You are on page 1of 76

ANGLO

Sociologia
Manual do Professor
Ensino Médio

1
1
Manual
do Professor
Sociologia
Eduardo CalBUCCI • JUCENIR Rocha
Direção de conteúdo e inovação pedagógica: Mário Ghio Júnior
Direção: Tania Fontolan
Coordenação pedagógica: Fábio Aviles Gouveia
Supervisão da disciplina: Eduardo Calbucci
Conselho editorial: Bárbara M. de Souza Alves, Eliane Vilela,
Fábio Aviles Gouveia, Helena Serebrinic, Lidiane Vivaldini Olo,
Luís Ricardo Arruda de Andrade, Mário Ghio Júnior,
Marisa Sodero Cardoso, Ricardo de Gan Braga,
Ricardo Leite, Tania Fontolan
Direção editorial: Lidiane Vivaldini Olo
Gerência editorial: Bárbara M. de Souza Alves
Coordenação editorial: Adriana Gabriel Cerello
Edição: Cláudia P. Winterstein (coord.),
Elena Judensnaider
Revisão: Hélia de Jesus Gonsaga (ger.), Danielle Modesto,
Edilson Moura, Letícia Pieroni, Marília Lima, Marina Saraiva,
Tayra Alfonso, Vanessa Lucena
Coordenação de produção: Paula P. O. C. Kusznir (coord.),
Daniela Carvalho
Supervisão de arte e produção: Ricardo de Gan Braga
Edição de arte: Fernando Afonso do Carmo
Diagramação: Lourenzo Acunzo
Iconografia: Silvio Kligin (supervisão),
Claudia Cristina Balista, Ellen Colombo Finta, Fernanda Regina Sales
Gomes, Marcella Doratioto, Sara Plaça, Tamires Reis Castillo
Licenças e autorizações: Edson Carnevale
Capa: Daniel Hisashi Aoki
Foto de capa: Kushch Dmitry/Shutterstock
Projeto gráfico de miolo: Talita Guedes da Silva

Todos os direitos reservados por SOMOS Sistemas de Ensino S.A.


Rua Gibraltar, 368 – Santo Amaro
CEP: 04755-070 – São Paulo – SP
(0xx11) 3273-6000
© SOMOS Sistemas de Ensino S.A.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Calbucci, Eduardo
Ensino médio : Sociologia : caderno 1 : manual
do professor / Eduardo Calbucci, Jucenir Rocha. --
1. ed. -- São Paulo : SOMOS Sistemas de Ensino, 2016.

1. Sociologia (Ensino médio) I. Rocha, Jucenir.


II. Título.

15-09454 CDD-301

Índices para catálogo sistemático:


1. Sociologia : Ensino médio 301

2016
ISBN 978 85 7595 385 3 (PR)
Código da obra 827052116
1a edição
1a impressão
Impressão e acabamento

Uma publicação
Apresentação
Caro professor,
Reescrever um material que tem alcançado, junto com o excelente trabalho dos conveniados, os melhores re-
sultados do Brasil no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não é tarefa fácil, mas foi um desafio enfrentado e
vencido, como você poderá constatar.
Nesse processo, buscamos produzir um material didático capaz de aliar a motivação dos alunos com a qualidade
de ensino e os elevados padrões acadêmicos – uma tríade que representa um trabalho de excelência nas escolas.
Muitas inovações e aperfeiçoamentos foram feitos tomando como referência: as conversas realizadas nos diversos
encontros com os autores, as preciosas colocações feitas no Fale com o Autor e um olhar para o futuro.
Nossa fundamentação pedagógica está baseada no que é o ponto central de nosso sistema de ensino: a aula! E
também em nosso lema: “Aula dada, aula estudada”!
A espinha dorsal foi pensada com base no Círculo Virtuoso da Aprendizagem:

Aula bem
Aula bem proposta
estudada (Autor)

Aula bem Aula bem


assistida preparada

1 Aula bem proposta – O programa está distribuído criteriosamente pelas aulas de que dispomos para de-
senvolver cada curso. Procuramos dimensionar cada uma delas com tempo suficiente para a exposição teórica e a
realização de exercícios pelos alunos em classe.
2 Aula bem preparada – Os planos de aula são bem detalhados, fornecendo as informações necessárias para a
preparação de seu trabalho. É importante que você observe bem o material do aluno, veja as questões propostas e con-
sidere a possibilidade de introduzir objetos digitais. Examine e resolva com antecedência todos os exercícios envolvidos.
3 Aula bem assistida – Sempre que o professor conseguir motivar a classe, mantendo um diálogo constante
com os alunos, e eles sentirem que estão aprendendo, a aula terá sido eficiente. Não pactue com os dispersivos. Exija
dos alunos concentração, participação nos diálogos e muita garra durante as atividades de aula.
4 Aula bem estudada – É o resultado da resolução diária de todas as Tarefas. Os alunos devem ser orientados
para fazer a avaliação de seu desempenho após cada prova e procurar o Plantão de Dúvidas para esclarecimentos
sobre as atividades propostas para casa.
Estamos à disposição para tirar dúvidas, ouvir opiniões e sugestões em nossos Encontros Presenciais e no Fale
com o Autor.
Um espetacular ano letivo para todos!
Fábio Aviles Gouveia
Coordenador pedagógico
Sumário
Esclarecimentos iniciais 5

Orientações 7

Aulas 1 e 2 – Indivíduo e sociedade 7

Aulas 3 e 4 – Coerções sociais 8

Aulas 5 e 6 – Instituições sociais 9

Aulas 7 e 8 – Identidade e alteridade 10

Aulas 9 e 10 – Estratifcação social 11

Aulas 11 e 12 – Liberdade, propriedade, fraternidade 12


Esclarecimentos iniciais
Esclarecimentos iniciais
Nas palavras de Karl Mannheim, “enquanto o costume e a tradição operam, a ciência da sociedade é desnecessária”. Acontece que
vivemos tempos de profundas e aceleradas mudanças nas sociedades. Nesse contexto, a Sociologia faz-se mais necessária do que nunca,
principalmente nas escolas. Mas como “traduzir” a ciência da sociedade para um público-alvo composto por jovens? Esse é um grande
desafio e, para vencê-lo, é preciso tomar cuidados especiais com a linguagem em toda a abordagem didática. Também é necessário não
perder de vista que uma coisa é a Sociologia enquanto ciência; outra, a disciplina na estrutura escolar.
Tendo isso como ponto de partida, entendemos que as chamadas competências específicas da Sociologia apontam os objetivos
amplos e genéricos do trabalho pedagógico, quais sejam:
• a contextualização sociocultural: por meio dela, os alunos poderão identificar as mudanças no mundo em que vivem. Um
exemplo é a evolução nas relações de trabalho;
• a representação e a comunicação: os alunos serão orientados sobre como distinguir a realidade das pessoas, propriamente dita,
dos discursos elaborados sobre essa mesma realidade;
• a investigação e a compreensão: serão fornecidos os elementos para que os alunos possam construir uma visão de mundo
crítica.
Mas e quanto aos objetivos específicos do curso? Como pretendemos abarcar uma realidade tão ampla e com tantas opções
de abordagem? As respostas a estas e a outras questões nos remetem aos eixos temáticos do curso e, portanto, à sua estrutura
propriamente dita. Muitas têm sido as opções apresentadas para a montagem dos cursos de Sociologia no Ensino Médio. Todas,
porém, subordinadas às várias combinações possíveis de três caminhos: as teorias científicas, os conceitos básicos e os temas es-
pecíficos de pesquisa.
Se a Sociologia pode trazer uma expressiva contribuição para a formação escolar dos jovens, acreditamos que isso se deva à possi-
bilidade de interdisciplinaridade e de contextualização da realidade brasileira, tendo como principal objetivo a formação crítica para o
exercício da cidadania. Cabe à ciência da sociedade problematizar os fenômenos sociais, facilitando aos alunos decifrá-los. O pensamento
sociológico baseia-se na desnaturalização das explicações desses fenômenos, ou seja, no desnudamento dos véus que escondem uma
realidade tida como “natural”, mas que não o é. Por que a propalada “superioridade masculina”, que nada tem de natural, assim parece
a tão amplas parcelas da população? A quem interessa a apresentação do mercado como caminho ideal e inevitável para a realização
do bem comum? Como bem expôs Émile Durkheim, cabe ao sociólogo provocar o estranhamento em relação ao objeto de estudo; no
caso, o próprio meio social em que se está inserido.
Tais reflexões nos levaram à opção pela ênfase conceitual. Nossa proposta prioriza as análises conceituais, sem menosprezar, é claro,
o respaldo das teorias clássicas e os temas, que aparecem como matérias-primas para o trabalho com os conteúdos.
A abordagem de temas de interesse – como a violência urbana; as discriminações racial, sexual ou religiosa; os papéis da
mulher e dos jovens; as agressões ao meio ambiente; os movimentos sociais; etc. – está, inevitavelmente, presente no curso. Mas
não pode ser o eixo central sem que se corra o risco da superficialidade diante da carência de ferramentas (conceitos científicos)
para discussão.
Por sua vez, as correntes teóricas clássicas – a dialética de Marx, a funcionalista de Durkheim e a compreensiva de Weber – servirão
como pano de fundo para as reflexões. Mas deverão adequar-se à capacidade de compreensão do público a que se destina: jovens es-
tudantes em processo de amadurecimento e com interesses em formação.
Assim, a análise conceitual parece ser a forma mais adequada de aproximar esse público de uma área de pensamento nova nos
meios escolares e, de certo modo, estranha aos conteúdos tradicionais da escola. Ela possibilitará que os alunos entrem em contato
com visões variadas do que vem a ser poder político, classes sociais, ideologia, trabalho, cultura, entre outros. Afinal, os conceitos tam-
bém têm sua história e mudam ao longo do tempo. Morrem uns, surgem outros. E contribuem, enfim, para a construção de modelos
explicativos da realidade contemporânea. Esta noção de que cada um de nós “reconstrói” idealmente a realidade é que pretendemos
que seja adquirida pelos nossos alunos.
Atingida esta meta, teremos dado nossa missão por cumprida.

5
Estrutura do curso
Para facilitar o trabalho pedagógico e a apreensão gradativa, por parte dos alunos, dos componentes conceituais que serão “amarra-
dos” na conclusão dos trabalhos, este curso, em relação aos dois primeiros anos do Ensino Médio, está montado na forma de Módulos,
como segue:
1. Sociedade – A evolução dos seres humanos (Introdução à Sociologia e à Antropologia)
2. Economia – O trabalho dos seres humanos (Produção, desenvolvimento e globalização)
3. Política – O poder dos seres humanos (Política e cidadania)
4. Cultura – As ciências dos seres humanos (Cultura e mídia)
A princípio, o material foi pensado para um currículo de 24 aulas anuais (6 aulas bimestrais), mas é possível o desdobramento deste
número segundo os interesses das instituições escolares. Para tanto, além de um conteúdo básico (concentrado na seção “Um pouco
de teoria”), as aulas incluem sugestões para debates, leituras complementares e atividades paralelas, que podem ser desenvolvidas para
aprofundamento dos conteúdos.
O Módulo 1, que ora se inicia, busca situar o aluno diante do objeto de estudo. Apresenta as origens históricas da disciplina, seus
alvos de análise e os primeiros conceitos básicos. Compõe-se das seguintes atividades, cada uma recobrindo duas aulas:

Módulo 1: A evolução dos seres humanos


(Introdução à Sociologia e à Antropologia)
Semanas Atividade Aulas Assunto

1e2 1 1e2 Indivíduo e sociedade

3e4 2 3e4 Coerções sociais

5e6 3 5e6 Instituições sociais

7e8 4 7e8 Identidade e alteridade

9 e 10 5 9 e 10 Estratifcação social

Liberdade, propriedade,
11 e 12 6 11 e 12
fraternidade

Estrutura das aulas


As aulas são compostas das seguintes seções, nesta ordem:
• Para debater
• Um pouco de teoria
• Exercícios
• Tarefa
• Leitura complementar
A primeira seção, “Para debater”, visa à proposição do tema de forma provocativa, desafiando os alunos a uma determinada reflexão.
Na sequência, a seção “Um pouco de teoria” abre a palavra ao professor, que poderá apresentar os conceitos, baseado nas abordagens
teóricas de pensadores que se debruçaram sobre a questão. Os exercícios poderão ser trabalhados em sala de aula ou incorporados às
tarefas mínima e complementar, para o estudo em casa.
Cabe lembrar a ênfase dada ao diálogo entre imagens, principalmente do fotojornalismo, e os conteúdos da Sociologia. Tais imagens
são apresentadas como complementos dos conteúdos estudados. Caberá ao professor decidir se elas servirão como simples ilustração
do tema ou se serão ponto de partida para discussões mais profundas.
As tarefas complementares poderão conter, eventualmente, exercícios ou atividades para reflexão sobre o cotidiano dos alunos, além
de propostas interdisciplinares. Por fim, as leituras complementares apresentarão, normalmente, textos mais complexos, para que os
alunos comecem a se familiarizar com questões e ideias mais aprofundadas.
Bom trabalho!

6
Orientaç›es Na apresenta•‹o dos conceitos essenciais da atividade, acredita-
mos que o professor deva, sempre, partir daquilo que foi discutido
na se•‹o ÒPara debaterÓ. ƒ ineg‡vel que muitas das opini›es dadas
pelos alunos podem ser baseadas no senso comum, em racioc’nios
simplistas e, em alguns casos, até mesmo encerrar preconceitos.
aulas 1 e 2 Mas nos parece pedagogicamente interessante partir dessas
opini›es, desconstruindo os preconceitos, desnaturalizando as opi-
Indivíduo e sociedade ni›es, provocando o estranhamento, desafiando o senso comum.
Sugerimos ent‹o que o professor, discutindo a no•‹o aristo-
Objetivos télica do ser humano como Òser socialÓ, mostre a diferen•a entre
individualidade, tomada como o conjunto de caracter’sticas que
Proporcionar aos alunos no•›es para que possam: singulariza o indiv’duo, e as muitas acep•›es de individualismo,
• compreender alguns dos mœltiplos significados dos conceitos muitas delas associadas a valores negativos.
de ÒindividualismoÓ e ÒindividualidadeÓ; Na l’ngua geral, essas acep•›es negativas de ÒindividualismoÓ,
• fazer uma introdu•‹o ao conceito de ÒsociedadeÓ, relacionan- que privilegiam as vontades pessoais em detrimento dos valores
do-o com as no•›es de individualismo; coletivos, aproximam-se do que chamamos, popularmente, de
Òego’smoÓ. Sugerimos que o professor n‹o empregue esse termo,
• situar as origens hist—ricas do pensamento sociol—gico, mos-
pois, na Sociologia, ele tem um sentido especializado, n‹o morali-
trando a dualidade da Sociologia, que mescla reflex›es cien- zante, que identifica, para Durkheim, a autonomia que se conce-
t’ficas e inten•›es pr‡ticas. de ao ÒeuÓ, ao ego. Essa autonomia varia de cultura para cultura,
de época para época. Em O suicídio, Durkheim chega a dizer que
Encaminhamento grupos sociais que imp›em mais normas aos indiv’duos, como
O ditado popular diz que Òuma imagem vale por mil palavrasÓ. os cat—licos, d‹o menos espa•o ao ego’smo do que grupos que
Talvez seja um exagero. Mas é ineg‡vel que algumas fotografias privilegiam o livre-arb’trio individual, como os protestantes, o que
explicaria o maior nœmero de suic’dios entre aqueles do que entre
t•m, no m’nimo, a capacidade de suscitar reflex›es interessantes.
estes. Hoje, h‡ muitas dœvidas a respeito da validade dessa formu-
Vale a pena ent‹o pedir para os alunos observarem a imagem da
la•‹o de Durkheim, pois grupos de maior coes‹o social, como os
assembleia dos metalœrgicos com aten•‹o. Em seguida, explicando
judeus, saberiam esconder o suic’dio de modo mais eficiente, o que
que se tratou de uma campanha hist—rica de trabalhadores, liderada comprometeria uma an‡lise mais cuidadosa dos casos de suic’dio.
pelo ex-presidente Lula, que reuniu 60 mil pessoas em um est‡dio
De qualquer modo, a no•‹o de ego’smo estar‡ na cabe•a dos
de futebol, em plena ditadura militar, seria proveitoso perguntar alunos, e o professor, sabendo disso, pode mostrar que a Sociologia,
aos alunos o que a imagem lhes sugere. Uni‹o? Massifica•‹o? Sen- ao analisar os grupos sociais, ao estudar os sistemas sociais, ao se
timento de grupo? Confus‹o? Sonhos diferentes? Sonhos iguais? debru•ar sobre o corpo social, n‹o nega a exist•ncia dos valores
Aliena•‹o? As respostas, provavelmente, ser‹o as mais diversas. individuais, mas, por uma quest‹o epistemol—gica, opta por consi-
Cremos que o professor deva dar destaque ˆ ideia de que a derar o indiv’duo como parte integrante de uma engrenagem social
imagem, diferentemente de outras que retratam a multid‹o, con- mais ampla e mais complexa, que tem caracter’sticas pr—prias e
segue tematizar, ao mesmo tempo, a coletividade, que se manifesta uma din‰mica particular que n‹o pode ser explicada pela simples
na multiplicidade de rostos voltados para a mesma dire•‹o, e o soma das partes que a constituem.
indiv’duo, que est‡ representado na express‹o facial de cada me- Isso pode levar a discuss‹o para o ponto mais importante destas
talœrgico da imagem. aulas, que é trabalhar com o conceito de ÒsociedadeÓ, situando o
O texto de John Donne também tematiza o indiv’duo, figurativi- momento hist—rico em que surgiu a Sociologia como ci•ncia da
zado na ÒilhaÓ, e a coletividade, que é representada pelo ÒcontinenteÓ sociedade. Refer•ncias ao pensamento iluminista e ao clima de
ÒcientificismoÓ que dominou grande parte do século XIX podem
e pelo ÒtodoÓ. Mas o poeta ingl•s deixa bem clara sua prefer•ncia
ser o pano de fundo dessa apresenta•‹o.
pela coletividade.
Finalmente, deve-se destacar a dupla fun•‹o da Sociologia:
A rela•‹o entre a fotografia e a literatura pode funcionar como estudar os fen™menos sociais e servir como instrumento para a
ponto de partida para a primeira reflex‹o do nosso curso: é poss’vel interven•‹o pr‡tica e consciente na realidade contempor‰nea. Esse
garantir e conciliar o bem comum com as liberdades individuais? desejo de intervir na ordem social pode parecer, ˆ primeira vista,
Sugerimos que o professor abra um tempo para a manifesta•‹o dos contradit—rio com o car‡ter cient’fico que a Sociologia quer cons-
alunos, sob a forma de um debate com a sala toda ou, eventual- truir. Mas n‹o h‡ contradi•‹o. O aluno precisa entender que, ao
mente, entre pequenos grupos que, depois, teriam de apresentar contr‡rio, por exemplo, de uma pesquisa farmac•utica que estuda
suas conclus›es ˆ classe. O essencial é que todos percebam que, bactérias em pa’ses tropicais, os soci—logos estudam uma sociedade
diante de uma quest‹o dessa complexidade, n‹o existem respostas da qual eles fazem parte, o que, por si s—, j‡ impossibilita o distan-
simples e imediatas. ciamento asséptico em rela•‹o a essa realidade. Ali‡s, isso é uma

7
aulas 3 e 4
característica das Humanidades, em geral. Por isso, na Sociologia
(às vezes, mais; às vezes, menos), os cientistas procuraram dosar o
estudo sistemático, com bases objetivas, dos fenômenos sociais e
as tentativas de alterar, em algum grau, a ordem social. Coerções sociais
Em relação aos exercícios de aula, podemos, na primeira ques-
tão, retomar a discussão apresentada na seção inicial, na expecta-
Objetivos
tiva de que os alunos defendam que a luta dos metalúrgicos por
melhores salários e condições de trabalho só pôde obter algum Proporcionar aos alunos noções para que possam:
grau de sucesso porque a base de suas reivindicações tinha apoio • relacionar os conceitos de fato social e coerção social;
da coletividade dos trabalhadores. • entender os objetos de estudo da Sociologia, principalmente
O segundo exercício é baseado numa tirinha de Will Leite. A de acordo com a proposta de Durkheim;
escolha não é por acaso. Tirinhas e charges “são dispositivos visu-
• compreender as formas de os indivíduos aceitarem ou recu-
ais gráficos que veiculam e discutem aspectos da realidade social,
sarem certas formas de coerção social.
apresentando-a de forma crítica e com muito humor”. Além de
fazer rir, as tirinhas “fazem pensar sobre o tema ou a realidade que
apresentam [...]. É esse tipo de humor gráfico que interessa ao pro- Encaminhamento
fessor que quer introduzir uma determinada questão, seja conceitual A fotografia do estudante chinês desconhecido parado em
ou temática. Ao projetar em sala de aula uma charge ou tira de frente a uma coluna de tanques, num país como a China, em 1989,
humor, é bem possível que os alunos se sintam instigados a saber mostra até que ponto chega o desejo de mudança de um jovem,
o porquê de o professor fazer aquilo. A partir dessa situação, já se pois ele colocou a própria vida em risco.
cria um ambiente para colocar em pauta o que se pretendia discutir
naquela aula. Aí começa a motivação, e a imagem projetada serve Atitudes como essa mostram, de um lado, o que significa viver
de estímulo. Inicia-se, então, uma segunda parte, que é analisar a em um lugar autoritário e, de outro, como é possível lutar contra
imagem, seus elementos, por que provoca o riso, de que modo a opressão. Assim, analisando a imagem, podemos dizer que essa
esse discurso se aproxima e se distancia do discurso sociológico”1. fotografia pode ainda ser vista como metáfora da luta pelas liber-
A visão que a garota demonstra, nos dois primeiros quadri- dades do indivíduo em qualquer espaço ou tempo histórico.
nhos da tirinha, a respeito das escolhas individuais parece revelar Se o professor achar pertinente, pode lançar uma provocação
que ela acredita na autonomia do ego, na ideia de que as pessoas aos alunos: algum deles faria a mesma coisa? O que levaria alguém
devem ser livres para se expressar como bem entenderem, ainda a arriscar-se dessa maneira?
que isso signifique fazer coisas que muitos não aprovariam (como Existem vídeos na internet com essa cena na Praça da Paz Ce-
uma mecha verde no cabelo). No entanto, no último quadrinho, lestial. O professor pode fazer uma busca usando o nome em in-
percebe-se que a menina só queria pintar o cabelo porque todos glês da praça – Tiananmen Square – e passar o vídeo em sala ou
estavam pintando também, sinal de que aquilo que parecia ser recomendar que os alunos assistam a ele em casa.
expressão radical da individualidade era, na verdade, apenas uma Para que o aluno entenda melhor a ousadia do jovem estudante,
tentativa de se comportar exatamente da mesma forma que as seria importante fazer uma contextualização histórica, mostrando
outras pessoas de seu convívio social. que o final da década de 1980 e o início da década de 1990 foram
O último exercício é baseado em máximas, em aforismos que emblemáticos para colocar fim em muitos regimes comunistas no
tematizam questões ligadas às noções de individualismo, indivi- mundo. Isso aconteceu essencialmente no Leste Europeu, mas não
dualidade e coletividade. Nosso objetivo é mostrar que as opiniões chegou completamente à China. Porém, os protestos na Praça da
que circulam em nosso meio social a respeito do ser humano e da Paz Celestial estão ligados a esse quadro de abertura à economia
sociedade, da individualidade e do coletivismo, dos desejos indivi- de mercado.
duais e do sentimento de grupo, são bastante variadas. O sociólogo,
por mais que se esforce, dificilmente vai conseguir compreender Não se pode dizer que os chineses que protestavam em 1989
– mesmo com rigor de métodos e técnicas de investigação – a queriam que a China seguisse o mesmo caminho das democra-
sociedade moderna de maneira completamente objetiva. Por isso, cias ocidentais. De fato, havia quem defendesse a democracia, a
por vivermos numa sociedade multifacetada, em que há valores liberdade de expressão e o fim dos privilégios aos “protegidos” do
divergentes e choque de interesses, os estudiosos da sociedade, Partido Comunista Chinês, mas também havia manifestantes pre-
para entendê-la, precisam posicionar-se dentro dela, convivendo gando combate à corrupção, resgate dos verdadeiros sentimentos
com essas divergências e com esses choques. socialistas e aceleração das reformas econômicas.
Na abordagem conceitual, o primeiro passo importante é di-
1
BRASIL. Orientações curriculares para o Ensino Médio. Ciências
zer que, no século XIX, quando a Sociologia se estabeleceu como
Humanas e suas Tecnologias. Brasília: MEC/SET, 2006. ciência, foi preciso determinar qual seria seu objeto de estudo.

8
aulas 5 e 6
Durkheim, com seu rigor epistemológico, foi o primeiro intelectual
a se debruçar sistematicamente sobre essa questão, propondo em
As regras do mŽtodo sociol—gico o conceito de Òfato socialÓ.
Instituições sociais
A segunda etapa está em definir fato social, dando destaque,
principalmente, ˆ questão da Òcoerção socialÓ. A apresentação desse
conceito pode ser enriquecida com a noção de solidariedade, tam- Objetivos
bŽm elaborada por Durkheim. Partindo da afirmação de que os fa-
Proporcionar aos alunos noções para que possam:
tos sociais devem ser tratados como coisas (externas aos indiv’duos
e, portanto, diferentes deles), Durkheim forneceu uma definição • compreender o conceito de instituição social;
do ÒnormalÓ e do ÒpatológicoÓ Ð sem nenhum julgamento de valor • relacionar a coerção social ˆs instituições;
aqui Ð aplicada a cada sociedade, em que o normal seria aquilo que • identificar a transitoriedade histórica das instituições, princi-
Ž ao mesmo tempo obrigatório para o indiv’duo e superior a ele, o palmente por meio da propriedade, da fam’lia e da linguagem.
que significa que a sociedade e a consciência coletiva são entidades
morais, antes mesmo de terem uma existência tang’vel. Essa espŽcie Encaminhamento
de preponderância da sociedade sobre o indiv’duo deve permitir
a realização dele, desde que consiga integrar-se a essa estrutura. A partir do texto de Saramago, podemos começar a aula com
Para que reine certo consenso nessa sociedade, deve-se favorecer uma ponte interdisciplinar com o professor de Geografia para tra-
o aparecimento de uma solidariedade entre seus membros. Uma tar da questão fundiária no Brasil, que será o pano de fundo para
vez que a solidariedade varia segundo o grau de modernidade da diversas questões das tarefas.
sociedade, a norma moral tende a tornar-se norma jur’dica, pois Retomando então a noção de coercitividade, apresentada no
Ž preciso definir, numa sociedade moderna, regras de cooperação momento em que falamos do Òfato socialÓ durkheimiano, o profes-
e troca de serviços entre os que participam do trabalho coletivo sor pode lembrar que as instituições sociais, funcionando como um
(preponderância progressiva da solidariedade orgânica). Òpadrão de controleÓ, Ž que são responsáveis pela coerção social. Ës
vezes, esse ÒcontroleÓ Ž expl’cito, como no caso de instituições como
Depois, ao mostrar as maneiras de o indiv’duo relacionar-se
a Igreja ou as Forças Armadas; ˆs vezes, ele Ž mais sutil, como no
com as coerções, o professor deve ressaltar que a discussão sobre
caso da propriedade privada e, mais ainda, no caso da linguagem.
alienação e transgressão está apenas começando, já que o tema
será retomado, em várias perspectivas teóricas diferentes, em todas Independentemente disso, uma instituição social só existe
as partes do curso. quando ela exerce autoridade sobre um determinado grupo so-
cial. Seguindo esse racioc’nio, a propriedade privada Ð instituição
O primeiro exerc’cio traz um texto de Durkheim que será de-
de que voltaremos a falar na última atividade deste Caderno Ð Ž
safiador para os alunos, mas acreditamos que eles precisam, aos
bastante poderosa, já que ela Ž um dos pilares de nossa sociedade.
poucos, tomar contato com fragmentos escritos por clássicos da
São poucos os seres humanos que, vivendo sob a influência do
Sociologia. Nesta passagem, o sociólogo francês dá um exemplo capitalismo, voltam-se contra a propriedade privada.
concreto Ð da educação das crianças Ð para que se entenda melhor
Este pode ser um bom momento para retomar as noções de
o conceito de fato social.
ÒalienaçãoÓ e ÒtransgressãoÓ, mostrando dois modos antag™nicos
Assim, neste excerto, existem traços de coercitividade, como de nos relacionarmos com as instituições sociais. Muitas vezes,
em Òimpor ˆ criança maneira de ver, de sentir e de agir ˆs quais ela posturas transgressoras provocam alterações da estrutura das ins-
não teria chegado espontaneamenteÓ, de exterioridade, como tituições sociais, que, como fen™menos históricos, estão sujeitas a
em Òesta pressão permanente exercida sobre a criança Ž a própria mudanças ao longo do tempo.
pressão do meio socialÓ, e de generalidade, como em Òuma edu-
Em relação aos exerc’cios, a tirinha do cartunista Glauco, criador
cação racional deveria [...] deixar a criança agir com toda liberdadeÓ.
do ÒCasal NeurasÓ, sempre envolvido em brigas e cenas de ciúme,
O segundo exerc’cio se baseia num trecho de ÒTabacariaÓ, cŽle- serve de base para as quatro questões da seção. De maneira este-
bre poema de Fernando Pessoa, mais precisamente de seu heter™ni- reotipada, Glauco apresenta a situação de um casal que, depois de
mo çlvaro de Campos, que nos parece exemplar para mostrar que a muito tempo, resolve sair para jantar. O marido, um workaholic ou
coerção dos fatos sociais aparece em muitas manifestações art’sticas um ciberdependente (ou as duas coisas simultaneamente), resolve
que, de alguma forma, problematizam a vida em sociedade. levar o computador portátil para o jantar, o que irrita a esposa,
O poeta afirma que não se comportou como gostaria, pois provocando-lhe a destemperada reação no último quadrinho.
acabou cedendo a máscaras sociais. AlŽm disso, queremos que No exerc’cio 1, pretendemos mostrar que a fala da mulher, no
o aluno perceba que esse comportamento Ž avaliado de maneira primeiro quadrinho, defende a instituição social ÒcasamentoÓ e, por
negativa, pois o poeta se diz perdido, envelhecido e bêbado. extensão, a Òfam’liaÓ Ð que Ž a base de nosso processo de socializa-

9
•‹o. Especificamente em rela•‹o ao casamento, pode-se dizer que Isso porque o estudo de outras culturas, muitas vezes, provoca
essa institui•‹o tem sofrido mudan•as e que nem todas as pessoas, espanto. E Ž esse espanto que est‡ presente, de modo sarc‡stico,
atualmente, a veem como necess‡ria para a vida em sociedade. em ÒAnedota bœlgaraÓ. Na verdade, h‡ um espanto duplo. Espanta-
No exerc’cio 2, o aluno precisa perceber que, dentro da plu- mo-nos com o espanto do czar. ƒ uma situa•‹o curiosa, que quase
ralidade de opini›es que caracteriza uma sociedade em que h‡ sempre acontece no contato com o diferente. ƒ importante lembrar
liberdade de express‹o, homem e mulher s‹o socializados de modo que nosso espanto diante da vis‹o de mundo do czar explicita um
a n‹o avaliar o casamento da mesma maneira. O uso da palavra dilema Žtico: afinal, ca•ar andorinhas, borboletas e quaisquer outros
ÒmilagreÓ pela esposa sugere essa diferen•a de vis‹o de mundo. animais (pode-se lembrar o constrangedor caso do rei Juan Carlos,
da Espanha, ca•ando elefantes na çfrica em 2012) Ž um crime me-
No exerc’cio 3, a ins—lita situa•‹o do sujeito que leva um laptop nor do que ca•ar homens? Que vis‹o de mundo sustenta essa ideia?
para um jantar com a esposa confirma que o personagem n‹o valo-
Se o professor quiser expandir um pouco essa discuss‹o inicial,
riza tanto a Òfam’liaÓ ou o ÒcasamentoÓ. No exerc’cio 4, expandimos
ele pode promover reflex›es sobre as formas de representar o ou-
essa discuss‹o para a dificuldade de conciliar interesses pessoais
tro (em termos sociol—gicos, sobre as pol’ticas de representa•‹o)
e profissionais no mundo moderno. O excesso de trabalho e a
e discutir em que medida esse olhar sobre o outro pode ajudar a
depend•ncia do computador (e, muitas vezes, essas duas coisas
criar ou cristalizar preconceitos.
juntas) fazem com que algumas pessoas se sintam obrigadas a ficar
conectadas 100% do tempo a um computador, refŽns do traba- Em rela•‹o ˆ teoria da aula, Ž importante que o professor ex-
lho ou da internet, o que n‹o lhes permite dar aten•‹o a outras plicite aos alunos as diferen•as entre a Sociologia stricto sensu e a
institui•›es sociais importantes, como Ž o caso da fam’lia. Aqui, o Antropologia, que seriam duas ‡reas daquilo que chamamos, mais
professor pode discutir com a turma temas que s‹o de interesse amplamente, de Ci•ncias Sociais.
dos alunos, como o fato de as redes sociais estarem substituindo Em seguida, nossa inten•‹o passa a ser apresentar alguns pa-
as amizades ÒreaisÓ ou a depend•ncia que sentimos da tecnologia radigmas da Antropologia, mostrando que tudo come•a pelo
(hoje, por exemplo, h‡ mais telefones celulares no Brasil do que interesse em estudar sociedades n‹o europeias, para ser poss’vel
toda a popula•‹o do pa’s). compreender os seres humanos em sua ÒtotalidadeÓ cultural.
Ali‡s, o foco destas aulas Ž o conceito de cultura, tomado como

aulas 7 e 8
objeto de estudo mais relevante da Antropologia. O professor pode
seguir, se achar conveniente, um percurso semelhante ao que fizemos
na abordagem do conceito em nossa exposi•‹o te—rica. Primeiro,
Identidade e alteridade mostramos a etimologia do termo e alguns dos seus significados na
l’ngua cotidiana. Em seguida, apresentamos um hist—rico do con-
ceito de cultura na Antropologia, passando por Tylor (1832-1917),
Objetivos Boas (1858-1942), LŽvy-Bruhl (1857-1939), Malinowski (1884-1942),
Proporcionar aos alunos no•›es para que possam: LŽvi-Strauss (1908-2009) e mesmo Durkheim. Aproveitamos tambŽm
• conhecer o campo de estudo da Antropologia; para apresentar, em boxe, o Funcionalismo, da mesma forma que fize-
mos com o Estruturalismo, o Evolucionismo Social, o Determinismo
• tomar contato com os distintos conceitos de cultura; e o Positivismo nas aulas anteriores.
• relacionar a identidade e a alteridade com o conceito de iden- Fugindo da ultrapassada no•‹o de Òra•aÓ, o professor pode lem-
tidade social; brar que todos os seres humanos s‹o da mesma espŽcie, pois todos
• entender o que Ž o etnocentrismo e como ele pode se ma- temos a mesma carga genŽtica. Donde vem o questionamento:
nifestar. se, biologicamente, somos iguais, o que explica nossas diferen•as
de valores, de cren•as, de h‡bitos? A resposta Ž: nossas escolhas
Encaminhamento culturais, que, longe de serem plenamente racionais e programadas,
s‹o o resultado das necessidades do grupo, que encontra solu•›es
Nosso contato com o ÒoutroÓ Ð com o diferente Ð costuma se pr—prias para os problemas que surgem.
caracterizar pela curiosidade e pelo espanto. Isso ocorre porque, Popularmente, Ž comum que se acredite que haja culturas su-
muitas vezes, julgamos a cultura alheia tendo a nossa como refer•n- periores e inferiores. ƒ preciso combater essa ideia, desnaturaliz‡-la,
cia, ou seja, como medida do que Ž ÒcertoÓ ou ÒerradoÓ. Geralmente, mostrando que todas as culturas s‹o equivalentes em sua ess•n-
n‹o nos damos conta de que, para o outro, o estranho somos n—s. cia. Essa cren•a de superioridade ou inferioridade deu origem ao
Foi basicamente com esse esp’rito que o antrop—logo Claude etnocentrismo e a uma de suas manifesta•›es espec’ficas, o euro-
LŽvi-Strauss viajou pelo Brasil estudando os povos nativos. Era sua centrismo. Trata-se de um tipo de pensamento que nega a diver-
inten•‹o compreender a cultura desses grupos sociais, sem que isso sidade cultural inerente ˆ vida social no planeta. De alguma forma,
fosse feito com julgamento valorativo, a despeito das dificuldades o espanto duplo de ÒAnedota bœlgaraÓ envolve um caso rec’proco
que essa perspectiva encerra. de etnocentrismo e de dificuldade de aceitar a diversidade cultural.

