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Economia

Diego Figueiredo Dias


SOBRE A FACULDADE

A Faculdade Cidade Verde (FCV) nasceu de um sonho, de um projeto


de vida de professores universitários que compartilhavam de um mesmo
desejo, o de produzir e difundir o conhecimento ao maior número de pes-
soas, com o intuito de formar profissionais aptos a atuarem no mundo dos
negócios. E assim, unidos por este propósito transformador, constituíram a
FCV por meio da União Maringaense de Ensino Ltda (UME).

2005 - O Diário Oficial da União (DOU) oficializou o projeto com a


publicação dos dois primeiros cursos: Administração e Ciências Contábeis.
O sonho tomava forma, novos apoiadores vieram e os primeiros alunos,
ao todo eram 35. Ainda em 2005, o grupo alçava mais um passo com a
implantação dos cursos de pós-graduação latu-sensu, nas áreas de Gestão
e Contabilidade.

2006 - mais uma conquista com a autorização do curso de Ciências


Econômicas. A esta altura, o sonho já não cabia no pequeno espaço, e fez-
se necessário melhorar a estrutura física.

2008 - Iniciou-se uma pesquisa de mercado com intuito de buscar um


novo local, com facilidade de transporte e segurança.

2009 - O crescimento do novo centro de Maringá, a FCV inicia o seu


processo de mudança para a Avenida Horácio Raccanello Filho, 5950.

2010 - Ocorreu a mudança para o atual endereço da instituição, ano em


que houve também a autorização dos cursos tecnólogos em Análise e Desen-
volvimento de Sistemas, Gestão Comercial e Gestão da Produção Industrial.
2011 - Direito passa a integrar o complexo de cursos e atividades que daria
base ao desenvolvimento da FCV.

2014 - Em parceria com os Institutos Lactec, a FCV traz para Maringá o Mes-
trado Profissional em Desenvolvimento de Tecnologia.

2015 - Mais dois novos cursos passam a integrar a oferta de cursos superio-
res, os Tecnólogos em Gestão de Recursos Humanos e Tecnólogo em Marketing.
De lá pra cá, foram muitas as lutas para garantir a qualidade de ensino e inovação.

2016 - As novas conquistas: os cursos de Psicologia e Design Gráfico.

2017 - Lançamento de oito cursos de Graduação e mais de oitenta cursos de


Pós-Graduação à distância nas áreas de Educação, Gestão, Direito e Informática.

Hoje, a FCV é reconhecida como um importante centro de produção e difusão


de conhecimento com mais de vinte cursos de pós-graduação e onze de gradu-
ação presenciais, lançando os cursos de Graduação e Pós-Graduação à distância,
tendo como foco a manutenção dos mesmos padrões de qualidade apresentados
nos cursos presenciais. As instalações atuais da sede estão distribuídas em mais
de dez mil metros quadrados, comportando seus diversos departamentos admi-
nistrativos; biblioteca (com acervo de dezoito mil livros); cinco laboratórios de
informática, um de anatomia, uma brinquedoteca, trinta e quatro salas de aula,
Núcleo de Práticas Jurídicas (NPJ), salas de professores e de apoio pedagógico,
duas cantinas e área de laser. No tocante à qualificação dos professores, a FCV
conta com mais de 90% do seu corpo docente composto por mestres e douto-
res. Essa é a FCV de hoje, uma faculdade de negócios preocupada em formar ci-
dadãos éticos, contribuindo para o desenvolvimento social, buscando resultados
sustentáveis através do ensino presencial e a distância.
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Economia
Diego Figueiredo Dias
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Olá caro acadêmico! É um prazer tê-lo conosco na disciplina de
ECONOMIA.
Sou o Professor Diego Figueiredo Dias, atuo como docente de graduação
e pós-graduação desde que me formei em Economia, área em que também
fiz meu mestrado.
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Muitos de vocês devem se perguntar O PORQUÊ ESTUDARMOS
ECONOMIA neste curso. A resposta é simples: porque a Economia busca
ensinar-nos a administrar os recursos (mão de obra, matérias-primas, terra,
dentre outros) que uma sociedade possui, portanto torna-se interessante
a todos. Quantas vezes você ouviu termos como inflação, desemprego,
crescimento ou crise econômica, vulnerabilidade externa, valorização ou
desvalorização das taxas de câmbio, aumento ou diminuição das taxas
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de juros? Todas essas questões estão inseridas na discussão de âmbito
econômico e as trabalharemos ao longo desta disciplina para que, ao final
do curso, você saiba como lidar com todos esses assuntos.
O seu material didático é dividido em 3 unidades de estudo:
• Na Unidade I veremos a parte de Introdução à Economia, que trata do
PORQUE estudar economia e quais são os conceitos fundamentais
que devemos aprender, bem como a Introdução à Microeconomia,
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que traz os conceitos fundamentais desta área tão importante da


economia e que vai ser de grande valia na sua formação.
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desemprego, etc.)

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delas para a economia do país;

câmbio, exportação e importação.

Prof. Me. Diego Figueiredo Dias


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balanço de pagamentos, etc.

Um grande abraço e bons estudos!!!


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Entender os conceitos econômicos fundamentais;

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Portanto, ao concluir este livro, você deverá estar apto a:

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Entender os mecanismos da economia internacional como taxa de
Conhecer as políticas macroeconômicas e a real efetividade de cada uma
internacional, como exportação, importação, taxas de câmbio,
Na Unidade II apresentaremos a Introdução à Macroeconomia (que

Na Unidade III mostraremos os conceitos voltados à economia

Identificar as principais implicações da microeconomia no âmbito empresarial;


estuda os grandes agregados econômicos como juros, inflação,

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UNIDADE 1: INTRODUÇÃO À ECONOMIA E À
MICROECONOMIA 11

O mercado: oferta versus demanda.....................................................................................13

Fatores que influenciam a demanda ...................................................................................14

Fatores que influenciam a oferta ..........................................................................................16

A estrutura do mercado ...........................................................................................................16

A macroeconomia e o papel do governo ..........................................................................19

A inflação e o mercado .............................................................................................................23

A importância da economia na gestão empresarial ......................................................26

CONCEITO DE ECONOMIA .............................................................................................. 27

OS PROBLEMAS ECONÔMICOS FUNDAMENTAIS ................................................... 28

FUNCIONAMENTO DE UMA ECONOMIA DE MERCADO: FLUXOS REAIS E


MONETÁRIOS ...................................................................................................................... 31

SUMÁRIO
Fluxo real........................................................................................................................................32

Fluxo monetário ..........................................................................................................................34

Fluxo circular de renda .............................................................................................................34

INTRODUÇÃO À MICROECONOMIA ............................................................................ 37

DEMANDA DE MERCADO ............................................................................................... 38

OUTRAS VARIÁVEIS QUE AFETAM A DEMANDA DE UM BEM ............................ 43

DISTINÇÃO ENTRE DEMANDA E QUANTIDADE DEMANDADA ......................... 44

OFERTA DE MERCADO ..................................................................................................... 47


Oferta e quantidade ofertada ................................................................................................50

ALTERAÇÃO DA QUANTIDADE OFERTADA E DA OFERTA ................................... 51

EQUILÍBRIO DE MERCADO.............................................................................................. 52
A lei da oferta e da procura: tendência ao equilíbrio ....................................................52

Oferta e Demanda do bem X..................................................................................................52

ESTRUTURA DE MERCADO ............................................................................................. 55


SUMÁRIO UNIDADE 2: INTRODUÇÃO À MACROECONOMIA

Análise do Produto Interno Bruto (PIB) ..................................................................... 65

O Consumo Agregado Privado..................................................................................... 67


61

Consumo do Setor Público ........................................................................................... 73

Investimento Agregado Privado .................................................................................. 74

Investimento Público ....................................................................................................... 80

Exportações ......................................................................................................................... 81

POLÍTICAS ECONÔMICAS ............................................................................................... 82


Objetivos das Políticas Econômicas .....................................................................................83

Estabilidade Econômica ...........................................................................................................85

Crescimento da Produção: mais renda e emprego ........................................................86

Melhora da Distribuição de Renda .......................................................................................86

Equilíbrio nas Contas Externas...............................................................................................87

Conflitos existentes ....................................................................................................................88

Dilemas de política econômica: inter-relações e conflitos de objetivos.................90

Instrumentos de política macroeconômica ......................................................................92

OS INSTRUMENTOS DE POLÍTICA ECONÔMICA ..................................................... 92

POLÍTICA FISCAL: RECEITA E GASTOS PÚBLICOS.................................................... 94


Gastos do governo .....................................................................................................................95

Quatro itens são importantes nas despesas do governo:............................................95

Alíquota versus arrecadação: A Curva de Lafer ..............................................................97

A carga tributária no Brasil ......................................................................................................99

Déficit público..............................................................................................................................100

Financiamento do Déficit .......................................................................................................105

Efeitos da Política Fiscal sobre a Economia .......................................................................106

POLÍTICA MONETÁRIA: DEMANDA E OFERTA DE MOEDA .................................. 108


Demanda de Moeda ..................................................................................................................110

Oferta de Moeda .........................................................................................................................111

Taxa de Juros ................................................................................................................................115

Os instrumentos de política monetária ..............................................................................120

Operações de Mercado Aberto (open market) ................................................................121

Recolhimentos Compulsórios ................................................................................................124

Operações de Redesconto ou Empréstimo de Liquidez ..............................................125

Efeitos da política monetária sobre a economia .............................................................128

Efeito do Juro sobre o Consumo e o Investimento ........................................................129

Efeito do Juro sobre o Fluxo de Capitais Externos ..........................................................131

Efeito do Juro sobre a Poupança ...........................................................................................133

Efeito do Juro sobre os Preços ...............................................................................................134

UNIDADE 3: ECONOMIA INTERNACIONAL 137

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 139

INSTRUMENTOS DE POLÍTICA CAMBIAL ................................................................... 141


Taxa de câmbio ............................................................................................................................143

Balanço de pagamentos...........................................................................................................151

Efeitos da política cambial sobre a economia ..................................................................152

CONCLUSÃO 158

REFERÊNCIAS 161
UNIDADE 1

Introdução à economia e à
microeconomia

Diego Figueiredo Dias


Objetivos de Aprendizagem
• Esta unidade tem por objetivo introduzir o aluno na discussão
dos conceitos econômicos básicos, que são fundamentais para
o desenvolvimento eficiente da disciplina, bem como demonstrar
conceitos microeconômicos e sua importância para os futuros
gestores, sejam eles do setor público ou privado..

Plano de Estudo

Serão abordados os seguintes tópicos:

• Conceito de economia
• Os problemas econômicos fundamentais
• Sistemas econômicos
• Funcionamento de uma economia de mercado: fluxos reais e
monetários
• Bens de capital, bens de consumo, bens intermediários e fatores
de produção
• Introdução à microeconomia
• Demanda de mercado
• Distinção entre demanda e quantidade demandada
• Oferta de mercado
• Estrutura de mercado
• Características das estruturas de mercado
UNIDADE I - Economia

INTRODUÇÃO
Para você que se pergunta o porquê de estudarmos economia, iniciaremos esta unidade

contando a história de um gestor de uma empresa brasileira, o Sr. Augusto, que em seu

cotidiano lida com diversas questões econômicas. Augusto é um renomado gestor de um

frigorífico, exportador de carne bovina. Em seu dia a dia teve de aprender a tomar deci-

sões com base no comportamento da economia para, assim, alcançar sempre os melhores

resultados para a empresa. A história de Augusto nessa empresa não se iniciou agora, mas

há 31 anos, portanto ele já passou por quase todas as situações possíveis até o momento.

Vamos, então, analisar, passo a passo, tudo o que vive esse homem e sua empresa.

O MERCADO: OFERTA VERSUS DEMANDA


Mercado é todo ambiente onde ocorrem trocas, ou seja, onde uma empresa oferta bens

e/ou serviços e um consumidor procura por bens e/ou serviços. Portanto, no caso do mer-

cado frigorífico, existem os consumidores de carnes que demandam tais produtos e o

próprio frigorífico, que é o responsável pela oferta. A interação entre esses dois agentes,

o demandante e o ofertante, é que vai determinar o preço de mercado da carne bovina.

A demanda do consumidor reage de forma inversa ao preço, ou seja, se o preço da carne

sobe, a demanda tende a diminuir. O frigorífico reage ao contrário, pois estará disposto

15
UNIDADE I - Economia

a ofertar mais quando o preço estiver mais alto. É claro que essas situações são simplifi-

cações do que realmente ocorre no mercado, pois existem outros diversos fatores que

também influenciam na oferta e na demanda, e é o que veremos a seguir.

Fatores que influenciam a demanda


Existem diversos fatores além do preço que interferem na procura por bens e/ou serviços.

Para a maioria dos produtos, inclusive carne bovina, a renda dos consumidores, o preço

de produtos substitutos ou complementares e a preferência (gosto) dos consumidores

influenciam na demanda. Se a renda dos consumidores estiver aumentando, esperamos

que ocorra um aumento na demanda, ou seja, consumidor com mais dinheiro consome

mais. Mas o Augusto percebeu que quando a renda da população estava aumentando,

a demanda reagia diferente para os diferentes produtos que o frigorífico comercializava.

Ele percebeu que o consumo de carne “de segunda” diminuía enquanto o consumo da

carne “de primeira” aumentava quando a população estava com a renda mais elevada.

Nesse caso, estamos nos referindo aos bens normais (carne de primeira), que são mais

consumidos quando a renda se eleva, e aos bens inferiores (carne de segunda), que, nesse

caso, são menos consumidos. Augusto percebeu que diante de tal situação deveria dar um

tom de maior nobreza aos produtos que sofriam queda no consumo quando a população

16
UNIDADE I - Economia

estava ganhando mais. Por isso, hoje em dia é comum vermos embalagens mais valo-

rizadas, carnes com recheios, cortes que há alguns anos não eram comuns. Outro fator

que influi na demanda é a existência de substitutos, e nesse caso, os substitutos da carne

bovina são todas as outras carnes, por exemplo, a carne de frango, de porco etc. Se acaso

houver uma redução, por qualquer que seja o motivo, no preço da carne de frango, haverá

provável redução na demanda por carne de vaca, isto é, com o preço do frango em baixa,

os consumidores vão preferir trocar, em determinada quantidade, o consumo de carne

bovina por carne de frango. O contrário também pode ocorrer: se o frango, por algum

motivo, encarecer, os consumidores irão preferir o consumo da carne bovina. Vimos aqui

os fatores que influenciam na demanda, porém existem fatores que também influenciam

na oferta, ou seja, que fazem o frigorífico colocar muita ou pouca carne à disposição do

mercado.

Fatores que influenciam a oferta


Além do preço que a carne encontra no mercado, outros fatores também interferem na

quantidade ofertada no mercado, como os custos de produção (matéria-prima, salários,

aluguéis), o nível tecnológico e o número de empresas existentes no mercado. O custo de

17
UNIDADE I - Economia

produção em alta faz com que Augusto recue sua produção, pois sabe que com o custo

alto, o preço se eleva e o consumidor diminui o consumo. A tecnologia é diretamente

proporcional à oferta, já que, com dadas melhorias, a produtividade se eleva. E, por fim,

Augusto precisa se ater aos concorrentes, pois quanto mais empresas houver no mercado,

maior será a oferta de produtos, o que pode causar impacto em seus resultados.

A estrutura do mercado
Existe um fator importantíssimo na análise de mercado que não pode ser negligenciado:

a estrutura em que a empresa se encontra é importantíssima para determinar as possibi-

lidades de atuação e as estratégias. Mas, o que é estrutura de mercado? Estrutura de mer-

cado é a forma como as empresas de determinado segmento se encontram organizadas

e depende, fundamentalmente, de três fatores: o número de empresas que compõem o

mercado, o tipo de produto comercializado e se existem ou não barreiras ao acesso de no-

vas empresas ao mercado. Mas, no que isso influencia na atuação da empresa? Quanto ao

número de empresas que compõem o mercado, quanto mais concorrentes existirem, me-

nor será a margem de manobra do empresário e maior será o poder do consumidor nas

negociações. O contrário também é verdadeiro: se o número de consumidores for grande

e o número de empresas reduzido, estas exercem um poder soberano no mercado, de-

terminando preços e quantidades ofertadas. Quanto a isso Augusto não pode reclamar,

18
UNIDADE I - Economia

pois existem cerca de 180 milhões de consumidores no Brasil, sem contar os do exterior,

para um número pequeno de frigoríficos que dominam o mercado. Em relação ao tipo de

produto, significa que existem produtos que se diferenciam pela marca, pela qualidade.

Pensem no melhor refrigerante que existe: com certeza, o consumo dele, muitas vezes,

independe do preço, pois sua marca está consolidada. Apesar de ser apenas refrigeran-

te, existem diferenças entre diferentes marcas, o que dá poder pra algumas empresas

atuarem independentes no mercado, com mais autonomia sobre preços e quantidades

ofertadas Neste caso, Augusto percebeu recentemente que pode fazer com que a carne

do frigorífico no qual que trabalha seja reconhecida pela marca. Isso é algo novo para

esse mercado, mas, segundo especialistas, em breve estará em vigor. Imaginem chegar ao

açougue e pedir três quilos de costela Bertin, duas picanhas Minerva ou uma maminha

Friboi. Daria um ótimo churrasco, mas tal situação ainda não é corriqueira, apesar de que

uma destas grandes empresas já saiu na frente, veja no SAIBA MAIS a seguir.

SAIBA MAIS
A Friboi saiu na frente e já faz uma excelente campanha!

http://www.youtube.com/watch?v=ttRSZNLI7O4

19
UNIDADE I - Economia

Uma empresa que impõe sua marca tem sempre mais autonomia no mercado. Se existem

barreiras ou não ao acesso de novas empresas ao mercado, é um fator de imensa importân-

cia para o comportamento do empresário. Se um determinado setor é de fácil acesso, ou

seja, se para abrirmos um empreendimento não é requerido tanto esforço de tecnologia

ou capital, significa que o empresário tem pequena margem de manobra dentro desse

segmento, pois existem concorrentes em potencial. Vamos supor que fosse esse o caso

de nosso amigo Augusto, se ele subisse o preço da carne, poderia estar atraindo novos

concorrentes que se sentiriam tentados a iniciar tais empreendimentos movidos por altos

preços e possibilidades de lucros. Mas não é só do lado da venda que Augusto fica atento

à estruturação do mercado. Ao comprar fatores de produção (boi vivo, mão de obra etc.)

também existe influência das estruturas. Por exemplo, se há muita mão de obra disponível,

o preço será mais baixo – e o contrário é verdadeiro. Se há muitos bois para comprar, o

preço também tende a ser menor. Augusto enfrenta essa dificuldade quando quer abrir

novos frigoríficos pelo Brasil, pois existem regiões que têm muita mão de obra disponível,

mas pouca matéria-prima (boi vivo) e outras que apresentam a situação contrária, com

muita matéria-prima e pouca mão de obra. A escassez de mão de obra, às vezes, ocorre não

apenas pela falta de pessoas para trabalhar, mas também pela falta de especialização da

população de determinadas regiões, o que encarece o custo de produção do bem. Vimos

até aqui a parte que diz respeito à interação do consumidor com a empresa, chamada de

microeconomia ou teoria de formação de preços. A seguir, abordaremos o comportamento

20
UNIDADE I - Economia

da economia como um todo, ou seja, a macroeconomia, que analisa a interferência causa-

da por variáveis globais, como inflação, nível de desemprego, taxas de câmbio e taxas de

juros. Como essas variáveis influenciam o andamento da empresa de Augusto?

A macroeconomia e o papel do governo


A macroeconomia é a parte da economia que se preocupa com as variáveis globais, como

já foi explicado na seção anterior. O governo é o principal agente de política econômica,

ou seja, é ele que busca equacionar os problemas inflacionários, determinar a taxa básica

de juros da economia, diminuir o desemprego etc. Para que o governo consiga cumprir

essas funções, ele utiliza diferentes políticas econômicas, que repercutem de diferentes

maneiras, dependendo do setor em questão. As políticas são a fiscal, a monetária, a cam-

bial, a comercial e a de renda. Quando o governo executa a política fiscal, quer dizer que

ele está alterando a tributação ou os gastos. Ou seja, política fiscal diz respeito às receitas

e despesas do governo. Mas, em que isso influencia a empresa de Augusto? Quando o

governo opta por uma política fiscal restritiva (aumento dos tributos ou diminuição dos

gastos públicos), ele tem o objetivo principal de conter a inflação, pois essas políticas le-

vam a uma redução do consumo e, com o mercado desaquecido, os preços tendem a se

manter constantes ou a reduzir. Esse tipo de política não afeta somente a empresa frigorí-

fica de Augusto e sim toda a economia, pois o consumo em queda causa problemas para

21
UNIDADE I - Economia

as empresas, que deixam de vender e, por isso, correm o risco até de falência. Quando

o governo opta por política fiscal expansionista (aumento nos gastos públicos ou dimi-

nuição dos tributos), ele visa, principalmente, fomentar a atividade econômica, expan-

dindo o emprego e a renda. Esse tipo de política faz com que haja um aquecimento na

economia, com isso, as empresas aproveitam o bom momento e expandem suas vendas.

Essa expansão leva à contratação de novos funcionários, o que promove a expansão na

renda gerada na economia. Imaginem uma determinada região onde o governo resolva

fazer uma obra e por isso contratar empreiteiras para executar o serviço e/ou até mesmo

trabalhadores locais. São postos de combustíveis vendendo mais, hotéis e pousadas com

as vagas ocupadas, restaurantes servindo mais refeições e, portanto, comprando mais no

mercado da cidade. Vemos, assim, a importância do papel do governo na geração de em-

prego e renda, seja de maneira direta ou indireta. A política monetária, bem como a fiscal,

pode ser restritiva ou expansionista. Quando o governo faz política monetária restritiva

(principalmente aumento dos juros), o maior objetivo é reduzir a quantidade de dinheiro

em circulação para que haja um desaquecimento da atividade econômica, e não se abra

espaço para inflação. A política expansionista (diminuição dos juros) é justamente a situ-

ação contrária, em que o governo objetiva a expansão da atividade econômica, ou seja,

do emprego e da renda. Augusto espera sempre os momentos de baixa nas taxas de juros

para recorrer a créditos e expandir as compras e contratações no frigorífico.

