O elefante evaporado de Haruki Murakami Sara F.

Costa Quando um frequente leitor de Murakami começa a ler O Elefante Evapora -se sente-se imediatamente assaltado por uma sensação de dejavu. «Espera já li isto em algum lado!» pensará. E o facto é que o nome do conto não deixa dúvidas: O pássaro de corda e as mulheres das terças-feiras . Sim, para quem leu Crónicas de um pássaro de corda , vai reler as primeiras páginas do romance, aqui amputado e tornado conto. Ou terá sido o conto adar à luz o romance? Bom, quem veio primeiro talvez não seja relevante e provavelmente Murakami já terá falado sobre o assunto em alguma entrevista. Acontece que soa quase a fraude , editar exactamente a mesma coisa misturada no meio de coisas novas. Mas talvez a palavra fraude seja efectivamente agressiva na medida em que quiçá apenas tenhamos que nos proporcionar o espaço suficiente de tolerância para compreender o autor. Digamos que é um autor que recicla bastantes ideias e não o quero dizer num sentido pejorativo na sua totalidade mas efectivamente temos que reconhecer que ao longo da sua obra vamos percorrer várias vezes ruas que, se não são de todo as mesmas, são tão idênticas como as transversais de Tóquio. É precisamente esta a sensação genérica q esta colectânea de ue contos pode facilmente deixar a um leitor assíduo de Murakami: a consciência/confirmação das características recorrentes de todos os cenários criados pelo autor Não é muito difícil . determinar isso uma vez que falamos de uma colectânea de contos onde todas as histórias são formadas de raiz dando-nos a impressão de que o livro no seu todo é formado de retalhos que não são mais do que os esboços das ideias de Murakami. Atente-se à personagem de Noboru Watanabe que surge com regularidade ao longo dos contos, tendo sido mais concretizada e explorada em Crónicas de um pássaro de corda . Trata-se de uma personagem que corporiza um cunhado maquiavélico tido como referência biográfica do autor. Assim, torna-se difícil para mim classificar todos os aspectos do livro tendo em conta aquilo que são, na minha perspectivas, histórias e tentativas de histórias, umas conseguidas e outras um mero tracejado, uma mera enumeração de ideias que se poderiam transformar em material de exploração mas que ainda não foram suficientemente buriladas. Entendo, portanto, que existe uma abismal discrepância de qualidade de uns contos para outros O . começo pelo Pássaro de Corda , deu-me efectivamente a sensação de gastar novamente dinheiro por um livro com uma capa diferente mas com conteúdo parcialmente igual ao de outro, não posso dizer que tenha particularmente apreciado esta ideia e até me deu a sensação de se explorar esta noção de conto com um fim meramente comercial tendo em conta a popularidade do best-seller japonês. Já o segundo conto do livro O segundo assalto à padaria que relata a forma como uma mulher se vê forçada por energias misteriosas a assaltar uma pequena loja do Macdonalds às duas da manhã em Tóquio, é um dos melhores contos do livro, na minh perspectiva. Ali a Murakami consegue conjugar o seu supra-realismo habitual com as sua usuais noções de solidão e absurdidade de uma maneira bastante interessante. Contos como Sono , deixamme com uma sensação dupla. Se, por um lado, temos a recorrente p ersonagem solitária e existencialista de Murakami, por outro certos retratos femininos roçam um pouco as minhas cordas feministas e sinto que dar sempre um carácter sedutor às personagens femininas sem o

Trata-se do relato de um aluno que é ostracizado pelos colegas durante o secundário devido a esquemas de um colega com claro síndrome sociopata. Há nestes elementos algo de extremamente cultural que. O que torna o livro algo desinteressante são contos como O pequeno monstro verde ou Assunto de família . Um dos contos que me tocou mais foi o Silêncio . Os restantes contos são todos interessantes no quadro genérico que transpõe: há claramente um caule central de solidão urbana e uma reflexão sobre o pragmatismo contemporâneo que se alastra pelas histórias que o autor nos apresenta. apesar de poder ser generalizado. é para mim um pouco claustrofóbico em alguns pontos da leitura. É uma sensação que me percorre em alguns momentos do livro mas não é uma ideia absoluta. O último conto é o conto que trata do elefante que se evapora em si e penso que o tí ulo é t bastante explícito em relação ao conteúdo do conto: sim. tem fortes raízes na sociedade japonesa em particular. Aqui penso existe uma fracção social o Japão de Tokugawa tinha como principal pen a a ostracização dos elementos desobedientes das comunidades mas há também a chamada de atenção para a avaliação daquilo que se tornou a glorificação das aparências.acompanhar de grande densidade psicológica. penúltimo conto do livro. . relatos estéreis sem grande criatividade. esboços de qualquer coisa que não desabrochou. é sobre um elefante que se evapora! É o abstraccionismo de Murakami! O que dizer mais? Não é um abstraccionismo tão bom como o rapaz do taco de basebol das Crónicas de um pássaro de corda masisso é porque não há espaço suficiente para se poder desenvolver ramificações de conceitos tão interessantes.