You are on page 1of 206

2014 - 22 (2)

2014 - 22(2)
A Revista Bioética é uma publicação científica idealizada pelo Conselho Federal de Medicina para fomentar a discussão
multidisciplinar e plural de temas de bioética e ética médica, voltada à formação acadêmica e ao aperfeiçoamento
constante dos profissionais de saúde. Sua linha editorial, bem como a composição e atuação do Corpo Editorial, são
completamente independentes da plenária do CFM. Os autores são responsáveis pelas informações divulgadas nos
artigos, que não expressam, necessariamente, a posição oficial do CFM.

Revista Bioética Volume 22, número 2 – 2014

Editor geral – Gerson Zafalon Martins


Editora científica – Dora Porto
Editor assistente – Thiago Rocha da Cunha
Copidesque/revisor – Napoleão Marcos de Aquino
Tradução e revisão – Tradutorium – Centro de traduções e intérpretes
Normalização bibliográfica – Eliane M. Medeiros e Silva - CRB 1a Região/1678, Rameque Beserra Antunes de
Figueiredo – CRB 1a Região/2653
Editoração eletrônica – Renovacio Criação
Gráfica – Posigraf
Ilustração de capa – Homem vitruviano, Leonardo da Vinci, 1490 – Gallerie dell’Accademia, Veneza, Itália

A Revista Bioética é distribuída gratuitamente aos conselhos federais de especialidades da área da saúde, conselhos
regionais de medicina, associações médicas, bibliotecas públicas, grupos de pesquisa cadastrados no CnPQ, cursos
de bioética e médicos interessados registrados em nosso banco de dados. Também está disponível eletronicamente
na página do CFM, na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), na SciELO e na Lilacs Express em inglês e espanhol.

Tiragem: 10.000 exemplares

Indexação
Base de Dados da Literatura Latino-Americana e do Caribe de Informações em Saúde – Lilacs; Latindex; Periódica – Indice
de Revistas Latinoamericanas en Ciencias; DOAJ - Directory of Open Access Journal; Sumários de Revistas Brasileiras
(Sumários.org); readcube. SciELO - Scientific Electronic Library Online; EBSCOhost Online Research Databases; DRJI -
Directory of Research Journals Indexing; ReadCube. Filiada à Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec).

Conselho Federal de Medicina


SGAS 915, Lote 72 – Brasília/DF, Brasil – CEP 70390-150
Tel.: 55 (61) 3445 5900
Home-page: http://revistabioetica.cfm.org.br
bioetica@portalmedico.org.br
revistabioetica@gmail.com

Ficha catalográfica

Revista Bioética. Vol. 22, no 2 - 2014. Brasília/DF, Brasil, Conselho Federal de Medicina, 2014.

Quadrimestral

1.Bioética.I.Conselho Federal de Medicina

ISSN Online 1983-8034 CDU 614.25(05)


ISSN Impresso 1983-8042

Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 3.0 Unported


Editor: Gerson Zafalon Martins, Conselho Federal de Medicina, Curitiba/PR, Brasil.

Editora executiva: Dora Porto, Conselho Federal de Medicina, Universidade de Brasília (UnB) e Rede Latino-
Americana e do Caribe de Bioética da Unesco (Redbioética), Brasília/DF, Brasil.
Corpo Editorial

Os integrantes do Corpo Editorial da Revista Bioética granjeiam reconhecimento nacional e internacional, seja
por titulação acadêmica e por estudos e pesquisas realizados nesse campo, seja por contribuições à bioética a
partir de suas áreas profissionais específicas ou, mesmo, por destacada participação em comitês, conselhos e
comissões de ética e bioética em todo o país.
Ana Maria Tapajós Ministério da Saúde, Brasília/DF, Brasil.
Antônio Carlos Mendes Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC), São Paulo/SP, Brasil.
Antônio Macena de Figueiredo Hospital Universitário Antônio Pedro, Universidade Federal Fluminense (UFF),
Niterói/RJ, Brasil.
Armando Martinho Bardou Raggio Secretaria Municipal de Saúde de Sorocaba/SP, Brasil.
Arnaldo Pineschi de Azeredo Coutinho Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj);
Comissão de Bioética da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP); Departamento de Bioética da Sociedade de
Bioética do Rio de Janeiro (SBRio), Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Corina Bontempo Duca de Freitas Secretaria de Saúde do Distrito Federal/Fundação de Ensino e Pesquisa em
Ciências da Saúde, Brasília/DF, Brasil.
Délio José Kipper Comitês de Bioética do Hospital São Lucas e da Faculdade de Medicina da PUC/RS, Porto
Alegre/RS, Brasil.
Diaulas Costa Ribeiro Universidade Católica de Brasília (UCB), União Educacional do Planalto Central (Uniplac/
Faciplac) e Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, Brasília/DF, Brasil.
Dirceu Bartolomeu Greco Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte/MG, Brasil.
Fermin Roland Schramm Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Instituto Nacional de Câncer (Inca), Rio de Janeiro/
RJ, Brasil.
Gabriel Oselka Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP, Brasil.
José Eduardo de Siqueira Universidade Estadual de Londrina (UEL), International Association of Bioethics,
Londrina/PR, Brasil.
José Roberto Goldim Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul (PUCRS), Hospital de Clínicas de Porto
Alegre, Porto Alegre/RS, Brasil.
Juan Carlos Tealdi Hospital de Clínicas da Universidade de Buenos Aires (UBA), Associação de Bioética e Direitos
Humanos (Bio&Sur) e Secretaria de Direitos Humanos da Argentina, Buenos Aires/CF, Argentina.
Krikor Boyaciyan Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), Câmara Técnica de Saúde
da Mulher do Cremesp, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Academia de Medicina de São Paulo
(AMSP), São Paulo/SP, Brasil.
Leo Pessini Centro Universitário São Camilo – São Paulo e Espírito Santo, São Paulo/SP, Brasil.
León Olivé Universidade Nacional Autônoma do México (Unam), Conhecimento e Comissão de Ética na
Pesquisa em Saúde, do Instituto Mexicano de Seguro Social, Cidade do México/DF, México.
Luís Roberto Cardoso de Oliveira Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB), Brasília/DF,
Brasil.
Luiz Roberto Londres Clínica São Vicente, Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Marcia Mocellin Raymundo Unidade de Assuntos Regulatórios de Pesquisa (Uarp) do Serviço de Bioética do
Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/
RS, Brasil.
Marcio Fabri dos Anjos Programa de pós-graduação stricto sensu em Bioética do Centro Universitário São
Camilo, São Paulo/SP, Brasil.
María Casado Universidade de Barcelona (UB), Observatório de Bioética e Direito e Cátedra Unesco de Bioética
(UB), Comité de Bioética de España, Comisión Nacional para el uso forense del ADN, Ibero Network International
Association of Bioethics, Comité de Bioética de Cataluña, Barcelona/CT, Espanha.
Mário César Scheffer Departamento de Medicina Preventiva, Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (USP), São Paulo/SP, Brasil.
Mário Roberto Hirschheimer Departamentos de Bioética da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Sociedade
de Pediatria de São Paulo, Câmara Técnica de Pediatria do Conselho Regional de Medicina do Estado de São
Paulo (Cremesp), São Paulo/SP, Brasil.
Marlene Braz Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Escola Nacional de Saúde Pública, Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Mauro Machado do Prado Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia/GO,
Brasil.
Mayana Zatz Universidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP, Brasil.
Miguel Kfouri Neto Tribunal de Justiça do Paraná, Escola de Magistratura do Paraná e Faculdade Estadual de
Direito do Norte Pioneiro Jacarezinho, Curitiba/PR, Brasil.
Miguel Kottow Escuela de Salud Pública, Facultad de Medicina, Universidad de Chile. Rede Latino-Americana
e do Caribe de Bioética da Unesco (Redbioética), Santiago, Chile.
Nedy Maria Branco Cerqueira Neves Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública da Fundação Bahiana para
Desenvolvimento das Ciências (EBMSP-FBDC), Salvador/BA, Brasil.
Nelson Grisard Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), Conselho
Regional de Medicina do Estado de Santa Catarina (Cremesc), Florianópolis/SC, Brasil.
Paulo Antônio de Carvalho Fortes Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e Rede
Latino-Americana e do Caribe de Bioética da Unesco (Redbioética), São Paulo/SP, Brasil.
Raquel E. Ferreira Dodge Procuradoria Regional da República, Brasília/DF, Brasil.
Reinaldo Ayer de Oliveira Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Medicina da USP e Conselho Regional
de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), São Paulo/SP, Brasil.
Roberto Luiz d’Avila Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Conselho Federal de Medicina,
Florianópolis/SC, Brasil.
Rosely Maria Zancopé Oliveira Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro/RJ, Brasil.
Rui Nunes Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), Kennedy Institute of Ethics (EUA),
Hastings Center (EUA), Biopolitics International Organization (Greece), Academia Portuguesa de Medicina e
International Society on Priorities in Health Care (UK), Porto, Portugal.
Salvador Dario Bergel Facultad de Derecho de la Universidad de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.
Simônides Bacelar Hospital Universitário da Universidade de Brasília (UnB), Centro de Pediatria Cirúrgica,
Brasília/DF, Brasil.
Sueli Gandolfi Dallari Universidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP, Brasil.
Volnei Garrafa Cátedra Unesco e Programa de Pós-Graduação em Bioética da Universidade de Brasília (UnB),
Rede Latino-Americana e do Caribe de Bioética da Unesco (Redbioética), Comitê Internacional de Bioética da
Unesco, Brasília/DF, Brasil.
William Breitbart Memorial Sloan-Kettering Cancer Center e Universidade de Cornell, Nova Iorque/NY, Estados
Unidos da América.
Sumário
Editorial............................................................................................................................................................ 197

Artigos de atualização
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad ..................................................... 201
O dever moral dos estados e dos cidadãos para preservar a sustentabilidade
The moral duty of states and citizens to preserve the sustainability
Maria Luisa Pfeiffer
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico ............................................................................... 211
Bioética en Latinoamérica: desafío al poder hegemónico
Bioethics in Latin America: challenge to hegemonic power
Dora Porto
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana ................................................. 223
Una genealogía inmunitaria: la bioética y la búsqueda de la auto-conservación humana
An immunitary genealogy: bioethics and the pursuit of human self-preservation
Monique Pyrrho
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética .................................................................. 232
O paciente como texto segundo Ricoeur: implicações em bioética
The patient as “text” according Ricoeur: bioethic’s implication
Carlos Alberto Rosas Jiménez
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites ................................................................... 240
Directivas anticipadas de voluntad: beneficios, obstáculos y limitaciones
The advance directive: benefits, obstacles and limits
Maria Inês Nunes, Márcio Fabri dos Anjos
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas.................................................................... 251
La castración química en casos de pedofilia: consideraciones bioéticas
Chemical castration in case of pedophilia: bioethical considerations
Thais Meirelles de Sousa Maia, Eliane Maria Fleury Seidl
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross ....................... 261
Cuando la muerte ya no tiene poder: consideraciones acerca de una obra de Elisabeth Kübler-Ross
When death has no power anymore: considerations on a work by Elisabeth Kübler-Ross
Carolinne Borges Alves, Pedro Lucas Dulci
Bioética de Intervenção e Pedagogia da Libertação: aproximações possíveis .................................................... 270
Bioética de Intervención y Pedagogia de la Liberación: aproximaciones posibles
Intervention Bioethics and Pedagogy of Liberation: possible approaches
Ivone L. Santos, Helena E. Shimizu, Volnei Garrafa
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave ........................................................... 281
La limitación del esfuerzo terapéutico en persona con lesión cerebral grave
Limitation of therapeutic effort in person with severe brain injury
Henrique de Alencar Gomes, Mônica Adelaide Almeida, Terezinha Valéria Ferreira Matoso, Maria Angélica
Assunção Viana, Maria Bernadete Cardoso Rezende, Maíza Ângela Ferreira Bento, Tatiane Santos Fonseca
Guimarães, Sabrina Vilane de Oliveira Alcântara, Ary Demétrio Júnior, Ana Paula Gomes Costa Silva, Cibele
Renata de Paula Moreira, Daniela Simplício Vieira Albergaria, Marília Káthya Coutinho, Marli Medeiros, Roseli
Melo Silva de Souza, Polianna Cristina Pires Dumont
Artigos de pesquisa
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil ............................................................................. 290
La verdad de la violación en los servicios de aborto legal en Brasil
The truth of the rape at reference abortion services in Brazil
Debora Diniz, Vanessa Canabarro Dios, Miryam Mastrella, Alberto Pereira Madeiro
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos ................................................ 298
Las cuestiones éticas relacionadas con las preferencias del paciente en los cuidados paliativos.
Ethical issues related to patient preferences in palliative care
Carolina Becker Bueno de Abreu, Paulo Antonio de Carvalho Fortes
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde” ........ 308
La construcción y validación del “Inventario de Problemas Éticos en la Atención Primaria de la Salud”
Construction and validation of the instrument “Inventory of Ethical Problems in Primary Health Care”
José Roque Junges, Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli, Marcos Paschoal Patussi, Rafaela Schaefer, Carlise
Rigon Della Nora
Declaração de óbito: preenchimento pelo corpo clínico de um hospital universitário ....................................... 317
Certificado de defunción: cumplimentación por el Cuerpo Médico en un hospital universitario
Death certificate: filling by the Medical Staff of a university hospital
Luan Lucena, Gustavo Henrique, Bocalon Cagliari, Julio Tanaka, Elcio Luiz Bonamigo
Compreensão e legibilidade do termo de consentimento livre e esclarecido em pesquisas clínicas ................... 325
La comprensión y la legibilidad del Consentimiento Libre, Previo e Informado en investigaciones clínicas
Comprehension and readability of the informed consent form in clinical research
Eurípedes Rodrigues Filho, Mauro Machado do Prado, Cejane Oliveira Martins Prudente
Reflexões sobre questões morais na relação de indígenas com os serviços de saúde......................................... 338
Reflexiones sobre cuestiones morales en la relación de indígenas con los servicios de salud
Reflection on moral issues in the relation between indigenous people and health services
Ana Lucia de Moura Pontes, Luiza Garnelo, Sergio Rego
Problemas bioéticos na Estratégia Saúde da Família: reflexões necessárias ....................................................... 347
Problemas bioéticos en la Estrategia Salud de la Familia: reflexiones necesarias
Bioethical Issues in the Family Health Strategy: relevant reflections
Selma Vaz Vidal, Luís Cláudio de Souza Motta, Andréia Patrícia Gomes, Rodrigo Siqueira-Batista
Distanásia e ortotanásia: práticas médicas sob a visão de um hospital particular .............................................. 358
Distanasia y ortotanasia: prácticas médicas bajo la visión de un hospital privado
Futility and orthotanasia: medical practices from the perspective of a private hospital
José Antônio Cordero da Silva, Luis Eduardo Almeida de Souza, Luísa Carvalho Silva, Renan Kleber Costa Teixeira
Reflexões bioéticas sobre a eutanásia a partir de caso paradigmático ............................................................... 367
Reflexiones bioéticas acerca de la eutanásia a partir de un caso paradigmático
Bioethical reflections on euthanasia: analysis of a paradigmatic case
Daniel Abreu Santos, Eduardo Robatto Plessim de Almeida , Felipe Freire da Silva, Layo Henrique Carvalho
Andrade, Leandro Anton de Azevêdo, Nedy Maria Branco Cerqueira Neves
Avaliação do conhecimento dos anestesiologistas sobre cuidados paliativos .................................................... 373
La evaluación del conocimiento de los anestesiólogos acerca de los cuidados paliativos
Evaluation of knowledge among anesthesiologists about palliative care
Maria de Fátima Oliveira dos Santos, Natália Oliva Teles, Harison José de Oliveira, Nicole de Castro Gomes, Joana
Cariri Valkasser Tavares, Edilza Câmara Nóbrega
Espiritualidade e qualidade de vida em pacientes diabéticos ............................................................................ 380
Espiritualidad y calidad de vida en pacientes con diabetes
Spirituality and quality of life in diabetic patients
Camila de Moura Leite Luengo, Adriana Rodrigues dos Anjos Mendonça
Editorial
d oi p od o p di i o o i o i -
d d do p di 1 r o i i pop r o
p r odo pr d . o r i o oi di r : d d 2013 o p oi rrido
por o d d pro o i r o o ho d r or
o r o i d d r i ir .
d dorr p o ri d po r o i id d do do d -
d o r i o o p r do ro do dir i o h o d i
o o d d o pop o gri o r r o r o o
d o do o p d io por . i
or r g d r pop r o r d d
d do p ri o i gi rio o o d o p i o o d i g
d r ir pri iro g r o i r p r r.
o o r i iro o p h o o pro o d gr do
r org i do o por i r dio d r d o i i d p r rr gi-
rod o o io o or o po
o d ido g o d oi p i . o o di or i o o o o -
o por rop ord do d o ho i o r d -
r o o pr o p o o r o do go r o p r i i -
p d r po d r r d d d pop o.
i o prop i o d r o pod r d i o ig r do i
o o i do do o di r o or prod o d d o po o o i i
o p ho d r dir o i r do pi orpor o i r-
io i r i o oop ri -
r d poi i d i orr p o do do r po org i d do
status quo p o - d r gi . id d i o oi r i i di do
o o o od p g or r r do do o pr d
r ido i i i d r i i di . r propo ir o o o
r r o i o or d o o o pro io i
d orr d po i gi o od d r po i id d .
o rd d r rd d dido o go r o
op o por di r o di r i i di do i .
p r odo o r i iro r p r i o pr o ig i do d x-
pr o o chega de corrupção o saúde e educação p r o gido p o
pod r i xig i r i i d ir i hi r g i o . por i o
r po h ido o p o do r d d do por
o ii r p r x r r d o o o or o
o do id p i op .
r odo o o g d i o o
x o o po o p r i di po o o ir o d r o rgi
o o i r pir do id d o propo do go r . o-
r o i g pod d ix r d o r oi o pod r d o di o i i
po i i id d d gr g r p o di dir id i id i . r r r i o
d r d p r i p pri ir o o x o o i r i iro i po
p o od o o i d oh o do d a priori
p o i r d o r . po i i id d d o r po i i i o i i-
r h r d ip o do gr po i do o o ig do
o pod r h g i o o h opo i o.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222000 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 197-200


197
Editorial

r o d p o por io d r d o i i xpr d or p -
g id d r io do r h o. o r o o o od
p r i o p r r d p r ro o i p r h do i o
o id d d p ooh r p or o h i o do o ro. i g xo
i po do r d i di od od p o d r i
r o h id i di id id d do o r rio d ri i r o r
d ig i r i r r . r d d po o o o o pri ip
od r o o i i io do o .
o x o ir o r o o o i di p r o o
o io r o o pod r pod r r r pr pi io o.
or r rri rio r i o o do po o-id o gi o do r o
o do o pod r d o r r d o i o r
p r i ip o 2-5 o o i o o g o po i
dor do id i d r do o di o d rid d d d i
o por o rri i o o.
o id d r gi o d i or po r di i id d r -
i ri d g ro d o ri p r o rgi od xo
r d ori p ri irr p o d o o io d i d do por-
o p rigo o o o i r i do o p o oo orri
r di io o tête-à-tête or - r pid or p i o
pod pro o r o or d i o . p o o
p r x r r i dig o ir o pod r o d d d
o xpri ir pr o i o o o id r di ri i o o r
por rr o d o do p dr d o or id d .
pod r d o i o i di r d o p o i o o
o rpr r d r ido h p r r o r
p o d r op 2014. o d igo r r -
r ix d i ri d o o o i p i d do
r i o do ogo o or dor i p r d o o o
r d o i i do o rio po do o o h rg pro o
d i r oi o i di o. o i r o online r
xp dor io d o i o .
xpr i o x o r rio r or id i d p r o r -
i iro op r pr o i do o p o oi d r
d o p r o di or o o ri o o i i id d d id
o i . r h d ro hor do do p x . r
d r o r ir o d p o od -
d propo o p o d go r o o ri o pro do p o
go r d do p pop o.
r i o r od o o pr d r i o d xp
d o op r d id d i do p o o oi r r pid .
or or did op rior do o r d
id d or g d o or p ri o d por d ir o po -
h d rro did d d i io do o proxi . -
di di pri ip p r od o i di id o o
d r o pro o i r p r d o gr r- or id io por
i o: Tinha que ter reclamado antes. Agora não é mais hora de recla-
mar . o o r o o hi o pod ri di r di d po i i id d
d i ri um raio vívido de amor e de esperança à terra desce 8.
p r do por id rio o p do o i o i .
o o pr di o op d op p r o o p rio-
. r o h x p r p r i o p rod ro

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 197-200 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222000


198
Editorial

h o o do id po o i . od o r o
pro o r id o r i o o odo .
do o d od r o o od o povo merece essa alegria
pop o p r i r r r o o di o di d i o o
di d ogo.
o id i i p d r d o ho p d ir xpo
i d ri d p o r o i or d o r
od od r org ho do p o o d orr d go
o pro i o o o ogo d o or do d o o pod r r
i id d i g x od dir o ido o
p po: og dor r i ro ip i g or d d d
org i o por . r iori d pop o o di g i p r d
d ii o d o p o o pro d r por d
d oo g r o ri x o o i d p d
d or do r i ri o d rro .
r h h d o o r x r r
opi i o di r do g ho g r r ro do d estraga prazeres . ido
o o h o o di i d p ri d h ir r
i o por o d rir i o di io o o og r . ior do i o rri -
or r- od xpi rio po do o o i dor d pro
i or io o r pod ri d orr r d h g id d .
i d i or i r r d i ro o
pro r i iro i o do d rir ori o d ix d r
r gi . d o op go r o r igi o r o o pod r
d ir pop o or o d id i d p ri d o o oo o o
p o o di i . i io p r d r d r p r d do r i
po do d x d gri or o r i d r p r d r
g i d d o o o. g pro io i d d h g r
o r p i o ri d ri d i o di
r pri do d dr i d dor d p r d p o ogo .
d rro do r i d o ro o i r ig do
o o o o pro o o od od r i o o i .
r r rio ro o r r i rro -
p orr d o i o ig p o pro o o o i o. or-
do id i d o o o i orpor g do p o i od
r o p do o p o i r p i d ir io
r p dio p ri ri r do o d rro d o r do
d di o r dor o orpo i di po i o g r ri
i o ro id o. i i i i r o r i p r o
o p r o o o o o gr g p o o o o d p ri do
o oo i o g do i di d r i o d op p r o o p .
d o p o i i do o ho d d rro i p r d -
o r i o ig r r d irir rid d p r d r ir o
o p dio d r o gor o r od i r ri
oo r o or d o o i d d : orr p o o d o o oi p -
i d ig d d d dir i o opor id d . r o o o i
o i d o xigir o do go r o r pro o d
do o do pro o r d o d do r i iro .
r i o r o or g o r o do h r
hi ri ir od r r o ir o o d -
r o o org ho o pro d gr d . r o o i ho
do r o or p ri p r o or r hori o d p ho

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222000 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 197-200


199
Editorial

do d r i iro i do rogr r io d i o
d o por x p o o or o r p r poi r o d pr
9
r o o o o ro p . r o g i do ri h do o -
o o ho do g r r o o i o id d i do
pro g r o o i r id r o do io o i o o
pr o i r o i r io i d dir i o h o.
oi iod r pro o di od d r -
prod i o xo do o prod ido por o od d d r i ir
o pro d o or i ri i i o i d d r i ir d io -
. o i o o i d did p r pro o r d id d -
i o op or do o i i od d . o id r o
i por poi r di g o do do o o por or op o o
d r ig ri o r g o po d i i o r or
o pro i o o g o d oi p i .
r r i r o go di ori r o gr d r ir ori do
g o 2009-2014 d r odo o d o poio i o di io
a Revista Bioética io r i ir . d o or r d i i o o
o d io o orrido p r odo o gr o io i o ro
o- r i iro ir ori d d d d p i od r i i -
i i i por d g r d i d p d i di ori . or o
o d i i r i d or o h i o do di or r di do
d odo d ii p io o r i.
r di do ro d Revista Bioética o orr r p r r
r x od o o i or d o odo o i r .

Os editores

Referências

1. o . g do d op d p io di i po o. o h d . o. od r 11.
op o o . o i go d ho d 2014.
2. i d ro . gi do o o. rd d r o r por o pr o . io d iro:
o ro ir 2009.
3. po . o i do oo . ri iro o/ pi i o. p. 11. . 2014.
4. oo . pi i o: r o pod r d r d o i hor do ig or - o. r 14 .
2014 o h d o o/ . o 14 . 2014 i po : http:// 1. o h . o . o . r/
/2014/0 /1484 1-opi i o- r-o-pod r-d -r d - o i i - - hor-do- -ig or - o. h
5. r g o . ig i p o p i i i r . r
2014 o h d o o/ . o 14 . 2014 i po : http:// 1. o h . o . o .
r/ /2014/0 /1481105- ig-d -i po - o - o - i - -p i - i ii - -
i r .h
. orr io r i i . i o p i o d i h r do d o r r g po i . r i :
orr io r i i 10 . 2014. r 13 io 2014. i po : http:// . orr io r i i .
o . r/ pp/ o i / r i /2014/05/13/i r r i 42 289/ i o- p i o-d - i h r-do -
d - - o-g r - - r g - -po i i . h o 10 . 2014 .
. o rg i igi . op 2014 r gi r r go d 32 r d d do i o d d
hi ri . o rg i igi 24 . 2014. i po : http:// o rg i digi . o . o . r/ gi/
gi . x / / r .h i oid 3 058 id 8 . 4 d 0 o 10 . 2014 .
8. i r d . i o io r i iro. r id i d p i / i i/ h p r
o r di o . i po : http:// .p o.go . r/ i i 03/ o i o/hi o.h o
10 . 2014 .
9. o i . r o . 2013 . 50.000 o - or o x d o i r id d
o i r o i d d . i po : http:// o i .p . . o / 50000- o - -
or o - - x -d - o- 3 0- i r id d - o - i - r 3 3 5 - -
o i d d o 11 . 2014 .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 197-200 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222000


200
El deber moral de los estados y ciudadanos de
preservar la sustentabilidad
María Luisa Pfeiffer

Resumen

Artigos de atualização
o id r do or r d r rd o d r d io o r o
i rdi ip i ri p r r d r r i . r o i g o pro
i o o p io r h o. d h r o o i i
po i i r xi orig o r p po d dr o r odo
o p od i id d.
Palabras-clave: . o . i . rro o o i . o o .

Resumo
O dever moral dos estados e dos cidadãos para preservar a sustentabilidade
o id r do or rod r rd oi r d i o o o pr r ho
h i rdi ip i r p r rod r r i . r o i g pro
o io i o o p o r h o. d o r r h d o o i d
i i d po i d r x o h orig r po po d r o-
r do o o i o d i id d .
Palavras-chave: . o . io i . o i o . o o i .

Abstract
The moral duty of states and citizens to preserve the sustainability
i g i o o id r o h or g h h r o hi g hi i hi o oph
hi or oo or i rdi ip i r o ih h iro - . o do hi i o
pro hi h h iro r dh p . h r d h o o
i d po i ho gh h r o h hi origi d po i r po i i
ddr h o p o i ii .
Key words: hi . o i . iro . i d op o o .

Doctora ri 3 29 ho i. o – o o io d g io i i / i r id d d o
ir o ir rg .

Correspondência
. i d i . 4 2do 1.40 i d dd o ir 1.40 rg .

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10


201
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

od r o d i r p r d o Los responsables
llamamos producción es de hecho extracción?
C.Sauer
d do d o o i o
Dos mil años les llevó al Pueblo Elegido...
retornar a la Tierra prometida. do h i o h pro i r do d d
Le ha tomado sólo 52 años convertir la tierra d xp r o o o o -
de leche y miel en un país de ríos con espuma,
de aguas carcinogénicas y de peces moribundos o h r d o i r o logos d
Artigos de atualização

S. Kiley h i o o d ir dr
p r o og 1. rrir xp r o
oo d d or g do i- ig i r r o io i i i r-
io p r : d ri ir o h d ir go pri r r p o pro rg
o p r o rd o o r or r d pi i d o og io o og
d r r. o i pr o id r o o do d or o p r d r o
o h o d ro r d dor i d ir d pro ir d o pro i o
o o ro i o debe ser d r . r po i id d d odo o h i o
h o i odo po do do d d o xp r o .
o h o do i ir i i o o - - o r o 2000 nuestra
r do o o ig o o o intención no es que se detenga la investigación,
h o p d r p i d. por o sino que ella deje de hacerse entre cuatro paredes,
r o d rro r : de espaldas a la sociedad, y sólo en función de los
1. g o o i r i o intereses de las grandes corporaciones. Los científi-
i di do por do cos deberíamos pasar entre seis y doce meses con
o rod o od pro organizaciones sociales seleccionadas por nosotros,
2. g r xio o r d r r d ir antes de acometer cualquier proyecto de investiga-
o r p o-po d d ción. Eso nos ayudaría a incluir las necesidades de la
r o r o o i o. sociedad en nuestros objetivos científicos. Los cien-
tíficos deberíamos mantener una intensa discusión
ro r r i r odo ro o p i- sobre cómo podemos ser útiles a la sociedad, antes
i o o o r g r o o - que estar tan ocupados especulando acerca de las
i r pi o odo d potencialidades comerciales del resultado de nues-
p r r ii r o i i p ro o o ig tro trabajo 1.
i r o d . i pro r r i r
op . op d r r p d o xp r o o og r -
dr i io r p o-po r o r di ori do
o r . o d dr po o di io- r d d idir i r i r -
r i pri d ho r o r r o h o. o o pr g r-
r o i r o o por i pi r o i p o p r o id r r h r o
o ro po d d rro o i o por d o i- do por od o og : h i
d ro di i i do o d i d d d o i d i
go o d i io po h p rdido odo i i ri go p r -
id d o id d o i - por i d io prod id por
o r d ri r . id do d rr 2 3 o i o d do
o d id d ho r o go gr g - i r id d o hi o r o por h r -
do o i . do r p io do o o o i ro r i o h r i id
o p r ho r i p rr o o g i o o 4- p g i id org o or do 8.
p io di p i d rro- o o rgi do g r do por o i -
r i o orig o rr d d org i d o r i r - pi i
h i d ho r d ir o di i d id i p d o pr d r or o ig i
d . ho r o i o o por o o r o ig do o r i ir o o od -
p d pr i dir i d o ro ho r id do ro i o i o d pr . i i i ro
d or p r o . o i r d p d dir pro r d o ro o -
r o d ho r d di r or pr i i por dio d o o i i o xp r o
i . o i o i o o o i d d o

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001


202
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

o p ro o d gr i p r- gi i p i o id r o or o pri ipio
d p r d do d ho o 9
. o op r d o id d d o
i d o o xr o o d id rd i r o r o
podr or r d o pro - o d pod r o i d d
r p po i . d d i o i r d d
o o o i d d o i d d i pri ipio d i o o id rio i o i di id

Artigos de atualização
pod o di r i r r ro r ig or o ri r po i id d
pro o d por odi i d ho r por r p o id d d g .
od r d r d o i o i- ro pr i o r ord r d o r i
o xp ri o i o por p o o por po o o d o pod ro o
pr x g p i i ri o o go i r o i o o r odo d
r or io io o gi o i d d o . o go i r o r i d d
d r i d iodi r id d o - io r o i r d orpor io -
i or o o rgo p o ig or o i i i r- pr o id d d g d -
p ro i i o ir do o o rr ro r o xi io po o d o i d d o ogr r
r d dor. i i p d d r g o o rdo r gi o i d d o o
d i io o r pr orri d p 10
. ro o ig i d o i d d o
r o id r do d pro d o rdo r do o g rd
o p o i i o i i podr o io r d o ri o i r p r r i o
g o pro ho d o o h o d r ho o . pod r di i ido
r do i p ro o d o d o do io pod r d i d d
o i i . d rp do ho g o o o po i i i-
d r o pro gir o io- d dd o i d d go . r p d r
o o r h o do o o o x- dio p r ogr r o. ro irr i
p r o i pi pri r g r r po i id d h ro o i do g o pri ipio o o d
i di id o o xi i d d dig id d h d ir d r p o
p ri i pro i h i ro por ig d odo i r d o h o
g do g r r po d d r o o i i od r o o por dor
o id rid d poniendo al bien común por encima d d r ho .
de los intereses particulares y partidarios o r do po o i o r
o i i d i p r odo po - odo o or d po i h r
ri i p r d o. o pr i- ido p r ip i h r p do
o o pid d io por o r odo ig d d io o
o o o io i i o i rp ro : i ido io p r io r o p -
o o o i d d o o o i i d ro o o o p r odo o p r d
d r ho r o ig i rio dio d di - o. Si priman la dignidad humana y la igualdad, si
r i d r o ig i d p r ip r se reconoce el valor de la naturaleza como tal, se
di i i d d ii r o estará defendiendo la verdad por sobre el poder, y
ro pr ro ro. la solidaridad por encima del lucro. o p
d i io po d o r o r pri i- p r r r i io d pod r r po i id d
pio o p ro ri i i d r d o i i d do i r p r p r
gr d id d o x o o di io - o do d o di io i o pr -
i di i rgo o o d i p dir io go o i o ir i go -
i o por o r i ri r p r ig or r id d d o p o
i di id . rr . oi id i d o i i o
r i i pro x r po i id d do d h o ig i d
r i
di r i d o i i rd d i o p p i o o o
rig
i i di id d i d pri do. o o xp r o o p o o i di i-
d o r o i d o p ro o r odo o do i d
d p d d o o xo. di r i i o r po i i r por r do do d
i pi rh o ido r r - odo pod o pro r o h i ro.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10


203
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

La economía rg i o o pr d -
o o i o r odo i r
odo p o o ro hi ri o
Quien crea que el crecimiento exponencial p i pid o pr d r ro-
puede durar eternamente en un mundo finito, o go d i o r r
es un loco o es un economista. op d r io r p r r r r i i .
Artigos de atualização

Kenneth Bouldign ri go o p por o d or d o io


o or i o od r o o
o d d r o pro ho r i ido ri go odo r o
d i i rio o gi o d ir pro p r di do p rd r o : no habrá ganadores en
r d rr p p r este proceso “depredador”. 22 d ri d 2013
hog r oikos o r i o odo o po- i oo r rio g r d rg i i
o. o o o ri i o d io id d ir : Tenemos que
odo p por o ig i pr g i afrontar la dura realidad de que nuestro planeta
r po i id d po o i d r está en peligro…estamos socavando nuestro único
o p r d por odo por ig . 19 8 r hogar y nuestra supervivencia 14.
rd pr io d o o d 19 4 di o: No me
o od d o o o o
cabe duda que en cinco o diez años habrá un mo-
h i i 15 d ir o o g r pri i gi do d
vimiento popular en los países ricos que presionará
r r i d id h p d r i do
sobre el Congreso y la Administración estatal para
o o o o do od
que haga muchas cosas para solucionar los proble-
h id d o po r o r pri ro.
mas del medio ambiente. Pero no sucederá lo mismo
or rd xpr i o d o-
en la mayoría, tal vez en ninguno, de los países sub-
i o o i o di i h
desarrollados 11.
op d r p r do por gr i di i 1 .
r o d p hi ori o d - o gr i i d o-
i o o d rd i i o - og d d o p d or o o -
pi i o p i d ri i do ig or o ig or r po i id d o-po o
pro i g r p r r i g r o o i pop r i o
o o do r ig i - r o g pri i gi do p r o io r o o i -
do p r o r ro d ri pri o o d po o ri :
rg . o o p o i d ri i do
p rdi do r i pri ri d p r o Todo conflicto respecto a cuestiones ambientales...
o rr i rio rg o - no posee un espacio especializado donde dirimirse,
id r d por ropo og d i o o los únicos que se conocen son los espacios de solu-
i i d pri i i o. r i ción de controversias que prevén las legislaciones
d d ir d pri i i o d - comerciales, como el de la Organización Mundial del
rro o o i i d ri i i p r ip - Comercio (OMC) 1 .
i r do g o . or i r di io
d r r i d h o o i id d r p d
i o ir do d d - ro d ro r d
i d po ro o o ri . po o i odo r
r o p od o i- r do. o 19 2 do or o
d rro do o id r i r o pro gr po d o or dor i or o i d
o o io i op d r o r go- r i i o r 100 o p
i do o o p d rro o por ii r r o p o d do en un planeta limitado,
d . o p d rro o por p r r po - las dinámicas de crecimiento exponencial (población
2
ii o d rro do por rg i - y producto per cápita) no son sostenibles 18. p i-
i p ro i o po o p d i rd - i p o d ii o io o r po i
r r or i d id g o - o i i d d d r i i o o i-
d r o i . r o o o o. r i o rd 2002 r p ro
d ii d o prod i d ri pri or ro od o d i g i o
2
grog d r di o d io o og dio 19.
o p d rro do i por d gr d i d po i o i o p o era r i-
o o r di d d rro o 12 13. i o ro o do io rio d i do

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001


204
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

r i i o xpo i d o o po- od o o gi o pr ri d o o
i d odo o r ro r d ir od o o i o r o i d d
d o r do por r i i o o- i id d r d i o r o podr
i o d or p d p rd r r r o d rro o o r
po. 2002 o i i r o o or i o o o
22
que la Tierra sólo puede mantener a mil millones de o i : La sociedad capitalista es un sistema de

Artigos de atualização
personas con el nivel de vida del País Vasco o ig- dominio que ha degradado la subsistencia a lo mí-
i o h i p p r nimo y ha creado la imposibilidad estructural para
r o .500 i o d p ro i i . una reproducción social y ecológica sustentable 23.
o i propo ig propo i do ord o d d d o 90 rg
r d d r i i o r ig do do i r go d o r do pro-
i do di d d rro o. or o i d o o o od ri un aumento
d r i i o o o i o id 20. de la pobreza y la inequidad; creció la deuda externa
odo o o do y la degradación ambiental y empeoró la vida tanto
p o o i o r o d rro o en las ciudades como en el campo 24. r 19 0
o o o d rod o r o r o 1980 po r di i d 51 33 5 p ro
: pi rg i rr r o- ir o i r r o 90 2002 r -
ri do i io r do. id r i gi r r gi 221 i o d po r 98
o ho r op o r . or i o d i dig i dd o r i o
24
o o r d r r d rro o o i o o . op d r do i o
o o o o or o p od r i o pi i : ha dado como resultado gran-
o o p r d i o id r do des catástrofes naturales y la explotación desafora-
o og ig or odo o r o da de los recursos, quitándole a muchas sociedades
o p i d do o o oikos o o del mundo su capital natural... y poniéndolas en gra-
hog r o o o rr o or o o ve desventaja, ya que ese capital se desvaneció para
r p ro d o d d pr d - siempre y no puede comprarse en los mercados 25.
dor or . ord o o gi pri ipio o p rdi-
o o ig i id do ord i o d do d rro do o o rrido o
d i i r i d d hog r. o o o p d or g i-
pr did i gr i r gio d - o i or d Programa de las Naciones Unidas
rro o d o r io r d rdo i r io- para el Medio Ambiente o o ig r -
i r io d i r io - p r o ri go o
o i d ri do d or pr - h d d r o o p i
i o r o oi p o r gio ir i . o o or o
or xp o i d o r r o r por pod r oo r po o p d h r-
o ig i r or o i oo o. do r o por o ogi r d
d i p r p g - o p o ri o o ro o p r
id d d o o rg o g r i d o di i d xp o do por o od o i -
d ho . i r io r do g o d do p d rro do rio r ro
o o i o ig or i do o o ri go o r odo por ro
or ido po r i do o po- h g do i i o og g r -
r ido . di ri i d i gr o per cápita r i o gr i od ri go.
o p h or do d ig ho po o d pr -
d d . 19 0 per cápita pro dio o d i ri p rd p
20 p ri o d do p r 15 d r io i r io ig r h
d 20 io po r . o r - i xor 2
. r ro ri p ro d -
h h i r do h 30 p o pr d i o i i . o r og dor
pro dio o p ri o h r ido r pido r o p rdi do 30.000 p i
o po r . i gr o per cápita d o 20 p d p i o d p r r -
po r h ido ii r do d d i d o oi d or o i
19 0 i o h di i ido rio d o 21. x i d p i o r 2
. odo o
or o o pro o d r gio i i g o- o o o i o xp r o r p r i o
i i o ri o r i d rg o i i od r-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10


205
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

id d d o o r o r o pro sin comprometer la capacidad de las futuras genera-


i . ro r r o p o ciones para enfrentarse a sus propias necesidades 28 .
d h o p o o i id d pro o d o-
r o i p o o o ro . r or d d xi po i i i-
or p r o pro i - d d i o i d o r o. po-
o d pro pro do o o d o h rd d r r ro d
Artigos de atualização

d do i io i ro d ig d d po r r p r op d g r o o di r o
d d rro o i o. o ig i o - do d io o d r ho d r r g -
i d o pro o o d o d d r i . o r odo r ro i po i
d i i p r r i i od i r i do i p rio d i pi i .
p o i pi o h r pri ro
o r o ido di r o o r d -
po r p r o o ro or .
d dio i i i od
ro opi i d rro d o ro x-
pi i o o o i o i o i o po i
o do d r o pro o po r
r d dor d o p o d i id d o
i o ri . o o o id r o ri -
do o o o por proxi i
o i o o d pi rro id d x o
or d o o g r o o
d i o o irr ri o o o or d
o pro d od o i d d ig i do. o po d i id d
rr o o i . i o o o p r o i do -
o pro o gi o d i .
pi d d r p r o prop d ogr r d rro o o i
p d ri por po o p r d p d por odo o or d o o i i o
o i o p r d i - po i di i po o o
i po o- o i -o i od r - p ig i o o
. or o r p r h o d r o p r po r pr .
o r r p d p r o po r i por
ir i i por io por o o o p o h p o
o ig r o o d o pro r r o o o i
i rio . o pro i d rro o o -
i : o i r d rro o r i i o o i o
pro i d o p id d o r do .
La sustentabilidad d rro o pr i pr o o po i o
p r o p d rro do i r
r p i p r r o o o. g o i o o o o i o
p o o p d rro do o o r : x r id d o po
d rro o r p r di i p r h r r i o o o i o o i
p . r p i g o i o o o io- i : Ante el desafío de los costos
rri o p o o ig i o p sociales no incluidos en el precio, las externalida-
po r o o d o ri o . o des... se inventan refinanciaciones matemáticas que
ri o o r : do ido no logran “internalizarlas” (sobre las cuales poco se
i i o ido r i i hi sabe, por ejemplo el desmantelamiento de centrales
do d i o ro d pod r o op i o nucleares y sus residuos que duran miles de años) 29.
o ro d i ig i o ro r i - i r i o o i o r p
o pod r r do. r p o: p r o o d d o o i i od o
i id d go o o . pro i : do r
r i o
sustentabilidad do por p or d gr d i i h p o
pri r por
o ii di d dio - id d dio i o-
i d rro o o id por io r r 30. di r o d rro i p d gr d i
id 1984 p r di r r gi r - o id r rio p ro i
r d rioro i . o io d o d i or. d pod o di r
dio d o ii r ogi ro - i o o d d rro o ood
do Informe Brundtland ro ro o r i d d i r d po
1988 do d r i o d ido o o el r p r i d i por o o o o id r
desarrollo que asegura las necesidades del presente or i di p r o rgo r i o.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001


206
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

o or i or por d rro o g p r p
i o i higi p r d g po- or . o i gi o o r o o o -
r d i d p r d xido ri o i r d rro o do d xi .
d xido d i r g o d o xido d r o o id h o or p io ig i-
d o i or o h pro do r o h i i o o or-
id p r di xido d r o o go i - do ir r pir o o oh r

Artigos de atualização
od o p rdid d o o ro pro o i d r do id d i r
d oi : La curva de la U invertida o o di io i o o i od -
nos habla de la reducción o recuperación de factores g por o d r o o r r id d
ambientales en sí mismos sin considerar las conse- d rr g ir or p r d r -
cuencias sistémicas. En efecto ignora cuestionen que r i i i ig or r o o
tienen que ver con lo que sucede a nivel planetario, p i d rh o po r ido i hori-
como por ejemplo, cuando la reducción de un agente o i . o gri go h o do ho -
contaminante provoca el aumento de otro, o cuando r o o odo r o p o d ir rr
la reducción de la contaminación en un país provoca g . po i o i ir dig do d
el aumento de la misma en los países vecinos 31. g ir rr o i r -
po d o od i o r xi- o ho igo o o i
g i d i prop o i i r o o ro
i r pr d pr o - i rr p o po i r
gi d prod i o o od r i r o i o id ri o
p id d d i i i d i rr d o o i - o rr i ig or d d o o. i -
do o p id d d r io . o o po g pro oh o i rr g
io o d o io pod o i r o i- ir . r o h r d gr d i i i
r o i do d r p r o p d rro do o d rro o
r r i p ro o h hi pi oi o i oi o.
id d d r o o 32.
o i r prop d rro o i o
o o i po i o o h oh Consideraciones finales
did p : o o por o ig i o
o ig or d di dd r o o - i r ig p do o pro
r i o h ho d p id d o i- p o o o p r d
i d o po i o h podido i r pro d xp r o . i r
r . d do do pod o d - o o d d xig i r
ir o o o i io o i - d rro o p d o og io o-
o i i pi r o p d r o og odo di r o r d r d i .
i d o od o p d or i i or d d d do d
i i o gi d do r ho p or ri go i o o og i o odi i
r rir 10 r r o 33. o o i i h i i o d o pri -
r i ho org - o g prop ro p o d r d r d o id r r o o-
d o o o gi 34 r d r - g o o d o i xor o r di i d
id o o i p r o pro o o i o di i id i o o o
o d r ord r o d o: r r r ri . o do or d oh r i
1950 200 o od g h rip i do d r r p r do p i do odo -
d o i h i p i do o d r r o pro . i o o
d r r i 550 i io d di xido xig d rro o o i o d i io po -
d r o o h do 400 - h g p o id r do i rr i
di 1 o r io di g d r o i o : i o i o -
1.5 8 g o di p i id d r i i i id d pro i d o o i ig -
9 5 ro d ri i ro d d d o i .
ro r 2.8 0 ro d o- do h o d d rro o o i o
i p d 53 i o 1950 5 5 i o o o do o o i i o d d rro o
2002 o od p p 423 p r io i o or i i o o i pi -
o r 19 1 2002 33. or o p r io di r i o o i o : o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10


207
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

r i i o i r o op i . pri r o i o r o o ro i r . o po-
do o o o go r o r r o d - d o p r i g r i o po i
r i o p r i r o p r o o o ir d i o o ro r o d o
oh d d ho r ho r o - o r do r 3 . o ho r o o o-
i i o d bios: i i d di r id rio d r r o d r
r . r r d i id d po - ro p . o o o op r r -
Artigos de atualização

d o r i r o o i i od or d o o. i g o i i o do
o ro h o o o. r oh r r o - i i o o i do d o i do -
r pr di p r - r i r odo o i i o o id rio
p por i . d por o rg o i i o o .
po id o og
d p r i - r i io i r d orpor id d o o h i i
ro pr g o g r d i r d p io o o p r i h o r o-
i o r r ido gi o por o r r p r d do r 38.
r do d r d gr d p r d p o o id rid d o pri r r p
or r di io o o p d d i o p r i r i ir d o o pr i o
pr g ig i or do o o pi do o o d r h
do i io o od r i od h - d o r ir o d d r ir o o
o. r o o o o id d i r d o ro o p r i r r o o r id -
d r ho progr o i i io ri o ro r d dor p r i r -
ri o i id d. o id rid d xig o pro i o
or i o d por d ir pro o pro r o r g r-
pod r ir ri pr idido por o o o o o ro o do o o ro .
p i r p ro d . o o o i op d i po r o o
p io i i oo i o h ro o or i d ri rio d -
h r r i go r i d i o i o ido o o o por-
. i o po d i r pi o or i o. i d op d dir
gr d p r o o o id rid d. do pr g- do i i r i
o i r xig o i d i r d d i r or
r do i r g propo g d i io io po r po d
p ro gir i r r i do - i . ro r o pr -
o o o o id r do i rior di - i o gi od i r i
i r do r op io i . o r id h d r r i-
i rgo o rio o o xig i d . d r
i o o i r ri r d g - o d od i po i d o
i i . h do o i d i r
op d r r d o r- i . i i r i io d op d r
i io d i p ro or d o o p r do d d po r pri ro o
o i r i ro odo p r d i d pr g o i rio
o o i p ro r i r ig o r r o p r i r r o g r o o
o o o d d r ho p ro o o i - or r io h o i-
d d d o di io d o i- ri o o o or d id h d
o i hi ri . r r- id d d d i grid d d i r d. o p -
i io d por o ig i o d - r i po o r xi o o i-
ii o i o d d i o d g r p r id ho r r d ir
i pi r i d r po i id d o i . r .
r po i id d d r d pod r 35 r pi d r o io g -
o i o p g r r io r do por o d ho r r
d do d ri i po o pr o o ri go i o o o
d ir i p i o id ri o pro d o p igro p r ro ro d r
o ro h oo oh o. La responsabilidad im- pri r g r r r o i i o
plica la solidaridad 3 . pro o r p o pro d r rir
d d o h o r i d o r p pri ipio d pr i 39 40. o i-
d o o ro i o x d p io - d r io i prop o gi

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001


208
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

r xio o r p od r i h - nacional, cada individuo deberá tener acceso ade-


o- r d r rr r o o cuado a la información relativa al medio ambiente
po i do ig rr d i . ro de que disponen las autoridades públicas, incluida
i od r r i o d r la información sobre los materiales y actividades
p o po d o do . o o que ofrecen peligro en sus comunidades, así como la
r po i d d r ri d g i io- oportunidad de participar en los procesos de adop-

Artigos de atualização
o i i o o por po ción de decisiones. Los Estados deberán facilitar y fo-
di r i od r ro - mentar la sensibilización y la participación del públi-
r r or r or d or co poniendo la información a disposición de todos.
idi ri d d d o o d or por d Deberá proporcionarse acceso efectivo a los proce-
r i do po r ri o r - dimientos judiciales y administrativos, entre éstos, el
r d pr d dor d o o o od r r o resarcimiento de daños 41. or o o o pri ro
r i oh o. po r ir ogr r o i d d o
r i d o 1992 d : El me- r ro po o o ho d
jor modo de tratar las cuestiones ambientales es odo o i d d o por igual i
mediante la participación de todos los ciudadanos po o o o d o go i r o p ro
interesados en el nivel que corresponda. En el plan r po i id d d o do .