22
UNIDADE I - Economia

Mais adiante veremos o motivo pelo qual essa tal inflação é a preocupação central do gover-

no e acaba por barrar a expansão da atividade econômica. Falando ainda de políticas econô-

micas, a que mais anda preocupando Augusto é a política cambial. Sabemos que o principal

foco dos grandes frigoríficos brasileiros nos últimos tempos tem sido o mercado externo,

ou seja, as exportações. Existem diversos fatores determinantes da exportação, como renda

internacional, preço do bem no mercado interno, preço no mercado externo e a taxa de

câmbio (objeto da política cambial).

A renda internacional é importante, pois é ela que determina a existência de recursos dis-

poníveis para a compra da carne brasileira e, como vimos recentemente, em tempo de crise

as exportações diminuem muito. O preço do bem no mercado externo é importante, pois

se o preço lá estiver em queda, o produtor vai preferir negociar seu produto internamente.

O preço do bem no mercado interno, se elevado, incentiva o produtor também a vender no

mercado interno e o contrário é verdadeiro.

Falando em taxa de câmbio, tratamos do objeto da política cambial do governo, que pode

executá-la retirando ou colocando moeda estrangeira no mercado. Taxa de câmbio é o

preço da moeda estrangeira em reais e determina quanto o exportador vai receber ao tro-

car os dólares originados da exportação por reais no mercado interno. Se a taxa de câmbio

estiver baixa (ou valorizada), significa que necessitamos de poucos reais para comprar

dólares, mas, se pelo contrário, estiver alta, necessitamos de mais reais por dólar. Para o

23
UNIDADE I - Economia

exportador, a última situação é a ideal, pois, ao vender para o exterior, ele recebe em dólar

e, ao trocar no banco, recebe uma quantia grande em reais. Entretanto, para o governo

essa situação é uma faca de dois gumes. Existe uma grande pressão por parte dos setores

importadores, que sofrem quando a taxa de câmbio está desvalorizada, pois as importa-

ções ficam caras, encarecem os produtos finais e causam inflação.

Por que a inflação é tão preocupante e acaba sendo determinante nas políticas do go-

verno? No próximo item veremos o que é a inflação, quais são suas causas e as formas de

combatê-la.

A inflação e o mercado
A inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços dos bens e serviços da economia.

As causas costumam ser diferentes em função das condições de cada país.

A. Tipo de estrutura de mercado do país: se existem poucas empresas dominando o

mercado, ou seja, se há pouca concorrência, a tendência para elevações nos preços

será grande. No caso de um país onde a concorrência é mais acirrada, os empresá-

rios ficam com capacidade reduzida de ajustar preços.

B. Grau de abertura da economia: quanto mais voltada ao comércio exterior, maior

será a concorrência e, portanto, menor será a possibilidade de abusos nos preços

por parte dos empresários.

24
UNIDADE I - Economia

C. Estrutura das organizações trabalhistas: quanto mais organizados forem os sindicatos,

maior será o poder de barganha dos trabalhadores, que, com salários sempre reajustados,

forçarão aumento nos preços dos bens devido ao aumento nos custos de produção. A in-

flação de um país pode ser de três tipos diferentes e cada caso merece atenção e cuidados

diferentes: inflação de demanda (quando há excesso de procura por bens e/ou serviços),

inflação de custos (quando os custos se elevam, seja por problemas estruturais ou con-

junturais) e inflação inercial (causada por mecanismos de indexação de preços, como era

comum na década de 1980).

A inflação atormentou os governos e a população brasileira durante muitos anos e até

hoje é foco das políticas, pois o mede seu retorno ainda é muito grande. Mas por que ela

assusta? A inflação corrói a renda da população, causando incertezas quanto ao consumo

e aos investimentos, travando, assim, a economia. Quem se lembra das dificuldades de

comprar a prazo na época de altas inflações dos anos 1980? As grandes redes varejistas,

que hoje possibilitam o consumo das classes baixa e média parcelando as compras em

até 24 meses ou mais, só emergiram após a estabilização econômica vinda com o Plano

Real, em 1994.

Existem formas diferentes para combater cada um dos três tipos de inflação:

• Inflação de demanda: para combater esse processo de inflação, a política econô-

mica deve basear-se em instrumentos que provoquem a redução da demanda por

25
UNIDADE I - Economia

produtos da economia. Essas são as políticas chamadas restritivas, ou seja, aumen-

to de tributos e diminuição dos gastos públicos.

• Inflação de custos: o governo, primeiramente, deve saber quais os custos que estão

causando inflação. Por exemplo, a desvalorização cambial pode causar esse fenô-

meno. Com o dólar caro, o produtor que necessita de matéria-prima importada

enfrentará aumento nos custos de produção, o que fará com que o produto final

fique mais caro.

• Para resolver esse problema, o governo pode adotar a política de câmbio fixo, na

qual o dólar não varia de acordo com o mercado, ou tentar uma maior regulação

no mercado de divisas para evitar a volatilidade da moeda estrangeira.

• Inflação inercial: nesse caso, o governo apenas deve deixar de utilizar mecanismos

de indexação para que haja uma quebra no ciclo inflacionário. Por que Augusto

deve se preocupar com a inflação? Pelos mesmos motivos que qualquer outro ges-

tor de qualquer outra empresa do país.

• O risco do retorno de altas taxas de inflação faz com que o governo penalize todos

os setores produtivos, pois as políticas de prevenção são restritivas e acabam por

desaquecer o mercado.

26
UNIDADE I - Economia

• Porque se a inflação retornar, a renda da população será corroída, reduzindo, assim,

o consumo por parte dos brasileiros.

• Inflação causa distorção nos preços relativos do Brasil com o exterior, fazendo com

que nossos produtos percam atratividade aos olhos de nossos parceiros comer-

ciais, pois se tornam caros com o efeito inflacionário.

A importância da economia na gestão empresarial


Como vimos, Augusto passa por inúmeras situações que são inerentes a diversas ativi-

dades no Brasil e no mundo: a estruturação do mercado de bens e serviços; a estrutura-

ção do mercado de fatores de produção; fatores que determinam a demanda ou a oferta;

políticas do governo que podem beneficiar ou não sua atividade; e a inflação, que é um

tormento para todos os empresários. Todos esses assuntos serão retomados adiante nesta

e nas demais unidades.

REFLITA
Seja em nosso cotidiano, seja nos jornais, rádio e televisão, deparamo-nos com
inúmeras questões econômicas, como:

27
UNIDADE I - Economia

• aumentos de preços;
• períodos de crise econômica ou de crescimento;
• desemprego;
• setores que crescem mais do que outros;
• diferenças salariais;
• crises no balanço de pagamentos;
• vulnerabilidade externa;
• valorização ou desvalorização da taxa de câmbio;
• dívida externa;
• ociosidade em alguns setores de atividade;
• diferenças de renda entre as várias regiões do país;
• comportamento das taxas de juros;
• déficit governamental;
• elevação de impostos e tarifas públicas.

Esses temas, já rotineiros em nosso dia-a-dia, são discutidos pelos cidadãos co-
muns, que, com altas doses de empirismo, têm opiniões formadas sobre as medi-
das que o Estado deve adotar. Um estudante de Economia, de Direito ou de outra
área pode vir a ocupar um cargo de responsabilidade em uma empresa ou na pró-
pria administração pública e necessitará de conhecimentos teóricos mais sólidos
para poder analisar os problemas econômicos que nos rodeiam diariamente. O
objetivo do estudo da Ciência Econômica é analisar os problemas econômicos e
formular soluções para resolvê-los, de forma a melhorar nossa qualidade de vida.
(VASCONCELOS, 2009)

28
UNIDADE I - Economia

CONCEITO DE ECONOMIA
De acordo com Vasconcelos (2009), a palavra economia deriva do grego oikonomía (de

óikos, casa; nómos, lei), que significa a administração de uma casa, ou do Estado, e pode

ser assim definida:

Economia é a ciência social que estuda como o indivíduo e a sociedade de-

cidem (escolhem) empregar recursos produtivos escassos na produção de

bens e serviços, de modo a distribuí-los entre as várias pessoas e grupos da

sociedade, a fim de satisfazer as necessidades humanas.

Essa definição contém vários conceitos importantes, que são a base e o objeto do estudo

da Ciência Econômica:

• escolha;

• escassez;

• necessidades;

• recursos;

• produção;

• distribuição.

29
UNIDADE I - Economia

OS PROBLEMAS ECONÔMICOS FUNDAMENTAIS


A economia é a ciência que estuda a escassez dos recursos, e é desta escassez que surgem

os problemas econômicos fundamentais, que a economia tenta responder: O quê e quan-

to produzir? Como produzir? Para quem produzir?

• o quê e quanto produzir: dada a escassez de recursos de produção, a socie-

dade terá de escolher, dentro do leque de possibilidades de produção, quais

produtos serão produzidos e as respectivas quantidades a serem fabricadas;

• como produzir: a sociedade terá de escolher ainda quais recursos de produção

serão utilizados para a produção de bens e serviços, dado o nível tecnológico exis-

tente. A concorrência entre os diferentes produtores acaba decidindo como serão

produzidos os bens e serviços. Os produtores escolherão, entre os métodos mais

eficientes, aquele que tiver o menor custo de produção possível;

• para quem produzir: a sociedade terá também de decidir como seus membros

participarão da distribuição dos resultados de sua produção. A distribuição da ren-

da dependerá não só da oferta e da demanda nos mercados de serviços produti-

vos, ou seja, da determinação dos salários, das rendas da terra, dos juros e dos be-

nefícios do capital, mas também da repartição inicial da propriedade e da maneira

como ela se transmite por herança.

30
UNIDADE I - Economia

FIQUE POR DENTRO


O modo como as sociedades resolvem os problemas econômicos fundamentais
depende da forma da organização econômica do país, ou seja, do sistema econô-
mico de cada nação.
Um sistema econômico pode ser definido como a forma política, social
e econômica pela qual está organizada uma sociedade. É um particular
sistema de organização da produção, distribuição e consumo de todos os bens
e serviços que as pessoas utilizam buscando uma melhoria no padrão de vida e
bem-estar.
De acordo com Vasconcelos (2009), os elementos básicos de um sistema
econômico são:
• estoque de recursos produtivos ou fatores de produção: aqui se incluem os
recursos humanos (trabalho e capacidade empresarial), o capital, a terra, as
reservas naturais e a tecnologia;
• complexo de unidades de produção: constituído pelas empresas;
• conjunto de instituições políticas, jurídicas, econômicas e sociais: que são a
base da organização da sociedade.
• Os sistemas econômicos podem ser classificados em:
• sistema capitalista, ou economia de mercado. É regido pelas forças de
mercado, predominando a livre iniciativa e a propriedade privada dos fatores
de produção;
• sistema socialista, ou economia centralizada, ou ainda econo-
mia planificada. Nesse sistema as questões econômicas fundamentais
são resolvidas por um órgão central de planejamento, predominando a

31
UNIDADE I - Economia

propriedade pública dos fatores de produção, chamados nessas economias


de meios de produção, englobando os bens de capital, terra, prédios, bancos,
matérias-primas.

FUNCIONAMENTO DE UMA ECONOMIA DE


MERCADO: FLUXOS REAIS E MONETÁRIOS
Uma economia de mercado funciona através de fluxos de bens (mercadorias) e/ou servi-

ços e também através de fluxos monetários, pois como sabemos é preciso pagar por bens

e serviços!

Para entender o funcionamento do sistema econômico, vamos supor uma economia de

mercado que não tenha interferência do governo (por enquanto, para simplificarmos)

nem transações com o exterior (economia fechada).

Os agentes econômicos são as famílias (unidades familiares) e as empresas

(unidades produtoras). As famílias são proprietárias dos fatores de produção

e os fornecem às unidades de produção (empresas) no mercado dos fatores de pro-

dução. As empresas, pela combinação dos fatores de produção, produzem

bens e serviços e os fornecem às famílias no mercado de bens e serviços.

A esse fluxo de fatores de produção, bens e serviços denominamos fluxo real da

economia1.

1 Um fluxo é definido ao longo de um dado período de tempo (ano, mês etc.). Diferencia-se do con-
ceito de estoque, que é definido num dado momento do tempo, e não ao longo de um período. Em
Economia, essa diferenciação é particularmente importante: por exemplo, o conceito de déficit público
é um fluxo (mensal, trimestral, anual), enquanto a dívida pública é um estoque acumulado, até um
32 dado momento.
UNIDADE I - Economia

FLUXO REAL

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Como pode ser observado na Figura acima, famílias e empresas INTERAGEM ENTRE SI.

As famílias são as donas dos fatores de produção (mão-de-obra, prédios, etc) enquanto as

empresas fazem uso destes fatores de produção para produzir os bens e serviços que as

famílias vão comprar.

Vamos exemplificar: Eu (família) trabalho no açougue (empresa). Eu dou minha mão-

de-obra pro açougue que beneficia carnes diversas pra outras famílias (além da minha,

pois também adoro carne!) comprarem.

33
UNIDADE I - Economia

REFLITA
No MERCADO DE BENS E SERVIÇOS, as famílias demandam bens e serviços,
enquanto as empresas os oferecem;
No MERCADO DE FATORES DE PRODUÇÃO, as famílias oferecem os serviços
dos fatores de produção (que são de sua propriedade), enquanto as empre-
sas os demandam.

Vejamos agora que é necessário PAGAR PRA CONSUMIR! Seja consumir fator de produção

como mão-de-obra, ou consumir a carne que é uma mercadoria.

FLUXO MONETÁRIO

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

As famílias pagam pelos produtos que consomem!

34
UNIDADE I - Economia

As empresas remuneram os fatores de produção que utilizam!

FLUXO CIRCULAR DE RENDA


O fluxo circular da renda é a junção do Fluxo Real com o Fluxo Monetário.

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

35
UNIDADE I - Economia

IMPORTANTÍSSIMO!!! Em cada um dos mercados atuam conjuntamente as for-

ças da oferta e da demanda, determinando o preço. Assim, no mercado de bens

e serviços formam-se os preços dos bens e serviços, enquanto no mercado de

fatores de produção são determinados os preços dos fatores de produção

(salários, juros, aluguéis, lucros, royalties, dentre outros).

Esse fluxo, também chamado de fluxo básico, é o que se estabelece entre famílias e

empresas.

O fluxo completo incorpora o setor público, adicionando-se o efeito dos impostos e dos gastos

públicos ao fluxo anterior, bem como o setor externo, que inclui todas as transações com mer-

cadorias, serviços e o movimento financeiro com o resto do mundo.

FIQUE POR DENTRO


Os fatores de produção são tudo aquilo que as empresas utilizam para
produzir bens e serviços. Eles são remunerados pelas empresas e exis-
tem diversas formas de remuneração, dependendo do fator de produção
correspondente.

36
UNIDADE I - Economia

Fator de Produção Tipo de Remuneração

Trabalho Salário

Capital Juro

Terra Aluguel

Tecnologia Royalty

Capacidade empresarial Lucro

INTRODUÇÃO À MICROECONOMIA
Você já se perguntou como os preços são formados nos mercados? Na indústria? No

comércio?

A Microeconomia, conhecida também como teoria dos preços, analisa a formação dos pre-

ços nos mais diversos mercados, ou seja, como a empresa e o consumidor interagem e deci-

dem qual o preço e a quantidade de determinado bem ou serviço em mercados específicos.

Conforme lembra Vasconcelos (2009), a teoria microeconômica não deve ser

confundida com economia de empresas, pois tem enfoque distinto. A

Microeconomia estuda o funcionamento da oferta e da demanda na for-

mação do preço no mercado, isto é, o preço obtido pela interação do

conjunto de consumidores com o conjunto de empresas que fabricam um

dado bem ou serviço.

37
UNIDADE I - Economia

Do ponto de vista da Administração de Empresas, que estuda uma empresa específica,

prevalece a visão contábil-financeira na formação do preço de venda de seu produto, ba-

seada principalmente nos custos de produção, enquanto na Microeconomia predomina a

visão do mercado como um todo.

DEMANDA DE MERCADO
Demanda quer dizer Procura e definimos como sendo a quantidade de certo bem

ou serviço que os consumidores desejam adquirir em determinado período de tempo.

Isto vai depender de alguns fatores. Pense: quais fatores influenciam você a comprar

(demandar) algum bem ou serviço? Isto é, o que afeta sua decisão de compra?

1. O preço do bem ou serviço;

2. O preço dos outros bens (concorrentes, por exemplo)

3. A renda;

4. O gosto ou preferência do indivíduo, dentre outros.

Para estudar-se a influência isolada dessas variáveis utiliza-se a hipótese do coeteris pa-

ribus (veja no FIQUE POR DENTRO a seguir), ou seja, considera-se cada uma dessas variá-

veis afetando separadamente as decisões do consumidor.

38
UNIDADE I - Economia

FIQUE POR DENTRO


De acordo com Vasconcelos (2009), para analisar um mercado específico, a
Microeconomia se vale da hipótese de que tudo o mais permanece cons-
tante (em latim, coeteris paribus). O foco de estudo é dirigido apenas àquele
mercado, analisando-se o papel que a oferta e a demanda nele exercem, supondo
que outras variáveis interfiram muito pouco, ou que não interfiram de maneira
absoluta.

Relação entre quantidade procurada e preço do bem: a lei geral da demanda

Há uma relação inversamente proporcional entre a quantidade procurada e o preço do

bem, coeteris paribus. É a chamada lei geral da demanda.

Essa relação quantidade procurada/preço do bem pode ser representada por uma escala

de procura (veja a tabela a seguir), curva de procura ou função demanda.

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

39
UNIDADE I - Economia

Outra forma de apresentar essas diversas alternativas é pela curva de procura (veja a

Figura a seguir). Para tanto, traçamos um gráfico com dois eixos, colocando no eixo verti-

cal os vários preços P, e no horizontal as quantidades demandadas Q.

Assim:

CURVA DE PROCURA DO BEM X

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

40
UNIDADE I - Economia

Os economistas supõem que a curva ou a escala de procura revela as preferências dos

consumidores, sob a hipótese de que estão maximizando sua utilidade, ou grau de sa-

tisfação no consumo daquele produto. Ou seja, subjacente à curva há toda uma teoria

de valor, que envolve, como vimos, os fundamentos psicológicos do consumidor.

A curva de procura inclina-se de cima para baixo, no sentido da esquerda para a direita,

refletindo o fato de que a quantidade procurada de determinado produto varia inver-

samente com relação a seu preço, coeteris paribus. Matematicamente, a relação entre a

quantidade demandada e o preço de um bem ou serviço pode ser expressa pela chamada

função demanda ou equação da demanda:

Qd = ƒ(P)

em que:

Qd = quantidade procurada de determinado bem ou serviço, num dado período de

tempo;

P = preço do bem ou serviço.

A expressão Qd = ƒ(P) significa que a quantidade demandada Qd é uma função ƒ do preço

P, isto é, depende do preço P.

41
UNIDADE I - Economia

A curva de demanda é negativamente inclinada devido ao efeito conjunto de dois fatores:

o efeito substituição e o efeito renda. Se o preço de um bem aumenta, a queda da quanti-

dade demandada será provocada por esses dois efeitos somados:

A. efeito substituição: se um bem X possui um bem substituto Y, ou seja, outro bem

similar que satisfaça a mesma necessidade, quando o preço do bem X aumenta,

coeteris paribus, o consumidor passa a adquirir o bem substituto (o bem Y), redu-

zindo assim a demanda do bem X. Exemplo: se o preço da caixa de fósforos subir

demasiadamente, os consumidores passarão a demandar isqueiros, reduzindo as-

sim sua demanda por fósforo;

B. efeito renda: quando aumenta o preço de um bem X, tudo o mais constante (renda

do consumidor e preços de outros bens estando constantes), o consumidor perde

poder aquisitivo, e a demanda por esse produto (X) diminui. Assim, embora seu sa-

lário monetário não tenha sofrido nenhuma alteração, seu salário “real”, em termos

de poder de compra, foi corroído.

42
UNIDADE I - Economia

OUTRAS VARIÁVEIS QUE AFETAM A DEMANDA DE


UM BEM
Efetivamente, a procura de uma mercadoria não é influenciada apenas por seu preço. Existe

uma série de outras variáveis que também afetam a procura. Para a maioria dos produtos,

a procura será também afetada pela renda dos consumidores, pelo preço dos bens substi-

tutos (ou concorrentes), pelo preço dos bens complementares e pelas preferências ou há-

bitos dos consumidores. Se a renda dos consumidores aumenta e a demanda do produto

também, temos um bem normal. Existe também uma classe de bens que são chamados

bens inferiores, cuja demanda varia em sentido inverso às variações da renda; por exemplo,

se o consumidor ficar mais rico, diminuirá o consumo de carne de segunda e aumentará

o consumo de carne de primeira. Analogamente, tem-se a categoria de bens superiores

ou de luxo: se o consumidor fica mais rico, demandará mais produtos de maior qualidade.

Temos ainda o caso de bens de consumo saciado, quando a demanda do bem não é in-

fluenciada pela renda dos consumidores (como arroz, farinha, sal). A demanda de um bem

ou serviço também pode ser influenciada pelos preços de outros bens e serviços. Quando

há uma relação direta entre preço de um bem e quantidade de outro, coeteris paribus, eles

são chamados de bens substitutos ou concorrentes, ou ainda sucedâneos. Por exemplo,

um aumento no preço da carne deve elevar a demanda de peixe, tudo o mais constante.

