Margarida Rebelo Pinto Artista de Circo

© 2OO2, Margarida Rebelo Pinto e Oficina do Livro-Sociedade Editorial, Lda. Título: Artista de circo Autoria: Margarida Rebelo Pinto Revisão: Fernando Villas-Boas Composição: Oficina do Livro, em caracteres Aldine 401, corpo 11 Capa: João Figueiredo, a partir de uma ilustração de Jessica von Helmolt Fotografia: Alex Gandum / Expresso Impressão e acabamento: Guide, Artes Gráficas, Lda. (Portugal) 1ª edição: Outubro, 2002 – 30.000 exemplares ISBN 972-8579-90-X Depósito Legal n.° 186932/02

Índice: Artista de circo A descida dos deuses Addicted to love Açúcar em pó Almas gémeas Andar ao contrário Antes de Aqui e agora Balada dos monstros Bigodes de gato lambido Braço de ferro Brown chocolate Carregar pianos Cinco contos por nada Comédia romântica Coração aconchegado Conselhos e críticas Correr devagar Debaixo do braço Deixa-te disso Depois da solidão Desculpa Os ducheses da avó Os comboios não sabem voar É amanhã, meu amor Em casa Em playback Encontrar a tristeza Enterrar o coração Esqueleto ambulante Estar e ser Estranha forma de vida Estrelas à mão A falta que faz Fazer as malas Férias na Cova do Vapor Hello my love

Instantes perfeitos O fio dos dias Irmãs Jogar ao prego A maior aventura Maldito fado Mesmo assim Maria Lua Mãos cheias O mesmo caminho Meu neto. meu amor Mudar de vida Não me sais da cabeça O número mágico Olhar o coração Outro lugar Palácios de lona Na palma da mão Poesia nocturna Pois não. António? Por um fio Pukunina outra vez Rica e fina Só se vive uma vez A subida do prazer Talvez não Tão fácil Tirinhos e farturas Três letras Um avião chamado Kátia Um caminho qualquer Um eléctrico chamado desejo Verde e azul A volúpia de uma bica Na terra dos sonhos .

A todos aqueles que.Ao meu filho Lourenço. mesmo sem o saber. me fizeram escrever tantas histórias de amor . À minha Mãe e ao meu Pai.

By each let this be heard. The coward does it with a kiss. Some with a f tattering word. and others buy.Yet each men kills the thing he loves. Some do it with a bitter look. Some with the hands of Gold: The kindest use a knife. Some do the deed with many tears. Some love too little. And some without a sigh: For each men kills the thing he loves. The brave man with a sword! Some kill their love when they are young And some when they are old. Some sell. Oscar Wilde. some too long. Some strangle with the hands of Lust. The Ballad of Reading Gaol . because The dead so soon grow cold. Yet each man does not die.

Deve ser por isso que sempre quis ser artista de circo. procurando nas alturas sonhos que se fecharam atrás de portas condenadas. o cabelo cor de fogo ondula ao ritmo da minha vertigem enquanto me balanço lânguida . um pé à frente do outro. mas afinal percebemos que à medida que os anos passam. primeiro fecha-se a porta da infância. uma travessia solitária pelo arame traiçoeiro que nos há-de levar a um lado qualquer que é sempre do outro lado. pequeno e distante. porque não sei viver sem olhar para as estrelas. elas se vão fechando uma a uma. A vida são portas condenadas. sempre à espera que uma corrente de ar entre um e outro lado da tenda me façam parar para pensar. tuia es capaz a partir daí a vida estreita-se num arame cada vez mais fino e ténue e é então que vamos percebendo que viver não é mais do que um precário equilíbrio. o medo paralisame mas a vertigem chama-me e lá vou eu. lançando-me no espaço com a mesma inconsciência com que corria no fio do muro do colégio ou empilhava cadeiras e mesas todas umas por cima das outras no ginásio deserto até sentir que via o mundo de cima. Portas que passamos. imagino que sou uma trapezista com o cabelo cor de fogo e um maillot dourado bordado a lantejoulas e que cruzo o tecto do mundo em acrobacias da mais fina elegância. pensando que. a vara com a razão numa ponta e o coração noutra a atravessar a vida.Artista de circo A vida são portas condenadas. Ou então. tiram-nos as rodinhas das bicicletas e dizem-nos és capaz. seguram-me na barra suspensa e dão o balanço certo antes do voo. nas nossas costas ou na nossa cara. a travessia diária do arame dá-me medo e vertigem. batendo com uma veemência esmagadora que nos deixa de braços estendidos ao longo do corpo e a perguntar em surdina porquê. As minhas pernas são musculadas. dos bolinhos de lama para o lanche das bonecas. vamos descobrindo o mundo e arrumando o caos interno. onde está tudo aquilo que nos convencem que queremos ou que simplesmente escolhemos como objectivo para alcançar uma coisa qualquer a que gostamos de chamar tranquilidade. ao as abrirmos.

ou se me deixas cair devagar. como fazemos com aqueles que amamos com medo de não ter nada para lhes dar. E no instante perfeito em que te vejo do outro lado das alturas a piscar-me o olho e a chamar-me gorda má com aquele meio sorriso irónico que tão bem conheço . preparando o momento exacto para executar o salto perfeito sem nunca olhar para baixo.e um braço estendido enquanto o outro se agarra à corda.nunca fui gorda nem soube ser má . lá em baixo as avós rezam e as crianças abrem a boca de espanto.para a frente e para trás. porque a vida nunca me diz se tenho ou não rede para cair. fecho os olhos e salto pelo ar. e nunca sei se me agarras no último instante possível e me convences que afinal a vida não são só portas condenadas que o tempo também serve para abrir. atravesso o tecto da tenda. .

por isso fico à espera. depois da meia-noite. não lembras? Às vezes gostava de apagar da memória o cheiro da tua carne e o peso do teu peito em cima do meu. o torpor da rotina vai-me tomando os membros até chegar aos ossos. mas dizem que o tempo resolve tudo. dos mendigos. observava-te dentro do meu desejo. procuram a morte. só sei que foi há mais de três anos e ainda não sei se consegui ou não. esquecer os teus olhos que viajavam pelo meu corpo sempre à procura de mais prazer. das tuas mãos compridas que me agarravam as ancas e o cabelo. porque é na mudança que marca a chegada de outro dia que as almas perdidas descem à terra e se apoderam dos distraídos. Lá fora as gargalhadas nervosas das raparigas da esplanada misturavam-se com os acordes do disco do Keith Jarrett. o teu passo certo e sincopado ganhava a velocidade da luz quando subias as escadas do meu prédio em Santos. sabendo ou não. Tu chegavas quase sempre tarde. lembras-te de me teres contado esta história. Do outro lado da rua rapazes e raparigas trocavam mentiras e bebiam cervejas na esplanada e quando tocavas à campainha eu já não estava dentro de mim. dos solitários e de todos aqueles que. o que é muito fácil para quem aprendeu a não esperar nada dos outros. tu empurravas-me contra a parede e tapavas-me a boca com a tua mesmo antes de conseguir fechar a porta da rua.A descida dos deuses “Passei ao lado do mundo e tomei a história pela vida” Jules Michelet Há muito tempo que é assim. sentia o corpo amolecido e lânguido e se calhar era por isso que nem falávamos. já não me lembro bem como era antes de ter mudado de casa para tentar mudar de vida. aquele que ele gravou com as canções preferidas da mulher quando soube que estava doente. aquela hora que os místicos recomendam que não se ande na rua. Mas a . a descer a Calçada da Estrela até cá abaixo. Eu fechava os olhos para te ver melhor.

depois da meia-noite. não ter destino certo era o melhor do teu trabalho e tornou-se a tua vida. deve ser por isso que foste para comissário.enormes se fixavam. também guardo a lição de uma forma diferente de amor. Nunca sabia se no dia seguinte. Nunca a vi chorar. ainda estarias do lado esquerdo da cama com os olhos fechados e os braços enrolados debaixo da almofada ou já terias partido para um ponto incerto do globo. eu ia com a Paula. nem quando partias e me votavas ao silêncio durante dias. Mas quando me lembro de ti. mas o silêncio dói mais do que o choro e o olhar pode gritar muito mais alto do que a voz e se calhar é por isso que aprendi a não te dizer nada. I loves you Porgy. quando percorrias com as costas das mãos os lençóis esticados e me tocavas com a ponta dos dedos na cara. a Lua inundava a cama imensa e sempre branca. parecia meio-dia. E então. vem de tudo e do nada e o pior é que só serve para nos distrair da realidade.memória do prazer é autónoma e traiçoeira. a claridade reflectida multiplicava-se em feixes de luz nos quais os teus olhos . Be my Love e a minha preferida Someone to Watch Over Me. cantarolavas baixinho as melodias que o Keith Jarrett reinventava ao piano. e tu entraste com o Luís que trazia o coração ao peito do lado de fora para toda a gente ver. Contigo o amor nunca foi um acto de funcionalidade. e quando se vive assim durante alguns anos é difícil mudar o desassossego da alma. deve ter sido por ter passado dez anos a ver a minha mãe calada à espera que o meu pai voltasse de uma viagem ao Canadá. desenhandome as feições com pinceladas leves que me davam arrepios e me faziam sentir outra vez pequenina. Conheci-te num bar alternativo. Sempre soube desde pequena reconhecer os sinais do desgosto nos outros. nunca faço planos. nem quando regressavas com a naturalidade de . Foi contigo que aprendi a amar sem pensar se no dia seguinte me poderias trazer o pequeno almoço à cama ou levar o Brownie à rua. mas apenas um jogo de sintonia. Dizias-me sempre não faço planos. quando a Lua se perdesse na luz da manhã. para que o acto de adormecer guardasse toda a magia do momento. Chegavas tarde. que se tinha zangado com a namorada e me pediu que a acompanhasse para uma noite de copos e expiação de tristezas. nos arrancar dos outros para depois nos devolver o coração mutilado pela saudade. até me perder na linha que separa o mundo do sono e nos leva a outro dia.

pontuada de momentos especiais. não como uma atitude normal perante o meu comportamento absurdo. dizia. Depois a Filipa passava-lhe a mão pelos cabelos muito curtos e espetados e eu ficava com um bocadinho de inveja. trabalhando juntas na mesma livraria. repartindo contas e compras. dividindo a vida a meias dia a noite como duas siamesas. O que a vida me ensinou é que ninguém é sempre feliz.para troçar deles e rir-se comigo e às vezes de mim. E depois casaram.a nova namorada . tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre. Eu comia os chocolates e enjoava-me com os rapazes. uma inveja doce e pacífica de saber que as duas se amavam da mesma forma. de quem só saiu para comprar pão ou passear o Brownie. a Paula vinha-me visitar e trazia-me chocolates e rapazes para eu conhecer. Nunca vi um homem dividir o que fosse com uma mulher. O Luís avançou com a timidez de quem já se habituou a viver com a . se o meu pai não tivesse desaparecido no rasto branco de um avião do outro lado do mar.Tens que sair mais. talvez a vida me tivesse preparado de outra forma. muito menos para sempre. entre baforadas de Camel Lights e goladas minúsculas de vodka limão a vida são dois dias. mas a Paula não me percebia e como todos os bons amigos aceitava a sua própria incompreensão. acompanhando-se em tudo. como naquela noite em te vi entrar no bar a amparar o Luís que foi meu colega no Liceu e que eu não via há quase dez anos. o Brownie sentava-se à porta e suspirava como se tivesse bebido do ar a minha melancolia. é muito pouco tempo e tu perdes o tempo todo à espera do Pedro Eu tentava explicar-lhe que o tempo nunca se perde. que a vida é um fio monótono e repetitivo que nos vai levando para lugar nenhum. mas quando à noite a minha mãe me lia os contos de Grimm que acabavam sempre da mesma forma. oferecia-lhes café acabado de fazer. Durante as tuas ausências. A Paula encolhia os ombros e voltava na noite seguinte. eu apertava os dedos uns contra os outros e apetecia-me rasgar o livro por me mentir tanto. eles convidavam-me para jantar e eu respondia talvez com a doçura velada de um não delicado para não os decepcionar. sozinha ou com a Filipa . mas como uma falha de entendimento e dizia: “não se fala mais nisso”.quem esteve sempre perto. que a solidão é o luxo sublime daqueles que sabem esperar. . apenas se gasta melhor ou pior. se calhar tive azar.

Não precisavas de procurar muito. E quando o momento se aproximava e eu sentia no pulsar do sangue a descida dos deuses. mordias-me as mamas. apresentou-te e sentámo-nos os quatro numa mesa alta à espera de trocar mentiras como a noite impõe aos profissionais do vazio.tristeza. sabendo que já me tinhas encontrado. sentia os teus olhos a agarrarem-me as ancas à medida que subia as escadas à tua frente e quando abri a porta e me empurraste contra a parede e me meteste a tua língua na minha boca mesmo antes de conseguir fechar a porta. levitando contigo sobre os nossos corpos. a boca. escondendo a cara transfigurada no teu peito. esquecia os dias de tristeza e de solidão. Com movimentos sábios tiravas-me a roupa. via-me com os teus olhos e tu com os meus. Depois a tua cara descia e procuravas-me ainda. tratando-me sempre com doçura. Querias dar-me sempre mais e mais prazer por isso subias o teu corpo e entravas depressa. Há muitas vezes mais angústia em esperar um prazer do que em sofrer um castigo. percebi que me ias entrar para o sangue para sempre. trocava-os todos por aqueles instantes únicos. a mão descia em grande velocidade e tocava-me o sexo que escorria de impaciência. fanáticas. Não paravas de falar comigo. Empurravas-me até ao quarto e atiravas-me para cima da cama. adivinhando no calor do vento ou no tamanho da Lua os teus regressos cada vez mais frequentes e cheios de prazer. mas quando nos habituamos a viver assim. sabia que nos íamos amar durante toda a noite. as mãos entrelaçavam-se e os olhos trocavam de globos oculares. eternos e irrepetíveis que marcavam cada reencontro. obcecadas de prazer. inventando a cada vez . Por isso. Eu deixava-me ir. enquanto os teus olhos se abriam de espanto e os dedos se prendiam dentro de mim. mas foi logo naquela noite que vieste comigo para casa. perfeito. mesmo sem saber se vinhas ou não passei a esperar-te sempre depois da meia-noite. Abria-te a porta e antes de a fechares nas minhas costas já sentia a tua língua dentro da minha boca à procura do meu prazer. eficiente. a espera torna-se na única existência possível e torna-se mais fácil uma pessoa afeiçoar-se ao silêncio do que a outra voz. Não sei porquê. a barriga. o ritmo era certo. a tua boca colava-se à minha. seguro. as mãos cravavam-se na almofada quando me viravas de costas e me agarravas as coxas sedentas.

olho para a Lua espelhada em milhões de pontos de luz no azul muito escuro do mar.outros nomes e outras formas de me dizeres como gostavas de amarme assim. Nas noites raras em que os deuses descem ao corpo dos homens para os ofertar com o prazer fugaz da eternidade. E as tuas palavras faziam-te ir sempre mais fundo. tapando-o com doçura. total. com que me embalavas em tantas noites brancas . Outro dia trouxeram um rapaz de olhos grandes e barba à Cristo Redentor que decidiu tocar-me o coração antes de pousar as mãos no meu corpo e quando mergulha o olhar na minha boca. Ainda não fui para a cama com o André. Não sei ainda bem porquê. demorando-me até ao momento final em que voavas num espasmo. mas já se esqueceu de te esperar deitado na soleira da porta e o ar foi ficando mais leve. o André enrola um charro que acende e me passa com a solenidade própria que assumem os gestos dos homens quando pensam que estão apaixonados e eu encosto-me ao peito dele e sonho que se um dia . toda. não te pedi o telefone nem chorei a tua ausência. Nunca fiz sexo assim com ninguém nem nunca amei nenhum outro homem como te amei a ti e se calhar é por isso que quando me telefonaste do Brasil há mais de dois anos a dizer que tinhas trocado o trabalho de comissário da TAP pela gestão de um hotel junto à praia com doze quartos todos com vista para o mar. A Paula e a Filipa vêm jantar todas as semanas à casa nova que tem lareira e vista para o mar. ponho o disco do Keith Jarrett aquele mesmo. Eles voltam sempre que quiserem. quem te aconchegava o sexo.a Filipa oferece-me livros de poesia e lemos O'Neill e José Agostinho Baptista em voz alta. mas acredito que a distância aproxima as pessoas quando elas têm mesmo alguma coisa para dar às outras. o prazer multiplicava-se até à exaustação que nunca chegava a dar-se. me enchias de ti e te esvaías no limite do limite do prazer. agarrando-o com as duas mãos. mas a temperatura das mãos dele já me disse que vai ser mesmo bom e como a pressa nunca foi aliada da perfeição. Depois era eu quem descia. sentia-as como uma massagem no coração. completamente entregue a ti. O Brownie ainda não apanhou esgana nem raiva nem leishmaniose. sem pressa. é preciso deixá-los partir. sinto o sangue outra vez a correr mais depressa como se tivesse subido as escadas da casa de Santos a correr.

voltares. tudo por causa do Keith Jarrett que toca Some thing to Remember You By. se calhar vocês ainda se tornam bons amigos. .

Para ser mais exacta. que era primo de uma amiga e também tinha olhos azuis. emocionante. para ver se me ajuda a evitar essa contingência. até pode ser que a minha amiga tenha mesmo razão e eu não ande boa da cabeça. um bilhetinho dentro do . Até nem comecei muito cedo. Mas há sempre um dia em que uma pessoa tem que enfrentar a realidade. também me explicou a minha amiga que é sua paciente e que. um moreno de olhos grandes que morava no prédio em frente. por isso o amor era sempre platónico e um sorriso cúmplice. A vida está cheia de ironias e uma delas reside nisto mesmo. E olhe que ainda não tinha 14 anos quando o conheci. senhor doutor. jogava ténis e futebol e que não me ligava nenhuma. dar a mão era um acto aventuroso. Ando nisto desde a segunda classe. sob o risco de ser engolida por ela e é por isso que cá vim. naquela época ninguém sabia como é que isso se fazia. e depois o Miguel. que é quando uma pessoa entra na idade da razão. não lhe posso dizer quem é. um fundo patológico. se calhar estou doente há quarenta anos e nunca me apercebi disso. mas desses pormenores só me lembro agora. não havia filmes nem essas coisas. por decoro. E depois o filho do alfaiate. meu colega do ciclo. não é na cabeça que reside o mal. mas foi uma grande amiga minha que me disse para cá vir. como ela diz. Depois foi o João Pedro. Eu acho que não. senhor doutor. E depois o João Carlos. que roçava a indecência. Foi ela que me convenceu que isto que eu tenho pode ter. que é para isto que uma pessoa cá vem. que tinha cara de sonso e os olhos muito azuis. Não.Addicted to love Sabe. eu acho que até nem estou doente. Primeiro foi o Paulo. Parece-me que tinha cabelo oleoso e morava num bairro sinistro. não foram meus namorados. isto sou eu só a pensar alto. mas como ninguém é dono da verdade porque a verdade nunca é só uma nem única. mas a verdade é que embora me tenha dado o primeiro ataque na idade da razão até hoje nunca me perguntei porquê. já ouvi histórias de pessoas que revelaram sintomas com três ou quatro anos. Na altura andava era mesmo encantada com ele.

o meu vizinho do sexto esquerdo que a mulher deixou com três filhos. tive dois filhos. o meu advogado que também tem uns olhos grandes e joga ténis e outro dia. Mas é um amor platónico. veja só ao estado a que cheguei. sou viciada em amor. que quase nunca se concretiza. porque nunca percebi se é o coração que manda na cabeça ou vice-versa e já agora gostava de tentar resolver esta dependência que me alimenta os sonhos e me impede de viver. há dez anos que continuo nisto. Agora são os colegas da empresa. casei. . dei por mim a fixar o olhar no rapaz que é caixa no banco. A minha amiga diz que já sofreu do mesmo mal e que o senhor doutor a tem ajudado e é para isso que estou aqui. impossível. Devo mesmo ter uma doença. Eu achava que com a idade isto me passava. separei-me quando o meu marido perdeu o interesse por mim e olhe.compêndio de matemática ou café tomado às escondidas no café da esquina eram o suficiente para alimentar meses de paixão ardente e silenciosa.

inesperado e inexplicável. ou numa tarde em que me convidou para lanchar em casa dela e me ofereceu bolinhos de manteiga envoltos em açúcar em pó.Açúcar em pó Perder tempo e gastá-lo não é a mesma coisa. como quase todas as pessoas a quem o destino inflige um sofrimento violento. como a imagem da Matilde a lamber delicadamente a cabeça dos dedos . A Matilde foi minha aluna em Economia Industrial e desde a primeira aula que fez o favor de se sentar na primeira fila e cruzar e descruzar as pernas numa repetição infinita e estonteante que me fazia divagar sobre o possível efeito nefasto da cerveja que bebera ao almoço.marketing telefónico. se foi na noite em que me maravilhei com a perfeição dos efeitos do fumo no ar. costumava dizer a Matilde do alto dos seus 23 anos. que é como fazem nos filmes de acção quando precisam de atirar um figurante ou o herói por uma janela. Mas bastou uma noite de copos para criar a intimidade suficiente que me permitiu ler-lhe a alma mesmo sem lhe tocar o coração. Como é habitual nos alunos da noite. Há momentos mágicos que por uma qualquer razão desconhecida se gravam na memória e nos perseguem para toda a vida. é tudo ou bom ou mau. atirando para o ar gráficas e perfeitas circunferências que me pareceram tão vazias como ela. arregaçou os braços à vida e congelou o coração. explicou-me numa noite de copos. que é aquela idade em que se sai da faculdade com a cabeça cheia de sonhos e de ideias feitas. Não sei dizer ao certo quando é me apaixonei. dizia ela . tentando compensar todo o conforto que a mãe lhe dava antes de se ter suicidado numa praia da Ericeira quando ela tinha apenas 18 anos. inválido e reformado. preto no branco e os cinzentos não existem. nem o tempo que lhe sobrava entre a casa que cuidava com o afinco de uma doméstica de profissão e os cuidados com o pai. sim ou sopas.e tinha o ar compenetrado de quem não desperdiça o precioso dinheiro da propina em jogatanas de cartas. não fosse este desfazer-se como um vidro ou um simulacro feito de açúcar. a Matilde já trabalhava . A Matilde nunca quis saber o que levara a mãe a cometer tal acto de insanidade e. o qual obviamente nunca encontrei.

as suas máximas emblemáticas e os dedos cobertos de açúcar em pó. mas a Matilde era demasiado bela para não a ver. manipulado por uma rapariga que se calhar só queria saber o que era ter uma aventura com um professor. demasiado mulher para não a seduzir. numa provocação mais subtil que o cruzamento infernal das pernas na primeira fila do anfiteatro. quem sabe. o desejo e o dever. olho com complacência esse período conturbado e difícil da minha vida. ela perdeu mesmo a cabeça e. ou simplesmente a atenção de um homem mais velho.enquanto saboreava cada bolinho. talvez até tenha encontrado o coração. com o passar dos anos e as ameaças de outras Matildes que se sentam sempre na primeira fila. Há muitos anos que dou aulas e por isso habituei-me a encarar os alunos como um todo. Com ela aprendi a desconfiar das pessoas mais novas. Por isso dei-lhe um treze desejando-lhe assim toda a sorte do mundo e guardei o melhor dela. em quase dez anos de trabalho. como são todas as memórias daqueles que já amámos. demasiado esperta para não a ouvir. mas igualmente sedutora. ao que parece. uma espécie de massa uniforme. Claro que agora. a Matilde não era boa aluna e merecia ter chumbado. dividido entre a ética e a vontade. nas pautas e na vida. mas a ideia de a ter mais um ano lectivo à minha frente a descruzar as pernas com a languidez de quem lambe a cabeça dos dedos era de mais para mim. porque percebi que. embora vivam com a mesma intensidade que nós. esperando que os mais rebeldes ou inteligentes se destaquem por si e nunca. Não. caíra no cliché do romance professor/aluno que acaba sempre mal. quando de um dia para o outro fui trocado por um aluno do primeiro ano por quem. não dão aos actos o mesmo peso e aprendi-o da pior forma. .

te confesso. eu que era o primo doido. zut. antes de partires para Paris. está sempre a indicar-nos vários caminhos ao mesmo tempo e às tantas uma pessoa confunde-se. E foi assim que te perdi.Almas gémeas Por causa da mania das almas gémeas é que ainda estou apaixonado por ti. passem meses. por incompetência ou timidez. afinal parecias feliz. anos ou décadas. melhores modos e uma ambição desmedida que o levaria ao topo da carreira. mas era só uma impressão. que lia o Buñuel e praguejava contra o regime e que por isso mesmo nunca arranjei nenhum tacho. de espera e de abnegação e. por isso nem o vemos passar e quando reparamos nos cabelos brancos e começamos a afastar dos olhos as listas dos restaurantes para escolher entre o bacalhau e o lombo assado é que nos apercebemos do todo o tempo que já passou. Deve ser por isso que quando me cruzei outra vez contigo na subida da Garrett. por que aqueles que amamos estão sempre na mesma e como vivemos dentro deles e mergulhamos pelos olhos. formado em Direito com 17. Mas isso é só para nós. o pintor surrealista que se distraía horas a desenhar ratos e rãs com chapéus de palha. que era o orgulho da família. nem de nada que te aquecesse o coração. convencida do teu papel de . Quando te conheci. porque a vida vai sempre muito mais à frente do que nós pensamos. troca o tempo e o passo e quando dá por isso. volta atrás. a oportunidade passou-nos ao lado e não vale a pena correr atrás dela. Eu tinha a sensação que o Álvaro nunca falava contigo nem de livros nem de música. de uma tristeza que aos poucos foi sendo substituída por uma doce e serena melancolia à qual me habituei como uma segunda pele e sem a qual agora já seria um homem infeliz. antes de te casares com o meu primo Álvaro que tinha bom porte. Maria Cecília. muito menos uma carreira como o Alvaro. o menino bonito. A vida tem destas coisas. são só os olhos que vemos. cada dia é uma nova dimensão que nos parece sempre a mesma e o tempo voa muito mais depressa que o nosso coração. depois de tantos anos de silêncio e separação. hesita. namoravas com ele há um ano e gostavas muito de conversar comigo nos jantares de família. te vi com vinte e tal anos.

contaste-me tudo na esplanada da Brasileira com o poeta esquizofrénico a beber as tuas palavras mesmo ali ao lado e pareceste-me mais velha. Maria Cecília. e não segui o caminho certo. porque como tudo se repete. porque já sabia. tens três filhos criados e uma casa na Lapa.e que é afinal tantas vezes a mesma coisa . talvez ainda vá a tempo de encontrar o caminho que me leve a ti e descubra finalmente se és ou não afinal a minha alma gémea. mais magra mas sempre bonita e foi como regressar outra vez a casa. A vida é um eterno regresso a casa. devia ter desafiado o destino e acreditado que te poderias apaixonar por um pintor pobre e trapalhão. Maria Cecília. que te amava e que fazias parte de mim. havia demasiadas setas. depois de tantos anos de uma solidão povoada que nunca mais consegui matar.e foi assim que te voltei a encontrar. mas talvez ainda não seja tarde. Devia ter-te declarado o meu amor quando ainda usavas bandelette e ignorar a sombra do Álvaro. mas tive medo. já sem bandelette. mesmo quando o tempo passa e nos traz outras vidas. vai dando voltas e voltas até nos pôr à frente aquilo que mais amamos ou tememos . vai e vem muitas vezes no mesmo olhar e nunca morre. embora nem quisesse pensar nisso. eu estou separado e o que me prende à vida está nas telas e nos livros dos outros. O Álvaro morreu há três anos. sempre muito bem penteada. viveste no mundo inteiro. mas com a mesma testa e os mesmos olhos e vê lá tu que me apeteceu logo mergulhar outra vez. também o amor sofre deste triste infortúnio. Agora estás viúva.futura embaixatriz. com uma bandelette que te deixava a testa e os olhos desenhados com grande nitidez e eu queria sempre mergulhar neles para te ouvir melhor. .

rebentada. ou junto ao rodapé. Ou então. alimentada pelos teus medos e dúvidas. há um que te vai cortar mesmo o pé e. os sonhos estatelaram-se como copos que atiraste à parede e se desfizeram em mil cacos e de repente vês a tua vida em infinitos fragmentos de vidro iguais a nada. vais mesmo ao armário e retiras de lá todos os copos. ou aquela merda que carregas no peito e que te alimenta ao mesmo tempo que te mata. o efeito a plástico do vidro é admiravelmente acompanhado por um ruído estridente.Andar ao contrário E às vezes. um estertor de uma morte que não consegues realizar. porque o nada é branco e tem um princípio e um sentido mas desaparece quando percebes o que te aconteceu e os vidros ficam ali no chão. insultos e estalos. depois da batida da porta que te ecoa no cérebro como uma bomba-relógio com a contagem ao contrário. um a um atira-los contra a parede. o movimento do teu braço é como o de um atleta das olimpíadas a lançar o dardo. a banda sonora perfeita para a tua alma. apetece-te furar o mundo em mil e um buracos. vais mesmo sofrer. que nunca mais poderás recuperar tudo o que construíste. por mais que fujas. ou estranhamente projectado a mais de três metros. desfeita e mil pedaços . piores que nada. mas mesmo assim varres tudo. que preferes morrer a enfrentar a realidade por ti criada. mergulhada na prostração do absurdo. toda partida. à espera de te apanharem num movimento menos prudente e então vais buscar uma vassoura daquelas pequenas que parecem de brincar e uma pá a condizer e tentas apanhar os fragmentos infinitos e varres com cuidado mas totalmente absorta da actividade que executas como um autómato contrariado que de repente toma consciência de que o puseram a executar uma tarefa abaixo da sua expertie. percebes que te fodeste para sempre. tudo se desfaz por entre os dedos e assistes atónita e impotente à perda irrecuperável do teu amor: ele desfaz-se em gritos. tudo se perde no ar que fica pesado como chumbo e. por mais que não queiras. percebes que está tudo perdido. sabendo que atrás da porta. sem saberes porquê. que as palavras e os gestos te atraiçoaram para sempre.

que não podes voltar atrás. perder o juízo e a lucidez e voltar ao momento exactamente anterior à dor. E os dias passam. rebobinar o filme e evitar a conversa. quando o chão de madeira parece um tapete de faquir em fase embrionária que percebes que não és nenhum atleta. os gritos. os insultos. os maus tratos de quem ama de mais e não sabe viver de outra maneira e é então que te perguntas porquê. e o tempo continua a perseguir-te com o vazio de um dia igual ao outro e ao outro e outro e tu só queres desistir. é sempre demasiado tarde para voltar atrás. Só o mundo é que anda ao contrário dos ponteiros do relógio. . mas é sempre tarde. ao vazio e à tristeza.de memórias que não queres esquecer mas não podes lembrar e é então. os gestos desmedidos e absurdos. comendo a luz que te dói nos olhos e na alma e vêm as noites. dormir.

numa fúria dorida e autista. seguiram-se incontáveis doenças infecciosas às quais a minha avó Henriqueta resistiu estoicamente e. cabelo loiro e a cor de azul nos olhos que o meu filho num reverso de ironia genética guardou. Para poupar a tristeza nunca consegui até hoje fixar a data. guarda-chuvas com cabeça de osso em forma de pato. Não trato por tu a morte. Era linda. Lembro-me que estava sol tal como durante todo o Verão durante o qual ela caiu e partiu a bacia num golpe de pouca sorte e foi imediatamente internada. de uma simpatia esfuziante. num fio lúcido de vida que me deixava ver o seu sorriso imaculado e os seus belíssimos olhos azuis.Antes de A última vez que me deu para arear pratas foi na noite em que a minha avó Henriqueta morreu. convencida que o esforço de aplicação em brios e reflexos me aliviaria do vazio que ela me deixava. adaptados à nossa época. me deu para arear as poucas pratas que tenho. O dia arrastou-se de forma ordenada até à noite em que. pérolas e pulseiras de ouro. com um porte de rainha. sozinha em casa depois de ter adormecido o meu filho. Usava um casaco de vison comprido. Mas a avó Henriqueta era dos quatro avós a única de quem eu gostava. intuí-a no dia em que soube que tinha caído e a morte é muitas vezes piedosa quando traz como arauto a doença ou o acidente. sou daquelas pessoas a quem nunca morreu ninguém que vivesse ao meu lado e é por essas e por outras que me acho das com mais sorte na vida. De modo que a morte da minha avó não me apanhou de surpresa. num daqueles Outonos quentes e dourados que nos fazem pensar que o Inverno nunca há-de chegar. aceitei a notícia com a racionalidade própria destas situações: tinha caído. Depois. seria muito difícil que recuperasse com o vigor dos corpos jovens. durante dois meses. do qual a minha mãe e a minha tia guardaram alguns traços. já tinha mais de 8O anos. para que nos habituemos a ela. coquette e vaidosa. levava os netos de férias para . E a minha avó Henriqueta não era diferente das outras pessoas. sei apenas que foi em Outubro. nos foi alimentando esperanças de vida que sabíamos falsas. Tinha o chic típico das senhoras da sua geração. No dia em que morreu.

tal como ela. dava-me dinheiro nos anos e no Natal. mas mesmo assim. Claro que nunca foi minha confidente nem fazia a mínima ideia do que me passava pela cabeça. tal como ela. Preferia trocar comigo informações úteis sobre champôs. antes de partir a bacia. antes de acontecer aquele momento que é tocado pela irreversibilidade e que serve para nos lembrar que tudo pode mudar num golpe. novas e bonitas e. bonita e divertida. ao contrário do meu avô que sempre me olhou com uma desconfiança mesquinha e judia. incluindo o meu avô. Mas eu prefiro mergulhar o olhar no azul profundo da minha janela ou nos olhos do meu filho e encontrá-la outra vez lá. a encher-me de bolos com creme a seguir a uma sessão no S. era uma óptima companhia. levava-me ao cinema ao fim de semana e encharcava-me de bolos com creme a seguir. comprava-me colares e roupa. abanando a cabeça como quem diz “Esta pequena é diferente dos outros”. Depois da sua morte todos sobrevivemos. e na casa onde viviam as fotografias dela ainda falam connosco quando íamos lá visitá-lo. ou talvez por isso. que se manteve por um fio improvável de vida e que já estava doente quando ela caiu. as heroínas eram sempre boas.um hotel de cinco estrelas no Algarve. . Jorge. mas a diferença é que a minha avó não me julgava. nunca se esqueciam de pôr bâton. onde. Talvez ele tivesse razões para me achar diferente e para desconfiar que a minha vida não seguiria nenhuma rota traçada por qualquer outra pessoa que não eu. cremes de pele e outras pequenas insignificâncias que enchiam os seus dias ociosos e felizes. calçar umas luvas e arranjar o cabelo antes de sair de casa. de vison e guarda-chuva com cabo de osso.

primeiro porque a minha vida és tu e por isso não fazem parte da minha vida e depois porque em todas elas descobri coisas de que não gostava e foi isso que me ajudou a amar-te melhor. é porque assim o quero e não porque decidiste salvar-me. Mas vocês não percebem isto nos homens. como se as quisesses trazer de volta e sentá-las à nossa mesa a jantar connosco. Em vão te explico que essas mulheres passaram com a leveza de uma pena ou a intensidade de uma tempestade. O que damos é o que temos de melhor. Sei que o meu passado te pesa cada vez que o presente o resgata em telefonemas rápidos e cordiais que vou recebendo de vez em quando de outras mulheres que já passaram pela minha vida e com quem criei esse laço raro e difícil que sucede à desordem do amor quando este se extingue depois da dor e o segredo da pele já se esgotou. Nenhum homem quer magoar uma mulher. insensíveis. inventar segredos e intenções em cada movimento que fazemos. sem pensar porquê nem como. mesmo que seja por escassas semanas. É difícil dizer-te que se me fazes ter vontade de ser todos os dias uma pessoa melhor. da mesma forma que me pedes para guardar debaixo do forro de papel da gaveta da cómoda as fotografias das mulheres que conheci. admiração e incompreensão e se podemos. animais. como se não tivéssemos nem honra nem princípios nem coração e é mesmo difícil explicar-te que cada vez que mandamos um ramo de flores ou soltamos palavras de amor não estamos a jogar nenhum jogo perverso. têm sempre que questionar tudo. construímos um pedestal e uma escada para vocês subirem. mas apenas à procura de alguma coisa que não descobrimos a maior parte das vezes. nem até quando. Nunca as vejo mas também não preciso. olhamo-vos com um misto de medo. às vezes sinto que gostavas de apagar para sempre todos os traços do meu passado como se nunca tivessem existido. exagerar as nossas fraquezas e brincar às mães redentoras. mas cada vez que conjugo verbos no pretérito perfeito tu ouves no imperfeito ou no condicional. .Aqui e agora Sabes. chamam-nos predadores. Mas vocês não.

