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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

XXI Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Salto - SP – 17 a 19/06/2016

“Um Anel Para a Todos Trazer e na Escuridão Aprisioná-Los”: O


Anel de Tolkien à Luz do Testamento de Salomão1

Ana Karollyne Leal de AGUIAR2


Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), Engenheiro Coelho, SP

RESUMO:

A trilogia do anel é famosa por muitas razões. Uma delas é a quantidade de relações com outros
textos cristãos e extra cristãos. Contudo, ainda não foi construída uma relação aprofundada
entre O Senhor dos Anéis e o Testamento de Salomão, texto pseudepígrafo que retrata uma
antiga lenda judaica. Tendo isto em vista, desenvolveu-se uma pesquisa a fim de identificar
como o anel no Testamento de Salomão pode elucidar possíveis significados na obra fílmica O
Senhor dos Anéis. Para alcançar os objetivos propostos, foram usados o método comparativo e
revisão bibliográfica. Ao assistir à trilogia, é possível identificar como as falhas de alguns
personagens os deixam vulneráveis à possessão demoníaca por meio do poder de um anel. Por
sua vez, uma leitura atenta do Testamento de Salomão demonstrará que os demônios ali
retratados podem aclarar tal entendimento, visto que uma das interpretações do documento
judaico é a Terapia-narrativa, uma forma de psicoterapia que busca, como forma de tratamento,
que seus pacientes se identifiquem com certas histórias. Este estudo se faz relevante dentro da
área de comunicação ao discutirmos a intertextualidade contida dentro de uma obra
transmidiática.

PALAVRAS-CHAVE: O Testamento de Salomão; O Senhor dos Anéis; Fragilidade humana;


Análise fílmica.

O Senhor dos anéis é uma trilogia originada de uma saga de. J. R. R. Tolkien. O autor
dos livros era cristão e comunicava, mesmo que sem intenção, a sua cosmovisão. E, por essa
razão, segundo Lawhead (2005, p. 180) bem expressou, é possível identificar em seus livros e
filmes nele baseados várias analogias bíblicas. Da mesma forma, há quem aponte a
possibilidade de pontes de contato com narrativas extra bíblicas como, por exemplo, o mito de
Platão: O Anel de Giges, onde um pastor de ovelhas encontra um anel que o deixa invisível
(Platão, A República; ver GUINSBURG, 1995, p. 110,111). Outra dessas possíveis relações diz

1Trabalho apresentado no IJ 06 – Interfaces Comunicacionais do XXI Congresso de Ciências da Comunicação na Região


Sudeste realizado de 17 a 19 de junho de 2016.
2
Graduanda do terceiro ano de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda no Centro
Universitário Adventista de São Paulo-UNASP.
³2 Orientador: Felipe Carmo. Mestrando em Língua e Literatura Judaica pela Universidade de São Paulo,
especialista em Teologia Bíblica (2013) e graduado em Teologia (2012 pelo Centro Universitário Adventista de
São Paulo (Unasp-EC). É professor de ensino religioso do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp-
EC).
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respeito ao Testamento de Salomão, um manuscrito pseudepígrafo muito antigo, que conta a


história de um anel mágico que prende demônios – contra a vontade destes –, os quais ajudaram
Salomão a construir o templo (NASCIMENTO, 2008 p. 2, 3).
O nosso objeto de estudo, a trilogia de filmes O Senhor dos Anéis, é bastante conhecida,
entre outras coisas, pela possibilidade de ser comparada a muitas outras narrativas. Apesar
disso, não há nenhum trabalho que aprofunde sua relação com o Testamento de Salomão (ver
RIBEIRO, 2005, p. 8), razão pela qual se justifica esta pesquisa. A problemática levantada por
este artigo é concernente à seguinte questão: Como o anel na narrativa do Testamento de
Salomão pode lançar luz sobre a interpretação do anel na trilogia de filmes O Senhor dos Anéis?
Com base em comentários especializados sobre o assunto, pretende--se encontrar possíveis
relações do anel do Testamento de Salomão com o anel do Senhor dos Anéis, a fim de buscar
uma melhor compreensão de determinados conceitos relacionados ao anel, no filme. Este estudo
se faz relevante dentro da área de comunicação ao discutirmos a intertextualidade contida
dentro de uma obra transmidiática.

