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A aplicação dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla
defesa no processo administrativo do Código de Trânsito Brasileiro

A aplicação dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa no processo
administrativo do Código de Trânsito Brasileiro

Leonardo Rodrigues de Velasco

Publicado em 02/2005. Elaborado em 11/2004.

As  Juntas  Administrativas  de  Recursos  de  Infrações  (JARI),  entidades  criadas
pelo  Código  de  Trânsito  Brasileiro,  com  o  objetivo  de  julgarem  os  processo
administrativos impetrados contra a aplicação de multas de trânsito, carecem de
regulamentos e uniformização de suas decisões.

SUMÁRIO:  INTRODUÇÃO;  1­ACEPÇÃO  CONCEITUAL  SOBRE  O  TERMO  PRINCÍPIO,  1.1­


REGISTRO  DOS  PRINCÍPIOS  CONSTITUCIONAIS  DO  CONTRADITÓRIO  E  DA  AMPLA
DEFESA  NAS  CONSTITUIÇÕES  BRASILEIRAS  DE  1824  A  1988;  2­O  PROCESSO
ADMINISTRATIVO  NO  ROL  DOS  DIREITOS  E  GARANTIAS  FUNDAMENTAIS,  2.1­IMPORTÂNCIA
DO PROCESSO ADMINISTRATIVO, 2.1.1­Falando em Ampla Defesa, 2.2­O CONTRADITÓRIO E
A AMPLA DEFESA NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DO CTB, 2.3­ANULABILIDADE DOS
JULGADOS NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DO CTB; 3­AS  JARI`s  E  SUA  COMPETÊNCIA,
3.1­AS JARI COMO MEIO DE CERCEAMENTO DE DEFESA DO CIDADÃO E TUMULTO DO
PODER  JUDICARIO,  3.2­COMPOSIÇÃO  DAS  JARI,  3.3­A  CRIAÇÃO  DA  COMISSÃO  DE
ANALISE  DE  DEFESA  PREVIA,  3.4­DIREITO  A  PUBLICIDADE  DOS  ATOS
ADMINISTRATIVOS,  3.5­O  CERCEAMENTO  DO  DIREITO  DE  PUBLICIDADE  DOS  ATOS
ADMINISTRATIVOS NA SMT; 4­CONCLUSÃO; 5­REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

INTRODUÇÃO

A  defesa  dos  direitos  constitucionais  é,  acima  de  tudo,  uma  obrigação  de  todo  profissional  operador  do
Direto.

Como  formando  no  curso  de  Ciências  Jurídicas  da  Universidade  Católica  de  Goiás  e,  como  cidadão
consciente de meus direitos e, por conseguinte dos direitos da sociedade, cabe a mim a tarefa de contribuir
para a construção de uma sociedade mais igualitária, justa e apta a exercer, plenamente, sua cidadania.

Ao  elaborar  o  tema  da  presente  monografia  pesou­me,  além  do  inconformismo  típico  dos  estudantes  de
Direito,  a  condição  de  ser,  hoje,  servidor  público  municipal  lotado  na  Superintendência  Municipal  de
Trânsito de Goiânia. Tal condição proporcionou­me meios de expor, em certos pontos, com mais clareza,
as consideradas, por mim e por muitos, irregularidades no processo administrativo de aplicação de multas
de trânsito.
Como Agente Municipal de Trânsito, pude presenciar o cometimento de inúmeras barbaridades no trânsito
causadas por uma parcela da sociedade, invariavelmente munida de um veículo automotor. Digo munido,
por ser, hoje, o veículo, uma espécie de arma nas mãos de muitos condutores, que os utilizam não com o
fim de agilizar o quotidiano, mas como mero instrumento de poder e submissão.

Tais  atitudes  de  certos  condutores  ensejam  punição  por  infringirem  as  normas  de  circulação  e  conduta
previstas  na  Lei  9.503  de  27  de  setembro  de  1997,  o  Código  de  Trânsito  Brasileiro  –  CTB.  O  servidor
público  apto  a  fiscalizar  e  aplicar  a  legislação  de  trânsito  vigente,  no  município  de  Goiânia,  é  o  Agente
Municipal  de  Trânsito.  Assim,  ao  presenciar  as  condutas  infracionais  descritas  no  CTB,  o  Agente  de
Trânsito trata de indicar, em instrumento próprio, quais os artigos incorreu o pseudo­infrator.

Ao  preencher  o  Auto  de  Infração  para  Imposição  de  Penalidade  –  AIIP,  age  com  presteza  o  Agente
autuador,  vez  que  lhe  cabe  a  tarefa  de  indicar  o  cometimento  de  infrações  à  Lei  9.503/97,  contudo,  seu
trabalho  é  mitigado,  pois  a  competência  para  determinar  a  aplicação  de  multa  ao  infrator  pertence  à
autoridade  de  trânsito  com  circunscrição  sobre  a  via,  no  caso  de  Goiânia,  o  Superintende  Municipal  de
Trânsito.

Neste ponto inicia­se a dissertação do presente trabalho, pois como o processo administrativo admitido no
CTB  não  é  capaz  de  oportunizar  aos  condutores  autuados  a  ampla  defesa  e  o  contraditório,  o  mesmo
macula­se, levando os cidadãos autuados a buscar a tutela jurisdicional do Estado, abarrotando o Poder
Judiciário de ações que não deveriam ocorrer caso houvesse respeito à Lex Magna,  por  parte  da  própria
Administração Pública.

Desta forma, a presente monografia buscará analisar os aspectos doutrinários, legais e jurisprudenciais a
fim  de  analisar  a  aplicação  das  multas  de  trânsito  em  Goiânia  e,  a  correta  aplicação  dos  princípios
constitucionais da Ampla Defesa e do Contraditório.

1 ­ ACEPÇÃO CONCEITUAL SOBRE O TERMO PRINCÍPIO

Conceituar, para os efeitos deste trabalho e para a metodologia da ciência, é algo mais amplo, profundo e
complexo  que  definir.  No  que  toca  aos  princípios  constitucionais,  conceituar  diz  respeito  à  atividade  de
compreensão,  de  cognição  do  conjunto  das  propriedades  teórico­jurídicas  que  compõem  a  idéia  de
princípio  na  Constituição  (para  se  definir  os  princípios);  também,  diz  respeito  à  caracterização  da
extensão  dos  tipos  de  normas  da  Constituição,  que  possuem  as  mesmas  características  que  tipificam  os
princípios  constitucionais  (para  se  dividir,  classificar  os  princípios).  O  ato  de  definir  está  ligado  a
compreensão do conceito, e não a sua extensão [1].

Para  se  analisar,  com  satisfatoriedade,  o  conceito  de  princípio  no  Direito,  cumpre  sejam  levantadas,
inicialmente, as significações de princípio fora do âmbito do saber jurídico, para, ao depois, perscrutasse
as  significações  que  lhe  foram  conferidas  por  diferentes  posturas  metodológicas  no  interior  da  Ciência
Jurídica.

Desenvolvendo  esse  raciocínio,  torna­se  necessário  destacar  que  o  termo  princípio  é  utilizado,
indistintamente, em vários campos saber humano. Filosofia, Teologia, Sociologia, Política, Física, Direito
e outros se servem dessa categoria para estruturarem, muitas vezes, um sistema ou conjunto articulado de
conhecimento  a  respeito  dos  objetos  cognocíveis  exploráveis  na  própria  esfera  de  investigação  e  de
especulação a cada uma dessas áreas do saber.

No vernáculo, o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira [2] define princípio em várias acepções
que, conjugadas, principiam a intangibilidade do termo princípios:
Princípio. {do lat. Principiu.} S. m. 1. Momento ou local ou trecho em que algo tem origem (...) 2. Causa
primária.  3.  Elemento  predominante  na  Constituição  de  um  corpo  orgânico.  4.  Preceito,  regra,  lei.  5.  P.
ext. Base; germe (…) 6. Filos. Fonte ou causa de uma ação. 7. Filos. Proposição que se põe no início de
uma  dedução,  e  que  não  é  deduzida  de  nenhuma  outra  dentro  do  sistema  considerado,  sendo  admitida,
provisoriamente, como inquestionável. {São princípios os axiomas, os postulados, os teoremas etc}.

Adiante, noutra passagem do referido dicionário, registra­se o significado de princípios ­ agora no plural;
"Princípios.  (...).  4.  Filos.  Proposições  diretoras  de  uma  ciência,  às  quais  todo  o  desenvolvimento
posterior dessa ciência deve estar subordinado". [3]

Para o jurista Luis Diez­Picazo, a "idéia de princípios deriva da linguagem da geometria, ‘ onde designa
as verdades primeiras’ (...). Exatamente por isso são ‘ princípios’, ou seja, ‘ porque estão ao princípio’,
senda ‘ as premissas de todo um sistema que se desenvolve more geométrico`" [4]

Pode­se concluir que a idéia de princípios ou sua conceituação, seja lá qual for o campo do saber que se
tenha em mente, designa a estruturação de um sistema de idéias, pensamentos ou normas por uma idéia
mestra, por um pensamento chave, por uma baliza normativa donde todas as demais idéias, pensamentos
ou normas derivam, se reconduzem e/ou se subordinam.

Nas letras jurídicas, essa concepção de princípios é a dominante.

A  definição  de  princípios,  trabalhada  no  mundo  do  Direito  –  mundo  polissêmico,  onde  a
interssubjetividade  crítica  e  a  acomodação  das  idéias  formam  um  manancial  muito  peculiar,  próprio  ao
progresso ou à estagnação do pensamento – assume peculiares significações, em face dos diferentes níveis
de linguagem em que o Direito se estrutura e, conseqüentemente, estrutura o conceito de princípios. [5]

Assim, na Ciência Jurídica, tem­se usado o termo princípios ora para designar a formulação dogmática de
conceitos estruturados por sobre o direito positivo, ora para designar determinado tipo de normas jurídicas
e ora para estabelecer os postulados teóricos, as proposições jurídicas construídas independentemente de
uma ordem jurídica concreta ou de institutos de direito ou normas legais vigentes.

Diante dos postulados da teoria dos princípios, não há se falar que se negar ao princípio constitucional a
sua natureza de norma, de lei, de preceito jurídico, ainda que com características estruturais e funcionais
bem  diferentes  de  outras  normas  jurídicas,  como  as  regras  de  direito.  Assim,  por  sua  própria  essência,
evidenciam mais do que comandos generalíssimos estampados em normas, em normas da Constituição.

