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Nosso universo

como uma
membrana

200 REVISTA USP, São Paulo, n.62, p. 200-205, junho/agosto 2004


H
BERTHA CUADROS-MELGAR

á apenas seis anos a idéia de dimensões extras


habitava a região nebulosa entre a física e a fic-
ção científica. Porém, muitos físicos já tinham
começado a ver a nova teoria de cordas como o grande
próximo passo da física teórica. A teoria de cordas é uma
teoria que tenta responder a tudo aquilo que observamos
no universo, tanto em larga escala como na escala
BERTA CUADROS-
subatômica. Para isso, a teoria deve dar conta de um único MELGAR é pesquisadora
do Departamento
comportamento para todas as partículas elementares e as de Física-Matemática do
IF-USP.
quatro forças fundamentais, deve unificar as teorias da
relatividade geral e da mecânica quântica, e explicar o
nascimento do universo e tudo quanto vemos dentro dele.
Pela primeira vez em centenas de anos, a resposta pode
estar mais perto do que imaginamos.

TEORIA DE CORDAS

No nível mais simples, a teoria de cordas estabelece que


as partículas fundamentais constituintes da matéria e das
interações não são objetos pontuais, mas fazem parte de
pequenas cordas vibrando no espaço-tempo. Diferentes
partículas aparecem como diferentes formas de vibração,
mas todas estão incluídas na mesma descrição. Acredita-
se que a corda fundamental, de onde todas as partículas
aparecem como modos vibrantes, seja pequena, de fato, da
ordem de 10-33 cm, para justificar a inobservância direta de
sua existência. O número 10-33 cm significa a fração
1/1000000000000000000000000000000000 do centíme-
tro. O raio do próton tem 10-13 cm.

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Para que a teoria de cordas funcione mais dimensões literalmente fornecem um
explicando a existência de todas essas par- maior espaço para as cordas vibrarem e
tículas e forças, é preciso aceitar mais di- fazem com que a teoria tenha maior poder.
mensões do que aquelas que conhecemos, Mas logo foi notado que acrescentar uma
já que este cenário é muito restritivo. Até nova dimensão conduz a uma outra impli-
há pouco tempo, pensava-se que dez di- cação: pode existir mais de um universo!
mensões eram necessárias para as cordas
vibrarem de modo a explicar todas as

TESTANDO A GRAVIDADE NA
caraterísticas das partículas fundamentais.
Quatro dimensões são familiares para nós:

BRANA
comprimento, largura, altura e tempo, mas
existem outras seis dimensões que são tão
pequenas que não podemos vê-las. Uma
visão simples seria dizer que cada ponto no A décima primeira dimensão permite
universo tradicional e aparentemente que uma corda seja capaz de se expandir.
quadridimensional é na realidade um volu- Uma corda expandida é conhecida como
me pequeno e multidimensional. Essa idéia “brana”, nome curto para membrana. Os
foi recuperada das antigas idéias propostas matemáticos mostraram que, quanto mais
por Oscar Klein na década de 20, baseada energia é dada a uma corda nessa dimen-
nos trabalhos prévios de Theodor Kaluza, são, maior chega a ser a brana. Dada uma
quando ele tentava unificar gravidade e energia suficiente, uma brana poderia ter o
eletromagnetismo. tamanho do universo. Assim, a próxima
Porém, existe um problema com o ce- pergunta é obvia: será que moramos numa
nário em dez dimensões. A teoria de cordas brana? Mas existe uma outra questão mais
veio em cinco diferentes formas, até que o lógica ainda: existem outras branas? Tal-
físico matemático Edward Witten repen- vez exista uma brana do lado daquela que
sou a teoria de cordas em 1995. Ele sugeriu chamamos de nosso universo, uma brana
que as cinco formas matemáticas diferen- paralela que pode ser chamada de univer-
tes da teoria eram simplesmente maneiras so paralelo. Porém, tais questões tão com-
distintas de se olhar para o mesmo proble- plexas fizeram os cientistas pensarem em
ma. De fato, as cinco diferentes teorias de caminhos para testar a realidade dessas
cordas podem ser conectadas umas às ou- predições.
tras por artifícios matemáticos e são faces A gravidade é uma das quatro forças
diferentes de uma mesma teoria: a teoria fundamentais, mas se distingue das outras
M. No entanto, para assimilar as cinco ver- três (fraca, forte e eletromagnética) pelo
sões diferentes da teoria, Witten teve que fato de ser muito mais fraca. Se o nosso
introduzir uma dimensão a mais, a dimen- universo é de fato uma brana, acredita-se
são onze. Colocado de uma forma simples, que cada brana deve ter suas próprias leis
físicas ditadas pelas cordas que estão anco-
radas nela. Mas o que aconteceria se algu-
mas dessas cordas fossem livres de se mo-
vimentar para fora da brana? As cordas res-
ponsáveis por controlar o comportamento
do gráviton (a partícula que transmite a gra-
vidade) podem ser imaginadas como
lacinhos fechados, que por sua forma não
estão atados a nenhum universo em parti-
cular. São livres para permear outras branas.
Assim, a gravidade pode bem ser tão forte
quanto as outras forças fundamentais, mas,
devido a sua habilidade de permear os uni-

