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UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAIBA

CENTRO DE CIENCIAS HUMANAS E AGRÁRIAS


DEPARTAMENTO DE LETRAS E HUMANIDADES

Université
Paris 8
Vincennes -
PROGRAMA
Saint- INSTITUCIONAL DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
Denis, UEPB/CNPq
Université
Paris,
França
Laboratoir
e
Dynamique
s Sociales PLANO DE PESQUISA
et
A REPRESENTAÇÃO DO FEMINISMO NO ROMANCE
Recomposi
tion desESTUDO DE OUTROS CANTOS, DE MARIA VALÉRIA
CONTEMPORÂNEO:
Espaces -
REZENDE, E COMO EM UM PALIMPSESTO DE PUTAS, DE ELVIRA VIGNA.
LADYSS

Prof. Dr. José Helber Tavares de Araújo


Universidade Estadual da Paraíba

Plano de Pesquisa submetido à Pró-reitoria


de Pós-Graduação e Pesquisa da UEPB,
Edital 01/2019 para a realização de pesquisa
na modalidade PIBIC.

Catolé do Rocha – Paraíba


Maio, 2019
1. Identificação da Proposta

A presente proposta de pesquisa visa em seu principal objetivo construir uma


rede panorâmica do romance brasileiro atual a partir das questões de gênero,
focado nos lançamentos do ano de 2017. Ela é uma extensão da pesquisa
anterior que realizamos com os romances de 2016. No que se refere a este ano
posterior, percebemos que muitas das representações romanescas que
surgiram em torno da mulher colocaram as questões de gênero como uma
maneira de evidenciar as situações de acirramento social das identidades
humanas, principalmente através de uma mimesis da condição social da mulher.
Perguntamo-nos assim o que estes romances têm a dizer sobre o feminino no
momento em que a discussão de gênero no Brasil se encontram em posições de
conflito. Sabemos hoje que o Brasil atravessa uma profunda crise institucional,
econômica, política e cultural. Seria então o feminismo um dos primeiros
aspectos romanescos a se encontrar a altura destas discussões de crise
prementes da sociedade? A pesquisa tenta buscar encontrar a conexão
existente entre o romance brasileiro e o seu grau de comprometimento com o
tempo hodierno. Isso não significa que estamos preestabelecendo a busca de
um romance engajado em uma causa específica ou uma representação de
sujeitos históricos, mas sim tentaremos encontrar forças de transfiguração
simbólica do real que determinam a configuração estética das obras.
Em 2017 dois romances indicados ao prêmio Jabuti nos chamou atenção:
Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, de Elvira Vigna e Outros
cantos, de Maria Valéria Rezende. Ambas obras tratam diretamente da condição
das mulheres na sociedade. Estes romances, na conjuntura contemporânea
brasileira, parecem surgir de uma necessidade atual de encontrar uma resposta
ao discurso da nova direita, esta a qual vem reavivando uma visão conservadora,
tanto no tocante às questões públicas quanto nas questões privadas da vida dos
sujeitos. A intenção com a pesquisa é perceber quais recursos estéticos e
estratégias narrativas estas obras recorrem para ficcionalizar o aspecto do
feminismo contemporâneo como forma de atualização do romance.
A conclusão de que é preciso entender a questão do feminino na literatura
como um dos caminhos modeladores da situação do romance brasileiro no