Quando há uma relação inversa entre o preço de um bem e a demanda de outro, eles são

43
UNIDADE I - Economia

chamados de bens complementares (por exemplo, quantidade de automóveis e preço da

gasolina, quantidade de camisas sociais e preço das gravatas). Finalmente, a demanda de

um bem ou serviço também sofre a influência dos hábitos e preferências dos consumido-

res. Os gastos em publicidade e propaganda objetivam justamente aumentar a procura

de bens e serviços influenciando preferências e hábitos. Além das variáveis anteriores, que

se aplicam ao estudo da procura pela maior parte dos bens, alguns produtos são afetados

por fatores mais específicos, como efeitos sazonais e localização do consumidor, ou fatores

mais gerais, como condições de crédito, perspectivas da economia, congelamentos ou ta-

belamentos de preços e salários.

DISTINÇÃO ENTRE DEMANDA E QUANTIDADE


DEMANDADA
Embora tendam a ser utilizados como sinônimos, esses termos têm significados diferen-

tes. Por demanda entende-se toda a escala ou curva que relaciona os possíveis preços a

determinadas quantidades. Por quantidade demandada devemos compreender um pon-

to específico da curva relacionando um preço a uma quantidade. Na Figura a seguir, a

demanda corresponde à reta indicada pela letra D; já a quantidade procurada relacionada

ao preço P0 é Q0. Caso o preço do bem aumentasse para P1, haveria uma diminuição na

quantidade demandada, não na demanda. Ou seja, as alterações da quantidade deman-

dada ocorrem ao longo da própria curva de demanda (reta D).

44
UNIDADE I - Economia

Alteração na Quantidade Demandada

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Suponhamos que agora a curva da procura inicial (veja a Figura a seguir) fosse a reta

indicada pela letra D0. Sendo o bem normal, caso houvesse um aumento na renda dos

consumidores, coeteris paribus, a curva da procura D0 iria se deslocar para a direita, o

que estaria indicando que, aos mesmos preços, por exemplo, P0, o consumidor estaria

disposto a adquirir maiores quantidades do bem, passando de Q0 para Q2. A nova curva

de demanda é representada pela reta D1.

45
UNIDADE I - Economia

Alteração da Demanda

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Dessa forma, movimentos da quantidade demandada ocorrem ao longo da própria curva,

devido a mudanças no preço do bem. Quando a curva de procura se desloca (em virtude

de variações da renda ou de outras variáveis, que não o preço do bem), temos uma mu-

dança na demanda (e não na quantidade demandada).

46
UNIDADE I - Economia

OFERTA DE MERCADO
Pode-se conceituar oferta como as várias quantidades que os produtores desejam ofere-

cer ao mercado em determinado período de tempo. Da mesma maneira que a demanda,

a oferta depende de vários fatores; dentre eles, de seu próprio preço, do preço (custo) dos

fatores de produção e das metas ou objetivos dos empresários.

Diferentemente da função demanda, a função oferta mostra uma correlação direta en-

tre quantidade ofertada e nível de preços, coeteris paribus. É a chamada lei geral da

oferta.

Podemos expressar uma escala de oferta de um bem X: dada uma série de preços, quais

seriam as quantidades ofertadas a cada preço:

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

47
UNIDADE I - Economia

Graficamente

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Matematicamente, a função ou equação da oferta é dada pela expressão:

Q0 = ƒ(P)

em que:

Q0 = quantidade ofertada de um bem ou serviço, num dado período;

P = preço do bem ou serviço.

48
UNIDADE I - Economia

A relação direta entre a quantidade ofertada de um bem e o preço desse bem deve-se ao fato

de que, coeteris paribus, um aumento do preço de mercado estimula as empresas a elevar a

produção; novas empresas serão atraídas, aumentando a quantidade ofertada do produto.

Além do preço do bem, a oferta de um bem ou serviço é afetada pelos custos dos fatores

de produção (matérias-primas, salários, preço da terra), por alterações tecnológicas e pelo

aumento do número de empresas no mercado.

Parece claro que a relação entre a oferta e o custo dos fatores de produção seja inversa-

mente proporcional. Por exemplo, um aumento dos salários ou do custo das matérias-pri-

mas deve provocar, coeteris paribus, uma retração da oferta do produto.

A relação entre a oferta e nível de conhecimento tecnológico é diretamente proporcional,

dado que melhorias tecnológicas promovem melhorias da produtividade no uso dos fato-

res de produção e, portanto, aumento da oferta. Da mesma forma, há uma relação direta en-

tre a oferta de um bem ou serviço e o número de empresas ofertantes do produto no setor.

49
UNIDADE I - Economia

Oferta e quantidade ofertada


Como no caso da demanda, também devemos distinguir entre a oferta e a quantidade

ofertada de um bem. A oferta refere-se à escala (ou toda a curva), enquanto a quantidade

ofertada diz respeito a um ponto específico da curva de oferta. Assim, um aumento no

preço do bem provoca um aumento da quantidade ofertada, coeteris paribus (movimen-

to ao longo da curva — diagrama a), enquanto uma alteração nas outras variáveis (como

nos custos de produção ou no nível tecnológico) desloca a oferta (isto é, a curva de oferta).

Por exemplo, um aumento no custo das matérias-primas provoca uma queda na oferta:

mantido o mesmo preço P0 (isto é, coeteris paribus), as empresas são obrigadas a dimi-

nuir a produção (diagrama b).

50
UNIDADE I - Economia

ALTERAÇÃO DA QUANTIDADE OFERTADA E DA


OFERTA

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Por outro lado, uma diminuição no preço dos insumos, ou uma melhoria tecnológica em

sua utilização, ou ainda um aumento no número de empresas no mercado, conduz a um

aumento da oferta, dados os mesmos preços praticados, deslocando-se, desse modo, a

curva de oferta para a direita (diagrama c).

51
UNIDADE I - Economia

EQUILÍBRIO DE MERCADO
A lei da oferta e da procura: tendência ao equilíbrio
A interação das curvas de demanda e de oferta determina o preço e a quantidade de equi-

líbrio de um bem ou serviço em um dado mercado.

Seja a Tabela a seguir representativa da oferta e da demanda do bem X:

Oferta e Demanda do bem X

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Como se observa na Tabela acima, existe equilíbrio entre oferta e demanda do bem X

quando o preço é igual a 6,00 unidades monetárias.

52
UNIDADE I - Economia

Graficamente:

EQUILÍBRIO DE MERCADO

Fonte: Extraído de Vasconcelos, 2009.

Na intersecção das curvas de oferta e demanda (ponto E), teremos o preço e a quantida-

de de equilíbrio, isto é, o preço e a quantidade que atendem às aspirações dos consumi-

dores e dos produtores simultaneamente. Se a quantidade ofertada se encontrar abaixo

daquela de equilíbrio E (A, por exemplo), teremos uma situação de escassez do produto.

53
UNIDADE I - Economia

Haverá uma competição entre os consumidores, pois as quantidades procuradas serão

maiores que as ofertadas. Formar-se-ão filas, o que forçará a elevação dos preços, até

atingir-se o equilíbrio (ponto E), quando as filas cessarão. Analogamente, se a quantidade

ofertada se encontrar acima do ponto de equilíbrio E (B, por exemplo), haverá um exces-

so ou excedente de produção, um acúmulo de estoques não programado do produto,

o que provocará uma competição entre os produtores, conduzindo a uma redução dos

preços, até que se atinja o ponto de equilíbrio E.

Como se observa, quando há competição tanto de consumidores como de ofertantes, há

uma tendência natural no mercado para se chegar a uma situação de equilíbrio estacio-

nário — sem filas e sem estoques não desejados pelas empresas.

Desse modo, se não há obstáculos para a livre movimentação dos preços, ou seja, se o

sistema é de concorrência pura ou perfeita, será observada essa tendência natural de o

preço e a quantidade atingirem determinado nível desejado tanto pelos consumidores

como pelos ofertantes. Para que isso ocorra, é necessário que não haja interferência nem

do governo nem de forças oligopólicas, que tem poder de afetar o preço de mercado.

54
UNIDADE I - Economia

ESTRUTURA DE MERCADO
A interação entre a oferta e a demanda, que vai resultar na determinação de preço, objeto

de estudo deste capítulo, é abordada sob diferentes estruturas de mercado. O termo es-

trutura de mercado refere-se às características organizacionais de um mercado, as quais

determinam as relações entre:

• vendedores no mercado;

• compradores no mercado;

• vendedores e compradores;

• vendedores estabelecidos e novos vendedores.

A estrutura de mercado engloba as características que influenciam no tipo de concorrên-

cia e na formação de preços. Essas características são:

A. Grau de concentração de vendedores e compradores, isto é, número e tamanho

de cada um no mercado. Acredita-se que uma indústria é altamente) concentra-

da quando apenas quatro firmas detêm 75% ou mais da produção e do mercado

de um determinado produto. Nesses casos, tende a haver um grau de eficiência

aquém do desejado, porque as empresas procuram alocar os recursos ineficien-

temente, através da interferência direta no funcionamento do sistema de preços.

55
UNIDADE I - Economia

B. Grau de diferenciação do produto, ou seja, grau em que um produto vendido no

mercado é considerado diferente ou não-homogêneo pelos compradores. Sob o

ponto de vista econômico, a diferenciação do produto objetiva tornar a curva de

demanda mais inelástica, reduzindo assim o número de bens substitutos para este

produto. Costuma-se dizer que a empresa de sucesso é aquela que consegue pro-

duzir barato algo diferenciado.

A diferenciação do produto pode ser obtida através de:

• serviços especiais aos compradores (por exemplo, uma empresa que entrega o pro-

duto na residência do comprador);

• ingredientes de qualidade superior incorporados ao produto;

• prêmios oferecidos aos adquirentes do produto;

• embalagens especiais do produto.

56
UNIDADE I - Economia

Curvas de Demanda segundo a Diferenciação do Produto

Fonte: Extraído de Mendes, 2009.

Conforme podemos observar na figura acima, a curva de demanda de um produto di-

ferenciado é mais “em pé” do que a do produto homogêneo. E qual é o porquê disso?

Simples: quando um produto é diferenciado, a quantidade demandada (ou procurada)

não varia muito quando o preço se desloca. Por exemplo, se a coca-cola (produto diferen-

ciado) aumenta seu preço, ela continuará sendo vendida e a quantidade demandada cairá

pouco ou nem cairá.

57
UNIDADE I - Economia

Ao contrário ocorre com um produto que tem vários substitutos iguais (homogêneos). Por

exemplo, se você chega no supermercado e vê na sessão de ovos várias caixas diferentes,

porém todas com 12 ovos. Como você escolhe? Com certeza disse: - preço! Isso porquê

ovos são produtos homogêneos, então se uma granja sobe seus preços e os concorrentes

não, provavelmente sua venda cairá.

CARACTERÍSTICAS DAS ESTRUTURAS DE MERCADO

Concorrência Concorrência
Características Monopólio Oligopólio
Perfeita monopolística

1. Quanto ao número Só há uma


Muito grande Pequeno Grande
de empresas empresa

Pode ser ho-


Não há substitu-
2. Quanto ao produto Homogêneo mogêneo ou Diferenciado
tos próximos
diferenciado

As empresas têm Pouca margem


3. Quanto ao controle Não há pos-
grande poder de manobra, visto
das empresas sobre sibilidade de Cartéis
para manter pre- à existência de
os perços controle
ços elevados substitutos

58
UNIDADE I - Economia

Intensa, no que
4. Quanto à concor- Apenas campa-
diz respeito à em-
rência extrapreço nhas institu- Intensa, princi-
balagens, formas
(promoções, atendi- Não é possível cionais para palmente se há
físicas, serviços
mento, propaganda, salvaguardar sua diferenciação
complementares,
pós-venda, etc.) imagem
etc.

5. Quanto às condi- Barreiras ao


Barreiras ao acesso
ções de ingresso na Não há barreiras acesso de novas Não há barreiras
de novas empresas
indústria empresas

Fonte: Extraído de vasconcelos (2009)

INDICAÇÃO DE LEITURA
Leiam o livro Fundamentos de Economia do Professor

Vasconcelos, com certeza será de grande valia para sua forma-

ção. Trata-se do livro de economia para cursos afins, mais ven-

dido do Brasil. Didático e prazeroso são adjetivos que definem

esta obra.

59
UNIDADE I - Economia

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vimos nesta unidade os conceitos econômicos fundamentais e de microeconomia que

são muito importantes para os gestores empresariais. Saber exatamente fatores que afe-

tam a oferta e a demanda dos produtos que produzem pode ser fundamental para o su-

cesso do negócio, assim como conhecer profundamente a estrutura de mercado o qual

sua organização faz parte.

ATIVIDADES
1) Por que os problemas econômicos fundamentais (o quê, quanto, como e para quem

produzir) originam-se da escassez de recursos de produção?

2) Analisando-se uma economia de mercado, observa-se que os fluxos real e mone-

tário conjuntamente formam o fluxo circular da renda. Explique como esse sistema

funciona.

3) Defina a lei geral da demanda e da oferta.

4) Quais fatores afetam a demanda por um produto? E quais fatores afetam sua oferta?

5) Defina as principais características das estruturas de mercado.

60
UNIDADE 2

Introdução à macroeconomia

Diego Figueiredo Dias


Objetivos de Aprendizagem
• O objetivo desta unidade é demonstrar conceitos
macroeconômicos..
Plano de Estudo

Serão abordados os seguintes tópicos:

• Política fiscal: receita e gastos públicos


• Gastos do governo
• Alíquota versus arrecadação: A Curva de Lafer
• A carga tributária no Brasil
• Déficit público
• Financiamento do Déficit
• Efeitos da Política Fiscal sobre a Economia
• Política monetária: demanda e oferta de moeda
• Demanda de Moeda
• Oferta de Moeda
• Taxa de Juros
• Taxa de juros nominal = taxa de juros real + taxa de inflação
• Os instrumentos de política monetária
• Operações de Mercado Aberto (open market)
• Recolhimentos Compulsórios
• Operações de Redesconto ou Empréstimo de Liquidez
• Efeitos da política monetária sobre a economia
• Efeito do Juro sobre o Consumo e o Investimento
• Efeito do Juro sobre o Fluxo de Capitais Externos
• Efeito do Juro sobre a Poupança
• Efeito do Juro sobre os Preços
UNIDADE II - Economia

INTRODUÇÃO
A palavra “economia” é muito antiga e significa basicamente “administração do lar”, ou seja,

organização de recursos. Mas a economia enquanto ciência, somente pode ser considera-

da a partir de 1776 com o lançamento da obra de Adam Smith denominada “A riqueza das

nações”. Sem dúvida é até hoje uma das mais importantes obras na área econômica. Smith

organizou os pensamentos econômicos que, até então, eram fragmentados, esparsos, e

neste livro escreveu sobre as funções do Estado e como as empresas e os países deveriam

fazer para terem sucesso econômico.

De acordo com Smith, o Estado deveria apenas fazer valer o direito sobre a propriedade

privada e garantir a segurança pública. Isto ficou denominado como “Estado Liberal”, isto

é, aquele que não intervém em assuntos econômicos.

Mas esta ideia durou apenas até a década de 1930, pois com a grande depressão advinda

da crise de 1929, o Estado passou a intervir de forma veemente na economia para garantir

emprego e renda à população.

Em 1936, John Maynard Keynes, um dos mais notáveis economistas da história, escreveu

a obra “Teoria Geral dos Juros do Emprego e da Moeda”. Nesta obra, Keynes destaca-

va a importância do governo manter a Demanda Agregada da economia sempre em

alta. Como? Através de Investimentos públicos. Keynes acreditava que o Estado tinha

63
UNIDADE II - Economia

mais funções do que simplesmente garantir a segurança e o direito à propriedade pri-

vada, o Estado deveria gerar emprego e renda. Ele pregava o poder multiplicador do

Investimento, isto é, por meio deste se gera emprego, que gera renda e enfim consumo.

O consumo aumenta sendo necessário mais investimentos que geram mais emprego,

renda e consumo novamente.

Este Estado de bem estar Keynesiano durou até a década de 1970, pois a partir dos anos

1980 os países estavam endividados e, portanto, entraram num processo de desestatiza-

ção (privatizações) que fora agravado na década de 1990. O setor privado passou a ditar

as regras do jogo novamente e este período é conhecido como Neoliberalismo, ou seja,

o novo liberal.

Atualmente, podemos dizer que o governo possui algumas funções econômicas, isto é,

existem justificativas para a existência do governo. Que são:

A. Função alocativa, através do qual a ação do governo visa corrigir falhas da econo-

mia de mercado no uso dos recursos econômicos (fatores de produção), como é o

caso de algumas externalidades. Um bom exemplo de externalidade é a poluição,

em que dificilmente as empresas desejarão incorporar os custos de não poluição, a

não ser que haja imposição governamental.

64
UNIDADE II - Economia

B. Função distributiva, que consiste em arrecadar impostos e contribuições dos

mais ricos ou das regiões mais desenvolvidas e transferi-los para os mais pobres e

regiões mais carentes.

C. Função estabilizadora, por meio do qual o governo procura atingir um de seus ob-

jetivos2, que é a estabilização econômica, ou seja, a estabilidade dos preços, uma das

condições necessárias para que os investimentos aumentem e, com eles, o crescimen-

to econômico, o emprego e a renda nacional. Sem dúvida, o Plano Real é um bom

exemplo dessa função exercida pelo governo brasileiro.

As políticas macroeconômicas existem para que o governo cumpra suas fun-

ções econômicas.

ANÁLISE DO PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB)


Para analisarmos a economia como um todo, devemos abordar as principais variáveis que

afetam a riqueza de um país, ou seja, as variáveis que afetam o PIB.

2 Veremos adiante que o governo possui outros objetivos, como crescimento econômico, distribuição de
renda e diminuição do desemprego.

65
UNIDADE II - Economia

Portanto, nesta seção serão abordadas as principais variáveis: demanda agregada (Da),

renda (Y), consumo (C), investimento (I), taxa de juro (r), gastos de governo (G), exporta-

ção (E), importação (M) e poupança (S).

Tendo em vista que o principal objeto da macroeconomia é a determinação do

nível de atividade econômica no país, para que se possa estimar o produto interno

bruto, a renda gerada por esse produto e também o emprego, é fundamental excluir dos

gastos (ou dispêndios) globais o montante do valor gasto com as importações, pois elas

não geram renda nem tampouco emprego aqui no Brasil.

Em suma, serão enfocados os componentes da demanda agregada ou do dispêndio

nacional, que é igual a C + G + I + (E - M), a fim de se destinar a renda nacional, o pro-

duto interno bruto e o nível de emprego no país. Agora que já sabemos que a demanda

agregada determina o produto, isto é, a quantidade total de bens e serviços produzidos

em um país num determinado ano, é fundamental analisar cada uma das variáveis ou

fatores que influenciam a demanda agregada. Assim, vamos analisar os fatores deter-

minantes do produto. Em particular, serão analisadas as relações entre os fatores que

influenciam o consumo privado, tais como renda, taxa de juros, crédito, número de pres-

tações, riqueza. É do consumo que se tira também a relação entre poupança com a renda

e a taxa de juros: a) Os gastos públicos (em consumo e em investimentos); b) O investi-

mento privado com a taxa de juro e com o risco; c) As exportações, este é o início para

66
UNIDADE II - Economia

demonstrar como se determina o equilíbrio da atividade econômica e o pleno emprego

dos recursos produtivos.

O CONSUMO AGREGADO PRIVADO


O consumo privado é o principal e o mais estável componente da demanda agrega-

da, representando, em média, dois terços ou mais da Despesa Interna Bruta da economia

brasileira, ou seja, do Produto Interno Bruto do país. Entre todos os fatores determinantes

do nível de consumo, o nível de renda é, sem dúvida, o de maior importância. O consumo

agregado (C) é uma função da renda disponível (Yd), chamada função-consumo, cuja no-

tação geral é dada por: C = f (Yd). Isto significa dizer que: por renda disponível Yd entende-

se aquela renda (salários, juros, aluguéis, lucros) que está à disposição do consumidor, ou

seja, é a renda bruta Y deduzida dos impostos (T).

Portanto, Yd = Y - T. Assim, quanto maior o imposto, menor a renda disponível, confor-

me veremos no comentário sobre política fiscal, mais adiante. O consumo das famílias

depende da renda que elas têm. Essa relação é positiva, ou seja, à medida que a renda

aumenta o consumo também tende a elevar-se. Por outro lado, se reduz a renda, o nível

do consumo fatalmente cairá. Em outras palavras, quanto maior for a renda, maior

tende a ser o consumo. Admite-se que, para baixos níveis de renda, as despesas de

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UNIDADE II - Economia

consumo tendem a ser elevadas. Todavia, à medida que a renda se eleva, as despesas de

consumo também se elevam em valor absoluto, embora passem a significar menor per-

centagem da renda. Em outras palavras, nas economias menos desenvolvidas, as famílias

gastam proporcionalmente mais em consumo do que nas nações desenvolvidas.

Como o consumo aumenta menos proporcionalmente que a renda, quanto mais aumenta

a renda da sociedade, maior é a proporção dessa renda que é poupada. Em outras pala-

vras, pode-se dizer que o consumo cresce a taxas decrescentes com a renda, enquanto a

poupança cresce a taxas crescentes. Além da renda, o consumo também é influenciado ou

afetado por outras variáveis, como a taxa de juros, o valor das prestações mensais, o núme-

ro de prestações, do crédito e da riqueza.

A taxa de juros é uma importante variável na decisão do consumo, em especial para os

bens e serviços de consumo durável (automóveis, eletrodomésticos de um modo geral),

que normalmente têm um valor maior e, portanto, dependem de financiamento. Como

bens financiáveis, os juros têm uma direta influência sobre o valor das prestações. Assim,

quanto maior o juro, maior o valor das prestações, o que, em consequência, afeta ne-

gativamente a decisão do consumo. Ademais a taxa de juros tem uma influência direta

sobre a poupança, ou seja, as pessoas estarão tanto mais dispostas a aplicar recursos

financeiros em poupança quanto maior for a taxa de juros (que é a remuneração da sua

aplicação financeira).

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UNIDADE II - Economia

Esta é a famosa Lei Psicológica Fundamental, conforme foi dita por Keynes, segundo a

qual os indivíduos consomem mais conforme a renda aumenta, mas não na mesma pro-

porção, uma vez que a poupança tende também a aumentar.