O TESTAMENTO DE SALOMÃO
O Testamento de Salomão é um documento pseudepígrafo, ou seja, sua autoria é incerta.
Sobre isso, existem apenas especulações por meio de análises do documento, há possibilidades
de que o autor tenha origem judaica com referências cristãs claras, as quais indicam que
possivelmente o autor fosse cristão (DULING, 1992, p. 117-119). O idioma de origem é
questionável. Porém, a quase ausência de semitismo no texto pode ser um indício de que foi
escrito originalmente em grego koinē. Sobre sua data de criação, há também várias teorias.
Como sugere Duling (1992, p. 117-119), a literatura antiga do texto sugere que tenha sido
escrito por volta do início do terceiro século. Porém, o mesmo autor fala da probabilidade de
conter fontes provenientes do primeiro século E.C.

A data mais tardia possível é fixada por uma referência ao Testamento de


Salomão 26:5, no Diálogo de Timóteo e Áquila, um documento que F. C.
Conyebeare datou como sendo de cerca de 400 d.C. [...], essa data é de certa
forma reforçada pela descoberta de fragmentos do papiro de Viena do
Testamento de Salomão 18 (DULING, 1992, p. 117-119, tradução livre).3

3
The latest possible date is fixed by a reference to T. Sol. 26:5 in the Dialogue of Timothy and Aquila, a document
F. C. Conybeare once dated about 400 C.E. (1898:14; McCown 1922a: 15); this date is somewhat reinforced by
the discovery of the 5th–6th century Vienna papyrus fragment of Testament of Solomon 18.
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A proveniência do testamento também não é certa. Não é impossível que tenha vindo
da Ásia Menor ou da Babilônia. No tempo em que supostamente o documento foi escrito, os
corpos celestes eram tomados em alta conta, o que pode apontar para uma origem egípcia, uma
vez que esta nação dava muita importância ao estudo dos astros (DULING, 1992, p. 117-119).
A Síria-Palestina também é uma alternativa provável, tendo em vista que o local é sustentado
pela própria lenda de Salomão ter vindo de lá (DULING, 1992, p. 117-119).
O Testamento de Salomão é uma lenda judaica que fala sobre como Deus deu para
Salomão um anel que prendia demônios, para que este (o anel) o ajudasse na construção do
templo.4 Tudo começa quando o filho de um mestre de obras vem emagrecendo
demasiadamente e o rei Salomão o chama para perguntar o que está acontecendo, já que o
próprio rei pagava para o menino o dobro do salário que pagava para os demais arquitetos da
construção. O garoto revela então sua agonia diária: todos os dias após os trabalhadores serem
dispensados do trabalho, ao estar descansando, vinha um demônio chamado Ornias e chupava
o polegar da mão direita do menino, por isso seu corpo emagrecia e sua alma perecia. Após este
relato, Salomão faz uma longa prece a Deus e pede que o demônio que estava perturbando o
garoto se entregasse a ele, e que ele (o rei) tivesse autoridade sobre o demônio. Então, logo após
a oração terminar, o Arcanjo Miguel desceu do céu com um anel mágico e cheio de poder que
era capaz de pressionar todos os demônios, e construir o templo com a ajuda deles.
Cada demônio tinha sua função na terra. O primeiro demônio a ser aprisionado era
chamado de Ornias, e era designado para tocar os corpos de garotos afeminados e causar-lhes
dor. Logo em seguida, menciona-se um demônio feminino cujo nome é Onoskelis. Seu poder
era estrangular os homens e pervertê-los de sua verdadeira natureza. Na sequência, foi
apresentado a Salomão um dos piores demônios, Asmodeus, o qual espalhava a maldade pelo
mundo, além de implantar discórdias entre os casados. Depois disto, o texto apresenta um
interrogatório feito a Belzebu, o príncipe dos demônios. Ele era o responsável por trazer
destruição à terra por meio dos bárbaros, e por despertar desejos impuros em homens santos e
do sacerdócio, além de instigar ciúmes e assassinatos e fomentar as guerras.
Na sequência, o demônio Lix Tetrax foi questionado por suas ações. Ele era responsável
por trazer a escuridão sobre os homens e fazer com que estes ateassem fogo em suas próprias
terras, de modo que os tornassem miseráveis. Salomão, então, sonda sete demônios femininos,
que eram os sete corpos celestes do mundo das trevas. E cada um, por sua vez, apresentou-se