E. não achas? . quando era miúdo e me apaixonei pela miúda mais gira do Liceu e levei a primeira tampa da minha vida. Ainda não perceberam que. quando me cruzei com ela na faculdade e a amei esporadicamente entre os apontamentos de Ciência Política e de Direito Constitucional. que a pureza de sentir é não ter de pensar e que amanhã ficarei triste se partires e feliz se ainda me quiseres guardar. simples e transparente.Sabes. a carne e o sangue que guiam o instinto também guiam o coração. não pensamos. Achei tão absurdo que percebi como vocês são de facto um bicho estranho. no que toca ao amor. aqui e agora. por isso esquece o passado e não temas o futuro. porque tudo e nada está nas nossas mãos e é por isso que para nós o amor é uma coisa fácil. quando a deixei. Ou se ama ou não se ama e se eu sinto que te amo sem ter de pensar se é verdade ou não é porque deve mesmo ser. E alguns anos mais tarde. fechado no quarto a ouvir Barclay James Harvest. ela cobrou o meu desinteresse em nome da paixão adolescente perdida para sempre no passado. percebi que ela não tinha nada a ver com a rapariga que idealizara nas dores de crescimento. Que o que conta é o que vivo contigo. percebi o que era querer ter alguém e não poder.

apenas os infalíveis. dinheiro. ou então tu dizias o mesmo a todas. afinal foi o mesmo que infligiste a várias outras mulheres e algumas delas ao mesmo tempo. onde me fechei do mundo para me esquecer de ti sem correr o risco de deixar de existir. o ar corre mais devagar e as pessoas parecem estar cá todas pelas mesmas razões. a primeira verdadeiramente importante. como todos os profissionais. como se o mundo fosse mesmo um lugar sinistro repleto de monstros. O Oscar Wilde também descansou do mundo na prisão. porque não gosto nada de me sentir mais uma vítima perdida nesse mar imenso de sofredoras de amor. Todas as pessoas são especiais. Não há melhor fórmula para conquistar o coração de uma mulher do que fazê-la sentir-se única. Aqui nas termas. usas poucos truques. . está sempre a acontecer e tal nunca espantou o mundo. do qual podemos fugir. especial. aquela que é capaz de mudar a vida de um homem e torná-lo uma pessoa melhor e. onde o corpo descansa e o coração se desliga. sabias? Esteve preso dois anos e sabes porquê? Por amor.Balada dos monstros As pessoas más seriam menos perigosas se não carregassem dentro de si alguma bondade. não podia ser só eu. Aqui nas termas. nem que seja por uma semana e descansar do mal para depois o enfrentar melhor. mas se calhar há umas mais especiais que outras. O mal que me fizeste. como sempre acontece com todos os monstros. afecto e respeito e que o abandonou quando ele mais precisava. só alcanças o conforto no sofrimento do mundo. que lhe roubou tempo. não é? Mas. O mundo condenou-o e desprezou-o pelo amor que ofereceu a um monstro. Não te basta o sofrimento de uma mulher. observo a dança das árvores no final das tardes eternas e vêm-me à memória as tuas palavras carregadas dos sonhos e planos que fazias para o nosso futuro e imagino-te como um robot a repetir as mesmas a todas as outras mulheres que foste deixando para trás. sobretudo quando passavas a vida a dizer-me que eu era uma pessoa muito especial. Claro que isto já aconteceu a milhares de mulheres. A condenação de um homem pelo crime de amar é que pode espantar e isso leva-me a pensar porque é que vim para aqui descansar.

mas nasceram sem coração e nem mesmo quando passam a vida a roubar e a destruir o coração dos outros. os monstros podem nascer com todos os atributos e qualidades. feita de dúvidas e de incertezas. a expressão mais casta e pura. ou melhor ainda. num exercício de desdobramento infinito no qual vais sendo sempre capaz de ir mais e mais longe. tens pouco tempo para tanto jogo. Nem podes. . jamais saberão o que é ter um. Para os monstros não há regras nem limites. para os monstros os outros não existem porque só servem para os servir. é como ver vários filmes no mesmo écran. sabes. as mãos mais macias e perfeitas. Mas. E é por isso que são tão infelizes. o sorriso mais cândido e a voz mais bela. ser actor em várias novelas.numa amálgama disforme de uma tristeza confusa. podem ter o mais belo e azul olhar. estás sempre ocupado a escolher e a estudar as tuas próximas vítimas. E é por isso que nunca serão pessoas. um sofrimento silencioso e imenso que te deixa indiferente porque nem sequer as vês. só há desejos e obsessões. não tens tempo.

Bigodes de gato lambido Na minha rua os passarinhos começam a cantar a partir das três da manhã. mas os quadros eram tão bons e bonitos que depois de ter comprado alguns. como tímidas ameias de um castelo fortificado que riem para o casario com um fio de azul ao fundo. quintas. onde ninguém esteja à minha espera. Mesmo assim ainda vejo passar os barcos. que já percebeu que um tigre de porcelana na sala não deve ficar bem. herdei dinheiro. Então a Mariana e eu damos um jeito à coisa. mas também não sabe o que há-de comprar. achei melhor despedir-me porque o dono olhava para mim desconfiado. mostramo-lhes umas revistas e eles desapegam-se dos napperons de renda e das flores de plástico e lavam a cara dos apartamentos. fiquei sem pinga de sangue. O que faz uma rapariga cheia de dinheiro? Não preciso de trabalhar para sobreviver. Depois procurei trabalhos simples que não me ocupassem muito tempo. mas o meu currículo era sempre demasiado qualificado. Filha e neta única dos dois lados. Arranjei um part-time numa galeria de arte. Tenho um grande problema na vida. Fazem-me companhia com a fidelidade canina rara nos invertebrados sempre que meto a chave à porta e subo os quatro lances de escadas que me levam ao meu pequeno paraíso. não preciso de me casar para poder pagar com dois salários o empréstimo do tão desejado T2 ao banco. com mulheres . Agora trabalho com uma amiga em decoração. acções e prédios e quando fiz dezoito anos e o meu tutor me começou a explicar a dimensão da minha fortuna. Moro num sótão à Praça das Flores com os tectos em vénia e as janelas cavadas nas paredes de quase meio metro de espessura. Colégios internos na Suíça e diploma do MIT de Boston não deixam ninguém indiferente. nunca casei nem tive filhos. quase sempre em condomínios de luxo. ajudamos aquela gente que fez muito dinheiro em pouco tempo e se sente perdida em gostos e referências. Por isso decidi arranjar o último andar de um dos prédios que me pertencem e fingir que sou uma pessoa igual às outras. sou muito rica. não tenho ninguém para cuidar. cargueiros e navios e apetece-me volatilizar-me até aos porões dos cargueiros e partir incógnita para um lugar que nunca vi nem conheci.

mas Beatrizes e Gonçalos. me idolatram. até tenho um apaixonado que anda de Ferrari ao fim de semana e me quer ensinar a jogar golfe. Já tive um assim. mas mais poético. Tenho homens que me admiram. arquitectos premiados. dentistas. mas isso não era para gastar dinheiro. dá-me a urgência de uma normalidade qualquer que me falta e a nostalgia do meu namorado de boné e ténis a ler-me poesia numa esplanada apinhada de filhos dos outros e apetece-me voltar a ser outra vez só mais uma rapariga feliz porque tem tudo o que o dinheiro não paga. só gostava de livros e discos e de viajar. Nunca teve um fato e as gravatas pedia-as emprestadas ao irmão. era para ganhar mundo. não ligava nenhuma a marcas. igual a todos os rapazes por fora. O que eu gostava mesmo era de ser uma rapariga normal com um namorado normal que tivesse um Nissan Micra e me levasse a comer saladas em esplanadas na praia aos fins de semana e no fim me desse um gelado para eu ficar com bigodes de gato lambido. tenho rapazes prósperos entre os meus amigos. nunca me disse quanto ganhava no Centro de Reabilitação de Alcoitão onde punha as pessoas andar com o corpo e a alma. nunca quis saber quantas arrobas eu tirava por ano no Alentejo nem quantos prédios tinha em Lisboa. me procuram e me acarinham. doce e triste do que todos os outros por dentro. . Nunca falámos de dinheiro. Mas cada vez que vou bater bolas para o clube com aspirações a privado e vejo a imensidão do verde polvilhada de pessoas ricas e bem vestidas. directores de salas de bolsa em bancos.anafadas e morenas e crianças com o cabelo cortado à futebolista que agora já não se chamam Victores e Marisas. carros. relógios.

apenas aliviado pela magia do quarto da Lua a crescer que me faz acelerar o sangue nas veias quando me levanto para fazer um chá de cidreira. Mas quando me levanto a meio da noite e tento aquecer o coração congelado em doses homeopáticas de chá entorpecedor. Tentava interessar-me por um homem qualquer e tornava-me politicamente correcta. Se não fosse esta mania de pensar tanto se calhar conseguia fazer três ou quatro exposições por ano. E então fecho os olhos e o teu cheiro volta a inundar a sala mal iluminada e quase te mexes. os teus cabelos compridos desarrumados pela paixão das minhas mãos sobre a tua cara. mas naquele Natal de 97. mergulhada no silêncio opressivo. talvez sentisse mais. ou melhor. a tua boca perfeita. caminhas devagar com a leveza de um fantasma e abraças-me pelos ombros. e isso me impedisse de passar noites a fio acordada. Não sabia que gostava de mulheres até te ter conhecido. as tuas pernas alongadas. tanto faz. primeiro uma perna e depois a outra. quando te vi entrar em casa da minha prima Sofia e a música dos teus passos me pôs a cabeça a andar à roda. dissipo-te no ar com um gesto brusco. a vida tem destas coisas. ponho no prato do Cd o disco do Rodrigo Leão que me deste nos anos e me sento em frente à tela azul que me chama como uma mulher nua e sedenta de prazer. de repente percebi tudo. só te consigo ver a ti na tela pintada de azul. vejo-te a sair do quadro ainda por pintar. pequena e grande ao mesmo tempo.Braço de ferro Se não fosse esta mania de pensar tanto no que sinto. como aqueles pintores da moda que venderam a alma em forma de tintas a um marchand chupista e ambicioso e descobriram uma fórmula infalível: barcos. cavalos. mas não te sinto a apertar o peito contra o meu porque os sonhos nunca se tornam realidade e por isso desligo a música que me embala. na esperança que o sono regresse qual filho pródigo. quadrados. o teu peito pequeno e cheio. rebobinei a minha vida à velocidade de um videogravador e todas as peças do meu enorme e confuso puzzle se encaixaram por magia. apago a luz para me esquecer da tua imagem. traz-nos presentes que não sabemos desembrulhar. Percebi porque nunca me .

me penetravam eu me transformava num pássaro e fugia do meu próprio corpo. mas isto deve ser de pensar demais.tinha interessado por homens. porque eu sei. Só sei que desde que foste dar aulas para o Porto o meu coração congelou e passo as noites a olhar para a Lua à espera que me chamem outra vez ao armazém e me ponham no corpo certo para te poder amar sem ter que pensar de mais em tudo para me esquecer do que sinto. que já fui um homem e se calhar até já te amei mais do que uma vez. minha bela Catarina.e não foram poucos . Se calhar enganaram-se no armazenamento das almas e quando chegou a hora de redistribuição puseram-me no corpo errado. sou eu aqui às voltas com as telas e com a vida. porque é que tapava o nariz quando lhes cheirava a pele na praia e me causava tanto nojo e tristeza ter que ser humilhada por ter menos força e perder sempre ao braço de ferro com o meu irmão mais novo. sem ter que fazer todos dias braço de ferro com o mundo. porque é que quando os meus namorados . .

suave e doce como uma compota de pêssego. cujo segredo para entrar nunca quis descobrir. que quem o consome produz uma endorfina semelhante à que o organismo fabrica em estado de paixão. Dizem que o chocolate vicia. .Brown chocolate Escrevemos para resgatar o que sabemos ter perdido para sempre. Deve ser por isso que desde que te fui levar ao aeroporto ainda não parei de escrever. sombras brancas para os olhos. gostasses de a desenhar com um lápis cuja cor respondia por brown chocolate. O mundo secreto das mulheres sempre foi para mim uma caverna de Ali-Babá. nem grossa como as das manequins ocas e vazias que durante anos e anos fotografei para a revista. amostras de perfume. apesar de. caixas de pó bege. nem fina como as das pessoas más. talvez desde o dia que te amei pela primeira vez. como se a música do teclado possuído do computador me evocasse a tua voz de fada. com a precisão cirúrgica de anos e anos de prática. eu via a tua boca de pêssego desenhada a brown chocolate e as tuas mãos a dançarem sozinhas. me viciei na tua boca certa e regular. Viver também é procurar sempre aquilo que não se tem e quando um homem vive afogado em mulheres muito bonitas. O mundo da beleza embalado em produtos com nomes evocativos como brown chocolate. devia ser por isso que muito depressa. Chegaste ao estúdio um dia com o cabelo apanhado e a cara lavada e sentaste-te a um canto enquanto eu fotografava uma apresentadora de televisão que era tua amiga. pensando bem. lápis de cores escuras. como a tua pele. cheias de nada e de coisa nenhuma. a tua boca cor de pêssego também podia ser de chocolate. como gosto de lhes chamar. a beleza vulgariza-se em traços e dimensões e só um olhar que fale ou umas mãos que dancem nos conseguem arrancar da letargia da abundância. E. o cheiro do teu cabelo e a tua boca que nunca precisava de bâton. do lado direito logo a seguir a onde a objectiva perdia o ângulo. enroladores de pestanas. E. raparigas de algodão.

tenho procurado a tua boca nas raparigas de algodão que povoam a solidão do estúdio. que me guardasses para sempre. deitada na cama com as mãos no ar e a boca rasgada num sorriso que dizia nunca ninguém me amou assim quem sabe. ver no ar as mãos como dois pássaros que ainda há muito pouco aprenderam a voar.Não sei quanto tempo passou até consegui trazer-te para casa. chocolates e pêssegos vivem agora perdidos na minha memória que nunca se cansa de ti e deve ser por isso que escrevo horas a fio sobre o prazer de te lembrar. Eu. onde sempre sonhaste trabalhar. mas ou têm outro cheiro ou usam outro bâton. mesmo que desses a tua boca a outros homens. talvez alguns anos. vou a uma perfumaria procurar-te no nome de um lápis. apeteceu-me roubar-te o lápis brown chocolate da carteira e pedir-te que nunca o pusesses para mais ninguém. um dia destes. deitar-te na cama e morder essa boca que queria só para mim. enquanto te amava com a tal endorfina a estoirar-me os miolos. São sempre infinitas as formas que encontramos para ficar mais perto daqueles que amamos. te ia levar para sempre. . numa dança de prazer. num misto de espanto e abandono nunca ninguém me amou assim Não sei quanto tempo passou. confesso. muitos meses. enquanto repetias. mas quando te levei outro dia ao aeroporto e percebi que o teu estágio em Londres na Vogue.

E . que nos tiram o sono e o apetite. Depois uma pessoa cresce e habitua-se a sofrer. de palavras mágicas e inconsequentes. baixa os braços. depois pelo primo direito da minha amiga Paula. de castelos de areia. e nem sequer penso o que é que vai ser. Basta de espera. ou pior ainda. de adiamentos e hesitações.Há várias formas de levar uma relação para a frente . Pois passei. de ausências e de dúvidas. Mas tu não. A desejar o impensável. às vezes com a vida mais breve do que uma mosca. A sonhar um bolo gigante a partir de três migalhas. Até ao dia em que uma pessoa se cansa. por mais meia dúzia de caramelos a quem tive o azar de achar alguma graça. nos põem a contar as estrelas e a escrever poemas pirosos. A isso os americanos. A acreditar no impossível. A esperar. Desde o dia em que me apaixonei pelo palerma da terceira classe. que têm grande sentido prático e são bons em expressões. não correm. Basta de promessas de amor. A querer que aqueles que amamos nos tragam o mundo numa bandeja. A vida toda. O tempo vai-me dando indicações subtis se de facto um entusiasmo inicial pode ou não levar a qualquer coisa mais consistente. Paixões impossíveis. ponho-me ajeito a deixo-me ir. olha para o piano. depois pelo Miguel que não me ligava nenhuma e passava o tempo a jogar futebol e ténis. Tu passaste a vida a carregar pianos. de sonhos. Paixões de adolescência. nos fazem rezar mesmo quando já deixámos de ir à missa desde os doze. de promessas. chamam dar um letgo.dizia o Luís. de abnegação. depois de chegarmos da praia. por exemplo.Carregar pianos Para o Luís Botequilha . Eu. Começam do nada e acabam em nada porque não valem nada. nos adoçam o coração e o olhar e enchem a almofada de água salgada quando as coisas correm mal. a não ser enquanto duram. E depois. enquanto preparava uma sanduíche de queijo e fiambre. A isto chama-se carregar pianos. encolhe os braços e diz agora basta.

que a vontade comanda a vida. E o piano está ali mesmo em frente. tudo é difícil. E sentimo-nos a desmanchar por dentro. as pontes. tudo é esforço. as curvas na escada são uma equação impossível de resolver. somos mártires da nossa loucura. Escada acima. que o medo está acima da força. tudo se desfaz num estrondo imenso e assustador. flagelados pela nossa obstinação e teimosia. o mundo vai abaixo. Explicar que o tempo há-de trazer nos ventos a indicação de um caminho qualquer para onde o piano possa ir sem ser carregado. que faz quase tanto barulho como um coração a bater com a porta. tudo é inglório. os braços tremem. Que o cansaço já está acima do sonho. os prédios. à espera de ser carregado. Não é a partir. E o pior é que. As casas. para lhe explicar o que se passa. é só a desmanchar. quatro andares sem elevador. nem naquela casa.depois. é só mudar de vida e esperar que ela nos traga o que mais precisamos. quando chegamos ao fim da batalha e o piano está lá em cima. E o amor transforma-se numa luta. ainda custa mais. As costas doem. como se nada tivesse forma ou fizesse sentido. . num sacrifício. ao ouvido das cordas. sem partir as costas nem torcer os braços. se quase todos têm rodinhas? Não é desistir. E como é o nosso coração que está a bater a porta. mas não o amor. Dá vontade de pegar num martelo e de o destruir de raiva. Para quê. Dá vontade de o abrir e tocar meia dúzia de notas. E geralmente até traz. não era naquela sala. nem era aquela pessoa. Carregar pianos. Carregar pianos. Dá vontade de descansar sobre ele e falar-lhe baixinho.

Lisboa chama por mim todos os dias com as suas cores. conforme me visto de preto ou cinzento. trabalho desde os 17. já mudei três vezes de hiper. Moro no Seixal e da janela da casa que divido com o meu irmão e a minha avó. daqueles que aparecem nos anúncios a ténis que custam metade do que eu ganho como caixa no hiper onde trabalho há dois anos. desde que o meu pai morreu e o meu irmão desapareceu e vive agora entre a colina do Casal Ventoso e a Avenida de Ceuta. a primeira porque a supervisora queria que eu tirasse o piercing do nariz. Primeiro a base. Se não fosse a noite de Lisboa à sexta e às vezes ao sábado. bolas. mas não me consigo vestir de outras cores. Não sei porquê. enfio os cigarros no bolso e aí vou eu: Indústria. por isso é como se também já tivesse morrido e como a minha mãe foi para a Espanha quando eu tinha 7 anos e desde então só a vejo de dois em dois anos na altura do Natal. sempre nas caixas. sempre em parte incerta. Às vezes a Karina vem comigo.Cinco contos por nada Todas as sextas-feiras depois do jantar. a minha vida era uma merda absolutamente insuportável. . o rímel num gesto repetido mecanicamente até à exaustão e por fim o bâton. fecho-me no quarto e começo a preparar o ritual obrigatório que antecede a saída para a noite em Lisboa. quando consigo trocar de turno. a segunda porque o supervisor queria ver o piercing do umbigo e a terceira já não me lembro porquê. a arrumar carros de dia para se meter no cavalo noite fora. a minha avó diz que eu ando sempre de luto e ando mesmo. depois a sombra nos olhos. formas e luzes. a esconder os pontos negros e as borbulhas. entre uma pastilha e alguns vodkas marados e mesmo com o sabor da ressaca na boca e no peito. é como se nunca tivesse existido. Assim. encarnado ou roxo. Apanho boleia de um gajo qualquer daqui que me deixa na 24 de julho. acordo no sábado depois das três da tarde com a ilusão de que me diverti. o seu cheiro e corpo como o de um homem bem feito e musculado. acho que faltei duas vezes num sábado à noite e correram comigo. São 21 anos. Plateau. Kremlin até às sete ou oito da manhã. é só uma merda com picos de euforia. sempre berrante.

o que acontece em média uma vez por mês. mas eu nem me importo porque se calhar também já não o conheço e como nunca o conheci. Mas para mim trabalho é estar na caixa todos os dias a aturar gente chata e prazer é escolher quem me vai aquecer o corpo no fim da noite e por isso não misturo as coisas. mas viciei-me no toque fácil e inconsequente e quando uma mulher se habitua a levar com peso em cima. é-me igual. Qualquer dia encontro-o na noite com uma namorada qualquer a fingir que não me conhece. A Karina também faz o mesmo. é só uma miúda estar atenta e orienta-se logo. saboreio-lhe o perigo e não vivo sem isto. . sempre é melhor do que andar a assaltar rádios para pagar uma dose.Ricardo qualquer coisa e fui para casa dele. quando os putos são giros e acha que eu devia fazer o mesmo. por isso acabo sempre por ir sozinha e já estou habituada. Claro que o Ricardo nem me pediu o telemóvel. não há nada que a safe. mas cobra dez contos. também é. mas tinha gostado mais se à porta da casa dele não estivesse o meu irmão a dormir encostado a uma ombreira. Só o reconheci pelo cabelo de um tom arruivado inconfundível e por isso nessa noite saquei cinco contos da carteira do Ricardo depois dele ter adormecido e meti-os no bolso do meu irmão.mas só quando a mãe se balda durante o fim de semana com o amante. mas que isto é um vício. há sempre uns gajos para meter conversa em qualquer lado. Na semana passada conheci um tipo baixo de olho azul e pinta de fanfarrão com nome de actor de novela . estava muito cansado para pensar e para me levar a casa. porque sinto-lhe o cheiro. Às vezes nem me apetece ir. Bom. Eu gostei de estar com o Ricardo. às vezes cinco. magro e sujo como um cão vadio. por isso deu-me dois contos e vim para casa de táxi.

atrasado como sempre com o tempo e com a vida. Claro que chegaste depois de mim. consegui enganar toda a gente . de modo que respirei fundo . Sempre soubeste seduzir as mulheres. comecei a planeá-lo pouco tempo depois de te ter conhecido. se calhar tem mais a ver com luta. tudo lhe sai naturalmente e como tenho esta mania de imaginar que a . punhas a cabeça das miúdas todas do bairro do Restelo a andar à roda com os teus olhos de raposa vivaça e o teu sorriso de modelo de anúncio para branqueador de dentes. com o vento a ensurdecer-me os ouvidos e a gelar-me os braços. claro que piscaste o olho à tua antiga namorada enquanto caminhavas pela passadeira esticada com afinco e critério.Comédia romântica Há mais de dez anos que esperava por este momento mágico em que entrava na Igreja de braço dado com o meu pai vestida de branco e com um véu a tapar-me a cara. Não sei se lhe chamo ou não amor. são elas que escolhem os homens e quando metem uma coisa na cabeça os doze trabalhos do Hércules transformam-se numa brincadeira de crianças comparada com a missão que nos propomos vencer. quando um homem nasce com esse dom precisa de muito pouco esforço e quase nenhuma aplicação para o desenvolver.e encolhi mentalmente os ombros. mas nunca pensei que fosse numa tarde tão fria como a de sábado. Há mais de dez anos que sonhava com este dia.só a minha irmã Francisca é que percebeu que era um suspiro. vitória. competição. habituada às tuas incongruências e disparates porque quando uma mulher ama um homem. ama-o por tudo o que ele lhe pode dar e odeia-o por tudo o que ele não lhe quer dar e como acho que vais dando o teu melhor a mais não és obrigado e não se fala mais nisso. E tu que nem sequer és parecido com o Tom Cruise. desrespeitando a praxe das noivas. tu não sabes mas as mulheres são assim. a vida toma a forma de um troféu e tudo o que fazemos e pensamos é condicionado pelo objectivo final de conseguir levar a bom porto uma missão que só tem sentido se for impossível. claro que te enganaste na mão e me estendeste a direita no momento crucial do sim.

passei a chamar-te Natural Born Killer. E foi assim que te comprei o Rolex que te vou dar quando aterrarmos no paraíso e tu nem vais perceber nada. por isso o melhor é não te contar a verdade.minha vida é uma comédia romântica com laivos de dramalhão. mas quando uma mulher gosta mesmo de um homem é a morte. aguenta-se tudo. desencantos e traições. Preferia que não fosses tão certeiro nas tuas conquistas. Por isso. porque nem eu própria já sei onde é que ela está. que me escolheste sem teres percebido que foste escolhido porque. percebi que a língua afinal pode ser uma ciência exacta. é tudo uma questão de treino e concen-tração. depois de teres dançado com quase todas as raparigas e me teres dito que eu era única. . quando quase no fim da festa. dez anos é muito tempo para carregar mentiras. os olhos e os ouvidos fecham-se perante as evidências que não nos convêm e já percebi que se pode passar uma vida inteira assim. hoje vamos de lua de mel para Guadalupe e pode ser que no regresso te possa contar que casei contigo por causa de uma aposta que fiz com a Francisca há dez anos quando te conheci e ela me disse dou-te 1000 contos se conseguires casar com ele. entre todas as outras. que talvez nunca ouvisse da tua boca um superlativo absoluto. talvez fosse ligeiramente melhor em qualquer coisa do que elas. Do mal o menos.

