Margarida Rebelo Pinto Artista de Circo

© 2OO2, Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro-Sociedade Editorial, Lda. Título: Artista de circo Autoria: Margarida Rebelo Pinto Revisão: Fernando Villas-Boas Composição: Oficina do Livro, em caracteres Aldine 401, corpo 11 Capa: João Figueiredo, a partir de uma ilustração de Jessica von Helmolt Fotografia: Alex Gandum / Expresso Impressão e acabamento: Guide, Artes Gráficas, Lda. (Portugal) 1ª edição: Outubro, 2002 – 30.000 exemplares ISBN 972-8579-90-X Depósito Legal n.° 186932/02

Índice: Artista de circo A descida dos deuses Addicted to love Açúcar em pó Almas gémeas Andar ao contrário Antes de Aqui e agora Balada dos monstros Bigodes de gato lambido Braço de ferro Brown chocolate Carregar pianos Cinco contos por nada Comédia romântica Coração aconchegado Conselhos e críticas Correr devagar Debaixo do braço Deixa-te disso Depois da solidão Desculpa Os ducheses da avó Os comboios não sabem voar É amanhã, meu amor Em casa Em playback Encontrar a tristeza Enterrar o coração Esqueleto ambulante Estar e ser Estranha forma de vida Estrelas à mão A falta que faz Fazer as malas Férias na Cova do Vapor Hello my love

António? Por um fio Pukunina outra vez Rica e fina Só se vive uma vez A subida do prazer Talvez não Tão fácil Tirinhos e farturas Três letras Um avião chamado Kátia Um caminho qualquer Um eléctrico chamado desejo Verde e azul A volúpia de uma bica Na terra dos sonhos .Instantes perfeitos O fio dos dias Irmãs Jogar ao prego A maior aventura Maldito fado Mesmo assim Maria Lua Mãos cheias O mesmo caminho Meu neto. meu amor Mudar de vida Não me sais da cabeça O número mágico Olhar o coração Outro lugar Palácios de lona Na palma da mão Poesia nocturna Pois não.

mesmo sem o saber.Ao meu filho Lourenço. À minha Mãe e ao meu Pai. me fizeram escrever tantas histórias de amor . A todos aqueles que.

The coward does it with a kiss. Some strangle with the hands of Lust. The Ballad of Reading Gaol . Oscar Wilde. some too long.Yet each men kills the thing he loves. And some without a sigh: For each men kills the thing he loves. The brave man with a sword! Some kill their love when they are young And some when they are old. because The dead so soon grow cold. Yet each man does not die. Some sell. and others buy. Some with a f tattering word. Some with the hands of Gold: The kindest use a knife. Some do it with a bitter look. Some do the deed with many tears. Some love too little. By each let this be heard.

pensando que. Deve ser por isso que sempre quis ser artista de circo. tiram-nos as rodinhas das bicicletas e dizem-nos és capaz. batendo com uma veemência esmagadora que nos deixa de braços estendidos ao longo do corpo e a perguntar em surdina porquê. uma travessia solitária pelo arame traiçoeiro que nos há-de levar a um lado qualquer que é sempre do outro lado. o medo paralisame mas a vertigem chama-me e lá vou eu. o cabelo cor de fogo ondula ao ritmo da minha vertigem enquanto me balanço lânguida .Artista de circo A vida são portas condenadas. Ou então. nas nossas costas ou na nossa cara. onde está tudo aquilo que nos convencem que queremos ou que simplesmente escolhemos como objectivo para alcançar uma coisa qualquer a que gostamos de chamar tranquilidade. seguram-me na barra suspensa e dão o balanço certo antes do voo. pequeno e distante. Portas que passamos. imagino que sou uma trapezista com o cabelo cor de fogo e um maillot dourado bordado a lantejoulas e que cruzo o tecto do mundo em acrobacias da mais fina elegância. A vida são portas condenadas. sempre à espera que uma corrente de ar entre um e outro lado da tenda me façam parar para pensar. ao as abrirmos. vamos descobrindo o mundo e arrumando o caos interno. elas se vão fechando uma a uma. um pé à frente do outro. mas afinal percebemos que à medida que os anos passam. a travessia diária do arame dá-me medo e vertigem. dos bolinhos de lama para o lanche das bonecas. As minhas pernas são musculadas. procurando nas alturas sonhos que se fecharam atrás de portas condenadas. lançando-me no espaço com a mesma inconsciência com que corria no fio do muro do colégio ou empilhava cadeiras e mesas todas umas por cima das outras no ginásio deserto até sentir que via o mundo de cima. tuia es capaz a partir daí a vida estreita-se num arame cada vez mais fino e ténue e é então que vamos percebendo que viver não é mais do que um precário equilíbrio. primeiro fecha-se a porta da infância. a vara com a razão numa ponta e o coração noutra a atravessar a vida. porque não sei viver sem olhar para as estrelas.

porque a vida nunca me diz se tenho ou não rede para cair. fecho os olhos e salto pelo ar.e um braço estendido enquanto o outro se agarra à corda. lá em baixo as avós rezam e as crianças abrem a boca de espanto. . E no instante perfeito em que te vejo do outro lado das alturas a piscar-me o olho e a chamar-me gorda má com aquele meio sorriso irónico que tão bem conheço . atravesso o tecto da tenda.nunca fui gorda nem soube ser má . ou se me deixas cair devagar.para a frente e para trás. preparando o momento exacto para executar o salto perfeito sem nunca olhar para baixo. como fazemos com aqueles que amamos com medo de não ter nada para lhes dar. e nunca sei se me agarras no último instante possível e me convences que afinal a vida não são só portas condenadas que o tempo também serve para abrir.

Mas a . o teu passo certo e sincopado ganhava a velocidade da luz quando subias as escadas do meu prédio em Santos. esquecer os teus olhos que viajavam pelo meu corpo sempre à procura de mais prazer. já não me lembro bem como era antes de ter mudado de casa para tentar mudar de vida. tu empurravas-me contra a parede e tapavas-me a boca com a tua mesmo antes de conseguir fechar a porta da rua. Tu chegavas quase sempre tarde. lembras-te de me teres contado esta história. mas dizem que o tempo resolve tudo. sentia o corpo amolecido e lânguido e se calhar era por isso que nem falávamos. o torpor da rotina vai-me tomando os membros até chegar aos ossos.A descida dos deuses “Passei ao lado do mundo e tomei a história pela vida” Jules Michelet Há muito tempo que é assim. só sei que foi há mais de três anos e ainda não sei se consegui ou não. por isso fico à espera. Eu fechava os olhos para te ver melhor. porque é na mudança que marca a chegada de outro dia que as almas perdidas descem à terra e se apoderam dos distraídos. dos solitários e de todos aqueles que. o que é muito fácil para quem aprendeu a não esperar nada dos outros. dos mendigos. aquela hora que os místicos recomendam que não se ande na rua. procuram a morte. Do outro lado da rua rapazes e raparigas trocavam mentiras e bebiam cervejas na esplanada e quando tocavas à campainha eu já não estava dentro de mim. das tuas mãos compridas que me agarravam as ancas e o cabelo. observava-te dentro do meu desejo. a descer a Calçada da Estrela até cá abaixo. sabendo ou não. depois da meia-noite. aquele que ele gravou com as canções preferidas da mulher quando soube que estava doente. Lá fora as gargalhadas nervosas das raparigas da esplanada misturavam-se com os acordes do disco do Keith Jarrett. não lembras? Às vezes gostava de apagar da memória o cheiro da tua carne e o peso do teu peito em cima do meu.

quando percorrias com as costas das mãos os lençóis esticados e me tocavas com a ponta dos dedos na cara. deve ser por isso que foste para comissário. também guardo a lição de uma forma diferente de amor. nem quando partias e me votavas ao silêncio durante dias. e tu entraste com o Luís que trazia o coração ao peito do lado de fora para toda a gente ver. vem de tudo e do nada e o pior é que só serve para nos distrair da realidade. a claridade reflectida multiplicava-se em feixes de luz nos quais os teus olhos . ainda estarias do lado esquerdo da cama com os olhos fechados e os braços enrolados debaixo da almofada ou já terias partido para um ponto incerto do globo. que se tinha zangado com a namorada e me pediu que a acompanhasse para uma noite de copos e expiação de tristezas. Be my Love e a minha preferida Someone to Watch Over Me. não ter destino certo era o melhor do teu trabalho e tornou-se a tua vida. mas o silêncio dói mais do que o choro e o olhar pode gritar muito mais alto do que a voz e se calhar é por isso que aprendi a não te dizer nada. I loves you Porgy. Mas quando me lembro de ti. Nunca a vi chorar. E então. Contigo o amor nunca foi um acto de funcionalidade. e quando se vive assim durante alguns anos é difícil mudar o desassossego da alma. nos arrancar dos outros para depois nos devolver o coração mutilado pela saudade. para que o acto de adormecer guardasse toda a magia do momento. Conheci-te num bar alternativo. nem quando regressavas com a naturalidade de . depois da meia-noite. Foi contigo que aprendi a amar sem pensar se no dia seguinte me poderias trazer o pequeno almoço à cama ou levar o Brownie à rua. até me perder na linha que separa o mundo do sono e nos leva a outro dia. nunca faço planos. eu ia com a Paula. Nunca sabia se no dia seguinte. deve ter sido por ter passado dez anos a ver a minha mãe calada à espera que o meu pai voltasse de uma viagem ao Canadá. parecia meio-dia. Chegavas tarde.enormes se fixavam.memória do prazer é autónoma e traiçoeira. Sempre soube desde pequena reconhecer os sinais do desgosto nos outros. quando a Lua se perdesse na luz da manhã. Dizias-me sempre não faço planos. mas apenas um jogo de sintonia. desenhandome as feições com pinceladas leves que me davam arrepios e me faziam sentir outra vez pequenina. cantarolavas baixinho as melodias que o Keith Jarrett reinventava ao piano. a Lua inundava a cama imensa e sempre branca.

mas como uma falha de entendimento e dizia: “não se fala mais nisso”. como naquela noite em te vi entrar no bar a amparar o Luís que foi meu colega no Liceu e que eu não via há quase dez anos. oferecia-lhes café acabado de fazer. dividindo a vida a meias dia a noite como duas siamesas. O Luís avançou com a timidez de quem já se habituou a viver com a . eu apertava os dedos uns contra os outros e apetecia-me rasgar o livro por me mentir tanto. O que a vida me ensinou é que ninguém é sempre feliz. Depois a Filipa passava-lhe a mão pelos cabelos muito curtos e espetados e eu ficava com um bocadinho de inveja.Tens que sair mais. entre baforadas de Camel Lights e goladas minúsculas de vodka limão a vida são dois dias. talvez a vida me tivesse preparado de outra forma. pontuada de momentos especiais. que a solidão é o luxo sublime daqueles que sabem esperar. uma inveja doce e pacífica de saber que as duas se amavam da mesma forma. se calhar tive azar. Durante as tuas ausências.para troçar deles e rir-se comigo e às vezes de mim. Eu comia os chocolates e enjoava-me com os rapazes. eles convidavam-me para jantar e eu respondia talvez com a doçura velada de um não delicado para não os decepcionar. se o meu pai não tivesse desaparecido no rasto branco de um avião do outro lado do mar. mas quando à noite a minha mãe me lia os contos de Grimm que acabavam sempre da mesma forma.quem esteve sempre perto. é muito pouco tempo e tu perdes o tempo todo à espera do Pedro Eu tentava explicar-lhe que o tempo nunca se perde. que a vida é um fio monótono e repetitivo que nos vai levando para lugar nenhum. acompanhando-se em tudo. tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre. não como uma atitude normal perante o meu comportamento absurdo. de quem só saiu para comprar pão ou passear o Brownie. dizia. o Brownie sentava-se à porta e suspirava como se tivesse bebido do ar a minha melancolia. sozinha ou com a Filipa . . apenas se gasta melhor ou pior. E depois casaram. Nunca vi um homem dividir o que fosse com uma mulher. muito menos para sempre.a nova namorada . A Paula encolhia os ombros e voltava na noite seguinte. trabalhando juntas na mesma livraria. a Paula vinha-me visitar e trazia-me chocolates e rapazes para eu conhecer. repartindo contas e compras. mas a Paula não me percebia e como todos os bons amigos aceitava a sua própria incompreensão.

Não precisavas de procurar muito. eficiente. obcecadas de prazer. apresentou-te e sentámo-nos os quatro numa mesa alta à espera de trocar mentiras como a noite impõe aos profissionais do vazio. Não sei porquê. levitando contigo sobre os nossos corpos. eternos e irrepetíveis que marcavam cada reencontro. percebi que me ias entrar para o sangue para sempre. Há muitas vezes mais angústia em esperar um prazer do que em sofrer um castigo. enquanto os teus olhos se abriam de espanto e os dedos se prendiam dentro de mim. mas foi logo naquela noite que vieste comigo para casa. Por isso. seguro. a boca. sabendo que já me tinhas encontrado. Não paravas de falar comigo. perfeito. Empurravas-me até ao quarto e atiravas-me para cima da cama. Depois a tua cara descia e procuravas-me ainda. Com movimentos sábios tiravas-me a roupa. Querias dar-me sempre mais e mais prazer por isso subias o teu corpo e entravas depressa. fanáticas.tristeza. E quando o momento se aproximava e eu sentia no pulsar do sangue a descida dos deuses. as mãos cravavam-se na almofada quando me viravas de costas e me agarravas as coxas sedentas. Abria-te a porta e antes de a fechares nas minhas costas já sentia a tua língua dentro da minha boca à procura do meu prazer. inventando a cada vez . a mão descia em grande velocidade e tocava-me o sexo que escorria de impaciência. sentia os teus olhos a agarrarem-me as ancas à medida que subia as escadas à tua frente e quando abri a porta e me empurraste contra a parede e me meteste a tua língua na minha boca mesmo antes de conseguir fechar a porta. o ritmo era certo. sabia que nos íamos amar durante toda a noite. a espera torna-se na única existência possível e torna-se mais fácil uma pessoa afeiçoar-se ao silêncio do que a outra voz. as mãos entrelaçavam-se e os olhos trocavam de globos oculares. tratando-me sempre com doçura. adivinhando no calor do vento ou no tamanho da Lua os teus regressos cada vez mais frequentes e cheios de prazer. a barriga. Eu deixava-me ir. mesmo sem saber se vinhas ou não passei a esperar-te sempre depois da meia-noite. esquecia os dias de tristeza e de solidão. mordias-me as mamas. trocava-os todos por aqueles instantes únicos. a tua boca colava-se à minha. via-me com os teus olhos e tu com os meus. escondendo a cara transfigurada no teu peito. mas quando nos habituamos a viver assim.

sinto o sangue outra vez a correr mais depressa como se tivesse subido as escadas da casa de Santos a correr. mas já se esqueceu de te esperar deitado na soleira da porta e o ar foi ficando mais leve. tapando-o com doçura. Nas noites raras em que os deuses descem ao corpo dos homens para os ofertar com o prazer fugaz da eternidade. quem te aconchegava o sexo. sentia-as como uma massagem no coração. completamente entregue a ti. Não sei ainda bem porquê. agarrando-o com as duas mãos.a Filipa oferece-me livros de poesia e lemos O'Neill e José Agostinho Baptista em voz alta. toda. o prazer multiplicava-se até à exaustação que nunca chegava a dar-se. não te pedi o telefone nem chorei a tua ausência. é preciso deixá-los partir. mas a temperatura das mãos dele já me disse que vai ser mesmo bom e como a pressa nunca foi aliada da perfeição. O Brownie ainda não apanhou esgana nem raiva nem leishmaniose. A Paula e a Filipa vêm jantar todas as semanas à casa nova que tem lareira e vista para o mar. Nunca fiz sexo assim com ninguém nem nunca amei nenhum outro homem como te amei a ti e se calhar é por isso que quando me telefonaste do Brasil há mais de dois anos a dizer que tinhas trocado o trabalho de comissário da TAP pela gestão de um hotel junto à praia com doze quartos todos com vista para o mar. mas acredito que a distância aproxima as pessoas quando elas têm mesmo alguma coisa para dar às outras. me enchias de ti e te esvaías no limite do limite do prazer. sem pressa. E as tuas palavras faziam-te ir sempre mais fundo. olho para a Lua espelhada em milhões de pontos de luz no azul muito escuro do mar. Eles voltam sempre que quiserem. demorando-me até ao momento final em que voavas num espasmo. Outro dia trouxeram um rapaz de olhos grandes e barba à Cristo Redentor que decidiu tocar-me o coração antes de pousar as mãos no meu corpo e quando mergulha o olhar na minha boca. total. com que me embalavas em tantas noites brancas . Depois era eu quem descia. Ainda não fui para a cama com o André. o André enrola um charro que acende e me passa com a solenidade própria que assumem os gestos dos homens quando pensam que estão apaixonados e eu encosto-me ao peito dele e sonho que se um dia .outros nomes e outras formas de me dizeres como gostavas de amarme assim. ponho o disco do Keith Jarrett aquele mesmo.

se calhar vocês ainda se tornam bons amigos. tudo por causa do Keith Jarrett que toca Some thing to Remember You By. .voltares.

já ouvi histórias de pessoas que revelaram sintomas com três ou quatro anos. mas desses pormenores só me lembro agora. não foram meus namorados. naquela época ninguém sabia como é que isso se fazia. meu colega do ciclo. E depois o João Carlos. que tinha cara de sonso e os olhos muito azuis. se calhar estou doente há quarenta anos e nunca me apercebi disso. um bilhetinho dentro do .Addicted to love Sabe. um moreno de olhos grandes que morava no prédio em frente. como ela diz. eu acho que até nem estou doente. senhor doutor. emocionante. senhor doutor. Mas há sempre um dia em que uma pessoa tem que enfrentar a realidade. E olhe que ainda não tinha 14 anos quando o conheci. que é quando uma pessoa entra na idade da razão. isto sou eu só a pensar alto. que era primo de uma amiga e também tinha olhos azuis. não é na cabeça que reside o mal. um fundo patológico. até pode ser que a minha amiga tenha mesmo razão e eu não ande boa da cabeça. Para ser mais exacta. que é para isto que uma pessoa cá vem. Parece-me que tinha cabelo oleoso e morava num bairro sinistro. Até nem comecei muito cedo. mas a verdade é que embora me tenha dado o primeiro ataque na idade da razão até hoje nunca me perguntei porquê. não havia filmes nem essas coisas. jogava ténis e futebol e que não me ligava nenhuma. Ando nisto desde a segunda classe. Foi ela que me convenceu que isto que eu tenho pode ter. que roçava a indecência. mas como ninguém é dono da verdade porque a verdade nunca é só uma nem única. Depois foi o João Pedro. Eu acho que não. E depois o filho do alfaiate. por decoro. dar a mão era um acto aventuroso. Primeiro foi o Paulo. para ver se me ajuda a evitar essa contingência. e depois o Miguel. não lhe posso dizer quem é. sob o risco de ser engolida por ela e é por isso que cá vim. Não. também me explicou a minha amiga que é sua paciente e que. mas foi uma grande amiga minha que me disse para cá vir. por isso o amor era sempre platónico e um sorriso cúmplice. Na altura andava era mesmo encantada com ele. A vida está cheia de ironias e uma delas reside nisto mesmo.

A minha amiga diz que já sofreu do mesmo mal e que o senhor doutor a tem ajudado e é para isso que estou aqui. casei. Mas é um amor platónico. tive dois filhos. . Devo mesmo ter uma doença. o meu vizinho do sexto esquerdo que a mulher deixou com três filhos. sou viciada em amor. porque nunca percebi se é o coração que manda na cabeça ou vice-versa e já agora gostava de tentar resolver esta dependência que me alimenta os sonhos e me impede de viver. Eu achava que com a idade isto me passava. Agora são os colegas da empresa.compêndio de matemática ou café tomado às escondidas no café da esquina eram o suficiente para alimentar meses de paixão ardente e silenciosa. separei-me quando o meu marido perdeu o interesse por mim e olhe. o meu advogado que também tem uns olhos grandes e joga ténis e outro dia. há dez anos que continuo nisto. impossível. dei por mim a fixar o olhar no rapaz que é caixa no banco. veja só ao estado a que cheguei. que quase nunca se concretiza.

dizia ela . A Matilde foi minha aluna em Economia Industrial e desde a primeira aula que fez o favor de se sentar na primeira fila e cruzar e descruzar as pernas numa repetição infinita e estonteante que me fazia divagar sobre o possível efeito nefasto da cerveja que bebera ao almoço. a Matilde já trabalhava . é tudo ou bom ou mau. Mas bastou uma noite de copos para criar a intimidade suficiente que me permitiu ler-lhe a alma mesmo sem lhe tocar o coração. o qual obviamente nunca encontrei. Não sei dizer ao certo quando é me apaixonei. que é aquela idade em que se sai da faculdade com a cabeça cheia de sonhos e de ideias feitas. arregaçou os braços à vida e congelou o coração. costumava dizer a Matilde do alto dos seus 23 anos. atirando para o ar gráficas e perfeitas circunferências que me pareceram tão vazias como ela.marketing telefónico. inválido e reformado. sim ou sopas. que é como fazem nos filmes de acção quando precisam de atirar um figurante ou o herói por uma janela. se foi na noite em que me maravilhei com a perfeição dos efeitos do fumo no ar.e tinha o ar compenetrado de quem não desperdiça o precioso dinheiro da propina em jogatanas de cartas. Há momentos mágicos que por uma qualquer razão desconhecida se gravam na memória e nos perseguem para toda a vida. ou numa tarde em que me convidou para lanchar em casa dela e me ofereceu bolinhos de manteiga envoltos em açúcar em pó. como quase todas as pessoas a quem o destino inflige um sofrimento violento. não fosse este desfazer-se como um vidro ou um simulacro feito de açúcar. como a imagem da Matilde a lamber delicadamente a cabeça dos dedos . A Matilde nunca quis saber o que levara a mãe a cometer tal acto de insanidade e. nem o tempo que lhe sobrava entre a casa que cuidava com o afinco de uma doméstica de profissão e os cuidados com o pai. inesperado e inexplicável. preto no branco e os cinzentos não existem. Como é habitual nos alunos da noite. explicou-me numa noite de copos.Açúcar em pó Perder tempo e gastá-lo não é a mesma coisa. tentando compensar todo o conforto que a mãe lhe dava antes de se ter suicidado numa praia da Ericeira quando ela tinha apenas 18 anos.

mas a ideia de a ter mais um ano lectivo à minha frente a descruzar as pernas com a languidez de quem lambe a cabeça dos dedos era de mais para mim. em quase dez anos de trabalho. Não. Claro que agora. ao que parece. mas igualmente sedutora. ela perdeu mesmo a cabeça e. demasiado esperta para não a ouvir. esperando que os mais rebeldes ou inteligentes se destaquem por si e nunca. olho com complacência esse período conturbado e difícil da minha vida. porque percebi que. Por isso dei-lhe um treze desejando-lhe assim toda a sorte do mundo e guardei o melhor dela. Há muitos anos que dou aulas e por isso habituei-me a encarar os alunos como um todo. numa provocação mais subtil que o cruzamento infernal das pernas na primeira fila do anfiteatro. embora vivam com a mesma intensidade que nós. demasiado mulher para não a seduzir. com o passar dos anos e as ameaças de outras Matildes que se sentam sempre na primeira fila. como são todas as memórias daqueles que já amámos. quem sabe. a Matilde não era boa aluna e merecia ter chumbado. as suas máximas emblemáticas e os dedos cobertos de açúcar em pó. uma espécie de massa uniforme. o desejo e o dever. quando de um dia para o outro fui trocado por um aluno do primeiro ano por quem. dividido entre a ética e a vontade. mas a Matilde era demasiado bela para não a ver. manipulado por uma rapariga que se calhar só queria saber o que era ter uma aventura com um professor.enquanto saboreava cada bolinho. caíra no cliché do romance professor/aluno que acaba sempre mal. . nas pautas e na vida. não dão aos actos o mesmo peso e aprendi-o da pior forma. Com ela aprendi a desconfiar das pessoas mais novas. ou simplesmente a atenção de um homem mais velho. talvez até tenha encontrado o coração.

te vi com vinte e tal anos. troca o tempo e o passo e quando dá por isso. namoravas com ele há um ano e gostavas muito de conversar comigo nos jantares de família. o menino bonito. muito menos uma carreira como o Alvaro. antes de te casares com o meu primo Álvaro que tinha bom porte. anos ou décadas. antes de partires para Paris. volta atrás.Almas gémeas Por causa da mania das almas gémeas é que ainda estou apaixonado por ti. de espera e de abnegação e. eu que era o primo doido. são só os olhos que vemos. formado em Direito com 17. Eu tinha a sensação que o Álvaro nunca falava contigo nem de livros nem de música. A vida tem destas coisas. nem de nada que te aquecesse o coração. porque a vida vai sempre muito mais à frente do que nós pensamos. de uma tristeza que aos poucos foi sendo substituída por uma doce e serena melancolia à qual me habituei como uma segunda pele e sem a qual agora já seria um homem infeliz. por isso nem o vemos passar e quando reparamos nos cabelos brancos e começamos a afastar dos olhos as listas dos restaurantes para escolher entre o bacalhau e o lombo assado é que nos apercebemos do todo o tempo que já passou. te confesso. que lia o Buñuel e praguejava contra o regime e que por isso mesmo nunca arranjei nenhum tacho. passem meses. mas era só uma impressão. convencida do teu papel de . está sempre a indicar-nos vários caminhos ao mesmo tempo e às tantas uma pessoa confunde-se. por incompetência ou timidez. por que aqueles que amamos estão sempre na mesma e como vivemos dentro deles e mergulhamos pelos olhos. Quando te conheci. a oportunidade passou-nos ao lado e não vale a pena correr atrás dela. cada dia é uma nova dimensão que nos parece sempre a mesma e o tempo voa muito mais depressa que o nosso coração. afinal parecias feliz. Mas isso é só para nós. Deve ser por isso que quando me cruzei outra vez contigo na subida da Garrett. E foi assim que te perdi. Maria Cecília. zut. melhores modos e uma ambição desmedida que o levaria ao topo da carreira. hesita. o pintor surrealista que se distraía horas a desenhar ratos e rãs com chapéus de palha. que era o orgulho da família. depois de tantos anos de silêncio e separação.

talvez ainda vá a tempo de encontrar o caminho que me leve a ti e descubra finalmente se és ou não afinal a minha alma gémea. havia demasiadas setas. porque já sabia. Agora estás viúva.futura embaixatriz. vai e vem muitas vezes no mesmo olhar e nunca morre.e que é afinal tantas vezes a mesma coisa . com uma bandelette que te deixava a testa e os olhos desenhados com grande nitidez e eu queria sempre mergulhar neles para te ouvir melhor. porque como tudo se repete. . já sem bandelette. Devia ter-te declarado o meu amor quando ainda usavas bandelette e ignorar a sombra do Álvaro. contaste-me tudo na esplanada da Brasileira com o poeta esquizofrénico a beber as tuas palavras mesmo ali ao lado e pareceste-me mais velha. depois de tantos anos de uma solidão povoada que nunca mais consegui matar. e não segui o caminho certo. viveste no mundo inteiro. Maria Cecília. tens três filhos criados e uma casa na Lapa. mas talvez ainda não seja tarde. mesmo quando o tempo passa e nos traz outras vidas.e foi assim que te voltei a encontrar. mas tive medo. A vida é um eterno regresso a casa. devia ter desafiado o destino e acreditado que te poderias apaixonar por um pintor pobre e trapalhão. eu estou separado e o que me prende à vida está nas telas e nos livros dos outros. sempre muito bem penteada. mas com a mesma testa e os mesmos olhos e vê lá tu que me apeteceu logo mergulhar outra vez. Maria Cecília. também o amor sofre deste triste infortúnio. vai dando voltas e voltas até nos pôr à frente aquilo que mais amamos ou tememos . que te amava e que fazias parte de mim. embora nem quisesse pensar nisso. mais magra mas sempre bonita e foi como regressar outra vez a casa. O Álvaro morreu há três anos.

há um que te vai cortar mesmo o pé e. um a um atira-los contra a parede. mas mesmo assim varres tudo. desfeita e mil pedaços . mergulhada na prostração do absurdo. percebes que está tudo perdido. vais mesmo sofrer. tudo se desfaz por entre os dedos e assistes atónita e impotente à perda irrecuperável do teu amor: ele desfaz-se em gritos. que preferes morrer a enfrentar a realidade por ti criada. vais mesmo ao armário e retiras de lá todos os copos. piores que nada. os sonhos estatelaram-se como copos que atiraste à parede e se desfizeram em mil cacos e de repente vês a tua vida em infinitos fragmentos de vidro iguais a nada. o efeito a plástico do vidro é admiravelmente acompanhado por um ruído estridente. que nunca mais poderás recuperar tudo o que construíste. sabendo que atrás da porta. apetece-te furar o mundo em mil e um buracos. toda partida. ou estranhamente projectado a mais de três metros. depois da batida da porta que te ecoa no cérebro como uma bomba-relógio com a contagem ao contrário. ou junto ao rodapé. a banda sonora perfeita para a tua alma. sem saberes porquê. alimentada pelos teus medos e dúvidas. um estertor de uma morte que não consegues realizar. insultos e estalos. rebentada. o movimento do teu braço é como o de um atleta das olimpíadas a lançar o dardo. Ou então. à espera de te apanharem num movimento menos prudente e então vais buscar uma vassoura daquelas pequenas que parecem de brincar e uma pá a condizer e tentas apanhar os fragmentos infinitos e varres com cuidado mas totalmente absorta da actividade que executas como um autómato contrariado que de repente toma consciência de que o puseram a executar uma tarefa abaixo da sua expertie. porque o nada é branco e tem um princípio e um sentido mas desaparece quando percebes o que te aconteceu e os vidros ficam ali no chão. por mais que não queiras. percebes que te fodeste para sempre. por mais que fujas. ou aquela merda que carregas no peito e que te alimenta ao mesmo tempo que te mata.Andar ao contrário E às vezes. que as palavras e os gestos te atraiçoaram para sempre. tudo se perde no ar que fica pesado como chumbo e.

quando o chão de madeira parece um tapete de faquir em fase embrionária que percebes que não és nenhum atleta.de memórias que não queres esquecer mas não podes lembrar e é então. que não podes voltar atrás. e o tempo continua a perseguir-te com o vazio de um dia igual ao outro e ao outro e outro e tu só queres desistir. Só o mundo é que anda ao contrário dos ponteiros do relógio. os gestos desmedidos e absurdos. os gritos. mas é sempre tarde. dormir. os maus tratos de quem ama de mais e não sabe viver de outra maneira e é então que te perguntas porquê. perder o juízo e a lucidez e voltar ao momento exactamente anterior à dor. comendo a luz que te dói nos olhos e na alma e vêm as noites. . os insultos. ao vazio e à tristeza. é sempre demasiado tarde para voltar atrás. rebobinar o filme e evitar a conversa. E os dias passam.

levava os netos de férias para . pérolas e pulseiras de ouro. sou daquelas pessoas a quem nunca morreu ninguém que vivesse ao meu lado e é por essas e por outras que me acho das com mais sorte na vida. adaptados à nossa época. seguiram-se incontáveis doenças infecciosas às quais a minha avó Henriqueta resistiu estoicamente e. num fio lúcido de vida que me deixava ver o seu sorriso imaculado e os seus belíssimos olhos azuis. me deu para arear as poucas pratas que tenho. Mas a avó Henriqueta era dos quatro avós a única de quem eu gostava. nos foi alimentando esperanças de vida que sabíamos falsas. Lembro-me que estava sol tal como durante todo o Verão durante o qual ela caiu e partiu a bacia num golpe de pouca sorte e foi imediatamente internada. Depois. Não trato por tu a morte. aceitei a notícia com a racionalidade própria destas situações: tinha caído. num daqueles Outonos quentes e dourados que nos fazem pensar que o Inverno nunca há-de chegar. convencida que o esforço de aplicação em brios e reflexos me aliviaria do vazio que ela me deixava. Era linda. Para poupar a tristeza nunca consegui até hoje fixar a data. seria muito difícil que recuperasse com o vigor dos corpos jovens. O dia arrastou-se de forma ordenada até à noite em que. coquette e vaidosa. sozinha em casa depois de ter adormecido o meu filho. durante dois meses. De modo que a morte da minha avó não me apanhou de surpresa. do qual a minha mãe e a minha tia guardaram alguns traços. para que nos habituemos a ela. cabelo loiro e a cor de azul nos olhos que o meu filho num reverso de ironia genética guardou. No dia em que morreu. Tinha o chic típico das senhoras da sua geração. de uma simpatia esfuziante. intuí-a no dia em que soube que tinha caído e a morte é muitas vezes piedosa quando traz como arauto a doença ou o acidente. guarda-chuvas com cabeça de osso em forma de pato. com um porte de rainha. Usava um casaco de vison comprido. sei apenas que foi em Outubro. numa fúria dorida e autista. E a minha avó Henriqueta não era diferente das outras pessoas. já tinha mais de 8O anos.Antes de A última vez que me deu para arear pratas foi na noite em que a minha avó Henriqueta morreu.

abanando a cabeça como quem diz “Esta pequena é diferente dos outros”. tal como ela. onde. calçar umas luvas e arranjar o cabelo antes de sair de casa. Talvez ele tivesse razões para me achar diferente e para desconfiar que a minha vida não seguiria nenhuma rota traçada por qualquer outra pessoa que não eu. Jorge. mas mesmo assim.um hotel de cinco estrelas no Algarve. era uma óptima companhia. levava-me ao cinema ao fim de semana e encharcava-me de bolos com creme a seguir. antes de partir a bacia. de vison e guarda-chuva com cabo de osso. mas a diferença é que a minha avó não me julgava. Preferia trocar comigo informações úteis sobre champôs. e na casa onde viviam as fotografias dela ainda falam connosco quando íamos lá visitá-lo. dava-me dinheiro nos anos e no Natal. Mas eu prefiro mergulhar o olhar no azul profundo da minha janela ou nos olhos do meu filho e encontrá-la outra vez lá. novas e bonitas e. Claro que nunca foi minha confidente nem fazia a mínima ideia do que me passava pela cabeça. cremes de pele e outras pequenas insignificâncias que enchiam os seus dias ociosos e felizes. as heroínas eram sempre boas. nunca se esqueciam de pôr bâton. comprava-me colares e roupa. tal como ela. . Depois da sua morte todos sobrevivemos. ou talvez por isso. que se manteve por um fio improvável de vida e que já estava doente quando ela caiu. bonita e divertida. incluindo o meu avô. ao contrário do meu avô que sempre me olhou com uma desconfiança mesquinha e judia. antes de acontecer aquele momento que é tocado pela irreversibilidade e que serve para nos lembrar que tudo pode mudar num golpe. a encher-me de bolos com creme a seguir a uma sessão no S.

