A informalidade: sistema persistente de criação de territórios na cidade de São Paulo Mylene Goudet* Resumo: Em São Paulo, as ocupações informais

da cidade tais como ambulantes, favelas e movimentos sociais pró-moradia aparecem na grande mídia como entraves para o cumprimento de planos urbanísticos de recuperação de áreas degradadas da cidade. Porém a hipótese desta pesquisa segue na contra-mão desta idéia e investe na possibilidade de que o urbanismo de São Paulo nutre-se justamente do diálogo tenso entre o formal e o informal para configurar-se de modo mais interessante, sendo a informalidade um dos elementos catalizadores na assimilação e na interação entre culturas muito distintas que compõem o mosaico cultural da cidade. Os autores utilizados neste trabalho, ainda que oriundos de áreas do conhecimento diferentes entre si têm em comum a observação crítica de sistemas descentralizados de cultura e de pensamento. Com o auxílio de suas teorias desejamos verificar em que medida podemos afirmar que a informalidade nos usos dos espaços urbanos pode ser considerada como componente positivo na produção de cultura na cidade de São Paulo e de que modo se estruturam as relações dialógicas entre formal e informal na cidade. Destacaremos na cidade de São Paulo aspectos considerados marginais às noções tais como a heterogeneidade das ruas, a incorporação de usos ilegítimos dos espaços públicos, a impossibilidade de localizar um traçado urbano dominante. Palavras-chave: Urbanismo. Informalidade. Ambulantes. São Paulo. Abstract: The informality: persistent creation of territories in the city of Sao Paulo. In Sao Paulo, the city’s informal settlements such as “camelôs”, slums and social movements prodwelling appear in the media as obstacles to the implementation of urban plans for rehabilitation of degraded areas of the city. But the hypothesis of this research follows the reverse of this idea and invests in the possibility that urbanism in Sao Paulo means precisely the tense dialogue between the formal and informal setting, that can be very interesting, considering informality as catalysts in the assimilation and the interaction between very different cultures assembled as a complex cultural mosaic. The theoretical references used in this work, though coming from different areas of knowledge, have in common the critical

O autor mostra como o centro torna-se. etc) parecem ser a verdadeira matéria constitutiva do centro de São Paulo. foco de investimentos públicos pesados para conter sua deterioração e seu esvaziamento econômico. aplicam esforços e recursos nos planos de avenidas para conectar o centro aos bairros residenciais da burguesia industrial (Higienópolis. O sociólogo Heitor Frúgoli (2000) evidencia. bem como obras de infra-estrutura para . mas é no jogo relacional entre as duas cidades – a informal e a formal – que creditamos as possibilidades urbanas mais potentes e interessantes. os planos urbanísticos e os planos de expansão viária visaram atender um perímetro muito específico da cidade e que não contemplava as periferias. desde o início do século XX. Vila Buarque. o choque entre a cidade imaginada e a cidade real. We want to highlight aspects of São Paulo that are considered marginal such as the heterogeneity of the streets. Segundo Heitor Frúgoli (2000). e não consequência da primeira sobre a segunda. As classes dominantes. Naquelas primeiras décadas. a partir dos anos 60. através das negociações e conflitos em torno de projetos urbanísticos para a cidade de São Paulo. the incorporation of illegitimate uses of public spaces and the impossibility to determinate a dominant urban layout. A cidade informal e a cidade oficial não param de se entrelaçar e de se traduzir. políticos. o Vale do Anhangabaú. São Paulo. Key-words: Urban. Camelôs. a degradação do centro e sua popularização foi concomitante. Amplas reformas urbanas de áreas como a Praça da Sé. que nem constavam nos mapas urbanos. Informal cities. With the help of theories we wish to verify how far we can say that informality in the uses of urban spaces can be considered a positive component in the production of culture in the city of Sao Paulo and how they structure the dialogical relations between formal and informal city.2 observation of decentralized systems of culture and thought in Latin America. a Praça do Correio. A informalidade: sistema persistente de criação de territórios na cidade de São Paulo As batalhas encenadas no centro da cidade entre as ocupações informais e os poderes público-financeiros serão colocadas nesta apresentação com o objetivo central de ressaltar suas relações de troca e de movimento nas composições espaciais da cidade. É provável que no texto fique evidente nossa simpatia pelas táticas e astúcias dos ambulantes contra o controle. porque entendemos a informalidade como uma espécie de reserva de liberdade da qual não poderemos prescindir. Os conflitos entre os comerciantes informais (ambulantes) e as classes dominantes (comerciantes. etc).

