve 39,8% dos Piedade. Seja como for, o cariz dominantemente urbano e lisboeta do movi-
votos: e. nas de i 894, 42,2%, ano em que elegeu dois deputados. Também con- mento não era posto em causa. Bem pelo contrário, pois a progressão do seu
seguiu um relativo crescimento nas eleições municipais portuenses. No en- peso eleitoral revela que foi sobretudo em Lisboa que os republicanos obti-
tanto, os efeitos da repressão monárquica sobre os seus centros, a «lei das veram os seus maiores sucessos. Tem assim razão Vasco Pulido Valente quando
rolhas» e a política de alianças do Directório com os progressistas de João sustenta que «o carácter democrático, nacionalista, anticlerical e igualitário da
Cris6stomo bloquearam essa progressão: «A maior parte das comissões de base ideologia republicana exprimia fundamentalmente as fmstrações e ambições
dissoiveram-se: os centros e os clubes estavam vazios; os jornais haviam sido da pequena burguesia de Lisboa. O PRP era o seu Partido. Um partido lisboeta,
eficientemente amordaçados. E, para agravar as coisas, José Falcão, que era o não um partido português»n6.
principal stmboio e garante da unidade republicana, morreu, deixando o movi- Uma visão complementar acerca da implantação do Partido Republicano
mento docapitado e confuso.».2 As medidas repressivas foram completadas é-nos dada pela localização das comissões republicanas. Se o centro cons-
pela lei eleitoral de 1895, que tinha intenções de restringir o direito de voto e tituía a célula básica e essencial da sua estrutura, convém não esquecer que
de lesar os republicanosll-~. Estes, em sinal de protesto, responderam com a o partido propriamente dito se estruturava, no período imediatamente an-
abstenção, linha só interrompida em 1900 com a eleição, conjuntural, de terior à revolução, em comissões paroquiais, provinciais e distritais. Não
trés deputados pelo Porto. Em suma: nos inícios do nosso século, o Partido vamos fazer aqui a história destes organismos, pois o nosso intento é mais
Republicano estava em decadência. O congresso de 1902 retirou os poderes restrito: mostrar como é que a sua distribuição coincidia, regra geral, com a
ao DirectOno e entregou-os a três juntas directivas (norte, centro e sul), medida
geografia dos centros, chegando, porém, um pouco mais longe, nomeada-
que provocou uma cena animação nos organismos de base. Por outro lado, o
mente ao nível de pequenas freguesias. O que se compreende. A formação
aparecimento de um momento mais propício para a propaganda decorrente, de uma comissão paroquial era mais fácil do que a de um centro e, muitas
em parte, dos dissídios entre os partidos monárquicos e da agudização dos vezes, resultava da influência de «notáveis» nacionais ou regionais do movi-
mento.

'~: Vasco Pulido Valente. O Poder e o Povo. A Revolu4.ão de 1910, Lisboa, 1975,
p. 17. ,4 Cf. hlem, ibidem, pp. 18-19, 64-65.
~~' Perito Tavares de Almeida. «Comportamentos Eleitorais em Lisboa (1879-1910)», ,5 Cf. Idem, ibidem, p. 75.
Analise So,ial, rol 21, n" 81, p. 144.
J~oVasco Pulido Valente, ob. cit., p. 61.
ASORGANIZAÇOESREPUBLICANAS
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
conflitos sociais irá favorecer os esforços de reorganização, agora cada vez
cabal das divisões internas, da precariedade da unidade e das divergências mais animados pela nova geração de militantes que começou a emergir por
acerca dos modelos de sociedade que a República iria realizar e das vias que alturas do Ultimatum ~~4.
iriam conduzir ao poder. De facto, é dos meados da primeira década de Novecentos que data o novo
Tudo isto mostra que o seu comando oficial nem sempre conseguiu aglu- arranque da sociabilidade política de inspiração republicana, S: dos 32 clubes
anar todos os republicanos e impor as suas directrizes. Teve, assim, um ritmo e centros existentes em Lisboa, em 1908, cinco haviam sido fundados em 1903,
desigual e conflituoso de desenvolvimento, havendo momentos em que o cinco em 1904, três em 1905, dois em 1906 e 17 em 1907; o que denota uma
Directório quase se aproximou da inoperância. E é neste contexto que temos significativa resposta contra a política de engrandecimento do poder real que
de entender os esforços feitos, em 1887, visando a reorganização do movi- a ditadura de João Franco exasperou. Este aumento de militantismo republi-
mento através da convocação de uma Câmara Constitucionalista e Legislativa cano confirma, por outro lado, a sua inserção predominantemente lisboeta,
do Partido Republicano. E foi ainda com a finalidade de responder às críticas embora sejam detectáveis pequenas alterações que merecem registo. Assim,
dos radicais e de clarificar o seu projecto perante uma opinião pública agitada numa listagem de centros em actividade publicada pelo Almanach Democrá-
pelo UItimatum que o partido aprovou o seu novo programa político (Janeiro tico para 1908 -- referindo-se, por isso, a 1907 m, dos 62 mencionados, 22
de 1891). Mas a eclosão da revolta do Porto veio mostrar que a direcção na-
estavam sediados em Lisboa (35,48%), enquanto as organizações do Porto e
cional não controlava por completo as iniciativas do combate antimonárquico.
arredores (Mamufe, Vila Nova de Gaia) tinham crescido: 13 centros (21%).
Deste modo. se o congresso de 1883 foi simultaneamente o desfecho natural
Nota-se, igualmente, uma maior dispersão geográfica, conquanto se mantenha
dos tentames organizativos da década anterior e o início de uma fase que se
queria nova, o que aconteceu nos anos subsequentes mostra que a história do a dominância das zonas próximas de Lisboa e do vale do Tejo. Com efeito, no
Partido Republicano só pode ser compreendida se for encarada como um pro- Norte, para além da área do Porto, funcionavam centros em Barcelos, Guima-
cesso complexo baseado numa unidade plural, de tipo frentista e, por isso, rães, Chaves, Lamego e Viseu; numa zona mais central, encontramo-los em
Coimbra, Figueira da Foz, Gouveia, ficando a rede mais numerosa no Sul:
sempre periclitante e cheia de contradições internas.
E um facto que, depois do fracasso da revolta de 31 de Janeiro de 1891, o Alcobaça, Alenquer, Caldas da Rainha, Oeiras, Carnaxide, Alhandra, Vila
Partido Republicano ainda teve algum alento. Em Lisboa, recebeu 5700 votos Franca de Xira (dois centros), Constância, Aldegalega, Almada, Cova da
nas eleições municipais de 1893; nas parlamentares de 1892, obteve 39,8% dos Piedade. Seja como for, o cariz dominantemente urbano e lisboeta do movi-
votos; e, nas de 1894, 42,2%, ano em que elegeu dois deputados. Também con- mento não era posto em causa. Bem pelo contrário, pois a progressão do seu
seguiu um relativo crescimento nas eleições municipais portuenses. No en- peso eleitoral revela que foi sobretudo em Lisboa que os republicanos obti-
tanto, os efeitos da repressão monárquica sobre os seus centros, a «lei das veram os seus maiores sucessos. Tem assim razão Vasco Pulido Valente quando
rolhas» e a política de alianças do Directório com os progressistas de João sustenta que «o carácter democrático, nacionalista, anticlerical e igualitário da
Crisóstomo bloquearam essa progressão: «A maior parte das comissões de base ideologia republicana exprimia fundamentalmente as frustrações e ambições
dissolveram-se; os centros e os clubes estavam vazios; os jornais haviam sido da pequena burguesia de Lisboa. O PRP era o seu Partido. Um partido lisboeta,
eficientemente amordaçados. E, para agravar as coisas, José Falcão, que era o não um partido português»116.
principal símbolo e garante da unidade republicana, morreu, deixando o movi- Uma visão complementar acerca da implantação do Partido Republicano
mento decapitado e confuso»H2 As medidas repressivas foram completadas é-nos dada pela localização das comissões republicanas. Se o centro cons-
pela lei eleitoral de 1895, que tinha intenções de restringir o direito de voto e tituía a célula básica e essencial da sua estrutura, convém não esquecer que
de lesar os republicanosH3. Estes, em sinal de protesto, responderam com a
o partido propriamente dito se estruturava, no período imediatamente an-
abstenção, linha só interrompida em 1900 com a eleição, conjuntural, de
terior à revolução, em comissões paroquiais, provinciais e distritais. Não
três deputados pelo Porto. Em suma: nos inicios do nosso século, o Partido
vamos fazer aqui a história destes organismos, pois o nosso intento é mais
Republicano estava em decadência. O congresso de 1902 retirou os poderes
restrito: mostrar como é que a sua distribuição coincidia, regra geral, com a
ao Direct6rio e entregou-os a três juntas directivas (norte, centro e sul), medida
geografia dos centros, chegando, porém, um pouco mais longe, nomeada-
que provocou uma certa animação nos organismos de base. Por outro lado, o
mente ao nível de pequenas freguesias. O que se compreende. A formação
apare, cimento de um momento mais propício para a propaganda decorrente,
de uma comissão paroquial era mais fácil do que a de um centro e, muitas
em parte, dos dissídios entre os partidos monárquicos e da agudização dos vezes, resultava da influência de «notáveis» nacionais ou regionais do movi-
mento.

J~-' Vasco Pulido Valente, O Poder e o Povo. A Revolução de 1910, Lisboa, 1975,
p. 17. li4 Cf. Idem, ibidem, pP. 18-19, 64-65.
.3 Pedro Tavares de Almeida, «Comportamentos Eleitorais em Lisboa (1879-1910)», i l» Cf. Idem, ibidem, p. 75.
Análise Social, vol. 21, n.o 81, p. 144. J,6 Vasco Pulido Valente, ob. cit., p. 61.
O REI~./BLICANISMO EM PORTUGAL

Tomando como testemunho as representações ao congresso republicano de


1907~~~, temos uma boa amostragem do activismo político antimonárquico,
pelo que. se a relacionarmos com a localização dos centros, não se andará
longe da estrutura efectiva do Partido Republicano. E se, por outro lado, levar-
mos em conta a representação daqueles últimos no mesmo congresso, detec-
tam-se as características geográficas já descritas: Lisboa aparece como o prin-
cipal foco de militância, logo seguida pela linha do Tejo, isto é, por uma zona
sujeita à influência da capital, com um forte crescimento populacional e com
uma menor tutela clerical. De facto, encontram-se comissões em localidades
como Oeiras. Porcalhota e em multas povoações ribatejanas: Alhandra,
Cartaxo. Santarém. Benavente, Almeh, im, Chamusca, Torres Novas, Tomar, CAP[TULO 2
Barquinha. Abrantes (e em certas freguesias deste concelho -- Alvega,
São Miguel do Rio Torto, Rossio ao Sul do Tejo, Mourisca). Deve ainda assi- OS PROGRAMAS POLÍTICOS
na.lar« a organização de Coimbra (comissão distrital, municipal e paroquiais)
e Braga. bem como a presença de alguns núcleos alentejanos e algarvios.
É todavia lícito presumir que, entre 1907 e 1910, a base de apoio e a inserção Um programa político significa a concretização articulada de um projecto
geográfica do projecto republicano se alargaram substancialmente. Segundo o de sociedade. Contudo, o seu mero aparecimento não pressupõe a existência
Directório. em relatório apresentado ao congresso de 1910, o Partido Republi- de um partido político. Clubes, facções ou individualidades podem lançí-lo
cano tinha registadas 130 comissões municipais, 258 paroquiais, 12 comissões com a esperança de que o seu surgimento funcione como força motriz do
distritais e 172 centros (165 no Continente, cinco no Brasil, um em Lourenço ideário que propugnam. No entanto, parece-nos igualmente certo que, se a
Marques e um na Horta)II8. E o crescimento dos centros tinha sido de tal monta existência de um dado programa não implica que haja um partido a suportá-lo,
que começaram a surgir vozes a defenderem a sua redução, como aconteceu o contrário não é verdadeiro. Todo o parado tende a consubstanciar a sua dou-
no congresso de 1907, com o argumento de que, particularmente em Lisboa, trina num programa político específico. Explica-se, assim, que a história do
o excesso de clubes estava a prejudicar «a unidade de acção política e la dimi- movimento contra a Monarquia acabe por se reflectir, ou melhor, tenha uma
nuir] os recursos económicos do partido»; pelo que seria aconselhável fundir das suas faces na própria história dos vários programas que se foram publi-
os «centros poiíãcos dentro da cidade, limitando-os a um por bairro» e somente cando com o propósito de explicitarem a aspiração republicana.
«deixar subsisãr os centros escolares quando tenham recursos suficientes e
Nos primórdios do sistema representativo em Portugal, o aparecimento de
não arrastem uma vida precária»n9.
programas políticos foi, na opinião de Borges de Macedo, muito posterior tanto
Todo isto mostra a radicação predominantemente urbana da organização
à vitória do liberalismo, como até à existência de partidos e sua organização
republicana, apesar da sua crescente sensibilização perante o problema agrário
nacionalI. Só com o combate ao cabralismo apareceu um programa escrito
(Basílio Teles). Por outro lado, a facilidade de bloqueamento da sua propa-
ganda era maior nos campos devido ao analfabetismo das populações e à acção com a finalidade de unificar as várias facções, personalidades e «partidos» que
do clero e dos caciques locais. Dai que, dos 262 concelhos existentes no país, lutavam contra Costa Cabral. E foi ainda na conjuntura que levou à consoli-
o Parado Republicano somente tenha conseguido conquistar, nas vésperas da dação da Regeneração que apareceram os primeiros «programas republicanos»,
queda da Monarquia, uma sólida implantação em cerca de 30. Mas, dentro des- sendo de destacar os insertos no jornal O Republicano (no contexto da «conspi-
tes, deve destacar-se principalmente a força que foi adquirindo no concelho ração das hidras») e nos Estudos sobre a Reforma em Portugal, de José Félix
mais importante do pais (Lisboa). Henriques Nogueira. Para O Republicano, a revolução por que combatiam não
seria «para mudar homens», «para ajudar interesses de famflia~,, mas «para tirar
o povo da miséria em que vive, para lhe dar pão, para proteger órfãos e viúvas,
para recompensar o talento, para destruir hordas de assassinos, para expulsar
uma mulher [D. Maria II] que nos odeia e para dar ao homem as garantias que
pede». Para isso, invocavam alguns princípios que, se tinham a ver com
a herança da Revolução Francesa, ecoavam também algumas reivindicaç6es
"TCf. A Lacta, I1 armo, n.o 479, 29-IV-1907, pp. 1-2 e n.o 480, 30-IV-1907, pp. 1-2.
do romantismo social da época: «Proclamamos a Liberdade, Igualdade e
J'«ln/b/dera. v armo, n.o 1567, 30-IV-1910, p. 2.
'JçJoão de Meneses, «Os Centros Republicanos», ibidem, II armo, n.o 482, 2-V-1907,
p. 1; Brito Caruncho, «O Congresso», ibidem, n.o 481, 1-V-1907, p. 1. Cf. Jorge Borges de Macedo, «O Aparecimento do Conceito de Programa Político»,
Revista Portuguesa de História, T. XIII, 1971, pp. 375-423.
42 43
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL OS PROGRAMAS POLI'rIcos
Em oposição ao grupo de Elias Garcia, levavam explicitamente o princípio
Fraternidade. Queremos república, porque só ela nos pode governar. Queremos da soberania popular às últimas consequências e, por isso, não propunham um
um governo de homens inteligentes e honrados. Queremos recompensas para Estado unitário e centralista, nem silenciavam, tacticamente, a questão do re-
todos os que bem merecem da pátria. Queremos asilos para os pobres. gime. Isto é, não só defendiam o sufrágio universal, para homens e mulheres
Queremos pão para todos os que têm fome. Queremos dar instrução a todos
maiores de 18 anos, como único meio de legitimação do poder, como reivindi-
os que a desejam. Queremos que o trabalho seja recomponsado. Queremos, em
cavam a instauração imediata da «República Democrática e Federal Portu-
suma, que não haja só uma classe que seja rica e feliz, enquanto as outras
vivem na miséria.»" Mas foi José Félix Henriques Nogueira quem, como vere- guesa»8. E, na linha da tradição jusnaturalista de pendor democrático, exigiarn o
mos mais adiante, melhor fundamentou e deu expressão programática ao reconhecimento dos direitos fundamentais: direito de «qaensar, direito de falar, di-
ideário republicano dos meados de Oitocentos ao reivindicar a República, a reito de imprimir, direito de reunião, direito de associação, direito à instrução,
Democracia. a Associação, o Município e a Federação3. direito ao trabalho, direito ao crédito e direito à propriedade»9. Como se vê, con-
frontando estes princípios com o ideário liberal clássico, encontra-se somente
como diferença a preocupação de se dar guarida a alguns direitos sociais (instru-
O PROGRAMA FEDERALISTA DE 1873 ção, crédito, trabalho, propriedade), reflexo não só da concepção do Estado como
encamador do interesse geral, mas também do impacte da propaganda socialista.
Tendo como evidente referência o pensamento de Henriques Nogueira4, No entanto, hipervalorizando a experiência do federalismo americano e
o primeiro programa de um grupo federalista organizado foi publicado suíço, e recorrendo teoricamente a Tocqueville e, sobretudo, a Proudhon, o pro-
pelo Centro Federal de Lisboa, em 22 de Junho de 1873. Assina-o o positi- grama afastava-se, neste aspecto, da tradição jacobina da Revolúção Francesa,
vista Horácio Esk Ferrari e pretendia sintetizar as propostas do grupo que, isto é, de uma concepção excessivamente unitária de Estado. Quer isto dizer que
como se sabe. se reunia à volta do jornal O Rebate». E, para se precisar melhor o federalismo foi uma proposta para o relacionamento internacional de povos
o horizonte ideológico do federalismo republicano, basta indicar algumas das com afinidades entre si -- a federação ibérica seria o primeiro passo para a edi-
fontes citadas pelos seus prosélitos: «A leitura das obras de Proudhon, Tocque- ficação dos Estados Unidos da Europat0 --, e um guia de organização interna.
ville, Roque Barcia, Vacherot, Stuart MIII, a Constituição dos Estados Unidos A Nação portuguesa deveria dividir-se em vários governos autónomos. Para
e da Suíça. o programa democrático de Castellar»>6 Se lhes juntarmos os nomes isso, defendiam a autonomia govemativa e administraãva dos grupos naturais
de Henriques Nogueira e Pi y Margall, julgamos que, no essencial, fica esbo- -- paróquia, município, província --, ficando o poder central a residir numa
çado o seu quadro de referência. Mas, em concreto, quais foram as ideias que, assembleia federal eleita por sufrágio directo. Desta, e na linha do exemplo da
sob o entusiasmo da revolução espanhola, sustentavam? Para além das reivin-
Convenção, dependeria, por delegação, o poder executivo. A competência
dicações típicas do pensamento radical (elegibilidade dos cargos administra-
legislativa daquele órgão seria muito limitada, pois estada confinada aos
avos mais importantes, abolição do exército permanente, extinção da diplo-
macia de carreira, proibição da prisão preventiva, defesa da gratuitidade da assuntos de interesse geral (política externa, serviços públicos, segurança, orça-
justiça, reconhecimento do júri e do direito de resistência), e a par de medidas mento, justiça). O restante, de acordo com o seu grau de generalidade, seda
tendentes a solucionar a situação económica (extinção da dívida pública) e a matéria da exclusiva competência dos governos provinciais, municipais ou de
morigerar a administração (cessação das jubilações, terços, reformas, aposen- freguesia, dependentes, por sua vez, das respectivas assembleias, que também
tações e pensões, desacumulação de cargos)7, os federalistas avançaram com teriam capacidade legislativa e seriam eleitas por sufrágio universalH.
um conjunto de outras propostas que importa sublinhar, já que, através delas, Embora o programa pouco avance acerca desta subdivisão políãco-admi-
se pode apreender o núcleo do ideário então hegemónico no republicanismo nistrativa, sabe-se, contudo, que era contrário à existência de um presidente da
português. República -- cargo que significaria o reconhecimento do princípio da unifi-
cação e da personalização do poder. E, segundo as Bases de um Projecto de
Constituição Municipal12, divulgadas pelo grupo em 1874, fica-se a conhecer
" O Republicano, I anno, n.o 3, 1848, p. 1.
3José Félix Henriques Nogueira, ob. cit., T. I, pp. 19-176. 8 lbidem.
40 ideário de Nogueira começou a ser valorizado, com mais ênfase, nos inícios da dé- 9 Ibidem.
cada de 80. Cf. A Era Nova, I1 armo, n.o 35, 1-I/I-1883; Ant6nio Poli<arpo da Silva Lisboa, ,o Sobre esta idealização do lugar de Portugal no contexto dos povos europeus, veja-se
Mumcipio e Federarão segundo Henriques Nogueira. Conferencia sobre a Questão Iberica, o nosso estudo Nacionalismo e Ecumenismo. A "Questão Ibérica" na Segunda Metade do
Lisboa, 188 I. Século XIX, cit.
li Cf. O Rebate, n.° cit., p. 2.
-~ O Rebate, ! armo, n.o 1, 30-VI-1873, pp. 1-3; Joaquim de Carvalho, «Formação da
Ideologia Republicana (1820-1880)», in Luís Montalvor et ai., ob. cit., vol. 1, pp. 251-52. 12 «Bases d'um projecto de constituição municipal que deve ser discutido, votado e sub-
6 Republica Portugueza, I anno, n.o 8, 1873, p. 3.
7 Cf. O Rebate, n.o cit., pp. 2-3. metido à sanção do povo, e promulgado em todos os mtmicfpios republicanos federais de
Portugal, ao implantar-se entre nós a República», Almanach da Bibliotheca Republicana
Democratica para 1875, Lisboa, 1874, pp. 50-52.
45
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
OS PROGRAMAS POLJTICOS

que a federação deveria evoluir para a formação de quatro Estados: o Norte, dência do republicanismo com o socialismo, corrente então a caminho da sua
com capital no Porto: o Centro, com capital em Coimbra; o Sul, em Lisboa, e autonomia ideológica e organizativa~9. E, para o faz.ermos, comecemos por
analisar as medidas de índole económica propostas em O Rebate.
o Algarve, em Faro. A sede da Assembleia Federal e do seu governo estaria,
por dois anos, altemadamente em Lisboa e no Porto. Para além da exigência, comum a todas as correntes de esquerda, de um
Perante este modelo político e administrafivo, tem de se reconhecer, por sistema tributário baseado no imposto único e proporcional, os federalistas
um lado. que o federalismo procurava acentuar a corrente municipalista que, sustentavam que o Estado não deveria desempenhar qualquer função econú-
no caso português, enu-oncava em Hemiques Nogueira (e em Herculano), aca- mica. Na óptica de um liberalismo económico radical, propunham a priva-
salando-a com o ideário de autores, como Proudhon e Pi y Margall, para quem tização de toda a propriedade pública. Em concreto, o Estado deveria alienar
a verdadeira unidade nacional passava pelo reconhecimento da autonomia a Imprensa Nacional, a Fábrica de Pólvora, de vidros da Marinha Grande, os
dos corpos sociais intermédios e dos estados regionais. Por outro lado, pode Arsenais da Marinha e do Exército, a Cordoaria, as matas nacionais, os con-
dizer-se que o federalismo se afastava, neste campo, da tradição do Estado ventos, os palácios, realidades entendidas como excrescências do Antigo
nacional unitário de tradição jacobina, valorizando, ao conü'ário, o exem- Regime2°. E, se isto pode soar a proudhonismo, o certo é que o magistério di
plo republicano dos Estados Unidos e, sobretudo, da Suíça. Daí que, como publicista francês foi interpretado à luz de um modelo económico que apon-
Carrilho Videira. acreditassem que podeffamos «facilmente constituir no tava para a completa capitalização e democratização da propriedade. Do ponto
continente quatro estados...; cada estado dividir-se-ia em cantões ou dis- de vista social, digno de registo só se encontra a defesa do direito ao trabalho
tritos e estes em municípios ou comunas, como tivemos no princípio da e ao crédito e a proposta de uma «legislação protectora do trabalho das mu-
Monarquia»'3. lheres e das crianças nas fábricas, fixando-se o número máximo de horas que
No terreno políüco, os republicanos federalistas advogavam ainda o reco- umas e outras devem trabalhar e determinando-se a idade, antes da qual será
nhecimento do princípio da representatividade das minorias e a introdução do proibido o trabalho das crianças»21.
mandato imperativo~4. Com o primeiro, contestaram a vigência do sistema E verdade que estas últimas reivindicações revelam uma clara afinidade
proporcional, pugnando, assim, por uma representação mais aproximada da com alguns dos pontos programáticos do movimento socialista da época. Mas
vontade popular. Com a segunda proposta, pretendiam combater a indepen- existem igualmente diferenças de monta. Em primeiro lugar, enquanto Antero
dência dos eleitos em relaçâo aos eleitores e concretizar, tanto quanto possível,
e os seus companheiros, na linha de Proudhon, menosprezavam a questão do
o anúgo ideal de democracia directa, pois o candidato ficava explicitamente
regime, os federalistas colocavam-na como a condição primeira para a viabi-
vinculado a um programa e, caso o violasse no exercício do seu cargo, o man-
dato poderia ser revogado. Mais concretamente, prolongavam um velho debate lização do seu projecto regenerador; em segundo lugar, enquanto os socialistas
acerca do cariz da representatividade e da delegação do poder e, como vere- pretendiam afirmar-se como uma alternativa de classe assente num reformismo
mos, davam continuidade a atitudes tomadas por Gambetta, Vítor Hugo e económico que dava prioridade ao fomento do cooperativismo de consumo e
RocheforV». E será em coerência com esta tese que os federalistas~6 se apre- de produção e ao embaratecimento do crédito, o republicanismo federalista,
sentarão ao eleitorado em 1878 e nos anos seguintesIT. apesar dos seus apelos populistas, radicava numa estratégia interclassista que
Resumindo a essência desta opção republicana, Joaquim de Carvalho es- procurava acasalar as teses do liberalismo económico com o solidarismo social.
creveu: «No início, por 1873, o republicanismo federal não foi meramente No entanto, é necessário ter presente a origem comum de ambas as correntes
político. Surgira como grupo destacado do socialismo, e pelas suas tendências para se poder compreender esta situação aparentemente paradoxal: com a
de reformismo social o apelativo que melhor exprime os seus objectivos até demarcação que, sob o eco directo das sequelas da Comuna e dos aconteci-
1876 é o de partido federal radical-socialista»>~8 Se este juízo, nas suas linhas mentos em Espanha, começava a assumir uma dimensão pública, socialistas e
gerais, está correcto, a compreensão do programa federalista impõe uma republicanos federalistas eleger-se-ão mutuamente como adversários. O que
melhor caracterização do seu reformismo sob pena de se confundir uma ten- não admira, já que muitos activistas de ambas as correntes tinham navegado
nas águas do democratismo socializante e agora, em nome de objectivos dife-
rentes, disputavam o mesmo espaço social. (Este divórcio está exemplarrnente
,3 Carrilho Videira, «Aos Eleitores», Almanach Republicano para 1878, Lisboa, 1877,
espelhado na polémica, sempre latente, que Antero e Teófilo mantiveram entre
p. 76.
J40 Rebate, n~o cit., p. 2. si desde os inícios da década de 70.)52
,s Cf. Carrilho Videira, «O Suffragio Universal e o Voto Obrigatorio», Almanach Repu-
blicanopara 1881, Lisboa, 1880, p. 40.
J6 Te~falo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, p. 226 e ss. ,9 Sobre esta questão, veja-se Fernando Catroga, O Problema Pol[tico em Antero. Um
'7ldem, «Mensagens aos Eleitores Republicanos do Circulo 94», A Vanguarda, II mano, Confronto com Oliveira Martins, cit., pp. 41-72.
n.° 70, 4-IX-1881, p. I; A Justiça Portugueza, H anno, n.o i 18, 4-IX-1881 p. l 2oO Rebate, n.° cit., p. 3.
'BJoaquim de Carvalho, ob. cit., pp. 252-53. ' 2t
Ibidem.
22 Sobre esta querela, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., p. 41 e ss.

47
O REI~rBLICANlSMO EM PORTUGAL
OS PROGRAMAS POLITICOS
Quanto às proposições de conteúdo cultural, o federalismo exprimiu ai- Terão as exigências programáticas da acção poiRica levado o federalismo
guinas das aspirações mais características do pensamento radical. Com efeito, a perder o seu fundo socializante e internacionalista em detrimento de reivin-
como o republicanismo visava actualizar (e realizar) a revolução ideológica dicações de estrito teor antimonárquico e anticlerical? A resposta não pode ser
iniciada pelos iluministas e pelos liberais mais avançados, compreende-se que linear, corno nos ensina a evolução dos principais mentores desta tendência.
a sua ala mais intransigente venha a reivindicar, com veemência, a total sepa- Teófilo Braga e Manuel de Arriaga, por exemplo, embora teoreticamente se
ração da Igreja do Estado, a secularização do casamento, a laicização do ensino tivessem mantido fiéis aos ideais da década de 70, acabaram por aceitar o ali-
e a sua gratuitidade, reivindicações que, no fundo, eram comuns a todas as cor- nhamento com as outras facções num Partido Republicano unificado. Porém,
rentes republica.nas, pelo que ajudam a caracterizar a estratégia cultural do esta opção foi criticada por outros, corno Carrilho VideiraS9, para quem conti-
movimento, no seu todo, mas constituem uma nota qualificadora da opção nuava a não fazer sentido reduzir o republicanismo a uma luta eleitoral pela
federalista quando se releva a ênfase que colocou na luta em prol da laicização simples mudança de regime. E, com os olhos postos no avanço da ala radical
da sociedadeza. E que, em última análise, a separação entre o federalismo e do republicanismo francês, lembrava, em 1886, que, «contra todos os des-
as demais tendências passava principalmente por um modo próprio de conce- varios oportunistas, levanta-se hoje respeitável e preponderante o radicalismo
ber a organização do Estado, de entender a prática republicana e, sobretudo, francês e para todos é evidente que em muito breve ele conseguirá o mando
de equacionar os objectivos sociais que seriam a razão de ser da diferença qua-
para realizar as reformas pelas massas reclamadas»30. A permanência, ainda
litativa que deveria existir entre a Monarquia e a República. O federalismo foi,
que subalternizada, desta tradição «social-republicana» explica que, nos finais
assim, precursor do «social-republicanismo» dos finais do século XIX e deu
dos anos 80, alguns federalistas tenham voltado à liça defendendo um novo
particular relevo ao diagnóstico segundo o qual, num país dominado pela
programa em clara alternativa ao de José Elias Garcia, figura que, entretanto,
Igreja. o Estado só se democratizaria se exercesse uma acção directa na criação
das «infra-estruturas culturais»24 adequadas à legitimação e socialização de um foi ganhando uma aceitação crescente no movimento republicano organizado.
projecto que pretendia levar às últimas consequências a base secularista da
política moderna~.
A dimensão social está particularmente patente nos textos e na propaganda OS PROGRAMAS DEMOCRÁTICOS
dos principais ideólogos do republicanismo federalista26. Reafirmando a
validade da tríade da Revolução Francesa -- Liberdade, Igualdade e Frater- A 12 de Outubro de 1873, veio a lume a Democracia, órgão do grupo que,
nidade --, publicistas como Carrilho Videira, Teixeira Bastos, Ladislau Batalha então, se reunia à volta de Elias Garcia3~. Divulgava, logo na primeira página,
ou Tedfilo Braga sustentavam ser necessário cumpri-la e completá-la com a um programa político redigido por Latino Coelho e pelo próprio Elias Garcia.
realiração de ideais de maiores implicações sociais através da associação e da Segundo Trindade Coelho e Joaquim de Carvalho, aquele tomou-se, gradual-
solidariedade; o que possibilitaria a concretização de várias vantagens, a saber: mente, no programa comum de todo o movimento republicano32. Julgamos
d~la infància, associação de instrução e de socorros mútuos; em seguida, esta opinião um pouco exagerada, dado que não leva em conta alguns factos
quando já temos mais elementos, associação cooperativa de produção e con- que a contradizem. Por exemplo, em 1 de Dezembro de 1876, aquando da
santo; e, por último, banco económico de crédito colectivo e social; e, por fim, criação do Centro Eleitoral Democrático do Porto, este lasamava-se que não
ilustração e superioridade moral»>27 Só com a junção dos princípios políticos existisse um programa oficial do movimento e, conquanto fosse importante
revolucionários com estas aspirações se conseguiria realizar «a República «apresentar quanto antes minucioso programa do Partido Republicano demo-
Federal Social»ri. crático», entendia ser ainda necessário «escutar a opinião do maior número de
eleitores, bem como de outros centros de correligionários nossos»3L Em
segundo lugar, tem passado despercebida a existência de um outro projecto de
» Para uma visão do papel dos federalistas na organização da luta anticlerical a partir programa de vocação consensual, datado de Junho de 1878, e que mereceu,
pelo menos, a aprovação do Centro Republicano Democrático de Lisboa e dos
tianizaçãod°S meadOSdadaMortedécadaemdeportuga170, veja-se(1865_19Fernando, Catroga, AMilitânciaeLaica
a Descris- centros de Coimbra e Vila Real. E certo que o seu texto reproduz quase
Pierre Rosanvallon L'État -- " 11) vol. 1, p. 295 e ss.
a ldem, ibidem, p. 11'5. ,,,, ~n r rance ae 1789 à nos Jours, Paris, 1990, p. 167 e ss.
" Cf. Tetfilo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, pp. 226-29; Se-
bastião de Magalhães Lima, «.Zofimo Consiglieri Pedroso. Um Republieano-Historico»,
29 Carrilho Videira manifestou-se contra a entrada de Tetfilo Braga para o Directório
Archivo Democratico, II armo, n.° 16, Abril, 1910, pp. 118-19.
"~ Ladislau Batalha, «O Operario e a Politica~, Almanach Republicano para 1877, do Partido Republicano. Cf. J. Carrilho Videira, A Questão Social. As Bodas Reaes e o
Lisboa [ 1876], pp. 86-87. A fundamentação °rgânico-positivista do ideal associacionista e Congresso Republicano, Lisboa, 1886, p. 31.
3o Idem, ibidem, p. 8.
solidarista encontra-se, entre outros, em TeXifilo Braga, ob. cit., pp. 282-85.
3t Democracia, I armo, n.° 1, 12-X-1873, p. 1.
" Ladislau Batalha, art.o cit., p. 87.
32
Joaquim de Carvalho, ob. cit., pp. 255-56.
33 O Partido do Povo, I armo, n.° 32, 1878, p. 130.
O REPUBLIC.&NISMO EM PORTUGAL OS PROGRAMAS POLI'rICOS

posterior inclina-se numa direcção mais acentuadamente Parlamentarista. De


integralmente o inserto na Democracia. em 1873. Todavia, contém algumas facto, sob a influência da III República franc¢sa, não só corrigiram a termi-
modificações de fundamental importãncia para se poder inteligir a evolução nologia do texto anterior -- onde estava «cortes» passaram a escrever «assem-
do republicanismo português durante toda a década de 7034. Em terceiro lugar, bleia nacional» ~, como clarificaram a dependência do governo p¢rante essa
tem« e.~lUeCido que, mesmo depois da formação do partido, este só teve um assembleia, defendendo um «poder executivo temporfirio, derivado, directa ou
programa oficial em 1891. cujo conteúdo se afasta, em muitos pontos, do pro- indirectamente, do sufrágio popular e exercido sob a perpétua vigilância das
grama de Elias Garcia` Assim sendo, só o estudo comparativo de todos estes assembleias nacionais»39. Por outro lado, ambos os programas democráticos
textos indicará as suas diferenças e ajudará, ao mesmo tempo, a assinalar a são unânimes em condenar a divisão polftico-administrativa da Nação portu-
evolução da corrente «democrática» no seio do republicanismo. guesa. Consequentemente, na linha da lição de Herculano e de Henriqu¢s
Comparando o programa de 1873 com o projecto de 1878, desde logo se Nogueira, propunham «o estabelecimento do governo local por meio da admi-
nota, ao nivel dos princípios, uma alteração importante: enquanto o primeiro nistração municipal e distrital». Mas, contra os exageros federalistas, subli-
invocava a «soberania nacional como origem de todos os poderes do Estado»3»,
nharam: dentro dos «limites da Nação»40. O projecto de 1878 era ainda mais
o .segundo la mais longe na explicitação dos postulados jusnaturalistas que preciso quanto a este aspecto, pois~ para que não restassem dúvidas, em vez
fundamentaram a democracia ao sustentar que o «partido republicano demo-
crático» se baseava no reconhecimento dos «direitos originários do homem de «Nação», escrevia «unidade nacional»«.
anteriores e superiores a todas as leis» e, por isso, na aceitação da «soberania No terreno económico, as modificações são ainda de maior relevãncia.
nacional como origem única, natural e exclusiva de todos os poderes do Como é lógico, o texto de 1878 não punha em causa o modelo liberal subja-
F.stado»~. De qualquer modo. os dois documentos eram coincidentes no reco- cente ao de 1873. Todavia, avançava com alguns complementos que ajudam
nhecimeato dos direitos naturais: «1.° A igualdade civil e política; 2.° A liber- a compreender a solidificação da estratégia interclassista do republicanismo e
dade em rodas as suas manifestaçôes; 3.° O governo do povo pelo povo; 4.° A jus- a mostrar como, ao nível programático, os republicanos defrontavam o desafio
tiça democrática`»-~7 da ofensiva socialista em curso. Assim, indo ao encontro da base social que
Mediante os acrescentos feitos, tem de se concluir que o programa de 1878 desejaram captar, onde se defendia «a abolição dos direitos de consumo co-
era menos táctico do que o anterior e, por isso, não só deduzia do princípio da brados pelo Estado», passava-se a propor «a gradual abolição dos direitos de
soberania nacional a forma republicana de governo, como acentuava os funda- consumo, sobretudo quando recaírem sobre produtos nacionais, ou forem
mentos jusnaturalistas do poder, para, através, deles, contestar o eclectismo cobrados pelo Estado»42. Em termos sociais, e numa conjuntura de crise, isto
doutrin~o do consãtucionalismo monárquico. Este, ao invocar princípios jus- significava que os republicanos, sem cariem em teses proteccionistas, colo-
divinistas e ao apelar para o sufrágio, ainda que censitário, radicava em bases cavam-se explicitamente ao lado dos interesses de uma burguesia nacional
contraditórias. Assim, no novo programa, os republicanos sentiram a necessi- lesada pela política livre-cambista do fontismo.
dade de sublinhar que a soberania nacional era a «origem única, natural e ex- Ainda neste mesmo terreno, o documento de 78 introduziu um ponto novo
clusiva de todos os poderes do Estado»3s, não havendo lugar, por conseguinte, que expressa as preocupações de alargamento da sua base de apoio. Na ver-
para a Monarquia ou para instituições de legitimação dupla como a Câmara dade, enquanto o programa anterior quase silenciava a questão agrícola, deno-
dos Pano.
tando o seu carácter predominantemente urbano, o novo projecto pugnava pela
Ainda no campo político, encontramos uma outra rectificação significativa. extensão das relações capitalistas na agricultura e pelo melhoramento das con-
O ~ de 1873 considerava o governo como uma «delegação do legislativo»
dições de vida dos camponeses através da «liberdade de terra, tendo em vista
com um poder «exercido sempre sob vigilância das cortes». Ora, a redacção
o escrupuloso aproveitamento dos nossos vastos terrenos incultos, pelos meios
conducentes a este fim ~ nomeadamente a divisão, o aforamento ou a venda,
conforme as circunstâncias locais o indicarem, dos terrenos baldios, excep-
~~ Bandeira Republicana, n.« i, Julho, 1878, p. 1. Este programa não foi transcrito por tuando os do uso comum e indispensável dos povos ~, e promovendo entre
Triadaáe Coelho tManual Político do Cidadão Português), nem por Joaquim de Carvalho
no ~¢u estado já citado. Não o encontramos, ainda, na obra Proclamação do Partido Repu- os agricultores o melhoramento das suas condiçõ¢s de exist6ncia, a instrução
blicano tem 5 de Outubro de 19101 ~ Programa do Partido Republicano e Historia agrícola e a organização de associações cooperativas que lhes facilitem a aqui-
Camplem da Revolução. Lisboa, 19101, nem na recente antologia História da República sição de capitais baratos e de máquinas e instrumentos de lavoura»~~. Com
Pormguesa. Istsbo~L 1979. Para além dos jornais A Bandeira Republicana e O Partido do
Povo. ¢ncontrímo-io inserto em Sebastião de Magalhães Lima, A Revolta (2." Parte)

Processo da Monarqum, pp. 36-40. 39 lbidem.


mocracia, n." cit., p. i.
A Bandeira Republicana, n." cit., p. 1. 4o Democracia, n.° cit., p. 2.
~~ 4~ A Bandeira Republicana, n.° cit., p. 2.
Cf. Democracia. n." ciL, p. 1, A Bandeira Republicana, n.Ç cit., p. 1.
A Bandeira Republicana. n, cit., p. 1. 42 lbidem.
43 lbidem.
O REPUBLICANISMO EM pORTLIGAL OS PROGRAMAS POLITICOS
Por isso, não contestavam somente o controlo que a religião mantinha sobre a
estas soluções, davam guarida a algumas das ideias já expostas pela litera- educação e o ensino, nem se limitavam a pugnar pela completa separação das
tura social da geração de 48 (Casãlho, Henriques Nogueira, Sousa Brandão, Igrejas do Estado. Iam mais longe, pedindo a regulamentação das liberdades
Herculano), e ao mesmo tempo, a par da intenção de se voltarem para um reconhecidas no Código Civil (1867) respeitantes ~ secularização do nasci-
sector social mais conservador, começavam a sensibilizar-se por um problema mento, casamento e morte4«. Foi para esse fim que se fundou a primeira
que fará época nas drcadas seguintes. Associação Promotora do Registo Civil (18-XI-1876) _ uma outra nascerá
Se o apelo à organização de serviços cooperativos e ao crédito barato re- em 1895 --, que tinha como objectivos estatutários lutar a favor do «estabe-
flectem, de facto, a influência da ofensiva socialista, o projecto de 1878 contém
lecimento de enterros civis dos associados, com a exclusão das principais ceri-
ainda outras propostas que, ausentes no texto anterior, só podem ser entendidas mónias e insígnias de qualquer espécie ou religião»47, e da implantação, de
corno um esforço que visava integrar as classes trabalhadoras e bloquear a pro- facto e de direito, do registo civil de casamento e de nascimento (o que veio
paganda do Partido Socialista (fundado em 1875). Perante o apolitismo (e a
a acontecer a 26-XII-1878). Uns meses depois, efectuava-se o primeiro casa-
desvalorização da questão do regime) deste movimento, com a introdução de
mento civil (13-III-79), enquanto os primeiros funerais militantemente se-
medidas de teor social, ligadas a reivindicações políticas, pretendia-se demons-
culares já se tinham dado a 7 de Março de 1876 (o de Albano Coutinho, em
trar que a sua concretização só seria possível depois da queda da Monarquia.
Nesta perspectiva, se o programa democrático de 73 «prometia a liberdade do Mogofores) e a 20 de Junho (o de Aires Maia, em Lisboa)4S.
trabalho e da indústria» como condição essencial para «todas as combinações E neste contexto polémico que se tem de equacionar as modificações que
individuais e colectivas para o seu exercício, tendo este apenas os limites o texto de 1878 introduziu. Assim, se o programa da Democracia apontava
impostos pela moral, pela segurança e pela salubridade pública», o novo texto para a necessidade de se fomentar «a educação popular obrigatória, a fim de
ultrapassava o pr6prio programa federalista, propondo-se atender «à natureza que ninguém ignore as obrigações que lhe incumbem, e os direitos, que lhe
e às horas do trabalho, nas fábricas e oficinas, com relação ao sexo e às idades assistem como cidadão», e defendia o «derramamento da instrução especial e
dos indivíduos» e a promover a «criação de sociedades cooperativas de pro- profissional por modo que todos possam concorrer para o bem-estar da comu-
dução, consumo e crédito -- e a edificação de casas baratas, cómodas, sau- nidade», o novo projecto, reflectindo a campanha anticlerical, o peso do posi-
dáveis e pr6prias para as classes pouco abastadas, e de modo que os inquilinos tivismo e a influência das ideias dos republicanos franceses no campo do
possam, por determinado número de anuidades, transformar-se em proprie- ensino, era mais concreto. A criação de uma mentalidade laica só se consoli-
tários dos prédios que habitem»44. Com a República e com estas medidas, con- daria com o fomento de uma instrução popular gratuita e com a laicização dos
seguir-se-ia reviver definitivamente o problema social. seus conteúdos feita «em harmonia com os progressos das ciências»49.
Ao nivel da organização judicial, reproduzia quase textualmente o pro- Ora, se a produção (e reprodução) de uma opinião pública secularizada e
grama da Democrac/a, limitando-se a inscrever algumas das reivindicações a consolidação de um ideal de Nação mais democratizada deveriam ter na
mais sentidas pelos liberais: a abolição completa da pena de morte, a reforma Escola a sua instância reprodutora por excelência, o certo é que não se podia
do sistema penitenciário. No entanto, mostra uma melhor compreensão acerca esgotar nela. Para além da acção de outros agentes ideológicos -- que adiante
da necesãdade de se construir uma ordenação jurídica que expressasse correc-
serão analisados --, havia a consciência de que a realização desse desiderato
tamente as novas relações sociais e a unificação do poder inerente à conso-
colidia com a tese, cara aos republicanos, da neutralidade do Estado. Isto é,
lidação do Estado-Nação. Com efeito, tendo em vista a prossecução desse
embora em termos económicos a sociedade civil devesse ser autónoma em re-
objeetivo, completava os programas republicanos anteriores (incluindo o de
Jos~ Felix Heariques Nogueira) e sublinhava a importância de se harmonizar lação à instância política, a sua assunção plena ao nível das consciências indi-
«o código penal, o civil, o comercial, o militar e os de processo com a filo- viduais exigia a intervenção estatal, pois os liberais portugueses (e, em par-
ticular, os republicanos), tal como os franceses, sentiam que não poderiam
sofia do dimto e o modo de ser da sociedade portuguesa»45
lgualnmn~ significativos são os aditamentos feitos às finalidades culturais libertar o povo da tutela da religião (tida por fonte de opressão) sem a me-
que o movimento republicano perseguia. Dentro de um plano de fundo que diação política. Não bastava, portanto, a contrapropaganda. O enraizamento de
era, em dltima análise, comum a todas as facções, o projecto de 1878 empe-
nhava-se mais declaradamente na luta por uma completa laicização da socie-
46 Sobre esta questão, veja-se Fernando Catroga, A Militãncia Laica e a Descristiani-
dade portuguesa. Isto não surpreende, tanto mais que, desde os inícios da dé-
cada de 70, os sectores radicais tinham intensificado a sua campanha contra o zação da Morte em Portugal (1865-1911), rol. 1, p. 281 e ss.
47 O Seculo, II anno, n.° 300, 1-I-1882, p. 1. O s6cio n.° 1 desta associação foi o «velho
clericalismo e a favor da plena liberdade de consciência em matéria religiosa.
republicano francez chamado Bognome que em 1833 foi brutalmente espancado no Terreiro
do Paço pelos caceteiros do Snr. D. Miguel por ter soltado o grito de viva a Liberdade»
(BNL, Joaquim Damião Duarte Talhé, Apontamentos para a Historia da Fundação do Par-
4,, Ibid,,m. tido Republicano em Portugal, ms. 249, n.° 60, ti. 11).
4s Ib~m. 4s Cf. Fernando Catroga, ob. cit., rol. 2, p. 796 e ss.
49 In A Bandeira Republicana, n.° cit., p. 2.

53
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
federações municipal e latina, a separação das os PROGRAMAS POLITICOS
uma nova mentalidade na sociedade civil passava pela introdução do ensino
zação das cerimónias civis ~erocas,
.-ol« o.... . Igrejas
SUfrágio do Estado,
umversal a sec,,t«.-:.
e o mandato ;mpè.
obrigatório, gratuito e laico, e requeria a completa separação das Igrejas do rattvo, o governo de assembleia, a democratização e a secularização do ensino,
Estado. de modo a conseguir-se a definitiva laicização de todos os actos
a democratização da justiça, a racionalização dos ordenamentos jurídicos (c6-
essenciais da vida dos cidadãos: o nascimento, o casamento e a morte. E isso digos), o imposto único e progressivo, a extinção dos direitos feudais e a forte
só com o controlo do poder político podia ser realizado5°. É que, na linha do tributação das sucessões, a morigeração da administração pública e o sanea-
modelo de Estado sa/do da Revolução Francesa, de que o republicanismo
mento das finanças, a penitenciária-colónia, o pacifismo e a extinção dos exér-
português acabou por ser, depois de corrigidos os exageros federalistas, um citos permanentes»4. Se muitas destas aspirações são comuns a todas as cor-
coerente herdeiro, procurou-se «doubler en quelque sorte l'appareil mécanique rentes republicanas, as diferenças entre este projecto, que dava continuidade
d'État d'un pouvoir de rype spirituel», em ordem a que a sua infra-estrutura
ao radicalismo federalista e se mostrava sensível, ainda, à actualidade da ques-
cultural constituísse «un vaste r6seau d'appareils destinés à gérer le sens
tão social, e o republicanismo mais moderado encontram-se nos pontos con-
commun»51.
A esta luz. ganham sentido as concretizações explicitadas no projecto de cernentes às reivindicações económico_sociais5L
Ao contrário do que acontecia no texto de 1873, Teixeira Bastos e Carrilho
78. Assim. se o texto anterior tirava do princípio da «liberdade de consciência»
estas reivindicações essenciais m «a) a igualdade de direitos civis e políticos Videira propunham agora a criação de um sector público da economia, isto é,
para os cidadãos: b) o casamento civil e o registo civil; c) a anulação do jura- a «inalienabilidade da propriedade pública», a «supressão dos monop61ios», a
mento político» --, o novo programa reforçava ainda mais a componente laica «nacionalização dos bancos, caminhos de ferro, minas e seguros»~6 e defen-
do movimento, juntando-lhes o direito ao funeral civil. Isto é, do «princípio diam a necessidade de se instaurar um sistema de segurança social mediante
da liberdade derivavam: a liberdade de consciência e cultos, e como suas con- a salvaguarda do «direito ao trabalho» para os válidos e direitos de alimen-
dições essenciais; a) a igualdade de direitos civis e políticos para todos os cida- tação para os inválidos e crianças, garantido pelo município, pela província ou
dâos; b) a declaração de filiação e outorga do nome -- o casamento -- e o en- pelo Estado»7. A República, uma vez instaurada, deveria ainda criar condições
tenan~nto considerados como actos civis; c) o registo civil; d) a abolição do de protecção ao trabalho e aos trabalhadores (horários, desenvolvimento físico
juranw, nto»~:. e cultural, proibição de trabalho a menores de 14 anos), fomentar o sector
O texto de 1878 espelhava" de facto, a busca de um consenso entre as várias cooperativo (de produção e de consumo), o aluguer a baixo preço dos instru-
tendências. Mas o certo é que a fragmentação do Centro Republicano Demo- mentos de trabalho, facilitar o crédito e dar prioridade às cooperativas nos con-
crático de Lisboa e a crise que se lhe seguiu não possibilitaram a sua aceitação cursos públicos. Tais medidas, conjugadas com um major controlo sobre o ca-
por todos os republicanos portugueses. Consequentemente, e apesar dos esfor- pital bancário e as sociedades anónimas, com a extinção do juro perpétuo e
ços de unificação, não se pode dizer que existisse um programa oficial do mo-
sua substituição por amortizações a prazo58 e, por fim, com a «extensão gradual
vimento. Ainda em 1886, Carrilho Videira protestava contra a direcção do
dos direitos civis e políticos à mulher»9, possibilitariam a edificação de uma
Partido Republicano, escrevendo que era axioma demonstrado que «um par-
sociedade republicana baseada no solidarismo e, por isso, capaz de realizar a
tida sem programa é um partido imoral, e, sem necessidade alguma, os chefes
republicanos portugueses até hoje ainda o não formularam por mais que lh'o aspiração máxima do pensamento social oitocentista: a «supressão do sala-
riato»6o.
exigido»s». Para responder a essa necessidade, este irredutível federa-
lista, em conjunto com Teixeira Bastos, editou, nesse mesmo ano, um Projecto As reivindicações sociais feitas por alguns federalistas de esquerda -- a
de Um Programa Federalista Radical para o Partido Republicano Português. evolução do pensamento de Teixeira Bastos é a este título paradigmática u
ganharam uma dimensão mais estatista no decurso da década de 80 e nos finais
do século xIx. Com isso, pretendiam lutar contra a hegemonia do republica-
NOVOS PROGRAMAS FEDERALISTAS: nismo «oportunista», ao mesmo tempo que, em sintonia com o radicalismo e
TEIXEBA BASTOS 11886) E FELIZARDO LIMA (1888) os radicais socialistas franceses, procuravam responder a questões que, tanto
o «socialismo catedrático» de orientação monárquica (Oliveira Mardns), como
Na sequ6ncia do programa federalista de 1873, o novo projecto de Teixeira
Bastos e de Carrilho Videira reafirmava a defesa dos direitos fundamentais, as
54 Teixeira Bastos, Projecto de Um Programa Radical para o Partido Republicano
Portuguez, Lisboa, 1886. O prefácio é da autoria de Carrilho Videira.
» Teixeira Bastos, ob. cit., p. 26 e ss.
s°Cf. Fexnando Catroga, ob. cit., rol. l, p. 285 e ss. 26 Idem, ibidem, p. 28.
si Pieave Rosanvalion, ob. cit., p. 115. 27
s2 In A Bandeira Republicana, n.o cit, p. 2. Idem, ibidem.
28Idem, ibidem, p. 29.
-~~ In Almanach Republicano para 1887, Lisboa, 1886, pp. 1.2. 59Idem, ibidem, p. 26.
6oIdem, ibidem, p. 27.
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
OSPROGRAMASPOL|TICO$
O PROGRAMA REPUBLICANO DE 1891
a propaganda socialista e os anarquistas (actuantes, entre nós, desde os meados
dos anos 80) agitavam nos meios mais politizados. Em suma: a sua análise
A crise do rotativismo monárquico, a adesão de D. Carlos às teses dos que
assentava nesta base doutrinai: «Se Karl Marx, analisando a situação econó- defendiam o engrandecimento do poder real (teodzadas por Oliveira Martins e
mica, revolucionou a economia e arrancou o socialismo às utopias metafí-
sicas .... só mais tarde e muito recentemente BenoR Malon, orientado pela filo- apoiadas por boa parte do grupo Os Vencidos da Vida), a iminência da
bancarrota, o impacte da questão colonial, os protestos que se levantavam con-
sofia positivista de Augusto Comte, pôde estabelecer o que ele mesmo
tra as exigências da Inglaterra e a incapacidade negociai do governo, tudo
denominou carácter integralista do socialismo, isto é, dar o predomínio ao sen-
timento sobre a inteligência e a acção, por ter reconhecido a eficacidade ino- parecia apontar, aos olhos dos republicanos, para a derrocada da Monarquia.
E muitos atacavam o Directório por nem sequer ter dotado o movimento de um
vadora das forças morais»»tI O que mostra que, num eclectismo interessante,
o cientismo de Comte, de intenção capitalista, se miscegenava com propostas programa unanimemente aceite e que mostrasse ao país, de um modo articulado,
socialistas e se inseria numa filosofia da história que reconhecia às ideias qual era a alternativa que se propunha realizar uma vez chegado ao poder.
morais um papel activo no dinamismo social. Significa isto que os federa- Isto explica que, no contexto do Ultimatum e no meio de divergências internas
listas foram, dentre todas as correntes republicanas, a que entendeu a socie- a facção de Homem Cristo opunha-se ao grupo de Elias Garcia, enquanto os
dade como um sistema de interacção e de interdependência, em contraposição conspiradores do Norte (Alves da Veiga, Santos Cardoso e outros) actuaram
à suas visão atomista dos que a definiam como uma composição e uma agre- com alguma autonomia e estavam dispostos a pôr o Directódo perante factos
gação de partes. consumados --, encontremos o congresso, realizado de 5 a 7 de Janeiro de
Ora, apesar de tudo, deve reconhecer-se que o projecto de Teixeira Bastos 1891, a aprovar com celeridade o programa oficial do Partido Republicano.
e de Carrilho Videira não podia ter grande eco62 num movimento que, desde Escrito por Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Homem Cristo, Bernardino
os finais da década de 70, havia optado por uma linha eleitoral, enquanto, no Pinheiro, Azevedo e Silva e Jacinto Nunes64, o documento foi publicado pelo
plano ideológico, muitas das suas influentes personalidades tinham aceitado Directório em 11 de Janeiro de 1891, isto é, num momento em que os prepa-
uma solução de compromisso a fim de se conseguir a organização definitiva rativos para a insurreição do Porto já eram irreversíveis. E, sem grande mar-
do partido. Daí a crescente relevância que a política foi ganhando no discurso gem de erro, pode sustentar-se que o seu articulado pretendeu conciliar, no
republicano, ao mesmo tempo que se lhe depara um maior empenhamento nas essencial, os programas republicanos anteriores (unitarista e federalista), limi-
pugnas eleitorais. E relembre-se que um pequeno núcleo de republicanos tando-se a sublinhar melhor a opção nacionalista e interclassista do ideal repu-
moderados chegou mesmo a defender, em 1887, uma política de alianças com blicano e a acentuar a finalidade que, em última instância, sobredeterminava
a esquerda dinástica, tudo posições inaceitáveis para a tradição radical. A esta a sua estratégia: a consumação da revolução cultural que seria necessária para
luz, não surpreende que, no decurso dos anos 80, tenha emergido não só uma
completar o processo histórico iniciado com o liberalismo, mas que somente
críãca pmgramáãca à orientação dominante, mas também tenham surgido indí-
a República poderia elevar a um estádio de maior perfeição.
cios de insatisfação perante a táctica legalista que se seguia na luta contra a
Mais concretamente, e segundo o seu texto, todas as reformas deviam ser
Monarquia, o que indiciava o paulatino crescimento de opções mais revolu-
«simultâneas a estes dois factores sociais»6», a saber: a organização dos poderes
cionárias.
Foi neste contexto que, no Porto, Felizardo Lima lançou O Radical, jornal do Estado (poderes legislativo, executivo e judicial) e a fLxação das garantias
apologista do abstencionismo eleitoral e da acção violenta,' doutrinador de um individuais (liberdades essenciais, liberdades políticas e liberdades civis). A ver-
programa federalista e municipalista e de uma sociedade laicizada, repetindo, tente federalista aparece, sobretudo, na estruturação do poder legislativo e admi-
ao fundo, os princípios essenciais do federalismo63; era ainda porta-voz do nistrativo: a um primeiro nível, previa-se uma federação de municípios, que teria
novo (e efémero) Partido Republicano Radical, continuador dos velhos pro- competência para legislar em assembleias provinciais sobre todos os aspectos
jeetos federalistas, como se prova com o facto de o núcleo lisboeta ter adop- concernentes à segurança, economia e instrução provincial, dependendo nas rela-
tado o projecto de Teixeira Bastos. ções mútuas de homologação da Assembleia Nacional% num segundo degrau,
erguer-se-ia a federação de províncias, «legislando em Assembleia Nacional, e
sancionando, sob o ponto de vista do interesse geral, as determinações das
assembleias provinciais, e velando pela autonomia e integridade da Nação»67.
6~ Teixeira Bastos, O Primeiro de Maio, Lisboa, 1898, p. 30. Sobre o «socialismo inte-
gral», veja-se César Nogueira, ob. cit., p. 166 e ss.
«" No entanto, isso não impediu que o projecto tenha sido adoptado por um grupo que 64 Cf. Trindade Coelho, Manual Politico do Cidadão Portuguez, 2.° ed., Porto, 1908,
se instituiu como Partido Republicano Radical, em Janeiro de 1889. A sua comissão pro- p. 667 e ss.
vis6ria era composta, entre outros, por Manuel de Arriaga, Eça Ramos e Ferreira Chaves. 6s Idem, ibidem, p. 667.
Cf. O Radical, I armo, n.o 48, 28-I-1889, p. 2. 66 Idem, ibidem, p. 667.
«-~Cf. lbidem, n.o 32, 8-X-1888, p. 2. 67 Idem, ibidem. Esta componente descentralista manter-se-á como uma das reivindi-
cações fortes de um sector significativo do republicanismo português. É assim natural que
57
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL OS PROGRAMAS POLI'TICOS
voltou a afirmar-se, nos finais do século, no plano programático e propagan-
Quanto ao poder executivo, é interessante assinalar que, no seguimento da dístico, como um «social-republicanismo» que pretendia demarcar-se do libe-
influência de José Félix Henriques Nogueira -- passível de ser verificada na
ralismo extremo e dos socialismos revolucion¿rios.
organização dos poderes do Estado --, o programa de 1891 defendia a divisão A partir do modelo económico subjacente ao programa de 1891, verifica-se
do poder executivo em três sectores: segurança social, educação pública e eco-
que continuava a defender os interesses dos pequenos produtores e comer-
nomia pública~. E, no concernente ao poder judicial, limitava-se a propor a
sua estruturação em três juízos (conciliação, civil e criminal)69. ciantes, ou, melhor, a «capitalização dos pequenos possuidores»7, tendo em
vista criar os meios conducentes à extinção do salariato, ou, pelo menos, gera-
Como os programas federalistas anteriores, o de 1891 dava guarida aos
dores de uma maior solidariedade entre o trabalho e o capital. Este último
direitos da mulher, numa atitude precursora da militância feminista7o que
objectivo seda alcançável com algumas medidas supletivas, a saber: a «regu-
alguns meios pré-republicanos virão a incrementar entre nós. Daí que a rubrica
respeitante à fixação das garantias individuais reafirmasse os princípios lamentação do inquilinato», a institucionalização dos «tribunais de classe para
essenciais da tradição demoliberal e sustentasse ser necessário fomentar a sua os conflitos entre operários e patrões»75, a ampliação das competências dos
emancipação. árbitros avindores, o «reconhecimento e auxilio às câmaras sindicais»76 a
Nos campos jurídico, económico e ideológico, os republicanos continuaram criação de «bolsas de trabalho» e de «todos os meios de incorporação do pro-
a pugnar pela extinção das estruturas, hábitos, ideias e comportamentos que letariado na sociedade moderna»77. Como se vê, indo ao encontro dos inte-
consideravam como resquicios do Antigo Regime7~. Todavia, o texto avançava resses das classes médias, o republicanismo visava também integrar as classes
com alguns proptsitos que ajudam a precisar melhor os alvos (e os limites) trabalhadoras, avançando com um projecto de consenso social de clara inspi-
sociais do republicanismo oficial nos inícios da última década do século xIx. ração positivista, que só queda deixar de lado os sectores directamente ligados
Repercutindo o movimento de contestação ao livre-cambismo e as pretensões ao poder monárquico (elites dirigentes e clero reaccionário).
dos que propugnavam por um maior proteccionismo (debate forte no seio das Temos como certo que a evolução da crítica ao clero se deu dentro dos
associações económicas e de classe, nos finais da década de 80), o programa quadros teóricos do cientismo e coube à corrente federalista, desde a década
reafirmava a defesa do cooperativismo «de consumo, produção, edificação e de 70, um papel não despiciendo na transformação do anticlericalismo de cariz
crédito pelo adiantamento pelo Estado, dum fundo inicial»72, sector que de- liberal num anátema contra a própria religião, atitude que se deveria objectivar
veria coexistir «com as indústrias particulares>>. Porém, o Estado tinha de con- na completa laicização da sociedade portuguesa. E esta perspectiva ganhou par-
trolar os moaoptlios e rever «as pautas, no intuito de facilitar a aquisição de
ticular incidência a partir do magistério de Leão XIII, momento em que a
matérias-primas, e protecção ao trabalho nacional»v3. Convém lembrar que esta
Igreja, para lutar contra a descristianização das massas urbanas e para bloquear
preocupação constituía uma das pedras-de-toque do «socialismo catedrático»
e do novo cesarismo monárquico protagonizado por figuras como Oliveira o avanço das expectativas revolucionárias, se lançou numa ofensiva que irá
Martins e João Franco. Seja como for, a verdade é que, quer como conse- colocar a questão social, vista numa perspectiva religiosa e corporativa, na or-
qu~acia de um ideário que atribuía à políuca uma função ética morigeradora, dem do dia. Dai não admirar que a agudização da questão religiosa nos inícios
quer por necessidade de responder aos seus adversários, o republicanismo da década de 80 -- tratava-se de denunciar as infiltrações das ordens religiosas
e as manobras do núncio tendentes a fomentar a criação de um parado cató-
lico78 -- tenha dado lugar, nos anos 90, a uma radicalização do anticleri-
a ame tenha sitio agitada no decurso do congresso municipalista (1908), areópago em calismo, em que a questão religiosa surge crescentemente articulada com a
que foi graude a influtncia republicana e em que Agostinho Fortes, vereador da Câmara questão política e com a opressão social e económica.
Municipal de Lisbo¿ fez aprovar a seguinte proposta: 1.o a Pátria devia ser uma federação O programa de 91 indicia esta mutação de um modo mais explícito do que
de municípios livres e autónomos; 2.0 os municípios deviam ser a federação das partquias,
os anteriores, sobretudo quando exige a introdução do registo civil obriga-
elementos primários da nacionalidade; 3.0 o Estado somente exerceria as funções de regu-
larizador e de concatenador da obra comum municipal. Cf. A Vanguarda, XII armo, n.o 4408, tório, o ensino primário obrigatório, gratuito e laico, a secularização dos cemi-
20-IV-1909, p. l, e ainda n.o 4410, 22-IV-1909, pp. 1-2. A celebração do centenário de térios, a abolição dos juramentos civis e políticos79. Em tudo isto se nota uma
Alexandte Herculano (1910) serviu igualmente de pretexto para que a propaganda republi- clara influência da política laicizadora da III República Francesa, liderada por
cana voitasse a enaltecer a sua concepção descentralista de organização política (a par do Jules Ferry, nos finais de 70 e princípios dos anos 80; e, dado o impacte das
anãclericalismo).
Cf. Trindade Coelho, ob. cit., p. 667.
~ Idem, ibidem.
74
Idem, ibidem.
75 Idem, ibidem.
e ~ . Sobre o feminismo republicano, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, p. 339 76
Idem, ibidem.
~J Cf. Trindade Coelho, ob. cit., p. 669. 77 Idem, ibidem.
72Idem, ibidem. 7« Cf. Manuel Braga da Cruz, As Origens da Democracia Cristã o Salazarismo, Lisboa,
73
Idem, ibidem, p. 669. 1980, p. 84 e ss.
79 In Trindade Coelho, ob. cit., p. 640.