Nenhum homem quer magoar uma mulher.Aqui e agora Sabes. da mesma forma que me pedes para guardar debaixo do forro de papel da gaveta da cómoda as fotografias das mulheres que conheci. Em vão te explico que essas mulheres passaram com a leveza de uma pena ou a intensidade de uma tempestade. têm sempre que questionar tudo. primeiro porque a minha vida és tu e por isso não fazem parte da minha vida e depois porque em todas elas descobri coisas de que não gostava e foi isso que me ajudou a amar-te melhor. inventar segredos e intenções em cada movimento que fazemos. exagerar as nossas fraquezas e brincar às mães redentoras. Mas vocês não. como se não tivéssemos nem honra nem princípios nem coração e é mesmo difícil explicar-te que cada vez que mandamos um ramo de flores ou soltamos palavras de amor não estamos a jogar nenhum jogo perverso. olhamo-vos com um misto de medo. animais. mas apenas à procura de alguma coisa que não descobrimos a maior parte das vezes. nem até quando. O que damos é o que temos de melhor. às vezes sinto que gostavas de apagar para sempre todos os traços do meu passado como se nunca tivessem existido. insensíveis. Nunca as vejo mas também não preciso. Sei que o meu passado te pesa cada vez que o presente o resgata em telefonemas rápidos e cordiais que vou recebendo de vez em quando de outras mulheres que já passaram pela minha vida e com quem criei esse laço raro e difícil que sucede à desordem do amor quando este se extingue depois da dor e o segredo da pele já se esgotou. É difícil dizer-te que se me fazes ter vontade de ser todos os dias uma pessoa melhor. . como se as quisesses trazer de volta e sentá-las à nossa mesa a jantar connosco. é porque assim o quero e não porque decidiste salvar-me. chamam-nos predadores. sem pensar porquê nem como. construímos um pedestal e uma escada para vocês subirem. Mas vocês não percebem isto nos homens. admiração e incompreensão e se podemos. mesmo que seja por escassas semanas. mas cada vez que conjugo verbos no pretérito perfeito tu ouves no imperfeito ou no condicional.

aqui e agora. percebi que ela não tinha nada a ver com a rapariga que idealizara nas dores de crescimento. a carne e o sangue que guiam o instinto também guiam o coração. E alguns anos mais tarde. porque tudo e nada está nas nossas mãos e é por isso que para nós o amor é uma coisa fácil. não pensamos. percebi o que era querer ter alguém e não poder. no que toca ao amor. fechado no quarto a ouvir Barclay James Harvest. E. simples e transparente. quando a deixei. ela cobrou o meu desinteresse em nome da paixão adolescente perdida para sempre no passado. que a pureza de sentir é não ter de pensar e que amanhã ficarei triste se partires e feliz se ainda me quiseres guardar. não achas? . Ainda não perceberam que.Sabes. Achei tão absurdo que percebi como vocês são de facto um bicho estranho. Ou se ama ou não se ama e se eu sinto que te amo sem ter de pensar se é verdade ou não é porque deve mesmo ser. Que o que conta é o que vivo contigo. quando era miúdo e me apaixonei pela miúda mais gira do Liceu e levei a primeira tampa da minha vida. por isso esquece o passado e não temas o futuro. quando me cruzei com ela na faculdade e a amei esporadicamente entre os apontamentos de Ciência Política e de Direito Constitucional.

Claro que isto já aconteceu a milhares de mulheres. não podia ser só eu. aquela que é capaz de mudar a vida de um homem e torná-lo uma pessoa melhor e. como sempre acontece com todos os monstros. Todas as pessoas são especiais. a primeira verdadeiramente importante. observo a dança das árvores no final das tardes eternas e vêm-me à memória as tuas palavras carregadas dos sonhos e planos que fazias para o nosso futuro e imagino-te como um robot a repetir as mesmas a todas as outras mulheres que foste deixando para trás. que lhe roubou tempo. apenas os infalíveis. Não te basta o sofrimento de uma mulher. O mal que me fizeste. Não há melhor fórmula para conquistar o coração de uma mulher do que fazê-la sentir-se única.Balada dos monstros As pessoas más seriam menos perigosas se não carregassem dentro de si alguma bondade. só alcanças o conforto no sofrimento do mundo. o ar corre mais devagar e as pessoas parecem estar cá todas pelas mesmas razões. ou então tu dizias o mesmo a todas. usas poucos truques. está sempre a acontecer e tal nunca espantou o mundo. como se o mundo fosse mesmo um lugar sinistro repleto de monstros. sobretudo quando passavas a vida a dizer-me que eu era uma pessoa muito especial. Aqui nas termas. O mundo condenou-o e desprezou-o pelo amor que ofereceu a um monstro. não é? Mas. Aqui nas termas. A condenação de um homem pelo crime de amar é que pode espantar e isso leva-me a pensar porque é que vim para aqui descansar. nem que seja por uma semana e descansar do mal para depois o enfrentar melhor. afinal foi o mesmo que infligiste a várias outras mulheres e algumas delas ao mesmo tempo. especial. do qual podemos fugir. onde me fechei do mundo para me esquecer de ti sem correr o risco de deixar de existir. . porque não gosto nada de me sentir mais uma vítima perdida nesse mar imenso de sofredoras de amor. como todos os profissionais. O Oscar Wilde também descansou do mundo na prisão. sabias? Esteve preso dois anos e sabes porquê? Por amor. onde o corpo descansa e o coração se desliga. afecto e respeito e que o abandonou quando ele mais precisava. mas se calhar há umas mais especiais que outras. dinheiro.

Nem podes. num exercício de desdobramento infinito no qual vais sendo sempre capaz de ir mais e mais longe. um sofrimento silencioso e imenso que te deixa indiferente porque nem sequer as vês. podem ter o mais belo e azul olhar. Para os monstros não há regras nem limites. as mãos mais macias e perfeitas. os monstros podem nascer com todos os atributos e qualidades. estás sempre ocupado a escolher e a estudar as tuas próximas vítimas. tens pouco tempo para tanto jogo. para os monstros os outros não existem porque só servem para os servir. ser actor em várias novelas. jamais saberão o que é ter um. E é por isso que nunca serão pessoas. feita de dúvidas e de incertezas. sabes. o sorriso mais cândido e a voz mais bela. mas nasceram sem coração e nem mesmo quando passam a vida a roubar e a destruir o coração dos outros. só há desejos e obsessões. é como ver vários filmes no mesmo écran.numa amálgama disforme de uma tristeza confusa. a expressão mais casta e pura. ou melhor ainda. . E é por isso que são tão infelizes. Mas. não tens tempo.

Arranjei um part-time numa galeria de arte. achei melhor despedir-me porque o dono olhava para mim desconfiado. Colégios internos na Suíça e diploma do MIT de Boston não deixam ninguém indiferente. Tenho um grande problema na vida. onde ninguém esteja à minha espera. nunca casei nem tive filhos. mas os quadros eram tão bons e bonitos que depois de ter comprado alguns. ajudamos aquela gente que fez muito dinheiro em pouco tempo e se sente perdida em gostos e referências. Por isso decidi arranjar o último andar de um dos prédios que me pertencem e fingir que sou uma pessoa igual às outras. Filha e neta única dos dois lados. quase sempre em condomínios de luxo. como tímidas ameias de um castelo fortificado que riem para o casario com um fio de azul ao fundo.Bigodes de gato lambido Na minha rua os passarinhos começam a cantar a partir das três da manhã. não preciso de me casar para poder pagar com dois salários o empréstimo do tão desejado T2 ao banco. não tenho ninguém para cuidar. Fazem-me companhia com a fidelidade canina rara nos invertebrados sempre que meto a chave à porta e subo os quatro lances de escadas que me levam ao meu pequeno paraíso. herdei dinheiro. Agora trabalho com uma amiga em decoração. que já percebeu que um tigre de porcelana na sala não deve ficar bem. com mulheres . mostramo-lhes umas revistas e eles desapegam-se dos napperons de renda e das flores de plástico e lavam a cara dos apartamentos. quintas. mas o meu currículo era sempre demasiado qualificado. acções e prédios e quando fiz dezoito anos e o meu tutor me começou a explicar a dimensão da minha fortuna. sou muito rica. Então a Mariana e eu damos um jeito à coisa. O que faz uma rapariga cheia de dinheiro? Não preciso de trabalhar para sobreviver. Depois procurei trabalhos simples que não me ocupassem muito tempo. Moro num sótão à Praça das Flores com os tectos em vénia e as janelas cavadas nas paredes de quase meio metro de espessura. Mesmo assim ainda vejo passar os barcos. fiquei sem pinga de sangue. mas também não sabe o que há-de comprar. cargueiros e navios e apetece-me volatilizar-me até aos porões dos cargueiros e partir incógnita para um lugar que nunca vi nem conheci.

anafadas e morenas e crianças com o cabelo cortado à futebolista que agora já não se chamam Victores e Marisas. me procuram e me acarinham. nunca quis saber quantas arrobas eu tirava por ano no Alentejo nem quantos prédios tinha em Lisboa. Já tive um assim. nunca me disse quanto ganhava no Centro de Reabilitação de Alcoitão onde punha as pessoas andar com o corpo e a alma. mas Beatrizes e Gonçalos. não ligava nenhuma a marcas. Nunca falámos de dinheiro. Mas cada vez que vou bater bolas para o clube com aspirações a privado e vejo a imensidão do verde polvilhada de pessoas ricas e bem vestidas. dentistas. até tenho um apaixonado que anda de Ferrari ao fim de semana e me quer ensinar a jogar golfe. . carros. arquitectos premiados. só gostava de livros e discos e de viajar. mas isso não era para gastar dinheiro. mas mais poético. doce e triste do que todos os outros por dentro. tenho rapazes prósperos entre os meus amigos. Tenho homens que me admiram. relógios. Nunca teve um fato e as gravatas pedia-as emprestadas ao irmão. dá-me a urgência de uma normalidade qualquer que me falta e a nostalgia do meu namorado de boné e ténis a ler-me poesia numa esplanada apinhada de filhos dos outros e apetece-me voltar a ser outra vez só mais uma rapariga feliz porque tem tudo o que o dinheiro não paga. era para ganhar mundo. O que eu gostava mesmo era de ser uma rapariga normal com um namorado normal que tivesse um Nissan Micra e me levasse a comer saladas em esplanadas na praia aos fins de semana e no fim me desse um gelado para eu ficar com bigodes de gato lambido. directores de salas de bolsa em bancos. igual a todos os rapazes por fora. me idolatram.

Não sabia que gostava de mulheres até te ter conhecido. e isso me impedisse de passar noites a fio acordada. cavalos. caminhas devagar com a leveza de um fantasma e abraças-me pelos ombros. apenas aliviado pela magia do quarto da Lua a crescer que me faz acelerar o sangue nas veias quando me levanto para fazer um chá de cidreira. tanto faz.Braço de ferro Se não fosse esta mania de pensar tanto no que sinto. quando te vi entrar em casa da minha prima Sofia e a música dos teus passos me pôs a cabeça a andar à roda. rebobinei a minha vida à velocidade de um videogravador e todas as peças do meu enorme e confuso puzzle se encaixaram por magia. mergulhada no silêncio opressivo. como aqueles pintores da moda que venderam a alma em forma de tintas a um marchand chupista e ambicioso e descobriram uma fórmula infalível: barcos. as tuas pernas alongadas. de repente percebi tudo. apago a luz para me esquecer da tua imagem. a vida tem destas coisas. na esperança que o sono regresse qual filho pródigo. mas não te sinto a apertar o peito contra o meu porque os sonhos nunca se tornam realidade e por isso desligo a música que me embala. ou melhor. Tentava interessar-me por um homem qualquer e tornava-me politicamente correcta. Percebi porque nunca me . pequena e grande ao mesmo tempo. talvez sentisse mais. Mas quando me levanto a meio da noite e tento aquecer o coração congelado em doses homeopáticas de chá entorpecedor. traz-nos presentes que não sabemos desembrulhar. mas naquele Natal de 97. quadrados. vejo-te a sair do quadro ainda por pintar. os teus cabelos compridos desarrumados pela paixão das minhas mãos sobre a tua cara. Se não fosse esta mania de pensar tanto se calhar conseguia fazer três ou quatro exposições por ano. só te consigo ver a ti na tela pintada de azul. ponho no prato do Cd o disco do Rodrigo Leão que me deste nos anos e me sento em frente à tela azul que me chama como uma mulher nua e sedenta de prazer. dissipo-te no ar com um gesto brusco. E então fecho os olhos e o teu cheiro volta a inundar a sala mal iluminada e quase te mexes. primeiro uma perna e depois a outra. a tua boca perfeita. o teu peito pequeno e cheio.

mas isto deve ser de pensar demais. sem ter que fazer todos dias braço de ferro com o mundo. . Se calhar enganaram-se no armazenamento das almas e quando chegou a hora de redistribuição puseram-me no corpo errado.tinha interessado por homens. Só sei que desde que foste dar aulas para o Porto o meu coração congelou e passo as noites a olhar para a Lua à espera que me chamem outra vez ao armazém e me ponham no corpo certo para te poder amar sem ter que pensar de mais em tudo para me esquecer do que sinto. minha bela Catarina. porque eu sei. que já fui um homem e se calhar até já te amei mais do que uma vez. porque é que tapava o nariz quando lhes cheirava a pele na praia e me causava tanto nojo e tristeza ter que ser humilhada por ter menos força e perder sempre ao braço de ferro com o meu irmão mais novo.e não foram poucos . sou eu aqui às voltas com as telas e com a vida.me penetravam eu me transformava num pássaro e fugia do meu próprio corpo. porque é que quando os meus namorados .

que quem o consome produz uma endorfina semelhante à que o organismo fabrica em estado de paixão. E. talvez desde o dia que te amei pela primeira vez. a tua boca cor de pêssego também podia ser de chocolate. eu via a tua boca de pêssego desenhada a brown chocolate e as tuas mãos a dançarem sozinhas. apesar de. como se a música do teclado possuído do computador me evocasse a tua voz de fada. E. devia ser por isso que muito depressa. sombras brancas para os olhos. nem fina como as das pessoas más. cheias de nada e de coisa nenhuma. amostras de perfume. cujo segredo para entrar nunca quis descobrir. suave e doce como uma compota de pêssego. o cheiro do teu cabelo e a tua boca que nunca precisava de bâton. como gosto de lhes chamar. lápis de cores escuras. Deve ser por isso que desde que te fui levar ao aeroporto ainda não parei de escrever. me viciei na tua boca certa e regular. O mundo da beleza embalado em produtos com nomes evocativos como brown chocolate. como a tua pele. gostasses de a desenhar com um lápis cuja cor respondia por brown chocolate. . Chegaste ao estúdio um dia com o cabelo apanhado e a cara lavada e sentaste-te a um canto enquanto eu fotografava uma apresentadora de televisão que era tua amiga. nem grossa como as das manequins ocas e vazias que durante anos e anos fotografei para a revista. do lado direito logo a seguir a onde a objectiva perdia o ângulo. Dizem que o chocolate vicia. raparigas de algodão. O mundo secreto das mulheres sempre foi para mim uma caverna de Ali-Babá.Brown chocolate Escrevemos para resgatar o que sabemos ter perdido para sempre. a beleza vulgariza-se em traços e dimensões e só um olhar que fale ou umas mãos que dancem nos conseguem arrancar da letargia da abundância. com a precisão cirúrgica de anos e anos de prática. enroladores de pestanas. pensando bem. Viver também é procurar sempre aquilo que não se tem e quando um homem vive afogado em mulheres muito bonitas. caixas de pó bege.

mesmo que desses a tua boca a outros homens. onde sempre sonhaste trabalhar. mas quando te levei outro dia ao aeroporto e percebi que o teu estágio em Londres na Vogue. mas ou têm outro cheiro ou usam outro bâton.Não sei quanto tempo passou até consegui trazer-te para casa. São sempre infinitas as formas que encontramos para ficar mais perto daqueles que amamos. Eu. um dia destes. ver no ar as mãos como dois pássaros que ainda há muito pouco aprenderam a voar. deitar-te na cama e morder essa boca que queria só para mim. que me guardasses para sempre. . muitos meses. vou a uma perfumaria procurar-te no nome de um lápis. num misto de espanto e abandono nunca ninguém me amou assim Não sei quanto tempo passou. te ia levar para sempre. enquanto repetias. confesso. enquanto te amava com a tal endorfina a estoirar-me os miolos. numa dança de prazer. chocolates e pêssegos vivem agora perdidos na minha memória que nunca se cansa de ti e deve ser por isso que escrevo horas a fio sobre o prazer de te lembrar. deitada na cama com as mãos no ar e a boca rasgada num sorriso que dizia nunca ninguém me amou assim quem sabe. apeteceu-me roubar-te o lápis brown chocolate da carteira e pedir-te que nunca o pusesses para mais ninguém. tenho procurado a tua boca nas raparigas de algodão que povoam a solidão do estúdio. talvez alguns anos.

nos adoçam o coração e o olhar e enchem a almofada de água salgada quando as coisas correm mal. olha para o piano. por mais meia dúzia de caramelos a quem tive o azar de achar alguma graça. depois pelo Miguel que não me ligava nenhuma e passava o tempo a jogar futebol e ténis. A isso os americanos. chamam dar um letgo. A querer que aqueles que amamos nos tragam o mundo numa bandeja. por exemplo.dizia o Luís. a não ser enquanto duram. não correm. baixa os braços. de abnegação. depois de chegarmos da praia. que têm grande sentido prático e são bons em expressões. E depois. de castelos de areia. de sonhos. A isto chama-se carregar pianos. Pois passei. Paixões de adolescência. nos põem a contar as estrelas e a escrever poemas pirosos. às vezes com a vida mais breve do que uma mosca. nos fazem rezar mesmo quando já deixámos de ir à missa desde os doze. Desde o dia em que me apaixonei pelo palerma da terceira classe. A acreditar no impossível. Até ao dia em que uma pessoa se cansa. Basta de espera. e nem sequer penso o que é que vai ser. O tempo vai-me dando indicações subtis se de facto um entusiasmo inicial pode ou não levar a qualquer coisa mais consistente. de palavras mágicas e inconsequentes. de promessas. depois pelo primo direito da minha amiga Paula. de adiamentos e hesitações. ou pior ainda. enquanto preparava uma sanduíche de queijo e fiambre. ponho-me ajeito a deixo-me ir. Eu. que nos tiram o sono e o apetite. Paixões impossíveis. A sonhar um bolo gigante a partir de três migalhas. Começam do nada e acabam em nada porque não valem nada. de ausências e de dúvidas.Carregar pianos Para o Luís Botequilha . encolhe os braços e diz agora basta. A esperar. A vida toda. E . Basta de promessas de amor. Tu passaste a vida a carregar pianos. Depois uma pessoa cresce e habitua-se a sofrer. A desejar o impensável.Há várias formas de levar uma relação para a frente . Mas tu não.

E o amor transforma-se numa luta. para lhe explicar o que se passa. os braços tremem. Carregar pianos. As casas. que faz quase tanto barulho como um coração a bater com a porta. As costas doem. tudo é inglório. ainda custa mais.depois. as pontes. somos mártires da nossa loucura. as curvas na escada são uma equação impossível de resolver. que a vontade comanda a vida. Para quê. Não é a partir. . mas não o amor. não era naquela sala. é só a desmanchar. Dá vontade de descansar sobre ele e falar-lhe baixinho. que o medo está acima da força. nem era aquela pessoa. tudo é difícil. E o pior é que. nem naquela casa. tudo é esforço. é só mudar de vida e esperar que ela nos traga o que mais precisamos. ao ouvido das cordas. num sacrifício. os prédios. E o piano está ali mesmo em frente. Carregar pianos. Explicar que o tempo há-de trazer nos ventos a indicação de um caminho qualquer para onde o piano possa ir sem ser carregado. E como é o nosso coração que está a bater a porta. E sentimo-nos a desmanchar por dentro. Que o cansaço já está acima do sonho. Escada acima. E geralmente até traz. à espera de ser carregado. sem partir as costas nem torcer os braços. Dá vontade de o abrir e tocar meia dúzia de notas. se quase todos têm rodinhas? Não é desistir. tudo se desfaz num estrondo imenso e assustador. como se nada tivesse forma ou fizesse sentido. quando chegamos ao fim da batalha e o piano está lá em cima. Dá vontade de pegar num martelo e de o destruir de raiva. quatro andares sem elevador. flagelados pela nossa obstinação e teimosia. o mundo vai abaixo.

a arrumar carros de dia para se meter no cavalo noite fora. entre uma pastilha e alguns vodkas marados e mesmo com o sabor da ressaca na boca e no peito. sempre em parte incerta. a primeira porque a supervisora queria que eu tirasse o piercing do nariz. fecho-me no quarto e começo a preparar o ritual obrigatório que antecede a saída para a noite em Lisboa.Cinco contos por nada Todas as sextas-feiras depois do jantar. Apanho boleia de um gajo qualquer daqui que me deixa na 24 de julho. quando consigo trocar de turno. por isso é como se também já tivesse morrido e como a minha mãe foi para a Espanha quando eu tinha 7 anos e desde então só a vejo de dois em dois anos na altura do Natal. já mudei três vezes de hiper. encarnado ou roxo. depois a sombra nos olhos. a segunda porque o supervisor queria ver o piercing do umbigo e a terceira já não me lembro porquê. Se não fosse a noite de Lisboa à sexta e às vezes ao sábado. a minha vida era uma merda absolutamente insuportável. mas não me consigo vestir de outras cores. sempre nas caixas. São 21 anos. acordo no sábado depois das três da tarde com a ilusão de que me diverti. Lisboa chama por mim todos os dias com as suas cores. Moro no Seixal e da janela da casa que divido com o meu irmão e a minha avó. desde que o meu pai morreu e o meu irmão desapareceu e vive agora entre a colina do Casal Ventoso e a Avenida de Ceuta. a esconder os pontos negros e as borbulhas. Plateau. Kremlin até às sete ou oito da manhã. o seu cheiro e corpo como o de um homem bem feito e musculado. acho que faltei duas vezes num sábado à noite e correram comigo. bolas. enfio os cigarros no bolso e aí vou eu: Indústria. Primeiro a base. é como se nunca tivesse existido. formas e luzes. Às vezes a Karina vem comigo. o rímel num gesto repetido mecanicamente até à exaustão e por fim o bâton. a minha avó diz que eu ando sempre de luto e ando mesmo. Assim. daqueles que aparecem nos anúncios a ténis que custam metade do que eu ganho como caixa no hiper onde trabalho há dois anos. Não sei porquê. é só uma merda com picos de euforia. trabalho desde os 17. conforme me visto de preto ou cinzento. sempre berrante. .

não há nada que a safe. Só o reconheci pelo cabelo de um tom arruivado inconfundível e por isso nessa noite saquei cinco contos da carteira do Ricardo depois dele ter adormecido e meti-os no bolso do meu irmão. Bom. o que acontece em média uma vez por mês. sempre é melhor do que andar a assaltar rádios para pagar uma dose. estava muito cansado para pensar e para me levar a casa. Às vezes nem me apetece ir. . quando os putos são giros e acha que eu devia fazer o mesmo. porque sinto-lhe o cheiro. por isso deu-me dois contos e vim para casa de táxi.mas só quando a mãe se balda durante o fim de semana com o amante. Mas para mim trabalho é estar na caixa todos os dias a aturar gente chata e prazer é escolher quem me vai aquecer o corpo no fim da noite e por isso não misturo as coisas. mas eu nem me importo porque se calhar também já não o conheço e como nunca o conheci. há sempre uns gajos para meter conversa em qualquer lado. A Karina também faz o mesmo. magro e sujo como um cão vadio. Qualquer dia encontro-o na noite com uma namorada qualquer a fingir que não me conhece. Claro que o Ricardo nem me pediu o telemóvel. Eu gostei de estar com o Ricardo. por isso acabo sempre por ir sozinha e já estou habituada. mas tinha gostado mais se à porta da casa dele não estivesse o meu irmão a dormir encostado a uma ombreira. Na semana passada conheci um tipo baixo de olho azul e pinta de fanfarrão com nome de actor de novela . mas que isto é um vício. mas cobra dez contos. também é. mas viciei-me no toque fácil e inconsequente e quando uma mulher se habitua a levar com peso em cima. é-me igual. às vezes cinco. saboreio-lhe o perigo e não vivo sem isto. é só uma miúda estar atenta e orienta-se logo.Ricardo qualquer coisa e fui para casa dele.

ama-o por tudo o que ele lhe pode dar e odeia-o por tudo o que ele não lhe quer dar e como acho que vais dando o teu melhor a mais não és obrigado e não se fala mais nisso. Sempre soubeste seduzir as mulheres.Comédia romântica Há mais de dez anos que esperava por este momento mágico em que entrava na Igreja de braço dado com o meu pai vestida de branco e com um véu a tapar-me a cara. claro que piscaste o olho à tua antiga namorada enquanto caminhavas pela passadeira esticada com afinco e critério. punhas a cabeça das miúdas todas do bairro do Restelo a andar à roda com os teus olhos de raposa vivaça e o teu sorriso de modelo de anúncio para branqueador de dentes. Claro que chegaste depois de mim.e encolhi mentalmente os ombros. consegui enganar toda a gente . se calhar tem mais a ver com luta. quando um homem nasce com esse dom precisa de muito pouco esforço e quase nenhuma aplicação para o desenvolver. habituada às tuas incongruências e disparates porque quando uma mulher ama um homem. atrasado como sempre com o tempo e com a vida. tu não sabes mas as mulheres são assim. mas nunca pensei que fosse numa tarde tão fria como a de sábado. E tu que nem sequer és parecido com o Tom Cruise. são elas que escolhem os homens e quando metem uma coisa na cabeça os doze trabalhos do Hércules transformam-se numa brincadeira de crianças comparada com a missão que nos propomos vencer. claro que te enganaste na mão e me estendeste a direita no momento crucial do sim. Há mais de dez anos que sonhava com este dia. Não sei se lhe chamo ou não amor. competição. desrespeitando a praxe das noivas. tudo lhe sai naturalmente e como tenho esta mania de imaginar que a . comecei a planeá-lo pouco tempo depois de te ter conhecido. com o vento a ensurdecer-me os ouvidos e a gelar-me os braços.só a minha irmã Francisca é que percebeu que era um suspiro. vitória. a vida toma a forma de um troféu e tudo o que fazemos e pensamos é condicionado pelo objectivo final de conseguir levar a bom porto uma missão que só tem sentido se for impossível. de modo que respirei fundo .

por isso o melhor é não te contar a verdade. depois de teres dançado com quase todas as raparigas e me teres dito que eu era única.minha vida é uma comédia romântica com laivos de dramalhão. que talvez nunca ouvisse da tua boca um superlativo absoluto. que me escolheste sem teres percebido que foste escolhido porque. aguenta-se tudo. hoje vamos de lua de mel para Guadalupe e pode ser que no regresso te possa contar que casei contigo por causa de uma aposta que fiz com a Francisca há dez anos quando te conheci e ela me disse dou-te 1000 contos se conseguires casar com ele. Preferia que não fosses tão certeiro nas tuas conquistas. percebi que a língua afinal pode ser uma ciência exacta. passei a chamar-te Natural Born Killer. dez anos é muito tempo para carregar mentiras. quando quase no fim da festa. E foi assim que te comprei o Rolex que te vou dar quando aterrarmos no paraíso e tu nem vais perceber nada. os olhos e os ouvidos fecham-se perante as evidências que não nos convêm e já percebi que se pode passar uma vida inteira assim. desencantos e traições. Do mal o menos. é tudo uma questão de treino e concen-tração. Por isso. mas quando uma mulher gosta mesmo de um homem é a morte. entre todas as outras. porque nem eu própria já sei onde é que ela está. . talvez fosse ligeiramente melhor em qualquer coisa do que elas.

voltássemos a ser. o olhar curioso perante o mundo. nunca se esquecem paixões. À noite cai uma cacimba meiga e tímida. nome de santo e cheira a infância. enquanto as crianças correm sem destino. saboreando os primeiros e verdadeiros instantes de liberdade. apesar das construções selvagens que . Tem pevides e ondas. nunca se fecha nenhum coração quando se regressa a esta vila pequena e imutável. durante as semanas de Verão. na pele das crianças que brincam na praia. Martinho vem para casa. lojas antigas e modernas. uma prima. uma tia. quando nadam na baía sem ondas. Tem sol na eira e chuva no nabal. Martinho é uma casa imensa. As pessoas sentam-se em mesas redondas onde cabe sempre mais um. palmeiras. toda a gente veste uma camisola que aconchega a memória e o coração. S. voltar. Martinho do Porto é deles. casas seculares. voltar. Há uma doçura mágica na curva quase fechada da baía.Coração aconchegado Há uma praia escondida a meio do mundo. onde filhos. Nunca se matam as saudades. e banheiros e embarcações. Quem vem para S. outra vez nós. feita de muitas famílias que gostam de viver em família. É como se se conseguisse parar o tempo e. É uma alquimia que se respira no ar e não se explica e que nos faz sempre voltar. com um metro e vinte de altura. que trata as crianças por você e vende os melhores guardanapos do mundo. quando ficam entregues a uma amiga. S. sempre alguém da família ou que se conhece há vinte anos. quando dormem a sesta protegidos pela lona gasta da barraca. e a Rua dos Cafés é a rua de todos os encontros e de todas as gerações. cafés onde os empregados são eternos. Tem barracas na praia que pertencem à mesma família há mais de quatro gerações. Tem ruelas cortadas ao trânsito. sobrinhos e netos cabem todos sob o mesmo tecto. Tem forma de concha. o arrepio na espinha da primeira vez que passamos a barra num barco de um primo qualquer mais velho e experiente nestas coisas do mar. E tem os bolos da Cecília. quando se sai de Lisboa rumo ao Norte. uma familiaridade inconfundível quando se sobe ao Facho ou se passa o túnel para ouvir melhor o coração do mar.

pela presença dos filhos dos meus amigos. É como voltar a casa com a sensação de. sempre que regresso e descanso o olhar na baía.substituíram as casas de família. mas não nos rouba nada e deve ser por isso que o regresso é sempre tão grato. sinto o coração aconchegado pela concha que me rodeia. Por isso. tão perfeito. aqui não fosse uma força devastadora. . nunca ter saído. afinal. O tempo passa por aqui. pelas mesmas caras de sempre. tão simples e fácil. que nos rouba tudo. mas uma benção de continuidade. como se o tempo.