tempo presente precisa ser melhor explicada. Tomamos como ponto de partida
da investigação a ideia de que uma parcela do romance contemporâneo está
voltada ao debate do estado de crise do indivíduo presentificado como crise
social atual, isto é, de personagens cujas experiências denunciam uma
incapacidade de projetar um futuro para si. Parece então que sobrou ao
romance, na representação da ação do sujeito neoliberal, expor os espaços
mínimos de reconhecimento e solidariedade sócio-cultural. O desafio atual dos
debates das lutas por identidade, como é posta pelo feminismo, é caminhar entre
a importância da reestruturação da relação sexo-gênero e as modificações de
sistemas sociais, como mais enraizadas no conservadorismo do modelo de
“novo espírito do capitalismo”, o neoliberalismo autoritário. Para esta
perspectiva, revisitar as interpretações do Habermas (2015) da teoria da ação
comunicativa ou os princípios de reconhecimento social e noções de justiça e
liberdade de Axel Honneth (2003; 2015) nos parece uma leitura possível para o
entendimento da ação dos personagens e os percursos da tessitura das intrigas
contemporâneas.
Por outro lado, os romances podem ainda identificar casos de desvios ou
intensificação de normatividades subjetivas. Para esta vertente, é preciso
compreender que a consciência dos sujeitos, elevada a princípio organizador do
personagem ou do narrador romanesco, faz de si mesmo e de seu uso corporal
uma obra existencial. Espera-se que o romance ainda chame atenção para uma
vitalidade das formas de vida. Giorgio Agamben (2017) e Judith Butler (2014;
2015) vão sugerir uma crítica moral do sujeito contemporâneo, incompleto diante
de um mundo social que cada vez mais exige que este sujeito seja opaco,
transparente e realizado.
Vale a pena lembrar mais uma vez que esta pesquisa dá continuidade ao
projeto de iniciação científica executado em 2017/2018, sob o título “O gênero
romanesco e a representação do indivíduo na sociedade neoliberal”, quando
constatou-se a necessidade de ampliar o período de investigação e as obras
literárias. Esta pesquisa mencionada deu conta de algumas questões
importantes do romance brasileiro, mas focado apenas no ano de 2015. Em
seguida, na pesquisa 2018/2019 aprofundamos a questão do feminismo em
quatro romances de destaque do ano de 2017. Esta pesquisa preliminar buscou
responder, de maneira crítica, como a principal produção romanesca do ano de
2016, diferentemente dos romances elencados em 2017, incorporou em seu
arcabouço estético os fundamentos, contradições, valores e problemas que as
mulheres encontram na sociedade orientadas para uma nova visão de mundo –
o neoliberalismo – no contexto brasileiro. Vale a pena buscar perceber no
presente projeto um contraste com o que foi pesquisado anteriormente. Nossa
hipótese é de que diferentemente de 2016, quando os romances sobre a questão
feminina representam imagens da violência contra sua condição feminina, nos
romances de 2017 há uma abertura maior para discussões de empoderamento,
e luta por espaços e papéis sociais, com rico valor literário advindo de ironia para
situações de conflito.

