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THOMAS KORONTAI

BRASIL Confederação

PUBLICADO EM MAIO DE 1993

Proposta de
Confederação
dos Estados Brasileiros

Prefácio de
Alexandre Garcia

Editora
Pinha
2 BRASIL CONFEDERAÇÃO

BRASIL CONFEDERAÇÃO é um trabalho que propõe a


confederação de estados brasileiros, dentro do princípio de
modernidade administrativa, que caracteriza a descentralização
de poderes e atribuições e o fim do clientelismo político.
Além disso, esclarece os motivos pelos quais o Brasil
chegou à caótica situação atual. Informa também sobre os mode-
los de países como Estados Unidos e Suíça, proporcionando, com
comparações sobre a evolução político-administrativa dessas na-
ções, conclusões sobre o fracasso brasileiro, muito embora nosso
país seja rico em potencialidades, território e população, requisi-
tos básicos para a constituição de uma grande nação..
BRASIL CONFEDERAÇÃO, propõe ainda, de forma
comentada, as bases para uma Nova Constituição, mais simples
e de acordo com o verdadeiro princípio federativo de atribuições
de competências entre Municípios, Estados e União, nas esferas
administrativa, judiciária e tributária - a chamada subsidiariedade.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 3

AGRADECIMENTOS

“Uma andorinha só não faz verão” diz o sábio adágio popu-


lar. Ele se aplica a este trabalho, que representa a condensação
de milhões de palavras trocadas com os mais diversos seres hu-
manos, além de muita leitura e observação crítica do noticiário
diário. A busca do passado fez-me enxergar o que a agitação do
dia-a-dia muitas vezes ofusca.
E nesse “rush” contínuo, minuto após minuto, envolto com
tantas obrigações e projetos, só consegui evoluir neste trabalho,
graças às contribuições dos membros da Câmara Júnior Empre-
sarial de Curitiba. Ao aprovarem a moção que apresentei no dia
16.01.91, em sessão plenária, propondo o início do Movimento
pela Confederação do Brasil, eles avalizaram o sonho de uma
Nação mais moderna, equilibrada e justa.
Ao longo dos estudos e levantamentos, recebi ajudas ines-
timáveis do próprio Movimento, instalado em vários estados brasi-
leiros, com núcleos de gente séria que deseja trabalhar em prol
do País. Obrigado, companheiros e amigos da Câmara Júnior
Empresarial de Curitiba!
Apenas datilografar o que pretende ser um livro não basta.
É preciso revisá-lo, colocar palavras e frases nos devidos lugares.
E só um jornalista com experiência poderia fazer isto: Marco An-
tônio Mondini, profissional de gabarito e cultura destacáveis,
membro da nossa Câmara Júnior Empresarial de Curitiba, sendo
seu assessor de imprensa e ocupando, profissionalmente, cargo
idêntico junto ao SEBRAE/PR. Amigo e companheiro, muito obri-
gado pelas tantas horas e finais de semana “degolados” para
transformar tudo isso num livro!
Não poderia deixar de registrar gratidão para com meu pai,
Miklos, um gênio na arte da engenharia e arquitetura, tantas o-
4 BRASIL CONFEDERAÇÃO

bras e inovações ele realizou ao longo de 35 anos de Brasil, pá-


tria que adotou depois da Hungria de 1956. Ele me mostrou o
mundo desde a mais tenra idade, a partir do momento em que eu
poderia começar a compreender os mistérios da vida, através de
longas conversas sobre a Europa, Estados Unidos e outros paí-
ses e regiões, assim como sobre o comunismo, o nazismo e as
inúmeras experiências humanas, pelas quais pouca gente pas-
sou. Graças a ele, que incentivou a leitura e a pesquisa, tive des-
de cedo uma visão mais clara do planeta em que vivemos. Obri-
gado papai!
Grato, finalmente, àquela que acompanha como mãe substi-
tuta e como companheira de vida as minhas peripécias na busca
de maior dignidade para a gente e para a coletividade, misturando
anseios de idealismo e preocupações cotidianas. Rosemary - a
minha “Méri”- tem muito neste livro, tendo me incentivado, ajuda-
do e corrigido.
Prova de que com amor pode-se construir o que quiser. Vou
agradecer sempre.
Espero sinceramente estar contribuindo de forma positiva
para com o Brasil.
Acredito que, juntos, faremos dele o País com que sonha-
mos.

O Autor
BRASIL CONFEDERAÇÃO 5

PREFÁCIO

UMA “PENSATA” SOBRE O BRASIL


Alexandre Garcia

Thomas Korontai é um jovem maduro que faz uma análise


lúcida sobre os defeitos do “carro Brasil” , neste BRASIL CONFE-
DERAÇÃO.. Numa época em que se volta a falar em parlamenta-
rismo, na verdade se acena com mais um diversionismo, para o
povo, tal como foram as diretas-já, a Nova República, a Constitu-
inte, o Cruzado ... meras pinturas num carro chamado Brasil, cujo
motor está queimando óleo e cuja transmissão está roncando.
Este livro vai além da pintura do carro e mostra por que ele
não funciona e por que é igual às demais carroças que circulam
por nossas estradas carroçáveis, dirigidas por carroceiros que
matam 80 mil brasileiros por ano.
Korontai escreveu para quem quiser entender a crise eco-
nômica, a crise social, a crise política brasileira. Não é apenas a
pregação da idéia da Confederação, mas um diagnóstico de nos-
sas doenças crônicas, enraizadas na cultura nacional.
Ele mostra que, já no século passado, o Brasil - vale dizer,
os brasileiros - já tinha fama de caloteiro na Europa.
Ele nos mostra que o centralismo, o extrativismo, a explora-
ção - são velhos vícios que nos acompanham desde Cabral - “et
pour cause”. Os problemas de hoje não são nenhuma novidade -
eles sempre acompanharam todas as gerações de brasileiros. As
elites sempre trataram de retardar a modernização do País, te-
mendo perder seus privilégios.
6 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Em alguns pontos, Korontai escorrega na sua pureza e faz


concessões como imaginar que o senador de um estado deva
fazer campanha nacional, ou achar que a malandragem é só do
trabalhador, ou dizer que o “país clama pela descentralização” -
quando, lamentavelmente, isso não chegou a 90% da população.
Por outro lado, ele é realista na análise de nossas mazelas,
fazendo-nos raciocinar que o mesmo homem que teve a coragem
de sacrificar popularidade eleitoral, bloqueando os cruzados de
viúvas e aposentados, não teve peito para, na mesma penada
que fez a inconstitucional Medida Provisória, reduzir o tamanho do
Estado e das folhas de pagamento federais, que todo o povo pa-
ga. Também nos faz pensar com a atualização do ditado oriental
de que o sultão (ou marajá) que toma um ovo, faz com que seus
guerreiros, em seguida, se sintam encorajados a levar mil gali-
nhas (dos ovos de ouro ?).
O livro termina com a proposta prática da confederação.
Uma discussão oportuna, às vésperas do início da revisão da ve-
lha Constituição de 1988.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 7

ESTADOS CONFEDERADOS DO BRASIL


(Artigo publicado na imprensa
brasileira em 30/06/92)

BRASÍLIA - É mérito dos portugueses terem mantido a uni-


dade territorial do império brasileiro. Ao longo das fronteiras ter-
restres brasileiras, a América espanhola fragmentou-se em vários
países.
Uma desvantagem foi termos ficado com uma língua pouco
conhecida do mundo, ao passo que o espanhol é a segunda lín-
gua mais difundida no planeta, logo depois do inglês. A sul-
americana espanhola ficou com alguns países mais adiantados,
como o Chile , a Argentina e o Uruguai. É possível que se tivesse
ficado una, como o Brasil, acabasse por ter regiões tão distintas
como têm hoje os países. A geografia, os habitantes originais, as
misturas étnicas posteriores tornaram os países de língua espa-
nhola da América do Sul tão diferentes quanto muitos estados
brasileiros entre si. Por causa disso, no Brasil, tardiamente, al-
gumas vozes invocam diferenças que foram lembradas há mais
de 150 anos, como é o caso do movimento de criação da “Repú-
blica do Pampa” (que vai ser confundida com a Argentina, porque
“pampa” e “gaúcho” evocam a Argentina em qualquer lugar fora
do Brasil).
Reclamam os gaúchos de que seu estado é esquecido pelo
governo federal; reclamam os nordestinos de que são “sugados”
pelo Sul, e que viveriam melhor se independentes do Brasil. Na
verdade, só não reclama quem teria direito de reclamar: São Pau-
lo, que gera impostos e riquezas que são distribuídos pelo país
todo.
Agora, no Paraná, na Câmara Júnior de Curitiba, surge um
movimento capaz de calar todos os demais: por que não dar a
todos autonomia, mantendo a unidade nacional? É o Movimento
da Confederação do Brasil, coordenado pelo jovem empresário
Thomas Korontai, diretor nacional da Câmara Júnior do Brasil.
8 BRASIL CONFEDERAÇÃO

A confederação nada mais seria do que a realização das


promessas não cumpridas da Constituinte, com relação à descen-
tralização do poder nacional, em benefício dos estados. Muito
pouco fez a Constituinte para corrigir o centralismo imposto pelo
sistema militar. Conseguiu tirar poderes do presidente e transferi-
los ao Congresso, mas não teve habilidade bastante para tirar
poderes da União e transferi-los para os estados.
A idéia da confederação parte da simples constatação de
que uma lei feita em Brasília não consegue ser igualmente boa
para o interior do Piauí e para o interior de São Paulo. É que e-
xistem vários brasis, nestes 8 milhões e 500 mil quilômetros qua-
drados. Pode-se até falar a mesma língua, ou quase, mas as
condições econômicas e sociais, em todos os sentidos são tão
diferentes como se fôssemos comparar a Bolívia com o Chile.
O que propõe a idéia é dar autonomia para os estados faze-
rem suas leis - a pena de morte pode valer para o Rio, mas não
para Sergipe - e terem seus impostos para gozar de autonomia
administrativa e financeira. A União ficaria com a política externa,
a emissão de moeda, as Forças Armadas, o Impostos de Renda e
a Suprema Corte. Não era isso que os candidatos à Constituinte
prometiam nos palanques ?
Alexandre Garcia
BRASIL CONFEDERAÇÃO 9

INTRODUÇÃO

BRASIL, UMA CONFEDERAÇÃO


“Aqueles que impedem as revoluções
pacíficas preparam as revoluções sangrentas”
(John F. Kennedy).

A MODERNA ADMINISTRAÇÃO E A
VERDADEIRA DEMOCRACIA
Inflação, corrupção, desperdício, fraudes, pobreza, crimina-
lidade, descaso, impunidade, desgoverno, descontrole, descrédito
nas instituições, indignação, desagregação social. Tudo o que
coloca em risco a unidade nacional.
Esta não é a melhor forma de começar um livro que, afinal
não pretende ser uma história de terror ou uma narração de uma
tragédia.
O que vemos no Brasil, porém, não está muito longe deste
quadro.
A pergunta: Por que o Brasil não dá certo, não é o que
desejamos?
A resposta: Temos um modelo administrativo centralizado,
consagrado na Constituição Federal, caracterizado pelo que se
pode chamar de “federalismo dominador”. Temos uma estrutura
administrativa gigantesca, burra, ineficiente e injusta para os habi-
tantes de um território de 8,5 milhões de quilômetros quadrados,
com três fusos horários (quatro, a rigor) e acentuadas diversida-
des regionais.
10 BRASIL CONFEDERAÇÃO

As causas: A concentração do poder remonta à época da


dominação portuguesa, chega ao reinado de D. João VI, passa
pela Constituição de 1824, pelo Segundo Reinado, adentra a Re-
pública e chega aos dias de hoje, variando o centro do poder en-
tre Rio de Janeiro e São Paulo, fixando-se em Brasília e atingindo
o auge após o golpe militar de 1964, que reduziu a autonomia dos
estados e transformou governadores e prefeitos em mendigos das
verbas federais.
Solução: A descentralização do poder, sua reorganização e
transferência para os estados e municípios, deixando para a
União apenas aquelas tarefas de interesse comum aos estados.
À União é indispensável apenas que cuide da fabricação de moe-
da, comando e manutenção das Forças Armadas, administração
das relações exteriores, controle do sistema financeiro e bancário,
arbitragem dos conflitos entre os estados e outras atribuições legi-
timamente aprovadas por um Congresso Nacional, constituído por
representantes em quantidade proporcional às populações de
cada estado.
Precisamos reformar o Brasil, abrindo espaço para a verda-
deira democracia através da modernidade administrativa, financei-
ra e judiciária, como nos exemplos que temos dos Estados Uni-
dos, Suíça, Espanha, Itália e outros países.
Corremos atualmente sérios riscos de explosão de revolta
social e desobediência civil. Não somos nós apenas a predizer
mazelas para o futuro brasileiro. Apenas concordamos com as
declarações recentes de pessoas com visão da realidade como o
senador paranaense José Eduardo de Andrade Vieira, o ex-
ministro Karlos Rischbieter, o cientista social Hélio Jaguaribe, o
jurista Ives Gandra da Silva Martins, dentre outros, com assertivas
publicadas em importantes órgãos da imprensa.. Foram, aliás,
estas declarações que despertaram a atenção e a vontade de
fazer algo e empunhar explicitamente a bandeira da confedera-
ção.
“Precisamos enfrentar os fatos para escapar da fatalidade”,
refletiu Roberto Campos após chocante comentário de um jovem
diplomata britânico que disse: “vocês brasileiros são uma raça
amorável. Pena que lhes falta factualidade”.
Este livro pretende ser uma contribuição ao Movimento Con-
federação do Brasil, deflagrado em fins de 1991 pela Câmara
BRASIL CONFEDERAÇÃO 11

Júnior Empresarial de Curitiba. Buscamos o debate em torno dos


verdadeiros fatos que “atravancam” o progresso de nossa Nação.
Poderemos conseguir as mudanças aqui propostas através
da vontade do povo. Esperamos que a classe política não fique
surda a estes anseios, pois, se depender do nosso esforço e de
muitas outras pessoas que já enxergaram os verdadeiros fatos,
faremos muito barulho.
Coisas da democracia...
12 BRASIL CONFEDERAÇÃO

ESTE LIVRO COMEÇA EM QUALQUER DE


SEUS CAPÍTULOS
O que propomos com este livro é a reforma do Brasil, que
deve ser entendida sem dirigismos, mas com as necessárias
comparações, pois a opinião se forma com informação. Deixo o
leitor à vontade para iniciar a leitura e a análise dos fatos em
qualquer dos capítulos deste volume. Há pessoas que gostam de
saber primeiro a resposta final, para depois buscar as raízes da
mesma. Outras preferem uma viagem pelos outros cantos para
depois chegar à estação.
Não importa a opção. Pretendemos aqui que todos os ca-
minhos conduzam à realidade dos fatos.
Para não tornar maçante a leitura, apresentamos, logo de
início, os casos de países onde o sistema confederativo, ou o seu
conceito, deu certo e passamos também pelos que se encontram
em ebulição. Através das raízes históricas de cada um deles,
chegaremos às razões que nos levam a defender o sistema con-
federativo para o Brasil. Fazemos uma análise simples de cada
caso, uma narrativa sob o enfoque do desenho administrativo, o
que facilita a conclusão lógica e inequívoca das estratégias da
construção histórica de cada país.
Precisamos também classificar o real significado das pala-
vras Federação e Confederação, pois ambas são, praticamente a
mesma coisa, bastando observar o dicionário. Foi redigido então
um capítulo sobre isto.
Ao longo deste livro, será encontrado o termo “elite” (no sin-
gular ou plural) e, portanto, deve-se explicar qual o conceito enfo-
cado. Em todo e qualquer país, o comando é, necessariamente,
das elites e não poderia ser diferente.
As referências feitas são às elites oligárquicas que,, maqui-
avelicamente, mantêm-se no poder, direta ou indiretamente, prati-
cando sempre uma política burra em relação ao país e a elas pró-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 13

prias, na medida que há falta de desenvolvimento como um todo.


Elas mantêm-se formando o que mais se parece uma “republique-
ta”.
Agora, prezado leitor, é só escolher o capítulo que lerá pri-
meiro ...

CAPÍTULO 1

FEDERAÇÃO E CONFEDERAÇÃO
DEFINIÇÕES

Antes de discutirmos a proposta de instaurar uma confede-


ração brasileira, vamos discutir o real significado desta palavra e
do termo federação, recorrendo ao mais famoso dicionário brasi-
leiro, o “Aurélio”, do filósofo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira -
Editora Nova Fronteira - 2ª Edição.
Federação: 1. União política entre Nações. 2. Associação,
aliança.
Federalismo: Forma de governo pela qual vários estados se
reúnem numa só nação, sem perda de sua autonomia fora dos
negócios de interesse comum.
Confederação: 1. Reunião de estados que, embora conser-
vando a respectiva autonomia, formam um só, reconhecendo um
governo comum. 2. Liga, associação.
Como se pode observar, ambos os termos têm, praticamen-
te, o mesmo significado, pois tanto se pode fazer uma federação
de nações como uma confederação de nações, ou também uma
confederação de estados ou províncias ou uma federação de es-
tados ou províncias.
14 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Temos alguns exemplos disso no mundo, como a confede-


ração das 13 colônias americanas após sua independência, em
1776, e a Confederação Suíça, a qual sobrevive até hoje, mistu-
rando ambos os termos em sua constituição, de onde se poderia
dizer que a “confederação é federal”.
A mudança da confederação para a federação como ocor-
reu nos Estados Unidos, em 1789, foi, no nosso entendimento,
um “arranjo de marketing”, acessório das mudanças da nova
constituição, que vinha para determinar atribuições administrati-
vas em novo organograma nacional. Nada mais que isso. A sim-
ples adoção de um verbete sem substância legislativa em uma
constituição não muda nada.
O fato de pleitearmos uma Confederação de Estados do
Brasil não significa que desejamos um divisionismo generalizado
e sim a necessária autonomia administrava, judiciária e financeira
que possibilite a cada unidade confederada (ou federada, para
quem preferir), gerenciar seu próprio desenvolvimento, de acordo
com suas peculiaridades, características e potencialidades. A
Confederação tem no seu bojo um apelo à diferenciação do sis-
tema administrativo brasileiro atual, um “federalismo dominador“
que fere o próprio conceito do real federalismo. Seria um erro de
comunicação propor a luta por algo que já temos em parte - dirí-
amos que uns dez por cento do valor conceitual do sistema fede-
rativo - causando uma grande confusão na cabeça de cada brasi-
leiro.
Confederação é, portanto, a palavra que significa, neste
momento, descentralização e mudança definitiva para uma nova e
concreta realidade.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 15

CAPÍTULO 2

A FÁBULA DOS PORCOS ASSADOS


“Certa vez, aconteceu um incêndio no bosque onde se en-
contravam alguns porcos. Estes foram assados pelo incêndio. Os
homens acostumados a comer carne crua, experimentaram e os
acharam deliciosos. Logo, toda vez que queriam comer porcos
assados, incendiavam um bosque ... até que descobriram um no-
vo método.
Mas, o que eu quero contar é o que aconteceu quando ten-
taram mudar o SISTEMA para implantar um novo. Fazia tempo
que algumas coisas não iam bem: às vezes, os animais ficavam
queimados ou parcialmente crus; outras, de tal maneira queima-
dos, que era impossível utilizá-los. Como era um procedimento
montado em grande escala, preocupava muito a todos porque, se
o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram igualmente
grandes. Milhões eram os que se alimentavam de carne assada e
também muitos milhões eram os que tinham ocupação nessa ta-
refa. Portanto, o SISTEMA simplesmente não devia falhar. Mas,
curiosamente, à medida que se fazia em maiores escalas, mais
parecia falhar e maiores perdas parecia causar.
Em razão das deficiências, aumentavam as queixas. Já era
um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o
SISTEMA.
Tanto assim que, todos os anos, realizavam-se congressos,
seminários, conferências e jornadas para achar a solução. Mas
parece que não acertavam o melhoramento do mecanismo, por-
que, no ano seguinte, repetiam-se os congressos, os seminários,
as conferências e as jornadas. E assim sempre.
16 BRASIL CONFEDERAÇÃO

As causas do fracasso do SISTEMA , segundo os especia-


listas, deviam se atribuir à indisciplina dos porcos que não perma-
neciam onde deviam; ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil
de controlar; ou às árvores excessivamente verdes; ou à umidade
da terra; ou ao serviço de informações meteorológicas, que não
acertava o lugar, o momento e quantidade de chuvas; ou ...
As causas eram, como se vê, difíceis de determinar porque,
na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo.
Fora montada uma grande estrutura: uma grande maquinaria com
inúmeras variáveis fora institucionalizada. Havia indivíduos dedi-
cados a acender os incendiadores que, ao mesmo tempo, eram
especialistas de setores (incendiadores da zona norte, da zona
oeste, etc; incendiadores noturnos, diurnos com especialização
matutina e vespertina; incendiadores de verão, de inverno, com
disputa jurídica sobre o outono e a primavera). Havia especialis-
tas em vento: os anemotécnicos. Havia um diretor geral de as-
samentos e alimentação assada; um diretor de técnicas ígneas
(com seu conselho geral de assessores); um administrador geral
de florestação; uma comissão de treinamento profissional em por-
cologia; um instituto superior de cultura e técnicas alimentícias
(ISCUTA) e o BRODRIO (Bureau Orientador de Reformas Igneo-
operativas).
O BRODRIO era tão grande que tinha inspetor de reformas
para cada 7000 porcos, aproximadamente. E era precisamente o
BRODRIO que propiciava anualmente os congressos, os semaná-
rios, as conferências e as jornadas. Mas isso só parecia servir
para incrementar o BRODRO em burocracia.
Tinha-se projetado e encontrava-se em pleno crescimento a
formulação de novos bosques e selvas, seguindo as últimas indi-
cações técnicas (em regiões escolhidas, segundo determinadas
orientações, onde os ventos não sopravam mais que três horas
seguidas e onde era reduzida a percentagem de umidade).
Havia milhões de pessoas trabalhando na preparação dos
bosques que logo teriam que ser incendiados. Havia especialistas
na Europa e nos Estados Unidos, estudando a importação de
melhores madeiras, árvores e sementes e de melhores e mais
potentes fogos; estudando idéias operativas (por exemplo, como
fazer buracos para que neles caíssem os porcos antes do incên-
dio, mecanismos para deixá-los sair no momento oportuno, técni-
cos em sua alimentação, etc..
BRASIL CONFEDERAÇÃO 17

Havia construções de estábulos para porcos; professores


formadores de especialistas na construção de estábulos para por-
cos; universidades que preparavam os professores formadores de
especialistas na construção de estábulos para porcos; investiga-
dores que forneciam o fruto do seu trabalho às universidades que
preparavam os professores formadores dos especialistas na cons-
trução de estábulos para porcos; fundações que apoiavam os
investigadores que davam o fruto do seu trabalho às universida-
des que preparavam os professores dos especialistas na constru-
ção de estábulos para porcos, etc..
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exem-
plo, aplicar triangularmente o fogo após a Va-1 pela velocidade do
vento sul; soltar os porcos 15 minutos antes que o fogo-promédio
da floresta alcançasse 47 graus; outros diziam que era necessário
pôr grandes ventiladores que serviam para orientar a direção do
fogo e assim por diante. E não é preciso falar que poucos espe-
cialistas estavam de acordo entre si e que cada um tinha investi-
gações e dados para provar suas afirmações.
Um dia, um incendiador categoria SO/DMNCH (isto é, um
acendedor de bosques especialista sudoeste, diurno, matutino
com licenciatura em verão chuvoso) chamado João Sentido-
Comum, falou que o problema era muito fácil de resolver. Tudo
consistia, segundo ele, primeiramente em matar o porco escolhi-
do, limpando e cortando adequadamente o animal e colocando-o,
posteriormente, numa jaula metálica ou armação sobre umas bra-
sas, até que o efeito do calor, e não das chamas, o assasse ao
ponto.
Ciente, o Diretor Geral do Assamento mandou chamá-lo e
perguntou que coisas esquisitas andava falando por aí e depois
de ouvi-lo, disse-lhe:
- O que o senhor fala está bem, mas somente na teoria.
Não vai dar certo na prática. Pior ainda, é impraticável. Vamos
ver o que o senhor faria com os anemotécnicos, no caso de se
adaptar o que sugere?
- Não sei, respondeu João.
- Onde vai pôr os acendedores das diversas especialida-
des?
- Não sei.
18 BRASIL CONFEDERAÇÃO