Nesta  linha  de  pensamento,  se  posiciona  a  constitucionalista  Cárme  Rocha  [6],  ao  discorre  sobre  a
natureza dos princípios constitucionais.

Os  princípios  constitucionais  são  os  conteúdos  primários  diretores  do  sistema  jurídico­normativo
fundamental  de  um  Estado.  Dotados  de  originalidade  e  superioridade  material  sobre  todos  os  conteúdos
que  formam  o  ordenamento  constitucional,  os  valores  firmados  pela  sociedade  são  transformados  pelo
Direito em princípios. Adotados pelo constituinte, sedimentam­se nas normas, tornando­se, então, pilares
que informam e conformam o Direito que rege as relações jurídicas no Estado. São eles, assim, as colunas
mestras da grande construção do Direito, cujos fundamentos se afirmam no sistema constitucional (...).

1.1Registro  dos  princípios  constitucionais  do  Contraditório  e  da  Ampla  Defesa  nas
Constituições Brasileiras de 1824 a 1988

A Constituição de 1824 surge como organizadora jurídica do país então independente. Tem caráter menos
iluminista  e  menos  liberal  que  as  constituições  novas  surgidas  após  a  Revolução  Francesa  de  1789,  na
Europa.
O  Brasil  era  um  país  recém  liberto  do  julgo  Português,  no  entanto  seu  primeiro  Imperador  possuía
ascendência portuguesa, o que comprometeu o teor da 1ª Constituição do país, pois tinha o como enfoque
central à proteção dos interesses portugueses.

Pela primeira vez tem­se notícia dos Princípios Constitucionais do Contraditório e da Ampla Defesa, ainda
que de forma tácita, pois o texto da Carta Magna não expressa tais princípios, limitando­se a dispor em
seu último artigo (179), as principais garantias individuais consagradas pela Constituição de 1824. Entre
os  incisos  do  mencionado  artigo,  citaremos  os  que  mais  dão  ensejo  a  interpretação  dos  Princípios
Constitucionais do Contraditório e Ampla Defesa.. O artigo assim se pronuncia: in verbis

Artigo  179:  A  inviolabilidade  dos  direitos  civis  e  políticos  dos  cidadãos


brasileiros,  que  tem  por  base  a  liberdade,  a  segurança  individual  e  a
propriedade é garantida pela Constituição do Império pela maneira seguinte:

1­Nenhum cidadão pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa,
senão em virtude da lei.

2­A disposição da lei não terá efeito retroativo.

(...)

6­À  exceção  de  flagrante  delito,  a  prisão  não  pode  ser  executada  senão  por
ordem escrita da autoridade legítima.

7­A Lei será igual para todos...

Em 1891 é proclamada a segunda Constituição do Brasil, agora um país republicano.

O  artigo  2°  da  Constituição  de  1891  cuida  do  tema  Direitos  e  garantias
individuais.

Houve significante avanço quanto a aplicação do Contraditório no ordenamento jurídico pátrio quando da
implementação  do  habeas­corpus.  Com  a  efetiva  garantia  constitucional  da  aplicação  do  mencionado
instituto legal, as relações entre as partes no processo em bulha tornaram­se mais justas, pois se garantia
a liberdade da parte acusada até julgamento final da ação judicial.

Após a Primeira Guerra Mundial e várias revoluções internas, entre elas o Tenentismo e a Revolução de
1930,  o  Brasil,  em  1934,  rompendo  com  a  velha  república  promulga  sua  nova  Constituição,  desta  vez
influenciado pela moda do fascismo italiano divulgado por Benito Mussolini.

Em  seu  Título  III,  reservado  à  Declaração  de  Direitos,  aparecem  dois  capítulos:  Dos  Direitos  Políticos  e
Dos  Direitos  e  Garantias  Individuais.  No  capítulo  destinado  aos  Direitos  e  Garantias  Individuais,  os
constituintes fizeram algumas conquistas no capítulo das Garantias, entre elas citaremos:

A lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.

O Código Civil de 1916 já havia consagrado esse preceito. O direito que já se adquiriu na vigência da lei
anterior  não  pode  ser  alterado  pela  lei  nova.  O  direito  adquirido  é  a  restrição  ao  princípio  da  imediata
aplicação da lei.

Dar­se­á mandado de segurança para defesa do direito certo e incontestável, ameaçado ou violado por ato
manifestamente inconstitucional ou ilegal de qualquer autoridade.
Observa­se  que,  embora  não  sejam  manifestos  os  Princípios  do  Contraditório  e  da  Ampla  Defesa,  o
legislador constituinte demonstra haver no então vigente ordemanento jurídico brasileiro, o princípio do
Devido  Processo  Legal,  não  fosse  assim,  não  haveria  a  necessidade  de  se  instituir  tão  nobre  instituto
processual como é o caso do mandado de segurança.

A  Carta  da  República  de  1937,  surgia  no  denominado  Estado  Novo,  cuida  no  capítulo  reservado  aos
"Direitos e Garantias Individuais" de um tema a muito abandonado, o qual seja, a "pena de morte".

Comentários  a  parte,  a  Constituição  de  1937,  serviu  apenas  aos  interesse  ditatoriais,  desta  forma,  não
haviam garantias constitucionais que o Devido Processo Legal seria cumprido pelo Estado, quando em lide
judicial contra qualquer do povo.

Logo após a Segunda Grande Guerra Mundial, é promulgada a Constituição de 1946, a quinta desde 1824.

Na  Carta  de  1946,  os  Direitos  e  Garantias  Individuais  recebem  atenção  preciosa.  Há  um  ampliação  das
garantias  processuais  constitucionais  que  visam  assegurar  ao  cidadão  acesso  às  vias  judiciais  a  fim  de
buscar a garantia de seus direitos.

Muitas são as inovações trazidas por tal Constituição, entre elas, não podemos deixar de citar o princípio
da  inafastabilidade  do  controle  judicial,  que  diz  não  poder  ser  excluído  da  apreciação  do  poder  Judicial
qualquer  lesão  de  direito  individual.  Pode­se  observar  que  tal  princípio  está  ligado  por  laços  fortes  aos
princípio do Contraditório e da Ampla Defesa, bem como ao Devido Processo Legal.

Surge no retro mencionado Diploma Maior, o direito de qualquer cidadão ser parte legítima no pleito de
anulação ou declaração de nulidade de atos lesivos do patrimônio da União, Estados e dos Municípios, por
meio da Ação Popular, reforçando de forma clara as garantias constitucionais já mencionadas [7].

Em 1964 o Brasil sofre um Golpe de Estado, com ele veio a Constituição de 1967, sem dúvidas a mais cruel
de todas as já promulgadas no país.

O artigo 150 da Constituição de 1967, cuida dos direitos e garantias individuais, assegura aos brasileiros e
aos  estrangeiros  residentes  no  país  a  inviolabilidade  dos  direitos  concernentes  à  vida,  à  liberdade,  à
segurança  e  à  propriedade.  Contudo,  lê­se  no  artigo  151  que,  aquele  que  abusar  dos  direitos  individuais
(liberdade  de  pensamento,  de  reunião  e  de  associação)  para  atentar  contra  a  ordem  democrática  ou
praticar  a  corrupção,  incorrerá  na  suspensão  daqueles  direitos  pelo  prazo  de  dois  a  dez  anos.  O  artigo
ainda  diz  que  o  Supremo  Tribunal  Federal  julgará  tais  casos,  e  que  ao  acusado  será  assegurada  a  mais
ampla defesa, entretanto, a ampla defesa ficou apenas na letra morta da Lei.

Vem  a  Norma  Ápice  de  1969  e  com  ela  o  Ato  Institucional  nº  5  [8].o  qual  pôs  fim  a  Carta  de  1967,
implantando no Brasil um regime de terror institucional antes nunca visto.

O artigo 182 que incorpora o AI­5, autoriza o Presidente a fechar qualquer Casa do Legislativo. Então, na
mesma  Carta,  respiram  duas  ordens:  A  Constitucional  e  a  Institucional.  Ora,  se  o  Presidente  pode,
segundo o artigo 182, fechar o Congresso Nacional, então os Poderes da União não são harmônicos nem
independentes; pelo contrário, há um só Poder – o Executivo.

Com  o  AI­5,  as  Garantias  Individuais  foram  banidas,  restando  ao  povo  brasileiro  aguardar  a  queda  do
regime a fim de verem seus direitos restabelecidos.

Emenda  Constitucional  nº  11  –  responsável  pela  abertura  política,  apresenta  quatro  artigos,  os  quais
alteram de forma substancial toda a Constituição de 1969. Entre os pontos mais relevantes, destaca­se o
artigo 3º da Emenda 11, o qual revoga os atos institucionais e complementares à Carta Magna.

Revogados  os  Atos  Institucionais,  principalmente  o  AI­5,  o  país  vive  uma  nova  ordem  jurídica.  São
restabelecidas as garantias constitucionais do habeas corpus, retirou do Presidente da República poderes
para demitir, remover, aposentar, pôr em disponibilidade juízes, ou qualquer funcionário público.
[9]
Nas palavras de Jorge Miguel [9]:

A  incorporação  do  AI­5  em  69  na  carta  de  67  foi  tão  esdrúxula  que  não
tivemos  dúvidas  de  que,  na  realidade,  estávamos  vivendo  uma  nova  Carta
Constitucional. Da mesma maneira a revogação do AI­5 em 79 da Carta de 69
foi tão expressiva que, de fato, tratava­se de uma nova Carta.

A redemocratização brasileira teve início com ascensão ao cargo de Presidente da República do General
João Baptista Figueiredo, em 15 de março de 1979. O general Presidente manifestou seu propósito de fazer
deste país uma democracia. O propósito tornou­se realidade, em julho daquele ano, o Presidente remete ao
Congresso um projeto de anistia política.

Em  15  de  janeiro  de  1985,  Tancredo  Neves  é  eleito  pelo  Congresso  Nacional  Presidente  da  República,
porém tal presidente não assume o cargo, em conseqüência de sua morte, assume o cargo de Chefe Maior
da nação, o maranhense José Sarney.

Aos cinco dias de outubro de 1988 é promulgada a Constituição Cidadão, a qual traz expressivos avanços
às áreas dos direitos sociais e em especial das liberdades e garantias individuais.

Observa­se  no  texto  da  Carta  Maior  de  1988,  em  seu  Capitulo  I,  Título  II,  intitulado  Dos  Direitos  e
Garantias  Fundamentais,  a  clara  intenção  do  legislador  constituinte  de  evitar­se  os  abusos  cometidos
contra a ordem jurídica à vigência de constituições anteriores.