10
Assim, a Antropologia demonstra que, entre os membros de não com pedaços de pau. Assim, ele revela sua incompetência para
um grupo, constrói-se uma relação de identidade e, entre grupos lidar com a alteridade e com a diversidade cultural, só admitindo
diferentes, uma relação de alteridade. Esse diálogo entre identidade adereços que lhe tragam vantagens financeiras.
e alteridade, entre igualdade e diferença, é o que garante o respeito No item d, que mostra que certos hábitos estéticos de povos
à diversidade cultural, aos grupos sociais estigmatizados, às minorias. indígenas foram incorporados por jovens urbanos, o professor pode
Aliás, em relação às “minorias”, vale a pena lembrar que a Sociologia discutir com a turma que, muitas vezes, é chocante para alguns
não considera as noções de maioria e minoria em grau absoluto, ver um indígena que usa um enfeite de madeira num furo feito no
numericamente. Às vezes, grupos numericamente inferiores podem lábio, mas não causa estranheza alguém com um pingente de ouro
ser considerados “maioria”, pois têm grande poder de pressão social. num furo feito no lóbulo da orelha. Assim, muitas vezes, o estra-
Pense-se em categorias profissionais, como médicos ou advogados, nhamento que os outros provocam em nós, nós provocamos neles.
que, embora numericamente inferiores a professores, têm suas
reivindicações muito mais respeitadas.
No primeiro exercício, mostramos, no enunciado, uma parti- aulas 9 e 10
cularidade da comunicação gestual dos búlgaros, para que o aluno
formule uma hipótese explicativa para o título do poema de Drum-
Estratifica•‹o social
mond. De novo, nosso foco são as diferenças culturais entre os povos.
O segundo exercício é baseado em um trecho do capítulo Objetivos
“Parênteses”, das Mem—rias p—stumas de Br‡s Cubas. A seguir, para
uso do professor, transcrevemos o capítulo todo: Proporcionar aos alunos noções para que possam:
Quero deixar aqui, entre parênteses, meia dúzia de má- • identificar o que é estratificação social;
ximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de • conhecer os critérios sociológicos de análise das estratificações
enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto: sociais;
* * * • problematizar questões associadas à desigualdade socioe-
Suporta-se com paciência a cólica do próximo. conômica;
* * * • relacionar etnocentrismo e dominação de classe.
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
* * * Encaminhamento
Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da car-
Um dos conceitos mais difíceis, mais controversos, mais comple-
ruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.
xos da Sociologia é o de classes sociais. Muitos estudiosos debru-
* * *
çaram-se sobre essa questão e procuraram definir, de acordo com
Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros. os critérios próprios, o que seria uma classe social. Demos como
* * * exemplo dessa dificuldade a discordância entre dois estudiosos do
Não se compreende que um botocudo fure o beiço para tema no século XX: Talcott Parsons e Alain Touraine. Enquanto
enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joa- o primeiro falava que a classe poderia ser definida pelos valores
lheiro. que determinam as ações sociais dos indivíduos daquele grupo,
* * * o segundo julgava que essa questão dos valores era frágil – pois
Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair que exageradamente subjetiva –, para dar conta de explicar um
das nuvens, que de um terceiro andar. conceito tão amplo.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. Acreditamos que o melhor percurso para discutir esse conceito
Rio de Janeiro: Garnier, 1993. p. 194.
com o aluno seja partir da ideia de divisão do trabalho: a divisão
Baseamos as perguntas na penúltima máxima de Brás Cubas. sexual, a divisão etária, a divisão social e até mesmo a divisão interna-
No item a, pretendemos que o aluno perceba que o uso de cional. Muitas vezes, essa divisão é o ponto de partida teórico para
“botocudo” é um modo de fazer referência a alguns grupos indí- a noção de estratificação social, pois há trabalhos mais ou menos
genas brasileiros. No item b, queremos mostrar que essa referência valorizados socialmente, mais ou menos rentáveis, mais comuns
é jocosa, negativa, preconceituosa, até porque essa palavra pode em um ou outro grupo social.
ser usada justamente para designar aquele que “é inimigo das boas Desse modo, a discussão sobre as classes sociais quase sempre
maneiras, rude, incivil”. caminha em direção à análise das desigualdades socioeconômicas.
O item c, que aborda a mesma questão que discutimos na Acreditamos que o professor não deva fugir desse percurso. Mas,
seção inicial do capítulo, foi planejado para que o aluno perceba antes disso, sugerimos que se discutam as ideias de Marx e Weber
que o joalheiro admite que as pessoas se enfeitem com joias, mas em relação à estratificação social.

11
Por causa do conceito de “luta de classes”, Marx costuma ser cos básicos e preferências de lazer podem ser úteis para a análise
peça fundamental na análise da estratificação da sociedade capi- quantitativa de governos ou para pesquisas de mercado, mas não
talista. No entanto ele nunca definiu, com precisão, o que entendia são suficientes para analisar processos históricos mais complexos
por classe social, embora tenha tratado sempre dessa questão ao envolvendo lutas políticas ou grandes manifestações sociais, até
abordar o problema da estratificação social, que ele estudava so- porque esses critérios não consideram variações regionais e cultu-
bretudo pelo viés econômico. rais, muito menos avaliam as contradições que se formam no seio
Conhecedor da obra marxista, Weber talvez seja o primeiro de qualquer sociedade.
sociólogo a propor uma teoria orgânica da estratificação social. O No exercício 1, a tirinha de Ciça retoma Shakespeare, para cri-
intelectual alemão sempre acreditou que as Ciências Sociais não ticar a posse de bens materiais como fator de valorização social.
deveriam ser consideradas parte menos importante das Ciências No exercício 2, perguntamos a opinião do aluno a respeito da
Naturais, pois enquanto estas baseiam suas conclusões em racio- publicidade de artigos de luxo. Seria desejável aqui deixar a discus-
cínios de causa e efeito, aquelas deveriam buscar captar a relação são mais aberta, dar voz aos alunos, ouvir o que eles têm a dizer.
de sentido da ação humana, que é mais complexa do que uma Há quem defenda que os jovens são mais sensíveis à influência da
sucessão de causalidades. Para cada grupo humano, os sentidos propaganda do que pessoas de outras faixas etárias. Será que isso
são construídos na coletividade: é assim que os indígenas sabem é verdade?
que certas tintas remetem à guerra, é assim que determinados Cremos que, entre as muitas opiniões que podem surgir, ha-
pedaços de papel são identificados como dinheiro, é assim que o verá quem defenda o lado positivo da publicidade de artigos
fiel católico faz o sinal da cruz ao passar por uma igreja. De acordo de luxo, pois todas as pessoas têm o direito de desejar essas
com o método compreensivo proposto por Weber, essas ações mercadorias. Aliás, numa visão de mundo mais próxima do libe-
adquirem sentido na medida em que certos valores são comparti- ralismo clássico, isso poderia ser visto como motivação para que
lhados pelo grupo social. os indivíduos, em nome da liberdade que deve caracterizar as
É desse modo que ele, sem desconsiderar os conflitos de base atividades econômicas, aumentem sua renda e possam adquirir
econômica que existem na sociedade, trata de três instâncias que esses produtos. No outro extremo, pode-se argumentar que o
ajudariam a compreender os fenômenos de estratificação social: mercado do luxo faz parecer que a posse de determinados bens
a ordem econômica (classes), a ordem social (estamentos) e a materiais é que distingue uma pessoa na sociedade. Assim, esse
ordem política (partidos). Assim, para Weber, o conceito de classe tipo de propaganda, além de incentivar o consumismo (que, em
social teria base econômica, o que revela, aliás, a influência que casos extremos, é considerado uma patologia contemporânea),
ele recebeu do pensamento marxista. Em relação aos estamen- parece fazer pouco caso das desigualdades socioeconômicas
tos, vale a pena destacar que eles dão origem, quando extremos, presentes no mundo atual.
à sociedade de castas. Quanto aos partidos, trataremos dessa O exercício 3, baseado no fragmento de O amor nos tempos do
questão com mais profundidade no Módulo 3, voltado para a cólera usado na seção “Para debater”, coloca em dúvida a ideia de
Ciência Política. Florentino Ariza de que, para conquistar Fermina Daza, é necessário
Aliás, para a explanação sobre os estamentos sociais, o professor ter “nome” e “fortuna”. Essa tese, muito comum em sociedades
pode citar o exemplo dado por Weber: o dos descendentes das altamente estratificadas, não deixa de estar ligada, hoje em dia, à
famílias pioneiras (os Pilgrim Fathers) que desembarcaram, em propaganda, que, a serviço da manutenção do status quo, procura
1620, do navio Mayflower na costa do estado de Massachusetts convencer os indivíduos do que é certo “ser” e “fazer”, por meio da
e deram início à colonização britânica da América do Norte. No “imposição” de padrões de beleza e de comportamento.
Brasil, também podemos identificar grupos sociais mais ou menos
fechados, como as colônias de imigrantes japoneses, judeus, eslavos
ou comunidades populares negras e mestiças.
Os membros desses estamentos costumam adotar certas ex-
aulas 11 e 12
pressões linguísticas, vestimentas, consumo de bens típicos para Liberdade, propriedade, fraternidade
se distinguir dos outros, configurando-se as honrarias e os níveis
de prestígio. Objetivos
Por fim, vale a pena lembrar que – no propósito de promover
Proporcionar aos alunos noções para que possam:
o estranhamento entre os alunos e de desnaturalizar certas im-
pressões que eles podem trazer à sala de aula – as classificações • identificar a instituição da propriedade privada como um dos
tradicionais de classes sociais (utilizadas tanto por órgãos públicos pilares da sociedade contemporânea;
como por todos aqueles que estudam hábitos de consumo) que • conhecer o modo como os processos de socialização
levam em conta sobretudo renda familiar, mas eventualmente produzem indivíduos que mantêm as relações sociais já
também posse de imóveis, automóveis, aparelhos eletrodomésti- existentes.

12
Encaminhamento aprendem essas visões de mundo, uma vez que esse processo não
é completamente automático. Na verdade – por meio da família e
Já discutimos um pouco a questão da propriedade privada.
da escola e, mais tarde, por causa da profissão, dos meios de comu-
Agora, aprofundaremos um pouco mais o debate.
nicação, da religião, entre tantos outros fatores –, os indivíduos vão
A partir de uma provocativa charge de Angeli e de um inciso sendo preparados para interagir nos sistemas sociais. Cada um reage
da Constituição – a charge, discutindo os limites entre o privado de uma maneira diferente aos processos de socialização, embora
e o público, e o inciso, garantindo a inviolabilidade do lar –, pre- todos os indivíduos do grupo estejam sob a esfera de influência
tendemos que o aluno reflita sobre o significado que a hipérbole da socialização.
de Angeli adquire, sobretudo num país com tanta concentração
É possível então estabelecer uma relação entre tudo isso e as
de terras e riquezas, e sobre as motivações que fazem nossa Carta
noções de instituição social e dominação, já discutidas anteriormen-
assegurar o direito à propriedade.
te. Uma discussão que pode ser interessante aqui é o modo como
A lei de um país não inventa costumes, ela apenas os institucio- a escola trata de temas polêmicos. Até que ponto os professores
naliza. Se as leis de um país democrático são feitas por representan- têm liberdade para mostrar a pluralidade de opiniões que circula
tes do povo, pode-se admitir que nenhuma delas vai desrespeitar na sociedade e até que ponto eles estão obrigados a defender o
os valores dominantes na sociedade. Assim, a inviolabilidade quase status quo?
absoluta do lar é algo aceito sem contestação pelos indivíduos. Mas Nos exercícios, os dois itens da primeira questão são propostos
esse sentimento de posse, de estabelecer as coisas como privadas, a partir de um fragmento célebre de Rousseau, extraído do Discurso
de não considerar o interesse coletivo, pode ser perigoso em casos sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens,
extremos. Por estar dentro de casa, por exemplo, o sujeito pode co- que mostra que a propriedade privada não é natural, mas foi criada
meter um crime e não ser punido, alegando a inviolabilidade do lar? pelos seres humanos. O aluno deve perceber isso no item a e reco-
Não. Tanto que o inciso em questão da Constituição faz a ressalva nhecer, no item b, que Rousseau avalia esse surgimento de modo
de que não existe inviolabilidade em caso de “flagrante delito”, por negativo, pois a propriedade deu origem a toda sorte de “crimes,
exemplo. É por um raciocínio semelhante que compreendemos a guerras, assassínios, misérias e horrores”.
charge de Angeli: nem tudo pode ser tomado como “propriedade
Na segunda questão, baseada numa tirinha de Calvin, o aluno
particular” – o sol, o céu, os pássaros, a água, as montanhas não
precisa notar uma crítica aos valores implícitos no processo de
pertencem a um único indivíduo.
socialização das crianças. Desse modo, no item a, tratamos das
Nas aulas 5 e 6, tratamos, de passagem, do conceito de sociali- ideias com que Calvin tomou contato durante sua socialização:
zação e da questão da propriedade privada. Agora, retomaremos falta de preocupação ambiental, padronização de comportamen-
essa discussão, usando estas aulas como forma de amarrar várias tos, influência perniciosa dos meios de comunicação, cinismo e
ideias que expusemos ao longo deste Caderno. alienação. No item b, pedimos que os alunos expliquem como a
Partindo da ideia de que o direito à propriedade é um valor tirinha avalia isso.
incontestável em nossa sociedade, garantido explicitamente na
Constituição, seria importante mostrar que nem todos os estu-

anotações
diosos da sociedade acreditam que a propriedade privada é algo
benéfico para a coletividade. Passando por Rousseau, Locke e Engels,
nossa intenção é mostrar que essa valorização da propriedade é
cultural, e não algo absoluto. Muitos filósofos e sociólogos, aliás,
costumam dizer que a propriedade privada é o alicerce de grandes
partes das desigualdades socioeconômicas.
Sugerimos uma atenção especial às ideias de Rousseau, sobre-
tudo em relação à idealização presente em sua obra, por causa do
jusnaturalismo ou do mito do “bom selvagem”. Ainda que não seja
possível comprovar alguns dos pré-requisitos de seu pensamento,
como a vinculação da virtude ao estado de natureza, as ideias do
iluminista servem, no mínimo, de contraponto à tese atualmente
aceita de que a “civilização” trouxe apenas vantagens aos seres
humanos.
Esse seria o caminho que sugerimos para apresentar, finalmente,
o conceito de socialização. Se pessoas do mesmo grupo apresentam
visões de mundo parecidas, pois estão sujeitas às mesmas coer-
ções, pode-se inferir que, em algum momento, elas incorporam e

13
anotações

14
15
anotaç›es
anotações

16
1
Anglo
Ensino Médio

Sociologia
Eduardo CalBUCCI • JUCENIR Rocha
Dire•‹o de conteœdo e inova•‹o pedag—gica: M‡rio Ghio Jœnior
Dire•‹o: Tania Fontolan
Coordena•‹o pedag—gica: F‡bio Aviles Gouveia
Supervis‹o da disciplina: Gianpaolo Dorigo
Conselho editorial: B‡rbara M. de Souza Alves, Eliane Vilela,
F‡bio Aviles Gouveia, Helena Serebrinic, Lidiane Vivaldini Olo,
Lu’s Ricardo Arruda de Andrade, M‡rio Ghio Jœnior,
Marisa Sodero Cardoso, Ricardo de Gan Braga,
Ricardo Leite, Tania Fontolan
Dire•‹o editorial: Lidiane Vivaldini Olo
Ger•ncia editorial: B‡rbara M. de Souza Alves
Coordena•‹o editorial: Adriana Gabriel Cerello
Edi•‹o: Cl‡udia P. Winterstein (coord.),
Elena Judensnaider
Revis‹o: HŽlia de Jesus Gonsaga (ger.), Danielle Modesto,
Edilson Moura, Let’cia Pieroni, Mar’lia Lima, Marina Saraiva,
Tayra Alfonso, Vanessa Lucena
Coordena•‹o de produ•‹o: Paula P. O. C. Kusznir (coord.),
Daniela Carvalho
Supervis‹o de arte e produ•‹o: Ricardo de Gan Braga
Edi•‹o de arte: Fernando Afonso do Carmo
Diagrama•‹o: Lourenzo Acunzo
Iconografia: Silvio Kligin (supervis‹o),
Claudia Cristina Balista, Fernanda Regina Sales Gomes, Ellen Colombo
Finta, Marcella Doratioto, Sara Pla•a, Tamires Reis Castillo
Ilustra•›es: Marcos Gulilherme
Licen•as e autoriza•›es: Edson Carnevale
Cartografia: Eric Fuzii, Marcelo Seiji Hirata,
M‡rcio Santos de Souza
Capa: Daniel Hisashi Aoki
Foto de capa: Kushch Dmitry/Shutterstock
Projeto gr‡fico de miolo: Talita Guedes da Silva

Todos os direitos reservados por SOMOS Sistemas de Ensino S.A.


Rua Gibraltar, 368 Ð Santo Amaro
CEP: 04755-070 Ð S‹o Paulo Ð SP
(0xx11) 3273-6000
© SOMOS Sistemas de Ensino S.A.
Dados Internacionais de Cataloga•‹o na Publica•‹o (CIP)
(C‰mara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Calbucci, Eduardo
Ensino mŽdio : Sociologia : caderno 1 : aluno /
Eduardo Calbucci, Jucenir Rocha. -- 1. ed. --
S‹o Paulo : SOMOS Sistemas de Ensino, 2016.

1. Sociologia (Ensino mŽdio) I. Rocha, Jucenir.


II. T’tulo.

15-09453 CDD-301

êndices para cat‡logo sistem‡tico:


1. Sociologia : Ensino mŽdio 301

2016
ISBN 978 85 7595 381 5 (AL)
C—digo da obra 827032116
1a edi•‹o
1a impress‹o
Impress‹o e acabamento

Uma publica•‹o
1
Sumário
Sociologia

Aulas 1e2 Aulas 9 e 10


Indiv’duo e sociedade 4 Estratifica•‹o social 37

Aulas 3e4 Aulas 11 e 12


Coer•›es sociais 10 Liberdade, propriedade, fraternidade 45

Aulas 5e6
Institui•›es sociais 18

Aulas 7e8
Identidade e alteridade 27
aulas
1e 2
Indivíduo e sociedade

Para debater
Observe a imagem, a seguir, de uma das assembleias de metalœrgicos ocorridas no ABC paulista. A campanha salarial da qual a as-
sembleia fez parte resultou em uma greve geral e Ž considerada uma das mobiliza•›es mais marcantes do movimento sindical brasileiro.
Juca Martins/Olhar iMageM

Assembleia de metalúrgicos. São Bernardo do Campo, São Paulo, em 1979.

Leia agora o fragmento a seguir, de autoria do poeta ingl•s John Tanto a emblem‡tica imagem dos metalœrgicos do ABC quanto
Donne (1572-1631): o cŽlebre trecho do poeta ingl•s John Donne fazem uma espŽcie de
Nenhum homem Ž uma ilha, fechado em si mesmo; cada elogio ˆ coletividade (ao ÒtodoÓ), lembrando que ela Ž formada por
homem Ž uma parte do continente, uma parte do todo. Se um indiv’duos, ou seja, por pessoas que t•m sua hist—ria, seus anseios, e
cascalho for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se contribuem para que esse ÒtodoÓ seja o que Ž. Em outras palavras,
fosse um promont—rio, como se fosse uma parte de teus ami- a coletividade Ž o resultado das intera•›es entre os indiv’duos.
gos ou de ti mesmo: a morte de qualquer homem me diminui, Justamente por isso a democracia tem por ideal garantir, a um s—
porque eu sou parte da humanidade; por isso, nunca procures tempo, os direitos individuais e o bem comum.
saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
Em sua opini‹o, isso Ž poss’vel? Em œltima inst‰ncia, o que deve
DONNE, John. ÒMedita•›es XVIIÓ. John DonneÕs Devotions.
Dispon’vel em: <www.ccel.org/ccel/donne/devotions.pdf>. prevalecer: o bem da coletividade ou as liberdades individuais?
Acesso em: 30 jun. 2015. Tradu•‹o de Eduardo Calbucci. Existe sa’da para essa rela•‹o, muitas vezes bastante tensa?

4 Sociologia
Desde a Antiguidade Clássica, principalmente com Aristóteles,
Um pouco de teoria vários intelectuais se interessam pelo estudo da sociedade. Em épo-
cas em que se valorizou o pensamento especulativo ou a observação
analítica da realidade – como aconteceu em momentos do Renas-
Individualidade e individualismo cimento ou do Iluminismo –, sempre houve quem se debruçasse
criticamente sobre o estudo das sociedades humanas. Porém, até
Recorrendo à linguagem figurada, John Donne defende que todos
meados do século XIX, não existia ainda uma ciência da sociedade.
os seres humanos são “parte” de um mesmo “todo” e que a morte de
qualquer indivíduo representa um prejuízo para todos, já que ninguém Foi precisamente durante o Oitocentos, sob os eflœvios liliber-
pode viver como “uma ilha, fechado em si mesmo”. O que o poeta tários da Revolução Francesa e as transformações tecnológicas
inglês diz em linguagem literária corresponde a um verdadeiro consenso da Revolução Industrial, entre a consolidação do Capitalismo e
entre os intelectuais das humanidades. A formulação aristotélica de que o acirramento da luta de classes, em meio à independência das
“o homem é um ser social” apenas confirma que os seres humanos se colônias americanas e ao fim da escravidão, que surgiu a Sociologia.
organizam em grupos, o que pressupõe, simultaneamente, a celebração
Eflúvios: emanações, influências; no caso trata-se de referência
dos valores comuns e a necessidade de conviver com as diferenças. à disseminação das ideias revolucionárias francesas após a
queda da Bastilha, em 1789, fortemente marcadas pela defesa de
Isso não significa que as pessoas não tenham sua individualidade. liberdades até então reprimidas pelo absolutismo monárquico.
Todo ser humano tem suas crenças pessoais, seus sonhos, seus me-
dos, suas habilidades e suas limitações. Aliás, a individualidade pode

Mansell/tiMe life Pictures/arQuivO da editOra


ser definida assim: conjunto de características que distinguem as
pessoas, garantindo-lhes a originalidade, a unicidade, a particularidade.
Acontece que, embora o ser humano possa ser tomado como
um indivíduo, isto é, como alguém que é considerado isoladamente
no grupo a que pertence, esses valores individuais não podem che-
gar ao extremo de desprezar a ideia de que somos seres sociais. Afi-
nal, individualidade não pode ser confundida com individualismo.
O individualismo é a atitude de quem procura satisfação pessoal a
qualquer custo, vivendo exclusivamente para si; trata-se de um compor-
tamento que nega todas as formas de solidariedade e, por isso, pode ser
entendido como egoísta. Dessa forma, o individualismo é incompatível Representação de uma fábrica de algodão na Inglaterra em gravura de 1833.
com a ideia de que o ser humano é um ser social. Já a individualidade não
se confunde com o egoísmo, uma vez que podemos viver em grupo e, ao Os trabalhos de Montesquieu (1689-1755), Saint-Simon (1760-
mesmo tempo, ter características que nos diferenciam das demais pessoas. -1825), Auguste Comte (1798-1857) e Alexis Tocqueville (1805-1859),
entre muitos outros, foram os precursores do pensamento sociológi-
Do ponto de vista lógico, todos os seres humanos são indivíduos, co moderno, pois notava-se em suas obras a intenção de investigar e
pois são seres concretos, que possuem unidade de características e explicar a vida social. Alguns anos mais tarde, já na segunda metade
podem ser reconhecidos por meio da experiência. Existem várias do século XIX, quando o Positivismo , o Evolucionismo social e o
disciplinas que se interessam, em maior ou menor grau, pelo estudo Determinismo gganharam força, numa época marcada pela valori-
do indivíduo, como a Psicologia, a Biologia ou a Filosofia. Para nós, zação do discurso cientificista, a Sociologia emergiu como ciência.
neste curso, importa o estudo da sociedade.
Positivismo: a doutrina de Augusto Comte tinha como pressuposto
abandonar qualquer perspectiva metafísica ou transcendental
Sociedade e Sociologia na análise da realidade, que deveria ser estudada a partir de um
levantamento científico das leis que a regem. Dessa forma, o método
Podemos rearranjar a formulação de Aristóteles de que “o científico – que se caracteriza por três estágios: observação, análise e
experimentação – deveria ser aplicado em todas as ações humanas.
homem é um ser social” e concluir que o ser humano, embora Evolucionismo social: trata-se de uma tentativa de aplicar, para os
tenha sua individualidade, vive em sociedade. Isso só confirmaria fenômenos sociais, as mesmas regras que controlavam a origem das
espécies, de acordo com os critérios de seleção natural propostos
a afirmação de que “nenhum homem é uma ilha”: a sociedade é por Darwin. Seus principais expoentes, entre os quais estava Herbert
um agrupamento de pessoas que formam uma coletividade, uma Spencer, propunham que as revoluções, por exemplo, seriam uma
quebra da ordem natural das coisas e que, por isso, representavam
comunidade, ou seja, é um conjunto de indivíduos que vivem num um entrave ao progresso “natural” das sociedades.
determinado momento e num determinado lugar, que seguem as Determinismo: proposto sobretudo por Hippolyte Taine, o
Determinismo condicionava a conduta humana às noções de raça,
mesmas normas e têm valores semelhantes. O conceito de socieda- meio e momento, de modo que o ser humano se tornava um mero
de, como se vê, é bastante abrangente, pois pode designar tanto um produto de sua etnia, da região em que vivia e da época em que
existiu. Até o começo do século XX, essa teoria era muito valorizada
grupo muito amplo – como a sociedade do século XXI – quanto pela comunidade científica. Hoje, está provado que ela é eivada de
preconceitos e não possui nenhum fundamento sólido.
agrupamentos mais específicos – como a sociedade cristã medieval.

Sociologia 5
Marx, Weber e Durkheim Três pensadores podem ser considerados os pais da Sociologia:
Karl Marx (1818-1883), Max Weber (1864-1920) e Émile Durkheim

editOrial
PO
rePrOduçãO/bOiteM
(1858-1917). Eles deram dimensão científica à disciplina e, de modo
mais sistemático, começaram a estudar as formas de organização
e as regras de funcionamento das sociedades humanas, procu-
rando determinar as normas que regem as relações sociais. Isso
implicou a análise das instituições e dos comportamentos sociais,
bem como da ideologia, da cultura e das relações de trabalho que
se construíam no mundo capitalista.
O

Mas a Sociologia, em sua tarefa de estudar os indivíduos em


ãO/ed. ediPr

grupo, em sociedade, como seres sociais que somos, é mais do


que uma ciência. Além de procurar compreender – com rigor
rePrOduç

de métodos e técnicas de investigação – a sociedade moderna,


os sociólogos muitas vezes demonstraram desejo de intervir na
das letr /
as
çãO

ordem social, de maneira que as reflexões científicas se misturaram


rePrOdu

às intenções práticas. Nada mais previsível. Já que vivemos numa


Panhia

sociedade multifacetada, em que há valores divergentes e choque


ed. cOM

de interesses, era de se esperar que os sociólogos não se compor-


tassem como “um técnico que disseca um cadáver”. A sociedade
é um organismo vivo, complexo, que se modifica continuamente;
por isso, para compreendê-la, muitas vezes é preciso posicionar-se
Principais obras de Marx, Weber e Durkheim. dentro dela, no olho do furacão.

exercícios
1. Analise novamente a fotografia que usamos na se•‹o a) A justificativa que a menina usa para convencer a
ÒPara debaterÓ. Sabendo que a assembleia dos meta- m‹e, no segundo quadrinho, sugere autonomia das
lœrgicos de 1980 ocorreu no final do regime militar brasi- escolhas individuais? Explique sua resposta.
leiro (1964-1985), quando muitas liberdades individuais sim. considerando só os dois primeiros quadrinhos, a menina parece
estavam limitadas, e que ela se tornou s’mbolo da luta
querer mesmo expressar sua individualidade, fazendo uma mecha
dos trabalhadores por melhores sal‡rios e condi•›es
verde no cabelo. assim, parece que ela quer ser diferente dos outros.
de trabalho, explique se os interesses dos metalœrgicos
eram mais individualistas ou tinham mais preocupa•›es b) No terceiro quadrinho, a menina demonstra ou n‹o
coletivas. Justifique. desejo de se igualar a outros indiv’duos de seu grupo
social? Explique sua resposta, comparando a impres-
uma manifestação como essa só poderia ter obtido sucesso porque sua
s‹o provada pela tirinha no œltimo quadrinho com o
base eram os interesses coletivos. sozinhos, os metalúrgicos não teriam
que voc• afirmou na quest‹o anterior.
poder de pressão social. seriam “ilhas”, para usar a metáfora de
a menina – que, nos dois primeiros quadrinhos, parecia querer
John donne.
diferenciar-se dos outros indivíduos do seu grupo social – demonstra,
2. Observe a tirinha a seguir e responda ao que se pede. no final da tirinha, pautar-se pelo comportamento alheio, o que
diminui sua autonomia individual.
Will leite/acervO dO artista

c) Pensando na no•‹o de individualidade na sociedade


contempor‰nea, como voc• interpretaria o compor-
tamento da menina? Justifique.
embora a sociedade contemporânea permita uma autonomia
maior de escolha para os indivíduos, nem sempre essa possibilidade
se realiza. assim, o comportamento da menina é contraditório:
Dispon’vel em: <www.humorbabaca.com/quadrinhos/quadrinhos-
diversos/individualidade>. Acesso em: 30 jun. 2015. por um lado, ela quer exprimir sua individualidade; por outro, quer se
comportar como todo mundo.

6 Sociologia
3. Analise as duas frases a seguir e verifique se elas se aproximam mais do conceito de individualismo ou do de individualidade.
I. ÒO homem busca seu pr—prio bem ˆ custa do mundo inteiro.Ó (Robert Browning, poeta ingl•s).
II. ÒCada homem Ž uma humanidade, uma hist—ria universal.Ó (Jules Michelet, historiador franc•s).
a frase i remete a um sentimento de egoísmo, típico de quem defende o individualismo, pois a satisfação pessoal é colocada em primeiro plano,
enquanto a solidariedade é esquecida. Já a frase ii sugere que todas as pessoas são uma “história universal”, pois cada uma tem a sua individualidade,
isto é, crenças, sonhos, medos, habilidades e limitações particulares.

tarefa

1. Assinale as afirma•›es que estiverem corretas. 3. O historiador franc•s Jules Michelet afirmava: ÒCada
I. ( X ) O fato de cada ser humano possuir sua indivi- homem Ž uma humanidade, uma hist—ria universalÓ.
dualidade n‹o Ž incompat’vel com a ideia de que Pensando no conceito de individualidade, essa frase
as pessoas s‹o seres sociais e, como tais, vivem em de Michelet pode ser interpretada como:
grupos, e n‹o isoladamente.
c a) sugest‹o de que todos temos cren•as, sonhos, me-
II. ( ) Os conceitos de individualismo e individualida- dos, habilidades e limita•›es particulares.
de asseguram a preval•ncia dos valores pessoais
b) uma forma de refor•ar a ideia de que, na vida social,
sobre os interesses coletivos, uma vez que os seres
todas as pessoas de um grupo pensam exatamente
humanos s‹o movidos exclusivamente por sentimen-
do mesmo modo.
tos ego’stas.
c) nega•‹o da hip—tese de que cada ser humano v• o
III. ( X ) A Sociologia como ci•ncia surgiu no sŽculo XIX e,
mundo de uma maneira individualizada.
por isso, est‡ muito associada ao mundo capitalista,
cujas contradi•›es se tornaram mais evidentes nos d) confirma•‹o de que a individualidade do ser humano
anos pr—ximos ˆs Revolu•›es Industriais. dificulta a vida em sociedade.

