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MANUAL DO CAFÉ

Manejo de Cafezais
Em Produção
MANUAL DO CAFÉ
MANEJO DE CAFEZAIS EM
PRODUÇÃO

BELO HORIZONTE
EMATER-MG
ABRIL DE 2016
FICHA TÉCNICA
Autores: Fotos e desenhos:
Engenheiro Agrônomo Arquivo da Emater–MG
Carlos Magno de Mesquita
Revisão
Engenheiro Agrônomo
Lizete Dias
João Eudes de Rezende
Ruth Navarro
Engenheiro Agrônomo
Julian Silva Carvalho Projeto Gráfico e Diagramação
Engenheiro Agrônomo Cezar Hemetrio
Marcos Antônio Fabri Júnior Tiragem:
Engenheiro Agrônomo 10.000
Niwton Castro Moraes
Técnico Agrícola Emater–MG
Pedro Tavares Dias Av. Raja Gabaglia, 1626. Gutierrez -
Engenheiro Agrônomo Belo Horizonte, MG.
Romulo Mathozinho de Carvalho www.emater.mg.gov.br
Engenheiro Agrônomo
Willem Guilherme de Araújo

Série Ciências Agrárias


Tema Fitotecnia
Área Culturas

MESQUITA, Carlos Magno de et al. Manual do café:


manejo de cafezais em produção. Belo Horizonte:
EMATER-MG, 2016. 72 p. il.

CDU: 633.73(021)
APRESENTAÇÃO
O café é o principal produto da adotadas, é fundamental ter padrões e
pauta de exportações do agronegócio informações tecnológicas que se adap-
de Minas Gerais. É um importante gera- tem às várias condições, testados e
dor de emprego, renda e, principalmen- aprovados em campo e resguardados
te, um meio de vida para milhares de pela pesquisa.
agricultores mineiros. A série de Manuais do Café, escrita
A cafeicultura tem papel estraté- por extensionistas da Emater–MG com
gico para a Emater–MG. Os extensio- larga experiência em assistência técnica
nistas da Empresa, presentes em todas e extensão rural na cafeicultura, propor-
as regiões do Estado, são responsáveis ciona aos produtores e técnicos o aces-
por disseminar informações técnicas, so a práticas agronômicas, que buscam
que colaboram para que a atividade melhorar a eficiência na condução das la-
cafeeira seja conduzida de maneira lu- vouras. O uso de tecnologias adequadas
crativa e sustentável. torna a atividade competitiva e sustentá-
Em um território com sistemas de vel, além de garantir a oferta de produtos
produção diversificados, regiões com de qualidade aos consumidores e, como
relevos distintos, tamanho variado de consequência, a geração de melhores
propriedades e diferentes tecnologias condições de vida para agricultores.

Amarildo Kalil
Presidente da Emater–MG
SUMÁRIO

AMOSTRAGEM DE SOLOS.................................................................................. 7
AMOSTRAGEM FOLIAR.................................................................................... 10
NUTRICÃO MINERAL DO CAFEEIRO................................................................ 11
FERTILIDADE DO SOLO.................................................................................... 24
CALAGEM E GESSAGEM PARA CAFEZAIS EM PRODUÇÃO.............................. 27
ADUBAÇÃO DO CAFEEIRO............................................................................... 42
PODA DO CAFEEIRO......................................................................................... 54
MANEJO DO MATO EM CAFEZAIS................................................................... 66
CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 69
MANUAL DO CAFÉ – MANEJO
DE CAFEZAIS EM PRODUÇÃO
AMOSTRAGEM DE SOLOS homogeneidade. Recomenda-se que o
seu tamanho não ultrapasse 10 ha. Para
Além de ser necessária como uma ser representativa da área amostrada,
prática rotineira na atividade cafeeira, a a amostra do solo deve ser retirada,
amostragem de solo para análise quími- levando-se em conta o histórico de uso
ca exige critérios para melhor refletir as e manejo (vegetação, cultura anterior,
características do solo amostrado. Caso etc.), localização, exposição do terreno
contrário, poderá resultar em aduba- ao sol (face) e as características percep-
ção e calagem incorretas, com prejuízos tíveis do solo (cor, textura, etc.).
econômicos e ambientais.
Local da amostragem
O que é a amostra de solos Considerando que as raízes absor-
É uma pequena porção de 500 ventes do cafeeiro exploram, predomi-
gramas de terra, enviada ao laborató- nantemente, o solo sob a copa e por ser
rio, que representa um volume de solo este o lugar onde são feitas as aduba-
milhares de vezes maior, daí o cuidado ções, é recomendado que a amostra-
na sua obtenção. É constituída de várias gem seja feita neste local. Quando se
amostras simples, de acordo com o ta- pretende conhecer, também, a condi-
manho da gleba, a qual deve represen- ção do solo nas entrelinhas, pode-se fa-
tar áreas homogêneas. zer uma amostragem no meio da rua do
cafezal. São duas situações distintas que
Época e frequência requerem duas amostras que devem ser
Fazer a amostragem de solos na analisadas separadamente.
cultura do café em produção, antes da
arruação e pelo menos 60 dias após a Número de subamostras ou amostras
última adubação. Repetir anualmente. simples
A amostra composta deve ser
Divisão da área constituída de, pelo menos, 20 amos-
Por área homogênea deve-se en- tras simples, em cada gleba, retiradas
tender uma gleba, definida não só pelo na camada de 0 a 20 cm (camada ará-
seu tamanho, mas, principalmente, por vel), percorrendo toda a área em zigue-
características que determinam a sua -zague. Caso o volume de cada amostra

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 7


simples seja reduzido, em função do
tipo de ferramenta usada, recomenda-
-se aumentar o número de subamos-
tras, de modo a obter, pelo menos, 500
gramas de terra.

Procedimentos
Caso haja necessidade, recomen-
da-se fazer apenas a retirada do cisco
no ponto de amostragem, sem a re-
moção da camada superficial do solo.
Evitar locais próximos de cupinzeiros,
formigueiros, árvores, caminhos, locais
de descarga de corretivos e fertilizantes,
manchas de solo, enfim, qualquer ponto
discrepante das características predomi-
nantes do terreno.

8 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Com o auxílio de uma cavadeira A sonda e o trado são também re-
de boca ou enxadão estreito, cavar um comendados para se fazer a amostra-
buraco retirando toda a terra. A seguir, gem do solo, seguindo os mesmos pro-
retirar uma fatia uniforme, de cima em cedimentos.
baixo, e recolher em um balde de plásti-
co limpo. Deve-se usar sempre a mesma Identificação da amostra
ferramenta, cavando sempre na mesma
Para ser enviada ao laboratório,
profundidade e recolhendo a mesma
a amostra deve ser identificada com o
quantidade de terra nos diversos pontos
nome do produtor, da propriedade e da
amostrados, gerando, assim, uma boa
lavoura ou talhão. Outras informações
representatividade da gleba.
Na amostragem, na camada de 20 de interesse do agrônomo para interpre-
a 40 cm, deve-se aproveitar o mesmo tação e recomendações técnicas, como
buraco já feito para a amostra de 0 a número de plantas, espaçamento e pro-
20 cm, utilizando-se, porém, de outro dução esperada, deverão complementar
balde para o recolhimento da terra. a identificação.

Acondicionamento e identificação da
Amostragem de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm amostra de solo

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Parâmetros a serem analisados zembro. Deve-se observar um intervalo
de pelo menos 30 dias após uma última
Para a elaboração de um plano de adubação de solo ou via foliar. Para o
calagem, gessagem e adubação do solo caso de cafeicultura irrigada, a análise
que possibilite atingir uma produção foliar torna-se uma ferramenta ainda
economicamente viável, deve-se fazer mais importante, recomendando-se a
a análise química completa de macro e sua realização em intervalos menores,
micronutrientes, matéria orgânica e a por exemplo, bimestralmente. Nos dois
análise física, para avaliar a textura do casos, a análise foliar pode contribuir
solo. com o programa de adubação, supri-
mindo, mantendo ou aumentando a
AMOSTRAGEM FOLIAR quantidade de adubo nos próximos par-
celamentos.
A análise foliar permite a diagnose
do estado nutricional da planta, ao indi- Divisão da área
car os teores de macro e micronutrientes Recomenda-se acompanhar a mes-
nela existentes, permitindo analisar se ma divisão em glebas/talhões feita para
os níveis estão adequados, deficientes, a amostragem de solos.
tóxicos ou em desequilíbrio. É bom lem-
brar que o teor de nutrientes disponí- Procedimentos
vel no solo sofre variação em função da
• Selecionar, ao acaso, um ramo no
acidez, sendo que a disponibilidade de
terço médio da planta e nele coletar
certo elemento será diferente após uma
o 3º ou 4º par de folhas a partir da
elevação de pH, resultante de uma cala-
extremidade, não contando o 1º par,
gem. A análise foliar assume, portanto,
caso ele tenha menos que dois cm
vital importância na complementação
de tamanho.
da análise de solo e deve ser adotada
como prática rotineira na cafeicultura. • Coletar, no mínimo, 100 folhas na
gleba/talhão, em pelo menos 25
Época para amostragem plantas, caminhando em zigue-
De modo geral, a amostragem para zague, coletando as folhas nos dois
análise foliar, em cafeicultura de sequei- lados da planta.
ro é realizada na fase de chumbinho/ • Acondicionar as folhas coletadas em
chumbão, antes da fase de expansão sacolas limpas de papel e enviá-
rápida dos frutos e da granação. Este las imediatamente ao laboratório.
período, normalmente, coincide com o Caso haja demora no envio, é
mês de novembro até meados de de- aconselhável lavar as folhas em

10 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


água corrente, enxaguar com água Identificação da amostra
filtrada, secar, cuidadosamente, Para ser enviada ao laboratório,
e colocar em geladeira, na parte a amostra deve ser identificada com o
inferior, até o até o dia seguinte. nome do produtor, da propriedade e da
lavoura ou talhão. Outras informações
de interesse do agrônomo para interpre-
tação e recomendações técnicas, como
número de plantas, espaçamento e pro-
dução esperada, deverão complementar
a identificação.

Acondicionamento e identificação da
amostra de folhas

NUTRICÃO MINERAL DO
CAFEEIRO

Pela realização da fotossíntese, os


vegetais fazem reservas de energia para
posterior uso em seus processos vitais,
captando energia luminosa, fixando-a
em carboidratos, a partir de gás carbôni-

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 11


co (CO2) do ar e água. Ao mesmo, tem- As deficiências nutricionais, bem
po retiram do ambiente, principalmente como os excessos (toxidez), geralmen-
do solo, elementos químicos considera- te ocorrem de forma gradativa, no iní-
dos essenciais aos processos metabólicos. cio imperceptíveis, para um diagnóstico
visual, portanto ocultas, até atingirem
Os elementos considerados essen- níveis em que os sintomas, já visíveis,
ciais para o cafeeiro são classificados em: passam a caracterizar, respectivamen-
te, “fome” ou toxidez, a esta altura às
• Macronutrientes: nitrogênio, fósforo,
vezes irreversíveis, nas partes afetadas.
potássio, cálcio, magnésio e enxofre,
Deve-se salientar que, muitas vezes,
demandados em maior quantidade
quando a planta chega a apresentar os
pela planta.
sintomas de deficiência ou de excesso
• Micronutrientes: boro, zinco, cobre, de algum nutriente, a produção pode
ferro, manganês, cloro e molibdênio, já ter sido comprometida. Também, é
demandados em menor quantidade comum, em condições de campo, haver
pela planta. mais de um sintoma de deficiência e/ou
excesso, simultâneos, dificultando a de-
Quando se fala em nutrição de finição sobre qual (ais) dele(s) está (ão)
plantas, também é importante conhecer atuando na caracterização do problema.
os conceitos de extração e de exportação Os distúrbios nutricionais tendem a
de nutrientes. Entende-se por extração a ocorrer de forma generalizada na lavoura
quantidade de nutrientes que a planta,
no caso o cafeeiro, retira do solo e fica
contida em todas as suas partes (raízes,
caule, ramos, folhas, flores e frutos).
Exportação de nutrientes é a parte da
extração que deixa o local como com-
ponente de partes vegetais, como frutos
e troncos, no caso de podas. Em alguns
casos, os nutrientes exportados podem
ser devolvidos parcialmente, como, por
exemplo, ao se utilizar da palha (casca
dos frutos de café, após beneficiamen-
to), nas lavouras, como adubo orgânico.
Quanto maior a exportação de nutrien-
tes de um local de produção, maior será
a necessidade de reposição para atender
as contínuas demandas da cultura.