O  artigo  5º  consagra  de  forma  definitiva  os  Princípio  da  Ampla  Defesa  e  do  Contraditório,  bem  como  o
Devido Processo legal e o Mandato de Segurança.

O  inciso  LV,  assegura  aos  litigantes  em  processos  administrativos  e  judiciais  tais  garantias  e  assim  se
manifesta in verbis:

Art. 5º...

LV  –  aos  litigantes,  em  processo  judicial  ou  administrativo,  e  aos  acusados
em  geral  são  assegurados  o  contraditório  e  a  ampla  defesa,  com  os  meios  e
recursos a ela inerentes;

Desta forma, a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito. No processo
judicial, uma parte invoca a tese:; a outra rebate com a antítese; o juiz acima das partes faz a síntese. É o
princípio do contraditório. Na instrução processual, seja administrativa ou judicial, só se admitem meios
idôneos. Alguém só pode ser considerado culpado, depois de definitivamente julgado.

A menção ao Princípio do Devido processo Legal vem estampado no mesmo artigo 5º em seu inciso LIV,
assim expresso in verbis:

LIV  –  ninguém  será  privado  da  liberdade  ou  de  seus  bens  sem  o  devido
processo legal;

E,  por  fim,  o  Mandado  de  Segurança,  o  qual  é  utilizado  a  fim  de  ser  preservar  direito  líquido  e  certo,
encontra guarita no texto constitucional no inciso LXIX o qual transcrevo in verbis:
LXIX – conceder­se­á mandado de segurança para proteger direito líquido e
certo,  não  amparado  por  habeas­corpus  ou  habeas­data,  quando  o
responsável  pela  ilegalidade  ou  abuso  de  poder  for  autoridade  pública  ou
agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público;

2­O PROCESSO ADMINISTRATIVO NO ROL DOS DIREITOS E GARANTIAS
FUNDAMENTAIS.

O  dispositivo  chave  em  matéria  de  processo  administrativo  é  o  inciso  LV  do  artigo  5º,  o  qual  reza  o
seguinte: "Aos litigantes em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados
o  contraditório  e  a  ampla  defesa,  com  os  meios  e  recursos  a  ela  inerentes".Visualizado  quanto  à
Administração, o preceito assegura, aos litigantes em processo administrativo e aos acusados no âmbito
administrativo, o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. [10]

O preceito acima está inserido no título dedicado aos direitos e garantias fundamentais. Nem sempre, na
teoria e na prática, se torna possível a separação nítida entre direitos e garantias. José Afonso da Silva, ao
tratar do confronto entre direitos e garantias, menciona a conotação destas como direitos instrumentais,
porque destinadas a tutelar um direito principal.

Conforme se depreende do texto supra citado, o art. 5º da Carta da Primavera de 1988, estampa em seus
texto  primordial  as  garantias  dos  litigantes  se  contradizerem  e  promoverem  a  ampla  defesa  de  seus
direitos,  desde  que  dentro  da  legalidade.  Contudo,  a  leitura  do  citado  inc.  LV  suscita  a  questão  do
significado do termos litigantes na perspectiva do processo administrativo.

Diferentemente  do  passado,  as  correntes  doutrinárias  contemporâneas  já  trabalham  com  a  idéia  de
multiplicidade de interesses, de diversidade de pontos de vista, de controvérsias a respeito de direitos no
âmbito da atuação administrativa. Daí merecer acolhida a diretriz aventada por Ada Pellegrini Grinover ao
examinar o sentido do termos litigantes na esfera administrativa:

O  litigante  surge  em  razão  de  uma  controvérsia,  em  razão  de  um  conflito  de  interesses.  [...]  Haverá
litigantes sempre que houver um conflito de interesses, sempre que houver uma controvérsia [11]

A exigência de processo administrativo abrange, portanto, situações em que dois ou mais administrados
apresentam­se  em  posição  de  controvérsia  entre  si,  perante  uma  decisão  que  deva  ser  tomada  pela
Administração;  por  exemplo:  nas  licitações,  concursos  públicos,  licenciamento  ambiental.  Abrange
também os casos de controvérsias entre administrados (particulares ou servidores) e a Administração; por
exemplo:  licenças  em  geral,  recursos  administrativos  em  geral  (multas  de  trânsito),  reexame  de
lançamento (processo administrativo – tributário).

Na  esfera  administrativa  o  termo  "acusado"  designa  as  pessoas  físicas  ou  jurídicas  às  quais  a
Administração  atribui  determinadas  atuações,  das  quais  decorrerão  conseqüências  punitivas;  por
exemplo: imposição de sanções decorrentes do poder de polícia, inclusive sanções de trânsito.

O princípio do contraditório, em essência significa a faculdade de manifestar o próprio ponto de vista ou
argumentos  próprios,  ante  fatos,  documentos  ou  pontos  de  vista  apresentados  por  outrem.
Fundamentalmente,  no  dizer  de  Cândido  Rangel  Dinamarco,  contraditório  quer  dizer  "informação
necessária  e  reação  possível".  Elemento  ínsito  à  caracterização  da  processualidade,  o  contraditório
propicia ao sujeito a ciência de dados, fatos, argumentos, documentos, a cujo teor ou interpretação pode
reagir,  apresentando,  por  seu  lado,  outros  dados,  fatos,  argumentos,  documentos.  À  garantia  do
contraditório para si próprio corresponde o ônus do contraditório, pois o sujeito deve aceitar a atuação no
processo de outros sujeitos interessados, com idênticos direitos.
Do  princípio  do  contraditório,  centrado  na  informação  necessária  para  possibilitar  a  reação,  emanam
faculdades, direitos, enfim conseqüências que formar o corpo do seu próprio conteúdo. No estudo de Odete
Medauar,  o  contraditório  possui  uma  profunda  inter­relação  com  o  princípio  da  ampla  defesa,  alguns
desdobramentos  vem  inseridos  pela  doutrina  e  jurisprudência  também  no  rol  dos  elementos
configuradores deste último, assim, serão arrolados a seguir os desdobramentos mais diretos do princípio
do contraditório [12].

a)  Informação  geral  –  significa  o  direito,  atribuído  aos  sujeitos  e  à  própria  Administração,  de  obter
conhecimento  adequado  dos  fatos  que  estão  na  base  da  formação  do  processo  e  de  todos  os  demais
documentos, provas e dados que vierem à luz no curso do processo. Daí resultam exigências impostas à
administração  no  tocante  à  comunicação,  aos  sujeitos,  de  elementos  do  processo  em  todos  os  seus
momentos. Vincula­se, também, informação ampla, o direito de acesso a documentos que a Administração
detém  ou  a  documentos  juntados  por  sujeitos  contrapostos.  No  ordenamento  pátrio,  o  princípio  da
publicidade, consagrado constitucionalmente, irradia­se de forma acentuada nas atuações administrativas
processualizadas.

b)  Ouvida  dos  sujeitos  ou  audiência  das  partes  –  esse  aspecto  mescla­se  com  facilidade  aos
desdobramentos da ampla defesa. Consiste, em essência, na possibilidade de manifestar o próprio ponto
de  vista  sobre  fatos,  documentos,  interpretações  e  argumentos  apresentados  pela  Administração.  Aí  se
incluem  o  direito  paritário  de  propor  provas,  o  direito  de  vê­las  realizadas  e  apreciadas  e  o  direito  a  um
prazo suficiente para o preparo de observações a serem contrapostas.

c) Motivação – a oportunidade de reagir ante a informação seria vã, se não existisse fórmula de verificar se
a autoridade administrativa efetivamente tomou ciência e sopesou as manifestações dos sujeitos. A este fim
responde  a  regra  da  motivação  dos  atos  administrativos.  Pela  motivação  se  percebe  como  e  quando
determinado fato, documento ou alegação influi na decisão final. Evidente que a motivação não esgota aí
seu  papel;  além  disso,  propicia  reforço  da  transparência  administrativa  e  do  respeito  à  legalidade  e
também facilita o controle sobre as decisões tomadas.

2.1­IMPORTÂNCIA DO PROCESSO ADMINISTRATIVO

Em  extensa  escala  a  atividade  da  administração  é  atividade  processual  e  pela  importância  de  que  se
reveste, está inscrita entre os capítulos de maior responsabilidade do direito administrativo, não só porque
é a base para a aplicação das sanções preliminares, ditas maiores, como também porque, em nossos dias,
é indubitável a tendência generalizada, nos países de orientação democrática, se assegurar ao funcionário
público uma série infinita de recursos que o põe a salvo do arbítrio das autoridades às quais se subordina
(Cavalcanti).

E, se por um lado, não há disciplina alguma que dispute ao direito administrativo o estudo do processo que
lhe  é  peculiar,  por  outro  lado,  a  questão  controvertida  está  em  saber  se  o  procedimento  administrativo  é
suscetível e digno de investigação teórica.

Não  há  a  menor  dúvida  de  que  a  importância  gradativa  que  vai  assumindo  o  processo  administrativo
moderno justifica do modo mais amplo quaisquer estudos e investigações teóricas tendentes a esclarecer­
lhe  os  contornos  nem  sempre  nítidos,  mas  que  necessitam,  por  isso  mesmo,  de  rigorosa  e  urgente
delimitação.

Embora  alguns  autores  que  estudam  o  processo  administrativo  prefiram  não  falar  em  "partes",
empregando ou o termo "interessados" ou "concorrentes", somos de parecer que, neste tipo particular de
atividade processual, convém manter a antiga denominação consagrada pelos processualistas.

Com efeito, se parte é quem compõe uma demanda e aquele contra quem a demanda é proposta, sendo as
partes da demanda as partes do processo, não há motivo algum para não continuar o uso de tão simples
quão tradicional terminologia.
Desse modo, a administração é parte,  bem  como  o  administrado  figura  também  nessa  qualidade  e  com
essa denominação.

No entanto, visto que a administração, como "parte", se acha em relevo todo especial, adotaremos neste
trabalho  o  nome  de  parte  ou  interessado,  ao  particular  ou  funcionário  público  que  figurar  na  relação
jurídico­processual administrativa, quer como sujeito ativo, quer como sujeito passivo.

Não obstante se trate de binômio (Administração versus interessado), não de trinômio (como no direito
processual civil), as partes em ação, na realidade, são contrapostas, defendem não raras vezes interesses
antagônicos:  os  administradores  pleiteando  os  direitos  que  a  lei  lhes  faculta,  a  administração  velando
para que os deveres sejam observados; ambos, enfim, em ultima análise, fornecendo elementos para que a
justiça  figure  sempre  em  primeiro  plano  e  o  Estado  atinja,  do  melhor  modo  possível  e  no  mais  rápido
espaço de tempo, o fim elevado que se propõe a realizar.