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OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL OS PROGRAMAS POLI'rICOS
nos deviam ter preparado, Como lhes cumpria, o advento das instituições e for-
novas panteonizações em Sainte-Geneviève (a de Vítor Hugo em 1885), não mas progressivamente democráticas ao grau imediato _ a República, primeiro
espanta que o programa também reivindique a criação de um «panteão nacional unitária talvez, logo depois federalista, mais tarde socialista, até à eliminação
para as honras cívicas»g°. prova evidente de que, dentro dos parâmetros da reli- de todo o poder e autoridade, fora ou acima da cooperação para ser definiti-
giosidade cfi,ica que o republicanismo fomentava, os Jerónimos, talvez devido vamente anarquia»83. A fusão da ideia republicana com a socialista e, sobre-
ao seu estatuto de espaço religioso, não eram um altar cívico adequado à tudo, com a anarquista, entendida como meta última a atingir pela República
coexistência dos «grandes homens». Mas isto também revela que, na linha da esta seria, assim, a forma de Estado que se extinguiria depois da transição
tradição revolucionária francesa, os republicanos, mais do que os constitucio- republicano-federal e socialista --, foi frequente nos textos dos publicistas
nalistas monárquicos, foram sensíveis a que a acção do Estado-Nação sobre a mais activos do republicanismo finissecular e dos inícios do século xx. Afonso
sociedade tivesse de assumir uma nova dimensão sagrada, que visava «pro- Costa, na sua crítica à doutrina social de Leão XIII, colocou-se explicitamente
duire des signes efficaces du nouveau type d'unité que requiert une société sob a autoridade de Marx e do socialismo reformista de Benoit Malon~, e são
d'individus reconnus comme civilement égaux»sL conhecidas as afinidades ideológicas e as relações pessoais que Sebastião de
Magalhães Lima manteve com aquele socialista francêsSL O mesmo se pode
afirmar no que concerne a propagandistas como Teixeira Bastos, Felizardo
O d3RUt~ REPUBLICANO DE ESTUDOS SOCIAIS» Lima, Heliodoro Salgado86 ou Fernão Botto-MachadoS7. Se não aceitavam se-
parar a questão do regime da questão social, e se não acreditavam na imediata
Aquele foi o último (e oficialmente o primeiro) programa do Partido Repu-
instauração da acracia, também é verdade que não reduziam o ideal republi-
blicano elaborado antes da queda da Monarquia. Mas significa isso que foi
cano a uma forma exclusivamente política. Isto é, e como escrevia Femão
um ponto de referência incontestável para todos os republicanos? De modo
algum. A situação modificou-se com o fracasso do 31 de Janeiro e com a repres- Botto-Machado em 1908, reconheciam que «a emancipação dos trabalhadores
são que se lhe seguiu. A este enfraquecimento correspondeu o crescimento da tem, é certo, de ser obra dos mesmos trabalhadores», mas defendiam igual-
propaganda socialista e anarquista junto dos meios populares urbanos (em mente «que essa obra só pode ser preparada por uma República progressiva,
Lisboa e um pouco no Porto), à volta do empolamento da questão social e da reformadora, evolucionista, popular, igualitária, equitativa e justiceira, que
questão religiosa. (O primeiro congresso anticlerical realizou-se, em 1895, por tenha por base fundamental a instrução e a educação, e por aspiração suprema
iniciativa das organizações socialistas.)82 Ora, se o programa de 91 recobria as a socialização da terra, do capital e dos instrumentos de produção, isto é, a
reivindicações de teor laicista, o mesmo não se pode afirmar no respeitante às queda do feudalismo económico -- a igualdade de meios e condições»as.
exigências de índole social -- debate aceso sob o impulso do anarquismo Pode sustentar-se que esta tendência mais radical arrancou com força depois
(Reclus, Kropotkine, entre outros) -- e no concernente à natureza opressiva de do insucesso do 31 de Janeiro e que, paulatinamente, conseguiu hegemonizar a
toda a organização política, mesmo a de inspiração republicana. propaganda republicana e ganhar o poder partidário nos anos anteriores a 1910.
Por outro lado, o retrocesso do «oportunismo» em França após a queda de Naturalmente, esse percurso não foi linear, nem despido de contradições e lutas
Ferry e a crescente influência dos radicais-socialistas e dos solidaristas esta- internas. E, se tomarrnos como exemplo as intenções do «Grupo Republicano
fiam a demonstrar que a essência do republicanismo não se podia cingir à luta
de Estudos Sociais», criado em 1896, teremos um bom barómetro do estado
contra a Monarquia, pois implicava a defesa de um projecto global em que anímico do movimento depois daquela derrota e da orientação «oportunista»
seriam partes do mesmo todo tanto a implantação da República, como a laici-
consubstanciada na Coligação Liberal (aliança entre republicànos oficiais e pro-
ração das instituições e das mentalidades, a liquidação do poder económico
gressistas). A sua formação tinha corno finalidade fomentar «o renascimento da
do grande capital em nome de um reformismo social de inspiração solidarista.
De certo modo, para os activistas dos f'mais de Oitocentos, o republicanismo, esperança no porvir e um forte movimento nervoso, de alento e de entusiasmo,
com a correcta ordenação temporal dos seus objectivos, constituía um ideal
que, em última análise, sintetizava e incorporava não só as aspirações demo-
liberais, mas também socialistas e anarquistas. s3 Manuel Emídio Garcia, «Missão Actual dos Governos», O Defensor do Povo, II armo,
Na década de 90, o velho lente de Coimbra Manuel Emídio Garcia vei- n.° 185, 26-IV- 1894, p. 1.
s4 Cf. Afonso Costa, A Egreja e a Questão Social, Coimbra, 1895.
culava exemplarmente esta pretensão ao distinguir entre o programa máximo
85 Vejam-se, em particular, as obras de Sebastião de Magalhães Lima, O Socialismo na
e o programa mínimo do movimento: «na Monarquia representativa, os gover-
Europa, Lisboa, 1892; O Primeiro de Maio, Lisboa, 1894; «A República e o Socialismo»
in As6
Questão Social,Salgado,
Cf. Heliodoro Lisboa, A
1894.
Egreja e o Proletariado, Porto, 1888, e «Evolução Social»,
to Idem, ibidem. Sobre esta questão, veja-se Fernando Catroga,
A Obra, XVII anno, n.° 368, 22-I1-1902, P. 2.
~~ Pierre Rosanv',dlon. ob. cit., p. 99. ob. cit., vol. 2, p. 955 e ss. 87 Cf. Fernão Botto-Machado, O «Grupo Republicano de Estudos Sociais», Lisboa,
s2 Cf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, p. 309 e ss.
1896;
asO IdealCrenças
Idem, e a Solidariedade Humana,
e Revoltas, Lisboa, Lisboa,
1908, 1910.
p. 417.
61
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

em todo o organismo do partido»~. tarefa que o Directório eleito em 1895 se


mostrava incapaz de realizar devido principalmente às incompadbilidades exis-
tentes entre os ~us membros (Gomes da Silva, Horácio Esk Ferrari, Jacinto Nunes,
Magalhães Lima e Eduardo de Abreu). Constituíam o novo grupo 68 republi-
canos diplomados (do qual se destacavam Teófilo Braga, Guerra Junqueiro,
Afonso Costa. Teixeira Bastos. Manuel de Arriaga), isto é, uma espécie de
escol, que assim se arvorava em boa consciência moral e crítica do movimento.
Para isso, incentivavam o incremento da luta contra a Monarquia e o estudo da
realidade, a fim de se definirem as «reformas de ordem económica, política e
moral suscepu'veis de serem aplicadas à nação portuguesa, quando implantada
a República»q°- Ora, não deixa de ser reveladora a crítica de Fernão Botto- CAP[TULO 3
-Machado a este projecto. Sem põr em causa os seus propósitos e a idoneidade
BASE ELEITORAL DO MOVIMENTO REPUBLICANO
dos seus membros, o publicista lembrava que «de teorias somente, de decla-
mações sonorosas, de retóricas, de eleições, de esgfimismos pessoais, de refor-
mas e até de bacharéis -- perdoe-nos o Grupo ~ estão o partido, o país e o
mundo inteiro, abarrotados»gj. Assim sendo, a iniciativa só faria obra positiva A BASE SOCIAL DE APOIO DO MOVIMENTO REPUBLICANO
se conseguisse dotar o movimento de um comando unificado e activo, congra-
çando. ,,num amplexo fraternal e afectuoso, os republicanos e socialistas»92, de Perante tudo o que já foi exposto, impõe-se perguntar: afinal, qual foi, em
moide a alargar-se a frente de combate contra a Monarquia. termos quantitativos, a força eleitoral do movimento republicano? Em que sec-
Tudo isto mostra que existiam divergências tácticas e estratégicas que, tarde tores sociais alicerçou o seu apoio? Quais foram os seus adversários privile-
ou cedo. teriam de se repercutir no próprio posicionamento da militância re- giados? Infelizmente, a ausência de algumas fontes primárias essenciais a este
publicana em relação aos limites do eleitoralismo, no plano da acção, e do tipo de pesquisa (ficheiros dos centros republicanos, por exemplo) impede que
republicanismo estrito, a nível programático. No terreno oficial, a orientação se dê, para já, uma resposta segura. No entanto, existem algum indicadores
do Partido Republicano manter-se-á moderada, dando grande ênfase à denúncia que possibilitam uma resposta, ainda que aproximada, a todas estas questões.
da corrupção do regime m «substituir toda a ostentação inútil e nociva do
actual regimen por uma administração sóbria, severa e honesta»93, pedia o
Directório em 1898 -- e à crítica aos malefícios do livre-cambismo e da tribu- As eleições
tação indirecta, ao mesmo tempo que a actuação dos deputados republicanos
ganhará maior destaque a partir de 1900, com relevo para os tribunos da nova O processo de formação do Partido Republicano foi em muitos pontos aná-
geração iAfonso Costa, António José de Almeida). Mas, a par de tudo isto, é logo à constituição de outros partidos demoliberais europeus. Como nestes,
indiscutível que os propagandistas mais activos na primeira década do sé- também no caso português se assiste à federalização de centros políticos, de
culo xx foram semeando um imaginário social em que, como já muitos radi- personalidades e de jornais, não existindo nenhuma acção propulsora (e cen-
cais das décadas anteriores (federalistas, sobretudo) haviam sustentado, o ideal
tralizadora) de qualquer grupo parlamentar. O que se compreende, pois muito
republicano aparece indissociável do sonho de emancipação social, expectativa
dificilmente um movimento tão exterior ao regime poderia obter uma represen-
que. correlacionada com o alargamento da sua base social, incitava a romper
com as regras do jogo eleitoral. Daí que, por aquela época, a República se tor- tação parlamentar significativa em sistema de sufrágio censitário. Consequen-
nasse cada vez mais equivalente a Revolução, e o republicanismo fosse, ideo- temente, as eleições (legislativas, municipais) foram importantes, sobretudo
logicamente, uma espécie de síntese entre a social-democracia à alemã e o res- como meio de educação política. De qualquer modo, apesar de, nos seus pri-
peito pela pluralidade dos interesses à inglesa94. mórdios, o movimento defender uma via legalista de acesso ao poder, a sua
força na sociedade portuguesa dos finais de Oitocentos e princípios do século xx
não pode ser exclusivamente medida através do peso das votações.
~ ldem. O ,Grupo Republicano de Estudos Sociais», p. 11. A estreia dos republicanos nas pugnas eleitorais para o Parlamento deu-se
«' idem, ibidem, p. 28. em 1878. Isto não surpreende se se tiver em conta que, com a aprovação da
çJ Idem, ibidem, p. 54. lei eleitoral de 8 de Maio de 1878, foi concedida capacidade eleitoral não
~" Idem. ibidem, p. 93.
~-~ Manuel de Atriaga, Para a Historia do Partido Republicano Portuguez, Lásboa, 1898, p. 14. só aos cidadãos que comprovassem um rendimento de 1005000 réis, mas tam-
Veja-s¢ também, Idem, Projecto para a Historia do Partido Republicano Portugue¿ Lisboa, 1898. bém aos cidadãos (masculinos) maiores de 21 anos, que soubessem ler e es-
Para o caso franc¿s, veja-se Pierre Rosanvallon, ob. cit., p. 119.
crever ou fossem chefes de família. Democratizava-se, assim, ainda que de
maneira relativa, o sufrágio, numa clara resposta às reivindicaçõ¢s da oposição
63
BASE ELEITORAL DO MOVIMENTO REPUBLICANO
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
quico vencedor e 35 de Antero de Quental (socialista). Mas s~ em 1881 se
(pmgressistas e republicanos) e com o proprsito de integrar eleitoralmente a deu, de facto, o primeiro grande empenhamento eleitoral do movimento repu-
contestação dos anos anteriores e de alargar a base de legitimação do regime blicano. Apresentando-se em quase todos os círculos, tiveram um total de 7778
monárquico-constitucional. O número de eleitores subiu de 480 000, em 1877, votos. Número exíguo em termos nacionais, mas que provocou grande entu-
para cerca de 820 000, em 1878, e continuou a crescer nos anos seguintes até siasmo nas suas hostes. Na verdade, conseguiram, ainda que com o apoio
atingir o seu acume em 1890. Em 1895, o sufrágio foi novamente restringido, «oculto» dos regeneradores, eleger um deputado por Lisboa -- Elias Garcia
o que deu nova actualidade à reivindicação do sufrágio universal, ideal que e, na capital, a votação em outros candidatos (Terfilo Braga, Magalhães
mesmo a lei anterior não concretizava. De facto, em termos proporcionais, o Lima) foi relevante. Com efeito, para um total de 13 343 listas entradas, os
eleitorado terá passadoI de 10% da população, entre 1868 e 1877, para 18-19%, republicanos receberam 3860 votos (28,9%), o que os colocou a uma distância
entre os anos de 1878 e 1890. Por outro lado, só os homens maiores e alfabe- de 5194 votos em relação aos concorrentes monárquicos4. Por sua vez, no
tizados podiam votar, evoluindo a percentagem, a este nível, de 37% a 40%, Porto, Manuel Ernfdio Garcia e Alves da Veiga obtiveram resultados signifi-
entre 1874 e 1877, para cerca de 70%, entre 1878 a 1894. Seja como for, as cativos». Em 1883, Manuel de Arriaga, por razões conjunturais, foi eleito pelo
modificações de 1878 pareciam oferecer melhores condições de sucesso elei- círculo eleitoral do Funchal, obtendo um total de 2556 votos contra 991 e 477
toral a um movimento de vocação mais democrática como o republicano. dos dois candidatos monárquicos6.
Com efeito, as eleições de 1878 devem ser assinaladas tanto pelos seus re- Estes números comprovam a existência de um militantismo que estava a
sultados relativos -- será eleito o primeiro deputado republicano -- como radicar o Partido Republicano no jogo político-parlamentar. Nos inícios da
pelos indícios que nos dão acerca do estádio evolutivo do republicanismo por- década de 80, o republicanismo começou a explorar os protestos contra os es-
tuguês. E, como se viu, enquanto Teófilo Braga e Manuel de Arriaga, em cândalos financeiros, a invasão das ordens religiosas, os impostos, o impacte
Lisboa, Rodrigues de Freitas, no Porto, e Abflio Roque, em Coimbra, se apre-
da questão de Lourenço Marques, alvos que davam concretização a uma espe-
sentaram ao eleitorado como republicanos, Elias Garcia aceitou o apoio do
rança redentora que teve no êxito das comemorações camonianas (1880) o seu
Partido Regenerador. Como consequência desta opção «oportunista», o Centro
Republicano Democrático de Lisboa sofreu uma nova dissidência. Por outro primeiro grande momento de apogeu.
lado, em termos quantitativos, há a registar que, na capital, a votação republi- Os sucessos, ainda que relativos, vieram a estar condicionados por crises
cana foi de 731 votos, o que perfez 6% das listas entradas, num diferencial em conjunturais, não admirando que a maior ou menor instabilidade do regime
relação à votação monárquica da ordem dos 10 498 votos2. que combatiam estivesse relacionada com os seus avanços e recuos. Assim,
Num círculo portuense, venceu a candidatura de Rodrigues de Freitas pro- depois de um novo momento alto (1892) -- sem dúvida devido às repercussões
posta pelo Centro Republicano Democrático3 local. Este acontecimento parece do Ultimatum e da crise político-financeira da época --, em que os candidatos
indiciar que o movimento estava a ganhar raízes na capital nortenha. Contudo, republicanos obtiveram 5260 votos (39,8%) na capital, e aprs as hesitações
o seu significado deve ser relativizado, pois tal vitória ficou a dever-se, em tácticas que levaram ao abstencionismo eleitoral como protesto contra o
grande medida, ao prestígio pessoal de uma figura que já anteriormente, em aumento da repressão monárquica, assiste-se, mesmo em Lisboa, a uma clara
candidaturas «xeformistas», havia recebido a aprovação de muitos eleitores da decadência nos inícios do novo século: 1900 (31,3%), 1901 (25,3%), 1904
cidade, em paracular dos pequenos comerciantes. E que era assim prova-o o (32,5%), 1905 (38,7%). Mas as estaffsticas revelam que, a partir de 1906,
facto de, em eleições posteriores em que não concorreu, os republicanos por- ocorreu uma viragem cuja progressão confirmava, indiscutivelmente, a republi-
tueases s6 saírem vitoriosos, por razões conjunturais -- o descontentamento canização de Lisboa; o que é tanto mais significativo quanto, em 1901, uma
com a acção do governo no ataque à epidemia de 1899 --, em 18 de Fevereiro nova lei eleitoral tinha alargado os círculos eleitorais a zonas rurais, algumas
de 1900. E, mesmo na conjuntura que levou ao 31 de Janeiro de 1891 e nas muito afastadas da capital7. Por exemplo, o círculo oriental passou a contar
eleições imediatamente seguintes, o seu peso eleitoral foi muito baixo, com 24 freguesias urbanas e 6 municípios rurais: Cadaval ficava a 75 km;
denotando-se somente um relativo crescimento, após a revolta, nas eleições Azambuja a 54; Alenquer a 45; Arruda dos Vinhos a 39; Vila Franca a 32; e
municipais, o que não bastou, porém, para conquistarem qualquer vereador. Loures a 15. O círculo ocidental incluía 17 freguesias urbanas e 7 municípios
Passando por cima de outros actos eleitorais sem grande significado, de rurais: Lourinhã ficava a 75 km; Torres Vedras a 56; Sobrai de Montagraço a
relevante eneontramos a votação de Magalhães Lima, que, num círculo lis-
boeta, recebeu, nos fins de 1880, 602 votos contra 1614 do candidato monár- 45; Mafra a 40; Sintra e Cascais a 30; e Oeiras a 17.

4 Idem, ibidem.
J Cf. Pedro Tavares de Almeida, art.o cit., pp. 118-19.
2 Idem, ibidem, p. 144. sCf. A Justiça Portugueza, II armo, n.° 100, 13-VIII-1881, P. 1 e n.0~ seguintes; O Pri-

» Rodrigues de Freitas fez a sua pública profissão de f~ republicana no comício eleitoral meiro de Janeiro, XIII anno, n.° 199, 22-VIII-1881, P. 1; O Seculo, I armo, n.° 206,
13-IX-1881, p. 1; A Vanguarda, II armo, n.° 70, 4-1X-1881, P. 2.
realizado a 16 de Julho de 1878. Cf. A Bandeira Republicana, 2.a série, I anno, n.o 13,
Outubro, 1878, p. 2. 6Cf.
7 Cf. AVasco
Era Nova,
PulidoI armo, n.°ob.
Valente, 17,cit.,
28-XII-1882,
p. 70. PP. 1-2.

65
BASEELE1TORALDOMOVIMENTOREPUBLICANO
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
de 1910:10 por Lisboa (Afonso Costa, Alexandre Braga, Alfredo de Magalhães,
De qualquer modo, o crescimento republicano era imparável na principal António José de Almeida, António Luís Gomes, Bernardino Machado, Cândido
cidade do país. Em 1906, os republicanos obaveram 10 068 votos (54,1%), o dos Reis, João de Meneses, Teófilo Braga e Miguel Bombarda), 3 por Setúbal
que representava mais 2053 do que os recebidos pelas candidaturas monár- (António Aurélio da Costa Ferreira, Estêvão de Vasconcelos e Feio Terenas) e
quicas. Em 1908, a votação para as eleições parlamentares voltou a ser grande: 1 por Beja (Brito Camacho)~3. Apesar deste alargamento, era ainda a tradicional
53.5% dos votos (mais 2084 do que a dos monárquicos) e, em 1910, ascendeu geografia do republicanismo que aqui se reproduzia. O que mostra que, se as
a 15 252 votos (62,3%) contra 8952 dos seus adversários~. Em suma: no pri-
forças antidinásticas tinham conquistado um forte poder de mobilização em
meiro decénio de Novecentos, a votação republicana aumentou espectacular- Lisboa, não haviam ganho, contudo, uma grande expressão eleitoral no resto do
mente cerca de 375%9
pais. Por isso, muitos activistas começavam a recuperar o exemplo de 31 de
E na província? Pelo que atrás ficou exposto, compreende-se que o sucesso Janeiro de 1891 e a sustentar que o derrube da Monarquia por via eleitoral não
não tenha sido tão grande, embora se detecte a mesma tendência crescente.
passava de uma ilusão. E, com a acentuação da crise do regime, particularmente
Antes das eleições municipais de 1908, os únicos municípios com adminis-
exacerbada pela ditadura de João Franco e pelo seu epilogo dramático (o regicí-
tração republicana eram os de Benavente, Grândola e Vila Franca de Xira; com
o novo acto eleitoral, conquistaram as câmaras de Lisboa, Almeirim, Bena- dio em 1 de Fevereiro de 1908), e com o correlativo aumento da contestação
vente, Grândola, Lagos, Odemira, Santiago de Cacém, Alcochete, Aldegalega, política e social que ocorreu nos anos anteriores a 1910, ganharam força os que
Cuba, Moita. e obtiveram forte representação nas câmaras de Abrantes, Bar- defendiam a necessidade de se combinarem as habituais formas legais de luta
quinha, Caldas da Rainha, Cartaxo, Castro Verde, Constância, Nazaré, Régua, com a acção violenta.
Silves, Sousel, Vila Franca de Xira, Redondo, Mealhada, Espinho, Castro Daire
e Porto de Mós~°. No que toca às eleições parlamentares, sabemos que,
em 1908, obtiveram uma votação relevante na Figueira da FozH -- cerca de A origem social do recrutamento: o «caixeirismo jacobino»
42% --, mas, a dois meses da revolução, somente conseguiram ganhar as
maiorias em Setúbal e as minorias em Beja~2. Por todas as limitações apontadas, compreende-se melhor porque é que a
Que concluir de tudo isto? Em primeiro lugar, esta geografia eleitoral con- expressão parlamentar não deve ser tomada como a tradução da força real do
firma, no essencial, o que atrás ficou desenhado acerca das características lis- republicanismo na sociedade portuguesa. Sendo uma opção política de es-
boetas da implantação do republicanismo e dos seus prolongamentos pelo vale querda, alimentada pela sobrevalorização da ideologia, o seu grau de mili-
do Tejo e pelo Sul do país, particularmente nos distritos de Setúbal e de Beja. tância era logicamente superior ao dos partidos eleitoralmente mais fortes.
Mas fica igualmente demonstrado que, se os republicanos se mostravam capa- Impõe-se, por isso, verificar a extensão deste activismo político, condição fun-
zes de captar a adesão de novos eleitores nos círculos de Lisboa, o mesmo não damental para nos aproximarmos da base social que conseguiram conquistar.
acontecia nas áreas em que eram maiores as influências clericais e as sociabili- Infelizmente, a falta de documentação não nos permite estudar com rigor
dures tradicionais. De facto, se, na década de 80, a votação republicana em o grau de militantismo no período do seu arranque como partido. Porém, recor-
Lisboa recolheu entre 3000 votos e 4500, no Porto a escala nunca ultrapassou os
rendo a algumas informações da época, é possível estimar, ainda que aproxi-
618 votos. Daí que, no período que decorreu entre 1878 a 1907, os republicanos
mativamente, os efectivos do movimento, pelo menos em Lisboa. Como atrás
somente conseguiram conquistar 28 mandatos: 17 foram ganhos em Lisboa,
9 ao Pmlo-Craia (e aqui há que sublinhar a renovação dos mandatos de Rodri- se mostrou, o centro constituía a célula-base do movimento. Ora, temos infor-
gues de Freitas e o sucesso conjuntural das eleições de 1900 -- 3 man- mações de que, em 1878, no Beato, foi fundado um núcleo (federalista) com
dat~-- recorrente do descontentamento popular provocado pelo modo pouco cerca de 100 associados. Outros indicadores parecem confirmar que esta seria
eficaz como as autoridades fizeram face ao surto epidémico que assolou a a média de associados por centro lisboeta. Relembre-se que, segundo o Pro-
cidade), 1 no Funchal e 1 em Lagos. Nos anos imediatamente anteriores jecto da Organização Definitiva do Partido Republicano Português, «cada
à República, a situação modificou-se um pouco: a representação republicana centro para constituir-se definitivamente e usar das prerrogativas que lhe são
Nas terras onde a
passou de 7 deputados para 14 com as eleições legislativas de 28 de Agosto próprias carece do número certo de cem s6cios inscritos ....
população for insignificante, poderá constituir-se com metade do número»~4.
Longe de se estar a definir uma meta ideal, o articulista pretendia regulamentar
«Cf. Pedro Tavares de Almeida, art.o cit., p. 144. uma situação de facto, e esta convicção é ainda comprovada por outras duas
9 Idem, ibidem, p. 136.
informações que apontam na mesma direcção. Um manifesto publicado pelo
~°A Lucra, II1 almo, n.o 1030, 3-XI-1908, p. 1; n.o 1031, 4-XI-1908, p. 2; n.° 1034,
7-XI-1908, pp. 2-3.
Jl Cf. Rui de Ascensão Ferreira Cascão, Permanência e Mudança em duas Comunidades 13 Cf. Lopes d'Oliveira, ob. cit., p. 383.
do litoral: Figueira da Foz e Buarcos entre 1861 e 1910, vol. 2, Coimbra, 1989, p. 789.
J2Cf. Vaseo Pulido Valente, ob. cit., p. 71. ~4 Manuel de Arriaga, Projecto da Organização Definitiva do Partido Republicano
Portuguez, p. 7.
67
BASE ELEITORAL DO MOVIMENTO REPUBLICANO
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

da aspiração republicana e revela a necessidade que o movimento sentia de


Centro Escolar Femandes Tomás, em Junho de 1882, e assinado por indiví-
criar uma nova opinião pública, ou melhor, um novo senso comum mais sen-
duos que se declaravam «membros» dessa associação, continha 218 assina- sível aos valores da democracia e do progresso.
turas. Descontando alguns que, presumivelmente, seriam sócios de vários No entanto, se passarmos para análises mais alargadas chega-se a conclu-
centros ao mesmo tempo, é indiscutível que estamos perante um dado que, não
sões um pouco diferentes, embora a hegemonia das profissões intelectuais nos
só confu'ma os anteriores, como corrobora esta informação importante: em
Julho de 1881, a Democracia noticiava que, àquela data, funcionavam, pareça indesmentível. Assim, os 32 nomest6 que foram eleitos para o primeiro
em Lisboa, 14 centros envolvendo um total de «2000 a 3000 pessoas»~5. Directório do Centro Democrático e Republicano de Lisboa (12 de Abril de
1876) confirmam as profissões atrás apontadas, mas já denotam um peso signi-
Fazendo a média, cada uma teria entre 143 a 214 militantes. Como nos finais
de 1882 já existiam cerca de 20 agremiações abertas, tem de aceitar-se que, ficativo de militantes oriundos de actividades comerciais -- sete comerciantes
por esta altura, o número total de membros ultrapassaria os 3000. E como, pela e três empregados de comércio, isto é, 31,25% do total.
mesma época, mais de 20 centros estavam em funcionamento, ou em fase de Como é lógico, as direcções dos centros lisboetas e da província espelham
instalação, fora da capital, é curial supor que, a partir do critério de exigência igualmente a natureza social do militantismo antimonárquico. Tomando por
do Projecto, o seu militantismo por centro fosse, pelo menos, metade do de amostra uma reunião do Centro de Coimbra, realizada em Julho de 1881, en-
Lisboa, o que perfazia cerca de 4500 indivíduos activamente ligados às asso- contramos, de facto, uma composição mais acentuadamente interclassista -- o
ciações republicanas. que não deixa de ser relevante num meio universitário. Os 23 elementos pre-
Como nas eleições de 1881 os candidatos republicanos receberam 7778 sentes distribuíam-se pelas profissões seguintes: três professores universitários
votos, pensamos que a comparação deste dado com os anteriores permite (Emfdio Garcia, José Falcão e Augusto Rocha); três estudantes (Angelino da
extrair uma ilação importante: o movimento tinha um grande activismo, Mota Veiga, António da Silva Pontes e José Nazaré); cinco artesãos (Adelino
embora, como geralmente acontece com os partidos de forte determinação Veiga, José Jacinto, Lufs Serra, Ricardo Mesquita e José Maria de Abreu);
ideológica, tendesse para uma fraca relação militante/eleitor. Além do mais, as dois comerciantes e industriais (Augusto Lufs Marta e Manuel José da Costa
restrições de índole eleitoral e o analfabetismo impediam a penetração da pro- Soares); quatro comerciantes (António Joaquim Valente, M. Rodrigues da
paganda republicana e a sua tradução em votos. Silva, Manuel António da Costa e António Barros Taveira); dois guarda-livros
Qual seria, então, a base social de apoio para que apelava o movimento, e (Joaquim José Rodrigues de Sousa e Miguel Braga); um proprietário (Abflio
em que meios sociais recrutou a maioria dos seus militantes? Não restam dú- Roque de Sá Barreto); um procurador (Abflio Cordeiro); um médico (Miguel
vidas de que os seus quadros dirigentes ocupavam uma situação social ligada Arcanjo Marques Lobo) e um farmacêutico (António dos Santos Viegas)tT.
à burocracia estatal e ao exercício de profissões liberais. Só alguns, poucos, Embora a liderança pertencesse aos «intelectuais» m neste período o líder era
eram exclusivamente proprietários. Vejamos a amostragem fornecida pelo posi-
Emídio Garcia e, mais tarde, será José Falcão --, é indiscutível que se está
cionamento dos 16 membros do primeiro Directório do Partido Republicano
perante uma realidade sociológica muito mais complexa do que a dos diri-
(1883): Elias Garcia (professor da Escola do Exército); Manuel de Arriaga (advo-
gado e escritor); Te6filo Braga (professor do Curso Superior de Letras); Ber- gentes supremos do Partido Republicano e, sem dúvida, muito mais pr6xima
da posição social ocupada pelos activistas. É assim correcto dizer-se que, no
nardino Pinheiro (secretário do Tribunal de Contas); Teixeira de Queirós (mé-
dico e escritor); Magalhães Lima Õornalista); Sabino de Sousa (professor do seu início, o republicanismo foi, ao nível organizativo, um «partido de qua-
Hospital Veterinário); Castelo Branco Saraiva (médico); Oliveira Marreca dros». No entanto, como pretendia edificar uma sociedade democrática, legi-
(guarda-mor da Torre do Tombo e professor); Rodrigues de Freitas (professor timada pelo sufrágio universal (e não censitário), já apontava para uma estra-
chi Escola Politécnica do Porto); Latino Coelho (professor da Escola Poli- tégia frentista e integradora, visando tornar-se gradualmente num partido
técnica de Lisboa); Jacinto Nunes (advogado e proprietário rural); Anselmo enraizado numa ampla base social de apoio.
Xavier (jornalista); Emídio Garcia (professor da Universidade de Coimbra); Perante este propósito, a afirmação de Ladislau Batalha, segundo a qual,
José de Sousa Larcher (industrial e, depois, administrador de Bairro). Assim nos princípios da organização do Partido Republicano, os sectores moderados
sendo, em 15 elementos l0 pertenciam ao alto funcionalismo público e os que se foram tornando dominantes -- bloqueavam a presença da classe
restantes às chamadas profissões liberais. Por outro lado, quanto à formação trabalhadora, deve ser explicada em função da conjuntura em que se insere.
escolar, nota-se o acasalamento de uma educação de base jurídica com uma Já sabemos que, a partir de 1871, o movimento socialista e o movimento repu-
formação oriunda das escolas politécnicas e médico-cirúrgicas. Por fim, é rele-
vante a esmagadora presença de «intelectuais» propriamente ditos (professores,
,6 A lista fornecida por Damião Duarte Talhé é de 33 elementos. Contudo, o último,
escritores, jornalistas), o que prova o carácter predominantemente ideológico
Ponce Leão, não deve ser levado em conta, pois o pr6prio protestou contra o facto de a in-
clusão ter sido feita sem seu conhecimento. Cf., BNL, Joaquim Damião Duarte Talhé,
Apontamentos para a Historia da Fundação do Partido Republicano em Portugal, tos. 249,
~~Democracia, IX mano, n.o 2291, 30-VIII-1881, p. 2. n.o 60, tis. 5-7.
17Cf. O Seculo, I armo, n.° 158, 19-VII-1881, P. 2.
69
BASE ELEITORAL DO MOVIMENTO REPUBLICANO
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
menos táctico, de sectores enquadrados por socialistas e anarquistas. Simul-
blicano l~mormram caminhos diferentes e antagónicos. E enquanto os socia- taneamente, os dotes tribunícios de muitos dos seus novos líderes -- com des-
listas se esforçaram por impedir que a propaganda «jacobina» invadisse a cons- taque para Afonso Costa e António José de Almeida _ atrafam multidões, e
ciência dos trabalhadores e por mostrar que a verdadeira revolução social teria não restam dúvidas de que, na capital, os mais conhecidos dirigentes republi-
de ser apolítica e oposta aos desígnios tanto da Monarquia parlamentar, como canos gozavam de uma grande popularidade nas vésperas da República, senti-
da «República burguesa», os republicanos inverteram esta argumentação. Pela mento que chegou a receber significativas expressões iconográficas.
propaganda, tentaram mobilizar todas as classes e, em particular, as médias e Não existem muitas fontes directas que nos possam traçar o perfil socio-
os trabalhadores, procurando mostrar-lhes que qualquer reforma social perti- lógico de todo este activismo. Todavia, sendo conhecidas as ligações entre o
nente seria impossível sem a prévia instauração da República. Defender as republicanismo, as associações anticlericais, a Maçonaria e a Carboníria, e
teses socialistas seria manter o statu quo, logo, fazer o jogo da Casa de
conhecendo-se um pouco melhor a base social desta militância, julgamos que
Bragança. À luz desta conclusão, explica-se a vigilância que exerceram sobre
a sua especificação nos dará, pelo menos aproximadamente, as características
os que, nas suas reuniões, procuravam sobrevalorizar a questão social em detri-
do proselitismo republicano nos inícios de Novecentos. A Carbonária, asso-
mento dos problemas políticos propriamente ditos, tese que, a seus olhos, aca-
ciação secreta de vocação conspirativa, e que não exigia os requisitos finan-
bava por conduzir à desmobilização popular.
ceiros e culturais que a iniciação maçónica postulava, ter-se-á enraizado nos
Nos inícios da década de 80, o republicanismo, sem ser ainda um movi-
mento de forte implantação popular, já potenciava, assim, as características que meios populares mais politizados e em alguns meios das Forças Armadas de
acabarão por defini-lo: a defesa de um projecto socialmente heterogéneo. Isto baixa patente com um sucesso tal que terá contado com cerca de 40 000 ade-
é, se os «intelectuais» e os funcionários públicos exerciam a hegemonia ao rentes21. As associações anticlericais e, em particular, a Associação do Registo
nível da direcção do movimento, a sua radicação alargar-se-á igualmente a Civil, foram criadas (1876; 1895) com a finalidade de intensificar o combate
estratos sociais (comerciantes, artesãos, trabalhadores) que, se não lhe davam a favor do registo civil obrigatório22: em 1907, contava com 2191 súcios; em
uma grande expressão eleitoral, já lhe fomeciam, porém, o entusiasmo mili- 1908 com 3519 e, em finais de 1910, com 4105. Acerca da origem social dos
tante suficiente para animar os centros e algumas lutas (comícios, represen- seus membros, detectou-se a seguinte distribuição23: homens de ofício (al-
tações) contra o governo monárquico e contra o clericalismo. O que parecia faiates, barbeiros, carpinteiros, electricistas, pedreiros, pintores, sapateiros,
confirmar este diagnóstico formulado por um jornalista liberal em 1876: serralheiros, tipógrafos) -- 30,24%; empregados de comércio e funcionários
«A propaganda republicana e dentro em pouco o parado adversário de todo o públicos -- 27,53%; comerciantes e industriais -- 14,02%; militares e forças
governo monárquico terão lançado raízes no país... Em Lisboa, principalmente de segurança pública -- 7,32%; mulheres -- 4,29%; proprietários e trabalha-
no pequeno comércio e na classe operária, tem o partido republicano obtido dores agrícolas -- 4,10%; intelectuais -- 3,82%; operários --0,70%; não
adesões numerosas.»I~ especializados 2,60%; sem profissão -- 5,38%. Verifica-se, com evidência, o
De facto, estas características virão a confirmar-se e a acentuar-se sobre- forte peso dos homens de oficio e operários, bem como o significativo valor
tudo nos inícios do século xx, isto é, numa conjuntura em que os efeitos de
de membros oriundos de sectores de serviços e de actividades comerciais, isto
um surto industrialista -- traduzido na intensificação da maquinofactura19 -- é, de estratos que poderemos designar por pequena burguesia urbana.
e de um crescimento urbano significativo (Lisboa) criaram um público re-
Esta última característica torna-se ainda mais visível quando se analisa a
eeptivo às campanhas de denúncia dos escândalos do regime (adiantamentos
à Casa Real, casos do monopólio dos tabacos, da casa de saúde na Madeira, população maçónica. Esta cresceu em correlação directa com a onda do pro-
selitismo republicano -- Machado Santos, um dos heróis do 5 de Outubro,
dos empréstimos do ministro Espregueira, do Crédito Predial, escândalo
chegou mesmo a escrever que a República se deveu «única e exclusivamente»z*
Hinton e outros)2o e, portanto, receptivos a uma retórica que pregava a mori- à Maçonaria --, pois os efectivos do Grande Oriente Lusitano Unido aumen-
geração e apresentava a República como uma panaceia salvadora. E, como
vimos, o conteúdo da propaganda dos seus mais activos publicistas incidia taram de 1235, em 1902, para 2367, em 1905, 2733, em 1907, 2916, em 1910,
e 4341, em 1913. Isto significa que, entre 1902 e 1905, cresceu 90,88% contra
crescentemente na valorização dos elos que existiriam entre a questão do
regime e as questões religiosa e social. Esta perspectiva conferia aos seus dis- 83,16% entre 1910 e 191325. Ora, a evolução do seu recrutamento denota uma
cursos uma dimensão interclassista e popular; o que, principalmente em Lisboa, clara acentuação da força dos activistas oriundos das actividades comerciais
e particularmente na sua parte oriental, não deixava de captar o apoio, pelo
2~ Cf. Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Por-

tugal, vol. 1, p. 484 e ss.


22 Idem, ibidem, pp. 290 e ss.
J«O Conimbricense, XXIX anno, n.o 3 041, 19-IX-1876, p. 1.
23 Cf. Manuel Roque de Azevedo, Subsidio para a História do Registo Civil em Por-
IçCf. Manuel Villaverde Cabral, O Operariado nas Vésperas da República (1909-1910),
Lisboa, 1977. tugal, Lisboa, 1985, pp. 11-12 (exemplar rnimeografado)-
24
mCf. Vaseo Pulido Valente, ob. cit., pp. 43-44. Machado Santos, A Revolução Portugueza, Lisboa, 1911, p. 34 (~lição fac-similada).
25 Cf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, PP. 398-99.

71
OREPUBLICANISMOEMFORTUGAL BASEELEITORALDOMOVIMENTOREPUBLICANO
Tudo isto mostra que o movimento, com a polissemia do seu discurso e o
(comerciantes e empregados de comércio), tendência que o secretário-geral interclassismo do seu projecto, foi capaz de conquistar o apoio das camadas
da Ordem da época definiu deste modo: «No Grande Oriente Lusitano Unido sociais que a Monarquia, apesar dos esforços dos últimos governos -- que ten-
os mações advogados não chegam a duas dúzias; médicos não excedem o meio
taram caçar no «terreno dos republicanos» _, não soube integrar. E, se é ver-
cento; professores de cursos superiores não passam de quatro ou cinco; magis- dade que nas zonas em que o crescimento urbano era fraco, mas em que eram
trados, zero; homens diplomados não atingem dois centos. O que lá predo- fortes as capacidades de enquadramento ideológico e político do clero e dos
mina é o elemento comercial, mas o baixo comércio -- o caixeiro -- espe-
cialmente em Lisboa»>26 E uma análise acerca da origem social do caciques monárquico-constitucionais, a sua influência foi débil, é também certo
que o alargamento da sua rede de influências foi animada por líderes de opi-
recrutamento maçónico em 1910 regista uma forte adesão de indivíduos liga-
nião, ou talvez melhor, por novos «notáveis» que se revelarão fundamentais
dos ao comércio, construção, finanças e indústria (55%), cabendo ao comércio,
no entanto, 45,6% desse total2L A este grupo seguiam-se as proflssões liberais para a consolidação imediata da República (e, depois do 5 de Outubro, do seu
com 13% (1,6% advogados; 1,8% professores; 2,4% médicos; 2,4% jorna- maior Partido -- o Partido Democrático, de Afonso Costa, o herdeiro do apa-
listas), vindo depois os funcionários públicos, com 8%, e os proprietários, relho do velho PRP). Na fase de propaganda, esses líderes desempenharam um
com 6,4%. papel importante, ainda que, muitas vezes, sem grande apoio popular: defron-
É natural que esta composição não se reproduzisse, tal qual, no campo da tavam, no terreno, os «notáveis» monárquicos locais e os padres, geralmente
militância propriamente dita, e é crível que existissem algumas diferenças entre anti-republicanos. No entanto, o crescimento da organização e do eleitorado
Lisboa e os outros núcleos provinciais. No entanto, uma amostragem res- indicam que o Partido Republicano conseguiu alcançar, em Lisboa e em algu-
peitante à posição social dos filiados no Partido Republicano, num concelho mas localidades mais industrializadas, ou menos catolicizadas, uma relativa
situado a 200 km da capital, revela que estavam inscritos 210 proprietários, massificação e que soube conquistar um poder de mobilização de tal modo
dois rendeiros, 43 logistas, 22 donos de oficinas, 10 negociantes, 6 médicos, significativo -- em Agosto de 1910 coadjuvou a convocação de uma mani-
3 advogados, 6 farmacêuticos, 6 professores primários, 7 empregados de escri- festação que reuniu cerca de 100 000 pessoas -- que as teses dos que vinham
tório, 1 funcionário público, 17 sapateiros, 12 carpinteiros, 10 moleiros, 10 al- a defender (e a preparar) a via violenta ganharam terreno para medrar.
faiates, 9 pedreiros, 7 ferreiros, 2 oleiros, 2 tanoeiros, 1 funileiro, 1 cutileiro, Simultaneamente, e no que aos defensores da Monarquia diz respeito, não
1 ourives, 1 talhante, 6 barbeiros, 3 relojoeiros, 3 pintores e 17 jomaleiros28. temos dúvidas de que a adesão de D. Carlos às ideias dos que estavam a propor,
Por outro lado, um estudo recente sobre a militância republicana num concelho desde a década de 80 do século xIx, o engrandecimento do poder real contri-
como a Figueira da Foz vem ao encontro de conclusões muito semelhantes,
buiu para a crise do regime e, correlativamente, para a dessacralização da
pois detecta a forte presença de comerciantes e empregados de comércio, e a
Coroa. O recurso a govemos extrapartidários e à «ditadura» fez com que o
adesão de alguns proprietários e trabalhadores independentes que estavam
Chefe de Estado se comprometesse com o poder executivo e, por conseguinte,
a sofrer os efeitos da concorrência maquinofactureira29. De qualquer modo,
perdesse a sua capacidade arbitral, ao mesmo tempo que semeava a discórdia
estamos em crer que, em Lisboa, o movimento teve uma implantação que ia
dos meios operários (adesão muito misturada com influência anarquista) e arte- entre os seus apaniguados. E, após algumas experiências pioneiras, a ditadura
sãos em crise até aos sectores de serviços, camada social em que o seu enrai- de João Franco -- velho discípulo de Oliveira Martins -- veio a agudizar
zamento era grande, sobretudo nos lojistas e empregados de comércio. Isto é, ainda mais as contradições e a fornecer aos republicanos bons argumentos para
e como escrevia um cronista em 1909, o republicanismo merecia o qualifica- o relançamento da sua propaganda. De facto, e como já ficou mostrado, foi a
tivo de «caixeirismo jacobino», porque «os caixeiros da capital do país, ao que partir da ditadura franquista que o republicanismo ganhou uma capacidade
parece, professam unanimemente as teorias republicanas» e encontram-se ofensiva que tomou credível a possibilidade do derrube violento da Monarquia.
mobilizáveis para «o messianismo democrata»30.

[Fausto
Sua Victima ....de Quadros],
Coimbra, O Grande
1910, Oriente
p. 118. Esta Lusitano
obra Unido emas
saiu anónima, o Ir. não
Fausto de Quadros
temos dúvidas de
que o seu autor foi o próprio Fausto de Quadros, entretanto expulso do Grande Oriente
Lusitano Unido.
27 Cf. João José Alves Dias, «A República e a Maçonaria (o Recrutamento Maçónico
na Eclosão da República Portuguesa)», Nova História, n.o 2, 1984, pp. 31-73.
28 Cf Vasco Pulido Valente, ob. cit., pp. 62-63.
29 Cf. Rui de Ascensão Ferreira Cascão, ob. cit., p. 797.
3o Gomes dos Santos, Os Jacobinos. Panfletos de Critica Politica e Social, Porto, 1909,
pp. 12-13.
CAP[TULO 4

A C A M I N H O D A V I A V I O L E N TA
D E TO M A D A D O P O D E R

É verdade que a via violenta como meio de conquista do lx~r j~l b.avia
sido defendida na década de 80 e experimentada na fracassada revolta de
31 de Janeiro de 1891, no Porto. No entanto, um olhar retrospectivo sobre este
acontecimento faz ressaltar imediatamente que se tratou de uma iniciativa van-
guardista, desfasada da influência que o republicanismo tinha na cidade e no
Norte do país. Atrás, vimos a irrelevância da expressão eleitoral dos repu-
blicanos na região; e, nesta conjuntura, se Unham alguma força no país, era
precisamente em Lisboa, como indicam não só os seus resultados eleitorais
em 30 de Março de 1890 elegeram Latino Coelho, Manuel de Arriaga, Elias
Garcia e o independente Fernando Palha, ex-presidente da Câmara Municipal
de Lisboa dissolvida pelo governo por reivindicar direitos municipais --, mas
também o número significativo de centros republicanos que aí entraram em
funcionamento no decurso da década de 80.
É certo que o seu papel na luta contra o tratado de Lourenço Marques e o
lugar do sonho colonial na prometida revivescência nacional colocaram os
republicanos numa boa posição para fundirem o seu ideal com o patrioasmo
e para liderarem a onda de protestos que então avassalou o país, apesar do tom
suprapartidário que se pretendeu dar às primeiras manifestaç6es contra o
Ultimatum. As saudações feitas pela multidão em frente do jornal O Século e
alguns apelos para que se marchasse sobre Belém pareciam tornar credivel a
possibilidade de uma revolução violenta em 1890. No entanto, esta solução
não se enquadrava na estratégia dominante no seio do movimento, que ainda
privilegiava a educação políaca e a luta eleitoral, pelo que não se deve estra-
nhar que o Directório do Partido Republicano, liderado por José Elias Garcia.
não tivesse quaisquer planos conspirativos a propor aos mais radicais. E estes
situavam-se, precisamente, nas zonas urbanas em que a implantação do repu-
blicanismo era menor (em Coimbra e, sobretudo, no Porto). Mas, talvez devido
a isso mesmo e a uma já antiga querela contra a hegemonia do centro (Lisboa),
pensaram que tinha chegado o momento de derrubar a Monarquia. Simulta-
neamente, as dificuldades que os governos encontraram para negociar diplo-
maticamente a questão com a Inglaterra -- a re.acção contra o tratado de
75
A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
a mobilização da opinião pública dos respectivos países a favor da causa por-
20 de Agosto de 1890 é a prova disso --, acrescidas com a emergência de tuguesa». A nível interno, o Grande Oriente tentou ainda organizar um prés-
algum descontentamento no exército, principalmente na classe dos sargentos, tito cívico (2 de Março de 1890), que o governo regenerador de Ant6nio de
mas a que não eram estranhas reivindicações específicas de índole profissional, Serpa Pimentel e de Lopo Vaz veio a proibir6. Se estes foram os actos em que
estariam a criar as condições políacas que, enraizadas numa profunda crise conseguimos detectar um empenhamento directo da Ordem, isto não signifi-
financeira e moral, s~ poderiam conduzir, para os mais entusiastas, ao sucesso cou, porém, que em muitas outras acções não encontremos conhecidos mações
da revolução. em lugares de destaque. Assim, por exemplo, o mação e ainda deputado
progressista Eduardo de Abreu liderou os primeiros protestos públicos7, e será
um dos principais animadores da subscrição nacional. E ainda verdade que, na
DO ULTIMATUM AO 31 DE JANEIRO primeira grande manifestação popular, um grupo, de que fazia parte o mação
Heliodoro Salgado, gritou «viva a República»8 e sugeriu uma marcha sobre
De facto, é unanimemente reconhecido que o Ultimaturn desencadeou um
Belém, o que, contudo, não chegou a concretizar-se.
movimento de protesto que veio a estar na base da intentona republicana de
Ora, conquanto os republicanos, tal como aconteceu na campanha contra o
31 de Janeiro de 1891. E, por mais condicionantes de média duração que
tratado de Lourenço Marques, e nos princípios do século xx virá a acontecer
possam ser aduzidos para se inteligir o significado da insurreição (agudização com a questão do Transval, estivessem a colher os benefícios políticos das
dos conflitos interimperialistas, grande depressão internacional, crise finan-
reacções populares antibritânicas, não se pode dizer que estas tenham assu-
ceira e políaca expressa, entre nós, na contestação do livre-cambismo e do rota-
tivismo constitucional e na defesa do chamado trabalho nacional), a explicação mido, desde logo, uma explícita conotação antidinástica. O republicanismo
integrava-se numa onda movida pelo empolamento nacionalista acentuado pela
será incompleta se não postular a causa imediata, a saber: o choque da opinião
pública perante a intimação do imperialismo britânico. desilusão de uma grandeza imperial tão cruamente posta em cheque. Dir-se-ia
Ultrapassaríamos em muito o escopo deste trabalho se nos lançássemos na que os republicanos tinham a certeza de que toda esta torrente patriótica aca-
interpretação e descrição das vicissitudes da crise, desde o momento da sua baria por desaguar na única solução capaz de resgatar o vilipêndio e de dar
deflagração até à derrota dos sargentos e soldados na madrugada de 31 de corpo ao renascimento da Pátria e do seu império. (A Pátria, chamar-se-á, sin-
Janeiro de 1891. Mas julgamos poder distinguir duas fases essenciais na pro- tomaticamente, o jornal então lançado pelos republicanos Higino de Sousa,
gressão dos sentimentos contestatários. Num primeiro momento, assiste-se a Brito Camacho, João de Meneses e Estêvão de Vasconcelos.)
uma mobilização geral, principalmente em Lisboa, de todos os sectores sociais No entanto, para os mais extremistas, o Partido Republicano, com tal
u alguns nobres chegarão a devolver as suas condecorações britânicas --, que expectativa, estada a perder uma oportunidade revolucionária irrepetível9 por
tendia a excluir somente os mais directos responsáveis pela política ultrama- culpa dos seus dirigentes históricos. É que, como confessou José Elias Garcia
rina e pelos negócios estrangeiros. É um momento de consenso nacional ao radicai Heliodoro Salgado, os acontecimentos haviam-no «tomado de
simbolizado em A Portuguesa e em que nenhuma força partidária exercia qual- surpresa, [e] nada estava preparado para um movimento revolucionário»~°,
quer controlo ou hegemonia, conquanto os republicanos começassem a apa- versão que nos é indirectamente confirmada por Basflio Teles, seu represen-
recer como seus líderes naturais~. Foi neste contexto que se promoveu a mani- tante no Porto: «O propósito firme, deliberado, definitivamente assente entre
festação de Lisboa de 12 de Fevereiro de 1890 e se lançou a grande subscrição alguns republicanos, de provocar uma revolução data, pouco mais ou menos,
nacional2. Entroncam ainda no mesmo fermento a formação da Liga Patriótica do mês de Maio de 90»11, informa-nos o publicista nortenho. A ser assim, é
do Norte3 -- associação cívica pluralista presidida por Antero de Quental a partir deste período, e principalmente após o acolhimento negativo do
e a criação, em Lisboa, da Liga Liberal, liderada pelo general João Crisóstomo tratado de 20 de Agosto -- entendido como uma concessão às exigências
e depois por Augusto Fuschini4. Por outro lado, grupos de pressão influentes, britânicas --, que teremos de localizar a inflexão de alguns dirigentes repu-
como o Grande Oriente Lusitano Unido e outras associações (Sociedade de blicanos no que respeita aos meios propugnados para a instauração da
Geografia, Associação dos Lojistas) integraram-se neste movimento. Temos República.
notícias de que, logo o após o Ultimatum, o grão-mestre da Maçonaria enviou
a todas as potências maçónicas estrangeiras uma mensagem em que solicitava
» Cf. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 12, Lisboa, s. d., p. 164.
6 Cf. Basflio Teles, ob. cit., p. 134.
J Cf. Jorge de Abreu, A Revolução Portugueza. O 31 de Janeiro (Porto 1891), Lisboa, 7 Cf. Idem, ibidem, p. 99.
1912, p. 34 e ss. 8 Heliodoro Salgado, A Insurreição de Janeiro. Historia, Filiação, Causas e Justifica-
2Cf. Basílio Teles, Do Ultimatum ao 31 de Janeiro, 2.a ed., Lisboa, 1968, p. 113 e ss. ções, Porto, 1894, p. 90.
3 Cf. Idem, ibidem, p. 125 e ss. 9 Cf. Idem, ibidem, p. 90; Basflio Teles, ob. cit., pp. 208-209.
4Cf. Idem, ibidem, pp. 137-41,186-88, 194-95, 225-27, 258; Augusto Fuschini, Liqui- lo Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 107.
dações Politicas Vermelhas e Azues, Anexos, vol. 1, Lisboa, 1896, pp. 11-15. li Basflio Teles, ob. cit., p. 184.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

continuassem obedientes e quc não prosseguissem com iniciativas políticas


Não se compreenderá o significado desta mutação se também não a equa-
autónomas. Mais concretamente, já mesmo nos meses anteriores ao congresso,
cionarmos à luz das rivalidades entre as várias facções existentes no seio do os garciistas ter-se-iam empenhado na criação de uma rede militar e política
Partido Republicano. De facto, se, durante toda a década de 80, José Elias
em Lisboa e na provínciaS3, e procuraram articulá-la com a do Norte, logo quc,
Garcia consolidou a sua liderança através de uma actuação declaradamente através de Alves da Veiga, João Chagas, Santos Cardoso, Basflio Telcs, dela
«opo~unista», o Ultimatum veio pôr tudo em causa. Alguns sectores não per-
tiveram conhecimento. Ora, se os passos em Lisboa foram dados com cautelas
doavam a imprevidência do Directório, que, com o seu evolucionismo lega-
lista, estava a deixar escoar um momento revolucionário único. E, por muito e hesitações, no Porto os acontecimentos aceleraram-se de tal maneira que, de
que Elias Garcia se tivesse convencido, finalmente, de que era necessário certo modo, o seu ritmo acabou por fugir das mãos dos que lhe podiam im-
recorrer a outros meios, o certo é que nunca o fez oficialmente, dando força, primir uma dimensão mais nacional e política.
por isso, aos que o acusavam de hesitação e ambiguidade. Entre os seus ana- Como se compreende, um acontecimento que fcria a dignidade nacional
tematizadores destacou-se, nesta altura, Francisco Homem Cristo. tinha de se repercutir fortemente numa instituição directamente posta em
Personalidade difícil, de formação militar e de estilo jornalístico verrinoso, causa: -- o exército. Em certa medida, a Liga Liberal, animada por muitos
apresentava-se na cena republicana como a principal alternativa à liderança de oficiais, procurou dar expressão cívica a esse descontentamento, e era do
Elias Garcia. E, reivindicando a necessidade de varrer do partido todo o clien- domínio público a insatisfação que reinava nos soldados e nos oficiais de
telismo, o seu discurso parecia ir ao encontro dos que defendiam uma mora- baixa patente.
lização da política e a adopção de um maior dinamismo, tendo em vista tomar Corno em Espanha grassava uma cpidcmia, o governo mobilizou o grosso
credível a solução republicana. Ora, por maiores que fossem as distâncias de das forças militares para o cordão sanitário da fronteira. Com isso, libcrtava-se
Homem Cristo perante a via conspirativa, a verdade é que o tom das suas de possíveis focos sediciosos e, para evitar o enraizamento de qualquer des-
denúncias, no impacte do Ultimatum, soava como um toque mobilizador que, contentamento, rccorria ainda às transferências de unidade. Esta tácüca, se re-
excluindo os fiéis a Garcia, teve algum eco nos descontentes com a governação duzia a margem de manobra dos conspiradores, criava igualmente um clima
histórica do Parado Republicano. Em conclusão: «Com José Elias Garcia de instabilídade e de impaciência que não será despicicndo na deflagração da
estava uma parte da burguesia democrática e maçónica de Lisboa e uma nume- revolta do Porto.
rosa clientela de amigos fiéis. Com Homem Cristo estava, pode dizer-se, todo As camadas mais baixas do exército agitavam-se há muito. E às razõcs
o radicalismo republicano.>>12 patrióticas suscitadas pelo opróbrio do Ultimatum juntavarn outras de cariz
Para concretizar os seus planos, Homem Cristo conseguiu que vencesse a corporativo. Isto d, a insatisfação reinante foi agravada pela contestação do pro-
tese segundo a qual seda necessário convocar urgentemente um congresso, cesso que estava a ser seguido nas promoçõcs a oficiais. Os sargentos -- e os
a fim de se definir, num momento de crise nacional, a alternativa republicana. seus jornais O Sargento e A Vedeta ~ reivindicavam um sistema de terça,
Embora com muitas resistências, os republicanos do Porto, já lançados na cons- segundo o qual para cada três novos oficiais superiores, um deveria ascender
piração, sustentavam que, em vez de palavras, se impunha a acção. No entanto, da sua classeTM. A subida ao poder do general João Crisóstomo criou algumas
a reunião veio a realizar-se a 4 de Janeiro de 1891. E, a par da aprovação de
expectativas, mas os protestos romperam ainda com mais força quando se
um programa, que, como vimos, procurava conciliar as ideias das várias
tornou claro que não se ida dar satisfação a tais reivindicações. Perante tudo
faeções, tomou-se a decisão de não se reelegerem para o novo Directório fi-
isto, não admira que o corporativismo desta luta se tenha politizado e evoluído
guras histúricas como Sousa Brandão e José Elias Garcia, substituídas por
rapidamente para um estado sedicioso.
Azevedo e Silva e pelo próprio Homem Cristo. Os restantes elementos transi-
taram do anterior. Isto mostra que o foliculário de O Povo de Aveiro venceu Segundo nos informam João Chagas e o tenente Coelho, tal politização terá
os garciistas graças ao apoio dos delegados da província. Mas, em termos polí- ocorrido ainda no mês de Setembro, no Porto. Um grupo de sargentos tinha-se
ticos, qual terá sido o significado desta eleição? Terá ela ultrapassado, de facto, reunido até aí de um modo totalmente independente de qualquer grupo polí-
a esfera do choque das rivalidades pessoais? tico, momento em que concluíram que as suas exigências não passavam de uma
Para os monárquicos, a derrota do grupo de Elias Garcia foi entendida como faceta da luta mais geral contra o statu quo, pelo que decidiram avistar-se com
o resultado da preponderância dos elementos mais radicais. Mas se, no campo João Chagas, o jornalista de A República Portuguesa, órgão que, por esta
da luta pública pelo poder, o grupo de José Elias Garcia (Sousa Brandão, Fran- altura, começava a ter grande influência na opinião pública em geral e, em par-
cisco Gomes da Silva, Feio Terenas e outros) perdeu momentaneamente o con- ticular, nas classes militares. «Um pequeno grupo de sargentos e cabos de
trolo oficial do Directório, isso não significou que muitos militantes lhe não infantaria e caçadores»~5 deslocou-se à sua redacção, em busca de um ponto

~2 João Chagas e ex-tenente Coelho, História da Revolta do Porto. Depoimento de Dois ~3Cf. Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 126.
14João Chagas e ex-tencnte Coelho, ob. cit., p. 111 e ss.
«Cúmplices», 2." ed., Lisboa, 1978, p. 144.
15Idem, ibidem, p. 52.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

de contacto com o movimento republicano, depois alargado a Santos Cardoso algumas cartas de dirigentes lisboetas a solicitarem o aceleramento da revolta,
e, finalmente, a Alves da Veiga, tido como o verdadeiro líder do movimento estranhando, assim, que agora viessem ordens em sentido contrárioS9. Como
revolucionário portuense. se explica esta mudança? Só o facto de o Directório ter concluído que os pro-
O jornal de A República Portuguesa nasceu no mar revoltoso provocado gressos revolucionários na capital e no Sul não acompanhavam os do Norte
pelo Ultimatum, isto é, no clima de animadversão antibritânica, que levou pode explicar o sentido da missão de Jacinto Nunes. Por outro lado, as con-
figuras como Eduardo de Abreu, Guerra Junqueiro e, até certo ponto, o próprio clusões de Homem Cristo, ditadas pelos seus preconceitos de militar e pela
João Chagas a romperem com a Monarquia. Com a sua fundação, o republi- sua concepção elitista do republicanismo, bem como pelas suas prevenções em
canismo ganhou uma voz em que à contundência do anátema se acasalou a relação a quaisquer iniciativas que pudessem beneficiar a posição do grupo de
elegância do estilo na denúncia de situações ignominiosas e opressoras. Elias Garcia, foram de molde a reforçar a convicção nos indecisos (ou nos cau-
Também A Justiça Portugueza, dirigida por Santos Cardoso, tinha o seu telosos) de que a conjuração, sem sólidos apoios nas camadas superiores do
público, embora o tom utilizado tocasse a raia dos ataques pessoais e da chan- exército, entregue à iniciativa de militares de baixa patente e de pré, e, a nível
tagem. Era escrita no estilo retórico e demagógico do director, sem quaisquer civil, liderada por alguns indivíduos de baixo estofo moral, estaria votada ao
preocupações teóricas ou programáticas. Nisto, Santos Cardoso era coerente fracasso. Daí a tese de ser necessário impedir, a todo o custo, que os republi-
com o seu passado, pois já em 1878 clamava: «À Revolução!, à revolução!, pela canos embarcassem numa aventura cujo insucesso iria enfraquecer o combate
liberdade, pela honra e pela Pátria.»~6 Ao contrário de Santos Cardoso, Alves antidinástico.
da Veiga, advogado, proprietário e jornalista, velho republicano desde os Entretanto, decorria a luta pela conquista do poder no seio do Partido
tempos de Coimbra, era uma personalidade prestigiada na zona norte e a figura Republicano. Os anátemas públicos de Homem Cristo contra José Elias Garcia
que,, por esta altura, mais estava empenhada no trabalho político-partidário. e as críticas ao facto de se estar a perder uma grande oportunidade revolucio-
A luz do encadeamento dos factos, pode dizer-se, contudo, que os diri- nária -- o manifesto de estudantes de Coimbra de 13 de Novembro, assinado
gentes republicanos do Porto -- a quem se juntou Basfiio Teles, em Outu- por jovens como Afonso Costa, António José de Almeida, Malva do Vale,
bro -- desempenharam mais uma função coordenadora do que verdadeira- João de Meneses, entre outros, é um bom testemunho desta posição -- prepa-
mente propulsora dos acontecimentos. Perante a autonomia do complot militar, raram o terreno para a convocação do congresso. Como sabemos, o resultado
tentaram dar-lhe dimensão política e nacional, entrando, para isso, em contacto desta reunião saldou-se por uma derrota do grupo de Garcia e pela ascensão
com núcleos republicanos das províncias do Norte e, logicamente, com José de Homem Cristo. E o primeiro manifesto do novo Directório, exprimindo o
Elias Garcia e com o Directório de que, relembre-se, Garcia ainda fazia parte17. radicalismo programático que esteve subjacente à sua eleição, parecia vir ao
Este não se terá oposto ao movimento e ter-se-á mesmo interessado em arti- encontro das expectativas revolucionárias, pois nele se escrevia, numa lingua-
culá-lo com o de Lisboa, tendo em vista a centralização de esforços e a escolha gem claramente teofiliana: «No momento que atravessamos não há lugar para
do momento oportuno para a sua eclosão. E foi talvez porque ficou surpreen-
demonstrações teóricas, nem para argumentar com os pedantocratas do cons-
dido com o adiantado da conspiração que enviou ao Porto Sousa Brandão para
titucionalismo .... diante da Pátria vilipendiada pelo egoísmo de um regime e
confirmar in loco a justeza das informações chegadas à capital. Entretanto, a
pela inépcia de todos os partidários que o sustentam, seja a nossa divisa a bela
nível público, crescia a campanha contra Elias Garcia e a favor da convocação
frase dos homens de 1820, que souberam libertar Portugal do protectorado
de um congresso do Partido Republicano. E é já neste novo contexto que, nos
execrando de Beresford: "Uma só vontade nos una" para procedermos como
finais de Dezembro de 1890, José Jacinto Nunes convida Homem Cristo a
acompanhá-lo numa nova missão junto dos conspiradores nortenhos. herdeiros das nobres gerações de 1383, de 1640, de 1820 e de 1834, fazendo
É de presumir que Homem Cristo, ainda sem qualquer cargo oficial no Par- a obra gloriosa da reorganização de Portugal!»2o Mas se entre todos os repu-
tido Republicano, se tenha deslocado como especialista a fim de dar um pa- blicanos era tese aceite que o país necessitava de uma revolução salvadora, as
recer acerca das possibilidades de sucesso de uma conspiração de raiz militar divergências surgiam logo que se entrava na concretização da via, do momento
e com a qual não concordava18. Quanto à tarefa a cumprir por Jacinto Nunes, e dos objectivos que deviam ser seguidos.
não temos grandes dúvidas: este membro do Directório foi ao Porto não para Detenhamo-nos no caso polémico do militar aveirense. Para muitos dos
combater o movimento, mas para convencer os conspiradores a não se preci- seus correligionários, a sua atitude em relação aos conspiradores nortenhos
pitarem. É o que se depreende da reacção de Santos Cardoso ao mostrar-lhe radicava, sobretudo, em duas razões fundamentais: por um lado, a pouca sim-
patia que votava aos seus dirigentes civis (Santos Cardoso, Alves da Veiga) e,
por outro, o facto de saber que eles contavam com o apoio tácito de José Elias
~úHenrique José Santos Cardoso, Verdade de Sangue, 2.a ed., Porto, 1878, p. 92.
J7Cf. João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., pp. 57, 145-50.
J8 Cf. Francisco Homem Cristo, Os Acontecimentos de 31 de Janeiro e a Minha Prisão, )9 Cf. João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., pp. 187-89; Francisco Homem Cristo,
Lisboa, 1891, p. 79 e ss. ob. cit., p. 85.
2°In Idem, ibidem, p. 158.
O REPLrBLICANlSMO EM PORTUGAL A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

Garcia. o que, caso a revolução vencesse, poria em causa as suas pretensões dadas as características do processo, não tinham muito por onde escolher: por
de liderança. Estas justificações têm um fundo de verdade. Porêm, para se muito que chamassem a atenção para a ausência «de organização e de plano»~,
compreenderem as resistências de Homem Cristo, importa também ter em o mais que conseguiram foi o adiamento, por pouco tempo, da salda das tropas.
conta a sua situação profissional -- era oficial do exército m e ideológica. Per- E, segundo o testemunho de Heliodoro Salgado, a urgência dos militares coli-
sonalidade de temperamento autoritário, o seu polemismo e radicalismo verbal diu a tal ponto com a planificação dos polfticos que ficaram destrufdos «todos
escondiam uma opção conservadora, pelo que não via com bons olhos a eclo- os planos cuidadosamente elaborados em Lisboa»2«.
são de um movimento iniciado de baixo para cima e que carreava uma poten- Não vamos descrever aqui o estado da cidade, nem o carácter pouco secre-
cialidade revolucionária com consequências incontroláveis. Assim, as suas crí- tista das reuniões preparatórias do levantamento militar. Todo o Porto inte-
ticas à fraca participação de oficiais superiores e as denúncias das promessas, ressado na coisa pública sabia da iminência da revolta, e alguns oficiais supe-
um tanto fantasistas, de Santos Cardoso e Alves da Veiga, que sugeriam contar riores foram alertados para o facto. Repêrteres de jornais tomaram posição
com uma larga adesão de militares de alta patente, não podem ser entendidas junto aos quartéis, para testemunharem o acontecimento, e, se pairava alguma
como metas prevenções de ordem técnica. Se a presença de oficiais superiores surpresa, esta dizia respeito à fraca reacção das autoridades. Entretanto, os
seria úãl. como assinalava, para o funcionamento de uma eficiente cadeia de revoltosos civis e militares multiplicavam as suas reuniões, algumas em casas
comando:', seria ainda mais necessária para evitar a degenerescência do sen- de porta aberta, numa azáfama que, se mostrava agitação, revelava igualmente
fido da revolta. a inexistência de um efectivo centro dirigente. Finalmente, à hora marcada, as
A sucessão dos acontecimentos é conhecida. A 25 de Janeiro, o Directório tropas começaram a movimentar-se sem encontrarem resistência de monta.
lançou um novo manifesto em que, visando directamente os republicanos do O desfecho também é conhecido. Depois de elas terem ocupado a parte
Porto e as suas ligação aos garciistas, sublinhava: «O poder, dentro do nosso baixa da cidade com vivas à República, Alves da Veiga subiu à varanda da
partido, deriva unicamente dos congressos, que o delegam no Directório da sua Câmara Municipal para declarar a implantação do novo regime e a formação
escolha e a ele tomam conta: por isso, qualquer trabalho divergente da direc- de um governo provisório. De um modo desorganizado, muitos populares jun-
ção deste corpo execuavo visa ao enfraquecimento do partido, pondo em des- taram-se aos revoltosos como activistas ou simples espectadores, funcionando
coordenação os seus esforços.»z2 Pelo mesmo diapasão afinava o artigo que mais como um obstáculo à evolução das tropas no terreno do que como força
Homem Cristo escreveu para Os Debates (27 de Janeiro), ou melhor, ia mais mobilizável para dispersar a arremetida da Guarda Municipal fiel à Monarquia.
longe, pois quase chegava a denunciar os conspiradores a pretexto de prevenir Finalmente, aquela perfilou-se no horizonte sob o comando do major Graça.
os incautos: ,vA.cautelem-se, pois, os republicanos com essas manobras», escrevia E, depois de uma fase de hesitação e de estudo, soaram os primeiros tiros que
no seu artigo «Uma Prevenção», «as revoluções fazem-se. Não se dizem, nem
provocaram pânico e conduziram à indisciplina. Daí para a frente, a resistência
se apregoam .... E como há muito ingénuo e muito simples, sempre é preciso
foi fraca, e, do ponto de vista estritamente militar, os sediciosos pagaram caro
muito cuidado com tais armadilhas e artes de tratantes. Cautela, pois ! »23 Diga-se
a inexistência de uma forte cadeia de comando e o erro táctico de não terem
que estes avisos não provocaram o efeito pretendido. O ritmo da insurreição
etmtmuava dependente da iniciativa militar e esta não estava em sintonia com tomado o Quartel-General e os centros de comunicações situados num ponto
alto da urbe.
inteaesses tácticos e com as rivalidades pessoais dos dirigentes políticos.
Com efeito, convocados para secundarem uma petição elaborada pelos Talvez por não ser forte e extensa a rede da conspiração na província, ou
camaradas de Lisboa, respeitante ao problema das promoções, os líderes por, desde cedo, terem chegado notícias da inevitabilidade da derrota, o certo
é que o resto do país quase não se mexeu. Em Coimbra, esperou-se pelo tele-
dos sargentos da guarnição do Porto optaram por uma posição mais radical:
enviar uma espécie de u/t/matuto ao governo com a ameaça explícita de que grama de Alves da Veiga27, que nunca chegou, para, com a compreensão um
se sublevariam caso não fossem atendidas as suas reivindicações. Conhece-se pouco céptica de José Falcão, se dar início às operações. Em Lisboa, debalde
como uma denúncia pôs a descoberto alguns nomes e as intenções dos revol- Elias Garcia tentou «tocar a capítulo, a fim de tentar um supremo esforço que
toms. E compreende-se que, sabendo que a repressão seda imediata, tivessem permitisse coadjuvar os revolucionários do Porto»2s. O pais retomava o seu
decidido passar rapidamente à prática, jogando assim em antecipação. caminho normal, enquanto os insurrectos iam fazer companhia a João Chagas
Isto é, a alternativa era clara: «Ou a revolução imediata, ou a dissolução para preso dias antes por delito de imprensa -- e iniciavam uma prova de fogo
nunca mais.»~ E, posto o dilema aos dirigentes republicanos do Porto, estes,
2» Basflio Teles, ob. cit., p. 239.
26Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 132.
1' CL Francisco Homem Cristo, ob. cit., p. 14. 27 Alves da Veiga estava encarregado dos contactos com os núcleos localizados no Norte
" In João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., pp. 164-65. e, particularmente, com os jovens republicanos de Coimbra, que receberam aprovação de
~ Francisco Homem Cristo, ob. cit., p. 106. José Falcão. Cf. António José de Almeida, Desafronta. Historia de Uma Perseguição, 2." ed,
aCf. Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 176; Basflio Teles, ob. cit., p. 242. Coimbra, 1896, pp. 67-74; João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., p. 252 e ss.
28 Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 133.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

igualmente dramática, que irá tx3r frente a frente o gládio da justiça monár- todo o país, como se, por efeitos mágicos da mera invocação da palavra sagrada
quica e a força íntima das convicções. E, se nem todos se portaram de acordo (República), o novo regime ficasse plebiscitado. Com isso, esqueciam-se das
com as circunstâncias29, a maioria passou-a com a verticalidade adequada à diferenças históricas e não levavam em conta este pormenor essencial: en-
missão histórica que pensavam estar a cumprir. quanto em 1820 não houve oposição relevante, em 1891, as boas intenções
tiveram de se defrontar com a força armada3J.
Pormenor igualmente importante, e que Basflio Teles também assinalou, é
Revolução ou pronunciamento ? o facto de os conspiradores não terem procurado planificar devidamente o
O papel da Maçonaria no 31 de Janeiro. movimento em ordem a alargar a sua base de apoio e conseguir uma maior
capacidade de combate de rua. Isto não surpreende, pois nem sequer as perso-
Para alguns analistas, o Porto reunia todas as condições para o espoletar de nalidades escolhidas para o governo provisório -- exceptuando o proclamador
uma revolução de pendor antidinástico. Berço da revolução liberal, possuía (Alves da Veiga) -- estavam presentes nos Paços do Concelho e algumas,
uma intelectualidade republicana (Amorim Viana, Rodrigues de Freitas, Alves como Rodrigues de Freitas, até se opunham à insurreição. Por outro lado, tanto
da Veiga, José Sampaio Bruno, Júlio de Matos, Emídio de Oliveira) que, militares como civis não tiveram quaisquer contactos prévios com as organi-
através do livro, da cátedra, da imprensa ou do comício, há muito agitava a zações operárias da cidade, e só quando se desenhava a derrota é que Basflio
opinião pública da cidade. Por outro lado, o seu comércio era forte, enquanto Teles procurou os dirigentes socialistas locais32 para lhes solicitar a mobili-
um operariado crescente, ao lado de uma actividade artesanal ainda signifi- zação dos trabalhadores a fim de se criarem outras zonas de sublevação e de
cativa, se mostrava aguerrido na defesa dos seus interesses e, em particular, na se diminuir a pressão que as tropas monárquicas exerciam sobre os sediciosos
reivindicação de medidas protectoras do chamado trabalho nacional. Em simul- no centro da cidade. Debalde e tardio esforço, tanto mais que, com o fecho das
tãneo, a crise cambial brasileira-- que atenuou o eco da implantação da Repú- fábricas devido à revolta, o operariado se encontrava disperso. Quer isto dizer
blica neste país (1889) -- e a falência da casa Baring, principal credora do que, embora contasse com a conivência de elementos civis, a revolta foi pre-
Estado português, acentuaram a depressão fmanceira, situação que se reper- dominantemente militar.
cutia com grande acuidade numa zona ligada ao comércio e de grande emi- À luz de tudo o que ficou exposto, pode dizer-se que a conspiração pro-
gração3°. Ora, se tudo isto são argumentos que explicam a génese nortenha da grediu sob um clima feito de ilusões e de equívocos: pensava-se que bastava
intentona republicana, são também razões que, a nosso ver, ajudam a explicar a convocação dos manes da revolução vintista, quando se pretendia consumar
o seu fracasso. algo que ultrapassava em muito o grau de politização da cidade e do pr6prio
Não se pode negar o peso da memória da revolução vintista nas motivações país. E, se os erros de ordem militar podem ser invocados para justificar a
dos revolucionários de 90. Estes sentiram-se igualmente investidos de uma derrota, isso não pode escamotear outra evidência: sonhou-se com uma revo-
missão que iria inaugurar uma era nova. Daí que, apesar das resistências dos
lução, mas não se conseguiu mais do que uma revolta33 regional, quase exclu-
tecnicamente mais avisados, as reuniões preparatórias da revolta denotassem
sivamente militar, uma «sargentada»34, em suma. Com efeito, se a participação
a presença daquela carga mítica. Discutiram-se os nomes redentores a dar às
de alguns sectores civis não permite que se lhe aplique por inteiro a designação
mas e praças da cidade libertada e gizou-se um plano de actuação que quase
de pronunciamento, a fraqueza do contributo destes e o carácter subordinado
repeua o percurso dos sublevados de 1820. E, na opinião de Basflio Teles, tal
da actuação civilista face ao elemento militar fazem com que tal termo conote
paradigma assentava numa ilusão sobre a história e conduzia a um erro ca-
pital. Rejeitando a ocupação dos pontos altos (Batalha) e a tomada imediata o que se passou na madrugada de 31 de Janeiro. Isto é, e como escreveram
do Quartel-General e da estação dos correios e telégrafo, e negligenciando o dois dos seus protagonistas, se a revolta foi «uma afirmação da sociedade civil,
apoio da artilharia (Pilar e Foz), os revoltosos reuniram-se em Santo Ovídio e pelo vasto, embora secreto, concurso que deram à sua organização grande
evoluíram nas partes baixas da cidade, zonas em que se expuseram mais à pre- número de elementos civis, e ainda pela demonstração da manhã de 31, na sala
visível ofensiva das tropas fiéis à Monarquia. Mas, no geral, esse tinha sido o dos Paços do Concelho, nem por isso deixou de ser alguma coisa mais do que
caminho de Sepúlveda. E foi ainda sob o exemplo vintista que alguns «irmãos» um pronunciamento, é certo -- um grande pronunciamento, cuja iniciativa pode
da loja maçónica Independência, tal como os elementos do Sinédrio, esco- legitimamente ser reivindicada pelo exército»as. Mas, podia ter sido de outro
lheram a Câmara Municipal para lerem a proclamação que deveria levantar modo numa cidade em que a fraca organização e implantação do republicanismo

~Cf. Revolta Militar no Porto em 31 de Janeiro. Os Conselhos de Guerra e Respectivas


Sentenças. Relatorios Publicados pelo Commercio do Porto, Porto, 1891. 3~ Cf. Basflio Teles, ob. cit., pp. 270, 292-96, 306-307.
3°Cf. Femando de Sousa, O Porto e a Revolta de 31 de Janeiro, Porto, 1977; Amadeu 32Cf. Idem, ibidem, p. 301.
José de Carvalho Homem, Memória sobre as Causas do Ultimatum Inglês de 1890, Coimbra, 33 Cf. Heliodoro Salgado, ob. cit., p. 109.
1985; Rui de Ascensão Ferreira Cascão, A Crise nos Anos Noventa (exemplar mimeografado). 34 Cf. Idem, ibidem, p. 127.
35 João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., p. 56.