12 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


ou talhão. Diferentemente, se a ocorrên- zes, originados das mudas ou de plantio
cia se der de forma aleatória, por meio, incorreto, associados, ou não, a locais do
por exemplo, de crescimento reduzido, terreno com rochas ou pedregulhos na
folhas amareladas, em plantas isoladas, camada subsuperficial, depressões com
sugere problemas nas raízes (nematoides, acúmulo da água, pragas ou doenças, etc.
pião torto). Se esses mesmos sintomas se Os frutos, como órgãos que atuam
derem em reboleiras, poderão ser um in- como dreno principal da planta, têm a
dício da existência de problemas nas raí- preferência no atendimento das deman-
das nutricionais para a sua expansão
(fase de crescimento rápido) e granação.
Quando, por um motivo qualquer (seca,
falta do nutriente no solo, acidez, raízes
pouco desenvolvidas), a ascendência da
seiva é diminuída, resulta em prejuízos
para essa e outras partes da planta, ocor-
rendo um déficit nutricional. Este fato
se deve ao carreamento preferencial de
nutrientes para os frutos, como um “es-
forço” natural da planta em salvar suas

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 13


sementes, para preservação da espécie. nores que o normal apresentam frutos
Se o fluxo de seiva em direção às também menores, que podem cair com
folhas não se normalizar em tempo, elas facilidade. Deficiência de nitrogênio
cairão, prematuramente, por carência prejudica a florada e, em grau muito
de fotoassimilados, restando às raízes e elevado, em plantas com alta carga pen-
aos ramos a tarefa de nutrir esses frutos dente, provoca o secamento dos ramos
com suas reservas, sobrevindo o esgota- da ponta para a base.
mento, com consequente seca de pon-
teiros ou die-back, com prejuízos não só
na safra em curso (frutos chochos e má
granação), como também nas futuras,
devido à morte das raízes e ramos, por
exaustão das reservas, com depaupera-
mento da planta.

Funções dos nutrientes e sintomas de


deficiência ou excesso

Nitrogênio

É um nutriente altamente exigido


e o mais acumulado pelo cafeeiro. Uma
adubação nitrogenada adequada é fun-
Sintomas de excesso
damental tanto ao crescimento estru-
O excesso de nitrogênio estimula
tural da planta (folhas, caule, ramos e
um crescimento vegetativo intenso, em
raízes), como também ao florescimento
detrimento da produção, além de acar-
e à frutificação abundantes.
retar atraso no amadurecimento dos fru-
tos e perda na qualidade da bebida do
Sintomas de deficiência
café. Este excesso pode ter como causa
O nitrogênio é um nutriente alta- a quantidade elevada do nutriente, ad-
mente móvel na planta, portanto os sin- vinda de uma adubação desequilibrada
tomas de sua deficiência têm início nas ou da matéria orgânica porventura pre-
folhas mais velhas, as quais apresentam sente em alto teor. Excesso de nitrogê-
clorose uniforme, com amarelecimento nio provoca, ainda, deficiência de zinco,
inclusive das nervuras, evoluindo para boro, cobre, ferro, e maior susceptibili-
necrose e queda das folhas. Plantas dade da planta ao ataque por doenças
pouco enfolhadas e ou com folhas me- (Phoma e Pseudomonas).

14 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Fósforo ado. Uma forma bastante característica
É um macronutriente que, na fase dos sintomas é a necrose em forma de
adulta da planta, é menos exigido em “V” invertido, às vezes irregular, acom-
quantidade que o nitrogênio e o po- panhando toda a largura do limbo fo-
tássio, diferentemente da fase de for- liar, a partir da sua extremidade, e que
mação, quando atua na estruturação avança no sentido do pecíolo. Quando
das raízes e do lenho, daí a importân- não ocorre a queda da folha, a necro-
cia da sua presença na adubação de
se pode atingir toda a sua extensão.
plantio.
Outro sintoma é o menor crescimento
da planta, como decorrência de raízes
Sintomas de deficiência
pouco desenvolvidas.
Por ser um elemento de alta mo-
bilidade na planta, os sintomas de de-
ficiência começam pelas folhas mais Sintomas de excesso
velhas, que, inicialmente, perdem o No plantio, o excesso de fósforo na cova
brilho, e, posteriormente, mudam de ou sulco reflete, indiretamente, ao inter-
cor na ponta e no meio, passando do ferir na absorção ou no transporte, para
verde ao amarelo brilhante, amarelo ró- a parte aérea, do cobre, ferro, manga-
seo, vermelho escuro e marrom arroxe- nês e zinco.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 15


Potássio Sintomas de deficiência
É o segundo nutriente mais de- É um nutriente móvel na planta,
mandado pelo cafeeiro, exerce impor- assim, as folhas mais velhas são as pri-
tante papel na fotossíntese, respira- meiras a apresentar os sintomas caracte-
ção e circulação da seiva, sendo que rísticos, um amarelecimento das pontas
a sua exigência é maior em plantas e margens, que, posteriormente, secam
mais velhas. Nos frutos, para os quais e adquirem a cor marrom ou preta. Pró-
é translocado das folhas adjacentes, ximo da área necrosada pode ser obser-
o potássio é acumulado em grande vado um pequeno contorno amarelo.
As folhas com sintomas de deficiência
quantidade, daí a recomendação do
se destacam facilmente dos ramos, e,
retorno da palha de café para as la-
em casos de deficiência acentuada, os
vouras, por ser rica neste nutriente. É
ramos com frutos podem secar da pon-
uma forma de minimizar a exportação
ta para a base. Nos frutos, a carência de
do nutriente pelos frutos de café, com
potássio resulta em chochamento.
economia nos gastos com a adubação.
Por ter importante papel na regulação Sintomas de excesso
da abertura e fechamento dos estôma- Doses excessivas de potássio podem
tos e portanto na perda de água pe- acarretar deficiência induzida de cálcio e
las folhas, o seu adequado suprimento de magnésio. Não raro, isto é constata-
possibilita ao cafeeiro resistir mais nos do, principalmente, em adubações feitas
períodos secos. Sua importância se es- sem base em análise de solos. Aliás, entre
tende, ainda, na resistência ao frio, por esses três elementos, frequentemente,
conferir maior concentração em solu- ocorre uma interação negativa, ou seja, o
tos na planta, como resultado de uma excesso de um deles causa uma redução
maior eficiência fotossintética. na absorção dos outros dois.

16 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Cálcio
É fundamental no desenvolvimen-
to radicular. Sua importância maior é
no período de implantação da lavoura,
devendo ser colocado ao alcance das
raízes, uma vez que a sua absorção por
elas se dá por interceptação, já que é um
nutriente imóvel no solo. A presença do
cálcio nas camadas mais profundas de
solo possibilita ao sistema radicular do
cafeeiro um maior aprofundamento,
assegurando à planta maior resistência
à seca.
Importante também na maior re-
tenção de folhas, desenvolvimento
das gemas, maturação dos frutos e na
formação de proteínas. A forma mais
comum de fornecer cálcio às lavouras
de café é por meio das calagens. Em
algumas partes do cafeeiro, como as
raízes, caules e ramos, a sua concen-
tração tem a mesma grandeza que a
do potássio.

Sintomas de deficiência
Como nutriente praticamente
imóvel na planta, os primeiros sinto-
mas de deficiência de cálcio aparecem
nas folhas novas, com amarelecimento
ao longo dos bordos destas folhas. Tal
amarelecimento pode avançar entre as
nervuras em direção ao centro, porém
as nervuras e seu entorno permanecem
verdes. Em casos extremos de deficiên-
cia, pode ocorrer a morte da gema ter-
minal de plantas jovens.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 17


Magnésio cento, com queda prematura das folhas.
O magnésio desempenha inúme- A deficiência de magnésio, por reduzir a
ras funções na planta, destacando-se na taxa de fotossíntese, é refletida também
fotossíntese. É componente da clorofila, no baixo crescimento geral da planta.
pigmento responsável pela coloração
verde de ramos e frutos novos e, tam- Enxofre
bém, das folhas do cafeeiro. Tem importância por ser constituin-
te de aminoácidos, por apresentar fun-
Sintomas de deficiência ções estruturais em proteínas e por ter,
A exemplo de nitrogênio, potássio e também, diversas funções metabólicas.
fósforo, nutrientes que apresentam alta O enxofre participa da síntese de clo-
mobilidade na planta, os sintomas de de- rofila e é muito importante para o bom
ficiência de magnésio se iniciam pelas fo- desenvolvimento das raízes. A sua ca-
lhas mais velhas e também naquelas mais rência em solos está associada a baixos
próximas dos frutos, com o aparecimento teores de matéria orgânica, tida como
de uma clorose internerval, ou seja, ama- importante fonte deste nutriente.
relecimento apenas entre as nervuras,
particularidade que a diferencia da defi- Sintomas de deficiência
ciência de nitrogênio. As manchas cloró- Por ser de baixa mobilidade na
ticas podem evoluir para um tom parda- planta, os sintomas de deficiência apa-

18 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


recem inicialmente nas folhas mais Sintomas de deficiência
novas, que tomam coloração amarelo Os sintomas de deficiência apare-
citrina (verde-claro) passando, poste- cem primeiramente nas folhas em ex-
riormente, para uma clorose generali- pansão, que se tornam estreitas, retor-
zada em toda a planta, causando des- cidas, coriáceas, quebradiças e ásperas
folhamento e também o encurtamento ao tato. As nervuras se desenvolvem
dos internódios. mais que o parênquima, provocando
saliências no limbo foliar. Entre as ner-
Zinco vuras sobressai um fundo amarelo pá-
O zinco é um dos micronutrientes lido, sendo que, nas laterais da nervura
que mais podem limitar a produção do principal, a cor verde se mantém. A clo-
cafeeiro. Está diretamente ligado às áre- rose das folhas pode evoluir para man-
as de crescimento da planta e também chas púrpuras. O tamanho reduzido das
tem papel importante na germinação folhas e o seu agrupamento em secções
do tubo polínico, influenciando o pega- do ramo com os internódios encurtados
mento da florada e tamanho dos frutos. formam um tufo, também conhecido
Fica fortemente retido pelo complexo como roseta, podendo ocorrer a morte
de troca do solo, principalmente os ar- dos ponteiros. Plantas com alta carga e
gilosos, o que limita a sua absorção pe- deficientes neste nutriente apresentam
las raízes. desfolha e acentuado cinturamento.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 19


Boro temas radiculares. Por limitar o cresci-
Junto com o zinco, o boro é o mi- mento das raízes, a planta passa a ter
cronutriente que mais limita a produção menor tolerância à seca. Exerce também
do cafeeiro. É encontrado na matéria importante papel no crescimento do
orgânica (maior fornecedora do elemen- tubo polínico e na germinação do grão
to), e a sua falta pode se dar tanto em de pólen.
função da lixiviação (chuvas excessivas),
do efeito de calagem excessiva, como Sintomas de deficiência
também em decorrência de doses exces- Um sintoma característico da carên-
sivas de adubos nitrogenados, e pode ser cia de boro é a morte das gemas apicais
agravada nos períodos secos do ano. O dos ramos e do ápice do cafeeiro, segui-
boro guarda estreita relação com o cál- da da brotação de várias outras gemas
cio, o qual exerce importante papel na logo abaixo, dando aspecto de um le-
sua absorção e também em suas funções que. Como no caso da carência de zinco,
na planta, agindo em conjunto. pode haver encurtamento dos internó-
O boro atua na elongação e divi- dios. Por ser imóvel na planta, o boro é
são celular, portanto muito exigido nas um nutriente que apresenta os primeiros
partes da planta com intenso crescimen- sintomas de deficiência nas partes mais
to, como o ápice do ramo ortotrópico, novas, ainda em crescimento. Nas folhas
a ponta dos ramos laterais e os meris- novas, que se apresentam pequenas,

20 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


retorcidas e com os bordos irregulares, é também frequente ocorrer o distúr-
há também o estreitamento do limbo. A bio, mas a tendência é desaparecer com
deficiência do nutriente pode provocar o o tempo. É comum o aparecimento de
abortamento de flores com consequente sintomas após podas drásticas. Em solos
queda de produção da lavoura. excessivamente drenados, pode ocorrer
a deficiência, quando o ferro se faz pre-
Ferro sente em uma forma que não é absor-
É um componente da clorofila e par- vida pela planta. A carência de ferro em
ticipa do processo de respiração. Pouco mudas de café em viveiros está associa-
móvel na planta, o ferro é, entre os mi- da ao excesso de matéria orgânica no
cronutrientes, o mais acumulado pelo substrato, ao encharcamento e à falta
cafeeiro, não por uma exigência meta- de luz. Nestas condições, a diminuição
bólica, mas pela alta disponibilidade nos das regas e a maior exposição ao sol são
solos, onde se encontram implantados suficientes para restabelecer as condi-
os cafezais. O excesso de calcário e de ções normais de seu suprimento.
matéria orgânica pode ocasionar a sua
deficiência. Em condições de acidez ele- Sintomas de deficiência
vada, a deficiência pode ocorrer devido Os sintomas podem ser observados
ao excesso de manganês que, por anta- em pares de folhas novas, que ficam
gonismo, diminui a absorção de ferro. amarelas com as nervuras permanecen-
No período chuvoso e quente, quando do verdes, formando um reticulado ver-
ocorre uma rápida expansão da folha, de fino.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 21


Manganês Sintomas de deficiência
No cafeeiro, é o micronutrien- A deficiência de manganês pode
te mais acumulado, após o ferro, e, a ser verificada inicialmente em folhas
exemplo deste, o grande acúmulo não novas, apresentando as regiões inter-
traduz uma exigência da planta, sendo nervais verde-claras, com pontuações
que eventuais desequilíbrios em man- amareladas. (Fotos Carlos M. Mesquita)
ganês se destacam mais pela sua defici- Os sintomas de toxidez se iniciam
ência que pelo excesso, salvo em algu-
mas regiões da Zona da Mata mineira.
O manganês participa da fotossíntese e
pode substituir o magnésio em diversas
enzimas. Em solos ácidos, a sua dispo-
nibilidade é aumentada, situação que
pode, por antagonismo, afetar a absor-
ção de zinco. Por outro lado, calagens
excessivas e solos com elevado teor de
matéria orgânica podem induzir a sua
deficiência.