enquanto vejo escrito no maço em letras garrafais FUMAR PROVOCA O CANCRO e penso porque é que me hei-de chatear contigo e com as arrogâncias que me atiras com a sapiência dos vintes anos. Ralhaste-me quando aceitei fazer o meu primeiro papel. ou talvez cinema. eu que até já deixei de fumar e que gosto de ser actriz e de inventar outras pessoas em mim. que tu me convenceste a aceitar. que o Ibsen é um génio e o Tennessee Williams um . que devia fazer só teatro. Como naquela peça. lembras-te. como se a raiva que tens contra o mundo tivesse que passar por um ajuste de contas contínuo comigo. que podia ser muito melhor naquilo que faço. mas tu dizias-me é pela arte e pela arte faz-se tudo. tínhamos os dois a cabeça cheia de sonhos. tu com o violoncelo sempre às costas e eu com esta mania. foi numa telenovela e eu fazia de menina rica e tu ficaste ofendido quando soubeste que o realizador me tinha escolhido porque eu tinha bom ar. que um dia ia ser actriz e não sei porque é que te continuo a ouvir a ralhar. sou quase feliz. não é? Conheci-te há mais de sete anos no Conservatório. mesmo quando essas pessoas me passam para a pele e me fazem fazer coisas que não quero. mas a tua crítica ensombra-me a vida. porque para ti nunca nada está bem e tudo o que faço. em que fazia de lésbica alcoólica apaixonada pela mãe do namorado. vale muito pouco. Achas que eu devia fazer as malas e passar dois anos fechada no Actor's Studio. ganho bem e as pessoas até gostam do meu trabalho. pelo dinheiro é que é um crime fazer o que quer que seja. respondi-te que um dia ainda haviam de me escolher pelas razões certas e o que é facto é que nunca mais parei de trabalhar. mas só se fosse com os grandes mestres.Conselhos e críticas Dizes que deslizo à superfície das coisas. afinal. Dizes que não devia entrar em novelas nem em séries imbecis. que vendo o meu talento a troco de marcas e compromissos comerciais. mas eu sosseguei-te. a personagem estava sempre a fumar e passei um Inverno com bronquite por causa da estúpida da personagem. Dizes muitas coisas entre baforadas de cigarros de uma marca qualquer muito conhecida com uma caixa branca e dourada e eu oiço-te com a complacência própria de quem já passou por tudo o que estás agora a viver.

mas que me sabe bem ganhar dinheiro e quando tu olhas para mim e destróis tudo o que faço com a pontaria de um cirurgião há mais de trinta anos montado num bisturi. Talvez assim caísses em ti e percebesses que cada pessoa escolhe o caminho que pode e não o que quer. que nem todas as séries são boas.oportunista dos afectos. apenas tiro partido da minha imagem. ideias e uma alegria de viver que os anos te roubaram. que o trabalho. mas o teu olhar valia tudo e quando falavas do que sonhavas para a nossa vida. eu bem te tento avisar que fumar provoca o cancro e explicar-te que não me vendo a ninguém. de uma vontade indómita de dar mais qualquer coisa do que conselhos e críticas. apetece-me agarrar-te pelos ombros. mas o resultado sempre inacabado de um esforço permanente.tinhas projectos. Sete anos depois voltamos ao mesmo bar cheio de fumo do qual afinal nunca saímos. Quando te conheci não eras assim ou então foi o meu amor por ti que te transformou noutra pessoa aos meus olhos . sacudir-te até que percas essa arrogância dos solitários. Nunca foste bonito. para ti todos os dramaturgos são uns imbecis. mas uns idiotas na mesma. porque passam o tempo a falar de amor e isso para ti é uma perda de tempo. que o Peter Shaffer é vulgar e o Shakespeare um chato pomposo.o amor transforma tudo e mente muito bem . não tão imbecis como as séries em que eu entro. sonhos. . as tuas mãos enchiam-se de luz e eu via o presente e o futuro a passarem-te pela ponta dos dedos e desejava o melhor do mundo para ti. como o amor e todas as coisas mais importantes na vida não são um golpe de magia.

os ombros. sem nunca desistir. como um relâmpago que cruza sem avisar o céu inteiro. mas eu não via nem ouvia nada. envolto na subida da Rua Garrett até se cruzar com o Pessoa e lhe pedir só mais um verso. Foi assim que tudo começou e entraste. Começam do nada. quando. Já me tinham descrito a tua boca perfeita e o teu corpo atlético. numa tarde de sábado reparei em ti no Chiado. a alma e o coração que batia ao mesmo . um fio de vento que não se vai embora. depois de tantos anos.Correr devagar Há muitas coisas assim na vida. se entusiasma e se deixa levar. se não para todo o sempre. perdida no abandono de outro amor. a tua pele lisa e morena. que é sempre um lugar mágico da cidade. Já me tinham falado do teu feitio brando. com os braços estendidos para o impossível e o coração aberto em feridas ingénuas. de outra vida que afinal não era a minha. sublime e perfeito e eu habituei-me a suportar este equívoco. sem nenhum de nós saber. com o olhar tranquilo de que me falaram. uma noite que não dorme e chega em claro até à manhã. e quando não morre é total. finalmente abri os olhos. de outra dor. esperando que um dia a vida me trouxesse tudo o que queria no corpo de um homem. Dizem que o amor nasce num instante. porque é lá que bate o coração dela e é lá que o nosso coração acerta o compasso com outras batidas. Já me tinham dito que eras muito bonito e possuído por uma tranquilidade que em nada se parecia com a melancolia. Estavas sentado à mesa de um café. Dizem que o amor mata e quando não mata é porque morre. ou uma onda desordeira que de repente cobre a praia inteira. na febre semiconsciente de uma adolescência tardia. pelo menos para todos os dias enquanto os houver. para a minha vida. como uma vela que não se apaga. Eram quatro da tarde quando. as mãos quietas e enormes e eu vi-te a boca perfeita. do teu jeito com crianças e do teu prazer de viver. absoluto. cada vez mais só e mais cansada. esperando em cada imitação de amor que vivi a quimera que os deuses inventaram para cansar os humanos e vivi muitos anos assim.

talvez cansado como o meu.tempo que o meu. ando há tanto tempo atrás de qualquer coisa que já não sei bem o que é. mesmo que tantas vezes o ténue fio pareça partir-se. que quando te vi ali parado. atento e sereno. menos gasto e mais protegido. mas feliz e aberto. que pode ser o ruído sereno e doce de uma nascente que corre devagar em direcção ao mar imenso. observando nas mãos dadas dos meus pais uma harmonia secreta que o tempo só fortalece. quieto. Mas na manhã seguinte já estava nos teus braços e na seguinte também e quando percebi que acordava nos teus braços todos os dias. E nele vi o reflexo do meu. percebi que é do nada que tudo pode começar. a luz tão fraca ameace apagar-se e os sonhos prometam desfazer-se na manhã seguinte. Ando há tantos anos atrás da perfeição. pronto para amar. procurando nos homens e nas mulheres a essência do amor. descobri que afinal o amor não tem que nos fazer estremecer como um relâmpago nem sufocar como uma onda. onde o meu talvez se pudesse um dia esconder da dor e adormecer todos os dias. a olhar em volta sem procurar nada. .

abro outra vez os olhos e aliso-te o cabelo. ou por este amor louco que tenho por ti e que te faz iluminada e como nunca sabemos se aqueles que amamos são maravilhosos porque os amamos ou se é o facto de os amarmos que os fazem sentir-se maravilhosos. Tens a frescura de um ramo de alfazemas acabadas de colher. aquela rapariga vai-te matar à fome e quando lá fico a dormir. porque cada vez que olho para ti. e não sei se é por seres tão diferente delas que um dia destes te peço . encandeado por ti. que salta a dias incertos da semana do teu cesto de metal para o tambor velho da máquina ferrugenta da minha mãe que assim que me vê entrar. A tua pele é branca. preferes exposições de fotografia e sessões de cinema a meio da tarde. Maria Alice. parece que se te acende uma luz na cara que ilumina os carros. dizia a minha tia Júlia que meteu em casa a amante do meu tio quando ela engravidou e acabaram todos mortos numa cena de esfaqueamento anos depois. e o cabelo muito comprido e castanho que escovas todos os dias com religiosa devoção. já a miúda tinha ido estudar para Évora. diz a minha irmã que continua solteira a ler as revistas cor de rosa deitada na cama rodeada de bonecas espanholas. vem-me ao nariz o refogado entranhado nos bibelots e nos napperons e só descanso quando volto outra vez para tua casa onde não há napperons nem bibelots. tu encolhes-te debaixo do meu braço como um pássaro que adia a partida do ninho e eu sinto-me estupidamente feliz por te amar tanto. Maria Alice. é tudo claro e escasso. Mas eu olho para ti. o candeeiro do quarto é um ovo que ilumina a cama enorme e muito branca sem bonecas espanholas em cima. Dizem que os homens não sabem amar. É que estou farto da dança da roupa suja para cá e para lá. Maria Alice. diz a minha mãe que passa a vida a fritar pastéis de bacalhau para vender para fora. os livros dormem como irmãos nas prateleiras da Habitat. os prédios e as ruas e é por isso que às vezes fecho os olhos para te ver melhor. quase transparente e não gostas de apanhar sol. abana a cabeça e diz ai filho que magro que estás. mas também não precisas.Debaixo do braço Ando há meses a dar voltas à cabeça e ao coração para me decidir se te peço ou não em casamento.

te ofereço um anel desenhado por um daqueles teus amigos do Bairro Alto e te declaro o meu amor. sentadas no maple da sala a ver os finos no Mundo Vip e a suspirar por uma vida que nunca vão ter. as duas redondas como bolas Nívea. E que gosto mesmo de ti e nem quero pensar que ao domingo tenho que voltar ao refogado nos napperons e assistir à tristeza da minha mãe e da minha irmã. .para ficar a viver no teu apartamento claro e iluminado por ti.

deve ser mesmo mais fácil viver assim. como se a vida fosse sempre bonita e perfeita e a morte não fizesse parte dela. fizeste isso quando o meu sobrinho Augusto morreu com uma overdose. quase sempre adormecida pelos remédios e a Patrícia entra. não deves ter ido vezes suficientes à igreja porque Deus não deu pelo problema e agora estás aqui deitada na cama a agonizar. e quando a nossa filha Patrícia teve o acidente de mota com aquele doido do namorado e entrou em coma. enrola os dedos num novelo de desespero e pergunta: mas por que é que ela nunca nos disse nada? . pois não? Para ti a realidade não conta. Deve ser por isso que tens sempre a casa imaculada. com o tempo. aprendeste a viver num faz de conta desde pequena e por isso tudo o que não te interessa finges que não existe e se calhar. mas nunca te importaste.Deixa-te disso Devias-me ter contado antes. como vês. quando está lá em cima a decidir quem vive ou quem morre. talvez fosse mais fácil para mim e para os pequenos. Maria Emília. sempre soubeste. E se calhar foi por isso que quando te disseram que tinhas um cancro no peito e que tinhas que ser operada para ver se te salvavam. tivesse tempo de ver quem vai à igreja. mas sempre tiveste essa mania de só falar das coisas boas da vida. sabias tudo. assassinada por um bando de delinquentes. os castiçais de prata areados. como se Deus. qual barata tonta à espera de um milagre. onde não há doenças nem mentiras nem morte e todas as pessoas são perfeitas e boas. quando nos casámos e soubeste que às vezes ia a casa da tua amiga Isabel. Fizeste isso quando a tua irmã morreu em França. num mundo inventado por nós. minha beata? Mas. a rezar baixinho e a dizer já fui à igreja. já fui à igreja. ficaste calada e não contaste a ninguém. a reflectir a beleza do mundo que tu criaste. Se Deus te tinha tirado a Patrícia do estado de coma havia de te tirar o cancro. não era. mulher! Mas sempre foste assim. Andavas pelos corredores do hospital com um sorriso verde mal colado às faces a dizer ela vai ficar boa e nós todos convencidos que a Patrícia ia morrer e tu ali.

Que não vale a pena trazer ao mundo almas demasiado puras. drogada com remédios que só servem para prolongar a agonia da tua morte. Ou talvez haja algo pior. Tu sorriste. mas olho para trás e quando te observo em 40 anos de convivência acho que afinal sempre aprendi alguma coisa contigo. . nunca soubeste viver sem estar de costas para a realidade.Eu olho para a nossa filha que é tão diferente de ti em tudo. porque ainda e outra vez lá estavas tu a fingir que estava tudo bem e que nem a morte nem as coisas feias fazem parte da vida. nem quando um dia te disse que já não gostava de ti e me queria separar. eu sou a tua mulher e ninguém há-de mudar a realidade foi estranho ouvir-te falar de realidade. como ver-te nesta cama branca a cheirar a desinfectante. quando me viste agarrado à tua mão e me disseste deixa-te disso Francisco que isto não é nada deu-me vontade de rir. Mas outro dia. elas não aguentam o nojo que uma vida verdadeira comporta e que não há nada pior do que viver com uma mulher que nunca discute. tu que nunca soubeste viver nela. que diz sempre o que pensa e nunca se subtraiu à realidade por mais dura que fosse e sinto-me demasiado cansado para lhe explicar que sempre foste assim. com aquele ar angélico de quem vive sempre dois metros acima do chão e respondeste deixa-te disso. nunca se zanga e nunca se entristece com nada. nem quando o teu pai se suicidou por causa do 25 de Abril e deixou a fábrica nas mãos dos empregados. Francisco.

O casamento constituiu para os meus avós uma enorme alegria. Mas um dia quis ter um filho e pedi ao meu primo Artur. toda a gente pensou que viera com a Perpétua. que me dava o que quisesse. até porque o meu pai comprou-lhes o palácio e deixou-os lá viver até ao dia em que a morte vem buscar quem a chama. que do meu pai não fiquei com nada. dizem que os velhos com a idade ficam obsessivos. para mo dar e tive tanta sorte que fiquei logo grávida. num palácio comprado pelo meu pai depois de ter regressado do Brasil com os bolsos cheios de notas. Julgam que é uma mania de velha. A minha mãe era uma aristocrata falida. a irmã mais nova de outras três que preferiram entregar a existência à secura do convento. Quando era nova namorava-se à janela. Nunca casei. mesmo sob os calores sufocantes do mês de Agosto. na Almirante de Reis. numa das suas estadias em Lisboa. mas já nessa altura gostava de viver recolhida e quando a criança nasceu. Os homens pareceram-me sempre demasiado idiotas e torpes para conseguir suportar a presença de um deles na mesma casa do que eu. O Artur perdeu-se de amores pelas minhas carnes. Morávamos na Rua de S. . Para um plebeu endinheirado. Nunca vi a minha mãe sair sem as luvas calçadas. fez o casamento perfeito.Depois da solidão As pessoas gostam de me perguntar porque é que já não saio de casa. implorou-me que casasse com ele. onde os miseráveis vão comer uma sopa e sabe-se lá mais o quê. partiu. Pedro de Alcântara. as raparigas sérias não saíam sem chaperon. Dizem que herdei o porte aristocrático da minha mãe. junto à Mitra. rumo ao Nordeste e nunca mais o vi. nem sequer com o jeito para fazer fortuna. mesmo em frente ao miradouro. mas eu não quis e assim como chegou. Teria sido um escândalo se tivesse saído de casa. acabada de chegar do Brasil para servir lá em casa. Aprendi esta palavra com a minha neta que se formou em psicologia e montou um consultório com o marido que também quer ganhar dinheiro a arrumar a cabeça das pessoas como ela. os senhores respeitáveis usavam bengala e os rapazes não se passeavam sem chapéu nem gravata.

posso ser obsessiva. mas o silêncio dos claustros e a brancura hospitalar dos corredores do convento sempre me fez arrepios na espinha. quando o Sol bate no castelo e escorrega pela encosta até chegar ao Terreiro do Paço. No meu tempo os malucos iam para o manicómio. nem pretos. doem-me os tornozelos e as mãos tremem quando meto a chave à porta. Bastava uma senhora pôr-se à beira do passeio e os senhores automobilistas paravam. Se calhar estou mesmo velha. se não tenho cuidado ainda me cruzo com algum parecido com o Artur e enlouqueço só de pensar que desperdicei a vida toda por um ataque de orgulho e escolhi a solidão sem saber que depois dela não há nada. nem postes com homenzinhos encarnados e verdes a dizerem-nos quando é que podemos atravessar a rua. as lavadeiras carregavam as trouxas na cabeça. não havia passadeiras. por cortesia e educação. que lhes dava ao rosto uma luz tão intensa que só vislumbrei igual em algumas madrugadas de Setembro. embora lhes invejasse o olhar alienado de quem entregou a alma em vida não se sabe bem a quem.Uma vez por mês ia visitar as minhas tias. . Nesse tempo havia poucos carros. os olhos já mal vêm as muralhas do outro lado do miradouro e quando a minha neta me vem visitar. fico cansada de a ouvir contar estas coisas modernas das raparigas serem doutoras e assim. Faz-me impressão vê-la sempre agarrada àquele bicho chamado telemóvel a atender os doentes da cabeça que precisam de ir à consulta. não andavam à solta e é por isso que já não saio à rua. mas não sou estúpida. onde se espalha como um mar de reflexos. nem sinais de trânsito.

eu sei que te devia ter explicado que ainda vivia com a Tucha. cheio de quartos e de pessoas que entram e saem. ou um frasco de ácido sulfúrico. nunca te apaixonarias por mim e eu preciso de sentir esse amor louco e incondicional que as mulheres têm por mim para continuar vivo até ao fim de cada dia. numa vertigem que faz lembrar a Montanha Russa. um bicho. com um spray. e depois regresso à minha vida e fico quieto. que vive há dez anos com a mãe no Norte e que visito uma vez por mês para não me sentir o maior sacana do mundo. eu que nunca vou à margem Sul. um fantasma. preparo um discurso curto. ao quiosque da estação fluvial onde te conheci há seis meses. como um vampiro. Foi o que senti. impessoal. nem me consigo lembrar do que é que lá fui . devia ter nascido num hotel. os pés levantam-se automaticamente do chão como se tivessem uma ventoinha. Uma pessoa nunca pensa nisto quando se apaixona. o meu corpo é assim e o meu coração também. E se agora perder dois ou três minutos a pensar. uma alma penada. as mãos escorregam dos braços e a cabeça começa a andar à roda. Meto-me no barco. minha pequena Madalena. nem que para isso tenha que dar uma volta à minha vida. quando o Verão se anunciava em dias de um calor mortal e enevoado que me toldava a memória e me acordava os sentidos. que é como quem diz uma volta à minha cabeça. Mas se eu te contasse a verdade da minha essência. Eu sei que fiz mal em não te ter dito que ia de férias com a Cristina. rápido.Desculpa Um dia destes meto-me no barco e vou ter contigo. eu sei que te devia ter contado do meu filho Miguel. quando te comprei o jornal desportivo e uma revista de automóveis naquela tarde de Maio antes de entrar para o barco. mas convincente. intenso e inconsequente. à roda. uma vassoura. mas sem subidas. E também te podia ter dito que quando me apaixonei por ti já sabia que te ia conseguir esquecer umas semanas depois. só o frémito do medo e do desejo dissolvidos um no outro a bater-nos na cara e a devorar-nos os sentidos. e limpar tudo o que está lá dentro. Mas vou mesmo. a ver se vens ter comigo.

Talvez me vejas como um fantasma. pequena Madalena. tenho o coração poluído com demasiadas mulheres para te dar o que quer que seja. um vampiro e tenhas pena de mim. Eu não presto. não valho a tua espera e a tua tristeza. porque a partir do momento em que te vi. como vão ficar os fins-de-semana que passámos juntos. um bicho.fazer. . mas um dia destes apanho mesmo o barco e sento-me em frente ao quiosque com um cartaz a dizer em letras gordas e envergonhadas Desculpa. o último dia que eu sabia que era o último e que tu sonhaste ser o primeiro da tua nova vida. achei que tinha ido àquele preciso lugar e àquela exacta hora para te conhecer e é isso que vai ficar na memória. a expressão eterna de prazer na tua cara. o cabelo apanhado numa ordem que eu desconhecia e um sorriso fresco que me fez lembrar a minha professora da primária. o sabor salgado da tua pele.

no olhar azul derretido no chantilly dos . A subida era longa e penosa. carros. pedras pretas na calçada. porque a avó já se tinha habituado a andar sem chapéu. que era louca por galões e ducheses. que nessa altura já contava tudo: candeeiros. uma gula lânguida. tudo corrido a camisolas de gola alta em moderníssima malha de seda que fez furor naquela época. servidos por empregados míopes e obedientes que nunca deixavam cair as bandejas nem o sorriso baço. A subida parecia imensa.Os ducheses da avó À memória da minha Avó Henriqueta Ainda sou do tempo em que as avós levavam os netos à Baixa para passear e ver as montras. mundo perdido e desorganizado de utilidades e inutilidades para todos os gostos e além da imaginação. Subíamos a Rua do Carmo depois de ter estacionado por alguns instantes na montra da luvaria Ulisses e da Casa Batalha. transformavam-se numa espécie de troféu quase impossível de alcançar. por isso o lanche na Bénard com os imprescindíveis ducheses ondulados a chantilly. mas sem luvas e colares é que não. Os Grandes Armazéns do Chiado pareciam uma gruta de fait-divers. Em 197O eu usava totós no cabelo. A minha avó Henriqueta. enquanto dividia o olhar entre as montras e o meu irmão. quase lasciva. as paragens constantes e a tentação nem sempre contida de entrar só para fazer o gosto aos olhos porque era sempre tudo muito caro e a avó sabia choramingar com elegância um desconto ao gerente solícito que se desdobrava em salamaleques e falsas simpatias. de modo que a minha irmã com 12 anos ainda aparecia uma miúda de sete e o meu irmão alinhava em calções do mesmo padrão dos nossos kilts. levava as duas meninas pela mão. com a curva da Rua Garrett à espera. o prémio apetecido e merecido por sermos lindos meninos que fazem companhia à avó cujo único pecado que toda a vida lhe conhecemos foi a gula. sapatos de presilha pretos com meias brancas e a minha mãe teimava em vestir-nos de igual.

ducheses, na crosta de neve das tíbias que aterravam na mesa à razão de uma dúzia por lanche e que a avó saboreava, devorando com prazer, ou vice-versa, não sei bem. Hoje, quando subo o Chiado ainda espreito a luvaria Ulisses e as suas elegantes mãos de fantasma, e o Pessoa, que se sentou à porta da Brasileira muito tempo depois de morto, levanta o chapéu e pergunta a sua avozinha, menina, hoje não veio? Não, Fernando, mas não faz mal, porque onde quer que esteja, vejo-a sempre a delamber-se entre bolos, as unhas pintadas de cor de rosa nacarado a apontar o dedo indicativo com firmeza ríspida e maternal os meninos podem fazer tudo aquilo que quiserem, desde que eu deixe.

Os comboios não sabem voar
À memória do meu Avô Zé

Às vezes não sei o que hei-de fazer da vida, vejo os dias sucederem-se num comboio estúpido e sem estações conduzido por um maquinista louco que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e o pior é que nem quer saber. O comboio desliza sobre os carris cada vez mais depressa como se a qualquer instante perdesse a aderência e descarrilasse e então imagino as carruagens tombadas com as vísceras das minhas memórias espalhadas por todo o lado, a vida desmantelada no que já foi uma existência rica e cheia e que agora não vale nada. Ou então o comboio transforma-se num pássaro, crescem-lhe asas e cruza os céus com o peso das carruagens às costas que carregam o fardo das minhas memórias, as asas são enormes e desajeitadas e os comboios não sabem voar, o que vejo no céu é um monte de ferro e entulho com asas de chumbo à procura de uma nova dimensão, no derradeiro esforço de tentar, mais uma vez, outro caminho, outra saída para uma existência que perdeu o sentido e o lugar. Às vezes não sei porque é que ainda estou vivo, tenho quatro enfermeiras de serviço em casa, a Hilda, a Noémia, a Amélia e a Linda - deve ser Ermelinda, ou Deolinda, não sei - as minhas filhas vêm-me ver todos os dias, a mais velha está sempre triste e a mais nova está sempre bem disposta, as duas revezam-se para que não me sinta só, mas isso não é possível, porque quem já escolheu a morte fica para sempre sozinho, apenas descansa quando ela chega. Vejo-a de noite, umas vezes vestida de branco e outras de preto, às vezes traz flores, outras só uma foice enfiada no cabo de uma vassoura e então grito com ela. Dantes dizia-lhe vai-te embora mas desde que a minha mulher deu uma queda no corredor e as minhas filhas a levaram e nunca mais a trouxeram, digo-lhe fica aqui, levame de uma vez por todas, estou velho e cansado, já só dou trabalho e

despesa, não aguento mais a tristeza da minha filha mais velha e a energia da mais nova, leva-me depressa, leva-me, leva-me. Mas a morte é estúpida, é louca e é má porque só leva quem faz falta, como a filha da Noémia, que se sumiu com trinta e nove anos num mês, um cancro apanhou-a no caminho e deixou dois filhos pequenos, agora a Noémia tem que se ir embora e logo a Noémia que é a única que fala comigo, não há direito. Já quis dizer à minha filha mais velha que não quero outra enfermeira, que elas são más, puxam-me as pernas e os braços quando me passam para a cadeira de rodas e sinto-me desconjuntado como um espantalho com quatro colheitas em cima, mas as palavras enrolam-se debaixo da língua e quando saem já não querem dizer nada, por isso desisti de falar e agora oiço cada vez melhor; o médico disse-me há quarenta anos que ia ficar surdo, mas é mentira, oiço tudo. Oiço os passos das minhas filhas e as conversas das enfermeiras, oiço a voz da minha mulher e o ruído do estrondo quando caiu no corredor, oiço as notícias e os documentários, oiço a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro, oiço os meus intestinos zangados com o corpo a torcerem-se de raiva e a silvarem como o comboio da minha imaginação, oiço as vozes dos meus netos quando me visitam, comprometidos e atarefados entre as reuniões e as fraldas dos filhos deles, oiço o médico a suspirar e a dizer não sei como é que ainda está vivo hoje vão-me levar para a clínica para fazer exames e se me encontrarem um comboio na barriga e umas asas nas costas, pode ser que não volte, pode ser que a morte por lá seja mais expedita, afinal morrem muito mais pessoas nos hospitais do que em casa. Ela que apareça de branco ou de preto, tanto me faz, o que eu quero é que a Noémia vá para casa tratar dos netos, que a minha filha mais velha enterre de vez a tristeza e que a mais nova deixe de se cansar a fingir que está tudo bem, que os meu netos deixem de passar por cá a correr entre uma reunião e uma fralda e digam coitado do avô, estava tão velhinha, foi melhor assim nunca gostei que tivessem pena de mim, penas são coisas de pássaro e não de gente, mas também já não sou gente, estou vivo por um fio. Hoje pela manhã, mesmo antes da ambulância chegar, quando a minha neta mais nova que sempre foi mal comportada e rebelde me veio ver e lhe dei a mão, embargou-se-lhe a voz e disse é a primeira vez que o avô me dá a mão e ficámos os dois ali a olhar um para o outro naquela doçura de quem já não pode falar, percebi que toda a

vida tinha sido duro com ela. mas agora que vejo o comboio a estatelar-se na terra depois de um voo frustrado. com as minhas filhas. afinal ainda bem que não morri. com a minha mulher e com o mundo e por isso quando a ambulância chegou para me levar para o hospital eu pensei. .

um olhar. meu amor Já me posso ir embora e deixar desempregado o maquinista maluco que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e ainda bem que também não quer saber. que só era preciso falar. às vezes basta uma palavra. Não sei quantos desertos já atravessei. Há sempre demasiadas coisas para dizer àqueles que amamos. ouvir e ajustar contas com o destino e o coração. Claro que nunca te iria cobrar juros de mora nem regatear perdões forçados. nos regressos inesperados. meu amor. consegue atravessar o deserto e sobreviver a três picadas de cascavel e alcançar finalmente o oásis para morrer nos braços de um herói virtuoso. é amanhã que nos vemos e eu pensava que amanhã era tudo. um gesto. basta amar para perceber mesmo e sobretudo aquilo que não tem explicação. Mas isso ainda era no tempo em que vinhas. que o teu regresso apagava os ajustes de contas com o destino porque de repente tudo se ajustava e afinal batia mesmo certo. como nos épicos clássicos ou nos melodramas heróicos em que a heroína. aquele que imaginamos perfeito e transcendente. estamos de mãos vazias e o coração a rebentar.E amanhã. mas o tempo e a vida roubam-nos os dias e. No amor. na certeza da tua voz quando me ligavas e me dizias é amanhã. é muito mais simples do que as pessoas julgam. que se arrepende de tudo o que não fez e chora a morte da sua amada. que podíamos falar. meu amor. embora tantas e tantas vezes o pressentisse. mortalmente ferida. como tu fazias. quando damos por isso. mas vê lá tu que nunca tive a sorte de deparar com um oásis. no amor o perdão não tem preço nem comissão. é amanhã que nos vemos e como tinhas o dom . meu amor. Mas o destino prega-nos partidas e vai adiando até um limite que julgamos insuportável o grande momento. mesmo sem falar. à espera daquele momento em que deitamos tudo cá para fora e ajustamos contas com o destino. ou dizias que vinhas é amanhã. desculpa as palavras ecoavam como gritos na minha cabeça e eu respondia que não era preciso pedir desculpa. porém indeciso. com a tua mão a viajar ao longo do meu cabelo e a dizer sem dizer desculpa.

que quando me chamavas o teu sonho e abrias muito os olhos na minha presença.de fazer parar os ponteiros do relógio à tua chegada. . meu amor. O voo é inseparável da queda. uma espera inútil. a bater dentro do meu coração e cada regresso era um voo nupcial. o tempo de espera ficava reduzido a nada porque estavas ali. nunca pensei que a vida fosse isto. comigo. um voo que agora só reconheço na loucura nervosa das gaivotas que arranham a minha janela no prenúncio de uma tempestade. mas acredita. como que a desafiar a verdade de eu existir para ti. ao meu lado. do qual já não fazes parte. agora que já sei que não vais voltar e que amanhã não é outro dia mas apenas mais um que sucede a este. tal como a luz da sombra e o sonho da realidade.

muito de vez em quando. ao cinema. a falar de nada ou a ver uma porcaria na televisão. porque sempre nos sentimos em . que eras o melhor tio que ele já teve e. Agora o meu filho brinca sozinho. eu a responder-te à letra e o meu filho a jogar à bola. como a tua cara. como dois rapazes que perderam a idade para nunca se perderem um do outro. quando te ouvia meter a chave à porta. Não importava onde íamos. diziam essas mesmas pessoas. fala de ti com entusiasmo e diz que eras do Porto. ou ainda quando brincavas com ele no pátio. Era com esse mesmo sorriso que todos os dias abrias a porta da minha casa que também era a tua e me davas um abraço trapalhão e tímido. almoçar a ver o mar ou apenas passear sem destino. tu sempre a rir de tudo e a dizer disparates. que estavas sempre a brincar. como se sempre tivesses vivido comigo e jamais a solidão fizesse parte dos meus dias. Sempre me disseram que eras um malandro incurável. ao fim da tarde. a jogar à bola. em casa. aos fins de semana.nem eu saberia explicar-lhe . Ou então ficávamos em casa. que metas outra vez a chave à porta e me abraces com aquele sorriso que me fazia companhia todas as noites e aos fins de semana. Acordávamos sempre à mesma hora e como dois siameses passávamos o tempo juntos. Zé Maria.mas de vez em quando. quase infantil. porque nunca nos cansávamos um do outro.Em casa Do que eu tenho mais saudades. mas devia ser mesmo verdade. e era sempre tudo bom. tu eras muito bonito e o teu sorriso abria todas as portas. conhecer-se e ter vontade de se continuarem a ver no tempo em que o encarnado se apaga e o verde manda o trânsito avançar. é de te ter por perto. quando me olhavas demoradamente e vias em mim os traços do meu filho. elas caíam como pinhas porque. Zé Maria. de repente. esqueço-me dos teus disparates que me cansaram tanto e apetece-me que voltes. não pergunta o que aconteceu . que as mulheres te caíam aos pés como pinhas no fim do Verão e um dia até me contaste que as conhecias no sinal encarnado e eu estremecia de espanto e pensava como é que as pessoas conseguem olhar-se.

e eles me levam a jantar e me deixam em casa com um vazio que não consigo esconder e tu sais com outras mulheres. Quem nos quer para a vida e não por um Verão cheio de pinhas que vão para a lareira e se esfumam no tempo.casa um com o outro. Olho para trás e ainda sei porque nos separámos. te imaginaste a meter a chave à porta de uma casa qualquer. mas enquanto o tempo passa e saio com outros homens. apesar dos teus defeitos e disparates. a mulher que adoras e uma loira fugaz num sinal encarnado. mas foste o único homem cujo cheiro e o hálito nunca me cansaram e acredita. mas talvez também seja fazer escolhas e guardar no coração quem sabe. e disse-te muitas vezes que nunca soube se estive ou não apaixonada por ti. Zé Maria. Ninguém sabe o que é o amor. . em nenhum momento. uma família. por mais belas que fossem. se crescesses só mais um bocadinho e me escolhesses. em vez de querer tudo. ainda podias voltar. melhor que ninguém. tenho quase a certeza que. Zé Maria. se calhar mais bonitos ou mais inteligentes do que tu. e tu em casa quando visitávamos os meus pais e eu em casa quando via a tua família. proteger-nos da solidão povoada de gente que passa e deixa nada. pois não? Ninguém sabe o que é o amor. uma casa.

um galão morno. escuro. o que vai desejar. tu nunca te vestiste de mulher para cantar em playback I Will Survive. o costume. até podias ser a Claudia Xífer ou lá como ela se chama. sim senhor. são noventa escudinhos. e a menina. percebes. tu não sabes o que é talento. do fiambre do croissant. se calhar é por isso que sou tão bom empregado de café. sai ou não sai. então esse galão. minha inútil. que toda a gente ainda ia ouvir falar de mim. velha. uma é cheia. olha. e eu disse que sim. até para ti Odete. eu sou um artista que nasceu para o palco. se não fosse tanto dinheiro fazia um . obrigado. sempre disse que sim a tudo na vida. não é. aqui tem menina Odete. nunca a vi aqui. faça favor. o que é intensidade dramática. queria escolher-me as roupas. ele estava lá em cima no varandim do clube. não é? Sai um croissant com fiambre. chata e desocupada. atendo-a já. sou um deus e toda a gente me adora. às terças e quintas sou eu quem leva mais palmas quando sou a Lulu e canto em playback I Will Survive. deve ser nova no bairro ou então veio às finanças. tenho sempre paciência para toda a gente. minha velha desdentada. que reclamas do croissant. as cabeleiras. mas com pouca manteiga. foi numa dessas noites que conheci o Leopoldo. outra é pingada. e um sumo de laranja. que a menina Odete está à espera e a menina Odete tem sempre muita pressa porque como não trabalha nunca tem tempo para nada. mas olha que eu não gosto de mulheres. que velha chata a ridícula. bom dia menina Odete.Em playback Saem duas bicas. também querias ser actriz como eu. os sapatos e os enfeites. tu não sabes o que é arte. queria-me ajudar na carreira. eu não. então o que é que vai ser hoje. aparecer nas capas das revistas e dar entrevistas na televisão. depois veio ter comigo ao camarim e disse-me que eu ainda ia ser um grande travesti. tome lá senhor António tem aqui a sua bica. minha parvalhona. pintas-te de loira e usas botas com saias curtas e ver se alguém te pega. tu não conheces a magia do palco e o sabor da ribalta. não era? Mas tu querias era entrar nas novelas. eu sou um artista. da temperatura do galão e da qualidade do sumo de laranja. o que é expressão corporal. pulava muito e batia muitas palmas. esta não a conheço. está mesmo como a menina gosta.

mulheres. o croissant que está sempre duro e o sumo de laranja que fica sempre aguado.implante e punha um peito todo cheio e rijo. nem um grama de celulite como vocês todas. . que chegas cá com as tuas botas ridículas e os teus olhares de velha gaiteira e já cá não estou para te servir o galão que nunca está bom. passe bem. saudinha e até amanhã se Deus quiser. tenha um bom dia menina Odete. eu devia era mostrar-te as minhas pernas. são quatrocentos e vinte cinco escudos por favor. pela saudinha da minha mãe e do Leopoldo. e um dia. juro-te Odete.