Referências

1. or . i i o i i o i d d. - o r g . iodi r id d. 2000 o 25-2 :


33. i po : http:// .gr i .org/ / r / ri /90 - i i - o i i - - o i d d-dr -
- -ho- - r g o 10 o . 2011 .
2. ri o . r g di d . d o ri d ri d io . r i po :
h p:// . o.org. / h /r d- io i / / o i i - -opi io / io i - - o i d d.
h o 18 . 2014 .
3. rr ro . i r o o h r i d do . d i ro g r. 23 io 2004. i po :
http:// .pro g r.org. r/ i r - o - o h r -i d do o 10 o . 2011 .
4. . pr i d i i o ro o 450 io i d i o ido d
i ro io i por g i o o: i d r d d od r . rop . 2013 15:4: 1.41 -
3. i po : . dpi. o /1099-4300/15/4/141 o 18 . 2014 .
5. i d rdo. r. i i ro r o g i o o o g o . r d i r i ri
d i d di o d p o ig do . i po : http:// . o . o . r/
opi io / i i ro- r o-g i o o- o- - g - o - o 10 o . 2011 .
. d i r i ri d i d. o o di d p d o o
rdo . r 5 . 2012. i po : http:// .r d . . . d . r/ o- - o- -
di -d - - -p -d - o o- - ordo
. r r h o . i or or i r i i gri r r gio .
pid io og . 2003 . 14 4 : 429-3 .
8. r r hi r di . g i id org o or do prohi ido h r . 33 r
o gr o rg od di r . rd 1 4d r d 2003.
9. r . po o i o. drid: i di ori 19 .
10. p . i r d r or g. pro d rg g r po o o or .
r r : hr p 1988.
11. r r oh di or . h r ho og . o og d i r o d op .
rd i : h r i or r 1992. p. 9 0.
12. g . d o d o o o gi . o ir : i ro 2009.
13. r i r di or. o pri ipio d o o o gi . drid: rg ri 1995.
14. or dor. r p p igro . i po : http:// .i or dor.
o . x/i r io /2013/452 38/ / -o - r - - -p - - -p igro.h
15. id gg r . oh . : id gg r. or r g d . i g :
1954.
1 . i r . r di . gor . p d i o o . 2000 . 19 2 : 12 -138.
1 . or . odo o i o o d propi d d i . i iodi r id d. 2002
31: 8.
18. do d r hr . Los límites del crecimiento. drid: o do d r
o i 2002.
19. do d r hr . Los límites del crecimiento 30 años después. xi
rg: r o 200 .
20. o h . p por d r i i o: o ir d i gi rio do i r o :
d. ri 2009.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10


209
El deber moral de los estados y ciudadanos de preservar la sustentabilidad

21. gi . r go i i . o ir : r 2002.
22. x d . d rro o go i io d r o r. o i d d r .
1999 - go 1 2: 8- 8.
23. r ih . r p po o i d i g i r d r ri . . .
r . . 2002 3 3 : 214.
24. odrig o . ii d o o d ri i i r io o r po r
ri : o d rg . r orio d o o o ri . 2004 o
33. i po : http:// . d. / r o / o / r/ o 10 o . 2011 .
Artigos de atualização

25. or . i o i d d. o ir : / ri 1999. p. 21 .
2 . i r . r g i o. d o o gi o p r ri . rd : d. r
2002.
2 . dr g . id rd o . h id d ri i d iodi r id d. r o :
2001.
28. rg i i d io id . or r d d ro ro o . /
o ii di p r dio i rro o 1988 r i po : http://
d -dd - . .org/do / / / 8 /184/ / / 8 184 .pd p .
o 10 o . 2011 .
29. o r . piri o o o o gi : ii d d or d o i
o p o . 2004. r i po : http// .g o i . o o 30 o . 2011 .
30. h rro oi o g p o o i g et al. o o i gro h
rr i g p i d h iro . i . 1995 r. 2 8: 520-1.
31. rp r . rro o o i i id d r . o i r o : d. ri 199 . p.
58-9.
32. o i r o i o i . or 4. p i r i r o i dd r r o
r . or d o . r o : xi rg/ r o d or 199 .
33. g . o i d o i i id d. r i . 2011 r i po : http:// i -
prod. o /i d x.php op o o o i r id 8 id 3 g o 10
o . 2011 .
34. org - o g . d rop ro o o i o d i rg ri
drid 1999.
35. o . pri ipio d r po i id d. drid: rd r 1995.
3 . i r . odo p r o o p r odo . pri ipio d o id rid d. : . i h i i. i r d
o id rid d i r i . o . . o . o r o: di io d 2003.
3 . g r i i . r r rri rio i d o pri ri :
i r io . . io . pr. . 2013: 21 2 : 20 -1 .
38. i r . p io d d r . proxi i io or . o ir :
ropo gi 2014. pr . ido: 10.12.2013
39. i r . pri ipio d pr i . : . r d . h tto di or . r g i o
ri : r or o d r or . rd : r 2003. i do: . 4.2014
40. g i rop d dio i . io rd p r rd r pr : pri ipio
pro do: 2 . .2014
d pr i 189 -2000. drid: ro d i io d 2003.
41. rg i i d io id . r i d o o r dio i d rro o.
1992 ri ipio 10 r i po : http:// .p .org/do /dr1992.php

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 201-10 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222001


210
Bioética na América Latina: desafio ao poder
hegemônico
Dora Porto

Resumo

Artigos de atualização
r ho prop di o o r po o r p r o o id o d io o p
d o i o o id r do p i io o- ri . rod
r d o r od r o i p d orr d p i o do i o o o d di ip i
di o o i . r i o r d odo i o o p or d io p i i i do p r -
ri od po d do i do r hi ri o pro o d o r o. i h
g r i d r pri ip i o i d io d o id o o x o r i iro o- ri -
o do p i proxi o o dir i o h o o do o o ro r g rio
do p dr o r o i i . pr o o id r r o r o p r doxo i p i do
do o do dir i o h o do i r r x o r d io o o rr d
o r d ig d d i d r o o o .
Palavras-chave: io . ir i o h o. o i d d . ri . od r o i . o ro i or i d o i d d .

Resumen
Bioética en Latinoamérica: desafío al poder hegemónico
r o propo di i r d p o r p r o o id i d io o p -
d rro o o id r do p io o ri . r d
r d o r i d r i id r d xp i d -
o d ig r di i o i . r o d ri d r i p or d io
o p p r rd r ri i d po d dio r r hi ori
pro o d o r i . g r d ri o pri ip ogro d io d rro d
o xo r i o o ri o d do o r odo r i o o r ho -
o o id r do hi o r g orio d o d r o r io o i . r
o id r io r r d p r do i p i d dop i d o r ho o r do
d o r r xi r d io o o h rr i d h o r d ig d d
r ro o .
Palabras-clave: io . r ho h o. o i d d . ri . od r o i . o ro i or d
o i d d.

Abstract
Bioethics in Latin America: challenge to hegemonic power
hi p p r propo di io o r i or h o o id o o io hi i d opi g o ri
p i o id ri g h ri io hi . o o r g h d o h o r o
o r o h i p r g ro h xp io o h op d o o h o i
di io . or hi i i o i h i poi o io hi i h o ri r g ro h h -
r ri o o hi do d d ri i g ri i o r o pro . ro d r i o i
h i hi o io hi d op d i h r i i d ri o x p i ph -
i i g h ir ppro h o h righ r g or i o o hi d rd i o i r o .
pr i h d ri o id r o o h p r dox i p i d i dop g igh i g o
o r g r o o io hi oo o gh g i h i i h r o r o .
Key words: io hi . righ . o i . ri . o i po r. o i o ro i or .

Doutora dor por o g i. o – d d do i r id d d r i / r i.

Correspondência
204 o o p o 205 0234-0 0. r i / r i.

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


211
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

“Uma minoria é considerada como tal quando cons- do r o o r o oo po d io


titui ameaça real ou imaginária para a maioria” * i o di oh r io : a ética é
um aspecto das relações humanas e diz respeito a
io po d r x o - valores atribuídos às práticas sociais; aos compor-
o o pod r o r r pro io i tamentos individuais e coletivos e seu impacto no
rio r d d o di o ambiente e na vida em sociedade. r r
o i p i p o o r-
Artigos de atualização

i id di d o o gi d
po p i d d pro o r oh r i o
id d d id . i d po r o- pro o io gi o . ri o i o
d o o i di po i o di ip i r d io- x i o d id h 4
.
po d do prod ir org i r g r i r
o pod r do status quo 1 i r i r r - or i o ri do o io-
em p i d d em do d
gi d do i od io o i i p p
id o d di o. io pi -
d g pro o or d o o p r ro d
i g o ri i do p r ig
i g .
ri rio o g r i grid d i
o gid d io i r r - p i or o i o r h o dir -
x o r do dir i o i di id i o o o i dir o ido . r d
d o o di o d o od xp ri di ip i o orr p r
o o i r i r p r i d r x o o r pr io di o di r
pr di . r o o r o d io - o i od o o di oo x id
po d p ri o do o ogi o p r r o i o o por x p o o o do o p-
do r d o i o d io o i i 2 io i io o d pr i o o o
hi ri o r id i d bio, r io d do x d p r d p r id d
p o o o io di i pr o r r or r or id d o di io
o o d ética r ri o i o id o i o por .
d od id d d do, or h
i por i d o or i-
o o d ix d r i d i-
o i d ho o id r do io :
pr did .
po do rr io do p io di i
i g od i pro i i do pri- i d o i d d o r
iro d r o bio o r o g do ética id o i . p oi i dir
r pr o o r po d or o o o pr d prod o d o h -
do por d d r i i i g - i o po i o o ro d
r o o r o do o h i o p r- r do o h i o. rd d io
rd p r ro io gi o ior o or o i p o i o p xo d prod o
gr o do d di i rpr r d r xig i gr o do o h i o
id o i d d o o i i o i i. d di r r p r prod ir r po
i ri rio i p r o i gi rio i o r id d d d .
di i por od o i d d i di -
i o xp dido d r x o io -
o o g r do- od o i rpr od
p i d io r i ir p r o
r pr o i i o r i i status
o i o id - po r di ip i-
d locus d rd d . pro od o r o
r 5 d prod o d r o d io-
do o h i o p r r d io ogi o i
di o tema o r o d r
o rgi od o o o o d medicaliza- rr ri odo ogi d di r
ção 3, gr do o ri d o i d d r d d g h ri i
d r do o do ri o do id id d p rp do io o ir i o i-
o o po or xo d po i o h g i- i o i i d gogi o ogi d i -
o i i o i i o d o . i d d di i . i r rg po
p r d o o o gr do hi ori - d r x o i g r d o o po d
or ido p o or ri do o di- prod o d r did xp i -
r r o do o h i o o d o i o o o r do o p r o
hi r r i or r o id do pro o prod i do
i i io gi h id d - por o i pr prio d do idi r -
pri i gio pri ir i d h d ori pr r o ri . io

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


212
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

i o di r o d di r r- Bre e his rico da ioética


o po i orpor ro o i i
o di og do p r prod ir i d
rigi h do o do ido
o ogr do o i o o id do
d d d 0 o r o io pro r d ig r
pr d d o id o i o d d or-
ri i r r i i io gi
r g o id r do o o p o
r x oh i oi iod rp -

Artigos de atualização
r io do pr d o pro o
r ro p r id r o o pro i i
d / do i o di o o .
d o r io o i i d -
p r r d pro o antropofágico d h o i o . p o i di did o -
propri o or o do o h i o d or io io r io di p i
r o ri io prod r ori ri ipi i 8
o ro o i i
pr do r or d r x o beneficência, não maleficência, autonomia e justi-
o r pr o h p r i pi r ça r id do o o a” io 9
.
dir ri d o pro od p rp pri o di i o -
r or o d r id d o i r r d di o r o i pi o o o i o or-
d o di o o . d orr i do dor do pri ipi i o or i i o
r do prod ido pro o r xi o - d po d do r io di o
ropo gi o po i i id d d o - o id r d i o io g od o 0.
d ir r or o r id d
o rigo d r o di d
p od r o id io pod
o - d o r io o gi
r r ri d o o pi d . i -
pi op di i . o i o io
r o ri po d ri o d r
d iri r r x o p r o o o
r ri gi do- r i r d prod o do
o i o id d i r-
o h i o. gi : o r p rd o d o -
pro o d prod o do r io i d g i o por o o io
p o o r io d di r - pro d orr d d o r pr -
o o po d r x o i i i do p o do i r o di do por
o d r x o io o i r p r r d di di ip i . o o d io
do x p o d i o i o o rgi p r o i p o o r or id -
o io o i io pi - d do r o pro di o r -d -
. r - por p r io o ro o i g r r p i do
id o do o i o pod d orr r d evidên- p rp i di id o ri i do p r o i r
cia i o o r o d suspeita, di o o i do pro o
pod rd d o o xi i d o io d / do i o.
i io o o d or opo i o i - o pri iro d o r p
d o h do pod r p r i ro di o gir or o d r ri od
i o o o d o - or p ri o do o i o d morte encefálica
i p r o r r o . i o o i o i d p r d
p o hodi r d io pod p r - rd . d i o r ri o o d or
r r h r p r odo o o orpo do or o p r o r ro i
o r id o o r o o ido o io gi o o o
io pri ipi i o di o dir io d d do pro o r ri p r i
i o o ogi pro di o o xi r. o r ri rio i o o
i rod ido r io di . r r d ir o hi - p r d ir or p r r o pro di o
o r d o p prir o o ido o r p r r i do lo-
pr p d o r di o r di ip i r cus d id d orig od o r g d o -
p r io dio o do po p i io r io do o do d or r r
ri r h do p r i r r- i d r i o o d id
d o d d i o i r d org i o o d orr d -
8- 5
io p r do d d 2005 p o i o r io d pro do
r o h i o d di o o i d di ip i or o o i o i d d o o
Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Hu- o r i o d o or o i d i o o
manos d o . or id d d sacralidade da vida o d quali-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


213
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

dade de vida do dir i o h o d h r r o p r i o i p i d o pri ipi i o


29
h io por o di od d p i . oo o od i ri o o id d
d d o i d g ro di - o x r io d p p i r ig i do di i-
o p o : i d i i- d pr d 3.
o o o d p r d o gr id autonomia o i o i orpor do r -
3
d i o rrig d g d r o di p io pri ipi i r r - p i-
Artigos de atualização

pr po o or i o ido d i o do - d d dir i o do rio d x r r oh -


o d p r o o d i . o i- o r ro or r r o i
o p h r - por od o i d d p - o p i . di od o o i o pri -
r r od i h i ip i rg o o i - d p i po i o
odo o p i r g dor d r d r i o r oh p r pro r o
p r o id o i o r p o - r i o d orr o do do d d do
25
o o d r po d r o i r io p i o d i or o o r ri o
i g r d p o i di od pro di o. io d di p o rio p r o d
o xo g i p p r - d d i o di o r i pr ip
i poi po i i i o ri ir- p r id d o - pela beneficência e não maleficência o o o
g d odo i o o o ri i do i d di g o g o x r po -
i p r r r o r di io i d i do o io i o i h dir o di o
p r o. id i d o g o oi o i di o o i o d igualdade/desigual-
o po d i or id d ri d ri - dade, do i d ri equidade proxi do-
r io d ri o r i d rg o p r d o od . - i d o
r p o r p p i - o o i do rio i p i -
id d o o o o do r p d d por rg o di id - d or po r:
x po r p p d o o id - dir i o d r r d or r r o
o do r dido o o io dir i o d p r ip r o od .
pri pio d r o o r o o i o d ri do o o io d r o pri ipi i o o-
do o d od o i ri do - d o modus operandi d pr io di
po p r di o o ro o r o p r - i p i io or o - i
ro or i ig o i d d or id d r g o do i orpor r o o p r -
or i r pr pro io r d ro p r di od pr d r
d di o g or do ord o d d id i p d o ro or .
o i . di o r ri io di i io - io r i ir 15 pod - po r p i -
rgi p r odo i i i i rod i o propo o p r r po d r o o i o
o o o r o pod r i di id r - d di o o i o o r i id d
o di o-p i d ior o r o pro o 20-28 ig d d id -
or gr p r o r gori pro io i d 18 33-38 d ir g r o d i
49 51 52 55 5 58 59
d d o rr do paternalismo. ro- od ri . -
o pod r d oh r o d propo pr pri do p d -
r rio pro io o r i o d d o i o o r p rp prop
o g r o o o o io r o o i i 8 0- 5. r o p r
d autonomia 1. d d xp dir di o io
id i d paternalismo d orr d i rpr - di o o i o p r ro pri ipi i o
o h g i o r r po i id d do o o io di o o do i ig i o
di o não pode ser presumida 2 o r r o d d d d do d i o
o h do hor p r r r p i - r go i o.
. o o rg o pro d g d o pri ipi i o pod r ri d
o r o do o h i o di o do o d di r o or i r-r io do do i o-
or o pro io o rir d di- o ro p r r ior r i :
o p o r di r i do o 1 r r hi ri d or o do po
o i io ogi o o o r p o ogi o p r rd r io di 2 r d or od
o r p r d o r do d or d o- o id r iori do p i dor io ogi
h i o r po i id d o r o o i i d d di i o pri -
pro do do o ro r orr r i o. pio hipo r o do do i op r d

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


214
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

or o pro io 3 i id d d r por o d di po i o o do prod ir orpo d i p r


p r ro r io i d d o o ogi di - r ir r gi d pod r 1.
i o i io rr ri o i-
pri ipi i r o p o od i p r o do io di o o-
o o i 3 o por 4 o o do i r - i i d o do d i d od
io r ri o d i d p i propi i r d ig d d o i r g o gr po pop -

Artigos de atualização
pi o do p r ro io o pri ipi i o i d d oi id d o o r
o ior i id d do pod o g ir r - d r x o di o o pri ip
o p xid d d ri i i p - o g o o d id d d
o r id d o i . id . o p h do p di o i 32 5

i di i por i d di o io - ro ri o r po do
or o d o id d io di o i p di i g g do dir i o h o o o gr
o o po opo r i - o i prop i io ri ori
i p r d r r po o o io r io do propo p r i d r io pro -
o pro o d / do i o di o di di o o i 8- 5.
8
o . i i i or o - ig i - i or r id pod - r r
pro o p o d o di o o r i o o di r p -
o i i o i i ri o r - d - o- ri o io o gr g
i ri p r gr d p r d pop o 3 -38. - d r : io i
ir i po i i id d d o d propri di r o r o
o r i i di ri d r o di r o p r ro or dor p r p i
g o gr po d ix do i o o g o do r h o i d i ipi
rg o p d d o r r or - io o i d ir pi r p r -
dor d io o i i pri ip do ro o di o o r o o io d
o d o id r do o di o i d i- di o o .
d d i . o r po o p r ro
p r d ir saúde d ix r d r ausência de do-
ença p i do- p r qualidade de vida. Bioética socia e direi os h manos
o o o o r i oi
d ir p r o o i od or i ri o o d dir i o h o d r
p r ri o do i i od d o id r d g ho i o o p r od h i-
rgir i i i p r o x i rod - d d poi oi o p r i o rgi od -
io o di r id d do p id d d g r r od p o
d o i o. p i dor d o dig id d i r . r r o d ig d d
o rr pri ipi i 10 11
o r d ig d d di r p r odo o r h -
o or g do o i o d d o o o i do o d
o o o rgi do o i o o- d o o id o d o o.
i i 1 18 2 -28 d r po d r o o i o o d ir odo o r h o o
rgi d or r or o por dor d dir i o oi i i
d propo p o o i d o o p- o d dir i o h o rir po i i i-
od d 4. d d d p d p i r di o o
i i i p r o r ir p r p - o io o o igualdade/desigualdade d -
o p r io p r odo h do p r r ior di i o d pod r r
di rg i r o p rp d id - o i gr d o id d p i d -
12 33 42-45
o do o pri ipi i o id - r o orid d r di io-
do o o check-list or o 13 o o . o io id i d ior i ri
pr r . i di id i o i r o rr g r r - d i p r io-
od o pri ipi i o o r pro - r pr o i i or id d r di-
do di o id r o d p h d do o io o di io di i o do pod r r
o o o o r o o or i pop g o gr po .
i i d di o o o di- ro i r p r i odo o
io prod o d d do do i o. - od r do o dir i o r di io -
do propri do r di r io op p g r do o o o r ri

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


215
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

origi o o or o pri iro od ho . or di r r p i o gr d ro d


r o d 1948 p d p r r go p o r p do do id i
rr do o dir i o h o dig- r g r i i podi r pi d io-
id d i r d ri d r o- ri do i di d o r p r do di
do o r h o x o o pod do prod i do r or o d r id d o i o
r ri gir- p o do xo i o d ior i id d . r o o o i o
Artigos de atualização

r d di o i pr - r ri p r d pop o o oo
r i i o i d d o id i r io do r i i o i oo r
p r h or r d o x o 4. r do o i o o x ogo .
pro i i o d d o i i ix do d do o id r r d
o o p o hori o h ido o r d pod r o o do d x o
po i i i o odo o do h r o o r d p o o d or r pod
o pop gr o o pop - d pr d rd pro o r or od
r di io i o o o h d i ori r id d d r o orr r did or
i r i o o x o do o - o o por o ri do or p r h do
p r o r d ig d d hi ri p iori d ir o
i po rior o r di r do status quo d or id d o
i o d do g rio p od ior p r do i di d o
pr r r p r r id d d . o id d . i o o ro o
o o d dir i o h o r o o go do o or ori o o por -
do o o i d d o id i p i do- o i di id o r o di o o
- do dir i o id do i di d o o dir i o i- or - r id d o o i do
d d d id d pop i orpor do - r prod o d or id d o i d .
op r ro di o r p r rd o o o r od iori di-
do d d d d 0 p o r o id r d i d r prod o o r or o d r i-
o i id d p i - d d o i id i o ho d pop o
p r gr po o g o o r r d d oo r o do status
8-84
o io r i di . do o quo dir r io do po i i id -
i d o o d i d do o i d d ro p i i . o i pr -
dir i o o o i o o i i rgir o xi o d iori o o o i r
or r p r rd g d d do - o i di d o r i i di d d r i-
o o r orid d d p o i d d ior r h d - p r od
h o pod r d d i o do pater familias, o pod r pop o. - r od i o pod r
r g dor do ho o r h r pri - d iori o o id o d r id d or-
i d p o r o r gr o o i pod r r dir o p r
o r d di r gr po i o. odo - pro o r r or o d ig d d
o o o rg o o - i ri o p r prod ir i d i d ig d d
di i o i i do pod r r i di d o pr o i o di ri i o 4.
g o gr po o o propo o p o .
o do hi ri r p r i r r o
i h - o o pri pio o i-
pod o r rr do po i o
o propo d r o p dr d o-
r or o d r id d o i r o ior i-
i i id d o o o i d ir
ri i o do r o o o i o
i do or o i r o d dir i o
do ho rio d d d d 50 0
h o o o o o d or or o prop g r i p r o i d d o i-
o r i i di por ior d i p o od p o ix ri
ig d d i ri r o i i. d orr do baby boom. pod o r-
r o i o o r i xi- r or d iori o o i o d h r
o pro o o d d d o por - o po o i d d do h i-
o o i d d o id i o r- do p . r - or o o
o podi r p i do i di id o d h r p r oh r d o d
o r ri o p p i or o i ri - hor r status pod r poi oo
do o i di d o d di r g o rio di r r i d o i d d r-
d g ro: o d o ido o h r id d i i r o o o i r 85.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


216
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

d r oh d iori i - r o i o id o g ho p r o
i r or o d r id d permeabi- o od h id d r ido p o o
lidade estrutural do g o o gr po r i i - pod d pr r o i d r d p i-
di d r i do or o i o por o od p r p i r i i r
o i do . di p r o i o i i o o o g o
d pop o d d p r i o o gr po r i i di g r o -

Artigos de atualização
d d d r i do or o i o di p r o r r o i o
r o dir o po i i id d d - iori . o o r rio do x p o rior
di o o . o o do o i o d o- o r - or d i p r i i r o
d d por h i p o - di o o o d r o pop
ix ri odo o r o d o i d d . ri po i i io
i i d do o orr o o o o o- o p o rop i h d d d o ri o
i o d h r r r do o - o o o o orr p o o ri
i por pop o i i di - rop do r r d do go r o o o i i
p r por od i o id r do- o r gi o i rio r p propi io
o p di r o i i or d p r do gr po i ori rio . od - -
i i do o o p o p i - o r d i io rr o i o-
di o r r do i - i o g o gr po i ori rio
i od ix ri ri o i - do o pr o i o di ri i op
o pi o o i o d o . o gr g o o o o r o o d
o do o i o d h r r - d d d d di por x p o o o o r -
i d o or d permanência temporal or o prod p o r od ro p r
do o o o d r i i di poi o di- p r r o po o o d rr d id
o i i o i d o i gi rio o - o p o d r . hi ri o r i d
i o i d or i d do por- i i o d o orr r o hor
o r d o o rd d io gi i r do o p d o o p r -
o r o di o d r h r ho i ro or i h g i o pro o or do d
p r do r o i o por r - i i od or r o o oo
r i ri . ho r di i d o o i id d 8-84 8

d orr i d r rir - iori ri . o d o id r


di o i d d p r r o di r o r - p r d x p o r d d p r odo hi ri o
o d o i d d o o po id rio o i o o o do r
do o i o o i i d g d d do - i hodi r o o orr do
o rio d g ro ogr r d di i r d i h
xpr i r id d o i d o i d d o i- p r id r o di r .
d i o di r p i o r or o do r o o o o o o o -
g r d pod r r di io o o id do . od o i orpor r o p r -
doi o i o o or i do r i - ro ig i rio do dir i o h o di d d
i o do d o r o p r r di io- pi r or o gr po g o
orid d do pater familia, o or do i d di r o orr por i d d
i p r r r di i o d pod r r di io . i - g rd r o dir i o do po o o d
o d d p r i id d o o p r- ri xpr r- por io d do-
i o or propi i o d o p do p o o o r
r i i di propo p iori . o - i - d i do por o p o od -
i p r i id d o or i p d i o i i 8 . ir do i r o i -
o di o irr o do o i o i r r io i o do d d o o o i
o pro od r or od or o or - dir i o i i po o r hi i i
id d di i h o i g o por x p o o dir i o h o o r po d
do g o o gr po prop d . ri p r rid d do o x o o i o d
i po por x p o o o r d d d 0 p i id d r do di r po o -
od h r og oo o o po o o d pop o do do -p r o
d o r o d or o o or gr g do o i r o d -
p o pod r h g i o o ro gr po o p do. - g r r dir i o p o.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


217
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

id d d po r g r gr - d di r d orr d or d ord
d iori do o o i d io o r i odo o o-
d dir i o h o d r o o r o r r do p o d io r di o o-
p ig rio o r hor pro id i i o i p i or -
r o d i r r r i d . di o i di id i o d orr d ir -
por x i o o id di i i r h d r id
Artigos de atualização

po id r i p r r o o o i o pro o d do i o i pi
po d p o o i o o i i d - r o i p i o gi o i do i di d o
o. o r p dr do - o o o r o d ir i d -
id d i r id d d id p r odo or i d i ri i r pr pro-
o r h o po r p i do p o io i o i d d o o po do
go r o io i di r id d o p r- p io pri ipi i . o r i o o od
i i dir od i ri ri r - di d d d
o i r r di i d o- o o i pr ri d d do r i o.
i d d . do o por r i p d di o o o i o d io
i p dir r prod o d i ri di i o i di d d pod r ri d r
i r d o i d d pi o oi i i i do od di i o o -
i po i o d p r ro ig or di r r od rd d do i gi rio o i r o
p i d ho r o r po do i - o pro o d / do i o. orr d
di ri i d o or d iori . o do por o gi o r d d
o o orr por pi od r o - do pod r d i d ri r o gi d ip -
d r d o i od id o o o o id do o o
o go r o do p d d r p o o o d gori di p r
di po i g r i r id d o i . i- id r i r pr o i i h io
o di i hi r r i d d id o di io do r or o do o -
d o i d d o o id d hi ori di - por o d o p o ogi . -
gr po i ori rio r di io i o ig od di i o or o - h g i o
r i i di r d o - o i d d o id i d do- d
p o o o pod o i i r o r i o p r- o di i ri pr di do por i r
ig i do po o i d g o do o i o. i do d o o
r do or o d r i i di . r i o d orr d r d d o i d
id d d id o p r dig io di o. o
d o g i r i - o ir- di r o h g i o di i o
p o do po p i o ri i p r ro i i d pr i
i r o o i id do por o d o o pr prio di r o
i ori o o i or d i po i o gi o r o do o h i o r -
r d or d iori por i o r h - prod o do o por o di o o .
do . i o x pod o o r or -
d do o o qualidade de vida o p r -
o d r id d p o o or d io-
dig io di o d por odo o p o
ri pod o r ri ig i do
d id o i . o ro piéce de résis-
r o do status quo p r i ori ,
tance do r d d o i p r o g r -
o. i d o rg o p do
do p o od di i o o -
ig d d propo p o r prod o d
dido o dir ri propo p o dir i o
i ri por or r pro o i po i -
h o p r i i i r o i i r d ig d -
o di i o i i r i r gr po -
d o i g r r por io d id d id -
ori rio i ori rio o ri i do p r o
d d id p r odo . or o i oi d i
dir i o r i r io do o d id -
o p r dig io di o i po o d ir g -
d d p r i o o id do o dir i o r i d r or do i ri d pod r r
h o r i do o o odo id do o i r o or o o p r ri-
o o i o d r prod o d di i- d d r i d i ori o orr po d o
oo i . p r ro ido p iori . o o
di d d d i ori o o id r r i- d o r r o o p r dig h g i o
i di o p i r io- r i i di do g o gr po i ori rio

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


218
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

d gi d i d o o ig or - r d i o o i o o i i do d -
i d io o rr op iori o o o h i od pri ir do di r o o
i o or p r i por p r ro di i o i d di d d d g d
d rd d di i o i . id r o or r d do r do g o -
or - d o po r h i do o pri pio r dor d
d io o di r p i o i p o di i o i i o i d d o id i.

Artigos de atualização
do o o r i o o d i p ir i i po d ix r d po r
d o i o i d i di i io o i i r i ir o- ri i d
o g ho o i i d i do d o gr o d o o g ir r d or propi i r p -
Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Hu- r o d di i r i d o x i d
manos 4 gi o pi o d di ip i g i p o do r o do
di o o i . r o p ri r dir i o h o po p i p r o gr -
r x o io pr did o io d - po i ori rio .
i o d d do o i o o i i o
o o rir i i i id d p i r gi id -
onsidera es finais
d r i i di d orr d r id d
r p o o po i
pod o o r x o pr po o do p r dig- p rd r po o r io-
h g i o. r i ir o- ri o -
do o r ir o r o p r r x o
or p r r o d r d d
d di o o o r
por o id o rg od di i -
i d o o g ir d o r d r
o i pr g o id r gr d did
di i d h r p r p r r r r
pr pri r di ip i rid d i o -
o r di r o o r g r r dir i-
i o o o po d prod o d o h i -
o r id d i r o od o
o io o i i d o o p
io di o.
o od di r o o i o o d
di o o . or r rg o r
r d r dro pr i o or-
p p dr r prod or id d r r di ip i rid d do i ri
d iori o o d do p o d di r o r di r o ri
io o i d ix d o r orid - p r o po d io o p r i r r i r
d o o o p r dig io di o r h r hi r r i i r o p r dig io -
o io o o p r ro r i d gr po di o o di io pi o r do p
g o i ori rio o o o pr - io o i i. d o o r o di o-
di po i i di id i d p r d go o o o i o o i i p r i r i or-
di i o i d iori p r dox por r r x o o gori -
o o p odo o or o h i o d d o do p i r i i i id d
id pr ri o p o p r dig io di o. gi id d d r i i di d orr d
r id d r p o o i r
d orr i d r prod o d di-
gori o i o d pr pri io o i .
i r r io o i -
i p d p r r do io d i- o o i i i r o
o r prod o modus operandi hi r r i o d io o i i r i ir o- ri
d ri o d hori o id d propo p o . i d o pr i r r do di do
or i o r po i h g i pr pri p r po pro g ir o o id o d
d o p rp o prod o io - p r ro o pi i di o o .
p r do h i i ord g o o - i io do o o o r -
g ir d i r rr p - o do o pod r o do -
d o gr g r di r o r o d ho- r r i r ri .
ri o id d do o or d i ri
i pr g i od do d r io di *A epígrafe é tradução livre de fala da personagem
o r prod ido d i r di r principal do filme A Single Man (EUA;2009), dirigi-
o io d di o o . od - do por Tom Ford e baseado em livro homônimo de
orr gr d did do o Christopher Isherwood.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


219
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

e er ncias

1. gh . o i odi : r o r r h hi iopo i . d hi o . 2009


go 34 4 :384-408. : 10.1093/ p/ hp02 o 15 . 2014 .
2. hr . r dig io o i o p r dig io o. : d di or . io
o r g i org i i h h h prod . io d iro: io r 199 . p. 109-2 .
3. orr . o o ogi r prod . i i d io ogi o io ogi i i io d
Artigos de atualização

iro: di or 2001. p. 23-33.


4. or o . io pod r i : i por o d r ho h o. o gr o r io
d d io op r ri ri . io o d x i :
d r xi i . ogo : i r id d o / o/ i r id d io d
o o i 23-2 d o i r d 2010. r i po : http:// . io o .
d . o/ ori r r o gr or d io .pd ri p. 144- 9 .
5. rr . -i r- r di ip i rid d o p xid d o id d o r io . :
rr otto d . o pi o gi o d io . xi o / d io
2005. p. -85.
. o . ir d ropo gi o r i di ri . o 2010.
. g . io o o o oh r . . r . io . 2005 1 1 : 28-44.
8. r i g r . io o di . r i : di or 2004.
9. ri g r . dir o g o i od d . . r . io . 200 3 4 :43 -50.
10. rr . i od d p i . o o: d d d d i /
ogg o d o 1995.
11. hr . r ir rg d d . r i : di or 199 .
12. rr i i . d p i io id d . io . 199 5 1 : 2 -33.
13. i i ih rr . h io hi i r i d h pri ipi i h or . io hi . 1999
13 3-4 : 243-8.
14. o . io r g i di i o. do d d . 199 21 1 :11-9.
15. i ir or o or . i h d io o r i. : o i ir
org i dor . r i / p r id : o i d d r i ir d io /d i r 200 . p. 1 1-84.
1 . o . o ogi d i r o io . : ri i r . i io rio d io . p r id :
rio 2000.
1 . o . io hi i i r o i . : o o org i dor .
tt r o pri ip r i . . io hi . : ri i r / org 1994. p. 130-
4 .
18. o . io d ig d d o i i . : rr o org i dor . io o
o . r i : di or 2000. p.49- 5.
19. o . ig id d h d . io . 2004 12 1 :109-14.
20. hr otto . ri pio io o d p i : i i io prop . d
d . 2001 1 4 : 949-5 .
21. otto . io d pro i . : di dir or. i io rio o ri o d io .
ogo : o/ d io / i r id d io d o i 2008. p. 1 5- .
22. hr . or i ip i : o pro g r o r i o r do
prop d io d pro io . . r . io . 2005 1 1 :18-2 .
23. hr . ro g r o r do o i r ir o d o d . i r . io .
200 3 3 : 401-13.
24. hr . io i r id d o d io o- ri
ri h d pro o. : rr otto d org i dor . p. i . p. 143-5 .
25. hr . d dir i o o d r o r d d p i . . r . io .
200 2 2 : 18 -200.
2 . i ir . io : d id d i . o o: od r 199 .
2 . i ir . pr od g ro i i o io : g o id r p r od .
-r do d ro io . d rg d ro i i o ogi .
o ir 5 d . 1998.
28. i ir . i i o r / i po r io : d d g ro rr i
d . : rr i i org i dor . io : pod r i . o o: o o
2003. p. 345- 3.
29. di r . h r r i ir o or o: ord g io d p i .
. io . pr. . 2010 18 1 : 131-53.
30. r . o i . : di dir or. p. i . 2008. p. 4 5- .
31. r ggio g . o g o i p r ip o d io r i ir . : o
i ir org i dor . p. i . p. 18 -211.
32. g . pro o do io i d r o i r o r io dir i o
h o. . r . io . 200 2 1 : 21-38.
33. rr . io d i d d i . d ro . 199 9 1 :2 -33.
34. rr . io r : p rp p ri ri ori io r di io .
o r i : 3 r o gr o d io d ri d ri . : i io/2000.
35. rr . o o i o o x o po o d io . . r . io . 2005 1 2 : 122-32.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


220
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

3 . rr or o . r o io hi : propo or p riph r o ri i o x o
po r di . io hi . 2003 1 5- :399-41 .
3 . rr or o . io d i r i . : di dir or. p. i . 2008. p. 1 1-4.
38. or o rr . io d i r o: o id r o r o o i d r do.
io . 2005 13 1 :111-23.
39. or o p . ro r io d i r o. : o gr o r i iro d io
- i. i 2004. p. 2 .
40. or o . o ogi id o ogi : o doi do d o d prod r i id d . . r .

Artigos de atualização
io . 200 2 1 : 3-8 .
41. or o . or id d d g o i o. r i : or or o di or 2009.
42. or o oi . io d p i . o o: di o o 2003.
43. or . o ro o i . : di dir or. p. i . 2008. p. 538-40.
44. or . ri io d di ri pi d o i d
d . . io . pr. . 2008 1 1 :25-39.
45. or . o di d id d r ho d d o o do d r p r io i .
io 2004 21 2 : 113-9.
4 . r hi o i . i o dig id d. : di dir or. p. i . p. 2 8-80.
4 . i i . d o o d r ho h o. : di dir or. p. i . p. 244-5.
48. di . ig id d h . : di dir or. p. i . p. 2 4.
49. di . io d r ho h o. . r . io . 200 3 3 : 3 0- .
50. di . r d h id d. : di dir or. p. i . 2008. p. 282-4.
51. otto . io : p i id d d i o o i i o o i . . r . io . 200 3 3 :
328-43.
52. otto . io p i : prop . . io . pr. . 2011 19 1 : 1- .
53. o . g i p r ip . : di dir or. p. i . p. 3 1-3.
54. i r . id rpo dig id d h . : di dir or. p. i . p. 280-2.
55. i r . d r ho h o: h i d i d io . . r .
io . 200 2 3 :281-98.
5 . d . i o r i d o p i i or d . . r .
io .3 3 200 : 390-405.
5 . . ig id d h . : di dir or. p. i . p. 2 -8.
58. odi . o i d d o o i di i o o p o. : i io rio
200 .
59. rg . po i id d o i d. . r . io .200 2 4 : 443- .
0. i g r . h d o p i i g o . i io . 2009 1 1 : 9-11.
1. r . dig i io hi dh righ . opi g or d io hi . 2005
5 3 : 225-33.
2. d or . i hi pri ip i rop io hi d io : o o dig i
i gri d r i i . o rd o d o o io hi d io . di i h r
d hi o oph . 2002 5 3 : 235-44.
3. . do d r i id d : r r o di o pri pio. . r . io .
200 2 2 : 15 - 2.
4. . pi i d d r i i r o r io d r ho h o. . r .
io . 200 2 4 : 43 -42.
5. d . d r i i r o r io d r ho h o. pi i d o r
p r o i d d . . r . io . 200 2 4 : 413-22.
. rg i od id p r d o i i r . r o i r o r
io ir i o o. o 2005. i po : . io . dr o. . r
o 14 . 2008 .
. i i . io d i i pio ir . rp o d o d
o por id d . . r . io . 2005 1 3 : 29 -311.
8. h p hi dr . ri pio d io di . o o: di o o 2002.
9. g . o o i or do. d r o d i . i i rio d
d / o i o io d i 2000. p. 22.
0. r i o . p p do o i d p i pro o do r h o.
io . 2002 10 2 : 129-4 .
1. h p hi dr . p. i . p. 13 -20 .
2. o ho d r d di i . digo d di . r gr o i o r . 1o cap o -
o
po i id d ro io . o o 1.931/09. i d o d 24 d ro
d 2009 o p. 90. op i d o d 13 d o ro d 2009 o p. 1 3.
3. i ir . io r i o do digo d o d or do di o o r i . . io .
pr. . 2008 1 1 : 85-95.
4. or o rr . i i d r or i ri o r od io r i ir .
. i . . o . 2011 r 1 p . 1 . i po : http://dx.doi.org/10.1590/ 1413-
81232011000 00002
5. rr . i . o gr o r io d d io o p r
ri ri . p. i 2010. r i po : http:// . io o .
d . o/ ori r r o gr or d io .pd ri p.118-23 .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22


221
Bioética na América Latina: desafio ao poder hegemônico

. h rri . i o i r o i io- o-po . o gr o r io


d d io op r ri ri . p. i 2010. r i po :
http:// . io o . d . o/ ori r r o gr or d io .pd ri p.124-
5.
. rg i o d id . r o i r do ir i o o . do d
pro d p o o 21 d i r d id 10 d d ro
d 1948. i po : http://por . .go . r/ dh/ / gi i r /ddh i i r i r .h
o 15 . 2014 .
Artigos de atualização

8. i o . o o i i o po r ro ri d ri . p : i ro o h
1.3. 2000 533- 4. i po : http:// . . d / o r/ / i o.pd o 15
. 2014 .
9. d r . i i o i : r oo i ro ri o. : di or. o o i id d
d r: ro ri o i i o i . rp o ri . o ir :
o o o ri o d i i o i 2000. p. 4-23. i po : http:// i io ir .
o.org. r/ o/ r- r/20100 08034410/ d r.pd o 15 . 2014 .
80. . i i o i : r oo i ro ri o. : i o di or. p. i . p. 24-
33.
81. ig o o . o o i id d o rgo o ho: h i rio o id hori o
oo i d od r id d. : i o di or. p. i . p. 34-52.
82. oo r . pro o d r io . : oo i i r d ri i d g .
o ir : di io d o 2004. 2a d. p. 5 -9 . ri ropo ogi .
83. o r . hor d r ro . p r ropo og o i d po o. o ir :
di io d o 198 . ri ropo ogi .
84. rio . origi id d o o or d org i r di r i . : rid d d ro
do. d ro r i ropo gi d di r i . o ir : di io d o
1998. ri ropo ogi .
85. o do ph r . rod o. : org i dor . h r r ido: 30.4.2014
o i d d . io d iro: rr 19 9. p. 19.
8 . i o . or id d o o i d : di ogo r io d i r o o i do: 18. .2014
do o r o o i id d . . d d d i i d d / i r id d d r i /
pro do: 2. .2014
2010.
8 . do . o r r io r io d r ho. . io . pr. .2011
19 1 : 15-28.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 211-22 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222002


222
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da
autoconservação humana
Monique Pyrrho

Resumo

Artigos de atualização
xp or do r o o x o hi ri o o pri ip i pi o d io o r go rg xi
odo d r o pr prio d di ip i r ri do por i o op r i -do
o o r oh p r r d di o o r o ri rio d i o do h o. i o
r i dor h rog id d d o p p rp or i d io o x i do
hori o d do i po po i o d o i p r dig i i rio. i o
d i d g po i i id d d o ri i o h i rpr i i ri pod o r r
io o g i r d ri or .
Palavras-chave: io . iopo .

Resumen
Una genealogía inmunitaria: la bioética y la búsqueda de la auto-conservación humana
xp or do r o x o hi ri o o pri ip d io r o o
h r d r i o propio d di ip i r ri por i o op r
o o od o- o r i h p r rd di i d o ri rio d i i d h -
o. i o r i dor d h rog id d d o p o p r p or d
io o x i hori o p io d ig i do po i o d o i p r dig -
i rio. or o o i di d po i o ri io i rpr i i ri p d
or r io o r p io i r io d rip or .
Palabras-clave: io . iopo .

Abstract
An immunitary genealogy: bioethics and the pursuit of human self-preservation
ri xp ori g h hi ori o x d h i opi o io hi hi r rg h h
h i o o opi g hi h i h r ri d h i h op r i p r i o h -
-pr r o hro gh h o di io o h ttri h d h . hi h i hi h
i r d i h di ip i h rog i o o p d or p r p -i o x i di
ro d r hori o o i g hi h po i o h p r dig o i i o . i h r i di
po i o ri o h h i i rpr o r o io hi r g rdi g h io i hi
h d d h d rip d or o o io hi .
Key words: io hi . iopo i .

Doutora p rrho. o i g i. o i g o g o do o dr i o ido/ i r id d d r i r i / r i.

Correspondência
oi o o p o 101. p i r i rio r i iro. or 0904-109. r i / r i.

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31


223
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

io ri o r r - r rh o o d o p
p pr o r ro. r- di d di ip i d o
o d i o i r r . do p r . r i pr do i d
o o d ri ri r o id o io d di - r x o do pro o
o r io di o o io h r d pr io di o ri i o
pod r r o di i do 1-3. o r i r d ott r r pr p p o hi ri o
Artigos de atualização

d i p i i o do po i p io - d po i i pr . r h
d p o rgi o d i r d o- p rp r p r i i por -
o o o i o o ro i do insights d ott r p r r x od -
d io 4
. o h r p r hi ri d di ip i io g o i 10 11.
por o r r o po r o i- po o po di rg i d p r -
d d d prod o do o h i o p id d p p r p r d di r rr
d x i -o o x i io hi ri o r di ip i 8. o r o pr -
d d rgi o. x o rg r o p
o r io hi : ridg o h r o pri- p r o di r r i proxi -
iro i ro o r di ip i prop - por o p r h r o modus operandi. x-
po d o h i o i r ir d p or do r o o x o hi ri o d
i r op r p r o do p o d o - rgi o o pri ip i pi o d di ip i
i o io do o o po r i i pr d - d r i d io d odo d -
h id d 5. p rp io r o pr prio d io r ri do por
id r o pro pr : o rio i o op r i do o o r -
di ogo o h id d o r i xor - oh p r r d di o o r o ri rio
d o i o i o gr d po - d i o.
i d r or o do io i r pr - p p o o po r i dor
h id d . o p r g r r i o x r p r di ip i r
o r oh op o io o ri i do d or o i ro r io o
o o d o adoção do critério da sobrevi- hori o i po po i o 12 d o i
vência como guia de ação e a discussão sobre que p r dig i i rio. i o r go r
tipo de sobrevivência devemos defender . i r r po i i id d d o ri i o
o o po o d i d ott r r d h i rpr d i id d o r io .
di ip i ri r r or o r o pro-
gr o i o o prop i o io -
ro: o r od p i h . i i d : ioética: em busca de um o comum
o o i ri r o r i i
or - rio di ro i ri xi i d i di r rr
o r i i . i io g r o o o r orig d io od ro o
i od o o r oh op - or o d i o 13. orig or -
r o pr p o di o o r o ri d o oo o o io -
oh o. r 14
o r rg o o r rio . -
o do i propo r ido o ro d or
d ott r o r o io rg o o r o o - r di pri ir o do r o io o
o. p o o do i ro d ott r 5 oo o ri hr 192 . p rp -
d do o d o hi . o id - hr ri ido pr r or d io o
r do p r pr o p o i g ri p o o pio iro do r o por
o o r od p i h oi o i i o r o p xid d do d o or i
di do i r id d d org o h o o i po o p o d o i o i o 15-18.
o o p i od o r pro io- r d di ord i o r orig do
o dido o o o di di o o r - r o d pr pri io i d o -
o r io do r io di 8. i o o i do or po do o o pio iro
rd o p i o d pri ir di o d ri - ri i . gr d d d
ip o io di hi 9 io d rr o r di ip i or pod r
h g o i o io d i o o o i - ri d o d r gi-
i od io di . r d i di ip i d r r

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003


224
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

o p xo 14. o o ro r i hi ri o r go: h o o po i r
p d o p xid d do o h rog id d d rr p rp
io o. o o o po d r
d o or i p r r po p rg po i o rg -
r o r io o o - o rd o ido io g -
r r d di r o p i o r po o dr i r o p o h rog -

Artigos de atualização
d po i rdi ip i r o i d i- o o opo d di ip i modus operandi
o. o o o id di r p o. dir io do id d :
p rp r d o h i o por o r oh o ido por di i :
ri o o prop i o po d o ri- i od ri rio d op r o. o -
i o pod o r r od io o 19. r p r o di r o d
i o pro o o di r d io o r ri d por o od o -
o p i o ri r io r roh o p o id d
g o d ott r do g do do od or- d p ro i ord d
g o . di o o p r d i ri h id d r pr r d . i o
g di r d o o d do d - o o r d o x o ri p r o di-
o ord g ri . r o o d di ip i po i
or do do o id o o i i- r xo o po d i io o r
od io di io po i o o r .
d h o r p rp - r d o r i i i
i o gi go o p o or i d do o p p d r i o d
d r p d p i d po r ig id d do o h i o i o d -
d d . g do pri ip i ord do p ho p r o pro od g d io .
ri : or o o g g h ri hor - g do o o o x o po r o o
og o o r i i o d rg o i- p r p o d ri o/ o r i i h
do h o i p i r pi o i pi o di ip i d o or o
- ro o o ogi r prod p i d od o r oh do -
i dir i o do p i o oi - i o d i o.
or do o od r ro d 20. or
o ro i d o o p r h ri -
odo o pr po o d ott r pr i- mbiguidade do conhecimento cien co
o r io go o r p
o p o p r d d pro- o p r odo p - g d rr di o
p i gr o i rdi ip i r o i o d o i o i o p r o o d
r o or d pro g o i do . r x o o por o r r- ri
p rp di o o pi o io di- por o po pr r p o ri o
o di - o o o i iodi- d o r i . r i o
r id d o g o do h do i o d o r i - did o o o o
21
o h i o pod r orr p o po r . di o o io o r i d o h i-
pri ir i o o o or o do por x p o r o r r g o
i o od r ro d p r do pr di o i o p od -
pi i go. or o pr d r hor r o di d id h od h
o opo d io go p r di i - r o r i i . r - o o
h r g i . ri go i o- d o i o i o p o o
r io di p d - d r i pod d r o i o-
r ir d ri rio d i o o x o p r r i prod ir ri o i p r do 22.
o ro pro r r do o - r r po d pr o -
io ri d ogo pro- p o o r o r i i d p i pr prio d
io o g o o i p rg r o o d ott r po o ri o ri do p r
ri po id r g o x o o p o pr do i d io 20
.
r d io do o . r o o o id r por io -
di rg i i r io di p o por o od i
i p rg o di o r o r r or g o do

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31


225
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

o h i o i o. pr prio g r go od r ro i i. i r -
o i o do d dor do d o o gi o do io d o d id
o hi d r io o o o o i o d p r ho d di i r i
ir d r o i p o d o ogi o r p d rg o i p id d d
di giri or o o o r di ro p r ro i o or i p r
do od h id d 8. d r i o d o r id d or h 23
.
Artigos de atualização

o 23
r or i por i d pr o - or p r - o r r g o do
p o o r o r i i h p r o - d o i o o i o r di -
i o d io o i o io di o. ri - o go r o i o d pr io di
o do i o or - ri o d di do o pr od o r i i d r i-
o oo od org o o g od p r ro p r o r o o o
r p r odo d i o d - di or i p r io .
o r o i p o do d o i o i - o o orr por o o r pi
o o r i i h . i i r o o io d o o r oh -
p r p od ig id d do o h i - poi pr d pro o g r hor r o -
o i o por o o d o i dor di d id h i di id o
o r di r o p d io . or o o o pr prio h o
o o p p r p o d ott r - or o o o o o d i r o r o.
do di o o o r di o i o o rg o o ri -
i d p d i r r io di io - o p r o ho pr pri p r p o o r
go . o r i d ri o i o or i o o ri o od d -
r r h po o od org o i r pro gido po di o.
o o pro do o io h i gido
r g r r od o i o i -
o do d i o. opor id d i dir -
o o g r io p r o o r od h -
o r ho g r r io -
o o d r ri gir i i i id d o io r
d r r r i i di i o r i- r d di ro or or i d d r
o do ho . rd d i d ott r r- p rg do- o o x
o p r i o d di ip i p r pr d o r r. di o por
io di o d ordo o r por do d por p r ro i -
pr pri o o p r h oo od i r o or i d d i o do i io do d id
or o o do o h i o i o 24. por o ro do d o r o or r
r p i do d r i r o di o o
o o i dig id d . o xoi i i
utoconservação humana e critérios de ua d r i p r i pri ir r rp r io-
li cação p r d o ro i o o
i o p di r d io p o
i d ig id d do o h i o i - r o di or i od o i o
o d r pr h id - i oi p o i od o o -
d o r i i h od o r i r oh .
o r r h d o o do pr pri io o i i-
o r r or - r i p r io go od o o r o. p r r i r r
. or io di o pro- pr i di r o o r ri
p io r d p ri d o r i h id d do o r r.
d d d 0 r o o po d o. ogo p r - o or d io-
pri ir d i d h gr i o o - x r id p r r d di o
i i od r di i p r d o o o r o d i di o ro ir
pautava não apenas a questão da sobrevivência ou a i r o io r o io gi o -
extinção do homem, mas que tipo de sobrevivência? r i di d o o id d . i io o
Um futuro de que natureza? 23 oo od o o r oh i pi
r p rp io di o d o i- r x o o o r gori d p r
o i o i p h d o o r i - d ir o status do org i o i i i
i h i d r do do r h o.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003