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Modelos possíveis da gravitação e
versos paralelos, ela fica diluída e sua in-
tensidade aparente em nosso universo brana

dimensões extras
é muito mais reduzida. Se a teoria estiver
certa, então a gravidade poderá ser a única
forma que temos para nos comunicar com
outros universos paralelos, já que é uma força Um dos modelos pioneiros do mundo
comum a todos os universos e dimensões. brana é aquele pensado por Nima Arkani-
As dimensões extras também podem ser Hamed, Savas Dimopoulos e Gia Dvali.
medidas em termos da energia necessária Eles se concentraram em procurar uma
para sondá-las. Uma partícula acelerada a forma em que a gravidade se tornasse com-
um trilhão de elétron-volts (1 TeV) tem, de parável em intensidade às outras forças à
acordo com a mecânica quântica, um as- energia de 1 TeV. Conseguiram esse obje-
pecto de onda com um comprimento de tivo supondo dimensões extras do tama-
aproximadamente 2x10-19 m. Portanto, ela nho de 1 mm. Existe um fato no registro
pode explorar facetas do mundo subatômico científico que torna essa suposição factível.
nessa escala. Dobrar a energia significa ver Enquanto as outras forças da natureza têm
caraterísticas de um mundo da metade do sido verificadas até a ordem de 10-19 m, a
tamanho anterior, e assim sucessivamente. gravidade só tem sido verificada até a or-
Em um acelerador é possível fazer colidir dem milimétrica.
partículas de altas energias e esperar ocasio- Como foi dito anteriormente, a teoria
nalmente a produção de um gráviton de uma de cordas dita que qualquer dimensão extra
grande energia que possa escapar às dimen- fora da brana afeta somente a gravidade.
sões extras e explorá-las, desaparecendo Em outras palavras, somente a força media-
do nosso mundo. Esse é o tipo de experi- da pelos grávitons pode viajar no espaço-
mento mais simples que pode ser feito, e se tempo além da brana deixando o resto das
puderem ser eliminadas outras causas para forças confinadas à brana. Qualquer dimen-
essa perda de energia, então seremos capa- são extra afetando a gravidade deve então
zes de dizer que achamos uma evidência alterar a lei do inverso do quadrado de
para a existência das dimensões extras do Newton, que diz que todos os objetos são
espaço. atraídos um pelo outro com uma força que
é inversamente proporcional ao quadrado