- E os especialistas em sementes, em madeiras ? E os de-


senhistas de estábulos de 7 andares, com suas máquinas limpa-
doras e perfumadoras automáticas?
- Não sei.
- E os indivíduos que foram para o estrangeiro para se es-
pecializar durante anos e cuja formação custou tanto ao país. Vou
pô-los para limpar porquinhos?
- Não sei.
- E os que têm se especializado todos esses anos em parti-
cipar de congressos, seminários e jornadas para a Reforma e
Melhoramentos do Sistema? Se o que você fala resolve tudo, o
que faço com eles?
- Não sei.
- O senhor percebe agora que a sua solução não é de que
nós necessitamos? O senhor acredita que, se tudo fosse tão sim-
ples, os nossos especialistas não teriam achado a solução antes?
Veja só! Que autores falam nisso? Que autoridade pode avaliar
sua sugestão? O senhor, por certo, imagina que eu não posso
dizer aos engenheiros em anemotécnica que é questão de pôr
brasinhas sem chamas! O que faço com os bosques já prepara-
dos, ao ponto de serem queimados, que somente possuem ma-
deira apta para o fogo-em-conjunto, cujas árvores não produzem
frutos, cuja falta de folhas faz com que não prestem para dar
sombra? O que faço? Diga-me!
- Não sei.
- O que faço com a Comissão Redatora de Programas As-
sados, com seus Departamentos de Classificação e de Seleção
de Porcos, com a Arquitetura Funcional de Estábulos, Estatísti-
cas, População, etc.?
- Não sei.
- Diga-me: O engenheiro em Porcopirotécnica, o Sr. J.C. da
Figuração, não é uma extraordinária personalidade científica?
- Sim, parece que sim.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 19

- Bem, o simples fato de possuir valiosos e extraordinários


engenheiros em Porcopirotécnica indica que o sistema é bom. E
o que faço com indivíduos tão valiosos?
- Não sei.
- Viu? O senhor tem que trazer solução para certos proble-
mas, por exemplo, como fazer melhores anemotécnicos, como
conseguir mais rapidamente acendedores do oeste (que é nossa
maior dificuldade!); Como fazer estábulos de 8 andares ou mais,
em lugar de somente 7, como até agora. Tem que melhorar o
que temos e não mudá-lo. Traga-me uma proposta para que nos-
sos bolsistas na Europa custem menos ou mostre-me como fazer
uma boa revista para a análise profunda do problema da Reforma
do Assamento.. Isto é o que necessitamos. Isto é o que o País
necessita. Ao senhor falta-lhe sensatez, Sentido-Comum! Diga-
me por exemplo, o que faremos com o meu bom amigo (e paren-
te), o presidente da Comissão para o Estudo de Aproveitamento
Integral dos Resíduos dos Ex-Bosques?
- Realmente, eu estou perplexo! falou João.
- Bem, agora que conhece bem o problema, não diga por aí
que o senhor conserta tudo. Agora o senhor vê que o problema é
mais sério e não tão simples como o senhor imaginava. Tanto os
de baixo como os de fora dizem: “Eu conserto tudo”. Mas tem
que estar dentro para conhecer os problemas e saber das dificul-
dades. Agora, entre nós, recomendo-lhe que não insista com sua
idéia, porque isso poderia trazer problemas para o senhor no seu
cargo. Não por mim! Eu falo pelo seu próprio bem, porque o se-
nhor sabe que pode encontrar outro superior menos compreensi-
vo. O senhor sabe como são às vezes, não é?
João Sentido-Comum, coitado, não falou um “A”. Sem des-
pedir-se, meio assustado e meio atordoado, com a sensação de
estar caminhando de cabeça para baixo, saiu e nunca mais nin-
guém o viu. Não se sabe para onde foi. Por isso é que falam que,
nessas tarefas de reforma de melhoria de sistema, falta o “Senti-
do-Comum”
(Artigo originalmente publicado em Juicio a La Escuela Cirigliano,
Forcade Tilich Editorial Humanitas - Buenos Aires, 1976).
20 BRASIL CONFEDERAÇÃO

COMENTANDO A FÁBULA DOS


PORCOS ASSADOS
Depois de estranhar a colocação desta estória, podemos
concluir que as pessoas acabam por se acostumar aos absurdos
com que convivem e, com maior freqüência, passam a acreditar
que não existem alternativas para aquilo que lhes é imposto.
A fábula dos porcos assados representa, de forma impres-
sionante, o que se vive no Brasil, que teima em retardar a evolu-
ção e busca “melhoramentos” para as suas incongruências.
“É, o Brasil não tem jeito mesmo ...”, ouve-se. Nesta fábula
podemos reconhecer os elementos que compõem a confusão, as
turvações, a falta de rumo e de planejamento, todos coadjuvados
pela ilógica, pela inadmissibilidade, pela incredibilidade sob o pon-
to de vista da realidade mundial.
Para mudarmos o quadro brasileiro basta não seguirmos o
caminho do Sr. João Sentido-Comum. Aliás, o Brasil está cheio de
pessoas assim, abafadas pelas ditaduras e pelo comando das
elites mal intencionadas, através das falácias mais comuns, que
não são menos habilidosas que aquelas descritas por Jeremy
Benthan em seu livro, no ano de 1820. O famoso autor inglês es-
tudou por 50 anos os sofismas que sustentam os privilégios dos
detentores do poder e lastreou sua doutrina em apenas três pala-
vras: PENSAR COM CLAREZA.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 21

CAPÍTULO 3

EXEMPLOS DE
DESCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA

EUROPA - PODER DISTRIBUÍDO


Na Europa, encontramos muitos exemplos de descentraliza-
ção administrativa, além da Itália, Suíça, Espanha. A Alemanha,
antes da reunificação, dividia-se em 18 estados e 14 mil municí-
pios, apesar de ser menor que o Estado de São Paulo em exten-
são territorial. A França tem 97 departamentos e 36 mil comuni-
dades.
Observa-se, nesses países, a descentralização do poder,
dentro de um princípio básico de competência, como a própria
descentralização urbana, resultando em melhor qualidade de vi-
da.

ESPANHA
Catalunha e o país basco, por muitos anos, lutaram pela
autodeterminação e a conseguiram em 1978, dois anos após a
morte do ditador Franco, quando a Espanha ganhou uma nova
Carta Magna. Todos os seus estados se tornaram autônomos e
foram democratizados por completo. A nova Constituição, de
maneira inteligente. apaziguou os ânimos de cada região através
de um redesenho administrativo. Bascos e Catalões aprovaram a
proposta do novo governo. Através de referendum internos, os
integrantes das milícias depuseram as armas e disputaram as
eleições. Restou um grupo de radicais que ainda persiste em
usar a violência para fazer valer direitos que deveriam ser discuti-
dos democraticamente. São os integrantes do ETA, grupo que
22 BRASIL CONFEDERAÇÃO

luta pela independência do país basco, cujas ações o mundo a-


companha apreensivo. Os novos tempos os engolirão, cobrindo-
os com o manto da obsolescência. A nova estrutura da Espanha
permitiu que o país experimentasse dias de grande prosperidade
econômica, depois da grave crise provocada pelo centralismo da
ditadura franquista.

ITÁLIA
São as províncias autônomas que fazem a força do país da
pizza, da pasta, da Ferrari, do design, da moda elegante, das
canções apaixonadas e tantos outros símbolos nacionais.
Giusepe Garibaldi unificou a Itália, mas conservou-se alto
grau de independência para cada província, e os italianos encon-
traram seu modo de resolver os conflitos internos. As diversidades
são muitas, as raízes das etnias são milenares em regiões domi-
nadas por principados, ducados ou pelo poder direto dos papas.
Os dialetos são dezenas, dividindo a língua nacional, embora o
italiano oficial seja o de Roma.
Há um caso de desejo de separação, no Tirol do Sul (região
do Alto Ádige). Até 1918, esta província pertenceu ao Império
Austro-Húngaro e agora clama pela independência ou pela rea-
nexação à Áustria. A líder do movimento, Eva Klotz, afirma que é
direito fundamental humano escolher com quem deseja conviver
em comunidade.
Mas, em geral, existe a satisfação de pertencer ao país da
“bota”. Trento comemorou 800 anos de ininterrupta autodetermi-
nação, no ano de 1991. Lombardia, Ticino, Grigiono e dezenas
de outras províncias são o resultado da formação de um país de
diferenças acentuadas, mas onde todos se sentem italianos.
Mas, a descentralização conseguida ainda não é suficiente.
Desejam muitos italianos a reforma política e tributária, para elimi-
nar o clientelismo encastelado no parlamento em Roma. Buscam
os italianos, para isso, a federalização completa do país no seu
mais amplo conceito.
EX-IUGOSLÁVIA
BRASIL CONFEDERAÇÃO 23

Já podemos chama-la de ex-Iugoslávia. É um caso de de-


sagregação, por guerra civil sangrenta, derivada do desejo de
autodeterminação.
As raízes dos conflitos são muito mais profundas do que
imaginamos nós do ocidente, com pouca informação sobre a his-
tória daquela região da Europa. O jornalista Andrew Clark acom-
panha, in loco, os mais espetaculares acontecimentos e explica
que as repúblicas que procuram separar-se da Iugoslávia, - Croá-
cia, Eslovênia, Bósnia Herzegovina e Montenegro - são nações
que sempre estiveram ligadas a outras de algum modo. Participa-
ram, inclusive, do Império Austro-Húngaro. A Croácia é uma re-
pública de 4 milhões de pessoas e há 800 anos não sabe o que é
independência. A Eslovênia, desde a Idade Média, sempre fez
parte de algum Império e Montenegro, igualmente, não tem a me-
nor experiência moderna de autonomia. Mas, as batalhas que
travam os sérvios, que defendem o status quo, não deixam mar-
gem de dúvida: a autodeterminação é inexorável, tal como está
previsto nas “megatrends” do cientista social e político John Nais-
bitt.

A DES-UNIÃO SOVIÉTICA
“Há entre os Estados, como entre os indivíduos, diversida-
des de cultura, de honestidade, de riqueza e de força. Mas, resul-
taria disso alguma diferença no que diz respeito a seus direitos
essenciais? A soberania é direito elementar dos Estados constitu-
ídos e independentes. Ora, a soberania quer dizer igualdade. Na
teoria como na prática, a soberania é absoluta”. (Rui Barbosa)
A “federação soviética não existe mais. Sobrou apenas a
prova de que o federalismo dominador e totalitário não tem mais
lugar em um mundo de tendências cada vez mais liberais. O ser
humano adquire a consciência de sua individualidade e busca o
respeito perdido - ou nunca gozado.
A União Soviética nunca foi na verdade uma federação, mas
uma “amarração” forçada de inúmeras etnias. A autodetermina-
ção nacional, movida pela força das etnias, demanda preliminar-
mente reconhecida como direito na Conferência de Versailles,
reviveu depois de 70 anos.
24 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Culturas nacionais, povos, países recuperaram os laços com


suas origens, colocando uma grande pedra sobre o stalinismo.
O fato é que não se pode segurar uma enchente que vem
de todos os lados. A Cortina de Ferro não agüentou, enferrujan-
do rapidamente ao contato com as águas da liberdade e do livre
mercado, especialmente quando se estabeleceu a carestia. O
Kremlin não poderia mais conter a vontade dos “súditos” de adqui-
rir calças jeans, videocassete, discos de rock, consumir coca-cola
e hambúrgueres e implodiu-se a estrutura que se considerava
inexpugnável. Não fosse a habilidade de Gorbachev em abrir as
válvulas deste caldeirão de duas forças - o vácuo das necessida-
des e a pressão pela liberdade - a contar de 1985, os conflitos
que ocorrem isoladamente, como na Iugoslávia, talvez fossem
hoje generalizados na Ex-União Soviética.
Os mapas da Europa e Ásia foram redesenhados com o
final da União Soviética. São 15 repúblicas que voltam às suas
origens, resgatando cada uma suas raízes culturais, étnicas e
religiosas que preexistiam à Revolução de 1917. Mais que uma
ideologia, morreu o exemplo de um centralismo excessivo, contrá-
rio ao que está gravado nos próprios cromossomos do ser huma-
no. Provou-se que nada é impossível quando a população, de
fato, quer mesmo o desmonte espetacularmente rápido e inexorá-
vel da mais temida federação do planeta, depois dos Estados
Unidos. É como se nunca tivesse existido uma União Soviética -
pensarão seus ex-habitantes nos anos 2010 ou 2020.

CANADÁ ENFRENTA BUSCA DE


AUTONOMIA INTERNA
Transcorre o ano de 1992 e o Canadá enfrenta problemas
políticos internos face à busca de maior autonomia de uma de
suas maiores províncias: Quebec. A notícia está na revista Busi-
ness Week, de 15 de abril/92. Na verdade, Quebec pode até se-
parar-se do país.
A razão dessa busca de autonomia é o chamado “federa-
lismo dominador” A semelhança com o movimento separatista do
Sul do Brasil é mera coincidência? O que deseja o povo de Que-
bec é desenvolver seu próprio gerenciamento, através de um judi-
ciário próprio e de poderes para legislar sobre seus impostos. Há
BRASIL CONFEDERAÇÃO 25

muitos anos, a província vem fazendo uma série de reivindicações


neste sentido. Sua população de 6,7 milhões de habitantes, dos
quais 83% são franceses, prefere agora a separação política do
país.
Na realidade, não deverá ocorrer uma guerra civil, como na
Iuguslávia, pois os articuladores do movimento pretendem apenas
uma separação política, mantendo o uso do dólar canadense co-
mo moeda e os mesmos passaportes. Pretende o menor impacto
possível na área econômica do país e da própria Quebec. Um
plebiscito já foi feito em 1980, acusando 60% de votos contra e
40% a favor. As pesquisas mais recentes, porém, prevêem uma
maioria significativa de votos a favor. Entre as causas está o êxo-
do de cidadãos de origem inglesa para outras regiões do Canadá,
já contados em 200 mil pessoas.
Preocupa o comportamento das demais províncias, caso
ocorra a separação de Quebec, especialmente, daquelas que
fazem fronteira com os Estados Unidos. Estas poderão unir-se ao
país vizinho. As províncias marítimas também terão problemas,
pois sua economia é mais fraca e há também as que poderão não
aceitar a influência de Otawa.
Quebec vem trabalhando silenciosamente pela autonomia,
assumindo, passo a passo, o controle de seus negócios, inclusive
da política econômica, dos programas sociais e culturais, dentro
de um determinado plano que objetiva formar uma nova nação -
observa um diplomata norte-americano lotado em Quebec. E a
província tem cacife.
A Hidro-Quebec, companhia de eletricidade, detém ativos
de US$ 34 bilhões e é a sétima maior do mundo. A Bombardier
constrói equipamentos de transporte e aviões, com venda anuais
de US$ 3 bilhões. Mantém ritmo de crescimento e tem planos de
abranger todo o mercado da América do Norte, Dentro em breve,
Quebec produzirá 12% de todo alumínio do mundo. A SNC Lava-
lin está faturando US$ 2,6 bilhões com a construção de um siste-
ma elevado de trânsito em Bangkoc. A Caisse Dépot e Placement
administra fundos de pensão no valor de US$ 31 bilhões, enquan-
to que a Mouvemant Desjardins é uma ampla instituição de crédi-
to com ativos de mais de 40 bilhões.
Mas, nem todo está perdido para o Canadá. Bastará o go-
verno central aceitar as reivindicações de maior autonomia e
26 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Quebec se manterá unida ao país. O primeiro ministro da provín-


cia, um federalista, acredita que Quebec estará em melhor situa-
ção se mantiver-se unida ao Canadá e tenta aplacar o ânimo se-
paratista, insistindo para que Otawa ceda poderes substanciais
aos quebequenses.
O Partido Liberal já fez uma lista de 22 questões sobre as
quais a província deverá ter jurisdição, dentre elas a cultura, a
educação e o desenvolvimento regional.
Fixou também seis atribuições que permaneceriam com O-
tawa, dentre elas a defesa e a política monetária. Ainda, segundo
a proposta dos liberais, nove setores seriam partilhados entre
governo central e governo provincial. Dois exemplos seriam a tri-
butação e a imigração. Há um detalhe curioso: as propostas são
de Quebec para Quebec. As demais províncias que “se virem”.
O “federalismo dominador” saturou os canadenses e eles
tomaram consciência do fato. O procedimento lógico e civilizado,
neste caso, é formular uma nova proposta administrativa do tipo
confederativo, uma federação avançada com base no modelo
norte-americano. É a melhor solução para o grave problema que
os canadenses enfrentam, agravado pelas divergências de língua,
etnia de franceses e ingleses, além das dimensões territoriais.
Para abrigá-los em um mesmo país é preciso respeitar suas indi-
vidualidades.
O Canadá nunca este tão próximo de uma divisão e qual-
quer que seja o resultado do impasse, as repercussões já estão
garantidas em todo continente.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 27

CAPÍTULO 4

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA


“Cada homem e todos os grupos de homens na
Terra possuem o direito de se governarem”
(Thomas Jefferson - 1790)

OS ESTADOS UNIDOS E SUA AVANÇADA


FEDERAÇÃO
Quando falamos em democracia e desenvolvimento econô-
mico, logo volvemos nossa mente para os Estados Unidos, o país
da nova América que mais deu certo, além do Canadá.
Logicamente, os norte-americanos não estão livres dos pro-
blemas que afligem a humanidade. Mas, eles formam o maior
mercado consumidor do mundo. As cifras de sua produção são
medidas em dezenas de bilhões de dólares para cada setor de
atividades, o que, sem dúvida, gera oportunidades para muita
gente, inclusive para os latinos e gente de outras origens que não
encontram dignas formas de vida em seus países em troca do seu
trabalho e procuram instalar-se no território americano. Se anali-
sarmos friamente o contexto do desemprego e o submundo exis-
tentes nos Estados Unidos, seguramente, veremos que suas víti-
mas são basicamente as chamadas “minorias” integradas pelos
negros (nem todos), coreanos e latinos - estes últimos em grande
massa - e que a causa não é a segregação imposta pelo “siste-
ma” a estas minorias, mas as características culturais que leva a
atitudes individuais de não adaptação às regras do jogo. Para se
tornar um cidadão americano de classe média, o indivíduo deve
28 BRASIL CONFEDERAÇÃO

possuir certos padrões de instrução, determinadas atitudes, certos


modos de agir. Para se tornar um milionário self-made-man ame-
ricano, serão outros padrões a seguir. Pouco importará a cor da
pele.
Quais as razões que fizeram este país dar certo e chegar à
condição de economia nº 1 do planeta? Várias, sem dúvida. Uma
delas é a formação anglo-saxônica que imprimiu ao povo norte-
americano alguns aspectos culturais próprios dos países situados
no hemisfério norte.
O forte desejo de autodeterminação é outro desses aspec-
tos. Embora a colonização dos Estados Unidos tenha começado
mais de 100 anos após a do Brasil, século e meio depois da che-
gada de John Smith, em 1607, já se declarava a independência;
com muito sangue. A declaração, ocorrida em 4 de julho de 1776,
exigiu a formação de um governo e no modelo organizacional
adotado reside outra razão do sucesso do país, a maior de todas,
talvez.
A formação de um governo não poderia ter como orientação
a falta de respeito à individualidade, pois esse era um dos valores
pelos quais os colonos haviam lutado. Há uma filosofia política e
organizacional bastante explícita no texto da “Declaração de In-
dependência”. Consideramos como auto-evidentes as verdades
que afirmam “ser todos os homens criados iguais e dotados pelo
seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a
vida, a liberdade e a busca da felicidade; que para garantir esses
direitos são constituídos os governos entre os homens, derivando
sua força justa do consentimento dos governados; que sempre
que qualquer forma de governo se tornar destruidora destes fins,
o povo terá o direito de alterá-lo ou aboli-lo e de constituir um no-
vo governo que tenha por alicerces esses princípios e organizar o
seu poder da forma que pareça a melhor maneira de conseguir
sua segurança e felicidade”.
A luta pela independência foi sustentada pelas 13 colônias,
espalhadas do meio para o leste americano, e a formação do no-
vo governo implicava a aceitação em participar do mesmo, assi-
nando a Constituição como Estados autodeterminados, mas liga-
dos à nação por interesses comuns, o que representava a cessão
de poderes específicos à União. Deu-se assim forma legal aos
ideais políticos manifestos na Declaração da Independência e
chances para os estados remediarem algumas de suas reivindi-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 29

cações nas constituições estaduais. Já em maio de 1776, antes


da Declaração, o Congresso havia aprovado uma resolução, a-
conselhando as colônias a formarem novos governos “da melhor
forma que encontrassem e que fosse condizente com a seguran-
ça e a felicidade de seus cidadãos”.
A maioria das constituições estaduais americanas
mostrava o impacto das idéias liberais de então, pois não conti-
nha leis de exceções. A primeira foi a da Virgínia, que serviu de
modelo para as demais, contendo uma declaração de princípios
que incluía a soberania popular, a rotatividade de cargos, eleições
livres e a enumeração de liberdades fundamentais como fianças
moderadas e punições humanas, a manutenção de uma milícia
em lugar de um exército permanente, julgamentos rápidos por
meio de júri, liberdade de imprensa e consciência, direito da maio-
ria em formar ou alterar o governo, a proibição de mandados judi-
ciais generalizados. As demais constituições foram ampliadas
com mais direitos, incluindo a liberdade da palavra, de assembléi-
a, de petição e igual proteção sob a lei.
Enquanto as 13 colônias se transformavam em estados,
pioneiros começavam a formar novas comunidades a oeste, atra-
ídos pelas ricas terras do lado Pacífico, o que começou a gerar
problemas. Eram questões com os índios, brigas por terras, co-
mércio de peles, estabelecimento de localidades, implantação de
governos regionais e disputa de terras no oeste.