226
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

aradigma imunitário or d r i i o io g o d
iopo r do o do o -
i or i d r d o d h id d d do
di o o r o ri o i
io gi o 29.
oh o od o o o od o d
di o r oh o oh o o r o r rr i i o r i d -
di i pr r di o o id o i d io o i i o o pr i o

Artigos de atualização
o d d i i o ri o i do r h - r r r r r or g o
o o o i po o zoon politikon . d o- o r o o po d ri d
o r po i io od i o r- iopo i i . or do
io o oi i d d i oi - o ord iopo d id o r po i o
i d o r o h o 25. o pod r o r o d ri do d pr rrog d or-
. p rp o r o d id
d d pri pio po
p p po o r pro o o d d do
d di po i o d d ir id -
dir i o i di id i or - or i o d
d d h por o r o opo i o
o. or o ro r d o do ho
io o h o. i i do o o p o
di o io gi o x i i r i -
d exclusão d zoé id org i o o
o o i do ho o r i o por
do i i o i o po o o o
o i o 30.
o g rd r i od id i d r -
r x i do h o bíos. o o g do po i o 31 iopo r -
ro ir r h o oh o d por o i o r o i
r r id zoé id i d bíos , o r po i io o d i r pr do- or
r or o oi id o o pr prio r- o o i od o r prod o
gi od od r id d . p r r d o id d id or o o d o or h .
zoé , x o o o di o - d i d i o i d g do po i o 31 d -
d p r po p o p rop p r ri o o r r o o o po i d iopo-
r d pod r i g r do o g r - d rd gri 32 d o o or-
o iopo d o i d d 2. d r i i o pod r o r o do Império
2
iopo r d x por r - g d g id
gi d pod r d o o ro r prod o o o o id d do pod r o r o.
d id o p o do or- i d i od o di rg i
po io gi o o ro d id po 2
. o - r p o por o d ri o d d -
g r o iopo r oi r o do pr - i r o hi ri r o pod r o r o
gio o i do o h i o i o pri ip - iopo . r po i o o o o d o i
io di o o po rior rgi o pr pri r o r id po p -
d io o i i do pri ip i o o d d por o o o gori di
r x o d io 28
. do progr o r d do orig o g r o iopo .
do po io gi o pri ip r or r o i id d propo por po i o
d io ogi o r d io i d g o o h i rpr xp i i di -
d ro i i io o i i r pr o o i o x o r o o
or o d p r od i i i po p r r i ri i o d iopo .
r r org i d id o pr d o o o i id d p rp d o po
d rr ri pr i - d r od d p d i id -
hori d o di d id h 28
. r id po g do o pod r pr
o o r- r g i do p r i r - id o o r o id i d
o i r pro o i o io - r d pod r p r r. o o r rio d
o i i p o or i r r pro- r ro o o id po i r-
i iopo o. pr gio o i do p gori d i id d d di -
o h i o io di o d pro o d pro- i o r r ri r od d
31
o g r hor r id h r do pr ri r id po .
o pr o do ho pr do i i pr i o o r o i -
d o po io gi o di po - i ri r ri por pro o g
i i r o io o i . dro d id o por o i o i o
io r iri o o i o d opo i o r i pr d do o r o d id

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31


227
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

o r di o io o o r o r i. - d o r i o od o id d io
o i di p hi ri h o- r i xpr o do po i o 12 o o
o r o do r i p o po p r oo r o o i di d o
o di o d g o pro d i- o id d o pr prio o o ro.
o r i d pr r o o p rp io ido
i g r i o o io d g r r o r- o o ro d po od r do
Artigos de atualização

od id r pr r d ir- o o r iopo o
r di r i . id d g d r id zoé, p r r o io gi
pro oi i ri r id x id i d r or d id po o o
o odo p i rd o o r od p i o p o i d bíos, id si-
h d ri d r ri o pri od p r d tua precisamente no ponto em que essa distinção se
pr pri o i o 33. torna difusa e perde o significado 31. id d io-
o o d pri o pr ori- po id p r i i d
g o gi d p r i id d immunitas o od o o o d i di o
id g o o id d commu- r bíos e zoé r oh o o oh o
nitas . o communitas i d por r o pr prio o o ro. x -
munus – o rig o d do o r pro por- io r i o d i di o op r o
o propri d i id d pri o di po i o d p o : i od d i o
d o rig ori d d do do pr o p h d do ri o d h id d 35.
por i o d d o r o i o xpro- di po i o d ir xpr o -
pri o d o id d . i id d pr p o r i i od gori d p o p
xi i do próprio pr i rd dido d rr di . o i o r o
i i o o d xpropri o r pr - do o d id d o i iro gr po i o
d p o o o o o outro 12. h i o oo o o di d -
r x r o o gi d o o. odo o r igor od gori
o o r r g o r ri o do i- r i p r or r i r id d ior do
o i i rio d o o r oh d id d o pr h do o i
i i r r r r - o hi o r id d o i o d dir i o
o r i di d o o id d x r od - d r i d o i di d o o o di o
o i o d gi i di id pri d i r i do ho . - ri r r -
od r id d 12. i por p p o o io o d i pi o dir r h id d do
d i id d p r di i p r o dir i- i di d o o dir i o d po ir dir i o 35.
o irr di - p r i di r r d d i do p o r di o r o -
r i r io i o i id d dip o - d do pr po o h i oi r po
i i d o p o o o r r gi o i do achatamento do h -
i or o. o i o g do po i o 34 o o d do io gi o . do g o
d p r o pr d r od r id d i d r o r d
or po p di r d p d r d id io gi h r i i od gori
r r id d d i - d p o h pr di r o h r xi -
ip d d pro od ri o/ o i d go d r o r i h d o
d i o xpo o . status h o r or i o ro r o i io-
35
i id d r d d pr or- .
d o r o d id o p r dig i i - h p r o pr d ro po i o 35
rio o d i i o i o ri h d di po i o d p o
d hori o i g r do o od r id d . id i d d r i . r r ri r p r p o
i d id d o o r or o d orig ro d p r per-
pr po o po o por o i d d i- -sona, r d o p r or d r
o d d o hi ori i di o i i o ro o do or dir o . propri -
o od r id d o o id d d o do o i o p r di o ri g do o -
o o r o d id i di id o o pro- or pro d i d i id i d d r i
r rg or o d o r di o ri por quanto indissoluvelmente
p r o i io i 31. r o ir o h - ligada a um corpo vivente, a pessoa não coincide
o d i o od r o por i id - integralmente com ele e, inversamente, encontra o

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003


228
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

seu elemento mais intrínseco precisamente naquela o d r id d d id o po i od


não coincidência que lhe consente o trânsito para a io o di ord o p r o
vida ultraterrena 35. orpo o o o r r d go pro-
gori d p o i - pri . p r d po i o sejam aqueles
o oi id i r o io o r o io- que defendem para si a disponibilidade do próprio
gi o o . or h ido r o - corpo – para melhorá-lo, modificá-lo, ou ainda para

Artigos de atualização
d p r i r i i o/r i o alugá-lo, vendê-lo, suprimi-lo – sejam aqueles que
h xp ri d d r o i o - o declaram indisponível porque propriedade intan-
gori prod i do i o di r o do p - gível de Deus, do Estado ou da natureza, devem
r do. r po i o 35 por r o id o o go pressupor a sua tradução em coisa. Somente porque
d r o o d o o orpo reportada antecipadamente à categoria de r xr
io gi o o o i o d p o por r r o r i , a vida humana é declarada sagrada
o opo o d pir o i grid d prod - para uns e qualificada para outros 35.
i do i di d o i dido. d o ir di- i od di o io r
i o r o ho i por i p i r d r i o i o r
i ro od p rp r o i o o or d p r o do h o o o
o i rior d d i di d o. o - o o odo r o di po i o d p o . p o
o ri o i o do ho o o i r io . or o o p do p io p r
o o r o status rgir do io i g r do p o p r dig i i -
d p o d r o i i p d r io- rio. or o g i i o op r d p o di po i -
do i r orpo io gi o i - od p o d r od r id d
id d po io o gi o di por d . i i d o o or o i di d o p r -
i o o r o i id d do d pr prio orpo o or di po
d i do org i o . di po i o d p o i r hor o 35.
o i ri por o i oi i rio o p r - o o do
op r or o d i di o p r dig i i rio o o h i rpr
r o orpo o i o. or io d d o - r o oi r o di io p r o pr -
o o o d ro ir gori i o di po- o i d i i iopo d io -
i od o status do r i r o o i i r p r p r io . or
xr o d i i o p ro i o 35. do iopo o r p p r o or-
di po i o d p o pro o o - po od r id d . or o ro o orpo
d ro do o i di d o i o d p r- propri do di po i i i do p r i r o.
o i o d p r r io d d p r o- io o i i o o i o d o o r-
i o d p r orp r i i i - oi i ri d or i r ir r or-
d . do io x r o r p r orp r r di o io gi p r rd o g -
o r i o i di d o status r o iopo d od r id d d o ho .
d p o o orpo o status d oi propri- o or o ri o d h id d o
di po p r do io i r o 35. i o ho o
i o d o i do di po i o d p o or - i di o ri do -
d r i p r o r r i do dir i o h - p op r gr d o d gio i r di rio
o o x i hi ori o rgi o r oh o o oh o r o o-
d io . or o o or - o - i d -p o o o-p -p o i d o
r i dor p r po i h rog o- i p o . r rr ir
p r o r po di ip i . i io x r ido o or-
p rp pr pri xi i d io- di do o o 35.
o p od d or d ri d io p r d odo gir o o
i o op r d hi ori p o di po i o d i od o o r od g do
p o r p o orpo r i o o. pr d do o r r h id d do io
ir o io o p r g o do i o i i rio pro ido
i or or i do i od o o r- p o r io o i o. p o or o
oh por p r d i i prop i - p r r orig o p x di i o-
r ir o r o orpo. o o r - o r r x r ido do o
od o d d id d pr prio ri o d h id d di o.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31


229
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

onsideraç es nais i pi i or o r ri g
o ri o d io g r r p opo i o
r r i o io o r dori o 3 por-
r g ogi i i ri d io i
p r i i ir opo pro o -
o d d p r p od d -
o h o r d
p r d p o d o i o o i o r -
i r r or d o i i .
pr i do pr o p o i g r
Artigos de atualização

d i i d hi ori . o x o prop or o o or o d i i o io pr -
i pri r r p r p - d x r r pro o r
o r o io o d d o or i . h id d doi do : o o r -
o o o i dor d di o p r i g r o i di d o h o o o
p rp io g r oi o d pro - o o do ho . o or i i rio d
g r h id d d r io d io o i i o o r do
pr prio or o d pr r o. or o o o o- o r r or o d h id d i di id -
p rp io o i - o or - i io
o o o i oi i rio d g do . d i . hori o i i rio r gi o
p r id ro h d x d o pr
propo d o pr o d i id d
i do p r ro p r o o r oh -
o o h i rpr o do p r dig
.
io o i o o o d io o o
o o i pr di o o - r r di ip i p r rd hori o
pi i o. o o r r o o r o d o i po o pr pri
propo pod d o r r pro i or p r io o i o i i rio. p r r
io . ri ir r r di r id d r o o po p r o-
r r d io p r rd i- i i di d o o id d orig d i-
o o pod r i r op r r r o do d i r o d di ip i . p rp -
r dir io r i r o po o - o ri i p r r r por x p o por
ri i do p r r r pr d r g o ir r o p r i o pr o ri o d pro o
p i i o. g do g r o o oo od d d o o i i di id
d o o r o h pod or r o r i pr xi do go o o do d -
p rp o r r o o io o i i ri 3 .
or do p id d d ri d io do o do p r dig i i rio o o i -
pro r o o i r o r o o ri o r o ethos od r o p r i-
o or p r o or . i r i o i o o
p r r d h i rpr i i ri r id or i di d o o id d h -
p r - io o o oh o 34. o pr oo r
o i od o o r oh por do rr di io i p r id r
io do o o po o ri o i r i i i di id i o orr
i i i d o d o id d i ir . or o ro io
h o o di o. o ri i i r o p r opor ri rio x-
o pr d - o or d io d d i o d id o r i r
p r rd o o o o d r i- r or o p r ro d i i o
r o p h r d o io gi o pr o o do d di i ir di r i -
x d d di r id d o i i r i. o o o i g rid d h .

e er ncias

1. rod . h r o io hi . or : x ord i r i r 2009.


2. o . h r o io hi : hr dog d po h o . io hi . 2010 24 5 :218-
25.
3. dg o . io hi d h r i or o o io- h i xp o . o d i.
2010 40 2 :1 3-8 .
4. i . h d h o io hi o i . io hi . 2010 24 5 :211- .
5. ott r . io hi : ridg o h r . r : r 19 1.
. ott r . ro g o io hi : i di g o h opo d g . : i r di or. r i g o
i o h d. hi g o : d r 1991. p. 15 - 2.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003


230
Uma genealogia imunitária: a bioética e a busca da autoconservação humana

. ott r ott r . o io hi : o r g i d op ogo r i . d


o r i . 1995 2 3 :185-91.
8. i h . h ord io hi : h r gg o r i ri i g. d hi .
1995 5 1 :19-34.
9. h p hi dr . h pri ip o io di hi . or : x ord i ri
r 19 9.
10. i h . h ord io hi : i ir h d h g i o ho ho h p d i . d
hi . 1994 4 4 :319-35.

Artigos de atualização
11. o . or r r: h op o io hi r i i d. r p io d. 2010 53 3 :452- .
12. po i o . i : pro io g io d i . ori o: i di 2002. p. 212.
13. h r . rodi o d hi ori o io hi . d i . 1998 12 1 :9-22.
14. ox . r i g io hi . x ord: x ord i r i r 2008.
15. . ri hr 192 o p o io hi . d hi . 200 1 4 :2 9-95.
1 . o di . ii g h gi i g o io hi : h o ri o o ri hr 192 . r p
io d. 2009 52 3 :3 -80.
1 . gor . ri hr io hi i p r . h i hi o ophi . 2011 51 1 :141-50.
18. r . ri hr d h o d o o g o io hi : h r o i gr
io hi . r i : i r g 2012.
19. op . io hi p i di o r d o d-ord r di ip i . d hi o .
2009 34 3 :2 1- 3.
20. p rp . o por r d i io hi . x ord: i - 2013.
21. ordi . d oo o g o io hi . or : pri g r 2014.
22. . i o i r i i d: h or po i dr r h progr . : d
oo di or . h ri o i d o d: ri i or o i h or . o do : g 2000.
p. 211-29.
23. o . h ir h o io hi . x ord: x ord i r i r 1998.
24. ott r . ii i h r po i i i . io hi or o o ogi : pr id dr . r
r h. 19 5 35 9 : 2.29 -30 .
25. g . p r o: o o i . i o: o ori ghi ri 2002.
2 . g . o o r: i po r o r o d i . ori o: i di 1995.
2 . o . d dr o i : o r o g d r 19 5-19 . ri : i 199 .
28. hr . io io g r o d i r o o ro d pr d
io o i i : i rod o. i d io . 2010 1 2 :99-110.
29. hr . io o o or d r i i iopo o iopod r. . io . pr. .
2010 18 3 :519-35.
30. o . i oir d x i : oo d oir. ri : i rd 19 .
31. po i o . o : iopo i o o . ori o: i di 2004. ido: 13.5.2014
32. rd gri . pir . ridg : r rd i r i r 2000.
33. po i o . o i : origi d od o i . ori o: i di 1998. i do: 3. .2014
34. po i o . r i i d po i : o i i i iopo i . i o: i i 2008. pro do: 18. .2014
35. po i o . r p r o : po i d i oo d i p ro . ori o: i di 200 .
3 . o ro . d o po h dig i . io hi . 2005 19 3 :202-14.
3 . rr . o o i o o x o po o d io . . r . io . 2005 1 2 :122-32.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222003 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 223-31


231
El paciente como “texto” según Ricoeur:
implicaciones en bioética
Carlos Alberto Rosas Jiménez

Resumen
Artigos de atualização

i o r o rr i id i id . or o o xp ri i h po di i rr
d ir r r rr odo ro i r d r d oh o dr o r o o
rr o. or r or d xo o i r p r i o r od o g r p r dio d i
h p o id o o o r i r i r p d r. i do r og -
r d r xi h o pro di do o i d p i o o x o d ri i o ri p r r xi
d i r di o r do or d h pr d i r po i id d r d ri do
g rp r pri ipio d o o .
Palabra-clave: io . i . o o p r o . rr i . i o r.

Resumo
O paciente como texto segundo Ricoeur: implicações em bioética
i o r rr o id i id . or o xp ri i h po i di o rr o
r r rr odo or o ir d r o do h o r o id r r rr . or
r o ori do x o o r p r i o r od o g r p r o do d oh poi o -
id o o o r r r po r. do o r o g r d r x o pro d o
o od p i o o xo d r o ri p r r x o io o do di o r g do
o or d d pr d i d r po i id d r d o ri do g r p r o pri pio d o o i p r
.
Palavras-chave: io . i . o o i p o . rr o. i o r.

Abstract
The patient as “text” according to Ricoeur: bioethic implications
i o r rg h rr o i i d i . h r or h xp ri h rr di io i i h rr -
r r d r or o o or h h d o o id r h rr . or hi r o h x
h or i o r d o i o r i g r od or h d o h o i hi i o i d op or
o o ho r di . i hi g r r or or di io h d p d h o o o h p
x d d ri d h ir ri h or r o o io hi d di r i g h o i i g pr d
r po i i i d r di o ri g p or h pri ip o o o d i r.
Key words: io hi . . ro o o . rr o . i o r.

Mestre ro ro g i. o i r id d d o d ogo oo i / i r id d o i o i ri
d oo i .

Correspondencia
rr r 2 o 12-31 i/ d oo i .

r oh r o i od i r .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004


232
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

i o r es uno de los grandes representantes ética 9 di o o o p -


de la hermenéutica y es también, aunque esto toda- i o h r o o o o pod o h r
vía no ha sido suficientemente subrayado, uno de i o d o d h rd io h r -
los grandes teóricos de la ética actual; su filosofía es la bioética será hermenéutica ― bioética
ética, es reflexión sobre la vida moral, de principio a hermenéutica ―, o no será gr g or 10
.
fin, y es también hermenéutica, una hermenéutica o hori o o r o id r r

Artigos de atualização
que nace de las insuficiencias de la fenomenología, p i od i o r r o r
o de cierta forma de entenderla 1. p i o r o o i d p i o o xo p
2
i o ri o di pr o o - d ri o o io h r
oo h r i i d o - p d ogr r r or o pr i d d
pr d r r p r rd io xpr d p i o r o po r p ro h
xi i i do r p r r ro o o d r xi io i od
or od p ro d propi - h r di o. r o h r o r r or-
xi i . rido o r o xo d io go
i o r p r d o o og o id r i d p i o o xo
r i i do i d por h r i p i io o i io .
di r i d o d por po o d -
r i propo h r o o-
gi 3. i o r di ro di 4 h rd a bioética en contexto
odo i h r i
i h r i g . r - 19 0
. . ott r o ogo d orig ho-
i d h r o ro di r d p r io did o o
o do : reconstruir la dinámica interna del d id o pr di r o o o o
texto y restituir la capacidad de la obra de proyec- o d ho r o r id h i o i-
tarse al exterior mediante la representación de un i dio i 11
. i g
mundo habitable 5. io h ido p i o d rro o
o d o gr d por d i o r p - d d o o o o o i -
r dig h r o o o o di or i i rgo o o ri h ido
h rp od i o r r rr o d po i o odo i . pro g -
xp ri i h p rr io or p r- r d o 12 pro i d id
d r id o o rr dor d o o ro i - or o o o o ri ri i i o o
o rr i or d prod ir do i o i p d o d ir o i
d r ri g d r i do d d ri rio p r priori r i or
h do p d r p p d h r o r o ro i rod i do i r d r o
ig d d por o h h r . io r d d i io o ri go d g r r io
i o di la narración es vida vivida por o d pro di i o i or p r d d r .
o i xp ri i h rr - p r o 2000 h d od o
r r rr r io id d d d o io di o r d io i pr do i o -
h o dr o r o o rr o . pr i d h ho d d por pro d
or d xo o i r - i pir i r i h o i do o di o
p r i o r o o o i ro 8 r r p i d rpo
od o g r p r dio d i h o id r o p o p i o gi o o io i
o i ig i por o - d r d d 8. d pr d o o di
id o o o r i r i r i r i ro 8 id d d r or r p i -
p d r por o i o i pr do d d o o ri d i r r di d
ig i do p o r i do i r p r ip dor o r x i r d -
pr i d p i o o o. i pr i orr or d di io
i or h d i i do i d - org i p . rg por o ii i -
d ir r ri por i io - gr d p ro h o pr d di-
id d d id o p r o ro i io- io io gi p i o gi i o piri .
3
í mismo como otro o r o p rd i p r id d i -
propi di h . Todo el fenómeno i o di o h ido o ido pr -
hermenéutico de Ricoeur cabe también para la Bio- r d r r p o i d

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9


233
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

di i . o o od dio h r ir io r i o p rp d
d rip i xh d di r h r do dir i
o i d d i o o r o i i d o d - d i r o o r d rg i r -
ro o d i io d io p o i d i rpr i .
i i i d o r dor d d o 2
io pr io
o ri o r ir r d id op p d r i rpr d d ir o o-
Artigos de atualização

r d r d d do o id
o or d rd di o d p i
ro ro o r o d p r o r
i o o p i d propi r
r g r o i i i r p -
ri i oi i . i rgo o r-
d xpr r o o o.
r od io h r p i
o or p i i h d do id d d i rpr i d p i
r do r i i o d r xi io proxi r p i o o xo i
h ido d ri d p i o r do o id d i gr id d p r pod r
o o d rro do o rgo d hi ori . - rp o pr dido.
i h h ho rio por
d io p ro i r -
xi o o g p ro i o El paciente como texto
p o po o o r i i d
ropo og 13. o p id d d p ro h p d
p r o i o pr o d d i por- d g r o r r p r o o o-
o r ir d p ro h i d xo p todo lo que es susceptible de ser
como 13: ho r o o o i di id irr - comprendido puede ser considerado texto: no sola-
p i r r ridi io d mente los escritos mismos, claro está, sino también
p ro rpo p ri r r - la acción humana y la historia, tanto individual como
o o origi rio r r d id d colectiva, que solo son inteligibles en la medida en
r io i rp r o pri d i r d que puedan leerse como textos 14. d i
or orpor id d o p x - o i d xo i g o o
id d di do ho r o o r - oi i d p ro h ir
r o ro r go o o r r rr o d dig id d i i di po i i p -
p ro r o ro . op o i rd p r r i rd d
prop d io h r d i o r. i do d i o d r d io i o i -
g or xi id d d i o r d ho r o o o od
io r d r o o podr - r po i o o x o ord di r i h r-
o i r d p r dig h r o. io- o do p r i rpr o
d ro i d r o ii do d o h o g do d d i r
h r p d por r o op r r o di i pro i o o r i -
8
o p od r r i g r di i pr i i r i r i rr o p .
i o p r r po d r o i r po i io r r p ro
o p id d d id por o ig i d h o p rd r ir d o r
r . rg o id d d o g r r pr d r r p i o o i ro i ro
o pi o gi o d io di - or p p gi r d
2
d d o por or h r p r d r di o r o di i o r
ri o ri por d i o d. por o rd d ro r d r rd -
d p dor r o id ri r d r p i o di i d xo
d o pro i o d d id d pro d d ir d r id d i r o 8. p r-
id d dd p ro i i i or d o h odo o o i r xi i
o r d i io d or ig i do r d d por po
r io d rid d. o xp ri i h i pr h ho
g i o i do go d o lleno de significado 15. o rior i p i
do r o id h ho pi - io h dido d i r r p i
rg or o ro d i g - o o x o d h ho g or
i . o pr i o o di i ro 8 o di h o do o rgo d hi ori o
o o r r o - i por i i io id h o

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004


234
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

o io gi i o iogr r - El “texto” requiere ser escuchado


d d r p d iogr 1
. or o h ho d p i i o o o
o o d propi i d i rpr i o ri- x o o di i ro 8 i i od
do r r i i origi irr p 15
. rd r op d rg r p r d -
i od d i i di o r xr d d i io p r o d ir
i pr p p r d
rro d o d gr id d o d d p ro

Artigos de atualização
i rpr io d id ig i i p -
o d o. i pr pr r -
r d r i r o ho
id d d p ro r o hi ori p r-
p d r od i i o i
r i irr p . r id d iogr
p d pro r or o or did -
hi ri p ro i o po d p i
d. r r di o r o o
d do d o gr d o r o -
o p p ridi io id d d o h o
di i d dp r r do d o po-
o podr r o pr dido i i xp i do i o
i o io p r r r r d do -
2
o p d d p r id d 8.
r or . o o o dir d
r r r rr . i d d - or o ro do i p i dido o o
di o po r i o p ro i o xo ro di o d r i ir r -
rg o d dor d di po o o or p r i o p r pr d r d rro r p id d
d r xo 1
propi r id d p r o- d h d o xo i r d ir. or-
por o op d i o d i r r i i ir di i h -
i i d o r p r r o o xi o r o d di r d
i rpr i i o i rpr i xo g r o xpr
d ir i i pr p . di o p ro g r d r r
i r r . odo o di o o o -
hi ori i o or pr d p r ho o p r o i o
pr i d rr di i o o do i r o o i i o i od
ro por o pr d r p i o r r pro i . di o d r o d
o i pro . do or o 1 o o o xi r d d i o xi
o ri o i o r o - pri ip r o p ro o r
d rip i xp i i d r - p d g r d d.
d d i r hi ori i r r -
id d d r d d p p r go o di r i io d or i
o r o r do p ro . oo di i rr es indispensable para crecer
r d d go p pro o en humanidad y puede contribuir a hacer más
d r i r i r r o do por profunda la capacidad de comprensión del médico
en relación con sí mismo y los demás, y también más
o hi ori i d
aguda su sensibilidad podrá ayudar a percibir la
ii r o rior h ho p d
1 complejidad que también la vivencia de un hombre
rro r o r do d p i .
físicamente sano presenta, y a darse cuenta de que
o id r i d hi ori i i el dolor humano representa una realidad mucho
d d p rp rr io más amplia y difícil de explorar que el mero sufri-
p r i p i i od d miento físico 18. r i io or o o -
p rp di r . i hi ori i p d i dir i io r xi io
r r o p por r id d d p i - p p r i r or g r io d -
i o ho o p . p i di o d d r o p i -
xo d r do d pri ipio o por dio d o di hi ori i p -
or i r io do p do o pr - d r i hi ori d r d d
i r do ro p o d d p i o ro ro o r o
or o pr d r o i rpr r o or. r id d d do or ri i o.
o i d p i o o xo p id d d h d rro d por
i p i io dir io h o di o r p r o o h d i o
rido o rd ig i r : h xo r rr do o pr d or
p i pr d i r po i id d i o p rr i o po d -
or o pr i d o o d p i xpr i d o o pr -
d i io io o. i por p r d p i . r p o irr ro

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9


235
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

d i r : La hermenéutica es diálogo 19 r p r - io d i o rp d r o id r d
i io di ogo d r r do p r p :p r p i o r p
d po i io p r p rp ori d i g i d -
d rip o pro d r i r r i p rp r p do d
r o r dor o r do 8. io r i di ip i
rio d r ro r o r r id r . o h o -
Artigos de atualização

pr di ogo o id r i ho d i o i o r di or r h r -
o di io d p i o op d po r d o xo d id do d o ro.
go i i d o pri ipio io o r r o d o di i o r: hacer de
o dig id d h id h otro mi semejante, tal es la pretensión de la ética en
r i pr o o or o o. lo que concierne a la relación entre la estima de sí y la
solicitud 20. r po i id d d i rd d r -
h rgo d g i ig i o id r r
Aproximación al “texto” con prudencia
o ro o o . i o p do
g or o i o r io d-
o r po d r o ro o o di i dr i:
i r o i i gr i i d pr -
Debo cuidar del Otro porque está allí, frente a mí,
d i io op d o ro
pidiéndome ayuda y no tengo otra opción que res-
d i io pr d i o do pri r
ponder a su pedido para constituirme en mi propia
i d pr di . i o r r r
humanidad Mi responsabilidad hacia aquel que
pr p o i pr d i : pri r pr p-
sufre es un permanente llamado a dar y a servir 21.
oh r r i i g rid d d d p ro
r ri i . g do r o r h r ori
i di i i i id d d ir id d d r r o o d i o r o dr o o di o
p ro o o odo o d or r g - o d d i io r po h r-
d o id r r d or i d d d d ri i r d
p r d rpo o do i d d por p i - ri io o podr d r d r i pr
i i d o r di o o d i r o d r po i id d . di o o r -
o io gi o p i o gi o o io r . dor d d h r r r po
r ro d d r r d p i dido o o x o i o i-
i ro or o d i o . d r p r i o r id d d xo
i ro r do o pr dido .
rdo o or i pr d -
i dd g r pi i io i -
g r p i i di id i do La pasividad y el principio de autonomía del “texto”
r i i rp r o o di o i di- o oh o i o r i rpr i
id po d r o o ro propio d xo pro o di i o i r i -
d id r pr r r i io d or xo r p r di o-
pro i o r r o o i i o. go i rgo x o po gr do d p i i-
o o h o podido o r r d d do d p r r do h do
o do d p i oh r od i o r p r r o pr dido. o dir r i
xi p i id do por x o. p o r id d d p i p el ser humano no
d r o por gor d x- es solamente aquel capaz, aquel que puede; tambi-
op d r pi d p i . d én es el incapaz, el que no puede, y todos somos esa
d r h do hor r do o pr d i mezcla de capacidad e incapacidad, todos somos he-
i o id r r r ri i chos antes de ponernos a hacer y esto es lo que nos
i di i i i id d or o d i o o hacer ser, en un sentido, pasivos antes que activos 22.
xig r r do. por o i o rh do
p od id do or d io . r o o i i od p i id d
o g i o gr do d o pod r ri i o
i dd r id d i id d o r -
El “texto” reclama responsabilidad r i id d i r o o id r r r -
di i d id do d ri d id d d p ro h o o r do d
pr d i o r xo o r - o o r i id d r o i-
i r po i id d. o xi rd d ro i- d r d i i r d ir go o do 23. o o
d do i r po i id d. por o h o o do o ro dio: toda la realidad del

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004


236
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

ser humano, incluso en momentos de mayor dolor y pr o o prop o p ri di o -


angustia por la presencia intensa del mal y del sufri- do p ro h r po -
miento, se llena de sentido cuando descubre que es r o r p d h r r
frágil y débil y que por tanto, tratar de alejar la expe- po r o o io o i io
riencia del dolor y del sufrimiento es algo imposible 24. o r i d ir d d id h
p i id d o ro odo o di io d d o p i h r . o i-

Artigos de atualização
d r i d o i ri i p i io
p d g r r x o p ro r xi io -
io .
o id r i d p i id d o i r
ro d pri ipio d o o p o pod - pri r g r xo p r d
o h r odo o r o i pr por - r do d r o pr dido. o -
po p r d po o i r d r r r r d o r d xo i proxi
hi o p ro o o o p d p r por i xo o d dio r d po o i r
d o id r i d p r ro r - por op d r o io o r d r
rrir dio d r prod i i d i d xo r i r d o pr -
r d rio rio pro o 24. d r o xor r d ir. or
r ri h d xo.
or i p i i io d o i d
El “texto” y la casuística p i o o xo p o h r
o d o gr d o i o p i dr r x h do.
h h ho io x i 25 2 .
g do g r o o r o o pr -
i o 2 d ri g d r d ig i -
d i . r i r g r i pr d i d
r : pri r g r por pod r o r r
h i o rp r r id do o o xo
r i r i d or o por d
o i pr d i o h do
o r xi g do g r por di -
or d io . r d pr d i
d o i i pro do d i i
di o r dor d ogr d rir
do di r i rpr io di-
gr d o p id d o xo d
i rr r r g r por dop r
o id do r i r por o o r r o
p rp p d o dir hor
pr d i . i rgo o p d o r r -
d r p ro i r o r o orr o i r po i id d. o d p i
o o. r rgo d g i o o i -
r o o p o o- o o i d ro o o
d oh r o- rr o p i o oo o r o r o o xo -
i o i o i d d i o pri ipi i - p r r do. o pr d i p i i
og o o por p r r d o o i o h h ho rgo d i h do xo
i por rr io d ir o o o - o p o i h h ho r po d .
xo . r p r r d ho or o ro do i i x o po -
o i d o o pr r d d d r r d i di id id d i d p d i o p d
p rp p r po i i id d d r o ro d d r d r gi id d por o d
p o d i o ri or o - p r rd r id d i i r d ir go o -
p o pr i d i i 2. do. xo p r r do o o o o
rio i g r d d d r d idir h r o o o i r o-
o pero tampoco podemos caer en hacer que la dopod ro o i i p ipo i rio rd -
sabiduría práctica sea transformar en regla la excep- d r o o o id r p i id d d xo.
ción a la regla 28. p i rh o - i g p i p d p rd r o o p ro
o i r po dig id d r id d ig d o g i d p r-
or propio o o o por id d d o h r
p ro h . h di o o ii r o igo d
p r r.
i o i d p i o o xo
onsi eraciones nales p r i o r r g r d do -
r xi io . io h r -
o i d p i o o xo i d o i r p
d ri d io h r d i o r i rpr io p ro o id r p i o o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9


237
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

p ro h i p o od i rpr o o di o o
i r po dig id d or propio r dor d.
o o o. g do p o pod o r
r o r r h r io - i rrog r ho o ro por h r
oh o o o i o i o o or d i i r xo i o o
h r i io io o. po i i id d d ro og por h r o
Artigos de atualização

xi ri i rpr io p r id d d p r - di o d i i r xo r
p oh d io rd oi - i h o gr do id r ii i -
i r o o o di i o 29 i p o r i d xo h pr g
or d io h r o - o i r r do o io o o
id r i d p i o o xo o o r - d xo pi io p ro
id d i r r o pr did p d o xi r o r r p d g po d do i
o dr do po o xi i d or o di p id d.

Re er ncias

1. or . io h r . por i d i o r io .
ri . 200 2 1 . p.283.
2. . por d h r ri o ri io . di r o . ogo :
o i i r id d ri / o d io 2011.
3. ro di . h r r o : rd r 2008.
4. ro di . p. i . p. 12 .
5. ro di . p. i . p. 11 -8.
. or . p. i . 200 :281-312.
. i o r . i o o o o ro. xi o: di io g 1990. p. 193.
8. i rro . io h r . io hi . 2000 : 143-5 .
9. . p. i . p. 4 .
10. or . p. i . 200 : 312.
11. o go . o p o d io orri . : o rrido o go
o oordi dor . io p ro i . drid: di io r io
i r i ri 200 . p. 1 -38.
12. o . io pri ipio d o id rid d. i o: i r id d d
o 2003.
13. rgo . io p ro i ii d p i id d d
d o ri o . d r o d io . 2013 80 24 :1 -30.
14. ro di . p. i . p. 119.
15. o . io i r r : prop p r ropo og d ri i o.
ro io . 200 10 2 : 122.
1 . or . o id r io io o r r di : r r d
r r r/ od r . i hi d rop i o og . 2010 5:38-45.
1 . o . o r r r . xio o r i r r r d d. : r i
di or. r gi id d d o ho r . drid: r d 2008. p. 103-24.
18. o . p. i . 200 : 128.
19. i ro . p. i . p. 155.
20. i o r . or i . drid: p rr di or 2001. p. 108.
21. i dr i . o o o o pri r : d i d id do
di o d d d r po i id d. d r o d io . 2010 21: 13-20.
p. 19.
22. or . r io d rh o: o o r i id d. h .
2004 33: 425.
23. or . p. i . 2004: 423-8.
24. o . o pr i d do or r xi io : proxi i
pr i i r. r o . i ro ri d p ro i o o i rio. 2013 22:
83- .
25. . io : d . i rio o. 2008 121 r .
2 . o . o id rid d o o or io o. r o io . 2011 15 1 : 10-5.
2 . i o . io rr . d o i d io d . 2013 9: 1- .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004


238
El paciente como “texto” según Ricoeur: implicaciones en bioética

28. or . p. i . 200 . p. 293.


29. i o . p. i . p. .

i ido: 5.4.2014
i do: 3. .2014

Artigos de atualização
pro do: 9. .2014

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222004 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 232-9


239
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios,
obstáculos e limites
Maria Inês Nunes 1, Márcio Fabri dos Anjos 2

Resumo
Artigos de atualização

o i o d dir ip d d o d rgi r po o o o gi o o r o
di o gr i o pr g do i g o o o od prog or i . r do
pr do o o x r io d o o i do p i .A o o 1.995/12 do o ho d r d
di i estabelece os critérios para que qualquer pessoa – desde que maior de idade e plenamente cons-
ciente – possa definir junto ao seu médico quais os limites terapêuticos na fase final de sua vida. O documento
é facultativo e poderá ser elaborado em qualquer momento da vida e da mesma maneira modificado ou re-
vogado a qualquer tempo. r go por prop i o di orr r o r io o o i i
o id r do o o ro d p i r i d o r o xp ri i po i g d
o ro p o i i o d o ri ir p r di od i o o r i.
Palavras-chave: ir ip d d o d . o o i p o . io .

Resumen
Directivas anticipadas de voluntad: beneficios, obstáculos y limitaciones
o p o d dir ip d d o d rgi r p o gi o r i o
di o gr i o i do o i io ig o o pro o g o. od
do o o i r i io d o o d r o. o i 1.995/2012 d o o
d r d di i o ri rio p r i rp r o or d d d p o -
i p d d ir o o di o o i r p o d id . do o
op io p d r o i r o od id i r odi d o r o d
i r or po. prop i o d r o di r o io o o i i -
io o id r do gr d dd i g io r i d o r xp ri i po i
g d o ro p o d por r di i o r i i d r r i.
Palabras-clave: ir ip d . o o p r o . io .

Abstract
The advance directive: benefits, obstacles and limits
h o p o d dir rg d i r po o h h o ogi progr d ggr i di
r i g po d i ig o i o i h o d prog o i . h or o hi do-
i h x r i o h p o o . h d r o i o di i 1.995/2012 o o
ih h ri ri or o pro id d h h p i g o d o gh d r o
o hoo og h r i h hi /h r do or h h r p i i h d o i . h do i op o
d o p d i i d i h i odi d or d .
h p rpo o hi r i o o id r i o d i i o id ri g h o o r -
r h rri d o o hi h d h po i d g xp ri ro o h r o ri i ord r o
o ri o h di io o i i r i.
Key words: d d dir . ro o o . io hi .

1. Doutora i 18 g i. o i r id d d r ho i r id d o ro i o o/ r i 2.
Doutor p r rr . o . r ro i r i rio o io o o/ r i.

Correspondência
ri i r 2.039 01258-020. o o/ r i.

r oh r o i od i r .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


240
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

A Resolução 1.995/12 do Conselho Federal de d id o od r o i o d i


Medicina (CFM) 1 instigou o interesse da mídia bra- p op i o p p r d idir
sileira sobre um tema multifacetado e polêmico: as r p i o do id do i or do pr r -
diretivas antecipadas de vontade (DAV) – também i o ori do o r p o d idir por .
conhecidas como testamento vital ou por seu nome xi i doi po d dir -
em inglês, living will. No mês seguinte à publicação ip d : pri ir op i p i

Artigos de atualização
do documento já repercutiam nos meios de comuni- o r o di o d o o r or-
cação as opiniões pró e contra de renomados médi- ido r i o ro d -
cos sobre a pertinência da resolução 2. o i d o i g d r
o r o ttor r d ido o o d o
Em vigor desde agosto de 2012 a resolução
d r do ro o i ori r o r p o
estabelece os critérios para que qualquer pessoa
r pr g o pro r dor d idir
possa definir junto ao seu médico quais os limites
o do p i o p r odo o o
terapêuticos na fase terminal – desde que maior de 8
o p p r .
idade e plenamente consciente. A DAV é documento
facultativo e poderá ser elaborado, modificado ou dir ip d d o d pod r
revogado em qualquer momento da vida 1. di idid doi gr po : 1 afirmação de valor
2 instrução diretiva. r od or d -
o
iod rgi r po o
r pr r i g r i o or do p i
o o gi o o r o di o gr -
r o o r o di o d odo g r
i o pr g do i g o o o
o r d or p d r -
od prog or i . or d ig-
3
oo r id d . i r o dir xpr
d p r pro g r o o i do p i o
pr r i o r por d r i do r o
r d do p rd r p id - 9
di o o o x o d d r i d do .
d d d idir r por io d do o i
r p i do o o i o o r - r pro o r o o d o do
od do /o o o r pr g ido d ri o o gr o pro o o -
por d idir i o 4. r i o ig p r r
d 10 d d ro d 1991 do odo
o o 20 o dir ip d o ho pi i i i d o g p r i .
or od i p i pri ip o rig o g d d o r dir ri -
r o d o h i o o r - ri r o d r o pro io-
id d g di r i d d o r o o o p rg r
r o di o o p i i 5. o o - o i di d o i gr i i od d
o rg o pr o r di r o p o i or - o d o dir i-
or do i r propri d g i p r od or - 10.
i o 3.
oi pro do o od p -
prop i o d r go di orr r o r o i id d d o rio o d o o r p
io o o i i d pr o h ido o o o o r d o d -
i o id r do o o ro d p i id r o ri i or r
r i d o r o xp ri i po i io g p r ii r o d d d i o
g d o ro p o i i o d o ri ir i . did oi pro d
p r di od i o o r i. i r p o io i ir
i r o p r pro g r o o i do
p i . oi i p o p i
reve ist rico das D
r di r por io d ri i r d
i po i o di d r o i r i i
po o i d ro d
d o d og - do p o di o o r o
do i r prop o o i i i g i rr pod ri o h ro d o do
o o io d r o o do o i o rg p i o i i ri o d d d i o
o d id r op i o di o r - i di i p o g or p r
o pr r i d por d r i do r - do i o o ri iri p r di i ir o o d
o . i i d d 11 12.
o di di g d ordo o o r p r d r - o r
o io hi h r dir ip d o d o r r pr o p o 13-15. i

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50


241
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

19
o oi r d 1 i di o r- gdo o o o id io
iro d og do r o p i - d r ri d or : d d di r
pr ri o o r r o r or i - i o i por orr r rod do por ii r
p id d g r o pr di r rido di do o d do ori do
d o r do ro opi i d p or r do o o di ri-
o r pr g pr o hor i o do ho o id r d . d
Artigos de atualização

r d or do i r do p i 1
. p r do d - po o op r ro or d or
r o id d o pr o r p r o o i d d d i di d o
d o pop rid d d r do id i d ir d orr r 19. do o
do o 0 d ido o i- io d r o or o r
do o id d or i r 1
. i d ir p r o o do or
o r i o o 1.995/12 di p i i g r do o do por do -
o r dir ip d d o d do- r i . or - rio -
o o pod r r or do r r r o pro o d or
19
r o o d id d ir do orr r d ir o r .
odi do o r og do ri 1
.O ri d or o -
documento define DAV como o conjunto de dese- ri i p r o r o di r x o
jos, prévia e expressamente manifestados pelo ho d xp ri i por o o p -
paciente, sobre cuidados e tratamentos que quer, h do p o i i o i :
ou não, receber no momento em que estiver inca- Morrer não é, como julgamos frequentemente, um
pacitado de expressar, livre e autonomamente, sua tempo absurdo, desprovido de sentido ... o tempo
vontade 1. que precede a morte pode ser também de realiza-
ção da pessoa e o da transformação ao seu redor
De acordo com a resolução o registro da DAV
... Quando nada mais se pode fazer, pode-se ainda
pode ser feito pelo médico na ficha médica ou no
amar e sentir-se amado 20.
prontuário do paciente, desde que autorizado por
este. Não são exigidas assinaturas nem testemu- i o o o gi o d -
nhas, haja vista que o di o por o d ri r do r o ri r p r g r
pro o po i p i o io or o g d r i o o go r
g r di o 1. pr r r r o o p r i d o o i i ig r id
po o médico deixará de levar em considera- r pr o 21. o pod o g r
ção as diretivas antecipadas de vontade do paciente o pri ip r d d io
ou representante que, em sua análise, estiverem em o ri r p r r i id r o io do
desacordo com os preceitos ditados pelo Código de id d d id o g id d h o -
Ética Médica 1. do este desenvolvimento pode levar a um impasse
quando se trata de buscar a cura e salvar uma vida,
com todo empenho possível, num contexto de mis-
ano de undo da D são impossível: manter uma vida na qual a morte já
está presente 22. i o r p r d d o -
p r do opo d r ho o r o d o r p por d ir i
di r r p i o do po or o p o d or dig h i i r o
di d d id o id r o i por - o i d d g or .
di orr r d ir i o r o o do r i o p r o
rgi od do d r d - ro o r r do id r
io o o i i . o p h do o pro io i d d p r r
i r o orr r o i ido do d em função de uma ciência que
. p ho p r pro o r - exige exatidão, eficácia e resultados para vencer as
r d r po i id d p pr pri o di o d doenças, uma ciência que diante da morte se sente
i d d r ri r o ig p r r fracassada 18.
or o ir xi r di g od - o ogi di i g di i por-
18
rd d . d i di i - io poi oi d o i o
r di o r o h d propi io o pro o g o od
d rh o d id o o id d do orig o di r r id d d
r o r or 18. id pr o p o o id d o g r

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


242
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

o o r do i r r o o pro od orr r r gi r p r i i r-
do i rro p - o 22. i o por do i o o por d id do o
o o d odo o r r o di po i d di i xi xp d r p r o. o
p r pro o g r id d ri od i- o r od od r r id do r -
d d : h d di i g do i i 23 o ir o p i r dor i o d gr -
ig i o pro o g o x g r do do pro o d i 18 2 r do- pro o

Artigos de atualização
d or d p i o r o por i por o i o r p r o
o ro or o i ig i o o pro o g - pro io i d d i or o h d -
o r i do pro od or do d p i .
ri o pro o r 24. i pr i o priori- o por o d r o
r id d d id r r r or pod r p i d i d pro oo r -
o o p r do pro o r d xi i . d d r i do r o o r po -
o id r o o pro od orr r d r i id d do p i 2
. or
p o r doi or i o: i io- o i pr i d p o pod
i id d d id h xig i d orr r i di r r pr o rio o-
18
o dig id d h . r r o d r d i por do- io
18
xpr o or dig ido ri d r o d o xp 18
.
i rpr d por r r o dir o
i o o o por r p r
p r . r or por enefícios, obstáculos e limites
ig i do o r di o d pr i oo
r d i . O cerne da DAV: a autonomia
dop rg r 25 o r rir o o rd i o id r do o hor
p i o do r i o o o dir i- p r op i do o o g o i-
o g od r r r o h r d o o orr i di ri di i p r o
d i d p do i o evitaria di o 28. i por i d o d d d i oi -
confundir a eutanásia contestável com a justa recu- or d o p r h d p o pro io d d
sa da distanásia. or i r o do r - d op i i p r id d
rio g i o On dying well d é um erro em- do id do r do . i r r o r
pregar a palavra eutanásia para as decisões de não p r ip o do p i o r o o d
preservar a vida por meios artificiais, quando seria hor r do o i o o ro d g
preferível que se deixasse o doente morrer. r d p r od d d
p o r do id do r o
r o o or dor 2 o o 29
o o or r o di o o p i .
o o o i od or dig or o h i o
2
d o rig o d o o gi r id - g do r o d ordo r o
r do or i i or ido pro io i d d
o p i pod o g r
o o od o r o o - i r o di i d id pro o g r
p h o do p i i . r od id r pr o pro o r o o or
r p io or dig rg id d d o p - r o pro io i o do i . i
i xpr r o d d or ip d di d i po i i id d dir ip -
xpr o id do o i di d o d o o id r d io pro i d -
o o r r o di d -o2 . o o d r o o i do p i i
ig i o pr o po o o pro o - o r i po i i i do d x r - 30.
g o do pro od or pr d - i r 31
rg d r o 40 o
i o d di i io diri ir d hi ri d io o o di ip i d o h -
22
. o por io p i o o p i id d pr pri di
o d xi gi o r d pr d o r o pri pio d o o i o do. i-
i o p r i d . o o i o pod - di r i r x o o r pro o do
i i do pr do o. dir i o do p i p r ip r dir d
d op i p r r- d i o o r o id do o o i o rig -
id d or o r r o o di o o do di o r r i or o r p io
rido o r d - d r o i do r o r -
r o o o i di d o d d o d . o di i o io i pr r -

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50


243
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

i p rg o o i or r p i d o o id r i r xi iori
ir g r r i or or d r d i i o i d i i
did por o p i - do pod r do por d r i-
o o r ori r o pro di oo r - i op r o o r id .
o propo o 8. o g
do i ig 3
pod -
o o i di i i o r - rg r xp d oh
Artigos de atualização

di io xpr o dir i o do g r o ro o i o d propor


p i d ir o o o - h o i i i d or
id d d d . r i 32 r o p rd r i id d d pro o r o pro o
o o i or o i i d go i o rio p r o d id .
o o i do i di o r
d o o gi o. io o d por -
o o i xpr od dir i o. or A questionável estabilidade das decisões
d o i r o rio ho d r gi o d i d r o-
r d ir o ro d o o o h i o i o do
id d d d . o pod r odo po d d do di o o prog o d do o o -
r i r ri d d di oi i o p op i - o d r go i do r op i
d oi po o r io i d r o r r- o pro io i d d o o i i d
h r r o d i r o pro io r id d do do d dor 2 . or r o p i -
d d 32. d idir o r i r o d o o
r r ir i o o r r pr -
Tonelli 33 i r d rg -
g o por i
po pro od o o i
g p o o pro -
r i i di o io r do o
o2 .
or io i i do p r pr i
i o rgir p r g r r o o ro d pr pro o o od
d i op i g r do o o i . p o o p pod pr
o do d ri r ido pr i o i od r p p r o rd i r p iod
r rir o pod r d d i o p r o p i o ro do i opi d d p r o o
r pr o id r r d i p i do 30 o i xi
r io d pr i r ri r - pr o p o o id d i id d d
o 33. o 34 rg or i o d i o i o or o do do oo
o d r r r do p i o pro od d - p i i r o r o i gi ri
i o p r i g o r di r po d o o ri id d r i d o di o
d r pr o i d di i id o xp ri d . r o r o
d r o do p r r r i id d pro p di d d d pr r
p r r iod do o o i por do o ro . i di d d o d d
o or do . d i o o r d d p i o
o r dir ip d d o d
o r i od
o do p i o -
d - r o od i r
ro r or i por
ri r
hipo o por ir 3 .
d o do o pr o o
o pro od or o o do g r . i r i d por hi o or dor 28
or rio r r o o o do o o d r i r xp -
p i d o ro o d o p i- ri i opi i do g ri r o r id -
x o poio pr o or h i o r pr o p d o o
go i o o g o o i do p i po i i id d d xi r d d o
i o i ri id do o i do i i i o p pr i
o o 35
. o id ro i i o o d o do o r
r o pro p r d é pr hido por g di od i -
que possibilitam escolha, segurança e controle so- pi d d i o do o pod r
bre a morte: o derradeiro exercício da autonomia 35. i i do por o r p o .
pr pr r i r o o rio do r ord r i rrog -
id do o i o h id p o p i o o r p ri i d o d ri r
d p o di o 3 o p o i o d i id d d i r io d