2. Qualificação do principal problema a ser abordado

O principal problema abordado neste projeto diz respeito às principais


tendências do gênero romanesco na literatura contemporânea. Neste aspecto,
esta abordagem não pode ser dissociada do projeto de iniciação científica
anterior, que analisou e mapeou o tema do feminismo em alguns romances do
ano de 2015. Temos agora a oportunidade de avançar para o ano posterior
(2017) e de tentar encontrar eixos de discussões tanto estéticas quanto
temáticas que surgiram no gênero narrativo brasileiro a partir da guinada sócio-
política do país. Esta pesquisa como um todo tem como seu marco inicial o
momento do desencadeamento de mudanças de visão de mundo ocorridas no
Brasil a partir das manifestações de rua de 2013. Nosso entendimento é que este
momento da história do Brasil, como diz o professor Paulo Arantes (2014),
desencadeou um novo tempo do mundo brasileiro, um tempo de crise e
emergência, na qual abriram-se as portas para novos modelos recalcados e
latentes, alguns até aquele momento inexpressivos no debate do mundo da vida,
como o militarismo urbano, outros impulsionados por uma nova razão do mundo,
como o gerenciamento empresarial do cotidiano. O que podemos dizer é que
desde 2013, acompanhamos um processo de avanço do regime neoliberal de
forma mais intensa, avanço de uma visão do mundo de direita que busca lapidar
pautas progressistas, desencadeando uma nova maneira de acirramento no
plano da identidade social, e uma perda do horizonte de expectativas político-
institucional. Esta crise permanente chega aos indivíduos como um permanente
Estado de exceção. A questão que levantamos é: este contexto histórico de
turbulência que divide o país, outrora tomado por conciliado pela Era Lulista,
pode impactar na forma romanesca? Ou seja, neste Brasil de crises, quais os
vínculos sociais o romance contemporâneo aspira participação? Em 2016, três
anos depois das manifestações, o que o romance tem a nos dizer?
Em uma perquirição inicial, pudemos constatar que, em dez romances
selecionados1 como escopo da pesquisa, há duas principais temáticas que
emergem com maior contundência enquanto material estético: a temática de um
Brasil pós-2013, com representações de uma desilusão/revolta com o país, e as
questões feministas como representação de uma luta por reconhecimento social,
cultural e político. Parece-nos assim que já é possível fazer um pequeno esboço
histórico para a aprofundar categorias romanescas. Diante disso, é preciso
destacar que este projeto irá se debruçar sobre apenas um destes dois
importantes aspectos2, a saber, a questão dos problemas de gênero.
A questão do gênero nos últimos anos se transformou em uma pauta não
apenas da militância feminista por direitos de assumir posições ocupadas por
homens. Pensar assim seria um reducionismo simplista, pois o feminismo
adentra em todo um conjunto de relações sociais que diz respeito à identidade
(com o direito de performatividades heterogêneas), à economia (lutar por
igualdade de direitos do trabalho e contra o assédio), à história (revisão
historiográfica da participação política da mulher e restauração da lutar por direito
de fala), aos costumes (direito de expressar o próprio corpo e divisão do trabalho
doméstico). E, sem dúvidas, o feminismo passou a contribuir para uma complexa
discussão sobre a filosofia moral. A luta das mulheres é contra um patriarcado
que se expressa como a verdadeira “ideologia de gênero” (TIBURI,2018), ou
seja, coloca em questão todos os problemas de alteridade da sociedade e
intersecciona outros posicionamentos com outras lutas.
Se tomarmos os debates de Honneth (2003) como eixo de interpretação dos
conflitos sociais e das discussões morais encontrados na condição social da
mulher, podemos dizer que a empreitada feminista perpassa as relações
amorosas, de família e de amizades; perpassa também as relações com o
direito, respeito social e reconhecimento de participação política; e, por fim,

1
Ver metodologia
2
O tema do Brasil contemporâneo será objeto de estudo de outro projeto de iniciação científica,
também submetido ao presente edital.
perpassa a busca de uma condição de legitimidade social na hora de decidir atos
dentro de um quadro de orientações diferentes, isto é, adquirir
“autocompreensão cultural de uma sociedade” (HONNETH, 2003, p.200). Com
estes campos de atuação, a questão do feminismo se intensificou no debate
público, em que há uma participação ativa tanto dos movimentos feministas e
suas pautas como também de grupos de direita contrainsurgentes. Os interesses
destes dois grupos tornam questão de gênero um espaço de disputa discursiva
e, portanto, de implicações políticas. É neste sentido que representação política,
diferença, dominação e opressão, relações de poder, justiça, direito ao corpo,
questões familiares e luta por reconhecimento encontram no feminismo novas
possibilidades de racionalidades morais e é o que buscaremos perceber quais
destes aspectos aparece nas formulações estéticas do romance.
De acordo com Sheyla Benhabib, há duas premissas que fundamentam a
teoria feminista:

Primeiro, para a teoria feminista, o sistema sexo-gênero não é um


modo contingente, mas um modo essencial no qual a sociedade
está organizada, simbolicamente dividida e experiencialmente
vivida. (...) Segundo, os sistemas sexo-gênero historicamente
conhecidos contribuíram para a opressão e a exploração das
mulheres. A tarefa da teoria crítica feminista é revelar este fato, e
desenvolver uma teoria que seja emancipatória e reflexiva e que
possa ajudar as mulheres em sua luta para superar a opressão e
a exploração. (BENHABIB, 1992, pg. 9-10)

