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M. C. G.

Molina ISSN 1983-6708

A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE DO SUJEITO


MEDIANTE AS TRANSFORMAÇÕES DA GLOBALIZAÇÃO

Márcia Cristina Gomes Molina1

Este artigo discorre sobre a identidade do sujeito pós-moderno em meio às mudanças


contínuas e as novas tecnologias decorrentes do fenômeno da globalização. Inclui as
dificuldades com as quais o indivíduo se depara na construção de identidade em virtude
da volatilidade da contemporaneidade. Aborda também a dicotomia do sujeito e sociedade
e a compressão do espaço-tempo como determinante nas transformações das relações
sociais. No desenvolvimento deste, percebe-se o quão a concepção de uma identidade se
tornou improvável e o indivíduo como coadjuvante das transposições e transições da
“aldeia global”.
Palavras-Chave: Espaço Tempo. Globalização. Identidade. Mudanças.

This paper discusses the identity of the postmodern subject in the midst of continuous
change and new technologies derived from globalization. It includes the difficulties with
which the individual faces in the construction of identity because of the contemporaneity
volatility. It also discusses the dichotomy of subject and society and the compression of
space-time as a determinant in the transformation of social relations. In its developing, we
can see how the concept of identity has become an unlikely and the individual as an
adjunct of transpositions and transitions of the”global village”.
Keywords: Space Time. Globalization. Identity. Changes.

¹ Mestranda em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC – UFABC. Professora universitária na
Faculdade Anchieta – Unidade Faculdade Anhanguera de São Bernardo do Campo e nas Faculdades Metropolitanas Unidas –
FMU. – Email: marciaamolina@gmail.com.

Revista Científica do ITPAC, Araguaína, v.7, n.1, Pub.6, Janeiro 2014


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1. INTRODUÇÃO Elias (1994, p.23 ) descreve assim:


A pós-modernidade perpassa por Cada pessoa singular está realmente presa;
está presa por viver em permanente
inúmeras transformações decorrentes da
dependência funcional de outras; ela é um
globalização, fator determinante de mudança elo nas cadeias que ligam outras pessoas,
cultural na vida do sujeito e de seus hábitos, assim como todas as demais, direta ou
reestruturando completamente sua visão de indiretamente, são elos nas cadeias que a
mundo e a maneira de viver em sociedade. prendem... São mais elásticas, mais
variáveis, mais mutáveis, porém menos
O advento da globalização, a tecnologia
reais e decerto não menos fortes. E é a essa
da informação e a nova concepção de rede de funções que as pessoas
sociedade estabelecida pela pós-modernidade desempenham umas em relação às outras,
remete a reflexões acerca da identidade do a ela e nada mais, que chamamos de
sujeito inserido neste contexto, no qual as “sociedade”.
mudanças são rápidas, repentinas e
constantes, impactando na dificuldade da O autor retrata a sociedade como algo
construção de sua identidade. indissociável do indivíduo, haja vista que as
Outra variável significativa a ser relações sociais são constituídas por meio da
contemplada é a compressão do espaço- interação social. A sociedade é composta por
tempo como fator determinante na um emaranhado de pessoas que entre si,
reestruturação das relações sociais em seu criam, dão vida e consolidam relações
aspecto cultural e a dificuldade de configurar interpessoais e interdependentes, por seguinte
uma identidade ao sujeito pós-moderno. formam a sociedade.
Para compreender as questões de Não há sociedade sem indivíduos e
identidade do sujeito e a globalização como um inexiste sem o outro, tanto que cada ser
agente de mudanças nas relações sociais, é humano é criado por outros, representando
seguramente relevante averiguar os olhares este, um papel social no qual o indivíduo
acerca do sujeito e da sociedade através de crescerá dentro dos hábitos e crenças de uma
várias perspectivas para que se possa refletir família e de uma dada região, portanto, como
sobre as demais temáticas. afirma Elias (1994, p.19) “o indivíduo é parte
de um todo maior, que ele forma junto com
outros”.
2. O SUJEITO E A SOCIEDADE: UM SÓ Traçando um paralelo, Bourdieu
CORPO (1996) trata a ciência como indissociável da
Ao ilustrar a relação sociedade e teoria na procura de conceber o sujeito como
sujeito, é imprescindível abordar a dicotomia agente dinâmico e mutável em um universo
entre esses objetos que são concebidos de social. Compreende as classes sociais como
maneira dual por inúmeros estudiosos das espaço social que se constitui a partir das
mais diversas áreas do conhecimento. Ao influências culturais, econômicas e políticas
longo dos anos, o sujeito tem sido alvo de de seus sujeitos, que modificará suas
discussões que primam pela compreensão de estruturas objetivas a partir da construção da
seu papel na sociedade. À procura de subjetividade dos atores ali inseridos, através
respostas para sua ação em um contexto de uma pesquisa inseparavelmente teórica e
social, vários filósofos, sociólogos, prática. .
historiadores e demais pesquisadores Para Durkheim (1999, p.28), “é
desenvolvem estudos que abordam o preciso, portanto considerar os fenômenos
indivíduo e as relações sociais. sociais em si mesmos, separados dos sujeitos