Enfim,  de  um  modo  geral,  sob  a  rubrica  genérica  de  administrados,  que  podem  ser  funcionários,  do
quadro ou fora do quadro, como também podem ser simples particulares, compreendemos todos aqueles
que  estão  à  mercê  da  Administração:  ora,  quando  os  administradores,  por  qualquer  motivo,  integram  a
relação  jurídico­processual  administrativa  podem  receber  o  nome  de  partes,  interessados  ou
concorrentes, sem prejuízo de que reserve, também, a denominação de parte à própria administração em
numerosos casos.

Em  ambos  os  casos,  é  preciso  distinguir  a  questão,  o  primeiro,  nos  países  que  admitem  o  contencioso
administrativo,  como  a  França,  na  qual  um  aparelhamento  especial,  autônomo,  independente  do  Poder
Judiciário,  "julga",  "diz  o  direito",  e  nos  países,  como  o  Brasil,  no  qual  só  o  Judiciário  é  que  tem  a
prerrogativa jurisdicional.

Mas,  qualquer  que  seja  o  sentido  em  que  se  temo  a  expressão  processo  administrativo,  o  elemento
teleológico  ou  finalístico  jamais  pode  deixar  de  ser  presente.  Como  espécie  do  processo,  em  geral,  o
processo administrativo dirige suas vistas para um fim, que é um pronunciamento original, uma decisão
concreta da administração, um ato administrativo que consubstancie uma norma vigente.

Deste modo procedimento desta índole persegue a finalidade de conseguir um ato administrativo por parte
da administração, ou uma atuação administrativa, por parte do administrado ou particular, alheias, uma e
outra, ao político ou ao judicial. [13]

A  finalidade  do  processo  administrativo,  ensina  Villar  y  Romero,  "é  obter  uma  decisão  concreta  da
administração  que  individualize  uma  norma  jurídica  ou  declare,  reconheça  ou  proteja  um  direito,  cuja
afirmação se pede, quer pela pessoa interessada quer pela própria administração".

Parafraseando  Kisch,  acrescenta,  pode­se  afirmar  que  a  finalidade  do  processo  é  unitária  e  que  os  atos
processuais só alcançam eficácia, em sua totalidade, graças ao influxo que exercem para obtenção dessa
decisão final que constitui a verdadeira finalidade do processo administrativo.

2.1.1­Falando em Ampla Defesa

A regra da Ampla Defesa, nas palavras de José Cretella Júnior [14]:
[...]  abrange  a  regra  do  contraditório,  completando­se  os  princípios  que
informam  e  que  se  resumem  no  postulado  da  liberdade  integral  do  homem
diante da prepotência do Estado". A defesa a que se refere o inciso LV do art.
5º  da  Constituição  de  1988  "é  a  defesa  em  que  há  acusado;  portanto,  e  a
defesa em processo penal, ou em processo fiscal­penal ou administrativo, ou
policial.  O  princípio  nada  tem  com  o  inciso  do  processo  civil,  onde  há  réus
sem direito à defesa, antes da condenação (15).

Em 22 de julho de 1936, o Supremo Tribunal Federal, em decisão memorável, então denominado de Corte
Suprema,  julgando  argüição  de  inconstitucionalidade  de  dispositivo  de  processo  civil,  diante  da
Constituição  de  1934,  vigente,  art.  113,  §  23,  que  assegurava  aos  acusados  ampla  defesa,  manifestou­se
pelo  voto  do  Relator,  e  firmou,  para  sempre,  o  princípio  de  que  a  Carta  "consagra  garantias  a  réus,  em
processos  criminais,  ou  acusados  de  crime,  propriamente  ditos,  e  não  cogita  de  estabelecer  nenhuma
norma fundamental para o direito civil". Assim, em 1934, art. 113, § 24, como já antes, em 1891, art. 72, §
15 e, como depois, em 1937, art. 122, § 11; em 1946, art. 141, § 25; 1967, art. 150, § 15; em 1969, art. 153, §
15; em 1988, art. 5º, inciso LV, "AMPLA DEFESA" é regra peculiar a processo em que o Estado acusa e
não existe em processo no qual o Estado, por meio do magistrado, é estranho à lide, procurando dar razões
a quem tem. No processo administrativo, que alguns denominam de inquérito administrativo, é necessária
a ampla defesa para demissão de funcionário admitido por concurso (súmula 20 do STF), sendo "nula  a
demissão  de  funcionário  com  base  em  processo  administrativo  no  qual  não  lhe  foi  assegurada  ampla
defesa"  [16].  Destoa  da  norma  geral  a  aplicação  da  Carta  de  1937  e  1967,  onde  as  garantias  individuais
fundamentais foram suprimidas pela truculência do regime forte de então.

Longo caminho a humanidade percorreu, desde a época em que a vida e os bens eram tirados do homem só
pela  vontade  do  soberano  até  a  afirmação,  consolidação  e  aprimoramento  das  garantias  de  vida,
patrimônio, honra e outras mais, conquistadas no correr dos séculos.

O direito de defesa significa, em essência, "o direito à adequada resistência às pretensões adversárias".
[17]
 Tem o sentido de busca de preservação de algo que será afetado por atos, medidas, condutas, decisões,
declarações, vindos de outrem. A Constituição Federal de 1988 alude a ampla defesa, refletindo a evolução
que reforça o princípio e denota elaboração acurada para melhor assegurar sua observância.

Os princípios do Contraditório e da Ampla Defesa mantêm profunda interação, já se disse, mesclando­se,
em muitos pontos, as decorrências de um e outro.

2.2­O CONTRADITÓRIO E A AMPLA DEFESA NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DO CTB

É  cediço  em  nosso  ordenamento  jurídico–constitucional  que  aos  litigantes,  em  processo  judicial  ou
administrativo são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com observância ao princípio do devido
processo legal. (Art. 5º LV CF).

O  legislador,  ao  elaborar  o  CTB,  foi  claro  e  preciso,  particularmente  no  desenho  do  processo
administrativo de infração de trânsito.

Não deixou dúvidas quanto à existência do processo administrativo precitado intitulado no capítulo XVIII
assim: "DO PROCESSO ADMINISTRATIVO".

Esclareceu que em ocorrendo a infração prevista (qualquer infração) na legislação de trânsito (art. 280,
"caput"),  ocorrerá  o  arquivamento  do  auto  se  este  for  considerado  inconsistente  ou  irregular  (art.  281,
parágrafo único e inciso I) quando de seu julgamento (art. 281., "caput").
Referendou que é imprescindível a notificação do auto de infração em relação ao autuado, deixando claro
que  a  este,  antes  do  julgamento  do  auto  infracional  pela  autoridade  de  trânsito,  será  oferecida  a
oportunidade de examinar a regularidade formal e material de auto­infração (ou seja, a sua consistência)
e,  se  irregular,  daí  inconsistente,  argüir,  através  da  constitucional  defesa  (art.  5º.  LV  e  LIV),  a  sua
inconsistência, para que, quando do julgamento do auto (art. 281, "caput"), seja ele arquivado (art. 281,
único e inciso I), a seu requerimento. Surge aqui a "Defesa Prévia" fazendo­o nos artigos 2º. Da Res. nº
568/80  e  1º  da  Res.  829/97,  ambas  do  CONTRAN,  que  detém  competência  para  expedi­las  (art.  12,  I,
CBT)  sendo  que  devidamente  recepcionadas  pelo  Codex  de  Trânsito  (art.  314,  parágrafo  único).
Estabeleceu expressamente que esta notificação de auto de infração sempre se dará antes do julgamento,
referido,  no  art.  280,  VI,  que  a  assinatura  de  infrator,  no  auto  respectivo,  valerá  como  notificação  do
cometimento da infração e (se o autor não tiver presente quando a autuação) que esta mesma notificação
da  autuação,  caso  não  procedida  do  ato  lavratório,  será  expedida  em  até  30  dias  da  lavratura  do  auto
infracional,  sob  a  conseqüência  fatal  de  ser  arquivado  o  auto,  ou  seja,  de  não  aplicada  a  penalidade,
operando­se a decadência (perda de direito de punir por quem o detinha), tudo conforme o conteúdo do art.
281, único, II do CBT.

Asseverou,  que  após  o  julgamento  da  consistência  e  regularidade  do  auto  infracional  (peça  acusatória)
pela autoridade de trânsito (art. 281, caput, CBT), mediante análise de argumentos encerrados nestes e nas
razões  de  defesa,  esta  arquivará  o  mesmo,  julgando  aplicação  de  penalidade  (art.  282,  caput,  CBT).
Encerra­se, destarte, a primeira instância administrativa.

O  ato  de  notificação  nada  mais  é  do  que  a  consolidação  da  multa  aplicada,  portanto,  consiste  em  uma
deliberação  de  decisão  da  autoridade  administrativa  quanto  à  convalidação  do  ato  exarado  pelo  agente
fiscalizador.

Desta  forma,  a  autoridade  administrativa,  ao  analisar  a  "consistência"  do  auto  lavrado  pelo  agente  ou
equipamento eletrônico, exerce ato de decisão, aplicando penalidade ao condutor do veículo, contudo, sem
conceder­lhe  o  direito  de  defesa,  cerceando  ao  interessado  o  contraditório,  infringindo  assim,  norma  de
dicção constitucional.

Assim,  se  houve  decisão  administrativa,  indispensável,  antes  da  emissão  da  notificação  ao  interessado
para o recurso administrativo, que fosse assegurado ao acusado uma defesa prévia, na fase da autuação,
onde poderia promover sua defesa na fase preliminar.

O eminente doutrinador Cássio Matos Honorato  [18], conceitua e define claramente a obrigatoriedade da
concessão à defesa prévia antes da consolidação da notificação ao suposto infrator:

Notificação  significa  dar  conhecimento  ao  condutor  ou  ao  proprietário  do  veículo,  conforme  o  caso,  de
cada um dos atos administrativos ou atos decisórios que foram praticados ou adotados pela administração
Pública  de  Trânsito.  Tratar­se  de  ato  indispensável  para  a  validade  dos  atos  administrativos,  que  se
sujeitam ao Princípio da Publicidade, nos termos do art. 37, caput, da Constituição da República...

Não basta a notificação inicial, ou simplesmente da imposição da penalidade. É mister que a cada um dos
atos administrativos seja conferida a indispensável publicidade, sob pena de nulidade.