E tem os bolos da Cecília. cafés onde os empregados são eternos. quando nadam na baía sem ondas. S. Martinho do Porto é deles. quando dormem a sesta protegidos pela lona gasta da barraca. Tem sol na eira e chuva no nabal. voltar. o arrepio na espinha da primeira vez que passamos a barra num barco de um primo qualquer mais velho e experiente nestas coisas do mar. Tem ruelas cortadas ao trânsito. durante as semanas de Verão. S. uma prima. e a Rua dos Cafés é a rua de todos os encontros e de todas as gerações. Martinho é uma casa imensa. Martinho vem para casa. Quem vem para S. É uma alquimia que se respira no ar e não se explica e que nos faz sempre voltar. Há uma doçura mágica na curva quase fechada da baía. onde filhos. casas seculares. uma tia. que trata as crianças por você e vende os melhores guardanapos do mundo. nunca se esquecem paixões. À noite cai uma cacimba meiga e tímida. nunca se fecha nenhum coração quando se regressa a esta vila pequena e imutável. nome de santo e cheira a infância. Tem barracas na praia que pertencem à mesma família há mais de quatro gerações.Coração aconchegado Há uma praia escondida a meio do mundo. outra vez nós. feita de muitas famílias que gostam de viver em família. apesar das construções selvagens que . lojas antigas e modernas. na pele das crianças que brincam na praia. o olhar curioso perante o mundo. enquanto as crianças correm sem destino. voltássemos a ser. com um metro e vinte de altura. voltar. e banheiros e embarcações. Tem pevides e ondas. É como se se conseguisse parar o tempo e. uma familiaridade inconfundível quando se sobe ao Facho ou se passa o túnel para ouvir melhor o coração do mar. sobrinhos e netos cabem todos sob o mesmo tecto. toda a gente veste uma camisola que aconchega a memória e o coração. palmeiras. Tem forma de concha. As pessoas sentam-se em mesas redondas onde cabe sempre mais um. saboreando os primeiros e verdadeiros instantes de liberdade. Nunca se matam as saudades. sempre alguém da família ou que se conhece há vinte anos. quando ficam entregues a uma amiga. quando se sai de Lisboa rumo ao Norte.

sinto o coração aconchegado pela concha que me rodeia. mas não nos rouba nada e deve ser por isso que o regresso é sempre tão grato. afinal. mas uma benção de continuidade. Por isso. como se o tempo. tão perfeito. tão simples e fácil. O tempo passa por aqui. pelas mesmas caras de sempre. nunca ter saído. aqui não fosse uma força devastadora. sempre que regresso e descanso o olhar na baía. que nos rouba tudo.substituíram as casas de família. É como voltar a casa com a sensação de. pela presença dos filhos dos meus amigos. .

que vendo o meu talento a troco de marcas e compromissos comerciais. não é? Conheci-te há mais de sete anos no Conservatório. respondi-te que um dia ainda haviam de me escolher pelas razões certas e o que é facto é que nunca mais parei de trabalhar. mas só se fosse com os grandes mestres. vale muito pouco. tu com o violoncelo sempre às costas e eu com esta mania. pelo dinheiro é que é um crime fazer o que quer que seja. que tu me convenceste a aceitar. lembras-te. enquanto vejo escrito no maço em letras garrafais FUMAR PROVOCA O CANCRO e penso porque é que me hei-de chatear contigo e com as arrogâncias que me atiras com a sapiência dos vintes anos. a personagem estava sempre a fumar e passei um Inverno com bronquite por causa da estúpida da personagem. ou talvez cinema. porque para ti nunca nada está bem e tudo o que faço.Conselhos e críticas Dizes que deslizo à superfície das coisas. mas a tua crítica ensombra-me a vida. Ralhaste-me quando aceitei fazer o meu primeiro papel. que um dia ia ser actriz e não sei porque é que te continuo a ouvir a ralhar. mas tu dizias-me é pela arte e pela arte faz-se tudo. afinal. como se a raiva que tens contra o mundo tivesse que passar por um ajuste de contas contínuo comigo. Como naquela peça. tínhamos os dois a cabeça cheia de sonhos. mas eu sosseguei-te. que devia fazer só teatro. sou quase feliz. que podia ser muito melhor naquilo que faço. ganho bem e as pessoas até gostam do meu trabalho. Dizes que não devia entrar em novelas nem em séries imbecis. que o Ibsen é um génio e o Tennessee Williams um . em que fazia de lésbica alcoólica apaixonada pela mãe do namorado. foi numa telenovela e eu fazia de menina rica e tu ficaste ofendido quando soubeste que o realizador me tinha escolhido porque eu tinha bom ar. Dizes muitas coisas entre baforadas de cigarros de uma marca qualquer muito conhecida com uma caixa branca e dourada e eu oiço-te com a complacência própria de quem já passou por tudo o que estás agora a viver. Achas que eu devia fazer as malas e passar dois anos fechada no Actor's Studio. mesmo quando essas pessoas me passam para a pele e me fazem fazer coisas que não quero. eu que até já deixei de fumar e que gosto de ser actriz e de inventar outras pessoas em mim.

de uma vontade indómita de dar mais qualquer coisa do que conselhos e críticas. Nunca foste bonito. que o Peter Shaffer é vulgar e o Shakespeare um chato pomposo. Talvez assim caísses em ti e percebesses que cada pessoa escolhe o caminho que pode e não o que quer. . mas que me sabe bem ganhar dinheiro e quando tu olhas para mim e destróis tudo o que faço com a pontaria de um cirurgião há mais de trinta anos montado num bisturi. mas uns idiotas na mesma. não tão imbecis como as séries em que eu entro. apenas tiro partido da minha imagem.o amor transforma tudo e mente muito bem . mas o teu olhar valia tudo e quando falavas do que sonhavas para a nossa vida. eu bem te tento avisar que fumar provoca o cancro e explicar-te que não me vendo a ninguém. Sete anos depois voltamos ao mesmo bar cheio de fumo do qual afinal nunca saímos. apetece-me agarrar-te pelos ombros. sacudir-te até que percas essa arrogância dos solitários. que o trabalho. como o amor e todas as coisas mais importantes na vida não são um golpe de magia. mas o resultado sempre inacabado de um esforço permanente. as tuas mãos enchiam-se de luz e eu via o presente e o futuro a passarem-te pela ponta dos dedos e desejava o melhor do mundo para ti. porque passam o tempo a falar de amor e isso para ti é uma perda de tempo. Quando te conheci não eras assim ou então foi o meu amor por ti que te transformou noutra pessoa aos meus olhos . que nem todas as séries são boas.tinhas projectos. ideias e uma alegria de viver que os anos te roubaram. para ti todos os dramaturgos são uns imbecis. sonhos.oportunista dos afectos.

mas eu não via nem ouvia nada. finalmente abri os olhos. Dizem que o amor nasce num instante. envolto na subida da Rua Garrett até se cruzar com o Pessoa e lhe pedir só mais um verso. os ombros. depois de tantos anos. sem nenhum de nós saber. sublime e perfeito e eu habituei-me a suportar este equívoco. Começam do nada. sem nunca desistir. Já me tinham dito que eras muito bonito e possuído por uma tranquilidade que em nada se parecia com a melancolia. na febre semiconsciente de uma adolescência tardia. pelo menos para todos os dias enquanto os houver. a tua pele lisa e morena. de outra dor. um fio de vento que não se vai embora. esperando que um dia a vida me trouxesse tudo o que queria no corpo de um homem. como uma vela que não se apaga. a alma e o coração que batia ao mesmo . numa tarde de sábado reparei em ti no Chiado. ou uma onda desordeira que de repente cobre a praia inteira. com os braços estendidos para o impossível e o coração aberto em feridas ingénuas. Já me tinham falado do teu feitio brando. se não para todo o sempre. as mãos quietas e enormes e eu vi-te a boca perfeita. uma noite que não dorme e chega em claro até à manhã. Eram quatro da tarde quando. com o olhar tranquilo de que me falaram. para a minha vida. perdida no abandono de outro amor. Foi assim que tudo começou e entraste. porque é lá que bate o coração dela e é lá que o nosso coração acerta o compasso com outras batidas. que é sempre um lugar mágico da cidade. e quando não morre é total. de outra vida que afinal não era a minha. Já me tinham descrito a tua boca perfeita e o teu corpo atlético. Estavas sentado à mesa de um café. Dizem que o amor mata e quando não mata é porque morre. absoluto.Correr devagar Há muitas coisas assim na vida. se entusiasma e se deixa levar. como um relâmpago que cruza sem avisar o céu inteiro. quando. cada vez mais só e mais cansada. esperando em cada imitação de amor que vivi a quimera que os deuses inventaram para cansar os humanos e vivi muitos anos assim. do teu jeito com crianças e do teu prazer de viver.

que pode ser o ruído sereno e doce de uma nascente que corre devagar em direcção ao mar imenso. ando há tanto tempo atrás de qualquer coisa que já não sei bem o que é. a olhar em volta sem procurar nada. atento e sereno. percebi que é do nada que tudo pode começar. Mas na manhã seguinte já estava nos teus braços e na seguinte também e quando percebi que acordava nos teus braços todos os dias. observando nas mãos dadas dos meus pais uma harmonia secreta que o tempo só fortalece. procurando nos homens e nas mulheres a essência do amor. mesmo que tantas vezes o ténue fio pareça partir-se. menos gasto e mais protegido. E nele vi o reflexo do meu. mas feliz e aberto. Ando há tantos anos atrás da perfeição. descobri que afinal o amor não tem que nos fazer estremecer como um relâmpago nem sufocar como uma onda. . que quando te vi ali parado. a luz tão fraca ameace apagar-se e os sonhos prometam desfazer-se na manhã seguinte.tempo que o meu. pronto para amar. quieto. onde o meu talvez se pudesse um dia esconder da dor e adormecer todos os dias. talvez cansado como o meu.

Maria Alice. e não sei se é por seres tão diferente delas que um dia destes te peço . vem-me ao nariz o refogado entranhado nos bibelots e nos napperons e só descanso quando volto outra vez para tua casa onde não há napperons nem bibelots. A tua pele é branca. Maria Alice. diz a minha irmã que continua solteira a ler as revistas cor de rosa deitada na cama rodeada de bonecas espanholas. já a miúda tinha ido estudar para Évora. preferes exposições de fotografia e sessões de cinema a meio da tarde. abro outra vez os olhos e aliso-te o cabelo. Maria Alice. Tens a frescura de um ramo de alfazemas acabadas de colher. Mas eu olho para ti. ou por este amor louco que tenho por ti e que te faz iluminada e como nunca sabemos se aqueles que amamos são maravilhosos porque os amamos ou se é o facto de os amarmos que os fazem sentir-se maravilhosos. os livros dormem como irmãos nas prateleiras da Habitat. aquela rapariga vai-te matar à fome e quando lá fico a dormir. porque cada vez que olho para ti. Dizem que os homens não sabem amar. É que estou farto da dança da roupa suja para cá e para lá. e o cabelo muito comprido e castanho que escovas todos os dias com religiosa devoção. encandeado por ti. quase transparente e não gostas de apanhar sol. abana a cabeça e diz ai filho que magro que estás. o candeeiro do quarto é um ovo que ilumina a cama enorme e muito branca sem bonecas espanholas em cima. tu encolhes-te debaixo do meu braço como um pássaro que adia a partida do ninho e eu sinto-me estupidamente feliz por te amar tanto. é tudo claro e escasso.Debaixo do braço Ando há meses a dar voltas à cabeça e ao coração para me decidir se te peço ou não em casamento. diz a minha mãe que passa a vida a fritar pastéis de bacalhau para vender para fora. parece que se te acende uma luz na cara que ilumina os carros. os prédios e as ruas e é por isso que às vezes fecho os olhos para te ver melhor. mas também não precisas. que salta a dias incertos da semana do teu cesto de metal para o tambor velho da máquina ferrugenta da minha mãe que assim que me vê entrar. dizia a minha tia Júlia que meteu em casa a amante do meu tio quando ela engravidou e acabaram todos mortos numa cena de esfaqueamento anos depois.

sentadas no maple da sala a ver os finos no Mundo Vip e a suspirar por uma vida que nunca vão ter.para ficar a viver no teu apartamento claro e iluminado por ti. E que gosto mesmo de ti e nem quero pensar que ao domingo tenho que voltar ao refogado nos napperons e assistir à tristeza da minha mãe e da minha irmã. . as duas redondas como bolas Nívea. te ofereço um anel desenhado por um daqueles teus amigos do Bairro Alto e te declaro o meu amor.

Maria Emília. Se Deus te tinha tirado a Patrícia do estado de coma havia de te tirar o cancro. enrola os dedos num novelo de desespero e pergunta: mas por que é que ela nunca nos disse nada? . mulher! Mas sempre foste assim. não era. sabias tudo. assassinada por um bando de delinquentes. e quando a nossa filha Patrícia teve o acidente de mota com aquele doido do namorado e entrou em coma. ficaste calada e não contaste a ninguém.Deixa-te disso Devias-me ter contado antes. os castiçais de prata areados. a rezar baixinho e a dizer já fui à igreja. quase sempre adormecida pelos remédios e a Patrícia entra. Andavas pelos corredores do hospital com um sorriso verde mal colado às faces a dizer ela vai ficar boa e nós todos convencidos que a Patrícia ia morrer e tu ali. talvez fosse mais fácil para mim e para os pequenos. quando nos casámos e soubeste que às vezes ia a casa da tua amiga Isabel. aprendeste a viver num faz de conta desde pequena e por isso tudo o que não te interessa finges que não existe e se calhar. a reflectir a beleza do mundo que tu criaste. minha beata? Mas. num mundo inventado por nós. quando está lá em cima a decidir quem vive ou quem morre. como se a vida fosse sempre bonita e perfeita e a morte não fizesse parte dela. fizeste isso quando o meu sobrinho Augusto morreu com uma overdose. pois não? Para ti a realidade não conta. onde não há doenças nem mentiras nem morte e todas as pessoas são perfeitas e boas. com o tempo. qual barata tonta à espera de um milagre. mas sempre tiveste essa mania de só falar das coisas boas da vida. mas nunca te importaste. como vês. E se calhar foi por isso que quando te disseram que tinhas um cancro no peito e que tinhas que ser operada para ver se te salvavam. não deves ter ido vezes suficientes à igreja porque Deus não deu pelo problema e agora estás aqui deitada na cama a agonizar. como se Deus. deve ser mesmo mais fácil viver assim. tivesse tempo de ver quem vai à igreja. sempre soubeste. já fui à igreja. Fizeste isso quando a tua irmã morreu em França. Deve ser por isso que tens sempre a casa imaculada.

que diz sempre o que pensa e nunca se subtraiu à realidade por mais dura que fosse e sinto-me demasiado cansado para lhe explicar que sempre foste assim. eu sou a tua mulher e ninguém há-de mudar a realidade foi estranho ouvir-te falar de realidade. como ver-te nesta cama branca a cheirar a desinfectante. porque ainda e outra vez lá estavas tu a fingir que estava tudo bem e que nem a morte nem as coisas feias fazem parte da vida. Tu sorriste.Eu olho para a nossa filha que é tão diferente de ti em tudo. Que não vale a pena trazer ao mundo almas demasiado puras. nunca soubeste viver sem estar de costas para a realidade. nem quando um dia te disse que já não gostava de ti e me queria separar. Ou talvez haja algo pior. drogada com remédios que só servem para prolongar a agonia da tua morte. . elas não aguentam o nojo que uma vida verdadeira comporta e que não há nada pior do que viver com uma mulher que nunca discute. com aquele ar angélico de quem vive sempre dois metros acima do chão e respondeste deixa-te disso. mas olho para trás e quando te observo em 40 anos de convivência acho que afinal sempre aprendi alguma coisa contigo. Francisco. quando me viste agarrado à tua mão e me disseste deixa-te disso Francisco que isto não é nada deu-me vontade de rir. tu que nunca soubeste viver nela. nem quando o teu pai se suicidou por causa do 25 de Abril e deixou a fábrica nas mãos dos empregados. nunca se zanga e nunca se entristece com nada. Mas outro dia.

Dizem que herdei o porte aristocrático da minha mãe. mas já nessa altura gostava de viver recolhida e quando a criança nasceu. O Artur perdeu-se de amores pelas minhas carnes. para mo dar e tive tanta sorte que fiquei logo grávida.Depois da solidão As pessoas gostam de me perguntar porque é que já não saio de casa. fez o casamento perfeito. mesmo sob os calores sufocantes do mês de Agosto. acabada de chegar do Brasil para servir lá em casa. . a irmã mais nova de outras três que preferiram entregar a existência à secura do convento. A minha mãe era uma aristocrata falida. na Almirante de Reis. Teria sido um escândalo se tivesse saído de casa. que do meu pai não fiquei com nada. rumo ao Nordeste e nunca mais o vi. O casamento constituiu para os meus avós uma enorme alegria. dizem que os velhos com a idade ficam obsessivos. Morávamos na Rua de S. Pedro de Alcântara. mesmo em frente ao miradouro. Os homens pareceram-me sempre demasiado idiotas e torpes para conseguir suportar a presença de um deles na mesma casa do que eu. Para um plebeu endinheirado. implorou-me que casasse com ele. mas eu não quis e assim como chegou. Mas um dia quis ter um filho e pedi ao meu primo Artur. toda a gente pensou que viera com a Perpétua. numa das suas estadias em Lisboa. até porque o meu pai comprou-lhes o palácio e deixou-os lá viver até ao dia em que a morte vem buscar quem a chama. Quando era nova namorava-se à janela. Nunca vi a minha mãe sair sem as luvas calçadas. Nunca casei. num palácio comprado pelo meu pai depois de ter regressado do Brasil com os bolsos cheios de notas. partiu. os senhores respeitáveis usavam bengala e os rapazes não se passeavam sem chapéu nem gravata. onde os miseráveis vão comer uma sopa e sabe-se lá mais o quê. Aprendi esta palavra com a minha neta que se formou em psicologia e montou um consultório com o marido que também quer ganhar dinheiro a arrumar a cabeça das pessoas como ela. as raparigas sérias não saíam sem chaperon. nem sequer com o jeito para fazer fortuna. Julgam que é uma mania de velha. que me dava o que quisesse. junto à Mitra.

embora lhes invejasse o olhar alienado de quem entregou a alma em vida não se sabe bem a quem. . mas o silêncio dos claustros e a brancura hospitalar dos corredores do convento sempre me fez arrepios na espinha. quando o Sol bate no castelo e escorrega pela encosta até chegar ao Terreiro do Paço. os olhos já mal vêm as muralhas do outro lado do miradouro e quando a minha neta me vem visitar. onde se espalha como um mar de reflexos. que lhes dava ao rosto uma luz tão intensa que só vislumbrei igual em algumas madrugadas de Setembro. No meu tempo os malucos iam para o manicómio. não havia passadeiras. se não tenho cuidado ainda me cruzo com algum parecido com o Artur e enlouqueço só de pensar que desperdicei a vida toda por um ataque de orgulho e escolhi a solidão sem saber que depois dela não há nada.Uma vez por mês ia visitar as minhas tias. nem pretos. fico cansada de a ouvir contar estas coisas modernas das raparigas serem doutoras e assim. Bastava uma senhora pôr-se à beira do passeio e os senhores automobilistas paravam. não andavam à solta e é por isso que já não saio à rua. Nesse tempo havia poucos carros. posso ser obsessiva. nem sinais de trânsito. Se calhar estou mesmo velha. Faz-me impressão vê-la sempre agarrada àquele bicho chamado telemóvel a atender os doentes da cabeça que precisam de ir à consulta. nem postes com homenzinhos encarnados e verdes a dizerem-nos quando é que podemos atravessar a rua. por cortesia e educação. doem-me os tornozelos e as mãos tremem quando meto a chave à porta. as lavadeiras carregavam as trouxas na cabeça. mas não sou estúpida.

ou um frasco de ácido sulfúrico. mas convincente. E também te podia ter dito que quando me apaixonei por ti já sabia que te ia conseguir esquecer umas semanas depois. uma vassoura. um fantasma. impessoal. os pés levantam-se automaticamente do chão como se tivessem uma ventoinha. uma alma penada. preparo um discurso curto. numa vertigem que faz lembrar a Montanha Russa. mas sem subidas. Foi o que senti. ao quiosque da estação fluvial onde te conheci há seis meses. que vive há dez anos com a mãe no Norte e que visito uma vez por mês para não me sentir o maior sacana do mundo. só o frémito do medo e do desejo dissolvidos um no outro a bater-nos na cara e a devorar-nos os sentidos. quando o Verão se anunciava em dias de um calor mortal e enevoado que me toldava a memória e me acordava os sentidos. as mãos escorregam dos braços e a cabeça começa a andar à roda. eu sei que te devia ter contado do meu filho Miguel. rápido. Mas vou mesmo. que é como quem diz uma volta à minha cabeça. cheio de quartos e de pessoas que entram e saem. quando te comprei o jornal desportivo e uma revista de automóveis naquela tarde de Maio antes de entrar para o barco. E se agora perder dois ou três minutos a pensar. nem que para isso tenha que dar uma volta à minha vida. nem me consigo lembrar do que é que lá fui . um bicho.Desculpa Um dia destes meto-me no barco e vou ter contigo. nunca te apaixonarias por mim e eu preciso de sentir esse amor louco e incondicional que as mulheres têm por mim para continuar vivo até ao fim de cada dia. Eu sei que fiz mal em não te ter dito que ia de férias com a Cristina. minha pequena Madalena. a ver se vens ter comigo. intenso e inconsequente. Mas se eu te contasse a verdade da minha essência. eu que nunca vou à margem Sul. e depois regresso à minha vida e fico quieto. à roda. o meu corpo é assim e o meu coração também. com um spray. Meto-me no barco. e limpar tudo o que está lá dentro. como um vampiro. eu sei que te devia ter explicado que ainda vivia com a Tucha. devia ter nascido num hotel. Uma pessoa nunca pensa nisto quando se apaixona.

fazer. o sabor salgado da tua pele. pequena Madalena. um bicho. Talvez me vejas como um fantasma. o último dia que eu sabia que era o último e que tu sonhaste ser o primeiro da tua nova vida. o cabelo apanhado numa ordem que eu desconhecia e um sorriso fresco que me fez lembrar a minha professora da primária. porque a partir do momento em que te vi. . Eu não presto. um vampiro e tenhas pena de mim. mas um dia destes apanho mesmo o barco e sento-me em frente ao quiosque com um cartaz a dizer em letras gordas e envergonhadas Desculpa. como vão ficar os fins-de-semana que passámos juntos. não valho a tua espera e a tua tristeza. tenho o coração poluído com demasiadas mulheres para te dar o que quer que seja. achei que tinha ido àquele preciso lugar e àquela exacta hora para te conhecer e é isso que vai ficar na memória. a expressão eterna de prazer na tua cara.

as paragens constantes e a tentação nem sempre contida de entrar só para fazer o gosto aos olhos porque era sempre tudo muito caro e a avó sabia choramingar com elegância um desconto ao gerente solícito que se desdobrava em salamaleques e falsas simpatias. que nessa altura já contava tudo: candeeiros. A subida parecia imensa. Subíamos a Rua do Carmo depois de ter estacionado por alguns instantes na montra da luvaria Ulisses e da Casa Batalha. no olhar azul derretido no chantilly dos . Em 197O eu usava totós no cabelo. porque a avó já se tinha habituado a andar sem chapéu. com a curva da Rua Garrett à espera. uma gula lânguida.Os ducheses da avó À memória da minha Avó Henriqueta Ainda sou do tempo em que as avós levavam os netos à Baixa para passear e ver as montras. enquanto dividia o olhar entre as montras e o meu irmão. levava as duas meninas pela mão. Os Grandes Armazéns do Chiado pareciam uma gruta de fait-divers. A subida era longa e penosa. que era louca por galões e ducheses. A minha avó Henriqueta. carros. mundo perdido e desorganizado de utilidades e inutilidades para todos os gostos e além da imaginação. transformavam-se numa espécie de troféu quase impossível de alcançar. servidos por empregados míopes e obedientes que nunca deixavam cair as bandejas nem o sorriso baço. pedras pretas na calçada. de modo que a minha irmã com 12 anos ainda aparecia uma miúda de sete e o meu irmão alinhava em calções do mesmo padrão dos nossos kilts. o prémio apetecido e merecido por sermos lindos meninos que fazem companhia à avó cujo único pecado que toda a vida lhe conhecemos foi a gula. sapatos de presilha pretos com meias brancas e a minha mãe teimava em vestir-nos de igual. tudo corrido a camisolas de gola alta em moderníssima malha de seda que fez furor naquela época. mas sem luvas e colares é que não. quase lasciva. por isso o lanche na Bénard com os imprescindíveis ducheses ondulados a chantilly.

ducheses, na crosta de neve das tíbias que aterravam na mesa à razão de uma dúzia por lanche e que a avó saboreava, devorando com prazer, ou vice-versa, não sei bem. Hoje, quando subo o Chiado ainda espreito a luvaria Ulisses e as suas elegantes mãos de fantasma, e o Pessoa, que se sentou à porta da Brasileira muito tempo depois de morto, levanta o chapéu e pergunta a sua avozinha, menina, hoje não veio? Não, Fernando, mas não faz mal, porque onde quer que esteja, vejo-a sempre a delamber-se entre bolos, as unhas pintadas de cor de rosa nacarado a apontar o dedo indicativo com firmeza ríspida e maternal os meninos podem fazer tudo aquilo que quiserem, desde que eu deixe.

Os comboios não sabem voar
À memória do meu Avô Zé

Às vezes não sei o que hei-de fazer da vida, vejo os dias sucederem-se num comboio estúpido e sem estações conduzido por um maquinista louco que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e o pior é que nem quer saber. O comboio desliza sobre os carris cada vez mais depressa como se a qualquer instante perdesse a aderência e descarrilasse e então imagino as carruagens tombadas com as vísceras das minhas memórias espalhadas por todo o lado, a vida desmantelada no que já foi uma existência rica e cheia e que agora não vale nada. Ou então o comboio transforma-se num pássaro, crescem-lhe asas e cruza os céus com o peso das carruagens às costas que carregam o fardo das minhas memórias, as asas são enormes e desajeitadas e os comboios não sabem voar, o que vejo no céu é um monte de ferro e entulho com asas de chumbo à procura de uma nova dimensão, no derradeiro esforço de tentar, mais uma vez, outro caminho, outra saída para uma existência que perdeu o sentido e o lugar. Às vezes não sei porque é que ainda estou vivo, tenho quatro enfermeiras de serviço em casa, a Hilda, a Noémia, a Amélia e a Linda - deve ser Ermelinda, ou Deolinda, não sei - as minhas filhas vêm-me ver todos os dias, a mais velha está sempre triste e a mais nova está sempre bem disposta, as duas revezam-se para que não me sinta só, mas isso não é possível, porque quem já escolheu a morte fica para sempre sozinho, apenas descansa quando ela chega. Vejo-a de noite, umas vezes vestida de branco e outras de preto, às vezes traz flores, outras só uma foice enfiada no cabo de uma vassoura e então grito com ela. Dantes dizia-lhe vai-te embora mas desde que a minha mulher deu uma queda no corredor e as minhas filhas a levaram e nunca mais a trouxeram, digo-lhe fica aqui, levame de uma vez por todas, estou velho e cansado, já só dou trabalho e

despesa, não aguento mais a tristeza da minha filha mais velha e a energia da mais nova, leva-me depressa, leva-me, leva-me. Mas a morte é estúpida, é louca e é má porque só leva quem faz falta, como a filha da Noémia, que se sumiu com trinta e nove anos num mês, um cancro apanhou-a no caminho e deixou dois filhos pequenos, agora a Noémia tem que se ir embora e logo a Noémia que é a única que fala comigo, não há direito. Já quis dizer à minha filha mais velha que não quero outra enfermeira, que elas são más, puxam-me as pernas e os braços quando me passam para a cadeira de rodas e sinto-me desconjuntado como um espantalho com quatro colheitas em cima, mas as palavras enrolam-se debaixo da língua e quando saem já não querem dizer nada, por isso desisti de falar e agora oiço cada vez melhor; o médico disse-me há quarenta anos que ia ficar surdo, mas é mentira, oiço tudo. Oiço os passos das minhas filhas e as conversas das enfermeiras, oiço a voz da minha mulher e o ruído do estrondo quando caiu no corredor, oiço as notícias e os documentários, oiço a Fátima Lopes e a Júlia Pinheiro, oiço os meus intestinos zangados com o corpo a torcerem-se de raiva e a silvarem como o comboio da minha imaginação, oiço as vozes dos meus netos quando me visitam, comprometidos e atarefados entre as reuniões e as fraldas dos filhos deles, oiço o médico a suspirar e a dizer não sei como é que ainda está vivo hoje vão-me levar para a clínica para fazer exames e se me encontrarem um comboio na barriga e umas asas nas costas, pode ser que não volte, pode ser que a morte por lá seja mais expedita, afinal morrem muito mais pessoas nos hospitais do que em casa. Ela que apareça de branco ou de preto, tanto me faz, o que eu quero é que a Noémia vá para casa tratar dos netos, que a minha filha mais velha enterre de vez a tristeza e que a mais nova deixe de se cansar a fingir que está tudo bem, que os meu netos deixem de passar por cá a correr entre uma reunião e uma fralda e digam coitado do avô, estava tão velhinha, foi melhor assim nunca gostei que tivessem pena de mim, penas são coisas de pássaro e não de gente, mas também já não sou gente, estou vivo por um fio. Hoje pela manhã, mesmo antes da ambulância chegar, quando a minha neta mais nova que sempre foi mal comportada e rebelde me veio ver e lhe dei a mão, embargou-se-lhe a voz e disse é a primeira vez que o avô me dá a mão e ficámos os dois ali a olhar um para o outro naquela doçura de quem já não pode falar, percebi que toda a

vida tinha sido duro com ela. afinal ainda bem que não morri. . com a minha mulher e com o mundo e por isso quando a ambulância chegou para me levar para o hospital eu pensei. mas agora que vejo o comboio a estatelar-se na terra depois de um voo frustrado. com as minhas filhas.

Há sempre demasiadas coisas para dizer àqueles que amamos.E amanhã. mortalmente ferida. que podíamos falar. consegue atravessar o deserto e sobreviver a três picadas de cascavel e alcançar finalmente o oásis para morrer nos braços de um herói virtuoso. porém indeciso. na certeza da tua voz quando me ligavas e me dizias é amanhã. é amanhã que nos vemos e eu pensava que amanhã era tudo. meu amor. é muito mais simples do que as pessoas julgam. à espera daquele momento em que deitamos tudo cá para fora e ajustamos contas com o destino. Claro que nunca te iria cobrar juros de mora nem regatear perdões forçados. um olhar. mesmo sem falar. ouvir e ajustar contas com o destino e o coração. aquele que imaginamos perfeito e transcendente. mas vê lá tu que nunca tive a sorte de deparar com um oásis. com a tua mão a viajar ao longo do meu cabelo e a dizer sem dizer desculpa. ou dizias que vinhas é amanhã. que só era preciso falar. desculpa as palavras ecoavam como gritos na minha cabeça e eu respondia que não era preciso pedir desculpa. mas o tempo e a vida roubam-nos os dias e. meu amor. Mas isso ainda era no tempo em que vinhas. no amor o perdão não tem preço nem comissão. Não sei quantos desertos já atravessei. como nos épicos clássicos ou nos melodramas heróicos em que a heroína. basta amar para perceber mesmo e sobretudo aquilo que não tem explicação. nos regressos inesperados. que o teu regresso apagava os ajustes de contas com o destino porque de repente tudo se ajustava e afinal batia mesmo certo. Mas o destino prega-nos partidas e vai adiando até um limite que julgamos insuportável o grande momento. meu amor. como tu fazias. embora tantas e tantas vezes o pressentisse. estamos de mãos vazias e o coração a rebentar. um gesto. No amor. que se arrepende de tudo o que não fez e chora a morte da sua amada. às vezes basta uma palavra. quando damos por isso. meu amor Já me posso ir embora e deixar desempregado o maquinista maluco que não faz a mínima ideia onde acaba a linha e ainda bem que também não quer saber. é amanhã que nos vemos e como tinhas o dom .

a bater dentro do meu coração e cada regresso era um voo nupcial. que quando me chamavas o teu sonho e abrias muito os olhos na minha presença. O voo é inseparável da queda. um voo que agora só reconheço na loucura nervosa das gaivotas que arranham a minha janela no prenúncio de uma tempestade. agora que já sei que não vais voltar e que amanhã não é outro dia mas apenas mais um que sucede a este. nunca pensei que a vida fosse isto. tal como a luz da sombra e o sonho da realidade.de fazer parar os ponteiros do relógio à tua chegada. meu amor. mas acredita. como que a desafiar a verdade de eu existir para ti. o tempo de espera ficava reduzido a nada porque estavas ali. uma espera inútil. do qual já não fazes parte. comigo. ao meu lado. .

que eras o melhor tio que ele já teve e. é de te ter por perto. ou ainda quando brincavas com ele no pátio. Sempre me disseram que eras um malandro incurável. em casa. de repente. elas caíam como pinhas porque. a jogar à bola. como se sempre tivesses vivido comigo e jamais a solidão fizesse parte dos meus dias. não pergunta o que aconteceu . quase infantil. como a tua cara. Zé Maria. diziam essas mesmas pessoas. esqueço-me dos teus disparates que me cansaram tanto e apetece-me que voltes.mas de vez em quando. a falar de nada ou a ver uma porcaria na televisão. e era sempre tudo bom. tu eras muito bonito e o teu sorriso abria todas as portas. que estavas sempre a brincar. conhecer-se e ter vontade de se continuarem a ver no tempo em que o encarnado se apaga e o verde manda o trânsito avançar. aos fins de semana. mas devia ser mesmo verdade. porque nunca nos cansávamos um do outro. Não importava onde íamos. Zé Maria. fala de ti com entusiasmo e diz que eras do Porto. Era com esse mesmo sorriso que todos os dias abrias a porta da minha casa que também era a tua e me davas um abraço trapalhão e tímido. Acordávamos sempre à mesma hora e como dois siameses passávamos o tempo juntos. porque sempre nos sentimos em . almoçar a ver o mar ou apenas passear sem destino.nem eu saberia explicar-lhe . Agora o meu filho brinca sozinho. que as mulheres te caíam aos pés como pinhas no fim do Verão e um dia até me contaste que as conhecias no sinal encarnado e eu estremecia de espanto e pensava como é que as pessoas conseguem olhar-se. Ou então ficávamos em casa. ao cinema. quando me olhavas demoradamente e vias em mim os traços do meu filho. muito de vez em quando. como dois rapazes que perderam a idade para nunca se perderem um do outro. eu a responder-te à letra e o meu filho a jogar à bola. ao fim da tarde. tu sempre a rir de tudo e a dizer disparates. que metas outra vez a chave à porta e me abraces com aquele sorriso que me fazia companhia todas as noites e aos fins de semana.Em casa Do que eu tenho mais saudades. quando te ouvia meter a chave à porta.