um homem que renova. conduzindo o leitor até o lugar do conflito entre ambulantes e comerciantes. Rubem Braga percorre a pé. 1935). marquises. desde alguns anos. Junto com melhorias urbanas. arriscam-se na informalidade ou simplesmente perambulam. Amo este trecho entre a praça do Correio e o largo Paissandu. galerias e barbearias do centro. Embora sendo tão miseráveis quanto os ambulantes perseguidos pela polícia. As periferias não sustentam as massas migratórias e não oferecem oportunidades de trabalho. pelo menos naquele dia. quinze. deixando para trás uma enorme infra-estrutura instalada e que. os espaços públicos são arrematados e seus usos espontâneos tendem a ser mais controlados e policiados. fizeram parte da modernização da cidade. À frente. Os ambulantes são os engraxates volantes. os engraxates contratados. um trecho central muito conhecido da cidade. proprietários e despossuídos. que trabalham de cócoras. quando não é possível. mais ao fundo ainda as duas manicures e ao lado. sentem alívio por não estarem. Desçamos no meio da turba. São aqueles que 1 A grafia da época foi mantida. quase na calçada. Aí. A São Paulo. É de Verdi. na pele deles. engraxates militares. sobretudo engraxates volantes de São Paulo! Engraxates civis. Vinde ver os engraxates. A avenida é larga. figuras então muito presentes nas praças. Na praça do Correio existe a estatua mais feia da America do Sul. Então Rubem Braga entra numa barbearia e mostra seus oito barbeiros ao fundo. engraxates de São Paulo! Aí. Vemos ali sandwiches de queijo ou de presunto a duzentos réis. A vida em São Paulo está barata. A partir dos anos 30.3 implantação do metrô e calçadões destinados ao fluxo de pedestres criados pelo sistema de transporte coletivo com terminais no centro. Avenida São João. cheia de gente e de barulho. (BRAGA. limpa e lava chapéus. entre a força e a astúcia. Nesse processo a cidade se fragmenta. Contudo empresas de grande porte e sedes de bancos migraram para a Avenida Paulista e depois para a Berrini. os tais engraxates militares. em alianças cada vez mais fortes com o dinheiro privado. Essas populações continuam vindo para o centro em busca de trabalho formal e. A narrativa tem os desfavorecidos representados pelos engraxates. através de sua narrativa. migrantes começam a ocupá-lo exercendo tarefas desqualificadas ou tentando os mercados informais. os chamados civis pelo autor. vem sofrendo novas intervenções do poder público. uniformizados com o logo da casa. com a popularização do comércio do centro. Uma crônica publicada por Rubem Braga1 em 1935 ilustra o já instaurado embate entre ambulantes e comerciantes. que vestem farrapos. . é bella.

ordeiro e syphilitico. E pensa revoluções. É humilhante. poeta. jogar xingamentos. deveriam unir-se. Mas agora não. sapatos nobuck de baixa qualidade. voltar. que contrata os engraxates militares] teme a concorrência dos engraxates volantes. Será que não ha um meio de concertar a vida? Deve haver. De modo que um commerciante honesto que paga a sua licença fica prejudicado por esses vagabundos. vaiar. e sabem a technica do combate de rua.. Rubem Braga conclui que a vida não é justa. está bem mais agradável. 1935). E sabemos que as representações (junto com a economia. Atualmente. Ainda hoje há algumas cadeiras de engraxate localizadas na praça D. Mas as ocupações continuarão a subir nos canteiros e abrirão brechas imponderáveis em cercas e alambrados. Comparado ao centro de 15 anos atrás. principalmente para aqueles que temiam ser dilapidados de seus bens portáteis. enquanto seus sapatos são engraxados pelos engraxates militares. como imprescindíveis em toda a representação urbana. para “defender” o centro da cidade dos ambulantes e das populações de rua. Pequenos focos organizados resistem circunscritos em áreas legitimadas pelo município. Nós faremos muitas coisas pouco recomendáveis e contra os sentimentos do povo brasileiro.affirma .4 [.. limpo e bonito. A negação das populações de rua como manifestações indeléveis do urbanismo demonstra uma cisão profunda entre os interesses na recuperação de patrimônio arquitetônico e as manifestações de urbanidade que ali são cotidianamente encenadas.] estão na rua.elles não pagam licença. porém com um detalhe. que isso é humilhante? Humilhante é a vida. que em sua enorme maioria é catholico. o planejamento e a arquitetura) . os engraxates devem trabalhar em cadeiras padronizadas. Humilhante? Quem foi que disse. sem gravatas nem chapéus. [e]ntre outros atores urbanos. todos vivendo vidas miseráveis. consideramos os vendedores ambulantes como imprescindíveis para a valorização simbólica da cidade. encolheram a presença dos engraxates nessas áreas. fugir. Tenho meditado sobre esse assumpto. Além de tudo . já que sua presença é sistematicamente excluída quando se pensa em revitalização das áreas centrais. Com excepção dos tuberculosos e de outros. sempre esperando gorjetas que dêem sentido à miséria de suas vidas. Agora o melhor é mandar engraxar os sapatos enquanto se medita. e que os engraxates de todos os tipos. As balas das metralhadoras ferirão os caules das rosas suaves. O homem [o dono da barbearia. (BRAGA. atormentar. Sabem jogar pedra. provocar. mas possivelmente a conservação das revitalizações financiadas pela iniciativa privada deverá ser mantida com punhos de ferro. que resistiram graças à luta da Associação dos Engraxates em Vias Públicas no Município de São Paulo. (BRAGA. José Gaspar. tênis e multidões sem paletós. 1935).