MODELOS COSMOLÓGICOS
da distância entre eles. O grupo de Arkani-
Hamed, Dimopoulos e Dvali estimou que
uma só dimensão extra modificaria a lei de
A idéia do universo como uma 3-brana Newton na escala de 100 milhões de quilô-
(isto é, uma brana com 3 dimensões espa- metros, aproximadamente a distância en-
ciais) se movimentando num espaço-tem- tre a Terra e o Sol. Mas sabemos que esta
po com mais dimensões, inspirada pela opção não é possível já que a órbita da Terra
teoria de cordas, é conhecida hoje como obedece à lei do inverso do quadrado. Se
cosmologia de branas. Podemos imaginar existissem duas dimensões extras, porém,
esse cenário como um subespaço de algum elas modificariam a lei de Newton na esca-
outro espaço maior, sendo que não pode- la de 0,1 a 1 mm, comprida o suficiente
mos ver esse último porque a matéria toda para ser detectada, mas pequena demais
e as forças estão confinadas a nosso para ser testada hoje pela lei do inverso do
subespaço. Figurativamente, imaginemos quadrado. Com mais dimensões extras, a
que vivemos numa folha de papel. É claro escala vai se encolhendo abaixo da escala
que ela existe em um espaço tridimensio- milimétrica.
nal, mas, já que só podemos nos movimen- Outro dos modelos que vieram a seguir
tar na superfície bidimensional da folha, o nessa onda de novidades da cosmologia de
espaço-tempo que experimentamos parece branas foi proposto por Lisa Randall e Raman
ter duas dimensões espaciais mais o tempo. Sundrum. Eles consideraram uma só dimen-

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são extra e que pode ser ainda infinita. O único caminho seria olhar para qualquer
argumento é que a tal dimensão seja curva comportamento suspeito da gravidade.
o suficiente para confinar a gravidade por Na cosmologia usual, devido à expan-
perto da brana. Mas, sendo assim, hoje não são do universo e ao fato de a velocidade da
seria possível utilizar sinais gravitacionais luz ser finita, escalas que hoje estão em
para percebermos a dimensão extra. No en- contato causal não estiveram assim no pas-
tanto podemos usar o fato de o universo estar sado. O alto grau de homogeneidade do
se expandindo, assim, se olharmos para trás, universo visível em larga escala é conheci-
veremos que houve um tempo em que todas do como problema do horizonte. Já que a
as dimensões tinham um comprimento com- fração do universo hoje observável foi
parável e os sinais gravitacionais daquela maior que o alcance dos fótons em um tem-
época poderiam carregar a informação de po anterior, como explicar que o universo
que essas dimensões extras, seja uma única hoje seja homogêneo mesmo sem nunca
ou sejam várias, realmente existem. ter estado em contato causal? Na cosmo-
Em um estudo com antenas, Penzias e logia padrão introduz-se uma fase de ex-
Wilson, em 1965, observaram a existência pansão acelerada conhecida como infla-
de uma radiação de fundo em todo o céu ção para contornar essa dificuldade. Na
que obedece a uma distribuição de Planck, cosmologia do mundo brana, sinais gra-
com um parâmetro de temperatura T tendo vitacionais encontrariam atalhos através
um valor de aproximadamente 3 K (3 graus das dimensões extras suficientemente efe-
acima do zero absoluto). Essa descoberta tivos para que seu alcance fosse maior que
foi fundamental para que se pudesse con- a fração do universo observável, levando
firmar experimentalmente a teoria do big- dessa forma informação entre pedaços não
bang. A radiação aqui descrita é chamada conectados por sinais de luz. Assim, a
de radiação cósmica de fundo e é o resquí- cosmologia de branas dá um novo aspecto
cio dessa grande explosão ocorrida há bi- ao problema do horizonte.
lhões de anos.
As evidências que buscamos da alta

O BIG-BANG
dimensionalidade podem justamente estar
escondidas nas inomogeneidades desses
sinais. As observações do satélite Cobe, que
nos dá a estrutura da radiação cósmica de A teoria de cordas, que hoje se tornou
fundo, 300 mil anos após a explosão ini- teoria M, está dando lugar a uma revolução
cial, podem portanto revelar os indícios que na forma como percebemos o cosmos. Mas
comprovariam a existência de dimensões o que ela tem a dizer sobre como tudo co-
extras, já que tal radiação carrega informa- meçou?
ção de uma era remota, quando os efeitos A teoria do big-bang é até hoje a mais
gravitacionais da alta dimensionalidade aceita para descrever o começo do univer-
eram macroscópicos. so. Ela estabelece que tudo o que observa-
mos nasceu de um ponto infinitesimalmente
pequeno, que rapidamente se expandiu por