Desde que o Francisco me deixou à espera numa tarde de sábado para ir com os amigos a Jerez de Ia Frontera para o encontro anual de motards e não voltou que estou assim. e até tinha razão porque o tempo não serve para nada se não fizermos nada dele. se o peito é onde dói quando se sangra de saudade. olho para o mar e vejo outro mundo qualquer e quando venho todos os dias para Lisboa dar aulas de inglês num daqueles colégios onde a . já não devo ter peito. Ainda lhe sugeri que também gostava de ir. havia um crucifixo em cima da chaminé em vez do relógio de ponteiros. mas como há muito tempo que não sinto o sangue estremecer. que nunca gostou do Francisco.Encontrar a tristeza Para a Inês Ramires Dizem que há uma caixinha dentro do peito onde a tristeza se guarda. perdi a noção do tempo e do espaço. com as aurículas e os ventrículos que sabem o que fazem. se o peito é aquele lugar onde a alma repousa e se acende. mas como nem sequer sinto o peito. mas se calhar era assim que ela andava orientada. numa volúpia exaltada. se é no peito que se ouvem as batidas mais rápidas que nos fazem sentir mesmo vivos. mas ele disse-me não e eu sabia que estava de fora do programa. nunca percebi porquê. Depois do regresso do Francisco. artérias vastas e seguras como auto-estradas com via verde e pulmões de nadador salvador. A minha mãe. sempre gostei da vertigem do voo planado junto aos rails da auto-estrada. olho para o céu e vejo lá o mar. Gostava de a encontrar. de certeza que o tinha encostado às costas dele. que afinal nunca aconteceu. Eu até tenho um coração saudável. passou a ir todos os dias à missa quando o namoro começou e cada vez que me via sair com a minha segunda cabeça debaixo do braço disparava numa ladainha confusa e incoerente e desaparecia a rezar para a cozinha onde. o meu peito .nessa altura ainda o tinha. quilómetros a fio com o vento a cortar-me o pescoço e a cara inchar de calor dentro do capacete. é um bocado complicado.

chegou a casa dele e disse-me na cozinha. o meu pai que lê cada edição da Bola pelo menos três vezes e devia ir na segunda volta. deve ter olhado para a terra. levou-me dali para fora. quando fui buscar um copo de água virate e foi ali que fizemos amor pela primeira vez. primeiro a distanciar-se num rodopiar de grande efeito plástico. mas como as lágrimas também saem da mesma caixinha. a não ser que fosse para relatar com pormenores de morbidez médica os acidentes dos outros motards como ele. morrem que nem moscas e nesse momento senti-me mesmo uma mosca. Passámos a tarde inteira na cama. Ter uma parte de nós que pertence a um morto é uma coisa muito estranha e eu não quero continuar a viver assim. os olhos ficam secos e ainda me sinto mais vazia. Depois saímos e fomos dar uma volta de moto muito depressa. penso como é que o Francisco se sentiu quando a moto bateu inadvertidamente contra o carro da frente na auto-estrada a quase duzentos à hora e ele partiu para sempre. o meu pai a dizer ao Francisco uma coisa daquelas. sem levantar os olhos morrem que nem moscas dá-me vontade de chorar. e pensado que nunca mais voltaria a agarrar-me os cabelos e a dizer vira-te com o tom de comando que me fazia escorrer de prazer pelas pernas abaixo. comentou ao intuir o capacete entre as mãos sem levantar os olhos do jornal. só oiço o meu pai a dizer. de modo que quando se estatelou na berma já a alma tivera tempo de se ausentar e assistir de lá de cima ao desmembramento de um corpo que já não era dela. encolheu os ombros. que se sentia um pássaro e por isso não ia em compromissos que lhe cheiravam a gaiolas e agora que ando à procura da caixinha da tristeza e não sinto o peito.classe média põe os filhos na esperança de lhes dar um futuro melhor mais cedo do que os pais tiveram e imagino a minha Opel Astra a voar como um pássaro por cima do viaduto da segunda circular. Quando me foi buscar a primeira vez a casa. Deve ter olhado para o céu e visto o mar. O Francisco dizia que não era de namoradas. as bocas coladas com espuma. depois na desordem da queda incontrolável. Foi sempre assim o Francisco. as mãos presas com cola. o peito dele pregado às minhas costas. prefiro cruzar . desde que meteu conversa no bar da faculdade. de poucas palavras e muita acção. para recuperar a liberdade e aplacar a urgência do amor. até que o sono invadiu o quarto e dormimos até a noite cair. mas ele. na avidez dos corpos que ainda não se conhecem. poucas palavras e muita acção.

atravessando a vida com a morte. nesse momento eterno e irrepetível que é e será o nosso reencontro. numa destas manhãs em que o nevoeiro descer outra vez à cidade. Por isso. a caixa se abra e escoe finalmente toda a tristeza que carrego no peito e o coração pare enfim de bater para o meu sossego e descanso dos meus alunos de inglês. . vou mesmo ensaiar o meu baptismo do ar e estrear-me nessa vida de pássaro que tanto invejo e pode ser que no derradeiro instante desse voo que imaginarei nupcial vira-te o volte a ver a cruzar os céus comigo. atravessando a parede da cozinha onde o crucifixo marca as horas.os céus e ficar a ver o corpo que já não me pertence. atravessando outra vez o meu peito resgatado no último instante possível e pode ser que então.

os poetas. depois de me ter perdido em cidades que nunca vi mas que tenho a certeza que existem. fumo cigarros. os loucos? Eu tenho uma teoria. possíveis. vivas. por isso finjo que não lhes cobiço as ancas . vou querer outra vez a minha doce solidão e prefiro imaginar do que passar à realidade. os sós. que tinha os olhos como amêndoas tímidas. como nunca somos só e sempre a mesma pessoa. que quando me olhava era como se não me visse e por isso nunca me esqueci dela. tanto faz . A vida vai-me passando ao lado. A Teresa. Não é por ser estudante de biologia e andar a dissecar corpos de animais mortos desde pequeno . as gaivotas. . os fantasmas. Digo isto porque acordo todas as noites alagado em suor. mas sei que pouco tempo depois de a querer. os que não dormem? Onde dormem os fantasmas. os cães. com cheiro e corpo. ratos.e vou enganando a minha existência com livros. mas durante o dia estudo.rãs. elas estão ali. Nos meus sonhos ainda aparecem as mulheres que já amei e volto a amá-las. que inclinava sempre a cabeça de uma forma que nunca conheci em mais ninguém. quando as crianças têm medo do escuro e os adultos se encolhem no sofá à procura do conforto vazio de uma televisão. os vampiros. onde estão as gaivotas. vou ao cinema. faço trabalhos de grupo com os meus colegas . passeios de fim de semana e viagens de comboio pela Europa durante o Verão. os sem abrigo. de vez em quando há uma rapariga que interessa e penso como seria bom apaixonar-me por ela. a Margarida. Nunca me esqueci de nenhuma. mas à noite.é porque acredito que. que me arranhava as costas e chorava e finalmente a Ana.algumas delas são giras mas não me dizem nada. a Sofia.Enterrar o coração Onde dormem as gaivotas? Onde dormem os cães vadios? Onde dormem os loucos. os demónios e as memórias? Onde dormem os sonhos e os pesadelos? Os dias correm claros e luminosos. coelhos. copos. à noite nos transportamos para outros corpos ou seres e somos nós os cães. elas vivem dentro de mim.

que sou um cão ou um pássaro. numa existência paralela. a Margarida que ainda hoje me procura. e muito menos quem gostava de ser. voam. e é por isso que sonho que tenho outra vida. sonham. Ao menos esses correm. em vez de enterrar o coração num livro de Anatomia Comparada e enganar os dias numa existência perfeita e intocável. sofrem e desejam.Artifícios de quem sobrevive à dor e à tristeza. um fantasma escondido. quando a cidade adormece ou entra na vigília dos solitários. deixo de me encontrar quando me deito na cama e adormeço e então sinto que sou uma gaivota. E é nos meus sonhos que percebo que afinal não sou nem quem penso que sou. um poeta perdido. Só que à noite. . um louco. a Teresa que chorou a minha perda. Não passo de um rapaz solitário e escondido numa concha que não sei abrir. uma alma sem abrigo à procura de um conforto qualquer onde sinta outra vez o sangue a estremecer e então sonho com elas e amo-as nos meus sonhos como talvez nunca as tenha amado antes. um cão vadio. a Sofia que já se casou e a Ana que foi viver para Londres. onde o mundo só serve para contemplar e a água das fontes é sempre para os outros. como se não precisasse de ninguém. Ao menos esses procuram sempre qualquer coisa. onde ninguém entra. que sou um louco ou um poeta.

por graça chamávamos-lhe serial killer. Braços partidos por irmãos mais velhos. A média de entrada a rasar o impossível fazia de nós semideuses.Esqueleto ambulante Devias tê-la visto como eu vi. o mundo era um mar de informação para absorver. vai-nos dando voltas e voltas à cabeça até acertarmos o tempo e o passo. achávamo-nos invencíveis por termos entrado e foi a partir daí que alguns se perderam. metade do peso e menos meio palmo de altura. um cocktail de vertigem e loucura que nos dava força para ficarmos fechados na época dos exames a tirar o curso mais difícil do mundo. A Cristina era uma aluna excelente. eu por ele e tu por ela. sentíamo-nos donos de todas as urgências e hospitais. ensaios. tu querias a especialização em radiologia enquanto eu sonhava com a pediatria e dez anos depois olha para nós. consumir e deitar fora. Viver era aquilo. lembras-te? Andávamos sempre em bando. há mulheres que vieram ao mundo para dar prazer aos homens e a Cristina era uma dessas semideusas do prazer. mas deixava-nos de boca aberta perante as pautas e a eles de orelha murcha quando os trocava por outro qualquer. Tínhamos pouco mais de 20 anos. casados e com dois filhos. jornais. a vida é isto mesmo. livros. As mãos indescritíveis. lembras-te? Sempre foi a que estudou menos. mortos de cansaço e de trabalho. revistas. a cara tão escura e o cabelo tão comprido que os olhos pareciam dois berlindes perdidos no meio de um charco parado e infecto. poupava-me às noites de banco e às atrocidades que vou vendo todos os dias com cada vez mais distância. iludidos com a facilidade das pequenas vitórias. fartava-se dos compêndios quase tão depressa como dos homens. misturas explosivas de Xanax com vodka. a Cristina e eu. copos. charros. o Miguel. noitadas no Frágil. . arrancadas das aulas de anatomia no primeiro ano da faculdade. até tu caíste naquelas garras felinas e não te censuro. Naquela época líamos tudo. tu. Se soubesse o que sei hoje tinha montado uma empresa de aluguer de pratos e copos para festas como fez a minha irmã Paula. o Miguel apaixonado pela Cristina.

. dei-lhe uma moeda de duzentos escudos e virei-lhe as costas com as mãos enfiadas nos bolsos e uma pedra encostada à garganta. esquecemo-nos dos amigos indispensáveis e das noites eternas de amor. quase nunca a que sonhámos e nunca como a imaginámos. A vida deve ser mesmo isto. hoje uma televisão maior. mas só e apenas a sequência infernal de objectivos que desenhamos para que o vazio dos dias não nos coma a existência. quedas de varandas e intoxicações com champôs de linha branca. há sempre qualquer coisa que nos afasta dos amigos quando eles seguem caminhos diferentes e quando olhamos para o lado e os procuramos não está lá nada. por isso se fores ao hospital e vires um esqueleto ambulante a esbracejar para te arrumar o carro. aquela que foi a Cristina. viramo-nos cada um para o seu lado da cama porque sabemos que nos amamos e que estaremos juntos der por onde der e se calhar é por isso que quando vi outro dia a Cristina a arrumar carros à porta do hospital . já nós a tínhamos perdido quando nos afastámos dela. amanhã uma casa no Algarve. obcecados com a nossa vidinha de casa feliz. paz e saúde para aqueles que amamos e pouco mais.fingi que não a reconheci. só a memória de uma sombra. vira a cara porque a sombra pode ser ela.traumatismos cranianos que os pais não sabem explicar. o resto pouco conta. à porta do lugar do mundo que lhe deu tudo para ela ser alguém e que ela trocou por uma viagem ao desconhecimento na ponta de uma seringa . A amizade devia ser inviolável e invencível mas não foi assim. a mulher que nasceu para dar prazer aos homens e um dia destes desaparece no desconhecimento do mundo e ninguém vai dar por isso. a nossa melhor amiga da faculdade.que ironia. Antes da Cristina se perder da vida.

Estar e ser
Não há nada a fazer quando as pessoas não querem falar. Ou ouvir. Ou estar estando, que não é a mesma coisa que estar sem estar, porque estar sem estar é estar sem ser e é muito mais fácil não ser estando, porque assim se treina a capacidade de não ser e assim já é muito mais fácil deixar de estar. Eu pensava que quando tu vinhas, estavas e eras. Estavas comigo e eras tu. E era por isso que vinhas e era por isso que te sentias bem. Também pensava que esse teu estar, tão intenso e perfeito, era o inverso de todos os outros lugares onde, por obrigação, inércia ou cobardia, eras obrigado a estar sem estar e sem ser. Mas entre o que eu e tu pensávamos, o tempo foi tecendo um manto de confusão e dúvida e agora, que não sei onde estás nem quem és afinal, descanso o olhar no movimento dos barcos, imaginando que aqueles que vejo só estão e são perante os meus olhos até ao momento em que desaparecem a caminho do porto ou do oceano e que, depois, hão-de ser o que quiserem ser e estar onde quiserem estar e que, bem vistas as coisas, não tenho nada a ver com isso. Custa-me imaginar que és um desses barcos enormes e distantes que não me são nada, cujo destino e fim em nada dependem da minha vida ou vontade. Custa-me imaginar-te longe, à deriva, viciado numa existência estéril e inglória na qual não estás nem és aquilo que és. É como se saísses de dentro de ti e vivesses a tua existência na qualidade de um espectador da própria vida. Mas se calhar és mesmo assim, se calhar já te habituaste a viver fora de ti, não estando nem sendo nos lugares e nas palavras onde as pessoas pensam que te encontras. E se calhar é por isso mesmo que também não te consigo encontrar, porque estás tão habituado a estar sem estar e a não ser, que ninguém te pode encontrar, nem mesmo tu. Mas não faz mal. Não faz mal, porque tudo aquilo que não se procura, acaba, por uma ironia certeira, por nos vir parar às mãos e, por isso, enquanto descanso o olhar nos movimentos dos barcos e treino as pulsações para recuperar o ritmo real e melancólico, o mesmo que me guiava quando ainda não existias, penso que um dia,

uma tarde ou uma madrugada, uma maré de sorte ou de coragem te pode trazer de volta, quando tiveres respostas para me dar. Mas isso só será possível quando, ao ouvires as tuas pulsações, reconheças nelas o bater de um coração que afinal ainda pode ser o teu, tu que vives há tantos anos alheado de ti mesmo, estando sem estar e não sendo à custa de ser aquilo que os outros esperam que tu sejas. Também já fui assim, escrava de uma vontade que me emprestaram à força, cruzada em causa alheia, guerrilheira de uma luta que não era minha. Mas cheguei à conclusão que não há nada que faça mais infeliz uma pessoa do que tentar ser aquilo que não é. Aprendi isso há muitos anos, quando, num delírio de juventude, sonhava ser cantora; pisei um palco de escola e percebi que a minha voz segura e afinada por entre as quatro paredes do meu quarto não passava de um fio pungente e traiçoeiro de sons desarticulados que nem eu própria conhecia. Desisti de ser cantora e dediquei-me à escrita, com o afinco de quem sente o que faz e sente que todos os dias quer fazer um pouco melhor. E vieram as palavras, os livros, as memórias, a dádiva de dar aos outros um bocadinho de mim, em linhas que me ajudaram a crescer e, sem o saber, a tentar ser todos os dias uma pessoa melhor. Talvez daqui a uns anos possamos viajar no mesmo barco e descer o rio onde descanso o olhar, abandonando todos esses lugares onde te habituaste a estar sem estar, e finalmente voltes a estar e a ser como eu pensava que eras. E foste. Só que desististe. E quando uma pessoa desiste de falar, de ouvir, de estar e de ser, não há nada a fazer.

Estranha forma de vida
Dizem que Lisboa é branca, mas nunca lhe vi a cor, embora esta luz que carrego dentro dos olhos e que me encandeia o espírito seja clara, muito clara e o que sei eu de claro e escuro, nasci cego, nunca soube o que é ver, mas tenho um rico ouvido, isso sim, por isso é que a minha mãe me pôs nos braços a concertina do meu avô quando tinha sete anos e disse toca não me pediu para aprender, não me pediu por favor, aquilo foi uma ordem igual a tantas outras, as mães estão sempre a dar ordens mesmo quando já somos homens levanta-te, veste-te, calça-te, lava as mãos, limpa a boca, não mexas aí, não entornes o copo, acaba de comer, cala-te, toca e eu, obediente, espalhei os dedos pelos botões de um lado e pelas teclas do outro, senti o peso de um elefante sentado nos joelhos e a pouco e pouco, sem saber como nem porquê, comecei a tocar, viras, marchas, fandangos, pasodobles e até uma canção muito bonita que um dia me disseram chamar-se a Cavalaria Rusticana é o demónio do avô dentro dele, só pode ser rosnava a velha a quem me obrigavam a chamar avó, era feia e desgrenhada, com uma verruga no nariz e sem dentes - nunca vi mas tenho a certeza, certezinha que era assim - que levou pancada do bêbado até ele esticar depois de uma noite de Santo António. Atirouse para debaixo de um carro de um senhor que era cônsul, aquilo foi um problema porque o cônsul também estava com os copos, mas foi no tempo da outra senhora, os ricos eram ricos e os pobres eram pobres, ainda ninguém soprava para o balão e um diplomata sempre era uma pessoa de mais respeito que um velho emborrachado que era conhecido na Madragoa por apalpar as raparigas novas e bater na filha e na mulher quando chegava a casa toca dizia a minha mãe que tinha ficado surda do ouvido esquerdo de uma vez que o meu avô lhe bateu e ela se estatelou escadas abaixo, por isso quando me ouvia, sentava-se sempre à minha esquerda e inclinava a cabeça - nunca vi mas juro que inclinava - para me ouvir

mas que estranha forma de vida esta de tocar concertina para ouvir o tintilar das moedas na boina surrada que herdei do meu avô no dia em que foi atropelado pelo cônsul. que era o comandante dos bombeiros. obrigou-me a estudar mais e mais e mais. . fui para a Banda da junta de Freguesia onde uma rapariga cega tocava martelinhos. com os olhos escondidos do mundo por uns óculos escuros. aquele que diz estranha forma de vida ou lá o que é e eu. a Emília. passava os dias fechado em casa a tocar e quando ela morreu fui à junta e disseram-me que se tinha casado com o comandante dos bombeiros e tinham emigrado para o Canadá. sentou-me ao lado dela e simpatizámos logo um com o outro. Não sei quem me deu o condão. O maestro. eu sei qual vai ser. mas quando a minha mãe percebeu. porque um cego aprende a ouvir coisas que mais ninguém ouve e o sorriso é uma das tais coisas ó Augusto e agora aquele fado da Dona Amália. é aquele da Dona Amália que diz que a gente tem uma estranha forma de vida. obediente. toca E foi a partir desse dia que passei a sentar-me à soleira da porta a tocar para o infinito. aprendia tudo de ouvido.melhor e depois parece-me que sorria. tirou-me da banda e nunca mais vi a Emília. mas um dia se a Emília voltar ao bairro e me pedir para lhe tocar um fado. que vive de vida perdida. num instante sabia as músicas todas.

muito devagar a empurrá-la até vislumbrar uma fresta minúscula que só eu via e por onde o frio do Inverno entrava com eficácia mas discrição para me fazer levantar o cabelo e refrescar a testa. Não podíamos falar alto nem abrir os vidros e eu fixava-me no brilho da maçaneta de metal. a pedir-me para a abrir. era o responsável pelos néons de Lisboa e pelas luzes de Natal. sempre posicionada entre as sete e as oito da noite como um relógio que ficou paralisado porque perdeu o sentido do tempo quando o ponteiro dos segundos se foi embora. deixando aos nossos pés espaço para flutuarem no ar. austero e espartano e as iluminações de Natal também. mesmo debaixo de um chapéu cinzento ou castanho. havia ordem e disciplina. . por isso o passeio anual de Mercedes pelas ruas da Baixa também era uma forma de nos mostrar o que fazia na vida aquele avô austero e do Estado Novo que raramente sorria e nos transmitiu valores como a poupança. Metia os netos no carro. por isso pousava os dedos ainda curtos e gordinhos e começava. porque o avô nasceu com a República em 1910. alto funcionário da Direcção Geral dos Serviços Eléctricos. uma pele áspera e rugosa com personalidade própria e a manette das mudanças junto ao volante que subia e descia com solenidade guiada pela mão áspera e rugosa do meu avô. fundos e cavados.Estrelas à mão Era um Mercedes 190 E cor de cobertura de bolo de bolacha. Também ele dono da sua personalidade. coberta de pequenos sinais de pele. prisioneiro das suas ideias e portador da careca e do nariz mais emblemáticos que já vi. a seriedade e o medo de ficar pobre. com faróis atrevidos e estofos em pele castanha. ele que vivia numa casa no Restelo com 23 assoalhadas e sempre teve dinheiro a render no banco. só um pouco abaixo da linha dos nossos olhos que alcançavam a nuca do avô. Íamos todos para Baixa ao fim da tarde ver as luzes do Natal que na altura eram só estrelas e luas douradas. mas sempre um chapéu. O meu avô. era o Estado Novo. alinhados no banco de trás do Mercedes como vassouras ordeiras compradas à dúzia e os bancos eram enormes.

num misto de orgia e dominó. isto custa muito dinheiro.Nem tudo o que brilha é ouro. . no Natal recebíamos cada um uma moeda de cem escudos e um dia até nos levou ao Montepio Geral para abrirmos uma conta cada um e alinharmos as moedas que recebíamos todos os anos em caixas de madeira. Mas em vez disso. já só fala com os olhos. comprar tudo o que me apetecesse e não desligar as luzes de Natal. só me apetece dizer-lhe que o dinheiro é uma coisa que só serve para pagar contas e comprar um tecto e quem vive preso a ele nunca aprende a saborear a vida com a doçura de um duchese. gastar as moedas e libertá-las da caixa do Montepio Geral. guiando o seu espada e eu pensava no que a Irmã Patrocínio me dizia no colégio. E tudo girava à volta da poupança. dizia também o avô. um duchese na Suíça custava cinco escudos e era caro. que a luz é muito cara... tudo era muito caro. ia ser cantora ou bailarina e rodopiar como uma estrela durante todo o ano. deve achar tudo mais caro do que nunca e quando o vou visitar e lhe pego na mão rugosa e metade do tamanho do que já foi. que não serviam para nada porque não se podia gastar nada. todas coladas em pé. Só estão ligadas uma hora. quando fosse grande. que andamos cá para ajudar o próximo e praticar o bem e aquilo não fazia sentido. numa tentativa ingénua de lhes guardar o brilho. vive entre uma cama e uma cadeira. ficamos ali os dois a ver a Maria Elisa e as outras senhoras a darem dinheiro a outras pessoas e eu tenho saudades do Mercedes de onde via o mundo enorme lá fora e pensava que um dia. dos preços. Nunca te hão-de perdoar o bem que fizeres aos outros. o que fazia sentido era deixar entrar o ar pela fresta e dar sentido à vida da maçaneta. deixá-las dançar durante toda a noite e tocar-lhes com a ponta dos dedos pequenos de criança. Hoje o meu avô é um sopro de vida.

. o único onde ainda podia encontrar alguma paz no ar e adormecer sem a sensação de que estava quase a ser atropelada por um camião sem travões que nunca mais chegava. saíam-te pêlos brancos do nariz e das orelhas. a casa devia ser pintada. dizia toda a gente no enterro. subias às arvores desde pequeno e a tua mãe dizia-me que tinhas a mania do equilíbrio. tenho capas de livros descoladas. andavas a pé com a celeridade de um nómada. a porta da cozinha chia. que querias ser artista de circo em pequeno e só a paixão pela vinha te fez escolher Santarém e a Escola Agrária em vez da vida de saltimbanco.A falta que faz O telhado está velho e a precisar de ser arranjado. abanando a cabeça em arritmias piedosas como gigantones em dias de cortejo. tinhas sempre energia para fazer tudo e arranjar mais alguma coisa. tão alto como o comboio que passa lá em baixo e por isso habituei-me a dormir no quarto dos fundos. te desequilibrou e te atirou ao chão num voo fatal do qual já não deste acordo de ti. Mas tu já não eras novo quando o escadote. lâmpadas fundidas e mais um sem número de coisas por arranjar. Já estavas com cinquenta e sete anos. uma acha revolucionária fez-me uma nódoa negra no soalho da sala e as cortinas da casa de jantar estão a cair. a persiana do quarto dos fundos partiu-se e só sobe ou desce com nós cegos na fita. a borracha da marquise secou e deixa entrar água. dá-me uma tristeza que me paralisa o braço e penso invariavelmente que falta que faz um homem em casa. Perdias-te horas em frente à televisão a seguir as vidas que os que escrevem histórias imaginam que são as mais difíceis e à noite ressonavas muito alto. Estavas com barriga. queixavas-te de dores na coluna e resmungavas como um doente cada vez que eu trocava a telenovela por um concurso. numa partida do destino. Ninguém te mandou subir ao escadote naquela tarde estupidamente quente de Agosto. mas cada vez que me sento a fazer a lista. o autoclismo da casa de banho das visitas engasgou-se e anda com verborreia aquática. Tão novo que pensavas que ainda tinhas trinta. partiu-se a asa da terrina da Companhia das índias que o meu avô me deixou. meu querido Aurélio. tão novo.

como quando te conheci na praia do Bom Sucesso em 63. que eu assim já não ficava só. sempre tive o mesmo homem e a mesma vida. Aurélio. .mas vou muitas vezes à Quinta olhar para a vinha e pensar porque raio caíste tu naquela tarde estúpida de Agosto e bateste com a cabeça na morte. podias ter tido mais cuidado a subir ao escadote.Lembro-me que te amei quando éramos novos e não havia telenovelas. É que não gosto de mudar. a matutar como é que se muda a borracha da marquise e quanto custa arranjar uma persiana. por isso. há mais de trinta anos que vivo nesta casa e como nos mesmos pratos do mesmo serviço que o meu avô me ofereceu. porque me parecias sempre igual. mesmo quando o amor é substituído pela rotina das novelas. as persianas funcionavam todas. É que tenho muitas saudades tuas.ao menos ser avó ainda serve para alguma coisa . pensei que falta que faz um homem. Passeávamos por entre as vinhas. e quando outro dia pedi um orçamento para arranjar as persianas e me disseram que eram duzentos euros e como eu ainda só sei contar o dinheiro em escudos. mesmo quando o corpo se esquece do prazer e se instala na velhice. meu querido Aurélio. Este Verão escolhi o Alentejo para ir com os pequenos dos pequenos . havia óleo nas dobradiças. tu de calções pretos e eu de bikini encarnado. as crianças cresciam todos os dias e eu achava que a velhice era só para os outros. Nunca mais voltei à praia desde que morreste.