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O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

se enconmu'am na esquina da história com a memória de um passado «invicto» 1~ certo que nem todas as lojas receberam com agrado esta atitude perse-
e com o ímpeto revolucionário de um grupo proiíssional (as camadas inferiores cutória dos corpos superiores do Oriente, havendo notícias de que em aigumas
do exército) receptivo à sua propaganda, sem dúvida, mas necessariamente oficinas, e sobretudo na loja Obreiros do Trabalho, saíram decisões de apoio
desenraizado e também movido pelos seus problemas corporativos? aos mações revoltosos. Por outro lado, as suspensões não terão estado muito
Os cronistas dos acontecimentos, bem como a tradição, têm igualmente tempo em vigor. De qualquer modo, isto não deve fazer esquecer que, nesta
assinalado o peso da Maçonaria no fomento e na preparação da revolta. De época, a maçonaria ainda não estava republicanizada e que será necessário
facto, vários testemunhos fazem-se eco de reuniões»6 efectuadas em lojas esperar por novas condições sociais e políticas para que isso venha a acon-
maçónicas-~7, reuniões, porém, abertas a conspiradores não mações. E, nas vés- tecer, o que só ocorrerá década e meia depois.
peras do 31 de Janeiro, Alves da Veiga terá convocado todos os «irmãos» da Bem vistas as coisas, o 31 de Janeiro, se foi um momento Precursor, cons-
oficina Independência para servirem de cobertura aos movimentos dos revol- tituiu também o fecho do círculo das lutas políticas de inspiração liberal dina-
tosos. O que não admira, pois sabemos que era o venerável da loja38. Mas, mizadas a partir do Porto4O. Os pólos de desenvolvimento económico e de cres-
significou isto um comprometimento da Maçonaria portuense e do Grande cimento urbano e as características dos projectos que se colocaram como
Oriente na rebelião? Ou, ao contrário, este apoio maçónico não ultrapassou o alternativas ao statu quo (republicanismo, socialismo, anarquismo) encon-
âmbito do empenhamento de alguns (poucos) mações (o que não admira, pois travam no Sul do país, e principalmente em Lisboa, as condições sociais ade-
boa parte destes era ainda monárquica)? Para respondermos, precisarfamos de quadas ao crescimento republicano, conforme se pôde verificar pela análise da
conhecer o que se passou nos bastidores do movimento republicano e nas ses- geografia da sua implantação.
sões das oficinas maçónicas; o que, por agora, é manifestamente impossível. Sugerimos, assim, que o republicanismo constituía um projecto pouco aces-
O facto de José Elias Garcia ter sido, nesta conjuntura, grão-mestre da sivel a mentalidades rurais, ou ainda debilmente urbanas (como a população
Ordem e, simultaneamente, um dos dirigentes de confiança dos republicanos do Porto) e fortemente catolicizadas, já que, em última análise, exprimia aspi-
parece tomar crível que as ligações maçónicas não foram inteiramente estranhas rações das camadas sociais que estavam a crescer com o desenvolvimento das
a esse conluio. Contudo, Elias Garcia, por doença, encontrava-se praticamente cidades e que, por isso, mais se afastavam das formas de comportamento
afastado dos trabalhos. Por outro lado, a linha do Grande Oriente, neste período,
das sociedades tradicionais. Ora, por maior força económica que o Porto
caracterizava-se por um apanidadsmo pluralista inserido no respeito pela tivesse nos inícios da década de 90, não possuía uma estrutura social, nem uma
ordem constitucional, e ainda não tinha chegado a hora da sua completa republi-
evolução cultural adequadas à radicação de um ideário predominantemente
canização. Por conseguinte, inclinamo-nos a pensar que, apesar da participação
anticlerical e secularizador. Por esta altura, nem sequer Lisboa oferecia tais
de alguns mações -- que não terão sido tantos como a tradição faz crer --, o
Grande Oriente Lusitano Unido, no seu todo, e enquanto instituição, não ul- condições. Logo, não foi por acaso que, como se viu, o movimento só tenha
trapassou, no contexto da crise provocada pelo Ultimatum, os limites de uma efectivamente arrancado com força a partir do momento em que se tornaram
actuação de fundo patriótico não partidanzado. Isto é, manteve-se vigilante na pertinentes as consequências do desenvolvimento capitalista expressas no cres-
defesa dos valores essenciais do liberalismo (e do nacionalismo) e atento à ofen- cimento urbano, na intensificação das lutas económicas e políticas, no fomento
siva ulWamontana. É que a corrente que se opunha à sua partidarização ou poli- do associativismo social, cultural e político. Em suma: não se apresentando
tização excessiva continuava a ser muito forte. E só assim se explica que, ainda como um movimento classista, o republicanismo ressuscitou a ideia revolu-
em vida de José Elias Garcia (faleceu a 21 de Abril de 1891), o Conselho da cionária de «povo», em que cabiam as classes médias, os artesãos, os prole-
Ordem, em sessões realizadas a 3 e 6 de Fevereiro, se tenha apressado «a con- tários. Assim, apesar das resistências ideológicas fomentadas pelo socialismo
denar o acto revolucionário», a «declarar suspensos de todos os seus direitos e pelos anarquismos, isso não impediu a sua infiltração na classe operária, nem
maçónicos os irmãos nele implicados, designadamente o Ir.... Dr. Alves da obstou a que muitas das lutas sociais da época acabassem por ser objectiva-
Veiga, seu chefe civip9», e a ordenar que as lojas enviassem à secretaria-geral mente integradas no combate em prol da instauração da República.
da Ordem o nome dos mações que tinham participado na revolta. Poderá argumentar-se que o facto de Rodrigues de Freitas ter sido o pri-
meiro deputado republicano (1878) e de, posteriormente, ter garantido sucessi-
Vamente a sua reeleição são factos que provam a força dos republicanos no
Cf..loão Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., pp. 87, 89. Porto. Nada mais errado. É que, como já se escreveu, tais vitórias eleitorais
37 À data da revolta estavam instaladas no Porto as lojas Independência, Independência
ficaram a dever-se mais ao prestígio que o professor de economia gozava na
Lusitana, Liberdade e Honra e Dever.
3s Com efeito, a loja Independência tinha sido instalada na Rua Fernandes Tomás sob cidade do que a qualquer razão ideológica de peso. Com efeito, Rodrigues de
o veneralato de Alves da Veiga. Cf. Boletim Official do Grande Oriente Lusitano Unido,
2.° trimestre, 1887, p. 57.
» Estas decisões, transcritas por Fausto de Quadros, constam das actas das sessões do 6 do mesmo mês e ano. Arquivo da Universidade de Coimbra, Espólio de Fausto de Qua-
Conselho da Ordem, de 3 e de 6 de Fevereiro de 1891, do Decreto de 4 e da circular de dros. Indice Onamotopótico, tis. 32-32v.
40 Cf. Joel Serrão, «República se Chamava», in Machado Santos, ob. cit., p. XXlX e ss.
86
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL ACAMINHO DAVIAVIOLENTADETOMADADO PODER

Freitas, antes de se declarar republicano, já tinha sido eleito deputado refor- do século --, enquanto a promulgação de uma lei repressiva (Fevereiro de 1896)
mista (1870, 1871), e não deixa de ser sintomático que, desde 1878 (ano da com a finalidade de combater o anarquismo muniu o governo de um instrumento
repressivo aplicável a todos os opositores do regime. Estas medidas serviam de
fundação do Centro Republicano do Porto) até 1899, mais nenhum outro can-
argumento contra os mais moderados, embora as dificuldades de penetração
didato tenha ganho qualquer eleição, mesmo quando Freitas não se apresentou
do republicanismo e a indiscutível capacidade de resposta de que a Monarquia
a sufrágio. Como sabemos, só nos finais de 1899, ou melhor, em Janeiro de
1900 - pois o governo anulou a eleição anterior --, o Porto elegeu três de- tinha dado mostras após o choque da crise dos inícios de 90 retirassem qualquer
putados republicanos -- Afonso Costa, Francisco Xavier Esteves, Paulo base de sucesso imediato aos que continuaram, pública ou secretamente, a
Falcão --, sucesso que se deveu a uma razão conjuntural derivada do des- pugnar pelo derrube violento das instituições.
contentamento popular pelo modo como o poder monárquico atacou a epi- Já sabemos que, nos fins do século xIx e princípios do século xx, o Partido
demia que assolou a cidade. Republicano era, de facto, um movimento organicamente em crise, e que as suas
Por outro lado, não se pode esquecer que, no início da nova década, era sucessivas direcções nacionais não conseguiam impor uma unidade de
muito débil a organização republicana no Norte. É certo que o fervor patrió- comando. Vimos que, no Congresso de Coimbra (5 a 6 de Janeiro de 1902), a
ãco da época animou o associativismo político, mas isso não impediu que não sua estrutura foi dividida em três juntas (Norte, Centro e Sul), mas a solução não
seja verdadeiro este testemunho dos bem informados João Chagas e tenente resultou, e que, a par do debate acerca dos caminhos a seguir para se chegar ao
Coelho: «O Partido Republicano no Porto não estava, como veio a estar mais poder, continuaram os apelos à urgente reorganização partidária. E poderá
tarde, graças aos trabalhos de José Falcão, politicamente organizado. Algumas dizer-se que a relativa unificação dos anos seguintes resultou não só dos es-
dissidências dividiam-no até, quando ocorreram os sucessos do Ultimatum, e forços internos, mas também das pressões nascidas de uma nova conjuntura
a sua chefatura, se a havia, era apenas assumida pelo Dr. Alves da Veiga, que, de crise. Como tudo isto se conjugou com a fragmentação do bloco monárquico
no entanto, não presidia a qualquer agrupamento regular.»41 Nesta perspectiva, -- dissidência de João Franco, nos regeneradores, e de José de Alpoim, nos pro-
talvez se compreenda melhor a incapacidade que o sector civil da revolta gressistas --, não admira que a crise político-partidária do regime tenha sido um
revelou para subordinar aos seus interesses o elemento militar, e não se es- factor acrescido de revigoramento da militância e da propaganda republicanas.
tranha o fracasso do movimento. É que, como a história veio a demonstrar, o Dito de outro modo: os públicos escândalos financeiros que envolviam a
31 de Janeiro não só foi prematuro, como irrompeu no lugar errado. classe política monárquica, a ilegalidade e a imoralidade dos adiantamentos e
do alargamento da lista civil da Coroa, a degradação das condições de vida
reflectida no aumento dos surtos grevistas e emigratórios, o crescimento da
A FRENTE MAÇÓNICA, CARBONÁRIA E REPUBLICANA influência das ordens religiosas, os atropelos às liberdades fundamentais con-
cretizados na lei de Fevereiro de 1896 e na criação de um tribunal de excepção
Naturalmente, o insucesso da revolta do Porto e a repressão que se lhe -- onde pontificara o célebre juiz Veiga -- pareciam dar razão aos que defen-
seguiu não ajudaram à consolidação do movimento, pelo que não surpreende diam ser a revolução possível. E o trabalho conspirativo, que, de um modo
que se tenha assistido, na década seguinte, a um perfodo de evidente refluxo
inorgânico, já vinha dos finais do século xIx, entrou numa fase decisiva nos
militante e a várias dissidências internas. O fracasso da via violenta para a
primórdios de Novecentos e, sobretudo, a partir do governo de João Franco
tomada do poder parecia dar razão aos legalistas e aos defensores de uma polf-
(1906-1908). Neste processo, a par da participação partidária, destacou-se o
fica de alianças com os que estavam interessados em lutar contra o aumento das
contributo de dois sectores que estiveram igualmente presentes em outros
tendências autoritárias da Monarquia. Essa ideia terá sido acalentada por José
movimentos de contestação à ordem vigente ocorridos desde a entrada do pais
Falcão e Rodrigues de Freitas em relação à Liga Liberal e, depois, foi protago-
nizada por Eduardo de Abreu e Gomes da Silva, propugnadores da constituição na era das revoluções modernas: as sociedades secretas e as forças armadas.
de uma coligação com alguns sectores progressistas apostados em bloquear o Mas, como novidade, é detectável também o uso de formas de combate nas-
engrandecimento do poder real, teorizado na década anterior por Oliveira cidas nas sociedades industriais e nos meios urbanos. Referimo-nos à utilização
Martins e experimentado na ditadura de Hintze Ribeiro-João Franco (1894). de bombas e à organização, impulsionada pelas sociedades secretas, de «co-
Como se compreende, esta orientação suscitou a resistência dos que propu- mités revolucionários», que actuavam, com alguma modernidade, como uma
nham, desde sempre, uma linha política sem alianças e, em particular, da nova espécie de «guerrilha urbana».
geração que despertou para a luta sob o impacte do Ultimatum e do 31 de Janeiro.
Por outro lado, as restrições à lei eleitoral decretadas pelo governo, em 1895,
levaram os republicanos ao abstencionismo -- atitude que se manterá até ao final A Carbonária

Pode mesmo afirmar-se que a solução violenta, antes de ter vencido nos
4t João Chagas e ex-tenente Coelho, ob. cit., p. 57. quadros superiores do Partido Republicano, conquistou a nova geração, e esta
irá reactualizar a memória das estruturas conspirativas do século xIx através
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL A C A M I N H O D A V I A V I O L E N TA D E T O M A D A D O P O D E R

da reanimação da Carbonária. São conhecidos os pontos de contacto e as dife- blicanismo estrito e legalista. De certo modo, este militantismo dava expressão
renças de ritual e de finalidade entre esta associação e a Maçonaria42: esta pre- à aliança táctica entre os republicanos radicais, os anarquistas e os núcleos so-
tendia ser uma agremiação filantrúpica, filosófica, mutualista e apartidária, cialistas que não concordavam com o anti-republicanismo do grupo de Azedo
enquanto a primeira apontava para a prossecução de objectivos polftico-cons- Gneco. Por isso, apesar de os republicanos se terem tomado na força política
pirativos. E. no concernente à base do recrutamento de ambas, a Maçonaria hegemónica e na única alternativa de poder à Monarquia, conforme o seu crcs-
tinha um cariz mais elitista, ao contrário da Carbonária, que era «uma socie- cimento eleitoral estava a revelar, nomeadamente em Lisboa (cerca de 375%,
dade organizada de modo a poder admitir elementos de todas as classes so- no primeiro decénio do século), é igualmente verdade que muito do trabalho
ciais .... Ela difere da Maçonaria, tolerante em política e em religião e cujo propagandfstico e de agitação foi assinado por militantes que sonhavam com
carácter é mais burguês.43» uma República que não se devia limitar a ser uma mera mudança de regime.
O ressurgimento do carbonarismo terá principiado em Coimbra, nos inícios Chegaram até nós alguns testemunhos acerca do ritualismo e da atmosfera
da década de 90, sob a tutela da loja maçónica Perseverança, cujo venerável secretista e revolucionária que rodeavam as iniciações na Carbonária
era ainda o velho carbonário de 48, Abflio Roque de Sá Barreto. O organismo Portuguesa4s. Mas a falta de ficheiros -- que terão sido destruídos -- e o ca-
coimbrão chamou-se Carbonáfia Lusitana e teve em António Augusto Martins rácter secreto da organização não permitem que se tenha uma visão mais ri-
um dos seus principais acavistas44. No entanto, a sua iniciativa ter-se-á man- gorosa acerca do número dos seus efectivos e da extensão da sua rede.
fido orgânica e ritualisacamente independente do que, entretanto, estava a Algumas fontes indirectas registam que, no seu apogeu, terá atingido os 40 000
ocorrer em Lisboa e que apontava na mesma direcção. Aqui, tudo parece ter membros49 e, com um evidente exagero, Machado Santos caracterizou a impo-
resultado da confluência de dois núcleos secretos: um de origem anarco-repu- nente manifestação anticlerical de 2 de Agosto de 1909, promovida pela Junta
blicana, e outro de base maçónico-académica. De facto, segundo nos informa Liberal, e que terá reunido cerca de 100 000 pessoas, como um autêntico des-
o anarquista José Maria Nunes, ele próprio, juntamente com José do Vale e file carbonário: «Esta enorme massa popular não estava toda iniciada, só um
Heliodoro Salgado, fundou a Liga do Progresso e Liberdade, agrupamento que terço é que pertencia à Associação Secreta, mas viu-se que era o bastante para
esteve na base da constituição da Carbonária Portuguesa45. Mas também se atrair e disciplinar a população válida da cidade»»0 No entanto, outros teste-
sabe que esta surgiu na sequência do trabalho desenvolvido por algumas lojas munhos são mais cautelosos. Para Raul Brandão, por exemplo, em Lisboa,
maçúnicas, académicas e irregulares -- Futuro, Justiça, Independência e «não seriam mais de dez mil os carbonários e os aderentes, mas na realidade
Pátr/a --, organizadas pelo então estudante Luz de Almeida, chefe supremo as forças que se podiam movimentar não chegam a três mil homens. Em todo
daquela Ordem. Profanamente, o comité dirigente chamava-se «junta revolu- o país calculo os carbonários em trinta mil»L Com efeito, devido principal-
cionária académica» e tinha como tarefa ministrar secretamente formação mi- mente ao proselitismo de Luz de Almeida, a organização alargou-se, após
litar aos seus membros4~. A ser assim, terá sido deste agrupamento que se for-
1908, a multas cidades e quartéis do pais.
mou a Car~nária Portuguesa, à qual se agregou o núcleo anarquista de origem
Conquanto fossem estruturas autónomas, a Carbonária Portuguesa manteve
mais popular47.
íntimas ligações com a Maçonaria -- muitos dos seus dirigentes eram mações,
Estas associações secretas, tendo por células básicas as choças e por cúpula
a começar por Luz de Almeida, e é conhecido o papel que a loja lisboeta
a Alta Venda, estavam exclusivamente empenhadas na organização da
revolução, mas a base ideológica dos seus membros não se esgotava no repu- Montanha desempenhou no seu lançamento. Por outro lado, também se sabe
que a militância carbonária procurou influenciar o Partido Republicano e
menorizar o peso dos que, como Bernardino Machado, defendiam, no seu seio,
4., cf. Pierre Zaccone, História das Sociedades Secretas, Politicas e Religiosas, Lisboa, a solução moderada e legalista52, ou dos que, como João Chagas, tinham algu-
s. d. Significativamente, esta obra foi traduzida por Heliodoro Salgado. mas prevenções em relação ao seu envolvimento revolucionário com as socie-
4.~ Manuel Borges Grainha, ob. cit., p. 135.
dades secretas53.
« Cf. Amónio Augusto Manins, «A Carbonária Lusitana, de Coimbra. Do Relatório
Inédito...»,/n Luís Montalvor et. ai., ob. cit., vol. 2, pp. 252-56.
«sCf. José Maria Nunes, A Bomba Explosiva, Lisboa, 1911.
~Cf. Sebastião de Magalhães Lima, Episodios da Minha Vida, 2? ed., Lisboa, 1928, 48 Cf. José Gomes Ferreira, «Uma Inútil Nota Preambular», in Aquilino Ribeiro, Um
pp. 271-72. Sobre a Carbonária Portuguesa, vejam-se: José Brandão, O Exército Secreto da Escritor Confessa-se. Memórias, Lisboa, 1974, p. 11 e ss; Machado Santos, ob. cit., p. 29.
República, Lisboa, 1984; João Medina, tA Carbonária Portuguesa e o Derrube da Monar- 49 Cf. Artur Luz de Almeida, «A Obra Revolucionária de Propaganda. As Sociedades
quia», João Medina et. ai., História Contemporânea de Portugal, T. I, Lisboa, 1985, Secretas», Lufs de Montalvor et. ai., ob. cit., vol. 2, pp. 203-60; Jorge de Abreu, A Revolução
pp. 9-19. Portugueza. O 5 de Outubro, Lisboa, 1912, p. 62 e ss; A. H. de Oliveira Marques, Dicio-
47 Indirectamente, Sebastião de Magalhães Lima noticiou as consequências sociais desta nário da Maçonaria Portuguesa, vol. 1, Lisboa, 1986, col. 266.
adesão ao escrever: «Nesta nova Associação admitiam-se indivíduos de todas as classes 50 Machado Santos, ob. cit., p. 32.
sociais, o que motivou a saída da maioria dos estudantes» (Sebastião de Magalhães Lima, 5~ Raul Brandão, Memórias, vol. 2, Lisboa, s. d., pp. 274-75.
ob. cir., p. 273). 52 Cf. Machado Santos, ob. cit., p. 42.
53 Idem, ibidem, p. 54. Cf. também José Relvas, Memórias Políticas, vol. 1, Lisbo¿ 1977.
A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

O congresso republicano de Setúbal (23 a 25 de Abril de 1909) princípios do século xx. É que o messianismo político (e social), que norteava
as expectativas dominantes nos meios carbonários, no associativismo de classe
Os debates e as decisões tomadas nos congressos do Partido Republicano, e nos grupos anticlericais, podia ser assumido como um imperativo que, em
nome da justiça e do sentido inexorável da história, legitimava o recurso à vio-
realizados antes da queda da Monarquia, reflectem o processo que levou à lência e o risco da própria vida, para que a aniquilação dos símbolos da opres-
radicalização do movimento. Assim, no que se reuniu em Lisboa, de 28 a são fosse consumad#7. E é interessante notar que o gesto dos regicidas colheu
29 de Abril de 1907, a preocupação dominante foi, como se viu, de teor essen- apoio nos sectores populares mais politizados. Segundo a imprensa republi-
cialmente reorganizativo, tendo estado na ordem do dia a necessidade de se cana, «escolas populares, associações democráticas, todos quantos têm nome
melhorar a coordenação do activismo partidário polarizado nos centros54.
no movimento, os anónimos e os simples»8, num total de cerca de 80 000 pes-
Porém, o congresso extraordinário seguinte, realizado em 25 de Abril de 1908, soas, ter-se-ão deslocado, em homenagem póstuma, às suas campas, numa
em Coimbra, decorreu num ambiente diferente em consequência da falhada
clara demonstração desculpabilizante do crime político.
revolta de 28 de Janeiro e do regicídio de 1 de Fevereiro de 1908.
Seja como for, o certo é que a adesão das cúpulas do Partido Republicano
A entrada do governo de João Franco em ditadura tinha acirrado os ânimos, à via violenta continuou polémica, conforme se prova com a discussão ocorrida
clima que a propaganda republicana contra os adiantamentos, o alargamento
no congresso de 25 de Abril de 1908, areópago em que se defrontaram os que
da lista civil e os escândalos financeiros exacerbou ainda mais. As sociedades propunham a transformação do Directório em «comité revolucionário» e os
secretas intensificaram as suas iniciações junto dos soldados, cabos e sargentos,
que defendiam uma atitude mais cautelosa59. Na sequência deste debate, o
enquanto alguns caudilhos republicanos, aliados aos dissidentes monárquicos
dispostos a combater a ditadura, davam enquadramento político a uma cons- Directório cessante foi criticado -- Bemardino Machado e António José de
piração que, no entanto, era já comandada pela Carbonária Portuguesa, donde Almeida, seus membros, chegaram a pedir a demissão --, e a assembleia (com-
«saíram todos os grupos que no dia 28 de Janeiro [de 1908] haviam de posta por cerca de 400 delegados) acabou por reconhecer que «há, e felizmente,
operar»55. A prisão de Luz de Almeida e de António José de Almeida antes do no Partido Republicano correntes divergentes, que o Directório não pode
dia marcado foi o sinal de que a polícia estava a par da conspiração -- e uma fundir>>6°. Confirmava-se, assim, a existência de «duas tácticas»6~ -- a conspi-
das causas do seu fracasso, segundo Magalhães Lim#6 --, pelo que não admira rativa e a eleitoral -- no combate contra a Monarquia, embora, cautelosamente,
o posterior encarceramento de Afonso Costa, Alvaro Pope e dos dissidentes se procurasse resguardar a organização partidária das investidas repressivas.
Egas Moniz e visconde da Ribeira Brava, e os mandatos de captura contra José Dai o teor da moção aprovada segundo a qual «o emprego de meios violentos
de Alpoim, João Pinto dos Santos e viscondes de Predalva e do Ameal. Apesar de transformação, por mais legftimo que se tome moral e socialmente, não
do insucesso, a tentativa mostrou que se começava a ousar recorrer à via vio- pode jamais reputar-se um acto oficial, normal, público e anunciado do Partido
lenta, e a circunstância de os republicanos terem contado com o apoio de Republicano». Por isso, «o Directório do nosso Partido, e bem assim qualquer
alguns monárquicos descontentes era o sinal evidente do avanço da crise dos seus membros, não deve ocupar-se, nessa qualidade, de funções que não
interna do próprio regime. tenham de ser respeitadas perante as leis vigentes».
Naturalmente, o governo aproveitou a ocasião para reforçar a legislação Bem vistas as coisas, a ala mais moderada estava a perder terreno, pelo que
repressiva (decreto de 31 de Janeiro, assinado por D. Carlos em Vila Viçosa), a ambiguidade herdada do congresso de Coimbra não podia perdurar por muito
e a perpetração do regicídio (1 de Fevereiro) tem de ser inserida no mesmo tempo, tanto mais que a agitação social, o impacte da campanha anticlerical,
terreno que tinha levado ao 28 de Janeiro, bem como na insatisfação e na a crise político-partidária do regime, os sucessos eleitorais dos republicanos,
revolta que, junto dos mais radicais, o seu fracasso provocou. É certo que não e a impaciência das sociedades secretas -- por volta de Agosto de 1909, a
se sabe, de um modo seguro e inquestionável, quais eram as ligações de Carbonária Portuguesa, «que então era numerosa e bem organizada, estava
Alfredo Luís da Costa e de Manuel Buíça à Carbonária, e discute-se ainda se
actuaram isolados e por sua livre iniciativa, ou se faziam parte de um «comité
revolucionário» mais alargado (cinco unidades). Não vamos entrar nessa dis-
s7 Para uma descrição do clima psicológico dos meios revolucionários lisboetas desta
cussão- que só poderá ser esclarecida com o aparecimento de nova documen-
conjuntura, veja-se José Gomes Ferreira, «Uma Inútil Nota Preambular», in Aquilino
tação, incluindo o desaparecido processo criminal instaurado aos regicidas --, Ribeiro, ob. cit., pp. 9-11. Sobre o perfil psicológico e intelectual dos regicidas, vejam-se
mas não se errará muito se se sustentar que a sua atitude se inscreve no A. R. ob. cit., pp. 359-60, e Lufs Vidigal, O Jovem Aquilino, Lisboa, 1986, p. 154.
comportamento típico do revolucionário anarquista dos finais do século xtx e 58 O Mundo, VIII anno, n.° 2615, 17-11-1908, p. 2.
59 Cf. Lopes de Oliveira, «O Termo da Propaganda Doutrinária Republicana e o Período
Revolucionário», Lufs de Montalvor et. ai., ob. cit., vol. 2, p. 300 e ss.
60 Brito Camacho, «Discurso», O Mundo, VIII armo, n.° 2683, 27-IV-1908, p.. 1.
Cf. A Lucta, II anno, n.o 479, 29-IV-1907, pp. 1-2; n.o 480, 30-IV-1907, pp. 1-2. 61 Utilizámos a expressão que Vasco Pulido Valente usou para caracterizar a polftica
5SMachado Santos, ob. cit., p. 16.
~Cf. Sebastião de Magalhães Lima, ob. cit., pp. 275-80. monárquica, nesta conjuntura, contra os republicanos. Cf. Vasco Pulido Valente, As Duas
Tácticas da Monarquia perante a Revolução, Lisboa, 1974.
ACAMINHO DAVIAVIOLENTADETOMADADO PODER
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
reveladas na tentativa de 28 de Janeiro de 1908»~. Estas estruturas tinham como
extremamente descontente e desconfiada, começando já a ameaçar os próprios tarefa articular a acção dos grupos civis, que a Carbonária Portuguesa estava a
chefes [republicanos], a quem atribuía as culpas»" dos vários adiamentos da organizar nos quartéis do exército, na marinha e nos bairros populares, com
revolução -- faziam aumentar a pressão revolucionária sobre a linha oficial a frente política propriamente dita. E a escolha de António José de Almeida para
do partido. Deste modo, as decisões tomadas no congresso de Setúbal (23 a o cumprimento dessa missão, a nível civil, resultou de uma indicação da própria
25 de Abril de 1909) não surpreendem. O primeiro sinal de que a realidade
Alta Venda. Todavia, no campo da planificação militar, o andamento das coisas
partidária iria consagrar as mudanças, que já se tinham operado ao nível das foi de molde a provocar insatisfação nos carbonários.
bases, foi dado pela derrota de Bemardino Machado, que defendia a possibi- Segundo Cândido dos Reis, o «comité militar» nunca se tinha reunido
lidade de serem renovados os membros do Directório com dois mandatos até finais de Setembro de 1909 e não tinha conseguido recrutar nenhum ofi-
sucessivos. Isto significou a abertura do caminho à ascensão do núcleo mais cial, limitando-se a lançar «um inquérito às opiniões políticas da oficiali-
radical«3. E assim veio a acontecer, pois o novo Directório, constituído por
dade da guarnição de Lisboa»70. Perante esta inacção, a Alta Venda decidiu
Te6filo Braga, Basflio Teles, Jos6 Relvas, José Cupertino Ribeiro e Eusébio
intensificar a propaganda nos quartéis -- proclamações aos soldados; divul-
Leão~, tinha o apoio dos carbonários65, pois, como escreveu Machado Santos, gação, aos milhares, da Cartilha do Cidadão, escrita pelo próprio Luz de
«a Alta Venda empregou todos os esforços para que neste directório entrassem
Almeida; reedição de Os Bailadões; popularização de A MarselhesaT~ ~,
amigos de todos os caudilhos, excluindo-os a eles, para que as diferentes
nuances se não chocassem. Ao novo directório foi dado um mandato impe- e alargar o recrutamento entre os soldados e sargentos. No campo do oficia-
lato, optou pela criação de um novo «comité militar revolucionário». Para
rativo: Auxiliar ou fazer a Revolução»66. Por outro lado, João Chagas viu apro-
esse efeito, e a pedido da Alta Venda, Sebastião de Magalhães Lima, grão-
vada uma proposta que defendia a necessidade de serem formados dois <<co- -mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, apresentou a Machado Santos
mités revolucionários» -- um civil e outro militar --, tendo em vista preparar
a revolução, nomeadamente no seio das forças armadas. E a prova de que a o capitão-de-fragata João Augusto de Fontes Pereira de Melo. Este, com o
nova direcção do Directório se encontrava disposta a apoiar, ou, pelo menos, beneplácito e a chefatura do almirante Cândido dos Reis, e em colaboração
a não impedir, os seus preparativos encontra-se no teor do manifesto que com o coronel Ramos da Costa e o capitão Afonso Pala, veio a ser manda-
dirigiu ao país, em Novembro de 1909, e onde escreveu: «As resistências da tado, em princípios de Outubro de 1909, para elaborar os planos militares
Monarquia, no seu aspecto puramente político, já exigiam uma luta sem da revolução.
tréguas, atendendo aos males de uma instituição tradicionalmente hostil aos Um dos membros desta «comissão militar revolucionária» deixou-nos um
mais vitais interesses patrióticos; a sua identificação com o clericalismo, que relatório circunstanciado das suas actividades desde aquela data até às vésperas
é o inimigo de todo o progresso científico e social, impõe à democracia a obri- do 5 de Outubro, pelo que não as iremos aqui pormenorizar72. No entanto, a
gação de se opor, por todos os meios, ao predomínio das forças cató- sua descrição não escamoteia a existência de descoordenações, rivalidades e
lieo-reaccionárias»67 Em suma: a conjuntura exigia que o Partido Republicano, de divergências tácticas entre os conspiradores, sendo as mais relevantes para
no dizer de Afonso Costa numa conferência efectuada no Porto em Dezembro o nosso intento de agora as concernentes às características a imprimir à revolta
daquele mesmo ano, só tivesse uma palavra de ordem a cumprir: «Acção!, protagonizadas por João Chagas -- enquanto membro do «comité» mandatado
a~o!, e acção!»~ pelo Directório -- e Fontes Pereira de Melo, chefe do estado-maior do novo
Para a prossecução de tal objectivo, e na linha da proposta de Chagas, o novo «comité militar revolucionário». Já sabemos que João Chagas era cauteloso
Directório, logo após o congresso de Setúbal, nomeou um «comité revolucio- em relação às actividades carbonárias e, talvez devido à lição que colheu do
nírio», cuja secção militar ficou constituída pelo almirante Cândido dos Reis, fracasso do 31 de Janeiro, a sua principal preocupação, ainda em Julho de
João Chagas e Monso Costa, enquanto «a direcção da parte civil continuava, e 1910, incidia na captação do apoio do maior número possível de oficiais su-
agora integralmente, confiada a António Jos6 de Almeida, evitando-se assim periores, de modo a que o movimento fosse essencialmente um pronuncia-
vários atritos, emulações e interferências lastimáveis e perturbadoras, como as mento militar com cadeia de comando. Fontes Pereira de Melo (e, no fundo,
os carbonários) pensava de maneira diferente, pois entendia «que a Revolução
devia ser popular, com o apoio seguro e efectivo na força política, sendo, já
Palavras de Santos Belém a João Augusto de Fontes Pereira de Melo, in João Augusto se vê, a direcção confiada aos militares. Isto afinal resumia-se a diminuir, ou
de Fontes Pereira de Melo, A Revolução de 4 d'Outubro (Subsidios para a História).
A Comissão Militar Revolucionaria, Coimbra, 1912, pp. 13-14.
~Cf. OMundo, IX armo, n.° 3043, 25-IV-1909, p. 2. 69 António Maria da Silva, O Meu Depoimento. Da Monarquia a 5 de Outubro de 1910,
Ibidem, n.° 3044, 26-IV-1909, p. 1. vol. l, Lisboa, 1974, p. 433.
Cf. Machado Santos, ob. cit., p. 34. 70 Machado Santos, ob. cit., p. 39.
Idem, ibidem, p. 34. 71 Idem, ibidem, p. 39.
¢In OMundo, X armo, n.o 3245, 13-XI-1909, p. I. O itálico é nosso. 72 Sobre todo este processo, leia-se: Jos6 Augusto de Fontes Pereira de Melo, A Revolução
6*In lbidem, n.o 3272, 10-XII-1909, p. 1. de 4 d'Outubro (Subsidios para a História). A Comissão Militar Revolucionaria, cit.
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL A CAMINHO DA VIA VIOLENTA DE TOMADA DO PODER

a conservar e mesmo aumentar a preponderância dos elementos carbonários» 73.


Pode dizer-se que foi este núcleo que, sintetizando a confluência e a aliança
E, se não se adoptasse esta última perspectiva, correr-se-ia o risco de a exces- maçÓnica-carbonária-republicana, deu o impulso final à insurreição. Por
siva preponderância castrense conduzir «fatalmente a uma ditadura militar, o «detrás da cortina»75, e servindo-se, sobretudo, da acção de António Maria da
que era. por motivos óbvios, inadmissível»74. Daí a importância da comparti- Silva -- recorde-se que Luz de Almeida, entretanto, tinha sido obrigado a
cipação de grupos civis armados, componente que só poderia ser fomecida pela exilar-se --, a «comissão de resistência» da Maçonaria começou a manobrar
Carbonária Portuguesa. o oficialato da capital, tentando completar o trabalho que a Alta Venda dizia
A captação do apoio, explícito ou tácito, dos oficiais superiores de vários já ter feito nos escalões mais baixos das forças armadas. Simultaneamente,
regimentos Irouxe dificuldades inesperadas, e entre os conspiradores existiam encarregou Simões Raposo de elaborar um novo plano de acção civil, enquan-
dúvidas acerca da táctica da insurreição: alguns avançavam com sugestões to, depois do adiamento da revolta prevista para a noite de 18/19 de Agosto,
mais adequadas a uma campanha militar, enquanto outros, como Fontes Pereira Cândido dos Reis, sem comunicar ao «comité militar revolucionário», chefiado
de Melo, defendiam que a revolução devia ser um golpe de surpresa realizado por Fontes Pereira de Melo, encarregou Sá Cardoso, Hélder Ribeiro e Aragão
pelas forças militares, mas em conjugação com os grupos civis. Seja como for, e Melo de elaborarem um novo plano militar, «visto a comissão do dito não
o certo é que todas estas razões fizeram prolongar os trabalhos e impediram, ter detalhado o que tinha em mente»76. A coordenação destas iniciativas ficou
como alguns sectores desejavam, a discussão dos planos de acção e até a apre- a cargo da «comissão de resistência» e, com a concordância que, perante ela77,
sentação de um definitivo. Isto provocou adiamentos sucessivos da eclosão da foi dada pelo Directório, tudo ficou irreversivelmente preparado para que o
revolução (Abril, Julho, Agosto) e fez aumentar a impaciência dos grupos movimento rebentasse nos primeiros dias de Outubro.
civis, alguns com tarefas distribuídas desde o tempo do golpe de 28 de Janeiro Este percurso (e o seu desfecho) confirmava a justeza da linha política que
de 1908, e dos comités revolucionários, que a Carbonária tinha organizado, venceu no congresso de Setúbal; mas o que ficou exposto é suficiente para
com destaque para os da marinha. Simultaneamente, as notícias da iminência mostrar que, mais do que uma vanguarda, a direcção do Partido Republicano
do movimento davam azo ao aumento da vigilância e à tomada de medidas se esforçou por não ser ultrapassada pelo activismo autónomo que vinha das
preventivas nas forças armadas com a transferência de pessoal e a saída de associações secretas, tentando coordená-lo e inseri-lo na outra componente de
navios suspeitos, o que fazia regredir o trabalho conspirativo. luta contra a Monarquia: a propaganda legal e a participação eleitoral. Com
Para superar este estado de coisas, a Alta Venda decidiu, em Junho de 1910, efeito, os jornais, os discursos dos seus deputados no parlamento, os comícios,
reorganizar as estrumms revolucionárias. Delegou em dois dos seus membros o foram os meios que utilizou para denunciar os aditamentos, o tratado
entendimento com o Directório a fim de se passar à aquisição de pistolas e revól- luso-transvaliano, os casos do sanatório da Madeira, da União Vinícola, a
veres indispensáveis à acção. E Machado Santos, na sua qualidade de membro questão Hinton e do Crédito Predial, bem como para dar continuidade à cam-
da loja maçrnica Montanha, accionou o processo tendente a serem superadas panha anticlerical e a favor da laicização da sociedade portuguesa (registo civil
muitas rivalidades pessoais e grupais entre republicanos, a vencer-se algum cep-
obrigatório), para protestar contra os atropelos às liberdades fundamentais
ticismo em relação à força que os carbonários afirrnavam ter, e a conseguir-se
cometidas pelo juiz de instrução criminal e contra a legislação eleitoral apro-
uma mais eficiente unidade de comando entre as componentes civis, militares e
vada para prejudicar os republicanos. E os sucessos que, apesar de tudo, iam
políticas apostadas no derrube da Monarquia. Aos olhos de Machado Santos, esta
conquistando nas eleições convenceram o Directório da importância de se com-
tarefa s6 podia ser desempenhada pelo Grande Oriente Lusitano Unido. Foi para
binar a luta legal com a conspiração, já que, como aquele frisou no seu rela-
isso que solicitou ao grão-mestre adjunto José de Castro -- Magalhães Lima
estava no estrangeiro -- a convocação de uma assembleia geral de mações para tório apresentado ao congresso do Porto (Abril de 1910), «votar é ao mesmo
se discutir a melhor forma de se acelerarem os trabalhos revolucionários. Aquela tempo demolir e construir. A eleição é necessária à Revolução e à República»78.
realizou-se em 14 de Junho de 1910, tendo-se ai decidido formar uma «comis- Pensamos que estas palavras se dirigiam tanto aos estritamente legalistas,
são de resistência maçónica», que ficou constituída deste modo: presidente, José como aos que, em nome da acção directa, desvalorizavam a importância do
de Castro; vogais: Simões Raposo, Cordeiro Júnior, Francisco Grandela, Miguel lento trabalho de educação cívica através da propaganda e da luta eleitoral.
Bombarda. Na sua primeira reunião, ela convidou o Directório a associar-se e a E revelam, por outro lado, que, a nível político, a direcção republicana tinha
nomear um representante civil -- que foi António José de Almeida, logo subs- percebido ser importante conjugar as «duas tácticas». Assim, em manifesto
tituído, a seu pedido, por António Maria da Silva -- e um representante militar, que dirigiu ao país em 30 de Janeiro de 1910, o Directório era inequívoco
tendo a escolha naturalmente recaído na figura por todos aceite como chefe acerca da sua aceitação da via revolucionária desde que esta tivesse uma raiz
militar da revolução: o almirante Cândido dos Reis.

7»Machado Santos, ob. cit., p. 55.


76
~» Idem, ibidem, p. 44. Idem, ibidem, p. 54.
74 Idem, ibidem. 77
Idem, ibidem, p. 57.
78 In A Lucta, V anno, n.° 1567, 30-IV-1910, p. 2.
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motor do processo conspirativo assentava nestas, uma figura como João


popular e fosse devidamente programada. Por isso, declarava que, se não lhe
Chagas, apesar de pensar que a sua excessiva influência pudesse ptr em perigo
incumbia «improvisar aquela Revolução que realiza a mudança definitiva do
regime», caber-lhe-ia, portm, «orientá-la» logo que ela se «manifeste como o sucesso da insurreição, não deixou de apresentar ao congresso do Porto uma
moção, aprovada por unanimidade, em que o Partido Republicano reconhecia
facto social, determinado pela coincidência do protesto da nação com as
«que as associações políticas secretas, na sua forma espontânea e popular, são
aspirações do Partido Republicano», e «as velhas e românticas fórmulas
revolucionárias» fossem substituídas por «uma intervenção consciente, opor- meios de combate sancionados pela História», e exprimia «a sua inteira soli-
tuna das vontades disciplinadas por uma alta ideia»79. Já sabemos que esta dariedade com aqueles que assim cooperam para a Revolução»~. Porém, mais
espontaneidade estava a ser pacientemente construída pelas sociedades se- do que cooperar, as associações secretas constituíam uma vanguarda autónoma,
cretas, núcleos animados por um radicalismo que tendia a desvalorizar a impor- tendo-lhes pertencido, em última análise, a criação das condições organizativas
tância do combate legal. O que explica que, no mesmo congresso, realizado já que garantiram o sucesso do assalto final a uma instituição velha de séculos.
Assim sendo, é lícito concluir que a função da Carbonária acabou por ser
numa conjuntura em que a saída da insurreição esteve iminente (Abril de
1910), o Directório tivesse sentido a necessidade de recordar à «corrente par- objectivamente complementar da actuação política da Maçonaria nesta conjun-
tidária inteiramente preocupada pela ideia revolucionária»s° que, tanto era tura, nomeadamente no concernente à canalização dos impulsos revolucionários
«ilusão supor que se poderia fazer a República em Portugal pelo recurso ao vindos de sectores sociais mais baixos e à sua consequente militarização, tare-
sufrágio», como «grande erro é, e consequências graves pode dar, o abster- fas que o Grande Oriente não estava capacitado para desempenhar directa-
mo-nos .... O acto eleitoral é, pois, um violento acto de propaganda revolucio- mente. E que, recorde-se, a Carbonária Portuguesa formava uma espécie de
nária, que só a obcecação pode desprezar»sI. exército secreto -- as pistolas, os punhais e as bombas de fabrico caseiro eram
O sucesso das eleições para deputados de Agosto de 19 10 -- em que o Par- o seu armamento87 --, e as suas raízes chegaram não só às camadas mais poli-
ãdo Republicano obteve a sua maior votação de sempre -- parecia dar razão tizadas, que animavam, em Lisboa, o associativismo popular e de classe, como
a esta tese, pois teve um eco positivo no ânimo dos próprios conspiradores. penetraram em estratos de baixa patente das forças armadas, com particular
No entanto, a precipitação dos acontecimentos estava nas mãos dos radicais, relevo para a marinha. Em suma: «A Carbonária era, a esse tempo, uma vastís-
e não exisãam dúvidas de que pelo sufrágio não se derrubaria a Monarquia. sima organização a que pertenciam não só a grande massa revolucionária mili-
Bemardino Machado ainda apelava à moderação82 e procurava que a Junta tar, constituída por um importante núcleo de oficiais, e sobretudo por uma forte
Consulãva do Partido Republicano controlasse os actos do Directório através percentagem de elementos dos últimos escalões -- sargentos, cabos e solda-
de uma reunião mensal e obrigatória entre ambas as estruturas partidárias83. dos --, como a quase totalidade dos elementos populares»88 envolvidos na cons-
Debalde. É que os mais bem informados sabiam -- casos de Afonso Costa, piração contra a Monarquia. O Partido Republicano forneceu o cimento político
Anttnio José de Almeida e João Chagas -- que o avanço da conspiração e as a todo este activismo, privilegiando naturalmente o campo da luta eleitoral. E a
constantes mudanças da conjuntura militar não se adequavam a esse compro- «comissão de resistência» da Maçonaria, constituída em «junta revolucionária»
misso. Aquele último, em nome «dos interesses da Pátria, [e] recordando a após a fusão dos vários comités89, foi a instância que consubstanciou a junção
gravidade da hora presente»u, pediu a Bernardino Machado que retirasse a pro- das três estruturas que criaram as condições ideológicas, políticas e conspira-
posta, e, para se superar a situação, Afonso Costa apresentou uma outra, em tivas para transformarem em imperativo histórico a necessidade de se derrubar
altea'nafiva, que foi aprovada, e na qual se consignava que tal reunião só ocor- o velho regime. Pode mesmo afirmar-se que, com a crescente republicanização
reria em caso de urgente e excepcional necessidade85. e radicalização do Grande Oriente Lusitano Unido, com a sua articulação à
Percebe-se. Começava a instalar-se a convicção de que não havia tempo a Carbonária e, por fim, com a sobredeterminação política de um Partido Republi-
perder e de que seda prejudicial complicar a coordenação do movimento. Por cano reorganizado e fortalecido, a luta final resultou de uma actuação que soube
outro lado, impunha-se a tomada de medidas cautelares, tanto mais que a repres- objectivamente conjugar a agitação ideológica -- em que o Grande Oriente
são e a vigilância sobre as sociedades secretas tinham aumentado. Ora, como o
Lusitano Unido e as organizações anticlericais (Associação do Registo Civil,
Círios Civis, Junta Liberal) a ele ligadas desempenharam um papel decisivo --,
com a luta política legal -- centrada no Partido Republicano -- e com o traba-
?9Ia/bidem, n.o 1480, 31-I-1910, p. 1. lho conspirativo, vertente em que a Carbonária teve uma acção fundamental.
B°ln/bidem, n.o 1567, 30-IV-1910, p. 1.
ao In /bidera.
82/bidem, n.° 1480, 31-I-1910, p. 2. st/bidem, n.° 1567, 30-IV-1910, p. 2.
B3 Isto é, prop6s «que a Junta Consultiva reúna todos os meses em sessão obrigatória, 87 Sobre o armamento dos núcleos carbonádos, veja-se, para além das já citadas obras
na qual o Directório lhe exporá a situação política e ouvirá o seu parecer» (in ibidem, de Aquilino Ribeiro e de José Maria Nunes, o texto de Celestino Steffanina, Subsidies para
n.° 1568, I-V-1910, p. 2). a Historia da Revolução de 5 de Outubro de 1910, Lisboa, 1913.
U/b/z/em, n.° 1569, 2-V-1910, p. 2. s8 António Maria da Silva, ob. cit., p. 434.
/bidem. 89 Idem, ibidem.
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ACAMINHO DAVIAVIOLENTADETOMADADO PODER
Não vamos descrever aqui as peripécias concretas que levaram à vitória do críticas (e das sátiras) que, ao aivejarem-no, ajudaram a dessacralizar a própria
5 de Outubro, desde o adiamento da revolta, o suicídio trágico de Cândido dos instituição, pelo que o regicídio de D. Carlos deve ser visto como o prenúncio
Reis, o assassínio de Miguel Bombarda, a célebre reunião nos Banhos de trágico da queda da própria Monarquia.
São Paulo, até à resistência na Rotunda e à proclamação da República nas va- Enfim, também os erros dos monárquicos ajudaram ì derrocada, embora a
randas da Câmara Municipal de Lisboa. Tudo isso é conhecido, pelo que, para depreciação da Monarquia tenha sido essencialmente produto dos efeitos da
a intenção deste estudo, talvez seja importante sublinhar que, em correlação propaganda republicana junto da opinião pública urbana e politizada (julgamos
com o sucesso republicano, se devem igualmente destacar os erros e as res- que, nos campos, sobretudo no Centro e no Norte, a atracção carismática da
ponsabilidades da prúpria Monarquia na aceleração da sua queda. instituição monárquica se manteve, em boa parte). Isso foi conseguido através
Não será nenhuma novidade dizer que, nos inícios do século, a Monarquia de uma numerosa e combativa imprensa -- mais de 100 títulos em 1910 --,
era uma instituição cada vez mais receosa da revolução. E esta atitude tra- com destaque para os diários O Século e, nas vésperas de 5 de Outubro, A Luta
duziu-se no aumento da repressão, na reforma eleitoral, tendo em vista blo- (de Brito Camacho) e O Mundo (dirigido por França Borges), A Vanguarda
quear a progressão parlamentar dos seus adversários, e na orientação dos seus (dirigido por Sebastião de Magalhães Lima) --, com o recurso à crítica e ì
governos. Relembre-se que João Franco, ao subir ao poder em 1906, tinha sátira -- no desenvolvimento de uma corrente iniciada três décadas antes por
como projecto lançar um conjunto de reformas passíveis de «caçar no mesmo
Rafael Bordalo Pinheiro --, com o impacte do panfletismo e dos escritos dos
terreno» dos republicanos9°. E os governos empossados após a sua queda pro-
seus publicistas -- sendo de relevar as Cartas Políticas de João Chagas -- e
curaram a «acalmação», indo ao encontro de algumas das reivindicaçSes radi-
com a exploração dos escândalos, a agitação das petições, dos comícios e da
cais, sobretudo na política religiosa. No entanto, esta táctica acabou por ter
oratória parlamentar -- prática em que se destacaram Ant6nio José de AI-
efeitos negativos, pois não satisfazia plenamente as exigências da oposição,
meida, Afonso Costa, Alexandre Braga e João de Meneses. Simultaneamente,
confessava objectivamente a inexistência de uma política própria e, aos olhos
o seu imaginário, ao defender as liberdades fundamentais, não deixava de
dos mais conservadores, soava a concessões, o que se reflectia no aumento das
divisões internas dos que apoiavam o regime. apontar para uma sociedade mais justa, promessa a que o apoio público dos
A mesma atitude defensiva também se repercutiu no modo como o rei inter- republicanos às lutas sociais da época -- como aconteceu no congresso de
pretou o seu papel moderador, levando-o a ser receptivo às ideias dos que sus- Abril de 1910 -- conferia credibilidade. Desta conjugação resultou um indis-
tentavam ser necessário a sua intervenção mais directa no poder executivo, de cutível crescimento da sua influência, com a sua propaganda a dar uma dimen-
modo a superar-se a instabilidade que seria provocada pelas lutas parlamen- são nacional a uma força essencialmente regional. Porém, os mais lúcidos
tares e partidárias. Com este alinhamento, o monarca «engrandeceu» o seu sabiam que esta estava localizada no centro do poder (Lisboa), e acreditavam
poder;, mas, ao deixar de ser um mero árbitro, tomou a instituição sujeita ao que, na linha do estrutural controlo do centro político sobre as periferias típico
desgaste e ao descrédito das políticas conjunturais dos governos e introduziu da vida política portuguesa, o sucesso da revolução na capital ida garantir a
factores acrescidos de divisão entre a classe política que a apoiava, ao mesmo vitória em todo o país, pois os seus «notáveis» da província teriam a capaci-
tempo que reforçava os argumentos dos republicanos, colocando-os como os dade de enquadramento suficiente para secundar o movimento e radicar as
paladinos da luta pelas liberdades públicas e como os herdeiros legítimos da novas instituições.
tradição que vinha da revolução vintista. E o aumento da sua influência sob a É neste horizonte que se explica que, ao subirem ao poder, transportassem
ditadura de João Franco, bem como o alinhamento da dissidência monárquica consigo não só promessas de índole política, mas também de natureza social
com a oposição, são a prova dos efeitos perversos que a táctica defensiva da há muito incluídas nos seus programas e reafirmadas pela sua propaganda.
Monarquia provocou contra ela mesma. Daí que, desde a ditadura de João E, se isso lhes valeu a adesão táctica de alguns meios socialistas e anarquistas,
Franco, ela tenha vivido como que "prisioneira da República»9]. a sua satisfação irá constituir um desafio à manutenção do bloco que derrubou
O regime não soube integrar as novas forças que foram surgindo com as a Monarquia92 e à sua capacidade para construir um regime que ideologi-
transformações sociais dos finais do século XLX e princípios do século xx. Por camente procurava conciliar a herança teórica da tradição demoliberal sete-
outro lado, apoiou-se numa estrutura partidária velha, excessivamente com- centista e, em particular, da Revolução Francesa, com os chamados «direitos
prometida com o mundo dos negócios (e com os seus escândalos) e sem os sociais». Isto decorria do facto de, como veremos, o seu demoliberalismo ser
chefes carismáticos de outrora (Fontes Pereira de Melo e Braamcamp). E o de matriz rousseauniana-jacobina, exigindo, por isso, que a política visasse a
monarca, por formação e por interesses pessoais, deixou arrastar a sua função prossecução da «felicidade comum», e de, no campo das lutas ideológicas, o
moderadora para o jogo das influências, tornando-se assim alvo fácil das movimento já ter emergido numa conjuntura em que nenhum projecto polí-

9°Cf. Antúnio Cabral, O Agonizar da Monarchia, Lisboa, 1931, p. 27 e ss. 92 Um bom exemplo de insatisfação que as primeiras medidas da República pmvocaram
9~ Lopes d'Oliveira, História da República Portuguesa, p. 261.
nos sectores que a viam como o primeiro momento da revolução social encontra-se em José
do Vale, A Revolução Burguesa e a Revolução Social, Lisboa, 1911.
100

l BIBLIOIECA
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tieo, pela afirmativa ou pela negativa, podia escamotear a questão social. Em


conclusão: a procura da compatibilização dos valores demoliberais com o soli-
darismo social acabou por ser o grande escopo teórico do republicanismo,
intenção que sintomaticamente já estava pressuposta na obra do primeiro autor
que procur~u fundamentar uma solução republicana para a sociedade portu-
guesa. Referimo-nos a José Félix Henriques Nogueira e, mais concretamente,
aos seus Estudos sobre a Reforma em Portugal (1851).

PARTE II

O REPUBLICANISMO
CAPITULO 1

A MEMÓRIA DE 48

É certo que, se se fizer o levantamento da evolução semântica do vocábulo


«República», se deparará com uma polissemia tão diversificada que, à pri-
meira vista, parece ser inviável reduzi-la a um horizonte comum. Com efeito,
desde a significação clássica de res publica, compatível com vários regimes
políticos, até à exclusiva denotação de um regime contrário à Monarquia, são
múltiplas as acepções do termo. Por outro lado, basta uma rápida incursão pela
literatura política dos séculos XlX e xx para se verificar que, por exemplo, a
ideia de República em Antero de Quental é diferente da de um Teófilo, a dos
federalistas demarca-se da dos unitaristas, assim como a da Renascença Por-
tuguesa difere do ideal republicano da Seara Nova ou do republicanismo do
Partido Democrático. E, se nos lembrarmos de que o próprio corporativismo
salazarista (e marcelista), apesar do seu anti-republicanismo militante, não quis
tocar na questão do regime, ainda mais se alarga o campo semântico do termo.
De qualquer modo, pensamos que é possível encontrar um quadro de refe-
rência que, a partir de um núcleo essencial, o permite definir e mostrar a sua
irredutibilidade a outras manifestações ideológicas que com ele coexistiram
(polemicamente). E, se aceitamos que o dilema República/Monarquia foi a sua
nota demarcadora primordial, sustentamos também que, em Portugal, o movi-
mento antimonárquico ultrapassou a esfera estfita do político, pressupondo um
corpus ideológico que revelou durante um longo período e ao nível dos sec-
tores mais politizados uma capacidade hegemónica e uma vocação totalizante
indesmentíveis. Significa isto que nos interessará perceber a coerência interna
da mundividência que lhe serviu de suporte e, ao mesmo tempo, compreender
a intenção social, ou melhor, a estratégia de poder que presidiu ao esforço pela
sua inoculação na opinião pública portuguesa.
Por outras palavras: iremos defender que o republicanismo consátuiu um
movimento em que a explicação da luta pela conquista do aparelho de Estado
será incompleta se não se levar em conta o horizonte cultural que o impul-
sionou. Na verdade, mais do que qualquer outra opção política até então mani-
festada, havia a consciência de que a República era uma proposta de matriz
ontológica, pois a exigência da queda da Monarquia passou a ser gradualmente
apresentada como um imperativo não só da natureza humana, mas, e sobre-
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

