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Carlos Orfeu

(i
n)
v
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s
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v
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i
d
i
a
n
o
s
© (in)visíveis cotidianos by Carlos Orfeu, 2017.

Todos os direitos reservados.


Proibida a reprodução total ou parcial desta obra
sem autorização por escrito do autor.

Projeto gráfico, editoração eletrônica:


Dênis Girotto de Brito

Capa:
Aline Monteiro Teixeira
Sandro Barbosa (Fotografia)

Revisão:
Abilio Pacheco.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Orfeu, Carlos. (in)visíveis cotidianos. Marabá:


LiteraCidade, 2017.

64 p. (14 x 21 cm)

ISBN 978-85-5552-080-8

1. Literatura Brasileira. 2. Poesia Brasileira. 3. Poemas.


I. Orfeu, Carlos. II. Título.

CDD: B869.1

LITERACIDADE
CNPJ: 12.757.748/0001-12 Ins. Est. 15.317.340-8
editoraliteracidade@uol.com.br // www.literacidade.com.br
Carlos Orfeu

(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s
c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

LITERACIDADE
Marabá, 2017
(...)

o sol no pulmão da cidade

semáforos fósforos poros

setas placas motor


vapor farol

asfalto
m i n a d o

o caos é uma granada de cansaço

Áspero silêncio na mira do fuzil, a invisível guerra


cotidiana do tempo respirado fuligem, sangue, sexo, lágrima e
alguma redenção. A palavra que fere, ama, sangra, corta, a palavra
descarnada, osso e arquitetura do poema, a palavra inscrita no
corpo, fratura essencial, invasão

do sangue de meus olhos farpados


o poema galopa
voraz

indelével
assume uma outra pele

Nestes Invisíveis Cotidianos, título tecido na escuridão da


luz, Carlos Orfeu escreve uma poesia sufocada pela impossibilidade
da palavra, rarefeita, atravessada violentamente pelo silêncio. “No
nervo das linhas”, em seguras construções imagéticas, o poeta
conhece bem as cicatrizes da escrita, lança-se faminto à carne
penso o poema de natureza
irredutível, embrulhado
no latido das veias

Neste livro, a poesia divide o pão com o rosnar dos cães.


Estamos todos à mesa. Invisíveis, sondamos um ao outro o olho
da fome, o movimento da saliva, o gesto inacabado do silêncio na
garganta, a carnificina dos nossos Invisíveis Cotidianos.

fechar o mundo
com os chacais do suspiro

abraçar o instante
fugidio peixe
do anzol dos braços

o escuro ilumina
as cicatrizes
avessas ao lodo

Nesta outra margem miragem, celebro a poesia de Carlos


Orfeu.

Lisboa, agosto, céu cor da terra, 2016.

Daniel da Rocha Leite


Das coisas e cotidianos invisíveis
& sua linguagem visível
Airton Souza*

A poesia carrega intrinsecamente dentro de cada palavra a


indivisível maneira de muitos males, quase sem curas, no refazer
dos dias no mundo. Os poetas têm sido ao longo do tempo e na
variação das geografias o tradutor das coisas da vida. Sob esses
males todos eles estão enredados, como que a tecer as tramas, ora
suas, oras alheias. Isso implicar afirmar que é como se todos os
demais seres tivessem, mesmo com armas, abdicados do combate
e, os poetas só com palavras, sua arma de peso, não desistiram da
guerra. Porque só eles sabem despertarem para os dias com os
invisíveis cotidianos pendendo nos olhos e a garganta sem fuga a
elidir imagens emolduradas, que dizem:

na estante
sobre as janelas dos olhos
a imobilidade dos rostos

e o inapreensível grito
das coisas insubstituíveis.