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conscientes que os concebem; é preciso transformações do mundo global. Frente à


estudá-los de fora, como coisas exteriores, incógnita da possibilidade da construção de
pois é nessa qualidade que eles se apresentam uma identidade e da improvável concepção
a nós.”. O autor afirma que as estruturas de um modelo estereotipado de sujeito pós-
sociais estão a priori, independentes da ação moderno, pesquisadores buscam
do sujeito, visto que a sociedade é regulada compreender o papel do hibridismo no
como um imenso corpo social no qual cada desenvolvimento desta identidade.
um desempenha uma função específica de Segundo Hall (2006), a identidade é
forma isolada e individual. Realiza o sujeito objeto da interação entre o indivíduo e a
de forma autônoma e alheia ao universo que a sociedade e que o sujeito tem sua essência
compõe, portanto, contempla o indivíduo interior, no entanto é a partir da relação com
como fruto passivo da sociedade. diversos mundos culturais que sua identidade
Diante desta dualidade e da atual se estabelece. O autor contempla a identidade
conjuntura da vida contemporânea avaliamos do sujeito em três concepções distintas para a
que indivíduo e sociedade, não existem reflexão acerca de um novo modelo de
isoladamente e de forma unilateral. As identidade através da articulação do sujeito
mudanças que passamos ao longo da do iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito
existência são decorrentes da ligação do pós-moderno. O sujeito do iluminismo
homem e a sociedade, do pluralismo e não da galgava-se no tradicionalismo, o sujeito
individualidade como em uma grande teia. sociológico era reconhecido como resultado
Em meio a essas reflexões há reconhecimento da interação das relações sociais e de seu
do sujeito como flexível, mutável e habitat e o sujeito pós-moderno conceptual da
indissociável da sociedade, na qual assume mobilidade, imprevisibilidade e insegurança
inúmeros papéis de acordo com os costumes da contemporaneidade.
do seu meio. Em um primeiro momento a
A globalização é um fenômeno que identidade do sujeito, mesmo considerada
contribuiu para a questão da identidade que extremamente complexa era objeto
sofreu significativas alterações culturais, compreendido como uno, centrado, pleno
desconstruindo a imagem de uma sociedade fundamentado nas tradições e na estabilidade
tradicional, dando vez à sociedade pós- de suas relações sociais concomitantes a sua
moderna, a qual desponta como híbrida e essência já desenhada, compreendida como
imune à distância espacial ou temporal, algo preconcebido, inquestionável e referência
solidificada como uma grande rede virtual. a ser seguida. O iluminismo concebeu o
Não há nada que não esteja interconectado, o sujeito como um indivíduo centrado e
sujeito está interligado como fios entrelaçados unificado, enraizado no tradicionalismo haja
nos quais estão presentes a intersubjetividade vista o conceito de que tudo lhe era pré-
e a interdependência na construção de suas estabelecido ao nascer, como verdade e
relações sociais e sua identidade. destino irrefutáveis.
Enquanto a concepção de sujeito
2.1. A Identidade do Sujeito Transmutado sociológico era o retrato da complexidade do
A teoria social tem atentado a questão mundo moderno desconstituído da
da identidade do sujeito, considerada por autonomia que lhe foi inferida no iluminismo,
muitos estudiosos em crise devido à pautado na interação do “eu” e das “pessoas
avalanche de mudanças decorrentes da as quais lhe eram caras”, que lhe imbuíam os
fugacidade e do dinamismo das transições e valores, signos, símbolos que culturalmente

