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James Dobson

OS
Adolescência
ièliz!

Como enfrentar dos 13 aos 16 anos as mais drásticas


mudanças no corpo e na mente
Adolescência
James Dobson

Temos neste livro uma exposição aber­


ta, clara e objetiva dos problemas enfrenta­
dos pelos adolescentes, nesse período da
vida, que vai dos 13 aos 16 anos.

É aí que ocorrem, concomitantemen­


te, as mais importantes mudanças no físico,
no intelecto e na emotividade, como intro­
dução do indivíduo à plenitude da idade
adulta.

Por falta de preparo para esse período,


muitos adolescentes cometem erros ou so­
frem traumas que podem afetar seriamente
suas vidas para sempre.

Este livro deve interessar também aos


pais e aos líderes de jovens para que possam
ajudá-los a atravessar com segurança essa
fase, e vivam uma adolescência feliz!

Mundo EDITORA MUNDO CRISTÃO


Cristão Rua Antonio Carlos Tacconi, 79 — Tel.: 520-5011
Caixa Postal 21.257 - 04698 - São Paulo, Est. S.P.
Adolescência
Feliz!

James Dobson

Wi
EDITORA MUNDO CRISTÃO
São Paulo
Título do original em inglês
PREPARING FOR ADOLESCENCE
Copyright © 1978 por
Vision House Publishers,
Santa Ana, Califórnia 92705.

Tradução de Neyd Siqueira


Ia edição brasileira em março de 1981
2a edição brasileira em agosto de 1983
3a edição brasileira em abril de 1984
4a edição brasileira em junho de 1985
5a edição brasileira em julho de 1986
6a edição brasileira em fevereiro de 1987
7a edição brasileira em dezembro de 1988
8a edição brasileira em julho de 1990
9a edição brasileira em agosto de 1991
10a edição brasileira em junho de 1994
Impresso na Imprensa da Fé, São Paulo, SP
Publicado no Brasil com a devida autorização
e com todos os direitos reservados pela
ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO
Caixa Postal 21.257, 04698-970 — São Paulo, SP, Brasil
índice
Mensagem aos Pais........................................ 5
1 O Segredo da Auto-Estima........................ 9
2 Todos Estão Fazendo Isso!........................ 35
3 Algo Extraordinário Está Acontecendo
com Meu Corpo .......................................... 56
4 Acho que Estou A m ando........................... 80
5 Uma Noção Chamada E m oção.................. 106
6 Foi Isto Que Aconteceu Comigo............... 125
Mensagem Final............................................ 168
O Seu Melhor Amigo................................... 169
Mensagem aos Pais

Você gostaria de ter novamente treze anos atra­


vés de um milagre produzido por uma varinha
mágica? Quase posso ouvir meus leitores adultos res­
pondendo a essa pergunta com voz estrondosa: “Não,
obrigado!” Todos em nossa civilização desejam per­
manecer jovens, mas não tão jovens assim! E por que
não? Porque nós, os adultos, nos lembramos de nos­
sos anos de adolescência como o período mais tenso
e ameaçador de nossa vida.
A maioria de nós lembra das mudanças físicas
amedrontadoras que estavam ocorrendo nesses primei­
ros anos. Também nos recordamos das ansiedades
sexuais e da culpa associada com nossos estranhos e
novos desejos. Não esquecemos das dúvidas pessoais e
dos sentimentos de inferioridade que pareciam às ve­
zes insuportáveis. E, naturalmente, relembramos a
sensibilidade emocional e praticamente tudo durante
todo o período da adolescência. .. vulnerabilidade ao
fracasso, ao ridículo, ao embaraço, às atitudes dos
pais, e especialmente a qualquer forma de rejeição
pelos membros do sexo oposto. Não há dúvidas a
respeito: a adolescência foi uma viagem turbulenta
para a maioria de nós “velhos” (i.e., os maiores de
trinta anos!).
6 Adolescência Feliz
Desta perspectiva, parece realmente estranho
que nós pais relutemos tanto em partilhar nossas
experiências de juventude com nossos filhos. Os pré-
adolescentes poderíam tirar proveito daquilo que
aprendemos por termos estado no lugar para o qual
estão indo. Apesar disso, guardamos tipicamente nos­
sas memórias para nós mesmos e permitimos que
nossos filhos e filhas naveguem nas mesmas águas
agitadas sem qualquer preparo, orientação ou adver­
tência. 0 resultado é freqüentemente desastroso. Co­
mo afirmei em uma publicação anterior: “A principal
razão pela qual a adolescência é tão angustiosa é
porque os jovens não compreendem perfeitamente o
que está acontecendo Com eles. Muitos de seus temo­
res, ansiedades e desânimos poderíam ser removidos
mediante um simples programa de orientação”.*
Onde um programa educacional desse tipo deve­
ria começar e qual o seu conteúdo? O livro que você
tem em mãos está dirigido a essas perguntas. Ele foi
escrito especificamente para jovenzinhos entre dez e
quinze anos de idade, e está expresso em linguagem
que eles podem compreender. Este livro descreve a
experiência típica da adolescência e discute os temas
delicados sem fugir deles, inclusive masturbação,
menstruação, moralidade sexual, conflito entre pais e
filhos, abuso de drogas, conformidade e, mais impor­
tante ainda, o “desfiladeiro da inferioridade”.
0 último capítulo pode ser o mais proveitoso,
tendo sido extraído de uma conversa gravada com
quatro adolescentes. Esses jovens participaram dê uma
mesa-redonda destinada a explicar aos leitores mais
moços o que podem esperar, sentir e experimentar
nos anos que se seguirão. Essa sessão gravada, que
teve lugar em minha casa, foi um período signifícati-

* Hide or Seek, Fleming. H. Revell, 1974, pág. 108.


Mensagem aos Pais 7
vo em que houve partilha de sentimentos, temores^
esperanças e sonhos. Acho que seu filho vai achar o
texto interessante e útil.
Permitam que conclua essa declaração citando
uma analogia. Todo mês de setembro os técnicos de
futebol através dos Estados Unidos reúnem os rapazes
que esperam preparar para formar um quadro. Eles
treinam os jogadores com respeito às práticas funda­
mentais: bloquear, prender, atirar e apanhar a bola.
Durante duas semanas ou mais este exercício conti­
nua dia após dia. Finalmente, chega a noite do jogo
cheia de tensão e expectativa. O estádio está cheio de
torcedores fanáticos e os adversários aguardam no
campo. Antes de sair do vestiário, porém, o treinador
reúne o seu quadro para um último lembrete e pala­
vra de encorajamento. Ele sabe que haverá pouca
oportunidade para ensinar ou orientar uma vez que o
jogo tenha início. Suas palavras finais são vitalmente
importantes, e na verdade poderíam até mesmo mu­
dar o resultado do jogo. Depois de fazer seus comen­
tários, ele envia o time para o campo a fim de que os
jogadores façam o melhor.
Os pais que estão preparando seu filho para a
adolescência funcionam mais ou menos como esse
treinador de futebol. Desde a infância eles ensinaram
sistematicamente os “fundamentos” — preparando a
criança para a competição que se aproxima. Eles
exercitaram e praticaram durante os anos da escola
primária, continuando até o ginásio. Ensaiaram as
atitudes espirituais adequadas e os valores morais e
trabalharam especialmente com afinco na construção
da autoconfiança. Finalmente chega o momento da
verdade, e tem lugar uma última sessão de ensino.
— Não se esqueça do que estivemos lhe ensinan­
do — diz o pai.
— Tome cuidado com o meia-direita de que lhe
falei — adverte a mãe.
8 Adolescência Feliz
— Faça um bom trabalho, filho. Acreditamos
em você! — Ambos gritam.
0 rapazinho faz um sinal afirmativo com a
cabeça e corre para o campo. Os pais permanecem na
retaguarda, com o coração nas mãos, sabendo que o
seu treinamento está quase no fim. Eles deram a sua
contribuição, e o resultado depende agora do rapazola
ossudo no campo.
Vocês entenderam? Se têm um filho pré-adoles-
cente, devem dar a maior importância a este prepara­
tivo final antes do grande jogo. Devem aproveitar-se
desta ocasião para refrescar a memória dele, fornecen­
do instruções de última hora, e oferecendo as palavras
necessárias de precaução. Mas, tomem cuidado: se
deixarem que este momento fugaz passe despercebi­
do, poderão não ter outra oportunidade.
A Adolescência Feliz tem o objetivo de ajudar
nessa tarefa especial, e confio em que você irá sair
vitorioso dela!
JAMES C. DOBSON, PH.D.
JMUMUMIUMUMU/'

O Segredo da
Aüto-Estima
Você vai começar a ler um livro muito especial
sobre uma época importante da vida conhecida como
adolescência.. . aqueles anos entre a infância e a vida
adulta. Alguns de vocês têm nove, dez, ou onze anos
agora, e estão começando a pensar sobre o crescimen­
to. Vocês não estão certos sobre o que está para vir,
mas estão excitados com a experiência e querem
saber mais detalhes. Este livro é escrito para vocês.
Outros já são adolescentes, e esses conceitos
serão importantes para eles também. Quer você esteja
esperando os seus anos de adolescência ou já faça
parte deles, logo compreenderá um pouco mais a
respeito das questões e problemas que irão provavel­
mente ocorrer nos anos que imediatamente se segui­
rão.
Mas, por que dar tanta importância à adolescên­
cia? Por que nos esforçarmos para aprender a respei­
to deste período da vida? Bem, para falar com since­
ridade, o crescimento não será a coisa mais fácil que
você irá fazer. Não foi fácil para os que agora são
adultos, e não será fácil para você também. É sempre
difícil crescer, pois a vida apresenta muitas novas
exigências quando você entra numa nova fase. Você
não se lembra disso, estou certo, mas antes de ter
10 Adolescência Feliz
nascido estava dobrado bem tranqüilo dentro do cor­
po quente de sua mãe. Podia ouvir o coração dela
batendo firme, suave e seguro, e você se sentia prote­
gido e aquecido nesse mundo que Deus lhe proveu.
Todas as suas necessidades eram satisfeitas e não
havia um só cuidado em seu mundo. Você não tinha
nada com que se preocupar e nenhum aborreci­
mento.
Mas quando chegou a ocasião apropriada, você
foi empurrado com força para fora desse bolso peque­
no e perfeito, quer gostasse disso ou não (ninguém
lhe perguntou!), e entrou neste mundo frio onde um
médico o apanhou pelos calcanhares e lhe deu palma­
das no traseiro. (Que recepção para um novo. compa­
nheiro na vizinhança!)
Na verdade, enquanto estava pendurado ali,
olhando pela primeira vez para todas aquelas pessoas
de cabeça para baixo ao seu redor, você provavelmen­
te gostaria de ter voltado àquele pequeno mundo
protegido que acabara de deixar. Mas você simples­
mente não. podería ter continuado no ventre de sua
mãe caso tivesse de crescer, desenvolver-se e aprender

0 Desafio da Adolescência
De certa forma, entrar na adolescência é assim.
Você estava no mundo aquecido e seguro da infância.
Todas as suas necessidades foram satisfeitas por seus
pais: eles estavam ali para colocar um esparadrapo no
seu dedão quando bateu numa pedra, e beijaram seus
olhos molhados de lágrimas quando algo deu errado.
Você brincou quase todo o tempo, e a vida era
cor-de-rosa e confortável. Mas não é possível perma­
necer para sempre nesse mundo da infância, não mais
do que podia continuar no ventre de sua mãe. Existe
algo melhor à sua frente — o estímulo do ato de
0 Segredo da Auto-Estirm 11
crescer, de tornar-se adulto, de ter a sua própria
família, de ganhar o seu sustento, de tomar as suas
próprias decisões, de ser independente. Este é o pro­
cesso natural e necessário para a mudança da infância
para a idade adulta.
Infelizmente, porém, você não pode amadurecer
de repente. É preciso que saia primeiro do seu mundo
protegido da infância, e é justamente então que co­
meçam as dificuldades. Haverá tempos em que a vida
lhe baterá no traseiro, por assim dizer, da mesma
forma que o fez antes. E você pode até sentir que
está pendurado pelos calcanhares de vez em quando.
Surgirão alguns temores e problemas novos, e o mun­
do não se mostrará tão seguro quanto antes. Mas é
um mundo excitante, e será ainda melhor se souber o
que esperar.
Com essa introdução, portanto, quero descrever
algumas das novas experiências que estão prestes a
ocorrer. Você logo terá alguns dos momentos mais
emocionantes de sua vida (e alguns dos mais ame-
drontadores também!). Vamos falar das coisas com
que os adolescentes mais se preocupam —os aconteci­
mentos que mais freqüentemente os perturbam. Que­
ro ajudar você a familiarizar-se mais com a sua mente,
seus sentimentos, suas emoções, suas atitudes, seu
corpo, suas esperanças e sonhos, com quem você é,
para onde você vai, como chegar lá, e com as coisas
que provavelmente terá de enfrentar nos anos vindou­
ros. Vamos enfrentar esses pontos de frente: nada
será considerado sensível ou delicado demais para
discutir, desde que seja importante para aqueles de
vocês que têm entre doze e vinte anos.
À medida que lerem este livro, espero que ele
faça com que desejem discutir o assunto com alguém
em quem confiem.. Que este seja apenas o começo;
comece a fazer as suas próprias perguntas, a expressar
12 Adolescência Feliz
suas próprias preocupações, e a fazer do crescimento
uma fase muito pessoal em sua vida.

O Desfiladeiro Sombrio
Vamos começar fazendo um jogo mental por
um momento. Imagine-se dirigindo um carro pequeno
na estrada. Você acabou de passar por uma cidadezi-
nha chamada Puberdade, mas agora está de volta na
via principal, e à direita vê uma placa onde se lê:
“Vila dos Adultos, oito anos para a frente”. Você
está se movimentando rápido pela estrada a 80 quilô­
metros horários, em direção dessa nova cidade de que
tanto ouviu falar.
Mas, ao fazer uma curva, vê de repente um
homem abanando uma bandeira vermelha e mostran­
do uma placa de advertência. Ele faz sinal para que
pare o mais depressa possível, e você então pisa no
breque e estaciona em frente do homem. Este se
aproxima da janela do carro e lhe diz: — Amigo,
tenho uma informação importante para lhe dar. Caiu
uma ponte cerca de um quilômetro daqui, abrindo
um buraco enorme que leva a um escuro desfiladeiro.
Se não tiver cuidado irá sair da beira da estrada e cair
nele e, naturalmente, se fizer isso, jamais chegará à
Vila dos Adultos.

Não é Possível Voltar


O que fazer? Você não pode voltar porque seu
carro não tem marcha-à-ré. Nenhum dos carros que
trafegam por essa estrada pode voltar. É como tentar
fazer marcha-à-ré numa estrada de duas mãos — não
pode ser feita. Você pergunta então ao homem com a
bandeira — O que devo fazer? e ele responde: —
O Segredo da Auto-Estima 13
Bem, vou lhe dar uma sugestão. Siga em frente, mas
vá com cuidado e fique observando a ponte destruí­
da. Quando chegar a ela vire para a direita e siga para
o sul por dois ou três quilômetros. Encontrará um
lugar em que poderá então rodear o desfiladeiro e
voltar à estrada principal. Você não precisa cair no
buraco, pode rodeá-lo; agora, boa sorte e dirija com
cuidado.
Deixe que explique o sentido desta história. 0
automóvel que você está dirigindo representa a sua vida.
Ele tem o seu nome na porta. De fato, tem todas as
suas características e você está dirigindo este carro
esporte pela estrada da vida em direção à idade adul­
ta. E, veja então, eu sou o homem com a bandeira,
de pé ao lado da estrada. Estou agitando a bandeira
para a frente e para trás, segurando na mão um aviso
e pedindo que pare. Quero advertir você sobre um
problema que está logo adiante na estrada, um “desfi­
ladeiro” no qual muitos dos adolescentes caem na
estrada da maturidade. Este não é um problema que
afeta apenas alguns adolescentes; quase todo mundo
tem de tratar com ele de uma forma ou de outra
durante a adolescência.
Depois de ter feito você parar, eu me debruço
na janela do seu carro e lhe conto que muitos outros
jovens perderam a vida atirando-se por esse desfiladei­
ro abaixo, mas posso mostrar-lhe como evitá-lo —
como rodear o perigo.

A Agonia da Inferioridade
Que tipo de problema é este que tantos adoles­
centes enfrentam nessa época da vida? O que é que
causa tanta mágoa e dor aos jovens entre doze e vinte
anos de idade? Trata-se de um sentimento de deses­
14 Adolescência Feliz
pero que chamamos de “inferioridade”. É aquela ter­
rível intuição de que ninguém gosta de você, que você
não é tão bom quanto os demais, que é um fracasso,
um perdedor, um desastre pessoal; que você é feio ou
pouco inteligente, ou que não tem tanta capacidade
como outra pessoa. É aquele sentimento depressivo
da desvalorização pessoal.
Que vergonha que a maioria dos adolescentes
acha que não possui muito valor humano quando está
entre os treze e quinze anos! Isso pode ter acontecido
com você ainda antes disso, mas na maioria dos casos
o problema piora durante os anos de ginásio. Este é o
desfiladeiro de que falei — aquele buraco escuro na
estrada para a idade adulta que aprisiona tantos jo­
vens.
Fui recentemente entrevistado pelos editores da
revista “Teen ” (Adolescência) com respeito a um arti­
go que estavam escrevendo sobre o assunto da infe­
rioridade. Os editores da revista sabiam que a maior
parte dos adolescentes enfrenta este problema. Tentei
contar a seus leitores que esta é uma crise desnecessá­
ria: você pode rodear a dificuldade e evitá-la se sou­
ber o que esperar. Mas se você simplesmente dirige o
carro estrada abaixo a toda velocidade, sem pensar
nos perigos e sem conhecê-los, você também pode
cair vítima deste mesmo sentimento de desvaloriza­
ção. Não faz sentido sofrermos a agonia da derrota.
Todos temos valor humano, todavia tantos jovens
concluem que eles são de alguma forma diferentes —
que são realmente inferiores — que lhes faltam os
ingredientes necessários para que tenham dignidade e
valor.
0 Problema de Ronaldo
Alguns de vocês sabem que trabalho bastante
com jovens que têm essa espécie de problemas (assim
0 Segredo da Auto-Estima 15
como problemas físicos). Estive no quadro de um
hospital de crianças durante dez anos, mas servi antes
no campus de uma escola secundária, e trabalhei ali
com muitos adolescentes que estavam lutando com
alguns dos sentimentos que já descreví.
Certo dia eu estava andando pelo terreno da
escola depois de a sineta ter tocado. Quase todos os
alunos já tinham voltado às classes, mas vi um rapazi­
nho que. vinha em minha direção pelo corredor princi­
pal. Eu sabia que o nome dele era Ronaldo e que
estava no terceiro ano do ginásio. Mas não o conhecia
muito bem. Ronaldo era um daqueles alunos que
ficam no fundo da classe, jamais chamando a atenção
sobre si e nunca fazendo amigos. É fácil esquecer-se
de que estão vivos porque não permitem que ninguém
se aproxime muito deles.
Quando Ronaldo estava cerca de quatro metros
de mim percebi que estava perturbado com alguma
coisa. Era evidente que algo o afligia, pois seu rosto
revelava sua perturbação íntima. Quando ele se apro­
ximou um pouco mais viu que eu estava a observá-lo.
Nossos olhos se encontraram por um momento, de­
pois ele baixou os seus para o chão quando chegou'
mais perto.
Quando Ronaldo e eu nos cruzamos, ele de
repente cobriu o rosto com as mãos e virou-se para a
parede. Seu pescoço e orelha ficaram vermelhos, e ele
começou a soluçar e chorar. Não estava apenas cho­
rando, mas parecia explodir com a emoção. Coloquei
meu braço em seus ombros e lhe disse: — Posso
ajudá-lo, Ronaldo? Você gostaria de conversar comi­
go? — Ele disse que sim com a cabeça, e tive de
praticamente guiá-lo até meu escritório.
Ofereci uma cadeira ao rapazinho e fechei a
porta, dando-lhe alguns minutos para se controlar
antes de pedir-lhe que falasse. Ele começou a se abrir
comigo.
16 Adolescência Feliz
Foram estas as suas palavras: “Tenho estado na
escola nesta vizinhança há oito anos, mas não conse­
gui fazer um só amigo! Nem um sequer. Não existe
ninguém nesta escola que se incomode se estou vivo
ou morto. Venho sozinho para a escola e volto tam­
bém sozinho para casa. Não vou a jogos de futebol,
de basquete ou a qualquer outra atividade da escola
porque me sinto envergonhado de ficar ali sozinho.
Fico a sós durante o lanche da manhã e almoço num
canto isolado do campus. Depois volto sozinho para a
classe. Não me dou bem com meu pai e minha mãe
não me entende, e brigo com minha irmã. E não
tenho ninguém! O telefone nunca toca para mim e
não tenho ninguém com quem falar. Ninguém sabe o
que sinto e ninguém se incomoda. Algumas vezes
sinto que não vou mais agüentar!”

Ronaldo Não Está Sozinho


Não posso contar quantos estudantes expressa­
ram esse mesmo tipo de sentimento para mim. Uma
menina da oitava série chamada Carlota sentia-se tão
mal a respeito de si mesma e por não ser popular que
não queria mais viver. Ela veio certo dia à escola e
me contou que tinha tomado todos os comprimidos
que encontrara no armário de remédios numa tentati­
va de suicidar-se. Mas na verdade não queria morrer,
caso contrário não teria contado o que fizera. Ela
estava na verdade pedindo socorro. A enfermeira da
escola e eu a levamos para o hospital justamente a
tempo de salvar-lhe a vida. Tanto Carlota como Ro­
naldo estão entre os milhares de estudantes que se
sentem vencidos pela sua falta de valor, e isto às
vezes tira até mesmo a sua vontade de viver.
Alguns jovens sentem-se inferiores e tolos ape­
nas ocasionalmente, tal como quando fracassam em
0 Segredo da Auto-Estima 17
algo muito importante. Mas outros se sentem inferio­
res todo o tempo. Talvez você seja um desses indiví­
duos que se sentem feridos todos os dias. Você já
sentiu um grande nó na garganta que surge quando
está achando que ninguém se incomoda, que ninguém
gosta de você, que talvez até mesmo o odeiem? Você
já desejou poder sair da sua pele e entrar no corpo de
outra pessoa? Você já se sentiu quase como se fosse
mudo quando está num grupo? Já teve vontade de
entrar num buraco e desaparecer? Se você já teve
essa espécie de sentimentos, espero que acabe de ler
este livro, porque ele é para vocêl Eu gostaria que
Ronaldo e Carlota pudessem ter lido o que estou
escrevendo quando expressaram esses sentimentos.
Gostaria que eles tivessem reconhecido o seu valor
como seres humanos, pois haviam, como viram, entra­
do no desfiladeiro da inferioridade e estavam tatean­
do nas trevas lá embaixo.

Por quê?
Quero fazer, agora uma pergunta muito impor­
tante. Por que tantos adolescentes se sentem inferio­
res? Por que os jovens não podem crescer gostando
de si mesmos? Por que é comum as pessoas fazerem
uma auto-análise e se sentirem grandemente desapon­
tadas com aquilo que Deus fez delas? Por que é
necessário que todos batam a cabeça na mesma pe­
dra? Essas são perguntas boas, e penso que existem
boas respostas para elas.

O Estrago da Mãe Natureza


Existem três coisas que os jovens acham que preci­
sam ter para sentir-se bem consigo mesmos. A primei­
18 Adolescência Feliz
ra delas, e a mais importante, é a atração física. Você
sabia que cerca de 80 por cento dos adolescentes em
nossa sociedade não gostam de sua aparência?

Oitenta por cento!


Se se perguntasse a dez adolescentes o que mais os
desagrada, oito deles estariam insatisfeitos com algum
aspecto de seu corpo. Eles se sentem feios e pouco
atraentes, e pensam nesse problema a maior parte do
tempo. Também acreditam que o sexo oposto não
gosta deles. As meninas se acham muito altas e os
meninos muito baixos', ou muito magros ou muito
gordos, ou se preocupam com as espinhas no rosto ou
as sardas no nariz, ou com a cor do cabelo, ou
pensam ainda que seus pés são muito grandes, ou não
gostam do formato das suas unhas.
Não importa quão insignificante seja o problema,
ele pode provocar grande ansiedade e depressão. A maio­
ria dos adolescentes se examina com cuidado no espe­
lho para ver quanto estrago foi feito pela Mãe Nature­
za, e não gosta do que vê. Desde que nenhum de nós
é perfeito, eles geralmente encontram algo que não
apreciam, e passam então a preocupar-se e afligir-se
com isso, desejando não terem esse defeito. Você
pode imaginar sentir-se deprimido e miserável por
algo tão tolo como ter um nariz uma fração de
centímetro mais longo do que você acha que ele
deveria ser?

Que Espécie de “Amigos”?


Uma das razões pelas quais os adolescentes se
tornam tão sensíveis a respeito de seus pequeninos
defeitos é porque seus “amigos” zombaram deles ou
O Segredo da Auto-Estima 19
os embaraçaram durante os primeiros anos. Infeliz-
mente meninos e meninas são muitas vezes maldosos
uns com os outros, atirando insultos de lá para cá
como flechas envenenadas. Conheci por exemplo uma
menina da oitava série que recebeu na escola um
bilhetinho de outra garota que aparentemente a odia­
va. Ela nada tinha feito de mau para a autora da
nota, mas o conteúdo era este:
Detestável Janete:
Você é a menina mais odiosa do mundo. Espe­
ro que morra, mas naturalmente isso é impossí­
vel. Eu tenho algumas sugestões:
1. Brincar no meio da rua
2. Cortar a garganta
3. Beber veneno
4. Ficar bêbeda
5. Matar-se com uma faca
Por favor faça uma dessas coisas, sua Gordu­
cha. Todas nós detestamos você. Estou orando:
ó, por favor Senhor, faça Janete morrer. Precisa­
mos de ar fresco. 0 Senhor me ouviu, Senhor,
porque se não ouviu todas morreremos aqui com
ela.
Veja bem Janete, não somos todas más.
deWANDA JACKSON*
Você já recebeu um bilhete assim? Mais impor­
tante ainda, já escreveu um bilhete assim? Os jovens
se magoam facilmente, e a dor provocada por este tipo
de mensagem é profunda e dura por muito tempo. Ela
pode ser até lembrada depois que Janete crescer.

* Extraído de Hide or Seek, Revell Publishers, 1974. Usado


com permissão.
20 Adolescência Feliz
“Baixinho” e “Gorila”
Uma das brincadeiras mais impiedosas dos ado­
lescentes é inventar apelidos maldosos que chamam a
atenção para algo diferente ou pouco comum de uma
pessoa. Desta forma eles focalizam o traço que a
vítima mais quer ocultar. Você pode ter recebido um
apelido ou alguém pode ter zombado de seu corpo
uma ou outra vez. Se você é de pequena estatura
pode ter sido chamado de “Anão” ou “Baixinho”. Se
você é uma menina alta, podem ter-lhe dado o apeli­
do de “Grandona” ou “Gorila”. Se suas orelhas fo­
rem grandes pode ter sido chamado de “Dumbo”.
Veja bem, ninguém tem um corpo perfeito e todos
possuem algo que podemos caçoar. Até mesmo Far-
rah Fawcett-Majors, a beleza do cinema, afirmou re­
centemente que pensava que sua boca era grande
demais. (Eu jamais notei isso.) Pelo menos Farrah
conseguiu falar sobre as suas imperfeições, pois a
maioria das pessoas tenta esconder as delas envergo­
nhada.
Para ilustrar melhor, vamos supor que Carlos
seja um rapazinho saudável de dez anos. Ele tem um
corpo forte, uma mente aguçada e um lar feliz. Carlos
foi abençoado com muitas coisas na vida e experi­
menta bem poucos problemas. Certo dia, porém,
um grupo de estudantes no recreio começa a zombar
dele por causa de seus pés grandes. Eles o chamam de
“Sapatão” e “Pé de Pato”. Tudo foi feito em brinca­
deira, penso eu, mas Carlos levou a sério. Ele se torna
extremamente sensível com relação ao tamanho de
seus pés, e pensa que todo mundo está rindo às suas
costas. Ele tenta esconder os pés debaixo da carteira
na escola, e insiste em que a mãe lhe compre sapatos
de número menor. Carlos pode tornar-se eventualmen­
te deprimido e desinteressado em viver em lugar de
mostrar-se um rapaz feliz que se beneficia das vanta­
O Segredo da Auto-Estima 21
gens que lhe foram proporcionadas por Deus. Este
exemplo pode parecer irreal para você, mas creia que
conheço muitos “Carlos” que vieram a desgostar de si
mesmos por causa de defeitos insignificantes.
Se você não chegou ainda à adolescência deve
saber que provavelmente irá sentir-se insatisfeito com
o seu corpo no futuro. Se a sua preocupação for
grande, isso pode fazer com que se torne tímido ou
facilmente embaraçado, ou pode levar você para o
lado oposto, mostrando-se espalhafatoso e zangado,
por sentir-se tolo e pensar que ninguém gosta mesmo
de você. Não há meio de calcular a mágoa e a
preocupação que os adolescentes sentem a respeito de
sua aparência.

Aos Dezessete
Esta preocupação foi expressa nas palavras de
uma canção popular escrita por Janis Ian. Ela ganhou
um Prêmio Grammy em 1976 pela canção intitulada
“Aos Dezessete”*. As palavras estão sendo reproduzi­
das abaixo para que você veja como os sentimentos
de inferioridade são refletidos nesta música:
Aprendi a verdade aos dezessete
De que o amor foi feito para as rainhas de beleza
E para as jovens de sorriso radiante
Que se casam cedo e depois se aposentam.
Não conheci namorados,
As noites de sexta-feira
Eram gastas com alguém mais bela;
Aprendi a verdade aos dezessete.
Aquelas de nós de rostos mais feios,
Carentes de graças sociais,
* Composição lírica de Janis Ian © 1974 MINE MUSIC,
LTD. (ASCAP). Usado com permissão.
22 Adolescência Feliz
Ficam desoladas em casa,
Inventando namorados ao telefone,
Que chamam para dizer: “Venha dançar comigo”
E murmuram vagas obscenidades.
Nem tudo é o que parece aos dezessete.
Para aquelas que conheceram a dor
Dos presentes que nunca chegam
E para aquelas cujos nomes nunca são chamados
Quando se escolhem os lados no basquete.
Isso tudo foi num tempo bem distante;
O mundo era mais novo do que hoje
E sonhos eram tudo o que recebiam de graça
Meninas do tipo “patinho feio” como eu.
Eu não conheço pessoalmente Janis Ian, mas
estou certo de uma coisa muito importante sobre ela:
Janis também entrou no desfiladeiro da inferioridade.
Seria impossível escrever as palavras dessa canção se
não se sentisse desajustada quando mais jovem. Ela
fala de milhares quando descreve “aquelas de nós de
rostos mais feios” (as que tinham espinhas e cravos) e
“aquelas cujos nomes nunca são chamados quando se
escolhem os lados no basquete”. Espero que você
não esteja incluído neste vasto grupo de pessoas desa­
nimadas que aprendem lições tão penosas “aos dezes­
sete”.

Quem É Tolo?
A segunda característica que os jovens não apre­
ciam a respeito de si mesmos é que se sentem pouco
inteligentes (ou tolos). Este sentimento no geral co­
meça nos primeiros anos escolares, quando eles têm
dificuldade em aprender na escola. Ou acham difícil
O Segredo da Auto-Estima 23
aprender a ler e passam a se preocupar com este
problema, ou dão respostas que fazem todo mundo
rir. Passam então a acreditar que todos na classe
(inclusive o professor) pensam que eles são estúpidos,
e isto faz surgir os velhos sentimentos de inferiorida­
de.
Quanto mais o aluno fracassa na escola, tanto
mais desanimado se torna. Ele provavelmente receberá
apelidos por parte dos colegas, tais como “Estúpido”
ou “Tolo” ou “Boboca” . E se esses insultos o ofende­
rem muito, ele poderá perder todo o interesse na
escola e até tentar desistir dela. Isto provoca um
círculo vicioso: sua recusa em trabalhar resulta em
mais fracasso, que traz mais ridículo na classe, o qual
produz menos motivação para tentar, e o que resulta
em mais fracasso ainda.. . e tudo continua girando
assim. Finalmente este indivíduo chega à terrível con­
clusão de que seu cérebro é defeituoso e que ele irá
certamente fracassar na vida. É uma experiência terrí­
vel crer que você não tem valor humano.
Os. pais podem também acidentalmente fazer
com que seus filhos sintam que não são muito inteli­
gentes. Os adultos são também seres humanos e po­
dem ficar impacientes e cansados, assim como você.
Isto pode fazer com que fiquem perturbados e cha­
mem seus filhos por nomes insultuosos, os quais são
lembrados durante toda a vida deles.
As crianças então muitas vezes crescem achando
que são estúpidas e tolas, e esta é a segunda razão
por que a inferioridade é coisa tão comum entre os
alunos do primeiro e segundo graus.

A Medida do Dinheiro
0 terceiro valor que os jovens usam para medir
o seu mérito é o dinheiro. Eles pensam que a família
24 Adolescência Feliz
rica é mais importante do que a pobre, e que para
serem aceitos e populares precisam vestir-se de uma
certa maneira, ou sua família precisa ter um certo
tipo de carro, eles têm de viver em uma casa grande
no lado certo da cidade, ou seu pai precisa ter um
determinado emprego. 0 jovem que' não pode ter
essas coisas sente-se às vezes inferior e desajustado.
Todos os outros usam malha, mas ele tem de usar
camisas meio gastas. Este problema financeiro não é
tão comum agora como costumava ser, porque hoje
mais pessoas possuem o necessário para a vida. Toda­
via, muitas famílias continuam vivendo na pobreza, e
os filhos que não podem ser como os amigos se
sentem algumas vezes inferiores por serem pobres.
Beleza, inteligência e dinheiro são os três atribu­
tos mais apreciados em nossa sociedade, e quando os
jovens descobrem pela primeira vez que lhes falta
uma (ou as três) dessas características eles começam a
escorregar em desespero. Para eles, a “ponte” ruiu e
um desfiladeiro escuro os espera lá em baixo.
Se você for um desses jovens que já tem proble­
mas com a vida — se se sente miserável consigo
mesmo e gostaria de escapar de alguma forma, de
fugir de tudo, ou se ficou ferido quando alguém disse
palavras duras, quero dar-lhe várias sugestões que po­
derão ajudá-lo.

