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Apresentação

Nas últimas duas décadas, os estudos sobre aquisição da linguagem têm


aumentado consideravelmente. Acreditamos que esse crescente interesse deve-se à
convergência de fatores que envolvem: resultados de pesquisas auxiliando nas mais
diversas problemáticas (o caráter inato da linguagem, a relação aquisição/aprendizagem,
o desenvolvimento cognitivo etc.) e uma necessidade de interdisciplinaridade, de troca
entre a Lingüística, a Psicologia, as Neurociências, as ciências da Educação...
Diante dessa constatação e do fato de haver uma demanda dos próprios
estudantes de Lingüística do curso de graduação em Letras, o objetivo deste livro é
apresentar, num só volume, a evolução da área por meio de diferentes abordagens, e
mostrar algumas possibilidades de pesquisa.
Com base nisso e partindo do pressuposto que, originalmente, a Aquisição da
Linguagem é uma subárea da Psicolingüística, alguns poderiam se perguntar por que
organizar um livro que trata “apenas” de aquisição.
Poderíamos dizer, em primeiro lugar, que, dada a relevância e o volume de
pesquisas realizadas nesse âmbito, não seria possível expor tantas informações em um
capítulo ou dois do livro. É necessária uma obra específica sobre o tema, com exemplos
e teorias para orientar o leitor.
Além disso, parece haver certa dificuldade em se encontrar uma bibliografia,
especificamente livros em português, a respeito do assunto. Do mesmo modo, a maior
parte das publicações que tratam da linguagem da criança pertence à Psicologia, há
10 Aquisição da linguagem

poucas compilações na área da Lingüística propriamente dita. Devemos destacar, aliás,


a inexistência de livros introdutórios de Aquisição da Linguagem, em português, que
reúnam e apresentem a disciplina de forma unitária e abrangente.
A Aquisição da Linguagem trata de questões fundamentais não apenas para a pesquisa
lingüística, pois apresenta dados de produção, percepção e compreensão de enunciados
lingüísticos por parte da criança, mas também para o estudo da cognição humana,
considerando que ela pretende explicar de que modo o ser humano vai adquirindo, desde
o momento em que nasce, naturalmente, modos de expressão verbal – e não-verbal – e
formas de interagir com o outro, dependendo do contexto, da situação de comunicação e
dos interlocutores envolvidos nesse processo dialógico.
Nesse sentido, o presente livro destina-se não apenas a alunos de graduação do
curso de Letras, mas também aos de pós-graduação e a todos os profissionais que se
interessam por essas questões lingüístico-cognitivas.
Os capítulos que fazem parte desta obra procuram contemplar as diferentes
subáreas da Aquisição da Linguagem: aquisição de língua materna (oral) em crianças
sem e com distúrbios de linguagem, aquisição de segunda língua em crianças e em
adultos e aquisição da escrita (letramento, alfabetização, relação fala/escrita etc.). Cada
uma dessas subáreas será tratada por especialistas, doutores ou titulares em Lingüística
e/ou Psicologia, e pertencentes a diferentes universidades brasileiras e francesas.
Sendo assim, no capítulo “A pesquisa em Aquisição da Linguagem: teoria e
prática”, discute-se a aquisição de língua materna (oral), em crianças sem distúrbios, a
partir da apresentação das principais teorias que deram origem aos seus estudos e de
uma pesquisa realizada na área.
No capítulo “Argumentação na linguagem infantil: algumas abordagens”, ainda
sob a mesma perspectiva, estuda-se a argumentação infantil com o intuito de examinar
as tendências teóricas, bem como os resultados de uma pesquisa empírica, a partir dos
quais se torna possível auxiliar o leitor interessado em se aproximar da área.
O capítulo “Distúrbios da linguagem oral e da comunicação na criança” trata,
baseado num exame bibliográfico francófono e anglófono e num estudo de caso,
dos distúrbios do desenvolvimento “linguageiro” observados em uma criança com
ausência de substrato orgânico ou neurológico conhecido. Distinguem-se, assim, os
problemas adquiridos de afasia na criança, provocando uma interrupção no
desenvolvimento da linguagem.
Em seguida, examinando a aquisição em segunda língua (L2), serão observadas,
no capítulo “Aquisição da L2: compreender como se aprende para compreender o
desenvolvimento da competência em interagir em L2”, a evolução das diferentes
abordagens, o desenvolvimento da área a partir das noções de “sistema lingüístico” e
de “interlíngua”, e a construção progressiva da competência do aprendiz com base na
interação verbal.
Apresentação 11