Nesse invisíveis cotidianos, de Carlos Orfeu, o poeta demole,


a cada circunscrito poema, uma maneira única de como lidar com
a linguagem poética. Carlos Orfeu parece ter desvendado as coisas
tanto da casa como as que estão fora dela e, nos traz as imagens
dessas coisas de um jeito diferente. Sem a maneira de apaziguar
ternuras, na maioria das vezes, seus poemas são acionativos, porque
não comunicam só por comunicar, ou seja, o poeta sabe sobretudo,
não só apontar as coisas, mas, com um gesto transgressor, esse poeta
consegue jogar o leitor dentro da ação das coisas, empregando um
ritmo na linguagem que poucos conseguiram fazer.
Por isso é salutar afirmar que esse poeta tem o que deveriam
ter todos aqueles que gostariam de ser considerado como grande
poeta, sendo, portanto, a tarefa de como nos comover diante de
palavras cerzindo imagens. Pois, esses versos nos mostram um
ensaio de como desapaziguar imagens:

o verde balança
a noturna tristeza do quintal

Em invisíveis cotidianos é possível, dentro muitas questões


latentes, atentarmos para duas recorrentes imagens, que são elas:
o enredado das palavras, no sentido mesmo de musicalizar-se, na
construção de nascer uma após a outra, para significar, e, o enredo
que essas mesmas palavras se constroem nos interstícios de uma
maneira dialógica coerente, para ressignificar a imagem poética
proposta pelo poeta. É exatamente com essa maestria que Carlos
Orfeu vem cerzindo o cada poema o cotidiano e seus invisíveis
dilemas na pele dos homens diários. Só para ficamos em alguns
exemplos:

na praça
o
c
é
u
se dissolve

...

nas vielas
o incêndio dos sangues
a chacina dos sóis

...

oco
sinto
tanto
por
inteiro

O poeta recorre também nesse livro, para traçar uma


coerente unidade, abarcando em grande parte dos poemas, ao
que a simbologia do sol, entre os dias, pode lhe representar, para
que assim também possa refazer em suas memórias a poética de
“homens”, dentro do preceito bíblico que essa palavra carrega, a
representar os seres. E, dessas imagens ele traz à cena o desconsolo
para os homens nesses dias de caos.

o sol no pulmão da cidade


(...)
o caos é uma granada de cansaço

...
o medo é o traje de cada manhã
mais escura que à noite
(...)
coletando ossos
o riso canta
na residência de lábios
que sonham amanhecer

...

(...)
a guerra desventrada do menino
move o mapa de cimento e manhã

no sol
que queima o verde
dos soldados de plástico

...
a claridade
enovela
seus
gestos

Também, em invisíveis cotidianos, o poeta soube traçar


a leveza e a dispersão da descrença. Assim, ele transcreve para os
verbos e sujeitos outras significações e funções possíveis somente
para a poesia. A exemplificação aqui fica clara, quando ele traz
para a imagem poética o homem e ressignifica ele por meio de um
pássaro desesperado; cadáveres em tons de outono; oS homens e os
objetos e outras cenas cotidianas.
Esse livro pincela parte de seu auto-retrato, pela claridade
dos dias, aonde formigas e suas formalidades, vão canibalizando
o feto que tem as chuvas, a lamber a cigarra em estado de casca,
para luzir em nós outros silêncios depois de atravessar cada poema
escrito aqui.
É preciso, portanto, sair desse livro com mais perguntas
que respostas. Porque não a exata dimensão de como adquirir a
diligência para o escuro é exatamente esse sentimento de não
enxergar a completude da vida, pois caso isso aconteça, a vida em
si perde o sentido da busca, que movem os homens no tempo e no
espaço.

o nada e o agora
atados entre o sentido
e a falta dele

* Airton Souza é poeta e professor. Publicou mais de 26 livros, entre


poemas e infantis e venceu alguns prêmios literários, entre eles: Prêmio
Dalcídio Jurandir 2013, III Prêmio Ufes de Literatura 2015, IV Prêmio
Proex de Literatura 2015, Prêmio Novos Talentos da Poesia Brasileira
2016 e Prêmio Machado de Assis de Poesia 2015. Coordena diversos
projetos literários, entre eles: Barraca Literária, Antologia Mandala,
Anuário da Poesia Paraense, Projeto Tocaiunas, Poema Postal, Projeto
Foto-Poema e idealizou um dos maiores saraus do Estado do Pará, o
Sarau da Lua Cheia.
Aos meus pais
Rita Gonçalves
José Carlos da Conceição
Às vezes a vida
é um bife cru sobre a pia
Simetria de azulejos brancos
e uma faca suja de sangue

Maria Helena Latini

***

Não sou anterior à escolha


ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.