1. Reconheça Que Não Está Sozinho


Em primeiro lugar, comece a observar as pes­
soas ao seu redor e veja se consegue detectar senti­
mentos ocultos de inferioridade. Quando for para a
escola amanhã, observe os alunos que vão e vêm.
Alguns estarão sorrindo e rindo, falando e carregando
os livros e jogando basquete. A não ser que observe
com mais cuidado, jamais percebería que eles têm
O Segredo da Auto-Estima 2J
qualquer preocupação. Mas, eu lhe asseguro, muitos
dentre eles têm as mesmas preocupações que o per­
turbam. Eles revelam essas dúvidas mostrando-se mui­
to tímidos e calados, ou sendo extremamente mesqui­
nhos e raivosos, ou sendo tolos, ou temendo partici­
par de um jogo ou competição, ou corando com
freqüência, ou mostrando-se arrogantes e desdenho­
sos. Você logo aprenderá a reconhecer os sinais de
inferioridade, e saberá então que se trata de uma
dificuldade muito comum! Uma vez que compreenda
que as outras pessoas se sentem como você, não
deverá então jamais sentir-se novamente sozinho. Vo­
cê se sentirá mais confiante por saber que todo mun­
do tem medo do embaraço e do ridículo, que todos
estamos sentados no mesmo barco furado, tentando
consertar os buracos. Você acredita que eu também
quase me afoguei nesse barco quando tinha'quatorze
anos?
2. Enfrente o Seu Problema
A segunda sugestão que espero seja útil é de
que enfrente a dificuldade que o está perturbando.
Olhe de frente o pensamento que persiste em sua
mente ou que está no fundo do seu coração, fazendo
com que uma nuvem negra ensombre sua cabeça dia e
noite. É bom isolar-se, num lugar em que ninguém
possa interferir nos seus pensamentos. Faça então
uma lista das coisas que menos gosta na sua pessoa.
Ninguém vai ver esse papel exceto aqueles a quem
desejar mostrá-lo, e você pode ser então completa­
mente sincero. Escreva tudo que tem estado a aborre­
cê-lo. Admita até as características que não aprecia,
inclusive a tendência de enraivecer-se e explodir (se
isto se aplica a você).
Identifique os seus problemas mais sérios da
melhor forma possível. Você fica frustrado e aborrecí-
26 Adolescência Feliz
do com as pessoas e depois se sente mal por isso? Ou
é a sua timidez que o faz ficar com medo quando
está com outras pessoas? Ou é a sua incapacidade de
expressar sua idéias — colocar seus pensamentos em
palavras? ,É a sua preguiça ou sua grosseria com as
pessoas, ou a sua aparência? O que quer que o
preocupe, escreva como puder. (Você provavelmente
irá precisar de uma grande quantidade de papel por­
que a maioria das pessoas pode descobrir uma infini­
dade de coisas de que não gosta a respeito de si
mesma.) Não deixe nada de lado nessa lista. Depois,
quando tiver terminado, faça uma revisão da lista e
coloque um sinal nos itens que mais o aborrecem, os
problemas em que mais pensa e que mais o afligem.

Descubra um Amigo Verdadeiro


Você está agora pronto para agir a fim de
melhorar a sua situação. Seria uma boa idéia escolher
alguém em quem confie, uma pessoa que lhe trans­
mita segurança. Esta deveria ser um adulto que com­
preenda os problemas dos jovens. Talvez seja um de
seus pais, ou seu professor, conselheiro ou pastor.
Você saberá quem é a pessoa certa. Leve a sua lista
para esse orientador e a examine com ele, discutindo
cada um de seus problemas. Fale abertamente sobre
os seus sentimentos, pedindo a seu amigo que faça
sugestões sobre como mudar as coisas que o preocu­
pam.
É muito provável que vários dos problemas que
você enfrenta já tenham sido superados por outras
pessoas, e você poderá também beneficiar-se da expe­
riência delas. Em outras palavras, pode haver uma
solução fácil. Talvez você não precise viver lutando
com as mesmas preocupações que perturbaram outras
pessoas. O seu primeiro passo então é preparar uma
O Segredo da A uto-Estima 27
estratégia, um plano de ação, uma maneira de resolver
os seus problemas. Você se sentirá muito melhor por
discutir seus aborrecimentos abertamente, e talvez
possa descobrir uma solução positiva.

O Fogo do Compromisso

Mas, como você irá tratar dos outros itens de


sua lista que não podem ser mudados? O que pode
fazer com os problemas mais difíceis que desafiam
solução? Seria sábio lembrar que a melhor maneira
de ter uma mente sadia é aceitar as coisas que você
não pode mudar. Haverá sempre circunstâncias que
desejaríamos arranjar de outra forma ou remover.
Todavia, as pessoas mais felizes no mundo rião são
aquelas que têm problemas, mas as que aprenderam a
viver com as coisas que são menos do que perfeitas.
Quero sugerir então que você leve o restante de
sua lista com os “problemas insolúveis” a um lugar
privado onde um pequeno fogo não seja perigoso.
Talvez você gostasse de ter o seu amigo-conselheiro
presente para esta cerimônia. Queime então esse papel
como um símbolo oferecido a Deus de que os proble­
mas são agora dEle. A sua oração deve conter esta
mensagem a Ele (dita com as suas palavras):
Querido Jesus, estou lhe entregando hoje todos os
meus problemas e preocupações, porque o Senhor é o
meu melhor amigo. O Senhor conhece meus pontos
positivos e negativos, porque me fez. É por isso que
estou queimando agora este papel. É minha maneira
de dizer que lhe entrego a minha vida. . . com as
minhas boas qualidades e meus defeitos. Estou pedin­
do que me use da maneira que quiser. Faça de mim o
tipo de pessoa que quer que eu seja. E deste momen­
28 Adolescência Feliz
to em diante, não vou mais me preocupar com as
minhas imperfeições.

Deus Sabe e se Interessa


Estou certo de que você encontrará amor e
aceitação por parte de Deus quando fizer essa oração.
Agindo assim, está dizendo: “Quero a sua vontade
para a minha vida, não por ser um super-homem ou
super-mulher, mas porque prometeu ajudar aos que
admitem as suas fraquezas. Estou dependendo do seu
poder e da sua força para fazer algo de belo em
minha vida.” A Bíblia nos ensina para revelar esta
humilde dependência do Senhor, e Ele irá honrá-la.
Você sabia que Deus o vê quando está magoa­
do? Ele conhece esses profundos temores e frustra­
ções que julgava que ninguém compreendia. Ele co­
nhece os desejos do seu coração, e está sempre perto
naqueles momentos em que uma lágrima sai de seus
olhos e corre por sua face. . . naquelas horas em que
se sente totalmente solitário. De fato, Deus ama a
você e a mim de tal forma que Ele mandou seu único
Filho para morrer por nós. Isso é amor verdadeiro na
sua forma mais elevada! Estou convencido de que
Jesus teria morrido por mim (ou por você) mesmo
que eu fosse a única pessoa em todo o mundo. Essa é
a medida do seu interesse por nós.
Se Deus nos ama tanto assim, do modo como
somos, por que não podemos aceitar-nos a nós mes­
mos? Essa é provavelmente a melhor pergunta do
ano.

Algo Belo, Algo Bom


Bill Gaither escreveu uma canção com as pala­
O Segredo da Auto-Estima 29
vras: “Algo belo, algo bom; toda minha confusão Ele
compreendeu. Tudo que tinha a oferecer-lhe era que-
brantamento e conflito, mas Ele fez algo de belo com
a minha vida”. Deus pode fazer isso com a sua vida.
Se você lê a Bíblia — e espero que sim — aprenderá
que Deus não escolhe os super-homens nem os mági­
cos para fazer a sua obra. Através dos tempos Ele
escolheu pessoas comuns com falhas humanas, pessoas
menos do que perfeitas, para realizar os seus objeti­
vos. Quando Jesus estava escolhendo os seus discípu­
los Ele não preferiu os homens mais poderosos e popu­
lares do país naquela época, mas escolheu pescadores
comuns e até mesmo um cobrador de impostos odia­
do na sua comunidade.

Mande Outra Pessoa


Você pode também lembrar-se da história de
Moisés e de sua experiência com a sarça ardente,
como contada no livro de Êxodo. Deus estava falando
com Moisés no arbusto e disse algo como isto: “Moi­
sés, tenho um trabalho muito importante para você.
Quero que diga ao Faraó que lhe ordenei que deixe
meu povo sair.”
Moisés sentiu-se inferior e inadequado justamen­
te como muitas pessoas se sentem hoje. Ele deu esta
espécie de resposta ao Senhor: “Deus, o Senhor não
podería mandar uma outra pessoa? Quando chegar ao
palácio do Faraó sei que vão rir de mim. Podem até me
colocar na prisão. Eu acho, Senhor, que talvez deva en­
viar uma outra pessoa.” E então Moisés falou a Deus o
que estava na verdade a aborrecê-lo — ele admitiu a
razão por que se sentia inferior: “E além disso, Se­
nhor, eu não queria falar no assunto, mas sabe que
gaguejo. Não sei falar muito bem. .. minhas palavras
saem com dificuldade. Quando tento exprimir-me nu­
30 Adolescência Feliz
ma ocasião importante, as palavras se embaraçam.
Senhor, não sou o homem para essa missão. Prefiro
ficar em casa, se não se importar.”
No verso 14 do capítulo 4 de Êxodo, a Bíblia
diz: “Então se acendeu a ira do Senhor contra Moi­
sés.” O Senhor ficou aborrecido com Moisés por usar
a inferioridade como uma desculpa, pois pretendia ir
com Moisés e ajudá-lo. É essa a razão pela qual não
queria que ele se ocultasse por trás de uma desculpa
de inferioridade. O Senhor também não quer que
você use esse mesmo pretexto porque Ele irá ajudar
você a fazer aquilo que lhe diz para fazer. Quando
for para a escola amanhã e descobrir que está com
medo dos outros alunos —com medo de que riam de
você ou o desprezem — lembre-se de que não está
sozinho, pois leva consigo o poder do Deus que criou
o universo inteiro. Ele pode fazer algo belo de sua
vida, se permitir que tome as rédeas.

3. Compense as Suas Fraquezas


Está preparado para a terceira sugestão? Existe
uma palavra muito importante que você precisa com­
preender, ela é chamada de compensação. A compen­
sação pode ser uma palavra muito valiosa, mas seu
significado é simples. Ela significa contrabalançar as
suas fraquezas concentrando-se nos seus pontos positi­
vos — em outras palavras, compensar as suas fraque­
zas. Voltando aos problemas insolúveis em sua lista
que o aborrecem mais, você pode contrabalançar esses
pontos fracos sobressaindo em algumas outras coi­
sas.
Nem todo mundo pode ser a pessoa mais bonita
da escola. Se esta é a sua situação, diga: — Muito
bem, e então? Existem muitos outros no mesmo
barco, isso não tem tanta importância. Meu valor não
O Segredo da Auto-Estima 31
depende de como meu corpo foi arranjado. Vou cana­
lizar meus esforços em algo que me ajudará a sentir-
me feliz comigo mesmo. Vou ser o melhor tocador de
trombeta na banda, ou vou ter sucesso no meu em­
prego de meio-período, ou vou criar coelhos como
diversão e para ganhar dinheiro, ou ver quantos ami­
gos posso arranjar, ou vou aprender a jogar bem
basquete, ou vou tornar-me um bom pianista, ou vou
cultivar uma personalidade agradável (isso é uma coisa
que quase todo mundo pode fazer), ou vou aprender
a jogar tênis, ou a ser uma costureira, ou vou dese­
nhar ou pintar e expressar-me através da arte, vou
escrever poesia ou histórias curtas, ou vou tornar-me
uma boa cozinheira. — Ou talvez você possa tornar-se
um perito em cuidar de crianças e vir a ser uma
assistente social especializada neste setor.
O sucesso está esperando por você, bastando
que procure por ele. Você pode aprender a obter o
máximo daquilo que possui, e esse é o primeiro passo
no sentido de desenvolver autoconfiança e aceitação.
Não dói tanto ser rejeitado por outras pessoas quando
sabemos que temos êxito em algo. Desenvolva então
uma habilidade que faça com que tenha orgulho de si
mesmo, e gradualmente começará a ter um melhor
conceito de sua pessoa. Começará a gostar mais de si
mesmo, e quando fizer isso, os outros também o
farão.

4, Tenha Amigos Sinceros


Isto nos leva à quarta sugestão: nada ajuda mais
a sua autoconfiança do que amigos sinceros. Quando
você sabe que os outros gostam de você, é mais fácil
aceitar-se a si mesmo. Você não precisa ser bonito,
nem muito inteligente ou rico para que os outros o
apreciem. “A melhor maneira de ter um amigo é
32 Adolescência Feliz
ser um bom amigo para outros.” Esse é um provérbio
muito antigo mas ainda muito verdadeiro.
Como você pode fazer novos amigos rapidamen­
te e com facilidade? Deve lembrar-se de que as pes­
soas com quem trata todos os dias têm exatamente os
mesmos problemas que estivemos discutindo. A com­
preensão desse fato irá ajudá-lo a saber como enten­
der-se com elas e a ganhar o seu respeito. Nunca
zombe ou ridicularize ninguém. Deixe que saibam que
você os respeita e aceita, e que são importantes para
você. Faça um esforço consciente para mostrar este
tipo de afeição pelas pessoas.
Mas você não pode fingir ter respeito por ou­
tros, é preciso ser um sentimento real. As pessoas irão
perceber se for fingimento. Aprenda a proteger a
reputação das outras pessoas, e elas farão o mesmo
por você. Seja sensível aos sentimentos delas; pois
têm as mesmas necessidades que você. Seja bondoso
com elas; jamais mostre sarcasmo ou maldade. Você
pode pensar que está tirando vantagem das pessoas
quando as insulta ou zomba de seus erros, mas elas
irão revidar, pois jamais se esquecerão dos seus insul­
tos. Podem não dar-lhe um soco no nariz (ou talvez o
façam!), e podem não chorar ou fugir; é possível que
nem mesmo digam nada quando você as trata sem
bondade. Mas provavelmente tentarão magoá-lo em
troca, da primeira vez que tiverem uma oportunidade.
Falarão mal de você ou tentarão fazer com que as
pessoas não gostem de você.

A Amizade Vale a Pena


O oposto é também verdade, felizmente. Quan­
do você se mostra amigo de alguém, essa pessoa irá
lembrar-se da sua generosidade e procurar meios de
retribuir a sua bondade. Você ficará surpreendido
O Segredo da Auto-Estima 33
com quantos amigos poderá fazer sendo compreensi­
vo, “encobrindo” os erros de outras pessoas, defen­
dendo-as quando outros estão tentando embaraçá-las.
Você descobrirá que esta sensibilidade leva à amizade
que, por sua vez, leva a uma maior autoconfiança.
Uma das responsabilidades mais importantes na
vida cristã é interessar-se por outras pessoas — sorrir
para elas e ser amigo dos qué não têm amigos. Veja
bem, Deus quer usar você para ajudar os seus outros
filhos que se sentem inferiores. Ele disse: “Sempre
que o dizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a
mim o fizestes! ” Se começar a viver este tipo de vida
cristã recomendado na Bíblia, sei que descobrirá que
sua autoconfiança irá- desenvolver-se e que Deus irá
abençoá-lo por isso. O Senhor honra aqueles que lhe
obedecem.

Os Valores de Deus
Quero enfatizar de novo que os atributos que
nossa sociedade mais valoriza — beleza, inteligência e
dinheiro — devem ser considerados pelo ponto de
vista cristão. Esses são valores humanos, mas não
divinos. O Senhor não mede o seu valor da maneira
como as pessoas o fazem. Ele salienta em Sua Palavra
que cada um de nós vale mais do que os bens do
mundo inteiro. Isto é verdadeiro simplesmente pelo
fato de sermos seres humanos — e não pela nossa
aparência, ou com quem nos casamos, ou o que
fazem nossos pais, ou quanto dinheiro, ou o que
realizamos na vida. Esses fatores terrenos não fazem
absolutamente diferença.
Você sabia que a Bíblia nos diz que Deus odeia
verdadeiramente três coisas que nosso mundo valoriza
muito? Lucas 16:15 afirma: “Pois aquilo que é eleva­
34 Adolescência Feliz
do entre homens, é abominação diante de Deus.” Ele
despreza as coisas que valorizamos porque elas inter­
ferem no trabalho que deveriamos estar fazendo
para Ele. Esses valores falsos podem impedir você de
ser um bom pai, ou empregado, ou negociante. Mais
importante ainda, esses falsos valores podem interferir
na sua vida cristã, fazendo com que sinta que nem
mesmo Deus aceita você como pessoa. Os valores
temporários da beleza, inteligência e dinheiro repre­
sentam um método de estimar o mérito humano, e é
por isso que Deus os odeia. O método dEle dá um
valor eterno a cada um de nós, e isso inclui você e
eu\
Em resumo, devo falar com aqueles de vocês
que não sofreram ainda sentimentos de inferioridade.
Espero que se lembrem do meu exemplo de dirigir um
carro estrada abaixo. Você não precisa cair naquele
buraco escuro; não precisa rolar para o desfiladeiro
com todos os outros carros acidentados lá no fundo.
Você pode rodear o perigo. Não deixe que isso acon-
teÇa com você. Não dê ouvidos à pequena voz em seu
íntimo que lhe diz: “Você não presta para nada, é
um fracasso; há algo de errado com você; você é feio;
é diferente; todos estão rindo de você; acham que é
um tolo; vai fracassar na vida; tudo vai dar errado.”
Não creia nisso! Desvie o carro, rodeando o
desfiladeiro da inferioridade. Deus irá ajudá-lo a fazer
isso!
)OISDOIS2DOISDOI

Todos Estão
Fazendo isso!
Qual o significado do termo “conformidade”
para você? Trata-se apenas de uma palavra misteriosa
no dicionário, ou ela se relaciona diretamente com a
sua vida diária? Apesar de você talvez não ter usado
antes esta palavra, vai precisar familiarizar-se muito
com o seu significado, pois ela desempenhará um
papel importante durante o período de adolescência
de sua vida.
A palavra “conformidade” refere-se ao desejo
de ser exatamente como todo mundo — fazer o que
fazem, dizer o que dizem, pensar o que pensam e
usar o que usam. 0 conformista é aquele que tem
medo de diferenciar-se da maioria; ele tem grande
necessidade de ser como todo mundo. Conformar-se
quer dizer aceitar as idéias, a moda, a maneira de
andar e de falar que é popular no momento. Em
nossa sociedade existe uma pressão tremenda sobre
todos nós para que nos conformemos aos padrões do
grupo.
A Melancolia da Orientação
A conformidade não é apenas um problema
entre adolescentes. Quero dar um exemplo excelente
36 Adolescência Feliz
de conformidade que teve lugar num grupo de adul­
tos. Quando passei a fazer parte do quadro do Hospi­
tal Infantil em Los Angeles, tive de passar por uma
“sessão de orientação”. Uma sessão de orientação é
algo de que os empregados precisam participar quan­
do começam num novo emprego. É um período de
treinamento preparado pelo empregador a fim de fa­
miliarizar cada pessoa com a organização que a em­
pregou. Mas, infelizmente, essas reuniões são no geral
aborrecidas, elas até parecem ter sido planejadas com
esse fim de causar aborrecimento! Os oradores falam
infindavelmente sobre planos de seguro e aposentado­
ria, sobre o uso apropriado do telefone e outros
tópicos semelhantes que são por demais monótonos.
Por saber isto eu estava sem vontade alguma de sub-
meter-me ao período de orientação no hospital.
No final de contas apresentei-me como era espe­
rado às nove da manhã. Havia doze novos empregados
no salão naquele dia, e aconteceu ser eu o único
homem entre eles. As onze mulheres pareciam jovens
e imaginei que a maioria delas eram secretárias ou
auxiliares começando no seu primeiro emprego. A
atmosfera entre as pessoas naquela manhã era “gela­
da”. Em outras palavras, as mulheres não se conhe­
ciam e pareciam amedrontadas e tensas. Elas entraram
em silêncio e se sentaram ao redor de uma mesa
grande em forma de ferradura, mas ninguém falava a
não ser que alguém se dirigisse a ela. Se uma das
jovens tivesse algo a dizer, ela se debruçava e cobria a
boca com a mão para que as demais não ouvissem.

A Esperança do Café
Logo vi que havia uma única possibilidade de
nos manter despertos durante as duas horas seguintes,
e seria o diretor nos oferecer bastante café — era a
Todos Estão Fazendo Issol 37
nossa única esperança! E realmente, uma grande cafe­
teira se encontrava bem ali, numa mesa no canto.
Acho que a cafeteira não tinha sido ligada senão
alguns minutos antes e o café não estava ainda pron­
to. Todavia, era evidente que todas as onze mulheres
tinham o pensamento fixo naquela cafeteira, pois
toda vez que fazia um ruído, elas se voltavam para
olhá-la. Além disso havia biscoitos coloridos arranja­
dos sobre a mesa, e o aroma deles enchia o salão. Mas
ninguém os mencionou.
A encarregada da orientação foi para a frente
da sala e começou seu longo discurso. Ela falou com
uma voz monótona e seca, atacando o primeiro item
numa lista de 42. A’ mulher falou por mais de uma
hora, mas ainda assim nada foi dito sobre o café. As
rriulheres bocejavam com sono, e olhavam periodica­
mente para a cafeteira.
Finalmente, depois de uma apresentação inter­
minável, a dirigente disse: — Muito bem, vamos ter
agora um intervalo e tomar café. — Todavia, ela não
mandou as onze mulheres para a mesa do café ao
mesmo tempo. Em lugar disso ela achava que tinha
uma idéia melhor. Voltou-se para uma das moças no
fim da mesa e falou: — Você não quer ir até ali e
apanhar uma xícara de café?
Mas, aquela jovem era muito tímida e não esta­
va cçrta de querer ser a primeira a levantar-se. Ela
evidentemente sabia que existem muitas maneiras de a
pessoa ficar “ferida” ao fazer qualquer coisa na frente
de onze outras. Podia tropeçar no caminho para a
mesa, ou a torneirinha da cafeteira poderia enguiçar,
ou até mesmo seria possível derramar o café ao voltar
para a mesa. Observei-a enquanto olhava à sua volta e
considerava os riscos de aceitar aquele café. Num
momento baixou os olhos e disse: — Não, obrigada,
acho que não quero.
38 Adolescência Feliz
Eu sabia que ela queria uma xícara de café. 0
que planejava fazer, estava claro, era aguardar até que
todos tivessem ido à mesa do café, e então ela pode­
ría apanhar o seu sem qualquer risco! Dessa forma c
seu ego não estaria em perigo. Achei aquilo engraça­
do, mas fiquei a observá-la calado do lado oposto da
mesa.

O Terror do Café
A orientadora virou-se então para a moça se­
guinte: — Bem, e você? Quer tomar uma xícara de
café?
Mas, veja, a segunda moça estava enfrentando
todos os riscos da primeira, com uma adição. 0 grupo
tinha agora “falado” através daquele primeiro indiví­
duo e dito: “Não estamos tomando café hoje”. Ape­
nas um “voto” tinha sido lançado, mas fora unânime.
Esta pressão sobre a segunda candidata foi também
excessiva, e respondeu então: — Obrigada, não
quero. — Isso fez com que a votação fosse de dois a
zero!
0 convite para o café foi assim estendido para a
terceira moça. — Quer uma xícara de café? — per­
guntou a líder.
—Não, obrigada — respondeu ela.
A pressão tornou-se então enorme. Estava claro
que não se esperava que ninguém tomasse café ou
comesse biscoitos. Para minha surpresa todas as ou­
tras mulheres se recusaram, cada uma por sua vez.
Cada uma delas disse: — Não, obrigada — quando
chegou o seu turno de responder. Mas quando o
convite me foi feito, eu disse: — Acho que sim, vou
tomar uma xícara.
Você acredita que quando eu me levantei para
pegar o café, onze mulheres me seguiram até à mesa?
Todos Estão Fazendo Isso\ 39
Eu olhei por sobre o ombro e ali vinham elas. Como
um cavalheiro, achei que devia dar-lhes precedência, e
precisei esperar quinze minutos até chegar a minha
vez!
Não é surpreendente como temos medo uns
dos outros? Tememos até tomar uma xícara de café,
se isso não for socialmente aceitável em um dado
momento! Ficamos aterrorizados de que alguém se ria
de nós ou nos ridicularize, ou de que possamos come­
ter um erro na frente de outros. Até mesmo algo tão
insignificante como apanhar uma xícara de café pode
ser amedrontador se pensarmos que o restante do
grupo não quer que façamos isso. Isto nos faz limitar
nossos atos àquilo que é completamente seguro e
totalmente além do ridículo. Fazemos isso a fim de
eliminar a possibilidade de alguém rir de nós.

O Medo das Calças Largas


Esta pressão do conformismo é tão forte em
relação a algumas pessoas que elas se sentem embara­
çadas se forem diferentes em qualquer pronto. Se
calças largas estiverem na moda para os rapazes, coita­
do daquele que não receber a mensagem e usar calças
estreitas. Se uma garota andar de modo engraçado ou
tiver uma pronúncia defeituosa, podem rir dela a todo
o tempo. Se os carros Puma ou Fiat estiverem na
moda na escola, será melhor não comprar um Volks­
wagen. Isso seria um insulto para todos os alunos!
Veja bem, qualquer pequeno desvio, qualquer mudan­
ça naquilo que o grupo declara “é isto que fazemos”,
se transforma numa quebra de etiqueta. Eles apontam
o ofensor e falam desrespeitosamente dele, fazendo
com que se sinta terrivelmente embaraçado.
Quero que compreenda que esta pressão para
conformar-se entra no seu auge durante a adolescên­
40 Adolescência Feliz
cia. Ê essa a razão pela qual os adolescentes no geral
se movimentam em “rebanhos”, como as ovelhas,
como vamos ver.
O Jogo de Cartões
Um grupo de médicos decidiu conduzir uma
experiência para estudar a maneira como a pressão de
grupo influencia os jovens. A fim de realizar isto, eles
convidaram dez adolescentes para entrar numa sala e
lhes disseram que iam avaliar a sua “percepção” a fim
de saber quão bem cada aluno podia “ver” a frente
da sala do lugar que ocupava.
Na verdade todos os adolescentes estavam bem
próximos da frente da sala e podiam vê-la muito bem.
0 que os médicos estavam realmente estudando não
era a visão dos alunos, mas os efeitos da pressão de
grupo.
Disseram eles: — Vamos levantar alguns cartões
na frente da sala. Cada cartão contém três linhas —
Linha A, Linha B, Linha C - cada uma de compri­
mento diferente. Em alguns casos a Linha A será mais
longa; em outros, a Linha B, e em outros ainda a
Linha C. Várias dúzias de cartões serão mostrados
com as linhas em ordem diferente. Vamos levantá-los
e apontar para a Linha A, B, e C em cada cartão.
Quando apontarmos a linha mais longa, levantem a
mão para mostrar que sabem que é mais longa do que
as outras. Eles repetiram as instruções a fim de estar
certos de que todos tinham compreendido, e depois
levantaram o primeiro cartão e apontaram a primeira
linha.
0 Objetivo do Jogo
0 que um dos alunos não sabia é que os outros
Todos Estão Fazendo Isso! 41
nove tinham sido secretamente informados antes para
votarem na segunda linha mais longa. Em outras pala­
vras, tinham sido orientados para votar errado.
Os médicos levantaram o primeiro cartão e
apontaram para a Linha A, que era claramente mais
curta do que a B. Neste ponto, os nove alunos coope­
raram com o esquema e levantaram a mão. O rapaz
que estava sendo estudado olhou ao redor com incre­
dulidade. Era evidente que a Linha B era mais longa,
mas todos pareciam pensar que a A fosse mais’ com­
prida. Ele mais tarde admitiu que pensou: Acho que
não prestei atenção às instruções. Devo ter-me enga­
nado e é melhor fazer o que os outros estão fazendo
para que ninguém ria de mim. E ele levantou então
cuidadosamente a mão junto com o resto.
Os pesquisadores explicaram de novo: — Votem
para a linha mais longa; levante a mão quando indi­
carmos a linha mais longa.
Não podia ter sido mais simples! Eles levanta­
ram então um segundo cartão e, de novo, nove pes­
soas votaram errado! O rapaz confuso tornou-se mais
tenso em sua dificuldade, mas eventualmente veio a
levantar a mão com o grupo mais uma vez. Ele votou
repetidamente com o grupo, apesar de saber que
estavam errados.
Este jovem não é peculiar. De fato, mais de 75
por cento dos jovens testados se comportaram da
mesma maneira. Eles ficaram ali sentados, uma vez
após outra, repetindo que uma linha curta era maior
do que uma longal Simplesmente não tinham cora­
gem de dizer: 0 grupo está errado. Não sei explicar o
motivo, mas vocês estão confusos. Uma pequena por­
centagem — apenas 25 em 100 — teve a coragem de
contrariar o grupo, mesmo quando a maioria estava
evidentemente errada. É isto que a pressão do grupo
faz para uma pessoa insegura!
42 Adolescência Feliz
O Poder de Um Amigo
Uma outra característica muito interessante foi
revelada por este estudo. Se apenas mais um aluno
reconhecesse (votasse a favor) da linha correta, então
as chances seriam muito maiores de que o indivíduo
que estivesse sendo estudado também fizesse o que
achava certo. Isso significa que se você tiver pelo
menos um amigo que ficar a seu lado contra o grupo,
você provavelmente terá também mais coragem. Mas
quando está sozinho, é bastante difícil enfrentar a
situação.
Isto faz surgir uma questão interessante. Por
que a pressão social é tão grande durante a adolescên­
cia? Por que temos tanto medo de sermos rejeitados
pelo grupo? Por que devemos fazer o que nos é dito
por pessoas de nossa mesma idade? Por que não
podemos ser independentes? Bem, a resposta a essas
perguntas se reporta ao assunto da inferioridade.
Quando você se sente sem valor e tolo — quan­
do não gosta de si mesmo — fica então mais ame­
drontado pela ameaça do ridículo ou rejeição pelos
seus amigos. Você se torna mais sensível à possibilida­
de de que riam de sua pessoa. Falta-lhe a confiança
para ser diferente. Os seus problemas já lhe parecem
bastante graves sem precisar agravá-los desafiando a
vontade da maioria. Você então se veste da maneira
como dizem que deve vestir-se, fala como querem que
fale, e todas as suas idéias são aquelas do grupo. Você
fica com medo de pegar uma xícara de café, ou de
levantar a mão por aquilo que sabe que é certo, ou
de expressar qualquer de seus pontos de vista. Seu
grande desejo é comportar-se da maneira mais “segu­
ra” possível. Todos esses comportamentos têm uma
coisa em comum: eles resultam de sentimentos de
inferioridade!
Todos Estão Fazendo Issol 43
0 comediante Dean Martin disse certa vez: Mos­
tre-me um homem que não conhece o significado da
palavra “medo” e eu lhe mostrarei um estúpido que
está sempre apanhando! — Neste caso, porém, não é
medo de “apanhar”, mas medo de que o grupo o
rejeite — o medo de não ser convidado para uma
festa. . . de que não gostem de você. . . o medo do
fracasso.

Os Corais de Adolescentes
Se quiser confirmar a existência desta conformi­
dade, olhe à sua volta. Da próxima vez em que ouvir
um coro cantando em sua igreja ou na escola, obser­
ve atentamente os jovens que ah estão. Verá que
todas as meninas têm exatamente o mesmo penteado!
Se está na moda ter cabelo comprido e natural, então
todas as meninas usarão cabelo liso até os ombros.
Haverá poucas exceções. Talvez nenhuma delas tenha
coragem de fazer permanente. Por outro lado, se o
estilo popular for crespo, ou penteado para trás, to­
das as garotas irão parecer exatamente iguais. É evi­
dente que elas se esforçaram para ser como as amigas.
Cerca de um ano atrás um coro de adolescentes
estava cantando “O Hino da República” num concer­
to em Miami. Esse é um hino bastante arrebatador, e
é possível comover-se com ele enquanto cantamos:
“Glória, glória, aleluia! A sua verdade está em mar­
cha!” Havia mais ou menos sessenta jovens neste
coral; enquanto cantavam, uma das garotas na fila da
frente ficou tão emocionada que desmaiou. O diretor
viu-a cair, mas não quis estragar a representação e
continuou liderando o coral. Vários adultos se aproxi­
maram da mocinha inconsciente e a ajudaram a recu­
perar-se. Todavia, quando aquela jovenzinha des­
44 Adolescência Feliz
maiou, a possibilidade de fazer o mesmo ficou planta­
da em outras 59 cabeças impressionáveis.
Cerca de sessenta segundos mais tarde outro
jovem ficou branco, depois curvou-se, desaparecendo
da última fileira. Nesse ponto, a “sugestão” de des­
maiar ficou ainda mais forte. Cada cantor estava pen­
sando: — Será que vai acontecer comigo? Sinto-me
bem tonto!
De fato, um terceiro jovenzinho caiu no chão
com um baque. A coisa pegou então fogo. . . números
quatro, cinco e seis! Na ocasião em que o coro
chegou à frase final (“A sua verdade está em mar­
cha”) vinte jovens estavam deitados de costas! Isto é
o máximo de conformismo!