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permeavam o mundo em que habitava sem caracterizado como indivíduo fragmentado,


muitas inconstâncias e que lhe soava mutável e até mesmo “descentrado”,
previsível, impactando em certa estabilidade. considerando que a facilidade de locomoção,
Na pós-modernidade, o sujeito se a miscigenação das raças, a nacionalidade, a
depara com outro cenário, solapado por uma diversidade e abertura de mercados,
avalanche de informações, de transformações contribuem para que o indivíduo assuma
e repleto de inseguranças e dúvidas, sua diversas identidades em diferentes momentos
identidade é interpelada constantemente pela e que são alteradas de forma contingencial.
efemeridade dos aspectos da vida Essas variáveis contribuem para um
contemporânea, na qual nada é reconhecido novo pensar acerca do ser, que frente à
como inabalável e uno, tudo é líquido. volatilidade e a imprevisibilidade da
Líquido é o termo utilizado por sociedade moderna, concebe o sujeito pós-
Bauman (1998) para ilustrar a voracidade com moderno como resultado de várias
a qual as mudanças impregnam, destroem e identidades culturais, tornando-o provisório,
impossibilitam qualquer vestígio de variável e sem identidade fixa.
estabilidade e segurança na pós-modernidade. O sujeito da pós-modernidade sofre
Tudo se tornou provisório e temporário, influências da inconstância dessa nova
tornando inviável e inconcebível realizar sociedade global na qual a efemeridade e o
projeções de longa duração que tenham imediatismo permeiam a insegurança da vida
intuito de solidificar qualquer ação longínqua. contemporânea e faz com que o sujeito mude,
Não há possibilidade de construir alicerces adapte-se e viva em estado de constante
em terras movediças, nem tão pouco em uma flexibilidade descartando qualquer
sociedade pós-moderna compreender a possibilidade de construção de identidade.
identidade do sujeito de forma estanque. O sujeito pós-moderno é híbrido e
Vivemos em uma sociedade fluida, atemporal como tal não há como rotular, caracterizar ou
e volátil que desmistifica qualquer personalizar sua identidade, sendo que essa
possibilidade de retrocesso à rigidez na se apresenta em um processo contínuo de
construção de uma identidade. transformação deliberado pelas relações
Bauman (1998) se tornou impossível sociais que se encontram globalizadas.
conceber modelos de identidades A abordagem de Hall é
estereotipados, haja vista que a estratégia da complementada por Elias, ao estabelecer as
pós-modernidade é fazer com que a relações sociais como interdependentes na
identidade flua e nunca se fixe. Permeando o qual o indivíduo é influenciado pelos traços
movimento da vida contemporânea, a de sua criação, instituídos em um primeiro
adaptabilidade e um futuro incontrolável momento pela família, depois pelo país em
compõem o estigma de que a identidade do que vive e pelo contexto no qual está inserido,
sujeito é maleável, líquida tal qual a água que implicando em novas visões de mundo e
é incapaz de adquirir um formato. sendo ressignificada constantemente.
De acordo com Hall (2006), os antigos Podemos averiguar que o indivíduo
parâmetros de identidade que moldavam o interioriza conhecimentos enraizados pelos
mundo social estão sendo desconstruídos. A seus antepassados e compartilhados ao longo
questão da identidade do sujeito subenten- de sua trajetória de vida, porém estes sofrem
dida como um ser unificado e estável modificações conforme os anos e o
retratada no iluminismo foi substituída pela comportamento das pessoas com as quais
concepção do sujeito pós-moderno convive.