Para pensar o feminismo, Benhabib aponta que é preciso de diagnósticos


mais precisos sobre a condição da mulher, que foi historicamente enjeitada da
esfera da participação política e social por um dispositivo de poder instalado no
centro do poder patriarcal. Este mecanismo de estruturar a sociedade é a
dicotomia abstrata de difícil delimitação: público e privado. O corte
público/privado deixa a mulher reclusa no segundo espaço social, e o homem
com o domínio de estabelecer onde há o ponto da fronteira. Sendo assim, o que
Benhabib nos sugere é que a busca por uma emancipação feminina acaba tendo
dois campos de embate com o patriarcado, além da luta por indistinção de
ambos. Em um, é o espaço privado em que ela foi sujeitada à uma condição
naturalizada de mãe cuidadora do lar, onde é necessária uma nova ordem de
valores e costumes que não se fazem de forma individual. Outro, no espaço onde
sua identidade é construída por uma negação de participação – no espaço
público – em que é necessário haver uma consciência de coletividade e luta
concreta do indivíduo. O feminismo assim parece contribuir para um horizonte
de discussão que tem, enfim, como consequência social, uma possível
consciência do dever político de reconciliação entre público e privado, equidade
e reciprocidade complementar, condição ontológica da relação sexo-gênero e
condição ética do mesmo. Ou seja, uma reestruturação moral da sociedade pelo
feminismo pode desencadear uma série de reviravoltas em todos os problemas
da vida.
Da importância das contribuições do feminismo na sociedade
contemporânea, chegamos assim a uma fundamentação da nossa questão
principal: ao entendimento que a luta feminista é uma realidade social que se
encontra em vários âmbitos da vida. Se é assim, o que a literatura e a crítica
literária feminista tem a ver com este contexto atual, em que o Brasil passa por
uma série de retrocessos nos debates políticos devido a nova ascensão da elite
do atraso? Dirá Lúcia Osana Zolin sobre a questão da mulher na literatura: “a
intenção é promover a visibilidade da mulher como produtora de um discurso
que se quer novo, um discurso dissonante em relação àquele arraigado
milenarmente na consciência e no inconsciente coletivos, inserindo-se n
historiografia literária” (2009,p. 254).
Ao recuperar os romances em análise, os temas do feminino aparecem
sob os mais diversos aspectos, tanto no âmbito daquilo que a sociedade cindiu
como público e privado, quanto pela indissociação dos mesmos espaços. Ou
seja, os romances femininos publicados em 2017 chamam atenção para
aspectos desta sociedade brasileira, mesmo quando se escolhe um passado
longínquo a ser narrado. É o que acontece com Outros Cantos, de Maria Valéria
Rezende, (2017), em que a protagonista é uma professora alfabetizadora que
tem que lidar com problemas do patriarcado interiorano da Paraíba, nos anos de
ditadura. O discurso presente nesta literatura é forte suficiente para recolocar
questões importantes do papel social da mulher do passado para o presente. Na
outra ponta do mesmo romance, percebemos que as relações privadas
conservadoras se fazem presentes do cotidiano sertanejo, principalmente no que
se refere às relações amorosas, cheia de tradições patriarcais que a personagem
Maria testemunha. Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, de
Elvira Vigna (2017) é marcada por duas questões interessantes: uma narradora
e a busca desta em construir a história de um casal, João e Lola, a partir das
informações cedidas pelo homem. A relação deste casal chama atenção pelo
fato de que se apresentam socialmente com muito respeito, mas que o marido,
em sua intimidade, naturaliza os processos de traição e prostituição. O tema
possui inúmeras variantes do fato. Não como múltiplas visões, mas múltiplas
reações sobre a questão. Temos aqui uma narradora que consegue ridicularizar
as gabações de João, e o que parece ser para ela uma condição de status, na
perspectiva feminina beira ao ridículo, sendo assim o romance construído
através de uma desconstrução do discurso machista primário.
O intuito desta pesquisa é desenvolver uma interpretação crítica no
âmbito estético destes dois romances, pois acreditamos que seus elementos
sociais feministas apontam para uma luta contra o falogocentrismo atual, e que
estas obras estão em consonância com o contexto de lutas por reconhecimento
e identidade travadas no Brasil, desdemocratizado e exposto a um novo
conservadorismo.