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


244
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

pr r i por r o rio hipo - r ord g pr p r i r -


o d r p r odo d r o op r o di o i i r i or g r do
p i i r do 38 op r p i - do o p r r do xi d -
ori i 39 i i d o g p r i o do d d .
40
. r do d p i r i d por hi ro p o r r o id -
o or dor 28 o r d o r d 1.42 r do o pr hi od or ord do

Artigos de atualização
g ri r 842 r po d r o o rio i- p o do r i do por i ir o or dor 4
o r xp ri i po i id do d i go pr i o pr di or d p r-
p i h . p r d r o- d d p id d d o r d i d o d
h r xi pro i o g ri r d d i o o d id o o o i o
poi o o d do o p r p o ido . r o id do r ido i i do o -
pri ip i i o po i o d r - ord i r pr r i r gi r d o po
io o r i rod o do p i por r - d d i o do r pr g o d o
o o i i o pr do i d id .
p i o o d id i i r di d p i oi r i d por io d r i
d id d r o d o o o r pr g i d i di d o d 0 o
or r r p r o ro ro d ip o i h i ido p r ip r do
pro io ii r o r o o i- do d oor i do do d d po-
d do 28. ordo o hi o or dor 28 dori h d r d . r -
po o io g o or d ri o r i or r i d 24 p or
o od h r i o id do do p - do p i . o 3. 4 i o r pr do por
i r r rido p r o r ip r i do 42 5 i r d o d
di d ido o io r o i do d d i o d r o i 03 h p rdido
pro io i o xpr . p id d d d i o h r do
i r r o r o id d . r do o r ig i o o o
d do o. do i go r - od d d o do do p r d r prog-
r o o h io i o d i- o pr r i p r r do ri o do r -
d i p dir o r o r o id do 41-45 e pouco o ppor r i do 199 49 r o
o ri p r r o i i do id - p 21 d p i i o do ho -
do r ido o d o do p i 4
. do i pi i do h . io h
r d o ro p i o o r i prop o r r id do i i do
o prop o r r r od por- 92 o id do d o or o 9 2 oi d
d id o d orr r o ho pi 4 i d odo o id do po 19 83 2 do io
o r o r do o o i - r r r id do i i do 9 1 do i-
o o d o do p i . do pro p - o r r r id do d o or o r r
o o i o d o pr i xpr o o id do d ordo o pr r i 4.
r g ido 5 do o i d p d - do o r po o io
4
d xi i d . do o r ri id do gr i o d d oo
id d do o d r pr g - r . or rg g p -
di pro r o p r d idir o r o id do d o pod o ir h do i di
d o i i do . o i d p r r g r o id do d d
do r io do d d opi i o pr rido ri i rpr o rr d
d p o do r r i o do d do por i d r gr o
pr i pr i o r ro d ido di d d o ro o r gi ro d pr r i por r -
r i -o . i o di o po do o gr i o ig i pro -
pr d io io /o gr - i id d d r r po d id do do
o d d pr o po pr rir r - o p r do o g oo oi i o .
o gr i o d por d id o p r do pod o xp i r r do
o di o d id d i i r pr d ri
iro o r o gr i o o
d io 48. hi o or dor 28 o r o o hor op o p r o p i p r do d -
r o r do h do o gi di o r od r - o. g do d r o io
pr r i d r o d poi d r r r id do iori h o do
d r d d or g - r pr g p r o d d d i o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50


245
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

g r o i r p por te à mercê do médico, que decide se o paciente é


i do d o do p i g r por- competente para participar das decisões sobre seu
ir i r r r o i o. tratamento, quanto tempo é relativamente um cur-
or g r i rpr o i to tempo e que define que tratamentos de suporte
or p r d do o de vida são inevitáveis. i xp i o or se o
i por i o o id do r ido paciente estiver em uma condição que o levará à
Artigos de atualização

o o d r pr g p r o d d morte cedo ou tarde e o médico responsável por seu


d i o o r o id do d d ri p r tratamento acreditar que não vale a pena preservar
d r o d or i p r do . i ir o o- sua vida, então o paciente tem uma “doença termi-
nal” e qualquer intervenção médica que prolongue
r dor 4 rg i r o o-
sua vida é “tratamento de suporte de vida”, incluin-
od r pr g x o
do antibióticos, diálise e hidratação artificial. Caso
d o o i do p i o o
o paciente se encontre na mesma condição, mas o
i r d i o o o r ri o
médico responsável por seu tratamento acreditar
d o do p i d o o hor
que vale a pena preservar sua vida, então as inter-
p r op i . r i p i -
venções que prolongam a vida do paciente não são
i d i r o io o o or o -
“tratamentos de suporte de vida” e o paciente não
o i d ri g r r o pro -
está em “fase terminal”.
dor d d po p o r r op r
o d ir di d d po i d p rp o id r - r -
2
o ri p r p rd ir propri - o r od r o r o od
d o id do o d id 4. r digid o i rpr d
pod di io r d i i
pro o io i o o p i do d o d
A terminologia ambígua utilizada na DAV d d i pod r d o oi r op r
Outro ponto contencioso sobre as DAV é abor- di i ir r po i id d o pro io i
dado por Stone 50, que em seu artigo escrutina os i i d d
termos nelas utilizados, colocando quão difícil é o o o ri ir p r i i r d
defini-los de maneira que todos os entendam igual- rg d rd pr o p r o p i .
mente. O autor relata que muitas DAV não contêm a or rg i d or -
definição ou o significado dos termos usados em sua h rgido p r hor r o i o r
descrição e adverte que sem uma definição de “do- o di o o p i d or p r o
ença terminal” no próprio documento a maioria dos r gi r or o r gr g r o di o po-
assinantes entenderá apenas de forma vaga em que d r o i - p r r i d pr -
circunstâncias esse se aplica – mas, provavelmente, o p o o i op r r do p i
não terá sequer consciência de que desconhecem i p do - o 18.
esse fato determinante.
o pr h r do o o pod o
O autor relata que na sua experiência como r r g o o o i o o
médico os familiares e o clero, com quem provavel- o id o o o o p i r r
mente o paciente discutirá o documento, não terão g i r p i do i o o ig i
um entendimento melhor do que o termo significa, do - o pr pri or o d ido id do
sendo que a maioria das pessoas que irá assinar o d d p d i -o o -
documento não sabe que existe um problema. A pa- di o p . ior p rigo orr o
lavra “terminal”, por exemplo, é muito vaga e pode d d o o o o do paternalismo au-
abranger extensa gama de situações. O autor con- tocrático do di o i o abandono respeito-
ta ter presenciado pessoas morrerem no ventilador so do p i 2
.
mecânico contra a sua vontade, devido a quão elu- di o odo r h o o dir i-
sivo o termo é 50. o d p r ip r o pro od d i r od d -
Stone 50 também chama a atenção para a no- i id i o op i
ção de tratamentos de suporte de vida que apenas do do d dig id d d r r p i do r o-
servem para prolongar o processo de morte e con- h ido o o g or 32. or po o-
testa que isso não faz sentido. O autor advoga que, ne 50
p rd r o h r o od rd r p i r
no geral, assinar uma DAV não preserva a autono- odo o r h o o o o o -
mia do paciente; ao invés disso, o coloca inteiramen- o. g r i h id r 51 rg p r r

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


246
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

o p or o d o i di d o o d por d id d di r -
o o po ir i or o d d o- do id do o prog o o o o-
r r d do r o o- o r rr g do o r r
h i o di o r o h r o o od id d d i d g r o r o or
ir i o pr i ir o i i r o r r o id do propri do 5 .
o ro r o pr r i do p i g do r o or dor 5

Artigos de atualização
o h i o pro o . i r 31 o do pon- ord g do o i di d o or
d r i pr i i i id d o i o - pr r i do o id r o r
i irr o do h o/ id o i . id d d id o di o /o
i d r x od o d h r i od d pr i x. do r i
dir ip d o id r po i i id - o io o r rg do r o d -
d d d r po ir ri por d id . or pr r i o o
r r o do o r o op i - o i do o i i r pr xi o o r pr -
do d pior r. od i d r i r po i o r o d i p r
r i o o o o i di dor d - op i ip pro dor d d . o
ri i r o r or o p r di o o p o do r or pr r i
r i 52. por io d dir ip d . or r o-
r ord g i di o pro- h xi rr ir r o d -
o id por i et al. 53 i d contrato r ido r i o i d p r o r o orr r 5 .
pacto o pro od p od i- h d i r r i d p r
d do ip do o r - di r i do. g i - r rd rr ir g r go o
di d o p r d o r i do hor o i i por r do o -
x o o p i r o r o o ro di o o p r h do do or d o do
p r r or d i dido p i p o pro dor d d o p p o
o o do pr i rig i di d p r o r d i o g r5 . r-
o r o/pro di o r r - o or dor . 5 o r
i do o r ri o o r o o pr r i o propri d p r odo i o di-
xpr p o. r rg - o d ri d ir i r o o oo
54
h p r o prop i o d p od p i pod i r d dir i o
id do o pro io d d d r o ri o d p rd r p id d d d i-
d i pr r i do p i - o x. p i o d i do r i
r pr p r o r oo p o o r gi id d o o d d
o ord . di o d ri r o di o o o i i r.
g r pr r i xpr por o r o o
do i o or dor 58
p o o por pro i id d d o p i
h op r o od p rd
d r d id i r p i o do r od por-
r d i d h d p r g rd r
d id od r do do
ior o o i do i o xi r od
do i por o pr i o 55.
id i g ri do o p i od
d o x r r po d o ro o r d -
Abordagens alternativas i r io d o d id . o o r -
o xo do d - r o or ior o ido
ord g d o i d d d r i g d d ori d p r o or p r -
o ip do do id do o id r i por i do o ii -
r dir io o o o d i p op i x- r op o do id do r io do o
pr r pr r i o r por d r i d i - d id . or r i r do
r i o o di i o i o o prop i o x i r d do p -
i o por o d hidr o p r i r pr g i r p i o do
do id do. i g r- ppor ih 5 od p r o o do r o r io-
d og o od procurador ou repre- do o d id . r o ri ido-
sentante legal i o pro r o p r d i o o id d p rior 5 o p r ip
di i x p pi d d o ro do o gi di o r
o o i . or rg o or r i do . r do r -
ord r o p i o r do i d r - r po o i di d o d r gi r r

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50


247
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

pr r i por r o di o p - o o h r o i pod - di r xi
o xigir o g ido ipsis litteris pr xi- po o d i r o r o rg o o r
o o p r odo d or . or o do o d i -
d od iori do r i do r x- gr r pro o propi i di ogo ro
pr r pr r i d ir g r i o o - r ii r di o o p i d ir
or do id do di o /o g r r r r i id d r or -
Artigos de atualização

d pr r i por r o di o p - d id do pr r i do p i .
o p r i r o r pr g r o o i o p r d o o
i rd d o pro o d o d d d i o 58. 1.995/12 r ido or d i d 40 o p o
o p i o r r i i r do rgi o do h do o i d -
r i r or d id do do - i por i d o r i pr d o
p i r r o i r . i xp ri i d o ro p p r g r r
d d di r d i rio gi o or r io o po i o
r gi r r d o . or po i or do r ip di p -
o do o or o d iori d do - i r p i od pr r i por id do
o or priorid d d r r o d id . pro o i por
i por o pro io i pro dor d i i d r o h id -
d o oo p i dor o r po - did p r r po o ri ir p r
i p po p i r o h po - id d do id do pr r o d id
i i id d . d o d r i od o o i
po d p o pro od or .

onsidera es nais r i o o o o r pr -
r i od do o r i h
i i r r r di r d
i or r io io o p xo d odo o ri ir p r propo
o o i i d i od p - i p d r r r
rd di d d do i di i - r o pro o d or do orr r d -
o r d ior o o o o o do ir i o r or dig o o-
d d o p r od ir . o io or r id d .

Trabalho produzido no âmbito do programa de pós-graduação em Bioética pelo Centro Universitário São
Camilo.

e er ncias

o
1. o ho d r d di i . o o 1.995 d 31 d go o d 2012. i p o r
dir ip d d o d do p i . r . 2012 o 5 . 2013 . i po :
http:// .por di o.org. r/r o o / /2012/1995 2012.pd
2. op i . dir i o d o h r. i . o o: di or ri 2012. o 45
no 3 . p. 98-10 .
3. ro . h hi or o d dir : i r r r i . ro o r . 2003 29 9 :4-
14.
4. i ir i h g . d dir d o o o rrog
d i io i g or d h. g d. 2010 3 2:1.211-8.
5. h d i . r pr o r o dg d o i i g i . .
1995 310 .9 4 :230.
. h . h gro i g d d or di r . g d. 19 8 2 9 4 :190-5.
. o i r r o di i . d dir . 1991 o 10 d . 2012 . i po : http://
. i. . ih.go / h/ r d dir
8. h p hi dr . ri ip o io di hi . 4a d. or : x ord i r i
r 1994.
9. o r dg . o pi ih d d r di g o d dir o g r i
do or i h i d i gdo . i r . 200 22 3 :141- .
10. og rd r d i i i i oor o . o or h r
o r i o d r d : do r gi r d i i i gr d. 2001 110 2 :9 -102.
11. r o h i o- o r - h . h p -d r i o

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


248
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

d h r o d dir . r d. 1991 115 8 : 39-43.


12. i g r i g r . d i g h o d dir . r h r d. 1992 152 1 :22-
4.
13. rr o tt o . d dir or di r :
or gr r . g d. 1991 324 13 :889-95.
14. . h di dir : o pr h i d r do .
. 1989 2 1 22 :3.288-93.
15. r o rg . o ro o r d i g: r po o h h r pro io . o

Artigos de atualização
i d. 1993 3 : 5 - 5.
1 . o od i . d o di i g i - i i g r . r h r
d. 198 14 8 :1. 13-5.
1 . o r ir h r d . o i o d dir d
i o d-o - i r : o d. ri r o . 200 55 2 :189-94.
18. r o d . o i : di ogo o r id r i r d. drid:
di ori 2011.
19. o . o o i o dir i o d orr r o dig id d . io . 1998 1 : 1-9.
20. . or . 2a d. o o: d i r 2004.
21. i g r . p i ip d d o id dor: d id do
r do orr r o dig id d . : i i r hi i org i dor . i o
id do p i o . o o: o o / ro i r i rio o i o 2004.
22. o . io d id d or . r . i o . 2003 o 13 d .
2013 14 2 :115- . i po : http:// . i o. r/ i o.php rip i rtt x pid 0103-
5 42003000200008
23. i i . i i : do pro o g r id o o: ro i r i rio o i o/
o o 2001.
24. g r o i ir o . x g i o r o
d id : di o o r or o i . r . . io . pr. . 2010 o 20 .
2014 18 2 :2 5-88. i po : http://r i io . .org. r/i d x.php/r i io /
r / i /5 4/53
25. p rg r . io d i : rg o o or o d i . r .
io . 1999 o 19 . 2014 9 :41-8. i po : http://r i io . .org. r/
i d x.php/r i io / r / i /292/431
2 . o o or o r . o o i i o d d o pro io d o
ipo d i pri ri o r do o d o d ip d . ri .
2010 42 9 :4 3-9.
2 . r . o do o d o d ip d . i rr . 200 30 3
pp :8 -102.
28. hi r oo r pitt . i i g i d h p i :
po o ir r o g ri ri i . g g i g. 200 35 2 :11 -21.
29. i . ri o r : p i g i hp . r d. 1999 131 3 :231-4.
30. op o . o o p d dir : id o o p
r d ppro h. . 1999 318 182 :493- .
31. i r . d dir d h o p o o p : r h or rri r o
r i o h io h r o . 200 5 pp :4 -84.
32. r i . r io : d o. o o: o o 2012.
33. o i . i g h p g o i i g i : ri i o d dir . h .
199 110 3 :81 -22.
34. o . tt r ro p d gh r. r d. 199 125 2 :149-51.
35. ro gh o ig . d dir : h gi g o r xp o . h .
199 110 3 :589-91.
3 . i ig . ho d h i i r d. 199 125 2 :13 -41.
3 . h o . o do di r id di r i o i hp
r d. 1995 10 8 :43 -42.
38. ri r r i o h . id o o pr r
or i - i i g r : i pi o or d r p i g. r d.
199 12 :509-1 .
39. o rr . d dir : ii o
p r hoi . r h r d. 1994 154 2 :209-1 .
40. o h rd tt i r . o i h d o g d p op o rd i -
x di g r o 3- r o o - p i r i g ho r id . ro o ri r.
2003 3 2 :124-9.
41. dir r i oh o oo et al. i hho di g d i hdr o
i ppor ro h ri i . g d. 1990 322 5 :309-15.
42. h id r ro i p d ro g r . o o ri g d
dir o di r d o . r d. 1992 11 :599- 0 .
43. o hi ip rph o g r et al. o or d dir
r i o d i io d h o r o r or rio i p i hi .
1994 5 1 :23-30.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50


249
Diretivas antecipadas de vontade: benefícios, obstáculos e limites

44. o i r ho ho . o o r i d i io : pro p d
hr hi g ho pi . r h r d. 1985 145 :1.115- .
45. ood r o o . o d dir o h g o d r
ri i p . ri r d. 1998 2 4 : 01-4.
4 . i o h r d rr tt ih i i rd . pro p d o
d dir or i i i g r . g d. 1991 324 13 :882-8.
4 . g ho h r od . ri o i o : h r o hip h i g
i i g i dd i gi p . r d. 2004 141 2 :113- .
Artigos de atualização

48. r o g o i ord g r tt et al. h i o i g d pr io


d pr r or r h d o i : h oh op i pr r or d. ri r
o . 2004 52 4 :5 -82.
49. ri h rd ih r o h rp di g . o p
pr r d o h h h r ri o h p o d h. ri r o .
1998 4 10 :1.242-50.
50. o . d dir o o d i d d d h. io hi . 1994 8 3 :223-4 .
51. g ri h id r . o gh: h i r o h i i g i . g p. 2004 34 2 :30-
42.
52. . h o hi hi or o d. 2005 98 :2 2- .
53. i ri d r orri d et al. o r o d
d r p i g: piri d o h or o ig o o p d prox . i
po g . 2005 29 1 :55- 8.
54. h r . i io i g h d o i : hi i g d. o d. 2005 98 :29 -8.
55. h r h r d d d . r i r o i
p i g d-o - i r ih or g ri ri p :r o pi o ri . r h r
d. 2002 1 2 14 :1. 11-8.
5 . i g r- ppor ih . d r p i g: o d h i i g i .
i i d. 2009 5 :2 -85.
5 . r r i o . pro i d r p i gi h r ido: 23.2.2014
ir : o di r o . r h r d. 2005 1 5 : - 4.
58. i itto r . i ro gi g d h: pro pr r i do: 8.5.2014
d go i d-o - i di d i io i g. ro o ogi . 2005 45 1 :10 -1 .
pro do: 25. .2014
articipa o dos autores
ri or o do r go r io ri do o i r r orr o .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 240-50 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222005


250
Castração química em casos de pedofilia:
considerações bioéticas
Thais Meirelles de Sousa Maia 1, Eliane Maria Fleury Seidl 2

Resumo

Artigos de atualização
p do i i d o o do pi i ri pr por gir o d r dir
ri pr - do do o o i d xr r i . pr r ho o oo -
o i r id d d r o i o o i o d o ro d p do i pro do
rpi r :p r o di o xp ri o i o. r - d do
d r i o i iogr di o od i r r p i i d o r io r o -
i p do i r o di o p i . o i- r p o x :
r o i o op r o di o xp ri o i o r pr r po
o r i ri ig do p r d d po ir o o pr pri . do o
ri o d p i r o pr o do r o hor o p r p d o di d d i iogr
o o x o r i iro.
Palavras-chave: io . do i . i i ri .

Resumen
Castración química en los casos de pedofilia: consideraciones bioéticas
p do i i d o o r d d p i i ri pr r i por r o d r di-
r o i o pr do r h ho o i d x r d r i . dio
o oo o i r d r i i o o i o d o ro d p do i di -
do po i rip r :p r i o di o xp ri o i o. r d r i i-
i iogr r d d i r r p i i d o r io r i i p do i
r i o di o i g i . o o r ig i do o o
x : r i i o op r i o di o xp ri o i o r id d o
r po i r i do d o propi o o io .
pr dio o ri o d pi r o pr i d r i o hor o p r o p d o
r d i iogr o x o r i o.
Palabras-clave: io . do i . i i r .

Abstract
Chemical castration in cases of pedophilia: bioethics considerations
dophi i i i d p hi ri di d i pr d p dir r hi g d o di g hi -
dr d pr - g r i g xr r o i i . hi p p r i o h hi o
h i r o oo o oid p dophi i pro i g i rip r :p i h di r -
d i xp ri . i i iogr phi r i hro gh o p i i d i r r o
io hi h i r o p dophi i di r d hi i r r h. i o d d h h
hr i g do o x d h : h i r o p ih di r d i -
xp ri r r h p hi h r i ri i i d d pi h o h h ir o hi
o o o . hi p p r h d h ri o xp di g h hor o r or p dophi gi h
o i iogr ph i h r i i o x.
Key words: io hi . dophi i . hi r .

1. Mestre h i i ho i. o 2. Doutora id . r i r id d d r i r i / r i.

Correspondência
h i ir d o i 314 o o p o 210 0 6 -100. r i / r i.

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60


251
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

pr r ho o oo od - rio p − o o d d di-
do p do i r o i o o po ro do do do ido 4. o r i h
o o p r o ro d r or o p i i ri o pro o d i o o gr o io r do do
r ri h dio do g - o o o oo o o or o
do gi o r i ir . do p do i xr di o rg i
do r o h id p rg i o di d d d id d d r o di ogo o
Artigos de atualização

d o d i o r - rio p r h po i io o i-
io d o d i r i o -10 1 o- i o r io r d o.
id d p o digo 65-4 d id o i o d io o -
o o pr r i x por ri i d p - por i d r o i
d do g ro id d pr -p r o d d p d o do i o r ri -
o i io d p rd d do do do o o p - r o do pro di o d odo di -
r ro di r d o i o i o r o o r o di o pod r
2
gr or . r d o p rp d po d o h -
o h id o o do d ho p i i- i o: o o p r o di o o xp -
ri o pr d p do i por gir ri o i o. o o r di -
o d r dir o ro r o o ri ip i r h i p rp ri r d o-
pr -
do do o o i d xr - h i o o o di i o dir i o io
r i . ogo p r d r o h i - propri di . i i d o di
o o o do or - p r g or o o d o o-
i r r i p r o ro d p do i d i pro od d i rd d x d p o
odo pr ir ro o por i di d o d r o i . d i - o
pr r or o hi ri d id . d o o id d do i
r o h o id r r o i i p r d p d rd r di r r
o do do o o i do i di d o p - ord g d r o di o o i-
d o r o ro p o d r o d i o o i di o o o
p rp ri . r r o pr prio i di d o.
r o i por rg x d id d d pr d r o
o o po i r o d o ro d do i o r - pr r ho -
o id r do r d i od - do opor od r od id d d p i o
i i o o i i o d o ro r o i p - o o r o di o xp ri o i o
o x i i i ir i ido d i di d o por dor o o r i rido o io d
d o di o. do i r - d or io ord o po i io ri o
d ri i o d odo i i ir i ido do pro di o. o o pri do r o o
o pr d r x i. o id r do o io o r i pod d ir
por r r pro di o pod o o go do pro di o pri ip po -
rr r io o r i r o i d - i i id d d r o hor o r pi d o o
r do o o o od d i o r pi or d . o r o o pro di o d
o do o 3. i por r o di o o o xp ri o i -
do o d po d o o op o p r o o - o or d d o id r r d
ro d p do i por o ro or i p rio p i p rp d o r 5
o id r o do d i i o d i do d r - o oo o o xi p r o io
o i . d p i .
h r od id d d p i o do o o i r id d d
d pro di o: r o di o r o i o o i o d o ro
o op d or xp or r r rp i o d p do i pro do rpi
r io do o i ri i o gi o o o r o r :p r o di o xp ri o
di o d o o p o d p do i o o i o. i o i d o ri ir o o p o io -
do por od id d d xp ri o o d di o o prop i o d r r r -
i o o io r r or p r pro . p rp o
p i . i por i d di o d ri- r ho ord g d
do o d r o i do d propo d pi o d r o i
pi d o op p r g do p d o p d o do d orr o p xid d do

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006


252
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

do pr d r or i rpr od o r do o. x p i do po -
id d o o po i do d do o d i i pi o r i r d r o
r o di o . ogo p r - x- di o o i h r. 3 d :
g d p o r xp or do p r r do rdio r o oporo d pr o
do o p . dor d ro o . ogo p r -
i io d ro o i di d o o

Artigos de atualização
r i / io gi o o p i o gi /p i-
étodo i ri o po i io r o di -
o o o pro di o oi o d ri o .
r - d do d r i o i iogr
r i do di o o d i r r
p i i d o r io r o i ena
p do i r o di o p i-
o o i r i id d . ido - pi od r o i o o od -
d r ho p i do o r o or id d d p ri p d p o do o i di -
i do d d do di r o o i d o h o do ri d o x o -
d oog ho r i io ir r or go d rd do h i
d i i do- i iogr r g ir . pro di o do i do rio
d d do or xp or do o d ri- p . o r i di r propo
or i io do . gi r do propo do r o
p r r do o d r r i i o op p r p d o: r do
ori d d o di r pro d - o do p do d i o propo r i d
od o opo do do: r i o ro o d i 4.399/08 . o do
io r - do o r go r d r o o ro o d i 552/0 8 oi r-
p r or o d d o p rp p - i do o 282/11 9 r i o.
r . p i do ri i iogr o - p r o o do pro di o -
or o do r go oi r i d do o o po o ri o o di d o orr i r i id i
d p r d rpi r d r o i . d o x i o r ri pr - do -
d i d d ord g oi d d o id r do- di o o o d p do-
do o i o io o d o o i d - i r do o or rio o r -
r i id d . o di r do d i ri . o
o h i di op r o i di d o -
do p p pri d i rd d i
Castração química h o r do g po d o p h -
o p i i ri o. g do r do r -
d pro d r o di o r d i do 2008 p i do i d i i ri
rpi r d r o di o - i o o g i r do : ... mais da
- i por d r o i o r - metade dos criminosos sexuais condenados que aca-
g i . r o i pro di o bam de cumprir pena voltam para a penitenciária
r r r ri p ip od antes de um ano. Em dois anos esse percentual sobe
hor io o or xp i rr ir : a castração para 77,9%. A taxa de reincidência varia entre 18%
química é um tratamento terapêutico temporal e e 45% ... 10.
completamente reversível mediante o qual se injeta x pr d o r rido do
no homem um hormônio sintético feminino − Depo- po pr o p o d op d o o-
-provera (acetato de medroxiprogesterona, DMPA) pr r od o x d d
− que produz um efeito antiandrógeno que reduz o d do i o d ido o o di d r i -
nível de testosterona para inibir o desejo sexual du- id i o por r o por
rante, aproximadamente, seis meses 6. io d o ro g r r d od i
r - r o hor o d ro . or o h g - o o d
i do pro di o i o por o r o d do o p d o p o do
do pi o ri d ordo o d i - do d p i od p pri d i rd d
di d o. or pro di or r i propri do i op o o ro d
io o r i o do i por i r i id i op o od op d o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60


253
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

rd d por dor d r or o p i op o- r i gr o o i p i o r o
gi o. di o p g do o or
i por r r o ord - go o do o i or o
o r di o o r id do d i di d o o o or d o r od o-
or d op o g pro r o o do dro do i od
o o d pr do ri − por o o d r i id i . i po o d o id d d
Artigos de atualização

do o d o i o i o - r o di o-p i i ri o p i o gi o d r -
p o − r i p d o pr d ro r ri i o po i id d o i do ord g o -
d o r i od p r . 26 do digo - p o p do o id r o
11
. r - d i o pod rr o h - o r rp i od r o i o op .
id do d pr d r ri i i- i p r - di d d o p o -
o o d o x d or . do d r o di o pr
pi dio o r r do p d did poi i d ord d o o p i p d p o
d g r o pri o d i rd d o o do o d o od id d d r -
o d i o . ogo r d r o o o r do.
g do r 12 medidas de segurança surgem d i pr r r o id r
no Código Penal brasileiro como medidas especiais d o i h r. 3 o r r p i-
para criminosos específicos: os doentes mentais pe- od r o i ri r do d
rigosos o d o r o r o di r i do por r ri do od o di ip i -
oi i p o i-i p r o r i o i r pr do pri ip
por r ri do ord - p o pr dio p rd do i do
o r i iro d r id d p - i p ro o di pr ri
i i o i di d o po d o r r. d i o. r o po -
o xo i r r o - p rd p pri d i rd d x -
i o op po o i rr r d p i i ri r o po ir
pro d - rio g r r p i- i p r o i i o do pr o
do o opor o r o o d do r o di o i r r pi d o o
por o x d ri do poi p id d ri x d o iod did
− p r do do pr po o d r d d g r i o o do p r o
do − i pr i d o do r o do o id r do i i p i o i-
g do p do po rior o d do - i p i por g o o.
h o o p h o r p d do r di - ri do i p i -
o di o o o pro od o i d d i rio r i iro o orr p o di i dig
do d i r o. o xpo o o r r do do
o i r r o di o o o o or io i o d ro o o or
p h g - o od pr pri - d p i i ri . i d o pr dio
r r d r o o pro di o o r r or d p i o ri i
di o i o p i o gi o di r i - h i p do i o i r i-
i d o h id p r ri d i- d d p i i ri o or io do. od
rd d po o pr ri r o p do i r r o h id o o do d o
i r pi d o d pro op di d d d p ir o o o i
d r d o o or d r - od id d ri i o . od p -
o i rido o o o d did d g r i rid d orro or o p xid d po i-
i o o d p r o id r do io r o r o o o po o o o
i i p i o i-i p i. i p r - o o r d g or -
- o do r r o di o o r - po o opo o o o o o i
o o od id d d p r o d do p d o pro od o i d d r o ro .
o r o di o por x i po o i do hor r o pr o r do
r xp do po rior . o ro o do o d r o i o o
r
o do d r odrig 2
p pod ir r o o or d o o i
o id r o o p o d r i id d d p o p d -
o r r i r o o i d d do i di d o o p r p i rid d d p do i
do o pro di o. pr o p o o do p i i ri pro d

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006


254
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

pi od r o di o o op o id r do- pr p rp -
pro di o d ri r do do o o did i - r o i o o o-
d g r d or propor io r r o d id d d r o p r o i di d o p d o
o p d do. o do o i por d - o dir i o d . r i d d
p di r d pri o i rd d o do - p r p r o d id dig d r i di -
ri i r ri do dir i o x i. d od o r p r i d i o do dir i o

Artigos de atualização
rio o do d r ri o o o i p d o ro d d i odo o
o do do o od r r - id d o do po r r id -
o g h o id r r r i id - d po i i i o x r io d rio o ro dir i o
d do p d o p r i od r pi d i. i ri i o o
or d p o i pi r o i d o r po p pr od i dir i o
d o id o pr xi o pi o. - o do do o od d o i-
o di o p i d r i id d o d 1988 xp i i pr i r go
o do d p do i r o r r o 196 14 o o d r do do.
p o do o ro r r do io - d o o po g r
i i d por p i d - o o dir i o do id d o pr
digo d ho r do pr idi rio . o od r o pr od r-
o or o xpo o p r - od - i o d r d p o go r o. orr
id d d r o hor o op o - p rd r rd d p r
id r d pri ip i ri i o gi o. po i r dig r 15 r
r o i d o r rio o i o d r od i r g -
po d r r o p d o p r rd do i d dir i o o r gi i o.
d odo i p r- h o r o d ido po o r id di r o o i o g -
o do ir d id p r o o i d d i i o dir i o d o d r d pr o
d orr d o d ri i o . dir i o r pr o i do- p i i
x o d po d d o g
dir di ri di r o id d o o i
ratamento médico ri d do d i i .
i o o id r r r o di -
r o i o o r o - o o o po r op r op d o
di o i p i pro di o hor o p r rg d id d o o r p ri propo -
o ro d o d p r i do io o o o i di d o do i
p do i do do o po i r ri i o o d oi ior io o
or xi i o d o ro 13. i orpor d o ro r h o do
r o di o pr ip do - o pr ri o do
d do r r d r o di o poi p r r id d pr -p r . i o p orro or
do o o o pr d o i p o - o di od p r d o pr o-
gi o d p do i p r - id d d o d r r o i o o or
o r do r r o r p o p r - d r o di o i ri i o gi o o
i di d o di g o do o di r io d pod r do.
or o od o r o i r i r
o x r i- id i d o or-
o r do . r ri i
od r pi or d p r d
or o o r r d i pr i di i id d por pr ri o di i o o xp i h 16.
d o r d r o di o o id d o or d odo g r o o o
rr - o o dir i o d i di d o pr d po p
od r pr od r i o p r o - por dor d r id d p i i ri d r
do. p rp o id r gr id - do i pr ri o d r op r do
d x o do d o p do i pro o o i ri o i do o dir i o d .
o i d d −p r ii r p r o do o o r- -i di-
o pr prio p d o − pod - i rpr r r o poi o do o i di d o d ri r
i o o r r p - r do o o ri i o o o p i . i ho
dr o d do r o do dir i o d o r id di o r d r o di -
pod i r o io o p o. o do d o o r o di o.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60


255
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

- po i o o o o oo i od r i id d o -
o i o pod d d ro r o o do.
por x p o o o d o i di d o o o p i - o o p r ro rio or xp i-
d r o ri r g rd do r o - i do o i od r o di o
ro dir i o o d o h r o pro io d d do d o o od id d r p o oo d
o o p h r . g do or did d g r po o ir o
Artigos de atualização

r o d ri r o id r do o d - i di d o ri d r or o o i
ido o o i i r do p i do r d id do o od i r oi o -
r g rd do odo o dir i o h i . - ri o o orr d orr i d i
r o o o do i di d o o o ri p o r g r gi r i o
d p do i o r o g pr ri- o o o ri do d
o ri di d od id d or d d pi od r o i . i p r do-
r pi o xp i i d or g r o p d pr po o pod - rg r po -
o od r o di o ig id - d r od i r or o d h po i o
d d did d g r i po o o d - o o i do i di d o pri i-
do o r or o d ord p i i ri . d d o ro i r .
o po i i id d d r pi or- i d i d r o hor o o o
d d - i 10.016 d 2001 trata r o di o i h - pro -
dos direitos das pessoas portadoras de transtornos di o dido o o or d r pi o
mentais e redireciona o modelo assistencial em saú- i op o d r o h i o
de mental 1 . ir g i r o p i- d d o r od id d i or di-
i ri o o od id d : i r o idid r gori : 1 i r pi o -
o ri i r oi o ri o p ri . gi did o o r o p i o gi o 2
r ido o r . 6o od id d i o ri r o r o gi o do i i rid
orr po d que se dá sem o consentimen- r o i d o ro pro di o
to do usuário e a pedido de terceiro 1 o o do ip o d drog por o
o p ri r ri - por r d r i d 3 r o ir rgi 19. d r o o
p . id r i i d o od o r o hor o po do o o o pro-
i r oi o ri d id o i o o di o i r o o p -
i i rio i o d 2 hor i o - gori d r o r o gi o do
o g do ritto 18 i p i p r ip o d r rr r .
o o rg o i do r od
o i o ri d i i ri -
i di d o . o por o i i rio i op
ri hi ri o i o – po i io - o
i r i i r io do o o g
do d o o p h o p i o gi o d
igi do dir i o d p o i r d . i
r o pr o o go d odo o r -
10.016/01 1 d r i o r i od
o do i di d o p d o p o o o
i r oi o ri po o orr r di
o ord or do pr r ho. i r-
r ri o ri o d i i r r po g
o p i o gi o p r o r did
o o o o pro io o ip d -
pod propi i r r d o d r i id d do p -
d rr g do do r o i o o pr -
i o or r o o o h i o r -
d o o p dido do i i rio i o.
gi d r o o r o p o o
o i r gi o p r - d p r o id d pr pri do p do i .
p r d r g r pr r r o dir i o o d po i i id d d r i id i i d
po o por dor d r or o i p o p i i r r po d r d i i r -
r o p r h r i d r i i o d drog d pr i d odo o od
o o o i do i di d o do i r- droxiprog ro di o do -
oi o ri o o p ri . ri - o r o i d r o id r do o g i
i r do d or i o ri pr o - rio : p r i do i p o x i p r
ido o o od i r o o o d pr i i o r o p i o gi o r-
p r ip do pro o o o r i o do r - o gi o o r o i
o 18. odo pod - rg rp po i ri o d r d
pro io o o o i do i di d o o o i id i di o o por od o
13
p i por dor d r or o i o x o io i i o r .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006


256
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

g do o o do pro di o hor o- di r o o i i o oi id
p r ido o o or ro d do r po o rgi od o io. i o
do od i do d i o p - r 5 p pi o do
h o p i o gi o pr ri o d d pr i- o r g rd d or p o o i do i di-
o o do o o por o io od o - d o do r do o r pr o p
r do p o i di d o . p r pr ri o − o oo do d id d o io

Artigos de atualização
pi o d droxiprog ro rio o r o do d d r ro p r o r -
r p rior o h o do od r id d d o di d
r do rio o i di d o pr d p r p i − po-
o d di gr i io r d rgir o o o o p r o x r io d -
i o ro o r do r d id o o o i p do p r ip d i g o.
r od o r or d r pi . i o o id r o o o o o
i di i d o rio o pro o o or r do do i r po -
do di o o o do i o. d i r - r r o r o o. o i-
pri ip o r d r i do d r do pr ri o di d p i
ri rio p r p i od r o di o- r i ir pr pod - di r i di -
- o or do pro di o o d o o gr o di o d do o r -
r i r ri d d od di o. do d id d o o or r
oo r i od r o -
i d d xp ri o.
perimento cien fico r i id d r id do o i o por-
dor d d r i d p o ogi o po i r
o id r do r o i i d o r o pi .
o p i d o o x o r i iro − nem como do d id d o i di d o
p o o r o− p i i do o r go do o id r do por
i r i do pro di o o r p r- di r o dio o poi o po d r r o
i . p rp r o i i do o o pri ip i i o d g r r
oo o d xp ri o i o i pi d i o o ri o op o pod ri
o id r o d odo o p o o r r i i d o io o -
p i i o o do o o r i od r i id d . o r o -
di o o o o o o i do p r - o ott 21 r p r d od di ig -
ip o o do r o d o o i r i o io i o o i r io i d o -
r ido . i o pop po r o
pr d r r o di - do xp or d o o od r ir o o io
o o o xp ri o i o di r p i o p - d p i . i po - i id d o
i r i d o o rio i do o o r d p rid d d r o o oo
o pri od p pri d i rd - po i o d rd d ir d ig d d d pod r
d . o i do o pri od p r pro g r d i r i .
p pri d i rd d r - do i i por i do
p r ip o p i r r o pro di - odo o id do o ir d
o o o do d o o i po i o p - d d p o pr o i i id d
o or r o id r - do od r. i o od r o
o o o i do io i g ir. i o o xp ri o i o o
o r o or i pro- d r di r d odo o o i i -
o pro o o d o o i do p r ip grid d do p r ip d p i i
d p i h i por r g o r r p i d o xi o pri ip o
o o 466/12 do o ho io d d o id r r r g i do pro di o i
20
r o r d r i xig do io o r i o i d r -
i o do i r o o oo - r ido poi o di r o o i o pod
o r g rd r o o i do i od p i ir o o r o di o .
do do o d r . orr o o d p do i p r r do o o
por r rd i o xr d i- did r d o o do d do
d p r o id po i r - pi i ri o p r - d r o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60


257
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

d do h ix r o i di - p r ip o or di g do . o o
d o por dor d r or o d po i oi r do por ri 13 o do d od
rr ir o x r io p o d o o i or- do p r ip d p i r. o oi -
do-o r . do r o - do r o p r o ro d p do i d
i o o xp ri o i o rgiri o o odo pri iro o p h op i o -
do i o r r o p r o ro r r id d gi o g ido d r pi r o gi o i
Artigos de atualização

p i i ri . or o d ido d r o ip o d drog d pr i do
o i di d o p d o o r - p i do i od id d d r o oo r
d id d r do o ir p o r do. d orr i oi i or do r do
i od r i id d p i- r o hor o o ordo r-
propo . odo i d o r ido o pro di o. i i d d i i r od -
o d or i did po droxiprog ro o i di d o r o o -
o p r ip d p i pod ri r i d i x i o ri .
r- r o por do - r o o or r o o xpo i o
o op d op p r r - d di o r p i do -
do- r o di o . d ho po di r r g o
i i por i r o od - i od p i p o r r io d r id -
o o i r i id d o o do d g or o o p r r o o
o r po i opo o i di d o d r o do r o xp ri o.
odo o i pro o o o i r or o d do or pr -
d p o or r i id d d - do o d i por i p r g di o
p r o did o o d p do i o o d r o i poi
id d i i p o o r do r d iod p i -
ior i od r i id d or g r p r po o o ro d do .
o o i . o io r - o o i d o id d o o i i o -
r i id d o o io i r d o i d pi od
do d do o go do r h o. pro di o dio o o go pr o.
ir i por r gi r r
od id d d r o hor o o op i Considerações finais
i oi r i d o r i d d d -
di i d r gi o do i o rio d
r or o d x id d x . g do - do i d r ho d -
ri 13
pro or p i dor di o p i i r i o o r o o o oo od
o d i o do oi i or do o p r i- p i i o r r o i oi
p pi o d hor io r idi ri d o d o r i o id r - o pr -
o r r pi r i d do o ri o d pi r o pr o
i r p i o gi o r o r - do r o hor o p r p d o. oi
o gi o o d i i r od di - d o ido por io do o i
o hor o i . ogo - i g or - d r go i o do o g i o i i
i d o r i oi o do r r o di - o r r o i i ro o r p do i
o o o odo d o ro rio o r io pi i d i iogr
pri ip . o r p i r odrig r r ord g op r -
2
o i d p r ip o do i di d o o di o xp ri o i o.
o o orri p o o o i or- pi od r o i -
do i r o d o r o r i do op o o d r o-
pr i o o p r r i o o or io do p r od id d
r g o r i ir p i o r i r o i d : o di-
h o. - d ordo o p r r o do p d o o o i di d o por dor d
d o i od o i o id d i do do pi od r o di o
do d r 22 o ro d p r ip o - o o did d g r .
rio do r rido do h go 30 p o . o r o p od r o i
ri - p i o or o o r o di o oi r do o dir i o
d o id d r do o r o 30 d o i pi d r do do pro-

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006


258
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

r r pi d d p r d p o ogi . i d po i od id d d do o d r o
rr - o pi o do pro di - i o ri i p r hor di o
o o did d g r poi o or o io d o o ro r i .
i do p do i p r d r do o o i- r p o x-
d ix d r ri . oi o r d : r o i o op r o
o d o p ori d d d r o di - di o xp ri o i o r pr r -

Artigos de atualização
o o r o di o do po o r i ri ig do
o io o pr prio d od id d . p rd d po ir o o pr -
o iod p i i o di pri . i d io d op pr p r do
o r id o od p do i o po i p r progr dir o o or d id r o
r o or o i di d o p d o r p do i o ri do . r i o -
o r o o o rio p r xp ri- ri pr o do di
o poi ri i op o d r pi . di o o p i o r i iro d pr i i
i d - o pr r ho p r hor di o do o. r i pr -
id io o o i o o or do id - i i i- o od p do i
do-o di do-o . i r - do r r o d do.
io or i di o h ido o io- do o ip o di od o
do pro o r o d - r o hor o o i d r o -
ri o o r o . or r r i pro di op r p r ord r
d o xr d i do pr o o.

Trabalho realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Universidade de Brasília .

e er ncias

1. rg i o di d d . 10: i o i r io d do
pro r io do d . r . 2010 o 23 go. 2013 . i po : http://
rigr . ir . r/ gi- i / x/ gi 401 o o 10p g p i i 0.30 xr 1
0 x do i
2. r odrig . r o i : i i po i i id d do o o o p id d
p r p do i . o o i . 2011 o 2 . 2011 1 1 . i po : http://
h. p . p. r/rgpp/i d x.php/rgpp/ r / i /13
3. o i h r . o p r i o io gi d r o i . /
p. 2010 o 26 go. 2011 5 . i po : http:// 2. ri i . p. r/r i /i d x.
php/ / r / i i /1111/999
4. ott o rg . r o o xo d r : pri o r righ r p i .
d hi r . 2003 o 6 o . 2011 31 4 :502-9. i po : http:// . p .org/
o /31/4/502. .pd
5. o r . r i id d o o i p i . r i ir d io .
2008 4 1-2 :49-68.
6. rr ir . r o i o o r o o p do i : g p r
r do pro o d i o 552/200 o od o po o- ri i rg i . i i o i i
pi d i . 2009 o 9 o . 2011 9 1 . i po : http:// -r i . io . r/
i d x.php/ r i / r h/ hor / i r dro idd o 20d 20
h rr ir i o
. r i. r do p do . ro o d i o 4.399 d 2 d o ro d 2008. r o
r go 223- o r o- i o 2.848 d d d ro d 1940. digo -p r p r i r
r o i r p r o d p d o r i id . r . 2008 o 19 o . 2012 .
i po : http:// . r .go . r/propo i o / h d r i o id ropo i o 4180 5
8. r i. do d r . ro o d i do do o 552 d 18 d ro d 200 . r
o
o r . 216- o r o- i 2.848 d d d ro d 1940. digo p r o i r
p d r o i hip o or do ri pi do o r .213 214
218 224 or o id r do p d o o or o digo r io d o . r .
200 o 22 o . 2011 . i po : http:// . do.go . r/ id d / ri /d h .
p p od 82490
9. r i. do d r . ro o d i do do o 282 d 24 d io d 2011. r o digo
p r pr r did d g r d r o i o-hor o o o d do
por p do i . r . 2011 o 22 o . 2012 . i po : http:// . do.go . r/
id d / ri /d h . p p od 100380

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60


259
Castração química em casos de pedofilia: considerações bioéticas

10. r igo o rro . r p i o gi o o por d


gr or x i d ri : r i o. r . i i r . 2009 o 20 o .
2011 36 3 :101-11. i po : http:// .h . p. r/ip /r i / o 36/ 3/105.h
11. r i. r o- i o. 2.848 d d d ro d 1940. digo . r . 1940 o2
d . 2011 . i po : http:// .p o.go . r/ i i 03/d r o- i/d 2848.h
12. r i ho . do o dir i o p r i iro: i i p i id d
irr po i id d p ri o id d did d g r . r . i i d
g i ho . 2002 o 16 . 2012 9 2 :335-5 . i po : http:// go . . r/por / i /
Artigos de atualização

d / / xo /30839-3319 -1- .pd


13. ri dr d . r o p r phi i x o d r i r i: d
o ro r i . . or i h. 2009 8 3 :218-23.
14. r i. o i od p i d r do r i . r i : do d r 1988.
15. r . g o id r or o do o do i id d do dir i o d
o i o d 1988. . 200 o 9 . 2013 11 . i po : http:// go . . r/
por / i /d / / xo /31953-3 383-1- .pd
16. h . gr or x i : po r opi o o pr ri o di i
gor . 2005 o o . 2011 8 1 :4 -62. i po : http:// . i o. r/pd / gor / 8 1/
8 1 04.pd
1 . r i . i o 10.216 d 6 d ri d 2001. i p o r pro o o dir i o d p o
por dor d r or o i r dir io o od o i i d .
r . 2001 o 3 go. 2013 . i po : http:// .p o.go . r/ i i 03/ i /
i 2001/ 10216.h
18. ritto . i r o p i i ri i 10.216/01: r x r d g r d pro o
o dir i o d p o o r or o . di r o . io d iro: d o do
r 2004 o 5 go. 2013 . i po : http:// h i .i i . o r . r/pd / rittor .pd
19. i iro ord iro . x o d r : ri ri or d r . r .
r d op i d d o o. 2012 o 22 . 2013 5 2 : 4-80.
i po : http:// . p. d . r/ /05- 12.pd
20. o ho io d d . o o o 466 d 12 d d ro d 2012. pro r dir ri
or r g dor d p i o do r h o. r . 2012 o6
. 2013 . i po : http:// o ho. d .go . r/r o o /2012/ o466.pd
21. ott . op p i i r i. r . o 24 . 2013 . i po : http://
. do- h .org/ / od o3.pd
22. r i. do d r . r r d o i o d o i o id d i o r o ro o ido: 31.1.2014
d i do do o 552 d 200 o 2 o . 2011 . i po : http:// gi . do. g. r/
/ r i o/ -pd /56869 i do: 2 .5.2014
pro do: 8. .2014
articipação dos autores
h i .d . i id i o r digi o r go. i . . id o ri i r d o r io o
r go.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 251-60 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222006


260
Quando a morte não tem mais poder: considerações
sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross
Carolinne Borges Alves 1, Pedro Lucas Dulci 2

Resumo

Artigos de atualização
pr r ho o i r o ri i d o r o r or o orr r d i h r-
- o p r pro od o di o h p i o do r i i. p
r i o d r o d i rio o r or o orr r or d o o o
ori r p i o do gio p o i p i ii r p ir i d proxi-
id d d or . ord g or o di d po i i id d o p r r r ri r
po i do p i d ro o or d o pr d r o o o i d d
i o o r r pr p r d p r r r . p r p o o o id - o
i do d do r o io o d o ri i o d or r io do-o o r p i
iopo d iorgio g .
Palavras-chave: i i r do . or . d p o p i o gi . o o i .

Resumen
Cuando la muerte ya no tiene poder: consideraciones acerca de una obra de Elisabeth Kübler-Ross
dio o oo o i r o por d o r Sobre la muerte y los moribundos d i -
h r- o p r pro r o di i h p i o r d d r i .
p d r i i d i rio o r r orir d r o or h d rro do
o o o or r d p p ro p i ii r p
o di io d proxi id d d r . o propor io o di io d po i i id d o o p r
r r di r io po i d o p i r o r i o i p r o -
pr d r o o i d d o r r pr p r d p r r r .
p r p i o o id o ii d r p r io io d o ri i d or
r io do r i i g io iopo d iorgio g .
Palabras-clave: i r o. r . d p i p i o gi . o o i .

Abstract
When death has no power anymore: considerations on a work by Elisabeth Kübler-Ross
hi p p r i i d i g h o ri o o h or Sobre a morte e o morrer (Abouth death and
dying) i h r- o i ord r o pro h h o di o i p ih r i i -
. r o d g i r o d h d d i g or r h hor d op d i h h r d
h or r g rdi g p r o g h p d h ir r go hro gh h d h i r. hi p-
pro h pro id po i i i o di o o o o ri po i r o p h h
i gd h o o d r d ho rr o i r o r r r d o hi . h
p r p o i o o id d i h o h io hi r i o o h hor o ri o r g
h i hr iopo i r r h o iorgio g .
Key words: p . h. d p o p ho ogi . i po i .