OS PROBLEMAS DA CONFEDERAÇÃO
Não foram solucionadas todas as questões nacionais com
esse modelo. Vários estados, dada sua autonomia, aprovaram
resoluções que prejudicavam os outros, criando restrições ao co-
mércio interestadual. Em meio aos problemas da guerra da Inde-
pendência, a Confederação, amarrada frouxamente, não estabe-
lecera que o governo nacional deveria possuir autoridade especí-
fica para algumas questões, como a regulação do comércio, o
lançamento de impostos para fins nacionais, o controle das rela-
ções internacionais, a manutenção do exército e a fabricação e
controle da moeda. Havia nos Estados Unidos da América, inici-
almente, uma curiosa mistura de moedas nacionais e estadual
que se depreciavam rapidamente.
30 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Além disso, os efeitos da guerra se faziam sentir sobre os


produtores, criando uma crise econômica importante. As querelas
judiciais de execução de dívidas contraídas pelos produtores e
fazendeiros se multiplicavam. Logo a população começou a agir
com violência, exigindo reformas legislativas que regulassem a
questão. As disputas entre Maryland e Virgínia sobre a navega-
ção do rio Potomac levaram a uma conferência de cinco estados,
em 1786. Estes foram convencidos por Alexander Hamilton - o
qual, mais tarde, tornar-se-ia presidente dos Estados Unidos - de
que aquela questão era pouco relevante diante de tão sérios pro-
blemas enfrentados pela nação. Hamilton conseguiu então articu-
lar todos os Estados para a elaboração de cláusulas adicionais à
Constituição, de modo a torná-la adequada às exigências da
União. Seguiram-se as eleições de representantes em todos os
estados, as quais abafaram a indignação do Congresso Nacional
diante da formação de um poder legislativo paralelo.
Algumas das mais notáveis figuras americanas de todos os
tempos, dentre elas George Washington, Benjamin Franklin (já
com 81 anos de idade), James Wilson, James Madison, um sapa-
teiro que se tornou juiz chamado Roger Sherman e o próprio Ha-
milton, elaboraram e assinaram, juntamente com os delegados
estaduais, as mudanças na Constituição. Faltou Jefferson, que
se encontrava na França em missão oficial.
A convenção ficou na história, porque em lugar de criar al-
guns artigos de emenda constitucional, na verdade redigiu uma
nova Constituição, que buscou a reconciliação entre os poderes
locais e o governo central. Os poderes do governo federal foram
cuidadosamente delineados e ficaram para os estados as funções
que não conflitassem com os da União.
Os convencionais basearam-se nos conceitos de Montes-
quieu sobre o equilíbrio de poder na política. Estabeleceram-se
três esferas de poder iguais e coordenadas: o poder executivo, o
legislativo e o judiciário, harmoniosamente equilibrados, de modo
que nunca um prevaleça sobre o outro. Os delegados dos esta-
dos trabalharam durante todo o verão de 1787 e formularam um
projeto que incorporava, num breve documento, a organização do
mais complexo sistema de governo até então imaginado pelo ho-
mem: um governo supremo dentro de uma esfera claramente de-
finida e limitada. A “Décima Emenda”, em 1791 tornaria isto cla-
ro: “os poderes não delegados aos Estados Unidos pela Constitu-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 31

ição nem proibidos por ela aos estados, são reservados aos esta-
dos ou ao povo, e a supremacia das leis federais é limitada por
aquilo que for feito conforme manda a Constituição”.
Ficou estabelecido que a União teria a responsabilidade de
cunhar a moeda, criar impostos, fazer empréstimos, fixar pesos e
medidas, conceder patentes e copyrights, estabelecer correio e
construir estradas, além de manter o exército e a marinha e regu-
lar comércio internacional e interestadual, entre outras. Ficaram a
seu cargo as relações com os índios, a naturalização de estran-
geiros, o controle das terras públicas, a função de admitir novos
estados em absoluta igualdade. Adquiriu, portanto, poderes elás-
ticos para o planejamento nacional e para a organização das ge-
rações posteriores. Também ficou clara a situação geopolítica dos
Estados Unidos no contexto mundial, no decorrer dos anos e até
os dias atuais.
Embora a constituição confederativa das colônias fosse
substituída por uma constituição federativa, o princípio básico do
autogoverno - exceto nos negócios em comum dos estados - ficou
bem delineado.
Com a nova Constituição promulgada, o próprio Congresso
ganhou força ao se equiparar com o poder executivo e o judiciá-
rio. Depois de dezesseis semanas de deliberações, no dia 17 de
setembro de 1787, a nova Constituição, completa, foi assinada
por todos os estados que consentiram em ceder poderes à União
e a nova ordem foi adotada, após ratificação das 13 colônias da
Confederação, em 25 de junho de 1789.
Houve dificuldades para que todos os estados/colônias rati-
ficassem, em assembléias próprias, a Constituição Nacional, pois
havia receio de que a União adquirisse poderes excessivos e
transformasse a Carta em instrumento de tirana e opressão, atra-
vés de pesados impostos. Para vencer esse medo - bastante
justificado, diga-se de passagem - foi criada uma Declaração de
Direitos, encabeçada pelo estado de Massachussets, que a inclu-
iu na própria constituição estadual. A declaração foi logo adotada
pelos estados indecisos e terminou sendo incorporada à Carta
Magna Federal e transformada em lei suprema do país.
Entre esses direitos consta a garantia aos cidadãos dos
Estados Unidos a liberdade de religião, de palavra, de imprensa,
o direito de julgamento por júri, processos rápidos conforme a lei
32 BRASIL CONFEDERAÇÃO

do país e a proibição e mandados gerais. Repetiu-se, de certa


forma, a Declaração de Direitos da Constituição dos dias da inde-
pendência.
Tudo definido e sacramentado, o Congresso da Confedera-
ção providenciou a primeira eleição presidencial, marcada para 4
de março de 1789, sendo eleito George Washington e iniciando-
se aí uma nova forma de governo. Foi a partir deste momento que
o país começou a crescer vigorosamente.
As diversidades climáticas, de etnias, de solos, de culturas,
ampliadas pelas grandes distâncias de um país continental, so-
mente puderam ser vencidas pelo modelo administrativo adotado.
Através dele, os americanos conseguiram harmonizar todas as
desigualdades, sem prejuízo de uns em relação aos outros. Ob-
teve-se, ao longo de mais de duzentos anos de história, um avan-
ço contínuo da unidade nacional e do orgulho que os americanos
sentem em relação ao seu país.
Teci essas considerações históricas - embora não creia que
sejam suficientes para que se entenda todo o processo de forma-
ção de um paÍs que deu certo no que diz respeito ao desenvolvi-
mento e o colocou à frente das decisões mundiais. Os Estados
Unidos influenciam toda economia do planeta e podem impor sua
vontade pela pujança e força de sua economia.
Não adianta nos queixarmos das influências dos americanos
pois, se estivéssemos em seu lugar, certamente, faríamos o
mesmo, dentro do contexto geopolítico mundial.
Resta a nós, brasileiros, reconhecer com humildade que não
fomos felizes no modelo político escolhido e, numa atitude com-
petente, mudarmos para o modelo que permitirá o real aproveita-
mento das nossas riquezas.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 33

CAPÍTULO 5

SUÍÇA - UMA “CONFEDERAÇÃO


FEDERATIVA”
“Interpretar a vontade do povo é, para nós,
toda a filosofia, toda a política.”
(Proudhon)

A Confederação Suíça é um exemplo de democracia e efici-


ente organização administrativa. Sua referência evoca uma ima-
gem de riqueza, limpeza, ordem, liberdade, tranqüilidade política,
segurança, renda per capita das mais altas do planeta e a respei-
tabilidade nacional e internacional.
É um pequeno país com apenas 41.300 quilômetros qua-
drados, pouco mais que um quinto da área do Estado do Paraná,
e com população de 6,5 milhões de almas, menor que a parana-
ense. É pobre em matérias primas, não tem costa marítima, mas
sua importância econômica é bem maior que seus recursos natu-
rais. A população economicamente ativa de 3 milhões de pesso-
as provoca uma renda per capita na ordem de US$ 20 mil. Politi-
camente está dividida em 26 estados membros, denominados
cantões e semi-cantões, os quais conservam grande parte de sua
autonomia, da mesma forma que os 3.000 municípios, denomina-
dos comunas.
A Suíça pode não ser um modelo administrativo para o Bra-
sil, que, para copiá-lo ao pé da letra, terminaria com 5.200 esta-
dos-membros. É, porém, uma demonstração de que o sistema
confederativo pode ser adaptado às características de qualquer
país onde o povo ame a liberdade.
34 BRASIL CONFEDERAÇÃO

A Constituição Suíça reconhece quatro línguas oficiais. O


alemão, falado por 65% da população, o francês (18%), o italiano
(10%) e o rético ou romanche (1%). Os Alpes ocupam 60% da
superfície.
Picos de até 4.000 metros de altura servem apenas para os
alpinistas e para atrair turistas, além dos profundos lagos. Em
30% do espaço concentram-se as atividades produtivas sobre um
planalto - o Platô.
Nestas condições, o país, nos últimos 150 anos, transitou de
uma economia agrícola para uma sociedade pós-industrial, graças
a uma estrutura de poder, baseada na vontade da população, na
descentralização das decisões e em um governo central com atri-
buições específicas, mas de interesse comum. Como os Estados
Unidos, a confederação de estados suíços passou por transfor-
mações importantes, especialmente em função de uma guerra
civil, ocorrida em 1847, do tipo revolucionário. Na época, não
estavam definidos os poderes e atribuições do governo central, o
que o tornava flexível demais e colocava em risco a fraca união
dos estados-membros. Ao final da guerra, adotaram-se regras
mais rígidas e definidas, sem que se ferisse, no entanto, as liber-
dades individuais dos cidadãos e da livre empresa, mantendo-se
a confederação.
Em verdade, o início da confederação data de 1291, quando
uniram-se em aliança três nações: Uri, Shwyze e Uterwald - situa-
das no coração dos Alpes. Eram vias de comunicação das mais
importantes para a ligação Norte-Sul da Europa e despertavam a
cobiça das potências européias. A aliança foi a base da futura
confederação, constituída de um pacto de ajuda mútua. A data
nacional da Suíça ainda é o 1º de agosto, dia em que se celebrou
a aliança de 1291. O juramento não pretendia, na época, criar um
país, mas preservar a autonomia tradicional das três regiões e os
direitos dos camponeses livres.
Logo, outras regiões, como Lucena, Zurique e Berna tam-
bém uniram-se ao pacto, mantendo seus direitos e preservando-
os até hoje, reconhecendo o princípio da igualdade política das
pequenas e grandes comunidades. No século XV, a Confedera-
ção Suíça já contava com 13 estados independentes. Depois de
fracassada tentativa de expansão, em guerra com a Itália, em
1515, optou pela neutralidade armada, assinando pacto interna-
cional nesse sentido, em Viena, e assim é até hoje.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 35

Afligiram-na problemas, como as divisões religiosas, que


redundaram em guerras civis entre os confederados em conse-
qüência da Reforma Protestante do século XVI, mas a aliança
não se rompeu. Ao contrário, tais encrencas até favoreceram a
aliança, na medida que a faculdade de assumir compromissos e
respeitá-los se tornou uma característica essencial na política suí-
ça. O espírito de tolerância que passou a existir, após aqueles
conflitos, atraiu mais regiões para a confederação.
No início do século XIX, burgueses suíços proclamaram a
República Helvética, um estado nacional, baseado na centraliza-
ção administrativa, com supressão da antiga confederação de
estruturas feudais e corporativas. Tiveram para este feito o apoio
do exército francês.
Mas logo Napoleão deu à Suíça sua antiga organização
federalista. O longo caminho percorrido pelos suíços não resultou,
portanto, em uma nação unitária, mas em uma associação de
estados livremente unidos no respeito e solidariedade recíprocos,
um país criado pela vontade de seus habitantes. Comunidades
de pequenas dimensões, de diferentes graus de força econômica,
tradições e culturas múltiplas coabitam num mesmo Estado.
Com o fim da guerra civil de 1847, os suíços decidiram-se
por uma unidade econômica e por um estado federativo mais es-
truturado, que reconhece a autoridade dos cantões e municípios.
O símbolo da estabilidade existente, desde então, é a Constitui-
ção, redigida em 1848, que conserva a quase totalidade dos arti-
gos originais. Ficaram sendo atribuições do governo central as
relações exteriores, alfândega, fabricação da moeda, correios e
telecomunicações, o exército, a arbitragem dos conflitos interna-
cionais, a garantia dos direitos individuais e da livre empresa.
De outro lado, os cantões continuaram com sua soberania
em matéria religiosa, política e assistência pública.
O poder de legislar pertence à Confederação, mas a execu-
ção das leis é da alçada dos cantões no Direito Civil e Penal, nos
seguros sociais e nas leis de trânsito.
Há também setores nos quais a Confederação divide atribu-
ições com os cantões, como na legislação de impostos, constru-
ção de estradas, instrução pública (educação), formação profis-
sional e política cultural.
36 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Na política, a estrutura é bastante complexa. O país é emi-


nentemente parlamentarista, com uma assembléia federal (parla-
mento) constituída de duas câmaras. Uma delas é o Conselho
nacional, formado por 200 membros, representantes dos cantões
m números proporcionais à população. Não é formado por políti-
cos profissionais. Os deputados são chamados de conselheiros
nacionais, reunidos em bancadas e recebem uma indenização
para cada sessão a que comparecem. O presidente do Conselho
é eleito anualmente. A outra câmara é o Conselho de Estados ou
Senado e é integrado por representantes de cada cantão.
O poder executivo cabe ao Conselho Nacional, um colégio
formado por sete ministros com direitos iguais. A cada ano se
reúne a Câmara dos Deputados (Conselho Nacional) e o Senado
(Conselho dos Estados), formando uma Assembléia Federal, para
eleger o presidente da Confederação. Este assume tão somente
a presidência das sessões de governo e certas funções de repre-
sentação. Interessante é a formação ideológica do Conselho Na-
cional composto por uma fórmula fixa desde 1959: dois socialis-
tas, dois radicais, dois democrata-cristãos e um membro da União
Democrática do Centro, que representa os camponeses, artesãos
e comerciantes. Esta mesma fórmula é adotada pela maioria dos
cantões que possuem seu próprio parlamento, assim como nas
mais de 3.000 comunidades.
Cada membro do Conselho Nacional, como ministro, res-
ponde por um departamento.
A administração federal é comandada pelo chanceler da
Confederação, cargo ocupado por um alto funcionário eleito pelo
parlamento. Ele participa dos trabalhos do Conselho com voz
consultiva, sendo secundado por dois vice-chanceleres.
Os sete departamentos, comandados pelos sete ministros,
são os seguintes: Relações Exteriores, Interior (seguros sociais,
meio ambiente, estatísticas, educação. cultura, ciências, escolas
politécnicas federais, meteorologia, edifícios da administração
pública), Justiça e Política (legislação, polícias estrangeiras, minis-
tério público, seguros, propriedade intelectual, planejamento terri-
torial, proteção civil), Militar (defesa do país), Finanças (finanças
federais, gestão do pessoal administrativo, impostos, alfândega,
instituto dos álcoois, administração do trigo, pesos e medidas,
organização da administração), Economia Pública (comércio exte-
rior, indústria, artesanato, trabalho, agricultura, veterinária, obser-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 37

vação da conjuntura, habitação) e, por fim, o Departamento dos


Transportes, Comunicação e Energia.
Há ainda um Tribunal Federal, a mais alta instância judiciá-
ria do país. Além de examinar os recursos de Direito Público ou
de Direito Administrativo, decide também litígios de Direito Civil
entre a Confederação e os cantões, sentenças em instância final,
ações cíveis de particulares contra a Confederação e ainda de-
sempenha o papel de corte penal suprema.
A autonomia das comunas difere de lugar para lugar. Cada
uma pode legislar inclusive sobre questões tributárias, criar impos-
tos sobre a renda, sobre o valor dos bens de pessoas físicas ou
jurídicas, caso considere necessário. A decisão, normalmente,
ocorre nos parlamentos locais ou, conforme o tamanho da cidade,
através do “lansgemeinde”. Trata-se de uma antiga tradição culti-
vada em muitos cantões para eleger representantes ou para votar
atos e dispositivos governamentais locais. Os cidadãos se reúnem
em praça pública , a céu aberto, e votam, levantando a mão.
O comando das cidades, na maioria dos casos, cabe a um
colegiado eleito pelos cidadãos. Os cargos são honoríficos ou têm
uma compensação simbólica. A soberania, porém, - vale deixar
claro - não invade os setores de competência exclusiva da Confe-
deração, garantidos pela Constituição Federal.
Vale ressaltar, por último, que a participação dos cidadãos
no processo de desenvolvimento econômico da Suíça é muito
ativa, especialmente, através do associativismo.
As associações e sindicatos têm muita influência política e
são chamados a dar seu parecer, juntamente com os cantões,
sobre a preparação de projetos de leis importantes. Isso se faz
através de procedimentos de consulta e a tomada de posição das
entidades é determinante do processo legislativo.
Na Suíça existe uma unidade voluntária e inteligente que
produziu uma das democracias mais avançadas do mundo. O
resultado é a estabilidade econômica e uma renda per capita mui-
ta elevada, graças ao respeito à individualidade e ao controle
constante das possíveis tendências centralizadoras.
38 BRASIL CONFEDERAÇÃO

CAPÍTULO 6

BRASIL
RÁPIDAS CONSIDERAÇÕES
HISTÓRICAS SOB OUTRO PONTO
DE VISTA

“Mesmo os homens maus podem ser levados


pelo mercado a fazer o bem, enquanto que homens
bons podem ser induzidos pelo processo político a fazer o mal.”
(Arthur Selson)

Nosso país, descoberto em 1500, teve sua colonização ini-


ciada somente trinta anos após, quando os portugueses percebe-
ram que a única maneira de proteger a propriedade recém “adqui-
rida” era colocar colonizadores em suas terras. Franceses e ho-
landeses já fustigavam as costas brasileiras atrás de riquezas
naturais. De natureza predominantemente extrativista, os portu-
gueses viram-se obrigados a criar capitanias hereditárias, nas
quais a fixação de populações viria ocasionar a implantação de
culturas de subsistência e outras atividades produtivas. O territó-
rio da colônia foi então dividido em 14 lotes, cedidos para os do-
natários (governadores das capitanias) em regime de hereditarie-
dade. Vieram para cá bandidos e marginais que lotavam as ca-
deias de Portugal.
Os problemas para explorar a nova terra eram muito gran-
des para os portugueses. Eles encontravam mais rentabilidade
explorando a Índia, onde já havia uma produção organizada, bas-
tando impor a autoridade do rei D. João III para obter lucrativos
negócios.
No Brasil era muito diferente. Nada existia senão índios,
muitos deles ainda em estágio da Idade da Pedra, e o calor e o
BRASIL CONFEDERAÇÃO 39

desconforto da selva tropical. Embora tivesse enriquecido com as


descobertas e o comércio da era das viagens por mar, Portugal
era um país pequeno e sem estrutura para encarar grandes inves-
timentos em recursos humanos e financeiros para efetiva ocupa-
ção do território brasileiro.
A tentativa do sistema de capitanias foi o embrião da atual
divisão dos estados brasileiros, fracassando pelos motivos expos-
tos e pela incapacidade dos donatários para enfrentar os france-
ses e os holandeses que invadiam as terras ou os silvícolas, es-
pecialmente ferozes antropófagos, que viviam ao norte. D.João III
resolveu, então, implantar, em 1549, o governo geral, embrião do
governo central brasileiro, primeira estrutura oficial local a dar uni-
dade a regiões até então unidas apenas pela continuidade territo-
rial e pela vinculação ao mesmo colonizador.
Duas capitanias, no entanto, deram certo. São Vicente, fun-
dada em 1530 por Martin Afonso de Souza e comandada por Jo-
ão Ramalho e Brás Cubas e a de Pernambuco, comandada por
Duarte Coelho. Estes homens tinham visão de administradores e
deram início ao cultivo da cana-de-açúcar, que veio a ser bastante
lucrativo quando a produção de açúcar da Sicília decaiu e os eu-
ropeus passaram a pagar bem pelo produto. Para ampliar a cultu-
ra da cana os portugueses praticaram a importação de escravos
africanos e efetuou-se assim uma nova interferência na formação
da cultura e da sociedade brasileira, dado que a população negra
trouxe raízes tribais de organização.
O Governo Geral implantado no Brasil significava o início da
centralização total das ações políticas em torno de uma única
autoridade, a qual se reportava diretamente ao Rei de Portugal.
Ficavam ao seu titular subordinadas todas as tarefas administrati-
vas, inclusive os assuntos de justiça e da defesa interna e exter-
na. O governador geral era assessorado por muitos funcionários
com atribuições específicas como o alcaide-mor (chefe da milícia),
o capitão-mor (encarregado da defesa do litoral), o ouvidor-geral
(encarregado da justiça), o provedor-mor (que fazia a administra-
ção dos negócios da fazenda).
As capitanias passaram a ser subordinadas ao Governo
Geral e nas cidades foram formadas câmaras municipais, presidi-
das por um juiz nomeado pelo Rei e integradas pelos vereadores,
eleitos dentre os “homens bons” de cada lugar (plutocracia), in-
cumbidos de votar as medidas administrativas. A Igreja, face a
40 BRASIL CONFEDERAÇÃO

sua estreita ligação com o Estado, passou a ter papel fundamen-


tal, especialmente na catequização dos índios.
O chamado Ciclo da Cana-de-açúcar marcou a história do
Brasil com o surgimento de vilas e seu crescimento ao longo da
costa, com a monocultura, o latifúndio, a escravidão, a dependên-
cia ao mercado consumidor europeu, a concentração da renda
em parte mínima da população (europeus que vinham não como
agricultores, mas como grandes senhores latifundiários). A socie-
dade agrária daqueles tempos persiste até hoje na maior parte da
região nordeste do Brasil, onde as cidades são meros prolonga-
mentos dos engenhos de açúcar, com parca ou nenhuma auto-
nomia econômica e total influência dos senhores das terras.
Formaram-se “ilhas” de prosperidade isoladas na imensidão
territorial, graças à terra boa e à mão-de-obra gratuita. Nessas
“ilhas” fabricavam-se armas, roupas, carros-de-bois, utensílios e
florescia o regime patriarcal, com o dono de fazenda decidindo
sobre a vida e a morte de todos os demais, influenciando direta-
mente também as câmaras municipais, na origem do coronelismo
político. E somente os homens ricos podiam aspirar aos cargos
políticos.
Mesmo com tantos problemas para ocupar a já vasta imen-
sidão verde, o Brasil cresceu em extensão territorial, graças às
Entradas e Bandeiras. Essas incursões ao território interior tinham
por objetivo travar conhecimento com as terras inexploradas dado
que a colonização se dava apenas próximo ao litoral. A partir da
metade do século XVI, as Entradas chegaram à Amazônia, sertão
de Minas, Bahia e Sergipe, fazendo surgir notícias da existência
de ouro e pedras preciosas nas terras recém-vistas.
Formaram-se, então, as Bandeiras, que eram agrupamentos
bem mais numerosos que as Entradas, com a participação espon-
tânea da população ansiosa por enriquecer. Pelas suas dimen-
sões e estrutura organizacional, foram chamados por alguns his-
toriadores de “cidades que se moviam”. Mas não eram custeadas
pelo governo e sim por capitalistas. Desses fatos, a importância é
que deram início ao Ciclo do Ouro, que substituiu o da cana-de-
açúcar e triplicaram o território brasileiro. No tempo em que Por-
tugal esteve unido à Espanha, os bandeirantes não precisavam
respeitar a linha do Tratado de Tordesilhas e deixaram inúmeras
povoações portuguesas do lado espanhol da América do Sul, co-
mo Cuiabá, Caetê, Vila Rica, Diamantina, Vila Bela e muitas ou-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 41

tras. Rompida a união Portugal/Espanha, os territórios explorados


pelos portugueses a eles ficaram pertencendo de fato e de direito
do Uti possi detis (“como possuis”; direito de posse de um territó-
rio por um país, fundamentado na ocupação efetiva e prolongada
e independente de qualquer outro título). Devemos a vitória desse
argumento a Alexandre de Gusmão, que defendeu a posse das
terras ocupadas pelo nosso povo.
Vale lembrar, ainda, desse período da história do Brasil e da
formação social, cultural e política do Nordeste, o desenvolvimen-
to dessa região por influência dos holandeses, que lá estiveram
instalados pela invasão de 1624 (na Bahia, primeira tentativa) e
em 1630 em Pernambuco, onde permaneceram até 1654. Pela
administração de Maurício de Nassau, a cidade de Recife chegou
a ser o principal centro cultural da América do Sul, possuindo até
um observatório astronômico. Com a Insurreição Pernambucana,
os holandeses foram definitivamente expulsos do Brasil, mas
suas obras, métodos de produção e influências ficaram. Uma das
mais importantes conseqüências foi, sem dúvida, o sentimento
nativista, criado juntamente com a guerra contra os franceses no
Rio de Janeiro. Formava-se um sentimento e unidade nacional.
O Brasil, a essa altura, já tinha 150 anos de história e os
cidadãos nativos já eram mais numerosos que os portugueses
aqui instalados. Surgiam os sentimentos antilusitanos. Sucede-
ram-se alguns conflitos isolados como a Revolta do Maranhão e a
Guerra dos Emboabas, esta última ocasionando a criação das
capitanias de São Paulo e de Minas Gerais, separadas do Rio de
Janeiro. Em outros lugares do Brasil ocorriam conflitos originados
na luta pelo poder.
Foi o caso da Guerra dos Mascates, entre Olinda e Recife,
um caso de autofagia. Olinda era a capital e Recife, com o pro-
gresso deixado pelos holandeses, ascendia à condição de vila,
adquirindo autonomia. Essa guerra chegou a alimentar tendên-
cias separatistas, como a proposta da criação da República de
Pernambuco, rapidamente abafada com a chegada de um novo
Governador Geral para a colônia.
Os holandeses que foram expulsos do Brasil transferiram a
cana-de-açúcar para as Antilhas e, graças a sua produtividade,
ocuparam o mercado europeu de açúcar, provocando a decadên-
cia da cultura canavieira brasileira. Portugal passou então a en-
frentar novos problemas econômicos. A impotência em adminis-
42 BRASIL CONFEDERAÇÃO

trar esse novo quadro, agravado pela agressividade dos tradicio-


nais inimigos europeus, fê-los unirem-se à Inglaterra, único país
que lhe era amistoso. Por um tratado, Portugal obrigou-se a com-
prar da Inglaterra o tecido, em troca da venda de todo vinho pro-
duzido na Ilha da Madeira.
Evidentemente, os ingleses saíram lucrando, pois deles
passou a ser também o transporte dos produtos das colônias para
a Europa, tirando de Portugal as chances de equilibrar a econo-
mia. As descobertas de jazidas de ouro e pedras preciosas salva-
ram os lusitanos de problemas maiores, até o final do século XVII-
I, graças a uma rígida fiscalização e direção das minas, que ren-
diam o famoso “quinto”, um tributo sobre a exploração. Portugal
concentrava todo o poder, mas, face ao alto tributo, aumentava
cada vez mais o contrabando. Mas as descobertas de ouro no
México e no Peru puseram em decadência o Ciclo do Ouro e ali-
mentaram o movimento de separação de Portugal. A Inconfidên-
cia Mineira - o registro histórico precursor da liberdade - falhou e
seus líderes foram executados, presos ou exilados e o Brasil per-
deu a chance de ser uma República como planejavam os inconfi-
dentes. Pode-se dizer que, pela primeira vez, perdemos o “bonde
da história”.
O segundo “bonde perdido” foi a Conjuração dos Alfaiates
(1798), movimento que tinha quase tudo em comum com a Incon-
fidência Minera, inspirado que era nos acontecimentos europeus
de revolução por distribuição mais justa das riquezas e por demo-
cracia.
Em 1808, a família real muda-se para a colônia, fugindo das
pressões de Napoleão, que invadiu Portugal. Dez mil pessoas
vieram junto com ela e iniciou-se uma nova fase da história do
Brasil.
Os dois países ibéricos, conhecidos como “imensos corpos
com cabeça pequena”, em alusão às grandes extensões territori-
ais de suas colônias, não acompanhavam a emergente Revolu-
ção Industrial e ficavam cada vez mais dependentes da Inglaterra.
Começava, por vias transversas, uma dominação anglo-saxônica
sobre as Américas, exceção feita aos Estados Unidos, que já for-
mavam uma república independente.
Podemos examinar essa nova fase sob três aspectos. O
primeiro deles é de natureza econômica. A abertura dos portos
BRASIL CONFEDERAÇÃO 43