Ora, poupar mais significa consumir menos, pois poupança é uma renúncia ao consumo

hoje para consumir mais no futuro. Desse modo, quanto maior a taxa de juros, mais as

pessoas desejarão poupar hoje, ou seja, o consumo presente diminui. Pode-se, assim, con-

cluir o seguinte: Quanto maior a renda e menor a taxa de juros, maior o consumo.

A taxa de juros evidentemente tem muito a ver com a oferta monetária e, também, com a

demanda por moeda. Um aumento da oferta monetária, isto é, da quantidade de moeda

em circulação na economia, provoca uma queda nos juros e consequente aumento do

consumo de bens duráveis, em especial. Além do seu efeito sobre o consumo, na verdade

a taxa de juros têm impactos diferenciados sobre os agentes econômicos, dependendo da

situação desses agentes: se eles forem do setor privado (seja na situação de aplicadores,

ou de devedores) ou se esses agentes forem do setor público.

Para os aplicadores privados, ou seja, aqueles que têm recursos financeiros aplicados em

poupança, CDBs e fundos de investimentos (cujos rendimentos se baseiam nas taxas de

juros), o aumento dos juros faz com que suas rendas aumentem (e, portanto, podem vir a

consumir mais depois). Para os devedores (ou seja, pessoas que têm dívidas), o aumento

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UNIDADE II - Economia

dos juros faz com que suas rendas diminuam, pois elas terão que destinar mais gastos

com juros. Consequentemente terão menos recursos para gastar.

Para o setor público, que, de um modo geral, tem déficit público (ou seja, gasta mais do

que arrecada) e, portanto, necessita financiar-se no mercado financeiro é ruim. A escola

monetária, na maioria das vezes associada à Universidade de Chicago, defende que o au-

mento de dinheiro em circulação provoca a elevação dos preços, ou seja, a expansão da

moeda está atrelada à inflação. Na verdade, os monetaristas se preocupam muito com a

expansão monetária para financiar os déficits públicos.

O aumento de juros tende a aumentar ainda mais os gastos públicos e a própria dívida públi-

ca. Com relação às prestações, tanto o valor como o número delas têm uma influência sobre o

consumo. Quanto maior o número de prestações (e, portanto, menor é o valor mensal delas),

maiores as possibilidades de consumo de bens duráveis (que são financiáveis), pois os consu-

midores, em especial os de baixa/média renda, passam a ter condições financeiras de paga-

mento parcelado, apesar de as prestações se alongarem por dois ou mais anos. Essa variável

(número de prestações) teve uma decisiva influência sobre o grande aumento de consumo

de bens eletrodomésticos no Brasil no período 1996-1997. Nessa época, o importante para os

consumidores era o fato de poder assumir as prestações, apesar de estarem pagando, ao final,

duas ou mais vezes do que o valor a vista, dadas as elevadas taxas de juros. Em outras palavras,

os juros altos “pesavam” menos do que a possibilidade de assumir o pagamento parcelado.

70
UNIDADE II - Economia

O nível de riqueza das famílias influencia, também, as decisões de consumo. As pessoas

que já têm ativos (como casa, automóvel, plano previdenciário e alguma poupança) esta-

rão mais propensas a gastar maior parte de suas rendas atuais em consumo do que aque-

las que ainda não tenham nenhum desses ativos, mesmo que o nível de renda de ambas

seja igual. Em outras palavras, dado o nível de renda das pessoas, tende a consumir mais

quem possui mais riquezas, pois elas têm menos preocupações com o futuro.

Outro elemento determinante do consumo é a existência de crédito ao consumidor. Quanto

mais desenvolvido um sistema financeiro que tenha crédito abundante, maior é o potencial

de demanda por bens de consumo duráveis. Ao incluirmos a taxa de juros, a riqueza e o

crédito como variáveis que influenciam o consumo, estamos nos referindo às aplicações fi-

nanceiras, aos empréstimos e, portanto, ao sistema financeiro, ou seja, existindo um sistema

financeiro desenvolvido, as regras desse podem estimular ou dificultar o consumo.

O estoque total de crédito concedido pelo sistema financeiro com recursos livres e dire-

cionados totalizou R$1.706 bilhões em dezembro de 2010, elevando-se 20,6% no ano,

ante expansões anuais de 15,2% em 2009 e de 31,1% em 2008, contribuindo para que a

relação crédito/PIB atingisse 46,4%, ante 44,4% em 2009 e 40,5% em 2008. A participa-

ção dos bancos públicos no crédito total situou-se em 41,8% ao final de 2010, enquan-

to as relativas às instituições privadas nacionais e estrangeiras atingiram 40,8% e 17,4%,

respectivamente.

71
UNIDADE II - Economia

O volume de crédito disponível em um país serve como um dos vários indicadores da

capacidade de crescimento da economia. Quanto mais empréstimos as pessoas e empre-

sas tomam, mais recursos podem ser direcionados para consumo ou para investimentos,

contribuindo para o aumento do nível de atividade. Sem dúvida, o pequeno volume de

empréstimos é um obstáculo ao crescimento.

CONSUMO DO SETOR PÚBLICO


O governo, assim entendidas as administrações públicas de um modo geral, incluindo as

esferas federal, estaduais e municipais e respectivas empresas estatais, também tem in-

fluência sobre o consumo final de bens e serviços. É claro que as variáveis mencionadas

(como renda, juros, prestações, riqueza e crédito) não são as que explicam o nível de con-

sumo do setor público. Cabe ressaltar que esse tipo de consumo representa uma parcela

muito significativa do Produto Interno Bruto brasileiro. Por exemplo, o consumo final das

administrações públicas está ao redor de 20% do PIB do país, ao passo que, conforme já

foi mencionado, o consumo agregado privado (das famílias) absorveu a parcela em torno

de 60%. Assim, pode-se dizer que, nesse período, o consumo agregado como muitos não

tinham reais condições para tanto, acabaram atrasando as prestações, e o resultado foi o

elevado grau de inadimplência verificado no período 1997-1998. O consumo global (priva-

do e público) correspondeu a aproximadamente 80% do produto interno bruto do Brasil.

72
UNIDADE II - Economia

Esse elevado percentual do setor público no PIB decorre da forte intervenção do Estado na

economia brasileira, a partir da década de 30 até meados da década de 80.

Em 1984, havia no Brasil 317 empresas estatais, sendo que 62% delas estavam ligadas ao

setor produtivo e o restante era de administração descentralizada, com funções típicas

de governo. Nessa época, nove enormes empresas controlavam mais de três quartos do

orçamento das estatais. A partir do final da década de 80, deu-se início a uma mudança

bastante radical da presença do governo no setor produtivo, com a criação do Programa

Nacional de Desestatização (leia-se: privatização). Com o processo de privatização, pre-

tendeu-se reduzir e limitar o papel do governo como estado-empresário.

INVESTIMENTO AGREGADO PRIVADO


Se a grande parte da produção de bens e serviços se destina ao consumo final (pri-

vado e governamental), outra parcela vai formar o que se chama de acumulação, ou

seja, é composta por produtos ligados ao processo de formação de capital de um

país. Na realidade, a acumulação diz respeito aos investimentos em bens de capital,

os quais representam os acréscimos líquidos na capacidade nacional de produção.

Os investimentos destinam-se à aquisição de bens de capital, que compreendem o

conjunto das riquezas acumuladas pela sociedade, destinadas à geração de novas

73
UNIDADE II - Economia

riquezas. Nesse conjunto de riqueza incluem-se: máquinas, equipamentos, ferramen-

tas de trabalho, construções, edificações, equipamentos de transporte e equipamen-

tos de infraestrutura econômica e social.

A função de investimento, na versão de Keynes, é indubitavelmente um dos fundamentos

da procura agregada. A tomada de decisão do empresário em investir, como será visto a

seguir, é resultante da comparação entre a taxa de retorno do investimento e a taxa de

juros de mercado. O investimento pode ser definido como o acréscimo ao capital real da

sociedade. Assim, como a poupança, ele resulta de uma abstenção do consumo imediato

em relação à renda gerada no período, ou seja, estruturalmente o investimento (I) é igual a

poupança (S), uma vez que eles são apenas aspectos diferentes de uma mesma realidade.

Embora a poupança resulte do comportamento coletivo dos consumidores individuais, e

o investimento resulte do comportamento coletivo dos empresários e do governo, os dois

se equivalem, porque qualquer um deles é igual ao excedente da renda sobre o consumo.

As igualdades estruturais e as equações fundamentais do sistema keynesiano são:

74
UNIDADE II - Economia

RENDA (Y) = VALOR DA PRODUÇÃO CORRENTE (VPC)

VPC = BENS DE CONSUMO (C) + BENS DE INVESTIMENTO (I)

INVESTIMENTO = PARCELA DA PRODUÇÃO DESTINADA À AMPLIAÇÃO DO ESTOQUE DE

CAPITAL

POUPANÇA (S) = EXCESSO DA RENDA EM RELAÇÃO AO CONSUMO

Ou seja:

Y=C+I

S=Y–C

Y=C+S

I=S

Fundamentalmente, o setor privado só realiza novas inversões (investimentos) se houver

favoráveis expectativas de lucros. A taxa de retorno esperado do novo investimento (a

qual Keynes deu a denominação de eficiência marginal do capital) é a base das deci-

sões empresariais. Quando a eficiência marginal do capital for maior do que a taxa de juro,

75
UNIDADE II - Economia

o novo investimento deve ser realizado. Caso contrário, o montante que seria aplicado na

inversão prevista renderá muito mais se for aplicado à taxa de juros corrente. Portanto, o

investimento privado (I) é uma função inversa (relação negativa) da taxa de juros (r), ou

seja: I = f (r). Em outras palavras, uma queda da taxa de juros estimula os empre-

sários a investir mais, e vice-versa. Assim, quanto mais baixa a taxa de juros, maior o

volume de recursos que o setor privado destinará para investimentos.

A taxa de juros, na análise keynesiana, resulta do confronto da procura da moeda corres-

pondente ao motivo de especulação e da oferta da moeda, isto é, ela é determinada no

mercado monetário, que será objeto de análise mais adiante. Na realidade, o investimento

depende também de outros fatores dinâmicos, como o nível de risco (leiam-se expec-

tativas sobre as condições futuras da economia), o avanço tecnológico, ou seja, o ritmo

das inovações tecnológicas, principalmente sobre os processos produtivos, o crescimento

da demanda (via expansão populacional ou via aumento de renda), a política governa-

mental, a evolução do comércio exterior, a descoberta de novos produtos e até mesmo a

estabilidade política da nação.

76
UNIDADE II - Economia

REFLITA
Na prática, os bancos definem as taxas de juros com base na taxa básica (SELIC), acresci-
da de um Spread, que é a diferença entre a taxa básica e a taxa cobrada pelos produtos
como cheque especial, cartão de crédito, crédito pessoal. E você se pergunta, porque
o Spread é tão alto? Se a taxa básica está em torno de 10% ao ano e alguns produtos
bancários chegam a cobrar 200% ao ano.
A composição do Spread é altamente influenciado por um fator chamado
INADIMPLÊNCIA, ou seja, os bancos cobram nos juros o RISCO que ele tem de
emprestar ao público.
Os banqueiros dizem: “No Brasil os juros são altos, pois a inadimplência é alta”!
Porém eu prefiro dizer que: “No Brasil a inadimplência é alta, pois os juros são
absurdos!”
E você? Concorda comigo ou com os banqueiros?

Para maior conhecimento, leia o artigo na link que segue:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-spread-bancario--e-o-papel-
do-governo-,862852,0.htm

Entre esses fatores, cabe uma observação sobre o risco ou as expectativas sobre o futuro

desta igualdade que só ocorre em situação de equilíbrio. Ressalta-se que os recursos para

realizar o investimento provêm da poupança (do governo, das empresas, das famílias e

77
UNIDADE II - Economia

do resto do mundo). Muitas vezes, a demanda para investimento (intenção de investir)

está acima dos recursos disponíveis. Neste caso ocorre o desequilíbrio, economia do país.

Quanto maior o otimismo com relação ao futuro (pensando-se em economia estável e

regras de jogo definidas), mais estimulados estarão os empresários a investir, pois o in-

vestimento é um tipo de aplicação de longa duração, necessitando, portanto, de um hori-

zonte temporal de longo prazo. Neste caso, a redução de risco provoca um efeito positivo

nos investimentos, deslocando a curva de investimento para a direita. Desse modo, dada

a taxa de juros, quanto menor o risco, maior o investimento. Para o Brasil, é necessário e

importante que os dois fatores atuem na mesma direção, ou seja, menor risco e juros mais

baixos, pois assim o volume investido pelos empresários será maior.

O investimento privado depende da taxa de juros e do risco. O investimento privado ou

formação bruta de capital fixo das empresas e famílias estão ao redor de 20% do Produto

Interno Bruto brasileiro. Essa taxa de investimento (relação entre a formação bruta de ca-

pital fixo e o produto interno bruto), no Brasil, já esteve bem acima deste patamar na

década de 70. Contudo, devido aos vários problemas da economia brasileira na década

de 80 (como dívida externa, inflação descontrolada, frequentes mudanças nas políticas

monetária e cambial), surgiu um ambiente econômico de incertezas, de tal modo que os

investimentos se retraíram. Vale ressaltar, contudo, que para que a economia brasileira

78
UNIDADE II - Economia

gere em torno de 1,7 milhão de novos empregos demandados anualmente, a taxa de

crescimento do PIB deve se situar próximo a 7% ao ano, mas, para tanto, a taxa anual de

investimento global (privado e público) deve se situar no patamar de 25% do PIB.

É importante lembrar que o investimento afeta o nível de produto, porque ele é um ele-

mento da demanda agregada. Quanto maior for o investimento ou o dispêndio em má-

quinas, equipamentos, edificações e construções, ou seja, em bens de capital, maior será

o produto da economia (o PIB), além de gerar mais empregos e, portanto, maior renda

para a coletividade.

INVESTIMENTO PÚBLICO
Além do setor privado, o governo também faz investimentos. As obras públicas, como

construções de rodovias, ferrovias, aeroportos, açudes, barragens, silos e armazéns, edi-

ficações, como escolas, hospitais, e também as aquisições de máquinas e equipamentos,

são bons exemplos de dispêndios do setor público na formação bruta de capital fixo do

país. Na década de 70, devido à maior presença do Estado na economia, o percentual do

investimento público estava ao redor de 4% do PIB. Atualmente, esse percentual é inferior

a 3% se forem considerados os investimentos das Estatais, mas se for levado em conside-

ração apenas a Administração Federal direta não chega a 1%. As compras do governo, que

79
UNIDADE II - Economia

constituem o terceiro componente da demanda agregada, tem um efeito de alto poder

sobre o nível de renda. Os gastos do governo (G) são tratados como exógenos, isto é, como

uma variável que pode afetar, mas não é afetada por outras variáveis no modelo.

EXPORTAÇÕES
Um país exporta bens e serviços nacionais (E) e importa bens e serviços estrangeiros (M).

Conforme foi citado, as exportações fazem parte do Produto Interno Bruto, gerando inter-

namente renda e dispêndio, enquanto as importações transferem renda para o exterior

e não fazem parte do PIB. A diferença entre as exportações e as importações representa

a demanda externa líquida ou exportações líquidas. Desse modo, um aumento nas ex-

portações líquidas X (onde X = E - M) aumenta a demanda de bens e serviços nacionais

(demanda agregada), uma vez que, conforme já vimos, Da = C + G + I + X.

A expansão das exportações representa uma poderosa alavanca para o fortalecimento e

expansão da demanda agregada (ou seja, da produção interna). Numa economia aberta

(comércio com o exterior), as exportações fazem com que a demanda por produtos brasi-

leiros se expanda, e, assim, a produção de bens e serviços produzidos no Brasil aumenta,

gerando, em consequência, mais emprego e mais renda no território nacional. Por incrível

80
UNIDADE II - Economia

que pareça, muitas pessoas não percebem esse efeito multiplicador das exportações so-

bre a economia brasileira, chegando, inclusive, a críticas do tipo: “É um absurdo que o

Brasil exporte, quando há fome aqui dentro”. É fundamental que se tenha em mente que

quando o Brasil exporta alguma mercadoria, o efeito é semelhante a vender aqui dentro,

sob o ponto de vista de geração de renda e de emprego, sem contar que, ao exportar,

estamos trazendo divisas internacionais para o país, que delas necessita para pagar as

importações e outros compromissos financeiros, em especial para “bancar” o déficit na

balança de serviços (isto é, pagar juros da dívida externa, remessa de lucros para o estran-

geiro, pagamentos de fretes internacionais, entre outros). Em 2011, o Brasil exportou mais

de US$ 250 bilhões, recorde até então.

POLÍTICAS ECONÔMICAS
Como vimos, o principal objeto da macroeconomia é estudar os elementos que determi-

nam o nível de produção de bens e serviços (PIB), da renda nacional, do emprego e dos

preços de um país, e que essas variáveis, na visão keynesiana, dependem do nível e de

variações na demanda agregada, a qual é a soma dos fluxos de dispêndios em bens e ser-

viços de consumo (privado e público), em investimento (privado e público) e exportações

(ou seja, o que os estrangeiros compram de produtos brasileiros).

81
UNIDADE II - Economia

Quanto maior a demanda agregada por parte dos cerca de 200 milhões de brasileiros, das

administrações públicas (governo), das empresas (que investem) e dos estrangeiros que

compram produtos brasileiros, maior o nível de produção de bens e serviços no Brasil,

maior o nível de emprego e maior o nível de renda nacional. Como para Keynes a demanda

agregada influencia a produção, o controle do nível da demanda agregada é exercido pelas

autoridades governamentais, ou seja, pelo governo. Essa intervenção do governo na econo-

mia é denominado política econômica, a qual é um ramo da economia dita normativa e que

faz parte da política pública.

Objetivos das Políticas Econômicas


Ao fazer as suas intervenções na economia, cujas consequências afetam a todos (con-

sumidores, empresários, trabalhadores), o governo tem evidentemente algum objetivo.

Basicamente pode-se citar quatro objetivos da intervenção governamental, ou seja,

objetivos da política econômica: estabilidade dos preços, crescimento econômico

(aumento de renda e de emprego), melhor distribuição da riqueza (renda) e equilí-

brio nas contas externas. A prioridade do governo nesses objetivos se altera ao longo

dos anos, de acordo com cada governo. Por exemplo, no início dos anos 1980, o ajuste

externo era mais prioritário para o governo do que a estabilidade ou o crescimento.

82
UNIDADE II - Economia

Desde 1986, com o Plano Cruzado e os demais planos econômicos (Bresser, Verão, Collor

I e Collor II, até chegar ao Plano Real), a prioridade número 1 passou a ser a estabilização

econômica. Para o governo Lula, que se iniciou em janeiro/2003, os objetivos de política

econômica mudam um pouco em relação ao governo anterior, em que a estabilidade vi-

nha em primeiríssimo lugar. É claro que a estabilidade continua sendo importante, mas

o governo atual deveria fazer um grande esforço para o país crescer mais e com melhor

distribuição dessa riqueza. Quanto à repartição da riqueza, é um objetivo de mais longo

prazo, uma vez que ele depende fundamentalmente da educação, a qual, infelizmente,

não tem recebido a devida atenção por parte das administrações públicas.

De um modo geral, as decisões no plano macroeconômico visam melhorar a qualidade

de vida das pessoas. Entre alguns dos problemas macroeconômicos que um país pode

enfrentar estão: inflação (ou seja, aumento generalizado dos preços de bens e serviços),

recessão ou baixo crescimento da economia, desemprego elevado, distribuição desigual

de renda, variação cambial (o real em relação ao dólar pode variar muito, num determina-

do período), problemas no balanço de pagamentos (que registra o resumo contábil das

transações econômicas do Brasil, por exemplo, com o resto do mundo), em que o país tem

dificuldades em pagar suas contas externas, taxas de juros elevados no mercado interno,

entre outros.

83
UNIDADE II - Economia

Com o objetivo de resolver ou pelo menos minimizar esses tipos de problemas econômi-

cos, os governos fazem quase que diariamente intervenções na vida das pessoas e das em-

presas, via decisões políticas com interesse econômico. São basicamente quatro os objeti-

vos de políticas econômicas: estabilidade dos preços (leia-se: inflação baixa); crescimento

econômico, ou seja, crescimento da produção (de modo a garantir aumento de renda e de

emprego); melhor repartição da riqueza (em particular da renda pessoal e regional); e equi-

líbrio nas contas externas (ou seja, que o país possa pagar seus compromissos financeiros

com os demais países).

Estabilidade Econômica
Embora a estabilização econômica tenha um sentido mais abrangente, podemos enten-

dê-la como sinônimo de estabilidade de preços, isto é, a busca por manter a inflação em

nível baixo (em geral, abaixo de 6% ao ano, para um país como o Brasil, já pode ser con-

siderado um objetivo alcançado, enquanto para os EUA esse nível é em torno de 2,5% ao

ano). Taxas elevadas de inflação trazem distorções para a sociedade: piora a distribuição

de renda (porque os mais pobres não conseguem, com o mesmo sucesso dos mais ricos,

fazer aplicações de seu dinheiro no mercado financeiro), as aplicações financeiras passam

a ter prazos menores (desestimulando os investimentos das empresas e dificultando a

aquisição de moradias, por exemplo), entre outros.

84
UNIDADE II - Economia

Crescimento da Produção: mais renda e emprego


O crescimento econômico de um país (principalmente no caso do Brasil, que tem um ele-

vado crescimento populacional) é, provavelmente, o mais importante objetivo de política

econômica, uma vez que significa maior quantidade de bens e serviços disponíveis para a

sociedade. Se a produção cresce a uma taxa superior à da população, diz-se que a produção

por pessoa (a renda per capita) está aumentando. Aliás, este é talvez o único caminho para

melhorar o nível de renda de um país. Como produção tem tudo a ver com emprego (inclui-

se aqui não só a mão de obra, mas também outros fatores, como o emprego de recursos

naturais e capital), a expansão da produção leva a geração de maior nível de emprego.