4
Toda a descrição a respeito do conteúdo contido no Testamento de Salomão que se segue fora obtida da tradução
em português oferecida por Nascimento (2008, p. 2-10).
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dizendo quem era e o que causava. O primeiro era a Decepção, que afiava e excitava as heresias.
O segundo era a Briga, que gerava intrigas e contendas. O terceiro era a Batalha, que fazia com
que o bem comportado caísse em falhas com alguém. O quarto era o Ciúme, que separava os
pais dos filhos, o marido de sua mulher, o irmão da irmã, bem como separava a todos que se
amassem. Então, o quinto revelou seu nome: Poder. Este levantava os tiranos e fornecia energia
aos rebeldes. O penúltimo se pronunciou e também falou seu nome: Erro. Ele incitava todos a
cometerem erros como matar o próprio irmão. Por fim, o último expôs seu nome: Pior. Era o
pior de todos; fazia com que o pior dos homens aparecesse. Depois deste grupo, veio um
demônio cujo nome era Murder (Assassinato), o qual implantava o desejo de sangue e morte,
bem como infligia feridas e mutilações nos homens. Depois destes, alguns outros demônios
vieram à presença do rei e apresentaram seus trabalhos.
Embora muito extenso, ao que aparece, não são conferidos muitos significados a esse
documento. Pode-se aludir a duas interpretações úteis para cumprir o objetivo deste trabalho: a
do Testamento de Salomão que apresenta 1) “Salomão como um exorcista”; e a outra que fala
sobre o testamento como uma espécie de 2) “terapia narrativa”. Sobre a primeira interpretação,
Busch (2012, p. 183) menciona que no antigo sistema religioso-cristão, os demônios eram um
tema bastante delicado. No entanto, os cristãos que o estudavam estavam a par de que os
demônios eram um tópico comum dentro das discussões filosóficas, sem contar que as seções
do Novo Testamento que eram lidas durante o culto divino das sinagogas estavam cheias de
cenas de exorcismo. O autor afirma que exorcismos faziam parte do sistema religioso dos
primeiros leitores do Testamento de Salomão. Schiavo (2008, p. 35), de forma semelhante,
sugere que o testamento é “um verdadeiro manual de demonologia, provavelmente usado por
exorcistas da época”. Nas palavras de Bush,

Ao lidar com o Testamento de Salomão (T.Sal.), o armário de veneno de


tradições de Salomão está escancarado. O que pode se esperar é o declínio aos
poderes mais obscuros de nossos abismos judaico-cristãos, o encontro com
demônios (masculinos ou femininos), medo, tortura e por último, exorcismos.
Repetidas vezes. (BUSCH, 2012, p. 183, grifo nosso, tradução livre). 5

A segunda interpretação diz respeito às falhas humanas, e o texto como uma espécie de
“terapia narrativa”. Como indica Jolley (2000, p. 1240), talvez o texto tenha sido feito como
uma espécie de psicoterapia que entente que as pessoas são as maiores especialistas sobre suas

5
When dealing with the testament of Solomon (T.Sol.), the poison cabinet of Solomon traditions is wide open.
What You can expect, is the descent to the darkest powers of our Jewish-Christian abyssos, the encounter with
demons-male or female-, fear, torture and, at last, exorcisms over and over again.
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próprias vidas, e por isso ter a visão de histórias para que elas se identifiquem com os males
descritos nela. Assim, os problemas humanos, tais como doenças, morte e a fragilidade de modo
geral, estaria no texto a fim de serem melhor compreendidos, ou compreendidos
terapeuticamente.

E também em concordância com a antiga tradição de textos Salomônicos


(Provérbios, Cantares, Eclesiastes, Sabedoria de Salomão, Odes de Salomão,
Salmos de Salomão). Este texto pode testificar mais contra o indivíduo que
como Salomão, coloca seus prazeres físicos e desejos acima de Deus. Aquele
que colocar Deus em primeiro lugar, encontrará “graça para sempre”
(JOLLEY, 2000, p. 1240, tradução livre).6

Em outras palavras, seguindo a segunda interpretação, os demônios apresentados no


Testamento de Salomão poderiam ser interpretados como erros e fragilidades humanas e, por
isso a terapia-narrativa, já que esperava-se do leitor o contato com tais fragilidades, mesmo que
em uma narrativa, a fim de que se identifiquem com o conteúdo lido.