colocou o Brasil em condições de comercializar mais amplamente


e quebrou-se a proibição de instalar indústrias na colônia. Caíram
duas grandes barreiras que impediam o Brasil de crescer. Flores-
ceram a indústria e o comércio e em 1812 já tínhamos a primeira
usina siderúrgica, em Congonhas de Campos, com supervisão
técnica de um especialista alemão. Foi criado o Banco do Brasil e,
em 1815, a Casa da Moeda, que alavancavam um desenvolvi-
mento ainda maior.
O segundo aspecto é político-administrativo. Instalado no
Rio de Janeiro, o governo real criou todos os órgãos administrati-
vos e pastas ministeriais que antes existiam apenas em Lisboa.
Em 1815, o Brasil foi elevado à categoria de Reino Unido a Portu-
gal e Algarves, recebendo armas especiais que foram gravadas
nos selos, bandeiras e moedas. Foi o fim de fato do regime colo-
nial e o Brasil já sobrepujava os próprios conquistadores. Afinal, a
sede do reino estava aqui.
O terceiro aspecto, cultural, é o surgimento das artes e das
técnicas, estimuladas pela criação de escolas de ensino superior,
instalação da Imprensa Real e surgimento do primeiro jornal brasi-
leiro (Gazeta do Rio, em 1808), fundação da Biblioteca Real
(1810), criação do Horto Real, da Academia Real Militar e da Aca-
demia de Belas Artes.
Com esse novo quadro, ficou claro que não havia mais ra-
zões para o Brasil permanecer unido a Portugal e em 1822 era
declarada a Independência, por membros da própria casa real
portuguesa. O Brasil acompanhava o caminho de toda a América
espanhola, que seguia líderes libertadores como San Martin, Bolí-
var, Artigas e O’Higgins.
Uma coisa não pode ser esquecida nesta sinopse: a feste-
jada independência do Brasil, acompanhada do centralismo go-
vernamental, fez com que o desenvolvimento econômico, social e
cultural ocorresse com muito vigor no Rio de Janeiro, enquanto
sentimentos separatistas tornavam a manifestar-se ao Norte. Em
1817, as lideranças pernambucanas encontraram apoio em Ala-
goas e Paraíba e também no estrangeiro (Estados Unidos e Ingla-
terra), e, pelo sentimento da necessidade de autonomia, de auto-
determinação, insurgiram-se, querendo separar-se de Portugal e
do Rio de Janeiro, imaginando implantar uma República. A rebeli-
ão foi abafada pelas tropas reais e a maioria dos líderes revolu-
cionários foi executada.
44 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Em Portugal também clamava-se por democracia nesta é-


poca. Quando, em 1816, a dinastia portuguesa já havia recupe-
rado a nação do domínio francês e inglês e morreu D. Maria I, o
Rei D. João VI viu-se obrigado a retornar a Portugal. Sua primeira
missão seria enfrentar uma revolta liberal em Lisboa e Porto, que
visava estabelecer uma nova constituição. Eram os liberais, no
Brasil e em Portugal, sinal de que a monarquia estava no fim, co-
mo em vários países europeus.
D. Pedro ficou no Brasil em lugar de seu pai, D. João VI,
como Príncipe Regente, para optar em seguida pela independên-
cia do seu quinhão e tornar-se dele o Imperador. Ele manteve,
porém, centralizado o poder. Uma das leis que decretou logo a-
pós o famoso “Dia do Fico” (9 de janeiro de 1822) determinava a
instalação, no Rio de Janeiro, do Conselho dos Procuradores Ge-
rais das Províncias, com a incumbência de aconselhar o Príncipe
em todos os assuntos de caráter relevante. Reservava-se, portan-
to, a esse conselho o poder de tomar decisões sobre questões
muitas vezes distantes, de províncias que sequer conhecia.
Meses depois, a 7 de setembro, contra as pressões que o
Príncipe continuava recebendo de Portugal para que retornasse e
respondesse processo, foi declarada a separação definitiva. O
gesto não foi suficiente para garantir a união territorial. Existiam
focos de resistência em diversas províncias e D. Pedro obrigou-se
a recrutar escravos, prisioneiros (em troca de liberdade) e até de
estrangeiros (ingleses e austríacos) para manter a independência
e evitar a desagregação nacional. Esses focos d resistência eram
liderados por governadores das províncias que se mantinham fiéis
à Coroa e foram, sucessivamente, derrotados pelas tropas do
Império. Mas também surgiam diversos movimentos de cunho
essencialmente separatista, durante todo o reinado de D. Pedro I
e até a metade do reinado de D. Pedro II. Um dos exemplos foi a
Confederação do Equador, em 1824, pelo qual desejavam tornar-
se independentes as províncias do Norte.
Se analisarmos esses movimentos com o que acontece ho-
je, quando nos deparamos com ondas separatistas, não encon-
tramos muitas diferenças. As revoltas que surgiram eram fruto da
busca da identidade e autonomia, que o governo central não da-
va. Era assim ao Norte e Nordeste e também ao Sul. A Guerra
dos Farrapos, por exemplo, originada com a Proclamação da Re-
pública de Piratini, no Rio Grande do Sul, não tinha de fato a in-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 45

tenção de isolar-se do restante do país, mas sim, transformar o


Brasil em uma República.
Era o exemplo dos países da Bacia do Prata, como o Uru-
guai, que se desmembrou do Brasil após a guerra e acordo com a
Argentina mediado pela Inglaterra, e assim que conseguiu a liber-
dade adotou a forma republicana de governo, exemplo seguido
pela Argentina e Paraguai. Entendiam os gaúchos que a Repúbli-
ca de Piratini seria apenas um primeiro passo para que as demais
províncias a acompanhassem e formassem mais tarde uma Re-
pública Federativa. O projeto libertário, mais uma vez, foi sufoca-
do.
Fica difícil imaginar o destino da nação se houvesse naque-
la época maior liberdade para as províncias. Uma suposição é
cada província prosperaria sem alimentar o desejo de autonomia
absoluta, mas com orgulho de pertencer a um país que acompa-
nhava a vanguarda do seu tempo, especialmente, na forma de
governo.
Uma suposição apenas. A cultura brasileira estava marcada
por trezentos anos de dominação portuguesa, extrativista, escra-
vagista e exploradora por excelência. É mais provável que a uni-
dade nacional conquistada e mantida pelos portugueses, por to-
das as formas, desse lugar ao que aconteceu nas colônias espa-
nholas, que se transformaram em inúmeros países. O quadro de
mudanças geopolíticas da época não estava definido ainda. Tudo
era muito tênue e a construção e manutenção de um país depen-
dia de uma série de fatores diversos dos de hoje.
No sul do Novo Continente era diferente também a forma-
ção histórica em relação ao Norte. Os Estados Unidos da América
sofreram uma dominação inglesa que não era apenas extrativista,
mas que, na colonização, visava aproveitar os recursos naturais e
humanos como se fosse uma “multi-fábrica”, cujos donos majoritá-
rios eram os de além mar, mas que proporcionavam um desen-
volvimento em todos os sentidos, com uma organização horizon-
talizada. Surgiram daí os conceitos de organização que vigoraram
com a declaração da Independência e com a formação do novo
país. No Brasil, ao contrário, o poder era totalmente verticalizado
e centralizado no Rei de Portugal e depois no Imperador e seu
gabinete de ministros.
46 BRASIL CONFEDERAÇÃO

A Constituição de 25 de março de 1824, a primeira que ti-


vemos e que manteve a estrutura vertical, procurava afastar o
perigo de recolonização, implantando um governo de cooperação
entre o imperador e as classes dominantes, excluindo as classes
socialmente inferiores dos direitos políticos - coisa que nunca tive-
ram mesmo.
Essa exclusão, na prática, formaria, ao longo do tempo, a
contumácia da elite em manter o povo submisso, sem direito al-
gum, com exceção de algumas garantias individuais, “um grande
avanço”, segundo alguns historiadores. A Constituição promovia
também uma liberdade econômica bastante ampla, o que benefi-
ciou proprietários rurais, foreiros e rendeiros, face ao valor agre-
gado no comércio de seus produtos e graças ao domínio do mer-
cado.
Em 1831, a 7 de abril, o Imperador D. Pedro I, abdicava em
favor de seu filho D. Pedro de Alcântara. Cedeu a muitas pres-
sões contra seu autoritarismo e seu desrespeito constante à
Constituição que ele próprio outorgara à nação. Partiu para a terra
mãe, onde morreu em 1834, aos 36 anos de idade. D. Pedro I
teria cometido diversos erros que revoltaram os súditos, como, por
exemplo, assumir uma dívida de dois milhões de esterlinos junto à
Inglaterra, dívida esta de responsabilidade de Portugal, resultante
de empréstimos feitos pelos ingleses para - pasmem - financiar
as lutas armadas contra a Independência do Brasil. Aconteceu
que o Brasil não estava conseguindo o reconhecimento diplomáti-
co de sua independência por muitos países, dado o Tratado da
Santa Aliança, assinado pela França, Portugal e Áustria, visando
a recolonização das colônias recém-emancipadas na América do
Sul. Somente os Estados Unidos, em 1824, reconheciam o Brasil,
até porque fora inspirador do movimento separatista das demais
colônias americanas e reconheciam a si próprios ao reconhecer
os demais. Talvez um pouco mais de paciência.
Mais importante que o mérito ou demérito de assumir tal
dívida é o fato de o Brasil “começar bem” sua nova vida, com uma
dívida externa considerável, que o colocava em posição de de-
pendência aos ingleses. “Foi um coice na boca do estômago”,
como escreveu José Bonifácio, revoltado, a um amigo. Mas “con-
sumatum est” - consumado está. D. Pedro I também resolveu
mandar armas e navios aos portugueses para o combate aos mi-
guelistas, que haviam tomado o poder e derrubado Dona Maria da
BRASIL CONFEDERAÇÃO 47

Glória, sua filha. Houve também o problema da província Cisplati-


na, na já referida formação do Uruguai, depois de indisposições
com franceses, americanos e argentinos.
Com a partida de D.Pedro I, o Brasil passou um período nas
mãos de regentes especiais, enquanto o príncipe herdeiro não
atingia a maioridade para assumir o poder. Cremos que foi nesse
momento que nosso país perdeu pela terceira vez o “bonde da
história”, pois nada impedia que o Brasil se transformasse em
República.
D. Pedro de Alcântara tinha apenas 4 anos de idade e fica a
pergunta: por que se manteve o status quo? Por quem? Durante o
período da regência, passada de mão de acordo com as encren-
cas políticas da época, firmaram-se dois partidos junto ao Parla-
mento: o Conservador e o Liberal. Os liberais defendiam o federa-
lismo, buscando dentro da União, autonomia para as províncias
para que pudessem gerenciar seu próprio desenvolvimento, a
exemplo do que acontecia nos Estados Unidos. Os conservado-
res queiram a manutenção do poder centralizado. A bagunça polí-
tica era generalizada, se observarmos o que dizem os livros de
história mais simples. Dizem eles que José Bonifácio de Andrada
e Silva, anteriormente revoltado contra os atos de D. Pedro I, or-
ganizou, juntamente com seus dois irmãos, um partido, o Restau-
rador, que pretendia a volta do antigo monarca. Pelo visto, vem
daquela época o hábito de montar partidos em profusão e pular
de um para outro como se troca de camisa ... Sem mencionar os
casuísmos.
Uma certa autonomia provincial houve em 1834, quando o
Ato Adicional de 12 de agosto alterou vários artigos da Constitui-
ção e transformou a Regência Trina em Regência Una.
Observe-se aqui a continuidade da cultura messiânica de
buscar sempre um salvador da pátria (que reserve os interesses
das classes dominantes, naturalmente).
Como na salvação messiânica, face às desastradas gestões
dos Regentes, os quais alternavam-se no poder ao sabor dos
dissabores da politicagem, era “necessário” fazer o príncipe “cres-
cer” mais rápido.
Após muita discussão sobre a antecipação de sua maiorida-
de, D. Pedro II foi entronado aos 15 anos de idade, com apoio de
48 BRASIL CONFEDERAÇÃO

um colossal movimento popular, encabeçado pelo Clube da Maio-


ridade.
Logo tratou de nomear seu ministério e fortalecer o Parla-
mentarismo. Formou o “Ministério dos Irmãos”, assim chamado
porque era composto de quatro irmãos, recrutados junto ao Clube
da Maioridade. Não durou um ano e foi exonerado pelo Impera-
dor.
O Segundo Reinado durou meio século e segundo os histo-
riadores pode ser dividido em quatro fases. A primeira vai de 1840
a 1849, tida como de adaptação e de consolidação do poder cen-
tral e da unidade política nacional, especialmente com o sufoca-
mento das revoltas internas. Foi criada a Presidência do Conse-
lho de Ministros, que solidificou o Parlamentarismo e possibilitou o
alavancamento da segunda fase, tida como de grande progresso
econômico, intelectual e artístico, o apogeu do Império, assinala-
do entre 1853 e 1863.
A paz e o progresso, porém, não duraram muito tempo, pois
veio uma terceira fase, recheada de guerras, a do Paraguai e do
Uruguai.
Com a quarta fase, iniciou-se a decadência do regime. A
busca de mudanças fez ressurgir muitas desavenças políticas,
que minaram definitivamente a Monarquia e abriram caminho para
as idéias republicanas.
Entre os inúmeros problemas do Segundo Reinado, desta-
ca-se o da escravatura. Segundo historiadores - e estamos de
pleno acordo - as indecisões e o retardamento dos fatos impedi-
ram o progresso do país debutante. Na época (assim como ainda
hoje), imperava o pensamento gradualista, que beneficiou os
grandes proprietários rurais, no caso da abolição da escravatura.
Com os escravos, eles tinham mão-de-obra aparentemente grátis
e essa política burra ocasionou uma verdadeira freada na história.
O Brasil foi ficando para trás em relação ao resto do mundo, es-
pecialmente dos Estados Unidos, que pelas dimensões similares
é nosso melhor termo de comparação no continente.
Essa postura fez com que o Brasil, em meio a uma série de
leis e decretos sobre a questão dos escravos - muitas vezes não
cumpridas - já tivesse na Europa a imagem de um país que so-
mente cumpria promessas à força ou sob pressão. Após meio
século de legislação paliativa - da proibição do tráfico de africanos
BRASIL CONFEDERAÇÃO 49

até a lei do Ventre Livre - em 1888, foi finalmente assinada a Lei


Áurea.
Juntando as peças que construíram mais de sessenta anos
de reinado, podemos concluir que sofremos um atraso substanci-
al, devido às intrigas entre liberais e conservadores, que tinham
mais interesse no poder que na causa patriótica. A semelhança
com os dias de hoje é extraordinariamente grande, trocando ape-
nas os temas. Foram líderes retardadores, coadjuvados pelos
escravocratas, latifundiários e pela nobreza nababesca, a quem
interessava retardar o mais possível o avanço natural das liberda-
des e convicções humanas em voga na Europa e América do Nor-
te. Por exemplo, assim como a questão escrava, a questão agrá-
ria ficou “imexível”, mesmo com a Lei da Terra em vigor desde
1850, só que como “letra morta”.
Nos trezentos anos de poder centralizado em Portugal, se-
guidos de quase um século de poder centralizado na família real
no Rio de janeiro, formou-se um povo sem tradição de participar
na vida política nacional. A Constituição de 1824 só fornecia di-
reitos políticos aos abastados, deixando de fora o povo e esse,
geração após geração, foi submisso - e por isto pacífico - e até
hoje aceita qualquer coisa de qualquer governo e carrega nas
costas uma política paternalista que tem como princípio “dar cin-
qüenta para tirar cem”.
Foi assim que o Brasil nasceu, chegando em 1889 à Repú-
blica, que poderia ter acontecido cem anos antes, em 1789, com
a Inconfidência Mineira, sufocada maquiavelicamente, impondo-
se medo ao povo através de exposição de restos mortais de Tira-
dentes nos caminhos de Minas Gerais, declarando-se também
infames seus filhos e netos, dentre outras providências que não
deixaram dúvidas do castigo a ser dado a quem ousasse por uma
pátria livre e organizada.
Durante a fase de decadência da Monarquia, uma forte crise
econômica, piorada pelas fugas de escravos, abriu campo para
crises militares e religiosas e as idéias republicanas ganharam
força, principalmente em São Paulo no eixo da economia do país,
dado que nesta província a imigração de estrangeiros já substituía
a mão-de-obra escrava. A proclamação da República foi o primei-
ro golpe de estado experimentado pelo Brasil. Os militares derru-
baram a Monarquia e assumiram o poder provisoriamente com o
Marechal Deodoro da Fonseca. Foi montado um ministério e, em
50 BRASIL CONFEDERAÇÃO

21 de dezembro de 1889, foi convocada a primeira Assembléia


Constituinte da República. As primeiras eleições para governado-
res dos estados aconteceram em 15 de setembro do ano seguin-
te, com ampla vitória dos republicanos. Muita confusão política
haveria de ocorrer antes de consolidar-se a República.
Em 1891, o Marechal Floriano Peixoto substituiu Deodoro,
que renunciara. Dissolveu o Congresso, suprimiu liberdades polí-
ticas, inaugurou a ditadura militar no Brasil. Deu início a um perí-
odo de violência contra as pessoas, de guerra civil e deportações.
A Revolução Federalista custou mais de dez mil vidas extermina-
das por degolas, fuzilamentos ferozes, repressão desvairada.
Viu-se o que até no Império se desconhecia. Grupos de líderes
insatisfeitos lutaram pelo retorno da Monarquia e foram sufoca-
dos. Dá-se a este período o nome de Consolidação da República,
mas pode-se chamar de impedimento à volta da Monarquia. E, a
partir daí, sucederam-se no poder lideranças militares e depois as
civis apoiadas pelas classes dominantes. As revoltas eram mais
disputadas pelo poder, pois os presidentes o queriam com todas
as prerrogativas, chocando-se com o conceito de uma verdadeira
república federalista, dotada de um Congresso Nacional forte.
Até o ano de 1930, sucederam-se nove presidentes, sempre a-
poiados por oligarquias. Observou-se pouco crescimento econô-
mico. Chama a atenção a construção de algumas ferrovias e es-
tradas. Destaca-se, porém, o crescimento territorial, com a anexa-
ção do Território do Acre, comprado da Bolívia, o ganho do Ama-
pá, em disputa com a Guiana Francesa e as disputas da Lagoa
Mirim com o Uruguai e das Missões, com a Argentina.
Em 1930, assume Getúlio Vargas, líder de um movimento
que denunciava fraudes nas eleições, depois de concorrer com
Júlio Prestes, que contara a seu favor uma diferença de um mi-
lhão de votos. Vargas assumiu o poder depondo Washington
Luís, com o apoio de forças militares. Iniciava-se o Estado Novo
sem um programa de governo, mas com divisão entre constitucio-
nalistas e autoritários nacionalistas. Os primeiros eram liberais e
os outros, fomentados pelos tenentes das Forças Armadas, ti-
nham idéias políticas não democráticas. Apesar disso, o governo
de Vargas resultou numa rápida industrialização - novidade para o
Brasil - criou leis trabalhistas, fortaleceu o Exército e modernizou
a Marinha. Mas não houve mudanças no que diz respeito ao
chamado federalismo autêntico. Os liberais exigiam uma consti-
tuição e eleições livres. Em São Paulo, formou-se a Revolução
BRASIL CONFEDERAÇÃO 51

Constitucionalista, que acabou se transformando em separatista e


perdeu o apoio de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Em 1934,
Vargas viu-se obrigado a convocar uma Assembléia Constituinte e
o resultado foi uma carta federalista e presidencialista. Federalis-
ta em termos ...
O mundo lá fora sofria mudanças e evoluíam o Comunismo,
o Fascismo, o Nazismo. Fortaleceu-se, então, no Brasil, o Partido
Comunista, enquanto Vargas flertava com nazistas e fascistas.
Os comunistas organizaram um movimento denominado ANL -
Aliança Nacional Libertadora, que, após revolta iniciada pela ala
radical no Norte do país, provocou a decretação de estado de
sítio. O Congresso apoiara o presidente nesta decisão, mas ne-
gou-se quando Vargas pediu sua prorrogação. Aproximavam-se
as eleições e Vargas não poderia concorrer, devido a impeditivo
constitucional. Por essa e por outras razões, apelou para um novo
golpe de estado, em 10 de novembro de 1937, prometendo um
plebiscito para daí a seis anos.
Mantinha-se no poder o Estado Novo, sem nenhuma ideolo-
gia política e sem nenhum apoio partidário, mas respaldado na
Forças Armadas e na Polícia. Se existia no país algum princípio
federalista, apagou-se neste tempo e o Brasil continuava na sua
trajetória de centralismo, apesar de possuir um território enorme e
diferenças regionais que se acentuavam sempre mais.
Logo, Vargas percebeu o declínio dos movimentos fascistas
da Europa e que isto poderia reduzir a sua força e afetar o seu
comando. Decretou então uma vasta legislação previdenciária,
atraindo para si a simpatia dos operários e inaugurando o chama-
do Trabalhismo. Os sindicatos também ganharam força e, para as
funções de liderança, foram colocados os “pelegos”, homens do
governo instruídos para o controle dos trabalhadores.
Em 1945 foram convocadas eleições e o Brasil voltava ao
regime democrático. No ano seguinte já tínhamos uma Constitui-
ção, considerada a mais democrática de todas, apesar de o PCB -
Partido Comunista Brasileiro - ter seu registro cassado, por ser
considerado antidemocrático. O “federalismo” retorna à vida do
país. Vargas se elege presidente em 1951, candidato pelo PTB -
Partido Trabalhista Brasileiro. Foi eleito pelo povo, mas não con-
seguiu governar, com tantas intrigas que poluíram a cena nacio-
nal. Carlos Lacerda, seu maior adversário político, sofreu um a-
tentado militar. As Forças Armadas exigiram sua renúncia. Var-
52 BRASIL CONFEDERAÇÃO

gas suicidou-se. Sucederam-no Café Filho e Carlos Luz, este des-


tituído e substituído por Nereu Ramos. Chegamos a Juscelino
Kubitschek de Oliveira. Homem prático, marcou presença na his-
tória com uma política de desenvolvimento espetacular, embora
improvisada, e por isso mesmo, sem continuidade no período de
seu sucessor, Jânio Quadros. Com Jânio, o personalismo fez
prevalecer o centralismo. O país viu-se prejudicado por um gover-
no que dava combate à inflação e à corrupção com medidas aus-
teras e por outro lado praticava atos polêmicos como a condeco-
ração a Che Guevara. Por este feito, Carlos Lacerda ocupou a
cena política nacional novamente e dirigiu ao presidente um ata-
que verbal pelo rádio, acusando também o Ministro da Justiça,
Pedroso Horta, de tentativa de golpe. Jânio colocou seu cargo à
disposição do Congresso, numa tentativa de fortalecimento pró-
prio, mas foi surpreendido pela decisão dos deputados, que, sem
hesitação, aceitaram a renúncia. Assumiu o vice-presidente João
Goulart, mas com a condição imposta pelos militares de se institu-
ir o Parlamentarismo. O país viveu novos momentos sem plano de
governo, enquanto Jango lutava pelo retorno ao Presidencialismo,
até que um plebiscito derrotou suas pretensões. Enquanto isso, a
inflação atingia índices jamais conhecidos e a dívida externa so-
mava “estonteantes” três bilhões de dólares. Jango, acusado pe-
los militares de incentivar as esquerdas e o comunismo, em 31 de
março de 1964 fugiu para o Uruguai, deixando vaga a presidên-
cia. Os militares tomaram o poder no dia seguinte (ou nas primei-
ras horas de 1º de abril, como preferem alguns) e os políticos ten-
taram transformar o fato em mais uma intervenção como as que
haviam ocorrido antes. Sem vice-presidente, assumiu o poder o
presidente da Câmara dos Deputados, mas este ato foi invalidado
em 9 de abril, pela Junta Militar intitulada Supremo Comando Re-
volucionário, que fez publicar o Ato Institucional nº 1, atribuindo-
lhe poderes extraordinário, como a supressão de direitos políticos
de qualquer cidadão. O excesso de politicagem praticado depois
de Vargas inutilizou a oportunidade de descentralização do poder
havida com a Constituição de 1946 e até com alguns momentos
de Parlamentarismo. Caímos no lado contrário, com um Estado de
Exceção, tudo novamente centralizado, líderes cassados e caça-
dos, opinião pública contida, assim como foi abafado o surgimen-
to de novas lideranças. A vida política no Brasil parou, morta pela
própria insensatez.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 53