A  falta  de  notificação  caracteriza  cerceamento  de  defesa  e  inobservância  do  devido  processo  legal,
maculando, de forma irreversível, todo o procedimento para imposição de penalidade administrativa.

Dessa  forma,  o  responsável  pela  infração  (condutor  ou  proprietário)  deve  ser  notificado  da  autuação
(notificação  pessoal),  para  que,  querendo,  possa  promover  a  "defesa  prévia"  (O  procedimento  para
interposição  de  "defesa  prévia"  encontra­se  previsto  nos  artigos  2º  a  6º  da  Res.  Nº  568/80  do
CONTRAN); da conversão em multa e da imposição das penalidades, para que possa promover o cabível
"recurso  administrativo",  perante  a  JARI,  para  que  possa,  querendo,  recorrer  dessa  decisão,  nos  termos
dos artigos 288 e 289 do CTB.
Extrai­se  do  ensinamento  supra  citado,  que,  obrigatoriamente,  na  fase  de  autuação,  impõe­se  que  seja
concedido defesa prévia, e posteriormente, na fase da notificação da multa, deve ser concedida o direito de
recurso  a  JARI.  Sendo  improvido  ambos,  concede  ainda  o  direito  de  recurso  a  instância  administrativa
superior – CETRAN).

Nada  obsta  que  o  cidadão  autuado  procure  as  vias  judiciais  primeiramente,  em  atenção  ao  Princípio  da
Inafastabilidade da Jurisdição, contudo, na prática, este não é um procedimento comumente adotado.

Em  síntese,  agindo  assim,  a  administração  pública  suprimiu  fase  indispensável  ao  interessado  em
oportunizar sua defesa, através de defesa prévia, na fase de autuação.

Tal entendimento está consignado na Resolução nº 568/80, do CONTRAN, quando em seu dispositivo do
art. 2º, assim expressa, in verbis:

Art. 2º ­ Com o recebimento do Auto de Infração, o interessado poderá, no
prazo de 30 dias, apresentar defesa prévia à autoridade de trânsito, antes da
aplicação da penalidade.

É salutar observar que a referida resolução está em pleno vigor, conforme comentário do Art. 280 do CTB,
na lição de Geraldo de Farias Lemos Pinheiro [19], quando assim expressa:

Sendo  garantida  a  notificação  do  proprietário,  para  ciência  da  autuação,  mesmo  que  desobrigado  de
confirmar  a  identificação  já  feita  pelo  agente,  a  ele  estará  sendo  concedido  o  direito  de  defesa  prévia,
prevista na Resolução nº 568/80, que entendemos não revogada e que atende à regra constitucional da
ampla defesa antes da imposição da pena.

2.3­ANULABILIDADE DOS JULGADOS NO PROCESSO ADMINISTRATIVO DO CTB

A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, pacificou entendimento no sentido de que, não havendo
prévia  notificação  do  infrator,  para  exercitar  seu  direito  de  defesa,  é  ilegal  a  exigência  do  pagamento  de
multas de trânsito, conforte Súmula 127.

Outra  particularidade  significativa  diz  com  a  vigência,  indiscutível,  do  Decreto  nº  2.521,  de  20.03.98,
portanto, de elaboração legislativa pós­CTB, que não deixa nenhuma dúvida acerca da existência de defesa
prévia, nos seguintes termos:

Art.88  –  O  auto  de  infração  será  registrado  no  órgão  competente  do


Ministério  dos  Transportes  ou  da  entidade  conveniada,  dele  dando­se
conhecimento ao infrator, antes de aplicada a penalidade correspondente.

Parágrafo  Único  –  é  assegurado  ao  infrator  o  direito  de  defesa,  devendo


exercitá­lo, querendo, dentro do prazo de quinze dias úteis contado da data
de recebimento da correspondente notificação.

Esses confiáveis assertos, somados aos conteúdos dos art. 280 VI e 281, parágrafo único, II do CTB, aos
das resoluções 568/80, art. 2º e 829/97, art. 1º e aos dos artigos 5º, incisos I, LIV e LV da CF, tornam
absolutamente tranqüilo o respaldo legal à defesa ampla nos processos de infrações de trânsito.

Mais:  não  fosse  assim,  como  se  justificaria  a  oportunização  de  defesa,  diante  dos  autos  de  infração,
protagonizada pelos referidos decretos 96.044/88 e 2.521/98, a alguns autuados em matéria de infrações
viárias  e  a  outros  não:  onde  estaria  a  significação  do  princípio  da  igualdade  de  todos  diante  do
ordenamento legal e jurídico (art. 5º, caput e inciso I, CF).
O  entendimento  dos  tribunais  pátrios  evidencia  a  tendência  jurisprudencial  no  sentido  de  se  proteger  o
direito  do  cidadão  e  a  garantia  do  Devido  Processo  Legal  quando  da  aplicação  do  Código  de  Trânsito
Brasileiro – CTB.

Eis alguns sustentáculos jurisprudenciais:

Vistos.

Assiste a razão do Ministério Público

Efetivamente estão presentes os requisitos para a concessão da tutela antecipada.

É  cristalina  a  plausibilidade  de  direito  alegado,  na  medida  em  que  foram  aplicadas  várias  penalidades,
sem que fosse observado o devido processo legal.

"O  fundado  receio  de  dano  também  restou  caracterizado  isto  porque  os
veículos  da  autuação  não  poderão  ser  transferidos  sem  que  haja  quitação
de multas. Além disto, também por ocasião da renovação das carteiras, pós
requerentes  ver­se­iam  compelidos  ao  pagamento  de  uma  multa,  cuja  a
legalidade está sendo discutida em juízo.

Destarte, DEFIRO o pedido de tutela antecipada e suspendo a eficácia das
penalidades,  aplicadas  constantes  das  notificações  advindas  de  autos  de
infrações  números  de  2020,  3373;  3693;  5342  e  6200  até  o  julgamento
desta ação.

Oficie­se  ao  requerimento  e  ao  DETRAN,  comunicando  o  deferimento  do


pedido  de  tutela  antecipada,  a  fim  de  que  sejam  adotadas  as  medidas
cabíveis.

Intimem­se. Cite­se."

Aos 03 de Setembro de 1999.

"Marialice Camargo Bianchi, Juíza de direito."

O  MM.  Juiz  da  vara  da  1º  Fazenda  Pública  Municipal  desta  capital,  Dr.  João  Ubaldo  Ferreira,  também
possui o mesmo entendimento, onde, recentemente, concedeu a tutela antecipada, suspendendo a eficácia
das penalidades contidas nos autos infracionais noticiados naquele processo.

Também possui entendimento análogo o MM. Dr. Waltides Pereira dos Passos, plantonistas nas varas da
Fazenda Pública Estadual, onde observou ser aplicado o ato de aplicação de multas sem a observância do
princípio  institucional  da  ampla  defesa  e  do  contraditório,  concedendo  a  tutela  antecipada  em  dois
processos, suspendendo as multas aplicadas pela Superintendência Municipal de Trânsito/SMT.

Seguem, ainda, com a transcrição, por amostragem, de cinco decisões, uma de cada das cinco Câmaras
especializadas  em  direito  Público  do  Egrégio  Tribunal  de  Justiça  do  Rio  Grande  do  Sul,  iniciando,
entretanto,  por  uma  ementa  do  Supremo  Tribunal  Federal,  que  ainda  não  se  refira  a  trânsito,  é  muito
pertinente pelos esclarecimentos que traz a respeito do processo administrativo punitivo símile ao que se
ora se discute:

Ren. 250. 744­0
Relator: min. MOREIRA ALVES

Ementa:  Multa,  Exigência  de  depósito  prévio  de  valor  relativo  a  multa  para  admissão  de  recursos
administrativos.

Esta primeira turma (assim nos RREE 169.077 e 225.295, exemplificadamente) tem decidido, com base em
precedentes desta corte (ADIN 1.049 e RE 210. 146), que, Exercida defesa prévia à homologação do auto da
infração, não viola a atual Constituição (artigo 5º, XXXV, LIV e LV) o diploma legal que exige o depósito
prévio do valor da multa como condição ao uso de recurso administrativo, pois não, há nesta carta magma,
garantia de duplo grau de jurisdição administrativa.

Igualmente não há violação do artigo 5º, XXXIX, "a", da carta magma, uma vez que, além de não haver
exigência do pagamento de taxa que não o é esse depósito, também não se pode pretender de que o direito
de petição decorra a garantia a esse duplo grau.

Recurso extraordinário conhecido e promovido.

DIREITO  PÚBLICO  ESPECÍFICO  TRÂNSITO.  AUTO  DE  INFRAÇÃO,


NOTIFICAÇÃO,  DIREITO  DE  DEFESA  ANTES  DO  JULGAMENTO  PELA
AUTORIDADE DE TRÂNSITO.

A autoridade de trânsito que, antes de julgar auto de infração, seja qual for a penalidade a ser em tese,
aplicada, não conceder ao autuado oportunidade de defesa, viola direito líquido e certo deste, protegível
por demanda de segurança. É que o atual Código de Trânsito Brasileiro (Lei nº 9.503/97), embora não
seja  específico  no  ponto,  assim  como  não  era  como  o  anterior  Código  Nacional  de  Trânsito  (Lei  nº
5.106/66) não só excluir o direito de o autuado contestar a peça acusatória, antes do julgamento e isso
independentemente da penalidade que, em tese, possa resultar, como reconhece, de modo implícito, ao
conceder  tal  direito  em  outras  situações,  como  a  dos  arts.  257,  §  7º  e  256.  Mas  que  isso,  se  todas  as
penalidades, como diz o art. 256, não é lógico conceder direito de defesa só em relação há algumas. Se
não bastasse, o direito de defesa, inclusive no âmbito administrativo, esta garantido pelo art. 5º., LV da
CF.  Por  isso,  a  Resolução  568/80,  do  CONTRAN,  foi  recepcionada  pelo  atual  CTB,  conforme  admite  o
art.,  314,  parágrafo  único.  Apelo  desprovido  e  sentença  confirmada  em  reexame.  "(TJRS,  Primeira
Câmara Cível, ap. nº 70000192575, j. em 05.04.2000).

ADMINISTRADO.  MANDADO  DE  SEGURANÇA.  MULTA  DE  TRÂNSITO


EXIGÊNCIA  DO  PAGAMENTO  COMO  CONDIÇÃO  AUSÊNCIA  DE
NOTIFICAÇÃO. DESCABIMENTO.