3. Objetivos e metas a serem alcançados

3.1. Objetivos

 Verificar quais são as relações hoje existentes entre o gênero


romanesco através de dois romances produzidos no ano de 2017
(Outros Cantos e Como se estivéssemos em um palimpsesto de
putas), no âmbito do tema do feminismo, com a representação dos
valores sociais no atual contexto da sociedade brasileira;

 Analisar e interpretar estes romances que são marcados pela


temática de um problema da condição social da mulher, mas que
se faz sentir de maneira individual; também marcados por conflitos
contemporâneos mimetizados no plano humano através da
memorialística da perda, como um passado latente que busca
redenção no presente.

 Caracterizar uma constância histórica e estilística a partir da


categoria analítica utilizada aqui – “a luta do feminino no público e
no privado” – como maneira de compreender uma tendência
contemporânea do romance brasileiro, contrastando romances de
2016 com os romances de 2017.
3.2. Metas

 Publicação de um artigo em periódico Qualis com os resultados da


pesquisa;
 Elaboração orientada de um projeto direcionado ao Trabalho de
Conclusão de Curso do bolsista;
 Apresentação de dois trabalhos em eventos científicos;
 Publicação de um trabalho completo em anais de eventos
científicos;

4. Metodologia a ser empregada

Sobre a metodologia, o primeiro passo a ser pensado diz respeito à


seleção, leitura e releitura das obras, que são basicamente alguns dos principais
romances publicados no ano de 2016. Para este levantamento, há de se recorrer
ao principal prêmio de literatura brasileira: o Prêmio Jabuti, na categoria
romance. Para cada ano de premiação, a organização do Jabuti elege dez
finalistas em cada categoria. Utilizaremos estes romances com uma amostra
inicial, averiguando quais as possíveis narrativas dão ressonância ao universo
interpretativo do nosso enfoque, para, em seguida, aprofundá-los. Segue abaixo
os romances selecionados pelo Jabuti em 20173:

Romances indicados ao Prêmio Jabuti 2016


 "A tradutora" (Record), de Cristovão Tezza

 "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas" (Companhia das Letras), de


Elvira Vigna

 "Descobri que estava morto" (Tusquets), de J. P. Cuenca

 "Machado" (Companhia das Letras), de Silviano Santiago

 "O Marechal de costas" (Companhia das Letras), de José Luiz Passos

 "O tribunal da quinta-feira" (Companhia das Letras), de Michel Laub

3
Como o marco histórico adotado é as jornadas de meados de 2013, opta-se por iniciar
as pesquisas pelos romances de 2014, romances concluídos pós-manifestações.
 "Outros cantos" (Companhia das Letras), de Maria Valéria Rezende