Desnecessário discorrer sobre a escuridão política que o


Brasil viveu por vinte anos, cujo véu começou a ser desvendado a
partir do governo do General Geisel e durante o período do Gene-
ral Figueiredo, num processo um tanto parecido com a “enrolada”
libertação dos escravos. Foi um período de grande desenvolvi-
mento econômico, no qual estacou-se a construção da estrutura
nacional de energia, comunicações e transporte, fruto de abun-
dantes financiamentos externos que se revelaram depois uma
grande arapuca financeira internacional. Ingenuamente, foram
aceitas condições de financiamento que, com as crises do petró-
leo de 1973 e 1978 e os “choques dos juros” que as sucederam,
serviram apenas para deixar o Brasil endividado. Até hoje vive-
mos dias de “adaptação”, jamais consumada.
Esta análise histórica, sem maiores novidades, permite-nos
observar que nosso país viveu sempre sob o domínio do centra-
lismo. O poder concentrado foi objeto de todas as discórdias polí-
ticas, golpes de estado, administrações desastrosas ou incipien-
tes, concentração de renda, dissociamento do povo da vida políti-
ca. Esta última é talvez a pior das conseqüências. O brasileiro
jamais se sentiu estimulado a agir livre em consciência e talento.
Sempre teve mais motivos para a revolta que para acreditar na
construção de alguma coisa. Os empreendimentos vitoriosos
sempre foram privilégio de pessoas não comuns e não raro prote-
gidas pelas classes dominantes. Temos exceções na história re-
cente, especialmente na formação industrial, é verdade, porém
elas apenas e ainda apontam mesmo é para as vantagens da
liberdade sobre a dominação.
Fica difícil saber se o Brasil, de fato, seria hoje um país de
Primeiro Mundo, caso tivesse sido colonizado por ingleses, holan-
deses, alemães, irlandeses, franceses. Talvez. Esses povos teri-
am, com certeza, plantado aqui mais tradições de liberdade e de
administração descentralizada. Fica difícil também afirmar se o
Brasil teria as atuais dimensões territoriais - uma grande vanta-
gem competitiva nos dias atuais - caso fossem adotadas, desde
os tempos da colônia, providências de democratização e horizon-
talização do poder.
Os interesses não convergiam naquela época para a trans-
formação da Colônia em uma grande nação, mas para interesses
particulares que muito bem poderiam transbordar na criação de
54 BRASIL CONFEDERAÇÃO

uma série de republiquetas, comandadas por déspotas de pouco


conhecimento e muita sede de poder.
O fato é que o Brasil conseguiu, ao contrário das demais
colônias sul-americanas, manter uma unidade invejável, a quarta
maior extensão territorial do planeta.
Tem minérios, biodiversidade, recursos hídricos, bilhões de
hectares cultiváveis, seis mil quilômetros de costa atlântica, ambi-
ente estável, temperado ou tropical, fértil. Está faltando apenas a
educação para o povo, o resgate do seu orgulho e uma estrutura
administrativa adequada à melhor exploração das potencialida-
des regionais, a oportunidade para que os brasileiros de cada
unidade da federação/confederação mostrem o que sabem fazer
para progredir.
Mesmo sem possuirmos uma bola de cristal nem sermos
donos da verdade, arriscamos predizer que teremos sucesso se
avançarmos para mudança modernizantes. Temos, para nos
manter unidos, quase 500 anos de consolidação territorial, uma
identidade nacional rara no mundo, uma cultura brasileira rica e
variada. Podemos acompanhar as tendências mundiais que já
nos impulsionaram para a sociedade humana do século XXI, sem
medo das mudanças necessárias, mas fugindo, isto sim, da per-
manência do atual status quo.
Este é um ato de fé, muito maior que remover montanhas,
mas infinitamente mais viável.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 55

CAPÍTULO 7

NECESSIDADE DE UMA REFORMA


ESTRUTURAL

“Quousque tanden abutere patientia nostra?”


(Até quando abusareis da nossa paciência?)
perguntava Cícero a Catilina, em 63 a.C.
O Senador Roberto Campos citou em um artigo de jornal o
que lhe teria dito um diplomata inglês, em uma festa, sob a influ-
ência de algum líquido alcoólico: “vocês brasileiros são muito a-
máveis, mas não têm factualidade”. O que o britânico quis dizer é
que nós brasileiros não nos atemos aos fatos, preocupando-nos
apenas em analisar os efeitos.
Vamos então aos fatos - que são efeitos.
Passados 500 anos de história, o que temos hoje?
Temos um país com 145 milhões de pessoas, das quais uns
20%, talvez, vivam com alguma dignidade. Apenas 3,5 milhões
de pessoas são “convidadas” a pagar o imposto sobre a renda.
Não é difícil enxergar a realidade da miséria dura, nua e crua es-
tampada diariamente na mídia. Não é difícil perceber o empobre-
cimento contínuo, que envolve cada vez mais gente. É impossível
não enxergar a corrupção, a criminalidade, a injustiça, o desem-
prego, a falência e o sucateamento das atividades industriais e da
agricultura, o crescimento da economia informal, do subemprego
56 BRASIL CONFEDERAÇÃO

e da marginalidade. Crescem as atividades ilícitas como agiota-


gem, picaretagem, jogo, tráfico de drogas, contrabando, prostitui-
ção. Temos 35 milhões de menores abandonados, crianças sem
chances de se tornarem cidadãos completos.
Avança o analfabetismo (e haja Ciacs), os aposentados são
trapaceados pelo governo, as favelas incham os centros urbanos,
nas regiões de fome desenvolvem-se sub-raças, verdadeiras Eti-
ópias encravadas no país, multiplica-se o homem-gabiru. Institu-
cionaliza-se a “Lei de Gerson” (o negócio é levar vantagem em
tudo, certo?) e clareia-se a descrença nas instituições, desmorona
a moral da sociedade, impõe-se o imediatismo e a necessidade
de sobrevivência apenas diária, que substitui o planejamento e a
esperança. A descrença geral desvaloriza a pátria, os políticos, as
empresas, os produtos e serviços, os trabalhadores, as pessoas,
a justiça, enfim, o caos só não se converteu em convulsão social
graças à própria passividade do nosso povo, fato que chega a
impressionar a gente de outros países.

FAÇA O QUE EU DIGO, MAS


NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO
A deturpação de tudo o que é correto vem, inclusive, do
próprio governo, com suas portarias, decretos, medidas provisó-
rias muitas vezes inconstitucionais ou simplesmente imorais. Nos
ensina um velho ditado oriental: “a tirania e a injustiça começam
por coisas muito pequenas. Se o sultão comer o fruto do jardim de
um de seus súditos, os escravos por trás dele levarão a árvore
toda. Se ele tomar de alguém um ovo, seus guerreiros tomarão
mil galinhas”.
Como pode o governo pregar a moral e prometer cadeia
para os sonegadores se seus próprios responsáveis fazem o que
querem quando querem? “Quem quiser a restituição do “emprés-
timo compulsório” que entre na justiça” declaram os funcionários
do governo, sem revelarem suas identidades, aos repórteres de
jornais financeiros, pois eles sabem que dos 5 ou 6 milhões de
lesados, apenas uns 10 mil ingressarão na justiça para exigir o
direito. O resto é lucro.
Lucro para quê? Para sustentar uma extraordinária máquina
pública que acumula, entre União, estados e municípios, 8 mi-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 57

lhões de funcionários diretos, 36% da força de trabalho com car-


teira assinada (22 milhões no país). O gigantismo estatal chegou
a proporções tais que já não é mais possível, nem Cristo mos-
trando o “caminho das pedras”, encontrar qualquer coisa que se
procure nos labirintos dos prédios públicos espalhados por todo o
país. “Se a natureza tivesse tantas leis quantas possui o Estado,
nem Deus poderia governá-la”- afirmava L. Bourne. Imagina-se
então o Brasil ...

O PARADOXO DAS RIQUEZAS


A descrição completa dos escândalos e barbaridades exigi-
riam hercúleo esforço para escrever um livro negro do tamanho
da Bíblia. Paradoxalmente, temos um território de 8,5 milhões de
quilômetros quadrados - quarto do mundo em extensão - rico em
minérios, biodiversidade, sol, chuva, clima tropical, rios, mais de 6
mil quilômetros de costa com plataforma marítima e lindas praias,
flora e fauna variadíssimas, solo fértil ... tudo isto sem maremotos,
vulcões , furacões (por enquanto), terremotos e ouras manifesta-
ções violentas da natureza, salvo algumas enchentes e tempes-
tades, ou estiagens que podem ser enfrentadas com técnicas já
bastante conhecidas. O que passa então?

A POLÍTICA DA POLITICAGEM
Diz uma anedota que enquanto Deus fazia a criação do
mundo, tudo que havia de melhor ou de mais bonito colocava em
um determinado lugar chamado Brasil. O anjo Gabriel o acompa-
nhava apreensivo e perguntava se isto não seria uma tremenda
injustiça. Deus então respondeu-lhe: “- Fique calmo. Logo coloca-
rei ali os partidos políticos”. E assim foi. Boris Marschalov co-
mentou: ”O Congresso Nacional é bem estranho. Alguém se le-
vanta, fala e não diz nada. Ninguém presta atenção e então todo
mundo discorda”. Basta ligar a televisão para ver como este fato
se repete com freqüência. Acontece que o Congresso Nacional
sofre de dois males básicos. O primeiro vem da estranha propor-
cionalidade de representação popular, pela qual um deputado do
58 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Acre vale mais que um deputado de São Paulo. O segundo é sua


dedicação a inúmeros projetos que não atendem aos anseios da
nação e sim de alguns “ansiosos”. Salvo as honrosas exceções
de parlamentares que procuram trabalhar seriamente, a função
política é vista como um projeto de realização pessoal e não como
um serviço prestado à nação. Para eleger-se - para cargos fede-
rais, estaduais ou municipais - o político não expõe sua ideologia
e suas metas de trabalho, mas distribui dentaduras para eleitores
e cargos públicos para os cabos eleitorais, e busca o financia-
mento de quem detém o poder econômico, para retribuir depois
com favores. Com cinismo se diz que para cultivar belas rosas é
necessário algum esterco. Falta porém o adubo certo para que
haja vontade de trabalhar. Milhares de projetos de leis, alguns
deles já devidamente fossilizados nas gavetas, esperam pela sua
análise e a Constituição aguarda pela sua regulamentação. Não
é muito trabalho para o Congresso?

O POÇO SEM FUNDO


Para alimentar a máquina pública - Executivo e Legislativo -
só se pensa em aumentar os impostos, taxas e contribuições, não
importando se existe efeito cascata, bitributação, tri, quadri, quin-
tuplicação tributária. Essa perversidade e voracidade fiscal empur-
ra a empresa para a sonegação, gera focos de inflação e causa
diversos outros problemas brilhantemente analisados por
Friedman e Keynes em seus estudos.

LIÇÕES QUE NÃO FORAM APRENDIDAS


O Plano Cruzado editado em 1986 deixou bem clara a visão
de que a produção nacional não atende a demanda. Bastou que
19 milhões de pessoas tivessem uma valorização repentina nos
seus rendimentos e em curtíssimo espaço de tempo a figura do
ágio e do mercado paralelo entrava em ação. Lição nº 1: a infla-
ção brasileira tem como um de seus componentes o forte dese-
quilíbrio entre a demanda e a produção.
Com a reidexação da economia as vendas a prazo forçaram
o repasse da inflação futura e dos custos financeiros bancários
para os preços. Lição nº 2: empresário não constitui empresa
BRASIL CONFEDERAÇÃO 59

para tomar prejuízo e sempre encontra meios de contornar artifí-


cios que afrontam as leis do mercado.
Para complicar o quadro, a carga tributária vem aumentan-
do, consideravelmente, junto com o próprio custo de vida, em
compasso inversamente proporcional à renda da população. Mais
custos são, portanto, repassados para os preços dos produtos,
dado o despreparo dos empresários, que na sua grande maioria
não sabem o que é uma planilha de custos, ou não usam critérios
adequados de formação de preços ao sabor dos índices oficiais
de inflação. Lição nº 3: não se reduz um desequilíbrio econômico
aumentando-o, pois, os empresários não montam empresas para
tomar prejuízo e a economia tem limites para suportar a carga
tributária.
O mercado também ...
Para frear a inflação, “geniais” economistas com passagens
por Harvard, Oxford e outras universidades americanas, aplicaram
suas teses de mestrado no campo brasileiro. Acreditaram que
diminuindo a demanda, as vendas também diminuiriam e “logica-
mente” os preços cairiam, fazendo com que a inflação baixasse,
gerando o “efeito inercial inverso”, coadjuvado pelos fatores psi-
cológicos do mercado. Para reprimir a demanda tiveram que re-
primir a renda e distanciar o consumidor da compra através da
prática de juros estratosféricos aplicados em duas pontas: no cré-
dito e na poupança. Em lugar dos efeitos previstos chegamos à
“estagflação” - inflação com estagnação. Lição nº 4: não existe
outra lei para o mercado senão a do próprio mercado, mesmo que
distorcida como um quadro de Picasso.
A inflação continuou a subir. Como, se as vendas caíram?
Simples: se você produz 1.000 fogões, sua estrutura de custos
está calculada para 1.000 fogões. Se a produção aumentar, den-
tro de um certo limite, o custo unitário cairá, mas, seu lucro au-
mentará. Mas, se a produção cair, o efeito é inverso. O custo au-
menta e o lucro cai. Elementar. Porém, vivemos sucessivas ondas
de consumo e recessão provocadas pelos “pacotes” de medidas
econômicas e os empresários ajustam a produção de tal forma
que seus custos são repassados tanto na alta como na baixa pro-
dutividade, fazendo com que os preços subam mesmo quando as
vendas caem, especialmente nos setores oligopolizados, monopo-
lizados e cartelizados tanto pela iniciativa privada quanto pelas
estatais. Lição nº 5: as interferências na economia com objetivo
60 BRASIL CONFEDERAÇÃO

de provocar recessão são ineficientes nos setores econômicos


sem concorrência e transformam as leis de mercado naqueles
onde existe competição no condenável capitalismo selvagem.
(Nota: O conceito de demanda neste trabalho significa o
potencial de consumo do mercado brasileiro, considerando princi-
palmente as necessidades básicas da população e, em segundo
plano, o aumento do consumo gerado por aumento de renda na
classe média).
Os preços chegaram a ter no seu bojo custos tributários,
financeiros e prevenção contra inflação futura, em muito mais de
100% sobre os custos. As taxas de juros ultrapassaram o ponto
admissível da remuneração do capital e se tornaram rendimento
puro não tributável. Os índices de inflação chegaram rapidamente
a 50%, 60% ao mês e finalmente a 90%, quando um novo choque
econômico, diferente e mais duro, foi decretado: o confisco dos
depósitos bancários.
O golpe teve efeito durante algum tempo, para, logo depois,
as águas da inflação suplantarem mais uma vez as barreiras er-
guidas por decreto. O novo mandatário da nação entrou então
com um novo discurso, jogando a culpa de tudo nos empresários:
“os carros nacionais são carroças motorizadas e o empresário é o
vilão da inflação, o incompetente”. Foi, então, lançada a nova polí-
tica industrial e de comércio exterior e o Programa Brasileiro de
Qualidade e Competitividade, iniciando uma progressiva abertura
do mercado brasileiro para os produtos estrangeiros, com vistas a
produzir a concorrência neutralizadora dos abusos dos oligopólios
e cartéis, e com vistas à elevação da produtividade industrial e
comercial. Medidas necessárias e modernizantes, porém ...
O acusador foi também acusado de gigantismo, ineficiência,
lentidão e de extraordinário custo para a nação, mas não se mo-
veu para calar a boca dos acusadores. Deixar em disponibilidade
uns 50 mil funcionários públicos, tirando-lhes o trabalho mas con-
tinuando a dar-lhes metade dos salários, foi, sem dúvida, um ato
inconstitucional. E demagógico. Bastou uma batalha judicial para
que o governo se obrigasse a reintegrá-los na “posse” dos seus
direitos. Pergunta-se: por que o governo não cometeu uma gran-
de inconstitucionalidade, reformando toda a máquina pública e o
sistema tributário, enquanto possuía grande popularidade e o voto
de confiança até dos seus adversários políticos? Perdeu-se mais
um bonde da história. A opção foi pela paliatividade, que ajudou
BRASIL CONFEDERAÇÃO 61

a desgastar a credibilidade nos atos que antes pareciam ser os


únicos remédios para fazer este país “retornar ao caminho do
desenvolvimento”. A inflação tornou a crescer e todos aqueles
males que compõe a “Bíblia Negra”, referida anteriormente, conti-
nuam aumentando. Lição nº 6: o Estado que não consegue liber-
tar-se de sua burocracia por alguma medida violenta é condenado
a perecer. “O cérebro e todos os órgãos da burocracia estão po-
dres. Somente seu estômago funciona bem”, conforme disse
Bismark.
(N.A. - em lugar de “medida violenta” pode-se ler “medida drásti-
ca”).

MATANDO A EMPRESA NACIONAL


A progressiva abertura do mercado brasileiro para a realida-
de internacional sem que haja uma reforma tributária e da admi-
nistração pública fará com que as empresas nacionais não te-
nham como competir. Os produtos estrangeiros em geral não car-
regam o fardo tributário como os brasileiros e quando são distribu-
ídos internacionalmente são produzidos em grande escala e com
qualidade superior, mediante técnicas que não chegaram até a-
qui, dado o isolamento vivido até agora.
Não podemos tratar as empresas brasileiras como vilãs por
não produzirem com qualidade e preço competitivos internacio-
nalmente, porquanto seguiram apenas as “regras do jogo” vigen-
tes até agora, baseado no modelo da substituição das importa-
ções com apoio das barreiras alfandegárias, muito embora certo
número de empresários tenha vivido uma relação incestuosa com
o governo neste jogo. As reservas de mercado conjugavam (e
ainda não acabaram) interesses para recolher seus impostos,
com os interesses dos empresários em manter-se restritos a sua
estreita visão de mercado, autocondenando-se à obsolescência.
O quadro muda mais por pressões estrangeiras, em respos-
ta ao que acontece no mundo - a globalização da economia - e o
governo não tem outra saída senão abrir a economia. Mas, fazer
esta abertura mantendo o fardo tributário sobre os produtos brasi-
leiros é desonestidade. É desmontar grande parte do setor produ-
tivo (as fábricas de jeans, eletrodomésticos, caminhões que estão
fechando), na tentativa teimosa de manter a máquina pública in-
teira, intocável, “imexível”. Isto é política de desenvolvimento?
62 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Não cremos que seja possível desenvolver um país provo-


cando o fechamento de suas fábricas, esvaziando as lojas e dei-
xando gente sem emprego. O que conseguiremos, persistindo
nesse rumo, é transformar o Brasil no maior país de muambeiros
do mundo, pois está ficando mais rendoso comercializar importa-
dos e contrabandeados, vender cachorro-quente nas esquinas e
abrir bancas de jornais do que ser engenheiro, advogado, médico,
técnico de alguma coisa ou empresário.
Para que não se perca do rumo é importante lembrar que a
empresa é o meio de gerar riquezas, desenvolvimento econômico
e bem-estar social em qualquer nação cujo fim de existência seja
o cidadão. Cabe ao cidadão sustentar o Estado, para que este
atenda algumas de suas necessidades básicas. Fazer o que se
faz com a empresa brasileira, sobrecarregando-a de obrigações e
interferindo no seu “habitat”, o mercado, para em seguida jogá-la
na fogueira da concorrência internacional, é o mesmo que cortar
as asas de um passarinho criado na gaiola, soltá-lo na floresta e
dizer-lhe “- vire-se, seja competente”.

O ÊXODO RURAL PODERÁ AUMENTAR -


AI DE NÓS!
O que está reproduzido adiante é um dos artigos sobre a
Confederação publicados em jornais de Curitiba e quiçá em algum
outro jornal brasileiro. Trata-se de um dos temas de momento e
que ainda é bastante pertinente com o atual sistema: o inchaço
urbano provocado pelo êxodo interiorano.
Lei a conclua:
“Quando o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
tica - divulgou, há poucos dias, o resultado do Censo Demográfico
Brasileiro, realizado em 1991, ficaram algumas constatações inte-
ressantes, mas a que mais me assuntou foi a da diminuição das
populações de centenas (ou milhares) de cidades do interior des-
te Brasil varonil. Esta diminuição, transformada no famoso êxodo
demográfico que incha os grandes centros urbanos (que cada vez
ficam maiores), já era de conhecimento de todos nós; entretanto,
com os dados oficiais do Instituto, importantes modificações irão
ocorrer, tanto no quadro político - alteração do quociente e pro-
porcionalidade eleitoral, fazendo com que diversos políticos per-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 63

cam seu emprego - como, principalmente, na distribuição de ver-


bas do chamado Fundo de Participação dos Municípios.
O mais agravante, sem dúvida alguma, é a diminuição - ain-
da maior - das receitas dos municípios já enfraquecidos, que não
conseguem fazer investimentos em infra-estrutura e demais equi-
pamentos sociais que poderiam, em primeira análise, colaborar
com a retenção da população no campo. Sem dinheiro, poderão
desaparecer do mapa inúmero municípios, provocando o aumento
do volume de migração interna rumo aos grandes centros, com
conseqüências que todos já sabemos: a favelização, o aumento
da criminalidade e da própria densidade demográfica de uma po-
pulação que forma uma nova sociedade: a sub-raça.
O que fazer? Bem, se estamos sob as regras vigentes na
Constituição Brasileira, que comanda todas as demais constitui-
ções, estaduais e municipais, resta-nos mudá-la. Mas não basta
apenas tentar resolver este problema com ou sem arranjos políti-
cos como de costume neste país, mas de realmente conseguir-
mos mudar mais essa conseqüência de um modelo totalmente
centralizado, como é o sistema administrativo brasileiro.
É aí que se pode reiterar o tema que já está sendo discuti-
do: mais autonomia aos estados brasileiros. Para conseguirmos
isso é preciso criar um movimento nacional (o que já está sendo
feito aqui em Curitiba, palco das Diretas Já em 1984), para que
consigamos isto através de um modelo denominado Confedera-
ção dos Estados do Brasil.
O sistema confederativo propicia a descentralização de qua-
se todo o poder que está hoje em Brasília, diferente do centralis-
mo que adota fórmulas que devem servir, “democraticamente”,
para todos os estados, não importando as suas diversidades, ca-
racterísticas, clima, meio ambiente, necessidades, potencialida-
des e, principalmente, não se importando com o verdadeiro dese-
jo de cada população. Isto é mais que maquiavélico, é “burriavéli-
co”. (Se o Magri pode inventar termos, por que eu não?).
Dar poder e responsabilidade aos estados propiciará, sem
dúvida alguma, uma maior democratização das instituições, con-
seguindo-se maior participação popular na construção de uma
nação forte e unida, transformando em progresso e bem-estar
social as imensas riquezas brasileiras, hoje desperdiças pela má
gestão e mal cuidado, pelo roubo tipificado nas evasões ao es-
64 BRASIL CONFEDERAÇÃO

trangeiro, concentração latifundiária, etc., etc.. Pergunta-se então,


já que continuaremos com a nossa luta, escrevendo, falando, de-
batendo, fazendo: “a quem interessa a desagregação do Brasil ?”.
(Publicado no jornal Indústria & Comércio do Paraná, em
10.02.92).

CONFEDERAÇÃO
UMA PROPOSTA DE REFORMA
Para que deixemos de ser esse estranho “mix” de 1º e 4º
mundo (muito mais de 4º), precisamos nos preocupar com os fa-
tos e com a realidade dos mesmos, com desapego às fórmulas
existentes. Precisamos convergir para a exigência uníssona da
verdadeira vontade expressa democraticamente: a descentraliza-
ção do poder, através da reforma do Estado, com a reforma da
Constituição, transformando o Brasil em uma Confederação.
Esta é uma proposta de reforma do nosso modelo básico
republicano e capitalista. Trata-se da troca de um modelo contrá-
rio à moderna técnica administrativa, buscando também a verda-
deira democracia participativa. Sem sangue, sem choques violen-
tos, afetando tão somente os interesses de quem se locupleta
com o atual estado das coisas.