mas foste o único homem cujo cheiro e o hálito nunca me cansaram e acredita.casa um com o outro. pois não? Ninguém sabe o que é o amor. por mais belas que fossem. Zé Maria. uma casa. . ainda podias voltar. se calhar mais bonitos ou mais inteligentes do que tu. tenho quase a certeza que. Olho para trás e ainda sei porque nos separámos. se crescesses só mais um bocadinho e me escolhesses. em nenhum momento. em vez de querer tudo. Zé Maria. melhor que ninguém. e disse-te muitas vezes que nunca soube se estive ou não apaixonada por ti. mas talvez também seja fazer escolhas e guardar no coração quem sabe. e tu em casa quando visitávamos os meus pais e eu em casa quando via a tua família. Ninguém sabe o que é o amor. mas enquanto o tempo passa e saio com outros homens. apesar dos teus defeitos e disparates. Quem nos quer para a vida e não por um Verão cheio de pinhas que vão para a lareira e se esfumam no tempo. te imaginaste a meter a chave à porta de uma casa qualquer. a mulher que adoras e uma loira fugaz num sinal encarnado. uma família. proteger-nos da solidão povoada de gente que passa e deixa nada. e eles me levam a jantar e me deixam em casa com um vazio que não consigo esconder e tu sais com outras mulheres.

até podias ser a Claudia Xífer ou lá como ela se chama. da temperatura do galão e da qualidade do sumo de laranja. do fiambre do croissant. nunca a vi aqui. sempre disse que sim a tudo na vida. o que vai desejar. pulava muito e batia muitas palmas. percebes. depois veio ter comigo ao camarim e disse-me que eu ainda ia ser um grande travesti. um galão morno. o costume. deve ser nova no bairro ou então veio às finanças. também querias ser actriz como eu. aparecer nas capas das revistas e dar entrevistas na televisão. que velha chata a ridícula. minha velha desdentada. minha parvalhona. que a menina Odete está à espera e a menina Odete tem sempre muita pressa porque como não trabalha nunca tem tempo para nada. não é. aqui tem menina Odete. não é? Sai um croissant com fiambre. até para ti Odete. esta não a conheço. mas com pouca manteiga. pintas-te de loira e usas botas com saias curtas e ver se alguém te pega. uma é cheia. ele estava lá em cima no varandim do clube. e eu disse que sim. chata e desocupada. olha. minha inútil. o que é expressão corporal. queria escolher-me as roupas. que reclamas do croissant. tu nunca te vestiste de mulher para cantar em playback I Will Survive. outra é pingada. faça favor. então esse galão. os sapatos e os enfeites. sou um deus e toda a gente me adora. tu não sabes o que é arte. sim senhor. queria-me ajudar na carreira. se calhar é por isso que sou tão bom empregado de café. tenho sempre paciência para toda a gente. eu sou um artista. bom dia menina Odete. mas olha que eu não gosto de mulheres. tu não sabes o que é talento. o que é intensidade dramática. escuro. às terças e quintas sou eu quem leva mais palmas quando sou a Lulu e canto em playback I Will Survive. atendo-a já. velha. são noventa escudinhos. eu não. tu não conheces a magia do palco e o sabor da ribalta.Em playback Saem duas bicas. não era? Mas tu querias era entrar nas novelas. está mesmo como a menina gosta. eu sou um artista que nasceu para o palco. se não fosse tanto dinheiro fazia um . e um sumo de laranja. as cabeleiras. sai ou não sai. foi numa dessas noites que conheci o Leopoldo. obrigado. então o que é que vai ser hoje. que toda a gente ainda ia ouvir falar de mim. tome lá senhor António tem aqui a sua bica. e a menina.

que chegas cá com as tuas botas ridículas e os teus olhares de velha gaiteira e já cá não estou para te servir o galão que nunca está bom. . mulheres. pela saudinha da minha mãe e do Leopoldo. são quatrocentos e vinte cinco escudos por favor. juro-te Odete. nem um grama de celulite como vocês todas. tenha um bom dia menina Odete. passe bem. o croissant que está sempre duro e o sumo de laranja que fica sempre aguado. saudinha e até amanhã se Deus quiser.implante e punha um peito todo cheio e rijo. eu devia era mostrar-te as minhas pernas. e um dia.

com as aurículas e os ventrículos que sabem o que fazem. Depois do regresso do Francisco. sempre gostei da vertigem do voo planado junto aos rails da auto-estrada. que afinal nunca aconteceu. é um bocado complicado. se o peito é onde dói quando se sangra de saudade. havia um crucifixo em cima da chaminé em vez do relógio de ponteiros.Encontrar a tristeza Para a Inês Ramires Dizem que há uma caixinha dentro do peito onde a tristeza se guarda. olho para o céu e vejo lá o mar. Desde que o Francisco me deixou à espera numa tarde de sábado para ir com os amigos a Jerez de Ia Frontera para o encontro anual de motards e não voltou que estou assim. A minha mãe. quilómetros a fio com o vento a cortar-me o pescoço e a cara inchar de calor dentro do capacete. artérias vastas e seguras como auto-estradas com via verde e pulmões de nadador salvador. mas ele disse-me não e eu sabia que estava de fora do programa. de certeza que o tinha encostado às costas dele. olho para o mar e vejo outro mundo qualquer e quando venho todos os dias para Lisboa dar aulas de inglês num daqueles colégios onde a . numa volúpia exaltada. Gostava de a encontrar. e até tinha razão porque o tempo não serve para nada se não fizermos nada dele.nessa altura ainda o tinha. que nunca gostou do Francisco. mas como nem sequer sinto o peito. se é no peito que se ouvem as batidas mais rápidas que nos fazem sentir mesmo vivos. nunca percebi porquê. o meu peito . Ainda lhe sugeri que também gostava de ir. passou a ir todos os dias à missa quando o namoro começou e cada vez que me via sair com a minha segunda cabeça debaixo do braço disparava numa ladainha confusa e incoerente e desaparecia a rezar para a cozinha onde. mas como há muito tempo que não sinto o sangue estremecer. perdi a noção do tempo e do espaço. já não devo ter peito. Eu até tenho um coração saudável. se o peito é aquele lugar onde a alma repousa e se acende. mas se calhar era assim que ela andava orientada.

o meu pai a dizer ao Francisco uma coisa daquelas. para recuperar a liberdade e aplacar a urgência do amor. morrem que nem moscas e nesse momento senti-me mesmo uma mosca. Quando me foi buscar a primeira vez a casa. que se sentia um pássaro e por isso não ia em compromissos que lhe cheiravam a gaiolas e agora que ando à procura da caixinha da tristeza e não sinto o peito. Ter uma parte de nós que pertence a um morto é uma coisa muito estranha e eu não quero continuar a viver assim. mas ele. Passámos a tarde inteira na cama. de modo que quando se estatelou na berma já a alma tivera tempo de se ausentar e assistir de lá de cima ao desmembramento de um corpo que já não era dela. só oiço o meu pai a dizer. encolheu os ombros. o peito dele pregado às minhas costas. Foi sempre assim o Francisco. chegou a casa dele e disse-me na cozinha. comentou ao intuir o capacete entre as mãos sem levantar os olhos do jornal. as mãos presas com cola.classe média põe os filhos na esperança de lhes dar um futuro melhor mais cedo do que os pais tiveram e imagino a minha Opel Astra a voar como um pássaro por cima do viaduto da segunda circular. Depois saímos e fomos dar uma volta de moto muito depressa. depois na desordem da queda incontrolável. O Francisco dizia que não era de namoradas. mas como as lágrimas também saem da mesma caixinha. deve ter olhado para a terra. na avidez dos corpos que ainda não se conhecem. as bocas coladas com espuma. o meu pai que lê cada edição da Bola pelo menos três vezes e devia ir na segunda volta. poucas palavras e muita acção. os olhos ficam secos e ainda me sinto mais vazia. de poucas palavras e muita acção. desde que meteu conversa no bar da faculdade. penso como é que o Francisco se sentiu quando a moto bateu inadvertidamente contra o carro da frente na auto-estrada a quase duzentos à hora e ele partiu para sempre. levou-me dali para fora. e pensado que nunca mais voltaria a agarrar-me os cabelos e a dizer vira-te com o tom de comando que me fazia escorrer de prazer pelas pernas abaixo. prefiro cruzar . primeiro a distanciar-se num rodopiar de grande efeito plástico. sem levantar os olhos morrem que nem moscas dá-me vontade de chorar. a não ser que fosse para relatar com pormenores de morbidez médica os acidentes dos outros motards como ele. Deve ter olhado para o céu e visto o mar. até que o sono invadiu o quarto e dormimos até a noite cair. quando fui buscar um copo de água virate e foi ali que fizemos amor pela primeira vez.

atravessando a vida com a morte.os céus e ficar a ver o corpo que já não me pertence. numa destas manhãs em que o nevoeiro descer outra vez à cidade. vou mesmo ensaiar o meu baptismo do ar e estrear-me nessa vida de pássaro que tanto invejo e pode ser que no derradeiro instante desse voo que imaginarei nupcial vira-te o volte a ver a cruzar os céus comigo. atravessando a parede da cozinha onde o crucifixo marca as horas. a caixa se abra e escoe finalmente toda a tristeza que carrego no peito e o coração pare enfim de bater para o meu sossego e descanso dos meus alunos de inglês. atravessando outra vez o meu peito resgatado no último instante possível e pode ser que então. nesse momento eterno e irrepetível que é e será o nosso reencontro. . Por isso.

com cheiro e corpo.Enterrar o coração Onde dormem as gaivotas? Onde dormem os cães vadios? Onde dormem os loucos. depois de me ter perdido em cidades que nunca vi mas que tenho a certeza que existem. vou ao cinema. que me arranhava as costas e chorava e finalmente a Ana. vou querer outra vez a minha doce solidão e prefiro imaginar do que passar à realidade. mas sei que pouco tempo depois de a querer. os demónios e as memórias? Onde dormem os sonhos e os pesadelos? Os dias correm claros e luminosos.é porque acredito que. quando as crianças têm medo do escuro e os adultos se encolhem no sofá à procura do conforto vazio de uma televisão. os vampiros.rãs. . que inclinava sempre a cabeça de uma forma que nunca conheci em mais ninguém. que tinha os olhos como amêndoas tímidas. elas estão ali. fumo cigarros. A Teresa. vivas. elas vivem dentro de mim.algumas delas são giras mas não me dizem nada. mas à noite. a Margarida. Digo isto porque acordo todas as noites alagado em suor. onde estão as gaivotas. Não é por ser estudante de biologia e andar a dissecar corpos de animais mortos desde pequeno . por isso finjo que não lhes cobiço as ancas . os sem abrigo. copos. tanto faz . de vez em quando há uma rapariga que interessa e penso como seria bom apaixonar-me por ela. passeios de fim de semana e viagens de comboio pela Europa durante o Verão. faço trabalhos de grupo com os meus colegas . as gaivotas. Nos meus sonhos ainda aparecem as mulheres que já amei e volto a amá-las.e vou enganando a minha existência com livros. coelhos. que quando me olhava era como se não me visse e por isso nunca me esqueci dela. os poetas. Nunca me esqueci de nenhuma. A vida vai-me passando ao lado. a Sofia. ratos. possíveis. os fantasmas. os loucos? Eu tenho uma teoria. os sós. como nunca somos só e sempre a mesma pessoa. à noite nos transportamos para outros corpos ou seres e somos nós os cães. mas durante o dia estudo. os que não dormem? Onde dormem os fantasmas. os cães.

que sou um louco ou um poeta. onde ninguém entra. e é por isso que sonho que tenho outra vida. um cão vadio. deixo de me encontrar quando me deito na cama e adormeço e então sinto que sou uma gaivota. a Sofia que já se casou e a Ana que foi viver para Londres. um fantasma escondido. quando a cidade adormece ou entra na vigília dos solitários. . E é nos meus sonhos que percebo que afinal não sou nem quem penso que sou. e muito menos quem gostava de ser. a Teresa que chorou a minha perda.Artifícios de quem sobrevive à dor e à tristeza. um poeta perdido. sofrem e desejam. que sou um cão ou um pássaro. Não passo de um rapaz solitário e escondido numa concha que não sei abrir. Só que à noite. Ao menos esses correm. em vez de enterrar o coração num livro de Anatomia Comparada e enganar os dias numa existência perfeita e intocável. numa existência paralela. uma alma sem abrigo à procura de um conforto qualquer onde sinta outra vez o sangue a estremecer e então sonho com elas e amo-as nos meus sonhos como talvez nunca as tenha amado antes. sonham. como se não precisasse de ninguém. a Margarida que ainda hoje me procura. Ao menos esses procuram sempre qualquer coisa. onde o mundo só serve para contemplar e a água das fontes é sempre para os outros. um louco. voam.

Se soubesse o que sei hoje tinha montado uma empresa de aluguer de pratos e copos para festas como fez a minha irmã Paula. Braços partidos por irmãos mais velhos. iludidos com a facilidade das pequenas vitórias. poupava-me às noites de banco e às atrocidades que vou vendo todos os dias com cada vez mais distância. o Miguel apaixonado pela Cristina. jornais. copos. metade do peso e menos meio palmo de altura. ensaios. livros. As mãos indescritíveis. vai-nos dando voltas e voltas à cabeça até acertarmos o tempo e o passo. consumir e deitar fora. Tínhamos pouco mais de 20 anos. lembras-te? Sempre foi a que estudou menos.Esqueleto ambulante Devias tê-la visto como eu vi. A Cristina era uma aluna excelente. lembras-te? Andávamos sempre em bando. casados e com dois filhos. o Miguel. eu por ele e tu por ela. revistas. mas deixava-nos de boca aberta perante as pautas e a eles de orelha murcha quando os trocava por outro qualquer. fartava-se dos compêndios quase tão depressa como dos homens. charros. arrancadas das aulas de anatomia no primeiro ano da faculdade. mortos de cansaço e de trabalho. até tu caíste naquelas garras felinas e não te censuro. um cocktail de vertigem e loucura que nos dava força para ficarmos fechados na época dos exames a tirar o curso mais difícil do mundo. há mulheres que vieram ao mundo para dar prazer aos homens e a Cristina era uma dessas semideusas do prazer. achávamo-nos invencíveis por termos entrado e foi a partir daí que alguns se perderam. o mundo era um mar de informação para absorver. Viver era aquilo. noitadas no Frágil. tu querias a especialização em radiologia enquanto eu sonhava com a pediatria e dez anos depois olha para nós. a Cristina e eu. misturas explosivas de Xanax com vodka. A média de entrada a rasar o impossível fazia de nós semideuses. . a cara tão escura e o cabelo tão comprido que os olhos pareciam dois berlindes perdidos no meio de um charco parado e infecto. tu. Naquela época líamos tudo. sentíamo-nos donos de todas as urgências e hospitais. a vida é isto mesmo. por graça chamávamos-lhe serial killer.

já nós a tínhamos perdido quando nos afastámos dela. à porta do lugar do mundo que lhe deu tudo para ela ser alguém e que ela trocou por uma viagem ao desconhecimento na ponta de uma seringa . paz e saúde para aqueles que amamos e pouco mais. dei-lhe uma moeda de duzentos escudos e virei-lhe as costas com as mãos enfiadas nos bolsos e uma pedra encostada à garganta. a mulher que nasceu para dar prazer aos homens e um dia destes desaparece no desconhecimento do mundo e ninguém vai dar por isso.traumatismos cranianos que os pais não sabem explicar. por isso se fores ao hospital e vires um esqueleto ambulante a esbracejar para te arrumar o carro. A vida deve ser mesmo isto. aquela que foi a Cristina. . quase nunca a que sonhámos e nunca como a imaginámos. quedas de varandas e intoxicações com champôs de linha branca. a nossa melhor amiga da faculdade. esquecemo-nos dos amigos indispensáveis e das noites eternas de amor. obcecados com a nossa vidinha de casa feliz. vira a cara porque a sombra pode ser ela. só a memória de uma sombra. hoje uma televisão maior. Antes da Cristina se perder da vida. mas só e apenas a sequência infernal de objectivos que desenhamos para que o vazio dos dias não nos coma a existência. viramo-nos cada um para o seu lado da cama porque sabemos que nos amamos e que estaremos juntos der por onde der e se calhar é por isso que quando vi outro dia a Cristina a arrumar carros à porta do hospital .fingi que não a reconheci. amanhã uma casa no Algarve. o resto pouco conta.que ironia. A amizade devia ser inviolável e invencível mas não foi assim. há sempre qualquer coisa que nos afasta dos amigos quando eles seguem caminhos diferentes e quando olhamos para o lado e os procuramos não está lá nada.

Estar e ser
Não há nada a fazer quando as pessoas não querem falar. Ou ouvir. Ou estar estando, que não é a mesma coisa que estar sem estar, porque estar sem estar é estar sem ser e é muito mais fácil não ser estando, porque assim se treina a capacidade de não ser e assim já é muito mais fácil deixar de estar. Eu pensava que quando tu vinhas, estavas e eras. Estavas comigo e eras tu. E era por isso que vinhas e era por isso que te sentias bem. Também pensava que esse teu estar, tão intenso e perfeito, era o inverso de todos os outros lugares onde, por obrigação, inércia ou cobardia, eras obrigado a estar sem estar e sem ser. Mas entre o que eu e tu pensávamos, o tempo foi tecendo um manto de confusão e dúvida e agora, que não sei onde estás nem quem és afinal, descanso o olhar no movimento dos barcos, imaginando que aqueles que vejo só estão e são perante os meus olhos até ao momento em que desaparecem a caminho do porto ou do oceano e que, depois, hão-de ser o que quiserem ser e estar onde quiserem estar e que, bem vistas as coisas, não tenho nada a ver com isso. Custa-me imaginar que és um desses barcos enormes e distantes que não me são nada, cujo destino e fim em nada dependem da minha vida ou vontade. Custa-me imaginar-te longe, à deriva, viciado numa existência estéril e inglória na qual não estás nem és aquilo que és. É como se saísses de dentro de ti e vivesses a tua existência na qualidade de um espectador da própria vida. Mas se calhar és mesmo assim, se calhar já te habituaste a viver fora de ti, não estando nem sendo nos lugares e nas palavras onde as pessoas pensam que te encontras. E se calhar é por isso mesmo que também não te consigo encontrar, porque estás tão habituado a estar sem estar e a não ser, que ninguém te pode encontrar, nem mesmo tu. Mas não faz mal. Não faz mal, porque tudo aquilo que não se procura, acaba, por uma ironia certeira, por nos vir parar às mãos e, por isso, enquanto descanso o olhar nos movimentos dos barcos e treino as pulsações para recuperar o ritmo real e melancólico, o mesmo que me guiava quando ainda não existias, penso que um dia,

uma tarde ou uma madrugada, uma maré de sorte ou de coragem te pode trazer de volta, quando tiveres respostas para me dar. Mas isso só será possível quando, ao ouvires as tuas pulsações, reconheças nelas o bater de um coração que afinal ainda pode ser o teu, tu que vives há tantos anos alheado de ti mesmo, estando sem estar e não sendo à custa de ser aquilo que os outros esperam que tu sejas. Também já fui assim, escrava de uma vontade que me emprestaram à força, cruzada em causa alheia, guerrilheira de uma luta que não era minha. Mas cheguei à conclusão que não há nada que faça mais infeliz uma pessoa do que tentar ser aquilo que não é. Aprendi isso há muitos anos, quando, num delírio de juventude, sonhava ser cantora; pisei um palco de escola e percebi que a minha voz segura e afinada por entre as quatro paredes do meu quarto não passava de um fio pungente e traiçoeiro de sons desarticulados que nem eu própria conhecia. Desisti de ser cantora e dediquei-me à escrita, com o afinco de quem sente o que faz e sente que todos os dias quer fazer um pouco melhor. E vieram as palavras, os livros, as memórias, a dádiva de dar aos outros um bocadinho de mim, em linhas que me ajudaram a crescer e, sem o saber, a tentar ser todos os dias uma pessoa melhor. Talvez daqui a uns anos possamos viajar no mesmo barco e descer o rio onde descanso o olhar, abandonando todos esses lugares onde te habituaste a estar sem estar, e finalmente voltes a estar e a ser como eu pensava que eras. E foste. Só que desististe. E quando uma pessoa desiste de falar, de ouvir, de estar e de ser, não há nada a fazer.

Estranha forma de vida
Dizem que Lisboa é branca, mas nunca lhe vi a cor, embora esta luz que carrego dentro dos olhos e que me encandeia o espírito seja clara, muito clara e o que sei eu de claro e escuro, nasci cego, nunca soube o que é ver, mas tenho um rico ouvido, isso sim, por isso é que a minha mãe me pôs nos braços a concertina do meu avô quando tinha sete anos e disse toca não me pediu para aprender, não me pediu por favor, aquilo foi uma ordem igual a tantas outras, as mães estão sempre a dar ordens mesmo quando já somos homens levanta-te, veste-te, calça-te, lava as mãos, limpa a boca, não mexas aí, não entornes o copo, acaba de comer, cala-te, toca e eu, obediente, espalhei os dedos pelos botões de um lado e pelas teclas do outro, senti o peso de um elefante sentado nos joelhos e a pouco e pouco, sem saber como nem porquê, comecei a tocar, viras, marchas, fandangos, pasodobles e até uma canção muito bonita que um dia me disseram chamar-se a Cavalaria Rusticana é o demónio do avô dentro dele, só pode ser rosnava a velha a quem me obrigavam a chamar avó, era feia e desgrenhada, com uma verruga no nariz e sem dentes - nunca vi mas tenho a certeza, certezinha que era assim - que levou pancada do bêbado até ele esticar depois de uma noite de Santo António. Atirouse para debaixo de um carro de um senhor que era cônsul, aquilo foi um problema porque o cônsul também estava com os copos, mas foi no tempo da outra senhora, os ricos eram ricos e os pobres eram pobres, ainda ninguém soprava para o balão e um diplomata sempre era uma pessoa de mais respeito que um velho emborrachado que era conhecido na Madragoa por apalpar as raparigas novas e bater na filha e na mulher quando chegava a casa toca dizia a minha mãe que tinha ficado surda do ouvido esquerdo de uma vez que o meu avô lhe bateu e ela se estatelou escadas abaixo, por isso quando me ouvia, sentava-se sempre à minha esquerda e inclinava a cabeça - nunca vi mas juro que inclinava - para me ouvir

tirou-me da banda e nunca mais vi a Emília.melhor e depois parece-me que sorria. O maestro. passava os dias fechado em casa a tocar e quando ela morreu fui à junta e disseram-me que se tinha casado com o comandante dos bombeiros e tinham emigrado para o Canadá. fui para a Banda da junta de Freguesia onde uma rapariga cega tocava martelinhos. . aprendia tudo de ouvido. mas quando a minha mãe percebeu. eu sei qual vai ser. a Emília. num instante sabia as músicas todas. sentou-me ao lado dela e simpatizámos logo um com o outro. porque um cego aprende a ouvir coisas que mais ninguém ouve e o sorriso é uma das tais coisas ó Augusto e agora aquele fado da Dona Amália. é aquele da Dona Amália que diz que a gente tem uma estranha forma de vida. mas um dia se a Emília voltar ao bairro e me pedir para lhe tocar um fado. que era o comandante dos bombeiros. que vive de vida perdida. mas que estranha forma de vida esta de tocar concertina para ouvir o tintilar das moedas na boina surrada que herdei do meu avô no dia em que foi atropelado pelo cônsul. obediente. Não sei quem me deu o condão. toca E foi a partir desse dia que passei a sentar-me à soleira da porta a tocar para o infinito. com os olhos escondidos do mundo por uns óculos escuros. aquele que diz estranha forma de vida ou lá o que é e eu. obrigou-me a estudar mais e mais e mais.

mesmo debaixo de um chapéu cinzento ou castanho. muito devagar a empurrá-la até vislumbrar uma fresta minúscula que só eu via e por onde o frio do Inverno entrava com eficácia mas discrição para me fazer levantar o cabelo e refrescar a testa. sempre posicionada entre as sete e as oito da noite como um relógio que ficou paralisado porque perdeu o sentido do tempo quando o ponteiro dos segundos se foi embora. Íamos todos para Baixa ao fim da tarde ver as luzes do Natal que na altura eram só estrelas e luas douradas. a pedir-me para a abrir. deixando aos nossos pés espaço para flutuarem no ar. Metia os netos no carro. Também ele dono da sua personalidade. porque o avô nasceu com a República em 1910. a seriedade e o medo de ficar pobre. por isso o passeio anual de Mercedes pelas ruas da Baixa também era uma forma de nos mostrar o que fazia na vida aquele avô austero e do Estado Novo que raramente sorria e nos transmitiu valores como a poupança. uma pele áspera e rugosa com personalidade própria e a manette das mudanças junto ao volante que subia e descia com solenidade guiada pela mão áspera e rugosa do meu avô.Estrelas à mão Era um Mercedes 190 E cor de cobertura de bolo de bolacha. Não podíamos falar alto nem abrir os vidros e eu fixava-me no brilho da maçaneta de metal. alinhados no banco de trás do Mercedes como vassouras ordeiras compradas à dúzia e os bancos eram enormes. fundos e cavados. alto funcionário da Direcção Geral dos Serviços Eléctricos. ele que vivia numa casa no Restelo com 23 assoalhadas e sempre teve dinheiro a render no banco. prisioneiro das suas ideias e portador da careca e do nariz mais emblemáticos que já vi. . coberta de pequenos sinais de pele. havia ordem e disciplina. com faróis atrevidos e estofos em pele castanha. O meu avô. mas sempre um chapéu. era o Estado Novo. só um pouco abaixo da linha dos nossos olhos que alcançavam a nuca do avô. era o responsável pelos néons de Lisboa e pelas luzes de Natal. austero e espartano e as iluminações de Natal também. por isso pousava os dedos ainda curtos e gordinhos e começava.

Nunca te hão-de perdoar o bem que fizeres aos outros. gastar as moedas e libertá-las da caixa do Montepio Geral.Nem tudo o que brilha é ouro. . um duchese na Suíça custava cinco escudos e era caro. o que fazia sentido era deixar entrar o ar pela fresta e dar sentido à vida da maçaneta. quando fosse grande. comprar tudo o que me apetecesse e não desligar as luzes de Natal. ia ser cantora ou bailarina e rodopiar como uma estrela durante todo o ano. só me apetece dizer-lhe que o dinheiro é uma coisa que só serve para pagar contas e comprar um tecto e quem vive preso a ele nunca aprende a saborear a vida com a doçura de um duchese. tudo era muito caro. vive entre uma cama e uma cadeira.. ficamos ali os dois a ver a Maria Elisa e as outras senhoras a darem dinheiro a outras pessoas e eu tenho saudades do Mercedes de onde via o mundo enorme lá fora e pensava que um dia. todas coladas em pé. Só estão ligadas uma hora. E tudo girava à volta da poupança. que não serviam para nada porque não se podia gastar nada. já só fala com os olhos. num misto de orgia e dominó. deve achar tudo mais caro do que nunca e quando o vou visitar e lhe pego na mão rugosa e metade do tamanho do que já foi. dizia também o avô. guiando o seu espada e eu pensava no que a Irmã Patrocínio me dizia no colégio. deixá-las dançar durante toda a noite e tocar-lhes com a ponta dos dedos pequenos de criança. Hoje o meu avô é um sopro de vida. isto custa muito dinheiro. numa tentativa ingénua de lhes guardar o brilho. no Natal recebíamos cada um uma moeda de cem escudos e um dia até nos levou ao Montepio Geral para abrirmos uma conta cada um e alinharmos as moedas que recebíamos todos os anos em caixas de madeira. que andamos cá para ajudar o próximo e praticar o bem e aquilo não fazia sentido. dos preços. que a luz é muito cara. Mas em vez disso..

a casa devia ser pintada. a borracha da marquise secou e deixa entrar água. numa partida do destino. Mas tu já não eras novo quando o escadote. subias às arvores desde pequeno e a tua mãe dizia-me que tinhas a mania do equilíbrio. o único onde ainda podia encontrar alguma paz no ar e adormecer sem a sensação de que estava quase a ser atropelada por um camião sem travões que nunca mais chegava. Estavas com barriga. tenho capas de livros descoladas. Tão novo que pensavas que ainda tinhas trinta. tão alto como o comboio que passa lá em baixo e por isso habituei-me a dormir no quarto dos fundos. que querias ser artista de circo em pequeno e só a paixão pela vinha te fez escolher Santarém e a Escola Agrária em vez da vida de saltimbanco.A falta que faz O telhado está velho e a precisar de ser arranjado. saíam-te pêlos brancos do nariz e das orelhas. abanando a cabeça em arritmias piedosas como gigantones em dias de cortejo. Ninguém te mandou subir ao escadote naquela tarde estupidamente quente de Agosto. Já estavas com cinquenta e sete anos. tinhas sempre energia para fazer tudo e arranjar mais alguma coisa. meu querido Aurélio. dizia toda a gente no enterro. uma acha revolucionária fez-me uma nódoa negra no soalho da sala e as cortinas da casa de jantar estão a cair. a porta da cozinha chia. . o autoclismo da casa de banho das visitas engasgou-se e anda com verborreia aquática. partiu-se a asa da terrina da Companhia das índias que o meu avô me deixou. andavas a pé com a celeridade de um nómada. tão novo. lâmpadas fundidas e mais um sem número de coisas por arranjar. Perdias-te horas em frente à televisão a seguir as vidas que os que escrevem histórias imaginam que são as mais difíceis e à noite ressonavas muito alto. te desequilibrou e te atirou ao chão num voo fatal do qual já não deste acordo de ti. dá-me uma tristeza que me paralisa o braço e penso invariavelmente que falta que faz um homem em casa. a persiana do quarto dos fundos partiu-se e só sobe ou desce com nós cegos na fita. mas cada vez que me sento a fazer a lista. queixavas-te de dores na coluna e resmungavas como um doente cada vez que eu trocava a telenovela por um concurso.