de churrasquinho.] camelôs. desordem. Ambulantes. batedores de carteira e muitos outros. em entrevista faz uma autocrítica arrependendo-se do seu plano de revitalização do centro através dos calçadões quando prefeito. prostitutas. O autor cita alguns entre tantos grupos. Criam pontos na trama da cidade que são como defeitos. pregadores religiosos. complicando e multiplicando os contextos marginais. com a precariedade. porém desbancam leis e sistemas dominantes. rolistas. vagabundos e roleiros são sistematicamente contidos. tornam-se campos de luta entre o universo do trabalho e o da exclusão total. plaqueiros. cuja efervescência é essencial para a vitalidade dos jogos sociais. Frúgoli transcreve uma entrevista em 1997 com o ex-prefeito da cidade de São Paulo. vendedores de ervas. formando redes de solidariedade combinada com hierarquias próprias. é a América profunda que se apropria de ruas e de praças para viver e sobreviver na cidade. E esses novos nômades urbanos o fazem como podem. travestis. As atividades ambulantes e nômades pertencem exclusivamente à rua e são responsáveis por sua vitalidade.. Olavo Setúbal. pg. degradação: essas são as palavras associadas aos camelôs e aos moradores de rua. as relações se dão nos espaços públicos ou na subversão das fronteiras entre público e privado. a necessidade. reprimidos e expulsos em nome da reconsagração auroral dos espaços centrais como espaços legítimos das populações economicamente incluídas. São marginaiscentrais. videntes. mas nunca homogeneamente centrais. homens e menores de rua. gerando outras centralidades. (FRÚGOLI. 59) Seus grupos distribuem-se em escalas que vão desde a inserção no mundo do trabalho legal até a marginalidade completa. respaldadas pelo improviso. cuja permanência no centro é estranhamente desejável: [. 2000. não é nada além da modalidade atual da histórica importância popular. engraxates. Isso porque praticam a violação das distâncias confortáveis entre os corpos e entre as coisas. (DIOS. de bilhetes de loteria. o desespero. megalópole de um país pobre como o Brasil o calçadão teria o . então. Lixo. 2004) O hoje chamado setor ‘informal’. Heitor Frúgoli enumera algumas das populações reais que ocupam as ruas do centro e que têm em comum a origem nordestina e popular. Em todos os casos. artistas de rua. aposentados.. que se tornam realidades policêntricas. Os ambulantes – através da experiência coletiva – seriam marcas de leitura do patrimônio cultural. As ruas. a astúcia em resposta ao ônus da economia formal. Ele diz que foi uma ilusão pensar que em São Paulo. vagabundagem. desempregados.5 também constróem a cidade.