1. Graduanda ro 87 g i . o i r id d d r do io r d io r d / r i . 2. Mestrando p dro .d i


g i. o i r id d d r d oi oi i / r i.

Correspondência
dro i 3 370 d. ir or 74115-050. oi i / r i.

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9


261
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

o p o o pr p r d p r or- o o ig o d r go ro o o -
r r. o d r
o gr po d p r gr d p o - r d i o g
p r d g r igi o o o o o o i d d o por :o do. o -
r di id p or o r - or r g nos últimos anos,
- i di d o r o od orr r o sobretudo na Europa e em suas ramificações no
r id d i o o o p r d pr pri id . ultramar, a forte tendência a sentir medo e a obses-
Artigos de atualização

o or g o p ri são maníaca por segurança fizeram a mais espeta-


o r i pr o pop r p i i r cular das carreiras 3. o r o i o r
i h r- o . i ro o r or d : nós que estamos na outra extremidade
o orr r, p i do 19 9 di orr o r o do imenso cemitério de esperanças frustradas, o
que os doentes terminais têm para ensinar aos mé- veredicto de Fabvre parece – mais uma vez – nota-
dicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios velmente adequado e atual. Vivemos de novo numa
parentes. era de temores 4.
o r o do gio r i i d g r io
i d id d i i i
p i o di g o d do i r d g rr d r r i o o o -
di o o d r i o r oi : g i d r r d id h -
os pacientes que tinham religião pareciam diferir do
do r r di
pouco dos que não a tinham. ... Entretanto, pode- do h i do do o por o. r do
mos dizer que encontramos bem poucas pessoas re- p i o r o do d orr r
almente religiosas, possuidoras de fé profunda ... pid r o o id r r : somente nós, seres huma-
que os libertasse dos conflitos e medos d or 1. nos, temos consciência da inevitabilidade da morte
do o x od p o e assim também enfrentamos a apavorante tarefa
id i o o i dio por r di r de sobreviver à aquisição desse conhecimento r -
pod o r r o g pr i o i - d viver com o pavor da inevitabilidade da
g r orr r. o r di morte e apesar do o h i o r p i o 5.
id o p or o o -
o r r o o pr prio o r p r por or r o do po o d i o-
xp ri i o do. io gi o o do p i o gi o pr i o
sociedades em que as pessoas são cada vez mais
p pri o ir o p rg ‘mantidas vivas’, tanto com máquinas que substi-
rg i di : d tuem seus órgãos vitais como com computadores
o o ri i p r p o que as controlam periodicamente para ver se algu-
ood or r r o di r ma função fisiológica merece ser substituída por
or ri o d o r d r- o ip o r i o . oi i h o
r po d r p rg d r o r o -
o di orr r o r r or o do pod r o -
id r d ig r i : do ponto de vista
r o d d od r id o o r -
psiquiátrico, isto é bastante compreensível e talvez
ri o x r io d d i o o r o r id
se explique melhor pela noção básica de, em nosso
or g id d r fazer morrer
inconsciente, a morte nunca é possível quando se
e deixar viver 7. o do iorgio g o r
trata de nós mesmos 2.
o gr d pr o p o o o id do d
di id i o d p o g i id d d do di o pr o p
or: é inconcebível para o inconsciente imaginar o do i o d pod r o o o
um fim real para nossa vida na terra, e, se a vida o do io gi o o o o pri rio d
tiver um fim, este será sempre atribuído a uma inter- iopo r d r d o :
venção maligna fora de nosso alcance 2. r o
i p h d p r o g ir p r (...) insinua-se uma terceira, que define o caráter
o or o or p o o d r o or- mais específico da biopolítica do século XX: já não
o. i o o o i i d p r r- fazer morrer, nem fazer viver, mas fazer sobrevi-
o or r o o io d p id d ver. Nem a vida nem a morte, mas a produção de
d . or o a morte em si está ligada a uma uma sobrevivência modulável e virtualmente infini-
ação má, a um acontecimento medonho, a algo que ta constitui a tarefa decisiva do biopoder de nosso
em si clama por recompensa ou castigo 2. tempo. Trata-se, no homem, de separar cada vez a
di o d i g r d r p ir - vida orgânica da vida animal, o não humano do hu-
rp o r p i od or do orr r mano, o muçulmano da testemunha, a vida vegetal

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007


262
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

mantida em funcionamento mediante as técnicas Tomando lições com os que se defrontam com
de reanimação da vida consciente até alcançar um a morte
ponto-limite que, assim como as fronteiras da geo-
política, é essencialmente móvel e se desloca segun-
p i o o o r d r- o
do o progresso das tecnologias científicas e políticas.
no outono de 1965, do quatro estu-
A ambição suprema do biopoder consiste em produ-
dantes do Seminário Teológico de Chicago pediram

Artigos de atualização
zir em um corpo humano a separação absoluta en-
minha colaboração num projeto de pesquisa ...
tre o ser vivo e o ser que fala, entre a zoé e o bíos,
sobre as ‘crises da vida humana 11. d
o não homem e o homem: a sobrevivência. Por isso,
d o ogi r i r o h r or-
o muçulmano no campo – assim como, hoje em dia,
o o pri ip ri d xi i h
o corpo do ultracomatoso e do neomorto das salas
r d o o o pr prio r d id .
de reanimação – não manifesta apenas a eficácia do
biopoder, mas apresenta, por assim dizer, a sua cifra o di ord d po-
secreta, exibe o seu arcanum 8. i o o pr prio o do i rio o gi o
o h d do p ri o p r p i :
d i po - Como fazer pesquisas sobre o morrer se é impos-
r- o r i ro riog i rd - sível conseguir os dados? Se eles não podem ser
d po d por g o o pi o comprovados, nem se pode fazer experiências? 11.
d r r p i o gi xi i d por o o o r d p r pori odo gi
o ogi go r iopo r do oi d idir- por o rio p r r o o
pro o d o or o ori o r i d p i o do
orr r o d pr do d ori do r g do r i . ro o op o
o po do i pro d prop g d odo gi i i i r d do
d ior d xi i op d d r i od do r i go
o r i i . o o d ri o rio do r o poi o índice de sobrevivência tem variado
x xpr d ir do o o: se con- de doze horas e alguns meses. Dos últimos doentes
dicionava/vacinava as crianças contra o medo da visitados, muitos ainda estão vivos, enquanto outros
morte oferecendo-lhes seus doces favoritos enquan- que estavam em estado grave sentiram-se melhor e
to elas eram reunidas em torno do leito de agonia voltaram para casa 12.
de seus parentes mais velhos 9. od o r
di did p di d ri o io o i i r i oi p d p r r pi d
rr p di did - por p o gr po or do por um ou dois estu-
or r i p or i do i dantes e o médico-responsável, ou com o capelão do
o do d o id r - o o go i o pr xi o hospital, ou mesmo com ambos 13. ri r -
d odo . did por r pr o o i o
ir io d id d d r od i i . r
r o xpo o p rg o : o di o d p i : temos um grupo interdis-
r do d do i o o i gi rio pop r do ciplinar do pessoal do hospital ansioso por aprender
h i do o o d ir do iopo o algo com ele. Fazemos, então, uma pausa, aguar-
r po d i por o - dando a reação verbal ou não verbal do paciente. E
ri i d r- o p r p i do - só começamos depois que ele nos convida a falar 13.
o: o famoso esquema de cinco estágios do
luto quando, por exemplo, descobrimos que temos o r i od r i o r po p
uma doença terminal 10. o o i or do p o - ii o o o r o i o do p -
oo p i i o o o i mais i o d di do o ocorrido
tarde, Kübler-Ross aplicou esses estágios a todas as juntamente com os ouvintes no auditório. Nossas
formas de perda pessoal catastrófica (desemprego, próprias reações espontâneas vêm à tona, sem pre-
morte de entes queridos, divórcio, vício em drogas) ocupação de que sejam justas ou irracionais 12.
e enfatizou que eles não aparecem necessariamen- rio i rio r i do o r r od -
te nessa ordem nem são todos vividos pelos pacien- oi d gr d i p r o p r ip
te 10 d i o pr prio i i - o i o rg i d o id r r
d or p r di r r r p i o do h - or o o po i i id d r o do o ro
o d o i i o i do po ip i do ro d i o.
o r do- o pro id d do r io io por r do d p i or o pro o
d o ido. dois anos depois de ter sido criado, esse seminá-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9


263
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

rio passou à categoria de curso na Escola de Medicina conde a realidade do paciente para evitar uma crise
e no Seminário de Teologia. É frequentado também emocional 17. d r i o
por inúmeros médicos visitantes, por enfermeiras, p i o o go do o r o r- o
ajudantes de enfermagem, assistentes hospitalares oi todos eles haviam tomado conhecimento de
14
o o por i o i i p dr r i- uma forma ou de outra, ora sendo avisados aberta-
o r p d i o o d rio r- mente, ora não, mas que dependia, em grande par-
Artigos de atualização

o i r i rio . o or or os estudantes te, de o médico dar a notícia de uma maneira que


de medicina e de teologia que frequentam como um fosse aceita 18.
curso regular participam também de uma aula te- r i o i rio o r or-
órica, ministrada ora pela autora, ora pelo capelão o orr r r d r or p r o
do hospital, onde são tratadas as questões teóricas, xi rg o o i rior d o p
filosóficas, morais, éticas e religiosas 14. r i g r o o id d d r -
d p i od o o do o i io oi o p i d p i r i i
di i . rd d or o do pri- or o p r d id go x r-
iro r do p i r o oi r i - o pr i r i d d r or-
i do di o r po i p op i pr pri id r or d
r i id r o or d r o r i i . o p o x rg
o id do . g do r : o pes- or o o go r i io o id io-
soal da equipe hospitalar sentia uma necessidade o o i o po o di r
desesperada de negar que houvesse pacientes em id i r p i o do orr r o o o .
fase terminal sob sua responsabilidade 15. o o di o d o or o i i-
r op g r o di o o r i do orr r pr d r i d r -
r o p h ro r ho do i rio di o pr do i d id d di i
o r or o orr r. por o r o i r o di r o xi o or
od o o i d d pr pri r - di d d pro io i d d r igio o
r rri r do ro d di i pro r r ii r op i o id r
o o aprendam a prolongar a vida, o do r i o pr -
mas recebem pouco treinamento ou esclarecimento pri i g r . r i por i o ior
sobre o que é a ‘vida 1 . o ri i o o i rio propor io o p -
o o d r or o pro io i d i dor oi ori do i o gio d r o
d g r são taxativos em dizer que ‘não há or o orr r pro r r d r
mais nada a fazer’ e dirigimos nossa atenção mais aos o i o r odo o o ido o
equipamentos do que à expressão facial do paciente, p i gio r i d do r o
que pode nos transmitir coisas mais importantes que o o o g o d po r r -
as máquinas mais eficazes 1 . d i g r o r i o or d odo r h o.
d id r d or pi o or pr pri ip i p o d o r o r or-
od o i d d po i i d p p - o orr r o d resumir o que
pr d pro o pro d d aprendemos de nossos pacientes moribundos, no
r p i o d id o ro p rior o ido sentido de lidar com os vários mecanismos durante
o o id do i d r h o. uma doença incurável 19. i d o o
d ri or r d d o pr o do i r g or o gio o
do orr r pr o p - p pro o g r i g ir o i ord
id i r or i d xi ri i i- d xpo i o d r- o . pri iro gio
i d i ir o ro d di i di d r o pr do o d negação. r -
o r or o id do p i o o ri i- d r o i pri ri d odo o p i o
o do i o r d io di o id r r o i p o di o o i r
io o doi o d i di . d do i r : todos os nossos pacientes
o o odo d i or r o p i reagiram quase do mesmo modo com relação às
ii r r p i od prog or i más notícias (o que é típico não só em casos de do-
i r o pro io i d d : ficamos ença fatal, mas parece ser uma reação humana às
impressionados como se preocupam com o fato de pressões fortes e inesperadas), isto é, com choque e
o paciente suportar a ‘verdade’. ... alguns médicos descrença 20. i od r o pi do
são favoráveis a que se diga aos parentes, mas es- r p o i o o isso não pode

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007


264
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

estar acontecendo, não comigo” o r - i r ro o. rigor r ro


i p d r i r o o. pri- o i po : o gio não aparecem ne-
ir r od g o podia durar de alguns se- cessariamente nessa ordem nem são todos vividos
gundos até muitos meses 20. pelos pacientes 22. r p i o r- o r :
o d or i g o o
i o o ro g o d - Os membros da família experimentam diferentes es-

Artigos de atualização
g r o g do gio d r o o prog o: a tágios de adaptação, semelhantes aos descritos com
raiva. o o di r p i o xp o o d - referência aos nossos pacientes. A princípio, muitos
o r i po i i id d d g r o o. deles não podem acreditar que seja verdade. Pode
r o pod r reforçada pelas reações da equipe ser que neguem o fato de que haja tal doença na fa-
e da família, raiva quase irracional muitas vezes 20. mília ou “comecem a andar” de médico em médico
xpr o x pi gio o r - na vã esperança de ouvir que houve erro no diagnós-
orr p o como isto foi acontecer co- tico. Podem procurar ajuda e tentar certificar-se, jun-
migo?” ogi do rp op i rp o - to a quiromantes e curandeiros, de que não é verda-
ii r pod r- p do : Como de. Podem programar viagens caras a clínicas famo-
não vimos isso antes? Por que não fomos mais rápi- sas e médicos de renome, só encarando aos poucos a
dos em trazê-lo ao médico?”. realidade que pode mudar drasticamente o curso de
suas vidas. Portanto, a família sofre certas mudan-
r i pod p rd r r por pro o g do po
ças, dependendo muito da atitude do paciente, do
do r o do p i xpr i
conhecimento e da habilidade com que se comunica
di r i . o do g o pod
o fato. (...) No momento em que o paciente atravessa
o r o r iro gio: a barganha. r o
um estágio de raiva, os parentes próximos sentem a
d o o xp or r di od
mesma reação emocional. Primeiro, ficam com rai-
odo o p i r o g gr
va do médico que examinou o doente, e não apre-
d p r io r i pod o r
sentou logo o diagnóstico; depois, do médico que os
or o d d p r d d p r :
informou da triste realidade. Podem dirigir sua fúria
Se Deus decidiu levar-me deste mundo e não aten-
contra o pessoal do hospital que jamais cuida o bas-
deu a meus apelos cheios de ira, talvez seja mais
tante, não importando a eficiência dos cuidados 23.
condescendente se eu apelar com calma” 21. o -
r p r p r d pod r di r o o g i or o pod ri h r o
di g o do. op r o od xi do d r
r- o r r iro gio é o o o or d i o o o p -
menos conhecido, mas igualmente útil ao paciente, o o rg og r d r r or o o
embora por tempo muito curto 21. o di r p i- go r o gio i o: i o.
o o ro gio d r o a depressão o o o. o or p i dor qual-
po d d r o ri i o go. quer que fosse o estágio da doença, quaisquer que
i d o pr prio o po g rir or fossem os mecanismos de aceitação usados, todos
p i i d r ro o gio di r p i o os nossos pacientes mantiveram, até o último instan-
d i o i idi do po: Vou morrer te, alguma forma de esperança 24. g do r
mesmo, então por que me preocupar . gio odo r p r oo d
pod or r- p rigo o op r i o g odo h io or o o r .
p r o pr prio p i o do p i o - o d o r r o rg o
gi o g o pod r o id r d d r i o i o di io d or
r po io gi r id d r do- por po p r id d d p r
x p o. r d o id r o por odo o o i-
or o o gio id do: a aceita- do i i d p i : é bom nos lem-
ção. g pod ri rg r d pr o brarmos disto! Esta esperança pode vir sob a forma
po d i o o o pro d poi de uma descoberta nova, um novo achado em pes-
i o propri di pr d quisa de laboratório, ou sob a forma de uma nova
or i po i o odo d r ig - droga ou soro, or p r
o r or . o d pr o i po ir, é esta esperança que deve manter
ig d p i o po p r op i sempre, não importa sob que forma 25. -
o i r- d or do o o do do o r o o i-
pr p r r- p r o o d r i- i o d or .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9


265
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

di o o g pr r di g- (...) sinceramente, acho que esta deveria ser a solu-


od r po r p r or ção. Não acho proveitoso que se chame um psiquia-
o r do i o or g tra sempre que o relacionamento médico-paciente
gi do d or d d . or o esteja em perigo, ou que um médico não se sinta
o d p r po d di o pod capaz ou não queira discutir problemas importantes
p dir o capelão ou o sacerdote conversem com com seu paciente. (...) Nossa meta não deveria ser
Artigos de atualização

o paciente. Pode ser que se sinta melhor transferindo dispor de especialistas para pacientes moribundos,
a outrem o pesado encargo, o que talvez seja melhor mas treinar pessoal hospitalar para enfrentar sere-
do que ignorar completamente 2 . - r do namente tais dificuldades e procurar soluções. Estou
pro io i d d r do orr r certa de que esse médico não terá tanta perturba-
pr i r r h do d or r- ção e conflito ao se deparar novamente com uma
- o g r : o médico deveria antes examinar sua tragédia como esta. Tentará ser médico e prolongar
atitude pessoal frente à doença maligna e à morte, a vida, mas levará em consideração também as ne-
de modo a ser capaz de falar sobre assuntos tão gra- cessidades do paciente, discutindo-as francamente
ves sem excessiva ansiedade 27. com ele. O nosso doente, que, antes de tudo, era
uma pessoa, sentia-se inabilitado para suportar a
ori do i o gio d i - vida justamente por estar impossibilitado de fazer
d por r- o o r p r p i uso das faculdades que lhe restavam. Com esforço
g r i : temos a impressão de que o homem sem- conjugado, muitas dessas faculdades podem ser
pre abominou a morte e, provavelmente, sempre despertadas, se não nos assustarmos vendo alguém
a repelirá. ... Portanto, a morte em si está ligada sofrer desamparado. Talvez eu queira dizer o seguin-
a uma ação má, a um acontecimento medonho, a te: podemos ajudá-los a morrer, tentando ajudá-los
algo que em si clama por recompensa ou castigo 28. a viver, em vez de deixar que vegetem de forma de-
o p o r po p o o rio sumana 30.
igr g i p or i i pr i r
o crescente medo da morte, pelo aumento do núme- i ro o r- o -
ro de problemas emocionais e pela grande necessi- : po r d d d odo o
dade de compreender e lidar com os problemas da o p do- o p i r i i o i-
morte e do morrer 28. o o xi i r . g do r or d id r o o di g-
go r io o i i d xi od do r o i h r
i iogr r p i o do i i o r d op i i o o o pi i r o
pr pri r- o o i o i. o- p o. od p o pr i pr d r
r pr o d x rir o o go - r r o r id d di d d pro-
r o d pr r o ri i o r rid r r por i o o por io d pr -
pro . pri d o o d .
do o d o o d g p r o-
p r o io propri di
Valorizar a vida como resistência ao poder da r - d po i i id d d pr pri p o r -
morte o r o r i o r id d idi do por
. p i o do r i
p i ori d do i rio o r or- d p r do ho pi i g rd do d i o
o orr r o p d r d o - o r o r id o or rd -
o. p i i r o o ido têm di o i i r o i dir o do go-
escrito trabalhos de fôlego sobre o assunto 29 o r o o g o pro i od g r -
r do o g r id d o- ri - o o id . Como qualquer espaço de
do o o ido o p i d do exceção, esta zona está, na verdade, perfeitamente
r o o i ho r o vazia, e o verdadeiramente humano que aí deveria
do i o. xi i pro do i r acontecer é tão somente o lugar de uma decisão in-
d ir pod r or d iri o o go cessantemente atualizada 31.
d hi ri . r prop i o o io o hido oi o o do p r r o o io-
r d rg o od di i d id or perante
o r o ro i o po o d o a figura extrema do humano e do inumano ...
i o r p iod or . o or rg pod r compreensão do seu funciona-
pr pri or : mento para poder, eventualmente, pará-la 32. r

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007


266
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

o propo d r- o i i i te poder dessa promessa de lutar contra o impacto


o id r o r d or do orr r i - imobilizante da imanência da morte. Uma vez que a
d r o h os jovens médicos aprendem a proclamação tenha sido ouvida e absorvida, e que se
prolongar a vida, p r , recebem pouco trei- tenha acreditado nela, não há mais necessidade al-
namento ou esclarecimento sobre o que é a vida 1 . guma de tentar (em vão, por assim dizer!) esquecer
rd d o id r do- o r ho pr i do o a inevitabilidade da morte. Não é preciso mais des-

Artigos de atualização
id ri o di o r o r r r viar os olhos de sua inevitável chegada. A morte não
o op i i d rh o o é mais a Górgona, cuja própria visão seria capaz de
p id d d r od d d o matar: não apenas se pode encarar a morte, mas se
d or d i i d . deve fazê-lo diariamente, 24 horas por dia, a menos
o p r o i i r do p - que você se esqueça da preocupação com o tipo de
i r i i . g do p i r o infe- vida nova que a morte iminente vai prenunciar. Lem-
lizmente, a tendência é ocultarmos do paciente nos- brar a iminência da morte mantém a vida dos mor-
sos sentimentos, tentarmos manter um sorriso nos tais no curso correto – dotando-a de um propósito
lábios ou uma alegria falsa no rosto, passível de su- que torna preciosos todos os momentos vividos. ...
mir mais cedo ou mais tarde 33. o o Sua qualidade, porém, depende de como você vive
do o p i orr o pro p ri sua vida antes de morrer. Pode ser um pesado. Pode
poi opor id d d r h r or d or ser uma bem-aventurança. E agora ao trabalho...35.
i d d oi p rdid p i i i d xpr o memento mori -
o o o o do. o o id r do hor d i p i d i h
po i i id d do p i hor or d pro- r- o or . o o i i i id d
d r ri o pr prio p i d r ii r d or p r rd o r d o op r
r r or . d odo é participar i gr d id o p d i rd
naturalmente seus pensamentos e sentimentos aos odo do o or h g o
membros da família, incentivando-os a proceder as- i ri h or g o r poi
sim também 34. do o h r i ido o .
x po po o d i o origi d pi i r : ensinar aos
i rior o h o o o do r go d nossos jovens estudantes o valor da ciência e da tec-
r or p rd r o pod r. odo do nologia, ensinando a um tempo a arte e a ciência do
r g p r ir d r o d inter-relacionamento humano, do cuidado humano
or o orr r p rd od or o r o e total do paciente 3 . o i h -
o i i do r o o o o do ro pro- r o rd d iro progr o o o r o
r r do d or do orr r. Se
o g r xi i r dir io do- o i i
não fosse feito mau uso da ciência e da tecnologia
x o. i ir d or o i r
no incremento da destruição, prolongando a vida
io o id d o r or d
em vez de torná-la mais humana po d r o-
xi i go od o po i id -
r o o se a ciência e a tecnologia pudessem
d d odo do or h g r o
caminhar paralelamente com maior liberdade para
r i do poi id oi i id o xi o.
contatos de pessoa a pessoa, então poderíamos fa-
h xp ri i h d d lar realmente de uma grande sociedade 3 .
h p r pr d do o id por
i o or o i pod r: h go do
o i i di r . o i o or o Considerações finais
g ro por r o orr r o r o- o
o xi o i r. o o r r- o op - pod o o ir d rg o -
i for capaz de enfrentar a dor e mostrar com ri pr o r o r or o orr r
seu próprio exemplo como é possível morrer tranqui- r o r d o o o r oi .
lamente, os familiares se lembrarão de sua força e pri ir o rio di d
suportarão com mais dignidade a própria tristeza 34. ro i i or i i i p r
or r do- o do d - p o pro - p i o ogi d r
gio o memento mori r - d or id i o r o ri o or po o-
o r : A advertência o ori, lembrar-se r o o o ho d odo i r o or-
da morte, que acompanha a proclamação da eter- . o o o id d i o or
nidade da vida, é uma afirmação do impressionan- o o h do i i xi d o

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9


267
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

po i id d d or do or r- o po d r h do
h g r i p p rd r or . i d ii r pro io i d d o o
or op r p r dox o o or r - o i i d p i op r o id r r d
o o i d d ip d do p or d orr r odo i ro r pr pri r r -
do o o p r o xi o o i r o o orr r o x io pod r o pr r o
d ix r o d o or r p r p o r i r. or r o id r r d ido. p
Artigos de atualização

g d o o pod r o - d di o rio o o do or-


r di o pro io i d d p - r r jamais usará palavras vazias ao encontrar um
rdo o o o pr prio ii r paciente em fase terminal ... porque teve de en-
d p i o do r i pr i r - frentar a perspectiva da própria morte 39.
o id r r pr pri po r di d or p r or i d r r r iro -
pod r r pro o o o io o prop . o rd d o p o propri
di o por x p o pr o p o o io o pod o i di r p r r do r io io
or o op r h r o i o r o prog - d r- o o d o r p -
o do p i deveria antes examinar sua i d g . r - d i i r
atitude pessoal frente à doença maligna e à morte, o i d d o d o ogi d di d
de modo a ser capaz de falar sobre assuntos tão gra- riog i d r id id o or -
ves sem excessiva ansiedade g do o o - g 8 31
o o r r
or deveria prestar atenção nas ‘dicas’ que lhe dá do pro o r or o orr r o
o paciente, possibilitando extrair dele boa disposição r i i o i d d iopo . io do
para enfrentar a realidade 37. o o odo o r ro o p h od p i gio
d p o pr i po i io r- d or- r i o do id do p i o r o
r r o orr r o o r igio o rio o r or o orr r pod o ir-
pr r i od p i . i d p i o o po r d d r o d id .
h ido i d d d 0 ro o ri o o o o o o o d -
i o o p r o r od o. - o od o i p dir or
o 90 do di o o r r - d i r - id r or do o r -
do xi i r p i d r- o 90 do id r id do rd d d r o
p r i o rdo o i r do r o d di do or o orr r r or-
o o d o r r ho id d r i- do o r i i opor id d d id o
d d do i rio. r- o o : xi o. r g r é mais urgente do
que tomar posição sobre as grandes questões, sobre
(...) fiquei admirada ao ver o número de clérigos que os supostos valores e direitos humanos 40. r di -
se conformavam em se servir de um livro de orações o do o ri-
ou de um capítulo da Bíblia como único meio de co- i d r- o o i g r r d
municação com os pacientes, isto fazia com que eles io r o o io d or
deixassem de sentir as necessidades deles, se expon- do orr r o o x o d o i d d iopo .
do a ouvir perguntas que não seriam capazes de res-
ordo o r r o
ponder ou talvez nem quisessem 38.
i rio algo pode ser feito: não só encarar os
or o id ro or o p r d - pacientes com menos ansiedade, mas sentir-se bem
o r propo r o i gi rio g - diante da perspectiva da própria morte 41. i-
o d or r xigido do o i d p i ho pri i gi do p r i o o orr o or
preocupavam-se muito em providenciar cerimô- i i r- o i rr ro
nias fúnebres, em ver o que fariam antes e depois p i o i r do pro -
dos funerais, mas tinham muita dificuldade em lidar p rp o r or o orr r i -
de fato com o moribundo 38. o od ro do o di ogo o r p r p o
do o ro do i rio p ri d po r d d i r do
r i di o p o r or h g propor ig i o ior
o pr d r a própria relutância em enfrentar seus o or o d o o i d d d di d p -
conflitos, e porque usavam a Bíblia e se serviam da riog i o o g . Aprende-
presença dos parentes e das ordens médicas como mos que a morte em si não é um problema para o
desculpa ou racionalização para justificar seu não paciente, mas o medo de morrer que nasce do senti-
envolvimento 39. mento de desesperança, de desamparo e isolamento

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007


268
Quando a morte não tem mais poder: considerações sobre uma obra de Elisabeth Kübler-Ross

que a acompanha 1. or o o po d r ho do o p h . id do o o
p r odo o p - o p i r d p r r or ri h r o id -
r i i ii r o o o r d r id .
or i o p o d gr d i r i-

Referências

Artigos de atualização
1. r- o . o r or o orr r: o o do r i i p r i r
di o r ir r igio o o pr prio p r . 7a d. o o:
r o 199 . p. 27 .
2. r- o . p. i . p. 14.
3. . o do id d . io d iro: org h r di or 2009. p. 9.
4. . do ido. io d iro: org h r di or 2008. p. 8-9.
5. . p. i . 2008. p. 45.
. r- o . p. i . p. 28.
7. o . d d o i d d . o o: r o 2005. p. 287.
8. g . r d h i :o r i o h o o r . o
o: oi po 2008. p. 155- .
9. . p. i . p. 44.
10. i . i do o do po . o o: oi po 2012. p. 13.
11. r- o . p. i . p. 33-34.
12. r- o . p. i . p. 38.
13. r- o . p. i . p. 3 .
14. r- o . p. i . p. 39.
15. r- o . p. i . p. 259.
1 . r- o . p. i . p. 32.
17. r- o . p. i . p. 40.
18. r- o . p. i . p. 43.
19. r- o . p. i . p. 49.
20. r- o . p. i . p. 273.
21. r- o . p. i . p. 95.
22. i . p. i . p. 13.
23. r- o . p. i . p. 182-3.
24. r- o . p. i p. 273.
25. r- o . p. i . p. 275.
2 . r- o . p. i . p. 44.
27. r- o . p. i . p. 48.
28. r- o . p. i p. 14.
29. r- o . p. i . p. 277.
30. r- o . p. i p. 33
31. g . r o: o ho o i . i o : di 70 2012. p. 58.
32. g . p. i p. 58.
33. r- o . p. i . 174.
34. r- o . p. i . p. 175.
35. . p. i . p. 47.
3 . r- o . p. i . p. 30.
37. r- o . p. i . . 48
38. r- o . p. i . p. 2 4.
39. r- o . p. i . p. 25 .
40. g . p. i . p. 29. ido: 17.1.2014
41. r- o . p. i . p. 27 .
i do: 12.5.2014
pro do: 10.7.2014
Participação dos autores
dro i r ho o p o i r d o do r go. ro i org
o p o i r i o r do r go.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222007 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 261-9


269
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação:
aproximações possíveis
Ivone L. Santos 1 , Helena E. Shimizu 2 , Volnei Garrafa 3

Resumo
Artigos de atualização

xo i proxi o r io d i r o ord g ri propo dr


o d io d i r id d d r i p d gogi d i r o ori ip dor d -
o id p o d dor r i iro o r ir . p rp or io d por prop
r o x o d d ig d d o i o pro d o di o iopo o po d
io d r p . o ir d i r ig d pop r i opri i-
d o x d i r i od o d i do d ig d d d d do do
o i id d d id o i . or ro r r o-po o p rp d ori
o do o i po o id ri d d o o od i r o o ii o o
po i i i i o o o ri o o rr ri o- odo gi p or p i o
dig id d h o dir i o h o i r i.
Palavras-chave: io . i rd d . ir i o h o. i o. o o i .

Resumen
Bioética de intervención y pedagogia de la liberación: aproximaciones posibles
r o i proxi i d io d r i - o ri o prop o dr
o d io d i r id d d r i i - d gog d i r i or ip dor d r-
ro d por d dor r i o o r ir . p rp h ido io d por propo
r o x o d d ig d d o i o pro d o di io o iopo o io
d io d r p . o r d i r ig d po io r -
opri id o x id i r i d o d i do d ig d d d di do
do o id d d id i o i . r r r r o/po o p r do
or dio o r o id rid d o o h op r i r i
o ii i o p r i o o o o o o o h rr i ri odo gi
h por r p o dig id d h o d r ho h o i r .
Palabras-clave: io . i r d. r ho h o. . o o .

Abstract
Intervention Bioethics and Pedagogy for liberation: possible approaches
h x pproxi o r o io hi h or ppro h propo d i h
dr o d io h i ri o r i d h d gog or i r o ip or
h or hi h d op d h r ii d or o r ir . h p rp r dd o
h h h i d o i o i i i o x o itt d o h o io-po i di io i
h d o io hi d hi r p . h i g h i r ig d o r op-
pr d or x d d p op h hi d i r d d o i gi i d d o g or d
i h tt r i o i d o i . h high igh g h hi /po i h r r hi h i r
o h h ori h d o d h h poi o o id ri o ii o di r o oo h
h ir oi h or - hodo ogi oo i h gh or h r p o h h i g dig-
i d o h i r h righ .
Key words: io hi . i r . righ . hi g. o o .

1. Doutoranda r o g o o. o 2. Pós-doutora hi i . r 3. Pós-doutor g rr o i g i. o i r id d d


r i r i / r i.

Correspondência
o . o dr od io d ix o 04451 0904-9 0. r i / r i.

r oh r o i od i r .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


270
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

ho o og o d Declaração Universal sobre d ori o o rr p o


Bioética e Direitos Humanos d rg i - r p i o p r id d dig id d o dir i o h -
od id p r d o i i o i r i o o pri or o
r o 2005 1 p io ig i - d id d i d d o r i .
o opo d io . d o -
i r d i p i o o orpo d -
car ter crítico e solid rio da bioética de in

Artigos de atualização
r o d di r o pri pio p r i r
rri rio i r r di ip i r do o h i o tervenção
r d ro i i o pr r i
dir io do r io di io o gi 2. r h d d d o o 1990 p o -
r do r r o h i o o od do i io
i r io p rd g p i d r i- p r r d 2004 dr o d io d
r or o. r - d do o i r id d d r i o i r io
or o o i or o h o h id p r r do x o o gr o di d
or d i o r do po i p r io r io r i do 2002 r i 10. do
o oi r o o do d ori - ido di g ido o o d o r i
r o do o r o d gi d r r o i do o o d o r do d
3
po . or i i p r rd i op r -
o r rid r o o r io i- r do p do h i rio i i i
d io - po i i id d d o r ir io i di r ... d io r di io o r -
r p r o r o pro d o o o gr o d d ig d d i i id -
p o i r g i o r i o i i i- d o i i pr o do o por o: ...
i do rg do i prod o. as riquezas sociais permanecem nas mãos de pou-
p r rd o o dro p r p d cos, continua crescente a depredação do meio am-
io p o g r r o o o h i - biente e as maiorias populacionais seguem distantes
o i do por o i d odo dos benefícios do desenvolvimento 11.
i p h do d d hor id d d di r d io r di io
id p r o i do . o do d r g r o o pro i o d o ri ir p r d -
io id po do d r di d dro. o po i r di r o
i i i id d ord g ri o r d - pr o o d o r od -
dr o d io d i r id d d r i p o p i o o i di r
4-
io d i r o do i pro o d p d ig d d o i
p r o r ori id i d o id o o xr po r od pr go o
p o p d gogo r i iro o r ir i p r o o pr ri o o po d o-
i o do pr do or gr p d o i id d r d d o . id i -
d o i o d p d gogi d i r o -9 . i r di po i i id d d o -
p rp i r po i o r- r o o d o i d d i ig -
g i r ori o o do i ri p d p o i o d r
por do r r o r o oop o o id ri o di ri i ri do i g -
d r ir -9 o ri ir p r hor o pr - r r o di i dig d o r i i
o do pr i o i o d o i p - do o d p o h g r do o
h d d o p r o pro dir i o id d d id 10.
r id d do d p r do o opri i- o r r i i id d or -
do o i i . or o ro d di ro o p r- i i i di i o r ir
r d r ir io o o pi d ri h d id d p o i po r 12 d -
po i i id d d r do i i po o d i p r o or p i o o o
p o o h i o io di o io o gi o p d r po d r id d d oi
i do p p d pro go i o r od o p do o dir i o d i do ior -
do i ig i rio po propor io r ro d p o p o ior po po r -
i dig id d p r o r h o i hor o i 13. do
o di d i i i id d o dir i o p r id d o po o d p r d p r o -
i r . pr r - d i r r o d o i d d ig i ri 14 d o r i-
po i i id d d i o o do pr i o r did or or o h i o d di-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80


271
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

r po i i i p o did oo p r i o or do o-
18
d ordo o o xo r i id d . i po i .
do i o or i o d propo d o i visão macro
i dig o r d ig d d o da bioética, ampliada e comprometida com o social,
p po r do o o o o d - mais crítica, politizada e interventiva, com o objetivo
o i or d o p r o de diminuir as disparidades constatadas 19. or
Artigos de atualização

pro pr di o - i r 15 d ori h g i d io d o i d pri i-


pop p i do r i d i p - pi i o h po o or o o pr id -
o- ri o . o do do d i p r i od pi o d ri rio
d r o p r i ord p i i r o pro io -p -
i rg d orr do r pido d - i o or r x o r
o i o io o i o do o o i i o o o
o o ogi r prod g i r - p r ip o do do d i o d priorid d r -
p d rg o ido d p i - io d o pi o g od r r o
i p ri dir i - d d o g r d or d o r -
5
d o di r r i org i r .
o i d d h d d g id d o o propo d o g r - r
x o o i i ri di r or d p r p r o pro o i i o po -
di ri i o o or o i .5. o r do p io r di io . i o o -
propo d i pi r i r d r o r r p r i d pi o do ro
io pott ri i i do r x pri pio p r g r r o r p i o o dir i o -
o d o o i d d o o: dir i- d i d pop i po r proxi -
o h o id d i p r ip o i i id d - d io go d ott r o p rp
o i i o i r po ii op i d d o r- p r rd i o o gi
d o id ri d d pod r o ip - o di p rd r d i id d d pro-
o . o r p r r - d or- o r i r o pro od ri
d g i do o i o or i o - r - d io i r r or
di o o r gi r r pro io- o d o i i d o p r o pro-
i d d p i o r i g dor o r o i io
io d p i h do op r po h ii d p r ri po r
r id d d o d iori d pop o ig d d d d odo
g do por o di i d o r i- r d io i 20.
i o d o pod r r d o o r do o p ro d d d pr do i-
o d r d id i 4 5 . i do od o pri ipi i rg o o
o i o pro r pr r r i o o id - d orr d o io o- ri o -
d o do p p ri ri o o do g o i do r do por i por d o
pr o o r r - p r o pro p ri o p
algumas bioéticas despolitizadas, horizontais, d o i o 21. p r p d ori
distantes da realidade, deliberadamente neutras e d pri pio i i p r : a) análises
assépticas 1 o h r o o ho p r r - contextualizadas de conflitos que exijam uma certa
id d o ri p r o do status flexibilidade para uma determinada adequação cul-
quo xi o do i r x i o tural; b) enfrentamento de macroproblemas bioéticos
d id d o id do p r i id persistentes vivenciados diariamente pela maioria da
i ii d por o ori d p rp o população dos países latino-americanos, com níveis
o ro do o pr prio ri rio o altamente significativos de exclusão 22 o i-
or i i p ri i go i 1
. iod o - o prop d r po i d d p r
ro odo h op r id d o pro o io rir od ord -
d r r o od d i po o p rp o i po .
do p p ri ri o o d p o d - o o o o pri ip o ropro -
i o o i o g r do p g o i o d or- dir r io do o o io -
d d i r d r do i po o p ri o pr di pop
por d r i r pop po r do p p ri ri o o do r g o i do
o po r di ri i o o i - rg d r o odo p r pr h r

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


272
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

d ix d p i i o r do check list pri i- ri do o gr po r di io i d o rio


pi i did o pri ipi i o o o o do di rod ii i pr po
ori pr o propor io d id o g r dor d o ii o o i -
d o di r r id d r i o i i p o o i o d pro o do o ro o
o i do p po r d p r do p - pr rio 1 .
. p r rd d o pi o gi - pro o d i do p o o ri do org -

Artigos de atualização
h g i d d o x do d i o od o ido p r r d pr ii
g d i r io d io o i gr r o id ri r o r r or dor d
di o i o di i do r id d o i . r o gr po d o rio
o po o i orpor do do p i - org i o d o po d
p i por io i o- ri o . - do dir i o h o d o ii op r
gori io i o id pr d po p rd r d i id d
g d o o r po i id d o id ri d d d pr i di gi o i
o pro i o p r ip o o r p r - o pro d . d odo r or
r p r do o x o d io p rp d r o o o id ri d d r h
o o id o d io o pro d o o o o o id i dor h d
i r g i priori o i r o o o i i o o id rio 1 .
d ri od io po i p r r
p r do pri pio d -
pr o p i i o o i rio i
r io d id d d id po-
p rio 5.
o pod r r d d or
d r rid pr o p - odo o g r do do i d p d do
o o d o id ri d d por - o xo i o orr . i -
d r r - d o i por d o- do pro i d p p ri ri o
ii o o i . do i d or i gr o d ig d d po r
d o ri h d o id ri d d io i o pod r r d o
23-25
r o o rr o d d poio r gi rr d p o p -
o r od o i p r id h - r i 5. i pr p p po o o id rio
o po do. o id ri d d r p io did or i p r p o o -
prop o ri ir o r od r or di o d pop i d r do p r o
po o- o i i o r o r or d i ri o i i i i
o ri do org i o o do gr i o d o i i i d p o d ig or i d
p r ori do rid d pr o p do - o id d p i di r o g ir
i o o outro 25. propo por d o ro 2 .
r r di io d o p o
o r d gr po org i do deve constituir-se
em uma instância social com identidade própria, re- ética niversal na pedagogia da libertação
ferencial teórico específico e espaços de ações e inter-
venções que privilegiem radicalmente o respeito ao i r do r h o rr -
pluralismo moral e a construção de transformações ri d propo por o r ir 8 pr
sociais includentes 2 . odo o ri o p i o r
i h d i orpor p i r o d gogi do pri ido d 19 0 o g r - o o
r do ior ro po d i di d o di r o org i o i dig do o i
gr po o pro o d o d d d i o pro - d i p rp r id d d pop -
do d odo g do or r di io i d po r o i d or id o do.
d idir po i . do po d o ri - do o o opri ido o -
do propo o p o dir o pro i - r o i i d i - i i po p r -
d o propo d i r o rpi o- id d x d r o esperança e denodo 28
d p r di i i po o i do gr - o r i i do p r
po i i . d o d i pir o p o i d o o i i r o.
o id ri d d r i d g do r ir o di o d h o do
r i r p rp id o i d o i di d o d p id d o-po p r i r-
p o o pr d propo d r or o ir o do d r -o d r i -o
p r r o do o i od i r do o - d i . h o o i r do iné-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80


273
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

dito viável o o d i - r h o i r i i r od p o
do r o po i i id d d r o o d r - o ig i o i d i rd d p r o
or o por o g i po por i opri ido g r do- h o di d h i r-
h id d . o i o o or r r - d o r opri dig-
h id d por r id d hor id d p rdid po i d opr or .
p r odo p o o i p did r r ir oh h i ri io
Artigos de atualização

d d o r p pri or do do po o d i h o opri :
p id d o po i id d 29 do o d o i p dir o o ro i o opr or
oh p op r xp or o di ri i o oo po i od r o 89
io i -9. o di o i d o i rd d .
id i - r r or i d i o o -
o id rio o do p r id d d r p r r do o rg do i pi i -
28
i do do g r do odo o h o o ri o d ido o
i d p d d or io id d xo . o po i h o ro do or
dir i o d ser mais 9. r iri condena a explo- d or di r o ro p r
ração da força de trabalho ... iludir o incauto, golpear di or o d o oh p r r i. d -
o fraco e indefeso, soterrar o sonho e a utopia ... ética i o d ir o po hi ri
8
que se sabe afrontada na manifestação discrimina- i o o hi ri . d d r ir
tória de raça, de gênero, de classe 30 por o do d o id ri p p r -
r r i o d io i ro o od i -i i i p o
dir i o h o d i dig id d h - h i o o po o ro
. r o propo por r ir o r i di id o o o do or
d d gr i . p r do or a liberda- d r o do 28.
de não se recebe de presente, é bem que se enriquece o d d r o id ri d d r ir op
na luta por ele, na busca permanente ... 31. r di o pi i o i do o -
r o pr di do p gi pi i - r i po o r - o id ri
r d r i di id o p r d por p r r gi r pro o
odi r i o di d p r gr opr or do o i ri o do 8 9. i o or g
r do i d i or id p o i di id i o o p id d x r d d
pr i d id o ogi do i d go i o. gi pi i d i o - r prod ido
r ir pr o p do o i d p d r do i
r i r o po i i id d d di r o ho- o id ri d d o o r gi d d orr -
og o p r i ho h r i do i o o pro i o hi ri o d o o
po i i id d d d i rd d r o opri ido rp r p r r i o i i
r o do tecnologizado: o discurso da globa- pro o do o idi do i r do i-
lização que fala da ética ... procura disfarçar que r do r h o89. r r r p o o
ela (ética de mercado) vem robustecendo a riqueza o id ri d d r ir prop pro o
de uns poucos e verticalizando a pobreza e a miséria p d g gi o d o i r dor o do p r
de milhões 32. r ir o r i d gi- o r od i or pr xi
di d p o pi i o g o i i d o r p r ip h o o pr -
dir i o d r o pro i o od r po o d od o i od o o i
p i r o d od o di hi ri d do d do .
g o do dir i o do esfarrapados do mundo 33 . o o i p rp d r ir oi -
r r o pri iro p o p r - pr o id r d o o o r po o d p d i
d i r o p o d o d r odo o opri ido o do .
r id d r o do o i i d r o o p r o or r o di o hi ri-
o di o o r o do. o d d d ir d p d i d ri d d pr pri
o i i or o po o d p r d o i d or do- i r p r p r r rr ir
i . d o opri ido p r r i p d xi i d odo
do o h i o do i i i po o p opr - o o ro o ro o ro od o
o op r i i i i i po h do o i i do d i 34. do
o o go i i po d r odi do i o o i p o i di id dir -
-9
p rp r iri d or g d o- r io d o o o i o i -

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


274
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

d o id ri d d id o id d o pr xi or od o i od o -
ig i o o po d h o ii r p r od o ii i g
orr po p o o i do o ro ninguém po i i i odo i r r do do
é sujeito da autonomia de ninguém 35. o o i o d i d r id d opr i o
d ordo o o i r do d i or o h i od id d d
pro o o od o i o. por r or o.

Artigos de atualização
o ho o o di d p r- i pr i d r ir i r r d
ip r d id o i d d r or- r id d o o do o o r d 3 o -
do- do i g r rio o or por id d : do d i o do
d do o r o di ri p r p io i o d p o o i o p
d r o do r o r d i d d r o o p r o o o o d
p r prir id d d do pro g i- i -i i o i o o rr ir i r -
o o r d d h i- po i p r di d io o o
d d . do r ir prop d o po o. r r ir 8 por io d d -
pro dor 9 o r g r o r po i i id d d d i d
rio id d do d do po i i i do o o do io o io do io d p r i-
o d o r o d r id d o do-o po o r o o d do
p r ip r o r o do pr prio i o o id rio o d od p o h
o h i o. r ir g do d o ri opor id d d r i g do o p
r i po d o o ro odo o r h o r po i id d o-
d r o o d do pro - -po d r o r di id d p r or r
go i d do- i o o d i do d o i d d o p r r i x d .
or p r r i r r pr prio pro - r or r r id d do- id d
od o i o i r o3 . d odo dir i o d r d r -
r ho i do o i o - do rio i di id o .
o r ir o h id o r d i r o: o ro r o d opri i-
id d d g o i o d x o di - do d o d r id d opr or o pr d
orr o r ori do p d gogo r i iro r - po i i id d d d or - rio o
do p r r ir o po o d p r d do pro o g o o o d i o o o pro-
d o i o p d o d ir o d do i o d odi r o o x o d or i o
o i i r p r od d o i od po i id d nas pala-
i - i i po p r id d - vras de Freire há uma responsabilidade ética, social,
o r . p rp o d do opri i- de nós todos no sentido de tornar a nossa sociedade
do po p r r o i i i g pro d menos má 38. r d p r r ir
o i i r r do i io pro d do i o i o id rio i h o o
pro i d r id d do do i o d r r do o o pro o rd h do
pro d d i o. o r p r o opri ido i do or - rio
d i i . opri ido o o h i rd d o pr prio opri ido p o di d
o d i di o pr p r do p r r - id o r propo op r
poi o d o i i o r do d d o i o rp d o .
or do opr or. r xp r o r d opr - p rp o o d do d rr i r o
o pr i r d d do o ro i o o d pi d d o rid d d do r r -
pro od o i o o ri d do o o io p d o o i o di-
i r o3 . d r g r i r do i o o
o r h o o o r opr or o do d od r d r i-
or i o pr i o i por i d o h - o o i p d r i 9.
id or o r o or o hi ri o
op r . r id d o r odi d
i logo entre a bioética de intervenção e a pe
do o opri ido d r o d d
po i d po i i id d d p r ip o dagogia da libertação
8
. i por i p r r ir
d p d gogi rd d ir i r dor p o i proxi d
pro r id d h o o propo ori o g r o o pro o -

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80


275
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

o-po o o r do d d pop p r do p i o r id d do po o
r gi i d p i i od do h i rio .
d p ro o p o gr o d d ig - po o r d pr di o o
d d i i id d g o i o o r r po o pr d ori i -
p i do do or r r d d d r i do r oi -
i di p op i . o x o o o- di o i o . r ir or o h
Artigos de atualização

3
i o o x o po o d io p i do d di do i ro p i io r
2005 i orporo d o - o r or p o o or d id
gori i r o d ii r o d pro- d i o di io d dig id d h . i
xi o o id i d r ir id d . - d pri ir o r r i
xo io pio ir i rod id o h id d gogi do opri ido r ir d r
r r iri i i i do proxi o o pro i o o o esfarrapados do mundo e
pro d i rpr o d o p r o aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se,
p ri pro h o pr di com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam 40.
id d gr d p r d pop r i :o odo o or i do x-
x do p d r do 3 . do d do d r o o
g do d i o do p - o op r d odo o -
o d r ir io pod o ri ir p r g i dig r o i d d d
d r di d o- do o ido p gi do o o o d o
r do did d i o o i do r o r p o r o d o p id d x -
o r od i i rio i d do r d por orro p r r h
i. d do ri r i d i do- d o o hi ri p r amo-
p i o or i o r o d r id d rosidade”, g ro id d o id ri d d .
o i i i o id ri o i id d d id o i orporo o di r-
p r pop x d 3. por o r - o pr do p o i i por d
r p ori do r i i id d propo po d r ir : o pr od
o io o i o or i p ho h r o i o hi ri o orp r -
id d o p r d p o p i o o r p r o -
p d o i o. r o p d o o r o por r o r o od
o o x do do i prod o o oh rd d o r o
i di d o o p dr d o r i i o h i o o o prod o h
o d ri rio i o do d hi ri o p r do d d id i r r o-
por id d d id h r x op r o h r o r r hi ri o do r ig i o r
d p r ii i p r . o i i d o o prod o o i o-
p rp d o ro r o or- ido p o di i o d práxis o/r x o d
ro o r o id d o pi r o o rio id d d ri id d r do pro o
d o id d d p r i o d o i o d o o go d xi i
o i d d r i r do i por i do o p r - h .
h o o id rio pro d d o xp d r ir o o r o i-
p i o p r o pro d i r i d r id d ho h r i do
comum 3. r p i p r rd - r d p r 8
pod do d odo
io pode lutar pelo empoderamento, pela r o o pr prio o ho d o r por i -
libertação e pela emancipação dos condenados da o p id d d pro r id p r
terra 39. o i p r p r r d r ir o d i r -
i xp i i id d id d i di id i o . o d
d g op or o h i od i d o i i g id por pro od o -
p o i o r d o o i d ho i o p r d p r o
h r o o x o do do o por o. pod r r pro od d
o o pi d o i o pro- r i od o o r opi -
d r or rri ori id d po d io- do p r r g ido ri pod do o
do io r di io o o p r rd o r do por pro-
o d x i p r o o i o io di- po o p o o do o o x o di r o
o o pro r- o r id d do d - d r id d i o o po

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


276
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

d i p r por do rio da ética 43 i r do r h o


pro do do pro o r o i ido p o h o o d do dir i o d i
di r o i o 5. d odo o r h o o o pro-
i p i d r i o o id rio d rp or g d dig id d
o od o o o i r h o o r od do
i i o r d ori do pri pio 5 - o i i o i i o ig i rio.