É que não gosto de mudar. Aurélio. É que tenho muitas saudades tuas.Lembro-me que te amei quando éramos novos e não havia telenovelas. as persianas funcionavam todas. mesmo quando o amor é substituído pela rotina das novelas. tu de calções pretos e eu de bikini encarnado. porque me parecias sempre igual. que eu assim já não ficava só. Este Verão escolhi o Alentejo para ir com os pequenos dos pequenos . podias ter tido mais cuidado a subir ao escadote. havia óleo nas dobradiças. sempre tive o mesmo homem e a mesma vida. pensei que falta que faz um homem. mesmo quando o corpo se esquece do prazer e se instala na velhice. Passeávamos por entre as vinhas. Nunca mais voltei à praia desde que morreste. há mais de trinta anos que vivo nesta casa e como nos mesmos pratos do mesmo serviço que o meu avô me ofereceu. meu querido Aurélio. e quando outro dia pedi um orçamento para arranjar as persianas e me disseram que eram duzentos euros e como eu ainda só sei contar o dinheiro em escudos. como quando te conheci na praia do Bom Sucesso em 63.mas vou muitas vezes à Quinta olhar para a vinha e pensar porque raio caíste tu naquela tarde estúpida de Agosto e bateste com a cabeça na morte.ao menos ser avó ainda serve para alguma coisa . . as crianças cresciam todos os dias e eu achava que a velhice era só para os outros. a matutar como é que se muda a borracha da marquise e quanto custa arranjar uma persiana. por isso.

tudo a tomar banho nu. chegava lá gente séria e humilde como nós a pagar tudo o que devia e não devia e depois entrava o presidente do clube de futebol do bairro com gravata de seda e as meias puxadas até ao joelho sem rendimentos nem vergonha na cara e é por causa dessa escumalha que isto está como está. toda a vida na repartição de finanças a tratar dos impostos dos outros. corria tudo à bofetada e punha-os de castigo. eles a varrer as ruas e elas a lavar escadas até o corpo e alma ficarem enxutos está na altura de aproveitares que esta terra é muito bonita mas tem o tamanho de uma noz e a gente aqui não vai a lado nenhum. fazer as malas à vida e ir para Toronto ter com o teu irmão. a gente também ia. tu ainda tens o tempo todo à tua frente e a vida corre atrás de ti. podias ir para a recepção ou então para os quartos.Fazer as malas O que tu fazias bem. Em Toronto não podes andar de top. Maria Luísa. Põe os olhos no teu pai. sempre é melhor dobrar roupa de gente rica do que servir cafés a benfiquistas frustrados que é o que tu fazes no café do Joaquim. mas estou velha e cansada e uma pessoa tem que saber quando é que a vida já lhe passou ao lado e se ocupa agora dos outros. o teu irmão Luís Manuel diz que faz um frio de rachar. eu sei que as tuas amigas ganham dinheiro a fazer de público nos talk-shows e que outro dia um senhor . mas ele arranja-te um emprego lá no hotel onde trabalha. tu falas bem línguas. tens saúde e nem és nenhuma doida como as rapariguitas do bar da televisão . Eu sei que tu gostas é de ir para a praia quando chega o Verão e de sair na 24 de julho à noite. tu és nova. Se não fossem os bicos de papagaio que me fazem pedir licença às pernas para andar e a gota do teu pai que o tem amarrado ao sofá o dia todo. que pouca vergonha. era abalar daqui para fora. havia de ser comigo. Se não fossem as limpezas que faço em casa da Professora Alexandra que me deitou a mão quando me reformaram de contínua no Liceu. entrava por ali adentro. és bonita. Tu não filha. nem dava para ir contigo à Zara comprar tops e aquelas coisas modernas que agora a juventude tanto gosta.

bicos de papagaio a prenderem-te as pernas e um inútil em casa pregado no sofá a queixar-se da vida e cheio de medo da morte. fazia as malas à vida e ia à descoberta do novo mundo. Maria Luísa. enquanto nenhum flausino benfiquista te apanha o coração numa bica escaldada.dessas empresas até te perguntou se gostavas de ser assistente de um programa. mas eu só tenho medo. te põe a parir e a esfregar os colarinhos dele e quando deres por isso tens cinquenta anos no lombo. que não aprendas nada comigo e acabes como eu. contava mais com o juízo do que com o corpo para trabalhar. Maria Luísa. quando são novos têm medo de viver e quando são velhos têm medo de morrer. mas se eu fosse a ti. a não ser para te convencer as fazer as malas e escolher uma vida melhor. presa à vida por nada. . Os homens são mesmo assim.

todo pinoca e disseme quando quiseres é só pedir não lhe perguntei o quê. A minha sogra sai para ir buscar peixe e faz uns carapaus de escabeche que são de chorar por mais. mas cada vez que . mas a minha sogra que é pouco dada a limpezas tem aquilo num nojo tal. a Kátia e o Helder e mais eu abalamos sempre no primeiro dia do mês de Agosto para casa dos meus sogros na Cova do Vapor. mas ao menos moramos no segundo andar e os miúdos sempre têm mais luz para estudar. O Fonseca tem uma loja de congelados e jeito para o negócio. de modo que o Mário. Este ano levei o Pronto e os beliches pareciam de mogno. depois de passarem a noite toda a dar-lhe na pinga no bar do Lopes.Férias na Cova do Vapor Não temos dinheiro para ir para o Algarve nem para a costa alentejana como os Fonseca. Eu bem limpo o pó todas as manhãs. a Kátia e o Helder desaparecem com a miudagem e eu sento-me à porta a fazer renda e a pensar porque é que não aceitei a proposta do Fonseca para fugir com ele para o Canadá. mas mal abro a janela para arejar a sala. porque depois ele me ia pedir em troca favores que até nem me custava nada dar-lhe. que quando parto para férias levo sempre uma esfregona nova e duas embalagens de Magic com cheiro a pêssego para dar uma volta àquilo. Ainda outro dia comprou um Mercedes branco. duas janelas de madeira comida pelo bicho e seis beliches lá dentro comprados na Moviflor é a mesma coisa que chamar Santa Teresa de Ávila a uma daquelas raparigas que sobem e descem a rua ao pé do Instituto Superior Técnico. O Mário dorme o dia todo e o meu sogro não lhe fica atrás. até ficaram a brilhar. entra-me a poeira para os olhos e deve ser por isso que estou pior da cataratas. Lá na Cova do Vapor não há poeira e os miúdos divertem-se. Chamar casa àquele barracão feito de zinco com uma porta de alumínio roubada aos restos de uma demolição. onde morávamos numa cave desafogada até o Mário ser colocado no hospital de Almada e nos mudarmos para o Feijó. onde nem se pode abrir as janelas por causa do fumo e da poluição.

mas como o melhor é nem pensar nisso. Pode ser que tenhamos sorte. Senão. a fazer renda. primeiro tem que lhe crescer o peito. Ou então que a minha Kátia se casasse com um jogador. a minha vida era outra. a não ser um churro da primeira vez que saímos e fomos à Feira Popular andar na roda gigante. Aquilo é que é um bom partido. que sempre que marca um golo beija a aliança e quando o entrevistam traz sempre a filha ao colo. nem empatava nada. se eu por acaso gostasse de me deitar com ele e abalasse sem mais nem ontem para Toronto com o homem quando quiseres é só pedir. quem me dera que a Kátia encontrasse um rapaz assim. disse-lhe que não era dele e respondeu-me minha não és. Se tenho conhecido primeiro o Fonseca. Mas a Kátia só tem dez anos. Estúpido. mas o meu marido e os miúdos é que iam sofrer. minha boneca ainda me aborreci com ele. Até que nem me importava de me deitar com o Fonseca.penso nisso olho para o Mário e para os catraios e dá-me dó. um rapazinho assim como o Nuno Gomes. coitada. à porta da casa da Cova do Vapor. a gente resolvia aquilo numa hora. Ele e a mulher agora nos algarves a comerem feijoada de marisco e eu aqui. que me tomei de amores por um enfermeiro pelintra que só sabe dormir nas férias e que nunca me chamou boneca nem me deu nada. isso sim atrevido. a ti dou-te tudo. O que eu queria é que o meu Helder tivesse jeito para a bola. . vou mas é ver se acabo este napperon para pôr debaixo do televisor com vídeo incorporado que comprámos nas promoções do Carrefour e que fica tão bem em cima da mesa de fórmica. tão lindo. à espera que o outro acorde com ressaca e a minha sogra acabe de fritar o peixe-espada. depois começo a levá-la aos treinos do Benfica e logo se vê o que é que se arranja. mas lá que és uma boneca. ainda lhe acontece a mesma desgraça que a mim.

ausência. ainda demorei um semestre a habituar-me à ideia. enquanto procuro nas figuras de Balzac traços e pistas que me levam ao fim de outra viagem. tristeza e abnegação e que a alma humana só se engrandece com a renúncia da felicidade. Mas os erros servem para criar hábitos e o vazio também enche a alma. a da descoberta da essência do amor. que o amor tem que ser feito de sofrimento. Vivi assim muitos anos. meteram-nos na cabeça. que me escrevia versos do David Mourão-Ferreira no vapor do espelho da casa de banho antes de sairmos para as aulas. enquanto tu ficas em casa a tomar conta da Joana e do Fox. vinhas do Porto e ias para Lisboa com um bloco A2 debaixo do braço e um estojo sufocado . revejo a matéria como a boa aluna que sempre fui e vou matutando com os versos de Baudelaire e os sonetos do Musset. Falo da outra espécie de amor. Depois foi o António no primeiro ano da faculdade em Coimbra. Às vezes acho que a ficção e a poesia é que deram cabo disto tudo. Pedro do Sul.Hello my love Sabes. pseudo-intelectuais com aspirações a iluminados. E não falo de pais. Primeiro foi o Luís que me conquistou numa noite de lua cheia em S. irmãos e amigos. E quando ele partiu para Itália com uma bolsa e o perdi para sempre. Nessas tardes de silêncio e reflexão. a nós. filhos. que a esses mal ou bem vamos sabendo dar e receber afectos com mais ou menos traumas e conflitos. ou não. habituada a esperar por nada. conheci-te neste mesmo comboio. viciada na tristeza e nas ausências. Depois. Penso muito nisto quando apanho o comboio de Aveiro para Coimbra onde vou dar aulas de Literatura Francesa duas vezes por semana. daquela que nos pode ligar. que é ao mesmo tempo outra e nós. há muito tempo que me ando a questionar sobre o que pode ser a verdadeira essência do amor. esquecer e começar tudo de novo outra e outra e outra vez. Esperei um ano inteiro até ao Verão seguinte e quando o voltei a ver percebi que nem se lembrava de mim. esperar. sem nunca deixar de ser ambas as coisas. para sempre a uma pessoa. por isso pensei que a minha vida ia ser isto mesmo: amar.

do teu sorriso espontâneo. aluna e professora exemplar daquelas que nunca faltam às aulas. aceitando cada dia como o último. aquilo era mesmo o destino a puxar por mim. parecia que passavas pela vida como se ela te passasse ao lado e foi então que percebi que existiam pessoas que viviam a vida sem pensar.sempre ouvi dizer que os holandeses têm mesmo jeito para línguas hello my love. Já foi há dois anos. sentaste-te ao meu lado e começaste a desenhar a minha cara com a seriedade de quem brinca.em lápis e canetas de todas as cores. mas a leveza que me trouxeste aos dias e a doçura com que fizeste o tempo passar ensinaram-me a viver a vida como tu. ou o primeiro. enquanto dizes no teu inglês bem arranhado . . Ri-me do teu olhar de menino. ou tanto faz e se calhar é por isso que quando me desdobro em interpretações sobre As Flores do Mal e outras loucuras que os poetas tristes escreveram sobre o amor. com o teu olhar a estender-me os braços e o teu sorriso a aquecer-me a alma. Ao fim de uma hora de conversa pediste-me que te acompanhasse até Lisboa onde ias negociar com o teu marchand o preço dos quadros da próxima exposição e eu. da tua camisa amarrotada e fora das calças coçadas. logo eu que vivera sempre ao contrário. abano a cabeça sem a mexer e imaginome a voltar a casa. perdi a cabeça e segui os teus passos como uma sombra.

de paixão e de alguma tristeza. deixar o barco partir outra vez. porque nada contava além desse sentimento abrasador. ao frio. sem exigências. Quando somos náufragos dentro de nós mesmos. receber torna-se um exercício difícil. me amava ou me queria. de proximidade. Amar por amar. É muito difícil voltar a amar. podia ser o derradeiro. os olhos e o peito. ao tempo e ao modo. minutos e segundos. intemporal e inabalável que resiste a tudo. habituei-me à ideia que o amor era amá-lo. querer sem pensar. sem medo. baixar à terra parece-nos torpe e pouco digno. Quando vivemos numa elevação permanente. Amar sem tempo. De espera. De doçura. todas as praias são miragens e esquecemo-nos de procurar um porto de abrigo. de perfeição. à solidão. de generosidade. Cada dia que vivi nesse estado de graça era um dia cheio. que tomava conta da minha vida e de mim. na tristeza. de paciência. E. E outras que ficam ainda mais quando se apercebem de que não conseguem atingir esse estado exaltado e sublime que faz parar os ponteiros do relógio. é preciso outra pessoa para construir o amor Quando nos habituamos a dar. invasor. sonhar sem recear. O amor puro. O barco balança mas a âncora não . satura as cores e traz uma luz perfeita à existência. no vazio das minhas mãos que se davam uma à outra sem que uma terceira as agarrasse para me dizer estás enganada. E habituamo-nos a uma tristeza permanente que nos faz ver o mundo desfocado e que nos protege da luz que já fomos. Não me interessava se o meu objecto amoroso. de respeito. tal era a dimensão do que por ele sentia. incondicional. a cabeça. à ausência e à distância. De sonho. de tempo. as horas. sem nunca desistir. ao vento e à chuva. Há pessoas que ficam muito tristes quando percebem que se vão apaixonar. mesmo na ausência. arrebatador que me tomava os membros e a alma. quase assustador. Eu pensava que sabia o que era o amor.Instantes perfeitos De que é feito o amor? De vontade. um rapaz afinal igual a tantos outros com olhos de criança e andar elástico.

tu e eu. pode ser isto o amor E pode. pois já amei alguém. o vento não sopra e muito pouco muda. . quando alguém nos diz ao ouvido estás enganada. a entrelaçar-se.sobe. Agora. I guess I'm luckier than some folks/I knew the thrill of loving you canta o Chet Baker enquanto escrevo estas linhas para nelas guardar instantes perfeitos que desejaria transformar numa vida inteira. Mas a vida é isto: acho que tenho mais sorte que os outros. e deve e nós até queremos que seja. momentos perfeitos em que sentimos outra vez o sangue a ferver. a cor da Lua quando enche. num sossego só nosso. há instantes de amor. Mas porque é impossível sobreviver no deserto ou navegar para sempre. mas o coração não obedece a nada senão à sua própria vontade e o amor continua a ser um mistério que não sabemos como começa nem quando acaba. aprendi a amar a vida. as velas enrolam-se de recato e cansaço. feito de pequenos instantes perfeitos que se vão dissolvendo na espuma dos dias. o tempo que passamos juntos. por breves segundos. os olhos mudam de cor e as mãos voltam.

porque sempre que tu chegas páras o tempo. com a mesma doçura com que abres as portas do meu coração. quando entras. que ficou pendurada num quadro. e depois vejo-te a entrar no carro e a abrir a janela. mas não tenho bem a certeza. a batida do seu coração e a batida do coração do outro que. fechados dentro do relógio e deve ser por isso que se queixam. tic-tac. . o mais ponderado. quem sabe. só para te poder ver chegar. porque mesmo sem estares aqui os enches com a tua voz. anunciando na brisa mais inesperada o teu regresso a casa. acaba por ser só uma . guarda sempre o melhor. é assim o amor. à espera que um dia alguém lhes abra o vidro e lhes resgate a liberdade. quando chegas. meu amor. suspensos pelo fio da eternidade. porque o amor que cega e ensurdece também mostra coisas que mais ninguém vê e eu vejo-te a trabalhar. pareces o ponteiro dos minutos. a compor fio a fio num enorme tear um manto que estará sempre meio bordado e meio por bordar. por isso. porque o amor cega e ensurdece e uma pessoa só ouve duas coisas. apesar de conseguires fazer parar sempre os ponteiros do relógio ou até de os pores a andar ao contrário . fica tudo guardado e registado. São sempre compridos mas sempre cheios.pareceme que isso aconteceu outro dia. escondido entre dois livros. ou o teu sorriso. a ver as horas a passar e a contar os minutos que faltam para que te abram o vidro do mostrador e resgates a tua liberdade. quando me encostaste à parede da entrada. respirando fundo o ar que te traz até mim. os ponteiros têm medo de continuar a andar. a olhar para o relógio. como bate a par com o nosso.por isso afinal talvez nem se tenham movido. tic-tac. a vida ensinou-me a esperar.O fio dos dias São sempre tão compridos quando não te vejo. meu amor. e tão curtos quando chegas. Nem sempre preciso de te ver. por isso imobilizam-se. à espera que tu saias e os deixes continuar a dar sempre a mesma volta. porque se se atrasa não é grave como o das horas e se se adianta não é impaciente como o dos segundos e eu sou como a mulher do guerreiro. no fim dos dias compridos que morrem à tua chegada.

A espera é só o tempo de deixar crescer aquilo que há-de ser. como fazem os nossos corações quando me encostas à parede e eu vejo o tempo parar. para dar e receber. há outras em que acerta sem precisar do relógio. não te apresses. sem nunca. não te entristeças com a distância nem sintas pena de mim por te esperar tanto. porque o tempo é sempre pouco quando sei que estás próximo. os dias bons são os que te trazem até mim e todos os dias me trazem sempre algo de ti. é a tua imagem no ar. E é sempre pouco. quando se tem tanto. Às vezes interrogo-me onde vou buscar tanta serenidade na espera. de onde vem toda esta luz que me transforma num farol e faz com que chegues sempre são e salvo. por uma vez que seja. que às vezes também se engana. suspenso numa eternidade só nossa que me faz pensar que afinal valeu a pena esperar tanto tempo por ti. no espaço e no modo. É que o amor.Por isso não corras. um fio firme e esticado que me vai guiando pela vida. e quem sabe se nós não acertámos no tempo. como é que ainda acredito que posso cruzar a realidade com a perfeição. a tua luz no escuro. não partas o vidro do mostrador antes da hora. te enganares no caminho. Por isso a espera é quase nada e quase tudo. .

a minha mãe embrulhava-a em camisolas. mais bonita e mais inteligente do que eu. instalava-se no quarto em milhares de partículas quase visíveis que sobrevoavam as nossas camas como num dia normal de tráfego aéreo à volta de Manhattan. um mero ser vivo com quem ela era obrigada a partilhar o quarto. para ela não passava de mais uma pessoa na família. de repente a minha irmã ficava mais pequena do que eu e então eu levantava-me para lhe preparar o líquido que se enfiava numa espécie de bomba respiratória. com a doçura que só os doentes conhecem pedia Kika. mais alta. No dia seguinte a minha irmã não ia ao Liceu. na cama. e a minha irmã virava-se outra vez. num torpor exausto. uma chata que lhe desarrumava as gavetas e lhe roubava camisolas. A minha irmã virava-se para um lado e para outro semiadormecida. o corpo contorcia-se e a cara ganhava tons rosáceos. uma parva que lhe lia o diário e se ria dos seus primeiros desgostos de amor. o resto do tempo era como se eu não existisse. Estudava sozinha em casa ou. mas a tosse voltava. o cabelo desalinhava-se de fúria por não conseguir controlar a respiração e era então que me estendia a mão e pedia. vai-me arranjar o aparelho Só nesses momentos me chamava Kika. como sempre. que tinha cabelos compridos e era delegada de turma. mantas. barretes e cachecóis como se a estivesse a condenar a viver . agora mais funda e persistente. mas parecia nunca parar. donde saía um tubo de borracha que se ligava a um cilindro gigante e que fazia um barulho parecido com o dos paquetes quando deixam os portos e era assim que se passavam quarenta minutos até os pulmões deixaram de ter medo de respirar. foi a melhor aluna. nos dias mais violentos. num bailado caótico. só para fazer os pontos e. houve um ano em que não foi o terceiro período todo. Mas quando a asma a atacava sem aviso prévio. de repente a minha irmã mais velha. a pedir sossego ao corpo e aos pulmões.Irmãs A tosse anunciava-se fraca. que já tinha peito quando o meu corpo desconhecia ainda a languidez das curvas femininas. inconsistente.

a tosse cansada ecoa nas paredes como um fantasma esquecido e alguém me diz Kika. teve duas filhas. mas que sabem ler a minha alma de irmã. quando regresso ao quarto desmanchado na casa onde crescemos. tão boa aluna e tão inteligente como ela. a camisa de noite às flores enrolase nas pernas enquanto caminho em direcção à cozinha para lhe preparar o líquido que entra e sai pelo tubo de borracha e penso que quando for grande quero ser tão bonita. a Julieta. Mas hoje ainda. mas ela nunca mais aprendeu a viver de outra forma que não em esforço permanente. ou pelo menos ter os cabelos mais compridos. Deve ser por isso que ao longo da vida adoptei entre sobrinhas. com quem não fui obrigada a partilhar o quarto. tornou-se compradora de quadros e antiguidades e organizou a vida de uma forma perfeita. Com os anos a asma foi-se esbatendo pelos dias. a Mafalda. . mas com o olhar triunfante de quem vence todos os desafios.a Inês. o Pedro . vai-me arranjar o aparelho E tenho outra vez doze anos. oiço o barulho do paquete a abandonar o porto.para sempre num sarcófago e ela saía e voltava pouco tempo depois exausta pelo esforço. que não me desarrumam as gavetas. quase celestial. doutorou-se aprendeu a fazer bavaroises. amigas e amigos . mousses e encharcadas como ninguém.uma colecção de irmãos mais novos que escolhi para proteger e acarinhar. casou. imaculada. construiu uma casa e uma família ideais.

Havia uma muito magra. esguia e antipática esticava as pernas que se confundiam com as estacas dos toldos um pouco mais abaixo das filas de barracas de lona e nunca se queimava. Tinha sempre as mãos entrelaçadas uma na outra num esforço treinado de contenção milenar e abanava a cabeça com demasiada frequência. Martinho ainda não era uma poça gigante de óleo. forma e cor. as notas dos filhos e as ausências prolongadas dos maridos eram doseadas conforme as regras do mais estrito decoro e preconceito. longe do pulso materno. Saíamos às vezes da barra. Eu era a sobrinha estouvada dos bikinis decotados. os barcos eram à vela e toda a gente sabia o que valia um bom timoneiro. sentada numa cadeira de lona com as pernas longas e brancas. A tia magra. vigiada por tudo e todos. às escondidas dos mais velhos. os amigos e eu formávamos um círculo irregular para jogar ao prego. mas todos viviam debaixo da sombra alta e incipiente do meu avô e da mão invisível e férrea da minha avó.Jogar ao prego As tias dispunham-se ordeiramente pelo intervalo regular que separava a fila das barracas das outras mais abaixo. Havia mais primos e tios espalhados pela casa. entre o medo e o espanto. Naquela época S. de modo que quando me apetece mergulhar no passado prateado das minhas férias de Verão em S. Martinho do Porto. só os mais velhos me vêm à memória e daí o olhar frio da tia sentada na praia. sempre vestida de preto com carrapito e óculos que nunca sorria e me olhava de lado. iguais às do meu avô em tamanho. O avô alto e de boina preta de semblante seráfico que nunca olhava de frente para a minha avó e a minha avó que sabia como ninguém sorrir sempre com a boca e nunca com os olhos. alinhavadas numa conversa de circunstância em que os defeitos das criadas. . como tantas vezes acontece com os irmãos. vislumbrando as labaredas da condenação infernal entre duas Ave Marias e quatro Pai Nossos. altiva. enquanto os primos. à solta na praia da minha infância onde com três anos me perdera pela primeira vez a passar férias na casa dos meus avós. o que me fazia estar horas a fitá-la. tentando perceber o que lhe poderia estar a passar pelo espírito. como se Deus lhe tivesse dado o raro privilégio de julgar tudo e todos.

tudo com as antenas ligadas para observar e julgar. me apanhavam a saltar da janela e me criticavam as mini-saias berrantes e os bikinis decotados. o dedo apontado para acusar com prontidão e acuidade a menina fez isto . os que já se foram embora e os que só vêm para a semana. polícias marítimos. criadas e nannies. eu saltava da janela do meu quarto para ir para a discoteca e o sabor da aventura vivia nos mais pequenos gestos. . sargentos do pudor. Só que agora é tarde. Tios e tias. o olhar que nunca se ria. primas mais velhas solteiras e amargas. avôs e avós. cabos dos tormentos. como se todo o cenário não passasse de um campo de concentração voluntário. Soldados da moral. com 15 anos. às escondidas dos meus velhos. eu via em todos eles o sorriso sem olhos.e a menina. um exército de condenadores implacáveis que me viam dar a mão ao António por debaixo da toalha. por isso encolho os ombros e vou a correr para a praia onde ensino o meu filho a jogar ao prego com os filhos dos meus amigos que já não têm tias sinistras a vigiarem-lhes os gestos e os passos do coração. que só queria escrever poemas de amor e jogar ao prego na praia pensava quando for grande pego nestes espantalhos e transformo-os em personagens de um livro de terror para adultos mas afinal não foi preciso porque agora quando lá volto os sorrisos já têm olhos e onde se lia condenação há agora a simpatia involuntária por eu até ser escritora e boa rapariga. com a Gestapo sentada na cadeira de lona e as forças das SS refasteladas na Rua dos Cafés a traficar informações de alcova sobre os que já chegaram.fazíamos passeios de barco à noite.

gosto de ouvir a tua voz de menino a dizer-me a Mãe sabe que eu gosto muito da Mãe? ao mesmo tempo que semicerras os olhos e mais uma vez o teu sorriso ilumina o mundo. mas o teu corpo alto e a tua cabeça redonda como uma bola perfeita destacam-se por entre os bibes azuis e logo te encontro. eu vou a pensar na vida e tu no Game Boy que te espera em casa. adivinhando o teu sexo e a cor dos olhos que me guia para casa. percebi logo que ias ser um rapaz e desatei a comprar jardineiras e ténis azuis. a cara ofegante e esse sorriso que só se tem aos 5 anos. Se calhar foi por isso que quando os enjoos matinais me decifraram o futuro. com o olhar celestial dos meninos bem comportados.doce e bonito. ambos concordamos que a Mulan foi uma menina muito corajosa e que a Esmeralda até era boa rapariga e eu explicote a metáfora do Corcunda de Notre-Dame para que aprendas a ver a beleza em todas as pessoas. Sempre te vi na minha imaginação ou no meu coração . metade anjo metade príncipe. .e não serão uma e a mesma coisa? .A maior aventura Para o meu filho Lourenço É ao fim da tarde quando te vou buscar que o dia recomeça numa nova e particular existência abençoada pelo teu sorriso iluminado a azul quando atravessas o recreio e vens directo a mim como uma seta ensinada pelo coração. quando o amor transforma a paixão numa doce existência a dois. Juntos cantamos músicas da Disney. os joelhos esfolados e as mãos encardidas. outras vezes explico-te porque é que vim mais cedo ou mais tarde e tu percebes tudo porque és meu filho e gostas de mim. Gosto de encostar a minha boca de mãe à tua testa lisinha e mole. todos os dias ao fim da tarde pela estrada fora. tu gostas do Rei Leão e eu da Bela e o Monstro. Há dias em que quase não falamos. ou muito de vez em quando. Às vezes demoro-me a distinguir-te no meio das outras crianças.

ou crescido. Fecho os olhos para te ver melhor. ou aceitares o teu primeiro emprego. está sempre a crescer e nem eu nem ninguém sabe onde vai parar. qualquer dia tens 18 anos e uma colecção de namoradas giras e simpáticas com quem vais comer gelados e trocar discos. mas é à noite quando te adormeço na penumbra do teu quarto forrado a sonhos e ursos simpáticos. alguns sonhos e muitos disparates na cabeça. . é que antes de tu nasceres eu era só mais uma pessoa avulsa. um bocadinho de gente num choro mimado e foi assim que começou a maior aventura da minha vida.Sabes. Às vezes o cansaço toma-me os braços e a cabeça. que me alimento do teu ar quando mergulhas no sono tranquilo e seguro. Depois tu chegaste. tinha muitas ideias mas pouca força. do choro mimado antes de te pôr ao peito. meu filho. ralho contigo e zango-me se trocas os talheres à mesa ou dizes asneiras. mas quando fores pai. dos joelhos esfolados e da tua voz aos 5 anos a dizer a Mãe sabe que eu gosto muito da Mãe? É que a memória é o nosso melhor património e é por causa de ti que o meu coração é como o universo. vou-me sempre lembrar do bocadinho de gente que eras. sensatez e ponderação eram palavras complicadas e opacas cujo significado não me apetecia ir ver ao dicionário. ou te formares.

a servir na casa de um senhor embaixador na Costa do Castelo. convenceste-te que eras artista e pensaste que o mundo era . o povo é mesmo assim. surdo e cansado e já nem forças tenho para atarrachar um parafuso. tudo costurado com o amor da avó Lina e foi quando disseram o teu nome que o sucesso te subiu à cabeça e desataste a beber. conhecida por artes de desmanchos de feitiços e de outras coisas. na cozinha. Ainda estavas no berço e já palravas a cantar. Estava tão bem a Elisabete. Com 13 anos levámos-te à Grande Noite do Fado. o senhor embaixador até dizia que a rapariga um dia podia ser secretária dele. Se ao menos a tua avó Diria não tivesse tido aquela maldita trombose. passava a ferro que era um primor. mas Deus não é amigo da gente. mas apiedou-se dela e deixou-a ficar e tu. que estou velho. vadio dum cabrão. foi educado para bizarrias desde o berço de palha e não há nada que o espante. ninguém estranhou. tinhas a veia para o fado do teu pai. encontraram-no a boiar no lago do chafariz.Maldito fado Não sei por onde andas. desde que desapareceste a tua mãe meteu-se na cama a dormir e a chorar e nunca mais ninguém a conseguiu tirar de lá. senão não nos tinha levado aquela santa. levava-me antes a mim. já lá vão mais de duas semanas e eu aqui sozinho. O senhor embaixador ainda pensou em despedir a pobre. vadio de corpo e coração que só sabia roubar chapéus e cantar o fado nas tascas das redondezas deixou-te cá na barriga da Elisabete tinha ela 15 anitos e foi só mais uma desgraça aqui no bairro. aqui em Alfama ninguém estranha nada. Não sei onde andas. quando se deu o contratempo. Nelson José. ajudava à mesa. meu neto vadio. ficaste connosco e foste criado com todo o amor e carinho. camisa de folhos. Pois o teu pai. A tua avó Diria ainda a quis levar à Maria Francisca. habituado à desordem e à confusão. não. que a tua avó teve pena dela e prometeu criar a criança. calça azul de veludo e laço a condizer. mas a tua mãe gritou tanto e chorou ainda mais. és igual ao teu pai que só pensava nas mulheres e no vinho e morreu de bêbado na noite de fim de ano. estavas todo pinoca.

. disseram que tu eras a grande esperança do fado. a Elisabete vestiu o roupão azul bebé e as pantufas de lã para os receber. teve a coragem de nos estragar a vida. ninguém te vê há duas semanas e se amanhã descer ao chafariz e te encontrar cinzento. traziam um contrato e tudo. Ontem vieram cá os senhores da editora de discos à tua procura. desprezando a sorte que Deus lhe deu.teu. ias todas as noites para a vadiagem e nunca mais ninguém teve mão em ti. o meu neto dum cabrão. com os cornos metidos no lago e as mãos riscadas a tinta preta das veias saídas. meu vadio ingrato. mas foram-se embora com as mãos e a cabeça a abanar porque ninguém sabe de ti. nem sei como é que vou dizer à Elisabete que o filho dela.

sentado na sala de reuniões onde esperava um cliente daqueles que preferem falar de investimentos à hora do almoço a investir no prazer de um bife e vou-te ser muito sincero. dramática e desesperada. eu era o pior. Foram cinco anos de contida loucura e desespero profundo. eras a melhor aluna e onde. feito parvo. mais rápida. que eu nasci poeta e nunca devia ter tirado Economia. nunca fui bom em números.Mesmo assim Daqui a três dias faz um ano. mais esperta. O desespero de te desejar. mais adulta e com melhores notas na pauta. enquanto passavas a tua de forma quase imperceptível pelo intervalo das minhas calças. por . que no primeiro ano já discutias com o professor de introdução à dita a inviabilidade prática da teoria da mão invisível. por momentos imaginei-te. presa nos últimos andares e fiquei muito quieto. E o desespero de te ver sempre à frente. lembras-te Sofia? Tu a trabalhar na Grande Maçã e eu aqui. para variar. contingência que me obrigava a ficar sentado muito tempo depois de todos terem saído do anfiteatro. ao contrário de ti. depois de fingir que nem sequer gostava muito de ti para lá dos orgasmos sintónicos que juntos nos faziam voar como dois pássaros bêbedos. com o pretexto de estar a passar a limpo apontamentos. Quando me disseram que dois aviões tinham furado as torres do World Trade Center. O resultado dessas festas aparentemente distraídas e inconsequentes tornava-se obviamente visível. meu pequeno génio da Economia. sem nunca saber se só lhes escorregavas a mão por entre as calças ou se também os ensinavas a voar. a rires-te com a arrogância típica dos génios ao ler os meus esforçados dozes e trezes. e nem isso o safou do enfarte uma semana antes de me saber formado nessa maldita ciência a que se chama Economia. mas um filho de um engenheiro civil em Letras era demais para o coração do meu pai. Nem sei mesmo como é que passei os exames de admissão. minha diabólica Sofia. à espera que tu voltasses quando acabasse o teu contrato milionário com a corretora americana que te descobriu no MBA onde. depois de te possuir. coitado. e depois o desespero de te ver a sair com outros rapazes. para variar.

momentos saboreei a tua hipotética morte. É que me pus a passar a limpo todas as patifarias que me fizeste, contando com a de me deixares à porta da igreja há três anos, sem esquecer as tuas aventuras com o Carlos, o Manel, o Francisco e o Pedro, isto para começar a rebobinar desde o primeiro ano e ainda nem chegámos à segunda época. Mas depois da reunião com o senhor que não aprecia bifes nem do lombo, a tua mãe ligou a dizer para eu não me preocupar, porque nessa semana, por acaso, tu tinhas ido a Londres a uma reunião. E juro-te Sofia, que me apeteceu apanhar o avião e fazer-te uma surpresa no Hyde Park, subir à pedra onde os malucos pregam ao domingo e dizer-te que apesar de me teres mentido, me teres enganado e me teres estragado a vida e fechado o coração para o mundo, eu gosto de ti, mesmo fria, mesmo doida, mesmo assim.