Maria Luísa. era abalar daqui para fora. Põe os olhos no teu pai. nem dava para ir contigo à Zara comprar tops e aquelas coisas modernas que agora a juventude tanto gosta. que pouca vergonha. o teu irmão Luís Manuel diz que faz um frio de rachar. Eu sei que tu gostas é de ir para a praia quando chega o Verão e de sair na 24 de julho à noite. eles a varrer as ruas e elas a lavar escadas até o corpo e alma ficarem enxutos está na altura de aproveitares que esta terra é muito bonita mas tem o tamanho de uma noz e a gente aqui não vai a lado nenhum. tu és nova.tudo a tomar banho nu. tu falas bem línguas. havia de ser comigo. tens saúde e nem és nenhuma doida como as rapariguitas do bar da televisão . eu sei que as tuas amigas ganham dinheiro a fazer de público nos talk-shows e que outro dia um senhor . podias ir para a recepção ou então para os quartos. és bonita. corria tudo à bofetada e punha-os de castigo. mas ele arranja-te um emprego lá no hotel onde trabalha. entrava por ali adentro. Se não fossem os bicos de papagaio que me fazem pedir licença às pernas para andar e a gota do teu pai que o tem amarrado ao sofá o dia todo. mas estou velha e cansada e uma pessoa tem que saber quando é que a vida já lhe passou ao lado e se ocupa agora dos outros. Tu não filha. Em Toronto não podes andar de top.Fazer as malas O que tu fazias bem. toda a vida na repartição de finanças a tratar dos impostos dos outros. Se não fossem as limpezas que faço em casa da Professora Alexandra que me deitou a mão quando me reformaram de contínua no Liceu. chegava lá gente séria e humilde como nós a pagar tudo o que devia e não devia e depois entrava o presidente do clube de futebol do bairro com gravata de seda e as meias puxadas até ao joelho sem rendimentos nem vergonha na cara e é por causa dessa escumalha que isto está como está. a gente também ia. sempre é melhor dobrar roupa de gente rica do que servir cafés a benfiquistas frustrados que é o que tu fazes no café do Joaquim. tu ainda tens o tempo todo à tua frente e a vida corre atrás de ti. fazer as malas à vida e ir para Toronto ter com o teu irmão.

contava mais com o juízo do que com o corpo para trabalhar. Maria Luísa. fazia as malas à vida e ia à descoberta do novo mundo. Maria Luísa. a não ser para te convencer as fazer as malas e escolher uma vida melhor. Os homens são mesmo assim. presa à vida por nada. enquanto nenhum flausino benfiquista te apanha o coração numa bica escaldada. que não aprendas nada comigo e acabes como eu. quando são novos têm medo de viver e quando são velhos têm medo de morrer.dessas empresas até te perguntou se gostavas de ser assistente de um programa. mas se eu fosse a ti. bicos de papagaio a prenderem-te as pernas e um inútil em casa pregado no sofá a queixar-se da vida e cheio de medo da morte. mas eu só tenho medo. . te põe a parir e a esfregar os colarinhos dele e quando deres por isso tens cinquenta anos no lombo.

O Mário dorme o dia todo e o meu sogro não lhe fica atrás. que quando parto para férias levo sempre uma esfregona nova e duas embalagens de Magic com cheiro a pêssego para dar uma volta àquilo. Eu bem limpo o pó todas as manhãs. onde morávamos numa cave desafogada até o Mário ser colocado no hospital de Almada e nos mudarmos para o Feijó. Este ano levei o Pronto e os beliches pareciam de mogno. até ficaram a brilhar. mas ao menos moramos no segundo andar e os miúdos sempre têm mais luz para estudar.Férias na Cova do Vapor Não temos dinheiro para ir para o Algarve nem para a costa alentejana como os Fonseca. depois de passarem a noite toda a dar-lhe na pinga no bar do Lopes. mas mal abro a janela para arejar a sala. Lá na Cova do Vapor não há poeira e os miúdos divertem-se. todo pinoca e disseme quando quiseres é só pedir não lhe perguntei o quê. Ainda outro dia comprou um Mercedes branco. entra-me a poeira para os olhos e deve ser por isso que estou pior da cataratas. a Kátia e o Helder e mais eu abalamos sempre no primeiro dia do mês de Agosto para casa dos meus sogros na Cova do Vapor. duas janelas de madeira comida pelo bicho e seis beliches lá dentro comprados na Moviflor é a mesma coisa que chamar Santa Teresa de Ávila a uma daquelas raparigas que sobem e descem a rua ao pé do Instituto Superior Técnico. mas cada vez que . O Fonseca tem uma loja de congelados e jeito para o negócio. A minha sogra sai para ir buscar peixe e faz uns carapaus de escabeche que são de chorar por mais. de modo que o Mário. onde nem se pode abrir as janelas por causa do fumo e da poluição. Chamar casa àquele barracão feito de zinco com uma porta de alumínio roubada aos restos de uma demolição. porque depois ele me ia pedir em troca favores que até nem me custava nada dar-lhe. a Kátia e o Helder desaparecem com a miudagem e eu sento-me à porta a fazer renda e a pensar porque é que não aceitei a proposta do Fonseca para fugir com ele para o Canadá. mas a minha sogra que é pouco dada a limpezas tem aquilo num nojo tal.

Estúpido. Ou então que a minha Kátia se casasse com um jogador. que me tomei de amores por um enfermeiro pelintra que só sabe dormir nas férias e que nunca me chamou boneca nem me deu nada. se eu por acaso gostasse de me deitar com ele e abalasse sem mais nem ontem para Toronto com o homem quando quiseres é só pedir. Ele e a mulher agora nos algarves a comerem feijoada de marisco e eu aqui. isso sim atrevido. depois começo a levá-la aos treinos do Benfica e logo se vê o que é que se arranja. Se tenho conhecido primeiro o Fonseca. um rapazinho assim como o Nuno Gomes. mas o meu marido e os miúdos é que iam sofrer. O que eu queria é que o meu Helder tivesse jeito para a bola. Mas a Kátia só tem dez anos. à espera que o outro acorde com ressaca e a minha sogra acabe de fritar o peixe-espada. minha boneca ainda me aborreci com ele. . a não ser um churro da primeira vez que saímos e fomos à Feira Popular andar na roda gigante. Senão. a ti dou-te tudo. vou mas é ver se acabo este napperon para pôr debaixo do televisor com vídeo incorporado que comprámos nas promoções do Carrefour e que fica tão bem em cima da mesa de fórmica. Pode ser que tenhamos sorte. disse-lhe que não era dele e respondeu-me minha não és. que sempre que marca um golo beija a aliança e quando o entrevistam traz sempre a filha ao colo. nem empatava nada. tão lindo. mas como o melhor é nem pensar nisso. Aquilo é que é um bom partido. a fazer renda. primeiro tem que lhe crescer o peito. a minha vida era outra. Até que nem me importava de me deitar com o Fonseca.penso nisso olho para o Mário e para os catraios e dá-me dó. quem me dera que a Kátia encontrasse um rapaz assim. ainda lhe acontece a mesma desgraça que a mim. à porta da casa da Cova do Vapor. coitada. mas lá que és uma boneca. a gente resolvia aquilo numa hora.

ou não. E não falo de pais. Penso muito nisto quando apanho o comboio de Aveiro para Coimbra onde vou dar aulas de Literatura Francesa duas vezes por semana. Depois. para sempre a uma pessoa. tristeza e abnegação e que a alma humana só se engrandece com a renúncia da felicidade. Pedro do Sul. ausência. pseudo-intelectuais com aspirações a iluminados. que é ao mesmo tempo outra e nós. que me escrevia versos do David Mourão-Ferreira no vapor do espelho da casa de banho antes de sairmos para as aulas. conheci-te neste mesmo comboio. ainda demorei um semestre a habituar-me à ideia. E quando ele partiu para Itália com uma bolsa e o perdi para sempre. Mas os erros servem para criar hábitos e o vazio também enche a alma. esquecer e começar tudo de novo outra e outra e outra vez. Nessas tardes de silêncio e reflexão. Às vezes acho que a ficção e a poesia é que deram cabo disto tudo. revejo a matéria como a boa aluna que sempre fui e vou matutando com os versos de Baudelaire e os sonetos do Musset. enquanto procuro nas figuras de Balzac traços e pistas que me levam ao fim de outra viagem. filhos.Hello my love Sabes. a nós. esperar. meteram-nos na cabeça. sem nunca deixar de ser ambas as coisas. que o amor tem que ser feito de sofrimento. daquela que nos pode ligar. enquanto tu ficas em casa a tomar conta da Joana e do Fox. viciada na tristeza e nas ausências. há muito tempo que me ando a questionar sobre o que pode ser a verdadeira essência do amor. por isso pensei que a minha vida ia ser isto mesmo: amar. que a esses mal ou bem vamos sabendo dar e receber afectos com mais ou menos traumas e conflitos. habituada a esperar por nada. a da descoberta da essência do amor. Depois foi o António no primeiro ano da faculdade em Coimbra. Esperei um ano inteiro até ao Verão seguinte e quando o voltei a ver percebi que nem se lembrava de mim. irmãos e amigos. vinhas do Porto e ias para Lisboa com um bloco A2 debaixo do braço e um estojo sufocado . Primeiro foi o Luís que me conquistou numa noite de lua cheia em S. Falo da outra espécie de amor. Vivi assim muitos anos.

sentaste-te ao meu lado e começaste a desenhar a minha cara com a seriedade de quem brinca. aceitando cada dia como o último. perdi a cabeça e segui os teus passos como uma sombra. . Ri-me do teu olhar de menino. Ao fim de uma hora de conversa pediste-me que te acompanhasse até Lisboa onde ias negociar com o teu marchand o preço dos quadros da próxima exposição e eu.sempre ouvi dizer que os holandeses têm mesmo jeito para línguas hello my love. enquanto dizes no teu inglês bem arranhado . do teu sorriso espontâneo. Já foi há dois anos. logo eu que vivera sempre ao contrário. ou tanto faz e se calhar é por isso que quando me desdobro em interpretações sobre As Flores do Mal e outras loucuras que os poetas tristes escreveram sobre o amor. com o teu olhar a estender-me os braços e o teu sorriso a aquecer-me a alma. ou o primeiro. aquilo era mesmo o destino a puxar por mim. mas a leveza que me trouxeste aos dias e a doçura com que fizeste o tempo passar ensinaram-me a viver a vida como tu.em lápis e canetas de todas as cores. abano a cabeça sem a mexer e imaginome a voltar a casa. aluna e professora exemplar daquelas que nunca faltam às aulas. parecia que passavas pela vida como se ela te passasse ao lado e foi então que percebi que existiam pessoas que viviam a vida sem pensar. da tua camisa amarrotada e fora das calças coçadas.

de tempo. um rapaz afinal igual a tantos outros com olhos de criança e andar elástico. ao frio. minutos e segundos. podia ser o derradeiro. sem medo. incondicional. à solidão. Quando somos náufragos dentro de nós mesmos. baixar à terra parece-nos torpe e pouco digno. à ausência e à distância. O amor puro. na tristeza. De espera. invasor. E. sem exigências. de perfeição. tal era a dimensão do que por ele sentia. E habituamo-nos a uma tristeza permanente que nos faz ver o mundo desfocado e que nos protege da luz que já fomos. satura as cores e traz uma luz perfeita à existência. Não me interessava se o meu objecto amoroso. de respeito. Há pessoas que ficam muito tristes quando percebem que se vão apaixonar. sem nunca desistir. intemporal e inabalável que resiste a tudo. habituei-me à ideia que o amor era amá-lo. arrebatador que me tomava os membros e a alma. me amava ou me queria. ao tempo e ao modo. mesmo na ausência. receber torna-se um exercício difícil. porque nada contava além desse sentimento abrasador. no vazio das minhas mãos que se davam uma à outra sem que uma terceira as agarrasse para me dizer estás enganada. que tomava conta da minha vida e de mim. Amar sem tempo. Cada dia que vivi nesse estado de graça era um dia cheio. todas as praias são miragens e esquecemo-nos de procurar um porto de abrigo. as horas. de proximidade. E outras que ficam ainda mais quando se apercebem de que não conseguem atingir esse estado exaltado e sublime que faz parar os ponteiros do relógio. sonhar sem recear. os olhos e o peito. Eu pensava que sabia o que era o amor. ao vento e à chuva. deixar o barco partir outra vez. quase assustador.Instantes perfeitos De que é feito o amor? De vontade. é preciso outra pessoa para construir o amor Quando nos habituamos a dar. Amar por amar. O barco balança mas a âncora não . de generosidade. De doçura. de paciência. a cabeça. É muito difícil voltar a amar. de paixão e de alguma tristeza. De sonho. querer sem pensar. Quando vivemos numa elevação permanente.

as velas enrolam-se de recato e cansaço. Mas a vida é isto: acho que tenho mais sorte que os outros. tu e eu. feito de pequenos instantes perfeitos que se vão dissolvendo na espuma dos dias. há instantes de amor. Agora. num sossego só nosso. a cor da Lua quando enche. os olhos mudam de cor e as mãos voltam. pois já amei alguém. mas o coração não obedece a nada senão à sua própria vontade e o amor continua a ser um mistério que não sabemos como começa nem quando acaba. e deve e nós até queremos que seja.sobe. quando alguém nos diz ao ouvido estás enganada. momentos perfeitos em que sentimos outra vez o sangue a ferver. Mas porque é impossível sobreviver no deserto ou navegar para sempre. . a entrelaçar-se. aprendi a amar a vida. pode ser isto o amor E pode. o vento não sopra e muito pouco muda. por breves segundos. o tempo que passamos juntos. I guess I'm luckier than some folks/I knew the thrill of loving you canta o Chet Baker enquanto escrevo estas linhas para nelas guardar instantes perfeitos que desejaria transformar numa vida inteira.

Nem sempre preciso de te ver. mas não tenho bem a certeza. a batida do seu coração e a batida do coração do outro que. quando entras. como bate a par com o nosso. pareces o ponteiro dos minutos. escondido entre dois livros. quem sabe. os ponteiros têm medo de continuar a andar. fechados dentro do relógio e deve ser por isso que se queixam. e depois vejo-te a entrar no carro e a abrir a janela. porque o amor cega e ensurdece e uma pessoa só ouve duas coisas.O fio dos dias São sempre tão compridos quando não te vejo. porque o amor que cega e ensurdece também mostra coisas que mais ninguém vê e eu vejo-te a trabalhar. guarda sempre o melhor. é assim o amor. anunciando na brisa mais inesperada o teu regresso a casa. por isso. fica tudo guardado e registado. porque sempre que tu chegas páras o tempo. acaba por ser só uma . a ver as horas a passar e a contar os minutos que faltam para que te abram o vidro do mostrador e resgates a tua liberdade. só para te poder ver chegar. meu amor. apesar de conseguires fazer parar sempre os ponteiros do relógio ou até de os pores a andar ao contrário . à espera que tu saias e os deixes continuar a dar sempre a mesma volta. a compor fio a fio num enorme tear um manto que estará sempre meio bordado e meio por bordar. com a mesma doçura com que abres as portas do meu coração. São sempre compridos mas sempre cheios. que ficou pendurada num quadro.pareceme que isso aconteceu outro dia. meu amor. respirando fundo o ar que te traz até mim. tic-tac. por isso imobilizam-se. ou o teu sorriso. tic-tac. . suspensos pelo fio da eternidade. quando me encostaste à parede da entrada. porque mesmo sem estares aqui os enches com a tua voz. no fim dos dias compridos que morrem à tua chegada. à espera que um dia alguém lhes abra o vidro e lhes resgate a liberdade. porque se se atrasa não é grave como o das horas e se se adianta não é impaciente como o dos segundos e eu sou como a mulher do guerreiro. a vida ensinou-me a esperar. o mais ponderado. e tão curtos quando chegas. a olhar para o relógio.por isso afinal talvez nem se tenham movido. quando chegas.

porque o tempo é sempre pouco quando sei que estás próximo. não te apresses. E é sempre pouco. suspenso numa eternidade só nossa que me faz pensar que afinal valeu a pena esperar tanto tempo por ti. Por isso a espera é quase nada e quase tudo. um fio firme e esticado que me vai guiando pela vida. há outras em que acerta sem precisar do relógio. no espaço e no modo. não partas o vidro do mostrador antes da hora. É que o amor.Por isso não corras. que às vezes também se engana. Às vezes interrogo-me onde vou buscar tanta serenidade na espera. e quem sabe se nós não acertámos no tempo. a tua luz no escuro. quando se tem tanto. como é que ainda acredito que posso cruzar a realidade com a perfeição. . não te entristeças com a distância nem sintas pena de mim por te esperar tanto. como fazem os nossos corações quando me encostas à parede e eu vejo o tempo parar. para dar e receber. sem nunca. os dias bons são os que te trazem até mim e todos os dias me trazem sempre algo de ti. te enganares no caminho. é a tua imagem no ar. A espera é só o tempo de deixar crescer aquilo que há-de ser. por uma vez que seja. de onde vem toda esta luz que me transforma num farol e faz com que chegues sempre são e salvo.

Mas quando a asma a atacava sem aviso prévio. que já tinha peito quando o meu corpo desconhecia ainda a languidez das curvas femininas. Estudava sozinha em casa ou. num torpor exausto. o resto do tempo era como se eu não existisse. num bailado caótico. houve um ano em que não foi o terceiro período todo. mas a tosse voltava. agora mais funda e persistente. a pedir sossego ao corpo e aos pulmões. o corpo contorcia-se e a cara ganhava tons rosáceos. No dia seguinte a minha irmã não ia ao Liceu. uma parva que lhe lia o diário e se ria dos seus primeiros desgostos de amor. foi a melhor aluna. A minha irmã virava-se para um lado e para outro semiadormecida. que tinha cabelos compridos e era delegada de turma. de repente a minha irmã mais velha. na cama. a minha mãe embrulhava-a em camisolas. e a minha irmã virava-se outra vez. instalava-se no quarto em milhares de partículas quase visíveis que sobrevoavam as nossas camas como num dia normal de tráfego aéreo à volta de Manhattan. donde saía um tubo de borracha que se ligava a um cilindro gigante e que fazia um barulho parecido com o dos paquetes quando deixam os portos e era assim que se passavam quarenta minutos até os pulmões deixaram de ter medo de respirar. com a doçura que só os doentes conhecem pedia Kika. para ela não passava de mais uma pessoa na família. só para fazer os pontos e. vai-me arranjar o aparelho Só nesses momentos me chamava Kika. mais alta. nos dias mais violentos. mantas. inconsistente. mais bonita e mais inteligente do que eu. barretes e cachecóis como se a estivesse a condenar a viver . mas parecia nunca parar.Irmãs A tosse anunciava-se fraca. de repente a minha irmã ficava mais pequena do que eu e então eu levantava-me para lhe preparar o líquido que se enfiava numa espécie de bomba respiratória. como sempre. um mero ser vivo com quem ela era obrigada a partilhar o quarto. uma chata que lhe desarrumava as gavetas e lhe roubava camisolas. o cabelo desalinhava-se de fúria por não conseguir controlar a respiração e era então que me estendia a mão e pedia.

teve duas filhas. . a camisa de noite às flores enrolase nas pernas enquanto caminho em direcção à cozinha para lhe preparar o líquido que entra e sai pelo tubo de borracha e penso que quando for grande quero ser tão bonita.uma colecção de irmãos mais novos que escolhi para proteger e acarinhar. Mas hoje ainda. quase celestial. tornou-se compradora de quadros e antiguidades e organizou a vida de uma forma perfeita. com quem não fui obrigada a partilhar o quarto. amigas e amigos . Deve ser por isso que ao longo da vida adoptei entre sobrinhas. vai-me arranjar o aparelho E tenho outra vez doze anos. a Julieta.a Inês. imaculada. construiu uma casa e uma família ideais. o Pedro . oiço o barulho do paquete a abandonar o porto. a Mafalda.para sempre num sarcófago e ela saía e voltava pouco tempo depois exausta pelo esforço. mas que sabem ler a minha alma de irmã. a tosse cansada ecoa nas paredes como um fantasma esquecido e alguém me diz Kika. que não me desarrumam as gavetas. quando regresso ao quarto desmanchado na casa onde crescemos. mousses e encharcadas como ninguém. doutorou-se aprendeu a fazer bavaroises. ou pelo menos ter os cabelos mais compridos. casou. mas ela nunca mais aprendeu a viver de outra forma que não em esforço permanente. Com os anos a asma foi-se esbatendo pelos dias. mas com o olhar triunfante de quem vence todos os desafios. tão boa aluna e tão inteligente como ela.

Havia mais primos e tios espalhados pela casa. A tia magra. Tinha sempre as mãos entrelaçadas uma na outra num esforço treinado de contenção milenar e abanava a cabeça com demasiada frequência. às escondidas dos mais velhos. iguais às do meu avô em tamanho. só os mais velhos me vêm à memória e daí o olhar frio da tia sentada na praia. Havia uma muito magra.Jogar ao prego As tias dispunham-se ordeiramente pelo intervalo regular que separava a fila das barracas das outras mais abaixo. vislumbrando as labaredas da condenação infernal entre duas Ave Marias e quatro Pai Nossos. entre o medo e o espanto. longe do pulso materno. O avô alto e de boina preta de semblante seráfico que nunca olhava de frente para a minha avó e a minha avó que sabia como ninguém sorrir sempre com a boca e nunca com os olhos. Martinho ainda não era uma poça gigante de óleo. as notas dos filhos e as ausências prolongadas dos maridos eram doseadas conforme as regras do mais estrito decoro e preconceito. de modo que quando me apetece mergulhar no passado prateado das minhas férias de Verão em S. Martinho do Porto. alinhavadas numa conversa de circunstância em que os defeitos das criadas. esguia e antipática esticava as pernas que se confundiam com as estacas dos toldos um pouco mais abaixo das filas de barracas de lona e nunca se queimava. Eu era a sobrinha estouvada dos bikinis decotados. Saíamos às vezes da barra. como se Deus lhe tivesse dado o raro privilégio de julgar tudo e todos. enquanto os primos. sentada numa cadeira de lona com as pernas longas e brancas. à solta na praia da minha infância onde com três anos me perdera pela primeira vez a passar férias na casa dos meus avós. altiva. . vigiada por tudo e todos. sempre vestida de preto com carrapito e óculos que nunca sorria e me olhava de lado. tentando perceber o que lhe poderia estar a passar pelo espírito. os amigos e eu formávamos um círculo irregular para jogar ao prego. o que me fazia estar horas a fitá-la. Naquela época S. como tantas vezes acontece com os irmãos. forma e cor. os barcos eram à vela e toda a gente sabia o que valia um bom timoneiro. mas todos viviam debaixo da sombra alta e incipiente do meu avô e da mão invisível e férrea da minha avó.

um exército de condenadores implacáveis que me viam dar a mão ao António por debaixo da toalha. às escondidas dos meus velhos. o dedo apontado para acusar com prontidão e acuidade a menina fez isto . me apanhavam a saltar da janela e me criticavam as mini-saias berrantes e os bikinis decotados. como se todo o cenário não passasse de um campo de concentração voluntário. Só que agora é tarde. polícias marítimos.fazíamos passeios de barco à noite. criadas e nannies. com 15 anos. eu saltava da janela do meu quarto para ir para a discoteca e o sabor da aventura vivia nos mais pequenos gestos. por isso encolho os ombros e vou a correr para a praia onde ensino o meu filho a jogar ao prego com os filhos dos meus amigos que já não têm tias sinistras a vigiarem-lhes os gestos e os passos do coração. sargentos do pudor. com a Gestapo sentada na cadeira de lona e as forças das SS refasteladas na Rua dos Cafés a traficar informações de alcova sobre os que já chegaram. o olhar que nunca se ria. os que já se foram embora e os que só vêm para a semana.e a menina. tudo com as antenas ligadas para observar e julgar. primas mais velhas solteiras e amargas. eu via em todos eles o sorriso sem olhos. Soldados da moral. que só queria escrever poemas de amor e jogar ao prego na praia pensava quando for grande pego nestes espantalhos e transformo-os em personagens de um livro de terror para adultos mas afinal não foi preciso porque agora quando lá volto os sorrisos já têm olhos e onde se lia condenação há agora a simpatia involuntária por eu até ser escritora e boa rapariga. cabos dos tormentos. avôs e avós. . Tios e tias.

gosto de ouvir a tua voz de menino a dizer-me a Mãe sabe que eu gosto muito da Mãe? ao mesmo tempo que semicerras os olhos e mais uma vez o teu sorriso ilumina o mundo.A maior aventura Para o meu filho Lourenço É ao fim da tarde quando te vou buscar que o dia recomeça numa nova e particular existência abençoada pelo teu sorriso iluminado a azul quando atravessas o recreio e vens directo a mim como uma seta ensinada pelo coração. metade anjo metade príncipe.e não serão uma e a mesma coisa? . Há dias em que quase não falamos. com o olhar celestial dos meninos bem comportados. Juntos cantamos músicas da Disney. Sempre te vi na minha imaginação ou no meu coração . Se calhar foi por isso que quando os enjoos matinais me decifraram o futuro. a cara ofegante e esse sorriso que só se tem aos 5 anos. Gosto de encostar a minha boca de mãe à tua testa lisinha e mole.doce e bonito. tu gostas do Rei Leão e eu da Bela e o Monstro. todos os dias ao fim da tarde pela estrada fora. os joelhos esfolados e as mãos encardidas. mas o teu corpo alto e a tua cabeça redonda como uma bola perfeita destacam-se por entre os bibes azuis e logo te encontro. percebi logo que ias ser um rapaz e desatei a comprar jardineiras e ténis azuis. adivinhando o teu sexo e a cor dos olhos que me guia para casa. outras vezes explico-te porque é que vim mais cedo ou mais tarde e tu percebes tudo porque és meu filho e gostas de mim. quando o amor transforma a paixão numa doce existência a dois. . Às vezes demoro-me a distinguir-te no meio das outras crianças. eu vou a pensar na vida e tu no Game Boy que te espera em casa. ou muito de vez em quando. ambos concordamos que a Mulan foi uma menina muito corajosa e que a Esmeralda até era boa rapariga e eu explicote a metáfora do Corcunda de Notre-Dame para que aprendas a ver a beleza em todas as pessoas.

ou te formares. vou-me sempre lembrar do bocadinho de gente que eras. ou crescido. sensatez e ponderação eram palavras complicadas e opacas cujo significado não me apetecia ir ver ao dicionário. tinha muitas ideias mas pouca força. . um bocadinho de gente num choro mimado e foi assim que começou a maior aventura da minha vida. ralho contigo e zango-me se trocas os talheres à mesa ou dizes asneiras. é que antes de tu nasceres eu era só mais uma pessoa avulsa.Sabes. mas quando fores pai. Fecho os olhos para te ver melhor. Depois tu chegaste. meu filho. mas é à noite quando te adormeço na penumbra do teu quarto forrado a sonhos e ursos simpáticos. Às vezes o cansaço toma-me os braços e a cabeça. qualquer dia tens 18 anos e uma colecção de namoradas giras e simpáticas com quem vais comer gelados e trocar discos. ou aceitares o teu primeiro emprego. que me alimento do teu ar quando mergulhas no sono tranquilo e seguro. está sempre a crescer e nem eu nem ninguém sabe onde vai parar. alguns sonhos e muitos disparates na cabeça. dos joelhos esfolados e da tua voz aos 5 anos a dizer a Mãe sabe que eu gosto muito da Mãe? É que a memória é o nosso melhor património e é por causa de ti que o meu coração é como o universo. do choro mimado antes de te pôr ao peito.

estavas todo pinoca. desde que desapareceste a tua mãe meteu-se na cama a dormir e a chorar e nunca mais ninguém a conseguiu tirar de lá. Pois o teu pai. Nelson José. surdo e cansado e já nem forças tenho para atarrachar um parafuso. camisa de folhos. A tua avó Diria ainda a quis levar à Maria Francisca. conhecida por artes de desmanchos de feitiços e de outras coisas. Não sei onde andas. convenceste-te que eras artista e pensaste que o mundo era . és igual ao teu pai que só pensava nas mulheres e no vinho e morreu de bêbado na noite de fim de ano. quando se deu o contratempo. passava a ferro que era um primor. Ainda estavas no berço e já palravas a cantar. vadio dum cabrão. mas apiedou-se dela e deixou-a ficar e tu. Com 13 anos levámos-te à Grande Noite do Fado.Maldito fado Não sei por onde andas. calça azul de veludo e laço a condizer. senão não nos tinha levado aquela santa. mas Deus não é amigo da gente. a servir na casa de um senhor embaixador na Costa do Castelo. mas a tua mãe gritou tanto e chorou ainda mais. O senhor embaixador ainda pensou em despedir a pobre. o senhor embaixador até dizia que a rapariga um dia podia ser secretária dele. aqui em Alfama ninguém estranha nada. encontraram-no a boiar no lago do chafariz. vadio de corpo e coração que só sabia roubar chapéus e cantar o fado nas tascas das redondezas deixou-te cá na barriga da Elisabete tinha ela 15 anitos e foi só mais uma desgraça aqui no bairro. habituado à desordem e à confusão. o povo é mesmo assim. Estava tão bem a Elisabete. na cozinha. ajudava à mesa. já lá vão mais de duas semanas e eu aqui sozinho. tudo costurado com o amor da avó Lina e foi quando disseram o teu nome que o sucesso te subiu à cabeça e desataste a beber. Se ao menos a tua avó Diria não tivesse tido aquela maldita trombose. ninguém estranhou. que a tua avó teve pena dela e prometeu criar a criança. ficaste connosco e foste criado com todo o amor e carinho. levava-me antes a mim. tinhas a veia para o fado do teu pai. não. que estou velho. meu neto vadio. foi educado para bizarrias desde o berço de palha e não há nada que o espante.

com os cornos metidos no lago e as mãos riscadas a tinta preta das veias saídas. ninguém te vê há duas semanas e se amanhã descer ao chafariz e te encontrar cinzento.teu. disseram que tu eras a grande esperança do fado. . teve a coragem de nos estragar a vida. mas foram-se embora com as mãos e a cabeça a abanar porque ninguém sabe de ti. Ontem vieram cá os senhores da editora de discos à tua procura. ias todas as noites para a vadiagem e nunca mais ninguém teve mão em ti. a Elisabete vestiu o roupão azul bebé e as pantufas de lã para os receber. o meu neto dum cabrão. meu vadio ingrato. nem sei como é que vou dizer à Elisabete que o filho dela. desprezando a sorte que Deus lhe deu. traziam um contrato e tudo.

à espera que tu voltasses quando acabasse o teu contrato milionário com a corretora americana que te descobriu no MBA onde. para variar. por .Mesmo assim Daqui a três dias faz um ano. sentado na sala de reuniões onde esperava um cliente daqueles que preferem falar de investimentos à hora do almoço a investir no prazer de um bife e vou-te ser muito sincero. e nem isso o safou do enfarte uma semana antes de me saber formado nessa maldita ciência a que se chama Economia. depois de te possuir. lembras-te Sofia? Tu a trabalhar na Grande Maçã e eu aqui. meu pequeno génio da Economia. ao contrário de ti. minha diabólica Sofia. depois de fingir que nem sequer gostava muito de ti para lá dos orgasmos sintónicos que juntos nos faziam voar como dois pássaros bêbedos. que eu nasci poeta e nunca devia ter tirado Economia. presa nos últimos andares e fiquei muito quieto. nunca fui bom em números. eras a melhor aluna e onde. Foram cinco anos de contida loucura e desespero profundo. mais esperta. eu era o pior. contingência que me obrigava a ficar sentado muito tempo depois de todos terem saído do anfiteatro. coitado. por momentos imaginei-te. O desespero de te desejar. E o desespero de te ver sempre à frente. sem nunca saber se só lhes escorregavas a mão por entre as calças ou se também os ensinavas a voar. feito parvo. com o pretexto de estar a passar a limpo apontamentos. Nem sei mesmo como é que passei os exames de admissão. e depois o desespero de te ver a sair com outros rapazes. mas um filho de um engenheiro civil em Letras era demais para o coração do meu pai. que no primeiro ano já discutias com o professor de introdução à dita a inviabilidade prática da teoria da mão invisível. a rires-te com a arrogância típica dos génios ao ler os meus esforçados dozes e trezes. mais adulta e com melhores notas na pauta. mais rápida. para variar. enquanto passavas a tua de forma quase imperceptível pelo intervalo das minhas calças. Quando me disseram que dois aviões tinham furado as torres do World Trade Center. dramática e desesperada. O resultado dessas festas aparentemente distraídas e inconsequentes tornava-se obviamente visível.

momentos saboreei a tua hipotética morte. É que me pus a passar a limpo todas as patifarias que me fizeste, contando com a de me deixares à porta da igreja há três anos, sem esquecer as tuas aventuras com o Carlos, o Manel, o Francisco e o Pedro, isto para começar a rebobinar desde o primeiro ano e ainda nem chegámos à segunda época. Mas depois da reunião com o senhor que não aprecia bifes nem do lombo, a tua mãe ligou a dizer para eu não me preocupar, porque nessa semana, por acaso, tu tinhas ido a Londres a uma reunião. E juro-te Sofia, que me apeteceu apanhar o avião e fazer-te uma surpresa no Hyde Park, subir à pedra onde os malucos pregam ao domingo e dizer-te que apesar de me teres mentido, me teres enganado e me teres estragado a vida e fechado o coração para o mundo, eu gosto de ti, mesmo fria, mesmo doida, mesmo assim.