rodo, da evolução objectiva do próprio universo, tendência esta que o homem A MEMÓRIA DE 48
sistema de representações, ideias e valores que, ara
iluminado deveria apreender para a derramar pelo povo, transformando-se em próprias das conjunturas e das n~r .ov.~_.~_ P além das especlfictdades .
seu mediador ético-social e praxístico privilegiado. ~-- so ....,u«ues que a propagandeavam, possuía
uma lógica interna suficientemente autónoma para a demarcar das demais
Ser~ esse corpus subjacente ao discurso teórico e aos comportamentos típi- expectativas sociais que se foram definindo a partir da segunda metade do
cos dos republicanos que procuremos apreender. E, independentemente do seu século xIx. Dito de outro modo: encararemos o republicanismo como uma
grau de explicitação ou de teorização, esta via hermenêutica é tanto mais lícita doutrina sociopolítica de raiz humanista, que inseriu a defesa dos direitos indi-
quanto busca encontrar a racionalidade de um ideário que conscientemente se viduais num horizonte de sociabilidade cívica. Mas procurar-se.á mostrar que
apresentava como a própria concretização histórica da razão humana. só encontraremos os seus fundamentos últimos se o interpretarmos como um
É verdade que o republicanismo floresceu como uma ideologia política que projecto que postulava uma epistemologia, uma concepção da natureza e da
prolongava, em muitos dos seus aspectos, o progressismo característico do ilu- sociedade, uma crítica das religiões e uma nova moral «sem sanção nem obri-
minismo. No entanto, isso não obstou a que não se assumisse como uma gação»1, e manifestava uma consciência bem clara de que, tal como acontecia
dimensão totalizante e que revelasse uma grande capacidade de hegemoni- com o catolicismo e com as suas ligações políticas, só a interiorização da nova
zação no contexto das tendências ideológicas em luta nos finais do século xIx,
racionalidade e de um novo sentimento colectivo, fundidos com a vivência
prLncípios do século xx. Umbilicalmente fígado aos valores essenciais da longa
ritual de uma nova simbologia comunitária (comemorações, funerais civis e
revolução cultural bt~uesa, o republicanismo foi a tradução politicamente romagens cívicas, culto da bandeira, feriados, comícios), o poderia transformar
mais significativa do combate contra a sobrevivência de valores do Antigo
em poder político. Por isso, e com toda a lógica, a luta pelo controlo do apa-
Regime que constituíam resistências mentais, ainda fortes, ao alargamento e à
relho de Estado passava igualmente pela ala'mação de um ideal em que a prá-
consolidação das relações sociais (económicas, políticas e culturais) capita-
tica política deveria ser, antes de mais, uma paideia, isto é, uma prática edu-
listas e ao em'aizamento das ideias liberais e democráticas.
cativa e de ensino, ao mesmo tempo que a anatematização do catolicismo e
Como tudo isto se deu numa fase em que as necessidades de liquidação
desses resíduos tradicionais passaram a coexistir com a emergência da questão das religiões era inseparável do fomento de uma eticidade e de uma religio-
social, não admira que, em conjugação com o seu carácter ofensivo perante sidade postas ao serviço da unidade nacional. Isto é, procurar-se-á mostrar que,
o antigo, denote uma grande preocupação integradora no que respeita às pro- na linha dos seus émulos franceses, e de um modo mais consequente do que o
postas t(~ricas e sociais de origem operária e socialista. Deste modo, enquanto liberalismo monárquico, o republicanismo erigiu o Estado em instância de pro-
expressão política de um iluminismo actualizado, julgamos poder afirmar que dução do social e em principal agente de unificação de uma sociedade política
tudo isso foi possível porque a mundividência republicana assentou numa alicerçada em indivíduos. Perante esta realidade, a função política não se podia
explicação geral da natureza e da sociedade que procurou diluir os interesses limitar a gerir os processos da sociedade civil, mas teria de voluntariamente
específicos dos grupos sociais no interesse geral. E isto dentro de uma pers- procurar limitá-los e corrigi-los em nome do interesse geral. É por isso que os
peaiva que s6 conferia sentido à existência individual e colectiva no contexto republicanos irão ser particularmente sensfveis à dimensão <<sacra/» da acção do
de um cosmos teleologicamente interpretado. Estado que visava produzir signos nacionais adequados ao novo tipo de unidade
Em suma: pensamos que o modelo de desenvolvimento capitalista que Por- exigido por uma sociedade de indivfduos reconhecidos como civilmente iguaisL
tagal teve de seguir -- sob a tutela inglesa --, baseado numa economia de Nesta perspectiva, será pouco relevante para a história do republicanismo
import/export e no jogo político assente no censo e na rotação partidária, não em Portugal a evocação de precursores isolados, ou meramente conjun-
provocou a aceleração de transformações culturais fomentadoras de uma men- turais, como José Bemardo da Rocha Loureiro -- com os olhos postos nos
talidade científico-técnica e democrática. Daí a lentidão com que se processou Estados Unidos, chegou a defender e a sonhar com uma República de vocação
a socialização da nova cultura (Escola) e o prolongamento da influência de iberista --, ou como os eflúvios republicanizantes de alguma juventude do
uma Igreja, maioritariamente ultramontana, anti-racionalista e antiliberal, e período vintista. E, pelo menos no plano teórico, a alguns líderes de 1820 não
cujo «religamento» ao regime vitorioso em 1834 nunca foi pacífico. A esta repugnava a solução republicana. Até nós chegou também o eco da proposta
luz, pensamos que a análise do fenómeno republicano encontrará perspectivas do general Marinho propugnando, na ilha Terceira (1829), a instauração da
mais utopias se ele for visto como uma tentativa consciente de socializar uma República dos Estados Unidos Portugueses Ultramarinos. Como se viu atrás,
concepção do mundo voltada para a construção de um bloco social novo e de tem ainda um significado doutrinai não despiciendo o louvor que António
um novo consenso nacional apostados em mobilizar o povo português para Feliciano de Castilho, influenciado pela cristologia romântica3 e pelo profe-
uma prática que regenerasse definitivamente a Pátria decaída.
Concretizemos, então, o que entendemos por republicanismo, enquanto
l Utilizamos esta frase na acepção de J. M. Guyau.
ideologia (ou mundividência). Sem negarmos a importância da sua nota carac- 2 Cf. Pierre Rosanvallon, L'État en France de 1789 à nos jours, Paris, 1990, pp. 96, 99,
te~ra essencial (a defesa de um regime político não monárquico e não 120, 125.
hereditário), sustentaremos que a luta antidinástica ganhou corpo dentro de um 3 Sobre esta questão, veja-se Frank Paul Bowman, Le Christ Romantique, Genebra,
1973; Le Droit des Barricades. 1789-1848, Paris, 1987.
106
OREPUBLICANISMOEMFORTUGAL A MEMÓRIA DE 48
Garcia, Gilberto Rola), que, como sabemos, deram continuidade, em épocas
tismo social de Lamennals, fez às excelências da democracia e da República«. posteriores, aos seus ideais juvenis. De qualquer modo, a experiência dos
No entanto, estas posições apareceram de um modo tão isolado e foram social- meados do século, porque constituiu uma derrota, valerá mais pela sua in-
mente tão impmffcuas que são insuficientes para qualificar um movimento e serção na mitologia republicana das décadas seguintes do que por ter dado
para lhe darem consistência e autonomia ideológicas. origem a qualquer movimento político duradouro.
O mesmo não se pode afirmar, sem mais, da geração que emergiu entre Daí que, para o intento deste trabalho, seja mais relevante sublinhar a
1846 e 1852. De facto, quer no plano da acção, quer no que concerne à pro- importância da chamada geração de 48 na legitimação do movimento repu-
dução doutrinária, surgiram situações novas. E, se não se pode sustentar que blicano posterior do que os efeitos imediatos da sua praxis. É que, por essa
a «conspiração das hidras» (I 848) foi um movimento puramente republicano, via, será possível confirmar a maturidade do nosso republicanismo finissecular
não restam dúvidas de que a muitos dos seus promotores não repugnava que no seu esforço para se libertar das insuficiências que teriam ditado o fracasso
a queda de Costa Cabral conduzisse à instauração de um novo regime. Era forte das revoluções românticas. Assim, 1848 será elevado a momento matricial e,
o impacte das revoluções europeias de 1848, e, se a realidade mostrou a debi- como acontece na evocação das origens, a mitificação derivará de um processo
lidade da esquerda portuguesa (ainda mal refeita da derrota da Patuleia), a decantatório em que, através da denúncia dos apóstatas e da expurgação dos
consciência do desfasamento entre as expectativas e as suas possibilidades erros, se fará emergir o núcleo primordial com o halo característico das coisas
reais de concretização levou, porém, ao aparecimento de uma vasta literatura sacralizadas. Como já se escreveu, a Regeneração iniciou um novo ciclo na
de inequívoca orientação socializante e demo-republicana, que não deixou de vida política portuguesa. Com a formação de um bloco social alargado, muitos
exercer a sua influência nas décadas posteriores5. dos que até aí tinham defendido a República integraram-se na nova ordem.
Tem sido chamada a atenção para a influência de ideólogos como La- E, se a posteridade republicana perdoou aos que, nos anos 70, voltaram a decla-
mennais, Fourier, Buchez, Pierre Leroux, Proudhon, Ledru-Rollin, Raspail, rar-se como antimonárquicos, ela foi, no entanto, implacável para os que esco-
Marrast e tantos outros nesses escritos6. Por outro lado, não tem passado intei- lheram os caminhos da abjuração. Estavam neste caso António Rodrigues
ramente despercebida a tentativa feita pelos novos escritores da época no sen- Sampaio e Casal Ribeiro; e os mais cáusticos, como Teófilo Braga, não pou-
tido de aportuguesar a importação de modelos através de contributos teóricos param o próprio José Estêvão: «José Estêvão volveu-se para a política monár-
nacionais e para lhes dar uma concreção que mediasse a dimensão excessiva-
quica», escreveu Teófilo, «e foi esterilizar-se no parlamentarismo do grupo his-
mente utópica e idealizada das fontes inspiradoras. Conhece-se também por
tórico; Sampaio foi enfileirar-se no grupo regenerador, onde o respeitaram
que é que, apesar de todas estas preocupações, e descontando algumas reali-
somente pelo seu passado democrático; outros fugiram da política e acanto-
zações no campo do associativismo popular, se extinguiram as primeiras mani-
naram-se nas secretarias... Casal Ribeiro, que afirmava o advento inevitável
festações socializantes e republicanas em Portugal, que ficaram somente a per-
durar no exemplo e na memória de alguns activistas e na sobrevivência de da República no opúsculo É Tarde, [dizia] depois no parlamento que a mo-
agremiações como o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Labo- narquia era a condição da autonomia nacional»>7 E não deixa de ser sintomá-
riosas. tico que, em contraste com todas estas abdicações, Teófilo, como todos os
Estas aspirações foram conjunturais. A repressão policial e a posterior evo- escritores republicanos da sua geração, destaque, sobretudo, uma figura «cujo
lução do regime monárquico-constitucional acabaram, em grande medida, por nome deve ser a divisa de todo o partido que crê no futuro da nacionalidade
recuperá-las. A integração de muitos dos seus promotores na Regeneração portuguesa»8: José Félix Henriques Nogueira.
(António Rodrigues Sampaio, José Estêvão) prova a imaturidade da opção
antidinística e mostra, por outro lado, que a Monarquia ainda tinha uma grande
capacidade para incorporar as contradições políticas da sociedade portuguesa. O REPUBLICANISMO FEDERALISTA
E também verdade que, da intentona de 48 e da agitação de ideias da época, DE JOSÉ FÉLIX HENRIQUES NOGUEIRA
sobreviveram alguns protagonistas (Oliveira Marreca, Sousa Brandão, Elias
Teófilo Braga, a exemplo do que fez com Camões para a mitologia na-
cional, foi o grande arquitecto da revalorização de Henriques Nogueira como
4 Amónio Feliciano de Castilho, «Prefacio», in Lamennais, Palavras d'Um Crente Es- patriarca do movimento democrático portuguêsg. Primeiramente, as referências
criptas em Francez pelo Senhor Padre Lamennais, e Vertidas em Vulgar por Antonio
Feliciano de Castilho, Lisboa, 1836, pp. 7-38.
~ Maria Manuela Tavares Ribeiro, ob. cit., p. 171 e ss. 7 Teófilo Braga, «Henriques Nogueira. Commemoração da Democracia Portugueza»,
« Vítor de Sá, A Crise do Liberalismo e as Primeiras Manifestações das Ideias Socia- Era Nova. 1880-1881, Lisboa, 1881, p. 291.
listas em Portugal (1820-1852), Lisboa, 1974, pp. 153 e ss; Carlos da Fonseca, Integração 8 Idem, ibidem, p. 292,
e Ruptura Operária .... pp. 69 e ss; Daniei-Henri Pageaux, «Lamennais en Péninsule 9 «O seu nome, levantado de um esquecimento mais do que ingrato por alguns admira-
Ibérique», in Utopie et Socialisme au Portugal au XIX ~"~ Actes du Colloque. Paris, 10-13 dores dedicados, entre os quais cumpre mencionar, com especial louvor, o esforçado e in-
Janvier 1979, Paris, 1982, pp. 121-52. cansável republicano dr. Teófilo Braga» (Silva Lisboa, «José Felix Henriques Nogueira.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
A MEMÓRIA DE 48
apareceram isoladas, mas, com a História das Ideias Republicanas em Por- ticidade própria. Assim sendo, pensamos que a doutrina sociopolftica de
tugal (1880), procurou demonstrar o papel de pioneiro que lhe cabia~°, posição Henriques Nogueira não radicava nem em bases jusracionalistas, nem no con-
essa que teve no baptismo do Clube Henriques Nogueira (1881) a sua consa- tratualismo aprior£stico (à maneira de Locke ou de Rousseau), mas assentava
gração simb61ica. Daí que, num artigo relevantemente intitulado «Como se Fez numa definição romântica de homem visto como um sujeito de razào, de von-
Reviver o Nome de Henriques Nogueira», O Século afirmasse: «A verdadeira tade e de sentimento, inscrito em relações que tinham não s~ um estatuto socia-
influência da obra de Henriques Nogueira no desenvolvimento da ideia republi- bilitário natural, como os Ideólogos já haviam defendido, mas também um
cana entre nós data do dia 23 de Janeiro de 1881 em que se comemorou o fundamento «sagrado», na linha da tradição cristã. Neste contexto, a aceitação
23.° aniversário da sua morte, e em que se deu a um centro republicano, recen- dos chamados direitos fundamentais, que consubstanciavam a obra imorre-
temente fundado, o título de Clube Hendques Nogueira»»H doura da Revolução Francesa, sofria uma mediação social simbolicamente
Por aqui se vê como esta revivescência foi condicionada por uma in- expressa no lugar primacial que a Fraternidade teria de ocupar no cumpri-
tenção pragmática ditada pelos interesses ideológicos do presente. Isto é, o mento da tríade revolucionária.
encontro da «segunda geração republicana» (consideramos «primeira» a de Por outras palavras: a postulação do carácter sociabilitário do homem,
48) com o ideário de Nogueira tem de ser equacionado em função das preo- num quadro que já secularizava a concepção católica, prenunciava as teses
cupações sociopolíticas e epistémicas da década de 70. E que, em vez de holísticas do sociologismo positivista e do socialismo contra os excessos do
qualquer preocupação de verdade histórica, a consagração foi pautada por direito natural racionalista e individualista, ao mostrar que a sociedade polí-
um fito declaradamente historicista. A Nogueira conferiu-se-lhe o estatuto tica devia ser estruturada de acordo com os ditames da sociabilidade natural.
de um pioneiro, cujo pensamento potenciava os postulados que o movimento Deste modo, a realização da perfectibilidade individual -- essa vocação
estaria a levar às suas máximas consequências teóricas e práticas. Mais con- natural do homem -- estava condicionada pela história, ou melhor, pela edu-
cretamente, a evocação pretendia alcançar três objectivos: legitimar histo- cação e pelo progresso garantidos pela colectividade, e seda inconcretizável
ricamente um partido, enaltecer um modelo de reformas políticas e sociais, e na estrita esfera da vida privada. Para isso, a acção política não podia ser
reforçar a ideia de que a sua capacidade prognóstica derivava da antevisão
indiferente, neutra e distanciada da vontade dos cidadãos. Na linha da
propiciada pelo único meio que seda capaz de conhecer e transformar a rea-
modernidade, e contra a interpretação exclusivamente liberal dos direitos do
lidade social: a ciência.
homem, rejeitava-se a separação entre cidadãos activos e passivos (base
O primeiro aspecto já ficou esclarecido. Quanto ao segundo, é importante
do constitucionalismo monárquico) e defendia-se a democracia e, como seu
frisar que o reformismo dos Estudos sobre a Reforma em Portugal (1851) e
corolário lógico, a República. Mas simultaneamente demarcava-se das teses
de O Município no Século XIX (1856) vinha ao encontro do modelo de so-
que conduziam, em nome de uma certa razão política geométrica, à centra-
ciedade propugnado pelo movimento republicano na década de 70, princípios
de 80, sobretudo pela sua facção então dominante: a federalista. Com efeito, lização política. Isto é, mais do que o modelo jacobino de República,
o pensamento do publicista podia resumir-se, na correcta síntese de Joaquim Henriques Nogueira tinha os olhos postos nos exemplos dos Estados Unidos
de Carvalho, nos seguintes princípios: republicanização, democratização, asso- e da Suíça. O que quer dizer que via no municipalismo, por um lado, e no
ciação, municipalização e federação~2. Não será assim ardscado defender que federalismo, por outro, a solução que permitiria intensificar a participação
as obras de Nogueira continham uma concepção geral de sociedade de índole dos cidadãos na representação e no controlo da vida política da cidade,
programática, apta, por isso, a servir de ponto de referência a um projecto que, numa evidente intenção de democratizar o mais possível a clássica ideia
independentemente dos argumentos em que se baseava, apontava para os de polis.
mesmos objectivos sociais. E, com a defesa da associação (e do socialismo), toma-se coerente a sua
Na verdade, o seu plano de reformas tinha uma intenção conciliatória que não invocação do contratualismo a priori. O homem é entendido como um ser
se casava optimamente com as expectativas republicanas. Em primeiro lugar, naturalmente social e político. Em consequência, não fazia sentido apelar para
o edifício da sociedade a construir não se alicerçava no atomismo social uma génese voluntarista da sociabilidade; o que não significa que, apesar de
extremo, gerador de injustiças, mas procurava garantir a coexistência do indi- inserido em órgãos naturais (freguesia, município, nação), os indivíduos não
víduo com outras formas de soeiabilidade possuidoras igualmente de uma on- pudessem criar voluntariamente outras estruturas sociabilitárias, fossem de
índole política, fossem de cariz económico e educativo (as associações). Em
suma: mediante um contratualismo a posteriori (as constituiçdes de federações
Commemoração do 25.0 Anniversario do Seu Fallecimento», A Era Nova, II anno, n.° 34,
ou de associações assentavam em práticas contratualistas, ainda que rever-
25-II-1883, p. 1).
síveis) a organização da sociedade podeda melhorar a natureza social do
~llbidem.'° Sobre este processo de reabilitação, veja-se O Seculo, 111 armo, n.o 626, 22-I- 1883, p. 1 homem.
12 Joaquim de Carvalho, «A Formação da Ideologia Republicana em Portugal (1820- De certo modo, pode afirmar-se que Hendques Nogueira democratizou a
-18g0)», in Luís de Montalvor et. ai., ob. cit., vol. I, p. 217 e ss. lição de Herculano e corrigiu os exageros do pensamento de Fourier, propondo,
como bem salientou um seu antigo companheiro, um «municipalismo social»
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
AMEMÓRIADE48
(Sousa Brandão)13. Esta caracterização é pertinente, já que a objectivação em Portugal para o movimento republicano. O contrário dos apolitistas e «em
nuclear da sociabilidade estaria na constituição de comunidades locais poliva- plena crise metafísica do socialismo humanfstico e sentimental, em plena
lentes (espécie de falanstérios aportuguesados) capazes de satisfazerem as utopia demagógica, generosa e grande, mas visionária e ingénua»t«, Nogueira
necessidades não só materiais, mas sobretudo políticas e espirituais dos indi- teria conseguido gizar um plano mais realista do que o de qualquer outro seu
víduos. Focos de fraternidade, essas comunidades trariam a harmonia política contemporâneo, porque baseou a sua análise da sociedade portuguesa em pre-
conciliando o centralismo com o municipalismo, os representantes com os missas científicas, isto é, «foi um talento dotado de um profundo critério poll-
representados, e o centro com a periferia -- e a harmonia social, pois as asso- tico, de uma capacidade científica para formular e compreender as necessi-
ciações, ao actuarem na esfera económica, levariam à universalização da pro- dades do seu meio social»17. Mas terá sido assim? Se pensamos bem,
priedade e à fusão do capital com o trabalho. parece-nos que o seu ideário, tal corno o dos seus correligionários da época,
Por aqui se vê como este projecto reformista não se encaixava por inteiro não ultrapassou o horizonte do pensamento dominante nas esferas intelectuais
no optimismo liberal e utilitarista. Ao contrário, estava apostado em combater europeias empenhadas em melhorar a sociedade. Em consequência, será perti-
a não participação política e o seu consequente centralismo e em insinuar a nente realçar a presença entrecmzada de duas linhas que, devidamente sinte-
promessa segundo a qual a verdadeira regeneração social passava pela demo- tizadas, o definem em última instância -- a iluminista e a romântica. A pri-
cratização da riqueza mediante uma política tributária mais justa (imposto meira concretizou-se na crença na infinita perfectibilidade do homem, espécie
único e pmgressivo), pela criação, na linha de Louis Blanc e F. Vidal, de ofi- morigerável desde que, através da acção educativa, se inoculem os valores e
cinas nacionais e, sobretudo, pelo fomento do associativismo económico e cul- os conhecimentos compatíveis com a sua natureza, isto é, com os princípios
turaP4. Deste modo, não admira que os republicanos das décadas seguintes se da Liberdade, Igualdade e Fraternidade; o romantismo reflectiu-se, sobretudo,
tenham reconhecido neste programa, tanto mais que, com a sua evocação, legi- no tom apostólico, quase cristológico, como justificou a missão histórica dos
timavam historicamente algumas das propostas que apresentavam como autên- povos que deveriam realizar, na Terra, tais princípios. Assim sendo, tal como
ticas panaceias para a solução da crise que, a seu ver, estava a ser agudizada no ideário que animou revoluções de 1848, também no publicista português o
pelo regime monárquico-constitucional. Por outro lado, a defesa de medidas iluminismo aparece sobredeterminado pelo evangelismo social romântico, a
de cariz social aparecia ligada a reivindicações de ordem política, elo que era grande nota caracterizadora do revolucionarismo da épocaTM.
importante sublinhar numa altura em que, sob a influência do proudhonismo O postulado da peffectibilidade, se servia de fundamento à crença ilimitada no
e do bakuninismo, os socialistas tenderão a desvalorizá-lo. progresso, justificava igualmente a inexorável tendência que levada a humanida-
Na linha do ideário da H República (Louis Blanc, Lamartine, Ledru-Rolin, de a edificar uma República Universal. E se, a nível interno, isso se devia traduzir
Antoine MarrasL Raspail e outros), Nogueira não separou a solução do pro- na busca da harmonia entre o Estado e as regiões (par6quia, município, província),
blema social da prévia exigência da instauração da República legitimada pelo e entre o capital e o trabalho, a epopeia humana só estada consumada quando
sufrágio universal. Logo, se, no campo da organização político-administrativa, fosse alcançada a ecuménica e pacífica convivência entre os povos. Por conse-
pode ser considerado um discípulo confesso de Herculano, com o pressuposto
guinte, e como os intelectuais progressistas do seu tempo, Nogueira defendia a
republicano pretendeu democratizar o liberalismo, isto é, levar às últimas
liberdade para as nacionalidades na plenitude das suas especificidades culturais e
consequências o princípio da soberania nacional, transformando-o em sobe-
históricas, condição essencial para se concretizar a forma superior do associati-
raaia popular. Com isso, sintonizava com outros escritores sociais da época
(Sousa Brandão, Lopes de Mendonça, Cust&tio José Vieira)~» e formulava uma vismo humano: a federação universal de todos os povos, cuja comparticipação
pretensâo que o constitucionalismo monárquico, mesmo revigorado pela port3)guesa se dada, no plano imediato, através da federação dos povos ibéricos.
Regeneração e pelo Acto Adicional (1852), não podia integrar. E certo que, ao propor esta solução, tinha os olhos postos nos Estados
Apostados em valorar a importância primordial da questão do regime e em Unidos, na Suíça e nas lições de Tocqueville. Contudo, este facto não pode
combater os malefícios das teses abstencionistas em política, os republicanos fazer esquecer que o federalismo J mais tarde teorizado por Proudhon e Pi y
encontraram em Nogueira a confirmação da indissolubilidade dos dois pro- Margall -- apareceria em Nogueira como uma modalidade histórica que objec-
blemas. E não foi por mero acaso que o anátema teoricamente mais contun- tivava a dimensão ecuménica do homem. Assim, o autor português dava gua-
dente contra o principal defensor daquela tese entre nós, Antero de Quental, fida às ideias de Kant e de Bernardin de Saint-Pierre, mas deixava-se confes-
surgiu na obra que procurou recuperar o ideário dos Estudos sobre a Reforma sadamente empolgar pelo fundo messiânico e universalista do combate da

16 António Policarpo da Silva Lisboa, Municipio e Federação segundo Henriques No-


13A Era Nova, li anno, n.o 34, 25-I1-1883, p. 1. gueira. Conferencia sobre a questão iberica, p. 5.
J4 Cf. Vítor Neto, O Pensamento de Henriques Nogueira, Coimbra, 1984 (exemplar 17 Te6filo Braga, «Henriques Nogueira. Commemoração da Democracia Portugueza»,
mimeografado). A Era Nova, II anno, n.° 35, 1-III-1883, p. 1. . ,.
~sCf. Maãa Manuela Tavares Ribeiro, ob. cit., p. 171 e ss. 18 Paul Bénichou, Les Temps des Prophètes. Doctrmes de l Age Romantique, Paris, 1977
e Les Mages Romantiques, Paris, 1988.
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL AMEMÓRIADE48
Ora, se é certo que procurou gizar um modelo de sociedade que julgava
Jovem It~ilia de Mazzini em prol da emancipação italiana, a qual só ganhava realizável, ainda que não imediatamente, se é também verdade que o seu plano
sentido no contexto dos Estados Unidos da Europa, primeiro estádio da alme-
de reformas denota uma clara intenção de aportuguesamento das fontes inspi-
jada República Universal. radoras (apresentadas como soluções de validade universal), será contudo
Pode afu'rnar-se que, ao nível teórico, o problema federalista carreava os
errado afirmar, sem mais, que as suas obras são tributárias, por antecipação,
mesmos pressupostos que o problema político e a questão social. No fundo, do positivismo cientista que dominará o discurso republicano das décadas
tratava-se de encontrar uma solução conducente a uma relação harmoniosa seguintes. Só episodicamente é que Nogueira reivindicou o estatuto de ciência
entre as partes e o todo social, ou melhor, entre a unidade e a diversidade. para as suas propostas. O seu pensamento é animado por algo que tem ainda
E, como veremos, esse será também o escopo basilar da teoria da sociedade
muito a ver com a continuidade do iluminismo, mas agora mesclado com o
do republicanismo. Portanto, não surpreende que, como aconteceu com o des- romantismo da época. Isto é, na linha do espiritualismo romântico típico da
centralismo e com a universalização da propriedade, as concepções federalistas mentalidade de 48, sonhava com a adequação da filosofia (metafísica), da re-
de Nogueira tenham sido apresentadas como um dos principais contributos
ligião e da política: «Fazemos votos por que a filosofia, a religião e a política
para o pensamento democrático português, e que Teófilo tenha sublinhado a
se harmonizem», escrevia nos Estudos, «e por que o acordo desta trindade
prioridade do pensador português em relação a Proudhon e a Pi y Margall na
soberana seja levado pela convicção aos mais remotos confins da Terra. Oh!,
teorização do federalismo europeu e particularmente do federalismo latino19.
Como facilmente se compreende, a recepção de todas estas propostas seda quão venturosa será a condição do género humano quando todas as nações do
,universo adorarem a Deus, sob o mesmo mito, depurarem as suas crenças,
impossível se o republicanismo não perfflhasse uma análoga confiança na ideia
igualarem as suas leis e tornarem comuns os seus progressos de toda a
de progresso. Consequentemente, importa investigar em que medida é que
aceitou o modo como Nogueira a legitimava, pois só desta forma se poderá espécie!»21
responder ao problema central da ideologia republicana: saber qual foi o para- Como não ver neste desejo uma confissão de fundo deísta a servir de base
digma epistémico que, em última análise, a fundamentou e lhe conferiu credi- ao jusnaturalismo que subjaz à doutrina de Nogueira? «A natureza», escrevia
bilidade. Registemos, então, alguns dos juízos emitidos a este respeito. Para ele na mesma obra, «criou todos os homens de idêntico modo, e deu a todos um
Teúfilo Braga, apesar das nefastas influências do meio, «José Félix Henriques certo número -- igual -- de necessidades, com incontestável -- e igual --
Nogueira nâo recebem uma educação metafísica, e em contacto com essa direito a serem satisfeitas. A razão não faz mais do que santificar este facto
deplorável sociedade portuguesa que sofreu as tropelias cabralinas durante seis para o aperfeiçoamento da nossa espécie»>22 Por isso, as tarefas divinas plas-
anos e as perfídias do paço .... tirou um salutar critério de positividade que o mavam-se na tendência universalista e perfectível que só o homem realizará,
conduziu às mais justas doutrinas»20. Este diagnóstico é concorde com o de realizando a sua essência. E esta pode ser consignada no ideal de Liberdade,
outros apologistas de Nogueira (Manuel Emídio Garcia, Manuel de Arriaga, Igualdade e Fraternidade da Revolução Francesa, princípios que, ao emanci-
Silva Lisboa, Júlio de Matos, Consiglieri Pedroso) e baseava-se neste juízo de parem os homens, objectivam Deus, pois são emanações da religião do
valor: a sua superioridade sobre os escritores contemporâneos de igual orien- Evangelho -- lei das leis, código imortal dos direitos humanos23. Quer isto
tação derivou do facto de se ter libertado dos preconceitos metafísicos; o que significar que, apesar das profissões de fé na ciência, o ideário de Nogueira
lhe permitiu «um adiantarnento sobre a ciência política do seu tempo». Será espelha o clima romântico da época, que esta frase sintetiza: «Si tout espoir
isto verdade, ou, ao invés, estaremos perante uma projecção em que a identi- de réaliser l'utopie ici-bas constitue dans l'occident chrétien, jusqu'ì un cer-
dade de interesses sociais surge justificada (e encoberta) pelo paradigma que tain degré, une laicisation et une sécularisation des valeurs du paradis -- disons
legitimava a verdade do republicanismo dos anos 80? Com efeito, ao vincar a plutôt du Royaume -- en 1848 un tel emprunt au christianisme est explicite.»:4
cienthícidade da obra do publicista de Torres Vedras, os ideólogos do movi- De facto, esta explicitação é claramente formulada por Henriques Nogueira.
mento republicano tinham um objectivo bem preciso: demarcar o seu projecto Só assim se compreende que, ao qualificar o sentido da gesta criadora de uma
do revolucionarismo voluntadsta, propósito que, em termos epistémicos, signi-
«época nova», use uma linguagem de directa conotação b~lica: «Colocada
ficava contrapor a razão ao sentimento, ou melhor, a ciência à utopia. Com sobre esta dúplice base dos melhoramentos materiais e morais a bandeira gene-
isto, Nogueira servia de mediador crítico às insuficiências do romantismo
rosa, forte e empreendedora da democracia, então podeis repousar, ó benfa-
subjectivista de 48 e simultaneamente era evocado como um antecipador do
único critério gnosiológico capaz de apreender a realidade e de iluminar vito-
riosamente a acção: a ciência social. 21José Félix Henriques Nogueira, ob. cit., pp. 149-50.
22 Idem, ibidem, p 11.
231dem, ibidem, pp. 13-14.
~9 Sobre este ideal, leia-se Femando Catroga, Nacionalismo e Ecumenismo. A «Questão 24 Frank Paul Bowman, Le Christ Romantique, P. 136. Para uma visão global das rela-
ções entre o romantismo e as expectativas políticas, veja-se Romantisme et Politique.
lb~c~ na Segunda Metade do Século xIx, pp. 419-63. 1815-1851. Colloque de l'École Normal Superieure de Saint-Claude (1966), Paris, 1969,
2°Terfilo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, p. 114. pp. 62-72, 164-82, 212-64.
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL

zejos guias dos destinos da humanidade, porque o vosso sétimo dia terá che- AMEMÓRIADE48
meiro passo para todas as «nações do universo adorarem a Deus, sob o mesmo
gado!»~-~ A democracia, a concreção histórica da essência do homem, é tam-
mito, depurarem as suas crenças, igualarem as suas leis e tornarem comuns
bém o cumprimento terreno do paraíso prometido na escatologia evangélica.
os seus progressos de toda a espécie!»29
O optimismo iluminista recebe uma sobredeterminação romântica segundo a
qual a revolução, ao acentuar, na tríade, a aspiração à Igualdade será a objec- Dir-se-ia que o itinerário do homem para a reconciliação consigo mesmo
ãvação histórica e secularizada da mensagem última de Cristo. Isto é, «tout le passava pela tolerância e por um consenso à volta de Deus feito humanidade.
socialisme mystique, tous les rêves de 1848, sont fondés sur une eschatologie E, como isso só seta possível com a emancipação política e social das classes
mais numerosas, a chegada do «mundo novo», sendo o dia da justiça suprema,
réalisée, sur l'idée que le Royaume peut être établi ici-bas, qu'on peut le
connaBre sur cette terre»26. E é isso mesmo que, citando Mazzini, Henriques teria de ser também o dia do juízo final para todos os opressores: «A Europa
Nogueira lembra aos católicos ultramontanos: «O socialismo, mais aspiração um dia, dia de justiça universal, dia de juízo para os tiranos, há-de corresponder
do que sistema, não pretende outra coisa senão substituir à anarquia desen- às esperanças e aos clamores dos povos oprmidos. Ela há-de estender a mão
amiga à pobre Itália, à triste Polónia, à infeliz Hungria. Os povos que primeiro
freada dos direitos e dos privilégios individuais, que estão hoje em luta, a
associação progressiva, consequência prática da fraternidade ensinada por recuperarem a liberdade hão-de ser, por uma missão providenciai, os inicia-
Cristo.»:7 dores, os apóstolos, os auxiliares eficazes daqueles que houverem de segui-los
Como se vê, estamos longe dos anátemas voltaidanos ou sequer da mera nesse movimento necessário e irresistível. Ao pacto egoísta e anti-humanitário
redução de Cristo à mitologia sans-cullote da Revolução Francesa. Nogueira dos reis tem de suceder no futuro a aliança fraternal e civilizadora dos povos.»30
recebeu a lição de Lamennais, de Buchez e do próprio Mazzini. Logo, pugnou A perfectibilidade humana exprimia-se, assim, num profetismo social
pela aliança do cristianismo com a democracia, pacto que se julgou selado, secularizador da esperança cristã. Em consequência, só uma leitura preconcei-
em França, nos primeiros meses do ano de 1848. No fundo, acreditava que a tuosa poderá interpretar em termos exclusivamente cientistas e antiutópicos o
religião poderia desempenhar uma função emancipadora desde que se liber- ideário de Nogueira. A secularização da escatologia cristã, a par da nostalgia da
tasse das suas tradições ultramontanas e constantinistas e fosse fiel à men- mítica idade de ouro, está na base da utopia moderna. Ora, em Nogueira, esta
sagem evangélica. E é esta crença que ele ecoa ao assinalar a importância que dimensão não só está subentendida no seu projecto reformista, como é afir-
o catolicismo (democratizado) poderia desempenhar na morigeração da Pátria mada de um modo explícito e inequívoco. A história, e dentro desta Portugal,
(e da humanidade); o que passava pela crítica ao ultramontanismo e pela apontava para um fim imanente: a reconciliação dos indivíduos e dos povos
defesa de uma Igreja nacional. De facto, perfilhando ideais próximos de numa sociedade universal, pacífica e perfeita. Por outras palavras: se a utopia
Herculano e de Amónio Feliciano de Castilho, e idealizando a harmoniosa não é o que nunca existirá, mas o que ainda não existe, é sem dúvida utó-
sociedade rural com que sonhava, defendeu que os padres, se se tornassem pico quem escreve: «Próxima ou distante, quem o sabe, essa época tem de
receptivos à evolução dos tempos e compreendessem que a luta política chegar. A realização da harmonia universal entre as nações e os indivíduos será
pela democracia era tão-só uma das facetas do combate pelo aperfeiçoamento a volta à idade de oiro dos poetas, o apogeu da felicidade cá na Terra -- a
do homem, refina utilíssimos aliados do movimento democrático. Em re- última conquista da ideia democrática.»3~
sumo: desde que pagos pelo município, educados fora dos seminários, inse- À luz do que ficou exposto, julgamos ter demostrado que o pensamento do
ridos na comunidade dos seus paroquianos, o seu magistério seda socialmente autor dos Estudos -- aliás, como o de outros escrtores da época -- é irredu-
benéfico~. tível a categorias puramente cientistas. É que ele viveu num tempo em que a
Significa esta valorização do catolicismo reformado uma confissão de teor sacralização da epopeia dos povos -- a humanidade objectivadora de Deus
religioso-metafísico? Não o cremos. O horizonte da religiosidade de Nogueira se fazia explicitamente mediante a invocação da gesta cristã. Não admira.
situou-se nos limites do deísmo e na aceitação da religião natural que tinha Ainda não se selara a ruptura entre o catolicismo e o progresso, pois estava
nos Evangelhos a sua expressão histórica e social suprema. Isto é, pensamos para vir, nos países católicos, o debate decisivo do ultramontanismo contra as
que se pautou pelo deísmo maçónico -- não foi por acaso que o frontispício ideias demoliberais, republicanas e socialistas. Isto é, vivia-se a mais de dez
da primeira edição dos Estudos sobre a Reforma em Portugal e do Almanach anos do Syllabus (1864) e a vinte anos de distância do concflio do Vaticano,
Democratico apresentam os principais signos maçónicos -- e fez seu o pro- e a questão italiana começava então a dar os seus primeiros passos, pelo que
jecto de Mazzini, que apontava para a realização de um concílio universal, pri-
não é de admirar que muitos católicos formados na tradição regalista e com
algumas preocupações sociais não vissem qualquer contradição entre a fé e a
ciência, a religião e a democracia. O contrário também era verdadeiro. Muitos
a,lor, é Félix Henriques Nogueira, ob. cit., pp. 201-202.
" Frank Paul Bowman, ob. cit., p. 134.
z~ in José Félix Henriques Nogueira, ob. cit., pp. 226-27.
29 Idem, ibidem, p. 150.
"Idem,/b/dera, p. 143 e ss.
~°ldem, «L. Kossuth», Obra Completa, rol. I, Lisboa, 1976, p. 196.
31 Idem, Estudos sobre a Reforma em Portugal, p. 8.
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
A MEMÓRIA DE 48

democratas e socialistas pensavam ser possível compatibilizar a Igreja com educativa, religiosa), pelo que a sua recuperação foi também um acto que pre-
os tempos modernos. A religião, desde que liberta da sua administração ultra- tendeu legitimar o que a geração posterior pensou ser o seu próprio contributo
montana e vivida de acordo com o espírito evangélico, indicaria caminhos e a sua própria diferença. Contra o subjectivismo das décadas anteriores, fez
acreditar que o movimento republicano camínhava para a vitória porque as suas
coincidentes com os da filosofia e da ciência modernas. Ora, como se sabe, a propostas tinham uma base científica. A fé em Deus, ou a fé no homem divini-
atitude da ideologia republicana das dócadas posteriores tenderá a ser crítica
zado, deu lugar à única crença que se ajustada à evolução histórica do espí-
em relação a este optimismo conciliador.
Será assim interessante assinalar alguns silêncios e algumas justificações rito: a ciência. No entanto, apesar da reiteração constante desse estatuto, há
que os ideólogos do movimento fizeram de certos vectores do pensamento ainda lugar para saber se, afinal, esse cientismo antimetaffsico não pressu-
punha uma raiz espiritualista e utópica, e para indagar se a sua militãncia, em
de Nogueira. E na única apreciação que conhecemos, em que o fundo reli-
gioso do seu reformismo social é directamente sublinhado, tal articulação é últimas instâncias, não se limitou a dar continuidade a algumas teses do ilu-
caracterizada como um «pecado» só desculpável à luz da justeza de outras minismo, caldeadas com o romantismo moral dos meados do século XlX.
ideias suas. Como escreveu Silva Lisboa, apesar das suas valiosas intuições
cienu'ficas, Henriques Nogueira, «orientado, bon gré mal gré, no espiritua-
lismo sentimental do seu tempo, não compreendeu que a ideia religiosa
deixou de ser perante a razão filosófica uma necessidade social; que não há
conveniência alguma em intrometer o Absoluto na existência das socie-
dades, em que tudo é, e deve ser, relativo; e que nas fundações do futuro, a
ciência se resolveu enfim a tomar essa muralha impenetrável»32. A desco-
berta desta diferença teria pertencido à geração republicana posterior a
Nogueira, formada segundo os cânones de um saber que acreditava na trans-
parência cientffica das leis da sociedade, ao mesmo tempo que considerava
anacrónicas todas as explicações do mundo e da vida de índole religiosa ou
metafísica.
Seja como for, é um facto evidente que a recuperação do seu ideário foi
com_andada pelo preconceito epistémico que serviu de base à legitimação ra-
cional do projecto republicano: as suas ideias de reforma tinham actualidade
por antmciarem soluções que a nova ciência social estaria a confirmar. Assim
rendo, a projec.ção cientista escondia os interesses que ditavam esta filiação,
vestindo-os com uma nova ganga discursiva cuja desmontagem impõe que se
responda a várias questões que, por ora, deixamos em suspenso: indagar como
é que o paradigma cientista tomou o lugar do tradicional referente de inspi-
ração religiosa ou jusracionalista; saber se isso constituiu uma efectiva ruptura
em relação às ideias já anteriormente defendidas, ou se não passou de um
«ajomamento» necessitado pela deslocação da credibilidade paradigmática;
inquirir ainda se, nesta transmutação, a ciência «matou» a utopia, ou se, ao
contrário, fez reviver as mesmas ilusões com outros argumentos; conhecer, por
fim, como é que o cientismo conferiu coerência interna à visão do mundo e
aos comportamentos que o movimento republicano considerava adequados à
emancipação humana.
Como já se escreveu, tudo isto exige o entendimento do republicanismo
como uma mundividência e não como uma mera teoria social ou como uma
simples proposta de mudança de regime. E, embora se possa encontrar algo
mais do que este último aspecto no ideário de Nogueira, não temos dúvidas
de que este pouco ultrapassou a esfera do político e do parapolítico (reforma

32 Anlfiaio Policarpo da Silva Lisboa, ob. cit., p. 1 6.

118
CAPITULO 2

A VISÃO REPUBLICANA
D A H I S T Ó R I A E D A N AT U R E Z A

Encarnação política de uma revolução cultural, eis uma fórmula que, a


nosso ver, pode sintetizar o republicanismo das últimas três décadas do sé-
culo xIx e dos princípios do século xx. Espdcie de messianismo simbolizado
por uma ideia-força, possuía a vis épica característica dos grandes movimentos
sociais de vocação redentora. E sendo uma opção ditada por uma visão opti-
mista do mundo, o advento da República era sentido como uma consequência
inexorável de um destino inscrito na própria evolução cósmica. Logo, ser repu-
blicano significava lutar por um novo regime e aderir a um ideário não só polí-
fico, mas também social e espiritual. Isto é, como o seu émulo francês deste
períodoS, o republicanismo foi um projecto político e uma mundividência.
Compreende-se, assim, que a concretização da República aparecesse como
uma promessa de entrada no reino da objectivação integral do tempo, pois,
com ela, isto é, com a queda da Monarquia, abrir-se-iam as portas que conduzi-
fiam ao reencontro definitivo da ordem social com a essência do pr6prio homem.
Por outras palavras: o republicanismo, apesar das suas divergências internas e da
especifícidade do pensamento de alguns dos seus intelectuais -- o caso de Bruno
é exemplar --, alicerçou-se, desde cedo, nesta crença comum: a República viria
ao mundo para concretizar a tendência diacrónica da sociedade, pelo que, longe
de pretender ser o começo de uma ruptura, quis afmnar-se como a verdadeira
concretização do nosso passado histórico. Era, em suma, um historicismo assente
numa concepção evolutiva do tempo. E como essa evolução carreava, como
imperativo, a realização da natureza individual e colecãva do homem, defmiu-se
igualmente como um humanismo de dimensão sociabilitária e ecuménica.

O HISTORICISMO REPUBLICANO

De facto, foi a partir da história que os republicanos justificaram a missão


social de que se encontrariam investidos. Aposar de a democracia ser apresen-

, " .186.
" enFrance.Essat.dHtstowe
JClaude Nicolet, L 'Idée Republicame . . . Cntul
. . UeParis,1982,p
121
A VIS~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

roda como uma cons~uência política da essência humana, ela seda também pela hegemonia do paradigma epistemológico que, a partir dos meados do
século xIx, na Europa, começou a ser aceite como o único capaz de a justi-
o estádio supremo em que esta coincidiria tanto com a sua natureza, corno com
a sua própria história. Era, como amiúde escrevia Manuel Emídio Garcia, uma ficar: a ciência e, em particular, a ciência social.
Por conseguinte, não admira que as filosofias da história tenham sido int¢r-
exigência «natural e histórica». Por isso, na linha do jusnaturalismo setecen-
rista e do iluminismo em geral, conceberam o tempo anterior à irrupção das pretadas como esboços metafísicos de um devir que a sociologia estaria a cien-
tificar. Se Vico ritmava a gesta humana em termos ainda dramáticos (a su-
grandes r¢voluções libertadoras -- sobretudo as revoluções americana e fran-
cesa -- como uma longa fase preparatória, na qual a humanidade tecla per- cessão dos corsi e ricorsi), se o idealismo alemão indicava a inexorável
corrido, espontaneamente e em crescendo, o caminho da definitiva positifi- objectivação da racionalidade da história numa perspectiva estatista e numa
cação do seu destino. A carta de alforria deste percurso encontrava-se linguagem metafísica pouco adequada às características da cultura portuguesa
objecfivada nas Declaraçõ¢s dos Direitos do Homem, em particular na de 1793, e às necessidades teoréticas de um movimento democrático, a filosofia de
e tinha na uíade Liberdade, Igualdade e Fraternidade a sua síntese. E, como Comte, com os seus complementos heterodoxos e eclécticos (estes de origem
só o ideal republicano a poderia traduzir em factos, a República surgia, por- materialista), vinha ao encontro dos interesses ideológicos de uma corrente que
tanto, como o fim do sentido universal da história. queria contrapor ao pessimismo religioso, metafísico e social (muito em voga
Significa isto que, independentemente das várias modalidades de funda- nas últimas décadas de Oitocentos) uma visão laica e prometeica da vidaS.
menmção (a dondnante das quais foi, sem dúvida, o evolucionismo naturalista), Fosse através da lei dos três estados de Comte, ou mediante o seu acasa-
o republicanismo se baseou numa concepção evolucionista, ou melhor, foi, a lamento com o princípio spenceriano da evolução (a matéria, como a hist6ria,
seu modo, um historicismo que, herdeiro da tradição iluminista (Condorcet), evoluiriam da máxima homogeneidade para a máxima heterogeneidade ), fosse
entendeu o tempo numa perspectiva cumulativa, linear e irreversível, fazendo em nome da entificação metafísica da diacronia do «espírito humano», ou
da perfecabilidade humana e da ideia de progresso2 os seus verdadeiros su- ainda através de formas mitigadas de periodização (como a proudhoniana
portes. Isto é, a história teria ínsita uma «tendência instintiva e irresistível para «época da autoridade»/«época da liberdade»), os republicanos interpretaram a
~.O progresso»3. epopeia da humanidade (e de Portugal, no seu seio) como um devir portador
Perante esta atitude em relação ao passado, não surpreende o tom selectivo de sentido. O tempo aparecia-lhes como uma sucessão de estádios em que o
que encontramos na interpretação deste e a explícita recuperação de todos os passado funcionava como um momento necessário à gestação do futuro. Mas,
momentos históricos que pudessem ser apresentados como antecipadores do como a República semeava a promessa de presentificação (e positificação)
ideário republicano. Foi assim que, apesar de algumas críticas de índole filosó- desse sentido, era à luz imperativa do seu advento que o devir teria de ser equa-
fica, aprenderam com Rousseau e com Kant o valor da delegação do poder, cionado. Logo, o passado era filtrado pelos interesses do presente, a história
conquanto receassem que esta conduzisse ao abastardamento da democracia; vista como antecâmara da revolução, e a República como a «definitiva* revo-
os enciciopedistas ensinaram-lhes o papel emancipador da razão científica e lução, ou seja, como a única e última fórmula capaz de cumprir a essência per-
a importância do derramamento das «Luzes», e Condorcet e Turgot indi- fectível do homem.
caram-lhes o ritmo e o sentido épico do transcurso da humanidade em direcção O universalismo consUtuiu, de facto, uma nota essencial da sua interpre-
à irreversível perfeição do homem na Terra, revelando a umbilical ligação que tação da história (tanto Teófilo Braga como Consiglieri Pedroso tentaram
existia entre os direitos naturais e a ideia de historicidade. Compreenderam, escrever «histórias universais»). Todavia, como teorizaram numa época em
ainda segundo a lição, que procuraram actualizar, do século XVllI, que a eman- que -- devido à influência do nacionalismo romântico e aos ecos das lutas pela
cipação moral, intelectual, política e social exigia a libertação da opressão reli- emancipação ou unidade nacionais (Polónia, Irlanda, Itália) -- tiveram de en-
giosa. Daí que, como os seus mestres, tenham sido deístas, agnósticos ou contrar uma resposta que explicasse as concretudes dessa tendência perfecti-
declaradamente ateus4, e estivessem convencidos de que o perfectibilismo só
bilista, não espanta que o republicanismo (como já se viu em relação a Hen-
se concretizaria se a divinização do homem, ou, por outras palavras, se a riques Nogueira) tivesse caldeado o seu iluminismo universalista com as
«sacralização» do ideal humanista substituísse o transcendentismo religioso.
particularidades românticas e nacionalistas, corrigindo, deste modo, os exa-
Mas importa ainda salientar que toda esta herança cultural aparecia mediada
geros do cosmopolitismo recebido do século anterior.
Na verdade, o movimento pretendeu recuperar e democratizar a tradição
: Teixeira Bastos, Progressos do Espirito Humano. Conferencia realizada em Thomar, liberal portuguesa e, em simultâneo, doutrinar as camadas sociais mais sen-
em 26 de Agosto de 1879, por Iniciativa da Redacção da «Emancipação», Lisboa, síveis ao sentimento nacional fomentado durante todo o século xax e, em par-
1879. ticular, nas suas últimas décadas. E não o fez por razões meramente tácticas,
Mmauel Emidio Garcia, «Politiea Externa~, O Partido do Povo, I mano, n.o 1, Fevereiro, pois essa característica era uma das jusãficações essenciais da autonomia do seu
1878, p. 1.
4 Cf. Fernmado Catroga, A Militãncia Laica e a Descristianização da Morte em Portugal
(1865-1911), rol. 1, p. 577 e ss.
s Idem, ibidem, p. 658 e ss.
A VlSAO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUllU~~
O REPI.rBIJCANISMO EM IR")R"I~IGAL

Em suma: a Nação era primeiramente jusUficada a partir da especifictdade his-


pmjecto em relação às demais forças políticas. Sabemos que, já em José Félix tórica e cultural de um povo, embora, com a influ~ncia do po~tUvismo e do
Henriques Nogueira. a dimensão ecuménica ~ traduzida em termos federa-
darwinismo social, a essas características ~ tenham juntsdo ~ como faz
lista~ ~ não subsumia a especificidade da Nação portuguesa. Era com esta
Teófilo Braga já nos inícios da década de 70 ~ argumentos de inlpitaçto
mediação romtntica que a implantação da República em Portugal aparecia não
étnica9. Com isso, ecoaram alguns dos paradigmas dominantes na interlm:.
s6 como uma necessidade imposta pela evolução humana, mas como uma exi- ração do fenómeno, tendência que, nos casos mais exagerados (Gumplowtcz.
g6ncia inferida da maneira de ser da sociedade portuguesa. Isto é, o republica-
Vacher, Lapouge, Jules Soury, Barr~s, Maurras), levari i iegiÚmaçio de dou-
nismo apresentava-se com o prop6sito de realizar o finalismo que, desde as
trinas racistas e direitistasJ0 e à justificação (David Strauss) de alguns expan-
suas origens, estaria inscrito na desenvolução da história pátria. Daí que, como
os historicistas alemães (Savigny). os historiadores franceses çI'hierry, Guizot), sionismos (o caso do pangermanismo)H. Entre n6s, o integraliimo não deixart
de apontar para o papel precursor que alguns ide61ogos republicanos terio
o romanÜsmo posiÜ~ista de Coreto, mas, sobretudo, no seguimento da lição de desempenhado na fundamentação do cariz historicista e rácico do naciona-
Alexandre Herculano. republicanizada por Henriques Nogueira, tenham enal-
lismo português (recordem-se, em particular, os elogios iniciais de Ant6nio
tecido a Idade Média. É certo que. na esteira do iluminismo, viarn-na como a
,,-¿poo das trevas». Mas. como os românticos, valorizaram-lhe o espírito auto- Sardinha ao nacionalismo de Teófilo Braga)t2.
nomista e pretensamente democrático (cortes, comunas) e, embora discordas- Ora, se se analisar com profundidade o modo como o republicanismo por.
tuguês assimilou a lição darwinista a partir daquele periodo, perceber-se-i que
sem do seu conteúdo, não deixaram de admirar a síntese que se teria conseguido
entre a ordem temporal e a mundividência então dominante6. E, como foi nessa a aceitação da luta pela vida e da selecção natural aparecia confinada à natu-
¿ixw.a que Portugal teria nascido como nação, sugeriam que tais conquistas, reza e à dimensão natural da sociedade, cabendo à hist6ria, ou melhor, à cul-
tura, integrar essa legalidade cega e amoral na ética do altruismo e da solida-
ainda que subalternizadas e esquecidas em fases posteriores, nomeadamente
durante o absoluÜsmo, tinham marcado para sempre a história lusa. riedade (a este respeito pensamos que as posicões de Bemardino Machadot~
Independentemente das objecções de Te6filo a Herculano, é indiscutível de Miguel Bombarda14 ou de Afonso Costa~5 em relação ao darwmtsmò
que todos os ide61ogos do movimento, seguindo o exemplo de Henriques são exemplares). Em conclusão: para os doutrinadores mais influentes do
Nogueira. se apropriaram da lição do historiador -- como a influência repu- movimento, o darwinismo, na sociedade, seda «domesticado» pelo progresso
blicana no centenário do seu nascimento (1910) o demonstra7 -- e projectaram espiritual; e, consequentemente, a nota nacionalista dentro do seu discursa
no berço da nacionalidade (nas origens) o gérmen do modelo de sociedade que pouco tem a ver com as teses do nacionalismo radical. De facto, se compul-
pmpugnavam para o presente. Por isso, apesar do seu ordenamento econó- sarmos os textos dos seus principais ideólogos (Magalhães Lima, Manuel de
mico-social e do peso da religião, a Idade Média aparecia-lhes como o Arriaga, Teófilo Braga, Rodrigues de Freiras, Teixeira Bastos, Em/dio Garcia,
~to primordial na estigmatização do destino da aventura portuguesa no Alves da Veiga), tira-se imediatamente esta conclusão essencial: o seu nacio-
mundo. E a acentuaçâo da míáca essência democrática desse período, logo nalismo, que se foi acentuando depois do centenário de Cam0es e do Ulti-
recalcada, mas reassumida sempre que a independência esteve em perigo matum, não negava a tendência universalista da evolução da humanidade.
(revolução de ! 383, Restauração, invasões estrangeiras), servia para o republi- De facto, mesmo na fase em que o federalismo foi interpretado em tenm~
canismo se apresentar como a actualização contemporânea desse destino. Por- exagerados, os nossos republicanos sempre reivindicaram a dimensão ¿maca e
tanto, longe de ser, como acusavam os conservadores monárquicos e os ultra- autónoma da Nação portuguesa, mas, por outro lado, jamais defenderam a sua
montanos, uma proposta inexequível, porque jacobina e «estrangeirada», a auto-suficiência cultural e política. E, apesar de, com o tempo, o federalhmo
Rep6blica seria a expressão temünal de uma promessa genuinamente portu-
guesa. Nesta perspectiva, o movimento, contra os tradicionalismos monár-
9 Teófilo Braga, Os Criticos da Historia da Literatura Portugaeza. Exame &a A~ir-
quico-liberal e iegitimista, defendeu um novo ãpo de nacionalismo adequado
i justificação de um programa social menos conservadora. mações dos Srs. Oliveira Martins, Antero de Quental e Pinheiro Chagas, Porto, 1872.
~o Cf. Claude Nicolet, ob. cit., p. 304 e ss; Wemer Stark, Darw/n/sm anal the Smdy of
Society, Londres, 1961.
H Para o caso alemão, veja-se Daniel Gusman, The Scienlific Origilu of Natioaat
~A recuperação exemplar deste passado pode ser encontrada em Te6filo Braga, Historia Socialism. Social Darwinism in Ernst Haeckei and the German Monia Leagtte, I.xawln~,
dm idems Repubiwaaas em Porlugal, pa~sim.
1971.
Para se ilustrar esta aprolmação, veja-se, entre outros, o volume Academia das Ci~n- ~2 António Sardinha, «Theofhilo Braga, Mestre da Contra-Revoluçlo,,, A Nação Porm-
ctaA. Cenleflario do Nasctmenlo de Alexandre Herculano. Discursos Pronunciados na Ses-
gueza, 1., série, n.« 1, 2 e 3, I anho, 1914, pp. 7-15, 38-52 e 92-100.
safa, Solene de 28 de Marro de 1910. Lisboa, 1910, e "ainda O Occidente, vol. 33, 10-V-1910, t3 Bemardino Machado, A Educafdo (Notas d'Um Paej. 2? ed., Coimbra. 1899, p~ 153.
p 751Dmn, de Noticias, XL! armo. n." 15 966, 27-IV-1910, p. l; n.o 15 967, 28-1V-1910, 14 Miguel Bombarda «[Prefacio]», in Ladislau Baudlut, O Negativismo. Viagem Aven-
p. lç n.' 15968.29-1V-1910, pp. 1-2. turosa nas Regiões do Ideal com Uma Apreciafdo Sinletica pelo Professor Mig~l Bom-
Fernando Catroga. Nacionalismo e Ecumenismo. A «Questão Ibérica» na Segunda barda, Lisboa, 1908, p. I I.
Melado do Secuio XlX. cit. *~ Afonso Costa, ob. cit., p. 191.

125
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A VISA, O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA

interno se ter diluído numa proposta essencialmente descentralista, dentro de Regeneração tornaram urgente, sobretudo com o sucesso da Iii República fran-
um Estado unitário, e de, a nível externo, ter diminuído a crença na sua viabi- cesa, que essa missão redentora fosse retomada. De certa maneira, tal como
lidade prática a curto ou a médio prazo, é um facto que, para a grande maioria esta última pretendia completar a Grande Revolução, também os republicanos
dos intelectuais do movimento, essa solução, enquanto meta, continuou a ser portugueses se propunham consumar a vocação democrática da Nação já
a única que permitiria salvaguardar as autonomias nacionais dentro das exi- potenciada desde a Idade Média, e que brotou com força em 1820, momento
gências de correlacionamento internacional derivadas do estádio evolutivo da que, «além de ter sido um grandioso movimento democr,~tico, foi uma clara e
humanidade. Relembre-se que, ainda em 1893, na cidade de Badajoz, se reu- decisiva manifestação das tradicionais aspiraçõ¢s republicanas do povo por-
niram os mais influentes republicanos de Portugal e de Espanha em jornada tuguês» ~8.
de inequívoco significado federalista. Embora o federalismo tivesse, sobre- Isto mostra que, se, ao nível do discurso, falaram muito em «revolução».
tudo. o valor de uma aspiração quase utópica, a sua presença, ao nível do dis- os republicanos não propugnavam por uma ruptura, antes se proclamavam legí-
curso, não deixava de indiciar a consciência de que, na segunda metade do timos herdeiros das tradições mais progressistas da nossa história. Sendo evo-
século xtx, um movimento demoliberal não se podia esgotar nas fronteiras de lucionistas, pretendiam, à boa maneira positivista, garantir o máximo pro-
um nacionalismo estreito. Por isso, como românticos serôdios, mas imbufdos gresso, democratizando as premissas da própria revolução liberal. É deste
de um certo intemacionalismo iluminista e de influências correctoras dos ex- modo natural que os vários programas do movimento não pugnassem por alte-
cessos nacionalistas (Proudhon, Vacherot, Tocqueville, Pi y Margall, Henriques rações radicais nas estruturas nascidas das revoluções industriais e das revo-
Nogueira). podiam escrever: «Somos solidários uns com os outros. Solidários luções políticas de inspiração demoliberal. No entanto, com esta leitura da his-
todos os homens de uma mesma nação. Solidárias igualmente as nações que tória, procuravam mostrar que a Monarquia constitucional tinha traído a sua
formam uma só e grande farmlia -- o mundo civilizado, a humanidade. A era herança progressista e que só o homem republicano, com a sua «virtude»
pacífica só poderá ser definitivamente inaugurada pela prática do federa- (Rousseau, Robespierre) e vis revolucionárias, se poderia votar, em plenitude,
lismo.»'o É assim perfinente concluir que o republicanismo, na sua fase de à luta pela felicidade. Daí que, em termos portugueses, se considerassem os
propaganda, inspirou um nacionalismo de inserção ecuménica e humanista, ou legítimos continuadores dos combatentes contra o despotismo e o obscuran.
melhor, viu na Nação, especificada por condições étnicas, mesológicas e cul- tismo, apossando-se, assim, também de um passado recente, que o regime
turais, a expressão concreta e diferenciada de um processo histórico de di- monárquico, pela sua orientação conservadora, já não estada muito interessado
mensão internacional e que, tendencialmente, pode ser sintetizado por este per- em invocar.
curso gradaãvo: Nação, Federação Ibérica, Federação Latina, Estados Unidos Esta recuperação do vintismo e do setembrismo ganhou grande ênfase na
da Europa, República Universal. década de 80, isto é, na conjuntura em que o movimento procurava estru-
Basta ler a obra de TeXifilo Braga História das Ideias Republicanas em Por-
turar-se ideológica e organicamente, e em que recebeu significativas traduções
tugal (1880) para que a índole ecuménica e nacionalista do seu historicismo
simbólicas exemplarmente expressas na romagem cívica que, em 1884, pro-
emerja com evidência. Desde a Idade Média até ao século xIx, a história de
moveu ao túmulo do patriarca da revolução liberal (Manuel Fernandes
Portugal é interpretada com o fito de se mostrar que o republicanismo cons-
Tomás)19 e nOS nomes (e datas) que os activistas escolheram para baptizarem
tituía a melhor tradução nacional da dimensão universal que nela se objec-
tivava. Em consequência, o seu percurso irreversível não foi visto como o várias associações e clubes republicanos que iam criando: Associação Escolar
Fernandes Tomás, Clube José Liberato Freire de Carvalho, Clube Borges
produto da acção de reis ou de «grandes homens» -- meros sintetizadores do
Carneiro, Clube Gomes Freire de Andrade, Clube Escolar Democrático 15 de
«carácter nacional»J7 __ mas surge ditado pela vontade colectiva de um su-
jeito chamado «povo português». Na luta contra os mouros, em 1383, nos Setembro de 1820, Associação Joaquim António de Aguiar, Clube José
Descobrimentos, na Restauração, nas invasões francesas, esse sujeito omni- Estêvão, Clube Passos Manuel2°.
presente e a-histórico irrompeu para afirmar o direito de ser senhor do seu
próprio desãno. E, em 1820, depois com a derrota do absolutismo, pareciam
estar reunidas as condições para que essa apropriação se tornasse definitiva. Jg Manuel Emídio Garcia, «Homenagem», A Era Nova, m armo, n.° 263, 24-vIII- 1884, p 2.
Mas o fracasso do setembrismo, o insucesso da Patuleia, a falência dos propó- 19 Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Pormgal

sitos reformistas de 48 e a imposição de um modelo conservador com a (1865-1911), vol. 2, pp. 937-38.
2o Sintomaticamente, esta prática foi rareando nas décadas seguintes, sendo a glorifi-
cação dos «heróis» da revolução liberal completada pela consagração dos pr6príos dirigentes
republicanos, já que, ao entrarmos no século XX. muitos dos centros e associações então
'* Sebastião de Magalhães Lima, O Ideal Moderno. O Federalismo, Lisboa, 1898, constituídos foram baptizados com os seus nomes: Centro Escolar Republicano Capitão
pp. 63-64. Leitão (herói do 31 de Janeiro), Centro Eleitorial Democrático Elias Garcia. Centro
,7 Teófilo Braga, Os Centenarios como Synthese Affectiva nas Sociedades Modernas,
Eleitoral Dr. José Falcão, Centro Escolar Dr. Afonso Costa, Centro Escolar Republicano
Porto, 1894, p. 4. Dr. António José de Almeida, Centro Escolar Eleitoral Rodrigues de Freiras. Centro
Eleitoral Republicano Heliodoro Salgado, Centro Escolar Fernão Borro-Machado, etc.
12"I
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A VIS/~O REPUBLICANA DA HISTóRIA E DA NATUREZA

Com esta recuperação do (de um certo) passado, o republicanismo fixava-se N AT U R E Z A E L I B E R D A D E


num horizonte diacrúnico que não admitia verdadeiras rupturas. A novidade
que defendia significava igualmente a retoma de algo que só por razões exó- Ainda que nem sempre de um modo sistematizado, é indiscutfvel que o
genas (influência estrangeira, por exemplo), ou patológicas (a degenerescência evolucionismo, que, em última instância, justificava historicamente a
mental das fandlias dinásticas), tinha sofrido retrocessos ou bloqueamentos. República, se baseava numa cosmogonia oposta às concepções criacionistas
Por isso, foi, em última análise, uma actualização (cientista) das conclusões e providencialistas. Concebendo a génese do mundo em termos deístas, ou à
essenciais das filosofias da história de inspiração iluminista baseadas nas ideias luz de teses materialistas __ o que foi mais frequente a partir da década de
de perfectibilidade humana e de progresso, pelo que não será errado caracte- 70 do século xIx --, isto é, recorrendo ao panteísmo espinosiano, ao mate-
rizá-lo como um historicismo progressista e prometeico inscrito num cosmos rialismo enciclopedista e Principalmente às suas actuahz
ontologicamente auto-suficiente e em evolução. o s r e p u b l i c a n.o s o r e t a,.
e n~.u~~tc~tar
d e r . . . . . .a. .aoumna
.... " ações
cristã acerca cientistas23,
da origem e do
É que, bem vistas as coisas, o sentido progressista da evolução histórica sentido do universo. Em particular, 'foi no positivismo agnóstico de Comte,
mais não era do que a manifestação da inexistência de qualquer hiato ontoló- Littré, Spencer, Taine, Renan, Huxley, geralmente articulado com o experi-
gico entre a natureza, de certo modo «historicizada» com as descobertas de mentalismo de Claude Bernard, com o materialismo mecanicista de Büchner,
Lyell, Lamarck e Darwin, e a história. Por todos, julgamos que Teófilo Braga Moleschott, Vogt, e com o monismo naturalista de Haeckel e de seus dis-
definiu correctamente esta umbilicalidade ao escrever: «Se nos fenómenos cós- cípulos, que se inspiraram para representar o cosmos como uma totalidade
micos o seu encadeamento leva à noção filosófica da transformação, se nos espontaneamente evoluente, progredindo das formas primitivas do ser até
fenómenos biológicos essa transformação se acentua numa forma particula- à irrupção do homem e à emergência da sua capacidade racional para con-
rizada de evolução, nos fenómenos sociológicos essa evolução sem tipos defi- trolar cientificamente a sociedade» Como escrevia um dos mais activos propa-
nidos, e portanto de uma natureza ainda mais especial, é o que se chama o pro- gandistas da República nos inícios do século xx, «nada se cria, nada se perde,
gresso.»2~ Com efeito, sobretudo após o impacte do darwinismo, a ideia nada se [aniquila] absolutamente na natureza. Apenas se transforma. A Terra,
setecentista de progresso, nuclear na estrutura da mundividência republicana, primeiro, foi um floco desligado da nebulosa solar, tendo-se condensado pelo
foi integrada no evolucionismo e no transformismo que legitimavam a exis- resfriamento, revestiu-se de uma crosta, e começou então a sua existência pla-
tência de uma história natural que a própria história humana prolongava. netária. A energia da matéria sacudiu-o muitas vezes, rompendo-lhe a crosta,
Em conclusão: a República exigia que o sentido da existência individual até que por fim tornou a sua consistência definitiva, formando-se a seguir as
estivesse ligado ao destino de toda a humanidade; o que implicava uma apro- depressões oceânicas». E, justificando a continuidade ôntica entre as esferas
priaçâo racional não só da história, mas da própria natureza. Logo, para que «o do ser (incluindo o homem), acrescentava: «Foi então que, pelas fermenta-
novo ideal de Justiça» entrasse «nas leis, usos e costumes», era necessário que ções se formaram primeiro os vegetais, e depois os animais, começando por
se operasse «na nossa natureza bruta uma transfiguração», ou, mais concreta- certo pelos peixes ou pelos répteis. Por último, apareceram os animais cha-
mente, impunha-se a «metamorfose verdadeira do homem animal, no homem mados superiores: os mamíferos, o macaco antropóide e o tipo homoniano.
consciente; do animal cheio de egofsmo, e da força sob o império das leis darwi- Têm razão os que dizem ser o homem um macaco aperfeiçoado.»24 Assim
nistas, no homem representante da humanidade». Os meios conducentes a esse
sendo, o universo era apresentado como uma «gradação de complicação
estádio seriam a arte e sobretudo a ciência. E estas, melhor do que quaisquer
crescente», que ia desde «os seres inorgânicos até à mais cultivada célula
outras formas de conhecimento, mostravam que «nós mesmos, ao virmos ao
psíquica»25.
mundo, somos tirados de uma simples e única célula fecundada, quase imper-
Significa isto que a cosmologia que enraiza o republicanismo se estruturava
ceptível, para sabermos, desde a origem, que de um átomo imperceptível se tira
segundo os parâmetros da mundividência moderna26. Com efeito, o universo
a maior maravilha do universo, o corpo humano; e que, na sequência deste é definido em termos de completa imanência e surge animado por uma causa-
enorme triunfo-- nós todos caminhamos para outro que excede a todos os mais
lidade eficiente (mecânica) e determinística, de origem espontânea e de objec-
cem poder, brilho e glória, isto é, a maravilha do nosso ser moral, da nossa inte-
tivação evolutiva, a que, a partir de 1859, o enxerto darwinista deu o neces-
/gração na natureza e na humanidade»22. Nesta perspectiva, o estabelecimento sário complemento antropológico. Contrastava, assim, com a cosmologia
. de um novo regime político seria a tradução jurídico-constitucional de uma
i mundividência totalizante que apontava para a concretização da República
~ como uma exigência também ditada pela evolução do universo.
23Cf. Fernando Catroga, ob cit., vol. 1, p. 244 e ss.
24 Fernão Botto-Machado, A Queda do Monstro. Pela Emancipação da Mulher. Pela
2J Teúfilo Braga, Systema de Sociologia, Lisboa, 1884, p. 21. Liberdade de Consciencia, Lisboa, 1910, p. 16.
25 Miguel Bombarda, A Consciencia e o Livre Arbitrio, Lisboa, 1902, p. 56.
Manuel de Arriaga, Harmonias Sociaes. O Problema Humano e a Futura Organi-
zação Social (no Debute da Sua Fase Definitiva), Coimbra, 1907, pp. 326, 327. 26 Cf. Miguel Baptista Pereira, Modernidade e Tempo. Para Uma Leitura do Discurso
Moderno, Coimbra, 1989, p. 39 e ss.