Artigos de atualização
o h id o o pri ipi i o. d d r r ir r o o r
o o r ir o xi o pro h o p i id d i o o
pr - ri d d r i d p r o pro xi o i od or o r or o r
d do d ri o d práxis d r r r p r i d r ro-
o i i . r i di p o p - r o oh p r od p r o o r -
do h i rio o oh r pro - di rio p r pr xi 9. or op r -
o o pr prio o ho o p r rd oh r ro r ri i d io pri ipi i
h io o o d d i - o r id d do i r g i
d o r di pro p rp - r o di d o id r d
do p r r d pr prio r ro 5. di io o o p r i r po -
do ri i i d o - i id d d pro r p r i r r d
id r o o do r h o o o pr - o h i o or do- i d d di r-
orp r o i o do o io d id d o p xid d do pro ig
o di ogo p r ip o r po i id d - p i pop po r d banda Sul
r dor i 41
. o po r r- do do.
o o r d o p r o i i o i o r ir i orpor
pro io o ig propo o di r o gori o po o o h i-
o d d r ir -9 pro r r d io o o o i o o id ri d d
r id d p o o i di - o pro i o . p rp d p i r po i -
r d o pro i o p r r d r ro po d od o h i o di i -
pro i por d o d ido ro d o r do- do r r p r i p ri o ro
r id d d . i po o p o h do pri ipi i o 44. id i -
d r ir o o ord i por i d r r p r o r
p r o p do o o i i d d o r ir . h i o propo o p
pr pri r id d d rh o odo d do or do x do o i i i o
o p r i r d o r ir o o ro do pr i o or i .
o i d d di r do do d i o p r r do p o d r ir
h o id d o o o pro go i d hi - i - r or d p i-
ri r - d o i d d di po d - r o do opri ido opri ido p i
oo i r1 or r orr pr di opri ido p i ri p o p d
d o i o or o od i r - do do o do pod r. di o o p r r ir
r ho d r do o pr prio odo d o op r i r o o r r do d
id 41 o o o o di r d o 42 o i d d i di id i d r o
oi r do o pro i o r do o o o o o ro o o o i d o id ri d d
opr or i i r r r r- p r o o r i do o pro i o r
o pro do- r or d p or g d dig id d . r - d o id -
p o do rg o o i dor . ri r o o o rg o o do
r o p do d oo i - o o d r i o i i o o d
r o i pr i d r o h r o o h i- d o g r . r do o pro i -
o d ido r r xigir pr o irr og o odo o or o di ri-
d o do i propri do o - i o g o p r o po
o r o h ido i d id r d g r o r od do o i
id d d ir po i o r i o.
i i ri . rd d ... se realmen- r ir r o id ri d d i i -
te queremos superar os desequilíbrios entre Norte i pr d por por o r di r
e Sul, entre poder e fragilidade, entre economias p id d do x do por p g d
fortes e economias fracas, não podemos prescindir or i p r i o o ri i -

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80


277
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

do d o r or
o d r id d o o pro i o o i rd d gr g do o
opr or o opri ido
i rido. r p i op rid d o d o d r g r pri -
id i o o o o i o pio g r dig id d h i dig-
i rr 45 o or po do i d - o o r i id d d
o r id i d solidariedade crítica p o i .
o o ixo or dor p r ip o d o r d d r ir p r h d id i
Artigos de atualização

p o o i d d r d d p d - d d o d or i
i o i r i r io o r d i r o o do. ori o
p r r o o r rio o id ri d d r o po r d o p r di po o -
o o d o r r o o ro rr o r ri ir p r ho h r o o orpo
p r po o pr prio or o ir d i- o i pr pri hi ri d -
od r i id d o r . o pr prio d o o d ix do d r-
o d r ir o o r - i r por o h r i r h io . o
di o r od do hor d o o o pro o pro dor o id -
p rp p r po o i r - rio or po i p r o i i r poi o-
g i o pr io do p i p - r o d d o i i op od o-
d d d r do p r o r o i od o i i r o i
d o i d d di r o i d d p - do o pro o i di id o o p d
d o id ri d d 4 . o id ri d d pod o d ir o opri ido o i d
r o r d o op r d pro o d o o di d d o pro o d h -
o i po i o pro do pr i o i r o.
od o i o d di po i do x r io o o propo po
o o d p r ip o do di ogo d d o r - o odo o ho h r i r ir
i ri r r r po i i- r id d i do por do p -
d d g od d g ro id d do do o pro i o d o id ri d d .
o oro id d o igo o o o o ro 4 . o r o d o r d r o id d
r x i i i i d . o pro -
d o o do i di r po i i id d d
onsiderações nais pi o o d i r d did por
r ir o pri pio r h do p p -
o o d o o i o i pr 48
– como
d d o i i pr do p r rr i o p id d i
d r ir o pro i o ro d do p o r p i o o dir i o d od p o
o d do d rr . o pod ri r di r . gr po d o r r id o dig id d
p d gogi po d r ir p r h do o o i i rd d .

Trabalho desenvolvido durante o curso de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Faculda-


de de Ciências da Saúde/Cátedra Unesco de Bioética, Universidade de Brasília , Brasília, Distrito Federal,
Brasil.

e er ncias

1. rg i od id p r d o i i r . r o i r o r
io dir i o h o. r . ri : o 2005 o 10 r. 2014 . i po :
http:// do . o.org/i g /0014/0014 1/14 180por.pd
2. rr . o o o i o d io . : rr otto d org i dor .
o i i d io : o o- ri o. o o: i 200 . p. 9-1 .
3. rr . o o i o o x o po o d io . r i ir io . 2005 1 2 :122-
132.
4. rr or o . r o io hi : propo or p riph r o ri i o x o
po r d i . io hi . 2003 1 5- :399-41 .
5. rr . io d pri pio io i r . io . 2005 13 1 :125-34.
. or o rr . io d i r o: o id r o r o o i d r do.
io . 2005 13 1 :111-23.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


278
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

. r ir . d gogi do opri ido. io d iro: rr 2005.


8. r ir . d gogi d p r : r o ro o p d gogi do opri ido. io d iro:
rr 2009.
9. r ir . d gogi d o o i : r rio pr d . o o: rr
2010. o o i r .
10. rr . p i o po i o do o i o i r io d io . . io . pr. .
2012 20 1 :9-20.
11. rr . p. i . 2012. p. 11.

Artigos de atualização
12. rr o . io o o . : rr o org i dor .
io o o . r i : 2000. p. 13-23.
13. or . x o io o r priori o o r io od id do d d : r
id d o i id d . d. d i . 2008 24 3 : 9 01.
14. rr or o . io pod r i : por d i r o. : rr i i
org i dor . io : pod r i . o o: o o / ro i r i rio o i o/
2003. p. 35-44.
15. op . do d r o o ii di : od o di o d
o h . h g r ri . 2001 33 2 :2 1-2 .
1 . rr or o . p. i . 2003. p. 402.
1 . i o rr . or id o o o i d : di ogo r io d i r o
o o i id d . d o . 2011 20 2 :28 -99.
18. ro . io i g i dp i d d p rp o i . d
i . 200 33 1 :1-10.
19. rr . p. i . 2005. p. 12 .
20. d r . io d r i . : orr oordi dor. io o i d d
o ri io o i d d o ri . go d hi : d i r ri
i i id 2012. p. 1- 5.
21. orr . io i io o i o ri . : orr oordi dor. io
o i d d o ri . go d hi : d i r ri i i id 2012. p.
5- .
22. rr . p. i . 2005. p. 130.
23. i rr . io o id ri d d r o ri do org i o. d i .
2005 39 3 :4 3-8.
24. i rr . o id ri d d r o ri do org i o: o r po i i id d d i r o
o i ri . i i d g i ho . 200 13 2 :239-51.
25. i rr g . i rio do r ho o rio: i r p r r d io .
d i . 2008 42 :1085-9.
2 . i rr . p. i . 2005. p. 4 .
2 . hr . io d pro o: rr id p r r r pro or i r d
go i o. . io . pr. . 2008 1 1 :11-23.
28. r ir . d gogi d i dig o: r p d g gi o ro ri o . o o: 2000.
p. 134.
29. r ir . d gogi d o r i . o o: 2004.
30. r ir . p. i . 2010. p. 1 .
31. r ir . p. i . 2000. p. 132.
32. r ir . p. i . 2010. p. 128.
33. r ir . p. i . 2005. p. 23.
34. h do . o o i . : r di i o i org i dor . i io rio o
r ir . o ori o : 2008. p. 5 -9.
35. r ir . p. i . 2010. p. 10 .
3 . . d i r o: id d d g o i o d x o. 4 d. r po i : o
2012.
3 . r d . o r io i . : r r d or. io d iro: i i i o r i ir 2009.
38. r ir . p. i . 2004. p. 130.
39. rr . p. i . 2005. p. 131.
40. r ir . p. i . 2005. p. 23.
41. r ir . d o o o pr d i rd d . 14a d. io d iro: rr 2011.
42. o . o d do d rr . : o h g h r d or . i d or :
2005.
43. r ir . p. i . 2000. p. 130.
44. or o . io d i r o: r ro p d opi . : rr or o r
r o org i dor . io pod r i : 10 o d poi . r i : / dr
o d io / 2012. p. 109-2 .
45. i rr . o id ri d d r o ri do org i o. : g rr
org i dor . o id ri d d r id do: r x io . o o: o o / o io
2011. p. 13 -21.
4 . g i . d gogi d i r i . : di dir or. i io rio o ri o d
io . ogo : i r id d io d o o i / d io o 2008. p. 11-2.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80


279
Bioética de intervenção e pedagogia da libertação: aproximações possíveis

4 . r ir . d gogi do o pro i o: ri d o pop r. d i : i d


r 2008. o o i r r .
48. o rr . i d r o i r o r io ir i o h o d o
d d o r ir . i d io / . 2011 1 3 :130-135
ido: 22.4.2014
articipação dos a tores
o . o p r ipo d org i o d o i o do do di o o i iogr i do: 19.5.2014
r d o do r go. . hi i o o oori dor p r ipo d org i o
Artigos de atualização

pro do: 11. .2014


odo gi do do. o i rr o o ori dor d p i oi o r po por
p o p r ipo od do r ho.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 270-80 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222008


280
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com
lesão encefálica grave
Henrique de Alencar Gomes 1, Mônica Adelaide Almeida 2, Terezinha Valéria Ferreira Matoso 3, Maria Angélica Assunção Viana 4,
Maria Bernadete Cardoso Rezende 5, Maíza Ângela Ferreira Bento , Tatiane Santos Fonseca Guimarães , Sabrina Vilane de Oliveira Alcântara 8,
Ary Demétrio Júnior 9, Ana Paula Gomes Costa Silva 10, Cibele Renata de Paula Moreira 11, Daniela Simplício Vieira Albergaria 12,
Marília Káthya Coutinho 13, Marli Medeiros 14, Roseli Melo Silva de Souza 15, Polianna Cristina Pires Dumont 1

Artigos de atualização
Resumo
di r p i od o d d i i od or o r p o o r id d
d r pi i i p i id d di o o gi o i por o x o ho pi-
r d i r od o g p r i p r d gr d r gr o i d
id do pro o g do d d r i r o o i . pr i o d d d i op r o -
p x d o r o i di d o i ip pro io . o od r go di orr r
r p iod o o r g pro od d od did por gr g o o d
or r do p o p do por i i o do id do p i o .
Palavras-chave: ir i o orr r. io . id do p i o . o d d d i . r o i o
r i o. do g op r i .

Resumen
La limitación del esfuerzo terapéutico en persona con lesión cerebral grave
di io r d o d d i i i d ro r p o o o i-
d d d id do i i o o o og i o i por ho pi d rg i p r
p ro d r o gr io r i r i d d rgo p o
r i gr i o i . pr i o d d i io p r o p d ord r
i di id o ii ipo pro io . prop i o d r o di r o r o o
pro o i gr d d i d did di gr g i o d or r do
p ro r do por i i i d o id do p i o .
Palabras-clave: r ho orir. io . id do p i o . o d d i io . r o i o
r i o. do g op r i .

Abstract
Limitation of therapeutic effort in person with severe brain injury
i io o h i i o o h r p or r o o i i i r i d o o og d
r o i por i o g ho pi or i o or r d i ri h r ir o g- r h -
h r d o i r i gr o . i i pr h d i io i g or i i o o h r p or
i o p x d ori d ho d i o h i di id h i d h di ip i r .
h p rpo o hi r i o di o i i o o h r p or o pr h i pro o
d o r or o ggr g o o p r o - r d or r d i i o
o p i r .
Key words: igh o di . io hi . i r . i io i g. r i r hro i . ri g
.

1. Doutorando h ri .go ig. g.go . r 2. Especialista h . id r ig. g.go . r 3. Especialista rr . o .


r 4. Especialista ri g i .1 oi. o . r 5. Especialista d r d g i . o 6. Graduada i g g i . o 7.
Graduada .o o hoo. o . r 8. Graduada ri o o hoo. o . r 9. Especialista r d rio g i . o 10. Graduada
p g hoo. o . r 11. Graduada h . id r ig. g.go . r 12. Graduada d i . rg ri ig. g.go . r 13.
Especialista h . o ho ig. g.go . r 14. Graduada ri d ho i . o 15. Técnica h . id r ig. g.go . r
16. Graduada po i ri hoo. o . r d o o pi r do do d i r i r / r i.

Correspondência
ri d r o r i o o o 558/301 p d 30280-080. o ori o / r i.

r oh r o i od i r .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9


281
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

progr i o d o i o o gi o d d i od o o pro od gr g o o -
do o d did d por id d or r do p o do
po i i i do o o ro d o r i r pi r r x o p rp
d gr d r id d d r pi i - or i .
12
i . o o r - r -
d d d p i d i r od o g
de uação de medidas
Artigos de atualização

p r i por ro gi gr o-
d p d id d d id
di ri . o o do p i o oo or - - p i o di-
po i o p - o o i i r po i o . o i gr irr r o r i pod
i d dig id d h o orr r o rd id o o o d di r ri
di o g i o o r po i i i o od ro r ro r p -
2
d o od r ro o d do r o o . or o i o r d orr r
r pr do o p i pro od d io proxi - d d i o h do po o d
i o io o p xid d p r id - i do o do id do o o ri o do
r i i r p o do pri ip p i ii r o pro od orr r
d o i gr i d di g i do- d di i i i
o o o r i i od or o r p o h i od r pro o g r o orr r o
. di r p iod o d d d r r pro o r r p
24
o r p i id d di . p r d di o ri d d i o
o o gi . x o r o pro od o d i i o i i pr i p i
d d i o o ri o - d o g p r i ho pi r o o -
x o ho pi r d i r od o g p r - i gr pod por o r o do -
i p r o ro gi o . x p i do do o id r o p o i r d -
ip pro io pod d p r r o i ip pro io . i o d d
rio o p i d io i o o p rd d i o i o o pi oo p o
d o o i por o ro gi gr h - d did r p p r i o xig
o o i p i o gi o i r x o o r r o r prog -
d r r d do pr o o o o d id d id d d id r d r
o id od ii r . odo o p r odo d i r o.
xpr o i i o d or o r p - p rp h i d d i d d o-
o ido o d por g or 3. o p i i do r or d
rr ro o or dor por x p o r r id d r r - o di od o o-
i i o o r ri g r p d o r o o pr d i r op i o
r g do pro di o di g o. o o o i d -
d o id r o xpr o pod r r ir o r po d g r do io d
o o o g d i i od or o d i o d o or o d d o di g -
pro io o ip o id i d r i o o d do id 5 . r r -
do or o . or r or d po i i id d o i o ho pi r pr o i - o
r p pod r r o d r o o i d d d i o p do
ir i p r dox i i- p i r o ho pi r d do- op -
o id do p i o po o d or r io o por p i o gi o o ii r 5 . -
x i o. i rr ro o or dor 2012 odo pod ri r did o o
propo o xpr o adequação de medidas o pro o d o r po i o do od o r o p o
3
di p r . p i o r do o id do p i o i di id i -
do o d xpr o r go r - do h i do o o r p ri i -
propo d r r od or o d o x i . o d p r o o
h o i i p o o o - propo p o i d d p o d di i
i gr r i id d o o. or o o i pod r did o o
o o pri ip di orr r r p iod o d i di dor d id d d i i .

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009


282
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

como processo de tomada de decisão por xogr p r ido propo o


agregação consensual de fatores centrado na i r r ig r 1 2 9. i d r -
pessoa pr gr d p r i d r -
g po o i por . p o i r -
pr g ip di ip i r o
Elementos fundamentais do processo de tomada o d i i r o pr i
de decisão de AM

Artigos de atualização
r o do o o p r p r ip do pro o
go r o r i o por io do o d i rio. o o i d p o pr r i
h d di r h o i pr o i o o o d d d i o o d i r pr
d p r p o oi d p i d g do pi pri ip or dor do
r r o o i o or r p o i pro o od p r p o g .
ii r piri i o o x o o io o io
d i o o d o -
do i di d o 8. r o i i d o r rir
p r h d p r r d o o r
p o o od xpr o r po i p -
di do i o o p r
o o i i r po i o do
d do o i r o d : pr -
g o por prop i o o o i i r
8 i o do di g o po i i id d d o
xpr o po i p or . o or i-
d r pi di po i o go o do io
d d r go prop o o d p r p o
r p o pro i id d d r d p r -
xpr o r po i p - o o i i -
d id p r o gio o o
r po i r x o r .
o r p o o o prog od
o d d d i o p r d por - id do ior d o d di i -
id d do o ido . rr ro o or dor do- o id r o id d d id pr i
d o p xid d d or - r id d d rior o og i o
r ri rio r io i pod r ir d rg - o 3 9. r i o d r r p i do o po
o p r o d d d i o por o i i- d p o d ii r o o r
por o p o i r do pro o 3. ori o pr o do pro o d r o d
o or dor d d r o id - g r ro id do p i o o poio d
r do ri rio o o o po do r o p r ip o . di o od
pro od o d d d i o r r d i o pod rr i d r
i di id 2. o o .

igura xogr p r o d d d i od propo o por ori o or dor 2011

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9


283
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

igura xogr p r o d d d i od propo o por r g r 2008


Artigos de atualização

Princípios éticos fundamentais para o processo de p o r o o i di -


tomada de decisão de AM do o pi o d oo r po
io ori - i por ro d o. pro io o pro i r
pri pio : o o i i o - i r o d o pr i i 2 10. ir g r o
2
i . pri pio pod r pri pio d i d o i d -
dido o o ori dor p r r o r i do o d
pr i o di o h r d d i h id d o r po o pr o.
i i d id do id do d d 10. r d ip r r i o: Pratique duas coi-
pri pio d o o i r r - od - sas ao lidar com as doenças; auxilie ou não prejudi-
r i o o ogo r o o pod r d d idir que o paciente 2.
o r i o. p id d d r pr - pri pio d o o d r prima fa-
pri o h i p i r po i id d r pr - cie o o- r i por i
dir i o irr i . ir g r i - po i i id d d di ri i o do
or p io o o i o orid d o i i o r i g do o ri o d
d i ri r id p o do i p p o i p i d 2 10. pri pio d r g
r pr g g r ii r di ri i o do r r o i rio d r
i pr xi o 2 10. io o i i o r d d . o
pri pio d i o i- od - o ord i o or propo -
r d pro o r io o r i d p d - por ri r do di po i o i p r i
d d -o . p o rig o p r r o h i o do dir i o d d di -
2 10
pri ip d propor io r i io pri- po i i i od r o i .
i do- o io . di o d o pro - p rd r o i d d do
r- p do pri o do o o d ro pri pio io o d pr di o -
di i pod rr ido r r p - i o o o d pi o
o o o hor po r r do- h d pr i o do o . ori
pr r do id i i do o o ri o 2 10. o or dor r certamente as decisões
pri pio d o i o rig o terapêuticas são individuais, baseadas em amplo
pr di r o o ro io do do pi contexto que envolve a avaliação de aspectos clíni-

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009


284
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

cos e sociais baseada em critérios objetivos e subje- i d d r pr d o i d d r


tivos. Entretanto, sem sombra de dúvida, existe em- d or o i o o o d di or
basamento ético na promoção da ortotanásia e na g g i 11.
implantação dos cuidados paliativos aos pacientes o ord i o r o o o di-
críticos 2. r or r rid or o i go d di d 2010 o i do
proxi - d r r i o i con- p o ri pio d i di p nas

Artigos de atualização
dutas médicas restritivas em que se limita o uso de situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico
certos recursos inadequados ou inúteis, em oposição evitará a realização de procedimentos diagnósticos
à prática de qualquer terapia que somente prolon- e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pa-
gará o morrer e aumentará o sofrimento da pessoa cientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos
e de seus familiares 2. apropriados 13.
di o o r go 41 do r r -
Aspectos normativos pertinentes ao processo de d do o di o abreviar a vida do paciente, ainda
tomada de decisão de AM que a pedido deste ou de seu representante lega .
r d orr r r go o p p r gr o i o
o prolongamento do morrer, ou seja, a obsti- nos casos de doença incurável e terminal, deve o
nação terapêutica, propiciada principalmente pela médico oferecer todos os cuidados paliativos dispo-
tecnologia do mundo moderno, é estimulada pela níveis sem empreender ações diagnósticas ou tera-
prática de uma “medicina defensiva”, consistente na pêuticas inúteis ou obstinadas, levando sempre em
adoção de todos os recursos e procedimentos dispo- consideração a vontade expressa do paciente ou, na
níveis, ainda que sabidamente inúteis e desnecessá- sua impossibilidade, a de seu representante legal 13.
rios, com o único objetivo de fazer prova de uma boa - o o o i d p o o
atuação profissional. No tratamento de pacientes do r pr g g r do- p -
com doenças terminais, o temor em face da possi- i r i id d .
bilidade de responsabilização ética, civil e criminal
o o o i d p o -
pela morte tem conduzido os médicos à promoção
o o 1.995/12 14 di p o r dir
da distanásia 11.
ip d d o d do p i d i do-
o po o d i or o o ro r go 1o como o conjunto de desejos, prévia
d 200 o o ho d r d di i p - e expressamente manifestados pelo paciente, sobre
i o o o 1.805/0 d r do cuidados e tratamentos que quer, ou não, receber no
r go 1o : É permitido ao médico limitar ou momento em que estiver incapacitado de expressar,
suspender procedimentos e tratamento que prolon- livre e autonomamente, sua vontade. o r go 2o a
guem a vida do doente, em fase terminal de enfer- or r r - d i o r id do r -
midade grave e incurável, respeitada a vontade da o d p i o r i p
pessoa ou de seu representante legal. o p r gr o d o i r- o d xpr rd ir i r
4o d r go d r : Em se tratando de doente i d p d o d i di do o mé-
incapaz, ausente o representante legal, incumbirá ao di o d r r em o id r o dir
médico decidir sobre as medidas mencionadas no ca- ip d d o d r do o p r gr o
p deste artigo. di o d r r go g i :
2o : O doente continuará a receber todos os cui-
dados necessários para aliviar os sintomas que levam § 1o Caso o paciente tenha designado um represen-
ao sofrimento, assegurada a assistência integral, o tante para tal fim, suas informações serão levadas
conforto físico, psíquico, social, espiritual, inclusive em consideração pelo médico. § 2o O médico deixará
assegurando a ele o direito da alta hospitalar 12. de levar em consideração as diretivas antecipadas de
- r go p r gr o d r - vontade do paciente ou representante que, em sua
o o o i o p o pri pio d o o i análise, estiverem em desacordo com os preceitos di-
o pro o d i rio d i i o r p : pri- tados pelo Código de Ética Médica. § 3o As diretivas
iro p o g do o r pr g - antecipadas do paciente prevalecerão sobre qual-
o di o. di o g r - o i- quer outro parecer não médico, inclusive sobre os
d do p i o o o. 200 r o o desejos dos familiares. § 4o O médico registrará, no
oi p d ro d 2010 r ogo - prontuário, as diretivas antecipadas de vontade que
i i r p di p d do i i rio lhes foram diretamente comunicadas pelo pacien-
i o d r r pr do pro io- te.§ 5o Não sendo conhecidas as diretivas antecipa-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9


285
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

das de vontade do paciente, nem havendo represen- o h do p o o x d i g


1
tante designado, familiares disponíveis ou falta de por o ogr o p dori d .
consenso entre estes, o médico recorrerá ao Comitê i o d o i i -
de Bioética da instituição, caso exista, ou, na falta dro ro gi o g do i - r -
deste, à Comissão de Ética Médica do hospital ou ao io: r r o r r po o or r po
Conselho Regional e Federal de Medicina para fun- r . o or po o i i i ior
Artigos de atualização

damentar sua decisão sobre conflitos éticos, quando o pro o do d o i i


entender esta medida necessária e conveniente 14. pro i id d r d d ho d or -
r o o r or o o i d p o . d ri r did d ir
r do id do r o d d p dro i d por io d i r o o p o
o o i o o . p d por ip r i d por x p o p i od
o d d d i o di i d o do oro o p o i p d g ir
p o o o o r po i p - o o o do . r prog o r o
i p r r i ii ro d ri r i p p r i op o-
d r pr g d p r d o i r h odi i p d o r o gi
r id d ho pi r o d ri r - o oi od g p r i dor . o
g ig i d . p r r d r x o d or d po oi i i o o -
pr di o o xod r i id d do d oi i d por di o pr -ho pi r
id do p i o pod r o do o pri - o i o proxi d 20 do p i
pio o p o o or o i r o o or po i i i i o r i r o d
. do ori o or dor r- 8 10 pr r o 4o 51 .
se pode constatar que no Brasil existe res- o r o id d h r pro i i-
paldo ético aos cuidados paliativos, que abrangem a d d d d ho d or o o od
limitação de tratamento considerado fútil ou inútil 2. id d . ri o i ri i id d
d did p o o r dor d ri ro d
d i o pr r i o do o
Fatores históricos da pessoa
o pro ri . id d o id r d or pr di or
hi ri o o io o i o id d d
i d p d d or id d or id d pri i-
id pr i o or id d d p o o g
p i do 0 o 1 .
do or o p o pro o d gr g o
o p r o d d d i od 3
. or di ro p pi r o r xo p pi o o ri or
x po o i o o gi o o o d drog o doi i por p r ro o i do o
pod r p r r g o o gr r prog o. i do r xo p pi r i -
o o i d p o o o i r i por pr di or d d ho d o-
ig i . o or id d o id r d o o r . p r ro d ri r i do p r -
do pri ip i i di dor pr di o d or id d i o p o r h odi i por ip r i -
or id d 15. d . o x d - r gi r r id i d r
or i dir o r po i ri i ri
r po o p pi x o p pi di -
Fatores prognósticos d o . o d p r r -
2000 r i r o d o od p r ro o d ri p 1
.
p i o do o o oo o d id -
r i di dor pr o d prog o r - r o g i i or 90
o r io i o gr do g pr d p r d ho d -
d r do d go 1
. rigi or do o i d o hip xi or
d i oi :1 io 2 - d 9 d . pr g i i
do g op ri 3 i p id d gr di i d ri r r r -
4 i p id d od r d 5 o r p r o. d por ip r i d do o i i -
i di dor do do p h ri - r do di po pr r i r
o i o o ro ogi rg o or d h pr o r ri di . i o pi dio hipo -
rg i o o itt o ro r i o g r o i do o
po or pr di o po i o d p o - do ro d or id d 1 .
o 0 o po oi i i d o pr d or id d o x i i i
d go id d o r xo p pi r hipo- d o i o i d por di o -

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009


286
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

p i i pri ir 12 hor d o d i r- ri rio g r i d d io i o -


i o pri id o d h orr gi io d ri o o i r orr o i -
r oid r o o id r do r i p o i p o i o do r o
i por or prog o p r o d ho ri rio p rior p rd d p o progr i o
d or . i r o pri id o - i io o o i d d pr o o di r -
i d ri r r d i h r r o ior 10 o o i ior

Artigos de atualização
di d ro r d i r - 5 o o r i ri
i o o r o xid d o d io d i h - or 2 5 dg/ di gi do pir o r -
di d r r do o do p o p ido. orr /o i g o or i d d ho pi i -
h do d pod g r r i or o prog r d io do status d d p ho
ig i pri ip por r i d ro- io i i od o id do r ri o o
ir p i o gr 1
. io od d p d i iori d -
id d d id di ri o or id d d io i o
i d od i d or prog o
g r od id d d por do
d id d i p id d d r i o po -
d di i i o d r po o r o
d r o o p r ro io i
di i i do r r i i id d o h por o r -
d ri o o ig i i prog p i
r i r o o o d
o gr pod ri r o id r do o pro -
gr o 15 1 18. d io d r ido
o d gr g o d or p r . i do
do do p r r d i or o do
o o p r ro pod r r i or o
r gi ro d d p o .
i p id d d id r d p o
o xi i do di r d . ri rio p o d ri o p r o di-
ro gi d d o or id d d
r po d ro o r r i d r po -
Fatores de declínio clínico e/ou funcional r i d r po d r r d dor
2011 o o o g o r r o- d p r or p i ig o or
r p i o g i d i di dor prog- 40 o xi op i p r
o p dr o-o ro p r d r por o di o ior p r do po do i p p r
o or o h i o pr o d p i o iori d id d d p d d i i
d id o The gold standard framework prog- o p pr i g g r r -
15
nostic indicator guidance . id do d d d id d o i i r ri do por o-
id oi d ido o o o d do p o - o i /o o o r i ri ior
o proxi do do d id pro 1 5 g/d p o i d pir o i o do
o pr xi o 12 i i do or- r o ri rio p rior pi o ri r d d -
i i hor o di 15. g i propo o p o i o r r ri d gio 3 o 4 r r orr
do r di p r dor p r r- p io o r pi d rior o progr i
i id d por o i id d o i /o og i o o r pi
d r x o r . o i d di gi p di p i i i i
r pir ri hi ri d pir o p o r
oi d di p r dor o i di dor
r po i r o o dio -
g r i d d io i o /o io d rior - 15 1 18
gi . ri rio p o d ri r
o o r d d p d i o oh
do o o o o g r i i do
p r or i od id do o i di do-
o do po o o o ro or do pro -
r i o p o r io do r o -
o d gr g o.
di d d o o r do p o r
o r r i i i i rd o g -
do r do d h i r do d A pergunta surpresa
r i o do do r io o or ro No The gold standard framework prognostic
p r gi id d id r i o indicator guidance, p i do p o o
15
o ro r io r . - p rg rpr : você se surpreenderia se esta
r i r r pr ri rio pessoa morresse nos próximos meses, semanas ou
d gi i id d p r ord g hospice o p r dias? 15 r po po i p rg i d
id do p i o o o ord i o id r d di p r dor
o o ri rio g r i p o propo o p o p r o pro d o d di o r
1 18
. do ri rio g r i p o pr do .

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9


287
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

e e es g o o d or r do p o .
o pr d go r i o
d p o o o i p r r-
o id r do o p o o or o
d gr d r gr o
p r o id do p i o o hi -
i id do pro o g do d d r i -
ri o d p o o i di dor prog o p - -
r o o i . or r pro d r
o ro gi o ri rio d d io i o /
Artigos de atualização

di o o r limitação de esforço terapêutico


o io o o or d gr g o r do
o p r p d o d d d i o o -
p o r x p rp pro o
p x d o p h d p i i -
or r o di g o propo i o d -
o do id do p i o do i r d i-
did di g r p o prog o
i r i i r i pi .
piri id d . pr i o o di g o di o
i o ro gi o did do pro- or p r o propo
po di g r p p d i d ri r go o r p rp -
propor io r ior prog o d id o hor po r pi d : d i i od or o
id d d id r did p d r p o p r or o xi o d id do d
propor io r o or o p o piri id d ri rio o ro d p r gi i id d di -
d p o d i o id r i r- d o o p r h d d r d
r o d d d i o r do p o p o d p r ip o d p o d i d
o pro op r o d d d i o d r ip pro io d i rid d do
pr i o o i o p h do p od o r o-p i o p r i ro i do o-
ord g p i d did d o - d o r o/p i o d ip di ip i r
or o or r por x i . p r ip r di ip i r d o h r h i-
do p r p o o o i gr
r i id d o o. p r i d propo -
onsideraç es nais pr d po r o pro d o
d di d i i pr
o o do pr r go oi di orr r i i p o i r do o
r p i od o o pro o r g d gr - r p i o i o di io p o .

eferências

1. i ir . i do i do r i id d d id . : ori org i dor . o i o


io o do i r do orr r. r i : 2011. p. 15-24.
2. ori o i i i . id do p i o :d i p o o- g i . :
ori . id do p i o id d d r pi i i . o o: h 2012. p.
19-32.
3. rr ro io ho . i i i d ro r p o. i p. 2012 212 3 :134-
40.
4. io do i o . i i i or o i : p r p do
r iro d id d d r pi i i i pi i i . o r .
2009 1 5 : 13-9.
5. rr i r h - h r . o i ri
hor i o i i i po i :p i r or p i h r pir or di d
ri i . pir ri r d. 2008 1 8 :912-2 .
. ori i p o or r r go et al. r do r po d do
do i d id do o : d i r o d i gr d p r id do
p i o id d d r pi i i d d o p di ri . r r i .
2011 23 1 :24-9.
. o i d d p o d di i i r id d oro ri . di dor d id d
r o r o. r . 2011 o 31 . 2013 . i po : http:// . i .org/
i /d / / i io i di dor id d 2011.pd
8. o h d di r h o i . hi g id i or h r o p op i po -
o r po i g or i i r po i . r . r i :
2008 o 31 . 2013 . i po : http:// . h r .go . / h r /
p i o / tt h / 81.pd
9. r g r . i i i d ro r p o. r . i ro r i od di i
i . 2008 o 31 . 2013 . i po :i i o / i . d /03/0303.h

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009


288
Limitação de esforço terapêutico na pessoa com lesão encefálica grave

10. o ri h h do o . io : p r d r i io r x o. x o o xo
r . 2005 14 1 :10 -10.
11. orr . ro i o ho i dio i . : ori org i dor . o i o
io o do i r do orr r. r i : 2011. p. 15 -84.
12. o ho d r d di i . o o 1.805 d 28 d o ro d 200 . r i
d r id d gr i r i p r i do o di o i i r o p d r pro di o
r o pro o g id do do g r do- h o id do rio
p r i i ro i o o o ri o p rp d i i i gr

Artigos de atualização
r p i d o d do p i o d r pr g . r . o 31 . 2013 .
i po : http:// .por di o.org. r/r o o / /200 /1805 200 .h
13. o ho d r d di i . o o 1.931 d 24 d ro d 2009. digo d
di . r . o 31 . 2013 . i po : http:// .por di o.org. r/
r o o / /2009/1931 2009.pd
14. o ho d r d di i . o o 1.995 d 9 d go o d 2012. i p o r
dir ip d d o d do p i . r . o 31 . 2013 . i po :
http:// .por di o.org. r/r o o / /2012/1995 2012.pd
15. o o g o r r o r. h prog o i di or g id : h o
r g id or i i i o ppor r i r r og i o o p ri g h do
i . r . 2011 o 31 . 2013 . i po : http:// .go d d rd r or .
org. / d- o / po d /i / r 20 i / rog o i 20 di or 20 id 20
o r 202011.pd
1 . h h r rio r d i d et al. r i di or o
prog o i i r r r i i r. r . 2000 o 31 . 2013 . i po :
http:// . r i r .org/pd /pro d/prog o i g id i .pd
1 . r . h di g id i or o - r di d o di r i po i :
ho pi or p i h di oh r h r. o p . 1999 14 3-4 :139-54.
18. r . di d id do p i o . d id do p i o / d i ido: 29.8.2013
io d id do i o . io d iro: i gr phi 2009. p. 20-3 . i do: 21.2.2014

articipação dos autores pro do: 30. .2014


i od i r r r d o di o r i o do ri o: ri d r
o . odo o d i or p r ip r d di o r i o r do ri o.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222009 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 281-9


289
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no
Brasil
Debora Diniz 1, Vanessa Canabarro Dios 2, Miryam Mastrella 3, Alberto Pereira Madeiro 4

Resumo
Este artigo analisa como se constrói a verdade do estupro para que a mulher que se apresenta como vítima
tenha acesso ao aborto legal no Brasil. Foram entrevistados 82 profissionais de saúde de cinco serviços de
referência para aborto legal, um de cada região do país, entre médicos, enfermeiros, técnicos em enferma-
gem, assistentes sociais e psicólogos. As entrevistas buscaram compreender procedimentos e práticas a que
a mulher é submetida para ter acesso ao aborto legal. Apesar de particularidades na organização e no fun-
cionamento dos serviços, identificamos um regime compartilhado de suspeição à narrativa da mulher que
se expressa por práticas periciais de inquérito em torno do acontecimento da violência e da subjetividade da
vítima. A verdade do estupro para o aborto legal não se resume à narrativa íntima e com presunção de vera-
cidade, mas é uma construção moral e discursiva produzida pela submissão da mulher aos regimes periciais
dos serviços.
Palavras-chave: Aborto. Aborto legal. Estupro. Violência contra a mulher. Violência sexual. Brasil.

Resumen
La verdad de la violación en los servicios de aborto legal en Brasil
Este artículo analiza cómo se construye la verdad de la violación sexual para que la mujer que se presenta
como víctima de violación tenga acceso al aborto legal en Brasil. Fueron entrevistados 82 profesionales de
salud de cinco servicios de referencia para el aborto legal, uno de cada región del país, entre médicos, en-
fermeros, técnicos en enfermería, trabajadores sociales y psicólogos. Las entrevistas buscaban comprender
los procedimientos y prácticas a que la mujer se somete para tener acceso al aborto legal. A pesar de las
particularidades en la organización y funcionamiento de los servicios, identificamos un régimen compartido
de sospecha a la narrativa de la mujer que se expresa por prácticas periciales de investigación en torno al
acontecimiento de la violencia y de la subjetividad de la víctima. La verdad de la violación sexual para el aborto
legal no se resume a la narrativa íntima y presunción de veracidad, sino es una construcción moral y discursiva
producida por la sumisión de la mujer a los regímenes periciales de los servicios.
Palabras-clave: Aborto. Aborto legal. Violación. Violencia contra la mujer. Violencia sexual. Brasil.

Abstract
The truth of the rape at reference abortion services in Brazil
This paper analyzes how the truth of the rape is constructed in order to authorize a woman victim of rape to
have a legal abortion. We have interviewed 82 health care professionals (physicians, nurses and technicians,
Artigos de pesquisa

social workers and psychologists) at five reference facilities for legal abortion in Brazil. The interviews aimed
to understand the procedures and practices imposed on a woman in order to be allowed to have the legal
abortion. In spite of the particularities of each facility, we have identified a shared regime of suspicion of the
woman’s narrative, which investigates the fact of the violence and the victim’s subjectivity. The truth of the
rape for the legal abortion is not a woman’s narrative with a status of veracity, but it is a moral and discursive
construction shaped by the victims’ submission to the forensic regimes of the services.
Key words: Abortion. Abortion, legal. Rape. Violence against women. Sexual violence. Brazil.

CAAE UnB no 12695713.7.0000.5540

1. Doutora d.diniz@anis.org.br – Universidade de Brasília, Brasília/DF, Brasil. 2. Doutoranda vandios@uol.com.br –


Universidade de Brasília, Brasília/DF, Brasil. 3. Doutoranda m.mastrella@anis.org.br – Universidade de Brasília, Brasília/
DF, Brasil 4. Doutor madeiro@uol.com.br – Universidade Estadual do Piauí, Teresina/PI, Brasil.

Correspondência
Debora Diniz – Caixa Postal 8.011, CEP 70673-970. Brasília-DF, Brasil.

Declaram não haver conflito de interesse.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010


290
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

O aborto legal no Brasil A partir de então, o consentimento da mu-


lher ou o de seu representante legal passaram a ser
peças suficientes para o acesso ao aborto legal. Ou
“Aborto legal” é uma expressão brasileira
seja, o testemunho da mulher não deveria ser sub-
para descrever a ambiguidade do marco punitivo
metido à investigação policial ou judicial da verda-
e de políticas públicas. O aborto é tipificado como
de para que fosse reconhecido como legítimo para
crime contra a vida pelo Código Penal de 1940;
o acesso aos serviços de saúde. Ao menos para os
uma mulher que o provoque em si mesma (abor-
textos das políticas públicas, a narrativa da mulher
to provocado) será punida com prisão 1. Ao mesmo
deve ser suficiente para a história do estupro e o
tempo em que o Código Penal determina regime de
castigo tão severo, reconhece exceções em que o acesso ao aborto legal nos serviços de saúde.
aborto não deve ser punido – quando a gravidez for Estudos de opinião mostraram que médicos gi-
resultante de estupro e quando a vida da mulher necologistas e obstetras ainda acreditam ser preciso
estiver em risco. Um mesmo ato é ou não punível o BO ou autorização judicial para que uma mulher
a depender de seus moduladores para o regime de tenha acesso ao aborto legal 9,10. Se, por um lado,
causalidade: no estupro, a mulher é uma vítima de é possível acolher esse desconhecimento como in-
violência; no risco de vida, a mulher é vítima de do- formação insuficiente sobre o marco das políticas
ença. Mais recentemente, em um novo permissivo públicas em saúde, por outro, é também possível
para o aborto por decisão do Supremo Tribunal Fe- entendê-lo como sinal da persistência da controvér-
deral (STF) 2, entendeu-se que, em caso de anen- sia moral sobre como se estabelece a verdade do es-
cefalia, não há crime contra a vida, pois o feto não tupro para o aborto legal. Há uma economia moral
sobrevive ao parto. As três exceções punitivas têm em curso sobre o corpo e a sexualidade das mulhe-
em comum a construção moral da mulher como ví- res, que rejeita fissuras à heteronomia reprodutiva
tima – seja da violência patriarcal, seja do acaso da imposta às mulheres em matéria de aborto – nesse
natureza. marco moral, a exceção punitiva seria um sopro de
A centralidade da figura da mulher como ví- soberania das mulheres sobre seu corpo; por isso, a
tima movimenta as políticas públicas de saúde que intensa vigilância sobre sua atualização. A ambigui-
regulamentam os serviços de aborto legal no Brasil. dade penal – o aborto é crime, mas há exceções à
Durante longo período, disputou-se a quem caberia punição – anima uma cisão no reconhecimento do
a descrição de uma mulher como vítima de estupro: direito ao aborto legal: não é a autonomia reprodu-
se a ela mesma, como testemunha da violência sofri- tiva das mulheres o que se protege, mas a mulher
da, ou se à polícia, com registros de documentos in- vítima de estupro.
vestigativos, como é o caso do Boletim de Ocorrência Este artigo analisa uma das expressões da eco-
(BO). O texto do Código Penal estabeleceu a ausên- nomia moral do aborto no Brasil, aquela que se re-
cia de punição, mas não especificou como reconhe- produz nos poucos espaços legitimados e públicos
cer a verdade do estupro ou do risco de vida da mu- nos quais se atualiza a ambiguidade penal da exce-
lher 1. Para o segundo excludente de punibilidade, os ção punitiva ao aborto, os serviços de aborto legal.
regimes de saber médicos rapidamente organizaram

Artigos de pesquisa
Nossa inquietação foi conhecer como os profissio-
práticas e rotinas de laudo e arquivo para demarcar nais de saúde de serviços de aborto legal constroem
as fronteiras entre risco à saúde e risco à vida da mu- a verdade do estupro para que uma mulher tenha
lher. Foi sobre o primeiro excludente, o estupro, que acesso ao aborto. Por verdade do estupro, enten-
a disputa moral ganhou fôlego no Brasil 3-5. demos um conjunto de exames e procedimentos a
Em 1999, o Ministério da Saúde (MS) editou que a mulher é submetida após apresentar-se como
documento para regulamentar os serviços de abor- vítima de estupro em busca de um aborto legal.
to legal no país – a norma técnica Prevenção e Trata-
mento dos Agravos Resultantes da Violência Sexual
contra Mulheres e Adolescentes. Este foi o primeiro
Os serviços de aborto legal e as entrevistas
texto em que se especificou o silêncio deixado pelo
Código Penal sobre como estabelecer a verdade do Foram realizadas entrevistas qualitativas com
estupro no caso da exceção punitiva para o aborto. os profissionais de saúde que atuam em serviços de
A controvérsia moral foi intensa e a disputa sobre a aborto previsto em lei em cinco capitais do Brasil,
soberania pela verdade do estupro foi o que moveu um em cada região. Os serviços foram escolhidos
a revisão e ampliação do documento, em 2005, e de acordo com os seguintes critérios: ter efetiva-
sua última revisão, em 2012 6-8. mente realizado aborto legal em 2013 e 2012 e ser

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7


291
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

referenciado para a região geográfica em que está pois o foco é o ethos do aborto no Brasil e não em
situado. Não há registros consolidados de abortos regiões específicas. Não há declinação de gênero
legais realizados no Brasil que permitam determinar nas transcrições para evitar qualquer possibilidade
a representatividade desses cinco serviços no cená- de identificação. As vozes foram entendidas como
rio nacional; sendo, no entanto, referência em suas vozes das equipes. Foi solicitado sigilo de cinco anos
respectivas regiões. para divulgação da avaliação do projeto pelos comi-
O projeto foi revisado e aprovado pelo Comitê tês de ética.
de Ética em Pesquisa do Instituto de Ciências Huma- Três pesquisadoras leram e codificaram as en-
nas da Universidade de Brasília antes da coleta dos trevistas e os dados foram tabulados a partir de um
dados, e todas as instituições exigiram nova revisão instrumento composto por duas questões: se havia
por seus comitês institucionais. No total, o projeto práticas periciais para a narrativa da mulher e, ha-
foi avaliado cinco vezes e o tempo de espera para vendo, como elas se expressavam. Os padrões foram
aprovação tomou, em média, dois meses, sendo comparados e, em caso de discrepância, as transcri-
que em um dos comitês a espera foi de onze me- ções foram revisadas. Embora cada serviço tenha
ses. A pesquisa foi realizada entre março de 2013 e organização e dinâmica de funcionamento particu-
janeiro de 2014. lar, a análise das entrevistas permitiu verificar a exis-
tência de um regime compartilhado de suspeição à
O aborto legal é uma prática exclusivamente
narrativa da mulher sobre o estupro em particular
médica no Brasil. No entanto, outros profissionais
em quatro dos serviços. Em um deles, há um regi-
de saúde fazem parte das equipes que acolhem e
me singular de reconhecimento da voz da mulher
atendem as mulheres cujas gestações se enqua-
como soberana, muito embora a economia moral
dram nos três casos previstos em lei: risco de morte,
do aborto como exceção à lei penal imponha cons-
violência sexual e anencefalia. Ou seja, são serviços
trangimentos permanentes à autonomia da equipe.
compostos por equipes multidisciplinares, integra-
das por médicos, enfermeiros e técnicos em enfer-
magem, assistentes sociais e psicólogos, de acordo O acontecimento da violência
com a terceira edição da norma técnica Prevenção
e Tratamento dos Agravos Resultantes da Violência
O inquérito é uma das práticas judiciárias de
Sexual contra Mulheres e Adolescentes 8.
produção da verdade, segundo Michel Foucault 11.
O foco da entrevista foi o aborto por estupro. Pelo inquérito, o poder interpela quem detém o sa-
As entrevistas foram realizadas por duas pesquisa- ber. O inquérito se institui em situações em que há
doras no próprio hospital, em local disponibilizado ausência de flagrante ou testemunha: é por meio
pela direção ou indicado pelo profissional. O con- dele que se permite caracterizar a verdade de um
sentimento para participação foi obtido mediante acontecimento.
esclarecimento prévio dos participantes e o termo
A tecnologia do inquérito não é exclusiva dos
de consentimento livre e esclarecido (TCLE) firmado
poderes judiciários ou policiais; foi também incor-
por escrito. Um roteiro semiestruturado composto
porada aos saberes e práticas biomédicas, em parti-
Artigos de pesquisa

por 13 perguntas, divididas em três categorias de


cular, para a gestão da vida sob a forma da biopolíti-
investigação (perfil profissional, fluxo do serviço,
ca 12. No caso do aborto legal, a prática do inquérito
histórias e situações de recusa de atendimento em
investiga a verdade do acontecimento da violência e
casos de aborto legal), guiou a entrevista.
produz os sentidos para a definição da subjetividade
Foram realizadas 82 entrevistas, entre 25 mé- da mulher como vítima. Em geral, não há flagrante
dicos ginecologistas-obstetras, um médico aneste- da cena do estupro – é preciso acreditar no que diz a
sista, 19 assistentes sociais, 18 psicólogos, 13 enfer- mulher que se apresenta como vítima e testemunha
meiros e seis técnicos de enfermagem. Esse univer- de sua própria violência. As entrevistas, no entanto,
so corresponde à quase totalidade das equipes dos mostraram que não basta o texto da mulher; a ver-
cinco serviços de aborto legal (apenas 12 profissio- dade do estupro é construída no encontro entre os
nais se recusaram a participar da pesquisa ou não testes de verdade sobre o acontecimento da violên-
foram localizados durante o trabalho de campo na cia e a leitura sobre a subjetividade da vítima.
unidade). Quando uma mulher alcança um serviço de
As entrevistas foram gravadas e transcritas, aborto legal, há um regime de suspeição em curso
mas nenhum dado sobre formação profissional, que a antecede e a acompanha. Ele se expressa em,
sobre a instituição ou sobre a região foi indexado, pelo menos, duas dimensões morais. A primeira,