O capítulo “Aquisição de língua estrangeira numa perspectiva de estudos


aplicados”, ainda no mesmo âmbito, é dedicado à trajetória das pesquisas e linhas
teóricas que norteiam os estudos sobre a aquisição de língua estrangeira no Brasil.
Focaliza-se o Modelo do Monitor (1982), exemplificando a hipótese do filtro afetivo
na transcrição e análise de trechos da produção oral de alunos de L2, identificando,
dessa forma, uma parte do processo de aquisição de língua estrangeira.
No capítulo “Escrita e interação”, é a vez da aquisição da escrita, mais
especificamente do processo redacional analisado a partir de fragmentos de diálogos
entre crianças. Trata-se de verificar os procedimentos utilizados por essas crianças e o
raciocínio desenvolvido em diversos momentos de elaboração da narrativa, para
construir seus textos no computador – sem o auxílio do papel – partindo de produções
orais e, desse modo, das dinâmicas interacionais.
Já o capítulo “O jogo das representações gráficas” pretende analisar a emergência
das capacidades metalingüísticas, bem como refletir sobre a estrutura dos mecanismos
fundamentais na aquisição da língua escrita. Chama-se a atenção, aqui, para a
importância da apropriação da natureza desse processo pela criança. A maior dificuldade
das crianças com déficits de aprendizagem (alfabetização inicial) reside exatamente na
diferenciação e na articulação das unidades estritamente funcionais. A criança deve
apreender o princípio alfabético, ouvindo e pensando a própria linguagem.
O livro se encerra com o capítulo “O que nos indica a ‘linguagem da criança’:
algumas considerações sobre a ‘linguagem’”, em uma discussão sobre o que seria tratar
a linguagem infantil. O autor enfatiza alguns traços da linguagem que aparecem
sobretudo na criança e que contrastam com a idéia de um código que seria estritamente
comum ao locutor e ao receptor.
No que se refere à organização dos capítulos, vale dizer que, embora eles tenham
sido dispostos dessa forma, isso não significa que devam ser lidos nessa ordem. Trata-se
apenas de uma opção feita a partir da subdivisão da área proposta anteriormente – o leitor
pode iniciar a obra pelo capítulo que mais lhe interessar.
Ainda nesta apresentação, gostaria de agradecer, em primeiro lugar, aos autores
que concordaram em colaborar com esta iniciativa, contribuindo, brilhantemente,
para um melhor entendimento da aquisição da linguagem e para a sua divulgação.
Não poderia deixar de expressar, aqui, igualmente, meu reconhecimento à
professora Lélia Erbolato Melo, que me introduziu nos estudos sobre aquisição da
linguagem e contribuiu para a minha formação na área, e em especial à Sílvia Dinucci
Fernandes, colega de várias jornadas e amiga, pelas sugestões desde o nascimento da
idéia até sua concretização final, pelo seu apoio, incentivo, por sua colaboração na
leitura e crítica dos textos.
Por fim, esperamos que este livro possibilite ao leitor refletir sobre a diversidade
e a complementaridade de abordagens dos usos infantis e de aquisição da linguagem.
12 Aquisição da linguagem

Convidamos a todos não a descobrir uma linguagem que seja específica da criança,
mas a perceber que as palavras de seus discursos funcionam de uma maneira diferente
das do adulto, que sua subjetividade não se manifesta nos mesmos movimentos
discursivos e que “muitas vezes, mas não sempre (isso seria maravilhoso), a criança
demonstra não uma ignorância do que ela deverá saber em breve, mas, ao contrário,
uma outra maneira de lidar com as palavras, uma ‘razão lúdica’, uma outra maneira
de estar na linguagem” (F. François, Interprétation et dialogue chez des enfants et quelques
autres, Paris, ENS Éditions, 2005, p. 43, trad. da autora).

Alessandra Del Ré
Organizadora