Maria Lua
Desde que te foste embora, naquela segunda-feira, ponho-me à janela todas as noites a fumar um L&M e a sonhar com o teu regresso. Acendo o cigarro com o isqueiro que me compraste na feira da ladra - um zippo a gasolina do tempo do pós-guerra, cromado e com um desenho a cores de uma águia com as asas abertas que custou mil escudos, que pechincha - e atiro o meu olhar para o mar da palha que a Lua acaricia em toda a sua extensão nas noites calmas de Setembro. Moro numas águas furtadas do Bairro Lopes junto ao cemitério do Alto de S. João, onde comprei este andar aconchegado de três assoalhadas com vasos comunicantes entre elas, que é como quem diz portas por todos os lados, com autorização da câmara para recuperar o sótão, foi o que me disse o vendedor que tinha caspa e sapatos cor de mel. É claro que não havia autorização nenhuma, assim que comecei as obras apareceu logo um senhor com halitose que se apresentou como fiscal que me embargou tudo, fiquei com a casa de pantanas, escadotes e entulho por todos os lados, o senhor Antero, o empreiteiro, a dizer-me a menina não se preocupe que se resolve tudo e foi então que, quando fui à câmara, te conheci atrás de uma secretária afogada em pastas e processos pendentes e me olhaste com aquele olhar predador que as mulheres temem tanto como desejam. E num instante eu consegui a autorização e num instante tu conseguiste meter-te na minha cama. Ajudaste-me em tudo, até as licenças foram pagas por ti, quero ajudar-te meu amor, dizias com o teu sorriso de gavião deliciado com uma lebre mais gordinha do que é costume e eu convenci-me que gostavas mesmo de mim, que eras uma benção vinda dos céus, eu que sou uma crente irregular, que não ponho os pés na missa desde que vim estudar para Lisboa, mas uma vez por ano vou a Fátima conversar com a Nossa Senhora e agradecer-lhe o empréstimo do banco e a sorte que tive em conhecer-te. A pouco e pouco a casa foi ficando arranjada, cá em baixo a sala e a casa de jantar e um escritório, lá em cima, pelo caminho tortuoso

das escadas em caracol, um quarto enorme com vista para o Mar da Palha onde a Lua acaricia as águas sossegadas com a calma dos amantes de longa data, um quarto de vestir e uma casa de banho toda forrada a madeira tratada da Dinamarca que me custou uma fortuna e me fez aumentar a prestação no banco. Vivíamos felizes, tu ias todos os dias para a câmara e eu para a agência de viagens onde vendo sonhos empacotados a famílias com dois filhos e uma sogra acoplada e por isso, quando te foste embora naquela segunda-feira entre as duas e as três da tarde e não voltaste, pensei que tinhas sido atropelado na Moraes Soares. Telefonei para todos os hospitais e morgues, mas não estavas em nenhum, por isso, como não morreste nem foste apanhado pelas rodas do 42, imagino que abriste as asas desenhadas no meu isqueiro e foste à procura de outra lebre, talvez ainda mais gordinha do que eu, a quem resolveste os problemas das papeladas, quem sabe outra tonta que como eu caiu no teu olhar predador. Sei que continuas a trabalhar na câmara, outro dia telefonei para lá, mas desliguei quando passaram a chamada e ouvi a tua voz, porque ensinaram-me no colégio lá em Viseu que nunca se deve correr atrás dos pássaros, eles têm asas e nós não, por isso é impossível apanhá-los. Por isso fumo à janela, enquanto os aviões das rotas intercontinentais me pairam no olhar e imagino o teu regresso tão improvável mas sempre e ainda possível como a Nossa Senhora aparecer outra vez em cima da oliveira e dou comigo a pensar que, se um dia quiseres, ainda te abro a porta, te deixo subir as escadas tortuosas em caracol, te deito no nosso quarto enorme com vista para o Mar da Palha e te aconchego no sossego dos amantes de longa data, transformo-me em lua e volto a ser tua, sem nunca deixar de ter sido.

ele soltou-se e foi brincar com as pessoas que estavam a gozar o silêncio e o Sol como eu. se calhar é porque quando era pequena usava aparelho nos dentes e óculos e me sentia a rapariga mais desengraçada do colégio. Desde que te conheço já mudaste pelo menos quatro vezes de casa. como que a pedir desculpa. fazendo uma festa na cabeça do Twist e eu senti que aquela festa era . Eu cheguei com o Twist pela trela e como tantas vezes acontece. disse-te um dia quando trocaste o T1 no Restelo com vista para o rio por um loft na baixa para estares mais perto da confusão. eu já queria conhecer a tua casa e viajar nos teus livros. Deve ter sido só há seis ou sete anos numa esplanada junto ao rio.Mãos cheias Nada é permanente. senão a morte e a mudança. com os braços a abanar ao longo do corpo como dois ponteiros descoorde-nados e o sorriso vadio de quem comprou a liberdade com a própria existência. ao menos existe alguém na minha vida para quem uma festa na cabeça representa a felicidade inteira de um dia e cujo sono me protege nas noites mais solitárias. E deve ser também por isso que tenho um cão. mas o medo de desagradar nunca mais me deixou e deve ser por isso que aprendi a conquistar as pessoas com o sossego dos tímidos e a vulnerabilidade dos inseguros. Sou muito tímida. numa daquelas tardes de inverno em que o Sol se lembra que nasceu português. explicaste. sempre te ouvi dizer. mas já era tarde. É melhor para quem não tem carro. por isso levantaste-te e passámos a tarde a trocar ideias e memórias e depois foste-te embora e com os olhos muito abertos. disseste-me deixame partir. não tenho nada para te dar. Com os anos. tu achaste que a minha mesa era melhor do que a tua. É sempre tarde quando se descobre o amor e sempre demasiado cedo para o poder viver. o amontoado branco da minha boca transformou-se numa muralha perfeita e ordeira e as hastes pesadas foram substituídas por lentes de contacto e hoje até dizem que sou uma rapariga bonita. estender o corpo no teu sofá-cama e ouvir os teus discos. O Twist conquistou-te imediatamente.

ao contrário de ti. que ias repetindo cada vez que me deixavas não tenho nada para te dar Nunca te respondi que não fazia mal. nasci com as mãos cheias. Depois foste viver para Barcelona. o Twist abanava a cauda e lambia-me as mãos e eu lia-lhe as missivas vagas e exultantes de quem vive o desco-nhecido com a sede de um forasteiro perdido no deserto. por isso pedi-te para não me mandares postais nem me telefonares no regresso porque o Twist já não aguenta ver-me a olhar para a caixa do correio. tiveste muitas namoradas e apaixo-naste-te por uma rapariga de cabelos muito compridos que nunca te ligou nenhuma e foi nessa altura que te deves ter sentido como o Twist quando chego mais tarde a casa e ele pensa que o mundo acabou porque já não vou voltar. . que o amor que eu tinha chegava para os dois. A semana passada foste para Paris e quem sabe quando voltas. Se calhar sou eu que estou enganada e agora já é tarde para viver um amor com as mãos cheias. desapareceste três anos e passei a viver cada dia para o momento em que tirava da caixa do correio postais ilustrados cheios de gatafunhos. Quem parte há muito que se foi embora e tu nunca estiveste em lugar nenhum. que com o tempo eu acreditava que um dia seria a casa acolhedora das tuas mãos vazias. nem mesmo uma rapariga só e um cão carente que só queriam fazer-te companhia nas tardes de sol e trocar livros e discos. que nada nem ninguém te prenderiam. Voltaste num Verão qualquer. por isso compreite umas asas e já não te espero. Mas eu volto sempre para aqueles que amo e que dependem de mim.para mim mas não abanei o rabo porque percebi nesse momento que nunca ficarias em lugar nenhum. por isso decidi guardar-te no coração que é o único sítio do qual tenho a certeza que nunca sairás. se daqui a um mês ou um ano.

saboreando as torradas barradas a manteiga e a queijo fundido La Vache Qui Rit e dá-me vontade de rir. Ela era assim. estar. como se um casamento não fosse construído a dois. ela.e olhava-me à transparência como se eu não estivesse ali. Dantes. Ela acordava mal disposta . à frente e antes de todos. Às vezes é ele que me acorda.estava sempre mal disposta . que o sossego e a paz não têm preço. era tudo diferente. mas que o desejo faz adivinhar e o corpo vai sonhando no recolhimento das noites do fim do Verão. ela. outra coisa diferente que nunca tive. sento-me na cozinha a conversar em silêncio com o Chico. como se nada pudesse ser bom. fruir. para acordar melhor. outra mulher. numa tentativa desajeitada de se descobrir e exorcizar. como eu. diz o António Lobo Antunes. mas quem não estava era ela. que também diz que só consegue estar em paz consigo próprio quando vive em guerra com os outros. mais madura e segura.O mesmo caminho Quando acordo de manhã e faço um café com leite. onde as crianças aprendem os nomes das árvores e eu aprendi que é muito melhor estar sozinho do que sentir-me só. mas vê-me de certeza. eu que durante tantos anos me esqueci do que era rir. quando me separei e vim para Lisboa. e levanto-me antes da hora para ver a luz que escasseia na cozinha por causa do saguão. porque os animais vêm tudo sem precisarem de olhar e do alto do seu poleiro entoa um bom dia que me enche os ouvidos. Não sei se isto é ser feliz. onde os pássaros não tremem à passagem dos autocarros e os velhos jogam à bisca. demorei quase três anos a perceber isso. sempre à procura do pior em mim e nos outros. sempre a mostrar o pior de si mesma. O Chico não olha para mim. sem o aperto de uma presença agitada e confusa ao meu lado. quando . comprei esta casa tranquila junto ao jardim de Santo Amaro. porque me falta uma metade. Mas um dia destes. viver. num trinar tímido. E sempre ela. que o Sol que lava as janelas também é meu. como se eu tivesse sempre a culpa. entre a primeira e a segunda torrada. Depois. vou à sala pôr uma música e bebo o leite com café. Por isso. Quando um coração se fecha faz muito mais barulho do que uma porta.

Porque entre uma noite e uma vida há um mistério a construir. ponho a mesa e estico os lençóis da cama. depois de conversar com o Chico e saborear o leite com café e a torrada barrada com manteiga e queijo. e pode ser que a viagem de que os nossos corações precisem trilhe o mesmo caminho. . pode ser que tropece nela.sair de manhã para ir trabalhar. sempre assim foi e sempre há-de ser e eu estou mesmo pronto para ser escolhido. abro uma garrafa de tinto e brindo à vida com ela. E no dia em que a encontrar. porque são as mulheres que escolhem os homens. ou ela tropece em mim.

quando a Cristina me cruzou a soleira da porta e me disse fique a senhora com ele que eu vou para Madrid trabalhar Num bar disse ela. deve achar que lá porque sou velha e meia surda que me conseguia enganar. enfim. tinha o Fábio acabado de fazer um apito. meu amor Agora que o Museu dos Coches fechou para obras. não sei o que é que o Marco viu naquela magricela de olhos cavados e dentes podres que o levou para a encosta do Casal Ventoso vazar seringas no sangue e espremer limões para colheres de sopa onde bóia o acaso da morte.Meu neto.não é os diabetes. por isso percebi que ia mas era para um bar de raparigas fáceis. O petiz habituou-se bem a mim. a luz da vida que se apagou quando pus o Marco debaixo da terra e à socapa atirei lá para dentro o meu coração de mãe. O petiz acorda a esfregar os olhos e a pedinchar bolachas molhadas no leite com chocolate e põe-se a ver os bonecos da televisão e eu fico-me ali. foi o doutor André do posto que me ensinou . mãe.mas até faz sentido porque é uma doença. olhe este cão mau . quando uma pessoa está cansada de viver a vida traz-nos sempre um presente e o meu foi esta criança com estrelas nos olhos e voz de pássaro que me fez esquecer a tristeza da solidão e me encheu outra vez os dias de luz. vestido de marujo a correr pela Tapada da Ajuda a fugir de um rafeiro e a gritar mãe. mas os surdos ouvem tudo o que a alma não quer dizer. os meus olhos embaciaram-se de alegria e lembrei-me do Marco com dois anos. deixar-me aqui o menino nos braços. esquecida que sou gente e reduzida à minha paixão de avó a observá-lo à lupa do amor. já anda no infantário e outro dia agarrou-se-me ao pescoço e perguntou-me se me podia chamar mãe. Há mulheres que deviam ser esterilizadas. já não sei o que fazer com o Fábio aos domingos de manhã. eu já a braços com a diabetes . fixando cada gesto na memória que a pouco e pouco teima em apagar a imagem do meu Marco que a droga levou já lá vão mais de dois anos.

por isso conto-lhe histórias de príncipes valentes que guiaram aquelas carroças e salvaram princesas loiras das patas de dragões zangados. Aos domingos de manhã como não se paga nos museus. . gosto de o levar a ver as carroças.Sempre lhe tentei explicar que havia homens maus. mas ainda é cedo. por confiarem na vida e verem numa avó velha e doente a mãe que lhes enche o coração de amor e ternura. ainda o posso guardar do mundo. e eu a querer protegê-lo do mundo e com vontade de lhe dizer que é perigoso confiar em estranhos. E um dia destes. vou lá levar o meu menino e contar-lhe mais uma história em que o herói se chama Fábio. quando o museu abrir outra vez as portas. mas esqueci-me de lhe dizer o mesmo das mulheres e foi assim que a outra lambisgóia o apanhou e o arrancou da vida pacata de bairro onde ele era feliz a esventrar motores e a jogar às cartas no Recreativo. ele abre os olhos de espanto a observar tudo e já me disse que quando for grande quer ser taxista para guiar máquinas. porque todas as crianças são heróis por transportarem no calor da alma o sorriso de um futuro certo.

Nem . avós afoitas com bebés de colo em cadeirinhas. dizem que é o bairro com mais futuro da cidade. os carros. E no dia seguinte. senhoras de meia idade com a tristeza do olhar das divorciadas. todos os dias antes de sair. mães com crianças impacientes no banco de trás que aproveitam para fazer o pino ou saltar para a bagageira das carrinhas Astras. camionistas de mercadorias. A primeira vez que a vi. nunca mais lhe vi uma lágrima. jovens de barba irregular e erecções involuntárias a caminho da universidade. Como sou filho de emigrantes. Há trânsito a todas as horas e imagino que são formigas em fila à espera de receber um bónus da segurança social. E no outro também. o que tem mais doutores por quilómetro quadrado. comprei-a com o dinheiro da herança do meu avô que morreu engasgado o Natal passado com uma fatia dourada. Há mais de dois meses que é sempre a mesma coisa. No dia seguinte vi-a outra vez e ia outra vez a chorar. já me habituei a reconhecer as pessoas. Eu não me queixo. ia a chorar. arranjei um trabalho em Benfica numa escola de línguas onde ensino francês e todos os dias de manhã. ponho-me à janela e fumo um cigarro e fico ali a ver os carros a passar na via rápida. É um T3 em Telheiras. vestidos e embarretados como se vivessem nos Alpes suíços. de forma que decidi vir para a capital e instalar-me por cá. velhos míopes com o nariz colado ao vidro. casais que ou não falam ou discutem com tanta raiva que embaciam os vidros. mas quando foi ao banco e viu o que o velho tinha amealhado para ela e o neto. um subsídio qualquer por terem que esperar tanto tempo todos os dias para ir trabalhar. homens de 40 anos a caminho da calvície a sonhar com as eslavas do Champagne Club. Com o tempo e conforme as horas. E foi assim que me apaixonei por ela. Estávamos lá em Viseu quando num momento de gula descontrolada se engasgou e caiu ali mesmo redondo. homens das mudanças. dentro de um carro encarnado. as lágrimas seguiam-se umas às outras como fios de água e ela limpava os olhos com a doçura de uma criança.Mudar de vida Da minha casa vejo a segunda circular. as matrículas. A minha mãe chorou muito. Há de tudo dentro daqueles carros. comerciantes de congelados.

mas acho que temos muito em comum. está a ver? Todos os dias a vejo dali e não sei porquê. estendo a mão direita e digo: . se ela não me confundir com um toxicodependente e me fechar a janela na cara. se ela for mesmo a minha alma gémea.Bom dia. Vai sempre sozinha e eu conheço-lhe a cara de qualquer lado. sou professor de francês e estou apaixonado por si. estendo-lhe a mão esquerda e pergunto-lhe: . mas às vezes parece tão triste que vai morrer e nesses dias quase desejo que comece a chorar para que toda aquela tristeza não a mate. . e o seu olhar se cruzar com o meu durante mais de dois segundos.sempre as lágrimas lhe povoam a cara. que não vê na vida nenhuma alegria ou encanto e dou comigo a pensar que um dia destes saio do meu T3. No bolso esquerdo levo o anel de noivado que o meu avô deu à minha avó. o meu nome é Jorge Santos. dou as conjugações do être e do avoir e venhome embora a pensar naquela mulher que chora todos os dias a caminho do trabalho. E depois. que carrega o dia com lágrimas e tristeza.Quer casar comigo? É que às vezes bastam mesmo dois segundos e não mais para se mudar de vida e se ser feliz. mas eu não me importo. Vivo naquela janela. atravesso as barras protectoras e me ponho do outro lado da estrada à espera que ela passe. os meus alunos são miúdos entre os 13 e os 15 anos. a terceira a contar da esquerda. deve ser apresentadora de televisão ou uma coisa do género. chegam tarde e não ouvem nada do que lhes digo e ainda não conseguiram aprender a pronunciar o U com o sotaque correcto. aqueles olhos grandes. porque eu já vi aquele cabelo farto. bato-lhe no vidro do carro encarnado. estão-se nas tintas para a França e para o Napoleão. aquele nariz de boneca desenhado com mestria e arte. Depois saio e vou dar aulas.

fazia-te um bife do lombo com batatas fritas e ovo a . ela que tem dois filhos e nem sabes se são teus. que fica assim só de estar ali a fritar e tu trouxeste o menino para casa. acertei no alvo com as espingardas todas. diz a senhora que não cabe atrás do balcão. doem-me as pernas. como por exemplo o contador da água do vizinho nas escadas a paredes meias com o meu quarto a estrelar-me a paciência. vou à janela e puxo os estores devagar. reviro-me. os pés empurram-se um ao outro no fundo da escuridão que não suporto. acordo do nada. parece que saiu numa barraca da Feira Popular. os pés tocam o chão frio e encolhem-se. quem me mandou morar num segundo andar com a puta da lâmpada mesmo de chapa para os meus olhos. primeiro uma fresta. as rachas no chão da varanda. ou a lareira que afinal não fuma e me enche a casa de um pó nojento que me põe logo com um ataque de asma. mas o mais novo é tão diferente. tome lá este menino que é o prémio para quem tem tão boa pontaria. sete. vida tinha eu quando vivias comigo. isto sou eu a delirar acordada enquanto o sono não chega. ela diz que não come. três. por isso levanto-me. tem o teu nariz e as tuas sobrancelhas. a tosse não pára. que é viúva e quando o marido se cansou das farturas passou-as à Joaquina. viro-me. mas quando se compra uma casa nunca se vêem estes pormenores. solta-se o pó daninho que me sobe pelas narinas e desato a tossir. coitadinho. doze até a luz do candeeiro da rua iluminar o quarto. primeiro o corpo depois a cabeça. no tecto do quarto os faróis dos carros reflectem-se em listas de luz e eu só me lembro da minha mãe a dizer olha que ele não presta. tum. Com o movimento da persiana as cortinas estremecem. sou o maior. depois duas.Não me sais da cabeça Adormeço a custo. tum. tenho frio e sono e por isso volto para a cama à espera do torpor que não vem desde que voltaste para casa dela e afinal decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo. agora é a Joaquina que incha da manhã para a tarde. homem casado é uma praga. põe-no a andar antes que ele te dê cabo da vida Vida? Qual vida. doem-me as costas. penso eu deitada na cama. o mais velho deve ser.

bungallows para brincar às casinhas. Livre e fora de jogo estou eu agora. mas tu. era o que faltava. Mas um dia destes. desde que decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo. vou direitinha às farturas empanturrar-me de sonhos e fico ali a vê-los a engordar como a Joaquina e nesse momento. tum eu atiro e vocês morrem e a senhora que está atrás do balcão pisca o olho à Joaquina e diz-me tome lá os meninos que são o seu prémio e então eu pego nos catraios. cobarde. por isso um dia destes acordo e arranjo uma maneira de a cortar. mas primeiro corto o coração que é para me esquecer como dói o amor ay como me duele el amor lembras-te da música? A gente a dançar em Puerto Plata naquele hotel tão lindo mesmo junto ao mar. odeio-te e amo-te. imbecil. tu e ela. depois levaste-me para a praia e fizemos amor ali mesmo. sem que nada me acorde e então vou sonhar outra vez com a barraca dos tiros onde não há bonecos espalmados com um alvo no sítio do coração. amo-te e odeio-te. por isso é que te foste embora. além de não me saíres da cabeça também me ficaste no corpo. egoísta. talvez nesse momento me saias da cabeça e desapareças da minha vida para sempre. não me sais da cabeça. esparramavas-te no sofá a esvaziar os miolos em frente ao televisor e cada vez que o Benfica jogava abrias uma lata de Superbock e desenterravas do roupeiro um cachecol ranhoso e surrado e foi assim que aprendi o que era um canto. com ou sem coração. mas tu nunca soubeste o que era ser feliz. com ou sem cabeça. ainda sinto a tua carne cá dentro. vou conseguir acordar sem pensar em ti durante três minutos e depois adormecer outra vez. entre o êxtase da gula e o absurdo da visão dos pequenos a incharem como dois balões e a desaparecerem pelos ares atrás da Roda Gigante. tum.cavalo que te encostava às boxes em três tempos. de carne e osso. idiota. . um livre e um fora de jogo. estúpido. já lá vão seis meses.

porque parar é pensar e pensar é escolher e escolher é abdicar e tu nunca quiseste abdicar de nada e por isso é que nunca quiseste ninguém na tua vida. que não sabe se é o seu. cansados e esquecidos de nós mesmos. mas que a faz avançar só para não ficar parada. como se não fosse eu a olhar para ti. por uma vez na vida . homens e mulheres perdidos e imperfeitos à procura de uma luz qualquer. Eu à procura de uma pessoa a quem possa dar o meu amor e tu à procura de respostas para sobreviver melhor ao lixo do mundo. percebi que somos feitos de massas muito diferentes. e não me mexi do meu canto. mas um mundo inteiro de gente a observar-te. Há muitas formas de amar e de viver o amor.às vezes temos mesmo que mudar as coisas. quando elas não mudam como queremos .nunca pediste licença a ninguém para nada na tua vida . Eu a viajar para a alma dos outros através da minha solidão e tu a atravessar pessoas e continentes para te sentires ainda mais só. e como sempre nada de nós. marcando mentalmente os teus traços e defeitos. todos precisamos dele para não agonizar numa existência adiada e todos o vivemos de maneira diferente. A princípio olhavas pouco para mim. esperando que o tempo e a doçura me aproximassem de ti. Os teus olhos perdiam-se nas cores e nos objectos. daquilo que fomos. apenas mais uma pessoa no mundo. falavas muito de ti e pouco de mim. reduzindo-te ao que afinal somos todos quando ninguém nos ama. que é uma coisa que aprendi a fazer nos últimos anos com grande perfeição e serenidade.O número mágico Entraste como sempre. nas palavras e nos silêncios. Não sei de que massa somos feitos. mas eu fiquei sentada onde estava e. a seguir um rumo que não sabe se é o certo.e sentaste-te no sofá. mais ou menos a medo mas sem pedir licença . perdido nas cores e nos objectos da sala e me enroscava ainda mais no meu lugar do sofá. embora . ou somos. nós os humanos. ou afinal nunca fomos e eu comecei a ver-te de outra forma. mas enquanto te olhava e ouvia. sempre em guerra contigo mesmo e nunca em paz com o amor. catalogando-te sem o véu da paixão. que nos julgamos animais racionais e afinal andamos a vida inteira às turras com a vida.também fiquei à espera. e.

o bem e o mal.tão humanos quanto irracionais. querer. querer agora e depois. sem olhar para trás. cansada e esvaziada. se Deus castigou ou não Adão e Eva. que no fundo tens pena de não partilhar o sublime da vida. mas depois limpa-se a memória e apaga-se a dor e como o mundo é regido pelo número mágico dos pares. nas mãos de quem também quer amar. Pedro amou Inês. Não faz mal. o voo e a queda. os filhos amaram as mães. Fernando amou Ofélia. nas mãos de quem o sabe dar e receber. afinal não procuramos as mesmas coisas. abanavas a cabeça num gesto de suave complacência e seguias em frente na viagem ao fim do teu próprio mundo. Se me ouvisses pensar. como sempre fizeste com a tristeza e a vida. os pais amaram os filhos. pelo menos durante muito tempo. querer o mesmo ao mesmo tempo. mesmo que o amor tarde ou nunca chegue. isso agora não me interessa nada. acredita. Maria amou Jesus e Jesus amou a humanidade. que é viver para amar. porque sei que Dante amou Beatriz. querer viver. E foi então que percebi que deve ser isso o amor. um dia aparece outra vez o amor. Mas sei. Romeu amou Julieta. o céu e a terra. o pai e a mãe. rias-te dos meus clichés. a luz e a sombra. se não para sempre. porque sinto o teu coração a bater mais depressa enquanto ouves o que não te digo. e se Alá partiu ou não as laranjas no céu. o ar e o fogo. esse número mágico que rege a humanidade. querer construir alguma coisa a dois. o tempo e o modo. dói só um bocadinho. mesmo que alguém nos roube a alma para depois a devolver. . querer estar. O mundo sempre foi feito aos pares.

vou ao ginásio e à massagem. mas de forma a eu sentir que estavas mesmo a olhar para mim. e não a pensar no trabalho. à manicure. Ou quando tocas na ponta do meu cabelo e dizes está espigado Passas as mãos pelos meus joelhos e dizes vai à depilação Eu vou à depilação. garanto-te que é muito fácil. imóvel à nossa espera. mesmo sem ser durante muito tempo. eu faço tudo o que quiseres. quando acordo tarde depois de uma noite de amor. ou quando apertas o nó da gravata no espelho da casa de banho. sem pensar em nada. ou apenas os ponteiros do relógio. ou quando à noite te sentas em frente à televisão e te recostas para trás. ou para o peito encaixado numa camisa justa. mas para isso tinhas que olhar para mim. faço isso todos os dias contigo. meu amor. às vezes de manhã quando a cara espalmada na almofada te devolve uma expressão infantil. compro cremes caros e só visto roupa de marca. Era só olhar. ou se me mentes e fico triste como uma criança que perdeu o cão. ou talvez os delas também não sejam exactamente verdes e usem lentes de contacto. porque talvez assim eles ganhassem confiança e apagassem de vez os fios castanhos que os escurecem. no futebol.Olhar o coração Talvez eu não tenha os olhos exactamente verdes como certas actrizes de Hollywood. mas o que eu queria. ao cabeleireiro. à espera que o sono te leve para a cama. percebes? Não é como olhas para as minhas pernas quando me destapo a meio da noite. ou para a minha boca sempre que a contorno com lápis para ficar maior e te agradar. é que quando olhasses para mim os visses sempre dessa cor. eu faço limpezas de pele. nas contas da casa e nas jantaradas com os teus amigos. fixo no nosso olhar que se encontrava no espaço e se fundia num. Era tão fácil! Bastava-te olhar duas ou três vezes para mim todos os dias. mas tens que . era tão bom. talvez eu não os tenha daquela cor com que às vezes ficam. num abandono cansado. o mundo ficava em silêncio. Cruzávamos o olhar devagar e nesse instante talvez conseguíssemos parar o movimento da terra.

encolhas os ombros e digas deixe-se disso como se eu te estivesse a pedir o fim do mundo. pensar dá muito trabalho e sentir ainda mais. percebes o que te quero dizer? Se calhar percebes. como se tu fosses eu e eu fosse tu. ou tu os visses assim. mas para isso tinhas que olhar para o meu coração. dês o nó à gravata enquanto dou um nó na garganta. . gabares os meus dotes amorosos e regozijares-te com os meus triunfos profissionais. Nada vale a pena. dentro dela. me faças uma festa na cara. como se olhares para a tua mulher fosse tão difícil como escalar o Evereste ou espetar uma bandeira no ponto mais remoto de um pólo qualquer.olhar para os meus olhos e procurar lá dentro o que não se vê. elogiares-me porque até sei cozinhar e passar a ferro. ou então não vale a pena seguires-me os passos. te perderes neles com o mesmo entusiasmo com que uma criança experimenta um labirinto e sentires a vertigem do abandono de ti mesmo por outra pessoa. se não mergulhares nos meus olhos com a doçura aquática da entrega. te ris com a mesma expressão de miúdo com que te surpreendo de manhã na almofada. acredita. o que era ainda melhor. mergulhar neles e perceber que é aí o teu mundo. deve ser por isso que cada vez que tento explicar-te que seria mesmo mais feliz se olhasses de vez em quando para mim. Bastava olhares para mim com olhos de ver e talvez então os meus olhos ficassem exactamente verdes. mas como não olhas talvez também não oiças.

o prazer sublime de ser mãe. muito baixinho. dentro de ti. Foi comigo que te habituaste a dar sempre a mão a uma criança antes de atravessar a rua. a comprar presentes e a inventar surpresas. a pulsar no teu sangue. a rir com o sabor das gargalhadas dos outros.e mesmo que já fosses suficientemente crescido para entender a lógica da morte serias sempre uma criança. guardo-me para esse momento em que. Eras muito pequeno quando fiquei doente . o de saber que continuas vivo.por isso as recordações misturam-se numa névoa ao ouvido. lá toda. Se fosses uma rapariga. a brincar aos . podia partilhar contigo o segredo alquímico da maternidade. Por isso obedeço-te com a doçura dos moribundos e desço mais uma vez à terra pela mão de outra mulher para te falar de nós. a lamber a ponta dos dedos depois de bater a massa para o bolo de chocolate. a vida ganhará para ti um novo e único sentido. porque a morte nunca tem lógica para não fosse o coração a bater-te no peito não estavas vivo e a dizer-te os que ficam .Outro lugar Para o Hugo Quando se continua vivo depois de morrer. a inventar palavras. de sentir no pulsar apressado de um coração do tamanho de uma noz o poder de gerar uma vida. forte e determinada como tu. tenho a certeza. a falar baixinho com aqueles que amas. transformando dias banais em momentos inesquecíveis. Mas eu estou alguém parta para o céu ou qualquer outro lugar. mãos e cabelos. é fácil ser-se obediente. mesmo que numa tarde de Inverno o céu te apanhe numa curva do destino e tenhas que te afastar daqueles que amas. a fazer-lhe festas na cabeça para que os maus não lhe perturbem o sono. voz e sorriso. Foi comigo que aprendeste a dar beijos nos olhos de quem chora. para que a tua alma oiça melhor que entrelaçada e confusa onde desenhas os contornos da minha não vale a pena viver se não se amar alguém. carne e alma. mas como ainda espero e sonho que um dia queiras ser pai. mesmo que esse silhueta sem que lhe consigas dar corpo ou nitidez.

a saborear cada dia lambendo com prazer a ponta dos dedos e brincando aos mosqueteiros com o mundo. viajante. sinto-te só. passa-nos a vida dele toda pela frente e por isso eu sempre soube que serias assim. independente. Só as mães é que sabem isto. contente contigo e com a vida. sonhador. sensato. a lembrar-te que se . Mas quando te enrolas na escuridão do teu quarto e o ruído das ambulâncias te invade o sossego e te rouba o sono. sempre senti que só o mundo te chegava para seres feliz. mas já contavas histórias aos teus bonecos. com as costas sempre direitas e o olhar em frente. como se essa solidão escolhida que te protege e da qual tanto te orgulhas afinal te tivesse escolhido a ti e passo-te a mão pela testa a pedir-te para pensares menos e sentires mais. mas quando um filho nasce e o olhamos pela primeira vez. dizias que querias ser explorador e eu imaginava-te a atravessar o Atlântico à vela ou a escalar o Evereste. Eras muito pequenino e por isso talvez não te lembres. aventureiro. destemido. jogavas bem futebol.mosqueteiros com os talheres e a sentares-te à mesa como um príncipe.