IV. ( X ) Karl Marx, Max Weber e ƒmile Durkheim s‹o con- e) uma estratŽgia para mostrar que o bem comum Ž
siderados os criadores da Sociologia moderna, pois mais relevante do que as liberdades individuais.
foram eles que, influenciados pelo cientificismo do
4. Ao contr‡rio de bot‰nicos ou f’sicos, cujos objetos de
sŽculo XIX, propuseram muitas das bases te—ricas da
estudo n‹o s‹o os pr—prios seres humanos, os soci—-
ci•ncia da sociedade.
logos t•m de conviver com a dificuldade de analisar
V. ( ) A Sociologia, ao estudar o mundo capitalista, o pr—prio ser humano em sociedade, com todos os
fez quest‹o de manter uma postura neutra diante conflitos inevit‡veis da vida em grupo. Sabendo disso,
dos conflitos gerados por esse sistema, o que fez com seria correto dizer que, no universo da Sociologia, os
que os soci—logos muito raramente demonstrassem pesquisadores:
desejo de alterar a ordem social.
a) sempre procuram analisar as sociedades de maneira
2. O poeta ingl•s Robert Browning afirmou, certa vez: ÒO ho- fria, buscando o mesmo distanciamento das ci•ncias
mem busca seu pr—prio bem ˆ custa do mundo inteiroÓ. naturais.
Associando essa frase ˆ no•‹o de individualismo que
b) usam a ci•ncia apenas como pretexto para alterar
apresentamos, podemos dizer que a rela•‹o entre elas:
completamente a ordem social, num processo que
a) Ž de compatibilidade, pois a frase defende a solida- visa ˆs revolu•›es.
riedade como bem supremo. c) nunca se preocuparam com quest›es pr‡ticas, pois
b) refor•a a ideia de que todos buscam, sempre, o bem o cientista n‹o deve se envolver com seus objetos de
da coletividade. estudo.
c c) confirma que alguns colocam a satisfa•‹o pessoal c d) misturaram, algumas vezes, as reflex›es cient’ficas ˆs
em primeiro plano. inten•›es pr‡ticas, pois havia certo desejo de intervir
d) Ž de exclus‹o, pois a frase celebra o ego’smo, e n‹o na ordem social.
o individualismo. e) viveram o conflito entre o rigor cient’fico e o desejo
e) Ž de refor•o, pois o sentimento de individualismo Ž de interven•‹o, sempre com predom’nio do segundo
que garante o equil’brio das sociedades. sobre o primeiro.

Sociologia 7
5. Leia a tirinha e responda ao que se pede. c) No segundo e terceiro quadrinhos, Mafalda e Mano-
lito n‹o veem o ÒprogressoÓ da mesma forma. Qual
JOaQuÍn salvadOr lavadO (QuinO)/acervO dO cartunista

Ž a vis‹o que cada um tem da ideia de ÒprogressoÓ?


Mafalda tem uma visão mais abrangente da realidade e julga
que “as viagens espaciais” são um exemplo de progresso. Manolito
tem uma visão particular e individualizada dessa ideia e acha
que o progresso é o crescimento do armazém do pai, o que
seria obtido por meio do aprendizado da Matemática.

d) Pensando na no•‹o de individualismo, como voc•


interpretaria a vis‹o de mundo que Manolito tem do
ÒcosmosÓ? Justifique.
Pode-se considerar que Manolito é individualista, pois para ele todas as
questões, por mais amplas e complexas que sejam – como as viagens
espaciais, por exemplo –, passam pelo filtro do que poderíamos
chamar de uma “individualidade exacerbada”. em outras palavras:
o mundo só faz sentido se puder lhe trazer benefícios pessoais (no
caso, ao armazém de seu pai). assim, até mesmo quando Mafalda
fala sobre o “cosmos”, ele só consegue imaginar como o mundo pode
ser um lugar propício para o crescimento do armazém do seu pai.

6. Zygmunt Bauman (1925-) Ž um dos soci—logos mais


conhecidos do mundo contempor‰neo. Com carrei-
Quino. Toda Mafalda. São Paulo: Martins Fontes, 1993. p. 2. ra intelectual feita na Pol™nia, onde nasceu, ele tem
escrito obras de muito sucesso, quase todas tradu-
1o grau: corresponde ao que hoje no Brasil Ž o Ensino Fundamental.
zidas para o portugu•s. Um de seus œltimos livros, A
sociedade individualizada, trata da quest‹o do indivi-
a) A vis‹o que Manolito demonstra do aprendizado es- dualismo da sociedade dos sŽculos XX e XXI. Eis uma
colar, nos dois primeiros quadrinhos, leva em consi- passagem dessa obra, extra’da do artigo ÒLiberdade
dera•‹o a escola como um espa•o de integra•‹o e seguran•a: a hist—ria inacabada de uma rela•‹o
social para as crian•as? Explique sua resposta. tempestuosaÓ.
não. ele acredita que a escola só é útil quando oferece algum
Dispor os membros como indivíduos é a marca re-
conhecimento que tenha utilidade prática imediata. Por isso,
gistrada da sociedade moderna. Essa atribuição, porém,
ele só quer aprender algo (no caso, a Matemática) se isso for útil não foi um ato único como a Criação divina; é uma ati-
para o armazém de seu pai. vidade reencenada todos os dias. A sociedade moderna
existe em sua atividade de “individualizar”, assim como
as atividades dos indivíduos consistem na remodelação
e renegociação, dia a dia, da rede de seus emaranhados
mútuos chamada “sociedade”. Nenhum dos dois sócios
b) Na ÒConfer•ncia Global do Trabalho InfantilÓ, que
fica parado por muito tempo. E assim o significado da
ocorreu em maio de 2010, na Holanda, com a presen-
“individualização” continua mudando e sempre assume
•a de mais de 450 delegados de 80 pa’ses, a Orga-
novas formas – do mesmo modo que os resultados acu-
niza•‹o das Na•›es Unidas (ONU) comprometeu-se
mulados de sua história passada estabelecem sempre
a erradicar o trabalho infantil no mundo atŽ 2016. Na
novas regras e fabricam novas apostas para o jogo. A
tirinha da Mafalda, qual a opini‹o de Manolito sobre
“individualização” agora significa algo muito diferente
o trabalho infantil? do que significou cem anos atrás e do que transmitia
ele parece julgar o trabalho infantil algo natural. tanto é verdade nos primeiros tempos da era moderna – os tempos da
que diz, no primeiro quadrinho, que não vai à pré-escola porque louvada “emancipação” dos humanos da rede fortemen-
te costurada de dependência, vigilância e imposições
é “mais útil” trabalhando no armazém do pai.
comunais.
BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e
histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

8 Sociologia
Com base na reflexão de Bauman, que significado você daria hoje ao termo “individualização”? Tente dar exemplos
de situações concretas que você viveu em que essa noção foi essencial.
resposta pessoal. O texto propõe duas questões, que se complementam: num agrupamento social mais livre, de menos “imposições
comunais”, há mais segurança para os indivíduos? numa sociedade com mais “vigilância”, as liberdades individuais são restringidas?
Podem ser dados exemplos de várias situações que nos colocam a questão da individualização e das liberdades individuais na sociedade
contemporânea: seguranças revistando frequentadores de um show; câmeras de segurança em shoppings; pais que acompanham, em tempo
real, o que os filhos fazem na escola; etc. será que tudo isso torna a sociedade mais segura ou é uma afronta às liberdades individuais?

leitura complementar
Muitos pesquisadores contemporâneos têm se preocupado em Se chamarmos isso de unidade, teremos de fazê-lo como
compreender as novas condições que envolvem a dinâmica social unidade paradoxal, composta unicamente por diferenças.
do século XXI. Michael Hardt (1960-) e Antonio Negri (1933-) são Mas essa formulação tende a reduzir e negar diferenças.
Eis por que preferimos conceitos como “multiplicidade” e
dois deles.
“singularidade”.
Michael Hardt é crítico literário, professor da Universidade Duke O que vocês dizem sobre a unidade imposta a partir de
em Durham, Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Em parceria dentro da multidão aproxima-se do que diríamos, mas conti-
com o militante comunista italiano Antonio Negri, escreveu Im- nuamos convencidos de que unidade é um conceito errado. […]
pŽrio, polêmico livro que descreve a aparição de uma nova ordem Por que unidade? Vocês parecem pensar que o único ca-
mundial que eles denominam “Império”. minho para as forças de resistência desafiarem os poderes
No trecho a seguir, eles tentam explicar o complexo conceito de dominantes é se unir, mesmo que essa unificação contrarie
multidão – espécie de coletividade expandida que inclui sociedade nossos desejos de democracia, liberdade e singularidade. É
civil e Estado. uma concessão, vocês parecem dizer que lamentavelmente
devemos aceitar em face das duras realidades do poder. Não
Não se preocupe em entender o texto em detalhes, pois ele
estamos convencidos disso. De fato, mesmo que se aceite
apresenta ideias que estudaremos mais aprofundadamente duran- por um momento pensar apenas em termos de efetividade e
te o curso. Fique atento para a importância dada pelos autores a suspender todos os desejos políticos, não acreditamos que a
conceitos como “singularidade” e “multiplicidade”, fundamentais unidade seja a chave. Pensemos apenas em termos das atuais
para o estudo da sociedade atual. lutas políticas concretas de resistência. Seriam realmente
mais efetivas se estivessem unificadas? O poder de algumas
O que é a multidão?
delas não está diretamente ligado à diversidade interna e
[…] o processo de formação da multidão está profundamente suas expressões de liberdade? Pelo conteúdo, aquilo que o
envolvido com a destruição dessa separação [entre sociedade conceito de multidão indica (e vemos isso emergir em movi-
civil e Estado]. Mas esse estreitamento pode acontecer de várias mentos por toda a parte) é uma organização social definida
maneiras e isso não resulta necessariamente numa unidade. Na pela capacidade de agir em conjunto sem qualquer unificação.
verdade, para a multidão não é essencial que isso resulte numa
Michael Hardt e Antonio Negri, em entrevista concedida a Nicholas
unidade. A multidão está engajada na produção de diferenças, Brown e Imre Szeman. In: Revista Novos Estudos Ð Cebrap, n. 75,
invenções e modos de vida. Deve, assim, ocasionar uma explo- jul. 2006, p. 93-108. Tradução de Milton Ohata.
são de singularidades. Essas singularidades são conectadas e
A partir da leitura do texto, reúna-se em grupo com seus
coordenadas de acordo com um processo constitutivo sempre
colegas e tentem formular, em poucas palavras, o que vo-
reiterado e aberto. Seria um contrassenso exigir que a multidão
se torne a “sociedade civil”. Mas seria igualmente ridículo exigir cês entenderam por “multidão”. Para isso, sugerimos que
que forme um partido ou qualquer estrutura fixa de organiza- vocês extraiam inicialmente do texto as passagens que
ção. A multidão é a forma ininterrupta de relação aberta que falam sobre “unidade”, “singularidade”, “multiplicidade”
as singularidades põem em movimento. […] e “diversidade”, termos que são decisivos para que se en-
Mas o comum não é unidade, nem quando envolve resis- tenda o que os pesquisadores entendem por “multidão”.
tência contra o inimigo, nem quando implica a construção resposta pessoal. a multidão é “uma explosão de singularidades”,
coletiva de terreno para a existência da pólis – em resumo,
que incentiva a “produção de diferenças, invenções e modos de vida”.
nem quando é “multidão contra”, nem quando é “multidão a
favor”. “Multidão contra” significa resistência a forças que ela nega “qualquer estrutura fixa de organização”, constituindo-se
não desejam o comum, que o bloqueiam e o dissolvem, que como “forma ininterrupta de relação aberta que as singularidades
o separam e se reapropriam dele privadamente. “Multidão
põem em movimento”. a multidão é múltipla, pois é “composta
a favor”, pelo contrário, significa afirmação do comum em
sua diversidade e em cada uma de suas expressões criativas. unicamente por diferenças”, e seu poder está “diretamente
ligado à diversidade interna e suas expressões de liberdade”.

Sociologia 9
aulas
3e4
Coerções sociais

Para debater
Observe a imagem a seguir.

Jeff Widener/assOciated Press/glOW iMages


Praça da Paz Celestial. Pequim, junho de 1989.

A imagem do estudante chin•s que, aos 19 anos, deteve desar- Como as marchas n‹o terminavam, o governo chin•s as reprimiu
mado uma coluna de tanques em meio a uma sŽrie de protestos violentamente. O ExŽrcito tomou as ruas de Pequim e, no come•o
ocorridos na China em fins do sŽculo XX correu o mundo. Ainda de junho de 1989, centenas de pessoas morreram e milhares ficaram
hoje ela causa muito impacto. feridas nos confrontos entre manifestantes e for•as armadas, no que
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e o fim da Uni‹o ficou conhecido como ÒMassacre da Pra•a da Paz CelestialÓ.
SoviŽtica dois anos depois, muitos pa’ses comunistas (princi- Foi em meio a esse quadro de conflitos violentos que o estu-
palmente no Leste Europeu) abriram-se para a economia de dante chin•s posicionou-se em frente a uma coluna de tanques.
mercado. Talvez influenciados por esse clima de abertura pol’tica Muitos veem esse tipo de atitude como uma afirma•‹o das liber-
e econ™mica, estudantes e intelectuais chineses organizaram dades individuais.
diversos protestos na Pra•a da Paz Celestial, em Pequim: alguns De fato, essas liberdades (como o direito ˆ livre express‹o, por
falavam em democracia e combate ˆ corrup•‹o, outros falavam exemplo) s‹o um dos pilares da democracia, mas, no fundo, sabe-
em resgatar os verdadeiros sentimentos socialistas e acelerar as mos que ninguŽm Ž absolutamente livre e que viver em sociedade
reformas econ™micas, e havia ainda quem falasse em liberdade significa, em certa medida, abrir m‹o de algumas liberdades. Em
de express‹o e fim dos privilŽgios aos ÒprotegidosÓ do Partido outras palavras: somos livres dentro de certos limites.
Comunista Chin•s. Ao longo de quase dois meses, pessoas mar- Voc• consegue identificar alguns desses limites? Quem os de-
chavam pelas ruas de Pequim fazendo suas reivindica•›es, em termina? Voc• acha que devemos aceit‡-los passivamente ou Ž
protestos pac’ficos. necess‡rio question‡-los? Por qu•?

10 Sociologia
Já astrônomos e zoólogos podem almejar mais objetividade e até
Um pouco de teoria mesmo imparcialidade, pois, no caso desses campos do conheci-
mento, é possível que o cientista mantenha maior distanciamento
de seus objetos de estudo.
O mundo e suas leis Na tentativa de fazer com que a Sociologia delimite seu foco, seu
Quando nascemos, já encontramos um mundo pronto, com suas interesse, seu raio de ação, seus objetos de estudo, é que Durkheim
leis, suas regras de funcionamento, os padrões de comportamento cria o conceito de fato social. Mas, enfim, o que é um fato social?
institucionalizados e as normas de conduta a serem seguidas. Que- Antes de tudo, é preciso deixar claro que qualquer estudo so-
rendo ou não, de modo inconsciente ou não, acabamos pautando ciológico parte, sempre, da observação da realidade, da vida social.
nosso modo de agir por essas regras, seja para referendá-las, seja para É, portanto, por meio da observação e da análise da realidade que
discordar delas. Muitas vezes, por influência da família, da religião, da o sociólogo identifica o fato social.
escola, dos hábitos de nossos amigos, acabamos vestindo “másca- Seriam três então as características que definem um fato social.
ras” sociais, pois sabemos que nossas atitudes estão sempre sendo Em primeiro lugar, o fato social exerce uma força de coerção sobre
julgadas. Por isso, podemos sentir necessidade de adequar nosso os indivíduos. Tomando “coerção” como tudo aquilo que leva al-
comportamento e nosso pensamento aos valores estabelecidos. guém a agir (ou não agir) de uma determinada maneira, Durkheim
Isso significa que estamos sempre sujeitos a coerções sociais, afirmava que os fatos sociais são “maneiras de fazer ou de pensar,
isto é, a aceitar valores que podem não ser compatíveis com nos- reconhecíveis pela particularidade de serem suscetíveis de exercer
sas opiniões e crenças pessoais. Valores que, em última instância, influência coercitiva sobre as consciências particulares”.1
poderiam ser bem diferentes, se cada um pudesse escolhê-los de Essa “influência coercitiva” tem origem, sempre, em valores co-
acordo com sua vontade. letivos. Isso porque – de novo, recorrendo às palavras de Durkheim
A noção de “coerção social” é a base para entendermos um dos – a Sociologia não se interessa pelos “hábitos individuais ou he-
conceitos mais relevantes da Sociologia moderna: o conceito de reditários” que “nos impõem crenças ou práticas”, mas sim pela
fato social, proposto por Émile Durkheim em sua obra As regras pressão “que exerce a consciência de um grupo sobre a consciência
do método sociológico. de seus membros”.
Quando se usa a expressão “consciência de um grupo”, “cons-
Émile Durkheim (1858-1917), intelectual francês, é con- ciência coletiva” ou algo do gênero, é preciso ter em mente que a
siderado um dos pais da Sociologia moderna. Fundador do sociedade é uma síntese, e não uma soma das ações e dos valores
que hoje é conhecido como “escola francesa de Sociologia”, individuais. É por isso que a mentalidade de um grupo é, muitas
Durkheim procurou combinar a pesquisa empírica à teoria vezes, diversa da mentalidade dos membros que o compõem.
sociológica. Uma de suas maiores preocupações foi definir, É por esse motivo que a “influência coercitiva” a que nos refe-
com rigor e precisão, qual era o campo de estudo da ciência rimos aqui é exterior, e não interior. Ela é social, e não psicológica.
sociológica. Muitas de suas obras – entre as quais podemos Durkheim explicava que os fatos sociais atuam sobre as pessoas,
destacar Da divisão social do trabalho (1893), As regras do moldando-lhe as atitudes e os pensamentos, mas são “exteriores
método sociológico (1895), O suicídio (1897) e As formas ele- aos indivíduos”, pois apresentam uma “existência própria”.
mentares de vida religiosa (1912) – abordam, de alguma forma, Assim, além da coercitividade, o segundo traço que define
o conceito de “coerção social”. o fato social é a exterioridade. Os fatos sociais não são “estados
individuais de consciência”, mas sim “representações coletivas” que
influenciam “as consciências particulares”.
O que Ž fato social? A terceira característica do fato social é a generalidade. Só é fato
social aquilo que é genérico, que se repete e que tem, de alguma
Seria impossível que os sociólogos estudassem todos os fenô-
maneira, aceitação coletiva. Para que exista o fato social, segundo
menos, todos os acontecimentos, todos os pormenores da vida em
Durkheim, é preciso que “vários indivíduos tenham, pelo menos,
sociedade. Assim, na tentativa de limitar o raio de alcance da Socio-
combinado a sua ação, e que desta combinação se tenha despren-
logia, especificando-lhe os objetos de estudo, Durkheim propõe que
dido um produto novo”.2
os sociólogos se debrucem sobre o que ele chama de “fato social”,
da mesma forma que os astrônomos tratam dos astros celestes e Portanto, são três as características essenciais do fato social
os zoólogos, dos animais. – conceito proposto por Durkheim no final do século XIX (logo,
nos primórdios da pesquisa sociológica) para delimitar o objeto
Acontece que agrupamentos humanos são mais complexos de
ser estudados do que estrelas ou anfíbios. Afinal, o sociólogo nunca 1 DURKHEIM, Émile. As regras do mŽtodo sociol—gico. São Paulo: Editora
consegue manter distância total de seu objeto de estudo, o que Nacional, 1974. p. 31.
2 DURKHEIM, Émile. As regras do mŽtodo sociol—gico. São Paulo: Editora
impede que esse objeto seja visto de maneira objetiva e imparcial. Nacional, 1974. p. 32.

Sociologia 11
de estudo da Sociologia. Fatos sociais seriam “maneiras de fazer ou de segui-las e entende que é necessário mantê-las. Mas é muito
de pensar” caracterizadas pela coercitividade, pela exterioridade difícil, vivendo em comunidades religiosas como essas que citamos,
e pela generalidade. manter-se alheio às tradições.
Na realidade, é preciso reconhecer o peso que a religião, a estru-
Alienação e transgressão tura familiar, a escola, os partidos políticos e os meios de comuni-
cação exercem sobre cada um de nós. Mas isso não significa que a
A definição de fato social, principalmente pela questão da coer- aceitação desses valores seja sempre caracterizada pela passividade.
•‹o, poderia passar a impressão de que os indivíduos estão sempre
Algirdas Julien Greimas (1917-1992) e François Rastier (1945-),
obrigados a respeitar um padrão de comportamento, uma norma
dois linguistas da base estruturalista , escreveram um artigo3, nos
de conduta, uma lei, uma ideologia, que lhes são impostos, sem que
anos 1970, que pode nos ajudar a compreender as formas de nos
haja a possibilidade de discordância. Não é bem assim.
relacionarmos com as tradições.
Vejamos um exemplo. Muitos grupos religiosos impõem a seus
seguidores maneiras de vestir. Há tendências cristãs que exigem que Estruturalismo: designa, inicialmente, um conjunto de movimentos
as mulheres usem saias abaixo do joelho e deixem os cabelos longos. científicos que surgiram nos estudos da linguagem. Aos poucos, e
principalmente na França, o termo passou a ser usado no ‰mbito
Entre os judeus ortodoxos, as mulheres casadas devem usar perucas das ciências sociais também. Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foi um
dos responsáveis por aplicar noções emprestadas da Linguística à
(pois apenas seus maridos podem ver os cabelos da esposa) e os ho- Sociologia. Para ele, a estrutura está ligada a um sistema de crenças
mens comumente têm barba comprida. No islamismo, as mulheres e valores e às relações que se constroem dentro de uma cultura.
Essas relações não são aleatórias, pois elas se repetem, de modo
muitas vezes usam véus sobre os cabelos e até sobre o rosto, e, em sistemático. Os estruturalistas propõem que se estabeleçam os
par‰metros culturais de cada sociedade, isto é, sua estrutura social,
alguns grupos mais radicais, elas só podem sair às ruas de burca. que pode ser entendida como o sistema de valores interdependentes
e complementares que organiza a vida coletiva, dando-lhe sentido.
bernadett szabO/reuters/latinstOck Assim, “um conjunto de instituições características de uma sociedade
lalO de alMeida/fOlhaPress

A B constitui uma ÔestruturaÕ no sentido de que esse conjunto deve ser


analisado como uma combinação não aleatória de elementos”.4

Eles começam retomando Lévi-Strauss, para quem “[...] as socie-


dades humanas dividem seus universos semânticos em duas dimen-
sões, a Cultura e a Natureza, a primeira definida pelos conteúdos
que elas assumem [...], a segunda por aqueles que elas rejeitam”.5
A partir daí, analisando as relações entre os valores sociais e os va-
lores individuais, os estudiosos propõem dois conceitos úteis para nós.
Quando os indivíduos aceitam completamente os valores so-
ciais, ainda que eles desejem algo bastante diferente para eles, sem
sequer refletir sobre o modo como a consciência coletiva contri-
buiu para delimitar suas ações e seu modo de pensar, estamos no
lizette POtgieter/shutterstOck/glOW iMages

C espa•o da aliena•‹o .

Alienação: na Sociologia, principalmente em Marx, esse termo


costuma ser usado com um sentido específico, um pouco diferente
do exposto aqui. A alienação, no pensamento marxista, está ligada
ao fato de as pessoas não receberem todos os benefícios do próprio
trabalho, nem tampouco perceberem seu alcance.

Por outro lado, quando as pessoas se recusam a aceitar com-


pletamente as coerções sociais (assumindo todos os riscos que essa
postura pode acarretar), desejando o que a sociedade não permite,
elas passam a romper com a ordem vigente, o que pressuporia
novas formas de “representações coletivas”. Nesse caso, temos o
espa•o da transgress‹o.
A – Pastora em culto evangélico em Limeira (SP). B – Judeu com filha na
Hungria. C – Mulheres muçulmanas no Afeganistão.
3 GREIMAS, Algirdas Julien; RASTIER, Fran•ois. O jogo das restri•›es
semi—ticas. In: GREIMAS, Algirdas Julien. Sobre o sentido: ensaios semi—ti-
cos. Petr—polis: Vozes, 1975. p. 126-143.
Isso não significa que todos os membros desses grupos se vis-
4 BOUDON, Raymond; BOURRICARD, Fran•ois. Dicion‡rio cr’tico de Socio-
tam, sempre, da mesma forma. Há quem não aceite essas tradições, logia. S‹o Paulo: çtica, 1993. p. 225.
rebele-se contra elas, entenda-as como ultrapassadas e julgue que 5 GREIMAS, Algirdas Julien; RASTIER, Fran•ois. O jogo das restri•›es
semi—ticas. In: GREIMAS, Algirdas Julien. Sobre o sentido: ensaios semi—ti-
é preciso flexibilizá-las. Há também quem as respeita, orgulha-se cos. Petr—polis: Vozes, 1975. p. 132.

12 Sociologia
exercícios

1. O texto a seguir foi extraído de As regras do mŽtodo dos heterônimos de Pessoa, que eram nomes com os
sociol—gico, de Durkheim. Trata-se de uma passagem quais ele costumava assinar seus versos. Leia o excerto
em que o sociólogo francês trabalha com um exemplo para responder ao que se pede.
concreto para que se entenda melhor o conceito de
fato social. [...] Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
Esta definição de fato social pode, aliás, confirmar-se O domin— que vesti era errado.
por uma experiência característica. Basta observar
Conheceram-me logo por quem não era e não des-
como são educadas as crianças. Quando reparamos nos
menti, e perdi-me.
fatos tais como são, e como sempre foram, salta aos olhos
Quando quis tirar a máscara,
que toda a educação consiste num esforço contínuo para
impor à criança maneira de ver, de sentir e de agir às Estava pegada à cara.
quais ela não teria chegado espontaneamente. Desde os Quando a tirei e me vi ao espelho,
primeiros tempos da sua vida que a obrigamos a comer, Já tinha envelhecido.
a dormir, a beber a horas certas. Obrigamo-la à limpeza, Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não
à calma, à obediência. Mais tarde, obrigamo-la a ter em tinha tirado.
conta os outros, a respeitar os usos, as conveniências, a
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
trabalhar, etc., etc. [...] É verdade que, segundo Spencer ,
Como um cão tolerado pela gerência
uma educação racional deveria reprovar tais processos
e deixar a criança agir com toda liberdade; mas, como Por ser inofensivo
essa teoria pedagógica nunca foi praticada por nenhum E vou escrever esta história para provar que sou
povo conhecido, só constitui um desideratum pessoal, sublime. [...]
e não um fato que possa opor-se aos precedentes. Ora, PESSOA, Fernando. Obra poŽtica. Rio de Janeiro:
o que torna estes últimos particularmente instrutivos é Nova Aguilar, 1994. p. 365.

o fato de a educação ter justamente por objetivo fazer o


ser social. [...] Esta pressão permanente exercida sobre Dominó: traje usado em baile de
máscaras; fantasia carnavalesca.
a criança é a própria pressão do meio social que tende a
moldá-la à sua imagem, e do qual os pais e professores
são meros intermediários. Nesses versos, o poeta afirma que não conseguiu se
comportar, socialmente, da maneira como ele gostaria.
DURKHEIM, Émile. As regras do mŽtodo sociol—gico.
Lisboa: Presença, 2010, p. 41. Sabendo disso, responda:

Spencer: referência a Herbert Spencer (1820-1903), filósofo inglês a) Existem duas palavras no texto que são usadas para
cuja obra trata, muitas vezes, de questões ligadas à pedagogia. indicar a situação do sujeito que não se comportou
Desideratum: palavra de origem latina que significa desejo, como gostaria. Que palavras são essas?
aspiração.
são elas: “dominó” e “máscara”.

Neste exemplo de Durkheim, é possível encontrar as b) O poema avalia essa situação de maneira positiva
três características essenciais que definem o fato social. ou negativa? Explique sua resposta.
Explique como isso se dá. de maneira negativa. O poeta afirma estar perdido, envelhecido
com efeito, nesse exemplo da educação das crianças, têm-se a coerci- e bêbado, pois ele ficou conhecido por quem ele não era, sem que
tividade, pois há um “esforço contínuo para impor à criança maneira de ele desfizesse o mal-entendido.
ver, de sentir e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamente”, c) Nos seis primeiros versos transcritos, está mais clara-
a exterioridade, uma vez que essa “pressão permanente exercida sobre mente presente uma das três características do fato
a criança é a própria pressão do meio social” (ou seja, exterior a ela), e social, segundo Durkheim. Que característica é essa?
a generalidade, já que, embora a “educação racional deveria [...] deixar
Justifique sua resposta.
a coercitividade. O poeta diz que assumiu uma máscara social que não
a criança agir com toda liberdade [...], essa teoria pedagógica nunca
era seu desejo (“fiz de mim o que não soube”) e não teve forças para
foi praticada por nenhum povo conhecido”.
agir de forma diferente (“conheceram-me logo por quem não era e
2. O texto a seguir é de autoria do poeta português Fer-
não desmenti, e perdi-me.”). Portanto, o poema sugere que ele acabou
nando Pessoa (1888-1935). Trata-se de um fragmento de
“Tabacaria”, poema atribuído a Álvaro de Campos – um se adequando a um padrão social, sem que essa fosse a sua vontade.

Sociologia 13
d) A postura do poeta em “Tabacaria” se aproxima mais e) Comparando a situação do poeta em “Tabacaria” à
do espaço da alienação ou da transgressão? Expli- do estudante chinês na Praça da Paz Celestial – como
que sua resposta. mostramos no “Para debater” –, elas são mais seme-
da alienação, pois o poeta aceitou os valores sociais, em detrimento lhantes ou mais diferentes? Explique sua resposta.
das crenças individuais, de modo que a consciência coletiva acabou diferentes. enquanto o poeta está no “espaço da alienação”, o
delimitando suas ações e seu modo de pensar. estudante está no “espaço da transgressão”, pois ele enfrentou os
militares chineses, recusando-se a aceitar as coerções sociais e
procurando encontrar novas formas de “representações coletivas”.

tarefa

1. (UEL-PR) Um jovem que havia ingressado recentemente c) normas sociais dispensáveis à conduta dos indivíduos.
na universidade foi convidado para uma festa de re-
d) ações individuais que orientam as condutas coletivas,
cepção de calouros. No convite distribuído pelos vete-
voltadas para a organização da sociedade.
ranos não havia informação sobre o traje apropriado
para a festa. O calouro, imaginando que a festa seria c e) regras e normas coletivas que orientam a vida dos
normal, compareceu vestido com traje social. Ao entrar indivíduos em sociedade e controlam as ações in-
na festa, em que todos estavam trajando roupas espor- dividuais.
tivas, causou estranheza, provocando risos, cochichos
com comentários maldosos, olhares de espanto e de 3. A reportagem a seguir foi publicada na Folha on line em
admiração. O calouro não estava vestido de acordo 6 de junho de 2012. Ela trata de uma situação delicada:
com o grupo e sentiu as represálias sobre o seu com- como conciliar uniformes esportivos com as exigências
portamento. As regras que regem o comportamento e das vestimentas religiosas?
as maneiras de se conduzir em sociedade podem ser
Leia o texto para responder ao que se pede a seguir.
denominadas, segundo Émile Durkheim (1858-1917),
como fato social.
VŽu isl‰mico elimina futebol feminino do
Considere as afirmativas abaixo sobre as características Ir‹ de Londres-2012
do fato social para Émile Durkheim.
O sonho iraniano de ter sua seleção feminina de
I. O fato social é todo fenômeno que ocorre ocasional-
futebol na Olimpíada de Londres, ano que vem, foi en-
mente na sociedade.
cerrado nesta segunda-feira.
II. O fato social caracteriza-se por exercer um poder de
coerção sobre as consciências individuais. O Irã não teria cumprido uma regra que diz respeito
ao uniforme das jogadoras e elas entraram em campo
III. O fato social é exterior ao indivíduo e apresenta-se
usando o véu islâmico, o que é proibido pela Fifa.
generalizado na coletividade.

ali Jareki/reuters/latinstOck
IV. O fato social expressa o predomínio do ser individual
sobre o ser social.
Assinale a alternativa correta.
a) Apenas as afirmativas I e II são corretas.
b) Apenas as afirmativas I e IV são corretas.
c c) Apenas as afirmativas II e III são corretas.
d) Apenas as afirmativas I, III e IV são corretas.
e) Apenas as afirmativas I, II e IV são corretas.
2. (UFPA) Para o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-
-1917), os fatos sociais são:
a) leis e fenômenos psíquicos transmitidos para os indi-
víduos na forma de códigos secretos.
b) comportamentos e condutas sociais criados direta- Na sexta-feira, a equipe iraniana foi banida da par-
mente pelos indivíduos. tida contra a Jordânia, em Amã, antes do início do jogo

14 Sociologia
classificat—rio aos Jogos de Londres-2012. A rival ficou Considere as seguintes afirmações sobre a frase de
com a vit—ria por 3 a 0, sem jogar. Adorno:
A pol•mica sobre as vestimentas das atletas do Ir‹ I. Trata-se de “um descaramento dizer ‘eu’”, porque,
acontece h‡ mais de um ano. A Fifa baniu a equipe em
para algumas pessoas, a vida em sociedade exige
abril passado por conta do plano de utilizar os len•os na
que os indivíduos deem suas opiniões independen-
cabe•a.
temente dos valores sociais institucionalizados.
De acordo com o c—digo de vestimenta isl‰mico, o pa’s
II. A palavra “descaramento” mostra que as pessoas
exige que todas as mulheres cubram a cabe•a em pœblico.
imaginam que as outras são mais transgressoras do
As regras da Fifa para a Olimp’ada de Londres pro’bem
que alienadas, pois elas estão sempre enfrentando
manifesta•›es pol’ticas, religiosas, comerciais ou pessoais,
– de modo descarado – a ordem social vigente.
em qualquer l’ngua, nos uniformes.
III. É possível concluir, a partir da formulação de Adorno,
ÒNa realidade, estes uniformes n‹o t•m nada de
que os valores individuais que as pessoas defendem
religioso, nem pol’tico, nem ir‹o prejudicar nenhum
jogador. Eles aprovaram [o uniforme] e Josepp Blat- não são a expressão de uma individualidade com-
ter aceitou isto e nossa participa•‹o na Olimp’adaÓ, diz pleta, pois eles estão sujeitos às coerções sociais.
Farideh Shojaei, respons‡vel pelo futebol feminino da Está correto o que se afirma:
Federa•‹o iraniana.
a) apenas em I. d) apenas em I e II.
A Federa•‹o iraniana recorreu ˆ Fifa, mas nesta
b) apenas em II. e) em I, II e III.
segunda-feira teve resposta negativa da entidade.
c c) apenas em III.
ÒA decis‹o da Fifa [de mar•o de 2010], que permitiu
que as jogadoras fossem autorizadas a utilizar algo que 5. Retomando a discussão proposta no “Para debater”,
cobrisse a cabe•a, mas n‹o que tapasse as orelhas e o responda:
pesco•o, continua em vigorÓ, explicou a Fifa [...]. a) Grande parte da imprensa ocidental, principalmente
Dispon’vel em: <www1.folha.uol.com.br/esporte/925948-veu-islamico nos Estados Unidos, classificou os protestos na China
-elimina-futebol-feminino-do-ira-de-londres-2012.shtml>. como uma luta pela democratização do país. Mas
Acesso em: 3 jul. 2015.
nem todos os participantes das caminhadas em Pe-
De acordo com as tradições islâmicas citadas na repor- quim queriam acabar com o regime socialista na Chi-
tagem, as mulheres devem usar véu sobre os cabelos. na. O foco das reivindicações era bastante variado.
Mas, por uma orientação da Federação Internacional Em sua opinião, por que o mundo ocidental não levou
de Futebol, a Fifa, véus não são permitidos em com- em consideração a pluralidade das reivindicações
petições oficiais de futebol feminino. Qual das duas na Praça da Paz Celestial?
coerções é a mais forte? Qual dos dois valores é mais
como muitas vezes acontece, a imprensa adotou uma visão
importante? As atletas iranianas poderiam transgredir
quais deles? Você acha que o véu muçulmano atra- maniqueísta dos acontecimentos, como se houvesse uma luta

palha as atletas? Usá-lo é uma manifestação religiosa entre o “bem”, representado pelos valores democráticos do Ocidente,
inaceitável no futebol? e o “mal”. assim, para alguns, a democratização da china seria

as tradições muçulmanas e as competições esportivas operam uma espécie de “ocidentalização” do país, o que seria bom para
com valores diferentes e nem sempre é possível conciliá-los. se o povo chinês. trata-se de uma visão estreita dos conflitos
alguém quer participar de eventos regidos pela fifa, é preciso aceitar ocorridos em Pequim, que não considerou a pluralidade de
as condições impostas. no entanto, a questão de “manifestações opiniões que havia entre os próprios manifestantes.
políticas, religiosas, comerciais ou pessoais” serem proibidas no b) Hoje, mais de vinte anos depois do Massacre da Praça
futebol é controversa: quando um atleta, depois de um gol, faz o sinal da Paz Celestial, a China continua comandada pelo
da cruz típico do catolicismo, ele costuma ser punido por isso? até Partido Comunista, mas é um país mais aberto ao mer-
onde a fifa tolera, portanto, as manifestações religiosas? cado global. Em sua opinião, no caso chinês, a abertu-
ra econômica garantiu a abertura política? Justifique.
a china não deixou de ser um país comunista, mas, ao mesmo tempo,
abriu-se economicamente. isso não significou abertura política para o
4. Em muitas pessoas j‡ Ž um descaramento dizer ÒeuÓ.
país, que continua sendo governado por um partido único, sem que haja
Theodor Adorno, fragmento do par‡grafo 29 de Minima moralia.
liberdade de expressão, principalmente quando discorda do regime.
Descaramento: falta de
vergonha, cinismo, atrevimento,
sem-vergonhice.