22 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


em folhas mais velhas, por meio de man-
chas cloróticas de contorno irregular, que
posteriormente se tornam necróticas.

Cobre
O cobre é um micronutriente que,
a exemplo do zinco, geralmente não é
encontrado em quantidade suficiente
no solo. Adubação nitrogenada elevada,
calagem excessiva, alto teor de matéria
orgânica, adubação fosfatada pesada e
encharcamento são alguns fatores que
podem induzir à sua deficiência. Nas la-
vouras em cujo manejo se adota o con-
trole da ferrugem e da cercosporiose,
mediante o emprego, via foliar, de fun-
gicidas cúpricos, o suprimento desse nu-
triente é satisfatório para o atendimento o encurvamento do limbo para baixo,
das necessidades nutricionais do cafeeiro. sintoma que é comumente chamado de
“orelha de zebu”.
Sintomas de deficiência
A deficiência é observada em fo- Molibdênio, cloro e níquel
lhas novas, em que as nervuras secun- Em condições normais de cultivo do
dárias se tornam salientes, com aspecto cafeeiro, não são encontrados sintomas
de “costelas”, podendo haver manchas visuais de deficiência de molibdênio, de
cloróticas irregularmente distribuídas cloro e de níquel, o que demonstra que
que, quando concentradas nas margens, estes micronutrientes são encontrados
chegam, algumas delas, a coalescerem, nos solos cultivados e fornecidos nos ní-
seguindo-se a necrose. Ocorre, ainda, veis requeridos pelo cafeeiro.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 23


FERTILIDADE DO SOLO ponto de vista nutricional, exigências em
diferentes graus, de acordo com a fase
Adubação do Cafeeiro de desenvolvimento e com a produtivi-
dade esperada, entre outros, e a deter-
minação da exigência, em cada caso, é
O cafeeiro apresenta exigências
feita de acordo com a fertilidade do solo.
quanto ao tipo de solo, clima e manejo, As tabelas contidas neste capítulo
e a utilização destes critérios permite di- foram transcritas da publicação: “Reco-
ferenciar glebas ou talhões, com possibi- mendações para o uso de corretivos e
lidades diversas de resposta a uma explo- fertilizantes em Minas Gerais – 5a Apro-
ração econômica. Apresenta, ainda, do ximação”.
Tabela 01 – Classes de interpretação de fertilidade do solo para a matéria orgâ-
nica e para o complexo de troca catiônica

Classificação
Unida-
Micronutriente Muito Muito
de Baixo Médio/2 Bom
baixo bom
Carbono orgânico (C.O.3) dag/kg ≤ 0,40 0,41 - 1,16 1,17 - 2,32 2,33 - 4,06 > 4,06

Matéria orgânica (M.O.3) dag/kg ≤ 0,70 0,71 - 2,00 2,01 - 4,00 4,01 - 7,00 > 7,00

Cálcio trocável (Ca2+) cmol2/dm3 ≤ 0,40 0,41 - 1,20 1,21 - 2,40 2,41 - 4,00 > 4,00

Magnésio trocável (M2+g4/) cmol2/dm3 ≤ 0,15 0,16 - 0,45 0,46 - 0,90 0,91 - 1,50 > 1,50

Acidez trocável (A3+l)4/ cmol2/dm3 ≤ 0,20 0,21 - 0,50 0,51 - 1,00 1,01 - 2,0011/ > 2,0011/

Soma de bases (SB5/) cmol2/dm3 ≤ 0,60 0,61 - 1,80 1,81 - 3,60 3,61 - 6,00 > 6,00

Acidez potencial (H + Al6/) cmol2/dm3 ≤ 1,00 1,01 - 2,50 2,51 - 5,00 5,01 9,0011/ > 9,0011/

CTC efetiva (t)7/ cmol2/dm3 ≤ 0,80 0,81 - 2,30 2,31 - 4,60 4,61 - 8,00 > 8,00

CTC pH 7.0 (T)8/ cmol2/dm3 ≤ 1,60 1,61 - 4,30 4,31 - 8,60 8,61 - 15,00 > 15,00

Saturação por A3+l (m9/) % ≤ 15,0 15,1 - 30,0 30,1 - 50,0 50,1 - 75,0011/ > 75,011/

Saturação por Bases (V10/) % ≤ 20,0 20,1 - 40,0 40,1 - 60,0 60,1 - 80,0 > 80,0

1/
dag/kg = % (m/m); cmolc/dm3 = meq/100 cm3 7/
t = SB + Al3+
2/
O limite superior desta classe indica o nível crítico 8/
T = SB + (H + Al)
3/
Método Walkley & Black; M.O. = 1,724 x C.O. 9/
m = 100 Al3+ /t
4/
Método KCl 1 mol/L 10/
V = 100 SB/T
A interpretação destas característi-
SB = Ca2+ Mg2+ + K+ + Na +
5/
cas, nestas classes,
deve ser alta e muito alta em lugar
6/
(H + Al), Método Ca(OAc)2 0,5 mol/L, pH 7
de bom e muito bom.
Fonte: 5a Aproximação.

24 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Tabela 02 – Classes de interpretação da disponibilidade para os micronutrientes

Classe de fertilidade
Micronutriente Baixa Média Adequada Alta
Teor no solo - mg/dm 3

(a) < 0,30 0,30 - 0,70 0,71 - 1,00 > 1,00


Boro
(b) < 0,20 0,21 - 0,40 0,41 - 0,60 > 0,60
(c) < 0,50 0,50 - 1,00 1,1 - 1,50 > 1,50
Cobre
(d) < 0,30 0,30 - 0,60 0,70 - 1,00 > 1,00
(c) < 5,0 5,0 - 10,0 10,1 - 15,0 > 15,00
Manganês
(d) < 1,0 1,10 - 2,50 2,60 - 5,00 > 5,00
(c) < 2,0 2,0 - 4,0 4,1 - 6,0 > 6,00
Zinco
(d) < 0,70 0,70 - 1,10 1,20 - 1,50 > 1,50

(a)
Teor em HCl 0,05 mol/l ou Mehlich-l
(b)
Teor em água quente
(c)
Teor em Mehlich-l
(d)
Teor em DTPA

Tabela 03 – Classes de fertilidade para fósforo, em função do teor de argila ou


do valor de fósforo remanescente (P-rem)

Classe de fertilidade
Característica Muito baixo Baixo Médio Bom Muito Bom
Teor de P no solo - mg/dm3
60 - 100 < 1,9 2,0 - 4,0 4,1 - 6,0 6,1 - 9,0 > 9,0
Argila - %

35 - 60 < 3,0 3,1 - 6,0 6,1 - 9,0 9,1 - 13,5 > 13,5
15 - 35 < 5,0 5,1 - 9,0 9,1 - 15,0 15,1 - 22,5 > 22,5
00 - 15 < 7,5 7,5 - 15,0 15,1 - 22,5 22,6 - 33,8 > 33,8
0-4 < 2,3 2,4 - 3,2 3,3 - 4,5 4,6 - 6,8 > 6,8
P - rem (mg/l)

4 - 10 < 3,0 3,1 - 4,5 4,6 - 6,2 6,3 - 9,4 > 9,4
10 - 19 < 4,5 4,6 - 6,2 6,3 - 8,3 8,6 - 13,1 > 13,1
19 - 30 < 6,0 6,1 - 8,5 8,6 - 11,9 12,0 - 18,0 > 18,0
30 - 44 < 8,3 8,4 - 11,9 12,0 - 16,4 16,5 24,8 > 24,8
44 - 60 < 11,3 11,4 - 16,4 16,5 - 22,5 22,6 - 33,8 > 33,8

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 25


Tabela 04 – Classes de interpretação da disponibilidade para o enxofre1/ de
acordo com o valor de fósforo remanescente (P-rem)

Classificação
P - rem
Muito baixo Baixo Médio Bom Muito bom
(mg/L)
Enxofre disponível no solo (mg/dm3)3/

0-4 ≤1,7 1,8 - 2,5 2,6 - 3,6 3,7 - 5,4 >5,4

4 - 10 ≤2,4 2,5 - 3,6 3,7 - 5,0 5,1 - 7,5 >7,5

10 - 19 ≤3,3 3,4 - 5,0 5,1 - 6,9 7,0 - 10,3 >10,3

19 - 30 ≤4,6 4,7 - 6,9 7,0 - 9,4 9,5 - 14,2 >14,2

30 - 44 ≤6,4 6,5 - 9,4 9,5 - 13,0 13,1 - 19,6 >19,6

44 - 60 ≤8,9 9,0 - 13,0 13,1 - 18,0 18,1 - 27,0 >27,0

1/
Método Hoeft et al., 1973 (Ca(H2PO4)2, 500mg/l de P, em HOAc 2 mol/l)

2/
Esta classe indica os níveis críticos de acordo com o valor de P-rem

3/
mg/dm³ = ppm (m/v)

Tabela 05 – Classes de interpretação para a acidez ativa do solo (pH) 1/

Classificação química
Ac. muito Acidez Acidez Acidez Acidez Alcalinidade Alcalinidade
elevada eleveda média fraca neutra fraca elevada
<4,5 4,5 - 5,0 5,1 - 6,0 6,1 - 6,9 7,0 7,1 - 7,8 >7,8
Classificação agronômica2
Muito baixa Baixa Boa Alta Muito alta
<4,5 4,5 - 5,4 5,5 - 6,0 6,1 - 7,0 >7,0

1/
pH e H20, relação 1:2:5
2/
A qualificação utilizada indica adequado (Boa) ou inadequado (Muito baixa, Baixa ou
Alta e Muito alta)

26 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


CALAGEM E GESSAGEM PARA Calagem
CAFEZAIS EM PRODUÇÃO O termo calagem deriva da palavra
calcário, que é o corretivo de solo mais
usado na agricultura comercial. Calagem
Corretivo de solo
é, portanto, a aplicação de um corretivo
Corretivo de solo é todo produto
no solo, com a finalidade de corrigir a
que contenha substâncias capazes de
acidez, fornecer cálcio e ou magnésio,
corrigir algumas características do solo,
que são macronutrientes essenciais, ou,
desfavoráveis às plantas. O principal
ainda, neutralizar os efeitos prejudiciais
corretivo da acidez do solo é a rocha
do alumínio, do ferro e do manganês,
calcária moída que, comercialmente, é
quando em níveis tóxicos. Além da aci-
denominada calcário.
dez, a capacidade tampão do solo e a
capacidade de troca de cátions (CTC)
influem na dose necessária de calcário
Na natureza ocorrem 3 minerais para a obtenção dos efeitos desejados.
de carbonatos: A capacidade tampão atua no sen-
• Carbonato de cálcio (CaCO3): são tido de manter inalterada a concentra-
os calcários comuns. ção de hidrogênio (H+) na solução do
solo, mesmo em doses crescentes de
• Carbonato de magnésio (MgCO3):
corretivo. Quanto maior o teor de argila
magnesitas. (de boa qualidade) e de matéria orgâni-
• Carbonato de cálcio e magnésio ca, maior a capacidade tampão.
(CaCO3 - MgCO3): rochas
dolomíticas. Efeitos da calagem:
• Adiciona cálcio (Ca), magnésio (Mg)
ou ambos e eleva o pH.
Segundo a Instrução Normativa nº
• Diminui lixiviação de potássio (K).
35, de 4 de julho de 2006, os calcários
agrícolas não possuem mais a classifi- • Diminui fixação de fósforo (P).
cação “calcário calcítico” ou “calcário • Diminui, em alguns solos, a
dolomítico”. Tecnicamente, deve-se disponibilidade de boro (B),
recomendar o uso de calcário pela in- manganês (Mn) e zinco (Zn).
terpretação da análise de solo e indi-
• Aumenta disponibilidade de
car qual deve ser utilizado, avaliando o
molibdênio (Mo).
PRNT (Poder Relativo de Neutralização
Total) e os teores de óxido de cálcio • Aumenta a atividade microbiológica
(CaO) e óxido de magnésio (MgO) do (acelera a decomposição da matéria
corretivo. orgânica (M.O.).

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 27


• Torna mais adequadas as condições Forma de aplicação
do solo para a atuação de bactérias Em terrenos mecanizáveis, a apli-
fixadoras de nitrogênio. cação é bastante facilitada, por meio de
distribuidoras de calcário. Em regiões
• Aumenta, na solução do solo, as
montanhosas, a aplicação é feita ma-
cargas pH dependentes.
nualmente, distribuindo a lanço, sob o
• Induz, dependendo da quantidade cafeeiro ou em toda a área.
aplicada, a movimentação de cálcio
e magnésio em maior profundidade. Época de aplicação
Na presença de umidade, a reação
do corretivo com o solo inicia-se logo
Local de aplicação
após sua aplicação e prossegue ao lon-
Assim como na amostragem de solo
go de alguns meses ou anos, dependen-
e na aplicação do adubo de produção,
do da sua granulometria e solubilidade.
também a aplicação do calcário deve ser
Assim, a aplicação pode ser feita em
no local de maior atividade radicular, ou qualquer época do ano. Como o apro-
seja, sob a saia do cafeeiro. Quando for veitamento do fertilizante pelas plantas
necessário corrigir o solo também nas é otimizado quando o solo encontra-se
entrelinhas, é recomendada a aplicação em níveis mais adequados de pH, a ca-
do calcário em toda a extensão do terre- lagem terá seus efeitos potencializados,
no, cuidando para que a aplicação sob a se realizada dois a três meses antes do
saia do cafeeiro não seja negligenciada. período chuvoso.