Maria Lua
Desde que te foste embora, naquela segunda-feira, ponho-me à janela todas as noites a fumar um L&M e a sonhar com o teu regresso. Acendo o cigarro com o isqueiro que me compraste na feira da ladra - um zippo a gasolina do tempo do pós-guerra, cromado e com um desenho a cores de uma águia com as asas abertas que custou mil escudos, que pechincha - e atiro o meu olhar para o mar da palha que a Lua acaricia em toda a sua extensão nas noites calmas de Setembro. Moro numas águas furtadas do Bairro Lopes junto ao cemitério do Alto de S. João, onde comprei este andar aconchegado de três assoalhadas com vasos comunicantes entre elas, que é como quem diz portas por todos os lados, com autorização da câmara para recuperar o sótão, foi o que me disse o vendedor que tinha caspa e sapatos cor de mel. É claro que não havia autorização nenhuma, assim que comecei as obras apareceu logo um senhor com halitose que se apresentou como fiscal que me embargou tudo, fiquei com a casa de pantanas, escadotes e entulho por todos os lados, o senhor Antero, o empreiteiro, a dizer-me a menina não se preocupe que se resolve tudo e foi então que, quando fui à câmara, te conheci atrás de uma secretária afogada em pastas e processos pendentes e me olhaste com aquele olhar predador que as mulheres temem tanto como desejam. E num instante eu consegui a autorização e num instante tu conseguiste meter-te na minha cama. Ajudaste-me em tudo, até as licenças foram pagas por ti, quero ajudar-te meu amor, dizias com o teu sorriso de gavião deliciado com uma lebre mais gordinha do que é costume e eu convenci-me que gostavas mesmo de mim, que eras uma benção vinda dos céus, eu que sou uma crente irregular, que não ponho os pés na missa desde que vim estudar para Lisboa, mas uma vez por ano vou a Fátima conversar com a Nossa Senhora e agradecer-lhe o empréstimo do banco e a sorte que tive em conhecer-te. A pouco e pouco a casa foi ficando arranjada, cá em baixo a sala e a casa de jantar e um escritório, lá em cima, pelo caminho tortuoso

das escadas em caracol, um quarto enorme com vista para o Mar da Palha onde a Lua acaricia as águas sossegadas com a calma dos amantes de longa data, um quarto de vestir e uma casa de banho toda forrada a madeira tratada da Dinamarca que me custou uma fortuna e me fez aumentar a prestação no banco. Vivíamos felizes, tu ias todos os dias para a câmara e eu para a agência de viagens onde vendo sonhos empacotados a famílias com dois filhos e uma sogra acoplada e por isso, quando te foste embora naquela segunda-feira entre as duas e as três da tarde e não voltaste, pensei que tinhas sido atropelado na Moraes Soares. Telefonei para todos os hospitais e morgues, mas não estavas em nenhum, por isso, como não morreste nem foste apanhado pelas rodas do 42, imagino que abriste as asas desenhadas no meu isqueiro e foste à procura de outra lebre, talvez ainda mais gordinha do que eu, a quem resolveste os problemas das papeladas, quem sabe outra tonta que como eu caiu no teu olhar predador. Sei que continuas a trabalhar na câmara, outro dia telefonei para lá, mas desliguei quando passaram a chamada e ouvi a tua voz, porque ensinaram-me no colégio lá em Viseu que nunca se deve correr atrás dos pássaros, eles têm asas e nós não, por isso é impossível apanhá-los. Por isso fumo à janela, enquanto os aviões das rotas intercontinentais me pairam no olhar e imagino o teu regresso tão improvável mas sempre e ainda possível como a Nossa Senhora aparecer outra vez em cima da oliveira e dou comigo a pensar que, se um dia quiseres, ainda te abro a porta, te deixo subir as escadas tortuosas em caracol, te deito no nosso quarto enorme com vista para o Mar da Palha e te aconchego no sossego dos amantes de longa data, transformo-me em lua e volto a ser tua, sem nunca deixar de ter sido.

explicaste. E deve ser também por isso que tenho um cão. eu já queria conhecer a tua casa e viajar nos teus livros. por isso levantaste-te e passámos a tarde a trocar ideias e memórias e depois foste-te embora e com os olhos muito abertos.Mãos cheias Nada é permanente. se calhar é porque quando era pequena usava aparelho nos dentes e óculos e me sentia a rapariga mais desengraçada do colégio. o amontoado branco da minha boca transformou-se numa muralha perfeita e ordeira e as hastes pesadas foram substituídas por lentes de contacto e hoje até dizem que sou uma rapariga bonita. ele soltou-se e foi brincar com as pessoas que estavam a gozar o silêncio e o Sol como eu. tu achaste que a minha mesa era melhor do que a tua. disseste-me deixame partir. estender o corpo no teu sofá-cama e ouvir os teus discos. mas já era tarde. numa daquelas tardes de inverno em que o Sol se lembra que nasceu português. Desde que te conheço já mudaste pelo menos quatro vezes de casa. Deve ter sido só há seis ou sete anos numa esplanada junto ao rio. com os braços a abanar ao longo do corpo como dois ponteiros descoorde-nados e o sorriso vadio de quem comprou a liberdade com a própria existência. sempre te ouvi dizer. É melhor para quem não tem carro. Eu cheguei com o Twist pela trela e como tantas vezes acontece. mas o medo de desagradar nunca mais me deixou e deve ser por isso que aprendi a conquistar as pessoas com o sossego dos tímidos e a vulnerabilidade dos inseguros. Com os anos. disse-te um dia quando trocaste o T1 no Restelo com vista para o rio por um loft na baixa para estares mais perto da confusão. É sempre tarde quando se descobre o amor e sempre demasiado cedo para o poder viver. senão a morte e a mudança. como que a pedir desculpa. O Twist conquistou-te imediatamente. ao menos existe alguém na minha vida para quem uma festa na cabeça representa a felicidade inteira de um dia e cujo sono me protege nas noites mais solitárias. Sou muito tímida. não tenho nada para te dar. fazendo uma festa na cabeça do Twist e eu senti que aquela festa era .

ao contrário de ti. Voltaste num Verão qualquer. Mas eu volto sempre para aqueles que amo e que dependem de mim. . que com o tempo eu acreditava que um dia seria a casa acolhedora das tuas mãos vazias. por isso decidi guardar-te no coração que é o único sítio do qual tenho a certeza que nunca sairás. nem mesmo uma rapariga só e um cão carente que só queriam fazer-te companhia nas tardes de sol e trocar livros e discos. Quem parte há muito que se foi embora e tu nunca estiveste em lugar nenhum. por isso pedi-te para não me mandares postais nem me telefonares no regresso porque o Twist já não aguenta ver-me a olhar para a caixa do correio. se daqui a um mês ou um ano. Se calhar sou eu que estou enganada e agora já é tarde para viver um amor com as mãos cheias.para mim mas não abanei o rabo porque percebi nesse momento que nunca ficarias em lugar nenhum. Depois foste viver para Barcelona. que ias repetindo cada vez que me deixavas não tenho nada para te dar Nunca te respondi que não fazia mal. que o amor que eu tinha chegava para os dois. por isso compreite umas asas e já não te espero. A semana passada foste para Paris e quem sabe quando voltas. que nada nem ninguém te prenderiam. nasci com as mãos cheias. tiveste muitas namoradas e apaixo-naste-te por uma rapariga de cabelos muito compridos que nunca te ligou nenhuma e foi nessa altura que te deves ter sentido como o Twist quando chego mais tarde a casa e ele pensa que o mundo acabou porque já não vou voltar. desapareceste três anos e passei a viver cada dia para o momento em que tirava da caixa do correio postais ilustrados cheios de gatafunhos. o Twist abanava a cauda e lambia-me as mãos e eu lia-lhe as missivas vagas e exultantes de quem vive o desco-nhecido com a sede de um forasteiro perdido no deserto.

como se nada pudesse ser bom. quando me separei e vim para Lisboa. mais madura e segura. mas quem não estava era ela. como se eu tivesse sempre a culpa. porque me falta uma metade. Ela acordava mal disposta . outra mulher. fruir. Às vezes é ele que me acorda. ela. numa tentativa desajeitada de se descobrir e exorcizar. estar. sempre a mostrar o pior de si mesma. sento-me na cozinha a conversar em silêncio com o Chico. Ela era assim.estava sempre mal disposta . que também diz que só consegue estar em paz consigo próprio quando vive em guerra com os outros. vou à sala pôr uma música e bebo o leite com café. diz o António Lobo Antunes. demorei quase três anos a perceber isso. sem o aperto de uma presença agitada e confusa ao meu lado. sempre à procura do pior em mim e nos outros. que o Sol que lava as janelas também é meu. E sempre ela. mas vê-me de certeza. Depois. Mas um dia destes. viver. como se um casamento não fosse construído a dois. num trinar tímido. e levanto-me antes da hora para ver a luz que escasseia na cozinha por causa do saguão. Dantes. Quando um coração se fecha faz muito mais barulho do que uma porta. porque os animais vêm tudo sem precisarem de olhar e do alto do seu poleiro entoa um bom dia que me enche os ouvidos. O Chico não olha para mim. como eu. ela. comprei esta casa tranquila junto ao jardim de Santo Amaro. mas que o desejo faz adivinhar e o corpo vai sonhando no recolhimento das noites do fim do Verão. onde os pássaros não tremem à passagem dos autocarros e os velhos jogam à bisca. outra coisa diferente que nunca tive. que o sossego e a paz não têm preço. Não sei se isto é ser feliz. saboreando as torradas barradas a manteiga e a queijo fundido La Vache Qui Rit e dá-me vontade de rir. para acordar melhor. Por isso. à frente e antes de todos. onde as crianças aprendem os nomes das árvores e eu aprendi que é muito melhor estar sozinho do que sentir-me só. quando .O mesmo caminho Quando acordo de manhã e faço um café com leite. eu que durante tantos anos me esqueci do que era rir. era tudo diferente. entre a primeira e a segunda torrada.e olhava-me à transparência como se eu não estivesse ali.

abro uma garrafa de tinto e brindo à vida com ela. Porque entre uma noite e uma vida há um mistério a construir.sair de manhã para ir trabalhar. depois de conversar com o Chico e saborear o leite com café e a torrada barrada com manteiga e queijo. ponho a mesa e estico os lençóis da cama. porque são as mulheres que escolhem os homens. pode ser que tropece nela. ou ela tropece em mim. E no dia em que a encontrar. e pode ser que a viagem de que os nossos corações precisem trilhe o mesmo caminho. . sempre assim foi e sempre há-de ser e eu estou mesmo pronto para ser escolhido.

tinha o Fábio acabado de fazer um apito. meu amor Agora que o Museu dos Coches fechou para obras. já não sei o que fazer com o Fábio aos domingos de manhã. os meus olhos embaciaram-se de alegria e lembrei-me do Marco com dois anos. não sei o que é que o Marco viu naquela magricela de olhos cavados e dentes podres que o levou para a encosta do Casal Ventoso vazar seringas no sangue e espremer limões para colheres de sopa onde bóia o acaso da morte. foi o doutor André do posto que me ensinou . por isso percebi que ia mas era para um bar de raparigas fáceis. quando a Cristina me cruzou a soleira da porta e me disse fique a senhora com ele que eu vou para Madrid trabalhar Num bar disse ela. mãe. O petiz acorda a esfregar os olhos e a pedinchar bolachas molhadas no leite com chocolate e põe-se a ver os bonecos da televisão e eu fico-me ali. mas os surdos ouvem tudo o que a alma não quer dizer. esquecida que sou gente e reduzida à minha paixão de avó a observá-lo à lupa do amor. eu já a braços com a diabetes . olhe este cão mau . enfim. quando uma pessoa está cansada de viver a vida traz-nos sempre um presente e o meu foi esta criança com estrelas nos olhos e voz de pássaro que me fez esquecer a tristeza da solidão e me encheu outra vez os dias de luz. a luz da vida que se apagou quando pus o Marco debaixo da terra e à socapa atirei lá para dentro o meu coração de mãe. deixar-me aqui o menino nos braços. O petiz habituou-se bem a mim. já anda no infantário e outro dia agarrou-se-me ao pescoço e perguntou-me se me podia chamar mãe.não é os diabetes. deve achar que lá porque sou velha e meia surda que me conseguia enganar.Meu neto. vestido de marujo a correr pela Tapada da Ajuda a fugir de um rafeiro e a gritar mãe. Há mulheres que deviam ser esterilizadas. fixando cada gesto na memória que a pouco e pouco teima em apagar a imagem do meu Marco que a droga levou já lá vão mais de dois anos.mas até faz sentido porque é uma doença.

mas esqueci-me de lhe dizer o mesmo das mulheres e foi assim que a outra lambisgóia o apanhou e o arrancou da vida pacata de bairro onde ele era feliz a esventrar motores e a jogar às cartas no Recreativo. por isso conto-lhe histórias de príncipes valentes que guiaram aquelas carroças e salvaram princesas loiras das patas de dragões zangados. gosto de o levar a ver as carroças. Aos domingos de manhã como não se paga nos museus. mas ainda é cedo. ainda o posso guardar do mundo. por confiarem na vida e verem numa avó velha e doente a mãe que lhes enche o coração de amor e ternura. E um dia destes.Sempre lhe tentei explicar que havia homens maus. e eu a querer protegê-lo do mundo e com vontade de lhe dizer que é perigoso confiar em estranhos. vou lá levar o meu menino e contar-lhe mais uma história em que o herói se chama Fábio. . quando o museu abrir outra vez as portas. porque todas as crianças são heróis por transportarem no calor da alma o sorriso de um futuro certo. ele abre os olhos de espanto a observar tudo e já me disse que quando for grande quer ser taxista para guiar máquinas.

Como sou filho de emigrantes. de forma que decidi vir para a capital e instalar-me por cá. velhos míopes com o nariz colado ao vidro. ia a chorar. Estávamos lá em Viseu quando num momento de gula descontrolada se engasgou e caiu ali mesmo redondo. E foi assim que me apaixonei por ela. Nem . o que tem mais doutores por quilómetro quadrado. mas quando foi ao banco e viu o que o velho tinha amealhado para ela e o neto. Com o tempo e conforme as horas. já me habituei a reconhecer as pessoas. ponho-me à janela e fumo um cigarro e fico ali a ver os carros a passar na via rápida. vestidos e embarretados como se vivessem nos Alpes suíços. os carros. Eu não me queixo. arranjei um trabalho em Benfica numa escola de línguas onde ensino francês e todos os dias de manhã.Mudar de vida Da minha casa vejo a segunda circular. É um T3 em Telheiras. dizem que é o bairro com mais futuro da cidade. Há trânsito a todas as horas e imagino que são formigas em fila à espera de receber um bónus da segurança social. homens de 40 anos a caminho da calvície a sonhar com as eslavas do Champagne Club. E no dia seguinte. Há mais de dois meses que é sempre a mesma coisa. E no outro também. A primeira vez que a vi. jovens de barba irregular e erecções involuntárias a caminho da universidade. nunca mais lhe vi uma lágrima. camionistas de mercadorias. Há de tudo dentro daqueles carros. mães com crianças impacientes no banco de trás que aproveitam para fazer o pino ou saltar para a bagageira das carrinhas Astras. comerciantes de congelados. dentro de um carro encarnado. A minha mãe chorou muito. homens das mudanças. casais que ou não falam ou discutem com tanta raiva que embaciam os vidros. todos os dias antes de sair. um subsídio qualquer por terem que esperar tanto tempo todos os dias para ir trabalhar. No dia seguinte vi-a outra vez e ia outra vez a chorar. avós afoitas com bebés de colo em cadeirinhas. as matrículas. senhoras de meia idade com a tristeza do olhar das divorciadas. comprei-a com o dinheiro da herança do meu avô que morreu engasgado o Natal passado com uma fatia dourada. as lágrimas seguiam-se umas às outras como fios de água e ela limpava os olhos com a doçura de uma criança.

chegam tarde e não ouvem nada do que lhes digo e ainda não conseguiram aprender a pronunciar o U com o sotaque correcto.Bom dia. E depois. que não vê na vida nenhuma alegria ou encanto e dou comigo a pensar que um dia destes saio do meu T3. estão-se nas tintas para a França e para o Napoleão. . sou professor de francês e estou apaixonado por si.sempre as lágrimas lhe povoam a cara. aqueles olhos grandes. estendo a mão direita e digo: . dou as conjugações do être e do avoir e venhome embora a pensar naquela mulher que chora todos os dias a caminho do trabalho. atravesso as barras protectoras e me ponho do outro lado da estrada à espera que ela passe. mas às vezes parece tão triste que vai morrer e nesses dias quase desejo que comece a chorar para que toda aquela tristeza não a mate. o meu nome é Jorge Santos. estendo-lhe a mão esquerda e pergunto-lhe: . mas eu não me importo. mas acho que temos muito em comum. que carrega o dia com lágrimas e tristeza. os meus alunos são miúdos entre os 13 e os 15 anos. Vivo naquela janela. e o seu olhar se cruzar com o meu durante mais de dois segundos. No bolso esquerdo levo o anel de noivado que o meu avô deu à minha avó. está a ver? Todos os dias a vejo dali e não sei porquê. Vai sempre sozinha e eu conheço-lhe a cara de qualquer lado. se ela não me confundir com um toxicodependente e me fechar a janela na cara. se ela for mesmo a minha alma gémea. aquele nariz de boneca desenhado com mestria e arte. porque eu já vi aquele cabelo farto. deve ser apresentadora de televisão ou uma coisa do género. bato-lhe no vidro do carro encarnado. Depois saio e vou dar aulas. a terceira a contar da esquerda.Quer casar comigo? É que às vezes bastam mesmo dois segundos e não mais para se mudar de vida e se ser feliz.

que fica assim só de estar ali a fritar e tu trouxeste o menino para casa.Não me sais da cabeça Adormeço a custo. doze até a luz do candeeiro da rua iluminar o quarto. o mais velho deve ser. tome lá este menino que é o prémio para quem tem tão boa pontaria. como por exemplo o contador da água do vizinho nas escadas a paredes meias com o meu quarto a estrelar-me a paciência. por isso levanto-me. diz a senhora que não cabe atrás do balcão. os pés tocam o chão frio e encolhem-se. tem o teu nariz e as tuas sobrancelhas. sou o maior. ela diz que não come. viro-me. as rachas no chão da varanda. homem casado é uma praga. acordo do nada. agora é a Joaquina que incha da manhã para a tarde. ela que tem dois filhos e nem sabes se são teus. depois duas. coitadinho. mas o mais novo é tão diferente. acertei no alvo com as espingardas todas. os pés empurram-se um ao outro no fundo da escuridão que não suporto. mas quando se compra uma casa nunca se vêem estes pormenores. tum. reviro-me. tum. primeiro uma fresta. fazia-te um bife do lombo com batatas fritas e ovo a . solta-se o pó daninho que me sobe pelas narinas e desato a tossir. penso eu deitada na cama. parece que saiu numa barraca da Feira Popular. ou a lareira que afinal não fuma e me enche a casa de um pó nojento que me põe logo com um ataque de asma. isto sou eu a delirar acordada enquanto o sono não chega. vida tinha eu quando vivias comigo. doem-me as costas. a tosse não pára. sete. três. vou à janela e puxo os estores devagar. que é viúva e quando o marido se cansou das farturas passou-as à Joaquina. põe-no a andar antes que ele te dê cabo da vida Vida? Qual vida. tenho frio e sono e por isso volto para a cama à espera do torpor que não vem desde que voltaste para casa dela e afinal decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo. doem-me as pernas. quem me mandou morar num segundo andar com a puta da lâmpada mesmo de chapa para os meus olhos. primeiro o corpo depois a cabeça. no tecto do quarto os faróis dos carros reflectem-se em listas de luz e eu só me lembro da minha mãe a dizer olha que ele não presta. Com o movimento da persiana as cortinas estremecem.

era o que faltava. egoísta. mas tu. Mas um dia destes. tum eu atiro e vocês morrem e a senhora que está atrás do balcão pisca o olho à Joaquina e diz-me tome lá os meninos que são o seu prémio e então eu pego nos catraios. além de não me saíres da cabeça também me ficaste no corpo. Livre e fora de jogo estou eu agora. com ou sem cabeça. imbecil. depois levaste-me para a praia e fizemos amor ali mesmo. . amo-te e odeio-te. bungallows para brincar às casinhas. tum. talvez nesse momento me saias da cabeça e desapareças da minha vida para sempre. vou conseguir acordar sem pensar em ti durante três minutos e depois adormecer outra vez. esparramavas-te no sofá a esvaziar os miolos em frente ao televisor e cada vez que o Benfica jogava abrias uma lata de Superbock e desenterravas do roupeiro um cachecol ranhoso e surrado e foi assim que aprendi o que era um canto. entre o êxtase da gula e o absurdo da visão dos pequenos a incharem como dois balões e a desaparecerem pelos ares atrás da Roda Gigante.cavalo que te encostava às boxes em três tempos. ainda sinto a tua carne cá dentro. tu e ela. sem que nada me acorde e então vou sonhar outra vez com a barraca dos tiros onde não há bonecos espalmados com um alvo no sítio do coração. não me sais da cabeça. estúpido. mas primeiro corto o coração que é para me esquecer como dói o amor ay como me duele el amor lembras-te da música? A gente a dançar em Puerto Plata naquele hotel tão lindo mesmo junto ao mar. odeio-te e amo-te. vou direitinha às farturas empanturrar-me de sonhos e fico ali a vê-los a engordar como a Joaquina e nesse momento. desde que decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo. já lá vão seis meses. com ou sem coração. cobarde. idiota. um livre e um fora de jogo. mas tu nunca soubeste o que era ser feliz. por isso um dia destes acordo e arranjo uma maneira de a cortar. de carne e osso. por isso é que te foste embora.

ou afinal nunca fomos e eu comecei a ver-te de outra forma.e sentaste-te no sofá. A princípio olhavas pouco para mim. marcando mentalmente os teus traços e defeitos. mais ou menos a medo mas sem pedir licença . percebi que somos feitos de massas muito diferentes. ou somos.às vezes temos mesmo que mudar as coisas. cansados e esquecidos de nós mesmos.nunca pediste licença a ninguém para nada na tua vida . porque parar é pensar e pensar é escolher e escolher é abdicar e tu nunca quiseste abdicar de nada e por isso é que nunca quiseste ninguém na tua vida. nas palavras e nos silêncios. quando elas não mudam como queremos . mas que a faz avançar só para não ficar parada. apenas mais uma pessoa no mundo. falavas muito de ti e pouco de mim. mas um mundo inteiro de gente a observar-te. perdido nas cores e nos objectos da sala e me enroscava ainda mais no meu lugar do sofá. Eu à procura de uma pessoa a quem possa dar o meu amor e tu à procura de respostas para sobreviver melhor ao lixo do mundo.O número mágico Entraste como sempre. Os teus olhos perdiam-se nas cores e nos objectos. Eu a viajar para a alma dos outros através da minha solidão e tu a atravessar pessoas e continentes para te sentires ainda mais só. nós os humanos. daquilo que fomos. e como sempre nada de nós. catalogando-te sem o véu da paixão. Não sei de que massa somos feitos. embora . reduzindo-te ao que afinal somos todos quando ninguém nos ama. e.também fiquei à espera. mas eu fiquei sentada onde estava e. como se não fosse eu a olhar para ti. mas enquanto te olhava e ouvia. e não me mexi do meu canto. esperando que o tempo e a doçura me aproximassem de ti. todos precisamos dele para não agonizar numa existência adiada e todos o vivemos de maneira diferente. sempre em guerra contigo mesmo e nunca em paz com o amor. por uma vez na vida . Há muitas formas de amar e de viver o amor. que é uma coisa que aprendi a fazer nos últimos anos com grande perfeição e serenidade. a seguir um rumo que não sabe se é o certo. que nos julgamos animais racionais e afinal andamos a vida inteira às turras com a vida. que não sabe se é o seu. homens e mulheres perdidos e imperfeitos à procura de uma luz qualquer.

afinal não procuramos as mesmas coisas. nas mãos de quem também quer amar. . E foi então que percebi que deve ser isso o amor. querer. se Deus castigou ou não Adão e Eva. Maria amou Jesus e Jesus amou a humanidade. Mas sei. abanavas a cabeça num gesto de suave complacência e seguias em frente na viagem ao fim do teu próprio mundo. Pedro amou Inês. os pais amaram os filhos. rias-te dos meus clichés. acredita. Fernando amou Ofélia. que no fundo tens pena de não partilhar o sublime da vida. o pai e a mãe.tão humanos quanto irracionais. Se me ouvisses pensar. os filhos amaram as mães. o tempo e o modo. O mundo sempre foi feito aos pares. dói só um bocadinho. porque sinto o teu coração a bater mais depressa enquanto ouves o que não te digo. isso agora não me interessa nada. o voo e a queda. como sempre fizeste com a tristeza e a vida. querer estar. o ar e o fogo. sem olhar para trás. querer o mesmo ao mesmo tempo. mas depois limpa-se a memória e apaga-se a dor e como o mundo é regido pelo número mágico dos pares. querer construir alguma coisa a dois. que é viver para amar. esse número mágico que rege a humanidade. cansada e esvaziada. se não para sempre. e se Alá partiu ou não as laranjas no céu. mesmo que o amor tarde ou nunca chegue. mesmo que alguém nos roube a alma para depois a devolver. a luz e a sombra. pelo menos durante muito tempo. o céu e a terra. Não faz mal. querer agora e depois. porque sei que Dante amou Beatriz. um dia aparece outra vez o amor. nas mãos de quem o sabe dar e receber. Romeu amou Julieta. querer viver. o bem e o mal.

ou talvez os delas também não sejam exactamente verdes e usem lentes de contacto. e não a pensar no trabalho. mesmo sem ser durante muito tempo. ou quando à noite te sentas em frente à televisão e te recostas para trás. percebes? Não é como olhas para as minhas pernas quando me destapo a meio da noite. ou apenas os ponteiros do relógio. Ou quando tocas na ponta do meu cabelo e dizes está espigado Passas as mãos pelos meus joelhos e dizes vai à depilação Eu vou à depilação. às vezes de manhã quando a cara espalmada na almofada te devolve uma expressão infantil. ou se me mentes e fico triste como uma criança que perdeu o cão. meu amor. é que quando olhasses para mim os visses sempre dessa cor. ou para a minha boca sempre que a contorno com lápis para ficar maior e te agradar. mas o que eu queria. ou quando apertas o nó da gravata no espelho da casa de banho. sem pensar em nada. nas contas da casa e nas jantaradas com os teus amigos. mas tens que . garanto-te que é muito fácil. ou para o peito encaixado numa camisa justa.Olhar o coração Talvez eu não tenha os olhos exactamente verdes como certas actrizes de Hollywood. talvez eu não os tenha daquela cor com que às vezes ficam. no futebol. eu faço limpezas de pele. à manicure. era tão bom. num abandono cansado. fixo no nosso olhar que se encontrava no espaço e se fundia num. vou ao ginásio e à massagem. faço isso todos os dias contigo. porque talvez assim eles ganhassem confiança e apagassem de vez os fios castanhos que os escurecem. imóvel à nossa espera. eu faço tudo o que quiseres. o mundo ficava em silêncio. quando acordo tarde depois de uma noite de amor. Era só olhar. Cruzávamos o olhar devagar e nesse instante talvez conseguíssemos parar o movimento da terra. Era tão fácil! Bastava-te olhar duas ou três vezes para mim todos os dias. mas para isso tinhas que olhar para mim. à espera que o sono te leve para a cama. ao cabeleireiro. mas de forma a eu sentir que estavas mesmo a olhar para mim. compro cremes caros e só visto roupa de marca.

mas como não olhas talvez também não oiças. encolhas os ombros e digas deixe-se disso como se eu te estivesse a pedir o fim do mundo. elogiares-me porque até sei cozinhar e passar a ferro. mergulhar neles e perceber que é aí o teu mundo. como se olhares para a tua mulher fosse tão difícil como escalar o Evereste ou espetar uma bandeira no ponto mais remoto de um pólo qualquer. dês o nó à gravata enquanto dou um nó na garganta. . te perderes neles com o mesmo entusiasmo com que uma criança experimenta um labirinto e sentires a vertigem do abandono de ti mesmo por outra pessoa. o que era ainda melhor. me faças uma festa na cara. acredita. Nada vale a pena. ou tu os visses assim. te ris com a mesma expressão de miúdo com que te surpreendo de manhã na almofada. percebes o que te quero dizer? Se calhar percebes. ou então não vale a pena seguires-me os passos. deve ser por isso que cada vez que tento explicar-te que seria mesmo mais feliz se olhasses de vez em quando para mim. gabares os meus dotes amorosos e regozijares-te com os meus triunfos profissionais. Bastava olhares para mim com olhos de ver e talvez então os meus olhos ficassem exactamente verdes. pensar dá muito trabalho e sentir ainda mais. dentro dela. como se tu fosses eu e eu fosse tu.olhar para os meus olhos e procurar lá dentro o que não se vê. se não mergulhares nos meus olhos com a doçura aquática da entrega. mas para isso tinhas que olhar para o meu coração.

e mesmo que já fosses suficientemente crescido para entender a lógica da morte serias sempre uma criança. a inventar palavras. Se fosses uma rapariga. tenho a certeza. lá toda. carne e alma. a lamber a ponta dos dedos depois de bater a massa para o bolo de chocolate. de sentir no pulsar apressado de um coração do tamanho de uma noz o poder de gerar uma vida. a falar baixinho com aqueles que amas. é fácil ser-se obediente. a pulsar no teu sangue. guardo-me para esse momento em que. Foi comigo que aprendeste a dar beijos nos olhos de quem chora. a fazer-lhe festas na cabeça para que os maus não lhe perturbem o sono. porque a morte nunca tem lógica para não fosse o coração a bater-te no peito não estavas vivo e a dizer-te os que ficam . dentro de ti. transformando dias banais em momentos inesquecíveis. a brincar aos . o de saber que continuas vivo.Outro lugar Para o Hugo Quando se continua vivo depois de morrer. Por isso obedeço-te com a doçura dos moribundos e desço mais uma vez à terra pela mão de outra mulher para te falar de nós. a comprar presentes e a inventar surpresas. mesmo que esse silhueta sem que lhe consigas dar corpo ou nitidez. a rir com o sabor das gargalhadas dos outros. mãos e cabelos. para que a tua alma oiça melhor que entrelaçada e confusa onde desenhas os contornos da minha não vale a pena viver se não se amar alguém. Foi comigo que te habituaste a dar sempre a mão a uma criança antes de atravessar a rua. forte e determinada como tu.por isso as recordações misturam-se numa névoa ao ouvido. podia partilhar contigo o segredo alquímico da maternidade. o prazer sublime de ser mãe. Eras muito pequeno quando fiquei doente . Mas eu estou alguém parta para o céu ou qualquer outro lugar. mesmo que numa tarde de Inverno o céu te apanhe numa curva do destino e tenhas que te afastar daqueles que amas. voz e sorriso. mas como ainda espero e sonho que um dia queiras ser pai. muito baixinho. a vida ganhará para ti um novo e único sentido.

a saborear cada dia lambendo com prazer a ponta dos dedos e brincando aos mosqueteiros com o mundo. passa-nos a vida dele toda pela frente e por isso eu sempre soube que serias assim. aventureiro. a lembrar-te que se . sonhador. Só as mães é que sabem isto. sempre senti que só o mundo te chegava para seres feliz. destemido. viajante. contente contigo e com a vida. mas já contavas histórias aos teus bonecos.mosqueteiros com os talheres e a sentares-te à mesa como um príncipe. com as costas sempre direitas e o olhar em frente. como se essa solidão escolhida que te protege e da qual tanto te orgulhas afinal te tivesse escolhido a ti e passo-te a mão pela testa a pedir-te para pensares menos e sentires mais. sinto-te só. independente. Eras muito pequenino e por isso talvez não te lembres. mas quando um filho nasce e o olhamos pela primeira vez. Mas quando te enrolas na escuridão do teu quarto e o ruído das ambulâncias te invade o sossego e te rouba o sono. sensato. dizias que querias ser explorador e eu imaginava-te a atravessar o Atlântico à vela ou a escalar o Evereste. jogavas bem futebol.