"É ilegal a imposição de multa de trânsito sem procedimento administrativo regular e que assegure ao
autuado  o  exercício  de  direito  de  defesa  através  do  contraditório.  Não  é  suficiente  a  prévia  intimação
pessoal.  É  indispensável  também  observar  a  influencia  do  prazo  de  defesa."  RECURSO  PROVIDO."
(TJRS, Segunda Câmara Civil, ap., nº 70000502443, j. 29.03.2000).

MANDANDO  DE  SEGURANÇA.  APLICAÇÃO  DE  MULTA.  INOBSERVÃNCIA  DOS


PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DE AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO.  Ilegal  o  ato
de  aplicação  de  multa  em  desrespeito  aos  princípios  insculpidos  no  art.  5º.,  LV,  da  carta  política.  A
autoridade não pode aplicar a penalidade antes de proceder à análise de argumentos da defesa, bem como
da fundamentação do auto de infração. SEGURANÇA CONCEDIDA." (TJRS, terceira Câmara Cível, ap.
nº 7000038869, j. em 09.12.1999).
CONSTITUCIONAL  E  TRÂNSITO.  APLICAÇÃO  DE  PENALIDADE.  FALTA
DE OBSERVÂNCIA DE DEFESA PRÉVIA. IMPOSSIBILIDADE.

O direito de defesa, assegurado no art. 5º, LV, da CF/88, e parte integrante
do devido processo legal (art. 5º, LIV, da CF/88), há de ser prévio a qualquer
decisão sobre alguma imputação. Portanto a possibilidade de interposição de
recurso,  figura  impugnativa  que  pressupõe  decisão  já  tomada,  não  satisfaz
aquela  garantia  constitucional.  Por  conseguinte,  em  casos  de  infração  de
trânsito, vigora o art. 2º da Resolução nº 9.503/97), e em seguida notificado,
caso não haja ele assinado o auto (art. 280, VI, da Lei nº 9.503/97), caso em
que  aguardará  o  prazo  de  defesa.  APELAÇÃO  APROVIDA."  (TJRS,  Quarta
Câmara Cível, ap. nº 70000802280, j. em 05.04.200).

MANDADO  DE  SEGURANÇA.  APLICAÇÃO  DE  MULTA.  INOBSERVÂNCIA  DO  PRINCÍPIO


CONSTITUCIONAL DE AMPLA DEFESA. Ilegal o ato de aplicação de Multa sem a observância do
princípio constitucional de ampla defesa. Somente após analisados os argumentos da defesa, bem como
a  fundamentação  do  auto  de  infração,  é  que  a  autoridade  de  trânsito  julgará  a  consistência  do  auto,  e
poderá  aplicar  a  penalidade.  Negaram  provimento,  confirmada  a  sentença  em  reexame  necessário
(TJRS, Vigésima Primeira Câmara Cível, Ap. nº 70000192690, j. em 20.10.1999).(doc.92)

Assim expostas as razões onde sedimentam as argumentações que ensejam a anulabilidade dos processos
administrativos contra imposição de multa de trânsito descritas no Código de Trânsito Brasileiro, resta­
nos analisar a estrutura do órgão competente para o julgamento administrativo de tais processos, pois no
que tange à esfera judicial resta demonstrado a improcedência de tais julgados administrativos.

3­AS JARI`S E SUA COMPETÊNCIA

O Código de Trânsito Brasileiro – CTB, Lei 9.503 de 23 de setembro de 1997, traz em sua seção II, sob o
título Da composição e da competência do Sistema Nacional de Trânsito, em seu artigo 7º, inciso VII, a
seguinte redação:

Art.  7º  Compõem,  o  Sistema  Nacional  de  Trânsito  os  seguintes  órgãos  e
entidades;

VII – as Juntas Administrativas de Recursos de Infrações – JARI.

Por sua vez, o artigo 17 do CTB diz que compete às JARI:

I – julgar os recursos interpostos pelos infratores;

II  –  solicitar  aos  órgãos  e  entidades  executivos  de  trânsito  e  executivos


rodoviários informações complementares relativas aos recursos, objetivando
uma melhor análise da situação recorrida;

III – encaminhar aos órgãos e entidades executivos de trânsito e executivos
rodoviários  informações  sobre  problemas  observados  nas  autuações  e
apontados em recursos, e que se repitam sistematicamente.
As  JARI,  portanto,  servem  para  proporcionar  aos  condutores  e  ou  proprietários  de  veículos  autuados,
momento de defesa de seus direitos, direitos estes resguardados pela Carta Maior do Brasil.

O município de Goiânia criou por meio do Decreto nº 568, de 30 de março de 1998, as JARI necessárias ao
julgamento dos recursos administrativos provenientes das infrações de trânsito cometidas dentro do limite
territorial de sua competência.

Em 10 de abril de 2001, o Excelentíssimo senhor Prefeito de Goiânia, Professor Pedro Wilson Guimarães,
promulga o Decreto nº 1578/2001, criando o Regimento Interno das Juntas Administrativas de Recursos
de Infrações de Trânsito ­ JARI.

Com o advento do Regimento Interno, as JARI passam a ter maior legitimidade para sua atuação, vez que
até  aquele  momento,  não  haviam  métodos  ou  diretrizes  que  minimamente  orientassem  no  seu
funcionamento.

O Decreto 1578/01 não determina quais os critérios de julgamento da JARI, limita­se a dar orientações
gerais  de  funcionamento  interno  das  reuniões  e  competências  de  seus  membros,  ainda  assim,  foi  um
grande passo na intenção de se dar maior legitimidade ao julgados da JARI.

Como  pode  ser  notado,  o  Legislativo  e  o  Executivo  municipal  agiram  com  timidez  ao  criar  órgão  de
importância salutar para a preservação da democracia e do cumprimento assíduo da Constituição Federal
de 1988. Os direitos de Ampla Defesa e do Contraditório, ainda que com o advento do regimento interno da
JARI, ficaram prejudicados, pois àquela época não havia sido criado em Goiânia, a comissão de análise de
defesa prévia, a qual teria o objetivo de analisar a regularidade das infrações, oportunizando aos cidadãos
o direito de defenderem­se amplamente, assim como consagra a Carta Maior de 1988.

3.1­AS  JARI  COMO  MEIO  DE  CERCEAMENTO  DE  DEFESA  DO  CIDADÃO  E  TUMULTO  DO  PODER
JUDICIÁRIO.

Podemos  observar  que  o  legislador  buscou,  ao  criar  a  Junta  Administrativa  de  Recursos  de  Infrações,
promover  a  democracia  e  garantir,  ainda  que  restritivamente,  o  acesso  ao  direito  de  defesa  outrora
submisso aos interesses escusos dos ditadores pátrios. Contudo, ainda que agindo com zelo, os mentores
da  JARI  deixaram  de  observar  que  por  tratar­se  de  órgão  julgador  de  deliberação  coletiva,  tais  Juntas
necessitavam  de  um  aparato  normativo  mais  bem  estruturado,  o  qual  deveria  acompanhar  as  diretrizes
constitucionais.  O  CTB,  superficialmente,  diz  qual  a  competência  da  JARI,  porém  deixou  de  mencionar
qual sua composição e forma de ação.

A  JARI  é  mais  um  fenômeno  político  que  jurídico  e  constitucional.  Ao  serem  criadas  tais  juntas,  fica
evidenciado  que  o  legislador  não  buscou  preservar  os  princípios  constitucionais  da  Ampla  Defesa  e  do
Contraditório,  contudo,  o  fato  de  não  haver  maiores  determinações  legais  sobre  a  competência  e  a
composição  de  tais  órgãos,  muito  mais  evidente  fica  demonstrado  quão  politicamente  danosas  são  as
decisões de relevância nacional.

Como  podemos  crer  que  haja  uma  seriedade  legislativa,  vez  que  o  princípio  da  segurança  jurídica  não
encontra guarita em códigos nacionais tão amplamente utilizados, a exemplo do CTB?

Chegamos a um impasse, nas palavras de ilustre Luis Roberto Barroso:

[...]  a  própria  lei  caiu  no  desprestígio.  No  direito  público,  a  nova  onda  é  a
governabilidade.  Fala­se  em  desconstitucionalização,  delegificação,
desregulamentação. A segurança jurídica – e seus conceitos essenciais, como
direito  adquirido  sofre  o  sobressalto  da  velocidade,  do  imediatismo  e  das
interpretações pragmáticas, embaladas pela ameaça do horror econômico.
Sem dúvidas, a criação das JARI, vem demonstrar quão frágeis são nossas instituições democráticas, vez
que a legitimidade – soberania popular na formação da vontade nacional, por meio do poder constituinte;
a limitação do poder – repartição de competências, processos adequados de tomada de decisões, respeito
aos direitos individuais, inclusive das minorias e por fim os valores – incorporação à Constituição material
das  conquistas  sociais,  políticas  e  éticas  acumuladas  no  patrimônio  da  humanidade,  não  são
necessariamente observados com o fim de velar pela manutenção saudável das instituições democráticas.

A crença na Constituição e no constitucionalismo não deixa de ser uma espécie de fé: exige que se acredite
em coisas que não são direta e imediatamente apreendidas pelos sentidos. Os princípios constitucionais,
admitido esse entendimento, passam a ser a síntese dos valores abrigados no ordenamento jurídico. Eles
espelham a ideologia da sociedade, seus postulados básicos e seus fins.

Existe  desde  na  tradição  judaico­cristão  o  mandamento  de  respeito  ao  próximo,  princípio  magno  que
atravessa  os  séculos  e  inspira  um  conjunto  amplo  de  normas;  por  sua  vez  o  direito  romano  pretendeu
enunciar a síntese dos princípios básicos do Direito: "Viver honestamente, não lesar a outrem e dar a cada
um o que é seu". Vislumbramos, portanto, dois princípios basilares da dogmática jurídica, quais sejam: o
da razoabilidade e o da dignidade da pessoa humana.

O princípio da razoabilidade, em síntese, é um mecanismo para controlar a discricionariedade legislativa e
administrativa.  Ele  permite  ao  Judiciário  invalidar  atos  legislativos  ou  administrativos  quando:  a)  não
haja adequação entre o fim perseguido e o meio empregado; b) a medida não seja exigível ou necessária,
havendo caminho alternativo para chegar ao mesmo resultado com menor ônus a um direito individual; c)
não haja proporcionalidade em sentido estrito, ou seja, o que se perde com a medida tem maior relevo do
que  aquilo  que  se  ganha.  Tal  princípio  não  liberta  o  juiz  dos  limites  e  possibilidades  oferecidos  pelo
ordenamento.  Não  é  o  voluntarismo  que  se  trata.  A  razoabilidade,  contudo,  abre  ao  Judiciário  uma
estratégia de ação construtiva para produzir o melhor resultado, ainda quando não seja o único possível –
ou mesmo aquele que, de maneira mais óbvia, resultaria da aplicação acrítica da lei. A jurisprudência do
Supremo  Tribunal  Federal  tem  se  valido  do  princípio  para  invalidar  descriminações  infundadas,
exigências absurdas e mesmo vantagens indevidas.