28 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Parâmetros de um corretivo de solo Valor de Neutralização
A recomendação do tipo e da dose O Valor de Neutralização de um
de corretivo a ser aplicado é feita com base calcário é função da sua composição
nos resultados da análise de solo, que per-
química e é definido em relação ao
mitirá escolher, dentre os disponíveis no
seu teor de carbonato de cálcio puro
mercado, aquele que melhor atender às
características exigidas, que são o PRNT e (CaCO3). Caso o calcário tenha outros
a proporção de cálcio e magnésio. PRNT componentes, seu Valor de Neutraliza-
significa Poder Relativo de Neutralização ção será avaliado, também, pela equi-
Total e representa a capacidade que um valência desses outros componentes em
corretivo tem de corrigir as propriedades relação ao (CaCO3), cujo Valor de Neu-
do solo a serem modificadas e que depen-
tralização é igual a 100.
de do Valor de Neutralização (VN) e da
Na tabela 06, são apresentados
Eficiência Relativa (ER).
Nesta análise, deve ser considerado, os Valores de Neutralização de alguns
também, o custo efetivo de cada correti- componentes dos corretivos, dados em
vo disponível, colocado na propriedade. equivalentes de (CaCO3)

Tabela 06 – Valor de Neutralização dos diversos tipos de corretivos

Componente Fórmula química Equivalentes de CaCO3 VN (%)

Calcita CaCO3 1.00 100

Magnesita MgCO3 1,19 119

Dolomita CaCO3 - MgCO3 1,09 109

Cal hidratada Ca(OH)2 1,36 136

Óxido de cálcio CaO 1,79 179

Óxido de magnésio MgO 2,48 248

Silicato de cálcio CaSiO3 0,86 86


Eficiência Relativa tanto, mais íntimo será o contato com o
A Eficiência Relativa (ER) de um cal- solo, facilitando a reação. Esta granulo-
cário mede sua capacidade de reagir com metria é avaliada pela passagem de 100
o solo e é função da sua granulometria, g do calcário através de um jogo de pe-
(diâmetro das partículas), além de outras neiras com diferentes malhas.
características relativas à sua solubilida- Conforme a legislação vigente, a
de. Quanto mais fino o calcário, maior a Eficiência Relativa dos diferentes grânu-
superfície específica das partículas e, por- los de calcário é apresentada a seguir:

Tabela 07 – Eficiência Relativa dos Grânulos de Calcário

Fração ER - (%)

Porção retida na peneira ABNT nº 10 (malha de 2 mm) 0

Porção que passa na peneira ABNT nº 10 (malha de 2 mm) e fica retida na


20
peneira ABNT nº 20 (malha de 0,84 mm)

Porção que passa na peneira ABNT nº 20 (malha de 0,84 mm) e fica retida na
60
peneira ABNT nº 50 (malha de 0,30 mm)

Porção que passa na peneira ABNT nº 50 (malha de 0,30 mm) 100

Exemplo: cálculo do PRNT de um calcário com 38% de CaO e 9,5 % de MgO

Relação Ca/Mg: 4 para 1 (38÷9,5)

Eficiência Relativa (ER)


A granulometria do referido calcário (que definirá sua ER) foi avaliada, com a
passagem de 100 g no jogo de peneiras, com o seguinte resultado:
• Quantidade retida na peneira no 10: 2 g (2 x 0,0% = 0,0 %)
• Passa na peneira no 10 e é retida na peneira no 20: 7 g (7 x 0,2% = 1,4 %)
• Passa na peneira no 20 e é retida na peneira no 50: 12 g (12 x 0,6 % = 7,2 %)
• Passa na peneira nº 50: 79 g (79 x 1,0 % = 79,0 %)
• Resultado: 0 % + 1,4 %+ 7,2 % + 79,0 %
• ER = 87,60 %

Valor de Neutralização (VN)


Parcela de CaO:
• 100% de CaO equivalem a 179 VN
• 38% de CaO equivalem a x1 VN } x1 = 68,02% Vn1
Parcela de MgO
100% de MgO equivalem a 248 VN
10,5% de MgO equivalem a x VN 1
VN= 68,02 + 26,04 = 94,06
} x1 = 26,04,02% Vn1

Sendo o Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT) a combinação dos efeitos


do Valor Neutralizante (VN) com a Eficiência Relativa (ER), tem-se que:
• PRNT = VN (%) x ER (%) = 87,60 % x 94,0 % = 82,39 %
Obs.: Este trecho do texto deverá ser olhado no PDF

* O exemplo acima considera a capacidade de neutralização feita pelo cálculo te-


órico, a partir das concentrações de CaO e MgO do calcário. Entretanto, é mais
correto considerar o Valor Neutralizante, índice determinado por titulação.

Gessagem cio nas camadas inferiores do solo, em


É denominada gessagem a aplica- teor adequado, favorece o desenvol-
ção de gesso agrícola no solo, visan- vimento das raízes em profundidades
do, principalmente, a disponibilização maiores, com todos os benefícios que
do cálcio e a neutralização do alumí- advêm deste fato.
nio em maior profundidade. O gesso Outro benefício resultante da apli-
agrícola, sulfato de cálcio diidratado cação do gesso é o fornecimento de
(CaSO4.2H2O), não é um corretivo da enxofre, que fica disponibilizado para as
acidez de solo, pois não corrige o pH. plantas.
No solo, na presença de umidade, o Características químicas do gesso agrí-
gesso sofre dissolução, e o íon cálcio cola
(Ca++) e outros como potássio (K+) e
magnésio (Mg++) formam novos com- Umidade livre: 15 a 17%
postos, cuja mobilidade no solo é bem
maior, promovendo seu carreamento
Cálcio (Ca): 17 a 20%
ao longo do perfil, alcançando maior
profundidade.
O gesso promove redução do teor Enxofre (S): 14 a 17%
de alumínio tóxico e fornece o cálcio,
que tem estreita relação com o desen- Fósforo (P2O5): 0,6 a 0,75%
volvimento radicular. A presença de cál-

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 31


Condições para uso do gesso (5ª Apro- Métodos para determinação da neces-
ximação) sidade de gesso

≤ 0,4 cmolc/
Teor de Ca no subsolo: A quantidade de gesso necessária
dm3 e/ou
pode ser determinada por três critérios,
≥ 0,5 cmolc/ de acordo com “Recomendações para o
Teor de Al no subsolo:
dm3 e/ou
uso de corretivos e fertilizantes em Mi-
nas Gerais – 5a Aproximação”:
Saturação de alumínio (m)
no subsolo à profundidade ≥ 30%
de 20 a 40 cm: 1 - Com base na necessidade de
calcário (NC):
Por este processo, recomenda-se
Observações:
substituir, por gesso agrícola, 25% da
• A gessagem é também indicada na
quantidade de calcário, calculada para a
recuperação de solos com excesso
camada de 20 a 40 cm.
de Na, mais comum em áreas
2 - Necessidade de gesso (NG), de
quentes, sob irrigação. (Índice de Na
acordo com o valor de fósforo remanes-
acima de 10 % da soma de bases é
cente (P-rem) de uma camada subsu-
indesejável.)
perficial de 20 cm de espessura, confor-
• O uso de gesso isoladamente, me tabela 08:
ou seja, na ausência de calagem
simultânea, pode provocar perda P-rem (mg/l) Gesso (t/ha)
de bases, especialmente, magnésio
(Mg) e potássio (K), devido ao seu 0-4 1,680 a 1,333
carreamento para camadas mais
profundas, fora do alcance das 4 - 10 1,333 a 1,013

raízes.
10 - 19 1,013 a 0,720
• não é recomendável a aplicação
do gesso agrícola em solos
empobrecidos, sob o risco de 19 - 30 0,720 a 0,453

lixiviação dos poucos nutrientes para


30 - 44 0,453 a 1,213
camadas mais profundas do solo.

44 60 0,213 a 0,000
3 - Pode-se, também, calcular a ne- Uso do gesso como condicionador de
cessidade de gesso com base na granu- esterco
lometria do solo, ou seja, a partir do seu A perda de nitrogênio sob a forma
teor de argila, determinado em labora- de amônio durante a fermentação do
esterco pode, num período de 4 me-
tório, conforme tabela 09.
ses, chegar a 60%. A adição de gesso,
conforme o quadro abaixo, enriquece o
Teor de argila t/ha
esterco nos teores de cálcio e enxofre e
evita a perda de grande parte da amô-
0 - 15 0 a 0,4 nia, que é transformada em sulfato de
amônio.

15 - 35 0,4 a 0,8

Quantidade de gesso a ser adiciona-


35 - 60 0,8 a 1,2 do ao esterco

60 - 100 1,2 a 1,6


Esterco kg de gesso por dia

* Observar que, assim como no cálculo Bovinos e


0,25 a 0,50 kg/cabeça
da necessidade de calcário, quando se equinos
deseja melhorar apenas a faixa de solo
cultivada, deve-se reduzir a quantidade
de gesso, proporcionalmente.
Suínos e ovinos 0,125 a 0,25/cabeça
* Tabelas 08 e 09 transcritas de “Re-
comendações para o uso de corretivos
e fertilizantes em Minas Gerais – 5a
Aproximação”. Aves 0,25 kg/100 cabeças

Fonte: MALAVOLTA et al, 1.979

Fonte: Vitti e Malavolta, 1.985

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 33


Métodos para o cálculo da calagem

A quantidade de corretivo a ser usada pode ser determinada, em Minas Gerais,


por dois processos, a saber:

1.Método do Alumínio Trocável e Ca + Mg

2. Método de Saturação de Bases

Método do Alumínio Trocável e Ca + Mg

A aplicação deste método visa neutralizar o alumínio tóxico e atender à de-


manda da cultura em cálcio e magnésio. Além dos teores destes três elementos,
fornecidos pela análise de solos, há necessidade de se estimar a capacidade tampão
do solo, pelo teor de argila ou do fósforo remanescente. Este último é considerado
mais adequado, pois, informa indiretamente a qualidade da argila presente, que in-
dica, por sua vez, uma maior ou menor atuação nas reações químicas do solo. Neste
processo, é utilizada a seguinte fórmula, conforme a 5ª Aproximação:

NC = (Y x Al) + [X - (Ca + Mg)], expresso em t/ha de calcário


(PRNT = 100)

Os valores de Y variam em função da textura do solo:

Y=1 para solos arenosos (<15% de argila);

Y=2 para solos de textura média (15 a 35% de argila);

Y=3 para solos argilosos (>35% de argila).

Os valores de X variam em função do tipo da cultura:

X=1 para eucalipto;

X=2 para a maioria das culturas;

X=3 para o cafeeiro.


Na fórmula citada, a primeira parte (Y x Al) visa neutralizar o alumínio tóxico
existente, de acordo com as características de cada solo, e leva-se em consideração
o índice absoluto de alumínio (de solo). Neste caso, o valor Y varia conforme varie
a capacidade tampão dos solos, indo de Y=1 para solos arenosos (baixa resiliência
= baixa “resistência” às alterações) até Y=3 para solos argilosos (alta resiliência =
alta “resistência” às alterações).
A segunda parte, [X - (Ca + Mg)], visa suprir as necessidades de cálcio e mag-
nésio e é proporcional à exigência de cada cultura, indo de X=1 para eucalipto
(pouco exigente em Ca) até X=3 para cafeeiro (muito exigente em Ca).
Na “5a Aproximação”(CFSEMG 1.999), foi introduzida a seguinte alteração
neste método de cálculo da necessidade de calcário:

NC = CA + CD

Onde:
CA = Correção da acidez (ou correção do Al trocável);
CD = Correção da deficiência de Ca e Mg.

Se ocorrer de CA e/ou CD derem resultado zero ou negativo, recomenda-se


desconsiderar esta(s) parcela(s) da equação.

Considerações sobre a primeira parte da fórmula

CA - Y [ AI 3+ - (Mt t/100)]

Onde;
Y= fator cujo valor varia de acordo com a capacidade tampão do solo, neste
caso definido pela sua textura. (tabela 07)

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 35


Tabela 12 – Variação dos valores de “Y”, em função do teor de argila do solo
Tipo de solo % de argila Valor de Y
Arenoso 0 - 15 0-1
Textura média 15 - 35 1-2
Argiloso 35 - 60 2-3
Muito argiloso 60 - 100 3-4

Al 3+ = acidez trocável, em cmolc/dm3


m = máxima saturação por Al3+ tolerada pela cultura (cafeeiro = 25 %)t
t = CTC efetiva, em cmolc/dm3

Deste modo, na determinação de “Y”, passa-se a considerar a concentração


relativa (%) de Al 3+, ou seja, a percentagem dele na CTC efetiva, e não mais o ín-
dice absoluto, além das características do solo (textura).
Um outro parâmetro, o fósforo remanescente (P-rem), também incluído pela
“5 Aproximação”, permite a determinação da capacidade tampão do solo (uma me-
a

dida da atividade das partículas). De forma indireta será, muitas vezes, uma medida
da sua granulometria.