128
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A VIS/~O REPUBLICANA DA HISTORIA E DA NATUREZA

antiga, que via o universo como um todo fechado e circular, internamente hie- que, com isso, se postulavam as condições epistémicas e õnticas necessárias h
rarquizado e movido por uma causalidade final que impelia cada corpo a cientificação da própria realidade social. O fundo naturalista desta antropologia
ocupar o lugar específico adequado à essência que lhe era própria27. pode ser sintetizado, exemplarmente, nesta poesia de Angelina Vidal»t:
De facto, na mundividência dominante no republicanismo, a matéria, carac-
terizada como movimento ou força, era o substrato universal e o fundamento «Se consulto os fenómenos geológicos,
ôntico do dinamismo cósmico. Relegavam-se, assim, para a esfera do incog- Se contemplo no céu as nebulosas,
noscível -- caso de Basflio Teles2s m, ou entendiam-se como proposições des- Se interrogo os segredos histológicos
timídas de significado todas as doutrinas que indagassem o porquê das coisas. E os restos das esferas luminosas;
Realidade substancial, logo auto-suficiente e sempre idêntica a si mesma
Vejo sempre matéria em traços lógicos,
(como o tinha mostrado Lavoisier e a lei da constância da força), a matéria No espaço, nas entranhas tenebrosas,
possuiria a plasticidade potencial para se ir desdobrando em movimentos rela- Com átomos subtis, embriol6gicos,
tivos, isto é, numa direcção sem telos, pois não dependia de qualquer vontade Tecendo maravilhas assombrosas.
transcendente, nem possuía qualquer princípio metafísico imanente a comandar
a sua evolução. Em suma, e como explicava Miguel Bombarda numa con- Transformação constante -- a causa eterna
ferência de propaganda republicana realizada em 1909, esta ontologia podia
Eis a lei que preside e que govema,
ser explicada por quatro leis fundamentais: a de Lavoisier (na natureza nada
O facto que destrói a escura fé.
se cria, nada se perde, tudo se transforma); a da integridade da energia (na
natureza nada há mais do que transformações de forças, mutações de energia, É debalde que os crentes se consomem,
o que equivale a dizer que a energia não se cria, nem se destrói, e que todas Se Deus veio primeiro do que o homem,
as formas novas são resultados da transformação da força, como ensinavam Deve ser, quando muito, um chimpanzé»»
Mayer, Joule e Helmoltz); a lei da composição celuIar (nos organismos vivos
somente existe um material básico -- a célula--, como o tinha demonstrado
Schawn. o que significa que o corpo vivo só difere do corpo inerte pela com- O cientismo republicano
plexidade das transformações físicas e químicas no seio das células); a lei da
evolu¢âo, devida a Darwin, e segundo a qual se explica que, a partir de um Esta mundividência pressupunha um dinamismo mecanicista que, conse-
certo momento, tenham aparecido seres vivos na Terra, que sofreram transfor- quentemente, não estava baseado no causalismo metafísico. Porém, tem de se
mações e deram origem a espécies cada vez mais complexas29. reconhecer que, em última análise, a evolução é comandada por um certo fundo
O monismo naturalista opunha-se, por conseguinte, a todas as doutrinas de teleológico que, apesar de a motricidade histórica entroncar na espontaneidade
inspiração dualista, e só poucos ide61ogos do republicanismo, como Sampaio evolutiva do «espírito humano» e simultaneamente requerer uma ordenação
Bruno e Basflio Teles (cada um à sua maneira, é certo), aceitavam ser ainda pos-
universal cientificamente sem sentido, é mobilizado para justificar a emer-
sível e desejável conciliar a metafísica com a ciência, o espiritualismo com a
gência da sua forma superior -- o homem m, cuja missão seria a de concre-
matéria. Para os doutrinadores mais influentes dos finais do século xIx e princí-
tizar a racionalidade ínsita no devir cósmico. Assim sendo, pode dizer-se que
pios do século xx, o homem, realidade superior e mais complexa, mas umbilical-
a recusa do providencialismo teológico deu lugar à sua secularização, defi-
mente ligada à matéria, estava sobredeterminado pelo evoluir cósmico e condi-
nindo-o em termos de determinismo natural. E, deixando de lado a discussão
cionado (não escrevemos absolutamente determinado) pela sua dimensão
bioiógica. Por outras palavras: a influência do darwinismo punha não só em causa acerca da coerência interna de todos estes pressupostos, importa dizer que o
a concepção fuusta e criacionista do universo, tal como estava narrada no Génesis, teleologismo implícito no devir universal anunciava a inevitabilidade do
como convidava a soldar o homem à natureza orgânica e biológica»0, julgando-se advento de uma era em que o homem poderia, finalmente, acasalar a natureza
com a história. O que significava estar a República de certo modo já poten-
ciada no mais ínfimo átomo, dado que, «pelo progresso constante que as leis
eterodinâmicas e biológicas determinam, vemos surgir fatalmente da matéria
.,7 Cf. Luc Ferry e Alain Renaut, Philosophie Politique. 3. Des Droits de l'Homme à informe a esplêndida construção do cérebro humano, donde bmtara primeiro
I'ldée Républicabw, Paris, 1985, pp. 49-50. uma ideia que a pouco e pouco se tomou mais refulgente. Fatalmente pelos
aBasflio Teles, A Questão Religiosa, Porto, 1913, pp. 5, 17. progressos da razão, apontara-nos um ideal sublime que divinizou o homem:
~O Mtou/o, IX armo, n.o 3115, 6-Vli-1909, p. 3. Cf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1,
p. 224 e ss. Para o caso de Te6filo, veja-se Amadeu José Carvalho Homem, Teófilo Braga
e a Ideia Republicana em Portugal, Coimbra, 1988.
31 Angelina Vidal, «Conclusão Scientifica», Jornal de Abrantes, Xl wano, n.* 524,
-~' Para o caso franc~s, veja-se Claude Nicolet, ob. cit., pp. 303-304.
5-V1-1910, p. 1.
131
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A VIS~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA

a ciência. Em nome da ciência social, consequência necessária da evolução do Chegados a este ponto, é ~e~Ot~en.t° de nos interrogarmos sobre ai uns
pensamento, é que a consciência esclarecida reclama hoje a forma de governo dilemas que, a nosso ver, são ~,:tavets na tOg~ca interna do republicantsg:
republican¿ mesmo a unitária, para mais fatalmente atingir a democracia pura»3L Na verdade, uma análise atenta da sua ideologia mostra que esta tanto repre-O .
Enlaçando o devir da natureza com o da história, o republicanismo legi-
senta o universo como um processo sujeito a leis mecânicas, destitufdo, por
( timava-se como um historicismo, pois a ordem racional, que ditava uma
sequência evolutiva, poderia ser cientificamente explicada. Logo, a República,
enquanto ideal onticamente fundamentado, teria como critério último de ver-
isso, de qualquer finalismo, como o invoca para dar base ôntica a uma finali-
dade que apontava para a inevitável implantação da República e para a plena
realização da perfeição humana. Sabemos, por outro lado, que a ciência se
dade não um saber de origem teológica ou metafísica, mas demonstrações tidas
limita a explicar como é que os fenómenos acontecem, pelo que a conferição
por científicas. Mas o republicanismo reivindicou também a herança do de sentido às suas previsões só pode resultar de projecções de índole meta-
-\ «Século das Luzes» e da tradição dos movimentos radicais, levando às últimas física. O que torna pertinente perguntar se não foi uma certa ideia universal de
I consequências a tendência secularizante iniciada nos primórdios da moderni- homem que, em última instância, sobredeterminava o sentido da evolução
t dade, e foi igualmente a primeira corrente política que incorporou no seu dis- da natureza e da história.
/ curso a mitologia cientista33 que hegemonizou a intelectualidade europeia a De facto, apesar das profissões de fé contra a metafísica e contra os prin-
Lpartir dos meados do stculo xIx. A descrença nas explicações e nas vivências cípios apriorísticos, que iluminaram as revoluções do século xvHI (Estados
religiosas passou a ser acompanhada por uma contestação (ou por propostas Unidos, França), o republicanismo português será ininteligível se não for inse-
de correcção) das doutrinas teológicas e metafísicas. E o sucesso desta atitude rido na corrente política da modernidade inaugurada pelas Declarações dos
decorreu do facto de o positivismo, misturado com influências materialistas de Direitos do Homem34 e, em particular, pelas declarações de origem francesa
vários matizes, vir ao encontro das necessidades teóricas de um movimento (1789; 1793; 1795). E tendo presente os programas políticos do movimento3S
político que pretendia corporizar aquela tendência em ordem a conseguir-se o -- O Rebate (1873), Democracia (1873), Federal (1886), Partido Republicano
enraizamento definitivo dos ideais de Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Português (1891) -- e o conteúdo da Constituição de 1911, pode afmnar-se
Solidariedade. Mas este ideal de libertação tinha de ser polémico, pois passava que os anátemas filosóficos contra o metafisicismo dos direitos subjectivos e
pela «morte» do Deus transcendente e pela extinção dos princípios metafísicos do jusracionalismo, feitos em nome da fidelidade ao posiãvismo, acabaram por
para, em seu lugar, emergir o homem, entidade a quem a ciência possibili- coexistir com a tradição iluminista. É certo que o recurso a argumentos histo-
taria concretizar finalmente o velho sonho humanista e prometeico: ser Deus
ricistas convidava à relativização das ideias e dos valores e à sua contestação
na Terra.
como princípios anteriores ao direito positivo. No entanto, a intenção ideo-
lógica subjacente ao uso da ciência convence-nos de que o devir histórico
caminhava para um fim, visto como um estádio definitivo, mas cujo olhar
~2 M. J. Martins Contreiras, «Sciencia Natural Social», Almanach d'O Seculo, I anno,
1881, p. 110. retrospectivo transformava em momentos provisórios e precursores as etapas
33 Sustentamos assim que o republicanismo português (aliás, em consonância com o anteriormente percorridas36. Isto é, tudo seria relativo excepto a universalidade
seu émulo francês) foi dominantemente um cientismo, isto é, apresentou a sua filosofia e dos valores humanos que a história iria consumar.
o seu modelo de sociedade como propostas tiradas do conhecimento científico. Para isso, Defende-se assim que a desmontagem do implícito no seu discurso mostra
elevou as ciências naturais (e a metodologia empirista e experimentalista) à categoria de
critério último de verdade. Como se compreende, muitas das proposições que em seu nome que o republicanismo se radicou na visão antropocêntrica e humanfstica típica
foram avançadas, de científico tinham somente a pretensão e a ganga terminológica, pelo
que esta atitude foi uma espécie de ideologia te6rica que, extrapolando algumas conclusões
das ciências, as integrou em discursos ideológicos mais totais, pretendendo, deste modo, 34 Sobre todas as implicações da problemática ligada à génese e ao significado das várias
dar-lhes a credibilidade epistemológica que s6 o conhecimento cientifico-natural então gozava. Declarações setecentistas, veja-se Marcel Gauchet, La Révolution des Droits de l'Homme,
Ilustra bem o que se acabou de escrever a tese segundo a qual a Monarquia estada igual- Paris, 1989.
mente condenada devido à degenerescência mental das casas dinásticas derivada dos casa- 35 Para além das disposições programáticas republicanas, é ainda revelador o facto de, em
mentos entre familiares. Em 1881, Júlio de Matos recorda a Esquirol, a Haeckel e a Teófilo 1870, ter sido editado por uma «sociedade de homens de letras~, a fim de promover da ins-
Braga para demonstrar que os reis eram produtos hl'bridos de cruzamentos de espanhóis, trução.., de todas as classes e de todas as inteligências», um livro sobre Direitos e Deveres do
austríacos, alemães e italianos, o que provocava não só uma dimensão apátrida, como con- Cidadão, Lisboa, Lallement Frères, 1870. Por sua vez, um grupo republicano poblicou, em
duzia a uma autodefesa de tipo endogâmico em consequência das políticas de aliança entre 1878, um pequeno opúsculo sintomaticamente intitulado Os Direitos do Homem e do Cidadão
as casas reais. Em suma: ao aceitar-se a cientificação da política, ter-se-ia de aceitar tambtm pela Commissão de Propaganda do Centro Republicano Democratico de L/sboa, Lisboa, 1878.
da condenação das dinastias pela biologia» (Júlio de Matos, «Dissolução do Systema 36 O termo «definitivo» é um dos que mais frequentemente se encontram nos textos de
Monarchico Constitucional», O Positivismo, IV anno, 1880-1881, p. 367). Pode encontrar-se Comte e de Littré e, por influência, nos dos positivistas republicanos portugueses. A di-
õ ta versão na própria imprensa republicana, e que houve um esforço para a popularizar prova-o
aparecimento, em 1908, de uma obra sintomaticamente intitulada A Imbecilidade e a
mensão «provisória», que o presente (Monarquia constitucional) e o passado ganhavam à
luz desta consumação prospectivista pode ser ilustrada pelo título desta obra de Teófilo
Degenerescência nas FamtTias Reais (1908), escrita com claras intenções propagandísticas. Braga, publicada em 1879: Soluções Positivas de Politica. Do Systema Constitucional como
Transigencia Provisoria entre o Absolutismo e a Revolução.
132
A VISÃO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
trolo racional e a planificação tanto da natureza, corno da sociedade, indicando,
da mundividência moderna. E a elevação da natureza a base objectiva e ex- neste caso concreto, que a legalidade da dinâmica social carreava o inexorável
terior de normatividade não deve fazer esquecer que, se o seu funcionamento advento da República.
totalizante, sobretudo nos organismos, pode ser exemplo de harmonia e de Esta demonstração, ou melhor, a profissão de fé em que o republicanismo
cooperação entre as partes, a sua outra face também revela a anormalidade, a derivava de uma análise científica da sociedade, encerrava uma contradição
patologia e a luta; ao mesmo tempo, a sociedade, entregue ao espontaneismo que, aliás, não passou despercebida aos seus opositores no plano da filosofia
primário da sua animalidade, facilmente decairia na guerra de todos contra e da política -- caso de Antero de Quental --, ou aos correligionários que sus-
todos. Isto quer dizer que, bem vistas as coisas, a teoria social republicana é tentavam que este optimismo cientista só se adequafia à ideia de liberdade se
mais tributária de Hobbes do que de Rousseau. radicasse em fundamentos de raiz metafísica ou espiritualista -- casos de
Ora, se o devir natural e a a sua tradução histórica veiculavam um fina- Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro, Basflio Teles, Teixeira de Pascoais ou Leo-
lismo antropocêntrico, qual seria o grau de liberdade que o homem poderia nardo Coimbra. Por outro lado, os esforços tendentes a reformular a ideia de
gozar no seio de um universo que a ciência, forma última e definitiva do conhe- República, a corrigir os seus exageros politistas e anticlericais, e a alargar o
cimento, referenciava como estando submetido à causalidade mecânica e à horizonte da prática social levados a efeito depois de 5 de Outubro de 1910,
legalidade determinística? E, como é que um conhecimento factual poderia,
far-se-ão em polémica directa contra a gnosiologia empirista, a ontologia natu-
sem receber qualquer mediação humanística, ser crítico da realidade e trans-
ralista e a visão coisificada da consciência humana e da sociedade que domi-
formar-se em imperativo de acção?
nantemente tinham estruturado a mundividência republicana nas últimas dé-
cadas da propaganda e nos primórdios do novo regime. Por conseguinte, só a
Ciência e liberdade esta luz se poderão compreender os apelos que, apesar das suas especificidades,
doutrinadores como Raul Proença e António Sérgio fizeram para se regressar
Para se responder a tudo isto, relembre-se que o evolucionismo (qualquer ao criticismo de inspiração kantiana e espiritualista de fundo ético.
que fosse a sua matriz) entroncava uma diacronia do «espírito humano» que Na verdade, poderia o homem ser livre no seio de um mundo social cuja
prometia a definitiva vitória das explicações científicas dos fenómenos natu- legalidade era análoga à legalidade natural definida pela ciência e, por isso, de
rais; o que significava ter chegado a hora de se cientificar a sociedade e de se índole determinística? Comte foi claro ao defender que, em última análise, o
/"fazer da política uma <<arre» ou uma ciência particular da sociologia. Daí os indivíduo seria tão livre em relação às leis da sociedade como o (não) era em
I esforços dos ideólogos para fundamentarem a inevitabilidade do advento relação às leis da astronomia. Assim sendo, rejeitava a tradição dos direitos
! da República, apresentando-a simultaneamente como um objecto de ciência subjectivos e as Declarações dos Direitos do Homem que os objectivavam,
«' -- pois seda passível de demonstração -- e como um produto da própria ciência, apelidando-os de meros produtos do espírito metafísico setecentista. A situação
dado que devia ser estabelecida de acordo com os ditames não só das ciências do republicanismo era incómoda, já que, se, por um lado, os seus ideólogos
~naturais, mas sobretudo das ciências sociais37. Com efeito, é esta subordinação não podiam avalizar, teoreticamente, uma escala axiológica de origem aprio-
ao paradigma das ciências da natureza, com ligeiras adaptações metodológicas
rística e subjectiva, por outro lado, e enquanto movimento político de vocação
devia-se dar maior peso à filiação e ao método histórico-comparativo --,
democrática, incorporavam nos seus próprios programas a reivindicação dos
e o optimismo epistemol6gico dela decorrente que Manuel Emídio Garcia
direitos fundamentais herdados da tradição jusracionalista.
exemplarmente tipifica com este vaticínio: «A próxima queda, o desapareci-
mento completo da Monarquia e das instituições que a representam e flan- Seja como for, é um facto que, visando directamente a doutrina católica e
queiam, é hoje uma previsão infalível da ciência positiva, a cuja realização a sua teoria da responsabilidade e do julgamento escatológico, deram grande
inevitável debalde poderão opor-se os esforços reunidos e combinados da coli- ênfase à crítica ao livre-arbítrio (a polémica entre Miguel Bombarda e o padre
gação monárquica contra a República e contra os republicanos em Portugal Santana ilustra cabalmente esta questão)39. «Lei há só uma--suprema», es-
como em toda a Europa»38. Nada mais claro: ecoando a divisa de Comte crevia Bombarda, «é a fatalidade de todas as leis materiais, quaisquer que
«saber para prever» --, a qual, por sua vez, sistematizava uma tradição que sejam os objectos que traduzam... A sociologia, enfim, evidenciando o fatal
vinha de Bacon, alimentava-se a crença de que a ciência possibilitaria o con- encadeamento dos fenómenos sociais, fixando leis a que o homem em socie-
dade nunca pôde subtrair-se, a sociologia deu o último golpe nas velhas pre-
tensões do orgulho humano e das fantasias metafísicas»>4° Acreditava-se,
contra o catolicismo e o apriorismo racionalista, que «o livre-arbítrio e a espon-
37 Cf. Fernando Catroga, «Os Inícios do Positivismo em Portugal. O Seu Significado
Político-Social», Revista da História das Ideias, vol. 1, 1977, pp. 287-394; Claude Nicolet,
ob. cit., pp. 209-211.
Manuel Emídio Garcia, «A Monarchia e a Colligação dos Partidos Monarchicos», 39 Cf. Miguel Bombarda, A Sciencia e o Jesuitismo. Replica a Um Padre Sabio, Lisboa,
A Vanguarda, li armo, n.o 349, 17-IV-1892, p. 1. 1900.
4o Idem, A Consciencia e o Livre Arbitrio, p. 65.
A VIS/~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM pOR'I~)GAL
No fundo, a própria ontologia comtiana dava alguma abertura a esta teoria
mneidade dos actos voluntírios são uma quimera»; mas, ao contrário do que da acção: o homcrn tcria, dentro dos limitcs apontados pcla ciência, tanto mais
à primeira vista a frase atrás citada de Miguel Bombarda parece sugerir, «os capacidade de influenciar a realidadc quanto mais complexos e heterogéncos
movimentos da vontade não são fatais, mas simplesmente condicionados,
fossem os fenómenos. E, como sc sabe, os fcnómenos sociais calam neste
porque nós podemos intervir neles e modificá-los numa direcção predetermi- último degrau do real. Daí que o dctcrminismo não conduzissc ao fatalismo
nada»4). Esta distinção mostra que, conquanto não se aceitasse uma concepção ao quietismo, pois «a complexidade e a variabilidade incalculável dos fenó-
subjectivista de liberdade, também não se fazia a apologia do quietismo.e da menos quc se passam no meio social exigem a necessidade constante da inter-
espera pelos efeitos espontâneos do jogo da natu~za. E que o repubhcanlsmo venção dc vontades coordcnadoras, mais ou menos conscicntes, por isso
acreditou na racionalidade do devir e na capacloa«e aa razao numana em o
mesmo impulsoras ou retrógradas segundo a sua capacidade»4S. Nesta lógica,
controlar, podendo assim sustentar-se que a sua teoria da acção foi tributária os verdadeiros guias dos povos só modificariarn a sociedade se a sua acção
do optimismo iluminista segundo o qual, se o homem não pode ultrapassar a
legalidade objectiva das coisas, é a sua praxis que lhe confere sentido, permi- asscntassc num «juízo muito esclarecido pela observação e experiência e
racloclmo
. . . muito
. seguro para descobrir, através da infinita complexidade [num]
dos
findo que o processo mecânico da evolução se assuma como progresso e como
cultura. fenómenos sociais, a dirccção c o sentido da evolução de uma época, e prever
Em suma: o determinismo não era sinónimo de fatalismo. Teófilo Braga e futuros acontecimentos novas transformaçõcs»46
Manuel Emídio Garcia, entre outros, reafirmaram-no amiúde: o fatalismo não Em conclusão: a cosmogonia e a concepção da história vciculadas pcla
passava de uma «invenção metafísica», pois supunha «a realidade da mani- expectativa rcpublicana eram dcfinidas como ilações científicas. E, em parti-
festação necessária de fenómenos ou factos independentemente das suas con- cular, a República possuiria o estatuto de inevitabilidadc histórica demonstrado
dições de existência»4-~. O que equivalia a não aceitar a explicação racional pela última decisiva das grandes ciências: a sociologia. Tendo a razão cientf-
destas e implicava a impossibilidade de manipular aqueles através de previsões ficaa capacidadc para tornar transparente a direcção da evolução cósmica, e
científicas. Por isso, o verdadeiro determinismo convidava «a vencer as fata- tendo essa capacidade crcscido segundo a ordem de complicação do próprio
lidades naturais, intervindo na produção dos fenómenos com um poder real de real, era lógico quc o aparccimcnto da sociologia coincidissc com a possibili-
condicionamento ..... de modo que à realização de novas circunstâncias cor- dade da sua concretização histórica. Isto d, seguindo a lição de Comte, eles
responda a realização de novos fenómenos. E assim que o homem transforma acreditavarn que os fcnórncnos sociais foram os últimos a ser cicntificados em
o mundo, e que subjuga e domina a natureza»43. virtude da sua complexidade c da necessidade cpistcmológica de previamente
Mediada pelas condições mesológicas44 (internas e externas), a liberdade sc alcançar a explicação científica dos fenómenos ontologicamcntc anteceden-
não podia ter um fundamento transcendente, nem resultar de um arbitrário acto tes. Mas igualmente acrcditavam, como Comtc seus discípulos, que essa cien-
de vontade, mas teria de partir das ciências que referenciavam realidades objec- tificação pcrmitiria a intelecção fcnomcnológica do dcvir univcrsal (incluindo
tiras. Consequentemente, a margem interventora dos sujeitos situava-se na dis-
a evolução social) a transmutação desse saber cru acção prática, de modo a
tãncia que existia entre a facticidade e o que se sabia ser exigido pelo sentido
construir-se uma nova ordem social de acordo com os ditamcs cmpírico-
objectivo da evolução social. Mas como este acabava por projectar uma visão
idealizada do finalismo da história, poderá então afirmar-se que a praxis repu- -racionais e históricos. Era nesta perspectiva quc, ligada à prctcnsão de sc apre-
blicana radicava numa escala de valores -- entre os quais estava a crença ilu- sentar a República corno uma necessidade cicntífica, se mostrava que o seu
mmista na perfectibilidade humana -- que servia de norma legitimadora das advento implicava a implantação de um novo poder espiritual. E como a ciência
finalidades que a retórica cientista apresentava como previsões científicas. pcrmitiria a racionalização das contradiçScs sociais o controlo definitivo dos
Portanto, a acção emanava de uma razão crítica, e é este criticismo que explica eventos históricos, o novo regime scria tambdm o início do império da razão, o
que, na fase de propaganda, o cientismo republicano não tenha sido usado qual, ao adequar a ordem social e política com as exigências da natureza animal
como arma conservadora para justificar o que existia, mas sim como instru- social do homem, abriria as portas à harmonia definitiva entre os indivíduos,
mento de contestação e de fundamentação de um imaginário social prospectivo. as classes e as nações. Seria, em síntese, a chegada do reino da paz perpétua,
ou melhor, a realização da utopia e da própria ucronia. Isto significa que, cru
última análise, era o ideal que comandava a realidade, limitando-se a ciência a
«' Júlio de Matos, d3 Determinismo em Psychologia», O Positivismo, I anno, n.o 1, prevcr aquilo quc já previamente se aceitava ser ofim da história: a concreti-
Outubro-Novembro, 1878. p. 31.
zação plena da essência do homem, entendido como ser universal perfectível.
"~ Manuel Emidio Garcia, Estudo Sociologico para a Setima Cadeira da Faculdade de

Direito~~ na Universidade.de Coimbra, Coimbra, 1880, p. 14.


Vários, p.
31-111-1910, «O127.
Deternunismo e a Apatia Nacional», Alma Nacional, 1 .a série, I anno, n.° 8, 45 Teófilo Braga, Systema de Sociologia, p. 146.
"Cf. Femando Catroga, A Militãncia Laica e a Descristianização da Morte em Portugal 46 Manuel Emídio Garcia, «Marquez de Pombal», Marquez de Pombad. Obra Commemo-
t1865-1911L rol. 1, pp. 240-245. rativa do Centenario da sua Morte Mandada Publicar pelo Club de Regatas Guanabarense
do Rio de Janeiro, Lisboa, 1885, p. 129.
A VIS.~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
com o seu historicismo sociológico. Mas que lição extraíam da história e da
A MORAL SOCIAL REPUBLICANA organicidade social? Tanto a história dos povos, os costumes e o espectáculo
da natureza (incluindo o dos organismos e das próprias sociedades animais),
Contra o pessimismo cristão, o republicanismo enalteceu a vicia terrena e
como a tendência da própria civilização mostraram que o individualismo ex-
propagandeou a fé na perfectibilidade humana. Foi assim lógico que, em vez
tremo e o egoísmo não tinham qualquer base positiva e científica. Em con-
de uma moral revelada, proposesse uma escala axiológica que não se confi-
nava à fundamentação de uma ética puramente individualista. E, quanto à via creto, e seguindo Teófilo, a «arte de viver» adequada à natureza do homem
gnosiológica para sua apreensão, como era dominantemente um cientismo, tinha de se basear em cinco preceitos fundamentais, a saber: a disciplina das
acr~tava que a razão científica ida Possibilitar o controlo do mundo mediante paixões feita através do desenvolvimento de aspirações de ordem social con-
ducentes ao apeffeiçoamento do indivíduo; o fortalecimento da independência
a inferição, tanto das leis da natureza e da sociedade, como das leis morais47.
Assim, a moral exigida pela evolução do espírito humano não podia ter um individual, não fazendo derivar a satisfação dos desejos de favores, arbítrio,
fundamento revelado, nem ser exclusivamente de, duzível de postulados aprio- vontade de outrem ou de acidentes casuais; o fomento da consciência da supe-
rísticos e despidos de historicidade. Todavia, estes acabam por estar presentes, rioridade própria de cada homem, considerando-se os defeitos subjectivos
pois a invocação do relativismo historicista e sociologista não anulava a como males hereditários e atávicos, passíveis de serem superados mediante os
fixação de uma escala universal de valores. benefícios da educação; a responsabilização do meio pelas tristezas e males
Se sintedzarmos o debate acerca dos fundamentos da ética, comummente individuais, em ordem a que se possa removê-los com a mesma impassibi-
coincidente com a polémica acerca dos direitos naturais, poderemos destacar lidade com que se reage contra as perturbações do meio físico e contra os aci-
três posições essenciais. Para a primeira, de matriz cristã e enriquecida com dentes do meio biológico; e, por fim, o culto do mais saudável altruísmo, de
os contributos de Kant, Benjamin Constant, Laboulaye e outros, os direitos modo a se obter a etemização da vicia e o crescente apeffeiçoamento da huma-
naturais eram independentes de toda a autoridade social ou política e con- nidade51.
sistiam, antes de tudo, na liberdade de consciência ou religiosa, pelo que os Se todo o discurso de inspiração religiosa tende a apontar para uma esca-
valores (incluindo o direito) tinham a sua fonte nos postulados formais da tologia colectiva e para uma soteriologia individual, a sua função consiste,
razão prática. O segundo vector foi desenvolvido por Volney, Daunou e Destutt
contudo, em atenuar as contradições sociais. Ora, isto implica que a explicação
de Tracy, isto é, pelos Ideólogos, e tinha como ponto de partida o sujeito
teorética e a expressão ritual do sentido do mundo culminem, em geral, numa
cogaoscente (sujeito de razão, sentimento e de vontade): este somente tinha a
proposta axiológica destinada a orientar a vida individual e colectiva. Dito de
cermza do conhecimento de origem sensitiva -- colheram a lição de Condil-
outro modo: toda a religião, como todas as mundividências totalizantes, acaba
lac -- e do seu valor contingente e relativo. Deus, bem como as «ideias inatas»,
ou as «formas paras» do entendimento, não razia sentido, e a caracterização por definir uma moral. O republicanismo não fugiu à regra, e a sua caracteri-
do comportamento do homem a partir do processo cognitivo levava à definição zação ajuda a precisar melhor os fundamentos dos limites das suas prevenções
da liberdade como um atributo inseparável da vontade individual que está na contra a moral transcendental e contra o jusracionalismo individualista.
génese do conhecimento. Somente quando se passa da esfera individual para É um facto que, na linha da tradição individualista e liberal, frequente-
a das relações entre sujeitos igualmente dotados de razão, sentimento e von- mente se encontra nos escritos de doutrinação republicana o eco de Bentham,
tade, é que os direitos e deveres aparecem imediatamente como a própria Jarnes Mill, Stuart Mill, Spencer e, em certos textos, o utilitarismo aparece cal-
condição de possibilidade da acção voluntária, já que, se a Ideologia partia do deado com argumentos tirados do naturalismo darwinista. No entanto, dado
indivíduo, também considerava a sociedade como o estado natural e normal que o movimento tem mais a ver com a problemática da «felicidade comum»
do homem«. A terceira característica era de origem anglo-saxónica e radicava de raiz jacobina do que com o liberalismo anglo-saxónico, e como arrancou
numa vi~~o sensualista e atomista do indivíduo, movido, antes de tudo, pela num período em que eram visíveis alguns malefícios provocados pelo indivi-
uãli&~d._e egoísta e de cuja luta com os outros resulta_da a possibilidade de o dualismo, e em que tinham de responder à ofensiva socialista, optaram por uma
,~)?~~m~.ro~C~~am'~mafelicite(Ben«am),9. terceira via -- a ideia (e.o ideal) de humanidade exigia que os interesses
egóides, para serem compatlvels com a sociabilidade, fossem mediados pelos
os aoumnaaores ma~s influentes do movimento republicano português,
os fundamentos da moral, como de todos os fenómenos sociais, tinham uma interesses dos outros. E esta alteridade não resultava de uma mera coexistência
origem exterior ao sujeitos0, isto é, positiva. Com isto, estavam a ser coerentes
p~ôtadológica, masda
ulação holística devia
ideiaser
deassumida corno
humanidade comoumum
imperativo decorrente
ser colectivo. Assim, ada
realização dos direitos naturais do homem, isto é, o advento histórico da
4~ Cf. Claude Nicolet, ob. cit., p. 317. Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, impunha que o egoísmo, atitude
« Idem, lbidem, pp. 394-40. típica do indivíduo na espontaneidade do seu estado de natureza, fosse sobre-
*'Pedra Laín Entralgo, TeoriayRealidaddel Otro, 2.' ed., T. I, Madrid, 1968, p. 72 e ss.

Sobre o que se segue, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 263-73.
51Teófilo Braga, ob. cit., p. 358.
138
A VISÃO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
subjacente ao direito natural e às concepções políticas modemas~ É que a
determinado, como no positivismo comtiano e littreano, pelo altruísmo, senti- adesão ao evolucionismo historicista e a aceitação da
mento que exprime a capacidade de o homem dominar e corrigir os excessos relativizavam o «quadro do progresso humano» «morte» da metafísica
da natureza. (Condorcet), ao
que a sociabilidade natural, levada às últimas consequências, mesmo
podia tempo
invalidar
Tal intenção conciliadora encontra-se bem tipificada nesta proposta de Júlio os direitos subjectivos e as teorias contratualistas acerca da génese da socie-
de Matos: «Ao sentimento do egoísmo, que, se existisse só orientaria toda a dade política. Mas a verdade é que, corno se viu através da análise dos seus
nossa actividade na preocupação exclusiva e anti-social do bem-estar do indi- programas políticos, a par desta base sociológica de pendor orgânico e histo-
víduo, contrapõe-se geralmente o altruísmo, sentimento progressivo que nos ricista, o movimento também foi herdeiro dos grandes princípios jusnatura-
conduz a viver pelos outros, alargando a esfera da nossa actividade desde o
individualismo mais intransigente até ao colectivismo mais amplo -- o amor listas que fundamentaram as revoluções modemas e que as Declarações dos
da humanidade. Importa reconhecer, porém, que entre os dois grupos de sen- Direitos do Homem (1789; 1793; 1795) consubstanciamS5. No fundo, tal como
timentos não existe oposição .... O egoísmo é uma condição estática, orgânica, o republicanismo francês, também o seu ~mulo português se apresentou
indeclinável, o altruísmo, uma condição dinâmica, sociológica»»2 A verda- como uma consequência do evolucionismo naturalista e social e viu a eman-
deira moral poderia inspirar-se na natureza espontânea, mas tinha também de cipação do indivíduo não como uma reivindicação abstracta, mas como o resul-
se basear numa praxis histórica que, postulando a crença de que o homem é tado da evolução histórica da sociedade. Isto leva-nos a concluir que acasalou,
um ser perfectível, poderia elevar a sociabilidade do estado animal ao estádio com alguma incoerência, uma concepção do homem conforme ao espírito das
civilizacional. E que, como escrevia Teófilo, seguindo neste caso o ensina- «Luzes» com uma perspectiva de índole historicista56, temperada pela ideia da
mento de Spencer, mesmo «o animal que se agrupa em bando sente a neces- irredutibilidade dos valores que, sendo normas de acção, criavam a convicção
sidade do seu semelhante, e o macho que defende o ninho ou o covil, e que de que só a história civilizada a natureza e a cultura venceria a animalidade.
procura o alimento para a prole, obedece a essa tendência, que nos organismos Com efeito, conciliar a herança jusracionalista com o evolucionismo histo-
superiores se revelou pela dedicação ao altruísmo, que fundou a farmlia, a pro- ricista e positivista foi um dos grandes dilemas teóricos do republicanismo.
priedade, a cidade e a autoridade, esteios de toda a civilização». E concluía de A descoberta dos «factos sociais» e a articulação ôntica e epistémica entre a
uma forma exemplar: «A moral positiva, evidenciando as origens orgânicas realidade biológica e a realidade social punham em causa a existência de va-
destes dois púlos, egoísmo e altruísmo, entre os quais oscila todo o movimento lores universais, referindo-os a uma objectividade exterior ao sujeito, já que a
das determinações morais, não elimina o egoísmo natural dando como base sociabilidade, agora definida em termos naturalistas, não permitia conceber
das virtudes a abnegação, e limita o altruísmo até ao ponto em que ele não dis- a existência de indivíduos desligados da natureza e da sociedade. Por conse-
solve a individualidade»53. Como nos Ideólogos, o elo social naturalmente exis-
guinte, o próprio direito era apresentado, em termos de coerência filosófica,
tente entre a individualidade e a sociabilidade servia de base ôntica à funda-
como um produto da evolução e, como Condorcet e os Ideólogos haviam subli-
mentação da reciprocidade dialéctica entre o egoísmo e o altruísmo. Mas, se
o símile com a natureza é coerente, não se deve esquecer, porém, que só no nhado -- dando ênfase a uma corrente que o positivismo e o organicismo
homem esse sentimento se podia transformar em acção tendo em vista per- social aprofundarão --, não fazia sentido inferir, em termos epistemológicos,
seguir fins que, sendo especificamente humanos, não se encontram na natu- normas a partir de postulados abstractos e metafísicos (fosse a vontade, fosse
reza animal. Daí que só o homem fosse um ser verdadeiramente histórico e só a natureza humana, fosse a razão natural). Em suma: acreditava-se que tanto
com a subordinação do devir aos fins que lhe são próprios (felicidade, per- os fenómenos morais como os fenómenos políticos e jurídicos eram expres-
feição) a evolução mecânica e cega se transmutasse em verdadeiro progresso, sões racionalizadas de factos ou fenómenos observáveis, logo passíveis de
e a natureza em cultura e civilização. serem cientificados. Todavia, conquanto a coerência teorética obrigasse a negar
a validade filosófica da problemática dos direitos naturais, o certo é que o
cientismo republicano os integrou nos seus programas políticos e procurou
DIREITOS NATURAIS E SOLIDARIEDADE mostrar que eles constituíam uma herança histórica irreversível e, simulta-
neamente, expressavam algo que a própria natureza sugeria. Pode assim
Pelo exposto se conclui que o republicanismo invocava uma ética secula- dizer-se, e voltamos a repeti-lo, que a facticidade cientista, ao indicar o
rizada, justificadora de uma moral sem Deus. Em princípio, pretendeu romper sentido do futuro, pressupunha uma normatividade decorrente da identifi-
tanto com a moral de fundo religioso, como com a moral formal e apriorística

54 Cf. Idem, ibidem, pp. 203-20.


55 Sobre esta questão, hoje particularmente debatida, veja-se, por todos, Marcel Gauchet,
1880,
s2pp.
Júlio
! 83-84.
de Matos, «O Problema da Felicidade Individual», O Positivismo, II anno, n.o 3,
5~ Teófilo Braga, «Systematização da Moral», ibidem, p. 213. ob. cit., p. 13 e ss.
56 Para o caso francês, veja-se Philippe Raynaud, «Destin de l'Idéologie Rúpublicaine»,
Esprit, n.o 12, Dúcembre, 1983, p. 37.
140
A VIS/~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O RF_.PL~LICANlSMO EM pOR'I~~GAL
génese instantânea e contratualista à maneira de Rousseau, pois entenderam-na
cação das «leis» factuais com as normas que, ã boa maneira metafísica, como um processo natural e cognoscfvel. No terreno dos direitos naturais, esta
l~U~V~ a finalidade última que devia comandar a verdadeira proveis social concepção teve como consequência a sua dessacralização e historicização,
e política57. colocando-os não no princípio, mas no fim de uma evolução histórica, que
Os vários programas do movimento republicano são claros acerca da recupe- envolvia o sujeito e as suas capacidades cognitivas e volitivas, e cujo aperfei-
ração da herança jusnaturalista de inspiração democrática. Por exemplo, o do çoamento levaria à intensificação das trocas e das convenções dos individuos
Centro Republicano Federal (1873) enunciava, logo no seu preâmbulo, «o uns com os outros. Em síntese: para os Ideólogos, os direitos naturais deviam
direito de pensar, direito de falar, direito de imprimir, direito de reunião, direito ser induzidos da natureza social e sensocognitiva do sujeito, características
de associação», e o projecto de programa de 1878 invocava, tal como a que, porém, só se realizariam na história mediante convenções tácitas ou explí-
Constituição de i 822, a «soberania nacional como origem de todos os poderes
do Estado», e declarava, numa referência directa ao jusnaturalismo, que «o par- citas que tinham no «governo nacional» a sua expressão mais acabadaúo. Deste
modo, não se errará muito se se escrever que foram continuados pelos histo-
tido republicano democrático» tinha por base os «direitos originários do
homem anteriores e superiores a todas as leis». Por último, o importante pro- ricismos e os sociologismos positivistas, bem como pelos socialismos e pelos
grama de 1891. embora não recorresse a esta linguagem, reafirmava as mesmas solidarismos de vária ordem, e que estiveram na base do alargamento da esfera
premissas: a organização da sociedade política devia inspirar-se na clássica dos direitos naturais e da contestação da sua leitura atomista.
teoria da separação dos poderes, excluir o poder moderador e respeitar as liber- Ora, à luz do que ficou escrito, pensamos que estas profissões de fé no con-
dades individuais, tanto políacas, como civis. dicionamento externo dos valores éticos não devem ser interpretadas de modo
Em conclusão: apesar de, no plano filosófico, se contestar a fundamentação taxativo, sob pena de não se inteligir o essencial do projecto republicano. E, em
~sica dos direitos fundamentais -- a partir de uma ideia abstracta de ho- primeiro lugar, deve referir-se que o apelo paradigmático à natureza, que
mem --. no campo pragmático e programático o republicanismo não deixou encontramos em significativos textos de doutrinadores do movimento, não
de os incorporar, aceitando-os como aquisições históricas definitivas e, por- pode ser confundido com o naturalismo grego, leitura que imediatamente colo-
tanto, possuidores de uma positividade que só por razões «anormais» e «patoló- caria em causa a modernidade do republicanismo e que o inseriria politica-
gicas» não tiveram um desenvolvimento pleno e normal desde o século xvIII e, mente na linha dos defensores da chamada «liberdade dos antigos»«'. Sabe-se
em Portugal. desde 1820. Um bom exemplo desta atitude «oportunista» -- aliás que a ética grega não partia da razão subjectiva, mas da ordem do mundo, e
comum aos republicanos franceses de formação positivista (Gambetta, Jules era esta que, sendo independente dos indivíduos, fixava os seus deveres de
Ferry) -- encontra-se na maneira como os positivistas republicanos portu-
acordo com a hierarquização qualitativa, a circularidade e a finalidade que
gueses defenderam o sufrágio. Com efeito, apesar de Comte rejeitar os direitos
estruturavam metafisicamente o cosmos. Em consequência, como escreveu
subjectivos, a soberania popular, o sufrágio universal, a divisão de poderes,
Villey, ele droit naturel, dans sa forme classique, est lié à une perspective téléo-
acusando-os de serem criações metafísicas e revolucionárias, muitos dos seus
logique de l'univers»62.
di~ípulos (Littré, Wyrouboff) fizeram uma leitura mais democrática do pensa-
meato do mestre e reconheceram que aquelas propostas tinham uma validade A visão republicana do mundo, baseada nas lições da ciência pús-newto-
de facto. E foi esta leitura que facilitou uma melhor aplicabilidade do positi- niana, era radicalmente diferente, pois à sacralidade metafísica, à gradação
visrao ao democratismo republicano que a III República francesa procurou ontológica que fundamentava os lugares fixos dos indivíduos na pirâmide
consolidar. Entre nós, doutrinadores como Manuel Emídio Garcia58 e social e ao fechamento do mundo, contrapunha um universo secularizado,
Consiglieri Pedroso59 já sublinhavam esta compatibilização na década de 70. auto-suficiente no seu dinamismo, com uma legalidade induzida a partir da
Assim, o conteúdo dos programas do movimento e as posições dos seus prin- causalidade eficiente, geometricamente uniformizado e sem qualquer finalismo
cipais ideúlogos permitem concluir que as ilações tidas por científicas e por metafísico que lhe fosse transcendente ou imanente. Mas, se é esta concepção
dacorrentes do devir histórico eram análogas aos valores jusracionalistas que que encontramos presente na explicitude do discurso mais teórico do republi-
estiveram na base do pensamento demoliberal moderno. canismo, ter-se-á de concordar que, aplicado à letra, o paradigma é desapro-
Aqui residia, a nosso ver, a contradição aparente do republicanismo, que
s6 .a compreensão do modo como usava a ciência toma coerente. Contra o jus-
raclonalismo, os Ideúlogos já não aceitaram que a sociedade tivesse uma 60 Claude Nicolet, ob. cit., p. 333 e ss.
6t Sobre as implicações políticas das diferenças entre a «liberdade dos antigos» e a «li-
berdade dos modernos», vejam-se: Benjamin Constant, De la Libert~ chez les Modernes,
Claude Nicolet, ob. cit., p. 346 e ss. Paris, 1980; Luc Ferry, Philosophie Politique. 1. Le Droite: la Nouvelle Querelles des An-
UManuei Emidio Garcia, «Porque e como Aceitamos o Suffragio Universal» O Partido ciens et des Modernes, Paris, 1984. Para o caso português, leia-se José Joaquim Gomes
do Povo, i anno, n.~ 16, Junho, 1878, p. 65.
Canotilho, «O Círculo e a Linha. Da "Liberdade dos Antigos" à "Liberdade dos Modernos"
Consiglieri Perros, O Suffragio Universal ou a Intervenção das Classes Trabalha- na Teoria Republicana dos Direitos Fundamentais», Revista da História das Ideias, rol. 9,
dotas, Lifl~oa, 1876.
T. III, 1987, pp. 733-58.
62 In Luc Ferry e Alain Renaut, ob. cit., p. 49.
A VISÃO REPUBL1CANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
de humanidade que o convencimento cientista transforrnava numa exigência
priado para legitimar alguns dos seus princípios nucleares. Por exemplo, é ver- ditada pela ordem natural das coisas. Por outras palavras: os valores que a tra-
dade que, na natureza e, sobretudo, nos organismos, a inteligibilidade das par- dição jusracionalista tinha deduzido da razão (Liberdade, Igualdade) eram sin-
tes requer a sobredeterminação do todo, mas é igualmente certo que a emer- creticamente articulados com postulados inferidos a partir da aceitação da ideia
gência de doenças e de desregulações parece anular a plena aplicabilidade do de homem como um ser naturalmente sociável e Perfectível. Esta combinação
modelo. E não concordaram que o egoísmo, enquanto manifestação ética surgia unificada por uma normatividade cuja raiz metafísica era recalcada com
espontânea resultante da animalidade do homem, era insuficiente para garantir argumentos que apresentavam os .valores da tradição jusracionalistas como
a pr6pria sociabilidade e conduzir a humanidade ao seu crescente aperfei- conclusões científicas extraídas do espectáculo da natureza e da história. E, a
çoamento? título de exemplo, recorde-se que o princípio, inerente às Declarações dos
De tudo isto se conclui que a imersão do homem na causalidade eficiente Direitos do Homem de 1793 e de 1795, de que não existem direitos sem de-
da natureza (e da sociedade), se não fosse completada por uma normatividade veres passou a ser analogicamente validado através da comparação com a recí-
de outra índole, não poderia gerar a força militante que caracterizou o apos- proca solidariedade que existe entre as partes que constituem as totalidades
tolado da ideia republicana em Portugal. E é a crença neste activismo racional, orgânicas. E isto possibilitou que uma concepção de sociedade definida como
como meio de domesticar e de civilizacionar a natureza, que nos poderá ajudar
um sistema de interacção e de interdependência se colocasse como alternativa
a perceber melhor as diferenças teóricas que são detectáveis entre a ontologia
subjacente ao liberalismo mais ortodoxo e a que fundamentou o demolibera- à visão que a via como um composto e uma mera agregação de partes, ou a
lismo republicano, nomeadamente no que respeita à articulação que, na linha caracterizava como uma totalidade uniformizada6~.
da tradição iluminista e jacobina, aquela última corrente procurou fazer entre Bem vistas as coisas, a base orgânica impunha não a rejeição, mas tão-só
os direitos naturais individualistas (droits-libertés) e os direitos sociais a revisão do significado dos princípios políticos que, segundo a tradição sete-
(droits-créances)63. A busca desta síntese, presente no republicanismo francês, centista, eram deduzíveis dos direitos naturais. O que, aplicado à trilogia da
sobretudo após a reivindicação do direito ao trabalho na revolução de 1848, Revolução Francesa, apontava para esta correcção: «A Igualdade, sendo a ideia
deu maior ênfase à necessidade de a sociedade política se empenhar na prosse- da faculdade que todos têm de se tornarem aptos a cooperar para o bem-estar
cução de objectivos éticos que o ideal do bonheur commun dos revolucio- social e para o aperfeiçoamento humano, leva-nos à prática da Liberdade, isto
nários de 1793 já prefigurava. Esta exigência tendeu a encarar o Estado como é, ao exercício conveniente, saudável e progressivo de todas as aptidões e de
uma instância praxeológica, ou melhor, colocou-o como principal núcleo insti- todas as forças de que podemos dispor em benefício da colectividade, tanto as
tuinte de uma nova ordem social64. O que contrastava com o liberalismo de intelectuais, como as morais»; a Liberdade não é senão o direito que o indi-
matriz anglo-saxónica, crente em que a obtenção da máxima felicidade deri- víduo tem de exercitar e «desenvolver as suas aptidões e forças no sentido mais
vava do simples jogo espontâneo dos interesses das mónadas sociais, cabendo conveniente para a sua conservação individual e para os interesses da socie-
ao direito natural, que as Declarações dos Direitos do Homem americanas dade, de que é parte integrante»67. Esta tese procurava mostrar a necessidade
objectivaram, a função de estipular um limite defensivo contra o possível ar- de se conciliarem os direitos-liberdades com os direitos de índole social, que
bítrio do Estado, visto como entidade axiologicamente neutraú».
funcionavam como ideais positivos que a sociedade politicamente organizada
Assim sendo, podemos defender que o organicismo da teoria social repu-
devia perseguir. Daí que se devesse adoptar a «nova legenda Solidariedade,
blicana, apesar do seu holismo, funcionou como um modelo cuja idealização
se compaginava com as intenções sociais de um movimento que, se estava Igualdade, Liberdade, que substitui a legenda revolucionária e metafísica
apostado em incentivar a denúncia dos malefícios do capitalismo selvagem, Liberdade, Igualdade, Fraternidade», e que exprime correctamente «a depen-
estava igualmente interessado em demarcar-se dos socialismos (anarquista ou dência natural e científica dos vários termos, porque a Solidariedade dá-nos o
autoritário) e de todas as soluções que pudessem diluir a autonomia do indi- conhecimento da Igualdade, e esta leva-nos à prática da Liberdade»%
víduo e dos órgãos sociais intermédios no seio da totalidade englobante. Isto Como se vê, dava-se um estatuto ideo-realista aos valores essenciais (Soli-
é, não confundiam totalidade com totalitarismo, dado que a invocação da natu- dariedade, Igualdade, Liberdade) que implicavam uma teia de reciprocidades
reza na fundamentação da moral estava ao serviço da legitimação de um ideal decorrentes quer da natureza sociabilitária dos indivíduos, quer do fim ideal
que os devia sobredeterminar. É que, relembre-se, a Igualdade era «uma ideia
da faculdade que todos têm de se tornarem aptos a cooperar para o bem-estar
«3 Aqui, entende-se por droits-libertés os que incidem quase exclusivamente sobre as
liberdades fundamentais garantidas aos cidadãos e opostas ao Estado, a quem traçam os
limites de actuação; os droits-créances são os que definem não os poderes de agir opostos 66Cf. Pierre Rosanvallon, ob. cit., p. 172.
ao Estado, mas o poder de o obrigar a prestar um certo número de serviços. Cf. Luc Ferry 67 Teixeira Bastos, «Solidariedade, Igualdade, Liberdade», A Vanguarda, I armo, n.° 4,
e Alain Renaut, ob cit., p. 28. 30-V-1880, p. 2; Consiglieri Pedroso, «Solidariedade Social», Propaganda Democratica
Cf. Pierre Rosanvallor~ ob. cit., p. 96 e ss. (Publicação Quinzenal para o Povo... Collaborada pelos Principaes Escriptores Republi-
«5 Cf. Marcel Gauchet, ob cit, pp. 36-59. canos), 2.~ serie, n.° 38, 1888.
6s Teixeira Bastos, art. cit., p. 2.
A VISÃO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
perfeição... Dominadas pela ideia de que o homem é o produto da sua organiza-
social e para O engrandecimento e aperfeiçoamento humanOs»69" A tese natu- ção e das suas circunstâncias, as sociedades de amanhã irão procurar as causas
ralista aparece comandada por princípios de cariz idealista, neste caso tribu- do mal e, tratando de as aniquilar, acabarão por destruir o mesmo mal»»74
tários do jusnaturalismo e da crença na infinita perfectibilidade humana, o Nada mais claro. Afinal, o cientismo fundamentava um imaginário social
que nos leva a concluir que o republicanismo acaba por ser, em última aná- de cariz utópico, pelo menos no sentido em que fazia acreditar no iminente
lise, um herdeiro directo do humanismo iluminista do século xvIII. Portanto, advento histórico não só de um regime, mas de uma sociedade cujo modelo
a natureza surge como fonte inspiradora de valores, e a caracterização destes
era idealizado com argumentos tidos por científicos, legitimação que, bem
resulta de uma projecção idealizada de princípios axiológicos que nela pro- vistas as coisas, era mais normativa do que «positiva» ou factual. Como afir-
curavam legitimar-se, «explorando» o recente prestígio do saber cientí-
fico-naturaF°. mava o próprio Teófilo Braga, o período da história da humanidade que a
ciência iria construir seria «a utopia do futuro»75. E a grande diferença em
A partir do que ficou escrito, pensamos que se tomaram mais perceptíveis
os limites que condicionaram o realismo (e o materialismo) subjacente ao relação às utopias de inspiração metafísica estada no facto de estas terem nas-
ideário de muitos doutrinadores republicanos. É verdade que a estrutura orga- cido de sonhos subjectivos e voluntaristas -- como as de 1848 --, enquanto
nológica das sociedades (animais e, sobretudo, humanas) era apresentada como a nova utopia seria realizável de acordo com as exigências objectivas da natu-
um referente adequado à apreensão dos comportamentos humanos. Todavia, o reza e da história. Isto é, repetindo Bombarda, «quando os interesses de classe
anelo humanista que animou o cientismo republicano -- «Pela humanidade é começarem a embotar-se e o ideal humano tiver infiltrado os espíritos, a fra-
o grito de guerra da ciência»7j, escreveu Miguel Bombarda -- bloqueava ternidade deixará de ser um mito e a humana felicidade uma utopia»76; ou,
qualquer interpretação que quisesse inferir da selecção natural uma moral do como ensinava Fernão Botto-Machado aos seus correligionários, «quando se
egoísmo ou uma concepção pessimista da vida. De certo modo, foi este o passo trata de um ideal de perfeição, poderá dizer-se que ele está longe e será muito
dado por monistas como Félix Le Dantec e, entre nós, pelo velho republicano tardio, mas não deve afirmar-se que ele é um sonho, e muito menos que é uma
federalista Ladislau Batalha. Mas não deixa de ser revelador que um dos quimera ou uma utopia»77.
maiores propagandistas do naturalismo recorra a Kropotkine -- então um Tudo isto mostra que mesmo os doutrinadores mais influenciados pelo
dos escritores mais seguidos pelos anarquistas -- e invoque o sentimento al- cientismo e pelo materialismo não dispensaram uma fundamentação axioló-
truísta e o papel interventor da praxis para corrigir os exageros do darwinismo gica de índole jusnaturalista para o seu ideal político, apesar de, no campo da
social e fundamentar uma ética da solidariedade: «Em toda a natureza o factor
coerência filosófica, considerarem a tradição do direito natural moderno e dos
cooperativo tem sido a fonte ubérrima da adaptação e da evolução. A selec-
direitos subjectivos como produtos da fase metafísica da evolução do espírito
ção darwiniana, com a sua desoladora e imponente luta pela existência, já fez
humano, estando, por isso, ferida de cientificidade. Não admira. O próprio
o seu tempo. E, como o príncipe Kropotkine, eu direi até que, para o progresso
moral do homem, precisamente em mais larga extensão do mútuo auxilio Duguit, expoente máximo do positivismo jurídico, demarcou o objecto da
reside a melhor garantia de uma evolução mais levantada da nossa espécie»72 ciência do direito do estudo das instituições existentes, sancionadas e forma-
Em suma: a aceitação da natureza orgânica como fonte inspiradora de va- lizadas pela lei, isto é, do «direito positivo». O direito estuda a «norma jurí-
lores não desaguava na apologia do egoísmo extremo q como certas leituras dica», quer dizer, as regras de comportamento implicitamente admitidas e
anglo-saxónicas do darwinismo social pretendiam -- e invalidava a definição difundidas numa dada sociedade e num dado momento histórico. E se, como
meramente neutra e negativista das relações entre a sociedade civil e a so- bom discípulo de Comte, considerava que todo o direito natural não passava
ciedade política em nome do princípio de que «tudo é solidário no mundo de um modo metafísico de pensar, o certo é que, por um lado, defendeu que a
orgânico: tudo deve ser solidário no mundo moral e social»73. Por todos, pen- Declaração dos Direitos do Homem (a de 1789) devia fazer parte da ordem
samos que o que se segue exprime correctamente esta sobredeterminação, que constitucional, e, por outro, reconheceu a existência de um «ideal» fundante
era movida pelo propósito de reconciliar a natureza com a história: «Uma da normatividade do direito, a saber: a aspiração contínua, inesgotável e na-
sociedade regida pelo princípio declarado da obediência do homem à sua natu- tural do homem a ser mais humano, logo, a ser mais individual e mais social,
reza e às suas circunstâncias seria uma sociedade ideal, porque seria ela que mediante a crescente tomada de consciência de que a lei da sua vida e as regras
melhor e mais fundamente fomentaria a marcha da humanidade na senda da da sua conduta assentam na solidariedade humanaTM.

Idem, ibidem. 7« Miguel Bombarda, Consciencia e Livre Arbitrio, pp. 357, 359.
~o Cf. Georges Canguilhem, Ideologia e Racionalidade nas Ciências da Vida, Lisboa,
7» Teófilo Braga, Cartas Inéditas de... a Wilhelm Storck Conservadas na Biblioteca
s. d., pp. 31 e ss.; Hilary Rose et ai, L'Idéologie de/dans la Science, Paris, 1977, p. 258 e ss.
7~ da Universidade de Münster, Coimbra, 1936, p. 29. A carta tem a data de 27 de Julho
Miguel Bombarda, ob. cit., p. 152. de 1839.
7,.
Idem, [Prefacio], in Ladislau Batalha, ob. cit., p. II. 76 Miguel Bombarda, ob. cit., p. 362.
7_~
Fernão Botto-Machado, O Ideal e a Solidariedade Humana, p. 34. 77 Fel'não Botto-Machado, ob. cit., p. 29.
Ta Cf. Claude Nicolet, ob. cit., p. 297.
146
A VISÃO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
ideal que conciliava a tradição demoliberal com a tradição socialista _, pelo
Antes de Duguit, Manuel En~'dio Garcia, jurista republicano, teve um posi- que não deve espantar que o republicanismo portu u^
cionamento análogo. Crítico do individualismo kantiano representado por tlda comum -- a influência d- c,. ....... g es, com um ponto de ar-
Vicente Ferrer Neto Paiva, Garcia introduziu na explicação dos fenómenos a mesma base filosófica"-__
,-,-«-ue t~evoluçãopositivista
sociologismo e da revolução de 1848 pa--,e°
e organicista
c;m
jurídicos argumentos inspirados nas correntes positivistas e sociologistas tenha evoluído para a apologia de um programa em que, como os federalistas
(Comte, Littré, Spencer) com o fito de combater o direito natural e o seu «eure- já sustentavam décadas atrás, os ideais de Liberdade e de Igualdade se casa-
mocentr/smo»TM e de dar uma cobertura cienfffica à teoria dos direitos e dos vam com o novo ideal de Solidariedade, no fundo, a tradução sociologista do
deveres que, em certa medida, o krausismo e o organicismo metafísico de velho imperativo ético da Fraternidade. De facto, basta compulsar os escritos
Rodrigues de Brito, com a sua «mutualidade de serviços», já haviam sumi- de Teixeira Bastos, Teófilo, Manuel Emídio Garcia, Sebastião de Magalhães
nhado, na década de 60. Porém, uma leitura atenta dos seus escritos mostra Lima, Miguel Bombarda, Fernão Botto-Machado, entre outros, para se com-
que o seu positivismos° era ecléctico e heterodoxo e que visava justificar um
provar o peso do solidarismo no projecto que o republicanismo foi apresen-
demorrepublicanismo de cariz solidarista, em nome de uma visão inspirada
tanto no optimismo peffectibilista típico das filosofias metafísicas do pro- tando como alternativa aos socialismos revolucionários e de Estado e ao libe-
ralismo monárquico.
gresso, como na natureza, explorando a analogia8~ estrutural-funcional que, a
seu ver, existia entre os organismos naturais e sociais. Por outro lado, a his- Não se pense, contudo, que esta orientação se limitou a reproduzir a evo-
tória tenderia a concretizar o que já existia em «estado natural», embora a ideia lução ideológica e política da III República francesa e, em particular, a doutri-
de natureza fosse modelada por um ideal que se acreditava estar inscrito no nação de Léon Bourgeois84 e de seus seguidores. É certo que um propagandista
sentido evolutivo da história, pois, se a evolução radicava na tendência per- como Fernão Botto-Machado sabia que o termo «solidariedade» tinha origem
fectível do homem, impdindo-o a vencer o fatalismo das leis naturais, o orga- na obra de Pierre Leroux, De L'Humanité, e não desconhecia os textos de
nicismo revelava que o estado normal do relacionamento das partes e do fun- Bourgeois85. Todavia, é igualmente verdade que já José Fúlix Henriques No-
cionamento dos órgãos devia ser a cooperação, ou melhor, a solidariedade, e gueira havia defendido, em 1851, tanto a sociabilidade natural, como o asso-
não o egoísmo. E a análise do pensamento de outros doutrinadores mostra que ciacionismo e, desde os anos 70, os republicanos positivistas tinham subli-
o cientismo positivis~ quer no sentido comtiano do termo, quer na sua acep- nhado que a Cooperação e a Solidariedade seriam os substitutivos mais
ção jurídica, não rompeu com a herança metafísica do direito natural, nem com adequados ao princípio da Fraternidade. E esta ilação tinha como fito com-
a sobredeterminação moral (normativa) da facticidade social82. bater o individualismo extremo e os socialismos mais radicais. O solidarismo
-- para alguns a expressão científica do verdadeiro socialismo (Fernão
Botto-Machado, Teixeira Bastos, Miguel Bombarda) ~ superaria o atomismo
SOCIABILIDADE E INDIVIDUALISMO
social, integrando o indivíduo no tecido das sociabilidades naturais e formais
Tendo presente as suas prevenções teóricas contra o atomismo social, com- (associação), e garantiria a prossecução de fins análogos aos do socialismo e
pmende-se que o republicanismo, ou pelo menos as posições doutrinais nele domi- do próprio anarquismo, sem, contudo, cair nos seus exageros.
nantes na fase da propag~da, nîo possa ser confundido com uma ideologia estri- Neste contexto, será excessivo identificar a teoria da sociedade que, de um
tamente individualista. E que a teoria de sociedade nele hegemónica dava modo dominante, fundamentou o republicanismo português nos finais de Oito-
continuidade a uma tradição holística que vinha de Aristóteles e de São Tomás, centos e na primeira década do novo século com o conservadorismo reaccio-
passava pela sua secularização feita por Grotius e pelos Ideólogos, e acabava na nário ou com o individualismo atomista. E, para que se apreenda melhor esta
sua naturalização levada a cabo pela sociologia oitocentista. Por isso, o indivíduo asserção, sublinhe-se que uma das suas fontes inspiradoras ~ a sociologia
não devia ser definido em termos abstractos e pré-sociais, mas perspectivado na comtiana ~ também teve interpretações contra-revolucionárias que negavam
sua natural dimensão social. Sob o efeito da propaganda socialista e da agudi- o estatuto ôntico do indivíduo e definiam a famflia como a célula-base da
zação da questão social, o prúprio republicanismo francês acabou por desaguar, sociedade. É que Comte não foi somente um discípulo das «Luzes» e, em par-
nos fruais do século xtx e princípios do século xx, na defesa do solidarismo83 ticular, de Condorcet e de Turgot, mas também reivindicou a herança do tra-
dicionalismo de De Bonald e de Joseph de Maistre, vertente que, por coerência
com o paradigma biologista da sua sociologia, o levou a condenar os pro-
~~ Manuel Emídio Garcia, Estudo SociolÓgico ....
Idem. Apontamentos de Algumas Prelecçõesp. doXI.
Dr... no Curso de Sciencia Politica gressos da biologia e a teoria da divisão da célula86. E é este posicionamento
e Direito Politico Colligidas pelos Alunnos do Mesmo Curso Padre Camello e Abel
d'Andrade, Coimbra, 1893.
~~ Idem. «Divisão Interna da Sociologia», O Instituto, vol. 30, 1882, pp. 9-12. 84 Cf. Léon Bourgeois et Alfred Croiset, Essai d'une Philosophie de la Solidan'té, Paris, 1902.
~-" Para o caso dos republicanos franceses, veja-se Claude Nicolet, ob. cit., p. 297. 85 Fernão Botto-Machado, ob. cit., p. 32.
K~ Idem. ibidem., p. 371 e ss.
s6 Cf. Georges Canguilhem, Études d'Histoire et de Philosophie des Sciences, 2.= ed.,
Paris, 1970, pp. 65-66.
A VISTkO REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
É um facto que esta caracterização da farmqia moderna não contradizia a
que explica que, em França, alguns influentes ideólogos da «direita revolu- visão individualista e liberal da sociedade, pois considerava_a como a resul-
cionária»S7 tenham reivindicado certos aspectos das suas concepções socio- tante de um contrato entre duas pessoas livres, tese que alguns liberais portu-
lógicas, como aconteceu em Portugal com Alfredo Pimentas8. gueses da década de 60 Perfilharam, pois defenderam o casamento civil95 e,
Não foi este o caminho dos mais marcantes doutrinadores do republica-
no caso de Vicente Ferrer Neto Paiva96, o próprio divórcio. Porém, com o repu-
nismo português. Conscientes de que a aceitação da famflia como núcleo blicanismo, o contributo liberal, isto é, a postulação dos sujeitos contraentes,
básico da estrutura social servia melhor os ideais reaccionários do que os prin-
não se razia de maneira atornista e abstracta, mas a partir de uma tese socio-
cípios da democracia, os ideólogos republicanos recorreram à concepção lógica e de uma ideia de liberdade que inseria os indivíduos na história colec-
segundo a qual o processo cósmico desenvolvia um dinamismo de crescente
tiva e no seu meio natural e social, podendo mesmo dizer-se que, no explícito
heterogenia que, como ensinava Herbert Spencer, estava a culminar, a nível
dos textos doutrinais, os definiu a partir das suas condicionalidades mesoló-
social, na emergência do indivíduo -- veja-se o caso de Teófilo Braga --, ou
invocaram a teoria da divisão e junção das células para justificar a autonomia gicas97 e das suas naturais tendências sociabilitárias, já o escrevemos atrás: o
e o lugar primordial do indivíduo no organismo social. «Como do agregado indivíduo era um ente sociabilitariamente sobredeterminado, que vivia num
de células se forma o tecido, e da junção de células o indivíduo», Teixeira dado momento histórico, habitava um espaço geográfico concreto e tinha
Bastos definia, assim, a estrutura da sociedade: indivíduo, farm'lia, «a reunião características étnicas específicas, mas passíveis de serem cientificamente estu-
de faim'lias produz a cidade ou a comuna; e a liga de cidades ou comunas ori- dadas. Deste modo, conquanto a tendência sociabilitária e os imperativos que
gina a nação»89. o impeliam para a acção fossem de ordem universal, recebia especificações
E certo que, na linha de Comte, pensadores como Teófilo Braga não dei- que resultavam da conjugação de múltiplos factores condicionantes (história,
xaram de reconhecer a dimensão natural da fanulia e, tal como o filósofo raça, cultura, língua, geografia).
francês, não aceitavam a dissolução do casamento e o divórcio9°. Mas desde Por outro lado, relembre-se que o projecto de José Félix Henriques
cedo encontramos outros que a entendiam como um produto social e, por isso, Nogueira, nascido sob a influência dos ideários socialistas de 48 e do munici-
sujeita à relatividade históricagL sendo o seu estádio mais acabado a forma palismo de Alexandre Herculano, já continha o esboço de uma estática social
moderna de monogamia, que considerava o casamento como um contrato ceie- que pode ser assim sintetizada: indivíduo, freguesia, município, província,
brado entre dois sujeitos livres. Como escrevia um autor apreciado por muitos nação, federação latina, humanidade federada na República Universal. E não
republicanos, «em face da etnografia e da história, a fanuqia e o casamento são erraremos muito se concluirmos que o projecto republicano propagandeado nas
instituições puramente humanas»92. Em consequência, não admira que os repu- décadas imediatamente seguintes se limitou a legitimar com argumentos fidos
blicanos mais radicais tenham integrado no seu programa a visão da famflia
por científicos esta concepção, esforço patente nos textos republicanos fede-
subjacente à Revolução Francesa (o divórcio foi aprovado em 20 de Setembro
ralistas e no próprio programa do Partido Republicano de 1891. E, nos anos
de 1792), e que se tenham mobilizado, com particular destaque para a Liga
das Mulheres Republicanas (Ana de Castro Osório, Maria Veleda), contra a finisseculares e nos princípios do século xx, encontramos ainda a apologia da
mesma estrutura, posição que tinha de se repercutir necessariamente nos
indissolubilidade do matrimónio e a favor do divórcio, reivindicações93 que
a jovem República virá a satisfazer94. debates acerca da futura organização do Estado republicano.
Sintetizando: em termos sociopolíticos, a definição de indivíduo exigia que
fossem relevadas as condições naturais e sociais da sua existência, a começar
pela sua ligação ao meio imediato: a farmqia e a freguesia, primeiros degraus
s7 Cf. Zeev Sternhell, La Droite Révolutionnaire. 1885-1914, Paris, 1978; Raoul
de uma escala ascendente (município, província, nação, humanidade) que seria
Girardet, Le Nationalisme Français, Paris, 1983. tanto mais extensa quanto mais desenvolvida fosse a formação cívica dos cida-
u Cf. Alfredo Pimenta, Factos Sociais (Problemas d'hoje). Ensaios de Philosofia Cri-
dãos. Isto é, a nova ordem republicana devia respeitar «as leis da organização
social, numa hierarquia ascendente do homem para a farm'lia, da famflia para
biographiatiCa' Porto, Filosofica ),1908; EstudOScoimbra,SOciologicos,193 5. Lisboa, 1913; Evolução dum Pensamento (Auto-
89Teixeira Bastos, A Familia, Porto, 1884, p. 190. a comuna, da comuna para a província, da província para o Estado, e deste
para a síntese de todos eles, a unidade biológico-social que se chama Pátria!
Estudos96Cartasociologicos,de TeXifilo P.Braga130.a Alfredo Pimenta (2 de Março de 1908), in Alfredo Pimenta, Essas leis divinas colocam-nos, como um povo culto, nas fronteiras dos outros
9t Teixeira Bastos, ob. cit., pp. 29-36.
92 D. Reboredo de Sampaio e Melo, Familia e Divorcio, Lisboa, 1906, p. 6.
93 Por todas as atitudes reivindicativas pró-divórcio, leia-se: «Representação Entregue
95 Cf. Fernando Catroga, «Laicização do Casamento e o Feminismo Republicano», sepa-
ao Governo Provisorio da Republica pela Liga Republicana das Mulheres Portuguezas»,
rata das Actas do Colóquio «A Mulher na Sociedade Portuguesa», Coimbra, 1985.
96 Cf. Luís Cabral de Moncada, O Liberalismo de Vicente Ferrer Neto Paiva, Coimbra,
App.MUlhere7.8. a Criança, li anno, n.o 18, Novembro, 1910, pp. 9-10 e n.o 9, Dezembro, 1910,
1947, p. 38 e ss.
Sobre o movimento pr6-divórcio, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., vol. I, pp. 354-68.
97 Cf. Fernando Catroga, A Militância Laica e a Descristianização da Morte em Portugal
(1865-1911), vol. 1, pp. 240-45.
150
A VIS~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
a concretização da emancipação dos indivíduos. Por outro lado, o ideal de cida-
povos, que são outras tantas unidades biológico-sociais, para, no seu conjunto, dania republicana rejeitava a cesura liberal entre a vida privada e a vida
sob a pressão inevitável da solidariedade universal que prende tudo e todos, pública, e os direitos naturais que, em última análise, encontramos a funda-
alcançarmos todos nós, grandes e pequenos, sábios e ignorantes, ricos e pobres, mentar os programas políticos do movimento e a Constituição republicana de
a equivalência social, o triunfo certo da democracia pura»9~- Logo, à luz da 1911 aparecem correlacionados com direitos com claras implicações sociais
matriz dominante na teoria social do republicanismo, a caracterização exclusi-
(associação, assistência, trabalho, obrigatoriedade de ensino, etc.). E foram
vamente individuaiista da sociedade colidia com a moral e a natureza ao criar estas duas características -- fidelidade à tradição dos direitos naturais e sensi-
um vazio entre o indivíduo-cidadão e o Estado-Nação. Este desfasamento só bilidade a certos aspectos da questão social -- que permitiram ao republica-
desapareceria quando «uma verdadeira organização social [estabelecesse] o
nismo recuperar algumas teses do positivismo, sem cair nos exageros totalitá-
inevitável equil~rio entre as duas grandes forças propulsoras do movimento
rios de Comte, e dialogar polemicamente quer com o liberalismo monárquico,
da vida e do progresso dos indivíduos e dos povos, o egoísmo e o altruísmo»99.
quer com os socialismos, sem fazer concessões ao apoliticismo e economi-
Dito de outro modo: o Estado, enquanto instância produtora (e refundadora)
de uma nova sociedade, teria de preencher o vazio suscitado pela liquidação cismo de alguns (Proudhon) e ao estatismo de outros (Lassale, Karl Marx).
das sociabilidades corporativas do Antigo Regime e encontrar um substituto Pode assim concluir-se que ele constituiu uma versão atenuada da social-demo-
da antiga «concórdia» do corpo político tradicional1°°. cracia oitocentista conciliável com a representação liberal da pluralidade de
A definição «jusnaturalis~» dos elos sociabilitários exige, porém, um escla- interesses à inglesa. Foi, em suma, um «social-republicanismo»~02.
recimento. Aqui, ao contrário do jusnaturalismo explicitamente metafísico, a
compreensão da natureza humana é inseparável da sua historicidade~°~ e da pro-
gressão do ideal de perfectibilidade. O que explica que a autonomia das es- O ASSOCIATIVISMO E OS DIREITOS SOCIAIS
feras da sociabilidade e a sua funcionalidade própria estivessem tanto mais
garantidas quanto mais as relações sociais traduzissem o domínio do altruísmo A associação, sendo um contrato, constituía um modo livre de o homem
sobre o egoísmo. E é este apelo à conciliação da individualidade com a colec- superar o seu egoísmo e de contratualisticamente realizar a sua vocação socia-
tividade, ou melhor, do atomismo com o holismo, que nos permitirá ver como bilitária. E é neste contexto que se tem de compreender o particular relevo que
é que o republicanismo inseriu a defesa das liberdades fundamentais num hori- os republicanos deram à promoção da sociabilidade formal (associações polí-
zonte mais lato do que o do modelo do liberalismo clássico. Com efeito, basta ticas, de resistência, culturais, mutualistas, cooperativas, maçónicas, etc.) e à
compulsar os textos de Sieyès, Benjamin Constant ou de Tocqueville para se defesa da sua legalização. Como se sabe, as Declarações dos Direitos do
perceber que, nos fruais do século XVm e durante o século XIX, o liberalismo
Homem não contemplavam o direito de associação, o que se explica, pois os
não se confundia com o ideal democrático, já que temia a emergência do des-
revolucionários franceses, por lei de Le Chapelier de 1791, proibiram as
poüsmo das «maiorias ignaras» (Herculano) e não aceitava que o fim da acção
associações com o receio de que fossem reconstituídas as «coligações» corpo-
do Estado fosse a realização da felicidade comum.
rativas do Antigo Regime. E, se fizermos a história da luta pelo seu reconhe-
O Estado republicano devia salvaguardar não só os direitos fundamentais,
mas também seria obrigado a garantir certas condições tidas por essenciais para cimento na Europa, verificamos que, em França, só a Constituição de 1848
aprovou esse direito, embora a legalização de associações tidas por perigosas
só tenha acontecido tardiamente: os direitos à greve e de associação sindicai
Manuel de Arriaga, A Proclamação da Republica em 5 de Outubro e o Projecto da só foram aprovados em 1864 e 1884, respectivamente, enquanto em Inglaterra
sua Constituição na Assembleia Constituinte. Discurso Proferido na Sessão de 11 de Junho a oficialização dos sindicatos se deu em 1871 e a supressão do delito de greve
de 1911, Lisboa, 1911, p. 6. em 18751°3. Em Portugal, apesar de a Constituição de 1838 sancionar o direito
99 Idem, ibidem, p. 8.
de associação (artigo 14.o), a verdade é que a legislação posterior restringiu-o,
'°°Cf. Pierre Rosanvallon, ob. cit., p. 99.
J0, No ensaio A Formação do Movimento Republicano (1870-1883), Coimbra, 1982, o que não impediu o florescimento de várias formas de associativismo a partir
caracterizámos o nosso republicanismo como sendo tributário de uma visão historicista da dos meados do século. Mas pode dizer-se que foi já sob o efeito da propaganda
laistÓria (cf. pp. 75-85). E julgamos que essa qualificação é igualmente aplicável ao pensa- republicana e anarco-socialista que a liberdade de associação foi amplamente
mento republicano francês, apesar de a influência neokantiana e espiritualista, miscegenada consagrada (lei de 14 de Fevereiro de 1907), medida que confirmava outras
com o cientismo, ser muito mais forte do que em Portugal. Por isso, discordamos de Luc
Ferry e Alain Renaut quando o caracterizam como um anti-historicismo, e julgamos que a que, sob a pressão dos factos, os governos monárquicos tinham promulgado,
apreciação de Philippe Reynaud, feita em 1983, é mais exacta ao assinalar que as reivindi-
cações abstractas dos direitos do homem se inseriam numa «problématique assez nettement
historiciste, tempérée, non sans une certaine inconséquence, par l'idée de l'irréductibilité ,02 Cf. Pierre Rosanvallon, ob. cit., pp. 117, 140 e ss.
de la sphère des valeurs» (Philippe Reynaud, art. cit., p. 37). Julgamos que algo de pare- ,03 Cf. Germain Sicard e André Cabanis, «L'Individu Face au Pouvoir en Europe et en
cido também ocorreu com o republicanismo português.
Amérique aux XIX et XX Siècles. Rapport Génerale», Recueils de la Société Jean Bodin,
vol. 50, Paris, 1988, pp. 64 e ss.
A VIS~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA

O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL truction est le besoin de tous. La société doit favoriser de tout son pouvoir les
progrès de la raison publique, et mettre l'instruction à la portée d e t o u s l e s
a saber: a regulamentação dos socorros mútuos (decreto de 28 de Fevereiro
citoyens» (artigo 22.o)t0s. Como se vê, estamos perante profissões de fé que
de 1891
9 de Maioe de
de 1891)
2 de Outubro de 1896),agrícolas
e dos sindicatos das associações
(decreto de
de classe (decreto
5 de Julho de
de 1894 visavam colocar a virtude republicana a comandar o egoísmo e a conciliar as
esferas autónomas, mas transitivas entre si, da vida privada e da cidadania,
e lei de 3 de Abril de 1896P°4.
A associação pressupõe que só com a mediação da liberdade a natureza garantindo, assim, a cimentação do novo consenso que deveria existir entre o
social do indivíduo se concretiza verdadeiramente. Deste modo, se, para a todo social e cada um dos seus membros~09.
maioria dos ideólogos do movimento, o contratualismo não constituía o funda- Com isto, não se pretende sugerir que o estatismo defendido por algumas
mento da sociedade política, o mesmo não se pode afirmar no que concerne correntes oitocentistas -- como o totalitarismo capitalista proposto por Comte
à reestruturação que se achava ser mais adequada ao estádio histórico da evo- na sua segunda fase (a do Système de Politique Positive) e muitas propostas
lução humana. De facto, a sociedade idealizada pela propaganda republicana socialistas -- foi uma consequência directa da doutrina da «felicidade
partia, regra geral, da definição do homem como «animal político» e sugeria, comum», nem muito menos afirmar que o republicanismo acabou por desva-
como alternativa à sociabilidade em estado de natureza, a sua reorganização lorizar os direitos fundamentais em nome de alguns direitos sociais que a acção
em termos de contratos livres, isto é, através da associação. Recorde-se que o do Estado obrigatoriamente teria de positificar e impor. É certo que quase todos
pr6prio federalismo era um contrato, em que cada parte -- sujeito colectivo -- os programas do movimento incorporaram algumas reivindicações socialistas:
mantinha um específico grau de liberdade, e José Félix Henriques Nogueira, o programa federalista de 1886, apresentado por Teixeira Bastos e Carrilho
na linha do espírito de 48, sustentou que só a associação poderia harmonizar Videira, não só deu guarida à velha pretensão de 48 (o direito ao trabalho),
os direitos individuais com a colectividade~°». Como seu bom discípulo, Teófilo
como propôs a nacionalização dos bancos, caminhos de ferro, minas e seguros,
Braga pensava que as sociedades modernas seriam tanto mais livres e progres-
e defendeu o crescimento do sector cooperativon0; o programa do Partido
sivas quanto mais a organização da sociedade civil assentasse no associacio-
nismo~06. Outros farão a apologia da solidariedade e do fomento do coopera- Republicano, aprovado em Janeiro de 1891, sem ser tão radical, não deixou
de, a par das reivindicações estritamente políticas, objectivar outras aspirações
tivismo, expressões que, no fundo, cobriam a mesma intenção: objectivar, em
de teor social, como a defesa do cooperativismo de consumo, produção e cré-
termos de relações sociais, a conciliação, a nível ôntico, entre o individualismo
e a sociabilidade e, no campo ético, entre o egoísmo e o altruísmo. Dito de dito, e o apelo a uma maior intervenção do Estado em matérias como a regu-
outro modo: no imaginário social republicano, a associação possibilitaria a lamentação do inquilinato e dos litígios entre o capital e o trabalho, tendo em
gradual criação de condições para o enraizamento da democracia e para a reali- vista aumentar a solidariedade e o consenso social através da pacífica «incor-
zação do self-government~°7 da sociedade civil, pelo que não surpreende poração do proletariado na sociedade moderna»lIs. Com a chegada dos republi-
a importância dada à reivindicação da liberdade de associação e, após o 5 de canos ao poder em 5 de Outubro de 1910, o novo regime tomou medidas em
Outubro, ao seu mais lato cumprimento constitucional (artigo 3.% n.° 14 relação ao inquilinato e decretou a legalização da greve, mas a nova Consti-
da Constituição de 1911). tuição, aprovada em Agosto de 1911, não foi muito longe no campo dos direitos
Dir-se-á que, no campo do associativismo, não estava em causa a acção sociais, pois limitou-se, nesta matéria, a reconhecer o direito de associação e
interventora do Estado e que este se limitava a garantir funções análogas às de assistência e a defender o direito ao ensino obrigatório, gratuito e neutro.
que exercia em relação aos demais direitos naturais. Ora, a realização da «feli- Quererá isto dizer que os republicanos traíram as suas promessas anteriores?
cidade comum», de tradição rousseauniana-jacobina, requeria uma actuação É um facto que os mais extremistas, bem como os anarquistas e socialistas,
política positiva, aliás já potenciada na Declaração dos Direitos do Homem assim pensaram. No entanto, não se pode esquecer que, para além de todas as
e do Cidadão preambular ao Acto Constitucional de 24 de Junho de 1793.
É que, segundo o seu articulado, «le but de la société est le bolmeur commun» divergências que dividiram internamente o movimento, existia uma base
comum que, desde a década de 70, o diferenciava do socialismo, a saber: todos
(artigo l.o) e, por isso, «les secours publics sont une dette sacré. La société
aceitavam, mesmo os mais radicais, a prioridade do político e da forma de
doit la subsistance aux citoyens malhereux, soit en leur procurant du travail,
soit en assurant les moyens d'exister à ceux que sont hors d'état de travailler regime em relação à questão económica, tese exemplarmente exposta por
Teófilo Braga na sua História das Ideias Republicanas em Portugal (1880),
(artigo 21.o). E, como o proselitismo iluminista inerente à Revolução via na
educação o caminho primordial da emancipação, sustentava-se que «Fins- obra escrita para fundamentar o republicanismo e para o demarcar do socia-
lismo e do apolitismo proudhoniano então representados, entre nós, por Antero
104 Cf. Marnoco e Sousa, Constituição Politica da Republica Portuguêsa. Commentario,
Coimbra, 1913, pp. 114-15. ~OSln Maurice Gauchet, ob. cit., p. 331.
~o9 Cf. Elisabeth G. Sledziewski, Révolutions du Sujet, Paris, 1989, pp. 19-20.
'°~Cf. José Félix Henriques Nogueira, Obras Completas, vol. 1, p. 153 e ss. i to Cf. Teixeira Bastos, Projecto de Um Programma Radical para o Partido Republicano
~06 Cf. Teófilo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, pp. 329-30.
~07 Cf. Idem, Systema de Sociologia, pp. 271-72. Portuguez, pp. 26-29.
~N In Trindade Coelho, ob. cit., p. 642.