Onde é que já se .e vá de me chamar velha e gorda. A Vanda deixou de vir para o campismo. tenho muita vizinha lá na Ajuda que nunca foi ao Algarve. não me recorda agora o nome dele. até tem uma despensa e tudo.quis registá-la com w porque era mais fino. e eu gosto de me sentar cá fora com a Hilda e a Noémia a fazer crochet e a ver as revistas onde a menina Bárbara Guimarães aparece sempre muito bonita e fina com aquele senhor muito bem posto que foi Ministro da Cultura e que a Vanda diz que fixou o preço dos livros e fez muito pelo teatro. quanto mais a Ibiza. Com o passar dos anos. a gente ficava no parque e já era um pau. a gente trocou de tenda. deve de ter sido da alimentação. coitada da Isilda que nunca viu o mar nem passou férias num campismo tão bom como este. despreza as minhas batas às florinhas que comprei à Isilda que as vende muito baratas à porta da padaria lá na Ajuda. eu sempre tenho as minhas comadres para a conversa e ele os amigos prós tremoços e pràs imperiais ao fim da tarde e quem me tira o meu campismo. Mas a juventude agora é assim. gorda. já não há respeito pelos mais velhos. mas na época não deixaram . comprámos uma tenda a seguir ao 25 de Abril e passámos a ir para o Campismo do Caparica. despenteia-me os cabelos brancos e quer que eu faça madeixas. o raio da rapariga olha-me de cima para baixo . agora a nova tem dois quartos e uma sala. todos os verões para as Ilhas Espanholas e Gregas? No meu tempo quem viajava eram os ricos. deixe de comer pão e compre sapatos modernos. Porque raio há-de a miúda querer sempre ir para fora com as amigas.não sei a quem saiu tão alta. aquele bando de estouvadas que trabalham com ela na farmacêutica. tira-me tudo. mas não faz mal porque eles parecem mesmo felizes e até vão casar e tudo.diz-me que estou velha. já lá vão mais de 2O anos e a gente nunca se cansou daquilo. que sempre gostámos muito de fazer praia. gasta e que não tenho imaginação e até se zangou comigo. tudo por causa das férias. com certeza .Palácios de lona A Vanda . diz que tem vergonha da minha mesa de fórmica e do napperon debaixo do televisor para ele não escorregar. O Álvaro e eu.

. que também tinha a mania de ir de férias para Espanha e eu pus-me a pensar que se aquele senhor com um ar tão fino que se vai casar com a Bárbara Guimarães conhecesse a minha Vanda e se interessasse por ela é que era mesmo uma sorte. quer roupa de marca e relógios a imitar os das raparigas que aparecem nas revistas. mas o que é que uma viúva gorda e cansada como eu há-de fazer? A Noémia disse que a filha era o mesmo problema. gasta-me um dinheirão em sandálias e colares e já não sei o que heide fazer para a convencer a encontrar um rapaz decente. os filhos a quererem educar os pais. o mundo está mesmo do avesso. eu oferecia-lhe um Campari e uns aperitivos e fazia uma inveja de morte à Noémia e à Hilda com um genro de se lhe tirar o chapéu. sentávamo-nos os três cá fora no alpendre do meu palácio de lona. comprar uma casita e casar.viu. Outro dia apareceu lá em casa um fulano de cabelo espetado e uma tatuagem no braço a levá-la para jantar e nessa noite nem dormiu em casa. só pensava em roupa e nos rapazes. Convidava-o para vir aqui ao campismo provar as minhas sardinhas assadas que o Álvaro tanto gostava. Só pensa em comprar um carro. bem me dizia o Álvaro quando ainda por cá andava que eu estragava a miúda com mimos e tinha razão. os mais novos a mandarem nos mais velhos.

as traições. o presente e duas ou três coisas do futuro. traficantes. as doenças. prostitutas. o gosto escondido pelo . gente de bem e gente do diabo. ladrões. acreditem. sentia um estranho poder.Na palma da mão Desde pequena que sou assim. quase divina. Eu via-lhes as mentiras. filha de um pastor da Lousã e de uma lavadeira a trabalhar como criada de fora em casa de gente abastada fui nascer com este dom de saber o que os outros todos queriam? A minha avó que morreu no dia em que nasci também era assim. Mas nunca fiz magia negra nem mudei o destino a ninguém. Vidente e Cartomante. Quando se vê tudo antes de tempo perde-se o interesse. Serviços Aurora. uma espécie de luz rara. e como parece que os nomes também carregam um destino próprio e incontornável. foi o dom adivinhatório que me fez fugir para Lisboa aos 18 anos e alugar um quarto na Almirante de Reis e começar aí o negócio. como se viesse directamente dos dedos de Deus para me iluminar cá em baixo. Quando era nova e comecei a ganhar dinheiro com os medos e os sonhos dos outros. Aurora. viúvas desocupadas. a infância castigada. É horrível. o sucesso. chefes de polícia. o amor e o ódio. Se calhar foi por isso que nunca me consegui apaixonar por nenhum homem. as manias e as taras. milionários. ministros. as fraquezas interiores. aparece-nos de tudo e pedemnos as coisas mais estranhas. já lá vão mais de 40 anos. alcoólicos. Fui consultada por políticos. ricos. maridos ciumentos. Com as mãos estendidas sobre as minhas. é mais forte do que eu. raparigas apaixonadas e abandonadas pelos namorados. é assim na vida e sobretudo no amor. Como é que eu. lialhes os filhos. empresários. mas sobretudo o medo que todos tinham de morrer. o dinheiro. Quando se trabalha com os medos e os sonhos dos outros. assassinos. comerciantes invejosos. Bastou um anúncio no Diário Popular e em menos de 6 meses subi na rua e na vida. aluguei uma casa com 4 assoalhadas no Areeiro. dela herdei o nome. os acidentes. pobres. menos nas mãos daqueles em quem a morte está tão marcada que eles a vêem sem sequer saber e por isso nem pensam em fugir dela. basta-me olhar para as pessoas que lhes leio logo o passado.

Não deve ter visto o anúncio. fecho os olhos cansados e sonho com as mãos de Deus. brancas e enormes. ou então. as mãos de alguém que pode mesmo ser dono do seu destino. Percebi que o meu dom era uma maldição inútil que só servia para ganhar dinheiro e comprar vestidos chiques nas lojas de marca que foram abrindo na Praça de Londres e na Avenida de Roma. as varizes nas pernas. cruzes e marcas. que me trouxessem o mistério do amor e o sabor do desconhecido. sem sinais nem traços. por isso agora que penso em reformar-me a ir viver outra vez para a Lousã onde o meu pai me ensinou a pensar em nada enquanto pastava o rebanho. não tocou à campainha e desceu as escadas a fugir da sua própria vida. as mãos das pessoas são um livro demasiado aberto mesmo para quem não sabe ler. como se quisesse contrariar as linhas do destino em que tanto acreditava. E na palma das minhas. Comecei a sonhar com umas mãos lisas. procuro ainda a marca já esbatida de um grande amor que me ia dar um filho e que afinal nunca se cruzou no meu destino. . lisas como pedra polida. sem linhas. como tantas vezes acontece aos homens quando pressentem que encontraram a mulher da sua vida. montes. desistiu no último instante que precede as grandes mudanças. Mas essas mãos nunca me apareceram.vinho.

mas eu não me ralo. numas águas-furtadas em S. . a Ana Cristina. A minha mãe que faz rissóis para fora desde que me conheço diz que sou maluco. parece que traz o arco-íris na boca. ela estava sozinha e muito triste. A avó dela já dormia. nunca lhe pedi para ser minha namorada. quando acabou de ler este poema.Poesia nocturna Tenho a mania desde pequeno de subir aos telhados. Percebi que era por causa de mim. porque apesar de sermos grandes amigos e de no calor da noite lhe afagar os peitos com as minhas mãos de aprendiz sequioso. aquilo dá-lhe uma certa poesia. Uma noite / quando o mundo já era muito triste / veio um pássaro da chuva e entrou no teu peito / e aí como um queixume / ouviu-se essa voz da dor que já era a tua voz / como um metal fino / uma lâmina no coração dos pássaros / Agora / nem o vento move as cortinas desta casa / O silêncio é como uma pedra imensa encostada à garganta. tem um aparelho nos dentes cheio de cores. Deve ser por isso que a Ana Cristina tem aquela pancada. Quando começar a tocar violino e for músico numa orquestra. mas como também gosta de ir ao Mac Donald's e deixa que eu lhe desaperte o soutien nem me importo de a ouvir a dizer poemas ao ouvido. até me ofereceu um livro do José Agostinho Baptista e numa destas noites de lua cheia veio ter comigo ao telhado e sentou-se ao meu lado a ler-me poemas. e vou ver a Lua e contar as estrelas. ontem à noite. A Ana Cristina tem 15 anos como eu. Passo os dias a dormir depois de voltar da escola e à noite saio pela janela do meu quarto. A mãe dela é jornalista e passa a vida a dar-lhe livros para ler. encharcada em calmantes. compro um telescópio e aprendo as constelações todas de um dia para o outro e depois já posso convidar a Ana Cristina para vir comigo para o telhado contar as estrelas e namorar a Lua. Anda comigo na escola e é um bocadinho tímida. Tinha lágrimas nos olhos. Ela é que me contagiou com esta mania da poesia. Bento. A mãe dela foi fazer uma reportagem para Espanha. com os esses arranhados pelo aparelho nos dentes que lhe fica a matar. entre a uma e as duas. que vivo no mundo da Lua e que tenho manias de artista.

é como se me aquecesse o coração. afinal de contas não passa de uma miúda de 15 anos com a cabeça cheia de poesia e a boca cheia de ferros. A Ana Cristina também me leu outro poema que dizia assim: Roubei ao corvo a sua cor / esvoaço pelas muralhas perdido. Mas o que é que um gajo com 15 anos faz com uma namorada? Aquilo iame atrasar a vida. que o mundo está à minha espera para lá dos telhados de Lisboa e que a minha terra é onde eu pousar. Eu até gosto da Ana Cristina. A Ana Cristina não me percebe.Eu não sei como é que hei-de explicar à Ana Cristina que só tenho 15 anos e nesta idade divirto-me mais a ver filmes pornográficos enquanto bebemos umas cervejas. eu quero é divertir-me. acho que nunca conheci uma miúda assim inteligente e doce como ela. ir para o conservatório e tirar o curso de música. Se calhar não devia ter nascido homem. As miúdas só pensam em namorar e em casar e em ter filhos. tem um riso cristalino e um olhar de cão que perdeu o dono. viajar pelo mundo e conhecer muitas raparigas de muitas nacionalidades. ninguém me via diluído na noite escura e chegava mais perto da Lua. cego / abandonado pelas chamas do mundo. é uma chatice. só volta às vezes e eu quero pensar que não preciso de voltar. . tem que partir e voar. Um homem é sempre um pássaro. era um corvo a guardar a cidade. um gajo quer ir ao futebol. passar férias a Manta Rota e pintar a manta e elas é só bilhetinhos com ursos e corações. um dia tocar numa orquestra com o meu violino. uma seca. eu e os meus amigos do bairro.

Pois não, António?
Ao António Lobo Antunes

Às vezes, passo uma manhã inteira à espera de uma palavra, e ela não vem, disse António Lobo Antunes numa entrevista à TSF por ocasião do lançamento do seu último romance Que farei quando tudo arde? O mesmo António que colabora como cronista regularmente na imprensa, que brinca com as palavras como se nunca se cansasse, que encolhe os ombros à vida porque a vida é a escrita e pouco mais do que ela, que com a idade desendeusou mitos e heróis, que ao autografar dezenas de livros sem respirar pelo meio, olha cada leitor à transparência, metade médico, metade escritor. O mesmo António que foi à guerra e voltou outro, que a imprensa começou por criticar ferozmente e que agora se tornou um mito, uma referência, um símbolo de sofisticação cultural. Mas eu olho para o António e vejo uns olhos azuis que parecem estar sempre a fugir da cara, como se carregassem toda a tristeza do princípio do mundo e na voz arrastada e de tom baixo que parece ter-lhe sido gravada como um inalterável e tirânico código de barras o menino fale baixo, ouviu, o menino fale baixo para não incomodar os mais velhos e quando os jornalistas falam com ele, entusiasmados com a “oportunidade” de o poder entrevistar, vejo-lhe as mãos num tricot recatado, os ombros em esforço como se carregassem toda a tristeza do princípio do mundo e dou comigo a pensar porque é que nós escritores somos estes bichos estranhos e tristes, quase sempre longe dos outros e nunca suficientemente perto de nós próprios. Gostava de ter conhecido o António quando ainda era pequeno, imagino-o de calções, loiro e lindo como um querubim, a brincar com os irmãos no jardim da casa de Benfica, dizendo loucuras aos pássaros e escondendo as primeiras palavras atrás de outras - como sempre fazemos quando a escrita toma conta de nós. Eu podia ser a filha de um vizinho - talvez alfaiate. Alfaiate é uma boa profissão para o pai de uma rapariga sonhadora - e o António piscava-me o olho e

convidava-me para ir à geladaria saborear um copo de gelado de caramelo e depois íamos à pastelaria comer ducheses e beber leites Vigor, daqueles da garrafa gorda e pequena, com ar de portuguesa, com a tampa verde alface e um gargalo generoso. A casa dele e a minha ainda lá estão, mas a geladaria foi substituída por uma loja de telemóveis e como ainda não me habituei a perder o que mais gosto, cada vez que passo pela Estrada de Benfica, continuo a procurá-la, como se tivesse outra vez seis anos e não chegasse nem a meio do vidro do balcão para pedir uma bola de caramelo e lamber deliciada a colher de plástico que fazia barulho e servia para dar o almoço às bonecas, depois de ter desenhado vogais e consoantes no caderno de capa ilustrada com uma história atrás que terminava sempre com o moral da história. Porque escrevemos, não sabemos; para quem, quase nunca dizemos; e como, não fazemos ideia. Escrevemos porque achamos que ninguém nos ouve, porque a loucura anda por perto, é uma forma de a distrair, porque somos sádicos e masoquistas, porque sim e porque também. Escrevemos porque não sabemos fazer mais nada, porque a solidão e o silêncio que o trabalho nos empresta é o que nos salva do cansaço e do desencanto, porque os sons e as palavras mandam mais do que nós, porque o tempo que passamos a lutar por elas ou contra elas é tempo que não temos que passar com ninguém e o mundo assim pode ser uma concha e talvez assim ninguém nos faça mal. Escrevemos para perder o medo, para impressionar aqueles que amamos, para esquecer e matar os que não nos souberam amar, para que o mundo não nos passe ao lado. Mas há sempre mais e mais palavras e ideias que nos perseguem, por isso é mesmo difícil explicar aos jornalistas que nos perguntam o porquê das coisas, quando já percebemos que tudo o que é verdadeiramente importante não tem nem precisa de explicação nem de moral da história, como nos cadernos da primária. Pois não António?

Por um fio
Há várias luas que não sinto o teu cheiro. Dantes, quando a distância era apenas ditada pela nossa vontade, bastava-me inspirar um pouco mais fundo e seguir a direcção do vento para te apanhar no ar. Ou então procu-rava na bola dourada que Deus pendurou no céu o caminho mais curto nos reflexos dos raios para te encontrar, e num instante mergulhávamos juntos. Era o tempo em que corríamos muito depressa e era sempre pouco porque podia ser o último e por isso nunca nos cansávamos de correr atrás dele. Era o tempo em que o nada era tudo, as palavras silenciavam-se mesmo à porta da casa sempre com as persianas corridas e a música ia dizendo o que não sabíamos explicar nem queríamos esquecer. Nesse tempo, eu fingia que já não me doía a distância e tu convencias-te que era melhor assim. E depois, quando era obrigada a regressar ao mundo dos mortais e o Sol do fim do Verão me aconchegava os ombros à saída, respirava fundo e apertava as mãos com muita força no volante e lembrava-me daquela frase do Pedro Paixão a dor afasta a dor e experimentava isso mesmo, enterrando as unhas na palma da mão inversa, para esquecer as tuas mãos na minha pele, a tua boca na minha nuca, o teu olhar dentro do meu. Foram tempos difíceis, eu a olhar para a Lua e a encher-me de luz só para te ver e tu a planear a tua vida sem mim, sentado no lugar do avião, metade de ti já estava fora daqui, só o corpo e a logística te mantinham por cá, preso por um fio, como sempre estiveste preso a tudo na vida e a quem quer que te tocasse no coração. Depois de partires, aprendi a esquecer-te nas ruas da cidade, descobri que afinal o oxigénio também me alimentava os pulmões mesmo sem o teu ar e que afinal o Sol brilhava da mesma maneira e o vento que me batia na cara era mais doce e sereno. Aos poucos, sem saber bem nem como nem porquê, o coração e o corpo foram aprendendo o encanto do sossego e as noites deixaram de ser longas. Não sei se te esqueci, parece-me que não é bem isso, nem se deixei de te amar, porque aqueles que já amámos nunca se vão embora, é como se vivessem para sempre dentro do nosso coração.

mas quando a Lua se enche e me apanha desprevenida num regresso a casa. pelo contrário. o instante que se segue. um fio que imagino inquebrável e eterno onde o meu desejo se estica até ao limite do prazer e é quase como se te apanhasse no ar e mergulhássemos outra vez juntos num mundo só nosso. ou se os joelhos indiciariam em subidas e descidas involuntárias um ligeiro ataque de pânico se nos cruzássemos na rua. O meu coração . ou se. que não me faria sequer virar a cabeça e seguir-te os passos no caminho inexorável do afastamento. o próximo minuto. Não sei como é a vida. o dia de hoje.podem de repente deixar de bater.ou o teu . nada é certo nem seguro. e o teu cheiro regressa trazido pelo vento que sopra outra vez mais forte e eu volto a sentir um fio. te estendia a cara para trocar um beijo rápido. quase impessoal.Não sei se a pele da palma das mãos voltaria a secar só de pensar que te podia ver outra vez. olho-a consolada e cheia e volto a sentir outra vez a mesma ansiedade. tenso e invisível. . nada se agarra a não ser por escassos instantes e a vida ensina-nos num treino doloroso de magro consolo a aceitar na perda uma vantagem qualquer.

E um dia. quando eu já pensava que o meu sangue jamais correria pelas veias sem estar misturado com o teu. compunhas músicas que tocavas na viola e escrevias letras de serrar corações ao meio. Andávamos no décimo ano. . o primeiro rapaz que me amou e me deixou. achas bem? .Pukunina outra vez Para o Pedro Granger Quando vi a tua cara espalhada pela cidade inteira nem queria acreditar. Tu. Desaparecias nas férias. dizia ela abanando a cabeça e depois rematava esse miúdo vai-te dar cabo da cabeça Chamavas-me pukunina . não sei porquê . acabaste comigo vezes sem conta para depois voltares quando o remorso. oferecias-me presentes absurdos . numa inexplicável metamorfose. foste estudar teatro para Londres.e foste o melhor amigo do mundo até conseguires ser meu namorado e depois. Saliente. Eras pequeno. ou aquela coisa inevitável a que só muito mais tarde aprendemos a chamar amor te punha outra vez no meu caminho. com o mesmo sorriso malandro e o olhar doce doce de quem nunca vai querer crescer. gravar discos e deixar crescer o cabelo. achavas-te giro e muito interessante. tinha razão. A minha mãe encolheu os ombros e disse acabaram-se as dores de cabeça e. A minha mãe ria-se de ti e chamava-te saliente. e já na altura tinhas a mania que eras diferente. tornaste-te o pior namorado do planeta. adoravas os kapas. como sempre acontece às mães nestes assuntos do coração. curtiste com três . mais baixo do que o habitual.três. mas com 15 anos já fazias mais barulho do que a turma inteira junta.escrevias sempre com kapa.lembras-te daquela vez que me mandaste uma couve flor embrulhada? E quando me deste uma geleira cheia de Magnuns Clássicos e outras delícias? e dizias que querias ser cantor pop. ou as saudades. mentiste-me e manipulaste-me.amigas minhas.

é muito mais fácil viver assim. durmo com um ou outro que vagamente me interessa. vivo sozinha num apartamento na Graça com vista para o rio. emagreci e fiquei mais alta. por isso brinco ao gato e ao rato com os que se aproximam. por isso tornei-me muito requintada em gostos e atitudes e como não sou feia nem parva. deve ser por isso que sabe tão bem lembrá-lo. formei-me e agora nem me ias reco-nhecer. quando vi a tua cara espalhada por toda a cidade a publicitar um champô qualquer e reconheci no teu sorriso malandro o rapazinho que nunca quis crescer. tenho quadros de pintores conhecidos na parede ao lado de fotografias do Man Ray e descobri que a sofisticação é uma arte difícil mas gratificante. Que piroso que é o amor. estender-me na cama e deixar que me embalasses outra vez com as tuas músicas e as tuas mentiras. que me fazem sentir inteligente e segura. apaguei do corpo os primeiros traços do amor carnal. De vez em quando abro um pequeno compartimento e alguém entra. Deus dá-me os homens que eu quiser. canso-me deles e fico sentada à janela a olhar para o rio e a ver os aviões que vêm do Brasil a roçar o meu telhado. deu-me vontade de voltar a casa dos meus pais. nunca fica muito tempo e eu regresso às galerias e aos amigos intelectuais. deixei crescer o cabelo. Pedro. Quando uma mulher não ama um homem gosta de vários. mas é só para espreitar. Mas outro dia.Com o tempo esqueci-me das tuas músicas e das tuas mentiras. Até porque na vida há só duas ou três coisas que nunca mudam e o amor é de certeza uma delas. Não tenho pena de ter o coração fechado. . me chamasses pukunina e me deixasses cartões com ursos abraçados debaixo da almofada para eu só descobrir na manhã seguinte. estou uma mulher e pêras.

que tem uma voz de canário chamada Mafalda qualquer coisa em estrangeiro que não sei pronunciar levou outro dia a uma gala.até que a febre baixe e ela adormeça com a cabeça sobre os caracóis iguais aos teus. vais a meio da noite à farmácia buscar ao antibiótico e dás-lhe banhos tépidos . costura com habilidade e rapidez e foi assim que consegui levar ao casamento da tua irmã Elisabete uma cópia de um vestido muito fino que aquela fadista nova. galdérias e desavergonhadas. Luís Pedro. Sempre soubeste mudar fraldas e tratar da menina melhor do que eu. mas a Delfina que tem mais de 4O anos e uns óculos que parecem as lentes daquelas lupas gigantes que servem para observar as estrelas. não foi? . e de que não me ocorre agora o nome. Eu é mais mobiliário e roupas. que lhe compras o material escolar e vais às reuniões de pais.Rica e fina Agora que fui promovida na empresa e que tu foste aumentado. gosto é de comprar as revistas de moda e as das festas para ver como se vestem as senhoras do Jet Set e quando gosto de um modelo. Ao teu colo ela bebia mais depressa o biberão e quando cresceu comia mais depressa a papa e quando toca a adormecê-la vais lá e aquilo é tiro e queda. és tu que tratas dela quando está com febre. . foi a palavra que o pediatra usou.tépidos. fazes da Jessica o que queres e ela olha para ti como um deus. És tu que a levas à escola de manhã. tudo novinho em folha para o nosso andar espaçoso e ensolarado que comprámos com o crédito jovem à taxa de juro fixa. Hoje em dia as raparigas casam todas grávidas e já ninguém se importa. coitada. nem do cão que parece um chouriço anémico. há sete anos. Eu não gosto do marido dela que cheira a sono e a sarro. já vinha a Jessica a caminho e eu nem cabia no vestido mas também não fazia mal. apetece-me comprar tudo novo. Luís Pedro. é uma santa. vou a casa da Delfina aqui no rés-dochão e ela faz-me tudo igualzinho. muito linda. Dizem que os homens não têm instinto paternal mas eu tive mesmo sorte contigo. quando nos casámos. não é como dantes que nos punham uma cruz em cima e nos chamavam vadias.

que eu não sou uma simples vendedora de seguros como tu.Eu devia ter nascido fina e rica. É que tu tens que perceber. Luís Miguel. desculpa lá. passa num instante e quando eu voltar compramos tudo novo para o nosso andar. Ficaste furioso. não nasci para passar os dias enfiada no comboio na linha de Sintra até chegar ao laboratório. . maples de pele. São só cinco meses. nessa época éramos mesmo pobres. porque o Doutor Gustavo não faz isto com mais ninguém lá da empresa e a gente tem mesmo muita sorte em ser tão feliz e poder dar à Jessica todas as barbies que ela quiser. Luís Pedro. levá-la a passear aos jardins do Palácio de Queluz e imaginar que ela é uma princesa. uma carreira e o Doutor Gustavo lá do laboratório diz que me vai levar para a Alemanha para eu fazer um curso de formação agora que fui promovida e tu. ficas cá com a menina. foi por isso que comprei o automóvel a prestações sem te dizer nada. quadros grandes. espero que não te importes. daquelas que se vendem nas lojas modernas e vais ver que daqui a dois anos vendemos este andar e compramos uma casa geminada na margem sul e eu já posso comprar o que quiser quando andar a ver as montras do Colombo. para ir ver as montras ao Colombo e passear a menina duas vezes por ano quando os instintos maternais me sobem à pele. mas eu tenho que ter o meu automóvel. mas tens que ser compreensivo. um lustre moderno e uma mobília de casa de jantar preta com cadeiras de espaldar. eu tenho um futuro. Luís Miguel.

Não eles não são como a gente. Mas aquela rapariga. toda a gente se casa e descasa. pancadaria em nós e nos miúdos. é o que te digo. ir-se embora só porque o marido anda metido com uma colega do trabalho. fiquei sem perceber se ele afinal tinha razão ou não. insultos e desaforos. Bebedeiras. percebes? Isto é tudo uma pouca vergonha. ao menos cá não nos tiram os filhos. vive junta sem o consentimento de Deus. porque a primeira vez que o Manel me levantou a mão. da minha mãe aos meus irmãos e o cão era o último a apanhar. Então e depois? Qual é o homem que. se era a sopa que estava azeda ou eu tinha chegado mais tarde. e as novelas. vê lá tu. a gente anda cá para criar os filhos e aturar os homens. Já não me lembro do que foi. No nosso tempo é que a gente aguentava tudo. e os telejornais e aquelas raparigas que apresentam os programas que deram a volta a isto. Devo-me ter habituado. é que a rapariga não abalou por acaso. Maria da Luz. mesmo sendo casado. mas depois calei-me e até. quando era novo. nem nos matam à pedrada. o meu pai chamava-lhe a dose. Havia de ser no meu tempo. chegava a casa e ferrava a todos. mas a vida é isto. chorei. É por causa delas que agora por dá cá aquela palha estes casais novos se separam e emparelham logo com o primeiro que encontram. a gente começava logo a apanhar quase no berço. comer e beber à fartazana e de vez em quando o nosso homem até nos trata bem. Agora isso mudou. olha o teu Aníbal que Deus tem. por isso é que quando vejo as mulheres lá daquela terra onde os americanos acham que se esconde o maluco das barbas que rebentou com as torres gémeas na América. não corre atrás de um rabo de saias? São todos iguais. santo Deus. outras mulheres. nem deixou os dois filhos entregues à madrasta sem saber o que estava a fazer. podemos rir e falar. penso que a gente ainda tem muita sorte. que não largava a porta da Arminda? Todos iguais. Maria da Luz. quais mulas. Foi a televisão.Só se vive uma vez Sabes o que te digo. se não era a mesma coisa? E o Manel. não teme nada nem ninguém. o sítio onde eles deviam ter o .

Conheci um conde francês que também me queria levar para a terra dele. eles têm medo da gente. mas eu já namorava o Manel e olha. Maria da Luz. têm medo de nós porque somos diferentes. mas não é isso que os ocupa. lá na Alemanha a tratam melhor do que aqui. mas a gente vê que as coisas mudaram. eu acho que a rapariga fez bem em abalar com o estrangeiro. têm a bola e os copos com os amigos. não têm que parir os filhos. porque somos mulheres e eles não percebem nada da casa e dos filhos e disto tudo. Sabes que eu podia ter feito o mesmo. Maria da Luz. só têm que chegar a casa ao fim do dia. Tá bem. Eu já sofri muito. E se ele fosse atrás de mim e me matasse. Um dia vem cá buscar os miúdos e. E depois sabes. mas se eu pensar bem e for sincera. comer e dormir. dar-lhes leite e amor. fiquei aqui no bairro. . que só se vive uma vez e eu cansei-me muito desta que já vivi. quem sabe. como tu e todas as comadres daqui do Bairro Alto. senti-me mais protegida e afinal para quê? Se fosse agora fazia como a outra e abalava daqui para fora. não têm dores como a gente. Quem vive menos. nunca percebi muito bem o que era a repressão porque a seguir ao 25 de Abril o Manel continuou a dar-me no lombo e a liberdade continuou a ser o nome de uma avenida. agora são elas que ganham mais e compram carros e mandam neles e sabes que mais? Eu até acho bem. quando era nova e cantava fado ali na casa do Tio Domingos. está lá uma bomba-relógio que explode se os tipos não se metem com as mulheres. paciência. percebes? Porque os homens não engravidam. Têm medo que a gente não goste deles.coração. que a gente os engane como eles nos enganam a nós. ao menos vive melhor.

agora vão lá os rapazitos do Pingo Doce. mas de que valem esses pequenos contratempos se estás lá em cima à minha espera de braços abertos. Luís. Félix para te ver ao fim da tarde. levavam-nos as mercearias a casa. Nunca te devias ter casado com a minha prima Carlota. se está a chover é que é pior. essa flausina de peito farto e sorriso fácil que te deu a volta à cabeça e ao resto. mas como em tua casa a . tinhas que te casar com a rapariga mais bonita e cobiçada da nossa geração e nessa época os casamentos ainda se faziam por conveniência. Agora não. como há quarenta anos. Mas deu-te para aquilo. eu não me importo de subir todos os dias de Santos até à Rua de S. lembras-te? Nessa altura é que o Bairro da Lapa era o que agora as pessoas gostam de imaginar que é: um lugar civilizado e chique. os pés patinam na calçada como se tivessem vida própria e o vento vira-me o chapéu de chuva em concha para o céu. sonham que os filhos vão para jogadores do Benfica e convencem as filhas a concorrer ao Big Brother e a televisão tomou conta das pessoas. mas como não conseguimos viver sem a ilusão do engano adquirido. a ti e a mais meia Lisboa. o meu tio Bernardo tinha negócios em África com o teu pai e as mães jogavam bridge todas as segundas-feiras em casa da minha mãe. que o digam os teus amigos mais próximos e até os distantes que por lá andaram. seguro e sossegado onde só vivia gente conhecida e como havia poucos carros nunca faltava lugar para estacionar.A subida do prazer Sabes Eduardo. nunca volta ao que foi e nada regressa a nada. toda a gente quer ter televisões em todas as assoalhadas. boa gente sim senhor. quando éramos tão novos que nem sabíamos que a terra gira sempre para o mesmo lado mas nunca no mesmo sentido nem da mesma forma e que tudo o que nos acontece pode até parecer uma repetição de uma repetição de uma repetição mas é ainda e sempre outra coisa porque o tempo é isto mesmo. eu subo outra vez o Bairro da Lapa para ir ter contigo. mas falta-lhes o lápis atrás da orelha e aquele ar humilde do povo durante o Estado Novo que se engrandecia com a tristeza e passava pela vida sem ambições.

cabe o mundo inteiro lá dentro e as mãos não enrugaram assim tanto. por isso quando entro na tua casa cheia de pó e me passas as mãos pelos cabelos. . primeiro chamaste-lhe modernices mas agora já gostas e dançamos os dois como há quarenta anos. também deves ver a mesma rapariga que há quarenta anos se apaixonou por ti e deve ser por isso que me sorris como uma criança a quem acabaram de dar um brinquedo novo e eu sinto-me outra vez leve como uma pena. ao som do Gardel ou do Julio Iglesias. mesmo que seja por instantes. eu subo todos os dias a rua para te ir ver. As minhas amigas riem-se de mim.televisão está sempre desligada. vejo sempre o rapaz por quem me apaixonei há quarenta anos. quando nem imaginávamos que o país se ia virar do avesso com a revolução e África se perdia para sempre no sul do mundo. por isso subo todos os dias a Rua de S. chamam-me velha gaiteira e solteirona doida. mas o olhar é o mesmo. o cabelo está mais grisalho e as costas mais curvadas. mas eu não me importo porque agora que és viúvo é que a vida me voltou a sorrir. Félix para te ver e embora saiba que tudo não passa de uma ilusão que a velhice engrandeceu na minha senilidade. Sentamo-nos na sala e tu pões um disco do Gardel ou do Julio Iglesias que te ofereci no Natal. Foi preciso chegar a velha para me sentir outra vez rapariga. Estás cansado mas não te acho velho porque quando te olho. o coração bate sempre mais depressa e ajuda-me a completar a subida a caminho do prazer de poder ser tua outra vez.

mas apenas desejado as suas coxas enquanto eram firmes e a sua cara. e há quase dez anos que saímos a meio da manhã para beber um café e falar da vida. com quarenta graus à sombra. cada vez mais nervosa e fumadora. o desassossego e o medo de parar. que cheguei mesmo estar apaixonado. os nós dos dedos que chocalham uns contra os outros e a marca de tensão escrita numa linha abaixo do lábio inferior. a marcar-lhe os nervos. muito nervosa e agitada. como se o mundo fosse acabar dali a muito pouco tempo. Estava noiva e já sabia que ia ser infeliz. horas. A Fernanda foi casada e teve dois filhos. a pressa. costuma dizer-me a Fernanda. apareceu de gola alta e mangas compridas e toda a gente estranhou. enquanto beberica o café em golinhos microscópicos. cada vez mais agitada e queixosa e eu deixei de gostar dela.Talvez não Nunca tenho tempo para nada. ou talvez mesmo minutos e eu fico a olhar para os olhos encovados e as mãos em guerra uma com a outra. à velocidade da luz. talvez afinal nunca a tenha amado. quando o marido fugiu para a América do Sul. quando vamos beber café a meio da manhã e ela fuma três cigarros seguidos. parece que o marido se metia nos copos e de vez em quando lhe batia. gorda. sobem sempre ao cadafalso sem que ninguém as empurre. no Verão. quando rebolava as coxas firmes debaixo dos meus olhos e me batia as pestanas carregadas de rímel quando descíamos para beber café. depois de dois filhos e muitas nódoas negras. a Fernanda chegava ao serviço com a cara marcada e uma vez. a Fernanda e eu. por isso. mas as mulheres são assim. enquanto os traços da tristeza e do abandono não lhe escreveram a sina debaixo do lábio . Acho que nunca percebeu que gostei dela. cansada e chata. mas a Fernanda encolheu os ombros e atirou fumo para a cara de toda a gente. eu pensei que a Fernanda ia ficar aliviada e talvez então eu tivesse a minha oportunidade. Talvez seja eu que esteja errado. Mas o tempo foi passando e ela foi ficando feia. começou a revolver os papéis em cima da secretária e ninguém teve coragem de lhe perguntar nada. Somos colegas de serviço há quase dez anos. dias.