Tabela 13 – Valor do “Y” em função do P-rem


P-rem (mg/L) Valor de Y
0-4 4,0 - 3,5
4 - 10 3,5 - 2,9
10 - 19 2,9 - 2,0
19 - 30 2,0 - 1,2
30 - 44 1,2 - 05
44 - 60 0,5 - 0,0

Se o solo é de textura mais arenosa, conclui-se que ele possui menor po-
der tampão (a grosso modo, menor “resistência” às mudanças), exigindo menor
quantidade de calcário para alterar suas características, portanto um “Y” menor.

• Tabelas 12 e 13 transcritas de “Recomendações para o uso de corretivos e


fertilizantes em Minas Gerais – 5a Aproximação”.
Considerações sobre a segunda parte da fórmula.

CD = X -(Ca2+ + Mg2+)

Onde:

X: fator cujo valor varia de acordo com a exigência da cultura (já citado).

(Ca2+ + Mg2+) : teores de Ca e de Mg trocáveis, em cmolc/dm3

Deste modo, a fórmula teria, agora, a seguinte composição:

CD = Y[AI3+ - (mt . t/100)] + [X - (Ca2+ + MG2+)]

A calagem, por este método, visa elevar de saturação de bases a um valor pre-
tendido, corrigindo ao mesmo tempo a acidez. Por este processo, é utilizada a se-
guinte fórmula, mais simples que a do método anterior, considerando apenas duas
variáveis determinadas pela análise de solos: a CTC a pH 7,0 (T) e a porcentagem
de saturação de bases atual do solo (V).

NC = T(Ve - Va)/100 ou NC = (Ve/100)T - SB

Expresso em toneladas por hectare de calcário (PRNT = 100%)


*(CFSEMG, 1989)

Sendo:
T = CTC a pH 7,0 ( Capacidade de Troca de Cátions)
Va = Saturação de Bases atual do solo (resultados da análise).
Ve = Saturação de Bases pretendida, após a calagem (valores variáveis, de acordo
com a cultura, sendo, para o café, de 60%. Alguns autores admitem 50% como
adequada para o cafeeiro).

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 37


Exemplos práticos
A seguir, são efetuados os cálculos para calagem e gessagem em uma lavoura
de café, cuja análise de solo, em uma amostragem de 0 a 20 cm, apresentou os
seguintes dados:

P K Ca Mg Al H+Al SB t T V m MO Prem Argila


pH
mg/dm³ Cmolc/dm³ % dag/kg mg/l %

5,42 1,5 38 0,62 0,16 0,48 3,70 0,88 1,36 4,58 19,21 5,29 1,43 29,50 26

Cálculo pelo Método de Saturação de Bases

Soma de bases trocáveis (SB)

SB = Ca + Mg + K = 0,62 + 0,16 + (38/391) = 0,88 cmolc/dm3

Capacidade de Troca de cátions a pH 7,0 (T)


T = (Ca + Mg + K)+(H + Al) = SB+(H+Al) = 0,88 + 3,7
T = 4,58 cmolc/dm3
Capacidade de Troca Efetiva (t)
t = SB + Al = 0,88 + 0,48 = 1,36 cmolc/dm3
Índice de Saturação de Bases atual do solo (V)

V = SB x 100 = 0,88 x 100 = 19,21% (Muito baixa. Para café: 60%)


T 4,58

m = Al x 100 = 0,48 / 1,36 x 100 = 35,29% (Média)


t

NC = (Ve/100)T - SB = (60/100)4,58 - (0,88) = 2,75 - 0,88 = 1,88t / ha

Cálculo pelo Método do Alumínio Trocável e Cálcio + Magnésio

Considerando: Y = 2,0 a 1,2 (Tab. 11/P-rem) Y = 1,24 (por interpolação)


X = 3,0
m = 25% t
NC = 1,24 [0,48 - (25 x 1,36/100)]+[3,0 - (0,62 + 0,16)] = 1,24 (0,14) + 2,22
NC = 0,17 + 2,22 = 2,39 t/ha
Observação:
A primeira parte da equação calcula a quantidade de calcário necessária para
neutralizar o alumínio tóxico. Neste caso, se for negativo o resultado desta parte,
o mesmo deve ser desconsiderado. A segunda parte da equação calcula a quanti-
dade de calcário para suprir a necessidade de cálcio e magnésio como nutrientes.
Também, aqui, se for negativo o resultado, desconsidera-se, igualmente, esta parte
da equação.

Considerações relativas aos cálculos pelos dois métodos acima:


Como a relação ideal de Ca:Mg para o cafeeiro é de 3 a 5:1, e o solo amostra-
do já oferece esta proporção (3,87:1,00), é recomendável que o calcário tenha uma
relação dentro da faixa citada

Em ambos processos descritos, existem as seguintes premissas:


a) O calcário considerado nos cálculos tem PRNT de 100%;
b) A quantidade de calcário recomendada corrige, teoricamente, a camada de
solo até 20 cm de profundidade; e que
c) A correção se dará em toda a superfície de 1 ha, ou seja, em área total. No
caso de uma ou mais dessas premissas não se verificar, é preciso fazer a
correção, aplicando-se a seguinte fórmula para os ajustes necessários:

QC = NC x (SC / 100) x (PF / 20) x (100 / PRNT)

Sendo:
QC = Quantidade de calcário em t/ha;
SC = Superfície do terreno a ser coberta com o calcário em %;
PF = Profundidade de incorporação do calcário em centímetros;
PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total do calcário (%).

Exemplificando:
No presente caso, pretende-se fazer a correção apenas na área sob a “saia”,
a qual cobre 70% do terreno, usando um calcário com PRNT de 87%, e, ainda,
que a correção se dará a uma profundidade de até 7 centímetros. Em lavouras já
implantadas, a incorporação mecânica a 20 cm sob a saia destruiria as raízes. Neste
caso, está sendo admitido que haverá, após determinado tempo, uma incorporação
natural, em uma camada de, aproximadamente, 0 a 7 centímetros.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 39


Tem-se, então:
A - Método de Saturação de Bases
QC87% = 1,88 x (70 / 100) x (7 / 20) x (100 / 87) = 0,53 t / ha

B - Método do Alumínio Trocável e Ca + Mg


QC87% = 2,39 x (70 / 100) x (7 / 20) x (100 / 87) = 0,67 t/ha

Observação solo e disponibilização para a planta.


1 - Quando se tratar de uma lavou- No Método de Alumínio Trocável
ra adensada, na fase adulta, em que não mais Cálcio e Magnésio, esta capacida-
mais existe espaço livre nas entrelinhas, de do solo (CTC) não é levada em con-
a superfície a ser coberta será total, por- sideração, podendo ocorrer de ser reco-
tanto a expressão SC da fórmula passa a mendada uma dosagem de calcário que,
ter o valor igual a 1. mesmo sendo demandada pela planta,
2 - Os dois métodos são válidos, não será “comportada” pelo solo. E, nes-
entretanto, há que se considerar que o te caso, pode ocorrer uma supercalagem.
Método de Saturação de Bases é mais Entre dois resultados diferentes de
utilizado, porque considera não apenas cálculo da quantidade de calcário, ob-
a necessidade de neutralização do alu- tidos pelos dois métodos, a sugestão
mínio e de suprimento de cálcio e mag- é a de se optar pela recomendação da
nésio, mas, também, a capacidade do menor dosagem, tendo-se o cuidado de
solo de ”comportar” a adição de doses se fazerem novas análises, pelo menos
mais elevadas de bases. (Por “compor- anualmente, efetuando, por precaução,
tar”, neste caso, em termos simplifica- calagens mais leves e mais frequentes.
dos e não acadêmicos, deve-se entender Isto vai assegurar suprimentos mais
a possibilidade do solo de “assimilar” a adequados de cálcio e magnésio, sem
quantidade calculada de calcário.) Aliás, os excessos eventualmente cometidos,
CTC traduz exatamente a capacidade quando se efetua a calagem para efeitos
do solo em “assimilar” as bases adicio- pretensamente duradouros, esperando-
nadas, para futuras trocas na solução do -se obter validade por dois ou três anos.

Cálculo da necessidade de gesso (NG)


A seguir, os resultados da análise de solos da mesma lavoura na profundidade
de 20 a 40 cm:

P K Ca Mg Al H+Al SB t T V m MO Prem Argila


pH
mg/dm³ Cmolc/dm³ % dag/kg mg/L %
5,3 4 27 0,45 0,12 0,55 3,60 0,64 1,19 4,24 15,1 46,2 - 15 30
Considerando os parâmetros para o uso do gesso, citados no capítulo sobre
gessagem, verifica-se que a saturação de alumínio é maior que 30%, justificando a
utilização do gesso.

Cálculo da gessagem pelo método do Al3+ e Ca2+ + Mg2+ ou pelo Método de


Saturação de Bases
Se a calagem recomendada tiver sido calculada pelo método do Al e Ca + Mg,
o critério será o de adicionar o gesso correspondente a 25% da NC na camada de
20-40 cm, para os dados contidos na análise de solo acima, são:

NC= 1,8 [0,55- (46,2 x 1,19/100)] + [3,5 – (0,45+0,12)]= 2,93 t/ha

NG= 0,25 X 2,93= 0,73 t/ha ou 730 kg/ha

Por outro lado, se a calagem recomendada tiver sido calculada pelo Método da
Saturação de Bases, os resultados são:

NC= (60-15,1) x 4,24 = 1,90 t/ha


100

NG= 0,25 x 1,9= 0,47 t/ha ou 470 kg/ha

Após ambos os cálculos, é preciso calcular a quantidade de gesso a ser aplicada


(QG), considerando a formula abaixo:

QG= NG x SC x EC .
100 20

Onde:
QG = quantidade de gesso
SC= superfície de cobertura da aplicação do gesso
EC = espessura da camada subsuperficial que se pretende corrigir.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 41


Em que pese a recomendação de kg/ha a ser aplicada. Como acima, tam-
calagem em lavouras formadas, suge- bém em complementação. Para con-
rir a redução do perfil de incorporação cluir, deve-se ter sempre em mente que
para apenas 7 centímetros. Ressalta-se toda gessagem deve ser acompanhada
que, quando houver a aplicação tam- de uma calagem.
bém de gesso, a dosagem de calcário a
ser aplicada pode ser mantida como se
fosse para uma correção de 0 a 20 cen- ADUBAÇÃO DO CAFEEIRO
tímetros. Esta argumentação decorre de
que o gesso, ao promover carreamento A obtenção de uma produção
de bases para camadas subsuperficiais, economicamente satisfatória em um
criaria a possibilidade de deixar a cama- cafezal requer, entre outros, que os
da superficial empobrecida, quando se nutrientes estejam disponíveis no solo
aplica a quantidade de calcário reduzida. em quantidade suficiente e equilibra-
Também, a aplicação de reduzi- da para o bom desenvolvimento da
da quantidade de gesso (resultante do planta e suprimento da demanda da
processo de cálculo da calagem para carga pendente. Isto requer o uso de
0 a 7 centímetros) tornaria a operação recursos, como análise de solo, análise
extremamente difícil, devido à reduzida de folhas, experiência com a cultura e
quantidade de gesso a ser aplicada. conhecimento do histórico da lavoura.
O cálculo da quantidade a ser aplicada
Cálculo da gessagem pelo P-rem é feito com base na análise de solo e
Considerando o valor do fósforo re- na estimativa de produção. Esta quan-
manescente, de 15,0 mg/litro, na amos- tidade poderá ser corrigida na terceira
tra analisada, na tabela 08 é indicada, e ou quarta adubação, se os resulta-
por interpolação, uma necessidade de dos da análise foliar e uma nova es-
gessagem de 850 kg/ha a ser aplicada, timativa de produção mostrarem a
seja em adição, seja em substituição, de- necessidade de ajustes. O cafeeiro,
pendendo de qual tenha sido o método como planta perene de ciclo bienal
utilizado para o cálculo da calagem. de produção, apresenta necessidades
também diferenciadas entre um ano e
Cálculo da gessagem pelo teor de argila outro. Nos anos de alta carga, a de-
Considerando o teor de argila de manda de nutrientes para produção de
30%, presente na profundidade de 20 frutos (“grãos”), somada à demanda
a 40 centímetros, conforme análise, na para crescimento contínuo da planta,
tabela 09 é indicada, por interpolação, resulta em uma necessidade maior de
uma necessidade de calagem de 700 adubação. Na determinação da quan-
tidade de nutrientes a ser aplicada, são de nutrientes disponíveis no solo e na
utilizadas tabelas com base nos níveis quantidade requerida pela planta.