155
A VIS/~,O REPUBLICANA DA HISTóRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
xionar os direitos fundamentais com o controlo da vida pública se manteve
de Quental":. Deste modo, sem a realização da democracia política, a questão como uma das preocupações essenciais de um movimento que estava cons-
social só teria solução nos quadros da ditadura, ou através de uma praxis de ciente das ligações estreitas que existiam entre a educação e a política. Isto é,
raiz ¢conomicista. a função instituinte de novas sociabilidades levou ì defesa de uma certa
Esta divergência é compreensível: para o republicanismo, os verdadeiros margem de intervenção do Estado. Assim, se esta era supletiva em relação à
direitos do homem são os direitos do cidadão entendidos como direitos de par- economia, tinha de ser directamente interventora na esfera da educação, e esta
àcipação no poder legitimados pelo sufrágio, participação que, por um lado, acção, para além de ser exigida como um meio de garantir a igualdade de
assenta no respeito pelas liberdades fundamentais, e que, por outro, garante, acesso à Escola, aparecia como a condição necessária ì uniformização dos
pelo seu prúprio exercício, a relevação das exigências de solidariedade ou de planos de educação, o único meio passível de socializar um novo sentimento
fratrxnidade"" decorrentes da dimensão sociabilitária do homem. Recorde-se nacional. Daí que o Estado republicano, como Estado «instituteur du social,
que o liberalismo oitocentista se fundamentava na dicotomia entre a privaci- doit nécessairement se prolonger à leur yeux en État éducateur pour accom-
dade o espaço público, enquanto a capacidade política, conferida por crité- pler sa mission»H».
rios de capacidade intelectual e, sobretudo, proprietistas, restringia os direitos Com efeito, para o republicanismo não existia democracia sem demopedia,
políticos. Daí a oposição entre liberalismo e democracia, tendo-se o republi- e a promoção da educação dos cidadãos era primacial para que o uso da razão
canismo situado nesta segunda linha com a defesa teórica do sufrágio univer-
pudesse iluminar o caminho conducente à realização do interesse geral, pro-
sal des~ Jus~ F~lix Henriques Nogueira (1851). E a propaganda das décadas
jecto emancipador incompatível com a subordinação, consciente ou incons-
posteriores reafirmou esta pretensão, embora, após 1910, a República tenha
acabado por dar continuidade, sobretudo por precauções tácticas, a certas limi- ciente, da vontade individual a qualquer coacção externa, sobretudo de origem
transcendente. Portanto, a liberdade só poderia ser educada num quadro de
tações eleitorais, ao não reconhecer o direito de voto aos analfabetos, às
mulheres aos indivíduos no exercício de certas profissões. laicidadeH6 e de completa autonomização da política em relação aos seus tra-
Invalidará esta evolução as intenções participativas do seu projecto polí- dicionais fundamentos teológicosllL
É verdade que o laicismo foi partilhado, em maior ou menor grau, por ou-
tico na fase da propaganda? Pensamos que não, desde que se enquadre o pro-
blema na sua perspectiva teúrica e se levem em conta algumas prevenções tros sectores políticos (monárquicos anticlericais, socialistas, anarquistas).
politicas, pois, para a maior parte dos republicanos de 1910, não estava teore- Todavia, somente o republicanismo o articulou com um programa político e
tieamente em causa o sufrágio universal e não fazia sentido a invocação de cultural e conseguiu captar alguns apoios significativos em certos sectores da
critérios proprietistas para o restringir, já que, como bons reactualizadores do opinião pública. Assim, desde os seus primeiros programas até à obra legis-
ilurainismo setecentista -- de que o cientismo positivista era um prolonga- lativa da República, promulgada entre 1910 e 1911, encontramos relacionado
mento u estavam convictos de que só uma educação e instrução correctamente o respeito pelos direitos fundamentais com a necessidade de se separar as
ministradas poderiam emancipar, isto é, conduzir ao bom uso dos direitos fun- Igrejas do Estado e de se impelir as crenças religiosas para a esfera privadaH'.
damentais. E os analfabetos e as mulheres (que tinham uma taxa de analfabe- Mas, simultaneamente, esta exigência também surge correlata de uma mais
üsmo maior do que os homens) não estariam nessas condições, pelo que a con- profunda: a separação das Igrejas da EscolaI19, condição nuclear para que a
cessão de voto só iria reforçar o campo dos adversários da liberdade: os liberdade não fosse eliminada pelo fatalismo das opções ético-religiosas, e
monárquicos e os seus aliados clericais. Por tudo isto, pode concluir-se que o meio essencial para que o Estado pudesse fomentar a criação de verdadeiros
republicanismo foi um movimento vocacionalmente democrático e de cariz cidadãos.
participativo. É certo que essa participação seria maior se o Estado fosse des- Este desiderato coloca o republicanismo na linha directa de Condorcet e da
centralizado e a representação estivesse sujeita ao mandato imperativo defen-
obra escolar da Convenção, pontos de partida do ideal de obrigatoriedade e
(lido pelos federalistas no decurso da década de 70. No entanto, a República,
se, por um lado, consagrou o municipalismo (e o referendo em relação aos pro-
blemas locais), por outro, rejeitou o mandato imperativo em nome da unidade
N» Cf. Pierre Rosanvallon, ob. cit., p. 120.
da indivisibilidade da soberania,4. Pensamos, porém, que o modo de cone-
~~6 Sobre o problema das relações entre secularização e laicismo republicano e suas inci-
dências no campo do anticlericalismo, veja-se Fernando Catroga, A Militãncia Laica e a
"-~ Cf. Fernando Catroga, O Problema Político em Antero de Quental. Um Confronto Descristianização da Morte em Portugal (1865-1911), vol. 1, pp. 14-34, 489-612.
com Oliveira Martins, Coimbra, 1981, pp. 41-71. Jl7 Luc Ferry e Alain Renaut, ob. cit., p. 173.
"~Luc Ferry e Alain Renaut, ob. cit., p. 169. ~]sCf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 489 e ss.
,4 Der, de .Io~é Félix Henriques Nogueira que se tornou uma constante do ideário repu- ],9 Em França, a separação das Igrejas da Escola antecedeu a separação das Igrejas do
bli~ a defesa da descentralização. Quanto ao mandato imperativo, vejam-se: Teófilo Estado (1905). Cf. Louis Legrand, L'lnfluence du Positivisme dans i'Oeuvre Scloraire
Braga, Historia das Ideias Republicanos em Portugal, pp. 224, 230-31; Sebastião de Maga- de Jules Ferry. Les Origines de la Lai'cité, Paris, 1961; Pierre Chevallier, La Sdparation de
Lima, A Revolto (2.* Parte). Processo da Monarchia, p. 53. l 'Église et de l'École. Jules Ferry et Léon XIII, Paris, 1981; Muna Ozouf, L 'École. L 'Église
et la République. 1871-1914, Paris, 1963.
156
A VIS/~O REPUBLICANA DA HISTÓRIA E DA NATUREZA
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
escola, a sua «infra-estrutura cultural» nuclear, os devesse interiorizar de modo
liberdade de ensino. No entanto, nos quadros do pensamento secularizado, tais a que funcionassem como uma espécie de postulados da razão prática, normas
preceitos foram completados pela reivindicação da gratuitidade e da laicidade que domesticariam o egoísmo, impediriam o regresso à guerra de todos contra
da Escola. única solução que seria adequada à objectividade e ao progresso todos (Hobbes) e garantiriam a conciliação da autonomia individual com a
das ciências, e único pressuposto que, em vez de dividir, como a religião, ino- sociabilidade. Invocando a lição de Durkheim, dir-se-ia que o Estado republi-
cularia ideais colectivos capazr~ de unificarem as consciências e de formarem cano tinha a obrigação de criar as condições supletivas necessárias ì passagem
cidadãos afectivamente ligados à República, à Pátria e à Humanidade. A obri- da solidariedade mecânica -- típica das sociedades de Antigo Regime -- ì
gatoriedade escolar significava que a educação não podia ficar sujeita ao arbí- solidariedade orgânica, complemento voluntarístico corrector do crescente pro-
trio dos direitos subjectivos, pois o desenvolvimento das capacidades, mais do cesso de heterogenia e autonomização das partes em relação ao todo.
que um direito privado, constituía um dever social~2°, e consequentemente o Tudo isto mostra, por outro lado, que os juízos de facto produzidos pela
Estado teria de garantir as condições adequadas à sua plena concretização. argumentação tida por científica estavam subordinados a uma intenção huma-
Neste contexto, pode mesmo afirmar-se que o imperativo do interesse geral nística compatibilizadora das liberdades individuais com os deveres colectivos.
requeria a intervenção política numa esfera que, criando as condições que E, indo ao fundo das coisas, descobre-se que a razão republicana se manifes-
emancipariam o homem e o cidadão, iria dispensar a acção positiva do Estado tava como uma força, ou melhor, como uma praxis, e que o indivíduo não
em outros domínios da vida colectiva. Por outras palavras: para o liberalismo
constituía uma mónada, um puro facto da natureza, ou um mero produto mecâ-
republicano, existiam «deux choses dans lesquelles l'Etat enseignant et sur-
nico e espontâneo da evolução. É que o seu proselitismo era animado pela
veillant ne peut être indifférent: c'est la morale et c'est la politique, car en
morale comme en politique l'État est chez lui: c'est son domaine et par consé- crença de que a cultura só venceria a natureza e a evolução s~ se assumiria
quent c'est sa responsabilité»|21. Por isso, teria de concretizar quer a <<secula- como progresso através da mediação demiúrgica da razão, aqui entendida como
rização extem~ e institucional, quer a «secularização interna»~22 da sociedade, uma herdeira não só das características psicofisiológicas atávicas, mas também
promovendo a transformação cultural necessária à completa radicação e legi- das conquistas civilizacionais acumuladas pelo combate que o homem trava
timação da nova ordem. há séculos com o seu meio natural e social, e cujo desfecho vitorioso estada
Os textos programáticos do movimento republicano português traduzem prestes a consumar-se. O antropocentrismo republicano culminava, assim, num
exemplarmente o ideal demopédico moderno, nomeadamente após a reper- humanismo activo e prometeico que, afinal, subordinava a realidade ì idea-
cussão da obra escolar de Jules Ferry e da III República nos inícios da década lidade, pois acreditava que as ideias podiam transformar o mundo: «Eis aí»,
de 80. E basta compulsar as obras pedagógicas de alguns dos seus escritores123 escrevia João de Barros, «a grandeza da educação laica, da moral laica -- en-
(Bemardino Machado, João de Barros, João de Deus Ramos, entre outros) para sina-se o poder do homem, o seu esforço extraordinário e tenaz através dos
se surpreender, como mais à frente se verá, o optimismo que depositavam nos séculos, e todas aquelas qualidades de idealismo, de bondade, de altruísmo,
efeitos cívicos da Escola obrigatória, gratuita e laica, que a Constituição de de solidariedade que têm melhorado -- lentamente, sem dúvida, mas segura-
19li virá a consagrar (artigo 3.o, n.o~ 10 e 11). E, se atentarmos na estratégia mente -- as condições de vida sobre a Terra.>>~2» Mas, se tudo isto acabava por
que presidiu à subsutuição, no ensino primário, da educação católica pela edu- definir um Estado republicano utópico, o que é que, afinal, acabou por ter
cação cívica, ver-se-á que a socialização da moral sem Deus era feita em nome acolhimento na nova ordem constitucional que a República construiu logo apús
de uma moral social que, à luz das ideias de Liberdade, Igualdade, e a partir
a vitória de 5 de Outubro de 1910?
do sentimento de Solidariedade para com os outros, com o meio natural (a
Terra), e com a Pátria e a Humanidade, procurava ensinar aos futuros cidadãos
que, na vida social, não existem «direitos sem cumprimento de deveres»TM
Deste modo, o altnásmo e a solidariedade têm de ser vistos mais comõ
ideais do que como princípios programáticos a impor pelo Estado, embora a

~~'Cf. Phiilipe Raynaud, art. cit., p. 38.


~:' Pierre Chevallier, «Pouvoir et Enseignement en France au XIXcru« siècle», Recueils
de la Société Jean Bodin, cit., p. 298.
m Cf. Pierre Rosanvallon, ob. cir., p. 273.
Jz~ Para uma síntese das posições dos defensores em Portugal da escola obrigatória,
gratuita e laica, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 203-19. Para as suas inci-
d¿ncias ao nível do professorado, leia-se Amónio Nóvoa, Le Temps des Professeurs, vol. 2,
Lisboa, 1987, pp. 521-52 e 606-14.

~24 Álvaro de Magalhães, Moral para as Escolas Primárias, Porto, 1912, p. 12. 125 João de Barros, A Educação Moral na Escola Primaria, paris-Lisboa, 1914, p. 25.

158 159
CAPÍTULO 3
p

A R E P U B L I C A S E G U N D O A C O N S T I T U I Ç Ã O D E 1 9 11

Eleita em 28 de Maio de 1911 pelo sistema de sufrágio secreto, facultativo


e directo, e por círculos, a Assembleia Constituinte sancionou a República e a
obra legislativa do Governo Provisório. Foram eleitos 200 deputados, 91 dos
quais automaticamente por falta de listas alternativas~ em 21 dos 51 círculos
do Continente e Ilhas. A sua legitimidade foi conferida por um acto eleitoral
em que participaram cerca de 250 000 eleitores. Politicamente, todos os eleitos
defendiam o regime republicano -- o Partido Socialista elegeu um represen-
tante --, embora estivessem divididos em várias tendências, núcleos que irão
dar origem aos novos partidos da República: o Democrático, liderado por
Afonso Costa e herdeiro das estruturas do velho Partido Republicano; o Evo-
lucionista, dirigido por António José de Almeida; o Unionista, chefiado por
Brito Camacho; e o grupo intransigente que se reuniu à volta de Machado
Santos.
Quanto à origem social dos deputados, é de destacar o facto de não encon-
trarmos grande representação dos sectores que, na década anterior, mais aguer-
ridamente tinham animado a militância republicana. Pode mesmo sustentar-se
que nem sequer se deu qualquer ruptura em relação à origem social dos depu-
tados monárquicos. Continuaram a predominar os funcionários, os proprie-
tários, os diplomados universitários (neste último caso, e talvez devido às
características ideológicas do republicanismo, ou ao crescente prestígio da pro-
fissão, era forte a presença de médicos)2. De facto, a Constituinte teve a
seguinte composição: funcionários públicos 72 (oficiais do exército e da
armada 47, civis 25), o que representava 32% do total; médicos 48; advogados
24; proprietários 18; professores do ensino superior 11; de outros graus de

~As leis eleitorais de 14 de Março e de 5 de Abril de 1911 organizaram o sistema por


círculos. O mapa eleitoral ficou assim formado: Continente 47 círculos, Ilhas Adjacentes
quatro, Colónias 11 (posteriormente modificados para 14). Cf. A. H. de Oliveira Mar-
ques, et ai., História da 1.« República Portuguesa. As Estruturas de Base, Lisboa, 1978,
p. 591; António Pinto Ravara, «Acerca das Eleições de 1911», Clio, voh 3, 1981,
Pp. 127-52.
2 Cf. Marcelo Caetano, Constituições Portuguesas, 5.a ed., Lisboa, 1981, p. 84.
A REPOBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇkO DE 191 i

O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
um modo quase integral, a Constituição da República do Brasil (aprovada em
ensino 12; comerciantes 8; jornalistas 8; farmacêuticos 6; magistrados 5; soli- 24 de Fevereiro de 1891) e de relegar para um plano secundário os ensina-
citadores 3; empregados de comércio 2; estudantes 2; padres 2; regente agrí- mentos que a tradição do povo português, incluindo a nossa tradição constitu-
cola, engenheiro, veterinário, barbeiro, operário, 1 cada3. cional, podiam dar. Sem querermos entrar na análise das fontes da Constituição
A Assembleia Nacional Constituinte reuniu-se pela primeira vez em 19 de de 1911, consideramos útil, no entanto, levar em conta estas objecções.
Junho de 1911. E não admira que, «confirmando o acto de emancipação rea- Sabe-se que o republicanismo pressupunha uma concepção cientista do uni-
lizado pelo povo português e pelas forças militares de terra e mar, e reunida verso e da própria evolução histórica. E, nos finais do sú.culo xlx, a tradição
para definir e exercer a consciente soberania, tendo em vista manter a integri- historicista recorreu, cada vez mais, não só a justificações de cariz étnico,
dade de Portugal. consolidar a paz e a confiança na justiça, e o bem-estar e o como a fundamentações de índole psicológica, numa interessante mistura de
progresso do Povo Português», tenha logo proclamado e decretado: « 1 .o Fica doutrinas à luz da qual a argumentação de pendor iluminista vinha dar uma
para sempre abolida a monarquia e banida a dinastia de Bragança; 2.° A forma nova actualidade ao romantismo e ao nacionalismo crescentes, conferindo
de governo de Portugal é a de República Democrática»>4 uma nova legitimidade, que se queda científica, à «alma nacional». (Este será
Nas sessões seguintes5, foi eleita a comissão redactora do projecto da mesmo o título que o então radical António José de Almeida escolheu para a
Consãtuição presidida por Correia Lemos e secretariada por José Barbosa, sua revista de combate saída em 1910).
José de Castro e João de Meneses; o seu relator foi Sebastião de Magalhães Quanto ao direito público ensinado na Faculdade de Direito, é igualmente
Lima. O debate constitucional estava lançado. Os deputados Teófilo Braga, verdade que, desde Manuel Emídio Garcia a Marnoco e Sousa, os princípios
José Barbosa, Machado Santos, João Gonçalves, Botto-Machado, Goulart de históricos, étnicos e psicológicos eram há muito invocados para se demonstrar
Medeiros e Nunes da Mata apresentaram projectos próprios e, fora da
o relativismo das organizações sociais e das insãtuições políticas e jurídicas,
Assembleia, o advogado Cunha e Costa, o velho republicano Alves da Veiga
e para se afirmar que, se estas deviam respeitar os direitos fundamentais do
e o grupo maçónico Grémio Montanha fizeram o mesmo6. Joaquim Men-
homem e do cidadão, esse imperativo decorria da evolução dos factos histú-
donça Cortez, anãgo lente da Faculdade de Direito, então em França, também
enviou a Sebastião de Magalhães Lima um projecto para ajudar as Consti- ricos e não de deduções tiradas da noção metafísica de natureza humana, como
tuintes. A comissão, por sua vez, procurou elaborar um texto que fosse um sustentava o jusnaturalismo.
«compromisso», e veio a concluir os seus trabalhos em 3 de Julho de 1911. Na Constituinte, encontram-se significativos ecos destes debates, acompa-
Está a merecer um estudo específico todo o debate à volta dos trabalhos nhados de explícitas profissões de fé no critério histórico-sociológico como
constitucionais que culminaram com a aprovação da Constituição, em 21 de fonte inspiradora da nova ordem constitucional. «Como se estatui uma Cons-
Agosto de 1911. Não o faremos aqui, dado que, para o nosso intento de agora, tituição?», perguntava Teófilo Braga, para responder: «São os costumes de um
bastar-nos-á evocar o sentido de algumas das polémicas que atravessaram a povo prático, as suas garantias tradicionais respeitadas e conservadas através
vida do movimento republicano no período da propaganda, a fim de as con- dos tempos .... Em o nosso pais e discutindo a nossa Constituição vou sugerir
frontarmos com as soluções que o texto fundamental do novo regime acabou o critério sociológico, isto é, vou apontar nas tradições da nossa terra todas as
por adoptar. Assim sendo, também não iremos fazer uma análise estritamente teses, normas e desenvolvimentos das Constituições políticas actuais, e mesmo
jurídica, apesar de termos sempre presente o que os constitucionalistas já escre- nesse exame chegaremos à conclusão de que, cousas de que nos dizem vir da
veram sobre esta mar~ria7. Inglaterra na alta provisória ou transição das Cartas outorgadas, nas épocas do
A leitura das discussões que tiveram lugar na Constituinte e as orientações constitucionalismo, já nós cá tinhamos»>s Logo, mais do que uma construção
dominantes no projecto apresentado pela comissão fazem ressaltar algumas abstracta, ou produto de imitação, a Constituição teria de objectivar, tambúm
ideias que importa reter. Em primeiro lugar, uma boa parte das intervenções a na opinião do deputado José de Castro, a «tradição e ao mesmo tempo a ex-
cargo, sobretudo, de deputados com formação jurídica, contraditou o seu orde-
pressão do progresso de uma dada civilização e de um dado povo»9, pelo que,
namento interno, as suas disposições excessivamente presidencialistas e apon-
como lembrava Adriano Pereira, seriam de rejeitar todas as propostas que
tou como grande defeito o facto de o projecto reproduzir, muitas vezes de
fossem incompatíveis com as «circunstâncias especiais de raça», pois os soció-
logos haviam demonstrado que «os povos latinos, tão amigos da sua liberdade,
31dera, ibidem. Veja-se também As Constituintes e os Seus Deputados, Lisboa, 1911, têm contudo dentro da sua alma e do seu espírito esta necessidade quase irre-
pp. 257-66. dutível de abusar do poder»~°.
4 Diario da Assembleia Nacional Constituinte, Sessão n. °I, de 19 de Junho de 1911, p. 3.
51bidem, Sessão n~° 3, de 21 de Junho de 1911.
6As ConstLtuimes e os Seus Deputados, p. 491 e ss. 8 Teófilo Braga, Discursos sobre a Constituição Politica da Republica Portugueza,
7 Mamoco e Sousa, Constituição Política da Republica Portuguêsa. Cornmentario, cit.;
Marcelo Caeaano, ob. cri., p. 79 e ss; José Joaquim Gomes Canotilho, Direito Constitu- Lisboa, 1911, p. 4. , no 16, de 7 de Julho de 1911, p. 12.
cional, 4.' ed., Coimbra, 1987, p. 244 e ss. 9 Diario da Assembleia Nacionat Constituinte, Sessão
lo Ibidem, p. 7.

163
A REPOBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL

Naturalmente, o recurso ã histÓria e aos ensinamentos da antropologia e da 1822; e a de 1822 na de Cádis, de 1812; a de Cádis na Constituição francesa
de 1791. E a Carta Constitucional de 1826 foi copiada da Constituição do
sociologia iam surgindo de acordo com os interesses ideológicos dos interve-
império brasileiro» ~».
nientes. Assimi para um crítico da República presidencialista e defensor da Bem vistas as coisas, os argumentos históricos, étnicos e outros, que pro-
Repdblica parlamentar, como Alexandre Braga, não havia dúvidas de que só curavam mostrar a especificidade da história nacional, eram passíveis de inter-
os ignorantes podiam afirmar que, em Portugal, não existia uma tradição parla-
mentar; ao contrário, esta seria, entre nós, «tão arreigada e antiga que, para a pretações opostas. Por esta época, recorrendo a uma certa ideia da história
fundação da monarquia, a lenda quis inventar as cortes de Lamego»~~. Num pátria e da «alma nacional», António Sardinha e os seus seguidores não es-
outro exemplo significativo, o médico Egas Moniz recorria a argumentos tavam a iniciar a sua cruzada contra a democracia? Consequentemente, é curial
étnico-psicológicos para sublinhar a necessidade de a Constituição prever o que se pergunte se, em última análise, e para além do seu antimetafisicismo e
funcionamento de um senado ou câmara alta, já que, «Portugal, para obedecer das prevenções contra o direito natural, a Constituição de 1911 não deu guarida
ao temperamento do seu povo, precisa de ter uma Câmara um pouco conser- a princípios jusnaturalistas que já encontrámos a fundamentar os programas
vadora, com a representação de todas as classes sociais»n. Para outros, ainda, políticos do movimento republicano e, dentro de certa medida, as Constituições
a lição da nossa história e da nossa idiossincrasia revelava que, «apesar da série monárquicas anteriores.
de acontecimentos desp6ticos que vieram quebrar a cadeia, indubitavelmente E certo que, ao contrário do constitucionalismo revolucionário francês, tanto
a nossa raça portuguesa teve sempre em si o caminho mais característico da o projecto como o texto definitivo não integravam directamente a Declaração
democracia; a alma poauguesa é profundamente democrática»~3. Como se Universal dos Direitos do Homem -- seguindo, neste aspecto, a lição da III Re-
compreende, estamos aparentemente longe da argumentação jusnaturalista. No pública --, e o projecto, na linha dos exemplos da Carta Constitucional e da Cons-
entanto, o uso da história e da ciência demonstrava algo que já estaria poten- tituição do Brasil, expunha os direitos fundamentais na sequência do princípio de
ciado no passado, num exemplo de evolucionismo historicista sobredetermi- soberania, isto é, quase no fim do articulado. Esta ordenação foi fortemente criti-
nado por postulados ideológicos que tinham de relegar para o campo das cada por Alexandre Braga, e não deixa de ser interessante notar que o texto apro-
exeepções e das anomalias todas as experiências (como o absolutismo) que lhes vado tenha sido sensível a algumas destas objecções. Os direitos fundamentais
eram incompatíveis. passaram a ser tratados pelo artigo 3.o, isto é, logo a seguir à definição da «forma
Mas o recurso a teses historicistas também serviu para contestar a do Governo e do território da Nação Portuguesa», o que vinca a sua prioridade
grande influência que a Constituição do Brasil exerceu sobre o projecto da
fundante em relação aos conceitos de soberania e de divisão dos poderes.
comissão constitucional. E certo que se podia responder a esta crítica com
o facto de ambos os países terem séculos de história comum, funcionando, A luz de tudo o que ficou exposto, é lícito concluir que os republicanos,
regra geral, e independentemente do modo como pensaram a via (pacífica ou
assim, o exemplo brasileiro como a antecipação de uma tendência ínsita na
história do povo português, e que a República, finalmente, estaria a objec- violenta) de tomada de poder, não entenderam a sua revolução como uma rup-
tivar. O próprio Marnoco e Sousa reconhecia que «a Constituição brasileira tura, mas, ao contrário, apresentaram-na, na linha do historicismo romântico,
é uma das mais perfeitas e melhor organizadas constituições republicanas. como um ponto de chegada exigido pela «essência» do passado do povo portu-
E era evidentemente às instituições políticas de um povo que teve até 1822 guês, ou, melhor dito, como a consumação de uma dada interpretação da nossa
uma história comum com a nossa que nós poderíamos ir buscar os ele- história e das características da «alma nacional». E esta tendência legitimava a
meatos mais adequados para a elaboração da Constituição da República incorporação tanto das mitificadas tradições municipalistas (Herculano, Hen-
Portuguesa»~4. No entanto, ter-se-ia igualmente de reconhecer que, mais do fiques Nogueira), como das mais recentes experiências de representação polí-
que o carácter nacional, os textos constitucionais modernos se influen- tica. Daí que, em última análise, tenham sido os textos constitucionais oitocen-
ciavam reciprocamente e acabavam todos por remeter, regra geral, para a tistas os que mais directamente acabaram por influenciar os constituintes, como
mesma fonte matricial, isto é, para o jusnaturalismo setecentista. Com a análise da fonte legitimadora do poder político cabalmente ilustra. Mas isto
efeito, se «a Constituição Política da República Portuguesa [teve] como significa que a argumentação histórica e étnica só era válida porque acabava por
fontes a Constituição do Brasil de 24 de Fevereiro de 1891 e as Consti- confirmar os valores que o jusracionalismo setecentista já tinha deduzido a
tuições do nosso regimen liberal, sobretudo as de 1822 e 1838», importa partir de uma apriorística definição da essência do homem.
não esquecer que a do Brasil se baseou «na americana; a de 1838 na de

SOBERANIA POPULAR E SOBERANIA NACIONAL


~J lbidem, Sessão n." 18, de 11 de Julho de 1911, p. 19.
J21bidem, Sessão n." 17, de 10 de Julho de 1911, p. 9. A reafirmação da soberania popular, algumas vezes apresentada como sin6-
J31bidem, Sessão n." 16, de 7 de Julho de 1911, p. 12. nimo de soberania nacional, constituiu um dos temas maiores da propaganda
~4 Marnoco e Sousa, ob. cit., p. 6.

J5 Idem, ibidem.
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
No essencial, estas teses foram ganhando força no pensamento político portu-
republicana. No entanto, é indiscutível que quer o projecto da nova Consti- guês nas últimas décadas do século xIx. E, deixando de lado todas as suas
tuição, quer o seu texto definitivo acabaram por consagrar aquele último con- implicações, torna-se claro que pretendiam invalidar a concepção individua-
ceito. Assim, segundo o projecto, «a Nação exerce, por delegação voluntária, lista e contratualista acerca da origem das sociedades e do poder político, ao
a soberania que essencialmente nela reside»; mas os constituintes aprovaram mesmo tempo que procuravam legitimar um modelo, pelo menos descentra-
uma redacção que se limita a reproduzir o que já se encontrava escrito na lista, de organização do Estado.
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1783 e nas nos- Para Teófilo Braga, o princípio de soberania nacional era lição a extrair da
sas Constituições de 1822 e de 1838: «A soberania reside essencialmente em própria história pátria desde as revoltas do período pré-romano até aos movi-
a Nação» (art.° 5). Que razões foram avançadas para se optar por esta fórmula? mentos da Restauração e das revoluções de 1820 e de 1836; mas a sua vali-
Pensamos que os ensinamentos de Manuel Emídio Garcia, lente positivista
dade era igualmente induzível da sociologia, que estada a demonstrar o erro
e um dos primeiros apóstolos da doutrinação republicana, nos ajudam a en-
das teorias contratualista e voluntadsta. «A soberania da Nação», afirmava o
contrar a resposta. Com efeito, para ele, o povo é caracterizado por ser uma
entidade com um espírito comum, que se revela na homogeneidade de senti- chefe do Governo Provisório, «é a vontade virtual, una e indivisível, do con-
mentos, na uniformidade de opiniões, no acordo de vontades, na identidade senso da sua existência colectiva e coexistência simultânea de todas as suas
linguística (espírito colectivo), na identidade ou semelhança de interesses, de sinergias»21, sinergias estas que resultavam da conjugação das diversas forças
costumes, de hábitos, de crenças, de preconceitos, e, por fim, por um mesmo que constituíam um organismo completo. Dentro desta totalidade consensual
ideal de aspirações. Em consequência, o povo «é a matéria orgânica da qual que, para Teófilo como para Emídio Garcia e outros, não podia subsumir as
se formam as nações», sendo a nação «o povo, ou fracções de povo, ou reu- partes que a integravam, o indivíduo era um ser naturalmente social. Por con-
niôes de fracções de diferentes povos, política, económica, administrativa, seguinte, era a Nação, enquanto sujeito colectivo, que tinha criado a língua
moral e juridicamente organizada e constituída em estado social separado e nacional, a propriedade, o capital, as artes, as crenças, as indústrias, a litera-
mais ou menos independente no seu território, população e governo». Em tura, pelo que a sua génese não podia ser voluntadsticamente derivada de um
suma: a Nação era um ser organizado; o povo «um ser orgânico, que para se «pacto segundo a miragem subjectivista»z2.
converter em organizado precisa formar-se e constituir-se em nação»16. E certo que as correcções que Teófilo fez ao texto da comissão que
A ideia metafísica de soberania popular, como Rousseau a tinha teorizado, elaborou o projecto constitucional não tiveram acolhimento por parte da
só teria sido adequada à demolição do jusdivinismo, pois correspondia a uma maioria dos deputados. Todavia, não deixa de ser sintomático que, na dis-
anaer6nica, porque excessivamente monadológica, visão da sociedade. E é esta cussão havida na Assembleia, nunca tenha estado em causa a substituição do
mesma prevenção que explica a não adopção de qualquer alternativa inter- cow~ccito de soberania nacional pelo de soberania popular, mas tão-somente a
média~7, como a que se encontra na Constituição francesa de 1848: «A sobe- forn la mais simples de caracterizar aquele. E, por.proposta de Pedro Martins,
rania reside na universalidade dos cidadãos franceses» Por isso, a entificação
aceitou-se, como se sabe, a definição das Constituições de 1822 e de 1838.
da Nação, já pressuposta na Declaração Universal dos Direitos do Homem e
Isto revela que, nesta matéria, o republicanismo acabou por se situar cons-
do Cidadão, correspondia melhor à posterior convicção cientista segundo a
qual o indivíduo tem de ser compreendido não em si mesmo, mas na sua cientemenlc na tradição mais democrática do nosso liberalismo oitocentista.
dimensão social. Só esta perspectiva tomava possível: demonstrar que a sobe- Como profissão de fé nos fundamentos exclusivamente seculares do poder, a
rania é ~ reunião organizada e a coordenação sistemática, no Estado, de todos fórmula adoptada retirava Deus da Constituição23, distanciando-se das con-
os recursos e esforços científicos e industriais de uma nação, elevados à cepções jusdivinistas e do eclectismo cartista ~ o rei era ainda rei por here-
máxima potência civilizadora»~8; induzir que a soberania <<6 e deve ser exer- ditariedade e por graça divina ~ e, simultaneamente, servia de base a um
cida proporcionalmente por todos aqueles de quem depende, e entre os quais ideário que queria tirar todas as consequências dos postulados do próprio
se formam, conservam, desenvolvem e distribuem as forças e os recursos cien- liberalismo. Todavia, basta analisar o teor da argumentação de Teófilo e de
áticos e industriais de uma nação»~9; inferir que existiam vários graus de sobe- alguns deputados constituintes para se perceber que era a Nação, e não os
rania -- «soberania do indivíduo, da família, da comuna, do município, da indivíduos que a compunham, e muito menos o seu somatório, a detentora
província ~ coordenados neste organismo mais amplo e complexo -- nação»2O. da suprema potestas.
Ora, a par das cautelas em relação aos excessos do individualismo, a ideia
t« Maauei Emídio Garcia, Sciencia Politica e Direito Publico, Coimbra, 1889, p. 244-46.
de soberania nacional vinha ao encontro de outras posições maioritárias no seio
t7 José Joaquim Gomes Canofilho, ob. cit., p. 45.
,8 Maauel Emídio Garcia, Programa da 4.a Cadeira para o Curso Respectivo no Anno
de 1885 a 1886, Coimbra, 1896, p. 27. 2~ Teófilo Braga, ob. cit., p. 31.
» Idem, ibidem. 22 Idem, ibidem.
2o Idem, ibidem. 23 Cf. Émile Poulat, Liberté-La~'cit~. La Guerre des Deux Frances et le Principe de la
Modernité, Paris, 1987, p. 139 e ss.

167
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
de alguns deputados, como Faustino da Fonseca, se pronunciarem «contra o
da Constituinte, nomeadamente das que defendiam uma limitação, ainda que Senado porque a Nação -- una e indivisível -- s~ pode ser representada por
transitória, do sufrágio universal; das que, contra o federalismo, acentuavam uma Câmara»26. Todavia, as principais divergências incidiram, sobretudo, no
a concepção una e indivisível do Estado e rejeitavam o mandato imperativo; cariz dessa segunda câmara, não se aceitando, assim, as teses dos que viam
e do pequeno grupo que invocava a organicidade subjacente ao conceito de no bicamaralismo um atropelo ao princípio da unidade da soberania. Quais
Nação para demonstrar a necessidade de se instituir um órgão nacional que, ao foram essas divergências?
lado do parlamento -- expressão da vontade dos indivíduos-cidadãos --, repre- O projecto da Constituição previa, a par de uma câmara eleita por sufrágio
sentasse os corpos sociais intermédios. directo, uma outra, chamada conselho de municípios, eleita pelos vereadores
em exercício à data da eleição. Como se verá, os constituintes rejeitaram a
República federativa, pelo que aquela solução, ao mesmo tempo que soava
SENADO, CONSELHO DE MUNICÍPIOS a uma adaptação do tipo de senado brasileiro, vinha ao encontro de uma
OU CÂMARA CORPORATIVA? das pedras-de-toque do modelo social que o republicanismo propagandeava
desde Henriques Nogueira -- o município colocado como órgão intermédio,
Esta última proposta pode surpreender por, durante a propaganda, os repu-
blicanos terem sido acérrimos críticos da existência de uma segunda câmara. e relativamente soberano, entre o indivíduo e a Nação. Porém, foram várias as
objecções que se levantaram: uns sublinharam que uma origem exclusivamente
É certo que o cariz não electivo desta, e as «fornadas» que a povoavam davam
municipalista lhe dava uma representatividade parcelar (e parcial) e conferia
razão aos anátemas dos que viam nas câmaras altas ou nos senados a intenção
de corrigir e de bloquear os excessos revolucionários que poderiam vir de par- aos vereadores uma dupla capacidade eleitoral, o que feria o princípio da igual-
lamentos escolhidos por eleições populares, sendo, por isso, uma «espécie de dade; outros defendiam que, sendo a sociedade mais do que o somatório dos
casa de correcção para a obra daqueles que são os representantes da Nação»24. indivíduos que a compunham, se desse voz directa aos interesses sociais, pois,
Mas, uma vez chegados ao poder, venceu a tese contrária. Que razões terão como lembrava um deputado (Adriano Augusto Pimenta), se «alguns trata-
levado a isso? distas dizem que as nações não são simplesmente constituídas por indivíduos»,
Em primeiro lugar, não se deve esquecer o forte impacte que a experiência se «há corporações perfeitamente populares que têm, por assim dizer, uma par-
da ILI República francesa exerceu nos nossos republicanos. E, para muitos, cela à parte dentro da Nação», e se, por outro lado, «dentro dos organismos
existia a convicção de que a sua durabilidade -- ao contrário das experiências sociais existem associações comerciais, industriais, agrícolas», todos «estes
republicanas anteriores -- e a sua capacidade de resposta aos ataques dos seus elementos, que são poderosos para a formação das nossas leis, deixariam de
adversários --como a anulação do movimento de Boulanger (1887-1889) exercer a sua acção se entregássemos a representação nacional unicamente ao
tinha mostrado -- ficaram a dever-se ao papel mediador do senado, órgão pre- sufrágio universal»27 e se não fosse criada uma câmara alta. Pelo mesmo dia-
visto pela Constituição de 1875. Daí que a ala mais radical do republicanismo pasão afinava Egas Moniz, para quem «uma nacionalidade digna deste nome
francês tenha acabado por aderir à solução, como sintomaticamente João de é constituída por indivíduos e por agregados sociais. Uns e outros fazem parte
Meneses lembrava aos constituintes portugueses: «O partido radical em França integrante da vida social... E assim como os indivíduos têm a sua represen-
era contrário à existência do senado, mas há dois anos reconheceu que o
tação na Câmara dos Deputados, é justo e necessário que os agregados sociais
senado salvara a República e que a existência de uma só câmara é que matou
tenham a sua representação na segunda câmara»28. Levando em conta estes
a República de 1848»»25 Por outro lado, a par de outras experiências históricas
alvitres, a comissão emendou a sua proposta e a nova câmara alta ficaria cons-
admiradas (como a dos Estados Unidos), a Constituição brasileira de 1891
- que, como se sabe, influenciou muito os novos constituintes - também previa tituída por: 1.° senadores eleitos por delegados de todas as corporações admi-
a existência de um Senado, órgão representativo dos estados federados. E o nistrativas do Continente, Ilhas Adjacentes e Províncias Ultramarinas; 2.° dele-
hábito de se invocar a história também mostrava que só uma Constituição bica- gados do professorado primário, secundário, superior, especial e técnico de
maralista teve uma vigência significativa em Portugal: a Carta Constitucional. todo o território nacional; 3.° delegados dos agricultores, comerciantes, indus-
Logo, como uma Constituição, enquanto acto subsequente a uma revolução, triais e operários constituídos separadamente em colégios eleitorais (art.° 10).
não devia servir para a fazer, mas tão-somente para consolidar e alargar a sua Os enxertos corporativistas propugnados por alguns deputados não devem
base de apoio, a existência de um senado seria aconselhável, na opinião dos surpreender depois do que ficou escrito acerca do antiatomismo das concep-
mais prudentes e pragmáticos. De facto, esta foi a posição da maioria, apesar ções sociológicas que o republicanismo dominantemente perfilhou. Por outro
lado, convém não esquecer que já existia uma tradição corporativista no

U Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 19, de 12 de Julho de 1911, p. 18. A ex-
pressão é do deputado Barbosa de Magalhães. 261bidem, Sessão n.° 38, de 4 de Agosto de 1911, p. 16.
~lbidem, Sessão n.o 37, de 3 de Agosto de 1911, p. 20. 27 Ibidem, Sessão n.° 37, de 3 de Agosto de 1911, p. 14.
28 lbidem, p. 21.

168
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇ~,O DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
^ entroncando na herança aristo- a preponderância às classes mais abastadas, e agravar as condições de reso-
pensamento jurídico-político portugues. E esta, lução da mais grave questão que hoje se ventila em todo o mundo civilizado,
télica-escolástica e no krausismo, havia teorizado, desde a década de 60, uma a questão social»31. Curiosamente, as ideias de Sidónio Pais, ainda que não tão
alternativa de índole orgânica ao individualismo extremo e ao estatismo
circunscritas ao campo sindicai, aproxirnavam-se das que Duguit--jurista que
exagerado. Ideias análogas foram avançadas por Oliveira Martins e por
então gozava de forte prestígio em Portugal -- vinha teorizando há algum
Antero:9 nos finais dos anos 70, enquanto o primitivo peso de Proudhon, ligado
tempo. Com efeito, também para ele se tomava necessário fomentar o asso-
à crescente influência do socialismo catedrático alemão, alicerçou a ideia de
ciativismo, e particularmente a sindicalização de todas as profissões como
que seria necessário dar expressão política aos corpos sociais. Tal reivindicação
forma de defender o indivíduo contra a omnipotência do Estado, o que acar-
teve forte acolhimento na Faculdade de Direito, sobretudo nos finais do sé-
culo xlx e princípios do xx, realidade que explica que um jurista não repu- retaria a própria reforma da representação política. Isto é, num futuro próximo,
assistir-se-ia «à côté d'une représentation proportionelle des partis, une repré-
blicano como Marnoco e Sousa, no seu comentário à Constituição de 1911,
tomasse partido a favor dos que defendiam a representatividade dos agregados. s e n t a t i o n p r o fi s s i o n e lnterets,
l e d e sc est-à-dtre
i . . . . une représentation des diverses
,~tdmitida a douuina da representação dos interesses sociais», escrevia, «o par- classes sociales organisées en syndicats et en fédérations de syndicats»32.
lamento deve organizar-se de modo a traduzir essa representação. Não basta, Só esta câmara poderia constituir um contrapeso «à la puissance d'une chambre
porém, haver a representação dos diversos agregados sociais ou a represen- représentant les individus»33.
tacão funcional dos interesses sociais nos seus vários graus. Para que o parla- Pode pensar-se que o facto de a maioria ter rejeitado a ideia de um senado
mento fique convenientemente organizado, é necessário haver, além disso, a corporativo significou, sem mais, a vitória exclusiva das teses individualistas.
representação do interesse geral da sociedade-nação, porquanto, ao lado dos Se atentarmos no teor de algumas intervenções, perceber-se-á que a decisão
diversos agregados sociais, há a nação em que estes se encontram. Por isso, decorreu, antes de tudo, de definição da Nação como uma totalidade e da acei-
numa das câmaras deve haver a representação dos diversos agregados sociais, tação do princípio da unidade da soberania, incompatível com a representação
e na outra a representação da unidade nacional»3°. de parcialidades incapazes de perseguirem o interesse geral. Isto é, e como afir-
Apes~ da abertura revelada pela comissão redactora do projecto da nova
mava o deputado Carneiro Franco, «a soberania reside na Nação», pelo que
Constituição à representação corporativa, a verdade é que, tal como havia acon-
«deve eleger os seus representantes à Câmara dos Deputados, como os deve
tecido com a versão anterior (que previa um conselho de municípios), a
eleger ao Senado»34. E, do entrecruzamento das tendências mais individualistas
Constituinte optou num outro sentido. E isto por várias razões: chamou a
com as de cariz mais sociabilitário, o desfecho veio a pender para as primeiras
atenção para o cariz antidemocrático da proposta, pois esta dava pluralidade
de votos aos indivíduos que exerciam mais do que uma profissão; ponderou a -- o Senado, na linha da experiência francesa e das sugestões de constitucio-
sua presumível incapacidade para exprimir o interesse geral, dado que os sena- nalistas como as de Esmein3», invocadas na Constituinte, também devia ter por
dores tenderiam a defender os interesses socioprofissionais que representavam; base o sufrágio directo. Com efeito, no dia 4 de Agosto, a Assembleia aprovou
sublinhou a propensão essencialmente reaccionária desse tipo de assembleias; a proposta definitiva representada por José Barbosa36: aquele órgão seria cons-
lembrou ainda que seda diffcil dar representatividade aos grupos sociopro- tituído «por tantos senadores quantos resultem da eleição de três indivíduos
fissionais devido ao atraso em que se encontrava o associativismo em Portugal. por cada distrito do Continente e das Ilhas Adjacentes, e de um indivíduo por
Esta última posição foi veiculada por Sidónio Pais, que também pensava cada Província Ultramarina» (artigo 9.°). A segunda câmara -- denominada
ser necessário criar uma segunda câmara, não só por razões históricas, mas senado depois de derrotados outros nomes alternativos -- iria funcionar, assim,
também por ter «a certeza de que todo o poder sem limitações tem uma ten- com uma espécie de um duplo da Câmara dos Pares, embora o seu sistema
dência a abusar», e uma ditadura das multidões, mesmo exercida pelo parla- fosse de base mais ampla, já que esta era toda electiva e assentava no distrito
mento, seda tão perigosa como «a ditadura de um déspota». Todavia, a intro- e não no círculo eleitoral.
dução de um senado corporativista não seda imediatamente aconselhável Com esta consagração, o republicanismo acabou por não dar guarida a uma das
porque o associativismo não estava ainda «suficientemente adiantado» para
poder «fornecer uma base sólida e equitativa à eleição». Consequentemente, a reivindicações mais catas ao radicalismo demoliberal ~ o unicamaralismo ~,
consubstanciado nas experiências constitucionais francesas de 1791 e de 1848
con~ da ideia só seria viável quando os agregados sociais formassem
e abraagessem largamente «as classes populares, o proletariado». Por conse-
guinte, seda errado ensaiar um modo de eleições que ida forçosamente «dar 31 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 38, de 4 de Agosto de 1911, p. 17.
32 L6on Duguit, Le Droit Social, le Droit Individuelle et la Transformation de l'Etat.
Conferences Faites à l'École des Hautes Études Sociales, Paris, 1908, p. 127.
33 Idem, ibidem, p. 128.
Cf. Femando Catroga, O Problema Político em Antero de Quental. Um Confronto 34 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 37, de 3 de Agosto de 1911, p. 19.
com Oliveira Martins, pp. 27-40.
3» Cf. A. Esmein, Éléments du Droit Constitutionnel Français et Comparé, 4.a ed., Paris,
3o Mamoeo e Sousa, ob. cit., p. 323.
1906, p. 76 e ss.
36 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 38, de 4 de Agosto de 1911, p. 20-21.

171
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇkO DE 1911
O REI~~BLICANlSMO EM pORT~WGAL
federalismo exerceu no imaginário republicano, importa saber como é que ele
e na nossa Constituição de 1822. E. aos que temiam a propensão elitista e con- resistiu ao crescente nacionalismo que invadiu o movimento desde o cente-
servadora da segunda câmara, respondia-se que o seu cariz electivo (sistema nário de Camões, principalmente após o Ultimatum, e ì paulatina convicção
que. em parte, os senados previstos na Constituição de 1838 e pelo Acto de que, como bem mostrava o exemplo francês, a República unitária, protó-
Adicional de 24 de Julho de 1885 já tinham garantido) a salvaguardava dos tipo do Estado-Nação de raiz jacobina, seria mais consensual e orgânica do
pecados de que os senados monárquicos tinham padecido -- a hereditariedade, que a federalista.
as nomeações régias e as inerênciasaT. Pronunciando-se acerca do tipo de Estado a instaurar, o projecto da Cons-
Logicamente. segundo a divisão dos poderes que a Constituição republi- tituição de 1911 propôs a seguinte definição: «A Nação Portuguesa, livre e
cana aceitou, e contra a tradição jacobina de governo de Assembleia, a sede independente, adopta para seu Governo a forma de República Democrática,
do poder legislativo estava nas duas câmaras, ou melhor, no Congresso, pelo definida nesta Constituição»> Diga-se que este texto confirmava o decreto do
que não existiam razões para se ver no bicefalismo que elaborava as leis Governo Provisório que aboliu a Monarquia (19 de Junho de 1911) e san-
qualquer atropelo à unidade da soberania nacional. E, para que se tenha uma cionou a «República Democrática». No entanto, aquela fórmula foi muito con-
noção mais exacta da adesão das Constituintes a este princípio, convém ana-
testada na Constituinte, acabando a maioria por aprovar uma redacção bem
lisar o desfecho constitucional de uma velha divergência que tinha dividido
diferente: «A Nação Portuguesa, organizada em Estado Unitário, adopta como
o movimento décadas atrás, e saber porque é que a grande maioria dos
deputados optou pela República unitária em detrimento da República fede- forma de governo a República, nos termos da Constituição» (artigo 1.o). Que
rativa, ao contrário do consignado no último programa do Partido Repu- razões explicam estas alterações? A qualificação «República Democrática» foi
blicano ( 1891 ). rejeitada por ser excessivamente polissémica e possibilitar várias interpre-
tações, já que tanto podia sugerir a impraticável ideia de democracia directa
(governo do povo e pelo povo), como convidava a entendê-la como República
dREQUIEM» PELO FEDERALISMO parlamentar, ou a vê-la como uma mera forma de governo oposta à aristocrá-
tica38. Todavia, se, com a retirada do adjectivo «democrática», se pretendeu
Já o sabemos: pela pena de José Félix Henriques Nogueira, a idealização ultrapassar essas ambiguidades, a verdade é que, com a sua substituição pela
de um projecto republicano para Portugal nasceu sob o signo do federalismo. fórmula «República Unitária», a maioria dos constituintes deu continuidade ao
E de 1851 até ao advento da República continuaram a ser significativas as modelo de Estado-Nação jacobino e negou explicitamente a ideia federativa.
ndesões teúricas a esta forma de Estado, apesar da diminuição de entusiasmo Naturalmente, esta decisão provocou alguns protestos, que se levantaram
que se nota nos finais do século xtx e nos princípios do século xx. Na ver- em nome da coerência com as disposições do último programa republicano.
dade. basta recordar o teor das propostas mais marcantes, que apareceram na Assim, na sessão de 14 de Julho de 1911, o deputado Djalma de Azevedo
dú:Ma de 70, para se comprovar que boa parte dos ideólogos republicanos era combateu as tendências que se estavam a manifestar na Assembleia, propondo
apologista da República federativa. E se, nos anos 80, cresceram as possibi-
«que se formasse uma República federalista, como está consignado no pro-
lidaães de entendimento com os que, como Elias Garcia, defendiam o Estado
grama do Partido Republicano». E aos que invocavam razões de cariz histó-
unitário, o certo é que a aspiração se manteve viva nas décadas seguintes.
fico, geográfico e demográfico para invalidar o federalismo, isto é, aos que
E em vésperas de 5 de Outubro, um areópago fortemente influenciado pelos
afirmavam que o federalismo não correspondia à nossa maneira de ser, per-
republicanos -- o congresso municipal -- sintetizava, nas suas conclusões, o
guntava por que é que se tinha inscrito aquela forma no programa do Partido
modelo de organização política que ainda enformava o programa do Partido
Republicano aprovado em Janeiro de 1891: a Pátria deveria ser constituída pela Republicano de 1891, «com o qual estivemos de acordo e que foi assinado por
federação dos municípios; os municípios resultariam da federação de fre- homens como Teófilo Braga, Bernardino Pinheiro, Jacinto Nunes, Azevedo e
guesias; estas, por sua vez, seriam a base elementar da própria Nação, e o poder Silva e Manuel de Arriaga»39. Esta posição estava em sintonia com a que
central, em vez de se sobrepor às regiões, funcionaria como instância Goulart de Medeiros, numa recordação dos habituais fundamentos teóricos do
regularizadora da obra comum municipal. Mas, apesar de todo o peso que o republicanismo, já havia manifestado: «Cada vez mais me convenço de que é
o positivismo ou determinismo o verdadeiro critério filosófico, e o federalismo
a verdadeira doutrina política e o único processo a adoptar para corrigir os
JTQaanda o ~ de 17 de Outubro de 1910 aboliu o senado monárquico, este fora males do nosso país»4°.
formado segundo o ptescrito na lei de 3 de Abril de 1896, que tinha suprimido a parte
electiva -- prevista pelo Acto Adicional de 24 de Julho de 1885 --, e o número dos seus
membros estava reduzido a 90, não entrando nesta conta os pares por direito próprio e con- 38 Cf. Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.°28, de 24 de Julho de 1911, pp. 10-20.
tinuando a fazer parte da Câmara os pares por direito hereditário nos termos do § 7 do artigo 391bidem, Sessão n.° 21, de 14 de Julho de 1911, p. 20.
6.* da lei de 24 de Julho de 1885; suprimiu ainda as categorias legais dentro das quais o rei 4O lbidem, Sessão n.° 20, de 13 de Julho de 1911, p. 12. Fora do parlamento, Manuel
uma de escolher as nomeações. Cf. Marnoco e Sousa, ob. cit., pp. 331-32. Alves da Veiga, antigo discípulo de Manuel Emídio Garcia e antigo dirigente da revolta de
31 de Janeiro de 1891, defendia que a República devia ser formada por uma confederação

172 173
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
Significa isto que a Constituição de 1911 confirmou a decadência da so-
No entanto, em nome do velho critério «oportunista» e do estádio da evo-
lução federativa, ao situar-se na linha do Estado-Nação que a Revolução Fran-
lução cívica do povo português, muitos deputados, teoricamente federalistas, cesa criou e que o nosso liberalismo procurou edificar a partir de 1820. É certo
acabaram por aceitar, ainda que como solução transitória, a forma unitária. Por
que teoricamente a federação podia conciliar a unidade nacional com a sua
exemplo, Manuel de Arriaga limitou-se a apontar retoricamente para um ideal
a construir no futuro, e não a realizar no presente, fazendo uma profissão de diversidade regional -- esta era a posição de Te6filo --, embora os federa-
listas dos anos 70 chegassem a propor a divisão do país em diversos Estados.
fé «na terra lusitana, na futura confederação dos povos livres e cultos, sob o
ideal da Humanidade»4~. Outras cautelas eram ditadas por preconceitos ilumi- Mas o peso crescente do nacionalismo, o sucesso da experiência da III Repú-
distas, pois a prática federativa exigiria um povo culto, preparado civicamente blica francesa -- una e indivisível, como o seu modelo jacobino --, o trauma
e já habituado a uma mais extensa e intensa vida municipal. Esta era a opinião provocado pelo fracasso do federalismo em Espanha durante a I República
de António Maria da Silva, para quem, «se se tem posto em execução uma (1873-74), foram factores que obrigaram muitos a rever as suas posições, ou
organização administrativa que favorecesse a autonomia local», poderia já pôr- a serem cautelosos sobre a oportunidade da solução federativa num país como
-se em ~rática o princípio federativo, consignado no programa do Partido Portugal. Daí que, das vertentes descentralistas do projecto republicano, s~ a
Republicano; mas, não estando ainda asseg.urada essa autonomia», entendia municipalista tenha sido integrada no texto fundamental da República.
que, ~por ora, o Estado deve ser unitário»4L E a mesma ideia que encontramos Já sabemos que o municipalismo foi uma das matrizes essenciais do ideário
em José de Castro, membro da comissão redactora do projecto de Constituição: republicano compartilhada por todas as suas facções, já que, se, para umas, o
por um lado, declamva-se fiel aos ideais da propaganda, que apontavam para município constituía o alicerce da futura federação, para outros possibilitaria
uma «.República puramente democrática que se assemelhasse um pouco à da uma necessária descentralização polftico-administrativa relativamente autó-
Suíças; mas, por outro, confessava que o debate no seio da comissão o con- noma em relação ao poder central. Foi esta última alternativa que teve aco-
venceu de que teria de sacrificar esses ideais, e, apesar de os seus compa- lhimento na Constituinte como consequência lógica da rejeição do modelo
nheiras pensarem como ele, acabaram todos por concordar «que o nosso povo federalista. De facto, através do seu artigo 66.o, a Constituição de 1911 orga-
ainda não tem a alta compreensão dos seus destinos, nem uma ilustração
nizou o poder local em bases que proibiam a ingerência do poder executivo
correspondente a essa forma de governo»43. Em suma: para que os sistemas
nos seus corpos administrativos, impunham a representação das minorias e
federalistas ou confederalistas fossem um dia viáveis, seria necessário, como
opinava o deputado António Macieira, que o povo português ganhasse «uma admitiam o recurso ao referendo, medida inspirada no exemplo suíço.
consciência cívica de tal modo forte, como forte, perdurável e bela é a Confe-
deração do povo helvético»44.
Dir-se-á que o critério iluminista servia aqui para mostrar que a consecussão A QUESTÃO DO SUFRAGIO UNIVERSAL
de certos ideais teria de assentar numa prévia preparação cultural; o que mostra
que o cientismo republicano, ao mesmo tempo que ajudava a prevê-los, também A reivindicação do sufrágio universal foi outra das pedras-de-toque da pro-
não deixava de os adiar em nome da «oportunidade» e da lição dos «factos». E a paganda republicana. Compreende-se. Segundo a Constituição de 1822, a eleição
impreparação cívica e cultural dos portugueses, a exígua extensão territorial do dos deputados era directa e à pluralidade de votos dados em escrutínio secreto.
país -- tendia-se a escamotear o problema das Ilhas e das Colónias --, as rela- Mas, à luz da Carta Constitucional, a eleição passou a ser indirecta e censitária,
firas uniformidades étnicas, religiosas, de costumes e de linguagem, a falta de e o texto de 1838, apesar de regressar ao sistema directo, só conferiu capacidade
u-adições democráticas, tudo eram argumentos a que agora se recorria para eleitoral aos cidadãos que estivessem no gozo dos seus direitos civis e políticos,
demonstrar a inviabilidade do modelo federalista, ou para o apresentar como um maiores de 25 anos de idade, e com uma renda liquida anual de oitenta mil réis
ideal cuja realização só seria possível na fase terminal de realização da ideia proveniente de bens de raiz, comércio, indústria ou emprego. Por sua vez, o Acto
democrática, isto é, quando a democracia fosse sinónimo de self-government. Adicional de 5 de Junho de 1852 elevou o censo para cem mil r6is, mas baixou
a maioridade para 21. Foi a lei de 8 de Maio de 1878 -- nascida já sob a pressão
da propaganda republicana-- que alargou mais significativamente o sufrágio, ao
a ~ das nossas oito províncias, designadas com o nome de estados provinciais, (<autóno-
mos em tudo quanto respeitar à sua vida particular, e ligados pelo laço da federação, para
equiparar a uma renda de cem mil réis o saber-se ler e escrever, ou ser-se chefe
a mutua necessária defesa dos interesses que solidariamente as possam afectar» (Alves de farmqia. E a lei de 21 de Maio de 1896 estendeu a capacidade eleitoral, pois
da Veiga, Politica Nova. Ideias para a Reorganização da Nacionalidade Portugueza, Lis- considerou eleitores todos os cidadãos maiores de 21 anos domiciliados em ter-
boa, 1911, p. 53). ritório nacional e com uma renda igual ou superior a quinhentos réis, ou que sou-
« Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 18, de 11 de Julho de 1911, p. 14.
421bidem, Sessão n.° 22, de 17 de Julho de 1911, p. 12.
bessem ler e escrever. A lei de 26 de Julho de 1899 reconheceu também a maio-
4» lbidem, Sessão n. ° 16, de 7 de Julho de 1911, p. 11.
ridade aos menores de 21 anos que tivessem qualquer curso de instrução superior
"~ Ibidem, Sessão n.o 15, de 6 de Julho de 1911, p. 22.
ou especial, modificação que, no entanto, foi alterada em 8 de Agosto de 1901.
Assim, apesar dos progressos operados nas últimas décadas do século x[x, o
constitucionalismo monárquico assentava numa base eleitoral restrita.
174" 175
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONST1TUIÇkO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
«Queremos o sufrágio universal para todos os membros da Federação Por-
Data de Locke a célebre separação entre cidadãos activos e passivos, e são tuguesa, tanto do sexo masculino como do feminino, que tiverem completado
conhecidos os temores liberais de que a aplicação plena do sufrágio universal
18 anos» O programa dos unitários, liderados por José Elias Garcia e
geraria a tirania das multidões. Daí que tanto o recurso à eleição indirecta, igualmente publicado naquele ano, não foi tão longe na explicitação dos di-
como a previsão de uma segunda câmara e a introdução de restrições proprie- reitos políticos das mulheres, embora tenha defendido «o direito universal de
tistas (Benjamin Constant) e de capacidade intelectual (Royer-Collard, Guizot)
sufrágio e o de representação das minorias». E em relação aos restantes, veri-
fossem soluções adoptadas para bloquear esses perigos em nome de um con-
fica-se a fidelidade aos mesmos Princípios, como se prova com o programa
ceito de liberalismo que não se queria confundir com a democracia, como, em
Portugal. o ideário de Alexandre Herculano bem ilustra. republicano de 1891, que consignava o sufrágio universal e a representação
Ao contrário, para os democratas, o sufrágio universal surgia como uma das minorias, e quanto à questão do voto feminino propunha «a educação pro-
dedução extraída dos postulados jusnaturalistas à luz dos quais o Estado, con- gressiva da mulher, exercendo a capacidade política em correlação com as
substanciando a soberania, mais não seria do que um produto da vontade dos obrigações civis a que estiver sujeita». Pelo exposto, pode concluir-se que, com
indivíduos. Porém. este modo de argumentar era anacrónico para muitos ideó- maior ou menor radicalidade, o sufrágio universal constituiu um dos mais mar-
Iogos do movimento republicano por não relevar devidamente a dimensão cantes cavalos-de-batalha da propaganda antimonárquica. Por isso, achamos
histórico-evolutiva dos indivíduos e dos diversos povos. A. Comte não deu fundamental saber qual foi a opção, nesta matéria, dos republicanos uma vez
qualquer valor ao sufrágio45 -- o poder deveria pertencer aos cientificamente chegados ao poder, pois através dela ficar-se-á com uma ideia mais clara acerca
mais capazes m. mas os seus discípulos heterodoxos aceitaram-no como uma das continuidades e das rupturas que existiram entre a base de legitimação da
exigência decorrente das conquistas históricas dos povos mais avançados. Monarquia e a da República.
Assim pensaram Wyrouboff e Littré, e Gambetta, igualmente discípulo hete- A Lei Eleitoral, decretada em 14 de Março de 1911 e remodelada a 5 de
rodoxo de Comte, foi mais longe ao aceitar que «le suffrage universel est un Abril, provocou alguma decepção nos meios republicanos, nomeadamente nos
droit avant d'être l'exercice légal et régulier de la raison cultivée»46. sectores mais radicais, pois não vinha confirmar as velhas reivindicações do
Os doutrinadores republicanos portugueses não andaram longe destas sufrágio universal (masculino) e dos círculos pequenos e uninominais. Com
ideias. Em 1851, José Félix Henriques Nogueira esforçou-se por demonstrar efeito, concedia o voto somente aos cidadãos maiores de 21 anos que soubes-
que a República não somente implicava a municipalização, a federação e o
sem ler e escrever, ou que fossem chefes de fanuqia há mais de um ano. Quanto
associativismo, mas também o sufrágio universal -- pelo menos no âmbito
aos círculos, estes, no Continente e Ilhas, seriam plurinominais, com represen-
consagrado pela revolução francesa de 1848 --, ilação que se manterá no
ideário do movimento nas décadas seguintes, período em que a influência do tação de minorias, o que significava a adopção da lista incompleta, sistema
posiãvismo foi mais acentuada. Assim, para Manuel Enúdio Garcia, admitido, que já vinha da Monarquia. Em Lisboa e no Porto, ensaiou-se a representação
«bem ou mal, o dogma da soberania popular» gerado «da revolução cientí- proporcional, pelo método de Hondt, e, nas Colónias, os círculos eram unino-
fico-industrial», teria de aceitar-se que, «se a soberania popular é a lei minais»l.
suprema, o sufrágio universal é o único meio de afirmar e praticamente veri- Como se vê, estava-se longe do sufrágio universal e do cumprimento das
ficar a existência real e positiva dessa lei»a7. E as posições de outros intelec- promessas da fase da propaganda, que a luta contra a «ignóbil» Lei Eleitoral
tuais positivistas como Consiglieri Pedroso~ e Teófilo Braga49 não foram muito de 1901 fez empolar, pelo que não admira que a imprensa mais radical, sobre-
diferentesso. tudo a do Porto, se tivesse desde logo lançado numa campanha contra este
Neste contexto, não surpreende que encontremos a reivindicação do su- modelo de representação. Outros, porém, temendo os efeitos reaccionários que
frágio universal nos vários programas republicanos elaborados a partir dos adviriam da imediata introdução de um sistema mais democrático, tiveram
inícios da década de 70. O programa do Centro Republicano Federal de Lisboa, uma reacção moderada e acabaram por aceitar as ideias do Governo Provisório
saído, como sabemos, em 1873, era taxativo ao declarar no seu ponto V: em nome de um pragmatismo que a futura republicanização do país iria cor-
rigir. Neste contexto, também não surpreende que a discussão se tenha prolon-
gado no seio da Constituinte, pois estava em causa a fixação dos mecanismos
4s Cf. A. Comte, Cours de Philosophie Positive, rol. 4, Paris, 1869, pp. 55-66. legitimadores do próprio regime.
/n Ciaude Nicolet, ob. cit., p. 260.
Como seria de esperar, ergueram-se, na Assembleia, vozes a apoiar inequivo-
'~ Manuel Emídio Garcia, «Porque e como Aceitamos o Suffragio Universal», O Partido
do Povo, 1 anho, n.o 16, Junho, 1878, p. 65. camente a universalidade do sufrágio (masculino). Para o deputado Dantas Ba-
« Cf. Consiglieri Pedroso, O Suffragio Universal ou a Intervenção das Classes Traba- racho, «uma República democrática que aão tenha por base o sufrágio univer-
lhadoras no Governo do Paiz, pp. 32-33. sal não é evidentemente democrática»5:; e um outro -- Djalma de Azevedo
'~Cf. Teúfilo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, pp. 211 e 216.
so Sabre toda esta questão, veja-se Fernando Catroga, Os Inícios do Positivismo em

Portugal, pp. 76-80. 5~ Sobre esta questão, veja-se António Pinto Ravara, art. cit., pp. 127-130.
52 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.» 3Z de 3 de Agosto de 1911, p. 19.