Melhora da Distribuição de Renda


Este objetivo, apesar de sua importância, praticamente nunca foi o principal em nenhum

dos governos brasileiros. A péssima distribuição de renda no Brasil está, assim, a merecer

que, um dia, seja objeto de preocupação dos nossos governantes. O controle da inflação

no país, nos últimos anos (leia-se: Plano Real), até ajudou a melhorar esse problema (como

já foi citado, em 1993, os 10% mais pobres, que detinham apenas 0,7% da renda agregada,

viram sua participação aumentar para 1,1% em 2001), mas a solução para uma melhor

distribuição de renda depende basicamente da melhoria na educação, especialmente

nos níveis de ensino fundamental e médio. Para tanto, os ensinos fundamental e médio

85
UNIDADE II - Economia

deveriam ser gratuitos, de qualidade, e oferecer escolas com tempo integral, como ocorre

em todos os países desenvolvidos.

Equilíbrio nas Contas Externas


No balanço de pagamentos faz-se o registro contábil das transações comerciais e financeiras

de um país com os demais países do mundo. Os três principais componentes do balanço

de pagamentos (BP) são: a balança comercial (que registra a diferença entre exportações e

importações de mercadorias), a balança de serviços (que registra as transações de serviços e

de renda, tais como pagamentos de juros, turismo, fretes, remessas de dividendos e de lucros,

entre outros) e os movimentos de capital (investimentos estrangeiros e ingressos de capital

financeiro), além das transferências unilaterais, que, na verdade, se constituem num quarto

componente do BP.

O equilíbrio nas contas externas, em especial nas transações correntes (que é o balanço

entre a conta comercial e a de serviços), para um país como o Brasil, é necessário princi-

palmente por duas razões: primeiramente porque a moeda nacional (o real, no caso do

Brasil) não é aceita mundialmente (e, portanto, não pode ser usada para pagamentos de

compromissos com os demais países) e, segundo, porque o Brasil não pode imprimir dó-

lares legalmente. Se um país tem déficit nas transações correntes, ele necessariamente

86
UNIDADE II - Economia

dependerá do ingresso de dólares no país, seja via investimentos diretos de outro país no

Brasil ou via capital especulativo. Caso contrário, essa necessidade de dólares para cobrir o

déficit (o que significa que estão saindo mais dólares do que entrando) só seria possível se

eles viessem das reservas em dólares que o país tem. Isso só é admissível no curto prazo,

e não no longo prazo, pois o volume das reservas é limitado.

Superávits permanentes podem também resultar em problemas para um país, porque o in-

gresso excessivo de dólares pode obrigar o Banco Central a ter que emitir moeda nacional

(reais, no caso do Brasil) para fazer a conversão dos dólares por reais, uma vez que os dólares

não têm livre circulação no país. Ocorre que quanto maior o volume de dinheiro (em reais)

em circulação na economia, maior é a possibilidade de inflação.

Conflitos existentes
Cabe destacar a existência de conflitos entre esses quatro objetivos, ou seja, quando o go-

verno intervém na economia para resolver um determinado problema, pode trazer con-

sequências negativas sob o ponto de vista de outro objetivo. Por exemplo, se o governo

aumenta a taxa de juros para conter a inflação (isto é, atingir o objetivo de estabilidade

dos preços), essa elevação dos juros pode desestimular o consumo e o investimento pri-

vado, retraindo a demanda agregada e, assim, pode provocar até recessão e desemprego.

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UNIDADE II - Economia

São objetivos da política econômica a estabilidade de preços, o crescimento, a melhor distri-

buição da riqueza e o equilíbrio nas contas externas. Sem nenhuma dúvida, a partir de 1986,

quando foi lançado o primeiro plano de estabilização econômica (o Plano Cruzado em feverei-

ro de 1986) até o final do governo Fernando Henrique Cardoso, em dezembro de 2002, a prio-

ridade foi o combate a inflação, em que principalmente a política monetária foi utilizada como

instrumento de estabilidade dos preços. Acreditava-se que nos governos posteriores o foco se

alterasse um pouco, passando a ser: crescimento econômico (visando a geração de emprego)

com estabilidade monetária e inclusão social (leia-se: preocupação com a repartição), mas in-

felizmente isso não ocorreu, pois a prioridade continuou sendo a estabilidade apesar de certo

crescimento ter sido atingido, principalmente em 2010 chegando a mais de 7%.

Dilemas de política econômica: inter-relações e conflitos de objetivos


O crescimento econômico pode facilitar a solução de problemas relativos à pobreza, pois

os conflitos sociais sobre a divisão do bolo produtivo podem ser abrandados quando ele

aumenta. Nesse sentido, poder-se-ia aumentar a renda dos pobres sem diminuir a dos

ricos. Entretanto, no Brasil e em outros países em desenvolvimento, as metas de cresci-

mento e equidade distributiva têm-se mostrado conflitantes, fundamentalmente devido

ao fator educacional, com a maioria da mão de obra com baixa qualificação e, portanto,

com baixos rendimentos.

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UNIDADE II - Economia

Outro conflito gerado por políticas econômicas pode ser observado entre as metas de redução

de desemprego (crescimento econômico) e a estabilidade de preços. É fato que, quando o de-

semprego diminui e a economia aproxima-se da plena utilização de recursos, passam a ocorrer

pressões por aumentos de preços, principalmente nos setores fornecedores de insumos bási-

cos (aço, embalagens, matérias-primas), o que explica o frequente controle do crescimento do

consumo pelas autoridades para não provocar inflação. Por outro lado, observa-se que, numa

situação recessiva (desemprego elevado), as taxas de inflação tendem a ceder, uma vez que as

empresas estarão mais voltadas a desovar seus estoques acumulados e os sindicatos de traba-

lhadores não estarão tão preocupados em obter salários mais elevados, mas sim com a manu-

tenção do emprego. Essa tendência a uma relação inversa entre inflação e desemprego.

Este dilema é denominado, na literatura econômica, trade-off entre inflação e desempre-

go, que é um reflexo de uma tendência cíclica da economia, alternando períodos de maior

prosperidade com outros mais recessivos.

Outro exemplo bastante claro desses dilemas de política econômica ocorreu no Plano

Real, a partir de 1994: a meta de redução da inflação e de estabilização de preços foi ple-

namente atingida (de taxas de inflação de cerca de 50% mensais passou-se a taxas em

torno de 5% a 6% ao ano). Entre os instrumentos utilizados, recorreu-se a valorização da

moeda nacional perante o dólar, o que promoveu um aumento das importações e da con-

corrência dos produtos estrangeiros com os nacionais e o consequente barateamento dos

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UNIDADE II - Economia

preços internos. Entretanto, houve uma redução do ritmo das exportações (os produtos

brasileiros ficaram mais caros em relação ao dólar), a balança comercial tornou-se deficitá-

ria e aumentou a vulnerabilidade externa da economia brasileira. Decidir qual o objetivo

prioritário é tarefa que pertence mais ao âmbito do poder político. Cabe aos economistas

apresentar os custos e os benefícios de cada alternativa de política econômica, mas a de-

cisão final sobre qual caminho percorrer pertence aos políticos.

Instrumentos de política macroeconômica


A política macroeconômica envolve a atuação do governo sobre a capacidade produtiva

(oferta agregada) e as despesas planejadas (demanda agregada), com o objetivo de per-

mitir que a economia opere a pleno emprego, com baixas taxas de inflação, com distribui-

ção de renda justa, e cresça de forma contínua e sustentável.

Em nível macroeconômico, para atingir esses objetivos, o governo intervém na economia

e, para tanto, dispõe de quatro instrumentos importantes: política fiscal (receita e gastos

públicos), política monetária (juros e controle da oferta de moeda), política cambial

(que afeta o setor externo: exportação, importação e transações financeiras, via câmbio,

tarifas e outros controles) e política de rendas (que inclui o controle de preços e salários).

A forma de atuação do governo tem consequências diretas sobre o sistema financeiro, em

particular os bancos.

90
UNIDADE II - Economia

OS INSTRUMENTOS DE POLÍTICA ECONÔMICA


Os instrumentos de política econômica são: política fiscal, monetária, cambial e de rendas

Todas essas três políticas (fiscal, monetária e cambial) devem manter uma estreita ligação

com os objetivos que os governos perseguem, entre os quais, conforme acima citados,

estão: o crescimento do PIB, o pleno emprego, uma melhor distribuição de renda, taxa de

inflação baixa e estável, taxas de juros baixas, investimentos em expansão, equilíbrio no

balanço de pagamentos (que trata das contas externas). Conseguir atingir mais um ob-

jetivo é o grande desafio que os governos enfrentam, porque, via de regra, há conflitos

entre eles, conforme já mencionado.

Por exemplo, o objetivo de crescimento do PIB pode chocar com o de taxas de inflação

baixas, ou o objetivo de reduzir os impostos pode resultar no aumento da dívida pública

interna, e ter consequências negativas sobre as contas públicas (lado fiscal).

É fundamental entender que cada uma dessas políticas têm direta influência sobre as

variáveis componentes da demanda agregada. Isto significa que a intervenção gover-

namental na economia, por meio de um ou mais dos instrumentos de política econô-

mica acima citados, deve afetar ou o consumo privado, ou o investimento privado ou

as exportações, de modo a alterar o nível da demanda agregada, o que irá influenciar

no nível do produto interno bruto, na geração da renda nacional e no nível de empre-

go. É por isso que, a seguir, iremos analisar cada uma dessas políticas.

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UNIDADE II - Economia

POLÍTICA FISCAL: RECEITA E GASTOS PÚBLICOS


Por política fiscal entende-se a atuação do governo no que diz respeito à arrecadação de

impostos (as chamadas receitas públicas) e aos gastos públicos. De um lado, como sabe-

mos, o governo constrói e mantém escolas, estradas, hospitais, paga funcionários e juros

da dívida. De outro, atuando sobre o sistema tributário, pode aumentar ou diminuir a sua

arrecadação, via impostos e outras taxas.

O objetivo básico da política fiscal é conduzir, com eficiência, a área administrativa do

governo, promovendo o bem-estar da população mediante a realização de obras de in-

teresse da sociedade e a eficácia na arrecadação tributária para fazer frente às despesas

orçamentárias. Essas políticas devem manter uma estreita ligação com os objetivos que os

governos perseguem, embora muitos desses objetivos sejam conflitantes entre si. Entre

esses objetivos, conforme já citados no capítulo anterior, estão: crescimento do PIB, ple-

no emprego, distribuição da renda, taxa de inflação baixa e estável, taxas de juros baixas,

investimentos em expansão e equilíbrio no balanço de pagamentos.

Gastos do governo
Os gastos do governo compõem-se de despesas correntes e de investimento. Nas

despesas correntes incluem-se quatro itens: o consumo do governo (pagamento dos

92
UNIDADE II - Economia

funcionários e despesas como energia elétrica e materiais), transferências (despesas

do setor público destinadas ao setor privado, sem contraprestação de serviços ou forneci-

mento de bens, como, por exemplo, é a

Assistência e Previdência Social), juros (pagamento de juros tanto da dívida interna como

externa) e subsídios (são gastos do governo objetivando que os consumidores adqui-

ram alguns bens e serviços por preços menores do que se daria pelo mercado normal, ou

que o produtor receba preços maiores, ou seja, o subsídio tanto pode ser para o consumi-

dor como para o produtor).

Quatro itens são importantes nas despesas do governo:


• Juros das dívidas interna e externa, nos últimos anos, tem ficado ao redor de

R$ 180 bilhões por ano.

• Despesas com pessoal e encargos sociais da União são crescentes, atual-

mente este número supera a casa dos R$ 165 bilhões.

• Gastos de Custeio da máquina pública que também estão somando atual-

mente algo em torno de R$ 150 bilhões.

93
UNIDADE II - Economia

• Déficit da previdência anda ao redor de R$ 45 bilhões por ano. Este item refere-

se ao gasto menos a arrecadação com a previdência.

Assim sendo, esses quatro itens juntos (juros, pessoal, custeio e previdência) “consumi-

ram”, somam algo em torno de R$ 540 bilhões. Em outras palavras, pode-se dizer que o

setor público brasileiro “gasta” com esses quatro itens o equivalente a quase R$ 1,5 bilhão

por dia. Quanto às despesas com investimentos, que dizem respeito aos gastos do go-

verno brasileiro com o objetivo de aumentar a capacidade de geração de bens e serviços

no país, tais como: construção de estradas, rodovias, escolas, hospitais, hidrelétricas etc.,

elas têm ficado abaixo de 1% do PIB, ou seja, algo em torno de um sexto do valor que o

governo “torra” com os juros, o que, mais uma vez, evidencia o erro na política econômica

brasileira.

Analisando-se a evolução dos gastos públicos no Brasil, pode-se afirmar o seguinte: as

despesas correntes, que se situavam ao redor de 20% do PIB na década de 70, passaram

a ser superiores a 30% na média dos anos 2000-2009, enquanto as despesas com investi-

mentos, que eram de 3,0%, caíram para apenas 0,5%. Cabe ressaltar que as despesas com

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UNIDADE II - Economia

pessoal e com a previdência têm aumentado, mas o que mais cresceu foram os gastos

com juros das dívidas interna e externa que, de apenas 0,6% do PIB na década de 70, tem

se mantido em torno de 7%, na média dos últimos oito anos.

Alíquota versus arrecadação: A Curva de Lafer


Os especialistas em ciências sociais e jurídicas têm procurado mostrar que há uma relação

entre as alíquotas (taxas) de impostos e o volume total arrecadado pelos governos. Essa

relação é conhecida como Curva de Lafer, em homenagem ao economista Arthur Lafer,

por ter iniciado estudos nesta área. A figura abaixo mostra uma clássica relação entre as

alíquotas dos impostos numa economia e a arrecadação tributária do governo. À taxa

zero de alíquota, o governo não arrecada nada. À medida que a alíquota aumenta, a arre-

cadação também aumenta, mas há limites, ou seja, há uma determinada alíquota (tmax)

que garante uma arrecadação máxima. Para alíquotas superiores a tmax a arrecadação

passa a decrescer. Por exemplo, para a alíquota t0, o volume de recursos arrecadados pelo

governo seria menor (apenas A0). Acredita-se que a principal razão é o estímulo à sone-

gação/evasão fiscal e o desestímulo às atividades produtivas, quando as alíquotas são

excessivamente elevadas.

95
UNIDADE II - Economia

Figura: Curva de Lafer

Nos períodos de elevada inflação, há outro efeito sobre as receitas públicas, conhecido

como Efeito Olivera-Tanzi, o qual ocorre como consequência do fato de que há uma

defasagem entre o momento da geração do imposto e o do efetivo recolhimento. Como

há um tempo (dias ou até meses), a inflação reduz o valor real (embora o valor nominal

do imposto seja o mesmo) a ser arrecadado pelo governo. Isso prejudica as finanças pú-

blicas, provocando déficits, cujo conceito será abordado a seguir.

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UNIDADE II - Economia

A carga tributária no Brasil


• Talvez nenhuma variável econômico-fiscal no Brasil tenha aumentado tanto nos

últimos anos como a da carga tributária: de um patamar de 21,2% do PIB no final

dos anos 1980 para cerca de 37% atualmente.

• Quando se compara a situação tributária com a de outros países, chega-se a duas

situações. A carga brasileira é baixa em comparação com países mais desenvolvi-

dos, principalmente os do Norte da Europa (50% nos países nórdicos), mas é rela-

tivamente alta em relação aos demais países da América Latina, cuja maioria tem

taxas ao redor (ou abaixo) de 20% do PIB.

• Conforme já mencionado, a carga tributária brasileira é concentrada em poucos tri-

butos: seis deles contribuem com mais de 80% do valor total arrecadado.

• A incidência de tributos sobre bens e serviços é muito mais acentuada do que so-

bre a renda e o patrimônio, ao contrário dos países mais ricos.

• A estrutura tributária é fortemente marcada pelos “impostos em cascata”, cobrados

diversas vezes ao longo da cadeia produtiva, provocando aumentos nos custos de

produção e, assim, reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros no ex-

terior. Em parte, isso explica porque exportamos tão pouco (apesar de ter sido re-

corde em 2011 chegando a mais de US$ 250 bilhões), apesar de estarmos fazendo

“festa” por atingir esse valor, mas a verdade é que ele ainda é baixo.

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UNIDADE II - Economia

Déficit público
Normalmente, o conceito de déficit está associado à necessidade de financiamento

do setor público, ou seja, quanto das despesas realizadas não foi financiado com recur-

sos próprios. Diz-se que há déficit público (que é o que, via de regra, ocorre) quando os

gastos do governo superam a sua arrecadação. Na situação de superávit das contas pú-

blicas, a arrecadação supera o total dos gastos. Há dois conceitos de déficit (ou superávit):

• Conceito Primário

O conceito de déficit primário considera apenas o excesso de gastos não financeiros

sobre as receitas não financeiras, ou seja, não se consideram nas despesas, nem o paga-

mento de juros nem as correções monetárias e cambiais. A sua utilidade é que ele mede o

que ocorreu no exercício, eliminando os efeitos das dívidas de exercícios anteriores. Mede,

assim, a capacidade de pagar os juros da dívida.

No conceito primário, no Brasil não tem havido déficit, mas sim superávit, ou seja, sem

considerar o pagamento de juros, o governo brasileiro tem conseguido gastar menos do

que arrecada. Esse superávit tem ficado ao redor de 4% do PIB nos últimos anos. O setor

público consolidado (União, estados e municípios) tem acumulado um superávit primário

crescente: de mais de R$ 52 bilhões em 2002 para mais de R$ 100 bilhões/ano na média do

triênio (2006-08). Em 2011, este patamar ficou em torno de R$ 90 bilhões.

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UNIDADE II - Economia

Em relação a esse superávit primário, é comum fazermos duas perguntas: Qual a finali-

dade de o governo aumentar o superávit primário? E como isso pode ser feito? A fina-

lidade é a seguinte: como o governo precisa reduzir a proporção da dívida pública em

relação ao PIB (é bom lembrar que ela representa um pouco menos da metade do PIB),

essa “economia” de receitas tem sido usada para pagar (parte) os juros da dívida pública,

de modo a impedir seu maior crescimento. A maneira de o governo obter maior superá-

vit primário é basicamente de duas formas: com aumento da arrecadação de impostos e

com maiores cortes nos gastos previstos no orçamento federal. No governo FHC, como

no primeiro mandato, praticamente não houve superávit primário, ao contrário do se-

gundo mandato, em que o superávit ficou em 3,6% e a dívida pública aumentou muito,

em especial no período de 1994 a 1998.

Nos primeiros seis anos do governo Lula (2003-2008), o governo brasileiro economizou

o valor equivalente a R$ 546 bilhões de superávit primário. O mais grave é que todo esse

esforço chegou a cobrir um pouco mais da metade do total de juros pagos nesse período

(R$ 922 bilhões).

• Conceito Nominal

O conceito de déficit nominal inclui o pagamento de juros e as variações com corre-

ção monetária e cambial das dívidas interna e externa. No Brasil, de cada R$ 100,00

99
UNIDADE II - Economia

gerados de PIB, cerca de R$ 5,00 foram destinados a pagar juros, razão pela qual os

lucros dos bancos instalados no Brasil têm sido elevadíssimos nos últimos anos.

FIQUE POR DENTRO


No Brasil, os gastos globais com juros chegam a quase 200 milhões por ano. Ou
seja, corresponde a mais de R$ 540 milhões por dia, ou seja, quase R$ 22,5 mi-
lhões por hora. O governo brasileiro, nos últimos anos gastou mais com juros das
dívidas interna e externa, do que com funcionários públicos (próximo a R$ 165
bilhões/ano, incluindo os encargos sociais).
De todas as esferas de governo, o Tesouro Nacional (e o Banco Central) são os que
mais pagam juros para o setor privado (leia-se principalmente bancos e fundos de
investimento), que investe em títulos públicos.
A maioria desses papéis é corrigida pelo câmbio, pela taxa Selic (que de fevereiro
a abril de 2003 estava em 26,5% ao ano, caiu para 16,5% em fevereiro de 2004,
mas em fevereiro de 2005 já estava em 18,75%), voltando a cair ao longo de 2006,
estando em fevereiro/2007 em 13%, subiu em 2008, para cair no final do ano, che-
gando em fevereiro de 2009 em 12,75%. Atualmente, primeiro semestre de 2012,
esta taxa está situada em torno de 9,75% ao ano.

100
UNIDADE II - Economia

Cabe registrar que, em 1994, apesar de a dívida pública ser menor (cerca de R$ 150 bi-

lhões), a taxa de juro elevada (ao redor de 45% ao ano) e a inflação ainda elevada con-

tribuíram para que o governo “gastasse” R$ 112,4 bilhões com juros naquele ano. A com-

binação da queda na taxa de juro com a redução na inflação possibilitou que o governo

despendesse menos com juros no triênio 1995-1997. Como a dívida cresceu muito ao

final do primeiro mandato do governo FHC, os gastos com juros se elevaram no segundo

mandato. O Governo FHC manteve superávit primário, no segundo mandato, mas apre-

sentou um enorme déficit operacional, porque gastou, em média, mais de R$ 90 bilhões

por ano com juros. A tristeza é que no governo Lula a média também foi elevada, mais de

R$ 150 bilhões/ano. Quem “agradece penhoradamente” esses absurdos de gastos do setor

público com juros são os bancos, principalmente aqueles que “mais investem” em títulos

públicos. É por isso que nos meses de fevereiro dos últimos anos, várias manchetes de

jornais trataram desta questão, pois são quando os números são divulgados.