Tabela 14 – Quantidade requerida de fósforo para o cafeeiro em produção, de


acordo com a faixa de produtividade e em função de seu teor no solo

Teor de nutriente do solo

Produtividade Muito
Baixo Médio Bom Muito bom
(sc / ha) baixo

Dose de P2O5 - kg / ha/ ano

< 20 30 20 10 0 0

21 - 30 40 30 20 0 0

31 - 40 50 40 25 0 0

41 - 50 60 50 30 15 0

51 - 60 70 55 35 18 0

> 60 80 60 40 20 0

Tabela 15 – Doses de nitrogênio, em função da produtividade esperada e do teor


foliar de N ou de doses preestabelecidas deste nutriente e doses de K2O, de acor-
do com a produtividade esperada e com a disponibilidade de potássio do solo

Fonte: “Recomendações para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais – 5a


Aproximação”

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 43


Uma outra alternativa de cálculo Gerais – 5a Aproximação”, baseia-se
de adubação, adaptada por uma equipe na produção pendente, em litros por
de técnicos da Emater–MG, a partir de planta, e em três faixas de população de
dados de “Recomendações para o uso plantas por hectare, conforme mostram
de corretivos e fertilizantes em Minas as tabelas a seguir:

Tabela 16 – Até 4.000 plantas/ha (g/nutrientes/cova)


Recomendação de adubação pH 5,42
Para exemplificar, serão considera-
Fósforo 1,50mg/dm3
dos os resultados da mesma análise de
Potássio 38,00 mg/dm3
solos, representando uma lavoura nas
seguintes condições: Cálcio 0,62 cmolc/dm3
Magnésio 0,16 cmolc/dm3
• Estágio: em produção Enxofre 8,90 mg/L
Alumínio 0,48 cmolc/dm3
• Número de pés: 10.800 (3.375 pl/
ha) H+Al 3,70 cmolc/dm3
P-rem 29,50 mg/L
• Espaçamento: 2,50 x 1,20 Área:
3,24 ha Matéria orgânica 1,43 dag/kg
Micronutrientes
• Produção obtida: 60 sc. (18,5 sc./
Ferro 20,80 mg/dm3
ha) ProVdução esperada: 200 sc.
(61,7 sc./ha) Cobre 0,10 mg/dm3
Manganês 5,30 mg/dm3
• Resultados da análise de solos:
Boro 0,06 mg/dm3
Zinco 0,30 mg/dm3

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 45


Macronutrientes é possível que se façam ajustes na re-
Considerações preliminares: comendação para este nutriente, caso
se tenha o resultado da análise foliar.
Faixa de Produtividade
Analogamente, na mesma tabela e na
De acordo com a 5ª Aproximação,
tabela anterior (tabela 14), encontra-se
se no ano em que se está trabalhando,
a quantidade recomendada de potássio
a produtividade esperada for inferior à
e fósforo, respectivamente. Após con-
metade daquela obtida no ano anterior
sultadas as tabelas, chega-se à seguinte
(de alta), determina-se a faixa de produ-
recomendação, em kg/ha/ano de NPK:
tividade, para efeito de cálculo da aduba-
ção, como sendo a média entre as duas.
Este procedimento visa evitar a acentu- Nitrogênio: 450 de N
ação da bienalidade. Não sendo este o Fósforo: 80 de P2O5
caso, ou seja, se não houve produção Potássio: 450 de K2O
(lavoura em formação ou podada no ano
anterior), ou se a produção esperada for A partir daí, busca-se a formula-
superior em 50% à obtida, considerar, ção disponível no mercado compatível
para efeito de cálculo, a produtividade com a relação acima (5,6: 1,00 : 5,6)
como sendo aquela de fato esperada. ou, então, a mistura de elementos sim-
Adubação nitrogenada ples, de forma a atender à referida re-
A adubação com nitrogênio (N) é comendação.
função da produtividade esperada, à Calcular, pelas tabelas, a produtivi-
qual corresponde uma dose preesta- dade em litros de café cereja/planta e o
belecida (tabela 15). Na mesma tabela teor dos nutrientes na análise de solos.

Tabela a utilizar: Stand de até 4.000 plantas/ha


Faixa de produtividade: 8,8 litros de cereja por planta (480 litros/sc. 60 kg)
Teor de matéria orgânica no solo: < 1,43 dag/kg

Quantidades de NPK
Necessidade de nitrogênio: 150 g/planta/ano de N
Necessidade de fósforo: 28 g/planta/ano de P2O5
Necessidade de potássio: 149 g/planta/ano de K2O (2,12% na CTC: < 3,0%)

Relação entre os nutrientes


150 g de N – 28 g de P2O5 – 149 g de K2O (gramas/planta)
Relação 5,35 : 1,0 : 5,32
Como se vê, as relações entre os quando não se dispõe de análise de solo.
nutrientes por um e por outro proces- Considerando-se que esta dose es-
so estão bem próximas. Já as quanti- teja relacionada com nível baixo do nu-
dades, em valores absolutos, apontam triente no solo, propõe-se, no presente
uma variação percentual um pouco caso (nível médio), que ele seja adicio-
maior, porém coerente, já que nesta nado na proporção de 1/16 da dose de
última tabela há incrementos na do- N. Certas formulações comerciais de
sagem recomendada, mesmo em in- NPK já trazem o enxofre, na medida em
tervalos menores de produtividade. que este elemento é componente de
Outro ponto a observar é que, como algumas fontes de nutrientes utilizadas
há perdas de alguns nutrientes princi- pela indústria de fertilizantes.
palmente por volatilização (N) e lixi-
viação (N e K), é recomendável que a Localização do adubo
colocação do adubo no solo seja feita Trabalhos de pesquisa mostram
de forma parcelada, para um melhor que a localização mais eficiente do fer-
aproveitamento. Desta forma, para tilizante é debaixo da saia do cafeeiro,
esses dois macroelementos, é usual onde há maior concentração de raízes
parcelar a quantidade recomendada absorventes. A adubação será mais efe-
em 3 ou 4 aplicações, durante o perí- tiva, se feita dos dois lados da planta.
odo chuvoso. O importante é que o adubo fique ao
alcance destas raízes, minimizando as
perdas por lixiviação ou por volatiliza-
Obs.:
ção. Uma boa distribuição do adubo
Os cálculos apresentados con-
sob a saia do cafeeiro pode ser obtida
templam as adubações para o forneci-
por sua aplicação a certa altura, junto da
mento dos macronutrientes primários
haste principal.
(NPK). Há, porém, consideração a ser
Sendo o adubo em forma de grâ-
feita para o enxofre (S), macronutrien-
nulos, a sua “descida” por entre as fo-
te secundário, lembrando que o cálcio
lhas até o solo ocorre de modo bastante
e magnésio já foram considerados na
uniforme e sem “queima” da folhagem.
calagem.
A limpeza do cisco sob a saia é re-
comendável.
No caso, o enxofre se apresenta, se- A aplicação do adubo fosfatado,
gundo os resultados da análise, em nível diferentemente do nitrogenado e do
“Médio” no solo, conforme tabela 04. potássico, pode ser feita de uma única
A 5ª Aproximação recomenda a aplica- vez e de forma localizada. Uma das pro-
ção de 1/8 da dose de N como enxofre, priedades relativas ao fósforo, quando

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 47


disperso no solo, principalmente nos
argilosos, é a sua elevada adsorção, em
detrimento do seu aproveitamento pela
planta. Notadamente no caso dos fos-
fatos solúveis, há uma rápida adsorção.
Este inconveniente pode ser contorna-
do, por meio da aplicação localizada,
em que o fertilizante fosfatado fica
concentrado em um menor volume de
solo, minimizando o efeito indesejado
da adsorção.
Na aplicação localizada, há, ini-
cialmente, poucas raízes em contato
com o adubo fosfatado, mas, a seguir,
ocorre um crescimento de raízes finas
ou absorventes na região fertilizada,
e, em decorrência, um aumento da
absorção do fósforo. Ao contrário do
seu comportamento no solo, onde o

48 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


fósforo é praticamente imóvel, uma volume de solo, advinda desta forma
vez na planta este nutriente ganha de aplicação.
mobilidade, acarretando sua distribui-
ção em toda a planta. Micronutrientes
No cafeeiro, a maioria das raízes O comportamento dos micronu-
absorventes se concentra em uma trientes no solo está sujeito a uma di-
grande malha perto da superfície do nâmica muito influenciada pelas carac-
solo. Quando se aplica o fertilizante terísticas do meio (textura, mineralogia,
fosfatado em sulco, há um corte des- teor de matéria orgânica, estado de aci-
tas raízes, que, posteriormente, reto- dez e pelas interações entre nutrientes,
mam o crescimento. Por outro lado, etc.). Devido a isto, a disponibilidade
como aplicação localizada, aumenta para as plantas pode não corresponder
o aproveitamento e o efeito residual ao que se espera, quando se consideram
do adubo. Neste caso, é recomen- os resultados da análise de solos.
dável um monitoramento do teor de Ocorre, também, que, sendo os
fósforo, que deverá ser feito, prefe- micronutrientes presentes em muito
rivelmente, pela análise foliar, face à baixas concentrações no solo, torna-se
dificuldade em se efetuar uma amos- mais difícil quantificar com precisão em
tragem representativa, devido à con- laboratórios de rotina tão baixos teores.
centração do adubo em um pequeno Acrescenta-se, ainda, que qualquer im-

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 49


precisão nos procedimentos na amos- deverão ser recomendados a aplicar,
tragem ou na análise laboratorial gera por via foliar, o zinco e o cobre (este
grande impacto na segurança dos resul- último, além dos aspectos nutricionais,

tados. Deve-se, também, levar em conta terá importância fundamental como


que, por tratar-se de micronutrientes, os fungicida, no controle de doenças da
limites que separam teores baixos de ex- parte aérea). O boro, por sua vez, de-
cessivos são linhas muito tênues, ao con- verá ser fornecido, preferencialmente,
trário dos macronutrientes, tornando, por via solo, por ser esta a modalidade
portanto, maiores os riscos de toxidez. que permite melhores resultados, pois
Considerando os resultados da análi- possibilita um teor foliar adequado por
se de solos para micronutrientes, a seguir:

Boro................... 0,06 mg/dm³ – Extrator Água quente – (Baixo teor)


Cobre................. 0,10 mg/dm³ – Extrator Mehlich-1 - (Baixo teor)
Manganês.......... 5,30 mg/dm³ – Extrator Mehlich-1 - (Médio teor)
Zinco.................. 0,30 mg/dm³ – Extrator Mehlich-1 - (Baixo teor)
Dos elementos em baixo teor no solo,

50 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


um período de até 18 meses, além dos de ácido bórico, de solubilidade maior.
benefícios para o sistema radicular, Ainda, assim, há a alternativa da apli-
já conhecidos. Em razão do seu bai- cação deste nutriente por via foliar,
xo teor, deve-se optar pela aplicação aproveitando que a operação de pul-
da dosagem superior, de 3 kg/ha do verização dos outros dois já seria rea-
elemento, preferivelmente na forma lizada.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 51


Interpretação dos resultados da análise pesquisa em lavouras tomadas como
foliar referência, podendo-se optar, ainda,
Os resultados da análise foliar na por dois métodos, a saber: estático e
cultura do café podem ser utilizados dinâmico. O método estático utiliza
com duas finalidades principais: orientar uma simples comparação entre a con-
sobre a necessidade de ajustes na adu- centração de um elemento na amostra
bação de solo com macroelementos e em teste e sua norma.
orientar na correção de possíveis defici- Cabe ao profissional responsável
ências de micronutrientes. pela interpretação a aplicação de algu-
No primeiro caso, a aplicação ma técnica de diagnóstico.
maior deste recurso é no sentido de Os padrões ou normas são esta-
evidenciar a necessidade do cumpri- belecidos, tomando-se como com-
mento da programação de adubação paração os teores de nutrientes em
com macronutrientes, o que pode in-
plantas amostradas, em lavouras que
dicar a manutenção dos parcelamentos
se apresentam em condições de ótima
inicialmente propostos, ou ajustes para
produtividade. Mesmo assim, é preci-
mais ou para menos.
so lembrar que fatores, como: clima,
Também permite verificar relações
face de exposição, tipo de solo, dis-
entre nutrientes, especialmente nitro-
ponibilidade de água e nutrientes no
gênio e potássio, por ocasião da gra-
solo, interação entre nutrientes no
nação (geralmente terceira ou quarta
solo e na planta, volume e eficiência
adubações), uma vez que desbalancea-
do sistema radicular, ataque de pra-
mentos entre estes dois nutrientes, em
gas e doenças, uso de defensivos ou
qualquer direção, podem gerar proble-
mas, tanto de ordem nutricional, quan- adubos foliares e práticas de manejo,
to de exposição da planta às doenças, influenciam a composição mineral dos
com reflexos não só na produtividade, tecidos vegetais.
como também na qualidade do café. Os teores de nutrientes nas folhas
Como subsídio à correção de deficiên- do café apresentam grande variação, de
cias de micronutrientes, a análise foliar acordo com a época do ano. A tabela 20
oferece um alto nível de confiabilida- está calibrada para o estádio de chumbi-
de quanto aos resultados analíticos, nho, ficando, portanto, a sua aplicação
como já foi dito. A interpretação dos limitada para esta fase fenológica do ca-
resultados de uma análise foliar pode feeiro. A referida tabela foi construída,
ser feita por comparação dos teores de como se vê, para uma situação geral no
nutrientes nela revelados, com padrões Estado e também para as regiões cafeei-
ou normas obtidos por trabalhos de ras, em separado.