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Segundo Elias (1994, p.18), “a todo, na conquista de formas superiores de


sociedade é o objetivo final e o indivíduo é cultura, que podem chegar até a libertar
apenas um meio, o indivíduo é o objetivo final dentro do ser humano novas formas de
e a união dos indivíduos numa sociedade é pensamento, novas formas de ser” e afirma
apenas um meio para seu bem-estar” e que o desenvolvimento de uma nova
elucida que ao nascer cada indivíduo é tecnologia impacta na construção de um novo
diferente em sua compleição natural, mas é ambiente humano.
inserido na sociedade que a criança se A cada nova invenção tecnológica
transforma em um ser mais complexo. observa-se a construção de novas culturas e
Entende-se que a análise sociológica é de novas relações sociais que se estabelecem
responsável por promover o conhecimento do por meio de novos estímulos a um dos
agente social, portanto, singular na construção sentidos. Na contemporaneidade é a
de uma sociedade altamente mutável, tecnologia que preconiza a maneira das
desmistificando a imagem de sociedade pessoas se relacionarem, de agir, de pensar. É
constituída ou pré-concebida defendida por um novo horizonte que vislumbra repaginado
alguns autores. virtualmente.
GIDDENS, 1990 apud HALL (2006,
p.15) cita o ritmo e o alcance das mudanças
como responsável pela transformação social, 3.GLOBALIZAÇÃO E AS TRANSFOR-
particularmente no conceito de tempo e MAÇÕES MULTIFACETADAS
espaço. “À medida que as áreas diferentes do O capitalismo e a globalização são
globo são postas em interconexão umas com apontados como fatores preponderantes na
as outras, ondas de transformação social construção das relações sociais, decorrentes
atingem virtualmente toda a superfície da de um modelo sociológico interativo. Tendo
terra.” como base esses parâmetros subentende-se
Ao analisar o pensamento do autor que não há nada absoluto, nem tão pouco
podemos fazer alusão à relevância da imutável, visto que em uma sociedade
tecnologia da informação neste contexto, globalizada, exposta às mais adversas
sobretudo da Internet que remodelou as circunstâncias, tudo é relativo e a diversidade
relações sociais, extinguiu a dicotomia de cultural apresenta-se como enriquecimento
tempo e espaço e descentralizou o poder dos universal para todos.
veículos de informação e comunicação Para a compreensão da globalização
existentes. As novas tecnologias e a internet como agente da transposição de fronteiras no
desenvolveram novas práticas que desenvolvimento de um conceito de “aldeia
culminaram em transformações significativas global” como um divisor de águas no aspecto
no aspecto social que corroboraram em novas cultural, econômico e político da sociedade e
maneiras de se relacionar e de democratização reconhecida como um fenômeno do
de conhecimento. Essas mudanças foram capitalismo que revolucionou irremediável-
decisivas para que compreendêssemos a mente as relações de trabalho, o convívio
sociedade em sua contemplação atual. Sem social e o papel do Estado, é necessário traçar
limites, sem fronteiras, sempre em movimento um breve cenário para contextualização da
e em constante estado de inquietação. história até o momento atual para o
Para Muraro (2009, p.47), “[...] cada entendimento do mundo global.
descoberta tecnológica ‘maior’ implica uma O século XVIII foi marcado por
ascensão de vida da humanidade como um grandes transformações oriundas da

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Revolução Industrial que é reverenciada como alcance mundial”. O conceito de civilidade