Talvez eu também esteja a ficar velho e cansado e me tenha esquecido. talvez tudo fosse diferente.inferior. Se lhos tivesse mostrado. Mas talvez não. entre as baforadas de fumo e a rotina castradora. talvez eu tivesse comprado a play station para o nosso filho. Ou talvez me esteja apenas a vingar do facto dela nunca ter tido tempo para mim. e lhe escrevia poemas de amor. de escrever poemas e de sonhar acordado com a Fernanda ou com outra mulher qualquer. só querem a perfeição e só sabem sonhar acordados. . a não ser para tomar um café a meio da manhã e para me pedir dinheiro emprestado para comprar uma play station ao filho mais velho. saudade do tempo em que a julguei bela e perfeita. Não tenho tempo para nada. saudade do tempo em que a amava. diz a Fernanda e eu olho-a com uma saudade parda. de quando ainda me sentava à mesa e não conseguia trabalhar. mas os poetas são assim. talvez ela se tivesse apaixonado por mim.

Nem as mesas de cabeceira. ou de nós. nem as cortinas de flores. escolhi o bairro da Lapa e sinto-me mais perto do rio. deve ser por isso que gosto de fixar os olhos no espelho da água até não aguentar mais e é então que regresso aos quadros. já não moro nas águas furtadas no Castelo. imaginando nas cores e linhas vidas inteiras as vidas que não vivi. Mas mais nada. a emprestar um sentido provisório à minha existência pacata e tranquila. onde todas as tardes o Sol se espelha num efeito infinito de mil reflexos que me fazem doer os olhos. Ah! E esqueci-me de te dizer que por acaso também mudei de casa. os quadros são novos e cheios de cores. mas isso também não me interessa. onde namoravas o Mar da Palha. nem sequer a colecção de escovas de prata da minha avó Henriqueta. cadeiras. ao menos assim lembro-me menos de ti. os tais que nunca viste. de pintores novos e modernos. agora que fui promovida a directora e tenho duas secretárias e uma assistente pessoal. Lembras-te daquela música do Paul Simon que dizia She said a good day ain't got no rain / she said a bad day is when I lie and think about the things I might had been? Fazia parte daquela colectânea onde também estava a lendária música Still Crazy After All These Years ao som da qual me pediste namoro sem pedir depois da . para alimentar outra vez o olhar. a não ser a cómoda inglesa e o espelho de talha dourada encostado à parede. sofás.Tão fácil Se entrasses na minha casa nem a reconhecias. não sei se daqui a uns anos valem fortunas ou só me aquecem o olhar. em vez da mesa pesada de mogno levita agora uma de vidro. ou daquilo que fomos. Mudei tudo: tapetes. As molduras com as nossas fotografias hibernaram para uma caixa de sapatos porque não me senti bem a esventrá-las para lhes colar outra imagem e por isso apaguei-as do meu campo de visão. nas cadeiras românticas senta-se agora outra família. o que é bom é poder olhá-los todos os dias quando acordo e respirar nas suas cores os sabores da diferença e da novidade. nem a colcha bordada à antiga. No meu quarto também ficou pouco do que conheceste.

. ou de nós.frequência de Direito Fiscal quando imaginávamos que o mundo era um tribunal imenso e íamos estar sempre do lado dos bons. se não mais feliz. ou do que fomos? Pego no meu Peugeot azul escuro. Mas as memórias servem para isto mesmo. e enquanto a estrada vai escorregando por debaixo dos meus pés é como se voasse por dentro e mergulhasse num dos meus quadros onde viveria outra vida. andando. daqueles que parecem ter saído do banho há cinco minutos. É tão fácil sonhar. Dizem-me que estás com ar de senhor. uma qualquer onde estivesses apenas mais perto e não dormisse todas as noites sozinha. If you know what I mean. as fraldas da camisa sempre a espreitar por fora das calças. que é o que faço quando mergulho os olhos nos reflexos do rio ou desenho a imaginação nos quadros. Mas sabes o que faço quando tenho mesmo muitas saudades de ti. Directora de um Instituto Público e tu na carreira diplomática a assessorar embaixadores pelo mundo fora até ao dia em que a carreira te ponha no topo e sejas um senhor embaixador. pelo menos mais pacificada. Acho que o azul do mar me alimenta o olhar tal como a música me aconchega o coração. ponho o Paul Simon a cantar só para mim e faço a marginal até ao Guincho. com gravatas e botões de punho de marca. Tantos anos a queimar as pestanas para eu dar nisto. mas quando fecho os olhos e o Paul Simon canta I met my old lover on the street last night o que me vem à memória é o teu cabelo despenteado. até chegar a Colares e depois volto para casa. os ombros estreitos e magros e uma forma única de inclinar a cabeça quando me davas um beijo. que engordaste um bocado e já pões gel no cabelo para disfarçar as primeiras falhas. mais cheia e. assim entre o Rudolfo Valentino e o George Clooney. às vezes é preciso mergulhar no passado para saber saborear o presente. depois sigo pela estrada da Malveira onde o James Bond fez corridas de carros e vou andando. uma pessoa mastiga-as e saboreia-as para que não fiquem amargas.

guardamos esta vontade imensa de dar amor. às voltas sobre mim mesma num barco de borracha. Nunca fixarias a minha cara. as raparigas achamte divertido e eu também.. perdida de riso em delírios de tristeza sublimada. Se não fossem as tuas e as minhas tristezas. Mas sabes uma coisa? Enquanto tentamos e não acertamos. entre tirinhos. os teus e os meus desgostos.. algumas apaixonam-se por ti e de repente ficas com cara do pai dos filhos que elas querem ter. uma simples ida à Feira Popular numa segunda-feira à tarde nunca teria o sabor da eternidade. raparigas indecisas que povoam a tua imaginação. vai-se encarregando de nos levar para outros lugares e nos mostrar coisas que nem sabíamos que existiam.Tirinhos e farturas Para o Cascão Tens o olhar maroto das crianças que o mundo poupou ao crescimento. sem saber muitas vezes muito bem a quem. tens o tamanho certo dos abraços para me receber quando estou cansada do mundo. os ursos enchem-se de pó e passam de moda. a cantar aos gritos piensa en mí / quando sofras. enquanto o urso cor-de-rosa espreita do alto da prateleira. rapazes confusos que não sabem o que fazer com a minha determinação e a meias. ou então não diz nada. outras não te levam a sério e como são sempre aquelas de quem tu gostavas de um dia ser o pai dos filhos delas. já sem esperança que apareça um pistoleiro implacável e leve o grande prémio para casa.. tens o riso cheio de luz que me guia nos dias de tristeza e a voz que diz a palavra certa no momento preciso. encolhes os ombros como se tivesses perdido meia dúzia de trocos a dar tiros a um alvo imaginário. e então damos a mão e vamos os dois à Feira Popular para esquecer. As raparigas acham-te bonito e eu também. mas o sorriso fala comigo e eu respondo-te. como se de uma promessa se tratasse. farturas e voltas na Roda Gigante. no ano seguinte há outros bonecos mais giros e a vida. mesmo sem nós vermos. num .

Se não fosse a tua e a minha solidão tão desajeitadas quanto involuntárias.lago verde com sessenta centímetros de altura. . porque é o amor sem crédito nem débito. digamos o que dissermos. conta com o meu sorriso cúmplice e próximo e com o os meus abraços. que te ajudam a esquecer as tuas loiras confusas e eu os meus rapazes indecisos. ou o meu coração. porque sabemos que. porque nem pensamos antes de falar. que afinal são do tamanho dos teus e tão grandes como o teu. como se fosse filho de uma dessas raparigas que de vez em quando te roubam o coração. não saboreávamos com o mesmo prazer um sushi regado a saké frio. nem saboreavas as caretas concentradas do meu filho a curvar num carrinho de choque como se ele fosse teu. o outro que és tu e que sou eu vai perceber e aceitar tudo. Por isso já sabes: sempre que me quiseres levar à Feira Popular para esquecer as tristezas e povoar as minhas noites solitárias de algodão doce. transformando em piadas as nossas desventuras. A vida é feita de momentos e é a soma de momentos perfeitos que nos emprestam o sabor da eternidade e é por isso que a amizade é o mais belo dos sentimentos.

lhe levo o sossego. como rir. muito quieta. como sol. como meu. que o levo ao cinema e ao jardim Zoológico e à noite. lar. lhe leio histórias onde ele viaja com os olhos fechados ou lhe abro o Atlas e vamos os dois à Argentina ou ao Botswana ver os leões que dormitam à sombra. uma estrela e um duende malandro . quando ele poisa a cara ainda pequena e mergulha num sono profundo e regenerador.Três letras Para a minha Mãe Para mim. Mãe como dar. como cor. É como filha que telefono à minha Mãe quando estou triste. É como Mãe que vou para a praia com baldes e formas. Mãe . Mãe. Como Mãe e como filha. como mar. como par. como sim. deitada. como bom. Mãe. É como Mãe que ao fim da tarde me sento a alinhar letras que afinal são palavras e palavras que até dão frases. que encontro o Norte. como mão. como nós. todos os dias são dias da Mãe. É como Mãe que me levanto todos os dias mais cedo. com a palma da minha mão. cansada ou muito feliz com alguma coisa ou só para lhe dizer que gosto dela. como lua.que o proteja e o faça ser sempre uma pessoa melhor. Mãe como dor. que fujo de Lisboa e passo fins de semanas inteiros a conversar e a rir. Tem a mais doce consoante do abece-dário e a primeira das vogais e como tantas outras que reúnem o essencial da vida só precisa de ter três letras para ser enorme. lhe preparo o pequeno almoço e a mochila e aperto os botões da camisa ao mesmo tempo que lhe mordo as orelhas. o Sul e as referências que me fazem andar para a frente. a respirar o mesmo ar e a pedir à estrela dele porque todos os meninos têm uma fada. lhe mostro e escondo os dedos para o ajudar nas contas. Mãe como céu. como ter. como ser. que descanso o coração e corpo quando preciso. que me escondo do mundo quando estou exausta. É uma palavra perfeita. enquanto eu fico ali. que a oiço com muita atenção quando tenho um problema difícil de resolver. e o abraço enquanto recito uma lista de recomendações e prometo ser pontual na hora de o ir buscar. como vir.

É por causa da minha Mãe que tenho a mania que sou Mãe de toda a gente. ajuda. Mãe que ensina. Mãe. no mesmo tom.como lei. Mãe. Mãe. Mãe que eu quero sempre viva. sempre atenta e sempre próxima. . Mãe serena e protectora. Mãe. Mãe do Céu e da Terra. como asa. juntando as três letras que me fazem estar viva e ser feliz e pensar que a eternidade é isto. como cão. Mãe sem hora nem tempo. que nem sempre é a primeira palavra que se diz mas a primeira que se tem. Mãe contida. Mãe d'água. dos amigos. Mãe Santa e Mãe Coragem. Mãe que entala os lençóis da cama. Mãe querida. Mãe. quase perfeita. amando e protegendo. se ama e se decora. protege e chama. Mãe. Mãe doce e forte e minha. que nos acompanha e protege mesmo quando já é só memória. sonhando e querendo o melhor do mundo para aqueles que são nós e nos guardam para sempre. Mãe de dia e de noite. que se sente. Mãe tantas vezes cansada. Mãe que tem o maior amor. viajar no sangue dos filhos para novas vidas. das sobrinhas e de quem quer viver no meu coração. mas sempre vigilante. porto de abrigo e balanço para a outra margem. como não. Mãe quase eterna. é por causa da minha Mãe que digo todos os dias ao meu filho o quanto gosto dele e como é bom ser mãe e sonho ter mais vozes que me chamem de manhã com o mesmo som.

Lembro-me que estava um calor de morte apesar do ar condicionado dar o seu melhor e que o calor aumentou quando ela se levantou para ir à casa de banho. Uma prostituta de luxo a oferecer-se de borla é aquele clássico com que todos os homens sonham. o pescoço. um copo alto e esquio como ela. estupefactos com as pernas dela. estou mesmo a ficar um perito em hotéis de luxo . a boca enorme. mas sem sequelas nem cenas dos próximos capítulos.e continuou a dizer vulgaridades mas eu não as ouvia.podia ser o 604 que tem uma cama enorme. os cacilheiros conversavam uns com os outros a meio do caminho. meu amor. só a imaginava nua. bolas. a tarde escorregava pelo rio abaixo. Foi então que a ouvi arranhar. por momentos passei os dedos discretamente pelas fontes junto ao cabelo e pressionei os ossos para não perder o controlo. De borla. Ela regressou. os braços.Um avião chamado Kátia Ela pegou afectadamente no copo cheio de sumo de laranja até acima. sem preço nem reverso.ao qual o António que é meu amigo há vinte anos e doido por putas de luxo se tinha referido com o olhar transtornado de desejo . sem depois nem e agora? O prazer levado ao seu máximo expoente. os olhos bem delineados e eu a fingir que tudo aquilo me passava ao lado como se fosse diferente dos outros homens e o meu cérebro não desligasse perante uma mulher bonita. com a outra mão dobrou ligeiramente a palhinha antes de a segurar com os dentes e foi então que reparei. abstraído por momentos das mãos enormes e compridas com as unhas impecavelmente arranjadas. uma Vénus oferecida. deitada em cima da cama num quarto no andar de baixo . repetiu ela com o olhar matreiro de quem está habituado a trabalhar o prazer. . numas minúsculas manchas de verde desmaiado entre os dentes e as gengivas quando sorriu com os olhos semi cerrados e abanou ligeiramente os ombros. num sotaque que misturava o brasileiro com o madeirense que comigo até ia de borla. com o delicioso sabor da antecipação.à espera do meu peso e da minha vontade. os japoneses da mesa ao lado riam nervosamente e olhavam para ela. voltou a sentar-se com um cruzamento de pernas estonteante . Estávamos no bar do Hotel do Chiado.

amanhã temos o cocktail da Vera e do Francisco. desço o elevador com a cabeça a estoirar. respondo que vou a caminho de casa e pergunto-lhe se pode ir andando. Voltei a passar os dedos pelas têmporas como fazia o meu pai quando não se queria irritar. que temos o cocktail amanhã e um casamento para a semana e as bodas de ouro dos teus pais no fim do mês. carregando nos ossos para não me obcecar com imagem dela deitada na cama do 604 quando o telemóvel tocou. perguntei sem sequer pensar. e. eu sei que a nossa vida é óptima e que és uma mulher extraordinária. sentindo algo de estranho no meu silêncio. o telemóvel que incautamente me esquecera de desligar antes de subir no elevador da clandestinidade acompanhado por um avião chamado Kátia.Porquê. E. Não sei se sou um fraco por ter fugido ou se seria fraco em ter ficado. não te esqueças de passar na lavandaria disse a Maria do Carmo do outro lado com a voz de cinco anos que nunca me cansa . mas só se você quiser mesmo. a detestar-me por estar ali e por me ir embora. digo à Kátia que vou à casa de banho. eu sei que tenho que ir à lavandaria. pago à saída. senão o António chama-me maricas e conta aos outros e gozam comigo durante três verões seguidos. mas tenho à minha frente um avião chamado Kátia que me quer dar uma borla. o que é que queres que eu faça? Mas em vez disso. Maria do Carmo. perguntou com medo de ouvir a resposta onde estás? Está tudo bem? Está tudo bem. . mas sei que não posso contar isto a ninguém. antes que o Jameson me suba à cabeça. respondeu e eu ouvi-a pensar e estou farta de velhos gordos e nojentos e ela deve ter percebido que lhe li o pensamento porque se mexeu nervosamente na cadeira e rematou. Maria do Carmo. Porque você é fino e bonito.

já aprendi há muitos anos que o amor é uma coisa e a vida é outra. Todos os dias de manhã observo o teu corpo perfeito a sair do duche. saio de manhã e regresso ao fim do dia e às vezes demoro menos tempo de Madrid a Lisboa do que tu de Cascais às Amoreiras onde brincas ao dinheiro com as fortunas dos outros num lugar respeitável num banco de renome e prestígio. ou trocas de carro. Deve ser por causa desta vida infernal de hospedeira do ar. foi o que me disseste com a mesma displicência com que davas mergulhos na piscina de casa dos teus pais quando eras miúdo. voo todos os dias para quase todas as cidades da Europa. eu que estudei quiromância. as gravatas Hermes e um sorriso sempre colado à cara. te perseguiram no abismo desesperado da . Todos os dias observo o teu corpo perfeito. o teu sorriso impecável. mas há muito tempo que ando à procura de um caminho que me apeteça seguir sem ter medo de me enganar. os sapatos ingleses. mas a força do hábito é mais forte do que a verdade não sei como te dizer isto. que passava as noites presa nas cordas de uma viola ou embalada pelo fio das palavras dos outros.Um caminho qualquer Não sei como te dizer isto. eu que fui à índia alinhar chakras e aprender as artes do reiki. o cabelo puxado para trás com gel.nem sequer te devia chamar assim. E parece que és mesmo bom naquilo que fazes. perderam a cabeça e a dignidade. a conversa sempre adequada ao momento certo. todos os anos és promovido e compras mais um quadro de um pintor qualquer que esteja a dar. a forma elegante como cumprimentas a minha mãe e a paciência polida com que falas com o meu pai de carros e aviões e penso que se calhar tenho muita sorte em afinal me teres escolhido entre não sei quantas mulheres que por ti choraram. o sorriso de quem não tem medo de nada nem pensa muito em coisa nenhuma e ponho-me a pensar porque é que me interessei por ti. aprofundei os signos e passei anos à procura do sentido da vida. eu que gostava de poetas e de músicos. ou compras uma moto e este ano talvez te atires a um descapotável. meu amor . trabalhado com vaidade e afinco ao fim da tarde no ginásio da moda. a tua voz bem colocada.

Agora que sentes o mundo nas mãos. que ainda te encantas com aquela miúda que te serviu um Bloody Mary na primeira classe de um Boeing a caminho de Paris. se calhar até nem tens ninguém e gostas mesmo de mim. eu sei que não me amas mas finges com a habilidade dos mentirosos profissionais. que despisses nem que fosse por uma noite o sucesso que se te colou à pele e tivesses. Mas não. como todas as pessoas que pensam. que somos muito felizes e que a vida se bebe numa garrafa de champagne e se devora numa travessa de caviar. A minha mãe encolhe os ombros. como eu. que não passo de uma ingrata por não dar valor a tudo o que. porque hás-de pôr tudo em causa? . mas o que a minha mãe não sabe é que antes de adormeceres abraçado a mim e me dizeres boa noite meu amor. diz que devia ter nascido menos inteligente. Mas por mais que respire fundo durante os dias de férias de luxo no Algarve ou nas Caraíbas. dúvidas e medos e a vontade. continuo a carregar um abismo no peito e quanto mais tenho mais vazia me sinto.rejeição. quase sem querer. Se calhar tens amantes. um caminho que te afaste do equívoco. ao menos não pensava tanto na essência das coisas e contentava-me em ter o que deseja toda a gente que ela conhece. de seguir um caminho qualquer que não te leve ao engano da superficialidade. que me dês anéis nos meus anos e um relógio no Natal. mas o que eu gostava era que deixasses esse hábito horrível de fingir que está sempre tudo bem. me veio parar às mãos. se calhar é a tua secretária ou então uma amiga minha com quem partilhei a carteira no colégio.

a Lídia fadista já me tinha tratado da saúde. Trabalhava há menos de um mês quando me entrou no 28 a Lurdes por quem imediatamente me apaixonei com a ingenuidade de um virgem e o entusiasmo de uma criança no dia dos anos.Um eléctrico chamado desejo Um dia destes ainda acabam com os carros eléctricos e lá vou para a reforma enquanto o diabo esfrega o olho. Aprendi depressa a manejar o bicho e afeiçoei-me àquela vida de andar para cá e para lá a transportar raparigas de liceu. já fiz as carreiras todas da cidade. se faz favor . Foi o meu tio Amílcar que me meteu nesta coisa dos carros eléctricos. Uma missionária do amor. coitada. Há vinte e tal anos que ando nisto. O que eu gostava era de ter sido piloto de Fórmula 1. como ele gostava de dizer. comecei aos dezoito. Mas com a Lurdes foi diferente. Claro que não era nenhuma criança. maçãs e outros produtos perecíveis. da minha e de todos os meus amigos que alinhavam comigo nas corridas de carros de esferas. Ela subiu os dois degraus com altivez. quando. olhou-me de alto abaixo um bilhete para o Castelo. E sem levar nada. via-se que fazia aquilo por gosto. velhos reformados e senhoras desocupadas que vão a enterros na mira de encontrar alguém conhecido. provocando um voo anárquico de alfaces. já tinha feito 21 e não era virgem. Américo. era o que ela era. Quando era miúdo fazia corridas com carrinhos de esferas pelas encostas da Mouraria abaixo com os meus amigos do largo e ganhava sempre. Eu andava a estudar para torneiro mecânico na Voz do Operário e já tinha os ouvidos habituados ao chiar das máquinas amarelas pintalgadas de detergentes e companhias de seguros quando o meu tio me convidou para fazer o curso na Carris e “fazer uma carreira”. quando as pessoas ainda tinham respeito pelo trabalho da gente e não punham os carros em cima do passeio. Claro que parti a cabeça algumas cinco vezes e fiquei de braço ao peito não sei quantas mais. em manobras de maior risco me estatelava com aparato vagamente cinéfilo contra a casa da Lídia fadista ou na bancada da frutaria do Sr.

e o Sr. supliquei-lhe o telefone e há mais de vinte anos que ando a namoriscá-la. parei a máquina e fui atrás dela. mas aquilo tinha a música do amor. a minha Lurdes não é nenhuma mulher da vida. muito de vez em quando. O amor é apenas uma doença quando nele julgamos ver a cura. Era mesmo o que eu precisava. disse que casamento era coisa de gente que não sabe nada da vida. É que sempre dependi da simpatia de estranhos. que ela não queria ter mais filhos. porque um dia destes acabam com os carros eléctricos e depois fico sem saber como encher os dias. Quando ela saiu do eléctrico. sempre de farda para parecer melhor do que aquilo que sou. . não é assim que diz o Espadinha naquela música cantada por um rapaz magro do Porto. Até já lhe ofereci um anel. nesta modorra miudinha daqueles que têm sempre medo de dar mais um passo em frente. a namorar o chiar dos travões dos autocarros e a sonhar com o volante de ferro e a campainha da próxima paragem. mas a Lurdes fez-se difícil. ia visitar a Lídia fadista. já lhe bastava o Manelinho que tem uma paralisia e lhe leva o dinheiro todo e outro dia vi-a lá no largo.Até podia ter dito outra coisa qualquer. Américo olhou-a de alto abaixo esta também já me passou pelas mãos. dos Violeta não sei o quê? Pois com a Lurdes foi isso mesmo. É sempre assim: quando nos apaixonamos só vemos e ouvimos o que queremos. Levo-a a jantar fora uma vez por semana e já dormimos juntos. é só uma rapariga que não sabe o que quer e por isso pode ser que um dia destes ela aceite o anel e a gente se case e sejamos felizes para sempre. são todas iguais Mas eu não acredito nele. porque é só quando ela quer e os anos vão passando.

Olho para a janela e estás comigo. há provas de amor. meu amor. Porque sabes. por isso guardo o meu amor por ti num lugar onde ninguém lhe possa tocar e dou-te a chave para não ter que pensar mais nisso.Verde e azul Vou guardar o nosso amor na caixa da tristeza entre a alma e o coração. onde via o teu olhar iluminar-se da minha presença e o mundo inteiro em duas cores. solene e circunspecto. mas a tua ausência já não enche os meus dias. e quando eu chegava passeavas as tuas mãos nas minhas. e eu sentia-me a pessoa mais feliz do mundo. Vou guardar o teu olhar ansioso de quando nos encontrávamos no jardim da Estrela. tu chegavas sempre antes de mim. parece-me que já nem me lembro como é a realidade e agora que te ausentaste de ti e de mim. a ver os barcos que sobem e descem o rio. E o resto é estar sentada aqui. Estou cansada de sonhar. Olho para o sofá da minha sala e estás lá sentado. que aclarava quando se cruzava com o verde dos meus. esperando sem esperar que um dia encontres a chave e me voltes a fazer feliz. Mas para isso tens que querer. atrás de um boné cinzento e de uns óculos muito escuros para que o mundo não desse pela tua presença porque naquela altura o mundo não contava. É engraçado. só nós. na esplanada do jardim da Estrela. vejo-te lá. Fico à espera delas. mas isso só se via no azul dos teus olhos. o verde e o azul tornavam-se o céu e a terra. Dizem que o azul é a cor do infinito e o verde a da esperança. excitado e feliz. memórias que não quero perder e que por isso escondo numa caixa onde as guardo para sempre. . como quem pega pela primeira vez num recém-nascido. nem consigo alimentar a doçura na espera. ao meu lado. quando olho para o futuro. acho melhor assim. que não há amor. Memórias perdidas no tempo como lágrimas na chuva. Mas isso é na minha imaginação. que é aquilo a que nos agarramos quando a vida nos rouba o resto. Deito-me na cama e és tu que me adormeces e acordas.

passou-os pela cara e pensou agora quem é que toma conta da . O empregado passou com uma bandeja cheia de cafés para uma mesa onde um bando de estudantes chilreava em grande algazarra se fosse à menina. nunca fora. chama a ambulância E a rapariga chamou. mas quando chegaram ao hospital um médico com cara de menino do coro disse lamento muito. que isto de ouvir vozes deve ser um mau sintoma. O pescoço do homem enterrava-se num cachecol verde semeado de pequenos leões com as patas dianteiras levantadas e a garras marcadas aponto de qualquer coisa convencidos que metiam medo. A rapariga aquiesceu. magros. surpreendida e recebeu daquele senhor de estatura meã. que é desta que me vou. O homem é bruxo. Era um daqueles fins de tarde mornos que já trazem o Verão na Primavera. a avó sentada no chão da cozinha. Veio também um copo de água que o empregado. a conselho de uma amiga entendida em moda. pensou. Na mesa em frente um senhor de bigode. qual Mussolini em férias. Tenho mesmo que lá ir. encostada aos armários dos detergentes a chamar pela neta ai filha. pequenos. lia a Bola. cabelo ralo e meia idade um sorriso de muda comiseração.A volúpia de uma bica Sentou-se e pediu uma bica. a vida passara-lhe ao lado. pensou sem querer pensar que com aquilo também não era. Depois ficou a olhar para o copo e pensou que os copos das esplanadas são todos iguais. tomava já os medicamentos Devo estar pior. enquanto abria a carteira e tirava uma lamela com o último ansiolítico. o pai sempre a viajar para fora e a mãe para dentro. esta merda acabou e sem isto não sou ninguém. mas já não foi possível Destrinçou os dedos quase partidos num crochet de desespero. sem garra nem sentido. levado pela mais pura intuição. o melhor é ligar já ao médico. inócuos e transparentes como os empregados que os servem. trouxe de bónus. por isso não se deixou intimidar quando o Benito levantou os olhos e lhe inspeccionou as pernas cruzadas sob a saia estampada que comprara a contragosto. Mas um leão num cachecol é sempre um animal fora do seu habitat.

. uma pessoa consegue sempre mais do que pensa. a frustração é um desporto que se treina como outro qualquer e habituou-se a tratar da louca. que a rapariga viu pela última vez no dia da revolução. engoliu o comprimido e saboreou a bica num só travo de volúpia e prazer. mas desta vez era mesmo a voz dele e ela agradeceu a atenção do desconhecido com dotes de adivinho. sentado em cima de um chaimite com um cravo na boca e um sorriso nas mãos vai ver que isso passa Não passa. nunca passa. a ouvir-lhe as memórias dos filmes em que nunca entrou. das viagens que nunca fez. a não ser o pai dela. mas conseguiu.minha mãe que enlouqueceu. dos homens que afinal nunca conheceu. não consigo fazer tudo sozinha.

tapas-me a boca e mostras-me outra vez os movimentos do trapézio em terra e é então que me crescem umas asas e dou muitas voltas no ar. guardado nas palavras dos poetas.. como se fosse uma bola..Na terra dos sonhos Sabes. sem fazer barulho. E eu sou a rapariga do trapézio que te vê acima do mundo. de repente saio do meu corpo e as nossas almas dão as mãos e transformam-se num ente à parte. mas adoro o teu andar inseguro e o sorriso no teu olhar. há quem ande escondido a vida inteira. Ou então. ou a aconchegar-me o lençol até ao pescoço. quando as luzes se apagam e as palmas descansam no silêncio merecido. enquanto a vida me leva e traz as coisas boas e más. e no dia seguinte acordo como se o mundo começasse outra vez. Pois é. quando me sento na mesa de vidro para limpar a alma e chegar ao mundo com as minhas palavras. qual Jeremias Fora-Da-Lei. no ar que respiro e vejo-te à janela. pois é. nem de que cor pode ser o céu em Portugal quando imita as barras das casas do Alentejo. porque tu despertaste em mim um ser mais leve e mesmo que tenhas as duas almas em guerra e não saibas quem vai ganhar. mesmo que estejas do outro lado do mundo à procura dos teus sonhos e distraído com outras raparigas que não fazem a mínima ideia de quem é o Jorge Palma. Estás nos discos que oiço. Depois sais sem fazer barulho e metes-te outra vez no avião e eu fico a ver-te voar. É bom ter-te na minha vida silencioso e secreto. num movimento suave e perpétuo do qual nunca quero descansar. momento exacto que antecede a paz do sono perfeito. como quem vive na cartola de um ilusionista. a fumar um cigarro e a namorar a Lua. às vezes vejo-te a abraçar-me com cuidado enquanto escrevo. e é a isso que os deuses chamavam eternidade. eu sou a tua estrela do mar e . Andas por aqui. que nos faz ser só um por breves instantes. penso muitas vezes em ti. como quem escolheu o seu lugar do lado de fora. estás ali ao lado e. O Jorge Palma canta-nos ao ouvido coisas lindas que falam de ti e de nós e eu sorrio na minha solidão povoada porque sei que nunca mais me vou sentir sozinha.

E mesmo que me tenhas ensinado a partir nalguma noite triste. a gente vai continuar.eu sou essa miúda que te faz acreditar que o Sol é um presente que a aurora traz principalmente para ti. porque não há passos divergentes para quem se quer encontrar e enquanto houver estrada para andar. Já passaram mil anos sobre o nosso encontro. o tempo não tem razão. agarras-te à hora em que o tempo não passou e juntos inscrevemos no espaço um novo alfabeto. Na terra dos sonhos podes ser quem tu és. . eu ensinei-te a chegar e pus-te a salvo para além da loucura e ensinei-te a não esquecer que o meu amor existe. mas o tempo não sabe nada.

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