52 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Tabela 20 – Valores de referência para a interpretação
dos resultados de análise foliar

Tabela 21 – Ajustes a serem feitos nas quantidades de macronutrientes (estabe-


lecidas com base na análise de solos) e suplementação via foliar para micronu-
trientes em função dos teores foliares

Para as condições acima fazer 2 a 3 aplicações foliares


Macronutrientes em dag/kg -1 e micronutrientes em mg/kg-1 (2) Aumentar em 50% o
(1)

programa para o 3º ou 4º parcelamentos (3) Verificar relação Mn/Fe adequada (igual a 4 - 5:1)
(4). Anos de alta e baixa produtividade, respectivamente. Fonte: Malavaolta e Moreira

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 53


PODA DO CAFEEIRO anos de carga alta. Entretanto, é neces-
sário que no manejo da lavoura, desde o
A poda do cafeeiro é uma técnica ano anterior, tenham sido realizados um
há muito tempo conhecida por técnicos controle eficiente de pragas de solo e uma
e cafeicultores. Sua utilização, no entan- boa nutrição do cafeeiro, isto porque, se
to, só se intensificou no início dos anos a planta estiver muito esgotada, seja por
70, com o plantio das lavouras no siste- exaustão de reservas seja por ataque de
ma de renque e com os planos de reno- pragas de solo, há o risco de insucesso na
vação de cafezais. Na cafeicultura mo- recuperação da lavoura, principalmente
derna, a poda passou a ser incorporada quando se tratar de poda drástica.
às práticas usuais de manejo. Ao contrá- Vários fatores induzem à necessidade
rio do que muitas vezes se acredita, ela da poda. Dentre outros, podem-se citar:
não aumenta a produtividade do cafeei-
ro, mas pode, sim, ser um recurso muito Altura excessiva
eficiente na regularização da safra, bem Por dificultar os tratos culturais e,
como facilita a execução das diversas principalmente, a colheita, manual ou
operações de manejo e de colheita. É, mecanizada.
também, indicada quando se quer fazer
uma correção na arquitetura da planta,
como é o caso de lavouras com exces-
so de ramos ortotrópicos (“ladrões”),
que tiveram perda de ramos plagiotró-
picos (produtivos) ou, ainda, quando
estes se encontram muito entrelaçados,
diminuindo a entrada de luz na planta
e dificultando a colheita. Melhora as
condições para o controle fitossanitário,
principalmente da ferrugem e da broca,
assim como promove um aumento da
luminosidade e arejamento da lavoura.
É importante ressaltar que é uma opera-
ção trabalhosa e onerosa, que, além de
aumentar os tratos culturais (manejo do
mato e desbrotas), requer trabalhadores
treinados, com orientação técnica, má- Depauperamento ou declínio
quinas e equipamentos específicos. Em anos de carga muito alta, caso
Do ponto de vista exclusivamente a nutrição seja insuficiente ou área foliar
econômico, devem-se fazer podas em das plantas seja reduzida, as demandas

54 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


excessivas por nutrientes podem provo- chegando ao ponto de, por volta dos
car o depauperamento da planta, com 14-15 anos, ter o lançamento de ape-
perdas de ramos. Segundo Rena e Ma- nas 4 ou 5 nós (futuras rosetas) por
estri (1986), a área foliar necessária para ramo produtivo. Como a planta, nesta
o desenvolvimento de um fruto e cresci- idade, terá o porte bastante alto, mes-
mento vegetativo da planta é de 20 cm2. mo que a produção ainda seja econo-
micamente viável, as dificuldades ope-
Fechamento nas entrelinhas racionais são severas.
Cafezais muito fechados nas en-
trelinhas e ou adensados provocam o Aspectos econômicos a serem conside-
autossombreamento na saia do cafeei- rados
ro, causando a perda de ramos produti-
vos e consequente perda de produção. Situações como baixos preços do
O fechamento dificulta o trânsito nas café, aliadas à expectativa de baixa
entrelinhas, os tratos culturais e, princi- produtividade da lavoura, podem ser
palmente, a colheita. importantes na tomada de decisão de
podar. Nestes casos, o objetivo é a re-
dução dos gastos com tratos culturais
e, principalmente, com a colheita, que
pode atingir parcela significativa no
custo final da saca de café. Por outro
lado, mesmo que uma lavoura esteja
necessitando de uma correção ou re-
novação, pode ser que, em condições
favoráveis de preço de café, seja eco-
nomicamente recomendável postergar
a poda. Esta pode ser realizada em
Danos causados por fenômenos climá- toda a propriedade ou por talhões.
ticos adversos Cabe ressaltar que, em se optando por
A ocorrência de geadas, chuvas de podar toda a área de café da proprie-
granizo ou raios, muitas vezes situações dade, não se terá renda da atividade
no ano seguinte. Pode ser adotada
nas quais a poda seja recomendada.
quando a propriedade é diversificada e
tenha fontes alternativas de renda, que
Idade da lavoura façam frente aos custos.
Com o passar do tempo e o avan- A execução da poda exige um bom
ço da idade, o cafeeiro tem o ritmo de conhecimento da anatomia e da fisiolo-
crescimento de seus ramos diminuído, gia da planta do cafeeiro, por isso, caso

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 55


o produtor não possua conhecimento quilibrada e de doenças e pragas.
adequado, deve procurar o apoio de um As demais gemas daquela série,
técnico experiente, que determinará a onde surgem apenas ramos ortotrópi-
necessidade e o tipo de poda a ser feita. cos, se manterão em dormência, até que
O cafeeiro possui dois tipos de ra- sejam estimuladas por uma poda ou um
mos, o ortotrópico ou haste (tronco) e o estresse, causado por fenômenos climá-
plagiotrópico ou produtivo (lateral). En- ticos (seca, chuva de granizo) ou, ainda,
tre dois nós do ramo ortotrópico há duas por outros fatores, como: tombamento
séries de gemas, diametralmente opos- ou quebra do caule, doenças, corte por
tas, localizadas imediatamente acima da formigas, etc., que provoque perda da
inserção da folha, sendo a última gema dominância apical, com o lançamen-
de cada série chamada de cabeça de sé- to de novos ramos ortotrópicos, neste
rie, e as seguintes chamadas seriadas. caso, chamados ramos “ladrões”. Ou-
A gema cabeça de série já se de- tra característica do cafeeiro é que não
senvolve concomitantemente e de for- há repetição de florada no mesmo nó do
ma sincronizada com o crescimento ramo, uma vez que não haverá formação
do ramo ortotrópico, dando origem ao de novas gemas produtivas no referido
ramo plagiotrópico, de modo que, ao fi- local. Por isso, é necessário ter o cresci-
nal de certo período, haverá um mesmo mento do ramo, de forma continuada,
número de nós, tanto no ramo ortotró- bem como brotação de novos ramos, se-
pico, como no plagiotrópico, contados a cundários ou de ordem maior, para que
partir do mesmo ponto do caule. a planta possa produzir no próximo ciclo.
Sendo esta gema cabeça de série Vale ressaltar que, assim como no
única em cada lado do entrenó, o ramo ramo ortotrópico, há, no ramo plagio-
lateral dela originado é, também, único, trópico, duas séries de gemas, tam-
razão pela qual não há emissão de novo bém diametralmente opostas, fisiolo-
ramo naquele local. Em caso de morte gicamente aptas a se diferenciarem,
do existente, tem início uma redução da preferencialmente em flores. Sob de-
área produtiva da planta, e, caso venha terminadas condições, estas gemas se
ocorrer morte de outros ramos plagio- diferenciam em vegetativas, originan-
trópicos próximos, ficará caracterizado o do ramos plagiotrópicos secundários,
chamado cinturamento. nestes os terciários e assim por diante.
Depreende-se, daí, que o manejo Certas variedades podem se “espal-
correto do cafezal deve estar direcio- mar”– termo usado popularmente para
nado, entre outros, para a preservação designar essas brotações quando em
destes ramos, principalmente em caso maior número –, principalmente se o ca-
de carga alta, quando se tornam mais feeiro, ainda em formação, exibir cresci-
vulneráveis aos efeitos da nutrição dese- mento vigoroso.

56 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


A - Ramo ortotrópico (haste principal ou A - Ramo ortotrópico (haste principal ou
tronco) tronco)
B - Gemas seriadas (não visíveis) B - Brotação ortotrópica(de uma gema
C - Ramo plagiotrópico (da gema cabeça seriada)
de série) C - Ramo plagiotrópico (lateral, produtivo)

A - Apenas gemas floríferas


B - Apenas gemas vegetativas
C - Floríferas e vegetativas no mesmo local
D - Floríferas e vegetativas em locais dife-
Diante do exposto, conclui-se que, rentes
sendo a poda uma prática que acarreta
“resposta” de ordem fisiológica, os efei- o emprego de uma base teórica mínima,
tos desejados só serão obtidos mediante aliada à prática do dia a dia.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 57


A realização da poda pressupõe Recepa
considerar dois aspectos importantes, a É uma poda drástica, isto é, há uma
saber: o primeiro diz respeito ao tipo de retirada de grande parte do tronco, que
poda, ou seja, em que pontos a planta provoca, como consequência, um re-
será cortada e em que grau de severidade baixamento acentuado do índice de re-
(pequenas ou grandes porções de corte servas da planta, com morte de grande
no ramo ortotrópico e ou no plagiotró- parte das raízes absorventes, as quais
pico). O segundo aspecto diz respeito ao ressurgem posteriormente. Uma vez re-
sistema de poda e refere-se à extensão cepado, o cafeeiro ficará por uma safra
(se de forma generalizada no(s) talhão sem produção e irá retornar a uma boa
(ões) ou se de forma seletiva, por rua, por produtividade para a cultura somente a
plantas, etc.) e com qual periodicidade. partir da segunda safra.
A recepa consiste em cortar o ramo
Tipos de Poda ortotrópico a uma altura de 20 a 40 cm do
São vários os tipos de podas que solo, chamada de “recepa baixa”, ou de
podem ser praticadas na lavoura cafe- 40 a 100 cm, denominada “recepa alta”.
eira, sendo classificadas em podas leves É utilizada, normalmente, quando a
(desponte e decote) e podas drásticas planta já perdeu grande parte dos ramos
(recepa e esqueletamento). A decisão baixios, sendo a altura do corte determi-
pelo tipo de poda será em função da nada em função destes ramos, visando
avaliação técnica, econômica e opera- preservar o que restou deles.
cional, conforme será discutido a seguir. Nesta condição, tem-se a chamada

58 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


“recepa com pulmão”, que tem como plantas, facilitando os tratos e a colheita
resultado uma brotação mais vigorosa ou visando maior incidência de luz, au-
da planta. mentando, assim, as brotações dos ra-
Dependendo do estado dos ramos mos produtivos e a florada.
laterais da “saia” preservada (muito
compridos ou pouco produtivos), pode
ser recomendável o seu encurtamento,
após o surgimento das novas brotações.
Na ausência destes ramos, faz-se o
corte, deixando apenas o “toco”, carac-
terizando a “recepa sem pulmão”.

Decote lenhoso
É uma poda em que o corte é feito
no ramo ortotrópico, em plantas em que
grande parte dos ramos laterais ainda se
encontram presentes e que podem ter
potencial produtivo para a próxima sa-
fra. O decote pode ser alto, quando o
tronco é cortado entre 1,5 a 2,0 m do
solo, e baixo, de 1,0 a 1,5 m. É mais
indicado para diminuir o tamanho das

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 59


Tecnicamente, o decote baixo só do cafezal, sob pena de um fechamento e
deve ser indicado quando se deseja ade- definhamento dos referidos ramos. Nor-
quar a arquitetura da planta, como, por malmente, há o aparecimento de brotos
exemplo, eliminando o cinturamento. A que podem ser mantidos ou não.
exemplo da observação feita, anterior-
mente, em recepa, pode vir a ser con- Esqueletamento
veniente encurtar os ramos da “saia”, O esqueletamento é um tipo de
após o surgimento das novas brotações, poda tanto mais drástico quanto maior
caso estejam muito compridos ou pouco for a porção removida dos ramos pla-
produtivos. giotrópicos. Como na recepa, há gran-
de perda de raízes absorventes, que se
Decote herbáceo restabelecem após algum tempo. Esta
É uma variante no sistema do decote poda consiste no corte dos ramos late-
propriamente dito e consiste na elimina- rais do cafeeiro de 20 a 50 cm a partir
ção da gema terminal do ramo ortotró- do tronco, dando à planta um formato
pico, daí o nome de decote herbáceo. cônico. Simultaneamente, deve-se fazer
Tem como finalidade o controle sobre a o decote da planta. A opção pelo “es-
altura das plantas, mas, devido à resposta queletamento” deve se feita quando a
da planta no crescimento lateral dos ra- planta ainda apresentar grande parte
mos produtivos, é recomendado apenas de seus ramos produtivos preservados
quando há espaço suficiente nas linhas e quando for necessário o revigoramen-

60 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


to destes. Caso já tenha ocorrido perda desbrotas, principalmente quando se faz
significativa dos ramos plagiotrópicos, opção por podas drásticas como a rece-
deve-se optar pela recepa. pa, exigem o emprego de mão de obra
capacitada. Normalmente, tanto na re-
Desponte cepa, quanto no decote, deixam-se de
Também considerado uma poda do dois a três brotos por planta no sentido
tipo leve, consiste no corte dos ramos da linha de plantio, quando a colheita é
produtivos, de 50 a 80 cm a partir do feita manual. Este cuidado é para que
tronco, conferindo um formato cônico os brotos não tombem para o interior
à planta. Quando se efetua o desponte, da rua e se quebrem, não somente pelo
deve-se fazer conjuntamente o “deco-
te”, como no esqueletamento, visando
quebrar a dominância apical e induzir às
brotações laterais.
O desponte é indicado, quando a
lavoura se encontrar fechada, com os
ramos plagiotrópicos longos, com pou-
cas gemas produtivas nas extremidades
dos ramos, mas, ainda sem perda da
“saia” e sem cinturamento.