177
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911

O sufrágio feminino
confessou: «Fui sempre um propagandista desinteressado.., do sufrágio uni-
versai. Via que ele estava incluído no programa do meu partido e via isso com A questão do voto feminino era relativamente recente. Durante a Revolução
muito prazer, porque me parece que desde que não podemos ter o sistema de go- Francesa, as determinações no campo do direito civil, e em particular na legis-
verno directo do povo pelo povo, é conveniente que tenhamos o Governo de todo lação sobre o casamento e o divórcio, não tiveram, salvo em algumas vozes
o povo por delegação, e a única maneira de o termos é adoptar b sufrágio uni- isoladas (Condorcet, Guiomar), as consequentes expressões no terreno dos
versai.»53 Tese igualmente partilhada por Afonso de Lemos-~ e por Egas Moniz,
para quem, «analfabetos ou não, todos têm o mesmo direito»5» ao voto. direitos políticos das mulheres. Posteriormente, os refluxos bonapartistas e res-
tauracionistas, conjugados com a dominância da mentalidade romântica, não
De qualquer modo, tal como aconteceu no respeitante a outras questões
(federalismo, por exemplo), também em relação ao problema do sufrágio foram só obrigaram à reposição de situações anteriores, como acentuaram o aparta-
invocados critérios de «oportunidade» histórica para se negar a sua viabilidade mento feminino da vida política60. Recorde-se que, em França, a própria revo-
imediata. Para João José de Freitas não havia dúvidas de que «o sufrágio uni- lução de 1848, apesar de ter reconhecido o sufrágio universal, foi surda ao al-
versai é um desideratum que a República deve procurar realizar no mais curto vitre de Victor Considérant a favor da sua aplicação aos dois sexos. E o decreto
espaço de tempo, mas não no momento actual em que a população portuguesa de 28 de Julho de 1848, numa reactualização de decisSes análogas tomadas no
apresenta ainda a vergonhosa percentagem de 75 ou 78 por cento de analfa- decurso da Revolução61, proibia as mulheres de serem membros de clubes
betos»6. É certo que, para Egas Moniz, alguns analfabetos tinham «mais cons- políticos ou de assistirem às suas reuniSes. Comte, Proudhon, Michelet e, entre
ciência e mais conhecimentos do que indivíduos que sabem ler e escrever»7, nós, Teófilo Braga, teorizaram esta pretensa incapacidade política em nome de
convicção que, porém, não chegou para convencer uma Assembleia habituada uma análise psicológica que ligava a política à racionalidade e a mulher ao
a conexionar a emancipação cívica com a instrução e onde alguns defendiam sentimento, faculdade incompatível com a gestão de economia e dos negócios
mesmo uma concepção conservadora e elitista de República. Era o caso de públicos. Outros começavam a recorrer a argumentos tidos por científicos,
Faustino da Fonseca, para quem «as sociedades não são dirigidas pelas tirados de Broca e Topinard, para demonstrarem a mesma ideia.
maiorias incultas, mas pelas minorias organizadas, actuando sob forte disci- Naturalmente, a opinião contrária também foi ganhando alguns adeptos,
plina mental»S; e, na opinião do deputado e escritor Teixeira de Queirós, por como o jurista Laboulaye e o filósofo Stuart Mill, cujo discurso proferido na
mais democrata que se fosse, não se podia «contestar que há sempre em todos Câmara dos Deputados, em 1867, a pedir o voto para as mulheres proprietárias,
os países uma elite de homens, que são aqueles que governam em nome da fora do casamento e a pagarem impostos em seu nome teve grandes reper-
NaÇão»59. Por todas estas razSes, não surpreende que a República e a sua Cons-
cussões. E cientistas como Manouvrier e H. Varigny62 vieram a terreiro para
tituinte tenham aprovado o sufrágio com algumas limitaçSes.
combater as teses acerca da inferioridade feminina, entrando, assim, em sin-
Terão sido estas semelhantes às que restringiam o sufrágio sob o constitu-
tonia com a conquista de alguns direitos que aquelas estavam a alcançar em
cionalismo monárquico? Pensamos que existiam algumas diferenças: em pri-
certos países anglo-saxónicos. Ainda que com limitações, adquiriram o direito
meiro lugar, a maioria não punha em causa a necessidade de se caminhar para
de voto na Finlândia (a partir de 21 de Julho 1906), na Nomega (de 14 de Julho
o cumprimento do sufrágio universal, somente o condicionava à evolução cul-
tural do povo; em segundo lugar, não eram usados argumentos de cariz pro- de 1907), em alguns estados da Austrália (1900), na Nova Zelândia (1892) e
prieasta, como na primeira fase do liberalismo, para justificar a capitis dimi- em quatro estados dos Estados Unidos da América. Mas importa dizer, que,
nutio de alguns sectores da população, mas sim de índole iluminista, prevenção em 1910, esse direito não estava em vigor em nenhum país católico e latino,
que os pressupostos culturais do projecto republicano ajudam a explicar. incluindo a França -- aqui, as mulheres continuarão excluídas da participação
E é neste horizonte que ganham sentido as reservas que a lei republicana impôs política até 1945 -- e, mesmo em Inglaterra, o feminismo só ainda tinha con-
aos analfabetos e às mulheres, dado que as concernentes aos militares tinham seguido obter algumas vitórias no campo do poder local6a.
a ver com a função específica que desempenhavam. Daí que soe a vanguardismo a reivindicação feita, em 1873, pelo Centro
Republicano Federal de Lisboa para que o sufrágio universal fosse alargado
às mulheres maiores de 18 anos. (Foi necessário esperar mais de cem anos para
que esta reivindicação fosse cumprida.) O preceituado no programa de 1891 de-
nota algumas cautelas, atitude que será compartilhada pelo próprio feminismo
531bidem, Sessão n.o 21, de 14 de Julho de 1911, p. 22.
U lbidem, Sessão n.o 38, de 4 de Agosio de 1911, pp. 18-19.
5~ Ibidera, Sessão n.o 17, de 10 de Julho de 1911, p. 11. 60 Cf. Elisabeth G. Sledziewski, ob. cit., p. 74.
~ Ibidem, Sessão n.o 38, de 4 de Agosto de 1911, p. 19. 61 Em 30 de Outubro de 1793, o governo revolucionário dissolveu os clubes femininos,
57 Ibidem, p. 1 I. e a lei de 23 de Maio de 1795 proibiu as mulheres de assistirem às reuniões políticas.
s« lbidem, p. 17. 62Cf. Marnoco e Sousa, ob. cit., pp. 271-72.
59Ibidern, Sessão n.o 19, de 12 de Julho de 1911, p. 24. 63 Cf. I.,6on Duguit, Le Suffrage des Femmes. Conférence Faite à l'Université de Coimbra
le 17 Avril 1910, Coimbra, 1910.
178
A REPÚBLICA SEGUNDO A CON$TITUIÇAO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
lutas de emancipação social e cultural. E a propaganda feminista em Portugai,
republicano português, que começou a emergir nos inícios do século xx. apesar de não ir tão longe como a das suas congéneres dos Estados Unidos,
Tutelado por políticos como Bernardino Machado e Sebastião de Magalhães França e Inglaterra, obrigou os republicanos a optarem entre a coerência dos
Lima. e intimamente ligado à Maçonaria, esse feminismo visou objectivos que princípios e o pragmatismo ditado por razões de facto e de Estado (ou de
privilegiavam, antes de tudo. a esfera dos direitos civis, deixando a questão regime).
dos direitos políticos para a fase em que a sociedade estivesse mais democra- Mesmo as propagandistas mais militantes pareciam concordar que a mulher
tizada e alfabetizada~. De facto, o combate de Ana de Castro Osório, Maria só seria um «sujeito político» depois de consolidado o seu estatuto de «sujeito
Veleda e de outras feministas foi movido contra os artigos do Código Civil de
civil». Por exemplo, em Dezembro de 1910, Maria Veleda, uma das principais
1867. que confirmavam o tradicional poder marital, e a favor do divórcio6».
militantes do movimento, declarava-se «anti-sufragista»67 e a favor do sufrágio
Sintomaticamente. com a República esta pressão veio a traduzir-se em algumas
com algumas restrições, isto é, extensivo «a todas as mulheres como a todos
medidas importantes: leis do divórcio (3 de Novembro de 1910) e da famflia
os homens, quando paguem uma certa contribuição ao Estado ou saibam ler e
(25 de Dezembro), revogação da obrigatoriedade de a mulher prestar obe-
diência ao marido (artigo 1185.° do Código Civil), equiparação do adultério escrever»68. E certo que, descontando algumas excepções, existia a convicção
masculino ao feminino para efeitos de separação, reconhecimento de a mulher de que estas limitações não tinham qualquer fundamento natural, mas deri-
poder publicar sem autorização marital. vavam principalmente de condicionantes culturais: enquanto a mulher, através
Por contraste, percebe-se, desde logo, a forte situação de dependência em da instrução correcta, não se assumisse como um sujeito autónomo e racional
que a mulher se encontrava em relação ao marido, podendo mesmo dizer-se -- a atitude intelectual adequada à política --, isto é, se não se emancipasse
que o C6digo Civil, nesta matéria, consignava preconceitos que vinham do An- da tutela do padre, o seu voto iria fortalecer a reacção, diagnóstico que também
tigo Regime. Com aquelas disposições, e sobretudo com as novas leis do di- era feito pelos republicanos de outros países. Assim, Léon Duguit, falando em
vórcio e da farmlia, a República introduziu algumas rupturas em relação à Coimbra, em 1910, responsabilizava o catolicismo pela secular depreciação da
nossa realidade anterior, já que o entendimento do casamento como um con- mulher na cultura ocidental e assinalava que as reacções mais fortes contra esse
trato e o consequente reconhecimento do direito ao divórcio conferiam uma estado de coisas vinham de regiões influenciadas pelo protestantismo. Mas
maior individualidade à mulher, ou melhor, estatuíam-na como um sujeito de simultaneamente não deixava de assinalar que os próprios movimentos demo-
direito, como se nota na revogação dos artigos do Código Civil mais lesivos cráticos laicos das nações católicas, como os radicais e radicais-socialistas,
da sua autonomia no seio da fanu'lia e no próprio modo como esta foi redefi- que estavam no poder em França, temiam que o alargamento do voto às mu-
nida. Com a sua dessacralização, a faimqia deixou de ser uma instituição indis- lheres, naquela conjuntura, provocasse o renascimento da influência conser-
solúvel e sagrada; passou a ser vista como o produto de um pacto celebrado vadora e religiosa sobre a sociedade69.
ira'ante a sociedade por dois sujeitos livres, iguais perante a lei e fundamento
Como seria de esperar, algumas intervenções proferidas na Assembleia
último da durabilidade do contrato. Portanto, no divórcio, sobretudo na sua Constituinte, ecoando as reivindicações dos movimentos feministas, e recor-
modalidade de mútuo consentimento, são os indivíduos que se produzem a si
dando promessas feitas na fase da propaganda, apoiaram explicitamente o
mesmos como sujeitos de direito, cuja realização, se obedece ao direito posi-
sufrágio feminino: Djalma de Azevedo, deputado federalista e radical, votou
tivo, actualiza as normas do direito natural66.
a favor do «sufrágio universal com relação aos homens e às mulheres» porque
Em suma: o divórcio igualizou a mulher ao homem na esfera do direito
civil e funcionou como uma espécie de escola de civilidade que mostrava a não via «razão alguma» de as «excluírem da governação do Estado dentro de
incoerência da sua não extensão à esfera dos direitos políticos. Os revolucio- certos limites», isto é, desde que fossem «chefes de farmqia» e tivessem o «exa-
nários franceses do século xvm sentiram este dilema, que a recessão oitocen- me de instrução primária»7°; Faustino da Fonseca, coincidindo, no essencial,
tista e os interesses sociais da nova ordem burguesa recalcaram. Mas, nos com intervenções feitas por Adriano Mendes de Vasconcelos, Jacinto Nunes,
inícios do século xx, a questão tinha de se colocar em termos diferentes, não Eduardo de Almeida e outros, chamou à colação o empenhamento dos repu-
s6 devido às necessidades de alargamento das bases de apoio da representação blicanos no feminismo português e propôs que a Constituição garantisse «capa-
política, mas também em consequência da sua crescente articulação com as cidade política e civil às mulheres, com emprego ou profissão liberal»Th
Apesar de todas estas posições, o reconhecimento explícito do eleitorado
feminino não sensibilizou a maioria, devido, sem dúvida, aos preconceitos
Nos la/cios do século xx, somente 15% da população feminina portuguesa estava alfa-
Imiz~la.
67 Maria Veleda, «O Voto às Mulheres Portuguesas», A Mulher e a Criança, n.° 19,
~Cf. ~ Catroga, A Militdmcia Laica e a Descristianização da Morte em Portugal
t1865-1911j, rol. 1, pp. 351-68. Recorde-se que o divórcio foi instituído em França pelo Dezembro, 1910, p. 1.
decreto de 25 de Setembro de 1792. mas veio a ser proibido entre 1816 e 1884, ano em que es Idem, ibidem.
foi remabeaecido pela I11 República, facto que influenciou o republicanismo português. 69 Cf. Léon Duguit, ob. cit., p. 21.
Cf. Eii~ G. Sledziewski, ob. cit., p. 115 e ss. 7o Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 28, de 14 de Julho de 1911, p. 22.
71 lbidem, Sessão n.° 31, de 26 de Julho de 1911, p. 19.

181
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇ/~O DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
Deputados e o Senado são eleitos pelo sufrágio directo dos cidadãos eleito-
res», ficando «a organização dos colégios eleitorais das duas Câmaras e o pro-
dominantes no relacionamento do homem com a mulher e aos receios das con- cesso de eleição» a serem «regulados por lei especial» (artigo 8.0). A redacção
sequências políticas que poderiam advir do uso desse direito, como emblema-
ticamente um deputado confessou ao responder a Djalma de Azevedo com continuava a ser genérica, mas já não existiam grandes dúvidas de que refe-
estas palavras: a introdução do sufrágio feminino «tem dado lá fora maus resul- renciava exclusivamente o sexo masculino. A luta pelo sufrágio feminino,
tados porque as mulheres têm sido quase todas reaccionárias», afirmação a que mesmo limitado, irá continuar na ordem do dia75 e, ainda em 1923, a velha
o visado, mostrando o reverso que o problema tambúm encerrava, retorquiu militante Adelaide Cabete considerava-se satisfeita com as conquistas alcan-
com esta acusação: «A mulher é mais reaccionária do que o homem porque o çadas no campo do direito civil, realidade que, porém, continuava a não ter
homem a mantém menos instruída-»72 Logo, tratar-se-ia, não de uma infe- correspondência no terreno político, pelo que «as reivindicações das mulheres
rioridade essencial ou atávica, mas de urna consequência de índole histórica e em Portugal devem resumir-se, quase exclusivamente, ao sufrágio»76.
cultural passível de ser corrigida e superada. Afinal, a prometida aplicação do sufrágio universal como decorrência do
Perante todas estas divergências, importa saber, em concreto, o que é que princípio da soberania nacional sofreu amputações com a exclusão dos anal-
o Governo Provisório e a Assembleia Constituinte aprovaram sobre o voto fabetos, de alguns militares, dos incapazes e das mulheres, o que restringia a
feminino. A lei que preparou as eleições para a Constituinte, realizadas a base de legitimação do novo regime. Por outro lado, e dentro dos limites
28 de Maio de 1911, fornece-nos o primeiro indicador, ao dar capacidade elei- impostos pela lei, a participação eleitoral não compensou essa debilidade, dado
toral a todos os portugueses maiores de 21 anos, que sabiam ler e escrever, ou que, nas eleições para a Assembleia Constituinte, dos 1 510 545 eleitores da
que, não o sabendo, fossem chefes de fanuqia há mais de um ano. Excep- Metrópole, masculinos e maiores de 21 anos, somente 846 801 figuraram nos
tuavam-se os falidos, os que recebiam dinheiro da beneficência pública ou par- cadernos de recenseamento. Comparando com os últimos números da Mo-
ticular, os pronunciados com trânsito em julgado, os incapazes, os naturali- narquia, isto significava um fraco crescimento de 150 000 eleitores e fica
zados e, implicitamente, as mulheres.
aquém dos 951 000 eleitores recenseados em 1890. Por outro lado, como só
Ora, a reivindicação do sufrágio feminino irá dar azo a um significativo
250 000 cidadãos exerceram o seu direito de voto77, a votação não ultrapassou
incidente suscitado pela interpretação da tradicional fórmula genérica da re-
as maiores participações das últimas décadas do constitucionalismo monár-
dacção da lei. A médica Carolina Beatriz Ângelo achou que reunia as con-
dições de «cidadão português» e de chefe de famflia -- tinha ficado viúva há quico. Em consequência, tem de se reconhecer que a novel República só pode
pouco tempo -- e, por isso, reclamou na 1.a Vara Civil de Lisboa que o seu ser caracterizada como democrática ao nível dos princípios e, principalmente,
nome fosse integrado nos cadernos eleitorais. Numa decisão inédita em como um projecto que, correlato da democratização do ensino e da educação
Portugal, o seu protesto foi atendido, pois o juiz, Dr. João Baptista de Castro cívica, só paulatinamente seria realizável, pois só a razão cultivada determi-
(sintomaticamente pai de Ana de Castro Osório), considerou que: 1.° as mu- naria com justeza as escolhas políticas.
lheres são cidadãos portugueses do mesmo modo que os homens, conforme o
estipulado no Código Civil (artigo 18.°), dado que podem saber ler e escrever,
ser chefes de famflia, satisfazendo, assim, os requisitos da lei; 2.a esta não as O mandato imperativo
excluía de um modo explícito; 3.a a concessão do direito de sufrágio às mu-
lheres era um imperativo de justiça e vinha ao encontro do interesse geral73. Quanto ao dilema entre a democracia directa e a representação política, não
E foi esta decisão que possibilitou o primeiro exercício de voto feminino em temos dúvidas de que os republicanos deram continuidade, com as necessárias
PortugalTM. correcções, ao sistema característico da organização política das sociedades
Tem de se reconhecer, porém, que a deliberação judicial forçou o espírito modernas. O exercício do poder exigia a sua delegação, e o princípio da unidade
da lei, já que a sentença não relevava o peso da nossa tradição constitucional
nesta matéria e não se ajustava às intenções dominantes no republicanismo por-
tuguês, como se prova com o facto de a Assembleia Constituinte, que funcio- 75 A atitude de Carolina Beatriz Ângelo foi apoiada pelo Conselho Nacional das Mu-
nou após a ocorrência do caso, não ter dado guarida àquela interpretação. Isolou lheres Portuguesas, mas a luta pelo sufrágio não teve resultados imediatos. Em 1916, o se-
as vozes que explicitamente apoiavam o voto feminino e aprovou um articulado nado defendeu o voto para as mulheres diplomadas, ou com qualquer curso literário ou cien-
que, em úlúma análise, conf'lrmava a lei eleitoral anterior: «A Câmara dos tífico, mas a câmara dos deputados rejeitou-o. Em 14 de Março de 1918, o deputado Jacinto
Nunes avançou com um projecto, a incluir no Cúdigo Eleitoral, em que, com a expressão
«de um e outro sexo», colocava a mulher em igualdade de circunstâncias com o homem.
No entanto, somente em 1931, e com grandes restrições, é que foi reconhecido o voto femi-
72 lbidem, Sessão n.o 21, de 14 de Julho de 1911, p. 22. nino.
~3 Cf. Marnoco e Sousa, ob. cit., p. 280. 76 Adelaide Cabete, O Congresso Internacional Feminista de Roma (Relatorio da Dele-
74Cf. «Mulheres Portuguesas. Carolina Beatriz Ângelo», Boletim da Comissão da Con- gada Oficial do Governo Português), Lisboa, 1923, p. 15.
dição Feminina, n.o 4, 1979, pp. 30-31.
77Cf. A. H. de Oliveira Marques, ob. cit., p. 591.
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
A s p o s i ç õ e s q u e m a i s i n fl u e n c i a r a m o s a d e p t o s p o r t u g u e s e s d a p r o p o s t a
e da indivisibilidade da soberania era incompatível com formas de democracia foram, porém, as que Gambetta e Vítor Hugo protagonizaram em 1869
directa, ou com soluções mitigadas, como as que os federalistas, na década de e em 1872, respectivamente. O primeiro apresentou o seu programa elei-
70, avançaram, ao pugnarem pela celebração de um contrato -- mandato impe- total, em Belleville, como um contrato que selava nestes termos o seu com-
rativo ~ segundo o qual «os eleitores impõem aos seus representantes os votos promisso com os próprios eleitores: «Je suis à la fois votre mandataire et
que devem emitir no parlamento, sob pena de, afastando-se dessas imposições, votre dépositaire. Je fais plus que consentir. Voici mon serment: Je jure obéis-
decaírem da representaçã°»Ts-
sance au présent contrat et fidélité au peuple souverain»g3 Por sua vez, Vítor
Os defensores desta solução situavam-se directamente na linha do que
Rousseau havia defendido no Contrato Social: a soberania não pode ser Hugo, em 1872, propôs um «mandato contratual», em que aceitava que a
representada nem alienada, e, consequentemente, os deputados do povo não sua acção parlamentar fosse julgada por um júri e punida com a demissão
(voluntária) no caso de as promessas assumidas perante os eleitores não serem
passavam de meros «comissários» dos seus eleitores79. A critica liberal ime-
diata (Sieyès, Benjamin Constant) interpretou esta tese rousseauniana como um cumpridas. Como já se percebeu, estamos na presença de opções indivi-
arcaísmo. Devido ao crescimento dos Estados modernos, seria impossível duais, a que a lei francesa não dava cobertura. E embora a questão tenha con-
aplicar a pretensa democracia directa ateniense, e os membros das assembleias tinuado a ser agitada nos primórdios da III República, não deixa de ser reve-
políticas de Antigo Regime, sujeitas a mandatos imperativos, somente repre- lador que a Constituição de 1875 e as suas emendas posteriores a tenham
sentavam a ordem específica que os elegeu. Deste modo, a representação rejeitado. Continuava-se a argumentar que o mandato imperativo destruía o
estava vinculada a interesses particulares, e o mandatário ficava praticamente governo representativo e favorecia a prática da irrealizável e perigosa demo-
reduzido ao desempenho de uma função consultiv#°. cracia directa~.
O primeiro grande crítico do mandato imperativo foi Sieyès. Nos primór- Como facilmente se entende, os federalistas foram, em Portugal, os maiores
dios da Revolução Francesa, demonstrou, com sucesso, que o deputado não apologistas desta solução. Assim, o programa do Centro Republicano Federal
era representante da ordem, ou do círculo que o elegia, mas de toda a Nação, de Lisboa (1873) consagrou-a no seu ponto xv: «Queremos o mandato impe-
única perspectiva coerente com a concepção de vontade geral -- entendida rativo para todos os deputados e a representação das minorias em todas as
como uma totalidade diferente do somatório das vontades particulares --, e assembleias e corpos legislativos». E Teófilo Braga, na sua candidatura pelo
que pressupunha uma ideia mais geométrica e quantitativa de Nação, agora círculo 94, em 10 de Outubro de 1878, defendeu-a e inseriu-a no seu plano de
definida não como uma hierarquia qualitaUva de ordens ou de estados, mas reorganização política, propondo que os programas das candidaturas fossem
como um espaço uniforme povoado por indivíduos iguais8L Foi esta lógica que previamente aprovados na assembleia eleitoral a que se apresentavam, gesto
levou os Estados Gerais a optarem pelo voto por cabeça, e posteriormente a que seria «o primeiro acto de um mútuo compromisso, a determinação e a acei-
Constituição de 1791 a considerar os deputados não como «représentants d'un tação do mandato imperativo»s». Esta seria a única forma representativa que,
département paraculier, mais de la nation tout entière». E embora a Consti- a seu ver, realizaria cientificamente essa «vaga aspiração manifestada por
tuição de 1793 tenha silenciado a questão do mandato imperativo, as Cons- Herculano sob a forma de deputados locais»86, possibilitaria às oposições
utnições posteriores reafirrnaram o estipulado em 1791. E verdade que pos-
«exercerem uma influência sobre os governos»87, favoreceria a representação
teriormente a ideia teve alguns defensores, nomeadamente na parte final do
das minorias e acabaria com a separação existente entre mandantes e manda-
regime de Luís Filipe, mas, como afamou Guizot em 1846, os apoiantes do sis-
tários. É que o mandato imperativo seria «na garantia política o mesmo que a
tema representativo e do princípio da unidade e da indivisibilidade da sobe-
rama deviam combatê-la porque ela abolia «le gouvernement représentatif pour procuração bastante é na garantia individual; nem mais nem menos. Todo o
mettre le gouvemement fédératif à sa place»8L cidadão pode fazer-se representar em direito por um indivíduo em quem delega
todos os seus poderes e responsabilidades previamente definidas, e a quem
pode sacar o referido mandato logo que a sua vontade não seja integralmente
78 Mamoco e Sonsa, ob. cit., pp. 348-49.
cumprida. É esta uma base orgânica das garantias individuais em direito civil.
» ~.a souveraineté ne peut être représentée, par la même r " Porque é que as localidades entregarão incondicionalmente a qualquer indi-
née; eUe consiste essentiellement dans la volonté générale, etmson qu elle
la volonté nereprésente
ne se peut être alié-
point:
elle est la n~me, ou elle est autre; il n'y a pas de milieu. Les députés du peuple ne sont donc víduo o direito de as representar sem que exista um acordo prévio, uma in-
ni ne peuvent êlre ses représentants, lis ne sont que ses commissaires; ils ne peuvent rien con- dicação de reclamações, uma dependência da acção, enfim essa segurança que
dure dé-fimtivement. Toute loi que le peuple en personne n'a pas ratifié.e est nulle; ce n'est
poim une loi» (Jean-Jacques Rousseau, Oeuvres Complètes, T. I, Paris, 1971, p. 558).
83 Idem, ibidem, p. 97.
mCf. Carré de Malberg, Contribution à la Théorie Générale de l'État, T. II, Paris, 1962,
p. 212 e ss. 84idem, Ibidem, p. 105 e ss.
tt Cf. Luc Ferry et Alam Renaut, ob cit., pp. 92-95. 85 Teófilo Braga, Soluções Positivas da Política Portugueza. Do Systema Constitucional
In Edouard Philipon. Le Mandat lmpératif. Étude de Droit Constitutionnel Comparé, como Transigencia Provisoria entre o Absolutismo e a Revolução, Lisboa, 1879, p. 40.
Paris, 1882, p. 82. só Idem, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, p. 224.
87 Idem, Soluções Positivas da Politica Portugueza, p. 38.

185
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL AREPOBLICASEGUNDOACONSTITUIÇÃODE1911

na esfera civil é da mais evidente justiça?»ss- No entanto, a evolução do debate générale participe elle-même de l'unité et de l'indivisibilité de la nation»~
em França e o peso de alguns argumentos tornaram discutível a sua aplicabi- Significa isto que a perspectiva individualista, enquanto fundamento do poder
lidade, mesmo no seio dos federa_listas, como se prova através da candidatura moderno, acabou por ser sobredeterminada por uma totalidade de.corrente da
de Sebastião de Magalhães Lima, pelo círculo 98 (Lisboa), em Setembro de própria ideia de soberania nacional, mediação que se compaginava bem com
1880. No meeting da campanha, discutiu-se com grande vivacidade e con- as teses historicistas e sociológicas subjacentes ao nosso republicanismo e
vicção a questão do mandato imperativo. Alguns eleitores desejavam que o com a funcionalidade sociabilitária que este atribuía ao Estado-Nação.
candidato o aceitasse: outros que não w o candidato tinha a confiança dos elei-
tores, pelo que o mandato seria uma peia à sua liberdade --, tese que acabou
por vencer e, ap6s «acalorado debate, a assembleia resolveu contra o mandato PARLAMENTARISMO E PRESIDENCIALISMO
imperativo»89. De qualquer maneira, tudo isto indica que a questão estava lan-
çada entre nós, facto que não deixará de ter reflexos na própria ordem cons- A opção entre o parlamentarismo e o presidencialismo foi uma das questões
titucional. mais marcantes do debate constitucional de 1911. Os programas do movimento
Com efeito, os textos constitucionais nada disseram sobre esta matéria até republicano omitiram-na, e os seus propagandistas tinham sido acérrimos crí-
1885. Todavia, devido ao eco da polémica, que continuava em França nos ticos da chamada «pedantocracia» parlamentarista. Porém, isto não significava
inícios dos anos 809°, e à propaganda de alguns sectores republicanos, o Acto que fossem adeptos de um sistema presidencialista, apesar da admiração que
Adicional de 1885 precisou explicitamente que os pares e os deputados eram muitos votavam ao modelo americano. Contra aquele militavam posições de
representantes da Nação, pelo que a Constituição não reconhecia o mandato princípio -- os federalistas preferiam a solução suíça -- e os temores em rela-
imperativo. O mesmo aconteceu com a Constituição de 1911, ao escrever que ção à excessiva personalização do poder93 derivados quer da aversão ao abso-
«os membros do Congresso são representantes da Nação e não dos colégios lutismo, quer da recente evolução do poder moderador, previsto na Carta Cons-
que os elegem» (artigo 7.o, §l), e, à luz do artigo 15.o, «os deputados e sena- titucional, no sentido do engrandecimento do poder real que conduziu à
dores são invioláveis pelas opiniões e votos que emitirem no exercício do seu ditadura de João Franco e ao assassínio de D. Carlos. Seja como for, o pro-
mandato».
blema continuou em aberto, e o facto de a Constituição brasileira de 1891, de
Este desfecho não deve surpreender. Tendo o republicanismo optado pelo pendor presidencialista, contar com admiradores no seio da comissão redac-
modelo de Estado unitário, o mandato imperativo não tinha razão de ser: o
tora do projecto da nova Constituição da República -- caso de José Barbosa94
eleito não era um mero comissário ou mandatário do núcleo parcelar que
explica, em boa parte, a apresentação de uma proposta naquela linha, opção
o escolhia. Por outro lado, razões de índole geográfica e demográfica inviabi-
lizavam o recurso à democracia directa e impunham a necessidade da repre- que, no entanto, suscitou forte e imediata reacção.
sentação política. Ora, a representação pelo mandato imperativo acabava, em Para deputados como Egas Moniz, o presidencialismo era correlato do fede-
última análise, por concentrar directamente no povo o exercício de todos os ralismo9» -- como se via nos Estados Unidos da América --, e, para outros,
poderes, e particularmente o poder legislativo, e exigia o exercício permanente seda mesmo incompatível com a ideia de República, pois constituía «uma
da soberania. Isto transformaria o deputado numa simples correia de trans- forma mais ou menos disfarçada do regime monárquico» (Djalma de Aze-
missão dos interesses particulares e sectoriais do seu eleitorado, e tornava-o vedo)96 e encerrava perigos que poderiam conduzir a soluções despóticas e
eoacto das pressões do seu círculo, impedindo-o de decidir em liberdade e de cesaristas, como os exemplos de Luís Napoleão Bonaparte e de Mac-Mahon
perseguir, acima de tudo, a realização do interesse gera191. E com esta opção mostravam. Um chefe de Estado com amplos poderes seria «o caminho mais
os republicanos estavam a ser coerentes com o legado liberal consubstanciado directo para a ditadura e para a tirania» (Adriano Pereira)97, ou «para o des-
no sistema representativo e na soberania nacional. Porém, não se deve esquecer potismo» (Barbosa de Magalhães)98, porque teria a possibilidade, mesmo com
que a rejeição do mandato imperativo e a justificação do deputado como repre- uma legitimidade sufragada, de se transformar num «senhor absoluto» e num
sentaate do interesse colectivo só ganham coerência, por mais paradoxal «verdadeiro tirano»99. E basta acompanhar a discussão que então ocorreu para
que possa parecer, à luz do conceito rousseauniano de «vontade geral», pois, se perceber o tom vencido da intervenção de um adepto do presidencialismo
como bem sublinhou Carré de Malberg, «la volonté générale qui forme
l'expression de la souveraineté ne peut s'entendre comme une somme de
92 Carr~ de Malberg, ob. cit., p. 255.
volontés particulières, émanant de chacun des bailliages; mais cette volonté 93 Cf. Teófilo Braga, Soluções Positivas da Politica Portugueza, cit., p. 102.
94 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 16, de 7 de Julho de 1911, pp. 18-19.
a ldem, Historia das Ideias Republicanos em Portugal, pp. 230-31. 9S lbidem, Sessão n.° 17, de 10 de Julho del911, pp. 9-10.
Se~ de Magalhães Lima, A Revolta (2.° Parte). Processo da Monarchia, p. 53. 961bidem, Sessão n.° 21, de 14 de Julho de 1911, p. 20.
9°C-'f. Claude Nicolet, ob. cit., p. 414. 971bidem, Sessão n.° 16, de 7de Julho de 1911, p. 17.
çl Cf. Mamoeo e Sousa, ob. cit., pp. 348-52. 9S lbidem, Sessão n.° 19, de 12 de Julho de 1911, p. 16.
991bidem, Sessão n.° 22, de 17de Julho de 1911, p. 9.
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇAO DE 1911

O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL maioria de dois terços, ou por maioria simples no terceiro escrutínio entre os
(João de Meneses, membro da comissão redactora do projecto): «A Assembleia, dois candidatos anteriormente mais votados (artigo 38.0). Nesta matéria
na sua maioria, vai adoptar a República parlamentar. Não tem ilusões a tal res- seguia-se, com ligeiras modificações, o estipulado na Constituição francesa de
peito. Submetendo-se, porém, ao voto da Câmara, não deixará de combater 1875, e a adopção do sistema era coerente com a orientação parlamentarista e
constantemente a República Parlamentar'»t°° com os receios cesaristas já apontados. A legitimação popular directa seria, no
Quais foram os argumentos aduzidos a favor da solução parlamentarista, dizer de António Macieira, um «perigoso sistema de eleição presidencial»lO4 e
para além dos já apresentados? Mais uma vez, ouviu-se a invocação da his- exigia que se desse ao presidente os direitos de veto e de dissolução, o que,
tória, ou melhor, de uma certa interpretação dela, para se demonstrar que a na óptica de um movimento que tinha sob suspeição a encarnação pessoal do
República devia dar continuidade às nossas tradições mais genuínas, chegando poder, seria excessivo. Por isso, a Constituição de 1911 não os reconheceu,
Alexandre Braga a afirmar, como se sabe, que o parlamentarismo estava tão transformando a Presidência num órgão do poder executivo (artigo 36.°). obri-
arreigado nos costumes do povo português que, «para a própria fundação da gando-a a promulgar as leis vindas do Congresso e, caso não o fizesse, estas
monarquia, a lenda quis inventar as cortes de Lamego»)°l, Mas o motivo maior entrariam em vigor após quinze dias. Pode mesmo afirmar-se que, dos atri-
radicou, sem dúvida, nos receios das degenerescências imperialistas, cesaristas butos típicos do presidencialismo, só ficou consignado o direito de o presidente
e plebiscitárias do presidencialismo, cautelas que tornavam lógica a decisão nomear e demitir, sem autorização prévia do Congresso, os ministros
de se eleger o Chefe de Estado por um sistema indirecto e de se proibir que o (artigo 47.°).
presidente em exercício voltasse a candidatar-se no quadriénio seguinte O enfraquecimento da instituição presidencial está igualmente patente na
(altigo 42.°). circunstância de o Congresso poder demitir o presidente através de uma vo-
Em causa estava, portanto, o âmbito das competências presidenciais e não tação fundamentada e por maioria de dois terços (artigo 46.°). E embora lhe
a necessidade da função. De facto, a alternativa colegial ou directorial, na linha competisse nomear e demitir os ministros, estes eram individual e politica-
da Constituição suíça de 1848, também não teve acolhimento, mas isso não mente responsáveis perante as câmaras, que também responsabilizavam o pre-
invalidou que alguns deputados continuassem a pensar que a gradual implan- sidente do Ministério pela política geral do seu gabinete. Com efeito, contra o
tação do self-government tomaria desnecessária, tarde ou cedo, a existência de parecer do projecto, a Constituição acabou por garantir a responsabilidade
um presidente. De qualquer modo, a maioria concordou que a Constituição o ministerial, embora nada tenha explicitado acerca da responsabilidade soli-
devia instituir, embora a «virtude» republicana da modéstia -- que Teófilo
dária do gabinete, uma das características maiores do parlamentarismo. Porém,
Braga tão bem simbolizava -- e a memória das críticas que os propagandistas
como previa a existência de um presidente do Ministério -- autêntico presi-
tinham lançado contra os custos de manutenção da Casa Real e contra os
dente do Conselho de Ministros -- responsável pela política geral perante o
adiantamentos tivessem levado os deputados a aprovar disposições que im-
punham uma presidência sem pompa e circunstância. Como no Brasil e nos poder legislativo, tem de se concordar que acabava por contemplar o sistema
de gabinete1°5.
Estados Unidos, o presidente iria receber um subsídio que, fixado antes da sua
eleiçãoI°-', não poderia ser alterado durante o período do mandato, e nenhuma Como se vê, o presidente quase ficava reduzido a símbolo da Nação e a
das propriedades da Nação, nem mesmo aquela em que funcionava a Presi- seu representante «nas relações gerais do Estado, tanto internas como externas»
dtncia, poderia «ser utilizada para cómodo pessoal do presidente ou de pessoas (artigo 37.°). Mas, como era igualmente órgão do poder executivo, a sua figura
da sua fanu'lia» (artigo 45.°), ao contrário do que tinha acontecido, na opinião estava sujeita ao desgaste das govemações e às flutuações das maiorias parla-
dos republicanos, com os Braganças. mentares, situação que implicou que as frequentes crises do governo, por des-
A par de um comportamento pouco pomposo, exigia-se ainda que o pre- confiança do Congresso, tenham gerado crises na Presidência, pois esta não
sidente funcionasse como uma instância coordenadora e moderadora, superior tinha grande margem de manobra para moderar as paixões políticas entre as
a todas as lutas e paixões partidárias e, na expressão de Alexandre Braga, capaz facções e os partidos. Não foi assim por acaso que, sob a vigência da I Repú-
de «estabelecer unidade dentro da Pátria e dar coesão e seguimento às diversas blica, somente um mandato presidencial tenha chegado ao fim.
obras govemativas, que hajam de suceder-se na arena parlamentar»103. No Por tudo isto, é lícito caracterizar o regime inaugurado em 5 de Outubro
entanto, o desempenho desta tarefa tinha de se situar no quadro do parlamen- de 1910 como uma República unitária, vocacionalmente democrática, parla-
tarismo. A Constituição rejeitou claramente o presidencialismo, havendo desde mentarista, cuja ordem constitucional, ao contrário da Carta, regressou ì di-
logo a destacar a eleição indirecta do presidente feita pelo Congresso, por visão tripartida do poder (legislativo, executivo e judicial). Comummente, o
relacionamento destes poderes é posto em termos de igualdade e de equih'brio,
mas não temos dúvidas de que a Constituição de 1911 -- e a prática que dela
J°~lbidem. Sessão n."19, de 12 de Julho de 1911, p. 14.
io~ Ibidera, Sessão n." 18, de 11 de Julho de 1911, p. 19.
,o: O subsídio presidencial foi fixado pelo decreto de 23 de Agosto de 1911:180005000
réis de honor/trios e 60005000 réis para despesas de representação. tO41bidem, Sessão n.° 22, de 17de Julho de 1911, p. 17.
)os Cf. Marnoco e Sousa, ob. cit., p. 539.
*°~ Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 15, de 6 de Julho de 1911, p. 20.
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇkO DE 1911
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
aberto e dinâmico e palco de um processo evolutivo de crescente heterogenia
derivou ~ deu uma clara supremacia ao congresso, pois, ao contrário do presi- e diferenciação; o que, em termos sociológicos, possibilitava a fundamentação
dente, aquele era eleito por sufrágio directo e tinha amplos poderes de controlo ôntica da individuação. Daí que só com a formalização voluntária da sociabi-
sobre o governo, não podendo ser dissolvido antes do termo constitucio- lidade, subordinada a imperativos ético-consensuais, se evitasse a queda na
naimente prefixado|°~. No entanto, o parlamentarismo não foi aceite unanime- anemia e se garantisse a autonomia das partes em relação à totalidade social.
mente: e. se se levarem em conta as intenções presidencialistas do projecto Com efeito, sabemos que, apegar de o sociologismo dominante na ideolo-
inicial e o teor de algumas intervenções feitas durante a sua discussão, ficam gia republicana equacionar as sociedades como totalidades, o indivíduo cons-
antevistas algumas raízes de dissídios futuros, incluindo os que conduzirão à tituía o seu núcleo básico, e os órgãos intermédios gozavam de uma autono-
experiência trágica de Sidónio Pais. mia própria que não podia ser subsumida pelo todo. Nesta perspectiva, a

i
estrutura social daqui decorrente é inconfundível com a lógica relacionai e hie-
rarquizada que ordenava o cosmos da cidade grega, e muito menos com as fixas
A LIBERDADE DOS MODERNOS desigualdades, teologicamente justificadas, da sociedade de Antigo Regime.
E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS Ao contrário, o republicanismo português foi tributário dos postulados essen-
ciais da modernidade política, e se os elos que deviam existir entre o indiví-
À luz de tudo o que acabou de ser escrito, percebe-se porque é que a ordem
consãtucional republicana se inscreveu na tradição política moderna, que teve duo e a polis são igualmente de natureza relacionai, esta exigia, porém, a sepa-
o seu grande momento inaugural nas Declaraç6es Universais dos Direitos do ração e a autonomia entre o cidadão e o indivíduo, agora entendido
Homem e. em particular, na Declaração de 1789. E certo que, aqui e ali, alguns primordialmente como pessoa privada,0.
dos seus ide61ogos enalteceram, mitificando-a, a democracia directa, bem Poderá objectar-se que o facto de os republicanos não terem adoptado o
como as virtudes da polis grega~°7 ou de civitas romana; mas, como foi assi- sufrágio universal deu continuidade não só às restrições liberais, mas também
nalado, s6 por equívoco se pode identificá-la com os exemplos clássicos1°8, ao elitismo ateniense. Todavia, uma leitura mais atenta mostra as diferenças.
pois os seus fundamentos e respectivos modos de relacionar os indivíduos com A demarcação liberal entre cidadãos activos e cidadãos passivos obedeceu, em
a colectividade são bem diferentes. última análise, a critérios proprietistas, enquanto na Grécia as distinções entre,
A cidade grega, enquanto ordem política, exprimia a harmonia cósmica e, por um lado, os cidadãos hoplitas e machos e, por outro, os artesãos diminuí-
no seu seio, o cidadão era entendido como parcela integrada e participante na dos pela sua ligação à techne, as mulheres, as crianças e os escravos (vistos
totalidade auto-suftciente da polis, cujo governo perfeito tinha de ser ilumi- como máquinas) tinham uma legitimação de natureza substancial. Ora, no repu-
nado pela compreensão do logos unificante. Neste contexto, a vida política blicanismo, a delimitação da capacidade eleitoral não foi feita a partir de argu-
excluía não s6 os escravos e os estrangeiros, mas também todos os que, <<natu- mentos de cariz metafísico ou natural -- poucos ousavam defender a inferiori-
ralmente» (os artesãos, as mulheres) ou transitoriamente (os menores), não dade atávica da mulher--, mas ressaltava de estádios de evolução cultural que,
tinham capacidade de partilhar a palavra pública. Por isso, o Estado, tal como à boa maneira iluminista, o derrame alargado da educação poderia superar.
o cosmos, constituía uma comunidade fechada e circular, que discriminava os Daí a força das justificações de índole historicista e de «oportunidade» política
«bárbaros» e os não livres, e semente incluía na vida política a parte que, que encontrámos na discussão constitucional sobre o problema do sufrágio.
liberta das actividades materiais, negava o negotium e usufruia o otium1°9 que Vimos que as propostas de Rousseau e a defesa do mandato imperativo
disponibilizava a mente para a reflexão, isto é, para o uso da razão política. procuravam reactualizar algumas ideias (míticas) acerca da «liberdade dos
É verdade que, conquanto nem sempre de um modo explicitamente assu-
antigos», colocando-as ao serviço da correcta expressão da soberania po-
mido, o discurso republicano tamb6m reivindicou uma raiz cósmica definida
pular. No entanto, pode dizer-se que o republicanismo português, nesta
em termos que se pretendiam científicos e que eram comummente invocados
matéria, consagrou a interpretação jacobina do filósofo de Genebra e, por
como paradigmas de harmonia e de solidariedade. No entanto, sabe-se que a
isso, acabou por não aceitar as propostas que punham em causa o princípio
ci6ncia moderna uniformizou e quantificou a representação do universo, cosmos
da unidade e da indivisibilidade da soberania e a sua expressão representa-
tiva. E, se quisermos encontrar algumas sobrevivências de soluções mais pr6-
~~ Cf. José Joaquim Gomes Canotilho, ob. cit., p. 247.
ximas do ideal de democracia directa, teremos de relevar o peso do anelo
~0~ Cf. Te.6fdo Braga, Solufões Positivas da Politica Portugueza, Porto, 1912, p. 40. descentralista presente na própria Constituição de 1911 e o reconhecimento
~ot José Joaquim Gomes Canotiiho, O Círculo e a Linha. Da "Liberdade dos An-
do referendo em assuntos municipais. O que é, diga-se, muito pouco quando
tigos" à "L/herdade dos Modernos" na Teoria Republicana dos Direitos Fundamentais, compararmos o texto constitucional de 1911 com os sonhos federalistas das
~. 733-58. décadas anteriores.
s°~Cf. Umberto Cerroni, La Libertad de los Modernos, Barcelona, 1972, pp. 66 e 86
ss.; No¢oeno Bobio, Estado, Governo, Sociedade. Para Uma Teoria Geral da Política,
2., ed., S~ Pauio, 1985, p. 146 e ss.; Claude NicoleL ob. cit., p. 479 e ss.
~'0Cf. Umberto Cerroni, ob. cit., p. 86 e ss.

190
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO DE 191 i
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
a propriedade privada e respectivas limitações, e davam cobertura constitu-
~-~ É certo que. na propaganda republicana, se depara com um veemente e fre-
ti cional às leis promulgadas pelo Governo Provisório respeitantes à laicização
quente apelo à participação política e se detecta um forte investimento dou- ida sociedade (separação das Igrejas do Estado, registo civil obrigatório, neu-
trinai em ordem a que os indivíduos se assumissem como cidadãos, caracte-
:.~tralização religiosa do ensino, secularização dos cemitérios, etc.) E, se muitos
rísticas que parecem remeter para o exemplo das democracias antigas. E não «destes princípios reproduziram ideias já consignadas nos textos constitucionais
se deve esquecer que o modo como o republicanismo relacionou o indivíduo anteriores -- recorde-se que os republicanos pretendiam tirar todas as conse-
com a coisa pública se insere não tanto na visão liberal típica das experiências quências dos postulados da revolução vintista --, outras disposições cons-
inglesas e americanas, mas na tendência rousseauniana-jacobina que não con-
tituíam novidades e, por isso, a sua caracterização ajudará a precisar melhor
sente, como se revela na Declaração Universal dos Direitos do Homem de as linhas de continuidade e de ruptura que, para além da mais óbvia (a função
1793, uma cesura radical entre a esfera privada e a esfera pública, embora pres-
presidencial), separavam a República da Monarquia. Simultaneamente, isto
suponha a autonomia do indivíduo e, como toda a política moderna, exija a
permitir-nos-á delinear igualmente, com mais clareza, a fronteira que dife-
sua colocação como ponto de partida de toda a acção do Estado. Deste modo,
não admira que a Constituição de 1911, na continuidade do exemplo vintista, renciou, depois de descontadas as promessas da propaganda, os projectos repu-
tenha sido particularmente sensível à questão dos direitos fundamentais, aca- blicano e socialista.
bando, em última análise, por colocá-los, no terreno dos princípios, a sobre-
determinar a acção política.
Esta preocupação é detectável na ordem expositiva da própria Constituição. A PROPRIEDADE E A QUESTÃO SOCIAL
O projecto primitivo organizava os poderes antes de tratar a questão dos di-
reitos fundamentais. Sintomaticamente, a Câmara reagiu, acusando-o de estar Vejamos este último aspecto. As constituições modernas consagraram o
a seguir a Carta Constitucional, texto em que os direitos dos cidadãos aparecem princípio da propriedade, seguindo de perto o texto da Declaração Universal
em último lugar, isto é, mais como uma espécie de «concessão graciosa do que dos Direitos do Homem de 1789 -- a propriedade é «um direito inviolável e
como afimmção de imunidades fundamentais e irrevogáveis»m. E o problema sagrado». A nossa Constituição de 1822 reproduziu a fórmula e a de 1838,
do escaloaamento e concatenação das matérias era importante, como lembrava bem como a Carta Constitucional, garantiu igualmente o mesmo direito.
Badmsa de Magalhães, porque se tratava de caracterizar o espírito da própria Segundo o Código Civil de 1867 (artigo 2167.o), a propriedade é a faculdade
Constituição. E um texto que apontava para soluções mais democráticas não que o homem tem de aplicar à conservação da sua existência, e ao melhora-
podia reproduzir, só com ligeiras alterações, a Carta, em cujo articulado des- mento da sua condição, tudo quanto para esse fim adquiriu e de que, portanto,
filavam, como em cortejo hierárquico, o poder, o rei, os ministros, o Conselho pode dispor livremente. Esta definição vinha na linha do individualismo liberal
de Estado, a força militar, a justiça, os impostos, vindo o povo «no fim desta burguês teorizado entre nós por Vicente Ferrer e pelo visconde de Seabra, e
procissão tradicional»n2. Estas e outras objecções acabaram por ser aceites. Na acabava por consagrar o princípio do jus abutendi, à luz do qual a desmãção
redacção final, os direitos e garantias individuais foram situados imediata-
ou abuso da coisa pode ser moralmente reprovável, mas juridicamente s~ será
mente ap6s o primeiro átulo, que, como sabemos, tratava da forma de governo
injusta quando ofende os direitos que alguém nela tenha adquirido.
e do temt6rio da Nação portuguesa, e estavam antes da definição da soberania
Não é este o lugar para fazer a história dos debates acerca da ideia de pro-
e dos poderes do Estado, como a querer significar que estes deviam estar subor-
priedade no século xIx. Para nosso intento, basta sublinhar que a concepção
dinados àqueles.
Na verdade, no seu Título II, a Constituição garantia aos portugueses e de que os direitos são poderes funcionais e o princípio das limitações dos
estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à direitos individuais pelo «interesse geral» foram questões exteriores ao C6digo
liberdade, à segurança individual e à propriedade (artigo 3.°). Daqui eram infe- Civiln3, a que o pensamento republicano foi particularmente sensível. No
ridas várias especificações, que não iremos analisar, mas que, no essencial, seguimento das críticas feitas por Comte aos direitos subjectivos, e por
eumpriam o preceituado nos programas republicanos: vincavam o preceito da Proudhon à propriedade desde que desligada da sua efectiva posse, a verdade
é que não só viam a sua origem em termos de ocupação, como aceitavam a
igualdade perante a lei; salvaguardavam a liberdade de crença, de consciência
e de expressão de pensamento; reconheciam os direitos de reunião, de asso- historicidade das suas formas e defendiam que só seria legitima quando desem-
ciação, de petição, de resistência e de inviolabilidade do domicilio; pormeno- penhasse uma função socialn4. Assim, conquanto não aceitassem, em geral,
tizavam os direitos dos cidadãos em caso de acusação ou de prisão; garantiam
a liberdade de trabalho e o exercício de comércio e de indústria; caracterizavam 113 Cf. António Manuel Hespanha, «Prática Social, Ideologia e Direito nos Séculos XVII
a XIX», separata de Vértice, Coimbra, 1977, p. 32 e ss; Mario Reis Marques, O liberalismo
e a Codificação do Direito Civil em Portugal. Subsidio para o Estudo da Implantação em
"~ M~raoco e Sousa, ob. cit., p. 78. Portugal do Direito Moderno, Coimbra, 1987, p. 203, nota 531.
"~ Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 19, de 12 de Julho de 1911, p. 15. ~t4 Teófilo Braga, Historia das Ideias Republicanas em Portugal, p. 307; Manuel EmRrio
Garcia, Sciencia Politica e Direito Publico, pp. 216-218.

192 193
A REPÚBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇAO DE 1911
oRE~~BtJCXNlSMOEMeOe~YO,«L
também ao(s) socialismo(s). E, se isto não invalidou a existí~ncia no seio do
soluções de tipo colectivista ou estatista -- para Teófilo, por exemplo, a guerra movimento de uma ala mais socializante, a verdade é que esta foi perdendo
à propriedade estava a provocar tantos malefícios como os produzidos «pelas peso, embora se possa dizer ter sido património comum de todas elas o prin-
devastações dos monarcas»"~ --, concordavam em exigir-lhe uma funciona- cípio segundo o qual a solução das chamadas questões sociais s~ teria lugar
lids~le a impor-lhe limitações mediarias pelos interesses da colectividade. depois de consumada a transformação política e cultural que possibilitasse o
É certo que, em alguns dos programas políticos do movimento, se chegou a ir pleno respeito pelos direitos fundamentais, desiderato que s~ a implantação e
mais longe. O programa radical-federalista de 1886 propunha a supressão dos a consolidação da República poderia realizar. Assim, não surpreende que,
monopúlios, a nacionalização das terras, caminhos de feno, minas e seguros, mesmo um radical como Fernão Botto-Machadot2~ tenha proposto, na Assem-
e o fomento do sector cooperativo'|6- Todavia, o programa do Partido Repu- bleia Constituinte, este cauteloso articulado para caracterizar o novo regime:
blicano, aprovado em 1891, é explfcito na defesa da «capitalização dos pe- «A Nação Portuguesa livre e independente adopta como forma de Governo a
quenos possuidores», para o que o Estado deveria controlar os monopólios, República Democrática, igualitária, descentralizadora, e, quanto possível,
ajudar o cooperativismo e facilitar o créditollT. Seja como for, é um facto que, social.>>~22 Naturalmente, a sugestão não foi aceite. É que, apús a queda da
era álàma análise, a posição dos republicanos em relação à propriedade não
Monarquia, já não se tratava de criticar ou de semear esperanças capazes de
andou longe da ilação que Duguit também extraía do ideário de Comte: «Je
trazer para o Campo do republicanismo os sectores que os socialistas e os anar-
ne dis pus que la propriété individuelle disparaisse; je dis seulement qu'elle
quistas igualmente procuravam captar. A tarefa era outra e, à luz das priori-
cesse d'útre ma droit individuel pour devenir une fonction sociale»>~18
A Consãtuição de 1911 foi clara quanto à sua fidelidade a um dos prin- dades há muito definidas pelo movimento, a questão política -- indissociável,
cípios essenciais da Declaração Universal dos Direitos do Homem, ao reco- como veremos, da questão cultural -- era o problema nuclear do novo regime.
ahecer o direito de propriedade. Mas não deixa de ser significativo que tenha Por isso, como lembrava Afonso Costa aos deputados mais radicais, «propor
acrescentado esta precisão: «Salvo as limitações estabelecidas na lei» (ar- a este país de tão atrasada civilização reformas sociais não serviu senão para
t¤go 3.o, n.° 25). Dir-se-á que estava a reconhecer a legislação já existente desde aumentar a nossa desorganização e prejudicar todas as indústrias»m.
1850 sobre expropriações por utilidade públicaug. Não o negamos, embora De facto, quer ao nível da legislação governativa, quer no campo dos prin-
pen~ ser igualmente importante sublinhar alguns dos fundamentos que, cípios reconhecidos pela Constituição, a República ficou aquém de algumas
na constituinte, foram invocados para justificar essas limitações. E um dos promessas de natureza social feitas no decurso da propaganda. Recorde-se que
mais aplaudidos teve por alvo precisamente o conceito absoluto de proprie- o projecto do programa federalista apresentado por Teixeira Bastos defendia
dade ou dom/n/um, base em que assentava o liberalismo mais radical. E que, não só a nacionalização de alguns sectores essenciais da economia, como a
como iembrava António Macieira, «não mais o indivíduo pode deitar a sua criação de um sistema de segurança social. O programa de 1891 não ia tão
f(mmaa ao Tejo s6 porque é sua; não mais o indivíduo pode incendiar o seu longe, mas, em comum com os anteriores, dava relevo a alguns direitos so-
prédio porque é seu. O jus utendi et abutendijá não tem razão de ser em face ciais -- como é o caso do direito ao ensino obrigatório e gratuito -- e era par-
do ~ conceito de propriedade»t20. Logicamente, não se tratava da per- ticularmente sensfvel ao problema da habitação.
filhação de qualquer tese de índole colectivista, mas tão-só da invocação da Sabe-se que o Governo Provisório procurou satisfazer algumas destas rei-
ideia de que, por imperativos de interesse geral e de prossecução da felicidade vindicações, devendo ser destacadas as leis sobre o arrendamento, o reconhe-
comum, o Estado devia exercer sobre a sociedade civil acções positivas cimento do direito à greve (6 de Dezembro de 1910), a reorganização dos
de cariz rmpletivo. serviços de assistência pública (25 de Maio de 1911), a tentativa de regula-
Já várias vezes o escrevemos: o republicanismo foi-se afirmando, desde mentação dos horários de trabalho. No entanto, o novo regime tinha emergido
os inieios da década de 70, como uma alternativa não só à Monarquia, mas numa conjuntura de crise social, que se reflectia na eclosão de um surto gre-
vistaTM que, apesar de irregular, vai de 1903 a 1911-1912; e, por outro lado, a
aliança objectiva entre a propaganda republicana e boa parte da militância
t'STettfilo Braga, ob. cit., p. 311; Carrilho Videira e Teixeira Bastos, Cathecismo Repu- anarquista, tendo em vista a liquidação do adversário comum, tinha feito
blicano paro Uso do Povo, Lisbua, 1880, pp. 39-40.
"«Cf. Teixeára Bastos, Projecto de Um Programa Radical para o Partido Republicano
Portugu~z. p. 28. ~2~ As preocupações sociais de Femão Botto-Machado traduziram-se em várias inicia-
'lTin Trindade Coelho. ob. cit., pp. 640, 642. tivas legislativas, sintomaticamente todas votadas ao fracasso. Cf. Femão Botto-Machado,
.a i.¿tm Duguit. Le Droit Social, Le Droit lndividuel et la Transformation de l'État, A Jornada de Oito Horas de Trabalho. Projecto de Lei Apresentado à Assembleia Cons-
p. 21. Eatre nós, veja-se Mamoco e Sousa, ob. cit., pp. 162-64.
'»Até à Rq~blica. as limitações à propriedade eram as seguintes: expropriações por tituinte, Lisboa, 1911.
~22 Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.° 28, de 24 de Julho de 1914, p. 18.
utilidade pública, regime de minas, regime das quedas de água, regime florestal, regime das
'231bidem, Sessão n.° 36, de 2 de Agosto de 1911, p. 9.
~am~ de r~vid~ militar. l~ Cf. Carlos da Fonseca, História do Movimento Operário das Ideias Socialistas em
~~ Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.» 19, de 31 de Julho de 1911, p. 22.
Portugal. IV. Greves e Agitações Operárias. 1.« Parte, pp. 59-61.
194 195
O REI~)BLICANISMO EM PORTUGAL A REPOBLICA SEGUNDO A CONSTITUIÇAO DE 1911

crescer algum&~ expectativas sociais que nem se enquadravam no modelo de E foi com esta lógica que, com a agudização dos conflitos em 1911, com a
sociedade que dominantemente o republicanismo propunha, nem podiam ser eclosão do primeiro grande movimento grevista nos campos (Janeiro de 1912.
material e imediatamente satisfeitas':~. Assim, não surpreende que muitos dos em Évora) e o seu arrastamento para uma tentativa de greve geral, o governo
aliados dos republicanos do último per/odo da luta contra a Monarquia, decretou o estado de sítio, encerrou à força a Casa Sindicai, sede do movi-
oriundos dos meios anarquistas e socialistas, tenham passado imediatamente mento operário, e prendeu centenas de pessoas|3o, cavando o divórcio entre o
para a oposição quando, a seus olhos, se tomou evidente que a República iria movimento operário organizado e a República.
ser tão burguesa~:* como o tinha sido o constitucionalismo monárquico. E tudo Quererá isto significar que, ao nível dos princípios, a ordem constitucional
isto ajuda a perceber porque é que a questão do reconhecimento constitucional republicana acabou por ser, afinal, insensível ì vertente dos direitos sociais que
do direito à greve foi uma das mais polémicas nos debates parlamentares. os programas do movimento, em maior ou menor grau, reivindicavam, pondo
A maioria acabou por inclinar-se para as teses de Afonso Costa. Na sua o «social-republicanismo» na gaveta? Recorde-se que, apesar da recusa da
opinião, a greve, já aprovada por lei ordinária, nâo era matéria constitucional, inclusão do direito à greve na Constituição, ele estava reconhecido por lei ordi-
dado que não dizia respeito aos interesses de toda a sociedade, mas tão- nária e, se lermos com atenção outras disposições constitucionais, detectar-se-á
-soment~ a um sector social específico. Além do mais, estaria reconhecida o reconhecimento de alguns direitos de inequívoca dimensão social cujo cum-
através do princípio constitucional que, prevendo o direito ao trabalho livre, primento exigia uma acção interventora por parte do Estado. São os casos não
aceitava, implicitamente, o direito à suspensão do trabalho~27. Dir-se-á que es- só do direito de associação h já estudado atrás --, como os referentes a ma-
tamos perante uma prevenção de índole anficorporativista, que outros membros térias de segurança social e de educação, isto é, direitos que requeriam uma
da Câmara contestavam abertamente. De facto, na sessão de 1 de Agosto, um atitude positiva do poder político em nome da criação das condições mínimas
grupo de deputados apresentou uma emenda para que o direito à greve ficasse necessárias ao consciente exercício dos direitos fundamentais e à plena
explicitamente consignado no texto constitucional, invocando razões de prin-
assunção da autonomia da sociedade civil em relação ao Estado. Por outras
cípios e a convicção de que, com isso, se evitaria a já manifesta desafectação palavras: é indiscutível que a Constituição de 1911 se insere na longa tradição
dos trabalhadores urbanos mais combativos ao novo regime. Contudo, a pro-
demoliberal, mas algumas das suas características tomar-se-ão incompreen-
posta acabou por não ser aceite.
síveis se não se levar em conta que ela visava consagrar um Estado que, na
Curiosamente, para o único deputado socialista à Constituinte -- Manuel
tradição rousseauniana-jacobina, não devia ser axiologicamente neutro. Exigia-
José da Silva --, a questão do reconhecimento constitucional era de somenos,
-se-lhe uma missão regeneradora, cada vez menos escamoteável devido ao
já que a sua inexistência nunca tinha impedido o recurso à greveI2s, como se
podia mostrar através da histúria passada e recente do movimento operário. Que- forte impacte das polémicas à volta da questão social e da questão religiosa e
ria Manuel José da Silva dizer que o campo das lutas sociais tinha a sua autono- da tomada de consciência do peso dos condicionantes sociais e culturais na
mia ~a, e não seria o reconhecimento da legalidade constitucional das greves determinação das opções políticas e na realização da felicidade terrena.
que as evitaria, ou que obstaria o Estado a recorrer a meios violentos para as Foi a partir desta função, e do princípio da solidariedade social, que o
tetmmir logo que a ordem social estabelecida estivesse em perigo. E a imprensa Governo Provisório tomou algumas medidas relevantes no campo da assis-
opetíria não deixava de assinalar que a República estava a ser mais repressiva tência. Pelo decreto de 25 de Maio de 1911, fundou o Fundo Nacional de
para os grevistas do que a Monarquia, acusação que os republicanos rebatiam Assistência destinado, sobretudo em Lisboa, à protecção dos pobres e à ex-
com mguamatos deste teor: «Na vigência da República ainda ninguém foi inco- tinção da esmola, e por um outro, de 27 de Maio, criou os serviços de tutoria
modado por fazer greve, mas tão-somente por converter em instrumento de de- da infância e a Federação Nacional dos Amigos e Defensores das Crianças.
sordem e de peraubação um direito que a lei reconhece e cerca de garantias.>>|29 Poderá afirmar-se que estas medidas, apesar de importantes, pecavam por
serem escassas, e as crises políticas após 1911, agudizadas com a entrada de
Portugal na guerra, não irão permitir ir muito mais longe (em 1913, Afonso
m Cf. A. H. de Oliveira Marques, A Primeira República. Alguns Aspectos Estruturais, Costa aprovou legislação sobre acidentes de trabalho; uma lei de 1915 pro-
2.° ed., Lisboa, 1975, pp. 47-49. curou regularizar o horário de trabalho; em Maio de 1919, decretou-se a
~~ Um bom testemunho desta ruptura pode ler-se em José do Vale, A Revolução Bur- semana de 48 horas para os trabalhadores industriais e lojistas, e de 42 horas
guisa e a Revolução Social, cit.; vejam-se tambúm Manuel Joaquim de Sousa, O Sindica- para os empregados dos escritórios e dos bancos; estabeleceu-se igualmente a
lismo em Portugal, Lisboa, 1931, p. 53 e ss; Edgar Rodrigues, Os Anarquistas e os Sin-
obrigatoriedade do seguro social e criou-se um Instituto de Seguros Sociais)TM"
dicatos. Ponugal, 1911-1922, Lisboa, 1982, pp. 12-20; David de Carvalho, Os Sindicatos
Operários e a República Burguesa, Lisboa, 1977, p. 59 e ss.
~:~ Cf. Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 34, de 31 de Julho de 1911, p. 25,
130 Cf. Frutuoso Firmino, Da Casa Sindicai ao Forte de Sacavent Notas de Um Sindi-
e Sessão n.o 36, de 2 de Agosto de 1911, p. 7. calista Preso no Ultimo Movimento Operario, Lisboa, 1912. C~sar de Oliveira, O Opera-
t~lbid~m, Sessão n.° 35, de 1 de Agosto de 1911, pp. 10 e 27. riado e a República Democrática (1910-1914), 2.' ed., Lisboa, 1974; David Ferreira,
~~ lbidem, Sessão n." 36, de 2 de Agosto de 1911, p. 11. «Greves», Dicionário de História de Portugal, vol. 2, Lisboa, 1965, pp. 379-386.
13~ A. H. de Oliveira Marques, ob. cit., pp. 49-51.
196 197
AREPÚBLICASEGUNDOACONSTITUIÇkODE1911
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
desta vertente revelará ainda com mais clareza a sua matriz iluminista, exi-
Todavia, há em tudo isto um claro prop6sito de começar a cumprir a compo- gindo que o Estado -- qual «déspota esclarecido» que, agora, invocava uma
nente solidarista do republicanismo, ideal que a pr6pria Constituição de 1911 legitimação democrática -- interviesse em ordem a que a racionalidade, que
confirmou. Com efeito, o n.° 29 do artigo concernente aos direitos fundamen- se acreditava estar a presidir à evolução do universo e da sociedade, coman-
tais (art.° 3) esãpulava que «é reconhecido o direito à assistência pública». dasse as escolhas dos indivíduos e norteasse a sua acção política. Isto ajuda a
É certo que algo de semelhante pode ser encontrado na Carta Constitucional compreender melhor porque é que, afinal de contas, a funcionalidade do Estado
e na Constituição de 1838, num eco evidente das preocupações com a prosse- republicano enfatizou um intervencionismo que privilegiou a criação de infra-
cução da «felicidade comum» que datam do período da Convenção. Assim -estruturas culturais visando (re)produzir e gerir um novo senso comum,~ ou
sendo, compreende-se que a República se insira nesta tradição, mas tenha pro- melhor, um novo poder espiritual que servisse de cimento ideológico a um
curado ir mais longe, já que, se articulannos a disposição constitucional com novo regime que, em última análise, pretendia refundar a Nação.
as medidas legislaãvas atrás assinaladas, percebe-se que o reconhecimento do
direito à assistência pública -- que o então jovem deputado Bissaia Barreto
desejava de âmbito ainda mais alargado132 -- pretendia traduzir constitucio-
nalmente os princípios éticos do altruísmo e da solidariedade133. E, apesar de
estes consãtuírem postulados que remetem para a esfera privada, a Constituição
vinha reafinnar que o Estado também não devia ser-lhes indiferente.
Pode dizer-se que, mesmo no campo dos princípios, tudo isto era insufi-
ciente para realizar plenamente o ideal solidarista inferido da ética republicana.
Não o negamos, embora se deva recordar que as reivindicações que apontavam
para uma maior intervenção do Estado tenham sido defendidas por correntes
crescentemente minoritárias (exemplo: o radicalismo federalista). Por outro
lado, o solidarismo, enquanto projecto político, não é confundível com qual-
quer proposta estaãzadora no campo económico, pois visava integrar, no
âmbito dos direitos fundamentais, a esfera dos direitos sociais e realizar, em
lil~Mde, uma sociedade mais solidária mediante o crescimento do associa-
tivismo e do contramalismo. Em consequência, o Estado devia semente exercer
algumas acções de índole supletiva, sobretudo em matérias que apareciam
como condições mínimas, ou essenciais, para a concretização individual da-
queles direitos e para a reafimmção da autonomia -- não escrevemos indepen-
d~acia -- da sociedade civil em relação ao poder político.
Deste modo, explica-se que, a par da salvaguarda do direito de associação,
do reconhecimento do direito ao trabalho livre, do direito à assistência pública,
a função positiva do Estado tenha sido mais interventora no domínio da edu-
cação e do ensino. O que, perante a estrutura cultural da sociedade portuguesa
da élX~ significava o inevitável confronto entre um Estado que reivindicava
a defesa dos direitos fundamentais, incluindo a liberdade religiosa, e a Igreja.
Naturalmente, no horizonte secularizado em que, para os republicanos, se
simava a origem e a finalidade do poder, só um Estado religiosamente neutro
podem representar todos os cidadãos. E de teclas as propostas políticas enrai-
zadas na modemidade, foi o republicanismo quem mais agudamente defendeu
ser a questão política" em última instância, uma questão cultural. E a análise

m Com efeito, para Bissaia Barrem, «não temos o serviço da asssistência organizado
como deve ser, mas entendo que deve ficar para o Estado encontrar aqui um estímulo, a
fim de empteg~ toda a sua energia para não s6 criar a assistência pública às crianças, mas
de um nmmira geral» (Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 35, de I de Agosto
de 1911, p. 29).
'l»Cf. Mamoco e Sousa, ob. cit., p. 180. l~CL Pi¢rre Rosanvallon, ob. cit., p. 115.
CAPÍTULO 4