Selecionamos apenas duas delas: “Bancos brasileiros são os mais rentáveis do mundo” e

“bancos têm rentabilidade recorde”. De fato, a rentabilidade (lucro líquido sobre o patri-

mônio) média dos bancos tem superado 20%, o que significa que para cada R$ 100 de pa-

trimônio líquido, um banco brasileiro tem obtido mais de R$ 20 de lucro líquido, o que sig-

nifica que em cerca de seis anos é possível recuperar todo o patrimônio líquido. Os bancos

em países desenvolvidos levam mais do dobro desse tempo. Os juros altos obtidos com

101
UNIDADE II - Economia

os títulos públicos e o spread bancário (diferença entre a taxa de captação dos bancos e o

valor cobrado para emprestar os recursos aos clientes) são os principais fatores que fazem

a rentabilidade ser maior no Brasil.

No conceito nominal verifica-se qual o valor da dívida, em reais correntes, no início e no

fim do período, geralmente de um ano. A variação da dívida é o déficit nominal. No con-

ceito nominal está englobada qualquer demanda de recursos pelo setor público (inclu-

sive para fazer frente às despesas financeiras, como pagamento dos juros sobre a dívida

pública). Esse conceito, utilizado em outros países, não o é no Brasil, por causa da inflação

elevada que experimentou em anos recentes.

Desse modo, o conceito nominal de déficit inclui tanto a correção monetária como as des-

pesas financeiras. Concluindo, apesar dos superávits primários do setor brasileiro, o mes-

mo, levando em conta as três esferas, vem experimentando déficits nominais, por causa

dos superelevados gastos com os juros. Não é nenhum exagero afirmar que, nos últimos

anos, o governo brasileiro “trabalha” (leia-se arrecada) para pagar juros.

Financiamento do Déficit
Vamos denominar de G os gastos públicos e T (de tributos) a receita tributária. Se a des-

pesa (G), distribuída entre o consumo governamental e o investimento público, superar

102
UNIDADE II - Economia

a receita tributária (T), tem-se uma situação de déficit. Uma das medidas do governo é

utilizar a política fiscal, via aumento de impostos ou corte de gastos. Mas, se mesmo as-

sim, ainda continuar o déficit, o mesmo deverá ser financiado fundamentalmente por

duas vias de recursos extrafiscais que são: a) A emissão de moeda (M), onde o governo

toma emprestado do Banco Central; b) O lançamento de títulos públicos (Títulos), onde

o governo vende títulos da dívida pública ao setor privado (interno e externo). Cabe aqui

uma observação: a venda de títulos provoca uma elevação da dívida pública. Esse foi o

caminho adotado pelo governo FHC, fazendo com que a dívida (que era cerca de R$ 60

bilhões quando ele assumiu como Ministro da Fazenda, antes de ser presidente) subisse

para quase R$ 1,4 trilhão atualmente. Neste caso, diz-se que o setor privado financia (a

gastança do) o setor público. Pode-se representar uma situação de déficit orçamentário

do seguinte modo:

G - T = M + TÍTULOS

Essa “equação” mostra a ligação que existe entre a política fiscal (G >T) de déficit público

com a política monetária, que trata da emissão de moeda e da venda de títulos públicos

no open market (mercado aberto), como veremos no próximo capítulo. O ponto impor-

tante da política fiscal é determinar o efeito dela sobre o resto da economia, em particu-

lar o efeito dos gastos do governo sobre a demanda agregada e esta sobre a produção

103
UNIDADE II - Economia

(oferta) e os preços. Para tanto, necessitamos, antes, voltar a analisar o modelo keynesiano

de ver a economia como um todo.

Efeitos da Política Fiscal sobre a Economia


Como vimos, os impostos e gastos públicos afetam o nível de demanda da

economia. A arrecadação incide sobre o nível de demanda ao influir na renda dis-

ponível que os indivíduos poderão destinar para consumo e poupança. Dado um ní-

vel de renda, quanto maiores forem os impostos, menor será a renda disponível e,

portanto, o consumo. Os gastos públicos são diretamente um elemento da demanda

agregada. Assim, quanto maior o gasto, maior será a demanda e maior será o produto.

Desse modo, se a economia apresentar tendência para queda no nível de atividade, o

governo pode estimulá-la, cortando impostos e/ou elevando gastos. Pode ocorrer o

inverso, caso o objetivo seja diminuir o nível de atividade.

A redução da carga tributária (T), à medida que aumenta a renda disponível (Yd) da popu-

lação, pode também provocar a expansão do consumo pessoal (C) e, consequentemente,

da demanda global (Da). Como o consumo depende da renda disponível (onde Yd = Y

- T), um aumento nos impostos deve diminuir o nível de consumo. Portanto, de forma es-

quemática, a política fiscal atual sobre a oferta agregada (Sa) e o emprego (E) pode se dar

104
UNIDADE II - Economia

por duas vias: a) Alterando o gasto do governo (G), que, por sua vez, afeta diretamente a

demanda agregada (Da); b) Alterando os impostos (T), os quais afetam a renda disponível

(Yd), que, por sua vez, altera o consumo (C). A política fiscal afeta o consumo, a produção,

o emprego e a renda.

POLÍTICA MONETÁRIA: DEMANDA E OFERTA DE MOEDA


A política monetária diz respeito às intervenções governamentais sobre o mercado finan-

ceiro, seja atuando ativamente ao controlar a oferta de moeda ou atuando passivamente

sobre as taxas de juros. Ela pode ser definida como o controle da oferta da moeda e das

taxas de juros que garantam a liquidez ideal de cada momento econômico. Por controle

da oferta de moeda pode-se entender:

A. Condições de crédito, ou seja, disponibilidade ou não de empréstimos. O governo

pode aumentar ou reduzir a capacidade dos bancos emprestarem por meio do de-

pósito compulsório (isto é, obrigar aos bancos a recolher maior ou menor volume

de seus recursos no Banco Central);

B. Aumento ou diminuição de dinheiro que circula na economia (o volume de

dinheiro que o governo emite). Enquanto a política fiscal afeta diretamente a

demanda agregada ao nível de produto da economia, por meio do montante

105
UNIDADE II - Economia

de déficit público, a política monetária afeta o produto de forma indireta, em

especial mediante a taxa de juros, a qual tem influência sobre diversas variáveis;

C. Macroeconômicas, em especial sobre o consumo privado, o investimento, o merca-

do acionário e o ingresso de recursos externos no país.

Pode-se dizer que a política monetária trata da moeda nacional, ou mais precisamente do

controle das condições de liquidez da economia. É importante perceber que ao atuar sobre

a quantidade de moeda na economia, o governo está afetando os níveis das taxas de juros.

O mercado monetário é como um mercado de bens e serviços (a exemplo do que analisa-

mos na parte I), onde a mercadoria a ser negociada é a moeda, cujo valor a ser negociado é

a taxa de juro (correspondente ao preço no mercado de bens e serviços), a qual depende da

demanda (por moeda) e da oferta (de moeda).

A política monetária, no Brasil, é refém da política fiscal. A partir de junho de 1996, com

o objetivo de estabelecer as diretrizes de política monetária e definir a taxa de juros, foi

constituído o Copom - Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil. Sua cria-

ção buscou proporcionar maior transparência e ritual adequado ao processo decisório

da política monetária nacional. A taxa de juros é definida como a meta para a taxa Selic, a

vigorar no período entre as reuniões do Copom, que são, via de regra, mensais. O Copom

é composto pelos oito membros da Diretoria Colegiada do Banco Central do Brasil.

106
UNIDADE II - Economia

A moeda é o instrumento básico para que se possa operar o mercado, sem a qual o processo de

troca seria extremamente limitado. A moeda é o ativo utilizado para realizar as transações por-

que é o que possui maior liquidez, a saber, a capacidade de um ativo converter-se rapidamente

em poder de compra, isto é, transformar-se em mercadorias.

Demanda de Moeda
As pessoas e empresas demandam moeda por três razões básicas:

A. Necessidade de adquirir bens e serviços (transação);

B. Necessidade de atender compromissos não previstos (precaução);

C. Oportunidade de aplicação interessante, mas, enquanto esse momento não chega,

elas mantêm a moeda (demanda para especulação).

A demanda por moeda é inversamente relacionada à taxa de juros. Podemos chegar a

essa relação se pensarmos a taxa de juros como o custo de oportunidade de reter moeda,

ou seja, o que se perde pelo fato de guardar moeda. Assim, quanto maior a taxa de juros,

maior será o custo de oportunidade de reter moeda, e, portanto, menor será a demanda

por moeda. Na realidade, a demanda por moeda depende tanto da renda dos consumi-

dores como da taxa de juros nominal. Quanto maior for a renda, maior será a demanda

por moeda. Afinal, o aumento de renda do consumidor expande a demanda por bens e

107
UNIDADE II - Economia

serviços e, consequentemente, a necessidade de moeda aumenta. Quanto maior for a

taxa de juros nominal, menor será a quantidade demandada de moeda. Com taxas muito

elevadas, a demanda de moeda é menor por duas razões:

• Menor especulação, pois são poucas as oportunidades de melhores aplicações do

que a já existente, que é o juro alto;

• Menor necessidade de transação e de precaução, porque o dinheiro é aplicado em

ativos que rendem juros. A demanda por moeda é determinada pela sociedade, ou

seja, pela necessidade de dinheiro que as empresas, as pessoas e até o governo têm.

Oferta de Moeda
Pelo lado da oferta de moeda, podemos considerar, em princípio, que o governo controla

a quantidade de moeda ofertada na economia. Assim, o governo atua tanto pelo lado

da demanda como da oferta de moeda. O Banco Central (BACEN) é o emissor da moeda

nacional, sendo que uma de suas principais funções é a de controlar a oferta monetária,

ou seja, regular a liquidez da economia. Papel moeda ou moeda fiduciária corresponde a

notas de papel emitidas pelo governo que não possuem lastro em qualquer mercadoria,

isto é, não existe uma garantia física sustentando o valor da moeda, e sua aceitação se

deve à imposição legal do governo.

108
UNIDADE II - Economia

Ao observarmos como as transações são liquidadas, percebemos que apenas uma pe-

quena parte destas é feita com papel moeda e que a maior parte é liquidada por meio

de cheques (moeda bancária). Sendo assim, além do BACEN (que pode emitir moeda), os

bancos comerciais também podem afetar a oferta de moeda (por meio da multiplicação

dos depósitos à vista). É por isso que se diz que os bancos comerciais distinguem-se

dos demais intermediários financeiros, pois podem “criar moeda” com base nas reservas

constituídas sobre os depósitos à vista e, devido a isso, podem afetar a oferta monetária.

É justamente via empréstimo que eles criam moeda, e isto pode ser assim explicado: a con-

cessão do empréstimo pelo banco não é feita mediante entrega de dinheiro ao indivíduo,

mas mediante a abertura de um depósito à vista em seu nome. O indivíduo que recebeu

o empréstimo paga suas dívidas com cheque, que deve ser depositado na conta daquele

que recebeu. Este depósito terá novamente o mesmo destino: uma parcela será reservada

e a outra será emprestada, e assim sucessivamente. Percebe-se que há uma multiplicação

do depósito inicial em uma série de novos depósitos a partir do processo: depósito-em-

préstimo-depósito-empréstimo, e assim por diante. Os bancos podem emprestar todos

os recursos captados, menos o volume que deve ser destinado à constituição das reservas

compulsórias. Por meio destes empréstimos, podemos deduzir a capacidade de criação

de moeda pelos bancos comerciais a partir da moeda emitida pelo BACEN, definindo-se

assim o chamado multiplicador bancário.

109
UNIDADE II - Economia

O multiplicador bancário e a criação de moeda por parte dos bancos podem ser mais bem

explicados pelo seguinte exemplo: suponha um depósito inicial de R$ 100,00 num banco,

que deve manter 20% como reservas compulsórias. Destes R$ 100, o banco destina R$

20 para reservas e empresta R$ 80,00. Estes R$ 80 retornam ao banco na forma de novo

depósito. Destes R$ 80, R$ 16,00 transformam-se em reservas e R$ 64,00 são reempresta-

dos. Estes voltam como depósito e reinicia-se o ciclo. Percebe-se que os R$ 100 iniciais de

depósitos multiplicam-se, gerando uma sequencia de depósitos nos valores: R$ 80,00; R$

64,00; R$ 51,20; R$ 40,96, ou seja, numa progressão geométrica decrescente de razão 0,8,

que corresponde à fração livre dos depósitos bancários, isto é, o depósito adicional menos

as reservas que devem ser compostas (1 - 0,8).

Para avaliarmos o total dos depósitos do banco a partir do depósito inicial, basta realizar a

soma dos termos da progressão geométrica (D) com razão menor que 1. Soma PG = D = d1/a-

-q, onde d1 = primeiro termo da PG e q = razão da PG. Assim, no exemplo acima, teríamos:

D = R$ 100,00/(1-0,8) = R$ 500,00. Assim, um depósito inicial de R$ 100,00 gerou um total de

depósitos no banco de R$ 500,00, isto é, foi multiplicado por 5. Como milhões de depósitos à

vista e se ele deve recolher compulsoriamente 20% junto ao Bacen, então o poder de criação

de moeda desse banco é de R$ 500 milhões (ou seja: R$ 100 milhões divididos por 0,2).

Desse modo, quanto menor o recolhimento compulsório, maior o poder de multiplicação

dos bancos. Portanto, a determinação do nível de depósitos compulsórios dos bancos é

110
UNIDADE II - Economia

uma forma de o BACEN controlar a oferta de moeda bancária. O Multiplicador Bancário

mede a capacidade dos bancos comerciais de, partindo do total de depósitos, gerarem

empréstimos e outras aplicações bancárias. É representado pela razão entre empréstimos

e depósitos.

É importante deixar claro o que segue: somente as autoridades monetárias, via o Bacen,

podem autorizar e emitir moeda, mas os bancos comerciais multiplicam esta moeda ou

criam dinheiro por meio de empréstimos.

Ressalte-se que a oferta de crédito, no Brasil, representa apenas 34% do Produto

Interno Bruto (PIB). Apesar de ter aumentado muito nos últimos dois anos, esse

percentual é ainda extremamente baixo se comparado com outros países, como o

Chile, os Estados Unidos, a Alemanha e a Espanha, onde a relação entre o volume

de crédito na economia e o PIB é de 81%, 82%, 115% e 134%, respectivamente.

Outro tipo de moeda que tem se popularizado muito, no Brasil e no mundo, é a

chamada “moeda de plástico”, ou seja, os cartões de crédito.

Taxa de Juros
A taxa de juros é, na realidade, o preço do dinheiro ou da moeda. É aquilo que se ganha

pela aplicação de recursos durante determinado período de tempo, ou, inversamente,

111
UNIDADE II - Economia

o que se paga pela obtenção de recursos de terceiros (tomada de empréstimo) durante

determinado período de tempo. No Brasil, há uma série de taxas de juros que convivem

juntas. Ela forma-se basicamente no mercado monetário, ou seja, na interação entre a

demanda por moeda e a oferta de moeda. Fazendo um paralelo com o que vimos no

capítulo 6 (mercado de bens e serviços), o dinheiro (ou moeda) é uma “mercadoria”, que é

negociada no mercado monetário, cujo preço é a taxa de juros. As taxas de juros definidas

pelo próprio governo devem funcionar como as taxas básicas do mercado, sobre as quais

se formam as demais taxas, de acordo com os riscos e os prazos das operações. No Brasil,

as taxas de juros definidas pelo governo são:

• Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia) que é a taxa de negociação dos

títulos do governo. O Selic faz o registro, a movimentação e a liquidação financei-

ra de títulos públicos. A Cetip (Central de Custódia e de Liquidação Financeira de

Títulos Privados) faz praticamente o mesmo tipo de operação para os títulos pri-

vados e públicos. Ela regula as operações diárias com os títulos públicos (ou seja,

Selic é a média ajustada dos financiamentos diários apurados no Selic), serve como

taxa básica da economia e é fixada mensalmente pelo Conselho de Política

Monetária, o Copom. A Selic é considerada a taxa básica de juros da economia por-

que é usada nos empréstimos que o Bacen faz a instituições financeiras. Por isso,

ela serve de referência para a formação de todas as outras taxas de juros.

112
UNIDADE II - Economia

• TR (Taxa Referencial de Juros), inicialmente calculada com base na média pon-

derada dos Certificados de Depósitos Bancários (CDB) dos 30 maiores bancos

do país, com a aplicação de um redutor. Desde dezembro de 1997 o valor da

TR passou a ser determinado por comunicados do BACEN. A TR é utilizada na

remuneração da caderneta de poupança e na correção dos saldos do Sistema

Financeiro da Habitação (SFH). O rendimento das cadernetas de poupança se

dá de acordo com a TR mais juros de 0,5% ao mês.

• TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo), criada para vigorar trimestralmente, com

base nas rentabilidades médias anualizadas dos títulos da dívida externa com pra-

zo mínimo de dois anos e dos títulos da dívida interna com prazo mínimo de seis

meses, tem ponderação dos títulos das dívidas externa e interna de 75% e 25%,

respectivamente. A TJLP é utilizada nos financiamentos do Banco Nacional de

Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Como o BNDES trabalha com fun-

dos compulsórios, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e o PIS/PASEP,

esses fundos são remunerados pela TJLP.

Além dessas três taxas definidas pelo governo, as quais são referenciais, outra taxa tam-

bém referencial, mas definida pelo mercado são os:

113
UNIDADE II - Economia

• CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), controlados pela Central de Custódia e

de Liquidação Financeira de Títulos (Cetip). Os CDBs são títulos que os bancos emitem

com o objetivo de captar dinheiro para suas operações de empréstimos para empre-

sas e pessoas físicas. Ao aplicar em um CDB, o investidor concentra o risco de seu in-

vestimento no banco que escolheu. Caso esse banco feche, o cliente perde tudo o que

tiver aplicado acima de R$ 20 mil.

Há CDBs pré-fixados e pós-fixados. Nos pré-fixados, o investidor sabe antecipadamente

quanto vai ganhar. De julho/96 a março/99, o Copom fixava a TBC (Taxa Básica do Banco

Central), que corrigia os créditos concedidos no âmbito do redesconto e do Proer e tam-

bém sinalizava o custo básico do dinheiro. Com a extinção da TBC, em março/99, o Copom

passou a divulgar a meta para a taxa Selic para fins de política monetária. Em agosto/96,

foi também criada a TBAN (Taxa de Assistência do Banco Central), que era uma taxa de

redesconto para bancos que tinham maior necessidade de recursos. Em março de 1999,

a TBAN foi extinta. CDBs é indexada ao CDI (Certificado de Depósito Interfinanceiro). Há

CDBs de vários prazos e indexadores. As taxas variam de acordo com a quantia aplicada.

Um aspecto importante sobre a taxa de juros, no Brasil, diz respeito à disparidade, ou

seja, à grande discrepância que existe no spread bancário, que é a diferença entre a taxa

de captação (taxa de juro recebida pelo aplicador) e a taxa de aplicação das instituições

financeiras (taxa de juro cobrada pelos bancos para financiar o tomador, que pode ser

114
UNIDADE II - Economia

uma empresa ou um consumidor). Um aplicador em fundos de renda fixa recebe em tor-

no de 1,2% ao mês. As empresas pagam ao redor de 3% ao mês e o consumidor tem de

pagar até acima de 6% ao mês. Essa enorme diferença é explicada, em grande parte, pelos

seguintes fatores:

A. Sobre a taxa que remunera a aplicação incidem impostos como o Imposto de

Renda na Fonte (20%) e o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), pelo menos

para aplicações com menos de 29 dias;

B. A chamada cunha fiscal, que são vários impostos e contribuições sobre as ope-

rações e instituições financeiras, tais como: Finsocial, PIS, Contribuição Social,

Imposto de Renda, IOF e Imposto sobre o Lucro Líquido.

C. O elevado custo operacional dos bancos no Brasil, que é muito maior do que nos

países desenvolvidos;

D. Alta taxa de inadimplência, que faz com que haja repasse para as taxas de juros,

pois o risco é maior.

Outro ponto a ser destacado no que se refere à taxa de juros é a diferença entre taxa no-

minal e real de juros. A taxa nominal de juros (i) é o ganho monetário que se obtém

115
UNIDADE II - Economia

em determinada aplicação financeira, ou o custo monetário de determinado empréstimo.

Isto significa que a taxa de juros nominal pode variar tanto por mudanças na taxa real de

juros como por mudanças na taxa de inflação (p).

Por outro lado, a taxa real de juros é a taxa nominal de juros (taxa Selic), desconta-

da a taxa de inflação (ou seja, deflacionada pelo IPCA). Matematicamente, a taxa real

de juros (r) é dada pela seguinte relação: O Certificado de Depósito Interbancário

(CDI), criado em meados da década de 1980, compreende títulos de emissão das

instituições financeiras, cuja função é transferir recursos de um banco para outro,

ou seja, o banco que tem dinheiro sobrando empresta ao banco que não tem. Neste

mercado, o BACEN não tem acesso. Os CDI de um dia (a maioria das operações é por

um dia), também conhecidos como Depósitos Interfinanceiros (DI) estabelecem um

padrão de taxa média diária, a CDI over.

Em 2011, por exemplo, como a inflação foi de 6,5% (medida pelo índice do IPCA do IBGE) e a

taxa nominal de juros foi, em média, de 12%, a taxa real de juros foi de 5,5%. Em outras palavras:

Taxa de juros nominal = taxa de juros real + taxa de inflação

Assim, se aumenta a taxa de inflação, aumenta a taxa de juros nominal, ou vice-versa, se

diminui a taxa de inflação, diminui a taxa de juros nominal.

116
UNIDADE II - Economia

As taxas médias de juros, no Brasil, têm variado ao redor de 4% ao mês para capital de giro

das empresas a mais de 200% ao ano no cartão de crédito. Em termos de juros, pode-se,

em tom de brincadeira, dizer: “Pede o que quiser para ter o que pediu”. O Brasil tem uma

das maiores taxas de juros reais do mundo, enquanto a média dos países desenvolvidos

está ao redor de (apenas) 1% ao ano.