A Pressão do Conformismo
Esta pressão de grupo pode ser ainda mais ridí­
cula às vezes. Nós adultos recebemos orientação dos
anunciantes de TV de que precisamos ser exatamente
iguais. Somos advertidos, por exemplo, que o “cabeça
molhada está morto”. Isso significa que ninguém mais
usa óleo na cabeça, e se você usá-lo como fazia na
década de cinqüenta e sessenta, deve haver algo erra­
do em você.
Os que estão envelhecendo são levados a sentir-
se embaraçados por causa de sua idade. Não é tolo
isso? Há mais de quatro bilhões de pessoas nesta
terra, e cada um de nós está ficando mais velho. Não
há uma única pessoa na terra que não esteja envelhe­
cendo! (No momento em que você pára de envelhecer
está entrando em grandes dificuldades!)
Não obstante, os adultos são levados a sentir-se
inferiores com relação aos sinais normais do envelhe­
cimento. Esta grande pressão age para nos forçar em
Todos Estão Fazendo Isso! 45
blocos idênticos, transformando-os em robôs em lugar
de seres humanos.

Pense no Problema
Vamos pensar agora em algumas perguntas im­
portantes. Por que este assunto da conformidade será
importante para você entrar na adolescência? Você
pode ver qualquer razão por que a pressão dos seus
iguais pode ser perigosa? Você pode ver de que manei­
ra ela poderá envolvê-lo em dificuldades mais tarde?
Como o conformismo o afeta agora? Como ele impede
que faça o que é certo? Como pode interferir na sua
vida?
Aj-azão._pela_qual_o conformismo é tão perigoso
é_ pelo fato de. poder levá-lo_a fazer coisas que sabe
que são erradas^ £ isto que acontece quand’ò~võcê~nâo
tem_ coragem de ser difere_nte_dg seus amigos.

Você Sabe Dizer Não?


Suponhamos que você esteja num carro com
quatro outros jovens, cada um com cerca de quinze
anos. Vocês estão dirigindo à noite, procurando diver­
timento, quando o motorista põe a mão no bolso e
pega um frasco com algumas pílulas vermelhas. Ele
tira uma delas e a coloca na boca, entregando depois
o frasco para o garoto que está perto da porta. Este
ri e tira uma pílula antes de entregar o frasco a vocês
três que estão atrás. Você é o último a receber o
frasco e os seus quatro outros amigos tomaram as
pílulas.
Quando ele lhe é entregue, o que você vai
dizer? Você sabe que as cápsulas são chamadas de
46 Adolescência Feliz
“vermelhinhas” e que prejudicam muito o corpo. Vo­
cê não quer tomá-las, mas também não quer que riam
de você. Você hesita por um momento, o que faz
com que o garoto do lado diga: — O que há, mari-
cas? O que está acontecendo? Olhem, rapazes, temos
um filhinho de mamãe aqui. Ele tem medo que o
papai descubra. Quem teria pensado que o Joãozinho
era medroso! Vamos, Nenê, experimente, você vai
gostar!
Suas mãos tremem um pouco, e nota.que as
palmas estão úmidas. Então os outros garotos come­
çam também a caçoar, porque querem que faça o que
eles estão fazendo. A pressão é enorme. 0 seu cora­
ção bate forte. Você não sabe o que dizer. Sente-se
como um bobo. Talvez deva experimentar só desta
vez para ver como é. Isso provavelmente não irá
prejudicá-lo muito. E você então cede. Toma a pílula.
Que alívio ser de novo um dos rapazes.
Você verá que da próxima vez em que lhe
oferecerem drogas, será mais fácil aceitá-las porque já
fez isso antes. Então você fica habituado, e logo
estará seriamente viciado em narcóticos, tudo por
causa da pressão do conformismo. Isto explica a ra­
zão mais importante por que as drogas estão sendo
usadas por adolescentes todos os dias através do país.
Milhares de jovens estão permanentemente prejudican­
do o seu físico e sua vida desta forma. O corpo
humano é muito delicado. Ele pode ser facilmente
prejudicado de modo que por todo o resto da vida a
pessoa irá sofrer. Ou se o indivíduo toma uma “dose
excessiva” de drogas, ele pode na verdade suicidar-se
enquanto procura divertimento.
Falei com uma menina de treze anos há pouco
tempo que toma de dez a vinte pílulas por dia. O
corpo dela está tão prejudicado pelos narcóticos que
jamais poderá voltar a ser uma garota saúdável. Que
Todos Estão Fazendo Issol 47
vergonha destruir um corpo jovem dessa forma! Que
infelicidade ela não ter tido a coragem de responder à
pessoa que lhe ofereceu drogas pela primeira vez: —
Por que devo arruinar meu corpo? É o único que
tenho!
Outros comportamentos prejudiciais podem ser
traçados mediante sua ligação com o conformismo.
Por que você supõe que o alcoolismo entre adolescen­
tes seja um problema tão sério no país? Por que os
cigarros continuam a ser fumados pelos jovens, apesar
de eles saberem que ficou provado que o hábito
encurta a vida, contamina os pulmões, aumenta o
risco de câncer, e prejudica as artérias? Por que os
adolescentes pegam aquele primeiro cigarro e inspiram
o fumo sujo para dentro de seus pulmões rosados?
Tudo começa geralmente com um “amigo” oferecen­
do uma tragada a alguém que nunca fumou. Ele diz:
— Quer experimentar? — E, infelizmente, o não-fu-
mante não tem coragem de responder: — De jeito
nenhum!

A Coragem para Liderar


Será bom você pensar nessas coisas antes de
enfrentar uma crise com seus amigos. Reconheça o
fato de que eles estão sob o mesmo tipo de pressão
que você sente. Eles são tentados a tomar drogas,
fumar ou beber pela mesma razão que você — sim­
plesmente por temerem ser diferentes. Têm medo que
da próxima vez em que seu amigo tão admirado
(aquele que é dono do carro) decidir convidar alguns
rapazes para uma volta, ele não irá incluí-los por não
serem muito divertidos. E agem então como tolos,
fazendo algo absolutamente sem sentido.
Como será muito melhor mostrar que tem con­
fiança em si mesmo quando a pressão for maior.
48 Adolescência Feliz
Você pode dizer: Se vocês quiserem fazer algo malu­
co, tudo bem, mas eu acho que é estupidez! — Isso
não é ser criança, mas sim uma maneira de mostrar
que você tem a coragem de opor-se ao grupo quando
estão errados.
Vou contar-lhe outra coisa: a maioria dos ado­
lescentes respeita um garoto ou garota que tem a
coragem de ser ele mesmo, mesmo quando sujeito a
zombarias e caçoadas. A pessoa com este tipo de
autoconfiança freqüentemente se transforma em um
líder. Ele mostrou que não se sente tão inferior como
os demais. Ele não é feito de argila por dentro. Pelo
contrário, tem a coragem de defender aquilo que
considera certo.
Outra coisa: ele irá provavelmente influenciar
outros que estão procurando aquele amigo que irá
aumentar a sua confiança. (Lembra-se da experiência
com os cartões?) Ele podería ajudar uma outra pes­
soa a opor-se também à pressão dos seus iguais.

A Dor de Uma Deficiência


A pressão do conformismo não é só prejudicial
aos jovens que tomam drogas ou fumam ou bebem.
Ela é especialmente prejudicial para os adolescentes
que não podem ser como seus amigos. Na escola de
primeiro grau em que servi como conselheiro, por
exemplo, havia uma menina cega que não podia acei­
tar o fato de ser diferente dos demais alunos. A
maneira de ela encarar a cegueira era negando a sua
existência. Ela recusou a ajuda de uma professora
especial que tinha sido admitida para ajudá-la. Não
fazia o trabalho que a professora lhe dava, nem que­
ria falar com a especialista. Ela tentou até mesmo
andar sem o auxílio de sua bengala branca ou de um
cachorro especialmente treinado. Ela endireitava as
Todos Estão Fazendo Isso\ 49
costas e andava pela calçada da escola como se sou­
besse para onde estava indo. Certo dia eu a vi seguin­
do na direção errada, mas antes que chegasse até a ela
a menina foi direto para um poste. Mas mesmo assim
ela simplesmente se recusava a tatear, procurando
orientar-se. Veja você, essa mocinha infeliz não podia
simplesmente aceitar o fato de ser diferente dos estu­
dantes “comuns” e, em conseqüência, tinha um gran­
de sentimento de inferioridade.
Já vi crianças surdas que se recusam a usar
aparelhos que ajudam a audição, fazendo com que
possam ouvir e aprender na escola. Um aluno da
segunda série não queria usar “aquela coisa no ouvi­
do” para não parecer tolo. Ele removia o aparelho
tão logo saía de casa, apesar de ouvir muito pouco na
classe.
Conheço um menino de quatro anos cujos ócu­
los desapareceram dentro de casa. A família inteira
procurou por eles mas não conseguiram achá-los. Fi­
nalmente o garotinho confessou: — Mamãe, preciso
dizer uma coisa. — Ela perguntou: — O quê? — e ele
respondeu: —Posso achar meus óculos para você.
Eles foram para o quintal e ele os tirou de um
buraco no chão! Aquele menino de quatro anos tinha
enterrado os óculos porque eles o faziam sentir-se
diferente! Este é o embaraço sentido pelos que não
sabem conformar-se. Essas pessoas precisam de nossa
compreensão e bondade.

Um Menino Chamado “Orelhas de Pára-lama de Jipe”


Eu nem sempre fui sensível aos sentimentos das
crianças que não podiam ser como os demais. De
fato, tive de aprender a ser bondoso com os outros
em minha infância. Quando eu tinha nove anos fre-
50 Adolescência Feliz
qüentava uma escola dominical toda semana. Certo
domingo um menino novo chamado Frederico visitou
nossa classe. Eu não parei para pensar que ele pudesse
estar se sentindo embaraçado por ser um estranho em
nosso grupo, porque eu sabia que todos tinham ali
muitos amigos. Ele ficou sentado, olhando quieto
para o chão. Durante a aula notei que as orelhas de
Frederico eram muito estranhas. Tinham a forma de
um meio círculo, assim: 3 . Lembro-me de pensar
como elas se pareciam com o pára-lama de um jipe.
Você já viu os pára-lamas de um jipe, que cobrem os
pneus? De alguma forma comparei-os às orelhas do
garoto.
Fiz então um coisa muito maldosa. Contei a
todo mundo que Frederico tinha orelhas de “pára-
lama de jipe”, e meus amigos acharam isso muito
engraçado. Todos riram e começaram a chamá-lo de
“Orelhas de Pára-lama de Jipe”. Frederico parecia
estar aceitando muito bem a brincadeira. Ficou senta­
do com um pequeno sorriso no rosto (porque não
sabia o que dizer), mas a coisa o feriu profundamen­
te. De repente Frederico deixou de sorrir, ele pulou
da cadeira e correu para a porta, chorando, e foi
embora do prédio para nunca mais voltar. Não o
culpo. Nós nos comportamos viciosamente, e estou
certo de que Deus ficou bastante aborrecido, especial­
mente comigo.
O importante, porém, é compreender como eu
ignorava os sentimentos de Frederico naquele dia.
Quer creia ou não, eu não pretendia magoá-lo. Eu
não tinha idéia de que minha brincadeira o ferisse
tanto, e fiquei chocado quando ele foi embora. Lem­
bro-me de ter pensado sobre o que eu tinha feito
depois que ele saiu, e desejado não ter sido tão
maldoso.
Por que eu fui assim cruel com Frederico? Foi
porque ninguém me disse que as outras pessoas eram
Todos Estão Fazendo Issol 51
tão sensíveis às zombarias quanto eu. Eu pensava que
era o único que não gostava que rissem de mim. As
professoras de minhas muitas escolas dominicais deve­
ríam ter-me ensinado a respeitar e proteger os senti­
mentos alheios. Elas deveríam ter-me ajudado a ser
mais como Cristo.
É por isso que estou escrevendo estas palavras a
você hoje. Quero que saiba que os outros sentem o
mesmo que você. Ficam com o mesmo nó na gargan­
ta quando alguém zomba, e também choram quando
estão sozinhos. Você não tem o direito de fazê-los
sentir-se piores do que já se sentem, particularmente
alguém que tenha uma deficiência ou algo diferente
no corpo que o faça parecer esquisito ou estranho. Se
o nariz de uma pessoa é grande demais, ela já sabe
disso, portanto não fale a respeito de seu nariz. Se é
muito alta, muito baixa, gorda ou magra, não caçoe,
não lhe dê apelidos, não chame atenção para o ponto
em relação ao qual já é sensível, e não lhe dê quais­
quer outras razões para sentir-se mal. Ela já tem
problemas suficientes.

As Luvas de Todo Dia


Lembro-me de um aluno da 2A série cuja pro­
fessora procurou-me para ajudá-la a resolver um enig­
ma. Ela havia notado que José sempre usava luvas
grandes e grossas de couro na escola todos os dias,
mesmo nos dias mais quentes do ano ele não era visto
sem as luvas. José evidentemente não usava luvas para
aquecer as mãos. A professora fazia com que ele as
tirasse ao entrar na classe, como é natural, pois não
podia segurar o lápis com os dedos enluvados; mas no
momento em que José ia para o recreio ou nos
intervalos entre as aulas, ele colocava de novo as
luvas.
52 Adolescência Feliz
A professora de José não podia compreender a
razão de seu comportamento. Por que gostava tanto
daquelas luvas? Elas não eram novas nem caras; de
fato, estavam bem gastas e sujas. Mas ao falar comigo
sobre este problema, a professora de José casualmente
mencionou que ele era o único aluno negro numa
classe de crianças brancas. O comportamento de José
começou a fazer de repente sentido. Ele estava per­
turbado por ser diferente de seus amigos, como você
e eu ficaríamos.
Veja bem, quando José usava mangas compri­
das, calças compridas, sapatos e meias, a única parte
de sua pele que ele podia ver eram as suas mãos.
Usando as luvas, José não podia ver as suas mãos
negras! A sua pele negra não o fazia sentir-se inferior,
mas ele se sentia diferente por ser a única criança
negra na classe. Ficava embaraçado com a sua diferen­
ça e queria encobri-la.
Precisamos compreender amigos como José que
se sentem desajustados e inferiores. De fato, se real­
mente amarmos aos outros como a nós mesmos, ire­
mos dar tanto tempo e atenção para ajudá-los a evitar
o sofrimento e o ridículo como fazemos com a nossa
própria pessoa. Pensaremos neles com tanta frequên­
cia como pensamos em nós mesmos. Mostraremos
amizade pela pessoa que é um pouco diferente, ou
que é recém-chegada na escola, ou talvez um aluno
estrangeiro com um sotaque esquisito. A Bíblia diz
que quando você ajuda uma pessoa com esse tipo de
necessidade, é como se estivesse fazendo isso pelo
próprio Jesus! Mais do que qualquer outro conceito
este é o significado do cristianismo!

O Conformismo Visto por Deus


Isto nos leva de volta aos princípios bíblicos
Todos Estão Fazendo Issol 53
que devem guiar nosso comportamento em, virtual­
mente, toda área de nossa vida. As Escrituras falam
muito claramente sobre os perigos do conformismo.
Deus, em sua sabedoria, conhecia tudo sobre a pres­
são social que nos impede fazer o que é certo, e falou
com firmeza contra ela.
Romanos 12:2 adverte: “E não vos conformeis
com este século (em outras palavras, não permita que
o mundo o condicione a este molde), mas transfor­
mai-vos (se faça novo) pela renovação da vossa mente,
para que experimenteis qual seja a boa, agradável e
perfeita vontade de Deus.” Vamos ler agora o mesmo
trecho na versão do Novo Testamento Vivo: “Não
imitem a conduta e os costumes deste mundo, mas
seja, cada um, uma pessoa nova e diferente, mostran­
do uma sadia renovação em tudo quanto faz e pensa.
E assim vocês aprenderão, de experiência própria,
como os caminhos de Deus realmente satisfazem a
vocês.”
Outra passagem, 1 João 3:13, declara com mais
clareza ainda: “Irmãos, não vos maravilheis, se o mun­
do vos odeia.”
Fica evidente por esses versos (e muitos outros)
que Deus não quer que sigamos os caprichos do
mundo que nos rodeia. Ele espera que digamos a nós
mesmos: “Vou controlar meu comportamento, minha
mente, meu corpo e minha vida. Vou ser como meus
amigos nas coisas que não interessam, tais como usar
roupas na moda quando conveniente, mas no que se
refere à moral e à obediência a Deus, ao aprender na
escola e manter meu corpo limpo e sadio, não permi­
tirei que ninguém me diga o que fazer. Se quiserem
rir de mim, que riam. Ã graça não irá durar muito
tempo. Não vou permitir que nada me impeça de
viver como cristão. Em outras palavras, não vou con­
formar-me!”
54 Adolescência Feliz
A Coragem do Cristão
Espero que esta discussão vá ajudá-lo a prepa­
rar-se para enfrentar as pressões ao seu redor como
adolescente. Espero também que o impeça de pressio­
nar outros (tais como os deficientes) a fim de que
eles também possam sentir-se felizes e seguros. Isto
irá exigir coragem e confiança cristãs de sua parte.
Ouvi a história verídica de um jovem que era
um cristão muito corajoso. Depois de sair do colegial
ele entrou numa faculdade perto de sua casa. Durante
as primeiras semanas de aula, um professor ateu per­
guntou à classe se quaisquer dos alunos se considera­
vam cristãos. Estava .claro que o professor pretendia
embaraçar quem quer que levantasse a mão. O jovem
em questão olhou à sua volta e viu que nenhum dos
duzentos alunos iria admitir a sua fé. 0 que fazer?
Ele tinha de admitir que era cristão ou negá-lo, como
Pedro tinha feito quando Jesus estava para ser crucifi­
cado. Levantou de repente a mão e disse: — Sim, eu
sou cristão.
O professor fez com que se levantasse diante da
classe e exclamou: — Como pode ser tão estúpido
para acreditar que Deus tornou-se homem e viveu
aqui na terra? Isso é ridículo. Além de tudo, leio a
Bíblia e ela não me diz nada.
O jovem olhou diretamente para o professor e
respondeu: — Senhor, a Bíblia é a carta de Deus para
os cristãos. Se ô Sr. não a compreende é porque anda
lendo as cartas de outra pessoa!
Não foi uma resposta corajosa? (Essa é a espé­
cie de resposta em que sempre penso quando é tarde
demais.) O fato de você poder ou não pensar em
respostas inteligentes para dar aos incrédulos não tem
muita importância. O que realmente importa é prote­
ger a sua fé em Deus e estar disposto a ser indenti-
ficado com Ele.
Todos Estão Fazendo Issol 55
Quando você sair do colegial e for para a facul­
dade, algumas pessoas irão tentar fazer com que se sin­
ta tolo por viver como cristão. Quando isso acontecer,
espero que se lembre de nossa discussão sobre o
conformismo, sobre a pressão do grupo, e sobre o
mandamento do próprio Deus: “Não vos conformeis.”
ÍTRESTRES3TRÊSTRÊS'

Algo Extraordinário
Está Acontecendo
com Meu Corpo
Vamos voltar agora nossa atenção para outra
nova experiência que ocorrerá durante os anos de
adolescência. Estou certo que você já notou que os
adultos não são apenas maiores do que as crianças,
mas que seus corpos são diferentes dos garotos e
garotas. Eles são diferentes na forma e funcionam de
modo diverso. Para aqueles de vocês que têm entre
dez e treze anos de idade, quero discutir como os
seus corpos irão em breve passar por esta mudança
dramática da infância para a idade adulta. Os meus
leitores que já são adolescentes já terão experimenta­
do algumas das mudanças físicas que vamos apresen­
tar.

O Chefão Lá de Cima
0 processo do crescimento é algo interessante e
maravilhoso! Ele é controlado por um pequenino ór­
gão que fica próximo ao centro de seu cérebro cha­
mado glândula pituitdria. Este pequeno órgão tem o
tamanho de um feijãozinho, sendo porém chamado
de glândula-mestra porque ela dá ordens às demais
glândulas. Trata-se do “chefão lá de cima", e quando
Algo Extraordinário Está A contecendo 57
ela grita, o seu sistema glandular pula. Em algum
lugar dentro de sua própria glândula pituitária existe
um plano para o seu corpo. No momento exato ela
irá enviar mensageiros químicos, chamados hormô­
nios, que dirão ao resto das glândulas em seu corpo:
“Movam-se, é hora de crescer”. De fato, esses hormô­
nios terão grande importância para o seu corpo du­
rante os próximos anos de sua vida.
Existem várias razões pelas quais você deve
compreender este aspecto do desenvolvimento físico.
Primeiro, se não souber o que está para acontecer ao
seu corpo, poderá ser bem amedrontador quando tu­
do parecer descontrolado ao mesmo tempo. Não é
incomum o adolescente começar a preocupar-se consi­
go mesmo. Ele se pergunta: — 0 que está acontecen­
do? Será que estou doente? Será câncer? Terei
coragem para discutir o assunto com alguém? —
Esses são temores desnecessários que resultam da ig­
norância ou informação errada sobre o corpo. Quan­
do os jovens compreendem o processo, eles sabem
que tais mudanças representam acontecimentos nor­
mais e naturais que deveríam estar esperando. Vou
então contar-lhes exatamente o que podem esperar no
período inicial da adolescência. Não há absolutamente
razão para vocês ficarem ansiosos a respeito dessas
rápidas mudanças físicas.

O Preparo para a Paternidade ou Maternidade


O que você pode esperar que aconteça durante
o período inicial da adolescência e como isso terá
lugar? A mudança mais importante que você vai
notar é que seu corpo começará a preparar-se para a
função de pai ou mãe. Eu não disse que você vai ser
pai ou mãe (isso está muito distante com certeza),
mas que seu corpo está pronto para equiparar-se com
58 Adolescência Feliz
a capacidade de produzir ura filho. Esta é uma das
maiores mudanças que ocorrem durante este período.
O nome correto para esta época de despertamento
sexual é puberdade. (Você se lembra de ter lido no
primeiro capítulo sobre dirigir o seu “carro” através
de uma cidadezinha com esse nome?)

O Novo Corpo do Rapaz


Vamos discutir primeiro o que acontece com os
meninos, e depois falaremos das meninas. Durante a
puberdade, o menino começa a crescer muito rapida­
mente, mais depressa do que nunca antes. Seus mús­
culos se tornarão muito mais semelhantes ao do ho­
mem, e ele ficará mais forte, tendo também maior
coordenação motora. Essa é a razão pela qual um
rapaz do colegial é geralmente um atleta melhor do
que um outro da quinta ou sexta série, e o do ginásio
melhor do que o do primário.
Em segundo lugar, os pêlos no corpo do rapaz
começam a assemelhar-se mais aos do homem. Ele vai
notar um começo de barba no rosto, e terá de come­
çar a barbear-se de vez em quando. Os pêlos vão
crescer pela primeira vez debaixo do seu braço e
também na região chamada púbica (ou o que você
poderia chamar de área particular), ao redor dos ór­
gãos sexuais. Os órgãos sexuais por sua vez irão
crescer e tornar-se mais parecidos com os de um
homem adulto. Essas são evidências de que o rapazi­
nho está desaparecendo para sempre, e seu lugar será
tomado por um homem, capaz de se tornar pai e
cuidar de sua esposa e família. Esta fantástica trans­
formação me faz lembrar de algum modo de uma
lagarta, que tece um casulo ao redor de si mesma e
então, depois de algum tempo, surge uma criatura
completamente diferente — uma borboleta. Natural­
Algo Extraordinário Está Acontecendo 59
mente as mudanças em um rapaz não são assim com­
pletas, mas ele nunca mais será o mesmo depois de
passar por esse processo de amadurecimento (que é o
termo científico usado para o crescimento).
Mudanças Rápidas
Essas rápidas mudanças estão talvez bem próxi­
mas para muitos de vocês. 0 que é amedrontador
para alguns meninos é o fato de ocorrerem repentina­
mente, quase da noite para o dia. A glândula pituitá-
ria começa a fazer com que tudo entre em movimen­
to. Ela grita suas ordens para a direita e a esquerda, e
todo o seu corpo parèce que começa a correr interna­
mente, tentando cumprir essas ordens.
Tudo é afetado — até mesmo a sua voz se
modifica. Estou certo de que você já notou como a
voz de seu pai é mais grave do que a sua. Você já se
perguntou a razão disso? Ela sempre foi profunda e
áspera? Sempre se assemelhou a uma sereia de ne­
voeiro? Você pode imaginar seu pai num berço, de
criança dizendo “dá, dá” numa voz profunda? Natu­
ralmente que não. Ele não nasceu assim. A voz dele
mudou durante a puberdade, e é isso que vai aconte­
cer com a sua também. Todavia, a voz de um rapaz
adolescente é algumas vezes embaraçosa para ele até
que termine o seu processo de aprofundamento, por­
que ela não soa muito firme. Ele fala com voz esgani-
çada durante alguns meses. Mas, de novo, não é
preciso se preocupar, porque sua voz logo ficará pro­
funda e firme. É preciso algum tempo para completar
este desenvolvimento das cordas vocais.
Resolução dos Problemas de Pele
Como já afirmei, praticamente todas as partes
60 Adolescência Feliz
de seu corpo são afetadas de uma ou de outra forma
pela puberdade. Até mesmo a sua pele irá passar por
modificações importantes, quer você seja rapaz ou
garota. Este é na verdade provavelmente o mais in-
quietador aspecto de todos os que têm lugar no
início da adolescência. Um estudo de dois mil adoles­
centes continha a pergunta: —O que mais o aborrece
em você mesmo? — Os problemas de pele superaram
todas as demais respostas com larga margem.
As erupções de pele ocorrem primeiramente em
resultado de uma substância oleosa secretada durante
a adolescência. Os poros da pele tendem a encher-se
com este óleo e ficam entupidos. Como o óleo não
pode escapar, ele endurece ali e provoca espinhas ou
cravos. Você pode espèrar ter essas imperfeições de
pele por muitos anos, apesar de alguns casos serem
mais brandos do que outros.
Quando você fica cheio de espinhas e cravos,
essa condição é chamada de acne. Se isto acontecer,
será muito importante para você manter a pele limpa,
mantendo num ponto mínimo o óleo e a sujeira em
seu rosto. É também importante observar o que co­
me, desde que certos alimentos graxos podem contri­
buir para a dificuldade. Se o problema for severo,
você deve pedir a seus pais que o levem a um DER-
MATOLOGISTA, que é um médico especializado em
problemas de pele. Ele irá aconselhá-lo quanto ao
melhor método de tratamento.

0 Cansaço do Adolescente
Outro problema físico que ocorre tanto com os
meninos como com as meninas durante a puberdade,
é a fadiga, ou falta de energia. O seu corpo estará
investindo tantos de seus recursos no processo de
crescimento que lhe parecerá faltar energia para ou­
Algo Extraordinário Está Acontecendo 61
tras atividades durante um certo período de tempo.
Esta fase geralmente não dura muito. Todavia, esta
sensação de cansaço é algo que você deve esperar.
De fato, ela deverá influenciar seu comportamento de
duas maneiras.
Prijueiro, você deverá_dqnnir e descansar bas­
tante, durante o período de rápido crescimento físico.
Essa necessidade nem sempre é satisfeita, porém, por­
que os adolescentes acham que não devem mais ir
para da cama. tão cedo como quando eram crianças.
Assim sendo, ficam de pé até tarde e.se arrastam pelo
dia seguinte num estacíõ de exaustão.. Acredite ou
não, “uma pessoa de doze ou treze anos precisa na
verdade descansar mais do que quando tinha nove ou
qèzjãnõs,. simplesmente por causa da aceleração no
crescimento.
"Sé seus pais estiverem lendo este livro, gostaria
de sugerir que eles deixassem você dormir nas manhãs
de sábado, se possível. É geralmente difícil para os
pais permitirem que seu filho crescido durma até as
9h30 da manhã quando a grama precisa ser cortada.
Todavia, eles deveríam saber que ele está na cama
porque precisa de mais sono, e deveríam ser bastante
sábios para permitir que faça isso. Ele poderá então
cortar a grama quando acordar, com um sorriso de
gratidão no rosto!
Segundo, os alimentos que comer serão também
myito importantes durante a adolescência. O seu cor­
po jrrecisa da maténa_-pfima para cõnstruífiãquelas
novas células muiculares, ossõs~e fibras que estão noT
planos. Cachorrcf-quefitê, "Biscoitos e refrigerãnfêsltto-^j
servem. Será necessário que tenha uma dieta equili-
brada durante esse período; isso é muito mais impor­
tante. dn que quando tinha seis ou oito anos. Se não_
comer direito durante este período de crescimento,
irá pagar o preço ém' forma de doenças e vários
problemas físicos. O seu corpo precisa das vitaminas,
62 Adolescência Feliz
sais minerais e proteínas necessários para desenvolver-
se de várias maneiras.

A Beleza da Feminilidade
Vamos falar agora das muitas mudanças que as
meninas irão experimentar durante os anos de puber­
dade. 0 corpo da menina passa por mudanças ainda
mais complexas do que o do menino, porque precisa
preparar-se para a tarefa complicada da maternidade.
A maneira como o corpo da mulher funciona para
produzir a vida humana é um dos mecanismos mais
belos de todo o universo de Deus. Vamos observai
esse processo por um momento.
Toda a vida humana começa com uma peque­
nina célula, tão pequena que você não podería vê-la
sem um microscópio. Esta primeira célula da vida é
chamada de zigoto, que começa a dividir-se e a cres­
cer no útero da mãe.
O útero é um lugar especial localizado na parte
inferior do abdome, ou o que você podería chamar de
estômago; mas que na verdade não é o estomago,
ficando abaixo dele. 0 útero é uma bolsinha especial
que serve como ambiente perfeito para um embrião
que está crescendo e se desenvolvendo. (.Embrião é o
nome dado para um bebê em seus primeiros estágios
de desenvolvimento.)
Todas as necessidades do bebê no que se refere
a aquecimento, oxigênio e nutrição são constantemen­
te satisfeitas pelo corpo da mãe durante os nove
meses antes de seu nascimento. Qualquer problema
surgido nesses primeiros dias (nos três primeiros me­
ses especialmente), e a criança morrerá. O embrião é
extremamente delicado, e o corpo da mãe precisa
Algo Extraordinário Está A con tecendo 63
estar em boas condições físicas a fim de satisfazer as
exigências da criança que está crescendo.
De maneira a poder fazer isso, o corpo da
menina passa por muitas mudanças durante a puber­
dade. Um desses importantes desenvolvimentos é cha­
mado de menstruação, do qual você já ouviu certa­
mente falar. Este é um assunto que as meninas preci­
sarão compreender muito bem nos dias que virão.
Muitas escolas fornecem esta informação para as me­
ninas na quinta ou sexta série, e talvez õ que vou
dizer agora seja apenas uma recapitulação do que
você já ouviu antes. Todavia, acho que é importante
que os meninos também entendam este processo, ape­
sar de eles serem raramente informados adequadamen­
te sobre o mesmo.

A Vida em Crescimento
Quando a mulher fica grávida — isto é, quando
o zigoto de uma única célula é colocado no seu útero
depois de ter uma relação sexual com um homem — o
corpo dela começa a proteger esse embrião e a ajudá-
lo a crescer. Ele precisa ter oxigênio e alimento, assim
como muitos elementos químicos necessários para a
vida. As substâncias são automaticamente levadas ao
útero, através do sangue da mãe. Mas como o útero
não tem meios de saber quando uma nova vida vai ser
plantada nele, é preciso que se prepare para receber
um embrião todos os meses para o caso de isso
acontecer. Assim sendo, o sangue se acumula nas
paredes do útero a fim de nutrir o embrião se a
mulher ficar grávida. Mas se ela não ficar grávida
nesse mês, então o sangue uterino não é neces­
sário. Ele é assim libertado das paredes do útero
64 Adolescência Feliz
e flui através da vagina - essa abertura especial por
onde os bebês também nascem.
Cada 28 dias (este número varia um pouco de
pessoa para pessoa) o corpo da mulher se liberta
desse sangue desnecessário que teria sido usado para
nutrir o bebê se ela tivesse ficado grávida. Leva geral­
mente três a cinco dias parâ o fluxo parar, e durante
esse período eia usa uma espécie de protetor para
absolver o sangue. Este proceáso é chamado de mens­
truação.
Existem algumas atitudes muito importantes
que quero que você compreenda através desta discus­
são. Primeiro, a menstruação não é algo que as meni­
nas devam temer. Desde que o assunto de sangue nos
faz estremecer, algumas meninas ficam muito tensas
quando se inicia este processo para elas. Elas come­
çam a se preocupar e a detestar a sua aproximação, e
algumas gostariam que isso não acontecesse com elas
absolutamente. Mas, na verdade, a menstruação torna
possível o mais fantástico e intrigante acontecimento
que jamais podería ocorrer — a criação de um novo
ser humano. Que milagre para uma única célula, o
zigoto, dividir-se silenciosamente em duas, depois qua­
tro, oito, e dezesseis células e continuar a dividir-se
até que trilhões de novas células se formem! Um
pequenino coração vagarosamente surge no interior do
aglomerado de células, e começa a bater em sintonia
com o ritmo da vida. Depois aparecem os dedos dos
pés e das mãos, os olhos e as orelhas e todos os
órgãos internos. Um líquido especial (chamado fluido
amniótico) cerca o bebê a fim de protegê-lo de quais­
quer quedas ou ferimentos recebidos pela mãe. E ele
fica ali por nove meses, até que seja capaz de sobrevi­
ver no mundo exterior. Então, no momento exato, o
corpo da mãe começa a empurrar o bebê pelo canal
do nascimento (a vagina) e para as mãos do médico
que o esperam.
Algo Extraordinário Está Acontecendo 65
A Beleza do Plano de Deus
O mais belo aspecto deste sistema incrivelmente
complicado é que tudo opera automaticamente den­
tro do corpo da mulher. E quase como se o Arquite­
to Mestre, o próprio Deus, estivesse ao seu lado,
dizendo-lhe o que fazer em seguida. De fato, você
sabia que é justamente isto que acontece? 0 rei Davi
nos conta nos Salmos que Deus está presente durante
esta criação de uma nova vida. Vamos ler a descrição
desse acontecimento (Salmo 139:13-15):
Tu fizeste as delicadas partes internas do meu
corpo, e as ligaste uma às outras, quando eu ainda
estava no ventre de minha mãe. Muito obrigado por­
que Tu me fizeste tão maravilhosamente complexo!
Fico admirado quando penso nisso. O Teu trabalho é
maravilhoso, e eu bem o sei. Tu estavas lá enquanto eu
estava sendo formado em completo isolamento!
Salmos e Provérbios Vivos.