marco do capitalismo devido à nova forma de nos remete aos estudos de Elias (1994) nos
viver, esta revolução alterou hábitos e quais as relações sociais são responsáveis pela
costumes decorrentes da automação e da civilidade do indivíduo e que o processo
massificação do trabalho, perceptíveis nas civilizatório não deve ser compreendido como
relações de trabalho que até então eram algo criado por indivíduos isolados, mas em
estabelecidas apenas no âmbito familiar, no um processo realizado conjuntamente pelos
qual as atividades eram realizadas de forma indivíduos e sociedade. A globalização neste
manual e artesanal. sentido desponta como um processo de
Surge então um novo sistema reestruturação das relações de trabalho e das
produtivo embasado na fabricação de relações sociais que são institucionalizadas
mercadorias e na divisão de trabalho, que pela interação do indivíduo e a sociedade.
desconsidera as habilidades manuais e Fazendo uma analogia entre Elias e
prioriza a utilização de maquinários para Ianni, é instigante entender o processo
fazer as mercadorias. O trabalho no mundo civilizatório como um processo em constante
capitalista é reconhecido como uma produção transformação, no qual a cultura identifica
de mercadorias que propõe a ideia da grupos, demarca diferenças, constrói padrões
sociedade como um depósito de mercadorias e os modifica de acordo com a tecnologia, os
caracterizado por Karl Marx como uma avanços do conhecimento científico, a religião,
relação de poder enraizada na desigualdade os costumes pertinentes ao meio em que o
social. sujeito está inserido. Verifica-se que a cultura
A queda do Muro de Berlim em 1989 e a civilização são conceitos atrelados e
configura como marco emblemático da valorados a partir de tradições compactuadas
globalização, institucionalizado como por pessoas que vivem em seu meio, formado
simbologia de uma nova era que desabrocha de crenças, hábitos e costumes, constituído de
para um processo de internacionalização da necessidades coletivas de expressão, ou seja,
economia, com ênfase na tecnologia e construção de identidade que é ressignificada
transformando uma sociedade antes de à medida que funções e experiências são
produção em uma sociedade de consumo. transmutadas.
Para Santos (2003, p.26), “a A globalização é um fenômeno
globalização é a intensificação de relações determinante na construção dos parâmetros
sociais mundiais que unem localidades da sociedade pós-moderna, compreendida de
distantes de tal modo que os acontecimentos maneira elástica, virtual e abrangente que
locais são condicionados por eventos que descaracterizou padrões paradoxos e lineares
acontecem a muitas milhas de distância e vice que “costuravam” a vida social. Compreende-
versa”. Configurando uma nova forma de se esta “aldeia global” como um novo
viver em sociedade, que antes era delimitada processo civilizatório realizado por meio das
por linhas limítrofes imaginárias, dando lugar transições e modificações de hábitos,
ao conceito de totalidade, no qual todos costumes, crenças, valores, eliminação da
interagem, eliminando por completo qualquer dicotomia tempo e espaço e concebido como o
resquício de individualidade. renascer de uma nova era digital,
Ianni (1997, p.7) afirma que “a customizada e em constante processo de
globalização do mundo expressa um novo aprendizagem.
ciclo de expansão do capitalismo, como modo
de produção e processo civilizatório de

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3.1. A Dualidade do Espaço Tempo na Nas sociedades pré-modernas, o


Construção da Identidade espaço e o tempo representavam variáveis
No mundo contemporâneo o aspecto previsíveis e fáceis de serem contempladas e
dicotomizante da relação espaço-tempo foi compreendidas pela sociedade, haja vista que
descaracterizado pela globalização que as identidades eram constituídas no espaço e
eliminou fronteiras, comprimiu distâncias e no tempo simbólico. De forma lúdica,
redesenhou uma nova maneira de viver. Não delimitadas pelas relações sociais e do local
há espaços que sejam inatingíveis nem tão em que o sujeito estava inserido.
pouco tempo que possa ser computado, as Na pós-modernidade, a identidade do
barreiras limítrofes até então estabelecidas sujeito tem sido configurada de forma
dão vez a uma nova concepção atemporal e contingencial, haja vista a ânsia e o
comprimida do espaço, no qual a identidade imediatismo que representam a vida
do sujeito pós-moderno se repagina moderna, o que faz da versatilidade e da
continuamente. instabilidade características do sujeito pós-
Para Hall (2006), “[...] a ‘compressão moderno.
espaço-tempo’, a aceleração dos processos Com a globalização e principalmente
globais, de forma que se sente que o mundo é a Internet, temos a sensação de que o tempo
menor e as distâncias mais curtas [...]”(p.69). se tornou escasso e que o espaço é
A aceleração propiciada pela globalização se conquistado em apenas um ‘click’, como se o
traduz em uma necessidade irremediável de mundo estivesse ao nosso alcance. Ao mesmo
mudança contínua e a sensação de que tempo convivemos com a segurança da perda
estamos sem tempo e que não há mais espaços da identidade e da incompreensão de quem
limitados, causam insegurança e somos de verdade. À medida que as
desmistificam qualquer indício de mudanças solapam nossa vida, construímos
centralidade e estabilidade do sujeito das novas relações sociais e novos meios de
sociedades pré-modernas. convivência, de viver em sociedade. Como
A globalização e todo avanço exemplos de identidade a serem seguidas. A
tecnológico contribuiu para que a noção de reconfiguração e a adaptabilidade são
tempo e espaço, antes subentendida como um características da identidade da pós-
dos principais pilares da construção de modernidade e se apresentam como “moeda”
identidade do sujeito desmoronasse e surgisse da sociedade global.
um novo sujeito fragmentado, descentrado e A globalização comprimiu e
destituído de qualquer meio de representação. modificou a compreensão do espaço-tempo
Tendo em vista que o meio de representação reafirmando a improbabilidade de uma
infere-se a escrita, pintura, desenho, fotografia identidade.
que traduzem o objeto em dimensões A cada revisitação e tentativa de
temporais e espaciais, que denotam aspectos construção de identidade, o sujeito se depara
culturais, que concebem sua identidade. com a aceleração da vida pós-moderna e a
A volatilidade da contemporaneidade certeza de que é improvável estabelecer uma
impede que esse processo de representação se identidade fixa em um mundo dinâmico,
fixe e regule a identidade do sujeito, fugaz e imprevisível.
desestruturando qualquer probabilidade de Tem-se a sensação de um estado
modelo de identidade e o sujeito se torne pleno de urgência, no qual, ao sinalizar uma
passivo e impotente frente essa luz vermelha, é preciso se reconstruir e dar
transformação. vez a um novo mutante, um novo papel, um