O PAÍS CLAMA POR DESCENTRALIZAÇÃO


Mesmo sem aperceber-se da possibilidade de mudar para o
modelo administrativo da Confederação, o Brasil clama por des-
centralização, através de manifestações setorizadas. Dirigentes
de estatais, prefeitos, políticos manifestam-se sobre os grandes
problemas nacionais e propõem soluções descentralizadoras.
Rebelam-se contra velhas leis e decretos lavrados pela forma das
oligarquias, das elites de um tempo que já passou. Mas é difícil
mudar procedimentos através de um Congresso entupido de pro-
jetos de toda espécie e mais preocupado em dividir o bolo imenso
do poder concentrado em Brasília. O país está emperrado.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 65

Em entrevista concedida ao Jornal Indústria e Comércio


(Curitiba, 9 de janeiro de 1992) o então Secretário Nacional de
Energia, Armando Araújo, declarou que o modelo energético bra-
sileiro, dependente da Eletrobrás, está ultrapassado, necessitan-
do uma reforma estrutural no sentido de transferir para os esta-
dos a gerência e administração regionalizada. O editorial do peri-
ódico enfatizou a imperiosidade de um modelo diferente, “que
considere as particularidades das várias regiões brasileiras, adap-
tado à “problemática” de cada estado, a fim de evitar as distor-
ções e injustiças acarretadas pela centralização excessiva”.
Vários deputados federais, quando em discussão sobre o
reajuste do salário mínimo em fevereiro desse mesmo ano, ques-
tionaram a unificação do valor dessa referência.
Prefeitos reunidos no 36º Congresso Estadual de Municípios
de São Paulo escreveram a Carta de Serra Negra, expressando
preocupação diante das ameaças da União de não repassar as
verbas do Fundo de Participação dos Municípios, em razão da
inadimplência destes em relação à Previdência. O Regime Jurídi-
co Único Estatutário provoca enormes encargos previdenciários,
cuja arrecadação é centralizada na União.
Em palavras simples, a União recolhe dinheiro dos municí-
pios e para devolvê-lo exige mais dinheiro. Pior que isso somente
a “política do chapéu na mão” que há poucos anos levava os pre-
feitos em romaria à Brasília, na qualidade de verdadeiros pedin-
tes. Atualmente só vão à Brasília os prefeitos “amigos do rei”, que
têm alguma chance de receber dinheiro para suas obras.
Diz a Carta de Serra Negra: “os novos caminhos para os
municípios não passam pelo paternalismo assistencialista, mas
deve fortalecer o exercício da cidadania por meio da descentrali-
zação e da participação nos processos decisórios”.

O MOMENTO HISTÓRICO CHEGOU


Em meio às ondas separatistas que grassam pela nação,
vivas manifestações de protesto e indignação contra os efeitos do
centralismo, acredito que o momento histórico da modernização
administrativa chegou. Esta certeza, consubstanciada nas exposi-
ções feitas ao longo deste trabalho, se apóiam em dois aspectos
fundamentais: o presente e, mais uma vez, o passado.
66 BRASIL CONFEDERAÇÃO

No presente, situação econômica, social, moral e política do


Brasil geram sentimentos fortes de desagregação e despertam
aspirações separatistas, especialmente nos estados do Sul, que
alegam evasão de rendas de sua produção sem o devido e justo
retorno da parte do órgão centralizador, o governo federal. Alega-
ções incontestáveis. Propostas ingênuas, mas que podem se tor-
nar sérias.
As aspirações separatistas encontram adeptos em dezenas
de municípios, onde se formam comitês e houve até quem pro-
clamasse, simbolicamente, a “República dos Pampas”, com cartei-
ra de identidade civil, Carta Magna, bandeira e vários outros sím-
bolos. Querem os “pampeiros” (ou pampistas) livrar-se do “peso”
do governo centralizado de Brasília e da exploração imposta pelos
políticos nordestinos que comandam o Congresso Nacional. Estão
repletos de razão, mas o caminho não é separar.
É preciso ter uma visão mais ampla dos fatos. Seria uma
tolice separar pedaços de um país já unificado, quando as nações
procuram exatamente o contrário. Europa, Ásia, América do Nor-
te, Cone Sul e agora também a América Central (México, Vene-
zuela e Colômbia estão formando o “Grupo de los Três”) tratam
de formar blocos. Seria um grave erro de estratégia política e e-
conômica, em vista da reorganização geopolítica internacional do
momento e a necessidade de ampliar escalas, gerando uma con-
juntura internacional que deverá vigorar por um tempo indetermi-
nado. Nesta virada de milênio “um estado ou um país não fazem
verão sozinho”, especialmente se levarmos em conta a regra da
complementariedade econômica, a qual não apenas torna o Brasil
necessário para si mesmo, mas gera uma interdependência im-
pressionante entre as nações.
Uma Carta que permita maior liberdade aos estados brasilei-
ros, para que estes desenvolvam suas potencialidades dentro de
suas características, propiciará a utilização vantajosa da regra da
complementariedade. Em outras palavras, a união econômica
fortalecerá a nação brasileira e cada estado membro em particu-
lar, mediante uma nova ordem interna.
Separar seria abandonar a hegemonia no mercado latino-
americano e o domínio das nossas empresas sobre o próprio
mercado brasileiro, o maior da América do Sul. Um estado perde-
ria o acesso às riquezas biológicas e minerais que existem em
outro estado. Será que os separatistas do Sul manteriam a moti-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 67

vação de seu movimento caso fosse anunciada a descoberta da


maior jazida de petróleo do mundo no Nordeste? Para quem pre-
fere não raciocinar sobre hipótese, basta lembrar que o Norte e o
Nordeste possuem de fato as maiores jazidas de diversos mine-
rais, bastando tão-somente um gerenciamento profissional para
que haja o perfeito aproveitamento dessas riquezas por todos nós
brasileiros.
Como elemento que sela as exposições feitas, pode-se
mencionar a consciência da nacionalidade brasileira, presente em
todos os cantos do país de forma inconteste.
No passado encontramos as reflexões e ações de Rui Bar-
bosa, um dos mais respeitados juristas de toda a história brasilei-
ra, o “Águia de Haia”. Tais reflexões influenciaram a Constituinte
de 1890, formada logo após a implantação do regime republicano
de 15 de novembro de 1889. No nascimento da nossa República
ele defendeu uma forma mais centralizada de governo, antes de
evoluir para uma federação mais avançada, descentralizada e
democrática de governo.
O Brasil vinha da construção de uma unidade nacional que
fez desenvolver apenas alguns poucos centros econômicos, as-
sumindo sua geografia humana de forma diferente da norte ame-
ricana. Pesavam circunstâncias culturais provenientes de nossos
exploradores. Não se sabe ao certo o que aconteceria à unidade
nacional se naquela época a República optasse pelo modelo nor-
te-americano de estados quase independentes. Na opinião de Rui
Barbosa o resultado não seria bom. Em um de seus mais inflama-
dos discursos no Congresso e no Senado procurou transmitir es-
sa preocupação, afirmando que para se adotar o sistema federa-
tivo dos Estados Unidos, conforme defendiam muitos constituintes
da época, seria necessário possuir uma história que servisse de
base para o modelo. Na colonização e no Brasil Império não hou-
ve a preocupação em descentralizar, ficando a maioria das pro-
víncias afastadas dos acontecimentos. Desejava, então, o emi-
nente jurista, que a União fortalecesse os estados numa primeira
etapa, para depois haver a descentralização, na qual acreditava.
“Assentemos a União sobre o granito indestrutível e depois será a
oportunidade de organizar autonomia dos estados com os recur-
sos aproveitáveis para a sua vida individual” - disse aos consti-
tuintes.
68 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Acontece, porém, que as oligarquias, contra as quais Rui


Barbosa sempre lutou, conduziram a República para um resultado
que o desiludiu totalmente. Já na entrada do século, em 1900, ele
clamava por uma reforma constitucional. Lamentava ele que o
sistema federativo, mal interpretado e mal ajustado na Carta
Magna, proporcionava o fortalecimento das velhas oligarquias
estaduais, surgindo a tiranização pelos governadores, algo pior do
que presenciava no tempo do Império e tratava de combater. o
Não era saudade dos tempos monarquistas, como querem os
defensores da restauração monárquica no Brasil, mas desilusão
diante de barbaridades ocasionadas pelo modelo republicano
distorcido.
Depois de 100 anos de República, tendo a nação brasileira
passado por várias etapas de sedimentação, chegou o momento
de realizar o plano de Rui Barbosa. O momento chegou. Hoje
temos a base geo-econômica necessária. A grande maioria dos
estados brasileiros está apta a gerir seus próprios assuntos. A-
queles que não atingiram totalmente essa condição, diante da
necessidade saberão caminhar com as próprias pernas.
Passado e presente unem-se, portanto, apontando para a
nova dimensão que o Brasil requer, depois de tantas etapas de
sofrimento vencidas. O Brasil requer respeito à individualidade,
inteligência na exploração de seus recursos localizados, demo-
cracia para a efetiva participação regionalizada. São estes ingre-
dientes que farão a química alimentar de uma nação forte, justa e
coerente com o modo de viver dos seres humanos no século XXI.
O governo democrático é “do povo, pelo povo e para o povo”,
dizia Abraham Lincoln. Podemos complementar: “perto do povo”.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 69

CAPÍTULO 8

PROPOSTA PARA O BRASIL


CONFEDERADO À MODA DA CASA
(ARRUMADA)
“Os políticos que dizem que o povo não pode
receber a liberdade antes que saiba usá-la, me lembra
aquele sujeito que decidiu não entrar na água até que soubesse nadar.”
(Thomas Babington Macaulay)

Cessada a causa, cessa o efeito, nos ensina a filosofia aris-


totélica. Se não sabemos hoje como governar um Brasil formado
pela união de estados dotados de autonomia administrativa, fi-
nanceira e judiciária é por falta de costume. Temos vícios culturais
originados na tradição de centralismo e que atingem todas as pro-
fissões e todas as áreas, desde o setor privado até o setor públi-
co, da escola à aposentadoria. Não é possível mudar tudo isto
num passe de mágica, numa “canetada”, mas não há outro modo
que não seja interromper o modelo centralizador e causador de
tantas carências nacionais. É o excesso de centralismo que retira
da sociedade o poder de iniciativa ao longo das gerações, desde
o Brasil Colônia, passando pelo Império chegando aos dias de
hoje.
Dentro de uma filosofia extremamente paternalista, acredi-
tam muitos que o povo brasileiro não tem condições de autogerir-
se. E citam a eterna miséria do Nordeste (uma miséria que é de
fato relativa, como é relativa a riqueza do Sul) como “prova” do
que afirmam. Nosso “Rei Pelé”, admirado e amado, chegou a
manifestar-se contra o direito voto para o cargo máximo da ação,
o Presidente da República, alegando que “povo que não sabe
escovar os dentes não sabe votar”. Mais tarde, percebendo a
70 BRASIL CONFEDERAÇÃO

grande asneira que disse, arrependeu-se. Abraham Lincoln nos


ensinou: “Não podes ajudar os homens de maneira permanente
se fizeres por eles aquilo que eles devem fazer por si próprios”.
Se o Governo Federal sempre quis “desenvolver” o Norte e o
Nordeste a partir dos gabinetes de Brasília é porque sempre an-
dou na contramão do próprio senso humano.

Mas, com certeza, esteve sempre na estrada de mão-única dos


favorecimentos, do tráfico de influências e das verbas altamente
comissionadas. Se o governo conseguiu desenvolver no Nordeste
e no Norte algo que não teria se desenvolvido sem ajuda, foi o
poder das velhas oligarquias paternalistas e arcaicas. A ajuda ao
Nordeste somente sustenta politicamente uma certa casta de polí-
ticos, impedindo a renovação democrática.
Eliminando-se o centralismo, todas as demais causas do
atraso irão desaparecer ou enfraquecer e as próximas gerações,
com certeza encontrarão um modelo organizacional estruturado
para a plena participação cívica e individual, pois as iniciativas
particulares terão efeito dentro de uma nova linha de pensamento
coletivo.
Passamos a seguir ao “esqueleto” de um modelo político-
administrativo de atribuições dos estados confederados e da
União. Comecemos pelo que mais nos preocupa no dia-a-dia: o
dinheiro.

MOEDA
Atribuição exclusiva da União para fabricá-la e controlá-la.
Neste ponto a Confederação não muda. O que deve mudar, com
o tempo, é a menor velocidade das rotativas da Casa da Moeda,
à medida que a União tiver menos necessidade de emitir papel-
moeda e títulos de dívida pública para financiar a maquina estatal,
quando desmontada. Assim acontecendo, a economia terá mais
estabilidade e nossa “fábrica” de dinheiro poderá prestar serviços
para outros países, como acontecia antes.

CÂMBIO
BRASIL CONFEDERAÇÃO 71

Atribuição exclusiva do mercado. Somente uma economia estável


pode dar estabilidade à moeda nacional e fortalecê-la. A maioria
dos países, inclusive na América Latina, adota o câmbio livre.
Além disso é um contra-senso manter o câmbio não oficial como
contravenção e anunciar suas cotações todos os dias, ou de hora
em hora, pelos meios e comunicação. O que faz falta à nação são
mecanismos que evitem a “lavagem” de dinheiro proveniente do
crime, da contravenção, da sonegação. Neste ponto, Estados e
União devem, em comum acordo, criar mecanismos de coibição.
Não se pode simplesmente ignorar o que se passa à vista de to-
dos e contribuir para a degradação moral da sociedade. Guardar
dólares e outras moedas estrangeiras é um ato de proteção con-
tra a corrosão inflacionária da moeda nacional, mas é ao mesmo
tempo uma contravenção. Entre a cruz e a espada o cidadão opta
pelo que lhe causará menos dissabores e assim alimenta-se o
descrédito nas instituições nacionais, cujo efeito moral é desas-
troso para uma sociedade.

SISTEMA FINANCEIRO
Deve ser coordenado pela União através do Banco Central,
autônomo. O controle deve, porém, ter caráter mais ético e os
poderes regulador e coercitivo devem ser aplicados apenas para
hamonizar o mercado e mantê-lo democrático. Isto se aplica às
instituições bancárias e financeiras em geral, com as devidas re-
formas. As bolsas devem ser reguladas através da CVM - Comis-
são de Valores Mobiliários e supervisão do Banco Central.

A QUESTÃO DOS IMPOSTOS


UNIÃO
Cabe à União o imposto sobre a renda de pessoas físicas,
os impostos reguladores sobre importações e exportações e o
imposto sobre a propriedade rural improdutiva (alto e progressivo).
O imposto sobre a renda de pessoas físicas deve atingir a
todos, porém com alíquotas baixas que não estimulem a sonega-
ção. Temos uma população economicamente ativa (PA) de 50
milhões de pessoas e apenas 3,5 milhões pagam IR, sendo uma
distorção e uma discriminação, tanto para os que ganham mais e
são penalizados por isso, quanto para os menos favorecidos, que
72 BRASIL CONFEDERAÇÃO

se sentem cidadãos de segunda classe. Os contribuintes do IR


compreendem cerca de 7% da PEA, enquanto que em países
sérios e normais, pelo menos 80% contribuem.
Evidentemente, a máquina pública federal gigantesca, que
hoje consome cerca de US$ 1 bilhão por ano, deverá ser desmon-
tada e “enxugada”, no modelo confederativo. Não haverá então a
necessidade de tantos impostos, tanto dinheiro, títulos de dívida
pública.

ESTADOS
Aos estados cabe o imposto sobre o preço final das merca-
dorias ao consumidor, um segundo imposto sobre a propriedade
rural improdutiva, o imposto sobre a propriedade de veículos (atu-
al IPVA) e a contribuição previdenciária e de pecúlio, exceção
feita quando existirem os seguros, pecúlios e previdência privada.
O imposto sobre o preço final das mercadorias substitui o
atual ICMS e o IPI, dentre outros, evitando o efeito cascata no
planilhamento dos custos de cada item que compõe um produto.
Tal imposto, retido pelo comerciante ou pelo industrial, deve ser
recolhido aos cofres públicos em no máximo 10 dias, através de
conta bancária. As alíquotas devem ser baixas, compatíveis com
a realidade da concorrência de produtos estrangeiros (Mercosul,
Europa, EUA, Ásia, etc). O Brasil pode tornar-se o novo “tigre lati-
no-americano”.
Naturalmente, será necessária uma hamonização de alíquo-
tas nas negociações interestaduais de serviços e mercadorias,
algo que pode ser discutido em fórum como o atual “CONFAZ”.
O Imposto sobre a propriedade rural improdutiva, em dupli-
cidade, justifica-se pelo duplo prejuízo que causa, ao estado e ao
país, a terra parada e a reforma agrária de discurso. É preciso, no
entanto, tomar cuidado para que não se torne um duplo motivo
para arrasar as reservas florestais e outros recursos da biosfera.
Florestas podem ser consideradas áreas produtivas.
Quanto a contribuição previdenciária e pecúlio, devem ser
pagas por empregados e empregadores, cabendo a maior parcela
ao empregado. Podem ser abertas a qualquer pessoa, mesmo
sem carteira de trabalho assinada, mediante contrato de adesão e
pagamento de carnê mensal.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 73

O imposto sobre a propriedade de veículos destina-se à


construção e conservação de estradas (dinheiro carimbado).
A má gestão administrativa do governo de algum estado
poderá ocasionar, conforme o caso, intervenção federal ou, antes
disso, “impeachment” por moção popular.

MUNICÍPIOS
Cabe ao município o imposto sobre serviços de qualquer
natureza, o imposto sobre a propriedade territorial urbana (IPTU),
o imposto sobre a transmissão de bens imóveis inter-vivos ou ou-
tros impostos cedidos em plebiscito, tendo em vista o plano diretor
da cidade.
A tese da Confederação não exclui o municipalismo, pelo
contrário, podendo inclusive cada estado fazer sua própria política
municipalista, delegando maiores ou menores poderes às instân-
cias locais.
Nada impedirá que os estados repassem verbas aos muni-
cípios mais carentes, visando seu fortalecimento econômico e a
distribuição populacional. A qualidade de vida nos pequenos cen-
tros é a melhor política para desinchar os grandes centros. O ide-
al, porém, é haver o máximo de descentralização administrativa
também dentro dos estados, desconcentrando recursos e, por
conseqüência, poder decisório. O sistema confederativo requer a
sabedoria de dosar os recursos dos estados e dos municípios,
deixando grande margem para a criatividade local.
Requer melhor estudo a divisão mais intensa do território
nacional em estados e municípios. A França tem 36 mil comuni-
dades e a Suíça mais de 3 mil, sendo Genebra uma cidade com
cerca de 300 mil habitantes apenas. Assim, a qualidade de vida
aumenta consideravelmente. O Brasil, com sua imensidão tem
apenas 4.900 municípios e, quando são criados novos, não raro
cometem-se erros, emancipando-se distritos que ora condenam a
cidade a que estavam ligados, ora condenam-se a si mesmos por
falta de condições de sobrevivência. Surgem assim mais e mais
instrumentos e manipulação política.
74 BRASIL CONFEDERAÇÃO

IMPOSTO ÚNICO - UM COMENTÁRIO


Está em debate nacional a proposta do imposto único, co-
brado sobre o imposto bancário. É uma proposta essencialmente
centralizadora. Qual a relação entre o movimento financeiro e a
agregação de um valor de cada estado ou município? É a mesma
em todos os lugares de um país? Com um sistema de compensa-
ção automática que divide as cotas de cada estado e de cada
município no próprio banco arrecadador serão flagrantemente
prejudicados os estados e municípios de menor movimento finan-
ceiro. Atualmente São Paulo gera sozinho 40% do PIB brasileiro,
enquanto que estados como Acre, Amapá, Piauí e outros não
terão chances de arrecadação direta e terão que recorrer ao go-
verno central. E então começará tudo de novo ...
Não podemos fugir da verdade inexorável: soluções únicas
para um país de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e tantas
diversidades regionais são um contra-senso.

PODER JUDICIÁRIO
Existem crimes federais, estaduais e municipais e um novo
Código Penal Brasileiro deverá determiná-los. Caberá as estados
formularem seus Códigos Penais, respeitando sempre o que diz a
Constituição no tocante às garantias individuais. Deverá haver
margem para que cada estado decida-se pela pena de morte,
trabalhos forçados ou reclusão pura e simples dos criminosos, a
critério da sua população.
Tribunais municipais de julgamento rápido serão instituídos
e terão juízes eleitos pelo povo. Tribunais estaduais terão como
atribuição julgar crimes de âmbito estadual, com júri popular. A
União manterá uma Corte Suprema, que decidirá sobre questões
de abrangência nacional e aquelas relacionadas com o poder
público nacional ou estadual, inclusive o impedimento do presi-
dente (impeachment), em caso de regime presidencialista, ou atos
lesivos ao patrimônio nacional por crimes de corrupção ou de a-
tentado.
Preocupação maior que homogeneizar usos, costumes e
cabeças de um país inteiro deve ser a evolução e o enriquecimen-
to cultural. Deve-se permitir que a sociedade evolua em seus pre-
ceitos morais, a exemplo do que ocorre no mundo. É a humani-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 75

dade que não deseja mais a proliferação de armas, de regimes de


força como o comunismo, explosões nucleares, destruição do
meio ambiente e assim por diante. As atitudes dos governo dos
países são reflexos da sociedade mundial. Basta observar a his-
tória e as tendências para o futuro.

EDUCAÇÃO
A proposta é de criação de um Código Nacional de Educa-
ção, ficando a tarefa de aplicá-lo aos estados e municípios. O
Código preverá apenas algumas diretrizes básicas para ajuste
dos interesses comuns. Serão mantidas as universidades federais
em quantidade de uma para cada estado e serão determinados
no Código a quantidade mínima de universidades gratuitas para
cada estado e o currículo mínimo para cada ano letivo.

SAÚDE
Cabe aos estados e municípios gerenciar as contribuições
arrecadadas para tal fim e prover o atendimento das necessida-
des. Quanto mais municipalizado o atendimento, melhor.
Deve existir um Código Nacional de Saúde para ditar algu-
mas diretrizes básicas referentes a epidemias e endemias. Chega
de intermediações de verbas e desvios. Caberá a um simples De-
partamento Nacional de Saúde a regulamentação da vigilância
sanitária, da produção de drogas, medicamentos, alimentos, cos-
méticos e domi-sanitários e sua normatização. Aos estados e mu-
nicípios é delegada aplicação das normais nacionais, cada qual
com atribuições em determinadas áreas.

MEIO AMBIENTE
Não é sensato unificar a legislação sobre meio ambiente da
diversidade ecológica nacional. É possível, no entanto, estabele-
cer um Código Nacional de Meio Ambiente sintonizado com as
diretrizes fixadas nos acordos internacionais, cabendo o cumpri-
mento das normas aos estados. A estes competirá agregar as
normas de seus governos que considerem importantes e neces-
76 BRASIL CONFEDERAÇÃO

sárias em função das características regionais. Estados poderão


fazer acordos entre si para solucionar questões em comum com a
preservação do Pantanal, do Cerrado, da Mata Atlântica, dos es-
tuários e assim por diante. Poderão ser definidos crimes ecológi-
cos nacionais e estaduais, com as respectivas punições, variando
das multas à prisão.
A participação dos municípios na preservação ambiental
brasileira também é necessária, podendo cada estado estabele-
cer sua política nesse sentido, através da delegação ou da coope-
ração.

AMAZÔNIA
É um caso à parte na questão ambiental brasileira, dado o
interesse internacional que incide sobre a maior e talvez a mais
importante reserva de recursos naturais do mundo. É um caso de
planejamento estratégico de interesse de todos os estados-
membros da União, a ser atribuído aos representantes estaduais
no Congresso, aos governadores e ao governo federal. Os meios
de preservar a Amazônia e manter sob controle os interesses na-
cionais e internacionais que incidem sobre ela devem ser estuda-
dos com muita seriedade. Lá concentram-se as riquezas que pro-
vavelmente até os estrangeiros (que sabem da Amazônia mais
que nós brasileiros) desconhecem.
Talvez seja mais interessante transformar o Amazonas em
Território Federal. Sem dúvida, um tema polêmico, mas por que
não discuti-lo?

ESTRANGEIROS
A política externa caberá exclusivamente à União, com a
possibilidade dos estados serem chamados a opinar. Caberá à
União exclusivamente a autorização para permanência de estran-
geiros no país, assim como a emissão de passaportes.

QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL
BRASIL CONFEDERAÇÃO 77

Caberá à União, através da delegação de poderes aos ór-


gãos de classe, a normatização, certificados e homologação das
profissões. É mais ou menos o que já temos hoje.

TRÂNSITO
Caberá à União formular o Código Nacional de Trânsito em
comum acordo com os estados, mas aos estados e municípios
caberá aplicar a legislação de trânsito.
Não há necessidade de uma Polícia Rodoviária Federal.
Poderá haver, no entanto, uma Polícia Rodoviária Estadual encar-
regada da guarda das rodovias e uma Guarda Municipal, respon-
sável pelas vias urbanas. As multas urbanas são cobradas pelo
município e as rodoviárias pelo estado.
A Polícia Estadual atuará também nas rodovias federais,
assim chamadas apenas por questão de planejamento nacional e
fluxo estratégico.