Deus não só supervisionou o desenvolvimento


de Davi no ventre de sua mãe (outra palavra para
útero), mas Ele fez a mesma coisa para você e para
mim! Ele também programou cada dia de nossas vidas
e registrou cada dia no seu livro. Esse é o pensamento
mais confortador que já conheci!
Veja então que a menstruação não é um aconte­
cimento desagradável que as garotas devam detestar.
Trata-se de um sinal que o corpo está se preparando
para colaborar com Deus na criação de uma nova
vida, se esse for o desejo dEle para uma determinada
mulher. A menstruação é a maneira como o corpo
avisa a menina que ela está crescendo. . . que não é
mais criança. . . e que algo de muito extraordinário
está acontecendo em seu interior.
66 Adolescência Feliz
Conheça os Fatos e Fique em Paz
Bem, meninas, por favor, não se preocupem
com este aspecto da sua saúde. Você não vai sangrar
até morrer, isso prometo. A menstruação é tão natu­
ral como comer ou dormir, ou qualquer dos outros
processos físicos. Se você acha que não é normal de
alguma forma — se está preocupada com algum aspec­
to da menstruação — se pensar que é diferente ou
que talvez algo esteja errado — se tiver dores quando
ela vier ou se tiver quaisquer dúvidas, crie então
coragem e fale com sua mãe ou com o seu médico ou
com alguém em quem tenha confiança. Em cerca de
98 casos de cada 100 dúvidas se mostrarão injustifica­
das. Você vai descobrir que é completamente normal,
e que a dificuldade estava na sua falta de entendimen­
to do niecanismo.

Outras Mudanças a Esperar


Agora, evidentemente, outras coisas começarão
a acontecer com o seu corpo juntamente com a
menstruação. Você provavelmente crescerá rapidamen­
te pouco antes da primeira menstruação. (Incidental-
mente, a média de idade para a primeira menstruação
é de cerca de doze e meio anos, mas ela pode ocorrer
desde os nove ou dez anos e também demorar até os
dezesseis ou dezessete. A idade varia muito de menina
para menina.)
Durante este período o seu corpo irá tornar-se
mais arredondado e curvilíneo como o de sua mãe.
Seus seios vão crescer, e podem ficar doloridos às
vezes (os meninos também sentem isto de vez em
quando). Isto não significa que você está com câncer
ou alguma outra doença, mas simplesmente que seus
seios estão mudando, como tudo o mais em seu
Algo Extraordinário Está Acontecendo 67
corpo. Irá crescer pêlo debaixo de seus braços, nas
pernas e na região púbica, como os meninos. Essas
são as transformações físicas mais evidentes que têm
lugar, e quando você perceber que isso está aconte­
cendo pode dizer adeus à infância — preparando-se
para correr a toda velocidade para a idade adulta!

A Ponte do Amadurecimento Tardio


Há um outro assunto importante que preciso
discutir côm os meninos e meninas. O seu caminho
para a idade adulta não passa apenas sobre o desfila­
deiro da inferioridadé, mas também cruza a ponte
trêmula do amadurecimento tardio. Estou falando da
sensação de ansiedade que ocorre quando uma pessoa
não cresce tão depressa quanto esperou, ou na mesma
medida que seus amigos. Essas mudanças da puberdade
que descreví podem ocorrer já aos nove ou dez anos
de idade ou mais tarde, aos dezessete ou dezoito
anos, mas cada menino e cada menina tem o seu
próprio calendário. Como já foi dito, a idade do
desenvolvimento é supervisada pela glândula pituitária
no cérebro, que tem tudo sob controle. Todavia, esses
calendários individuais causam bastante preocupação
desnecessária para aqueles que estão adiantados ou
atrasados em relação a seus amigos. A pubescência
não tem realmente um significado muito grande, mas
pode tornar-se uma fonte de grande preocupação.
Por exemplo, vamos supor que você é uma
menina de treze anos cujo corpo não começou ainda
a mudar. Você ainda se parece com a Menina do
Chapeuzinho Vermelho: nenhuma de suas característi­
cas adultas se manifestou ainda. Quando olha para as
outras garotas de sua classe, nota que algumas delas já
parecem mulheres. Elas usam sutiã, mas você clara­
mente não precisa de um.
68 Adolescência Feliz
Você começa então a se preocupar com o que
está acontecendo dentro do seu corpo. — Será que há
algo de errado comigo? Por que essas coisas não
aconteceram ainda em mim? — Então você faz 14
anos e nada muda. O seu corpo está ali sentado,
bocejando, e você começa realmente a preocupar-se.
Fica acordada à noite se perguntando se vai continuar
parecendo uma criança quando tiver 15 anos. Suas
amigas estão trocando idéias sobre menstruação, mas
você não pode participar da conversa porque nada
sabe a respeito. Você se sente diferente e esquisita, e
começa a ficar preocupada até sentir-se quase doente
de ansiedade.

Nada de Penugem
Ou suponhamos que você seja um garoto de 15
anos que tenha o mesmo problema. Você não é tão
forte quanto seus amigos, e como não teve ainda sua
explosão de crescimento é um dos meninos mais
baixos da sua classe. De fato, é mais baixo até do que
a maioria das meninas, porque estas começam a sua
pubescência antes dos garotos. Os outros estão come­
çando a barbear-se, mas você não tem sequer uma
penugem no rosto. Você pega o telefone para falar
com a telefonista, mas sua voz é tão alta que ela
pensa que você é mulher, e diz: “Pois não, senhora”.
Este pode ser o pior insulto que alguém já lhe fez.
0 mais penoso de tudo, entretanto, é que os
outros rapazinhos já notaram que você é ainda meni­
no e começam a zombar. Quando vocês estão no
vestiário eles lhe dão apelidos e caçoam porque você
não tem pêlos púbicos ou porque ainda é baixinho e
magricela.
0 que você vai fazer se isso acontecer nos
próximos anos? Vai entrar em depressão? Vai cerrar
Algo Extraordinário Está Acontecendo 69
os dentes, roer as unhas e morder a língua? Espero
que isso não seja necessário na sua vida.

Não Há Nada de Errado com Você


Quero fazer uma sugestão para aqueles de vocês
que vão crescer um pouco mais tarde do que os
amigos. A coisa principal a lembrar é que não há
nada de errado com você. É tão saudável crescer mais
tarde como mais cedo, e não há razão para pensar
que nunca vai amadurecer. Fique sossegado por um
ano ou dois e então os fogos de artifício começarão a
explodir para você, como acontece com todo mundo!
Posso prometer-lhe que é isso que vai acontecer. Se
não acredita em mim, lance um olhar para todos os
adultos ao seu redor. Você vê algum que pareça uma
criança? Claro que não. Todo mundo cresce mais
cedo ou mais tarde.
Não é certamente agradável ouvir a zombaria
dos amigos, mas se você souber que vai ser diferente
apenas por algum tampo, talvez possa suportá-la. 0
mais importante é que não faça alguém sentir-se mal
a respeito de si mesmo se acontecer que você cresça
antes dessa pessoa!

O Apetite Sexual
Quando seu corpo começar a modificar-se você
vai notar que está mais interessado nas pessoas do
sexo oposto. De repente as meninas parecem ótimas
aos meninos e estes começam a ser atraentes para
elas. Como sei que isto vai acontecer? Como posso
prever isso com tanta exatidão? Porque o sexo logo
irá tomar-se um “apetite” dentro de você. Se não
tomou café pela manhã, posso prever que estará fa­
70 Adolescência Feliz
minto às duas da tarde. O seu corpo pedirá comida.
Ele foi feito assim. Existem elementos químicos em
seu corpo que irão fazer com que tenha fome quando
não tiver comido.
Da mesma maneira, alguns novos elementos quí­
micos em seu corpo vão começar a desenvolver um
novo apetite quando estiver entre os doze e os quinze
anos de idade. Não se trata de uma ânsia de alimento,
mas envolve o assunto chamado sexo, ou o aspecto
masculino e feminino de sua natureza. A cada ano, à
medida que cresce, este apetite itá tornar-se mais e
mais uma parte de você. Você gostará de passar cada
vez mais tempo com alguém do sexo oposto. Este
desejo pode levá-lo eventualmente ao casamento. 0
casamento é uma união maravilhosa para aqueles que
encontram a pessoa certa. Todavia, deixe-me oferecer
uma palavra de aviso quanto a esse assunto.
Um dos maiores erros que você pode cometer é
casar-se cedo défmís'.'Tsso podè~ser1rágicu7~Qliero
enfatizar esse ponto em sua mente. O casamento de
duas pessoas que não estão preparadas podè~sêrjjnf^
desastre, mas isto infelizmente acontece com muita
freqüência. Vou falar mais a este respeito num cap£_
tulo posterior, mas aconselho que você não se case
até pelo menos vinte anos de idade. A metade dos
casamentos entre adolescentes se dissolve dentro de
cinco anos, causando muitas lágrimas e probleiftasr-
Não quero que o seu seja um desses lares desfeitos.

Garotas Bonitas e Rapazes Fascinantes


Quero descrever agora o sentimento que o sexo
vai trazer nos próximos anos. Os meninos vão ficar
muito interessados no corpo das garotas —a maneira
como são feitos, suas curvas e suavidade, e nos seus
bonitos olhos e cabelos. Até mesmo os seus pés
Algo Extraordinário Está Acontecendo 71
femininos podem atrair os meninos nessa época. Se
você é um rapazinho, é muito provável que pense
com freqüência nessas criaturas fascinantes chamadas
meninas, que você costumava odiar tanto! De fato, o
apetite sexual é mais forte nos rapazes entre 16 e 18
anos do que em qualquer outra idade.
As garotas, por sua vez, não ficarão tão interes­
sadas na forma e aparência do corpo do rapaz (apesar
de achar isso interessante). Elas ficarão mais fascina­
das pelo rapaz em si — a maneira como ele fala,
como anda, como pensa. Se você é menina irá prova­
velmente “apaixonar-se” por um garoto após outro.
(A “paixão” ocorre quando você começa a pensar
que uma determinada pessoa é absolutamente fantás­
tica, e você fantasia com relação à possibilidade de vir
a casar-se com ela. Não é incomum apaixonar-se por
um professor, pastor ou homem mais velho. As “pai-
xonites” mudam constantemente, duram apenas algu­
mas semanas ou meses antes de uma outra tomar o
seu lugar.)
Fala Gara sobre o Sexo
Temos de falar agora muito claramente sobre o
assunto da relação sexual. Lembre-se do que eu lhe
disse no começo deste livro. Vou tratá-lo como
adulto e não. deixarei de lado nenhum assunto que
possa ser de importância para você. Assim sendo, é
preciso que compreenda como é importante o relacio­
namento sexual entre o homem e a mulher.
Relação sexual é o nome dado ao ato que tem
lugar quando o homem e a mulher tiram toda a
roupa (geralmente na cama) e o órgão sexual do
homem (o seu pênis) se torna duro e reto. Ele coloca
o pênis na vagina da mulher enquanto fica deitado
entre as pernas dela. Eles se movimentam, para den­
72 Adolescência Feliz
tro e para fora, até que ambos tenham uma sensação
muito agradável que dura um minuto ou dois. Trata-
se de uma experiência muito satisfatória, que os mari­
dos e esposas fazem regularmente. Você provavelmen­
te já sabe a respeito da relação sexual como a descre-
vi. Mas você sabia que o homem e a mulher não têm
relações apenas para fazer um bebê? Eles agem assim
para expressar o seu amor mútuo e porque gostam de
fazer isso, pois dessa maneira satisfazem um ao outro.
Eles podem ter relações sexuais duas ou três vezes
por semana, ou talvez apenas uma vez por mês; cada
casal é diferente. Mas esta é uma parte agradável do
casamento, e algo que torna o marido e a esposa
muito especiais um para o outro. Este é um ato que
guardam apenas para os dois.

O Dom do Sexo Dado por Deus


Este apetite pelo sexo é algo que Deus criou em
você. Quero enfatizar muito este ponto. O sexo não é
sujo nem mau. Nada criado por Deus poderia jamais
ser sujo. O desejo do sexo foi idéia de Deus —e não
nossa. Ele colocou em nós esta parte de nossa nature­
za; Ele criou esses elementos químicos (hormônios)
que tornam o sexo oposto atraente para nós. Ele fez
isso a fim de desejarmos ter uma família própria. Sem
este desejo não havería casamento, nem filhos, nem
amor entre o homem e a mulher. O sexo não é então
uma coisa suja de modo algum; é um mecanismo
maravilhoso e belo, não importa o que você possa ter
ouvido a respeito.
Todavia, devo dizer-lhe também que Deus quer
que controlemos esse desejo da relação sexual. Ele
afirmou repetidamente na Bíblia que devemos guardar
nosso corpo para aquela com quem eventualmente
nos casaremos, e que é errado satisfazer nosso apetite
Algo Extraordinário Está Acontecendo 73
pelo sexo com um rapaz ou garota antes de nos
casarmos. Não há outra maneira de interpretar a men­
sagem bíblica. Alguns de seus amigos podem dizer
que não é assim. Você pode ouvir o Joaquim, a
Susana ou o Paulo contarem como exploraram o
corpo do outro. Eles lhe dirão como isso foi excitan­
te e tentarão fazer com que você também experimen­
te isso.

Decida Agora
Vamos falar mais pessoalmente. É muito prová­
vel que você tenha "uma oportunidade de ter uma
relação sexual antes de chegar aos vinte anos. Mais
cedo ou mais tarde vai ter essa oportunidade. Você
vai estar com uma pessoa do sexo oposto que lhe fará
saber que está disposta a permitir que você tenha essa
experiência. Você terá de decidir o que vai fazer
quando esse momento chegar. Provavelmente não terá
tempo de pensar quando ele ocorrer de repente. Meu
conselho é que você decida agora guardar o seu corpo
para aquele que será eventualmente o seu companhei­
ro permanente. Se você não controlar este desejo,
desejará mais tarde que o tivesse feito.

Doenças Venéreas
O mandamento de Deus para que evitemos as
relações sexuais antes do casamento não foi dado a
fim de impedir nosso prazer. Ele não quis tirar o
prazer da nossa vida. Pelo contrário, foi na verdade o
seu amor que O fez proibir as relações pré-maritais,
porque tantas coisas prejudiciais ocorrem quando vo­
cê se recusa a obedecer-lhe.
Você provavelmente já ouviu falar de doenças
74 Adolescência Feliz
venéreas, que são causadas pelo fato de ter relações
com alguém que pegou a moléstia de um outro porta­
dor. A sífilis, a gonorréia, e outras doenças estão
muito difundidas hoje. Está havendo uma epidemia
dessas moléstias e elas têm um efeito prejudicial sobre
o corpo se não forem tratadas. Mas existem outras
conseqüências para os que praticam o sexo fora do
casamento. Eles correm o risco de trazer um filho
não desejado para o mundo através desse ato. Quando
isso ocorre, enfrentam então a responsabilidade de
criar um ser humano —uma pequena vida com toda a
sua necessidade de amor e disciplina e da estabilidade
de um lar —mas não têm meios de cuidar dele ou de
satisfazer suas necessidades. Isso é trágico.

O Pecado da Impureza
f Mas quando a pessoa tem relações sexuais fora
do casamento as mudanças que se fazem sentir em
sua mente são igualmente muito sérias. Primeiro, e
\ mais importante, sua comunhão com Deus é sacrifica­
da. 0 sexo pré-marital é pecado, e não se pode ser
I amigo de Deus se continuarmos a pecar deliberada-
mente. 1 João 1:6 diz: “Portanto, se dissermos que
somos amigos dele e continuarmos a viver na escuri­
dão espiritual e no pecado, estamos mentindo” (O Novo
Testamento Vivo). É simples assim. Além do mais, nada
pode ser oculto de Deus, como sabe, porque Ele vê
ytudo.
O pecado tem sempre um efeito destrutivo so­
bre o jovem. Mas eu creio que o pecado do sexo
pré-conjugal é especialmente prejudicial para a pessoa
que o pratica. Ele ou ela perde a inocência da juven­
tude e algumas vezes se torna uma pessoa dura e fria.
É também provável que isso venha a afetar o seu
casamento mais tarde, porque essa experiência espe-
Algo Extraordinário Está Acontecendo 75
ciai que deveria ter sido partilhada com uma só pes­
soa não é mais tão especial. Mais do que uma pessoa
já teve a sua parte.
Como vê, existem muitas razões óbvias porque
Deus nos disse para controlarmos nossos desejos se­
xuais. O que quero dizer é que Deus nos ordenou que
não praticássemos o sexo antes do casamento a fim
de poupar-nos esses muitos outros efeitos deste peca­
do. De fato, a pior conseqüência é uma que ainda
não mencionei, relativa ao juízo de Deus na vida
futura. A Bíblia nos diz muito claramente que nossas
vidas serão expostas diante dEle, e Ele conhecerá todo
o segredo. Nosso destino eterno depende na verdade
da nossa fé em Deus e nossa obediência a Ele.

Auto-Estimulação
Vamos falar agora de um assunto relacionado
que se chama masturbação. Isto é algo que você pode
ter ouvido de seus amigos. Caso negativo, ouvirá logo
mais. A masturbação é o ato de esfregar os seus
próprios órgãos sexuais a fim de obter aquela mesma
sensação agradável que teria se estivesse participando
de uma relação. A maioria dos rapazes faz isto na
adolescência, assim como muitas das garotas.
Muitos rumores cercam este ato — histórias
amedrontadoras do que acontece para os que o prati­
cam. Algumas pessoas dizem que a masturbação pode
deixar você louco. Outros dizem que pode impedir
que tenha filho mais tarde. Outros ainda afirmam que
ficará fraco e doente. Você pode ouvir toda sorte de
avisos drásticos sobre as conseqüências da masturba­
ção. Posso dizer-lhe desde já que nenhuma dessas
histórias é verdadeira. São todas falsas. Se a masturba­
ção tornasse loucas as pessoas, havería muito mais
loucos no mundo do que há agora!
76 Adolescência Feliz
Entretanto, o tema da masturbação é muito
controvertido. Os cristãos têm opiniões diferentes so­
bre como Deus encara este ato. Infelizmente, não
posso falar diretamente pôr Deus neste caso, desde
que a sua Palavra Sagrada, a Bíblia, silencia a respei­
to. Vou contar-lhe no que eu acredito, apesar de não
querer contrariar o que seus pais ou seu pastor acredi­
tam. Em minha opinião Deus não se incomoda muito
com o ato da masturbação. Trata-se de uma parte
normal da adolescência que não envolve ninguém
mais. Ela não provoca doenças, não produz bebês, e
Jesus não fez qualquer menção a ela na Bíblia. Não
estou querendo induzi-lo a masturbar-se, e espero que
não sinta necessidade disso. Mas se assim for, é minha
opinião que não deve sentir-se excessivamente culpa­
do a respeito.
Por que lhe digo isto? Porque tenho contato
com tantos jovens cristãos que sentem um terrível
complexo de culpa por masturbar-se; eles querem
parar e não conseguem. Eu gostaria de ajudar você a
evitar essa agonia. O melhor que posso fazer é sugerir
que fale pessoalmente com Deus sobre isso e decida o
que Ele quer que faça. Deixo o assunto entre você e
Deus.

Emissões Noturnas
Outra coisa que preocupa os rapazes durante a
adolescência é a ocorrência de “sonhos molhados”.
Os médicos dão a isso o nome de emissões noturnas,
referindo-se ao fluido que sai ocasionalmente do pênis
do rapaz à noite. Esse fluido é chamado sêmen e
contém milhares de células tão pequenas que você
não pode vê-las sequer. Uma dessas células podería
transformar-se em uma criança se fosse injetada numa
mulher e se combinasse com a sua célula-ovo, forman­
Algo Extraordinário Está Acontecendo 77
do o zigoto de que falamos antes. Este sêmen é
algumas vezes liberado durante um sonho à noite: o
jovem encontra a mancha em seu pijama no dia
seguinte e começa a preocupar-se com o que está
acontecendo. Esta ocorrência é entretanto perfeita-
mente normal, acontecendo com quase todos os jo­
vens e não deve causar alarme. Uma emissão noturna
é apenas a maneira como o seu corpo se liberta do
fluido extra que se acumulou.

A Questão do Medo
Você já notou quantas vezes eu disse nesta
seção: “Não há nada com que se preocupar; é normal;
não se alarme”? A razão de querer tranqüilizá-lo é a
seguinte: a maioria dos jovens fica amedrontada com
o seu próprio desenvolvimento sexual. Como afirmei
em meu livro “Ouse Disciplinar” (Dare to Discipline),
os adolescentes se preocupam bastante com as seguin­
tes perguntas durante a parte inicial da puberdade:
1. Todas essas coisas devem mesmo acontecer?
2. Há algo errado comigo?
3. Tenho alguma doença ou anormalidade?
4. Vou ser diferente dos outros?
5. Esta dor que sinto no Seio significa que
tenho câncèr? (Lembre-se de que mencionei que os
seios algumas vezes doem durante a adolescência.)
6. Poderei ter relações sexuais ou haverá algo
errado comigo?
7. Os meninos rirão de mim? As meninas irão
rejeitar-me? (É muito comum para as pessoas acha­
rem que não serão atraentes para o sexo oposto e que
ninguém irá querê-las porque não são tão bonitas
como gostariam de ser.)
78 Adolescência Feliz
8. Deus vai me castigar pelos pensamentos so­
bre sexo que tenho? (Já lhe disse que você provavel­
mente pensará muito no sexo oposto durante esses
anos. Quando isto acontecer poderá sentir-se culpado
pelos pensamentos que tiver.)
9. Não seria terrível se eu viesse a ser um
homossexual? (O homossexual é aquele que não se
sente atraído pelo sexo oposto, mas pelo mesmo
sexo. E o interesse do rapaz por um outro rapaz, ou
de uma garota por outra garota.-A homossexualidade
é um desejo anormal que reflete problemas profun­
dos, mas não acontece com freqüência e não é prová­
vel que aconteça com você.)
10. Será que posso ficar grávida sem manter
uma relação sexual? (Esta é outra possibilidade que
algumas meninas temem — ficar grávida sem ter tido
uma relação sexual. Quero que saiba que isto nunca
acontece, trata-se de uma impossibilidade. Tal coisa
ocorreu apenas uma vez na história e foi quando a
virgem Maria, mãe de Jesus, ficou grávida sem ter
tido relações sexuais. Jesus foi concebido ou plantado
em seu útero pelo próprio Deus. Essa foi a única vez
na história da humanidade que um ser humano nas­
ceu sem que o pai tenha feito a sua parte, fornecendo
a metade da célula que compõe o zigoto.)
11. Algumas pessoas deixam de amadurecer se­
xualmente? (Qualquer sistema do corpo pode deixar
de funcionar normalmente, mas este raramente falha).
12. Minha modéstia será sacrificada? (É co­
mum durante o período inicial da adolescência que
você se torne extremamente modesto com relação ao
seu corpo. Você sabe que ele está mudando e não
quer que ninguém o veja. Assim sendo, poderá preo­
cupar-se com a idéia de ir ao médico e ter de tirar a
roupa na frente de outras pessoas.)
Algo Extraordinário Está Acontecendo 79
Não É Preciso Ter Medo
Deixe que diga mais uma vez: esses temores são
quase universais durante os primeiros anos da adoles­
cência. Quase todo mundo que está crescendo na
nossa cultura se preocupa e fica ansioso com relação,
ao sexo. Quero ajudá-lo a superar esses sentimentos.
O seu desenvolvimento sexual é uma ocorrência co­
mum que está sendo controlada no interior do seu
corpo. Tudo acabará bem, e você pode então relaxar
e deixar que as coisas corram por si mesmas. Todavia,
você terá de controlar os seus desejos sexuais nos
anos futuros, e isso exige determinação e força de
vontade. Mas se aprender a canalizar seus impulsos
sexuais da maneira que Deus quer, esta parte da sua
natureza pode ser um dos aspectos mais fascinantes e
maravilhosos de sua vida, talvez contribuindo para um
casamento feliz e cheio de êxito no futuro.
Q UATR04Q UATR0

Acho Que Estou


Amando
É muito comum hoje em dia ouvir alguém falar
que “está amando” outra pessoa. Mas você já parou
para pensar o que essas palavras realmente signifi­
cam? Que mudanças têm lugar na mente dos homens
e mulheres que começam a amar? Como podem eles
saber que esse amor é sincero? Será que podem estar
enganados, pensando que estão “amando” quando
não estão? O que é necessário para manter vivo esse
amor?
Você pode responder a essas perguntas sobre o
significado do amor? A maior parte dos jovens não
consegue. De fato, existe uma grande confusão entre
os adolescentes sobre este assunto importante. Acredi­
to que a grande porcentagem de divórcios ou separa­
ções em nosso país resulte, em parte, da falha dos
recém-casados em compreenderem o que é amor, o
que ele não é, e como classificar as suas emoções.
Este assunto de amor romântico pode não inte­
ressá-lo muito agora. Você pode até achar que é meio
tolo. Todavia, a não ser que seja uma pessoa muito
incomum, é provável que se torne extremamente
atraído por membros do sexo oposto nos anos que
vão seguir-se. E, à medida que ficar mais velho, a
Acho Que Estou Amando 81
possibilidade do casamento vai apresentar-se. As meni­
nas geralmente começam a pensar em casar-se antes
dos meninos, mas mais cedo ou mais tarde os rapazes
passam a ter a mesma idéia.

O Êxtase do Amor
A maior parte das pessoas a partir dos vinte
anos (ou antes) começa a buscar o ser humano perfei­
to com quem partilhar o resto de sua vida. Quando
encontram alguém que pareça enquadrar-se nessa des­
crição geral, eles caem de cabeça no mais puro êxtase.
Não há qualquer outro sentimento no mundo que se
iguale a esse. Os dois mal podem tirar os olhos um do
outro e querem ficar juntos o dia inteiro. Passam as
horas passeando nos parques, andando na chuva e
sentados de olhos nos olhos. Eles até mesmo invadem
o sonho um do outro à noite. Podem acreditar quan­
do digo que “amar” é uma experiência emocionante.
Eu sei disso — passei por ela centenas de vezes!
Esta exaltação ao amor romântico é tão cativan­
te que leva naturalmente à questão do casamento.
Um casal nessa situação parece raciocinar: — Se este
sentimento é tão bom, por que não passarmos a vida
inteira juntos? —E eles começam a fazer planos para
o casamento. Marcam a data, chamam o ministro e
encomendam as flores. Finalmente chega o grande dia,
com a noiva nervosa e o noivo confuso. A mãe da
noiva chora durante a cerimônia e o pai está pálido e
tenso. A pequena dama de honra se recusa a descer
pela nave e a irmã do noivo canta com voz dramática
uma canção sobre o amor eterno. Mas, de alguma
forma, o casal diz “Sim”, e o pregador os pronuncia
“marido e mulher”. Eles então marcham pela nave,
cada um mostrando 32 dentes, ao encaminhar-se para
a sala de recepção.
82 Adolescência Feliz
Há ruído e alegria e beijos para a noiva enquan­
to as pessoas fazem fila para oferecer seus cumpri­
mentos e votos de felicidade para os novos Sr. e Sra.
Eles comem os amendoins, engolem o bolo e falam
de seus próprios casamentos. Finalmente os noivos
saem correndo da igreja debaixo de uma chuva de
arroz e confete, e vão embora a fim de começar uma
nova vida. Ao partir, ouvem a voz da irmã do noivo
cantando: —“Eles apenas começaram...”
Até aí, tudo bem. Todos parecem felizes e
satisfeitos. Mas para esse casal sorridente há dificulda­
des à vista. Quase a partir do primeiro dia de sua
lua-de-mel alguma coisa muda no relacionamento de­
les. Aquela tremenda excitação e entusiasmo parece
murchar um pouco. 0 casamento em si toma um
novo aspecto. Em lugar de ser algo que esperavam
poder alcançar se tivessem sorte, ele agora se transfor­
ma num envolvimento para a vida inteira que fez
surgir uma armadilha no sentido contrário. Eles ficam
a perguntar-se silenciosamente se era realmente o que
queriam, ou se talvez tomaram uma decisão apressa­
da. Vêm-lhes à mente a idéia penosa de que talvez
tivessem cometido o maior erro de sua vida.

Arranhaduras e Unhadas
O terceiro dia da lua-de-mel traz a primeira
briga verdadeira. O casal discordou sobre onde deve­
ríam jantar e quanto dinheiro gastariam. Ela queria
comer num restaurante romântico e ele achava que
deveríam comprar um hambúrguer na esquina. Foi
um argumento pequeno, mas trocaram algumas pala­
vras ásperas que estragaram ainda mais os sentimentos
românticos com que tinham começado. Eles aprende­
ríam a ferir mais profundamente um ao outro nos
meses que se seguiríam.
Acho Que Estou Amando 83
Estavam em casa há apenas uma semana depois
da lua-de-mel quando ocorreu a primeira grande bata­
lha. Insultos foram lançados de um para o outro
como projéteis nucleares. Ambos estavam feridos e
ressentidos e se seguiram períodos de silêncio gelado.
0 marido saiu de casa por duas horas e a esposa
chamou a mãe. Desde então até o amargo fim vemos
duas pessoas extremamente infelizes e sofredoras que
derramam lágrimas antes de dormir. E o que é pior,
podem ter produzido um outro membro da família
nessa altura.. . um pequenino ser desdentado que
precisa ter as fraldas mudadas a cada 45 minutos.
Esse ente irá crescer num lar desfeito e jamais enten­
derá muito bem “porque o papai não mora mais
aqui”.

A Tragédia da Separação
Como é evidente, esta descrição pessimista do
casamento não é correta em todos os casos, mas
acontece com excessiva freqüência. 0 percentual de
divórcios nos Estados Unidos é mais alto do que em
qualquer outro país civilizado no mundo inteiro. De
fato, sabe-se que 50 por cento de todos os casamen­
tos de adolescentes acaba em divórcio nos primeiros
cinco anos\ Que porcentagem tragicamente alta! Isto
significa que metade de todas as pessoas que julgam
“estar amando” — as que estavam tremendamente
excitadas uma com a outra — rapidamente se decep­
cionaram, tornando-se amargas, infelizes, alquebradas.
E devemos perguntar-nos: “Por quê? ” Por que isto
está acontecendo? Como todas essas pessoas se enga­
naram? 0 que fez com que a chama do amor tremesse
e se apagasse? Como a sua afeição mútua se transfor­
mou em ódio, ira e conflito tão depressa? Essas
perguntas são extremamente importantes para você,
84 Adolescência Feliz
se quiser evitar um desastre na sua vida. Para respon­
dê-las temos de examinar mais de perto o significado
do amor romântico.

As Crenças sobre o Amor


Começaremos nosso estudo avaliando quão bem
você já compreende este conceito de amor conjugal.
Preparei um pequeno teste para medir o seu conheci­
mento e crenças quanto a este importante assunto.
Sugiro que tome uma folha de papel e a numere de 1
a 10. Responda então às seguintes questões colocando
as palavras Verdadeiro ou Falso em cada uma.
-1. Creio que o “amor à primeira vista”
acontece entre certas pessoas.
•2. Creio que é facil distinguir o verdadeiro
amor da paixão.
-3. Creio que as pessoas que se amam since­
ramente não brigam nem discutem.
4. Creio que Deus escolhe uma determina­
da pessoa para cada um de nós se casar,
e que Ele nos orientará a ambos.
■ 5. Creio que se um homem e uma mulher
amam sinceramente um ao outro as difi­
culdades e perturbações terão pouco ou
nenhum efeito sobre o seu relacionamen­
to.
6. Creio que é melhor casar com a pessoa
errada do que permanecer solteiro e soli­
tário a vida inteira.
A cho Que Estou A mando 85
------------ 7. Creio que não é prejudicial nem pecami­
noso ter relações sexuais antes do casa­
mento se o casal tiver um relacionamen­
to significativo.
------------8. Creio que se o casal se amar sinceramen­
te, essa condição será permanente e du-'
rará a vida inteira.
ç '
------------9. Creio que um noivado rápido, de seis me­
ses ou menos, é melhor.
-----------10. Creio que os adolescentes são mais capa­
zes de amor sincero do que as pessoas
mais velhas.

Respostas às Perguntas
O teste que você acabou de fazer não pretende
ser uma análise altamente científica. De fato, algumas
pessoas poderíam ter até mesmo opiniões diferentes
sobre as respostas certas para cada item. Todavia,
quero dar-lhe o meu ponto de vista sobre as dez
perguntas e as explicações subjacentes.

Amor Instantâneo?
Pergunta Número 1: “Creio que o amor à pri­
meira vista pode ocorrer entre certas pessoas.”
Há pessoas que acreditam que o amor românti­
co ocasionalmente atinge dois estranhos como um
relâmpago no momento em que se vêem pela primeira
vez. Ali estão eles, andando pela calçada ou sentados
na igreja, e Zappo! Seus olhos se arregalam, seus
86 Adolescência Feliz
ouvidos zumbem, os dedos dos pés se enroscam, e
eles “estão amando”.
Detesto parecer pouco sentimental, mas essa
espécie de amor instantâneo é uma impossibilidade.
Você não pode amar alguém a quem não conhece,
alguém que é um completo estranho. Não posso negar
que alguns sentimentos muito fortes podem ocorrer
na primeira vez em que veja um determinado membro
do sexo oposto. Ele é simpático (ou ela é bonita) e
você gosta dos seus olhos e do som de sua voz, assim
como da confiança que demonstra. Tudo é atraente
na pessoa dele, e você sente uma poderosa atração.
Você pode pensar então que está amando, que você o
amou desde o primeiro momento em que estiveram
juntos. Mas na verdade você se apaixonou pela ima­
gem dele — você nem sequer conhece a pessoa real.
Você não conhece os seus pensamentos, hábitos, espe­
ranças, temores, planos, habilidades ou maneiras. Vo­
cê não pode então dizer que ama aquela pessoa total
quando só encontrou a sua concha externa.