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novo personagem, adequado ao contexto e a Enfim, essas e outras questões são


localidade que lhe é designado. inquietações a serem exploradas e
Portanto, observa-se a globalização explicitadas em outro momento que seja
como fator determinante no desenvolvimento propícia a continuidade desta pesquisa.
da sociedade pós-moderna, recriando
aspectos culturais, eliminando a dualidade de
espaço-tempo e concebendo a identidade do 7. REFERÊNCIAS
sujeito como descentrada frente ao volume de BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-
informações e a velocidade com que as modernidade. Trad. Mauro Gama, Cláudia
mudanças acontecem na vida global. Martinelli Gama. Rio de Janeiro: J. Zahar,
1998.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas: sobre a


A pesquisa em questão contemplou as teoria da ação. Trad. Mariza Corrêa.
mudanças profundas e significativas da vida Campinas: Papirus, 1996.
pós-moderna que resultaram na concepção de DURKHEIM, Émili. As regras do método
um novo sujeito que à luz da globalização e sociológico. Trad. Paulo Neves e revisão da
da tecnologia emerge como um indivíduo tradução Eduardo Brandão. 2. ed. São Paulo:
fragmentado, volátil e flexível, exposto a um Martins Fontes, 1999.
novo contexto de vida social. Neste
cenário são desconsiderados na construção de ELIAS, Norbert. A sociedade dos Indivíduos.
identidade do sujeito as raízes, ou qualquer Rio de Janeiro: J. Zahar, 1994.
vestígio que leve a contemplação do
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-
tradicionalismo inviabilizando qualquer
Modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e
possibilidade de construção de identidade
Guacira Lopes Louro. 11. ed. Rio de Janeiro:
padrão.
DP&A, 2006.
O sujeito pós-moderno surge como
uma incógnita, mutável e efêmero em meio às IANNI, Octavio. A Era do Globalismo. 3.ed.
transições e transformações do mundo Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997.
contemporâneo. A instabilidade e a
MURARO, Rose Marie. Os avanços
insegurança permeiam a essência de um
tecnológicos e o futuro da humanidade. São
indivíduo concebido em um momento
Paulo: Vozes, 2009.
histórico no qual não há espaço para modelos
preconcebidos e estereotipados que ao sujeito SANTOS, Boaventura de Sousa. A
fragmentado, descentrado e instável. Globalização e as Ciências Sociais. São Paulo:
Diante deste cenário fica a Cortez, 2002.
insegurança e a incerteza do mundo pós-
moderno, serão mesmo irrelevantes as
experiências passadas na construção de
identidade do sujeito? A linha tênue que
divide a humanidade antes e depois da
globalização foi realmente o marco de
transformações ou estávamos tão ocupados
em meio as nossas reflexões que não
percebemos o avanço para essa era global?

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