ATALHOS GRAVITACIONAIS
causa de uma enorme explosão de energia.
O que causou essa grande explosão e o que
a precedeu nunca conseguiu ser satisfatoria-
Como sabemos, a luz é de radiação ele- mente explicado.
tromagnética, e em um modelo de branas, Na atualidade, alguns cientistas acredi-
as cargas e os campos devem se propagar tam na idéia de que o big-bang é uma ma-
somente na brana. Assim, não existiria for- nifestação da colisão de branas. Dessa
ma de sondar as dimensões extras usando a maneira, o big-bang está longe de ser úni-
luz, mesmo que essas dimensões fossem co. Os big-bangs são somente um produto
infinitas. Como foi dito anteriormente, o dos ciclos sem fim dentro do cosmos. Eles

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aconteceram antes, e acontecerão de novo. radiação. A gravidade e a transição do big-
Há três anos Paul Steinhardt e Neil crunch ao big-bang mantêm os ciclos eter-
Turok propuseram uma teoria descreven- namente. Essa transição é devida ao colap-
do essa colisão de branas sob o nome de so, oscilação e reexpansão de uma das di-
universo cíclico. Nesse cenário, o espaço e mensões extras. Por exemplo, numa vari-
o tempo existiram sempre. O big-bang não ante da teoria M, o universo consiste de
é o começo do tempo, é somente uma ponte duas branas que limitam a dimensão extra,
a uma era anterior de contração. O univer- e a singularidade corresponde a uma coli-
so sofre uma seqüência interminável de são e ao pulo sucessivo das duas branas.
ciclos nos quais ele se contrai em um “big- Esse cenário foi precedido pelo modelo
crunch” e reemerge em um big-bang de ekpirótico, proposto pelos mesmos autores
expansão, com trilhões de anos de evolu- junto com J. Khoury e B. Ovrut, que falava
ção. A temperatura e a densidade do uni- da possibilidade de criar o universo do co-
verso não chegam a ser infinitas em ne- lapso único da dimensão extra. O modelo
nhum ponto do ciclo; certamente, elas nun- cíclico é construído sobre essas idéias para
ca excedem um limite finito (ao redor de produzir uma nova visão com um grande
um trilhão de trilhão de graus). Nenhum poder preditivo e explicativo.
processo de inflação teve lugar desde o big- Dispersando o mito de que o big-bang é
bang. O caráter plano e homogêneo do o começo do espaço e do tempo, a teoria de
universo foi criado por eventos que ocorre- cordas abre novas possibilidades para a
ram antes do último big-bang. As sementes história cosmológica do universo.
para a formação de galáxias foram criadas
por instabilidades produzidas quando o

CONCLUSÃO
universo esteve colapsando para o big-
crunch, antes do nosso big-bang.
O modelo cíclico recupera todas as pre-
dições de sucesso das teorias do big-bang e É claro que para que a teoria de cordas
inflação, e ainda tem suficiente poder seja um sucesso matemática e experimen-
preditivo para direcionar muitas questões talmente, é necessário haver uma mudança
que esses modelos não souberam respon- radical da forma como vemos o universo.
der: o que aconteceu na singularidade ini- Porém, é importante ter em mente que a
cial? Qual o destino do universo? O tempo teoria de cordas, com todas as suas conse-
existiu antes do big-bang ou depois do big- qüências bizarras, está baseada mais no pen-
crunch? samento que no experimento.
Nesse modelo cada ciclo prossegue atra- No entanto, ela não é diferente das idéias
vés de um período de domínio da radiação revolucionárias de Einstein há quase um
e outro da matéria, consistente com a século, e suas idéias foram logo vindicadas
cosmologia padrão. Para os próximos como fato científico. Naquele tempo, a re-
trilhões de anos ou mais, o universo sofre latividade especial e a geral foram formas
um período de lenta aceleração cósmica e científicas de pensar bastante novas e exci-
provoca os eventos que conduzem à con- tantes, que nos empurraram dentro de no-
tração e ao big-crunch. A transição do big- vos mundos do entendimento. A teoria de
crunch ao big-bang automaticamente pre- cordas bem poderia fazer o mesmo em um
enche o universo criando nova matéria e futuro não muito longínquo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABDALLA, E. & CASALI, A. G. “Cordas, Dimensões e Teoria M”, Scientific American, Brasil, março de 2003.
REES, M. Before the Beginning.
______. Just six Numbers.

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