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010


292
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

pelo ethos de exceção à lei penal que rege o abor- causal, tem que bater a história da paciente com
to em caso de estupro. Como regra instituída com a do tempo da gravidez...”, explicou um profissio-
a força da punição penal, o aborto é crime contra a nal ao ser questionado se já havia recusado algum
vida e sua prática, em caso de gravidez resultante de atendimento. Para ele, a falha no nexo causal se re-
estupro, é autorizada como exceção à punição. Man- sumiria à “questão da data da última menstruação
tém-se o estatuto de crime, porém sem pena. Essa não bater com a data da violência”, ou seja, não se
ambiguidade legal anima rumores entre as equipes contesta diretamente a existência da violência, pois
de saúde sobre o estatuto moral dos serviços de uma mulher pode ter sido vítima de estupro, sem
aborto legal: seriam serviços essenciais de proteção que a gravidez seja resultado desse evento sexual.
às necessidades de saúde das mulheres ou serviços A tese do nexo causal organiza os marcos in-
liminares à moral criminalizadora do aborto? vestigativos previstos nos documentos normativos
A atualização da regra penal nos profissionais da política pública do MS, mas também atualiza o
que assistem as mulheres nos serviços de aborto dobramento do poder policial com o poder médico:
legal anima a segunda dimensão do regime de ex- os policiais saíram de cena (não é exigido da mulher
ceção – os profissionais de saúde temem ser “enga- o BO para acessar o serviço de aborto legal, muito
nados”: “...porque existe sempre o fantasma na área embora um dos serviços entre os cinco pesquisa-
médica da questão de que as mulheres mentem...”. dos mantenha a exigência do documento, além de
A vigilância contra o engano rememora continua- autorização judicial), mas isso não significa que a
mente o caráter excepcional do serviço, dificultando investigação pericial pela verdade tenha desapare-
violações da regra penal por racionalidades da assis- cido. Se nem todos os serviços fazem uso do jargão
tência em saúde. “nexo causal” ou “relação causal”, a expectativa de
que o acontecimento do estupro possa e deva ser
Além disso, tão importante quanto a vigilância
periciado pelas datas e exames é comum a todos os
penal, o estatuto ambíguo dos serviços pressiona os
profissionais entrevistados.
profissionais de saúde a se manterem sob vigilância
para a moral que descreve suas práticas de assistên- Não exploramos a genealogia dessa catego-
cia como imorais. É nessa duplicidade de guardiões ria pericial nos serviços, até mesmo porque a me-
da lei penal e da imoralidade do aborto que as práti- mória das práticas é continuamente reavivada pela
cas de inquérito pela verdade do estupro surgem no passagem de profissionais residentes e em poucos
encontro dos profissionais com as mulheres. serviços havia profissionais desde o período da fun-
dação. Se, por um lado, pode ser resquício da dispu-
O regime de exceção possibilita que práticas
ta dos anos 1990 por ocasião da edição da primeira
periciais de inquérito se expressem como rotina da
norma técnica do MS, por outro, pode ser uma ex-
organização dos serviços para a qualificação da mu-
pansão para o campo investigativo moral de práticas
lher como vítima e, portanto, para a produção da ver-
de rotina médica para a decisão sobre os métodos
dade do estupro – ou, nas palavras de um dos pro-
de aborto a serem utilizados.
fissionais, “...se o médico não for muito sensível, ele
tem uma tendência a fazer perguntas como que pra Muitos profissionais justificaram a tese do

Artigos de pesquisa
encurralar, porque tem uma necessidade de saber e nexo causal em termos estritamente técnicos para
confrontar se a pessoa tá dizendo uma mentira...”. a investigação do tamanho do feto e, consequente-
mente, para a escolha do método de expulsão: “...a
Há uma categoria recorrente nos serviços que
ecografia é importante, tem que saber o tempo da
resume a lógica pericial imposta pelo medo da exce-
gestação, porque dependendo da idade da gesta-
ção – nexo causal. O sentido corrente nos serviços
ção a forma de interrupção é diferente...”. A última
se aproxima do sentido lógico dicionarizado da locu-
versão da norma técnica Prevenção e Tratamento
ção, “relação que une a causa ao efeito” 13, em que dos Agravos Resultantes da Violência Sexual con-
a causa é o estupro e o efeito é a gravidez. No en- tra Mulheres e Adolescentes diz que determinar
tanto, são precisos testes de veridição para avaliar a idade gestacional é importante para a escolha
diferentes aspectos da narrativa da mulher – desde do método do abortamento e para estabelecer a
o acontecimento do estupro até as chances de a gra- concordância entre a idade gestacional e o perío-
videz ser resultado do evento sexual alegado e não do da violência sexual 10, ou seja, é possível ler as
de outro. O resultado dos testes é a coerência do recomendações como prescrições técnicas para a
nexo causal. determinação do método a ser adotado, muito em-
“No caso do aborto legal, não tem a exigência bora o conceito de “concordância” permita leituras
do Boletim de Ocorrência, mas tem que ter o nexo inspiradas na tese do “nexo causal”. Seria a concor-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7


293
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

dância que anteciparia o método, mas também que O consenso não apenas atesta o nexo causal
garantiria a verdade da narrativa da mulher sobre como distribui entre a equipe a produção da verda-
o estupro. de para a qualificação da mulher como vítima. No
Mas há outro nível de justificativa moral para caso desse serviço, antes do consenso, a mulher
o teste do “nexo causal” – ele faz parte do regime deve se dirigir a uma delegacia e registrar um BO,
de provas de que o serviço se mantém na linha de para então solicitar uma autorização judicial. O con-
exceção ao regime punitivo ao aborto, ou seja, de senso, assim, é uma categoria policial, judicial e bio-
que a equipe reconhece e respeita a fronteira entre médica.
o serviço de referência para o aborto legal e as clí- Mas ser vítima de estupro, ou seja, atestar o
nicas clandestinas de aborto. Assim, os registros em acontecimento da violência, não é suficiente para
prontuários da checagem de datas, exames e fatos garantir à mulher o direito ao aborto legal: é preciso
para “bater o nexo causal” permitem que as equipes ainda assegurar que a gestação tenha sido resultado
se protejam de contínuas investidas externas, des- do estupro narrado. Nas palavras de um profissio-
critas como judiciais: “porque, como a gente sabe nal, “têm muitos casos também que a gente des-
que não tem a exigência do BO, mas só que o Minis- carta... ela teve a violência, mas já era uma mulher
tério Público depois não quer saber. Se você indicou sexualmente ativa e pela idade gestacional e a data
um aborto que não houve nexo causal, o Ministério da violência não serem compatíveis, elas são enca-
Público vai pra cima do médico, ele não vai pra cima minhadas pro acompanhamento pré-natal...”. Nesse
da paciente que veio procurando o aborto legal...”. momento de produção da verdade do estupro, não
Ou seja, há uma sobreposição de regimes periciais é mais à mulher que se interpela sobre seu estatuto
em curso – das equipes às mulheres, do Poder Judi- de vítima, mas àquela gestação e à figura masculina
ciário às equipes. Mulheres e equipes são continua- como autor da violência.
mente interpelados pela moral da exceção punitiva Esse regime de suspeição é particularmente
ao aborto legal no Brasil. posto em prática para as mulheres em regime de
Os testes de veridição aplicados à mulher são conjugalidade heterossexual ou para aquelas descri-
compartilhados pelos membros das equipes, muito tas como “liberais” por um dos profissionais: “quan-
embora se reconheça a soberania da decisão médi- do é adolescente, quando a paciente tem algum esti-
ca. Assistentes sociais e psicólogos são os primeiros lo, tem uma tatuagem, usa piercing ou tem alguma
a reconstruírem a história do acontecimento da vio- questão, assim, sei lá, um paradigma mais liberal, eu
lência, recuperando datas, personagens e fatos. A acho que complica mais a situação”. “Complicar a si-
mesma narrativa deve ser reproduzida pela mulher tuação”, em termos periciais, significa ampliar os tes-
para diferentes profissionais, pois dela depende a tes de veridição sobre o acontecimento da violência.
sua aceitação como vítima. Assim, a mulher é inter- Como toda prática coletiva, há fissuras na sua
pelada por diferentes profissionais, em diferentes atualização, inclusive com posições de rejeição e es-
ocasiões – a repetição do ritual da confissão averi- tranhamento. Outro profissional do mesmo serviço
gua as duas dimensões para a verdade do estupro: do profissional que indicou maior alerta à narrativa
o acontecimento da violência e sua subjetividade
Artigos de pesquisa

das “mulheres com paradigma mais liberal” ironizou


como vítima. esse regime de veridição: “a mulher precisa che-
A sequência de interpelações pelos testes de gar com uma história convincente que caiba dentro
veridição se expressa com variações locais. Um dos do preconceito das pessoas”. O território da cena
profissionais assim resumiu como funciona em seu do estupro é um dos moduladores para o teste de
serviço: verdade – se o estupro foi cruento, maiores são as
chances de a mulher falar a verdade 14; porém, se
“...a mulher passa pela psicologia, pela assistente “ela chega dizendo que a violência aconteceu dentro
social, às vezes a gente já até adianta com o médico de casa, as pessoas têm dificuldade de compreender
o ultrassom, e se tem dúvida faz o beta [exame de que a violência sexual acontece de forma conjugal”.
sangue]. Normalmente ela tá com atraso menstrual A casa é relativizada de acordo com o estatuto ci-
pequeno, não sabe se tá grávida ou não, e através vil da mulher – se casada, o estupro é suspeito; se
do ultrassom que a gente vai verificar o efeito cau- filha e criança, o estupro move práticas de compai-
sal, conversa, vê se a data da violência bate com a xão e facilita a construção do lugar da mulher como
idade da gestação, então, essa é nossa rotina... aí a vítima. A compaixão é outro modulador ativo das
gente vai escutar, vai fazer aquela escuta e vai che- práticas periciais e dos regimes de construção da
gar a um consenso...”. verdade do estupro. Para animá-la, a subjetividade

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010


294
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

da vítima entra em cena para a identificação final da da vítima é o que permitiria reconstruir a factuali-
verdade do estupro. dade do terror da violência, tendo em vista que o
corpo da mulher violentada muitas vezes alcança os
serviços de saúde sem as marcas do estupro.
A subjetividade da vítima
A história de uma menina de 11 anos contada
por um dos profissionais demonstra as tensões entre
O nexo causal garante que a gestação foi re- determinações legais – presunção de violência para
sultado do estupro – mas esse é apenas o primeiro menores de 14 anos, segundo o Código Penal 1 – e
teste de verdade, aquele em que a tecnologia médi- práticas de veridição pela verdade do estupro:
ca atua como prova pericial. O ultrassom e o exame
de sangue são registros periciais dos resultados da “...o que me marcou muito foi uma menina de 11
aprovação da mulher nos testes do nexo causal. Mas anos grávida que ela engravidou e o profissional de
é preciso ainda que a mulher se comporte como ví- saúde do plantão e do outro plantão no final de se-
tima. Um dos profissionais, ao contestar a soberania mana não realizaram o aborto porque a menina não
do teste do nexo causal para a verdade do estupro, teria sido agredida fisicamente no ato sexual, então
assim descreveu o sentido do “comportamento” não era estupro. O pessoal do plantão, dois plantões
como um modulador da verdade: seguidos, se recusou a fazer porque achava que ela
gostara, a menina era safadinha...”.
“...teria algo no comportamento da mulher que não
condizia com uma situação de estupro, que não seria O profissional fez uso de uma retórica de
o fato de contar uma história confusa, porque essa exemplificação comum nas entrevistas: os casos
confusão era normal, que em situação de trauma mais tensos para o ethos da exceção punitiva foram
isso acontece, que também não é a diferença entre narrados como de outros plantões, outros profissio-
a data da última menstruação e a data da violên- nais, como histórias compartilhadas dos serviços,
cia, porque nem toda mulher lembra quando ficou sem as identidades de seus agentes.
menstruada, mas que seria algo no comportamento
O trauma é uma categoria psíquica para a
da mulher, é a forma de contar a violência que leva a
mensuração do sofrimento e para o cuidado da
equipe a perceber que ela estaria mentindo...”.
mulher vítima de violência 17. No entanto, aqui ex-
O profissional fez questão de frisar que casos ploramos sua dimensão moral para a construção da
de mulheres que mentem, ou seja, que se apresen- verdade do estupro e, consequentemente, para a
tam fora do comportamento de vítima, seriam ra- passagem da mulher à condição de vítima. O trauma
ros; ainda assim, tanto fez uso da categoria do trau- obliteraria a experiência. Ao se centrar na categoria
ma para proteger as mulheres que falharam no teste trauma e em suas respostas no corpo e na subjetivi-
do nexo causal quanto demonstrou acreditar ser a dade, a soberania do testemunho, ou, nas palavras
ausência do trauma o que levantaria suspeições so- dos documentos normativos, a narrativa da mulher
bre o estatuto da vítima. Pois é exatamente da ambi- perderia legitimidade. Não importaria mais o even-
guidade da categoria do trauma que a subjetividade to sofrido, mas sim o trauma.

Artigos de pesquisa
da vítima é averiguada. A verdade do evento sai de cena para que a
O trauma como categoria moral para a efeti- subjetividade da vítima apareça. Nesse sentido, a
vação de direitos sociais vem sendo analisado por história narrada depende de a mulher ser reconhe-
Didier Fassin 15-17. Em seu entender, o trauma não é cida como vítima pela equipe. Nessas tensões e
simplesmente a consequência de experiências insu- mesmo contradições, Fassin e Rechtman demarcam
portáveis, que não se conseguem negociar, é tam- as operações morais do trauma, em que se reinven-
bém um recurso que pode ser utilizado para garantir tam boas e más vítimas e se define quem é ou não
um direito 15. O trauma é, em si mesmo, um teste- legitimado para ter o status de vítima, independen-
munho do que aconteceu ao corpo, e é por meio temente dos fatos narrados 17.
dele que a mulher pode ser legitimada como vítima. Mesmo para aqueles profissionais que partem
O sofrimento convertido em trauma passa a do trauma como uma categoria psíquica nosológi-
ser possível, passa a ser visível e a existir para quem ca para o cuidado em saúde mental, desloca-se a
o averigua, constituindo elemento fundamental causalidade da violência para a moralidade do abor-
para a caracterização da subjetividade da vítima 16. to como crime contra a vida, ou seja, atualiza-se a
A linguagem do trauma, portanto, favorece a criação soberania do regime de exceção punitivo: “era um
de uma subjetividade específica – o comportamento sofrimento que não parecia sofrimento. Porque es-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7


295
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

sas mulheres, por mais que elas não desejem a ges- discursiva produzida pela submissão da mulher aos
tação e queiram interromper, elas sofrem com isso, regimes periciais dos serviços.
né? Porque você vai interromper uma vida. Então Apesar de algumas diferenças específicas entre
a maioria tá fragilizada...”. Ou seja, a tipicidade do os serviços, pode-se afirmar que quase todos funcio-
sofrimento se expressaria também pelo reconheci- nam sob um regime constante de suspeição à narrati-
mento da mulher de que o aborto é uma exceção va da mulher sobre o estupro. Esse regime se expres-
moral – a fragilização da vítima não é reconhecida sa pelo ethos de exceção à lei penal e pelo medo que
apenas como resultado da violência sofrida, mas os profissionais têm de serem enganados. A palavra
pelo gesto de desafiar a ordem moral punitiva que da mulher, nesse sentido, é colocada sob suspeita e
classifica o aborto como um crime contra a vida. não é suficiente para o acesso ao serviço de aborto.
Mesmo em serviços em que a retórica dos di- A mulher precisará passar pelos testes de veridição
reitos é mais clara, a dupla dimensão investigativa das equipes de saúde para que tenha seu direito le-
da verdade do estupro – acontecimento da violên- gitimado e seja reconhecida como vítima. Para tanto,
cia e subjetividade da vítima – guia a fase de acolhi- terá de contar uma história que apresente relação de
mento da mulher pelas equipes de saúde. É como causalidade entre o acontecimento do estupro e a
uma figura detentora da verdade que a mulher é in- gravidez e, além disso, necessitará apresentar traços
quirida pelas equipes – e não imediatamente como subjetivos que a caracterizem como vítima.
uma vítima detentora de um direito. Seu sofrimento A busca por uma subjetividade específica de
move a compaixão, mas também aciona táticas de vítima faz com que a soberania do testemunho da
saber para a investigação da verdade. A mulher se mulher, ou seja, sua palavra, perca a legitimidade. É
transformará em vítima se aprovada nos testes de por meio da interrogação de seu corpo – seus ges-
veridição a que se submeterá. Uma explicação para tos, sentidos, prazeres –, e não só de sua história,
esse regime investigativo é o caráter de exceção da que a mulher será reconhecida como verdadeira
lei punitiva: mesmo aqueles que reconhecem o di- vítima. O fato de a palavra da mulher não bastar e
reito ao aborto sentem-se pressionados, pelo estig- de ela ter de passar pelos testes de veridição dos
ma imposto aos serviços, pela ameaça persecutória serviços de saúde acaba por privá-la da soberania
e pela moral hegemônica do aborto como um ato pela verdade.
violador, a atualizar táticas e práticas periciais. É, portanto, nessa relação entre o corpo das
mulheres e os mecanismos de poder que o inves-
tigam, aqui representados pelos saberes médicos
Considerações finais
e psicossociais, que a engrenagem dos serviços se
pauta. O poder pericial é exigido das equipes, não
Foram coletados dados em cinco serviços de por ausência da necessidade de apresentação de
referência em aborto legal no Brasil para conhecer documentos policiais e autorização judicial – mesmo
como se constrói a verdade do estupro para que a quando a mulher apresenta tais documentos, ela
mulher que se apresenta como vítima de violência ainda é interpelada para a produção de verdade –,
sexual tenha acesso ao aborto legal. Exceto por um mas por uma economia moral em curso e pelo re-
Artigos de pesquisa

dos serviços, há homogeneidade de práticas e dis- gime de exceção da lei penal ao aborto. Como guar-
cursos de suspeição. Ao contrário do que determi- diões da lei e da moral e responsáveis pela decisão
nam as normas técnicas do Ministério da Saúde, a sobre o direito ao aborto – os serviços de aborto le-
verdade do estupro para o acesso ao aborto legal gal – sentem-se cobrados a policiar não só os corpos
não se resume a uma narrativa íntima e com presun- das mulheres, mas também seus próprios regimes
ção de veracidade, mas é uma construção moral e de funcionamento e suas práticas de assistência.

Estudo realizado no âmbito da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero e financiado pelo Safe
Abortion Action Fund da International Planned Parenthood Federation.

Referências

1. Brasil. Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal [Internet]. Diário Oficial
da União. 31 dez. 1940 (acesso 24 abr. 2014). Disponível: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto-lei/del2848.htm

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010


296
A verdade do estupro nos serviços de aborto legal no Brasil

2. Brasil. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental no


54. O Tribunal julgou procedente a ação para declarar a inconstitucionalidade da interpretação
segundo a qual a interrupção da gravidez de feto anencéfalo é conduta tipificada nos artigos 124,
126, 128, incisos I e II, todos do Código Penal. Diário da Justiça Eletrônico. 12 mar. 2012 (acesso 2
maio 2014);(78). Disponível: http://www.stf.jus.br/portal/diarioJustica/verDiarioProcesso.asp?n
umDj=77&dataPublicacaoDj=20/04/2012&incidente=2226954&codCapitulo=2&numMateria=10
&codMateria=4
3. Villela WV, Lago T. Conquistas e desafios no atendimento das mulheres que sofreram violência
sexual. Cad Saúde Publica. 2007;23(2):471-5.
4. Faúndes A, Bedone A, Pinto e Silva JL. I Fórum interprofissional para implementação do
atendimento ao aborto previsto na lei: relatório final. Femina. 1996;25:1-8.
5. Talib R, Citele MT. Serviços de aborto legal em hospitais públicos brasileiros (1989-2004): dossiê.
São Paulo: Católicas pelo Direito de Decidir; 2005. (Cadernos Católicas pelo Direito de Decidir, no
13).
6. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Prevenção e tratamento dos
agravos resultantes da violência sexual contra mulheres e adolescentes: norma técnica. Brasília:
Ministério da Saúde; 1999.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas
Estratégicas. Atenção humanizada ao abortamento: norma técnica. Brasília: Ministério da Saúde;
2005. (Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, 4).
8. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas
Estratégicas. Prevenção e tratamento dos agravos resultantes da violência sexual contra mulheres
e adolescentes: norma técnica. 3a ed. atual.ampl. Brasília: Ministério da Saúde; 2012. (Direitos
Sexuais e Direitos Reprodutivo, 6).
9. Colás O, Aquino NMR, Mattar R. Ainda sobre o abortamento legal no Brasil e o conhecimento dos
profissionais de saúde. Rev Bras Ginecol Obstet. 2007;29(9):443-5.
10. Faúndes A, Duarte GA, Osis MJD, Andalaft-Neto J. Variações no conhecimento e nas opiniões dos
ginecologistas e obstetras brasileiros sobre o aborto legal, entre 2003 e 2005. Rev Bras Ginecol
Obstet. 2007;29(4):192-9.
11. Foucault M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU; 2002.
12. Foucault M. História da sexualidade: a vontade de saber. 12a ed. Rio de Janeiro: Graal; 1997.
13. Instituto Antônio Houaiss. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Ed. eletrônica. Rio
de Janeiro: Objetiva; 2009.
14. Segato RL. Las estructuras elementales de la violencia. Bernal: Universidad Nacional de Quilmes;
2003.
15. Fassin D, D’Halluin E. The truth from the body: medical certificates as ultimate evidence for asylum
seekers. Am Anthropol. 2005;107(4):597-608.
16. Fassin D. The humanitarian politics of testimony: subjectification through trauma in the israeli-
palestinian conflict. Cultural Anthropol. 2008;23(3):531-58. Recebido: 13.5.2014
17. Fassin D, Rechtman R. The empire of trauma: an inquiry into the condition of victimhood. New
Jersey: Princeton University Press; 2009. Revisado: 14.6.2014
Aprovado: 27.6.2014
Participação dos autores
Todas as autoras participaram igualmente das fases de concepção, levantamento de dados, redação
e revisão do artigo.

Artigos de pesquisa

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222010 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 290-7


297
Questões éticas referentes às preferências do
paciente em cuidados paliativos
Carolina Becker Bueno de Abreu 1 , Paulo Antonio de Carvalho Fortes 2

Resumo
O respeito à autonomia do paciente é um princípio ético reconhecido em diversas áreas da assistência à saúde,
incluindo os cuidados paliativos, porém nem sempre as preferências do paciente são respeitadas. Uma melhor
compreensão das questões éticas relacionadas ao exercício da autonomia do paciente em cuidados paliativos
é importante passo para embasar juízos éticos ponderados no cotidiano da assistência. Tendo isso em vista,
este trabalho objetivou identificar e analisar questões éticas relacionadas às preferências do paciente e reco-
nhecidas por profissionais no cotidiano de uma equipe de cuidados paliativos à luz do referencial bioético da
casuística. Foram entrevistados onze profissionais de nível superior. As principais questões éticas identificadas
foram: respeito à autonomia do paciente; veracidade e direito à informação; habilidades de comunicação;
cerco do silêncio; participação no processo de deliberação; escolha do local de tratamento e morte.
Palavras-chave: Cuidados paliativos. Autonomia pessoal. Preferência do paciente.

Resumen
Las cuestiones éticas relacionadas con las preferencias del paciente en los cuidados paliativos.
El respeto a la autonomía del paciente es un principio ético reconocido en muchas áreas de la salud, incluyen-
do los Cuidados Paliativos, pero no siempre se respetan las preferencias del paciente. Una mejor comprensión
de las cuestiones éticas relacionadas con el ejercicio de la autonomía del paciente en los Cuidados Paliativos
es un paso importante para apoyar los juicios éticos ponderados en la práctica diaria de la asistencia. Tenien-
do esto en cuenta, este estudio tuvo como objetivo identificar y analizar las cuestiones éticas relacionadas
con las preferencias del paciente y reconocidas por los profesionales en el día a día de un equipo de cuidados
paliativos en el marco bioético de la casuística. Se entrevistó a once profesionales de nivel superior. Se iden-
tificaron las principales cuestiones éticas: el respeto a la autonomía del paciente, veracidad y el derecho a la
información, habilidades de comunicación, asedio del silencio, participación en el proceso de deliberación,
elección del lugar de tratamiento y muerte.
Palabras-clave: Cuidados paliativos. Autonomía personal. Prioridad del paciente.

Abstract
Ethical issues related to patient preferences in palliative care
The respect for patient’s autonomy is an ethical principle recognized in many areas of health care including
palliative care, but not always the patient’s preferences are respected. A better understanding of ethical is-
sues related to the exercise of patient’s autonomy in Palliative Care is an important step to support ethical
judgments in daily practice. Therefore, this study aimed to identify and analyze ethical issues related to pa-
Artigos de pesquisa

tient preferences recognized by professionals in the daily life of a Palliative Care team under the framework
of Casuistry. Eleven practitioners were interviewed. The main ethical issues identified are: respect for patient
autonomy, veracity and right to information, communication skills, conspiracy of silence, participation in the
deliberation process, choice of place of treatment and death.
Key words: Palliative care. Personal autonomy. Patient preference.

Aprovação CEP: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (Coep 181/11)

1. Doutora caro@becker.eng.br – Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo/Faculdade de Ceilândia da Universidade de
Brasília, Brasília/DF, Brasil 2. Doutor pacfusp@usp.br – Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, São Paulo/SP, Brasil.

Correspondência
Carolina Becker Bueno de Abreu – Faculdade de Ceilândia, Universidade de Brasília (UnB). Centro Metropolitano, Conjunto A, Lote 1,
Ceilândia CEP 72220-900. Brasília/DF, Brasil.

Declaram não haver conflito de interesse.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011


298
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

Jonsen, Siegler e Winslade 1 entendem prefe- enquanto só a minoria prefere delegar esse papel.
rências do paciente no contexto da ética clínica como Estes autores constatam, entretanto, que na
sendo as escolhas que a pessoa faz quando se de- prática os pacientes são pouco encorajados a par-
para com decisões sobre sua saúde e tratamentos, a ticipar da deliberação, as opções são pouco discuti-
partir de suas experiências, crenças e valores. Cons- das e o consentimento fica apenas implícito, devido
tituem assim o núcleo ético e legal da relação clínica,
a barreiras relativas à forma como as opções são
a partir do qual o paciente deve ser respeitado em
apresentadas, à tentativa de manter expectativas
suas decisões após analisar a recomendação médica.
irrealistas por parte do paciente e família e, ainda,
O princípio moral subjacente é o da autono- à tendência de adiamento da deliberação. Conclui-
mia. Na relação terapêutica devem ser respeitadas -se, então, que há diversos obstáculos para que o
a autonomia do profissional e do paciente. O profis- exercício da autonomia e as preferências do pacien-
sional deve ter respeitado o seu melhor julgamento te sejam de fato respeitados.
e a objeção de consciência. O paciente, por sua vez,
Em geral, as dificuldades podem estar na for-
deve ser estimulado a manifestar suas preferências
mação do profissional, na capacidade de comuni-
ou propor alternativas às propostas feitas pelo pro-
cação, compreensão e discussão entre os sujeitos
fissional.
envolvidos na relação terapêutica para a tomada de
O respeito à autonomia do paciente tem signi- decisão e nos mecanismos que possibilitem sua con-
ficância clínica, legal e psicológica. Do ponto de vista cretização. Nos cuidados paliativos, o fato de lidar
clínico, favorece confiança na relação terapêutica, com pessoas com diagnósticos de doenças ameaça-
maior cooperação do paciente e satisfação com re- doras à vida, de curso progressivo e incapacitante,
lação ao tratamento. Em termos legais, respalda os torna frequentes os problemas acima listados.
direitos individuais sobre o próprio corpo. Do ponto
de vista psicológico, oferece ao paciente senso de Uma melhor compreensão das questões éticas
controle sobre a própria vida e de valor pessoal ¹. relacionadas ao exercício da autonomia do paciente
em cuidados paliativos é, assim, importante passo
Sendo princípio ético reconhecido em diversas para o aprofundamento da reflexão necessária para
áreas da assistência à saúde, o respeito à autonomia embasar juízos éticos ponderados no cotidiano da
do paciente inclui os cuidados paliativos. Interessan- assistência.
te observar, inclusive, que as mudanças na relação
médico-paciente, que passou de forte paternalismo
ao respeito pela autonomia do paciente, foi um dos etivos
fatores que levaram a mudanças no enfrentamento
da proximidade da morte na atualidade, reforçando
Identificar e analisar questões éticas relaciona-
a necessidade de se reconhecer a finitude da vida
humana, evitar sua conservação de forma incondi- das à autonomia do paciente e reconhecidas por pro-
cional, aplicar todas as medidas necessárias e dis- fissionais no cotidiano de uma equipe de cuidados
poníveis para melhorar sua qualidade, e não sua paliativos, sob o referencial bioético da casuística.

Artigos de pesquisa
quantidade, manter o paciente (e seu representan-
te) devidamente informado e respeitar seu critério rocedimentos metodol icos
para que possa participar da deliberação e decidir,
dentro da legalidade vigente, sobre o tratamento e
alguns aspectos relacionados às circunstâncias de Trata-se de pesquisa exploratória, de aborda-
sua morte ². gem qualitativa, em que todos os profissionais de
nível superior atuantes há pelo menos um ano na
Em paralelo, Tapiero ² ressalta que, apesar da
equipe de cuidados paliativos de um hospital geral
crescente tendência de se respeitar a autonomia do
da cidade de São Paulo/SP, exceto a coordenadora
paciente, na prática não é habitual que decida so-
da equipe, foram convidados a participar.
bre as circunstâncias de sua morte, mesmo porque
é frequente se lhe ocultar a condição de moribun- As entrevistas foram aplicadas em agosto de
do e, por isso, não é comum que a forma de morrer 2011, durante o expediente dos trabalhadores, com
dependa de seus critérios, valores e crenças. Bélan- duraram média de 30 minutos. À exceção de uma
ger, Rodríguez e Groleau ³ também concluem que a entrevista por telefone, as demais foram aplicadas
maioria dos pacientes em cuidados paliativos deseja no local de trabalho dos sujeitos. Foi mantido o
exercer autonomia, preferindo participar na toma- anonimato dos sujeitos que aceitaram participar da
da de decisão sobre o tratamento em algum grau, pesquisa, sendo apresentados sob forma numérica.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307


299
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

Foram aplicadas entrevistas semiestruturadas, intervenção, a documentação em prontuário se faz


cujo roteiro foi elaborado pelos pesquisadores e necessária para respaldar a equipe: “Se o pacien-
validados por meio de pré-teste. A análise temáti- te tem possibilidade de julgamento a gente chega
ca adotou a casuística como referencial teórico. As muito no paciente e pergunta, conversa, esclarece.
questões norteadoras foram: “Por favor, comente O que o paciente não quer, a gente procura deixar
sobre como é o trabalho desenvolvido pela equipe tudo muito bem documentado em prontuário pra
de cuidados paliativos e quais as principais dificulda- que isso não venha trazer problemas” (E4).
des enfrentadas”; “Com quais problemas éticos o(a)
A existência de limite ao respeito à autono-
senhor(a) se depara ao atuar nesse serviço?”; “O
mia do paciente que recusa uma intervenção sobre
que facilita a discussão e tomada de decisão nessas
a qual o profissional tem segurança de que seria
situações?”; “Que tipo de apoio seria interessante
proveitosa é, por sua vez, questionada: “Quando eu
para ajudar a lidar com esses problemas éticos?”
chego pra um paciente que precisa fazer exercício,
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Éti- um paciente que se beneficiaria muito de um exercí-
ca em Pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da cio, enfim... E ele me diz que ele não quer fazer (...).
Universidade de São Paulo (Ofício 181/11) e os en- Quando, até onde respeitar a vontade do paciente
trevistados foram esclarecidos acerca do caráter da se eu profissional sei que aquilo faria diferença pra
pesquisa, objetivos, procedimentos e possibilidade ele? Até onde respeitar? Até quando deixá-lo exercer
de recusa a qualquer momento, manifestando o a sua autonomia?” (E2).
consentimento mediante assinatura de termo de
consentimento livre e esclarecido (TCLE). No discurso a seguir verificamos que, ao lon-
go do tempo em que atua nos cuidados paliativos,
E2 tem amadurecido com relação ao respeito à au-
esultados e discuss o tonomia do paciente: “E eu fui entendendo que nem
sempre a minha vontade era soberana aqui” (E2). A
entrevistada reconhece que a formação profissional
Foram entrevistados onze profissionais: três
direciona e cria expectativas com relação à proativida-
enfermeiros, cinco médicos, um nutricionista, um fi-
de do profissional em promover mudanças substan-
sioterapeuta e um assistente social. A média de ida-
ciais a partir dos recursos terapêuticos de que dispõe.
de dos entrevistados é 41,3 anos, variando de 28 a
51. A média de tempo de exercício profissional geral Entretanto, a experiência que adquiriu atu-
foi de 14,5 anos, variando de 5 a 25 anos. Os entre- ando em cuidados paliativos agregou a consciência
vistados trabalham na área de cuidados paliativos há de que, por vezes, a atuação é restrita ao que ela
5,6 anos em média, variando de um ano e meio a 12 chama “vigilância”, e se refere à atenção dada aos
anos. Com relação à crença religiosa, três se declara- pacientes que não desejam a atuação específica
ram católicos, três protestantes de diversas confis- que ela tem a oferecer: “A minha formação é essa:
sões, um espírita e um judeu, e três afirmaram não eu tenho que promover alguma mudança. Então eu
ter religião definida. Alguns participantes já tinham demorei, até hoje isso pra mim é uma coisa que me
experiência em cuidados paliativos previamente ao incomoda quando eu acho que... Somente... Somen-
Artigos de pesquisa

ingresso na equipe estudada. A média de tempo de- te vigiar...” (E2).


dicada especificamente ao trabalho na equipe estu-
Neste exemplo podemos notar um conflito en-
dada é de 3,77 anos, variando de 1 a 4 anos.
tre os princípios de beneficência e respeito à auto-
Ao longo das entrevistas foram observadas as nomia. Essa postura pode ser paternalista caso con-
seguintes questões éticas relacionadas às preferên- trarie as preferências do paciente e seja justificada
cias do paciente: respeito à autonomia do paciente; pelo objetivo de beneficiar o paciente ou evitar que
veracidade e direito à informação; comunicação e sofra danos 4. As circunstâncias concretas de cada
respeito no recebimento de más notícias; cerco do caso devem ser analisadas a fim de verificar se é
silêncio; participação na deliberação e tomada de uma atitude paternalista justificável.
decisão: paciente, equipe e família; preferências
Há situações em que, ao contrário da acima
quanto ao local de tratamento e morte.
relatada, o paciente opta por intervenções agressi-
vas apesar da avaliação do profissional de que seria
Respeito à autonomia do paciente fútil ou traria mais desconforto que benefício ao pa-
Quando o paciente tem condições de jul- ciente 5. De acordo com Macauley 5, muitas vezes o
gamento, a equipe esclarece a situação e leva em consenso é atingido depois de esclarecimento, po-
conta sua opinião. Quando há recusa de alguma rém há casos em que a decisão do paciente é mais

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011


300
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

emocional que racional, e desistir de intervenções O direito à informação é amplamente reco-


com foco curativo desafiaria o senso de esperança, nhecido pela equipe que estudamos: “Se o paciente
impondo intensa percepção de fracasso, fraqueza tem desejo de saber, como tem um caso aqui, que a
ou covardia 5. paciente ela é totalmente esclarecida e ela induziu
a equipe a contar tudo pra ela do que ela tinha e o
O autor argumenta que paliativistas conside-
porquê dos sintomas. Então o próprio paciente mui-
ram a complexidade do sofrimento humano, expres-
tas vezes induz a equipe a isso e deseja, e também é
sa inclusive no conceito de “dor total” proposto por
um direito que o paciente tem” (E1).
Cicely Saunders, mas paradoxalmente resistem a
aceitar a possibilidade de o sofrimento emocional As informações acerca do estado clínico são
de um paciente que aceitou o tratamento paliativo necessárias, ainda, para o paciente poder planejar
ser mais severo que o sofrimento físico esperado sobre sua vida e tomar providências frente à proxi-
como consequência de um tratamento agressivo. midade do seu fim: “Eu acho que ele tem o direito de
Conclui, então, que cuidados paliativos também têm saber aquilo que ele tem e de se planejar em cima
suas bases valorativas, o que por vezes gera confli- do tempo que ele ainda tem pra fazer as suas coisas.
tos por propor-se, ao mesmo tempo, uma aborda- Então se ele achar que tá tudo bem, ele pode até
gem centrada no cliente e que prioriza o respeito à morrer achando que tá tudo bem” (E2).
autonomia 5. A comunicação foi reconhecida, inclusive,
Podemos notar, ainda, a valorização da opi- como instrumento fundamental para resolver pro-
nião dos familiares nas decisões sobre o paciente, blemas éticos entre profissionais e paciente/família:
e o consequente compromisso de compartilhar com “A boa comunicação. Acho que é o principal instru-
mento entre equipe e estender isso para os familia-
a família todas as informações necessárias: “Porque
res do paciente.” (E6). Mediante comunicação, res-
em cuidado paliativo normalmente a gente não es-
peito à diversidade de opiniões e unidade os con-
conde, principalmente do familiar” (E1).
sensos devem ser alcançados, iniciando-se entre os
Essa realidade reflete o fato de ser frequente próprios membros da equipe:
o paciente em cuidados paliativos não estar em con-
dições de deliberar e decidir e, portanto, de exercer “Eu acho que é justamente a questão de todos fa-
autonomia, passando a ser crucial, então, a parti- larem a mesma língua, sabe, de você ter a cabeça
cipação da família a fim de representar os valores aberta e você ter o discernimento pra poder discuti-
e interesses do paciente, ou o recurso às diretivas -las. Inclusive discuti-las não só na equipe, mas pe-
antecipadas de vontade, sempre que o paciente as rante a família, né? Perante todo o restante da equi-
tenha manifestado. pe multidisciplinar. (...) Cada um respeita a sua opi-
De acordo com Kovács 6, parte importante dos nião, mas eu acho que no fundo todos conseguimos
cuidados no final da vida é facilitar o exercício da chegar num ponto comum. Eu acho que isso minimi-
autonomia e decisões de pessoas enfermas, que tra- za muito a questão dos impasses médicos, a questão
zem consigo sua biografia. de bater de frente em relação a condutas mesmo da
equipe em si” (E4).

Veracidade e direito à informação Artigos de pesquisa


A ideia de que a veracidade entre paciente e Comunicação e respeito no recebimento de más
profissional de saúde (incluindo, muitas vezes, tam- notícias
bém os familiares do paciente) é fundamental para A compreensão de uma informação depende
o exercício da autonomia e para a construção ou do sucesso do processo de comunicação. No caso da
manutenção de uma relação permeada de confian- comunicação entre profissional de saúde e paciente
ça foi explicitada: e/ou família, muitas dificuldades de comunicação
podem impor-se.
“Só a verdade. Entre o médico, equipe, família e pa- Os pacientes podem ter sua capacidade de
ciente. Tenho uns chavões: ‘a gente só pode brigar compreensão ameaçada ou diminuída em decor-
com inimigos que conhece’. Não posso esperar que rência de estados de humor como ansiedade e
a família ajude numa decisão – não pode compre- depressão, rebaixamento de nível de consciência,
ender – se eu disser meias verdades. Então dividir comprometimento cognitivo, sensorial ou pela pró-
100% com a família, porque se a família não se sen- pria dor e outros sintomas intensos. A participação
tir segura e acolhida não vai funcionar” (E6). da família ou representante legal do paciente em

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307


301
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

relação às decisões sobre a condução do caso passa informação não priva o paciente do sofrimento, mas
a ser maior. a comunicação respeitosa lhe traz benefícios:
Além disso, profissionais de saúde podem ter
dificuldades para empreender uma eficaz interação “Quando o paciente sabe, a gente toca isso na lin-
com o paciente/família por falta de habilidade em guagem que ele aguenta, do jeito que ele quer. É
comunicar-se de forma simples, acessível e de acor- muito legal. Geralmente quem viveu muito bem, vai
do com as características dos interlocutores, ou pelo morrer muito bem. Quem consegue ter transparên-
receio de sobrecarregar emocionalmente o paciente cia nessa hora, não quer dizer que não sofre, que
com uma má notícia ou mitigar sua esperança. não angustia” (E7).

Vale considerar que assim como o acesso à Enquanto a mentira e a omissão isolam o pa-
informação é identificado como elemento ético im- ciente, a oportunidade de partilhar os medos, an-
portante na relação terapêutica, a qualidade da co- gústias e preocupações pode trazer benefício tera-
municação também traz implicações éticas, vez que pêutico, sempre que se tenha cuidado com relação
deve beneficiar o paciente e evitar os danos emocio- ao que, como, quando, quanto e a quem se deve in-
nais que uma má notícia pode trazer. formar 7. Assim, foi feita referência à forma na qual
Muitos profissionais, e por vezes familiares, as informações devem ser oferecidas ao paciente:
se questionam sobre se o paciente deseja real- “Lógico que a verdade não precisa ser “entuxada”,
mente saber a verdade, se isso pode lhe prejudicar, mas com delicadeza...” (E6).
se seria melhor omitir a verdade ou não ser veraz Fallowfield e cols. 8 ressaltam ser frequente
para preservar a esperança. Essa preocupação foi profissionais de saúde alegarem que a maioria dos
apresentada: “Até onde a gente vai? (...) Então é pacientes não deseja saber a verdade, pois perde-
lícito a gente expô-la diante de uma verdade que riam a esperança, ficariam oprimidos e deprimidos,
às vezes ela não quer ver?” (E9). Esta colocação se tornando assim incapazes de aproveitar o tempo
remete a uma exceção à regra de consentimento que lhes resta. Entretanto, há pouca evidência des-
informado reconhecida no âmbito da assistência à se processo. Ao contrário, a omissão de informações
saúde. Trata-se do chamado privilégio terapêutico, importantes sobre a realidade do estado de saúde
caracterizado pela omissão de informações sobre o do paciente não o protege do sofrimento psicológi-
estado de saúde do paciente baseado num julga- co. O resultado mais frequente dessa atitude evasi-
mento fundamentado do médico de que divulgar a va do profissional é, para o paciente, maior angústia,
informação seria potencialmente prejudicial a um dificuldade e lentidão no processo de ajustamento
paciente que está deprimido, emocionalmente es- necessário.
gotado ou instável 4. Oliveira e colaboradores 9 observaram que
Compreende-se assim que as informações 90% dos médicos entrevistados afirmaram prover
devem ser oferecidas ao paciente com cuidado, res- suporte emocional ao paciente, porém 20% infor-
peitando também o direito de “não saber”. Foi reco- maram não conversar sobre a doença nem comu-
nhecida uma diferença cultural entre o Brasil e paí- nicar o diagnóstico verdadeiro ao paciente em fase
Artigos de pesquisa

ses de cultura anglo-saxônica, que permite que, no terminal. Além disso, apesar de 70% dos médicos
Brasil, a informação seja dada de forma mais caute- concordarem que a discussão aberta sobre questões
losa: “A gente tem a sorte ética... uma sorte humana de vida e morte não causa danos ao paciente, 80%
de não estar em uma cultura anglo-saxônica, dentro deles preferem não esclarecer a estimativa de tem-
de uma cultura ainda não tão litigiosa, que eu pre- po de vida para os pacientes.
cise dizer pro paciente: tempo de vida; perspectivas; A comunicação dos médicos participantes do
chances etc. A gente tem a possibilidade latina de estudo acima citado com os familiares dos pacientes
contar o que ele aguenta ouvir, na velocidade que também é restrita. Oitenta por cento dos entrevis-
ele aguenta ouvir, oferecer silêncio... e esperar” (E7). tados afirmaram apenas esclarecer dúvidas dos pa-
Nesse sentido, Pessini 7 concorda que a atitude rentes e 30% relataram não dar apoio nem conver-
anglo-saxã em relação à comunicação de diagnósti- sar abertamente com eles acerca da doença do pa-
co/prognóstico vai mais na direção da verdade obje- ciente 9. Em revisão de literatura sobre comunicação
tiva dos fatos, o que contrasta com a nossa cultura entre profissional de saúde e paciente de cuidados
latina, que faz uma leitura emocional da verdade paliativos, Slort et al 10 constataram que as barreiras
médica com a preocupação de proteger o paciente mais frequentemente citadas para a comunicação
da verdade. Reconhece-se também que ter acesso à foram: a falta de tempo do profissional; a ambiva-

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011


302
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

lência ou falta de desejo do paciente em saber sobre falar sobre questões referentes à finitude, reconhe-
o prognóstico; e o fato de o profissional não falar çam suas ambivalências e as do paciente sobre de-
honestamente sobre diagnóstico ou prognóstico. terminados assuntos, reavaliem continuamente as
Em contrapartida, os facilitadores à comunica- necessidades e preferências do paciente, e tenham
ção mais citados foram: a disponibilidade do profis- alto nível de habilidades de comunicação para dis-
sional; relacionamentos duradouros entre paciente cutir, adicionalmente, questões emocionais e espiri-
e profissional; o profissional manifestar compromis- tuais com o paciente 10.
so, abertura e permissão para discutir qualquer as-
sunto, sendo honesto e amigável, ouvindo de forma Cerco do silêncio
ativa e levando o paciente a sério; tomar iniciativa A dificuldade de falar sobre o processo de
em tocar temas relacionados à finitude, sem omitir doença e a expectativa da brevidade da vida é fre-
informações; negociar opções terapêuticas, dese- quente entre profissionais de saúde e também para
jando falar sobre diagnóstico e prognóstico, prepa- os próprios pacientes e seus familiares. É comum
ração para a morte, questões psicológicas, sociais e observar o designado “cerco”, “conspiração” ou
espirituais do paciente e suas preferências. “pacto” de silêncio, identificado pelos entrevistados
Foi identificada ambivalência por parte de pa- como problema ético: “Do ponto de vista ético, o
ciente e profissional acerca da discussão de prog- que me chama muita atenção ainda acho que é o
nóstico. Muitos pacientes manifestam querer infor- cerco do silêncio” (E7).
mação completa, mas às vezes são relutantes em O cerco do silêncio é definido como o acordo
saber de um mau prognóstico. Por sua vez, profis- implícito ou explícito, por parte de familiares, ami-
sionais referem ser conscientes do impacto das in- gos e/ou profissionais, de alterar a informação que
formações sobre a esperança do paciente e acham se dá ao paciente com a finalidade de ocultar-lhe o
difícil julgar o momento adequado para começar a diagnóstico e/ou prognóstico e/ou gravidade da si-
discussão sobre essas questões 10. tuação 11. E7 afirma que o cerco do silêncio: “É um
Comparando sua pesquisa com a literatura diagnóstico em cuidado paliativo onde você percebe
sobre comunicação entre profissional e paciente que esse paciente não está participando ativamente
em contextos gerais, Slort et al 10 concluíram que a das escolhas sobre si porque não sabe o que tá acon-
comunicação em cuidados paliativos não é tão dife- tecendo” (E7).
rente. O que poderia ser entendido como questões Quando quem detém a informação é a família,
específicas são: a maior dificuldade de predizer o ela detém o poder de decidir sobre o paciente: “As
curso clínico da doença, que leva a maior incerteza famílias tomarem conta das decisões, das escolhas,
acerca do prognóstico; a ambivalência sobre como e do diagnóstico que pertence ao paciente” (E7). O
lidar com informações referentes a um mau prog- intuito de quem impõe o cerco do silêncio é evitar
nóstico; a relevância de reavaliar continuamente as o sofrimento do outro: “Ele não vai aguentar sa-
necessidades de pacientes e família no que refere à ber”; “Vai sofrer muito” (E7). Porém, de acordo com
oferta de informação, vez que as ideias e preferên- a entrevistada, além de não excluir o sofrimento, o

Artigos de pesquisa
cias do paciente podem mudar ao longo do tempo. cerco do silêncio priva a pessoa da possibilidade de
Além disso, profissionais devem distinguir en- exercer autonomia: “Na verdade, essas pessoas es-
tre problemas do paciente e suas necessidades per- tão sofrendo... privando o paciente da escolha (...)
cebidas, pois o paciente pode não querer abordar causa um grande desgaste na família e também na
determinados problemas. Com relação aos temas gente, é os pacientes que não sabem o que tá acon-
da comunicação, questões mais específicas dos cui- tecendo” (E7).
dados paliativos são a explanação sobre a fase final Foi descrita cena em que o cerco do silêncio
da doença, preferências e emoções relativas ao fim permeia as relações: “Lá na casa, no portão, alguém
da vida, questões espirituais, futilidade terapêutica, da família me pede pra não falar sobre o assunto,
opções de tratamento que prolonguem a vida, deci- sobre o diagnóstico, sobre prognóstico, sobre tempo
sões relativas ao fim da vida e crenças sobre o que de vida, sobre nada praticamente, né? Na maioria
há para além da vida 10. das vezes, a gente sabe que o paciente já sabe e
Os autores sugerem que os profissionais de existe a tal conspiração do silêncio” (E10). Ao res-
cuidados paliativos estejam disponíveis para o pa- saltar a dialética do cerco do silêncio entre paciente
ciente, tenham uma abordagem aberta e compro- e família, a entrevistada afirma que, muitas vezes,
metida, ouçam ativamente, tomem iniciativa para o contrário das situações relatadas também ocorre,

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307


303
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

sendo o paciente quem detém a informação, sem Jonsen, Siegler e Winslade 1 aconselham a
querer que a família saiba: nunca alegar futilidade para justificar decisões unila-
terais, evitando assim conversas difíceis com pacien-
“O paciente não fala pra família, eu imagino que pra te ou família, e que se evite o uso do termo futilida-
família não sofrer... mais... E a família não fala nada de com a família, haja vista sua conotação negativa.
pro paciente, também com o mesmo objetivo. E fica Sugerem, ao invés disso, direcionar os esforços para
tudo muito... fica uma situação calada e sofrida” (E10). oferecer conforto e paliação ao paciente, pois os
prejuízos de uma intervenção mais agressiva podem
Além de causar sofrimento à família e ao pa- exceder os benefícios possíveis.
ciente, o cerco do silêncio impõe um dilema para os
A autonomia do paciente (exercida por ele
profissionais: “Quem que eu vou acatar? E a gente
ou por seu representante) foi reconhecida como
vai tateando e... né? E... deixando a coisa fluir um
importante elemento para a definição da condu-
pouco devagar. E acaba... no final, eu acho que
ta, cabendo à equipe legitimar sua participação no
acaba tudo dando certo. Mas é um dilema” (E10);
processo deliberativo: “Como a ideia das condutas
“Essa questão do cerco do silêncio é uma coisa que
tem muito a ver com o respeito à autonomia do pa-
sempre me angustiou porque eu não sei de que lado
ciente (...) é uma questão de legitimar esse pacien-
eu fico... Então eu prefiro ficar na minha mesmo. Eu
te, essa família” (E7).
prefiro ficar bem quieta” (E2).
A questão da participação da família na to-
Fallowfield, Jenkins e Beveridge 8 afirmam
mada de decisão é trazida também com outro
que, embora a motivação por trás do cerco do si-
foco. Entrevistados manifestaram preocupação
lêncio seja bem intencionada, resulta em elevado
pela atribuição, a pessoas leigas, da função de de-
estado de ansiedade, medo e confusão, e não de
cidir sobre questões técnicas sobre as quais não
serenidade e segurança. Além disso, nega aos su-
têm competência:
jeitos a oportunidade de reorganizar e adaptar suas
vidas para realizar metas mais plausíveis, pautadas
por esperanças e aspirações realistas. No caso dos “Eu vejo acontecer na clínica médica, na geriatria,
cuidados paliativos, pacientes necessitam de infor- não com a gente é... Passar pro paciente e pra famí-
lia dilemas que é da equipe decidir. Por exemplo, se
mações claras para planejar e tomar decisões sobre
o paciente tem a indicação de algum procedimento
o local da assistência e da morte, colocar assuntos
e aquele procedimento ele é muito específico, você
pendentes em ordem, despedir-se, fazer pazes e
precisa de formação pra discernir sobre aquele pro-
proteger-se de terapias fúteis. Os autores concluem
cedimento. Muitas vezes aquilo, ele é jogado a res-
que a oferta de informações honestas ao paciente é
ponsabilidade para o familiar (...) Não acho que é
um imperativo ético 8.
ético discutir isso com uma pessoa leiga” (E5).

