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A Baleia Brasileira

Moby Dick é sem dúvidas o trabalho mais popular de Herman Melville no Brasil, considerando o número de
traduções e adaptações que estão disponíveis. Outras obras como Bartleby, Billy Budd, Typee e alguns outros contos
também foram traduzidos, mas Mardi, Redburn, Pierre, White-Jacket e Israel Potter, para não mencionar sua poesia e
outros trabalhos em prosa, são praticamente desconhecidos para um público brasileiro que depende das traduções para o
português.
A tradução sempre teve grande importância na literatura brasileira, e pesquisadores estudaram recentemente o
impacto da tradução na produção literária nacional. Algumas dessas pesquisas focam na recepção da obra traduzida,
analisando as várias transformações pelas quais o texto original passou e identificando as razões para essas mudanças. A
censura, tanto política quanto moral, tem sido responsável pelas grandes alterações dos romances clássicos. Apesar disso,
o fator econômico tem tido um papel determinante em várias dessas modificações também. O mercado brasileiro é
reconhecido por ter uma demanda de, principalmente, três tipos diferentes de tradução, como foi definido por John

Milton em “A tradução dos romances clássicos do inglês para o português no Brasil.” 1 Moby Dick pertence à todas as três

categorias.
O primeiro tipo de tradução objetiva a demanda de um público adulto que requer uma versão integral e fiel do
texto. Duas traduções do Moby Dick caem nessa categoria, uma feita por Berenice Xavier (Editora José Olympio, 1950) e
outra por Péricles Eugênio da Silva Ramos (Editora Abril, 1972). Ambas as editoras demonstram preocupação em criar
livros de alta qualidade(com poucos problemas tradutórios). A editora José Olympio, além de adquirir os direitos de
reproduzir as ilustrações de Rockwell Kent, contratou outro artista gráfico, Poty, o ilustrador dos livros de Guimarães
Rosa, para dar sua interpretação visual brasileira à narrativa.
O segundo tipo de tradução visa um público adulto menos afluente, e transforma de forma severa o original.
Milton as chama de traduções “condensadas”, pois as omissões e supressões não são claras para o leitor e frequentemente
estão escondidas sob o eufemismo de “traduções especiais”. Esse é o caso da primeira edição de Moby Dick publicada no
Brasil pela Companhia Editora Nacional em 1935. Dois tradutores trabalharam na obra: Monteiro Lobato, um influente
escritor brasileiro e um dos fundadores da empresa, e Adalberto Rochsteiner. Essa edição reduziu os 135 capítulos do
original para apenas 55 capítulos condensados. O trabalho final se difere radicalmente da obra de Melville.
José Maria Machado produziu outra tradução condensada em 1957. Impressa em papel barato sem ilustrações, a
tradução foi formatada para se adequar ao padrão dos livros do Clube do Livro. Esse clube do livro extremamente bem-
sucedido publicou volumes mensais e distribuiu-os por correio. Moby Dick foi impresso em dois volumes diferentes com
cerca de 180 páginas cada e lançou em meses consecutivos. O original sofreu um processo diferente de transformação:
embora capítulos inteiros, assim como passagens, tenham sido suprimidas, a condensação dos capítulos restantes não
teve um papel importante.
O terceiro tipo de mercado – e o maior – consiste em adaptações ilustradas para crianças. Existem doze versões
diferentes de Moby Dick com variados tratamentos editoriais. Essa multiplicidade se diversifica de uma narrativa visual
com balões para um texto recontado por Carlos Heitor Cony, um dos mais conhecidos escritores vivos do Brasil.
Uma tradução “fiel”

A fidelidade na tradução tem sido intensivamente discutida nessa área de estudos, portanto o uso de aspas na
frase traduções “fiéis” indica a cópia de um original em outro idioma. Inevitavelmente, mudanças acontecem em toda
tradução. Entretanto, a tradução de Moby Dick feita por Berenice Xavier almeja ser uma cópia do original.
Em seu estudo de “Conjoint Phrases as Translational Solutions”, Gideon Toury descreve os tipos de substituições
encontradas na tradução de Berenice Xavier, como o uso de sinônimos próximos em vez de itens lexicais do texto fonte.2
Essa mudança pode ser ilustrada com a passagem em que Stubb conta a Flask sobre seu sonho. A repetição da palavra
“diz” é substituída por três diferentes termos em português (“disse”, “respondeu”/”respondi”, e “tornou”):

But I had only just lifted my foot for it, when he roared out, “Stop that kicking!” “Halloa,” says I, “what’s the
matter now, old fellow?” “Look ye here,” says he “let’s argue the insult. Captain Ahab kicked ye, didn’t he?” “Yes,
he did” says I - “right here it was.” “Very good,” says he- “he used his ivory leg, didn’t he?” “Yes, he did,” says I.
(MI) 132; ênfase adicionada)