O E S TA D O L A I C O

O discurso religioso é, sem dúvida, a modalidade suprema de funda-


mentação e reprodução de uma dada mundividência. Respondendo às per-
guntas acerca da origem e da finalidade do mundo e da vida, exprimindo-se
em linguagens diversificadas, que vão de formulações intelectualizadas
(teológicas) a expressões simbólicas e rituais, e assumindo-se como poder
(pelo menos espiritual), as religiões veiculam de um modo exemplar as
necessidades ideológicas da humanidade. Ora, num país como Portugal,
em que o catolicismo dominava a mentalidade popular, as novas cos-
movisões teriam de se confrontar com os valores religiosos estabelecidos.
Com efeito, sabe-se que já as filosofias secularizadas anteriores ao sé-
culo xIx tinham entrado em choque com o poder espiritual imperante, ape-
sar de procurarem recuperar o essencial da mensagem cristã. E como o repu-
blicanismo dos seus principais ideólogos pretendia consensualizar um
projecto cultural assente, como vimos, em bases agnósticas e, em alguns
casos, materialistas, é compreensível que a intensidade do debate tenha
acompanhado o ritmo do crescimento do movimento republicano e respec-
tivaradicalização.
E certo que os republicanos da geração de 48 m e, em Portugal, José Félix
Henriques Nogueira e os seus amigos -- não desejavam romper com o cristia-
nismo e nem sequer com o catolicismo. O clima romântico e a inexistência,
ainda, de posições dogmáticas da Igreja contra as ideias avançadas explicam
a esperança que os sectores progressistas tinham em conciliar a democracia
com a religião. Mas, com o Syllabus (1864) e com as decisões do Concflio do
Vaticano I (1870), a situação alterou-se. A Igreja oficial lançou-se nos ataques
contra o racionalismo, o liberalismo, a democracia, o socialismo, a ciência, a
modernidade, e passou a alinhar de um modo inequívoco com as forças mais
conservadoras, pelo que aparece como coerente que a contestação política e a
luta pelo progresso visassem, cada vez mais, o suporte ideológico da reacção:
o clericalismo. Neste combate, denunciavam-se os compromissos que existiam
entre o poder temporal e o poder espiritual que hegemonizava a opinião
pública. Daí que as reflexões filosóficas e históricas do republicanismo
s~ ganhem verdadeiramente sentido se se perceber que, a seus olhos, o
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL O ESTADO LAICO

andclericalismoI constituía o preâmbulo de todo o programa futuro, ou, talvez pública de acordo com os valores da modemidade. Por outras palavras: sus-
melhor, o motor da históriaL Por outras palavras: corno a democracia radicava / tentava, desde os primórdios da propaganda, que o enraizamento da demo-
\ cracia requeria uma mentalidade mais crítica e racionalista, estádio que só a
numa opinião pública inexistente, ou então enformada, em última análise, pelo
cultura dominante, a criação de uma nova espiritualidade3, capaz de determi- \ liberdade de pensamento e de expressão, conjugada com uma acção educativa
nar correctamente a vontade popular e de exercer uma acção vigilante sobre baseada na ciência e na moral social, poderia alcançar. E, dado que o homem
religioso era visto como um ente obscurecido e manipulável pelo padre, só o
os negócios polfticos, era uma tarefa polfdca prioritária.
Na verdade, apesar das medidas tomadas por Pombal e pelos liberais anti- homem laico seria capaz de construir um futuro que consumasse definitiva-
ultramontanos (Joaquim António de Aguiar e duque de Loulé), o catolicismo mente o prometido reino da Liberdade, Igualdade e Fraternidade ou Solida-
continuou a gozar de um estatuto que, na 8ptica dos republicanos, era incom- riedade. E não podia deixar de ser assim, já que a edificação e a consolidação
patível com os valores em que assentava a sociedade moderna e com o prin- de um poder político, que pretendia ser independente de todas as opiniões
cípio da soberania nacional. E, para escândalo dos mais radicais, essa in- e crenças, e que desejava respeitá-las a todas, não seriam alcançadas sem a
fluência penetrava no cerne do pr6prio texto essencial da Nação, já que, se, aplicação de um programa laico. Portanto, o anticlericalismo republicano, ao
por um lado, a Carta Constitucional reconhecia os direitos fundamentais, por proclamar solenemente a defesa da liberdade de consciência e ao reivindicar
outro, continuava a definir a religião católica como a religião do reino (artigo a sua mais segura garantia, tinha de exigir a laicidade do Estado e dos serviços
6.o), o que feria o princípio da liberdade de consciência e de crença. Esta si- ~.. públicos4.
mação e a crescente conivência político-ideológica da IgreJa com a Monarquia w- De facto, tal como tinha acontecido com as correntes da esquerda europeia
e com as classes possidentes bloqueavam, na óptica das forças de esquerda, a )dos países católicos5, também em Portugal a ideia de democratização da socie-
autonomização da sociedade civil e a plena afirmação do princípio da unidade Idade passou a postular, como condição cultural nuclear, a secularização na sua
de soberania, característica nuclear do novo Estado-Nação. Impunha-se, assim, ~.expressão mais radical6: a laicidade7. Isto é, para a esmagadora maioria dos
a expulsão de Deus da Constituição, pois seria contraditório não só a sua invo- republicanos, era inaceitável toda e qualquer expressão de clericalismo, e o
cação como fonte de poder -- o rei constitucional era ainda rei pela graça de problema de Deus tinha de ser equacionado como uma questão privadas. E, em
Deus n, mas também a imposição do catolicismo como religião de Estado, o termos culturais, isto passava pela produção de uma razão cultivada e liberta
que contraditava as liberdades fundamentais. Simultaneamente, a paulatina de coacções consciente ou inconscientemente impostas pela tradição e pelas
peneWação das ordens religiosas desde os finais da década de 50, conjugada crenças. O espírito laicizado surgia, assim, como uma consequência da evolu-
com a influência da religião nos terrenos da assistência e, sobretudo, do ensino, ção progressiva do espírito humano, que só se consumaria plenamente através
impediam o desenvolvimento de uma educação moderna fiei aos valores nacio-
do derramamento das luzes, da educação, do livre-exame e do exercício das
nais, já que, por doutrina e por razões institucionais, as ordens religiosas esta- liberdades fundamentais9. E, em termos teóricos e ideais, pode aftrmar-se que
varo subtraídas a qualquer autoridade nacional. Deste modo, o anticlericalismo
republicano deu continuidade à vertente secularizadora, que já vinha das tra-
4 Cf. Jean-Pierre Machelon, La République contre les Libertés? Les Restrictions aux
dições regalistas e do anticongregacionismo, mas procurou levar às últimas
consequências a separação da religião da política, vincando com mais vigor os Libertés Politiques de 1876 à 1914, Paris, 1976, p. 327.
5 Para França, vejam-se: Ferdinand Buisson, La Foi LaYque. Extraits de Discours et
princípios da independência nacional em relação a Roma, as responsabilidades
d'Écrits (1878-1911), Paris, 1912; Georges Weill, Histoire de l'Idée Lagque en France au
do Estado em matéria de formação moral e cívica dos indivíduos e o cariz
XIX ~"~ siècle, Paris, 1929; Louis Cap6ran, Histoire Contemporaine de la Lagcité Française,
essencialmente privado das opções e práticas religiosas. 3 vols., Paris, 1957-1961. Para Itália, leia-se, com proveito, Guido Verucci, L'Italia Laica
Em certo sentido, a estratégia republicana parda do pressuposto de que a Prima e Doppo l'Unità: 1848-1876. Anticlericalismo, Libero Pensiero e Ateismo neUe
liquidação do Antigo Regime não se tinha esgotado com a derrota do migue- Societá Italiana, Roma-Bati 1981. Para a Bélgica, leia-se John Barthier, La|'cité et Franc-
lismo, a venda dos bens nacionais e a extinção legal das ordens religiosas, mas -Maçonnerie, Bruxelas, 1981; Achile Erba, L'Ésprit La~'que en Belgique sous le Governe-
exigia ainda uma transformação mais radical: a formação de uma opinião ment Libérale Doctrinaire (1857-1870) d'après les Brochures Politiques, Lovaina, 1967.
Para Espanha, vejam-se Pedro F. Alvarez Lázaro, Maçoneria y Librepensamiento en la
Espaf~a de la Restauración (Aproximación Historica ), Madrid, 1985; B. Delgado, Francisco
Sobre o anticlericalismo político oitoeentista e respectiva evolução, veja-se Fernando Ferrer y la Escuela Moderna, Barcelona, 1979; José Antonio Ferrer Benimeli et ai., Ma-
Catroga, A ..... çoneria I Educació a Espanya, Barcelona, 1986. Para uma visão gerai, leia-se Owen
pp. 489-612Mj/aãncm Latca e Descristianização da Morte em P o rtu g al (1865-1911), vol. 1, Chadwick, The Secularization of the European Mind in the Nineteenth Century, 2.° ed.,
2Cf. Claude Nicolet, ob. cit., p. 273. Londres-Nova Iorque-Melburne, 1979.
3 Na linha de Comte, a necessidade de se socializar um novo poder espiritual inspirado 6 Para as relações e continuidade entre os fenómenos de secularização e a laicização,
na ciência e na moral sociais foi uma das constantes dos ideólogos republicanos e, em veja-se Fenando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 14-48.
7Sobre as várias acepções e incidências deste conceito, leia-se La La~'cití, Paris, 1960.
particular, dos positivistas, como a leitura de qualquer texto político de Teófilo pode 8Cf. Claude Nicolet, ob. cit., p. 223.
demonstrar. 9Idem, ibidem, pp. 443 e 500.
203
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
o ESTADO LAICO
- sociais. De certo modo, o movimento estava convicto de que a socied
este projecto era inseparável de uma tradução institucional que tinha em vista
a sua interiorização na consciência colectiva, e de um apelo a uma vivência ~ g u e s a s ó a t i n g i r i a u m n o v o c o n s e n s o - u a n d . . . . . . . . ade portu
que se julgava ser mais livre porque estaria liberta de qualquer tutela exterior | político estivessem.
em sin ' oro
toma "~ tempo
c um ,, ,, ,trapo economwo
cultural enformadoe por o tempo
uma
/ escala axiológtca de pendor terrenamente optimista e crente na perfectibilida
à essência racional do homem. Em suma: o laicismo tinha «dans la nature
e no progresso humanos. E o advento dessa sociedade s~ s,»~ ....
humaine assez de confiance pour ne pas faire dépendre la bonne harmonie so- «.._,e _. _ ide
ciale de l'adhésion à un même credo. II lui suffit d'avoir fait luire aux yeux prewamente, o poder político deixasse de impor uma religião oficial respei-
de tous un idéal moral qui n'est ni dépendant ni exclusif d'aucune formule tasse o princípio da liberdade de consciência. O que, em termos institucionais,
métaphysique»JO. Consequentemente, só uma prática educativa nele inspirada seria irrealizável sem o reconhecimento da separação das Igrejas do Estado.
seria «la vraie iibératrice des esprits»~~.
Esta foi igualmente a posição dominante no republicanismo português;
o que mostra que este não pode ser reduzido a uma proposta estritamente A SEPARAÇÃO DAS IGREJAS DO ESTADO
política, mas tem de ser entendido como um ideário global de matriz essen-
cialmente cultural. E é neste horizonte que, na nossa opinião, temos de com- Já o sugerimos atrás: o posicionamento dos republicanos nesta matéria apa-
preender as suas continuidades e as suas diferenças em relação ao an ticongre- rece como um prolongamento de propostas anteriores -- vindas, em última
gacionismo e ao anticlericalismo dos primórdios do regime liberal. E que, se, instância, da política religiosa da Revolução Francesa m, animado, porém,
por um lado. ele se considerava legítimo herdeiro da tradição regalista da pela intenção de as levar às últimas consequências e de ultrapassar o que foi
Monarquia portuguesa, do antijesuitismo de Pombal, da acção dos liberais con- defendido pelo liberalismo monárquico. Com efeito, sobretudo a partir dos
tra as ordens religiosas e do anticlericalismo liberal simbolizado na atitude de meados do século xIx, um núcleo de católicos começou, na linha de
Herculano, por outro, a sua posição ia mais longe tanto no campo dos funda- Lamennais, a pugnar pela harmonização da doutrina e da governação do cato-
~--mentos filosóficos invocados, como no terreno político, já que, pela primeira licismo com o liberalismo. Nesta campanha, destacaram-se figuras como
._..yez em Portugal. se irá reivindicar a neutralização religiosa do Estado~2. Montalembert, Dupanloup, Dtllinger -- correspondente epistolar de Her-
A permanência do anticlericalismo no decurso do século XIX e a virulência culano. Os congressos realizados em Malines foram o palco em que divul-
da questão religiosa nas primeiras décadas indicam que estamos perante um garam as suas teses, acerrimamente combatidas pelos ultramontanos~3. No
problema que uitrapassava moãvações meramente conjunturais, pois entron- fundo, o seu programa pode ser sintetizado nesta fórmula m Igreja livre no
cava em razões que tinham a ver com o choque cultural provocado pelo pro-
Estado livre --, princípio que também teve repercussão em Portugal. Manuel
cesso de modernização da sociedade portuguesa. Com efeito, se, no campo
Nunes Giraldes invoca-o explicitamente na sua polémica obra O Papa-Rei e
político, se tinha conseguido implantar um sistema representativo mais ou
o Concílio (1870)~4; e pode mesmo afirmar-se que, apesar da derrota que os
menos estável (principalmente ap6s 1851), no terreno económico e jurídico a
católicos liberais sofreram com as decisÕes do concflio, ainda o encontramos
venda dos bens nacionais e a nova ordenação jurídica possibilitavam o desen-
volvimento capitalista, embora o domínio político de um bloco conservador a pautar o pensamento de alguns sacerdotes liberais, casos dos padres Pais
e a inserção de Portugal na divisão internacional da economia imposta pelos Pinto e António Augusto, nos finais do século xlx e princípios do século xx,
interesses da Inglaterra tivessem bloqueado o crescimento industrial. No e de Santos Farinha, na conjuntura da queda da Monarquia.
entanto, todas estas modificações não foram acompanhadas por uma profunda Pensamos que a análise que Manuel Emídio Garcia fez do livro de Nunes
revolução cultural. Queremos com isto dizer que, descontando alguns grupos Giraldes demarca com clareza a linha de separação entre o catolicismo liberal e
sociais de origem urbana, o constitucionalismo se foi impondo a uma socie- a visão republicana do problema~5. O princípio Igreja livre no Estado livre seria
dade sem uma forte opinião pública, ou melhor, teve de defrontar uma menta- desadequado por não respeitar inteiramente a liberdade de outras confissões
lidade popular que se pautava dominantemente por valores típicos de Antigo
l-Regime. Daí que o republicanismo se tenha assumido como um projecto de
I hegemonização de uma nova mundividência, que julgava adequada aos prin- ,3 Sobre este movimento, vejam-se: Mareei Prélot et ai., Le Liberalisme Cathotique,
i eípios essenciais da democracia, e que simultaneamente iria funcionar como Paris, 1969; Maurice Vassard, Histoire de la Démocratie Catholique --1~ France, Bel-
gique, Italie, Paris, 1956; Georges Weil, Histoire du Catholicisme Libéral en France
-O verdadeiro motor de transformação das próprias estruturas económicas e
(1828-1908), Paris-Genebra, 1979; Jean-Marie Mayer, Des Parties Catholiques à la Démo-
cratie Chrétienne, Paris, 1980; António de Figueiredo, Herculano Ddilinger. Contribuição
J0 Ferdinand Buisson, ob. cit., p. XlV. para o Estudo das Relações Literárias Luso-Alemãs, Coimbra, 1938.
l~ ldent ibidem. Veja-se igualmente, do mesmo autor, Libre Pensée et Protestantisme ,4 Cf. Manuel Nunes Giraldes, O Papa-Rei e o Concaio, Coimbra, 1870. Acerca da polé-
Lib#ra/, Paris, 1903, p. 43 ss. mica provocada por este livro e sobre a sua importãncia no debate da questão religiosa,
~'~ Para uma análise mais pormenorizada desta evolução, veja-se Fenando Catroga, ob. leia-se Fernando Catroga, ob. cit., rol. 1, pp. 521-30.
15 Cf. Manuel Emfdio Garcia, «O Papa-Rei e o Concilio», O Trabalho, ! armo, n.* 10,
cit., rol. 1, pp. 489-549.
9-V-1870, pp. 74-79, e n.° 11, 20-V1-1870, p. 85.

205
O RE~rBLICANISMO EM PORTI.IGAL
O ESTADO LAICO

e por não conotar devidamente a posição do Estado no campo religioso. Dai que, proibia o seu exercfcio fora dos lugares a isso destinados, incluindo os funerais
em alternativa. Emfdio Garcia propusesse uma fórmula de implicações laicas ou honras fúnebres com cerimónias cultuais, procissões e outras manifestaq0es
mais evidentes: Igrejas livres no Estado indiferente. E a sua posição não era iso- exteriores de culto onde e enquanto constitufssem um costume inveterado da
iada. pois encontramos a mesma reivindicação inscrita em todos os programas generalidade dos cidadãos da respectiva circunscrição; interditava ainda a
do movimento republicano~~ e nos objectivos que o livre-pensamento e as suas inserção de qualquer sinal ou emblema religioso nos monumentos públicos,
organizações irão perseguir desde os finais da década de 70. E, apesar de outras nas fachadas dos edifícios particulares, ou em qualquer lugar público, excep-
correntes também reivindicarem a necessidade de se laicizar a sociedade (socia- tuando os edifícios habitualmente destinados ao culto de qualquer religião e
listas, anarquistas, livres-pensadores, alguns monárquicos anticlericais)~7, é os monumentos funerários ou sepulturas dentro do cemitério.
indiscuúvel que. nos princípios do século xx, foram os republicanos que melhor Como se verifica, estamos perante preceitos que apontavam para a cen-
souberam propagandear as críticas ao clero e à Igreja, articulando-as com ata- tração na esfera privada das práticas religiosas e para a destruição do estatuto
ques à exploração social e, sobretudo, à opressão política e ao obscurantismo privilegiado que o catolicismo, como religião de Estado, até aí tinha gozado
in~l~mal. na sociedade portuguesa. Consequentemente, esta lei pode ser considerada
A progressão das ordens religiosas -- a que a lei de 18 de Abril de 1901, como o vértice de um conjunto de outras promulgadas com o mesmo fito
promulgada por Hintze Ribeiro, deu uma nova cobertura legal --, a exploração laicizador e donde se devem destacar as seguintes: a que confirmou a legisla-
de alguns acidentes controversos, mas passíveis de despertar a ira anticlerical ção anticongregacionista anterior, revogou o decreto de 18 de Abril de 1901 e
casos Sara de Matos, Calmon, bispo de Beja --, tudo serviu aos livres-pen- voltou a expulsar as ordens religiosas (18 de Fevereiro de 1911); a que reco-
sadores para denunciarem o não cumprimento da legislação anticongrega- nheceu o divórcio (25 de Dezembro de 1910); a que introduziu o registo civil

~
cionista anterior e os atropelos à liberdade religiosa. A manifestação de Agosto obrigatório (18 de Fevereiro de 1911); a que impôs a aconfessionalidade
de 1909, era Lisboa, que envolveu dezenas de milhares de pessoas~8, consti- do ensino (29 de Março de 1911); a que extinguiu a Faculdade de Teologia
tuiu o momento mais alto da campanha anticlerical antes da queda da (14 de Novembro de 1910); e a que aboliu os juramentos religiosos (19 de
Monarquia. Por tudo isto, não é de espantar que a questão religiosa tenha sido
Outubro de 1910).
uma das primeiras prioridades da República.
Naturalmente, os constituintes tiveram este corpo de leis como pano de
De facto, o Governo Provisório da República promulgou, imediatamente
"apús o 5 de Outubro, um conjunto de decretos-leis que, tendo como ponto de fundo, e pode sustentar-se que a Constituição se limitou a dar-lhe uma nova
refetúncia jurídica o que as Repúblicas do Brasil e de França haviam decidido legitimidade. Assim, o n.° 5 do seu artigo 3.° reconhecia a separação, infe-
sobre essa matéria, visavam dar cumprimento às reivindicações laicistas~9 da rindo-a do princípio da liberdade de consciência: «O Estado reconhece a igual-
fase da ~anda. O decreto de 20 de Abril de 1911 -- lei da separação das dade polftica e civil de todos os cultos e garante o seu exercício nos limites
Igrejas do Estado -- dispunha que a religião católica, apostólica, romana dei- compatíveis com a ordem política, as leis e os bons costumes, desde que não
~va de ser religião de Estado, e que todas as Igrejas ou confissões religiosas ofendam os princípios do direito público português.» Com esta disposição, a
eram autorizadas, como legítimas agremiações particulares, desde que não Constituição de 1911 criava doutrina nova entre nós, pois até ai os textos cons-
ofendessem a moral pública, nem os princípios do direito público português. titucionais tinham considerado a religião católica, apostólica, romana como
Ao mesmo tempo, confirmava a tradição do beneplácito ao interditar a publi- religião de Estado (artigo 25.° da Constituição de 1822; artigo 6.° da Carta
cação de bulas, pastorais e outras determinações da Cúria, dos prelados ou Constitucional; artigo 3.° da Constituição de 1838), preceito que, para os
outras autoridades eclesiásticas, e remetia o culto para a esfera da privacidade; livres-pensadores e para os republicanos, entrava em contradição com o prin-
cfpio da liberdade de consciência que eles próprios consignaram. Perante o
exposto, temos de concluir que a República introduziu uma ruptura no modo
*'De facto, o ptogran~ federalista de 1873 reivindicava a separação das Igrejas do Es- tradicional como, entre nós, a religião e a política se relacionavam, indo muito
e a ~ularização do casamento. O programa democrático e as propostas para a sua
revisio, feitas em 1878, acentuaram igualmente estes objectivos. O mesmo aconteceu com mais longe do que os liberais oitocentistas. Enquanto crença, pretendia-se
os restantes, sendo de destacar que o último programa oficial do Partido Republicano (apro- confinar o catolicismo ao íntimo das consciências e, como Igreja, aceitava-se
v~lo em Janeiro de 1891 ) lava expressão total ao projecto laicizador que o republicanismo a linha laicizadora já vitoriosa em outros países (França) segundo a qual o
catreava: ~ das Igrejas do Estado; introdução do registo civil obrigatório; ensino
lmmírio obrigatúdo, gratuito e laico; secularização dos cemitérios; abolição dos juramentos Estado deveria respeitá-la «como quaisquer outras associações» e entender
refigiosos nos actos civis e políticos. «o exercício do culto como qualquer acto da vontade livre»~.
"Sobre os grupos de livre-pensamento e a sua articulação com outras associações A esta luz, são lógicos os n.°' 6 e 7 do artigo 3.° da Constituição ao pre-
-- maçtmma, movimentos socialista e republicano ~, veja-se Fernando Catroga, ob. cit., ceituarem que «ninguém pode ser perseguido por motivo de religião, nem per-
rol. i, pp. 281-488. guntado por autoridade alguma acerca da que professa,+, e ao impedirem que
J* Idem, ibidem, rol. 1, pp. 537-43.

*gCf. J. M. Lourenço. Situação Jurídica da Igreja em Portugai, 2.' ed., Coimbra, 1945.
2OManuel Em/dio Garcia, art.° cit., p. 85.
2O6
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL O ESTADO LAICO
De qualquer modo, não se deve esquecer que a salvaguarda da liberdade
alguém possa, «por motivo de opinião religiosa, ser privado de um direito ou
religiosa foi acompanhada pela afirmação de restrições por parte do Estado
isentar-se do cumprimento de qualquer dever cívico». Com estas especifi- republicano. Deve mesmo reconhecer-se que, neste campo, ficava limitado o
cações, os constituintes tinham em mente o fantasma das perseguições inqui-
sitoriais, visavam a abolição dos chamados crimes religiosos, e simultanea- exercício pleno da liberdade de expressão e de reunião, em nome do possível
atropelo à liberdade dos outros decorrente da manifestação pública do culto.
mente pretendiam sujeitar o clero aos deveres comuns a todos os cidadãos,
E, se descermos do nível dos princípios para o terreno da luta político-ideol6-
pois, se era verdade que os privilégios de foro e de isenção de impostos dos
eclesiásticos tinham sido postos em causa já no período monárquico, o mesmo gica, é tese inconcussa que a delimitação da religião ao seu espaço privado
não acontecia no que concerne às suas obrigações militares. visava, antes de mais, retirar ao catolicismo o seu poder político e cultural,
A intenção de se fazer retirar a religião do espaço público encontra-se reforçado pelo seu poder simbólico, isto é, pela sua dimensão ritual e espec-
cabalmente expressa no n.° 8 do mesmo artigo, ao determinar que <<6 livre o tacular, base em que, segundo alguns anticlericais, assentava o segredo da
culto público de qualquer religião nas casas para isso escolhidas ou destinadas atracção que exercia sobre populações em grande parte analfabetas. Dir-se-ia
pelos respectivos crentes, e que poderão sempre tomar a forma exterior de que a lei expulsava as procissões das ruas para as transformar em espaços
templo: mas, no interesse da ordem pública e da liberdade e segurança dos exclusivos do espectáculo político.
cidadãos, uma lei especial fixará as condições do seu exercício». Ainda que
de uma forma mais abstracta todo este articulado vinha ao encontro do que a
lei de 20 de Abril de 1911 já havia determinado, embora mostre, por outro O REGISTO CIVIL OBRIGATÓRIO
lado, os receios que os republicanos tinham de reconhecer às Igrejas uma liber-
dade sem quaisquer tutelas. Esse era o sonho de religiosos liberais como Para o anticlericalismo republicano, a força de atracção do catolicismo
Santos Farinha2~ e de alguns padres republicanos22. Todavia, a maioria dos resultava do seu poder cultural, que se reproduzia e socializava não só através
deputados e dos adeptos do novo regime não pensava assim, atitude que do culto e do ensino, mas também do controlo simb61ico-administrativo que
explica que uma emenda apresentada na Constituinte, para que «o culto de o clero exercia sobre os actos mais significativos da existência (o nascimento,
qualquer religião, tanto particular ou doméstica, como colectiva, [fosse] abso- o casamento e a morte). Logo, a separação das Igrejas do Estado tinha de ser
lutamente livre e independente de restrições legais»23, tenha sido rejeitada com correlata da introdução do registo civil obrigatório, único modo de o Estado
veemência. A neutralidade ou indiferença do Estado implicava o reforço da deter a gestão directa do movimento demográfico dos seus próprios cidadãos
tradição regalista, pois os republicanos estavam convencidos de que sem a e de subordinar a expressão religiosa dos ritos de passagem à sua prioritária
intervenção política em matérias que tinham a ver com a formação das cons-
dimensão cívica, pois, como frisava, em 1908, o livre-pensador republicano
ciências não se conseguiria a necessária laicização e emancipação da socie- Fernão Botto-Machado, «ao Estado é indispensável um registo seu, dos nomes
dade.
É certo que, em coerência com a aceitação dos direitos fundamentais, o e do estado civil de todos os cidadãos. Só assim pode exercer o seu patronato
Estado moderno não podia ser confessional e teria de respeitar todos os cultos, e a sua acção tutelar ou coercitiva... O Estado -- ele só -- é o patrono nato
mesmo os seguidos por uma minoria de cidadãos. Isto é, e como bem assi- dos direitos civis, políticos e de cada um»ZL E abdicaria da sua soberania se
nalou Mamoco e Sousa, «o Estado moderno não pode falar de tolerância reli- continuasse a consentir que um poder, que lhe era exterior, continuasse a subs-
giosa, mas de liberdade religiosa, pois a primeira representa uma concessão tituf-lo em função tão essencial, e a afirmação do princípio da unidade e da
graciosa do Estado, e esta um direito do cidadão»2L Daí que a atitude repu- indivisibilidade da soberania nacional era incompatível com a tradição dos
blicana para com a religião seja uma outra nota que a distingue da democracia registos paroquiais administrados pelo clero.
dos antigos. Nesta, os deuses habitavam a cidade e o âmago da própria ágora, Já Mouzinho da Silveira, ao lançar as bases do novo Estado liberal com os
enquanto, para o republicanismo, a separação da política da religião instituía olhos postos no exemplo revolucionário francês, tinha legislado sobre o ser-
uma das condições essenciais para que, sentindo-se como sujeitos livres, os viço de registo civil26. Mas, como em outros domínios, também neste a lei
indivíduos se assumissem consciente e voluntariamente como cidadãos. estava para além das capacidades reais do seu cumprimento, pelo que o pro-
blema só voltará a ganhar nova actualidade com a discussão do casamento civil
aquando da redacção do Código Civil (1862-1867)27. Como se sabe, as teses
2J Cf. Santos Farinha, Egreja Livre. Conferencia Realizada a 2 de Fevereiro de 1911
na Sociedade de Geografia, Lisboa, 1911.
z2Cf. Padre António Augusto, «A Igreja e o Estado», O Mundo, IX anno, n.o 3091, 25 Fernão BoRo-Machado, A Obrigatoriedade do Registo Civil, Lisboa, 1908, p. 14. Os
14-VU-1909, p. I. socialistas e anarquistas também compartilharam desta opinião. Cf. Enu'lio Costa, «A Egreja
~ Diario da Assembleia Constituinte, Sessão n.o 31, de 26 de Julho de 1911, p. 12. A e o Registo Civil», A Lucta, II anno, n.° 584, 12-VIII-1907, p. 1.
proposta foi apresentada pelo deputado José Nunes da Mata. 26Cf. Fernando Catroga, ob. cit., rol. 1, pp. 281-328.
27 Cf. Samuel Rodrigues, A Polémica sobre o Casamento Civil (1865-1867), Lisboa,
Marnoco e Sousa, ob. cit., p. 78.
1987.
2O9
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL O ESTADO LAICO
veis às implicações sociais dos enterramentos, chegando o texto constitucio-
de Herculano. que suscitaram divisões no seio da comissão redactora do nal a determinar que «os cemitérios públicos terão carácter secular, ficando
Crdigo e forte polémica na opinião ilustrada do país, acabaram por vencer, e livre a todos os cultos religiosos a prática dos respectivos ritos, desde que não
o novo Crdigo veio a garantir, em regime de voluntariado, a celebração do ofendam a moral pública, os princípios do direito público português e a lei»
casamento civil (artigo 2457.°). No entanto, os governos subsequentes nunca
(artigo 3, n.o 9). Com isto, a Constituição corroborava o que a lei do registo
regulamentaram este articulado, e será necessário esperar onze anos para que,
civil já tinha determinado, e só o significado ideológico do problema pode
nos finais de 1878, o governo, já sob uma forte pressão de uma campanha lide-
explicar este excesso regulamentador, que contrasta com as cautelas reveladas
fada pelos livres-pensadores republicanos, regulamente a possibilidade de os
pelos constituintes em outros assuntos, nomeadamente quando se discutiu a
cidadãos optarem pelo registo civil de nascimento, de casamento e de óbito2s.
questão da greve.
Não deixa de ser importante salientar que, desde os meados da década de
70. alguns indivíduos, saídos das minorias descatolicizadas, procuraram orga- Afirmar que aquele artigo teve como fonte o § 5 do artigo 72.° da Cons-
nizar associações de livres-pensadores com o objectivo de propagandearem a tituição brasileira31, ou chamar para o caso o exemplo de medidas análogas já
prática do registo civil e de simultaneamente lutarem pela imposição da sua tomadas pela III República francesa, não pode fazer esquecer que a secula-
obrigatoriedade no contexto da separação das Igrejas do Estado. O mais mar- rização dos cemitérios vinha ao encontro de uma antiga reivindicação do
cante núcleo foi a Associação Promotora do Registo Civil (1876), em parti- livre-pensamento europeu e português32 e do movimento republicano. De certo
cular na segunda fase do seu funcionamento (a partir de 1895), conjuntura em modo, esta exigência quase nasceu com a fundação das novas necrópoles e com
que, com alguns milhares de membros e numa crescente articulação com o seu estatuto ambíguo de espaços simultaneamente públicos e religiosos. Esta
muitas lojas maçónicas, grupos anüclericais (os Círios Civis) e com o movi- situação potenciava um inevitável choque entre a Igreja e os cidadãos que
mento republicano29, impôs a questão do registo civil obrigatório e outras voluntariamente desejassem colocar-se fora do seu grémio e que requeressem
reivindicações com tal força que os últimos governos monárquicos (Manuel um sepultamento não eclesiástico, mas sem quaisquer discriminações em re-
Fratel) tentaram satisfazer algumas. E isto agudizou ainda mais as dissidências lação à dignidade dos enterramentos religiosos33. O que começou a acontecer,
internas entre os partidos que defendiam a Monarquia. com alguma frequência em Lisboa, a partir dos inícios da década de 70.
Pelo exposto, não admira que os programas republicanos tenham defendido Sabe-se que, por razões de índole higiénica, e em consequência da evolução
o registo civil obrigatório, e a importância que o movimento lhe conferiu levou das mentalidades, se começou, no século xvI~, a contestar os sepultamentos ad
a algumas intervenções no parlamento monárquico e às imediatas decisões do sanctos e apud ecclesiam34. Entre nós, as leis de 21 de Setembro e de 8 de Outu-
Governo Provisório da República: o decreto de 25 de Dezembro de 1910 con- bro de 1835, reproduzindo ideias já implantadas em outros países, nomeadamente
sagrava o casamento como um contrato puramente civil e obrigava todos os por- em França, proibiram os enterramentos nas igrejas, mandando construir novos
tugueses a celebrá-lo, antes de qualquer acto religioso, perante o respectivo cemitérios no exterior das povoações (143 metros, no mínimo), murados e com
oficial do registo civil; e o decreto de 18 de Fevereiro de 1911, ao organizar todo sepulturas individualizadas. A sua propriedade e administração passava para as
o serviço de registo civil, tornava obrigatória a inscrição dos momentos essen- mãos das autoridades municipais ou paroquiais; o seu estatuto sacral resultava do
ciais relativos ao indivíduo, à famflia e à composição da sociedade, nomeada- facto de serem benzidas no momento da inauguração e era reforçado com as ceri-
mente os nascimentos, casamentos e óbitos30. E foi esta orientação que a mónias religiosas que acompanhavam o defunto à sua última morada35.
Consãtuição aprovou no n.o 33 do seu artigo 3.o ao determinar que «o estado Não vamos descrever aqui as resistências (Maria da Fonte) e as vicissitudes
civil e os respectivos registos são da exclusiva competência da autoridade civil».
por que passou um processo tendencialmente secularizante e tão oposto aos
usos e costumes tradicionais das populações36. Mas faltar-se-ia à verdade se
A LAICIZAÇÃO DA MORTE NA CONSTITUIÇÃO DE 1911
31Cf. Idem, ibidem., p. 80.
32 Cf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 290-328.
As preocupações respeitantes ao registo administrativo dos indivíduos e
à afirmação simbólica de que estes, antes de serem crentes, são sujeitos per- a3 Cf. Idem, ibidem, vol. 2, pp. 694-705.
a4cf. Phillipe Ariès, L'Homme devant la Mort, Paris, 1977, p. 468 e ss; Michel Vovelle,
tencentes a uma comunidade política repercutiram-se com grande acuida- La Mort et l'Occident de 1300 à nos Jours, Paris, 1983, p. 564 e ss; Femando Catroga, ob.
de no modo de encarar o último rito de passagem. Mais concretamente, os cit., vol. 2, pp. 680-94.
republicanos, como os demais livres-pensadores, foram particularmente sensf, 35 Cf. Colecção Completa da Legislação sobre o Estabelecimento dos Cemiterios, Enter-
ramentos e Trasladações desde 1835 até hoje, Porto, 1889, pp. 5-9
36 Cf. João Lourenço Roque, Atitudes perante a Morte na Região de Coimbra de Meados
do Século XVIII a Meados do Século XIX. Notas para Uma Investigação, Coimbra, 1982,
uCf. Decreto de 28 de Novembro de 1878, Lisboa, 1878.
pp. 85-86; Rui Graça Feijó et ai., A Morte em Portugal Contempordneo. Aproximações
~Cf. Feraando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 290-316.
3o Cf. Mamoco e Sousa, ob. cit., vol. 1, p. 194. Sociológicas, Literárias e Históricas, Lisboa, 1985, p. 175 e ss; Fernando Catroga, ob. cit.,
vol. 2, pp. 690-93.

210 211
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL O ESTADO LAICO

condições. Simultaneamente, as autoridades e as corporações competentes


não se sublinhasse que as novas necrúpoles também foram apoiadas pelos foram obrigadas a retirar dos cemitérios todos os muros, valados, sebes ou
sectores mais esclarecidos da Igreja. e que, paulatinamente, foi crescendo o outras divisões que tivessem por fim separar os mortos por motivos religiosos,
afeiçoamento religioso-mmfintico em relação a elas. E, para o caso que aqui devendo desde logo ordenar aos seus empregados que fizessem indistintamente
nos interessa, é revelador que, com o aparecimento de um ou outro defunto
as inumações em todos os talhões dos cemitérios, de sorte que ficassem nos
que militantemente estava fora do grémio católico, o problema das sepulturas mesmos lugares e contíguos uns aos outros os cadáveres enterrados com ou
eclesiásticas e da divisão religiosa do território cemiterial tenha ganho alguma
sem cerimónias religiosas (artigo 258.0). A Constituição veio a ratificar esta
actualidade polémica. É que, à luz do direito canónico, não tinham direito a decisão, como a querer afirmar a extensão do respeito dos direitos funda-
sepultura eclesiástica os recém-nascidos não baptizados, os hereges, os após-
mentais à necrópole, modo outro de defender com mais veemência a sua neces-
tatas, os duelistas e suicidas, os mações e, consequentemente, os livres-pen-
sária vigência na cidade dos vivos: «Os cemitérios públicos terão carícter
sadores. Como religião de Estado, os católicos exigiam a existência de uma
secular», escrevia-se no n.o 9 do artigo 3.% «ficando livre a todos os cultos reli-
clara demarcação espacial entre o sector eclesiástico e o outro, pois só assim
giosos a prática dos respectivos ritos desde que não ofendam a moral pública,
ficariam garantidas as condições adequadas ao cumprimento das suas espe-
os princípios do direito público português e a lei»»
ranças escatológicas e apocalípticas. Contra esta pretensão, os não católicos
invocavam o estatuto público das necrópoles, a liberdade de consciência e o Foi com a mesma intenção que a lei do registo civil previu o recurso à
respeito pelo princípio evangélico da igualdade. Em suma: contestavam que a cremação. Os constituintes também a discutiram, mas não a incluíram no texto
cidade dos mortos não fosse modelada pelos valores que deviam estruturar constitucional. O cremacionismo, na sua versão moderna, começou a ser agi-
a cidade dos vivos. tado, sobretudo no último quartel do século xIx, pelos livres-pensadores de
Efectivamente, pelas portarias de 17 de Dezembro de 1866, 24 de Janeiro paises como a Itália, Alemanha, Áustria, França e Inglaterra. Militavam a seu
de 1872 e 29 de Maio de 1877, o governo mandou erguer muros no interior favor não só argumentos de índole higiénica e financeira -- dizia-se que os
dos cemitérios a fim de as sepulturas católicas ficarem separadas das não cató- seus custos eram menores que os da inumação --, mas também de cariz filo-
licas-~7. E pode mesmo afirmar-se que a luta contra este estado de coisas e a sófico, já que, para muitos, a ustão dos cadáveres seria a prova da definitiva
favor da secularização dos cemitérios se tomou, a partir da década de 70, num libertação das expectativas escatológicas, incluindo a esperança na ressurreição
dos pontos nucleares da propaganda anticlerical movida por grupos de final dos corpos38. Daí que a Igreja continuasse a anatematizar a prática através
livres-pensadores ligados aos movimentos socialista, anarquista e republicano. de decretos emanados do Santo Oficio (19 de Maio de 1886; 15 de Dezembro
Os programas deste último, elaborados depois daquele período (1886; 1891), de 1886; 27 de Julho de 1892), acusando-a de romper com a tradição dos pri-
bem como todas as manifestações anticlericais dos finais do século xIx e dos meiros cristãos, que enterravam os seus mortos apesar do uso da cremação
princípios do século xx, fizeram suas as mesmas reivindicações, integrando-as pelos Romanos, de não respeitar os corpos dos cristãos como membros de Jesus
na luta mais geral pela separação das Igrejas do Estado. Com isto, estavam em Cristo, templos do Espírito Santo e materiais da ressurreição final, e de pôr
sintonia com os objectivos do livre-pensamento internacional -- expressos em causa a profecia do Génesis (III, 19): «Tu comerás o pão no suor do teu
em vários congressos -- e com as deliberações tomadas em alguns pafses rosto até que voltes à terra de onde saíste; porque tu és p~ e em pó te hás-de
republicanos como a França. Dai que a legislação da jovem República tornar.>>39
portuguesa não possa ser vista como uma novidade, mas, antes, tenha de ser Em Portugal, o debate não passou despercebido. Em 1859, Sousa Holstein,
compreendida como uma concretização de promessas já anteriormente for- num artigo publicado na revista O Instituto, defendeu a cremação e, em 1878,
mulatas.
um relatório apresentado à Câmara Municipal de Lisboa propunha-a como o
Dito de outro modo: a secularização dos cemitérios é uma consequência
único meio capaz de resolver o problema do crescimento das necrópoles
lógica da aceitação dos direitos fundamentais dos indivfduos e do seu exer-
da capital, solução que continuou a ser discutida nos inícios dos anos 804°.
cício numa área que, por ser pública, não podia estar atravessada por quais-
Mas foi principalmente nos primórdios do novo século que uma restrita mino-
quer fracturas. Ao contrário, devia ser, tal como os demais espaços públicos,
ria de livres-pensadores, liderada por Sebastião de Magalhães Limaar e pela
cenário de consenso e de coexistência religiosa e filosófica. Foi isso que o
Associação Promotora do Registo Civil, intensificou a campanha a favor da
artigo 257 da lei do registo civil (18 de Fevereiro de 1911) procurou garantir
ao determinar que, nos cemitérios de cada povoação, fossem inumados, sem
distinção alguma de terreno, salvo o adquirido para as sepulturas privadas, 38 Para o desenvolvimento de toda esta temática, veja-se Fernando Catroga, «A Cre-
todos os indivíduos falecidos dentro da respectiva circunscrição e os falecidos mação na Época Contemporânea e a Dessacralização da Morte. O Caso português», Revista
fora desta circunscrição que se encontrassem em certas e determinadas de História das Ideias, vol. 8, 1986, pp. 223-62.
39 Cf. Marnoco e Sousa, ob. cit., p. 83.
40 Cf. Fernando Catroga, art. cit., pp. 237-38.
41Cf. Sebastião de Magalhães Lima, A Cremação de Cadaveres. Conferencia Realizada
Cf. Idem, ibidem, rol. 2, pp. 699-705.
na Associação do Registo Civil no Dia 21 de Maio de 1912, Lisboa, s. d.
213
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL O ESTADO LAICO
A RESISTÊNCIA CATÓLICA
secularização dos cemitérios e da cremação, inserindo-a explicitamente na luta
pela separação das Igrejas do Estado e pelo respeito da liberdade de cons- Como facilmente se percebe, este projecto laicizador, de fundo acatólico e,
ciência, princípio que só seria plenamente salvaguardado desde que os cida- nos mais radicais, de intenção anti-religiosa, tinha de encontrar forte opo-
dãos pudessem tarnbúm escolher livremente a modalidade do seu enterramento. sição44. E a mais imediata partiu da hierarquia da Igreja. A questão do bispo
Por isso. a República, através da lei do registo civil, reconheceu não só o direito de Beja -- que já vinha dos últimos governos monárquicos -- provocou o pri-
à cremação (artigos 264.° a 268.°), como lançou iniciativas tendentes à cons- meiro embate significativo. A sua ausência para Espanha, sem prévia auto-
trução de um forno crematório -- a Câmara Municipal de Lisboa aprovou,
rização do poder político, para se proteger das perseguições lideradas pelo
em 1912, a construção de um, no Alto de São João. No entanto, por razões célebre padre Ançã, de que foi alvo logo ap6s o 5 de Outubro«, serviu de pre-
diversas, incluindo algumas dificuldades na aquisição da maquinaria pro-
texto para que a jovem República viesse a terreiro reafirmar a intenção de
vocadas pela eclosâo da guerra, o crematório só entrou em funcionamento
reforçar a prática regalista. Ao mesmo tempo, as primeiras leis do Governo
em 1925.
A liberdade de opção filosófica em relação ao último rito de passagem Provisório não deixavam dúvidas acerca da orientação laicista do novo regime
e da iminência do cumprimento de uma das principais promessas da propa-
não podia ficar fora do quadro dos direitos fundamentais. E, nesta matéria, a
ganda republicana: a separação das Igrejas do Estado.
legislação republicana procurou minar o monopolismo católico e respeitar a
escolha das minorias. Por isso, as questões decorrentes da liberdade de cons- Perante isto, o bispado emitiu uma primeira resposta em que, sem pre-
ciência não podiam ter qualquer fundamento quantitativo, como o caso da cre- tender explicitamente pôr em causa as novas instituições, vincava a posição
mação bem ilustra, já que nem sequer a maior parte dos livres-pensadores, apartidária da Igreja, mas anatematizava simultaneamente não s~ os actos
embora a defendesse teoricamente, se mostrou disposta a abandonar a inu- persecutórios de que estava a ser vítima -- o caso do bispo de Beja era exem-
maçâo, como o demonstra a fraquíssima utilização do forno42 -- 21 incine- plo disso --, mas também a base filosófica em que assentava o próprio repu-
rações entre Novembro de 1925 e 193643. E que, mesmo para os que somente blicanismo. De facto, a pastoral colectiva do episcopado português, datada de
acreditavam na imortalidade garantida pela memória colectiva -- ateus, agnós- 24 de Dezembro de 1910, sintetizava toda a argumentação teol6gica das
ticos --, a inumação possibilitava uma maior dissimulação da atávica aversão últimas décadas contra o modernismo46 e sugeria que a República estava a ser
do homem à corrupção dos corpos e à morte, ao mesmo tempo que simulava não só acatólica, mas anticatólica, já que, em última análise, exprimia a ten-
melhor do que a redução a cinzas a presença-ausência do finado através da dência «demolidora» que, em filosofia especulativa, negava «a metafísica, pre-
sepultura individualizada e dos sinais personificantes da memória do morto. tendendo substituir-se-lhe o árido positivismo» e o seu extremo: «a chamada
Os cemitérios podiam, assim, ser cemitérios-museus, panteões democratizados doutrina do incognoscível»; em filosofia prática, negava «o livre-arbítrio e a
em que a evocação da exemplaridade dos defuntos funcionava como lição para responsabilidade moral», proclamando «o determinismo e a fatalidade»; em
os vivos. política, negava «a autoridade» e preconizava «a anarquia»; em economia polí-
A sobrevalorização que os republicanos fizeram de todas estas questões fica, negava «a propriedade popular», enaltecendo «o colectivismo socialista»;
mostra, com toda a evidência, que as suas propostas políticas se encontravam e, em religião, negava «toda a religião positiva e até a religião natural». Em
radicadas numa concepção de mundo que, conquanto admitisse algumas inter- suma: em nome da pretensa autonomia da razão humana, defendia a ciência
pretações específicas, desaguava num optimismo que sobredeterminava não só como um novo «ídolo que intenta suplantar a Fé», e que, «como o Anticristo»,
o sentido da história, mas tambúm o significado da morte. O que se com- aspirava «à adoração universal»47.
preende. A análise sociológica e histórica que os ideólogos do republicanismo Afonso Costa, ministro da Justiça, negou o beneplácito ao documento e o
faziam da evolução das religiões e das representações do post mortem con- Governo Provisório tudo fez para que ele não chegasse ao conhecimento dos
venceu-os, um pouco à maneira de Voltaire, de que as ideias acerca da sobre-
vivência tendiam a desvalorizar a vida terrena e a ir ao encontro dos interes-
44 Sobre esta luta, vejam-se: Eurico de Seabra, A Egreja, as Congregações e a República
ses das forças conservadoras. Explica-se, assim, que o problema da morte e
(A Separação e as Suas Causas), 2.a ed., Lisboa, 1914; A. de Jesus Ramos, «A Igreja e a
do culto cívico dos mortos tenha sensibilizado tão fortemente um ideário ani-
I República. A Reacção Católica em Portugal às Leis Persecutórias de 1910-1911», D/das-
mado pela intenção última de promover uma profunda transformação cultural kalia, fascs. 1 e 2, vol. 13, 1983, pp. 251-302; António Matos Ferreira, «Aspectos da Acção
que enraizasse nas consciências a esperança de que seria possível alcançar a da Igreja no Contexto da I República», in João Medina et ai., História Contemporânea de
felicidade na Terra. Portugal, vol. 1, pp. 217-18; Vítor Neto, «A Questão Religiosa na l.a República. A Posição
dos Padres Pensionistas», Revista de História das Ideias, rol. 9, 1987, pp. 675-731; Raul
Rego, História da República, vol. 3, Lisboa, 1987, pp. 5-87.
45 A. de Jesus Ramos, art. cit., pp. 257-58.
~Cf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 124-148.
'°'Veja-le A Vanguarda, XIl armo, n.o 4351, 20-11-1909, p. 3. 47 Pastoral Collectiva do Episcopado Português ao Clero e Fieis de Portugal, s. 1.,
43 CF. Femando Catroga. ar,. cit., pp. 239-40.
1911, pp. 6-7.
O ESTADO LAICO
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
sistema de pensionato. E tem de se concluir que o sucesso republicano foi limi-
fiéis. As imposições do poder político acentuaram ainda mais a cesura da Igreja tado: entre 1911 e 1918, ter-se-ão formado 255 associações de cultoSI, quando
com o novo regime, atitude exemplarmente expressa na posição dura do bispo o total de freguesias era de 3923; e entre 1911 e 1914, cerca de 11% do total
do Porto. D. António de Sousa Barroso, e na resposta das autoridades judiciais dos sacerdotes terão aceite receber as pensões. Mas convém não esquecer que
e políticas, que o exoneraram do cargo. Por outro lado, o prosseguimento da muitos o fizeram por absoluta necessidade económica, embora outros, em
laicização, com a saída das leis do divórcio, do registo civil e, finalmente, da número menor, desobedeceram à hierarquia por convicções republicanas.
lei de separação das Igrejas do Estado (20 de Abril de 1911), levou à publi- Assim, se a sua distribuição se deu um pouco por todo o pais, o certo é que
cação de um protesto do episcopado (6 de Maio de 1911) e à intervenção ela foi maior nas zonas em que a pressão da crença era menor, isto é, em
directa do papa Pio X através da encíclica Jamdudum in Lusitania (12 de Lisboa e no Alentejo (Évora; Beja), áreas menos catolicizadas e correlati-
Outubro de 1912). vamente mais republicanizadas, como atrás se viu.
Para os bispos, a lei da separação era injusta, opressora, espoliadora e ludi-
Na oposição católica emergiu como figura de destaque, nesta conjuntura,
briadora~. A injustiça decorria do facto de o decreto se opor ao direito posi-
o arcebispo-bispo da Guarda, D. Miguel Vieira de Matos. As suas infracções
tivo (destruía a constituição divina da Igreja e não reconhecia a independência
da esfera espiritual), ao direito público (anulava o sistema concordatário), ao à legalidade, sobretudo no concernente ao não impedimento da circulação da
direito canónico (o Estado invadia a competência e atribuições da jurisdição pastoral e da encíclica, que não tinham recebido o beneplácito, levou-o ao des-
eclesiástica), ao direito civil (a lei teria efeitos retroactivos), e ao próprio direito terro, situação que não era inédita e não será a última, pois a continuação do
natural. Era opressora ainda porque, escudando-se na neutralidade, ditava embate entre a Igreja e a República fez com que, em Abril de 1912, todos
condições que conduziam ao controlo político do culto (sujeito ao arbítrio das os bispos tenham sido desterrados das sedes das suas dioceses52. É verdade
cultuais, ou corporações laicas), do ensino religioso, do ensino nos seminários, que a Igreja declarava que a sua oposição se cingia ao plano exclusivamente
e das relações dos bispos com os fiéis e com a Santa Sé. Espoliava a Igreja espiritual e apartidário, mas o certo é que, objectivamente, a desobediência
porque lhe negava o direito de propriedade e de domínio sobre os seus móveis às leis de um poder político eleitoralmente legitimado apús a entrada em
e imóveis, e sujeitava o clero à penúria, dado que o prometido sistema de vigor da nova Constituição, em finais de Agosto de 1911, vinha ao encontro
pensões vitalícias, mas de montante arbitrário, iria funcionar mais como um da resistência monárquica liderada por Paiva Couceiro, ligação que as
ludibrio do que como uma solução, pois, com tal sistema, o clero ficada re- opções reaccionárias de muitos eclesiásticos parecia conf'trmaP3. Por outro
duzido a um «funcionário à ordem das associações cultuais»49. Além disso, lado, os republicanos tinham a Igreja em grande suspeição. É que, a seu ver,
acusaram a lei de insinuar um subtil e inaceitável juízo de valor sobre os costu- esta nem sequer se tinha ainda adaptado às exigências do sistema represen-
mes dos eclesiásticos e de convidar ao despadramento, ao escrever, no seu tativo, e os compromissos políticos entre o miguelismo e o ultramontanismo
artigo 150, que seriam mantidas as pensões «às viúvas e aos filhos, quer legí- -- que o jornal A Nação tinha veiculado durante décadas --, ou entre os
àmos quer ilegítimos, dos padres que queiram aproveitar a concessão para sectores conservadores da Igreja e os jornais A Palavra e o diário Portugal
ç.asa~.
(dirigido pelo célebre padre Matos)54, bem como a sua influência na forma-
A encíclica papal veio apoiar a luta do clero português e anatematizou a ção do Partido Nacionalista nos princípios do século xIx -- no seguimento
,péssima e pemiciosíssima~ lei de separação por desprezar Deus e repudiar de tentativas que já vinham dos inícios da década de 80 --, e as posições ideo-
a fé cattlica, por anular a base jurídica em que assentava as relações entre o
Estado português e a Santa Sé, por esbulhar a Igreja dos seus bens, e por ul-
trajar o Papa, o episcopado, o clero, o povo de Portugal e até os católicos do 51 Segundo VItor Neto, art. cit., p. 698. No entanto, para A. de Jesus Ramos, este número
mundo inteiro. Perante isto, Pio X lavrava o mais «solene protesto contra todos foi proporcionalmente ainda menos significativo.
aqueles que nela tomaram parte como autores e como colaboradores» e denun- 52 Sobre estes processos, veja-se A. Ayres Pacheco, A Expulsão do Senhor Patriarcha
clava «como nulo e sem valor tudo quanto nessa lei se encontra de ofensivo D. António. L Documentos para a História da Perseguição Religiosa em PortugaL Lisboa, 1912.
53 Naturalmente, esta não era a posição explícita e oficial da Igreja, e alguns católicos
aos direitos invioláveis da lgreja»5O.
mais liberais não deixaram de se opor às tentativas de ligar o catolicismo à resist~.ncia
Contra esta atitude, a República reprimiu, com o desterro interno, os bispos
monárquica contra o novo regime. Por exemplo, Abúndio da Silva, embora criticasse as
~ientes e procurou vencer a resistência activa da hierarquia, nomea- leis da República, lembrava que os católicos deviam nortear-se por duas ideias funda-
damente no que respeitava à constituição das cultuais e à adesão do clero ao mentais: «A primeira é que o catolicismo não se identifica com nenhuma forma de governo,
com nenhum partido, porque é superior a todos e a todos sobrevive; a segunda é que deve-
mos servir-nos dos princípios, das tendências e das instituições do nosso tempo para alcan-
4tCf. A. de Jesus Ramos, art. cit., pp. 275-77.
çarmos a vitória da verdade religiosa e estabelecer firmemente o reinado das doutrinas
cristãs» (Abúndio da Silva, A Igreja e a Politica, Porto, 1911, p. 206).
~d~testo Colecãvo dos Bispos Portugueses contra o Decreto de 20 de Abril de 1911, 54 A imprensa anticlerical elegeu este jornal como um dos alvos privilegiados da sua
que Separa o Estado da Igreja,,, in Joaquim Maria Lourenço, ob. cit., p. 175.
5o In Joaquim Maria Lourenço, ob. cit., p. 180. critica. Por todos, veja-se Paulo Emllio, «Breve resposta a Padre J. Loarenço de Matos
Columna da Egreja e do Regimen», A Lanterna, 1 armo, n.° 7, 1909, pp. 98-112.
217
O REPUBLICANISMO EM PORTUGAL
O ESTADO LAICO

lógicas reaccionárias propagandeadas pela chamada «boa imprensa», eram ele chegou mesmo a ser agredido e acusado de fazer o jogo do clerica-
razões mais do que suficientes para convencer os republicanos de que só com lismo --, embora as suas preocupaçõcs metafísicas tenham encontrado eco cru
a subaltemização da religião Portugal se poderia modernizar e democratizar. alguns discípulos brilhantes (Lconardo Coimbra).
Nesta perspectiva, já não se estranha que os primeiros anos do novo regime Basflio Tcles viu no anticlericalismo de muitos dos seus companheiros uma
tenham sido atravessados por uma «guerra religiosa», estádio radical de uma espdcie de beatice «ao avesso». Simultaneamente, contestou que a ciência,
luta que, porém, já vinha do século passado. As estruturas do novo poder, as saber meramente hipotético-dedutivo, pudesse dar uma explicação definitiva
comissões republicanas, as lojas maçónicas, os carbonários, a Associação do do homcm e do universo. Como bom discípulo de Herbcrt Spencer, pensava
Registo Civil mobilizaram-se em defesa das novas leis e em apoio de Afonso que não existia qualquer incompatibilidade entre o conhecimento científico
Costa, o que empun~u a Igreja para uma clara atitude defensiva. E, se isto teve as representações religiosas. Estas seriam alimentadas pelo permanente espanto
o efeito de unir as suas diversas facções, deu igualmente uma bandeira ao pro- suscitado pelo incognoscível, isto é, pela distância que sempre existirá entre o
seliàsmo republicano no seu combate contra a reacção. Em suma: na conjun- que se conhece e o que ainda falta conhecer. Consequentemente, mais do que
tura em apreço, mais do que uma posição de indiferença, a República teve de anunciar a extinção da religião católica, importava expurgar o catolicismo da
actuar, na interpretação de um colaborador de Afonso Costa, como um Estado
sua componente judaica, helenizando a sua mensagem, pois, se «a humani-
«armado» e «vigilante», única maneira de vencer uma Igreja fida também por
zação de Deus é uma monstruosidade para a cabeça transcendentalista de um
«annada~ e por «suspeita~ss.
judeu», tal concepção «é concebível, ao contrário, para um cérebro dos nossos
em que haja, ao menos, restos do panteísmo ingénito das raças indo-euro-
O ESPIRITUALISMO REPUBLICANO E A RELIGIÃO peias»8. Acreditava, em suma, ser possível compatibilizar o cristianismo com
a modernidade desde que aquele se desembaraçasse «do seu lastro transcen-
Este rumo dos acontecimentos preocupou alguns republicanos mais mode- dentalista» e se limitasse a ser «uma crença e um sistema de cultura»59.
rados, e basta ler o projecto sobre a separação apresentado à Constituinte por Em outros intelectuais republicanos encontra-se uma ainda mais explícita
Eduardo de Abreus~ para se comprovar o que atrás ficou assinalado, isto é, a recuperação cristológica -- recorde-se o retrato de Bernardino Machado abra-
existência de um núcleo que, sem pôr em causa a necessidade de se separar çado a Cristo pintado em 1909 por Baeta Neves6o --, inserida nos parâmetros
a política da religião e de se extinguir a influência ultramontana, perfilhou uma de uma religiosidade de fundo tolstoiano (Raul Brandão), ou de tonalidades
posição mais liberal perante as Igrejas e as religiS¢s. Mas sintomaticamente panteístas e pampsiquistas (Guerra Junqueiro), que os afastavam do radica-
foram os que nunca deixaram de contrapor algumas prevençSes filosóficas, em lismo anticlerical dominante no republicanismo e no próprio movimento ope-
nome de um assumido espiritualismo, à auto-suficiência cientista e à sua ex- rário organizado. Em 1901, Brandão sustentava que a Igreja só se regeneraria
tensão irreligiosa que, com alguma incompreensão dos correligionários, mais se perfilhasse a humildade e a pobreza, e louvava o homem de Estado que, se
veementemente criticaram o laicismo dominante no seio do movimento. fosse capaz de tornar «um dia o clero mísero, e gratuitos todos os serviços reli-
De facto, para alguns intelectuais republicanos, como Sampaio Bruno, as giosos, resolveria a questão [religiosa], transformando o mundo»6t. Esta frase
explicações científicas e a racionalidade livre-pensadora seriam sempre inca- revela, com clareza, um assurnido espiritualismo republicano -- em que se
pazes de esgotar o anelo religioso e a inquietação metafísica inerentes à di- integrará igualmente o movimento Renascença Portuguesa --, atitude que não
mensão espiritual do homem e à raiz ontológica do mal, da dor e da morte. era, porém, incompatível com o anticlericalismo e antiultramontanismo, em-
Isto d, mesmo que «o livre-pensamento conseguisse fazer desaparecer da Terra bora estes surjam comummente acompanhados pela defesa da revivescência
a desigualdade económica, a distinção de pobres e ricos, as angústias da mi- espiritual das práticas religiosas e da independência da Igreja portuguesa
s~ria», só se «poderia conjecturar que desaparecesse a religião, se não ficassem perante as ordens religiosas estrangeiras e o pr6prio Papa.
na Terra ainda o mal natural, as enfermidades e o sofrimento, e o mal moral, Guerra Junqueiro expressou esta opção nas críticas que fez às leis laicistas
as dúvidas e os zelos, as tristezas sem remissão e os remorsos que nada mitiga.
da jovem República. Na sua opinião, Afonso Costa e os seus adeptos estavam
Estas seriam outras tantas janelas entreabertas à suscitação religiosa, se de todo a confundir o antijesuitismo com a anticatolicismo, pois, se «o povo odiava o
a porta lh'a não escancarasse a Morte»57. E sabe-se como esta posição bru-
jesuíta», pouco se «importava com o padre». E quer a conjuntura da promul-
niana foi incompreendida pela nova geração mais radical do republicanismo gação, quer o conteúdo da lei da separação não teriam levado isso em conta,

55 Fanico de Seabra, ob. cit., p. 206.


5s Basflio Teles, A Questão Religiosa, p. 57.
~Cf. Eduardo de Abreu, Separação das Igrejas do Estado. Relatorio e Projecto de Lei
SOldem, ibidem, p. 17.
6o Sobre esta representação e recuperação cristológica no republicanismo, veja-se Fer-
Apresentadol.ãsboa, 1911. à Assembleia Nacional Constituinte em Sessão de 25 de Junho de 1911,
s~ Sampaio Bruno, A Questão Religiosa, Porto, 1907, p. 161. nando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 584-601; leia-se igualmente o que se escreveu no capi-
tulo 1 da II Parte deste trabalho.
ó~ Cf. Raul Brandão, O Padre, Lisboa, s. d., p. 33.
218 219
O ESTADO LAICO
OREPUBLICANISMOEMPORTUGAL
por si prÓpria»67. E, recorde-se, os núcleos organizados do movimento ope-
e daí o grande cepticismo que manifestou em relação às suas consequências rário de Lisboa estiveram na vanguarda da campanha anticlerical nos finais do
negativas na aceitação popular da República. Assim, a seu ver, «a República século, como a organização dos congressos anticlericais de 1895 e 1900
ou se modifica ou morre», já que o regime não resistiria «a quarenta tumultos revela68. Só após esta conjuntura é que este combate passou a ser paulatina-
pelo país fora»62 que a implantação da lei iria provocar63. mente liderado pelos sectores mais radicais do republicanismo.
E verdade que algum anticlericalismo republicano também não escamoteou
a articulação do problema religioso com a questão sociaF9. Todavia, em coe-
O LAICISMO rência com a sua estratégia, as denúncias dos malefícios do clericalismo e do
congregacionismo apareciam prioritariamente relacionadas com a opressão
De facto, o anticlericalismo de matriz republicana não pode ser confundido política resultante da continuidade, ainda que mitigada, da aliança entre o trono
com o habitual anticlericalismo primário ou difuso64, que se detecta nas comu- e o altar. Por isso, não será errado afirmar que, para os republicanos, o pro-
nidades aldeãs e que se materializou na contestação, principalmente de origem blema religioso remetia para a questão do regime, mas ambos, por sua vez,
masculina, aos costumes de alguns eclesiásticos, aos privilégios sociais do
constituíam as expressões visíveis de um atraso cultural de séculos. Assim
clero, ao seu estatuto de conhecedor das privacidades familiares através da con-
sendo, a libertação política e social passava pela emancipação cultural e esta
fissão e à insensibilidade de certos párocos em relação a costumes e tradições
exigia não só a secularização externa e institucional da sociedade, mas tam-
(festas) de raiz pagã, mas que a Igreja pretendia catolicizar. Geralmente,
bém uma profunda secularização interior das consciências. Daí que a tendên-
estas reacções não implicavam qualquer rejeição da prática religiosa e do
catolicismo, ao contrário do que acontecia com o anticlericalismo de motivação cia hegemónica no anticlericalismo republicano estivesse ciente de que a ino-
político-ideológica e de centração predominantemente urbana. Este último, culação de uma moral social sem qualquer fundamento transcendente e a
como vimos, tendeu a colocar-se, nos finais do século xlx e nos princípios do interiorização de uma religiosidade de vocação exclusivamente cívica desem-
século xx, num horizonte em que a promessa da libertação humana surgia penhariam a função sociabilitária que coube à religião até ao advento da era
indissoluvelmente ligada à crítica da religião, vista como representação alie- da positividade. E o estádio científico-industrial a que o espírito da humani-
nante e opressora do homem6s. dade havia chegado fazia prever que a ciência iria possibilitar o cumprimento
Para o anuclericalismo agitado pelo movimento operário não havia dúvidas: dos ideais que, de um modo teológico, e portanto errado, o melhor do cristia-
a liquidação da exploração económica e do autoritarismo político, isto é, a des- nismo já havia prenunciado.
mfição do poder da classe dominante levada à extinção da religião. É que, Em suma: como escrevia Marinha de Campos em 1908, em A Luta, acredi-
como escrevia A Obra, em 1908, «derrubado o capitalismo, ele arrastará na tava-se que, «felizmente, a Ciência e a Democracia vão realizando, em poucos
sua queda as instituições que até hoje lhe têm servido de apoio e suporte»c, anos, a obra que o Cristianismo não pôde levar a cabe em muitos séculos»7°.
pelo que se podia acreditar que «a religião não será suprimida, há-de acabar E foi ainda o mesmo optimismo iluminista que terá levado Afonso Costa a
afirmar, em sessão realizada em 26 de Março de 1911, no Grémio Lusitano,
que o povo estava «admiravelmente preparado.., para receber essa lei» e que
~ln Idem, Obras Completas, Lisboa, 1969, p. 291. Veja-se tambúm José Caldas, Os Je- «a acção da medida seria tão salutar que em duas gerações Portugal terá eli-
suüas e a Sua lnfluencia Actual na Sociedade Portuguesa: Meio de a Conjurar, Porto, 1901. minado completamente o catolicismo, que foi a maior causa da desgraçada
6~ Curiosamente, um aviso análogo foi feito pelo católico Abúndio da Silva em 1912: situação em que caiu»71. Interpretou-se esta asserção como visando tão-
«O futuro da República depende da paz religiosa, e o futuro do país depende da estabilidade
-somente a liquidação dos aspectos «mercantil, jesuítico, a que haviam ira-
das suas instituições políticas. Só é estável o governo que tem o amor e a confiança da
nação, e não tem essa confiança a política quem se malquista com a consciência dos ci- presso selo»72 as congregações e os jesuítas, enquanto alguma historiogratía
dadãos» (/VI. Abúndio da Silva, ob. cit., p. 206). mais recente73 chega mesmo a sustentar que tal afirmação mais não é do que
Cf. João Lourenço Roque, «Subsídios para o Estudo da Criminalidade na Região de
Coimbra no Século XIX. Alguns Exemplos de "Crimes contra a Religião" e "Outros De-
litos" no Período de 1850-1870», Revista de História das Ideias, vol. 9, 1987, pp. 631-67; 67A Voz do Proletario, XII armo, n.° 617, 8-XI-1908, p. 1.
Jorge F. Riegelchaupt, «O Significado Religioso do Anticlericalismo Popular», Análise 6aCf. Fernando Catroga, ob. cit., vol. 1, pp. 309-16.
Social, vol. 18, n.- 72-74, 1982, pp. 1213-30. 69 Cf. Heliodoro Salgado, A Egreja e o Proletariado, Porto, 1888. E num registo mais
Um bom exemplo deste radicalismo anti-religioso encontra-se num dos mais in- profundo Afonso Costa, A Egreja e a Questão Social, cit.
fluentes propagandistas da República na primeira década do século xx ao escrever, citando 7oMarinha de Campos, «Em Nome de Jesus»,A Lucta, 111 armo, n.° 1082, 23-XII- 1908, p. 1.
os seus mestres: «Proudhon tinha razão escrevendo: Deus é o mal, Laplace tanto ou mais 7~ In O Tempo, 111 mano, n.° 12, 27-II1-1911, p. 2; O Dia, XXI armo, n.° 46, 29-Ill-1911, p. 1.
tinha razão ainda, escrevendo tambúm: a hipótese Deus é inútil. Mas, acima de todas, a 72 Eurico de Seabra, ob. cit., p. 696.
apóstrofe exacta, indispensável, urgente de realizar, vibrou-a Bakunine: «Deus/Mas é pre- 73 É o caso de Carlos Ferrão (em Desfazendo Calúnias e Mentiras, Lisboa, 1967, p. 8)
ciso suprimi-lo» (Fernão Botto-Machado, A Confissão, Lisboa, 1908, p. 14). a partir dos seguintes argumentos: não se pode ter um relato fidedigno do discurso de
~A Greve, I armo, n.o 93, 10-V-1908, p. 2. Afonso Costa devido à «natureza» maçónica do Grémio Lusitano; por outro lado, somente

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O REPUBLICANISMO EM PORTtIGAL O ESTADO LAICO
gerações [O Tempo regista «duas gerações»], não existirá em Portugal religiio
uma das multas «calúnias e menUras» inventadas para desprestigiar a obra da católica, e o nosso povo caminhará nesse sentido na vanguarda dos países civi-
República. Não pensamos assim em função dos dados que conseguimos re- lizados» TM. Que significa isto?
colher. Aquela frase foi pmferida em «sessão branca» da Maçonaria portu- Que o sector que apoiava a lei de um modo mais militante (como os
gue~, em homenagem ao Governo Provisório por este ter promulgado a lei
membros da Associação do Registo Civil) pensava diferentemente dos repu-
do registo civil obrigatório. E o seu conteúdo é, no geral, confirmado pela
blicanos mais moderados -- que chamaram a atenção para a necessidade de
síntese publicada no jornal O Século e onde se pode ler: para Afonso Costa, a
não se confundir o ataque ao jesuíta com o ataque ao padre -- prova-o, como
futura lei da separação das Igrejas do Estado não seria «contra a religião, mas
vimos, a posição de homens como Guerra Junqueiro, para quem, em 1911,
contra a Igreja. o que é muito diverso. Na sua opinião, depois de passadas três

um jornal. O Tempo. publicou uma «versão fantasiada do discurso», polo que a afirmação (CL M. L. C. da Silva, Dez Meses de Governo do Bispado do Porto, Guimarães. 1912, p. 28;
acerca da eliminação do catolicismo não passa de uma calúnia inventada para denegrir M. Abúndio da Silva, Carta a Um Abade, Braga, 1913, p. 151). No entanto, a realidade dos
a República. Ora. o que conseguimos apurar não dá força a esta argumentação, tornando-a factos exige que se sublinhe, e que não se escamoteie, esta verdade: a asserção de Momo
pouco recomendável para ser seguida por historiadores conscienciosos. Se não, vejamos: Costa acerca da futura eliminação do catolicismo não apareceu primeiramente em jornais
Em primeiro lugar, a «natureza» do Grémio Lusitano em nada impodia o relato jorna- monárquicos ou católicos, mas sim em O Tempo e O Século, periódicos militantemente
Ifsãco do acontecimento, porque se tratou de uma «sessão branca», que contou com a pre- republicanos que, naquela conjuntura, apoiaram a acção do ministro da Justiça.
sença de senhoras e de con~àdados, e que foi previamente publicitada na imprensa (casos Também não colhe a demontração da falsidade da afirmação a partir do desmentido
de O Século e de O Tempo. que não pouparam linhas para a noticiar): «Celebrando o registo que, em 10 de Março de 1914, Afonso Costa fez no parlamento: «Tenho sido acusado de
civil obdgat6rio, Io Grémio Lusitano] prestará esta noite homenagem ao Governo Provi- muitas coisas e, entre elas, a de extinguir o sentimento religioso em duas geraç6es. Esta
s6no... Assistirão os s6cios de tão importante instituição, podendo cada um fazer-se acom- calúnia é de tal natureza que merece o sorriso e o desdém que quase sempre merecem os
lmnhar de duas senhoras de sua famflia, assim como estão convidados a comparecer em tão caluniadores» (Afonso Costa, Discursos Parlamentares, 1914-1926, Lisboa, 1976. p. 46).
solene g'to os senhores ministros da Justiça, do Interior e dos Estrangeiros... Além do Dando de barato que não se trata de um desmentido tão típico na actuação política, tem de
Sr. Dr. Magalhães Lima, usará da palavra a Sra. D. Marta Clara Correia Alves e os Srs. Dr. se estranhar, no entanto, que ele não tenha surgido imediatamente ap6s a saida de tais «ca-
~os~ de Castro. Dr. Avelmo Furtado, Dr. Carneiro de Moura, Dr. Maurfcio Costa, Rosendo lúnias», tanto mais «inventadas» pela imprensa republicana, embora a intervenção de 1914
Carvalheira Constãncio de Oliveira... O acto será abrilhantado por uma orquestra» (O Se- se limite a desmentir, afinal, o que ele não disse, porque, em 191 l, e segundo O S~culo. a
ca/o. XXXi armo. n.° 10 518, 26-1II-1911; O Tempo, IR anno, n.° 11, 26-IR-1911);
lei da separação ida, na sua opinião, contribuir para a eli