 "Simpatia pelo demônio" (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho

 "Soy loco por ti America" (Companhia das Letras), de Javier Arancibia Contreras

 "Tristorosa" ( @linkeditora), de Eugen Weiss


Listas extraídas do site: www.premiojabuti.com.br

Vale ressaltar que, com um levantamento prévio, identificamos que os


romances Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende; e Como em um
palimpsesto de putas, de Elvira Vigna, têm como aspecto de suma importância
narrativa posicionamentos e valores feministas. Por que este fenômeno aparece
tão enfaticamente nesses romances? Como os problemas de gênero têm sido
tratados no âmbito estético, quando o contexto histórico se faz desfavorável a
isso? Que configuração e perspectiva são elaboradas em torno do problema de
gênero?
O passo seguinte será um levantamento das principais referências críticas
e teóricas que possam esclarecer o percurso da análise e interpretação das
obras. Opta-se também por uma leitura concomitante a leitura da seleção dos
romances: o aprofundamento nas categorias teóricas. O objetivo desta pesquisa
exige uma apreensão mais rigorosa da condição em que os personagens e os
narradores abordam o feminismo. Como esta pesquisa é um estudo temático, é
fundamental conhecer bem a teoria de gêneros. Pensamos em nomes
importantes do atual feminismo brasileiro e mundial. No âmbito nacional, Márcia
Tiburi, com o livro Feminismo em comum (2018), oferece uma excelente
introdução ao debate, além dos escritos de Flávia Biroli (2014) e Maria Rita Khel
(2016). No tocante as discussões sobre o feminismo produzidos por autoras de
outros países, iremos aprofundar as ideias de Judith Butler (2014), com o
clássico Problemas de Gênero, Angela Davis (2016), com Mulheres, Raça e
Classe e uma série de ensaios de Sheyla Benhabib (1992), entre eles
Autonomia, feminismo e pós-modernidade.
Além disso, a verificação do que seria a marca de um tempo histórico,
econômico ou político como elemento estruturante das obras exige do
pesquisador atenção quanto ao acuro conceitual. Ora, salienta-se aqui que o
sujeito neoliberal que busca-se apreender e compreender é uma racionalidade
disciplinar e instrumental que estará ficcionalizado, e justamente por isso, um
construto literário que eleva-se à categoria estética como aprofundamento denso
e tenso do mundo. Como aponta Peter Bürger (2008), cuja obra também é
referência importante para esta pesquisa, “na ciência da literatura, é importante
saber se as categorias possuem uma natureza que permita investigar a conexão
entre as objetivações literárias e as relações sociais”. Neste sentido, são autores
basilares Rancière (2005), Galard (2012), Didi-Huberman (2010), Honneth
(2008), Butler (2015), Bourriaud (2011), Habermas (2015), Arantes (1992; 2014),
Safatle (2015) e Zizek (2016).
Com o uso desta diversificada fundamentação teórica para o
desenvolvimento desta pesquisa, resta a escrita das interpretações, onde os
recortes, as escolhas, as atenções e interpretações de uma crítica literária
aparecem. Este processo será acompanhado devidamente de orientações e
rescritas. É desta ação que se verificará – ou não – a existência da relação entre
atualidade histórica e atualidade romanesca. Em cada obra, separadamente
num primeiro momento, e em estudo comparado, num segundo momento, a fim
de perceber a existência de similaridades na técnica adotada pelos autores com
os motivos estéticos, filosóficos e sociais em diálogo.

5. Principais contribuições e impactos a serem esperados na proposta

5.1. Científico
 Produzir conhecimento sobre as relações entre História e Literatura
a partir da articulação dos referenciais teóricos e metodológicos
propostos em consonância com os focos investigativos que
caracterizam o projeto;

 Divulgar e legitimar resultados das pesquisas em fóruns de eventos


nacionais e internacionais das áreas envolvidas, assim como em
periódicos especializados;

 Incrementar o intercâmbio entre os pesquisadores participantes,


amplificando as potencialidades de articulação de pesquisas e
desenvolvimentos de estudos conjuntos sobre objetos
contemplados nas áreas da presente proposta;

 Complementar a formação de alunos graduandos envolvidos no


desenvolvimento do projeto, no âmbito conjugado da pesquisa.

5.2. Tecnológico
 O principal desafio tecnológico desta pesquisa é demonstrar a
importância e a fertilidade da prosa contemporânea. O quanto os
romances ainda podem contribuir através do impacto cultural que
oferece. É também uma contribuição direta a área da História da
literatura. Esta, muitas vezes, está voltada ao passado, e discutir
os eventos imediatos da cultura é preencher uma lacuna muitas
vezes esquecida pela crítica. Através desta investigação
pretendemos mostrar a potência da prosa, dos projetos dos
escritores, e a relação estética entre esses.