Sociologia 15
6. Observe a tirinha a seguir e responda ao que se pede.
Peanuts, charles
schulz © 1960 Peanuts
WOrldWide llc./dist. by
universal uclick

Charles M. Schulz. Minduim.


O Estado de S. Paulo, S‹o Paulo, set. 2007.

a) Observando apenas os dois primeiros quadrinhos, a menina parece estar se diferenciando ou se aproximando das
formigas? Por qu•?
diferenciando-se. ao considerar as formigas “idiotas” porque “elas não têm a menor ideia do que se passa no mundo”, fica subentendido que a

menina saberia o que se passa no mundo.

b) Observando a totalidade da tirinha, a menina estaria se considerando ÒidiotaÓ tambŽm? Explique sua resposta.
sim. se as formigas são “idiotas” porque “não têm a menor ideia do que se passa no mundo”, a menina também é “idiota”, pois ela não tem “a
menor ideia” do que “está se passando no mundo”.

c) Existem várias acep•›es para a palavra Òaliena•‹oÓ. Na Sociologia, essa palavra tem um sentido espec’fico, mas,
popularmente, ela pode ser usada para indicar uma certa indiferen•a, voluntária ou n‹o, em rela•‹o a quest›es
pol’ticas, econ™micas, sociais ou culturais. Na tirinha em quest‹o, voc• encontra essa indiferen•a? Explique sua
resposta.
sim. Quando a menina afirma, no último quadrinho, que não tem “a menor ideia” do que “está se passando no mundo”, ela revela indiferença
em relação a questões políticas, econômicas, sociais ou culturais, o que pode ser visto – de acordo com o sentido popular da palavra – como
uma forma de alienação.

16 Sociologia
leitura complementar
Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973) são Date: palavra de origem inglesa que significa encontro marcado,
dois sociólogos e filósofos alemães que fizeram parte de um grupo de compromisso.

intelectuais das humanidades, sobretudo a partir dos anos 1930, conhe- Reificado: tornado ÒcoisaÓ, coisificado.
cido como Escola de Frankfurt. Um dos principais interesses desses pes- Personality: palavra de origem inglesa que significa personalidade,
individualidade.
quisadores era analisar criticamente a sociedade capitalista ocidental.
Mimese: imita•‹o.
O trecho a seguir foi extraído de DialŽtica do esclarecimento, publicado
em primeira edição em 1944, em plena Segunda Guerra, quando os
membros da Escola de Frankfurt estavam exilados na América. De alguma forma, esse texto aborda a quest‹o da co-
Todos s‹o livres para dan•ar e para se divertir, do mesmo modo ercitividade dos fatos sociais. Mas os pesquisadores ale-
que [...] s‹o livres para entrar em qualquer uma das inœmeras sei- m‹es d‹o •nfase ˆ Òcoer•‹o econ™micaÓ. Por isso, eles
tas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a afirmam: Òpersonality significa para elas pouco mais
coer•‹o econ™mica, revela-se em todos os setores como a liberdade do que possuir dentes deslumbrantemente brancos e
de escolher o que Ž sempre a mesma coisa. A maneira pela qual
estar livres do suor nas axilas e das emo•›esÓ. Pensando
uma jovem aceita e se desincumbe do date obrigat—rio, a entona•‹o
nisso, quem seria o respons‡vel por essa coer•‹o, que
no telefone e na mais familiar situa•‹o, a escolha das palavras
na conversa, e atŽ mesmo a vida interior organizada segundo os faz as pessoas terem Òa liberdade de escolher o que
conceitos classificat—rios da psicologia profunda vulgarizada, tudo Ž sempre a mesma coisaÓ? E, baseando-se em suas
isso atesta a tentativa de fazer de si mesmo um aparelho eficiente e experi•ncias pessoais, ser‡ que Ž poss’vel dizer que os
que corresponda, mesmo nos mais profundos impulsos instintivos, jovens de hoje tambŽm est‹o Òlivres do suor das axilas
ao modelo apresentado pela indœstria cultural. As mais ’ntimas e das emo•›esÓ?
rea•›es das pessoas est‹o t‹o completamente reificadas para elas
pr—prias que a ideia de algo peculiar a elas s— perdura na mais a responsável por essa coerção é a “indústria cultural”, sobretudo a
extrema abstra•‹o: personality significa para elas pouco mais do “publicidade”, que desperta “a mimese compulsiva dos consumidores,
que possuir dentes deslumbrantemente brancos e estar livres do
pela qual se identificam às mercadorias culturais que eles, ao mesmo
suor nas axilas e das emo•›es. Eis a’ o triunfo da publicidade na
indœstria cultural, a mimese compulsiva dos consumidores, pela tempo, decifram muito bem”. Quanto à segunda indagação, espera-se
qual se identificam ˆs mercadorias culturais que eles, ao mesmo que os alunos digam que, atualmente, há até mais superficialidade
tempo, decifram muito bem.
e alienação do que o que o texto sugere. Mais do que nunca,
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. DialŽtica do esclareci-
mento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 156. a personality estaria associada a um jogo de aparências.

anota•›es

Sociologia 17
aulas
5e6
Institui•›es sociais

Para debater
O fragmento a seguir, de autoria de JosŽ Saramago, foi extra’do do pref‡cio do livro de fotos Terra, de Sebasti‹o Salgado. Trata-se de
uma passagem em que o escritor portugu•s fala, de maneira mordaz, sobre o surgimento da propriedade privada.
Foi o caso que estando j‡ a terra assaz povoada de filhos, filhos de filhos e filhos de netos da nossa primeira m‹e e do
nosso primeiro pai, uns quantos desses, esquecidos de que sendo a morte de todos, a vida tambŽm o deveria ser, puseram-se
a tra•ar uns riscos no ch‹o, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedra, depois do que anunciaram que, a partir
desse momento, estava proibida (palavra nova) a entrada nos terrenos que assim ficavam delimitados, sob pena de um cas-
tigo, que, segundo os tempos e os costumes, poderia vir a ser de morte, ou de pris‹o, ou de multa, ou novamente de morte.
Sem que atŽ hoje se tivesse sabido porqu•, e n‹o falta quem afirme que disto n‹o poder‹o ser atiradas as responsabilidades
para as costas de Deus, aqueles nossos antigos parentes que por ali andavam, tendo presenciado a espolia•‹o e escutado o
inaudito aviso, n‹o s— n‹o protestaram contra o abuso com que fora tornado particular o que atŽ ent‹o havia sido de todos,
como acreditaram que era essa a irrefrag‡vel ordem natural das coisas de que se tinha come•ado a falar por aquelas alturas.
Diziam eles que se o cordeiro veio ao mundo para ser comido pelo lobo, conforme se podia concluir da simples verifica•‹o
dos factos da vida pastoril, ent‹o Ž porque a natureza quer que haja servos e haja senhores, que estes mandem e aqueles
obede•am, e que tudo quanto assim n‹o for ser‡ chamado subvers‹o.
SARAMAGO, JosŽ. Pref‡cio. In: SALGADO, Sebasti‹o. Terra.
S‹o Paulo: Companhia das Letras, 1997.
Marlene bergaMO/fOlhaPress

Espolia•‹o: ato de privar alguém de


algo por meios ilícitos.
Inaudito: de que nunca se ouviu falar.
Irrefrag‡vel: irrefutável, irrecusável,
incontestável.

Da esquerda para a direita: José Saramago,


Sebastião Salgado e Chico Buarque no
lançamento do livro Terra, em 1997. A obra
de Salgado, importante fotógrafo brasileiro,
é marcada por posições firmes contra várias
formas de injustiça social.

De acordo com o autor, teria havido uma Žpoca em que o mundo era de todos e em que n‹o havia propriedade privada. Mas, a
partir de um determinado momento, come•ou-se Òa tra•ar uns riscos no ch‹o, a espetar umas estacas, a levantar uns muros de pedraÓ,
como se haver ÒservosÓ e ÒsenhoresÓ fosse Òa irrefrag‡vel ordem natural das coisasÓ.

Assim como Saramago, muitos artistas e pensadores criticam a propriedade privada e a concentra•‹o de riquezas, atribuindo a ela
a culpa por muitas de nossas mazelas sociais. Mas seria poss’vel imaginar a vida sem propriedade privada? Ser‡ que o equil’brio da vida
social n‹o exige que se estabele•am limites Ð inclusive f’sicos Ð entre os interesses e bens de um indiv’duo e os dos outros?

18 Sociologia
a loja de roupas de grife trata com desdŽm o cliente vestido de modo
Um pouco de teoria despojado. As puni•›es ent‹o podem variar do simples olhar de
reprova•‹o atŽ a pris‹o, passando ainda pela ridiculariza•‹o pœblica
e pela segrega•‹o social. Em casos de comunidades mais intolerantes,
as san•›es podem chegar a espancamentos e atŽ mesmo a mortes.
Padrões de controle Em todas essas situa•›es, s— podem haver san•›es e puni•›es, ou
A coer•‹o social Ž uma caracter’stica fundamental da vida em melhor, elas s— podem ser aceitas pela coletividade, se se reconhece
sociedade. Ela faz com que os comportamentos humanos tenham, a autoridade da institui•‹o que as aplica.
muitas vezes, uma tend•ncia cont’nua ˆ padroniza•‹o, ˆ uniformi- Assim, come•ando pela fam’lia, que garante a prote•‹o das
za•‹o. Dependendo da situa•‹o, lidar com essas coer•›es pode ser crian•as, incapazes de sobreviver sozinhas, h‡ inœmeras outras
mais ou menos dif’cil, mas elas acabam por influenciar, de algum institui•›es que Ð com sua autoridade Ð s‹o fundamentais para a
modo, as condutas individuais. manuten•‹o e estabiliza•‹o das rela•›es sociais.
Mas de quem seria a responsabilidade por essa padroniza•‹o,
por essa uniformiza•‹o? Na maioria das vezes, a resposta Ž: uma A propriedade privada como instituição
institui•‹o social. Em sentido mais geral, uma institui•‹o corres-
ponde a qualquer forma de organiza•‹o que reœna pessoas com social
objetivos comuns, como uma escola, um hospital ou uma empresa. Como exemplo, vejamos a quest‹o da propriedade privada
TambŽm se emprega o termo Òinstitui•‹oÓ para designar entidades dos meios de produ•‹o, que Ž uma institui•‹o social fundamental
mais amplas como o governo, o sistema educacional ou a Igreja. da sociedade capitalista contempor‰nea. Ela Ž a base da estrutura
J‡ em sentido estrito, dentro do universo sociol—gico, a institui•‹o de classes da sociedade atual e possui uma autoridade t‹o grande
social pode ser definida, de acordo com a proposta de Peter L. que todas as leis costumam garanti-la.
Berger e Brigitte Berger, como Òum padr‹o de controle, ou seja, De alguma forma, os conflitos agr‡rios no Brasil est‹o ligados
uma programa•‹o da conduta individual imposta pela sociedadeÓ.1 a essa institui•‹o. Movimentos sociais que defendem a reforma
Nessa perspectiva, as institui•›es possuem uma realidade ex- agr‡ria acreditam que a concentra•‹o de terras nas m‹os de pou-
terior aos indiv’duos, na medida em que elas existem indepen- cos propriet‡rios, alŽm de aumentar as desigualdades sociais e
dentemente de nossas vontades, atŽ porque t•m hist—ria pr—pria: econ™micas, diminui a produtividade rural brasileira, pois muitos
normalmente as institui•›es j‡ existiam antes de os indiv’duos nas- latifœndios n‹o estariam produzindo tudo o que poderiam. ƒ por
cerem e, frequentemente, permanecem existindo ap—s sua morte. isso que a Constitui•‹o Federal, em seu artigo 184, afirma:
Desse modo, acumulam contribui•›es e caracter’sticas de v‡rias Compete à União desapropriar por interesse social, para
gera•›es e v‹o tornando-se for•as cada vez mais poderosas, que fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprin-
moldam o jeito de agir e pensar das pessoas. do sua função social, mediante prévia e justa indenização [...].
Peter e Brigitte Berger ainda afirmam que uma institui•‹o social Disponível em: <www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/
Òassemelha-se a outras entidades da realidade exterior Ð guarda CON1988_04.02.2010/art_184_.shtm>. Acesso em: 3 jul. 2015.

certa semelhan•a atŽ mesmo com objetos tais como ‡rvores, mesas Mas qual seria a Òfun•‹o socialÓ da propriedade rural? E o que seria
e telefones, que est‹o l‡ fora quer o indiv’duo queira, quer n‹o. O uma desapropria•‹o de terra Òpor interesse socialÓ? Em primeiro lugar,
indiv’duo n‹o seria capaz de eliminar uma ‡rvore com um movi- precisamos salientar que desapropriar um bem particular significa
mento da m‹o Ð e nem uma institui•‹oÓ.2 torn‡-lo pœblico, mediante uma indeniza•‹o, por decis‹o do gover-
no. No Brasil, uma propriedade rural n‹o pode ser desapropriada se
Autoridade, legitimidade e sanção estiver cumprindo sua Òfun•‹o socialÓ, que se define, de acordo com o
artigo 186 da Constitui•‹o em vigor, a partir de quatro caracter’sticas:
S‹o, portanto, caracter’sticas das institui•›es sociais: a exte- I. aproveitamento racional e adequado;
rioridade, pois elas existem ainda que ˆ revelia das cren•as e dos II. utilização adequada dos recursos naturais disponíveis
desejos das pessoas, e a coercitividade, uma vez que elas inevita- e preservação do meio ambiente;
velmente influem nos comportamentos individuais e, por isso, v‹o III. observância das disposições que regulam as relações
adquirindo, com o passar do tempo, uma espŽcie de ÒautoridadeÓ. de trabalho;
O reconhecimento da exist•ncia das institui•›es e, posteriormen- IV. exploração que favoreça o bem-estar dos proprietários
te, de sua for•a coercitiva lhes confere legitimidade, a ponto de o sujei- e dos trabalhadores.
to que desrespeita as regras estabelecidas por elas poder ser punido. Disponível em: <www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/
Assim, o Estado manda para a cadeia o homicida, a Igreja cat—lica CON1988_04.02.2010/art_186_.shtm>. Acesso em: 3 jul. 2015.
excomunga o infiel, a escola suspende o aluno que se comporta mal, Existem leis complementares que regulam essa quest‹o do
1 BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. O que é uma instituição social? In: Òaproveitamento racional e adequadoÓ. Quando grupos de sem-
FORACCHI, Marialice M.; MARTINS, José de Souza. Sociologia e socieda- -terra ocupam uma fazenda, sua inten•‹o Ž, em geral, pressionar
de: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
Científicos, 2006. p. 163. o governo para desapropri‡-la, acelerando o processo de reforma
2 BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. O que é uma instituição social? In: agr‡ria. No entanto, essa atitude nem sempre Ž bem-vista por gran-
FORACCHI, Marialice M.; MARTINS, José de Souza. Sociologia e socieda-
de: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
de parte da sociedade, que enxerga nesse tipo de a•‹o uma amea•a
Científicos, 2006. p. 165-166. a uma institui•‹o social fundamental da sociedade moderna.

Sociologia 19
Podemos nos perguntar o que é mais importante: a garantia do sobre todos nós, uma vez que as coerções impostas pelo Estado,
direito à propriedade ou a promoção do bem comum, com justiça pela Igreja ou pelas estruturas econ™micas se manifestam, antes de
socioecon™mica? A discussão é complexa. De novo, voltando à tudo, por meio do sistema linguístico. Desde pequena, a criança vai
nossa Constituição, no artigo 5o, temos: compreendendo o mundo à sua volta pela linguagem.
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer No interior do sistema linguístico, os falantes ainda têm vá-
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros rias opções de uso. Por isso, eventualmente, podemos até falar ou
residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liber- escrever de um modo mais informal. Mas dependendo da hora
dade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...]. e do lugar, ou do interlocutor a quem se dirige, infringir certas
Disponível em: <www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/
CON1988_05.10.1988/art_5_.shtm>. Acesso em: 3 jul. 2015.
convenções pode levar à perda de um emprego, à reprovação em
Nem sempre é fácil conciliar todos esses “direitos”. No caso da um exame importante ou a um prejuízo em uma negociação. Da
propriedade privada, que é uma instituição – repita-se – fundamen- mesma forma, como entre os jovens é comum que cada grupo se
tal da nossa sociedade, podemos perguntar: se ela não existisse, se comunique em uma linguagem própria, aquele que não entende
tudo fosse de todos, será que a vida em sociedade seria possível? ou não usa a mesma linguagem – com todas as particularidades
Se cada ser humano seguisse apenas seus desejos e suas crenças que a definem – pode ser segregado.
pessoais, se não houvesse fronteiras claras entre países, estados
e cidades, entre o público e o privado, se cada canto do planeta Institui•›es e mudan•as
pertencesse à coletividade, será que o mundo seria mais justo? Os sociólogos de inspiração durkheimiana trabalham com a
São perguntas difíceis de responder. E nem nos cabe respon- noção de instituição social como “padrão de controle”. Para eles,
dê-las. O principal interesse da Sociologia não é apontar como as instituições variam de povo para povo, de cultura para cultura,
a sociedade poderia ser, mas sim como ela é. E, sendo assim, a pois cada grupo social sofre coerções distintas e dá valor diferente
propriedade privada é uma instituição social que merece toda a a cada instituição.
atenção dos sociólogos. Mas, além disso, é preciso lembrar que as instituições sociais
são fen™menos históricos, que, como tais, podem sofrer mudanças
A linguagem como institui•‹o social e, mesmo, deixar de existir. A Igreja ou o Exército já tiveram, no
A propriedade privada não é a única instituição social que existe. Brasil, mais import‰ncia do que têm hoje. Já a propriedade privada
Por enquanto, já podemos citar outra instituição importantíssima continua sendo um dos pilares da sociedade capitalista. Por fim, a
em nossa sociedade: a linguagem. Peter e Brigitte Berger são cate- linguagem sempre será de fundamental import‰ncia em qualquer
góricos ao abordar esse assunto: agrupamento humano.
Diremos mesmo que muito provavelmente a linguagem Num mundo de globalização, em que se formam comuni-
é a instituição fundamental da sociedade, além de ser a dades na internet, em que pessoas de países diferentes podem
primeira instituição inserida na biografia do indivíduo. É conversar on line, em que a velocidade da informação vai con-
uma instituição fundamental, porque qualquer outra insti- tribuindo para mudanças de comportamento, as instituições
tuição, sejam quais forem suas características e finalidades, sociais também se modificam, muitas vezes se reestruturando e
funda-se nos controles subjacentes da linguagem.3 se redefinindo. O que precisa ficar claro é que essas mudanças
De fato, a linguagem constitui – ainda que não percebamos ocorrem – e muito – não por vontades individuais, mas sim por
isso claramente – poderoso instrumento de controle da sociedade processos coletivos.

exercícios
Observe a tirinha a seguir e responda ao que se pede nas próximas quatro questões:
Casal Neuras
glaucO/acervO dO artista

Glauco. Casal Neuras. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 out. 2007.

3 BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. O que é uma instituição social? In: FORACCHI, Marialice M.; MARTINS, José de Souza. Sociologia e sociedade: leituras
de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 2006. p. 163.

20 Sociologia
1. No primeiro quadrinho, a fala da mulher indica que ela o que você respondeu na questão anterior? Explique
valoriza uma instituição social milenar. Que instituição sua resposta.
Ž essa? confirmam. O marido, ao levar o computador portátil para um jantar
trata-se da família e, mais especificamente, do casamento. com a esposa, mostra que não valoriza tanto a instituição social “família”,
enquanto a mulher, por sua reação intempestiva, mostra que valoriza

2. Ainda considerando o primeiro quadrinho, homem e essa instituição e acha inadmissível o marido querer trabalhar durante
mulher parecem avaliar essa instituição social da mes- um jantar em família.
ma maneira? Como você chegou a essa conclusão?
4. De alguma forma, a tirinha de Glauco trata da dificulda-
não. ao dizer ao marido que era um “milagre” eles saírem para de de conciliar interesses pessoais e profissionais no mun-
jantar, a mulher mostra a importância de valorizar os momentos do moderno. Que transformações tecnol—gicas ocorridas
de intimidade familiar. ao mesmo tempo, o uso dessa palavra
nos últimos anos intensificaram essa dificuldade?

mostra que era incomum o marido convidá-la para sair, o que numa época de globalização, com a popularização da internet e com o

pressupõe que ele não valoriza tanto esses momentos. acesso facilitado às mais variadas informações em tempo real, muitas
pessoas se sentem obrigadas a ficar conectadas 100% do tempo

3. A observação que o homem faz, no segundo quadrinho, a um computador, reféns do trabalho, o que não lhes permite dar

e a reação da mulher, no terceiro, confirmam ou negam atenção a outras instituições sociais importantes, como é o caso da
família. assim, a reação furiosa da mulher é uma sanção esperada, uma
vez que um jantar a dois não parece ser compatível com um laptop.

tarefa

1. (Enem) contra a demora em desapropriar fazendas da regi‹o para


a reforma agr‡ria.
Na dŽcada de 1990, os movimentos sociais campo-
neses e as ONGs tiveram destaque, ao lado de outros O ent‹o governador do Par‡, Almir Gabriel, teria or-
sujeitos coletivos. Na sociedade brasileira, a a•‹o dos denado que a PM liberasse a rodovia para o tr‡fego de
movimentos sociais vem construindo lentamente um ve’culos, ainda que fosse necess‡rio fazer uso da for•a.
conjunto de pr‡ticas democr‡ticas no interior das es- Houve ent‹o um violento conflito que deixou dezenove
colas, das comunidades, dos grupos organizados e na agricultores mortos e dezenas de feridos. O MST alega
interface da sociedade civil com o Estado. O di‡logo, o que os policiais chegaram ao local do bloqueio atirando
confronto e o conflito t•m sido os motores no processo nos manifestantes e jogando bombas de g‡s lacrimog•neo
de constru•‹o democr‡tica. em todos. A pol’cia disse, ˆ Žpoca, que foi recebida com
SOUZA, M. A. Movimentos sociais no Brasil contempor‰neo: parti- paus e pedras pelos trabalhadores.
cipa•‹o e possibilidades das pr‡ticas democr‡ticas. Dispon’vel em:
<www.ces.uc.pt>. Acesso em: 30 abr. 2010. Adaptado.
O mŽdico legista que fez a aut—psia dos corpos explicou
que muitos sem-terra foram executados, com tiros a curta
Segundo o texto, os movimentos sociais contribuem para
dist‰ncia, enquanto outros morreram com golpes de fac›es
o processo de construção democr‡tica, porque:
e foices. Nenhum policial morreu.
a) determinam o papel do Estado nas transformações
Logo depois do conflito, o presidente Fernando Hen-
socioecon™micas. rique Cardoso criou o MinistŽrio da Reforma Agr‡ria e
b) aumentam o clima de tensão social na sociedade civil. transferiu tropas do ExŽrcito para a regi‹o de Eldorado
c c) pressionam o Estado para o atendimento das deman- dos Caraj‡s para apaziguar os ‰nimos exaltados de todos
das da sociedade. os envolvidos.
d) privilegiam determinadas parcelas da sociedade em Depois de muitas batalhas nos tribunais, os dois oficiais
detrimento das demais. considerados respons‡veis pelas mortes foram definitiva-
e) propiciam a adoção de valores Žticos pelos —rgãos mente condenados.
do Estado. Coronel que liderou massacre de Eldorado dos
Texto para as questões 2 a 4 Carajás é preso no Pará

Em 1996, em Eldorado dos Caraj‡s, munic’pio do sul M‡rio Pantoja foi condenado a 228 anos de pris‹o;
do Par‡, cerca de mil e quinhentos trabalhadores liga- major JosŽ Maria Oliveira segue foragido
dos ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Dez anos ap—s a condena•‹o e depois de perder todos
Terra) ocuparam uma rodovia estadual para protestar os recursos judiciais para anular a senten•a, o coronel da

Sociologia 21
Polícia Militar do Pará, Mário Colares Pantoja, e o major Pará em 1996, eles estavam impedindo essa livre loco-
José Maria Oliveira, acusados de liderar o massacre de moção? Explique seu ponto de vista.
Eldorado dos Carajás, no qual dezenove trabalhadores
sem-terra foram mortos pela PM em 1996 durante a de-
sobstrução de uma rodovia, terão de cumprir desde esta
segunda-feira, 7, a pena em regime fechado.
Pantoja, condenado a 228 anos, apresentou-se esponta-
neamente no Centro de Recuperação Especial Anastácio
das Neves, uma penitenciária para policiais e ex-policiais
localizada em Santa Isabel, a 45 km do centro de Belém.
Oliveira, que pegou 158 anos e quatro meses, não se 4. No mesmo artigo 5o da Constituição, o inciso XVI garante
apresentou porque alega ainda não ter sido notificado que “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas,
pelo juiz da 1a Vara do Tribunal do Júri de Belém, Edmar em locais abertos ao público, independentemente de
Pereira. A ordem é conduzir o major para a mesma pe- autorização”. Sendo assim, a manifestação dos sem-
nitenciária onde se encontra o coronel. “Se ele for notifi- -terra, em sua opinião, precisava ser reprimida com vio-
cado, irá recorrer. Houve uma decisão do ministro Félix lência? Explique seu ponto de vista.
Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que, no a resposta esperada é “não”. num país em que se celebra a
nosso entendimento, ainda não foi publicada. Portanto,
liberdade de expressão, não se deve reprimir nenhuma manifestação
não há transitado em julgado, e cabe recurso”, explicou o
advogado Arnaldo Gama, defensor de Oliveira. [...] com violência, sobretudo quando a violência é tão desproporcional
Disponível em: <www.estadao.com.br/noticias/nacional,coronel- que leva dezenove pessoas à morte.
que-liderou-massacre-de-eldorado-dos-carajas-e-preso-no-
para,869775,0.htm>. Acesso em: 5 jul. 2015. Texto para as questões 5 e 6
2. No artigo 3 da nossa Constituição Federal, lê-se:
o
Um dos maiores sucessos do teatro brasileiro de todos
Constituem objetivos fundamentais da República os tempos é Morte e vida severina, do poeta pernambuca-
Federativa do Brasil: no João Cabral de Melo Neto, encenada pela primeira vez
em 1966, com música de Chico Buarque. Numa passagem
I. construir uma sociedade livre, justa e solidária;
de Morte e vida severina, que apresenta um enterro de um
II. garantir o desenvolvimento nacional; lavrador, algumas pessoas que acompanham o cortejo
III. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as fúnebre vão conversando sobre o morto:
desigualdades sociais e regionais; — E foi morrida essa morte,
IV. promover o bem de todos, sem preconceitos de ori- irmãos das almas,
gem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas essa foi morte morrida
de discriminação. ou foi matada?
Disponível em: <www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/
— Até que não foi morrida,
CON1988_16.02.1998/CON1988.shtm>. Acesso em: 6 jul. 2015. irmão das almas,
esta foi morte matada,
Levando em consideração que existem famílias de agri-
numa emboscada.
cultores que não possuem terra para trabalhar, o Brasil
— E o que guardava a emboscada,
está cumprindo seus deveres constitucionais, expressos
irmãos das almas,
no artigo 3o de nossa Carta? O que o governo pode
e com que foi que o mataram,
fazer, em relação a essas famílias, para “erradicar a
com faca ou bala?
pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades
— Este foi morto de bala,
sociais e regionais”?
irmão das almas,
a resposta esperada é que o governo não está cumprindo mais garantido é de bala,
plenamente seu papel e que uma reforma agrária mais ampla e mais longe vara.
— E quem foi que o emboscou,
eficiente poderia ser um modo de reduzir essas desigualdades.
irmãos das almas,
quem contra ele soltou
essa ave-bala?
— Ali é difícil dizer,
irmão das almas,
3. Já no artigo 5o da nossa Constituição, existe um inciso, sempre há uma bala
o XV, que afirma: “é livre a locomoção no território na- voando desocupada.
cional em tempo de paz”. Em sua opinião, quando os MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas
sem-terra interromperam o tráfego numa estrada do para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 47-48.
3. a resposta pode ser “sim” ou “não”. no caso do “sim”, a justificativa pode ser o direito de ir e vir das pessoas, sobretudo daquelas que não tinham
ligação nenhuma com o conflito agrário. no caso do “não”, a explicação pode levar em conta que, quando dois “direitos” se chocam, deve prevalecer o
22 Sociologia mais importante: a justiça social seria nesse caso mais relevante do que o direito de ir e vir, uma vez que as pessoas que
queriam passar por aquela estrada poderiam dar apoio às reivindicações do Mst.
5. Essa passagem do poema dramático de João Cabral de Melo Neto começa fazendo uma distinção entre a “morte
morrida” e a “morte matada”. Pensando nessa distinção, a maneira como o lavrador morreu é semelhante à maneira
como morreram os dezenove sem-terras em Eldorado dos Carajás em 1996, que vimos na Tarefa mínima? Explique
sua resposta.
sim. no poema, o lavrador foi assassinado numa “emboscada”. em eldorado dos carajás, os dezenove agricultores também morreram
de “morte matada”, pois, de acordo com o legista que analisou os corpos, teriam sido executados por policiais militares.

6. No caso de Eldorado dos Carajás, foram necessários mais de quinze anos para que os culpados pelo massacre fossem
presos. No final do trecho que transcrevemos, também se fala sobre a dificuldade de identificar os responsáveis por
crimes no interior do Brasil? Explique sua resposta.
sim. um lavrador pergunta a outro: “quem contra ele soltou / essa ave-bala?”. O outro responde: “ali é difícil dizer, / [...] sempre
há uma bala / voando desocupada”. isso sugere que nem sempre os culpados por esses crimes são punidos e identificados.

7. A canção “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, ficou em segundo lugar no Festival Internacional
da canção (FIC), promovido pela TV Globo em 1968. Em uma de suas estrofes, fala-se sobre os soldados brasileiros,
que estariam “perdidos”, com “armas nas mãos”. Mais à frente, afirma-se que, nos quartéis, eles aprendem a “morrer
pela pátria” e a “viver sem razão”. Essas passagens fazem referência a que instituição social? Como elas avaliam essa
instituição, sua autoridade e seu poder de coerção social?
nos versos de vandré, faz-se uma referência às forças amadas por meio de palavras como “soldados”, “armas” e “quartéis”. ao dizer que
os soldados podem “viver sem razão” e ser “amados ou não”, a canção coloca em xeque a autoridade dos ensinamentos militares, a ponto
de considerar “perdidos” os soldados que julgam ser nobre “morrer pela pátria”. dessa maneira, vandré condena abertamente o poder
de coerção social dos militares, uma vez que a instituição por eles representada ensinaria lições que, segundo ele, não devem ser seguidas.

8. Como vimos em aula, embora as instituições sociais se constituam numa força exterior que atua sobre os indivíduos,
muitas vezes impondo-lhes modos de pensar e agir, elas não são estruturas fixas, estando, portanto, sujeitas a mu-
danças ao longo do tempo. Um exemplo bastante claro disso são as transformações sofridas por uma das mais im-
portantes instituições de nossa sociedade – a família. Sobre isso, observe as informações que seguem:
A família era tudo, nada menos. Seguindo a tradi•‹o da Žpoca em que
os portugueses se instalaram no Brasil, a família n‹o se compunha apenas
acervO JOsé carlOs ataliba
nOgueira/arQuivO da editOra
de marido, mulher e filhos. Era um verdadeiro cl‹, incluindo a esposa e
eventuais (e disfar•adas) concubinas, filhos, parentes, padrinhos, afilha-
dos, amigos, dependentes, e ex-escravos.

Uma imensa legi‹o de agregados submetidos ˆ autoridade indiscutível


que emanava da temida e venerada figura do patriarca. Temida, porque
possuía o direito de controlar a vida e as propriedades de sua mulher e
filhos; venerada, porque o patriarca encarnava, no cora•‹o e na mente
de seus comandados, todas as virtudes e qualidades possíveis a um ser
humano.
Ordem e progresso sob a tutela da família. In: Nosso sŽculo Ð Brasil 1900/1910. Barão Ataliba Nogueira e família. Fazenda Santa
S‹o Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 95. Úrsula, Jaguariúna, SP, 1900.