ESTRADAS
É interessante a existência de um macro planejamento e
uma integração nacional através dos transportes. A União pode
se encarregar da formulação de planos rodoviários, ferroviários,
hidroviários e aeroviários, sempre em consenso com os estados.
A construção de estradas e sua conservação é, porém, assunto
que pode estar apenas na alçada dos estados, para a iniciativa
pública ou para concessões à iniciativa privada. É de interesse de
cada estado possuir uma boa malha viária, peça fundamental de
infra-estrutura e de política de desenvolvimento econômico. É
também um bom indicador da qualidade dos governos e da orien-
tação de suas prioridades, além do fator de emulação interesta-
dual para o progresso nacional.

FERROVIAS
Nas últimas décadas os governos nacionais foram respon-
sáveis pela adoção apenas do modelo rodoviário de integração
nacional. Foi um verdadeiro crime hediondo contra a nação. As
78 BRASIL CONFEDERAÇÃO

poucas ferrovias que existem não se integram, pois têm bitolas


diferentes nos trilhos e na cabeça dos dirigentes ferroviários em
cada lugar. O monopólio estimulou o corporativismo e se trans-
formou na melhor prova brasileira de que o centralismo é contra-
producente. Os lucros da administração regional de estados, co-
mo o Paraná, são transferidos para cobertura dos déficits crônicos
das administrações regionais do Nordeste e para os prejuízos
institucionais o transporte urbano do Rio de Janeiro. Por que via-
bilizar economicamente uma ferrovia carioca ou nordestina se há
uma ferrovia no Sul que paga os prejuízos? Como resultado, as
safras de soja do oeste do Paraná continuam sendo transporta-
das em caminhões, tornando quase mais caro o transporte dos
grãos para exportação que a produção no campo, pois não há
com que expandir a malha ferroviária no estado.
Trens modernos e rápidos, com todo tipo de serviços a bor-
do, poderiam cruzar o país transportando passageiros, cargas e
encomendas a custos reduzidos. Isto é possível mediante maior
flexibilidade institucional para o setor ferroviário. A construção e
operação de linhas de ferro podem ser atribuições da União, dos
estados e da iniciativa privada ao mesmo tempo. Um Código Na-
cional de Transportes pode fixar as regras do convívio. O mesmo
se aplica às hidrovias e às linhas aéreas, sendo que estas já ca-
minham nesse sentido.

TELECOMUNICAÇÕES
Fala-se muito em privatização do sistema e, sem dúvida
nenhuma, é mais fácil para um governo gerenciar as concessões
do que administrar grandes empresas paraestatais. É necessário,
porém, um Código Nacional de Telecomunicações que harmonize
as relações e estimule intercâmbio das companhias estaduais e
municipais. É um setor bastante organizado em nível internacio-
nal e que não apresenta maiores dificuldades de gerenciamento.
Não é necessária a existência de uma Telebrás ou qualquer outra
empresa estatal para isto. Apenas uma coordenadoria ou secre-
taria que faça cumprir as disposições do Código.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 79

CORREIOS
É difícil vislumbrar a privatização total de serviços desta na-
tureza e até mesmo sua estadualização, dada a necessidade de
compensar nas tarifas os custos das entregas em lugares longín-
quos ou de baixo tráfego.. O que pode ser pensado, todavia, é a
autonomia do sistema de correios e formas de controlar seu ge-
renciamento. A maioria dos países os mantém sob o controle
governamental.

A crítica que se faz atualmente refere-se ao constante au-


mento das tarifas e a qualidade dos serviços prestados ela ECT.
A carta é o meio mais simples, barato e singelo de comunicação e
é direito dos mais sagrados ao cidadão que recolhe impostos para
sustentar o governo da nação. Esse direito não pode ser cercea-
do pelas tarifas altas. Uma sugestão é o subsídio da União à en-
trega das cartas, como forma de estímulo à intercomunicação
através do meio barato e estimulador do domínio da linguagem
escrita. É preciso separar na área pública o conceito de gestão
empresarial eficiente com fins de lucro ou pelo menos sem prejuí-
zos e a gestão eficiente voltada ao social, compreendendo-se que
o cidadão sustenta o estado para que este o atenda em coletivi-
dade.

ENERGIA ELÉTRICA
Este setor pode ser perfeitamente estadualizado, mediante
normas comuns previstas em um Código Nacional de Energia,
harmônico em nível interestadual no âmbito da América do Sul.
Cada estado pode determinar ou não sua privatização. Este é
outro grande fator estratégico para o desenvolvimento industrial e
passível de tornar-se motivo de competição interestadual, aprovei-
tando-se também, como renda adicional, os excedentes de ener-
gia.

ENERGIA NUCLEAR
Competência da União. Sem maiores comentários. Mas a
iniciativa privada deve ser chamada a participar dos projetos, a-
ções e pesquisas, como acontece nos países desenvolvidos.
80 BRASIL CONFEDERAÇÃO

SEGUROS
Falta no Brasil credibilidade e profissionalização neste setor.
Há muito a desenvolver no sentido de baixar prêmios e melhorar
serviços. É um setor vital para a economia que poderá ficar sob a
competência da União, para coordenar a iniciativa privada através
de um Código Nacional de Seguros. Nos Estados Unidos e na
Europa há seguros para tudo e todas as pessoas são subscritoras
de um ou outro tipo de cobertura, pois sabem que, se acontecer
alguma coisa, o seguro será pago antes para ser discutido depois.
Até mesmo no setor da saúde é assim, pois todo e qualquer aci-
dente ou emergência é prontamente atendido para que depois
seja solicitado o cartão e seguro para a cobertura das despesas.
Por que não é assim também no Brasil?
Aqui é comum a pessoa precisar entrar na justiça para re-
ceber o que lhe é de direito.

INFORMÁTICA
Uma legislação nacional deve referir-se aos aspectos éticos.
Deve haver grande liberdade de ação, para que haja de fato de-
senvolvimento. Cabe aos estados e à União apenas o incentivo à
equalização da tecnologia nacional com a estrangeira, financian-
do projetos privados, quando for o caso. A União poderá interferir
apenas exigindo a comunicação dos projetos de “hardware” e
“software” para fins estatísticos.

PROPAGANDA COMERCIAL
Já temos o Conar e funciona muito bem. Cabe à sociedade
interferir, caso se sinta agredida moralmente.

PLANEJAMENTO URBANO
Competência exclusiva de cada cidade, sem interferência da
União ou do estado.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 81

TURISMO
Liberdade total para que cada cidade ou estado se promova
interna ou externamente para fins de atração de turistas e de divi-
sas da chamada “industria sem chaminés”. A única interferência
da União diz respeito a concessão de vistos de entrada de es-
trangeiros no país. E só.

DESPORTO
Competência dos estados e municípios, subsidiariamente e
de acordo com o planejamento e vontade de cada região. A União
poderá incentivar o desporto nacional, mas não interferirá nas
entidades nacionais que coordenar o futebol, o voleibol, os espor-
tes olímpicos e assim por diante.

CULTURA
Não cabe ao governo interferir no desenvolvimento cultural
de um povo e principalmente nas culturas regionais. O incentivo
às artes poderá ser bem recebido.

LEGISLAÇÃO NACIONAL
Caberá à União, através de Congresso Nacional, votar leis
como a de Propriedade Industrial, Registro Comercial e Concorda-
ta dentre outras que já existem e são sempre interesse comum a
todos os estados. Nesta categoria se encaixam também Pesos e
Medidas, Normatização Técnica, coordenação das Estatísticas.
No caso do Registro Comercial a competência já é dos estados e
o que falta é a modernização, do que já vem ocorrendo. Ativida-
des específicas como estas podem ser realizadas sem a criação
de estruturas administrativas federais. Há sempre alternativa de
os estados atuarem em conjunto, apenas com supervisão fede-
ral.
82 BRASIL CONFEDERAÇÃO

POLÍCIA
Uma Polícia Federal é necessária para tratar de determina-
do tipo de casos. As polícias estaduais e municipais cuidarão do
resto. Não há necessidade de Polícia Militar. A polícia deveria,
isto sim, absorver muito do treinamento militar, inclusive ordem
unida e disciplina.
Fica aqui registrada a proposta de ações futuras no sentido
de concentrar as forças policiais, ao invés de dividi-las em corpo-
rações que muitas vezes têm conflitos entre si. Fica também a
proposta de eleições para os chefes de polícia de cada cidade e
chefes distritais nos grandes centros, com objetivo de exigir efeti-
va competência para manutenção do cargo ou para aspirar posi-
ções superiores.

LEGISLAÇÃO ELEITORAL
Uma total reforma é necessária, visando restabelecer a pro-
porcionalidade e verdadeira representatividade democrática den-
tro do Congresso Nacional.
Quanto ao processo eleitoral nos estados e municípios pode
ser implantado o voto distrital. No que diz respeito aos deputados
federais, devem receber votos em todo o estado que representa-
rão. Em relação a senadores, idem, mas apenas um por estado.
Poderão até fazer campanha em nível nacional, em razão de atri-
buições especiais. O Brasil é muito grande para isto, motivo que
nos leva à proposta da Confederação, mas esta é uma questão a
ser estudada, pois o senador deve ter a visão voltada para os
macro problemas nacionais e para a área internacional.
Para facilitar e possibilitar uma campanha deste porte, inclu-
sive a de presidente se for o caso, a União financiará cada candi-
dato (senador e presidente), com verbas e acesso à TV como
ocorre em quase todos os países. As doações deverão ser permi-
tidas tanto por pessoas físicas como jurídicas, pois este é o ver-
dadeiro espírito participativo com a transparência que se faz ne-
cessária. As doações de grandes somas, acima de um determi-
nado valor, deverão ser divulgadas e se for descoberta alguma
composição com vistas a desviar a concentração de dações por
uma só entidade ou pessoa a um determinado candidato ou parti-
do, esta atitude deverá ser punida. A participação é necessária
BRASIL CONFEDERAÇÃO 83

como se frisa acima, e ressalta-se a importância de transparência


desses atos. A nível de estados e municípios os procedimentos
poderão ser os mesmos, ficando, entretanto, a critério de cada
unidade confederada. A lei eleitora, nacional deve fixar regras
gerais que deixem bem claras as disposições legais mínimas, ob-
jetivando tão-somente igualdade de oportunidade e conceito de
uniformidade nacional, preservando-se a plena democracia e re-
presentatividade.

REGISTRO CIVIL

Caberá aos municípios, mas a legislação ou um simples


dispositivo constitucional garantirá o registro de nascimento gra-
tuito. Nenhuma criança deve sair da maternidade ou hospital sem
estar devidamente registrada. No Brasil há 10 milhões de pessoas
que não existem legalmente, por não possuírem certidão de nas-
cimento. Um absurdo. Cobrar multa dos pais que não fizeram o
registro no prazo legal é outro disparate em país como o nosso.
Caberá às associações de moradores e outras entidades civis
orientar as pessoas em situação irregular e distanciadas dos direi-
tos do cidadão, conduzindo-as aos cartórios, nas prefeituras, para
o registro.
Outro aspecto é com relação aos cartórios de registro e ta-
beliães.. Esta é uma atividade que não pode ser privatizada, es-
pecialmente mediante privilégio. O registro de documentos é obri-
gação do estado e não podem ser cobradas taxas e honorários
abusivos, como acontece hoje. São pagos impostos para isto
também. Os empregados dos cartórios devem passar por exames
públicos estaduais. Caso o estado não tenha condições de man-
ter os espaços físicos poderá buscar soluções conjuntas com os
municípios. Uma reforma total deste sistema é necessária para
que retorne ao estado uma atribuição e obrigação moral junto
aos cidadãos: a fé pública.

LEIS TRABALHISTAS
Também aqui é necessária uma reforma total. O paternalis-
mo brasileiro não encontra comparação no primeiro mundo em
termos de proteção ao trabalhador. Aplicar “direitos trabalhistas”
84 BRASIL CONFEDERAÇÃO

rigorosos em um país que caminha do terceiro para o quarto


mundo e que precisa de trabalho, mais que qualquer coisa, pro-
duz a desoneração da relação capital-trabalho. O que se assiste
no Brasil é o estímulo ao conflito entre capital e trabalho, quando
deveria ocorrer justamente o contrário. A parceria é necessária,
pois um não existe sem o outro A jurisprudência do “na dúvida o
benefício é do trabalhador”, que grassa na justiça trabalhista na-
cional, é a malandragem que gera a desconfiança do empregador
e estimula a desqualificação do empregado. Salvo os honrosos
exemplos, que graças à Deus nos salvam do caos final.
A sobrecarga de obrigações trabalhistas recai sobre as em-
presas e leva ao emprego sem registro e à sonegação e acaba
prejudicando o próprio trabalhador, que ao invés do seu paga-
mento em dinheiro, para que possa governar sua vida, recebe
quase metade do salário real em benefícios administrados pela
União, de valor e destinos duvidosos.
Cada estado deve ter sua lei trabalhista de acordo com suas
peculiaridades. Os estados mais criativos e equilibrados serão
copiados pelos demais estados, com o tempo. Cada estado bus-
cará preservar aqui o que é justo, como a compensação pela in-
salubridade, as normas de segurança, a profissionalização das
pessoas, o salário mínimo para adultos e para aprendizes meno-
res de 16 anos.
Salário bom é resultado de profissionalização, assim como
bom produto tem sempre sua aceitação no mercado e devida re-
muneração. A última palavra em termos de salário deve ser sem-
pre a do mercado.
O salário-desemprego fará parte do sistema previdenciário
de cada estado. Assim será mais controlável, rápido e fácil.

SINDICALISMO
Deve ser livre a organização de sindicatos e sem exclusivi-
dades territoriais de cada estado, podendo haver, quando muito,
um código de ética para limitar abusos.
A greve é um direito inalienável do trabalhador, porém,
quando atingir setores tidos como essenciais, ou as repartições
públicas, deve acarretar a responsabilidade civil e penal, como
forma de coibir a mercantilização e politização descontrolada da
BRASIL CONFEDERAÇÃO 85

organização sindical. Só haverá sensibilidade dos governos em


qualquer nível em relação aos interesses de seus servidores (es-
tes sem direito a greve) mediante a negociação e o próprio fluxo
de “ida e vinda” dos profissionais desse setor, de acordo com as
regras invisíveis do mercado - a oferta e a procura. Estabilidade
estatutária, portanto, jamais! É uma agressão à nossa inteligência
e discriminação inconstitucionalizada.

HABITAÇÃO E SANEAMENTO
Competência dos estados e municípios. Devem ser criados
meios que possibilitem a formação de fundos para estas obras,
tais como cooperativas de crédito e outros sistemas, inclusive
através do sistema financeiro convencional.
A descentralização é fundamental, mas requer muitos estu-
dos ainda. E cada estado encontrará suas próprias soluções.
AGRICULTURA
Um Departamento Nacional de Agricultura terá como res-
ponsabilidade coordenar, em conjunto com os estados, o plantio
das principais culturas. Há necessidade de constante planejamen-
to e orientação, para que se fortaleça o agricultor nacional, evi-
tando-se as quebras que ocorrem, especialmente no segmento
dos pequenos proprietários rurais, depois da colheita, na hora de
acertar as contas com os bancos. O planejamento agrário deve
visar a exploração inteligente das terras produtivas.
Para evitar quedas desastrosas dos preços quando ocorrem
super safras, o primeiro remédio é o planejamento do plantio, so-
bre o qual o Departamento Nacional de Agricultura poderá influir
através da colaboração dos governos estaduais e das cooperati-
vas. Mas, como os resultados agrícolas são em grande margem
imprevisíveis, há necessidade de um sistema nacional de esto-
ques reguladores e de garantia da comercialização. Não cabe à
União ou aos estados participar da comercialização ou da estoca-
gem, mas tão-somente negociar com a iniciativa privada e seus
representantes os mecanismos de regulação. As cooperativas de
crédito agrícola devem ser liberadas e regulamentadas, para que
financiem a produção, adquiram os estoques e sejam devidamen-
te capitalizadas para cobrir as eventuais quebras. A União contro-
la, com ajuda dos estados. A iniciativa privada opina e executa.
86 BRASIL CONFEDERAÇÃO

Urge aproximar, de forma definitiva, as operações de bolsa de


mercadorias e instrumentos com “hedge” agrícolas (commodities)
como é feito em muitos países, até mesmo no Japão (há mais de
300 anos), que tem pouquíssima atividade neste setor. Todo
mundo ganha. Oportunidades iguais não podem ser compreendi-
das como resultados iguais. É importante colocar as leis do mer-
cado a serviço da agricultura e não contra ela. O coletivo dos inte-
ressados encerra sabedoria suficiente para obter tal façanha.
Com relação à política agrária, a proposta inicial é dar a
competência aos estados e municípios, que são os maiores inte-
ressados em fixar o homem no campo e obter das terras disponí-
veis a melhor produtividade.

DÍVIDA EXTERNA E INTERNA


A dívida externa é proveniente dos mais diversos setores da
vida nacional: empresas privadas, estatais, governos municipais,
estaduais e União. Caberá a esta prosseguir nas negociações
com os credores internacionais (governos e bancos). A União é
avalista de muitas operações, como aqueles empréstimos toma-
dos pela “Portaria 63”.
Cabe à União, entretanto, determinar quem são os verdadei-
ros devedores - se é que tal tarefa é exeqüível - e repassar a eles
os ônus da dívida, na proporção de suas “quotas” . Cada devedor
assumirá a responsabilidade pela sua arte, no valor e nos prazos
e também os eventuais descontos ou reescalonamentos que a
União puder conseguir junto aos credores.
Da mesma forma deve ser o procedimento com relação aos
créditos que porventura existam. E todos devem honrar, sem pa-
ternalismo ou assistencialismo barato, os compromissos assumi-
dos anteriormente, inclusive a própria União.
As privatizações devem continuar e até mesmo ser acelera-
das para dar fôlego à tarefa de equilibrar as finanças públicas,
como a dívida interna, onde os problemas também são grandes.
Municípios e, talvez, alguns estados devem à União verdadeiras
fortunas impagáveis. Se o Brasil pretende recomeçar sua história,
dentro de um novo patamar de equilíbrio, também deve “limpar as
teias de aranha” e analisar caso a caso, com vistas ao saneamen-
to financeiro geral, em todas as instâncias.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 87

Não será recomendável, portanto, orientar-se pela estrita


visão de caixa, mas levar em consideração uma política de
desenvolvimento. Cobrar dívidas previdenciárias, arruinando as
finanças de um município, por exemplo, pode ser um acerto con-
tábil, mas será um erro estratégico. Para se consertar as coisas é
preciso usar de bom-senso.

QUANDO A INTERVENÇÃO É NECESSÁRIA


A união de uma nação se mantém com a ordem constitucio-
nal e moral, mantida em todos os recantos da mesma. Dessa for-
ma, tendo em vista o nível de liberdade e autonomia alcançado
pelos estados, torna-se imprescindível a existência de um disposi-
tivo legal constitucional que permita a intervenção federal nos
estados em que seja necessária tal atitude.
Isto visa evitar o comando indiscriminado de “coronéis” e
grupos de interesse que possam vir formar redutos feudais, preju-
dicando não somente a própria população local, mas também a
Nação, na medida em que tais situações podem ser comparadas
a verdadeiros cancros da democracia.
A intervenção pode ser solicitada por um número “x” de par-
lamentares estaduais ou até mesmo pelo próprio governador do
Estado ou ainda pela população, com um número de assinaturas
encaminhadas ao Departamento ou Secretário da Justiça.
Devemos sempre lembrar de Winston Churchill que disse:
“A Democracia não se impõe, se aprende”. Com esse ensinamen-
to conseguiremos possibilitar que tal imperativo se cumpra neste
país.
A denúncia poderá ser também levantada por outros esta-
dos ou ainda pelo próprio Congresso Nacional, motivando a aber-
tura de inquéritos pertinentes.

A QUESTÃO DOS ESTADOS MAIS POBRES


“Nós acreditamos que o grande tesouro da terra está no ser
humano:, diz um dos artigos da Carta de Princípios da Câmara
Júnior Internacional. Basta dar a chance para que o ser humano
busque seu desenvolvimento através de seus próprios caminhos
88 BRASIL CONFEDERAÇÃO

e poderemos observar verdadeiras transformações acontecerem.


“Dar o peixe em vez de uma vara de pescar” é o maior erro que
se pode cometer, compelindo o ser humano ao comodismo e pa-
rasitismo. Fala-se muito dos nordestinos acerca de seu potencial
e vontade de trabalhar; entretanto, esquece-se de que milhares
de emigrantes e fugitivos das secas (resultado da má administra-
ção e gerência da região) estão em São Paulo e Rio de janeiro,
produzindo progresso. Deve-se lembrar de que a “indústria da
seca” é um cancro real mantida por grupos de famílias típicas do
coronelismo feudal e político naquela região.
Mas as coisas estão mudando também naquela área, na
medida em que alguns governadores atuais fazem boas adminis-
trações, fazendo dos recursos naturais as riquezas e o progresso
dentro de suas próprias peculiaridades. Imagine-se o que poderi-
am fazer os estados do Norte/Nordeste com maior liberdade de
ação e sem o paternalismo assistencialista, com claros interesses
escusos, provenientes do governo através dos “lobbies” e cliente-
lismo políticos.
Entretanto, o governo federal terá participação ativa no
desenvolvimento dos estados com menos recursos, através da
troca de informações, financiamentos autorizados pelo Congresso
Nacional (explicações logo a seguir) e fomento tecnológico.
Sem dúvida, será a Nação voltada para o desenvolvimento
das demais regiões brasileiras, sem prejuízo, entretanto, como
ocorre hoje, das demais.
Opcionalmente, esses estados, bem gerenciados e com um
bom plano de ação interno, poderão lançar títulos de investimen-
tos - ações - junto a iniciativa privada, buscando recursos para o
seu próprio desenvolvimento. Aliás, existem tantas formas para
atrair recursos para regiões de interesse que certamente não será
este um problema para os estados mais pobres, mas, sem dúvida
nenhuma, um leque de soluções e oportunidades.

POLÍTICA MACRONACIONAL
O Plano de Ação de Desenvolvimento Nacional, como cita-
do, visa nada mais do que uma visão de conjunto das forças re-
presentativas da sociedade brasileira (políticas, empresariais, sin-
dicais e associativa) acerca das ações de interesse comum. As
BRASIL CONFEDERAÇÃO 89

questões da energia, das ferrovias, da economia, da dívida exter-


na e interna, da harmonização tributária interestadual, das rela-
ções exteriores e demais políticas serão discutidas em foro de
interesse comum; ou seja, tais questões não devem influir direta-
mente na autonomia dos estados e municípios. Só podem ser
aprovadas em seu conteúdo na medida em que houver consenso
e forem ratificadas pelos estados, não como hoje, cujas determi-
nações vindas do Planalto simplesmente desrespeitam os interes-
ses estaduais, prejudicando seu povo e gerando as insatisfações.
Política macro nacional é, portanto, ação conjunta, com dis-
cussão nacional, sem invasão regional.