Os instrumentos de política monetária


Tendo em vista que um componente da política monetária é o controle da quantidade de

moeda (liquidez) na economia, vamos analisar, a seguir, como o governo utiliza os instru-

mentos de política monetária para expandir ou contrair a oferta monetária e, consequen-

temente, o crédito para o setor privado. O executor dessas políticas é o Banco Central e os

instrumentos clássicos de política monetária são: mercado aberto (open market),

depósitos compulsórios e redesconto ou empréstimo de liquidez.

Operações de Mercado Aberto (open market)


As operações de open market são o mais ágil instrumento da política monetária de que dispõe

o Bacen, pois, por meio dele, são permanentemente regulados a oferta monetária e o custo

primário do dinheiro na economia referenciada na troca de reservas bancárias por um dia, por

117
UNIDADE II - Economia

meio das operações de overnight. As operações de mercado aberto atuam tanto no sentido

de expansão como de redução da base monetária. Estas operações representam a compra e a

venda de Obrigações do Tesouro Nacional.

Há ainda um quarto mecanismo, o “Controle e Seleção de Crédito”, que impõe restrições

ao livre funcionamento das forças de mercado, pois estabelece controles diretos sobre o

volume e o preço do crédito. Tal contingenciamento do crédito pode ser feito por controle

do volume e destino do crédito; controle das taxas de juros; fixação de limites e condições

dos créditos (ou de outros títulos da Dívida Pública), e através delas regula-se a liquidez

da economia. Quando há excesso de oferta monetária, o Banco Central, via leilões, vende

as Obrigações do Tesouro e, assim, retira os excessos de moeda, ou seja, pelas operações

de venda reduz-se a massa monetária do público e dos bancos, comprimindo-se, em con-

sequência, a base monetária.

Por outro lado, quando há insuficiência de oferta monetária, o Banco Central entra no

mercado comprando as Obrigações do Tesouro em circulação. Desse modo, ele “irriga”

o mercado financeiro, ao reinjetar o papel-moeda que havia sido retirado do sistema

pelas operações de venda. Em outras palavras, através do open market o Banco Central

procura adequar a oferta monetária às necessidades reais da economia.

118
UNIDADE II - Economia

Em suma, os dois principais tipos de operação são: compra líquida de títulos públicos

pelo BC, cujo resultado é o aumento de liquidez do mercado e queda da taxa de juros

primária (Resgate de Títulos); venda líquida de títulos públicos pelo BC, cuja

consequência é a redução de liquidez do mercado e aumento da taxa de juros primária

(Colocação de Títulos). Portanto, a maior ou menor liquidez da economia (mediante

a adoção dos instrumentos acima descritos) tem consequências diretas sobre a taxa de

juros no mercado. Por exemplo, se o Banco Central vende títulos do governo, diminuindo

a liquidez do sistema, só conseguirá colocar seus títulos aumentando a taxa de retorno. O

aumento das taxas de retorno dos títulos do governo faz com que eles sejam preferidos

em lugar de outros ativos. Para captar recursos, isto é, obter depósitos a prazo (CDBs e

RDBs), os bancos terão de aumentar as taxas de juros que estão dispostos a pagar.

Intimamente ligados à política monetária estão os déficits públicos, sejam eles financia-

dos pela emissão de moeda ou pelo aumento da dívida interna (via venda de títulos).

O financiamento do déficit, com a participação do Banco Central, através da expansão mo-

netária, de um lado, tem aspectos positivos porque não afeta os déficits futuros e diminui a

taxa de juros no curto prazo, mas, por outro lado, resulta num elevado tributo para a socie-

dade, que é a inflação. Para financiar o déficit, o governo emite dinheiro ou títulos públicos.

A segunda alternativa de financiamento do déficit público, tomando empréstimos do se-

tor privado, dá-se pela venda de títulos públicos, resultando em aumento dos déficits

119
UNIDADE II - Economia

futuros por causa dos pagamentos dos juros (ou seja, aumento da dívida interna) e em

elevação das taxas de juros, conforme ilustrado acima. A elevação da taxa de juros, por

seu turno, desestimula o investimento, o consumo (e, por consequência, a demanda agre-

gada) e a renda, trazendo recessão e desemprego. Daí se conclui que a melhor maneira

de aumentar a poupança nacional (que inclui a poupança das famílias, das empresas via

lucro, e do governo) não é pela elevação da taxa de juro, mas pela redução do déficit

público. Aumentos da taxa de juro, numa situação de governo deficitário, somente con-

tribuem para aumentar ainda mais o déficit do governo porque geram um círculo vicioso.

Como o governo FHC adotou a venda de títulos como caminho para financiar o défi-

cit (que continuou porque as reformas tributária e previdenciária não foram realizadas,

apesar de fundamentais) e com pouca emissão de moeda, o estoque da dívida pública

federal (que inclui a dívida contratual externa e a mobiliária federal interna) fechou o ano

de 2003 em R$ 913 bilhões, que correspondia a 58% do PIB. Em percentual, em relação

ao PIB, tem realmente caído, mas cabe registrar que em termos absolutos (é o fenômeno

que não para de crescer) em 2011 fechou em torno de R$ 1,8 trilhão. O financiamento

do déficit público, via emissão de moeda, gera inflação, mas, via emissão de títulos, cria

a dívida interna.

120
UNIDADE II - Economia

Recolhimentos Compulsórios
Trata-se de depósitos que os bancos devem fazer no Banco Central e que correspondem a

uma parcela dos depósitos que recebem. Em outras palavras, do volume de recursos apli-

cados nos depósitos à vista, nos bancos, uma parte fica nos bancos para fazer frente aos

saques dos correntistas (encaixe bancário), a outra parcela é obrigatoriamente depositada

no Banco Central (recolhimentos compulsórios) e somente uma parte fica para ser em-

prestada. Quanto maior a parcela dos depósitos que deve ser deixada no Banco Central,

isto é, quanto maior o compulsório, tanto menor a quantidade dos recursos que os bancos

têm para empréstimos, e, assim, tanto menor a liquidez do sistema.

A título de exemplo, no início do Plano Real o governo utilizou-se muito dos recolhimen-

tos compulsórios (100% sobre o crescimento dos depósitos em contas correntes; 30%

sobre os depósitos a prazo - CDBs e RDBs; 30% sobre a caderneta de poupança; 15% sobre

as operações de empréstimos, entre outros). Estima-se que estes diversos compulsórios

devam ter retirado da economia em torno de R$ 30 bilhões. O aumento do compulsório

provoca uma elevação nas taxas de juros, porque a oferta monetária (volume de dinheiro

para empréstimos) se reduz, e vice-versa. Por causa da crise financeira mundial, o governo

brasileiro reduziu um pouco o percentual dos recolhimentos compulsórios e assim libe-

rou um pouco mais de dinheiro para os bancos.

121
UNIDADE II - Economia

Operações de Redesconto ou Empréstimo de Liquidez


Constituem um segundo instrumento clássico de política monetária, em que o Banco

Central supre, automaticamente, a uma taxa pré-fixada, necessidades eventuais de caixa

(a curtíssimo prazo) dos bancos comerciais. É a última linha de atendimento aos furos de

caixa das instituições bancárias.

As taxas de redesconto são as taxas cobradas pelo Banco Central aos bancos comer-

ciais para lhes fazer empréstimo em caso de emergência. Se as taxas de redesconto são

altas, os bancos vão tomar cuidado para não correr o risco de ficar sem reservas em

caixa e farão, portanto, menos empréstimos. A taxa de redesconto é um instrumento

menos flexível do que os recolhimentos compulsórios e pouco utilizada como instru-

mento de controle da liquidez dos bancos. Este instrumento atua como empréstimo

de liquidez. As operações de redesconto são essencialmente expansionistas, pois im-

plicam o manejo de reservas para refinanciar operações bancárias de longo prazo ou

para socorrer os bancos em momentos de baixa liquidez.

Conforme se afirmou, em junho de 1996, o Banco Central adotou mudanças no redes-

conto dos bancos para tentar eliminar o estigma de socorro terminal que possui esse

mecanismo de assistência financeira de liquidez no mercado brasileiro. A ideia é de que

o redesconto passe a ser visto como mais uma opção de negócios para os bancos, que

necessitam de recursos, ou seja, além de captar recursos no mercado, os bancos passam

também a buscar recursos no redesconto.

122
UNIDADE II - Economia

Até março de 1999, o custo do redesconto era corrigido pela Taxa Básica do Banco Central

(TBC), mas, com a extinção da TBC, passou a ser a taxa Selic. Em janeiro de 2000, o CMN

(Conselho Monetário Nacional) criou um novo sistema de socorro aos bancos que retira

do Banco Central parte dos riscos de prejuízos em caso de quebras de instituições finan-

ceiras. O redesconto extingue o sistema de garantias usado na assistência financeira de

liquidez. Por esse sistema, o BC concedia empréstimos aos bancos e tomava títulos ou cré-

ditos com garantia. Agora, o BC passa a comprar ativos do banco com dificuldades, como

títulos e créditos. As compras poderão ser definitivas ou com compromisso de revenda ao

banco e serão cobrados juros.

O antigo sistema de garantias nem sempre assegurava ao BC o recebimento dos emprés-

timos. A lei determina que, em caso de quebra de bancos, as garantias sejam incorpo-

radas à massa falida. O BC era obrigado a se habilitar à massa falida e obedecer à lista,

de preferência, para o recebimento dos créditos, encabeçada pelos débitos trabalhistas e

seguida pelas dívidas com o fisco. Agora, o BC será proprietário dos ativos, que deixarão

de ser incorporados à massa falida. Assim, haverá menos recursos para pagar débitos tra-

balhistas. Em suma, a alteração em um ou mais dos três instrumentos de política mone-

tária (mercado aberto, recolhimentos compulsórios ou operações de redesconto) implica

alteração da base monetária, ou seja, estes instrumentos atuam sobre a liquidez do sis-

tema bancário. Os instrumentos de política monetária são: mercado aberto, depósitos

compulsórios e redesconto.

123
UNIDADE II - Economia

Efeitos da política monetária sobre a economia


Nesta seção, pretendemos analisar os efeitos da política monetária sobre as variáveis ma-

croeconômicas, em especial sobre o consumo privado, o investimento, o mercado acioná-

rio e o ingresso de recursos externos no país.

Na realidade, a política monetária representa uma segunda alternativa de que o governo

dispõe para alterar os níveis da demanda global na desejada direção da oferta global de

pleno emprego. Esta política exerce efeitos sobre os vários componentes da demanda

agregada por meio da alteração na disponibilidade monetária (ou seja, oferta de mo-

eda, que atua sobre a liquidez do sistema financeiro) e nas taxas de juros. A princípio,

pretende-se analisar e/ou explicar os efeitos das taxas de juros sobre o consumo, o inves-

timento, o preço das ações (ou seja, a ligação entre o mercado acionário e o monetário), o

ingresso de recursos externos no país, a poupança e os preços dos bens e serviços.

Efeito do Juro sobre o Consumo e o Investimento


Na realidade, há uma estreita correlação entre a oferta de moeda e o normal desempenho

das atividades básicas de demanda e oferta globais. Uma oferta monetária insuficiente

provoca o racionamento do crédito, o que, em consequência, não só eleva a taxa de juros

(tornando financeiramente inviáveis muitos projetos de investimento) como reduz o con-

sumo pelo efeito-riqueza.

124
UNIDADE II - Economia

Um aumento na taxa de juro desestimula o consumo, principalmente para as pessoas de

menor renda, porque elas compram relativamente mais a prazo do que os consumidores

de alto poder aquisitivo, que compram mais à vista. Em outras palavras, juro alto penaliza

proporcionalmente mais os pobres do que os ricos. Além disso, a elevação de juro reduz

mais o consumo de bens financiáveis (como eletrodomésticos e automóveis) do que de

bens alimentícios, que, via de regra, são adquiridos à vista. Os bens financiáveis, por terem

os juros embutidos nas prestações, acabam experimentando maior retração no consumo

quando os juros sobem, do que os alimentos, em geral (ver figura abaixo).

Quanto à relação entre a taxa de juro e o nível de investimento, já vimos, no capítulo

anterior, que há uma relação inversa entre essas duas variáveis, ou seja, quanto mais

elevados os juros, maior o desestímulo para os empresários investirem. As reduções

de investimento e de consumo em razão de juros elevados (que é o que o Brasil vem

experimentando ao longo dos últimos oito anos) contraem a demanda agregada, com

consequentes reflexos negativos sobre os níveis da renda ou (o que é o mesmo) da

oferta e do emprego. Por outro lado, um exagerado suprimento monetário pode pro-

vocar a inflação ao elevar a demanda agregada (via queda na taxa de juro, que por sua

vez aumenta o investimento, e via aumento do consumo, devido à elevação dos níveis

nominais do poder aquisitivo) acima da oferta global de pleno emprego.

125
UNIDADE II - Economia

Dada a relação entre a oferta da moeda e a demanda e oferta globais e o emprego, o

governo utiliza a política monetária, via oferta de crédito, para estimular ou restringir a

demanda agregada (Da), que é dada pela equação: Da = C + I + G + X. Por exemplo,

em períodos de baixa demanda global o governo aumenta a oferta de moeda, a fim de

estimular o consumo e o investimento do setor privado, por meio da queda da taxa real

de juros e da expansão do poder aquisitivo derivada do maior volume de crédito. Já na

fase de demanda aquecida (Da > Sa), período em que ocorre um processo inflacionário,

a política monetária procura restringir a oferta de moeda, com a consequente redução da

liquidez da economia.

Embora a taxa de juros desempenhe algum papel na determinação dos volumes da pou-

pança e do investimento, nada garante que ela conduza a permanente igualdade entre

a poupança e o investimento. A renda tem um papel muito mais importante na deter-

minação do consumo e da poupança. De forma esquemática, a política monetária, que

controla a disponibilidade monetária (M), atua em duas vias:

• Pela taxa de juros (r), que, por sua vez, altera o investimento (I);

• Pela alteração do nível nominal do poder aquisitivo, que, por sua vez, altera o con-

sumo (C).

126
UNIDADE II - Economia

Ambos os caminhos, ao alterarem a demanda agregada (Da), afetam o nível da renda (Y),

que corresponde à oferta global (Sa) e, portanto, o emprego (E).

Efeito do Juro sobre o Fluxo de Capitais Externos


Ao tomar empréstimos, as empresas comparam os custos dos empréstimos externos e

domésticos. Ao avaliar os custos dos empréstimos elas levam em consideração as taxas de

juros. Sabe-se que vale a pena tomar emprestado no exterior, desde que a taxa de juros

externa, combinada à taxa de desvalorização (ou de valorização) do real seja menor do

que a taxa de juros interna.

Assim, o governo pode influenciar a tomada de empréstimos externos aumentando os

custos dos empréstimos domésticos de diferentes maneiras. As taxas de juros internas

aumentam com uma política monetária apertada e com o aumento da correção mo-

netária. Por outro lado, uma redução do ritmo das minidesvalorizações reduz o custo

dos empréstimos externos. A taxa interna de juros (ii), em termos nominais (isto é, sem

tirar a inflação), deve estar relacionada com a taxa externa de juros (ie), com a taxa de

risco do país (r) ou spread - que é a diferença entre a taxa de juros paga pelo país e a

taxa básica de juros externa como a prime (de Nova Iorque), a libor (de Londres) ou a

dos títulos do Tesouro americano - e com a diferença de inflação interna (pi) e externa

(pe). Algebricamente, deve ser: ii = ie + r + pi + pe.

127
UNIDADE II - Economia

Aliás, relacionadas a isto, a queda dos juros internacionais ao menor nível atual (em torno

de 2% ao ano) em quase três décadas, devido à sobra de capital (alta liquidez) nos países

desenvolvidos, e a manutenção de taxas internas de juros reais (em torno de 19% ao ano)

favorecem a repatriação de divisas; os investimentos financeiros no Brasil e os investimen-

tos em ações.

Efeito do Juro sobre a Poupança


A taxa de juros tem também forte influência sobre a poupança. Não se pode dizer que

a poupança depende apenas da taxa de juros, como, aliás, acreditavam os economistas

clássicos. A poupança depende fundamentalmente da renda dos consumidores e, em

grau menor, da taxa de juros. Assim, dado o nível de renda de uma pessoa, ela estará

disposta a poupar um pouco mais se a taxa de juro for maior. Lembre-se que a poupan-

ça é a renda não consumida, ou seja, da renda disponível (já descontados os impostos)

do consumidor, a maior parcela vai para o consumo e parte (dependendo do nível

desta renda) é poupada.

A relação entre a taxa de juro e a poupança pode ser observada pelas decisões das pesso-

as: quando a poupança está rendendo muito pouco, os consumidores consomem mais e

128
UNIDADE II - Economia

chegam a sacar parte da poupança, ou seja, os saques são maiores que os depósitos. É por

isso que quando o governo deseja estimular a poupança, ele altera o chamado redutor para

que a poupança tenha um melhor rendimento. Neste caso, os depósitos tendem a superar

os saques, e o volume de recursos aplicados na poupança tende a aumentar. Os custos dos

empréstimos externos são menores do que os custos dos empréstimos domésticos desde que

(1 + taxa de juros externa) vezes (1 + taxa de desvalorização do real) seja menor do que (1 +

taxa de juros interna). O coração da poupança é a renda do consumidor, mas a taxa de juro

também afeta a poupança.

Efeito do Juro sobre os Preços


Quando o governo brasileiro sobe a Selic (taxa de juros dos títulos públicos) normal-

mente os jornais estampam manchetes do tipo: “Governo sobe juros para conter infla-

ção”. A pergunta é: Qual a influência da taxa de juros sobre os preços? Sabemos que a

inflação nada mais representa do que o aumento generalizado dos preços dos bens e

serviços. O aumento dos juros desestimula o consumo (principalmente de bens finan-

ciáveis, porque o juro incide sobre as prestações, conforme já vimos). Reduzindo o con-

sumo (os economistas diriam: diminuindo a demanda agregada) haverá menor pressão

de demanda e, consequentemente, maior possibilidade de os preços subirem menos ou

mesmo não subirem.

129
UNIDADE II - Economia

REFLITA
“Dada a incerteza sobre os efeitos reais das políticas macroeconômicas, não se-
ria melhor não utilizar nenhuma? E, mesmo se a política puder, em princípio, ser
útil, podemos confiar nos formuladores de política econômica para implementar
a política correta? A conclusão: a incerteza limita o papel da política econômi-
ca. Os formuladores de política econômica nem sempre fazem a coisa certa. Mas,
com instituições corretas, a política econômica pode ajudar e deve ser utilizada”.
(Blanchard, 2011)

INDICAÇÕES DE LEITURA
Para mais conhecimentos sobre este assunto, indico dois excelentes títulos a você:

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UNIDADE II - Economia

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As políticas macroeconômicas são muito importante para o país, pois é ela que leva o bem

estar a população. O governo deve utilizar corretamente as instituições que possui para

aplicar corretamente as políticas fiscal e monetária.

Com a aplicação correta das políticas, a distribuição de renda melhora, os preços se estabilizam

e, portanto, garantem o poder de compra da moeda brasileira o que é muito importante prin-

cipalmente para as famílias que não tem como se proteger da inflação, pois não tem acesso ao

sistema financeiro, geralmente as famílias de baixa renda.

Para as empresas, é fundamental uma política consistente de juros, onde o mesmo não

penalize o setor produtivo em detrimento do setor financeiro. E também em relação a

tributação aos gastos, é necessário que haja um equilíbrio, onde os gastos públicos sejam

feitos com eficiência e não gerem tributação desnecessária.

131
UNIDADE II - Economia

ATIVIDADES
1) Quais são os objetivos da política macroeconômica?

2) Como o governo pode alcançar cada objetivo por meio das políticas?

3) Quais são os principais instrumentos da política macroeconômica?

4) Explique por que existem conflitos de objetivos de política econômica.

5) Qual a influência da taxa de juros sobre os preços?

6) Quais os impactos da política fiscal para a economia?

7) Quais os principais impactos da política monetária para a economia?

8) Explique os principais instrumentos de políticas fiscais e monetárias.

132
UNIDADE 3

Economia internacional

Diego Figueiredo Dias

Objetivos de Aprendizagem

• O objetivo desta unidade é trazer os conhecimentos sobre o


setor externo da economia, as políticas feitas pelo governo que
influenciam exportações e importações e os impactos para a
economia do país..

Plano de Estudo

Serão abordados os seguintes tópicos:

• Instrumentos de política cambial


• Taxa de câmbio
• Balanço de pagamentos
• Efeitos da política cambial sobre a economia
UNIDADE III - Economia

INTRODUÇÃO
A política cambial fundamenta-se, via de regra, na administração da taxa de câmbio e no

controle das operações cambiais. Apesar do forte vínculo que ela mantém com a política

monetária, sua influência é direta sobre as variáveis ligadas às transações econômico-fi-

nanceiras do país com o resto do mundo. Ela tem impacto direto sobre a política mone-

tária, razão pela qual deve ser administrada com muito cuidado. Um aspecto interessante

a ser registrado é o de que historicamente as taxas médias anuais de crescimento

do comércio internacional têm superado às dos PIBs ou PNBs dos países. Por

exemplo, nos anos de 1990, enquanto o PIB mundial cresceu a uma taxa anual de 3,1%,

o comércio internacional expandiu-se em 6,2% ao ano, ou seja, o dobro. É por isso que

o comércio exterior representa uma excelente alternativa para o aumento do produto

interno bruto de um país e, portanto, um caminho para reduzir o desemprego e aumentar

a renda nacional. O Japão e a Alemanha foram países que se beneficiaram muito do co-

mércio exterior, pois são grandes exportadores líquidos, isto é, exportam muito mais do

que importam e, assim, geram mais riquezas em seus países.

O comércio mundial de mercadorias (exportações mais importações) gira em torno

de vinte trilhões de dólares, tendo crescido a uma média anual de 7%, nos últimos

anos, contra um crescimento da economia interna dos países desenvolvidos inferior a 3%

135
UNIDADE III - Economia

ao ano. Um dado interessante é que apenas quinze países (os desenvolvidos + os tigres

asiáticos + China) são responsáveis por mais de 70% do comércio mundial.