A TRILOGIA DO ANEL
O Senhor dos Anéis é uma trilogia composta pelos filmes: A Sociedade do Anel (2001),
As Duas Torres (2002) e O Retorno do Rei (2003). Dirigida por Peter Jackson e baseada nos
livros de J.R.R Tolkien. A história começa com a festa de aniversário do hobbit7 Bilbo Bolseiro.
Na festa, ele decide que chegou a hora de mais uma aventura e some da sua própria festa com
a ajuda do um anel que o permitia ficar invisível. No entanto, este anel pertencia originalmente
a Sauron, o senhor das trevas, e fora criado para promover a destruição.

Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu, sete para os Senhores-Anões em
seus rochosos corredores, nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono,
um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono na Terra de Mordor onde
as Sombras se deitam (TOLKIEN, 2001, p. 52, grifo nosso).

Desta vez, ao usar o anel, Bilbo Bolseiro foi afetado. Quando Gandalf, um poderoso
mago, lhe pediu para que, ao partir, deixasse o anel para trás, o hobbit se manifestou
contrariamente, sua face foi tomada por feições estranhas e ele começou a repetir a frase: “Meu
precioso.” Gandalf o tirou de seu devaneio e ele voltou ao normal. O problema é que o anel

6
Also, in keeping with the long tradition of Solomonic texts (Proverbs, Song of Songs, Ecclesiastes, Wisdom of
Solomon, Odes of Solomon, Psalms of Solomon), this text may testify more against the individual who, like
Solomon, puts physical pleasures and desires before God. Whoever places God first will find “grace forever”
7
Povo discreto, muito antigo que amam a paz e a tranquilidade. Eles têm em média entre 60cm e 1m e 20cm. E
têm pés grandes e peludos.
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“sempre cumpria o propósito para o qual fora criado”: causava danos por onde passasse,
ninguém era imune ao seu poder. Frodo Bolseiro, sobrinho de Bilbo, recebe então a tarefa de
levar o anel até um vulcão, que ficava terras de Mordor, para ser destruído. Durante a jornada,
surge a “sociedade do anel”, formada por um elfo8, um anão9, quatro hobbits e dois homens
mortais. Apesar de afetar a todos, o anel atraía especialmente os homens mortais, por estes
serem mais gananciosos e almejarem mais o poder. Durante o caminho, Frodo e Samwise
conhecem Gollum, uma estranha criatura que ambiciona o anel, e por isso se oferece para guiar
os dois hobbits até o destino final.

Figura 1 – Bilbo Bolseiro possesso pelo anel no primeiro filme da trilogia, A Sociedade do
Anel (2001).

Figura 2 – Imagem retirada do filme A Sociedade do Anel (2002)

8
São uma raça da Terra-média, com a mesma estatura dos homens mortais, porém os elfos são criaturas imortais.
Alguns têm poderes.
9
Também uma das raças da Terra-média, maiores que os hobbits e menores que os homens. São criaturas leais e
mal-humoradas.
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Figura 3 – O Um Anel, da trilogia fílmica O Senhor dos Anéis (2001, 2002, 2003).

Desde o início do primeiro filme, é de fácil percepção a centralização do anel no enredo


da trilogia. Desde a primeira possessão pelo anel de poder, passando pela formação da
sociedade do anel, pela maldade de Gollum em função do anel, pela fraqueza em relação ao
anel de alguns personagens da trama, tendo Sméagol (Gollum) como principal personificação
de vício pelo objeto, mas também se tem o Frodo, protagonista da trilogia. Saruman, um
poderoso mago que devido à grande cobiça pelo poder, acaba sendo totalmente corrompido
pelo anel e virou uma marionete nas mãos do Sauron. Boromir, o primeiro da sociedade a
sucumbir ao poder do anel. Faramir, irmão de Boromir, também demonstrou uma fraqueza,
ainda que momentânea, diante do objeto de poder. Samwiser, ainda que tenha sido forte em
toda a trama, no curto momento que teve contado direto com o anel, relutou em devolvê-lo para
Frodo.
A maldade de Gollum é desvendada aos poucos ao longo dos filmes. Nas palavras de
Seland (1999, p. 122), “Déagol o achou [o anel] enquanto estava pescando. Vendo a beleza dele
[do anel], e com ciúmes por não ter o anel para ele mesmo, Sméagol [Déagol] o estrangulou e
o pegou para si”. Esta é a primeira vez que Sméagol tem contato com o anel, expondo pela
primeira vez fraquezas humanas, como o ciúme, que o leva a cometer homicídio. Um pouco
mais a frente, John Seland volta a comentar sobre o mal presente em Gollum:

Gollum compartilha um traço físico que todos hobbits têm: Eles amam comer,
que, por sua vez, está relacionada a uma fraqueza de espírito: sua ganância.
[...] Em seguida vemos Gollum falando com ele mesmo, um hábito que mostra
sua tendência de centralizar toda a vida nele mesmo. [...] Gollum se
transforma em um tipo de deus, ou mais corretamente, em um demônio
(SELAND, 1999, p. 123).
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Assim, Gollum demonstra durante a trama, muitas fraquezas de espírito que, segundo
Seland, podem ser metaforicamente encaradas como “um demônio”, transformando o próprio
personagem em um deles. Em um sentido muito semelhante, em uma das cartas de Tolkien,
pode-se ver com clareza como as fraquezas de Sméagol o induziram a ser dominado pelo anel:

A dominação do Anel era grande demais para a alma mesquinha de Sméagol.


Mas ele jamais teria de suportá-la se não tivesse se tornado um tipo de ladrão
desprezível antes do artefato cruzar seu caminho. Precisava ter cruzado o
caminho dele? Qualquer coisa perigosa precisa cruzar alguma vez algum dos
nossos caminhos? Uma espécie de resposta poderia ser encontrada ao se tentar
imaginar Gollum superando a tentação. A história teria sido bem diferente!
Por temporizar, não estabelecendo a ainda não totalmente corrompida
vontade de Sméagol em direção ao bem no debate no buraco de escória, ele
enfraqueceu a si próprio para a última chance quando o emergente amor por
Frodo feneceu muito facilmente pelo ciúme de Sam diante da toca de Laracna.
Depois disso ele estava perdido (CARPENTER; TOLKIEN, 2006, p. 391,
392, grifo nosso).

Em outras palavras, a ganância e a inveja levaram Sméagol a se tornar um assassino


frio. No entanto, se não fossem os seus erros passados, ele não teria que suportar o peso do
objeto de poder. E como se não bastasse, centenas de anos depois do ocorrido, Sméagol ainda
tem alguma bondade em si. Porém, suas fraquezas o traem mais uma vez: o ciúme que sentia
por Sam o levara à perdição, não deixando nele um traço de bondade sequer. Tolkien deixa
claro neste trecho que quanto mais fraquezas, mais fácil ser “possuído” pelo anel.

Figura 3- Sméagol ou Gollum, personagem da trilogia fílmica O Senhor dos Anéis (2001, 2002,
2003).
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O SENHOR DOS ANÉIS À LUZ DO TESTAMENTO DE SALOMÃO