Confusão na Música
Muitas canções para jovens mostram que os
autores não conheciam a diferença entre o amor sin­
cero e os sentimentos temporários descritos acima.
Uma canção popular, por exemplo, contém esta frase:
“Antes que a dança acabasse eu já te amava.” Veja
bem, isso não é amor! Durante o curso da dança
aquele jovem simplesmente teve alguns pensamentos
agradáveis e achou que de alguma forma tinha escor­
regado para o romance durante a segunda estrofe!
Mas, cuidado: qualquer sentimento que chega durante
uma dança pode desaparecer na seguinte.
Outro compositor escreveu isto: “Não sabia o
que fazer, e então sussurrei: Eu te amo”. Não é
Acho Que Estou Amando 87
fantástico? A idéia de formular um compromisso
para a vida inteira com base numa confusão mental me
parece meio tola. Mas é isso que freqüentemente
acontece. Surge um momento embaraçoso entre um
rapaz e uma garota, e ele se sente inseguro, dizendo
então: “Eü te amo”. A namorada estremece e pensa:
“Fantástico! Este garoto está se apaixonando por
mim!” Ela então retribuiu o cumprimento e eles
seguem estrada a fora em direção ao desastre.
A Família Dó-Ré-Mi gravou uma canção que
declarava: “Levantei-me cheio de amor esta manhã e
fui dormir pensando em você.” Está errado de novo.
0 cantor tinha se apaixonado enquanto dormia. Não
é interessante? Você está vendo como esta espécie de
amor nada mais é do que uma condição mental? Ele
veio durante a noite e pode também ir-se embora
durante a noite.
Existem dezenas de exemplos mostrando confu­
são sobre o amor na música jovem de hoje. Todavia,
a que tem o meu voto pela letra mais tola do século
era muito popular na década de sessenta. Essa canção
era cantada por um conjunto “rock” chamado “The
Doors”. Eles gravaram um número intitulado: “Alô,
eu te amo, por favor me diga o seu nome!” Poderá
alguém explicar como é possível amar uma pessoa a
respeito de quem você não sabe absolutamente nada!
Que tolice!

“Como Pode Estar Errado Quando Parece Tão Cer­


to? ”
Quero repetir que o sentimento de excitação
romântica pode ocorrer instantaneamente entre um
homem e uma mulher, como aconteceu com os com­
positores das músicas acima mencionadas. Além do
mais, esses sentimentos podem algumas vezes levar
88 Adolescência Feliz
gradualmente ao amor sincero sobre o qual um bom
casamento pode basear-se. Na maioria dos casos, po­
rém, este entusiasmo momentâneo estará morto e
enterrado em doze meses. Essa a razão pela qual é
perigoso tomar quaisquer decisões de longo alcance
apoiado em uma emoção temporária.
Debbie Boone gravou certa vez uma canção
muito popular denominada “Você Ilumina a Minha
Vida”, na qual foi incluída a frase: “Como pode estar
errado quando parece tão certo?” Infelizmente, eu
poderia mostrar a ela muitas pessoas divorciadas que
pareciam antes felicíssimas com o relacionamento que
agora as amargura. Algumas foram enganadas pelo
“amor à primeira vista”.

Amor Verdadeiro ou Paixão


Pergunta Número 2: “Creio que é facil distinguir
o verdadeiro amor da paixão.”
Espero que você tenha marcado este item “fal­
so”, porque não é decididamente exato. A explosão
emocional que ocorre durante a paixão torna difícil
pensar claramente sobre qualquer coisa. Trata-se de
uma das experiências humanas mais excitantes, sendo
mais fantástica do que uma volta na montanha russa
ou uma viagem à Disneylândia! Algum dia você saberá
o que quero dizer. Quando acontecer com você, po­
rém, existem dois fatos importantes sobre a paixão
que deveria lembrar.
Primeiro, o namoro ou paixão é altamente
egoísta. Deixe-me explicar oferecendo um exemplo.
Quando eu estava na faculdade muitos anos atrás,
meus pais viajavam durante o ano inteiro, e eu não
tinha para onde ir quando a escola não funcionava.
Durante os meses de verão, especialmentè, eu tinha
Acho Que Estou Amando 89
de ficar no dormitório da escola enquanto os outros
estudantes iam para casa visitar os pais. Eu geralmen­
te conseguia um emprego perto e voltava do trabalho
toda noite para o meu quarto aborrecido e silencioso.
Outros dois rapazes também ficavam no dormitório
mas eu não os conhecia muito bem. E em vista disso
passava no geral um verão muito solitário naqueles
dias.
Como pode imaginar, eu começava a me sentir
excitado perto do fim de agosto a cada ano, anteci­
pando a volta de meus amigos em setembro. Eles
finalmente chegavam e o velho dormitório estremecia
de novo com os risos e o ruído da turma. Aqueles
eram grandes dias. Mas eu ficava ainda mais ansioso
por as garotas voltarem para a escola. Eu não tivera
um encontro desde maio, e não podia esperar para
que elas voltassem às classes. Dessa forma, eu estava
maduro para o amor em cada outono. Eu me apaixo­
nava por alguém.. . qualquer uma. .. no dia 12 de
setembro de cada ano. Não havia dúvidas sobre esse
acontecimento — a mesma coisa ocorreu quatro anos
seguidos. Cada setembro meu mundo virava de cabeça
para baixo: eu não podia dormir, não podia comer,
não podia estudar. (De fato, o estudo era o primeiro
que ficava para trás!) Era sem dúvida um aconteci­
mento emocionante, tão previsível como o Dia de
Ação de Graças ou o Natal.
Você está vendo como o meu “amor” era egoís­
ta a cada setembro? Eu dizia a meus amigos: —Nem
posso acreditar como isto é fantástico. Nunca me
senti assim antes. Esta foi a melhor coisa que já me
aconteceu. — Não há dúvidas, eu não me apaixonava
por uma menina, mas me apaixonava pelo amorl A
jovem por quem eu estava “caído” era simplesmente
um. prêmio a ser alcançado. . . um objeto a ser captu­
rado. Ela era geralmente esquecida e substituída no
janeiro seguinte.
90 Adolescência Feliz
0 amor verdadeiro é muito diferente desta pai
xão temporária. Pelo contrário, ele se concentra em
outro ser humano. Traz consigo um desejo profun­
do de tornar essa pessoa feliz. .. satisfazer as suas
necessidades e seus desejos, proteger os seus interes­
ses. O amor sincero é melhor descrito como sendo
generoso em todos os seus aspectos, mesmo que seja
exigido um sacrifício pessoal no relacionamento.

Paixão de Curta Duração


0 segundo fato sobre a paixão que você deve
conhecer é que ela nunca dura muito. Se há uma
mensagem neste capítulo que é mais importante do
que todas as demais é justamente esta! Deixe-me
repetir: aquele sentimento de excitação entre dois
novos “amantes” jamais dura a vida inteira. Ele não
pode durar simplesmente porque as emoções humanas
estão constantemente mudando. Mesmo quando as
pessoas se amam sinceramente, há períodos de grande
intimidade, outros quando não sentem nada um pelo
outro, e outros ainda em que se mostram irritados e
queixosos. As emoções são assim, mudando regular­
mente de baixo para cima, de cima para baixo. (Vol­
taremos a este ponto mais tarde.) Assim sendo, é
impossível para o casal manter aquele pico de intensi­
dade em que a sua relação começou.
Por que é tão importante compreender a natureza
temporária do amor romântico dos primeiros anos? Por­
que alguns jovens mergulham rapidamente no casamen­
to, antes que suas emoções tenham mesmo apresentado
o primeiro sinal de apatia. Eles estão ainda na primeira
“febre” no dia do casamento, lnfelizmente, porém,
recebem um grande choque durante os meses (ou
dias) que se seguem quando acordam certa manhã
sem aquele sentimento excitante em seu íntimo. É
Acho Que Estou Amando 91
sábio compreender que a “febre” áo amor pode facil­
mente transformar-se numa erupção nos meses seguin­
tes.
É surpreendente ver que cada um dos tristonhos
casais que eventualmente comparecem perante o juiz
nas cortes de divórcio acreditavam piamente que esta­
vam “apaixonados” no início. Eles nem sempre odia­
vam a pessoa com quem se tinham casado. Houve um
tempo em que a sua felicidade parecia acima de
qualquer perturbação ou dificuldade. Mas os seus sen­
timentos positivos desapareceram como a neve num
dia quente, derretendo e correndo para a saijeta.

Qual a Diferença?
Mesmo para aqueles que sabem que a paixão é
egoísta e temporária, é possível confundi-la com o
amor verdadeiro. Como então poderão saber qual a
diferença entre essas duas “condições”? Como inter­
pretar os seus próprios sentimentos? Como evitar um
erro desastroso?
Em minha opinião, só há um meio de distinguir
o amor “paixão” da coisa real: dê tempo para que
possa testar as suas emoções. Você irá gradualmente
compreender a sua mente e saber o que é melhor
para a outra pessoa. Quanto tempo leva este proces­
so? Ele difere de pessoa para pessoa, mas em geral,
quanto mais jovem você é, tanto mais deve esperar.
Como afirmei antes, é minha opinião que os adoles­
centes não devem casar-se até que cheguem aos vinte
anos, e mesmo assim se tiverem namorado durante
pelo menos dois anos. Esta recomendação não é ofe­
recida com nenhum propósito particular nem para
impor os desejos dos pais sobre os jovens. Pelo contrá­
rio, ela é feita para ajudar a evitar os dolorosos divór­
92 Adolescência Feliz
cios que ferem tão profundamente tantos jovens hoje
em dia.

Sem Brigas?
Pergunta Número 3: “Creio que as pessoas que
se amam sinceramente não brigam nem discutem.’’
A resposta a este terceiro item pode surpreen­
dê-lo. (De fato, a pessoa comum erra pelo menos três
ou quatro dessas dez perguntas sobre o amor.) A de­
claração acima é falsa. As pessoas que se amam since­
ramente também têm opiniões diferentes. Elas discor­
dam. Ficam irritadas. Brigam e discutem em certas
ocasiões.
Quero descrever uma cena comum que traz con­
flito entre um marido e esposa que se amam. 0 pai
chega em casa depois de um dia difícil no escritório.
Ele estaciona o carro na garagem e entra cansado em
casa. A esposa o encontra na porta e ela também está
cansada. Os filhos a enervaram o dia todo. Ela conta
ao marido que a máquina de lavar roupa quebrou e o
chão está inundado. Sobre a mesa está uma pilha de
contas a pagar que a família ainda não pôde pagar.
Tanto o pai como a mãe estão nervosos e irritados.
Nessas circunstâncias é bem fácil para as pessoas que
se amam sinceramente descobrir-se discutindo e bri­
gando. Além disso, há diferenças honestas de opinião
sobre assuntos importantes. Eles podem discordar so­
bre como gastar o dinheiro, que igreja freqüentar e
muitos outros pontos que os dividem. Mas mesmo em
meio a esses conflitos é ainda possível que continuem
a amar-se profundamente.
Quero enfatizar ainda mais. Vi pouquíssimos ca­
samentos que sejam tão harmoniosos e estáveis que
marido e mulher não tenham esse tipo de desavença.
Acho Que Estou Amando 93
Você pode esperar algum conflito em seu casamento
mesmo que ame profundamente seu companheiro.
Posso predizer mais especificamente que o primeiro
ano de casamento serão os doze meses mais difíceis
de sua primeira década juntos. Esse vai ser um perío­
do de ajuste; você terá de decidir como o seu casa­
mento vai funcionar, quem vai gastar seu dinheiro e
para onde ir nas férias. Essas coisas poderão inflamar
suas emoções e dar lugar a alguns conflitos sérios em
seu lar.

Trabalhe nas Suas Diferenças


Se isto ocorrer, não pense que o seu casamento
está condenado, ou que cometeu necessariamente um
grande erro. 0 que significa é que ambos precisam
transigir e buscar soluções para os problemas. Essa é a
diferença entre um bom e um mau casamento. Am­
bos têm os seus momentos de luta, mas num relacio­
namento sadio o marido e a mulher buscam respostas
e pontos de acordo porque eles se amam sinceramen­
te.
0 que é então um “mau” casamento? É aquele
em que cada cônjuge ama a si mesmo mais do que à
outra pessoa, onde atitudes como esta ficam à esprei­
ta na mente: “casei-me com você porque pensei que
você seria bom para mim”, ou “casei-me com você
porque queria alguém que me ajudasse a cuidar da
minha casa”, ou “casei-me com você porque pensei
que iria ganhar muito dinheiro para mim”. Veja
bem, quando o casamento acontece por causa de
razões egoístas, então os argumentos rotineiros se
tornam mais sérios. Eles não mais refletem diferenças
de opinião, mas se tornam lutas de morte. Cada um
tenta ferir o outro, que se tornou um inimigo feroz.
94 Adolescência Feliz
Sonhos de Casamento
Pergunta Número 4: “Creio que Deus escolhe
uma determinada pessoa para cada um de nós se
casar, e que Ele nos orientará a ambos.”
Tenho grande fé em Deus, e creio que todas as
decisões importantes da vida devem ser precedidas de
oração e pedidos de orientação divina. Nosso Pai
celestial, em resposta, é muito misericordioso e cheio
de amor para com os que buscam a sua ajuda; Ele
revelará a sua vontade e irá influenciar todas as deci­
sões importantes. Não obstante, a resposta para a
Pergunta n.° 4 é “falso”. De fato, os que acreditam
que Deus automaticamente coloca as pessoas certas
juntas estão cometendo um erro trágico de julgamento.
Eles podem pensar que a primeira pessoa por quem
venham a se apaixonar é o companheiro enviado pelo
Senhor, e lá se vão para quarenta anos de conflito.
Nunca me esquecerei do infeliz sujeito que con­
tou que acordou no meio da noite devido a um
sonho poderoso, onde alguém lhe parecia dizer: “Ca­
se-se com Susana”. Rafael não tinha orado pedindo a
orientação de Deus, mas ele pensou que esta ordem
viera diretamente dEle. No dia seguinte ele telefonou
para Susana (com quem se encontrara apenas duas ou
três vezes) e lhe disse: “Deus me falou para casar com
você!” Susana achou que não devia discutir com o
Todo-Poderoso e aceitou. O casamento deles tem sido
terrivelmente infeliz, parecendo um erro do ponto de
vista humano. Nenhum dos dois acredita agora que
Deus falou realmente com Rafael no meio da noite,
mas que os próprios sentimentos dele o enganaram.
Deixe-me enfatizar que é extremamente impor­
tante para você escolher com cuidado o seu cônjuge.
0 Senhor lhe deu bom senso, e Ele espera que faça uso
dele ao tomar decisões. É possível, em minha opinião,
A cho Que Estou A mando 95
amar a Jesus e ser um bom cristão, mas mesmo assim
tomar uma decisão apressada e casar-se com a pessoa
errada. Deus não fica sentado no céu com uma lista de
nomes, dizendo: “Vamos ver, vou pegar o João e
colocá-lo junto com a Nanci”. Em outras palavras,
nosso Pai celestial não opera uma agência de casamen­
tos para os que chamam pelo seu nome!
Antes de estabelecer um plano de casamento,
sugiro que você leve o assunto ao Senhor em oração.
Peça-lhe para orientá-lo nessa decisão de importância
vital. Estou certo de que atenderá o seu pedido. Mas
esta espécie de oração é semelhante àquela em que
você pede a Deus para curar uma doença. Só pelo
fato de ser cristão isso não significa que jamais ficará
doente. Deus pode curar sua moléstia se você lhe
pedir (e se for da vontade dEle fazer isso), mas Ele
não tem a obrigação de ajudá-lo se você não lhe
pedir.

Dificuldades Agradáveis?
Pergunta Número 5: “Creio que se um homem
e uma mulher amam sinceramente um ao outro as
dificuldades e perturbações terão pouco ou nenhum
efeito sobre o seu relacionamento.”
A resposta é de novo “falso”. 0 amor é como a
vida — ele é deücado e frágil. Pode ser quebrado,
esmagado e arruinado. A morte de um membro da
família, a doença, ou a pobreza podem prejudicar
sèveramente um relacionamento de amor sincero.
Faço parte do quadro de um hospital infantil
onde acontecimentos muito trágicos ocorrem todos os
dias. Vejo criancinhas muito doentes e sofrendo. Vejo
meninos e meninas que têm câncer, moléstias do
coração e várias deformidades. Alguns estão morren-
96 Adolescência Feliz
do, outros têm cérebros que não funcionam normal­
mente, e outros ainda nasceram com estranhas ano­
malias físicas. Esses problemas freqüentemente fazem
com que os pais se sintam culpados, apesar de não
terem responsabilidade pelas doenças. Algumas vezes
o sentimento de culpa por ter uma criança doente é
tão prejudicial que o lar pode ser destruído por causa
disso. Este é apenas um exemplo de como um relacio­
namento de amor pode ser afetado pelas circunstân­
cias e ambiente da pessoa.
Alguém disse: “o amor supera tudo”. Isso nem
sempre é verdade. É importante saber que você preci­
sa trabalhar para manter vivo o amor; você tem de
protegê-lo e mantê-lo como o faria com uma flor
delicada. Este ponto é tão importante que quero
voltar a ele novamente.

Espere se For Preciso


Pergunta Número 6: “Creio que é melhor casar
com a pessoa errada do que permanecer solteiro e
solitário a vida inteira.”
Mais uma vez a resposta certa é “falso”. Penso
que é muito melhor estar continuando a procurar a
pessoa certa do que envolver-se num mau casamento,
mesmo que ficar solteiro signifique sentir-se solitário.
É uma bênção maravilhosa para um homem e
uma mulher estarem casados e felizes, gozando da
amizade um do outro e talvez criando um ou dois
filhos. Deus, porém, não planejou isto para todos. 0
apóstolo Paulo disse mesmo que é melhor para algu­
mas pessoas não se casarem, especialmente os que são
chamados a aceitar pesadas responsabilidades no tra­
balho cristão. Assim sendo, é insensato procurar o
casamento a todo custo.
Acho Que Estou Amando 97
As pessoas que temem não se casar, estão algu­
mas vezes dispostas a aceitar qualquer convite que
lhes seja feito, mesmo que venha de alguém a quem
não amem. Isso pode ser trágico. É muito melhor
permanecer solteiro do que passar a vida lutando e
discutindo com um companheiro quando você não
deveria ter casado em primeiro lugar.

Sexo Antes do Casamento?


Pergunta Número 7: “Creio que não é prejudi­
cial nem pecaminoso ter relações sexuais antes do
casamento se o casal tiver um relacionamento signifi­
cativo.”
Espero certamente que você já saiba que a de­
claração acima é absolutamente falsa. Não obstante,
muitas pessoas em nossa sociedade decidiram que as
velhas regras não mais se aplicam. “Tudo mudou”,
dizem elas, “existe agora uma nova moral. Não há
nada de errado em manter relações sexuais —explorar
o corpo de uma pessoa do sexo oposto — desde que
ambos pareçam gostar um do outro.” Esta é a mais
perigosa de todas as idéias sobre o amor, porque tem
conseqüências terríveis.
O ponto de vista divino sobre o sexo fora do
casamento é perfeitamente claro. Se você é cristão e
acredita que a Bíblia é o guia para a sua vida diária,
não pode haver dúvidas sobre o que é certo ou
errado. Vamos ler diretamente no Novo Testamento
Vivo:
Honrem o seu casamento e os seus respectivos votos; e
sejam puros (o casamento é uma promessa de fidelidade
a uma pessoa por toda a vida. Deus espera que honre­
mos esse compromisso, não apenas depois do casamen­
to, mas antes); porque Deus sem falta castigará a
98 Adolescência Feliz
todos os que são imorais ou cometem adultério (He-
breus 13:4).
Esta mesma mensagem aparece repetidamente
através de toda a Bíblia, sendo evidentemente o que
Deus quer para a nossa vida. Considere o seguinte
conselho dado pelo rei Salomão, um dos homens mais
brilhantes que já viveram:
Um dia, eu estava olhando pela janela de minha casa,
e vi um moço sem compreensão, um jovem sem bom
senso, andando ao longo da rua, na direção da casa de
uma jovem volúvel, uma prostituta, já no fim do dia.
Ela chegou perto dele, atrevida e ousada, com roupas
sedutoras. Era do tipo impetuoso e vulgar, que se vê
muito nas ruas e nas feiras, procurando homens em
cada esquina para serem seus amantes.
Cercou-o com seus braços, deu-lhe beijos, e com um
olhar atrevido disse: “Resolvi fazer as pazes com você!
Estava vindo à sua procura quando você apareceu!
Minha cama está com lençóis bonitos, coloridos, fei­
tos de finíssimo linho importado do Egito, perfuma­
dos com mirra, aloés e canela. Venha, vamos nos saciar
com amor até de manhã, pois meu marido saiu para
uma longa viagem. Levou consigo uma certeira bem
cheia de dinheiro, porque vai ficar viajando durante
muitos dias”.
Assim a moça o seduziu com suas palavras bonitas,
adulando e atraindo com jeito, até que ele cedesse.
Ele não pôde resistir sua adulação. Seguiu-a como o boi
que vai para o matadouro, ou o veado que caiu numa
armadilha, esperando ser morto por um tiro no cora­
ção. Ele estava como um pássaro que entra numa
armadilha, sem saber o que o aguarda ali.
Escutem-me jovens, e além de ouvir, obedeçam. Não
deixem que seus desejos se descontrolem; não fiquem
pensando nela; não cheguem perto dela; fiquem longe
do lugar em que ela passeia, para que ela não venha
tentá-los e seduzi-los. Pois ela tem sido a ruína de
multidões — muitos homens têm sido vítima dela. Se
você quiser descobrir o caminho para o inferno, pro­
cure a casa dela” (Provérbios 7:6-27 —Salmos e Provér­
bios Vivos).
A cho Que Estou A mando 99
Apesar de parecer que Salomão estava advertin­
do apenas os homens para não serem imorais, isto
não é verdade. As leis de Deus se aplicam igualmente
a homens e mulheres, e são destinadas a beneficiar-
nos. O Senhor não faz restrições sem sentido a fim de
interferir em nosso prazer de felicidade. Ao contrário,
Ele nos advertiu contra certos comportamentos que
nos prejudicarão e às pessoas que nos cercam. Li
ainda hoje estes versículos do Salmo 19:
As leis de Deus são perfeitas. Elas nos protegem e nos
fazem sábios; dão-nos alegria e luz... Pois elas nos
previnem contra a prática do mal e fazem triunfar
aqueles que lhes obedecem (Salmo 19:7,8,11 —Salmos
e Provérbios Vivos).
Não acredite nos incrédulos que lhe dizem que
as “velhas regras” foram superadas. As instruções
de Deus jamais ficarão fora de moda, e faríamos bem
em segui-las em tudo.
Quero apresentar mais uma Escritura que men­
ciona essas instruções eternas do Senhor:
Portanto, fora com as coisas pecaminosas e terrenas;
abafem os desejos malignos que estão à espreita dentro
de vocês; não se metam em pecado sexual, impureza,
imoralidade e desejos vergonhosos; não adorem as coi­
sas boas desta vida, pois isso é idolatria. A ira terrível de
Deus está sobre aqueles que fazem tais coisas. Vocês
costumavam fazê-las quando sua vida ainda era parte
deste mundo; entretanto, agora é o momento de ar­
rancar e lançar fora todas essas roupas apodrecidas da
ira, o ódio, a blasfêmia e as palavras obscenas.
Não mintam uns aos outros; a vida velha que vocês
levavam, com toda a sua perversidade, é que fazia essa
espécie de coisas: agora ela está morta e desapareceu.
Vocês estão vivendo uma espécie de vida totalmente
nova, que consiste em estar continuamente aprenden­
do cada vez mais o que é correto, e procurando cons­
tantemente ser cada vez mais semelhantes a Cristo, que
criou esta vida nova no íntimo de vocês. Nesta vida
100 Adolescência Feliz
não impoita a nacionalidade, a raça, a educação ou a
posição social de alguém; estas coisas não significam
nada. O que importa é se a pessoa tem Cristo ou não,
e Ele é igualmente acessível a todos.
Visto que vocês foram escolhidos por Deus, que lhes
deu um novo tipo de vida, e por causa do seu profun­
do amor e preocupação por vocês, também vocês
devem pôr em prática a bondade e uma piedade cheia
de compaixão pelos outros. Não se preocupem em
causar-lhes uma boa impressão, mas estejam prepara­
dos para sofrer com paciência e resignação. Sejam
amáveis e prontos para perdoar; jamais guardem ran­
cor. Lembrem-se que o Senhor os perdoou, portanto
vocês devem perdoar os outros.
Acima de tudo, "deixem que o amor dirija a vida de
vocês, porque assim toda a igreja permanecerá unida
em perfeita harmonia (Colossenses 3:5-14 — Novo
Testamento Vivo).

Amor para Sempre?


Pergunta Número 8: “Creio que se o casal se
amar sinceramente, essa condição será permanente e
durará a vida inteira.”
Já respondí a essa pergunta no item 5 e ela é
também “falsa”. Eu lhe disse que o amor tem de
ser mantido ou poderá morrer. Este é provavelmente o
mais importante dos dez itens para os que já são
casados. Até mesmo seus pais devem saber que o
amor deles pode morrer se não procurarem mantê-lo
vivo. Eles devem tomar tempo para estar juntos, falar
um com o outro e orar juntos, não permitindo que
nada prejudique ou enfraqueça o seu relacionamento.
O amor precisa ser apoiado, alimentado e protegido,
como se fosse uma criança em crescimento num lar.
Espero que você se lembre deste ponto quando (e se)
se casar um dia.
Acho Que Estou Amando 101
Noivados Rápidos?
Pergunta Número 9: “Creio que um noivado
rápido, de seis meses ou menos, é melhor.”
Este ponto foi discutido dentro da resposta à
segunda pergunta, mas vamos repetir brevemente a
mensagem. Ninguém ficará surpreendido pelo fato de
a resposta certa ser novamente “falso”. Você deve
dar-se tempo para conhecer seus sentimentos, para
deixá-lo subir e descer naturalmente, antes de pode­
rem ser adequadamente interpretados. Como já decla­
rei, é demasiado perigoso prender-se num relaciona­
mento permanente antes de ter uma oportunidade
para conhecer a sua própria mente ou decidir o que
quer da vida. Já vi muitos noivados rápidos que pro­
duziram casamentos igualmente rápidos, e espero que
o seu não seja um desses.

Apaixonados Jovens e Velhos


Pergunta Número 10: “Creio que os adolescen­
tes são mais capazes de amor sincero do que as pes­
soas mais velhas.”
A resposta e este último item é também “fal­
so”, porque o amor sincero exige uma certa medida
de maturidade. Veja bem, o amor dedicado só é
possível quando a pessoa tem a capacidade de dar-se a
si mesma. O amor não é cobiçoso nem egoísta. Amar
realmente é poder contribuir para a felicidade da
outra pessoa sem esperar nada de volta. E essa abne­
gação exige considerável maturidade, que raramente
ocorre durante os anos tumultuados da adolescência.
É por isso que os casamentos de adolescentes com
102 Adolescência Feliz
freqüência começam e entram em colapso logo depois
da lua-de-mel.

A Frigideira e o Fogo
Permita que eu ofereça mais alguns conselhos so­
bre os casamentos precoces. Não faça nunca o erro de
usar o casamento como um meio de fugir de seus pais
ou de suas circunstâncias. Alguns jovens entre dezes­
sete e dezoito anos ficam aborrecidos com o ambien­
te de casa, como a menina que me disse que a única
hora em que sente saudades do lar é quando está em
casa. Eles não se comunicam com os pais e brigam
com os irmãos. Então, num momento de grande infe­
licidade surge uma ocasião de montar uma casa com
alguém que se sente igualmente miserável. Casar-se
pode parecer uma solução fácil para dois grandes
problemas, mas isso raramente funciona. Seria como
pular da frigideira para o fogo. Tal união pode ser (e
geralmente é) um relacionamento desastroso. De to­
das as razões para casar-se o desejo de fugir aos pais é
uma das piores.
Em resumo, vou repetir a sugestão feita antes:
escolha seu companheiro com todo o cuidado depois
do seu vigésimo aniversário. Este conselho gratuito
pode evitar uma vida inteira de sofrimento para você
e outra pessoa.

O Verdadeiro Significado do Amor


Agora que você já leu as respostas para os dez
itens do teste, você sabe que todas são declarações
falsas. A razão por que as escolhi é pelo fato de
representarem os dez conceitos errados mais comuns
A cho Que Estou A mando 103
sobre o significado do amor. Essas são as dez idéias
erradas que ouço com mais freqüência quando acon­
selho jovens.
Quero resumir a mensagem deste capítulo dan­
do uma ilustração muito pesssoal. Quando minha es­
posa Shirley tinha sete anos, a situação em sua casa
era muito triste por causa do alcoolismo de seu pai.
Isso fez com que ela pensasse sobre a pessoa com
quem se casaria um dia. Mais do que tudo no mundo
ela queria crescer e ter um lar feliz com um marido
cristão. Deus viu aquela menina tímida entrar no seu
quarto e fechar a porta. Viu-a ajoelhar-se e começar a
orar com seu modo infantil para que o Senhor aben­
çoasse o seu futuro lar e lhe desse um marido que a
amasse e cuidasse dela. Deus respondeu a essa oração.
Shirley e eu temos uma união maravilhosa e fomos
abençoados com dois filhos que significam tudo para
nós.
Encontrei-me com Shirley quando estávamos na
faculdade (durante o mês de setembro naturalmente)
e comecei a amá-la gradualmente. Note que eu não
disse “apaixonei-me” por ela. Essa frase pode ser mal
interpretada, fazendo com que os jovens acreditem
que amar é como cair num poço. Não é isso que
acontece. Eu não me apaixonei de repente por Shir­
ley... nossa intimidade foi crescendo. Depois que
passou a primeira onda de emoção, comecei a apre­
ciar profundamente aquela jovem. Gostava do seu
senso de humor e- sua personalidade agradável. Via
como ela amava a Deus e as coisas mais elevadas da
vida. E, pouco a pouco, passei a sentir dèsejo de
fazê-la feliz, satisfazendo as suas necessidades, dando-
lhe um lar, e vivendo em sua companhia.
Mas você deve saber que nem sempre me sinto
intensamente romântico e cheio de amor para com
Shirley. Existem ocasiões em que ficamos próximos e
outras distantes. Algumas vezes ficamos cansados e
104 Adolescência Feliz
aborrecidos com os cuidados da vida, e isso afeta as
nossas emoções. Todavia, mesmo quando o sentimen­
to de proximidade desaparece, o amor permanecei
Por quê? Porque nossa relação não depende de um
sentimento temporário; ela é baseada num compro­
misso inabalável da vontade. Em outras palavras, to­
mei a decisão de dedicar-me aos melhores interesses
de Shirley, mesmo quando não sinto nada. Sei que a
emoção da proximidade voltará quando tivermos tem­
po para estar juntos.. . quando estivermos de fé­
rias. .. quando coisas estimulantes acontecerem.. .
quando estivermos fazendo coisas românticas juntos.
Mais cedo ou mais tarde o sentimento vai voltar e
durará por dias. Mas quando fico ocupado.. . quando
minha mente está em outras coisas. .. quando houver
doença ou dificuldades na família. . . é provável que
minhas emoções esfriem de novo.
As suas emoções vão flutuar também. É por
isso que você precisa compreender que o amor é mais
do que um sentimento — ele também envolve o
compromisso da vontade. Você precisa de uma deter­
minação de ação para fazer de seu casamento um
sucesso, que irá funcionar como a máquina de um
trem. Ela fará com que você se mantenha no trilho
certo. Por outro lado, o sentimento do amor é como
um carro-breque puxado pela poderosa máquina na
outra extremidade.

Uma Palavra Final


Se eu tivesse de colocar a mensagem deste capí­
tulo inteiro em uma sentença, eu diria que amar
verdadeiramente é preocupar-se com uma outra pes­
soa quase tanto quanto você se preocupa consigo
mesmo. A Bíblia descreve exatamente assim o amor
conjugal — ele é tornar-se “uma só carne” com ou­
A cho Que Estou A mando 105
trem. Vocês dois se transformam na verdade em um
só. Isso é muito mais do que casar-se com alguém que
fará algo de bom para mim. Pelo contrário, é apren­
der a amar alguém tanto quanto amo minha própria
carne, e pelo casamento nós nos unimos. Esse é o
verdadeiro significado do amor. Se você tem essa
espécie de apreciação por uma outra pessoa, está no
caminho para um lar feliz.
DCINC05CINC0C

Uma Noção
Chamada Emoção
Nós discutimos o desfiladeiro da inferioridade,
os perigos do conformismo, as mudanças físicas da
puberdade, e o significado do amor. Está em tempo
agora de ter uma idéia melhor das emoções (ou senti­
mentos) que ocorrem com freqüência durante os anos
da adolescência. Este tópico é especialmente impor­
tante porque as mudanças que estão prestes a ocorrer
em sua mente serão quase tão dramáticas como aque­
las que logo afetarão o seu corpo. Você está agora
nos últimos momentos da infância, e uma vez que a
deixe não pode mais voltar.
Talvez a melhor maneira de começar a fazer
com que você conheça as emoções da adolescência é
contar uma história pessoal sobre o dia mais triste de
minha própria infância. Ele começou às onze da ma­
nhã quando eu estava na sétima série. Eu estava
sentado na classe quando um menino ao meu lado me
apontou a porta. Olhei naquela direção e vi meu pai
me chamando. Ele me disse que íamos para casa e
que eu não voltaria à escola naquele dia, mas não
explicou a razão.
Enquanto nos dirigíamos para o carro senti que
meu pai tinha algo terrível a dizer-me. Eu podia ver a
tensão nos olhos dele, mas tinha medo de perguntar o
üma Noção Chamada Emoção 107
que tinha acontecido. Finalmente ele se voltou para
mim e disse: — Jim, tenho más notícias para você e
quero que as receba como um homem.
Eu respondí: É minha mãe?
Ele replicou: —Não.
Disse então: —É o meu cachorro então, não é?
Meu pai confirmou com a cabeça e começou a
contar-me os detalhes. Ele disse que minha mãe esta­
va voltando de carro para casa alguns minutos antes.
Meu cachorrinho, o Pogo, viu-a chegar e correu ao
seu encontro. Ele pulou do lado do carro quando este
passou, mas aparentemente perdeu o equilíbrio e caiu
debaixo da roda de trás. Mamãe sentiu o barulho do
corpo dele ao bater no carro e ao passar por cima.
Pogo ganiu de dor e depois ficou estendido na rua.
Mamãe parou imediatamente o carro e voltou
correndo até onde ele estava. Ela curvou-se para ele e
lhe falou com doçura, mas ele não podia responder
porque tinha a espinha quebrada, mas podia olhar
para ela e reconhecê-la. Quando viu quem era, Pogo
abanou a cauda, e ainda continuava abanando o rabi-
nho quando seus olhos se fecharam e morreu.