Participação na deliberação e tomada de decisão: E6 concorda, ao afirmar que: “Tem coisa que é
paciente, equipe e família conduta médica. Daí não existe “o que você quer?”,
Um entrevistado considerou como importante porque é conduta médica, não algo que a família
Artigos de pesquisa

problema ético a tomada de decisão unilateral por pode escolher” (E6). Ante tais constatações as entre-
parte da equipe médica sobre questões relativas ao vistadas remetem à discussão sobre quais questões
investimento terapêutico: “O que me deixa absolu- e de que forma a família deve participar no processo
tamente chocada, horrorizada, é a decisão unilate- de deliberação em cuidados paliativos:
ral de uma equipe médica de não mais investir em
paciente ou não. E o termo é ‘investir’, como se o “Tudo bem (a família participar de decisões) em
paciente fosse uma bolsa, um mercado de ações, questões como analgesia, sonda para não vomitar...
né? Então, em geral, os médicos avisam que não vão ajudar a escolher entre sonolência ou um pouco de
mais fazer... Ainda avisam... talvez...” (E7). dor... Mas operar ou não, ir para UTI ou não, são
outra coisa, são decisões de conduta médica” (E6).
Na fala acima transcrita verificamos o incômo-
do pelo fato de a equipe médica não permitir que Os discursos expressam, assim, que caberia à
paciente e família participem de decisão tão impor- equipe discernir sobre quais questões relacionadas
tante e também com relação a um termo bastante ao tratamento do paciente a família pode opinar, e
utilizado que é o “investir”, que, em sua opinião, é em quais circunstâncias a família deve ser esclare-
ambíguo e permite uma visão depreciativa e utilitá- cida a fim de compreender a conduta decidida pela
ria sobre o paciente. equipe: “Muitas coisas a família não tem que deci-

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011


304
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

dir, mas compreender a sua decisão, porque a con- tomada de decisão advém do risco das possíveis
duta é médica. O profissional tem que ter isso claro implicações jurídicas contra a equipe ou determina-
pra ele de até onde a família pode opinar” (E6). De- do profissional. A próxima fala representa bem essa
legar à família do paciente a responsabilidade por posição: “Juridicamente, não importa o que a família
decisões de conduta médica foi identificado como escolha. A tomada de decisão da família não tem ne-
problema, especialmente quando há discordâncias nhum valor. Aliás, sempre tem um familiar que chega
entre membros da família ou entre família e equipe. de ‘Titirica da Serra’ e chega cansando, põe carami-
As situações citadas pelos entrevistados, em nhola na cabeça e vai até o juiz. Se se agarrar ao fato
que tais conflitos emergem, vão desde o enca- que a família escolheu, certamente pagará indeniza-
minhamento aos cuidados paliativos, incluindo a ção. Mas se for a conduta, é respaldado” (E6).
indicação de procedimentos menos invasivos e a Tal observação chama atenção à necessida-
contraindicação de medidas desproporcionais, ao de de integração e coerência entre os membros da
dilema, de modo especial, entre reanimar ou não o equipe e entre eles e a família, para evitar proble-
paciente. Nesse sentido, foi referido como problema mas judiciais: “É imprescindível que todos os passos
o fato de muitas vezes a equipe médica que encami- estejam friamente compassados, e também diferen-
nha o paciente ou pede interconsulta não zelar pelo ciar o que é conduta médica e no que o familiar pode
esclarecimento prévio da família: interferir”. Ressalte-se ainda que: “Acaba-se chegan-
do a um acordo, mas sempre com muito desgaste, às
“A gente esbarra muitas vezes no não falar da equi- vezes, com um desgaste muito... muito grande, né.
pe médica que está, digamos assim, gerenciando o Tem pessoas até agressivas... Até violentas” (E10).
caso do paciente. O fato de não falar das condições Kovács 6 relaciona a dificuldade da participa-
que realmente ele está... A possibilidade de cura que ção de pessoas leigas nas reflexões e tomada de de-
não existe mais, de controle dos sintomas” (E4). cisão sobre cuidados no final da vida a atitudes cul-
turais muito arraigadas de negação da morte. A au-
De acordo com um dos entrevistados, a falta
tora sugere debates e esclarecimentos à população
de informação da família ocorre mais em função de
como estratégias que possibilitem a preservação da
limitações da própria família do que devido à indis-
dignidade e qualidade no processo de morrer.
ponibilidade da equipe: “Que se houve uma desin-
formação ou uma não informação, às vezes é muito
mais por uma família que não era presente porque o Preferências quanto ao local de tratamento e morte
paciente não deixava, ou porque não conseguia ser É comum o paciente internado desejar ser tra-
presente, e que a gente acaba tendo que contar todo tado em casa. Nesses casos a equipe deve, então,
o final da história e... Contar qual que é o melhor tra- se empenhar para que esse objetivo se cumpra. O
tamento para aquele paciente. E induzir essa família fato de o serviço de cuidados paliativos estudado
a acreditar na gente. A gente tem um problema éti- oferecer assistência domiciliar favorece essa possi-
co, que é o problema de comunicação” (E7). bilidade: “O paciente quer muito ir pra casa. Então
Como problema ético, E10 aponta a rejeição a equipe se empenha mais ainda pra tentar mandar

Artigos de pesquisa
da família frente à proximidade da perda do familiar, essa pessoa pra casa” (E2).
dificultando entender a ideia de cuidados paliativos, Muitas vezes o paciente deseja falecer em
bem como o quanto é inócuo manter alguns proce- casa, mas isso traz implicações legais importantes:
dimentos: “A questão do... Principalmente da famí- “E essa é uma questão até ética que não é bem acei-
lia, não aceitar cuidados paliativos. É não aceitar que ta, entendeu? E que a gente tem muitas barreiras
se falem os procedimentos desnecessários... fúteis. É em caso de óbito no domicílio. Não pelo lado da fa-
muito frequente, também. (...) É muito difícil as pes- mília, mas pelo lado burocrático mesmo, lá do siste-
soas aceitarem que não se faça mais procedimentos, ma. Quando uma pessoa morre em casa os trâmites
que não se invista em medidas que não vão dar em normais quais são? Polícia... IML...” (E1).
nada” (E10). Pautadas nas mesmas dificuldades as Além dos motivos legais apontados, a dificul-
entrevistas também fazem referência a problemas dade de o paciente falecer em casa mesmo quando
no momento do óbito: “No prontuário estava escri- assim o deseja está, de acordo com os entrevista-
to, mas a gente sabia que havia um litígio entre equi- dos, relacionada à incapacidade de a família acom-
pe médica e família. Então, o que fazer?” (E6). panhar o processo até o final: “Porque a família não
A preocupação dos entrevistados que se pro- tem estrutura pra suportar esse... O falecimento no
nunciaram a respeito da participação da família na domicílio” (E10). Os entrevistados também aludem

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307


305
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

à falta de recursos, por parte da equipe, para que onsidera ões nais
possam dar suporte ao paciente e família nessa si-
tuação:
Os resultados da pesquisa permitiram identifi-
car importantes questões pertinentes à autonomia
“Uma coisa que seria, que talvez, cairia na questão do paciente em cuidados paliativos, sob o paradig-
do princípio ético da justiça nos cuidados paliativos ma bioético da casuística. O dever de respeitar a
é às vezes não ter tantos recursos quanto eu gosta- autonomia do paciente foi reconhecido, porém fo-
ria... pra um paciente que quer estar em casa e a ram identificados conflitos entre esse princípio e o
gente não tem um curativo diário, ou a gente não de beneficência, principalmente quando o paciente
tem uma garantia de transporte imediato, ou a recusa intervenção. A experiência em cuidados pa-
gente não dá conta de uma demanda que poderia liativos foi apontada como estímulo a uma atuação
ser visita médica semanal, porque a gente tem limi- com maior respeito às preferências do paciente. En-
te de equipe mesmo” (E7). trou em discussão, também, a moralidade de o pa-
Em decorrência, um problema ético muito ciente/família participar de decisões sobre conduta
frequente é o não cumprimento do combinado médica.
entre paciente, equipe e família com relação ao lo- O dever de veracidade foi reconhecido e a
cal e contexto da morte, quando falecer em casa é comunicação apontada como componente neces-
desejo manifesto do paciente: “Então ficou certo, o sário para a relação terapêutica, sendo condição
paciente manifestou o desejo de falecer em casa, a elementar para o paciente exercer autonomia.
família por um momento concorda e quando chega Paralelamente, o respeito aos limites emocionais
o momento eles não suportam e trazem o paciente do paciente com relação à ciência de más notícias
que, às vezes, falece na ambulância, no trajeto, ou foi colocado como necessário. Para fazer frente a
no pronto-socorro de uma forma bem ruim. Longe essas demandas, ressalta-se a importância de os
dos familiares, longe do seu ambiente” (E10). profissionais desenvolverem habilidades de co-
Por todas essas questões a escolha do local municação.
do cuidado e da morte é apontada como algo de- O cerco do silêncio foi colocado como impor-
safiador do ponto de vista ético 12. Por vezes, o pa- tante obstáculo para a autonomia e resolução de
ciente prefere determinado local para ser cuidado pendências por parte do paciente que ainda teria
e morrer, porém isso pode não ser factível ou ético. condições de decidir e atuar socialmente. Além dis-
Os autores sugerem que o planejamento para alta so, os profissionais de saúde podem enfrentar como
hospitalar do paciente com doença ameaçadora da um dilema ético a escolha da postura a adotar pe-
vida considere se ele tem condições mentais para rante este cerco.
tomar essa decisão. Devem ser analisados, ainda, A escolha do local de tratamento e morte foi
os riscos que o cuidado domiciliar pode significar citada como importante aspecto dentre as prefe-
para os cuidadores, suas opiniões, as fontes de re- rências do paciente, embora seja reconhecida a
cursos necessários e a qualidade do relacionamen- dificuldade de viabilizar uma assistência adequada
to entre paciente e familiares 12.
Artigos de pesquisa

quando a escolha é pela própria residência. Nesse


A escolha do paciente deve ser facilitada sem- caso, faz-se necessária a avaliação das necessida-
pre que possível, respeitando assim sua autonomia, des e preferências do paciente juntamente com a
mas deve-se evitar causar dano quando o cuidado disponibilidade de assistência formal e informal no
domiciliar não for plausível, utilizando como crité- domicílio.
rio o melhor interesse do paciente e o bem-estar O estudo evidenciou o destaque do tema da
dos envolvidos no cuidado. É papel da equipe de comunicação. O fato de a comunicação em cuida-
saúde, inclusive, explicar ao paciente por que suas dos paliativos muitas vezes incluir questões de forte
preferências não podem ser facilitadas 12. conteúdo emocional a torna desafiadora para todos

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011


306
Questões éticas referentes às preferências do paciente em cuidados paliativos

os envolvidos, o que frequentemente resulta na enfrentar problemas éticos, e ainda como prerroga-
omissão de determinadas informações e atitudes tiva para o exercício da autonomia, para a relação
paternalistas perante o paciente. Em paralelo, é re- terapêutica, ajustamento psicológico e resolução de
conhecido o seu papel enquanto instrumento para pendências.

eferências

1. Jonsen AR, Siegler M, Winslade WJ. Clinical ethics: a practical approach to ethical decisions in
clinical medicine. 7a ed. New York: Mc-Grraw-Hill; 2010.
2. Tapiero AA. Las diferentes formas de morir: reflexiones éticas. An Med Interna. 2004;21(7):355-8.
3. Bélanger E, Rodríguez C, Groleau D. Shared decision-making in palliative care: a systematic mixed
studies review using narrative synthesis. Palliat Med. 2011;25(3):242-61.
4. Beauchamp TL, Childress JF. Princípios de ética biomédica. São Paulo: Loyola; 2002.
5. Macauley R. Patients who make ‘‘wrong’’ choices [editorial]. J Palliat Med. 2011;14(1):13-6.
6. Kovács MJ. A caminho da morte com dignidade no século XXI. Rev.bioét. (Impr.). 2014;22(1):94-
104.
7. Pessini L. Distanásia: até quando prolongar a vida? São Paulo: Loyola; 2001.
8. Fallowfield LJ, Jenkins VA, Beveridge HA. Truth may hurt but deceit hurts more: communication in
palliative care. Palliat Med. 2002;16(4):297-303.
9. Oliveira FT, Flávio DA, Marengo MO, Silva RHA. Bioética e humanização na fase final da vida: visão
de médicos. Rev. bioét. (Impr.). 2011;19(1):247-58.
10. Slort W, Schweitzer BPM, Blankenstein HA, Abarshi EA, Riphagen I, Echteld MA et al. Perceived
barriers and facilitators for general practitioner-patient communication in palliative care: a
systematic review. Palliat Med. 2011;25(6);613-9.
11. Barbero Gutiérrez J. El derecho del paciente a la información: el arte de comunicar. An Sist Sanit
Navar. 2006;29(3):19-27.
12. Wheatley VJ, Baker JI. ‘‘Please, I want to go home’’: ethical issues raised when considering choice
Recebido: 2.12.2013
of place of care in palliative care. Postgrad Med J. 2007;83(984):643-8.
Revisado: 2. 4.2014
articipa o dos autores
Aprovado: 1. 7.2014
Este manuscrito é parte dos resultados da tese de doutorado de Carolina Becker, orientada pelo prof.
dr. Paulo Antonio de Carvalho Fortes, ambos colaboraram na condução da pesquisa e na elaboração
do artigo científico, compartilhando, dessa forma, sua autoria.

Artigos de pesquisa

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222011 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 298-307


307
Construção e validação do instrumento “Inventário
de problemas éticos na atenção primária em saúde”
José Roque Junges 1, Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli 2, Marcos Paschoal Patussi 3, Rafaela Schaefer 4, Carlise Rigon Della Nora 5

Resumo
Identificar conflitos éticos contribui para melhorar a qualidade da assistência. O estudo objetivou verificar a
validade de construto e consistência interna do “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saú-
de”. O instrumento, questionário estruturado e fechado, é fruto de uma década de pesquisas sobre bioética
na atenção básica. O artigo enfoca a última etapa da validação. No início dessa fase, o instrumento continha
41 itens. Foi aplicado a 237 profissionais de 12 unidades de saúde do Grupo Hospitalar Conceição (Porto
Alegre/RS). Após análise fatorial exploratória dos escores, obtiveram-se seis dimensões centrais com eleva-
do grau de confiabilidade e consistência (KMO=0,831; Bartlett p<0,001; α geral 0,876), explicando 61,4% da
variância. Ao final, o instrumento validado ficou com seis fatores e 24 itens. O instrumento poderá contribuir
para pesquisas em bioética, com estudos quantitativos em grandes amostras, bem como propiciar o reconhe-
cimento dos problemas éticos mais comuns na atenção básica.
Palavras-chave: Estudos de validação. Ética. Bioética. Atenção primária à saúde. Resolução de problemas.

Resumen
La construcción y validación del “Inventario de Problemas Éticos en la Atención Primaria de la Salud”
Identificar los conflictos éticos contribuye para mejorar la calidad de la atención. Este estudio tuvo como obje-
tivo evaluar la validez de constructo y la consistencia interna del Inventario de Problemas Éticos en la Atención
Primaria de la Salud. El instrumento, un cuestionario estructurado y cerrado, es resultado de una década de
investigaciones sobre bioética en la atención primaria. El artículo enfoca la última etapa de validación. En
el inicio de esta etapa, el instrumento contenía 41 elementos. Se lo ha aplicado a 237 profesionales de 12
centros de salud del Grupo Hospitalar Conceição (Porto Alegre, RS). Tras el análisis factorial exploratorio de
las puntuaciones, se encontró seis dimensiones centrales con alto grado de fiabilidad y consistencia (KMO =
0,831, Bartlett p < 0,001, alpha 0,876), explicando el 61,4 % de la varianza. La versión validada del instrumento
quedó con 6 factores y 24 ítems. El instrumento contribuirá para las investigaciones en bioética, pues posibili-
ta estudios cuantitativos en grandes muestras para llevar a reconocerse los problemas éticos más frecuentes
en atención primaria.
Palabras-clave: Estudios de validación. Ética. Bioética. Atención primaria de salud. Solución de problemas.

Abstract
Construction and validation of the instrument “Inventory of Ethical Problems in Primary Health Care”
Identifying ethical conflicts contributes to improve healthcare quality. This study aimed to evaluate content
validity and verify internal consistency of the Inventory of Ethical Problems in Primary Health Care. The ins-
Artigos de pesquisa

trument – a close and structured questionnaire – is a result of decades of researches on bioethics in primary
health care. The article focuses on the last stage of validation. At the beginning of this stage the instrument
had 41 items. It was applied to 237 professionals of 12 primary care centers at Grupo Hospitalar Conceição
(Porto Alegre, RS). After the exploratory factor analysis, it resulted in six dimensions with high degree of relia-
bility and consistency (KMO = 0.831, Bartlett p < 0.001; alpha 0.876), which explained 61.4 % of variance. At
the end, the validated version of the instrument had 6 factors and 24 items. The instrument may contribute to
researches in bioethics through the development of studies to recognize the most common ethical problems
in primary care and to explore the influence of different contexts on ethical problems.
Key words: Validation studies. Ethics. Bioethics. Primary health care. Problem solving.

Aprovação CEP/Grupo Hospitalar Conceição 09-156

1. Doutor roquejunges@hotmail.com – Unisinos, São Leopoldo/RS, Brasil 2. Livre docente elma@usp.br –Universidade de São Paulo,
São Paulo/SP, Brasil 3. Doutor mppatussi@unisinos.br – Unisinos, São Leopoldo/RS, Brasil 4. Doutoranda rafaelaschaefer@hotmail.com
– Universidade Católica Portuguesa, Porto, Portugal 5. Doutoranda carliserdn@yahoo.com.br – Universidade Católica Portuguesa, Porto,
Portugal.

Declaram não haver conflito de interesse.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012


308
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

Investigações sobre os desafios éticos nos ser- sível, bastante compreensível e de fácil aplicação.
viços de atenção à saúde podem levar os profissio- Na continuidade da validação, era preciso avaliar o
nais a refletir, deliberar e avaliar atitudes éticas nas construto do instrumento. Para validar a clareza, a
práticas de saúde 1. Os problemas éticos são desafios facilidade de leitura e a confiabilidade do construto
que exigem deliberação pela melhor solução. Enten- desenvolveu-se, entre 2006 e 2008, um estudo me-
didos como desafios, não podem ser resolvidos por todológico 6. A validação da clareza e confiabilidade
meio de receitas prontas, mas exigem permanente deu-se por meio de um painel de especialistas em
criatividade, porque requerem respostas de longo saúde da família, com uso da técnica Delphi.
alcance, que ultrapassem a solução de um caso parti- Cada item do IPE-APS teve seu enunciado des-
cular 2. No Sistema Único de Saúde (SUS), a Estratégia crito segundo a situação narrada pelos entrevista-
de Saúde da Família (ESF) vem reorganizando a Aten- dos do estudo, cujos resultados deram origem à lista
ção Primária à Saúde (APS) por meio da efetivação de problemas constantes do inventário. Para cada
dos princípios da longitudinalidade e da integralida- item do IPE-APS solicitava-se aos especialistas do
de. Tal fato reforça a necessidade de compromissos painel que avaliassem a congruência entre o enun-
éticos das equipes, que têm de exercer nova prática ciado do problema ético e a descrição da situação
marcada pela humanização, cuidado e cidadania 1.
que o gerou. Havia espaço para que os especialistas
Nessa perspectiva, desde 2000 temos estuda- sugerissem nova redação para o enunciado, se fosse
do a temática da ética na APS. O primeiro estudo, o caso. O ponto de corte da congruência era 80%,
entre 2000 e 2003, desenvolveu uma pesquisa qua- sendo mantida a redação dos enunciados com valor
litativa com enfermeiros e médicos de equipes de igual ou superior a isso 6.
saúde da família do município de São Paulo, objeti-
Para a validação da facilidade de leitura usou-
vando reconhecer um perfil das questões éticas nes-
-se o Índice de Facilidade de Leitura de Flesch-Kin-
sa nova forma de organização da APS no SUS. Como
caid (ILFK), disponível no Microsoft Windows Word.
resultado, obteve-se uma lista de 41 problemas 1,
A redação final dos enunciados dos problemas éti-
que originaram a primeira versão do inventário de
cos resultante da consulta ao painel de especialistas
problemas éticos na atenção primária (IPE-APS).
foi ajustada para uma facilidade de leitura compa-
Entre 2004 e 2005, desenvolveu-se um segun- tível com uma escolaridade aproximada ao 7o ano
do estudo para reconhecer se os problemas aponta- (antiga 6a série) do ensino fundamental (leitura
dos no primeiro se repetiriam na vivência de outras razoavelmente fácil). A redação ajustada para cada
equipes de saúde da família e se ainda haveria algo item foi revista por uma professora de língua por-
a acrescentar. O estudo mostrou que a primeira ver- tuguesa, para verificar a adequação e correção da
são do IPE-APS era de fácil compreensão e preen- escrita. Com esse estudo metodológico fechou-se,
chimento, contendo uma lista de problemas éticos em 2008, a 2a versão do IPE-APS 6.
da prática na APS suficientemente abrangente, não
Até essa segunda versão o IPE-APS vinha sen-
sendo necessário incluir novos exemplos 3.
do validado na vertente qualitativa. Sua escala para
De 2005 a 2009, no município de São Paulo, registro da ocorrência dos problemas éticos era no-

Artigos de pesquisa
outros dois estudos qualitativos investigaram as si- minal e não numérica. A partir de 2009, usando a
tuações eticamente significativas vividas por enfer- segunda versão do IPE-APS, iniciou-se a validação
meiros e médicos em serviços de APS não reorgani- por meio de técnicas quantitativas, para viabilizar a
zados pela ESF. Uma dessas pesquisas investigou as incorporação de uma escala do tipo Likert no instru-
unidades básicas de saúde (UBS) tradicionais e a ou- mento. Com isso, seria possível seu uso em estudos
tra enfocou os centros de saúde escola 4. Os resulta- quantitativos, com amostras maiores. As pesquisas
dos comprovaram a abrangência da lista de proble- objetivaram verificar a validade de construto e a
mas que compunha a primeira versão do IPE-APS. consistência interna do IPE-APS. O presente artigo
Um terceiro estudo desse mesmo período validou a descreve os resultados da última dessas pesquisas
sensibilidade do instrumento. Para essa etapa de va- de validação do IPE-APS.
lidação do IPE-APS foi desenvolvido um estudo com
expertos da área de ética e bioética. O instrumento
mostrou-se sensível, permitindo captar a variação étodo
de visão segundo o grupo em que era aplicado: pro-
fissionais da APS e especialistas em ética e bioética 5. Estudo transversal, realizado no Rio Grande do
Com esses estudos, viu-se que a primeira Sul, com profissionais de 12 unidades de saúde do
versão do IPE-APS se mostrava abrangente, sen- Grupo Hospitalar Conceição (GHC), instituição pú-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16


309
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

blica federal vinculada ao Ministério da Saúde, refe- tuação enunciada no item. Caso contrário, tinha que
rência no atendimento do SUS. O Grupo conta com assinalar com que frequência encontrava o proble-
uma equipe de 7.913 profissionais e abrange quatro ma em seu trabalho na APS: nunca (1); raramente
hospitais (Conceição, Criança Conceição, Cristo Re- (2); frequentemente (3); sempre (4).
dentor e Fêmina), 12 postos de saúde do Serviço de Registraram-se, também, algumas caracterís-
Saúde Comunitária, três centros de atenção psicos- ticas dos respondentes: socioeconômicas, especial-
social (Caps) e o Centro de Educação Tecnológica e mente a escolaridade; demográficas (sexo, cor ou
Pesquisa em Saúde, a Escola GHC. É nacionalmente raça e estado civil); fatores relacionados ao processo
reconhecido como a maior rede pública de hospitais de trabalho (profissão, tempo de formação, tempo
do Sul do Brasil, com 100% de atendimento SUS 7. de trabalho na APS e tempo de trabalho na unidade
O trabalho de campo teve início em julho de de saúde atual).
2011 com um estudo piloto, realizado na unidade O Epidata versão 3.1 foi utilizado para a di-
de saúde Conceição, que incluiu cerca de 60 profis- gitação dos dados e o software Statistical Package
sionais. O propósito era conhecer a realidade in loco for the Social Sciences (SPSS) versão 12.0, para a
para organizar o trabalho de campo e, também, ob- análise. Com o objetivo de avaliar a adequação dos
servar a compreensibilidade do instrumento pelos dados à análise fatorial, usou-se o teste de Kaiser-
profissionais durante o seu preenchimento, vez que -Meyer-Olkin (KMO). Para a validação do constructo
só havia sido utilizado em estudos no município de fez-se uso da análise de componentes principais e a
São Paulo. rotação varimax. Para tanto, foram seguidos os pas-
A coleta de dados ocorreu entre agosto e de- sos propostos por Hair JF, Anderson RE, Tatham RL e
zembro de 2011, aproveitando-se as reuniões sema- Black WC 10: formulação do problema; construção da
nais das equipes. Os profissionais eram convidados matriz de correlação; determinação do método de
a participar de forma voluntária, formando uma análise fatorial; determinação do número de fato-
amostra por conveniência. Após os esclarecimen- res; rotação dos fatores; interpretação dos fatores;
tos sobre a pesquisa e a liberdade de participação, cálculo das cargas fatoriais ou escolha de variáveis
todos os presentes à reunião recebiam o IPE-APS, substitutas, e determinação do ajuste do modelo.
com as instruções para seu preenchimento. Ao final, Para encontrar a melhor solução em termos de
recolhiam-se todos os instrumentos distribuídos, números de fatores utilizaram-se como critérios: au-
estivessem ou não preenchidos. Como não havia tovalor maior ou igual a 1, mínimo de três itens por
identificação do respondente se preservava o anoni- fator, e coerência com a teoria que fundamentou a
mato dos incluídos no estudo e também dos que se construção do instrumento em todos os estudos: a
recusaram a participar, já que a retirada dos instru- bioética deliberativa de Diego Gracia. Os critérios de
mentos em branco não era feita no campo. remoção de itens foram: aumento de alpha após a
A amostra totalizou 237 profissionais. Para o remoção do item; item carregando vários fatores ao
procedimento de análise fatorial exploratória, au- mesmo tempo, e remoção do item cujo conteúdo
tores mais rigorosos, como Dassa 8, sustentam que não fosse coerente com o construto. Para avaliar a
o tamanho ideal da amostra é de, no mínimo, dez consistência interna da escala total e sua subescala
Artigos de pesquisa

sujeitos por item do inventário ou um total de pelo utilizou-se o alpha de Cronbach 11.
menos 250 sujeitos. Outros autores, como Pestana A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética
e Gageiro 9, propõem, no mínimo, cinco sujeitos em Pesquisa do Grupo Hospitalar Conceição e todos
por questão em inventários com mais de 15 itens, os participantes assinaram o termo de consenti-
considerando-se um mínimo de 100 sujeitos. Frente mento livre e esclarecido.
a isso, consideramos a amostra do presente estudo
suficiente para as análises propostas.
A versão do IPE-APS submetida à validação esultados
quantitativa continha os 41 itens da segunda ver-
são da validação qualitativa, com problemas éticos Dentre outros profissionais de saúde das equi-
em três âmbitos relacionais da atenção à saúde: pes de saúde da família a amostra de 237 profissionais
usuário-profissional, equipes de saúde da família e incluía médicos (14%), agentes comunitários de saúde
sistema de saúde 1. A cada item os respondentes po- (11%), auxiliares e/ou técnicos em enfermagem (10%)
diam expressar sua visão sobre o tema numa escala e enfermeiros (9%). Predominou o sexo feminino
que variava de zero a quatro. O zero significava que (79%), 82% se consideravam brancos, 50% eram sol-
o respondente não considerava problema ético a si- teiros e 60% apresentavam idade entre 21 e 40 anos.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012


310
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

A análise dos dados considerou as respostas Agrupa problemas éticos referentes à: carência de
dos 237 profissionais participantes. Com o intuito condições para os atendimentos; falta de condições
de avaliar a estrutura geral dos dados, rodou-se a para a realização de visitas domiciliares; deficiên-
análise no SPSS de forma aberta, ou seja, sem de- cias do serviço de retaguarda para a remoção de
limitar previamente a quantidade de fatores, com pacientes; dificuldades no sistema de referência e
rotação varimax. O resultado dessa análise indicou a contrarreferência; retorno e confidencialidade dos
existência de 10 diferentes fatores, nos quais índice resultados de exames laboratoriais e; excesso de fa-
KMO=0,847 e Bartlett p<0,001. A variância explica- mílias adscritas a cada equipe na ESF. Esse domínio
da nesta solução era de 63,5% e o alpha geral 0,921. do IPE-APS traz a questão dos aspectos diretamente
Essas medidas indicaram que os resultados eram relacionados à organização e ao funcionamento dos
satisfatórios, ou seja, mostraram a adequação dos serviços como fonte de problemas éticos para os
dados para se proceder ao modelo exploratório de profissionais de saúde na ESF.
análise fatorial. O fator ‘longitudinalidade’ contém quatro
Após a verificação da adequação dos dados, itens que tratam das questões relacionadas à: con-
para a sequência da análise foram retirados os itens tinuidade de tratamento; recusa em seguir a indica-
que, ao mesmo tempo, apresentavam dois ou mais ção médica; prescrição de medicamento que o usu-
fatores ainda que com baixa comunalidade. Retira- ário não terá dinheiro para comprar e; dificuldade
ram-se, um a um, seis itens, o que aumentou a vari- de cumprir na prática as responsabilidades de cada
ância para 64,4%. profissional da equipe. Esse domínio do IPE-APS en-
globa os problemas éticos decorrentes da prolonga-
Após a retirada desses itens, a análise gerava
da relação que se estabelece entre o profissional e
nove fatores. Três fatores tinham apenas dois itens,
o usuário. O alpha de Cronbach desse fator foi 0,70.
o que não é recomendável na validação, segun-
do autores como Tabachnick e Fidell 11. Portanto, No fator ‘prática das equipes’ estão quatro
optou-se por retirar mais seis itens. Com isso, a ex- itens que expressam problemas éticos decorrentes
plicação da variância diminuiu para 59,6%. Não se da fragmentação do trabalho das equipes e a dificul-
esperava esse comportamento da variância com a dade de exercer a prática interdisciplinar. Esse domí-
remoção dos itens, mas, apesar disso, devido à ne- nio trata da: falta de respeito entre os membros da
cessidade de eliminar fatores que continham ape- equipe; falta de colaboração de uma equipe com a
nas dois itens, optou-se pela retirada. outra; profissionais que não apresentam perfil para
trabalhar na ESF e; profissionais que atuam com
Ao se analisar a consistência teórica, foram
falta de compromisso e envolvimento. O alpha de
encontrados três itens cujos problemas éticos enun-
Cronbach desse fator foi 0,76.
ciados não faziam sentido nos fatores onde se aloca-
ram. Também se optou por sua retirada. Obteve-se, Três itens formam o fator ‘perfil profissional’,
assim, a explicação de 61,4% da variância em um com alpha de Cronbach de 0,72. São problemas éti-
modelo com seis fatores e 24 itens. O índice KMO cos relativos ao perfil atitudinal do profissional na
ficou em 0,831, Bartlett p<0,001 e alpha geral de APS, reorganizada ou não pela ESF: pré-julgamento

Artigos de pesquisa
0,876 (tabela 1). Esse arranjo de itens e fatores foi de usuários e familiares; falta de respeito e; prescri-
considerado a melhor solução de análise, pois com- ções inadequadas.
binou importantes resultados estatísticos e agrupou O quinto fator, ‘privacidade na atenção primária
os problemas éticos de forma apropriada do ponto à saúde’, compreende três itens, que trazem aspectos
de vista teórico 11. próprios deste tema ético no contexto da APS, onde
Os fatores podem ser tidos como categorias de os domicílios e a comunidade são extensões do con-
análise ou, ainda, domínios de avaliação do IPE-APS. sultório. O fator teve alpha de Cronbach igual a 0,70.
Eles agruparam os problemas éticos na APS por fre- O fator ‘sigilo profissional’ teve alpha de Cron-
quência e por suas características, os que mais acon- bach igual a 0,64 e agrupou quatro itens relativos
tecem e de que tipo são, com base em publicações aos problemas éticos nas informações sobre a saú-
sobre atenção básica 12: 1) Gestão da atenção primá- de dos usuários e o compartilhamento destas entre
ria; 2) Longitudinalidade; 3) Prática das equipes; 4) profissionais, usuários e familiares.
Perfil profissional; 5) Privacidade na atenção primá- Há consistência interna das dimensões resul-
ria à saúde e; 6) Sigilo profissional (Tabela 1 – Anexo). tantes da análise dos dados, com índices alpha de
O domínio ‘gestão da atenção primária’ con- Cronbach 13,14 que variaram de desejável (α=0,85) a
tém seis itens, com alpha de Cronbach igual a 0,854. aceitável (α=0,64).

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16


311
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

iscussão dico generalista ou equipe de saúde, nos múltiplos


episódios de doenças e cuidados de promoção e re-
abilitação da saúde. Para essa continuidade da aten-
Como resultado de mais de uma década de
ção são imprescindíveis a existência e o reconheci-
pesquisas explorando a interface da bioética e aten-
mento de uma fonte regular de cuidados de atenção
ção básica, logrou-se construir e validar um instru-
primária, o estabelecimento de vínculo terapêutico
mento para inventariar problemas éticos na atenção
duradouro entre os pacientes e os profissionais de
primária à saúde. A aplicação do IPE-APS permite
saúde da equipe local e a continuidade informacio-
fazer uma ‘epidemiologia’ 15 dos problemas éticos
nal 24. Nestes pontos concentram-se, também, os
na visão dos profissionais de saúde que atuam na
principais problemas éticos relacionados à longitu-
atenção primária. Mas, ultrapassa a contabilização
dinalidade.
porque pode se prestar à mediação da reflexão so-
bre as questões éticas para a melhoria dos serviços O terceiro fator, ‘prática das equipes’, corrobora
de saúde. estudos que apontaram deficiências na responsabili-
dade coletiva no trabalho de equipe na ESF, pois os
Os resultados do presente estudo validaram
profissionais fragmentam em atuações isoladas o que
o IPE-APS porque mostraram que o instrumento
deveria ser um saber coletivamente construído 25.
apresenta homogeneidade e consistência interna,
Para se alcançar os objetivos da ESF é necessário o efe-
com congruência dos itens em cada fator e com o
tivo trabalho em equipe, com todos atuando em prol
todo 16. A variância total explicada foi aceitável. Ape-
do mesmo objetivo. Nas equipes de saúde, cada pro-
nas 38,6% da variância permaneceu inexplorada 11.
fissional exerce sua profissão no bojo de um trabalho
Além das medidas estatísticas satisfatórias, houve
coletivo, cujo resultado final depende da contribuição
importante coerência teórica dos fatores resultan-
das diferentes áreas do saber à assistência 12.
tes da análise, segundo a literatura revisada 12,17.
O ‘perfil profissional’, quarto fator, vem ao
O fator com maior percentual de variância ex-
encontro das evidências de estudos com gestores e
plicada foi ‘gestão da atenção primária’, pois, inde-
trabalhadores do SUS, das distintas esferas de go-
pendentemente do número de fatores retidos, este
verno, ao mostrarem que, da mesma forma que o
sempre se agrupava como o primeiro. Isso provavel-
desempenho e a gestão dos recursos humanos, a
mente decorre da importância dessa questão para a
formação dos profissionais afeta, profundamente,
APS, especialmente no SUS, no qual se vem propon-
a qualidade dos serviços e o grau de satisfação dos
do que esse nível da atenção seja a porta de entrada
usuários 26,27. O setor público tem dificuldade para
do Sistema e, ao mesmo tempo, coordenadora do
contratar profissionais com perfil adequado ao que
cuidado pelos diversos pontos da rede de atenção
se pretende e se espera para a APS. No processo de
à saúde. Os problemas éticos relacionados à dimen-
formação dos profissionais, apesar dos recentes es-
são da gestão da APS guardam relação direta com
forços de mudança, especialmente com a expansão
a ética na gestão dos serviços de saúde, deixando
das horas de estágio na saúde da família, persiste o
patente a dificuldade de separar a ética dos cuida-
distanciamento em relação às demandas e necessi-
dos de saúde da ética na administração em saúde 18.
dades do SUS, com dificuldades para a integração de
Artigos de pesquisa

Diversos estudos têm evidenciado a existên- conhecimentos clínicos e da saúde coletiva 12.
cia de problemas relacionados à gestão do SUS 19-21. O fator ‘privacidade’ revela características pró-
Cada vez mais os serviços de saúde requerem dos prias da APS, pois a casa dos usuários torna-se exten-
municípios o bom desempenho da capacidade de são do consultório. A relação deixa de ser individual
gestão, que há de se voltar para a mudança posi- (médico-paciente) para se tornar coletiva (equipe de
tiva nos indicadores de saúde da população. Com saúde-família), enriquecendo a discussão de um tó-
isso, ganha importância a figura do gestor e de suas pico essencial à bioética, a privacidade das pessoas
decisões político-gerenciais na efetividade e eficiên- autônomas, com os problemas específicos e peculia-
cia do SUS. Os profissionais das equipes da ESF e os res deste nível da atenção. A privacidade é um prin-
gestores devem guiar sua prática pelo princípio da cípio derivado da autonomia e engloba a intimidade,
responsabilidade ética 22. a vida privada e a honra das pessoas. No trabalho
A longitudinalidade do cuidado é o segundo em equipe multiprofissional, a troca de informações
fator do IPE-APS e pode ser entendido como carac- é fundamental para a boa qualidade na assistência.
terística central e própria da atenção primária. Para Porém, as informações para os membros das equipes
Starfield 23, longitudinalidade refere-se ao acompa- hão de se limitar às necessárias para cada um realizar
nhamento do paciente, ao longo do tempo, por mé- suas atividades em benefício do usuário 28.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012


312
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

No sexto fator, ‘sigilo profissional’, levanta-se sigilo profissional que deverão observar como mé-
que a questão do segredo não está necessariamen- dicos, mas reconhecem ter dificuldades para definir
te vinculada ao contato direto entre informante e as situações nas quais é necessário partilhar infor-
ouvinte. Em função do atendimento aos usuários e mações e quando estas devem ser mantidas em se-
famílias, a informação pode ser obtida por uma ou gredo 33. Claro está que a troca de informações entre
mais pessoas e a confidencialidade deveria ser pre- usuário e profissional depende diretamente do cli-
servada, como respeito a um direito do usuário 29. ma de confiança que perpassa a relação clínica e o
Estudo brasileiro, realizado por Fortes e Spinetti 30, acolhimento do usuário no serviço 34.
constatou que os agentes comunitários de saúde Estudo com mulheres portadoras de HIV, em
preocupam-se com o princípio ético da privacidade uma região do município de São Paulo, mostrou que
e com a necessidade de manter o sigilo, como obri- elas revelam sua condição para a equipe de saúde
gação ética dos profissionais de saúde. da família somente quando estabelecem vínculo e
Ressalte-se que os últimos dois fatores guar- confiança com os profissionais. Ao contrário, quan-
dam semelhanças entre si, pois os termos ‘sigilo’ e do sentem medo e insegurança devido à alguma ati-
‘privacidade’ se confundem e os problemas éticos tude dos profissionais ou não confiam que o sigilo
descritos em ambos os domínios se entrelaçam na sobre sua condição será mantido não revelam seu
assistência, podendo ser diferentemente interpre- diagnóstico à equipe da atenção primária 35. O vín-
tados pelos profissionais – talvez por isso tenham culo, a confiança e acolhimento na relação dos ser-
apresentado os menores índices de alpha de Cron- viços e profissionais com os usuários e famílias são
bach (0,70 e 0,64, respectivamente). elementos fundamentais para a reflexão e condução
De fato, a proposta do SUS de trabalho em das questões éticas sobre sigilo e privacidade.
equipe para a atenção primária, especialmente com
a Estratégia Saúde da Família, traz questões éticas
Consideraç es nais
sobre o sigilo e a privacidade que requerem apro-
fundamento das reflexões para chegarmos a res-
postas que respeitem a dignidade e autonomia dos O IPE-APS é um instrumento original e inova-
usuários dos serviços. Entretanto, talvez a confusão dor para a proposta de desenvolver pesquisas em
que se manifestou na análise desses itens no instru- bioética com o intuito de aprofundar a reflexão acer-
mento seja reflexo de que usuários e profissionais ca dos desafios éticos na prática profissional cotidia-
ainda estão atônitos com a capilaridade proporcio- na dos serviços de saúde. Desconhece-se, até o mo-
nada pela Estratégia Saúde da Família, onde equipes mento, a existência de instrumentos semelhantes,
e profissionais penetram na privacidade dos lares, validados para medir o mesmo construto. Por isso,
na intimidade da dinâmica familiar. o IPE-APS é importante ferramenta na melhoria da
atenção à saúde. Ele facilitará a realização de estu-
Estudo de Seoane e Fortes 31 mostra divergên-
dos extensos, com grandes amostras, o que, por sua
cias nas opiniões dos usuários quanto às informa-
vez, também contribuirá para seguir na validação
ções sobre sua saúde e vida familiar que repassam
do próprio instrumento. A aplicação de um mesmo

Artigos de pesquisa
ao agente comunitário de saúde. Alguns cogitam
limitar as informações, não confiando ao agente instrumento validado em diferentes locais facilita a
sequer itens referentes a sua doença. Porém, há comparação dos achados, desde que respeitadas as
usuários que afirmam compartilhar tudo o que diz questões da adaptação cultural.
respeito a sua saúde, conscientes de que as informa- A aplicabilidade do IPE-APS mostrou-se possí-
ções serão levadas à equipe. Apesar de se perpetu- vel em diferentes circunstâncias e locais de trabalho
arem na prática cotidiana da atenção primária situa- da atenção primária, sendo um bom recurso para
ções de desrespeito à confidencialidade, as equipes pesquisadores, profissionais e gestores obterem in-
de saúde consideram que a preservação do sigilo formações sobre o perfil de problemas éticos na vi-
e privacidade dos usuários é elemento chave para são das equipes dos serviços, orientando o trabalho
ofertar um serviço de qualidade e humanizado 32. de comitês de ética, comissões de bioética e progra-
A perplexidade de todos os envolvidos nessa mas de educação continuada para a realidade local.
proposta de trabalho coletivo reflete-se na forma- O IPE-APS é um instrumento elaborado com
ção dos futuros profissionais. Estudantes de medici- um construto emanado da realidade do SUS e vali-
na reconhecem que a confidencialidade da informa- dado por meio de pesquisas qualitativas e quantita-
ção na sua experiência de aprendizagem na atenção tivas que lançaram mão de instrumentais da análise
básica é ponto essencial no desenvolvimento do de discurso, análise de conteúdo, psicometria, esta-

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16


313
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

tística. Teoricamente, ancora-se na bioética delibe- tados para verificar se há influência de fatores cultu-
rativa de Diego Gracia. Após esta última pesquisa de rais, locais, sociais, de organização dos serviços de
validação do IPE-APS, com a qual chegamos a uma atenção primária nos problemas éticos vivenciados
terceira versão do instrumento, concluímos que ele e identificados pelas equipes, podendo se aquilatar
possibilita: traçar perfis confiáveis das questões éti- a interferência desses fatores, em caso positivo.
cas na APS; desencadear a reflexão das equipes e Estes estudos também poderão indicar se há
profissionais para a reformulação de atitudes pesso- diferenças locais e regionais significativas no perfil
ais e processos de trabalho. de problemas éticos da atenção primária. Com isso,
Com o IPE-APS abrem-se caminhos para no- não se defende a mera descrição dos problemas éti-
vas pesquisas na interface da bioética com a aten- cos, mas sistematizar o reconhecimento da situação,
ção primária à saúde. A relevância do instrumento com a geração de evidências, para direcionar ações
é possibilitar a realização de estudos com amostras de transformação da prática da atenção primária no
representativas de populações profissionais para sentido de torná-la mais ética, humanizada e cida-
verificar a potencialidade de generalização dos pro- dã. Localizando os pontos frágeis, no sentido ético,
blemas indicados no IPE-APS. Ademais, o uso de um da atuação das equipes de atenção primária poderá
instrumento validado em diferentes regiões, ou seja, se dirigir a formação permanente para os tópicos e
sua aplicação em estudos com múltiplos sítios para questões mais relevantes e frequentes em cada re-
coleta de dados, permitirá a comparação dos resul- alidade.

Os vários projetos desenvolvidos desde o primeiro estudo em 2000 contaram com financiamento do CNPq,
Fapesp e Capes sob a forma de auxílio à pesquisa e bolsas iniciação científica, mestrado, estágio pós-doutoral
e produtividade.

e er ncias

1. Zoboli ELCP. Bioética e atenção básica: um estudo de ética descritiva com enfermeiros
e médicos do Programa Saúde da Família. [tese]. São Paulo: USP; 2003.
2. Gracia D. Ethical case deliberation and decision making. Med Health Care Philos.
2003;6(3):227-33.
3. Silva LT, Zoboli ELCP, Borges ALV. Bioética e atenção básica: um estudo exploratório
dos problemas éticos vividos por enfermeiros e médicos no PSF. Cogitare Enferm.
2006;11(2):133-42.
4. Zoboli ELCP . Relación clínica y problemas éticos en atención primaria, São Paulo,
Brasil. Aten Prim. 2010;42(8):406-1.
5. Silva LT, Zoboli ELCP. Problemas éticos na atenção primária: a visão de especialistas e
profissionais. Revista Brasileira de Bioética. 2007;3(1):27-39.
Artigos de pesquisa

6. Silva LT. Construção e validação de um instrumento para mensuração de ocorrência de


problema ético na atenção básica. [dissertação]. São Paulo: USP; 2008.
7. Grupo Hospitalar Conceição. Atenção à saúde. [Internet]. (acesso 24 jun. 2012).
Disponível: http://www.ghc.com.br/default.asp?idMenu=atencao_saude
8. Dassa C. Analyse multidimensionnelle exploratoire et confirmative. Montreal:
Université Montréal; 1999.
9. Pestana MH, Gageiro JG. Análise de dados para ciências sociais: a complementaridade
do SPSS. 3a ed. Lisboa: Silabo; 2003.
10. Anderson RE, Tatham RL, Black B. Multivariate data analysis. In: Hair JF, colaborador. 5a
ed. New Jersey: Prentice Hall; 1998.
11. Tabachinick BG, Fidell LS. Using multivariate statistics. 4ª ed. San Francisco: Allyn and
Bacon; 2001.
12. Brasil. Conselho Nacional de Secretários de Saúde. Atenção primária e promoção da
saúde. Brasília: Conass; 2011.
13. Cronbach LJ. Coefficient alpha and the internal structure of tests. Psychometrika.
1951;16(3):297-334.
14. Cronbach LJ, Meehl P. Construct validity in psychological tests. Psychological Bulletin.
1955;52(4):281-302.
15. Fetters MD, Brody H. The epidemiology of bioethics. J Clin Ethics. 1999;10(2):107-15.

Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16 http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012


314
Construção e validação do instrumento “Inventário de problemas éticos na atenção primária em saúde”

16. Pasquali L. Psicometria: teoria dos testes na psicologia e educação. Petrópolis: Vozes;
2003.
17. Brasil. Portaria no 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a política nacional de
atenção básica, estabelecendo a revisão das diretrizes e normas para organização da
atenção básica, para a estratégia de saúde da família (ESF) e o programa de agentes
comunitários de saúde (PACS). Brasília; 2011.
18. Silva JA, Dalmaso ASW. Agente comunitário de saúde: o ser, o saber, o fazer. Rio de
Janeiro: Fiocruz; 2002. p. 240.
19. Serra CG, Rodrigues PHA. Avaliação da referência e contrarreferência no programa
saúde da família na região metropolitana do Rio de Janeiro (RJ, Brasil). Ciênc. & Saúde
Col. 2010;15(3):3579-86.
20. Mendes EV. A atenção primária à saúde no SUS. Fortaleza: Escola da Saúde Pública do
Ceará; 2002.
21. Paim JS, Teixeira CF. Configuração institucional e gestão do Sistema Único de Saúde:
problemas e desafios. Ciênc. & Saúde Col. 2007;12(Supp):1.819-29.
22. Amorim AG, Souza ECF. Problemas éticos vivenciados por dentistas: dialogando com a
bioética para ampliar o olhar sobre o cotidiano da prática profissional. Ciênc. & Saúde
Col. 2010;15(3):869-78.
23. Starfield B. Atenção primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e
tecnologia. Brasília: Unesco; 2002.
24. Haggerty JL, Reid RJ, Freeman GK, Starfield BH, Adair CE, McKendry R. Continuity of
care: a multidisciplinary review. BMJ. 2003;327(7.425):1219-21. DOI: http://dx.doi.
org/10.1136/bmj.327.7425.1219
25. Pedrosa JIS, Teles JBM. Consenso e diferenças em equipes do Programa de Saúde da
Família. Rev. saúde pública. 2001;35(3):303-11.
26. Nogueira R. Avaliação de tendências e prioridades sobre recursos humanos de saúde.
Brasília: Opas; 2002. (Rede Observatório de Recursos Humanos de Saúde).
27. Cotta RMM, Morales MSV, Gonzáles AL, Ricos JAD, Cotta Filho JS. Obstáculos e desafios
da saúde pública no Brasil. Rev Hospital Clinicas Porto Alegre. 2002;22(1):25-32.
28. Fortes PAC, Martins CL. A ética, a humanização e a saúde da família. Rev. bras. enferm.
2000;53(n.esp):31-3.
29. Franscisconi CF, Goldim JR. Aspectos bioéticos da confidencialidade e privacidade. In:
Costa SIF, Oselka G, Garrafa V, coordenadores. Iniciação à bioética. Brasília: Conselho
Federal de Medicina; 1998. p. 269-84.
30. Fortes CAP, Spinetti RS. O agente comunitário de saúde e a privacidade das informações
dos usuários. Cad. saúde pública. 2004;20(5):1.328-33.
31. Seoane AF, Fortes PAC. A percepção do usuário do Programa Saúde da Família sobre a
privacidade e a confidencialidade de suas informações. Saúde soc. 2009;18(1):42-9.
32. Bellenzani R, Mendes RF. Sigilo na atenção em DST/AIDS: do consultório aos processos
organizacionais. Polis e Psique. 2011;1(3):140-65.
33. Ferreira RC, Silva RF, Zanolli MB, Varga CRR. Relações éticas na atenção básica em
saúde: a vivência dos estudantes de medicina. Ciênc. saúde coletiva. 2009;14(1 suppl):

Artigos de pesquisa
1.533-40.
34. Teixeira RR. O acolhimento num serviço de saúde entendido como uma rede de
conversações. In: Pinheiro R, Mattos RA, organizadores. Construção da integralidade:
cotidiano, saberes e práticas em saúde. Rio de Janeiro: Abrasco; 2003. p. 89-111.
35. Ferreira FC, Nichiata LYI. Mulheres vivendo com Aids e os profissionais do programa
saúde da família: revelando o diagnóstico. Rev. esc. enferm. USP. 2008;42(3):483-9.

articipação dos autores


José Roque Junges: coordenador do estudo em Porto Alegre, que constituiu a última fase de validação
do IPE-APS. Elma Lourdes Campos Pavone Zoboli: desenvolveu o estudo original que identificou os
Recebido: 23.2.2014
problemas éticos que compõem o IPE-APS e orientou as pesquisas que compõem as etapas anteriores
de validação do instrumento. Marcos Paschoal Patussi: pesquisador responsável pelo braço Revisado: 9.4.2014
quantitativo do estudo de Porto Alegre, para validação final e consistência interna do instrumento.
Rafaela Schaefer e Carlise Rigon Della Nora: realizaram os trabalhos de campo, estruturação dos Aprovado: 19.5.2014
bancos de dados e análise dos dados. Todos os autores contribuíram igualmente para a elaboração e
revisão final do artigo.

http://dx.doi.org/10.1590/1983-80422014222012 Rev. bioét. (Impr.). 2014; 22 (2): 308-16


315