TRANSIÇÃO DO MODELO ATUAL PARA A


CONFEDERAÇÃO
Depois de tudo que foi dito e visto, surge a pergunta: Como
fazer as mudanças?
Existe diferença entre reforma e revolução. No atual mo-
mento, consideradas as circunstâncias, a maturidade política na-
cional, as experiências diversas que o Brasil já acumulou nas ten-
tativas de mudança, e considerando ainda que a população espe-
ra por mudanças bastante profundas, rápidas, imediatas e, está
disposta a fazer sacrifícios - exceto derramamento de sangue -
para ver o país finalmente saneado politicamente, a melhor alter-
nativa é uma reforma, isenta do gradualismo paliativo e enganoso
tantas vezes utilizado para dar tempo às manobras de acomoda-
ção dos velhos interesses.
O primeiro passo é demarcar limites constitucionais para a
nova ordem, deixando claras as novas atribuições da União, dos
estados e dos municípios. Os princípios básicos dessa demarca-
ção devem seguir naturalmente o princípio da autonomia dos es-
tados e municípios.
Com a aprovação da nova Carta Magna, todo o cabedal de
leis, decretos e portarias deixa de ter validade à medida que os
estados e municípios forem reformulando suas constituições e
criando suas novas leis.
Uma medida recomendável é fixar um prazo de 12 ou 18
meses para entrar em vigor a nova Constituição, tempo suficiente
90 BRASIL CONFEDERAÇÃO

para a elaboração das constituições e leis estaduais e municipais


e algumas novas leis nacionais que forem necessárias.
Aquelas leis atuais de abrangência nacional como o Código
de Propriedade Industrial, Registro do Comércio, Defesa do Con-
sumidor, Lei de Falências e outros que não conflitarem com a
nova ordem poderão continuar em vigor por um tempo determina-
do nas disposições transitórias da Constituição, de modo a haver
um tempo maior para as mudanças que forem necessárias.
Certamente haverá muito trabalho a fazer no período de
transição, devendo ser constituídas comissões técnicas, que ela-
borarão o texto das novas leis dentro do modelo político adminis-
trativo novo. Uma medida prudente é estabelecer previamente
uma listagem de todos os assuntos a tratar nas mudanças consti-
tucionais, fixando-se uma estratégia e um cronograma para os
trabalhos. Outra medida é preparar previamente material conten-
do todas as definições, para que todos quantos compuserem as
comissões técnicas possam se entender e “falar a mesma lingua-
gem”. Caso contrário poderemos ter uma bela Torre de Babel em
lugar de uma constituinte.
É recomendável ainda que os textos não sejam redigidos
unicamente pelos políticos, mas principalmente por gente do ramo
em cada assunto e com assessoria de juristas, para que estes
indiquem a forma redacional adequada. Aos políticos cabe princi-
palmente a parte formal nas Casas de Leis, o papel de catalisado-
res de todo o processo, principalmente a negociação entre as
diversas correntes de pensamento existentes no país.
Sairá tudo certo na primeira vez? Certamente não. Poderão
ser cometidos diversos erros, mas para aprender como se faz
democracia é preciso exercitá-la em todos os sentidos e em todas
suas formas de expressão. Não há outro caminho para a evolu-
ção da sociedade que não seja através da participação ativa e
intensa. Para aprender a nadar é preciso entrar na água.
Espero que o leitor não estranhe o fato de este livro não
conter todos os detalhes de como implantar uma reforma confe-
derativa no Brasil.
A Confederação é um sistema baseado nos princípios da
liberdade e da descentralização. É, portanto, o consenso de idéi-
as em torno de uma linha mestra. Pode-se confiar no bom senso
dos brasileiros em geral e quanto maior a abertura para a partici-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 91

pação popular e dos líderes de todas as tendências, maiores se-


rão as possibilidades de acerto.

CAPÍTULO 9

PALAVRA LIVRE
O PODER DESCENTRALIZADO
“Ao longo de dezenas de anos, ouvimos dizer que o Brasil é
o país do futuro. E o futuro não chega. E nem vai chegar se fi-
carmos somente esperando, ouvindo queixas, reclamações, de-
núncias de fraudes, de corrupções, de desvios de verbas ... e
ficando passivos, inconformados e impotentes.
Existe uma luz no final do túnel, é a descentralização do
poder, é a proposta da Câmara Júnior Empresarial de Curitiba
para adoção de um novo modelo administrativo: a Confederação.
Os estados terão autonomia administrativa, financeira e ju-
diciária para conduzir os seus caminhos de acordo com as neces-
sidades e prioridades de seus habitantes, tendo ambos um rela-
cionamento mais íntimo e mais próximo, solucionando cada pro-
blema de forma mais ágil, menos onerosa, mais justa e confiável.
A competência do governo é medida pela qualidade de vida de
seu povo.
A hora é agora. Vamos fazer acontecer as mudanças como
única forma de sobrevivência. O futuro começa no presente. A
Confederação é a alavanca para o futuro”.
Rosemary Artmann é empresária e Diretora
Secretária da Câmara Júnior Empresarial de Curitiba.

ACORDAR O GIGANTE
“Desde que acompanho o cenário político e econômico de
nosso país, tive a oportunidade de observar alguns fatos interes-
santes, acontecimentos milagrosos. O desaparecimento de ver-
bas, a multiplicação de impostos e outros.
92 BRASIL CONFEDERAÇÃO

O gigante adormecido: se nosso país é um gigante adorme-


cido, este já deve estar atrofiado, doente e à beira do colapso.
Brasil, país do futuro: o futuro é algo que nunca chega
quando não se tem esperança de um futuro melhor.
A Confederação não é apenas um sonho patriótico dos
membros dessa organização, é a única saída que nós cidadãos
brasileiros temos para darmos um basta nos milagres, acordar-
mos o gigante e começarmos o futuro”.
Pedro Luís Ciechowicz de Siqueira - publicitário e empre-
sário, é presidente/93 da Câmara Júnior Empresarial de
Curitiba.

BOA RECEITA
“Descentralizar para melhor servir. As necessidades de cada
estado podem ser melhor administradas por quem nele vive. Que
cada estado priorize-as e que as viabilize com os recursos de sua
gente. Participar ao governo central o necessário para manter
uma estrutura menos onerosa. Vamos deixar de mandar excesso
a um centro administrativo, para não termos, depois, de mendigar
o que nos pertence.
Ao invés de produzirmos recursos e os enviarmos à Brasília,
vamos simplificar, evitando os caminhos da centralização. Por que
não o remédio da Confederação? Uma boa receita para um país
de dimensões continentais.”
Sadi Polettto é representante comercial e membro da
Câmara Júnior Empresarial de Curitiba.

PARA RESOLVER O BRASIL NO ATACADO


“No Brasil o estado desejável, aceitável, justo, moderno e
racional está no campo das utopias. O poder público preocupa-se
apenas em conhecer e defender suas prerrogativas e não tem a
intenção de permitir que a sociedade faça o mesmo.
Enquanto isso, evoluem crises moral, institucional, política,
cultural, econômica e social. O estado é visivelmente incompe-
BRASIL CONFEDERAÇÃO 93

tente para gerenciar seus recursos humanos e incapaz de tornar-


se menor, para ocupar apenas seus espaços mais nobres.
A solução do corolário de crises está primeiramente na insti-
tuição de um estado racionalmente organizado, simplificado, es-
sencialmente servidor. A descentralização é um paradigma de
modernidade administrativa que precisamos mais cedo ou mais
tarde utilizar em nosso governo. O princípio da subsidiaridade é
outro e, por incrível que pareça, foi usado pelos norte-americanos
há 200 anos, enquanto que é para nós brasileiros um avanço a
realizar.
A solução do corolário de crises passa pela concretização
do modelo confederativo na verdadeira acepção da palavra, que
dá no mesmo. O conceito do estado mínimo requer a presença do
governo apenas naquelas funções nas quais a iniciativa privada
não tem, por sua natureza, condições de suprir a sociedade, e
complementa-se com a transferência das competências para os
estados e para os municípios.
Não precisamos ir longe para encontrar boas idéias. Aqui
em Curitiba mesmo temos um movimento iniciado pela Câmara
Júnior Empresarial, com vistas à implantação do modelo confede-
rativo no Brasil. Com fé e esperança estes jovens acabarão con-
seguindo seu intento de melhorar o país, cortando os males do
centralismo pela raiz, pois eles não sabem que isto é “impossível”.
Quando se fala em reformar as instituições brasileiras os
detentores do poder fixam-se em idéias como a reforma superfici-
al da Constituição. Ora, como fiz com muita propriedade o sena-
dor Roberto Campos, a Constituição Brasileira como está é um
dicionário de utopias e regulamentação minuciosa do efêmero.
Como ele, estou inclinado a afirmar também que a melhor consti-
tuição do mundo é aquela que não existe, a inglesa. A segunda é
a americana, velha, com mais de 200 anos; a terceira é a japone-
sa, escrita pelos inimigos; a quarta é a alemã, escrita sob o domí-
nio de ocupação de forças militares.
Se a solução de modernidade exige uma regulamentação
simples, eficiente e duradoura, é hora de evoluirmos na consciên-
cia dos valores da vida organizada em sociedade. A sociedade
consciente e organizada deve precipitar o debate, para que haja
rapidez na elaboração de um novo perfil político institucional para
nosso país. Estamos em tempo de esquecer, momentaneamente,
94 BRASIL CONFEDERAÇÃO

as picuinhas dos interesses do varejo e enfrentar as tarefas de


reorganização nacional por atacado.
CPIs para apurar denúncias de corrupção e de imoralidade
de toda ordem, debates sobre crise econômica e social, holocaus-
to da Previdência Social e outros cafajestismos que rolam por aí,
tudo isto é varejo e as soluções pretendidas não ameaçam as
estruturas deste poder arcaico, ambicioso, corrupto, degradador
dos valores humanos e materiais. Por isso, o debate mais pro-
fundo é recusado pelos detentores do poder. Jogar no atacado
pode balançar as estruturas miseráveis que sustentam este país”.
Werner Egon Schrappe é presidente da FACIP - Federa-
ção das Associações Comerciais e Industriais do Paraná.

LIBERDADE! DANE-SE O PASSADO!


“A sabedoria da antiga Índia já percebia que toda ação tem
conseqüências e que tudo aquilo que condiciona nossas vidas é
efeito direto ou indireto das ações o passado. Nos diz esta sabe-
doria que podemos nos libertar dos condicionamentos mediante
opções que fazemos livremente, depois de tomar consciência do
que é verdadeiramente desejado.
Desejamos verdadeiramente o progresso econômico e soci-
al? Ou o que desejamos é apenas consumir riquezas? Desejamos
verdadeiramente a liberdade? Ou queremos apenas satisfazer
apetites? Desejamos verdadeiramente uma organização política
eficiente? Ou queremos alguém que resolva os problemas por
nós?
O povo brasileiro está fortemente condicionado a certa cul-
tura do passado e não compreende bem o que significa liberdade.
Um dos condicionamentos mais fortes vem da cultura escravagis-
ta. Ainda temos arraigada em nosso modo de pensar a idéia de
que outras pessoas estão aí com a obrigação de satisfazer nos-
sas necessidades. Isto é na família, onde o papai garante o sus-
tento e a mamãe dá conta da casa; é nas empresas, onde o su-
bordinado quer que o dirigente se responsabilize por tudo e o diri-
gente quer que o subordinado faça toda a parte pesada do traba-
lho; é na política, onde “o governo deveria isso, o governo deveria
BRASIL CONFEDERAÇÃO 95

aquilo ...”. Nós, brasileiros em geral, temos ainda muito tênue a


idéia de resolver nossos próprios problemas.
Na conquista da liberdade temos dois caminhos a seguir:
um no plano individual, outro no plano político e institucional.
No plano individual precisamos aprender a lavar nossa lou-
ça suja, literalmente e figurativamente. Estudioso da Antroposofi-
a, Ralf Rickli em recente palestra proferida em Curitiba, conven-
ceu-me de que a escravatura, abolida há 100 anos, está muito
presente ainda em nossa cultura, nas relações familiares, econô-
micas e políticas. Em lugar de cooperação entre indivíduos, temos
relações de dependência entre desiguais.
A escravatura tem efeitos perversos tanto para o escraviza-
do quanto para o que escraviza. Este, contando sempre com o
aprisionamento do outro na rotina da execução das tarefas desa-
gradáveis e mal remuneradas, termina por ser incapaz de execu-
tar aquilo que é indispensável para sua própria sobrevivência.
Indivíduos livres sabem cuidar de si. Somente a liberdade propor-
ciona a capacidade para o trabalho cooperativo e para a redução
das desigualdades sociais.
No plano político e institucional, onde as coisas acontecem
de acordo com a mentalidade dos cidadãos em geral, onde tam-
bém a ordem estabelecida condiciona a mentalidade dos cida-
dãos, o caminho a percorrer é praticamente o mesmo. Cada parte
do todo tem que aprender a cozinhar seu próprio banquete e a
lavar a louça suja.
A centralização cria a dependência das partes ao organismo
central. Impede a verdadeira participação no governo dos assun-
tos que interessam a todos e atrofiam a capacidade de auto-
governo. A descentralização, ao contrário, cria a responsabilidade
e a responsabilidade gera a habilidade.
A proposta da Confederação é apenas um primeiro passo
para um estágio de maturidade brasileira, em nome da liberdade,
É muito mais que mera alternativa. Neste momento da história os
brasileiros mais que nunca acreditam na própria capacidade de
resolver a equação do desenvolvimento econômico social. A idéia
de se dar grande autonomia para os estados cabe na cabeça da
grande maioria de nós brasileiros. Estamos maduros para a Con-
federação.
96 BRASIL CONFEDERAÇÃO

A proposta da Confederação está muito longe de ser uma


revolução. Este vocábulo para mim significa “transformação vio-
lenta”, com derramamento de sangue e o meu não está disponível
para o desperdício.. Não chega a ser uma proposta por demais
avançada. Está dois ou três degraus abaixo da municipalização
das instâncias de poder. Está a anos-luz do socialismo utópico,
da anarquia. Está uns duzentos anos atrasada na história, dado
que no final do século XVIII os ideais de liberdade ganhavam o
mundo e inspiravam muitos brasileiros que morreram pelo fio da
espada do Rei de Portugal. É uma proposta reformista, conserva-
dora, mas é um começo.
É hora de descentralizar politicamente o Brasil. Agora. Se
temos uma tradição de centralismo, de paternalismo, de escrava-
tura mais ou menos branda, dane-se o passado”.
Marcos Antônio Mondini é jornalista profissional e asses-
sor legal da Câmara Júnior Empresarial de Curitiba.

MEU FILHO
“É uma rara oportunidade para um pai congratular-se com
seu filho, por um trabalho como este, que demonstra grande co-
nhecimento e sensibilidade fora do comum.
O teu interesse pelas coisas do mundo vem desde criança,
com tenra idade - 6 a 7 anos em diante -, demonstrado em nos-
sas conversas nas quais pude transmitir, graças às oportunidades
que tive para visitar muitos países e conhecendo o modo de vida
de cada um deles.
Em torno dessa curiosidade, tu passaste a te preocupar com
o próprio país, chegando finalmente a uma tese político-
administrativa que deveria nortear o Brasil, o qual adotei como
pátria há mais de 35 anos.
Vivendo vários regimes, conheci o feudalismo, o nazismo e
o comunismo.
À procura da liberdade, busquei o Brasil. Jamais aceitei que
este país - com tantas riquezas, tanto solo, tanta potencialidade -
não tivesse passado apenas de uma promessa, exatamente o
que era quando aportei em Santos.
Estão muito claras, para mim, as razões expostas nesse
trabalho e não tenho dúvidas de que os brasileiros, ao adotarem
BRASIL CONFEDERAÇÃO 97

um modelo descentralizado de governo, como se propõe com


uma Confederação de Estados, estarão finalmente garantindo,
democraticamente, a proximidade do futuro que ainda parece tão
longe.
O elogio para este trabalho magnífico é o meu orgulho”.
Miklos Korontai é engenheiro civil e arquiteto.
98 BRASIL CONFEDERAÇÃO

CAPÍTULO 10

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das rápidas mudanças que ocorrem no planeta, es-
pecialmente de 1989 em diante, o Brasil não pode ficar para trás,
à margem do processo. É preciso redimensionar nossa postura no
contexto geopolítico mundial sob pena de não oportunizarmo-nos
nas novas dimensões que se avizinham, com o limiar do terceiro
milênio.
Você, caro leitor, quer que o Brasil continue sendo “terceiro
mundo”? Quer que sejamos colônia? Persistindo a atual desorga-
nização e a falta de rumo certamente não passaremos disso. Já
perdemos muito tempo. Tivemos atrasos consideráveis em de-
senvolvimento, marginalizando nosso povo, impedindo seu ama-
durecimento político a tal ponto que está praticamente perdido o
sentido de cidadania, o conceito de nação e de pátria. Nossos
jovens sonham mudar-se para outros países. Pagamos impostos
e damos risadas quando as charges nos jornais e TVs brincam
com os escândalos, a roubalheira, a corrupção.
Votamos sem convicção, elegendo para grandes cargos
públicos pessoas que não conhecemos de fato, apenas porque
fazem belas campanhas publicitárias. Não nos candidatamos aos
cargos eletivos pensando em contribuir para a melhoria qualitativa
da classe política, por muitas razões, que vão desde a descrença
no sistema até a “preservação da própria imagem”.
Os brasileiros não acostumaram a valorizar-se, a ter orgulho
de sua identidade. Ora se auto penalizam, ora tentam reinventar a
roda. Mas é um povo extremamente criativo e resistente, pronto
para enfrentar o trabalho e para fazer sacrifícios que acredita ser
necessários. Os Planos Cruzado e Collor I demonstram isso.
Pelo bem do país, conformou-se até com o saque de pou-
pança individual.
BRASIL CONFEDERAÇÃO 99

É também um povo amante da paz e que almeja esse ideal


para toda a humanidade.
O Senador da República, Marco Maciel, apontou com clare-
za um outro aspecto cultural: “o povo brasileiro é solidário mas
não é associativo”. A falta de associativismo e de participação
efetiva nos assuntos de interesse comum está na origem da tão
estranha desunião política que cultivamos. As esferas de decisão
estão muito distantes. Sempre estiveram distantes do povo. Se as
colocássemos mais próximas com certeza o exercício da cidada-
nia se tornaria mais atrativo.
Precisamos inverter o ciclo histórico dos 500 anos de centra-
lismo, destruindo alguns vetores que nos arrastam para a condi-
ção de 4º mundo.
Temos oportunidade para resgatar o princípio da cidadania,
refletindo sobre o modelo administrativo existente e imaginando
alternativas, tomando posição, assumindo compromissos e procu-
rando influenciar nas decisões que afetam a vida de cada um.
A proposta da descentralização administrativa, do modelo
confederativo, pode ser a bandeira até mesmo dos integrantes
das oligarquias, que comandam os corredores palacianos e os
empresários que sempre ganharam no conluio incestuoso com o
governo. Elevar o nível de vida da nação como um todo através
de um modelo de governo mais inteligente interessa a todos, in-
clusive às grandes empresas, que na verdade não são tão gran-
des assim, perto das corporações internacionais, bem como às
próprias oligarquias.

BENEFÍCIOS PRÁTICOS
Analisando-se todo o contexto do novo modelo administrati-
vo que se propõe, fica fácil perceber, mesmo subjetivamente, os
benefícios obtidos para a Nação e para o cidadão.
Mas vale a pena citar alguns:

PREÇOS/INFLAÇÃO
Com a reforma do modelo administrativo, altera-se o siste-
ma tributário, ocorrendo uma importante queda nos preços, já que
100 BRASIL CONFEDERAÇÃO

os 59 impostos, taxas e tributos incidem de forma direta e indireta,


em “cascata e correnteza” nos custos dos produtos e serviços.
Com isso a inflação cairá desde que haja prosseguimento da a-
bertura de mercado aos produtos estrangeiros, regulando, portan-
to, o equilíbrio entre demanda e oferta.

MAIS TRABALHOS/SALÁRIOS
Com o reaquecimento da economia, haverá, como reflexo
imediato, a geração de empregos e aumento dos salários, fruto da
mesma lei que rege o mercado como um todo: a oferta e a procu-
ra.

MAIS JUSTIÇA
Com a simplificação do judiciário, que terá instâncias locais
e estaduais como balizadoras da justiça comum, os procedimen-
tos terão maior agilidade e correção. A justiça deve ser certa e
não pode tardar para ser justa.

DISTRIBUIÇÃO DA RENDA
Com os impostos ficando dentro dos estados e municípios,
sobrarão mais recursos para o desenvolvimento e aplicação em
educação, saúde, habitação, justiça, crédito para indústria e co-
mércio, saneamento e tudo que seja necessário para o bem-estar
coletivo. Acaba-se com os passeios das verbas, intermediações,
PCs, clientelismo político e tantas outras mazelas provocadas
pelo centralismo crônico vivido pelo Brasil.
FIM DO ÊXODO
Com a distribuição de renda melhorada e dependendo dos
planejamentos macros estaduais de desenvolvimento e investi-
mentos, poderá buscar-se o fortalecimento dos municípios interio-
ranos, incentivando-se a fixação do homem nestes, evitando o
inchaço urbano nos grandes centros, diminuindo com isso a cri-
minalidade e o favelamento, reflexos do quadro atual.

COMPETITIVIDADE
BRASIL CONFEDERAÇÃO 101

Com a queda dos preços, graças à reforma tributária, origi-


nária da reforma do modelo administrativo do país, os produtos
nacionais poderão competir em iguais condições com os estran-
geiros, mesmo tendo que buscar o aprimoramento tecnológico
que os diferencia. O reaquecimento da economia e a confiança
na perenidade das regras propiciará investimento do capital priva-
do no desenvolvimento de novos produtos, gerando tecnologias,
empregos e riquezas. O Brasil se tornará, então, o mais novo “ti-
gre” mundial, ou, para quem preferir, uma “onça”...
DEMOCRACIA PLENA
Só se pratica democracia com a soberania do povo pelo
povo. Será o fim da excessiva interferência da União em quase
tudo que diz respeito aos municípios e estados, os quais não mais
dependerão do clientelismo. Com isso, o governo ficará junto do
povo e não mais a 3.000 km ou mais, encastelado em Brasília.
Haverá mais controle e transparência, menos corrupção e mais
decência. Haverá real participação do povo nas decisões que lhe
digam respeito. É a democracia que todos queremos, na mais
pura essência.

CONCLUSÃO
Lideranças sindicais de todas as cores políticas, profissio-
nais, estudantes, enfim, todos podem e devem refletir e agir no
sentido das mudanças urgentes. Não há outro caminho senão a
modernização da democracia brasileira através do modelo admi-
nistrativo adequado a um país de 8 milhões e 500 mil quilômetros
quadrados. E já!
“São os homens que fazem a história e não a história que
faz os homens. Quando falta liderança a sociedade permanece
imóvel. O progresso acontece quando líderes de coragem e habi-
lidade aproveitam a oportunidade para colocar as coisas em mar-
cha na boa direção”- disse Harry Truman.
Aqueles que têm uma visão prática e patriótica e se sentem
na responsabilidade de deixar para os seus descendentes um
102 BRASIL CONFEDERAÇÃO

país de oportunidades iguais, sérias, honestas, devem agir neste


momento para liderar seus próprios grupos de influência. Assim
gera-se um efeito multiplicador que fará o movimento das massas,
unindo a solidariedade com a ação da coletividade. Assim serão
influenciados todos os pontos da pirâmide social brasileira, levan-
do a nação a uma visão moderna da organização interna, da vida
e da democracia plena e real.
Cada brasileiro deve lembrar do seguinte ensinamento: “te-
mos todos nós, por ação ou omissão, estímulo ou incompreensão,
responsabilidade dos fatos da história”. (Teotônio Vilela)

JUNTOS, FAREMOS DO BRASIL O


PAÍS QUE QUEREMOS TER!
BRASIL CONFEDERAÇÃO 103

DADOS BIBLIOGRÁFICOS

A Arte da Política, de Mansur Challita - Publicação da Associa-


ção Cultural Internacional Kalil Gibran - Distribuidora Record.
Panorama da História dos Estados Unidos - Publicação do De-
partamento Cultural da Embaixada dos EUA (Dr. Wood Gray, da
George Washington University e Dr. Hofstadler, da Columbia Uni-
versity, N.Y.).
Os 800 anos do Principado de Trento - Casa Editrice - Tren-
to/Itália, Vol 5.
Jornal Indústria e Comércio do Paraná - edições de
26.09.91/01.10.91/ 14.02.92/20.04.92/10.01.91.
Jornal Gazeta do Povo - artigo Roberto Campos - 10.02.92.
O Teorema de Jaguaribe/Editorial “Isto é Senhor”, de 11.12.91.
Folhas de Informação sobre a Suíça, da Fundação Suíça de Cul-
tura (Consulado Suíço).
Gazeta Mercantil (sobre Canadá), de 15.04.92.
O Advogado Rui Barbosa, de Rubens Nogueira - Livraria Editora
Cátedra, 1979 - 3ª edição.
104 BRASIL CONFEDERAÇÃO

O AUTOR (brifieng atualizado -1997)

Thomas Korontai é empresário, atuando em diversas ativi-


dades, dentre as quais, dirige sua empresa Komarca Escritório de
Propriedade Industrial - Marcas e Patentes.

Fundador e presidente da APPI - Associação Paranaense


da Propriedade Industrial.

Foi membro do Rotary Club Cidade Ecológica de Curitiba.


Fundador e presidente da Câmara Júnior Empresarial de
Curitiba.
Fundador e presidente do Movimento Brasil Confederação
(MBC ).
Fundador e ex-diretor financeiro da Câmara Latino America-
na do Paraná.

Membro do Conselho de Jovens Empreendedores da Asso-


ciação Comercial do Paraná e da Arbitac - Câmara de Arbitragem
Comercial da mesma entidade, na qualidade de árbitro.
Foi colunista semanal por 5 anos no Jornal Indústria & Co-
mércio.
Autor de dezenas de artigos publicados em jornais e revis-
tas de diversos lugares do país.
Lançou e coordenou por 6 anos o Movimento Nacional pela
Confederação do Brasil, agora transformado em Comissão Execu-
tiva Nacional Pró-Fundação do Partido Federalista.