Sebastião Alba
elidir a imagem
moldura
sépia
crua

na estante
sobre as janelas dos olhos
a imobilidade dos rostos

e o inapreensível grito
das coisas insubstituíveis
(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 17 )
corto cebolas
com olhos ensopados
de águas esquecidas

a casa
há muito calou-se
sem motivo de banquete

corto cebolas
para domar o silêncio

a lâmina ceifando a vida em seiva

(i sinto-me como elas


n) talo, colo, pele
v casca
i
raiz,
s
í
catafilos
v
e como se partindo-me
i em abas desamparáveis
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 18 )
nas paredes
em despudor de silêncio
a litania do invisível

no cio do limo
a sinfonia do mofo
lavra
o
segredo
da
rachadura
(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 19 )
o verde balança
a noturna tristeza do quintal

o banzo blues
empluma
insone

num tanque
o satélite
minguante
cintila
diáfano

(i na
n) turva
v água
i
do
s
í
dia
v passa-
e do
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 20 )
azulejos brancos
cardumes de passos
anoitecidos

no canto da varanda
por onde formigas
brotam como fachos negros

e canibalizam o feto da chuva


na casca da cigarra morta
(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 21 )
no
bambuzal

brisa
faca
afia

o som
das folhas
ásperas
(i impenitentes
n)
em voos
v
suicidas
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 22 )
carrinho de mão
vermelho

emborcado
parece um besouro
com cimento
incrustado
na casca de ferro
movendo
patas
de
areia (i
n)
ao
v
lado
i
dos tijolos enfileirados s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 23 )
no barro
árido
turvo

a formiga
soletra o
silêncio

caminha
trôpega
densa
(i
n)
com o poente
v
i nas costas
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 24 )
na praça
o

c
é
u

se dissolve

o cão
eviscera
da
língua
a chuva (i
fenda n)
feito v
i
janela
s
circular í
no chão v
e
reflete i
a altura das árvores invasivas s
no trapézio
dos pássaros intangíveis c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 25 )
incógnito
céu
pálida
tela
de suspiros

tempestuosos
apagados
no cinzeiro
luzindo o último andar de ausência
(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 26 )
há nos domingos um certo tom de blues
uma sensação crônica de nada

uma preguiçosa e enovelada tristeza


de pensar profundidades tão fatais
que quando decidimos sair de nós

voltamos com os olhos ainda empoçados


de outros incuráveis domingos

(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 27 )
na escama de prata do domingo
um poema
temperado com alho
cheiro-verde
cebolinha
alecrim

repartem com garfos e facas


a fome
o alívio
o estômago cheio

bocas apimentadas de sorrisos


(i sorrisos arrumados no outono
n)
v no outono bordado na toalha da mesa
i
no outono pintado nas flores dos pratos de porcelana
s
sujos de feijão
í
v
e famílias em círculo entardecem memórias
i dissolvidas num auto-retrato
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 28 )
cama
vazia

manhã
cinzenta

sem você
a cama
é um fosso

— frio —
(i
n)
o quarto
v
um homicídio i
por dentro s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 29 )
gaveta
cheira
naftalina

fungos
de amor
apodre-
cido

grafias
de fotos
rasgadas
ao meio
(i
n) o tempo
v na gaveta
i
é preso
s
í
é peso
v passado
e fechado
i em asa
s de inseto
sobre
c roupas
o lavadas
t
i
d
i
a
n
o
s

( 30 )
a cadeira
abraço de madeira
sem saber estala
não o peso de meu corpo
nem movimento brusco

a cadeira é um signo
infinito de leituras
em sua anatomia dura

estala
(i
como grito
n)
por dentro
v
como osso i
explode um poema s
no suor das juntas í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 31 )
revoltam-se os objetos
contra a insânia do homem

copo/ prato/ talheres


vassoura/ máquina de lavar/ espelho

na anarquia revoluta
de não serem mais submissos

os objetos
no ápice
(i
do domínio da espécie
n)
v
i racionalizam-se
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 32 )
no ordinário jarro
a flor de plástico

fechada no limite das mãos


que seguram os retratos mofados
em séculos semoventes de poeira
um mausoléu de memória
atravessa a fronteira do sonho
no instante da sala

no lado esquerdo da cena


(i
o espelho
n)
num passe de mágica
v
come a sala i
a flor s
o grito í
e o sonho v
e
na janela aberta do relógio i
tudo gira novamente s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 33 )
s
o
u