Sociologia 23
Brasil: distribui•‹o das fam’lias œnicas e conviventes principais,
80 % por tipo (2000/2010)
70
60 56,4 2000 2010
50 49,4

40
30
20 17,7
13,0 11,6 12,2
10 7,2 5,5
1,9 2,5 3,7 4,0
1,5 1,8 4,2 6,3
0,4 0,6
0
Casal sem Casal sem Casal com Casal com Mulher sem Mulher sem Homens sem Homens sem Outro
filhos filhos e com filhos filhos e com c™njuge com c™njuge com c™njuge com c™njuge com
parentes parentes filhos filhos e com filhos filhos e com
parentes parentes
FONTE: IBGE, Censo Demogr‡fico 2010.

Com base nos dados apresentados e em suas impressões pessoais, quais seriam as principais transformações sofri-
das por essa instituição social? O fato de ela ter se transformado tanto diminui sua import‰ncia para a sociedade?

talvez a principal transformação seja a que diz respeito à estrutura de poder: a figura do patriarca praticamente desapareceu, e a mulher ocupa,
cada vez mais, papel central nas famílias. também há que se observar o surgimento de outras formas de organização familiar, alternativas ao
modelo “casal com filhos”. Os alunos ainda poderão falar da flexibilização das relações: no lugar da autoridade patriarcal, hoje são valorizados o
diálogo e a divisão de poderes entre os membros de uma família. além disso, os alunos poderão dizer que, apesar das mudanças na família, sua
importância ainda é grande, na medida em que ela continua sendo a base para a formação dos indivíduos. Mas não está descartada a resposta que
apontar para uma diminuição da influência da família, que agora divide a responsabilidade de formar cidadãos com a escola e a mídia, por exemplo.

9. Falamos que a linguagem é uma instituição social. Talvez a primeira com que a criança tome contato, se considerarmos
que, antes de ter consciência da existência da própria família, ela apreende a realidade por um sistema linguístico
que existe a priori. De fato, quando usamos qualquer idioma para nos comunicar, seguimos regras preexistentes a
nós. Em português, ninguém formaria uma frase como: “Estudar gosto de eu”. Qualquer falante nativo da língua diria:
“Eu gosto de estudar”. Isso significa que estamos seguindo normas de linguagem institucionalizadas, mesmo que não
saibamos explicá-las. Tratando dessa questão, Roland Barthes diz:
[...] a l’ngua, como desempenho de toda linguagem, n‹o Ž nem reacion‡ria, nem progressista; ela Ž simplesmente:
fascista; pois o fascismo n‹o Ž impedir a dizer, Ž obrigar a dizer.
Assim que ela Ž proferida, mesmo que na intimidade mais profunda do sujeito, a l’ngua entra a serviço de um
poder. Nela, infalivelmente, duas rubricas se delineiam: a autoridade da asserç‹o, o gregarismo da repetiç‹o. Por um
lado, a l’ngua Ž imediatamente assertiva: a negaç‹o, a dœvida, a possibilidade, a suspens‹o de julgamento, requerem
operadores particulares [...]. Por outro lado, os signos de que a l’ngua Ž feita, os signos s— existem na medida em que
s‹o reconhecidos, isto Ž, na medida em que se repetem [...].
BARTHES, Roland. Aula. S‹o Paulo: Cultrix, 1992. p. 14-15.

Tomando o fascismo em seu sentido geral, como qualquer postura autoritária, de controle sobre o comportamento alheio,
discuta com seus colegas até que ponto a linguagem – como instituição social – pode mesmo ser considerada fascista.

O importante é que os alunos consigam justificar seus pontos de vista. aqueles que afirmarem que a linguagem é fascista poderão usar como
argumento o fato de ela ser algo “imposto”, carregado de valores, que absorvemos sem termos condições de questionar. também reforça essa
ideia o fato de a linguagem ser o principal instrumento de controle utilizado pelas demais instituições sociais. Mas é possível também discordar,
em parte, disso: os alunos podem lembrar que, embora a linguagem seja algo herdado, ela está sempre se modificando (exemplo
disso são as gírias), o que mostra que o indivíduo pode usá-la de maneira “não programada”. além disso, não se deve desconsiderar o potencial
subversivo da linguagem, que tem, na arte, sua principal manifestação.

24 Sociologia
leitura complementar
Em 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh faleceu, numa ambiente onde se encontram 200 pessoas. Donde se con-
festa ocorrida na Associa•‹o AtlŽtica Acad•mica da Faculdade de clui, estando afastadas, pelo laudo, as hip—teses de colapso
Medicina da Universidade de S‹o Paulo. Durante as atividades de card’aco, consumo de drogas ou bebedeira, que, seja por
a•‹o, seja por omiss‹o, seja pelo clima geral de prepot•ncia
recep•‹o aos recŽm-aprovados num dos vestibulares mais con-
e intimida•‹o, t’pico dos encontros entre veteranos e calou-
corridos do pa’s, Edison, que n‹o sabia nadar, teria sido atirado na
ros, o brasileirinho Edison, como se afirmou no primeiro
piscina e morreu afogado. Depois de anos de esfor•o, o estudante, par‡grafo, morreu de trote.
de 22 anos, n‹o p™de nem iniciar o curso de medicina com que
O que nos leva a outra conclus‹o Ð a de que chega de trote.
sempre havia sonhado. O texto a seguir foi publicado, ˆ Žpoca, J‡ cansou. Acumularam-se esc‰ndalos demais. Torturas con-
na revista Veja, pelo jornalista Roberto Pompeu de Toledo. Leia-o tra calouros, ˆ moda do regime militar (Cruz das Almas, BA,
com aten•‹o. 1991). Estudante morto a tesouradas (Osasco, SP, 1991). Quei-
Toler‰ncia zero, o remédio para o trote maduras por nitrato de prata (Campinas, SP, 1994). Espanca-
mentos, humilha•›es para todos os gostos. No ano passado,
A morte de um estudante em S‹o Paulo revela o n’vel de em Sorocaba (SP), dois estudantes de medicina e um mŽdico
barb‡rie a que se chegou j‡ formado (que h‡ com as faculdades de medicina?) puseram
Edison Tsung Chi Hsueh, um brasileirinho filho de imi- fogo num estudante mais jovem que dormia, causando-lhe
grantes, poderia ter se convertido num s’mbolo das opor- ferimentos atrozes. Diante de tal panorama, alguns clamam
tunidades que, apesar de tudo, o Brasil oferece. De fam’lia contra o Òtrote violentoÓ. ƒ um equ’voco. Como definir onde
pobre, desimportante, chegada h‡ menos de tr•s dŽcadas termina a brincadeira e come•a a viol•ncia? A proibi•‹o tem
ao pa’s, filiada a uma col™nia (a chinesa) mais do que mi- de ser geral e irrestrita. Contra o trote, e ponto. Toler‰ncia
norit‡ria e uma religi‹o (budista) idem, e ainda por cima zero Ð este Ž o remŽdio.
t’mido e desenturmado, mesmo assim conseguiu entrar na Mesmo porque Òtrote violentoÓ Ž redund‰ncia. Todo trote
Faculdade de Medicina da USP, uma das melhores do Brasil. Ž violento. ƒ uma viol•ncia cortar o cabelo, ou pintar o corpo,
Em vez disso, virou s’mbolo da barb‡rie brasileira. O brasi- de quem n‹o quer. Mesmo para quem quer, Ž viol•ncia. Pois,
leirinho Edison, de 22 anos, n‹o passou do primeiro dia de embora talvez n‹o tenha consci•ncia disso, est‡ se subme-
aula. Morreu de trote. tendo a um jogo de domina•‹o que refor•a um dos piores
O caso tem sido noticiado na imprensa. No dia 22 de feve- tra•os da sociedade brasileira. Esta Ž a sociedade, n‹o nos
reiro, primeiro dia de aula, houve, como Ž costume na facul- esque•amos, do Òsabe-com-quem-est‡-falando?Ó. [...] No trote,
dade, trote e churrasco ˆ beira da piscina do centro acad•mi- joga-se o jogo do Òsou superior porque sou veterano e voc•
co. Mais de 200 estudantes compareceram, entre veteranos e calouroÓ. Com isso, refor•am-se os maus instintos numa so-
calouros. No dia seguinte, quando um funcion‡rio foi limpar ciedade j‡ de si antidemocr‡tica e anti-igualit‡ria. E faz-se
a piscina, toda manchada da tinta com que tinham sido pin- isso logo com a juventude.
tados os calouros, descobriu um corpo no fundo. Edison, que Os estudantes universit‡rios costumam alardear ideais
n‹o sabia nadar, n‹o sobrevivera ˆ festa. Era seu, o corpo l‡ democr‡ticos e s‹o loucos por uma passeata contra o poder.
no fundo. Afogamento, diz o laudo do Instituto MŽdico Legal. Quem pratica o trote n‹o tem moral para isso. As faculdades
Como? Por qu•? Homic’dio ou acidente? MistŽrio. Mudez. deviam proibir o trote em qualquer de seus graus e vers›es.
Entre os 200 estudantes presentes, ninguŽm sabia de nada, N‹o faz•-lo Ž abrir m‹o da fun•‹o de educadoras, anterior ˆ
ninguŽm viu. Ou, se soube e viu, n‹o se disp™s a revel‡-lo. de transmissoras de conhecimento. Penas duras deviam ser
O caso Ž intrigante a mais de um t’tulo, um dos quais a previstas para os transgressores. Processos contra as facul-
hip—tese, apavorante, de um pacto de sil•ncio, vers‹o tupi- dades que n‹o o fizerem, e onde venham a ocorrer trotes,
niquim e estudantil da omertˆ mafiosa. Na semana passada devem ser incentivados. Caso algo se mova nessa dire•‹o, em
a promotora Eliana Passarelli, com base no laudo do IML, consequ•ncia do epis—dio do brasileirinho de olhos puxados
disse ter conclu’do que houve homic’dio e amea•ou indiciar que se chamou Edison Tsung Chi Hsueh.... bem, claro que
pelo crime a totalidade dos presentes. O diretor da faculdade, isso Ž pobre consolo, agora que est‡ tudo perdido para ele,
Irineu Velasco, veio por sua vez a campo para afirmar que o mas v‡ l‡ o lugar-comum: caso isso ocorra, seu sacrif’cio ter‡
laudo n‹o conduzia, necessariamente, ˆ tese de homic’dio. servido para alguma coisa.
A meio caminho entre uma promotora talvez apressada na TOLEDO, Roberto Pompeu de. Toler‰ncia zero, o remŽdio para o
condena•‹o e um diretor talvez apressado na absolvi•‹o, trote. Veja. S‹o Paulo: Abril, ano 32, n. 16, 21 abr. 1999. p. 154.

ex traem-se duas premissas e uma conclus‹o. Primeira pre-


Omertˆ: palavra de origem italiana que significa forma de
missa: ninguŽm, n‹o sabendo nadar, e n‹o possu’do por solidariedade entre mafiosos, pela qual se mantŽm sil•ncio sobre um
alguma urg•ncia suicida, se joga numa piscina. Segunda: delito ou suas circunst‰ncias, de modo a impedir a investiga•‹o, a
busca e a puni•‹o do criminoso.
custa imaginar um acidente que passe despercebido num

Sociologia 25
acredita que a entrada na universidade pressup›e
JOsé luis da cOnceiçãO/agência estadO

A
aceitar o ritual do trote?

• Voc• concorda com Roberto Pompeu de Toledo,


quando ele afirma que Òquem pratica o trote não
tem moralÓ para defender Òideais democráticosÓ ou
para participar de Òuma passeata contra o poderÓ?
não há uma única resposta possível. cremos que é importante ouvir os
alunos, pois eles serão muitos dos calouros de amanhã. O mais
importante é que eles notem que a universidade é uma instituição social
que tem características próprias e que, em alguns cursos (como o de
medicina), existe uma tradição de trotes violentos que funcionam como
uma espécie de ritual de passagem, como que para afirmar uma
nova identidade.
eduardO nasciMentO/cOMunicaçãO fuabc

A – Calouros são forçados a participar de trote na Cidade


Universitária, em São Paulo (SP). B – Caloura ajuda na reforma de
uma creche durante trote solidário em Santo André (SP).

ƒ comum que, quando o estudante entre num curso


superior, ele seja vítima de trote. Alguns, como Roberto
Pompeu de Toledo, veem isso como uma tentativa
inaceitável de oprimir os calouros. Outros preferem
considerar uma forma saudável de integração entre
veteranos e calouros. A partir da leitura do artigo ÒTo-
ler‰ncia zero, o remédio contra o troteÓ, escreva uma
carta, para ser publicada no painel de leitores de uma
revista semanal, opinando sobre o trote e identifican-
do-se como um aluno de Ensino Médio que, um dia,
pode ter de enfrentar uma situação desse tipo. Em
sua carta, voc• deve discutir as seguintes quest›es:

• Uma instituição social como a universidade


(principalmente no caso das faculdades de medicina)
deve permitir o trote ou deve proibi-lo?
• Considerando que o trote é uma forma violenta de
coerção social, o que pode acontecer com estudantes
que se recusam a participar dele?
• Muitas vezes, para fazer parte de um grupo, as pessoas
se submetem a todo tipo de constrangimentos. Voc•

26 Sociologia
aulas
7e8
Identidade e alteridade

Para debater
Observe a imagem a seguir.

claude lévi-strauss/Museu du Quai branly, Paris, frança


Adolescente Kadiwéu no oeste de Mato Grosso do Sul, em 1935. Foto tirada durante expediç‹o
de Claude Lévi-Strauss.

Nosso contato com o ÒoutroÓ Ð com o diferente Ð costuma se caracterizar pela curiosidade e pelo espanto. Isso ocorre porque, ge-
ralmente, julgamos a cultura alheia tendo a nossa como refer•ncia, ou seja, como medida do que Ž ÒcertoÓ ou ÒerradoÓ. N‹o nos damos
conta de que, para o outro, o estranho somos n—s.
Pensando nisso, leia o poema a seguir.
Anedota bœlgara
Era uma vez um czar n
naturalista
que ca•ava homens. Anedota: breve narrativa, geralmente
bem-humorada, de um fato cotidiano.
Quando lhe disseram que tambŽm se ca•am borboletas e andorinhas, Czar: líder político soberano,
equivalente a um rei.
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 26.

Por que ser‡ que esse poema nos surpreende tanto? Ser‡ que Ž porque nossa maneira de entender a realidade Ž muito diferente da
do czar? ƒ o que vamos tentar descobrir agora.

Sociologia 27
Assim, Tylor entende que a cultura n‹o depende de quest›es
Um pouco de teoria biol—gicas, pois ela Ž adquirida pelo indiv’duo. No entanto, dentro
de sua concep•‹o universalista de cultura, ele acreditava que, em
condi•›es iguais, o esp’rito humano sempre se comportaria do
Antropologia e cultura mesmo modo. Seus estudos ainda foram importantes porque ele
No sŽculo XIX, na mesma Žpoca em que a Sociologia surgia introduziu o mŽtodo comparativo na pesquisa antropol—gica, mos-
como disciplina das ci•ncias humanas, apareceram pesquisadores trando que s— era poss’vel estudar grupos culturais diferentes com-
interessados pelo modo de vida, pelos costumes, pelas cren•as parando suas caracter’sticas. AlŽm disso, ele combateu a ideia de
de grupos sociais que viviam longe da Europa ocidental. Segundo que havia culturas ÒsuperioresÓ e ÒinferioresÓ, defendendo que cada
esses pesquisadores, para conhecer os seres humanos, n‹o bastava povo contribu’a, a seu modo, para o progresso da humanidade.
estudar a sociedade europeia (considerada, equivocadamente, um Ainda no final do sŽculo XIX, o alem‹o Franz Boas (1858-1942),
todo coeso e uniforme). Era preciso analisar agrupamentos sociais que desenvolveu a maior parte de suas pesquisas nos Estados Unidos,
formados por n‹o europeus, preferencialmente aqueles com h‡bi- a ponto de ter adquirido cidadania estadunidense, acreditava que s—
tos bastante diversos dos de moradores de Paris, Londres, Berlim era poss’vel extrair conclus›es a respeito da cultura de um povo se ela
ou Mil‹o. Assim se deu o nascimento da Antropologia. fosse estudada em detalhes e no pr—prio local em que os membros
Enquanto a Sociologia pode ser definida como Òci•ncia da socie- dessa comunidade viviam. Por isso, ele passou longas temporadas
dadeÓ, a Antropologia Ž a Òci•ncia do ser humanoÓ. Ambas fazem par- entre ind’genas da costa oeste dos Estados Unidos. A partir dessas
te do que podemos chamar, mais amplamente, de Ciências Sociais. expedi•›es, ele come•ou a opor a no•‹o de cultura ˆ no•‹o de Òra•aÓ
Essas duas Òci•nciasÓ est‹o permanentemente ligadas, o que j‡ levou (ainda muito popular no sŽculo XIX), contribuindo para comprovar
alguns a usar apenas o nome genŽrico de ÒSociologiaÓ para design‡-las. Ð como se sabe hoje Ð que n‹o existem liga•›es entre tra•os f’sicos
e tra•os mentais (como se acreditava na Žpoca) e que as diferen•as
Cren•as religiosas, formas de organiza•‹o pol’tica, costumes,
entre os grupos humanos n‹o envolvem caracter’sticas biol—gicas.
manifesta•›es art’sticas, estrutura familiar, idiomas, rela•›es com
outros grupos sociais, tudo isso forma o objeto de estudo do an- Ao mesmo tempo, na Fran•a, alguns pesquisadores, como
trop—logo. E existe um conceito que pode resumir esse objeto de Durkheim e Lucien LŽvy-Bruhl (1857-1939), tambŽm problemati-
estudo: o de cultura. zavam a quest‹o da cultura. Durkheim, embora n‹o usasse muito
esse termo em sua obra, estava interessado em estudar quest›es
Essa palavra, em sua origem usada para designar o processo de
antropol—gicas. LŽvy-Bruhl tambŽm n‹o empregava comumente
Òcultivar a terraÓ Ð da’ a falarmos, por exemplo, em cultura de gr‹os
a palavra ÒculturaÓ (preferindo usar ÒmentalidadeÓ) e se interessava
Ð, foi passando por sucessivas amplia•›es de sentido, atŽ chegar
por analisar as diferen•as de mentalidade entre os povos.
aos significados que conhecemos hoje.
J‡ no sŽculo XX, Bronislaw Malinowski (1884-1942), polon•s
Popularmente, a palavra costuma ser usada com dois sentidos
naturalizado ingl•s, acreditava que a cultura dos povos deveria ser
fundamentais. O dicion‡rio Houaiss, por exemplo, afirma que Òcul-
estudada em seu estado atual, pois seria imposs’vel reconstituir ple-
turaÓ pode designar Òo cabedal de conhecimentos, a ilustra•‹o, o
namente a sua hist—ria. Essa cren•a nascia do fato de Malinowski e
saber de uma pessoaÓ. Assim, quando encontramos uma pessoa
outros adeptos do Funcionalismo defenderem que os antrop—logos
com vasto conhecimento sobre literatura, cinema, artes pl‡sticas,
deveriam estudar o ÒpresenteÓ da cultura dos povos, por meio de
mœsica, filosofia, costumamos dizer que ela tem muita ÒculturaÓ.
pesquisas de campo, estabelecendo as rela•›es que se constroem
O mesmo Houaiss tambŽm diz que a palavra ÒculturaÓ pode se refe-
entre as necessidades b‡sicas do ser humano (alimentar-se, repro-
rir ao Òcomplexo de atividades, institui•›es, padr›es sociais ligados
duzir-se, proteger-se), pois cada um desses elementos tem uma
ˆ cria•‹o e difus‹o das belas-artes, ci•ncias humanas e afinsÓ, o que
fun•‹o espec’fica no seio da cultura.
explicaria, por exemplo, a exist•ncia de um MinistŽrio da Cultura,
que tem como objetivo valorizar essas atividades e institui•›es. Funcionalismo: trata-se de uma tend•ncia surgida dentro da
Antropologia, que demonstrou que cabe etiquetar as sociedades do
planeta, como se o r—tulo ÒatrasadasÓ ou ÒdesenvolvidasÓ as definisse
Defini•›es antropol—gicas de cultura com precis‹o. Foram os funcionalistas que mostraram que as culturas
humanas eram simplesmente diferentes umas das outras e que
qualquer ju’zo de valor que se fizesse poderia encerrar preconceitos.
Embora o objeto de estudo da Antropologia seja a cultura, n‹o Sua inten•‹o era Òestudar sistemas sociais como um todo, a forma
se pode dizer que esse conceito seja estudado apenas por antro- como funcionam, como mudam e as consequ•ncias sociais que
produzemÓ.2 A postura dos antrop—logos funcionalistas era marcada,
p—logos. Mas, nestas aulas, vamos dar aten•‹o, especificamente, a principalmente, pela observa•‹o de dados emp’ricos, embora esses
algumas defini•›es antropol—gicas de cultura. dados nem sempre tenham sido analisados de maneira a constituir
um aparato te—rico mais consistente.
Na segunda metade do sŽculo XIX, o antrop—logo ingl•s Edward
Burnett Tylor (1832-1917), que estava vinculado ao Evolucionismo So- Em meados do sŽculo XX, Claude Lévi-Strauss foi alŽm das pro-
cial, prop›e uma defini•‹o ampla de cultura, procurando abranger a postas de Boas e Malinowski. AlŽm de estudar as culturas particula-
totalidade da vida social. Para ele, a cultura poderia ser definida como
Òum conjunto complexo que inclui o conhecimento, as cren•as, a 1 Apud CUCHE, Denys. A noç‹o de cultura nas ciências sociais. Bauru: Edusc,
2002. p. 35.
arte, a moral, o direito, os costumes e as outras capacidades ou h‡- 2 JOHNSON, Allan G. Dicion‡rio de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
bitos adquiridos pelo ser humano enquanto membro da sociedadeÓ.1 p. 173.

28 Sociologia
res dos v‡rios agrupamentos humanos, ele se preocupou Ð como era Se, do ponto de vista biol—gico, todos os seres humanos s‹o
regra dentro do Estruturalismo Ð em construir um modelo te—rico iguais e pertencem a uma mesma espŽcie, do ponto de vista an-
que permitisse apreender as invariantes, os elementos constantes tropol—gico, cada agrupamento humano tem a sua cultura e as
de cada cultura. Ele acreditava, como explica o antrop—logo Denys suas particularidades. Essa Ž uma das explica•›es para o fato de
Cuche, que Òas culturas particulares n‹o podem ser compreendidas os primeiros antrop—logos, reconhecendo essas diferen•as, terem
sem refer•ncia ˆ Cultura, Ôesse capital comumÕ da humanidade e do resolvido estudar sociedades n‹o europeias, cujas culturas eram
qual elas se alimentam para elaborar seus modelos específicosÓ.3 menos conhecidas e, desse modo, permitiriam maior desenvolvi-
mento das pesquisas que se iniciavam.
Claude LŽvi-Strauss (1908-2009), nascido na BŽlgica, foi um
antrop—logo franc•s vinculado ao Estruturalismo. Considerado Cultura e civiliza•‹o: o etnocentrismo
um dos mais importantes intelectuais do sŽculo XX, foi professor No final do sŽculo XIX, porŽm, os antrop—logos tinham dificuldade
honor‡rio do Coll•ge de France. Ele integrou em 1935 a miss‹o de compreender, de fato, as sociedades n‹o europeias. Por influ•ncia de
francesa que veio ao Brasil na Žpoca da funda•‹o da Universidade tend•ncias evolucionistas, havia uma propens‹o de tomar essas socieda-
de S‹o Paulo (USP) e deu aula de Sociologia na recŽm-criada des como est‡gios menos desenvolvidos do capitalismo, de modo que,
Faculdade de Filosofia, Ci•ncias e Letras da USP atŽ 1939. um dia, elas deixariam de ser sociedades ÒsimplesÓ ou ÒrœsticasÓ, para se
tornarem t‹o ÒcomplexasÓ e ÒsofisticadasÓ quanto a Europa ocidental.
Dentro do universo da Cultura est‡ o que LŽvi-Strauss chama de Era como se o desenvolvimento humano s— se desse em uma dire•‹o.
Òsistemas simb—licosÓ, que incluem, em suas palavras, Òa linguagem, Na verdade, a esta altura, o conceito de cultura se misturava
as regras matrimoniais, as rela•›es econ™micas, a arte, a ci•ncia, a com o de civiliza•‹o. Durkheim, embora n‹o considerasse que havia
religi‹o. Todos esses sistemas buscam exprimir certos aspectos da grupos humanos mais desenvolvidos culturalmente, usou muito
realidade física e da realidade social e, mais ainda, as rela•›es que mais o termo Òciviliza•‹oÓ do que ÒculturaÓ em sua obra.
estes dois tipos de realidade estabelecem entre si e que os pr—prios
sistemas simb—licos estabelecem uns com os outrosÓ.4 Assim, na Europa dos sŽculos XVIII e XIX, desenvolveu-se o eu-
rocentrismo, que era a cren•a de que todo o mundo deveria ser
Para LŽvi-Strauss, o conceito de Cultura se op›e ao de Natureza.
analisado e avaliado de acordo com os valores da Europa ocidental,
O primeiro remete ao est‡gio em que o ser humano organiza a vida
pois o restante do mundo n‹o era ÒcivilizadoÓ. Nascida na Fran•a, essa
social; o segundo, ao material ainda n‹o organizado pela Cultura.
cren•a estava ligada a uma espŽcie de Òmiss‹o salvadoraÓ, por meio da
Nesse sentido, toda sociedade Ð de alguma maneira Ð faz com
qual os europeus pretendiam dominar povos africanos, americanos e
que a Cultura v‡ substituindo a Natureza, uma vez que v‹o sendo
criadas, ao longo do tempo, regras para o ÒbomÓ funcionamento da orientais, buscando desmantelar as culturas desses povos e substituí-
sociedade. Assim, o que diferencia uma cultura da outra n‹o Ž que -las pela vis‹o de mundo europeia. Sobre isso, Denys Cuche afirma:
uma est‡ mais pr—xima da Cultura e outra da Natureza, mas sim A civilização é então definida como um processo de me-
lhoria das instituições, da legislação, da educação. A civili-
o modo pelo qual cada uma estrutura, pela Cultura, a vida social.
zação é um movimento longe de estar acabado, que é preciso
apoiar e que afeta a sociedade como um todo, começando pelo
ÒEscolhasÓ culturais Estado, que deve se liberar de tudo o que é ainda irracional em
seu funcionamento. Finalmente, a civilização pode e deve se
Atualmente, para a Antropologia, o conceito de cultura engloba
estender a todos os povos que compõem a humanidade. Se al-
os padr›es de comportamento, as cren•as e os valores, os conhe- guns povos estão mais avançados que outros nesse movimen-
cimentos e os costumes que caracterizam um grupo social e, alŽm to, se alguns (a França particularmente) estão tão avançados
disso, que fazem com que cada membro de um mesmo grupo inter- que já podem ser considerados como “civilizados”, todos os
prete o mundo de modo mais ou menos parecido. Afinal, a cultura povos, mesmo os mais “selvagens”, têm vocação para entrar no
n‹o est‡ associada apenas a elementos que podem ser considerados mesmo movimento de civilização, e os mais avançados têm o
em sua realidade concreta e material; ela tambŽm remete a formas dever de ajudar os mais atrasados a diminuir essa defasagem.
abstratas de pensamento, aos sistemas simb—licos por meio dos quais CUCHE, Denys. A no•‹o de cultura nas ci•ncias sociais.
Bauru: Edusc, 2002. p. 22.
cada ser humano compreende e avalia tudo o que ocorre a sua volta.
O que diferencia os grupos humanos n‹o Ž a carga genŽtica, O eurocentrismo Ž uma das formas de manifesta•‹o do etnocen-
que Ž sempre a mesma, mas sim as escolhas culturais, que fazem trismo. Proposto pelo antrop—logo estadunidense William Graham
com que cada grupo encontre solu•›es pr—prias para os problemas Summer (1840-1910), esse termo designa a tend•ncia que certos gru-
que surgem. N‹o se pode pensar, no entanto, que essas escolhas pos t•m de acreditar que s‹o socialmente mais importantes do que os
s‹o racionais ou intencionais. Na verdade, elas s‹o resultado do demais. Em sua origem, o etnocentrismo partia da ideia, disseminada
acœmulo de experi•ncias de v‡rias gera•›es e podem alterar-se entre certos grupos, de ser este ou aquele o œnico realmente humano
conforme as necessidades do grupo. ou, pelo menos, o grupo do qual teria sido originada a espŽcie humana.
Daí para a concep•‹o de serem todos os demais grupos inferiores
3 CUCHE, Denys. A no•‹o de cultura nas ci•ncias sociais. Bauru: Edusc, 2002. ou inacabados na evolu•‹o da espŽcie foi s— um passo. Atualmente,
p. 97.
4 Apud CUCHE, Denys. A no•‹o de cultura nas ci•ncias sociais. Bauru: Edusc,
combatem-se as posturas etnoc•ntricas, pois a Antropologia, cada
2002. p. 95. vez mais, opera com a quest‹o da diversidade cultural.

Sociologia 29
A quest‹o da alteridade dade cultural continua, o que explica por que as minorias religiosas,
ƒ por isso que se diz que a Antropologia Ž a ci•ncia da diferen•a, sexuais ou profissionais recebem aten•‹o dos pesquisadores.
da alteridade. Alteridade se op›e a identidade. Ali‡s, o radical alter
significa, em latim, ÒoutroÓ. Portanto, se o ÒeuÓ define a identidade, Maioria e minoria
o ÒoutroÓ caracteriza a alteridade. A rela•‹o entre cada membro Ali‡s, os conceitos de minoria e maioria tambŽm se comple-
de uma mesma cultura Ž de ÒidentidadeÓ; a rela•‹o entre membros xificaram ao longo dos œltimos anos. Seria muito f‡cil definir essas
de culturas diferentes Ž de ÒalteridadeÓ. no•›es de modo numŽrico. Acontece que, ˆs vezes, uma maioria
Muitas vezes, para fazer parte de um grupo social Ð de um numŽrica tem menos for•a do que uma minoria. Veja-se o caso das
Estado, de uma etnia ou de uma religi‹o Ð e, assim, afirmar uma mulheres: embora dados estat’sticos mostrem que h‡ mais mulhe-
identidade, Ž preciso dialogar com a alteridade. Isso porque fazer res do que homens no Brasil, elas ocupam menos cargos pœblicos
parte de uma cultura Ž n‹o fazer de outra. Aos antrop—logos, n‹o e recebem sal‡rios menores do que os homens. Em contrapartida,
cabe somente estudar os conflitos que podem advir da’, mas sim h‡ certas classes profissionais Ð como Ž o caso dos mŽdicos ou dos
analisar as condi•›es em que se estabelecem os la•os de identidade advogados Ð que, apesar de serem minoria numŽrica no mercado
e as rela•›es de alteridade. de trabalho, t•m um enorme prest’gio social, o que significa um
No mundo globalizado, sup›e-se que h‡ uma tend•ncia de alto poder de mobiliza•‹o na defesa dos seus interesses. Outras
uniformiza•‹o de valores e cren•as: a cultura de massas parece profiss›es, estatisticamente mais representativas, n‹o possuem
que iguala todas as pessoas, como se todas devessem pensar do tanta expressividade social.
mesmo modo. Mas isso n‹o Ž verdade. Sob essa aparente padro- Para Durkheim, o comportamento dominante (isto Ž, do grupo
niza•‹o cultural, est‡ o desejo de v‡rios grupos em afirmar suas social de maior prest’gio e for•a, independentemente de se tratar de
identidades: s‹o mulheres, s‹o gays, s‹o negros, s‹o imigrantes maioria numŽrica) pode associar-se ao princ’pio da normalidade.
lutando por espa•o em nossa aldeia global. Para o cŽlebre soci—logo, os fen™menos sociais, assim como os bio-
Talvez a igualdade entre os seres humanos n‹o passe de um l—gicos, dividem-se em dois grandes grupos: os que se repetem e s‹o
sonho, pois sempre h‡ grupos sociais que procuram se distinguir habituais para todo o grupo; e os que s‹o excepcionais, incidindo
dos demais. Se h‡, em algumas esferas, sentimentos de igualdade, sobre uma minoria. Essa an‡lise dos fatos sociais permitiria chegar
em outras prevalecem os de desigualdade. Por isso, a Antropolo- a um Òtipo mŽdioÓ, que nasce da jun•‹o entre esses dois grupos de
gia atual Ž obrigada a conviver com essa situa•‹o complexa, em fen™menos e pode ser definido o mais comum da espŽcie.
que se acredita que todas as culturas humanas s‹o equivalentes ƒ claro que o padr‹o de normalidade Ð o Òtipo mŽdioÓ Ð varia
(e apenas diferentes entre si) e, ao mesmo tempo, sabe-se que de cultura pra cultura. E Ž por isso que, no poema ÒAnedota bœl-
certos grupos buscam uma diferencia•‹o, ou seja, buscam es- garaÓ, com o qual iniciamos estas aulas, o que Ž normal para o Òczar
pa•o no seio da cultura dominante. N‹o Ž tarefa f‡cil resolver naturalistaÓ Ð caçar homens Ð n‹o o Ž para n—s Ð que s— aceitamos
esse problema. que se cacem Òborboletas e andorinhasÓ. De maneira provocativa,
Desde o in’cio, a pesquisa antropol—gica deu mais aten•‹o aos Drummond mostra como culturas diferentes t•m valores diferen-
povos n‹o europeus, ˆs minorias Žtnicas, aos grupos que n‹o fazem tes. Esse tem sido um dos elementos fundamentais das pesquisas
parte da cultura dominante. Atualmente, esse interesse pela alteri- em Antropologia.

exerc’cios
1. Na obra Gestos, de Roger E. Axtell

MarcOs guilherMe
(Rio de Janeiro: Campus, 1994,
p. 63), conta-se que, na Bulgária,
ao contrário da convenção ado-
tada no restante do mundo, ba-
lançar a cabeça de um lado para
outro, horizontalmente, significa
“sim”, enquanto movê-la de cima
para baixo, verticalmente, quer
dizer “não”. Isso teria causado pro-
blemas na comunicação entre os
russos e os búlgaros durante a Se-
gunda Guerra.