não sei a quem saiu tão alta. mas na época não deixaram . não me recorda agora o nome dele.diz-me que estou velha. já não há respeito pelos mais velhos. despreza as minhas batas às florinhas que comprei à Isilda que as vende muito baratas à porta da padaria lá na Ajuda.e vá de me chamar velha e gorda. a gente ficava no parque e já era um pau. que sempre gostámos muito de fazer praia. com certeza . todos os verões para as Ilhas Espanholas e Gregas? No meu tempo quem viajava eram os ricos.quis registá-la com w porque era mais fino. A Vanda deixou de vir para o campismo. mas não faz mal porque eles parecem mesmo felizes e até vão casar e tudo. coitada da Isilda que nunca viu o mar nem passou férias num campismo tão bom como este. tira-me tudo. Porque raio há-de a miúda querer sempre ir para fora com as amigas. gasta e que não tenho imaginação e até se zangou comigo. Com o passar dos anos. Mas a juventude agora é assim. tenho muita vizinha lá na Ajuda que nunca foi ao Algarve. agora a nova tem dois quartos e uma sala. e eu gosto de me sentar cá fora com a Hilda e a Noémia a fazer crochet e a ver as revistas onde a menina Bárbara Guimarães aparece sempre muito bonita e fina com aquele senhor muito bem posto que foi Ministro da Cultura e que a Vanda diz que fixou o preço dos livros e fez muito pelo teatro. diz que tem vergonha da minha mesa de fórmica e do napperon debaixo do televisor para ele não escorregar. até tem uma despensa e tudo. Onde é que já se . já lá vão mais de 2O anos e a gente nunca se cansou daquilo. O Álvaro e eu. aquele bando de estouvadas que trabalham com ela na farmacêutica. quanto mais a Ibiza. eu sempre tenho as minhas comadres para a conversa e ele os amigos prós tremoços e pràs imperiais ao fim da tarde e quem me tira o meu campismo.Palácios de lona A Vanda . o raio da rapariga olha-me de cima para baixo . comprámos uma tenda a seguir ao 25 de Abril e passámos a ir para o Campismo do Caparica. gorda. deve de ter sido da alimentação. a gente trocou de tenda. despenteia-me os cabelos brancos e quer que eu faça madeixas. deixe de comer pão e compre sapatos modernos. tudo por causa das férias.

o mundo está mesmo do avesso. Só pensa em comprar um carro. comprar uma casita e casar. eu oferecia-lhe um Campari e uns aperitivos e fazia uma inveja de morte à Noémia e à Hilda com um genro de se lhe tirar o chapéu. Convidava-o para vir aqui ao campismo provar as minhas sardinhas assadas que o Álvaro tanto gostava. mas o que é que uma viúva gorda e cansada como eu há-de fazer? A Noémia disse que a filha era o mesmo problema. Outro dia apareceu lá em casa um fulano de cabelo espetado e uma tatuagem no braço a levá-la para jantar e nessa noite nem dormiu em casa. os filhos a quererem educar os pais. os mais novos a mandarem nos mais velhos. bem me dizia o Álvaro quando ainda por cá andava que eu estragava a miúda com mimos e tinha razão. quer roupa de marca e relógios a imitar os das raparigas que aparecem nas revistas. gasta-me um dinheirão em sandálias e colares e já não sei o que heide fazer para a convencer a encontrar um rapaz decente. sentávamo-nos os três cá fora no alpendre do meu palácio de lona. que também tinha a mania de ir de férias para Espanha e eu pus-me a pensar que se aquele senhor com um ar tão fino que se vai casar com a Bárbara Guimarães conhecesse a minha Vanda e se interessasse por ela é que era mesmo uma sorte. .viu. só pensava em roupa e nos rapazes.

aluguei uma casa com 4 assoalhadas no Areeiro. Mas nunca fiz magia negra nem mudei o destino a ninguém. as traições. menos nas mãos daqueles em quem a morte está tão marcada que eles a vêem sem sequer saber e por isso nem pensam em fugir dela.Na palma da mão Desde pequena que sou assim. quase divina. acreditem. ministros. comerciantes invejosos. traficantes. maridos ciumentos. assassinos. o presente e duas ou três coisas do futuro. o sucesso. Quando se trabalha com os medos e os sonhos dos outros. basta-me olhar para as pessoas que lhes leio logo o passado. os acidentes. Fui consultada por políticos. É horrível. dela herdei o nome. o gosto escondido pelo . gente de bem e gente do diabo. Se calhar foi por isso que nunca me consegui apaixonar por nenhum homem. raparigas apaixonadas e abandonadas pelos namorados. já lá vão mais de 40 anos. pobres. empresários. sentia um estranho poder. as doenças. chefes de polícia. mas sobretudo o medo que todos tinham de morrer. Quando se vê tudo antes de tempo perde-se o interesse. milionários. prostitutas. uma espécie de luz rara. Vidente e Cartomante. alcoólicos. as fraquezas interiores. Como é que eu. lialhes os filhos. Eu via-lhes as mentiras. a infância castigada. o dinheiro. aparece-nos de tudo e pedemnos as coisas mais estranhas. como se viesse directamente dos dedos de Deus para me iluminar cá em baixo. filha de um pastor da Lousã e de uma lavadeira a trabalhar como criada de fora em casa de gente abastada fui nascer com este dom de saber o que os outros todos queriam? A minha avó que morreu no dia em que nasci também era assim. viúvas desocupadas. o amor e o ódio. as manias e as taras. e como parece que os nomes também carregam um destino próprio e incontornável. foi o dom adivinhatório que me fez fugir para Lisboa aos 18 anos e alugar um quarto na Almirante de Reis e começar aí o negócio. ricos. Com as mãos estendidas sobre as minhas. Quando era nova e comecei a ganhar dinheiro com os medos e os sonhos dos outros. é mais forte do que eu. Serviços Aurora. é assim na vida e sobretudo no amor. ladrões. Bastou um anúncio no Diário Popular e em menos de 6 meses subi na rua e na vida. Aurora.

sem sinais nem traços. procuro ainda a marca já esbatida de um grande amor que me ia dar um filho e que afinal nunca se cruzou no meu destino. as mãos de alguém que pode mesmo ser dono do seu destino. como tantas vezes acontece aos homens quando pressentem que encontraram a mulher da sua vida. Não deve ter visto o anúncio. lisas como pedra polida. Mas essas mãos nunca me apareceram. por isso agora que penso em reformar-me a ir viver outra vez para a Lousã onde o meu pai me ensinou a pensar em nada enquanto pastava o rebanho. brancas e enormes. E na palma das minhas.vinho. fecho os olhos cansados e sonho com as mãos de Deus. Percebi que o meu dom era uma maldição inútil que só servia para ganhar dinheiro e comprar vestidos chiques nas lojas de marca que foram abrindo na Praça de Londres e na Avenida de Roma. como se quisesse contrariar as linhas do destino em que tanto acreditava. ou então. as varizes nas pernas. montes. desistiu no último instante que precede as grandes mudanças. as mãos das pessoas são um livro demasiado aberto mesmo para quem não sabe ler. sem linhas. não tocou à campainha e desceu as escadas a fugir da sua própria vida. que me trouxessem o mistério do amor e o sabor do desconhecido. cruzes e marcas. . Comecei a sonhar com umas mãos lisas.

até me ofereceu um livro do José Agostinho Baptista e numa destas noites de lua cheia veio ter comigo ao telhado e sentou-se ao meu lado a ler-me poemas. entre a uma e as duas. Quando começar a tocar violino e for músico numa orquestra. Passo os dias a dormir depois de voltar da escola e à noite saio pela janela do meu quarto. com os esses arranhados pelo aparelho nos dentes que lhe fica a matar. parece que traz o arco-íris na boca. quando acabou de ler este poema. ontem à noite.Poesia nocturna Tenho a mania desde pequeno de subir aos telhados. porque apesar de sermos grandes amigos e de no calor da noite lhe afagar os peitos com as minhas mãos de aprendiz sequioso. Tinha lágrimas nos olhos. tem um aparelho nos dentes cheio de cores. mas como também gosta de ir ao Mac Donald's e deixa que eu lhe desaperte o soutien nem me importo de a ouvir a dizer poemas ao ouvido. . mas eu não me ralo. compro um telescópio e aprendo as constelações todas de um dia para o outro e depois já posso convidar a Ana Cristina para vir comigo para o telhado contar as estrelas e namorar a Lua. Uma noite / quando o mundo já era muito triste / veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito / e aí como um queixume / ouviu-se essa voz da dor que já era a tua voz / como um metal fino / uma lâmina no coração dos pássaros / Agora / nem o vento move as cortinas desta casa / O silêncio é como uma pedra imensa encostada à garganta. Deve ser por isso que a Ana Cristina tem aquela pancada. a Ana Cristina. Anda comigo na escola e é um bocadinho tímida. Bento. ela estava sozinha e muito triste. A mãe dela é jornalista e passa a vida a dar-lhe livros para ler. encharcada em calmantes. A avó dela já dormia. Ela é que me contagiou com esta mania da poesia. A minha mãe que faz rissóis para fora desde que me conheço diz que sou maluco. Percebi que era por causa de mim. A Ana Cristina tem 15 anos como eu. nunca lhe pedi para ser minha namorada. e vou ver a Lua e contar as estrelas. A mãe dela foi fazer uma reportagem para Espanha. que vivo no mundo da Lua e que tenho manias de artista. aquilo dá-lhe uma certa poesia. numas águas-furtadas em S.

Se calhar não devia ter nascido homem. passar férias a Manta Rota e pintar a manta e elas é só bilhetinhos com ursos e corações. A Ana Cristina não me percebe. é como se me aquecesse o coração. um gajo quer ir ao futebol. eu e os meus amigos do bairro. acho que nunca conheci uma miúda assim inteligente e doce como ela. cego / abandonado pelas chamas do mundo. As miúdas só pensam em namorar e em casar e em ter filhos. era um corvo a guardar a cidade. . que o mundo está à minha espera para lá dos telhados de Lisboa e que a minha terra é onde eu pousar. um dia tocar numa orquestra com o meu violino. tem que partir e voar. ir para o conservatório e tirar o curso de música. é uma chatice. viajar pelo mundo e conhecer muitas raparigas de muitas nacionalidades.Eu não sei como é que hei-de explicar à Ana Cristina que só tenho 15 anos e nesta idade divirto-me mais a ver filmes pornográficos enquanto bebemos umas cervejas. ninguém me via diluído na noite escura e chegava mais perto da Lua. Mas o que é que um gajo com 15 anos faz com uma namorada? Aquilo iame atrasar a vida. Eu até gosto da Ana Cristina. eu quero é divertir-me. uma seca. A Ana Cristina também me leu outro poema que dizia assim: Roubei ao corvo a sua cor / esvoaço pelas muralhas perdido. só volta às vezes e eu quero pensar que não preciso de voltar. Um homem é sempre um pássaro. tem um riso cristalino e um olhar de cão que perdeu o dono. afinal de contas não passa de uma miúda de 15 anos com a cabeça cheia de poesia e a boca cheia de ferros.

Pois não, António?
Ao António Lobo Antunes

Às vezes, passo uma manhã inteira à espera de uma palavra, e ela não vem, disse António Lobo Antunes numa entrevista à TSF por ocasião do lançamento do seu último romance Que farei quando tudo arde? O mesmo António que colabora como cronista regularmente na imprensa, que brinca com as palavras como se nunca se cansasse, que encolhe os ombros à vida porque a vida é a escrita e pouco mais do que ela, que com a idade desendeusou mitos e heróis, que ao autografar dezenas de livros sem respirar pelo meio, olha cada leitor à transparência, metade médico, metade escritor. O mesmo António que foi à guerra e voltou outro, que a imprensa começou por criticar ferozmente e que agora se tornou um mito, uma referência, um símbolo de sofisticação cultural. Mas eu olho para o António e vejo uns olhos azuis que parecem estar sempre a fugir da cara, como se carregassem toda a tristeza do princípio do mundo e na voz arrastada e de tom baixo que parece ter-lhe sido gravada como um inalterável e tirânico código de barras o menino fale baixo, ouviu, o menino fale baixo para não incomodar os mais velhos e quando os jornalistas falam com ele, entusiasmados com a “oportunidade” de o poder entrevistar, vejo-lhe as mãos num tricot recatado, os ombros em esforço como se carregassem toda a tristeza do princípio do mundo e dou comigo a pensar porque é que nós escritores somos estes bichos estranhos e tristes, quase sempre longe dos outros e nunca suficientemente perto de nós próprios. Gostava de ter conhecido o António quando ainda era pequeno, imagino-o de calções, loiro e lindo como um querubim, a brincar com os irmãos no jardim da casa de Benfica, dizendo loucuras aos pássaros e escondendo as primeiras palavras atrás de outras - como sempre fazemos quando a escrita toma conta de nós. Eu podia ser a filha de um vizinho - talvez alfaiate. Alfaiate é uma boa profissão para o pai de uma rapariga sonhadora - e o António piscava-me o olho e

convidava-me para ir à geladaria saborear um copo de gelado de caramelo e depois íamos à pastelaria comer ducheses e beber leites Vigor, daqueles da garrafa gorda e pequena, com ar de portuguesa, com a tampa verde alface e um gargalo generoso. A casa dele e a minha ainda lá estão, mas a geladaria foi substituída por uma loja de telemóveis e como ainda não me habituei a perder o que mais gosto, cada vez que passo pela Estrada de Benfica, continuo a procurá-la, como se tivesse outra vez seis anos e não chegasse nem a meio do vidro do balcão para pedir uma bola de caramelo e lamber deliciada a colher de plástico que fazia barulho e servia para dar o almoço às bonecas, depois de ter desenhado vogais e consoantes no caderno de capa ilustrada com uma história atrás que terminava sempre com o moral da história. Porque escrevemos, não sabemos; para quem, quase nunca dizemos; e como, não fazemos ideia. Escrevemos porque achamos que ninguém nos ouve, porque a loucura anda por perto, é uma forma de a distrair, porque somos sádicos e masoquistas, porque sim e porque também. Escrevemos porque não sabemos fazer mais nada, porque a solidão e o silêncio que o trabalho nos empresta é o que nos salva do cansaço e do desencanto, porque os sons e as palavras mandam mais do que nós, porque o tempo que passamos a lutar por elas ou contra elas é tempo que não temos que passar com ninguém e o mundo assim pode ser uma concha e talvez assim ninguém nos faça mal. Escrevemos para perder o medo, para impressionar aqueles que amamos, para esquecer e matar os que não nos souberam amar, para que o mundo não nos passe ao lado. Mas há sempre mais e mais palavras e ideias que nos perseguem, por isso é mesmo difícil explicar aos jornalistas que nos perguntam o porquê das coisas, quando já percebemos que tudo o que é verdadeiramente importante não tem nem precisa de explicação nem de moral da história, como nos cadernos da primária. Pois não António?

Por um fio
Há várias luas que não sinto o teu cheiro. Dantes, quando a distância era apenas ditada pela nossa vontade, bastava-me inspirar um pouco mais fundo e seguir a direcção do vento para te apanhar no ar. Ou então procu-rava na bola dourada que Deus pendurou no céu o caminho mais curto nos reflexos dos raios para te encontrar, e num instante mergulhávamos juntos. Era o tempo em que corríamos muito depressa e era sempre pouco porque podia ser o último e por isso nunca nos cansávamos de correr atrás dele. Era o tempo em que o nada era tudo, as palavras silenciavam-se mesmo à porta da casa sempre com as persianas corridas e a música ia dizendo o que não sabíamos explicar nem queríamos esquecer. Nesse tempo, eu fingia que já não me doía a distância e tu convencias-te que era melhor assim. E depois, quando era obrigada a regressar ao mundo dos mortais e o Sol do fim do Verão me aconchegava os ombros à saída, respirava fundo e apertava as mãos com muita força no volante e lembrava-me daquela frase do Pedro Paixão a dor afasta a dor e experimentava isso mesmo, enterrando as unhas na palma da mão inversa, para esquecer as tuas mãos na minha pele, a tua boca na minha nuca, o teu olhar dentro do meu. Foram tempos difíceis, eu a olhar para a Lua e a encher-me de luz só para te ver e tu a planear a tua vida sem mim, sentado no lugar do avião, metade de ti já estava fora daqui, só o corpo e a logística te mantinham por cá, preso por um fio, como sempre estiveste preso a tudo na vida e a quem quer que te tocasse no coração. Depois de partires, aprendi a esquecer-te nas ruas da cidade, descobri que afinal o oxigénio também me alimentava os pulmões mesmo sem o teu ar e que afinal o Sol brilhava da mesma maneira e o vento que me batia na cara era mais doce e sereno. Aos poucos, sem saber bem nem como nem porquê, o coração e o corpo foram aprendendo o encanto do sossego e as noites deixaram de ser longas. Não sei se te esqueci, parece-me que não é bem isso, nem se deixei de te amar, porque aqueles que já amámos nunca se vão embora, é como se vivessem para sempre dentro do nosso coração.

ou o teu . quase impessoal. pelo contrário. O meu coração . ou se os joelhos indiciariam em subidas e descidas involuntárias um ligeiro ataque de pânico se nos cruzássemos na rua. que não me faria sequer virar a cabeça e seguir-te os passos no caminho inexorável do afastamento. o dia de hoje. nada é certo nem seguro. mas quando a Lua se enche e me apanha desprevenida num regresso a casa. ou se. um fio que imagino inquebrável e eterno onde o meu desejo se estica até ao limite do prazer e é quase como se te apanhasse no ar e mergulhássemos outra vez juntos num mundo só nosso. o instante que se segue. tenso e invisível. olho-a consolada e cheia e volto a sentir outra vez a mesma ansiedade.podem de repente deixar de bater. o próximo minuto. . te estendia a cara para trocar um beijo rápido.Não sei se a pele da palma das mãos voltaria a secar só de pensar que te podia ver outra vez. nada se agarra a não ser por escassos instantes e a vida ensina-nos num treino doloroso de magro consolo a aceitar na perda uma vantagem qualquer. e o teu cheiro regressa trazido pelo vento que sopra outra vez mais forte e eu volto a sentir um fio. Não sei como é a vida.

acabaste comigo vezes sem conta para depois voltares quando o remorso. achavas-te giro e muito interessante.amigas minhas. numa inexplicável metamorfose. gravar discos e deixar crescer o cabelo.e foste o melhor amigo do mundo até conseguires ser meu namorado e depois. tinha razão.Pukunina outra vez Para o Pedro Granger Quando vi a tua cara espalhada pela cidade inteira nem queria acreditar. mas com 15 anos já fazias mais barulho do que a turma inteira junta. com o mesmo sorriso malandro e o olhar doce doce de quem nunca vai querer crescer. compunhas músicas que tocavas na viola e escrevias letras de serrar corações ao meio. não sei porquê . tornaste-te o pior namorado do planeta.lembras-te daquela vez que me mandaste uma couve flor embrulhada? E quando me deste uma geleira cheia de Magnuns Clássicos e outras delícias? e dizias que querias ser cantor pop. mais baixo do que o habitual. achas bem? . Andávamos no décimo ano. oferecias-me presentes absurdos . quando eu já pensava que o meu sangue jamais correria pelas veias sem estar misturado com o teu. Desaparecias nas férias. e já na altura tinhas a mania que eras diferente.três. ou aquela coisa inevitável a que só muito mais tarde aprendemos a chamar amor te punha outra vez no meu caminho. curtiste com três . adoravas os kapas. A minha mãe encolheu os ombros e disse acabaram-se as dores de cabeça e. mentiste-me e manipulaste-me. E um dia. Saliente. ou as saudades. Tu. Eras pequeno. foste estudar teatro para Londres. . o primeiro rapaz que me amou e me deixou. dizia ela abanando a cabeça e depois rematava esse miúdo vai-te dar cabo da cabeça Chamavas-me pukunina .escrevias sempre com kapa. como sempre acontece às mães nestes assuntos do coração. A minha mãe ria-se de ti e chamava-te saliente.

vivo sozinha num apartamento na Graça com vista para o rio. emagreci e fiquei mais alta. canso-me deles e fico sentada à janela a olhar para o rio e a ver os aviões que vêm do Brasil a roçar o meu telhado. deve ser por isso que sabe tão bem lembrá-lo. Que piroso que é o amor. Até porque na vida há só duas ou três coisas que nunca mudam e o amor é de certeza uma delas. por isso brinco ao gato e ao rato com os que se aproximam. me chamasses pukunina e me deixasses cartões com ursos abraçados debaixo da almofada para eu só descobrir na manhã seguinte. mas é só para espreitar. durmo com um ou outro que vagamente me interessa. Mas outro dia. deixei crescer o cabelo. deu-me vontade de voltar a casa dos meus pais. .Com o tempo esqueci-me das tuas músicas e das tuas mentiras. tenho quadros de pintores conhecidos na parede ao lado de fotografias do Man Ray e descobri que a sofisticação é uma arte difícil mas gratificante. estou uma mulher e pêras. Pedro. quando vi a tua cara espalhada por toda a cidade a publicitar um champô qualquer e reconheci no teu sorriso malandro o rapazinho que nunca quis crescer. Não tenho pena de ter o coração fechado. nunca fica muito tempo e eu regresso às galerias e aos amigos intelectuais. Quando uma mulher não ama um homem gosta de vários. estender-me na cama e deixar que me embalasses outra vez com as tuas músicas e as tuas mentiras. Deus dá-me os homens que eu quiser. é muito mais fácil viver assim. que me fazem sentir inteligente e segura. apaguei do corpo os primeiros traços do amor carnal. formei-me e agora nem me ias reco-nhecer. por isso tornei-me muito requintada em gostos e atitudes e como não sou feia nem parva. De vez em quando abro um pequeno compartimento e alguém entra.

já vinha a Jessica a caminho e eu nem cabia no vestido mas também não fazia mal. Luís Pedro. Dizem que os homens não têm instinto paternal mas eu tive mesmo sorte contigo. quando nos casámos.Rica e fina Agora que fui promovida na empresa e que tu foste aumentado. Luís Pedro. és tu que tratas dela quando está com febre. gosto é de comprar as revistas de moda e as das festas para ver como se vestem as senhoras do Jet Set e quando gosto de um modelo. vou a casa da Delfina aqui no rés-dochão e ela faz-me tudo igualzinho. e de que não me ocorre agora o nome. Sempre soubeste mudar fraldas e tratar da menina melhor do que eu. fazes da Jessica o que queres e ela olha para ti como um deus. Ao teu colo ela bebia mais depressa o biberão e quando cresceu comia mais depressa a papa e quando toca a adormecê-la vais lá e aquilo é tiro e queda. vais a meio da noite à farmácia buscar ao antibiótico e dás-lhe banhos tépidos . que lhe compras o material escolar e vais às reuniões de pais.tépidos. . muito linda. mas a Delfina que tem mais de 4O anos e uns óculos que parecem as lentes daquelas lupas gigantes que servem para observar as estrelas. apetece-me comprar tudo novo. Eu é mais mobiliário e roupas. costura com habilidade e rapidez e foi assim que consegui levar ao casamento da tua irmã Elisabete uma cópia de um vestido muito fino que aquela fadista nova. foi a palavra que o pediatra usou. Eu não gosto do marido dela que cheira a sono e a sarro. é uma santa. tudo novinho em folha para o nosso andar espaçoso e ensolarado que comprámos com o crédito jovem à taxa de juro fixa. nem do cão que parece um chouriço anémico. És tu que a levas à escola de manhã. não é como dantes que nos punham uma cruz em cima e nos chamavam vadias. Hoje em dia as raparigas casam todas grávidas e já ninguém se importa.até que a febre baixe e ela adormeça com a cabeça sobre os caracóis iguais aos teus. não foi? . há sete anos. coitada. galdérias e desavergonhadas. que tem uma voz de canário chamada Mafalda qualquer coisa em estrangeiro que não sei pronunciar levou outro dia a uma gala.

É que tu tens que perceber. quadros grandes. mas tens que ser compreensivo. porque o Doutor Gustavo não faz isto com mais ninguém lá da empresa e a gente tem mesmo muita sorte em ser tão feliz e poder dar à Jessica todas as barbies que ela quiser. daquelas que se vendem nas lojas modernas e vais ver que daqui a dois anos vendemos este andar e compramos uma casa geminada na margem sul e eu já posso comprar o que quiser quando andar a ver as montras do Colombo. mas eu tenho que ter o meu automóvel.Eu devia ter nascido fina e rica. Luís Pedro. um lustre moderno e uma mobília de casa de jantar preta com cadeiras de espaldar. espero que não te importes. . maples de pele. levá-la a passear aos jardins do Palácio de Queluz e imaginar que ela é uma princesa. eu tenho um futuro. que eu não sou uma simples vendedora de seguros como tu. uma carreira e o Doutor Gustavo lá do laboratório diz que me vai levar para a Alemanha para eu fazer um curso de formação agora que fui promovida e tu. não nasci para passar os dias enfiada no comboio na linha de Sintra até chegar ao laboratório. para ir ver as montras ao Colombo e passear a menina duas vezes por ano quando os instintos maternais me sobem à pele. São só cinco meses. Luís Miguel. nessa época éramos mesmo pobres. desculpa lá. Ficaste furioso. ficas cá com a menina. Luís Miguel. foi por isso que comprei o automóvel a prestações sem te dizer nada. passa num instante e quando eu voltar compramos tudo novo para o nosso andar.

nem deixou os dois filhos entregues à madrasta sem saber o que estava a fazer. Maria da Luz. chorei. por isso é que quando vejo as mulheres lá daquela terra onde os americanos acham que se esconde o maluco das barbas que rebentou com as torres gémeas na América. não corre atrás de um rabo de saias? São todos iguais. vê lá tu. que não largava a porta da Arminda? Todos iguais. Havia de ser no meu tempo. Maria da Luz. penso que a gente ainda tem muita sorte. ir-se embora só porque o marido anda metido com uma colega do trabalho. É por causa delas que agora por dá cá aquela palha estes casais novos se separam e emparelham logo com o primeiro que encontram. podemos rir e falar. é o que te digo. Devo-me ter habituado. Não eles não são como a gente. Bebedeiras. pancadaria em nós e nos miúdos. se não era a mesma coisa? E o Manel. a gente começava logo a apanhar quase no berço. quando era novo. e os telejornais e aquelas raparigas que apresentam os programas que deram a volta a isto.Só se vive uma vez Sabes o que te digo. Foi a televisão. percebes? Isto é tudo uma pouca vergonha. vive junta sem o consentimento de Deus. porque a primeira vez que o Manel me levantou a mão. da minha mãe aos meus irmãos e o cão era o último a apanhar. Então e depois? Qual é o homem que. a gente anda cá para criar os filhos e aturar os homens. não teme nada nem ninguém. insultos e desaforos. o meu pai chamava-lhe a dose. olha o teu Aníbal que Deus tem. e as novelas. quais mulas. comer e beber à fartazana e de vez em quando o nosso homem até nos trata bem. o sítio onde eles deviam ter o . outras mulheres. nem nos matam à pedrada. se era a sopa que estava azeda ou eu tinha chegado mais tarde. chegava a casa e ferrava a todos. mas a vida é isto. Mas aquela rapariga. é que a rapariga não abalou por acaso. ao menos cá não nos tiram os filhos. santo Deus. Já não me lembro do que foi. mesmo sendo casado. Agora isso mudou. fiquei sem perceber se ele afinal tinha razão ou não. mas depois calei-me e até. No nosso tempo é que a gente aguentava tudo. toda a gente se casa e descasa.

paciência. Quem vive menos. Têm medo que a gente não goste deles. E se ele fosse atrás de mim e me matasse. não têm que parir os filhos. agora são elas que ganham mais e compram carros e mandam neles e sabes que mais? Eu até acho bem. mas a gente vê que as coisas mudaram. eles têm medo da gente. E depois sabes. nunca percebi muito bem o que era a repressão porque a seguir ao 25 de Abril o Manel continuou a dar-me no lombo e a liberdade continuou a ser o nome de uma avenida. dar-lhes leite e amor. Maria da Luz. fiquei aqui no bairro. senti-me mais protegida e afinal para quê? Se fosse agora fazia como a outra e abalava daqui para fora. comer e dormir. porque somos mulheres e eles não percebem nada da casa e dos filhos e disto tudo. como tu e todas as comadres daqui do Bairro Alto. Sabes que eu podia ter feito o mesmo. não têm dores como a gente. Conheci um conde francês que também me queria levar para a terra dele. mas se eu pensar bem e for sincera. percebes? Porque os homens não engravidam. Tá bem. Eu já sofri muito. eu acho que a rapariga fez bem em abalar com o estrangeiro. ao menos vive melhor. mas eu já namorava o Manel e olha. têm medo de nós porque somos diferentes. que a gente os engane como eles nos enganam a nós. que só se vive uma vez e eu cansei-me muito desta que já vivi. quando era nova e cantava fado ali na casa do Tio Domingos. Um dia vem cá buscar os miúdos e. só têm que chegar a casa ao fim do dia.coração. têm a bola e os copos com os amigos. . mas não é isso que os ocupa. lá na Alemanha a tratam melhor do que aqui. Maria da Luz. está lá uma bomba-relógio que explode se os tipos não se metem com as mulheres. quem sabe.

mas de que valem esses pequenos contratempos se estás lá em cima à minha espera de braços abertos. eu não me importo de subir todos os dias de Santos até à Rua de S. se está a chover é que é pior.A subida do prazer Sabes Eduardo. mas como não conseguimos viver sem a ilusão do engano adquirido. sonham que os filhos vão para jogadores do Benfica e convencem as filhas a concorrer ao Big Brother e a televisão tomou conta das pessoas. quando éramos tão novos que nem sabíamos que a terra gira sempre para o mesmo lado mas nunca no mesmo sentido nem da mesma forma e que tudo o que nos acontece pode até parecer uma repetição de uma repetição de uma repetição mas é ainda e sempre outra coisa porque o tempo é isto mesmo. os pés patinam na calçada como se tivessem vida própria e o vento vira-me o chapéu de chuva em concha para o céu. agora vão lá os rapazitos do Pingo Doce. mas falta-lhes o lápis atrás da orelha e aquele ar humilde do povo durante o Estado Novo que se engrandecia com a tristeza e passava pela vida sem ambições. tinhas que te casar com a rapariga mais bonita e cobiçada da nossa geração e nessa época os casamentos ainda se faziam por conveniência. toda a gente quer ter televisões em todas as assoalhadas. essa flausina de peito farto e sorriso fácil que te deu a volta à cabeça e ao resto. Félix para te ver ao fim da tarde. o meu tio Bernardo tinha negócios em África com o teu pai e as mães jogavam bridge todas as segundas-feiras em casa da minha mãe. levavam-nos as mercearias a casa. que o digam os teus amigos mais próximos e até os distantes que por lá andaram. Mas deu-te para aquilo. lembras-te? Nessa altura é que o Bairro da Lapa era o que agora as pessoas gostam de imaginar que é: um lugar civilizado e chique. Luís. como há quarenta anos. a ti e a mais meia Lisboa. eu subo outra vez o Bairro da Lapa para ir ter contigo. boa gente sim senhor. Agora não. Nunca te devias ter casado com a minha prima Carlota. seguro e sossegado onde só vivia gente conhecida e como havia poucos carros nunca faltava lugar para estacionar. nunca volta ao que foi e nada regressa a nada. mas como em tua casa a .

por isso subo todos os dias a Rua de S. . vejo sempre o rapaz por quem me apaixonei há quarenta anos. Foi preciso chegar a velha para me sentir outra vez rapariga. por isso quando entro na tua casa cheia de pó e me passas as mãos pelos cabelos. também deves ver a mesma rapariga que há quarenta anos se apaixonou por ti e deve ser por isso que me sorris como uma criança a quem acabaram de dar um brinquedo novo e eu sinto-me outra vez leve como uma pena. quando nem imaginávamos que o país se ia virar do avesso com a revolução e África se perdia para sempre no sul do mundo. eu subo todos os dias a rua para te ir ver.televisão está sempre desligada. primeiro chamaste-lhe modernices mas agora já gostas e dançamos os dois como há quarenta anos. mesmo que seja por instantes. Sentamo-nos na sala e tu pões um disco do Gardel ou do Julio Iglesias que te ofereci no Natal. mas o olhar é o mesmo. o coração bate sempre mais depressa e ajuda-me a completar a subida a caminho do prazer de poder ser tua outra vez. chamam-me velha gaiteira e solteirona doida. mas eu não me importo porque agora que és viúvo é que a vida me voltou a sorrir. Félix para te ver e embora saiba que tudo não passa de uma ilusão que a velhice engrandeceu na minha senilidade. cabe o mundo inteiro lá dentro e as mãos não enrugaram assim tanto. As minhas amigas riem-se de mim. o cabelo está mais grisalho e as costas mais curvadas. ao som do Gardel ou do Julio Iglesias. Estás cansado mas não te acho velho porque quando te olho.