u
m

(i
m)
p
u
l
s
o

(i feito
n) n
v a
i d
s a
í
v
e
i c
s o
i
c s
o a
t
i
d rare-
i fei
a ta
n
o
s

( 34 )
vejo ( me)
imagem

vórtice
(dis-
farce)

trajado
de
vidro
(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 35 )
na anatomia do terreno
pétreo
torvo
íntimo

sou uma lata em estado musgoso


insólito
oxidável

objeto-sólido
no côncavo chão
(i
cultivo o abandono
n)
v
i tenho diligência para o escuro
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 36 )
pelo ralo
fiapos
grelos
pensamentos
entupidos de cotidiano

pelo ralo
o sabonete
malha de espumas
se condensa
na quase invisível
morte do percevejo

sobre a sintaxe liquefeita do chuveiro (i


cabelos corpo vagina pênis n)
v
i
pelo ralo
s
um pouco de tudo í
que somos v
se esvai e
no i
subterrâneo s
rio
c
um tudo o
de nada t
de nós i
vaga por entre as veias dos canos d
i
a
n
o
s

( 37 )
debaixo da pia
um par
de mágoas
envelhece

ratos visitam
a caligrafia das estradas
grafadas na lamúria das solas

no
ato
da
fome
(i
n) como se fossem restos
v de estômagos nos pratos
i roem cada parte sentimental do couro
s
í devoram
v
o tempo
e
i
e os endereços
s sem o esteio do retorno
da classe social
c de
o ordinárias
t botas
i tristes
d
i
a
n
o
s

( 38 )
bailarina surrada é o jornal
no solavanco do vento

num balé
volátil
rasga-se
sobre pálpebras de diesel
canteiros de obras abandonadas
comércios fechados

entre a procissão dos pombos


(i
da cidade deserta
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 39 )
entre o chinês
esquartejando
o vira-lata no pastel
e a cana gritando na máquina
contra o ponteiro
do meio-dia
a
pino
camelôs
esgoelam
doloroso
suor

(i tratores
n) operários
v desconstroem
i
a flor aveludada
s
í
de pernas abertas
v para um céu de chumbo
e
i na inércia
s e aparente indiferença
a estátua
c muda de posição
o com o cair de uma moeda
t no chapéu
i
d
i
a
n
o
s

( 40 )
o sol no pulmão da cidade

semáforos fósforos poros

setas placas motor


vapor farol

asfalto
m i n a d o

o caos é uma granada de cansaço


(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 41 )
no focinho do fuzil
a paz mutilada

nas vielas
o incêndio dos sangues
a chacina dos sóis

o medo é o traje de cada manhã


mais escura que à noite

fuzilam
a cor negra dos corpos
sua honra
concede pétalas de lágrimas
em revoada

(i sobre o asfalto
n) o declínio no beijo da mãe
v com o fel de grito na articulação das juntas do pai
i ajoelha cruzes no rosto do filho
s
í a tragédia solta seus cães
v coturnos famintos
e desfilam sua pérfida fúria
i
latem algoz a covardia
s

c o repórter cumpre a ordem do sistema


o oculta
t da lente
i a morte
d silenciosa
i
a coletando ossos
n o riso canta
o na residência de lábios
s que sonham amanhecer

( 42 )
uma guerra acontece
tiros invisíveis
berros inventados

no
ar
abrasado do verão

sem entulhos de defuntos


restolhos de carnes tostadas
buscando sustentáculos no chão
(i
a guerra desventrada do menino n)
move o mapa de cimento e manhã v
i
s
no sol í
que queima o verde v
dos soldados de plástico e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 43 )
o mar lateja murmúrios
depósitos de séculos
sereias de harpas poluídas
garrafas pet de escamas

espermas bóiam filhos invisíveis

um fêmur de cavalo parece leve


no ritmo azul martelando na areia
como fosse um cão de escumas e algas
(i
o mar morde artelhos e o mergulho do atleta
n)
e ainda sofre o abuso das gaivotas
v
i bicando seu dorso selvagem
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 44 )
sede é como um rugido de rio
encontrando a margem da garganta

sede é peixe uterino


no oceano do corpo

visto por fora


despido no espelho
visível deserto de assombros

sede é a possibilidade de romper


(i
o naufrágio e adejar na superfície
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 45 )
rubra árvore
no parque público
acena suas mãos sinuosas
aos navios de brisa