Desbrotas
Quando se decide pela poda, deve-
-se estar ciente da necessidade das des-
brotas e, consequentemente, dos custos
de mão de obra para sua realização. As

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 61


peso, como também pelo esforço a que xaria a propriedade sem renda, inviabili-
são submetidos pelas mãos do colhedor. zando-a economicamente. Por isto, esta
Quando a colheita é realizada com decisão deve ser tomada de comum
colhedeiras mecânicas, os brotos, tam- acordo entre o técnico e o cafeicultor.
bém de dois a três por planta, devem ser Além da poda geral, sistema em que se
deixados no sentido do interior da rua, faz periodicamente o corte em todas as
porque o deslocamento da máquina irá plantas do talhão, há algumas variantes,
forçá-los no sentido da linha de plantio. como se discute a seguir:
No caso de decotes altos, pode-se op-
tar pela desbrota total, pela condução Safra zero
de dois a três brotos ou pelo livre cres- Desenvolvido como alternativa para
cimento (sem desbrotas nos ponteiros). redução de custos, principalmente de co-
Neste último caso, após a próxima sa- lheita, em anos de preços baixos do café,
fra, fazer nova poda abaixo da anterior, consiste no esqueletamento seguido de
diminuindo-se, consideravelmente, os decote, nos anos de alta carga. Na adoção
custos de mão de obra. deste sistema, produtor e técnico devem
fazer, antes, um estudo pormenorizado,
Época para realização da poda observando as oportunidades de merca-
As pesquisas mais recentes têm do, para que não haja perda de renda.
mostrado que quando se realiza a poda
logo após a colheita, a planta terá mais Poda em linhas alternadas
tempo para recompor a sua área pro- Consiste na poda da lavoura, por
dutiva, redundando em maior produção linhas, em suas diversas combinações.
nas primeiras safras pós-poda.
Em locais sujeitos à geada, é pru-
dente fazer a poda a partir do mês de
agosto.

Sistemas de podas
A decisão do sistema de poda a ser
adotado na propriedade é de caráter
técnico e econômico e deve ser tomada
embasada em um planejamento. Neste
aspecto, a recuperação dos cafezais em
uma propriedade não deve ser protela-
da, sob pena de ter de ser feita de uma
só vez, em todas as lavouras, o que dei-

62 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Este sistema dificulta e onera o mane- o stand original, contrariando os princí-
jo da lavoura, pois as linhas podadas pios da busca pela produtividade.
requerem tratos diferenciados na adu-
bação, controle de pragas e doenças, Poda por “apreciação”
como também na colheita, portanto Neste sistema, são adotados tipos
exige mais mão de obra. (Foto: J. Eudes) de poda diferenciados, conforme a con-
A eliminação de linhas ou de plan- dição de cada planta. Como no sistema
tas alternadas dentro da linha, como anterior, exige o uso mais intensivo de
pode ser observado em alguns casos, é mão de obra e tratos diferenciados. É
discutível, uma vez que reduz à metade mais indicado para o agricultor familiar e

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 63


pequenas área de produção. Neste siste- dando lugar a outros novos. Como na
ma, quando o plantio é em renque, não poda por apreciação, é uma prática feita
se deve fazer, por exemplo, uma recepa em plantas dispersas pelo cafezal, assim
baixa ao lado de plantas altas, pois as que os problemas começarem a aparecer
brotações poderão ser prejudicadas pelo
sombreamento destas outras plantas. Aspectos nutricionais
É importante chamar a atenção
Poda de limpeza para alguns aspectos nutricionais, no-
Como o próprio nome sugere, con- tadamente as deficiências em micronu-
siste na eliminação de porções de ramos trientes, principalmente de zinco, que
ortotrópicos secos, doentes, improduti- costumam aparecer logo após, sendo
vos ou mesmo mal localizados na planta, necessárias pulverizações corretivas,

Foto defici-
ência de Zn
após a poda

64 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


assim que se iniciarem as brotações. certo ponto, para posterior ressurgi-
Outro ponto a ressaltar, como conse- mento. Um adequado nível de reser-
quência da poda drástica, é a morte vas, neste caso, é fundamental para
progressiva das raízes absorventes, até uma boa brotação.

Tabela – Mortalidade de raízes de cafeeiros em vários tipos de podas – cafezal


Mundo Novo, 7 anos, 3,50 x 1,50 m (3-4 hastes/cova) – Alfenas–MG, 1986

% de raízes vivas (em peso)


Tipos de Podas
Aos 30 dias Aos 60 dias Aos 120 dias Média

Recepa 87 32 17 44

Esqueletamento 75 37 17 42

Decote 90 55 77 77

Test. Sem poda 100 100 100 100

Fonte: Miguel, Oliveira, Matiello e Fioravante – Anais 11º CBPC, p.240-1

Considerações finais quando se faz opção pelo plantio do


Já na implantação da lavoura, de- café em espaçamentos mais adensa-
ve-se levar em conta o sistema, bem dos, necessariamente, deve-se prever
como o tipo de poda que se preten- a realização das podas com mais fre-
de realizar no futuro. Por exemplo, quência.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 65


MANEJO DO MATO EM não devem ser utilizados, como grades
CAFEZAIS niveladoras, roçacarpas, enxadas rota-
tivas, ou seja, como se a manutenção
Introdução da cultura sempre no limpo fosse a
Entende-se por mato, o conjunto única alternativa técnica e economica-
de plantas que se desenvolvem no ca- mente aceitável. Atualmente, muitas
fezal de forma espontânea e que, após pesquisas mostram que o mato pode
a implantação da lavoura, podem com- ser benéfico ao cafezal. Se for corre-
petir com o cafeeiro por água, luz e nu- tamente manejado, promove melhor
trientes. Por outro lado, se for manejado cobertura do solo, resultando em
adequadamente, pode trazer benefícios maior infiltração de água, redução da
para a cultura do café. erosão, manutenção da temperatura

Evolução do manejo de mato e da umidade do solo, reciclagem de


No passado, considerava-se que o nutrientes, aumento do teor da maté-
mato era altamente prejudicial à cul- ria orgânica e consequente melhoria
tura do café. Sua eliminação era de- da fertilidade. Além do mais, o mato
sejada a todo custo, inclusive com a serve de abrigo a inimigos naturais das
utilização de implementos que hoje pragas do cafeeiro.

66 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


A importância do manejo do mato Por serem as espécies que cons-
Na condução do cafezal, o manejo tituem o mato mais adaptadas e mais
inadequado do mato pode levar à perda competitivas, é fácil concluir que têm
de vigor, redução do crescimento e con- maior facilidade que o cafeeiro para,
sequente diminuição da produtividade num mesmo espaço, crescerem e se
e longevidade da lavoura. Os prejuízos perpetuarem, competindo pelos mes-
causados irão depender de alguns fato- mos nutrientes. No caso de cafeeiros
res, como: espécie do mato, intensida- novos ou recepados, se o mato cresce
de de infestação, local e distribuição da sem um manejo adequado, acontecem
infestação (linha de plantio ou entre- a concorrência pela luz e o abafamen-
linhas), duração do período de infesta- to, causando estiolamento. Em cafeeiros
ção, idade e estado nutricional do cafe- adultos, a proximidade do mato prejudi-
eiro, época do ano (chuvas ou seca). Os ca o desenvolvimento da saia.
nutrientes mais extraídos pelas plantas Na ocorrência de veranicos ou no
daninhas são, em ordem de importân- período da seca, o mato mal maneja-
cia: nitrogênio (N), potássio (K), cálcio do e em alta infestação pode provocar
(Ca), magnésio (Mg) e fósforo (P). amarelecimento, murchamento e perda
de folhas pelo cafeeiro.
No período chuvoso, quando é
mais rápido o crescimento do mato,
torna-se necessário o seu controle com
maior frequência, pois coincide com as
épocas de maior demanda por nutrien-
tes, devido ao maior crescimento vege-
tativo, à floração e ao desenvolvimento
dos frutos.

Características do mato
O mato é de ocorrência bastante
diversificada com relação a tipo e ca-
racterísticas (folhas estreitas ou largas),
ciclo de vida (anual ou perene), modo
de reprodução (vegetativo, por semen-
tes ou ambos) e hábito de crescimento
(rasteiro, ereto, trepador). A identifica-
ção do tipo de mato é muito importante
para a escolha do manejo adequado,

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 67


permitindo optar por práticas de manejo herbicida pós-emergente, que pode ser
mais adequadas, visando a maior efici- aplicado com pulverizador costal ou tra-
ência e o menor custo. torizado, com os mesmos cuidados para
evitar a deriva. Na aplicação de herbi-
Modalidades de manejo cidas seletivos, deve-se manter o jato
da barra de pulverização dirigido para
Manejo na linha de plantio a linha de plantio, evitando atingir as
O sistema de manejo nas linhas do plantas, ainda que o contato do produ-
cafezal pode ser efetuado com roçadei- to tenha um potencial mínimo de dano.
ras, trinchas, capinas com enxadas ou
controle químico (herbicidas pós-emer- Manejo do mato nas entrelinhas
gentes e ou pré-emergentes). Na capina O manejo do mato nas entrelinhas
com enxadas e roçadeira manual, deve- do cafezal possibilita um leque maior de
-se tomar o máximo cuidado para não opções. Pode ser feito em área total ou
causar danos físicos no caule dos cafe- em ruas alternadas. O uso de herbicida
eiros, principalmente quando eles ainda em alternância com roçadas pode ser
estão com pequeno porte. Esta prática uma boa opção em áreas de alta infes-
não deve, portanto, ser realizada com o tação de espécies de mato de mais difícil
mato muito alto, pois dificulta a visua- controle, como aquelas que se propa-
lização do caule do cafeeiro. A capina gam vegetativamente. Normalmente,
com enxadas é de baixo rendimento e após as primeiras chuvas da primavera,
alto custo. Deve ser realizada, preferen- há um rápido e desuniforme desenvolvi-
cialmente, em dias de sol, para assegu- mento das plantas daninhas, em função
rar a morte do mato. Com o intuito de da diversidade de espécies.
prolongar o seu efeito, a capina pode Uma primeira roçada promove uma
ser complementada com o emprego de homogeneização da altura das plantas,
herbicida pré-emergente. que resultará mais eficiente, caso se uti-
Deve-se ter cautela para evitar que lize do herbicida pós-emergente, logo
a deriva atinja as brotações do café, cau- depois da retomada do crescimento.
sando amarelecimento e ou retardamen- Com a ressurgência do mato, dar con-
to de crescimento, sendo recomendado tinuidade ao manejo, até a pré-colhei-
o emprego de bicos de baixa deriva, pro- ta, pelo método que melhor atenda ao
tetor de bico (chapéu de Napoleão) ou a caso. No período seco, por ser crítico
colocação de cortinas para isolar a planta quanto à disponibilidade de água no
no momento da aplicação. solo, o mato deve ser mantido baixo,
O controle do mato na linha de seja pelas roçadas, seja pela aplicação
plantio pode, também, ser feito com de herbicida. Por outro lado, durante o

68 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


inverno, a manutenção do solo exposto e aumentar o teor de matéria orgânica.
ao sol pode ser recomendada em áre- Normalmente, tem-se recomendado a
as com riscos de geada, ao possibilitar introdução de Brachiaria decumbens ou
o aquecimento da superfície do solo, Brachiaria ruziziensis. As braquiárias têm
amenizando os danos, principalmente alto poder de brotação após as roçadas
em cafezais novos. e rápida formação de palhada, além da
já citada reciclagem de nutrientes. A
Manejo do mato com a Brachiaria spp. morte e a decomposição de suas raízes
No caso de lavouras de café implan- profundas deixam canalículos também
tadas em áreas com baixo teor de ma- profundos no solo, que proporcionam
téria orgânica ou com pouca cobertura melhor aeração e infiltração de água.
vegetal, pode-se adotar um sistema de Na adoção deste manejo, as braquiárias
manejo com a introdução de gramíneas, devem ser mantidas, no mínimo, a 30
com o intuito de produzir densa palhada cm de distância da saia dos cafeeiros.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O uso contínuo de um mesmo mé- ser revisto. Cada sistema de manejo do


todo de controle do mato não é reco- mato deve ser criteriosamente analisa-
mendável, porque não favorece a diver- do e adaptado às reais necessidades de
sidade de espécies de plantas, podendo cada lavoura ou talhão e deve contribuir
ocorrer a prevalência de uma única es- para otimizar a produtividade e a qua-
pécie. Caso isto ocorra, o manejo deve lidade do café, a um custo compatível.

MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção 69


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70 MANUAL DO CAFÉ - Manejo de Cafezais Em Produção


Ciências
Agrárias