A Perda de Um Amigo
Pode parecer que a perda de um cão não seja
algo tão terrível assim, mas a morte de Pogo foi
como o fim do mundo para mim. Eu simplesmente
não posso descrever como ele era importante para
mim quando tinha treze anos. Ele era um amigo
muito especial que eu amava mais do que alguém
pode imaginar. Eu podia falar com ele sobre coisas
que ninguém mais parecia compreender. Ele ia encon­
trar-se comigo na calçada quando voltava da escola e
balançava a cauda para cumprimentar-me (coisa que
ninguém mais fazia para mim). Eu o levava para o
108 Adolescência Feliz
quintal e nós brincávamos e corríamos juntos. Ele
estava sempre de bom humor, mesmo quando eu não
estava. É verdade, Pogo e eu tínhamos uma afeição
mútua quê só os apreciadores de cães podem com­
preender.
Quando meu pai me contou esta história da
morte de Pogo, eu pensei que fosse morrer. Não
podia engolir e tinha dificuldade para respirar. Eu
queria fugir.. . gritar. .. chorar. Em vez disso, fiquei
sentado no carro com um grande nó em minha gar­
ganta e a cabeça martelando.
Não me lembro exatamente como passei aquela
tarde em casa, apesar .de recordar-me que chorei gran­
de parte do tempo. Em breve compus um poema em
memória do meu cão, chamado “Para Pogo”. Não era
a maior obra literária de todos os tempos, mas ex­
pressava muito bem os meus sentimentos. As últimas
quatro linhas diziam o seguinte:
Minha mãe o apanhou com o carro, e como chorei
Assim, sem barulho um cachorrinho morreu
E se há um céu para cachorros, sei que ele ali está
Ele é o meu pobre e pequenino Pogo, com pêlos
brancos e bonitos.
Mais tarde, naquele mesmo dia, nossa família
conduziu um serviço funerário para o querido cãozi-
nho que partira. Eu cavei um pequeno buraco por
trás dos pés de uva no fundo de nossa propriedade, e
quando o sol se punha colocamos seu corpo rígido na
cova. No momento em que íamos cobri-lo, pus a mão
no bolso e tirei uma moeda de cobre. Coloquei-a
sobre o pêlo ensangüentado de seu peito. Hoje não
sei por que fiz isso, mas penso que foi a minha manei­
ra infantil de dizer ao meu cão que eu o amava. E
meu pai, que me dissera para aceitar a coisa como um
homem, chorou como uma criança naquela ocasião.
Foi sem dúvida o dia mais triste da minha infância.
Uma Noção Chamada Emoção 109
É importante compreender que houve muitos
outros momentos significativos em minha vida desde
aquele dia da morte de Pogo. Houve mais dias impor­
tantes e certamente perdas maiores do que aquela que
experimentei naquela manhã sombria. Todavia, houve
poucos dias mais tristes até hoje. Por quê? Porque eu
tinha treze anos quando Pogo morreu. Isso fazia com
que tudo parecesse muito pior.

Os Sentimentos Mais Fortes


Veja bem, tudo é sentido com mais força du­
rante a infância e especialmente durante a adolescên­
cia. Você se lembra da primeira cereja coberta de
chocolate que comeu quando criança? Pode lembrar-
se como era gostosa, como o sabor delicioso encheu a
sua boca? Eu> ganhei esse doce delicioso pela primeira
vez quando tinha seis anos. Eu tinha caído e machu­
cado o lábio, precisando levar alguns pontos. Eu fui
um “menino tão corajoso” enquanto estava sendo
costurado que o médico me meu uma cereja coberta
de chocolate como prêmio. Eu nunca tinha experi­
mentado nada como aquilo. Posso lembrar-me até
hoje disso. Durante semanas o sabor daquele doce
permanecia em minha boca, e eu ansiava por ganhar
outro. Eu até pensei em machucar de novo o lábio
para ser recompensado outra vez pela minha coragem!
Como é evidente, os doces já não são tão importantes
assim hoje para mim, porque os meus desejos não são
tão fortes na idade adulta como o eram na infância.
Você se lembra da primeira vez em que viajou de
barco? Lembra-se da primeira vez que foi ao dentista?
(Quem pode esquecer-se dessa experiência?) Meu
ponto é que quando você é jovem, as boas coisas
parecem mais surpreendentes, e as coisas más mais
110 Adolescência Feliz
intoleráveis. Essa a razão por que a morte de Pogo
quase me matou.
Por que lhe contei isto? O que tal episódio
pode significar para o seu futuro? Significa que os
seus próprios sentimentos irão provavelmente tornar-
se ainda mais intensos durante os próximos anos. A
adolescência é assim. As pequenas coisas que não irão
sequer perturbá-lo mais tarde na vida, são momento-
sas nessa idade. Os seus temores serão piores, seus
prazeres mais excitantes, ,suas irritações mais aflitivas,
e suas frustrações mais intoleráveis. Toda experiência
parecerá “tamanho família” no começo da adolescência.
Essa a razão por que os adolescentes são com freqüên-
cia tão explosivos, por que fazem às vezes coisas sem
pensar e depois se arrependem do seu comportamen­
to. Você logo aprenderá que os sentimentos são pro­
fundos e poderosos durante os anos da adolescência.
Existem mais seis características das emoções
durante a adolescência que gostaria de discutir com
você brevemente. Vamos começar observando o “ioiô
humano”.

1. AS EMOÇÕES CÍCLICAS
Será de ajuda para você saber que os sentimen­
tos tendem subir e a descer, a descer e a subir. “Grande
coisa” dirá você, “e o que isso significa? ” Significa
que quando estiver deprimido e infeliz, quando nada
anda direito e parece que não vale a pena viver,
agüente firme por alguns dias. Você não vai continuar
deprimido por muito tempo. As suas circunstâncias
vão mudar e o sol brilhará de novo. Mais cedo ou
mais tarde você vai acordar certa manhã e ficar con­
tente por estar vivo. Você vai pular da cama, assobiar
para os passarinhos, abanar a mão para as flores e
cantar o dia inteiro.
Uma Noção Chamada Emoção 111
Devo, porém, avisá-lo de que este sentimento
positivo também não vai durar. Veja você, poucas
pessoas se mantêm extremamente felizes ou demasia­
do deprimidas por muito tempo. 0 padrão comum de
todas as emoções é mover-se para cima e para baixo
o ano inteiro. De fato, todos nós somos como “ioiôs”
nesse sentido. Assim sendo, quando estiver no alto
emocionalmente, espere descer; quando estiver na
mais funda depressão espere subir. Dessa forma não
vai sentir-se surpreso nem deprimido quando ocorrer
uma mudança súbita. Outra maneira de descrever es­
ses sentimentos instáveis é dizer que as emoções hu­
manas são cíclicas. Elas ocorrem em padrões regulares
e são influenciadas pela quantidade de sono que teve,
pelo seu estado de saúde, e de acordo com os acon­
tecimentos que ocorrem em sua vida. Para falar a
verdade, o mundo não é realmente como ele parece a
você e a mim; nossas emoções distorcem ou modifi­
cam de alguma forma o quadro real. Isso não dá o
que pensar?

2. AS IMPRESSÕES FALÍVEIS
O segundo aspecto das emoções que você deve
compreender está ligado ao perigo das impressões.
Uma impressão é um pensamento interior que você
acredita ter vindo de Deus ou de algum lugar desco­
nhecido. Por exemplo, conheço um jovem que estava
dirigindo o seu carro pela rua e teve o pressentimento
de que logo morreria. Ele pareceu “ouvir” esta men­
sagem dentro de sua mente: “Sua vida está quase no
fim”. Ele julgou que Deus estivesse lhe dizendo que
se preparasse para morrer. Sua testa ficou coberta de
suor e sentiu a boca seca. As mãos ficaram úmidas e
o coração começou a bater desordenadamente. Aque­
le rapaz pensou que estivesse realmente nos últimos
112 Adolescência Feliz
momentos de sua vida. Em sua aflição ele quase
bateu com o carro num poste telefônico (o que teria
confirmado a impressão, suponho eu). Mas posso as­
segurar-lhe que o jovem em questão continua vivo e
passando bem.
Você pode ter diferentes impressões, e se acre­
ditar nelas poderá tomar decisões erradas. Algumas
impressões poderíam levá-lo a casar-se repentinamen­
te, ou fazê-lo mudar de cidade, ou deixar a escola, ou
alistar-se no Exército. Quando esses pensamentos e
sensações estranhos vierem, lembre-se de que Deus
raramente faz exigências que necessitem de uma mu­
dança imediata. Conceda a si mesmo alguns dias ou
semanas a fim de olhar para todos os lados da ques­
tão. E quanto mais importante a decisão, tanto mais
cuidadosamente você deve examinar os fatos.

Como Conhecer a Vontade de Deus


Eu já disse que as impressões não podem servir
como base segura para que tomemos decisões rápidas.
Como pode então um jovem conhecer a vontade de
Deus numa situação particular? Como pode ele saber
a diferença entre um sentimento irreal e a verdadeira
orientação do Senhor? Quero fazer cinco breves suges­
tões que irão ajudar nesta tarefa.
Primeiro, fale com outra pessoa sobre a decisão
a ser tomada; discuta a mesma com alguém em quem
tenha confiança e com quem possa partilhar suas
idéias.
Segundo, leia a Bíblia a fim de obter orientação.
Deus irá falar com você através das suas Escrituras, e
Ele jamais lhe pedirá que faça algo que contradiga a
sua Palavra.
Terceiro, observe para ver quais as portas que se
abrem e quais as que se fecham. Se Deus estiver
Uma Noção Chamada Emoção 113
orientando você em uma dada situação, Ele irá operar
através do que chamamos “circunstâncias providen­
ciais”. Ele irá criar oportunidades para você fazer o
que Ele quer. Você não terá de “martelar” os obstá­
culos se Deus estiver envolvido.
Quarto, conceda a si mesmo bastante tempo
para pensar. Não tome grandes decisões enquanto
estiver confuso. Esse é um bom princípio a seguir em
toda a sua vida. Enquanto não estiver seguro sobre o
que fazer, evite a decisão final tanto quanto possível.
Você pode estar muito mais confiante dentro de
alguns dias.
Quinto, ore pedindo a orientação, a bênção e a
liderança de Deus.
Essas são apenas algumas sugestões para ajudá-lo
a tratar com as impressões que virão durante os
próximos anos de sua vida. É bom compreender que
esses impulsos fazem parte da adolescência. Não per­
mita que eles o levem a fazer algo que possa prejudi­
car o restante de seus dias. Em outras palavras, seja
cautelosol
3. A DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA
Vamos falar agora de coração aberto sobre ou­
tro problema emocional que geralmente surge durante
a adolescência; nós o chamamos de “conflito de gera­
ções”. Esta frase se refere à irritação e sentimentos
desagradáveis que provavelmente ocorrerão entre você
e seus pais durante os anos de adolescência.
Como posso eu prever que sua mãe e seu pai
vão ficar aborrecidos com você, e você com eles, nos
próximos anos? A razão disso é que sei que mudanças
que produzem tensão vão logo ocorrer no seu relacio­
namento. Quando você nasceu era totalmente depen­
dente de seus pais — a sua vida estava nas mãos dele
e não podia fazer nada por si mesmo: você não podia
114 Adolescência Feliz
virar, não podia coçar a cabeça, não podia sequer
pedir alimento a não ser usando aquele choro estri­
dente que Deus lhe deu.
Mas à medida que cresceu, e aprendeu, e desen­
volveu-se, você começou a libertar-se dessa dependên­
cia. Você logo passou a segurar a sua mamadeira e
um pouco mais tarde conseguiu dormir a noite toda
sem ser alimentado. Depois aprendeu a engatinhar e a
andar. Cada vez que aprendeu um novo comporta­
mento, conseguiu maior independência de seus pais.
Em lugar de ser preciso que lhe lavassem as orelhas,
você teve idade suficiente para fazer isso sozinho. Em
lugar de recolher os seus brinquedos, fazer a sua cama
e lhe dar cada centavo de que necessitasse, seus pais
lhe passaram essas novas responsabilidades. Mais tarde
você aprendeu a completar tarefas mais difíceis e a
pensar por si mesmo. A cada passo do processo de
crescimento você se tornou mais independente de seus
pais e eles obtiveram uma nova liberdade da sua
tareta de servi-lo. Dentro de poucos anos essa tarefa
estará completada. Você vai ficar completamente in­
dependente de seu pai e sua mãe, e eles estarão total­
mente livres de sua obrigação de servir você.

Liberdade Total
É melhor que se prepare para isso: você logo vai
ser o seu próprio dono. Vai decidir quando sair e
quando voltar, com quem irá passar o seu tempo,
quando dormir, quando comer, e exatamente o que
vai fazer de sua vida. Você vai decidir se irá adorar a
Deus ou ignorá-10. Seus pais não mais poderão exigir
nada de você porque não é mais uma criança. De
fato, o seu relacionamento com seus pais deveria
tornar-se mais como uma amizade, em lugar de eles
serem seus supervisores e disciplinadores. O que estou
Uma Noção Chamada Emoção 115
dizendo é que a infância começa com uma grande
dependência no nascimento e se move em direção à
independência total no fim da adolescência. Ao mes­
mo tempo, os seus pais estarão mudando de servos
para pessoas livres novamente. Esse é o significado da
infância, adolescência e paternidade.
0 que isto tem a ver com o conflito que previ?
Quando uma pessoa chega aos quatorze, quinze ou
dezesseis anos, ela experimenta a independência e
começa a exigir liberdade total imediatamente. Ela
quer tomar as suas próprias decisões, quer governar a
sua própria vida. 0 jovem começa a ressentir-se do
controle dos pais e quer provar que não é mais uma
criança. Os pais sabem porém que o filho ou a filha
não está preparado para a liberdade total (indepen­
dência). Ele ainda precisa da sua orientação em certas
áreas e estão decididos a fazer isso. O resultado pode
ser uma luta penosa que pode perdurar por três ou
quatro anos.
Existe uma outra dimensão neste conflito. En­
quanto o adolescente está exigindo completa indepen­
dência da autoridade dos pais, ele também insiste em
ser muito dependente em certos pontos. Por exemplo,
ele quer refeições quentes na mesa três vezes por dia
e espera que suas camisas sejam passadas e suas con­
tas do médico pagas, assim como as suas meias lava­
das. Em outras palavras, ele quer liberdade sem res­
ponsabilidade. Essa combinação não vai funcionar. Se
a pessoa não está preparada para aceitar todas as
responsabilidades da vida, não está então pronta para
dispor de liberdade irrestrita.
Estou dizendo que um milhão de outras famílias
lutaram a respeito dessas questões de dependência-in-
dependência, e com a sua irá provavelmente acontecer
o mesmo. Se ocorrer conflito entre você e seus pais
espero que lembre que esta tensão faz parte do cresci­
mento. Isso não quer dizer que você não ame seus
116 Adolescência Feliz
pais ou que eles não o amem. Trata-se de uma luta
natural que ocorre quando você começa a exigir mais
liberdade do que seus pais sabem que será saudável na
ocasião. A melhor coisa a fazer é conversar com eles
francamente sobre tais assuntos. Se achar que não
estão lhe dando a independência que cabe à sua idade,
diga isso claramente. Diga-lhes que acha que tem
idade bastante para tomar mais decisões por si mesmo
(e aceite a responsabilidade pelas mesmas). Todavia,
você precisa ser razoável. Aconselho-o a ceder à lide­
rança de seus pais quando eles se firmam numa
decisão. Como sabe, eles põem sempre os seus melho­
res interesses em primeiro plano.

Minha Mensagem
Quero concluir este ponto contando o que disse
a meu filho e minha filha com relação a este assunto
da independência. Talvez os seus pais adotem as mes­
mas atitudes expressas na mensagem abaixo:
Primeiro, quero que saiba quanto o amo. Um dos
maiores privilégios de minha vida foi a oportunidade
de criá-lo. .. ser seu pai e vê-lo creser. Todavia, você
está entrando agora numa nova fase da vida conhecida
como adolescência, que algumas vezes causa tensão
numa relação de amor como a nossa. Haverá ocasiões
nos próximos anos quando você vai querer que eu lhe
dê mais liberdade do que acho que pode ter. Você
pode desejar ser seu próprio dono e tomar todas as
suas decisões antes de eu achar que está pronto para
essa independência. Esta situação pode criar algum
conflito entre nós, apesar de esperar que não seja
muito grande.
Se isso ocorrer, entretanto, quero que saiba que vou
transigir o mais que puder em cada caso. Vou ouvir o
seu ponto de vista e depois tentar entender seus senti­
mentos e atitudes. Não serei um “ditador” que não se
importa com as necessidades ou desejos de outra pes­
Uma Noção Chamada Emoção 117
soa. Em outras palavras, meu amor por você me levará
a tentar fazê-lo feliz, se possível.
Por outro lado, você pode esperar que eu diga “não”
quando meu melhor julgamento exigir isso. A coisa
mais fácil do mundo seria dizer: - Vá e faça o que
quiser. Não me incomodo com que amigos esteja ou
que notas tire na escola. Vou ficar de longe e pode fa­
zer o que quiser. - Essa seria uma maneira simples de
evitar todo conflito e ressentimento entre nós.
Mas o amor exige que eu faça o que é certo, mesmo
que não lhe agrade. Você logo verá que tenho a coragem
de tomar tais decisões quando for preciso. Assim sen­
do, momentos de tensão podem ocorrer nos próximos
anos. Mas quando isso acontecer, quero que se lembre
de que amo você e você me ama, e vamos permanecer
amigos através desses tempos difíceis. O mundo pode
ser um lugar frio e solitário sem o apoio dos membros
amorosos da família; essa a razão por que vamos conti­
nuar a cuidar uns dos outros nesta casa. Penso que
quando você chegar aos vinte anos e olhar para trás,
para esses conflitos, apreciará o fato de que o amei
suficientemente para libertá-lo gradualmente e à medi­
da que você estava preparado para responsabilida­
des adicionais.
Se você for sábio e amadurecido, aceitará esta
mensagem de seus pais durante os anos que vão da
infância à idade adulta. Em outras palavras, você não
fará a sua “declaração de independência” cedo de­
mais.

4. NÃO MAIS O FILHINHO DA MAMÃE


O desejo de independência cria uma estranha
sensibilidade entre os adolescentes com relação a se­
rem vistos na presença dos pais. Como é estranho que
um adolescente se sinta embaraçado de sentar num
restaurante ou assistir a um jogo de basquete com os
pais que o criaram desde o nascimento! Não obstante
você pode sentir-se assim num futuro próximo. Não é
118 Adolescência Feliz
que passou repentinamente a não gostar de seus pais,
ou que ache demasiado bom para eles. O problema é
que você quer que seus amigos pensem que está
crescido, e ser visto com os pais pode parecer algo
infantil. Isto é especialmente verdade na noite de
sexta-feira, que é a noite tradicional para os “encon­
tros”.
Como sei a respeito deste sentimento embaraço­
so? Porque eu detestava ser visto com meus pais
quando estava no ginásio. De fato, uma das minhas
experiências mais desagradáveis ocorreu no dia em
que me formei na oitava série. Meu pai fez o que
qualquer pai orgulhoso teria feito — ele levou sua
máquina de cinema e tirou minha fotografia na frente
da escola com meus amigos à minha volta. Lembro-
me do meu ressentimento por ele estar ali naquele dia.
Senti-me ridículo com aquela máquina apontada para
mim. Eu não queria ser mais um menininho, que
estava sendo filmado pelo pai. Ele teria feito isso se
eu tivesse três anos de idade e acabado de ganhar um
novo triciclo. Quando assisto hoje àquele filme, posso
reconhecer o olhar de embaraço em meu rosto como
um aluno de oitava série acanhado.
Esses são alguns dos sentimentos que você pro­
vavelmente terá nos próximos anos. Como é natural,
nem todos sentem a mesma coisa. Essa é uma coisa
fantástica sobre o ser humano — todos somos diferen­
tes de alguma forma, e você talvez nunca experimente
esse sentimento que descreví. Mas você provavelmente
ficará embaraçado quando seus pais estiverem perto
de seus amigos. Não é que você não os ame, não
precisa sentir-se culpado a esse respeito, mas é porque
você quer crescer e está preocupado com a pressão do
grupo. É uma parte normal da experiência da adoles­
cência.
Uma Noção Chamada Emoção 119
Brincadeiras na Gasse
Antes de deixar de lado o tema, quero contar-
lhe algo engraçado. Minha mãe usava essa pressão
social para obrigar-me a um comportamento adequa­
do na escola. Tudo começou quando eu decidi que
era mais divertido brincar do que estudar e aprender.
Eu tinha dois professores que não sabiam controlar
bem os alunos e meus amigos e eu gostávamos de
fazer confusão na aula dele todos os dias. Eu estava
me divertindo muito, mas minhas notas começaram a
baixar. Eu sabia que aquilo não estava direito, porém
gostava do brinquedo. Minha mãe de alguma forma
ficou sabendo de minhas brincadeiras mesmo antes de
as notas serem distribuídas. Eu não sei como ela
descobriu, mas sempre parecia saber o que eu estava
pensando.
Certo dia ela me fez sentar para uma pequena
conversa. Mamãe falou: — Eu sei o que você está
fazendo na escola. Você não só podia estar tirando
notas melhores, como estou certa que está perturban­
do as aulas também. Estive pensando no que fazer. Eu
podia castigá-lo ou tirar os seus privilégios, ou podia
falar com o diretor. Mas decidi não fazer nada disso.
Não vou fazer mesmo nada sobre o seu comporta­
mento. Mas, se o professor ou o diretor me chama­
rem para queixar-se da sua conduta, então no dia
seguinte irei à escola com você e vou ficar sentada a
seu lado em todas as aulas. Vou segurar a sua mão no
corredor e ficarei atrás de você quando estiver com
seus amigos. Vou ficar com o braço em volta do seu
pescoço o tempo todo na escola. Você não vai poder
ficar longe de mim nem por um minuto!
Pode crer, essa ameaça me aterrorizou! Eu pre­
feria muito mais que minha mãe me batesse do que
fosse à escola comigo. Só de pensar nessa terrível possi­
120 Adolescência Feliz
bilidade me fez mudar imediatamente. Eu não podia
correr o risco de ter minha mãe me seguindo naquela
escola! Seria o mesmo que suicidar-me socialmente.
Meus amigos teriam rido de mim o resto do ano.
Estou certo de que os professores ficaram imaginando
por que de repente eu me tornei tão cooperativo du­
rante a última parte da nona série! Pense nisso. Esta
tragédia poderia acontecer com você também!

5. A IDADE DA CONFUSÃO
Vamos voltar agora nossa atenção para um quin­
to aspecto das emoções da adolescência que você
deve antecipar. Se for como a maioria dos adolescen­
tes, logo irá experimentar um período de confusão
sobre aquilo em que acredita. Quando criança você
aprendeu o que era verdade, como o mundo era,
quais ps valores a manter, o que respeitar, e do que
desconfiar. Você aceitou todos esses ensinamentos sem
qualquer dúvida ou suspeita. Quando seus pais dis­
seram: — Papai Noel vai descer pela chaminé à meia-
noite — você esperou realmente que o alegre e gordo
velhinho fizesse isso.
À medida que progride através da adolescência,
porém, será natural examinar cada uma dessas crenças
que aprendeu,. Chegará provavelmente um momento
em que dirá: — Espere um pouco. Será que aceito
realmente o que meus pais me disseram? Posso con­
fiar neles para me contarem a verdade? Vamos pen­
sar nisto antes de tirar qualquer conclusão!
Este período de interrogações é um aconteci­
mento muito importante em sua vida como cristão.
Pode ser o momento em que você desenvolva a sua
própria relação com Deus em lugar de deixar-se levar
pela religião de seus pais. Por outro lado, pode ser um
período angustiante por causa da confusão que traz.
Uma Noção Chamada Emoção 121
Esta é a razão por que menciono isso agora para você,
é para que não fique muito perturbado durante aque­
les dias em que nada mais parece certo. Se continuar
procurando respostas para as questões mais importan­
tes da vida, irá eventualmente obter respostas e solu­
ções satisfatórias. E é muito provável que venha a
descobrir que seus pais estavam certos desde o início.

6. A BUSCA DA IDENTIDADE
Ligado de perto com este período de confusão
está outro grande acontecimento da adolescência cha­
mado de busca de identidade. Esta frase se refere à
necessidade de cada jovem de saber quem é. Deixe-me
perguntar quão bem você conhece a si mesmo. Você
sabe quem é? Sabe o que quer da vida? Conhece
seus pontos positivos e negativos? Sabe o que acredi­
ta a respeito de Deus? Você gosta da “imagem” que
seus amigos têm de você? Todas essas questões estão
relacionadas com a busca da identidade.
Talvez eu possa ilustrar a importância de uma
identidade bem definida descrevendo um indivíduo
que não conhece bem a si mesmo. Márcio, como o
chamaremos, é um dentre quatro filhos, mas não é o
mais velho nem o caçula. Seus pais são pessoas extre­
mamente ocupadas e não têm tempo para ler para os
filhos, passear com eles, brincar ou construir aviões-
modelo. Eles fazem pouca coisa além de trabalhar dia
e noite. Márcio pensa que é amado pelos pais, mas
não acha que eles o respeitem muito (nem ninguém
mais).
Aos cinco anos de idade Márcio é mandado
para o jardim-da-infância onde passa a maior parte do
tempo andando de triciclo. Um ano mais tarde ele
tem alguma dificuldade na leitura. Ele não sabe por
122 Adolescência Feliz
quê. Os outros alunos também estão aprendendo ma­
temática muito mais depressa do que ele. Márcio
raramente \í “rostos felizes” com as suas notas. A
professora não diz — Bom trabalho, Márcio - na
frente dos colegas. Ele sabe que os pais também não
estão satisfeitos com o seu desempenho na escola. Ele
se sente muito ignorante.
O curso colegial finalmente surge no horizonte
e Márcio não tem idéia de quem seja. Ele não é bom
no basquete, nem no tênis, nem no futebol. Ele não
sabe tocar flauta, nem trombone, nem tambor. Ele
não desenha, nem pinta, nem cria projetos artísticos.
De fato, ele nunca fez nada na vida que valesse a
pena mencionar nem de que pudesse gabar-se. Ele
não sabe o que quer ser na idade adulta. Márcio na
verdade não tem sequer certeza de que queira crescer.
O que estou dizendo é que um menino como Márcio não
tem senso de identidade. Se uma professora lhe pedis­
se para fazer uma composição de uma página intitula­
da “Quem Sou Eu”, ele não podería escrever uma
linha.
0 problema de Márcio é extremo, e pode não
aplicar-se a você. Todavia, falta à maior parte dos
adolescentes um sentido de identidade de alguma for­
ma. Se você se encontrar nessa situação, insisto para
que tente descobrir quem você é nos anos que virão.
Pratique vários esportes e tente aprender um instru­
mento musical ou peça à sua mãe que lhe ensine a
costurar. Você pode também procurar o orientador
de sua escola e pedir que lhe aplique alguns testes de
interesse e vocacionais que irão identificar aquilo de
que gosta ou não gosta e suas habilidades. Entrar para
o escotismo também poderá fazer com que passe a
conhecer novas dimensões da sua personalidade. De
modo algum deixe passar esses anos sem explorar as
muitas possibilidades que estão adormecidas em você.
Uma Noção Chamada Emoção 123
Tomando-se Homens e Mulheres
Mais um comentário precisa ser feito com rela­
ção à sua busca de identidade, e tem a ver com a
descoberta do papel masculino ou feminino adequa­
do. Até agora você foi um menino ou menina, mas
em breve será um homem ou mulher crescidos. As
meninas irão adotar o comportamento apropriado pa­
ra as mulheres, e os meninos adotarão o estilo muito
diferente dos homens. Mas antes de essas mudanças
ocorrerem, você terá de saber o que é masculino e o
que é feminino. Essas diferenças não são tão claras
hoje como o eram nos dias da infância de seus pais, e
muitos jovens têm uma identidade sexual bastante
obscura.
Ouvi outro dia uma história sobre um menino e
uma menina que tinham acabado de se conhecer. Eles
estavam tentando decidir do que brincar, e o menini-
nho disse: — Tenho uma idéia, vamos jogar beisebol.
Mas a menina respondeu: —Oh, não, eu não quero
fazer isso; o beisebol é jogo de meninos. Não é
feminino ficar correndo de um lado para outro num
campo empoeirado. Não, não vamos jogar beisebol.
0 menino então replicou: — Está bem, vamos
então jogar futebol.
E ela por sua vez respondeu: — Oh, não, não
quero jogar futebol. Esse jogo é ainda menos femini­
no. Eu posso cair e me sujar. Não, esse não é um
jogo de menina.
Ele disse: — Está bem, tenho outra idéia. Va­
mos apostar uma corrida até a esquina.
Ela replicou: — Não, meninas brincam de brin­
quedos sossegados; nós não corremos e ficamos todas
suadas. As meninas não devem competir com os me­
ninos.
O menino coçou então a cabeça, tentanto des­
cobrir alguma coisa que ela pudesse querer, e final­
124 Adolescência Feliz
mente disse: —Vamos então brincar de casinha.
E a resposta dela foi esta: —Ótimo, eu vou ser o
pai!
Acho que essa menina estava um pouco confusa
quanto ao papel que deveria desempenhar como me­
nina. Ela provavelmente terá algumas questões impor­
tantes a responder nos anos que virão!
Talvez você também tenha de responder a algu­
mas perguntas sobre a sua identidade sexual nesse
intervalo que vai de agora à idade adulta. Caso positi­
vo, a maneira mais fácil de aprender a desempenhar o
papel de seu sexo particular, seja ele masculino ou
feminino, é observar um adulto a quem você respeite.
Tente ser como ele ou ela. Isto é chamado de identi­
ficar-se com outra pessoa. Se se trata de sua mãe ou
sua professora, ou outro adulto do seu sexo, observe
e aprenda como ele ou ela age. Observe silenciosa­
mente como ele anda e fala, e gradualmente vai
descobrir que se tornará natural para você assemelhar-se
ao seu modelo, mesmo que você seja um indivíduo
único. Este processo se enquadra sob o título da
pesquisa da identidade, e trata-se de uma parte impor­
tante do crescimento.
É apropriado que façamos um resumo deste
capítulo com uma discussão sobre a identidade. Como
deve ter notado, este livro inteiro teve como propósi­
to fazer com que você se conheça a si mesmo. . .
dar-lhe uma melhor compreensão de quem é e para
onde parece estar indo. Como eu disse no primeiro
capítulo, espero que use este livro como uma espécie
de trampolim para obter ainda maiores informações
sobre este tópico. Depois que você vier a conhecer-se
a si mesmo, poderá descobrir que afinal de contas
você é uma pessoa bastante agradável.
ISSEISSEIS6SEISSEISSI