dispersa folhas como aves


na epiderme do ar

plácidas
ásperas
como cadáveres
(i
em
n)
tons
v
i de
s outono
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 46 )
o edifício
arquitetura-niemeyer
fauna pétrea com salas
escadas/ elevadores/funcionários

engole o poente
em sua concretude
e desce todos os andares
na pupila

entre a efusão da realidade


(i
pessoas perambulam na vertigem
n)
com seus relógios de estimação
v
nas coleiras rosnando i
tempo s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 47 )
o crepúsculo anfíbio
salta para trás da poeira de barro

na embaçada paisagem
de ruínas
rosários de gengivas
luzem ósseas para mãos
exasperadas

perambulam
nos entulhos
pertences
significantes
(i o nada é tudo
n) que finda
v
i
o repórter documenta
s
í a travessia de bicicletas agonizadas
v um vira-lata/ enlutado
e andarilho da magreza
i passeia/ entre os corpos
s carbonizados

c sussurros serpenteiam até o céu


o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 48 )
senta-se conosco à mesa
a bomba imoral
convincente
diante dos fatos

gargalha de nossa cara


se esconde em nossos recônditos
subverte máscaras
veste as fardas dos burocratas

promete nos proceder ruínas


ausência dos braços (i
pernas, amigos n)
filhos, amores incendiados v
i
s
assistimos a cinematográfica
í
bomba aplaudir os eternos retornos v
e levar de nós e
tudo o que um dia i
sonhávamos amar s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 49 )
sem
motivo
de
festa

sem
fingir
alegria

sem
saída
no
beco
(i da
n) revolta
v
i
oco
s
í sinto
v tanto
e por
i inteiro
s
ser
c tudo
o no
t nada
i
d
i
a
n
o
s

( 50 )
nada pode consolar o homem
em tempos caóticos

o álcool não é mais válvula de escape


o desemprego é uma pilhéria
o sexo é oco
o prazer é um míssil
falhado

só os remédios compreendem
o homem sem consolo
com uma guilhotina portátil (i
no pescoço n)
v
i
no escuro do mundo s
coabitando com seus fantasmas í
incuráveis v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 51 )
as mãos cumprem partidas
não mais cruzam reencontros
não mais florescem afetos

se desgarram como se pensassem


transmutam indistintas na brisa
como um pássaro desesperado

(i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 52 )
encontro-te
no fôlego do nome
sintaxe do labirinto

levo na pronúncia
de teu nome
o que me mata
consciente

não é a distância
construída por ti
é o sopro do que és feita (i
n)
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 53 )
o nada e o agora
atados entre o sentido
e a falta dele

fato absurdo

o muro
a náusea
o tempo

entre nós o deserto se desfaz


(i na desconstrução da ausência
n) grito que nos une
v
i
s
í
v
e
i
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 54 )
seu cabelo
encaracolado
nos dedos

a claridade
enovela
seus
gestos

transluz
sua nudez
pela
fresta
da (i
porta n)
v
i
vejo
s
seu í
corpo v
rir e
por i
um s
fio
de c
luz o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 55 )
debaixo do suicídio de mosquitos
na anemia das luzes trêmulas
urdimos o vulcão de nossos beijos

como nos filmes antigos


a chuva cai em preto-branco
permanece nos nossos tatos

no bombardeio do instante
enlaçamos com a força de mil tentáculos
o corpo e a exata palavra
(i
n) há névoa
v
um carro preto corta a avenida
i
s
não podemos esquecer que estamos em guerra
í
v nos apartamos
e feito calangos medrosos
i para lados indiferentes
s
a mosca em nossa roupa é cúmplice do adeus
c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 56 )
disseram-me que plantaram uma flor
para o jardim florir beleza
e exorbitar a feiúra

ando num trejeito de caracol, rastejando solidão


tudo que se expõe à lembrança sofre espasmo

num mínimo cheiro lembro-me do útero


que me cuspiu para ser esse momento
pensando no que não sei
e no talvez

disseram-me que era uma flor


mas minhas narinas esparramadas (i
no ar n)
sentem o silêncio da carne v
i
sentem a voz sobrevoar o jardim
s
í
acreditei que era uma flor v
e
sei que me enganaram i
sempre soube que eras tu s