quando o marido fugiu para a América do Sul. Somos colegas de serviço há quase dez anos. quando rebolava as coxas firmes debaixo dos meus olhos e me batia as pestanas carregadas de rímel quando descíamos para beber café. no Verão. cada vez mais agitada e queixosa e eu deixei de gostar dela. muito nervosa e agitada. enquanto os traços da tristeza e do abandono não lhe escreveram a sina debaixo do lábio . mas as mulheres são assim. a Fernanda e eu. mas a Fernanda encolheu os ombros e atirou fumo para a cara de toda a gente. e há quase dez anos que saímos a meio da manhã para beber um café e falar da vida. cansada e chata. sobem sempre ao cadafalso sem que ninguém as empurre. com quarenta graus à sombra. eu pensei que a Fernanda ia ficar aliviada e talvez então eu tivesse a minha oportunidade. horas. dias. que cheguei mesmo estar apaixonado. mas apenas desejado as suas coxas enquanto eram firmes e a sua cara. a marcar-lhe os nervos. Talvez seja eu que esteja errado. A Fernanda foi casada e teve dois filhos. costuma dizer-me a Fernanda. começou a revolver os papéis em cima da secretária e ninguém teve coragem de lhe perguntar nada. quando vamos beber café a meio da manhã e ela fuma três cigarros seguidos. a Fernanda chegava ao serviço com a cara marcada e uma vez. a pressa. gorda. como se o mundo fosse acabar dali a muito pouco tempo. enquanto beberica o café em golinhos microscópicos. Mas o tempo foi passando e ela foi ficando feia. depois de dois filhos e muitas nódoas negras. os nós dos dedos que chocalham uns contra os outros e a marca de tensão escrita numa linha abaixo do lábio inferior. parece que o marido se metia nos copos e de vez em quando lhe batia. por isso. apareceu de gola alta e mangas compridas e toda a gente estranhou. ou talvez mesmo minutos e eu fico a olhar para os olhos encovados e as mãos em guerra uma com a outra. Acho que nunca percebeu que gostei dela. talvez afinal nunca a tenha amado. à velocidade da luz. cada vez mais nervosa e fumadora. o desassossego e o medo de parar.Talvez não Nunca tenho tempo para nada. Estava noiva e já sabia que ia ser infeliz.

inferior. Ou talvez me esteja apenas a vingar do facto dela nunca ter tido tempo para mim. Se lhos tivesse mostrado. diz a Fernanda e eu olho-a com uma saudade parda. a não ser para tomar um café a meio da manhã e para me pedir dinheiro emprestado para comprar uma play station ao filho mais velho. Não tenho tempo para nada. só querem a perfeição e só sabem sonhar acordados. talvez tudo fosse diferente. . mas os poetas são assim. de escrever poemas e de sonhar acordado com a Fernanda ou com outra mulher qualquer. Mas talvez não. entre as baforadas de fumo e a rotina castradora. de quando ainda me sentava à mesa e não conseguia trabalhar. saudade do tempo em que a amava. Talvez eu também esteja a ficar velho e cansado e me tenha esquecido. saudade do tempo em que a julguei bela e perfeita. talvez ela se tivesse apaixonado por mim. e lhe escrevia poemas de amor. talvez eu tivesse comprado a play station para o nosso filho.

cadeiras. a não ser a cómoda inglesa e o espelho de talha dourada encostado à parede. Mudei tudo: tapetes. o que é bom é poder olhá-los todos os dias quando acordo e respirar nas suas cores os sabores da diferença e da novidade. sofás. nem as cortinas de flores. Nem as mesas de cabeceira. nem sequer a colecção de escovas de prata da minha avó Henriqueta. agora que fui promovida a directora e tenho duas secretárias e uma assistente pessoal. ou daquilo que fomos. As molduras com as nossas fotografias hibernaram para uma caixa de sapatos porque não me senti bem a esventrá-las para lhes colar outra imagem e por isso apaguei-as do meu campo de visão. mas isso também não me interessa. nas cadeiras românticas senta-se agora outra família. ao menos assim lembro-me menos de ti. nem a colcha bordada à antiga. Lembras-te daquela música do Paul Simon que dizia She said a good day ain't got no rain / she said a bad day is when I lie and think about the things I might had been? Fazia parte daquela colectânea onde também estava a lendária música Still Crazy After All These Years ao som da qual me pediste namoro sem pedir depois da . onde todas as tardes o Sol se espelha num efeito infinito de mil reflexos que me fazem doer os olhos. já não moro nas águas furtadas no Castelo. No meu quarto também ficou pouco do que conheceste.Tão fácil Se entrasses na minha casa nem a reconhecias. ou de nós. Mas mais nada. os quadros são novos e cheios de cores. imaginando nas cores e linhas vidas inteiras as vidas que não vivi. para alimentar outra vez o olhar. Ah! E esqueci-me de te dizer que por acaso também mudei de casa. os tais que nunca viste. escolhi o bairro da Lapa e sinto-me mais perto do rio. não sei se daqui a uns anos valem fortunas ou só me aquecem o olhar. em vez da mesa pesada de mogno levita agora uma de vidro. a emprestar um sentido provisório à minha existência pacata e tranquila. onde namoravas o Mar da Palha. deve ser por isso que gosto de fixar os olhos no espelho da água até não aguentar mais e é então que regresso aos quadros. de pintores novos e modernos.

Mas sabes o que faço quando tenho mesmo muitas saudades de ti. depois sigo pela estrada da Malveira onde o James Bond fez corridas de carros e vou andando. ou do que fomos? Pego no meu Peugeot azul escuro. É tão fácil sonhar. as fraldas da camisa sempre a espreitar por fora das calças. pelo menos mais pacificada. mas quando fecho os olhos e o Paul Simon canta I met my old lover on the street last night o que me vem à memória é o teu cabelo despenteado. Directora de um Instituto Público e tu na carreira diplomática a assessorar embaixadores pelo mundo fora até ao dia em que a carreira te ponha no topo e sejas um senhor embaixador. andando. e enquanto a estrada vai escorregando por debaixo dos meus pés é como se voasse por dentro e mergulhasse num dos meus quadros onde viveria outra vida. se não mais feliz. Dizem-me que estás com ar de senhor. uma qualquer onde estivesses apenas mais perto e não dormisse todas as noites sozinha.frequência de Direito Fiscal quando imaginávamos que o mundo era um tribunal imenso e íamos estar sempre do lado dos bons. com gravatas e botões de punho de marca. ou de nós. ponho o Paul Simon a cantar só para mim e faço a marginal até ao Guincho. mais cheia e. . Tantos anos a queimar as pestanas para eu dar nisto. Mas as memórias servem para isto mesmo. às vezes é preciso mergulhar no passado para saber saborear o presente. Acho que o azul do mar me alimenta o olhar tal como a música me aconchega o coração. os ombros estreitos e magros e uma forma única de inclinar a cabeça quando me davas um beijo. que é o que faço quando mergulho os olhos nos reflexos do rio ou desenho a imaginação nos quadros. daqueles que parecem ter saído do banho há cinco minutos. até chegar a Colares e depois volto para casa. assim entre o Rudolfo Valentino e o George Clooney. uma pessoa mastiga-as e saboreia-as para que não fiquem amargas. If you know what I mean. que engordaste um bocado e já pões gel no cabelo para disfarçar as primeiras falhas.

Se não fossem as tuas e as minhas tristezas. outras não te levam a sério e como são sempre aquelas de quem tu gostavas de um dia ser o pai dos filhos delas. As raparigas acham-te bonito e eu também. Mas sabes uma coisa? Enquanto tentamos e não acertamos.. mas o sorriso fala comigo e eu respondo-te.Tirinhos e farturas Para o Cascão Tens o olhar maroto das crianças que o mundo poupou ao crescimento.. mesmo sem nós vermos. no ano seguinte há outros bonecos mais giros e a vida. a cantar aos gritos piensa en mí / quando sofras. vai-se encarregando de nos levar para outros lugares e nos mostrar coisas que nem sabíamos que existiam. os teus e os meus desgostos. uma simples ida à Feira Popular numa segunda-feira à tarde nunca teria o sabor da eternidade. os ursos enchem-se de pó e passam de moda. ou então não diz nada. as raparigas achamte divertido e eu também. encolhes os ombros como se tivesses perdido meia dúzia de trocos a dar tiros a um alvo imaginário. e então damos a mão e vamos os dois à Feira Popular para esquecer. algumas apaixonam-se por ti e de repente ficas com cara do pai dos filhos que elas querem ter.. farturas e voltas na Roda Gigante. raparigas indecisas que povoam a tua imaginação. Nunca fixarias a minha cara. num . sem saber muitas vezes muito bem a quem. guardamos esta vontade imensa de dar amor. tens o tamanho certo dos abraços para me receber quando estou cansada do mundo. tens o riso cheio de luz que me guia nos dias de tristeza e a voz que diz a palavra certa no momento preciso. entre tirinhos. rapazes confusos que não sabem o que fazer com a minha determinação e a meias. enquanto o urso cor-de-rosa espreita do alto da prateleira. como se de uma promessa se tratasse. já sem esperança que apareça um pistoleiro implacável e leve o grande prémio para casa. perdida de riso em delírios de tristeza sublimada. às voltas sobre mim mesma num barco de borracha.

A vida é feita de momentos e é a soma de momentos perfeitos que nos emprestam o sabor da eternidade e é por isso que a amizade é o mais belo dos sentimentos. o outro que és tu e que sou eu vai perceber e aceitar tudo. como se fosse filho de uma dessas raparigas que de vez em quando te roubam o coração.lago verde com sessenta centímetros de altura. conta com o meu sorriso cúmplice e próximo e com o os meus abraços. nem saboreavas as caretas concentradas do meu filho a curvar num carrinho de choque como se ele fosse teu. que te ajudam a esquecer as tuas loiras confusas e eu os meus rapazes indecisos. Por isso já sabes: sempre que me quiseres levar à Feira Popular para esquecer as tristezas e povoar as minhas noites solitárias de algodão doce. Se não fosse a tua e a minha solidão tão desajeitadas quanto involuntárias. que afinal são do tamanho dos teus e tão grandes como o teu. . transformando em piadas as nossas desventuras. ou o meu coração. não saboreávamos com o mesmo prazer um sushi regado a saké frio. porque é o amor sem crédito nem débito. porque nem pensamos antes de falar. digamos o que dissermos. porque sabemos que.

lhe leio histórias onde ele viaja com os olhos fechados ou lhe abro o Atlas e vamos os dois à Argentina ou ao Botswana ver os leões que dormitam à sombra. Mãe como céu. Tem a mais doce consoante do abece-dário e a primeira das vogais e como tantas outras que reúnem o essencial da vida só precisa de ter três letras para ser enorme. como vir. como nós. É como Mãe que vou para a praia com baldes e formas. que descanso o coração e corpo quando preciso. como cor. quando ele poisa a cara ainda pequena e mergulha num sono profundo e regenerador. É como filha que telefono à minha Mãe quando estou triste. lhe levo o sossego. todos os dias são dias da Mãe. como sim. como sol. cansada ou muito feliz com alguma coisa ou só para lhe dizer que gosto dela. como bom. o Sul e as referências que me fazem andar para a frente. que me escondo do mundo quando estou exausta. lhe mostro e escondo os dedos para o ajudar nas contas. como par. lar. Como Mãe e como filha. que o levo ao cinema e ao jardim Zoológico e à noite. como meu. com a palma da minha mão. Mãe.que o proteja e o faça ser sempre uma pessoa melhor. Mãe como dar. como mão. É como Mãe que me levanto todos os dias mais cedo. Mãe. como lua. como mar. e o abraço enquanto recito uma lista de recomendações e prometo ser pontual na hora de o ir buscar. deitada. É como Mãe que ao fim da tarde me sento a alinhar letras que afinal são palavras e palavras que até dão frases. lhe preparo o pequeno almoço e a mochila e aperto os botões da camisa ao mesmo tempo que lhe mordo as orelhas.Três letras Para a minha Mãe Para mim. muito quieta. a respirar o mesmo ar e a pedir à estrela dele porque todos os meninos têm uma fada. Mãe como dor. que fujo de Lisboa e passo fins de semanas inteiros a conversar e a rir. enquanto eu fico ali. como ser. como ter. que a oiço com muita atenção quando tenho um problema difícil de resolver. Mãe . que encontro o Norte. como rir. É uma palavra perfeita. uma estrela e um duende malandro .

é por causa da minha Mãe que digo todos os dias ao meu filho o quanto gosto dele e como é bom ser mãe e sonho ter mais vozes que me chamem de manhã com o mesmo som. É por causa da minha Mãe que tenho a mania que sou Mãe de toda a gente. Mãe contida. Mãe Santa e Mãe Coragem. Mãe. juntando as três letras que me fazem estar viva e ser feliz e pensar que a eternidade é isto. Mãe. Mãe tantas vezes cansada. quase perfeita. Mãe que ensina. Mãe que entala os lençóis da cama. Mãe que tem o maior amor. Mãe. Mãe querida. Mãe que eu quero sempre viva. Mãe. sonhando e querendo o melhor do mundo para aqueles que são nós e nos guardam para sempre. Mãe. Mãe doce e forte e minha. dos amigos. protege e chama. . mas sempre vigilante. Mãe sem hora nem tempo. no mesmo tom. que se sente. ajuda.como lei. como asa. que nos acompanha e protege mesmo quando já é só memória. Mãe. porto de abrigo e balanço para a outra margem. das sobrinhas e de quem quer viver no meu coração. viajar no sangue dos filhos para novas vidas. como não. sempre atenta e sempre próxima. Mãe d'água. Mãe do Céu e da Terra. amando e protegendo. que nem sempre é a primeira palavra que se diz mas a primeira que se tem. se ama e se decora. como cão. Mãe quase eterna. Mãe de dia e de noite. Mãe serena e protectora.

Estávamos no bar do Hotel do Chiado. estou mesmo a ficar um perito em hotéis de luxo . Uma prostituta de luxo a oferecer-se de borla é aquele clássico com que todos os homens sonham. os japoneses da mesa ao lado riam nervosamente e olhavam para ela. num sotaque que misturava o brasileiro com o madeirense que comigo até ia de borla. os braços. uma Vénus oferecida. sem depois nem e agora? O prazer levado ao seu máximo expoente.à espera do meu peso e da minha vontade. deitada em cima da cama num quarto no andar de baixo .Um avião chamado Kátia Ela pegou afectadamente no copo cheio de sumo de laranja até acima. bolas. estupefactos com as pernas dela. meu amor. Lembro-me que estava um calor de morte apesar do ar condicionado dar o seu melhor e que o calor aumentou quando ela se levantou para ir à casa de banho. com a outra mão dobrou ligeiramente a palhinha antes de a segurar com os dentes e foi então que reparei. voltou a sentar-se com um cruzamento de pernas estonteante . com o delicioso sabor da antecipação. só a imaginava nua. a tarde escorregava pelo rio abaixo. um copo alto e esquio como ela. sem preço nem reverso. os cacilheiros conversavam uns com os outros a meio do caminho. por momentos passei os dedos discretamente pelas fontes junto ao cabelo e pressionei os ossos para não perder o controlo. De borla. abstraído por momentos das mãos enormes e compridas com as unhas impecavelmente arranjadas. Ela regressou. mas sem sequelas nem cenas dos próximos capítulos. a boca enorme. numas minúsculas manchas de verde desmaiado entre os dentes e as gengivas quando sorriu com os olhos semi cerrados e abanou ligeiramente os ombros. .ao qual o António que é meu amigo há vinte anos e doido por putas de luxo se tinha referido com o olhar transtornado de desejo . o pescoço.e continuou a dizer vulgaridades mas eu não as ouvia. os olhos bem delineados e eu a fingir que tudo aquilo me passava ao lado como se fosse diferente dos outros homens e o meu cérebro não desligasse perante uma mulher bonita.podia ser o 604 que tem uma cama enorme. Foi então que a ouvi arranhar. repetiu ela com o olhar matreiro de quem está habituado a trabalhar o prazer.

respondeu e eu ouvi-a pensar e estou farta de velhos gordos e nojentos e ela deve ter percebido que lhe li o pensamento porque se mexeu nervosamente na cadeira e rematou. carregando nos ossos para não me obcecar com imagem dela deitada na cama do 604 quando o telemóvel tocou. pago à saída. Maria do Carmo. mas sei que não posso contar isto a ninguém. Porque você é fino e bonito. e. E. o telemóvel que incautamente me esquecera de desligar antes de subir no elevador da clandestinidade acompanhado por um avião chamado Kátia. eu sei que tenho que ir à lavandaria.amanhã temos o cocktail da Vera e do Francisco. mas tenho à minha frente um avião chamado Kátia que me quer dar uma borla. digo à Kátia que vou à casa de banho. desço o elevador com a cabeça a estoirar.Porquê. sentindo algo de estranho no meu silêncio. Voltei a passar os dedos pelas têmporas como fazia o meu pai quando não se queria irritar. o que é que queres que eu faça? Mas em vez disso. respondo que vou a caminho de casa e pergunto-lhe se pode ir andando. perguntei sem sequer pensar. eu sei que a nossa vida é óptima e que és uma mulher extraordinária. não te esqueças de passar na lavandaria disse a Maria do Carmo do outro lado com a voz de cinco anos que nunca me cansa . senão o António chama-me maricas e conta aos outros e gozam comigo durante três verões seguidos. perguntou com medo de ouvir a resposta onde estás? Está tudo bem? Está tudo bem. antes que o Jameson me suba à cabeça. Não sei se sou um fraco por ter fugido ou se seria fraco em ter ficado. . mas só se você quiser mesmo. a detestar-me por estar ali e por me ir embora. Maria do Carmo. que temos o cocktail amanhã e um casamento para a semana e as bodas de ouro dos teus pais no fim do mês.

eu que gostava de poetas e de músicos. a forma elegante como cumprimentas a minha mãe e a paciência polida com que falas com o meu pai de carros e aviões e penso que se calhar tenho muita sorte em afinal me teres escolhido entre não sei quantas mulheres que por ti choraram. a tua voz bem colocada. saio de manhã e regresso ao fim do dia e às vezes demoro menos tempo de Madrid a Lisboa do que tu de Cascais às Amoreiras onde brincas ao dinheiro com as fortunas dos outros num lugar respeitável num banco de renome e prestígio.nem sequer te devia chamar assim. ou trocas de carro. os sapatos ingleses. Deve ser por causa desta vida infernal de hospedeira do ar. perderam a cabeça e a dignidade. voo todos os dias para quase todas as cidades da Europa. mas há muito tempo que ando à procura de um caminho que me apeteça seguir sem ter medo de me enganar. o teu sorriso impecável. eu que estudei quiromância. ou compras uma moto e este ano talvez te atires a um descapotável. Todos os dias de manhã observo o teu corpo perfeito a sair do duche.Um caminho qualquer Não sei como te dizer isto. E parece que és mesmo bom naquilo que fazes. o sorriso de quem não tem medo de nada nem pensa muito em coisa nenhuma e ponho-me a pensar porque é que me interessei por ti. as gravatas Hermes e um sorriso sempre colado à cara. mas a força do hábito é mais forte do que a verdade não sei como te dizer isto. Todos os dias observo o teu corpo perfeito. todos os anos és promovido e compras mais um quadro de um pintor qualquer que esteja a dar. foi o que me disseste com a mesma displicência com que davas mergulhos na piscina de casa dos teus pais quando eras miúdo. te perseguiram no abismo desesperado da . que passava as noites presa nas cordas de uma viola ou embalada pelo fio das palavras dos outros. eu que fui à índia alinhar chakras e aprender as artes do reiki. a conversa sempre adequada ao momento certo. trabalhado com vaidade e afinco ao fim da tarde no ginásio da moda. aprofundei os signos e passei anos à procura do sentido da vida. já aprendi há muitos anos que o amor é uma coisa e a vida é outra. o cabelo puxado para trás com gel. meu amor .

de seguir um caminho qualquer que não te leve ao engano da superficialidade. Mas por mais que respire fundo durante os dias de férias de luxo no Algarve ou nas Caraíbas. mas o que eu gostava era que deixasses esse hábito horrível de fingir que está sempre tudo bem. Mas não. que não passo de uma ingrata por não dar valor a tudo o que. um caminho que te afaste do equívoco. que me dês anéis nos meus anos e um relógio no Natal. mas o que a minha mãe não sabe é que antes de adormeceres abraçado a mim e me dizeres boa noite meu amor. porque hás-de pôr tudo em causa? . diz que devia ter nascido menos inteligente. como todas as pessoas que pensam.rejeição. ao menos não pensava tanto na essência das coisas e contentava-me em ter o que deseja toda a gente que ela conhece. que despisses nem que fosse por uma noite o sucesso que se te colou à pele e tivesses. Se calhar tens amantes. A minha mãe encolhe os ombros. se calhar até nem tens ninguém e gostas mesmo de mim. quase sem querer. que somos muito felizes e que a vida se bebe numa garrafa de champagne e se devora numa travessa de caviar. continuo a carregar um abismo no peito e quanto mais tenho mais vazia me sinto. dúvidas e medos e a vontade. como eu. Agora que sentes o mundo nas mãos. eu sei que não me amas mas finges com a habilidade dos mentirosos profissionais. se calhar é a tua secretária ou então uma amiga minha com quem partilhei a carteira no colégio. que ainda te encantas com aquela miúda que te serviu um Bloody Mary na primeira classe de um Boeing a caminho de Paris. me veio parar às mãos.

olhou-me de alto abaixo um bilhete para o Castelo. Trabalhava há menos de um mês quando me entrou no 28 a Lurdes por quem imediatamente me apaixonei com a ingenuidade de um virgem e o entusiasmo de uma criança no dia dos anos. Há vinte e tal anos que ando nisto. a Lídia fadista já me tinha tratado da saúde. quando as pessoas ainda tinham respeito pelo trabalho da gente e não punham os carros em cima do passeio. maçãs e outros produtos perecíveis. O que eu gostava era de ter sido piloto de Fórmula 1. Mas com a Lurdes foi diferente. em manobras de maior risco me estatelava com aparato vagamente cinéfilo contra a casa da Lídia fadista ou na bancada da frutaria do Sr. já fiz as carreiras todas da cidade. Foi o meu tio Amílcar que me meteu nesta coisa dos carros eléctricos. E sem levar nada. Ela subiu os dois degraus com altivez. Eu andava a estudar para torneiro mecânico na Voz do Operário e já tinha os ouvidos habituados ao chiar das máquinas amarelas pintalgadas de detergentes e companhias de seguros quando o meu tio me convidou para fazer o curso na Carris e “fazer uma carreira”. já tinha feito 21 e não era virgem. Quando era miúdo fazia corridas com carrinhos de esferas pelas encostas da Mouraria abaixo com os meus amigos do largo e ganhava sempre. comecei aos dezoito.Um eléctrico chamado desejo Um dia destes ainda acabam com os carros eléctricos e lá vou para a reforma enquanto o diabo esfrega o olho. se faz favor . como ele gostava de dizer. Uma missionária do amor. Aprendi depressa a manejar o bicho e afeiçoei-me àquela vida de andar para cá e para lá a transportar raparigas de liceu. via-se que fazia aquilo por gosto. provocando um voo anárquico de alfaces. coitada. Claro que não era nenhuma criança. velhos reformados e senhoras desocupadas que vão a enterros na mira de encontrar alguém conhecido. quando. Claro que parti a cabeça algumas cinco vezes e fiquei de braço ao peito não sei quantas mais. da minha e de todos os meus amigos que alinhavam comigo nas corridas de carros de esferas. era o que ela era. Américo.

já lhe bastava o Manelinho que tem uma paralisia e lhe leva o dinheiro todo e outro dia vi-a lá no largo. mas a Lurdes fez-se difícil. sempre de farda para parecer melhor do que aquilo que sou. são todas iguais Mas eu não acredito nele. a minha Lurdes não é nenhuma mulher da vida. dos Violeta não sei o quê? Pois com a Lurdes foi isso mesmo. nesta modorra miudinha daqueles que têm sempre medo de dar mais um passo em frente. é só uma rapariga que não sabe o que quer e por isso pode ser que um dia destes ela aceite o anel e a gente se case e sejamos felizes para sempre. que ela não queria ter mais filhos. É sempre assim: quando nos apaixonamos só vemos e ouvimos o que queremos. muito de vez em quando. não é assim que diz o Espadinha naquela música cantada por um rapaz magro do Porto. disse que casamento era coisa de gente que não sabe nada da vida. porque um dia destes acabam com os carros eléctricos e depois fico sem saber como encher os dias. ia visitar a Lídia fadista. Américo olhou-a de alto abaixo esta também já me passou pelas mãos. Levo-a a jantar fora uma vez por semana e já dormimos juntos. Quando ela saiu do eléctrico. . mas aquilo tinha a música do amor. Era mesmo o que eu precisava. É que sempre dependi da simpatia de estranhos. porque é só quando ela quer e os anos vão passando. a namorar o chiar dos travões dos autocarros e a sonhar com o volante de ferro e a campainha da próxima paragem. O amor é apenas uma doença quando nele julgamos ver a cura. e o Sr. parei a máquina e fui atrás dela. Até já lhe ofereci um anel. supliquei-lhe o telefone e há mais de vinte anos que ando a namoriscá-la.Até podia ter dito outra coisa qualquer.

Estou cansada de sonhar. o verde e o azul tornavam-se o céu e a terra. Mas isso é na minha imaginação. na esplanada do jardim da Estrela. solene e circunspecto. Olho para o sofá da minha sala e estás lá sentado. tu chegavas sempre antes de mim. Olho para a janela e estás comigo. mas isso só se via no azul dos teus olhos. esperando sem esperar que um dia encontres a chave e me voltes a fazer feliz. onde via o teu olhar iluminar-se da minha presença e o mundo inteiro em duas cores. quando olho para o futuro. ao meu lado. e quando eu chegava passeavas as tuas mãos nas minhas. Porque sabes. vejo-te lá. Memórias perdidas no tempo como lágrimas na chuva. memórias que não quero perder e que por isso escondo numa caixa onde as guardo para sempre. por isso guardo o meu amor por ti num lugar onde ninguém lhe possa tocar e dou-te a chave para não ter que pensar mais nisso. excitado e feliz. Dizem que o azul é a cor do infinito e o verde a da esperança. atrás de um boné cinzento e de uns óculos muito escuros para que o mundo não desse pela tua presença porque naquela altura o mundo não contava. acho melhor assim. Deito-me na cama e és tu que me adormeces e acordas. que não há amor. E o resto é estar sentada aqui. meu amor. há provas de amor. e eu sentia-me a pessoa mais feliz do mundo. mas a tua ausência já não enche os meus dias. nem consigo alimentar a doçura na espera. Vou guardar o teu olhar ansioso de quando nos encontrávamos no jardim da Estrela. Fico à espera delas. parece-me que já nem me lembro como é a realidade e agora que te ausentaste de ti e de mim. a ver os barcos que sobem e descem o rio.Verde e azul Vou guardar o nosso amor na caixa da tristeza entre a alma e o coração. só nós. que é aquilo a que nos agarramos quando a vida nos rouba o resto. . Mas para isso tens que querer. como quem pega pela primeira vez num recém-nascido. É engraçado. que aclarava quando se cruzava com o verde dos meus.

sem garra nem sentido. que é desta que me vou. lia a Bola. o pai sempre a viajar para fora e a mãe para dentro. qual Mussolini em férias. o melhor é ligar já ao médico. A rapariga aquiesceu. pensou. O empregado passou com uma bandeja cheia de cafés para uma mesa onde um bando de estudantes chilreava em grande algazarra se fosse à menina. enquanto abria a carteira e tirava uma lamela com o último ansiolítico. encostada aos armários dos detergentes a chamar pela neta ai filha. cabelo ralo e meia idade um sorriso de muda comiseração. O homem é bruxo. levado pela mais pura intuição. pequenos. mas quando chegaram ao hospital um médico com cara de menino do coro disse lamento muito. chama a ambulância E a rapariga chamou. Na mesa em frente um senhor de bigode. esta merda acabou e sem isto não sou ninguém. por isso não se deixou intimidar quando o Benito levantou os olhos e lhe inspeccionou as pernas cruzadas sob a saia estampada que comprara a contragosto. tomava já os medicamentos Devo estar pior. O pescoço do homem enterrava-se num cachecol verde semeado de pequenos leões com as patas dianteiras levantadas e a garras marcadas aponto de qualquer coisa convencidos que metiam medo. Depois ficou a olhar para o copo e pensou que os copos das esplanadas são todos iguais. Mas um leão num cachecol é sempre um animal fora do seu habitat. pensou sem querer pensar que com aquilo também não era. que isto de ouvir vozes deve ser um mau sintoma. magros. mas já não foi possível Destrinçou os dedos quase partidos num crochet de desespero. surpreendida e recebeu daquele senhor de estatura meã.A volúpia de uma bica Sentou-se e pediu uma bica. nunca fora. a conselho de uma amiga entendida em moda. inócuos e transparentes como os empregados que os servem. a vida passara-lhe ao lado. Era um daqueles fins de tarde mornos que já trazem o Verão na Primavera. trouxe de bónus. Tenho mesmo que lá ir. a avó sentada no chão da cozinha. Veio também um copo de água que o empregado. passou-os pela cara e pensou agora quem é que toma conta da .

nunca passa. não consigo fazer tudo sozinha. mas desta vez era mesmo a voz dele e ela agradeceu a atenção do desconhecido com dotes de adivinho.minha mãe que enlouqueceu. uma pessoa consegue sempre mais do que pensa. a frustração é um desporto que se treina como outro qualquer e habituou-se a tratar da louca. . a ouvir-lhe as memórias dos filmes em que nunca entrou. a não ser o pai dela. mas conseguiu. sentado em cima de um chaimite com um cravo na boca e um sorriso nas mãos vai ver que isso passa Não passa. dos homens que afinal nunca conheceu. que a rapariga viu pela última vez no dia da revolução. das viagens que nunca fez. engoliu o comprimido e saboreou a bica num só travo de volúpia e prazer.

. como quem escolheu o seu lugar do lado de fora. de repente saio do meu corpo e as nossas almas dão as mãos e transformam-se num ente à parte. eu sou a tua estrela do mar e . quando as luzes se apagam e as palmas descansam no silêncio merecido. e no dia seguinte acordo como se o mundo começasse outra vez. O Jorge Palma canta-nos ao ouvido coisas lindas que falam de ti e de nós e eu sorrio na minha solidão povoada porque sei que nunca mais me vou sentir sozinha. momento exacto que antecede a paz do sono perfeito. no ar que respiro e vejo-te à janela. como quem vive na cartola de um ilusionista. que nos faz ser só um por breves instantes. Estás nos discos que oiço. Depois sais sem fazer barulho e metes-te outra vez no avião e eu fico a ver-te voar. Andas por aqui. porque tu despertaste em mim um ser mais leve e mesmo que tenhas as duas almas em guerra e não saibas quem vai ganhar. É bom ter-te na minha vida silencioso e secreto. num movimento suave e perpétuo do qual nunca quero descansar. nem de que cor pode ser o céu em Portugal quando imita as barras das casas do Alentejo. estás ali ao lado e. e é a isso que os deuses chamavam eternidade. mesmo que estejas do outro lado do mundo à procura dos teus sonhos e distraído com outras raparigas que não fazem a mínima ideia de quem é o Jorge Palma. qual Jeremias Fora-Da-Lei. pois é. quando me sento na mesa de vidro para limpar a alma e chegar ao mundo com as minhas palavras. E eu sou a rapariga do trapézio que te vê acima do mundo. mas adoro o teu andar inseguro e o sorriso no teu olhar. tapas-me a boca e mostras-me outra vez os movimentos do trapézio em terra e é então que me crescem umas asas e dou muitas voltas no ar. há quem ande escondido a vida inteira. às vezes vejo-te a abraçar-me com cuidado enquanto escrevo.Na terra dos sonhos Sabes. Ou então. ou a aconchegar-me o lençol até ao pescoço. guardado nas palavras dos poetas. enquanto a vida me leva e traz as coisas boas e más. a fumar um cigarro e a namorar a Lua.. penso muitas vezes em ti. Pois é. como se fosse uma bola. sem fazer barulho.

. o tempo não tem razão. a gente vai continuar. Já passaram mil anos sobre o nosso encontro. eu ensinei-te a chegar e pus-te a salvo para além da loucura e ensinei-te a não esquecer que o meu amor existe. agarras-te à hora em que o tempo não passou e juntos inscrevemos no espaço um novo alfabeto. Na terra dos sonhos podes ser quem tu és.eu sou essa miúda que te faz acreditar que o Sol é um presente que a aurora traz principalmente para ti. mas o tempo não sabe nada. porque não há passos divergentes para quem se quer encontrar e enquanto houver estrada para andar. E mesmo que me tenhas ensinado a partir nalguma noite triste.

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