Trazendo  a  baila  a  questão  fundamental  desta  obra,  ou  seja,  o  cerceamento  de  defesa  no  processo
administrativo  de  defesa  de  multas  de  trânsito  no  Código  de  Trânsito  Brasileiro,  observamos  que  o
princípio  da  razoabilidade  deixa  de  ser  observado  por  tal  Diploma,  em  especial  no  julgamento  efetuado
pelas JARI, pois ao não ofertar ao cidadão autuado a oportunidade de defender­se previamente com todos
os meios de prova admitidos em direito, o CTB ofende de forma letal a tal princípio, conforme demonstrado
no item 2.3 retro.

O  outro  princípio,  o  da  dignidade  da  pessoa  humana,  identifica  um  espaço  de  integridade  moral  a  ser
assegurado a todas as pessoas por sua só existência no mundo. È um respeito à criação, independente da
crença que se professe quanto à sua origem. A dignidade relaciona­se tanto com a liberdade e valores do
espírito  como  as  condições  materiais  de  subsistência.  O  desrespeito  a  este  princípio  terá  sido  um  dos
estigmas do século que se encerrou e a luta por sua afirmação um símbolo do novo tempo. Ele representa a
superação da intolerância, da discriminação, da exclusão social, da violência, da incapacidade de aceitar
o outro, o diferente, na plenitude de sua liberdade de ser, pensar e criar.

Dignidade da pessoa humana expressa um conjunto de valores civilizatórios incorporados ao patrimônio
da humanidade. O conteúdo do princípio vem associado aos direitos fundamentais, envolvendo aspectos
dos  direitos  individuais,  políticos  e  sociais.  Seu  núcleo  material  elementar  é  composto  do  mínimo
existencial,  locução  que  identifica  o  conjunto  de  bens  e  utilidades  básicas  para  a  subsistência  física  e
indispensável ao desfrute da própria liberdade.

Destarte, ao ofender os princípios do contraditório e da ampla defesa, bem como o da razoabilidade e da
dignidade  da  pessoa  humana,  as  JARI  obrigam  o  cidadão  a  buscar  as  vias  judiciais  a  fim  de  serem
respeitados pela Administração Pública, seus direitos individuais.
O  acúmulo  de  ações  provenientes  da  ofensa  dos  princípios  acima  elencados,  por  parte  das  JARI,  vem
fazendo  com  que  o  Poder  Judiciário  retarde  seus  julgados,  tornando­se  dia­a­dia  mais  moroso,  gerando
um grande desconforto em toda a sociedade.

A falta de observância, ou a insistências sistêmica das JARI em continuar cerceando a defesa do cidadão
vem  gerando  sucessivos  julgados  desfavoráveis  à  Administração  Pública,  o  que  inefávelmente,  conturba
todo o bom andamento e zelosa prestação de serviço público por parte do Poder Judiciário.

3.2­COMPOSIÇÃO DAS JARI

O art. 12 da Lei 9.503/97 declara ser o Conselho Nacional de Trânsito –CONTRAN, o órgão responsável
para estabelecer as diretrizes do regimento das JARI. Tal conselho, portanto, deveria explicitar quais os
mínimos quesitos necessários aos membros componentes de tais juntas, contudo, não o fez.

O  esforço  do  Executivo  e  do  Legislativo  municipal  em  dar  legitimidade  e  credibilidade  aos  julgados  das
JARI esbarra em questão ética da maior importância, pois, ainda que exista um regimento interno dando
orientações  aos  membros  componentes  de  tais  juntas,  em  nenhum  momento  fora  tratada  a  questão  da
composição de tais juntas, limitando­se o Decreto 1.578/01, em seu artigo 3º e incisos, a mencionar que
tais componentes deverão ter reconhecida experiência na área de trânsito.

A  atual  composição  dos  membros  da  JARI  do  município  de  Goiânia  não  cita  qual  a  "reconhecida
experiência na área de trânsito" possuem seus membros. Se levarmos em conta que para se tirar a Carteira
Nacional de Habilitação – CNH, todo cidadão deve possuir conhecimentos específicos na área de trânsito
e,  que  para  se  compor  a  JARI  não  é  exigido  nenhum  outro  quesito  senão  e  tão  somente  "reconhecida
experiência  na  área  de  trânsito",  então  concluímos  que  todo  cidadão  habilitado  poderá  ser  membro
julgador  dos  recursos  interpostos  contra  as  infrações  de  trânsito,  bastando  para  tal,  apenas  possuir  o
documento qualificador da aptidão em dirigir veículos automotores.

A  Ordem  dos  Advogados  do  Brasil  –  OAB  não  se  manifesta  a  respeito  de  tal  órgão  julgador  não  ter  a
obrigatoriedade de ser composto por no mínimo um membro com conhecimento acadêmico específico na
área de direito, ou seja, o advogado.

Seria razoável que tais juntas fossem compostas exclusivamente por profissionais habilitados a lidar com
códigos,  que  possuam  conhecimentos  das  técnicas  legislativas  e  judiciárias,  afinal,  as  JARI  tratam  de
tema de maior importância para a preservação da democracia, o qual seja, o julgamento justo, por meio do
qual visa­se a preservação da ordem democrática constitucional.

Contudo, tais cuidados não vem sendo observados, basta analisar a composição das 4 (quatro) JARI do
município de Goiânia. O Decreto nº 1.577 de 10 de abril de 2001 institui tais juntas e suas composições,
sem, em nenhum momento, indicar qual a reconhecida experiência na área de trânsito de seus membros.

Sem  que  haja  a  devida  composição  de  tais  órgãos  julgadores,  o  que  se  dará  por  meio  da  indicação  de
profissionais  habilitados  aos  procedimentos  legais  para  um  bom  e  justo  julgamento,  as  JARI,  portanto,
passam  a  integrar  uma  espécie  de  aberração,  vez  que  seus  julgados,  em  quase  sua  totalidade,  são
considerados  nulos  pelo  poder  Judiciário,  por  não  terem  observado  os  princípios  constitucionais  do
contraditório, ampla defesa, razoabilidade e dignidade da pessoa humana.

3.3­A CRIAÇÃO DA COMISSÃO DE ANÁLISE DE DEFESA PRÉVIA

O  presente  trabalho  objetivava  sugerir  ao  seu  final  a  criação  no  município  de  Goiânia,  junto  ao  órgão
executivo  de  trânsito,  de  uma  comissão  de  análise  prévia  de  infrações  de  trânsito.  Tal  sugestão  visava
superar  a  falha  existente  na  administração  de  tais  procedimentos,  pois,  como  vimos  no  decorrer  deste
estudo, afronta as normas constitucionais garantidoras dos direitos a um justo julgamento, resguardado
pelo direito de ampla defesa.
Recentemente a Superintendência Municipal de Trânsito de Goiânia, por meio da Portaria nº 083, de 3 de
setembro de 2003, institui no âmbito municipal a Comissão de Análise de Defesa prévia.

O Conselho Estadual de Trânsito de Goiás – CETRAN­GO, por sua vez, institui a Resolução nº 08, de 2 de
julho de 2003, a qual determina a criação de tais comissões nos órgãos executivos de trânsito estaduais e
municipais  de  Goiás,  seguindo  exemplo  do  estado  do  Paraná,  que  desde  2001  cumpre  os  preceitos
constitucionais já mencionados.

A Comissão criada em Goiânia, aparentemente, visa tapar lacuna legal, a qual favorecia o ingresso junto
aos Poder Judiciário de centenas de cidadãos autuados por infrações de trânsito e que entendiam estarem
sendo lesados em seus direitos por não haver em Goiânia a possibilidade de obterem a análise prévia de
suas supostas infrações.

Contudo,  a  criação  de  tal  comissão,  por  si  só  não  aufere  aos  autuados  no  trânsito  a  amplitude  de  seus
direitos  e  garantias  constitucionais,  vez  que  a  Portaria  083/03  não  regulamenta  a  forma  de
funcionamento da mesma, assim, a garantia de uma análise prévia justa e obediente aos princípios legais
do  contraditório  e  da  ampla  defesa,  restam  prejudicados  pela  falta  de  transparência  em  seus
procedimentos.

Por final, a composição da Comissão de Análise de Defesa Prévia, constituída por três membros titulares e
três  membros  suplentes,  não  especifica  qual  a  graduação  necessária  a  seus  membros,  acompanhando,
portanto, a mesma linha de composição da JARI.

3.4­DIREITO À PUBLICIDADE DOS ATOS ADMINISTRATIVOS

A Carta Política de 1988 assegura a publicidade dos atos administrativos no seu artigo 37, caput.

O princípio da publicidade, agora com previsão constitucional, aplica­se ao processo administrativo. Nas
palavras de Maria Sylvia Zanella Di Pietro: "Por ser pública a atividade da Administração, os processos
que ela desenvolve devem estar abertos ao acesso dos interessados".

O acesso aos processos administrativos é mais amplo do que o acesso aos processos judiciais, visto que
estes  apenas  as  partes  e  seus  defensores  podem  exercer  tal  direito;  por  sua  vez,  os  processos
administrativos  podem  e  devem  ser  abertos  à  consulta  popular,  resguardando  tão  somente  os
necessariamente  sigilosos  como  os  de  segurança  nacional,  (art.  5º  XXXIII,  da  CF),  os  ligados  a  certas
investigações,  a  exemplo  dos  processos  disciplinares,  de  determinados  inquéritos  policiais  (art.  20  do
Código de Processo Penal) e dos pedidos de retificação de dados (art. 5º LXXII, b, da CF), desde que prévia
e justificadamente sejam assim declarados pela autoridade competente.

Ressalto que a publicidade dos atos administrativos é garantida a qualquer pessoa, pois tais são titulares
de  tal  direito,  desde  que  tenham  algum  interesse  coletivo  ou  geral,  no  exercício  do  direito  à  informação
assegurado pelo art. 5º, inciso XXXIII, da Constituição.