O ponto de partida desta formulação foi a necessidade de compreender encontros culturais movidos pelas mais diferentes causas: choques civilizacionais. encontro um modo de enxergar seus lados mais crespos.(FRÚGOLI. Com isso é possível pensar mecanismos básicos da constituição do espaço semiótico tais como irregularidade. muito próximos realmente dos mercados orientais e que essas características são. quando estão fechados no período noturno. ao contrário de sua afirmação. Nesse sentido. nódulos onde acontecem uma diversidade de eventos. táteis e sonoros. o ex-prefeito esqueceu-se de nossa tendência cultural ao espaço aberto. marquises. à proliferação sensorial de elementos visuais. transformação da informação em sistema de signos. criando semiosferas2. É o que pode ser considerado. emergências. buracos em pontes. 2000. nômades urbanos. em toda espécie de resíduo urbano. ainda que não devamos fechar os olhos para os problemas relacionados à inevitável precariedade do mercado informal. Acomodam-se em espaços públicos ou privados: praças. pontes. sobreposições e ocorrências de ocupações heterogêneas. na violação das individualidades. São os habitantes sem teto das cidades. “o calçadão virou no Brasil um permanente problema de “mercado persa”.6 mesmo resultado de sucesso que teve em cidades da Europa. inventam dispositivos de proteção contra a violência e o roubo entre miseráveis. na malha de uma cidade complexa como São Paulo. . Ao entender a cidade como mar de mil naufrágios. improvisam equipamentos domésticos. linguagens. bueiros.turbilhonam os fragmentos urbanos. No naufrágio. recriam regras de asseio. Inventam urbanismos anônimos e arquiteturas efêmeras. Pg. o casco afunda e seu uso é revolucionado porque entre ele e o mar ocorre um reflorescimento de outra natureza e até sua materialidade é modificada. expansão de códigos. dormitórios são criados em vagas para autos em lojas comerciais ou imóveis para locação. A saliência desses usos está na profanação da ordem urbana oficial e no desrespeito dos alinhamentos e das fronteiras entre público e privado. onde ocupações e usos clandestinos dos espaços possam sugerir conteúdos mais variados que as desventuras da pobreza e do abandono civil. Apesar da precariedade das instalações. 63) A ironia é que ao suscitar o mercado persa como sinônimo pejorativo do comércio informal instalado em São Paulo. trata-se de considerar não apenas as relações como também as conexões que aproximam os diferentes sistemas. sinônimos de riqueza cultural. 2 Semiosfera é um conceito formulado pelo semioticista russo Iúri Lótman para designar as relações entre os diversos sistemas de signos nos espaços culturais. lajes. de divisão de espaço. Fonte: SEMIOSFERA (2009). na falência da flutuação. Naufrágios urbanos: metáforas da informalidade Alguns pontos da cidade são como naufrágios . enfim. heterogeneidade. edifícios abandonados. fronteira. Ele diz que. na subversão das leis de zoneamento urbano. que têm preferência pelas metrópoles.

Refere-se aos migrantes como nenês famintos. para dormir. especialmente para São Paulo. A invasão dos edifícios é um levante que conta com multidões de mil. rastreá-los. onde não reconheceríamos mais nossos lares burgueses. captem esse movimento como parte inexorável da urbanidade. pois estão sempre em movimento. São nômades urbanos. para se proteger de perigos. Já nos anos 70. a técnica é a da guerrilha. descontentes. álcool e comida. Suas aglutinações são efêmeras. Alguns desses movimentos tentam regularizar e promover reformas de infra-estrutura em ocupações. O primeiro sintoma de instabilidade que o autor identifica são os rastros deixados pelas migrações internas. Vilém Flusser (1983) faz predições de um futuro instável. ameaçadores para os demais. que. onde não se entra sem ser convidado. e que. ao contrário. Estes são os grupos pertencentes aos movimentos pró-moradia. Essa postura só conseguiu reforçar ainda mais a posição marginal dessas populações. avançariam de volta para o centro.7 Permanecem afastados dos bairros estritamente residenciais das classes mais abastadas e movem-se misturados à paisagem da cidade. O autor recomenda que todos. . por serem submetidos ao tratamento assistencialista por parte do poder público. o autor representou pelo fluxo de migrantes nordestinos em direção ao sul do país. ou então permanecem em lugares impenetráveis. para cuidar dos filhos das uniões acontecidas nas ruas. Ou então se aglutinam de modo organizado. Outros grupos invadem imóveis vazios a fim de posteriormente tentar negociar com o poder público as reformas e adaptá-los para uso residencial. dois mil participantes. A ocupação é súbita e não gradual como na conformação de favelas e cortiços. buscando alianças com poder público pela causa da moradia. tornam-se extremamente invisíveis. que investem na desfavelização e na canalização dessas populações para a periferia como estratégia de controle e proteção da cidade. e agem em segredo. secretas e labirínticas quando moram nas ruas. Chegam de ônibus fretados e são coordenados por lideranças que fazem entrar o maior número de pessoas no prédio. cortiços e favelas já configuradas. Cada pessoa age por si e agrupa-se com outras temporariamente. evitando o impedimento da polícia. dispersos de dia e de noite. pesquisando e mapeando os edifícios disponíveis do centro. É difícil fixá-los. Vilém Flusser (1983) ainda diz que os nenês não permaneceriam nas periferias. Nesses casos. no caso do Brasil. Os líderes conhecem de antemão o território a ser ocupado. para conseguir drogas. Muitas vezes fixam moradas em pontos de tráfego extremo e por isso mesmo. não só os marginalizados. para então trancá-los lá dentro rapidamente.