30 Sociologia
Com base nessas informa•›es, formule uma hip—tese c) O joalheiro, em sua reflex‹o, revela um preconceito
explicativa para o t’tulo do poema de Drummond ÒAne- cultural e um interesse econ™mico. Explique-os.
dota bœlgaraÓ, usado na se•‹o ÒPara debaterÓ. a referência aos grupos indígenas que usam enfeites de madeira
O poema pretende chamar atenção para as diferenças culturais entre em furos no lábio inferior mostra que o joalheiro não reconhece a
os povos, o que inclui convenções sociais de comunicação, como é alteridade, ou seja, a ideia de que as culturas humanas são diferentes
o caso dos gestos. assim, a referência ao czar “que caçava homens” entre si. talvez ele quisesse vender adereços de ouro ou prata
é uma maneira de mostrar, de modo exagerado, a dificuldade em a esses botocudos, o que sugere que seu preconceito cultural
aceitar valores culturais diferentes daqueles com os quais estamos esconde, na verdade, um interesse econômico.
acostumados. como a bulgária seria um país (veja-se o caso dos
d) Damos o nome de ÒbotoqueÓ a uma pe•a arredon-
gestos com a cabeça) com hábitos bastante diferentes dos nossos, dada de madeira, usada como enfeite por alguns
o título do poema, “anedota búlgara”, remeteria a essas diferenças. grupos ind’genas da AmŽrica do Sul, que a colocam
em furos feitos no l‡bio inferior ou nos l—bulos das
orelhas. Observando as duas imagens a seguir, voc•
diria que esse costume Ž inaceit‡vel para a socieda-
2. O texto a seguir corresponde ao bem-humorado cap’- de ocidental de hoje? Explique sua resposta.
tulo CXIX, intitulado ÒPar•ntesesÓ, das Memórias póstu-

rePrOduçãO/Museu dO hOMeM, Paris

suchOta/shutterstOck/glOW iMages
mas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Leia-o para
responder ao que se pede.
Quero deixar aqui, entre par•nteses, meia dúzia de má-
ximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de
enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:
[...]
Não se compreende que um botocudo fure o beiço
para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é
de um joalheiro.
[...]
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Br‡s Cubas.
Rio de Janeiro: Garnier, 1993. p. 194.

a) Nessa m‡xima, emprega-se uma palavra para fazer


refer•ncia a certos grupos ind’genas brasileiros. Que
palavra Ž essa? as imagens mostram que um hábito típico de indígenas brasileiros
“botocudo”. acabou dando origem a um estilo característico de certos grupos

b) Essa palavra revela uma vis‹o positiva ou negativa de jovens urbanos. de algum modo, esses jovens adotam certa
sobre esses ind’genas? Explique sua resposta. postura transgressora, assumindo – às vezes, sem querer – valores
negativa. esse termo é pejorativo, tanto que pode ser usado, de grupos étnicos que, em alguns casos, ainda são discriminados.
em linguagem informal, de acordo com o Houaiss, para designar com isso, eles exigem que indivíduos mais conservadores sejam
aquele que “é inimigo das boas maneiras, rude, incivil”. obrigados a conviver com a alteridade.

tarefa
culturas cujos padr›es se afastam ou divergem dos da
1. (UEL-PR) O etnocentrismo pode ser definido como uma cultura do observador que exterioriza a atitude etnoc•n-
Òatitude emocionalmente condicionada que leva a con- trica. [...] Preconceito racial, nacionalismo, preconceito
siderar e julgar sociedades culturalmente diversas com de classe ou de profiss‹o, intoler‰ncia religiosa s‹o al-
critŽrios fornecidos pela pr—pria cultura. Assim, com- gumas formas de etnocentrismoÓ. (WILLEMS, E. Dicionário
preende-se a tend•ncia para menosprezar ou odiar de Sociologia. Porto Alegre: Globo, 1970. p. 125.)

Sociologia 31
Com base no texto e nos conhecimentos de sociologia, assinale a alternativa cujo discurso revela uma atitude etnoc•ntrica.
c a) A exist•ncia de culturas subdesenvolvidas relaciona-se ˆ presen•a, em sua forma•‹o, de etnias de tipo incivilizado.
b) Os povos ind’genas possuem um acœmulo de saberes que podem influenciar as formas de conhecimentos ocidentais.
c) Os critérios de julgamento das culturas diferentes devem primar pela toler‰ncia e pela compreens‹o dos valores,
da l—gica e da din‰mica pr—pria a cada uma delas.
d) As culturas podem conviver de forma democrática, dada a inexist•ncia de rela•›es de superioridade e inferioridade
entre elas.
e) O encontro entre diferentes culturas propicia a humaniza•‹o das rela•›es sociais, a partir do aprendizado sobre
as diferentes vis›es de mundo.

2. Observe as tr•s tabelas a seguir e responda ao que se pede.


Tabela I

A pesquisa a seguir foi encomendada pela Confedera•‹o Nacional da Indœstria em agosto de 2001 e comparava a
atua•‹o de homens e mulheres em cargos pœblicos. As perguntas eram: quem é mais honesto, responsável, confiável,
competente, firme e capaz no exerc’cio de cargos pœblicos?

Atuação cargos Honesto Responsável Confável Competente Firme Capaz


públicos % % % % % %
Mulheres 59,8 53,7 51,2 47,5 44,7 42,8

Homens 15,1 23,2 22,3 26,1 35,1 30,0

Os dois 19,5 20,5 22,4 23,3 17,0 24,5

Não sabe/
5,6 2,6 4,1 3,1 3,2 2,7
não respondeu

Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Cartilha da Mulher. Brasília, nov. 2001.

Tabela II Tabela III

Com dados de 2001, a tabela a seguir mostra a porcen- De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, o Brasil, em
tagem de mulheres sobre o total de profissionais, em 2012, apresentava a seguinte propor•‹o de homens e
algumas áreas: mulheres entre os eleitores:

Cargos pol’ticos ............................................................................................ 7% 72.877.463 67.382.594


Tribunais superiores ..................................................................................... 8% eleitores do sexo feminino eleitores do sexo masculino
Presid•ncia de grandes empresas ............................................................... 8%
Disponível em: <www.tse.jus.br/eleicoes/estatisticas/
Cartilha da Mulher. Brasília, nov. 2001. estatisticas-eleicoes-2012>. Acesso em: 7 jul. 2015.

a) De acordo com a pesquisa de opini‹o, cujos resultados est‹o na tabela I, quem se sai melhor atuando em cargos
pœblicos: homens ou mulheres? Justifique sua resposta.
de acordo com a tabela i, o brasileiro acredita que as mulheres são mais honestas, responsáveis, confiáveis, competentes, firmes e capazes do que os
homens, quando ocupam cargos públicos. no caso da honestidade, por exemplo, a mulher é considerada quase quatro vezes mais honesta do que
o homem.

b) Do ponto de vista numérico, as mulheres podem ser consideradas ampla maioria entre os eleitores do pa’s? Justi-
fique com dados estat’sticos.
não. a tabela iii mostra que, em 2012, o número de eleitores do sexo feminino é levemente superior ao de eleitores do sexo
masculino (52% 3 48%), o que praticamente indica igualdade numérica entre homens e mulheres eleitores no país.

32 Sociologia
c) Considerando as tabelas II e III e pensando nos con- Nos quadrinhos, o cartunista faz uma ironia sobre a
ceitos sociológicos de maioria e minoria, como expli- perspectiva adotada pelos “civilizados” em relação aos
car o número tão pequeno de mulheres em posições ameríndios. Por intermédio dessa ironia, Henfil revela
de destaque na sociedade? práticas contumazes dos ditos “civilizados”. Sobre essas
embora as mulheres não sejam minoria do ponto de vista práticas, analise as afirmativas a seguir.
numérico, elas ainda o são no que diz respeito à capacidade de
I. As práticas dos “civilizados” expressam uma pos-
mobilizar-se socialmente, de fazer valer suas reivindicações, de tura de relativismo cultural, pois os aspectos da
exigir o cumprimento dos seus direitos. é claro que isso ainda cultura ameríndia são abordados em seu próprio
é resquício de uma sociedade machista, que impediu – e, em contexto.
muitos casos, ainda impede – as mulheres de ter as mesmas
II. A disposição de assimilar os ameríndios à “civiliza-
oportunidades do que os homens. Mas o fato é que, do ponto ção” é um sinal evidente de negação do direito à
de vista científico, as mulheres são minoria, na medida em que diferença cultural.
seu poder de pressão social ainda é menor do que o dos homens.
III. Os “civilizados” se propõem a estabelecer uma rela-
ção simétrica com a sociedade dos ameríndios.

IV. Os ameríndios são vistos pelos “civilizados” sobretu-


do pela ausência do que é natural para os próprios
civilizados.

Estão corretas apenas as afirmativas:


3. (UEL-PR) Observe os quadrinhos a seguir.
a) I e II.
henfil/acervO ivan cOsenza

b) I e III.

c c) II e IV.
d) I, III, IV.

e) II, III, IV.

4. Durante a segunda metade da década de 1930, o an-


tropólogo Claude Lévi-Strauss viajou pelo país, estudan-
do, in loco, povos indígenas brasileiros. Mais tarde, ele
reuniu parte de suas impressões sobre essas viagens
no livro Tristes trópicos. Em sua opinião, era essencial
que Lévi-Strauss (que nasceu na Bélgica, mas tinha na-
cionalidade francesa), que tinha interesse em estudar
indígenas no Brasil, saísse da Europa e tomasse contato
com os nativos brasileiros? Por quê?
resposta pessoal. nossa expectativa é a de que o aluno perceba
que, para estudar culturas diferentes das nossas, é preciso
conhecê-las de perto. Por métodos etnográficos, o antropólogo
coleta dados que se tornam essenciais para suas análises. não
seria possível, portanto, estudar índios brasileiros sem estar em
contato com eles, o que implica – no caso de um europeu – estar
preparado para o “choque cultural”, de modo semelhante ao
que aconteceu no poema “anedota búlgara” de drummond.

Henfil. Fradim. Rio de Janeiro: Codecri, [197-]. p. 3.

Sociologia 33
5. Leia o texto a seguir. Risco Brasil

Pelo levantamento feito pela National Geographic,


Metade das línguas corre risco de sumir
as l’nguas de povos que vivem em Rond™nia apresen-
Estimativa Ž de levantamento feito por linguistas tam um n’vel de risco muito alto de sumir, enquanto as
americanos; Rond™nia integra uma das cinco regi›es l’nguas faladas por popula•›es ind’genas do Centro-Sul
mais cr’ticas do Brasil est‹o em alto risco. Linguistas que estudam
o problema no pa’s, no entanto, acreditam que a situa-
Projeto financiado pela National Geographic, no •‹o aqui Ž bem pior que a demonstrada por Harrison
entanto, subestimou o nœmero de idiomas nativos sob e Anderson.
alto risco na Amaz™nia
A dupla considera, por exemplo, que o wayor— Ž fa-
Metade das cerca de 7 mil l’nguas faladas hoje em lado por cerca de 80 pessoas em Rond™nia. Segundo
todo o mundo deve sumir atŽ o final do sŽculo, em al- Denny Moore, do Museu Em’lio Goeldi, s‹o menos de
guns casos ˆ velocidade aproximada de uma extin•‹o dez os falantes.
a cada 14 dias. A estimativa catastr—fica Ž resultado de
uma investiga•‹o financiada pela National Geographic Outros povos nem chegaram a figurar entre os de
Society, que apontou as cinco regi›es do planeta onde l’ngua mais amea•ada pelos americanos. Um caso Ž
h‡ mais l’nguas amea•adas de extin•‹o. Um dos hotspots dos canau•, tambŽm de Rond™nia, cuja l’ngua Ž falada
inclui o estado de Rond™nia. por oito pessoas.
GIRARDI, Giovana. Metade das l’nguas corre risco de sumir.
ÒAs l’nguas est‹o passando por uma crise global de Folha de S.Paulo, S‹o Paulo, 20 set. 2007.
extin•‹o, que excede enormemente o ritmo das extin-
•›es de espŽciesÓ, declarou o linguista David Harrison, Em sua opinião, o desaparecimento de um idioma é
do Instituto L’nguas Vivas, na ter•a-feira. grave? Por quê? Qual o prejuízo para a humanidade,
quando isso acontece?
Ele e seu colega Gregory Anderson viajaram pelo
mundo inteiro ao longo de quatro anos para entrevistar é muito grave, pois com a perda de um idioma desaparece toda
e gravar os œltimos falantes de algumas das l’nguas uma cultura, todo um modo de pensar e agir. O pior é que será
mais amea•adas. Ap—s o levantamento (os dados com-
impossível, para as gerações futuras, principalmente quando se
pletos est‹o em www.languagehotspots.org) eles perce-
beram que as regi›es mais cr’ticas s‹o SibŽria oriental, trata de línguas ágrafas, reconstituir os valores dessa cultura.
norte da Austr‡lia, centro da AmŽrica do Sul, Oklahoma
e litoral noroeste do Pac’fico nos EUA e Canad‡. ÒEsta-
mos vendo na frente dos nossos olhos a eros‹o da base
do conhecimento humanoÓ, disse Harrison.

O sumi•o das l’nguas tem ocorrido tanto por morte


das pequenas popula•›es que ainda as falam quanto
pelo simples desuso das l’nguas. Elas n‹o s‹o passa-
das para as novas gera•›es, que falam apenas a l’ngua
mais comum no pa’s, como portugu•s, no Brasil, e toda
a cultura daquele povo acaba ficando restrita aos mais
velhos da tribo. Quando eles morrerem, o conhecimento
dessa popula•‹o morrer‡ junto.

anota•›es
ÒOitenta por cento das espŽcies do mundo ainda n‹o
foram descobertas pela ci•ncia, mas n‹o significa que
elas sejam desconhecidas dos humanosÓ, lembra Harri-
son. Com a perda da l’ngua, diz ele, est‹o sendo jogados
fora sŽculos de descobertas feitas pela humanidade.

O pa’s mais cr’tico Ž a Austr‡lia. Das 231 l’nguas


abor’genes existentes, 153 est‹o em risco muito alto.
No norte do pa’s os pesquisadores acharam um œnico
falante de amurdag, l’ngua j‡ considerada extinta.
ÒEsta Ž provavelmente uma l’ngua que n‹o vai voltar,
mas pelo menos fizemos uma grava•‹o delaÓ, conta
Anderson.

34 Sociologia
leitura complementar
A Guerra de Canudos, como acontecimento hist—rico, costuma to. A vis‹o do Òbando de fan‡ticos seguidores de um louco vi-
ser estudada, nas aulas de Hist—ria, como um dos primeiros desafios sion‡rio que pregava a volta ˆ monarquiaÓ serviu durante muito
da recŽm-instaurada Repœblica no Brasil. Entre as muitas inter- tempo ˆ glorifica•‹o dos Òheroicos militares que sacrificaram a
preta•›es poss’veis para a luta entre os comandados de Ant™nio pr—pria vida na defesa dos ideais republicanos perigosamente
Conselheiro e o exŽrcito republicano, interessa-nos a que considera amea•adosÓ. Um levantamento das condi•›es em que se de-
Canudos um caso de resist•ncia contra a cultura dominante das senvolveram o movimento social e a pr—pria guerra, entretanto,
elites brasileiras do final do sŽculo XIX: revela que o conflito deve suas origens a muito mais fatores do
que ˆs lembran•as retr—gradas da monarquia.
A Guerra de Canudos: um caso de resist•ncia cultural
A observa•‹o das condi•›es de vida nos sert›es do Brasil,
Quando o Tenente Pires Ferreira deu a ordem de fogo contra em fins do sŽculo passado, n‹o pode deixar de enfatizar a pro-
a jagun•ada, no povoado de Uau‡, a 21 de novembro de 1896, funda misŽria em que se debatiam as popula•›es do campo.
seguramente n‹o imaginava estar deflagrando um dos epis—dios Dito assim, de maneira fria, pode parecer um dado insuficien-
mais sangrentos e controvertidos da Hist—ria do Brasil. Estava te para a caracteriza•‹o das causas de um movimento como
iniciada a Guerra de Canudos, na Bahia. o de Canudos. Acrescente-se, no entanto, que a expectativa
Quando a guerra come•ou, o Presidente da Repœblica era o mŽdia de vida da popula•‹o dos sert›es nordestinos, no final
paulista Prudente de Morais. Vivia-se o primeiro governo civil da do sŽculo XIX, pouco passava dos trinta anos de idade. Uma
Repœblica, depois do conturbado per’odo dos marechais Deodo- mŽdia ligeiramente acima da esperan•a de vida dos europeus
ro e Floriano Peixoto. O mercado sentia ainda os efeitos da Crise que viveram o apogeu do feudalismo, dez sŽculos antes. Con-
do Encilhamento. Na Europa, uma crise econ™mica amea•ava venhamos: havia algo errado.
a estabilidade dos pre•os do cafŽ. E, como desgra•a pouca Ž E como Ž que aquela gente costumava reagir a condi•›es
bobagem, os militares florianistas n‹o se conformavam com a t‹o desfavor‡veis de vida? A forma mais comum era a migra•‹o.
perda do poder e o fracasso da industrializa•‹o. O momento Costume, ali‡s, atŽ hoje praticado: abandonar a terra de origem
era um tanto delicado para a consolida•‹o da Repœblica. O pa’s atr‡s de trabalho e felicidade. A virada do sŽculo conheceu
passava por uma transi•‹o entre a Revolta da Armada, de inspi- tambŽm o canga•o. Uma sa’da violenta, normalmente originada
ra•‹o monarquista, e a gesta•‹o da Pol’tica do ÒCafŽ com LeiteÓ. pela disputa de terras, e que resvalou para o banditismo ou para
Mas como seria poss’vel que sertanejos nordestinos, tidos um ÒrobinhoodismoÓ tropical: tirar dos ricos para dividir com
como um bando de fan‡ticos atrasados, sem qualquer arma- os pobres a parca renda dos sert›es. ƒ da Žpoca a origem do
mento moderno ou treinamento militar sofisticado, pudessem bando do Lampi‹o, nos lados de Serra Talhada. Uma terceira
bater-se contra o exŽrcito de uma na•‹o e desafiar os herdeiros rea•‹o contra a misŽria extrema Ž a que nos interessa: a sa’da
dos her—is da Guerra do Paraguai? Seria vi‡vel que aquele Brasil chamada messi‰nica.
arcaico e simpl—rio pudesse vencer o Brasil urbano e voltado A profunda religiosidade do povo do campo, quando com-
para o sŽculo XX? Esta foi uma das quest›es que se colocaram binada com o quadro de misŽria e contraposta ˆ viol•ncia
de imediato para Euclides da Cunha, correspondente do jornal dos ÒcoronŽisÓ, frequentemente tem produzido movimentos
O Estado de S. Paulo, enviado ˆquelas distantes paragens do de car‡ter messi‰nico. Veja-se o caso dos beatos milagreiros
Cocorob—, nos sert›es da Bahia. Bem cedo, no entanto, Euclides que perambulam pelo sert‹o, muitas vezes acompanhados de
se perguntava: o que Ž o arcaico e o que Ž o moderno? seguidores. Da’ vem a tenta•‹o de classificar o Conselheiro
Os sert›es (1902), obra em que Euclides exp›e sua vis‹o sobre como mais um desses beatos, s— que em escala aumentada
o que houve em Canudos, extrapola os limites da guerra movida pelas circunst‰ncias da Hist—ria. Que bom seria se as coisas
contra Ant™nio Conselheiro e seus seguidores, e busca elucidar as fossem t‹o simples...
origens de um fen™meno sociol—gico complexo, que deixou nuas Normalmente, os movimentos messi‰nicos s‹o mobiliza•›es
as contradi•›es da sociedade brasileira. Trata-se de uma reflex‹o populares, de base essencialmente rural, que procuram organizar
cr’tica sobre os graves problemas que impedem o desenvolvimen- popula•›es pobres contra a ordem social vigente, sem, contudo,
to e sobre as for•as sociais que insistem em conservar estruturas recorrer a motiva•›es pol’ticas; seus l’deres optam pela mobili-
de conflito, desde que œteis ˆ realiza•‹o de seus interesses. za•‹o a partir de mensagens religiosas. A refer•ncia a um mundo
Mas a lucidez sociol—gica e o brilho liter‡rio de Euclides n‹o m’stico de fartura e paz Ž constante. O messianismo provŽm
foram fortes para impedir a manipula•‹o de informa•›es que da espera do l’der, do ÒmessiasÓ, realizador do novo mundo. As
condenou a hist—ria da chacina de Canudos a interpreta•›es pessoas esperam, ent‹o, por um elemento externo ao grupo
simplistas e mistificadoras, sen‹o mesmo ao mero esquecimen- que venha ajud‡-las a superar suas dificuldades.

Sociologia 35
A hist—ria do Conselheiro e do Movimento de Canudos D. Sebasti‹o, salvador do povo de Deus. Ele era o messias. Os
contŽm elementos que podem ser considerados messi‰nicos novos tempos j‡ estavam come•ando. Como pensar em voltar
e caracter’sticas que contradizem o conceito cristalizado. Se, atr‡s? Se a República movia suas for•as contra seu l’der e seu
por um lado, a organiza•‹o do arraial passa necessariamente Belo Monte dos Canudos, a República era o mal. E seus militares
pela religiosidade mobilizadora da popula•‹o sertaneja, o l’der eram os agentes do fim do mundo. Havia que resistir.
n‹o pode ser considerado exatamente um elemento externo Se esse racioc’nio j‡ era, por si s—, dif’cil de ser aceito pelo
ao grupo social. O ÒmessiasÓ n‹o parecia esperado; ele estava meio urbano burgu•s, imagine-se nos meios militares florianis-
materializado na figura do l’der teocr‡tico em que se constituiu tas jacobinos, que sonhavam cegamente com a retomada do
o Conselheiro. Como se pode ver, a compreens‹o do problema poder. Tentaram usar Canudos contra o governo Prudente e
Ž complexa. foram usados para a gl—ria dos republicanos paulistas. O Flo-
Mas por que Ant™nio Conselheiro tornou-se t‹o perigoso, a rianismo morreu em Canudos junto com Ant™nio Conselheiro.
ponto de os coronŽis moverem os canh›es da República contra Os grandes vencedores n‹o foram ˆ guerra; mas gozaram dos
seus seguidores e a Igreja fechar os olhos ao genoc’dio? N‹o frutos de sua vit—ria nos luxuosos sal›es de ch‡ da República,
parece que Ant™nio Vicente Mendes Maciel tenha sido um regada a cafŽ com leite.
simples beato pregador, nem tampouco o fan‡tico enlouque-
cido defensor da volta ˆ monarquia, a partir do núcleo do Belo Em sua opini‹o e com base nos seus conhecimentos
Monte, em Canudos. hist—ricos, voc• acredita que Canudos poderia repre-
AtŽ que ponto o Movimento de Canudos amea•ava o sta- sentar uma amea•a sŽria ˆ ordem política da Repœblica
tus quo da sociedade nordestina Ž uma quest‹o dif’cil de res- brasileira? Explique seu ponto de vista.
ponder. ƒ ponto pac’fico que n‹o agrada ˆs elites dominantes a resposta esperada é “não”, apesar da resistência armada dos
qualquer mobiliza•‹o popular fora de seu controle. Mas n‹o
comandados por antônio conselheiro, que não queriam e não poderiam
consta que as prega•›es do Conselheiro tenham chegado ˆ
tomar o poder político no brasil. na verdade, sua luta foi muito mais
defesa da luta armada contra o Estado pela restaura•‹o da
monarquia no Brasil. Com exce•‹o de pequenos conflitos com um caso exemplar de resistência cultural baseada no fenômeno do
a pol’cia por causa de impostos cobrados dos sertanejos e messianismo, bastante comum nas sociedades latino-americanas.
das querelas com os bispos da Bahia, o movimento pode ser esse caso ilustra as variantes da reação popular sertaneja à dominação
classificado como pac’fico. Principalmente ap—s a fixa•‹o do e à exploração de classe e, ainda, a atitude repressora do estado
grupo nas baixadas do Vaza Barris e nos morros onde crescia brasileiro, na passagem da monarquia para a república. entendendo
a favela, uma pequena ‡rvore que fornece boa madeira para
por messianismo um movimento popular, normalmente rural, que
a marcenaria. Por que a sociedade dominada pelos coronŽis
latifundi‡rios n‹o podia admitir que aquela comunidade vi- organiza uma população contra a ordem social vigente por meio de

vesse pacificamente sua vida? mensagens essencialmente religiosas, podemos dizer que as migrações

O car‡ter pac’fico do movimento n‹o esvazia sua contes- e as mobilizações pela violência, como o cangaço nordestino, o
ta•‹o aos costumes estabelecidos. Das prega•›es de um beato messianismo foi, no brasil, uma das formas de resistência aos quadros
que poderia ter sido apenas mais um dentre tantos, nasceu de miséria e opressão social.
um l’der pol’tico. Mesmo que seu discurso n‹o fosse essencial-
mente pol’tico, sua a•‹o organizat—ria foi. Surgiu assim uma
lideran•a estranha ao jogo pol’tico das oligarquias. Havia que
ser absorvida ou destru’da. A lideran•a do Conselheiro n‹o se
apresentava como democr‡tica, j‡ que sua palavra era recebida
e assimilada pelo grupo como a do chefe escolhido pelo destino
e aceito pelos eleitos para a constru•‹o do mundo novo, sem
explora•‹o. S— ele poderia conduzir o povo eleito ˆ terra pro-
metida, em que Òo sert‹o seria mar e jorraria o leite das serrasÓ,
visto que s— ele j‡ havia conseguido arranc‡-los do dom’nio dos
coronŽis e apontado o caminho para o fim do mundo da misŽria
e do mandonismo dos senhores. Nos limites daquela cultura,
a figura do Conselheiro parecia se confundir com a do pr—prio

36 Sociologia
aulas
9 e 10
Estratificação social

Para debater
Observe a imagem a seguir.
kevin hellOn/shutterstOck/glOW iMages

Loja de marca de luxo na Tailândia.

A relação entre ter e poder sempre marcou a história das sociedades. Mas, sem dúvida, ela nunca foi tão valorizada – ou reforçada
– quanto no mundo capitalista, que utiliza inúmeros meios – dentre eles a publicidade – para nos vender seus símbolos de poder. Mas
até que ponto o que temos determina aquilo que somos ou podemos vir a ser?
O trecho a seguir trata desse assunto. Leia-o com atenção.
No dia em que Florentino Ariza viu Fermina Daza no adro da catedral, grávida de seis meses e com pleno domínio de sua
nova condição de mulher do mundo, tomou a decisão feroz de ganhar nome e fortuna para merecê-la. Sequer perdeu tempo
em pensar no inconveniente de ela ser casada, porque ao mesmo tempo resolveu, como se dependesse dele, que o doutor
Juvenal Urbino tinha que morrer. Não sabia quando nem como, mas estabeleceu como inelutável o acontecimento, que estava
resolvido a esperar sem pressas nem arrebatamentos, ainda que fosse até o fim dos séculos.
MÁRQUEZ, Gabriel García. O amor nos tempos do c—lera. Rio de Janeiro: Record, 1985.

Para conquistar Fermina Daza, Florentino Ariza toma “a decisão feroz de ganhar nome e fortuna para merecê-la”. A pergunta é: “nome”
e “fortuna” são essenciais em nossas relações sociais, incluindo o casamento? Qual é a origem desse tipo de pensamento?

Sociologia 37
que procurou reunir os v‡rios campos de estudo das ci•ncias sociais
Um pouco de teoria em suas obras, acreditava que as pessoas poderiam ser classifica-
das segundo os valores que escolhem para suas ações sociais. Essa
vis‹o foi criticada por outros pensadores, como o franc•s Alain
Trabalho e dominação Touraine (1925-), que julgava ser esse um critŽrio muito subjetivo
Na hist—ria da humanidade, desde que os primeiros agrupamen- de classificaç‹o, o que comprometeria o rigor cient’fico da an‡lise.
tos se formaram, sempre houve a tend•ncia de que os membros De fato, muitos pesquisadores procuram estabelecer critŽrios ob-
de uma mesma sociedade se dividissem em grupos, cada um com jetivos para a definiç‹o das camadas em que se divide a sociedade
sua funç‹o, seus direitos e seus deveres. Greg‡rio por natureza e contempor‰nea. É muito comum vermos classificações propostas a
por necessidade, o ser humano foi organizando o trabalho coletivo partir da renda de que dispõem os seus componentes. Surgem, ent‹o,
para produzir os bens indispens‡veis ˆ sua sobreviv•ncia. an‡lises com tr•s, cinco ou mais est‡gios entre os mais ricos e os mais
Nas sociedades tribais, podemos pensar na divis‹o sexual e et‡- pobres do meio social. O problema Ž que o que pode ser considerada
ria do trabalho. Existiam tarefas t’picas dos homens e tarefas t’picas Òclasse mŽdiaÓ para uns pode n‹o ser para outros analistas da mesma
das mulheres, ocupações mais comuns aos jovens e ocupações sociedade. AlŽm disso, h‡ a dificuldade de comparar, por exemplo, a
mais comuns aos idosos. No mundo capitalista, existe uma divis‹o estratificaç‹o social em lugares em que o custo de vida Ž diferente. É
que chamamos de divis‹o social do trabalho, o que envolve, por mais caro, por exemplo, viver nos centros urbanos do que no meio rural.
exemplo, aquele que faz o trabalho (o oper‡rio ou o campon•s) e Sem abrir m‹o do critŽrio da renda, h‡ pesquisadores que pro-
aquele que o administra (o gerente ou o feitor). curam acrescentar outros dados ˆ classificaç‹o: posse de im—veis,
De um lado, essa divis‹o permitiu que os grupos humanos se autom—veis, aparelhos domŽsticos b‡sicos e sofisticados, n’veis de
desenvolvessem, otimizando a realizaç‹o de tarefas, mas, por ou- consumo, prefer•ncias de lazer. Tais classificações podem ser v‡lidas
tro, contribuiu para gerar desigualdades, pois nem todas as tarefas e œteis em pesquisas de mercado, encomendadas por empresas
eram valorizadas da mesma forma. Assim, aqueles que trabalham que pretendem lançar um novo cosmŽtico ou saber que serviços
começaram a ser diferenciados pela natureza de sua ocupaç‹o, o banc‡rios os clientes desejam. Mas elas falham na an‡lise de pro-
que ajudou a dar origem a relações de dominaç‹o e exploraç‹o. cessos hist—ricos mais amplos ou de lutas pol’ticas, uma vez que
Isso foi a base do que chamamos de estratificação social. n‹o consideram que existem variações regionais e culturais, que h‡
valores e costumes distintos que impedem que todos os grupos
sociais sejam compreendidos por meio de critŽrios t‹o simplistas.
Estratificação social e Entre os pensadores cl‡ssicos da Sociologia, Max Weber e Karl
desigualdade social Marx se debruçaram, cada um a seu modo, sobre a quest‹o da
Considerando um estrato, em sentido genŽrico, como um con- estratificaç‹o social. Suas posições nos ajudam a entender um dos
junto de indiv’duos com caracter’sticas sociais parecidas, pratica- conceitos mais complexos da Sociologia: o de classes sociais.
mente todos os agrupamentos humanos mais amplos do que as
sociedades tribais conhecem algum tipo de estratificaç‹o. Marx: uma introdução à luta de classes
Estratificação é o processo social através do qual van-
tagens e recursos tais como riqueza, poder e prestígio são
Karl Marx Ž um dos mais importantes estudiosos da sociedade
distribuídos sistemática e desigualmente nas ou entre as capitalista industrial. Em seus trabalhos, ele tratou insistentemente
sociedades. A estratificação difere da simples desigualda- da quest‹o das classes sociais, mostrando as diferenças entre o
de porque é sistemática. [...] Teoricamente, uma sociedade grupo que detinha os meios de produç‹o (os capitalistas ou in-
pode ter desigualdades sem ser estratificada, por exemplo, dustriais) e o grupo que vendia sua força de trabalho (os oper‡rios
concedendo oportunidades iguais a todos, mas distribuindo ou camponeses). A relaç‹o entre esses grupos era de exploraç‹o
as recompensas na base do desempenho.1 destes por aqueles, o que dava origem ˆ luta de classes.
Assim, as desigualdades sociais, Žtnicas, religiosas e sexuais po-
dem gerar v‡rias formas de estratificaç‹o, que dariam origem a Karl Marx (1818-1883) foi um intelectual alem‹o, cujos tra-
categorias ÒsuperioresÓ e ÒinferioresÓ. Isso porque a divis‹o dos seres balhos interessam ˆ Filosofia, ˆ Pol’tica, ˆ Economia, ˆ Hist—ria, ˆ
humanos em estratos, em camadas, em pequenos grupos acaba Sociologia. Sua obra tem uma parte mais anal’tica, que aborda
sendo uma maneira de hierarquiz‡-los. criticamente o capitalismo industrial do sŽculo XIX, e uma mais
Um dos grandes desafios da Sociologia moderna Ž compreen- pragm‡tica, voltada para a transformaç‹o da ordem social, que
der como se d‡ essa estratificaç‹o, procurando estabelecer critŽrios originou a doutrina comunista. Entre suas publicações mais re-
para definir por que um indiv’duo pertence a uma camada e n‹o a levantes, est‹o O manifesto comunista (1848), em parceria com
outra. O estadunidense Talcott Parsons (1902-1979), por exemplo, Friedrich Engels, e O capital (1867), reuni‹o dos estudos de Eco-
nomia Pol’tica de Marx, que n‹o chegaram a ser conclu’dos.
1 JOHNSON, Allan G. Dicion‡rio de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. p. 94.