Segundo brilhante dissertação de Fabrício Mota [20]:
[...] a publicidade é requisito essencial para a eficácia do controle do poder,
elemento indissociável também da noção de Estado de Direito... A efetivação
do  princípio  democrático  traz  consigo  a  idéia  de  democratização  da
Administração  Pública,  requisito  essencial  para  o  Estado  de  Direito  não  se
reduza  a  um  sistema  de  proteção  do  cidadão  frente  as  violação  jurídicas.
Nessa  linha  de  entendimento,  por  trás  do  princípio  da  publicidade  estão  a
exigência  de  segurança  do  direito  e  a  proibição  da  política  do  ‘segredo’,
entendida esta última proibição não somente como uma vedação ao arbítrio,
mas como um dever de informar por parte do Estado.

Não podemos falar em democracia sem que haja por parte da Administração publicidade de seus atos. A
publicidade é pré­requisito para o controle do cumprimento dos princípios que devem informar a atuação
administrativa,  como  legalidade,  impessoalidade,  moralidade,  eficiência,  razoabilidade,  ampla  defesa  e
contraditório entre outros.

A efetiva aplicação do princípio da publicidade promove condições de controle direito por parte do cidadão,
dos atos públicos, controle este constitucionalmente garantido.

Em  suma,  o  princípio  da  publicidade  protege  o  cidadão  de  intromissões  indevidas  da  Administração  em
sua esfera de liberdade garantido pela Carta Maior, esta é a sábia conclusão de Fabrício Mota.

3.5­O CERCEAMENTO DO DIREITO DE PUBLICIDADE DOS ATOS ADMINISTRATIVOS NA SMT

É evidente que o direito de acesso não pode ser exercido abusivamente, sob pena de tumultuar o andamento
dos  serviços  públicos  administrativos;  para  exercer  esse  direito  deve  a  pessoa  demonstrar  qual  o  seu
interesse individual, se for o caso, ou qual o interesse coletivo que pretende defender.

O  presente  trabalho  de  monografia  viu­se  prejudicado  vez  que  encontrou  obstáculo  transponível  apenas
por remédio constitucional, o qual seja, mandado de segurança.

O Parecer nº 133/2003 da Superintendência Municipal de Trânsito e Transporte é claramente ofensivo ao
princípio  constitucional  da  publicidade  vez  que  cerceia  o  direito  as  informações  solicitadas  em
requerimento nº 23074150 de autoria do redator desta monografia.

Concluímos,  portanto,  que  não  há  meios  administrativos  cabíveis  para  a  obtenção  de  informações
necessárias à ampla defesa e ao contraditório nos processos administrativos movidos pelo cidadão contra
atos praticados pela SMT, restando as vias judiciais para a garantia de tais direitos.

CONCLUSÃO

A  presente  monografia  jurídica  buscou  demonstrar  de  forma  clara  o  quão  necessário  é  o  respeito  aos
princípios constitucionais do Contraditório e da Ampla Defesa.

A Lex Fundamentalis do Brasil, datada de 5 de outubro de 1988, resgatou ao país a Democracia, a qual
havia  sido  expulsa  por  ocasião  do  império  da  ditadura  militar  que  assombrou  o  território  nacional  por
mais de vinte anos.

Nossas  Constituições  passadas,  em  sua  maioria,  referiram­se  aos  princípios  garantidores  dos  direitos
individuais do cidadão, portanto, a preocupação com a preservação de tais normas não é recente, vem de
longa data.
Pudemos  observar  que  a  conceituação  do  termo  princípio  abrange  vários  níveis  entre  as  áreas  de
conhecimento, entre elas temos as definições adotadas pelas Ciências Jurídicas.

Com  a  exposição  de  vários  julgados  pelos  Tribunais  pátrios,  observamos  quão  desgastante  é  o  processo
das garantias constitucionais da ampla defesa e do contraditório.

Em tratando­se de processo administrativo, nota­se que não há uniformidade em suas decisões, tão pouco
demonstra tais processos haver respeito à Constituição Federal, vez que não há a oportunidade de defesa
ampla.

As  Juntas  Administrativas  de  recursos  de  Infrações  –  JARI,  entidades  criadas  pelo  Código  de  Trânsito
Brasileiro – CTB, com o objetivo de julgarem os processo administrativos impetrados contra a aplicação de
multas de trânsito, carecem de regulamentos e uniformização de suas decisões. Neste ínterim, o cidadão
vê­se obrigado a participar de uma ‘roleta russa’ onde as chances de ser o perdedor são grandes. Lesa­se o
direito democrático de defender­se amplamente, da mesma forma, lesa­se a garantia maior de contradizer
uma acusação que contra si é proferida. Mais ainda, perde­se um pouco do Estado Democrático de Direito,.

A transparência dos atos administrativos é lesada uma vez que o órgão SMT, pertencente à esfera do Poder
Executivo,  não  permite  que  os  cidadãos  tenham  acesso  a  documentos  que  muito  pode  contribuir  para  a
promoção da defesa ampla.

Talvez  aqui  exista  um  paradoxo,  pois  em  recente  discussão  nacional  acerca  da  reforma  da  previdência
social,  o  Executivo  nacional  acusa  o  Judiciário  de  ser  uma  ‘caixa  preta’,  porém,  o  que  se  notou  no
desenvolver deste trabalho, foi que o Executivo municipal de Goiânia tornou­se de fato uma lacradíssima
‘caixa  preta’,  onde  o  cidadão  tem  o  acesso  a  documentos  públicos  cerceado  por  trâmites  burocráticos
impensáveis e desculpas desconcertantes.

A composição das JARI, por não existir critérios determinantes da competência e qualificação profissional
de seus membros, serve apenas para cumprir a lei seca, não vislumbrando a intenção maior da lei, ou seja,
o equilíbrio social, vez que não há certeza na relação jurídica ali existente.

O  objetivo  deste  trabalho  era  indicar  a  ofensa  aos  princípios  constitucionais  da  Ampla  Defesa  e  do
Contraditório,  por  parte  do  órgão  executivo  de  trânsito  de  Goiânia,  o  qual  seja,  a  SMT,  contudo,  com  a
criação  da  Comissão  de  Defesa  Prévia  no  município  de  Goiânia,  por  resolução  do  Conselho  Estadual  de
Trânsito de Goiás – CETRAN­GO, em julho de 2003, tal objetivo viu­se, em parte, sanado, pois ainda falta
longo caminho a ser percorrido a fim de atingirmos a plenitude dos direitos garantidores da aplicação da
democracia em nosso país.

Em suma, o objetivo de promover maior oportunidade de defesa aos direitos do cidadão autuado no trânsito
de Goiânia encontra dia­a­dia maior reconhecimento por parte dos órgãos oficiais, bem como maior força
por parte da sociedade civil organizada.

Assim, concluímos que não devemos, nem tão pouco podemos desanimar ou desistir de lutarmos por um
Estado  de  Direito  Pleno,  por  uma  Democracia  viva  e  atuante,  refletindo  em  seu  povo  os  anseios  de  uma
sociedade madura, consciente e cobradora de seus direitos.

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MEDAUAR  Odete.  Direito Administrativo Moderno.  4ª  edição  revista,  atualizada  e  ampliada.  RT.


2000

GRINOVER Ada Pellegrini. Garantias do contraditório e ampla defesa, Jornal do Advogado, Seção
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ALMEIDA, Joaquim Canuto Mendes de. A Contrariedade na Instrução Criminal, 1937, p. 110.

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www.sinatrango.hpg.com.br/defesa  (http://www.sinatrango.hpg.com.br/defesa)  >. Acesso em 20 mar. 2003.

NOTAS
1
 Conforme deduções do texto de Ruy Samuel Espíndola apud Antônio Joaquim Severino, Metodologia de
Trabalho Científico. 19. ed. São Paulo : Cortez, 1993. 252 p.p. 146­148.

2
 Cf. Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986. p. 1.393.

3
 Ibidem.

4
 Apud Paulo Bonavides. Curso de Direito Constitucional. 5. ed., São Paulo ; Malheiros, 1994. p. 228­229.

5
Para uma aproximação desta afirmação, traz­se à colação Genaro Carrió: "La palabra ‘princípio’ se usa
em  contextos  jurídicos  com  sentidos  diversos  que  espejan  tales  focos  de  significación  y  formam  uma
familia  compleja  unida  por  intrincados  lazos  de  parentresco.  Ello  ocurre  em  relación  com  las  distintas
actividades  que  tienen  que  ver  com  el  drecho.  Esto  es,  com  la  exposición  del  misto,  con  su  crítica,
justificación  y  reforma  y  con  su  manejo  prático".  Genaro  Carrió.  Princípios  Jurídicos  y  Positivismo
Jurídico. Buenos Aires : Abeledo­Perrot, 1970, 75 p.
6
 Cf. Princípios Constitucionais da Administração Pública, p. 25.

7
 Cf. Pontes de Miranda in Comentários à constituição de 1946. Rio de Janeiro, Borsoi, 1960.

8
 Ato Institucional nº 5 (AI­5). Anula a própria Constituição de 1967.
9
9
 Jorge Miguel in Curso de direito constitucional. 2. ed. – São Paulo ; Atlas, 1991.

10
 Odete Medauar. Direito Administrativo Moderno. 4ª edição revista, atualizada e ampliada. RT. 2000

11
 Apud. Ada Pellegrini Grinover. Garantias do contraditório e ampla defesa, Jornal do Advogado, Seção de
São Paulo, n. 175, nov. 1990, p.9

12
 Odete Medauar Op. Cit. P. 201

13
 CARRIJO. José. Curso de Direito

14
  José  Cretella  Junior  –  Comentários  à  Constituição  de  1988,  volume  I.  Rio  de  Janeiro:  Forense
Universitária, 1997

15
 Cf. Pontes de Miranda, Comentários, 3ª ed., 1987, Rio, ed. Forense, v. V, p. 235)

16
 Supremo Tribunal Federal, em RDA, 73:136

17
 Cintra, Grinover e Dinamarco, Teoria geral do processo, 11. ed., 1995, p. 84

18
 HONORATO. Cássio Matos. Trânsito, Infrações e Crimes Ed. Millennium, 2000, p. 290/2

19
 Apud, Cássio Mattos Honorato, in Trânsito, infrações e crimes. Campinas; Millennium, 2000.

20
 Apud. J.J. CANOTILHO op.cit. p. 171

Autor
Leonardo Rodrigues de Velasco

advogado

Informações sobre o texto
Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

VELASCO, Leonardo Rodrigues de. A aplicação dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla
defesa no processo administrativo do Código de Trânsito Brasileiro. Revista Jus Navigandi, Teresina,
ano 10, n. 596, 24 fev. 2005. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/6249>. Acesso em: 28 jun. 2015.