Foi Isto Que


Aconteceu Comigo
0 capítulo final deste livro é bem diferente dos
outros cinco que você acabou de ler. De fato, pode ser
diferente de qualquer outra coisa que já tenha lido, mas
penso que vai achar esta seção bastante útil e interes­
sante.
Você pode ficar surpreendido ao saber que eu
não escrevi o restante deste livro, nem qualquer outro
autor fez isso. 0 texto que se segue foi na verdade
extraído dos comentários gravados feitos por quatro
adolescentes que você logo irá conhecer. Eu convidei
dois rapazes e duas garotas (todos entre quinze e
dezesseis anos) para irem à minha casa a fim de
discutir os tópicos deste livro. Eles se sentaram em
minha sala e partilharam as suas experiências, enquanto
um grupo de técnicos gravava os seus comentários em
fita. Fizemos então cópias do que disseram e efetua­
mos algumas modificações a fim de tornar as discussões
mais claras. O resultado é um depoimento textual de
como nos sentimos ao crescer... do ponto de vista
de quatro jovens que passaram recentemente por essa
experiência.
Pode levar alguns minutos para você acostumar-
se a ler o nome de uma pessoa antes de saber o que
ele ou ela disse, mas logo irá ajustar-se a isso. É quase
126 Adolescência Feliz
como ler uma peça de teatro, só que aqui as pessoas
não estão apenas representando. Trata-se de ado­
lescentes de carne e sangue como você é (ou logo
será). Vamos conhecer agora esses novos amigos.
Dr. Dobson: Olá para todos, bem-vindos à minha
casa. Convidei vocês para virem aqui, como sa­
bem, a fim de participarem de uma seção rápi­
da. . . uma partilha livre e fácil de idéias e
experiências. Tenho estado contando aos jovens
como é que a pessoa se sente ao tornar-se um
adolescente. Descreví os temores, as lágrimas e
as zombarias que freqüentemente acompanham
este período da vida, assim como os muitos
aspectos estimulantes do crescimento. Mas vocês
podem fazer um trabalho melhor do que o
meu. Vocês estão mais próximos dessa experiên­
cia, e queremos que cada um de vocês reparta
conosco os seus sentimentos.
Vamos começar com uma apresentação dos
meus convidados, começando com a jovem à mi­
nha esquerda.
Lena: Bem, meu nome é Lena, e vivo na cidade
de Arcádia, na Califórnia.
Dr. Dobson: Quantos anos você tem, Lena?
Lena: Tenho quinze, mas vou fazer dezesseis em ju­
nho.
Dr. Dobson: Você nos disse o seu nome e a sua
idade, mas quem é você, Lena? Que tipo de
pessoa você é? Do que gosta?
Lena: Gosto de representar. Estou no Junior Jesters
agora, que é um grupo teatral na nossa escola.
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 127
Dr. Dobson: De quantas peças você já participou?
Lena: Fizemos duas este ano, e estou trabalhando em
uma outra agora.
Dr. Dobson: Se você se sentasse para fazer uma reda­
ção sobre o tema “Quem Sou EU? ” você diria
que o seu interesse no teatro é a coisa mais
importante que devemos saber a seu respeito?
Lena: Acho que sim, mas mesmo esse interesse é
apenas uma fachada, porque o meu verdadeiro
“eu” está oculto por trás dela, em algum lugar.
Dr. Dobson: Esse é um ponto muito interessante. ..
vamos voltar a ele logo mais. Décio, apresente-se
agora.
Décio: Meu nome é Décio, e estou na John Muir High
School em Pasadena. Acabei de ser eleito Presi­
dente dos Jovens na minha igreja, e acho que
vou gostar muito do cargo. Tenho dezesseis
anos.
Dr. Dobson: Você também faz parte do grupo de
debates em sua escola?
Décio: Faço sim, e gosto demais. Desde pequeno
gosto de literatura e oratória mais do que de
ciência e matemática. Acho que fui criado as­
sim.
Dr. Dobson: Muito bem, vamos agora para o próximo
convidado.
Cecília: Sou Cecília e freqüento o Ginásio de Pasa­
dena. Tenho pensado muito sobre o que quero
128 Adolescência Feliz
ser quando crescer, e acho que a coisa mais
importante para mim é casar-me e ter uma
família.
Dr. Dobson: 0 que você acha, Cecília, das pessoas
que dizem que ter uma família e ser dona-de-ca-
sa não são coisas dignas do tempo de uma
mulher? Já pensou nisso?
Cecília: Não concordo com elas, pois essas são coisas
feitas justamente para mim, porque sou desse
tipo de pessoa. Gosto do trabalho doméstico,
de cozinhar e coisas assim.
Dr. Dobson: E qual a sua idade?
Cecília: Tenho dezesseis anos, vou fazer dezessete.
Dr. Dobson: “Vou fazer” —cada um de vocês aumen­
tou um pouco a sua idade. (Risos.) Quero con­
tar-lhes uma coisa: daqui a uns quinze anos
vocês estarão tentando diminuir a idade, posso
garantir isso! (Risos.) Muito bem, Paulo, fale
sobre você.
Paulo: Bem, moro aqui em Pasadena há cerca de
cinco anos. Eu fui criado em Nova Iorque antes
de terem oferecido a meu pai um emprego
nesta cidade. Tenho dezesseis anos.
Dr. Dobson: E quais são os seus interesses?
Décio: Gosto mais de esportes. Esse é o meu principal
interesse.
Dr. Dobson: Posso afirmar que Décio é um excelente
jogador de basquete. Na verdade, Décio e eu
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 129
jogamos basquete juntos na noite de terça-feira,
e fiquei muito impressionado.
Muito bem, já apresentamos os nomes de cada
um de vocês e fizemos com que as pessoas
soubessem algo a respeito dos seus interesses.
Estou satisfeito em ver que os quatro conhecem
as suas próprias mentes nesse sentido. Tenho
encontrado muitos jovens sem quaisquer interes­
ses particulares na vida; não tocam piano, nem
se envolvem em debates ou no serviço de casa,
no basquete ou no teatro ou em qualquer
outra coisa. Não têm alvos, nem propósito,
nem razão para viver. Essa pode ser uma situa­
ção muito triste, e nos leva ao primeiro assunto
que gostaria que vocês discutissem.
Tentei descrever anteriormente neste livro como
podem ser os sentimentos de inferioridade nos
anos da adolescência. Com isso estou me refe­
rindo à crença do jovem de que ele não é
estimado por ninguém. . . que é um “perde­
dor”. .. que outras pessoas estão rindo às suas
costas. .. que é tolo, ou feio, ou pobre... que
não faz as coisas tão bem como os demais...
que não tem coordenação e é desajeitado...
que no final das contas sua vida é um desastre
total.
Esses sentimentos terríveis de inferioridade e
desajuste são muito comuns entre os jovens de
hoje. Ele afeta também os adultos. Li recente­
mente um livro escrito pelo comediante Woody
Allen em que ele disse que a sua única tristeza
na vida era não ser uma outra pessoa. Ele não
está sozinho nesse pensamento. Muitos adoles­
centes gostariam imenso de sair de suas peles e
entrar no corpo de outro alguém.
Vocês quatro que estão aqui sentados hoje pare­
130 Adolescência Feliz
ce que venceram a parada. Vocês parecem com­
postos, relaxados e confiantes. Mas, já experi­
mentaram esses mesmos sentimentos de. inferiori­
dade? Alguma vez ficaram desapontados com a
pessoa em que se tornaram? Algum de vocês se
identificou um dia com os sentimentos que aca­
bei de descrever?
Lena: Claro que sim. Eles me atacaram durante o
primeiro ano do ginásio.
Dr. Dobson: Fale sobre esses dias difíceis.
Lena: Bem, meu pai morreu no verão que se seguiu
ao ano em que fiz a quinta série na escola. Esta
morte aconteceu numa época em que eu estava
passando por várias mudanças físicas e emocio­
nais, e não pude aceitá-la muito bem. Eu entrei
então no ginásio sem saber o que era realmente.
Não participava de nada e não tinha nenhum
objetivo. Foi um tempo muito difícil para mim.
Dr. Dobson: Como você superou esses problemas?
Lena: Minha mãe me encorajou a sair da concha, a
me envolver em tantas atividades quantas pudes­
se. Nós também passamos a nos interessar pelo
cristianismo durante aqueles anos. Nem minha
mãe nem meu irmão sabiam para onde se vol­
tar, mas meus avós eram pessoas muito religio­
sas. Nós fomos morar com eles, e foi então que
comecei a participar de um programa da esco-
cola dominical que me ajudou bastante.
Dr. Dobson: Lena, você disse que essa experiência
difícil ocorreu durante o seu primeiro ano de
ginásio. Isso não me surpreende por que a sétima
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 131
e oitava séries são geraimente o período mais
tumultuado da vida da pessoa. Os sentimentos
de inferioridade freqüentemente se tornam mais
fortes durante esses dois anos, por alguma ra­
zão. Conheço centenas de jovens de treze anos
que chegaram à conclusão: “Não valho nada!”
Alguém mais caiu nesse mesmo “desfiladei­
ro da inferioridade”?
Décio: Eu caí apesar de a minha situação ser diferen­
te da de Lena. Eu era redator do jornal da
escola quando estava no ginásio, o que me pro­
porcionava uma certa posição. Mas o meu pro­
blema naquela época começou na igreja. Eu era
“diferente” dos meus amigos porque gostava de
estudar, de falar em público e coisas assim, as
quais me isolavam de uma certa forma. Eu não
estava envolvido nas atividades da igreja para os
jovens da minha idade. Lembro-me de um pas­
seio desastroso à praia em particular. Eu tinha
querido ir, mas chorei ao chegar em casa. Fiz
mesmo isso. Sentia-me tão infeliz por ter sido
provocado pelo pessoal durante todo o tempo
que não suportei. Eu não sabia por que todo
mundo tinha decidido me arreliar.
Dr. Dobson: Estou interessado na atitude de seus
amigos na igreja. Eles não respeitavam você por­
que gostava de estudar?
Décio: Sim, esse era um problema. No meu grupo era
esperado que todo o mundo odiasse a escola.
Era esperado que eu dissesse: — Os professores
são aborrecidos, a escola é detestável, e quem
quer que se interesse pelo estudo é maluco. —
Mesmo agora a maioria de meus amigos não
132 Adolescência Feliz
gosta de estudar, e só se esforçam para tirar as
notas necessárias. Eles dizem: —Não vou estudar
isso porque não vai cair na prova. — E isso não
adianta nada. Quando estava no ginásio gostava
de estudar e tentei partilhar minhas experiências
e falar abertamente sobre elas, mas ninguém
mais queria fazer isso. Eles não eram francos
como eu e isso me trouxe problemas. Desde
então não quis mais me abrir também. Foram
necessários cerca de dois anos para que eu pu­
desse superar esses sentimentos e começasse a
conversar de novo na escola dominical e me
sentisse livre.
Dr. Dobson: Você foi muito claro, Décio. Os jovens
são sujeitos a zombarias, provocações e ridículo
por serem francos uns com os outros. Seus
sentimentos são profundamente feridos e eles
vão para casa chorar, como você fez. Começam
então a “fechar-se”. No dia seguinte estarão
mais cautelosos... mais reservados. .. mais fin­
gidos em seus contatos sociais.
Você pensou algum dia, Décio, por que seus
amigos não eram tão francos quanto você? É
provável que se tivessem queimado da mesma
maneira que você. Eles já tinham aprendido os
perigos de serem livres e espontâneos. 0 resulta­
do foi uma sociedade embaraçada e tensa onde
todos sabiam que podiam ser alvo da zombaria
da escola inteira se cometesse um erro social.
Que maneira difícil de viver!
Décio: As pressões são grandes. Por exemplo, agora se
espera que todo mundo seja “frio”, isto é, você
não deve mostrar seus sentimentos ou revelar o
seu verdadeiro “eu”. Se fizer isso alguém rirá da
ternura, da suavidade interior. Bem, algumas
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 133
pessoas reconhecem que não vale a pena ser tão
cauteloso. Vi cartazes na escola que dizem:
“Não é mais frio ser frio”. Essa é uma maneira
rápida de dilacerar-se. . . de prejudicar mais a si
mesmo do que outros poderão fazê-lo.
Dr. Dobson: A mãe de uma menina que está na
sétima série me contou que a filha acorda todas
as manhãs às cinco e meia e passa uma hora
pensando: — Como posso atravessar este dia
sem cometer qualquer erro que faça as pessoas,
rirem de mim? — Isso não é terrível? Cecília,
tenho certeza de que você teve alguns sentimen­
tos como esse, não é?
Cecília: Lembro-me da terceira semana de meu pri­
meiro ano no ginásio — era uma escola inteira­
mente nova para mim. Eu conhecia algumas
pessoas ali, mas não estava familiarizada com
tudo. Eu era baixinha, tinha cerca de um metro
e meio de altura, e isso é muito pouco. Eu
conhecia uma menina na escola chamada de
“Berta Grandona” e ela media cerca de um
metro e setenta. Berta era a menina mais detes­
tável da escola, e todo mundo fugia quando ela
chegava perto. Eu achava aquilo horrível, acha­
va que não deviam fugir dela. Mas um dia
quando estávamos subindo as escadas Berta me
chutou. Eu não gostei e lhe disse algo, ela então
me chutou com mais força. Fui para casa e não
disse nada a ninguém, mas fiquei tão perturbada
que comecei a chorar. Quando contei a meus
pais por que estava chorando eles acharam que
era muita maldade alguém ter feito isso. Foram
então falar com o diretor e contaram o aconteci­
do. Eles então me disseram para tratar Berta
134 Adolescência Feliz
como tratava os demais, pois a razão por que ela
me chutara era por sentir-se embaraçada com a
sua altura. Ela não era tão má assim, apenas se
sentia mal a respeito de si mesma.
Dr. Dobson: Esse foi um conselho muito bom, Cecí­
lia. Veja bem, as pessoas agem de diversas manei­
ras quando se sentem inferiores. Décio mencio­
nou um tipo de abordagem, que é entrar numa
concha e ser muito cauteloso com as pessoas.
Outra maneira é tornar-se zangado e ressentido.
Berta optou por esta segundo alternativa. Você
não pode imaginar como ela se sentia, primeiro
sendo chamada de “Berta Grandona”, e depois
vendo todo mundo fugir dela? Essas duas expe­
riências me fariam provavelmente desejar chutar
as pessoas também. Berta tinha sido profunda­
mente ferida, e isso fez com que ela ferisse
você. Como você tratou Berta no dia seguinte
na escola?
Cecília: Bem, ela possuía um pequeno grupo de ami­
gas; havia três que estavam sempre juntas. Toda
vez que eu as via pelos corredores sorria para
elas. Acho que isso as faria ficar meio zangadas
comigo, mas continuei sorrindo e elas nunca
mais fizeram nada para mim depois disso.
Dr. Dobson: Você veio gradualmente a aceitar-se a si
mesma?
Cecília: Acho que estou ainda...
Dr. Dobson: Está ainda trabalhando para isso?
Cecília: Sim.
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 135
Dr. Dobson: Acho que vai continuar fazendo isso pelo
resto da vida.
Cecília: Eu sei.
Dr. Dobson: A maioria de nós está trabalhando nesse
mesmo projeto. Paulo, você começou a dizer
alguma coisa.
Paulo: Vocês estão falando de pessoas que são feridas
por seus amigos. Quando eu era menor sofri um
acidente que me fez ficar aleijado durante todo
o verão. Eu tinha de usar uns sapatos muito
esquisitos, pois quebrara a perna e fui obrigado
a usar calçados especiais, elevados. Eu não que­
ria fazer isso, e levava escondido os meus ou­
tros sapatos e os colocava mais tarde para que
ninguém risse de mim. Isso durou alguns anos.
As pessoas me chamavam de “Aleijado”, mas eu
não era e ficava ressentido por caçoarem de
mim. Mesmo agora eu penso algumas vezes: —
“Oh, como gostaria de ser como fulano porque
ele é especial, e então todo mundo gostaria de
mim porque seria um atleta tão bom.” Foi isso
que sempre eu quis ser, alguém que se destacas­
se e não alguém de quem as pessoas riem.
Dr. Dobson: Não é interessante que vocês todos te­
nham tido os mesmos sentimentos? Esse é exa­
tamente o meu ponto. Se escolhéssemos mil
adolescentes e fizéssemos a cada um a pergunta
que fiz a vocês, quase todos contariam uma
história parecida com as que ouvimos — sobre
zombarias, ser diferente, não ser aceito pelos
outros. Trata-se de algo que todos experimen­
tam hoje em dia.
136 Adolescência Feliz
Digam-me agora por quê — por que temos de
suportar esses momentos difíceis? Existe algum
meio de evitá-los?
Lena: Eu tentei resolver meus problemas da maneira
errada — tornando-me amiga da turma “bem”.
Havia dois grupos diferentes em minha escola.
Havia este grupo que ficava até altas horas fora
de casa e depois voltava e mentia para os pais; e
um outro grupo que tentava ser mais responsá­
vel. Eles acreditavam que fazer loucuras não
resolvia nada em suas vidas. Mas não foi fácil
para mim escolher entre esses amigos. Eu co­
nhecí pessoas dos dois grupos e não sabia exata­
mente a quem escolher. Havia mais membros do
grupo rebelde do que do responsável, e foi o
que aconteceu, eu não queria que rissem de
mim, não queria ser rejeitada, não queria que
pensassem que eu não tinha juízo, e fiquei
então ali numa encruzilhada, sem saber que
direção tomar.
Dr. Dobson: Você sentiu uma pressão enorme para
fazer coisas que sabia serem erradas?
Lena: Sim, o peso era tremendo.
Dr. Dobson: E essa pressão pode fazer com que você
se comporte de maneira prejudicial. Creio, por
exemplo, que a maior parte do abuso de drogas
em nosso país ocorre por causa da enorme
pressão descrita por Lena. O problema está em
que os jovens não têm coragem para escolher o
grupo certo. O resto de vocês teve de fazer uma
escolha semelhante?
Décio: Eu tive de decidir se ia ou não seguir as regras
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 137
de meus colegas na escola. Eu sabia que se não
os acompanhasse estaria “fora”.
Dr. Dobson: Dê-nos um exemplo do que está dizen­
do, Décio. Que espécie de regras era esperado
que seguisse?
Décio: Bem, como a regra de ser “frio”. Você não pode
mostrar seus sentimentos porque as pessoas po­
dem rir. Mas existem outras regras em quase
todas as áreas.
Dr. Dobson: E as suas roupas — o grupo lhe dizia o
que usar?
Décio: Sim.
Dr. Dobson: Como falar?
Décio: Sim.
Dr. Dobson: E quais os termos de gíria a serem
usados?
Décio: Sim. Você de uma certa forma se convence
depois de algum tempo que é isso mesmo que
quer fazer. Quero dizer, você gosta de pensar que
não está se conformando, mas que gosta do
mesmo tipo de calças, sapatos e malhas que
todo mundo está usando. Mas à medida que a
moda muda, você compreende que deve haver
uma outra força influindo nas suas atitudes.
Essa outra força é a pressão do grupo.
Dr. Dobson: E a respeito de drogas? Alguém já ofereceu
narcóticos a vocês?
138 A dolescên cia Feliz
Lena: Sim, na escola. A bibliotecária colocou no qua­
dro de boletins um cartaz prevenindo contra o
perigo de tomar drogas. Enquanto eu estava
lendo, alguém chegou por trás e disse: —Parece
ótimo, não? Ali mesmo estavam me oferecendo
narcóticos! N aquela ocasião eu não sabia muito
a respeito de remédios ou qualquer outra coisa, e
quando contei à minha mãe ela ficou horroriza­
da, dizendo: — Nunca fizeram isso no meu
tempo. — Ela está sempre falando coisas assim.
Dr. Dobson: Você não acha que é mais difícil ser um
adolescente agora do que no passado?
Lena: Sim.
Dr. Dobson: Sempre houve pressões sobre os jovens,
mas agora o problema de drogas e outros peri­
gos parece ser pior.
Alguém já lhe ofereceu drogas, Cecília? Ou já
viu alguém usá-las?
Cecília: Não, nunca participei do gmpo aloucado. Eu
sempre estive com o pessoal mais quieto.
Paulo: Lena disse que sua mãe não podia acreditar
que pudesse haver acesso a drogas na escola.
Bem, meus pais também tiveram dificuldades em
acreditar. Mas, como sabe, nossa sociedade mu­
dou. Uma nova moda surge e todos querem estar
nela. 0 que me preocupa é o que vai acontecer
quando ficarmos mais velhos e tivermos filhos.
Como vamos enfrentar essa situação com nossos
filhos, se tomamos drogas e fizemos coisas er­
radas? Que respostas poderemos dar a eles?
Dr. Dobson: Essas são peguntas boas, Paulo, porque
esse dia virá muito rápido. Você se verá tentan­
Foi Isto Que A conteceu Comigo 139
do impedir que seus filhos cometam os erros
que preocupam seus pais hoje.
Cecília: Acho que muitos de nossos problemas ocor­
rem por que não conversamos suficientemente
com nossos pais; guardamos tudo dentro de nós
e não falamos com quem possa ajudar-nos. Fala­
mos com nossos amigos que estão tendo os mes­
mos problemas, mas eles não têm as respostas e
não sabem o que dizer-nos. Por exemplo, Lena
falou com sua mãe. Essa foi provavelmente a me­
lhor coisa que podia fazer. Eu nunca diria nada
a meus pais, porque eles explodiríam e teriam
ficado aborrecidos com a escola. Mas acho isso
muito importante — ter um relacionamento
com seus pais em que possa falar abertamente
com eles, e não precisa preocupar-se corp a ma­
neira como irão reagir. Eles então poderão dar-
lhes as respostas que o ajudarão.

Dr. Dobson: Dois de vocês mencionaram o assunto de


falar com os pais. E os outros dois? Décio, você
conseguiu falar com sua mãe e seu pai?