38 Sociologia
Embora Marx tenha abordado sistematicamente o problema nado campo de atividade. Assim, participar de um estamento é,
da estratificação social – sobretudo na perspectiva econômica –, para Weber, uma espécie de honraria.
ele não chegou a definir com precisão o conceito de classe social. Essa honraria pode estar relacionada com qualquer qua-
Parece que, na época em que morreu, ele estava trabalhando numa lidade partilhada por uma pluralidade de indivíduos [...].
definição de “classe social” num manuscrito que foi, posteriormente,
No conteúdo, a honra estamental é expressa normalmente
publicado como parte de O capital. Como ele não chega a elaborar pelo fato de que, acima de tudo, um estilo de vida especí-
essa definição, precisamos reconstruir o conceito a partir dos muitos fico pode ser esperado de todos os que desejam pertencer
trechos em que Marx o utiliza em sua obra. ao círculo. Ligadas a essa expectativa existem restrições ao
Podemos então dizer que, para Marx, uma classe social é um relacionamento “social”.3
conjunto amplo de pessoas que compartilham os meios pelos quais Entidades de organização profissional, clubes ou igrejas podem
elas ganham a vida. ser estamentos, o que mostra que um estamento pode incluir
pessoas de classes diferentes. Da mesma forma, no plano político,
Weber e os critérios de estratificação um partido pode ou não ser a representação de uma classe ou de
um estamento. Suas ações “sempre significam uma socialização,
social
pois tais ações voltam-se sempre para uma meta que se procura
Max Weber foi bastante influenciado pelas ideias de Marx no atingir de forma planificada. A meta pode ser uma ‘causa’ (o partido
que diz respeito à estratificação social. Ele também acreditava que pode visar à realização de um programa de propósitos ideais ou
a sociedade se caracterizava por lutas, por disputas, por conflitos materiais), ou a meta pode ser ‘pessoal’ ( sinecuras , poder e, daí,
envolvendo poder e recursos econômicos. Mas, enquanto Marx honras para o líder e os seguidores do partido)”.4
trabalhava com relações polarizadas de classe, com base em um
critério essencialmente econômico, Weber vai um pouco além Sinecura: cargo que rende um bom
salário e exige pouco trabalho.
e propõe três dimensões para compreender a estrutura social: a
ordem econ™mica, a ordem social e a ordem pol’tica.
É bom ressaltar que a noção de partido em Weber é mais ampla
do que a ideia que temos hoje de partidos políticos, que estuda-
Max Weber (1864-1920), intelectual alemão, é considerado remos mais adiante.
um dos fundadores da Sociologia moderna. Opôs-se à assimila-
ção das ciências sociais aos quadros teóricos das ciências natu-
rais, definindo o objeto da Sociologia como, fundamentalmente, Consciência de classe e consciência
a compreensão das relações de sentido da ação humana. Em de estamento
outras palavras, para Weber, o conhecimento de um fenômeno
Historicamente, a sociedade estamental existiu, por exemplo,
social dependeria do conteúdo simbólico da ação ou das ações
na Baixa Idade Média, durante a época feudal, quando vassalos e
que o configuram. Suas principais obras são A ética protestante
suseranos tinham direitos e deveres bem distintos e delimitados.
e o espírito do capitalismo (1904-1905) e Economia e sociedade
Nesse caso, as desigualdades sociais se sobrepunham às desigualda-
(publicada postumamente, em 1922).
des estamentais. Já na Idade Moderna, nas monarquias absolutistas,
havia dois outros estamentos – o clero e a nobreza –, que não
A ordem econômica dividiria a sociedade em classes; a ordem apresentavam diferenças substanciais de ordem social, mas tinham
social, em status ou estamentos; e a ordem política, em partidos. A seus rituais e seus privilégios específicos.
partir desse ponto de vista, em cada sociedade não haveria apenas No Brasil de hoje, ainda podemos identificar grupos sociais
uma estratificação, mas várias superpostas. Assim, para Weber, mais ou menos fechados, como algumas colônias de imigrantes
podemos falar em classe apenas quando “1) certo número de pes- japoneses, judeus, eslavos ou comunidades populares negras e
soas tem em comum um componente causal específico em suas mestiças. Como os membros desses grupos costumam adotar
oportunidades de vida, e na medida em que 2) esse componente certas expressões linguísticas e certas vestimentas para se dis-
é representado exclusivamente pelos interesses econômicos da tinguir dos outros, além de consumir os mesmos bens e, em
posse de bens e oportunidades de renda [...]”.2 alguns casos, limitar as relações sociais (como o casamento)
Desse modo, pessoas estariam na mesma situação de classe aos integrantes do próprio grupo, estaríamos diante de um
quando suas capacidades de consumo, seu poder de dispor de caso moderno de estamento. Fazer parte desse status geraria
bens e seus rendimentos financeiros são semelhantes. as honrarias, os níveis de prestígio e o que Weber chama de
No caso dos estamentos, o que está em jogo é o prestígio social “sentimento de dignidade”.
de um grupo de indivíduos e seu poder de influência em determi-
3 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2010. p. 131.
2 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2010. p. 127. 4 Idem, p. 136.

Sociologia 39
Esta leitura que Weber faz da realidade social nos leva à dife- adotam estilos de vida e convenções coletivas impostas a todos os
rença entre consci•ncia de classe e consci•ncia de estamento. seus membros. Quase sempre, há a obrigatoriedade dos matrimô-
A questão da consciência que os indivíduos podem adquirir de nios endogâmicos, o que significa que os casamentos só podem
sua condição de classe será mais bem tratada pelos teóricos mar- ocorrer entre elementos do mesmo estamento. Não há mobili-
xistas; Weber preocupa-se mais com a consciência de status, que dade nenhuma entre as castas. São grupos fechados, delimitados
sempre estaria presente nos membros do estamento. Os militares hereditariamente.
ou religiosos, por exemplo, veem-se como detentores de prestígio Isso ocorre de tal modo que todo contato físico com um
e honra, que os distingue dos civis ou leigos. Têm orgulho disso e membro de uma casta considerada “inferior” pelos membros
criam rituais para reforçar a consciência de seu status. de uma casta considerada “superior” é considerado como uma
Weber usa dois termos interessantes para definir a consciência impureza ritualística e um estigma que deve ser expiado por
de estamento: “distância” e “exclusividade”. Distância porque seus um ato religioso.5
membros procuram distinguir-se dos demais indivíduos e, prin- Weber acredita que as castas só chegam a esse estágio quando
cipalmente, dos integrantes de outros estamentos. Exclusividade a diferença entre os estamentos é de ordem “étnica”. Atualmente,
porque existem vantagens, privilégios, direitos a que só os membros são cada vez mais raras sociedades de castas. O exemplo mais
do estamento têm acesso. acabado desse tipo de rigorosa estratificação que conhecemos é
o da sociedade indiana. Embora o sistema de castas na Índia tenha
Sociedade de castas sido oficialmente abolido pela Constituição do país, na prática ele
As distinções estamentais incluem, na maior parte das vezes, ainda está em voga.
convenções, costumes e rituais, como os da cavalaria medieval ou Nesse sistema, tudo é definido pela linhagem hereditária. Os
da maçonaria, que geram a distância e a exclusividade. Sociedades casamentos são endogâmicos, e frequentemente se admite o ca-
da Antiguidade e da Europa medieval conheceram estratificações samento de um homem com várias mulheres, desde que per-
em estamentos muito rígidas, que apontavam para o fechamento tencentes à mesma casta. A rigidez de comportamento exigida
étnico ou religioso da comunidade. implica regras de comensalismo: a casta determina que alimentos
Retomando a questão do etnocentrismo, podemos lembrar que seus membros podem ou devem ingerir e com quem é permitido
não raras vezes o fechamento do estamento pode gerar a concep- ou proibido comer certos alimentos. Tudo é ritualizado: há regras
ção de um “povo escolhido pelos deuses”, como se se tratasse de sobre as pessoas com quem se pode fumar e até mesmo sobre
uma etnia superior, que deveria cumprir uma missão na terra. De quem pode ser o barbeiro dos membros da casta.
algum modo, é essa crença que ajuda a produzir o racismo, en- Na Índia, os brâmanes hindus foram uma casta superior em
tendido como a postura de discriminação de indivíduos ou grupos relação aos xátrias e vaixás, castas intermediárias, e aos sudras e
considerados “inferiores”. párias, inferiores. Qualquer contato físico é proibido entre essas
Weber mostra que o fechamento completo do estamento castas, sob pena de castigos, pois os brâmanes são considerados
pode evoluir para uma casta. Nesse caso, os integrantes do grupo “limpos” e os párias, “imundos”.

exercícios
1. Observe a tirinha a seguir. rePrOduçãO/vestibular unesP 2010

Ciça. Pagando o pato. Porto Alegre: L&PM, 2006.

Em Hamlet, uma das mais conhecidas peças de teatro do escritor inglês William Shakespeare (1564-1616), está a má-
xima “Ser ou não ser: eis a questão”. Na tirinha, o pato resolve “atualizar” a frase, substituindo o ser pelo ter.

5 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2010. p. 132.

40 Sociologia
De fato, no mundo em que vivemos, h‡ uma rela•‹o consumi-los ou acirra as desigualdades? Justifique
muito forte entre o que uma pessoa possui (seus bens) sua resposta.
e o poder que ela detŽm. Essa rela•‹o entre ter e poder imaginamos que as duas respostas vão surgir: cremos que haverá
sempre marcou a hist—ria das sociedades, mas, sem
um pequeno número de alunos que defenderá que a publicidade de
dœvida, ela Ž mais pronunciada no mundo capitalista,
em que a publicidade se vale de todas as estratŽgias artigos de luxo pode ser um incentivo às pessoas ganharem mais
para vender seus s’mbolos de luxo e poder. dinheiro e, assim, poderem adquirir esses produtos; acreditamos, porém,
que a maioria dos estudantes dirá que esse mercado do luxo acirra as
Considerando a tirinha de Ci•a, os indiv’duos atualmen-
te seriam mais valorizados pelo seu poder de consumo desigualdades socioeconômicas, dá força a um consumismo exa-
ou pelas qualidades pessoais? Explique sua resposta, cerbado e impulsiona a crença de que os bens materiais de alguém
dizendo se voc• concorda ou n‹o com a mensagem é que determinam a importância dessa pessoa na sociedade.
da cartunista.
3. Com base no fragmento de Gabriel Garc’a M‡rquez,
Quando o pato “atualiza” a máxima shakespeariana, trocando transcrito na se•‹o ÒPara debaterÓ, voc• concorda com
o ser (que pode remeter às qualidades pessoais) pelo ter a ideia de que ÒnomeÓ e ÒfortunaÓ s‹o realmente essen-
(que indica a posse de bens materiais), fica claro que a tirinha ciais em nossas rela•›es sociais? Qual a origem desse
tipo de pensamento? Explique sua resposta.
defende a ideia de que, atualmente, as pessoas são tão mais
valorizadas quanto mais poder de consumo elas têm. Parece-nos numa sociedade que valoriza o poder de consumo das pessoas, em

que os alunos devem concordar com isso. que há desigualdades sociais, em que as pessoas são estratificadas de
acordo com inúmeros critérios, ter “nome” (o que equivale a pertencer
a certas famílias, nas sociedades mais tradicionais, ou simplesmente
ter prestígio social, em agrupamentos menos conservadores) e “fortuna”
2. Em sua opini‹o, a publicidade de artigos de luxo Ž
positiva ou negativa para a sociedade? Esse tipo de (o que significa ter a posse de bens materiais e poder de compra)
anœncio incentiva as pessoas a ganhar dinheiro para é uma maneira de os indivíduos se valorizarem. Quando florentino
ariza acredita que, para merecer fermina, ele precisa de tudo isso,
ele se mostra influenciado por valores típicos do mundo capitalista.

tarefa

1. (UEL-PR) Contardo Calligaris publicou um artigo em c) A titula•‹o acad•mica objetiva a intimida•‹o social
que aborda a pr‡tica social brasileira de denominar e a demarca•‹o de hierarquias que culminem em
como doutores os indiv’duos pertencentes a algumas uma sociedade de castas.
profiss›es, entre eles mŽdicos, engenheiros e advo- d) A intimida•‹o social perante os subalternos expressa
gados, mesmo na aus•ncia da titula•‹o acad•mica. a materializa•‹o das castas nas sociedades moder-
Segundo o autor, estes mesmos profissionais n‹o se nas ocidentais.
apresentam como doutores no encontro com seus pa-
e) Nas sociedades modernas ocidentais, a diversidade
res, mas apenas diante de indiv’duos de segmentos
das origens, das fun•›es sociais e das condi•›es eco-
sociais considerados subalternos, o que indica uma
n™micas s‹o critŽrios anacr™nicos de estratifica•‹o.
tentativa de intimida•‹o social, servindo para estabe-
lecer uma dist‰ncia social, lembrando a sociedade de 2. A reportagem a seguir foi extra’da de uma matŽria intitu-
castas. A quest‹o levantada por Contardo Calligaris lada ÒDa cabe•a aos pŽsÓ, publicada na revista semanal
aborda aspectos relacionados ˆ estratifica•‹o social, de informa•‹o Carta Capital, em dezembro de 2003. Ela
estudada, entre outros, pelo soci—logo alem‹o Max trata das desigualdades socioecon™micas no Brasil.
Weber. De acordo com as ideias weberianas sobre o Uma parceria entre a Indústria São Paulo Alpargatas
tema, Ž correto afirmar: e a joalheria H. Stern eleva as sandálias Havaianas à con-
dição de o mais recente símbolo do abismo que separa – e
c a) As sociedades ocidentais modernas produzem uma
delimita – as duas porções do Brasil. O mesmo solado que
estratifica•‹o social multidimensional, articulando
protege os pés do paulistano Sérgio Aparecido dos Santos,
critŽrios de renda, status e poder.
o “Gordo”, de 35 anos, vida ganha, quando há trabalho, na
b) MŽdicos, engenheiros e advogados s‹o designados carga e descarga de caminhões, será a plataforma sobre
como doutores porque suas profiss›es beneficiam a qual se equilibrarão senhoras e senhoritas que dispo-
mais a sociedade que as demais. nham do suficiente para pisar sobre ouro e diamantes.

Sociologia 41
“Gordo” ganha entre R$ 350 e R$ 400 por mês. Pelo salões de beleza no Brasil – em Nova York, por exemplo,
exemplar das legítimas, já surrado, pagou R$ 7. Mas se não é costume tirar cutícula nem retirar o excesso de es-
quisesse presentear uma namorada com um dos três no- malte com palito. Manicures, massagistas, depiladoras e
vos modelos de Havaianas, lançados em grande estilo na motoristas dos sonhos no exterior, no entanto, existem.
quarta-feira 26, na H. Stern dos Jardins, em São Paulo, O nome deles não está listado em sites de busca nem em
teria de economizar toda a sua renda por quase 13 anos. guias de viagem, mas recheia as agendas de exigentes
A versão mais sofisticada da joia pisante, com 1.532 pe- brasileiros que viajam com frequência. [...]
nas de ouro e 414 pedras de diamante incrustadas nas No extremo da cadeia de conexões encontram-se
tiras, custa R$ 58,5 mil – o suficiente para comprar um figuras como a publicitária paulistana Ana Carmem
apartamento novo de dois dormitórios na periferia de Longobardi, que, nas temporadas em Nova York, sem-
São Paulo ou 11.700 pares de Havaianas tradicionais. pre sentiu necessidade de fazer as unhas à brasileira. A
Carta Capital, dez. 2003. solução veio nove anos atrás, quando encontrou o salão
Maria Bonita, no SoHo. “Os funcionários falam portu-
O objetivo inicial de uma reportagem jornalística é trans-
guês, por isso me sinto em casa”, diz. Colecionadora de
mitir uma informação. No caso desta, a finalidade pare - arte, ex-executiva de uma grande agência, Ana conhece
ce ser a de anunciar uma parceria entre a Indústria São Deus e o mundo em círculos de alto poder aquisitivo em
Paulo Alpargatas, que fabrica as sand‡lias Havaianas, São Paulo e Nova York.
e a tradicional joalheria H. Stern. Por meio da história
Disponível em: <http://vejasp.abril.com.br/materia/agenda-de-poder/>.
dos chinelos que se tornam joias, a reportagem acaba Acesso em: 9 jul. 2015.
tratando da estratificação social no Brasil, mostrando
Nessa reportagem, existe a preocupação de mostrar a
o “abismo que separa – e delimita – as duas porções
estratificação social no Brasil? A revista pretende, como
do Brasil”.
a Carta Capital, tratar “do abismo que separa – e de-
Quais são as classes sociais representadas na reporta- limita – as duas porções do Brasil”? As orientações da-
gem? Como elas aparecem no texto? A revista procura das pela reportagem são úteis ˆ maioria da população
tratar delas de maneira neutra? A linguagem usada brasileira? A linguagem usada pelo jornalista demonstra
pelo jornalista é mais séria ou adota recursos de humor? proximidade com que classe social?
O texto apresenta dois grupos de personagens: “sérgio aparecido dos a reportagem da edição especial de Veja parece não ter preocupação
santos, o ‘gordo’”, representando os trabalhadores que dificilmente nenhuma com as desigualdades sociais brasileiras. usando gírias comuns
poderão um dia comprar havaianas de ouro e diamantes; e as “senhoras em rodas informais da alta sociedade, como “perrengue” e “deus e
e senhoritas que disponham do suficiente para pisar sobre ouro e o mundo”, a reportagem fala principalmente sobre as dificuldades de
diamantes”. O texto não se preocupa em manter a imparcialidade. encontrar serviços de beleza à brasileira no exterior. trata-se de um
O jornalista está muito mais próximo, no plano das ideias, do “gordo”. assunto absolutamente desimportante para a grande maioria dos
em primeiro lugar, porque os detalhes numéricos do texto comprovam brasileiros, que provavelmente nunca precisaram ou vão precisar com
o abismo que há entre pobres e ricos, funcionando como uma denúncia
urgência de “uma manicure na europa ou nos estados unidos”.
das desigualdades sociais. em segundo, porque são usadas expressões
ao mostrar intimidade com as dificuldades das pessoas de alto poder
bem-humoradas, que satirizam a alta sociedade, como “pisar sobre ouro
aquisitivo, a revista ignora a existência de outras classes sociais no brasil.
e diamantes” (que desqualifica os ricos, pois o uso do verbo “pisar” sugere
que eles se colocam ou se sentem “acima” de tudo) e “joia pisante” (que
é uma expressão sarcástica, que satiriza seus possíveis compradores).
Instruções para as questões 4 a 6

3. Em agosto de 2012, a revista Veja lançou uma edição A reportagem a seguir, intitulada “A vitória de um in-
especial, intitulada “Luxo”. Em uma das reportagens, toc‡vel na êndia”, foi publicada em 2007 no jornal O
intitulada “Agenda de poder”, a revista dava dicas de Estado de S. Paulo e narra a história do indiano Hari
como encontrar motoristas, manicures, massagistas, Pippal, que, embora membro da casta mais baixa do
maquiadoras e depiladoras especializados em aten- país, conseguiu vencer o preconceito e tornar-se um
der viajantes brasileiros no exterior. Eis um trecho da milion‡rio.
reportagem:
Hari Pippal é um empresário indiano que conseguiu
Só quem precisou de uma manicure na Europa ou ganhar seu primeiro milhão de dólares montando uma
nos Estados Unidos sabe o perrengue que é descolar fábrica de sapatos. Sua história poderia ser comum a
serviços à altura dos oferecidos corriqueiramente em qualquer outra de sucesso empresarial na Índia de hoje

42 Sociologia
não fosse um pequeno detalhe: Pippal, de 58 anos, é um hospital de gente superior. Amo todas as pessoas e
um intocável. Ele pertence ao patamar mais baixo do acredito que todos devam ser tratados de maneira igual”.
sistema de castas da sociedade indiana, os párias ou Disponível em: <www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-vitoria-de
dalits [...], o que torna sua escalada social incomum e -um-intocavel-na-india,37243,0.htm>. Acesso em: 9 jul. 2015.
um exemplo a ser seguido. “Eu sou um intocável e tenho
4. Muitas vezes, acredita-se que pessoas que pertencem
orgulho de ser quem sou. Sempre trabalhei muito para
a castas inferiores est‹o impedidas de ter sucesso finan-
conseguir chegar ao topo”, disse Pippal, por telefone,
ceiro, como se a ordem social de Weber se sobrepusesse
ao Estado.
ˆ ordem econ™mica. A hist—ria de Hari Pippal confirma
ou nega essa cren•a? Justifique sua resposta.
[...] O indiano conta que o início de sua vida não
foi fácil. Aos 16 anos, o pai do empresário – que era nega. O fato de ele ter se tornado milionário – dono de uma
sapateiro – sofreu um acidente e ficou paralisado. Sem revendedora de carros, uma exportadora, uma fábrica de sapatos
ter como trabalhar, o pai pediu a Pippal para que ele e um hospital – mostra que, na Índia, os párias podem ascender
suspendesse seus estudos para trabalhar e ajudar a
economicamente, embora quase sempre sofram com o preconceito
sustentar sua mãe, oito irmãos e seis irmãs. Mesmo sem
das demais castas. assim, a ordem social e a ordem econômica
ter completado a escola, Pippal fala seis idiomas – entre
eles, inglês, russo e alemão. “Um dos meus hobbies é de Weber podem ser independentes uma da outra.

estudar. Gosto de aprender sozinho”. 5. Weber aponta que, mesmo entre os estamentos menos
privilegiados, seus membros costumam apresentar um
Ele conta que decidiu ser empresário há 30 anos. Òsentimento de dignidadeÓ, uma espŽcie de orgulho
“Eu morava em uma casa alugada de cerca de 12 metros em fazer parte do grupo. Sabendo disso, Hari Pippal
quadrados junto com minha mulher, meus cinco filhos apresenta esse sentimento ou ele nega completamente
e minha filha”. Segundo ele, o espaço era tão pequeno a estrutura de castas na êndia? Explique sua resposta,
que ele tinha de dormir no chão. “Foi aí que vi que usando uma declara•‹o de Pippal.
tinha de trabalhar muito e investir principalmente na
hari Pippal não nega completamente o sistema de castas. embora
educação dos meus filhos”. Decidido a mudar de vida,
ele ache que todas as pessoas devam ser tratadas com igualdade,
Pippal conseguiu um empréstimo em um banco para
dar início a sua fábrica de sapatos. Hoje, ele é dono de ele gosta de afirmar sua identidade como pária, como dalit:

quatro empresas – uma revendedora de carros Honda, “eu sou um intocável e tenho orgulho de ser quem sou”.
uma exportadora, uma fábrica de sapatos e um hospital
na cidade de Agra, onde fica o Taj Mahal – e tem seu
6. Weber aponta que, numa sociedade de castas, Òas
patrimônio avaliado em cerca de US$ 4 milhões.
coexist•ncias Žtnicas condicionam uma repuls‹o e um
[...] Quando inaugurou seu hospital, em 2004, o em- desprezo mœtuosÓ.6 Sabendo disso, responda:
presário teve muita dificuldade em recrutar médicos a) Hari Pippal foi v’tima do desprezo de outras castas?
para trabalhar com ele. “Sofri muito preconceito por ser Exemplifique com um caso apresentado na repor-
um pária”, conta. “Nenhum médico de castas superiores tagem.
queria trabalhar comigo”. Foi então que o indiano deci- sim. a reportagem afirma: “Quando inaugurou seu hospital,
diu procurar médicos fora de Agra. “Eu tinha de provar
em 2004, o empresário teve muita dificuldade em recrutar
para todos que poderia ser bem-sucedido mesmo sendo
médicos para trabalhar com ele”. isso ocorreu porque médicos
considerado inferior pela sociedade”.
de castas superiores não queriam trabalhar para um pária.
Hoje, o Heritage Hospital é um dos hospitais mais
respeitados da região. Segundo Pippal, agora, os médi-
b) Hari Pippal desprezou pessoas de outras castas? Exem-
cos de castas superiores o procuram pedindo emprego.
plifique com um caso apresentado na reportagem.
“Eu não guardo ressentimentos. O que não entendo é
não. Pippal, em seu hospital, “não separa seus pacientes de acordo
por que não vieram trabalhar comigo antes”.
com o sistema de divisão hindu”. e, como ele não tem ressentimentos,
Ele conta que seu hospital tem muitos médicos dalits. aceita que médicos de outras castas, que antes o desprezaram,
“Convidei médicos da minha própria casta e alguns de-
venham trabalhar com ele. e ainda conclui: “O que não entendo é
les são melhores do que médicos de outras castas”. No
por que não vieram trabalhar comigo antes”.
entanto, Pippal afirma que seu hospital não separa seus
pacientes de acordo com o sistema de divisão hindu. “Eu
nunca penso que esse é um hospital de intocáveis ou 6 WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: LTC, 2010. p. 132.

Sociologia 43
leitura complementar

ian berry/MagnuM PhOtOs/latinstOck


O regime de segrega•‹o racial conhecido como apartheid vigorou oficialmente na
çfrica do Sul entre os anos de 1948 e 1990 e imp™s sŽrias restri•›es aos negros, em favor
de uma minoria branca.
Tratava-se praticamente de uma sociedade de castas. Os negros eram obrigados a
viver em por•›es de terra predeterminadas, que correspondiam a pouco mais de 10%
do territ—rio do pa’s. Os outros quase 90% s— podiam ser ocupados pelos brancos. A lei
proibia que os negros adquirissem propriedades fora dessas ÒreservasÓ, o que na pr‡tica
inviabilizava sua ascens‹o social. Os negros ainda passavam pelo constrangimento de
ter que apresentar passaporte para se locomover dentro do pa’s, quando tinham que
atravessar as ‡reas destinadas aos brancos.
O apartheid na çfrica do Sul exp›e uma rela•‹o de domina•‹o dos brancos em rela-
•‹o aos negros. Para Weber, a domina•‹o Ž Òum estado de coisas pelo qual uma vontade
manifesta (mandato) do dominador ou dos dominadores influi sobre os atos de outros Placa indicando direç›es opostas para
(do dominado ou dos dominados), de tal modo que, em um grau socialmente relevante, campistas brancos e negros na çfrica do Sul,
em 1984.
estes atos t•m lugar como se os dominados tivessem adotado por si mesmos e como
m‡xima de sua a•‹o o conteœdo do mandato (obedi•ncia)Ó.7 Assim, s— seria poss’vel haver domina•‹o quando, de alguma forma, o do-
minado aceita os valores do dominador, submetendo-se. Weber mostra que h‡ tr•s motivos para isso, que funcionam como princ’pios
de autoridade na domina•‹o: os motivos racionais, os tradicionais e os afetivos. Tais motivos gerariam, ent‹o, tr•s tipos de domina•‹o
legitimada socialmente: a legal, a tradicional e a carism‡tica.
Os motivos racionais da submiss‹o podem advir da considera•‹o de interesses, vantagens ou inconvenientes pensados por aquele que
obedece. Aos servos dos feudos, interessava a prote•‹o militar dos senhores feudais. A domina•‹o legal est‡ calcada na fŽ no estatuto
legal que os atuais servidores pœblicos, por exemplo, t•m no Estado que os emprega. Os motivos tradicionais dependem da for•a dos
costumes arraigados e passados de gera•‹o a gera•‹o pelo h‡bito cego; Ž a for•a do passado que move para o conformismo e mantŽm
a domina•‹o dos pr’ncipes da Europa de outrora ou dos chamados coronŽis sertanejos do Brasil dos sŽculos XIX e XX. Os motivos
afetivos de submiss‹o movem a domina•‹o carism‡tica pela admira•‹o pessoal no l’der ou her—i, seja este o profeta, o senhor guerreiro
ou o pol’tico demagogo, e frequentemente se mistura com outros motivos de submiss‹o.
Levando em conta as ideias de Weber, das quais voc• pode discordar, tente explicar como um grupo minorit‡rio
(em nœmero de pessoas) conseguiu subjugar a maioria da populaç‹o por tanto tempo, como ocorreu na çfrica do
Sul. Embora o Brasil seja conhecido pelo multiculturalismo e pela miscigenaç‹o, voc• concorda que existe aqui uma
espécie de apartheid social (que, de certa forma, é também racial)? Justifique seu posicionamento.
cremos que, em relação ao apartheid africano, há pelo menos dois posicionamentos possíveis diante da questão: um a favor da ideia de
Weber de que a dominação só existe porque os dominados de algum modo o permitem, e outro contra ela. Para argumentar a favor dessa ideia,
é possível dizer que, em geral, assim que os dominados reagem à dominação, ela começa a ruir. Para argumentar contra, é possível dizer que,
como os dominadores detêm o poder econômico e político, isso dificulta muito a luta por liberdade, ainda mais quando a dominação está
legalmente instituída, caso da África do sul durante os anos de apartheid. em relação ao brasil, o aluno poderá dizer que há por aqui uma injusta
concentração de renda, além da falta de acesso da população mais pobre a serviços básicos, como saúde, educação e transporte. a dificuldade
de mudar essa situação provaria que a exclusão já foi “incorporada” pela sociedade, embora não seja “oficial”. seria uma espécie de apartheid.
Mas também seria cabível o aluno se posicionar contra essa ideia, lembrando que o fato de a exclusão não ser “oficial”, isto é, legitimada por leis,
faz toda a diferença porque possibilita a luta das minorias excluídas por seus direitos, sem que tenham que pagar por isso com a própria vida.

7 WEBER, Max. Economía y sociedad. México: Fonde Cultura, 1984. p. 699.

44 Sociologia
aulas
11 e 12
Liberdade, propriedade, fraternidade

Para debater
Como já dissemos, o artigo 5o de nossa Constituição Federal garante a inviolabilidade do direito à propriedade. Num dos incisos
desse artigo, essa ideia vem reforçada:
XI. a casa Ž asilo inviol‡vel do indiv’duo, ninguŽm nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em
caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determina•‹o judicial.
Dispon’vel em: <www.senado.gov.br/legislacao/const/con1988/CON1988_05.10.1988/art_5_.shtm>. Acesso em: 10 jul. 2015.

angeli/acervO dO artista
O que chamamos de Estado Democrático
de Direito é uma instituição política que pres-
supõe o respeito às leis e toma a Constituição
como seu instrumento jurídico mais importante.
Como essas normas jurídicas são propostas por
vereadores e deputados eleitos pelo povo, pode-
-se dizer que elas representam, de alguma forma,
os valores dominantes naquela sociedade.
No Brasil, quando a Constituição garante o
direito à propriedade e declara a inviolabilidade
da casa de cada um, podemos inferir que es-
ses valores são consensuais em nosso país. Por
exemplo, durante a noite, se não for um caso
de “flagrante delito ou desastre”, nem a polícia,
de posse de uma ordem judicial, pode entrar na
casa de uma pessoa sem seu consentimento.
É por isso que, se estamos andando numa
trilha e deparamos com uma placa em que está
escrito “Propriedade particular. Não entre”, temos
a tendência de respeitar esse aviso, pois sabemos
que é um risco não obedecer a essa ordem.
O cartunista Angeli, com o humor sarcástico
que está presente em sua obra, publicou, em
2008, uma charge problematizando essa questão.
Observe-a.

Nessa charge, uma família de agricultores depara com uma paisagem natural bastante bonita: um vale, um riacho, algumas montanhas,
o nascer do sol, alguns pássaros no céu. Mas, em todos os lugares, lê-se a mesma frase: “Propriedade particular. Não entre”.
Considerando tudo isso, qual é o limite do que pode e do que não pode ser considerado “propriedade particular”? Quando Angeli
considera o sol, o céu, os pássaros, a água, as montanhas como “propriedade particular”, o que ele está criticando?

Sociologia 45
Muito da idealização dos indígenas, em obras literárias e na
Um pouco de teoria pintura no começo do século XIX, teve como base o mito do
“bom selvagem”, afinal eles não teriam sido “degradados” pelos
valores da civilização europeia.
Liberdade, propriedade, fraternidade
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nascido na Suíça, foi
Um dos pilares de nossa sociedade é a igualdade jurídica um filósofo e teórico político que trilhou sua carreira intelec-
entre os indivíduos, que pode ser resumida pela máxima: “todos tual na França. Ligado ao Iluminismo e ao espírito raciona-
são iguais perante a lei”. Outro pilar é o respeito aos direitos lista que imperou na Europa no século XVIII, ele acabou se
individuais de cada ser humano. Entre esses direitos, destaca-se tornando um precursor da Sociologia moderna. Entre suas
a questão da propriedade privada, fundamental na sociedade obras mais importantes, estão Discurso sobre a origem e os
capitalista. fundamentos da desigualdade entre os homens (1755) e Do
Já tratamos dessa questão nas Aulas 5 e 6, quando mostra- contrato social (1762). Postumamente, foram publicados os
mos que a propriedade privada é uma instituição social essencial vários volumes que constituem sua autobiografia, até 1767,
de nossa sociedade. Agora, vamos analisar como alguns pensa- intitulada As confiss›es.
dores das Humanidades avaliam essa questão.
A Constituição brasileira garante, sem ressalvas, o “direito Na segunda metade do século XVIII, muitos teóricos de inspi-
à propriedade”. Isso apenas reforça que a propriedade é um ração liberal acreditavam que as liberdades individuais só estariam
elemento social que, pela aceitação coletiva, mantém-se institu- resguardadas se houvesse respeito à propriedade. Rousseau dis-
cionalizado ao longo dos últimos séculos. Mas como ela surgiu? cordava disso, defendendo que o ser humano só pode ser livre se
Jean-Jacques Rousseau explica que, a partir do cultivo da for igual. Sem igualdade não poderia haver liberdade. Mesmo John
terra, os seres humanos instituíram a propriedade individual, Locke, teórico britânico considerado pai do Liberalismo , tinha
o que criou a desigualdade, a concorrência, a rivalidade, o or- ideias semelhantes às de Rousseau. Para Locke, não haveria afronta,
gulho, a avareza, a inveja, a maldade, a guerra. Mas, como ele não haveria conflito, se não houvesse propriedade.
acreditava que os seres humanos, em seu estado de natureza, Liberalismo: foi uma doutrina nascida principalmente com base no
eram bons, ele responsabilizava os progressos humanos por pensamento de John Locke (1632-1704), que defendia as liberdades
individuais, em seu sentido mais amplo. O governo e o Estado não
essa degradação. Isso é que contribuiu para a origem do mito deveriam, assim, intrometer-se em questões econômicas, políticas,
do “bom selvagem”. Povos que não conhecessem esses pro- religiosas, intelectuais, que envolvessem a liberdade individual. Ao
longo do tempo, o alcance do termo foi-se alterando, como veremos.
gressos não estariam degradados, não teriam esse sentimento Por exemplo: às vezes, o Liberalismo se aproximou da noção de
Capitalismo, às vezes se afastou dela.
de propriedade e, por isso, ainda seriam “naturalmente” bons.
Jean-baPtiste debret/fundaçãO bibliOteca naciOnal, riO de JaneirO, rJ

Índios da missão de São José, de


Jean-Baptiste Debret, 1834-1839. A
teoria de Rousseau criou a ideia
de que povos indígenas poderiam
se aproximar mais facilmente do
“estado de natureza”.

46 Sociologia
MOacyr lOPes JuniOr/fOlhaPress
AngloEM_Soc_1ano_Cad1_CA_F030: im-
agem de reintegração de posse ocorrida nos
últimos anos em alguma ocupação popular.
O ideal é que apareçam famílias que esta-
vam morando na ocupação e a força poli-
cial. Sugestões de eventos de reintegração:
ocupação Pinheirinho, ocupação Esper-
ança, ocupação na Avenida São João.