afogada naquela caixa preta c


ao lado da bicicleta sem estrada para ser lonjura o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 57 )
do sangue de meus olhos farpados
o poema galopa
voraz

indelével
assume uma outra pele

em alguma parte
insaciável
sou sanguínea
linguagem
nas seivas
das
(i veias
n) do
v trópico
i
de
s
alguém
í
v que me guarda
e no tempo
i do
s corpo que fulge
na voragem da vida
c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 58 )
enquanto escrevo
no nervo das linhas
e tenho as mãos suadas
manchadas de tinta

uma passeata atravessa a avenida


um menino é mordido por uma bala perdida
a gaiola do ventre liberta outra vida

penso o poema de natureza


irredutível, embrulhado
no latido das veias

nesse momento (i
alguém fode e se extasia n)
alguém retorna a morada v
i
alguém sonha
s
ou desacredita
í
talvez viva v
ou se suicida e
i
enquanto escrevo s
deposito na palavra
infinitas transfusões c
que transbordam de minha mão finita o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 59 )
fechar o mundo
com os chacais do suspiro

abraçar o instante
fugidio peixe
do anzol dos braços

o escuro ilumina
as cicatrizes
avessas ao lodo
acenam ao cais dos girassóis
(i quando todos os retratos
n) murcham-se
v
desenraizados do tempo
i
s
í e o possível
v devir
e anuncia-se
i natimorto
s

c
o
t
i
d
i
a
n
o
s

( 60 )
Agradecimentos

Pelas horas de afeto, aos amigos:

Clayton Vieira
Pepe Santos
Roni Peterson

Pelo estímulo ao ato da escrita, aos poetas:

Fabiano Silmes
Maria Helena Latini
Naldo Velho

Pelo apoio e dedicação ao projeto editorial desse livro:

Abílio Pacheco
Aline Monteiro Teixeira
Dênis Girotto de Brito
Sandro Barbosa
Wanda Monteiro
Índice

Apresentação de Daniel Rocha Leite ................................................... 05


Das coisas e cotidianos invisíveis & sua linguagem visível,
por Airton Souza .................................................................................... 07

Poemas
elidir a imagem ...................................................................................... 17
corto cebolas............................................................................................ 18
nas paredes .............................................................................................. 19
o verde balança........................................................................................ 20
azulejos brancos ...................................................................................... 21
no bambuzal ............................................................................................ 22
carrinho de mão ..................................................................................... 23
no barro.................................................................................................... 24
na praça ................................................................................................... 25
incógnito .................................................................................................. 26
há nos domingos um certo tom de blues ............................................ 27
na escama de prata do domingo ........................................................... 28
cama vazia................................................................................................ 29
gaveta........................................................................................................ 30
a cadeira ................................................................................................... 31
revoltam-se os objetos ........................................................................... 32
no ordinário jarro ................................................................................... 33
sou um (im)pulso ................................................................................... 34
vejo (me) .................................................................................................. 35
pelo ralo ................................................................................................... 37
debaixo da pia ......................................................................................... 38
bailarina surrada é o jornal ................................................................... 39
entre o chinês .......................................................................................... 40
o sol no pulmão da cidade .................................................................... 41
no focinho do fuzil ................................................................................ 42
uma guerra acontece ............................................................................. 43
o mar lateja murmúrios ......................................................................... 44
sede é como um rugido de rio .............................................................. 45
rubra árvores ........................................................................................... 46
o edifício .................................................................................................. 47
o crepúsculo anfíbio ............................................................................... 48
senta-se conosco à mesa ........................................................................ 49
sem motivo de festa ................................................................................ 50
nada pode consolar o homem............................................................... 51
as mãos cumprem partidas ................................................................... 52
encontro-te .............................................................................................. 53
o nada e o agora ...................................................................................... 54
seu cabelo encaracolado nos dedos ...................................................... 55
debaixo do suicídio de mosquitos ........................................................ 56
disseram-me que plantaram uma flor ................................................. 57
do sangue de meus olhos farpados ...................................................... 58
enquanto escrevo .................................................................................... 59
fechar o mundo ....................................................................................... 60

Livro impresso em tipografia Sitka 11, em papel pólen 80g/m²,


para a Editora LiteraCidade em Abril de 2017.

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