O Brasil, infelizmente, ainda tem uma participação pouco expressiva no comércio inter-

nacional, contribuindo com algo em torno de 1,5% dos negócios mundiais. Durante

onze anos (1983-1994), o Brasil gerou superávits comerciais (as exportações supera-

ram muito as importações) anuais médio com cerca de US$ 13 bilhões, totalizando US$

145 bilhões no período. A partir de 1995, contudo, com o efetivo processo de abertura da

economia brasileira, a balança comercial do país começou a apresentar valores negativos

até 2000. Após o superávit comercial de US$ 10,3 bilhões em 1994, a conta de mercado-

rias passou a assinalar déficits nos seis anos seguintes: US$ 3,1 bilhões em 1995, US$ 5,5

bilhões em 1996, US$ 8,3 bilhões em 1997, US$ 6,6 bilhões em 1998, US$ 1,2 bilhão de

dólares em 1999, e de US$ 740 milhões em 2000, totalizando US$ 25,3 bilhões no período.

A partir de 2001, contudo, voltou a apresentar superávit.

136
UNIDADE III - Economia

INSTRUMENTOS DE POLÍTICA CAMBIAL


A administração da taxa de câmbio é, sem dúvida, o principal instrumento de política

de comércio entre um país e os demais, mas não é o único, como parece para a grande

maioria das pessoas. Há também outros importantes instrumentos que têm uma direta

vinculação com as transações ou fluxos externos, tais como:

A. As intervenções no mercado cambial, por meio da administração da taxa de

câmbio, com valorização ou desvalorização da mesma; controle das operações

cambiais;

B. Políticas comerciais, por meio de fixação de quotas de importação, ou até mes-

mo de exportação; regimes de proteção com imposição de tarifa;

C. Tratamento ao capital estrangeiro, mediante as condições tanto de remessas

de lucro como de ingresso. A política comercial visa interferir no fluxo de mercado-

rias e serviços. Entre os diferentes períodos da política de comércio exterior brasi-

leiro, podem-se citar os seguintes:

• A política de substituição de importações, principalmente nos anos de 1950

até meados dos anos 1960.

137
UNIDADE III - Economia

Balança comercial é a diferença entre o valor total exportado (isto é, as exportações) e o valor

total importado (as importações). Quando as exportações superam as importações, tem-se

um superávit comercial. Caso contrário, tem-se um déficit comercial.

• Maior agressividade de exportações, a partir de 1968, em que o comércio ex-

terior passa a ser uma alternativa efetiva para o processo de desenvolvimento eco-

nômico; - no período de 1974-88 houve elevação das tarifas de importação e

restrições tarifárias, fazendo com que o Brasil se tornasse uma das economias mais

fechadas do mundo. Como média dos anos de 1980, as importações brasileiras re-

presentavam apenas cerca de 6% do seu produto interno bruto, contra mais de

20% para países como: Chile, Canadá, Alemanha, Coréia do Sul, França, Indonésia,

Itália, Inglaterra e Tailândia, entre outros; - a partir de 1988 tem início um novo pe-

ríodo de abertura da economia, em especial a partir de 1990, quando algumas

restrições não tarifárias sobre as importações foram reduzidas ou até eliminadas. A

partir de 1991 começou um período de gradual redução das tarifas de importação.

Para fins de comparação, a tarifa média de importação, em 1988, era de 45%, cain-

do para 14,5% em 1995.

138
UNIDADE III - Economia

A abertura da economia brasileira tem sido a condição básica para a estabilidade dos

preços, uma vez que forçou a indústria nacional a aumentar a competitividade, ao introdu-

zir novas tecnologias que possibilitaram elevação da produtividade e redução dos custos

unitários de produção. Isso ajudou a transferir renda para os consumidores, via redução

dos preços e dos lucros das empresas. A abertura do mercado brasileiro estimulou fusões

e aquisições de empresas em todos os setores, de tal forma que no período de 1994-1999

o total de fusões e aquisições chegou a quase mil negócios.

Taxa de câmbio
A taxa de câmbio é o preço, em moeda corrente nacional, de uma unidade de moeda

estrangeira. Assim, quando se diz que o câmbio está em 1,80, quer dizer que é necessário

um real e oitenta centavos para trocar (ou comprar) um dólar, por exemplo. Por meio da

taxa de câmbio, que indica quantos reais são necessários para comprar um dólar ou outra

moeda, pode-se estimular a exportação (E) e desestimular a importação (M), ou vice-ver-

sa. Por exemplo, a desvalorização ou depreciação cambial é um aumento do preço das di-

visas estrangeiras em moeda nacional. Quando o real se deprecia, paga-se maior número

de reais por dólar. Isso significa que os preços dos produtos estrangeiros em reais ficam

mais caros e que os preços dos nossos produtos ficam mais baratos, ou seja, nossas expor-

tações aumentam e nossas importações diminuem em resposta à desvalorização do real.

139
UNIDADE III - Economia

Assim, a expansão líquida das exportações (E-M) aumenta a demanda agregada (Da) e

gera mais emprego. Em 2007 e até meado de 2008 houve uma forte apreciação do real,

chegando a ficar próximo de R$ 1,50 por dólar. A partir do segundo semestre de 2008 foi

o real que se depreciou frente ao dólar, ficando em fevereiro de 2009 ao redor de R$ 2,30

devido a crise mundial. Essa apreciação do dólar foi resultado da grande demanda por

dólar por parte dos investidores, para cobrir perdas acumuladas em seu país de origem,

tirando seus investimentos que estavam naquele momento no Brasil.

Uma valorização do real significa menos reais por dólar. A determinação da taxa de câm-

bio pode ocorrer por interferência direta das autoridades econômicas ou não. Com a

interferência governamental o Brasil experimentou, nos últimos quinze anos, dois tipos

diferentes de condução da política cambial. Até o início de 1990 o Banco Central exerceu

um poder absoluto ao fixar a taxa de câmbio, sem qualquer consulta ao mercado. Nesse

período, a taxa de câmbio era determinada diretamente pelo BACEN. No segundo caso, a

partir de 1990, houve uma interferência relativa, ao permitir a flutuação da taxa, mas den-

tro de certos limites determinados por essas autoridades, como foi o caso do sistema de

bandas, que funcionou no período de 1995 até meados de janeiro de 1999. A partir dessa

data, a política cambial brasileira passa a ser praticamente sem qualquer interferência go-

vernamental, em que o câmbio flutua livremente. Assim, de um modo geral, pode-se dizer

que há basicamente três regimes cambiais:

140
UNIDADE III - Economia

• De taxas fixas (previamente determinadas pelas autoridades monetárias, poden-

do haver, inclusive, possibilidades de pequenos ajustes);

• De taxas flexíveis (formadas em mercados totalmente livres com taxas flutuan-

tes) e

• De taxas administradas (ou seja, com a adoção de bandas de flutuação cambial;

esta última é, na verdade, um meio termo entre os outros dois).

Como se afirmou, o governo brasileiro adotou, de 1995 até janeiro de 1999, o re-

gime de bandas cambiais, por meio das quais o Banco Central fixava os limites

superior e inferior (que são as bandas), dentro das quais a taxa de câmbio podia

(livremente) flutuar. Quando a taxa de câmbio se aproximava da banda superior, o

Banco Central entrava vendendo dólar no mercado, impedindo, assim, que a taxa

subisse. Quando a taxa de câmbio estava muito próxima da banda inferior, o Banco

Central atuava comprando dólar, forçando a subida da taxa para níveis desejados

pelo governo. É importante lembrar que, no caso do governo brasileiro, as reservas

internacionais vinham se mantendo em níveis relativamente elevados (em torno de

US$ 70 bilhões), o que permitiu e facilitou a atuação do Banco Central nesse regime

de bandas cambiais, mas caíram nos anos seguintes.

141
UNIDADE III - Economia

O governo brasileiro, em abril de 1998, ao perceber a pressão pública da defasagem cam-

bial (ou seja, de que o real estava muito apreciado perante o dólar) tomou a decisão de

tornar mais flexível o regime cambial no sentido de permitir, a longo prazo, maior flutua-

ção do dólar e reduzir a necessidade de intervenção do Banco Central no mercado. Assim,

os limites para essa flutuação, as minibandas cambiais, iriam alargando-se lentamente,

ou seja, a diferença entre o teto e o piso iria aumentando. Como o intervalo entre o limite

mínimo e o máximo tenderia a se alargar, a nova política do BACEN implicaria desvalori-

zações menores para o piso da banda cambial e maiores para o teto. Além disso, o alar-

gamento da intrabanda funcionaria como um “colchão” no caso de nova crise financeira

internacional, como a asiática, pois se ocorresse um ataque especulativo haveria mais

espaço para a flutuação do câmbio e o BC não teria de fazer muitas intervenções para

manter a cotação. Ao que parece, o governo deu sinais de que iria desvalorizar menos o

real e manter a política de redução de juros. Além disso, a medida tenderia a desestimular

a entrada de capital externo especulativo.

Na verdade, pela primeira vez, desde julho de 1995, o governo brasileiro sinalizava

a saída de um sistema de câmbio (excessivamente) controlado para um sistema de

maior flutuação. Esse alargamento das bandas iria ocorrer de forma gradual, de modo

a evitar turbulência. Como sabemos, em menos de um ano, o Banco Central teve de

abandonar também essa política de bandas e passou a permitir uma livre flutuação

142
UNIDADE III - Economia

do dólar, podendo evidentemente vir a intervir (vendendo dólar), sem, contudo, dei-

xar claro para o mercado quando intervirá. Uma desvalorização do real estimula as

exportações brasileiras e reduz suas importações Não sendo um regime de taxa de

câmbio fixa (como ocorreu até 1990), os outros dois casos se enquadram em situações

de taxas flutuantes, em que a taxa de câmbio é determinada pelas forças de oferta e

demanda por divisas, no chamado mercado cambial.

A oferta de divisas estrangeiras (ou seja, os ofertantes de dólar no Brasil, por exem-

plo) origina-se:

• Nas exportações brasileiras, uma vez que quando uma mercadoria nacional é ven-

dida para o exterior, o importador estrangeiro envia para o Brasil os dólares re-

sultantes daquela operação, ou seja, há um aumento na quantidade ofertada de

dólares aqui no país;

• Nas receitas cambiais com serviços;

• Nas empresas instaladas no Brasil que tomam empréstimos em moeda estrangeira;

• Nos turistas estrangeiros que visitam o Brasil;

• Nos brasileiros que repatriam seus dólares (ou outras moedas);

143
UNIDADE III - Economia

• Nas empresas estrangeiras que fazem investimentos diretos aqui no país;

• Nas transferências unilaterais originárias do exterior, provenientes do trabalho dos

milhares de brasileiros que trabalham no exterior (como os dekasseguis no Japão)

que enviam algo como US$ 3 bilhões por ano.

A partir de 2009, parece haver uma tendência de retorno de dekasseguis para o Brasil,

porque a situação econômica no Japão (economia em recessão e desemprego) está

complicada.

Considerando-se apenas as exportações, é fácil perceber que há uma relação positiva en-

tre a taxa de câmbio e as exportações, isto é, quanto maior a taxa de câmbio, ou seja,

quanto maior a quantidade de reais por dólar, maior deve ser o volume exportado pelo

país. Tendo em vista que as exportações geram dólares para o país, a oferta de dólares

cresce com a taxa de câmbio. Em outras palavras, a taxa de câmbio e a oferta de dólares

mantêm uma relação direta. Por outro lado, a demanda ou procura por divisas es-

trangeiras (os demandantes de dólar) tem, entre outras, as seguintes origens:

• As importações brasileiras;

• Os devedores brasileiros em moeda estrangeira, que precisam comprar dólares

144
UNIDADE III - Economia

para saldar seus compromissos, como pagar juros ou títulos no exterior;

• As empresas multinacionais que remetem juros e dividendos;

• Os turistas brasileiros em viagem ao exterior.

Levando-se em consideração apenas as importações, é possível constatar que a taxa de

câmbio mantém uma relação negativa (inversa) com o volume importado, ou seja, quanto

maior a taxa de câmbio, menor a importação porque fica mais caro para o país adquirir

bens e serviços do exterior. Tendo em vista que para comprar do exterior os importadores

têm que pagar em dólares, a demanda por dólar cai com o aumento da taxa de câmbio.

Assim, a taxa de câmbio, num sistema de livre mercado como o que temos atualmente,

depende das forças acima, ligadas à demanda e à oferta de dólares. É possível afirmar que,

quanto maior a taxa de câmbio:

• Maior a quantidade ofertada de dólares aqui no Brasil, porque as empresas dese-

jarão exportar mais, o que significa que a curva de oferta de dólar é crescente com

a taxa de câmbio;

145
UNIDADE III - Economia

• Menor a quantidade demandada por dólares, porque as empresas desejarão im-

portar menos, uma vez que os produtos importados ficam mais caros. Desse modo,

a curva de demanda por dólares é decrescente (isto é, a relação é inversa) com a

taxa de câmbio.

Uma pressão de demanda por dólares (produzida pelo aumento de importação, por

exemplo) pode resultar na elevação da taxa de câmbio. Neste caso, a curva de demanda

por dólar desloca-se para a direita. Do mesmo modo, um aumento nas exportações bra-

sileiras pode pressionar a cotação do dólar para baixo, uma vez que a oferta de divisas é

maior. Neste caso, a curva de oferta de dólar desloca-se para a direita.

Balanço de pagamentos
O Balanço de Pagamentos de um país é um resumo contábil das transações econômicas

que este país faz com o resto do mundo, durante certo período de tempo. A partir deste

balanço pode-se avaliar a situação econômica internacional do país. Os três principais

componentes do Balanço de Pagamentos são:

146
UNIDADE III - Economia

A. A Balança Comercial (que engloba os fluxos de exportações e importações,

conforme já comentado);

B. A Balança de Serviços (que inclui os fretes e seguros, viagens internacionais e

turismo e rendas de capital como lucros e juros);

C. A Balança (ou movimento) de Capitais (englobando investimentos, emprésti-

mos e financiamentos de curto, médio e longo prazo e amortizações).

Conforme já mencionado, no período de 1983 a 1994, o Brasil apresentou um saldo altamente

positivo (em torno de US$ 13 bilhões por ano) na Balança Comercial. A partir de então,

por conta da maior abertura da economia brasileira, a balança comercial do país apresentou

déficits no período 1995-2000, mas em 2001 voltou a ser positiva.

No tocante à balança de serviços, pode-se dizer que, historicamente, nosso país tem

déficit nessas transações com o exterior. De 1980 a 1994, esse déficit girou em torno de

US$ 15 bilhões por ano, mas a partir de 1995 cresceu a um patamar médio de US$ 25 bi-

lhões por ano. Nos últimos anos, esse déficit tem sido crescente, devido à deficiência do

Brasil no que diz respeito a balança de Serviços.

147
UNIDADE III - Economia

Além da Balança Comercial e da Balança de Serviços, faz parte também da Balança de

Transações Correntes as Transferências Unilaterais, que se referem ao fluxo de recursos pro-

venientes de pessoas trabalhando fora do país, como é o caso dos dekasseguis, brasileiros

descendentes nipônicos que residem temporariamente no Japão.

Efeitos da política cambial sobre a economia


A política cambial tem consequências diretas sobre as exportações e importações de um

país. A taxa de câmbio pode estimular ou desestimular as exportações (X), o mesmo ocor-

rendo com as importações (M). Uma depreciação do real em relação ao dólar (isto é, mais

reais por dólar) deve estimular as exportações. Quando o real se deprecia (como acon-

teceu em janeiro e fevereiro de 1999), paga-se maior número de reais por dólar, o que

implica que os preços dos produtos estrangeiros em reais ficam mais caros e os preços

dos nossos produtos ficam mais baratos, ou seja, nossas exportações aumentam e nossas

importações diminuem em resposta à desvalorização do real. Assim, a expansão líquida

das exportações (X - M) aumenta a demanda agregada (Da) e gera mais emprego.

Exportar faz aumentar a produção e gerar emprego e renda. Um aumento significativo nas

exportações, por exemplo, pode ter grande impacto monetário, uma vez que o ingresso de

divisas (leiam-se dólares, por exemplo) precisa ser convertido para reais, o que vai provocar

148
UNIDADE III - Economia

a expansão da moeda, com possíveis consequências inflacionárias. Esses recursos entram

por meio do câmbio comercial. Do mesmo modo, recursos captados pela emissão de títu-

los no exterior, seja através de bônus ou commercial papers, seja pela entrada de recursos

para aplicação em bolsas de valores, também podem forçar o governo a fazer emissão de

reais para atender a essa conversão. É o fechamento de câmbio para atender às chamadas

compras financeiras.

Em resumo, o câmbio (via compras financeiras e exportações) pode pressionar a oferta

monetária e prejudicar o controle dos juros, aumentando inclusive o custo do governo,

que é obrigado a aumentar a dívida pública para enxugar a moeda que entra em circula-

ção pela troca de dólares por reais. O aumento nas exportações aumenta a deman-

da agregada (Da) de bens e serviços produzidos internamente. Afinal, exportar é

produzir aqui dentro, gerar renda e empregos interno. Assim, a expansão das exportações

representa uma poderosa alavanca para a expansão do mercado, tendo efeito positivo

sobre o emprego, a produção e a renda porque: Da = Y (oferta global).

Por meio das exportações é possível fazer um país crescer, gerar emprego e aumentar a

renda interna. Foi o que fez o Japão, um exemplo para o Brasil, o qual, infelizmente, ainda

exporta muito pouco, considerando-se o potencial que tem. É inaceitável que alguém

afirme que o Brasil não deve exportar enquanto houver brasileiros passando fome aqui.

Ora, se passam fome não é por falta de alimentos, mas porque não têm renda suficiente

149
UNIDADE III - Economia

para adquirir os alimentos. Uma das maneiras de aumentar a renda interna dos brasileiros

é via exportação. Afinal, para exportar é preciso produzir internamente, e ao produzir in-

ternamente acaba-se gerando renda e emprego dentro do país.

REFLITA
Câmbio valorizado prejudica as exportações e a competividade da indústria na-
cional, visto que os importados ficam baratos.
Câmbio desvalorizado prejudica as importações e, portanto, encarecem pro-
dutos cotados em dólares e matérias-primas importadas, prejudicando assim o
consumidor.

Se você pudesse definir, o câmbio seria valorizado ou desvalorizado?

150
UNIDADE III - Economia

INDICAÇÃO DE LEITURA
Dois ótimos livros, que posso indicar pra você são este do Prof. Krugman, que foi prêmio

Nobel de economia e “A China sacode o mundo”, livro excelente sobre as façanhas econô-

micas chinesas.

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UNIDADE III - Economia

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A economia internacional tem sido cada vez mais importante para a economia brasileira

se desenvolver. Isto porque passamos por um processo de reestruturação da economia

que nos permitiu ingressar de vez no comércio mundial, com uma participação crescente,

apesar de ainda pequena em comparação com outros países como EUA, China e Japão.

O governo tem se preocupado cada vez mais em manter a competitividade do Brasil em

relação ao resto do mundo, pois com as exportações em alta, podemos gerar mais empre-

go e renda pra população.

A grande preocupação do governo é manter uma taxa de câmbio flexível que não penali-

ze nem o lado exportador nem o lado importador. Isto é muito complicado!

Câmbio valorizado é bom pra quem importa e ruim pra quem exporta, e vice-versa.

Este tipo de discussão sempre irá existir: qual patamar é o ideal para o câmbio?

Em minha opinião, o câmbio deve refletir exatamente o comportamento do mercado, ou

seja, sem atuações fortes do governo para definir o patamar de preços da moeda estrangeira.

O governo deve se preocupar com a competitividade da indústria nacional sim, mas não

somente em aspectos cambiais, mas sim em aspectos fiscais (tributação), logísticos (me-

lhoria em estradas e portos), etc.

152
UNIDADE III - Economia

ATIVIDADES
1) Explique os principais regimes cambiais.

2) Quais são os principais determinantes da entrada de moeda estrangeira no Brasil?

3) E quais são os principais determinantes da saída de moeda estrangeira do Brasil?

4) Explique os principais efeitos da política cambial sobre a economia.

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CONCLUSÃO
Vimos neste material de Fundamentos de Economia que esta ciência nos cerca! Seja em

aspectos micro, macroeconômicos ou economia internacional. Você futuro profissional

na área de gestão vai estar a todo momento lidando com assuntos ligados à economia

de um país.

O profissional da área financeira deverá entender sobre câmbio, oferta e demanda por

crédito, comportamento dos juros, etc.

Quem trabalha na logística deve estar atento à atividade econômica para calcular estoque; inflação

que impacta preço de combustíveis que, por sua vez, impacta o custo dos transportes.

Aquele que atua no setor produtivo está preocupado com as políticas monetárias do go-

verno, se irá restringir ou expandir o crédito, etc.

Viram???

A todo momento temos que saber lidar com estes assuntos.

Caro acadêmico, espero que este estudo possa ser importante em sua vida profissional

e coloco-me à disposição para quaisquer dúvidas, sugestões e comentários pelo e-mail

diegofigueiredo@yahoo.com.br

Um Grande Abraço,

Prof. Me. Diego Figueiredo Dias

154
Referências
1. BACEN. Relatórios Anuais. Disponível em <http://www.bcb.gov.br/?BOLETIM>,
com acesso em 31 de Março de 2012.

2. BLANCHARD, O. Macroeconomia. 5 ed., São Paulo - Pearson Prentice Hall, 2011.

3. GREMAUD, A. P.; LUQUE, C. A.; PINHO, C. M.; PINHO, D. B.; GARÓFALO, G. L.; CARVALHO,
L. C. P.; BRAGA, M. B.; VASCONCELLOS, M. A. S.; Manual de introdução à econo-
mia. São Paulo: Saraiva, 2008.

4. MENDES, J.T.G. Economia: Fundamentos e aplicações. 2. ed. São Paulo -


Pearson Prentice Hall, 2009.

5. VASCONCELOS, M.A.S; Garcia, M.H. Fundamentos de Economia. 3. ed. Saraiva,


2009.