Policiais militares realizam reintegração de posse do Pinheirinho, ocupação localizada em São José dos Campos (SP), em 2012. Moravam entre 6 e 9
mil pessoas na região. Reintegrações de posse no mundo moderno nem sempre são pacíficas. A polícia, nesse caso, age em defesa da propriedade
garantida pela lei.

Friedrich Engels (1820-1895), teórico alemão que foi parceiro Para Engels, há uma contraposição entre “a propriedade fruto
de Marx em O manifesto comunista, também se debruçou sobre do trabalho pessoal” (armas, utensílios de caça, pesca e caseiros),
a questão da origem da propriedade. Numa perspectiva histórica, cuja posse seria espontânea, e a propriedade comum (casa, canoas
ele fala sobre a divisão do trabalho nas comunidades agrárias e de e hortas), que engloba tudo que está ligado ao trabalho coletivo.
sua relação com a propriedade no mundo moderno: No primeiro caso apenas, poderíamos falar em “propriedade parti-
A divisão do trabalho Ž absolutamente espontânea: só cular”. Mas, no mundo moderno, a partir da noção da propriedade
existe entre os dois sexos. O homem vai ˆ guerra, incumbe-se como “fruto do trabalho pessoal”, ampliou-se seu alcance e muito
da caça e da pesca, procura as matŽrias-primas para a alimen- de tudo o que era coletivo, em certas sociedades antigas, foi-se
tação, produz os instrumentos necessários para a consecução
tornando particular.
dos seus fins. A mulher cuida da casa, prepara a comida e
confecciona as roupas: cozinha, fia e cose. Cada um manda
em seu dom’nio: o homem na floresta, a mulher em casa. O jusnaturalismo e a bondade humana
Cada um Ž proprietário dos instrumentos que elabora e usa:
o homem possui as armas e os petrechos de caça e pesca, a
Quando Rousseau fala dos indivíduos em seu “estado de
mulher Ž dona dos utens’lios caseiros. A economia domŽstica natureza”, sua intenção era decifrar a essência do que é ser
Ž comunista, abrangendo várias e amiúde numerosas fam’- humano. Trata-se da base do que chamamos de jusnaturalis-
lias. O resto Ž feito e utilizado em comum, Ž de propriedade mo ou “direito natural”. De acordo com essa doutrina, haveria
comum: a casa, as canoas, as hortas. ƒ aqui e somente aqui um conjunto de princípios e regras de conduta que, indepen-
que nós vamos encontrar Òa propriedade fruto do trabalho dentemente das circunstâncias históricas, daria origem a leis
pessoalÓ, que os [...] economistas atribuem ˆ sociedade civi-
compatíveis com a essência da natureza humana. Isso se opõe,
lizada e que Ž o último subterfúgio jur’dico em que se apoia,
por exemplo, ao direito positivo, que contempla o sistema de
hoje, a propriedade capitalista.1
leis estabelecido pelo Estado. Para Rousseau, o direito natural
seria anterior e superior ao direito positivo e deveria prevalecer
1 ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado.
São Paulo: Centauro, 2002. p. 67-68. em caso de conflito.

Sociologia 47
Em sua visão de mundo idealizada, Rousseau distingue então que sob a influência da mesma cultura – podem reagir de formas
duas espécies de seres humanos: o bom selvagem ou primitivo, que diferentes à socialização. Até porque, se não fosse assim, os indiví-
preservou as virtudes do estado de natureza; e o mau selvagem duos seriam robôs alienados que não fazem mais do que reproduzir
ou bárbaro, que assumiu os vícios da sociedade corrompida sem os valores dominantes. As coisas não são tão simples.
equilibrá-los com as vantagens da civilização.
Na prática, o bom e o mau selvagem são categorias abstratas, Socialização primária e secundária
polarizadas, que podem ajudar a compreender o comportamento Muito antes da propriedade, a primeira instituição com que
humano, mas não correspondem a indivíduos “reais”. Há muitas gra- tomamos contato e que começa a moldar nossa visão de mundo é
dações entre essas duas categorias propostas por Rousseau. E tanto a família. Assim, a socializa•‹o prim‡ria se constrói na relação entre
em um caso como em outro estamos sujeitos a nos comportar sob as crianças e os adultos, quando estes apresentam àquelas padrões
a influência de uma coerção, que pode ser “natural” ou não, mas de comportamento a serem seguidos. Esses padrões podem variar
que sempre influencia nosso modo de pensar e agir. muito, de acordo com a formação dos adultos que interagem com
Muitas vezes, as pessoas acreditam que as coerções sociais as crianças e, embora relativos, são recebidos pela criança como ab-
emanam de uma força moral maior ou, nas sociedades mais mís- solutos: o mundo que lhe é apresentado pelos adultos é “o mundo”.
ticas, da vontade dos deuses, como se as coerções sociais fossem Explicando esse fenômeno, Peter e Brigitte Berger dizem:
absolutas. Com a questão da propriedade privada, as coisas talvez O caráter absoluto com que os padrões sociais atingem
tenham ocorrido assim: os indivíduos tendem a aceitá-la, como se a criança resulta de dois fatores bastante simples: o grande
ela sempre tivesse existido. Rousseau, Locke e Engels mostram que poder que os adultos exercem numa situação como aquela
essa instituição social foi criada pelo ser humano e não é, portanto, em que se encontra a criança e a ignorância desta sobre a
completamente natural. existência de padrões alternativos. Os psicólogos divergem
sobre se a criança tem a impressão de que nessa fase da vida
exerce um controle bastante pronunciado sobre os adultos
A socialização (uma vez que os mesmos são sensíveis às suas necessidades),
ou se vê neles uma ameaça contínua, porque depende deles
Mas, independentemente de sua origem, a propriedade se im-
tão fortemente. De qualquer maneira, não pode haver a menor
pôs em nossa sociedade. O direito e o respeito a ela tornaram-se
dúvida de que, em termos objetivos, os adultos exercem um
valores cristalizados, a ponto de a Constituição Federal protegê-la e
poder avassalador sobre a criança.3
garanti-la. Essa dinâmica dos fatos sociais nos ajuda a compreender
o conceito de socializa•‹o. A socialização primária ocorre na primeira fase da infância, mas
o processo de socialização continua a ocorrer durante toda a vida
Socialização é o processo através do qual indivíduos são
preparados para participar dos sistemas sociais. [...] De modo
do indivíduo. No começo da vida escolar, por exemplo, os profes-
geral, não somos socializados para compreender sistemas sores, assim como a família, têm esse “poder avassalador” sobre a
como sistemas, nem para analisar como eles realmente fun- criança. Com o tempo, esse poder diminui, e outras formas de socia-
cionam e suas consequências. Em vez disso, viemos a com- lização, a que chamamos secund‡rias, surgem na vida do indivíduo.
preendê-los como uma realidade que aceitamos como natural, A aceitação dos valores implícitos no processo de socialização,
que simplesmente é o que parece ser. Em outras palavras, o como dissemos, também pode variar conforme a época, o lugar e
que em geral não é incluído é qualquer tipo de conscientiza- a classe social a que se pertence. Pensemos em nossa relação com
ção sociológica do que é aquilo de que participamos e como
a polícia. Para um jovem de boas condições financeiras, que vive
estamos dele participando.2
num condomínio fechado, em uma cidade pacata, a figura do
O processo de socialização leva, portanto, o indivíduo a apren- policial pode inspirar a imagem de segurança e autoridade. Já para
der a ser membro da sociedade: as coerções sociais nos impõem um adolescente que vive em condições precárias, na periferia pobre
regras de conduta individual, num verdadeiro processo de confi- de uma grande cidade, a mesma figura pode passar a impressão
guração e moldagem, a que somos inevitavelmente submetidos. de hostilidade e perigo.
Mas não se pode pensar que a socialização é uma espécie de Outro caso de socialização secundária ocorre com os treina-
“adestramento”, por meio do qual as pessoas interiorizam costumes mentos profissionais. Em muitos casos, para exercer uma profissão,
e valores de modo completamente mecânico. Pessoas de classes não há necessidade de uma mudança grande na identidade do
sociais diferentes, de épocas diferentes, de lugares diferentes – ainda indivíduo, como, por exemplo, quando alguém quer se tornar ele-
tricista ou arquiteto. Em outras categorias profissionais, é preciso
2 JOHNSON, Allan. Dicion‡rio de Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, uma mudança ampla de conduta, como nas carreiras militares.
1997. p. 212.
3 BERGER, Peter L.; BERGER, Brigitte. Socialização: como ser um membro É o que ocorre também na Igreja católica. Um futuro padre ou
da sociedade. In: FORACCHI, Marialice M.; MARTINS, José de Souza. uma futura freira se submete a formas de socialização que, muitas
Sociologia e sociedade: leituras de introdução à Sociologia. Rio de Janeiro:
Livros Técnicos e Científcos, 2006. p. 172. vezes, impõem regras de conduta bastante rígidas e que podem

48 Sociologia
exigir mudanças de costumes tão intensas que se equiparam à o sentimento de posse era um costume institucionalizado. As
socialização primária. crianças, ao serem socializadas, na escola e na família, apren-
diam a aceitar esses valores. Hoje, em nenhum país do mundo
Socialização e dominação a escravidão é admitida.
O fato de a socialização ser um processo inevitável da vida em As instituições sociais são importantes porque dão unidade
sociedade, por meio do qual o indivíduo aprende a fazer parte de aos grupos sociais, estabelecendo parâmetros que facilitam o
certo grupo, não significa que seus valores não possam ser postos convívio humano. Mas, ao mesmo tempo, elas carregam o poder
em dúvida. Afinal, muitas vezes a socialização está associada a de coagir as pessoas. A linguagem, a família e a propriedade são
formas de dominação. E, de acordo com alguns pensadores, como instituições fundamentais e com raízes muito sólidas na civili-
Rousseau, Locke e Engels, a dominação se manifesta sobremaneira zação. Elas levam as pessoas a agir de maneiras que tendem a
sob a forma da propriedade privada. se tornar institucionalizadas.
Portanto, o processo de socialização acaba por apresentar Não cabe à Sociologia apenas mostrar que existem insti-
aos indivíduos os valores dominantes em uma sociedade e, na tuições sociais, como a propriedade privada, que interferem
maior parte das vezes, aceitam-se esses valores como a ordem em nossos costumes e que moldam os valores com que traba-
natural das coisas. Mas, em geral, os valores são impostos por lhamos. Mais do que isso, é preciso analisar essas instituições
uma pequena parte da sociedade que, por deter o poder eco- como estratégias de dominação, fortalecidas pelos processos
n™mico e político, torna-se maioria e pode, assim, ensinar as de socialização.
pessoas a se comportar como lhe parece mais adequado. De fato, para que os comportamentos sejam padronizados
Karl Marx, a partir da análise das formações econ™micas pré- segundo os interesses dominantes, é preciso que as relações so-
-capitalistas, dizia que não há dominação sem a apropriação de ciais em todos os níveis da vida coletiva continuem a ser guiadas
uma vontade alheia e que essa apropriação só ocorre por meio da pelos mesmos processos de socialização, que servem, em geral,
propriedade privada. Com efeito, o escravo só seria escravo porque a esses interesses. Mas é possível que as relações de socialização
o “senhor” se apropriou dele, passando a mandar em sua vontade. também se tornem canais de mudanças na sociedade ao longo
Assim, durante muito tempo, a escravidão foi considerada das gerações. Para isso, é preciso transgredir as normas, enfrentar
“natural” e tomar pessoas como objetos sobre os quais se tem os valores dominantes e alterar costumes institucionalizados.

exerc’cios
1. O fragmento a seguir foi extraído do Discurso sobre a a) De acordo com Rousseau, a propriedade privada
origem e os fundamentos da desigualdade entre os surgiu de uma hora para outra da história da huma-
homens, publicado em 1755 por Rousseau. Leia-o e res- nidade? Justifique sua resposta.
ponda ao que se pede. não. Para rousseau, a ideia de propriedade “não se formou

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primei- repentinamente no espírito humano”, pois ela se originou “de muitas

ro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ideias anteriores que só poderiam ter nascido sucessivamente”.
“isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples
para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios,
misérias e horrores não pouparia ao gênero humano
aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso,
tivesse gritado a seus semelhantes: “Defendei-vos de ou-
vir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os b) Que avaliação o filósofo francês faz daqueles que
frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”. aceitaram as imposições da propriedade privada,
Grande é a possibilidade, porém, de que as coisas já então quando ela surgiu?
tivessem chegado ao ponto de não poder mais permanecer
uma avaliação negativa, uma vez que as pessoas são consideradas
como eram, pois essa ideia de propriedade, dependendo
de muitas ideias anteriores que só poderiam ter nascido “suficientemente simples” para acreditar que alguém tinha o direito
sucessivamente, não se formou repentinamente no es- de cercar um terreno e dizer “isto é meu”. Para rousseau, não ter
pírito humano. aceitado essa nova situação nos teria poupado de inúmeros “crimes,
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos guerras, assassínios, misérias e horrores”.
da desigualdade entre os homens. In: Os Pensadores.
São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. 270.

Sociologia 49
2. Nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros pa’ses a) Quais s‹o os valores com os quais Calvin tomou con-
anglo-sax›es, Ž comum que, no Òdia das bruxasÓ, crian- tato em seu processo de socializa•‹o?
•as fantasiadas batam de porta em porta, fazendo a calvin tomou contato com muitos valores que costumam estar
pergunta: ÒDoce ou travessura?Ó. A tirinha a seguir faz associados a um “capitalismo selvagem”: falta de preocupação
refer•ncia a essa festa, ensejando uma reflex‹o sobre o
ambiental, padronização de comportamentos, influência perniciosa
processo de socializa•‹o das crian•as. Observe-a com
aten•‹o e responda ao que se pede. dos meios de comunicação, cinismo e alienação.
calvin & hObbes, bill WattersOn©1995
WattersOn/dist. by universal uclick

b) Calvin, para ser membro de um grupo, adquire os


valores desse grupo por meio do processo de socia-
liza•‹o. Esses valores s‹o avaliados de maneira posi-
tiva ou negativa pela tirinha? Justifique sua resposta,
explicando se h‡ motivos para ter medo de Calvin
(como ele pergunta no œltimo quadrinho).
de maneira negativa. a tirinha – ao abordar o processo de socia-
lização, por meio do qual um indivíduo absorve os valores de
determinada sociedade, passando, enfim, a pertencer a ela – nos
faz pensar criticamente sobre os valores que a sociedade capitalista
tem passado às futuras gerações. calvin está simbolizando então
todas as crianças de sua geração, educadas segundo princípios
que nos fazem temer o futuro: afinal, o que elas farão quando che-
garem ao poder? assim, há motivos de sobra para que se tenha
medo, não exatamente da personagem, mas do que ela representa.

WATTERSON, Bill. O mundo é mágico – as aventuras de


Calvin e Haroldo. São Paulo: Conrad, 2007. p. 130.

tarefa

Leia a reportagem a seguir e responda ao que se continua sendo considerado um país “majoritariamente
pede. não livre” e fica aquém da média do planeta no Índice
de Liberdade Econômica, calculado anualmente pelo
Liberdade econômica no Brasil ainda é restrita,
centro de estudos conservador Heritage Foundation.
diz entidade

O Brasil melhorou ligeiramente sua performance No ranking divulgado hoje, feito em colaboração com
em um ano no qual a performance mundial caiu. Mas o The Wall Street Journal, o país é o 99o de 179, com

50 Sociologia
57,9  pontos – 1,6 ponto melhor do que em 2011, mas 1. De acordo com o texto, quais são os princípios que
1,6 ponto a menos que a média global. norteiam o ranking divulgado pelo centro de estudos
Heritage Foundation?
O índice, que está em sua 18a edição, é calculado a
partir de dez quesitos avaliados com notas pelos espe- de acordo com a reportagem, esse centro de estudos é “conservador”
cialistas da entidade pró-liberalismo econômico, divi- e configura-se como uma “entidade pró-liberalismo econômico”.
didos em quatro categorias: Estado de direito; limites do
governo; eficiência regulatória; e abertura de mercados.

Em 2012, Hong Kong encabeça o ranking como o lu-


gar com maior liberdade econômica do mundo, com 89,9
2. Com base em sua resposta anterior, o que o centro de
pontos, seguido por Cingapura (87,5) e Austrália (83,1).
estudos Heritage Foundation entende por “liberdade de
Já o pior posto coube à Coreia do Norte, com apenas 1
propriedade”?
ponto, precedida pelo Zimbábue (26,3) e Cuba (28,3).
sendo uma entidade de princípios liberais (que crê, portanto, que
Brasil melhora o direito à propriedade privada não deve ser ameaçado, nem por ações
Seguindo uma tendência regional, o Brasil melho- do estado), considera-se “liberdade de propriedade” o direito inviolável
rou sua pontuação em gastos do governo e liberdade de pessoas e empresas terem propriedades, asseguradas plenamente
fiscal (incluídos em limites do governo), além de ter
pelas leis do país.
avançado em liberdades trabalhistas (dentro de efici-
ência regulatória) e liberdade financeira (em abertura
de mercados).

Manteve-se igual no que toca a liberdade de investi-


mento e ao Estado de direito: liberdade de propriedade
e combate à corrupção – este último, o item em que o 3. O ranking em questão vincula “liberdade” à proprieda-
país se sai pior, com só 37 pontos. de. É essa a visão de Engels, Rousseau e Locke sobre a
E piorou na liberdade para negócios, liberdade mo- propriedade privada? Explique sua resposta, conside-
netária e liberdade comercial, embora esses dois últi- rando a propriedade uma instituição fundamental de
mos itens sejam aqueles em que o país sobressai, com, nossa sociedade.
respectivamente, 75,8 e 69,7 pontos. não. aliás, os três pensadores julgavam justamente o contrário.

Números acima de 80 indicam países “livres”; de 70 rousseau dizia que só pode haver liberdade com igualdade, e a
a 80, “majoritariamente livres”; de 60 a 70, “moderada- propriedade afasta as pessoas da igualdade. Mas, atualmente, a pro-
mente livres”; de 50 a 60, “majoritariamente não livres”, priedade privada tornou-se uma instituição social a tal ponto enrai-
e, abaixo de 50, “reprimidos”. No ranking de 2012, há
zada na sociedade capitalista, que a “liberdade econômica” de um
apenas 5 países na primeira categoria; 23 na segunda;
62 na terceira e 89 abaixo da nota de corte. país dependeria, diretamente, do respeito à propriedade privada.

[...] De forma geral, a liberdade econômica diminuiu


0,2 ponto no mundo em 2012 – uma tendência desde o
estouro da crise econômica global, em 2008. Dos paí-
ses avaliados, 75 melhoraram seu desempenho, mas
90 pioraram.
4. Os critérios usados pelo centro de estudos Heritage Foun-
A América Latina, porém, destoou e melhorou sua dation para julgar um país livre ou não respeitam o direi-
performance de maneira geral, ficando, na média, à to de cada povo escolher a melhor forma de estruturar
frente das demais em termos de gastos de governo e sua economia e sua sociedade? Por quê?
saindo-se muito bem em liberdade fiscal e monetária
não. ao desconsiderar a hipótese de um país não valorizar a pro-
e em liberdade de investimento.
priedade privada e outros princípios liberais, por mais que eles
Como no caso do Brasil, a pior nota regional está
sejam dominantes no mundo capitalista, o centro de estudos
no combate à corrupção. A liberdade de propriedade
também é considerada insatisfatória entre os países avalia a “liberdade econômica” a partir dos valores da sociedade
das Américas do Sul e Central. globalizada, como se os países não tivessem possibilidade de
Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/mercado/1033215-liberdade optar por outros modos de organização socioeconômica.
-economica-no-brasil-ainda-e-restrita-diz-entidade.shtml>.
Acesso em: 10 jul. 2015.

Sociologia 51
Retomando a discussão feita na seção Para debater, Crian•a de 9 anos era mantida acorrentada
responda às próximas duas questões. enquanto pais trabalhavam

5. A lei brasileira considera a casa “asilo inviolável do in- Em depoimento ˆ pol’cia, o padrasto e a m‹e do meni-
divíduo”. Mas o que podemos entender por “casa”? É o no disseram que tomaram a decis‹o porque a crian•a
lugar onde moramos, onde trabalhamos, onde sedia- estaria envolvida com o consumo e o tr‡fico de drogas
mos uma empresa, onde passamos férias? O que a lei em Santo Ant™nio da Platina
tenta proteger quando fala em “casa”?

g1.glObO.cOM/rePrOduçãO
sem entrar em questões jurídicas complexas, o importante é o
aluno perceber que, se o conceito de “casa” for ampliado demais,
ele se torna sinônimo de qualquer propriedade privada. e parece
que a intenção da lei é proteger o lugar onde a pessoa mora, e não,
em grau absoluto, qualquer propriedade particular (até porque,
como sugere angeli, se for assim, isso acirra a exclusão social).

6. No Brasil, a lei 10.826, de 22 de dezembro de 2003, co-


nhecida como “Estatuto do Desarmamento”, estabele-
ce, em seu artigo 5o, que o cidadão comum, proprietário
de arma de fogo, deve mantê-la “exclusivamente no A Pol’cia Militar encontrou nesta quinta-feira (23)
interior de sua residência ou domicílio, ou dependência um menino de nove anos acorrentado em uma casa na
desses, ou, ainda, no seu local de trabalho, desde que periferia da cidade de Santo Ant™nio da Platina, no
seja ele o titular ou o responsável legal pelo estabeleci- Norte Pioneiro do Paran‡. A crian•a estava sozinha na
mento ou empresa”. Isso significa que, no Brasil, o indi- moradia, presa por uma corrente Ð com cerca de dois
víduo pode ter, legalmente, uma arma dentro de casa. metros Ð ligada ao pŽ da cama e fechada com um cadea-
Numa situação de invasão de domicílio, você acha que do de cerca de 10 cent’metros.
o indivíduo pode usar essa arma para conter o invasor?
De acordo com a PM, os pais da crian•a deixaram
Explique sua opinião.
o menino acorrentando e foram trabalhar. A m‹e Ž
essa questão é complexa, até mesmo no âmbito do direito. num comerci‡ria e o padrasto Ž mec‰nico. AlŽm de estar
raciocínio simplista, poderíamos argumentar que, se a casa é “asilo acorrentada, a crian•a n‹o tinha acesso a comida, ‡gua
ou banheiro. Os policiais chegaram atŽ a casa depois
inviolável do indivíduo” e se a pessoa pode legalmente ter uma arma
de denœncias an™nimas. Eles usaram uma serra para
de fogo “no interior de sua residência ou domicílio”, qualquer um pode
romper a corrente e libertar o menino.
usar uma arma de fogo para conter uma invasão à própria casa. Mas
O garoto foi encaminhado ao Conselho Tutelar da
seria bom que o aluno percebesse que a defesa da casa deve ser
cidade, onde foi atendido. Os pais da crian•a foram iden-
proporcional ao risco representado pela invasão. não parece sensato
tificados e encaminhados ˆ delegacia. Em depoimento
reagir da mesma forma a uma quadrilha armada que invade um edifício ˆ pol’cia, o padrasto e a m‹e do menino disseram que
de uma cidade grande e a uma família de moradores de rua que entra tomaram a decis‹o de acorrentar a crian•a porque, ape-
numa garagem de uma casa de alto padrão para se proteger do frio. sar da idade, a crian•a estaria envolvida com o consumo
e o tr‡fico de drogas na regi‹o onde vivem.

ÒFoi uma medida desesperada. N‹o t’nhamos outra


sa’daÓ, disse o padrasto do garoto. Segundo o casal, esta
foi a primeira vez que a crian•a ficou acorrentada. Os
7. Em agosto de 2012, uma notícia a respeito de uma outros tr•s filhos do casal estavam fora de casa no mo-
família que, numa cidade do interior do Paraná, acor- mento da chegada da PM.
rentou uma criança de 9 anos à sua cama foi ampla-
mente divulgada pelos meios de comunicação. Eis a No entanto, o Conselho Tutelar de Santo Ant™nio
reportagem feita para Gazeta do Povo a respeito do da Platina disse que o menino sofre de problemas psi-
assunto: col—gicos e j‡ teve dezenas de passagens pelo —rg‹o. O

52 Sociologia
garoto chegou a morar em um abrigo, porque a mãe não Como j‡ dissemos, a fam’lia Ž uma institui•‹o social
tinha condições de cuidar dele. fundamental da vida em sociedade. Ela Ž a maior res-
pons‡vel pela socializa•‹o prim‡ria, mecanismo pelo
O casal foi liberado pela Polícia Civil depois de assi- qual a crian•a toma contato com os valores essenciais
nar um termo circunstanciado. Apesar do ato, a criança do grupo social a que ela pertence.
voltou com os pais para casa.
Disponível em: <www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/ O processo de educa•‹o de uma crian•a n‹o Ž sim-
conteudo.phtml?id=1289831>. Acesso em: 10 jul. 2015. ples: pedagogos, psic—logos, pais e professores nem
sempre concordam sobre quais s‹o as melhores formas
Esta outra reportagem, feita pelo portal G1, d‡ mais de ensinar costumes, promover valores, condenar abu-
informa•›es sobre o caso: sos, punir excessos.

“Foi ato desesperado”, diz conselheiro sobre Nessa hist—ria do garoto de 9 anos acorrentado na pr—-
família de garoto acorrentado pria cama, temos, num primeiro momento, a sensa•‹o
de que se trata de uma situa•‹o humilhante, cruel, de-
Conselheiro tutelar que acompanha o caso diz que
gradante. Depois, ao ouvir a posi•‹o do padrasto e do
família nunca foi omissa.
Conselho Tutelar, surge a dœvida: de quem Ž a culpa
Menino de 9 anos foi encontrado acorrentado em uma
pelo fato de a situa•‹o ter chegado a esse ponto? Da
cama dentro de casa.
fam’lia? Do Conselho Tutelar? Da Prefeitura?
O conselheiro tutelar de Santo Antônio da Platina,
Sendo assim:
no norte do Paraná, Davi Silva, acompanha o caso do
garoto de nove anos que foi encontrado acorrentado em • Se voc• acha que a fam’lia Ž a principal culpada pela
uma cama dentro da casa, na quinta-feira (23), desde situa•‹o, escreva uma carta para o padrasto e para
2008 e disse que a atitude da mãe e do padrasto “foi um a m‹e do garoto, expondo sua opini‹o sobre o caso
ato isolado e desesperado”. e procurando dar uma solu•‹o para o problema.

“Estou trabalhando neste caso desde abril de 2008, • Se voc• acha que a culpa Ž do Conselho Tutelar,
escreva uma carta para o conselheiro Davi Silva,
quando a casa da família pegou fogo. O menino e os
mostrando como ele poderia ter solucionado o
irmãos ficaram dois anos no abrigo, porque a mãe não
problema.
tinha residência fixa e as crianças estavam morando
em um cômodo com a avó”, contou Davi. • Se voc• acha que a Prefeitura Ž a maior respons‡vel
pelo problema, escreva uma carta para o prefeito de
O conselheiro acredita que o tempo que o garoto Santo Ant™nio da Platina, dizendo o que poderia ter
passou no abrigo causou traumas e desencadeou trans- sido feito para que a situa•‹o n‹o chegasse a esse
tornos psicológicos. “O menino ficou com problemas ponto.
psicológicos. Ele surta, tenta suicídio, sobe em árvore é muito importante que o aluno perceba que o menos culpado é a criança.
e tenta pular, se joga em frente de caminhão, vira a es-
com 9 anos, com uma doença psiquiátrica, ele precisa mais de ajuda do
cola de cabeça para baixo, ninguém consegue controlar
que qualquer outra coisa. Quanto à família, considerando que eles nunca
ele”, relatou.
foram omissos e sempre procuraram ajuda, pode-se dizer que sua maior
De acordo com as informações de Davi, a mãe e o
falha foi ter dado um tratamento cruel e degradante a uma criança.
padrasto nunca foram omissos e sempre procuraram
Quanto ao conselho tutelar, a falha pode ter sido não mensurar a
ajuda. “Não concordo com a atitude deles, mas entendo”,
argumentou sobre o ato de prendê-lo à cama. Ainda gravidade do problema; o conselheiro poderia ter tomado uma decisão
segundo o conselheiro, vários pedidos já foram protoco- mais firme, procurando evitar uma atitude mais radical da família, como
lados na prefeitura para que um psiquiatra infantil fosse
acabou acontecendo. Quanto à Prefeitura, a criança, diagnosticada com
disponibilizado para atender o menino. Mas apenas um
problemas psiquiátricos graves, deveria ter sido encaminhada a um
psiquiatra sem especialidade pediátrica foi indicado e
este não podia fazer o acompanhamento ideal. médico especialista, que poderia determinar qual a melhor forma de
tratá-la.
A Prefeitura de Santo Antônio da Platina foi procu-
rada pelo G1 para explicar sobre os pedidos do Conselho
Tutelar por um psiquiatra infantil, e ficou de dar uma
resposta. [...]
Disponível em: <http://g1.globo.com/parana/noticia/2012/08/foi-ato-
desesperado-diz-conselheiro-sobre-familia-de-garoto-acorrentado.
html>. Acesso em: 10 jul. 2015.

Sociologia 53
leitura complementar
Na Fran•a, a Conven•‹o Nacional de 1793 tornou pœblica a segunda Declara•‹o dos Direitos do Homem e do Cidad‹o que se
conhece (a primeira era de 1789). Em seu artigo II, essa declara•‹o garante quatro direitos ao ser humano: Òa igualdade, a liberdade, a
seguran•a e a propriedadeÓ.
O te—rico socialista Pierre-Joseph Proudhon, em sua obra O que Ž a propriedade?, discorda veementemente desse artigo, alegando
que, Òse comparamos entre si esses tr•s ou quatro direitos, notamos que a propriedade n‹o se parece em nada com os outrosÓ. Eis o
racioc’nio de Proudhon:
A liberdade é inviol‡vel. Não posso vender nem alienar minha liberdade; todo contrato, toda condição que tenha por ob-
jeto a alienação ou a suspensão da liberdade é nula; o escravo que põe um pé no solo da liberdade torna-se imediatamente
homem livre. Quando a sociedade prende um malfeitor e o priva da liberdade, est‡ agindo em legítima defesa: quem, pelo
crime, rompe o pacto social, declara-se inimigo público; atacando a liberdade dos outros, força-os a tirarem a sua. A liberdade
é condição prim‡ria do estado do homem: renunciar ˆ liberdade seria renunciar ˆ qualidade de homem: como, depois disso,
alguém poderia agir como homem?
De modo semelhante, a igualdade perante a lei não sofre restrição nem exceção. Todos os franceses são igualmente ad-
missíveis nos empregos: eis por que, em presença dessa igualdade, a sorte ou a antiguidade em muitos casos decide a questão
da prefer•ncia. O mais pobre cidadão pode citar em justiça o mais alto personagem e ganhar o processo [...].
Não estou examinando neste momento se este sistema é o melhor; basta-me que, no espírito da Carta e aos olhos de todos,
a igualdade perante a lei seja absoluta e, como a liberdade, não possa ser objeto de nenhuma transação.
D‡-se o mesmo com o direito ˆ segurança. A sociedade não promete a seus membros uma semiproteção, uma defesa parcial;
ocupa-se inteiramente deles, como eles se ocupam dela. Não lhes diz: ÒGarantir-vos-ei, desde que isso não me custe nada;
proteger-vos-ei, caso não corra riscosÓ. Diz: ÒDefender-vos-ei a despeito de tudo; salvar-vos-ei e vos vingarei ou perecerei
eu mesmaÓ. O Estado põe todas as suas forças a serviço de cada cidadão; a obrigação que os prende um ao outro é absoluta.
Quanta diferença na propriedade! Adorada por todos, nenhum a reconhece: leis, costumes, consci•ncia pública e privada,
tudo conspira para sua morte e ruína.
PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a propriedade? São Paulo: Martins Fontes, 1988. p. 43-45.

Voc• concorda com as ideias de Proudhon ou, ao contr‡rio do socialista franc•s, voc• acredita que a propriedade
est‡ no mesmo n’vel da liberdade, da igualdade e da seguran•a? Forme um grupo com seus colegas, preferencial-
mente com aqueles que discordam de voc•, e debatam o assunto. Depois, escreva suas conclus›es.
a discussão proposta a partir do texto de Proudhon pode apresentar opções variadas de argumentação por parte dos alunos.
eis alguns argumentos contrários às ideias de Proudhon:
• Até aqui, na civilização ocidental, os homens não conseguiram organizar satisfatoriamente a vida social, senão com base na propriedade privada.
• A propriedade privada seria justa porque, muitas vezes, é conquistada pelo trabalho.
• A propriedade privada seria boa porque estimula a concorrência de mercado, que é um incentivo ao desenvolvimento no mundo capitalista.
• As próprias noções de segurança e liberdade têm como ponto de partida a propriedade privada: deve-se garantir a segurança do indivíduo
em relação ao que ele possui; a sua liberdade refere-se também a ser o que quiser e a ter o que quiser; o conceito de igualdade nos leva à ideia de
que todos devem ter o direito de possuir as mesmas coisas.
• Muitas tentativas históricas de estabelecer regimes com base em formas radicais de igualdade socioeconômica fracassaram.
agora, alguns argumentos favoráveis às críticas de Proudhon:
• O direito à propriedade privada tem sido utilizado como justificativa para a manutenção de desigualdades inaceitáveis (como a concentração de
riquezas e de terras).
• Vivemos numa civilização que estimula o individualismo e o consumismo (a vontade de ter cada vez mais), em detrimento das ações coletivas e
da solidariedade.
• A propriedade que, assim como o dinheiro, parece ser “natural” não passa de uma instituição social, ou seja, de uma convenção coletiva que
pode ser mudada.
• A propriedade privada dos meios de produção impõe aos que não a têm a submissão aos possuidores. E esta é a base das classes sociais e da
exploração do trabalho.
• A propriedade privada impede a igualdade nas relações políticas de poder.

54 Sociologia
anotações

Sociologia 55
anotações

56 Sociologia
ANGLO
O material do Sistema Anglo de Ensino foi planejado para os alunos do
século XXI, empreendedores e ávidos por inovações e conhecimento.
O que se propõe é aliar a motivação dos alunos com a qualidade de ensino
e os elevados padrões acadêmicos – uma tríade que representa um trabalho de
excelência nas escolas.
Com o conhecimento adquirido na escola, o aluno se sentirá pronto para a
vida em sociedade e, como cidadão, poderá interferir na realidade em que vive.
Nosso objetivo é transformar o lema: “aula dada, aula estudada” em prática,
provocando o exercício da autonomia e o aperfeiçoamento constantes.
Venha conosco nessa jornada!

293731

827052116