Ao comparar o Testamento de Salomão com O Senhor dos Anéis, a primeira coisa que
pode ser percebida é como o anel de ambos os textos pode ser interpretado como um anel que
“controla demônios”, embora de maneiras distintas. Ao falar do Testamento de Salomão,
autores como Busch (2012, p. 183, 184) e Schiavo (2008, p. 35) sugerem que o anel era um
objeto usado para a prática exorcista. Em outros termos, através dele o rei Salomão tinha o
poder para aprisionar demônios e controlá-los. Na triologia O Senhor dos Anéis, o anel também
pode ser interpretado como um objeto que controla demônios, porém, de uma maneira diferente
do documento. Na triologia, o próprio anel possui o poder de possuir um indivíduo, ocasionando
uma espécie de possessão demoníaca que, nos termos de Seland (1999, p. 123), significaria
centralizar toda a vida em si mesmo. De alguma forma, ambos os anéis simbolizam um meio
para a atuação de demônios: de um lado será utilizado como um objeto para controlá-los; de
outro, um objeto que ocasiona a possessão do indivíduo que o contém.
Quando tratamos, por outro lado, da função do anel no Testamento de Salomão como
uma terapia-narrativa, a relação acima será enriquecida e aprofundada. O testamento poderá ser
interpretado como uma forma de psicoterapia, uma maneira de o leitor encarar, a partir dos
demônios descritos, os seus próprios erros, além dos males terrenos que os assolam (JOLLEY,
2000, p. 1240). Isto é: o ciúme, a ganância pelo poder, a destruição da terra etc. Portanto, se
existe um significado para o símbolo do demônio, como construído na narrativa, este estaria
relacionado às falhas humanas, ou às misérias da existência. Assim, o contato com tais
demônios, agora figurados como falhas e misérias humanas, ocasionaria no imediato confronto
do leitor consigo mesmo. Seguindo o exemplo virtuoso de Salomão no testamento, o leitor
poderia “controlar” os seus demônios interiores, a fim de utilizá-los para seus fins pessoais. Por
outro lado, infelizmente, se o leitor se deixasse “controlar” pelos seus demônios, ele poderia
chegar ao estado de possessão exemplificado no Gollum.
Essa possessão pode ser facilmente percebida em vários personagens da trama como os
homens mortais, em termos de ganância pelo poder que o anel proporcionava; ou Saruman,
também cego pela ambição por poder, entre tantos outros que foram citados acima. No entanto,
em Gollum, a possessão será mais intensa, justamente porque o personagem permite ser
dominado por um erro atrás do outro, ou seja, por repetidos demônios: ao seu amigo achar um
anel dourado, ele deixa-se dominar pela inveja e pelo ciúme. Como se não fosse o suficiente,
ele comete um assassinato, a fim de possuir o anel. Durante o filme, depois ter experimentado
o anel, Gollum ficou louco de desejo pelo poder que aquele objeto emanava, desenvolvendo a
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ganância, transformando-se em uma criatura traiçoeira e mentirosa. Como foi apresentada, essa
lógica está de acordo com o pensamento de Tolkien (CARPENTER; TOLKIEN, 2006, p. 391, 392),
em sua carta, de que, apesar de tudo, Gollum não enfrentaria a dominação do anel se, antes do
artefato cruzar seu caminho, não tivesse sido um “ladrão desprezível”. Sméagol teria se livrado
da possessão demoníaca do anel se, a exemplo de Salomão, fosse o senhor de seus próprios
demônios, e não escravo deles.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na análise presente, obteve-se como objetivo, estudar o documento pseudepígrafo do
Testamento de Salomão, assim como estudar a trilogia fílmica do anel, a fim de relacionar os
dois textos, para buscar entender como o primeiro, elucida significados na triologia O Senhor
dos anéis. Tinha-se como problema de pesquisa como o Testamento de Salomão poderia
elucidar possíveis significados no Senhor dos Anéis. O documento é interpretado de, pelo
menos, duas maneiras, a primeira como um manual exorcista e a segunda como uma terapia-
narrativa, um tipo de psicoterapia que usa histórias para que os pacientes se identifiquem com
elas. Na primeira mostra como o testamento é um manual exorcista para as pessoas da época
usarem como base, e o anel, um artefato que controla demônios.
Assim como no Senhor dos Anéis, o anel é interpretado como um objeto que “controla
demônios”, porém, de duas maneiras distintas: em um, o anel prende os demônios para que o
dono do objeto os controle (os demônios); no outro, o anel incita uma espécie de possessão
demoníaca nos que o carregam. Na segunda, o Testamento de Salomão é interpretado como
uma Terapia-narrativa, para que o leitor encare seus erros a partir dos demônios descritos no
documento, relacionando estes demônios com as falhas humanas. E então os leitores do
testamento poderiam se ver como Salomão, que controlou todos os demônios e os utilizou para
construção do templo. Em contrapartida, se os demônios não fossem controlados, poderia se
acabar como Gollum, que foi totalmente dominado por seus demônios interiores, e esta
dominação ocorreu em função dos erros cometidos constantemente na vida de Sméagol. Por
fim, a posse do anel pode ter dois lados: Ou se controla, ou se é controlado. Quando se está no
controle, com o exemplo de Salomão, se tem o poder sobre os próprios demônios. Contudo,
quando se perde o controle do anel, comete-se um erro após o outro, resultando em ser vítima
de seus próprios demônios interiores.

REFERÊNCIAS:
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BUSCH, P. Solomon as a true exorcist: The Testament of Solomon in its cultural setting. In:
VERHEYDEN, J. The Figure of Solomon in Jewish, Christian and Islamic Tradition. King,
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DULING, D. C. Testament of Solomon. In: The Anchor Yale Bible Dictionary. New York:
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GUINSBURG, J. Platão - A República. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1965. v. 1.

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LAWHEAD, S. R. Mestre da Terra-Média. In: YANCEY, P. Muito Mais Que Palavras: Como
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SCHIAVO, L. Um Tempo de Demônios? A rejeição do templo no judaísmo do I séc. e no


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