a segurança do burguês. (DELEUZE. p. anterior às determinações da longitude e da astronomia. guiada por ventos. A cidade. distintos. Vilém Flusser (1983). p. p.] imensas favelas móveis.. Para Deleuze e Guattari (2002. os nenês famintos competem – tribos contra Estado . Estamos abandonando a forma sedentária de vida. pois não conseguir manter as barreiras que separam o “lar” do contato com o indesejável é o mesmo que “ter que viver em ambiente inabitual. continua ameaçando. cores e sons do mar. promovido pelo poder público em consórcios com a iniciativa privada. que seguem resistindo à força centrífuga que os empurra para fora das fronteiras da cidade. mesmo reconhecendo que “lar” não é necessariamente um lugar fixo. desvalorização e revalorização do solo urbano contribuem para a circulação dispersa dos nenês pela cidade. o liso e o estriado operam em jogos dessimétricos. p. portanto inabitável”. patchwork. 1983. 189). e que perdê-lo não significa ter que sair ou ser expulso.. com ironia. restos de metal e de tecido. quando passamos ao estagio sedentário.” (DELEUZE. 188). Observador distanciado da atualidade terá imagem de formigueiro espantado por pé transcendente. A cidade libera buracos e trincheiras como formas de resistência nômade: “[. só que de maneira mais complexa. de nômades e trogloditas. “[. indivíduos e grupos. 2002. Estamos de mudança. As fronteiras do suportável são invadidas. portanto não significa espaço estriado por natureza. (FLUSSER.8 Está se processando profunda modificação da forma como moramos. 73) Atualmente podemos verificar que o refluxo dessas populações para o centro de São Paulo aconteceu de fato. GUATTARI. Uma miséria explosiva [. que já nem sequer são afetados pelas estriagens do dinheiro. GUATTARI. .. do trabalho ou da habitação. 2002. Pulsões de valorização.. a permanência dos nenês nos centros superpõe-se à organização imposta pelo Estado.] ainda devemos lembrar que os dois espaços só existem de fato graças às misturas entre si: o espaço liso não para de ser 3 Deleuze e Guattari citam a navegação nômade como sendo empírica e primitiva.com a revalorização do solo central das grandes cidades.. 186). ruídos. mas nela ocorrem os dois tipos. Mostra a fragilidade de seu território sagrado transformando-o em lugar irreconhecível quando invadido por hordas famintas de subdesenvolvidos. Por mais que essas populações nômades sejam vigiadas e a cidade seja esquadrinhada pelos radares da polícia e dos diagnósticos sociais. temporárias. mas não opostos. Seu controle não atinge necessariamente sua navegância errante. pois para permanecer nos centros. Modificação comparável apenas àquela no início do neolítico.].. Movem-se como navegantes nômades3. recuperando o centro como pólo atrativo de produção de capital.