Porém mal havia erguido o pé, quando ele rugiu: “Detém este pontapé!” “Olá,” disse eu, “que é isso agora, meu
velho?” “Ouve,” respondeu ele, “vamos discutir este insulto. O Capitão Acab te bateu, não foi?” “Sim,” disse eu,
“bem aqui!” “Muito bem,” tornou ele, “bateu com a perna de marfim, não foi?” “Sim,” respondi. 3

Esse fragmento ilustra outro tipo de troca observado por Antoine Berman: embelezamento (l’emoblissment).4 A
tradução segue o modelo clássico de tradução em que o tradutor busca criar um livro “melhor” (“plus belle”) que o
original. O mau uso da gramática inglesa de Stubb é transformada em um português correto, assim, mudando seu caráter
e apresentando ao leitor um personagem instruído. Outra passagem que ilustra esse “embelezamento” mais claramente é
o sermão de Fleece para os tubarões, em que o dialeto perdido por meio da “correção” pode ser facilmente identificado.
Aqui está o original:

Your woraciousness, fellow-critters, I don’t blame ye so much for; dat is natur, and can’t be helped; but to gobern
dat wicked natur, dat is de pint. You is sharks, sartin; but if you gobern de shark in you, why den you be angel;
for all angel is not’ing more dan de shark well goberned. Now, look here, bred’ren, just try wonst to be cibil, a
helping yourselbs from dat whale. Don’t be tearin’ de blubber out your neighbour’s mout, I say. Is not one shark
good right as toder to dat whale? And, by Gor, none on you has de right to dat whale; dat whale belong to some
one else. (MI) 295)

Isso se torna português “puro”:

Vocês são vorazes, irmãos em Deus, e não os culpo muito disso. Está na sua natureza e não se pode dar jeito.
Porém é preciso dominar esta natureza, é o que é. Vocês são tubarões, é certo, mas se conseguissem dominar o
tubarão que trazem dentro de si, então seriam anjos, porque um anjo não é mais do que um tubarão que se
domina. Escutem irmãos, procurem ser educados pelo menos uma vez na vida, ao comer essa baleia. Não tirem o
espermacete da boca de seu vizinho. Por acaso não têm os outros tanto direito a essa baleia como vocês,
tubarões? E por Deus, nenhum de vocês, ao falar a verdade, tem direito a ela, que é prioridade de outros. (Xavier
447)

Que se traduz de volta para:

You are voracious, brethren in God, and I do not blame you for it. It is in your nature and it cannot be helped. But
it is necessary to dominate this nature, this is it. You are all sharks, that is right, but if you could dominate the
shark that you bring inside yourselves then you would be angels, because an angel is nothing but a shark that
can control itself. Listen, brethren, try to be polite for once in life when you eat this whale. Do not take the sperm
[sic] out of your neighbour's mouth. Don’t you think the others have the same right to this whale as you, sharks?
And by God, none of you, to tell the truth, has the right to it, because it is someone else’s property.

Outro excesso de zelo na tradução de Xavier que se provou inapropriado é a adição de outro extrato aos
“Extratos.” Depois da Whale Song (Canção da baleia, tradução nossa) de Mellville, o editor inseriu uma nota de rodapé
explicando a inclusão deliberada de um extrato de um escritor brasileiro, Frei Manuel de Santa Maria (1704-1768), que se
lê a seguir

Monstro do mar, gigante do profundo,


Uma torre nas ondas soçobrada,
Que parece em todo o âmbito rotundo;
Jamais besta tão grande foi criada:
Os mares despedaça furibundo
Co'a barbatana às vezes levantada;
Cujos membros tetérrimos e broncos
Fazem a Tétis dar gemidos roucos.
Baleia vulgarmente lhe chamamos... (Xavier 38)

Minha tradução:

Monster of the sea, giant of the depths,


A shipwrecked tower on the waves,
Which appears in all around circuits,
Never before was such a beast created:
Furious breaks the seas.
With a sometimes lifted fun
Whose somber and course limbs
Makes Tetis roar thunders.
Ordinarily called whale...

Notas

1. John Milton, “A tradução dos romances clássicos do inglês para o português no Brasil,” Cadernos de Linguística Aplicada
24 (1995): 66.
2.Gideon Toury, In Search of a Theory of Translation (Tel Aviv Porter Institute for Poetics and Semiotics, 1980,), 10.
3 - Herman Melville, Moby Dick ou A baleia, trad. Berenice Xavier (Rio de janeiro: Editora José Olympio, 1957).
4 - Antoine Berman, Les Tours de Babel (Mauvezin: Trans Europ - Represe. 1985), 71.