 Outra lacuna que a nossa investigação pretende preencher é a


divulgação de uma constância estética em um dos principais
eventos de literatura brasileira: o Prêmio Jabuti, de onde
extrairemos nosso corpus de análise. Utilizaremos como métodos
para superar os desafios desta investigação uma pesquisa
profunda na prosa dos escritores finalistas deste evento,
contribuindo assim, em outro plano, para um panorama crítico.

5.3. Social
 A discussão sobre neoliberalismo, sobre a questão do indivíduo e
sobre a democracia em tempos de capitalismo passa perpassa
inevitavelmente pela condição política dos direitos humanos e
sociais. Estudar através da liberdade e autonomia da literatura o
ethos da cidadania atual é buscar refundar o caráter humano
através de uma crítica do status quo em direção a uma
emancipação do gênero humano.
6. Cronograma de atividades da pesquisa

Atividade Ago-Set- Nov- Fev-Mar- Mai-Jun-


Out/2019 Dez/2017 Abr 2020 Jul 2020
Jan 2019
Leituras, discussões e
sistematização de obras
literárias que comporão
o corpus de análise
Levantamento e
fichamento das linhas
sobre as teorias do
feminismo
contemporâneo
Estudo e
aprofundamento das
principais e atuais
teorias da arte moderna
Elaboração de textos
acadêmicos de crítica
literária sobre o corpus,
com comentários,
análises e interpretações
Apresentação dos
resultados da pesquisa
em eventos científicos
Redação de Relatório da
Pesquisa - Agosto 2019
a Julho 2020.
7. Referências Bibliográficas

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São Paulo: HUCITEC, 2010.

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ZIZEK, Slavoj. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São


Paulo: Boitempo, 2016.
Plano de Trabalho - Bolsista de Iniciação Científica
Título: A REPRESENTAÇÃO DO FEMINISMO NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO:
ESTUDO DE OUTROS CANTOS, DE MARIA VALÉRIA REZENDE, E COMO EM UM
PALIMPSESTO DE PUTAS, DE ELVIRA VIGNA.

A pesquisa intitulada “A representação do feminismo no romance


contemporâneo” busca inserir o bolsista de iniciação científica no ato de
pesquisa acadêmica a fim de estimular a produção e análise científica desde a
graduação. Desta forma, estimula-se ao bolsista participar efetivamente de todas
as etapas de uma pesquisa, desde as discussões teóricas, ao levantamento
documental e empírico, até a elaboração de textos e artigos científicos. Acredita-
se assim que o mesmo deve se inserir em todas as etapas que compõe uma
pesquisa científica.
O principal objetivo da pesquisa de iniciação científica é: analisar as
implicações da nova racionalidade de pensar o feminino no gênero romanesco
no que diz respeito à conformação dos sujeitos; da expansão da estética
narrativa; e da relevância de historicizar a literatura contemporânea. Desta
forma, caberá ao bolsista de iniciação científica, além de seguir as
determinações do cronograma da pesquisa:
 Participar das reuniões quinzenais com o orientador, as quais tem o
objetivo de ler e discutir as obras e referências bibliográficas que tratem
teoricamente da temática específica da pesquisa. A participação nestas
reuniões é de fundamental importância, visto que levará o bolsista a
aproximar-se teoricamente do objeto de estudo e compreender melhor a
pesquisa. Isso irá lhe fomentar a construção de textos a ser apresentados
e/ou publicados em anais de eventos ou periódicos.
 Participar efetivamente, com orientação adequada, da pesquisa
bibliográfica dos romances que compõe a análise. Qual seja, coleta os
dez romances finalistas do Jabuti de 2017, elaborar fichamentos de suas
características e indicar quais romances podem contribuir para o escopo
da pesquisa. Com esta coleta, o bolsista poderá iniciar a elaboração de
um panorama literário do ano de 2017.
 Elaboração de artigos para apresentação dos resultados da pesquisa em
eventos científicos / Elaboração do relatório da pesquisa.