a alternância. igualmente. no qual “[. a cidade maior inspira-se na cidade menor e vice versa. o alisamento de sua operação ainda estrangeira. o intervalo é substância [.] No espaço liso. podendo mesmo significar uma permanência. A cidade revela de súbito a ineficiência da classificação. neutralizá-lo. a conformação do espaço do dentro ao espaço do fora: a tenda. sem dúvida consiste em domar. E como sobreviver sem temer ser esmagado pelo pé transcendente de que fala Vilém Flusser (1983)? O primeiro passo é entender que a cidade menor e a cidade maior não param de se influenciar. todavia mais. pela cidade maior. portanto. É uma espaço construído graças às operações locais com mudanças de direção. sobrecodificar. nos nômades. Seus percursos estão ligados aos pontos. há paradas e trajetos. São nômades por tentarem manter um espaço de intensidades. o barco. isto é. o qual continua abrindo seus buracos e escapando. Ao mesmo tempo em que escapam. o percurso faz perder a fixidez dos pontos. Um revide à força de estriagem. e superposições. abrindo brechas apesar das ferramentas de estrialização dominantes de seus espaços. é o trajeto que provoca a parada.. É a subordinação do hábitat ao percurso. (DELEUZE. a linha é um vetor. 184-185). incerto. pois [.” Ser nômade na cidade não é o eterno ir e vir. 2002. Sair de A e chegar a B percorrendo uma linha mensurável que os liga. como entre os nômades do deserto.9 traduzido. de .. esses movimentos nômades insistem em acontecer. uma vez mais o intervalo toma tudo. que vão em direção a uma vegetação local e temporária. o espaço estriado é constantemente revertido. o iglu. É que a cidade continua se esburacando. metrificar o espaço liso. 190).] estão subordinados ao trajeto. resistir aos estriamentos dos espaços justamente por não migrar. Nos espaços lisos.] prossegue o afrontamento entre o liso e o estriado. Já era o vetor vestimenta-tenda-espaço do fora. do rastreamento das populações nômades e da circunscrição de seus espaços lisos. GUATTARI. transvertido num espaço estriado.. reivindicam a tradução. como estratégia de proteção. de extensão.. mas no espaço liso. as passagens. em proporcionar-lhe meio de propagação. A tradução daquilo que é estranho e de sua possível incorporação. 2002. à variabilidade do alvo ou do ponto a ser atingido. Os mapas são instrumentos dos espaços estriados. Traduzir é uma operação que. ainda que fragmentária e parcial. p. Tanto no liso como no estriado. [Tais mudanças de direção] podem dever-se. GUATTARI. em escapar da estrialização. p. Uma cidade menor introduzindo-se numa cidade maior.” (DELEUZE. devolvido a um espaço liso.. uma direção e não uma dimensão ou uma determinação métrica. estranha para a cultura dominante. é a estriagem do liso nômade. ou seja.. mas consiste.

htm>. São Paulo: Duas Cidades. embora as duas cidades joguem com regras diferentes. Informativo da Associação Viva o Centro para divulgação do Programa AÇÃO LOCAL. FRÚGOLI. p. 2002. precisa da cidade maior para criar a menor. O gato e o rato: ambulantes urbanos e poder municipal. 2002.asp>. março de 2004. Mil Platôs v. É essa questão que Vilém Flusser (1983) impõe à cultura dominante quando diz que é impossível e ineficaz represar e neutralizar os nenês nas periferias e não se render ao território-desterritório da vida urbana atual. GUATTARI. 2002. Empresários ajudam a reconstruir.fapesp.. Acesso em: 17 out. 27 nov. 1983. conflitos e negociações na Metrópole. Referências ASSOCIAÇÃO Viva o Centro. Disponível em: <http://www. Pós história: vinte instantâneos e um modo de usar.br/arquitextos/arq046/arq046_00. Vilém. GUATTARI. têm a “[.folha.10 referação.htm>.vivaocentro. DELEUZE. DIOS.com.. Centralidade em São Paulo: trajetos. Entretanto o migrante. de impulso. A cidade maior é seu território de desterritorialização e reterritorialização. bem como do estriado ao liso. In: Folha da Noite. . Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. SEMIOSFERA. Gilles. 2004. Engraxates de São Paulo. 2008. 194).incubadora. Trad. de renovação. Disponível em: <http://www1.uol. Portanto.] necessidade dessimétrica de passar do liso ao estriado. domingo.br/portal>. 2002. GUATTARI. São Paulo: Editora 34. 2005. Acesso em: 19 fev. Disponível em : <http://www. BRAGA.vitruvius.br/jcc/not002.. o nômade urbano. Acesso em: 27 set. 194).com. 2009. (DELEUZE.com. p. São Paulo: EDUSP/Cortez/FAPESP. jul.br/folha/almanaque/rubembraga1.org. FLUSSER. 14 de abril de 1935. Rubem. sem o qual ele talvez morresse por si só: como uma máscara. JESUÍTAS fundaram Sampa. Félix.” (DELEUZE. Heitor. Jorge Ramos. Acesso em: 14 ago. sem a qual não poderia haver respiração nem forma geral de expressão. 2009. Disponível em: <www. 5. 2000.megabrasil. Acesso em: 30 set.br/acoeslocais>. Disponível em: <http://semiosfera. 2009. In: Jornal da Comunicação Corporativa.

Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo na USP-São Carlos.com>. cadastrado no CNPq. E-mail: <milagoudet@gmail. Bolsista CAPES. . Participa do Grupo de Pesquisa “Cultura e Comunicação: Barroco e Mestiçagem”. Concluiu o mestrado em Psicologia Clínica no Núcleo de Subjetividades Contemporâneas da PUC-SP.11 * Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.

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