Décio: Não tive tanta oportunidade de falar com eles


porque as drogas nunca foram um problema
para mim. Mas concordo que os adultos podem
ajudar-nos com as nossas dificuldades se estive­
rem “sintonizados”. Mas algumas vezes eles não
sabem o que está acontecendo. Por exemplo, eu
tive uma professora que estava completamente
por fora. Nós nos achávamos na classe um dia e
veio pelo corredor o cheiro doce e doentio de
marijuana, perfeitamente discernível. Ele entrou
na classe e todo mundo sabia o que era menos
140 Adolescência Feliz
a professora. (Risos.) Nós ficamos ali lendo e
olhando uns para os outros, tentando esconder
o riso, enquanto a professora dava notas, quando
de repente ela levantou a cabeça e disse: —
Puxa! Que cheiro delicioso! 0 que será? —
(Risos.) Ela não tinha idéia do que estávamos
rindo. Seria impossível para ela, compreende?
Ela era do tipo de professora que jamais teria
dado um pensamento a essa espécie de coisas.
Mas eles estão melhorando em nossa escola ago­
ra, estão tendo programas amplos para a preven­
ção de drogas, mas mesmo isso não vai ser
suficiente.
Dr. Dobson:E o que você me diz de conversar com seus
pais sobre outras coisas que o preocupam, Dé-
cio? Você sabe como expressar seus sentimen­
tos a eles? Vamos voltar àquela noite penosa
em que você foi à praia. (Eu tive uma noite
muito parecida com essa, por sinal.) Você vol­
tou para casa e conversou com seus pais a
respeito?
Décio: Sim, falei com meu pai. Meus pais foram
criados em um ambiente cristão muito restrito e
minha mãe é ainda —bem, não estou querendo
dizer que ela é bitolada, mas pelo fato de meu
pai ter tido mais experiências, ele é mais flexí­
vel. Ele é um ministro e sabe então como acon­
selhar as pessoas com problemas. Ele me disse
para não ligar muito para as risadas e me ajudou
a compreendê-las. Mas, sabe de uma coisa? Des­
cobri merecer um pouco daquelas zombarias.
Eu tinha usado uma roupa superexcêntrica -
não era engraçada, mas era excêntrica. (Risos.)
Há uma diferença entre as duas coisas. Você
pode fazer com que as pessoas riam de você e
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 141
foi isso que fiz. Bem, no dia seguinte mesmo
livrei-me daquelas roupas.
Dr. Dobson: A pessoa aprende gradualmente a evitar
que os outros riam dela. Depois de ter sido pica­
da algumas vezes, ela descobre o que é “perigo­
so” e o que não é. E você Paulo?
Paulo: Sinto às vezes que posso conversar com meu pai
melhor do que com minha mãe. Acho que princi­
palmente pelo fato de ele também ter sido meni­
no e compreender algumas das situações pelas
quais estou passando. Ele sempre me encoraja a
ter o tipo certo de amigos.
Dr. Dobson: Você teve de escolher a que grupo se
juntar, como fizeram os outros?
Paulo: Sim, e essa é uma escolha muito importante.
Alguns de meus amigos da igreja começaram a
andar com a turma errada, e logo se desviaram
de Deus e passaram a ter uma vida errada.
Estou grato por me achar em um bom grupo e
essas coisas não terem acontecido comigo.
Dr. Dobson: Bem, Paulo, o seu comentário faz surgir
um ponto extremamente importante. Todos nós
somos influenciados pelas pessoas que nos ro­
deiam. Até mesmo os adultos são dominados
pela pressão social. Por esta razão, a decisão
mais crítica que você deve tomar irá envolver os
amigos que tiver escolhido. Se escolher o grupo
errado, eles terão uma influência negativa sobre
você. Isto é certo. Poucas pessoas possuem a
autoconfiança necessária para suportar críticas
por parte de seus amigos íntimos.
142 Adolescência Feliz
Lena: Gostaria de dizer que algumas das melhores
pessoas são aquelas que não têm tanta populari­
dade com a turma “bem.” Estou namorando
agora um rapaz que anda numa cadeira de ro­
das. Ele é extremamente simpático e tem uma
personalidade fantástica. Alguma pessoas me
desprezam por namorá-lo. Elas dizem: — Bem,
por que você sai com ele quando poderia sair
com alguém normal? — Acho que isso é injus­
to.
Paulo: Eu também acho! Mas sinto a mesma pressão
quando decido convidar uma garota para sair
comigo. Sei que alguns de meus amigos vão
achar que ela não é bonita bastante para mim,
ou algo parecido. E então me sinto meio depri­
mido, sabe como é?
Cecília: Há pouco tempo comecei a perceber como é
importante a pesonalidade da pessoa. Estou
sempre pensando: — E se me casar com essa
pessoa, qual seria a sua reação aos problemas
que enfrentamos? Não importa a aparência da
pessoa. Além disso, ele vai ficar velho de qual­
quer modo. (Risos.)
Dr. Dobson: Essa não é uma expectativa muito interes­
sante, apesar de que penso ser verdadeira! Mas,
você está certa Cecília. Conheci uma jovem que
se casou com o melhor jogador de basquete da
escola por ele ser um grande esportista. Dez
anos mais tarde, porém, ninguém mais se lem­
brava dos grande feitos dele. Tudo o que sa­
biam era que o rapaz não tinha capacidade para
ganhar o seu sustento, não sabia tomar decisões,
batia na esposa e gritava com os filhos. É como
você disse, Cecília, precisamos olhar para o fu­
Foi Isto Que A conteceu Comigo 143
turo e tentar prever como será a sua vida com
uma determinada pessoa.
Décio: Eu estou numa situação interessante agora. O
ginásio não está muito longe de mim, mas mi­
nha irmãzinha já entrou no ginásio e na noite
passada ela estava muito aborrecida com a pos­
sibilidade de talvez precisar mudar de escola no
ano que vem. Ela conversou comigo sobre as
suas preocupações e me vi dizendo as mesmas
coisas que disse esta noite. Enquanto conversava
com ela, pensei comigo mesmo: — O que estou
fazendo? Este é um eco de três anos atrás. Eu
sou meu pai e ela é eu. — (Risos.) Sabem, era
como se as palavras de meu pai tivessem batido
na parede e estivessem voltando para ela agora.
Eu podia ver que os problemas dela não eram
realmente sérios, e ficava pensando: — Por que
ela não pode ver? Eu estou lhe dando as res­
postas mais claras do mundo. —Mas quando eu
me achava na mesma situação não tinha no
começo idéia do que meu pai estava falando.
Dr. Dòbson: Você precisa passar pela experiência, a
fim de ver que as coisas fazem sentido, não é?
E, dessa forma, esta gravação pode ser um mis­
tério para o ouvinte que está entre os dez e
doze anos de idade e que ainda não passou
pelas experiência que estamos descrevendo. Vo­
cê pode não compreender inteiramente o que
estamos falando, mas quando a coisa acontecer
com você, então será como ligar uma lâmpada
sobre a sua cabeça. Você irá lembrar-se desta
gravação e de nossa conversa sobre os sentimen­
tos de desajuste e inferioridade. Quando isso
acontecer com você, lembre-se do momento
144 Adolescência Feliz
exato em que eu disse que você tem realmente
grande mérito como pessoa humana.
Lena: Eu tinha um complexo de inferioridade quando
estava na sétima série — minhas sardas! Elas
apareciam, por mais que eu fizesse , para ocul­
tá-las. Minha mãe ficava me dizendo que eu
não devia escondê-las, pois eram bonitas. E co­
mo Décio eu me vi falando a mesma coisa para
uma outra menina algumas semanas atrás. Ela
tem sardas e elas são bonitas. Eu lhe disse que
as pessoas vão caçoar dela, mas mesmo assim não
deve incomodar-se. De fato, as sardas são valio­
sas, porque se você ficar com espinhas ninguém
vai perceber a diferença. (Risos.)
Décio: Eu não tenho um problema de acne muito
sério, mas ele piora algumas vezes.
Dr. Dobson: Explique o que é acne para esclarecer
aqueles que não sabem.
Décio: Bem, é uma coisa completamènte física. Todas
essas conversas supersticiosas são tolas, como
aquela que diz: “É a sua maldade que está
aparecendo”. (Risos.) Trata-se de um problema
físico, em que o seu sistema produz mais subs­
tâncias gordurosas.
Dr. Dobson: Seja mais específico, Décio. Diga-nos o
que acontece.
Décio: Você fica com uma porção de pontinhos ver­
melhos no rosto e ao redor do pescoço algumas
vezes. Eles fazem com que você se sinta terrivel­
mente feio quando certas outras pessoas pare­
cem ter uma pele absolutamente perfeita. Quan­
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 145
do a acne é realmente séria, ela pode ser devas­
tadora, deixando a gente desanimado. E mesmo
que diga a si mesmo — sei quais são as minhas
prioridades e sei que a beleza não é a coisa mais
importante — mesmo assim a sua autoconfiança
fica abalada.
Dr. Dobson: Você fica sensível, não é?
Décio: Ouvi isto num programa de televisão: — Qual
o maior problema enfrentado pelos adolescen­
tes? — O homem estava só brincando, e respon­
deu “acne” por causa do trocadilho entre
“acne” e algo que precisa ser enfrentado. Então
o orientador disse: — Certo! — E a audiência
riu. Mas, as espinhas afetam realmente a sua
autoconfiança. Você tem de se apresentar ao
mundo como se dissesse: — Aqui estou, amigos,
com essas bolas vermelhas no rosto. — E isso é
péssimo. É fácil dizer a si mesmo: — Muito
bem, a beleza física não é importante. — Mas
não é tão fácil convencer-se disso quando seu
rosto está coberto de imperfeições.
Dr. Dobson: Vi um estudo de centenas de adolescen­
tes a quem foi perguntado o que eles menos
gostavam a respeito de si nresmos, e os proble­
mas de pele estavam no começo da lista. Essa é
a razão por que me oponho tanto às bonecas
Suzi. Suponho que todas as meninas brincam
com essas bonecas quando são pequenas, e qua­
se ninguém pensa muito no assunto. Mas o que
me preocupa sobre a Suzi é que ela é fisicamen­
te perfeita; Suzi não tem espinhas. Sua pele é
maravilhosa; seu cabelo tem “volume” (qual­
quer que seja o significado disso); ela não tem
um grama a mais de gordura em lugar algum.
146 Adolescência Feliz
De fato, a única imperfeição no corpo rosado
de Suzi é uma pequena declaração no seu traseiro
dizendo que foi feita em Hong Kong! (Risos.)
Veja bem, essas bonecas dão às meninas uma
imagem do que elas devem ser quando se tor­
narem adolescentes, e há bem pouca possibilida­
de disso. Não há nada de real nessa idéia.
Cecília: Parece que as espinhas sempre aparecem antes
de uma data realmente especial na escola. Elas
nunca falham. Você está ótima duas semanas
antes e não tem uma única imperfeição, mas no
grande dia lá vêm elas, pior que catapora.
Dr. Dobson: Até parece que um gênio mau as coloca
em nós durante a noite.
Paulo: 0 que estamos querendo dizer é que as pessoas
têm de aprender a aceitar-se a si mesmas, como
são. Isso é difícil de fazer e tem sido difícil
para mim. As pessoas vão zombar de você e isso
dói, e algumas vezes você deseja, como já disse
antes: — Por que não posso ser como aquele
camarada que tem uma pele boa e todas as
mininas são loucas por ele? Por que não posso
ser assim? Ninguém me ama. —Penso que esse
é o maior problema que os que estão no come­
ço da adolescência enfrentam — a aceitação dos
seus corpos.
Cecília: Minha mãe me disse certa vez que a beleza é
algo que cresce dentro de você, e que algumas
pessoas bonitas por fora não se interessam em
cultivar sua personalidade e caráter. Mais tarde,
aquelas que são menos atraentes podem ser até
mais felizes porque sua beleza interior aumenta
à medida que envelhecem.
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 147
Dr. Dobson: Gostaria que todos soubessem disso, Ce­
cília. Vi outro estudo que procurava provar o
que você disse. Os pesquisadores identificaram
as garotas mais bonitas e as menos atraentes na
escola. Depois eles as estudaram durante 25
anos para ver o que aconteceu no seu casamen­
to e vida posterior. Acreditem ou não as menos
atraentes tenderam a ser mais felizes no casa­
mento 25 anos depois. É então errado para
qualquer pessoa achar que precisa ser fisicamen­
te perfeita.
Deixe-me dizer, em resumo, que todo mundo
tem algo de que não gosta na sua pessoa. Para
Paulo foram os sapatos. Ele não se sentia bem
usando sapatos especiais. Para Lena foram as
sardas. Para Cecília a sua altura, não gostava de
ser baixinha. Para Décio, o fato de ser estudioso
em lugar de ser um apreciador dos esportes. Se
as pessoas fossem sinceras, todas admitiríam
sentir-se embaraçadas por causa de algum defei­
to que se torna um fardo a carregar por toda a
vida. Mas é desnecesário preocupar-se! Todos
nós temos grande valor humano, sem levar em
conta nossa aparência. É essa a beleza do cristia­
nismo. Jesus me ama, não porque sou fantasti­
camente inteligente ou belo; Ele me ama sim­
plesmente porque eu sou! Que mensagem recon­
fortante! Eu não preciso fazer nada para mere­
cer o amor dEle, pois está à disposição de todos
como um dom gratuito. Para a pessoa prejudica­
da por sentimentos de inferioridade essa é uma
mensagem de grande importância.
— A gravação foi interrompida neste ponto. —
Dr. Dobson: Temos aqui um novo membro de nosso
grupo que quero que conheçam agora. Gustavo,
fale um pouco sobre você.
148 Adolescência Feliz
Gustavo: Meu nome é Gustavo Nourse, e trabalho
para uma firma cristã de fitas cassete. Vim
aqui hoje para ajudar com a gravação, mas achei
interessante unir-me ao grupo para falar sobre
drogas do ponto de vista de um ex-viciado. Eu
usei drogas e pensei então que sepa útil acres­
centar alguns comentários.
Dr. Dobson: Concordo, Gustavo, podemos aprender
mediante a sua experiência. Para começar, con­
te-nos como as pessoas passam a usar drogas.
Gustavo: Essa é uma pergunta comum. Bem, eu co­
mecei a usar drogas por ser curioso, andava
entediado e por ser um meio fácil de me dis­
trair. Mas uma vez que você começa a tomar
drogas, não é mais divertido sentir-se normal.
Conheço esse sentimento porque ficava dopado
todos os dias.
Dr. Dobson: Que tipo de drogas você tomava?
Gustavo: Comecei com marijuana.
Dr. Dobson: Isso levou você a tomar outros narcóticos?
Gustavo: Na verdade não. Pelo menos não houve um
“hábito” que me levasse a tomar drogas mais
fortes. Todavia, quando você começa a tomar
marijuana, se aproxima das drogas e das pessoas
que fazem uso delas. ^Foi isso que me levou a
aprofundar-me.
Dr. Dobson: Quando você começou a tomar pílulas?
Gustavo: Bem, comecei a ficar viciado no primeiro
grau. Acho que tomei primeiro as “vermelhi-
Foi Isto Que A conteceu Comigo 149
nhas” e depois cocaína e quase toda substância
psicodélica.
Dr. Dobson: Está bem, Gustavo, vamos voltar à
primeira experiência. Você se lembra do que
aconteceu?
Gustavo: Lembro sim. A irmã mais velha de meu
amigo era viciada, e ela nos fazia enrolar cigar­
ros para ela, e então.. .
Dr. Dobson: Por favor, explique-se melhor.
Gustavo: A pessoa recebe a marijuana em saquinhos ou
algo assim e tem então de enrolá-la na forma de
cigarros. Aquela moça nos fazia ficar sentados
durante horas enrolando cigarros para ela. Certo
dia em que estávamos fazendo isso decidimos
experimentar alguns. Roubamos dois, e essa foi
a primeira vez que fiquei dopado.
Dr. Dobson: A idéia foi sua ou você estava com
alguém que disse: —Vamos experimentar?
Gustavo: A idéia foi minha.
Dr. Dobson: Foi você quem fez pressão sobre os ou­
tros, não foi?
Gustavo? Fui eu.
Dr. Dobson: E você logo começou a tomar outras
substâncias?
Gustavo: Sim. Aconteceu isso durante todo o período
to ginásio
150 Adolescência Feliz
Dr. Dobson: Conte-nos como você se sentiu depois de
ter tomado uma droga e quando o efeito come­
çava a passar.
Gustavo: A volta é horrível, especialmente quando se
toma anfetamina. Eu sempre ficava horrivelmen­
te doente. Quero contar que quando a pessoa
flca “amarrada” numa droga é medonho. Quan­
do você acorda de manhã já sabe que tem de
tomar a droga naquele mesmo dia ou vai ficar
doente. Se consegue obtê-la então tudo vai
bem, mas a mesma rotina começa de novo na
manhã seguinte.
Dr. Dobson: E se você não tem dinheiro e não pode
comprar o que precisa?
Gustavo: Olhe, isso depende da droga em que está
preso. Se for anfetamina ou heroína, você fica
muito doente. Com a heroína você passa por
períodos de “afastamento” que são medonhos.
A anfetamina é ainda mais perigosa porque des-
trói as células do cérebro, interfere na circula­
ção, faz com que o cabelo caia, e modifica toda
a sua personalidade. Você se torna temperamen­
tal; chora à-toa, porque fica extremamente
deprimido. A mesma coisa acontece com o “áci­
do” (LSD). Você fica exausto no dia seguinte
depois de tomá-lo e sua cabeça parece cheia
de algodão. Quanto mais você toma LSD, tanto
mais sua personalidade se deteriora. Você se
torna mais introvertido e menos produtivo. Nos­
so corpo não foi realmente feito para essas
influências químicas.
Dr. Dobson: Ouvimos falar que as drogas psicodélicas
tornam a pessoa mais criativa e com mais conhe­
cimento de si mesma. Você confirma isso?
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 151
Gustavo: De forma alguma. Você vê coisas quando
toma essas drogas que depois nem lembra mais.
A experiência parece boa na hora, mas não
produz nenhum benefício depois que passa.
Dr. Dobson: Descrevi antes uma situação em que um
jovem estava num carro com quatro amigos que
começaram a passar em volta algumas “verme-
lhinhas”. Quando ele se recusou a tomá-las,
todos disseram: — Vamos, covarde, o que você
é, um bebê? Está com medo? Todo mundo faz
isso. 0 que há com você? — 0 que ele deve
fazer num momento assim? Quais as sugestões
que você pode oferecer a um jovem que possa
algum dia encontrar-se em tal situação? Ele já
se sente inferior; ele já acha que não gosta de
suas sardas ou dos sapatos que usa, ou algo
mais a respeito de si mesmo. Como vai enfren­
tar esse momento quando chegar?
Gustavo: Concordo em que ele está numa situa­
ção muito difícil, especialmente se se achar em
companhia de pessoa, que respeita e de quem
deseja ser amigo. Mas deve tomar uma decisão
nesse instante que será uma das mais importan­
tes escolhas que jamais terá de fazer. Uma vez
que comece a tomar drogas, depois de ter dito
o primeiro “sim”, vai enfrentar anos de proble­
mas. Sugiro então que resista e se recuse a
participar. Ele deve começar a procurar novos
amigos, porque os atuais irão provavelmente
cair cada vez mais no vício. Ele não pode conti­
nuar no grupo sem se envolver mais cedo ou
mais tarde.
Dr. Dobson: Gostaria que você comentasse sobre o
papel que a inferioridade desempenha no abuso
152 Adolescência Feliz
de drogas, que discutimos antes. Como sabe,
acredito que a pessoa que se sente inferior —
. aquela que não gosta de si mesma — algumas
vezes usa drogas para fugir. Em outras palavras,
se tomar uma pílula pode então escapar de si
mesma por alguns minutos ou uma hora ou
duas. Você concorda com este ponto de vista?
Sentimentos de inferioridade tiveram parte na
sua experiência com drogas?
Gustavo: Foi isso mesmo. A inferioridade teve o pa­
pel mais significativo no meu caso. As pessoas
sempre afirmam que não estão tomando drogas
para escapar, mas é justamente isso que aconte­
ce. As drogas oferecem uma maneira rápida de
afastar-se daqueles detestáveis sentimentos de
desajuste. Todavia, os mesmos continuam ali,
aguardando você quando volta.
Dr. Dobson: Quando você começou a superar as dúvi­
das sobre a sua própria pessoa?
Gustavo: Acredite ou não ela's ficaram piores
quando saí do ginásio. Olhe, a maior parte das pes­
soas se esforça para ser popular durante os anos
de escola, e eu fiz o mesmo. Mas depois do
último ano parece que tudo perde o sentido.
Não há ninguém mais para apreciar você. É
então que os sentimentos de inferioridade podem
ficar insuportáveis.
Dr. Dobson: Bem, Gustavo, como você voltou à nor­
malidade? Você está sentado aqui hoje “vesti­
do, em perfeito juízo”.
Gustavo: Jesus Cristo entrou em minha vida e fez a
diferença.
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 153
Dr. Dobson: Conte-nos como encontrou o Senhor.
Gustavo: Bem, eu não estava buscando a Deus. Eu
não me sentia como se estivesse procurando
algo, mas meus amigos estavam falando comigo
sobre o Senhor. Finalmente, não foi nada que
eles tivessem dito — foi uma espécie de revela­
ção de Deus, eu sabia que precisava dEle. Pedi,
com o pouco de fé que tinha, para que Ele
entrasse em minha vida, e Ele o fez. E eu soube
imediatamente que tinha feito isso.
Dr. Dobson: Quando você se entregou a Jesus, livrou-
se do seu problema de drogas imediatamente?
Gustavo: Sim. Quando a pessoa se rende ao Senhor,
ela se sente limpa por dentro, como se fosse
uma nova pessoa. Jesus disse: “Deixo-vos a mi­
nha paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou
como a dá o mundo. Não se turbe o vosso
coração, nem se atemorize.”
Dr. Dobson: Gustavo, fico satisfeito por você ter
partilhado a sua experiência conosco e por nos
dar este testemunho pessoal. Tenho a certeza de
que muitos jovens serão ajudados por ele.
Gustavo: Obrigado por permitir que contasse a minha
história. Vou voltar agora à gravação.
Dr. Dobson: Gostaria que nós quatro discutíssemos
outro aspecto extremamente importante da ado­
lescência, e estou me referindo às mudanças físi­
cas que ocorrem durante o início desse período.
Não é incomum que os meninos e meninas se
amedrontem com o que está acontecendo ao
154 Adolescência Feliz
seu corpo. Algum de vocês experimentou esses
temores no começo da adolescência?
Lena: Sim. Eu comecei a mudar muito cedo, na
quarta e quinta séries. Fiquei com medo porque
minha mãe não me falara sobre o assunto.
Dr. Dobson: Ela não tinha preparado você para essas
alterações?
Lena: Não, pois pensava que não iriam acontecer até a
sexta ou sétima série. Quando aconteceu antes
disso eu não sabia o que estava havendo e
entrei em pânico..
Dr. Dobson: Que tipo de medo você teve, Lena?
Você ficou imaginando que era anormal de al­
gum modo, ou que tinha alguma doença terrí­
vel?
Lena: Pensei que fosse morrer. Pensei mesmo. Estava
na escola e corri para a enfermaria em lágrimas.
A enfermeira não sabia o que tinha acontecido
e eu me achava tão fora de mim que não
conseguia explicar-lhe.
Dr. Dobson: A sua sinceridade é muito útil Lena,
pois irá encorajar outras pessoas que este­
jam ouvindo a não ter medo quando ocorrerem
essas mudanças físicas. Elas devem saber que o
processo de crescimento é controlado pela glân­
dula pituitária localizada no cérebro. Numa cer­
ta ocasião e numa certa idade ela envia mensa­
geiros químicos chamados hormônios que pro­
duzem essas mudanças as quais podem ser tão
terrificantes.
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 155
Lena: Olhe, quando diz que não devemos ter medo
isso parece fácil, mas como a pessoa pode dei­
xar de entrar, em pânico? Por exemplo, quando
descobri que era alérgica a abelhas, minha mãe
me disse: —Não fique com medo delas, isso basta.
— Mas não posso fazer nada. Quando elas che­
gam perto de mim eu corro na direção oposta.
Tenho um medo de morte de abelhas. Quando
minha mãe me disse para não preocupar-me isso
não ajudou a vencer o meu medo.
Dr. Dobson: Existe uma diferença, porém, Lena. Vo­
cê tem realmente algo a temer das abelhas por­
que é alérgica à picada das mesmas. Todavia, o
que desejo transmitir aos que não chegaram
ainda à adolescência é que eles não têm nada a
temer por parte das modificações físicas que
estão ocorrendo. Trata-se de um processo natu­
ral que ocorre em toda pessoa sadia. Décio?
Décio: Eu era muito baixinho no ginásio. Acho que
quase todos os meninos são mais baixos que as
meninas no ginásio.
Dr. Dobson: É isso mesmo.
Décio: Estou começando a alcançar os outros agora,
mas durante algum tempo era muito sensível
com respeito à minha altura. Mas eu não era o
único que se sentia embaraçado, porque as mu­
danças físicas da adolescência coincidiram com
a educação física como uma classe especial no
ginásio. Em outras palavras, exatamente na épo­
ca em que você tinha mais consciência do seu
corpo era preciso tomar banhos de chuveiro e
expor-se diante de todo o mundo no vestiário.
156 Adolescência Feliz
Dr. Dobson: Exatamente.
Décio: Eu me preocupava mais com as aulas de educação
física do que com todas as outras, apesar de ser
a mais fácil. Eu gostava de jogar basquete e
outros esportes, mas me ressentia do meu corpo
e não gostava que os outros o vissem. Todos os
demais se sentiam assim, e as aulas de educação
física trouxeram muitos problemas.
Dr. Dobson: Décio, você mostrou grande discernimen­
to com o seu comentário. Essas aulas causam mes­
mo muitos problemas para os garotos. Os que ain­
da não amadureceram são muito sensíveis com re­
lação ao seu corpo de criança, especialmente
quando notam que os outros são mais adultos.
Isto provoca tremenda ansiedade, especialmente
para os que são objeto de caçoada dos amigos.
Alguns alunos chegaram a dizer-me: “Expulse-
me da escola, reprove-me, mande-me para a
Sibéria, mande-me para a prisão, faça qualquer
coisa, mas não vou tomar banho de chuveiro
depois da aula de educação física nunca mais!”
E compreendo perfeitamente os sentimentos de­
les.
Lena: Quando me disseram que eu devia tomar banho
depois da aula de educação física fiquei muito
tensa e preocupada. Eu nem queria ir à escola
naquele dia. Fiz o possível para enganar minha
mãe. c iquei doente com antecipação. Tentei
cudo, mas ela me fez ir à escola de qualquer
jeito. Todas as meninas se sentiam como eu, e
foi engraçado, porque as toalhas que nos deram
não eram grandes o bastante para cobrir-nos.
(Risos.) Nós devíamos na verdade enxugar-nos
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 157
nas toalhas, mas todo mundo amarrou-as ao
redor do corpo, e tentou então vestir-se e des­
pir-se com a toalha no lugar. Não queríamos
que ninguém visse nossa aparência. Foi simples­
mente terrível!
Dr. Dobson: E todo mundo estava sentindo a mesma
coisa.
Lena: Todas estavam embaraçadas e conscientes de si
mesmas! (Risos.)
Dr. Dobson: Alguns dos outros também tiveram a
mesma espécie de sentimentos e temores?
Cecília: Eu costumava me vestir no chuveiro! (Risos.)
Dr. Dobson: É isso, estamos todos no mesmo barco.
Paulo, o mesmo problema?
Paulo: Sim, aconteceu comigo também.
Dr. Dobson: Essas experiências são mais penosas, na­
turalmente, para os que têm os velhos sentimen­
tos de inferioridade. Esse problema parece sur­
gir em toda parte.
Paulo: Uma outra coisa que perturba os garotos é
quando não são muito fortes. Uma porção deles
é “musculosa” e quando a gente é magricela
eles dão risada e zombam. Eu não sou o rapaz
mais forte do mundo e então sempre quis me­
lhorar, eu queria ter músculos, para poder fazer
parte do grupo. Penso que foi esta a razão da
minha inferioridade.
158 Adolescência Feliz
Dr. Dobson: Antes do início da puberdade — antes de
você crescer — os seus músculos são como os de
uma criança. Eles se tornam mais poderosos e
mais como os de um adulto pouco depois da
explosão do crescimento. Assim sendo, o meni­
no que se desenvolve tarde tem probabilidade
de ser mais fraco. Isso dificulta as coisas para
ele, porque seus amigos estão jogando futebol e
fazendo coisas que exigem força. A força é
muito importante para os rapazinhos, e. os que
ainda não se desenvolveram se sentem inferiores
por algum tempo. Isso pode trazer os sentimen­
tos descritos por Paulo.
Lena: Tem uma outra coisa que me aborrece. As
aulas de educação física dos meninos e das
meninas são naturalmente separadas, mas nós às
vezes ficamos juntos no pátio. Então é que dá
medo mesmo, pois eles estão ali vestidos para a
aula de ginástica e nós também. Nós talvez
estejamos jogando basquete e eles voleibol. E a
tensão é terrível! A gente está dando o melhor
de si, mas eu não sou boa jogadora de basquete
— sou baixinha e às vezes me sinto aleijada
(risos) — e com certeza ninguém gosta de zomba­
ria. Todas as meninas ficam tentando impressio­
nar os rapazes e eles a elas. É um período de
tensão.
Décio: Quando os rapazes e as meninas estão nas
mesmas quadras ou algo assim é que os abusa­
dos (os que querem se exibir) se aproveitam.
Quando eu estava no ginásio eles vinham de
mansinho por trás (faz um movimento de puxar
para baixo) e puxavam o calção da gente (Ri­
sos.). A vítima naturalmente agarrava na mesma
hora o calção e o punha no lugar, mas eu vivia
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 159
com um medo terrível que isso me acontecesse
pois jamais teria coragem de aparecer de novo
em público depois de uma coisa assim. Passava
então metade do tempo jogando e a outra metade
olhando por cima do ombro. Como resultado,
não sou um bom jogador! Era preciso ter cuida­
do, ficar vigilante, não se colocar numa posição
vulnerável. Não há muito que se possa fazer
para não ser humilhado, mas alguma coisa sem­
pre é possível.
Paulo: Quando a gente está com uma menina é uma
ótima ocasião para os garotos se vingarem, di­
zendo algo sobre a nossa pessoa ou a nossa
família. E isso dói.
Dr. Dobson: Pelo que vocês estão falando dá para ver
que são mais cautelosos quando estão perto de
alguém do sexo oposto. Quando as garotas es­
tão com os rapazes e estes com elas é que ficam
mais vulneráveis. E isso é fácil de compreender.
Vou convidar o Sr. João Lessa para juntar-se a
nós. Ele é também um técnico que veio traba­
lhar com os gravadores. Esta discussão que esta­
mos tendo é no entanto tão fantasticamente
estimulante que os técnicos querem participar e
dar sua opinião. João, seja bem-vindo ao nosso
grupo.
João: Obrigado.
Dr. Dobson: Você esteve aqui perto durante a última
meia hora e sei que tem algumas idéias sobre o
assunto da inferioridade.
João: Eu só queria dizer que muitos de nós se tornam
híper-sensíveis com respeito à própria aparência,
160 Adolescência Feliz
como por exemplo, “sou muito gordo” ou “sou
muito magro”. Eu tive o mesmo problema por­
que nunca me julguei muito bonito. Eu via
pessoas que julgava atraentes e queria ser como
elas. Sempre quis ter cabelo preto, por exem­
plo, e numca apreciei minha aparência. Desde
então aprendi que Deus fez as pessoas como são
por algum motivo, e Ele não comete erros. Co-
nheci algumas pessoas que compreendiam esse
princípio e se recusavam a permitir que suas im­
perfeições as perturbassem. Conheço uma garota,
por exemplo, que precisa usar aparelho para andar.
Ela teve uma doença que não sei como se
chama, mas precisa de ajuda para andar pois
suas pernas são muito finas e fracas. Essa garota
é porém uma das pessoas mais belas que já vi.
Ela glorifica a Deus, porque sabe que tem de
ser como é. Como resultado, ela edifica as pes­
soas e as torna felizes, e isso a faz feliz por sua
vez. É realmente uma coisa maravilhosa. Mas as
pessoas no geral se preocupam tanto com a sua
aparência que deixam de compreender que Deus
pode usá-las como são. Deus tem um propósito
para cada um de nós, e é nosso dever descobrir
quais os propósitos dEle e cumpri-los.
Dr. Dobson: Esse é o segredo da autoconfiança, João.
Todavia, as pequenas imperfeições da pessoa
podem levá-la a esconder-se num canto, com a
boca fechada, e jamais fazer uso do talento que
Deus lhe concedeu.
João: Isso pode certamente acontecer. É engraçado,
mas nunca pensei em mim mesmo como sendo
alguém especial, como tendo capacidade de lide­
rança. Mas no ginásio isso aconteceu. Sabe, al­
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 161
guém me pediu para envolver-me e eu disse
“sim”. Tornei-me então redator do jornal do
colégio e me envolvi em muitas outras atividades.
Mas foi preciso que estivesse disposto a dar aque­
le primeiro passo.
Dr. Dobson: E à medida que sua confiança cresceu,
também cresceu a sua capacidade. Este é um prin­
cípio que eu gostaria que todos os nossos leito­
res compreendessem. Você pode pensar que não
tem capacidade nem habilidade, mas o seu verda­
deiro problema é que lhe falta confiança. Quero
contar-lhes a re.speito do ponto baixo em minha
vida. Pediram-me que desse um testemunho cris­
tão quando estive numa reunião no tempo de
ginásio. Eu pretendia falar apenas cinco minutos
e decorei então um pequenino discurso formal.
Mas o jovem que me precedeu falou durante
trinta minutos sem tomar fôlego. Suas palavras
eram perfeitas, e quanto mais ele falava, mais
gelado eu me sentia. Eu sabia que não tinha
tanto a dizer. Quando finalmente subi no palco
e olhei para toda aquela gente da minha idade,
tive um branco. Fiquei ali parado sem poder
dizer nada. Todos os alunos se mantiveram em
perfeito silêncio olhando para a minha cara ver­
melha. Foi um dos momentos mais desagradá­
veis e desanimadores de toda a minha vida,
enquanto eu tentava dizer algo. Falo hoje atra­
vés do país inteiro e recebo milhares de convi­
tes que não tenho tempo de aceitar. A diferen­
ça entre aquele primeiro desastre e o sucesso
atual é uma questão de confiança.
João: Essa primeira experiência provavelmente fez com
que você quisesse ter sucesso ainda mais, não
é?
162 Adolescência Feliz
Dr. Dobson: Foi mesmo, mas levei cinco anos para
superar aquela crise. Não posso descrever como
foi penoso aquele fracasso na ocasião, mas
como você disse, João, o Senhor fez uso daque­
le momento terrível. Ele me deu o desejo de
aprender a falar em público com facilidade.
Lena: Por falar em confiança, a mesma coisa aconte­
ceu comigo no teatro. Eu achava que não era
capaz de representar. Matriculei-me num curso
de teatro e todos os dias a professora insistia
para que eu e outras duas meninas subíssemos no
palco. Mas eu não tinha confiança alguma e
procurava ficar escondida num canto, muito
tímida. Finalmente decidi tentar. Foi difícil da
primeira vez, mas gradualmente comecei a acre­
ditar em mim mesma. Agora tudo ficou mais
fácil.
João: Todo mundo é basicamente o mesmo. Em meu
trabalho conheço pessoas famosas e importan­
tes, mas não passam de gente comum, o mesmo
que nós.
Dr. Dobson: Muito bem, suponhamos que lhe falte
autoconfiança. Como obtê-la? Algumas suges­
tões?
João: Todo mundo, não importa quem seja, tem algo
que pode fazer. Você pode ser capaz de fa/er um
buraco- maior no seu quintal. (Não estou sugerin­
do que faça qualquer coisa negativa ou destruti­
va.) Mas todos têm habilidades que não foram
desenvolvidas, e você deve identificá-las e culti­
vá-las. Minha irmã sentiu que sabia desenhar e
então praticou muito, ela agora é uma artista.
Não penso que tenha nascido artista, mas ela
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 163
desenvolveu as suas habilidades. Minha outra
irmã é louca por ginástica. Ela não é tão boa
quanto aquela menina russa.. .
Dr. Dobson: Olga?
João: É isso, Olga Korbut.
Dr. Dobson: 0 princípio que você está nos dando é
um no qual acretido e que tentei descrever
antes. Se você se sente inferior e desajustado e
julga que nada tem a oferecer, procure desco­
brir seus talentos ocultos. Tente identificar seus
pontos positivos e os interesses que pode culti­
var e depois coloque neles todos os seus recur­
sos. Logo se sentirá melhor a respeito de si
mesmo.
Paulo: Bem, e se você tentar algo realmente novo e
falhar? Isso faz com que as pessoas o depre­
ciem. Não vai ficar pior do que antes?
João: Não necessariamente, porque na verdade não
importa o que as outras pessoas pensam. 0 fato
de você ter tido coragem de tentar algo que não
compreendia, mostra muito a seu respeito, so­
bre o tipo de pessoa que você é.
Paulo: Sim, mas algumas vezes seus pais o encorajam
a mergulhar em algo desconhecido, e então
você se perde, entendeu? Sente-se então depri­
mido e desanimado. Eles não deveríam empurrá-
lo para algo que você sente que não vai bem
com você.
Dr. Dobson: Você tem razão, Paulo, mas pense deste
modo: uma criança que está dando os seus
164 Adolescência Feliz
primeiros passos tem de cair antes de aprender
a andar, certo? Ela jamais andaria se não esti­
vesse disposta a cair no início. O medo de cair
pode impedir-nos de tentar qualquer coisa nova.
Pode manter você fechado porque teme correr
alguns desses riscos. Com alguma confiança de
si pode realizar alguma coisa que o fará orgu­
lhoso de si mesmo. É isso que seus pais estão
esperando. Cecília, gostaria que falasse agora.
Cecília: Uma das coisas mais difíceis para mim é
ficar à frente de um grupo de pessoas para can­
tar, falar ou fazer qualquer outra coisa. Há um
ano atrás experimentei fazer parte de uma torci­
da na escola. (A torcida atua nos jogos de
futebol e em outras atividades escolares.) Todo
mundo quer fazer parte, mas nem todos conse­
guem. Você precisa ser bom para ser escolhido.
A primeira vez que tentei estava com tanto
medo que pensei que não iria conseguir. Mas
quando se pratica bastante e se procura apren­
der, então a coisa fica mais fácil, como disse
Lena. Foi o que aconteceu comigo, e fui esco­
lhida para entrar no grupo de torcida. Na noite
passada tive de participar de uma atuação e
não fiquei com medo de ir ao campo. Há um
ano, no entanto, pensei que desmaiaria quando
isso acontecesse. Foi só a prática que me aju­
dou a vencer.
Dr. Dobson: Ela aumentou a sua confiança, não é?
Cecília: Certo.
Dr. Dobson: Esse sucesso vai tornar mais fácil para
você tentar alguma coisa nova da próxima vez?
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 165
Cecília: Com certeza.
Dr. Dobson: Pelo fato de ter enfrentado o medo, não
é?
Cecília: Sim.
Dr. Dobson: Se tivesse feito o que realmente estava
querendo fazer, teria fugido?
Cecília: Sim.
Dr. Dobson: Conheço um grande corredor — ele na
verdade ganhou três medalhas de ouro nas
Olimpíadas. Esse homem afirmou que em cada
competição seu desejo é fugir do estádio. Tam­
bém me contaram que Wilt Chamberlain ia para
o banheiro e vomitava antes de cada jogo de
basquete no colégio. Aquela tensão tremenda,
aquele medo, pode manter você sentado em
casa numa cadeira, talvez chorando, em lugar de
fazer com que use os talentos que Deus lhe deu.
Décio, não quero causar-lhe dificuldades, mas
gostaria que para encerrar você nos dissesse o
que Jesus Cristo significa para você.
Décio: Existe uma música no Hinário Cristão que
inclui esta idéia: não importa o que a pessoa
faça por si mesma, ela irá falhar se não estiver
trabalhando juntamente com Deus. É assim que
me sinto. Jesus Cristo está sempre ali para me
ajudar... para dar-me confiança... para ser
meu amigo. Ele naturalmente espera que eu faça
a minha parte do trabalho, que desenvolva os
talentos que me concedeu e aproveite as opor­
tunidades que me oferece. Isto se relaciona com
o que estivemos discutindo esta noite. É nossa
166 Adolescência Feliz
responsabilidade aplicar esses princípios que fo­
ram sugeridos, mas mesmo que façamos todos os
movimentos certos, mesmo assim não podemos
fazer tudo sozinhos. Falando por mim mesmo,
dependo da sociedade com Deus. Ele está sem­
pre ali para apoiar-me, especialmente em perío­
dos de dificuldade. Eu não só tenho outras
pessoas e amigos para ajudar-me, mas Cristo
está também operando em mim. É isso que Ele
significa para mim.
Dr. Dobson: Você se expressou muito bem, e existe
um versículo bíblico que exprime a mesma
idéia: “Se o Senhor não construir a casa, o
trabalho do construtor será inútil.” Isso significa
que você pode construir o seu próprio império,
tornando-se a maior autoridade do mundo em
um dado assunto e ganhar uma fortuna, mas se
Deus não estiver incluído, você terá desperdiça­
do o seu tempo. Deus quer que lhe digamos:
“Não tenho muito, mas a minha vida é sua. Por
favor, tome-a e a abençoe.”
Cecília: Isto me ajudou muito no correr dos anos. Sei
que o Senhor me aceita como sou, porque foi
Ele quem me fez assim. Não preciso preocupar-
me com a minha aparência nem com a maneira
como falo. 0 Senhor me conhece e tem minha
vida em suas mãos.
Dr. Dobson: Não é maravilhoso? A aceitação de Deus
é incondicional. Mesmo que eu não seja a pes­
soa mais admirada do mundo; mesmo que não
seja a mais bonita nem a mais inteligente; mes­
mo que não tenha fortuna; mesmo que não
tenha vencido qualquer competição esportiva;
mesmo que não tenha chegado ao ponto que
Foi Isto Que Aconteceu Comigo 167
esperava chegar, e mesmo que tenha desaponta­
do outras pessoas... mesmo assim, sou digno
aos olhos de Deus. Paulo, você acredita que isso
é verdade? Jesus Cristo é real para você?
Paulo: Sim, Ele é. Mas houve ocasiões em que me
afastei da igreja e do Senhor, e posso dizer-lhe
agora que sem Cristo em mim sou uma pessoa
por completo diferente sob todos os aspectos.
Mas quando Cristo está no controle, é como ter
um amigo a seu lado ajudando em todas as
ocasiões.
Dr. Dobson: Lena, epi conclusão, você diria que foi
agradável crescer, ou foi difícil e penoso?
Lena: Ambas as coisas. Foi divertido, mas na ocasião
pensei: — Acho que não vou agüentar — Mas
agora, quando olho para trás, para todas as
experiências que passei, gostaria de ter nova­
mente doze anos para poder fazer tudo de no­
vo. Posso afirmar que eu ia fazer muitas coisas
de forma diferente.
Dr. Dobson: Este é provavelmente um bom lugar para
encerrar nossa conversa. Quero agradecer a to­
dos vocês por terem estado aqui conosco nesta
noite e por terem sido tão sinceros, partilhando
alguns de seus sentimentos particulares conosco.
Espero que essas discussões tenham sido úteis
para os ouvintes. Elas talvez possam ser de
auxilio, ajudando cada um a evitar as armadi­
lhas familiares, conhecidas e a gozar algumas
das bênçãos que a vida tem em depósito para
você. Mais uma vez obrigado e até logo.
168 Adolescência Feliz
MENSAGEM FINAL

Penso que cobrimos os assuntos que você deve­


ria conhecer a respeito da adolescência que se aproxi­
ma. Falamos sobre a inferioridade, conformidade,
puberdade, amor romântico, e emoção. Tudo o que
resta é oferecer uma ou duas sugestões finais que
poderão ajudá-lo a enfrentar as pressões que foram
discutidas.
Hoje Não É para Sempre
Em primeiro lugar, existe uma tendência dtiran-
te os ãm5s~"3eadolescência para pensar quê ‘‘hojê~e~
para sempre”, que as circunstâncias presentes .não vão
mudar, que os problemas que você está enfrentando
neste momento irão continuar pelo resto da vidã.Tor
exemplo, muitos jovens que se sentem inferiores e
não têm popularidade na escola, geralmente acreditam
que continuarão sendo pouco amados e rejeitados.
Eles não podem imaginar uma situação diferente da­
quela que experimentam na escola a cada dia. Na
verdade, porém, os anos da adolescência passam rapi­
damente, e logo não serão mais do que uma lembrança
na memória. Os amigos (e inimigos) que estão na sua
classe irão formar-se logo e se mudarão para outros
lugares. Uma vez que isso aconteça nenhum poder na
terra poderá fazer com que as coisas voltem a ser
como são agora. A mini-sociedade em sua escola irá
dissolver-se completamente, jamais voltando a reunir-
se.
Dessa forma, se você se sentir infeliz por qualquer
razão durante a adolescência, agüente firme — as
coisas vão mudar. Esse fato é uma das certezas da
vida, e compreendê-lo ajudará você a enfrentar uma
situação pouco confortável. Amanhã será diferente.
Mensagem Final 169
A Normalidade Vai Voltar
Quero oferecer outra mensagem encorajadora
sobre os anos da adolescência que pode ser resumida
nestas palavras a normalidade vai voltar. Quero dizer
com isso que você está prestes a entrar num mundo
tumultuado que fará novas exigências e o confrontará
com muitos novos desafios. (Lembra-se de que eu
disse que de vez em quando você irá sentir-se como
se estivesse suspenso pelos calcanhares? ) Quando esses
momentos de tensão surgirem.. . quando quiser namo­
rar uma menina e ela o rejeitar, quando não for
convidado para a festa dada em homenagem às pes­
soas mais populares, quando seus pais o criticarem
por tudo, quando as espinhas e cravos atacarem sua
testa como um exército de insetos, quando ficar pen­
sando se Deus está realmente ali e se Ele realmente se
preocupa... naqueles momentos em que se sentir
tentado a desistir, por favor lembre-se das minhas
palavras: “a normalidade vai voltar”.
Assim como pude prever muitas das experiên­
cias da adolescência que surgiram em seu caminho,
posso também, prever com certeza que este período
de tensão na sua vida vai passar. A adolescência é de
certa forma como um túnel que tem um começo e
um fim conhecidos. Enquanto você permanecer na
estrada e mantiver seu carro em movimento, você
pode esperar sair do outro lado. As ansiedades e
conflitos que vem experimentando irão também logo
desaparecer, e uma nova série de pressões adultas
tomarão o seu lugar. Assim é a vida, como dizem.

O Seu Melhor Amigo


O conselho final (mas mais importante) que
posso dar-lhe é manter sua amizade com Jesus Cristo nos
170 Adolescência Feliz
anos que virão. Ele ama você e compreende todas as
suas necessidades e desejos. Ele estará ali para parti­
lhar de seus dias brilhantes e das noites escuras.
Quando você enfrentar as escolhas importantes da
vida (a escolha de um companheiro, de um emprego,
etc.), Ele irá guiá-lo, orientando os seus passos. Ele
nos deu essa segurança em Provérbios 3:6 que diz:
“Em tudo aquilo que você faz, coloque Deus em
primeiro lugar, e Ele dirigirá você.” Que promessa
reconfortante!
Quero agradecer-lhe por fazer esta viagem atra­
vés da adolescência comigo. Apesar de não nos conhe­
cermos, sinto que este livro nos ajudou a nos tornar-,
mos amigos.
Confio em que Deus irá abençoar a sua vida, e
espero encontrá-lo um dia.
Dr. James Dobson

Prezado leitor,
Sua opinião acerca deste livro é muito importante.
Escreva-nos. Peça também nosso catálogo. Você o receberá
gratuitamente. Nosso endereço:
EDITORA MUNDO CRISTÃO
Caixa Postal 21.257,04698-970 — São Paulo, SP
— Os editores